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1 COGNIÇÃO E DESENVOLVIMENTO DA LINGUAGEM ORAL E ESCRITA E DO RACIOCÍNIO LÓGICO-MATEMÁTICO Parte I – Unidades 1 a 4 Prof. Me. Gabriel Rodriguez Brito Prof. Me. Edna Barberato Genghini BRITO, Gabriel Rodriguez GENGHINI, Edna Barberato Cognição e Desenvolvimento da Linguagem Oral e Escrita e do Raciocínio Lógico-Matemático – Parte I – Unidades 1 a 4 (livro-texto) / Gabriel Rodriguez Brito e Edna Barberato Genghini – São Paulo: Pós-graduação Lato Sensu UNIP, 2019. 82 p. il. 1. Linguagem. 2. Alfabetização. 3. Leitura e Escrita. Pós- Graduação Lato Sensu UNIP. III. Cognição e Desenvolvimento da Linguagem Oral e Escrita e do Raciocínio Lógico- Matemático – Parte I – Unidades 1 a 4. Professor conteudista GABRIEL RODRIGUEZ BRITO, Pedagogo pela Universidade Luterana do Brasil, pós-graduado em Psicopedagogia, Mestre e Doutorando em Distúrbios do Desenvolvimento pela Universidade Presbiteriana Mackenzie-São Paulo. Bolsista da Capes (PROSUP). Atualmente, dirige seus estudos à área da Avaliação Neuropsicológica, com ênfase em leitura e escrita. Coordenador voluntário no Projeto Primeiros Passos, que visa estimular as funções executivas de crianças pré- escolares em situação de vulnerabilidade junto à ONG Novo Sertão - Piauí. Professora Colaboradora/coordenadora: EDNA BARBERATO GENGHINI, Professora Universitária desde 2002. Atualmente no exercício da função de Coordenadora para todo o Brasil de três cursos ao nível de Pós Graduação Lato Sensu: em PSICOPEDAGOGIA INSTITUCIONAL, DOCÊNCIA PARA O ENSINO SUPERIOR e em FORMAÇÃO EM EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA, pela UNIP - UNIVERSIDADE PAULISTA – UNIP/EaD, onde também atua como Professora Adjunta, nas modalidades SEI e SEPI. É Diretora e Psicopedagoga da MENTOR ORIENTAÇÃO PSICOPEDAGÓGICA LTDA. ME desde 1991. Possui graduação em Economia Doméstica - Faculdades Integradas Teresa D'Ávila de Santo André (1980), graduação em Pedagogia pela Universidade Guarulhos (1985), Pós-graduação em Psicopedagogia pela Universidade São Judas (1987), Mestrado em Ciências Humanas pela Universidade Guarulhos (2002) e pós-graduação Lato Sensu em Formação em Educação a Distância pela UNIP - Universidade Paulista (2011). É autora e coautora de livros Textos para os cursos de Pós-graduação Lato Sensu em Psicopedagogia Institucional, Docência para o Ensino Superior e Formação e Gestão em Educação a Distância da UNIP - EaD. Áreas de Interesse: Neurociências - Educação Inclusiva - Psicopedagogia Clínica e Institucional - Formação e Gestão em Educação a Distância - Formação de Docentes para o Ensino Superior. SUMÁRIO INTRODUÇÃO 05 Unidade 1 – MÉTODOS DE ALFABETIZAÇÃO 09 1.1 O que significa ler 09 1.2 O acesso à linguagem escrita 12 1.3 O ensino da linguagem escrita 15 1.4 A psicogênese da linguagem escrita 18 1.4.1 As hipóteses que as crianças têm sobre a escrita 20 1.5 O ensino da leitura e da escrita: abordagens que se sucedem 24 Unidade 2 – MODELO COMPONENCIAL DE LEITURA I 33 2.1 Qual a importância da busca por evidências científicas? 33 2.2 O que é linguagem? 35 2.3 Leitura 37 2.4 Modelo Componencial de Leitura 39 Unidade 3 – MODELO COMPONENCIAL DE LEITURA II 42 3.1 Uma visão mais abrangente 42 3.2 Reconhecimento de Palavras 43 3.3 Habilidade de Compreensão Linguística 50 3.4 Habilidade de Fluência 53 Unidade 4 – AVALIAÇÃO E INTERVENÇÃO EM LEITURA 60 4.1 Avaliação 60 4.1. Montando um protocolo 64 4.2 Intervenção 66 4.3 Intervenção em Reconhecimento de Palavras (RP) 67 4.4 Intervenção para o desenvolvimento da Compreensão 69 4.5 Intervenção para o desenvolvimento da Fluência 72 REFERÊNCIAS 77 5 INTRODUÇÃO Olá, aluno(a)! Bem-vindo(a)! A disciplina Cognição e Desenvolvimento da Linguagem Oral e Escrita e do Raciocínio Lógico-Matemático, Parte I – Unidades 1 a 4 (Cognição e Desenvolvimento da Linguagem Oral e Escrita) visa aprofundar o conhecimento dos aspectos relacionados a como o cérebro processa as informações, principalmente em relação ao processamento das informações relacionadas ao desenvolvimento da linguagem oral e escrita. Paralelamente, propomos uma breve revisão histórica e discussão sobre os diferentes tipos de métodos de alfabetização, a fim de que o psicopedagogo consiga ter uma visão abrangente e possa promover adequações eficazes, isto é, com base em evidências cientificas, nos mais diversos contextos Brasil afora. Para atingir estes propósitos nos fundamentaremos nos seguintes Objetivos Específicos: 1) Compreender a Psicogênese da Língua Escrita e suas implicações na construção do conhecimento humano como estratégia de leitura do mundo; 2) Construir conceitos sobre alfabetização no espaço escolar, confrontando- os no contexto histórico, para entender as mudanças em relação a escrita e leitura, emergentes das abordagens construtivista e sociointeracionista de ensino-aprendizagem, contrapondo com as recentes evidências das neurociências e disciplinas afins; 3) Identificar e relacionar os fundamentos de ensino e de aprendizagem da língua materna, concebendo a importância da atuação do professor alfabetizador como mediador de conflitos cognitivos e como estimulador do avanço intelectual do aluno, na apropriação da leitura e da escrita; 4) Ampliar a competência do psicopedagogo em relação às questões relacionadas a alfabetização, propiciando a ele um contexto de discussão 6 teórico-prática que o auxilie no trabalho preventivo e proativo sobre leitura e escrita em ambiente escolar. 5) Compreender o processo de Alfabetização nas diferentes abordagens, bem como suas implicações na construção do conhecimento humano e seu papel na construção da cidadania; 6) Perceber a Linguagem como uma forma de expressão do pensamento, isto é, como uma linguagem que é produzida e utilizada socialmente como representação do real e da multiplicidade de fenômenos propostos pela realidade, partindo das experiências vividas pela criança para atingir níveis mais complexos de abstração. 7) Compreender a interação dos domínios ecológico, psicológico e cognitivo no desenvolvimento a leitura competente, isto é, na leitura com compreensão; 8) Compreender os diferentes processos cognitivos que interagem separados, mas simultaneamente, para que a leitura seja competente; 9) Alinhar os conhecimentos acerca dos processos neuropsicológicos de aquisição da linguagem oral e escrita, com a práxis da sala de aula e do atendimento clínico, de forma a capacitar o Psicopedagogo a atuar preventiva e remediativa nas Dificuldades de Aprendizagem. As unidades estão organizadas de forma a permitir a revisão, complementação e atualização dos conhecimentos acerca das principais Teorias de Ensino/Aprendizagem; Fundamentos Teóricos sobre o processamento das informações pelo cérebro; Modelos Componenciais de Leitura, Ação Didática e Ludicidade e têm por objetivo principal dotarem o futuro Psicopedagogo dos referenciais teóricos que darão o suporte ao entendimento, avaliação e diagnóstico da Aprendizagem e da Não-Aprendizagem nas Instituições de Ensino, foco de suas atribuições profissionais. Estes conteúdos serão abordados em quatro Unidades de Ensino, assim distribuídas: Unidade 1: MÉTODOS DE ALFABETIZAÇÃO 7 Unidade 2: MODELO COMPONENCIAL DE LEITURA I Unidade 3: MODELO COMPONENCIAL DE LEITURA II Unidade 4: AVALIAÇÃO E INTERVENÇÃO EM LEITURA Na unidade 1 vamos conhecer as principais diferenças entre os métodos de alfabetização. Faremos uma reflexão crítica sobre a Psicogênese da Linguagem Oral e Escrita, suas contribuições e equívocos.O foco de nossos estudos estará voltado à alfabetização, além das implicações desses temas no desenvolvimento humano. O objetivo do estudo é propiciar um contexto para discussão tal que você se aproprie dos conceitos citados e seja capaz de atuar junto a aprendizes com dificuldades de aprendizagem relacionadas à aquisição da linguagem oral e escrita. Faremos um “passeio” através da história da alfabetização, até chegarmos aos nossos dias. Com isso, você poderá perceber como, nos diferentes paradigmas de construção do conhecimento, alfabetizar foi sendo ressignificado e como professores têm trabalhado com esse conceito junto aos aprendizes. Na unidade 2. Modelo Componencial de Leitura I, conheceremos importantes conceitos que explicam como o cérebro processa as informações, definiremos o conceito de aprendizagem e as principais funções cognitivas envolvidas no processo da aprendizagem da leitura e escrita. Será apresentado modelos componenciais que buscam entender o desenvolvimento da leitura e escrita de forma ampla, evidenciando o papel de diferentes domínios: cognitivo, ecológico e psicológico. O objetivo principal desta unidade é auxiliá-lo a compreender que diferentes regiões ou circuitos neurais estão relacionados ao desenvolvimento de funções cognitivas específicas, tais circuitos são acionados simultaneamente no tratamento das mais diferentes informações. No momento de ler uma palavra ou um texto, por exemplo, diferentes regiões estão sendo acionadas. Deste modo, nesta unidade, você será introduzido às evidências científicas de como o nosso cérebro desenvolve a habilidade de leitura e escrita. Na unidade 3, Modelo Componencial da Leitura II, nos dedicaremos a compreender as três principais funções cognitivas que interagem para que ocorra a 8 leitura competente, isto é, a leitura com compreensão. As pesquisas indicam que quando o professor e/ou psicopedagogo for capaz de identificar qual região específica não está funcionando corretamente, poderá então intervir de forma mais eficaz, rápida e barata! Na unidade 4, Avaliação e Intervenção em Leitura, falaremos um pouco sobre a importância da avaliação bem como de algumas das principais formas de intervenção dos componentes da leitura. Espera-se que ao chegar nessa unidade você já tenha compreendido quais as principais funções cognitivas estão relacionadas ao desenvolvimento da leitura e escrita e esteja se perguntando como avaliar e identificar o bom ou mau desenvolvimento de cada uma delas. Apresentaremos instrumentos de avaliação dessas habilidades com bons critérios psicométricos que podem ser utilizados tanto pelo psicopedagogo na clínica quanto pelo professor em sala de aula. De igual modo, apresentaremos as estratégias de intervenção com a maior evidência de eficácia. Lembramos a você, caro aluno, que os conhecimentos não se esgotam com os assuntos aqui abordados e que você deve complementar seus estudos com consultas à bibliografia recomendada, bem como procurar trazer para os fóruns de discussão, casos específicos relacionados às suas práxis profissional. Quaisquer dúvidas estamos à disposição para auxiliá-lo. Bons estudos! 9 UNIDADE 1 MÉTODOS DE ALFABETIZAÇÃO Como dito na Introdução, nesta unidade 1 vamos conhecer as principais diferenças entre os métodos de alfabetização. Faremos uma reflexão crítica sobre a Psicogênese da Linguagem Oral e Escrita, suas contribuições e equívocos. O foco de nossos estudos estará voltado à alfabetização, além das implicações desses temas no desenvolvimento humano. O objetivo do estudo é propiciar um contexto para discussão tal que você se aproprie dos conceitos citados e seja capaz de atuar junto a aprendizes com dificuldades de aprendizagem relacionadas à aquisição da linguagem oral e escrita. Faremos um “passeio” através da história da alfabetização, até chegarmos aos nossos dias. Com isso, você poderá perceber como, nos diferentes paradigmas de construção do conhecimento, alfabetizar foi sendo ressignificado e como professores têm trabalhado com esse conceito junto aos aprendizes. Pronto(a) para começar? Vamos lá! 1.1 O que significa ler? No Brasil e na maioria da América Latina, há uma grande confusão em relação aos diferentes métodos de alfabetização e ao significado do ato de ler. Muitos pensadores, como Paulo Freire, enfatizam o aspecto relacionado à leitura de mundo. Freire o faz trazendo à tona a questão da leitura ser a porta de entrada do papel crítico que cada um de nós deveria exercer quando atuando no mundo. Freire (2009, p. 11) afirma que esse processo envolve “uma compreensão crítica do ato de ler, que não se esgota na decodificação pura da palavra escrita ou da linguagem escrita, mas que se antecipa e se alonga na inteligência do mundo”. 10 Nessa perspectiva, ler um texto significa encontrar e analisar criticamente sua relação com o contexto em que foi escrito. Ler uma palavra significa, na visão de Paulo Freire, ser capaz de ler a palavramundo. Tal perspectiva social é muito importante, mas veremos que a ênfase exagerada nesse aspecto em detrimento das evidências científicas de como o cérebro desenvolve a habilidade de leitura e escrita tem tido efeitos nefastos na nossa educação. O construtivismo trouxe grandes avanços no sentido de entender a escola como uma ferramenta de integração e não de exclusão social, mas transformar a abordagem construtivista em um método de alfabetização tem conseguido exatamente o efeito oposto ao que brilhantes pensadores como Paulo Freire idealizaram, a saber, a emancipação dos indivíduos através do ato de ler. Basta observar os baixíssimos índices que o Brasil tem recebido em todos os instrumentos de avaliação da qualidade da educação. O Programme for International Student Assessment (PISA) (Figura 1) (Organisation for Economic Co-operation and Development (OECD), 2016) e a Avaliação Nacional da Alfabetização (ANA), são tristes exemplos do efeito deste equívoco. Faça um esforço (porque a impressão original é clarinha, mesmo) e veja o gráfico a seguir: 11 Figura 1. Brasil tem o terceiro pior índice de leitura num ranking de 72 países do mundo que aplicam o PISA. Fonte (OECD, 2016). E porque ao transformar a concepção construtivista em um método de alfabetização a escola brasileira alcança exatamente o oposto do que se propõe? Porque a linguagem escrita, explica Luria (1986), é o instrumento essencial para os processos de pensamento, incluindo, por um lado, operações conscientes, que transcorre mais lentamente do que o oral. Por outro lado, permitindo retornar ao já escrito, garante o controle consciente sobre as operações que se realizam. “Tudo isso faz da linguagem escrita um poderoso instrumento para precisar e elaborar o processo de pensamento”, acentua Luria (1986, p. 171). Deste modo, fechar as portas da leitura por uma concepção equivocada dos métodos de alfabetização, impacta não somente o desempenho acadêmico nas diversas áreas do conhecimento, mas, uma vez que a leitura é um poderoso instrumento para precisar e elaborar o próprio pensamento, isso influenciará toda as experiências sócio-emocionais do ser humano. É preciso compreender que, diferentemente do ensino da língua falada, no qual a criança pode se desenvolver 12 por si mesma, o ensino da linguagem escrita depende de um treinamento artificial, expõe Vygotsky (1989, p. 119). No início do século XX, Vygotsky apontava que, uma vez que a aprendizagem da linguagem escrita exigiria esse treinamento artificial, por tanto cansativo, o ensino tinha que ser organizado de forma que a leitura e a escrita se tornassem necessárias às crianças. Se forem usadas apenas atividades de forma mecânica, como uma habilidade motora, poderá entediá-las. A leitura e a escrita, para o autor,devem ser algo de que a criança necessite e que seja relevante à vida. Contudo, repare que Vygotsky reconhece que a aprendizagem da leitura requer um treinamento artificial, o autor não exclui tal necessidade só a percebe como incompleta. Nesse sentido, quando estudarmos os modelos componenciais perceberemos que a ênfase no significado da escrita, também não está errada, apenas incompleta. Vygotsky também afirma que “as crianças devem sentir a necessidade do ler e do escrever em seu brinquedo” (VYGOTSKY, 1989, p. 134). E se conclui que uma necessidade intrínseca deve ser despertada nas crianças e a escrita deve ser incorporada a uma tarefa relevante para a vida. Agora repare, todos sabemos da relevância de saber dirigir um carro, e antes de nos tornarmos bons motoristas precisamos de um tempo de treinamento, no qual automatizamos alguns processos cognitivos. Ninguém aprende a dirigir somente compreendendo a relevância, o significado dessa ação, é preciso ser ensinado, de maneira sistematizada, o que significa ir do simples para o difícil. Começamos a dirigir em uma rua residencial, para gradativamente pegarmos vias mais movimentadas, até um dia pegarmos rodovias. 