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Svmma Daemoniaca
TRATADO DE DEMONOLOGIA 
E MANUAL DE EXORCISTAS
EDIÇÃO ESPECIAL em parceria com a Edições DLL
Rua Lopes Coutinho, 74 | Bairro Belenzinho | CEP 03054-010 | São Paulo, SP
Tel.: +55 11 3322.0100
Site: www.livrarialoyola.com.br | E-mail: vendasatacado@distribuidoraloyola.com.br
Edições DLL 
Svmma Daemoniaca
TRATADO DE DEMONOLOGIA 
E MANUAL DE EXORCISTAS
Copyright desta edição © Palavra & Prece Editora, 2010.
Edição brasileira autorizada por intermédio do Autor.
Título original em espanhol: Svmma Daemoniaca - 
Tratado de demonología e manual de exorcistas.
Todos os direitos desta edição reservados.
 
 
Coordenação editorial
Júlio César Porfírio
 
Revisão
Patrícia Santos
 
Revisão e Diagramação
Equipe Palavra & Prece
 
Tradução
Ana Paula Bertolini
 
Capa
Claudio Braghini Júnior
Imagem: Istockphoto
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Índices para catálogo sistemático:
1. Demonologia : Teologia cristã 235.4
PALAVRA & PRECE EDITORA LTDA.
Parque Domingos Luiz, 505, Jardim São Paulo, Cep 02043-081, São Paulo, SP
Tel./Fax: (11) 2978.7253
E-mail: editora@palavraeprece.com.br / Site: www.palavraeprece.com.br
Fortea, José Antonio
 Summa daemoníaca : tratado de demonologia e manual de exorcistas / José Antonio 
Fortea ; [tradução Ana Paula Bertolini]. – São Paulo : Palavra & Prece, 2010.
 Título original: Summa daemoniaca : tratado de demonología e manual de exorcístas
 Bibliografia
 ISBN 978-85-7763-166-7
 1. Demônio 2. Demonologia 3. Exorcismo 4. Possessão demoníaca I. Título.
10-09828 CDD-235.4
 5
Índice
Introdução ......................................................................................................................................................... 13
TRATADO DE DEMONOLOGIA ................................................................................................................ 15
PARTE I – Natureza demoníaca .................................................................................................................... 17
Questão 1 – O que é um demônio? .......................................................................................................... 17
Questão 2 – Por que Deus impôs uma prova aos espíritos angélicos? ............................................... 24
Questão 3 – Por que Deus não retirou a liberdade daqueles que começaram a pecar? .................. 26
Questão 4 – Todos os demônios são iguais?........................................................................................... 26
Questão 5 – Zoologia e demonologia ...................................................................................................... 27
Questão 6 – Astronomia e demonologia ................................................................................................ 29
Questão 7 – Quais são os nomes dos demônios? .................................................................................. 30
Questão 8 – O tempo existe para os demônios? .................................................................................... 32
Questão 9 – Em que pensa um demônio?............................................................................................... 33
Questão 10 – Qual a linguagem dos demônios? .................................................................................... 34
Questão 11 – Onde estão os demônios? .................................................................................................. 34
Questão 12 – Conhecem o futuro? .......................................................................................................... 35
Questão 13 – Um demônio pode fazer algum ato bom? ...................................................................... 35
Questão 14 – O demônio pode experimentar algum prazer? ............................................................. 36
Questão 15 – O demônio é livre para fazer mais ou menos mal? ....................................................... 36
Questão 16 – Quais são os mais malignos de todos os demônios?..................................................... 37
PARTE II – A tentação e o pecado ................................................................................................................. 39
Questão 17 – Por que pecamos? ............................................................................................................... 39
Questão 18 – Quantas tentações procedem do demônio? ................................................................... 40
Questão 19 – Podemos ser tentados além de nossas possibilidades? ................................................. 40
Questão 20 – Por que o diabo tentou Jesus? ........................................................................................... 41
Questão 21 – O demônio sabe que Deus é impecável? ......................................................................... 42
Questão 22 – É possível distinguir as tentações que procedem de nós mesmos 
das tentações do demônio? ....................................................................................................................... 43
Questão 23 – O que fazer diante da tentação? ....................................................................................... 44
Questão 24 – O demônio pode ter alguma tática para nos tentar? .................................................... 45
Questão 25 – Deus pode tentar?............................................................................................................... 46
Questão 26 – Por que Deus permite a tentação? ................................................................................... 47
Questão 27 – O que é a morte eterna? ..................................................................................................... 48
Questão 28 – Qual é o processo que leva à morte eterna? ................................................................... 48
6 SVMMA DAEMONIACA
PARTE III – A ação do demônio no homem e na natureza ....................................................................... 51
Questão 29 – Que diferença existe entre natural, preternatural e sobrenatural? ............................ 51
Questão 30 – Os demônios aumentam seu castigo pelo mal que causam aos homens? ................. 52
Questão 31 – É possível fazer um pacto com o demônio? ................................................................... 52
Questão 32 – O demônio pode provocar uma enfermidade mental? ................................................ 54
