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Semiologia Psiquiátrica
Caroline Leão
Objetivo 01: Semiologia psiquiátrica
O exame clínico em psiquiatria compreende a entrevista psiquiátrica (que inclui a
anamnese tradicional e o exame psíquico) e o exame físico.
Seus objetivos são semelhantes àqueles das outras especialidades médicas:
pesquisar os sintomas e sinais das doenças, discutir os mecanismos e o valor deles, coordenar
e sistematizar todos os elementos obtidos para construir o diagnóstico, formular uma
proposta terapêutica e deduzir o prognóstico.
Há, no entanto, particularidades no exame psiquiátrico que o diferenciam dos
demais. Mais do que em outras áreas da medicina, além da função diagnóstica, ele tem uma
especial e importante função terapêutica. Esses dois aspectos, presentes desde o momento
em que se inicia o exame psiquiátrico, estão intimamente inter-relacionados.
Entrevista psiquiátrica
Ainda que o médico veja o paciente uma única vez, é possível uma interação
verdadeiramente terapêutica. Mesmo que seguido de outros subsequentes, esse primeiro
encontro tem um significado fundamental tanto em nível psicoterápico como diagnóstico. Daí
a importância da entrevista inicial.
Entrevista inicial
A princípio, essa entrevista deveria ser definida como o primeiro encontro que o
paciente tem com o seu médico. No entanto, ela é, em geral, apenas o mais recente de uma
série de encontros com outros profissionais de saúde.
Inicialmente, o paciente reagirá influenciado pelo que vivenciou nas experiências
anteriores. Assim, ele chegará à primeira entrevista com um prejulgamento ou sentimento
antecipado sobre o médico que o entrevistará. Essas distorções da figura real desse
profissional também podem estar ligadas a sentimentos inconscientes do paciente. E
importante, para a relação terapêutica, que o médico compreenda e aceite a desconfiança e os
temores iniciais que o paciente trará para a primeira entrevista.
O paciente se mostrará ansioso acerca de sua enfermidade, da reação do médico e
dos problemas práticos do tratamento psiquiátrico. Muitas pessoas acham profundamente
perturbadora a ideia de procurar um psiquiatra e temem ser rejeitadas, tratadas com
desprezo, incompreendidas ou diagnosticadas como loucas, esquizofrênicas. Sentem vergonha
ou humilhação por terem de descrever seus sofrimentos mais íntimos, e os de sua família, a
um estranho.
Frequentemente, o paciente vai ao psiquiatra esperando que ele se interesse apenas
por seus sintomas e deficiências de caráter, pois teme que suas revelações escandalizem ou
assustem o médico. Por isso, é importante que o profissional evite qualquer atitude que
pareça de aprovação ou reprovação. Ele deve compreender o paciente, e não julgá-lo; não
deve lhe dar nem lhe tirar a razão, mas aceitá-lo tal como é, com sua escala de valores.
O médico, por sua vez, estará ansioso a cada encontro com um novo paciente,
trazendo consigo a incerteza se saberá diagnosticar e atuar corretamente. Talvez esteja
preocupado com o julgamento que o paciente fará dele e de sua competência profissional. Isso
faz com que muitos profissionais, sobretudo os iniciantes, procurem dar a seus pacientes um
diagnóstico o quanto antes possível, encaixando-os em um esquema preestabelecido, por
meio de uma percepção seletiva, ou seja, ter um diagnóstico pré-fabricado desde as primeiras
frases do paciente, percebendo seletivamente apenas os sintomas que concordam com o seu
diagnóstico. Seria uma maneira de livrar-se de um incômodo encontro, o mais rapidamente
possível.
O médico não leva para a entrevista apenas suas qualidades profissionais, mas
também suas características pessoais. Sua estrutura de caráter, seus valores e sua
sensibilidade aos sentimentos alheios terão grande influência e participação no
relacionamento com os pacientes.
Entrevistador principiante
O entrevistador inexperiente sente-se mais ansioso que seu colega mais antigo.
Tentando controlar a própria ansiedade, ele não consegue perceber as sutis variações nas
respostas emocionais do paciente.
O estudante apresenta o temor de estar agindo de maneira inadequada, deixando,
com frequência, tal sentimento transparecer para o paciente. O principiante imagina que o
paciente ficará sabendo de sua condição de estudante e não acreditará que ele tenha
competência para tratá-lo.
As referências a essas questões deverão ser manejadas de maneira franca e
espontânea, e o principiante deve esclarecer que se trata de um hospital de ensino e explicar
sua condição de estudante (acadêmico ou interno). A tranquila aceitação, por parte do
estudante, dos temores do paciente em relação à sua falta de experiência fortalecerá a
segurança e a confiança deste.
O médico inexperiente, seja qual for a sua especialidade, sente-se culpado com o
fato de praticar com seu paciente. Essa culpa é vivida intensamente quando, por exemplo, o
estudante falha várias vezes ao tentar sua primeira venopuntura, acreditando que o médico
mais experiente teria obtido êxito na primeira tentativa. Isso está presente no aprendizado da
entrevista psiquiátrica, que é longo e difícil Embora o supervisor observe que não há substituto
para a própria experiência, adquirida ao longo da prática clínica diária, o principiante imagina,
muitas vezes, como seria rápida a recuperação do paciente se este fosse tratado pelo seu
supervisor.
O estudante projeta em seu professor os mesmos sentimentos de onipotência e
onisciência que o paciente coloca sobre seu terapeuta. Em decorrência, é importante que ele
saiba que nenhum profissional conduzirá uma entrevista totalmente livre de erros. A
imperfeição, sendo uma realidade humana, concede ao médico a condição de permanente
estudante e a contínua oportunidade de crescimento profissional.
A natureza da relação médico-paciente favorece o desejo de onisciência e
onipotência. Se o entrevistador aceitar esse papel, o paciente não poderá superar seus
sentimentos básicos de impotência e inferioridade.
O médico poderá utilizar ainda o exibicionismo como uma maneira de conquistar a
afeição ou a admiração de seus pacientes. A ostentação de conhecimento e de status social e
profissional são exemplos dessa atitude. Ele poderá tornar-se dependente dessa afeição como
fonte de seu bem-estar, sobretudo quando as gratificações proporcionadas por sua vida
pessoal forem inadequadas. Consequentemente, sentir-se-á frustrado ou irritado toda vez que
o paciente não corresponder àquelas necessidades.
Aliança terapêutica
Nas situações em que o paciente vê o médico como fonte potencial de ajuda, este
pode obter uma quantidade considerável de informações sobre o paciente e seu sofrimento
apenas ouvindo-o. Contudo, há muitos casos em que o paciente não consegue confiar no
médico de início. Em tais situações, o sucesso da entrevista dependerá da capacidade do
examinador em conquistar essa confiança, estabelecendo com seu paciente uma aliança
terapêutica ou rapport.
A palavra rapport significa relação harmoniosa e é usada internacionalmente em
medicina, com o mesmo significado: relação cordial, afetuosa, apreço e respeito mútuo, que
devem unir o médico e o paciente. Os ingredientes mais importantes para que o médico
estabeleça uma aliança terapêutica ou rapport são sua sensibilidade e capacidade de
empatizar, ou seja, de sentir com, ser solidário com o sofrimento do paciente.
Se existe um sinal de entrevista bem-sucedida, esse é o grau em que paciente e
médico compartilham um sentimento de compreensão. Trata-se de algo que não pode ser
fingido, assim como o interesse e o afeto sincero pelo paciente e seus problemas. Aliás, o
paciente psiquiátrico costuma ter uma intuição especial para perceber isso.
Os primeiros momentos da entrevista têm uma importância fundamental na
configuração da totalidade do curso da relação médico-paciente. A primeira impressão que o
profissional produz no paciente costuma ficargravada na mente deste permanentemente. Se
o primeiro contato não for bom, mas, sim, traumático para o paciente (sentir-se
desrespeitado, rejeitado), é provável que os efeitos negativos sobre a relação jamais sejam
anulados, por mais esforços que o médico faça em restabelecê-la.
A ansiedade preside os primeiros momentos da entrevista, por isso cabe ao médico
desfazer esse clima inicial. Ele deve agir nesse sentido mostrando-se receptivo e pronto para
ouvir o que o paciente tem a dizer-lhe. Muitas vezes, bastam frases, como: "Em que posso
ajudá-lo?"; "Fale sobre seu problema"; “O que o fez me procurar?” para que o paciente
comece a falar de suas queixas. Esse é o momento em que o médico precisa ouvir,
interrompendo o mínimo possível, somente quando absolutamente necessário para o
entendimento do relato do paciente.
Durante a entrevista, é importante que o profissional conceda breves períodos de
silêncio, o qual pode ter uma função terapêutica. Quando este se prolongar, sugestões como:
"Poderia falar alguma coisa sobre sua infância, de seu casamento, de seus pais etc” são
preferíveis a perguntas mais dirigidas. A entrevista colhida de maneira não dirigida tem
vantagem em relação à obtida por meio de questionário, não só no plano terapêutico como
também no diagnóstico.
Transferência e contratransferência
Sobre muitos aspectos psicológicos presentes na relação médico-paciente, o próprio
médico pode dar-se conta e refletir sobre eles. Há, no entanto, alguns fatores que também
estão presentes na dinâmica de uma entrevista, mas são difíceis de serem percebidos, pois
ocorrem em nível inconsciente, podendo atuar tanto no paciente como no médico. Eles
podem ser percebidos apenas indiretamente, por meio de sonhos, atos falhos e, sobretudo,
sentimentos aparentemente incompreensíveis que o paciente experimenta.
Estes - que, às vezes, são totalmente irracionais - derivam da identificação
inconsciente que ele faz do médico com algum personagem significativo de sua infância (pais,
irmãos, tios, babás). Sem se dar conta, o paciente tende a se relacionar com o profissional da
mesma maneira como se relacionava com tal personagem (ou personagens) de sua infância:
transfere para a relação médico-paciente a dinâmica psicológica de seus primeiros conflitos
afetivos infantis, os quais marcaram de maneira permanente seu modo de reação
inconsciente. Isso faz com que o paciente tenha uma relação inadequada, pois não
corresponde à situação atual, mas, sim, a situações de seu passado remoto, de que ele não se
recorda. Esse fenômeno de transferir cargas afetivas denomina-se transferência.
O médico não está imune à dinâmica do inconsciente. Chama-se contratransferência
o grupo de fenômenos de projeção sobre o paciente da própria estrutura inconsciente do
médico, o qual cria sentimentos de simpatia, hostilidade, aversão, necessidade de receber
afeto ou admiração injustificados e inadequados para a relação atual, mas coerentes com
situações primitivas presentes no inconsciente. Nessa situação, o profissional reage ao
paciente como se este fosse uma figura de seu passado. Então, quanto mais intensos forem os
padrões neuróticos do médico, maior é a possibilidade de respostas contratransferenciais.
O manejo desses mecanismos transferenciais e contratransferenciais não é fácil e
exige um treinamento especial do terapeuta, que inclui a própria análise pessoal. Isso não
impede que um terapeuta não especializado - o clínico geral, por exemplo - possa desfazer
certas reações transferenciais, por meio de uma relação médico-paciente compreensiva e
afetuosa. Do mesmo modo, na medida em que ficar atento às suas reações emocionais diante
do paciente, o médico poderá perceber as reações que não correspondem à situação atual.
As reações reais e adequadas do paciente com relação ao seu médico não são de
transferência. Do mesmo modo, o médico pode gostar do paciente e sentir simpatia por ele,
ou antagonismo, sem que isso implique contratransferência, desde que tais reações sejam as
mesmas que o paciente provocaria na maior parte das pessoas.
Anamnese
Durante a entrevista com o paciente, o médico obterá dados que serão incorporados
à anamnese e ao exame psíquico. Sendo assim, anamnese e exame psíquico se superpõem e
somente por motivos didáticos serão vistos em separado.
Esquematicamente, a anamnese psiquiátrica tem os mesmos elementos de toda
história clínica: identificação, queixa principal, história da doença atual, história pessoal,
incluindo antecedentes pessoais e familiares, bem como hábitos de vida. No entanto, em
virtude das características da doença mental, a coleta e a interpretação dos dados exigem
certos cuidados e apresentam algumas peculiaridades.
Os dados da anamnese são obtidos de duas fontes: do próprio paciente ou de seus
acompanhantes (geralmente familiares). Nenhuma das duas fontes é sempre fidedigna.
O paciente pode simular sintomas psiquiátricos, o que é um fato relativamente raro.
Dificilmente uma pessoa pode sustentar sintomatologia coerente com determinado transtorno
psiquiátrico por muito tempo.
A omissão de sintomas (dissimulação), em contrapartida, ocorre com bastante
frequência. Nesse caso, o paciente omite seus sintomas por medo do tratamento (p. ex.,
internação) ou como consequência da sua atitude de desconfiança em relação ao examinador.
Mesmo que o paciente procure ser sincero, poderá omitir importantes informações por
mecanismos de defesa inconscientes (exemplos: negação, racionalização). Com frequência, o
paciente psiquiátrico vai acompanhado à entrevista. Quando isso ocorre, deve-se ouvi-lo em
primeiro lugar, para, depois, sempre na presença dele, ouvir o acompanhante.
Se o paciente se mostrar ansioso, desconfiado, solicitando a presença do
acompanhante no início da entrevista, esta deve ser tolerada, até que ele sinta o mínimo de
tranquilidade que lhe possibilite ficar a sós com o examinador. Os dados fornecidos por outras
pessoas também podem estar distorcidos, como, por exemplo, as dificuldades que os pais têm
em ver distúrbios de conduta nos filhos, bem como as deformações por inveja e a competição
entre irmãos.
O médico pode obter informações completamente contraditórias, às vezes
acompanhadas de acusações mútuas entre o paciente e seu acompanhante. Nesses
momentos, é preciso lembrar que a imparcialidade é uma das condições necessárias na
relação médico-paciente, não devendo o profissional tomar partido de um ou de outro.
No caso de uma criança, alguns psiquiatras preferem entrevistar primeiro os pais
dela e, em um segundo encontro, a própria.
Outros acreditam que a entrevista com todos os familiares possibilita, desde o início,
a observação de como interagem entre si, e que, junto à narração do sintoma e da história da
criança, o médico deve valorizar as várias comunicações e trocas extraverbais entre os
membros do grupo familiar.
Quando somente um dos pais comparece à consulta, um esforço deve ser feito para
que o outro compareça em uma próxima entrevista. É importante que ambos estejam
envolvidos na avaliação e no tratamento da criança, mesmo que estejam separados, a não ser
que um deles não participe de modo algum da vida do filho.
Quanto à maneira de obter as informações sobre a criança, as opiniões divergem.
Alguns psiquiatras acreditam que o uso planejado do tempo de entrevista é muito importante.
Sem assumir um papel de interrogador rígido, o médico deve dirigir a entrevista seguindo um
roteiro. Justificam que assim evitam que os pais entrem em divagações e observações sem
objetivo e direção. Preferem "orientar-se na história pessoal da criança, reconstruir sua
anamnese e deter-se na sua realidade imediata". Outros psiquiatras sugerem que o ideal é
deixar que os pais falem livremente sobre os problemas que os levaram à consulta.
Entre a entrevista livre e a dirigida, encontra-se a semidirigida.O método é deixar
que o relato se desenvolva livremente, sem interrompê-lo. Isso não quer dizer que perguntas
não sejam permitidas. Deve-se evitar ficar preso a um interrogatório sistemático, interromper
as associações de ideias feitas pelos pais sem valorizá-las e antecipar-se com explicações,
conselhos e respostas.
O local da entrevista deve ser em um ambiente que resguarde a privacidade do
paciente. Evidentemente, ele não se sentirá encorajado a revelar aspectos íntimos de sua vida
em um local onde a privacidade não esteja assegurada. Da mesma maneira, é importante que
o profissional fale ao paciente de seu compromisso de guardar sigilo do que lhe for
comunicado, quando sentir seu embaraço no decorrer da entrevista.
