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O Estudo da Educação Alimentar e Nutricional APRESENTAÇÃO Você sabe por que o índice de sobrepeso e obesidade aumentou tanto nas últimas décadas no Brasil? O que mudou foi o modo de vida da população brasileira e, consequentemente, seus hábitos alimentares. Mas por que isso ocorreu? As mudanças políticas, econômicas, sociais e culturais que ocorreram no país nos últimos tempos evidenciam essas transformações. Diante dessa situação, é preciso reunir esforços para a implementação de políticas ou ampliação de ações que repercutam de forma positiva sobre os determinantes de saúde e nutrição. Assim, a Educação Alimentar e Nutricional (EAN) pode ser uma estratégia para a mudança desse cenário. Nesta Unidade de Aprendizagem, você vai estudar o panorama atual de saúde da população brasileira e a importância desse assunto para a saúde pública do país, incluindo a transição demográfica, epidemiológica e nutricional. Além disso, você vai aprofundar os conceitos do Direito Humano à Alimentação Adequada e da EAN, conhecendo o histórico desta última. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Identificar o panorama atual de saúde da população brasileira.• Promover reflexões sobre o Direito Humano à Alimentação Adequada e a Segurança Alimentar e Nutricional. • Reconhecer o histórico nacional da Educação Alimentar e Nutricional.• DESAFIO Você faz parte da equipe da Secretaria de Saúde de um município. Todo ano, diversas atividades são promovidas durante o Dia Mundial da Alimentação, instituído na data de 16 de outubro pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO). Após identificar a situação de saúde da população de adultos desse município, em acordo com a tendência do país, a transição epidemiológica foi observada de forma alarmante, assim como a transição nutricional. INFOGRÁFICO A Educação Alimentar e Nutricional (EAN) pode ser considerada como uma das estratégias que influencia de forma positiva os determinantes de saúde, especialmente a nutrição. CONTEÚDO DO LIVRO Você já se deu conta de como, ao longo dos últimos anos, a saúde da população brasileira mudou? Como evoluíram os índices de desnutrição, sobrepeso e obesidade ou, ainda, qual é o perfil de consumo alimentar atual? Diante dessa realidade, a Educação Alimentar e Nutricional (EAN) surge como parte de um conjunto de estratégias criadas para promover a alimentação adequada e saudável. No capítulo utilizado como base teórica desta Unidade de Aprendizagem, você vai aprofundar os conceitos do Direito Humano à Alimentação Adequada e da Segurança Alimentar e Nutricional, diretamente relacionados à temática da EAN. Além disso, é interessante lembrar como a EAN aconteceu no contexto histórico do Brasil. Boa leitura! EDUCAÇÃO NUTRICIONAL Fernanda Rockett Rafaela da Silveira Corrêa Catalogação na publicação: Poliana Sanchez de Araujo – CRB 10/2094 R682e Rockett, Fernanda. Educação nutricional / Fernanda Rockett, Rafaela da Silveira Corrêa. – Porto Alegre : SAGAH, 2017. 242 p. : il. ; 22,5 cm. ISBN 978-85-9502-016-0 1. Nutrição. 2. Educação nutricional. I. Corrêa, Rafaela da Silveira. II. Título. CDU 613.2 O estudo da educação alimentar e nutricional Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: � Identificar o panorama atual de saúde da população brasileira. � Promover reflexões sobre o Direito Humano à Alimentação Adequada e a Segurança Alimentar e Nutricional. � Conhecer o histórico nacional da Educação Alimentar e Nutricional. Introdução As mudanças políticas, econômicas, sociais e culturais que ocorreram no Brasil, especialmente nas últimas décadas, evidenciaram importantes transformações no modo de vida da população. Com isso, observou-se um aumento dos índices de sobrepeso e obesidade, assim como mudanças nos padrões alimentares. Neste cenário, são necessários esforços para a implementação de políticas ou ampliação de ações que repercutam de forma positiva sobre os determinantes de saúde e nutrição. Assim, a Educação Alimentar e Nutricional (EAN) pode ser uma estratégia para mudança deste cenário. Neste texto, você vai estudar o panorama atual de saúde da população