Questão 33 – O demônio pode provocar doenças no corpo? .............................................................. 55
Questão 34 – Como distinguir se uma visão é um problema demoníaco ou psiquiátrico? .......... 56
Questão 35 – Os demônios podem causar pesadelos? .......................................................................... 57
Questão 36 – Os demônios podem ler nossos pensamentos? ............................................................. 57
Questão 37 – Podem provocar catástrofes ou acidentes? .................................................................... 58
Questão 38 – O demônio pode fazer milagres? .................................................................................... 59
Questão 39 – Como sabemos que algo é causado pelo demônio? ..................................................... 60
Questão 40 – O demônio pode causar má sorte? ................................................................................. 62
Questão 41 – O que é o malefício? ........................................................................................................... 63
Questão 42 – O malefício tem eficácia? ................................................................................................. 63
Questão 43 – O que fazer em caso de malefício? ................................................................................. 64
Questão 44 – O que é o feitiço? ................................................................................................................65
Questão 45 – O modo de fazer um malefício ou um feitiço é importante? ..................................... 66
 Anexo à questão 45................................................................................................................................ 67
Questão 46 – Qual é a diferença entre magia branca e magia negra? ............................................... 68
Questão 47 – Os magos adivinham o futuro pela intervenção do demônio? .................................. 69
Questão 48 – O demônio intervém no horóscopo, tarô e outras formas de adivinhar o futuro? . 69
Questão 49 – Um demônio pode causar falsas visões em um místico? ............................................ 70
Questão 50 – Pode causar estigmas? ...................................................................................................... 72
Questão 51 – Qual a forma que os demônios têm quando aparecem para os homens? ................ 73
Questão 52 – É o demônio quem provoca a noite do espírito? ........................................................... 74
Parte IV – Questões teológicas ....................................................................................................................... 77
Questão 53 – Deus odeia os demônios? ................................................................................................. 77
Questão 54 – Os demônios podem unir-se e concentrar os seus esforços 
para influenciar uma sociedade? ............................................................................................................ 78
Questão 55 – Por que Satanás não se manifesta aos homens mostrando todo o seu poder? ........ 79
Questão 56 – Dentro da Igreja, a quem ele mais odeia? ...................................................................... 80
Questão 57 – Quando Jesus viveu na Terra como Homem, o demônio sabia que 
Ele era o Messias? ...................................................................................................................................... 81
Questão 58 – Jesus sofreu a tentação? .................................................................................................... 82
Questão 59 – Qual foi a criatura mais magnífica criada por Deus, a Virgem ou Lúcifer? ............. 84
Questão 60 – Por que a água benta atormenta o demônio? ................................................................ 85
Questão 61 – Que outros objetos atormentam os demônios? ............................................................ 86
Questão 62 – Qual é o demônio meridiano? ......................................................................................... 87
Questão 63 – Como os anjos ocupam o seu tempo? ............................................................................ 88
Questão 64 – Existe um sacerdócio no mundo angélico? ................................................................... 89
Índice 7
Questão 65 – É certo pintar o demônio com chifres e corpo de um homem? ................................ 90
Questão 66 – Por que há água benta na entrada da Igreja? ................................................................. 90
Questão 67 – O demônio é um mero símbolo do mal ou ele realmente existe? .............................. 91
 Nota a essa questão................................................................................................................................ 92
Parte V – Perguntas bíblicas ........................................................................................................................... 93
Questão 68 – Qual é a diferença entre o temor a Deus e ao demônio? ............................................. 93
Questão 69 – Que ordem seguem as três tentações que Jesus sofreu no deserto? .......................... 95
Questão 70 – O que são os mil anos em que o demônio ficará preso? ............................................. 97
Questão 71 – Que significado teria o envio dos bodes para Azazel no Livro de Levítico? ........... 98
Questão 72 – Por que a Sagrada Escritura diz que os demônios estão nas regiões do ar? ............ 99
Questão 73 – Por que na Bíblia Deus chama o demônio de “o príncipe desse mundo”? ................ 99
Questão 74 – Por que o demônio Asmodeu fugiu após Tobias queimar 
o coração e o fígado do peixe? ................................................................................................................ 100
Questão 75 – Há algum significado nesse coração e no fígado do peixe de Tobias? .................... 101
Questão 76 – O que quer dizer São Paulo ao afirmar que Cristo levou os demônios 
em Seu cortejo triunfal? ......................................................................................................................... 102
Questão 77 – Por que o demônio é chamado de acusador? .............................................................. 103
Questão 78 – Deus e o demônio falam entre si? .................................................................................. 104
