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Curso
quadr
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ldo An
tonio M
iani
77
Curso
Charge
s
e Cart
uns
Rozina
ldo An
tonio M
iani
77777
1.Para início de
 conversa...
Quem nunca leu ou rep
arou naqueles dese-
nhos que são publicados
 nos jornais e revistas e, 
mais recentemente, dispo
nibilizados em blogs ou 
enviados para nossas cai
xas de mensagem mos-
trando situações do dia a 
dia da política e da nossa 
sociedade de modo geral?
 
Quem nunca riu ou fico
u pensativo – às ve-
zes até indignado e/ou
 revoltado – diante de 
algumas dessas imagen
s? Certamente você já 
sabe do que se trata. Si
m, estamos falando de 
charges e cartuns.
As charges e os cartuns, t
emas deste fascículo, 
assim como a caricatura
 e as histórias em qua-
drinhos, são modalidades
 do humor gráfico. 
Todos esses tipos de des
enhos de humor, para a 
sua produção, se utilizam
 de recursos semelhan-
tes. Eles tiveram sua diss
eminação impulsionada 
por jornais e outros peri
ódicos impressos (revis-
tas, cartilhas, almanaque
s etc.) e, em muitos ca-
sos, o mesmo desenhista
 que produzia histórias 
em quadrinhos também
 produzia charges, car-
tuns e caricaturas. 
Para começarmos, será p
reciso apresentar os 
conceitos e os principais
 elementos constitutivos 
dessas formas iconográficas d
e comunica-
ção. Na sequência, apre
sentamos um pouco da 
história, bem como dos di
ferentes tipos e dos prin-
cipais usos de charges e c
artuns.
Também neste fascículo, 
informações e pistas 
para quem pretende prod
uzir esse tipo de ilustra-
ção e usá-lo em contextos
 de aprendizagem. 
Atenção: não tem probl
ema se acha que 
não leva jeito para ser de
senhista! Existem pes-
soas que se especializam
 como analistas de 
charges e cartuns, sabia? 
Nesse caso, apresenta-
remos várias dicas para pr
ofessores e educadores 
sobre o que pode e deve 
ser considerado quan-
do se trata de analisar u
ma charge ou cartum. 
Você perceberá que seu o
lhar sobre elas nunca 
mais será o mesmo.
Tudo isso tem como ob
jetivo proporcionar 
conhecimentos básicos s
obre a história, bem 
como sobre a teoria e a 
prática das charges e 
dos cartuns na expectativ
a de que os professo-
res (e/ou todos aqueles in
teressados no assunto) 
possam se apropriar do e
ssencial para utilizá-los 
em contextos cotidianos d
e aprendizagem. 
E para aqueles que ainda 
não se inscreveram 
no curso, temos uma boa 
notícia: AINDA PODEM 
FAZÊ-LO! E GRATUITAMEN
TE. Todos os produtos 
desse curso (fascículos, vid
eoaulas, vídeos extras, 
biblioteca virtual, radioa
ulas, webconferências 
etc.) estarão disponíveis a
té o fi nal de junho no 
AVA, a sua sala de aula vi
rtual:
Humor Gráfico: termo utilizad
o para 
representar uma diversida
de de obras 
gráfi cas comuns em supo
rtes impressos, tais 
como as charges, cartuns
 (ou cartoons), tiras 
em quadrinhos e caricatu
ras, que provocam 
comicidade a partir de re
fl exões, sátiras ou 
críticas sociopolíticas, ent
re outros.
Iconografia: repertório de ima
gens 
próprio de uma obra, gên
ero de arte, artista 
ou período artístico.
ava.fdr.or
g.br
9898
2. Do que se trata?
 Direto
ao ponto
A primeira coisa que o educador deve saber é 
a defi nição do que é charge e do que é cartum. 
Cada artista ou estudioso, por força de ofício, aca-
ba apresentando o seu próprio conceito, mas, no 
fundo, a grande maioria deles está falando de coi-
sas muito parecidas.
Para começar, precisamos reconhecer que entre 
a charge e o cartum há uma condição que é comum 
e determinante: ambos são modalidades do humor 
gráfi co de natureza dissertativa, ou seja, sempre 
apresentam a defesa de uma ideia.