1.2 O acesso à linguagem escrita Os estudiosos relacionam o desenvolvimento da escrita com o da civilização. Desde os primórdios da história da linguagem escrita, acentua Manguel (2001), a leitura é a apoteose da escrita. Escrever foi rapidamente reconhecido como habilidade poderosa e, por intermédio das classes da sociedade mesopotâmica, 13 emergiu o escriba. Seria difícil exagerar a importância do papel do escriba na sociedade mesopotâmica. Ele era necessário para mandar mensagens, transmitir notícias, baixar as ordens dos reis, registrar as leis, anotar os dados astronômicos que permitissem manter o calendário, calcular o número necessário de soldados, trabalhadores, suprimentos ou cabeças de gado, escrever as crônicas de guerra, avaliar tributos, registrar receitas médicas, fazer contratos, preservar os textos religiosos e divertir o povo com leituras da epopeia de Gilgamesh: “ele era as mãos, os olhos e a voz por meio dos quais se estabeleciam comunicações e se decifravam mensagens” (MANGUEL, 2001, p. 208). O aumento da riqueza, expõe Teberosky (2002), exigiu a realização de inventários com entrada e saída de mercadorias; a gestão das tarefas comunitárias exigiu o registro da mão de obra, da distribuição das rações, da matéria-prima, do lucro; a economia passou a exigir a elaboração de listas de pessoal, de salário, de remessas. Percebe-se que o propósito dos seres humanos ao usarem as marcas gráficas, inicialmente, foi registrar e comunicar, pois o meio de transmissão gráfica materializa a mensagem e permite ao emissor conectar-se com o receptor à distância. O propósito de registrar se apoia na capacidade humana de memorizar e cria a função social do registro, que se converte em mecanismo de ampliação da memória, como a escrita de listas, por exemplo (TEBEROSKY, 2002). Os seres humanos, ao usarem as marcas gráficas a partir da economia, ampliaram o uso da escrita para outros domínios, como o de tabeliães para registro de compra e venda e para o direito na elaboração de processos e julgamentos, decretos e leis. Desse modo, a escrita foi conquistando domínios e funções até chegar ao estado atual nas sociedades ocidentais, continua Teberosky (2002), com as seguintes funções: 14 Figura 2 – Adaptada de Psicogênese da Língua Escrita, Emília Ferreiro e Ana Teberosky. Porto Alegre: Ed. Artmed, 2002. As funções de registro, comunicação, comunicação à distância, o controle e a estética escrita afetaram também a manifestação da linguagem oral. A linguagem escrita, devido a sua influência sobre a fala, torna-se modelo de correção da fala. Assim, o poder da escrita não está nela mesma, mas no uso que as sociedades fizerem dela. Pode-se perceber que atividade física e simbólica de um sistema de notação convencional presente no ato de escrever, requer longo e complexo processo de intervenção educativa sistemática, carregado de sentido (LANDSMANN, 2002). Sendo assim, muitos estudiosos propuseram que ensino esteja impregnado de possibilidades de compreensão dos fatos e situações da vida, além de permitir à criança que, mesmo ainda sem dominar o código de escrita, possa praticar o ato de ler e escrever, ao dedicar-se à descoberta das palavras que fazem parte de seu ambiente, à leitura dos pequenos textos apresentados para a elaboração dos seus registros, com o apoio do seu professor ou professora. Contudo, evidências mais atuais, sugerem que a aprendizagem seja mediada de forma a considerar o 15 desenvolvimento maturacional e cognitivo dos alunos. Por causa da plasticidade cerebral, conceito que mais a frente será discutido, as evidências das neurociências apontam para que a criança seja exposta a desafios de leitura e escrita nas quais tenha 100% de chance de ter êxito. 1.3 O ensino da linguagem escrita A linguagem escrita representa, para Vygotsky (1989), um sistema particular de símbolos e signos cuja dominação prenuncia um ponto crítico em todo o desenvolvimento cultural da criança. Isso significa que a linguagem escrita é constituída por um sistema de signos que designam os sons e as palavras da linguagem falada, os quais, por sua vez, são signos das relações e entidades reais. Um aspecto deste sistema é que ele constitui um sistema de segunda ordem que, gradualmente, torna-se um simbolismo direto. Gradualmente, esse elo intermediário (a linguagem falada) desaparece e a linguagem escrita converte-se em um sistema de signos que simboliza diretamente as entidades reais e as relações entre elas (VYGOTSKY, 1989, p. 120). O desenvolvimento da linguagem escrita não segue uma linha única direta, com continuidade clara, ao contrário, é constituído de involuções ao lado das evoluções, pois juntamente com os processos de desenvolvimento e o aparecimento de novas formas, “pode-se distinguir a cada passo, processo de redução, desaparecimento e desenvolvimento reverso de velhas formas” (VYGOSTKY, 1989, p. 120). Para Luria (1986) a linguagem escrita contém em sua composição níveis facilmente diferenciáveis, ausentes na linguagem oral. A linguagem escrita, continua o autor, inclui uma série de processos de nível fonético, como a procura de sons isolados, sua contraposição, a codificação de sons separados em letras, a combinação de sons e letras isoladas em palavras completas. 16 É claro que, em contraposição à linguagem oral, a linguagem escrita possui um léxico mais consistente da seleção de palavras na busca de expressões verbais necessárias e em sua contraposição a alternativas léxicas possíveis. A linguagem escrita, explica ainda Luria (1986), é o instrumento essencial para os processos de pensamento, incluindo, por um lado, operações conscientes, que transcorre mais lentamente do que o oral. Por outro lado, permitindo retornar ao já escrito, garante o controle consciente sobre as operações que se realizam. “Tudo isso faz da linguagem escrita um poderoso instrumento para precisar e elaborar o processo de pensamento”, acentua Luria (1986, p. 171). Para Vigotsky a escrita, muitas vezes, ocupa um lugar muito estreito na prática escolar em relação ao papel fundamental que desempenha no desenvolvimento cultural da criança, explica Vygotsky (1889). “Ensina-se às crianças a desenhar letras e construir palavras com elas, mas não se ensina a linguagem escrita. Enfatiza-se de tal forma a mecânica de ler o que está escrito que se acaba obscurecendo a linguagem escrita como tal” (VYGOTSKY, 1989, p. 119). Contudo, pesquisas empíricas posteriores, comprovam que sim, um dos componentes importantes a serem focados no ensino aprendizagem são os aspectos relacionados àcompreensão, mas aspectos relacionados a “mecânica de ler” são igualmente necessários. Diferentemente do ensino da língua falada, no qual a criança pode se desenvolver por si mesma, o ensino da linguagem escrita depende de um treinamento artificial, expõe Vygotsky (1989, p. 119). Tal treinamento requer atenção e esforços enormes por parte do professor e do aluno, podendo, dessa forma, tornar-se fechado em si mesmo, relegando a linguagem escrita viva a um segundo plano. No início do século XX, Vygotsky apontava que o ensino tinha que ser organizado de forma que a leitura e a escrita se tornassem necessárias às crianças. Se forem usadas apenas atividades de forma mecânica, como uma habilidade motora, poderá entediá-las, pois suas atividades não se expressarão em suas escritas e as personalidades não desabrocharão. A leitura e a escrita, para o autor, devem ser algo de que a criança necessite e que seja relevante à vida. Contudo, ao lermos Vigotsky não podemos pressupor que ele ignore que embora ele critique o 17 ensino da escrita apenas como uma habilidade motora, signifique que tais habilidades não sejam necessárias de serem ensinadas e estimuladas. Vygotsky (1989) aponta ainda uma terceira conclusão acerca da questão, a de que a escrita deve ser ensinada naturalmente. Assim, a criança passa a ver a escrita como um momento natural no seu desenvolvimento, e não como um treinamento imposto de fora para dentro. Assim, o melhor método é aquele em que as crianças não aprendam a ler e escrever, mas que descubram essas habilidades durante as situações de brinquedo. Para isso, diz o autor, é necessário que as letras se tornem elementos da vida das crianças: “elas devem sentir a necessidade do ler e do escrever em seu brinquedo” (VYGOTSKY, 1989, p. 134). Os educadores devem organizar as ações do complexo processo de transição de um tipo de linguagem escrita a outro. Devem acompanhar esse processo por meio de seus momentos críticos, até o ponto da descoberta de que se pode desenhar não somente objetos, mas também a fala. Se quiséssemos resumir todas essas demandas práticas, acentua Vygotsky (1989), e expressá-las de maneira unificada, deveríamos dizer que o que se deve fazer é ensinar às crianças a linguagem escrita, e não apenas a escrita das letras. Contudo, de acordo com o próprio Vygotsky, é preciso compreender que, diferentemente do ensino da língua falada, no qual a criança pode se desenvolver por si mesma, o ensino da linguagem escrita depende de um treinamento artificial (1989, p. 119). Tal importância é ressaltada por diversos estudos empíricos nas diversas áreas da neurociências (SEABRA; DIAS, 2011) que se propõe a entender como o cérebro aprende. 18 Figura 3 - – Adaptada de Psicogênese da Língua Escrita, Emília Ferreiro e Ana Teberosky. Porto Alegre: Ed. Artmed, 2002. 1.4 A psicogênese da linguagem escrita Apresentaremos agora a psicogênese da leitura e escrita. Nessa concepção, fortemente baseada em questões históricas e de cunho social, é excluída a necessidade de qualquer forma de ensino que aparentemente seja mecânico e descontextualizado de significado, como se alguém fosse capaz de, em suas primeiras interações com um carro, dirigir numa autoestrada simplesmente porque percebe a relevância disso. Ferreiro (2002; 2009, p.12), ressalta que a invenção da escrita alfabética é resultado de um processo histórico que esteve presente na humanidade por tanto tempo que se torna difícil, para qualquer aprendiz da língua, entender a natureza da escrita. Na introdução do livro Passado e Presente dos Verbos Ler e Escrever, depois de relatar o papel da escrita nas sociedades primitivas e a enorme separação entre aqueles que escreviam e aqueles que produziam os discursos orais, afirma que “todos os problemas da alfabetização A autora afirma ainda que desde as origens da escrita, seu ensino foi entendido como aquisição de uma técnica – traçar letras, agrupá-las e corretamente pronunciá-las. Após a técnica é que surgiam, por exemplo, a leitura expressiva, resultante da compreensão do texto, e a escrita eficaz, com foco nas intenções do produtor desse texto. Para nós, brasileiros, desde 1980 que essa concepção de alfabetização começou a ser questionada. Os estudos de Emilia Ferreiro e Ana Teberosky transformaram conceitualmente o ensino da escrita e têm nos apontado questões sobre o que é ser alfabetizado para ler o mundo, o problema é que toda questão 19 metodológica foi reduzida ao papel do professor como simples mediador, onde a criança vai criando hipóteses corretas e equivocadas sobre a mecânica da leitura e escrita. Ferreiro (2002; 2009, p. 17), em suas discussões, enfatiza que “estar alfabetizado para continuar no circuito escolar não garante estar alfabetizado para a vida cidadã [...] E isso é grave: se a escola não alfabetiza para a vida e para o trabalho [...] para que e para quem alfabetiza”? No decorrer deste módulo, você vai perceber que buscar uma inclusão social e uma “alfabetização para a cidadania” através de abordagens que negam a necessidade do ensinar a “mecânica do ler e escrever” tem tido exatamente o efeito contrário. Emília Ferreiro, psicolinguista argentina, fez seu doutorado em Genebra, sob a orientação de Piaget e, a partir daí, tem focalizado o desenvolvimento natural da criança, sua aprendizagem e a construção do conhecimento. Ana Teberosky, pedagoga espanhola, tem trabalhado de modo revolucionário em propostas que enfocam a superação de dificuldades de aprendizagem. Juntas, as pesquisadoras se voltaram às questões da alfabetização e, a partir de seus estudos, acreditaram que alfabetizar poderia deixar de ser um ato mecânico de conectar símbolos e sons. As pesquisadoras, ao considerarem que o conhecimento é construído pela criança em situação ativa de relação com o objeto a ser conhecido, transferem o foco da aprendizagem do conteúdo para o sujeito aprendente. “A psicogênese da língua escrita deslocou a questão central da alfabetização do ensino para a aprendizagem: partiu não de como se deve ensinar e sim de como, de fato, se aprende” (WEISZ, 1999/2006, p.vii-viii). Contudo, diversos estudos empíricos em diferentes culturas e níveis socioeconômicos, tem demonstrado que “se aprende” melhor ou pior de acordo com a forma que “se ensina”. Nessa visão de aprendizagem da língua, também passou a ser questionada a ideia de que para se aprender a ler era preciso atender a um conjunto de pré- requisitos, ou seja, a criança deveria ter “prontidão para a alfabetização”, deveria “estar pronta para”. Ferreiro e Teberosky desconstroem essa ideia, acreditando que todo o processo de alfabetização está voltado a uma questão muito mais complexa, de ordem conceitual e não mecânica. Para elas: 20 A mão que escreve e o olho que lê estão sob o comando de um cérebro que pensa sobre a escrita que existe em seu meio social e com a qual toma contato através da sua própria participação em atos que envolvem o ler ou o escrever, em práticas sociais mediadas pela escrita (WEISZ, 1999/2006, p.viii). 