Questão 79 – É permitido insultar os demônios? .............................................................................. 104
Questão 80 – Por que o Apóstolo Tiago diz que os demônios creem em Deus? ........................... 106
Questão 81 – Os acontecimentos no Livro de Jó são históricos? ...................................................... 107
Questão 82 – Por que se diz que Leviatã tem muitas cabeças? ........................................................ 108
Questão 83 – Por que Satanás aparece com mais frequência no 
Novo Testamento do que no Antigo? ................................................................................................... 109
Questão 84 – O Anticristo é o diabo? .................................................................................................. 109
Questão 85 – Satanás pode ter um filho? ............................................................................................ 110
Questão 86 – Existe uma paternidade espiritual do demônio? ....................................................... 111
Questão 87 – A Besta do Apocalipse é o demônio? ........................................................................... 111
Questão 88 – O que significa o 666? .................................................................................................... 111
Parte VI – O Inferno ...................................................................................................................................... 113
Questão 89 – Quantos demônios se condenaram? ............................................................................ 113
Questão 90 – Por que Deus não aniquila o demônio? ....................................................................... 114
Questão 91 – Será que os demônios prefeririam deixar de existir? ................................................ 116
Questão 92 – A pior condenação é a dos demônios ou a dos homens? .......................................... 116
Questão 93 – Por que o Inferno deve ser eterno? ............................................................................... 117
Questão 94 – Deus pode perdoar os demônios? ................................................................................. 118
Questão 95 – Que punições há no Inferno? ........................................................................................ 119
Parte VII – Apêndices .................................................................................................................................... 121
Apêndice 1 ....................................................................................................................................................... 123
Apêndice 2 ....................................................................................................................................................... 133
Apêndice 3 .......................................................................................................................................................141
8 SVMMA DAEMONIACA
MANUAL DO EXORCISTA ........................................................................................................................ 143
Capítulo I – A possessão ................................................................................................................................ 145
Questão 96 – O que é a possessão? ....................................................................................................... 145
Questão 97 – Quais são as características essenciais para se diagnosticar uma possessão? ....... 145
Questão 98 – Considerações da psiquiatria ......................................................................................... 147
Questão 99 – O demônio também tem a alma do possuído? ........................................................... 152
Questão 100 – Qual é a forma mais prática de saber se alguém está possuído? ........................... 152
Questão 101 – Que truques o demônio pode usar para esconder a sua presença no possuído? 153
Questão 102 – Quais são os demônios ocultos? ................................................................................. 154
Questão 103 – Que frase deve ser dita para saber se alguém está possuído? ................................. 157
Questão 104 – Quais são as causas da possessão? .............................................................................. 158
Questão 105 – Por que o demônio age por possessão? ...................................................................... 159
Questão 106 – Por que Deus permite que haja possessões? ............................................................. 160
Questão 107 – Qual é a diferença entre a dupla personalidade e a possessão? ............................. 161
Questão 108 – Que fenômenos extraordinários se dão na possessão? ........................................... 161
Questão 109 – No Evangelho, a possessão não poderia ser uma mera simbologia 
da libertação do mal? .............................................................................................................................. 162
Questão 110 – Houve possessões na época do Antigo Testamento? ............................................... 162
Questão 111 – Por que hoje há menos casos de possessão do que na época do Evangelho? ....... 163
Questão 112 – Quais são os tipos de demônios que aparecem nas possessões? ............................ 164
Questão 113 – O que acontece se um possuído morre antes do demônio ter saído? .................... 164
Questão 114 – As almas dos condenados podem possuir? ............................................................... 165
Questão 115 – Um possesso pode se matar? ....................................................................................... 165
Questão 116 – Um possesso pode matar? ............................................................................................. 166
Questão 117 – Os assassinos seriais que cometem crimes hediondos são possuídos? ................. 166
Capítulo II – O exorcismo e o exorcista ..................................................................................................... 169
Questão 118 – O que é o exorcismo? .................................................................................................... 169
Questão 119 – Qual é a maneira ideal de organizar o ministério do exorcista? ........................... 171