O médico precisa ter em mente um roteiro que o auxilie a cobrir todos os pontos
úteis e necessários para diagnóstico e compreensão global do paciente. No entanto, esse
roteiro não deve ser aplicado por meio de um questionário. As informações devem ser
colhidas a partir da exposição do paciente, iniciada de modo mais livre possível.
A intervenção inicial do médico deve ser cumprimentar o paciente (sem se esquecer
de dizer seu próprio nome e perguntar pelo nome do paciente), ou seja, atuar como em
qualquer encontro entre desconhecidos. Em seguida, perguntar-lhe o motivo de sua ida à
consulta. Geralmente, o paciente começa a falar de suas queixas ou do motivo pelo qual foi à
consulta. Outras vezes, permanece em silêncio, como se estivesse aguardando as perguntas do
examinador (como no modelo médico tradicional). O esclarecimento quanto à importância de
ouvir o que ele tem a dizer, encorajando-o a falar livremente, costuma quebrar o silêncio
inicial.
Por quanto tempo ouvir o paciente, quando interrompê-lo, como fazer de maneira
adequada e oportuna essa interrupção são questões para as quais não há respostas prontas.
Somente com a experiência, a prática da entrevista, o médico terá condições de manejá-las
adequadamente. Em pacientes prolixos, detalhistas, hipocondríacos, tais dificuldades afloram
com mais nitidez. Nesses casos, o profissional terá de intervir para evitar repetições e
sobrecarga de pormenores que poderiam comprometer a obtenção do essencial.
Na realização da anamnese, é fundamental permitir que o paciente conte sua história
com as próprias palavras e na ordem que ele escolher. À medida que ele faz seu relato, o
examinador deve reconhecer os momentos nos quais pode introduzir questões relevantes
para a anamnese e o exame psíquico. O erro mais comum na obtenção de uma história
psiquiátrica é a interferência inoportuna do médico no relato do paciente, tentando organizar
a entrevista com um número excessivo de indagações, ou para seguir o roteiro clássico de
anamnese.
As perguntas devem ser abertas, sem induzir respostas positivas ou negativas. Por
exemplo: "Como tem estado o seu sono?” ou "Como o senhor tem dormido?", e não: "O
senhor tem dormido bem?" ou "O senhor não tem dormido bem?”. Além disso, elas devem ser
feitas usando o vocabulário do paciente, e não a terminologia científica. Isso facilita o
desenvolvimento do rapport e ajuda o paciente a entender corretamente o sentido das
questões que lhe são formuladas.
Próximo ao final da entrevista (em geral, 10 a 15 min antes do término previsto), o
médico deve informar ao paciente que ela está terminando. Nesse caso, devem-se aproveitar
os minutos finais para esclarecer, com o paciente, algum ponto que não tenha ficado claro,
cuja explicação ele julgue essencial.
É importante, no entanto, lembrar ao examinador principiante que não é possível
esclarecer todos os fatos levantados pelo paciente durante a entrevista. Se não conseguir
compreender o que se passa com o paciente depois de uma hora de conversação, o
profissional não precisa necessariamente censurar-se por isso. É possível obter esse
entendimento em oportunidades subsequentes, à medida que o paciente revele aos poucos a
natureza de sua doença e de sua pessoa.
Uma nova questão cada vez mais difundida, a qual pode interferir na anamnese e na
relação com o paciente, refere-se às informações facilmente obtidas em sites de busca da
internet sobre as doenças. Como estão disponíveis, em grau crescente, conhecimentos sobre
diagnóstico e tratamento, muitos pacientes se apropriam deles e, mesmo sem entendê-los,
introduzem-nos durante a entrevista, questionando e até contradizendo o médico. É
necessário adquirir capacidade de lidar com esse problema, inclusive tirando proveito para
informar melhor o paciente e os familiares. Geralmente, o paciente (ou acompanhante) espera
que o médico, ao fim da entrevista, diga alguma coisa sobre o que ele tem, e lhe dê
esclarecimentos e orientações sobre o tratamento a ser seguido.
O plano geral da assistência proposta deve ser feito da maneira mais clara possível,
no nível de compreensão do paciente. O uso de termos técnicos deve ser sempre evitado. Por
exemplo: "Creio que posso ajudá-lo a recuperar-se desse desânimo, da falta de sono e de
apetite e dos pensamentos ruins de que o senhor me falou”. Caso o médico não esteja seguro
do diagnóstico, é preferível que ele faça novas entrevistas antes de começar o tratamento,
desde que não seja, obviamente, um caso de emergência psiquiátrica. Por exemplo: "Como o
senhor disse, seu problema parece ser psicológico, mas acho necessário outra entrevista para
esclarecer melhor o seu caso”. De modo geral, os diagnósticos formais - "O senhor tem uma
neurose fóbica”, "um transtorno bipolar" - devem ser evitados. Eles de nada adiantam ao
paciente e podem até mesmo ser nocivos em virtude das interpretações distorcidas que o
paciente ou sua família podem fazer deles.
Roteiro da anamnese
Nunca será demais enfatizar que a organização da anamnese e do exame psíquico,
assim como é delineada neste capítulo, serve de registro da história psiquiátrica; não se trata
deum script a ser seguido durante a entrevista.
Identificação. Nome, idade, sexo, naturalidade, nacionalidade, estado civil,
profissão, residência, religião, telefone para contato. É útil também registrar o(s) nome(s) do(s)
acompanhante(s), grau de parentesco, endereço, bem como a fonte de encaminhamento -
nome do médico, hospital, posto de saúde, instituição previdenciária. Essas informações
podem ser obtidas antes do encontro com o paciente.
Queixa principal ou motivo da consulta. À primeira vista, essa parte parece a mais
simples das subdivisões da anamnese. No entanto, é uma das mais complexas. Em muitos
casos, o paciente não começa sua história com uma queixa principal; por isso, é difícil o
médico apreender o que mais incomoda o paciente ou por que ele procurou tratamento
naquele momento. Outras vezes, o paciente nega qualquer razão para ir à entrevista, e a
queixa é relatada por uma terceira pessoa.
Deve-se registrar a queixa ou o motivo da consulta sempre com as palavras do
paciente ou do acompanhante. Queixas vagas como problemas dos nervos, depressão,
fraqueza na cabeça devem ser esclarecidas até que fique claro o motivo da consulta.
História da doença atual. Na obtenção da história da doença atual, devem ser
considerados fundamentais os seguintes dados:
Início da doença. Nem sempre é fácil determinar o início da doença. Muitas vezes, o
paciente dá respostas vagas, como: "Tenho esta doença desde pequeno"; "Faz muito tempo
que estou sentindo isto". Oferecendo pontos de referência como "foi antes ou depois de
entrar para a escola, do serviço militar, do casamento, do nascimento do primeiro filho” o
médico pode ajudá-lo a localizar com mais precisão o início de seus sintomas.
Outras vezes, o paciente faz referência apenas ao último episódio de uma doença
recorrente. Perguntas como: "O senhor nunca teve nada parecido anteriormente?" podem
esclarecer aquela informação.
Como se iniciou a doença. De maneira súbita ou insidiosa?
Como evoluiu a doença.Sem remissão, de maneira remitente ou recorrente? A
doença vem se agravando ou está estacionária? Se for recorrente, os episódios vêm
aumentando em intensidade, duração e/ou frequência? Seguem alguma periodicidade? Há
alguma flutuação dos sintomas em relação a algum período do dia, semana, mês ou ano? E em
relação ao período menstrual?
Fatores precipitantes. À medida que o paciente fala sobre o desenvolvimento dos
seus sintomas e das mudanças de comportamento que culminaram na procura de ajuda
médica, o médico deve estar atento aos detalhes da vida do paciente, ao tempo em que
aquelas dificuldades começaram. Frequentemente, o paciente tem dificuldade de
correlacionar o início de seus sintomas com alguma situação emocional. Costuma atribuir sua
doença a situações concretas, como traumatismo na cabeça, doença física e outros incidentes
que variam de acordo com o meio cultural e o nível intelectual do paciente.
Não cabe ao examinador tentar convencer o paciente de que fatores psicológicos
possam estar presentes no desencadeamento ou agravamento de seus sintomas. É preciso
procurar, ao longo da entrevista, obter dados sobre a vida do paciente no período coberto pela
doença atual, de modo a verificar conexões entre situações psicologicamente significativas
(morte e doença de familiares, mudanças e perda de emprego) e o surgimento dos sintomas.
Essas correlações não devem ser explicadas imediatamente ao paciente. Quando feitas
prematuramente, podem intensificar a resistência dele em reconhecer tais fatores,
prejudicando a relação médico/paciente.
Impacto da doença sobre o paciente. Os sintomas psiquiátricos têm um impacto
significativo no paciente e em sua família. Deve- se procurar saber dele quais atividades ele
ficou impedido de desempenhar após o surgimento da doença e como se adaptou a essas
limitações.
Em alguns casos, o paciente pode, inconscientemente, utilizar as limitações
decorrentes de sua enfermidade para obter benefícios secundários, tais como maior afeição e
atenção das pessoas amadas, ser desculpado de responsabilidades desagradáveis, reforço de
seus sentimentos de dependência. A abordagem dessa questão deve ser feita com bastante
cautela e nunca nas primeiras entrevistas.
Revisão dos sistemas ou interrogatório sintomatológico. Os distúrbios emocionais
são frequentemente acompanhados por sintomas físicos. Se, no decorrer de seu relato, o
paciente não fizer referência ao seu padrão de sono, aumento ou perda de peso, apetite,
funcionamento dos intestinos e sua atividade sexual, essas questões devem ser abordadas
para que a avaliação sobre a doença atual seja completa. Em caso de insônia, inquirir se ela é
inicial, intermediária, terminal ou uma combinação desses tipos.
Antecedentes pessoais. Devem-se registrar, aqui, os dados sobre a vida do paciente,
desde as circunstâncias em que foi gerado até o momento atual de sua vida. Procura-se obter
um quadro o mais completo possível do desenvolvimento, da estrutura e das características de
sua personalidade. Esse conhecimento de quem é o paciente deve ser abrangente, procurando
ver não apenas suas deficiências e limitações, mas também suas qualidades, seus interesses,
seus valores morais, espirituais e culturais.
Cabe assinalar que nunca será possível a obtenção de uma história pessoal completa;
sempre haverá espaço para um maior conhecimento do paciente. Sendo assim, não se deve
esperar abordar todos os tópicos em uma única entrevista. Os itens que se seguem deverão
ser tratados em momentos oportunos, acompanhando a capacidade e a disponibilidade do
paciente em relatá-los.
Infância. Procurar obter lembranças significativas desse período, como, por exemplo,
se teve um desenvolvimento psicomotor normal, ou apresentou alguma enfermidade grave,
prolongada ou debilitante. Além disso, informar-se sobre situações emocionalmente
traumáticas (doença e morte na família, sobretudo entre aqueles envolvidos com sua criação).
Verificar a existência de distúrbios emocionais precoces (terror noturno, tiques, chupar dedo,
roer unhas, gagueira, crises de raiva, enurese noturna e distúrbios da alimentação).
Pesquisar também o início da sociabilidade e escolaridade - participação em
brincadeiras em grupo (líder, papel ativo ou passivo), bem como sua adaptação na escola, a
qualidade dos primeiros relacionamentos com colegas e professores, rendimento, a disciplina
escolar e as atividades extracurriculares.
Puberdade. Como viveu as modificações corporais e quais foram e suas repercussões
emocionais.
Adolescência. Procurar saber que impressões guarda da sua adolescência. Como foi
seu relacionamento social, rendimento e comportamento escolares, bem como seu início de
namoro, interesse em artes e esportes, seu posicionamento e o de sua família quanto a valores
religiosos, morais, culturais e políticos.
Vida sexual. Como recebeu as primeiras informações sobre sexo; início, qualidade e
características da vida sexual.
Vida laborativa. Quando começou a trabalhar, número de empregos e tempo de
permanência em cada um deles, além da razão das mudanças de trabalho, situação
profissional e das aspirações nessa área.
História médica. Obter informações sobre doenças anteriores, hospitalizações e
procedimentos cirúrgicos; história de traumatismos, desmaios, tonturas, fraqueza muscular,
turvação da visão, cefaleia (com suas características - se uni ou bilateral, acompanhada de
escotomas), crises convulsivas (tipo e frequência), comportamento explosivo imotivado e
episódios de confusão mental.
Verificar quais medicamentos está usando ou tenha usado recentemente (incluindo
pílulas anticoncepcionais, medicamentos para emagrecer, analgésicos, xaropes, gotas nasais e
colírios). Pesquisar o consumo de substâncias tóxicas – bebidas alcoólicas, cocaína,
anfetaminas, maconha e alucinógenos. Se tem o hábito de consumir bebidas alcoólicas, avaliar
quantidade e frequência; o mesmo vale em relação ao consumo de café e cigarro.
Condições atuais de vida. Onde e com quem vive? Verificar características da
habitação e da vizinhança, situação financeira, hábitos e lazer, relacionamento com colegas de
trabalho, chefes e amigos.
Antecedentes familiares. Obter dados a respeito das características da
personalidade dos pais, irmãos e outros familiares que tenham tido participação efetiva e
significativa na educação e sustentação emocional do paciente. Avaliar a qualidade do
relacionamento com seus pais e irmãos, bem como papel e grau de participação na família de
origem.
História conjugal. Informar-se sobre o casamento (tempo e qualidade), se há
conflitos conjugais e as maneiras usadas para contorná-los, como é a personalidade da esposa,
quais são os pontos de discordância, objetivos e aspirações comuns do casal, como é a vida
sexual. Pesquisar se tem filhos e enteados - número, sexo, idade, escolaridade, trabalho e
traços de personalidade. Em caso de viuvez ou separação, saber quando ocorreu e a sua
repercussão emocional. Investigar presença de doença mental e outras enfermidades na
família. Em caso positivo, procurar esclarecer as características da doença.
Roteiro para entrevista com os pais de uma criança na consulta psiquiátrica.
Para a entrevista com os pais de uma criança na consulta psiquiátrica, deve ser
adotado o seguinte roteiro:
• Identificação da criança;
• Identificação dos pais (e/ ou responsáveis);
• Encaminhamento: quando e de quem partiu o encaminhamento (de um ou ambos
os pais, da escola, da própria criança, dos médicos, ou outros);
• Motivo da consulta: a partir do motivo da consulta, os pais comumente fazem
associações que possibilitam obter outros dados;
• Ordem de nascimento: idade, posição na família, situação dos irmãos. Adoção: o
paciente? Irmãos? Quando? Foi revelado? Quando e como?;
• Gravidez e condições de nascimento: gravidez desejada ou não? Ideia de aborto,sexo preferido, condições físicas e emocionais da mãe, pré-natal, intercorrências clínicas,
gestação a termo, parto eutócico ou não, condições de vitalidade, peso, altura, complicações
perinatais, em que condições saiu da maternidade (se mãe e filho saíram juntos),
medicamentos usados;
• Período neonatal: depressão materna ou outros transtornos emocionais
• Alimentação: amamentação materna ou artificial? Rigidez de horário?
• Sono: história de dificuldades de dormir (desde recém-nascido). Foi medicado?
Condições atuais (tranquilo ou agitado). Dorme em quarto próprio? Houve período em que
dormiu com os pais? Em que circunstâncias? Rituais? Medos? Pesadelos? Terror noturno?
Sonilóquio? Sonambulismo? Enurese noturna? Necessitou de algum brinquedo ou objeto para
conciliar o sono? Quando o abandonou? Presença de movimentos ritmados antes de dormir?
• Desenvolvimento psicomotor: observar a evolução cronológica e procurar saber
sobre suas atividades motoras, a exploração do ambiente, o interesse em brincar com os
objetos. Saber quando sustentou a cabeça, sentou-se sem e com apoio, engatinhou,
deambulou, e pesquisar sobre sua coordenação e habilidades motoras
• Controle dos esfíncteres: quando adquiriu o controle diurno e noturno de ambos os
esfíncteres?
