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Curso quadr inhos em sal a de aul a Charge s e Cart uns Rozina ldo An tonio M iani 77 Curso Charge s e Cart uns Rozina ldo An tonio M iani 77777 1.Para início de conversa... Quem nunca leu ou rep arou naqueles dese- nhos que são publicados nos jornais e revistas e, mais recentemente, dispo nibilizados em blogs ou enviados para nossas cai xas de mensagem mos- trando situações do dia a dia da política e da nossa sociedade de modo geral? Quem nunca riu ou fico u pensativo – às ve- zes até indignado e/ou revoltado – diante de algumas dessas imagen s? Certamente você já sabe do que se trata. Si m, estamos falando de charges e cartuns. As charges e os cartuns, t emas deste fascículo, assim como a caricatura e as histórias em qua- drinhos, são modalidades do humor gráfico. Todos esses tipos de des enhos de humor, para a sua produção, se utilizam de recursos semelhan- tes. Eles tiveram sua diss eminação impulsionada por jornais e outros peri ódicos impressos (revis- tas, cartilhas, almanaque s etc.) e, em muitos ca- sos, o mesmo desenhista que produzia histórias em quadrinhos também produzia charges, car- tuns e caricaturas. Para começarmos, será p reciso apresentar os conceitos e os principais elementos constitutivos dessas formas iconográficas d e comunica- ção. Na sequência, apre sentamos um pouco da história, bem como dos di ferentes tipos e dos prin- cipais usos de charges e c artuns. Também neste fascículo, informações e pistas para quem pretende prod uzir esse tipo de ilustra- ção e usá-lo em contextos de aprendizagem. Atenção: não tem probl ema se acha que não leva jeito para ser de senhista! Existem pes- soas que se especializam como analistas de charges e cartuns, sabia? Nesse caso, apresenta- remos várias dicas para pr ofessores e educadores sobre o que pode e deve ser considerado quan- do se trata de analisar u ma charge ou cartum. Você perceberá que seu o lhar sobre elas nunca mais será o mesmo. Tudo isso tem como ob jetivo proporcionar conhecimentos básicos s obre a história, bem como sobre a teoria e a prática das charges e dos cartuns na expectativ a de que os professo- res (e/ou todos aqueles in teressados no assunto) possam se apropriar do e ssencial para utilizá-los em contextos cotidianos d e aprendizagem. E para aqueles que ainda não se inscreveram no curso, temos uma boa notícia: AINDA PODEM FAZÊ-LO! E GRATUITAMEN TE. Todos os produtos desse curso (fascículos, vid eoaulas, vídeos extras, biblioteca virtual, radioa ulas, webconferências etc.) estarão disponíveis a té o fi nal de junho no AVA, a sua sala de aula vi rtual: Humor Gráfico: termo utilizad o para representar uma diversida de de obras gráfi cas comuns em supo rtes impressos, tais como as charges, cartuns (ou cartoons), tiras em quadrinhos e caricatu ras, que provocam comicidade a partir de re fl exões, sátiras ou críticas sociopolíticas, ent re outros. Iconografia: repertório de ima gens próprio de uma obra, gên ero de arte, artista ou período artístico. ava.fdr.or g.br 9898 2. Do que se trata? Direto ao ponto A primeira coisa que o educador deve saber é a defi nição do que é charge e do que é cartum. Cada artista ou estudioso, por força de ofício, aca- ba apresentando o seu próprio conceito, mas, no fundo, a grande maioria deles está falando de coi- sas muito parecidas. Para começar, precisamos reconhecer que entre a charge e o cartum há uma condição que é comum e determinante: ambos são modalidades do humor gráfi co de natureza dissertativa, ou seja, sempre apresentam a defesa de uma ideia. E qual seria a diferença entre esses dois tipos de desenho? De modo geral, pode-se dizer que a charge é uma representação humorística, carica- tural e de caráter político, satirizando um fato ou personalidade específi cos, funcionando