E qual seria a diferença entre esses dois tipos 
de desenho? De modo geral, pode-se dizer que a 
charge é uma representação humorística, carica-
tural e de caráter político, satirizando um fato ou 
personalidade específi cos, funcionando como uma 
espécie de “editorial gráfi co”. Por sua vez, o car-
tum difere da charge por fazer referência a fatos 
ou pessoas fi ccionais, sem ligação com a realidade 
imediata, portanto, atemporal e marcado por um 
humor universal.
Como a charge tem uma relação muito estrei-
ta com a realidade imediata, com a atualidade 
dos fatos e das coisas, um dos elementos mais im-
portantes a ser considerado é sua efemeridade. 
A charge mantém sua efi cácia e efi ciência como 
expressão comunicativa no curto período de tempo 
em que o acontecimento a que se refere permanece 
na memória individual e social do seu leitor. Depois 
disso, ela perde sua força comunicativa. Porém, por 
outro lado, ela ganha valor como fonte his-
tórica (aí a tarefa é com os historiadores...).
Latuff
A
ng
el
o 
A
go
st
in
i
Efemeridade: o que é efêmero, 
passageiro, temporário, que dura pouco.
ao pontoao ponto
9999
ABRA A SUA MENTE! 
 Para o pesquisador An
tonio Luiz Cagnin, a 
charge é o “desenho que 
se refere a fatos 
acontecidos em que agem
 pessoas reais, em 
geral conhecidas, com o p
ropósito de denun-
ciar, criticar e satirizar”.
 Sobre cartum, Jorge A
rbach afirma que se 
trata de “uma anedota g
ráfica, uma crítica 
mordaz, que manifesta s
eu humor através 
do riso. Faz referências a
 fatos ou pessoas, 
sem o necessário vínculo
 com a realidade, 
representando uma situa
ção criativa que 
penetra no domínio da in
venção”.
 Uma boa síntese é ap
resentada por Cami-
lo Riani que afirma que 
“é especialmente 
na temporalidade e no f
ato retratado que 
essas categorias se dis
tinguem: enquanto 
a charge está baseada 
em fatos reais (ou 
com personagens reais)
, ocorridos recen-
temente na política, eco
nomia, cultura 
etc., o cartum trata de
 temas mais gerais 
e universais, não sendo 
uma citação a um 
caso específico”.
Bira Danta
s – Boletim
 
Sindiluta, 5
8, jun/1983
D
ál
ci
o 
– 
H
um
or
 P
ol
ít
ic
o,
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/2
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Bira Danta
s – Boletim
 
Sindiluta, 5
8, jun/1983
D
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H
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11
100100
Uma característica que é própria das char-
ges e dos cartuns é a presença do humor. 
Naturalmente entendemos humor como aquilo 
que nos provoca o riso, não é verdade? No caso 
do humor gráfi co, entretanto, precisamos perce-
ber o sentido desse “humor” de outra maneira. É 
evidente que a grande maioria das charges e car-
tuns provoca o riso no seu leitor. Mas quando o riso 
não acontece, será que isso signifi ca ausência de 
humor? E como explicar que um desses desenhos 
pode provocar o riso em algumas pessoas e, ao 
mesmo tempo, indignação ou repulsa em outras? 
Isso acontece porque, para entender o sentido de 
humor nas charges e nos cartuns, é necessário con-
siderar que o humor é aquele elemento presente 
na imagem que promove uma transgressão 
e uma desordem na situação real retratada, ou 
como nas palavras do pensador e escritor italiano 
Umberto Eco, que “mina a lei”, que destrona os 
poderosos. Portanto, pelo humor, as charges e car-
tuns funcionam como uma forma consistente 
de crítica política e social.
Latuff 2008
3. Rir ou não rir,
 eis a questão!
Transgressão: ato de transgredir, de violar, 
de ir além de. Essa violência do(a) artista é a 
sua forma de expressão, de não aceitação e/ou 
incompreensão diante dos valores estabelecidos 
e impostos pela realidade que o(a) cerca, de 
subversão, de criação do novo ou mesmo de 
denúncia ou ridicularização do status quo.
