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FUNDAMENTOS DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL UNIASSELVI-PÓS Autoria: Thais Benetti de Oliveira Lenhardt Indaial - 2020 2ª Edição CENTRO UNIVERSITÁRIO LEONARDO DA VINCI Rodovia BR 470, Km 71, no 1.040, Bairro Benedito Cx. P. 191 - 89.130-000 – INDAIAL/SC Fone Fax: (47) 3281-9000/3281-9090 Reitor: Prof. Hermínio Kloch Diretor UNIASSELVI-PÓS: Prof. Carlos Fabiano Fistarol Equipe Multidisciplinar da Pós-Graduação EAD: Carlos Fabiano Fistarol Ilana Gunilda Gerber Cavichioli Jóice Gadotti Consatti Norberto Siegel Julia dos Santos Ariana Monique Dalri Marcelo Bucci Revisão Gramatical: Equipe Produção de Materiais Diagramação e Capa: Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI Copyright © UNIASSELVI 2020 Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri UNIASSELVI – Indaial. Impresso por: L566f Lenhardt, Thais Benetti de Oliveira Fundamentos da educação ambiental. / Thais Benetti de Oliveira Lenhardt. – Indaial: UNIASSELVI, 2020. 152 p.; il. ISBN 978-65-5646-036-9 ISBN Digital 978-65-5646-037-6 1. Educação ambiental. - Brasil. Centro Universitário Leonardo Da Vinci. CDD 304.2 Sumário APRESENTAÇÃO ............................................................................5 CAPÍTULO 1 NATUREZA, AMBIENTE E MEIO AMBIENTE: ENTENDENDO E DIFERENCIANDO OS CONCEITOS NO CENÁRIO DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL ................................................................7 CAPÍTULO 2 A EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO CAMPO TEÓRICO EM CONSTRUÇÃO: ASPECTOS HISTÓRICOS, EPISTEMOLÓGICOS E CONCEITUAIS ........................................53 CAPÍTULO 3 EDUCAÇÃO PARA SUSTENTABILIDADE ..................................103 APRESENTAÇÃO Essa disciplina foi estruturada com o objetivo de apresentar e problematizar os principais conceitos pertencentes à Educação Ambiental, suscitando reflexões e contextualizações com problemas e exemplos reais, de modo que você, aluno, possa identificar as questões abordadas em seu cotidiano. Como futuro gestor ambiental é muito importante que você compreenda a relação homem-ambiente e, então, aplique esse entendimento em situações profissionais diversas como: criação e acompanhamento de projeto sobre Educação Ambiental em diferentes cenários; consultorias ambientais ou recuperação de áreas degradadas. A Educação Ambiental (EA) é um campo de conhecimento cujo objetivo principal é descrever e problematizar os mecanismos de inter-relação natureza- homem em suas diversas dimensões e manifestações. Trata-se, portanto, de um meio indispensável para a criação e aplicação de artifícios ou modos sustentáveis de interação sociedade/natureza e de soluções para os problemas ambientais. A partir disso, educar os brasileiros para que ajam de modo responsável e com sensibilidade por meio de comportamentos e atitudes conscientes que propiciem a manutenção do ambiente para futuras gerações. é de suma importância visto que a manutenção desse ambiente depende, fundamentalmente, de sua relação com o homem (influenciado por questões históricas, sociais, culturais e ideológicas), de como a ação antrópica na maioria das vezes, sistematicamente, repetida) interfere na dinâmica ambiental. Portanto, quando falamos de EA, não podemos pensar apenas em critérios objetivos, em conteúdos teóricos específicos, mas, devemos considerar, também, aspectos subjetivos da vida, inserindo, portanto, o trabalho com vínculos de identidade e empatia com o entorno socioambiental. Só quando se inclui, , a sensibilidade, a emoção e os sentimentos se obtêm mudanças significativas de comportamento. Por isso, a organização deste material primará, em seu primeiro capítulo, a apresentação de definições e pontos consensuais da EA, sua inserção na escola, a compreensão da diferença dos conceitos de ambiente, meio ambiente e natureza, bem como a importância dessas conceituações para o entendimento da área. O segundo capítulo tem como foco o contexto do surgimento e consolidação da EA: por que essa área ganhou tanto espaço nas pesquisas, nos discursos acadêmicos e midiáticos? Quais as transformações e características da sociedade contemporânea suscitaram reflexões sobre uma mudança premente no comportamento do homem no que tange às ações sustentáveis? Qual a relação entre o modo de produção capitalista e a emergência das questões ambientais? Essas questões remetem a trajetória da EA no Brasil, bem como às diferentes correntes teóricas que a definem e fundamentam e a transversalidade e transdisciplinaridade que caracteriza esse campo de pesquisa. O capítulo final deste material explora a questão da sustentabilidade e seus mitos, procurando descontruir concepções equivocadas e simplistas do termo que tem sido mobilizado em diferentes cenários, contextos e discursos, muitas vezes, com conotações apelativas, propagandísticas e de senso comum. A sustentabilidade tem sido difundida de forma irrefletida por meio de mobilizações ingênuas cujo fundamento não contribui, efetivamente, para promoção de estratégias que viabilizem a construção de uma sociedade ecologicamente equilibrada. Assim, para concluirmos os conteúdos desta disciplina, problematizaremos o conceito de sustentabilidade e a Educação para sustentabilidade, bem como a sua relação e/ou contribuição para a formação para cidadania. CAPÍTULO 1 NATUREZA, AMBIENTE E MEIO AMBIENTE: ENTENDENDO E DIFERENCIANDO OS CONCEITOS NO CENÁRIO DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL A partir da perspectiva do saber-fazer, neste capítulo você terá os seguintes objetivos de aprendizagem: � Compreender a EA e seus principais focos de estudo. � Apresentar as potencialidades do trabalho com a Educação Ambiental na escola. � Compreender os conceitos de natureza, ambiente e meio ambiente por meio de uma análise histórica e epistemológica, bem como seu significado na EA. � Evitar o uso arbitrário e/ou equivocado dos termos pertencentes ao campo da EA. 8 Fundamentos da Educação Ambiental 9 NATUREZA, AMBIENTE E MEIO AMBIENTE: ENTENDENDO E DIFERENCIANDO OS CONCEITOS NO CENÁRIO DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL Capítulo 1 1 CONTEXTUALIZAÇÃO A temática ambiental é colocada em pauta na sociedade contemporânea como uma preocupação que atinge, não apenas especialistas e profissionais das Ciências da Natureza (biólogos e geólogos, por exemplo); mas manifesta-se, também, em diversos segmentos sociais e figura no centro de muitos debates nacionais e internacionais. Nesses contextos, frequentemente, a educação tem sido apontada como uma das principais vias de enfrentamento dos problemas ambientais já que pode contribuir para formação de pessoas capazes de provocar mudanças significativas na situação de degradação socioambiental com a qual nos deparamos (OLIVEIRA; CALDEIRA, 2018). A EA surge, portanto, como uma resposta à crise ambiental e objetiva uma mudança urgente nas relações entre sociedade e natureza. Para tanto, provê mudanças culturais que culminam na formação de sujeitos com atitude ecológica, que tenham consciência sobre a relação entre sociedade e ambiente e que ajam para contribuir com a melhoria dessas relações (SOUZA; SALVI, 2012). Apesar da ênfase atribuída à EA em diversos cenários, os conceitos pertencentes à área têm constituído ideias simplistas e estereotipadas de senso comum, o que não contribui para produção de material ou discursos críticos e baseados em propostas ou projetos verossímeis. Não basta reproduzir discursos ou levantar bandeiras sobre consciência, preservação ambiental e reciclagem para que as pessoas adotem atitudes e adquiram valores sustentáveis. A partir disso, algumas questões emergem e tornam-se centro deste debate: “Como promover o senso de responsabilidade individual e coletiva?” “Como formar pessoas comprometidas com valores sociais e princípios de solidariedade e democracia?”. É preciso, em um primeiro momento, definir e distinguir significados,evitando o uso arbitrário de conceitos pertencentes à área. Por exemplo, o conceito de ambiente é polissêmico e pode estar associado a vários significados e contextos: pode ser substantivado (ambiente familiar); pode fazer menção à uma qualidade (temperatura ambiente), pode ser usado para indicar determinado local e momento (“... um filme ambientado em...”) e há, ainda, o nosso principal foco, o significado deste vocábulo na Ecologia. Assim como o ambiente, meio ambiente e natureza são conceitos axiomas da EA e que, muitas vezes, são aplicados de maneira indiscriminada e/ou 10 Fundamentos da Educação Ambiental equivocada. Se estamos arguindo sobre os preceitos de uma EA genuína e que, efetivamente, contribua para uma mudança de comportamento, precisamos articular (de forma equitativa) as dimensões conceituais e valorativas. 2 INTRODUÇÃO À TEMÁTICA AMBIENTAL NO CONTEXTO DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL: MAPEANDO OS PRINCIPAIS CONCEITOS E QUESTIONAMENTOS PERTENCENTES À ÁREA Este tópico trata de um preâmbulo; um convite ao interesse para estudar a EA apresentando e analisando, criticamente, suas diferentes facetas epistemológicas. Essa leitura deve conduzi-lo ao entendimento de como essa área é constituída, quais são seus objetivos e objetos de estudo e pesquisa; e como ela é definida. Embora não serão apresentadas, neste momento, as diferentes correntes teóricas que sustentam a EA, é oportuno adiantar que elas existem e devem ser analisadas e distinguidas. Nesse primeiro momento, serão abordados pontos consensuais questões pertencentes à área que a delimitam como um campo de conhecimento. Mas, por que a EA é um campo de conhecimento? Para que possamos definir um novo campo de conhecimento, é necessário que esse campo cumpra critérios e possua atributos específicos. Para Cachapuz et al. (2005), por exemplo, o desenvolvimento de um novo campo de conhecimento está, na maior parte das vezes, associado às seguintes condições: a existência de uma problemática relevante, a qual suscite interesse e esforços para seu estudo, pesquisa e problematização; o caráter específico dessa problemática, ou seja, que não haja outra área de conhecimento já consolidada e que possa estudá-la; e a existência de condições externas favoráveis, como as conjunturas sociocultural, histórica, econômica e os recursos humanos específicos (NETO, 2009). É inegável que essas condições podem ser identificadas no campo da EA, tanto no Brasil, como em outros países. Isso porque, esse campo traz uma problemática – a questão ambiental, sua dinâmica de transformação, sua degradação, a sustentabilidade ambiental, entre outros aspectos – de alta relevância e discutida em âmbito mundial há mais de cinco décadas. Os estudos acerca dessas problemáticas são cada vez mais abordados e aparentes em 11 NATUREZA, AMBIENTE E MEIO AMBIENTE: ENTENDENDO E DIFERENCIANDO OS CONCEITOS NO CENÁRIO DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL Capítulo 1 decorrência de um contexto sociocultural, político, econômico e ideológico que exige medidas globais e imediatas para o tratamento das questões ambientais (NETO, 2009). Vê-se que a EA está associada a contextos socioculturais, políticos, econômicos e ideológicos e prima pela mudança de comportamento frente a relação homem-natureza. Decorrente disso, existem muitas definições e correntes teóricas, as quais procuram estabelecer maneiras efetivas de mudar a relação supracitada. Nesse sentido, partimos da “compreensão de que o campo da EA é um campo plural, diverso e diferenciado de tendências político-pedagógicas, éticas e epistemológicas” (LIMA, 2005, p. 20). Pode-se dizer que o campo da EA é composto por uma diversidade de atores, grupos e instituições sociais que compartilham, enquanto membros do campo, um núcleo de valores, de normas e características comuns, mas que se diferenciam entre si, por suas concepções sobre a crise ambiental e pelas propostas político-pedagógicas que defendem para abordar os problemas ambientais. Essas concepções ambientais e pedagógicas, por sua vez se fundamentam em interesses e posições políticas diversas que oscilam entre tendências à conservação ou à transformação das relações sociais e das relações que a sociedade mantém com o seu ambiente” (LIMA, 2005, p. 16). Em um artigo intitulado “(Re) pensando a EA”, a professora Marília Freitas de Campos Tozoni-Reis faz uma compilação acerca de algumas das definições da EA: QUADRO 1 - DIFERENTES CONCEPÇÕES ACERCA DA EA 1. “Educação Ambiental é um processo permanente, no qual os indivíduos e a comunidade tomam consciência do seu meio ambiente e adquirem conhecimentos, valores, habilidades, experiências e determinação que os tornam aptos a agir – individual e coletivamente – e resolver problemas ambientais presentes e futuros.” (Ministério do Meio Ambiente – MMA). 2. “[...] a Educação Ambiental compreendida como o espaço onde se engendram relações sociais resultantes de um passado instituidor que, atualizando o presente, faz emergir as referências para futuras ações educativas no campo das políticas públicas de meio ambiente. Significa, ainda, desvelar para a sociedade experiências e propostas de Educação Ambiental, 12 Fundamentos da Educação Ambiental em tempos diferentes, muitas vezes até conceitualmente divergentes, mas, todas, reveladoras de um nexo comum com as conjunturas política, social, econômica e ambiental vivenciadas.” (Secretaria do Meio Ambiente – SP). 3. “A Educação Ambiental é definida como um processo de formação e informação orientado para o desenvolvimento da consciência crítica sobre as questões ambientais, e de atividades que levem à participação das comunidades na preservação do equilíbrio ambiental.” (Conselho Nacional do Meio Ambiente – Conama). 4. “O conceito de Educação Ambiental é complexo, abstrato e dificilmente compartilhado, porque não está abrangentemente explicado. Pode ser visto como uma forma de intervenção na problemática ambiental mediada por projetos definidores de programas educativos. A Educação Ambiental envolve- se na formação das pessoas na busca da utopia que significa oportunidade de reinvenção do compromisso com a emancipação. A Educação Ambiental é um processo continuado, permanente, com estratégias específicas desenvolvidas pelos seus participantes, incluindo a de sobrevivência econômica, comunitariamente articulada. Assim, o bairro, a microbacia, o ambiente urbano, articulam a rede de cidadania, base do desenvolvimento sustentável. A prática da Educação Ambiental deve objetivar a ser perpassada pela intencionalidade de promoção e pelo incentivo ao desenvolvimento de conhecimentos, valores, atitudes, comportamentos e habilidades que contribuam para a sobrevivência – a nossa e de todas as espécies e sistemas naturais do planeta –, a participação e a emancipação humana.” (Instituto Ecoar). 5. “A Educação Ambiental deve ser direcionada para a compreensão da busca de superação das causas estruturais dos problemas ambientais por meio da ação coletiva e organizada. Segundo esta percepção, a leitura da problemática ambiental deve se realizar sob a ótica da complexidade do meio social e o processo educativo deve pautar-se por uma postura dialógica, problematizadora e comprometida com transformações estruturais da sociedade, de cunho emancipatório. Neste sentido, acredita-se que, ao participar do processo coletivo de transformação da sociedade, a pessoa estará, também, se transformando.” (Secretaria do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável – MG). 6. “A verdadeira Educação é ambiental em sua essência, uma vez que o planeta não é uma somatória de sujeitos isolados por redomas… Sua tônica deve ser a de conectar as várias áreas do conhecimento, com noção de encadeamento dos fatos. E que o aprendizado se concretize em mudança de comportamento, por adoção de uma nova filosofia de vida. Que as pessoas 13 NATUREZA, AMBIENTE E MEIO AMBIENTE: ENTENDENDOE DIFERENCIANDO OS CONCEITOS NO CENÁRIO DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL Capítulo 1 possam se conscientizar de seu papel na engrenagem e da importância e consequência de suas ações.” (Maria Vitória Ferrari Tomé – Rede Ambiente). 7. “O conceito de Educação Ambiental foi mudando ao longo do tempo. Inicialmente relacionado à ideia de natureza e o modo de percebê-la, tem se acentuado a necessidade de levar em conta os vários aspectos que interferem nas situações ambientais, incorporando as dimensões socioeconômica, política, cultural e histórica de uma população” (Vidagua). 8. “A Educação Ambiental se constitui numa forma abrangente de Educação, que se propõe atingir todos os cidadãos, através de um processo pedagógico participativo permanente que procura incutir no educando uma consciência crítica sobre a problemática ambiental, compreendendo-se como crítica a capacidade de captar a gênese e a evolução de problemas ambientais.” (Ambiente Brasil). 9. Art. 1° Entendem-se por educação ambiental os processos por meio dos quais o indivíduo e a coletividade constroem valores sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e competências voltadas para a conservação do meio ambiente, bem de uso comum do povo, essencial à sadia qualidade de vida e sua sustentabilidade (Lei nº 9.795, de 27 de abril de 1999). A “Educação Ambiental envolve o entendimento de uma educação cidadã, responsável, crítica, participativa, em que cada sujeito aprende com conhecimentos científicos e com o reconhecimento dos saberes tradicionais, possibilitando a tomada de decisões transformadoras, a partir do meio ambiente natural ou construído no qual as pessoas se integram. A Educação Ambiental avança na construção de uma cidadania responsável voltada para culturas de sustentabilidade socioambiental”. (Parecer CNE/CP nº 14/2012, aprovado em 6 de junho de 2012 - Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Ambiental). A Educação Ambiental é um processo, uma dimensão dada ao conteúdo e à prática da educação que utiliza vários conhecimentos para promover a compreensão dos mecanismos de inter-relação natureza- homem, em suas diversas dimensões (Parâmetros Curriculares Nacionais- Temas Transversais). FONTE: Adaptado de Tozoni-Reis (2004) 14 Fundamentos da Educação Ambiental Após fazer a leitura do Quadro 1, constituído por 11 definições de EA, você consegue identificar referências comuns em todas as conceituações que possam ser consensuais sobre a definição de EA? Procure fazer esse exercício mentalmente ou por meio da construção de um mapa conceitual. Para saber mais sobre mapa conceitual, faça a leitura do artigo ou assista ao vídeo, disponíveis nos links a seguir: <http://pepsic.bvsalud.org/pdf/cc/v12/v12a08.pdf>. <https://www.youtube.com/watch?v=F54SWctP7-E>. Embora as definições apresentadas sejam plurais, enunciadas por diferentes sujeitos, há elementos de intersecção que unificam o conceito de EA. Trata-se da ideia de que a EA é um processo permanente, continuado. Se pensarmos que o principal objeto de estudo dessa área é a relação do homem com a natureza e que essa relação é transformada constantemente, essa constatação parece óbvia. Por exemplo, imagine se ainda vivêssemos em uma sociedade cuja economia fosse sustentada totalmente pelo escambo ou pela agricultura de subsistência... Será que as questões correlatas à EA estariam tão emergentes? Além disso, nenhuma definição menciona a EA apenas como um conjunto de conceitos pertencentes à Biologia e suas subáreas (por exemplo, Ecologia ou Geologia). Trata-se de um conhecimento transdisciplinar e multidimensional, pautado em questões socioeconômicas, políticas, culturais e históricas. Ademais, essa área é constituída não apenas por saberes conceituais, mas, também, procedimentais e atitudinais. Envolve um saber, um saber-fazer e um saber ser coletivo, solidário, além de uma tomada de consciência manifestada na percepção de que o homem é parte da natureza e não externo a ela. Em consonância a esses elementos consensuais, de acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais, todas as recomendações, decisões e tratados internacionais sobre o tema evidenciam a importância atribuída por lideranças de todo o mundo para a EA como meio indispensável para se conseguir criar e aplicar formas cada vez mais sustentáveis de interação sociedade-natureza e soluções para os problemas ambientais (BRASIL, 1998). Percebe-se assim, a ênfase na relação sociedade-natureza e nas diferentes formas de explorá-la e derivar reflexões sobre as condições que configuram o 15 NATUREZA, AMBIENTE E MEIO AMBIENTE: ENTENDENDO E DIFERENCIANDO OS CONCEITOS NO CENÁRIO DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL Capítulo 1 “tipo” de relação predominante (exploratória, afetiva, irrelevante, por exemplo). É fundamental que analisemos como o nosso modo de vida e organização social – hoje geridos pelo capitalismo- afetam a nosso modo de lidar com a natureza. A “EA apresenta-se como um campo novo e multidi mensional ainda insuficientemente explorado em sua complexidade, diversidade, em sua(s) identidade(s) e alcance social” (LIMA, 2005, p. 11). Igualmente, por não haver estudos empíricos que possibilitem saber qual é a postura político-pedagó gica da EA em todos os setores da sociedade, ao menos entre os pesquisadores da área “a ideia de que o conhecimento e a prática da EA devem incorporar as dimensões sociais e políticas da questão ambiental parece ser na atualidade, uma conclusão consensual” (Lima, 2005, p. 118). Isso significa que, os conhecimentos das Ciências Naturais não são suficientes para sustentarem a área. Por exemplo, a Sociologia é uma disciplina cujo objeto de estudo é a forma de organização da sociedade. A partir da revolução industrial e suas consequências, uma nova organização social foi instituída e, então, o estudo dessas organizações passou a fazer mais sentido: as classes sociais emergentes, a divisão do trabalho, o êxodo rural e concomitante urbanização, a emergência do capitalismo. Estudar essas questões e compreender profundamente o modo de produção capitalista pode ser uma ferramenta de análise para o entendimento do porquê a sustentabilidade é tão aclamada dentro da questão ambiental. Embora seja importante que a disciplina de Ciências dê a sua contribuição para a compreensão dos fatores que compõem o ambiente e colabore na formação de uma consciência ambiental, a EA tem natureza transversal e interdisciplinar não sendo, portanto, objeto de estudo exclusivo das Ciências Naturais. É importante questionar a concepção de mundo estritamente biológico das Ciências Naturais e ampliar essa visão a partir de uma concepção de mundo que inclua os valores culturais, o mundo das humanidades (BRASIL, 1998). O estudo e a análise cartesiana (compartimentalizada) que influenciou o modo de fazer ciência durante séculos (herança da proposição filosófica de Descartes) subdivide os objetos de estudo a serem analisados por diferentes áreas do conhecimento. Para o estudo dos fenômenos ambientais, esse critério não é suficiente dado o próprio funcionamento sincrônico simultâneo dos fenômenos ambientais, bem como a relevância da ação antrópica para compreendê- los. BRASIL, 1998). Os elementos ou fenômenos da natureza não podem ser estudados de forma isolada uma vez que atuam de forma interdependente. Por exemplo, em uma cadeia alimentar, se qualquer um dos níveis tróficos tiver a sua população alterada, a cadeia será afetada como um todo e, consequentemente, a dinâmica e o equilíbrio do ecossistema também. Sugere-se, dessa forma, uma mudança no olhar teórico e prático para a EA, 16 Fundamentos da Educação Ambiental de maneira a promover uma visão que integre as dimensões social, econômica, ecoló gica, geográfica e cultural (SACHS, 1989). Essa ideia tem como objetivo desprender-se de um conceito reducionista que entende a EA apenas como uma educaçãopara a conservação da natureza, a conscientização da sociedade e mudanças de comportamento (CORREIA, 2014). O objetivo mais genuíno e profundo dessa área é propor estratégias e ações de educação para a mudança da sociedade, para que a tomada de consciência promova e/ou oriente um desenvolvimento humano que seja, concomitantemente, causa e efeito da sustentabilidade e da responsabilidade global. Portanto, a partir de um ponto de vista operacional, a EA envolve tanto a análise crí tica da estrutura socioeconômica que tem determinado as atuais tendências insustentáveis (informação e sensibilização), como o reforço das capacidades humanas para transformar (agir), dando grande importância à preparação de uma cidadania responsável e capaz de tomar decisões num mundo globalizado e complexo (CORREIA, 2014, p. 10). Toda a concepção de EA cujo eixo de pensamento desprende a dinâmica “natural” das condições e contextos sociais e promove a ideia de que há uma “natureza” idealmente perfeita, estática, fora do movimento da vida (que deve ser ensinada por aqueles que a compreenderam e copiada pelos demais), nega a vinculação educação-cidadania-participação e desconsidera a sustentabilidade como uma construção permanente e decorrente das mediações (sociais e ecológicas) que nos constituem. Em processos educativos participativos não há uma única relação adequada, mas relações possíveis em determinados contextos, ou seja, territórios organizados culturalmente com uma história social a ser conhecida (no que tange ao passado) e transformada (no presente para criar-se o futuro). Trata-se, portanto, de um movimento constante de redefinição e aprimoramento das nossas relações sociais na natureza (LOUREIRO, 2004). Dessa forma, é preciso incentivar as pessoas, por meio da EA, a refletirem sobre a sua relação com a natureza, sobre como suas atitudes interferem na dinâmica do ecossistema e sobre como entender uma atitude individual como parte do bem coletivo. O êxodo rural, a criação de ambientes urbanizados artificiais, e o novo estilo de vida consumista e alheio às questões ambientais têm contribuído para um distanciamento entre a população e o ambiente natural. Para muitos alunos, o conhecimento sobre o ambiente é muitas vezes restrito ao que se ensina na escola, principalmente dentro de espaços formais de aprendizagem. A falta de possibilidades de interação das pessoas com a natureza pode ser um fator 17 NATUREZA, AMBIENTE E MEIO AMBIENTE: ENTENDENDO E DIFERENCIANDO OS CONCEITOS NO CENÁRIO DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL Capítulo 1 importante na falta de identificação e sensibilização acerca dos problemas ambientais. Partindo de tal pressuposto, questões ambientais podem ser, equivocadamente, entendidas como independentes da realidade urbana. Embora seja uma ideia bastante, simplificada, é muito comum pensarmos que somos excêntricos à natureza, que vivemos fora dela, em um ambiente urbanizado, modernizado; que falar da relação do homem com a natureza não é falar de atitudes diárias, que interferem no meio específico no qual cada um vive, mas pensar em atitudes estritas à preservação de áreas verdes, em um local distante da vida cotidiana. De acordo com algumas perspectivas, a questão ambiental representa quase uma síntese dos impasses que o atual modelo de civilização acarreta. Assim, o que assistimos no início do século XXI não é só uma crise ambiental, mas uma crise civilizatória. E a superação dessa crise exigirá mudanças profundas na concepção de mundo, de natureza, de poder, de bem-estar, tendo por base novos valores individuais e sociais. Faz parte dessa nova visão de mundo a percepção de que o homem não é o centro da natureza (BRASIL, 1998). No âmbito do contexto social atual no qual a educação constitui uma forma de intervenção no mundo e sincroniza o ensino de conceitos, procedimentos e atitudes (e não apenas a ênfase perpetuada na memorização e repetição), diversas formulações teórico-metodológicas remetem-se à consolidação de tendências em EA como meio de enfrentamento dos desafios postos pela crise ambiental (SILVA; COSTA; ALMEIDA, 2012). A EA é a herdeira mais próxima dos debates ecológicos e está dentro dos movimentos de constituição de alternativas contra-hegemônicas que visam à construção de outras formas de relacionamento entre sociedade-natureza (SILVA; COSTA; ALMEIDA, 2012). Assim, podemos considerar que a EA é uma atividade intencional da prática social que imprime ao desenvolvimento individual um caráter social em sua relação com a natureza e com os outros seres humanos, com o objetivo de potencializar a atividade humana, tornando-a mais plena de prática social e de ética ambiental. Essa atividade exige sistematização por meio de metodologia que organize os processos de transmissão/apropriação crítica de conhecimentos, atitudes e valores políticos, sociais e históricos. Assim, se a Educação é mediadora na atividade humana, articulando teoria e prática, a EA é mediadora da apropriação, pelos sujeitos, das qualidades e capacidades necessárias à ação transformadora responsável diante do ambiente em que eles vivem. Podemos dizer que a gênese do processo educativo ambiental é o movimento de fazer-se plenamente humano pela apropriação/transmissão crítica e transformadora da totalidade histórica e concreta da vida dos homens no ambiente (TOZONI-REIS, 2004). 18 Fundamentos da Educação Ambiental De forma geral e em consonância com Reigota (1994), entende-se que a proble mática ambiental é constituída pelo resultado da forma como estão estabelecidas as relações entre sociedade e natureza e entre seres humanos, havendo uma apropriação humana sobre o meio ambiente de forma desigual e, em muitas vezes, em detrimento não só das demais formas de vida, mas também contra os próprios seres humanos (SOUZA; SALVI, 2012). Assim, é de importante considerar a Educação Ambiental como um campo que: 1. Gira em torno do educativo e do ambiental de forma que não é possível subtrair dos debates ambos os campos disciplinares; 2. Requer aportes de outras disciplinas e formas de conhecimento de ma neira a compor-se dentro de uma natureza interdisciplinar; 3. Tem construído sua própria especificidade e importância na arena da produção de conhecimento e de práticas sociais (NIETO-CARAVEO, 2001). Se o objetivo maior da EA e das ações derivadas desse campo de pesquisa e atuação é construir um novo patamar societário e de existência integrada às demais espécies vivas e em comunhão com o mundo, é preciso superar as formas de alienação que culminam na dicotomia sociedade/natureza (LOUREIRO, 2004). O desafio maior está, portanto, no desenvolvimento de uma educação que aumente a oferta de alternativas para a formação de sujeitos que construam um futuro sustentável. A realidade atual exige uma reflexão cada vez menos linear, e isto se produz na inter-relação entre saberes e práticas coletivas que criam identidades e valores comuns e ações solidárias face à reapropriação da natureza, numa perspectiva que privilegia o diálogo entre saberes (JACOBI, 2004). O adjetivo ambiental acrescentado à Educação diferencia a EA da Educação geral, inserindo como eixo notório de preocupação elementos da relação socie- dade e natureza. Destacam-se duas grandes tarefas nesse contexto: a realização de “uma crítica radical e permanente aos processos objetificantes promovidos e sustentados pela ética antropocêntrica do racionalismo moderno” (GRÜN, 1996, p. 51) e a divulgação de saberes que têm possibilidades de fomentar uma sociedade ecologicamente sustentada. A proposta e a fundamentação da EA dependem, também, da concepção de Educação que está em jogo. Se pensarmos na educação apenas como possibilidade para memorizar conceitos, termos, teorias e reproduzi-los em condições específicas dentro da escola (provas, trabalhos e chamadas orais) ou em situações correlatas (aprovação em vestibulares), a EA seráum conjunto de conceitos sobre Ecologia a ser decorado. Se pensarmos na educação com o objetivo de formação cidadã e de aprendizagem permanente de modo que o 19 NATUREZA, AMBIENTE E MEIO AMBIENTE: ENTENDENDO E DIFERENCIANDO OS CONCEITOS NO CENÁRIO DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL Capítulo 1 indivíduo saiba situar-se e intervir na sociedade, contribuindo para o bem comum, a EA poderá ser trabalhada com base nas dimensões conceituais, atitudinais e procedimentais e, então, contribuir para conscientização e mudança de comportamento frente a diferentes contextos sociais. Por isso, é imprescindível, a discussão sobre o papel da EA na escola e como a escola trabalha a EA. O Relatório Final da Década da Educação para Desenvolvimento Sustentável (UNESCO/UNEP, 2005), destaca a importância do papel da sociedade civil e das ONGs enquanto organizações que devem estimular a sensibilização dos cidadãos, as campanhas e os grupos de pressão, prestar consultoria e contribuir para a formulação de políticas públicas, implantar a educação para o desenvolvimento sustentável, especialmente nos espaços educativos não formais, promover a aprendizagem e a ação participativa e mediar as relações entre o governo e o público. A educação não formal, objeto do trabalho educativo das ONGs, refere-se às atividades organizadas, com caráter de intencionalidade, realizadas fora da instituição formal de ensino, com determinado grau de sistematização e estruturação, com a finalidade de oferecer tipos selecionados de ensino a subgrupos específicos da população (COLLEY et al., 2002; TRILLA, 1996; LA BELLE, 1980). No Brasil, as ONGs ambientais têm desempenhado um importante papel no processo de aprofundamento e expansão das ações de educação ambiental não formal e, muitas vezes, impulsionam iniciativas governamentais e dão apoio às organizações da iniciativa privada interessadas no desenvolvimento de projetos na área. Estas organizações fazem parte do grupo de interessados preocupados com a problemática ambiental. São os denominados stakeholders das demandas ambientais como: os órgãos estatais encarregados de proteger o meio ambiente, gestores públicos, instituições e grupos científicos, gestores de empresas privadas, imprensa, profissionais ligados à implementação da questão ambiental na gestão de processos produtivos, consumidores “verdes”, comunidade acadêmica, cidadãos etc. As ONGs ambientalistas são entidades privadas com fins públicos, sem fins lucrativos e com alguma participação voluntária que atuam em problemas socioambientais. Seu foco de ação é 20 Fundamentos da Educação Ambiental impedir a degradação ambiental e promover formas sustentáveis de desenvolvimento. Nas últimas décadas, muitas delas têm atuado em parceria com a comunidade, governos e iniciativa privada para dar conta da complexidade do campo ambiental, que demanda soluções multifacetadas para um público bastante heterogêneo (PIGNATTI, 2005; PRINCEN; FINGER,1996). FONTE: Trechos retirados do artigo: TALAVEIRA VALENTINI TRISTÃO, VIRGÍNIA; MARTELLI TRISTÃO, JOSÉ AMERICO. A contribuição das ONGS para a Educação Ambiental: Uma avaliação da percepção dos Stakeholders. Ambiente & Sociedade, v. 19, n. 3, 2016. Como gestor ambiental, você poderá atuar, também, junto às organizações não governamentais. Seguem alguns exemplos de importantes ONGs cujo principal objetivo gira ao redor de ações ambientais. Greenpeace: <https://www.greenpeace.org/brasil/>. WWF-Brasil: <https://www.wwf.org.br/>. SOS Amazônia: <https://doe.sosamazonia. org.br/?gclid=EAIaIQobChMIjrmI8-SE4gIVRgmR Ch0hBQ5BEAAYASAAEgKH1_D_BwE>. Akatu: <https://www.akatu.org.br/>. 