brasileira e a importância deste assunto para a saúde pública do país, incluindo a transição demográfica, epidemiológica e nutricional. Além disso, você aprofundará os conceitos do Direito Humano à Alimentação Adequada e da Segurança Alimentar e Nutricional e conhecerá o histórico da Educação Alimentar e Nutricional. Panorama atual de saúde da população brasileira As mudanças políticas, econômicas, sociais e culturais que ocorreram no Brasil, especialmente nas últimas décadas, evidenciaram importantes transfor- mações no modo de vida da população. Concomitante a isso, observa-se uma rápida transição demográfica, epidemiológica e nutricional, que trouxe como consequências maior expectativa de vida e redução do número de filhos, além de modificações no padrão de saúde e de consumo alimentar da população. Essa realidade está relacionada a diversos fatores, como a industrialização, a globalização e o intenso processo de urbanização, que geraram repercussões nas relações de trabalho, nas formas de oferta e acesso aos serviços públicos, no sistema alimentar, na atividade física, no lazer, etc. A transição demográfica pode ser observada na diminuição dos índices de fecundidade e mortalidade e no aumento do envelhecimento da população (proporção de idosos) e da expectativa de vida. Já a transição epidemiológica engloba a diminuição da ocorrência de doenças infectocontagiosas e o aumento das doenças crônicas não transmissíveis (DCNT), que passam a ser proble- mas de saúde pública no país e a principal causa de morte entre a população adulta. Embora com índices reduzidos, a desnutrição crônica e a deficiência de micronutrientes em grupos vulneráveis (indígenas, quilombolas, crianças e mulheres que vivem em áreas vulneráveis) aparecem de forma simultânea com os casos de sobrepeso e obesidade, que aumentam expressivamente em todas as camadas da população, englobando o fenômeno da transição nutricional. As doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) englobam, por exemplo, o diabetes, a hipertensão arterial, as doenças cardiovasculares e respiratórias e o câncer. Além disso, lideram o ranking das causas de morte da população brasileira e contribuem para a perda de qualidade de vida com alto grau de limitação nas atividades de trabalho e de lazer, além de causar impactos econômicos para as famílias, comunidades e a sociedade em geral. Educação nutricional28 Transição nutricional pode ser entendida como um fenômeno no qual ocorre uma inversão nos padrões de distribuição dos problemas nutricionais de uma dada po- pulação no tempo sendo, em geral, uma passagem da desnutrição para a obesidade. A última Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) realizada no Brasil (2008-2009) trouxe dados de estado nutricional alarmantes: em crianças de 5 a 9 anos, o excesso de peso foi observado em 33,5%, e a obesidade, em 14,2%. Para os adolescentes, 20,5% apresentavam excesso de peso e 5% obesidade. Aproximadamente 15% dos adultos (20 anos ou mais) estavam com obesidade e cerca de metade da população apresentou excesso de peso. Você pode obter mais informações no seguinte artigo internacional que aborda a Transição Nutricional no mundo: POPKIN, B. M.; ADAIR, L. S.; NG, S. W. Now and then: the global nutrition transition: the pandemic of obesity in developing countries. Disponível em: <http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3257829/>. Os resultados da POF 2008-2009 foram comparados com o Estudo Nacional da Despesa Familiar de 1974-1975, a Pesquisa Nacional sobre Saúde e Nutrição de 1989 e a POF 2002-2003, obtendo-se uma linha histórica, ou tendência secular, dessa evolução. O país, que apresentava altas taxas de desnutriçãona década de 1970, passou a ter metade da população adulta com excesso de peso. O excesso de peso quase triplicou entre homens, comparando-se os primeiros e últimos dados. Nas mulheres, o aumento foi menor, embora também tenha ocorrido. Já a obesidade cresceu mais de quatro vezes entre os homens e mais de duas vezes entre as mulheres. Por outro lado, o déficit de peso segue em declínio, em ambos os sexos e em todos os estratos de renda. Padrões semelhantes também foram observados para as crianças e os adolescentes. 