Você seria capaz de rir
diante dessas imagens?
ber o sentido desse “humor” de outra maneira. É 
evidente que a grande maioria das charges e car-
tuns provoca o riso no seu leitor. Mas quando o riso 
não acontece, será que isso signifi ca ausência de 
humor? E como explicar que um desses desenhos 
pode provocar o riso em algumas pessoas e, ao 
mesmo tempo, indignação ou repulsa em outras? 
Isso acontece porque, para entender o sentido de 
humor nas charges e nos cartuns, é necessário con-
siderar que o humor é aquele elemento presente 
na imagem que promove uma 
e uma 
como nas palavras do pensador e escritor italianoUmberto Eco, que “mina a lei”, que destrona os 
poderosos. Portanto, pelo humor, as charges e car-
tuns funcionam como 
de crítica política e social
Transgressão:
de ir além de. Essa violência do(a) artista é a 
sua forma de expressão, de não aceitação e/ou 
incompreensão diante dos valores estabelecidos 
e impostos pela realidade que o(a) cerca, de 
subversão, de criação do novo ou mesmo de 
denúncia ou ridicularização do 
Latuff 20
13
101101
Mas e se a charge ou car
tum fi zer alguém rir, 
signifi ca necessariamente
 que essa pessoa não 
entendeu a proposta do
 artista ou que é uma 
alienada? Nada disso! O 
humor, em qualquer si-
tuação, também ativa o a
to do riso. Porém, essa é 
apenas uma das camadas
 produzidas pelo humor. 
Há outras mais profundas
 que o humor se propõe 
a atingir, e é nelas que 
o potencial crítico e 
persuasivo é ativado co
m mais energia, possi-
bilitando uma mudança 
de consciência e de 
atitude diante da situaçã
o e da temática retrata-
das nas imagens desenha
das.
Um exercício que o educ
ador pode realizar é 
selecionar charges e cart
uns a respeito de temas 
diversos (polêmicos, de pr
eferência) e distribuir en-
tre os seus educandos. O p
róximo passo é observar 
a reação de cada um del
es e pedir que registrem 
suas opiniões e sensações
. Depois, deve-se promo-
ver um debate coletivo
 a partir das diferenças 
de opinião e percepções 
manifestadas pelos edu-
candos. Ao fi nal, o educad
or apresenta a defi nição 
de humor referente às cha
rges e cartuns.
para curiosos
das nas imagens desenha
das.
para curiosos
 Esta é considerada a p
rimeira charge pu-
blicada no Brasil. Deu-se 
em 1837, no Jornal 
do Comércio, que circulava
 na cidade do Rio 
de Janeiro. Foi produzida
 por Manuel José 
de Araújo Porto-Alegre. Tra
tava-se 
de uma sátira ao jornalis
ta Justiniano José 
Manuel de Araújo Porto-Alegre
Manuel de Araújo Porto-
Alegre (1806-1879): o barão de 
Santo Ângelo foi escritor, dramaturgo, 
professor e crítico de arte, jornalista, 
editor, pintor, arquiteto, caricaturista, 
chargista e diplomata, patrono da 
cadeira 32 da Academia Brasileira de 
Letras. Juntamente com Gonçalves 
Dias, Gonçalves de Magalhães 
e Joaquim Manuel de Macedo 
lançou revistas literárias de grande 
importância. A sua revista Lanterna 
Mágica (1844) é considerada a 
primeira publicação de humor político 
da imprensa brasileira, acolhendo 
charges e caricaturas.
da Rocha, que havia sido 
contratado para ser 
redator do jornal Correio
 Oficial. Na imagem, ele 
aparece de joelhos receb
endo um saco de dinheiro
 
de um governante, duran
te o período regencial. A 
charge retrata e critica 
a submissão da imprensa
 
brasileira da época em re
lação ao governo.
102102
A charge e o cartum são d
esenhos de humor 
que há um bom tempo
 estão presentes na 
sociedade brasileira. Esses
 desenhos, assim como 
as histórias em quadrinho
s, se tornaram comuns 
em jornais e revistas e, n
o começo, justamen-
te por despertarem a cu
riosidade dos leitores, 
4. Conhecendo um pouco
 dessa
 história
tinham o objetivo de est
imular o consumo dos 
periódicos impressos. Por
ém, com o avanço das 
técnicas de produção e de
 impressão, eles foram 
ganhando espaço como m
aterial de opinião e de 
crítica às mazelas de noss
a sociedade.