2.1. EDUCAÇÃO AMBIENTAL NO CONTEXTO DA ESCOLA Para incorporar o sentido da EA dentro da escola, pensando em seus objetivos e contribuições formativas, é preciso, inicialmente, especificar alguns posicionamentos gerais acerca da educação como um todo. A partir dos anos 1990, a centralidade da discussão sobre ensino de Ciências é a “formação para a cidadania”, analisada como reflexo do contexto sociopolítico da sociedade contemporânea brasileira. Portanto, as preocupações com a intensa 21 NATUREZA, AMBIENTE E MEIO AMBIENTE: ENTENDENDO E DIFERENCIANDO OS CONCEITOS NO CENÁRIO DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL Capítulo 1 degradação ambiental, com a escassez de recursos naturais e com a melhoria da qualidade de vida incitaram uma (re)formulação dos objetivos do Ensino de Ciências: não se primaria mais a formação de cientistas, mas de cidadãos capazes de compreender e interferir na realidade por meio de um pensar lógico e crítico ( POZO; CRESCPO, 2009). A escola passa então, a ser concebida como um recurso em direção à cidadania, uma cidadania que favorece a cooperação, a discussão e a resolução de problemas. Essa organização é fundamental para que o ser humano aprimore sua qualidade de vida, tome decisões e continue a aprender (POZO; CRESPO, 2009). As disposições gerais sobre o ensino e o papel da formação para a cidadania são reafirmadas coerentemente quando se analisam textos dirigidos a áreas específicas, como o ensino de Ciências. Percebe-se nos trechos mencionados que a cidadania, como descreve a Lei n. 9.394/1996 (LDB), compreende participação social e política; exercício de direitos e deveres políticos, civis e sociais; atitudes de solidariedade, cooperação e repúdio às injustiças; respeito mútuo; reconhecimento e valorização da pluralidade do patrimônio sociocultural brasileiro; postura contrária a discriminações. A escola que sonhamos é aquela que assegura a todos a formação cultural e científica para a vida pessoal, profissional e cidadã, possibilitando uma relação autônoma, crítica e construtiva com a cultura em suas manifestações: a cultura provida pela ciência, pela técnica, pela estética, pela ética, bem como pela cultura paralela (meios de comunicação em massa) e pela cultura cotidiana (LIBÂNEO, 2013). Esse pensamento tem como objetivo formar cidadãos participantes em todas as instâncias da vida social contemporânea, o que implica articular os objetivos convencionais da escola- transmissão-assimilação ativa de conteúdos escolares, desenvolvimento do pensamento autônomo, crítico e criativo, formação de qualidades morais, atitudes, convicções- às exigências postas pela sociedade comunicacional, informática e globalizada: maior competência reflexiva, interação crítica com as mídias e multimídias, conjunção da escola com outros universos culturais, conhecimento e uso da informática, formação continuada (aprender a aprender), capacidade de diálogo e comunicação com os outros, reconhecimento das diferenças, solidariedade, qualidade de vida, preservação ambiental. Trata-se de conceber a escola de hoje como espaço de integração e síntese (LIBÂNEO, 2013). Essas tarefas da educação assumem uma importância crucial ante as 22 Fundamentos da Educação Ambiental transformações do mundo atual. Num mundo globalizado, transacional, nossos alunos precisam estar preparados para uma leitura crítica das transformações que ocorrem em uma escala mundial. Num mundo de intensas transformações científicas e tecnológicas, precisam de uma formação geral sólida, capaz de ajudá- los na sua capacidade de pensar cientificamente, de conhecer cientificamente os problemas humanos. Por outro lado, diante da crise de princípios e valores, resultantes da deificação do mercado e da tecnologia, do pragmatismo moral ou relativismo ético, é preciso que a escola contribua para uma nova postura ético-valorativa de recolocar valores humanos fundamentais como a justiça, a solidariedade, a honestidade, o reconhecimento da diversidade e da diferença, o respeito à vida e aos direitos humanos básicos, como suportes de convicções democráticas (LIBÂNEO, 2013). A partir disso, a escola tem um grande papel no fortalecimento da sociedade civil, das entidades, das organizações e movimentos sociais(LIBÂNEO, 2013). Formar para a cidadania é formar pessoas que têm compreensão do próprio papel como cidadão do mundo; que respeitam e valorizam a diversidade; têm um entendimento de como o mundo funciona economicamente, politicamente, culturalmente, socialmente, tecnologicamente e ambientalmente; que são contrárias à injustiça social; que participam e contribuem com a comunidade de vários modos em nível local e global; que estão dispostas a agir para tornar o mundo um lugar mais igualitário e sustentável; e que assumem as responsabilidades de suas ações (RATCLIFFE; GRACE, 2003). Os mesmos autores consideram que apesar de serem distintas as formas como se pode dar significado à educação para cidadania, é defendida a ideia de que os cidadãos precisam de conhecimento e compreensão do sistema social, jurídico e político em que vivem e operam. Eles precisam de habilidades e aptidões para fazer uso desse conhecimento e precisam ser dotados de valores para que o uso de tais conhecimentos e habilidades seja direcionado a fins benéficos. Questões sociocientíficas podem ser determinantes na formação de opinião e tomada de decisão em níveis pessoais e sociais, sendo com frequência reportadas pela mídia, normalmente tratadas por meio de informações incompletas devido à apresentação de evidências científicas conflitantes ou insuficientes; podem incluir dimensões locais, nacionais e globais de quadros políticos e sociais e envolvem algumas análises de custo e benefício, nas quais riscos interagem com valores. Podem envolver considerações acerca de desenvolvimentos sustentáveis e envolvem raciocínios éticos e de valores morais (RATCLIFFE; GRACE, 2003). Como já mencionado, o objetivo precípuo da EA é gerar uma reflexão sobre a relação homem- natureza em suas múltiplas perspectivas e não, estritamente, a biológica, que possa legitimar-se na mudança de comportamento. Isto posto, a EA no âmbito da escola, assume a responsabilidade de contribuir para uma mudança de comportamentos, para uma atuação cidadã. Quando bem proposta 23 NATUREZA, AMBIENTE E MEIO AMBIENTE: ENTENDENDO E DIFERENCIANDO OS CONCEITOS NO CENÁRIO DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL Capítulo 1 e organizada, a EA leva a mudanças de comportamento pessoal, de atitudes e valores de cidadania que podem ter importantes consequências sociais. No entanto, a EA é entendida por muitos professores da Educação Básica como uma possibilidade de trabalho prático com um tema que envolva o meio ambiente. As escolas, por muitas vezes, assumem desenvolver projetos de EA que ficam reduzidos a práticas pontuais como a “separação de lixos” ou a ideia de que levar a própria caneca para beber água é sinônimo de desenvolvimento sustentável. Essa falta de sentido epistemológico para caracterizar a complexidade da EA deve ser problematizada. O que, de fato, constitui um projeto de EA? Como a EA realizada nas escolas pode contribuir para uma mudança de comportamento nos estudantes? Como proporcionar ou contribuir para o desenvolvimento da responsabilidade coletiva, do respeito e do diálogo? Como já foi diagnosticado anteriormente, a EA é constituída, em termos pedagógicos, não apenas por conceitos, mas por procedimentos e atitudes. Só haverá mudança de comportamento se o trabalho e o entendimento da EA envolver essas três dimensões. Entende-se dessa forma, que a EA tem como finalidade garantir certo nível de conhecimento, o desenvolvimento de determinadas atitudes e a promoção de certos valores por meio de processos em que o indivíduo e a coletividade constroem valores sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e competências voltadas para a conservação do meio ambiente. Isso requer uma concepção de Educação, também, baseada em conceitos, procedimentos e atitudes. O ensino de conceitos é supervalorizado no âmbito curricular e escolar e, muitas vezes, não está acompanhado de uma preocupação pedagógica com o “saber-fazer” e o “saber ser”. A tradicional e perpetuada ideia de que o aluno precisa memorizar termos científicos sem, no entanto, saber apropriar-se da ciência em situações cotidianas e ainda entendê-la como neutra, salvacionista e feita por pessoas que se especializaram muito e trabalham em laboratórios de pesquisa , ainda, bastante presente. Por exemplo, quando um produto ou uma informação vem com a frase “cientificamente comprovado” em destaque, em geral, as pessoas não contestam a plausibilidade desse produto ou dessa informação. Isso porque, de acordo com o “senso comum científico”, a ciência só produz benefícios e oportunidades para a sociedade como um todo. Se assim fosse não faria sentido, por exemplo, o uso de pesticidas por grandes empresas que, evidentemente, sabem o efeito deste produto químico na cadeia alimentar e no equilíbrio do ecossistema. Por que não há um controle biológico em detrimento de um controle químico? Vamos pensar, por exemplo, no problema criado pelos fertilizantes químicos e pesticidas que, a partir da Segunda Guerra Mundial, produziram uma verdadeira 24 Fundamentos da Educação Ambiental revolução agrícola, incrementando de forma notável a produção. Recordemos que a utilização de produtos de síntese para combater os insetos, pragas, parasitas e fungos aumentou a produtividade num período em que um notável crescimento da população mundial o exigia. E recordamos igualmente que, alguns anos depois, a Comissão Mundial do Meio Ambiente e do Desenvolvimento (1988) advertia que o seu excesso constituía uma ameaça para a saúde humana, provocando desde malformações congênitas até ao cancro, sendo, por sua vez, autênticos venenos para peixes, mamíferos e pássaros (PRAIA; PÉREZ; PEÑA, 2007). Assim, as referidas substâncias que se acumulavam nos tecidos dos seres vivos chegaram a ser denominadas, conjuntamente com outras igualmente tóxicas, como “Contaminantes Orgânicos Persistentes” (COP). Este envenenamento do planeta pelos produtos químicos de síntese, e em particular pelo DDT, já havia sido denunciado, em finais dos anos 1950, por Carson (1980) no seu livro Primavera Silenciosa (título que faz referência ao desaparecimento dos pássaros), em que se refere a abundantes e contrastadas provas dos efeitos nocivos do DDT, o que não impediu de ser violentamente criticada e de sofrer uma acusação muito dura por parte da indústria química, dos políticos e numerosos cientistas, que negaram o valor das suas provas e a acusaram de estar contra um progresso que permitia dar de comer a uma população crescente e salvar, assim, muitas vidas humanas (PRAIA; PÉREZ; PEÑA, 2007). Contudo, apenas dez anos mais tarde, se reconheceu que o DDT era realmente um perigoso veneno e se proibiu a sua utilização nos países desenvolvidos, ainda que se tenha continuado a utilizar nos outros países. O que podemos perceber com esse exemplo? defensores da manutenção do DDT eram grandes “produtores de ciências” e, em um primeiro momento, por interesses pessoais não reconheceram os perigos associados ao uso de pesticidas. Esse exemplo elucida o caráter não neutro da ciência bem como de quem a produz (PRAIA; PÉREZ; PEÑA, 2007). Partindo ainda desse exemplo, peço para que faça uma reflexão: A partir do conceito de DDT e pesticidas, você conseguiria explicar, a relação do uso do DDT e seu efeito na cadeia alimentar? Você conseguiria analisar criticamente a proposta de uma empresa e criar argumentos próprios (sem “copiar” ideias de outras pessoas)? Você conseguiria não se iludir com uma ciência enviesada cuja tônica seja a mobilização de argumentos apelativos (acabar com a fome de milhões de pessoas)? O saber conceitual não implica, sozinho, em um saber procedimental e, muito menos, em um atitudinal. Muitas vezes, esse saber isolado, fica restrito à sala de aula, às condições de avaliação, reprodução em provas ou chamadas orais. Por isso, o ensino precisa balizar-se em competências. 25 NATUREZA, AMBIENTE E MEIO AMBIENTE: ENTENDENDO EDIFERENCIANDO OS CONCEITOS NO CENÁRIO DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL Capítulo 1 Na literatura, encontramos muitas definições para o conceito de competência, que são elaboradas a partir de diferentes referenciais. No contexto escolar, esse termo refere-se ao que qualquer pessoa necessita para responder aos problemas que enfrentará. Diz respeito à intervenção efetiva nos diferentes âmbitos da vida por meio de ações nas quais se mobilizam, ao mesmo tempo e de maneira inter- relacionada, componentes atitudinais, procedimentais e conceituais (ZABALA, 2010). O ensino de competências tem como finalidade formar o ser humano em todas as suas capacidades, para que seja possível responder aos problemas que se apresentam não só dentro da escola como nos mais diversos contextos. Cumpre uma função orientadora, a fim de permitir a cada um dos alunos, o acesso aos meios para que possam se desenvolver conforme suas possiblidades, em todas as etapas da vida. Trata-se de um ensino que busca favorecer o desenvolvimento pessoal, interpessoal, social e profissional (ZABALA, 2010). Agora, pensemos de forma análoga- a importância da sincronicidade entre conceito, procedimento e atitude- considerando a abordagem da EA nas escolas. Saber seus objetivos e propostas não provê, necessariamente, uma mudança de comportamento e atitudes. Ribeiro e Cavassan (2016) argumentam que os componentes conceituais, procedimentais e atitudinais podem, sincronicamente, constituir o que esses autores denominaram de competência ambiental. Essa competência considera a multidimensionalidade da EA e incorpora elementos da área que, muitas vezes, não são legitimados como objetos de ensino- aprendizagem. QUADRO 2 - ELEMENTOS ESTRUTURANTES DA COMPETÊNCIA AMBIENTAL Conteúdos Conhecimentos - Objetos de ensino e de aprendiza-gem Conteúdos conceituais Conhecimentos curriculares do campo das Ciências Natu- rais e Sociais. Conteúdos socialmente relevantes, selecio- nados de acordo com suas potencialidades formativas. Conteúdos procedimentais Habilidades sociais e comunicativas que fundamentam as relações interpessoais (saber dialogar, relacionar-se, con- viver, partilhar informações, cooperar, ouvir e reconsiderar ideias, saber respeitar e valorizar a diversidade de perspec- tivas etc.). Conteúdos atitudinais Respeito, cooperação, autonomia e democracia. FONTE: Ribeiro e Cavassan, (2016, p. 25) 26 Fundamentos da Educação Ambiental O quadro discrimina como cada um dos conteúdos podem ser trabalhados para constituir, integralmente, a competência ambiental. Retome as definições de EA descritas e problematizadas no item anterior e veja que todas as definições envolvem mudanças de comportamentos e atitudes, principalmente no que se refere ao pensamento e ação coletiva. Desta forma, a escola, ao trabalhar a EA deve permitir que os estudantes adquiram essa competência e possam intervir na sociedade. No entanto, há um distanciamento considerável entre o que fundamenta os referenciais teóricos e o que, de fato, se faz na escola. Os currículos escolares destacam os conceitos e simples generalizações de modo que os alunos, raramente, são convidados a refletir ou protagonizar o processo de ensino-aprendizagem. Almeida (2007) argumenta que muitos professores acreditam que a abordagem de temáticas sobre o ambiente e temas adjacentes é suficiente para que os alunos desenvolvam atitudes e comportamentos favoráveis ao ambiente. Segundo esse autor, predominam, nas escolas, práticas pedagógicas centradas na política dos 3Rs (reduzir, reutilizar e reciclar), refletindo uma concepção de EA focada na gestão dos recursos que está associada a uma perspectiva antropocêntrica da relação homem-natureza (CORREIA, 2014). Outro problema que devemos evitar diante do trabalho nas escolas é que ele fique no plano do discurso vazio de “salvação pela educação” ou da normatização de comportamentos “ecologicamente corretos” (LOUREIRO, 2007). Há uma ampliação na compreensão do mundo e o repensar das relações eu- eu, eu-outro, eu-nós no mundo. Temas anteriormente tratados como meio para a preservação ou respeito à natureza (elementos importantes, mas insuficientes ao reforçarem a dicotomia cultura-natureza) devem ser problematizados em várias dimensões (cultural, econômica, política, legal, histórica, geográfica, estética etc.) (LOUREIRO, 2007). Pensando em afastar-se da reprodução de jargões ou de projetos estereotipados, para que trabalho com a EA contribua para uma mudança de pensamento e comportamento diante de um contexto capitalista e de consumo exagerado, pode-se sugerir as atividades de campo uma vez que o contato com o ambiente permite a sensibilização acerca dos problemas ambientais. Além disso, surgem oportunidades de reflexão sobre valores, imprescindíveis às mudanças comportamentais e, sobretudo, atitudinais. Assim, uma caminhada no entorno do ambiente escolar, por exemplo, pode embasar uma ótima atividade a partir da observação e exploração dos problemas 27 NATUREZA, AMBIENTE E MEIO AMBIENTE: ENTENDENDO E DIFERENCIANDO OS CONCEITOS NO CENÁRIO DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL Capítulo 1 locais. Ao pensar na EA como prática educativa, é preciso inserir as atividades de campo dentro de uma perspectiva onde o ambiente “é pensado como sistema complexo de relações e interações da base natural e social e, sobretudo, definido pelo modo de sua apropriação pelos diversos grupos, populações e interesses sociais, políticos e culturais que aí se estabelecem” (VIVEIRO; DINIZ, 2009). Apoiados na observação direta, os alunos podem fazer uma releitura crítico- construtiva da realidade, identificar seus problemas socioambientais, estabelecer relações entre as informações levantadas e elaborar propostas de transformação da mesma (SANTOS; COMPIANI, 2005). Cabe sugerir a utilização de propostas metodológicas como a problematização (BERBEL, 2011) e a aprendizagem baseada em problemas (ABP) (SOUZA; DOURADO, 2015). São metodologias ativas de aprendizagem cujo objetivo principal é colocar o aluno no centro do processo de ensino-aprendizagem por meio de problemas contextualizados (MORAN, 2015). Na primeira, os alunos identificam um problema por meio da observação da realidade, trazem o problema para a sala de aula para teorizá-lo, debatê-lo, estudar pontos específicos e/ou novos para, então, criar planos de ação que visam a transformação da realidade observada (e não, necessariamente, a extinção do problema). Trata-se de um movimento de ação-reflexão-ação por meio do qual o aluno tem a chance de conhecer e estudar a realidade e propor ações de intervenção. Já na segunda, o problema é elaborado e proposto pelo professor em sala de aula, que poderá, portanto, construí-lo a partir de uma problemática ambiental, e então, por meio de estudos individuais e, em grupo, o aluno deverá investigar a solução desse problema. Na educação científica, as estratégias de ensino usadas na ABP podem contribuir para a tomada de decisões e na formação para cidadania. A elaboração do caso pode considerar os problemas socioambientais reais com os quais os cidadãos se defrontam cotidianamente. Questões como transgênicos, uso de biocombustíveis, uso de produtos ou controle químico para aumento da produção, entre outras, envolvem consideráveis implicações científicas, tecnológicas, políticas e ambientais que podem ser trabalhadas com o intuito de favorecer a participação ativa dos estudantes em discussões escolares que enriqueçam seu crescimento pessoal e social além de contextualizar o conhecimento e/ou o conteúdo abordado. Imagine, por exemplo, em uma aula sobre transgênicos, você solicitar que os alunos assistam a dois vídeos que reverberam e descrevem sobre posicionamentos distintos acerca da produção e consumo dos alimentos 28 Fundamentos da Educação Ambiental transgênicos: um da CompanhiaMonsanto e um do Greenpeace. A partir dos vídeos, você constrói um problema semelhante à: “Imaginem que vocês foram consultados por um empresário que abrirá uma empresa agrícola e gostaria, de, em sua proposta de divulgação inicial, apresentar o posicionamento da empresa frente à questão da transgenia. Como você elaboraria argumentos sobre a produção (ou não) desse tipo de alimento pela empresa? Qual a orientação que daria ao empresário? Focar na produção orgânica ou em alimentos transgênicos? Outro exemplo de problema que pode ser trabalhado: Maior multinacional brasileira de cosméticos e pioneira em produção sustentável, a Natura é uma das vencedoras do prêmio da Organização das Nações Unidas (ONU) Campeões da Terra 2015, na categoria Visão Empresarial. Com o Programa Amazônia, lançado em 2011, a Natura busca fomentar a criação de negócios sustentáveis na região amazônica, impulsionando o desenvolvimento de uma economia de floresta em pé. A companhia lançou uma linha de produtos que usa um novo ativo amazônico, a ucuuba. A ucuuba é uma árvore da Amazônia ameaçada de extinção, muito procurada por sua madeira leve e clara, porém, quem a derruba não vê que o seu verdadeiro valor está nas sementes. Antes derrubada para exploração madeireira, a árvore em pé passou a render três vezes mais ao ano às comunidades locais com o manejo sustentável para fornecer cosméticos à Natura. Só em 2016, uma área equivalente à 150 campos de futebol foi conservada. Você é dono de uma empresa de cosméticos e tem a chance de expandir seu negócio junto ao mercado nacional. Para tanto, precisa elaborar e lançar uma linha de produtos fundamentada no desenvolvimento sustentável. Pense em como você faria a divulgação de seu produto visto que a sua concorrente direta é a Natura. Você conseguiria responder essas questões com argumentos fundamentados e baseados em pesquisas científicas? É importante perceber que a construção das respostas exige pesquisa, reflexão, análise de argumentos, análise das fontes de informações (a plausibilidade do conteúdo informativo depende da fonte que a emite, do objetivo dessa fonte e do interesse dessa fonte), e principalmente, um posicionamento crítico, fundamentado e contextualizado (o que, certamente, não é possível apenas com a mobilização de conceitos retirados de livros didáticos ou apostilas). O uso de problemas ou cases que envolvem questões sobre ciência, tecnologia, sociedade e ambiente (CTSA) é uma estratégia para contextualização dos conhecimentos, para exercitar a tomada de decisão e para o trabalho com conceitos (o que se sabe), procedimentos (o que fazer) e atitudes (como agir eticamente respeitando os valores de sustentabilidade, por exemplo). Envolver os conhecimentos teóricos em ações reais é de suma importância para que saibamos aplicar os conhecimentos e avaliar as consequências dessas aplicações para a qualidade de vida social e ambiental. 29 NATUREZA, AMBIENTE E MEIO AMBIENTE: ENTENDENDO E DIFERENCIANDO OS CONCEITOS NO CENÁRIO DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL Capítulo 1 Ao tratar das atividades de campo como estratégia para EA, Krasilchik (2004) alerta para que haja coerência entre o discurso de conservação que se utiliza em sala de aula e saídas a campo e o comportamento do professor e dos estudantes. Por exemplo, os impactos gerados pela atividade devem ser mínimos, somente o essencial deve ser coletado para estudo, desde que não cause danos significativos ao ambiente (o que também poderá ser uma estratégia para o trabalho com atitudes). O trabalho de Educação Ambiental deve ser desenvolvido a fim de ajudar os alunos a construírem uma consciência global das questões relativas ao meio para que possam assumir posições afinadas com os valores referentes à sua proteção e melhoria. Para isso é importante que possam atribuir significado àquilo que aprendem sobre a questão ambiental. E esse significado é resultado da ligação que o aluno estabelece entre o que aprende e a sua realidade cotidiana, da possibilidade de estabelecer ligações entre o que aprende e o que já conhece, e também da possibilidade de utilizar o conhecimento em outras situações. A perspectiva ambiental oferece instrumentos para que o aluno possa compreender problemas que afetam a sua vida, a de sua comunidade, a de seu país e a do planeta. Muitas das questões políticas, econômicas e sociais são permeadas por elementos diretamente ligados à questão ambiental. Nesse sentido, as situações de ensino devem se organizar de forma a proporcionar oportunidades para que o aluno possa utilizar o conhecimento sobre Meio Ambiente para compreender a sua realidade e atuar sobre ela (BRASIL, 1998, p. 35). A EA prospecta elementos para propostas pedagógicas centradas na conscientização, mudança de comportamento, desenvolvimento de competências, capacidade de avaliação e participação dos educandos, que devem ser consonantes a uma ideia de educação com os mesmos objetivos (JACOBI, 2004). Além disso, o que deve ser muito bem previsto é a coerência entre objetivos e ações e/ou propostas que serão desenvolvidas com cunho de EA. Os objetivos, aquilo que se deseja alcançar com determinado projeto ou proposta, devem ser consonantes ao que se pode desenvolver ou fazer. Por exemplo, não se deve dizer que uma escola tem um projeto de EA cujo objetivo é desenvolver a competência ambiental nos estudantes e na comunidade, promovendo uma mudança de comportamento e aquisição de novos valores se o que a escola se propõe a fazer é colocar coletores identificados – papel, vidro, plástico, metal, não reciclável e orgânico - no pátio e avisar aos alunos sobre a necessidade de identificar os objetos antes de jogá-los no lixo. Essa ação pontual, irrefletida, proposta apenas por meio da reprodução e condicionamento de comportamentos não levará a uma mudança de valores. Atualmente, o desafio de fortalecer uma educação ambiental convergente e multirreferencial se coloca como prioridade para viabilizar uma prática educativa que articule de forma 30 Fundamentos da Educação Ambiental incisiva a necessidade de se enfrentar concomitantemente a degradação ambiental e os problemas sociais. Assim, o entendimento sobre os problemas ambientais se dá por uma visão do meio ambiente como um campo de conhecimento e significados socialmente construídos, que são perpassados pela diversidade cultural e ideológica, como pelos conflitos de interesse. Neste universo de complexidades precisa ser situado o aluno, onde os repertórios pedagógicos devem ser amplos e interdependentes, na medida que a questão ambiental seja um problema híbrido, associado às diversas dimensões humanas. Os professores devem estar cada vez mais preparados para reelaborar as informações que recebem, e entre elas as ambientais, para poder transmitir e decodificar para os alunos a expressão dos significados em torno do meio ambiente e da ecologia nas suas múltiplas determinações e intersecções. A ênfase deve ser a capacitação para perceber as relações entre as áreas e como um todo, enfatizando uma formação local/global, buscando marcar a necessidade de enfrentar a lógica da exclusão e das desigualdades. Nesse contexto, a administração dos riscos socioambientais coloca cada vez mais a necessidade de ampliar o envolvimento público através de iniciativas que possibilitem um aumento do nível de consciência ambiental dos moradores, garantindo a informação e a consolidação institucional de canais abertos para a participação numa perspectiva pluralista. A educação ambiental não pode se restringir apenas aos problemas ambientais que decorrem da desordem e degradação da qualidade de vida nas cidades e regiões (JACOBI, 2004, p. 32). Entende-se, portanto, que a prática da EA nas escolas só será efetiva se estiver inserida no contexto de valores sociais, mesmo que se refira a mudanças de hábitos cotidianos e não reduzida ao tratamento de alguns temase princípios ecológicos nas diversas disciplinas que formam os currículos, ou na geração de ofertas educativas específicas relacionadas com o tema (JACOBI, 2004). A declaração de Tbilisi (UNESCO, 1978) estabeleceu os seguintes objetivos da EA: promover a aquisição de conhecimentos acerca dos fatores bio lógicos, físicos, socioeconômicos, de cuja interação o ambiente depende; promover atitudes de preservação do ambiente nos indivíduos; desenvolver nos membros das comunidades um sentido crítico para o exercício de uma cidadania responsável, que se traduza na participação ativa e empenhamento na resolução dos graves problemas ambientais que enfrentamos. A EA apresenta três componentes prin cipais: educação acerca do ambiente (aquisição de conhecimentos); educação no am biente (utilização do meio como recurso, quer de processos investigativos, quer como palco material para múltiplas atividades); educação pelo ambiente (desenvolvimento de atitudes e valores que conduzam a um comprometimento tanto pessoal como comunitário com as questões do ambiente). Esta última com ponente implica o envolvimento 31 NATUREZA, AMBIENTE E MEIO AMBIENTE: ENTENDENDO E DIFERENCIANDO OS CONCEITOS NO CENÁRIO DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL Capítulo 1 individual e coletivo dos alunos em uma abordagem interdisciplinar de resolução de problemas focada em problemas reais das comunida des. Essas metodologias de ensino podem incluir métodos diversificados, como: atividades de discussão; pesquisa bibliográfica; elaboração de mapas conceituais; realização de in quéritos; recurso a analogias; recurso às tecnologias da informação e comunicação; trabalho laboratorial e trabalho de campo (ALMEIDA, 2007). Para exemplificar essa questão, podemos citar a metodologia da problematização, ressaltando a sua potencialidade para o trabalho com a EA. Em síntese, Berbel (1998) explica que o desenvolvimento dessa metodologia se dá a partir de um determinado aspecto da realidade. Então, a primeira etapa é a da observação da realidade e definição do problema. É o início de um processo de apropriação de informações pelos estudantes, que são levados a observar a realidade em si, com seus próprios olhos e a identificar as características, a fim de, mediante os estudos, poderem contribuir para a transformação da realidade observada. Imagine que são os próprios alunos que trarão o problema para ser teorizado e trabalhado em sala de aula. Dessa forma, após uma observação do contexto em que vivem, os alunos, apoiados pelo professor, selecionam uma das situações e a problematizam. Definido o problema a estudar/investigar, inicia-se uma reflexão acerca dos possíveis fatores e determinantes maiores relacionados ao problema, possibilitando uma maior compreensão da complexidade e da multideterminação dele. Essa reflexão culminará na definição dos pontos-chave. Os pontos-chave podem ser expressos de forma variada: questões básicas que se apresentam para o estudo; afirmações sobre aspectos do problema; tópicos a serem investigados ou, ainda, de outras formas. Assim, possibilita-se a criatividade e flexibilidade nessa elaboração, após a compreensão do problema pelo grupo. A terceira etapa – a da Teorização – é o momento da construção de respostas mais elaboradas para o problema. Os dados obtidos, registrados e tratados, são analisados e discutidos, buscando-se um sentido para eles, tendo sempre em vista o problema. Todo estudo, até a etapa da Teorização, deve servir de base para a transformação da realidade ou para gerar possibilidades de melhoria ou minimização do problema que fora identificado no início. Então se chega à quarta etapa, a das Hipóteses de Solução, em que a criatividade e a originalidade devem ser bastante estimuladas para se pensar, planejar e propor as alternativas de solução e intervenção. Bordenave afirma que “o aluno usa a realidade para aprender com ela, ao mesmo tempo em que se prepara para transformá-la” (BORDENAVE, 1989, p. 25). É nesse momento 32 Fundamentos da Educação Ambiental que, após estudar teoricamente o problema visto na prática e/ou realidade, o aluno começa a engendrar ideias de intervenção social: “O que posso fazer para minimizar o problema?”, “O que é necessário para que o problema não ocorra?”, “Quais são as ações que eu posso desencadear na direção de melhoria ou extinção do problema?”, dentre outras. Por fim, a última etapa, a da Aplicação à Realidade, é aquela que possibilita o intervir, o exercitar, o manejar situações associadas à solução do problema. A aplicação permite fixar as soluções geradas e contempla o comprometimento do pesquisador para voltar para a mesma realidade, transformando-a em algum grau. Assim, a Metodologia da Problematização diferencia-se de outras metodologias de mesmo fim, e consiste em problematizar a realidade, em virtude da peculiaridade processual que possui, ou seja, seus pontos de partida e de chegada; efetiva- se por meio da aplicação à realidade na qual se observou o problema, ao retornar posteriormente a esta mesma realidade, mas com novas informações e conhecimentos, visando à transformação. “Trata-se de uma concepção que acredita na educação como uma prática social e não individual ou individualizante” (BERBEL, 1998, p. 36). Em suma, o aluno irá: 1. Partir da observação da realidade de uma sala de aula, durante alguns dias/ horas, para a identificação de problemas e a escolha de um deles para o desenvolvimento da investigação. 2. Refletir sobre os possíveis fatores e determinantes maiores do problema eleito e definição dos pontos-chave do estudo. 3. Investigação de cada um dos pontos-chave, buscando informações e analisando-as para responder ao problema, compondo assim a teorização; 4. Elaboração de hipóteses de solução para o problema. 5. Aplicação de uma ou mais das hipóteses de solução, como um retorno do estudo à realidade investigada (COLOMBO; BERBEL, 2007). O arco de Maguerez, apresentado inicialmente por Bordenave e Pereira (1982), elucida essas cinco etapas e resume, esquematicamente, o percurso metodológico da problematização. 33 NATUREZA, AMBIENTE E MEIO AMBIENTE: ENTENDENDO E DIFERENCIANDO OS CONCEITOS NO CENÁRIO DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL Capítulo 1 FIGURA 1 - ARCO DE MAGUEREZ FONTE: Adaptado de Bordenave e Pereira (1989) A problematização leva os alunos a observarem e investigarem a realidade a sua volta, identificando problemas e/ou dificuldades para, então, a partir de estudos e levantamentos de dados teóricos e práticos, elaborarem um projeto de transformação e intervenção da realidade. Dessa forma, são os próprios alunos que trarão o problema a ser teorizado e trabalhado em sala de aula. Essa metodologia parte de uma questão prática – observação da realidade e levantamento de um problema; transita por uma questão teórica – estudo sobre o problema identificado e volta para uma questão prática – elaboração de uma ação cujo objetivo seja intervir na realidade (BERBEL, 1998). Há, portanto, nessa metodologia uma ideia de educação crítica visto que os alunos precisarão conhecer a realidade social que o cercam, dialogar com a comunidade, investigar formas de intervir nessa sociedade e, inerentemente, buscar um posicionamento crítico para direcionar escolhas e decisões. Além disso, o processo de ensino-aprendizagem envolve a observação da realidade, 34 Fundamentos da Educação Ambiental a investigação, o trabalho em grupo, a cooperação e a orientação e mediação desse processo por parte do professor, atribuindo o protagonismo das ações aos alunos. Por exemplo, os alunos vão a uma empresa e/ou indústria e identificam diversos fatores que aumentam a pegada de carbono da empresa. O problema é trazido para sala com o objetivo de criar estratégias para diminuição da pegada de carbono (pegada de carbono: mede a quantidade de dióxido de carbono que produzimos diariamente e a forma como essasemissões de gás influenciam o meio ambiente). Quais sugestões você pode dar a essa empresa- após estudar a temática- para que a pegada de carbono diminua? Partindo disso, e considerando que a polissemia do termo pode gerar equívocos não só na escola, mas em diversos âmbitos e para diversas pessoas e/ou atores que querem falar e compreender sobre a EA, é de suma importância, estabelecer distinções entre alguns conceitos bastante mencionados na área e que podem levar a entendimentos distintos e, portanto, gerar ações, também, distintas da EA. Como Gestor Ambiental, você será capacitado para criar e implementar projetos de EA em escolas. Para tanto, é fundamental conhecer exemplos e problematizações. O material “Vamos cuidar do Brasil: conceitos e práticas em educação ambiental na escola “é um ótimo guia para auxiliar na elaboração e liderança de projetos que possam, factualmente, fazer a diferença na relação homem-ambiente. Os textos foram organizados em quatro capítulos. O primeiro apresenta as ações estruturantes e diretrizes desenvolvidas pelo Órgão Gestor da Política Nacional de Educação Ambiental, uma parceria entre o Ministério da Educação (MEC) e o Ministério do Meio Ambiente (MMA), elucidando a inovação e os desafios políticos e institucionais. Nos textos que compõem este capítulo surgem algumas áreas de atuação para universalizarmos a educação ambiental no Brasil. Com elas fazemos uma educação com o planeta na mente e no coração. O material está disponível no link: <http://www.unoparsetelagoas. com.br/educacao_%20ambiental/downlod/publicacao_3.pdf#page=58>. 35 NATUREZA, AMBIENTE E MEIO AMBIENTE: ENTENDENDO E DIFERENCIANDO OS CONCEITOS NO CENÁRIO DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL Capítulo 1 Os sites a seguir são fontes de consulta bem interessantes sobre diferentes perspectivas e abordagens acerca da EA e seus desdobramentos. Como já mencionado, essa é uma área presente em muitos setores, centro de muitos discursos, debates e polêmicas e, portanto, é necessário conhecer e avaliar diversas fontes e suas propostas, bem como a linguagem e as estratégias construídas para falar da EA. Os 3 primeiros sites apresentados foram sugeridos em um trabalho da professora Marília de Freitas Tozoni Reis – (Re) Pensando a EA, 2004. 1. <https://edukatu.org.br/>. O que você irá encontrar: Conteúdo sobre consumo consciente. O site reúne vídeos, games, atividades e relatos de projetos ligados à sustentabilidade desenvolvidos por escolas. Por que é relevante? Você encontra informações diversificadas sobre o tema e o site também tem um espaço chamado “Rede” para incentivar a troca de conhecimentos e práticas sobre consumo consciente e sustentabilidade em escolas de Ensino Fundamental de todo o país. Destaque para as animações da seção “De onde vem para onde vai” que explicam o processo de produção, os impactos ambientais e as alternativas sustentáveis para o uso de objetos do nosso dia a dia, como a sacola plástica e os celulares. 2. <https://www.wwf.org.br/>. O que você irá encontrar: Respostas para dúvidas sobre temas conspícuos e, invariavelmente, mencionados por meio de ideias equivocadas ou enviesadas, como desenvolvimento sustentável, mudanças climáticas e unidades de conservação. Por que é relevante? A seção “Nosso mundo” explica de forma didática os temas ambientais mais discutidos no momento. Destaque para a seção “Pegada ecológica” que apresenta o conceito de que nosso modo de vida e hábitos de consumo deixam “rastros” e impactam de alguma maneira o meio ambiente. Além de explicar com mais detalhes essa ideia, o site oferece um teste para medir nossas pegadas. Essa contextualização com a realidade é muito importante para a tomada de consciência e a mudança de comportamento. 3. <https://www.sosma.org.br/blog-categorias/educacao-ambiental/>. O que você irá encontrar: Muitas notícias, dados e mapas sobre a degradação do bioma da Mata Atlântica e informações sobre 36 Fundamentos da Educação Ambiental projetos de preservação. Por que é relevante? Você encontra um blog sobre EA com relatos da equipe da organização SOS Mata Atlântica sobre atividades e projetos de sustentabilidade desenvolvidos com escolas. 4. <http://www.mma.gov.br/educacao-ambiental/politica-de-educacao -ambiental/programa-nacional-de-educacao-ambiental>. O que você irá encontrar: Descrição e problematização sobre o Programa Nacional de EA. Por que é relevante? Além de descrever as linhas de ação e a forma de atuação do programa, apresenta conteúdos científicos muito pertinentes à área: áreas protegidas, biodiversidade, biomas, cidades sustentáveis, clima, desenvolvimento rural, responsabilidade socioambiental etc. É uma fonte muito importante e confiável para consulta de conceitos. A notícia a seguir transcreve uma entrevista com a coordenadora dos temas transversais dos Parâmetros Curriculares Nacionais cuja temática são as propostas de EA nas redes estaduais de ensino. Disponível em: <https://novaescola.org.br/conteudo/899/neide- nogueira-fala-sobre-educacao-ambiental-no-brasil>. Após a leitura e os conhecimentos teóricos já adquiridos, faça uma reflexão sobre as possibilidades e limitações do trabalho com a EA nas escolas. Antes de fazer a leitura do artigo indicado, pense na seguinte questão: O homem é um ser vivo mais importante ou de maior valor do que os outros? Devemos conceber a relação homem-natureza apenas considerando os interesses e vontades dos homens? Faça a leitura do artigo: “Dos Direitos morais aos Direitos 37 NATUREZA, AMBIENTE E MEIO AMBIENTE: ENTENDENDO E DIFERENCIANDO OS CONCEITOS NO CENÁRIO DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL Capítulo 1 Constitucionais: para além do especismo elitista e eletivo”, disponível no link: <https://portalseer.ufba.br/index.php/RBDA/article/ view/10300/7358>. Resenha: Para que a dimensão socioambiental seja devidamente discutida em sala de aula, o antropocentrismo, ou seja, o pensamento que confere maior valor ao homem do que aos demais seres vivos, precisa ser problematizado. O antropocentrismo acompanha a trajetória humana há mais de 2 mil anos, sendo que por todo esse tempo os seres vivos foram reduzidos a um entendimento que subdivide os seres em “úteis” ou “nocivos” ao interesse humano. Discutir a temática ambiental por vias antropocêntricas pode resultar na formação de cidadãos que analisem a devastação em termos de riscos e benefícios somente para a espécie humana, quando na verdade os primeiros e mais afetados são as demais espécies vivas. A ótica antropocêntrica tem sido problematizada? A lógica antropocêntrica se refere a uma suposta superioridade humana em relação às demais espécies e a partir dela são elaboradas legislações direcionadas somente a direitos humanos e, se são incluídos outros seres, a inserção de um ou de outro é determinada por critérios especistas. O especismo refere-se à desconsideração moral de humanos aos animais não humanos, ou seja, aqueles interesses de animais não humanos não equivalem ao peso moral de interesses humanos. Podem-se distinguir dois tipos de especismo: o elitista e o eletivo. O especismo elitista considera os interesses de sujeitos racionais mais relevantes, ou seja, sobrepõe direitos humanos sobre direitos de animais não humanos. Já o especismo eletivo, confere maior importância aos animais escolhidos segundo a predileção humana por critérios afetivos, estéticos e econômicos. Os animais sinantrópicos, aqueles que compartilham habitats com o homem, tais como baratas, ratos, aranhas e sapos, são constantemente alvo de comportamentos humanos negativos e tal resposta atitudinal aversiva resulta de interpretações pejorativas do significado da aparência dos animais. A interpretação da aparência geralmente depende do estabelecimento social de padrões de beleza que se referem à cor, textura, tamanho, delicadeza e proporção. Frequentemente não é considerada a importânciadesses animais para o ambiente, o que normalmente resulta em ações de aniquilamento. 