1.4.1 As hipóteses que as crianças têm sobre a escrita Para Ferreiro e Teberosk, as produções espontâneas são as melhores fontes para se entender como uma criança concebe a escrita. O que a criança escreve nessa condição de espontaneidade corresponde ao que ela sabe sobre o objeto do conhecimento e não necessariamente deve coincidir com o que socialmente já se convencionou sobre esse objeto. Isso nos ajuda a entender que as garatujas produzidas por uma criança que está experimentando a escrita têm, para ela, um significado social que difere daquele já estabelecido e convencionado a partir de estudos sistematizados. Dois aspectos podem ser considerados em relação à escrita espontânea da criança: o aspecto gráfico (qualidadedo traço, distribuição espacial, orientação do traçado) e o aspecto construtivo (aquilo que a criança quis representar e os meios que utilizou para isso). Afirmam Ferreiro e Teberosky (1999; 2006) que, do ponto de vista construtivo, a escrita da criança se desenvolve com regularidade surpreendente e que essa regularidade se relaciona aos meios culturais (escrita icônica ou não-icônica) aos quais a criança tem acesso, às situações educativas que vivencia e à língua em uso (fonetização da escrita, ou seja, se inicia pelo período silábico e chega ao alfabético). Assim, desenhos correspondem ao domínio do icônico na escrita da criança, enquanto escrever encontra-se fora do domínio icônico. Isso porque grafar a escrita representativa de um objeto não é a mesma coisa que desenhar o objeto. A hipótese pré-silábica 21 Crianças não costumam dedicar seus esforços na invenção de novas letras. Adotam as que já se convencionou socialmente. O que fazem, por sua vez, é dedicar seus esforços na construção de formas de diferenciação entre as escritas. Assim, uma criança acredita que algo escrito, para ter sentido, precisa ter no mínimo três letras. Qualitativamente, isso aparece na seleção de letras diferentes, pois supõe a criança que uma mesma letra, se repetida em seu texto escrito, não corresponda a algo interpretável. Nessa fase pré-silábica, a escrita da criança traz um aspecto interessante: coisas grandes são associadas a palavras grandes, com muitas letras; coisas pequenas, a palavras com poucas letras; o que é alto é representado com sinais gráficos longos, compridos e o que é baixo, por sinais gráficos muito pequenos. A leitura da palavra é acompanhada do movimento do dedo, que desliza pelo registro escrito. Percebe-se que até aqui, não há sinais de que a escrita seja regulada pela diferença entre os significantes (a sonoridade). Estas características definem o período denominado pré-silábico, que será seguido por outro, em que novas descobertas serão feitas. A hipótese silábica O grande marco na construção da escrita está, pois, no momento em que a criança inicia suas descobertas sobre os significantes sonoros e associa essas descobertas às letras e, em seguida, descobre que essas partes podem corresponder a palavras e assim por diante. A grande descoberta, na verdade, está em perceber que “a quantidade de letras com que se vai escrever uma palavra pode ter correspondência com a quantidade de partes que se reconhece na emissão oral” (FERREIRO; TEBEROSKY, 1999;2006, p. 24-25). Tem início, assim, o denominado período 22 silábico. Ele se desenvolve de forma exigente para a criança: “uma sílaba por letra, sem omitir sílabas e sem repetir letras” (ibidem, p. 25). Ao escrever, atribui uma letra para cada emissão de voz, ou sílaba falada, podendo esta corresponder ou não ao valor sonoro convencional. Em ambos os casos a leitura é silabada. Embora nesse período a criança tenha definido um papel para sua escrita, também aí existem contradições, como o fato de, até então, uma única letra não poder representar coisa alguma e, agora, mediante as novas descobertas em função da sonoridade, a necessidade do uso de monossílabos. Pensa a criança: “se precisava de pelo menos três letras para representar alguma coisa, como agora vou usar apenas uma para representar um som como ‘é’?” Eis um dilema: o que fazer com os monossílabos? Certamente é uma grande contradição para uma criança que constrói significados para a escrita! Outra contradição com a qual se depara a criança é a imposta pela diferença entre sua escrita e a dos adultos. O que para ela se resolve com poucas letras, para os adultos aparece com grande quantidade de letras. Por exemplo: para a criança em fase silábica, a representação de cachorro poderia ser “a o o” enquanto que para um adulto, a palavra é “cachorro”. Se pensarmos a escrita da criança na perspectiva vygotskyana, os conflitos gerados pelo confronto entre sua escrita e a do adulto podem ser vistos como impulsos para o desenvolvimento se utilizados para questionar essa criança, fazê-la levantar possibilidades para sua escrita, explicitar sua forma de pensar o que escreveu. Nessa mesma direção, a escrita da criança, quando em contato com outras crianças, pode ser geradora de outros conflitos que levem à comparação de sua escrita com a de outras crianças em diferentes estágios. 23 Nesta etapa será percebido que “A quantidade de letras com que se vai escrever uma palavra pode ter correspondência com a quantidade de partes que se reconhece na emissão oral” (FERREIRO; TEBEROSKY, 1999; 2006, p. 24-25). Esta grande conquista prepara a etapa posterior, que representa um salto no caminho da escrita alfabética. A hipótese silábico-alfabética A etapa seguinte à silábica denomina-se período silábico-alfabético. Esse período nasce, exatamente, dos conflitos gerados no período anterior e que têm a função de desestabilizar a criança e impulsioná-la, encorajá-la a construir a escrita a partir de mais elementos. Nesse momento Trata-se da etapa em que a criança descobre que a sílaba não pode ser considerada uma unidade, mas que há elementos menores do que ela na escrita. Ao representar as palavras, a criança não mais escreverá apenas uma marca para cada emissão de voz, como fazia anteriormente. Outros problemas surgem relacionados, então, ao número de letras de uma sílaba (já não é possível o uso de somente duas letras! Há sílabas com três, quatro!) e à ortografia (um som pode ser representado por letras diferentes!). A grande descoberta, na verdade, está em a criança aceitar que o todo considerado por ela (a sílaba) é diferente das partes (letras), ora ela escreve atribuindo uma letra para cada sílaba ora escreve a sílaba composta por duas ou mais letras. A hipótese alfabética 24 Esse é o momento da passagem para o período alfabético. Nesse período, a criança já compreende o valor sonoro dos caracteres da escrita, já descobriu que esses valores sonoros são menores do que a sílaba e consegue pensar na sonoridade dos fonemas e das palavras. A criança já compreendeu o sistema de escrita e outras descobertas irão acontecer, principalmente, para conseguir dominar as convenções ortográficas. As descobertas realizadas nesta etapa como: os sinais gráficos que orientam a entonação na leitura (como o ponto final); as diferenças entre a sonorização e a letra a ser escrita em uma palavra; os espaços entre palavras que também orientam a forma como se lê algo, representam avanços consideráveis na aquisição do sistema de escrita alfabético. São novas complexidades que se interpõem entre a criança e o domínio da escrita e que, na verdade, não chegarão a um fim, mas passam a povoar a mente da criança como conflitos a serem vencidos no domínio completo da leitura e da escrita. A seção a seguir situa você na história do ensino da leitura e da escrita no país. E explica as principais características que distinguem os métodos de alfabetização. 1.5 O ensino da leitura e da escrita: abordagens que se sucedem 25 Não é algo novo a discussão sobre os métodos de alfabetização mais eficazes (SEABRA; DIAS, 2011), contudo, grandes avanços já têm ocorrido nas neurociências, trazendo robustas evidências, que podem ajudar a apaziguar a histórica disputa na área da pedagogia e da educação. Historicamente, a defesa ou resistência em relação aos diferentes métodos de alfabetização tem se baseado fortemente em questões ideológicas e não em evidências científicas. Contudo, para entendermos o motivo dessa disputa, faz-se necessário compreendermos os aspectos fundamentais que distinguem os métodos de alfabetização. O primeiro deles se relaciona ao 1) ponto de partida, refere-se à unidade inicialmente apresentada durante o processode alfabetização. Neste sentido, encontraremos os métodos sintéticos e analíticos. Os métodos sintéticos têm como ponto de partida unidades menores para chegar as unidades maiores, ou seja, aprende-se primeiro as letras, ou as sílabas ou os fonemas para se chegar a unidades maiores de significado. A apresentação dessas unidades pode ou não ter uma sequência previamente determinada. Após a apresentação das unidades mínimas, é apresentado para o aluno unidades maiores de modo que este possa formar palavras, frases para então poder formar textos. Tais métodos vão da parte para o todo e, como visto anteriormente, têm sido fortemente criticados no país baseado nos trabalhos de Ferreiro e Teberovisk. Já os métodos analíticos, como o proposto por Ferreiro e Teberovisk propõe o movimento contrário partindo de unidades maiores, no caso o texto para chegar nas partes menores (palavras, sílabas e letras). Mais a frente, ao compreendermos um pouco melhor como o cérebro aprende, ou seja, como ele processa as informações, veremos o porquê a maioria das crianças tem dificuldade de aprender com métodos que utilizam esse ponto de partida. O segundo ponto a ser observado é em relação às 2) diferentes unidades mínimas de análise. Isso quer dizer que, o professor tem muitas formas conduzir a reflexão dos alunos quanto a refletir sobre a linguagem no momento de alfabetização. Ele pode mostrar diferentes palavras escritas e lê-las para as crianças, depois pedir que as crianças associem essas palavras à figuras correspondentes, posteriormente pedir para que encontre essas palavras inseridas em um texto. 26 Deste modo, o professor está tendo como unidade mínima de análise a palavra. Em um nível mais segmentado, o professor pode apresentar sílabas escritas e lê-las para os alunos e em seguida começar a formar palavras simples com as sílabas já conhecidas. Finalmente, o professor pode apresentar as letras e pronunciar os possíveis sons por ela representados. Observe que pronunciar o som da letra é diferente de dizer o nome da letra. Da perspectiva das unidades mínimas de análise na relação entre fala e escrita, os métodos serão compreendidos da seguinte forma: método global, quando a unidade mínima de análise é a palavra, método silábico, quando a unidade mínima é a sílaba e o método fônico ou fonético, quando a unidade mínima é o fonema. O terceiro e último aspecto a ser mencionado no que distingue os diferentes métodos trata-se do 3) tipo de estimulação envolvida no processo de alfabetização. Podendo haver dois tipos distintos, o tradicional e o multissensorial. Este é um aspecto importante, pois como veremos mais a frente as funções cerebrais estão simultaneamente localizadas e distribuídas no cérebro (DENARIN; MOROVIC, 2014) trata-se de compreender que diferentes circuitos neurais estão envolvidos no tratamento da informação que recebe através de diferentes modalidades sensoriais, como audição, visão, tato, etc. O método tradicional estimula principalmente a visão e a audição, pois o aluno vê o item escrito e ouve a sua representação oral ou vice e versa. Já no método multissensorial o são estimuladas outras modalidades sensoriais, além da visão e audição. Pode ser estimulada a modalidade tátil, por exemplo, ao pedir que o aluno sinta uma letra escrita em determinada textura, a modalidade cinestésica pode ser estimulada pedindo para o aluno andar sobre a letra desenhada no chão. Montessorie, por exemplo, muito antes das evidências trazidas pelas neurociências, preconizava este tipo de abordagem, por exemplo, ao pedir que os alunos desenhassem a letra no ar enquanto pronunciavam o seu som (SEABRA; DIAS, 2011). Tem também o método fonovisuoarticulatório no qual é apresentado para o aluno de forma explícita os movimentos e posições de lábios e língua que são necessários no momento de pronunciar determinados som. Os métodos multissensoriais são muito eficazes por permitirem que a mesma informação seja processada por diferentes áreas cerebrais, facilitando assim a sua 27 aprendizagem. São indicados para alunos com desenvolvimento típico, com necessidades especiais e ou baixo nível socioeconômico. Até o final desta disciplina veremos mais detalhadamente como esses métodos funcionam de fato. Sintetizando, os três aspectos fundamentais que distinguem os métodos de ensino são: ponto de partida, unidade mínima de análise e tipo de estimulação. Podendo haver um método que parta do texto para as unidades mínimas (analítico), o que se encaixa perfeitamente numa concepção Socioconstrutivista, mas que utilize como unidade mínima de análise o fonema (sintético) e que seja multissensorial. Com isso em mente, vamos continuar com nossa reflexão sobre os diferentes métodos ao longo da história, para em seguida, aprofundarmos sobre as questões de como o cérebro aprende, como processa as informações da linguagem oral e escrita. Antes de 1889, o ensino de leitura e escrita no Brasil era feito em casa, sendo feito de forma espontânea sem um sistema preestabelecido ou em “aulas régias”. Com a proclamação da República, em 1889, inicia-se a prática organizada da escola e sua universalização. Neste contexto, sobressai-se a disputa entre os partidários do então novo e Método João de Deus, publicado em Portugal, em 1876, e largamente utilizado no Brasil a partir de 1880, por Antônio da Silva Jardim, professor de Português da Escola Normal de São Paulo. O ensino baseado na palavração substituía as tradicionais cartilhas de método sintético, baseadas na soletração e silabação, as primeiras cartilhas brasileiras. O segundo momento se caracteriza por uma acirrada disputa entre partidários do então novo método analítico, influenciado pela pedagogia norte-americana, e os que continuavam a defender os ainda tradicionais métodos sintéticos, especialmente a silabação, e a produzir cartilhas neles baseadas. Apesar das reclamações devido a lentidão de resultados, o método é disseminado para todos os estados brasileiros e sua utilização passa a ser obrigatória nas escolas paulistas. Com a reforma da instrução pública engendrada a partir de 1890, uma geração de normalistas formada pela escola Normal de São Paulo passa a defender programaticamente o método analítico, mediante a produção de cartilhas. Nesse período também começa a se pensar 28 No terceiro momento, a partir de meados da década de 1920, inicia-se uma fase de relativização da importância do método, principalmente a partir das consideradas novas práticas de medidas do nível de maturidade necessária à aprendizagem da leitura e da escrita, propostas pelo Teste ABC, criado por Lourenço Filho, o que fundava uma nova tradição: alfabetização sob medida. O quarto momento se caracteriza por uma disputa, a partir do final da década de 1970, entre os defensores das cartilhas de métodos mistos (Caminho Suave, 1948 - 1990) e os partidários do que consideravam ser uma revolução conceitual proposta pela pesquisadora argentina Emília Ferreiro, do que resulta o Construtivismo. Contudo, nesta fase vigoram as concepções de um período preparatório, onde as crianças fazem exercícios de discriminação visomotora, auditivomotora, posição corpo e membros, coordenação motora grossa e fina, etc. O método passa a subordinar-se a maturidade da criança. Em 1986 a concepção construtivista ganha força e se estabelece em todo o país. A nova teoria, apresentada não como um método, mas como uma revolução conceitual, propõe o abandono das práticas acima citadas, bem como a abolição do uso das cartilhas. Iniciasse uma disputa entre os defensores dos tradicionais métodos mistos, defensores das cartilhas e do nível de maturidade versus os construtivistas. Desse período em diante o problema do fracasso escolar passa a ser pensado em termos de políticas públicas e não se discute mais sobre método. Oprocesso de aprendizagem passa a ser compreendido tão somente de acordo com a psicogênese da escrita. Inaugura-se então uma nova tradição, a da “desmetodização” e ênfase no aprendiz, a criança elabora hipóteses e constrói seu conhecimento. Contudo, os PCN´s publicados pelo MEC em 1997, apresentaram o método Global ou Ideovisual, que se caracteriza como um método analítico. É estabelecido o ilusório consenso de que a aprendizagem independe do ensino. Dados do PISA desde 2000 irão indicar que os estudantes brasileiros têm desempenho extremamente inferior à média internacional. Veja e compare os Resultados da avaliação de Leitura: Ano 2000 – 32ª posição dentre 32 países ou seja: último lugar; Ano 2003 – 38ª posição dentre 41 países; 29 Ano 2006 - 49ª posição dentre 56 países; Ano 2009 – 53ª posição dentre 65 países; Ano 2016 – 70ª posição dentre 72 países, ou seja: quase o último lugar, de novo, 16 anos depois! A discussão sobre os melhores métodos de alfabetização não é novidade, remonta ao final do século XVII. Contudo, estudos empíricos, com método científico têm sido realizados ao redor do mundo desde a segunda metade do século XX e hoje já se sabe quais são os métodos e estratégias mais eficazes para alfabetizar crianças com ou sem dificuldades de aprendizagem. Mas, podemos ter esperança! Pesquisas na área da psicologia cognitiva apontam a superior eficácia do método fônico em relação ao método global, de modo que evidências científicas começam a ser levadas em consideração na Pedagogia. Avanços graduais têm ocorrido, ainda que vagarosamente, desde 2010 como o Relatório Novos Caminhos da Educação, Relatório do MEC – A criança de 6 anos na Educação de 9 anos, que reconhece a necessidade do treino da consciência fonológica e mais recentemente o Programa Nacional de Alfabetização na Idade Certa, traz metas mais claras para a alfabetização, bem como reforça a necessidade do treino fonológico. 