como uma espécie de “editorial gráfi co”. Por sua vez, o car- tum difere da charge por fazer referência a fatos ou pessoas fi ccionais, sem ligação com a realidade imediata, portanto, atemporal e marcado por um humor universal. Como a charge tem uma relação muito estrei- ta com a realidade imediata, com a atualidade dos fatos e das coisas, um dos elementos mais im- portantes a ser considerado é sua efemeridade. A charge mantém sua efi cácia e efi ciência como expressão comunicativa no curto período de tempo em que o acontecimento a que se refere permanece na memória individual e social do seu leitor. Depois disso, ela perde sua força comunicativa. Porém, por outro lado, ela ganha valor como fonte his- tórica (aí a tarefa é com os historiadores...). Latuff A ng el o A go st in i Efemeridade: o que é efêmero, passageiro, temporário, que dura pouco. ao pontoao ponto 9999 ABRA A SUA MENTE! Para o pesquisador An tonio Luiz Cagnin, a charge é o “desenho que se refere a fatos acontecidos em que agem pessoas reais, em geral conhecidas, com o p ropósito de denun- ciar, criticar e satirizar”. Sobre cartum, Jorge A rbach afirma que se trata de “uma anedota g ráfica, uma crítica mordaz, que manifesta s eu humor através do riso. Faz referências a fatos ou pessoas, sem o necessário vínculo com a realidade, representando uma situa ção criativa que penetra no domínio da in venção”. Uma boa síntese é ap resentada por Cami- lo Riani que afirma que “é especialmente na temporalidade e no f ato retratado que essas categorias se dis tinguem: enquanto a charge está baseada em fatos reais (ou com personagens reais) , ocorridos recen- temente na política, eco nomia, cultura etc., o cartum trata de temas mais gerais e universais, não sendo uma citação a um caso específico”. Bira Danta s – Boletim Sindiluta, 5 8, jun/1983 D ál ci o – H um or P ol ít ic o, d ez /2 0 11 Bira Danta s – Boletim Sindiluta, 5 8, jun/1983 D ál ci o – H um or P ol ít ic o, d ez /2 0 11 100100 Uma característica que é própria das char- ges e dos cartuns é a presença do humor. Naturalmente entendemos humor como aquilo que nos provoca o riso, não é verdade? No caso do humor gráfi co, entretanto, precisamos perce- ber o sentido desse “humor” de outra maneira. É evidente que a grande maioria das charges e car- tuns provoca o riso no seu leitor. Mas quando o riso não acontece, será que isso signifi ca ausência de humor? E como explicar que um desses desenhos pode provocar o riso em algumas pessoas e, ao mesmo tempo, indignação ou repulsa em outras? Isso acontece porque, para entender o sentido de humor nas charges e nos cartuns, é necessário con- siderar que o humor é aquele elemento presente na imagem que promove uma transgressão e uma desordem na situação real retratada, ou como nas palavras do pensador e escritor italiano Umberto Eco, que “mina a lei”, que destrona os poderosos. Portanto, pelo humor, as charges e car- tuns funcionam como uma forma consistente de crítica política e social. Latuff 2008 3. Rir ou não rir, eis a questão! Transgressão: ato de transgredir, de violar, de ir além de. Essa violência do(a) artista é a sua forma de expressão, de não aceitação e/ou incompreensão diante dos valores estabelecidos e impostos pela realidade que o(a) cerca, de subversão, de criação do novo ou mesmo de denúncia ou ridicularização do status quo. Você seria capaz de rir diante dessas imagens? ber o sentido desse “humor” de outra maneira. É evidente que a grande maioria das charges e car- tuns provoca o riso no seu leitor. Mas quando o riso não acontece, será que isso signifi ca ausência de humor? E como explicar que um desses desenhos pode provocar o riso em algumas pessoas e, ao mesmo tempo, indignação ou repulsa em outras? Isso acontece porque, para entender o sentido de humor nas charges e