38 Fundamentos da Educação Ambiental A perspectiva biocêntrica, que consiste em considerar a totalidade dos seres vivos como sujeitos com direitos legislativos e morais, independente de proporcionarem interesse afetivo ou econômico ao ser humano, e é uma forma viável (talvez a única) para o ensino da problemática ambiental. O biocentrismo nega que a natureza deva atender às necessidades humanas, pois o homem passa a estar em um mesmo patamar de toda a natureza viva. O conceito de natureza não é natural (PORTO-GONÇALVEZ, 1990). É comum entre aqueles que se envolvem com a problemática ecológica citar outras sociedades como modelos de relação entre os homens e a natureza. As comunidades indígenas e as sociedades orientais são, via de regra, evocadas como modelos de uma relação harmônica com a natureza. Se em diferentes religiões o paraíso é projetado no reino dos céus, para diversos ecologistas este se localiza em outras sociedades. Há uma virtude nesse procedimento: ele oferece um consolo, enquanto ideia, para o mundo em que vivemos- que concretamente não tem consolo. Isto não deixa de ser, a sua moda, uma crítica à sociedade que não é tal e qual os modelos citados, daí as utopias. Nesse sentido, as utopias têm lugar concreto num mundo onde não existem concretamente, sendo por isso sonhadas e projetadas enquanto utopias. Por outro lado, esse procedimento não deia de ser também uma fuga dos problemas concretos, muitas vezes, derivada de uma incompreensão das razões pelas quais em nossa sociedade e cultura as coisas são do jeito que são. Toda sociedade, toda cultura, cria, inventa, institui uma determinada ideia do que seja a natureza. Nesse sentido, o conceito de natureza não é natural, sendo na verdade criado e instituído pelos homens. Constitui um dos pilares através do qual os homens erguem as suas relações sociais, sua produção material e espiritual enfim, a sua cultura. Dessa forma, é fundamental que reflitamos e analisemos como foi e como é concebida a natureza na nossa sociedade, o que tem 39 NATUREZA, AMBIENTE E MEIO AMBIENTE: ENTENDENDO E DIFERENCIANDO OS CONCEITOS NO CENÁRIO DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL Capítulo 1 servido como um dos suportes para o modo de produzirmos e vivermos, que tantos problemas nos tem causado e contra o qual construímos o movimento ecológico. Após a leitura do texto, faça a seguinte reflexão: 1. Como viviam as sociedades cuja base econômica era a agricultura de subsistência? Você consegue imaginar qual a concepção de natureza que essas sociedades tinham? 2. Como o modo de produção capitalista pode ter influenciado a sua concepção de natureza? 3. Você acha que o capitalismo incita a utilização do patrimônio natural como uma mercadoria e uma externalidade em relação a nós? 4. Como contribuir para a criação de novos padrões culturais cujos valores propiciem repensar a natureza e, ao mesmo tempo, nos realizarmos em sociedade? Sugestão de material para aprofundamento de pesquisa: <https://www.pensamentoverde.com.br/meio-ambiente/agricultura- subsistencia-brasil/>. 3 IDENTIFICANDO E DIFERENCIANDO OS CONCEITOS DE AMBIENTE, MEIO AMBIENTE E NATUREZA NO CONTEXTO DA TEMÁTICA AMBIENTAL Os termos ambiente, meio ambiente e natureza são aludidos em muitos discursos ou assuntos que envolvem a temática ambiental e, na maior parte dos casos, referidos indiscriminadamente como sinônimos cujo significado remete a uma entidade com a qual a humanidade se relaciona, na qual está inserida e que deve ser preservada para que as futuras gerações possam usufruir de condições saudáveis de sobrevivência e manutenção da vida (RIBEIRO; CAVASSAN, 2013). Assim, faz-se presente nos discursos de ambientalistas, conservacionistas, educadores, ecólogos e outros grupos ligados à questão, o seguinte slogan: 40 Fundamentos da Educação Ambiental “Cuidar do ambiente/meio ambiente/natureza e dos recursos para que não se esgotem” e para que “possamos construir e manter uma sociedade sustentável” (RIBEIRO; CAVASSAN, 2013). Esses discursos perpetuam ideias não refletidas, acríticas que, por sua vez, endossam perspectivas ingênuas e simplistas sobre a EA. Já apontamos várias questões que contribuem para isso: a abordagem estritamente biológica da EA; a ideia de que o ensino de conceitos é suficiente para a mudança de comportamentos; e a não discussão sobre aspectos socioculturais e econômicos para entender a EA. Neste tópico, discutiremos como o uso arbitrário das palavras natureza, ambiente e meio ambiente interfere, contundentemente, na construção da concepção de EA. Há na “linguagem ambiental” ou “campo ambiental”, uma tendência à confusão univocidade de significados conceituais e a disseminação de interpretações vazias de significados coerentes que são cada vez mais reproduzidos pelo senso comum. A partir de uma revisão de literatura bastante criteriosa, Ribeiro e Cavassan (2013) concluíram que as diferentes definições de natureza têm em comum o princípio de que a natureza é uma abstração e o que se pensa sobre ela é influenciado pelo contexto sócio-histórico. Daí os diferentes significados existentes uma vez que que o contexto sócio-histórico pode ser subjetivamente interpretado de diferentes formas e caracterizado pelo momento específico em que está sendo analisado- não se trata de uma análise atemporal Por exemplo, a concepção moderna de natureza apoiou-se nas teorias evolucionistas as quais possibilitaram entendê-la como submetida a um estado constante de mudança. Embora houvesse elementos mecânicos na natureza, esta não mais poderia ser considerada uma máquina; isto porque, uma máquina é essencialmente um produto pronto, um sistema fechado e, portanto, não se modificaria ao longo do tempo (COLLINGWOOD, 1978). O que varia de uma concepção para outra é, na verdade, como a natureza é representada, isto é, o que se pensa sobre a sua composição, a sua origem ou a sua finalidade (RIBEIRO; CAVASSAN, 2013). Você já usou os conceitos de natureza e ambiente como sinônimos? Já pensou se existe diferença de sentido entre eles? Para Ribeiro e Cavassan (2013), é necessário utilizar diferentes terminologias para os significados de natureza real ou causal e natureza representada ou pensada. Os autores consideram que a natureza existe independentemente de 41 NATUREZA, AMBIENTE E MEIO AMBIENTE: ENTENDENDO E DIFERENCIANDO OS CONCEITOS NO CENÁRIO DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL Capítulo 1 se pensar sobre ela. Imagine, por exemplo, a Terra sem humanos; a natureza existiria em si mesma, continuaria seu curso normalmente. Quando, no entanto, elaboramos qualquer raciocínio sobre ela, ou seja, quando essa entidade passa a ser representada por uma mente, passamos a falar de ambiente, não mais de natureza. Assim, argumentam que o conceito de natureza se refere ao objeto no mundo natural e a expressão ambiente à interpretação/representação desse objeto (RIBEIRO; CAVASSAN, 2013). Dessa forma: ao conjunto de tudo que existe, damos o nome de natureza. Esta é uma entidade real que também pode ser pensada/representada. Quando assim o é, passamos a denominá-la de ambiente. Não conhecemos todos os elementos da natureza e somente aquilo que conhecemos e que, portanto, podemos representar compõe o ambiente. Consequentemente, se o homem não existisse, a natureza continuaria a existir, mas o ambiente não, pois não mais existiria a natureza representada (RIBEIRO; CAVASSAN, 2013). Temos de considerar, ainda, a diferença entre ambiente e meio ambiente que, na maioria das vezes, são usados, também, como sinônimos. A natureza existe em si mesma ao passo que o ambiente se refere aos elementos que pensamos compô-la, que nossa capacidade humana alcança e representa e é, portanto, constantemente ressignificado. Dentre todos os elementos que seacredita compor o ambiente e que se localizam num dado instante em determinado espaço geográfico, somente aqueles que são percebidos pelas capacidades perceptivas e sobre os quais cada organismo age e opera podem ser considerados integrantes do ambiente individual, ou seja, do meio ambiente, do umwelt ou do ambiente operacional (RIBEIRO; CAVASSAN, 2013, p. 72). Logo, no contexto das sociedades humanas compreendemos o meio ambiente não como a soma de tudo que existe, mas como um lugar determinado ou percebido, onde os elementos naturais e sociais estão em relações dinâmicas e em interação. Essas relações implicam processos de criação cultural e tecnológica e processos históricos e sociais de transformação do meio natural e construído (REIGOTA, 1998, p.14). O meio ambiente humano é determinado temporalmente e percebido em função de representações particulares, estando em relação dinâmica no sentido de que é permanentemente construído e, portanto, estabelecido e caracterizado por diferentes culturas em espaços específicos (REIGOTA, 1998) e também de acordo com a ontogenia da espécie humana. Essa entidade é compreendida como um espaço relacional no qual o indivíduo 42 Fundamentos da Educação Ambiental está inserido e age sobre todo um sistema social, político e econômico, pois é capaz de percebê-lo. Assim, construímos nosso próprio mundo externo, nosso umwelt, nosso meio ambiente subsidiado por processos sígnicos (perceptivos), ou seja, pelas atividades receptoras e efetoras que caracterizam a nossa espécie (RIBEIRO; CAVASSAN, 2013). Portanto, o conhecimento sobre a natureza, baseia-se na apreensão dos processos e elementos existentes e que podem ser observados. Consequentemente, elaboramos esquemas mentais que estão intimamente relacionados com as experiências individuais. Cada ser humano está cercado por um mundo “adequado” ou acomodado que se refere ao mundo circundante, ao meio ambiente (RIBEIRO; CAVASSAN, 2013). Ribeiro e Cavassan (2013) organizam um quadro para sistematizar e sumarizar as principais diferenças entre os conceitos de natureza, ambiente e meio ambiente. QUADRO 3 - PRINCIPAIS DIFERENÇAS ENTRE OS CONCEITOS DE NATUREZA, AMBIENTE E MEIO AMBIENTE Natureza Entidade real factível de ser percebida. Trata-se de uma realidade oferecida ao conhecimento e passível de pensamento, mas que dele independe. Constituída por elementos que podem não estar diretamente e imediatamente em reação com um organismo. Ambiente Refere-se à natureza pensada ou representada pela mente humana, isto é, à realidade apreendida, àquilo a que estamos cônscios através da percepção. Pode ser entendido como o que da natureza é conhecido pelo sistema social, o que está no horizonte perceptível humano. Uma construção humana historicamente construída. Faz alusão ao conjunto dos meios ambientes conhecidos pelo homem e é constituído de fenômenos que podemos representar e que são capazes de entrar em reação com um organismo, mas que ainda não foram chamados a fazer. Inclui aqueles fenômenos que não são imediatamente utilizados, mas que estão em condição de serem empregados operacionalmente pelo organismo. Meio ambiente Diz respeito aos elementos que envolvem ou cercam uma espécie ou indivíduo em particular, que são relevantes para o mesmo e que entram em interação efetiva. É caracterizado por ser um espaço definido pelas atividades do próprio ser; determinado em função de peculiaridades morfofisiológicas e ontogenéticas, sendo uma propriedade inerente aos seres vivos. Refere-se, portanto, aos fenômenos que entram efetivamente em relação com um organismo particular, que são imediatos, operacionalmente diretos e significativos. Sinônimos: mundo externo, mundo relevante, ambiente operacional, ambiente percebido, umwelt, mundo circundante, mundo associado, ambiente comportamental e campo de relações. FONTE: Ribeiro e Cavassan (2013, p. 71) 43 NATUREZA, AMBIENTE E MEIO AMBIENTE: ENTENDENDO E DIFERENCIANDO OS CONCEITOS NO CENÁRIO DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL Capítulo 1 Dentro da área de EA é muito importante pensarmos sobre a diferença de alguns termos que são usados de forma indiscriminada. Além dos conceitos abordados neste capítulo, existem outros que também geram confusão semântica dentro da área. Você sabe qual a diferença entre os termos: conservação; preservação e recuperação? PRESERVAÇÃO CONSERVAÇÃO RECUPERAÇÃO Preservação é a ação de proteger contra a destruição e qualquer forma de dano ou degradação um ecossistema, uma área geográfica ou espécies animais e vegetais ameaçadas de extinção, adotando-se as medidas preventivas legalmente necessárias e as medidas de vigilância adequadas. O Código Florestal estabelece áreas de preservação permanente, ao longo dos cursos d’água (margens de rios, lagos, nascentes e mananciais em geral), que ficam impedidas de qualquer uso. Essas áreas se destinam, em princípio, à vegetação ou mata ciliar especialmente importante para garantir a qualidade e a quantidade das águas, prevenindo o assoreamento e a contaminação. A Constituição brasileira impõe, também, a preservação do meio ambiente da Serra do Mar, da Floresta Amazônica, da Mata Atlântica, do Pantanal Mato-Grossense e da Zona Costeira (Constituição Federal, art. 225, § 4°;BRASIL, 1998, p.24). Conservação é a utilização racional de um recurso qualquer, de modo a se obter um rendimento considerado bom, garantindo- se, entretanto, sua renovação ou sua autossustentação. Analogamente, conservação ambiental quer dizer o uso apropriado do meio ambiente dentro dos limites capazes de manter sua qualidade e seu equilíbrio em níveis aceitáveis. Para a legislação brasileira, “conservar” implica manejar, usar com cuidado, manter; enquanto “preservar” é mais restritivo: significa não usar ou não permitir qualquer intervenção humana significativa (BRASIL, 1998, p. 34). Recuperação, no vocabulário comum, é o ato de recobrar o perdido, de adquiri-lo novamente. O termo “recuperação ambiental” aplicado a uma área degradada pressupõe que nela se restabeleçam as características do ambiente original. Nem sempre isso é viável e às vezes pode não ser necessário, recomendando-se então uma reabilitação. Uma área degradada pode ser reabilitada (tornar-se novamente habilitada) para diversas funções, como a cobertura por vegetação nativa local ou destinada a novos usos, semelhantes ou diferentes do uso anterior à degradação. A lei prevê, na maioria dos casos, que o investimento necessário à recuperação ou reabilitação seja assumido pelo agente degradador. Além disso, o agente responsável pelo dano ambiental deve reparar esse dano. Reparação é o ressarcimento, para efeito de consertar ou atenuar dano causado a pessoa ou patrimônio, e, no caso de dano ambiental, além de provável pagamento de multa, pode envolver a obrigação de recuperar ou reabilitar a área degradada (BRASIL, 1998, p. 34). FONTE: Adaptado de Brasil (1998, p. 34) 44 Fundamentos da Educação Ambiental O desafio está não somente em considerar os aspectos etimológicos do conceito de ambiente, mas também os aspectos semânticos, abordando as mudanças ocorridas espaço-temporalmente em suas significações. Questão essa fundamental àqueles que se dedicam tanto à Ecologia quanto à EA (RIBEIRO; CAVASSAN, 2012). O termo ambiente pode se relacionar a uma variedade de significados e contextos. Podemos dizer que determinado ambiente é tranquilo, que o ambiente familiar é aconchegante ou que o ambiente entre amigos é descontraído. Em todos esses casos nos referimos à um ambiente substantivado. É possível pronunciarmos também outras expressões, tais como: temperatura ambiente, luz ambiente e até mesmo cor ambiente, onde se manifesta a ideia de um ambiente como qualidade. Por sua vez, temos que uma peça teatral, um filme ou um fato são ambientados, ou seja, ocorrem em determinado local e em determinadomomento (COIMBRA, 2002). O ambiente para a EA compõe-se dos elementos bióticos e abióticos que a espécie humana exclusivamente percebe e com os quais interage. Todavia sua percepção e/ou ação é mediada por sistemas simbólicos. Nesse sentido, a maneira pela qual o homem interage com os indivíduos de sua mesma espécie, com os demais seres e com os componentes abióticos são influenciados por questões socioculturais. Logo, o equilíbrio das sociedades é de natureza sociológica e não somente ecológica (BRANCO, 1995, p. 229). Podemos dizer que a percepção de ambiente sob as perspectivas da EA e da Ecologia é diferente. Em uma abordagem ambiental torna-se necessário o diálogo entre as Ciências Humanas e as demais Ciências da Natureza. Não se trata de descrever as interações entre os elementos do ambiente, mas de buscar as causas que sustentam moralmente as relações humanas para com os demais povos e seres (LOUREIRO, 2009). Assim, o “modelo ambiental” refere-se ao conjunto de todos os elementos bióticos, abióticos e também sociais existentes à volta do ser humano, com os quais este interage. É possível destacar, portanto, que o sentido dado ao ambiente em Ecologia é influenciado pelas Ciências Naturais, enquanto na EA esse mesmo termo é interpretado à luz das Ciências Humanas. Em suma, a diferenciação entre esses termos, bem como o entendimento de suas menções, especificamente, no contexto de estudos da EA é importante para não compactuarmos com a perpetuação do uso ingênuo e equivocado dos conceitos pertencentes e/ou relacionados à área, bem como simplificarmos o significado da EA, dada a sua complexidade epistemológica e prática. Ter critérios para escrever, debater ou falar sobre EA contribui para que essa área de estudo 45 NATUREZA, AMBIENTE E MEIO AMBIENTE: ENTENDENDO E DIFERENCIANDO OS CONCEITOS NO CENÁRIO DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL Capítulo 1 seja encarada com mais seriedade principalmente no que tange à elaboração de projetos cujos objetivos têm como base a mudança de comportamento e valores na direção da edificação de uma sociedade sustentável. Para falar de EA ou propor uma ação com esse sentido é preciso entendê-la, estudá-la e romper obliterar com a reprodução de discursos formados e simplificados de preservação e sustentabilidade. De acordo com o Ministério do Meio Ambiente, a Mata Atlântica ocupava, originalmente, mais de 1,3 milhões de km² em 17 estados do território brasileiro, estendendo-se por grande parte da costa do país. No entanto, devido à ocupação e atividades humanas na região, hoje resta cerca de 29% de sua cobertura original. Mesmo assim, estima-se que existam na Mata Atlântica cerca de 20 mil espécies vegetais (35% das espécies existentes no Brasil, aproximadamente), incluindo diversas espécies endêmicas e ameaçadas de extinção. Essa riqueza é maior que a de alguns continentes, a exemplo da América do Norte, que conta com 17 mil espécies vegetais e Europa, com 12,5 mil. Esse é um dos motivos que torna a Mata Atlântica prioritária para a conservação da biodiversidade mundial. Com relação à fauna, o bioma abriga, aproximadamente, 850 espécies de aves, 370 de anfíbios, 200 de répteis, 270 de mamíferos e 350 de peixes. FONTE: Disponível em: <http://www.mma.gov.br/biomas/mata- atl%C3%A2ntica_emdesenvolvimento>. Onde podemos encontrar a Mata Atlântica e como preservá- la? <https://novaescola.org.br/conteudo/2281/onde-podemos- encontrar-a-mata-atlantica-e-como-preserva-la>. Sugestão de site para esclarecimentos sobre a Mata Atlântica: <https://www.sosma.org.br/>. 46 Fundamentos da Educação Ambiental Assista ao vídeo: <https://www.youtube.com/watch?v=dX- tu2ODL5g> que trata, primordialmente, sobre a ação do homem sobre o mundo e como essas ações podem ser repensadas e/ou transformadas. A proposta é que o vídeo seja um meio de reflexão e um convite para os capítulos subsequentes cuja ênfase será sobre a discussão da sustentabilidade, a educação para sustentabilidade e o papel do homem nessa problemática. 1 Sobre o que exige a ideia de Educação Ambiental descrita ao longo desse material, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) O meio ambiente deve ser preservado e o mais intocado possível, possibilitando a sobrevivência das espécies existentes, inclusive a humana. b) ( ) A interpretação do meio ambiente como um campo de interações entre a cultura, a sociedade e as bases física e biológica dos processos vitais. c) ( ) Reconhecimento da separação entre aspectos culturais e sociais daqueles ditos naturais para possibilitar a manutenção da vida na Terra. d) ( ) Interpretações das intervenções humanas no ambiente, baseadas mais em valores socioculturais e menos nos aspectos ecológicos. 2 Por que a problematização é uma metodologia adequada para trabalhar a Educação Ambiental? R.: ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ 47 NATUREZA, AMBIENTE E MEIO AMBIENTE: ENTENDENDO E DIFERENCIANDO OS CONCEITOS NO CENÁRIO DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL Capítulo 1 ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ __________________________________________________ 3 A Aprendizagem Baseada em Problema (ABP) é uma metodologia muito utilizada para trabalhar questões sobre a Educação Ambiental. Pensando em uma temática/conteúdo sobre Educação Ambiental, construa um problema para ser trabalhado de acordo com essa abordagem. R.: ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ __________________________________________________ ALGUMAS CONSIDERAÇÕES Neste capítulo, procuramos descrever e problematizar a EA como uma área polissêmica, multidimensional e que precisa ser entendida por meio da sincronia entre as dimensões biológica, social, cultural, ideológica e histórica. Apresentarmos o seu principal objeto de estudo: a relação entre o homem e a natureza e como essa relação pode ser transformada e (re) significada dentro das fundamentações teóricas e práticas da EA, proporcionando a mudança de ações e a aquisição de valores que contribuam para a construção e a manutenção de uma sociedade sustentável. Além disso, discutimos sobre como a EA deve ser trabalhada nas escolas, enfatizando a necessidade da abordagem não apenas de conceitos, mas, também, de procedimentos e atitudes que levem os estudantes a uma aprendizagem permanente, ao desenvolvimento de competências voltadas ao bem comum e a coletividade, bem como à resolução de problemas e a investigação e análise de notícias ambientais exploradas pela mídia ou de acontecimentos correlatos que exijam uma intervenção consciente e fundamentada. 48 Fundamentos da Educação Ambiental Para que possamos compreender os elementos discutidos pela EA e formular argumentos coerentes e científicos, discutimos a diferença entre os conceitos de natureza, ambiente e meio ambiente, entendendo que o seu uso indiscriminado pode perpetuar equívocos e concepções estereotipadas que afetam a compreensão sobre a EA e seus desmembramentos. O principal objetivo deste primeiro capítulo foi, então, apresentar uma visão geral sobre a EA, reiterando posições consensuais sobre a área, de modo a iniciar a construção de uma visão crítica e problematizadora. No próximo capítulo, abordaremos, de forma mais específica,as questões que levaram (e ainda levam) à emergência da EA e a discussão efervescente sobre essa temática em diversos âmbitos: a trajetória histórica da EA e sua consolidação como campo de pesquisa; a caracterização transversal e interdisciplinar da área e como essa caracterização influi na abordagem e entendimento das questões ambientais e a conceituação das diferentes correntes que definem a EA, discriminando seus objetivos, distanciamentos, aproximações, referenciais, enfatizando a EA crítica e sua contribuição para a mudança de comportamento e valores voltados ao desenvolvimento sustentável. 49 NATUREZA, AMBIENTE E MEIO AMBIENTE: ENTENDENDO E DIFERENCIANDO OS CONCEITOS NO CENÁRIO DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL Capítulo 1 REFERÊNCIAS ALMEIDA, A. Educação Ambiental: a importância da dimensão ética. Lisboa: Livros Horizonte, 2007. 205 p. ALMEIDA, A. Que papel para as Ciências da Natureza em Educação Ambiental? 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CAPÍTULO 2 A EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO CAMPO TEÓRICO EM CONSTRUÇÃO: ASPECTOS HISTÓRICOS, EPISTEMOLÓGICOS E CONCEITUAIS A partir da perspectiva do saber-fazer, neste capítulo você terá os seguintes objetivos de aprendizagem: � Compreender o contexto histórico de consolidação da Educação Ambiental, bem como as justificativas que levaram ao crescimento desse campo de pesquisa. � Definir e circunscrever a constituição e os objetivos da Educação Ambiental. � Identificar as caraterísticas e fundamentações teóricas da Educação Ambiental crítica. � Reconhecer a relação entre o cenário ambiental e a emergência da Educação Ambiental. � Descrever as principais correntes teóricas da Educação Ambiental e seus pressupostos em cenários epistemológicos, políticos e históricos. 54 Fundamentos da Educação Ambiental 55 A EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO CAMPO TEÓRICO EM CONSTRUÇÃO: ASPECTOS HISTÓRICOS, EPISTEMOLÓGICOS E CONCEITUAIS Capítulo 2 1 CONTEXTUALIZAÇÃO A Educação Ambiental (EA) constitui uma importante tarefa desempenhada por diferentes nações. Tendo em vista as mudanças estruturais e funcionais do ambiente devido às atividades humanas, torna-se cada vez mais importante e necessária a efetividade de programas de educação voltados para a preocupação ambiental. A globalização, em associação com o crescimento populacional e o consequente aumento do consumo tem gerado problemáticas complexas que já não podem mais ser solucionadas por um grupo isolado, ou mesmo por um país isolado. As ações requerem planejamento, conhecimento científico e conduta ética cooperativa entre as diferentes nações. Ações que socializem os conhecimentos já acumulados acerca do ambiente, acerca das ações humanas e acerca de habilidades socioemocionais necessárias para a atividade democrática são necessárias para repensar a sociedade atual e sua relação com o meio ambiente através de um movimento cooperativo. Assim, nesse capítulo será explorada a natureza das conjunturas que constituem a contemporaneidade as quais fizeram emergir a necessidade da EA em larga escala. Também serão indicados os principais marcos históricos da estruturação da EA no Brasil e no mundo, bem como as principais correntes que se formaram para atender a finalidades formativas distintas. O caráter interdisciplinar e transversal da EA será exemplificado e ressaltado para subsidiar sua atuação enquanto profissional, por meio de uma visão sistêmica e integrada que fundamente um comportamento apropriado para as demandas de nosso tempo. 2 OS PROBLEMAS AMBIENTAIS E A EMERGÊNCIA PLANETÁRIA: POR QUE SE FALA COM TANTA ÊNFASE SOBRE A EDUCAÇÃO AMBIENTAL? Contemporaneamente, a espécie humana experimenta um status de dominância na Terra, visto que ao associar-se coletivamente em ambientes rurais e urbanos, produz modificações importantes na configuração ambiental. Se o homem não atuasse de forma conjunta, desfrutando da sinergia das forças cooperativas para a produção da cultura material e imaterial, será que teria obtido 56 Fundamentos da Educação Ambiental tanto sucesso em colonizar os mais longínquos e inóspitos espaços terrestres? Enquanto animal, o homem não é caracterizado por ser um predador vigoroso, mas sim, uma presa fácil. No entanto, tal consideração somente se aplica quando o homem é pensando individualmente, sob a ótica da análise de suas capacidades físicas para a luta pela sobrevivência. Ao contrário, admitindo o caráter gregário do ser humano, se considerarmos o homem coletivo, que constitui populações organizadas em grupos de tamanhos variáveis, é possível enumerar diferentes estratégias e recursos que podem ser mobilizados para reduzir as chances do homem se tornar presa, assim como é possível elencar diferentes meios pelos quais o homem aumenta seu poder predatório. Pense em como os ambientes urbanizados significam justamente a conquista coletiva do homem para proteger-se enquanto presa e para estabelecer-se enquanto predador. O historiador Yuval Noah Harari (2017), em seu best-seller internacional denominado “Sapiens: Uma breve história da humanidade”, faz uma interessante análise da cooperação coletiva interpretada como a principal causa da ascensão humana na Terra ao longo do tempo. O autor indica, por exemplo, que humanos pré-históricos não causavam mais impacto do que os gorilas ou águas-vivas sobre o ambiente. No entanto, ao longo da trajetória humana, a coletividade foi continuamente estimulada, e, em associação com a produção de tecnologias como as ferramentas do homem pré-histórico, o homem atravessou uma transição na qual o ponto de partida era sua posição de caçar criaturas menores e coletar o que era possível para um ponto de chegada, que é a posição de topo da cadeia alimentar. No livro “Sapiens: uma breve história da humanidade”, Harari (2017) teoriza que o homem apresentou uma importante diferença em relação aos outros animais, o que favoreceu um nível de cooperação entre indivíduos em uma escala crescente até a dimensão global de forma incomparável. A linguagem humana, extremamente versátil, permitiu transmitir muitas informações sobre o mundo a nossa volta, aumentando os laços entre os seres e o compartilhamento de experiências acumuladas, o que denominamos de dimensão educativa. Entretanto, mais do que transmitir informações concretas sobre o mundo, Harari defende que o mais importante a ser transmitido por meio da linguagem é o conjunto de informações sobre coisas que não existem. Ou seja, o autor defende que a capacidade humana de transmitir ficções é algo singular e extremamente importante para o homem. Lendas, mitos e deuses, 57 A EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO CAMPO TEÓRICO EM CONSTRUÇÃO: ASPECTOS HISTÓRICOS, EPISTEMOLÓGICOS E CONCEITUAIS Capítulo 2 por exemplo, permitem que os sapiens cooperem de um modo totalmente novo, incluindo convivência pacífica com um número incontável de estranhos em um mesmo ambiente compartilhado. Perceba que outros animais não possuem tal capacidade, ao menos não nas escalas populacionais de seres humanos. Chimpanzés, por exemplo, têm a ordem social desestabilizada quando o número de um bando atinge níveis muito altos, o que causa a ruptura e formação de subgrupos menores. Como o homem consegue ultrapassar dezenas de milhares a centenas de milhões de habitantes convivendo em cidades sob o governo de um mesmo império? Para Harari, o segredo é o surgimento da ficção constituída como informação veiculada por meio da linguagem, pois “um grande número de estranhos pode cooperar de maneira eficaz se acreditar nos mesmos mitos” (p. 35). Mais do que utilizar ficções para interpretar o mundo, o homem também executa práticas sociais como o comércio, que são totalmente fundamentadas em ficções. Como o comércio estaria apoiado em ficções? Antes de responder, é preciso explicar que, para Harari, as ordens imaginadas (ou ficções) não podem se sustentar pela força, pois é preciso que as pessoas realmente acreditem nela. Quando as pessoas acreditam de fato, ficções imaginadas por humanos se tornam uma das forças mais importantes da história. Veja o poder de se acreditar coletivamente, por exemplo, no dinheiro, nas leis ou nos deuses. Todos esses itens são intersubjetivos, ou seja, existem somente narede de comunicação ligando a consciência subjetiva de vários indivíduos. O dinheiro seria o item intersubjetivo com maior repercussão na determinação das atividades humanas. Dinheiro não é uma moeda ou uma cédula, pois não se trata da dimensão material, mas sim de “qualquer coisa que as pessoas estejam dispostas a usar para representar sistematicamente o valor de outras coisas com o propósito de trocar bens e serviços” (p. 185). Assim, dinheiro não é uma realidade material, mas uma construção psicológica e o seu valor está no fato de que “todos sempre querem dinheiro porque todos os outros também sempre querem dinheiro, o que significa que você pode trocá-lo por qualquer coisa que desejar ou precisar” (p.186). Deste modo, dinheiro é um sistema de confiança mútua que é compartilhado inclusive por pessoas que falam línguas mutuamente incompreensíveis, pois ambas acreditam e querem dinheiro. Veja que “enquanto a religião nos pede para acreditar em algo, o dinheiro nos pede para acreditar que outras pessoas acreditam em algo” (p. 193). Por que o dinheiro é uma ficção humana tão determinante no resultado de ascensão predatória do homem? Porque devido 58 Fundamentos da Educação Ambiental ao dinheiro, até pessoas completamente desconhecidas que não confiam nada umas nas outras cooperam de maneira efetiva. Assim, o dinheiro é a ficção que fundamenta a atividade de comércio. Essa reflexão proposta visa produzir uma desnaturalização da dimensão do dinheiro, que é tomado no cotidiano como uma construção objetiva, mas que na verdade tem uma dimensão intersubjetiva. Com base nessa ressignificação do conceito de dinheiro, questiona-se: Quando a abstração mental do dinheiro se tornou uma ideia generalizada entre diferentes nações humanas, quais foram as consequências para a relação homem-ambiente? Como foi que as ações humanas passaram a ser determinadas por ele? Quais são os valores que norteiam as escolhas do comportamento humano consciente após a consolidação do capitalismo? Diferente de outros animais que ocupam o topo da pirâmide (como leões e tubarões), o homem se deslocou muito rapidamente para essa posição. Deste modo, a natureza não desenvolveu formas de compensação e equilíbrio que fossem capazes de minimizar os efeitos da ação humana de destruição acelerada com sua ação exploratória e predatória (HARARI, 2017). Atualmente, a ação humana causa sérios impactos no ambiente e no próprio bem-estar da espécie, principalmente por meio de três vias: crescimento econômico, crescimento corporativo e crescimento populacional. Os economistas continuam fundamentados na ilusão da viabilidade de crescimento ilimitado e relutam a incluir os custos sociais e ambientais das atividades econômicas em suas teorias (CAPRA; LUISI, 2014). Assim, pode-se dizer que os fluxos financeiros da economia global não foram planejados por critérios éticos, o que pode ser evidenciado pela desigualdade social inerente à globalização. O livre comércio estimula o crescimento econômico e corporativo, de modo a promover o consumo excessivo caracterizado pelo desperdício. A consequência é o exacerbado uso de recursos naturais da Terra, a produção massiva de resíduos e poluentes e um grande consumo de energia, exemplificados pela redução do volume de água de lençóis freáticos, perda de rios e lagos que secaram, florestas sendo radicalmente reduzidas, indústrias de pesca em colapso, erosão do solo, pastagens originando desertos, dentre muitos outros (CAPRA; LUISI, 2014). 59 A EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO CAMPO TEÓRICO EM CONSTRUÇÃO: ASPECTOS HISTÓRICOS, EPISTEMOLÓGICOS E CONCEITUAIS Capítulo 2 Bem no meio do Oceano Pacífico, um pouco a leste do Japão e a oeste do Havaí, formou-se um gigantesco monumento dos resíduos do consumismo moderno. A grande mancha de lixo do Pacífico é o maior depósito de lixo do mundo, apesar de não ser em terra, mas sim, no oceano. Estima-se que este turbilhão de lixo tenha aproximadamente o dobro do tamanho do Texas e, em algumas partes, chegue a mais de 30 metros de profundidade, se não mais. Trata-se de uma confusão flutuante de 3,5 milhões de toneladas de lixo, sendo que 90% são compostos de plástico, de tampas de garrafas e brinquedos, a sapatos, isqueiros, escovas de dente, redes, chupetas, invólucros, embalagens para viagem e sacolas de compras de todos os cantos do mundo. Durante vários anos, a mancha de lixo ficou fora da vista e fora da mente das pessoas, encontrando-se logo abaixo da superfície da água, invisível aos satélites. A mancha está localizada em uma parte remota do oceano que costuma ser evitada por marinheiros por causa das suas brisas suaves e sistemas de pressão extremamente altos, e rejeitada pelos pescadores, que a chamam de “deserto” devido à sua falta de peixes (BOTSMAN; ROGERS, 2010). Charles Moore, marinheiro, ambientalista e agricultor orgânico, descobriu a mancha por acaso no dia 03 de agosto de 1997. Infelizmente, a grande mancha de lixo do Pacífico não é um fenômeno isolado, apesar de, talvez, ser a maior de todos. Então, um quarto do nosso planeta é um vaso sanitário que nunca dá descarga. A grande mancha de lixo do Pacífico é uma ilustração terrível da maneira como ignoramos as consequências negativas do consumismo moderno. Nos últimos 50 anos, consumimos mais bens e serviços do que em todas as gerações anteriores reunidas. Uma grande parte do problema é que muitos dos nossos comportamentos de consumo tornaram-se tão habituais que nós não temos consciência do impacto que causamos (BOTSMAN; ROGERS, 2010). Os psicólogos chamam esse fenômeno de “cárcere” de consumo, uma vez que pode ser difícil fazer escolhas sobre o que comprar e o que não comprar porque hábitos, rotinas, normas sociais e valores culturais nos prendem em comportamentos insustentáveis. Estes comportamentos firmam-se porque indivíduos que agem de acordo com seu interesse próprio recebem um ganho imediato, mas eles não sentem as perdas com o impacto das suas ações durante muitos anos. Como indivíduos, fazemos estas coisas o tempo 60 Fundamentos da Educação Ambiental todo, todos os dias. Mas, quando milhões de pessoas têm esses comportamentos inconscientes, eles podem se acumular e gerar consequências catastróficas, que ninguém gostaria ou pretenderia que ocorressem (BOTSMAN & ROGERS, 2010). Você já assistiu ao vídeo “A História das Coisas” (The Story of Stuff)? De autoria de Annie Leonard, o conteúdo analisa a produção de bens de consumo em seus diferentes estágios. Dados importantes são apontados, como a informação de que apenas 1% do que é produzido continua sendo utilizado por mais de seis meses, ou seja, 99% dos materiais produzidos são descartados em menos de seis meses. Quer saber mais? Acesse ao vídeo original disponível no YouTube: <https://www.youtube.com/watch?v=3c88_Z0FF4k>. As configurações das relações de causa e efeito que resultam da interação entre o homem e o ambiente são de risco iminente. O sociólogo alemão Ulrich Beck (1944-2015), em sua obra intitulada “Sociedade de Risco”, aponta que, na modernidade, há riscos que são assumidos coletivamente, mas sem o consentimento da maioria dos envolvidos. Cristóvão Colombo, por exemplo, que se lançou em navegações em busca de outras terras, assumiu riscos, porém o risco contido em tal narrativa tem caráter de ousadia e aventura, não de destruição generalizada da vida na Terra. Além disso, o risco de Colombo tinha um caráter individual assumido por ele. Ao contrário, os riscos produzidos pela modernidade têm caráter coletivo, pois atingem de modo sistêmico as populações humanas de diferentes nações. No passado, anterior ao uso de veículos motorizados e à intensa industrialização, as ameaças (na forma de poluição por excrementos de cavalos, por exemplo) eram sentidas pelo nariz ou pelos olhos sendo, portanto, “sensorialmente perceptíveis”, enquanto os riscos atuais, embora globais,escapam à percepção. Hoje, as ameaças são oferecidas pela radioatividade, toxinas e poluentes no ar, na água e nos alimentos, o que escapa completamente à percepção humana imediata (BECK, 2011). 