Questão 120 – É obrigatório um relatório psiquiátrico para se proceder o exorcismo? .............. 173
Questão 121 – Por que é necessária a permissão do bispo para exorcizar? ................................... 174
Questão 122 – Qual era a ordem menor do exorcistado? .................................................................. 175
Questão 123 – O que fazer em caso de ausência absoluta de exorcista? ......................................... 175
Questão 124 – Um não católico pode ser exorcizado? ....................................................................... 178
Questão 125 – Os animais podem ser infectados? ............................................................................. 178
Questão 126 – É verdade que o demônio se vinga dos exorcistas? ................................................... 179
Questão 127 – É verdade que durante o exorcismo o possesso 
pode revelar os pecados dos presentes? ............................................................................................... 183
Questão 128 – Quem pode ser um exorcista? ..................................................................................... 183
Questão 129 – Existe exorcismos fora da Igreja Católica? ................................................................ 184
Questão 130 – Já existia o exorcismo antes de Cristo? ....................................................................... 185
Questão 131 – Por que alguns exorcismos duram bem mais tempo? ............................................. 185
Índice 9
Questão 132 – É preferível continuar até o fim em uma sessão ou ter várias sessões? ................ 186
Questão 133 – Dicas para exorcismo..................................................................................................... 187
Questão 134 – Como você sabe quando o demônio é o último? ..................................................... 190
Questão 135 – Pode ser repossuída a pessoa que tenha sido exorcizada? ...................................... 190
Questão 136 – O que acontece se os demônios não saem por meio do exorcismo? ..................... 191
Questão 137 – O que faz um demônio deixar um corpo em um exorcismo? ................................. 192
Questão 138 – O que é mais importante: a confissão ou o exorcismo? .......................................... 193
Questão 139 – Glossário ......................................................................................................................... 193
Capítulo III – Fenomenologia demoníaca ................................................................................................. 197
Questão 140 – Qual é a fenomenologia demoníaca? ......................................................................... 197
Questão 141 – O que é a influência externa? ......................................................................................200
Questão 142 – O que é a influência interna? .......................................................................................200
Questão 143 – Qual é a diferença entre a influência interna e externa? ........................................202
Questão 144 – O que é a oração de libertação? ................................................................................... 203
Questão 145 – Como fazer uma oração de libertação? .....................................................................205
Questão 146 – O que é a infestação? .....................................................................................................209
Questão 147 – Os fantasmas existem? .................................................................................................. 210
Questão 148 – O que é o mandatum? ................................................................................................... 210
Questão 149 – Quais são os demônios íncubos e súcubos? .............................................................. 211
Capítulo IV – Casos ....................................................................................................................................... 213
Caso 1 ........................................................................................................................................................ 214
Caso 2 ........................................................................................................................................................ 215
Caso 3 ........................................................................................................................................................225
Caso 4 ........................................................................................................................................................ 235
Caso 5 .........................................................................................................................................................240
Caso 6 .........................................................................................................................................................243
Capítulo V – Suplementos .............................................................................................................................245
Suplemento I – Casos especiais de possessão ............................................................................................. 247
Suplemento II – Legislação canônica .......................................................................................................... 251
Suplemento III – História do exorcismo no cristianismo ........................................................................ 253
Suplemento IV – A medalha de São Bento ................................................................................................. 257
Suplemento V - Escala SD de graus de possessão e influência ................................................................ 259
O MAL ............................................................................................................................................................. 263
Prefácio ............................................................................................................................................................. 265
Seção I – Questões sobre o mal .................................................................................................................... 267
Questão 150 – O que é o mal? ................................................................................................................ 267