nos cartuns, é necessário con- siderar que o humor é aquele elemento presente na imagem que promove uma e uma como nas palavras do pensador e escritor italianoUmberto Eco, que “mina a lei”, que destrona os poderosos. Portanto, pelo humor, as charges e car- tuns funcionam como de crítica política e social Transgressão: de ir além de. Essa violência do(a) artista é a sua forma de expressão, de não aceitação e/ou incompreensão diante dos valores estabelecidos e impostos pela realidade que o(a) cerca, de subversão, de criação do novo ou mesmo de denúncia ou ridicularização do Latuff 20 13 101101 Mas e se a charge ou car tum fi zer alguém rir, signifi ca necessariamente que essa pessoa não entendeu a proposta do artista ou que é uma alienada? Nada disso! O humor, em qualquer si- tuação, também ativa o a to do riso. Porém, essa é apenas uma das camadas produzidas pelo humor. Há outras mais profundas que o humor se propõe a atingir, e é nelas que o potencial crítico e persuasivo é ativado co m mais energia, possi- bilitando uma mudança de consciência e de atitude diante da situaçã o e da temática retrata- das nas imagens desenha das. Um exercício que o educ ador pode realizar é selecionar charges e cart uns a respeito de temas diversos (polêmicos, de pr eferência) e distribuir en- tre os seus educandos. O p róximo passo é observar a reação de cada um del es e pedir que registrem suas opiniões e sensações . Depois, deve-se promo- ver um debate coletivo a partir das diferenças de opinião e percepções manifestadas pelos edu- candos. Ao fi nal, o educad or apresenta a defi nição de humor referente às cha rges e cartuns. para curiosos das nas imagens desenha das. para curiosos Esta é considerada a p rimeira charge pu- blicada no Brasil. Deu-se em 1837, no Jornal do Comércio, que circulava na cidade do Rio de Janeiro. Foi produzida por Manuel José de Araújo Porto-Alegre. Tra tava-se de uma sátira ao jornalis ta Justiniano José Manuel de Araújo Porto-Alegre Manuel de Araújo Porto- Alegre (1806-1879): o barão de Santo Ângelo foi escritor, dramaturgo, professor e crítico de arte, jornalista, editor, pintor, arquiteto, caricaturista, chargista e diplomata, patrono da cadeira 32 da Academia Brasileira de Letras. Juntamente com Gonçalves Dias, Gonçalves de Magalhães e Joaquim Manuel de Macedo lançou revistas literárias de grande importância. A sua revista Lanterna Mágica (1844) é considerada a primeira publicação de humor político da imprensa brasileira, acolhendo charges e caricaturas. da Rocha, que havia sido contratado para ser redator do jornal Correio Oficial. Na imagem, ele aparece de joelhos receb endo um saco de dinheiro de um governante, duran te o período regencial. A charge retrata e critica a submissão da imprensa brasileira da época em re lação ao governo. 102102 A charge e o cartum são d esenhos de humor que há um bom tempo estão presentes na sociedade brasileira. Esses desenhos, assim como as histórias em quadrinho s, se tornaram comuns em jornais e revistas e, n o começo, justamen- te por despertarem a cu riosidade dos leitores, 4. Conhecendo um pouco dessa história tinham o objetivo de est imular o consumo dos periódicos impressos. Por ém, com o avanço das técnicas de produção e de impressão, eles foram ganhando espaço como m aterial de opinião e de crítica às mazelas de noss a sociedade. 