61 A EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO CAMPO TEÓRICO EM CONSTRUÇÃO: ASPECTOS HISTÓRICOS, EPISTEMOLÓGICOS E CONCEITUAIS Capítulo 2 Sendo fundamentalmente invisíveis, tais ameaças exigem interpretações causais, apresentando-se, portanto, somente por meio de conhecimento sistematizado. Assim, a discussão sobre o teor de poluentes e toxinas do ar, da água e dos alimentos é conduzida por categorias e fórmulas das ciências naturais. Pense sobre um cenário no qual os humanos faziam uso de cavalos para se locomoverem. Esses cavalos, quando ociosos, tinham que ficar próximos às moradias, onde produziam excretas. Imagine o cheiro característico e desagradável de um ambiente como esse: visualmente e olfativamente a poluição era muito perceptível. Compare esse ambiente com as organizações urbanas contemporâneas: o lixo é afastado de nossos olhos, assim como o esgoto; a poluição atmosférica nem sempre tem cheiros detectáveis, assim como os produtos químicos adicionados à água e aos alimentos também não têm. Com base nessa comparação, reflita: Qual é a importância da EA para promover a leitura de mundo em um contexto contemporâneo? Atualmente, as constatações de riscos estão baseadas em possiblidades matemáticas e interesses sociais, o que Beck (2011) chama de “casamento polígamo” da ciência com a economia, a política e a ética. Os estudos de segurança dos reatores, por exemplo, limitam-se a estimar riscos quantificáveis em razão de acidentes prováveis. A dimensão ética é, continuamente, dilacerada. Em 26 de abril de 1986, ocorreu o acidente nuclear de maiores proporções da história, localizado em Chernobil, na Ucrânia. Uma explosão de um dos quatro reatores da usina nuclear lançou na atmosfera uma nuvem radioativa. Aproximadamente 8.400.000 pessoas estiveram expostas à radiação. Várias mortes foram ligadas ao acidente e, ademais, a longo prazo, vários casos de câncer, especialmente de tireoide, foram associados ao evento. O Estado não admitiu a ocorrência do acidente, o que impediu a distribuição de medicamentos que evitariam o acúmulo de radiação na tireoide. A radioatividade ainda se faz presente no solo do local e pode se espalhar com chuvas, derretimento de neve, erosão por vento, incêndios e transporte por cursos d’água (XAVIER et al., 2007). 62 Fundamentos da Educação Ambiental FIGURA 1 - O REATOR NUCLEAR APÓS O DESASTRE DO ACIDENTE NUCLEAR DE CHERNOBIL FONTE: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Chernobyl_Disaster.jpg>. É importante notar que a distribuição de riscos se atém ao esquema de classe social, pois as mesmas substâncias tóxicas podem ter um significado inteiramente distinto para pessoas pertencentes a diferentes classes sociais. As riquezas se acumulam em cima e os riscos embaixo. Os abastados compram segurança e diversas possibilidades de estarem livres do risco. A instrução dos indivíduos também é determinante no que diz respeito ao poder de contornar os riscos, pois a educação pode fornecer possibilidade de esquiva, como por exemplo, a escolha de evitar determinados produtos. Atualmente, no que tange às escolhas que são feitas pelas populações humanas, é central a questão da dualidade do visível e invisível que se projetam, respectivamente, na riqueza e nos riscos. Embora exista visibilidade na comparação entre a magreza da fome e a saciedade robusta, entre prédios caros e favelas, os riscos tendem a ser imperceptíveis. Assim, a competição entre a riqueza perceptível e os riscos imperceptíveis é ganha pela riqueza, pois o crescimento econômico, corporativo e populacional não cessa. O invisível não 63 A EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO CAMPO TEÓRICO EM CONSTRUÇÃO: ASPECTOS HISTÓRICOS, EPISTEMOLÓGICOS E CONCEITUAIS Capítulo 2 pode competir com o visível. O paradoxal é que, justamente por isso, os riscos invisíveis acabam ganhando e tomam conta, gradualmente, de todo o sistema, instalando seus efeitos (BECK, 2011). Pense, por exemplo, em uma situação hipotética na qual uma nova empresa se instala em uma cidade. Essa empresa precisa de muitos funcionários para contratação imediata. Ela acaba de ser construída e passa a realizar as admissões. Apesar de estar empregando muitas pessoas, essa empresa oferece risco ao ambiente no qual se instalou, pois, além de produzir muita poluição atmosférica, também produz resíduos tóxicos, que podem prejudicar a população do entorno ou mesmo a água de abastecimento da cidade. Será que as informações referentes aos riscos seriam tratadas de modo transparente pela instituição? Em outras palavras, será que a empresa tornaria públicas as informações referentes aos riscos ambientais? Como a população enxergaria essa empresa: um risco iminente ao ambiente e à saúde ou uma salvação que vai minimizar e/ou solucionar o desemprego local? Beck (2011) chama a atenção para essa predileção que as comunidades demonstram por compreender a instalação de novas empresas a partir da perspectiva da produção de empregos imediatos e não a partir da perspectiva da produção de riscos. Novamente, o invisível não consegue competir com o visível se não há um processo de EA que tenha preparado as pessoas para ler o mundo de modo integrado. Quanto aos órgãos responsáveis pela proteção do ambiente e da saúde pública, a regulamentação que protege contra os riscos, normalmente, não é suficiente por necessitar de cooperação entre nações, e, quando existe, comumente é letra morta. Quando há catástrofes, muito facilmente os países oferecem uma política de contenção que minimiza e encobre efeitos desastrosos. Aqueles que apontam os riscos são difamados como estraga-prazeres. Em sua defesa, instituições afirmam que os riscos não são comprovados e os efeitos para o ser humano e para o meio ambiente são apontados como exagerados ou mentirosos (BECK, 2011). Em de novembro de 2015, ocorreu uma das maiores tragédias socioambientais do Brasil: o vazamento de mais de 70 milhões de metros cúbicos de lama de rejeitos da mineração de ferro em Mariana, em Minas Gerais. Causado pelo rompimento de uma barragem pertencente à Samarco, foram causados 17 óbitos e mais de 1.200 pessoas ficaram desabrigadas. A lama percorreu 663 km ao longo de cursos de água doce, chegando a afetar, também, ecossistemas marinhos. Em torno de 1,2 milhão de pessoas foram 64 Fundamentos da Educação Ambiental prejudicadas pela falta d’água e temiam a contaminação da água do rio Doce, uma vez que ela voltou a ser fornecida para consumo após uma avaliação da qualidade da água. Os danos a outras espécies incluem 11 toneladas de peixes mortos que foram recolhidas, sendo que há suspeita de que cinco espécies tenham sido extintas (PORTO, 2016). A mineração de ferro não produz só bilhões de dólares e “progresso”: ela está repleta de perigos, mortes e destruição socioambiental. Trabalhadores morrem e adoecem; grandes áreas são desmatadas; caminhões e trens circulam atropelando pessoas e animais; as usinas de beneficiamento geram poluição atmosférica; aquíferos formados em regiões ferríferas são contaminados e destruídos; em tempos de crise hídrica a água consumida é enorme, inclusive pelos minerodutos; a quantidade de rejeitos é gigantesca e acumulada em barragens; e o rompimento delas com lamas com diferentes graus de toxicidade pode se transformar em grandes tragédias” (PORTO, 2016, p. 1). Atualmente, a Samarco é gerida por dois acionistas: a anglo- australiana BHP Billiton e a brasileira Vale S.A. Inserida em uma perspectiva neoliberal, as escolhas da empresa coincidem com o intuito do aumento das forças produtivas para obter a maior lucratividade possível. No entanto, partindo desse viés, a natureza passa a constituir-se apenas como um recurso a ser explorado,ou seja, é transformada em objeto de consumo. Os elementos que dão suporte a esse argumento são as próprias características do funcionamento da empresa: não havia um monitoramento 24 horas, sendo que o plano de contingência (em desacordo com a legislação vigente) foi aprovado pela autoridade de fiscalização. Além disso, havia irregularidades no licenciamento da barragem, o que indica que o Estado de Minas Gerais estava ciente do risco de ruptura. É importante notar que mais barragens próximas se encontram em condições semelhantes (DIAS, 2018). O exemplo do desastre ambiental ocorrido em Mariana em 2015 indica o quanto as atividades econômicas podem ignorar questões éticas referentes à defesa da coletividade humana e do ambiente. Os riscos são causados pela atividade de certos grupos, porém, as consequências são compartilhadas por muitos outros grupos que não consentiram (ou não foram consultados) a implementação de tais atividades. 65 A EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO CAMPO TEÓRICO EM CONSTRUÇÃO: ASPECTOS HISTÓRICOS, EPISTEMOLÓGICOS E CONCEITUAIS Capítulo 2 Em janeiro de 2019, outra barragem da Vale se rompeu e a contabilização de óbitos já constatou um número que ultrapassa 200 mortes humanas. A lama da barragem alcançou o Rio São Francisco, que passou a exibir turbidez acima dos limites legais, bem como altas concentrações de metais pesados, impossibilitando o uso pela população. Quer saber mais? Acesse: • Brumadinho: estudo de ONG afirma que lama de barragem já chegou ao Rio São Francisco. Disponível em: <https://g1.globo. com/mg/minas-gerais/noticia/2019/03/22/brumadinho-estudo-do- ong-afirma-que-lama-de-barragem-ja-chegou-ao-rio-sao-francisco. ghtml>. • Brumadinho: sobe para 210 o número de mortos identificados em tragédia. Disponível em: <https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/ noticia/2019/03/21/brumadinho-sobe-para-210-o-numero-de- mortos-identificados-em-tragedia.ghtml>. FIGURA 2 - VISTA AÉREA DA PONTE FERROVIÁRIA DESTRUÍDA PELA PASSAGEM DA LAMA APÓS O ROMPIMENTO DA BARRAGEM EM BRUMADINHO FONTE: Foto: Mauro Pimentel/AFP. Disponível em: <https://g1.globo.com/ natureza/blog/andre-trigueiro/post/2019/03/22/as-aguas-sujas-do-brasil.ghtml>. 66 Fundamentos da Educação Ambiental Embora existam possibilidades de esquiva dos riscos pelos grupos sociais privilegiados, há riscos que são completamente compartilhados como a água para consumo, que é encanada de forma igual para todos. Ou seja, a viabilidade de proteção realmente eficaz sob essas condições seria: não comer, não beber e não respirar. Sendo assim, os riscos possuem uma tendência à globalização, ao universalismo das ameaças. No pior dos casos, a bomba atômica aniquila até mesmo os causadores dos riscos. Assim, o risco não reconhece diferenças entre classes. Quando os países desenvolvidos importam alimento barato, por exemplo, necessariamente estão importando riscos, devido às interdependências do mercado global (BECK, 2011). Segundo Beck (2011), percebe-se certa ausência de causas específicas e responsabilidades isoláveis. A agricultura contamina o solo, mas são os agricultores ou as autoridades que deveriam limitar o uso de venenos? As autoridades frequentemente fornecem patentes para “inofensivas” produções de agrotóxicos. Então, como interpretar essa relação? A própria divisão de trabalho implica em uma cumplicidade geral, que se traduz em uma irresponsabilidade generalizada. Quando tudo se converte em ameaça, diferentes grupos podem chegar à conclusão de que o melhor é não pensar mais na questão, o que se caracteriza como um fatalismo ecológico, ou seja, agir passa a ser, de todo modo, algo ultrapassado. Em contrapartida, a EA precisa romper com a imobilização do pensamento fatalista. É comum que as pessoas se sintam paralisadas ou confusas diante de informações acerca das condições da contemporaneidade, assumindo posturas comodistas, defendendo que “sempre foi assim” e que “não há o que fazer” ou ainda que um comportamento isolado não alteraria todo o panorama vigente. No entanto, a realidade precisa ser entendida como histórica e construída pelo homem, sem que se naturalize as conjunturas. Somente desta forma, a realidade deixa de ser concebida como imutável. Tendo em vista proporcionar a capacidade de desconstruir a visão fatalista aos indivíduos, de modo que a inércia do comportamento humano seja desafiada, a EA tem como finalidade uma ação humanizadora, uma vez que compreende uma ação educativa de ressignificação da relação entre o homem e a natureza por meio de novas perspectivas que acarretem em novas convicções e, principalmente, novas práticas. Assim, muito mais do que ensinar ecologia e mais do que doutrinar indivíduos para reduzir comportamentos ambientais predatórios, a EA abrange um processo de construção de uma relação homem-ambiente caracterizada pela responsabilidade e pela democracia. A necessidade de promover a EA em escala global provém, portanto, das iminentes ameaças aos recursos da Terra, à saúde e estabilidade das sociedades. 67 A EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO CAMPO TEÓRICO EM CONSTRUÇÃO: ASPECTOS HISTÓRICOS, EPISTEMOLÓGICOS E CONCEITUAIS Capítulo 2 É urgente a promoção de uma cidadania global informada. A preocupação pública sobre o estado da Terra e nossa relação com ele aumentou muito nas últimas duas décadas. Existe uma grande demanda por informações acerca de quais são as ações concretas adequadas para o enfrentamento das conjunturas atuais. Tais informações se fazem necessárias, pois todo programa instrucional que vise o estímulo à cidadania esclarecida e comportamentos éticos diante da problemática ambiental requer que haja conhecimento acerca do próprio ambiente. Alguns aspectos do cenário contemporâneo estão elencados a seguir, segundo Palmer (2002): • Cerca de 60 a 70 milhões de pessoas morrem de fome e de doenças relacionadas à fome, anualmente. • A produção de grãos per capita na América Latina, na África e na Índia tem decrescido, principalmente, devido à degradação dos solos. • O solo tem sofrido processos de salinização, alagamento e perda de fertilidade em importantes locais de produção agrícola. • A intensa irrigação de culturas está esgotando o abastecimento de água subterrânea em várias localizações. • O controle químico de pragas de alimentos tem sido amplamente utilizado, mas é um método muito caro e prejudicial já que produtos químicos agrícolas (fertilizantes, pesticidas e herbicidas) estão poluindo as águas subterrâneas e superficiais e prejudicando pessoas e a vida selvagem em muitos locais. • O desmatamento de florestas tropicais aumenta em uma velocidade de cerca de 11 milhões de hectares destruídos por ano, sendo substituídas por áreas agrícolas, pecuária, projetos de desenvolvimento em grande escala ou são destruídas para extração de madeira. Além da extinção de espécies biológicas, o desmatamento de florestas tropicais tem consequências para atividades humanas, pois são fonte de alimentos, de matérias-primas essenciais para a agricultura, para a produção de medicamentos e para uma variedade de produtos que possuem valor comercial ou industrial. • A poluição do ar, causada pelo uso de combustíveis fósseis, está prejudicando a saúde humana, danificando ecossistemas inteiros, causando um maior acúmulo de CO2 atmosférico e consequentemente contribuindo para o aquecimento global. Considerando que o planeta tem cerca de 4,5 bilhões de anos e a vida na Terra mais de 3,5 bilhões de anos, o tempo da vida humana é uma pequena porção de toda essa história. Durante o tempo remoto no qual a Terra foi desprovida do ser humano, existiu um equilíbrio sustentável entre diferentes formas de vida. Foi somente com a ascensão humana, especialmente nos últimos 68 Fundamentos da Educação Ambiental dois séculos, que a atividade antrópica teve o que pode ser caracterizado como um impacto significativo sobre o meio ambientee seus recursos. Talvez se possa afirmar que, apenas a partir da última metade do século XX, tenha se tornado evidente que esse impacto é extremamente grave, o que coincide com o período de intensificação das atividades de EA pelo mundo (PALMER, 2002). 3 O CARÁTER TRANSVERSAL E INTERDISCIPLINAR DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL A EA é composta por contribuições de diferentes áreas do conhecimento. Não há uma abordagem biológica ou geográfica, por exemplo, que possa contemplar todas as finalidades formativas da EA, assim como, discussões políticas, éticas e econômicas não são suficientes sem o estudo das características bióticas e abióticas e dos processos biofísicos do planeta Terra. Para entender o caráter interdisciplinar da EA, pense na ideia de poluição ambiental, por exemplo. Seja rural, urbana, do solo, da água ou da atmosfera, não se trata de algo apenas biológico, físico ou químico. Um ambiente poluído precisa de uma interpretação que não cabe dentro dos limites de uma disciplina das ciências naturais, pois além de articular biologia, física e química, são necessários os conteúdos e interpretações das ciências humanas (BRASIL, 1999a). Essa abordagem interdisciplinar não nega a especificidade do conhecimento científico disciplinar, substituindo-o por sínteses estritamente integradoras. Desta forma, é necessária a preparação de conteúdos organizados tanto de forma multidisciplinar quanto interdisciplinar já que a compreensão global das questões ambientais exige tanto conhecimentos de cada disciplina individual como aqueles que emergem da interação entre as disciplinas. Para a compreensão da temática socioambiental contemporânea é necessário o estabelecimento de pontes entre diferentes áreas do saber, pois se trata de uma dimensão tanto científico-tecnológica como histórico-geográfica. É preciso que se identifique a ciência e a tecnologia como construções humanas relacionadas, o que requer a integração entre saberes das Ciências Naturais e das Ciências Humanas. Estudos sobre a ocupação humana, através de alguns entre os diversos temas existentes, aliados à comparação entre a dinâmica populacional humana e a de outros seres 69 A EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO CAMPO TEÓRICO EM CONSTRUÇÃO: ASPECTOS HISTÓRICOS, EPISTEMOLÓGICOS E CONCEITUAIS Capítulo 2 vivos, permitirão compreender e julgar modos de realizar tais intervenções, estabelecendo relações com fatores sociais e econômicos envolvidos. Possibilitarão, ainda, o estabelecimento de relações entre intervenção no ambiente, degradação ambiental e agravos à saúde humana e a avaliação do desenvolvimento sustentável como alternativa ao modelo atual (BRASIL, 1999a, p. 17). A Geografia pode articular-se de forma interdisciplinar com a área de estudo da Economia e também com a História, especialmente quando se trata de questões ligadas aos processos de formação da divisão do trabalho e a formação dos blocos econômicos que têm repercussões importantes em questões contemporâneas, tais como crises financeiras, globalização do sistema econômico, poder do Estado e sua relação com a economia e as novas questões resultantes das desigualdades sociais e dos problemas ambientais. Essa caracterização do funcionamento da sociedade atual é uma discussão que pode emergir de um diálogo entre Geografia, Economia e Sociologia. No que concerne a descrição mais minuciosa dos problemas ambientais e da biotecnologia também é necessário estabelecer conexões com a Biologia, a Física, a Química, a Filosofia e, mais uma vez, a Economia (BRASIL, 1999b). Para minimizar a fragmentação dos conteúdos da EA, diferentes autores buscam estudar formas para integrar as subáreas das Ciências Naturais e Ciências Humanas para assim planejar e propor um ensino por meio de conceitos inter-relacionados. Efeito estufa, poluição, transgênicos, produção de energia elétrica e impactos ambientais são exemplos de temáticas que exigem uma incursão em redes conceituais que incluem mais de uma disciplina. Assim, a EA configura-se como um tema transversal (BRASIL, 1999a), que deve ser objeto de preocupação de diferentes profissionais que atuam como educadores em suas abordagens disciplinares e interdisciplinares. A legislação brasileira estruturou na Lei N° 9.795, de 27 de abril de 1999 a “Política Nacional de EA”, que é conceituada como: Os processos por meio dos quais o indivíduo e a coletividade constroem valores sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e competências voltadas para a conservação do meio ambiente, bem de uso comum do povo, essencial à sadia qualidade de vida e sua sustentabilidade (BRASIL, 1999c). A EA é entendida como um direito de todos, devendo ser oferecida em diferentes instâncias, tais como: em todos os níveis de ensino; em outras instituições educativas; programas de conservação, recuperação e melhoria do 70 Fundamentos da Educação Ambiental meio ambiente organizados pelo Sistema Nacional de Meio Ambiente (Sisnama); meios de comunicação em massa que podem colaborar com a disseminação de informações e práticas educativas sobre o meio ambiente; e empresas ou outras instituições públicas e privadas que podem promover programas destinados aos trabalhadores (BRASIL, 1999c). Para todas essas instâncias, a “Lei 9.795, de 27 de abril de 1999” que institui a Política Nacional de Educação Ambienta recomenda que a EA seja realizada por meio de um enfoque “humanista, holístico, democrático e participativo”, de modo a conceber o meio ambiente em sua totalidade, destacando as conexões entre o meio natural, o socioeconômico e o cultural, sob a abordagem da sustentabilidade. Deve-se vincular a ética, a educação, o trabalho e as práticas sociais. Assim, o caráter interdisciplinar da EA é endossado na legislação, pois o objetivo dessa área é propiciar “o desenvolvimento de uma compreensão integrada do meio ambiente em suas múltiplas e complexas relações, envolvendo aspectos ecológicos, psicológicos, legais, políticos, sociais, econômicos, científicos, culturais e éticos” (BRASIL, 1999c). Considerando que, segundo a legislação supracitada, a EA visa “à formação de valores, atitudes e habilidades que propiciem a atuação individual e coletiva voltada para a prevenção, a identificação e a solução de problemas ambientais”, mais do que interligar as grandes áreas do conhecimento científico e filosófico, é preciso admitir que a efetividade do processo educativo requer o aprendizado de elementos socioemocionais. O (re) aprender a sentir, a ser e conviver são habilidades que são essenciais para uma conduta ética dos indivíduos. Uma formação técnico-científica de alto nível não garante uma postura ética. Ou seja, os indivíduos precisam ser sensibilizados, precisam desenvolver empatia pelo outro. O “outro” é o coletivo de seres humanos que vivem e que ainda irão viver nas próximas gerações e também o coletivo de seres de outras espécies, que são vítimas diretas dos problemas ambientais. Assim, muito mais do que ensinar como o ecossistema se estrutura, como a natureza absorve impactos e se recompõe, como ocorre a sucessão ecológica, como ecossistemas diferem e como se equilibram (aspectos das ciências naturais), também é necessário ensinar sobre a interação desses ecossistemas com a intervenção humana, o que prospecta explicações de dimensão histórica, geográfica, sociológica, filosófica e econômica da EA (aspectos das Ciências Humanas). Ainda assim, para além dos conteúdos das Ciências Naturais e Ciências Humanas que podem propiciar uma visão integrada acerca de como o mundo funciona nas dimensões natural e humana, é preciso reeducar o indivíduo para que estabeleça uma relação de pertencimento com a questão ambiental, para que se sinta responsável por ser um agente de transformação da realidade (habilidades socioemocionais). Deste modo, os objetivos da EA têm maiores 71 A EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO CAMPO TEÓRICO EM CONSTRUÇÃO: ASPECTOS HISTÓRICOS, EPISTEMOLÓGICOSE CONCEITUAIS Capítulo 2 chances de serem concretizados já que a formação do indivíduo passa a ser multidimensional e sistêmica. O pensamento organizado em visões sistêmicas é explorado por alguns autores, como James Lovelock, que defende que o planeta Terra como um todo pode ser entendido como um sistema vivo com capacidade auto-organizadora. Trata-se da Hipótese de Gaia. A partir da década de 1960, quando se torna possível visualizar nosso planeta por meio de voos espaciais, a Terra passa a ser percebida visualmente como uma totalidade integrada. Para além do campo visual, Lovelock também apontou a dimensão de totalidade da Terra no aspecto funcional: identificou que gases atmosféricos estão em contínua reposição quando sofrem reações químicas, o que confere à atmosfera terrestre a propriedade de ser um sistema aberto, caracterizada por um constante fluxo de matéria e energia. O autor postulou que a Terra é capaz de regular não somente sua atmosfera, mas também sua temperatura e outras condições planetárias, como a salinidade oceânica. Assim, em vez de conceber a Terra como um “planeta morto”, constituído por rochas, oceanos e atmosfera inanimados, ele propôs pensá-la como um sistema complexo, que inclui a vida e o seu ambiente. Segundo a visão de Lovelock: Não podemos mais pensar em rochas, animais e plantas como separados. A teoria de Gaia mostra que há um estreito entrelaçamento entre as partes vivas do planeta – plantas, microrganismos e animais – e suas partes não vivas – rochas, oceanos e atmosfera. Os ciclos de feedback que interligam esses sistemas vivos e não vivos regulam o clima da Terra, a salinidade de seus oceanos, e outras importantes condições planetárias (CAPRA; LUISI, 2014, p. 209). A teoria de Gaia sofre resistências da comunidade científica, pois rompe com uma perspectiva tradicional que concebia uma abordagem da Terra considerada em seus aspectos físico-químicos e biológicos de modo fragmentado. Edgar Morin, sociólogo, filósofo e antropólogo francês, é adepto da hipótese de Gaia e postula que A Terra não é a soma de um planeta físico, de uma biosfera e da humanidade. A Terra é a totalidade complexa físico- biológica antropológica, onde a vida é uma emergência da história da Terra, e o homem, uma emergência da história da vida terrestre. A relação do homem com a natureza não pode 72 Fundamentos da Educação Ambiental ser concebida de forma reducionista, nem de forma disjuntiva. A humanidade é uma entidade planetária e biosférica. O ser humano, ao mesmo tempo natural e supranatural, deve ser pesquisado na natureza viva e física, mas emerge e distingue- se dela pela cultura, pensamento e consciência” (MORIN, 2009, p. 40). Ambos os autores, Lovelock e Morin, produziram sínteses que permitem repensar as relações entre os elementos biofísicos e sociais da Terra. Ainda que não sejam consensuais para a comunidade científica, tais sínteses podem contribuir para a formação epistemológica do educador ambiental, tendo em vista que se faz necessária a produção de uma visão de totalidade acerca dos elementos que compõem as problemáticas ambientais. 4 A TRAJETÓRIA DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL A EA não é nova, tampouco é resultante de projetos curriculares recentes. Graças ao trabalho de pioneiros do passado, que lançaram, concomitantemente, um olhar educacional e ambiental para a história da relação da humanidade com a Terra, foram construídos eventos importantes, conferências, publicações, conceitos, currículos e estudos de caso que constituíram as bases para a estruturação da EA (PALMER, 2002). Qual seria o marco inicial da EA na história? Até 1960, os termos “ambiente” e “educação” não eram utilizados de forma sincronizada. Considera-se que o início tenha ocorrido no Reino Unido, quando o professor Patrick Geddes (1854- 1933) foi o primeiro a associar a qualidade do meio ambiente com a qualidade da educação. Além de suas teorizações, o professor também aplicou a articulação ambiente-educação em práticas escolares, que colocavam os estudantes em contato direto com o ambiente. As ideias inovadoras e a metodologia do professor se tornaram o suporte para a EA moderna, uma vez que foram disseminadas para outros professores e, também, para formadores de professores (PALMER, 2002). No início do século XX, algumas instituições de “estudos ambientais”, expressão utilizada até então, foram estruturadas com finalidades instrucionais. Os estudos ambientais constituíam uma combinação de ensino de geografia, história e estudo da natureza local. O primeiro registro da expressão “EA” ocorreu na conferência The Keele Conference on Education and the Countryside, realizada 73 A EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO CAMPO TEÓRICO EM CONSTRUÇÃO: ASPECTOS HISTÓRICOS, EPISTEMOLÓGICOS E CONCEITUAIS Capítulo 2 em 1965, na Grã-Bretanha. A conferência resultou na construção do Conselho de EA em 1968 e, no ano de 1970, foi organizada a Associação Nacional de Educação Ambiental (PALMER, 2002; MORALES, 2009). Com a determinação de um termo próprio, a EA passa a caminhar para uma maior consolidação por meio de atribuição coletiva de significados e promoção de legitimidade. As organizações envolvidas nessa iniciativa produziam eventos nos quais objetivos eram definidos, como por exemplo, o objetivo de introduzir a EA em escolas, no ensino superior e na formação de profissionais que estivessem ligados às intervenções no ambiente (PALMER, 2002). Em 1968, a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) organizou, em Paris, a Conferência da Biosfera, na qual foi determinada a necessidade de produção de materiais curriculares que incluíssem o estudo do meio ambiente para todos os níveis de ensino, bem como a promoção de conhecimento técnico e o estímulo à conscientização dos problemas ambientais. Também ficou determinada a meta de criação de órgãos nacionais de coordenação da EA em todo o mundo (PALMER, 2002). Provavelmente, o mais importante marco na história da tentativa de conceituar o termo "Educação Ambiental" ocorreu na reunião internacional International Working Meeting on Environmental Education in the School Curriculum realizada em 1970, em Nevada nos Estados Unidos. Há um conceito que pode ser descrito como a definição "clássica" de EA que foi formulada e adotada a partir desse marco, que consiste em afirmar que a EA é um processo de reconhecimento de valores e de elucidação de conceitos com o intuito de desenvolver habilidades e atitudes requeridas como condições para a compreensão e apreciação da relação entre o homem, a cultura e o meio biofísico. Assim, a EA implicaria em uma prática de tomada de decisão e definição particular de normas de conduta referentes às questões relativas à qualidade ambiental (PALMER, 2002). Uma série de conferências se concretizaram por meio de reuniões no Reino Unido, Índia, Holanda, Canadá, Quênia e Argentina. O conceito supracitado foi adotado pela Associação Nacional de Educação Ambiental da Grã-Bretanha e no ano de 1970, uma alteração na legislação dos Estados Unidos estimulou a receptividade coletiva para a promoção da conscientização ambiental (PALMER, 2002). O apoio das principais instituições internacionais continuou a elevar o perfil da EA durante a década de 1970, levando à expansão da compreensão das justificativas, objetivos e abordagens do assunto. Em uma conferência realizada em Estocolmo, na Suécia, em 1972, declarou-se que a educação referente às questões ambientais precisaria estar voltada, principalmente, aos mais desfavorecidos (PALMER, 2002). 74 Fundamentos da Educação Ambiental Denominado “Conferência de Estocolmo”, o evento ressaltou o crescente interesse global e a preocupação com o meio ambiente na década de 1970. Foi produzida a primeira declaração intergovernamental sobre EA, na qual constavam justificativas, objetivos, conceitos-chave e princípiosorientadores. O breve, mas abrangente, conjunto de objetivos para a EA resume-se da seguinte maneira: a. promover a consciência e a preocupação com a interdependência econômica, social, política e ecológica nas áreas urbanas e rurais; b. proporcionar a todas as pessoas oportunidades de adquirir conhecimentos, valores, atitudes, comprometimento e habilidades necessárias para proteger e melhorar o meio ambiente; c. criar novos padrões de comportamento individuais, de grupos e da sociedade como um todo com relação ao meio ambiente (PALMER, 2002). Uma característica importante do evento foi que, embora fosse frequentado por educadores, a conferência teve o envolvimento de políticos. Assim, esperava- se que as recomendações fossem traduzidas em políticas públicas em nível nacional nos países onde a EA ainda não estava integrada às estratégias de desenvolvimento (PALMER, 2002). No entanto, o evento foi marcado por contradições que reduziam a discussão à polarização conservacionistas versus preservacionistas. Assim, “uma delas, preocupada com a ameaça da vida humana e dos recursos naturais necessários para manter a qualidade de vida; a outra, preocupada com a destruição das belezas naturais e das espécies animais em extinção” (RAMOS, 2001, p. 204). Os esforços para reunir representantes do governo nos projetos da agenda da EA resultaram na Primeira Conferência Intergovernamental sobre Educação Ambiental realizado em Tbilisi, na antiga União Soviética, em 1977. Essa foi a primeira conferência intergovernamental da UNESCO sobre EA, com a participação de delegações oficiais do governo de 66 países, juntamente com representantes de numerosas ONGs. A Conferência preparou recomendações para ampliar a aplicação da EA na educação formal e não formal (PALMER, 2002). Nas recomendações de Tbilisi, a EA vincula-se à compreensão de três conceitos fundamentais: aquisição de novos conhecimentos e valores, novos padrões de conduta e a interdependência. Ressalta-se, também, que a EA deve resultar de uma dimensão do conteúdo e da prática educacional, orientada para a preservação e a resolução dos problemas concretos do meio ambiente, através de um enfoque interdisciplinar; levar a compreensão do meio ambiente em sua totalidade e interdependência utilizando o enfoque sistêmico para as questões globais que envolvem o meio ambiente (RAMOS, 2001, p. 205). 