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· 1 · Prefácio A vontade de fazer a coisa certa é o que move tudo e todos. Seja para fazer algo por alguém, seja para produzir alguma coisa relevante ou simplesmente para nos tornarmos melhores pessoas. Quando se busca algo em que se acredita, aquilo passa a ser tão importante que nada nem ninguém consegue nos demover da ideia. Correr é assim. Correr significa buscar algo que está dentro e que se reflete fora. A cada passada, a cada passo, se busca melhorar algo em si e para si. Correr reflete o que somos e o que buscamos alcançar. Ao alcançarmos, deixamos nossa marca onde é mais importante imprimir vitórias: dentro de nós mesmos! Nós, da Running Lab, nascemos também para correr. Correr atrás daquilo que acreditamos! Acreditamos que a corrida não é apenas um simples trocar de passos. Não se trata de vencer quilômetros ou de diminuir o tempo. Trata-se de atingir objetivos e deixar nossa marca. Acreditamos que correr depende de conhecer melhor cada passo dado, cada passada. Cada tempo de voo pode ser estudado, compreendido e melhorado. Cada movimento pode ser mais bem observado e, dessa forma, potencializado. Acreditamos que assim também pensam corredores, técnicos e aqueles que ainda querem se aventurar nesse mundo de alternar o apoio com a fase aérea. Por isso escrevemos este pequeno livro. Este livro é para você! Você corredor! Você que treina corredores! Você que busca atingir metas! Queremos ajudar a compreender cada gesto do correr. Queremos aprender e ensinar a cada quilômetro! E tudo o que aprendermos deve estar ao alcance de quem busca! Ao alcance de quem corre! Esperamos que este trabalho o ajude a chegar aonde almeja. A alcançar seus objetivos! A compreender cada momento dessa grande aventura que é a Corrida! Vamos correr juntos! Aproveite e divirta-se a cada passo! Equipe Running Lab · 2 · Índice [clique para acessar o capítulo] Prefácio O mito do alongamento O mito da cadência de 180 O mito das palmilhas O mito do glúteo médio O mito do tênis ideal O mito da pisada O mito dos braços O mito do impacto O mito do último gás O mito da flexibilidade O mito dos educativos O mito dos testes funcionais O mito da concentração O mito da corrida descalço O mito do teste da pisada O mito da corrida na areia O mito da esteira Posfácio Sobre os autores · 3 · O mito do fator lesivo ····································································································· O mito da musculação ···································································································· O mito da corrida perfeita ····························································································· · 4 · “Alongar antes do treino é essencial para não se machucar” Quem nunca ouviu esta frase e seguiu religiosamente essas instruções com medo de se machucar ou sentir dor? A discussão que se prolonga há alguns anos encontrou o seu ponto final na academia. O consenso que você vai ler em seguida tem sido exposto em literatura científica especializada ao longo da última década. Convém, antes de mais, entendermos o principal fator causal das lesões na corrida e o seu mecanismo. Cada vez que colocamos o pé no chão é transmitida uma força (de reação) de 2 a 4 vezes o nosso peso corporal (dependendo da velocidade). Então, se você pesa 70 kg a cada toque do pé no chão é imposta uma força de aproximadamente 200 kg. E repare, você não faz isso uma única vez. Em uma corrida de 10 km, considerando uma cadência de 180 passos por minuto e um pace médio de 6 minutos por quilómetro, você tem de lidar com esse impacto exatas 5400 vezes com a perna direita e 5400 vezes com a perna esquerda. É muita coisa!!! Este estresse sistemático nas estruturas do aparelho locomotor traduzem-se, muito frequentemente, na extrapolação do limiar fisiológico dos tecidos biológicos (músculos, tendão, ligamento, cartilagem, …) dando origem às famosas lesões de corredor: síndrome do corredor (da Banda Iliotibial), síndrome da dor femoropatelar, síndrome do estresse tibial medial, tendinopatia do tendão calcâneo, ... Este impacto é apresentado ao sistema biológico pela estrutura que primeiro contata o chão (o pé) e é, posteriormente, transmitida às demais estruturas (tornozelo, joelho, quadril, coluna). É nessa transmissão da força de reação que se encontra o mecanismo de lesão. Entenda, que temos capacidade de sobra para lidar com a magnitude do impacto da corrida, mas como diz o · 5 · ditado: água mole em pedra dura tanto bate até que fura. Em outras palavras, a capacidade para lidar com as forças impostas pela corrida irá depender da forma como lidamos com ela. Ou seja, depende da técnica / postura / atitude empregada diante dela. Irá depender também, naturalmente, da capacidade dos tecidos biológicos em suportar essa imposição. Não nos parece razoável levantar a tese de que o alongamento (que é uma estratégia aguda para aumentar o nível de flexibilidade) seja capaz de interferir nas estruturas biológicas de forma a aumentar a sua capacidade de resposta à carga. Sabemos que se o alongamento for realizado de forma mais intensa haverá, de fato, uma modificação da estrutura miotendínea. Ele é capaz de tornar o tecido mais complacente (mais frouxo, menos rígido), ou seja, de produzir uma modificação antagônica ao tão desejável efeito protetor que promete. Se quiséssemos manter a tese do alongamento como fator protetor do corpo precisaríamos imaginar que ele seria capaz de modificar a técnica (a biomecânica) do corredor. Modificá-la para ir ao encontro de um gesto que permitisse a transmissão mais adequada das forças de reação do solo (impacto). Ora, isso é ainda menos razoável de admitir. Assim, não há nenhuma tese minimamente sustentável que aponte para a minimização do risco de lesão na corrida pelo alongamento. Naturalmente, se você alonga e gosta de alongar não precisa abandonar a prática. Saiba, entretanto, que não tem validade científica utilizá-lo como medida protetora. Neste momento, caro leitor, você poderá questionar se o alongamento como estratégia para aumentar flexibilidade não seria importante para a vida do corredor. Se conseguir segurar a ansiedade, logo mais terá oportunidade de ver esse seu questionamento respondido. · 6 · · 7 · “A cadência de 180 passos deve ser almejada por todo corredor” O ano era 1984. Os Jogos Olímpicos em Los Angeles causavam empolgação. Jack Daniels, um renomado treinador de corrida resolve contar o número de passos dados, em média, por todos os corredores que chegaram às finais nas provas de fundo. Adivinhem o número que ele encontrou. Exatamente. 180. Experiente e competente, não tornou esse achado referência, mas os treinadores com menor raciocínio crítico fizeram-no posteriormente. E assim nasce, inadvertidamente, pelas mãos do inocente coach Daniels, provavelmente, o mais afamado mito da corrida. O leitor mais perspicaz poderá questionar se o valor de 180 passos encontrado não poderá guardar alguma validade. Para o desmistificar precisamos, antes de mais, voltar atrás e entender o que rege a cadência na corrida. São duas as variáveis que se ajustam à medida que aumentamos a velocidade de corrida: o comprimento do passo e a sua frequência (a cadência). Assim, a primeira evidência que desbanca este mito é apresentada: tanto o comprimento do passo quando a cadência são funções da velocidade. Em outras palavras, em velocidades menores a cadência e comprimento de passo serão menores e vice-versa, em velocidades maiores a cadência e comprimento de passo serão maiores. A próxima informação que precisa ter em mãos é que, para determinadavelocidade, a cadência e comprimento do passo vão depender fortemente das suas características antropométricas. Acompanhe-nos no seguinte, aparentemente estapafúrdio, exemplo: José do alto dos seus 152 cm desafiou Mané (que mede 202 cm) para um time trial (maior distância percorrida em 10 minutos, por exemplo). Vamos supor que empataram: ambos correram exatos 2,73 km. Você acha que a cadência do · 8 · José e do Mané foi a mesma? Certamente correram com cadências diferentes! A vantagem da estatura de Mané permite-lhe correr a mesma distância com menos passos (uma vez que seu comprimento de passo é maior), já a desvantagem de José terá de ser compensada pelo aumento da cadência. Ou seja, estruturalmente José não consegue dar passos tão largos, então terá de dar mais passos! Prezado leitor, você já entendeu então que a cadência da corrida é uma variável dependente da estatura (mais ainda do comprimento dos membros inferiores). Como poderia então haver um número referência que se acomodasse a todos os biotipos? Altamente improvável! O nosso último argumento vai ao encontro da perspectiva energética. Sabe- se que o movimento autosselecionado (aquela velocidade em que você se sente bem, em um gesto que lhe é natural) tende a ser o mais econômico, energeticamente falando. Pois bem, com a cadência esse pressuposto não é diferente. O comportamento do consumo energético (consumo de O2) pela cadência de corrida pode ser representado graficamente por um U. Existe, portanto, uma cadência (completamente individual) em que o gasto energético é o mais baixo, está otimizado. Entretanto, cadências acima ou abaixo dessa ótima oferecem um maior gasto energético. Se já vimos que a cadência é função das características antropométricas e se não existem dois corredores iguais, não tem como aceitar que 180 passos por minuto seja uma referência universal. Os 180 ficarão adequados para alguns, mas para a grande maioria dos corredores só fará com que gastem mais energia. · 9 · · 10 · “As palmilhas sob medida ajudarão a diminuir a chance de lesão” Quando iniciamos o entendimento sobre a corrida, percebemos que a atividade envolve a performance do movimento e a sua relação com as cargas geradas pelos gestos envolvidos no ato de correr. É a maneira de alcançar o melhor desempenho sem chegar ao ponto de lesão. Isso vai depender do corredor e do modo como ele treina. O uso de palmilhas apareceu como uma proposta para modificar uma variável muito importante da corrida: a forma como o pé toca o solo. O que tecnicamente chamamos de geometria de apoio do pé. A proposta deste instrumento encontra-se sustentada em dois pilares: 🏃 O controle de carga; 🏃 A melhoria do desempenho por meio da economia de corrida; Debruçando-nos sobre o primeiro ponto, prontamente admitimos que uma palmilha não poderia ser capaz de absorver energia suficiente para diminuir o impacto gerado no sistema de um corredor. Sabe-se que isso não acontece nos calçados esportivos, imagine então para uma palmilha. Sobre o segundo ponto, de fato, seria interessante o uso de qualquer meio auxiliar que fosse capaz de causar o melhor aproveitamento da energia por parte do corredor, fazendo com que o praticante obtivesse maior autonomia energética e, consequentemente, melhorasse a seu desempenho. Se possível ainda, que fosse capaz de diminuir a chance de lesão causada por um mau gerenciamento mecânico das cargas impostas pela corrida (impacto), especialmente depois de se instalar um quadro de fadiga. Acontece que, na verdade, não é bem assim que a coisa caminha! · 11 · Em uma revisão sistemática (estudo que sintetiza os resultados de outros trabalhos científicos) em que se tentou apontar os efeitos na economia de corrida em corredores usando palmilhas verificou-se que, na verdade, parecem apresentar uma tendência para aumentar o gasto energético do corredor. Foi observado, igualmente, que algumas outras órteses usadas para manter a integridade do arco longitudinal do pé traduzem-se também no aumento do consumo de energia. Parece que o uso da palmilha não se coaduna com quem quer economizar energia! Algumas ilações podem, por ora, ser admitidas : 1. Não há dados científicos reportados até o momento que apoiem a ideia de que as palmilhas gerem algum benefício ao corredor. Pelo contrário, parece conduzir a um quadro energeticamente mais dispendioso. 