4.1. Pequena (e incompleta) cronologia das charges e cartuns no Bras il Século 19 a) Publicação em 1837, no Jornal do Comé rcio, da primeira charge no Bra sil, produzida por Araújo Porto-Alegre. b) Circulação da revista Lanterna Mágica, pri- meiro periódico brasileiro de crítica política e social ilustrado com cha rges, lançada em 1844 por Araújo Porto-Alegre. c) Surgimento d e vários periódicos impres sos que se destacaram pela p ublicação de char- ges e cartuns. Entre eles, aqueles com atuação de Angelo Agostini: Diabo Coxo (1864-1865), Revista Illustrada (1860-18 76), Vida Fluminense (1868-1875) e Don Quixo te (1895-1903). Re vi st a Illu st ra da 103103 Getúlio Vargas e Lourival Fontes, chefe da censura no Estado Novo. (fonte: O Brasil em Charges (1950-1985), de Hilde Weber, Circo Edi torial, SP, 1986. Capa do A lm anhaque (Fac-Sím ile) Século 20 a) Criação do jornal ilustrado A Manha (1926-1957), dirigido por Aparício Torelly, o Barão de Itararé. b) Atuação destacada, durante a primeira me-tade do século 20, dos chargistas e cartunis- tas J. Carlos, K. Lixto, Alvarus, Nássara, Mendez e, principalmente, Péricles e Belmonte. c) Surgimento de uma nova geração de chargis-tas e cartunistas a partir da segunda metade do século XX, com destaque para Millôr Fernandes, Borjalo, Jaguar, Ziraldo, Mino e Hilde Weber, que foi uma das poucas mulheres que ocupou es- paço na imprensa diária brasileira como chargista. d) Emergência do papel estratégico das charges e cartuns no cenário social e político brasileiro durante o período da ditadura civil-militar (1964- 1985). Diversos chargistas e cartunistas colocaram seu trabalho e sua arte a serviço da resistência e da denúncia contra os governos autoritários: Jaguar, Ziraldo, Fortuna, Claudius, Nilson, Lor, Henfi l e, um pouco mais tarde, Laerte, Angeli, Glauco, Nani, Ohi, Santiago, Luiz Gê, Maringoni, Erthal e os irmãos Chico e Paulo Caruso, entre outros. e) Ampliação do espaço da imprensa sindical para atuação de chargistas e cartunistas, a partir da abertura política no Brasil, e o surgimen- to de uma nova geração de desenhistas, com destaque para Éton, Bira Dantas, Gilmar, Pecê, Hércules, Márcio Baraldi e Latuff. Século 21 Surgimento de uma novíssima geração de char- gistas e cartunistas que se caracteriza pela ênfase em uma produção autônoma, disponibilizada em sites e blogs, como consequência da chegada e da consolidação da internet. Hilde Weber (1913-1994): char gista, ilustradora, ceramis ta e pintora alemã (naturaliz ada brasileira), veio ao Br asil com 20 anos de idade. Considera da precursora do jornalism o ilustrado no Brasil, trabalhou nos D iários Associados ao lado de Rubem Braga. Em São Paulo, ilus trou para a Folha de S. Pa ulo, Noite Ilustrada, O Cruzeiro, Ma nchete e O Estado de S. P aulo. Reconhecida e destacada pelas charges (em espec ial as políticas) e caricaturas, recebeu, em 1960, o Prêmio Seção A mérica Latina do concurso de caricatura s do World Newspaper Fo rum. Em 1986 lançou Brasil em Ch arges (1950-1985). 104104 para curiosospara curiosos Impossível falar da his tória das charges e dos cartuns sem falar deles: Péricles e O Amigo da Onça: Péricles de Andrade Maranhão, car tunista pernambucano, ficou conhecido naciona lmente pela criação do personagem Amigo da On ça. Trata-se de um personagem movido pelo individualismo e pelo cinismo, que satirizava o s costumes da épo- ca e vivia zombando de todos. Era o famoso “espírito de porco”. Publ icado pela primeira vez em 1943 na revista O Cru zeiro, o personagem foi produzido pelo seu cr iador por quase 20 anos. E mesmo depois d a morte de Péricles, em 1961, seu personagem continuou a ser pu- blicado na revista O Cruz eiro, produzido então por Carlos Estevão. Belmonte e as charge s da II Guerra Mundial: Benedito Bastos Barret o, o Belmonte, nas- ceu na capital paulista e desde cedo aprendeu o ofício do desenho. Torn ou-se conhecido pela criação do personagem J uca Pato, que era uma retratação de um cidadã o anônimo, de classe média, que vivia levando b ordoada dos podero- sos e fazendo crítica à c orrupção política de sua época. Porém, Belmonte s e notabilizou pela pro- dução de charges (que ele chamava de “carica- tura”) sobre o nazismo e os conflitos durante a Segunda Guerra Mundial. Hitler, Mussolini