75 A EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO CAMPO TEÓRICO EM CONSTRUÇÃO: ASPECTOS HISTÓRICOS, EPISTEMOLÓGICOS E CONCEITUAIS Capítulo 2 Assim se estabeleceu uma estrutura para um consenso internacional que tem sido uma influência determinante no desenvolvimento de políticas de EA em todo o mundo. De fato, o evento em Tbilisi e as publicações subsequentes fundamentadas nele continuam a fornecer um modelo para o desenvolvimento da EA em muitos países (PALMER, 2002). Consolida-se a ideia de que como uma abordagem educacional, a EA pode permear uma série de disciplinas, bem como pode compor elos de uma rede de muitos cursos integrados. Ressaltando tais preocupações, algumas das diretrizes definidas em 1974, em um relatório produzido na Escócia, foram: a. a educação formal e a educação informal devem usar os ambientes locais bem como ambientes mais longínquos para fornecer exemplos e experiências; b. os aprendizes devem ser introduzidos aos conceitos e valores ambientais, tendo em vista a promoção de uma prática de tomada de decisões por meio de oportunidades de envolvimento pessoal; c. aprendizes precisam desenvolver a habilidade de avaliar criticamente as múltiplas opiniões expressas contemporaneamente sobre as questões ambientais atuais; d. a Educação Ambiental deve permear todo o currículo; e. toda escola deve ter organização adequada para planejar e implementar um programa de Educação Ambiental; f. tornar a Educação Ambiental um assunto ou tópico isolado não é desejável nem possível; g. o programa de Educação Ambiental iniciado na escola primária e levado para a escola secundária deve ter continuidade na educação informal e por toda a vida (PALMER, 2002). Em outras palavras, o relatório escocês supracitado determina que a finalidade da Educação Ambiental é estimular atitudes responsáveis e o desenvolvimento de uma ética ambiental. Várias reorientações dos objetivos formativos da EA estão ocorrendo até os dias atuais e o fato de existir uma multiplicidade de abordagens é um resultado das oportunidades relacionadas para a inovação das perspectivas que atendem a diferentes realidades concretas. Outro importante relatório produzido na Conferência de Tbilisi estabeleceu grandes "metas de Educação Ambiental”, que incluíam os objetivos de promover a consciência esclarecida e a preocupação com a interdependência econômica, social, política e ecológica nas áreas urbanas e rurais, além de proporcionar a todas as pessoas oportunidades de adquirir conhecimento, valores, atitudes, comprometimento e habilidades necessárias para proteger e melhorar o meio 76 Fundamentos da Educação Ambiental ambiente. De modo geral, trata-se de criar novos padrões comportamentais nos indivíduos e na sociedade como um todo no que se refere ao meio ambiente (PALMER, 2002). O corpo teórico e as metas da EA alcançaram um notável nível de disseminação de país para país muito rapidamente. A partir do ano de 1980, a internacionalização se intensificou e, em 1987, dez anos após a primeira Conferência de Tbilisi, foi realizada, em Moscou, uma nova conferência denominada Tbilisi Plus Ten, na qual houve a participação da UNESCO. Uma série de temas importantes surgiram das deliberações deste evento, como a determinação de que é preciso admitir que a longo prazo, nada significativo acontecerá no sentido de reduzir as ameaças locais e globais ao meio ambiente, a menos que ascenda uma consciência pública generalizada sobre as conexões essenciais entre a qualidade ambiental e a satisfação das necessidades humanas. Reconhece-se que a ação humana depende da motivação e que a motivação depende da compreensão. Ou seja, o único meio para promover novos comportamentos é promovendo a motivação por meio da compreensão, por isso torna-se tão importante a necessidade de que todos se tornem ambientalmente conscientes por meio de uma EA adequada (PALMER, 2002). Dois tratados internacionais de grande proporção foram produzidos com a finalidade de propor diretrizes para o enfrentamento de problemas ambientais de dimensões globais: o Protocolo de Montreal, em 1987 e o Protocolo de Kyoto, em 1997. Como a atmosfera é universal e os problemas causados por esses gases não são restritos a territórios ou nações, a necessidade de acordos internacionais sob a égide das Nações Unidas tornou-se imperiosa. Assim, os Protocolos de Montreal e de Kyoto foram criados para promover o controle do uso de alguns gases nefastos à vida e ao meio ambiente (SILVA, 2009, p. 156). O Protocolo de Montreal é um tratado internacional que objetiva substituir substâncias que reagem com o ozônio na parte superior da estratosfera, como o grupo dos clorofluorcarbonetos (CFCs) emitidas em todo o globo devido aos processos de industrialização (SILVA, 2009). O Protocolo de Kyoto é outro acordo internacional que determina objetivos para reduzir a poluição gerada na queima de combustíveis 77 A EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO CAMPO TEÓRICO EM CONSTRUÇÃO: ASPECTOS HISTÓRICOS, EPISTEMOLÓGICOS E CONCEITUAIS Capítulo 2 fósseis causadores do efeito estufa. A redução prevista pelo protocolo era de 5,2% a partir de 2008 em comparação com os níveis de 1990, mas os resultados concretos do protocolo não foram exitosos devido à participação deficiente das nações que mais emitiam gases (SILVA, 2009). Em 1992, no Rio de Janeiro, foi realizada a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento – que ficou conhecida como A Cúpula da Terra, Rio-92 ou Eco-92.Participaram da conferência em torno de 120 líderes de Estado e representantes de mais de 170 países. Vários documentos importantes foram assinados coletivamente no evento, o que estimulou o início de um longo processo de interpretação, ação e implementação de recomendações e acordos destinados a mudar o futuro do planeta Terra. É construída a “Agenda 21” (recebe esse nome por se tratar de estratégias para o próximo século), um programa de ação que determina as tarefas que as nações devem desempenhar para alcançar o desenvolvimento sustentável no século XXI, abrangendo tópicos, como: pobreza, produção de resíduos tóxicos, educação e livre comércio (PALMER, 2002). Este evento representou, também, um processo pontuado por divergências e interesses contraditórios entre os países ricos e pobres. Ficou notória a falta de compromisso por parte de alguns países do Norte que não assumiram responsabilidades diferenciadas quanto aos recursos financeiros para viabilizar o desenvolvimento sustentável proposto (RAMOS, 2001, p. 205). Em 2012, durante a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável realizada no Rio de Janeiro se estabelece a necessidade do desenvolvimento de um marco global para a sustentabilidade. Durante os próximos três anos, foi estruturada a Agenda 2030 que estabeleceu 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável para serem aplicados em diferentes nações. De modo geral, a agente inclui o objetivo de promover a sustentabilidade globalmente para garantir a sobrevivência da humanidade, com especial destaque para a relação entre a pobreza e a economia: se torna estabelecido que a erradicação da pobreza e o desenvolvimento econômico precisam estar em maior harmonia. Alguns objetivos incluem a erradicação da pobreza, agricultura sustentável, fome zero, garantir saúde e bem-estar a todos, realizar gestão da água visando à sustentabilidade, promover saneamento para todos, entre outros (UNESCO, 2017). 78 Fundamentos da Educação Ambiental Em 2015, foi realizada a 21ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP 21 ou “Conferência das partes”), em Paris. Foi determinada a proposta “4 por mil”, que exige um plano de ação para aumentar o carbono orgânico do solo até uma profundidade de 40 cm. A estratégia é promover o sequestro de carbono orgânico do solo por meio da adoção de certas práticas de manejo da agricultura como o reflorestamento, o pastoreio melhorado e a restauração de solos degradados. A importância dessa ação está nos efeitos adversos do uso indevido do solo que tem causado o esgotamento do carbono orgânico e a consequente degradação do solo, o que pode comprometer os principais serviços ecossistêmicos essenciais ao bem-estar humano e à preservação da natureza. Assim, a transição para o manejo sustentável do solo é crucial para as tendências futuras no clima, na eficiência do uso de recursos, na segurança alimentar e no bem-estar humano (LAL, 2016). De modo geral, a COP21 buscou alcançar um novo acordo internacional sobre o clima, aplicável a todos os países cujo objetivo fora manter o aquecimento global abaixo dos 2°C. FIGURA 3 - MOMENTO DO ACORDO DURANTE A COP21 FONTE: <https://nacoesunidas.org/cop21/>. 79 A EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO CAMPO TEÓRICO EM CONSTRUÇÃO: ASPECTOS HISTÓRICOS, EPISTEMOLÓGICOS E CONCEITUAIS Capítulo 2 TABELA 1 - MARCOS HISTÓRICOS DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL NO MUNDO INTERNACIONAL 1962 Publicação do livro “Primavera Silenciosa” de Rachel Carson, que denunciava ameaças causadas pela in- terferência humana, como o uso de agrotóxicos que se acumulam na cadeia alimentar. 1965 Primeiro registro da utilização do termo “Educação Am- biental” na Grã-Bretanha 1968 A UNESCO realiza a “Conferência da Biosfera” que de- staca a necessidade de incluir EA no currículo escolar e de construir instituições nacionais para coordenar a EA em todas as nações 1970 Criação da “Associação Nacional de Educação Ambi- ental” na Grã-Bretanha 1970 A definição clássica de EA é proposta em uma reunião internacional 1972 “Conferência de Estocolmo” resulta na produção da primeira declaração intergovernamental referente à EA 1974 Novo evento intergovernamental produz uma série de diretrizes acerca dos objetivos formativos da EA 1975 “Congresso de Belgrado” que produz a “Carta de Bel- grado” na qual se estabelece metas e princípios da EA 1977 Primeira Conferência Intergovernamental sobre Edu- cação Ambiental realizada pela UNESCO resulta em um consenso mundial, diretrizes e modelo para a con- cretização da EA em diferentes nações 1980 Internacionalização da EA se intensifica 1987 O evento Tbilisi Plus Ten resulta em conclusões acerca das finalidades da EA diante das ameaças da moderni- dade 1992 É realizada a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (Rio-92), que resul- ta na produção a Agenda 21. 1997 Realização da “Conferência Internacional sobre Meio Ambiente e Sociedade: Educação e Consciência Públi- ca para a Sustentabilidade”, em Thessaloniki (Grécia), que denuncia a insuficiência de ações estabelecidas como metas no evento Rio-92. 2002 A Assembleia Geral das Nações Unidas estabelece o ano de 2005 como o início da “Década da Educação para o Desenvolvimento Sustentável”, atribuindo à Un- esco a responsabilidade para a aplicação da iniciativa. 2015 Assembleia Geral da ONU adota a agenda 2030 para o desenvolvimento sustentável na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20) FONTE: Adaptado de Palmer (2002) 80 Fundamentos da Educação Ambiental No Brasil, foi principalmente pela discussão ambientalista e por movimentos ecológicos que o campo da EA se estabeleceu. Inicialmente, as áreas mais responsabilizadas eram a Biologia e a Geografia por possuírem conteúdos mais explícitos sobre a interação homem-ambiente. A fase inicial da EA no Brasil foi caracterizada por um normativo, baseado na apresentação de regras sobre o que fazer em relação ao meio ambiente caráter, porém, em trabalhos mais recentemente analisados, há maior ênfase à pluralidade de abordagens que inclui contribuições de áreas como: filosofia, geografia humana, sociologia, política, epistemologia, meio ambiente, cultura, ecologia, arte, teatro, poesia e educação (KAWASAKI; CARVALHO, 2009). Embora a exploração predatória ambiental brasileira tenha sido iniciada desde o período colonial, foi somente a partir dos anos 1970 que a consciência ambiental começou a conquistar espaço nos meios de comunicação e na opinião pública, devido ao acelerado crescimento do país (LOUREIRO; PACHECO, 1995). No Brasil, a política ambiental pode ser dividida em duas grandes fases até o ano de 1992: a fase de EA para sensibilização da população sobre a deterioração ambiental iniciada no Rio Grande do Sul (1971-1986), e a fase de institucionalização a partir de 1987 (VIOLA; VIEIRA, 1992). Vale ressaltar que em 1972, na Conferência de Estocolmo, o Brasil, ao lado de outros países emergentes, posicionou-se a favor do crescimento acelerado em detrimento de questões sobre a preservação do ambiente, declarando que o pais estava aberto à poluição, porque o que o país precisava era de dólares, de desenvolvimento e de empregos (LOUREIRO; PACHECO, 1995). O início do movimento ambiental no Brasil foi desencadeado por fatores como a globalização da mídia e a devastação ambiental causada por um intenso período de crescimento econômico (VIOLA; VIEIRA, 1992). Os principais problemas ambientais resultantes do acelerado período de crescimento brasileiro são: a erosão do solo, adição de produtos químicos nas práticas agroindustriais e queimadas na região amazônica, principalmente, na década de 80. Tais problemas devem ser somados ao impacto que a Mata Atlântica sofreu anteriormente devido ao cultivo de cana-de-açúcar e café. A partir dos anos 1980, a preocupação ambiental se disseminou e passou a atingir movimentossociais, partidos políticos, universidades, pesquisas sobre meio ambiente, setores empresariais e estratégias de marketing – que culminaram na criação de um mercado ambiental com empresas de consultoria e tecnologia ambiental (LOUREIRO; PACHECO, 1995). As propostas mais difundidas entre os ecologistas que mobilizaram algumas parcelas da sociedade no século XX foram: produção de energia flexível que trabalha com os ciclos do sol, da água e do vento; agricultura de regeneração 81 A EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO CAMPO TEÓRICO EM CONSTRUÇÃO: ASPECTOS HISTÓRICOS, EPISTEMOLÓGICOS E CONCEITUAIS Capítulo 2 que reabastece o solo e incorpora meios naturais de controle das pragas; fim da devastação das fontes de recursos naturais (renováveis e não renováveis); parada do envenenamento da biosfera pelo descarregamento de lixo tóxico; drástico controle da poluição do ar efetuada pelas indústrias e meios de transporte e redução dos níveis aceitáveis de exposição radioativa (VIOLA, 1987). Como citamos anteriormente, a institucionalização da EA no Brasil é intensificada a partir da década de 1980, o que se concretizou a partir de políticas públicas, tais como: • Lei n. 6.938/81, que estabeleceu a Política Nacional do Meio Ambiente: a EA é entendida como um dos elementos que compõem as soluções para problemas ambientais e, portanto, deve ser ofertada em todos os níveis de ensino da educação formal e não formal. • Constituição Federal de 1988: que destaca (Artigo 225, capítulo VI) que em todos os níveis de ensino deve-se visar a conscientização pública para a preservação do meio ambiente. • Criação do Programa Nacional de Educação Ambiental (PRONEA) em parceria com o Ministério do Meio Ambiente e Ministério da Educação e Cultura. • Promulgação da Lei n. 9795/99 que institui a Política Nacional de Educação Ambiental. O crescimento do movimento ambiental a partir dos anos 1990 foi pautado na crítica aos efeitos da prosperidade econômica e do desenvolvimento tecnológico em detrimento da qualidade ambiental (VIOLA, 2004, p. 85). Para Viola e Vieira (1992), ações ambientais devem provir de respostas sociopolíticas amplas, que envolvam a sociedade civil por meio de planejamentos centrais, regionais e locais. A partir da criação de ambientes tecnológicos altamente artificiais, há uma maior insensibilidade da população devido à falsa impressão de proteção contra as consequências da devastação ambiental (VIOLA, 2004). O Brasil rejeitou a proposta da diminuição do ritmo de desenvolvimento em 1972 na Conferência de Estocolmo, como já mencionamos, e para o nosso país, durante, o século XX, o entendimento sobre a relação desenvolvimento-ambiente estava pautada em afirmar “que a pior forma de poluição é a pobreza e que a proteção ambiental deveria vir somente após o aumento significativo da renda per capita” (VIOLA, 2004, p. 86). Segundo Viola e Vieira (1992), problemas ambientais diferem em países de primeiro mundo e em países menos desenvolvidos. Em países desenvolvidos, a devastação é causada pelo excessivo desenvolvimento. Nos países de terceiro mundo, porém, a extração de recursos naturais se deve principalmente a obtenção 82 Fundamentos da Educação Ambiental de meios de subsistência de populações cujo acesso a necessidades básicas não existe. Assim, quando a preservação ecológica é preconizada, pode atingir questões como a perpetuação de condições precárias de acesso a recursos em sociedades mais pobres. Ainda hoje, a proteção ambiental e o desenvolvimento sustentável são entendidos como entraves para o desenvolvimento, ou seja, a ideologia do progresso é preconizada em detrimento das questões ambientais e o resultado de tal posicionamento é claro: “perda de biodiversidade, degradação da qualidade ambiental nas grandes cidades dos países em desenvolvimento e redução dos recursos não renováveis” (JACOBI, 2005, p. 239). Durante o período militar o debate ambiental foi se estabelecendo, mas ainda sob a ótica conservacionista proveniente de uma elite europeia. Tratar da questão ambiental era o mesmo que tratar de ecologia, distanciando a dimensão ecológica de dimensões sociais. Nesse contexto, a Educação Ambiental se inseriu nos setores governamentais e científicos vinculados à conservação dos bens naturais, com forte sentido comportamentalista e tecnicista, e voltada para o ensino da ecologia (LOUREIRO, 2008, p. 4). Por outro lado, ao mesmo tempo em que se fortalecia uma abordagem tradicional da temática ambiental, na década de 1980 educadores fundamentados na pedagogia de Paulo Freire e na Teoria Crítica passaram a propor novas formas de conceber a relação entre a sociedade e a ecologia. Tanto integrantes de instituições de ensino superior como militantes ambientalistas em geral passaram a produzir propostas críticas, que atribuíam aos personagens da sociedade a relação causal que explica os problemas ambientais (LOUREIRO, 2008). Em dezembro de 1994, com base na Constituição Federal de 1988 e das metas internacionais estabelecidas na Conferência do Rio em 1992, passa a existir por ação da Presidência da República, o Programa Nacional de Educação Ambiental (Pronea). Anos mais tarde, em 1999 é instituída a “Política Nacional de Educação Ambiental” (Lei nº. 9.795/99), representando a primeira legislação do gênero na América Latina. Há na Lei uma preocupação com a construção de atitudes e condutas compatíveis com a “questão ambiental” e a vinculação de processos formais de transmissão e criação de conhecimentos a práticas sociais. Há também efetiva preocupação em fazer com que os cursos de formação profissional insiram conceitos que os levem a padrões de atuação profissional minimamente impactantes sobre a 83 A EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO CAMPO TEÓRICO EM CONSTRUÇÃO: ASPECTOS HISTÓRICOS, EPISTEMOLÓGICOS E CONCEITUAIS Capítulo 2 natureza e que todas as etapas do ensino formal tenham a Educação Ambiental de modo interdisciplinar (LOUREIRO, 2008, p. 7). O Programa Nacional de Educação Ambiental, sob coordenação do MEC, do IBAMA e do MMA realiza diferentes ações, a saber (BRASIL, 2018): • Capacitação de gestores e educadores; • desenvolvimento de ações educativas; • desenvolvimento de instrumentos e metodologias para a EA. Considerando-se a Educação Ambiental como um dos instrumentos fundamentais da gestão ambiental, o ProNEA desempenha um importante papel na orientação de agentes públicos e privados para a reflexão, construção e implementação de políticas públicas que possibilitem solucionar questões estruturais, almejando a construção de sociedades sustentáveis, com base no Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global. Assim, propicia-se a oportunidade de ressaltar o bom exemplo das práticas e experiências exitosas, como a integração entre equipe gestora e comunidade escolar, gestores e técnicos ambientais em programas e projetos de formação. A democracia e a participação social permeiam as estratégias e ações – sob a perspectiva da universalização dos direitos e da inclusão social – por intermédio da geração e disponibilização de informações que garantam a participação social na discussão, formulação, implementação, fiscalização e avaliação das políticas ambientais voltadas à construção de valores culturais comprometidos com a qualidade ambiental e a justiça social; e de apoio à sociedade na busca de um modelo socioambiental (BRASIL, 2018, p. 24). Em 1995, o MMA cria um Grupo de Trabalho para ações de EA que realizou atividades diversas pelo como a 1ª Conferência Nacional de Educação Ambiental, em 1997, na qual se produziu um Documento, a “Carta de Brasília para a Educação Ambiental”. Também em 1997, os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) são aprovados pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) e o meio ambiente passa a ser tratado como um tema transversal – ao lado de outros temas transversais, a saber:ética, pluralidade cultural, orientação sexual, trabalho e consumo (BRASIL, 2018). 84 Fundamentos da Educação Ambiental Você já ouviu falar do CONAMA? É o Conselho Nacional do Meio Ambiente, cujo Conselho atua sob coordenação do Ministro do Meio Ambiente, com reuniões a cada três meses no Distrito Federal. Entre suas funções estão (a) estabelecimento de normas e critérios para licenciar atividades poluidoras, (b) realização de estudos de impacto ambiental de projetos públicos ou privados, (c) decidir sobre multas e outras penalidades a serem empregadas pelo IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), (d) normatizar os padrões de poluição proveniente de veículos automotores, aeronaves e embarcações, e várias outras. O CONAMA é parte de um sistema maior denominado SISNAMA (Sistema Nacional do Meio Ambiente), na qual também está inserido o MMA (Ministério do Meio Ambiente) e o IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), que tem função de fiscalização e fornecimento de licenças ambientais. TABELA 2 - MARCOS HISTÓRICOS DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL NO BRASIL. PARA SABER MAIS MARCOS HISTÓRICOS DA EA NO BRASIL, CONSULTE O SÍTIO ELETRÔNICO DO MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE DO BRASIL Ano Evento 1970 EA passa a estar presente nos meios de comunicação e opinião pública. 1981 Promulgação da Lei n. 6.938 de 1981, que estabeleceu a Política Nacional do Meio Ambiente, instituindo o CONAMA (Conselho Nacional do Meio Ambiente). 1987 Intensificação da fase de institucionalização. O MEC aprova o a legislação que prevê a necessidade de inclusão da Educação Ambiental nos currículos escolares. 1988 É promulgada a Constituição Federal, que indica ser necessária a conscientização para a preservação nos espaços educativos. 1989 Criação do IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente) 85 A EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO CAMPO TEÓRICO EM CONSTRUÇÃO: ASPECTOS HISTÓRICOS, EPISTEMOLÓGICOS E CONCEITUAIS Capítulo 2 1990 Crítica à prosperidade econômica que au- mentava às custas da qualidade ambiental. 1991 MEC passa a propor que todos os currícu- los dos distintos níveis de ensino devem contemplar conteúdos de Educação Ambi- ental. 1994 Criação do Programa Nacional de Edu- cação Ambiental (PRONEA). 1999 É promulgada a nova Lei nº 9.795 de 27 de abril de 1999 que institui a Política Nacional de Educação Ambiental (PNEA). FONTE: A autora 5 AS DIFERENTES CORRENTES DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL As diferentes formas de conceber e de praticar a EA compartilham da mesma preocupação com o meio ambiente e reconhecem a importância fundamental da educação como um meio para melhorar a relação homem-ambiente. No entanto, existem algumas especificidades que compõem algumas concepções e práticas, uma vez que são adotados diferentes discursos para o que aqui vamos denominar como “correntes” da EA. Existem algumas categorizações que classificam correntes de EA em categorias numerosas que trazem critérios específicos para organizar a distribuição das formas de EA em correntes. Outras categorizações são mais genéricas, como: EA conservadora versus EA crítico-reflexiva (MORALES, 2009). A EA conservadora é caracterizada por exaltar a beleza da natureza, com ênfase para a gestão ambiental que viabilize a conservação dos recursos. A corrente crítico-reflexiva de EA está enviesada por uma perspectiva emancipatória e crítica, fundamentada por teorizações de Paulo Freire e da Teoria Crítica frankfurtiana. Normalmente, a EA crítico-reflexiva fundamenta-se na Pedagogia Histórico-Crítica (PHC) de Dermeval Saviani, no Brasil (MORALES, 2009). Pode- se dizer que enquanto a EA conservadora tem a finalidade formativa de: Busca por mudança cultural e individual como suficiente para gerar desdobramentos sobre a sociedade e como forma de aprimorar as relações sociais, tendo como parâmetro as relações vistas como naturais, adotando geralmente uma abordagem funcionalista de sociedade e organicista de ser humano (LOUREIRO, 2001, p. 2). 86 Fundamentos da Educação Ambiental Ao contrário, a EA crítico-reflexiva desafia as concepções e visões pré- concebidas acerca da prática, pois visa a “transformação social, o que engloba indivíduos, grupos e classes sociais, culturas e estruturas, como base para a construção democrática de “sociedade e sustentáveis” e novos modos de se viver na natureza” (LOUREIRO, 2001, p. 2). Outras categorizações, ao contrário, sustentam a discriminação de cada corrente com base em critérios mais específicos, como a categorização que será apresentada a seguir. O intuito desta seção é organizar categorias semelhantes em categorias, para permitir caracterizar as peculiaridades de cada uma e distingui-las de modo a relacioná-las, enfatizando as divergências, intersecções, oposições e complementaridades. Serão abordadas as 15 correntes da EA que foram categorizadas e caracterizadas na proposta de Sauvé (2008), a saber: naturalista, conservacionista/ recursista, resolutiva, sistêmica, científica, humanista, moral/ética, holística, biorregionalista, práxica, crítica, feminista, etnográfica, da ecoeducação, e da sustentabilidade. No quadro abaixo podemos observar a subdivisão cronológica de tais correntes. QUADRO 1 - CATEGORIZAÇÃO DAS CORRENTES DA EA SEGUNDO SAUVÉ (2008) Correntes da Educação Ambiental com tradição de longo prazo Correntes da Educação Ambiental mais recentes Naturalista Holística Conservacionista ou recursista Biorregionalista Resolutiva Práxica Sistêmica Crítica Científica Feminista Humanista Etnográfica Moral/ética Da ecoeducação Da sustentabilidade FONTE: A autora Por meio de critérios como (a) a concepção dominante de meio ambiente para a corrente; (b) a finalidade mais importante da EA; (c) os enfoques preconizados; e (d) os exemplos de ações ou de metodologias que representam a corrente, serão apresentadas a seguir as características de cada uma das correntes supracitadas no Quadro 1. 87 A EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO CAMPO TEÓRICO EM CONSTRUÇÃO: ASPECTOS HISTÓRICOS, EPISTEMOLÓGICOS E CONCEITUAIS Capítulo 2 5.1 CORRENTE NATURALISTA De tradição muito antiga, o principal enfoque é que a relação com a natureza, seja por meio cognitivo (aprender elementos sobre a natureza), por meio experiencial (vivenciar a natureza e aprender a partir dessa vivência – o que corresponderia à educação ao “ar livre”), por meio afetivo, artístico (associa criatividade humana com a criatividade da natureza) ou espiritual. A natureza é concebida como dotada de um valor próprio, independente de recursos ou dos saberes que ela pode fornecer. Sua prolongada duração desde os tempos mais primórdios se deve ao modo de aprendizagem por imersão ou por imitação em grupos sociais, nos quais a cultura é muito conectada em relação ao meio natural. Um dos ícones que atuaram de forma determinante na EA de corrente naturalista foi o norte-americano Steve Van Matre. Em sua obra “A Educação para a Terra”, apresenta uma crítica que denuncia a ineficácia da EA que se centra na resolução de problemas. O autor liderou uma instituição educativa, na qual os participantes viviam experiências cognitivas e afetivas em um ambiente natural, realizando jogos e outras atividades que permitiriam a aprendizagem voltada para compreender fenômenos ecológicos e para o desenvolvimento de vínculo com a natureza. Assim, a corrente naturalista preconiza o contato direto com a natureza para estimular os sentidos humanos e para explorar a dimensão simbólica, que é produzida pela mente humana em sua relação com o meio. Objetiva-se estimular a compreensão de que os indivíduos são parte da natureza, assim, a natureza se torna educadora e também o meio de aprendizagem. 5.2 CORRENTE CONSERVACIONISTA/ RECURSISTA Centrada na conservação de recursos como água, solo, energia, plantas e animais, tanto na dimensão da quantidade como da qualidade. Noque diz respeito às plantas, prioriza-se a conservação de espécies que contribuem para a alimentação humana e para a medicina; no que tange aos animais, o enfoque é a gama de recursos que podem ser fornecidos para o uso humano. Assim, ainda que sob um discurso de conservação do patrimônio genético, a conservação da natureza nessa corrente faz alusão a conservar recursos com 88 Fundamentos da Educação Ambiental importância antrópica. Essa perspectiva corresponde à uma preocupação que seria uma boa administração do ambiente, ou seja, uma boa gestão ambiental. Em sua essência, a “educação para a conservação” sempre compôs parte da educação familiar ou coletiva em conjunturas de recursos escassos. Os clássicos três “R” da EA (Redução, Reutilização e Reciclagem) estão situados em uma corrente conservacionista. Igualmente articuladas à corrente conservacionista são as preocupações referentes à gestão ambiental (gestão da água, do lixo, da energia etc.). FIGURA 4 - OS TRÊS “R” DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL FONTE: A autora É objetivo da EA conservacionista o desenvolvimento de habilidades de gestão ambiental por meio da ação, que pode ser configurada por comportamentos individuais, por projetos coletivos, ou ambos. Com base nessa perspectiva, propõe-se o ecoconsumo, que consiste em consumir/comprar produtos somente após analisar alguns questionamentos, a saber: 89 A EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO CAMPO TEÓRICO EM CONSTRUÇÃO: ASPECTOS HISTÓRICOS, EPISTEMOLÓGICOS E CONCEITUAIS Capítulo 2 QUADRO 2 - LISTA DE PERGUNTAS QUE COMPÕEM O COMPORTAMENTO DE ECOCONSUMO Questionamentos pertinentes para o comportamento de ecoconsumo Esta compra representa uma necessidade relevante? Esta compra não representa um produto repetido com relação ao que já tenho? Esse produto é constituído por componentes inofensivos? Seus componentes provêm de materiais renováveis? E de materiais reciclados? A fabricação do produto respeita critérios éticos e ambientais? Onde o produto foi feito? Como pode ser adquirido? Como é a embalagem do produto? É reciclável? O uso do produto tem efeitos negativos no meio ambiente ou na saúde? O uso do produto implica em um maior consumo de recursos como água e energia? O material é passível de reutilização? É possível consertar/recarregar? Quando concluída sua utilização, o mesmo pode ser utilizado para novas aplicações? O objeto pode ser reciclado? Quando não pode ser reciclado, existem formas de descarte controlado? Quais são os gastos envolvidos no descarte do produto caso ele se torne lixo? FONTE: Adaptado de Sauvé (2008) Quais são os critérios para definir o que é um recurso? O homem define recursos com base na importância de sua utilidade para finalidades humanas. Não necessariamente seu valor está ligado ao que são, mas ao que podem vir a ser. Aliás, esta é a conceituação de recurso: “Um recurso é uma coisa que não cumpre seu fim senão quando é transformada em outra coisa: seu valor próprio se volatiliza ante a pretensão de interesses superiores” (SAUVÉ, 2008, p. 20). Uma mata fornece a madeira, uma rocha fornece o mineral e o alimento é fornecido a partir da raiz de uma planta. Tais relações são automaticamente produzidas pelo pensamento, pois nossa percepção já está habituada a identificar recursos nos elementos da natureza. Os elementos naturais são objetificados, uma vez que passam a estar sujeitos à gestão de planejadores. 90 Fundamentos da Educação Ambiental 5.3 CORRENTE RESOLUTIVA Iniciada no começo dos anos 1970, com a intensificação dos problemas ambientais nas dimensões de amplitude, gravidade e velocidade, a corrente resolutiva concebe o ambiente como um conjunto de problemas. Em consonância com a visão de EA da UNESCO, consiste em informar devidamente as pessoas no que se refere aos problemas ambientais. Além de aumentar a instrução acerca dos problemas, também é objetivo da corrente resolutiva desenvolver habilidades de resolução de tais problemas. Na prática, a corrente se concretiza pela mudança de comportamentos individuais ou coletivos. Assim, a EA resolutiva está centrada na exploração de problemas ambientais, tanto no que diz respeito aos componentes sociais como componentes biofísicos. Com base em controvérsias formadas, identifica-se uma situação problema que investiga situações para determinar diagnósticos, soluções, avaliações e determinação das melhores opções/alternativas para tais soluções. Não faz parte dos objetivos a obrigatoriedade de se alcançar a implementação do plano de solução. 5.4 CORRENTE SISTÊMICA Nessa corrente, a finalidade central é a de identificação de componentes plurais de um sistema ambiental, bem como a identificação das relações entre tais componentes. Por exemplo, são identificados os elementos biofísicos e os elementos sociais de uma dada situação, assim como suas relações. Assim, a corrente sistêmica visa aumentar a compreensão de realidades e de problemáticas ambientais por meio de uma visão de conjunto, ou seja, uma síntese da realidade. As realidades ambientais são, portanto, trabalhadas por meio da cognição, objetivando a tomada de decisões esclarecidas. São necessárias as análises visando decompor o todo em parte para explorar cada parte individualmente e também sínteses. A fundamentação da corrente sistêmica é a contribuição da ecologia em conformidade com os objetivos de uma ciência biológica transdisciplinar. Para iniciar a atividade de uma EA com enfoque sistêmico, pode-se apontar uma realidade ou um fenômeno ambiental para explorar seus componentes e relações. Espera-se alcançar uma compreensão global da problemática em estudo, para produzir a visão de conjunto que irá subsidiar a escolha de soluções e decisões mais adequadas. 91 A EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO CAMPO TEÓRICO EM CONSTRUÇÃO: ASPECTOS HISTÓRICOS, EPISTEMOLÓGICOS E CONCEITUAIS Capítulo 2 Assim, pode-se dizer que se trata de um trabalho interdisciplinar que visa contemplar a complexidade de objetos e de fenômenos estudados ao incluir o estudo concomitante de elementos plurais e suas relações, por exemplo: quais são os fatores causais responsáveis por uma condição (ou mudança da condição)? As interações entre esses elementos resultam em efeitos sinérgicos ou contraditórios? Quais são as estruturas envolvidas nessa condição (fronteiras, transporte, comunicação, depósitos, uso de energia etc.)? Quais são as regras ou leis (naturais e humanas) que regem esses elementos? O exercício de obter respostas para tais questionamentos pode resultar em uma visão integrada que permita identificar as relações causais entre os acontecimentos e objetos que compõem a situação observada. Essa visão sistêmica produzida deve fundamentar as soluções que serão viabilizadas, tendo em vista a tomada de decisões mais apropriada para o meio ambiente. 5.5 CORRENTE CIENTÍFICA O processo científico está no centro dessa corrente, no sentido de utilizar observações e verificação de hipóteses para abordar realidades e problemáticas ambientais. O conhecimento é produzido com o rigor científico interdisciplinar, assim, o enfoque preconizado é cognitivo, assim como na corrente sistêmica, uma vez que o ambiente se torna um objeto de conhecimento para o qual se objetiva buscar soluções apropriadas. Normalmente, as proposições que podem ser categorizadas na corrente científica provêm de educadores que reúnem EA e o viés da didática das ciências. Os didáticos justificam tal união defendendo que o meio ambiente tornaria o conteúdo científico mais “atraente” e interessante, porque envolve a dimensão social e ética para a interpretação da dimensão científica. Atividades que norteiam uma abordagem científica de EA, podem ser, por exemplo: exploração do meio, observação de fenômenos, elaboração de hipóteses, verificação de hipóteses e delineamento de um projeto de resolução de problemas. 5.6 CORRENTE HUMANISTA Trata-se de uma correnteque destaca a relação entre a natureza e a cultura. Mais do que abordar os elementos biofísicos do ambiente com objetividade e 92 Fundamentos da Educação Ambiental rigor, o ambiente também deve incluir dimensões históricas, culturais, políticas, econômicas, estéticas etc. Assim, faz-se necessário abordar os sentidos atribuídos, o valor simbólico, pois o “ambiente” é ressignificado para também incluir a cidade, a praça, os jardins e outros ambientes construídos pelo homem a partir de recursos naturais. A paisagem é utilizada como ponto de partida do aprendizado, mesmo quando se trata de paisagens intensamente modificadas pelo homem. É uma corrente empregada principalmente por educadores que preconizam a ótica da geografia e de outras ciências humanas. Há maior dependência da dimensão cognitiva pois inclui observação, análise e síntese nas atividades da corrente humanista, embora também sejam necessárias as dimensões sensorial, afetiva e criativa. São produzidos projetos a partir de estudos prévios e a construção deve ser subsidiada por representações coletivas que descrevam as melhores condições para realizar intervenções. 5.7 CORRENTE MORAL/ÉTICA Alguns educadores defendem que a relação entre o homem e o ambiente precisa ser viabilizada pela dimensão da ética. Assim, esse deveria ser o centro da preocupação da EA: a dimensão moral e ética. Nessa corrente, são elencados valores que compõem uma “moral” ambiental, por meio de critérios de comportamentos que são socialmente desejáveis, porém, o ideal é desenvolver uma competência ética própria constituída pelo próprio sistema de valores. Para a análise das correntes éticas pode-se adotar as distinções entre antropocentrismo, biocentrismo, sociocentrismo, ecocentrismo etc. O conflito moral é uma estratégia empregada para a EA de corrente ética, por meio de situações que requerem dos alunos a determinação das próprias escolhas. É a estratégia do “dilema moral”: apresenta-se um caso, analisa-se o caso em suas dimensões sociais, científicas e morais, determina-se uma solução e argumenta- se sobre a escolha, de modo a estabelecer relações com o próprio sistema de referência ética. 5.8 CORRENTE HOLÍSTICA Nessa corrente, o sentido de “global” é deslocado para significar mais do que 93 A EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO CAMPO TEÓRICO EM CONSTRUÇÃO: ASPECTOS HISTÓRICOS, EPISTEMOLÓGICOS E CONCEITUAIS Capítulo 2 “planetário”, uma vez que abrange não apenas realidades socioambientais, mas também a relação pessoa-mundo, ou seja, o modo de “ser-no-mundo”. Trata-se de uma dimensão holística, porque inclui a totalidade de cada ser, de cada realidade e de cada rede de relações que se estabelecem na produção de sentidos. Algumas proposições objetivam a produção de uma cosmologia (visão de mundo) que implique a descrição das conexões entre todos os seres para produzir uma visão orgânica do mundo. Devem-se abordar, efetivamente, as realidades ambientais de uma maneira diferente daquelas que contribuíram para a deterioração do meio ambiente. O processo de investigação não consiste em conhecer as coisas a partir do exterior, para explicá-las; origina-se de uma solicitação, de um desejo de preservar seu ser essencial permitindo-lhes revelar-se com sua própria linguagem. Permitir aos seres (as plantas, os animais, as pedras, as paisagens, etc.) falar por si mesmos, com sua própria natureza, antes de encerrar essas naturezas a priori ou logo a seguir em nossas linguagens e teorias, permitirá que nos ocupemos melhor deles” (SAUVÉ, 2008, p. 27). Assim, a corrente holística visa se comprometer com os seres e com a natureza, para participar dos processos por meio da atividade criativa, por meio da escuta da linguagem das coisas, para colaborar com as forças do meio ambiente e produzir paisagens nas quais os aspectos naturais e construídos possam ser harmonizados. 5.9 CORRENTE BIORREGIONALISTA Essa corrente faz uso do conceito de “biorregião”, que seria o espaço geográfico constituído mais por suas características naturais que por fronteiras criadas pela dimensão política. Também pode ser entendido de outra forma, quando se concebe o conceito de biorregião a partir de um sentimento de identidade compartilhada por comunidades humanas que habitam um espaço. Assim, biorregião é um espaço localizado onde normalmente contém uma bacia hidrográfica, características específicas de relevo, altitude, flora e fauna, mas também uma história e uma cultura de humanos que habitam e definem essa região. O biorregionalismo surge, entre outros, no movimento de retorno à terra, em fins do século passado, depois das desilusões com a industrialização e a urbanização massivas. Trata-se de um movimento socioecológico que se interessa em particular pela dimensão econômica da “gestão” deste lar de 94 Fundamentos da Educação Ambiental vida compartilhada que é o meio ambiente” (SAUVÉ, 2008, p. 28). Essa corrente pode ser entendida sob a ótica da ética ecocêntrica, uma vez que direciona a EA para a produção de uma relação com o meio local ou regional, de modo que se estabeleça uma relação de pertencimento e valorização desse meio. 5.10 CORRENTE PRÁXICA A palavra chave para o entendimento dessa corrente é “ação”, pois nem mesmo se almeja a produção prévia de conhecimentos e habilidades. O início é a própria ação, para que seja possível aprender a partir do projeto e por meio da reflexão sobre o projeto em curso. Assim, emerge a dimensão de práxis, que consiste na integração entre reflexão e ação. Por meio da pesquisa-ação, mudanças são desenvolvidas de maneira participativa, visando objetivos educacionais e socioambientais. Assim, “não se trata de saber tudo antes de passar pela ação, mas de aceitar aprender na ação e de ir reajustando-a. Aprende-se também sobre si mesmo e se aprende a trabalhar em equipe” (SAUVÉ, 2008, p. 30). Por meio de uma abordagem de práxis, objetiva-se que jovens se tornem atores que transformam o mundo atual e futuro. 