30 Conheça mais sobre o assunto acessando: a) relatório final do grupo de trabalho alfabetização infantil: os novos ... in www2.camara.leg.br/atividade- legislativa/comissoes/...1/relatorio.../Relat_Final.pdf b) Os novos caminhos da alfabetização infantil – Memnon in https://memnon.com.br › c) Programa Nacional pela Alfabetização na Idade Certa – in PNAIC – Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa ... www.se.df.gov.br/pnaic-pacto-nacional-pela-alfabetizacao-na-idade-certa/ Caro(a) aluno(a): Nessa unidade você teve a oportunidade de conhecer as principais diferenças entre os métodos de alfabetização. Basicamente, viu que eles podem variar em relação ao (1) ponto de partida (do todo para as partes ou das partes para o todo), à (2) unidade mínima de análise (palavra, sílaba, letra ou fonema) e ao (3) tipo de estimulação (tradicional ou multissensorial). Através de um passeio pela história, você pôde perceber que o debate sobre os métodos de alfabetização não é algo novo, mas data do final do século XIX e início do século XX. Pôde fazer uma reflexão crítica sobre o Construtivismo, suas contribuições e equívocos e viu detalhadamente a Psicogênese da Linguagem Oral e Escrita. Hoje sabe-se que as evidências mais robustas referente aos métodos de alfabetização apontam para a superioridade do método fônico e multissensorial em relação ao método global de leitura. Contudo, vale lembrar do que Shakespeare nos aconselha em sua peça Hamlet: "As coisas em si mesmas não são nem boas nem más, é o pensamento que as torna desse ou daquele jeito". É perfeitamente possível ser um professor construtivista que se utilize de um método de alfabetização com evidência de sua eficácia. http://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/comissoes/comissoes-permanentes/ce/documentos-1/relatorio-de-atividades/Relat_Final.pdf http://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/comissoes/comissoes-permanentes/ce/documentos-1/relatorio-de-atividades/Relat_Final.pdf http://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/comissoes/comissoes-permanentes/ce/documentos-1/relatorio-de-atividades/Relat_Final.pdf Os%20novos%20caminhos%20da%20alfabetização%20infantil%20–%20Memnon%20in%20https:/memnon.com.br%20› Os%20novos%20caminhos%20da%20alfabetização%20infantil%20–%20Memnon%20in%20https:/memnon.com.br%20› 31 Esperamos que você tenha aprendido bastante. Pronto(a) para avançar no conhecimento? Então, vamos lá! Em 1986, a concepção construtivista se institucionaliza à nível nacional. O processo de aprendizagem passa a ser compreendido tão somente de acordo com a psicogênese da escrita. Inaugura-se então uma nova tradição, a da “desmetodização” e ênfase no aprendiz, a criança elabora hipóteses e constrói seu conhecimento. Décadas depois, o Brasil tem sistematicamente estado a baixo no ranking de leitura, mesmo quando comparado com países em situação socioeconômica igual ou inferior, estando na terceira pior posição em leitura entre 72 países avaliados pelo PISA (OCDE, 2016). Isso se deve em grande parte porque: a) Embora, o problema do fracasso escolar esteja de fato relacionado a questões sociais e de políticas públicas, como aponta o construtivismo, não deveria ter sido negligenciada a discussão sobre os métodos de alfabetização. b) As famílias mais carentes não têm condições de apoiar o trabalho que está sendo realizado pelo professor em sala de aula. c) Apesar do esforço em contextualizar a alfabetização, não tem sido significativo para as crianças aprender a ler e escrever, por causa do excesso de informatização. d) Os métodos analíticos de alfabetização, que partem do todo para as partes são os mais eficazes para o ensino da leitura e escrita. e) Os métodos analíticos de sintéticos, que partem da parte para o todo são os menos eficazes para o ensino da leitura e escrita. 32 Correta: A Comentário: Entender o fracasso escolar apenas em relação às políticas públicas e não discutir sobre os métodos de alfabetização, tem tido um efeito nefasto, pois evidencias de estudos empíricos apontam para a maior eficácia dos métodos sintéticos e multissensoriais, que foram duramente criticados e abolidos da escola com o construtivismo. 33 UNIDADE 2 MODELO COMPONENCIAL DE LEITURA I Prezado(a) aluno(a): Chegamos à Unidade 2. Para que você pudesse entende-la apresentamos, anteriormente, um breve histórico sobre os Métodos de Alfabetização. Agora, acreditamos que você esteja pronto(a) para, nesta unidade 2. Modelo Componencial de Leitura I, conhecer importantes conceitos que explicam como o cérebro processa as informações, definiremos o conceito de aprendizagem e as principais funções cognitivas envolvidas no processo da aprendizagem da leitura e escrita. Nesta unidade serão apresentados os modelos componenciais que buscam entender o desenvolvimento da leitura e escrita de forma ampla, evidenciando o papel de diferentes domínios: cognitivo, ecológico e psicológico. O objetivo principal desta unidade é auxiliá-lo a compreender que diferentes regiões ou circuitos neurais estão relacionados ao desenvolvimento de funções cognitivas específicas, tais circuitos são acionados simultaneamente no tratamento das mais diferentes informações. No momento de ler uma palavra ou um texto, por exemplo, diferentes regiões estão sendo acionadas. Deste modo, nesta unidade, você será introduzido às evidências científicas de como o nosso cérebro desenvolve a habilidade de leitura e escrita. Preparado(a)? Então vamos aos estudos! 2.1 Qual a importância da busca por evidências científicas? Quando dizemos que o ensino deva ser baseado em evidências científicas estamos nos referindo a sujeitar as nossas preposições teóricas à um rigoroso método cientifico, de preferência em estudos empíricos. Quanto maior o controle das variáveis, mais confiávelserá o dado da pesquisa. Suponha que temos dois tipos de remédios para aliviar a dor de cabeça e queiramos descobrir qual o mais eficaz. 34 Imagine ainda que, com base em outros estudos empíricos, podemos descobrir que idade e gênero interferem no efeito das drogas em questão. Fonte: https://cdn.universoracionalista.org/wp-content/uploads/2017/10/553499-636263962189968236-16x9- 1132x670.jpg A partir daí, podemos montar dois grupos com o mesmo número de homens e mulheres e com idades também semelhantes, essas seriam duas entre outras variáveis que o estudo deveria controlar. Controladas as variáveis, um dos grupos receberá a medicação X e o outro grupo receberá a medicação Y. Através de métodos que sejam os mais rigorosos e objetivos possíveis, será avaliado qual grupo indicou maior alívio das dores de cabeça e assim poderemos encontrar evidências de qual o medicamento é mais eficaz. Os debates sobre qual o tipo de método de alfabetização é mais eficaz são antigos, como pudemos ver aqui, mas isso não ocorreu apenas no Brasil. Nos Estados Unidos, por exemplo, no início do século XX ocorreram os mesmos debates entre defensores dos métodos analíticos (como o método global), até então predominante na pedagogia norte-americana e os métodos sintético (como o método fônico). https://cdn.universoracionalista.org/wp-content/uploads/2017/10/553499-636263962189968236-16x9-1132x670.jpg https://cdn.universoracionalista.org/wp-content/uploads/2017/10/553499-636263962189968236-16x9-1132x670.jpg 35 A partir da década de 1950 (SEABRA; DIAS, 2011) iniciam-se pesquisas que buscam evidências empíricas de qual seria a forma mais eficaz. Depois de quase 70 anos de estudos com rigor científico metodológico em diferentes partes do mundo, em diferentes momentos, com populações de culturas e níveis socioeconômicos diferentes, nos Estados Unidos e na Europa já não se discute mais sobre métodos de alfabetização. Mesmo nas escolas construtivistas, pois através de estudos empíricos, foram testadas diferentes teorias e om base nas evidências oriundas de tais estudos, já há muito tempo é possível assegurar quais teorias e métodos melhor explicar os fenômenos relacionados ao desenvolvimento, avaliação e intervenção para o desenvolvimento da leitura e escrita. Você já conhece um pouco da diversidade dos métodos de alfabetização. Viu a disputa histórica entre defensores de diferentes correntes, viu também a psicogênese da leitura e escrita, que ainda é a abordagem adotada atualmente no Brasil e em grande parte da América Latina. Agora, você vai conhecer alguns modelos que tentam explicar o que significa ser um leitor competente com base em evidências oriundas de pesquisas científicas ao longo de pelo menos 70 anos. 2.2 O que é linguagem? A linguagem é uma forma de comunicação que, ao combinar a organização de ideias em palavras, torna possível o entendimento de pensamentos mais abstratos em forma de fala, escrita ou gestos/ sinais (ALVAREZ et al., 2008; STERNBERG, 2008). Deste modo, envolve elementos linguísticos cujos significados correspondem a conhecimentos construídos socialmente, e está ligada à formação dos conceitos, à busca da compreensão e organização da realidade (ZORZI, 1993). Algumas características importantes para definir o conceito de linguagem são apontadas por Sternenberg (2008): Toda linguagem permite a comunicação entre os indivíduos de mesmo idioma; 36 A associação entre a palavra e seu significado não é analógica, esse é um erro que crianças no estágio pré-silábico, como observado por Ferreiro e Teberovisk, ainda cometem; É estruturada de forma a possuir unidades de som, significado, frases; Essa estruturação ocorre de maneira regular, isto é, de acordo com regras pré-determinadas suas unidades mínimas podem ser recombinadas; Outra característica se trata do fato de estar em permanente mudança; E, por fim, a possibilidade de criação de ilimitados enunciados por meio da recombinação de suas unidades. (STERNBERG, 2008). Percebemos que para que haja o domínio da linguagem, é necessário conhecer as regras de combinação entre seus elementos principais (sons em palavras, palavras em frases), os quais variam dependendo da cultura e do contexto, tanto para transmitir quanto para receber informações (GERBER, 1996; MORAIS, 1996). A linguagem pode ainda ser compreendida de acordo com 2 aspectos principais: (1) linguagem expressiva, que diz respeito à codificação (processo pelo qual é possível a conversão de ideias em sons ou sinais gestuais ou gráficos); e (2) linguagem receptiva, que se refere à decodificação (processo pelo qual é possível processar os estímulos recebidos e transforma-los novamente em ideias) (GAZZANIGA et al., 2006; GERBER, 1996; STERNBERG, 2008). As palavras são representadas e estocadas mentalmente incluindo suas respectivas informações: significado, estrutura, pronúncia, etc., que são tratadas por diferentes redes neurais. Tais redes são acionadas de forma independente e interligada pelo léxico mental (memória de longo prazo), sendo essencial para a compreensão e produção tanto da linguagem oral quanto da escrita (TREVISAN et al., 2012). Percebemos que embora a motivação do aluno, do professor, aspectos socioculturais e emocionais estejam envolvidos, não se pode reduzir o bom ou mau desenvolvimento da complexa habilidade de leitura somente a estes aspectos. O bom professor e psicopedagogo deve saber como o cérebro aprende, para então ser capaz de investigar as possíveis causas do não aprender. 37 2.3 Leitura Como já observado, diferentes abordagens têm tentado definir e explicar como se desenvolve a habilidade de leitura. Na neuropsicologia cognitiva também existem diferentes modelos que procuram explicar os processos cognitivos envolvidos na habilidade de leitura. Um dos modelos mais reconhecidos internacionalmente é o Simple View of Reading (SVR), de Gough e Tunmer (1986). Fonte: https://nova-escola- producao.s3.amazonaws.com/RHcwy6pHKhrpqEAzpejW5Dc56nuSJuJK96c8ZjypNVh4zD57vUycnW gwgCJX/img-2724.jpg De acordo com este modelo a Leitura Competente (LC), isto é, a leitura feita com compreensão, pode ser entendida como o produto da interação de processos de decodificação (D), habilidade de conversão de símbolos gráficos em sons, e de compreensão (C), uma habilidade geral, mais ampla e anterior à linguagem escrita propriamente dita, referente à compreensão da linguagem de forma geral (ROTTA; PEDROSO, 2016). Esta interação pode ser vista na equação: https://nova-escola-producao.s3.amazonaws.com/RHcwy6pHKhrpqEAzpejW5Dc56nuSJuJK96c8ZjypNVh4zD57vUycnWgwgCJX/img-2724.jpg https://nova-escola-producao.s3.amazonaws.com/RHcwy6pHKhrpqEAzpejW5Dc56nuSJuJK96c8ZjypNVh4zD57vUycnWgwgCJX/img-2724.jpg https://nova-escola-producao.s3.amazonaws.com/RHcwy6pHKhrpqEAzpejW5Dc56nuSJuJK96c8ZjypNVh4zD57vUycnWgwgCJX/img-2724.jpg 38 LC = D x C Na equação, cada uma das variáveis atinge um valor entre 0 (nenhuma competência) a 1 (competência plena). Se C = 0, LC = 0 a leitura não será competente, pois, por se tratar de uma equação de multiplicação, mesmo que um indivíduo possua boas habilidades de decodificação, ao falhar na compreensão linguística, implicará na não compreensão da leitura. Do mesmo modo, apenas a habilidade de decodificação não é suficiente para que haja leitura com compreensão, ou seja, se D = 0, o produto será zero, resultando na não compreensão da leitura, independentemente de quão satisfatórias estejam as habilidades de compreensão oral (GOUGH; TUNMER, 1986). A proposta do SVR é especialmente relevante ao auxiliar no entendimento e diagnóstico de alguns transtornos. Se a compreensão em leitura resulta da interação entre habilidades de decodificação e habilidades de compreensão oral, os transtornos podem ocorrerpelo menos por três diferentes motivos: uma inabilidade na decodificação, uma inabilidade na compreensão ou em ambas. Perceba outra vantagem dessa abordagem, elementos como conhecimento prévio e vocabulário, muito importantes na visão construtivista, estão embutidos no conceito de compreensão linguística, essa compreensão que é anterior à compreensão de leitura. Tais elementos podem e devem ser investigados e estimulados, o que não se pode é negligenciar os aspectos referentes à decodificação. Estudos mostram que a equação proposta pelo modelo SVR é um bom preditor não apenas da compreensão em leitura, mas também do desempenho acadêmico do 2º ano à universidade, o que evidencia que seus componentes, decomposição e compreensão, não são construtos simples (KIRBY; SAVAGE, 2008). Outros estudos apontam para evidências da interação de outras estratégias e habilidades cognitivas para além da decodificação e da compreensão linguística como essenciais no desenvolvimento da competência leitora (KIRBY; SAVAGE, 2008). A seguir, você conhecerá o Modelo Componencial da Leitura (Componential Model of Reading - CMR) e a descrição de seus principais componentes. 