2. Não há dados científicos que corroborem a tese de que as palmilhas absorvam carga durante a locomoção. 3. Os achados científicos sugerem que o uso de palmilhas pode predispor a um maior risco de desenvolver a síndrome do estresse tibial medial (a tão temida canelite). Então... Palmilha, usar somente em casos muito particulares (para melhorar a distribuição da pressão plantar no caso de um corredor com pé diabético, por exemplo). Caso contrário, melhor mesmo é valer-se da sua própria capacidade de controle e gestão das cargas mecânicas impostas pela sua corrida. · 12 · · 13 · “O treinamento do glúteo médio é vital para controlar o valgo dinâmico” O deslocamento medial (na direção do meio do corpo) do joelho (o famoso valgo dinâmico) durante a fase de apoio da corrida parece ser indicador de maior risco de desenvolver duas das mais comuns lesões na corrida: a síndrome da dor femoropatelar e a síndrome da banda iliotibial. A hipótese levantada é a de que os músculos que fazem a abdução do quadril estão fracos permitindo a medialização do joelho. Tendo esta informação como verdade, é extremamente comum vermos protocolos de atividade complementar ao treinamento de corrida focando grande parte da sessão ao principal abdutor de quadril: o músculo glúteo médio. Inicialmente, iremos abordar o problema entendendo a função deste músculo durante a corrida. A atividade monofásica (uma única ativação muscular, por ciclo) deste músculo acontece entre os 5 e os 10% do ciclo da corrida, ou seja, logo após o pé contatar o chão. Então, dentre as suas principais funções estão a contribuição para o suporte do peso corporal e a estabilização da articulação do quadril. Parece então que, de fato, uma das suas principais funções é controlar desvios do joelho no plano frontal (como o valgo dinâmico). No entanto, não encontramos relação entre a força ou a atividade muscular do glúteo médio e o valgo dinâmico durante a corrida. Sabe-se que o músculo tensor da fáscia lata apresenta atividade relevante na fase de apoio da corrida (abduzindo o quadril) oferecendo, então, resistência ao valgo do joelho. De fato, parece existir uma associação entre a atividade deste músculo e o pico de valgo dinâmico. Então, o que melhor ajuda a explicar o ângulo de valgo dinâmico durante a corrida é a atividade deste músculo. · 14 · Neste momento você que nos lê poderia levantar o pertinente questionamento: mas, se ambos os músculos são abdutores do quadril, o trabalho que fazia para glúteo médio já serviria para resolver o meu problema, certo? De fato, até agora destacamos somente um erro de semântica (trocar o músculo glúteo médio pelo músculo tensor da fáscia lata), mas o problema de verdade (acreditem) vem depois de entender qual o principal responsável pelo movimento do joelho no plano frontal. Vamos lá! Se nos é dito que a atividade do músculo tensor da fáscia lata está positivamente associada ao pico de valgo de joelho isso quer dizer que quanto maior a ativação muscular, maior o valgo. De fato, parece que à medida que a medialização do joelho aumenta, aumenta também a atividade do músculo tensor da fáscia lata numa tentativa de prevenir a adução excessiva do quadril. Então, repare, a ativação dos músculos abdutores do quadril constitui uma estratégia compensatória a movimentos exacerbados do joelho no plano frontal. De fato, a magnitude deativação dos músculos abdutores do quadril para controlar o valgo dinâmico não é um fator importante durante a corrida! Se acompanhou o raciocínio até aqui, você prontamente já rebate a necessidade do treino isolado de abdutores do quadril em programa de fortalecimento complementar à corrida para controlar o temido valgo dinâmico. Reafirmando: o valgo dinâmico na corrida não pode ser explicado por fraqueza de abdutores do quadril! Mas e agora, o que fazer? Não poderíamos deixar você com um problema em mãos sem lhe apresentar uma solução. Aliás, poderíamos, mas não vamos. · 15 · Se nem a força nem a ativação muscular dos abdutores do quadril parecem de fato explicar a ocorrência do valgo dinâmico e se este comportamento está associado à maior chance de lesão, precisamos essencialmente modificar o padrão do gesto motor. Precisamos também de uma estratégia eficiente para migrar de um antigo para um novo padrão motor. E a melhor estratégia para levar a cabo essa incumbência é o retreinamento de corrida. Trata-se de uma abordagem extremamente eficaz para modificar um gesto que consiste na utilização de uma série de técnicas para solicitar um ajuste postural enquanto fornece informações em tempo real do seu movimento. O biofeedback é, portanto, um dos instrumentos do retreinamento de corrida. Um exemplo claro do retreinamento de corrida utilizando um biofeedback visual é colocar o corredor em uma esteira de frente para o espelho e solicitar- lhe que preste atenção à medialização do seu joelho, controlando-a. Trata-se, simplesmente, da estratégia mais eficiente para modificar um gesto motor, inclusive para automatizá-lo. Permita-nos fazer aqui um parênteses para terminar a discussão. Estes dados querem dizer que você deve parar de fazer exercícios de fortalecimento de glúteo médio? De modo algum! Simplesmente alertam para o fato de que se essa for a sua única estratégia de controle do valgo dinâmico, ela está inevitavelmente fadada ao fracasso! · 16 · · 17 · “O tênis ideal reduzirá o impacto e aumentará o desempenho” Qual é o melhor calçado para a corrida? Qual é o melhor tipo de tênis para aumentar a performance e evitar a ocorrência de lesões? Se pudermos dar conta dessas duas expectativas, estaremos diante do tênis ideal. Uma vez que muito se fala a respeito, as respostas são variadas e podem gerar confusão e dúvida; e quando há oportunidade para debater o assunto, mais controvérsia surge. As pesquisas científicas sobre a temática nas últimas décadas remetem, essencialmente, a essas duas preocupações fundamentais: 🏃 melhorar a performance 🏃 prevenir a ocorrência de lesões. Encontramos hoje, no mercado bilionário dos tênis de corrida, modelos para praticamente todas as necessidades, gostos e feitios: desde o tênis tradicional ao minimalista, o maximalista, o Zero Drop,... Há ainda um conhecido como Motion Control Shoes, um tênis que promete controlar ou corrigir a pisada pronada. Tentaremos agora acender uma luz a fim de aumentar a sua capacidade crítica sobre a temática para que, em última instância, você seja capaz de tomar uma decisão esclarecida sobre o assunto. Antes de entrarmos na discussão sobre o efeito dos diferentes tipos de calçado esportivo na corrida precisamos esclarecer o que, de fato, eles não fazem (por mais que você seja constantemente inundado de sugestões contrárias). A capacidade de absorção de impacto dos tênis de corrida (na verdade, a capacidade para desacelerar a força de reação) não é aquilo tudo que gostaríamos. Por mais vanguardistas que sejam, os tênis de corrida estão longe · 18 · de ser a solução para o “problema” do impacto na corrida. A magnitude do impacto que você ainda terá de lidar com o melhor tênis do mundo é consideravelmente alta e, se mal gerida, precursora de lesão. Repare na mudança de paradigma quando este fato está incrustrado no espírito do corredor. Dar-se-á a transferência da responsabilidade da gestão do impacto do tênis para o sistema que de fato tem participação fulcral nessa empreitada: o sistema muscular! Se nada mais aproveitar deste capítulo, agarre-se a este último parágrafo com unhas e dentes. O seu sumo é o que deverá levar para a sua prática! Neste momento, discutiremos os efeitos dos calçados mais afamados na comunidade da corrida. O tênis minimalista surgiu para preencher uma lacuna deixada pelos adeptos da corrida descalça quando, evidenciando os seus benefícios, não conseguiam ignorar os danos na superfície plantar (bolhas, cortes, assaduras, ...). E uma vez que se trata de um material de interface solo/pé mínimo o seu peso é, naturalmente, baixo. Surgiu, então, o pressuposto de que o tênis minimalista poderia aumentar a economia de corrida e, consequentemente, o desempenho do corredor. Outro argumento a favor deste tipo de tênis sustenta que ele seria capaz de respeitar o padrão mais natural de movimento do pé por ter menor quantidade de material, o que foi confirmado ao encontrarem- se estudos que mostravam haver diminuição do impacto ao correr com estes calcados. Mas dará para afirmar que a “corrida natural” (a corrida que permite o movimento natural do pé) diminui o risco de lesão? Essa é uma extrapolação que não podemos fazer. O que sabemos é que o padrão de movimento fazendo uso do calçado minimalista não se altera no longo prazo. Ah... E os índices de lesão não se modificam substancialmente. · 19 · Na contramão destes minimalistas, os tênis maximalistas ganham destaque. Estes manipulam outros fatores como o formato do tênis para o pé e o drop (diferença de altura entre a parte anterior e posterior do tênis) para tentar diminuir a chance de lesão. E esta estratégia tornou-se o exemplo clássico do tiro que saiu pela culatra. Este calçado, além de não diminuir a chance de lesão aumenta o impacto a que o corredor está sujeito. De fato, verificou-se que usando estes tênis os corredores deixam o membro inferior mais rígido (provavelmente achando que o calçado vai salvá-los) e acabam potencializando o seu risco. Boas notícias parecem vir dos tênis de controle de pisada, pelo menos para corredores que apresentam pronação exagerada do tornozelo. Estes veem seus índices de lesão diminuídos ao utilizarem calçados destinados ao controle de pisada. Já corredores que apresentam o tornozelo neutro ou supinado não parecem gozar dos mesmos benefícios. Conforme o explanado, podemos sumarizar o que já sabemos para que tenhamos alguns parâmetros na indicação do “tênis ideal”: 🏃 Os tênis minimalistas, por serem mais leves poderiam ser utilizados para aumentar a economia de corrida. Parecem também aumentar a cadência e permitir a diminuição da força de reação vertical. Boa proposta! Mas ainda é cedo para afirmar se podem diminuir o risco de lesão. 🏃 Os calçados maximalistas, ou aqueles com modificações do drop não se mostram capazes de modificar performance, padrão de movimento ou a chance de lesão. 