• Linguagem: aquisição e evolução, dislalias, gagueira, características atuais
• Atitudes educacionais. Castigos comumente adotados pelos pais, divergência entre
eles, exigências disciplinares, reações da criança ao castigo e à disciplina
• Independência: observar a independência nas atividades elementares
• Sexualidade: masturbação e brincadeiras sexuais. Como foi a reação dos pais?
Saber acerca da curiosidade sexual e curiosidade de um modo geral
• Escolaridade: quando entrou para a escola? Como foi o período de adaptação?
Quanto tempo foi necessário? Quais foram as reações da criança e dos pais? Qual foi a
motivação para entrada na escola (nascimento de irmão? Retorno materno ao trabalho? Idade
da criança?). Verificar a relação com amigos e professores
• Socialização: a criança tem ou teve dificuldades em aceitar limites? Qual foi a
reação dos pais?
• Brinquedos e diversões: atitudes com os brinquedos e os companheiros.
Capacidade de distrair-se sozinho? Insatisfação nas brincadeiras (interrompe facilmente, sente
enfado, reclama, não sabe perder)?
• Antecedentes patológicos pessoais: convulsão, cólica, anorexia, insônia, choro
excessivo, otite de repetição, eczemas, alergias? Traumatismos graves? Internação? Junto com
a mãe? Cirurgia?
• Antecedentes patológicos familiares: doenças hereditárias, ou crônicas? Doença
mental na família? Alcoolismo? Acidentes?
• Dinâmica familiar: dados da personalidade de cada membro da família,
relacionamento entre si e com a criança. Discussões? Separações? Motivos e épocas.
Exame psíquico
O exame psíquico consiste na avaliação do estado mental do paciente no momento
da entrevista. É feita pela observação cuidadosa do seu comportamento, pela relação que ele
estabelece com o examinador e pela pesquisa de sinais e sintomas psicopatológicos, ao longo
de todo o seu período de permanência no local do exame.
Sua importância é comparável à do exame físico para os outros ramos da medicina.
Há, contudo, uma particularidade fundamental: diferentemente das outras áreas nas quais,
com frequência, pode-se recorrer a aparelhos e testes laboratoriais para confirmar os achados
clínicos, não se dispõe, na maioria das vezes, de recursos complementares que objetivem e
confirmem as impressões colhidas no exame psíquico.
Essas impressões são, muitas vezes, duplamente subjetivas, ou, melhor,
intersubjetivas. Elas são obtidas a partir do que o médico captou subjetivamente das queixas
do paciente. Ambos, médico e paciente, estão sujeitos a contínuas e recíprocas influências,
que podem interferir e modificar o comportamento de cada um.
Por esse motivo, costuma-se dizer que, na sala de exames, estão "presentes" pelo
menos quatro pessoas: o médico, o paciente, o médico que o paciente imagina e o paciente
que o médico imagina! Tais influências fazem com que um mesmo paciente examinado por
outro médico tenha seu estado mental avaliado diferentemente, assim como um examinador
pode avaliar o estado mental de seu paciente de maneira diferente, dias ou mesmo horas após
o primeiro exame.
Essas discordâncias podem ser também consequentes às flutuações e modificações
da sintomatologia psicopatológica. Um paciente examinado pela manhã, mostrando um
estado de consciência, orientação e pensamento normais, pode apresentar- se desorientado e
confuso ao final do dia. Outras dificuldades na realização do exame psíquico merecem ser
mencionadas. Nem sempre o paciente está disposto a revelar suas queixas. Às vezes, procura
esconder e dissimular seus sintomas, exigindo do examinador grande perspicácia e experiência
para apreendê-los.
A relatividade dos sinais e sintomas psicopatológicos não pode ser avaliada
isoladamente. Eles devem ser inseridos dentro de uma compreensão global do paciente, de
sua história, seu estado emocional e de consciência, bem como do contexto sociocultural em
que vive. Muitas manifestações aparentemente psicopatológicas podem ser apenas expressão
de condutas ditadas por subculturas diferentes daquela na qual o psiquiatra vive.
É frequentemente subestimada a importância de se distinguir se um paciente está
deprimido ou apenas sedado, ou mesmo vivendo uma tristeza normal, compreensível, diante
das limitações e dos sofrimentos impostos pela doença física. Isso pode ser tão grave quanto
confundir angina com dispepsia. O exame psíquico detalhado constitui uma função do
especialista, mas, de modo resumido, como exposto aqui, deve ser um instrumento
semiológico a ser utilizado por todo médico. Assim, tal procedimento deve ser parte integrante
de todo exame clínico.
Exame psíquico da criança
Nesse exame, procura-se pesquisar os dados necessários para traçar o perfil do
estado ou funcionamento mental da criança. Esse perfil será entendido, nesse contexto, como
resultado da observação de um conjunto de funções psíquicas que correspondem, na sua
maior parte, à vida consciente da criança.
É recomendável que a criança seja avisada, 1 a 2 dias antes da entrevista, da sua ida
ao médico e sobre o motivo da consulta. As explicações deverão ser simples e claras, levando
em conta a idade dela. Os pais deverão também acrescentar que se trata de uma consulta
diferente, que o médico estará interessado essencialmente em conhecê-la para ajudá-la nas
dificuldades que, porventura, existam. Para tanto, o médico colocará à disposição da criança
jogos, material de desenho e brinquedos, dos quais ele poderá usar, ou, caso prefira, irá
conversar. Contudo, ela não será obrigada a fazer nada que não queira.
Para crianças maiores e adolescentes, o profissional deve assinalar o caráter
confidencial da entrevista, explicando que tudo o que for dito ali ficará entre eles, cabendo ao
paciente a decisão de contar ou não aos pais sobre o conteúdo da entrevista. Para isso, é
muito importante que, principalmente com o adolescente, os contatos seguintes com os pais
sejam feitos na presença dele para manter o clima de confiança estabelecido entre ele e o
médico.
A criança até os 5 ou 6 anos de idade é capaz de exprimir-se espontaneamente e com
naturalidade sobre sua vida, seus amigos, sua casa. Ela é mais liberal em revelar seus
pensamentos e suas fantasias.
Na criança maior, na latência, já começam a operar mecanismos de defesa que
influenciarão na expressão de sua vida de fantasia, empobrecendo-a. Ela, com frequência,
torna-se incapaz de expressar fácil e vivamente suas imaginações. Isso ocorre pela repressão,
pelo mecanismo de defesa que, operando inconscientemente, impede que cheguem à
consciência dela emoções, desejos ou fantasias, vividos como ameaçadores e, nessafase,
ligados ao conflito edipiano.
Funções psíquicas
A fragmentação da vida psíquica em funções é utilizada tradicionalmente no estudo e
na descrição dos sinais e sintomas psicopatológicos. Assim, estudam-se os distúrbios da
consciência, da orientação, da memória etc. como se fossem processos isolados,
independentes uns dos outros. Isso é feito porque a maioria dos conceitos psicológicos e
psicopatológicos, utilizados no exame psíquico e no diagnóstico psiquiátrico, foi elaborada a
partir dessa divisão. No entanto, a divisão da vida psíquica em funções isoladas é artificial,
pois, na verdade, elas se superpõem, constituindo um todo indivisível.
A observação atenta da aparência e do comportamento do paciente, de sua maneira
de relacionar-se com o examinador e do que comunica espontaneamente já oferece grande
parte dos dados necessários à avaliação das funções psíquicas. Perguntas específicas e testes
simples, realizados oportunamente, complementam o exame psíquico.
Avaliação geral
Deve-se observar o paciente desde sua entrada na sala de exame, verificando se veio
sozinho ou acompanhado.
Como foi sua entrada na sala? Entrou com desembaraço, de maneira tímida,
amedrontada, desconfiada, relutante, hostil, desafiante ou arrogante? Mostra-se indiferente
ao ambiente? Procura orientar-se dentro da sala? Senta-se espontaneamente ou espera que
seja convidado a fazê-lo? Como se senta? Joga-se na cadeira, senta-se de modo confortável ou
tenso (na "ponta da cadeira”)? Permanece sentado na mesma posição ou a modifica
constantemente? Com o decorrer da entrevista, sua atitude e postura foram sofrendo
modificações? Tranquilizou-se, permaneceu inquieto? Como são suas vestes? Encontram-se
limpas e em alinho? Como está seu asseio corporal? Apresenta barba por fazer? Está
penteado(a)? Usa maquiagem? Mostra-se silencioso(a) ou falante? Qual seu ritmo, sua
intensidade e seu tom de voz? Fala espontaneamente ou só responde às perguntas? Como as
responde: monossilabicamente, lentamente, de maneira clara, confusa, prolixa, perseverante?
Aparência. Qual é a sua estrutura e constituição física (alto, magro, atlético, obeso)?
Fácies. Expressa tristeza, alegria, indiferença, medo, ansiedade, desconfiança?
Apresenta rigidez facial ("face de cera”) ou algum tipo especial de fácies?
Relação com o entrevistador
Toma a iniciativa de cumprimentar o entrevistador ou aguarda que ele o faça? Como
é seu aperto de mão (firme, vacilante, oferece as pontas dos dedos)? Apresenta sudorese
palmar, tremor? Mãos frias ou quentes? Olha o médico frontalmente ou de soslaio? Que
sentimentos o paciente desperta no examinador (compaixão, raiva, repulsa, medo, estranheza,
simpatia)? Adota uma atitude sedutora, irônica, desrespeitosa, hostil ou cooperativa?
Consegue-se estabelecer rapport?
Consciência
Chama-se consciência o conhecimento que temos de nós mesmos e do mundo
externo. Ela é o resultado da atuação simultânea de um conjunto de fenômenos psíquicos; daí
ser definida por Jasper como o todo momentâneo da vida psíquica.
O ciclo vigília-sono encerra as variações normais, fisiológicas, da consciência. Assim,
dentro desse ciclo, existem diferentes níveis ou graus de consciência. Nos extremos estão o
sono profundo, sem sonho (no qual há ausência de consciência) e o estado acordado pleno,
denominado lucidez. Como níveis intermediários, há o sono com sonho (quando existe o
contato com o mundo interior) e a sonolência do despertar e do acordar.
É importante assinalar que as palavras consciência e lucidez são empregadas aqui em
seu significado psicológico. As alterações quantitativas da consciência vão da ligeira diminuição
do nível de consciência ao coma profundo.
Exploração da consciência. Pode-se dizer que a exploração do nível de consciência é
uma das tarefas mais difíceis da semiologia psiquiátrica, já que se tem de fazê-la apenas por
meios indiretos. Podemos recorrer à observação de determinados sintomas objetivos, mais ou
menos evidentes em cada caso particular, a seguir: expressão fisionômica (embora nem
sempre reflita o estado de consciência; sua alteração costuma ser acompanhada de fisionomia
fatigada, sonolenta, com tendência a fechar os olhos); desinteresse frente ao mundo externo;
fatigabilidade da atenção, com diminuição da capacidade de concentração; desorientação;
incoerência das ideias; incapacidade de memorizar (memória de fixação); incapacidade de
raciocinar (o pensamento fica alentecido). A esses sintomas objetivos unem-se outros
subjetivos - o paciente queixa-se de "cabeça oca”, de estar tonto e ver o mundo exterior de
maneira confusa.
As alterações qualitativas da consciência incluem:
Turvação da consciência. Ocorre quando, além da diminuição do nível de
consciência, aparecem sintomas produtivos (alucinações e ilusões). Provoca no paciente um
estado parecido com o sonho, no qual se misturam percepções reais com produções
fantásticas, constituindo a síndrome denominada confusão mental, estado confusional, ou
delirium.
Estados crepusculares. Consistem em um tipo de alteração da consciência em que há
um "estreitamento" do campo da consciência, no qual a atividade da consciência permanece
focada em um objeto ou grupo de objetos e tudo o mais fica esmaecido e sem relevo. O
paciente atua como um autômato, com olhar vago, respondendo com pouca coerência e, em
geral, com esquecimento quase total do que realizou nesse período.
Atenção
É a capacidade de concentrar a atividade psíquica em um determinado setor do
campo da consciência. Costuma-se comparar a consciência a uma luz incidindo sobre um
palco. Sua intensidade é o nível de consciência, e a área iluminada, o campo da consciência. As
diversas funções psíquicas (afetividade, sensopercepção, memória etc.) seriam os atores que
atuariam nesse palco. Ou seja, é com a luz da consciência que as outras funções podem atuar.
A atenção seria, então, a capacidade de a pessoa dirigir e concentrar o foco de luz sobre um
determinado ponto do palco.
Alterações da atenção. O paciente tende a se voltar para a sua vida interior de
maneira que atenda com dificuldade (ou não atenda) aos estímulos exteriores. Ele pode
desviar sua atenção de um ponto para outro, sem conseguir fixar-se em nenhum; ou, ainda,
concentrar-se em determinado ponto, mas por apenas poucos minutos. Em todos esses casos,
diz-se que há diminuição da atenção.
Nos estados maníacos, tudo desperta a atenção do paciente, mas sua capacidade de
concentração encontra-se bastante diminuída. Com o paciente deprimido, ocorre o contrário:
apresenta-se pouco vigilante (os estímulos externos não lhe despertam a atenção),
permanecendo voltado para suas ideias depressivas. O paciente com diminuição da
consciência apresenta dificuldade de concentração e de atender aos estímulos externos.
Na avaliação da atenção, feita a partir do comportamento do paciente durante a
entrevista, observa-se se ele consegue concentrar-se nas perguntas que lhes são feitas ou se
distrai com facilidade diante dos estímulos ambientais.
Caso o médico esteja em dúvida quanto à capacidade do paciente em concentrar-se,
ele pode recorrer a testes simples, como, por exemplo, solicitar ao paciente que diga os meses
do ano e os dias da semana em ordem inversa ou, levando em conta o nível de instrução do
paciente, recitar o alfabeto e subtrair 7 sucessivamente, a partir de 100 (93, 86, 79 etc.).
Orientação
É a capacidade de uma pessoa saber quem ela é (orientação autopsíquica) e de
localizar-se no tempo e no espaço (orientação temporoespacial).
Na exploração da orientação, normalmente, o comportamento e as informações que
o paciente fornece ao longo da entrevista são suficientes, sem necessidade de um
questionamento direto. Havendo dúvidas, o examinador poderá solicitar ao paciente que
informe, por exemplo, de onde veio e como chegou ao local do exame. Perguntas diretas,
como:"O senhor sabe onde está?"; "Que lugar é este aqui?" e "Que dia é hoje?" devem ser
evitadas, pois podem ser impertinentes ou fornecer uma ideia errônea sobre a orientação do
paciente.
Geralmente, a capacidade de orientação temporal é a primeira a ser comprometida;
no entanto, sua avaliação deve ser feita com cuidado. Em situações normais, as pessoas,
sobretudo em período de férias, talvez não saibam o dia do mês e da semana em que se
encontram, por não estarem atentas a isso. Situação semelhante, mas já em nível patológico,
ocorre com pacientes deprimidos, que, por apatia, podem não saber o dia, o mês ou, mesmo,
o ano em que estão ou para onde foram levados. Em ambos os casos, o que acontece é uma
aparente desorientação, por desinteresse, mas a capacidade de orientação está preservada.
De maior significado semiológico são as dificuldades de localização quanto ao ano,
época do ano (começo, fim) ou parte do dia (manhã, tarde, noite). Nesses casos, a capacidade
de orientação costuma estar comprometida.
Quando há desorientação espacial, em geral, além de não saber em que local se
encontra, o paciente desconhece por que está ali e, paralelamente à desorientação espacial,
pode tomar pessoas desconhecidas por conhecidas ou, ao contrário, desconhecer familiares e
amigos próximos. Às vezes, ele tende a perceber sua desorientação e tenta justificá-la (como
nos casos iniciais de demência e na síndrome amnéstica alcoólica), mas, em geral, suas
argumentações são frágeis.