e Stalin foram os principais alvos do seu humor ferino. Henfil e a contestaçã o à ditadura civil-militar: Henrique de Souza Filho, o Henfil, foi um dos mais importantes cartunistas brasileiros. Integrou a equipe d’O pasquim, uma da s maisimportantes publicações da chamada imprensa alternativa (conjunto de periódicos im pressos que circulou no período da ditadura ci vil-militar no Brasil e que criticava a repressão e a censura praticadas por esses governos). Crio u inúmeros personagens tipicamente brasileiros. E ntre eles: os fradinhos (Cumprido e Baixim) e a Tur ma da Caatinga (Graú- na, Zeferino e Bode Orela na). Henfil fez do humor uma arma para defender a população oprimida, colocando sua arte a ser viço de movimentos po- líticos e sociais. Seus cart uns colaboraram com a luta contra a ditadura, pe la democratização do país, em defesa da anistia aos presos políticos e do movimento Diretas Já !. O A m ig o da O nç a, d e Pé ri cl es Ca pa d e B el m on te , o rg an iz ad o po r G on ça lo J ún io r Henfil H enfil 105105 Sem pretender estabelecer tipifi cações rígidas ou categorias determinadas, é possível perceber algumas especifi cidades no universo das charges e cartuns e, com isso, identifi car diferentes tipos para essas modalidades do humor gráfi co. A prin- cipal delas é com relação ao contexto retratado, de ordem mais política ou social. Pode parecer redundante, mas podemos carac- terizar algumas charges como charge política ou cartum político. São aquelas imagens que apre- sentam temáticas relacionadas à conjuntura política local, nacional ou internacional, vinculadas a fatos ou personagens reais (no caso da charge) ou a abor- dagens políticas genéricas (no caso do cartum). Na prática, é a grande maioria das charges e cartuns produzidos em nossa imprensa. Essas imagens exa- lam acidez e criticidade e, em alguns casos, chegam a exercer uma atitude quase militante. 5. Tipos diferentes de charg es e cartuns C ha rg e Po lít ic a de L ai ls on Ca rt um P ol ít ic o de L ai ls on Ca rt um S oc ia l d e D uk e Ca rt um S oc ia l d e Ra fa el L im av er de 106106 Por sua vez, há algumas imagens que, apesar de manterem essencialmente as qualidades das charges e cartuns, apresentam uma atitude mais amena em relação à temática retratada e, por isso, podem ser defi nidas como charge social ou cartum social. Elas funcionam como uma es- pécie de crônica ilustrada e é bastante utilizada no contexto esportivo e para prestar homenagens. O formato de apresentação das imagens é ou- tro aspecto utilizado para designar diferentes ti- pos de charges e cartuns. Na quase totalidade dos casos, esses desenhos aparecem em um único quadro. Podemos também encontrar várias cenas inseridas em um único quadro maior. Porém, prin- cipalmente no caso das charges, há situações em que ela é apresentada por meio de uma tira. Nesse caso, a denominamos de tira chárgica. É bastante comum nas publicações impressas as charges e cartuns acompanharem ou comple- mentarem algum texto verbal. Apesar disso, não se deve considerar que essas produções ico- nográfi cas tenham como objetivo apenas ilustrar ou ser um elemento decorativo de um texto ver- bal. Ao contrário, elas têm autonomia infor- mativa e propósito comunicativo próprio e peculiar. Além disso, é possível verifi car em várias publicações a charge ocupando um lugar especí- fi co, sem relação necessária e imediata com qual- quer notícia ou produção verbal. Nesses casos, o leitor estará diante de uma charge editorial. Elas aparecem em diversos contextos comunicati- vos, ora explorando o tema de maior importância, visibilidade ou polêmica explorado pelo veículo de comunicação, ora como uma tentativa de sistema- tização de uma determinada conjuntura econômi- ca ou sociopolítica. Várias cen as em um único quad ro