🏃 Os calçados com a proposta de controlar a pisada, parecem ser apropriados para aqueles corredores que apresentam maior pronação. Então, antes de mais é necessário categorizar o corredor por meio da análise · 20 · biomecânica em relação a este padrão de movimento e acompanhar se, de fato, haverá menos episódios de lesão. Como já falámos, a orientação dada ao corredor é um outro ponto que deveria ser colocado em destaque: 🏃 Educar o corredor para as boas práticas acerca do volume de treinamento, bem como indica-lo para uma estratégia de retreinamento de corrida dirigido. 🏃 Caso o corredor opte por trocar o seu tipo de tênis, fazê-lo de maneira gradativa parece ser a forma ideal para gerar a melhor adaptação. 🏃 O parâmetro mais importante na escolha do tênis parece ser o conforto. A sensação de conforto é crucial para que ocorredor possa estabelecer uma boa relação entre performance e qualidade de movimento. Com base nestas diretrizes, fica viabilizado o meio para encontrar a solução mais adequada para cada caso. E, uma vez mais, alertamos para a necessidade de reduzir à sua real dimensão a importância deste fator no controle de sobrecarga mecânica e otimização do rendimento esportivo. Aí está a receita do tênis ideal. Boa sorte! · 21 · · 22 · “Entrar com o antepé no chão previne lesão” A busca da técnica ideal para correr pode ter vários motivos, mas se os espremermos dois despontam. A primeira razão para se buscar o movimento correto é a diminuição do risco para a ocorrência de lesões. A segunda é a melhoria do desempenho. Mais tarde falaremos sobre a técnica da corrida ideal e quais os mitos relacionados às crenças que envolvem esse assunto. No que diz respeito à técnica de movimento, muito se ouve falar sobre modificações a induzir à corrida para atender esses dois objetivos. Instruções como flexionar mais o quadril, correr mais ereto, olhar para o horizonte, elevar mais o joelho, aumentar a frequência de passos; entre outras sugestões, são muito frequentes no universo do corredor. Quando se fala sobre a técnica da pisada, a preocupação é que o pé toque o chão na posição “ideal”, para que controle adequadamente as forças de reação da corrida. Ao observar o contato inicial com o solo, o olhar mais atento vai buscar responder à seguinte pergunta: qual porção do pé está tocando o solo primeiro? Em geral, observa-se que o calcanhar é a estrutura que primeiro contata o chão. Esta estrutura do corpo está anatomicamente preparada para o primeiro impacto, uma vez que é dotada de um coxim de gordura sob a pele, permitindo uma maior área de contato e, assim, diminuindo a pressão local. É esta característica que permite a primeira (se bem que baixa) absorção mecânica da carga. Muito se tem escrito sobre o primeiro pico de impacto, que ocorre exatamente neste momento, e que parece estar relacionado com o aumento da sobrecarga no joelho e quadril e, por isso, seria precursor de lesão nestas estruturas. A esperança é que existam ajustes técnicos que permitam modificar · 23 · o mecanismo de controle de choque nesta fase da corrida, aumentando a habilidade de gestão do impacto. Uma das principais propostas para melhorar a absorção de carga é realizar o contato inicial com o antepé, ou seja, fazer com que o toque do pé no solo aconteça com a porção anterior. De fato, esta estratégia mostrou-se bastante eficaz para diminuir a magnitude desse primeiro pico de impacto gerada no contato com o solo: A alegria dura até nos lembrarmos da dedução de Lavoisier e a aplicarmos ao nosso problema. Ou seja, a energia (impacto) que outrora nos assombrava não desaparece. Ora se modifica, ora se transforma em outra forma de energia ora se redistribui. E é um corolário deste princípio que acontece quando se modifica a estratégia de contato inicial do calcanhar para o antepé. Tecnicamente, o que acontece é que no contato inicial realizado com o antepé o mecanismo de flexão plantar possibilitado pela ação dos músculos da panturrilha (tríceps sural) precisa frenar a descida do calcanhar. Nesta tarefa de controle da oscilação do peso corporal há uma intensa atividade excêntrica · 24 · por parte dessa musculatura para que logo em seguida ela seja novamente recrutada (concentricamente), na fase propulsiva do ciclo de corrida. Isso faz com que a articulação do calcanhar funcione para amortecer o impacto, diminuindo a carga para o joelho e para o quadril. Contudo, isso aumenta a demanda muscular para o tornozelo e estruturas musculares subjacentes (panturrilha), aumentando a chance de lesão de tecidos moles que rodeiam esta articulação (ligamento, tendão e músculo). E como não há má notícia que venha sozinha, verificou-se que esta maior demanda da musculatura da perna aumenta de forma expressiva o custo energético do movimento. Então, aquela estratégia que parecia funcionar para reduzir o primeiro pico de força possui mais um ônus: o aumento do gasto de energia durante a corrida. O aumento do gasto energético, quando encontra um corredor menos preparado, poderá conduzir à diminuição do rendimento e até mesmo ao surgimento de lesões musculares ou articulares do tornozelo. Portanto, é preciso ajustar as estratégias de acordo com a característica do corredor, conhecendo sempre as consequências de cada mudança proposta. Em outras palavras, cabe-nos reconhecer a relação custo/benefício de qualquer alteração sugerida para que de forma assertiva possamos dar o tiro certo. Sem avaliar bem o movimento e suas repercussões, a decisão pode ficar arbitrária e ir no sentido contrário, prejudicando o corredor e seus resultados. Avaliar bem é o segundo passo. O primeiro passo é saber como avaliar e usar a ferramenta ideal para isso. Só assim a mudança de estratégias de movimento pode ser bem escolhida. É como dizem: avalie bem! O resto vem! · 25 · · 26 · “Atente para que os braços não cruzem o centro do corpo” Esta deve ser a instrução mais recorrente em qualquer assessoria esportiva focada em corrida. Não há um treino sequer que não a ouçamos. E as justificativas da insistência na correção passam, invariavelmente, ou pelo medo de um gasto energético adicional associado ao movimento espúrio ou pelo medo de uma repercussão lesiva. E, repare, este é daqueles mitos que, à primeira vista, não parece sequer infundado. A função primária dos braços na corrida é contrabalançar o momento angular (a força rotacional) gerado pelo balanço das pernas, tendo uma contribuição baixa (menos de 1%) na aceleração do centro de massa. O que acontecerá se limitarmos a sua movimentação? Uma das primeiras evidências científicas que utilizaremos para discutir este mito avaliou o dispêndio energético associado à restrição do movimento dos braços durante a corrida. Então, o gasto energético de uma corrida sem restrições foi comparado com o gasto energético de uma corrida com as mãos presas atrás das costas (condição COSTAS), com as mãos presas junto ao peito (PEITO) e com as mãos presas na nuca (CABEÇA). · 27 · Verificou-se que há, de fato, um maior custo energético assim que restringimos a movimentação dos braços. A demanda metabólica ficou maior em 3, 9 e 13% nas condições COSTAS, PEITO e CABEÇA, respectivamente. Agora, você não corre com os braços em uma posição restrita, não é mesmo? Se algum dia, por brincadeira, resolver fazê-lo já sabe que vai correr gastando mais energia. Em um outro trabalho pretendeu-se avaliar o consumo energético da corrida realizada com os cotovelos estendidos. Verificou-se não haver diferenças entre essa condição e uma corrida realizada com os cotovelos flexionados, sugerindo tratar-se de uma alteração muito sutil para gerar modificação do padrão energético. Em um terceiro trabalho, restringiu-se a movimentação de um braço apenas. A restrição modificou algumas características cinemáticas como o aumento da cadência e movimentação do joelho no plano frontal, sugerindo maior sobrecarga nessa articulação. Então, repare, para induzir mudanças mecânicas e/ou fisiológicas a partir de uma movimentação “incorreta” dos braços você precisaria assumir uma postura muito, mas muito esdrúxula! Uma postura que, na prática, não se encontra. Dessa forma, podemos, com razoável segurança, afirmar que os movimentos assimétricos, medialmente orientados não têm expressividade no cômputo geral da sua corrida. Certamente você terá outras preocupações mais eminentes a resolver! · 28 · · 29 · “O impacto da corrida faz mal para o organismo e predispõe a lesões” Aqui está uma afirmação proferida, normalmente, por quemnão corre. Correr faz mal à saúde! Prejudica a saúde dos ossos e das articulações. Correr faz mal pois gera muito impacto! A ciência nos diz que a habilidade da corrida surgiu nos mamíferos há cerca de 2 milhões de anos e que isso possibilitou a exploração de novos habitats, além da busca eficiente por alimento. Afirma ainda que, a capacidade de correr longas distâncias em diferentes condições climáticas era excepcional pois os mamíferos precisaram vencer importantes desafios tais como a alta demanda energética imposta por esses deslocamentos e a constante necessidade de controlar a sua temperatura corporal. Desta forma, o ser humano parece ter sido projetado para correr. Esta afirmação parece se apoiar sobre a capacidade cíclica do Homem absorver e restituir energia em seu sistema locomotor, mantendo o controle do seu centro de gravidade, possibilitado pela especialização do seu sistema nervoso, o grande maestro da coordenação dos movimentos. É, a ideia de que não fomos feitos para correr, não obtém, pelo menos no campo da antropologia, substratos para se apoiar. Se olharmos para os materiais de que somos feitos, mais conclusões podem ser tiradas. Os estudos em biomecânica do tecido ósseo afirmam que o osso precisa de cargas compressivas para manter a sua integridade e sua saúde. É possível dizer ainda que os ossos longos do corpo foram projetados para receberem impacto ao longo de sua estrutura. Isto porque ao receberem cargas em outras direções não apresentam a mesma resistência quando comparada àquela observada na situação de sustentar o peso corporal (se o leitor procura estender o conhecimento sobre esta característica, deverá pesquisar sobre a propriedade anisotrópica do tecido ósseo). · 30 · Os ligamentos, estruturas que promovem a estabilidade passiva das articulações, se tornam frágeis quando não são sistematicamente solicitados, perdendo a sua organização e capacidade de resistência para as cargas de tração. Outrossim, se tornam mais fortes, aumentando a sua área de secção transversa quando são submetidos a cargas de tração sistemáticas. Nossos músculos representam nossas melhores chances de atenuar as cargas aplicadas sobre o sistema locomotor (sim, falamos do impacto). São imponentes na missão de acelerar o sistema ósseo, resultando em gestos que constroem nosso repertório de domínio sobre as mais variadas funções. Agora, repare! Todos os benefícios que oferecem se dissipam na ausência de estímulo. No nosso caso particular, a função do sistema muscular no controle do impacto gerado na corrida pode ser seriamente comprometida em caso de desuso ou destreino. E uma das vias de manutenção da integridade deste sistema pode muito bem ser a própria corrida. É certo então, que nosso sistema de locomoção (ossos, ligamentos, músculos, cartilagem) foi feito para o movimento. Sem ele, assistimos à rápida deterioração do sistema locomotor, perdendo suas propriedades biológicas e consequentemente rompendo a barreira da doença, expondo o corpo às mazelas dos mais variados