5.11 CORRENTE DE CRÍTICA SOCIAL O principal foco dessa corrente é analisar dinâmicas sociais que se encontram nas relações causais das problemáticas ambientais, identificando intenções, posições, argumentos e valores (sejam eles implícitos ou explícitos). A postura crítica perpassa um viés político e são engendrados projetos de ação que devem visar a emancipação, ou seja, a libertação de alienações. Estrutura-se pela crítica, pela resistência e pela transformação da realidade, por meio da rejeição do individualismo e da busca pela coletividade e pela cooperação. Os projetos elaborados podem ser apresentados às autoridades para que sejam subsidiados. 95 A EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO CAMPO TEÓRICO EM CONSTRUÇÃO: ASPECTOS HISTÓRICOS, EPISTEMOLÓGICOS E CONCEITUAIS Capítulo 2 Um exemplo de EA caracterizada por um viés de crítica social foi realizado na cidade de Bauru, no estado de São Paulo. Professores e pesquisadores selecionaram um caso de dano socioambiental que ocorreu em decorrência de contaminação por chumbo proveniente de uma unidade metalúrgica que reciclava partes de baterias de carros. Até 2002, foi detectada a concentração excessiva de chumbo no sangue de mais de 300 crianças que moravam no entorno da metalúrgica. O caso teve importante repercussão na mídia e envolvimento de diferentes setores da sociedade. A abordagem da intervenção proposta em uma escola bauruense preconizava a identificação de interesses e de atores envolvidos nas conjunturas do caso de contaminação por chumbo. Vários questionamentos foram direcionados aos alunos, de modo que fosse estimulada a discussão, a reflexão e a produção de argumentações consistentes. Após as intervenções, os resultados positivos foram evidenciados por pesquisadores: os estudantes apontaram relações entre a ciência, a tecnologia e a resolução de problemas, destacando o quanto os objetivos lucrativos são importantes nadeterminação dos objetivos da ciência e da produção de tecnologias. Os alunos também apontaram as contradições entre os interesses dos empresários e os interesses da sociedade e identificaram a influência da mídia no episódio ocorrido (ALVES; CARVALHO, 2005). 5.12 CORRENTE FEMINISTA A corrente feminista de EA está fundamentada na corrente de crítica social supracitada. Também se ocupa de discussões referentes às relações de poder de grupos sociais, especialmente no que tange ao poder que homens exercem sobre mulheres. São objetos de enfoque as necessidades de integrar valores feministas aos modos de produção, de consumo e de organização da sociedade. A relação entre o meio ambiente e o feminismo está na visão de que é preciso reestabelecer relações harmônicas tanto com a natureza como com a sociedade, ou seja, deve-se visar um projeto social que harmonize as relações entre os humanos (especificamente entre homens e mulheres) e destes com o ambiente. Se no começo o movimento feminista aplicou-se principalmente em remanejar e denunciar as relações de poder entre os 96 Fundamentos da Educação Ambiental homens e as mulheres, a tendência atual é, antes, a de trabalhar ativamente para reconstruir as relações de “gênero” harmoniosamente, por meio da participação em projetos conjuntos, nos quais as forças e os talentos de cada um e de cada uma contribuam de maneira complementar. Os projetos ambientais oferecem um contexto particularmente interessante para estes fins, porque implicam (certamente em graus diversos) a reconstrução da relação com o mundo (SAUVÉ, 2008, p. 33). Trata-se de uma conotação política de mobilização conjunta para desenvolver o poder-fazer (empowerment) das mulheres na prática da transformação socioambiental para além de seus lares e comunidades. 5.13 CORRENTE ETNOGRÁFICA A EA categorizada na corrente etnográfica é caracterizada pela ênfase no caráter cultural da relação com o meio ambiente. Trata-se de destacar a cultura de referência de populações em particular, ao invés de impor uma visão de mundo extrínseca à comunidade. Assim, trata-se de realizar um diálogo intercultural que permita questionar os problemas concretos que possuem as sociedades. Ao invés de realizar o processo educativo por meio de transmissão de informações, ocorrem relações de companheirismo e imersão na realidade local, o que permite adaptar as intervenções educativas à diferentes realidades. 5.14 CORRENTE DA ECOEDUCAÇÃO O enfoque dessa corrente se desloca em atribuir maior importância para a dimensão educativa, pois para além de resolver problemas, deve-se utilizar a relação com o meio ambiente como meio para o desenvolvimento pessoal. Na interação direta com o ambiente, o indivíduo desenvolve seus modos de “ser-no- mundo”. 5.15 CORRENTE DA SUSTENTABILIDADE A sustentabilidade, que se configurou como um ideário dominante a partir de meados de 1980, foi integrada à EA gradualmente. A sustentabilidade pressupõe 97 A EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO CAMPO TEÓRICO EM CONSTRUÇÃO: ASPECTOS HISTÓRICOS, EPISTEMOLÓGICOS E CONCEITUAIS Capítulo 2 que o desenvolvimento econômico é a base do desenvolvimento humano, sendo indissociável de processos de conservação de recursos naturais, de forma que seja possível usufruir de recursos no futuro. Partindo da perspectiva sustentável, a EA é um meio para se atingir a finalidade de promover o desenvolvimento sustentável. Assim, passa a ser menos um projeto social, para ser mais um instrumento de manutenção do sistema produtivo. Essa corrente pode ser considerada uma estratégia que tem repercussões para os modos de produção e para os modos de consumo, influenciando diretamente na economia das sociedades. A partir da exploração das características das 15 correntes de EA, pode- se afirmar que as correntes supracitadas apresentam certamente pontos de convergência, mas diferem principalmente em suas ênfases conceituais ou práticas. Trata-se de uma categorização dinâmica e não estática, pois pode ser reinterpretada de outras formas e está sujeita às mudanças impostas pelo próprio caminho da EA ao longo do tempo. 1 Com base na categorização das correntes da EA, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: ( ) A corrente de EA conservacionista é aquela que valoriza uma região com uma bacia hidrográfica própria e a história social de um determinado conjunto de pessoas. ( ) A corrente resolutiva consiste em uma abordagem cognitiva, voltada para os passos de exploração do meio, observação de fenômenos, elaboração de hipóteses, verificação de hipóteses e delineamento de um projeto de resolução de problemas. ( ) A corrente naturalista estimular a compreensão de que os indivíduos são parte da natureza, assim, a natureza se torna educadora e também o meio de aprendizagem. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) F – F – F. b) ( ) F – V – V. c) ( ) V – V – V. d) ( ) V – F – V. 98 Fundamentos da Educação Ambiental 2 A Educação Ambiental está alicerçada em dimensões científicas, tecnológicas, políticas, éticas e humanas. Dessa forma, é preciso comprometer-se e incentivar comportamentos éticos diante da problemática ambiental e conhecer os danos e consequências que já ocorreram ou ainda ocorrem em nosso planeta. Descreva dois problemas ambientais que ocorreram ou ainda ocorrem e que podem ser minimizados ou poderiam ter sido evitados. R.:____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ____________________________________________________ ___________________________________________________ ___________________________________________________ ALGUMAS CONSIDERAÇÕES A EA é uma atividade humana coletiva que foi pensada para atender finalidades que emergem como necessidades do momento contemporâneo. A história da EA é marcada por esforços para o estabelecimento de uma agenda internacional de ações que possam resultar na transformação do comportamento humano no que tange a sua relação com o meio ambiente. No Brasil e no mundo, a história da EA é recente, haja vista que os processos de sua institucionalização e parametrização legal se deram somente a partir do século XX. Os esforços para estabelecer a EA em todo o mundo decorrem de admitirmos enquanto humanidade que as intervenções antrópicas no meio ambiente têm efeitos locais e globais cuja repercussão não é apenas imediata, mas, também, futura. No entanto, a ausência de elementos prontamente detectáveis pelos sentidos humanos dificulta a sensibilização acerca da seriedade das questões ambientais e seus desmembramentos, que podem escapar das preocupações diárias dos indivíduos. Justamente pelo fato de os problemas ambientais não serem tão perceptíveis, emerge a necessidade da EA. Assim, reeducar as visões e as práticas humanas é uma tarefa multidimensional que requer conhecimento científico (tanto das Ciências Naturais 99 A EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO CAMPO TEÓRICO EM CONSTRUÇÃO: ASPECTOS HISTÓRICOS, EPISTEMOLÓGICOS E CONCEITUAIS Capítulo 2 como das Ciências Humanas) e requer, também, intervenções na dimensão socioemocional. Trata-se de uma atividade que tem natureza interdisciplinar e complexa, o que explica a necessidade de se produzir um número considerável de “correntes” de EA. Diferentes sociedades estabelecem relações homem-natureza específicas, o que requer adaptações para a prática da EA. O que as “Educações Ambientais” têm em comum é a produção de sentidos coletivos que ressignificam a concepção e a prática do homem em relação a sua interação com a natureza, de modo a produzir condições mais harmônicas de ser e estar no mundo para queseja possível controlar de forma consciente as diferentes intervenções antrópicas realizadas em nosso planeta. 100 Fundamentos da Educação Ambiental REFERÊNCIAS ALVES, J.; CARVALHO, W. Implicações CTSA na visão de alunos do ensino médio a partir do acesso a múltiplas perspectivas de um caso de dano ambiental. Encontro Nacional de Pesquisa em Educação em Ciências, v. 5, 2005. BECK, U. Sociedade de risco: rumo a uma outra modernidade. Editora 34, 2011. BOTSMAN, R.; ROGERS, R. O que é meu é seu: como o consumo colaborativo vai mudar o nosso mundo. Porto Alegre: Bookman Editora, 2010. BRASIL. Histórico Brasileiro - Política de Educação Ambiental. Ministério do Meio Ambiente. Disponível em: http://www.mma.gov.br/educacao-ambiental/ politica-de-educacao-ambiental/historico-brasileiro.html. Acesso em: 29 abr. 2019. BRASIL. Histórico Mundial - Política de Educação Ambiental. Ministério do Meio Ambiente. Disponível em: http://www.mma.gov.br/educacao-ambiental/politica-de- educacao-ambiental/historico-mundial.html. Acesso em: 29 abr. 2019. BRASIL. Lei n. 9.795, de 27 de abril de 1999. Dispõe sobre a educação ambiental, institui a Política Nacional de Educação Ambiental e dá outras providências. Brasília, 27 de abril de 1999c. Disponível em: http://www.planalto. gov.br/ccivil_03/leis/l9795.htm. Acesso em: 28 abr. 2019. BRASIL. Ministério do Meio Ambiente. Educação ambiental por um Brasil sustentável: ProNEA, marcos legais e normativos. MEC, Brasília, DF: MMA, 2018. Disponível em: http://www.mma.gov.br/images/arquivo/80219/Pronea_ final_2.pdf. Acesso em: 29 abr. 2019. BRASIL. Parâmetros curriculares nacionais para o Ensino Médio (formato cadernos). Parte III: Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias, Brasília, MEC/SEMTEC, 1999a, 4v, 188 p. BRASIL. Parâmetros curriculares nacionais para o Ensino Médio (formato cadernos). Parte IV - Ciências Humanas e suas Tecnologia, Brasília, MEC/ SEMTEC, 1999b, 4v, 188 p. BRASIL. Um pouco da História da Educação Ambiental, MEC. [s.d.]. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/secad/arquivos/pdf/educacaoambiental/ historia.pdf. Acesso em: 28 abr. 2019. 101 A EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO CAMPO TEÓRICO EM CONSTRUÇÃO: ASPECTOS HISTÓRICOS, EPISTEMOLÓGICOS E CONCEITUAIS Capítulo 2 CAPRA F.; LUISI, P. L. A visão sistêmica da vida: uma concepção unificada e suas implicações filosóficas, políticas, sociais e econômicas. Tradução: Mayra Teruya Eichemberg, Newton Roberval Eichemberg, São Paulo: Cultrix, 2014. DIAS, A. de O. et al. Mariana, o maior desastre ambiental do Brasil: uma análise do conflito socioambiental. 2018. HARARI, Y. N. Sapiens: uma breve história da humanidade. 24 ed. 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CAPÍTULO 3 EDUCAÇÃO PARA SUSTENTABILIDADE A partir da perspectiva do saber-fazer, neste capítulo você terá os seguintes objetivos de aprendizagem: � Definir o conceito de sustentabilidade e o contexto de seu surgimento. � Elencar os pressupostos de uma Educação para Sustentabilidade. � Exemplificar ações que visam a sustentabilidade no contexto contemporâneo. � Relacionar e discutir as aproximações teóricas e práticas entre a Educação Ambiental, a Sustentabilidade e a Cidadania. � Entender a Educação para sustentabilidade como um processo de aprendizagem permanente cujo objetivo seja a contribuição para as transformações socioambientais. � Discutir estratégias para a construção de sociedades sustentáveis, socialmente justas e ecologicamente equilibradas. 104 Fundamentos da Educação Ambiental 105 EDUCAÇÃO PARA SUSTENTABILIDADE Capítulo 3 1 CONTEXTUALIZAÇÃO A contemporaneidade é marcada por importantes movimentos que visam minimizar os efeitos agressivos que o sistema produtivo tem sobre o ambiente e sobre a sociedade. São produzidos estudos, teorizações e práticas que reorganizam a lógica que concebe a relação homem-ambiente e as relações de poder que se estabelecem na sociedade. Tendo em vista o enfrentamento das conjunturas problemáticas de nosso tempo, é preciso considerar a importância de se discutir a sustentabilidade enquanto meta de todas as nações. A sustentabilidade é representada por uma pluralidade de concepções e ações, haja vista que pode responder a diferentes objetivos que são contexto- dependentes. É preciso pensar a variedade de sentidos que podem ser atribuídos ao termo, para que você, como um profissional, possa se posicionar com autonomia para fazer uma opção esclarecida e fundamentada. Assim, neste capítulo várias vertentes de sustentabilidade serão exploradas e comparadas. Algumas concepções e práticas tomadas como sustentáveis serão criticadas e algumas alternativas serão apontadas, inclusive com exemplos de projetos sustentáveis de grande porte. Pensando a dimensão de larga escala para a qual a sustentabilidade deve se dirigir, é necessário incluir processos de socialização acerca dessa meta, para que se torne um objetivo comum a todas as nações e a todas as gerações. É somente por meio da educaçãoque a sustentabilidade pode se propagar como uma meta compartilhada por todas as comunidades humanas. O processo educativo voltado para a sustentabilidade requer desafiar o status quo da tradição da educação ambiental acrítica centrada apenas nos aspectos ecológicos. Uma sociedade sustentável não será construída por indivíduos que sabem muito sobre como a Terra funciona, mas por aqueles que além de entender minimamente sobre a Terra também exibem valores solidários, cooperativos e éticos. É preciso formar pessoas que se interessem pelo bem comum e que tenham iniciativa para transformar a realidade. Ensinar valores como esses não é uma tarefa simples, uma vez que são necessários processos nos quais os educandos possam desaprender para aprender de novo, ou seja, é preciso mudar visões, mudar atitudes e comportamentos. É preciso questionar, problematizar a ir para a prática: os educandos precisam experienciar situações de exercício democrático e cidadão, para que possam desenvolver habilidades e atitudes próprias para o desenvolvimento da autonomia e emancipação. 106 Fundamentos da Educação Ambiental Muito mais do que discursar para os educandos ouvirem, é preciso sensibilizar, inspirar, ser exemplo e promover experiências concretas para a ação. Adequar os meios aos fins é um passo necessário para obter resultados exitosos. A adequação, quando se trata da educação para a sustentabilidade, refere-se a determinar qual é o tipo de cidadão que se deseja formar. Quando se admite que a meta é formar cidadãos ativos, críticos, engajados, éticos e solidários, torna- se inadequado educar os indivíduos por meio de abordagens de transmissão de conceitos. Como planejar um processo educativo que propicie essa formação multidimensional? O presente capítulo irá abordar os pressupostos teóricos necessários para fundamentar a prática da educação ambiental para sustentabilidade e irá teorizar possíveis estratégias práticas para viabilizar situações educativas plurais e abrangentes. 2 O CONCEITO DE SUSTENTABILIDADE NO CENÁRIO CONTEMPORÂNEO A partir da percepção de que o atual estado do planeta Terra precisa de atenção, visto que importantes recursos tais como água, solo, ar, biodiversidade e energia se encontram em avançado e contínuo processo de degradação, entende- se que a globalização segue por conjunturas que não podem ser consideradas sustentáveis. Decorre disso, uma preocupação evidente com o comportamento humano, pois se forem perpetuadas as mesmas configurações atuais a nossa própria espécie e também o equilíbrio terrestre estão em risco. A Carta da Terra, produzida no início do século XXI, representa a preocupação que se formou diante das ameaças eminentes de nosso tempo. A carta indica um chamado para os riscos e declara uma série de valores a serem adotados de modo generalizado pela humanidade, objetivando novas formas de viver e conviver neste planeta. Trata-se de uma questão de vida ou morte, segundo a carta. É defendido o uso do princípio de precaução, pois, antes prevenir do que ter postura de indiferença, ou seja, mesmo que a ciência não tenha produzido evidências suficientes para que se tenha certeza dos riscos, não se pode adiar a tomada de medidas que minimizem ou suspendam a exploração exacerbada dos recursos e a modificação danosa do meio. Assim, a carta admite que é necessário promover um sentimento coletivo de 107 EDUCAÇÃO PARA SUSTENTABILIDADE Capítulo 3 interdependência e de responsabilidade universal, a partir das seguintes ideias, segundo Boff (2017): • A humanidade e a Terra possuem um destino comum, pois formamos uma única entidade. • É preciso repensar e fundar novamente outro pacto social com a Terra a partir de um novo começo fundamentado em novos sonhos, em novas visões e em novas formas de empregar a ciência e a tecnologia. • Além da razão intelectual, é preciso mobilizar inteligência emocional e inteligência cordial, pois somente por meio dessas últimas é que se torna possível perceber o mundo como um todo interligado para tomar posturas corajosas e éticas. • É preciso usar a imaginação para criar outros mundos possíveis. • A sustentabilidade deve extrapolar a preocupação relacionada ao crescimento/desenvolvimento, para incluir preocupações individuais e coletivas, locais e globais, presentes e futuras. Nos aspectos defendidos pela Carta da Terra, nota-se um direcionamento para que sejam formados indivíduos com conhecimentos, habilidades, mas também com sonhos, com criatividade, com inteligência emocional e com ética. Também são feitas considerações acerca da sustentabilidade, que é tratada como um objetivo para a sociedade atual e que se tornou um termo amplamente utilizado no momento contemporâneo. Tão citado em discursos políticos e em propagandas de produtos comercializáveis, o adjetivo “sustentável” tornou-se um rótulo com significado fluido, muitas vezes falacioso. Em certos casos, trata-se muito mais de um greenwash (“pintar de verde” para causar ilusão para o consumidor) do que de uma característica propriamente relacionada com a sustentabilidade. Para permitir a discriminação de tais falácias, é preciso que se admita uma conceituação do que é aqui defendido como sustentabilidade: O conjunto de processos e ações que se destinam a manter a vitalidade e a integridade da Mãe Terra, a preservação de seus ecossistemas com todos os elementos físicos, químicos e ecológicos que possibilitam a existência e a reprodução da vida, o atendimento das necessidades da presente e das futuras gerações, e a continuidade, a expansão e a realização das potencialidades da civilização humana em suas várias expressões” (BOFF, 2017, p. 16). A necessidade de reestabelecer conexões menos danosas com o planeta resultam de fatores sistêmicos que tem se agravado ao longo do tempo. Veja a seguir algumas evidências da importância de repensar o mundo sob a ótica da 108 Fundamentos da Educação Ambiental sustentabilidade, segundo Boff (2017): • O sistema econômico entrou em profunda crise desde 2007 e intensificou-se em 2011. A economia tornou-se o principal eixo de ligação entre as nações a partir da industrialização e do modo de vida consumista. O livre mercado substitui a ação estatal, de modo a subjugar a política aos interesses econômicos. Tudo se torna mercadoria e a ética é esvaziada em uma lógica de que “é preciso ganhar dinheiro”. Ser honesto, justo e solidário não são prioridades, pois os valores defendidos são concorrência, individualismo e acúmulo ilimitado. • A concentração de renda intensificou-se em consequência da criação de grandes multinacionais e devido à globalização. A riqueza se concentra para poucos grupos e os números são alarmantes: os 20% mais ricos consomem 82,4% das riquezas e os 20% mais pobres consomem apenas 1,6%. Nos Estados Unidos, por exemplo, existe 1% que ganha o correspondente à renda de 99% da população. É esperado que um sistema insustentável como esse tenha cíclicas crises que são deflagradas em países centrais (como Estados Unidos, Japão e países europeus) com efeitos generalizados para várias outras nações. • O sistema capitalista levado às últimas consequências destrói e depois se propõe a reconstruir, porque ambos os processos são lucrativos. Cada vez mais são colocadas barreiras intransponíveis: os limites da Terra e a crescente escassez de recursos podem conduzir a uma catástrofe de dimensões globais. • As crises dilaceram as camadas sociais mais vulneráveis e multiplicam o número de desempregados e de precarizados (aqueles que atuam em trabalhos precários a baixos salários). • Há milhões de famintos na África, na Ásia e na América Latina. • O uso intensivo de agrotóxicos dizima microrganismos que deveriam habitar o solo de modo a garantir a fertilidade, assim como dizima populações de abelhas tão sabidamente necessárias para garantir a produção de frutos e sementes por meio da polinização.A biodiversidade como um todo tem sido subtraída como consequência da ação antrópica a um ritmo de milhares de extinções por ano. Como resultado, há um aumento do processo de desertificação e erosão em várias regiões do mundo, inclusive no Brasil. A Terra e a biosfera se mostraram resilientes diante de vários desafios experienciados ao longo dos milênios. A biosfera resistiu e se recuperou até mesmo da queda de meteoros. No entanto, mais recentemente, estabeleceu-se uma nova fase desafiadora, que foi a tarefa de comportar os efeitos da presença do homem na Terra. Essa relação entre homem e o planeta já foi caracterizada de formas muito diferentes ao longo de fases: 109 EDUCAÇÃO PARA SUSTENTABILIDADE Capítulo 3 • Fase de interação: homem e planeta experimentavam uma relação cooperativa e sinérgica; • Fase de intervenção: homem passa a utilizar instrumentos para fazer uso de recursos terrestres, para vencer obstáculos e para modificar a natureza; • Fase de agressão: a tecnologia se torna sofisticada de modo a permitir que o homem submeta a natureza aos seus desígnios em dimensões totalizantes, pois passa a perfurar montanhas, abrir minas subterrâneas, represar rios, furar poços de petróleo, trilhar estradas ligando locais distantes, criando cidades, fábricas, conquistando mares etc. (BOFF, 2017). Embora o homem tenha se mostrado muito poderoso a partir de sua capacidade de produzir aparatos que aumentam suas formas de domínio sobre o planeta, a Terra também dispõe de “forças” para as quais o homem não se mostra capaz de suportar, tais como: terremotos, tsunamis, erupções vulcânicas, tufões, secas, inundações... Esses fenômenos indicam como é importante conhecer o funcionamento natural do planeta e os diferentes fatores que influenciam tais processos para tornar possível o estabelecimento de relações mais harmoniosas que garantam qualidade de vida para a nossa e para outras espécies. 2.1 AS ORIGENS DO CONCEITO DE SUSTENTABILIDADE Imagine um ambiente antigo com características medievais, no qual madeira era a matéria prima para construção de casas, móveis, ferramentas agrícolas e ainda era a matéria da lenha que aquecia a casa e que permitia cozinhar. Nesse período, a madeira também era empregada para a construção de grandes barcos que desbravariam os mares. Para permitir todos esses usos da madeira, florestas sofreram crescentes perdas significativas, o que causou preocupação para os personagens dessa história, cujo cenário era o ambiente europeu. Assim, na Alemanha, em 1560, são iniciadas ações de preocupação pelo uso racional das florestas, visando sua contínua recuperação para garantir a perpetuação do recurso da madeira. Nesse contexto, emerge o termo sustentabilidade (BOFF, 2017). Em 1713, com o aumento dos fornos de mineração que demandavam muito carvão, intensifica-se a necessidade do uso sustentável de madeira para garantir o lucro. Assim, políticas locais incentivavam o reflorestamento dos 110 Fundamentos da Educação Ambiental locais de extração. Na Europa, foram organizadas instituições de estudo para a extração sustentável de madeira e, em 1970, o relatório intitulado “Os limites do crescimento” estimulou uma série de discussões acaloradas e diferentes movimentos (BOFF, 2017). Um dos movimentos foi o evento organizado pela ONU (Organização das Nações Unidas) entre 5 e 16 de junho de 1972, em Estocolmo. Denominado “Primeira Conferência Mundial sobre o Homem e o Meio Ambiente”, o evento não resultou em produção de muitos projetos significativos, mas nela foi criado o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. É por volta de 1990 que o significado de desenvolvimento sustentável foi consolidado como aquele caracterizado para atender às necessidades das gerações atuais sem comprometer a viabilidade do atendimento das necessidades das gerações futuras (BOFF, 2017). Outros eventos e relatórios foram produzidos no final do século XX, mas a prática dos países (especialmente os países mais ricos) não teve modificações substanciais. A contradição existente entre a lógica do capitalismo – que maximiza os lucros às custas dos danos ambientais, criando desigualdades e injustiças – e as características do ambiente – que é regido por interdependência, equilíbrio e ciclagem – inviabiliza tais modificações. De forma geral, as pressões sobre governos e empresas reivindicam por redução das emissões de dióxido de carbono e outros gases relacionados com o efeito estufa e pela prática dos três “erres” (r) elencados desde a Carta da Terra: reduzir, reutilizar e reciclar. Outros erres emergiram ao longo do tempo, tais como: rejeitar o consumismo, respeitar todos os seres, redistribuir os benefícios e reflorestar o máximo possível (BOFF, 2017). Você já ouviu falar da iniciativa Sou Resíduo Zero? Todos os dias o brasileiro produz aproximadamente um quilo de resíduos sólidos. Pensando a destinação desse montante de lixo, a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), amparada pela Lei 12.305/2010, determinou que até agosto de 2014 os resíduos sólidos e rejeitos deveriam ter destinação adequada ambientalmente. No entanto, em muitas cidades do Brasil os lixões ainda estão ativos. O movimento Sou Resíduo Zero tem o objetivo de minimizar esse quadro mobilizando diferentes setores da sociedade, como comunidades em geral, empresas, ONGs, cooperativas, consultorias ambientais etc. A mobilização tem a finalidade de aumentar o 111 EDUCAÇÃO PARA SUSTENTABILIDADE Capítulo 3 planejamento e a gestão dos resíduos produzidos. São cinco pilares que compõem a iniciativa: • Não geração. • Redução. • Reutilização. • Reciclagem. • Compostagem (resto de comida). De forma geral, a iniciativa visa tornar a produção de resíduos mais afinada com os ciclos naturais da Terra, permitindo que “materiais descartados sejam projetados para tornarem-se recursos para a produção de outros materiais”. Quer participar do movimento com pequenas ações diárias? Você pode. Comece por iniciativas, como: • compre alimentos naturais e sem embalagens; • escolha produtos com embalagens menores e que incentivem a reciclagem; • destine corretamente seus resíduos: lixo orgânico para compostagem, dejetos no lixo e recicláveis para a coleta seletiva; • privilegie empresas com o selo Resíduo Zero; • questione marcas e fabricantes sobre seus resíduos; • compartilhe a campanha #souresiduozero. Para saber mais, acesse: <https://portal.tcu.gov.br/lumis/portal/file/ fileDownload.jsp?fileId=8A8182A1576F5DD1015782699E2A1ABD>. Em abril de 2019, o Ministério do Meio Ambiente lançou o Programa Nacional Lixão Zero. A prática será o estímulo para que municípios façam a destinação correta do lixo produzido. Assim, cinco grandes fases compõem as ações do Lixão Zero: • Primeira fase: diagnóstico do problema dos resíduos sólidos no Brasil. • Segunda fase: apresentação da situação desejada relativa à gestão integrada dos resíduos. • Terceira fase: listagem dos indicadores para auxiliar o monitoramento dos avanços relativos à implementação da Política Nacional de Resíduos Sólidos. 112 Fundamentos da Educação Ambiental • Quarta fase: destaque dos eixos de implementação para a concretização da situação desejada. • Quinta fase: apresentação do plano de ação com as medidas prioritárias e detalhadas para enfrentamento da realidade dos resíduos sólidos urbanos no país. A destinação correta do lixo produzido será realizada por meio de algumas diretrizes, tais como: • Apoiar municípios na realização de coleta seletiva das frações seca e úmida, de forma a aumentar o índice de reciclagem; • Apoiar municípios na realização de compostagem e biodigestão anaeróbia de resíduos orgânicos; • Apoiar a recuperação ambiental de áreas contaminadas. Para saber mais, acesse: <http://www.mma.gov.br/component/k2/ item/15466-mma-lan%C3%A7a-programa-nacional-lix%C3%A3o- zero.html>. Embora os encontrosinternacionais não tenham promovido mudanças de posturas que resultassem em novos rumos em direção à sustentabilidade, há de se considerar uma maior propagação das ideias defendidas por um ideário sustentável. Os meios de comunicação, os discursos oficiais e, até mesmo empresas (inclusive em rótulos e propagandas), passaram a fazer menção à “bandeira da sustentabilidade”. Ser sustentável ou prezar pela sustentabilidade tornou-se um modismo ora com significados importantes, ora com discursos retóricos e cheios de ações estereotipadas. Se discursos governamentais e corporativos fazem uso do conceito de sustentabilidade, é possível indicar que há diferentes vieses que permitem conceber a sustentabilidade, pois a sustentabilidade mencionada por essas instâncias não tem o mesmo sentido da sustentabilidade apreendida por educadores. Para permitir uma análise de diferentes tendências teóricas e práticas referentes à sustentabilidade, algumas categorias propostas e caracterizadas por Boff (2017) são apresentadas no Quadro 1. 113 EDUCAÇÃO PARA SUSTENTABILIDADE Capítulo 3 QUADRO 1 - CATEGORIAS DE MODELOS DE SUSTENTABILIDADE Propostas de sustentabilidade 1. O modelo-padrão de desenvolvimento sustentável 2. Melhorias no modelo padrão de sustentabilidade 3. O modelo do neocapitalismo 4. O modelo do capitalismo natural 5. O modelo da economia verde 6. O modelo do ecossocialismo 7. O modelo do ecodesenvolvimento ou da bioeconomia 8. O modelo da economia solidária FONTE: Boff (2017) 2.1 O MODELO-PADRÃO DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL: SUSTENTABILIDADE RETÓRICA É um modelo comumente mobilizado em discursos de empresas e discursos oficiais. A tese central está fundada nos famosos três pilares (tripé): economicamente viável, socialmente justo e ambientalmente correto. Também pode ser resumido como os três “pês” (p): profit, people e planet (produto/renda, população e planeta). Vejamos uma análise desses três elementos: • Economicamente viável: é um conceito medido a partir do PIB (Produto Interno Bruto), ou seja, pelo crescimento econômico, modernização industrial, progresso tecnológico, acúmulo de bens, aumento de renda etc. Trata-se de uma quantidade que deve sempre crescer. Trata- se de um desenvolvimento concebido em termos antropocêntricos, pois dificilmente inclui preocupações para além da nossa espécie, e contraditórios, pois desenvolvimento e sustentabilidade são regidos por lógicas opostas. Normalmente, trata um efeito como causa, ao alegar que a pobreza origina a degradação ambiental, quando ambos (desigualdade e degradação ambiental) decorrem do próprio sistema capitalista. Além disso, nessa perspectiva, o uso do termo “desenvolvimento sustentável” já é propriamente enganoso, uma vez que utiliza um termo ecológico (sustentável) para mascarar o verdadeiro ideal da economia (crescimento/desenvolvimento). • Socialmente justo: trata-se de uma característica da qual o sistema capitalista é desprovido. No Brasil, por exemplo, cinco mil famílias detêm 46% do PIB e 1% da população é dona de 48% das terras brasileiras. • Ambientalmente correto: neste aspecto há um discurso vazio e 114 Fundamentos da Educação Ambiental retórico, haja vista que há uma abordagem agressiva e predatória da relação homem-natureza decorrente do modo capitalista global. Existem algumas iniciativas pontuais referentes à redução da emissão de dióxido de carbono, ao uso de energias alternativas, ao reflorestamento de áreas degradadas, à criação de sumidouros de resíduos; mas tais ações têm em comum a característica de não afetar os lucros e não atrapalhar a competição. 2.2 MELHORIAS NO MODELO PADRÃO DE SUSTENTABILIDADE Pensando nas limitações do tripé econômico, social e ambiental, autores passaram a incluir outros pilares, tais como: gestão da mente sustentável, generosidade, cultura, neuroplasticidade do cérebro e outros. O acréscimo do pilar de “gestão da mente sustentável”, por exemplo, consiste em criar outros designs mentais, com ênfase para valores de sensibilidade, para permitir que o homem tenha maior autocontrole na compulsão pelo crescimento, produtividade e consumismo. Assim, é priorizado o desenvolvimento integral do ser humano para que se sinta parte da natureza. O pilar da “generosidade” representa uma categoria ética a ser admitida na agenda da sustentabilidade, para defender a postura altruísta do homem, o qual é capaz de colocar os interesses dos outros acima ou em mesmo nível que os próprios interesses. Trata-se de um valor que contraria diretamente o pensamento ganancioso de priorizar o acúmulo de dinheiro. A “cultura” foi sugerida como um novo pilar a ser considerado na sustentabilidade para incluir as dimensões artísticas, religiosas, criativas, científicas e outras formas de expressão que permitam canalizar as energias humanas para outras direções diferentes da obsessão pelo lucro e consumo. A “neuroplasticidade do cérebro” é um pilar proposto que visa promover investigações acerca de como o cérebro tem um caráter plástico que assume comportamentos desejáveis como moderação, consumo solidário e consciente ou comportamentos inadequados como aqueles compatíveis com a visão industrialista e consumista. Tais pilares adicionais são sugeridos por diferentes autores contemporâneos para ampliar a forma tradicional de conceber a sustentabilidade, visando torná-la mais ética e eficaz no desafio de contrariar a lógica instrumental capitalista. 115 EDUCAÇÃO PARA SUSTENTABILIDADE Capítulo 3 2.3 O MODELO DO NEOCAPITALISMO: AUSÊNCIA DE SUSTENTABILIDADE Críticas ao modelo do capitalismo estimularam a emergência de uma versão alternativa, o neocapitalismo, caracterizado por uma tendência neokeynesiana, de maior intervenção estatal. Admite-se que o mercado sob a lógica da concorrência atravessa fases de tensão e instabilidade, assim, para garantir a manutenção do próprio sistema, o Estado deveria intervir. No entanto, após a crise de 2007, permanece na prática a mesma configuração concorrencial de antes, com baixa regulação estatal e contínua extração indiscriminada de recursos da natureza. É o caso, por exemplo, da intensa importação de produtos fabricados na China que os Estados Unidos realizam, um modelo que não tem sustentabilidade. 2.4 O MODELO DO CAPITALISMO NATURAL: A SUSTENTABILIDADE ENGANOSA Apesar da inerente exploração do capitalismo, o chamado “capitalismo natural” pretende incorporar os fluxos biológicos em seus processos econômicos para aumentar a produtividade da natureza, fazendo melhor uso de espaços e recursos, imitando processos biológicos em modelos produtivos, utilizando produtos biodegradáveis ou reutilizáveis e monitorando todos os recursos utilizados. Embora seja permeado por características mais ajustadas ao ambiente, esse modelo ainda concebe a natureza como repositório de recursos para fins econômicos, ou seja, o homem não se percebe como parte indissociável da natureza. 2.5 O MODELO DA ECONOMIA VERDE: A SUSTENTABILIDADE FRACA Um dos objetivos do modelo é beneficiar os pobres e pequenos agricultores por meio da oferta de sementes, tecnologias e crédito e outro é a produção com 116 Fundamentos da Educação Ambiental baixo carbono, por meio de produção orgânica, uso de energias renováveis e ações de baixo impacto nas intervenções. De forma geral, a economia verde (limpa, como energia solar e eólica) objetiva substituir a economia marrom (suja: energia fóssil). Não são questionados os padrões intensivos de consumo, ou seja, os níveis de exploração do planeta visando a produtividade são mantidos. A meta de produção verde é inalcançável, uma vez que seja na fase de extração, de transporte, de produção, de uso ou de descarte sempre haverá elementos tóxicos danosos ao meio, ou seja, se considerados em sua totalidade, os processos sempre têm algo que não se encaixa na categoria “verde”. Para permitir uma análisemais concreta do argumento acima, acompanhe o exemplo do etanol. Com uma imagem de energia limpa alternativa à energia fóssil suja originada do petróleo, o etanol representa uma energia limpa apenas para a percepção nas bombas de combustível. O processo de sua produção é altamente poluente: agrotóxicos no solo que matam minhocas e bactérias, queimadas, transporte viabilizado por caminhões que emitem gases, emissão de fábricas, efluentes líquidos e produção de bagaço da cana. 2.6 O MODELO DO ECOSSOCIALISMO Trata-se de uma ruptura com o modelo do capital e significa um socialismo produtivo. Assim, propõe-se como um novo modelo de socialismo que se distingue dos dois últimos modelos supracitados, principalmente, no aspecto de explorar a terra sem considerar seus limites. É uma proposta teórica ainda não implementada e visa a produção harmônica que se ajusta aos ritmos da natureza e preconiza valores de justiça, cooperação e equidade. Ainda não se mostra aplicável ou compatível em um mundo industrializado e capitalista. 