4.1. Pequena (e incompleta) 
cronologia das 
charges e cartuns no Bras
il
Século 19
a) Publicação em
 1837, no Jornal do Comé
rcio, 
da primeira charge no Bra
sil, produzida por 
Araújo Porto-Alegre.
b) Circulação da
 revista Lanterna Mágica, 
pri-
meiro periódico brasileiro 
de crítica política 
e social ilustrado com cha
rges, lançada em 1844 
por Araújo Porto-Alegre.
c) Surgimento d
e vários periódicos impres
sos 
que se destacaram pela p
ublicação de char-
ges e cartuns. Entre eles, 
aqueles com atuação de 
Angelo Agostini: Diabo
 Coxo (1864-1865), 
Revista Illustrada (1860-18
76), Vida Fluminense 
(1868-1875) e Don Quixo
te (1895-1903).
Re
vi
st
a 
Illu
st
ra
da
103103
Getúlio Vargas e Lourival Fontes, chefe
 da censura no Estado Novo. (fonte: O
 Brasil em Charges 
(1950-1985), de Hilde Weber, Circo Edi
torial, SP, 1986.
Capa do A
lm
anhaque (Fac-Sím
ile)
Século 20
a) Criação do jornal ilustrado A Manha (1926-1957), dirigido por Aparício Torelly, o 
Barão de Itararé. 
b) Atuação destacada, durante a primeira me-tade do século 20, dos chargistas e cartunis-
tas J. Carlos, K. Lixto, Alvarus, Nássara, Mendez e, 
principalmente, Péricles e Belmonte. 
c) Surgimento de uma nova geração de chargis-tas e cartunistas a partir da segunda metade 
do século XX, com destaque para Millôr Fernandes, 
Borjalo, Jaguar, Ziraldo, Mino e Hilde Weber, 
que foi uma das poucas mulheres que ocupou es-
paço na imprensa diária brasileira como chargista.
d) Emergência do papel estratégico das charges e cartuns no cenário social e político brasileiro 
durante o período da ditadura civil-militar (1964-
1985). Diversos chargistas e cartunistas colocaram 
seu trabalho e sua arte a serviço da resistência e da 
denúncia contra os governos autoritários: Jaguar, 
Ziraldo, Fortuna, Claudius, Nilson, Lor, Henfi l e, um 
pouco mais tarde, Laerte, Angeli, Glauco, Nani, 
Ohi, Santiago, Luiz Gê, Maringoni, Erthal e os 
irmãos Chico e Paulo Caruso, entre outros.
e) Ampliação do espaço da imprensa sindical para atuação de chargistas e cartunistas, a 
partir da abertura política no Brasil, e o surgimen-
to de uma nova geração de desenhistas, com 
destaque para Éton, Bira Dantas, Gilmar, Pecê, 
Hércules, Márcio Baraldi e Latuff.
Século 21
Surgimento de uma novíssima geração de char-
gistas e cartunistas que se caracteriza pela ênfase 
em uma produção autônoma, disponibilizada em 
sites e blogs, como consequência da chegada e da 
consolidação da internet.
Hilde Weber (1913-1994): char
gista, ilustradora, ceramis
ta 
e pintora alemã (naturaliz
ada brasileira), veio ao Br
asil com 20 
anos de idade. Considera
da precursora do jornalism
o ilustrado 
no Brasil, trabalhou nos D
iários Associados ao lado
 de Rubem 
Braga. Em São Paulo, ilus
trou para a Folha de S. Pa
ulo, Noite 
Ilustrada, O Cruzeiro, Ma
nchete e O Estado de S. P
aulo. 
Reconhecida e destacada
 pelas charges (em espec
ial as políticas) 
e caricaturas, recebeu, em
 1960, o Prêmio Seção A
mérica Latina 
do concurso de caricatura
s do World Newspaper Fo
rum. Em 
1986 lançou Brasil em Ch
arges (1950-1985). 