matizes. Correr faz parte de um rico repertório de movimento que construímos ao longo dos lentos passos evolutivos percorridos pela espécie humana. Assim como o advento do polegar, tido como um dos mais nobres instrumentos, o ato de correr possibilitou-nos conquistas, exploração e nos forçou a criar estratégias fisiológicas para suportar os estresses impostos pela crescente demanda fisiológica que o movimento nos exige. · 31 · Correr nos coloca na rota da saúde e nos torna prontos a responder com eficiência a inúmeras solicitações ambientais. Correr, ao contrário do que foi colocado no início deste texto, representa acima de tudo saúde para os tecidos e preparo para diferentes situações. A questão reside sobre como correr e como se preparar para correr. Correr preparado é sinônimo de prudência. Prudência anatômica. Prudência fisiológica. Prudência biomecânica. · 32 · · 33 · “Chegar ao final do treino inteiro é para os fracos” Bom, este não é um mito declarado mas levante a mão quem nunca, no finalzinho do treino, tendo ainda “gás” em sua reserva resolveu apertar o pace e “dar tudo o que tinha” fugindo ao que havia sido planejado... Não parece, à primeira vista, uma estratégia tão equivocada assim. Afinal, se ainda restam forças por que não usá-las? A argumentação que sustenta tratar-se de uma estratégia falha segue dois cursos: a do princípio da adaptação e o da alteração do comportamento motor em estado de fadiga. Acompanhe o raciocínio. Os estímulos que impomos ao nosso organismo com a corrida (impacto mecânico sobre o aparelho locomotor, sobrecarga cardiopulmonar, ...) geram uma adaptação em boa parte dos sistemas do corpo humano (esquelético, muscular, cardiovascular, respiratório). Em linhas gerais, este processo de adaptação permite que evoluamos de um patamar inferior para um superior; de uma condição física inferior para uma superior. Porém, o seu mecanismo pressupõe duas inexoráveis etapas: Estímulo – Esta é a etapa de que mais falamos, a de que mais ouvimos falar, a que toca nosso sensível coração e aquela que parece ser a mais relevante de todo o processo de adaptação (mesmo não o sendo). É aqui que falamos no volume de treinamento, na planilha, nos objetivos esportivos, nas provas, no treino, nos exercícios, … Recuperação – Esta vital etapa do processo de adaptação tem como principal função permitir que o estímulo gerado na etapa anterior se converta em ganho real. É caracterizada, em essência, pela diminuição do desempenho esportivo provocado pelas perdas funcionais induzidas no estímulo. Então, antes de uma adaptação positiva ao estímulo experienciamos uma diminuição de função. · 34 · A magnitude dessa perda é função direta da intensidade do estímulo fornecido. Em outras palavras, quanto maior a intensidade do estímulo maior as perdas (momentâneas) subsequentes. A recuperação do estímulo, que depende de vários fatores modificáveis (descanso, sono, alimentação, …) depende, igualmente, do dano provocado aos tecidos biológicos na etapa do estímulo (dano muscular, articular, ósseo, ligamentar, …). A magnitude deste dano, por sua vez, depende da condição prévia destes tecidos. Ou seja, se no processo de adaptação à corrida você deliberadamente ultrapassa as etapas previamente delineadas pelo seu treinador, você pode estar induzindo uma sobrecarga tecidual incompatível com as características biomecânicas e fisiológicas do seu corpo. Esse comportamento pode acarretar uma eventual extrapolação do limite da integridade desses tecidos biológicos (você pode se machucar) e/ou num descompasso entre a expectativa de carga pelo seu treinador e a que, de fato, você cumpriu tornando o processo de monitoramento do seu treino de corrida impreciso e ineficiente. O nosso próximo argumento encontra-se fundamentado nas alterações de controle motor induzidas pela fadiga. Repare que quando falamos de fadiga não estamos a nos referir àquele momento em que o “muro” não nos deixa mais locomover como antes. Estamos falando de um processo que até pode culminar na necessidade de suspensão da atividade, mas que tem o seu início bem antes. Isso quer dizer que antes de você sentir um cansaço extremo, extenuante, limitante; você já iniciou o processo de fadiga e a sua capacidade de gerenciar as cargas mecânicas (impacto) impostas pela sua corrida está alterada. Começa por haver uma diminuição da velocidade de condução nervosa que tem como consequência a diminuição da capacidade de resposta do seu · 35 · sistema muscular. Sabendo que o seu sistema muscular é o principal mecanismo de absorção de impacto da corrida, a perda da sua capacidade pode ser traduzida no aumento do impacto a que você está sujeito. De fato, são várias as evidênciascientíficas que apontam para as consequências danosas da corrida em fadiga, mesmo em estágios iniciais do processo. Então, quando você decide correr aquele quilômetro extra, decide correr aqueles 10 minutos adicionais, saiba que provavelmente irá fazê-lo expondo o seu corpo a uma sobrecarga maior do que aquela até aquele momento. Se mesmo assim ainda não estiver convencido de seguir religiosamente o planejado por quem entende do assunto (o seu treinador), ouvimos dizer que deixar queimando uma vela do tamanho da sua estatura resolve todos os males (mentira!). · 36 · · 37 · “Ser bastante flexível é condição essencial para correr melhor” A flexibilidade é a capacidade que tecidos biológicos apresentam (tecidos moles como ligamentos, tendões e músculos, bem como estruturas rígidas, como articulações) que permite, sem gerar lesão, movimento articular (em uma ou mais articulações). Assim, quando dizemos que o corredor precisa ser flexível, queremos na verdade dizer que o corredor precisa ter alta flexibilidade, ou seja, precisa conseguir gerar movimentos articulares amplos, sem se machucar. Parte dessa afirmação é, obviamente, verdadeira. Se o corredor possuir uma flexibilidade que limite qualquer gesto funcional durante a sua corrida, naturalmente, nesse caso, a flexibilidade terá um papel modulador do desempenho. A ideia que pode ser colocada em xeque é a relação linear entre flexibilidade e desempenho. Isto é, quando eu insisto que o corredor tem de ser flexível (e quanto mais melhor) sob pena de não correr tão bem. Para conseguir chegar ao cerne da questão, existem alguns conceitos que precisaremos introduzir (muito rapidamente, prometemos). Nós utilizamos o sistema miotendíneo (sistema muscular e tendão) para gerar movimento – andar, correr, saltar. Todo mundo sabe que quando o fazemos gastamos energia, ou seja, há um custo metabólico associado ao gesto. Sabemos também que esse custo está relacionado com a manutenção do esforço da tarefa. Assim, o custo vai sendo maior à medida que nos aproximamos dos últimos quilómetros de uma maratona, por exemplo. · 38 · E como conseguiremos reduzir esse custo? Em outras palavras, como conseguiremos ser mais econômicos durante a corrida? Felizmente o corpo humano tem à sua disposição algumas ferramentas que permitem controlar esse custo. Uma delas, que é constantemente utilizada é a do acúmulo e restituição de energia elástica, possibilitada principalmente pelos tendões. O tendão do seu músculo tem a capacidade de se alongar (acumulando energia elástica) assim que colocamos o pé no chão e de se contrair (restituindo essa energia) quando iniciamos a fase propulsiva do ciclo de corrida. Agora, a competência com que o tendão acumula e restitui essa energia elástica vai depender das suas características. Características como a rigidez. Assim, a rigidez do tendão é proporcional à sua capacidade de restituição de energia elástica. Ou seja, precisamos que o tendão seja rígido para que ele cumpra a sua função de forma adequada. Adivinhe como ficam as características do tendão quando ele é sistematicamente alongado, como acontece em um treinamento especificamente voltado para melhorar flexibilidade? Exatamente, a sua rigidez diminui. Isto é, você diminui a capacidade de acumular e restituir energia elástica e, consequentemente, diminui a chance de tornar a sua corrida mais econômica. Isso quer dizer que o estímulo visando a melhoria da flexibilidade deve ser eliminado da nossa rotina? Obviamente que não, mas ele deve ser adequado à sua e só à sua condição. Ou seja, se você é um contorcionista, treine flexibilidade de acordo com a sua atividade principal. Se você é corredor, deverá treinar flexibilidade de forma específica (na corrida, de preferência) e não o deverá fazer tentando ser um contorcionista, sob pena de ver o desempenho na sua corrida diminuir! · 39 · · 40 · “Os educativos são instrumentos para aumentar o desempenho” Esta discussão parece contrariar diretamente aquele treinador que, invariavelmente, inicia os seus treinos com exercícios educativos e prega a sua necessidade absoluta como valioso recurso para melhorar o pace dos seus atletas. A grande verdade é que temos muito poucas evidências sobre a problemática, mas as que existem apontam para um efeito deletério do desempenho após um período de treinamento de exercícios educativos de corrida. Mais especificamente, as evidências apontam para um aumento do deslocamento vertical do centro de massa do corredor depois de um período de treinamento de corrida com educativos. Embora não se tenham ainda debruçado para tentar entender os mecanismos pelos quais esta parece ser uma estratégia falha, é razoável sugerir que a estrutura do gesto dos educativos e a estrutura da corrida são, em sua essência, diferentes. Passamos a explicar: a maioria dos educativos de corrida (Skipping alto e baixo, Anfersen, Kick Out, Houpserlauf, …) apresentam uma direção primária (para onde você de desloca, majoritariamente) vertical! Já quando olhamos para a corrida vemos claramente uma direção primária horizontal (nós nos movemo para a frente ao invés de para cima). As características do gesto a aprimorar e do instrumento utilizado são, em essência, diferentes. Agora, e se a alegação for de que os educativos são uma estratégia para treinar coordenação e de que a corrida, que pode ser vista como uma orquestrada ação multiarticular, pode-se beneficiar de uma melhor coordenação? Parece- nos plausível, mas ainda precisará passar por um crivo mais acirrado do que a nossa singela plausibilidade. Por ora, trata-se de uma falácia a afirmação de que os educativos de corrida têm efeito na melhoria do desempenho! · 41 · · 42 · “Os testes funcionais permitem identificar a priori a chance de lesão” Observar a postura sempre foi um ponto de partida interessante quando se busca perscrutar os mecanismos do movimento. Talvez a observação do corpo humano “parado” tenha sido a mais popular forma de avaliação através dos anos para nos conduzir à descoberta do que se esconde por trás dos sinais e sintomas contados pelo corpo. Inúmeras conclusões ainda são sustentadas baseadas nos “achados estáticos”. O estudo da posturologia ou da podoposturologia é um campo fértil e muitos trabalhos procuram estabelecer relações e correlações entre características posturais e o movimento em si. Não se trata aqui de desvincular a credibilidade dos estudos da estática uma vez que são legítimos e extremamente úteis para o entendimento de vários fenômenos, tais como as estratégias de equilíbrio e os