2.7 O MODELO DO ECODESENVOLVIMENTO OU DA BIOECONOMIA O modelo inclui uma economia que acompanha os níveis de preservação e regeneração da natureza, por meio de uma abordagem de economia, ecologia, democracia, justiça e equidade. Antes de alcançar níveis avançados de sustentabilidade, será necessário reduzir a desigualdade e aumentar os níveis de 117 EDUCAÇÃO PARA SUSTENTABILIDADE Capítulo 3 participação pública numa perspectiva democrática de respeito aos valores éticos e ao meio ambiente. A desigualdade discutida no contexto do ecodesenvolvimento é referente, majoritariamente, ao desnivelamento entre diferentes nações. Para concretizar a bioeconomia, seria necessário que os países desenvolvidos reduzissem o uso de terra, água, nutrientes e energia, por exemplo, para permitir o desenvolvimento de países mais pobres. A bioeconomia só pode resultar de uma “biocivilização”, ou seja, de uma sociedade que preconiza a vida e a Terra. Uma reorganização econômica a partir dessa perspectiva requer que o crescimento seja sustentável (considerar a capacidade suporte do meio a longo prazo), que o crescimento seja suficiente (atende às necessidades), que seja eficiente (utiliza recursos minimizando desperdícios) e que seja equânime (compartilha os benefícios). 2.8 O MODELO DA ECONOMIA SOLIDÁRIA Neste modelo, a cooperação substitui a competição e o trabalho é ressignificado, deixando de ser a mercadoria paga pelo salário para ser ação criadora. Há autogestão democrática e não gestão monopolizada por patrões e o objetivo comum é a melhora da qualidade de vida e não o estímulo ao lucro. Não somente a vida humana passa a ser valorizada, mas todas as formas de vida. Alguns exemplos concretos seriam: cooperativas, ecovilas, redes de comércio solidário, associação com universidades para produção de tecnologias e recuperação de empresas falidas por gestão dos trabalhadores. Uma tendência que não foi iniciada no Brasil, mas já tem sido adotada até mesmo em grandes cidades brasileiras como São Paulo, é a utilização de terrenos públicos para a produção de hortas orgânicas coletivas. Os moradores do entorno se mobilizam para cuidar da horta, seja no plantio, na colheita ou regando as plantas, modificando a paisagem urbana e tornando disponíveis os vegetais para o consumo dos moradores locais. 118 Fundamentos da Educação Ambiental FIGURA 1 - HORTA COMUNITÁRIA URBANA NA CIDADE DE HAVANA (CUBA) FONTE: <https://commons.wikimedia.org/wiki/ File:Municipio_10_de_Octubre_-_La_Havane.jpg>. Em um estudo realizado com o objetivo de investigar os efeitos que uma horta comunitária tem para a saúde dos envolvidos, foi possível indicar alguns importantes benefícios. Na saúde mental, apontaram “contato com a terra, em espaços participativos e de construção coletiva, os quais propiciam discussões sobre autocuidado, alimentação saudável e o desestímulo ao uso excessivo de medicamentos” (COSTA et al., 2015, p. 3102). As mulheres envolvidas indicaram como benefício “o desfrute de um espaço de encontro e de bem-estar, [...] acompanhado ainda da conquista em conseguir se organizar e destinar um tempo para si” (COSTA et al., 2015, p. 3102). No que diz respeito à saúde física, “se explorou a possibilidade de fortalecer o uso de ervas medicinais como forma de redução do uso de medicamentos e aplicação da fitoterapia” (COSTA et al., 2015, p. 3102). 119 EDUCAÇÃO PARA SUSTENTABILIDADE Capítulo 3 FIGURA 2 - HORTA DAS CORUJAS: UMA HORTA COMUNITÁRIA LOCALIZADA NA ZONA OESTE DA CIDADE DE SÃO PAULO FONTE: NAGIB (2016) A ação coletiva de construção de uma horta comunitária é um importante caminho para o desenvolvimento de novos valores humanos, pois necessariamente o sucesso depende da cooperação, o que significa ir à contracorrente do automático comportamento individualista e competitivo. Assim, trata-se de uma instância que pode gerar novos padrões de comportamentos e valores compartilhados por comunidades com novos hábitos de vida. Diante dos modelos supracitados, é possível perceber como são plurais as visões humanas que se formam em torno da relação homem-natureza no que diz respeito à sustentabilidade. Desafiar o modelo vigente de sistema socioeconômico capitalista é uma tarefa que precisa ser incluída na agenda da sustentabilidade, pois suas características mais fundamentais (produção industrial, consumismo, lucratividade, acúmulo de bens, individualismo e competição) são incompatíveis com os objetivos de redução da exploração inconsequente dos recursos da Terra. O primeiro desafio que se coloca é a própria lógica capitalista, que é transmitida pelos indivíduos em diferentes nações por meio de processos de socialização da cultura vigente. Pense em como é desafiador reeducar pessoas individualistas para que se tornem altruístas ou então reeducar pessoas competitivas para que se tornem cooperativas. E o desafio não se encerra nesses aspectos, pois além 120 Fundamentos da Educação Ambiental da necessidade de ensinar a dimensão ética de colocar os próprios interesses em posição igual ou inferior aos interesses de outros seres humanos, também é necessário tratar do cuidado das outras espécies. É necessário que as pessoas extrapolem sua preocupação para com os semelhantes humanos para também incluir todas as outras espécies vivas em uma postura protetiva. Portanto, quando o termo sustentabilidade é enunciado, os sentidos podem estar fundamentados em diferentes pressupostos, sendo alguns deles mais tradicionais porque perpetuam vários aspectos do sistema vigente e outros mais inovadores, porque requerem um processo de ruptura com modos de ser e de atuar no mundo para inaugurar modelos mais compatíveis com as características da Terra. Admitindo-se a pluralidade da sustentabilidade enquanto conceito historicamente construído, alguns parâmetros podem ser utilizados para pensar sua multidimensionalidade. Quais seriam os aspectos a serem considerados quando se pensa a sustentabilidade? Quando pensamos na exploração e degradação da Terra e em atitudes de mudanças, quais são as dimensões a serem incluídas? Veja a seguir alguns exemplos que se colocam como problemas reais para a agenda da sustentabilidade (BOFF, 2017). • Geosfera: humanos alteraram a salinização dos oceanos, alteram quimicamente os solos e modificam estruturas geológicas que foram formadas ao longo de bilhões de anos. • Hidrosfera: o mau uso da água tem gerado escassez, pois 97,5% da água do planeta é salgada. “Da parcela de água doce, 68,9% encontra- se nas geleiras, calotas polares ou em regiões montanhosas, 29,9% em águas subterrâneas, 0,9% compõe a umidade do solo e dos pântanos e apenas 0,3% constitui a porção superficial de água doce presente em rios e lagos.” As porções de água doce que não estão disponíveis para seres humanos incluem águas de aquíferos profundos e água retidacongelada em calotas e montanhas. Como se torna notável a crise hídrica iminente, há atualmente uma corrida para a privatização da água, o que indica uma lógica capitalista e não uma lógica altruísta na determinação das formas de realizarmos intervenções no planeta no que diz respeito ao uso da água. Um aspecto bastante preocupante no que diz respeito ao uso sustentável da água é que seu regime cíclico depende muito da existência de florestas, que dão manutenção à umidade do ar e manutenção aos cursos d’água. Além disso, vegetações dotadas de raízes profundas desempenham o papel de resgatar águas subterrâneas. Como a destruição florestal é acelerada em diversos locais, a água de fácil acesso ao homem pode se tornar ainda mais escassa. • Atmosfera: constantemente atingida pela emissão de dióxido de 121 EDUCAÇÃO PARA SUSTENTABILIDADE Capítulo 3 carbono e metano, as fontes de agressão à atmosfera são indústrias, automóveis, pecuária e queimadas. • Biosfera: os seres invisíveis estão sendo destruídos (microrganismos do solo, dos mangues e das vegetações: vírus, bactérias, fungos e protozoários; assim como microrganismos do plâncton, que são essenciais para a produção de oxigênio da atmosfera), bem como insetos (como abelhas) e morcegos, que são determinantes no sucesso das vegetações, devido ao seu papel de polinizadores. Diversas outras espécies também são constantemente vítimas de processos de perdas significativas seja no seu hábitat, nas suas fontes de alimento ou diretamente no seu número populacional. As perdas resultam em instabilidade e desequilibro, haja vista que as espécies são todas interligadas pelos papeis desempenhados em teias alimentares. Você já pensou na importância que as abelhas têm para a produção alimentar? Abelhas têm o papel de polinizadoras, isto é, auxiliam o transporte de pólen entre flores, o que permite a formação de sementes dos frutos. Só para exemplificar, pense em um café da manhã com várias frutas. Sem abelhas, seu café da manhã teria no máximo pão e queijo, porque dependem de matéria-prima proveniente de plantas que são polinizadas pelo vento (trigo e as gramíneas que alimentam bovinos). Assim, para garantir a produção alimentar, as abelhas são essenciais. No Brasil estamos em um período crítico que ameaça a existência desses insetos, uma vez que agrotóxicos proibidos em outros países ainda são utilizados aqui e estão prejudicando a sobrevivência desses animais (GIANNINI, 2017). Para saber mais, acesse: <https://noticias.uol.com.br/ciencia/ ultimas-noticias/redacao/2018/08/30/abelhas-adquirem-gosto-por- pesticida-como-humanos-se-viciam-em-nicotina.htm>. Partindo da listagem dos aspectos acima, é possível concluir que a sustentabilidade de uma nação requer ações multidimensionais. Assim, quais seriam os indicadores de desenvolvimento sustentável? Podemos pensar em categorias de indicadores subdividindo-os em três instâncias: indicadores econômicos, indicadores sociais e indicadores ecológicos. 122 Fundamentos da Educação Ambiental • Indicadores econômicos: pode ser medido por meio do consumo de energia por habitante, do grau de utilização de energias renováveis, da proporção do PIB que se destina à proteção do meio ambiente e da proporção do PIB que é direcionada dos recursos estatais para o desenvolvimento. • Indicadores sociais: pode ser apontado segundo a taxa de mortalidade infantil, taxa de desemprego, nível de transparência das políticas públicas e proporção do PIB para a saúde. • Indicadores ecológicos: pode ser indicado a partir do controle que se faz dos produtos que agridem a camada de ozônio, pela emissão de gases que causam o efeito estufa, pelo consumo de água por habitante, pela reutilização e reciclagem de resíduos e pela conservação e restauração da cobertura vegetal. Nem todas as tendências de sustentabilidade se fundamentariam nesses três indicadores, porque muitas delas estão centralizadas somente nos indicadores econômicos, o que resulta em formas de pensamentos e de práticas sustentáveis que estão sujeitas a questionamentos, especialmente sob a égide de uma perspectiva crítica de sustentabilidade. Para além das preocupações referentes à manutenção do próprio sistema capitalista, a sustentabilidade requer novos olhares para a convivência entre os seres humanos e para a convivência destes com a natureza. Para tanto, é necessária a produção compartilhada de novos significados e ações. Não é um processo rápido e automático, pois requer mudança coletiva de pensamentos e de comportamentos. Para exemplificar a complexidade de iniciativas concretas que são consideradas sustentáveis, vamos explorar algumas ações do “Projeto Cultivando Água Boa”. Concretizado às margens da Usina de Itaipu, o projeto teve início em 2003, com o objetivo de ampliar os papeis desempenhados pela usina hidrelétrica. Assim, mais do que gerar energia elétrica, a usina passa a estimular novas posturas coletivas envolvendo numerosas comunidades dos municípios do entorno. Segundo o sítio eletrônico do projeto, “Através de um amplo processo de sensibilização, mobilização e informação, procura-se promover mudanças nos modos de organização, produção e consumo, e cuidados com a água, viabilizando assim um futuro mais sustentável para as comunidades do território”. 123 EDUCAÇÃO PARA SUSTENTABILIDADE Capítulo 3 FIGURA 3 - USINA HIDRELÉTRICA DE ITAIPU BINACIONAL LOCALIZADA ENTRE O BRASIL E O PARAGUAI FONTE: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Itaipu_Aerea.jpg>. Em parceria com prefeituras, o projeto realiza diversas ações concretas, tais como: conservação de solo, plantio de mata ciliar, construção de cercas para proteção das matas ciliares e nascentes, recuperação e proteção de nascentes, instalação de abastecedouros comunitários, adequação de estradas e de distribuidores de dejetos e construção de cisternas. Confira no Quadro 2 algumas medidas tomadas no Projeto Cultivando Água Boa visando a preservação da biodiversidade. QUADRO 2 - DENOMINAÇÕES E DESCRIÇÕES DE AÇÕES DE PRESERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE DESENVOLVIDAS PELA USINA DE ITAIPU Ações de preservação da biodiversidade desenvolvidas pela Usina de Itaipu Reservas e refúgios A Usina de Itaipu possui oito reservas e refúgios biológi- cos situados tanto no Brasil como no Paraguai. A região protegida é representada por mata nativa e por trechos de reflorestamento, totalizando 41.039 hectares. Dispondo de tal estrutura, Itaipu concretiza pesquisas e subsidia ações de acompanhamento e proteção do ambi- ente, objetivando a preservação de espécies vegetais e da fauna, especialmente aquelas ameaçadas pela ação predatória antrópica. 124 Fundamentos da Educação Ambiental Corredor de Biodiversidade O Corredor de Biodiversidade é um projeto que visa conectar fisicamente regiões naturais que se tornaram separadas em decorrência da redução de áreas anterior- mente cobertas por florestas nativas, principalmente na região fronteiriça entre o Brasil, Argentina e o Paraguai. O corredor aumenta a comunicação gênica dos seres vi- vos, representando um verdadeiro “corredor da vida”, que minimiza os efeitos do isolamento espacial, de modo que aumenta a viabilidade da manutenção e produção da di- versidade de espécies. Reposição Florestal Trata-se de um programa de reflorestamento de grande porte que iniciou sua ação em 1979. Além de realizar o constante plantio de mudas às margens do curso d’água, também há ações de subsídio aos produtores rurais na re- construção de matas ciliares de suas propriedades. Como auxílio, a Itaipu fornece mudas para o plantio, e disponibili- za postes e arames para construção de cercas. Produção de Mudas Além do reflorestamento, a Itaipu também faz a produção das próprias mudas a partir de pesquisas científicas que geram sementes com alta variabilidade genética. São três viveiros ativos distribuídos no Brasil e no Paraguai quetem as atividades orientadas por profissionais da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste). São produzidas mudas de mais de 70 espécies nativas, como a peroba, o ipê roxo, o cedro, o pau-marfim e a canafístula. Hospital Veterinário O Hospital Veterinário de Itaipu destina-se a atender ani- mais silvestres de cativeiro ou de vida livre na área influen- ciada pela usina. Localizado em Foz do Iguaçu, é oferecido atendimento clínico e ambulatorial, o que permite realizar diagnósticos, cirurgias e pesquisas que aumentam as for- mas de dar manutenção à saúde desses animais. Canal da Piracema Por meio de marcação e recaptura, peixes como dourado, o pintado, a curimba, o pacu e a piapara são estudados para que seja possível realizar intervenções ecológicas que aumentem as chances de sucesso reprodutivo desses animais. Para auxiliar o processo de piracema, um canal foi mantido para funcionar como um sistema de 10,3 quilômetros de extensão que viabiliza a migração dos peixes para regiões de planícies de desova. FONTE: <https://www.itaipu.gov.br/>. 125 EDUCAÇÃO PARA SUSTENTABILIDADE Capítulo 3 Perceba que o projeto dedica esforços para integrar a sociedade situada no espaço do entorno da usina em programas que promovem a sustentabilidade a partir da coletividade. Esse é o âmago da viabilização desse projeto. A iniciativa não se restringe ao interior da usina e aos trabalhadores que nela atuam, mas se expande para incluir a população para que os resultados se tornem amplos e efetivos. Você já ouviu falar em “Pegada de Carbono?” A pegada de carbono mede as emissões diretas e indiretas de Gases de Efeito de Estufa, como dióxido de carbono (CO2), metano (CH4), óxido nitroso (N2O), hidrofluorcarbonetos (HFCs), perfluorcarbonetos (PFCs) e hexafluoreto de enxofre (SF6). É expressa em gramas de dióxido de carbono equivalente por quilowatt- hora (gCO2eq/kWh). São determinadas a quantidade de Gases de Efeito de Estufa (GEE) que produzimos diariamente e a forma como essas emissões de gases influenciam o meio ambiente. Reduzir a quantidade de GEE que liberamos para a atmosfera diariamente é um desafio possível que exige a alteração de hábitos como andar mais a pé ou de transportes públicos; consumir menos e, sempre que possível, localmente; poupar recursos energéticos e investir em energias alternativas. Lembre-se de que, embora e sustentabilidade incorpore a ideia de uma mudança coletiva, mudar o seu próprio comportamento é muito importante. Para calcular a sua pegada de carbono, acesse: <http://www. iniciativaverde.org.br/calculadora/index.php>. Em 2012, na Conferência das Nações Unidas sobre desenvolvimento sustentável no Rio de Janeiro, foram determinados os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) que são defendidos pela ONU e que tem o objetivo de proteger o planeta e assegurar que todas as pessoas tenham paz e prosperidade. Os 17 objetivos são os seguintes: 1. Erradicação da pobreza - Acabar com a pobreza em todas as suas formas, em todos os lugares. 2. Fome zero e agricultura sustentável - Acabar com a fome, 126 Fundamentos da Educação Ambiental alcançar a segurança alimentar e melhoria da nutrição e promover a agricultura sustentável. 3. Saúde e bem-estar - Assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todos, em todas as idades. 4. Educação de qualidade - Assegurar a educação inclusiva, e equitativa e de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos. 5. Igualdade de gênero - Alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas. 6. Água limpa e saneamento - Garantir disponibilidade e manejo sustentável da água e saneamento para todos. 7. Energia limpa e acessível - Garantir acesso à energia barata, confiável, sustentável e renovável para todos. 8. Trabalho de decente e crescimento econômico - Promover o crescimento econômico sustentado, inclusivo e sustentável, emprego pleno e produtivo, e trabalho decente para todos. 9. Inovação infraestrutura - Construir infraestrutura resiliente, promover a industrialização inclusiva e sustentável, e fomentar a inovação. 10. Redução das desigualdades - Reduzir as desigualdades dentro dos países e entre eles. 11. Cidades e comunidades sustentáveis - Tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis. 12. Consumo e produção responsáveis - Assegurar padrões de produção e de consumo sustentáveis. 13. Ação contra a mudança global do clima - Tomar medidas urgentes para combater a mudança climática e seus impactos. 14. Vida na água - Conservação e uso sustentável dos oceanos, dos mares, e dos recursos marinhos para o desenvolvimento sustentável. 15. Vida terrestre - Proteger, recuperar e promover o uso sustentável dos ecossistemas terrestres, gerir de forma sustentável as florestas, combater a desertificação, deter e reverter a degradação da Terra e deter a perda da biodiversidade. 16. Paz, justiça e instituições eficazes - Promover sociedades pacíficas e inclusivas par ao desenvolvimento sustentável, proporcionar o acesso à justiça para todos e construir instituições eficazes, responsáveis e inclusivas em todos os níveis. 17. Parcerias e meios de implementação - Fortalecer os meios de implementação e revitalizar a parceria global para o desenvolvimento sustentável. 127 EDUCAÇÃO PARA SUSTENTABILIDADE Capítulo 3 FIGURA 4 - 17 OBJETIVOS DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL (ODS) FONTE: <https://bit.ly/3bRVfmk>. Para saber mais sobre o assunto acesse aos seguintes sites: <http://www.mds.gov.br/webarquivos/publicacao/Brasil_Amigo_ Pesso_Idosa/Agenda2030.pdf>. <https://nacoesunidas.org/pos2015/agenda2030/>. A iniciativa “Pisco de Luz” monta e instala kits de luz solar em comunidades carentes com a ajuda de voluntários. Deste modo, auxilia três Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas (Saúde e bem-estar; Energia limpa 128 Fundamentos da Educação Ambiental e acessível; Ação contra a mudança global do clima) e foi reconhecida como projeto do ano na área de tecnologia pela Academia Brasileira de Honrarias ao Mérito. Para saber como participar, acesse: <https://www.piscodeluz. org/desenvolvimento-sustentavel?gclid=EAIaIQobChMI07m9--rQ4QI VlwuRCh3tDwlOEAAYASAAEgJAC_D_BwE>. 3 EDUCAÇÃO AMBIENTAL PARA A SUSTENTABILIDADE Embora o discurso sobre a sustentabilidade atinja diversas esferas por meio de diferentes linguagens ou formas de divulgação, ações e pensamentos sustentáveis irão tornar-se legítimos em contextos locais e internacionais somente se processos educativos viabilizarem a produção de sentidos compartilhados que passem a incorporar valores e atitudes de mudança, ou seja, a educação é o meio sobre o qual a sustentabilidade necessariamente está fundada para atingir metas. Como a educação pode ter um papel tão importante para a manutenção da sustentabilidade? Para cada indivíduo que estabeleça novas relações com o ambiente, é necessário que processos de reeducação ocorram, haja vista que é preciso desaprender para aprender. É preciso desaprender modos automáticos de conceber e de agir em relação à natureza. No entanto, devido ao caráter irredutivelmente coletivo que as ações sustentáveis requerem, é preciso que ocorra a socialização de saberes, de habilidades e de atitudes, para permitir a sinergia das ações conjuntas de grupos humanos. Tendo em vista tais objetivos, o processo educativo permite: aos educandos se apropriarem de todos os conhecimentos e experiências acumulados pela humanidade, úteis para atenderem suas necessidades e desenvolver suas potencialidades; em segundo lugar, apropriar-se de critérios que lhe permitam fazer a crítica e a avaliação dos conhecimentos e experiências do passado, para ver seu caráter situado e histórico, relativizá-lo e preservar o que realmente conta e vale para a vida; em terceiro lugar,enriquecer este legado com seus próprios conhecimentos e experiências, o que exige criatividade e fantasia inventiva, de tal forma que esse acúmulo sirva para conhecer melhor a si mesmo, a realidade circundante e elaborar uma visão de conjunto que situa seu 129 EDUCAÇÃO PARA SUSTENTABILIDADE Capítulo 3 projeto de vida dentro do processo socioecológico mais amplo; em quarto lugar, na linha do que sugeriu a Unesco: mediante a educação deve-se aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a ser e aprender a viver juntos [...]” (BOFF, 2017, p. 148). Se a educação para a sustentabilidade requer a formação de indivíduos que possuam novos conhecimentos, novas habilidades, novas formas de ser e de conviver, é preciso admitir que as formas convencionais de ensino não serão eficazes para atingir tal proposta. Giz, lousa, bibliotecas, laboratórios e pesquisas na internet não serão suficientes para desenvolver todas essas dimensões de aprendizagem nos educandos. O processo educativo precisa tornar a realidade vivida ressignificada e regida por novas formas de comportamento. Sendo assim, os aprendizes devem experimentar a natureza, devem conviver com a biodiversidade, conhecendo as origens das paisagens e suas características (BOFF, 2017). Mais do que interagir com os fatores biogeográficos, também é necessário que os educandos conheçam personalidades locais, artistas e líderes. É preciso pensar os locais em suas particularidades reais, situadas em um dado tempo- espaço que reúna fatores bio-sócio-ecológicos. Somente por meio da articulação dessas dimensões é que ações coletivas de sustentabilidade podem se concretizar (BOFF, 2017). Considerando a pluralidade de elementos que devem constituir a educação para a sustentabilidade, é possível elencar alguns fatores que podem ser tomados como fundamentais: • Reconhecer-se parte da Terra e perceber que os recursos são finitos e escassos. • Conceber todos os seres como conectados intimamente e como seres que compartilham destinos comuns. • Valorizar os ciclos naturais, consumir recursos de forma racional e conceder tempo à Terra para que se regenere após intervenções antrópicas. • Preservar a biodiversidade, tendo em vista as contribuições insubstituíveis que as diferentes espécies representam para o funcionamento da biosfera. • Valorizar diferenças culturais, objetivando a cooperação e a sobrevivência comum. • Reivindicar que os rumos da ciência sejam guiados por critérios éticos, visando o aumento do bem-estar humano e de todas as formas de vida, e não por critérios mercadológicos. • Valorizar a pluralidade de saberes, não concedendo status de exclusividade ou superioridade à ciência, de modo que sejam considerados também os saberes provenientes da cultura popular e da 130 Fundamentos da Educação Ambiental experiência cotidiana. • Priorizar a equidade e o bem comum, para permitir que os êxitos humanos sejam compartilhados e não distribuídos somente para alguns grupos. • Resgatar formas de viver fundamentadas no afeto, na razão sensível, na cordialidade, no entusiasmo, nos sonhos e no respeito (BOFF, 2017). Justamente por incluir toda essa dimensão integrada de formação, a reivindicação por uma “educação para a sustentabilidade” tem se intensificado nos últimos anos, inclusive de modo a substituir o discurso referente à educação ambiental. Organismos internacionais e ONGs (organizações não governamentais), por exemplo, produziram inovações discursivas a esses moldes. Em conferências e relatórios da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) também se fez presente tal renovação discursiva, inclusive com alterações nas políticas educacionais de países da União Europeia e na produção acadêmica internacional que fundamenta diretrizes. Aos poucos, o discurso também passa a compor discussões de outros países desenvolvidos e de países periféricos. É possível considerar que a tendência de substituição da educação ambiental para a educação para a sustentabilidade foi originada de críticas aos modos como a educação ambiental concretizava seus resultados em países como Itália, Espanha, Inglaterra, Irlanda, Alemanha, País de Gales, Holanda e Polônia. Por não ter alcançado resultados exitosos no enfrentamento à crise contemporânea, a prática da educação ambiental passa a ser questionada (BOFF, 2017). A abordagem mecanicista e cartesiana, tão presente nas formas de pensar da modernidade, talvez tenha sido uma importante característica das atividades de educação ambiental que contribuiu para resultados insatisfatórios. Ainda que o discurso da educação ambiental visasse abordagens mais integradoras, na prática tal abordagem não se concretizou (BOFF, 2017). Assim, o insucesso das práticas da educação ambiental ocorreu porque se fez uma abordagem reducionista. [...] ao tratar a crise ambiental como uma crise meramente ecológica; ao confundir o meio ambiente com a natureza; ao desprezar suas dimensões políticas, éticas e culturais; ao apresentar uma abordagem fragmentada e acrítica da questão socioambiental; ao aplicar metodologias disciplinares, não participativas e de baixa criatividade e ao propor respostas comportamentais e tecnológicas para problemas de maior complexidade (BOFF, 2017, p. 136). As atividades de educação ambiental realizadas em escolas europeias passaram por um diagnóstico e por um processo de questionamento e crítica para fundamentar as mudanças em direção à construção da educação para a 131 EDUCAÇÃO PARA SUSTENTABILIDADE Capítulo 3 sustentabilidade. No Brasil, uma trajetória semelhante se deu, pois quando um estudo acerca do estado da arte da educação ambiental foi publicado na I Conferência Nacional de Educação Ambiental em 1997, elencaram os seguintes aspectos, segundo Lima (2003): • A educação ambiental vigente praticada em escolas e universidades está fundamentada em um paradigma positivista e em uma pedagogia tecnicista. • A abordagem dos conteúdos científicos é praticada de modo fragmentado em disciplinas, reduzindo a viabilização de articulações interdisciplinares. • Não há materiais didáticos adequados que orientem a educação ambiental escolar, visto que normalmente os materiais são meramente informativos e não são adaptados para questões da realidade local. Além disso, os materiais fazem um enfoque principalmente ecológico, desprovido de discussões acerca de fatores sociais, econômicos e culturais envolvidos. • As práticas não incluem formação ética de estudantes. Assim, percebe-se que as limitações das práticas iniciais de educação ambiental no Brasil experimentaram problemas semelhantes aos de países europeus, que tem em comum a reprodução de modelos tradicionais de práticas educativas. Entretanto, além de realizar uma análise crítica da educação ambiental tradicional que se fez presente historicamente no Brasil e no mundo, também é preciso analisar a prática da educação para a sustentabilidade, pois esta se mostrou igualmente desafiadora e permeada por problemas e contradições (LIMA, 2003). Uma importante questão que é passível de crítica no que se refere à educação para sustentabilidade é a polissemia do discurso sustentável. Como estudamos anteriormente, a sustentabilidade pode se fazer presente em discursos oficiais de diferentes governos e empresas sob a ótica capitalista ou neoliberal, sem desafiar a ordem consumista pautada na exploração desenfreada de recursos. Em outros casos, a sustentabilidade representa a reordenação da organização humana diante do ambiente e diante da pluralidade cultural, visando a recondução de comportamentos coletivos para verdadeiramente fundar formas solidárias, éticas e cooperativas de conviver com a Terra. Sendo assim, quando é mencionada a educação para sustentabilidade, o discurso se torna questionável e duvidoso. Como pontua Lima (2003, p. 112), “a imprecisão envolvida na proposta nosleva a comparar sua aceitação com a situação de um passageiro que embarca num trem sem conhecer seu destino.” Para permitir uma classificação geral de tendências que podem se estabelecer, é possível categorizar duas ordens, segundo Lima (2003): 132 Fundamentos da Educação Ambiental • Primeira ordem: são processos educativos que não contrariam o status quo, uma vez que são realizados aos moldes dos processos educativos já existentes. Não são questionados ou alterados os valores estabelecidos. • Segunda ordem: os processos educativos envolvem mudança por meio da reflexão e de abordagens integradoras que estimulam a criticidade, a autonomia e a criatividade. Os aprendizes são instigados a exercer autocrítica e a resolver problemas de caráter individual e social. Outra questão a ser considerada na educação para a sustentabilidade, além da imprecisão do termo é o discurso que oculta ou apaga os personagens e os interesses que configuram a realidade. Observa-se na educação para a sustentabilidade uma tendência a destacar a necessidade de mudanças de atitudes e comportamentos individuais em detrimento de mudanças que envolvem processos políticos e econômicos. Assim, os problemas socioambientais aparecem mais relacionados à esfera privada que à esfera pública, e supõem uma desresponsabilização dos agentes coletivos públicos e privados, como por exemplo, o Estado e as corporações globais” (LIMA, 2003, p. 113). No mesmo sentido de ocultação de personagens e de interesses, o discurso relacionado ao “chamado para a cidadania ativa” é, também, permeado por tentativas de desresponsabilizar Estados e corporações, pois no processo de construção das conjunturas de agressão ao ambiente, Estados e corporações tomaram decisões e medidas que não foram consentidas ou divulgadas para o público. Entretanto, quando se trata de solucionar os problemas decorrentes das consequências de tais decisões e medidas, o público é chamado a se mobilizar. Como considera Costa-Lima, “a parcialidade do apelo, realizado desta forma, mais parece uma estratégia de privatização dos benefícios e socialização das perdas” (LIMA, 2003, p. 114). No conjunto, podemos dizer que a proposta de educação para a sustentabilidade desenvolvida sob o signo do mercado promete muito e realiza pouco. Pretende formular respostas aos limites paradigmáticos da educação ambiental analisada sem apresentar vias efetivas de mudança que ultrapassem os limites da conformidade. Colocada desta maneira tão ambígua, a proposta serve para conciliar conflitos, camuflar contradições e dissolver a diversidade do campo, não para estimular mudanças qualitativas na prática educacional” (LIMA, 2003, p. 115). Alguns professores no Brasil assumem a postura de rejeitar a expressão “desenvolvimento sustentável”, haja vista que, como discutimos na seção anterior desse material, a lógica do desenvolvimento e lógica sustentável estão 133 EDUCAÇÃO PARA SUSTENTABILIDADE Capítulo 3 fundamentadas em pressupostos contraditórios e incompatíveis. Ora, “é uma condição intrínseca ao capitalismo estabelecer o conceito de desenvolvimento como fundamentalmente crescimento econômico, por vias de mercado” (LOUREIRO, 2016, p. 61), assim trata-se de um conceito caracterizado “por uma noção de progresso, de algo contínuo, inexorável e linear” (LOUREIRO, 2016, p. 61). Em síntese, o desenvolvimento seria visto como sinônimo de crescimento econômico e produção de mercadorias, em que a felicidade e o bem-estar estariam associados ao consumismo, em uma leitura eurocêntrica de mundo. Em última instância, seria uma série sucessiva de etapas a serem cumpridas, passando de sociedades tradicionais (entendidas como atrasadas e resquício de primitividade) para as modernas e industriais, como se o novo fosse sinônimo de melhor e mais adequado do ponto de vista da sustentabilidade, desprezando- se o caráter não-linear e contraditório da realidade social” (LOUREIRO, 2016, p. 62). Como alternativa, é utilizada a expressão “sociedades sustentáveis”, que também passa a incluir necessariamente as questões de injustiças e desigualdade social na agenda do processo educativo. Trata-se de desafiar uma visão acrítica de sustentabilidade nos processos educativos, por meio da identificação e rejeição das seguintes armadilhas: • No discurso sustentável, há a defesa de espírito solidário de diálogo entre pessoas, sem que seja reconhecida a natureza conflitiva da sociedade de classes; • Há o estímulo para uma aliança entre agentes sociais, economia, política e condições ecológicas, reduzindo-se a questão aos aspectos científicos e tecnológicos, como se estes fossem destituídos de valores morais e éticos. É ignorada a historicidade das relações sociais e dos modos de produção. • O ambiente é tratado como um lugar à parte, cuja gestão deve estar racionalmente direcionada para fins justos da ciência e da tecnologia, ou seja, o ambiente perde seu caráter histórico resultante das relações sociedade-natureza. • A solução apontada para o crescimento da produção e do consumo fundamenta-se em mecanismos distributivos, que seriam supostamente capazes de garantir padrões adequados de vida para todos, responsabilizando a educação à tarefa de transmitir comportamentos adequados e valores morais de responsabilidade. A distribuição por si só não é um mecanismo capaz de solucionar a desigualdade, haja vista que ela se inicia desde o próprio processo de produção. Além disso, a redistribuição não soluciona a demanda excessiva que se estabelece na 134 Fundamentos da Educação Ambiental exploração da Terra para manter o consumo. • O discurso de políticas públicas, notavelmente ideológico, apaga significados substituindo-os por uma responsabilização da sociedade pelo sucesso e insucesso dos rumos a serem seguidos. “Os conceitos classe social, conflito e exploração, seriam substituídos por conceitos como responsabilidade social, colaboracionismo e voluntariado” (LOUREIRO, 2016, p. 63). • O consumismo não é posto em questionamento, pois propositalmente “ignora-se a necessidade urgente de se fazer um amplo debate público sobre o modo de produção e sobre a quem interessa se produzir tamanha quantidade de mercadorias que produzem o supérfluo e a instrumentalização das relações com o outro” (LOUREIRO, 2016, p. 63). • A própria denominação “educação para sustentabilidade” é posta em questionamento, uma vez que “educar para” remete a fins instrumentais, visto que a educação não pode conduzir a um único resultado previamente estabelecido para ser igual a todos os educandos. A educação requer um processo reflexivo e emancipatório, que permita a autonomia do pensar. • As práticas educativas observadas no Brasil normalmente são classificadas em uma pedagogia tradicional, na qual “o conhecimento científico é a fonte da verdade e gera a correta leitura do mundo, a mudança de comportamento a partir da verdade científica e, em decorrência dessa ação pessoal, a mudança objetiva da realidade” (LOUREIRO, 2016, p. 64). • Quando o processo educativo dá ênfase para a mudança de comportamentos, cria-se o fetiche do individualismo, pois é como se mudar de comportamento fosse sinônimo de mudar toda a realidade, “é apostar que as relações se dão sempre do indivíduo para o outro, por somatório e bom exemplo, e do indivíduo para a sociedade, que é tão somente a expressão coletiva dos comportamentos individuais” (LOUREIRO, 2016, p. 64). Cria-se a ilusão de que a mudança comportamental individual resultará automaticamente na produção de novas relações entre as pessoas e em novas relações destas com o mundo. • Há muitos discursos que centralizam a questão moral individual, apagando as complexas relações que se estabelecem nas disputas de interesses. É como se todos os indivíduos pudessem ser classificados como “bons” e “maus”, ou seja, os defensores da natureza e os inimigos da natureza. Novamente,o discurso se desloca das relações sociais para centralizar-se no indivíduo. • A palavra conscientizar é adotada em discursos para fazer menção a um processo de “informar ou no máximo de ensinar o outro o que é certo por intermédio do conhecimento científico aplicado por pessoas 135 EDUCAÇÃO PARA SUSTENTABILIDADE Capítulo 3 éticas; de sensibilizar para o ambiente; transmitir conhecimentos; ensinar comportamentos adequados à preservação, desconsiderando as condicionantes socioeconômicas e culturais do grupo ou classe com o qual se trabalha” (LOUREIRO, 2016, p. 65). O conhecimento produzido a partir de práticas de educação ambiental permitiu reflexões que estimularam autores a propor novas formas de ressignificar a relação homem-ambiente por intermédio da educação. A educação direcionada para a sustentabilidade é uma das respostas para o enfrentamento das limitações das práticas anteriores, mas a partir da lista acima, é possível observar que as novas práticas também exibem muitas questões importantes que precisam ser pensadas para evitar novos problemas. Uma educação que forma cidadãos para a sustentabilidade do planeta Terra requer criticidade. Mais do que ensinar conceitos e treinar comportamentos, é preciso formar pessoas éticas e autônomas. É necessário fornecer-lhes as habilidades necessárias para que sejam indivíduos capazes de selecionar e julgar informações que são veiculadas, assim como é necessário que as pessoas tenham iniciativa e engajamento em grupos. Um exemplo de prática brasileira de ação comunitária para a sustentabilidade: A Revolução dos Baldinhos. Na iniciativa do bairro Monte Cristo em Florianópolis (Santa Catarina), aproximadamente 200 famílias e nove instituições de ensino separam e destinam seus resíduos orgânicos para uma compostagem. Os passos são administrados por um grupo, transformando os resíduos em adubo para a prática da agricultura urbana na comunidade. Em uma pesquisa realizada em 2013, foi possível indicar que esse modelo comunitário de gestão de resíduos, envolve contribuições multidimensionais, tais como: aumento do capital social por meio de relações de confiança e reciprocidade e estímulo ao empoderamento e valorização da comunidade. Por ter baixo custo, o modelo poderia ser reproduzido em outros contextos, criando um paradigma de gestão de resíduos orgânicos (ABREU, 2013). 