104104
para curiosospara curiosos
 Impossível falar da his
tória das charges e dos 
cartuns sem falar deles:
 Péricles e O Amigo da 
Onça: Péricles de 
Andrade Maranhão, car
tunista pernambucano, 
ficou conhecido naciona
lmente pela criação do 
personagem Amigo da On
ça. Trata-se de um 
personagem movido pelo
 individualismo e pelo 
cinismo, que satirizava o
s costumes da épo-
ca e vivia zombando de 
todos. Era o famoso 
“espírito de porco”. Publ
icado pela primeira vez 
em 1943 na revista O Cru
zeiro, o personagem 
foi produzido pelo seu cr
iador por quase 20 
anos. E mesmo depois d
a morte de Péricles, 
em 1961, seu personagem
 continuou a ser pu-
blicado na revista O Cruz
eiro, produzido então 
por Carlos Estevão. 
 Belmonte e as charge
s da II Guerra Mundial: 
Benedito Bastos Barret
o, o Belmonte, nas-
ceu na capital paulista e 
desde cedo aprendeu 
o ofício do desenho. Torn
ou-se conhecido pela 
criação do personagem J
uca Pato, que era uma 
retratação de um cidadã
o anônimo, de classe 
média, que vivia levando b
ordoada dos podero-
sos e fazendo crítica à c
orrupção política de sua 
época. Porém, Belmonte s
e notabilizou pela pro-
dução de charges (que ele
 chamava de “carica-
tura”) sobre o nazismo e 
os conflitos durante a 
Segunda Guerra Mundial. 
Hitler, Mussolini e Stalin 
foram os principais alvos 
do seu humor ferino.
 Henfil e a contestaçã
o à ditadura civil-militar:
 
Henrique de Souza Filho, o
 Henfil, foi um dos mais 
importantes cartunistas
 brasileiros. Integrou a 
equipe d’O pasquim, uma da
s maisimportantes 
publicações da chamada 
imprensa alternativa 
(conjunto de periódicos im
pressos que circulou 
no período da ditadura ci
vil-militar no Brasil e 
que criticava a repressão
 e a censura praticadas 
por esses governos). Crio
u inúmeros personagens 
tipicamente brasileiros. E
ntre eles: os fradinhos 
(Cumprido e Baixim) e a Tur
ma da Caatinga (Graú-
na, Zeferino e Bode Orela
na). Henfil fez do humor 
uma arma para defender
 a população oprimida, 
colocando sua arte a ser
viço de movimentos po-
líticos e sociais. Seus cart
uns colaboraram com a 
luta contra a ditadura, pe
la democratização do 
país, em defesa da anistia
 aos presos políticos e 
do movimento Diretas Já
!.
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 J
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Henfil
H
enfil
105105
Sem pretender estabelecer tipifi cações rígidas 
ou categorias determinadas, é possível perceber 
algumas especifi cidades no universo das charges 
e cartuns e, com isso, identifi car diferentes tipos 
para essas modalidades do humor gráfi co. A prin-
cipal delas é com relação ao contexto retratado, de 
ordem mais política ou social.
Pode parecer redundante, mas podemos carac-
terizar algumas charges como charge política ou 
cartum político. São aquelas imagens que apre-
sentam temáticas relacionadas à conjuntura política 
local, nacional ou internacional, vinculadas a fatos 
ou personagens reais (no caso da charge) ou a abor-
dagens políticas genéricas (no caso do cartum). Na 
prática, é a grande maioria das charges e cartuns 
produzidos em nossa imprensa. Essas imagens exa-
lam acidez e criticidade e, em alguns casos, chegam 
a exercer uma atitude quase militante.
5. Tipos diferentes de charg
es
 e cartuns
C
ha
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e 
Po
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a 
de
 L
ai
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 L
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de
106106
Por sua vez, há algumas imagens que, apesar 
de manterem essencialmente as qualidades das 
charges e cartuns, apresentam uma atitude mais 
amena em relação à temática retratada e, 
por isso, podem ser defi nidas como charge social 
ou cartum social. Elas funcionam como uma es-
pécie de crônica ilustrada e é bastante utilizada no 
contexto esportivo e para prestar homenagens.