29O estudo da educação alimentar e nutricional Vale a pena destacar que também ocorreram mudanças na forma como as pessoas se alimentam, pois o estado nutricional também se relaciona com o padrão de consumo alimentar. Antigamente, a maior parte das refeições era feita em casa, e as famílias dedicavam tempo para o seu preparo, utilizando alimentos frescos, saudáveis e da estação. Atualmente, mulheres e homens trabalham fora de suas casas, e as crianças e os jovens estão envolvidos em mais atividades, o que os leva a se alimentarem mais vezes fora de casa e a consumir, pela praticidade, produtos prontos para consumo. Esses produtos geralmente são muito calóricos e têm grandes quantidades de sal, gorduras saturadas e açúcares. Essa situação se confirma na mesma POF, cujos resultados revelaram que o consumo alimentar combina a dieta tradicional brasileira à base de arroz e feijão (itens mais referidos e de boa qualidade nutricional) com alimentos de teor reduzido de nutrientes e de alto teor calórico. Observa-se, por exem- plo, baixo consumo de frutas, verduras e legumes (abaixo do recomendado pelo Ministério da Saúde de 400 g/dia) e leite e consumo elevado de bebidas com adição de açúcar, como sucos, refrigerantes e refrescos, os quais são particularmente referidos pelos adolescentes. O consumo de açúcares, sódio e gorduras saturadas mostrou-se excessivo, enquanto o de fibras esteve bem inferior ao ideal. De forma geral, as prevalências de inadequação de ingestão de micronu- trientes foram altas e refletem a baixa qualidade da dieta do brasileiro. Em síntese, o consumo alimentar é principalmente constituído de alimentos de alto teor energético e apresenta baixo teor de nutrientes, configurando uma dieta de risco para déficits em importantes nutrientes, obesidade e para muitas DCNT. Todos esses fatores, aliados ao declínio do nível de atividade física, ao marketing exacerbado de alimentos processados, ao consumismo, etc., possuem relação direta com o aumento do excesso de peso e da obesidade e demais DCNT e explicam, em parte, suas crescentes prevalências. Nesse cenário, são necessários esforços para a implementação de políticas ou ampliação de ações intersetoriais que repercutam de forma positiva sobre os determinantes de saúde e nutrição. Essas ações devem estimular, apoiar e proteger padrões de alimentação saudável e a prática regular de atividade física. Educação nutricional30 Leia a Pesquisa de Orçamentos Familiares 2008-2009 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística na íntegra para saber mais sobre o estado nutricional de crianças, adolescentes e adultos e a análise do consumo alimentar no Brasil. Pesquisa de orçamentos familiares 2008-2009: análise do consumo alimentar pessoal no Brasil. Disponível em: <http:// biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv50063.pdf>; Pesquisa de orçamentos familiares 2008-2009: antropometria e estado nutricional de crianças, adolescentes e adultos no Brasil. Disponível em: <http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv45419.pdf>. Direito humano à alimentação adequada e segurança alimentar e nutricional A alimentação adequada e saudável é um dos direitos fundamentais da hu- manidade, que foram definidos por um pacto mundial, do qual o Brasil é signatário, e está consagrado na Constituição Federal. Esses direitos referem-se a um conjunto de condições necessárias e essenciais para que todos os seres humanos, de forma igualitária e sem nenhum tipo de discriminação, existam, desenvolvam suas capacidades e participem plenamente e dignamente da vida em sociedade. O direito humano à alimentação adequada (DHAA) se realiza quando todo homem, mulher e criança, sozinho ou em comunidade, tem acesso físico e econômico, ininterruptamente, a uma alimentação adequada e saudável ou aos meios necessários para sua obtenção e abrange todas as pessoas, de todas as sociedades, e não apenas aquelas que não têm acesso aos alimentos. DHAA: direito humano inerente a todas as pessoas de ter acesso regular, permanente e irrestrito, quer diretamente ou por meio de aquisições financeiras, a alimentos seguros e saudáveis, em quantidade e qualidade adequadas e suficientes, correspondentes às tradições culturais do seu povo e que garantam uma vida livre do medo, digna e plena nas dimensões física e mental, individual e coletiva. 