ajustes posturais diante de inúmeras situações. Mas é preciso sempre se fazer a seguinte pergunta: Será que o que observamos na estática se transfere para a dinâmica? Uma pergunta complementar ainda é possível: Para a tarefa que estou avaliando, o que observo na estática pode ser extrapolado para a dinâmica? Uma das principais variáveis de uma avaliação estática do corredor é a qualidade do arco longitudinal do seu pé. Trata-se de uma estrutura anatômica destinada à sustentação de carga, contribuindo igualmente para a sua atenuação em situação dinâmica. No entanto, parece que a extrapolação do resultado de uma avaliação estática desta estrutura não explica o seu comportamento dinâmico. A qualidade do arco longitudinal do pé parece ter uma baixa relação com as características dinâmicas da corrida tais como a cinemática do antepé, as características de rigidez do sistema durante a · 43 · aterrissagem, a quantidade de impacto recebido ou as características de movimento do tornozelo durante o ato de correr. Olhar para o pé estaticamente é importante para avaliarmos a qualidade das estruturas, entender como a postura estáticase organiza para gerenciar o peso corporal ou até mesmo para estudar os efeitos que a postura do pé poderá causar no equilíbrio dos membros inferiores. Isso tudo é sem dúvida fundamental e pode indicar estratégias para a intervenção por meio de terapia e treinamento. Mas o comportamento postural do pé parece ser específico para a condição estática e não para situações dinâmicas. O que estamos querendo dizer é que quando o movimento está em jogo, o comportamento do arco do pé é bem diferente daquele que observamos quando o indivíduo não está correndo ou se movimentando. Assim, para descobrir como as estruturas do pé funcionam durante o movimento, a metodologia de avaliação precisa ser específica e, portanto, necessita apresentar uma natureza dinâmica. Um outro teste bastante comum utilizado para avaliar corredores é o chamado single leg squat ou hip drop test. Solicita-se que o corredor realize um agachamento unipodal ou desça um degrau em apoio unipodal. O teste é considerado positivo quando aparece uma medialização do joelho, o chamado valgo dinâmico. A ideia aqui é descobrir se o corredor tem controle muscular para evitar o valgismo dinâmico, suposto mecanismo da síndrome femoropatelar. Repare, trata-se de um teste dinâmico, mas realizado em ambiente controlado e fora do gesto “normal” de corrida. Uma vez mais se verificou que os resultados deste teste inespecífico não são corroborados pelo movimento dinâmico da corrida. Isto porque, corredores que não têm desvios mediais do joelho, podem testar positivo, levando o examinador a achar o que está procurando para confirmar suas crenças. Isto se chama viés do observador. É muito comum quando se quer confirmar algo em que se · 44 · acredita, apoiando-se em algum fundamento que não tem poder para isso (como o caso deste teste dinâmico). Mais uma vez, olhar o movimento realizado durante a corrida faz mais sentido do que avaliar o movimento por meio de uma representação desse mesmo movimento. Como sabemos, as avaliações dinâmicas podem ser realizadas com o auxílio de equipamentos próprios para essa forma de investigação: câmeras são muito bem-vindas nessa modalidade de pesquisa que, sem dúvida é a ideal para descrever e analisar o movimento do pé e tornozelo em meio a uma atividade dinâmica como a marcha e a corrida. É preciso, no entanto, dominar a técnica de avaliação biomecânica para, a partir dela, retirar as conclusões que tanto buscamos na direção de entender o fenômeno do movimento e, posteriormente, propor a intervenção mais adequada. Dominar essas técnicas, não é empreitada complexa. Ao contrário do que muitos pensam, habilitar-se a realizar uma avaliação biomecânica requer apenas orientação correta e a obtenção de algumas habilidades que, somadas à expertise já encontradas no treinador e reabilitador, proporcionarão a compreensão dos fenômenos do movimento, ajustando as práticas de intervenção ao problema para o qual desejamos gerar soluções. Para fenômenos estáticos, uma avaliação estática! Para fenômenos dinâmicos, uma avaliação dinâmica! Sejamos avaliadores educados para medir o que, de fato, precisamos entender! · 45 · · 46 · “Concentre-se na respiração; na técnica; na sua corrida; ...” Estas são algumas das instruções dadas frequentemente e que têm as melhores das intenções: tornar o corredor mais consciente do seu gesto motor pois assim, se necessário, conseguirá adequá-lo e evitar uma sobrecarga. Parece, a priori, uma instrução inocente que não tem como dar errado, certo? Errado (desculpando o trocadilho de palavras)! Antes de mais, precisamos distinguir os dois tipos de foco para onde podemos dirigir a nossa atenção: o foco atencional interno, que é quando a gente se concentra na execução da tarefa (concentra-se na respiração, na técnica, …); e o foco atencional externo (quando o foco é na consequência da tarefa – quando corremos em frente a um espelho para ter acesso ao nosso comportamento motor ou quando vemos um vídeo, online, do nosso movimento, ...). É consenso, na literatura especializada, que quando, deliberadamente, dedicamos a nossa atenção a aspectos de execução da tarefa, como respiração ou técnica, o gasto energético para realizá-la aumenta! Ou seja, quando pensamos e tentamos ajustar em tempo real a respiração ou quando tentamos modificar um movimento da nossa corrida (aumentar a cadência, diminuir movimentos laterais do joelho, por exemplo) vamos nos cansar mais cedo. E, sendo assim, aquelas inocentes instruções vestidas de boas intenções se tornam uma pedra no sapato (no tênis, neste caso). Foi visto que corredores com foco externo, quando comparados com corredores com foco interno, aumentaram o deslocamento vertical do seu centro de massa, ou seja, uma corrida mais dispendiosa energeticamente e, por isso, menos eficiente. Corredores que mantêm o seu foco na respiração, por exemplo, diminuem a sua taxa respiratória, aumentam o volume · 47 · respiratório (o tanto de ar que entra e sai dos pulmões em um ciclo respiratório) e aumentam o número de passos por ciclo respiratório. E este parece ser um padrão respiratório ineficiente que resulta em um aumento do consumo de oxigênio e, portanto, em uma menor economia de corrida. Parece, então, que quando focamos a nossa atenção em algum parâmetro objetivo da corrida promovemos uma disrupção da automação do gesto de corrida. Isso faz com que a gente tenda a migrar para um padrão de movimento longe do preferido, do autosselecionado e isso, sabidamente, é sinônimo de migrar para um quadro menos eficiente. Agora, se a ideia é modificar um determinado movimento da corrida, se é proceder a algum ajuste técnico; então questões de economia de movimento não deverão ser uma preocupação aguda. E, nesse caso, o foco interno é melhor do que o externo para levar a cabo o objetivo. Como vê, prezado leitor, a falácia não está no uso do instrumento, surge quando o prescrevemos sem conhecer previamente os seus efeitos e/ou o fazemos sem propósito definido! · 48 · · 49 · “A corrida descalço permite diminuir o impacto e a chance de lesão” Desde que Abebe Bikila ganhou a maratona nas olimpíadas de Roma em 1960 correndo descalço, a discussão sobre correr com os pés sem qualquer proteção ganhou entusiasmados adeptos dessa prática. Por outro lado, críticos ferozes também não faltaram para condená-la. Antes de levantar a bandeira de qualquer um dos lados, precisamos entender algumas das modificações impostas nesta tão peculiar condição. Ao correr sem calçado, o toque do calcanhar com o solo se torna desconfortável, o que leva o corredor a realizar ligeira flexão plantar, fazendo com que o contato se dê por meio da ponta dos dedos (ou do meio do pé). O curioso é que a pressão aplicada nos metatarsos se mostra similar à encontrada no calcanhar quando este entra em contato com o solo, na condição calçada. Considerando que a área dos metatarsos é menor do que a área do calcanhar, é possível crer que, quando descalço, o corredor realiza uma aterrissagem mais suave. Correr descalço gera ainda uma modificação da mecânica de todo o membro inferior. Há uma redistribuição da carga recebida pelo corpo, levando à diminuição da sobrecarga da articulação do joelho e do quadril. Uma outra alteração encontrada é a diminuição do momento de eversão (pronação), o que poderia auxiliar no chamado “padrão pronador”. Ainda na corrida descalço, observa-se a diminuição no comprimento do passo e consequentemente aumento da cadência, auxiliando no gerenciamento do impacto, o que parece proteger de possíveis lesões. · 50 · Parece, então, que a corrida sem calçado traz um mundaréu de vantagens que poderiam beneficiar todo e qualquer corredor. Antes de hastear essa bandeira, preste atenção a estesfatos quando se corre descalço: 🏃 Há maior solicitação da musculatura da articulação do tornozelo, que precisará agir na absorção do impacto e não apenas na propulsão. 🏃 Assim, o tornozelo precisa ser preparado para a corrida descalça, uma vez que a solicitação muscular irá aumentar para os flexores plantares. 🏃 A realização da corrida descalço não deverá ser feita de maneira abrupta sob pena de lesão. É preciso realizar uma transição gradual e cautelosa da corrida com calçado para a corrida descalço. Conclusão A corrida sem o tênis parece ajudar em alguns fatores e atrapalhar em outros. É preciso saber usar os fatos para indicar a corrida descalço e usar seus benefícios para o treinamento e controle de lesões. Pense nisso!! · 51 · · 52 · “Vou à loja identificar a minha pisada” Se o prezado leitor não veio direto para esta parte do livro e leu o mito do tênis ideal já sabe que a escolha do calçado para correr deveria obedecer ao conforto e à capacidade do calçado em respeitar o padrão de movimento do corredor. Isto significa que antes de comprar um tênis específico para um tipo de pisada, é preciso buscar um calçado que resulte em um cenário sem incômodos. No entanto, quando a preocupação sobre a pisada surge na cabeça de qualquer corredor ou treinador, uma pergunta central nasce: Como é a minha pisada? Ou... Como é a pisada do meu aluno? Isto fez com que os chamados testes de pisada se tornassem muito famosos e procurados. Foram tão procurados, que apareceram por aí vários métodos de avaliação da pisada. Há quem prometa avaliar a pisada do corredor a “olho nu”. Nessa modalidade, o avaliador posiciona-se atrás do corredor e com seu “olhar clínico” procede à fantasiosa avaliação que categorizará o desavisado avaliando como pronador, neutro ou supinador. Por mais treinado que seja o olho do avaliador é virtualmente impossível detectar excursões angulares que beiram as centenas de graus por segundo. O olho humano tem uma excelente resolução (mais de 500 megapixels) mas a frequência de aquisição de nova informação é muito baixa (pouco mais de 30 “quadros” por segundo). Então, vamos deixar para o Clark Kent detectar a “olho nu” o movimento do tornozelo na fase de apoio da corrida. Assim surgiram os testes de pisada auxiliados por aparatos tecnológicos (celulares e câmeras de alta frequência) que passaram a substituir o olho humano. Mesmo assim, os cuidados na avaliação deste