O formato de apresentação das imagens é ou-
tro aspecto utilizado para designar diferentes ti-
pos de charges e cartuns. Na quase totalidade dos 
casos, esses desenhos aparecem em um único 
quadro. Podemos também encontrar várias cenas 
inseridas em um único quadro maior. Porém, prin-
cipalmente no caso das charges, há situações em 
que ela é apresentada por meio de uma tira. Nesse 
caso, a denominamos de tira chárgica. 
É bastante comum nas publicações impressas 
as charges e cartuns acompanharem ou comple-
mentarem algum texto verbal. Apesar disso, 
não se deve considerar que essas produções ico-
nográfi cas tenham como objetivo apenas ilustrar 
ou ser um elemento decorativo de um texto ver-
bal. Ao contrário, elas têm autonomia infor-
mativa e propósito comunicativo próprio e 
peculiar. Além disso, é possível verifi car em várias 
publicações a charge ocupando um lugar especí-
fi co, sem relação necessária e imediata com qual-
quer notícia ou produção verbal. Nesses casos, o 
leitor estará diante de uma charge editorial. 
Elas aparecem em diversos contextos comunicati-
vos, ora explorando o tema de maior importância, 
visibilidade ou polêmica explorado pelo veículo de 
comunicação, ora como uma tentativa de sistema-
tização de uma determinada conjuntura econômi-
ca ou sociopolítica.
Várias cen
as em um 
único quad
ro de Laer
te
Tira Chárgica de Márcio Haraldi
107107
O educador pode se utilizar da produção de 
charges e cartuns para fi ns de ensino e apren-
dizagem. Assim, além de realizar uma atividade 
lúdica, ainda estimula a criatividade e a critici-
dade dos educandos.
Para a produção de charges, o professor deve 
escolher um fato ou notícia da atualidade que seja 
do conhecimento da maioria das pessoas envolvi-
das e oferecer o máximo possível de informações 
e detalhes a seu respeito. Ele pode, ainda, disponi-
bilizar fotos de pessoas envolvidas no fato a ser re-
tratado, incentivando a produção de caricatu-
ras. Esse recurso é sempre uma estratégia muito 
efi ciente para as charges, pois facilita ao leitor o 
reconhecimento dos acontecimentos. Depois dis-
so, é só deixar agir a criatividade do educando na 
produção de sua própria charge.
6. A produção de charges 
e cartuns para uso
 pedagógico
Por sua vez, para a produção de cartuns, deve 
haver uma liberdade maior na criação da narrati-
va visual e verbal, inclusive, com a possibilida-
de de inventar personagens que possam vivenciar 
as mais distintas situações. O professor pode con-
tribuir apresentando sugestões de temas que este-
jam diretamente relacionados com a sua disciplina 
ou ainda temas transversais, garantindo que 
as imagens produzidas sejam utilizadas no contex-
to do processo educativo.
Caricatura: retrato caricato que apresenta 
de maneira exagerada, geralmente distorcida e 
engraçada, as características físicas de uma pessoa.
Clayton
Clayton
Clayton
108108
Além de incentivar a produção de charges e 
cartuns como atividade pedagógica, o educador 
também pode propor exercícios de análise 
desse tipo de imagem como estratégia de 
aprendizagem. Para isso, há uma série de ele-
mentos e condições que devem ser considerados 
para a realização de uma boa análise.
A primeira questão a ser considerada é que 
a charge ou cartum são recursos gráfi co-vi-
suais que compõem um universo comunicativo 
mais amplo. Não é possível fazer uma análise 
sem considerar o contexto comunicativo 
maior, afi nal, as charges e cartuns se integram, 
dão sentido e compõem os textos verbais de um 
jornal ou revista e essa unidade não deve ser 
quebrada. Mesmo no caso de uma charge edi-
torial, ainda assim é preciso considerar todo o 
contexto da página onde foi publicada.
No caso específi co das charges, também é 
necessário verifi car se elas fazem parte de uma 
produção jornalística formal. Nesse caso, a qua-
lidade informativa da imagem é fundamen-
tal e o analista deve examinar se os principais 
elementos informativos estão presentes e, caso 
não estejam, deve indicar se essa ausência com-
promete a efetividade comunicativa.