136 Fundamentos da Educação Ambiental FIGURA 4 - PÁTIO DE COMPOSTAGEM DA REVOLUÇÃO DOS BALDINHOS NA ESCOLA AMÉRICA DUTRA MACHADO FONTE: Abreu (2013) Para saber mais, acesse: <https://believe.earth/pt-br/revolucao- dos-baldinhos/>. 4 EDUCAÇÃO PARA SUSTENTABILIDADE E A FORMAÇÃO PARA A CIDADANIA: CAMINHOS POSSÍVEIS Por que a educação para sustentabilidade precisa extrapolar o ensino de conteúdos científicos e tecnológicos? Por que a educação que forme cidadãos para concepções e ações sustentáveis requer abordagens mais integradoras e diferentes da ideia tradicional de ensino? Estudos realizados com adultos indicam que muitos podem buscar um conhecimento detalhado e complexo de ciência quando estão imersos em determinado problema ou questão, independentemente de esse conhecimento ter sido abordado em um espaço formal de ensino ou não. Sendo assim, é possível afirmar que um ensino que tem como objetivo exclusivo a aquisição de conhecimentos e a compreensão de conceitos científicos seria inadequado ou ineficaz para a formação integral de pessoas. A educação, além de proporcionar a aprendizagem de conceitos científicos, deveria permitir ao aprendiz o exercício da cidadania por meio de habilidades mais abrangentes com as quais explorariam questões científicas apresentadas no futuro, uma vez que os conceitos científicos podem passar constantemente por mudanças (RATCLIFFE; GRACE, 2003). 137 EDUCAÇÃO PARA SUSTENTABILIDADE Capítulo 3 Formar para a cidadania, segundo Ratcliffe e Grace (2003) seria formar pessoas que tem a compreensão do próprio papel como cidadão do mundo; que respeita e valoriza a diversidade; que tem um entendimento de como o mundo funciona economicamente, politicamente, culturalmente, socialmente, tecnologicamente e ambientalmente; que é contrário a injustiça social; que participa e contribui com a comunidade de vários modos em nível local e global; que está disposto a agir para tornar o mundo um lugar mais igualitário e sustentável; e que assume as responsabilidades de suas ações. Os autores consideram que, apesar de serem distintas as formas como se pode dar significado à educação para cidadania, é defendida a ideia de que os cidadãos precisam de conhecimento e compreensão do sistema social, jurídico e político em que vivem e operam. Eles precisam de habilidades e aptidões para fazer uso desse conhecimento e precisam ser dotados de valores para que o uso de tais conhecimentos e habilidades seja para fins benéficos. Ratcliffe e Grace (2003) consideram que questões sociocientificas podem ser determinantes na formação de opinião e tomada de decisão em níveis pessoais e sociais. Questões sociocientíficas são, com frequência, reportadas pela mídia e, na maior parte dos casos, tratadas por meio de informações incompletas devido à apresentação de evidências científicas conflitantes ou insuficientes. Os autores afirmam que as questões sociocientíficas podem incluir dimensões locais, nacionais e globais de quadros políticos e sociais e envolvem algumas análises de custo e benefício, nas quais riscos interagem com valores. Podem envolver considerações acerca de desenvolvimentos sustentáveis e envolvem raciocínios éticos e de valores morais. As questões sociocientíficas podem ser consideradas excelentes geradoras de situações de educação transformadora viabilizada por um viés crítico. Segundo Ratcliffe e Grace (2003), para identificar uma questão sociocientífica as seguintes características devem estar presentes: 1. Tem base na ciência, frequentemente em áreas que estão nas fronteiras do conhecimento científico. 2. Envolvem a formação de opiniões e a realização de escolhas no nível pessoal e social. 3. São frequentemente divulgadas pela mídia com destaque a aspectos baseados nos interesses dos meios de comunicação. 4. Lidam com informação incompleta sejam elas de evidências científicas incompletas ou conflitantes e lacunas nos registros. 5. Lidam com problemas locais e globais e suas estruturas sociais e políticas. 6. Envolvem a análise de custo e benefício na qual os riscos interagem com valores. 138 Fundamentos da Educação Ambiental 7. Podem envolver considerações sobre desenvolvimento sustentável. 8. Envolvem valores e raciocínio ético. 9. Podem requerer algum entendimento de probabilidade e risco. Tais questões sociocientíficas emergem no contexto do movimento que defende a articulação da relação CTS (ciência, tecnologia e sociedade), que posteriormente foi ampliada para articular a relação CTSA (ciência, tecnologia, sociedade e ambiente). O ensino CTS surge como uma resposta ao aprofundamento de problemas ambientais na segunda metade do século XX e da tomada de consciência referente a questões éticas, à qualidade de vida da sociedade moderna e à necessidade de maior engajamento popular nas decisões de políticas públicas. A ciência e a tecnologia trouxeram várias frustrações, principalmente decorrentes da forte inclinação que os produtos tecnológicos e a pesquisa científica têm em relação às demandas de classes dominantes, com finalidades mercadológicas (SANTOS; MORTIMER, 2002). Os aspectos a serem considerados pensando a formação do educando a partir de uma perspectiva que trate das relações CTSA, são: a valorização da auto-estima do aprendiz, a habilidade de comunicação escrita e oral, o desenvolvimento do pensamento lógico e racional para solucionar problemas, a capacidade para tomada de decisão, o aprendizado colaborativo/cooperativo, a responsabilidade social, o exercícioda cidadania e a aptidão para atuar em questões sociais (SANTOS; MORTIMER, 2002). Perceba que necessariamente a educação CTSA é permeada pela defesa de valores. Esses valores estão vinculados aos interesses coletivos, como os de solidariedade, de fraternidade, de consciência do compromisso social, de reciprocidade, de respeito ao próximo e de generosidade. Tais valores são, assim, relacionados às necessidades humanas, o que significa um questionamento à ordem capitalista, na qual os valores econômicos se impõem aos demais. Será por meio da discussão desses valores que contribuiremos na formação de cidadãos críticos comprometidos com a sociedade” (SANTOS; MORTIMER, 2002, p. 5). Sobre a relação entre educação científica e cidadania, Santos (2007) enfatiza a diferença dos termos “alfabetização científica” e “letramento científico”, com a finalidade de propor um quadro teórico no qual a educação científica poderia ser direcionada para a formação para a cidadania. Para o autor, os contrapontos entre a alfabetização e o letramento científico se constituem por diferenças de concepções sobre o papel da educação científica. As variações de significados incluem o desenvolvimento de habilidades estritamente de cunho científico – alfabetização científica – e o desenvolvimento de habilidades, conhecimentos e valores relacionados à função social da atividade científica – letramento científico. 139 EDUCAÇÃO PARA SUSTENTABILIDADE Capítulo 3 Para Santos (2007), o conhecimento científico não pode ser pensado de forma neutra, sem os contextos sociais envolvidos. Tampouco, os contextos sociais podem ser entendidos sem o conhecimento do conteúdo. Santos (2007) defende que muitas instituições de ensino estão restritas a ensinar conteúdos científicos isentos de estudos epistemológicos e de contexto social. Assim, o ensino por transmissão pode propiciar a aprendizagem de termos científicos (alfabetização científica), mas, dificilmente os alunos conseguem explorar e compreender o significado de tal linguagem. O autor define que o estudante letrado seria capaz de compreender impactos da ciência e da tecnologia sobre a sociedade e de agir como consumidor e cidadão, para atuar na decisão de políticas públicas de acordo com valores vinculados a interesses coletivos numa perspectiva de igualdade social. Uma pessoa funcionalmente letrada em ciência e tecnologia saberia, por exemplo, preparar adequadamente diluições de produtos domissanitários; compreender satisfatoriamente as especificações de uma bula de um medicamento; adotar profilaxia para evitar doenças básicas que afetam a saúde pública; exigir que as mercadorias atendam às exigências legais de comercialização, como especificação de sua data de validade, cuidados técnicos de manuseio, indicação dos componentes ativos; operar produtos eletroeletrônicos etc. Além disso, essa pessoa saberia posicionar-se, por exemplo, em uma assembleia comunitária para encaminhar providências junto aos órgãos públicos sobre problemas que afetam a sua comunidade em termos de ciência e tecnologia” (SANTOS, 2007, p. 480). O letramento científico pode viabilizar a formação de pessoas que considerem não só a questões utilitárias e econômicas da ciência e da tecnologia, mas também aspectos relacionados à saúde, ambiente e questões éticas. Como propõe Santos (2007), o cidadão letrado pode participar de decisões democráticas que definam rumos da ciência e da tecnologia quando são capazes de questionar a ideologia dominante e o desenvolvimento tecnológico. Por exemplo, poderia ser considerado pelo cidadão, na hora de consumir determinado produto, se na sua produção é usada mão-de-obra infantil ou se os trabalhadores são explorados de maneira desumana; se em alguma fase, da produção ao descarte, houve geração de resíduos que agridem o ambiente; se ele é objeto de contrabando ou de outra contravenção etc. (SANTOS, 2007, p. 480). O letramento científico representa, portanto, uma possibilidade de enfrentamento de perspectivas reducionistas sobre a educação científica. A perspectiva reducionista, segundo Auler e Delizoicov (2001), consiste no ensino 140 Fundamentos da Educação Ambiental restrito aos conceitos, baseada numa visão ingênua por não problematizar mitos sobre a ciência e a tecnologia, uma vez que trata artefatos científicos e tecnológicos por meio de uma dimensão técnica ou internalista e pressupõe um público ignorante no que diz respeito às questões científicas e técnicas. O expert, que é o especialista ou técnico, é o único capaz de solucionar problemas sociais de forma eficiente e ideologicamente neutra. Não há espaço para democracia na tomada de decisão, pois somente o especialista comanda os processos. A ciência e a tecnologia são tratadas como soluções para todos os problemas e necessariamente conduzem ao progresso. O reducionismo da alfabetização científica e tecnológica exclui a ideia de que situações sociais de países em desenvolvimento não são causadas e nem poderão ser resolvidas somente pela ciência e pela tecnologia. No caso dos organismos geneticamente modificados, por exemplo, a ciência pode ter contribuído para aumentar a produção de alimentos, porém não há mecanismos científicos e tecnológicos envolvidos no processo de distribuição dos alimentos produzidos. Outro aspecto desconsiderado pela perspectiva reducionista, segundo Auler e Delizoicov (2001) é que o avanço tecnológico não é direcionado por uma lógica interna, pois as decisões que definem as inovações e os caminhos favorecem grupos, o que se caracteriza pela influência de condições econômicas, políticas e sociais, bem como por influências de organizações estatais e privadas. Para o enfrentamento dos mitos e do fatalismo que paralisam o pensamento, o público deveria ter consciência do número de decisões que são tomadas em seu nome. Em consonância, Ratcliffe e Grace (2003) defendem que depender de especialistas é uma tendência preocupante, pois a chamada ascensão da “peritocracia” é uma ameaça à democracia. Para estar pronto diante dos desafios impostos pelos interesses políticos e econômicos da peritrocracia, os alunos devem começar a reconhecer a natureza do conhecimento científico, as razões pelas quais os especialistas discordam, os problemas que ocorrem quando tais embates acontecem e a maneira com que conhecimentos científicos são retratados na mídia. Segundo Priest (2013), para que o público possa decidir se confia ou não nos resultados da ciência, é preciso que possam se basear na compreensão e avaliação das instituições e práticas sociais que produziram os resultados. Embora normalmente se admita que a conduta de uma pesquisa foi direcionada por cientistas éticos que buscam o conhecimento de forma desinteressada, podem ocorrer exceções, e, ainda que em vias honestas, o pensamento de um cientista pode ser distorcido por próprios pontos de vista e diversos outros motivos, como erros de equipamentos ou procedimentos. O entendimento da ciência como um consenso social entre especialistas após avaliações e testes neutros e sem maiores interesses não é uma compreensão que sempre retrata a realidade do desenvolvimento científico. 141 EDUCAÇÃO PARA SUSTENTABILIDADE Capítulo 3 Sendo assim, é preciso avançar para além de um reducionismo educativo restrito à mera alfabetização científica. No que tange à educação ambiental direcionada para a sustentabilidade, trata-se de avançar da centralização na ecologia e nas explicações funcionais acerca dos fenômenos terrestres. Se é necessário produzir mudanças individuais e coletivas no que diz respeito às concepções e ações, uma educação fundamentada somente em dimensões conceituais não será suficiente. Quando nos referimos à educação ambiental, situamo-la em contexto mais amplo, o da educação para a cidadania, configurando-a como elemento determinante para a consolidação de sujeitos cidadãos.O desafio do fortalecimento da cidadania para a população como um todo, e não para um grupo restrito, concretiza-se pela possibilidade de cada pessoa ser portadora de direitos e deveres, e de se converter, portanto, em ator co-responsável na defesa da qualidade de vida. O principal eixo de atuação da educação ambiental deve buscar, acima de tudo, a solidariedade, a igualdade e o respeito à diferença através de formas democráticas de atuação baseadas em práticas interativas e dialógicas. Isto se consubstancia no objetivo de criar novas atitudes e comportamentos diante do consumo na nossa sociedade e de estimular a mudança de valores individuais e coletivos (JACOBI, 2003, p. 197). Para tornar mais inteligível a relação entre educação ambiental e formação para cidadania, é possível indicar que a cidadania: Tem a ver com a identidade e o pertencimento a uma coletividade. A educação ambiental como formação e exercício de cidadania refere-se a uma nova forma de encarar a relação do homem com a natureza, baseada numa nova ética, que pressupõe outros valores morais e uma forma diferente de ver o mundo e os homens. A educação ambiental deve ser vista como um processo de permanente aprendizagem que valoriza as diversas formas de conhecimento e forma cidadãos com consciência local e planetária (JACOBI, 2003, p. 198). Nessa direção, a educação para a cidadania representa a possibilidade de motivar e sensibilizar as pessoas para transformar as diversas formas de participação em potenciais fatores de dinamização da sociedade e de ampliação do controle social da coisa pública, inclusive pelos setores menos mobilizados. Trata-se de criar as condições para a ruptura com a cultura política dominante e para uma nova proposta de sociabilidade baseada na educação para a participação. Esta se concretizará principalmente pela presença crescente de uma pluralidade de atores que, pela ativação do seu potencial de participação, terão cada vez mais condições de intervir consistentemente e sem tutela nos processos decisórios de interesse público, legitimando e consolidando propostas de gestão baseadas na garantia do acesso à informação e na consolidação de canais abertos para a participação, que, por sua vez, são precondições básicas para a institucionalização do controle social (JACOBI, 2003, p. 203). 142 Fundamentos da Educação Ambiental Tendo em vista a complexidade envolvida na educação ambiental fundamentada na sustentabilidade em uma perspectiva crítica e integradora, quais seriam as práticas educativas adequadas? É necessário que alguns conceitos sejam abordados, o que requer a transmissão de alguns conteúdos em associação com sessões de atividade dos educandos, porém, como educar para a mudança de atitudes e comportamentos? Primeiramente, é necessário conceituar o que se entende por atitude. Segundo a conceituação proposta por Sarabia (2000, p. 122) atitudes são “tendências ou disposições adquiridas e relativamente duradouras a avaliar de um modo determinado um objeto, pessoa, acontecimento ou situação e a atuar de acordo com essa avaliação”. As atitudes podem ser detectadas por meio de evidências obtidas pela observação direta, por meio do qual se entende a existência de uma dimensão hipotética, elemento sobre o qual há a suposição de que existe apesar de não ser detectável por observação direta. A atitude envolve o componente cognitivo (conhecimentos e crenças), afetivo (sentimentos e preferências) e de conduta (ações manifestas ou declarações de intenções verbais ou não-verbais). A verbalização das atitudes se dá na forma de opiniões e expressam a posição avaliativa do sujeito em relação a um objeto. Atitudes se diferenciam de habilidades por possuírem o componente afetivo (SARABIA, 2000, p. 124). Há uma crença no senso comum de que os educandos possam aprender valores, atitudes e normas por si mesmos, sem uma ação educativa planejada e sistemática (COLL, 2000). No entanto, tal crença é desprovida de justificativa teórica e empírica, assim é necessário que a aprendizagem das atitudes se torne objeto de preocupação da agenda da educação ambiental. É importante ressaltar que atitudes são ensinadas ainda que de forma não intencional, pois “as atitudes são como os gases, inapreensíveis, mesmo que não percebamos, elas estão em todas partes” (POZO; CRESPO, 2009, p.31). Segundo Sarabia (2000), as atitudes não são reflexos diretos unicamente da racionalidade, uma vez que atitudes não são resultado somente de componentes cognitivos e, portanto, atitudes não são necessariamente o efeito de uma reflexão. Além das atitudes (regras ou padrões de conduta), também existem as normas (ideias ou crenças sobre como comportar-se) e valores (grau em que foram interiorizados ou assumidos princípios que regem o funcionamento de normas) que podem se tornar alvo de processos educativos. A aprendizagem de atitudes requer a construção de valores por meio da interiorização de certas normas, e não por controle coercitivo dos comportamentos dos alunos (POZO; CRESPO, 2009). O desafio no que diz respeito à educação de normas é que é uma tarefa 143 EDUCAÇÃO PARA SUSTENTABILIDADE Capítulo 3 cujo desenvolvimento depende de uma conduta compartilhada de todos, visto que uma norma sem a interiorização de valores só é seguida quando mantida por uma disciplina externa, por exemplo, na presença de uma autoridade. Assim, é preciso traduzir valores em normas e padrões de condutas compartilhados por todos. É importante destacar que uma implicação automática de tal pressuposto é que os discursos “politicamente corretos”, frequentemente realizados por educadores, dificilmente se traduzem em atitudes concretas nos educandos (POZO; CRESPO, 2009). O mecanismo mais simples para controlar os educandos é fazer com que a conduta resulte em reforços e castigos, ou seja, controlar o comportamento dentro de uma abordagem behaviorista (POZO; CRESPO, 2009). Ainda hoje a prática educativa se mantém relacionada ao projeto comportamentalista e às pedagogias decorrentes dele (JONNAERT; ETTAYEBI; DEFISE, 2010). Pode haver eficiência no processo coercitivo behaviorista, mas não eficácia, visto que o controle da conduta dos educandos por coerção não se traduz em aprendizagem duradoura. Uma alternativa para o ensino de atitudes, segundo Pozo e Crespo (2009), é a modelagem, ou a aprendizagem por imitação. A modelagem costuma ser um processo de aprendizado mais implícito do que explícito. Nessa perspectiva, é muito importante que o educador adquira consciência tanto das condutas que são tomadas intencionalmente (porque são desejadas em seus educandos), quanto daquelas que são expressas de forma não intencional e que podem ser imitadas (POZO; CRESPO, 2009). Para a aquisição de atitudes por meio da modelagem, o educando precisa se identificar em um modelo para que haja envolvimento pessoal. Adolescentes são muito sensíveis a necessidade de possuir identidade social, sendo assim, para o pertencimento a um grupo social de referência, o indivíduo precisará se identificar e se conformar diante da pressão grupal. Para manter sua identidade, precisará se adequar às normas e atitudes impostas pelo grupo no qual está inserido (POZO; CRESPO, 2009). A intervenção ou influência para o processo educativo pode ser dificultada pela receptividade aversiva, que é determinada principalmente pelo conjunto de valores, crenças e conhecimentos, e pelas atitudes de uma pessoa. Para aumentar a adequação de valores, atitudes e normas dos educandos ao processo de influência é preciso (a) divulgar as normas justificando-as com base nos valores que as fundamentam para dar sentido ao cumprimento e (b) incluir os educandos na elaboração das normas, para conferir o sentimento de pertencimento e de cumprimentos de normas livremente e solidariamente compartilhadas (SARABIA, 2000). As técnicas para mudanças de atitudes devem ser planejadas com a 144Fundamentos da Educação Ambiental consideração dos três componentes das atitudes: cognitivo (crenças), afetivo (emoções) e comportamental (ações), que correspondem a pensar, sentir e atuar, respectivamente. Algumas estratégias indicadas por Sarabia (2000) são (a) role-playing, (b) diálogo, discussões e técnicas de estudo ativo, (c) exposições em público e (d) tomada de decisões. Mais informações sobre as técnicas de intervenção para a mudança de atitudes são apresentadas a seguir: QUADRO 3 - ESTRATÉGIAS PARA O ENSINO DE ATITUDES Técnicas de intervenção para a mudança de atitudes Role-playing Dramatização ou representação mental da adoção do papel de outra pessoa. O objetivo é produzir mudanças na percepção e na avaliação de uma outra pessoa. Diálogo, discussões e técnicas de estudo ativo Os personagens reais ocupam seu próprio papel e tratam de assuntos de interesse acadêmico ou humano. O ensino é potencializado porque os alunos tendem a lembrar dos próprios argumentos, devido ao caráter ativo do exercício do debate. Exposições em público Expor ações em público reforça o estabelecimento de vínculos entre atitudes e comportamentos, principalmente quando a exposição ocorre diante de pessoas importantes para o aluno. Tomada de decisões Consiste em encaminhar os alunos para que tomem decisões que lhes dizem respeito diretamente. Estimula o aluno a refletir sobre si mesmo, sobre suas atitudes em relação à escola e à sociedade. Deve ser gradativo para não ter efeitos negativos devido à excessiva responsabilização. FONTE: Sarabia (2000) Quando se trata de mudar atitudes já estabelecidas, é necessária a inserção de conflitos para desestabilizar a atitude e fomentar mudanças. Pozo e Crespo (2009) propõem dois tipos de conflitos: (a) desajuste social e (b) desequilíbrios cognitivos. O primeiro trata do conflito que se estabelece entre as próprias atitudes e o grupo de referência. Um exemplo da prática desse modelo seria inserir um educando em um novo grupo cujas atitudes dos que o compõem sejam desejadas nesse educando, para que o educando passe a imitar o comportamento dos integrantes do grupo. 145 EDUCAÇÃO PARA SUSTENTABILIDADE Capítulo 3 O segundo modelo, o de desequilíbrio cognitivo reside nas atitudes paradoxais, as quais precisam ser refletidas para se expressarem como o próprio indivíduo precisa que se expressem. Consiste em situações que possam estimular a consciência de que a atitude tomada pode estar em desacordo com as preferências e crenças do próprio aluno. Exemplos para o modelo de desequilíbrio cognitivo seriam inserir um educando individualista em uma situação cooperativa, ou inserir um indivíduo intolerante em uma situação na qual tenha que ser o moderador das discussões. Para que o processo de modelagem não se torne tão coercitivo quanto os modelos behavioristas de direcionamento do comportamento, o indivíduo tem que adotar condutas por opção autônoma (POZO; CRESPO, 2009). As estratégias supracitadas podem permitir que a educação ambiental para sustentabilidade propicie novos comportamentos, novos valores e novas habilidades. Para tanto, giz, lousa, discurso do educador e a utilização do ambiente de sala de aula tendem a não ser eficazes, uma vez que os educandos precisam vivenciar experiências para inaugurar um novo modo de ser no mundo. É preciso inovar. Os estudantes precisam sair de uma postura de passividade para que possam interagir adequadamente com o educador, emitindo conclusões próprias, propondo temas de discussões, fazendo visitas a estabelecimentos relevantes, trabalhando em grupo, apresentando trabalhos para a comunidade etc. 1 A Educação Ambiental pode ser entendida e praticada a partir de percepções bastante ingênuas e acríticas. É importante refletirmos sobre as propostas de Educação Ambiental e como elaborar atividades ou projetos que tragam contribuições efetivas para o entendimento da área. Sobre o exposto, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas: ( ) Os discursos “politicamente corretos”, realizados por educadores, dificilmente, se traduzem em atitudes concretas nos educandos. ( ) A criação de projetos de longo prazo, que requerem trabalhos em grupos e convivência assídua são ótimos meios para promover situações de aprendizagem ricas para os educandos. ( ) O júri-simulado também é uma atividade que pode propiciar a produção argumentativa de educandos, os quais se dividem em grupos com posicionamentos diferentes e também em um grupo que julga os argumentos dos grupos. 146 Fundamentos da Educação Ambiental ( ) Os discursos “politicamente corretos”, realizados por educadores, frequentemente se traduzem em atitudes concretas nos educandos. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V - V - V - F. b) ( ) V - V - F - F. c) ( ) F - F - V - F. d) ( ) F - V - V - V. 2 A Educação Ambiental é um meio indispensável para a criação e aplicação de formas cada vez mais sustentáveis de interação sociedade/natureza e soluções para os problemas ambientais. Com relação ao conceito de sustentabilidade, classifique V paras as sentenças verdadeiras e F para as falsas: ( ) O processo educativo voltado para a sustentabilidade envolve enfatizar apenas os aspectos ecológicos que envolvem a questão. ( ) O termo sustentabilidade emerge na Alemanha, em 1560, quando são iniciadas ações de preocupação pelo uso racional das florestas, visando sua contínua recuperação para garantir a perpetuação do recurso da madeira. ( ) O significado de desenvolvimento sustentável como “atender às necessidades das gerações atuais sem comprometer a viabilidade do atendimento das necessidades das gerações futuras” foi consolidado em 2015. ( ) Os indicadores de desenvolvimento sustentável podem ser categorizados em: econômicos, sociais e ecológicos. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) F - V - V - V. b) ( ) F - F - F - V. c) ( ) F - V - F - V. d) ( ) V - V - F - V. 147 EDUCAÇÃO PARA SUSTENTABILIDADE Capítulo 3 ALGUMAS CONSIDERAÇÕES A ideia de sustentabilidade implica a prevalência da premissa de que é preciso definir limites às possibilidades de crescimento e delinear um conjunto de iniciativas que levem em conta a existência de interlocutores e participantes sociais relevantes e ativos por meio de práticas educativas e de um processo de diálogo informado, o que reforça um sentimento de co-responsabilidade e de constituição de valores éticos. Isto também implica que uma política de desenvolvimento para uma sociedade sustentável não pode ignorar nem as dimensões culturais, nem as relações de poder existentes e muito menos o reconhecimento das limitações ecológicas, sob pena de apenas manter um padrão predatório de desenvolvimento (JACOBI, 2003). Como pudemos identificar nas vertentes apresentadas no Quadro 1 deste capítulo, existem “sustentabilidades” que se distinguem profundamente em seus pressupostos teóricos e diferem também em suas práticas. De forma geral, tendências mais tradicionais estão guiadas pelo status quo que concebe o crescimento desenfreado como inevitável, e até mesmo como desejável. O consumo e o modo de produção exploratório são naturalizados e perdem seu caráter histórico, de modo que são ocultados os agentes causadores das conjunturas, assim como seus respectivos interesses mercadológicos. Essa ocultação é a evidência que permite apontar o quanto tais vertentes tradicionais são ideológicas, pois tentam mascarar a realidade, naturalizando-a. O desafio é justamente nesse aspecto: desnaturalizar o que é historicamente construído pela sociedade, especialmente pela parcela da sociedade que detém os meios de produção. Como pensar a palavra desenvolvimento sem um aspecto linear, de aumento de produção e de consumo? É preciso verificar a necessidade de que se realize um processo de ressignificação. Como jádito anteriormente, a educação ambiental voltada para a sustentabilidade requer processos para desaprender e processos para aprender novamente. É preciso reavaliar velhos significados cristalizados no senso comum devido ao intenso reforço cotidiano feito pelas mídias e principalmente pelas propagandas que tem justamente esse fim. Realmente é necessário produzir tantos bens de consumo? É necessário ter tantos itens no guarda-roupa e tantos aparelhos eletrônicos e objetos variados dentro de uma casa? Quais são os elementos essenciais para uma vida humana plena? O que os seres humanos precisam para viver e o que é supérfluo? Será que nossa sociedade tem dedicado recursos e esforços em direções erradas produzindo bens de consumo que não aumentam o bem-estar humano? 148 Fundamentos da Educação Ambiental Tente lembrar quantos objetos você teve durante a vida, mas se desfez deles porque não tinha mais utilidade. Pense em quantos outros estão acumulados em sua casa, mas você não se lembra mais de usar. O acúmulo de bens se tornou hábito, mas a questão problemática é que esses bens se tornam lixo, mas que com a devida orientação podem se tornar resíduos e ter uma destinação adequada. Maior que esse problema é a demanda que se estabelece por recursos que são matéria-prima para esses objetos. Para que esses objetos tenham preço acessível, quantos são os trabalhadores que experienciam condições de trabalho muito precárias para garantir aos proprietários dos meios de produção uma lucratividade maior? Percebemos, assim, o quanto o processo produtivo em um modelo capitalista implica consequências danosas ao ambiente e aos seres humanos que vivem sujeitados às condições impostas pela classe dominante. Entretanto, a natureza já entrou em uma fase de “cheque especial”, ela está “no vermelho”. A insustentabilidade desse sistema está sendo deflagrada dia após dia. A educação ambiental para a sustentabilidade se torna cada vez mais necessária e importante. Os desafios para o processo educativo ainda são muitos, uma vez que nosso sistema de ensino já foi identificado como ineficaz para aprendizagens duradouras e transformadoras. Quando se almeja a formação de indivíduos que sabem ler e interpretar o mundo por meio da criticidade, ensinar conceitos científicos acerca da ecologia não é suficiente. Primeiramente, é preciso que os conteúdos sejam estudados por meio da interdisciplinaridade, que integra os saberes, proporcionando uma visão de todo. Em segundo lugar, é necessário que o educando assuma uma postura ativa durante seu aprendizado, uma vez que precisa passar por experiências novas para mudar suas formas de conceber e atuar no mundo. Quantas são as oportunidades que a escola fornece para que os alunos atuem em organizações democráticas? Quantas vezes os alunos participam de análises de situações concretas que envolvem um grau elevado de complexidade por conter valores políticos, sociais, econômicos, ambientais e éticos simultaneamente? Quantos são os projetos que requerem criatividade, engajamento e cooperação durante a formação dos alunos? Para construirmos uma sociedade mais sustentável, a educação pode viabilizar novas formas de pensar e novas formas de viver e conviver no planeta. No entanto, os aprendizes precisam aprender novas atitudes, novos valores e novos comportamentos. Não se trata de um treinamento ou de uma produção em série de educandos que reciclem, que consomem pouco etc., mas, sim, de um processo que emancipe o sujeito por permitir que o pensamento seja autônomo. 149 EDUCAÇÃO PARA SUSTENTABILIDADE Capítulo 3 O sujeito precisa dispor de um conjunto de saberes, habilidades e atitudes que tornem possível sua atuação ética, solidária e responsável no mundo. Não será possível formar indivíduos com tais características por meio de formas tradicionais de se realizar a educação ambiental. É preciso que o educador ambiental se reinvente, que tenha criatividade e muita convicção de que seus educandos serão excelentes cidadãos. Para realizar intervenções bem-sucedidas na história dos educandos, o educador precisa de entusiasmo, precisa despertar o interesse dos aprendizes para assumir-se como parte indissociável da Terra. Intervenções realizadas por meio de transmissão de conteúdos não produzirão mudanças significativas e multidimensionais como as que estamos defendendo aqui. A criação de projetos de longo prazo, que requerem trabalhos em grupos e convivência assídua, são ótimos meios para promover situações de aprendizagem ricas para os educandos. A criação de hortas comunitárias, como citamos anteriormente, é uma tarefa complexa que permite a interação horizontal entre os participantes e novas formas de interagir diretamente com o meio natural. Assim, pessoas de uma comunidade podem interagir e se conectar de formas saudáveis e cooperativas, inaugurando novas formas de ser no mundo, mais tolerantes, mais respeitosas e mais colaborativas. Situações que envolvem questionamentos e problemas a serem solucionados também são ótimas estratégias que podem propiciar reflexão e síntese de ideias complexas. Imagine o valor de uma situação-problema que emprega um caso local de problema ambiental, no qual estão envolvidos riscos e benefícios a serem contrabalanceados para que os estudantes tenham que produzir um posicionamento ao final das discussões. A relação de pertencimento com o problema, por ser da realidade imediata dos estudantes, pode favorecer o engajamento e a aquisição de saberes, de habilidades e de atitudes. O júri-simulado também é uma atividade que pode propiciar a produção argumentativa de educandos, os quais se dividem em grupos com posicionamentos diferentes e também em um grupo que julga os argumentos dos grupos. São feitas perguntas e há direito de respostas para os diferentes grupos que representam posições diferentes. Ao final, faz-se uma síntese que reúne as principais ideias produzidas. Esse tipo de atividade permite que os estudantes participem de forma ativa e permite seu envolvimento, porque envolve exposição e compartilhamento de ideias, o que favorece a permanência da memória dos argumentos apresentados. Conseguir que uma pessoa que não se mostrava interessada pelas questões ambientais referentes à sustentabilidade se torne uma pessoa envolvida e dotada 150 Fundamentos da Educação Ambiental de argumentos esclarecidos é um dos primeiros objetivos a ser alcançado. Antes de discursar sobre todos os problemas ambientais que parecem fatalmente inevitáveis, é preciso infundir nos educandos a noção de relevância. É preciso que eles se sintam envolvidos com a necessidade de tratar os temas ambientais, para que estejam abertos à mudança de pensamento e de ação. Localmente, ações transformadoras podem ser iniciadas. As relações interpessoais se estabelecem, novos significados compartilhados são produzidos e o processo de reeducação pode se tornar altamente transformador e disseminado. Sendo assim, é preciso sonhar com condições diferentes de produção e de consumo, para que seja possível minimizar o avanço da deterioração dos recursos terrestres. Mais do que pensar a sustentabilidade, é preciso torná-la aplicada e concreta em diferentes comunidades e inviabilizada por meio da educação, esta pode se tornar uma realidade vivida. 151 EDUCAÇÃO PARA SUSTENTABILIDADE Capítulo 3 REFERÊNCIAS ABREU, M. J.de et al. Gestão comunitária de resíduos orgânicos: o caso do Projeto Revolução dos Baldinhos (PRB), Capital Social e Agricultura Urbana. Dissertação (mestrado profissional) - Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Ciências Agrárias, Programa de Pós-Graduação em Agroecossistemas, Florianópolis, 2013. AULER, D.; DELIZOICOV, D. Alfabetização científico-tecnológica para quê?. 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