39 2.4 Modelo Componencial de Leitura Neste modelo a performance em leitura envolve diversos fatores divididos em três domínios: psicológico, ecológico e cognitivo. Cada domínio possui componentes específicos. O domínio psicológico se refere a questões do tipo motivação e interesse, estilos de aprendizagem, diferenças de gênero, entre outros. O domínio ecológico abrange componentes como o ambiente em casa, cultura, envolvimento parental, ambiente escolar, influência de pares e língua (JOSHI; ARON, 2012). Perceba que tais aspectos são muito importantes em abordagens construtivistas e, de fato, contribuem para o desenvolvimento da leitura competente. Referente ao domínio cognitivo, o modelo apresenta três componentes: (1) reconhecimento de palavras, que é uma ampliação do conceito de decodificação, (2) a compreensão linguística, que se refere ao entendimento tanto do material escrito quanto do oral. Como vimos, trata-se de um processo linguístico geral, independente de qual seja a modalidade da linguagem (DIAS; OLIVEIRA, 2013) e por fim (3) a fluência é apresentada como um terceiro componente (JOSHI, AARON, 2000). O Modelo Componencial, amplia e altera a equação proposta pelo Simple View os Reading (LC = DxC). O conceito de decodificação, passa a ser definido como reconhecimento de palavras (RP), por entender que a leitura embora aconteça por meio da conversão dos símbolos gráficos em sons, também ocorre por meio do reconhecimento visual direto (JOSHI; SHA TAO; AARON, 2012). Adicionalmente, os pesquisadores incluem a habilidade de fluência (F) aumentando a capacidade da equação de explicar o desenvolvimento da leitura competente e os possíveis mecanismos que possam estar prejudicados e necessitando de intervenção específica. Dessa forma, de acordo com o Modelo Componencial de Leitura, a relação entre os principais componentes cognitivos que explicam o desempenho em leitura passa a ser expressa pela seguinte equação: LC = RP x C + F. 40 Na próxima unidade detalharemos cada um dos três componentes principais referentes ao domínio cognitivo. Caro(a) aluno(a) Nessa unidade você pôde refletir sobre a importância de utilizarmos estratégias de avaliação e de intervenção que sejam baseadas em evidências científicas. Evidências científicas são importantes, pois através de um método rigoroso, podemos criar e testar hipóteses e verificar qual delas é a mais eficaz. Você viu como o cérebro processa a linguagem. Viu que as evidências apontam que ao tratar determinada informação, diferentes processos cognitivos acontecem simultaneamente de forma localizada e distribuída no cérebro. Conheceu o Modelo Componencial da Leitura que procura explicar os diferentes processos envolvidos no tratamento da informação lida. Referente ao domínio cognitivo o Modelo Componencial destaca 3 habilidades principais: reconhecimento de palavras, compreensão (linguística) e fluência. Esperamos que você esteja ansioso para conhecer melhor cada um desses componentes, pois esse será o tema da nossa próxima aula. Esperamos que você tenha aprendido bastante e que possa aplicar este conhecimento no seu dia-a-dia. 41 De acordo com o Modelo Componencial de Leitura, diferentes domínios interagem para que se desenvolva a leitura competente, a saber: a) Domínio cognitivo, natural e psicológico, sendo o psicológico o que está mais suscetível às intervenções escolares aplicadas pelo professor. b) Domínio educacional, físico e emocional, sendo o emocional o domínio que mais o professor é capacitado para atuar. c) Domínio natural, motor e social, sendo o social o domínio mais importante de ser abordado pelo professor. d) Domínio cognitivo, psicológico e ecológico, sendo o domínio cognitivo a área mais suscetível às intervenções escolares, na qual o professor é ou deveria ser melhor capacitado a atuar. e) Domínio cognitivo, psicológico e natural, sendo o natural o domínio mais importante para a prática da alfabetização. Correta: D Comentário: Não obstante à importância dos domínios ecológico e psicológicos, o enfoque dos estudos com base nos modelos componenciais se dá no domínio do domínio cognitivo. Sendo que as intervenções que podem ser feitas neste domínio podem ser realizadas no nível psicopedagógico e pedagógico de sala de aula. 42 UNIDADE 3 MODELO COMPONENCIAL DA LEITURA II Olá, aluno(a)! Chegamos à unidade 3, Modelo Componencial da Leitura II, e nela nos dedicaremos a compreender as três principais funções cognitivas que interagem para que ocorra a leitura competente, isto é, a leitura com compreensão. As pesquisas indicam que quando o professor e/ou psicopedagogo for capaz de identificar qual região específica não está funcionando corretamente, poderá então intervir de forma mais eficaz, rápida e barata! Vamos, então, conhecer estas funções executivas? 3.1 Uma visão mais abrangente Como dito anteriormente, neste modelo, o desempenho em leitura será consequência da interação de diversos fatores divididos em três domínios: psicológico, ecológico e cognitivo, como mostra a figura a seguir: Fonte: Próprio autor. 43 Não ignorando a importância dos aspectos relacionados aos domínios ecológico e psicológico, nesta unidade estudaremos com mais afinco as questões referentes ao domínio cognitivo. Entendemos que a formação pedagógica, por ser fortemente embasada em modelos teóricos sócio-construtivistas e sócio- interacionistas, já capacita o professor a observar e dentro das suas condições, muitas vezes intervir de maneira bem adequada diante dos diferentes fatores que integram os domínios ecológicos e psicológicos envolvidos no desenvolvimento da linguagem escrita. De acordo com o Modelo Componencial de Leitura, os principais componentes cognitivos que interagem para que ocorra a Leitura Competente (LC) são: Reconhecimento de Palavras (RP), Compreensão Linguística (C) e Fluência (F). Tal interação se expressa pela seguinte equação: LC = RP x C + F. Destaca-se que o fator F é especialmente relevante na discriminação de leitores mais velhos com ou sem dificuldades, sendo assim, um componente que vai ganhando mais importância com a progressão escolar. Na verdade, a habilidade de RP é especialmente importante no início da alfabetização, a partir do segundo ano a habilidade de C aumenta sua importância, seguida pela habilidade de F. A seguir, detalharemos cada um dos três componentes principais referentes ao domínio cognitivo. 3.2 Reconhecimento de Palavras O enigma da esfinge: “Decifra-me ou te devoro” pode ilustrar o que acontece com nossas crianças aoadentrarem o primeiro ano do ensino fundamental. As pesquisas apontam que o melhor momento para decifrar a relação entre letra e som, isto é, aprender a ler é aos 6 anos de idade, pois é o momento que o cérebro está mais plástico, isto é, o momento no qual esta habilidade seria melhor incorporada pelo processo maturacional do cérebro (NELSON, 2000). 44 Vemos Brasil à fora, crianças perdendo esse momento ótimo para a aprendizagem da leitura e escrita e sendo devoradas pelo sistema educacional e, posteriormente, muitos são excluídos e devorados pelo sistema social como um todo. Fonte:https://gramaticadomundo.blogspot.com/2015/07/o-brasil-diante-do-enigma-da- esfinge.html Para que ocorra a leitura competente, processos como o reconhecimento de palavras, ou seja: a decodificação, devem ser automatizados o quanto antes, de modo que os recursos mentais possam se dedicar às habilidades cognitivas mais complexas. É preciso ajudar as crianças a decifrar o significado das letras para que tenham acesso às demais áreas do saber que a escola e a sociedade letrada, na qual estão inseridos, oferece. Esse reconhecimento de palavras pode ocorrer por meio de dois processos cognitivos distintos, a saber, a decodificação, que ocorre por meio da rota fonológica, e o acesso direto ao léxico mental pela rota lexical (ELLIS; YOUNG, https://gramaticadomundo.blogspot.com/2015/07/o-brasil-diante-do-enigma-da-esfinge.html https://gramaticadomundo.blogspot.com/2015/07/o-brasil-diante-do-enigma-da-esfinge.html 45 1988). A decodificação fonética ou fonológica ocorre quando uma palavra pode ser lida por meio da conversão entre grafemas e fonemas, de forma que a leitura ocorre por meio da transposição dos símbolos gráficos em símbolos sonoros. Por meio da rota fonológica é possível realizar a leitura de palavras regulares, cuja correspondência grafofonêmica é transparente, como por exemplo na leitura da palavra “pato” não há dúvidas de que a pronúncia será /pato/, ao contrário de palavras irregulares como “táxi”, que pode ser lida de diversas formas como /tachi/, como /tazi/, como /tacsi/, entre outras. Ainda pela rota fonológica é possível ler pseudopalavras (palavras inventadas com combinações de letras possíveis na língua materna, porém sem significado) como, por exemplo, “xavanco”, uma vez que nas pseudopalavras não há uma pronúncia prévia especificamente determinada mesmo quando há irregularidades grafofonêmicas (SEABRA; CAPOVILLA, 2010). Este processo de decodificação é apontado como habilidade primária principalmente em idiomas cuja correspondência letra/som é mais transparente, como o alemão, o italiano (KIRBY; SAVAGE, 2008) e o português, o qual, apesar de possuir algumas irregularidades, também é um idioma razoavelmente regular (MONTIEL, 2008). Por meio da rota lexical, o leitor identifica a palavra por acesso direto ao léxico ortográfico, (conjunto das formas escritas de palavras que se encontra armazenado na memória de longo prazo). Tal processo de reconhecimento permite a leitura correta de palavras conhecidas e de alta frequência (como “pássaro” ou “carro”), mas não a leitura de pseudopalavras ou palavras novas, uma vez que suas formas ortográficas não foram memorizadas, isto é, não foram armazenadas no léxico ortográfico do leitor (SEABRA; CAPOVILLA, 2010). Estudos da neuropsicologia com pacientes que sofreram lesões cerebrais contribuem com fortes evidências que endossam a existência das duas vias de leitura, ou seja, duas circuitarias neurais específicas que atuam no reconhecimento das palavras. Determinados pacientes, que eram leitores proficientes, após determinada lesão cerebral perdem a capacidade de pronunciar palavras raras, mas regulares, e, sobretudo, palavras novas ou pseudopalavras. Contudo, mantêm boa capacidade de reconhecimento de palavras mais frequentes, mesmo as mais 46 irregulares. Tal quadro conhecido como “dislexia profunda” ou “dislexia fonológica” aponta para a integralidade dos circuitos neurais relacionados à rota lexical e prejuízo da circuitaria neural relacionada à rota fonológica (DEHAENE, 2012). O quadro oposto também acontece, após determinada lesão, o paciente anteriormente proficiente em leitura, precisa ler em voz alta as palavras para compreendê-las. Tais pacientes são capazes de ler palavras regulares e mesmo palavras novas ou pseudopalavras, contudo, por terem prejuízo nos sistemas neurais responsáveis pela rota lexical, falham na leitura de palavras irregulares, mesmo palavras muito frequentes como a palavra táxi, tenderá a ser lida como /tachi/ evidenciando o uso da rota fonológica e não o da rota lexical. A esse quadro, em que o paciente deixa de acessar as palavras por meio da rota léxica, chamamos de dislexia de superfície. (DEHAENE, 2012; MACEDO, 2005). Figura 1 – Modelo de processamento da linguagem escrita (adaptado de DEHAENE, 2012) 47 Outro modelo importante para compreensão de como ocorre o reconhecimento de palavras é proposto por Uta Frith (1985) e propõe que o reconhecimento de palavras aconteça por meio de três estratégias: logográfica; alfabética; e ortográfica (DEHAENE, 2012). De acordo com Frith (1985), no início da aquisição da leitura e escrita, a primeira estratégia utilizada pela criança é a estratégia logográfica. Por meio dela, mesmo crianças em idade pré-escolar já são capazes de reconhecer símbolos escritos com os quais estão familiarizadas, como seu próprio nome, algumas marcas publicitárias de produtos, nomes de estabelecimentos, entre outros. Entretanto, a criança ainda não compreendeu a lógica da escrita (DEHAENE, 2012). Essa estratégia está relacionada às hipóteses pré-silábicas como descrito pela psicogênese da leitura e escrita. Contudo, se trata de uma pseudoleitura, a criança pensa estar lendo, mas esta “leitura” está baseada no reconhecimento de pistas visuais, não-alfabéticas, provenientes do contexto no qual a palavra aparece ou por pistas provenientes da própria palavra, como o tipo de traço, tamanho, a cor, a letra inicial ou grupo de letras, e quando da ausência de tais pistas contextuais, a palavra tende a não ser reconhecida (FRITH, 1985). Através da estratégia logográfica os símbolos gráficos são percebidos como uma imagem única, como se fossem um desenho, recebendo um tratamento puramente visual. Por isso, quando utiliza a estratégia logográfica, considera-se que a criança se encontra numa fase de pré-leitura, visto que as palavras escritas não são tratadas propriamente como um código alfabético. Ainda que esta estratégia lhe permita reconhecer a palavra de um rótulo conhecido, se as letras forem trocadas a tendência é de que a criança não perceba a diferença desde que o contexto e a forma visual permaneçam iguais aos da palavra original (CAPOVILLA, 2005; FRITH, 1985). Assim, a leitura logográfica não permite o reconhecimento de palavras novas, pois limita-se à leitura de palavras cujas características contextuais e visuais específicas foram previamente armazenadas na memória. Ao deparar-se com palavras novas, a criança tenderá a lê-las substituindo-as por palavras conhecidas 48 de aspecto visual geral parecido, especialmente com a mesma letra inicial e de tamanho semelhante (SEABRA; CAPOVILLA, 2010). Ao utilizar a estratégia alfabética, a criança compreende que a escrita é o mapeamento da fala, equivalente à hipótese silábica com e sem valor sonoro. Como consequência, erros de regulação grafofonêmica são comuns, uma vez que a criança começa a escrever de acordo como se expressa por meio da fala, por exemplo, ela pode escrever a palavra casa com z em vez de s, ou ler a palavra máximo como /máchimo/ (FRITH, 1985). Este tipo de erro é esperado quando a criança está utilizando a estratégia alfabética, uma vez que o reconhecimentode palavras ocorre por meio da decodificação (CAPOVILLA, 1999). Por meio deste processo de mediação fonológica a criança aprende a decodificar os grafemas em classes de sons (DEHAENE, 2012) e aplica o princípio alfabético, o qual pressupõe duas habilidades: consciência fonológica e conhecimento das regras de correspondências grafofonêmicas (SEABRA; CAPOVILLA, 2010). A consciência fonológica representa uma verdadeira revolução mental no cérebro da criança, se refere à descoberta de que a fala pode ser decomposta em pedaços, como palavras, sílabas e fonemas, os quais podem ser recombinados para formar novas palavras e frases. O desenvolvimento da consciência fonêmica é o ponto máximo do desenvolvimento fonológico