Como já indicado, a charge ou cartum se 
propõe a defender uma ideia. Portanto, repre-
sentam a opinião de alguém tentando infl uir 
7. Dicas importantes para o
 
professor realizar a anális
e de
 charges
e cartuns
no raciocínio e/ou na opinião de outra pessoa. 
Porém, toda charge ou cartum é produzido sob 
certas condições de produção e, para fazer uma 
boa análise, o professor precisa cumprir alguns 
objetivos, entre eles: (a) identifi car o autor e sua 
formação ideológica; (b) conhecer as ca-
racterísticas do veículo ou do suporte onde 
estão publicados e também das instituições res-
ponsáveis pela respectiva produção comunicati-
va; (c) ter conhecimento de como se organizam 
as relações sociais de produção (se há ou 
não vínculo empregatício do chargista ou cartu-
nista na empresa); (d) conferir se há interações 
entre diferentes sujeitos durante o proces-
so de criação das imagens; (e) verifi car como se 
estabelecem os processos decisórios em re-
lação à aceitação e consequente publicação da 
imagem produzida.
Combinado com essas dicas para uma análise 
mais voltada para o contexto sociopolítico, tam-
bém é preciso realizar uma descrição detalhada 
dos elementos visuais e verbais contidos 
na charge ou cartum (personalidades conheci-
das, cenários, expressões, cores, balões de fala, 
legendas etc.). Depois disso, deve-se acionar 
todo o repertório de conhecimentos gerais e es-
pecífi cos que permita explicitar os efeitos de sen-
tido da imagem a ser analisada.
109109
leia e saiba mais!leia e saiba mais!
Além dessas orientações gerais, o professor 
deve se familiarizarcom as metodologias pró-
prias para análise de imagens, pois sabemos que 
não é fácil fazer a leitura de uma imagem. É pre-
ciso apresentar argumentação sólida, coerente e 
que faça sentido. Não se pode fazer uma boa 
análise baseada apenas em “achismos”.
Como exercício de aplicação e de aprendiza-
gem, os professores podem buscar o jornal de 
sua cidade ou região, selecionar as charges e 
cartuns publicados e realizar uma análise dessas 
imagens procurando aproveitar todas essas dicas 
apresentadas. Claro, é bom ampliar a sua leitura 
sobre o assunto em outras fontes.
 O(A) professor(a) deve
 buscar conhecer ou-
tros pesquisadores do as
sunto, assim como 
chargistas e cartunistas
, que contribuirão 
ainda mais para que se p
ossa aproveitar ao 
máximo a riqueza desses
 recursos iconográ-
ficos no processo educat
ivo. A seguir, algu-
mas indicações:
 História da caricatura n
o Brasil, de Herman 
Lima (em 4 volumes);
 História da caricatura 
brasileira: os pre-
cursores e a consolidação
 da caricatura no 
Brasil, de Luciano Magno;
 Charge jornalística: int
ertextualidade e 
polifonia: um estudo de ch
arges da Folha de 
S.Paulo, por Edson Carlos R
omualdo;
 Sentidos do humor, tra
paças da razão: a 
charge, de Luiz Guilherme 
Sodré Teixeira; 
 Entre sem bater!: o hu
mor na imprensa: do 
Barão de Itararé ao Pasquim2
1, de Luís 
Pimentel; 
 Imprensa, humor e cari
catura: a questão 
dos estereótipos culturai
s, organização de 
Isabel Lustosa;
 O rebelde do traço: a v
ida de Henfil, de Dênis 
de Moraes;
 Cultura e política entre
 fradins, zeferinos, 
graúnas e orelanas, de Ma
ria da Conceição 
Francisca Pires. 
 
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N
et
o
Herman Lima (1897-1981): escritor, memorialista, 
biógrafo e crítico de arte. Nascido no Ceará, 
começou a trabalhar muito jovem como auxiliar de 
fotógrafo, mais tarde cursando medicina e atuando 
em outras funções. Desde 1940 passou a estudar 
caricatura, arte do qual já era colecionador. Além 
da citada coleção em 4 volumes, referência maior 
para pesquisadores, escreveu Tigipió (1924), menção 
honrosa da Academia Brasileira de Letras, Garimpos 
(1930), Imagens do Ceará (1958), Poeira do Tempo 
(1967), entre outros.