31O estudo da educação alimentar e nutricional Por ser um direito de todos os cidadãos e também obrigação do Estado, em todas as esferas de governo, o Estado deve: � respeitar o DHAA: não adotando medidas que possam resultar na privação da capacidade de indivíduos ou grupos de prover sua própria alimentação; � proteger o DHAA: agindo para impedir que terceiros interfiram em sua realização ou violem o direito; � promover o DHAA: criando soluções que permitam a realização efetiva desse direito; � prover alimentos diretamente a indivíduos ou grupos populacionais que estejam em situação que impeça de produzi-los e/ou obtê-los por conta própria, até que alcancem condições de fazê-lo. Veja no seguinte vídeo a presidente do Conselho de Segurança Alimentar (Consea) falando sobre DHAA, alimentação saudável e adequada, transição nutricional e segu- rança alimentar e nutricional: CONSEA. Entrevista com Maria Emilia, presidente do Consea, para a Rede Sans. Disponível em: <https://youtu.be/ZxUkL3rBUzA?list=PLnQqjvTufNV 9g07bLGj14eN4c7v9dGPBP>. Segundo a Lei Orgânica de Segurança Alimentar e Nutricional (LOSAN), a segurança alimentar e nutricional (SAN) consiste na realização do direito de todos ao acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais, tendo como base práticas alimentares promotoras de saúde que respeitem a diver- sidade cultural, econômica e que sejam socialmente sustentáveis. Por outro lado, problemas como fome, obesidade, doenças associadas à má alimentação, consumo de alimentos de qualidade duvidosa ou prejudicial à saúde, estrutura de produção de alimentos predatória em relação ao ambiente e bens essenciais com preços abusivos e imposição de padrões alimentares que não respeitem a diversidade cultural podem ser considerados como situações de insegurança alimentar. Educação nutricional32 Assim, os conceitos mencionados estão fortemente relacionados, sendo a SAN a realização do DHAA previsto, que pode também ser entendida como o direito de se alimentar devidamente, respeitando particularidades e características culturais de cada região. Além disso, a Política Nacional de Alimentação e Nutrição (PNAN) se insere na perspectiva do DHAA, tendo como propósito melhorar as condições de alimentação e assegurar a SAN da população brasileira. Mas, afinal, o que é uma alimentação saudável e adequada? Há diversas definições de “alimentação adequada e saudável” que apresentam a com- plexidade da alimentação, ressaltando que ela está muito além da dimensão biológica. Segundo o Guia Alimentar para a População Brasileira, a o termo refere-se ao direito básico que envolve a garantia ao acesso permanente e regular, de forma socialmente justa, a uma prática alimentar adequada aos aspectos biológicos e sociais do indivíduo e que deve estar em acordo com as necessidades alimentares especiais; ser referenciada pela cultura alimentar e pelas dimensões de gênero, raça e etnia; acessível do ponto de vista físico e financeiro; harmônica em quantidade e qualidade,atendendo aos princípios de variedade, equilíbrio, moderação e prazer; e baseada em práticas produtivas adequadas e sustentáveis. Nesse contexto, a alimentação saudável e adequada engloba a forma como o alimento é produzido, a qualidade das sementes, da água e do solo utilizados no plantio, a sustentabilidade ambiental ou uso de defensivos agrícolas na produção, a forma da colheita, o processamento, o abastecimento, a comer- cialização e a distribuição, as relações de trabalho envolvidas. Todos esses aspectos compõem de maneira ampla o sistema alimentar e são determinantes para a qualidade do alimento que será consumido. Veja na Figura 1 as multi- dimensões e os princípios de uma alimentação saudável e adequada. 