e, contrário ao que muitos pensam, não é automático, só é alcançado por meio do ensino explicito de um código alfabético (DEHAENE, 2012). Já na leitura alfabética o sujeito faz a análise das palavras em seus componentes (letras e fonemas) e tem aptdão na utilização das regras de correspondência entre letras e seus respectivos sons (SEABRA; CAPOVILLA, 2010). São inúmeras as evidências na literatura de que, quão mais capaz de manipular conscientemente o fonema, mais depressa a criança aprende a ler. Outro fato importante, e muitas vezes negligenciado pela escola, especialmente as que adotam o método global, é que já se sabe que a aprendizagem da leitura progride do mais simples para o mais complexo (DEHAENE, 2012). Desenvolver bem a rota fonológica, ajudando o aluno a utilizar a estratégia alfabética através de jogos e brincadeiras que auxiliem o aluno a pensar de forma explícita sobre os sons da fala é importante, pois no início da aquisição da 49 competência leitora as crianças realizam de forma sistemática a leitura por meio da rota fonológica (CAPOVILLA, GUTSCHOW E CAPOVILLA, 2002). O desenvolvimento desta estratégia permitirá ao indivíduo ler palavras novas e regulares, mas além disso, leitura por meio da rota fonológica tem se mostrado precursora da habilidade de reconhecimento pela estratégia ortográfica (SEABRA; CAPOVILLA, 2010). Ao dominar a estratégia alfabética, a criança passa a reconhecer as palavras por meio de unidades ortográficas sem necessidade da mediação do processamento fonológico. As unidades ortográficas são os morfemas e as palavras. Por meio da estratégia ortográfica, ao deparar-se com um item escrito, a criança o identifica por acesso direto ao léxico ortográfico, o conjunto das formas escritas de palavras que se encontra armazenado na memória de longo prazo (FRITH, 1985), permitindo a leitura correta de palavras regulares ou irregulares conhecidas e de alta frequência (SEABRA; CAPOVILLA, 2010). Com o desenvolvimento da rota lexical (ELLIS; YOUNG, 1988), a leitura poderá ser feita de modo eficaz através do reconhecimento visual direto dos itens que já tenham suas formas pré-armazenadas na memória de longo prazo, mas não permite a leitura de itens novos ou pseudopalavras, ou seja, sempre que for apresentada uma palavra nova ou muito de baixa frequência, mesmo o sujeito proficiente em leitura, utilizará a rota fonológica para reconhecer a palavra (SEABRA; CAPOVILLA, 2010; FRITH, 1985). O cérebro armazena milhares de estatísticas sobre a frequência do uso de códigos cada vez mais compactos das palavras, apresentando de uma só vez o conjunto de suas letras (bigramas, sílabas, morfemas). Vale ressaltar mais uma vez que, dificuldades na estratégia alfabética podem levar a dificuldades no desenvolvimento da estratégia ortográfica, e dificuldades em ambas as estratégias conduzem a dificuldades consistentes em compreensão de leitura; por outro lado, dificuldades na estratégia ortográfica podem permitir uma leitura com razoável compreensão, mas mais lenta devido à necessidade de processos de decodificação (OLIVEIRA et al., 2014). 50 3.3 Habilidade de Compreensão Linguística Vamos retomar agora o modelo SVR de Gough e Tunmer (1986) e o CMR de Aaron et al. (2008), você deve se lembrar que além da habilidade de reconhecimento de palavras (RP), para que o aluno desenvolva uma leitura competente (LC), isto é, que compreenda e seja capaz de fazer inferências através do texto lido, é necessária também a compreensão linguística (C), aquela compreensão mais geral, que se trata de compreender o que é dito (ROTTA; PEDROSO, 2016). Fonte: http://blog.livrarialoyola.com.br/2018/05/10/8-motivos-para-voce-se-apaixonar-pela- leitura/ Essa compreensão envolve habilidades como vocabulário, sintaxe, morfologia, semântica, habilidade de gerar inferências e de construir esquemas mentais, dentre outras habilidades verbais (KIRBY; SAVAGE, 2008). Podemos averiguar esta habilidade fazendo perguntas oralmente a respeito de passagens apresentadas também oralmente, ou podemos utilizar testes de vocabulário (KERSHAW; SCHATSCHNEIDER, 2010), pois essa habilidade está fortemente correlacionada à compreensão. http://blog.livrarialoyola.com.br/2018/05/10/8-motivos-para-voce-se-apaixonar-pela-leitura/ http://blog.livrarialoyola.com.br/2018/05/10/8-motivos-para-voce-se-apaixonar-pela-leitura/ 51 Você sabia que, por volta dos 5 ou 6 anos de idade, quando a criança começa a ler, a criança já tem as regras e representações relacionadas à linguagem oral bem desenvolvidas, mesmo que de forma intuitivamente? Essas regras e representações se encontram presentes num conjunto organizados de circuitos neurais da fala prontos para serem confrontados com a escrita (DEHAENE, 2012). Mas claro, para que a criança aprenda a ler de forma competente, além da compreensão linguística de modo amplo, ocorre no cérebro dela a interação de outras habilidades não verbais como memória, atenção, capacidade de integração dos significados das palavras, estratégias para compreensão de textos (DIAS; OLIVEIRA, 2013; MORAIS et al., 2013). Diversos estudos apontam a importância da memória de trabalho, por exemplo (PICCOLO; SALLES, 2013). O modelo de compreensão de textos desenvolvido por Kintsch e Van Dijk (1978), mostra que o processamento do texto acontece em ciclos, chamados de microestruturas, que correspondem, aproximadamente, a uma frase. Destes ciclos, a essência do texto, chamada de macroestrutura, vai sendo extraída e mantida na memória episódica junto com os itens finais de cada ciclo. Assim sendo, a compreensão é entendida como um processo de elaboração de uma representação macroestrutural, ou seja, da essência do que é lido do texto, a partir de sua microestrutura, das frases e sentenças que vão sendo lidas, envolvendo a capacidade de realizar inferências. E você sabe o que quer dizer ser capaz de inferir? É a capacidade de estabelecer relações capazes de preencher mentalmente as informações deixadas implícitas num texto (OAKHILL; CAIN, 2006). Porém, como dissemos, além de memória, habilidades linguísticas gerais e conhecimento prévio também irão influenciar na compreensão (SUEHIRO, 2008; SALLES, 2004; CORSO, et al., 2015). É necessário ser que o sujeito seja capaz de recuperar o vocabulário e do conhecimento prévio e relaciona-los às novas informações trazidas pelo texto para que ocorra a construção da compreensão textual (SUEHIRO, 2008). A literatura ainda aponta que, além dos fatores cognitivos, como proposto pelo Modelo Componencial questões próprias do texto, como a estrutura e o tipo de vocabulário, além de características do sujeito, como interesse pelo assunto e 52 conhecimento prévio influenciaram a compreensão (SUEHIRO, 2008). Assim sendo, o tipo de gênero textual também pode influenciar a compreensão, pois repare que o texto narrativo exige apenas um conhecimento geral de mundo e o texto expositivo, além desse conhecimento, requer certo grau de conhecimento prévio acerca do assunto abordado pelo texto (CORSO et al., 2015). Você sabia que uma das maneiras maiseficazes e utilizadas para avaliar a compreensão de leitura é a técnica de Cloze proposta por Taylor em 1953 (SHUEHIRO, 2008)? Trata-se de uma tarefa simples que a maioria dos professores já utilizou alguma vez. Consiste em organizar um texto do qual se retira algumas palavras e se pede ao leitor que, após ler o texto inteiro, preencha os espaços com as palavras que melhor completarem o texto. Existem vários tipos de Texto na técnica Cloze, os critérios mais frequentes na omissão das palavras costumam ser: a eliminação de todo quinto, sétimo ou décimo vocábulo, retirando adjetivos, substantivos, verbos, entre outras categorias gramaticas, ou ainda na eliminação aleatória de 20% dos vocábulos do texto. Geralmente o teste é feito por escrito, a palavra omitida pode ser substituída por um traço de tamanho sempre igual (SUEHIRO, 2008) ou proporcional ao tamanho do vocábulo, nesse caso o tamanho do traço seria uma dica do tipo de palavra que está faltando. É possível estruturar diferentes tipos de texto em formato Cloze, por exemplo: no Cloze lexical somente itens lexicais são omitidos do texto; no Cloze gramatical são omitidos itens relacionais (preposições, conjunções, entre outros); no Cloze de múltipla escolha são oferecidas múltiplas alternativas para o preenchimento da lacuna; e por fim. Porém há evidências de que o Cloze convencional (que omite sempre o quinto vocábulo, independente da classe gramatical) indique com maior consistência o grau de maturidade do leitor (SHUEHIRO, 2008). 53 Perceba quantas habilidades cognitivas, quantos circuitos neurais estão envolvidos e sendo ativados simultaneamente para que ocorra a leitura competente. É como uma orquestra onde cada músico cumpre uma pequena parte na construção de toda a sinfonia. Por isso é tão importante a automatização da leitura, pois permitirá o redirecionamento de recursos cognitivos, que são limitados e acontecem no mesmo palco da mente, na memória de trabalho. Ao sobrar espaço na memória de trabalho é possível redirecionar os recursos cognitivos para tarefas mais complexas como a compreensão do que é lido (JACOBSON, et al., 2012). Uma importante habilidade que auxilia nessa “economia” de recursos cognitivos é a fluência e será discutida a seguir. 3.4 Habilidade de Fluência Recentes pesquisas apontam para a importância da velocidade de processamento, que costuma ser definida como a velocidade necessária para completar certas tarefas com de forma razoavelmente correta, ou seja, com razoável acurácia (JACOBSON et al., 2012). Podemos dizer que, de forma mais específica a fluência tem sido apontada como um terceiro componente do domínio cognitivo a ser analisado no Modelo Componencial da Leitura, além dos processos de reconhecimento de palavras (RP) e compreensão linguística (C). Muitos estudos apontam que a fluência está fortemente correlacionada com a compreensão de texto (FUCHS et al., 2001). A fluência em leitura é um conceito definido de diferentes formas pelos estudiosos. Alguns a entendem como o resultado da qualidade da leitura oral de palavras isoladas e no texto, podendo ser avaliada por meio de medidas de precisão, prosódia e taxa de leitura; outros estudiosos a definem como o resultado do desenvolvimento da precisão e da automaticidade em cada um dos componentes linguísticos relacionados à leitura; e, por fim, alguns definem a fluência em leitura como o resultado da interação de diferentes sistemas biológicos e cognitivos, 54 salientando sempre a velocidade de processamento (NAVAS; PINTO; DELLISA, 2009). Fonte: https://evernote.com/blog/wp-content/uploads/2018/01/Untitled-design-5.png E o que seria a prosódia? Define-se como prosódia a capacidade de ler respeitando a pontuação, com expressão e entonação adequadas (KUHN; SCHWANENFLUGEL; MEISINGER, 2010). Tudo indica que ela desempenha um importante papel na organização e manutenção da informação na memória de trabalho por meio de funções semânticas e pragmáticas (HEROLD; NYGAARD; NAMY, 2011). A prosódia tem sido associada não só à fluência, mas também à compreensão de leitura (BREEN, 2014). Você já viu alguém que não respeita às vírgulas ao ler um texto? Perceba como isso pode mudar totalmente o significado da frase. Situação 1: “Maria vai com as outras”. https://evernote.com/blog/wp-content/uploads/2018/01/Untitled-design-5.png 55 Situação 2: “Maria, vai com as outras”. Na primeira situação eu estou falando da Maria. Estou dizendo que Maria vai com as outras, ou seja, que ela é uma pessoa sugestionável, que não pensa por si só e segue, quase sempre, a opinião dos outros. Na segunda situação é um vocativo. Indica que eu estou falando com a Maria. Podemos imaginar um contexto onde a garota está fora da fila e eu me dirijo e digo para ela ir com as outras crianças que já entraram na fila, ou podemos imaginar um contexto onde estamos dividindo as crianças em grupos por algum motivo e eu digo para alguém que a Maria vai com as outras “crianças”, me referindo a um outro grupo. Perceba que se na hora da leitura a criança ignorar as vírgulas, por exemplo, isso mudará o ritmo, a entonação a velocidade e consequentemente a compreensão do que é lido. Por isso a habilidade de fluência deve ser avaliada e estimulada de forma intencional e explícita. Estudos evidenciam que embora um leitor possa ter boa habilidade pra reconhecer as palavras, ou seja, ele lê corretamente, ainda assim pode apresentar dificuldades na compreensão de leitura consequentes da baixa velocidade, de modo que a compreensão em leitura estaria ao menos em parte dependente da automatização do RP (JACOBSON et al., 2012). Já viu aquele aluno que lê corretamente, mas silabando algumas palavras, talvez ele já tenha aprendido a decodificar corretamente, mas isso ocorre de modo muito devagar e por isso ele não compreende o que lê. Há muitas evidências de que problemas de fluência talvez estejam relacionados a dificuldades de automatização de processos cognitivos, não somente na leitura. Ou seja, é possível que sujeitos com dificuldades de automatização não consigam processar unidades menores de palavras cada vez maiores, embora possuam habilidades para decodificar as palavras de maneira correta, não conseguem automatizar a leitura. Deste modo, a leitura torna-se lenta e cansativa pois, sem automatização, o processamento fica sobrecarregado por demandar muitos recursos cognitivos, 56 resultando que dificilmente ocorrerá a compreensão do material lido (DIAS; SEABRA; MONTIEL, 2014). Pense em um smartphone ou computador com muitas telas abertas ao mesmo tempo. O que acontecerá? A memória do computador ficará sobrecarregada e alguns programas vão falhar. Automatizar processos significa “fechar os programas”, não deixar tantas “janelas” abertas, assim o sistema utiliza o espaço de memória para o programa ou aplicativo que se deseja no momento. No nosso caso, seria para conseguir compreender. Na medida em que menos esforços mentais e recursos atencionais são requeridos no processo de reconhecimento das palavras, a leitura torna-se mais automatizada, permitindo que a capacidade mental se dedique para tarefas mais complexas como o significado do texto (JACOBSON, et al., 2012). ` É importante saber avaliar e depois intervir na habilidade de fluência especialmente para ajudar a discriminar entre bons e maus leitores mais velhos (DENTON et al., 2011; TORGESEN et al., 1999), principalmente em ortografias mais transparentes, como o nosso Português, em que as relações grafofonêmicas tendem a ser mais regulares (AARON et al., 1999). Então, o Modelo Componencial, ao acrescentar a habilidade de Fluência à formula proposta pelo SVR, aumenta muito a sua capacidade preditiva em relação ao desempenho de leitura. Isso significa que ao aplicarmosteste de compreensão linguística, de reconhecimento de palavras e de fluência, teremos um quadro muito mais próximo ao desempenho real, isto é, no dia a dia do indivíduo. A fórmula revisada passa a ser: LC = RP x C + F No dia a dia você não fará essa equação, mas é importante saber o caminho pelo qual os cientistas conseguem inferir o peso de cada diferente processo cognitivo para a leitura. Como dito anteriormente, existem outros processos necessários que acontecem ao mesmo tempo, mas sabendo avaliar e intervir 57 nessas 3 principais habilidades, você já conseguirá resolver a maior parte dos problemas. De acordo com Denton et al. (2011), medidas de fluência ajudam na diferenciação dos alunos que precisam de suporte especial. Por exemplo, quando você tem alunos mais velhos que apresentam dificuldades de decodificação e com leitura de textos muito lenta você poderá fazer intervenções voltadas tanto para as habilidades relacionadas ao reconhecimento das palavras quanto para compreensão de leitura, Se você se depara com estudantes com desempenho em fluência abaixo da média, mas com boas habilidades de reconhecimento de palavras, sabe que eles poderiam se beneficiar de intervenções voltadas à fluência por meio de instrução explícita para atentar à velocidade de leitura e promovê-la durante exercícios de compreensão de leitura. Já se os estudantes que você está intervindo leem textos com níveis de fluência apropriados ao seu nível escolar, mas ainda assim persistem em dificuldades de compreensão de leitura, se beneficiariam de intervenções no voltadas para a compreensão, incluindo conhecimento verbal (vocabulário), conhecimento de sintaxe e o uso de significado implícitos no texto a partir de inferências (DENTON et al., 2011). Na próxima unidade falaremos mais sobre a importância da avaliação, bem como sobre alguns dos principais instrumentos normatizados e validados cientificamente para avaliação dos componentes de leitura. Também discutiremos sobre formas de intervenção e de alfabetização! Prezado(a) Aluno(a): Na unidade 3, Modelo Componencial da Leitura II, você viu de forma detalhada as três principais funções cognitivas que interagem para que ocorra a leitura competente, isto é, a leitura com compreensão. 