Barão de Itararé (1895-1971): o título Entre sem 
bater! refere-se a uma piada do gaúcho barão de 
Itararé, certamente um dos maiores nomes da arte 
do humor na imprensa nacional. O barão, devido às 
piadas que fazia sobre políticos importantes de sua 
época, foi preso e apanhou diversas vezes. Daí, um 
dia, colocou uma placa, destinada aqueles policiais, 
na porta da redação do jornal A Manha, onde se lia: 
“Entre sem bater!”
110110
8. Para encerrar...
Neste fascículo, o(a) educ
ador(a) pôde conhe-
cer um pouco mais a respe
ito do fascinante univer-
so das charges e cartuns
. Essas imagens roubam 
a atenção do(a) leitor(a) 
e o(a) convida a pensar 
sobre a política e a socied
ade, sem contar que, às 
vezes, o(a) diverte bastant
e.
Mais do que retratar o nos
so cotidiano e pautar 
temas de grande relevân
cia para a vida social, as 
charges e os cartuns, co
mo vimos, podem servir 
como importante estrat
égia educativa, no 
momento em que em form
a de desafi o, o educan-
do será provocado a refl 
etir, a impulsionar a sua 
imaginação e criatividade
 e a exercitar e desenvol-
ver a sua capacidade crític
a de ver o mundo. 
Por essas e outras, profess
or(a), procure conhe-
cer mais e abuse dessas i
magens em suas ativida-
des em sala de aula. Cert
amente, seus alunos sai-
rão ganhando.
Referências
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 dos tempos. São 
Paulo: 
Melhoramentos / Círculo 
do Livro, 1982.
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(Mestrado em Ciências da C
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e Artes, Universidade de Sã
o Paulo, São Paulo, 2000.
A utilização da charge 
na im-
prensa sindical na déca
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Paulo: Circo Editorial, 198
6.
111111
Rozinaldo Antonio Miani (Autor)
graduado em Jornalismo e História, mestre em Ciências da Comunicação pela ECA/USP, doutor em História pela Unesp/
Campus Assis e pós-doutor pela ECA/USP. Docente do Departamento de Comunicação da Universidade Estadual de 
Londrina (UEL), vice-coordenador do Programa de Mestrado em Comunicação da UEL e coordenador do Núcleo de 
Pesquisa em Comunicação Popular (NCP/CNPq). Desenvolve pesquisas analisando a História do Brasil recente por meio 
das charges e cartuns. Foi bolsista de produtividade da Fundação Araucária/PR (2014-2016) desenvolvendo pesquisa a 
respeito da produção chárgica de Carlos Latuff.
Todos os direitos desta edição reservados à:
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NORDESTE Viviane Pereira Gerência Pedagógica | Ana Paula Costa Salmin Coordenação Geral | CURSO QUADRINHOS EM SALA DE AULA: 
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Coordenação de Conteúdo | Amaurício Cortez Edição de Design | Amaurício Cortez, Karlson Gracie e Welton Travassos Projeto Gráfi co | 
Dhara Sena Editoração Eletrônica | Cristiano Lopez Ilustração | Emanuela Fernandes Gestão de Projetos ISBN 978-85-7529-853-4 (coleção)
Este fascículo é parte integrante do projeto HQ Ceará 2, em decorrência do Termo de Fomento celebrado entre a Fundação Demócrito Rocha (FDR) e a Prefeitura Municipal de 
Fortaleza, sob o nº 001/2017.
RealizaçãoApoio
CRISTIANO LOPEZ (Ilustrador)
é desenhista, Ilustrador e quadrinista. É desenhista-projetista do Núcleo de Ensino a Distância da Universidade de Fortaleza 
e ilustrador e chargista freelancer para o jornal Agrovalor, revista Ponto Empresarial (Sescap-CE) e Editora do Brasil.
978-85-7529-860-2(volume 7)
Rafael Limaverde

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