33O estudo da educação alimentar e nutricional Entende-se, assim, que a educação alimentar e nutricional (EAN) seja uma estratégia para a promoção do DHAA e a garantia da SAN. Segundo o Marco de Referência (BRASIL, 2012), educação alimentar e nutricional no contexto da realização do DHAA e na garantia da segurança alimentar e nutricional é um campo de conhecimento e de prática contínua e permanente, transdisciplinar e multiprofissional que tem o objetivo de promover a prática autônoma e voluntária de hábitos alimentares saudáveis. A prática da EAN deve fazer uso de abordagens e recursos educacionais problematizadores e ativos que favoreçam o diálogo junto a indivíduos e grupos populacionais, considerando todas as fases do curso da vida, etapas do sistema alimentar e as interações e significados que compõem o comportamento alimentar. Figura 1. Multidimensões e princípios da alimentação saudável e adequada. Fonte: BRASIL (2014). Educação nutricional34 Histórico da educação alimentar e nutricional Atualmente, a EAN está inserida no âmbito das políticas públicas no contexto da promoção da saúde e da SAN, sendo entendida como uma ferramenta que pode e deve ser utilizada na promoção do DHAA. A EAN destaca-se na prevenção e no controle dos problemas alimentares e nutricionais contemporâneos, uma vez que tem como resultados potenciais: a valorização e o resgate da cultura alimentar brasileira, o fortalecimento dos hábitos alimentares regionais, a prevenção e o controle das DCNT e a promoção de práticas alimentares adequadas, saudáveis e sustentáveis. Pela alarmante progressão da transição nutricional no Brasil, observada nos panoramas de saúde encontrados, uma das principais estratégias para reverter esse quadro é o estímulo à adoção de hábitos alimentares saudáveis de forma a fornecer as informações necessárias para que o próprio indivíduo seja capaz de realizar escolhas alimentares saudáveis. O termo “educação alimentar e nutricional”, ao contrário da “educação nutricional” ou “educação alimentar”, é adotado para que o escopo de ações abranja desde os aspectos relacionados ao alimento e à alimentação, os processos de produção, abastecimento e transformação até aspectos nutricionais. No Brasil, como prática organizada, a EAN remonta à década de 1930, período marcado pelo início da conformação do parque industrial e a orga- nização de uma classe trabalhadora nas cidades. Nesse momento histórico, os estudos de Josué de Castro revelaram a desigualdade social e a fome no país, e as estratégias de EAN eram dirigidas à classe de menor renda com o objetivo de ensiná-los a se alimentar pela dimensão estritamente biológica. As ações eram centradas em campanhas de introdução de alimentos que não eram usualmente consumidos, e a profissional intitulada como “visitadora de alimentação” visitava os domicílios para realizar EAN da forma tradicional. Entre 1970 e 1980, evidenciou-se a interferência de interesses econômicos nas ações de EAN. Com o aumento do cultivo da soja e a necessidade do escoamento da produção, iniciativas voltadas à promoção do seu consumo e de seus derivados foram deflagradas. As ações tiveram resultados contrários 35O estudo da educação alimentar e nutricional aos pretendidos ou irrisórios, demonstrando a ineficiência de práticas que desconsideram os aspectos sensoriais e culturais. Como consequência dos fracassos anteriores, a EAN foi pouco valorizada na década de 1990 como disciplina ou estratégia de política pública, mas passou a ser considerada como uma medida necessária a partir do momento em que a transição nutricional começou a mostrar seus efeitos. Paralelamente, iniciou-se um intenso processo de renovação da educação em saúde, com reflexos na EAN, possibilitando a discussão das limitações de praticá-la de forma prescritiva e limitada a aspectos biológicos, sem o reconhecimento das outras dimensões que afetam o comportamento alimentar. Ao final da década de 1990, a expressão “promoção de práticas alimentares saudáveis” começa a ter destaque no país, e a necessidade de que o Estado deva implementar políticas, programas e ações que possibilitem a realização progressiva do DHAA fica evidente. A EAN apresenta-se nesse momento valorizando a ênfase no sujeito, na democratização do saber, na cultura, na ética e na cidadania. No início dos anos 2000, a proposição e posterior