58 A unidade destacou a importância da habilidade de reconhecimento de palavras, que pode ser realizado por meio da rota fonológica, quando ocorre a decodificação ou pela rota lexical, por meio do reconhecimento visual direto da palavra, quando esta já foi armazenada na memória de longo prazo. Viu também que, embora seja importante a habilidade de reconhecimento de palavras, sozinha ela não resultará em uma leitura competente, pois para ler com compreensão é necessário a interação da habilidade de compreensão linguística, que se refere a uma habilidade mais geral, se refere à compreensão do que é dito. Além disso, viu a importância da habilidade de fluência, definida por Fletcher como a velocidade e acurácia na leitura de palavras e textos. Deste modo, você pôde perceber que a leitura competente pode ser expressa pelo resultado da interação desses três fatores: Reconhecimento de Palavras, Compreensão e Fluência. As pesquisas indicam que quando o professor e/ou psicopedagogo for capaz de identificar qual região específica não está funcionando corretamente, poderá então intervir de forma mais eficaz, rápida e barata! Por isso, na próxima unidade conversaremos sobre avaliação e intervenção em cada um desses componentes específicos de leitura. Tudo certo com os conteúdos desta Unidade? Então vamos adiante! De acordo com o Modelo Componencial de Leitura, os principais componentes cognitivos que interagem para que ocorra a Leitura Competente (LC) são: Reconhecimento de Palavras (RP), Compreensão Linguística (C) e Fluência (F). Podemos afirmar que: a) A Compreensão Linguística se refere à compreensão de textos. 59 b) Que a Compreensão linguística se refere a compreensão da linguagem de forma geral e o Reconhecimento de Palavras é um termo sinônimo da habilidade de decodificação. c) O Reconhecimento de Palavras pode ocorrer tanto pelo processo de decodificação, quanto pelo reconhecimento visual direto, por meio do acesso ao léxico mental (memória de longo prazo). d) Quando o aluno lê por meio da rota fonológica ele está reconhecendo a palavra de forma automática, pois esta já foi armazenada em seu léxico mental. e) Quando o aluno lê pela rota lexical, significa que está sendo acionado os neurônios responsáveis pelo processo de decodificação. Correta: C Comentário: Estudos da neuropsicologia com pacientes que sofreram lesões cerebrais contribuem com fortes evidências que endossam a existência das duas vias de leitura, ou seja, duas circuitarias neurais específicas que atuam no reconhecimento das palavras. Determinados pacientes, que eram leitores proficientes, após determinada lesão cerebral perdem a capacidade de pronunciar palavras raras, mas regulares, e, sobretudo, palavras novas ou pseudopalavras. Contudo, mantêm boa capacidade de reconhecimento de palavras mais frequentes, mesmo as mais irregulares. Tal quadro conhecido como “dislexia profunda” ou “dislexia fonológica” aponta para a integralidade dos circuitos neurais relacionados à rota lexical e prejuízo da circuitaria neural relacionada à rota fonológica (DEHAENE, 2012). 60 UNIDADE 4 AVALIAÇÃO E INTERVENÇÃO DE LEITURA Chegamos à 4ª unidade da disciplina Cognição e Desenvolvimento da Linguagem oral e Escrita, onde iremos estudar os processos de Avaliação e Intervenção em Leitura. Nesta unidade falaremos um pouco sobre a importância da avaliação, bem como de algumas das principais formas de intervenção dos componentes da leitura. Espera-se que, ao chegar nessa unidade você já tenha compreendido quais são as principais funções cognitivas que estão relacionadas ao desenvolvimento da leitura e escrita e esteja se perguntando como avaliar e identificar o bom ou mau desenvolvimento de cada uma delas. Apresentaremos os instrumentos de avaliação dessas habilidades com bons critérios psicométricos que podem ser utilizados tanto pelo psicopedagogo na clínica quanto pelo professor em sala de aula. De igual modo, apresentaremos as estratégias de intervenção com a maior evidência de eficácia. Pronto(a) para começar? Então, vamos aos estudos! 4.1 Avaliação Agora, falaremos um pouco sobre a importância da avaliação dos componentes cognitivos relacionados à leitura bem como de algumas das principais formas de intervenção dos componentes da leitura. Com base em tudo o que estudamos até aqui, você já entende a importância de avaliar os diferentes processos cognitivos e habilidades que interagem resultando na complexa competência de leitura (DIAS; SEABRA; MONTIEL, 2014). Avaliar, no contexto psicopedagógico, é um processo de investigação das possíveis causas do mal desempenho em leitura e escrita. 61 Fonte: https://www.definicionabc.com/wp-content/uploads/general/Investigar-3-410x273.jpg Como já percebemos até aqui, o não aprender a ler ou escrever do modo esperado para a idade é apenas um sintoma. Sua causa pode estar em relação às dificuldades no reconhecimento de palavras, na compreensão linguística, na fluência e ainda pode estar relacionado à outras questões cognitivas como atenção e memória, sem esquecer dos domínios ecológicos e psicológicos. No que tange ao domínio cognitivo, existem, inclusive no Brasil, instrumentos de avaliação dessas funções para auxiliar o professor ou psicopedagogo na identificação das causas do não aprender. Como indicado na literatura científica, quando identificamos qual habilidade está deficitária, podemos intervir nessa habilidade específica e melhorar de forma mais rápida e eficaz a habilidadede leitura como um todo (JOSHI; AARON, 2012). Não adianta aplicar uma intervenção focada em velocidade de leitura a um aluno com dificuldade de compreensão, nem uma atividade que estimulasse a compreensão, como o vocabulário por exemplo, se o problema do aluno é fluência. https://www.definicionabc.com/wp-content/uploads/general/Investigar-3-410x273.jpg 62 O problema é que no Brasil temos poucos instrumentos validados para a avaliação da compreensão leitura e seus componentes tanto no contexto clínico e de pesquisa quanto escolar (CORSO et al., 2015; JOLY, 2006). Você até pode encontrar alguns testes nacionais, mas dentre o que temos você encontrar muitos que não apresentam normas de referência, ou seja, impossibilita a comparação dos desempenhos avaliados, você aplica o teste, mas não sabe dizer se o desempenho do sujeito foi bom ou ruim. Outros testes, embora possuam normas de referência, não passaram por um processo de validação que comprovem o quanto podemos confiar que o resultado do teste se refere de fato à habilidade real que ele se propõe a avaliar. Outros testes ainda não possuem nem normas, nem dados de confiabilidade (KIDA; CHIARI; ÁVILA, 2010). Precisamos, como psicopedagogos, de instrumentos que ao passarem por esse processo de validação, nos forneçam dados de como estão os mecanismos cerebrais subjacentes à realização de determinadas tarefas. Isso orientará nossa intervenção e nos tirará da subjetividade. Existem instrumentos neuropsicológicos que não são restritos à psicologia e deveriam ser mais utilizados pelos professores. Afinal, a avaliação neuropsicológica cognitiva consegue fornecer informação sobre os processos e mecanismos subjacentes ao desempenho do indivíduo (SEABRA; CAPOVILLA, 2009), pois partem da premissa de que sujeitos com diferentes características psicológicas responderão o mesmo teste de formas diferentes, por isso o desempenho nos testes servirá como fonte de conhecimento dessas características (PRIMI; MUNIZ; NUNES, 2009). É por isso, que ao aplicar um teste adequadamente validado você será capaz de identificar processos cognitivos específicos que estejam comprometidos ou pouco desenvolvidos. Deste modo, como qualquer ferramenta psicológica, os testes neuropsicológicos, que podem e devem ser utilizados nas escolas, devem apresentar propriedades psicométricas adequadas relativas a quatro aspectos principalmente: padronização, normatização, evidências de validade e precisão (URBINA, 2007). Apresentar estas características é o que faz destes testes uma 63 importante ferramenta nas mãos de professores, psicopedagogos e outros terapeutas. O processo de padronização se refere à uniformidade de procedimentos importantes na aplicação, avaliação e interpretação de um teste psicológico. Objetiva que todos que sejam avaliados por uma tarefa a façam da mesma forma. É um processo que busca eliminar qualquer viés que possa afetar os resultados (URBINA, 2007). Já a normatização de um instrumento psicológico caracteriza-se pela comparação do escore, isto é, da pontuação, de uma pessoa em determinado teste em relação a pontuação de determinado grupo de referência, com base em série escolar, idade, entre outros. Essa característica permite que o avaliador interprete em que posição ou categoria de desempenho (baixo, médio ou alto, por exemplo) determinada pessoa se encontra em relação ao seu grupo de referência (URBINA, 2007). A validade de um teste se refere a sua capacidade de avaliar a habilidade a qual se propõe avaliar. Vamos pensar num exemplo escolar. Imagine que queremos saber o quanto os alunos estão absorvendo do conhecimento sobre o conteúdo de biologia, para isso, desenvolvemos uma avaliação, mas no momento da correção vamos descontando pontos por causa de erros ortográficos cometidos pelo aluno. Podemos confiar que este teste é válido para avaliar os conhecimentos de ciências dos alunos? Não. Um teste construído dessa maneira, não é valido para avaliar o conhecimento de ciências, pois alunos com dificuldade em português terão sua pontuação rebaixada mesmo que tenham compreendido todo o conteúdo das aulas. Não dá para avaliar o conhecimento de inglês, aplicando uma prova de espanhol! Bons instrumentos de avaliação terão boas evidências de validade que serão obtidas por meio de um processo de investigação contínuo que envolve várias etapas de análises tanto do conteúdo dos itens que compõem o instrumento, quanto das relações da pontuação nele obtida com outros testes que medem a mesma habilidade, e da sua capacidade de predizer comportamentos a partir de seu desempenho no teste. Tais evidências garantirão qual construto o instrumento 64 psicológico avalia e o quão bem o faz será uma evidência de precisão (PRIMI; MUNIZ; NUNES, 2009). Imagine que você possa investigar se a temperatura corporal da sua criança está dentro ou não do normal, isto é, do esperado para seres humanos, pois outras espécies podem sobreviver com temperatura média diferente da do ser humano. Você pode medir essa temperatura colocando a mão ou os lábios sobre a testa da criança. Agora imagine que você tem um termômetro, você tem uma ferramenta que te dará uma informação mais precisa, você saberá se sua criança está dentro da temperatura normal, ligeiramente febril, com febre ou com febre muito alta. Isso vai te orientar a tomar as devidas providências, desde um banho, um remédio ou a levar a criança para o hospital. Acontece a mesma coisa ao utilizarmos instrumentos com boas características psicométricas para avaliação das habilidades de leitura. 4.1.1 Montando um protocolo É importante que você, futuro psicopedagogo, seja capaz de a partir da queixa apresentada, saiba construir um protocolo de avaliação no qual você utilizará instrumentos validados, adequados a demanda. Na tabela a seguir damos algumas dicas sobre alguns instrumentos para avaliação de alguns componentes específicos de leitura. Quadro 1. Instrumentos de avaliação disponíveis no Brasil Instrumento Componentes avaliados Público-alvo Técnica Cloze Compreensão de leitura. Escolares a partir do 2o ano do Ensino Fundamental até adultos 65 Teste de Desempenho Cognitivo- Linguístico – versão individual. Fluência Escolares do 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental Avaliação dos Processos de Leitura – PROLEC Reconheciment o de palavras (inferência sobre as rotas fonológicas) Escolares de 1ª a 4ª séries do Ensino Fundamental Teste de Competência de Leitura de Palavras e Pseudopalavras – TCLPP Reconheciment o de palavras (inferência sobre rotas fonológicas e das estratégias de leitura segundo Frith) Escolares de 1ª a 4ª séries do Ensino Fundamental Teste Contrastivo de Compreensão Auditiva e de Leitura – TCCAL Compreensão de leitura e auditiva Crianças de 6 a 11 anos. Teste de velocidade de Leitura Velocidade de leitura e nível de compreensão Estudos com crianças entre 8 e 14 anos Compreensão leitora de textos expositivos Compreensão de leitura Escolares a partir da 2ª série do Ensino Fundamental e adultos. Instrumento de Avaliação da Leitura Inicial (IALI) Habilidades de linguagem oral, de processamento fonológico, de compreensão e de leitura e escrita. Alunos do 1º e 2º ano Ensino Fundamental 66 Fonte: Retirado de Brito, 2017 Embora no Brasil ainda exista uma carência de instrumentos validados, já estão disponíveis mais instrumentos que os citados acima. A tabela pretende demonstrar que é possível montar um protocolo de avaliação de acordo com a idade e perfil de queixa do seu paciente. Como numa caixa de ferramentas, ou numa maleta médica, a depender da queixa, você poderá eleger determinadas ferramentas. Suponha que a escola e os pais não saibamdescrever muito bem a dificuldade do seu paciente, o que acontece na maioria das vezes. Você provavelmente precisará investigar a integridade desses 3 principais componentes de leitura: compreensão, reconhecimento de palavras e fluência, além de precisar de outras ferramentas, já disponíveis, para avaliação da atenção e outras funções cognitivas. 