Orientação autopsíquica. Geralmente, é a última a ser comprometida. O paciente
não consegue informar seus dados pessoais - idade, filiação, lugar de nascimento, estado civil
ou, mesmo, seu nome. Isso pode ocorrer de maneira transitória nos casos de traumatismo
cranioencefálico, estado crepuscular epiléptico e em quadros funcionais - neurose histérica,
estados agudos de ansiedade e choques emocionais graves.
Em pacientes esquizofrênicos, pode ocorrer o fenômeno da dupla orientação: ao
mesmo tempo em que o paciente fornece corretamente seus dados de identidade, afirma, por
exemplo, que é Presidente da República. Embora saiba o nome do hospital onde se encontra e
nele se oriente sem dificuldades, afirma que aquele lugar não é um hospital, mas, sim, seu
palácio presidencial.
Distúrbios parciais da orientação autopsíquica. Além de o paciente perder a noção
de quem ele é, pode apresentar distúrbios da orientação do eu (também chamada da
consciência do eu).
Trata-se da noção que uma pessoa tem da sua própria existência; de que ela é única
e a mesma ao longo da vida; que os impulsos, atos, pensamentos e sentimentos que realiza e
vivenda são seus, em oposição ao mundo exterior, em clara delimitação entre o que faz parte
do seu eu e o que não faz, o não eu.
Essas características da orientação do eu parecem tão implícitas, óbvias, que não são
notadas normalmente. No entanto, elas podem ser alteradas em diversos distúrbios
psiquiátricos.
Sentimento de despersonalização. Embora saiba quem ele é, o paciente pode sentir-
se estranho, mudado, diferente, e não consegue explicar por que isso está acontecendo.
Procura olhar-se no espelho, tocando no rosto, como se estivesse procurando reconhecer a
própria imagem.
Esse estado de estranheza pode ser projetado no mundo externo, constituindo o
chamado sentimento de desrealização.
O paciente vê lugares conhecidos como estranhos. As coisas e as pessoas parecem-
lhe mudadas, diferentes. Há a impressão de distanciamento: “Indo pelas ruas e vejo as pessoas
distantes, como se eu estivesse vendo um filme ou sonhando".
O sentimento de estranheza do eu pode evoluir para a completa perda de
identidade. O paciente já não é mais ele, é outra pessoa. Quando essa perda é parcial, a qual
faz com que ele reconheça como própria apenas parte de sua personalidade, ocorre o
fenômeno do desdobramento da personalidade ou dupla personalidade. O paciente vivenda,
em um mesmo momento, duas pessoas, duas personalidades, a sua e uma estranha.
Fenômeno diverso é a chamada personalidade alternante, em que o paciente pode
apresentar outra personalidade, durante estados crepusculares epilépticos ou histéricos. Não
há, aqui, superposição de personalidades, mas duas personalidades que se alternam. A dupla
personalidade e a personalidade alternante são fenômenos bastante raros.
Perda do sentimento de existência. Ocorre quando o paciente acha que partes do
seu corpo não existem: "Não tenho mais estômago"; "Retiraram o meu cérebro"; "Estou
completamente vazio”. Isso pode levar a um sentimento de inexistência completa. "Estou
morto, o que parece ser o meu corpo é ar”. Esses sintomas surgem, particularmente, nos
casos graves de depressão e esquizofrenia.
Perda de controle da atividade do eu e do limite entre o eu e o mundo externo.
É quando o paciente tem a impressão, vivida com angústia, de não controlar as suas
funções psíquicas. Isso é expresso de diferentes modos: seus pensamentos, sua fala, seus
movimentos são feitos, controlados ou influenciados por pessoas ou aparelhos.
Os pacientes sentem que lhes roubaram o pensamento e introduziram nele ideias
que não são suas. A impressão é de que se "pensa alto" - tudo o que se pensa é ouvido pelos
outros. Isso faz com que um paciente fique calado diante de uma pergunta do examinador,
para, logo depois, dizer: "Você já sabe de tudo, por que me pergunta?" Uma maneira de
explorar esses distúrbios é perguntar ao paciente como estão seus pensamentos, sobre o que
tem pensado, ou o que o tem preocupado ultimamente.
As noções de eu psíquico e eu físico estão indissoluvelmente unidas. Quando há
alteração patológica de um deles, o outro é afetado em maior ou menor grau.
No entanto, em alguns distúrbios, o que é primordialmente afetado é o eu psíquico
(como na maioria dos exemplos até agora citados), enquanto, em outros, é a representação
mental do próprio corpo. Essa representação é denominada esquema corporal ou imagem
corporal, a qual pode estar comprometida em várias doenças neurológicas e psiquiátricas.
Um paciente pode perceber em seu corpo partes que, na realidade, não tem. É o
caso do chamado membro fantasma- pacientes que têm um membro (ou parte dele)
amputado continuam a sentir a parte amputada.
Pacientes psiquiátricos tendem a ter alterações da imagem corporal sem nenhuma
alteração física constatável. Essas alterações vão desde a valorização da imagem corporal
exageradamente positiva (falsa ideia de beleza, vigor físico) ou negativa (impressão irreal de
obesidade, magreza, pênis pequeno) de pacientes neuróticos até as distorções grosseiras de
pacientes psicóticos delirantes ("Tenho 500 quilos"; "Meu braço é de borracha e tem 1
quilômetro de comprimento').
Pensamento
É um conjunto de funções integradas, capazes de associar conhecimentos novos e
antigos, estímulos internos e externos, analisar, abstrair, julgar, sintetizar, bem como criar.
No funcionamento do pensamento, outras funções psíquicas estão, particularmente,
envolvidas: consciência, orientação, atenção, memória, inteligência e percepção. Qualquer
alteração em uma delas trará consequências ao funcionamento global do pensamento.
Os distúrbios do pensamento são observados por meio da linguagem, que não é nada
mais do que uma expressão simbólica do pensamento destinada à comunicação. São, no
entanto, excluídas desses distúrbios as perturbações da linguagem resultantes de lesão
cerebral (afasias, agrafias, alexias e suas variantes), as dificuldades de articulação da fala
(disartrias), as afonias e disfonias, resultantes de problemas da laringe e respiratórios.
Assim, por exemplo, pode haver uma semelhança, ainda que superficial, entre a
linguagem desorganizada de um paciente com esquizofrenia e aquela de um portador de
afasia de Wernicke. Neste, o distúrbio tem um início rápido, sem pródromos e isolamento
social. Já o paciente esquizofrênico, desdeque não esteja agitado, é geralmente capaz de
responder a solicitações verbais simples, como, por exemplo: "Caminhe até a porta e volte
para o mesmo lugar onde está"; "Sente-se na cadeira ao lado da mesa", enquanto o paciente
afásico, provavelmente, ficará confuso com essas solicitações.
As tarefas de nomear, ler, repetir e escrever estão quase sempre preservadas na
esquizofrenia e comprometidas na afasia de Wernicke. Dificuldade maior surge, no entanto,
quando o paciente com afasia de Wernicke desenvolve sintomas psicopatológicos reativos, tais
como: alucinações, ideias persecutórias e alteração do humor.
Como recurso didático, ainda que artificial, podem-se dividir os distúrbios do
pensamento em: distúrbios formais do pensamento, caracterizados principalmente pela forma
(e não pelo conteúdo) do pensamento e referindo-se ao pensamento como um todo;
perturbações do conteúdo do pensamento, em que um pensamento aparentemente normal
quanto à forma encerra ideias de cunho patológico - delírios, obsessões e fobias.
Distúrbios formais. O pensamento que predomina em uma pessoa normal é o
pensamento realista, caracterizado por partir de diretrizes básicas ou tendências
determinantes, que servem de guias para as ideias, associadas por vínculos de significado e
temporoespaciais, e, por meio da lógica e da realidade, formular conceitos e juízos.
A esse pensamento contrapõe-se o pensamento fantástico: modo de pensar que não
segue a lógica e a realidade, a "arte de construir castelos no ar’’. A pessoa vê realizar seus
desejos, vivendo tais fantasias passivamente. O pensamento fantástico encontra-se presente
especialmente nas crianças e nos adolescentes, e, durante toda a vida, nos tímidos e
inseguros, embora também ocorra, em menor grau, nas pessoas normais.
Quando a fantasia ocupa grande parte da vida de um indivíduo e leva-o a aceitá-la
como algo real (a exemplo de um ator que vive como se o seu papel fosse realidade), trata-se
de um distúrbio psicopatológico denominado pseudologia fantástica.
Pensamento acelerado (maníaco). Tem um ritmo muito acelerado, que muda com
frequência a diretriz básica, sem aparente motivo para fazê-lo, ou em razão da distraibilidade.
Comporta uma grande quantidade de representações e conceitos, cuja associação realiza-se
não só segundo o significado e a relação temporoespacial, mas também conforme a
semelhança externa das palavras, especialmente por assonância.
Acompanha uma expressão verbal muito abundante, rápida e incoercível. É um
pensamento típico dos pacientes maníacos e hipomaníacos, mas pode ocorrer em quadros
orgânicos (febre, intoxicações).
No pensamento acentuadamente maníaco, pode haver perda da continuidade do
sentido, na qual predominam as associações por assonância, que caracterizam a chamada fuga
de ideias. Veja um exemplo de trecho da fala de um paciente maníaco, que apresenta
pensamento muito acelerado com fuga de ideias: '' [...] Penso progressivamente a imaginar
como você me sente curvas e correntes pentes serpentes vigas e dormentes, acho que é
crente [...]
Pensamento inibido (depressivo). Mostra muitas características contrapostas ao
pensamento acelerado: alentecimento do pensamento, falta de material associativo, adesão
pertinaz a um mesmo tema ideativo, dificuldade de desviar a atenção para estímulos
exteriores. O paciente utiliza poucas palavras, expressas geralmente de maneira muito lenta.
Pensamento esquizofrênico. Há um conjunto de transtornos da forma, que são
caracteristicamente encontrados na esquizofrenia, embora não exista nenhum sintoma
psicopatológico definitivamente patognomônico de uma doença psiquiátrica.
São características do pensamento esquizofrênico:
• Desagregação do pensamento: consiste na associação de ideias sem vínculos de
sentido entre si, dando a aparência de um pensamento ilógico ou pouco lógico e racional. Uma
forma ligeira de desagregação é o pensamento paralógico ou insípido, no qual o paciente diz
uma série de frases à primeira vista relacionadas, mas que nada dizem.
• Concretismo reificante: trata-se de uma modalidade particular de concretismo, em
que as expressões abstratas permanecem, mas são utilizadas de maneira concreta. Um
paciente esquizofrênico, ao falar da beleza de uma moça, diz: "Ela é linda, uma deusa”
vivenciando esta última palavra de maneira concreta, como se fosse uma real divindade.
• Interceptação ou bloqueio do pensamento: há uma interrupção súbita do curso do
pensamento. Às vezes, o paciente não retoma ao tema anterior e passa a falar de assunto
completamente diferente, configurando o sintoma denominado descarrilamento.
• Ambivalência: é a coexistência de dois pensamentos contraditórios e, inclusive,
contrapostos. Além da ambivalência ide ativa, há a afetiva e a volitiva (dois sentimentos e dois
desejos em um só tempo)
• Perseveração ou iteração de ideias: repetição frequente das mesmas ideias ou
palavras. Nos estados esquizofrênicos de agitação catatônica, a repetição das mesmas frases e
palavras é incessante.
• Pensamentos feitos ou subtraídos: vivência de influência externa sobre o
pensamento, como pode ocorrer igualmente em relação aos atos, sentimentos e à vontade.
Esses sintomas são geralmente aceitos, na ausência de causa orgânica, como altamente
sugestivos de esquizofrenia.
• Sonorização do pensamento: o paciente refere que todas as suas ideias têm um eco
que chega aos demais. Fenômenos afins são a difusão e o roubo do pensamento. O que
caracteriza tais distúrbios é que a comunicação dos pensamentos próprios, diretamente ou
mediante algum artifício, chega ao conhecimento dos demais. Todos são considerados
sintomas sugestivos de esquizofrenia.
• Pensamento incoerente: enquanto forma de pensamento, não se distingue do
pensamento esquizofrênico desagregado. A associação de ideias desprovidas de lógica e
sentido é característica de ambos. Quando isso ocorre com a consciência diminuída- torpor
(lentidão psíquica, sonolência, falta de capacidade para concentrar-se e orientar-se) ou
confusa- delirium (presença de alucinações e ilusões)-, denomina-se pensamento incoerente,
reservado o termo desagregação para quando houver lucidez de consciência.
• Pensamento prolixo: caracteriza-se unicamente pelo exagero de dados
desnecessários e acessórios. Isso se deve à incapacidade de sintetizar, ou seja, de distinguir o
essencial do acessório. Essa forma de pensamento é frequente entre os deficientes mentais
leves, nos quadros iniciais de demência e na epilepsia.
• Pensamento oligofrênico: caracteriza-se pela pobreza de vocabulário e sua
concretude. É limitado às situações mais imediatas e concretas. As atividades de generalização,
abstração, síntese e diferenciação conceitual entre o real e o imaginário, entre causa e efeito,
entre o todo e as partes, estão geralmente ausentes nessa forma de pensamento.
• Pensamento demencial: decorre da deterioração intelectual instalada. O
pensamento é, sobretudo, vago e inadequado.
Essa vagueza reflete a insuficiente compreensão de conceitos, juízos e raciocínio que
ficaram ou ainda estão preservados. A inadequação é uma característica importante desse
pensamento. Os pacientes com demência incorrem, frequentemente, em erros grosseiros ao
tentar aplicar suas ideias a uma situação ou um raciocínio.
Perturbações do conteúdo do pensamento. É de utilidade diagnóstica a separação
entre ideias delirantes primárias, ou delírio primário, e ideias delirantes secundárias, ou delírio
secundário ou ideias deliroides.
ldeias delirantes primárias. Trata-se de toda ideia ou juízo patologicamente falso,
com as seguintes características: convicção extraordinária- o paciente é tomado de uma
certeza subjetiva incomparável; impossibilidade de dados de realidade e raciocínios lógicos
demoverem aquela certeza; impossibilidade do conteúdo.
As ideias delirantes primárias não são passíveis de serem seguidaspsicologicamente,
do ponto de vista fenomenológico, ou seja, são incompreensíveis. Não são ideias
compartilhadas por outras pessoas do mesmo meio cultural, diferenciando-se, assim, da
superstição, nem decorrentes de outro distúrbio psicopatológico.
O delírio pode surgir a partir de uma súbita intuição (cognição ou intuição delirante).
Por exemplo, um paciente, de repente, sente que tem poderes especiais, que é Jesus Cristo
etc. É uma convicção irresistível que o domina completamente.
Pode aparecer a partir de determinada percepção, a qual passa a ter um sentido
completamente novo e revelador – percepção delirante. O paciente dá um significado singular,
aparentemente absurdo, a uma frase que ouviu, a um movimento de uma pessoa (mímica,
gesto, maneira de cumprimentar), a uma notícia de jornal.
Pode surgir também a partir de uma falsa recordação (percepção e intuição
mnésticas), por exemplo: "Agora me lembro de como o Papa olhou para mim - ele estava me
dizendo que sou seu filho e sucessor"; "Quando criança, eu tinha poderes especiais e força de
gigante''.
O paciente pode construir, a partir de um delírio, toda a história ou trama delirante.
Diz-se, então, que o delírio é sistematizado. O paciente faz interpretações de fatos,
comentários, gestos de acordo com seu delírio - são as interpretações delirantes. Por exemplo,
ele diz ser vítima de um complô, que uma quadrilha internacional de tóxicos está querendo
exterminá-lo, usando as mais diferentes maneiras. Quando o médico lhe oferece um copo
d'água, passa a incluí-lo entre seus perseguidores, achando que ele quer envenená-lo.
ldeias delirantes secundárias. Têm as características de ideia falsa, patológica,
irredutível à argumentação lógica, mas é secundária a algum acontecimento da vida do
paciente ou a algum outro de seus sintomas. Ao lado do caráter de ser derivada, ela é
compreensível psicologicamente.
Fala-se que uma ideia, ou grupo de ideias, é compreensível psicologicamente quando
o observador, uma vez diante da história do paciente, "compreende" o que ocorre com ele.
Suas ideias têm uma lógica ligada a vivências atuais e anteriores, e a sua aparente absurdidade
deve-se ao fato de partir de premissas falsas, mas, se fossem corretas, as ideias seriam
pertinentes.
Um paciente deprimido, por exemplo, com ideias de autorreprovação e sentimento
de culpa intenso, acredita que poderá ser preso a qualquer momento, pois a polícia está à sua
procura, por ter cometido uma irregularidade em uma transação comercial feita há 20 anos. A
autorrecriminação por essa irregularidade adquiriu uma dimensão delirante e atual, por meio
da perseguição policial.
Fobia. É um medo irracional e persistente, advindo de algum estímulo fóbico
específico, com as consequentes manobras para evitá-lo. Medo de baratas, ratos e outros
insetos é uma situação bastante comum; contudo, quando tais medos impedem um
funcionamento social normal, constituem uma fobia.
Um incontável número de objetos e situações pode funcionar como estímulo fóbico-
medo de lugares altos, abertos, fechados, trovões, água, sangue, sujeira, cadáver, escuro,
doença, de ser enterrado vivo, ser envenenado, de animais etc.
O medo fóbico costuma estar diretamente ligado a situações traumáticas especificas
(medo de mar após quase afogamento) ou, segundo a teoria psicanalítica, como expressão
simbólica de temores inconscientes. Por exemplo, o medo de andar sozinho pelas ruas pode
estar ligado inconscientemente a fantasias sexuais.
O paciente fóbico pode ficar imobilizado por seu medo, mas poderá vencê-lo quando
acompanhado por uma pessoa confiável (denominada companheiro fóbico). As fobias tendem
a estar associadas a ataques de pânico (sensação súbita e crescente de medo e perda de
autocontrole). Esses ataques são imprevisíveis e ocorrem geralmente em locais amplos, ou
onde o paciente não vê possibilidade de fuga (túneis, aviões etc.), fazendo com que ele tenha
medo de sair de casa.
Obsessões. São pensamentos, sentimentos ou impulsos desagradáveis, persistentes,
irresistíveis, que não podem ser eliminados da consciência por meio da vontade e do raciocínio
lógico.
O paciente tem consciência de que os pensamentos são seus, embora apareçam
contra a sua vontade. Em geral, ele se sente compelido a fazer atos ritualizados ou
estereotipados, denominados compulsões, com o objetivo de diminuir o desconforto
provocado pelas ideias obsessivas. Frequentemente, as compulsões adquirem a forma de
"dúvida imotivada” sobre algo que pode ser importante, como, por exemplo, se fechou a porta
da casa, o gás etc. Após confirmar o fechamento, minutos depois, a dúvida volta, obrigando-o
a nova confirmação. Isso ocorre inúmeras vezes apesar da indignação e exasperação do
paciente.
A exploração das fobias e obsessões consiste em perguntar simplesmente ao
paciente se ele não as tem, dando exemplos: você tende a ficar preocupado sem motivo?
Coloca os objetos de modo sempre igual e fica intranquilo quando essa ordem é alterada? Lava
as mãos muitas vezes/dia? Fica, com frequência, em dúvida se fechou a porta, o bico do gás,
tendo de confirmar isso repetidamente? Sente angústia, temor ou inquietação
desproporcional em locais fechados, elevadores ou perante outra situação ou um objeto?
Memória
É a capacidade de recordar, ou seja, de reviver estados de consciência anteriores,
reconhecê-los como tais e localizá-los no tempo e no espaço.
A memória é dividida em: memória de fixação (capacidade de registrar e fixar o
material mnêmico) e memória de evocação (capacidade de retomar à consciência o que foi
apreendi do e conservado). Utiliza-se também a divisão segundo o tempo de duração da
lembrança: memória recente (para fatos recentes, ocorridos há minutos, dias ou semanas) e
remota (para fatos ocorridos há meses ou anos).
Distúrbios quantitativos da memória – hipermnésia (aumento da memória) -, sem
maior valor semiológico, podem, eventualmente, ocorrer em estados crepusculares
epilépticos, na mania e em outros estados de exaltação emocional, nos quais, geralmente, as
representações afluem em grande quantidade, perdendo, no entanto, em clareza e precisão.
Amnésias. Denomina-se amnésia de fixação a incapacidade de recordar fatos
recentes. O paciente pode esquecer o que fez minutos antes, e isso faz com que ele não saiba
onde se encontra e o que acabou de fazer, levando-o a uma desorientação temporoespacial.
Amnésia de evocação é a incapacidade de lembrar fatos vivenciados há meses ou, sobretudo,
anos.
Em geral, a memória para os fatos recentes é a primeira a ser comprometida, ficando
preservadas as lembranças mais remotas (lei de Ribot). Pacientes na fase inicial do processo
demencial podem apresentar apenas amnésia de fixação.
Estudos recentes de investigação da memória remota, por meio de testes objetivos
padronizados, mostram, no entanto, que há também distúrbio dessa memória, ainda que em
menor grau.
A amnésia lacunar caracteriza-se pelo esquecimento do ocorrido em um
determinado período de tempo, com boa capacidade de evocação para os acontecimentos
anteriores e posteriores a esse período. Pode ser de origem orgânica (traumatismo
cranioencefálico) ou psicogênica (histeria).
As alterações qualitativas da memória caracterizam-se pela presença de falsas
recordações. Exemplo desses transtornos qualitativos é o fenômeno do já visto, em que o
paciente, diante de um fato novo (cena, filme, música), tem a clara impressão de tê-lo vivido
anteriormente. Ocorre em estados de ansiedade, auras epilépticas, embora possa ocorrer
também em situações normais. Outro exemplo é o da confabulação, na qual o paciente toma
como recordação verdadeira sonhos ou fantasias.
Exploração da memória. Pacientes, como pessoas normais, queixam-se
frequentemente de perda de memória. O médico deve procurar investigar se a queixa tem
fundamento. Pessoas deprimidas ou ansiosasapresentam dificuldades de concentração,
levando a uma falsa impressão de diminuição da memória.
Durante toda a entrevista, o examinador deve estar atento à rapidez, à precisão e à
orientação cronológica das informações fornecidas pelo paciente. O retorno a tópicos já
tratados anteriormente possibilita avaliar a memória para fatos recentes
(pacientes com amnésia de fixação, sem perceber, repetem o que disseram no início
da entrevista).
A memória de evocação é avaliada quando se pergunta ao paciente sobre o seu
passado e acontecimentos importantes, tanto nacionais como internacionais, ocorridos há
muitos anos - por exemplo, quando ocorreu a inauguração de Brasília, qual o presidente da
época, ou perguntas sobre achegada do homem à Lua.
A memória para fatos recentes pode ser explorada de maneira mais objetiva, por
meio de testes simples, que o médico pode realizar durante o exame psíquico. A atenção está
estreitamente ligada à memória de fixação, de tal modo que os testes servem para avaliar
ambas as funções.
Prova de repetição de números. O médico diz ao paciente, de maneira pausada,
séries crescentes de algarismos, pedindo que ele os repita segundos depois, em ordem direta e
inversa.
Normalmente, as pessoas conseguem repetir números com 6 a 7 algarismos em
ordem direta e com 4 a 5 em ordem inversa. Essa prova também é útil para o diagnóstico de
simulação. Suspeita-se que a pessoa esteja simulando quando erra o primeiro e o último
algarismos, exatamente os mais fáceis de gravar.
Prova de repetição de palavras. Pede-se ao paciente que diga nomes (p. ex., de
animais, frutas) e, 3 a 5 min após, que os repita.
Afetividade
De difícil conceituação, a afetividade compreende um conjunto de vivências que
abrange desde as mais simples sensações de prazer e desprazer (como, por exemplo, a dor)
até sentimentos complexos, como os religiosos e os estéticos.
Os distúrbios da afetividade são investigados por meio do humor e das
manifestações afetivas do paciente.
Denomina-se humor (ou estado de ânimo) a tonalidade afetiva básica, ou seja, o
estado afetivo predominante. Considera-se uma pessoa com humor normal quando não
apresenta variações afetivas persistentes e polarizadas. Nos estados patológicos, o humor
pode estar alterado em duas direções opostas - em um polo estão a tristeza, a ansiedade, o
tédio e a inibição; no outro, a alegria, o entusiasmo e a exaltação.
Na exaltação do humor - euforia ou elação -, o paciente encontra-se alegre, otimista,
com profunda sensação de bem-estar. É uma alegria imotivada, constante.
Paradoxalmente, esse estado pode ser acompanhado de episódios de irritabilidade,
chegando, em seus paroxismos, a momentos de fúria. Ocorre tipicamente na fase maníaca da
psicose maníaco-depressiva, mas pode acontecer em outros distúrbios psiquiátricos
(demência, reações medicamentosas, uso de drogas).
Um tipo especial de euforia é a denominada moria, em que o paciente apresenta
uma expressão de alegria estúpida, ri por motivos pueris, absurdos, a qual pode surgir em
lesões cerebrais do lobo frontal.
Humor depressivo caracteriza-se por tristeza, desânimo, pessimismo. Esse estado
afetivo pode ser desencadeado por um fator externo ou orgânico (depressão reativa ou
secundária) ou não (depressão primária).
Humor ansioso caracteriza-se por uma reação temerosa, "sem saber a quê", levando
o paciente a um estado de tensão o apreensão permanente. Pode ocorrer na fase prodrômica
da esquizofrenia, na neurose de ansiedade, no hipertireoidismo, no cafeinismo.
Distúrbios da reação afetiva. Além de apresentar alterações em seu estado afetivo
básico (humor), o paciente tende a apresentar alterações na sua capacidade de variar,
modular e controlar suas respostas afetivas.
Indiferença afetiva. Pode chegar a uma absoluta ausência de resposta afetiva.
Ocorre em pacientes deprimidos, que chegam a mostrar completo desinteresse pelo mundo
exterior – tudo lhes é indiferente. Nada os mobiliza afetivamente.
Situação diversa, mas que também pode levar à indiferença afetiva, acontece na
demência e em casos graves de esquizofrenia, nos quais há um esvaziamento afetivo
progressivo, levando, inclusive, à perda das ligações afetivas mais sólidas. A indiferença afetiva
pode também aparecer na histeria, sendo denominada la belle indifférence. O paciente
mostra-se indiferente, por exemplo, diante da paralisia de suas pernas.
Labilidade afetiva. Surge quando há rápidas mudanças de um estado afetivo para
outro. Ocorre na histeria, nos estados mistos da psicose maníaco-depressiva (em que o
paciente alterna gargalhadas com choro) e nas síndromes orgânicas agudas, nas quais o afeto
pode mudar da ansiedade para o terror ou panico.
Incongruência afetiva. Ocorre quando há uma resposta afetiva inadequada a um
relato ou uma situação (o paciente ri enquanto narra a cena trágica de um desastre), que pode
levantar à suspeita de esquizofrenia. Deve ser diferenciada do chamado riso nervoso, o qual
pode ocorrer com pessoas normais em situações de grande tensão emocional.
Incontinência afetiva. O paciente ri ou chora por longos períodos, sem controle,
diante de um pequeno ou nenhum estímulo. Sugere lesões orgânicas, como a demência
vascular (arteriosclerótica) ou esclerose múltipla.
Exploração dos sintomas afetivos. O examinador procura avaliar o humor e as
reações afetivas do paciente por suas manifestações verbais e seu comportamento. Seus
gestos, suas posturas e, sobretudo, sua expressão fisionômica são de grande importância.
Cabe lembrar que doenças neurológicas (parkinsonismo) e impregnação medicamentosa (uso
de antipsicóticos) comprometem a expressão facial, mascarando o estado afetivo.
O relato do paciente nem sempre fornece uma ideia correta do seu humor. Um
paciente maníaco não percebe o caráter patológico de sua alegria, devido à sensação subjetiva
de bem-estar e à grande disposição de que se vê invadido.
O melancólico grave, por sua vez, fala de apatia, desinteresse, vontade de morrer,
sentimento de culpa, mas nunca de tristeza.
A procura de sintonização afetiva é fundamental à compreensão do estado do
paciente. Este se sentirá incompreendido se lhe for perguntado como se sente, quando sua
fisionomia já o demonstrar. Sendo assim, o médico deve mostrar que já percebeu o distúrbio
sobre o qual quer obter informações. Por exemplo: "Há quanto tempo sente-se triste?"; "Por
que está triste (ou irritado, alegre, preocupado, desconfiado)?"; "A que atribui a sua tristeza
(ou irritação, entusiasmo)?".
Os termos depressão e ansiedade devem ser evitados. Se o paciente os utiliza, deve-
se procurar saber o que ele está querendo dizer (já que pode empregá-los com significados
diversos). É tristeza, medo, temor ou insatisfação indefinidos, mal-estar físico?
Quando o comportamento e as informações espontâneas do paciente não revelarem
seu estado de humor, podem ser feitas perguntas indiretas, formuladas com cuidado, sobre
seus êxitos, desgostos e fracassos. Sempre que possível, deve-se procurar obter informações
sobre o estado de humor do paciente nos dias ou nas semanas anteriores ao exame,
comparando com seu estado atual.
Os momentos iniciais da entrevista são geralmente tensos e podem fornecer uma
impressão errônea sobre o humor do paciente. Como lembra Leme Lopes, o choro no início da
entrevista nem sempre indica um estado depressivo. Pode ser um pedido de ajuda de
inseguros, angustiados, fóbicos, obsessivos e histéricos.
Profundidade do estado afetivo. Isso não se exterioriza por sinais especiais. O
melhor guia para sua avaliação é a própria experiência clínica. A profundidade do distúrbio
afetivo (ou seja, o quanto um paciente está, por exemplo, deprimido, angustiado ou irritado)
nem sempre é paralela à intensidade e à qualidade dos movimentos que o exteriorizam, pois
estes não dependem apenas do processo mórbido subjacente, mas também deaspectos
constitucionais, emocionais, culturais e educacionais.
Pacientes com histeria, comumente, hipertrofiam a quantidade e a qualidade do
estado emocional, enquanto um paciente delirante pode estar imóvel, mas tomado de intensa
emoção.
Sensopercepção É a capacidade de uma pessoa apreender as impressões sensoriais,
dando-lhes um significado. Essa apreensão depende do tipo do estímulo, da higidez dos órgãos
sensoriais e da integridade do sistema nervoso central, sendo também influenciada por várias
funções psíquicas, como a vontade, a afetividade e a inteligência.
Transtornos da sensopercepção. Os principais transtornos da sensopercepção são as
ilusões e as alucinações. Ilusões são percepções deformadas. Aos aspectos reais de um objeto
percebido acrescentam-se outros imaginários. Elas, em geral, ocorrem em situações normais.
Por exemplo, uma pessoa, a partir de um som, tem a impressão de ter sido chamada, ou ver,
momentaneamente, uma pessoa conhecida na figura de um desconhecido.
Os estados de exaustão podem também propiciar ilusões. Situação comum é a ilusão
do viajante cansado, que confunde, por exemplo, um tronco de madeira com uma pessoa ou
um animal. São ilusões consequentes à desatenção.
Nos estados de tensão emocional, podem surgir as chamadas ilusões catatímicas, nas
quais o objeto percebido é deformado por influência das emoções. Por exemplo, uma pessoa
com medo pode "ver” na sombra de um galho de árvore sobre a janela, o braço de um ladrão.
Os sentimentos de ódio e amor (uma namorada sempre será linda aos olhos de um
apaixonado) também podem ser responsáveis por ilusões catatímicas.
Há ainda as ilusões autoprovocadas, quando uma pessoa deliberadamente dá um
sentido a estímulos confusos, não estruturados (p. ex., visualizar rostos, animais etc. em
paredes descascadas, nas nuvens).
Nos estados patológicos, as ilusões podem estar aumentadas em frequência e
intensidade. No entanto, elas têm pouco valor diagnóstico, podendo ocorrer em várias
situações normais.
Alucinações são a percepção sem objeto, ou seja, ouvir vozes que ninguém em volta
está ouvindo, ver objetos que não estão presentes, e assim por diante.
Alucinações auditivas. Podem ser apenas ruídos (alucinações elementares) ou
complexas (palavras, frases, diálogos). Geralmente, ocorrem em pacientes esquizofrênicos,
mas podem também se apresentar na psicose maníaco-depressiva, nas síndromes orgânicas,
na histeria e em outros distúrbios psiquiátricos.
Pacientes podem relatar que estão escutando o seu próprio pensamento (eco do
pensamento); vozes que comentam o seu comportamento (p. ex., um paciente, intensamente
angustiado, reclama que tem uma voz a qual diz tudo o que ele está fazendo: "Se saio de casa,
a voz diz: 'Saiu de casa; se vou ao banheiro, diz que entrei no banheiro").
Pode ocorrer que a alucinação seja por diálogos, com referências ao paciente na
terceira pessoa (p. ex., "O que vamos fazer com ele?"). Esses tipos de alucinações, embora
possam aparecer em diferentes quadros psiquiátricos, quando pronunciados e contínuos, são
fortemente sugestivos de esquizofrenia.
Essas alucinações não estão geralmente relacionadas com o estado afetivo do
paciente. Isso tem importância diagnóstica, porque há alucinações que têm ligação com o
estado de humor e sugerem um distúrbio afetivo, sobretudo na depressão grave, com
sintomas psicóticos, em que o paciente pode ter alucinações acusatórias, em geral na segunda
pessoa (p. ex., "você é um crápula, um ladrão''), ligadas ao sentimento de culpa, que ocupa
lugar importante no quadro depressivo melancólico.
Alucinações visuais. São mais características de distúrbios orgânicos, ocorrendo
especialmente nos quadros agudos. Elas podem coexistir com alucinações auditivas e ter um
caráter amedrontador. Não são específicas de esquizofrenia e tendem a se apresentar no luto
normal (a visão do parente morto), nos transtornos depressivos graves (ver a si próprio dentro
de um caixão) e em episódios psicóticos agudos e transitórios.
As alucinações hipnagógicas são experiências visuais que ocorrem nas fases de
transição entre a vigília e o sono ( especialmente na fase do adormecer). Embora isso possa
apresentar-se em pessoas normais (enxergar um vulto dentro do quarto), tais experiências,
quando repetidas, podem estar ligadas a um distúrbio do sono - a narcolepsia.
Outras circunstâncias que costumam provocar alucinações visuais incluem a privação
sensorial (p. ex., depois de uma operação de catarata), delirium e outros distúrbios orgânicos e
na histeria (na qual, geralmente, as ilusões estão ligadas às fantasias do paciente de modo
bastante evidente).
Todas essas alterações visuais devem ser distinguidas de um tipo especial de ilusão,
na qual os objetos podem parecer maiores e mais próximos (macropsia) ou menores e
distantes (micropsia), bem como tendem a ocorrer no deslocamento da retina, nos distúrbios
da acomodação visual, nas lesões temporais posteriores, nas auras epilépticas e intoxicações
por alucinógenos.
Outro tipo de alucinação visual observado, ainda que raramente, é a chamada
autoscopia, na qual o paciente visualiza sua própria imagem projetada no espaço. Pode
apresentar-se na histeria, nos transtornos do humor e na esquizofrenia.
Alucinações olfatórias e gustativas. Ocorrem em quadros orgânicos (p. ex., gostos e
cheiros estranhos como auras epilépticas) ou como parte de um quadro delirante (p. ex., o
paciente percebe gostos e cheiros ruins, denunciadores de que seus inimigos envenenaram os
alimentos e a atmosfera).
Alucinações táteis. Podem ser vívidas, como insetos que caminham pela pele,
características da intoxicação cocaínica, psicose anfetamínica e do delirium tremens
(intoxicação etílica).
Na esquizofrenia, elas tendem a assumir formas bastante estranhas, como ter a
sensação de orgasmos produzidos por objetos ou criaturas.
As alucinações táteis devem ser distinguidas da hiperestesia (extrema sensibilidade
tátil) e da hipoestesia (diminuição do tato), que costumam ocorrer nas doenças neurológicas e
na histeria.
Alucinações extracampinas. São alucinações- sugestivas de esquizofrenia- em que o
paciente "percebe" um objeto fora do seu campo perceptivo (p. ex., um paciente
esquizofrênico afirmava que via a figura do diabo na sala ao lado onde se encontrava).
Exploração das alucinações. As perturbações da sensopercepção nem sempre são
relatadas espontaneamente pelo paciente. O examinador deve procurar observar, no seu
comportamento, sinais que sugiram alterações da sensopercepção, notadamente de
alucinações. São sugestivos: um desviar súbito de olhar ou uma mudança da posição da
cabeça, movimentos dos lábios (como se estivesse conversando de maneira inaudível -
mussitação), uma frase cortada, uma expressão de medo ou, ao contrário, um sorriso furtivo.
O paciente pode "ouvir" insultos e respondê-los. Nas alucinações visuais, tende a fazer
movimentos com as mãos como se quisesse afastar o objeto alucinado - ocorre com
frequência no delirium tremens.
Se a conduta do paciente despertar suspeitas de alucinações, e o paciente não fala
espontaneamente sobre elas, é preciso interrogá-lo sobre isso. As perguntas devem ser feitas
com cuidado, de preferência no momento da expressão ou do gesto suspeito. Exemplos:
"Parece que você ouviu alguma coisa ... ";
"Ouviu algo estranho enquanto falava comigo?"; "Está vendo algo que o assusta?";
"Tem ouvido ou visto algo estranho ou que tenha chamado a sua atenção?': A negativa do
paciente não exclui a possibilidade de alucinações. O examinador deve voltar a pesquisá-las
em momento oportuno, reformulando suas questões. A suspeita de alucinações deve ser
sempre registrada quando da redação do exame psíquico.
Vontade
É a disposição que uma pessoa tem para a ação, a partir de uma escolha ou decisão
sua.
Distúrbios da vontade. Na diminuição da vontade, o pacientedeprimido relata, em
geral, perda da vontade. Nada lhe interessa, sente-se, às vezes, incapaz de realizar as mais
simples tarefas (tomar banho, trocar de roupa). Por mais que seja estimulado, permanece sem
disposição para qualquer ação. Em pacientes esquizofrênicos, a vontade pode estar
comprometida em nível da iniciativa (pragmatismo). Embora tenham condições de realizar
tarefas, quando ordenadas e supervisionadas, não conseguem, por iniciativa própria, começá-
las ou sustentá-las por muito tempo.
Negativismo é um termo que denomina as situações nas quais o paciente não atende
ao que lhe é pedido. Essa oposição pode ser de maneira ativa, quando tende a fazer o
contrário daquilo que lhe foi solicitado (p. ex., se lhe foi solicitado que abrisse a boca, ele cerra
os lábios), ou, de modo passivo, quando, simplesmente, abstém-se de colaborar. Pode ocorrer
em diversos distúrbios, como esquizofrenia, depressão, mania, síndrome orgânica, neurose e
simulação.
Os pacientes esquizofrênicos costumam apresentar ainda outros distúrbios da
vontade, bastante sugestivos da doença, que são: automatismo ao comando (o paciente
obedece instantaneamente ao que lhe é ordenado, como um autômato, sem o controle de sua
vontade); ecolalia (repete por imitação todas as palavras que lhe são dirigidas, como, por
exemplo, às perguntas: "Você está melhor? Já almoçou?", ele responde: "Você está melhor? Já
almoçou?"). Essa imitação tende a se apresentar em relação a gestos - ecopraxia.
Aumento da vontade ocorre, sobretudo, na fase maníaca da psicose maníaco-
depressiva, ocasião em que o paciente experimenta uma grande disposição para realizar
tarefas, mas de maneira desordenada e sem persistência.
Atos impulsivos são aqueles que não passam pela vontade do paciente ou que ele,
em que pese a sua intervenção, não consegue controlá-los. Podem ser impulsos
aparentemente imotivados, súbitos- assim como os impulsos auto e heteroagressivos de
pacientes esquizofrênicos, ou em estado confusional, ou impulsos sistematizados, como os
atos compulsivos da neurose obsessiva.
O paciente sente-se pressionado, pelas suas ideias obsessivas, a realizar inúmeras
vezes um mesmo ato, de modo estereotipado.
Por exemplo, lavar as mãos, confirmar se as luzes estão apagadas e o gás desligado.
Outros atos impulsivos sistematizados são a necessidade incontrolável de realizar pequenos
furtos (cleptomania), jogos de azar, ou de usar bebidas alcoólicas ou drogas.
Os distúrbios da sexualidade são incluídos, geralmente, dentro da visão
psicopatológica clássica, como alterações dos instintos. No entanto, esses distúrbios (que
abrangem desde a impotência sexual, frigidez, até as perversões sexuais) constituem situações
bastante complexas, como mostra a sua compreensão psicanalítica, para serem referenciados
à alteração de uma função específica.
Psicomotricidade e atividade motora
A vida psíquica do paciente tem a sua expressão objetiva no conjunto de seus gestos
e movimentos, a que se denomina psicomotricidade.
Os distúrbios da psicomotricidade têm grande valor semiológico em psiquiatria.
Muitas vezes, fornecem pistas seguras em direção a uma determinada afecção psiquiátrica. A
importância da mímica vem sendo enfatizada ao longo da descrição do exame psíquico.
O aumento da psicomotricidade pode ocorrer em situações normais, como a
atividade frenética de uma pessoa dinâmica, passando pela inquietação do ansioso, até as
graves agitações dos pacientes psicóticos (orgânicos, esquizofrênicos e maníacos).
A diminuição da psicomotricidade oferece um quadro exatamente oposto - em vez
de mímica rica, alternante, há uma expressão pobre, parada. A imobilidade contrasta com a
mudança constante de posições do inquieto ou com a tempestade de movimentos do agitado.
Um grau extremo de diminuição da psicomotricidade é o estupor, no qual, além de
inibição completa da psicomotricidade, há diminuição da resposta aos estímulos dolorosos.
Nesses casos, a expressão facial tem grande valor semiológico: sonolência e torpor
no paciente orgânico, tristeza no paciente deprimido e alheamento no esquizofrênico.
O examinador pode notar, em algumas situações, que os gestos do paciente não lhe
dizem nada - carecem de irradiação afetiva - e não têm as características de uma expressão
normal, mostrando um caráter afetado e antinatural. Pode ocorrer na esquizofrenia, na
neurose histérica e nos distúrbios de personalidade.
Quando a essa afetação de gestos e posturas juntam-se movimentos absurdos e
reiterados, trata-se de estereotipias. Se a repetição for de uma expressão facial (fechar os
olhos, torcer a boca para um lado), denomina-se mímica estereotipada. Na ausência de causa
neurológica (tiques faciais), as estereotipias podem sugerir esquizofrenia.
Inteligência
É a capacidade de adaptar o pensamento às necessidades do momento ou de
adquirir novos conhecimentos. Essa capacidade pressupõe três tipos de inteligência: uma
abstrata (capacidade de compreender e lidar com ideias abstratas e símbolos); uma mecânica
(capacidade de compreender, inventar e manipular aparelhos) e uma social (capacidade de
atuar adequadamente nas relações humanas e situações sociais).
A inteligência do paciente pode ser avaliada, sumariamente, por seus conhecimentos
gerais (p. ex., nome do país, da capital e do governador do seu estado, do Presidente da
República), pelo seu vocabulário (número de vocábulos e de que maneira os emprega), sempre
de acordo com sua idade, condições socioculturais e nível de escolaridade. Pode-se, ainda,
recorrer a testes simples, como a interpretação de provérbios e os testes das similaridades.
Interpretação de provérbios. Pede-se ao paciente que interprete um provérbio
corrente em seu meio (p. ex.: "A galinha do vizinho é sempre mais gordâ'; "Nem tudo que reluz
é ouro"). É aconselhável dar um exemplo de interpretação, certificando-se de que o paciente
entendeu o que lhe foi pedido.
Testes das similaridades. Podem ser os mais simples (o que há de comum entre uma
laranja e uma maçã, ou entre um carro e um avião) até os mais complexos (entre uma pintura
e um poema). Um paciente com déficit intelectual pode, na comparação entre uma laranja e
uma maçã, comentar apenas que são redondas ou que têm casca, não chegando à ideia de que
ambas são frutas.
Observando um déficit intelectual, devem-se procurar dados, no sentido de
esclarecer se tal deficiência sempre existiu (oligofrenia) ou se surgiu na fase adulta (demência).
O nível de escolaridade obtido pelo paciente, suas performances profissional e social
anteriores ajudam a esclarecer essa questão.
Esquema de exploração das funções psíquicas em crianças
Os seguintes itens devem ser investigados no exame da criança: aparência geral;
atitude geral; atividade motora; atenção e concentração; temperamento, afeto e humor;
memória; orientação e percepção; pensamento; linguagem e fala; defesas; fantasia,
imaginação e devaneio.
Aparência geral
Não é conveniente inspecionar formalmente a criança. A observação da aparência
geral se faz ao longo do exame, por meio do olhar de superfície. Longe de ser objetivado como
superficial, pouco sério, o olhar de superfície diz respeito a uma cuidadosa, porém discreta,
observação da criança no que diz respeito ao seu aspecto físico, harmonia de traços, presença
de lesões, anomalias da face, tronco ou membros, estrabismo, claudicação, acne, obesidade.
Verificar seu modo de vestir, se sugere bom trato ou desleixo, além de observar também sua
fisionomia e postura (apática, viva, alegre, triste, inibida, descontraída, ansiosa).
Atitude geral
Refere-se ao comportamento da criança durante o exame.
Atividade motora
A suspeita de perturbações da psicomotricidade pode ser levantada, ou mesmo
confirmada, a partir da observação das atividades espontâneas da criança ao brincar,
desenhar, correr, pular ou andar. Observar também apresença ou não de movimentos
anormais, tais como: tiques, movimentos coreiformes, movimentos atetósicos, movimentos
gestuais estereotipados, maneirismos.
Atenção e concentração
A criança se concentra em alguma atividade ou no diálogo? Passa de uma atividade a
outra sem cessar e sem terminar a anterior?
A capacidade de atenção e concentração modifica-se com a idade. Na criança
pequena, a atenção e a concentração estão intimamente ligadas ao seu interesse imediato e
particular. Ela só se detém no que realmente lhe interessa e dá prazer, independentemente
dos estímulos e apelos do meio.
Na criança maior, é esperado que ela consiga organizar-se e manter-se em
brincadeiras mais estruturadas e elaboradas.
Temperamento, afeto e humor
Referem-se aos sentimentos expressos durante o exame. Como variou e, se possível,
o que motivou sua flutuação. Sua relação com as atividades verbais e não verbais da criança.
Na criança maior e no adolescente, podem-se obter informações adicionais sobre
como se sentem, seu humor e o afeto pelos seus próprios relatos.
Memória
Uma queixa frequente nos consultórios de psiquiatria infantil diz respeito à memória
e é expressa das mais diversas formas: "Ele esquece todos os seus objetos na escola: “Aprende
a matéria e, no dia seguinte, já esqueceu tudo". A memória está intimamente ligada à
atividade da atenção e, portanto, distúrbios da atenção e a hiperatividade motora são fatores
que podem comprometê-la.
Orientação e percepção
Essas duas funções dizem respeito à capacidade da criança em perceber e
compreender a realidade. O fator idade influencia decisivamente essa capacidade.
Na criança pequena, a fronteira entre a realidade e a fantasia, as noções de tempo e
espaço, são vagas e imprecisas.