de Laer te Tira Chárgica de Márcio Haraldi 107107 O educador pode se utilizar da produção de charges e cartuns para fi ns de ensino e apren- dizagem. Assim, além de realizar uma atividade lúdica, ainda estimula a criatividade e a critici- dade dos educandos. Para a produção de charges, o professor deve escolher um fato ou notícia da atualidade que seja do conhecimento da maioria das pessoas envolvi- das e oferecer o máximo possível de informações e detalhes a seu respeito. Ele pode, ainda, disponi- bilizar fotos de pessoas envolvidas no fato a ser re- tratado, incentivando a produção de caricatu- ras. Esse recurso é sempre uma estratégia muito efi ciente para as charges, pois facilita ao leitor o reconhecimento dos acontecimentos. Depois dis- so, é só deixar agir a criatividade do educando na produção de sua própria charge. 6. A produção de charges e cartuns para uso pedagógico Por sua vez, para a produção de cartuns, deve haver uma liberdade maior na criação da narrati- va visual e verbal, inclusive, com a possibilida- de de inventar personagens que possam vivenciar as mais distintas situações. O professor pode con- tribuir apresentando sugestões de temas que este- jam diretamente relacionados com a sua disciplina ou ainda temas transversais, garantindo que as imagens produzidas sejam utilizadas no contex- to do processo educativo. Caricatura: retrato caricato que apresenta de maneira exagerada, geralmente distorcida e engraçada, as características físicas de uma pessoa. Clayton Clayton Clayton 108108 Além de incentivar a produção de charges e cartuns como atividade pedagógica, o educador também pode propor exercícios de análise desse tipo de imagem como estratégia de aprendizagem. Para isso, há uma série de ele- mentos e condições que devem ser considerados para a realização de uma boa análise. A primeira questão a ser considerada é que a charge ou cartum são recursos gráfi co-vi- suais que compõem um universo comunicativo mais amplo. Não é possível fazer uma análise sem considerar o contexto comunicativo maior, afi nal, as charges e cartuns se integram, dão sentido e compõem os textos verbais de um jornal ou revista e essa unidade não deve ser quebrada. Mesmo no caso de uma charge edi- torial, ainda assim é preciso considerar todo o contexto da página onde foi publicada. No caso específi co das charges, também é necessário verifi car se elas fazem parte de uma produção jornalística formal. Nesse caso, a qua- lidade informativa da imagem é fundamen- tal e o analista deve examinar se os principais elementos informativos estão presentes e, caso não estejam, deve indicar se essa ausência com- promete a efetividade comunicativa. Como já indicado, a charge ou cartum se propõe a defender uma ideia. Portanto, repre- sentam a opinião de alguém tentando infl uir 7. Dicas importantes para o professor realizar a anális e de charges e cartuns no raciocínio e/ou na opinião de outra pessoa. Porém, toda charge ou cartum é produzido sob certas condições de produção e, para fazer uma boa análise, o professor precisa cumprir alguns objetivos, entre eles: (a) identifi car o autor e sua formação ideológica; (b) conhecer as ca- racterísticas do veículo ou do suporte onde estão publicados e também das instituições res- ponsáveis pela respectiva produção comunicati- va; (c) ter conhecimento de como se organizam as relações sociais de produção (se há ou não vínculo empregatício do chargista ou cartu- nista na empresa); (d) conferir se há interações entre diferentes sujeitos durante o proces- so de criação das imagens; (e) verifi car como se estabelecem os processos decisórios em re- lação à aceitação e consequente publicação da imagem produzida. Combinado com essas dicas para uma análise mais voltada para o contexto sociopolítico, tam- bém é preciso realizar uma descrição detalhada dos elementos visuais e verbais contidos na charge ou cartum (personalidades conheci- das, cenários, expressões, cores, balões de fala, legendas etc.). Depois disso, deve-se acionar todo o repertório de conhecimentos gerais e es- pecífi cos que permita explicitar os efeitos de sen- tido da imagem a ser analisada. 109109 leia e saiba mais!leia e saiba mais! Além dessas orientações gerais, o professor deve se familiarizarcom as metodologias pró- prias para análise de imagens, pois sabemos que não é fácil fazer a leitura de uma imagem. É pre- ciso apresentar argumentação sólida, coerente e que faça sentido. Não se pode fazer uma boa análise baseada apenas em “achismos”. Como exercício de aplicação e de aprendiza- gem, os professores podem buscar o jornal de sua cidade ou região, selecionar as charges e cartuns publicados e realizar uma análise dessas imagens procurando aproveitar todas essas dicas apresentadas. Claro, é bom ampliar a sua leitura sobre o assunto em outras fontes. O(A) professor(a) deve buscar conhecer ou- tros pesquisadores do as sunto, assim como chargistas e cartunistas , que contribuirão ainda mais para que se p ossa aproveitar ao máximo a riqueza desses recursos iconográ- ficos no processo educat ivo. A seguir, algu- mas indicações: História da caricatura n o Brasil, de Herman Lima (em 4 volumes); História da caricatura brasileira: os pre- cursores e a consolidação da caricatura no Brasil, de Luciano Magno; Charge jornalística: int ertextualidade e polifonia: um estudo de ch arges da Folha de S.Paulo, por Edson Carlos R omualdo; Sentidos do humor, tra paças da razão: a charge, de Luiz Guilherme Sodré Teixeira; Entre sem bater!: o hu mor na imprensa: do Barão de Itararé ao Pasquim2 1, de Luís Pimentel; Imprensa, humor e cari catura: a questão dos estereótipos culturai s, organização de Isabel Lustosa; O rebelde do traço: a v ida de Henfil, de Dênis de Moraes; Cultura e política entre fradins, zeferinos, graúnas e orelanas, de Ma ria da Conceição Francisca Pires. Pu bl ic aç õe s lo ca is A m ig o da O nç a N et o Herman Lima (1897-1981): escritor, memorialista, biógrafo e crítico de arte. Nascido no Ceará, começou a trabalhar muito jovem como auxiliar de fotógrafo, mais tarde cursando medicina e atuando em outras funções. Desde 1940 passou a estudar caricatura, arte do qual já era colecionador. Além da citada coleção em 4 volumes, referência maior para pesquisadores, escreveu Tigipió (1924), menção honrosa da Academia Brasileira de Letras, Garimpos (1930), Imagens do Ceará (1958), Poeira do Tempo (1967), entre outros. Barão de Itararé (1895-1971): o título Entre sem bater! refere-se a uma piada do gaúcho barão de Itararé, certamente um dos maiores nomes da arte do humor na imprensa nacional. O barão, devido às piadas que fazia sobre políticos importantes de sua época, foi preso e apanhou diversas vezes. Daí, um dia, colocou uma placa, destinada aqueles policiais, na porta da redação do jornal A Manha, onde se lia: “Entre sem bater!” 110110 8. Para encerrar... Neste fascículo, o(a) educ ador(a) pôde conhe- cer um pouco mais a respe ito do fascinante univer- so das charges e cartuns . Essas imagens roubam a atenção do(a) leitor(a) e o(a) convida a pensar sobre a política e a socied ade, sem contar que, às vezes, o(a) diverte bastant e. Mais do que retratar o nos so cotidiano e pautar temas de grande relevân cia para a vida social, as charges e os cartuns, co mo vimos, podem servir como importante estrat égia educativa, no momento em que em form a de desafi o, o educan- do será provocado a refl etir, a impulsionar a sua imaginação e criatividade e a exercitar e desenvol- ver a sua capacidade crític a de ver o mundo. Por essas e outras, profess or(a), procure conhe- cer mais e abuse dessas i magens em suas ativida- des