gesto deverão manter- se: o instrumento de medida tem que ser ajustado para permitir a aquisição · 53 · completa do movimento sob pena de “perder” parte e classificar equivocadamente o gesto. Uma outra proposta para avaliar a pisada do corredor é observar o arco do pé com o sujeito em pé (avaliação estática) e então transferir os achados para a corrida. Outro erro comum! Não é verdade que o comportamento do movimento ou da postura são os mesmos quando estamos em velocidade ou situações diferentes. Várias outras tentativas de categorizar a pisada do corredor foram sendo introduzidas como resposta ao crescente anseio desta comunidade. Por exemplo, a utilização das plataformas de pressão para a categorização. Estas, porém, são adequadas para avaliar pressão plantar e não para avaliar o comportamento cinemático da articulação subtalar. Um parâmetro que pode ser obtido com recurso de câmeras digitais e que pode ajudar no entendimento do movimento do tornozelo é a velocidade da eversão. A eversão está relacionada à pronação da articulação subtalar e a alta velocidade deste gesto pode resultar em solicitação significativa das estruturas do tornozelo e até mesmo do joelho. Deste modo, a velocidade da eversão é um bom indicador de que pode haver pronação concomitante. Agora, é preciso saber como usar os equipamentos e o que fazer com os dados que ele fornece. Não são necessários equipamentos caros para isso. Muito pelo contrário. Ainda assim, o que fazer com o resultado é que faz a diferença. Sumário Avaliar a pisada apenas olhando não serve para saber o que de fato está ocorrendo durante a corrida. · 54 · Avaliar em uma posição estática não garante que as mesmas características estejam presentes em situações dinâmicas. Avaliar com recursos tecnológicos requer, antes de mais nada, que estes sejam capazes de captar as mudanças do movimento e, depois, que saibamos o que fazer com os dados obtidos. A velocidade de eversão do tornozelo parece ser um dado muito interessante pois pode indicar um aumento da solicitação das estruturas do tornozelo e joelho durante a fase de apoio da corrida. Com isso em mente já é possível direcionar ações! E, lembre-se: Perspicácia avaliativa pode gerar evidência preventiva ou ação corretiva! · 55 · · 56 · “Corra na areia para melhorar o desempenho no asfalto” Inúmeras vezes ouvimos falar dos benefícios da corrida na areia para potencializar o desempenho da corrida na rua. Esta é daquelas afirmações que embora careça de prova direta, poderá ser assertivamente refutada por dedução. Antes de prosseguir, um cenário: imagine você, caro leitor, que ao se preparar para uma prova realizada em pista, correrá somente na areia (daquela fofinha mesmo) pelos próximos 2 meses. Como você acha que se sairá? Melhor ou pior do que se tivesse realizado o seu treinamento no asfalto? Para entender o desfecho deste cenário precisamos nos inteirar das formas de que dispomos para melhorar o rendimento da nossa corrida. São, essencialmente, duas: 🏃 Aumentando a sua capacidade cardiopulmonar, utilizando mais oxigênio para a produção de mais energia mecânica; e 🏃 Gastando menos energia metabólica na produção de energia mecânica, ou seja, tendo um movimento mais econômico. De fato, a corrida realizada em areia permite aumentar a capacidade cardiopulmonar do corredor. E tem mais. A demanda metabólica imposta na areia parece ser maior do que a imposta no asfalto ou superfície mais rígida. Agora, não temos evidências que suportem a superioridade das adaptações do treino em areia sobre as adaptações do treino em asfalto. Então, se partirmos da premissa de que as adaptações são semelhantes, não é este quesito que utilizaremos para bater o martelo! Abordaremos agora o segundo mecanismo pelo qual conseguiremos aumentar o desempenho na corrida: aumento da economia de movimento! · 57 · Já aqui discutimos que a economia de movimento é um fenômeno viabilizado, essencialmente, pela utilização de energia elástica de elementos não- contráteis do complexo miotendíneo (especialmente pelos tendões). Isso quer dizer que o corredor conseguirá economizar energia metabólica e não se cansará tão cedo. Assim, uma estratégia de treinamento que vise a potencialização deste mecanismo deverá ser encarada como ótima. Neste momento, a nossa habilidade dedutiva deverá ser colocada em prática. O leitor deve-se lembrar que a rigidez do tendão é condição sine qua non para que a transferência de energia elástica ocorra. Isto quer dizer que quanto menos rígido estiver o tendão (quanto mais complacente ele for) menor a capacidade de acúmulo e restituição de energia elástica e, por conseguinte, menor a economia de movimento. Há uma outra informação que precisamos introduzir para continuarmos a discussão: a rigidez do tendão não é, exclusivamente, inerente ao tecido biológico. Em outras palavras, a rigidez que define a capacidade do tendão de restituir energia elástica é, também, função da sua interação com o meio. Assim, em meio complacente (como areia, grama, …) o tendão também o é; em meio rígido (asfalto, tartan, …) o tendão também se torna mais rígido. Esperemos que a nossa capacidade em explicar o fenômeno tenha sido suficientemente esclarecedora. Se tivermos tido sucesso, o atento leitor já se apercebeu que o treinode corrida realizado em areia não promoverá adaptações condizentes com um movimento mais econômico. Sendo assim, deverá ser preterido em relação ao treinamento de corrida realizado na rua (superfície rígida). Voltando à nossa hipotética situação, se todo o seu treinamento tivesse sido feito na areia, você certamente não teria um desempenho tão bom quanto se o tivesse realizado na rua. · 58 · · 59 · “Quer competir na rua, treine na rua” Certamente você já ouviu dizer que não faz sentido algum fazer o treinamento de corrida em esteira se todas as provas acontecem na rua. Que a corrida em esteira é muito diferente da corrida na rua e, por isso, essa não seria uma boa estratégia. Acompanhe as diferenças das duas estratégias nos vários níveis de discussão: Impacto Na figura podemos ver a diferença no impacto (força em % do peso corporal) durante a corrida realizada em esteira (linha cinzenta) e no solo (linha preta). Ou seja, diferenças muito, muito sutis que não corroboram a ideia de que se trata de duas tarefas com sobrecargas diferentes. Economia de corrida Quando falamos em economia de corrida, porém, parecem surgir algumas diferenças entre as duas condições. Economia de corrida é medida pela energia metabólica que você gasta durante a corrida a uma determinada velocidade. Então, quando comparadas as duas condições, a corrida realizada em esteira proporciona um gasto energético maior do que a corrida na rua. Portanto, somos mais econômicos na rua do que na esteira. Isto parece acontecer porque o amortecimento proporcionado pela esteira (por pouco que seja) é suficiente para aumentar a complacência do nosso sistema miotendíneo, ou seja, deixa-o menos rígido. Como vimos anteriormente, a condição de rigidez é vital para que a corrida seja econômica. · 60 · Apesar das duas condições apresentarem diferentes gastos energéticos existe uma relação diretamente proporcional entre a economia de corrida na esteira e na rua. Ou seja, é razoável afirmar que estratégias de treinamento que afetem a economia de corrida na esteira afetarão também a economia de corrida na rua. Assim, a corrida em esteira pode servir como uma ferramenta para treinar em condição desfavorável e, por tabela, melhorar o desempenho na rua. Pressão plantar A distribuição do impacto da corrida (força de reação do solo) na planta do pé constitui um mecanismo muito eficiente para evitar lesão (especialmente aquela que começa em pontos muito precisos como, por exemplo, na cabeça dos metatarsos – metatarsalgias que podem ocasionar fratura por estresse). Assim, uma distribuição eficiente é indicadora de proteção. Quando a distribuição da pressão plantar nas condições esteira e rua são comparadas, verificam-se diferenças relevantes. A corrida em esteira permite distribuir de forma mais eficiente o impacto na planta do pé, ou seja, a pressão plantar é menor na esteira do que na rua. As características do sistema de amortecimento da esteira fazem com que o pé contate o chão por mais tempo (15% mais demorado do que na rua). Este mecanismo de aumentar o tempo de contato serve para melhor acomodar a carga (impacto) na fase de contato inicial da corrida. Portanto, caso seja necessário reduzir a sobrecarga da planta do pé durante a corrida de algum · 61 · atleta que se venha recuperando de uma lesão, a utilização da esteira torna-se uma opção viável! Ação muscular Se a economia de corrida é diferente entre as duas condições, naturalmente a ação muscular também o será. Certo? Errado! Não são encontradas diferenças relevantes entre as duas condições nas principais (as maiores) musculaturas dos membros inferiores (quadríceps, isquiossurais, glúteo máximo). O músculo tibial anterior e sóleo apresentam maior atividade (aproximadamente 10% maior) na corrida realizada na rua do que na realizada na esteira. Em resumo, não há diferenças assinaláveis na ação muscular que justifiquem a adoção de uma outra estratégia como melhor. Demanda fisiológica Por muito tempo se utilizou a estratégia da inclinação a 1% para assemelhar a condição da esteira à rua. Revisite conosco a história. Um estudo pioneiro da década de 90 mostrou diferenças fisiológicas relevantes entre correr na esteira e correr na rua. Esses autores mostraram que correr na rua impunha uma demanda fisiológica maior do que correr na esteira. Assim, propuseram o que até hoje está estabelecido como a estratégia-rei para eliminar essa diferença, que é aumentar 1% a inclinação da esteira. Tudo bem até aqui, só que ninguém nunca se lembrou de confirmar esta hipótese, por um bom tempo. Quando o fizeram, não encontraram diferenças fisiológicas entre as duas condições. De fato, hoje temos algumas revisões sistemáticas (trabalhos que reúnem informação de todos os artigos que até o momento haviam sido escritos sobre a temática) que desmentem as supostas diferenças fisiológicas entre as duas condições. Resumo da ópera: não existem diferenças entre as duas condições, contudo, se você já estabeleceu um · 62 · apego emocional ao 1% de inclinação quando corre em esteira, mantenha a estratégia (Mal não irá fazer. Aparentemente, não irá fazer é nada). Condições climáticas De fato, as condições climáticas (o calor e frio, principalmente) têm papel determinante no desempenho da corrida. Uma corrida realizada na rua em pleno verão nordestino terá o seu desempenho seriamente afetado quando comparado com a condição de corrida em esteira realizada em uma sala com ambiente climatizado, com ar-condicionado, umidificador e tudo mais. Esta diferença cairia por terra se colocássemos a esteira no terraço da casa nesse mesmo verão nordestino. Trata-se, portanto, de uma comparação injusta uma vez que comparamos não a diferença entre corrida realizada em esteira ou na rua, mas corrida realizada em ambiente adverso (extremo calor) contra corrida realizada em ambiente controlado. Em resumo, a esteira pode ser considerada pelo corredor quando a rua não satisfaz as condições ideais de prática. Conclusão E