implementação do Pro- grama Fome Zero contemplava ações de EAN, o que favoreceu um progressivo aumento dessas iniciativas e também sua valorização como tema da política pública. Na publicação da Lei 11.947/2009, do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), por exemplo, uma diretriz prevê a inclusão da EAN no processo de ensino- -aprendizagem, que perpassa pelo currículo escolar, abordando o tema alimentação e nutrição e o desenvolvimento de práticas saudáveis de vida, na perspectiva da SAN. Além disso, o incentivo à compra de alimentos da agricultura familiar também exemplifica essas iniciativas públicas. Educação nutricional36 Internacionalmente, ações como a Estraté gia Global para a Promoção da Alimentação Saudável, Atividade Física e Saúde (WHO, 2004) reforçaram a agenda de promoção da alimentação saudável em geral e da EAN em particular, reforçando o papel dos estados membros. No Brasil, a EAN é referenciada de maneira transversal em todas as diretrizes da Política Nacional de Alimentação e Nutrição (2012), que também prioriza a elaboração e a pactuação de uma agenda integrada intra e intersetorial da temática. Ainda, a EAN está presente em outras políticas e documentos normativos da área da saúde. No contexto da SAN, o desafio da EAN é ultrapassar os limites das ações dirigidas ao consumo de alimentos e seu impacto na saúde e estendê-las para as dimensões que abranjam a produção e o abastecimento de alimentos. 37O estudo da educação alimentar e nutricional BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF, 1988. Disponível em: <https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/ constituicao.htm>. Acesso em: 14 nov. 2016. BRASIL. Lei nº 11.346, de 15 de setembro de 2006. Cria o Sistema Nacional de Segu- rança Alimentar e Nutricional – SISAN com vistas em assegurar o direito humano à alimentação adequada e dá outras providências. Brasília, DF, 2006. Disponível em: <https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/lei/l11346.htm>. Acesso em: 14 nov. 2016. BRASIL. Ministério da Saúde. Guia Alimentar para a População Brasileira. 2. ed. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2014. Disponível em: <http://189.28.128.100/dab/docs/portaldab/ publicacoes/guia_alimentar_populacao_brasileira.pdf>. Acesso em: 14 nov. 2016. BRASIL. Ministério da Saúde. Política Nacional de Alimentação e Nutrição. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2012. Disponível em: <http://189.28.128.100/nutricao/docs/geral/ pnan2011.pdf>. Acesso em: 14 nov. 2016. BRASIL. Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Coordenação- -Geral de Educação Alimentar e Nutricional (CGEAN/ MDS). Educação Alimentar e Nutricional: uma estratégia para a promoção do direito humano à alimentação adequada. Brasília, DF: UNB, 2014. BRASIL. Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome.Marco de Referência de Educação Alimentar e Nutricional para políticas públicas. Brasília, DF: MDS, 2012. Dis- ponível em: <http://www.mds.gov.br/webarquivos/publicacao/seguranca_alimentar/ marco_EAN.pdf>. Acesso em: 14 nov. 2016. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Pesquisa de orçamentos fami- liares 2008-2009: análise do consumo alimentar pessoal no Brasil. Rio de Janeiro: IBGE, 2011. Disponível em: <http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv50063.pdf>. Acesso em: 06 dez. 2016. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Pesquisa de orçamentos familiares 2008-2009: antropometria e estado nutricional de crianças, adolescentes e adultos no Brasil. Rio de Janeiro: IBGE, 2010. Disponível em: <http://biblioteca.ibge.gov.br/ visualizacao/livros/liv45419.pdf>. Acesso em: 06 dez. 2016. WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). estratégia global para a promoção da ali- mentação saudável, atividade física e saúde. 22 maio 2004. Disponível em: http://www. who.int/dietphysicalactivity/strategy/eb11344/strategy_english_web.pdf. Acesso em: 15 nov. 2016. 41O estudo da educação alimentar e nutricional Leituras recomendadas BATISTA FILHO, M; RISSIN, A. A transição nutricional no Brasil: tendências regionais e temporais. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 19, supl. 1, p. S181-S191, 2003. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102- -311X2003000700019>. Acesso em: 15 nov. 2016. BOOG, M. C. F. Histórico da Educação Alimentar e Nutricional no Brasil. In: DIEZ-GARCIA, R. W. Mudanças Alimentares e Educação Nutricional. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2011. p. 66-73. CONSEA. Entrevista com Maria Emilia, presidente do Consea, para a Rede Sans. 28 maio 2015. Disponível em: <https://youtu.be/ZxUkL3rBUzA?list=P LnQqjvTufNV9g- 07bLGj14eN4c7v9dGPBP>. Acesso em: 06 dez. 2016. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Pesquisa de orçamentos fa- miliares 2008-2009: análise do consumo alimentar pessoal no Brasil. Rio de Janeiro: IBGE, 2011. Disponível em: <http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv50063. pdf>. Acesso em: 06 dez. 2016. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Pesquisa de orçamentos familiares 2008-2009: antropometria e estado nutricional de crianças, adolescentes e adultos no Brasil. Rio de Janeiro: IBGE, 2010. Disponível em: <http://biblioteca.ibge. gov.br/visualizacao/livros/liv45419.pdf>. Acesso em: 06 dez. 2016. POPKIN, B. M.; ADAIR, L. S.; NG, S. W. Now and then: The global nutrition transition: the pandemic of obesity in developing countries. Nutrition Reviews, Oxford, v. 70, n. 1, p. 3-21, jan. 2012. Disponível em: <http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/ PMC3257829/>. Acesso em: 15 nov. 2016. SANTOS, L. O fazer educação alimentar e nutricional: algumas contribuições para reflexão. Ciência e Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v.17, n. 2, p. 453-462, 2012. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/csc/v17n2/a18v17n2.pdf>. Acesso em: 15 nov. 2016. Educação nutricional42 Encerra aqui o trecho do livro disponibilizado para esta Unidade de Aprendizagem. Na Biblioteca Virtual da Instituição, você encontra a obra na íntegra. DICA DO PROFESSOR Nesta Dica do professor, você vai ver o panorama atual de saúde da população brasileira e aprofundar os conceitos do DHAA e da Segurança Alimentar e Nutricional, além de conhecer brevemente o histórico da EAN. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! EXERCÍCIOS 1) Como pode ser entendida a transição nutricional observada atualmente no Brasil? A) Um conceito que descreve a dinâmica do crescimento populacional, decorrente dos avanços da medicina, da urbanização, do desenvolvimento de novas tecnologias, das taxas de natalidade e de outros fatores. B) Refere-se às modificações, em longo prazo, dos padrões de morbidade, invalidez e morte que caracterizam uma população específica e que, em geral, ocorrem em conjunto com outras transformações demográficas, sociais e econômicas. C) Um fenômeno no qual ocorre uma inversão nos padrões de distribuição dos problemas nutricionais de uma dada população no tempo, sendo, em geral, uma passagem da desnutrição para a obesidade. D) O conjunto de normas de produção, transporte e armazenamento de alimentos visando determinadas características físico-químicas, microbiológicas e sensoriais padronizadas, segundo as quais os alimentos seriam adequados ao consumo. E) Quando ocorre uma inversão nos padrões de distribuição dos problemas nutricionais de uma dada população no tempo, sendo, em geral, uma passagem da desnutrição para a desnutrição crônica. 2) O que a Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) abrange? A) A conservação da biodiversidade, sem se importar com a utilização sustentável dos recursos. B) Dimensões ambientais, econômicas, regionais e sociais, excluindo-se as culturais. C) A alimentação adequada como direito fundamental humano, devendo o poder público adotar as políticas e ações que se façam necessárias para promover e garantir a SAN da população. D) Consiste na realização do direito de todos ao acesso regular e permanente a alimentos em quantidade suficiente, mesmo que seja com baixa qualidade. E) O foco principal na dimensão alimentar (produção de alimentos, disponibilidade, modelos de produção, etc.). 