4.2 Intervenção Em relação à intervenção há um acumulo de estudos científicos ao redor do Globo que evidenciam a superioridade do método fônico e dos métodos multissensoriais em relação ao método global de leitura (Seabra; Dias, 2001). O ideal seria que o professor se valesse dessa informação e soubesse aplicar estes tipos de métodos em sala, mas infelizmente, os métodos com evidências cientificas têm sido utilizados apenas nos consultórios por diferentes tipos de especialidades Provas de avaliação da compreensão de leitura Compreensão de palavras e frases Alunos do 2º ano do Ensino Fundamental Teste de Competência de Leitura de Palavras para Adultos (TCLP-2) Habilidade de reconhecimento de palavras Avaliação de adultos disléxicos e com desenvolvimento típico 67 que se dispõe a trabalhar com as dificuldades de aprendizagem, em geral, fonoaudiólogos, psicopedagogos e neuropsicólogos. Retomando os três componentes cognitivos principais de acordo com o Modelo Componencial de Leitura: Reconhecimento de Palavras (RP), Compreensão Linguística (C), e Fluência (F), podemos verificar se o seu aluno está em fase de alfabetização (por volta dos 6 anos) e/ou falhou nessa fase e ainda não lê corretamente e que, muito provavelmente, precisará de atividades que estimulem e facilitem o RP. Porque dizemos “muito provavelmente”? Dizemos assim, pois assim como cada indivíduo é único, como sua digital, existem diferentes tipos de dificuldades que se manifestam de formas muito distintas. O que nos ajudará a ter mais clareza do tipo de intervenção é de fato fazer uma avaliação que contemple instrumentos normatizados e válidos para a população à qual se dirige. Suponhamos que de fato o aluno tenha dificuldade de RP, ele lê silabando e alterna entre as hipóteses silábico com valor e ortográfica, quais atividades poderíamos realizar? Você já deve saber que seriam atividades do método fônico e multissensorial! 4.3 Intervenção para o desenvolvimento do Reconhecimento de Palavras (RP) Suponhamos que de fato o aluno tenha dificuldade de RP, ele lê silabando e alterna entre as hipóteses silábico com valor e ortográfica, quais atividades poderíamos realizar? Você já deve saber que seriam atividades relacionadas ao método fônico e multissensorial. Os principais objetivos do método fônico são ensinar a correspondência entre letra e som e estimular a capacidade de manipular e refletir os sons da fala. Na literatura científica essa capacidade de manipulação e percepção dos sons é chamada de “consciência fonológica”. De acordo com o método fônico, o ensino dessas correspondências letra/som deve ocorrer de forma explícita, podendo começar pelas vogais e pelas consoantes 68 cujos sons podem ser pronunciados isoladamente, como /f/, /j/, /l/, /m/, /n/, /s/, /v/, /x/, /z/. Além disso, deve começar ensinando as palavras cuja a ortografia seja regular, seguidas pelas reguladas pela posição, com no caso dos “intervocálico” e somente depois do aluno ter uma boa base dessas palavras simples, começar a ser exposto às palavras irregulares, quando o mesmo som pode ser grafado de diferentes formas (ch/x, g/j, exemplo). Isso porque, as estruturas neurais mais simples, são a base das estruturas mais complexas. Se começamos apresentando palavras irregulares logo no início, isso pode confundir o aprendiz e impedi-lo de desenvolver conscientemente a noção da correspondência entre letra/som. Fonte: http://www.euleiobrasil.com.br/wp-content/uploads/leitura.jpg Além da sistematização da apresentação das relações letra/som, o método fônico também preconiza o desenvolvimento da consciência fonológica por meio do conhecimento de rimas, segmentação de palavras e de sílabas e discriminação de sons. Diversos autores têm desenvolvido programas com base no método fônico com resultados bastante positivos no Brasil, tanto em contexto clínico quanto escolar. http://www.euleiobrasil.com.br/wp-content/uploads/leitura.jpg 69 Outro método muito utilizado com crianças com dificuldades ou mesmo com a chamada dislexia, transtorno de déficit de leitura, é o método multissensorial. É uma estratégia que procura combinar o maior número de modalidades sensoriais no ensino da linguagem escrita. Podendo promover a conexão entre aspectos visuais, auditivos, cinestésicos e articulatórios, de modo a facilitar a aprendizagem da leitura e escrita, pois a mesma informação (letra ou palavra) é manipulada por circuitos neurais diferentes, auxiliando na memorização e na automatização do reconhecimento destes estímulos. Por exemplo, a forma ortográfica da letra ou da palavra pode ser tratada pelos circuitos neurais, a forma fonológica, o som, é mostrado de forma explícita e então tratada pelos circuitos auditivos, e os movimentos necessários para escrever as letras e palavras podem ser trabalhados simultaneamente através de letras texturizadas e outras estratégias para ativar os circuitos cinestésicos e táteis, ainda há a possibilidade de, enfatizar os aspectos cinestésicos referentes aos movimentos articulatórios necessários para pronunciar os sons e palavras. 4.4 Intervenção para o desenvolvimento da Compreensão Agora, imagine que você está diante de um aluno que lê corretamente as palavras mas, ainda assim, não tem uma leitura competente. Após uma boa investigação que conte com instrumentos de avaliação padronizados, você está seguro que a dificuldade do seu aluno ou paciente é decorrente de dificuldades de compreensão linguística. Qual rumo você daria a intervenção? Certamente, você não terá necessidade de aplicar estratégias do método fônico ou multissensorial. Na verdade, você deverá trabalhar aspectos como, vocabulário, compreensão de metáforas e estratégias de metacognição, que é a capacidade de pensar sobre o pensamento. Podemos então pensar em estratégias que promovam a compreensão de sentidos e significados de palavras e frases. De forma oral, você pode trabalhar com jogos de diferentes figuras ou palavras e “brincar” de encontrar qual palavra não faz parte do mesmo grupo/ categoria. Você pode ainda dividir a lousa em três partes 70 uma escrita fazenda, parque e cidade, por exemplo e as crianças deverão dizer palavras que se encaixem em cada uma das categorias; na verdade, esse tipo de atividade pode ser realizada desde a pré-escola. No caso do aluno que já escreve bem, ele pode ir escrevendo as palavras em um papel. Você pode brincar com antônimos e sinônimos, utilizando ou não o dicionário. Pode apresentar palavras novas e perguntar se os alunos conseguem inferir o seu significado pelo contexto da frase, o que se for feito durante a leitura de um texto estará auxiliando no auto-monitoramento. Caso o aluno não consiga inferir o significado das palavras somente através do contexto, você pode dar opções para que deduzam o significado correto. Fonte: https://blog.clubequindim.com.br/wp-content/uploads/2017/08/beneficios.jpg Outra boa estratégia que auxilia no estímulo da compreensão linguística é trabalhar com imagens mentais. Nessa técnica, você explica que é importante que “passe um filme da na cabeça” do aluno enquanto você estiver lendo e que isso é importante acontecer quando ele estiver lendo sozinho. Então, você lê um parágrafo como o seguinte: https://blog.clubequindim.com.br/wp-content/uploads/2017/08/beneficios.jpg 71 “Nas férias de julho, João, que mora em São Paulo, foi ao circo e o que ele mais gostoufoi do palhaço de cartola e do mágico com chapéu coco que tirava coelhos de lá”. O parágrafo pode ser ligeiramente maior que esse. Depois que você ler, poderá fazer um falso ou verdadeiro, e muitos alunos talvez digam que o mágico tirou coelhos da cartola. Então você lerá uma segunda vez, agora imaginando, “vendo um filme mental”. À medida em que você lê, você vai fazendo perguntas ao aluno, por exemplo, qual era o mês? Esse mês é frio ou quente na região onde o João mora? Então como será que ele estava vestido? Como é o cabelo, o tamanho, do João? Do que ele mais gostou? Depois de fazer essa leitura, então será feito novamente o falso ou verdadeiro e as crianças tenderão a acertar mais. Então, você poderá explicar que elas acertaram mais por que elas criaram uma imagem mental enquanto ouviam a leitura, e isso precisa acontecer sempre que elas estiverem lendo sozinhas, também. Parece que é intuitivo que isso aconteça, mas muitas crianças não fazem isso espontaneamente, se trata de uma estratégia metacognitiva muito importante e que pode e deve ser ensinada de forma explícita. Você pode também trabalhar com perguntas abertas (O quê? Quem? Quando? Onde? Como? Por quê?) durante a leitura de diferentes tipos de textos. Existem muitos estudos indicando como o trabalho com perguntas abertas estimula e auxilia na compreensão. Esses são apenas alguns exemplos de como direcionar a intervenção para estimular especificamente a compreensão linguística. Vale ressaltar que, assim como nas estratégias para reconhecimento de palavras, as estratégias para o desenvolvimento da compreensão devem ser sistematizadas. Lembre-se de que as estratégias para o desenvolvimento da compreensão devem partir do simples para o difícil e devem ocorrer de modo consistente, ou seja, precisa que a mesma estratégia seja aplicada repetidas vezes até que as estruturas neurais envolvidas na execução dessa tarefa estejam bem consolidadas prontas para ser a base do desenvolvimento de estruturas envolvidas em habilidades mais complexas. 72 4.5 Intervenção para o desenvolvimento da Fluência Finalmente, você pode ter um paciente que embora tenha boa habilidade de reconhecer palavras e boa compreensão linguística, não tenha uma leitura competente por dificuldade no processamento da informação, por ler muito vagarosamente, o que ocupa muito espaço na memória de trabalho e ao final da frase lida o aluno não sabe dizer o que leu. Nesse caso, você deverá trabalhar com atividades que estimulem especificamente a habilidade de fluência. Fonte: http://www.assessocor.com.br/images/65775296.jpg Uma delas já foi demonstrada na Unidade III: trata-se de analisar com os alunos diferentes significados que uma simples vírgula pode conferir à frase. Não apenas analisar a vírgula, mas outros aspectos sobre a pontuação que podem http://www.assessocor.com.br/images/65775296.jpg 73 mudar totalmente a prosódia (o ritmo e entonação) e também o sentido da frase. A entonação é bem relevante em relação às questões pragmáticas da língua. Dizer “Você pegou o dinheiro(.)” “Você pegou o dinheiro(!)” ou “Você pegou o dinheiro(?)” muda totalmente a entonação e o sentido da frase. Outra estratégia é trabalhar com fichas de leitura de sílabas, palavras, frases e textos. De acordo com o objetivo, você pode montar fichas específicas e marcar o tempo que o aluno irá ler. Ou o quanto ele lê em 1 minuto. Ao ler e medir o tempo de leitura algumas vezes, o aluno perceberá que a cada leitura ele gasta menos tempo. A atividade será importante não somente para automatizar a leitura dos estímulos linguísticos que você selecionou como importantes a serem estimulados, mas também auxiliará o aluno a perceber uma verdade neurocientífica: “Conexões mais usadas se fortalecem”! Ou seja, quando repetimos alguns processos, eles são automatizados e demandam menos recursos cognitivos para serem executados. Outra estratégia já testada empiricamente é a Leitura Compartilhada. Nessa leitura, o professor lê em voz alta e o aluno acompanha a leitura do professor, lendo em voz baixa, milésimos de segundos depois, imitando as pausas, o ritmo e a entonação com que o professor lê. É claro que na vida real, você encontrará diferentes tipos de dificuldades de leitura. Muitas vezes, o aluno terá dificuldade nos três componentes, outras, apenas em dois ou um. Além disso, terão os aspectos relacionados a atenção, memória, flexibilidade cognitiva e outras funções cognitivas que deverão ser avaliadas. De todo modo, é importante você saber de forma clara como estimular cada aspecto cognitivo de forma específica e sistematizada, pois isso confere maior rapidez e eficácia a intervenção. Desejamos que esta unidade, antes de eliminar todas as suas dúvidas, tenha instigado o senso crítico a respeito dos métodos de alfabetização, bem como apontado para um caminho de aprofundamento teórico que pode auxiliá-lo(a) a se capacitar perante as práticas de ensino com base em evidências científicas que poderão facilitar e/ou remediar a aprendizagem de seus alunos e pacientes. Bom trabalho, colega psicopedagogo! 74 Prezado(a) Aluno(a): Na unidade 3, Modelo Componencial da Leitura II, você viu de forma detalhada as três principais funções cognitivas que interagem para que ocorra a leitura competente, isto é, a leitura com compreensão. A unidade destacou a importância da habilidade de reconhecimento de palavras, que pode ser realizado por meio da rota fonológica, quando ocorre a decodificação ou pela rota lexical, por meio do reconhecimento visual direto da palavra, quando esta já foi armazenada na memória de longo prazo. Viu também que, embora seja importante a habilidade de reconhecimento de palavras, sozinha ela não resultará em uma leitura competente, pois para ler com compreensão é necessário a interação da habilidade de compreensão linguística, que se refere a uma habilidade mais geral, se refere à compreensão do que é dito. Além disso, viu a importância da habilidade de fluência, definida por Fletcher como a velocidade e acurácia na leitura de palavras e textos. Deste modo, você pôde perceber que a leitura competente pode ser expressa pelo resultado da interação desses três fatores: Reconhecimento de Palavras, Compreensão e Fluência. As pesquisas indicam que quando o professor e/ou psicopedagogo for capaz de identificar qual região específica não está funcionando corretamente, poderá então intervir de forma mais eficaz, rápida e barata! Por isso, na próxima unidade conversaremos sobre avaliação e intervenção em cada um desses componentes específicos de leitura. Tudo certo com os conteúdos desta Unidade? Então vamos adiante! 75 De acordo com o Modelo Componencial de Leitura, os principais componentes cognitivos que interagem para que ocorra a Leitura Competente (LC) são: Reconhecimento de Palavras (RP), Compreensão Linguística (C) e Fluência (F). Podemos afirmar que: f) A Compreensão Linguística se refere à compreensão de textos. g) Que a Compreensão linguística se refere a compreensão da linguagem de forma geral e o Reconhecimento de Palavras é um termo sinônimo da habilidade de decodificação. h) O Reconhecimento de Palavras pode ocorrer tanto pelo processo de decodificação, quanto pelo reconhecimento visual direto, por meio do acesso ao léxico mental (memória de longo prazo). i) Quando o aluno lê por meio da rota fonológica ele está reconhecendo a palavra de forma automática, pois esta já foi armazenada em seu léxico mental. j) Quando o aluno lê pela rota lexical, significa que está sendo acionado os neurônios responsáveis pelo processo de decodificação. Correta: C Comentário: Estudos da neuropsicologia com pacientes que sofreram lesões cerebrais contribuem com fortes evidências que endossam a existência das duasvias de leitura, ou seja, duas circuitarias neurais específicas que atuam no reconhecimento das palavras. Determinados pacientes, que eram leitores proficientes, após determinada lesão cerebral perdem a capacidade de pronunciar 76 palavras raras, mas regulares, e, sobretudo, palavras novas ou pseudopalavras. Contudo, mantêm boa capacidade de reconhecimento de palavras mais frequentes, mesmo as mais irregulares. Tal quadro conhecido como “dislexia profunda” ou “dislexia fonológica” aponta para a integralidade dos circuitos neurais relacionados à rota lexical e prejuízo da circuitaria neural relacionada à rota fonológica (DEHAENE, 2012). 77 REFERÊNCIAS AARON, P. G., JOSHI, L., e WILLIAMS, K. A. Not All Reading Disabilities are alike. Journal of Learning Disabilities, 32(2) 120-137, 1999. ALVAREZ, A.M.M.A.; SANCHEZ, M.L.; CARVALHO, I.B.M. Neuroaudiologia e Linguagem. 2008. In: FUENTES, D.; MALLOY-DINIZ, L.F.; CAMARGO, C.H.P.; COSENZA, R.M. et al, Neuropsicologia, teoria e prática (pp.136-150). São Paulo: Editora Artmed, 2008. BREEN, Mara. 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