aí? A corrida em esteira é diferente da corrida na rua? Como o leitor já pôde entender, a resposta não é simples nem tampouco dicotômica. Depende da finalidade. Importante de verdade é conhecer as diferenças e semelhanças para cada uma das finalidades, pois assim a decisão será mais assertiva e os resultados previsíveis. · 63 · · 64 · “Os desajustes biomecânicos são o principal fator lesivo na corrida” Esta é uma questão curiosa. Ou poderíamos dizer que é a questão dos curiosos envolvidos no mundo da corrida, quando o assunto é lesão. Questão que assombra desde atletas profissionais, amadores, treinadores, reabilitadores até todos os que gostam e se dedicam a esse esporte tão querido e praticado. E está aqui o primeiro ponto que merece o nosso destaque: é amplamente praticado! O fato de ser um esporte democrático e acessível torna-o o mais expressivo, quando comparado com qualquer outro. É o que tem mais praticantes e, provavelmente, pela sua natureza o esporte que tem mais atletas sem supervisão qualificada. Ou seja, basta você sair correndo! Naturalmente que este cenário repercutiu no aumento avassalador de lesões associadas à prática da corrida. A incidência de lesão entre corredores pode variar de 27% a 70%, dependendo do seu nível (amador, intermediário, profissional), mas certo é que isento de risco parecem estar somente os divinamente abençoados. Que atire a primeira pedra quem nunca precisou abandonar a prática (momentaneamente que fosse) por conta de um incômodo, dor, lesão; que essa atividade tenha causado! O já avantajado corpo de conhecimento científico acerca da etiologia da lesão do corredor aponta para certos indicadores biomecânicos. De fato, a descoberta de alguns dessesindicadores biomecânicos relacionados à lesão, ajudaram a incrustar a ideia de que a principal causa dos problemas encontrados em articulações, músculos e tendões dos corredores advém do que se chamou de desequilíbrios biomecânicos. Conforme o atento leitor pôde identificar ao longo deste texto, o comportamento de algumas variáveis biomecânicas tais como a trajetória de · 65 · movimento do joelho, ou os ângulos articulares do tornozelo no momento do contato inicial, entre outros; acabam por ser utilizados na busca de explicar a causa de determinada lesão. E isto tem sido reportado, sistematicamente, pela literatura especializada. Atualmente, não há (ou não deveria haver) treinador de corrida que não entenda da biomecânica deste gesto tão peculiar. Só assim conseguirá, de forma assertiva, sugerir os ajustes necessários à evolução do seu aluno no que concerne à minimização do risco de lesão. No outro extremo, mas não longe deste ponto, todo reabilitador, diante de um sintoma de dor ou processo inflamatório, busca, no exame do movimento, encontrar as causas dos problemas. Isto faz com que a ideia de corrigir o movimento da corrida seja o principal remédio a adotar para diminuir a alta incidência de lesão que ronda os corredores de todos os níveis de desempenho. Mas, se nós nos debruçarmos sobre os estudos e formos mais curiosos do que já somos, iremos notar que a taxa de ocorrência de lesões tem-se mantido uniforme ao longo dos anos, mesmo diante de um corpo crescente de conhecimento sobre o assunto. Não nos furtamos, então, à pergunta implacável que surge: Por que isto parece acontecer? Hoje sabemos mais sobre corrida do que sabíamos antes. Ainda assim, as lesões continuam a surgir. Os programas de retreinamento da corrida (que aqui já foram mencionados) assumiram nos últimos anos especial destaque visto a sua eficácia na alteração e automatização de um novo padrão motor condizente com um quadro de menor risco de lesão. Ele, porém, só se apresenta como opção se houver escrutínio prévio do gesto do corredor. Ou seja, será necessário conhecer o comportamento biomecânico do corredor para que os ajustes propostos no retreinamento surtam os efeitos esperados. Embora esta estratégia pareça · 66 · estar na contramão do crescente número de casos de corredores lesionados que mencionamos, ainda não é uma abordagem amplamente difundida que consiga reverter o cenário. De todos os fatores envolvidos no treinamento, nas estratégias preventivas e de reabilitação, a principal questão que parece ser preponderante para definir se haverá ou não interrupção dos treinos por conta da falência estrutural dos componentes do sistema biomecânico é o volume de corrida. O volume de treino, que expõe os tecidos biológicos a magnitudes de carga cada vez maiores, tem sido apontado como o principal fator causal das lesões típicas da corrida. Naturalmente, os fatores biomecânicos estão envolvidos nesse cenário como atores coadjuvantes, não menos importantes que o ator principal. Mas a questão é que se conseguirmos adequar o volume de treino à capacidade tecidual, estaremos no caminho certo para mudar o panorama. No tribunal em que os réus são a biomecânica e o volume, ambos possuem penas a pagar, mas certamente o volume é quem leva a maior culpa. É quem precisa ser tratado com especial atenção para não gerar reincidência no crime de afastar o corredor daquilo que ele mais deseja: simplesmente correr! · 67 · · 68 · “Complementar o treino de corrida com musculação é vital” A importância de um treino complementar à corrida tem ganhado cada vez mais espaço. Dificilmente vemos um corredor intermediário que não faça o seu treino complementar de musculação para melhorar a sua corrida. O que argumentamos, obviamente, não é a presença desta estratégia de complemento à corrida (pois, sabidamente, é fundamental), mas sim a forma de o fazer. Passamos a explicar: Não raras vezes, a estrutura desse treinamento complementar é tão distante da própria corrida em si que a transferência dos benefícios deverá ser questionada. Por exemplo, em um pace de 6 minutos por km, assim que você contata o chão, um impacto de aproximadamente duas vezes o seu peso corporal é recebido em apenas 70 milissegundos, ou seja, em 0,07 segundos. Prezado leitor, como já pôde constatar ao longo deste pequeno livro, é um impacto que conseguimos resolver relativamente bem (a magnitude da carga não é potencialmente danosa) mas a velocidade com que a tomamos pode tornar-se um problema. Um problema que gostaríamos de ver resolvido com esta atividade complementar. Agora, se o nosso treino de força (musculação) é realizado com cargas muito aquém das que experimentamos na corrida e ainda é realizado em velocidade muito mais baixa daquela que precisamos durante a corrida temos um desajuste entre o estímulo oferecido e a capacidade que desejamos melhorar. A literatura especializada aponta claramente para os efeitos positivos do treinamento de força na melhora da economia da corrida. Porém, o consenso existe em relação aos benefícios do treinamento de força máxima. Este método caracteriza-se essencialmente pela alta intensidade do estímulo, ou seja, por utilizar cargas próximas da capacidade máxima do corredor. Para · 69 · conseguir visualizar esta intensidade, imagine-se tentando agachar (uma vez somente) com o máximo de peso possível e depois estabeleça sessões bi ou trissemanais em que realiza 4 séries de agachamento com 80% dessa carga máxima. O esforço submáximo empregue nesse e em outros exercícios selecionados, em um programa de treinamento complementar à corrida, permitirá aumentar a economia da corrida de 2 a 8%. Acredita-se que o principal mecanismo pelo qual esse estímulo age é modificando as estruturas miotendíneas que garantem uma mais eficiente utilização do ciclo alongamento-encurtamento (basicamente, utilizar de forma mais eficiente o tendão para acumular e restituir energia elástica). Embora estejamos diante de uma estratégia acertada no que concerne à magnitude da carga, no que concerne à velocidade com que essa carga é aplicada essa estratégia já parece não ser a mais adequada. Passamos a explicar: lembra-se que falamos que a corrida gera um pico de impacto em 0,07 segundos? Se o nosso treinamento complementar é realizado com intensidade máxima não conseguiremos empregar velocidade na realização dos exercícios de força (com cargas muito altas teremos dificuldade em movê-las rapidamente). Imagine-se realizando um agachamento com 150kg e ter de o fazer com alta velocidade. Não vai acontecer! Então, embora o treinamento de força máxima se mostre útil em algum momento ele parece não ser o ideal. Mas então, qual seria o treinamento ideal? Naturalmente, um que faça uso tanto de uma alta intensidade quanto de uma alta velocidade. Bem-vindo ao fantástico mundo do treinamento de potência. Neste método de treinamento complementar utilizaremos cargas abaixo das usadas no treinamento de força máxima uma vez que pretendemos priorizar igualmente a velocidade. · 70 · Dentre os métodos existentes para aumentar a potência muscular um, pela similaridade que a sua estrutura apresenta com a corrida, tem-se mostrado superior: o treinamento pliométrico. Trata-se de um método que tem como principal objetivo potencializar a ação do ciclo alongamento-encurtamento. Em outras palavras, um método cujo objetivo central é potencializar a capacidade de acúmulo e restituição de energia elástica por parte do sistema miotendíneo. Ou seja, um método de treinamento que tem como propósito aumentar uma das capacidades essenciais da corrida: a economia de movimento. Apelidado, equivocadamente, como treino de saltos; o princípio do treinamento pliométrico pode ser aplicado virtualmente a qualquerexercício de força. Voltando ao exemplo do agachamento e aplicando o princípio fundamental do treinamento pliométrico, poderíamos imaginá-lo da seguinte forma: 1. Com o quadril, joelhos e tornozelos em extensão (em pé) iniciamos o movimento de tripla flexão velozmente até ao momento da transição excêntrica/concêntrica (até o corpo atingir o ponto mais baixo do agachamento); 2. Garantimos o menor tempo de transição entre as fases excêntrica e concêntrica (o movimento não para); 3. Realizamos a fase concêntrica (a tripla extensão até à posição inicial) na maior velocidade possível (iremos “explodir” para cima). Prezado leitor, repare que este princípio poderá ser aplicado a qualquer exercício de força (com mais ou menos ajustes) mas as diferenças de um treino de musculação tradicional para um realizado com este princípio poderão tornar-se abissais. De fato, quando comparado com o treinamento de força, o · 71 · treinamento pliométrico permite aumentar de forma ainda mais expressiva a economia de corrida. A pergunta que se poderá fazer agora é acerca da intensidade da carga para realizar esse treinamento. Quando o objetivo último é aumentar a potência muscular em um exercício específico (imagine um salto vertical, por exemplo) uma porcentagem de força máxima nesse exercício é empregada. Então, a porcentagem do valor máximo depende da tarefa que se quer melhorar. Agora, repare… O objetivo do corredor com o treinamento de força complementar é aumentar tanto o desempenho na corrida quanto a competência com que o seu corpo admite o impacto que recebe cada vez que coloca o pé no chão. É, portanto, razoável supor que o treinamento de potência para melhorar a corrida guarde alguma similaridade com essas forças externas impostas. A partir deste momento iremos abrir um parênteses no