3) Sobre o Direito Humano à Alimentação Adequada (DHAA), assinale a alternativa correta. A) As políticas que promovem o DHAA destinadas às comunidades carentes, excluindo-se o povo indígena, são: assistência social, transferência de renda, restaurantes populares, programas de controle das carências nutricionais, alimentação do trabalhador, alimentação escolar, políticas territoriais e afirmativas. B) Políticas destinadas à promoção do DHAA ampliam a disponibilidade e o acesso aos alimentos, cujos exemplos são as políticas macroeconômicas, a política agrícola e agrária, o fortalecimento da agricultura familiar, o saneamento público, a geração de renda. Políticas locais que promovem o desenvolvimento social e estruturam de maneira sustentável a vida das pessoas, tais como educação, cultura, meio ambiente, previdência C) social, saúde, excluindo a promoção da saúde e da alimentação saudável, controle da qualidade biológica, sanitária, nutricional e tecnológica dos alimentos. D) É um direito básico, que não é reconhecido pelo Pacto Internacional de Direitos Humanos, Econômicos, Sociais e Culturais, ratificado por 153 países, inclusive o Brasil. E) Realiza-se quando todo homem, mulher ou criança, sozinho ou em comunidade, tem acesso físico e econômico, ininterruptamente, a qualquer tipo de alimento, desde que mate sua fome. 4) Sobre o histórico da Educação Alimentar e Nutricional (EAN), assinale a alternativa correta. A) A EAN, em seu histórico, demonstrou-se efetiva quando se situa em ações e intervenções reducionistas de adestramento. B) No Brasil, a EAN como prática organizada iniciou na década de 1990, com a publicação do Marco de Referência de Educação Alimentar e Nutricional para políticas públicas. C) Conforme demonstrado ao longo dos anos, práticas que não levam em consideração os aspectos sensoriais e culturais podem ser efetivas, desde que o público-alvo das ações de EAN integre grupos vulneráveis com fome. D) Como exemplo de iniciativas públicas que promovam a alimentação saudável e adequada, o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), em 2009, incluiu em suas diretrizes a aquisição de produtos práticos, ultraprocessados, que podem auxiliar na prevenção de doenças crônicas não transmissíveis. E) Atualmente, o desafio da EAN é ultrapassar os limites das ações dirigidas ao consumo de alimentos e seu consequente impacto na saúde e estendê-las para as dimensões que abranjam a produção e o abastecimento de alimentos. 5) Pelas definições recentes, indique um aspecto correto para o conceito de “alimentação saudável e adequada”. A) É um direito das pessoasmais vulneráveis. B) Prática alimentar adequada aos aspectos biológicos, sem considerar os demais. C) Deve atender aos princípios da variedade, equilíbrio, moderação e prazer. D) Independente do modo de produção e não se preocupa com a sustentabilidade. E) A forma como o alimento é produzido (sementes, água, solo, etc.) não precisa ser considerada, visto que a produção em larga escala e com uso de defensivos agrícolas é permitida e comumente utilizada. NA PRÁTICA A Educação Alimentar e Nutricional (EAN) é uma das principais estratégias para a promoção da alimentação adequada e saudável, envolvendo um conjunto de ações fundamentais para se alcançar a Segurança Alimentar Nutricional (SAN), garantindo, assim, a realização do Direito Humano à Alimentação Adequada (DHAA). Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! SAIBA MAIS Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor: Entrevista com Maria Emilia, Presidente do Conselho de Segurança Alimentar (Consea) Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! Marco de referência de Educação Alimentar e Nutricional para as políticas públicas Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! Pesquisa de Orçamentos Familiares 2008-2009: Análise do Consumo Alimentar Pessoal no Brasil Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! Pesquisa de Orçamentos Familiares 2008-2009: Antropometria e Estado Nutricional de Crianças, Adolescentes e Adultos no Brasil Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! The Global Nutrition Transition: The Pandemic of Obesity in Developing Countries Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino!