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Características do período pré-científico A para a ciência quando se busca a verdade a respeito de acontecimentos que desejamos explicar. Distinguir a informação daquilo que ela pode explicar foi tarefa que os estudiosos da Contabilidade a realizar com maior seriedade a partir do século em que a curiosidade cientifica parecia acelerar-se. A falta de provas não nos permite afirmar que tenha Sido antes do século XVI a ocorrência do interesse por uma ciência da riqueza das células sociais, mas é inequívoco reconhecer esse esforço a partir das obras editadas na Itália, por aficionados da cultura administrativa, matemática jurídica. Entendo que as bases de nossa ciência (e de muitas outras) foram lançadas por intuições que os gregos tiveram, mas as teorizações especificas só emergiriam dos primeiros conceitos, também específicos, que aceito como "pré-científicos". Nessa mesma época desenvolveu-se o Contismo, ou seja, a posição dos estudos centrada no instrumento contábil, que é a conta, como se fosse o objeto principal de observação de nossa disciplina. Muito forte foi sempre a importância da escrita e nela as contas sempre tiveram destaque primordial, sendo natural que a evolução continuasse a processar-se por meio da observação das mesmas em sua relevância. Todas as fases contribuíram para que se construísse um edifício enorme de saber, competente para prestar rara utilidade ao destino das células sociais. Angelo Pietra, precursor das teorias e do ensaio sobre o contismo No campo da Contabilidade, acredito que o pré-científico só ocorre, ostensivamente a partir da Obra de Angelo Pietra, cuja primeira edição é de 1586. Admito, também, que, de forma empírica, como ocorreu em muitos outros ramos do saber, a explicação e a interpretação dos fenômenos da riqueza das aziendas tenham sido objeto de preocupações e análises, mas faltou método que autorizasse a criação de um corpo de doutrina, ou seja, faltou teorização que chegasse até nossos dias como prova de tais esforços. O conceber a conta como o principal objeto de estudos de nossa disciplina é que originou a corrente de pensamentos a que se deu a denominação de Contismo e Pietra, sem dúvida, é seu precursor, de forma pré-científica. A Obra é a primeira a analisar, fora das óticas do direito, os conceitos genuinamente sob o aspecto contábil, de débito e crédito, valor, quantidade, preço, custo, apresentando um pequeno dicionário, um esboço de Plano de Contas, de classificação de fatos contábeis, além de um princípio de teorização das contas, matrizes de elementos patrimoniais, avaliação de bens( inclusive com conceitos atinentes ao preço de mercado), exercício social, cronograma de atos administrativos e do profissional, entre outros assuntos. Acena Pietra para a necessidade de se analisar cada entrada de recurso e compara-la, em cada ano, para observar como se comporta a riqueza; o mesmo diz com relação a cada despesa, advertindo sobre a necessidade de procurar conhecer acertos e erros pelo estudo das relações dos fatos registrados; sua obra aceba, pois, para o interesse dos fatos patrimoniais, e não só para o registro mudo e singelamente informativo. Escreve ele, no capitulo 46, de seu livro sobre a forma de analisar uma demonstração contábil e onde se devem centralizar as atenções do contador. Estabelece a coincidência de competência entre o regime financeiro e o de resultados, lecionando sobre o exercício do mosteiro e dando provas de que defendia seus pontos de vista com convicção e intuição cientificas (capitulo 15 de sua obra). Se comparamos Pietra com seus antecessores, especialmente com franciscano Paciolo, poderemos estabelecer, sem dificuldades, as fronteiras de uma nova época, que não se preocupa apenas em difundir processos de registros, mas principalmente, em associar a utilidade do conhecimento contábil com as finalidades das células sociais. Embora nem todos reconheçam, entendo que Pietra foi o primeiro a preocupar-se com um racional grupamento de “movimentos patrimoniais”, buscando sumariar em 15 partidas e grupar em três grandes classes os fatos ocorridos (Capitulo 27 de sua obra), enunciando, a seu modo de ver, as relações essenciais do fenômeno. Essas percepções, disciplinando de forma rigorosamente logica uma análise dos acontecimentos, bastariam para caracterizar o trabalho desse monge como o marco inicial de um período pré-científico. Não podemos analisar a linguagem do século XVI, dedicada a ciência com a mesma lente que observamos a de nossos dias, razão pela qual é preciso penetrar no pensamento de Pietra e entender que para ele o registro de fatos era a própria vida da riqueza do mosteiro, que estava em jogo; isto se percebe nos conselhos que dita, como os do capitulo 26 de sua obra, onde explica debito e credito por meio de um sabor meramente patrimonial, em vez de ser aquele jurídico, comum a fases anteriores da contabilidade. Ao classificar os fatos em três grandes grupos; dos Embolsos de dinheiro, das Compras e vendas ou operações e das gessões como saída de capital que se coloca na mão de terceiros, Pietra faz trabalho cientifico e implanta a primeira racional metodologia de exame dos fenômenos da riqueza (capitulo 26 e 27). Pietra dedicou sua obra a contabilidade dos Mosteiros, mas é preciso considerar que tais entidades não eram apenas religiosas, mas centros de ativa participação comunitária de produção, distribuição e consumo das riquezas, sendo um precioso campo experimental de observações de fenômenos patrimoniais da maior qualidade. Moschetti e a contabilidade industrial Pouco tempo depois da obra de pietra, surge a de Giovanni Antonio Moschetti, em 1601, em uma atmosfera de renovações, como afirma Mousnier, impressas pelo “Barroco” e de uma aceleração da mentalidade cientifica, na busca de definições, ocorrida nos diversos ramos do conhecimento, promovida pelos eruditos da época, como afirma Smith, sendo que isto também ocorreu nos domínios da contabilidade; tais buscas, na opinião de Moles, sempre se confundiram com o próprio desenvolvimento das ciências. Pelo que conhecemos sobre o assunto, entendemos ter sido Moschetti o primeiro a dedicar-se a contabilidade industrial, ou seja, a uma aplicação que até aquela data não tinha merecido o cuidado de nossos escritores, de forma especifica. Ludovico Flori e os expressivos avanços pré-científicos Na Itália, todavia, entre os valores mais expressivos do século XVII, destacou-se Ludovico Flori, um competente contador jesuíta. Erudito, flori cita os grandes de sua época, a partir de paciolo, ou sejam Tagliente, Manzonim, Casanova, Pietra, Grisogono e Moschetti, e, com relevância Simon Stevin, luminar que na Holanda se destacou como consultor do príncipe Mauricio de Nassau. A forma como esse notável jesuíta trata das avaliações e deveras magnifica. Entendendo, salvo melhor juízo, que seja ele o percussor das bases de um “Principio contábil da Prudência”. Enunciado de forma singela naquela sua obra de 1636, como maneira de acautelar-se, pela previsão, sobre o que se deveria despender. Também a Flori se atribui a introdução, em livros, da partida de múltiplos débitos, e créditos, ou seja, de “Diversas contas”, rompendo a tradição anterior que se limitava a registros simples de um só debito e de um só credito. A maneira como tratou, também, os rateios ou distribuições de valores e as variações patrimoniais não é apenas de que dita normas de registros, mas sim de quem racionou sobre fenômenos patrimoniais complexos, em bases nitidamente patrimonialistas. Pietra e Flori, ambos monges, em nosso entender, foram as mais expressivas bases do período inicial pré-científico, portadores de vastas cultura, mas dedicados a contabilidade. Bastiano Venturi, a azienda e as teorias gerenciais Em matéria de controle contábil, Venturi dita normas de extremo rigor para que se possam detectar os desperdícios e a fraude, inclusive incluindo na escrita contábil uma conta caixa com identificação do nome do tesoureiro (caixa encargo de...) e preconizando os Diario-razao(que muito mais tardeseria desenvolvido pelos escritores franceses). Esse autor faz uma excelente ligação entre a contabilidade e a administração, transformando seu livro em um autêntico guia de gerencia da riqueza. Conseguiu transpor os limites do estudo contábil para ata-lo ao campo da gestão podendo ser considerado como um dos mais avançados percussores da contabilidade gerencial ou diretiva, em seus primeiros passos, obviamente. De La Porte e o progresso teórico do contismo Fora da Itália, todavia quem merece, realmente, destaque, como participante do período pré-científico, contista, é Matthieu La Porte, tambem denominado por alguns autores De La Porte, em razão do seu trabalho teórico de classificação de fatos patrimoniais, em contas, iniciando brilhantemente o século XVIII. A França, no reinado de Luís XIV, com Colbert, deram passos gigantescos para uma valorização expressivas das informações contábeis e o livro de Claude Irson havia ampliado o terreno para estudos de maior significação. De La Porte classifica as contas em: Contas do proprietário (capital, lucros e perdas, redituais), contas das coisas ou dos efeitos in natureza (caixa, mercadorias, cambiais) e contas das pessoas ou dos correspondentes (debito e credito pessoais diversos). A obra desse eminente autor parece ter aberto o caminho para uma supremacia da França, no século XVIII e em parte do início do XIX, sendo responsável pela aceleração da mentalidade cientifica em contabilidade e inspiradora de outros valorosos contabilistas. A vocação para as ditas "contas gerais", que se prenunciara com a classificação de La Porte, surge forte na Obra de Samuel Ricard (1709) e de seu filho (Jean Pierre, em 1724). A Obra de 1724, que é a mesma de 1709, porém, corrigida e aumentada, egressa sob o título Lart de bien tenir les livres de comptes en partie double... , espelha já, de forma clara definida, as contas gerais, que, segundo os Ricard, eram: Capital, Caixa, Bancos; Ágios e Deságios dos Bancos, Despesas, Comissões, Lucros e Perdas e Balanço. A seriedade com que a Contabilidade vinha sendo tratada na Europa justificava esse movimento de cuidados e de ambição de racionalidade tão bem encarnado pelos Contistas franceses, nessa magnifica sequência positivista de De La Porte, Savary, Ricard, Barréme e Giradeau. Degranges, autor famoso da teoria das contas gerais e de um contismo ainda mais difundido As Obras egressas de Barréme e Giradeau (1745) completam as bases da teoria das contas gerais de De La Porte, mas o ápice da difusão estaria por ocorrer com os Degranges. Entendeu Masi que as bases verdadeiras do Contismo, que bem o caracterizaram, modernamente ocorreram nessa época. Edmond Degranges, pai, era de Bordeaux, e sua obra, que tanta influência traria, tem sua primeira edição em 1795, sob o tftulo La tenue des livres rendue facile. Em torno dos pensamentos desse emérito autor, criou-se toda uma escola, e seu livro conseguiu muitas edições e traduções em vários países. Na essência, Degranges deu, apenas, aperfeiçoamento e difusão do que já era pensamento consolidado em Ricard, Barréme e Giradeau. Não podemos atribuir a ele a criação do pensamento das contas gerais, mas é impossível tirar-lhe o mérito de maior difusor, em condições meritórias. Aperfeiçoando os métodos existentes, é, todavia, quem se fixa nas Cinco contas gerais, que ele considera como sendo as de: Mercadorias, Caixa, Efeitos a Receber, Efeitos a Pagar e Lucros e Perdas, acrescentando, a estas, como apoio, a de Diversos. É possível observar que tais contas são as que presidem o movimento circulatório, e que Degranges se preocupou com o "objeto ou meio", ou seja, especialmente com fatos patrimoniais pertinentes ao comércio: -Mercadorias: Circulação operacional fundamental; -Caixa: Circulação financeira fundamental; -Efeitos a receber e efeitos a pagar: Circulação fundamental com terceiros; -Lucros e perdas: Circulação dos resultados. O livro de Degranges tem como preocupação fundamental os registros, mas, também, de cada um, sobre cada fato, busca classificar a natureza do fenômeno. Na mesma época, a Itália, que tão fortes contribuições trouxeram no século XVIII, oferece suas produções de qualidade e poucos autores se destacam, entre eles: Carlo Giuseppe Vergani .com duas obras, uma de 1738 e outra de 1741), Tommaso Domenico Breglia (1751), Pietro Paolo Scali (1755), Giacomo Della Gatta (1774), Raffaello Secchioni, Antonino Fererio Farghiscoc (1787) e Giuseppe Forni (1790) Scali teve o melhor destaque, mas seguiu De La Porte no que tange à Teoria das Contas. Avanços do conhecimento contábil em Portugal É também no mesmo século, em 1771, que surge no Porto, Portugal, a Obra que se conhece como a primeira e mais antiga em língua portuguesa, de autoria de João Baptista Bonavie. Igualmente, por primeira vez, nos Estados Unidos, na Polônia e na Suécia se editam livros de Contabilidade. Antes da Obra de Bonavie existe uma, em língua portuguesa, editada em Dublin, em 1764, mas de autor anônimo, conforme nos informa Outeiro. A atmosfera de reformas contábeis em Portugal deve ter favorecido a Obra de Bonavie, pois, em 1761, Pombal extinguia a Casa dos Contos e criava o Erário Régio, emitindo um conjunto de normas a que se deu o nome de Método que se deve seguir na escrituração das contas. Somou-se a isto a importância que se dava às ditas "Aulas de Comércio", cujo enquadramento se dera em 1761. No Brasil, nessa época, em 1768, estava pronto o trabalho que ficou inédito, de Francisco Antônio Rebelo, "Erário Régio", e que só muito tempo depois o Ministério da Fazenda editaria. Tal trabalho, embora sem fins didáticos e sem forma de livro, é, todavia, um documentário eloquente do que se estava fazendo no Brasil, por influência das mudanças pombalinas. O que se passava, pois, com as mudanças básicas com as aulas de comércio (1759), na Contabilidade pública (1761), com a implantação da Junta do Comércio (1775), justifica a Obra primeira de Portugal, de Bonavie (1771). A fase final do período pré-científico e seus expoentes: Crippa e Bornaccini O período pré-científico terminaria com uma intensa discussão doutrinária entre as escolas francesa e italiana, estas ansiosas por retomar a liderança cultural que por tanto tempo exercera. O ardente desejo da passagem definitiva do conhecimento contábil para o cientifico já se espelhava no título de uma obra de 1803, de Nicolo D’Anastasio: La escrittura doppia ridotta a scienza (A escrita dobrada reduzia a ciência) embora o livro ainda não fosse nitidamente cientifico, manifestava já a tendencia que corria na época. Também naquele início do século XIX já se interessavam nossos estudiosos pelo passado de nossa disciplina e surgiam as primeiras obras de História, envolvendo a contabilidade, como as de Luigi Boschetti e Giuseppe Baccarini. Entende Mais, todavia, que é a obra de Giuseppe, editada em 1818, sob o título de idee teoretiche e pratiche di ragioneria e doppia registrazione aquela que caracteriza a entrada verdadeira no campo da ciência contábil. Para comprovar sua tese o emérito chefe do pensamento patrimonialista, transcreve trechos da Obra de Bornaccini em que ele proclama que Só a ciência poderia combater o empirismo existente de Só se preocupar com as contas e não com aquilo que elas representam Na definição de Contabilidade de Bornaccini, embora se refira a disciplina como se arte fosse, na realidade, os conceitos que emite não deixam de ser científicos, pois admite que tal conhecimento é o que "permite conduzir e regular a administração através de princípios racionais, fixos e inalteráveis". Giuseppe Ludovico Crippa, aceitando a necessidade de classificar os fatos patrimoniais, o faz de forma coerente com a lógica e os grupa em "contas ao objeto" e "contas ao sujeito". É inquestionável que sua Obra editada em dois fascículos, um em 1838 e outro em 1839, sob o título La scienza dei conti..., contém matéria reflexiva e disciplinada logicamente que daria todas as condições a seu seguidor Villa para que se abrissem as portas do período cientifico. Crippaé o primeiro a classificar os fatos ocorridos com a riqueza em "simples movimento ou transmutação" como simples deslocamento ou circulação do objeto e em "verdadeiro aumento ou diminuição de coisas". Sua tarefa classificadora, pois, aprofundava-se no movimento da riqueza, buscando a essência dos acontecimentos e não, simplesmente, a forma de registro. Período cientifico e doutrinas contábeis 0 período cientifico foi aquele em que as doutrinas se agigantaram, determinadas não em buscar a delimitação de um objeto verdadeiro de estudos para a Contabilidade, mas também, especialmente de buscar conhecer a substância gerida pelo ser humano no sentido da satisfarão de suas necessidades materiais. Há, pois, uma inequívoca história das doutrinas, que se torna objeto de conhecimento especifico na formação cultural do Contador. Essa história está pontilhada de grandes valores intelectuais, de profundas reflexões, hipóteses, teorias, experimentações racionais que estruturaram o grande corpo de doutrina que a Contabilidade hoje possui. É a esta história que dedicaremos a parte que se segue deste livro, buscando não só narrar datas e acontecimentos básicos, mas também, especialmente, evidenciar o pensamento de insignes estudiosos de nosso campo. Não nos foi possível uma abrangência total, dado o número elevado de ilustres estudiosos; buscamos, dentro de nossa ótica, baseado na relação cultural pessoal que mantivemos com os maiores Líderes culturais do século, deixar esse testemunho para nossos leitores, através desta obra. Entendemos que todas as doutrinas trouxeram cooperação, cada uma de sua forma, todas com a intenção do acerto e do encontro com a verdade. Não admitimos como engano o que se desviou da rota de nossa forma de pensar, porque isto seria ter a pretensão de ser o dono da verdade, mas apenas entendemos que o Patrimonialismo foi a corrente que mais adeptos conquistou em todo o mundo, especialmente no Brasil, e aquela que nos parece encontrar maior sustentação logica.