discurso cientificamente validado que até aqui proferimos. Isto porque nós, na Running Lab, advogamos que a carga ótima do treino de potência deverá estar relacionada com as forças que o corredor experiencia na sua corrida. Assim, os valores de impacto devem ser medidos e utilizados na prescrição do treinamento complementar do corredor. Por ora, mostraremos somente o pau. Assim que o membro da equipe científica terminar o seu mestrado (que versa exatamente sobre essa temática) traremos a cobra (fecha parênteses). Então repare, as sessões de treino complementar ao treinamento de corrida não deverão ser encaradas como um momento de descontração ou lazer. Os exercícios propostos devem ser realizados com alta intensidade, alto esforço, alto empenho; para que consiga de fato ver uma efetiva transferência dos seus efeitos para a corrida. · 72 · · 73 · “A utopia da corrida perfeita” Quantos de vocês, caros leitores, já ouviram falar que não existe corrida perfeita? O conforto proporcionado pela aceitação desta máxima pode induzir à passividade na tomada de algumas atitudes que poderiam colocá-lo na direção da continua melhoria da sua corrida. Como pode ver, a refutação ou aceitação deste mito passa por uma discussão filosófica, por além da científica. Cabe, neste momento, o nosso sincero pedido de paciência para a leitura desta parte final do presente texto, para o devaneio poético que se avizinha. Quando ouvimos falar que não existe corrida perfeita, podemos entender as seguintes proposições: Humano algum consegue alcançar a corrida biomecanicamente perfeita! ou então, Não é possível definir parâmetros objetivos da corrida perfeita! ou ainda, Não dispomos de meios técnicos / humanos para treinar o gesto perfeito! Vamos, então, por partes. O gesto perfeito seria aquele que utilizaria de forma ótima (sem perda) a reserva energética disponível no corpo para produzir movimento. E mais! Seria um gesto realizado de forma a minimizar a sobrecarga imposta sobre o sistema osteomioarticular, reduzindo a zero o risco de lesão. Especificamente, calcularíamos uma função de custo do consumo energético necessário para correr determinado tempo ou distância e a otimizaríamos. De fato, nós conseguimos modelar o custo energético requerido por uma determinada tarefa e encontrar o seu melhor valor (o valor de custo mais baixo). · 74 · Conseguimos, da mesma forma, estimar as forças internas do corredor (as que são produzidas dentro do corpo) e através de modelagem físico-matemática encontrar os movimentos que gerariam as menores sobrecargas. Então, o problema parece não estar em definir os parâmetros ótimos do gesto perfeito, nem em conhecer as alterações que o possibilitariam. Haverá, então, alguma limitação inerente ao ser humano que o impeça de atingir esse marco? Quando resolvemos um problema de otimização do gesto humano, é necessário introduzir à equação várias ressalvas (constraints). Atento que é, certamente você já deve ter percebido que existe uma condição de imperfeição inata que se abate sobre todos nós. As nossas capacidades físicas são constrangidas, em primeira instância, por um forte determinismo genético. Em outras palavras: haveria algum estímulo no mundo capaz de nos fazer alcançar os feitos de Kipchoge ou Mo Farah? Certamente, não! Isso quer dizer que estes atletas reúnem características antropométricas (físicas), biomecânicas e fisiológicas únicas, determinadas geneticamente. Então, a representação da corrida perfeita para você não é a mesma representação para o seu vizinho. Admitir este corolário é condição de partida para entendermos quais são as melhorias que estão ao nosso alcance. Assim, falamos de uma corrida perfeita para Fulano, Sicrano ou Beltrano. Ou seja, os parâmetros de “perfeição” são diferentes entre diferentes indivíduos, e não garantem vitória de um sobre o outro. Você conseguirá alcançar a menor sobrecarga possível no seu gesto, conseguirá alcançar o seu desempenho otimizado, a sua corrida perfeita. · 75 · Sabendo, então, que existe o gesto perfeito para você, a questão a resolver agora é acerca dos meios de que dispomos para atingir a perfeição! E mais! Se o processo para a alcançar não induz efeitos colaterais não-desejáveis. Temos, ao nosso dispor, as mais diversas estratégias para potencializar a aprendizagem motora de uma nova tarefa (bom, não exatamente de uma nova tarefa, mas ajustes à tarefa já apreendida - no nosso caso, referimo-nos à corrida). Quaisquer que sejam essas estratégias (e reparem, existem muitas), é imperativo que obedeçam a certas premissas: Especificidade O gesto ajustado não pode diferir, na sua essência, do gesto realizado. Isto quer dizer que se pretendemos ajustar / melhorar algum aspecto da corrida, devemos fazê-lo correndo. Em outras palavras, nenhum exercício oferecerá uma maior transferência para melhorar a corrida do que a própria corrida (ajustada). Parece elementar, mas incorremos (muitas vezes) na tentação de treinar um gesto técnico da corrida em uma postura estática - os famosos educativos são um exemplo clássico. Não desmerecendo a sua utilidade, quanto mais se afastarem da própria corrida – exercícios realizados sem progressão, exercícios realizados com progressão vertical ao invés de horizontal, exercícios realizados com baixa velocidade ao invés de alta como acontece na corrida, etc. – menor a sua transferência e, por conseguinte, menor a sua eficiência. Foco atencional Uma outra preocupação que se levanta é quanto ao foco do ajuste. Isto quer dizer que, por mais que saibamos dos 500 ajustes necessários para deixar a nossa corrida perfeita, a intervenção dever-se-á limitar a 1 (uma) por vez. Desobedecer a este princípio é deitar por terra todas as aspirações de · 76 · mudança. Nós não somos múltipla-tarefa. Isso quer dizer que qualquer sugestão de mudança (qualquer dica de ajuste, feedback dado pelo treinador, instrução proferida) que seja proposta entrará em disputano nosso foco atencional. Assim, a capacidade que temos de manter o foco em determinado ajuste é limitada e será dividida pelo número de ajustes a serem realizados. Não precisaremos alongar mais a discussão para que o perspicaz leitor entenda que o número de instruções é inversamente proporcional ao resultado esperado (isto é, à eficiência da intervenção). Feedback intrínseco Por mais que as dicas ou instruções verbais, auditivas, táteis sejam estratégias interessantíssimas para prover o ajuste necessário, quanto mais o corredor internalizar esse ajuste, mais eficiente será a intervenção. Isto quer dizer que, ao longo do processo, o corredor tem que, progressivamente, ser capaz de detectar a necessidade de ajuste. É tarefa primordial de qualquer intervenção técnica tornar o corredor um exímio ouvinte do seu próprio corpo, da sua própria corrida. Autonomia Por fim, intimamente relacionada com a premissa acima está a necessidade de que o final do processo de qualquer intervenção culmine com a autonomia do corredor. Ou seja, que ele não mais necessite das muletas proporcionadas pelas dicas, instruções ou mesmo pelo feedback intrínseco. É a automatização do gesto. É a realização do movimento, inconscientemente. Naturalmente, esta discussão está longe do fim. Não teremos espaço útil para a postergar, mas esperamos ter deixado clara a ideia de que temos instrumentos suficientemente hábeis para provocar mudanças definitivas e · 77 · alterar a forma como corremos (mesmo que as características a alterar estejam incrustadas desde há muito). Fica-nos a faltar discutir acerca dos efeitos não-esperados de aplicar algumas dessas técnicas de ajuste. O processo de aprendizagem motora (de um novo gesto, técnica ou forma de realizar um movimento) pode ser representado por uma curva de aprendizagem. O início da aprendizagem de um novo padrão técnico é caracterizado, quase que invariavelmente, por uma perda de performance. A nova estrutura de movimento, mesmo que apresente diferenças sutis em relação à anterior, traduz-se em um maior gasto energético e/ou na sobrecarga de estruturas que não haviam sido expostas anteriormente. Esta consequência tende a assustar o corredor mais experiente (pois isso pode significar ausência no pódio, por exemplo). Já o novato, pela promessa de melhoria latente, tende a aceitar com melhores olhos uma perda momentânea de desempenho. Depois de aceitar e de ficar em paz com esta inevitável verdade vem o verdadeiro problema: Entender quando o benefício vai ser superior à perda! Pois bem, se por um lado temos instrumentos que nos permitem ajustar a técnica de corrida e, por outro, sabemos que essa mudança é acompanhada por uma diminuição do desempenho, resta-nos saber se devemos proceder ao ajuste – se o benefício da mudança é maior do que as perdas a ela associada (mesmo que sejam temporárias). Bem sabemos que mais levantamos dúvidas do que demos respostas, mas você não pode dizer que não foi avisado!!! · 78 · Posfácio Caro leitor, Chegamos ao final da nossa pequena jornada! Melhor dizendo, chegamos ao início de uma nova jornada. De uma nova perspectiva sobre a corrida! A nossa expectativa é que estas poucas linhas tenham sido suficientes para conscientizar você, caro leitor, para uma corrida baseada em evidências. Que o tenham alertado para a necessidade de fundamentar a prática deste esporte que nos une. Que tenhamos contribuído (nem que tenha sido só um pouquinho) para a sua evolução! Apesar de termos levantado questionamentos relevantes acerca de vários paradigmas, que ficam naturalmente estabelecidos por uma prática massiva, optamos por deixar a discussão em um plano mais leve, palatável, agradável. Mas se você sente necessidade de um maior aprofundamento teórico acerca de algum dos mecanismos mencionados, encontrá-lo-á na bibliografia cujo link se encontra na última página deste livro. Por fim, gostaríamos de lhe fazer um pedido! Se você conseguiu espremer algum conteúdo que aqui trouxemos, se nós conseguimos de alguma forma, em algum nível, promover a transformação da sua corrida, gostaríamos de lhe pedir que encaminhasse este livro a quem você acha que também poderá se beneficiar destas informações. Na última página, encontrará igualmente o link para o nosso perfil no Instagram, onde tentamos, de maneira despretensiosa, divulgar ciência aplicada à corrida. Encontrará também um link para participar do nosso canal no Telegram onde, diariamente, iremos falar sobre corrida baseada em evidências. Resta-nos agradecer o tempo que nos dispensou e desejar-lhe uma longa vida neste admirável mundo da corrida. Equipe Running Lab · 79 · João Pedro Pinho Pesquisador (USP) Pós-Doutorado em Biomecatrônica (USP) Doutorado em Biomecânica (USP) Mestrado em Biomecânica (USP) Educação Física (UP) Idealizador da Running Lab Membro da Equipe Científica da Running Lab Pedro Miyashiro Pesquisador (USP) Mestrado em Biomecânica (USP) Fisioterapia (UNICID) Membro da Equipe Científica da Running Lab · 80 · [clique para acessar nosso perfil] [clique para participar do nosso canal] [clique para falar conosco] [clique para baixar a bibliografia] https://www.instagram.com/running_lab/ http://t.me/RunningLabCorridaComCiencia https://wa.me/message/5JYOHV3OSD6XE1 https://drive.google.com/drive/folders/1y3fqWFrRvITyf1ryo_6CKB-eNwYD3MNe?usp=sharing