em sala de aula. Cert amente, seus alunos sai- rão ganhando. Referências BELMONTE. Caricatura dos tempos. São Paulo: Melhoramentos / Círculo do Livro, 1982. CAGNIN, Antonio Luiz. Ca rões, caras e caretas: s alão de humor e de outros humor es. Texto inédito, s/d. ECO, Umberto. Los marco s de la “libertad” cômica. In: ECO, Umberto; IVANOV, Vyache slav; RECTOR, Mônica. ¡Car naval!. México DF: Fondo de Cult ura Económica S.A., 1989 . HENFIL. Como se faz h umor político: depoim ento a Tárik de Souza. São Paulo : Kuarup, 2014. MIANI, Rozinaldo Anton io. Charge editorial: icon ografi a e pesquisa em História. Dom ínios da Imagem, Lond rina, v. 8, n. 16, p. 133-145, jun. /dez. 2014. MIANI, Rozinaldo Antonio . As transformações no mun- do do trabalho na déc ada de 1990: o olhar ate nto da charge na imprensa do S indicato dos Metalúrgico s do ABC paulista, Assis: Unesp, 20 05. Tese (Doutorado em História). Universidade Estadual Pau lista, Assis, 2005. MIANI, Rozinaldo Antonio. A utilização da charge na im- prensa sindical na déca da de 80 e sua infl uênc ia po- lítica e ideológica. São Paulo: ECA/USP, 2000. Dis sertação (Mestrado em Ciências da C omunicação). Escola de Com unicação e Artes, Universidade de Sã o Paulo, São Paulo, 2000. A utilização da charge na im- prensa sindical na déca da de 80 e sua infl uênc ia po- . São Paulo: ECA/USP, 200 0. Dissertação (Mestrado em Ciências da C omunicação). Escola de Com unicação RIANI, Camilo. Linguage m & cartum... tá rind o do quê? Um mergulho nos salões de humor de Pi racicaba. Piracicaba: Editora Unime p, 2002. SILVA, Marcos Antonio da . Prazer e poder do Am igo da Onça, 1943-1962. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989 . WEBER, Hilde. O Brasil e m Charges (1950 - 198 5). São Paulo: Circo Editorial, 198 6. 111111 Rozinaldo Antonio Miani (Autor) graduado em Jornalismo e História, mestre em Ciências da Comunicação pela ECA/USP, doutor em História pela Unesp/ Campus Assis e pós-doutor pela ECA/USP. Docente do Departamento de Comunicação da Universidade Estadual de Londrina (UEL), vice-coordenador do Programa de Mestrado em Comunicação da UEL e coordenador do Núcleo de Pesquisa em Comunicação Popular (NCP/CNPq). Desenvolve pesquisas analisando a História do Brasil recente por meio das charges e cartuns. Foi bolsista de produtividade da Fundação Araucária/PR (2014-2016) desenvolvendo pesquisa a respeito da produção chárgica de Carlos Latuff. Todos os direitos desta edição reservados à: Av. Aguanambi, 282/A - Joaquim Távora CEP 60055-402 - Fortaleza- Ceará Tel.: (85) 3255.6037 - 3255.6148 - Fax: 3255.6271 fdr.org.br | fundacao@fdr.com.br Expediente FUNDAÇÃO DEMÓCRITO ROCHA João Dummar Neto Presidência | Marcos Tardin Direção Geral | UNIVERSIDADE ABERTA DO NORDESTE Viviane Pereira Gerência Pedagógica | Ana Paula Costa Salmin Coordenação Geral | CURSO QUADRINHOS EM SALA DE AULA: Estratégias, Instrumentos e Aplicações Raymundo Netto Coordenação Geral, Editorial e Preparação de Originais | Waldomiro Vergueiro Coordenação de Conteúdo | Amaurício Cortez Edição de Design | Amaurício Cortez, Karlson Gracie e Welton Travassos Projeto Gráfi co | Dhara Sena Editoração Eletrônica | Cristiano Lopez Ilustração | Emanuela Fernandes Gestão de Projetos ISBN 978-85-7529-853-4 (coleção) Este fascículo é parte integrante do projeto HQ Ceará 2, em decorrência do Termo de Fomento celebrado entre a Fundação Demócrito Rocha (FDR) e a Prefeitura Municipal de Fortaleza, sob o nº 001/2017. RealizaçãoApoio CRISTIANO LOPEZ (Ilustrador) é desenhista, Ilustrador e quadrinista. É desenhista-projetista do Núcleo de Ensino a Distância da Universidade de Fortaleza e ilustrador e chargista freelancer para o jornal Agrovalor, revista Ponto Empresarial (Sescap-CE) e Editora do Brasil. 978-85-7529-860-2(volume 7) Rafael Limaverde