Avaliar a orientação da criança é procurar saber se ela demonstra conhecimento
sobre sua pessoa (quem ela é, seu nome, onde mora, sua idade, se estuda) e se tem noção de
espaço e tempo.
A percepção da realidade é o resultado de uma crescente diferenciação e consciência
de separação do mundo externo real e do mundo interior, ou seja, da sua vida imaginativa e
seus conteúdos, desejos e suas fantasias.
Avaliar a percepção é procurar saber em que medida a criança é capaz de diferenciar
entre o real e a fantasia e, consequentemente, sua adaptação a essa realidade.
Em relação à percepção, é importante notar se a criança utiliza seus órgãos sensoriais
adequadamente e se estão organicamente intactos.
Exemplos: não é comum uma criança de 4 anos pegar objetos e levá-los
sistematicamente à boca, mas é perfeitamente normal e frequentemente observável em uma
criança no primeiro ano de vida.
Os distúrbios da sensopercepção, tais como foram descritos na exploração das
funções psíquicas do adulto, são considerados raros na infância.
Pensamento
É importante lembrar que o pensamento da criança pequena tem características que
o diferenciam do pensamento do adulto. Em razão de sua própria imaturidade, seu
pensamento pode expressar-se por associações pouco claras, mal ordenadas, que fogem à
lógica formal do pensamento do adulto. Baseia-se muito mais no seu modo pessoal e
autorreferente de ver a realidade. Na criança maior, por exemplo na fase de latência, já são
exigidas melhor ordenação e clareza maior do seu pensamento.
Para Stella Chess, inexistem critérios objetivos para a avaliação das perturbações do
pensamento da criança. A inibição do pensamento, sua lentidão e a dissipação do relato, como
são vistos no adulto, não são comuns na criança e, quando ocorrem, alcançam a faixa do pré-
adolescente.
Linguagem e fala
A fala também é objeto de observação, e seus distúrbios são frequentemente
motivos de consultas. No exame psíquico, a atenção do médico, em geral, está dirigida ao
modo como a criança usa a linguagem.
Os distúrbios de articulação (dislalia e disartria) devem ser anotados, e os do ritmo da
fala são relativamente frequentes e, muitas vezes, constituem o próprio motivo da consulta.
Os mais frequentes são a gagueira, a taquilalia e a hesitação (distúrbio na fluência do discurso,
considerada normal nos primeiros anos, sendo mais frequente aos 3 anos e, segundo Lefevre,
impropriamente chamada de gagueira fisiológica).
Defesas
São recursos utilizados pela criança, consciente ou inconscientemente, para evitar ou
manter a ansiedade no nível mais baixo possível, frente a situações ansiogênicas de origem
interna ou externa.
São exemplos de recursos utilizados pela criança:
• Racionalização que um garoto de 11 anos utiliza quando tenta, por meio de
explicações lógicas (pivetes, assaltantes), justificar a sua recusa de sair desacompanhado à rua,
mesmo que seja até a esquina bem próxima à sua casa
• Negação da criança pequena que, durante o exame, brinca somente com a mãe,
tenta ignorar a presença do médico e nega a situação de exame, utilizando um "faz de conta
que estou só com a mamãe"
• Regressão na criança, que passa a falar de modo infantilizado
• Adultização observada na criança, que passa a falar de modo afetado, com frases
bem elaboradas e rebuscadas, ou por meio de suas observações
• Repressão pode ser a responsável pelo "branco" que dá na criança, que não
consegue brincar e à qual não ocorre nada para dizer durante a entrevista.
Também é um modo de defesa a atitude da criança que, para lidar com a ansiedade
gerada por uma situação nova, apoia-se na mãe, não se separando dela até o novo ambiente
se tornar mais conhecido e ser considerado seguro. Um exemplo é a necessidade do apoio
matemo, que a criança requisita, durante o período de adaptação escolar, até que ela aceita
progressivamente tanto a sua permanência na escola como o próprio afastamento da mãe.
Fantasia, imaginação e devaneio
Podem-se distinguir níveis diferentes de fantasia: a fantasia ligada a atividades
conscientes, como o devaneio e a imaginação, e a inconsciente, a qual só se observa por trás
nas produções do inconsciente, como o sonho, certos comportamentos, e, na criança,
naturalmente, por meio do jogo.
No exame psíquico, é importante saber da repercussão das fantasias, consciente e
inconscientemente, na vida da criança: se usa a fantasia de modo saudável ou não, e se a
natureza e intensidade de suas produções inconscientes a afetam prejudicialmente.
Se a criança brinca, é importante observar seu modo de brincar, se é criativo,
repetitivo ou monótono. As fantasias inconscientes estão na base do sintoma fóbico.
A criança que fica paralisada pelo medo (do escuro, do elevador, de animal, de
pessoas) não consegue atribuir a si própria a natureza de seus medos, como proveniente de
fantasias inconscientes (ideias e imagens terroríficas), às quais não tem acesso.
Essas fantasias são deslocadas do objeto ameaçador, ou da situação original, e
passam a ser provenientes de um objeto ou situação real, ao qual a criança começa a temer,
atribuindo-lhe um poder aterrorizante, produto de sua imaginação, mas de cuja natureza ela
não se dá conta.
Diferente a criança que, a princípio, fica temerosa frente a uma determinada
situação, mas consegue acalmar-se e separar o que é uma ameaça real de uma de natureza
imaginária, conseguindo, assim, defender-se dos sentimentos que impeçam seu próprio
ajustamento à situação.
Entrevista em situações específicas
Cada entrevista que o médico tem com seu paciente é uma situação singular e única.
O profissional tem de ser flexível e adaptar-se às particularidades de relação, do momento, dos
objetivos e do contexto em que ela se realiza.
Há situações que apresentam riscos e dificuldades especiais, os quais precisam ser
analisados, destacando o paciente deprimido, o violento, o não cooperativo e o delirante.
Entrevista com paciente deprimido
Um aspecto importante a ser avaliado é o risco potencial de suicídio.
Embora o suicídio esteja associado a numerosos fatores psicodinâmicos,
frequentementeas tentativas de suicídio de pessoas deprimidas estão ligadas ao sentimento
de desesperança.
A pessoa não vê nada nem ninguém em condições de ajudá-la. As palavras
animadoras da família e dos amigos são recebidas com descrédito e vistas como mera atitude
piedosa que em nada o ajudam.
O médico não deve cometer o mesmo erro, assegurando ao paciente de que ele logo
ficará bom, pois suas palavras, provavelmente, cairiam no mesmo vazio dos estímulos
familiares. É importante que o examinador diga ao paciente que compreende seu desalento e
sua desesperança, mas está disposto a ajudá-lo até que ele se sinta melhor, porque acredita
nessa possibilidade.
Nunca se deve garantir ao paciente que um determinado tratamento irá funcionar,
pois, se isso não ocorrer, ele poderá sentir-se mais desiludido e ver sua última esperança
extingue-se.
Outro ponto importante na entrevista é a discussão sobre suicídio. Sempre se deve
perguntar sobre a presença de pensamentos suicidas. Perguntas como: "Têm lhe vindo
pensamentos de morte? Já os teve? Veio-lhe algum pensamento sobre morte? Passou-lhe pela
mente acabar com sua vida?" fazem com que o paciente fale de eventuais ideias suicidas.
A crença de que não se deve falar sobre suicídio com o paciente, por receio de
aumentar o risco de ele vir a cometê-lo, não encontra nenhuma sustentação na experiência
clínica, não sendo, pois, verdadeira.
Outra crença é a de quem vive falando que vai se matar não se mata. Isso não é
verdade. Vários estudos mostram que a maioria dos pacientes que conseguiram concretizar o
suicídio tinha história de, pelo menos, uma tentativa anterior.
Além de indagar sobre ideias suicidas, o profissional deve procurar informar-se sobre
quando, como e em que circunstâncias essas ideias surgiram. É preciso verificar se o paciente
teve apenas um vago desejo de se matar; se chegou a fazer planos, quais foram, ou se chegou
a redigir algum bilhete a respeito.
Esses dados ajudarão o médico a ter uma ideia da gravidade do caso.
Se o médico chegar à conclusão de que há risco imediato de suicídio, ele deve
explicar ao paciente que este necessita de proteção contínua, sugerindo hospitalização ou
ambiente onde tenha segurança equivalente. Com frequência, o paciente recebe as palavras
do médico com alívio, embora possa aparentar relutância quanto à sugestão.
A família deve ser sempre informada dos riscos iminentes ou potenciais de suicídio,
assim que o médico detectá-los.
Essa informação deve ser dada preferencialmente na frente do paciente. Quando isso
não for possível, avisá-lo de que tal comunicação será feita.
Entrevista com paciente violento
Geralmente, ocorre em pronto-socorro psiquiátrico, mas isso não impede, contudo,
que, às vezes, o médico tenha de lidar com essa situação em consultório, enfermaria ou na
própria casa do paciente.
Quando o paciente chegar ao consultório contido fisicamente, o médico deve avaliar,
primeiro, a possibilidade de um contato verbal. Palavras tranquilizadoras e orientadoras ("O
senhor está em um hospital"; "Eu sou médico"; "Estou aqui para ajudá-lo") costumam ter
grande efeito sobre um paciente ansioso, desorientado e cheio de medo.
O médico deve tratar o paciente com respeito, evitando qualquer confrontação e
quaisquer atitudes que o façam sentir- se humilhado. Deve-se sempre respeitar a necessidade
de espaço do paciente. Ambientes apertados, escuros e pouco arejados favorecem a agitação.
Os acompanhantes do paciente e pessoas estranhas à equipe devem ser afastados.
Se o paciente estiver tendo um razoável contato com a realidade, a questão passa a
ser: é aconselhável remover a contenção física? Isso deve ser exposto diretamente para o
paciente, expressando não só o desejo de liberá-lo da contenção, mas também a preocupação
sobre o que isso pode acarretar para a segurança dele e dos demais.
O modo como o paciente responde a essa observação costuma ser um dado valioso
sobre se é possível ou não remover a contenção.
Se a decisão for a de removê-la, o médico tem de observar cuidadosamente o que
está acontecendo com o paciente à medida que ela for sendo retirada. A permanência do
paciente calmo, mostrando expressão de alívio, sugere que a retirada pode continuar.
Contudo, se voltar a ficar agitado quando estiver sendo solto, a oportunidade da medida deve
ser reavaliada.
Ao entrevistar pacientes potencialmente violentos, o médico deve estar atento aos
seus próprios sentimentos em relação a eles, que podem ser um guia útil de como lidar com a
situação. Se, por exemplo, o médico estiver tranquilo diante do paciente, e este não lhe
despertar nenhum sentimento de medo, provavelmente não terá dificuldades de lidar com ele.
Mas se, por outro lado, o paciente provocar-lhe sentimento de medo, é preferível que o
profissional conduza a entrevista em local seguro, onde - caso o paciente se tome violento –
ambos estejam protegidos.
Exame do paciente não cooperativo e estuporoso
Algumas vezes, o paciente se recusa a dar informações a seu respeito, sobretudo
quando não crê estar doente. Aqui, há uma regra importante - o médico não deve convencer o
paciente de que ele está doente. Nesses casos, recomenda a experiência que o exame psíquico
deve começar com uma conversa vulgar, a qual possibilite avaliar o estado da afetividade e do
pensamento.
Perguntar a respeito de seu estado físico, sono, sua alimentação pode ser útil. Talvez
o paciente responda às primeiras perguntas e, em seguida, reafirme que não está doente,
nunca esteve, e não vê sentido em continuar a conversa. No entanto, o entrevistador não deve
interrompê-la bruscamente, mas deverá insistir, com tato, indicando, por exemplo, que os
familiares estão preocupados porque ele está muito magro ou dormindo pouco, por exemplo.
Se, mesmo assim, ele negar qualquer queixa, o recurso poderá ser perguntar-lhe por que a
família está dizendo isso dele; provavelmente, surgirá alguma ideia delirante.
Há casos, contudo, em que o paciente não responde a nenhuma pergunta, por se
encontrar em um completo negativismo ou em estupor. Nesses casos, talvez o médico
iniciante pense que é impossível fazer o exame psíquico e que deve postergá- lo. No entanto,
esperar mudanças no quadro clínico, ou que o doente se torne mais acessível, é perder a
oportunidade de examiná-lo enquanto negativista ou estuporoso, deixando uma grave lacuna
na história clínica.
Evidentemente, o exemplo psíquico desses pacientes exige uma abordagem
diferente. Os seguintes pontos são importantes e devem ser observados, servindo como um
roteiro de exploração:
Atitude geral. Observar a aparência do paciente (vestuário, estado de higiene, estado
de nutrição). Como entra no local do exame ou, como acontece na maioria das vezes, se o
examinador vai ao encontro do paciente, como o encontra: na cama, atirado ao chão,
acocorado em um canto ou movimentando-se? Seus movimentos são rápidos, lentos, súbitos,
ordenados, confusos, descoordenados?
O paciente faz alguma tentativa de comunicação, recusa deliberadamente qualquer
contato, ou é indiferente à presença de examinador? Qual é a sua reação diante da presença
de outras pessoas (enfermeiras, auxiliares, familiares)?
Atos espontâneos. Muda de posição? Como são seus gestos? Qual é a atitude diante
de alimentos (solicita por sinais, aceita quando lhe é oferecido ou recusa, fechando a boca)?
Mantém-se coberto, faz movimentos espontâneos no sentido de cobrir-se ou descobrir-se (o
mesmo em relação às vestimentas)?
Apresenta enurese ou encoprese, ou exerce normalmente (ou com ajuda) suas
funções excretórias?
Expressão facial. Demonstra angústia, medo, raiva, aborrecimento, indiferença,
perplexidade? Varia a mímica no decorrer do exame ou permanece fixa?
Olhos. Estão abertos ou fechados? Se fechados, resiste ao levantamento das
pálpebras? Revira os olhos para cima? Apresenta batimentos de pálpebras? Comosão os
movimentos dos olhos - ausentes, ou obtidos quando solicitados? Atentos, seguindo o
movimento do médico e dos objetos, ou um olhar furtivo, fixo, "perdido no infinito"? Olha de
frente, de soslaio ou entre as pálpebras semifechadas? Pisca quando um objeto se aproxima
rapidamente diante dos olhos? Há lágrimas?
Boca. Apresenta algum movimento anormal? Dá a sensação de estar falando de
maneira inaudível (mussitação)? Faz algum movimento como se quisesse falar?
Reações às solicitações. Abrir a boca, mostrar a língua (quanto tempo a deixa fora se
não lhe for dada nenhuma nova ordem para mantê-la fora da boca ou colocá-la para dentro),
segurar, apertar a mão do examinador. Imita os gestos do examinador (ecomimia, exopraxia)?
Reações musculares. Os músculos do paciente ficam relaxados ou tensos, quando
move o corpo ou membros?
Que tipo de resistência ele apresenta ao tentar estender o braço: resistência elástica
ou em "roda denteada”? Ao movimentar a cabeça e o pescoço para a frente, para os lados, é
preciso observar se há rigidez na nuca e se apresenta flexibilidade cérea - fenômeno,
atualmente raro, que pode ocorrer em pacientes com esquizofrenia catatônica. Nesse caso, o
paciente adapta-se, como uma estátua de cera, às posições nas quais é colocado, por mais
desconfortáveis que sejam. Por exemplo, ao ser colocado com o braço esticado para o alto, ou
com uma perna levantada, ele permanece nessa posição por longo tempo.
Reações afetivas. O paciente reage quando se fala de seus familiares (ou quando
algum deles é posto na sua presença)? Deve-se observar se, nesse momento, há alguma
resposta neurovegetativa, como tremor, alteração no pulso, palidez ou rubor, suor, lágrimas.
Piadas e brincadeiras provocam alguma resposta? Quais são os efeitos de estímulos
inesperados (bater palmas, flashes luminosos)?
Escrita. Oferecendo-lhe lápis e papel, aceita o convite para escrever? Pacientes que
não falam algumas vezes são capazes de comunicar-se por escrito.
Fala. É importante observar qualquer esforço aparente de falar, movimentos dos
lábios, murmúrios, movimentos da cabeça. Devem-se anotar as expressões exatas e as reações
emocionais que as acompanham, pois podem ser indícios de atividade alucinatória.
Entrevista com paciente delirante
O médico pode ser surpreendido por uma afirmativa do paciente aparentemente
sem lógica e absurda. No entanto, deve-se dar continuidade à entrevista, procurando obter
outros dados relativos à vida mental do paciente antes de entrar no mérito daquela afirmação.
Acontece que, uma vez abordado o tema delirante, o paciente não consegue sair dele.
Se uma paciente, por exemplo, afirma ter 800 anos e já foi casada com D. Pedro I,
Imperador Napoleão e Getúlio Vargas, não cabe ao médico contestá-la com argumentações
lógicas.
Isso só a irritaria, e ela, tomada de sua convicção delirante, refutaria qualquer
contestação de suas ideias.
É, no entanto, inadmissível que o médico finja acreditar no relato delirante. Na
verdade, ele deve demonstrar ao paciente que respeita a sua crença, compreende que ele
realmente a tenha como verdadeira, mas que não compartilha dela.
Nem sempre, contudo, o médico terá diante de si declarações tão descabidas quanto
a que acabamos de exemplificar. Há situações em que ele pode ter dificuldades em distinguir
uma afirmativa delirante de uma situação real. Por exemplo no caso em que o paciente relata
que está sendo perseguido por vizinhos ou colegas de trabalho invejosos, ou está sendo traído
pela esposa. Nenhuma dessas situações é absurda e talvez esteja realmente acontecendo. De
fato, pode-se dizer que está ocorrendo, pelo menos no mundo interno do paciente.
Além disso, há situações delirantes construídas a partir de situações reais. Exemplo: a
partir de uma briga com o vizinho, o paciente passa a sentir-se perseguido por ele. Isso pode
surgir concomitantemente com uma situação real, por exemplo: um paciente alcoólico faz um
delírio de ciúmes em relação à esposa, a qual realmente o trai.
A questão, portanto, não é se o fato está acontecendo ou não. O que o médico deve
procurar obter são dados de como e em que contexto aquela crença surgiu.
A crença delirante é cercada de uma certeza absoluta, que prescinde de explicações
para justificá-la.
Assim, ao ser indagado sobre como chegou à conclusão de que era traído por sua
esposa, o paciente respondeu que percebera isso quando, entrando em seu quarto de dormir,
viu que seus chinelos estavam colocados um sobre o outro. A partir daquele momento, tudo
ficou claro - a mulher realmente o traía. Não se preocupou em explicar ao médico por que
tudo teria ficado claro!
O paciente pode temer o médico por incluí-lo na sua trama delirante. Assim, o
profissional, provavelmente, não obterá nenhuma confidência antes de conquistar sua
confiança.
Raramente obtém confidências o médico arrogante, cuja atitude pedante provoca
imediata reação de antipatia. Da mesma maneira, o uso de ironia (perguntas irônicas,
brincadeiras) costuma desagradar ao paciente e, não poucas vezes, provoca reações agressivas
(o paciente delirante pode facilmente interpretar uma brincadeira como referente a ele).
Na obtenção da necessária confiança do paciente, outra questão importante é o
tempo da entrevista - tem de haver tempo suficiente para que tal confiança ocorra. Qual será
o período suficiente em cada caso só a experiência poderá dizer.
Mas uma coisa é certa: é pouco provável que o paciente (a não ser tomado de
intensa emoção) revele suas ideias delirantes em entrevistas de 15 a 20 min .
Exploração das ideias delirantes. Para qualificar uma ideia como delirante, é preciso
ter em conta as circunstâncias individuais do caso, pois a ideia mais desbaratada pode ser
verossímil e corresponder à realidade dos fatos.
Quando um banqueiro diz que tem bilhões de reais, aceita-se o fato de maneira
completamente diferente se o mesmo fosse dito por um paciente internado em um hospital
psiquiátrico. No entanto, não é de todo impossível que um herdeiro de uma grande fortuna
seja, por sua doença mental, abandonado em um hospital.
Quando o paciente é tomado de ideias de grandeza, elas podem ser secundárias ao
seu estado prévio de grande euforia.
O examinador poderá pesquisá-las mediante perguntas do tipo: que projetos tem no
momento? Pensa continuar em sua profissão ou tem melhores planos? Sua capacidade de
trabalho tem aumentado ultimamente? Suas riquezas foram herdadas ou você as ganhou? Se
tem tanto dinheiro, por que está aqui no hospital?
As ideias delirantes de ruína, de culpa, autoacusatórias, niilistas são geralmente
secundárias a um quadro depressivo grave (melancolia). Normalmente, o paciente depressivo
não faz resistência para falar de suas ideias delirantes, sobretudo quando abordado, por
exemplo, se ele se sente culpado de alguma coisa, se tem medo de ficar sem dinheiro etc.
Maiores dificuldades oferece a exploração das ideias delirantes persecutórias, dada a
resistência do paciente em relatá-las. Uma atitude de desconfiança e a reticência no falar
reforçam a possibilidade de atividade delirante.
A exploração da ideia delirante deve ser dirigida para averiguar quando ela começou,
se há uma causa ou motivo determinando-a.
As ideias persecutórias podem ser derivadas de outras alterações psicopatológicas e
ocorrem em diversos distúrbios psiquiátricos (esquizofrenia, transtornos orgânicos, depressão,
distúrbios da personalidade). A distinção se a ideia delirante é primária ou secundária é, como
já foi enfatizado, de grande importância diagnóstica.
Às vezes, um dado secundário, aparentemente insignificante, por exemplo, uma
referência a um pedido de demissão, pode servir de pista para ideias delirantes. Explorando,
no caso, o que fez o paciente sair do trabalho, aparecerá uma trama delirante - todos os
colegas de trabalho estavam contra ele, gravavam suas ligaçõestelefônicas, fotografavam seus
papéis etc.
A pesquisa de ideias delirantes persecutórias deve ser feita sempre com cuidado e
habilidade. Em momento oportuno, podem ser úteis perguntas tipo: tem inimigos? Tem
motivos para desconfiar de alguém? Eles o insultam, o ameaçam? Por que motivos o
perseguem? Trata-se de um complô contra você? Como se comporta sua família em relação a
você? Quando começou a perseguição e por que motivos? Como pensa defender-se de seus
inimigos?
Objetivo 02: Princípios da atenção e saúde do cuidador
A tarefa de cuidar de alguém geralmente se soma às outras atividades do dia-a-dia. O
cuidador fica sobrecarregado, pois muitas vezes assume sozinho a responsabilidade pelos
cuidados, soma-se a isso, ainda, o peso emocional da doença que incapacita e traz sofrimento
a uma pessoa querida. Diante dessa situação é comum o cuidador passar por cansaço físico,
depressão, abandono do trabalho, alterações na vida conjugal e familiar. A tensão e o cansaço
sentidos pelo cuidador são prejudiciais não só a ele, mas também à família e à própria pessoa
cuidada.
Algumas dicas podem ajudar a preservar a saúde e aliviar a tarefa do cuidador:
• O cuidador deve contar com a ajuda de outras pessoas, como a ajuda da família,
amigos ou vizinhos, definir dias e horários para cada um assumir parte dos cuidados. Essa
parceria permite ao cuidador ter um tempo livre para se cuidar, se distrair e recuperar as
energias gastas no ato de cuidar do outro; peça ajuda sempre que algo não estiver bem.
• É fundamental que o cuidador reserve alguns momentos do seu dia para se cuidar,
descansar, relaxar e praticar alguma atividade física e de lazer, tais como: caminhar, fazer
ginástica, crochê, tricô, pinturas, desenhos, dançar, etc.
O cuidador pode se exercitar e se distrair de diversas maneiras, como por exemplo:
1. Enquanto assiste TV: movimente os dedos das mãos e dos pés, faça
massagem nos pés com ajuda das mãos, rolinhos de madeira, bolinhas de borracha ou
com os próprios pés.
2. Sempre que possível, aprenda uma atividade nova ou aprenda mais sobre
algum assunto que lhe interessa.
3. Leia, participe de atividades de lazer em seu bairro, faça novos amigos e
peça ajuda quando precisar.
Dicas de exercícios para o cuidador
Exercícios para a coluna cervical (pescoço):
• Flexione a cabeça até encostar o queixo no peito, depois estenda a cabeça para trás
como se estivesse olhando o céu.
• Gire a cabeça primeiro para um lado e depois para o outro.
• Incline a cabeça lateralmente, para um lado e para outro, como se fosse tocar a
orelha no ombro.
Exercícios para os ombros: enchendo os pulmões de ar, levante os ombros para
próximo das orelhas, solte o ar deixando os ombros caírem rapidamente, depois fazendo
movimentos circulares, gire os ombros para frente e para trás.
Exercícios para os braços: gire os braços esticados para frente e para trás, fazendo
círculos.
Exercícios para o tronco: em pé, apóie uma das mãos no encosto de uma cadeira ou
na própria cintura, levante o outro braço passando por cima da cabeça, incline lateralmente o
corpo. Repita o mesmo movimento com o outro lado.
Exercícios para as pernas: deitado de barriga para cima, apóie os pés na cama com
os joelhos dobrados. Mantendo uma das pernas nessa posição, segure com as mãos a outra
perna e traga o joelho para próximo do peito. Fique nesta posição por alguns segundos e volte
para a posição inicial. Faça o mesmo exercício com a outra perna.
Dica: faça atividades físicas, como caminhadas e alongamentos, pois isso ajuda a
reduzir o cansaço, tensão e esgotamento físico e mental, além de melhorar a circulação.
Objetivo 03: Aspectos emocionais e neuroquímicos do estresse
Reação natural do organismo que ocorre quando vivenciamos situações de perigo ou
ameaça. Esse mecanismo nos coloca em estado de alerta ou alarme, provocando alterações
físicas e emocionais. A reação ao estresse é uma atitude biológica necessária para a adaptação
às situações novas.
Tipos de estresse:
Agudo: é mais intenso e curto, sendo causado normalmente por situações
traumáticas, mas passageiras, como a depressão na morte de um parente.
Crônico: afeta a maioria das pessoas, sendo constante no dia a dia, mas de uma
forma mais suave.
A evolução do estresse se dá em três fases:
Fase de Alerta: ocorre quando o indivíduo entra em contato com o agente estressor.
Sintomas da fase de alerta:
Mãos e/ou pés frios; boca seca; dor no estômago; suor; tensão e dor muscular, por
exemplo, na região dos ombros; aperto na mandíbula/ranger os dentes ou roer unhas/ponta
da caneta; diarréia passageira; insônia; batimentos cardíacos acelerados; respiração ofegante;
aumento súbito e passageiro da pressão sanguínea; agitação.
Fase de Resistência: o corpo tenta voltar ao seu equilíbrio. O organismo pode se
adaptar ao problema ou eliminá-lo.
Sintomas da fase de resistência:
Problemas com a memória; mal-estar generalizado; formigamento nas extremidades
(mãos e/ou pés); sensação de desgaste físico constante; mudança no apetite; aparecimento de
problemas de pele; hipertensão arterial; cansaço constante; gastrite prolongada; tontura;
sensibilidade emotiva excessiva; obsessão com o agente estressor; irritabilidade excessiva;
desejo sexual diminuído.
Fase de Exaustão: nessa fase podem surgem diversos comprometimentos físicos em
forma de doença.
Sintomas da fase de exaustão:
Diarreias frequentes; dificuldades sexuais; formigamento nas extremidades; insônia;
tiques nervosos; hipertensão arterial confirmada; problemas de pele prolongados; mudança
extrema de apetite; batimentos cardíacos acelerados; tontura freqüente; úlcera;
impossibilidade de trabalhar; pesadelos; apatia; cansaço excessivo; irritabilidade; angústia;
hipersensibilidade emotiva; perda do senso de humor.
Aspecto neuroquímico do estresse
A resposta fisiológica aos estressores é mediada pelo sistema nervoso autônomo
(SNA) e pela ativação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA), bem como a consequente
produção de glicocorticoides e catecolaminas. O cérebro é um alvo do estresse, já que sofre
mudanças químicas e estruturais em resposta a estressores agudos e crônicos. O hipotálamo,
região do encéfalo que desempenha um importante papel na integração entre os sistemas
nervoso, endócrino e imunológico, controla a liberação do hormônio adrenocorticotrófico
(ACTH) pela hipófise através do fator liberador de corticotropina (CRF).
Existem três fases principais de uma resposta geral ao estresse, as quais são
colocadas em ação quando o estressor é detectado. A primeira fase envolve a produção de
moléculas catecolaminas adrenalina e noradrenalina. Esses são exemplos de hormônios
monoaminas, que são derivados do aminoácido tirosina. A conversão de tirosina em di-
hidroxifenilalanina (DOPA) acontece nas células cromafinas, encontradas na medula adrenal.
Noradrenalina e adrenalina são liberadas da medula adrenal quase imediatamente
na corrente sanguínea via sistema nervoso autônomo e afetam diversas respostas no corpo.
Por exemplo, a liberação de adrenalina e noradrenalina causa aumento na frequência de
batimentos cardíacos, vasoconstrição, dilatação das pupilas (midríase) e abertura das
passagens respiratórias. Em adição, a secreção de insulina é inibida e a glicogenólise é
estimulada nos músculos e fígado, levando a uma maior concentração de glicose na corrente
sanguínea.
Secundariamente, após 20 minutos, o fator liberador de corticotrofina (CRF) é
liberado do núcleo paraventricular (PVN) do hipotálamo no sistema portal e na eminência
mediana do hipotálamo. Este, por sua vez, estimula a liberação do hormônio
adrenocorticotrófico (ACTH) da pituitária anterior diretamente na corrente sanguínea. O ACTH
viaja pela circulação até as glândulas adrenais, culminando com a liberação de glicocorticoides
como o cortisol do córtex da adrenal.No que se refere ao estresse pré-natal em humanos, o
cortisol é o mais importante glicocorticoide. A elevação dos níveis de cortisol no sangue resulta
na inibição da liberação de ACTH e CRF em um mecanismo de retroalimentação negativa.
No terceiro estágio, glicocorticoides produzem respostas similares àquelas das
catecolaminas, incluindo aumento da gliconeogênese e lipólise, levando a maiores volumes de
glicerol e ácidos graxos na corrente sanguínea. Glicocorticoides também estimulam a
mobilização e desaminação de proteínas do músculo esquelético.
A estimulação provocada por estressores tanto físicos, como mentais, atua no eixo
HHA, fazendo com que a secreção de cortisol se eleve 20 vezes do seu nível basal. O ritmo
circadiano do cortisol, em condições normais, apresenta taxas altas no início da manhã e vai
diminuindo a noite, mais expressivamente horas depois do adormecer. Esses reguladores
químicos promovem uma reação de adaptação em busca da homeostase. Se esta busca
persistir por um longo período de tempo, o estresse passa a ser prejudicial, caracterizando o
estresse crônico e podendo comprometer o bom funcionamento orgânico.
Os efeitos do estresse no emocional
Além de afetar a nossa saúde física, todos esses sintomas comprometem também o
nosso emocional.
As dores de cabeça consequentemente provocam irritabilidade e ansiedade, pois
demoram a passar e surgem em momentos inconvenientes, como durante um dia atarefado
no trabalho.
As dores musculares nos deixam inquietos, à procura de maneiras de aliviar o
desconforto, mas, mesmo com alongamos e exercícios leves, não conseguimos encontrar o
desejado bem-estar.
A dor no peito assusta, preocupa e afeta a nossa motivação e habilidade de
concentração nas tarefas diárias. As dores do estômago, devido a sua frequência, podem
causar angústia, tristeza e até depressão porque passamos a evitar diversas situações sociais
para fugir do mal-estar.
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