Questão 151 – Existe o mal? .................................................................................................................. 267
Questão 152 – Quais são os tipos de mal? ........................................................................................... 270
Questão 153 – Mal é um conceito religioso? ....................................................................................... 271
Questão 154 – Qual o limite do mal? .................................................................................................... 272
10 SVMMA DAEMONIACA
Questão 155 – Existe o mal infinito? ..................................................................................................... 272
Questão 156 – Será que Deus está acima do bem e do mal? ............................................................. 273
Questão 157 – Qual é o maior mal? ...................................................................................................... 273
Questão 158 – O pecado é um conceito religioso? ............................................................................. 273
Questão 159 – Existe um mal imperdoável? ....................................................................................... 274
Questão 160 – Como sabemos que há condenação eterna? .............................................................. 275
Questão 161 – Quem são aqueles que apenas querem condenar? ................................................... 276
Questão 162 – Um pequeno pecado pode condenar? ........................................................................ 276
Questão 163 – Onde está a linha divisória entre o mal extremo e a loucura? ............................... 277
Questão 164 – Deus sonda o abismo? ................................................................................................... 278
Seção II – Estética do mal ............................................................................................................................. 281
Seção III – O mal no cristianismo .............................................................................................................. 293
Seção IV – O Terceiro Reich e o mal ........................................................................................................... 295
Seção V – A cidade de Deus e a cidade do homem ................................................................................... 301
Seção VI – Doença psiquiátrica e cristianismo .........................................................................................305
Seção VII – Questões ..................................................................................................................................... 315
Questão 165 – Um homem condenado no Inferno ainda pode amar sua mãe? ........................... 315
Questão 166 – Você tem uma mãe no Céu, vendo seu filho sofrer a condenação eterna? .......... 316
Questão 167 – O que significa “desceu ao Inferno?” .......................................................................... 316
Questão 168 – Quais foram as moradas do Inferno em que Jesus desceu depois da morte? ...... 318
Questão 169 – Como se proteger dos ataques do demônio? ............................................................. 318
Questão 170 – Será que Judas Iscariotes foi condenado? .................................................................. 320
Questão 171 – Por que os demônios usam os sentidos físicos quando estão em alguém? .......... 321
Questão 172 – O demônio odeia os judeus? ......................................................................................... 322
Questão 173 – Será que não há perigo de orgulho para o exorcista? .............................................. 324
Questão 174 – Algum dia haverá um número suficiente de exorcistas? ........................................ 325
Questão 175 – E se um bispo se opõe a esse ministério? ................................................................... 326
Questão 176 – Deus não poderia conceder anistia para os condenados 
ao Inferno como um mero ato de graça? ............................................................................................. 327
Questão 177 – Deus não poderia impedir a existência desses condenados 
por um ato de misericórdia divina? ...................................................................................................... 328
Questão 178 – Ao arrepender-se, o demônio seria perdoado? .......................................................... 329
Questão 179 – Toda a ciência sobre o demônio está contida neste tratado? .................................. 330
Questão 180 – Será que Deus sabe de tudo que há de errado? ......................................................... 331
Questão 181 – Será que Deus está no Inferno? ................................................................................... 331
Questão 182 – O mal sempre existiu? .................................................................................................. 332
Questão 183 – O mal existirá pelos séculos dos séculos? .................................................................. 332
CONCLUSÃO ................................................................................................................................................ 335
 11
Por mim se vai à cidade do lamento; por 
mim se vai à eterna dor; por mim se vai para 
a raça condenada: a justiça incentivou a mim 
sublime arquiteto; me fez a Divina Potes-
tade, a Suprema Sabedoria e o Primeiro 
Amor. Antes de mim não havia nada cria-
do, com exceção do imortal, e eu existo eter-
namente. Ó vós que entrais, abandonai toda 
a esperança! 
Inscrição que Dante Alighieri 
colocou no portal de entrada para o Inferno
 13
Introdução
Optei por escrever um livro ao modo dos antigos tratados escolásticos, isto é, distribuir a obra em uma infinidade de questões de heterogênea extensão e 
desigual peso teológico. Por quê? Porque concluí ser o modo mais livrede poder 
tratar o tema sob todos os pontos de vista. Sobretudo, essa me pareceu a melhor 
maneira de poder abarcar o demônio em todos os seus aspectos e detalhes, que, em 
matéria como essa, são muito importantes. Cada detalhe da Bíblia sobre o demônio 
não é em vão.
Sempre me fascinaram aqueles velhos volumes escolásticos escritos em le-
tras góticas, em que os temas teológicos apareciam com uma lógica inflexível 
segundo os interesses e desejos do monge ou outro religioso, que ditava ao 
secretário encurvado sobre sua escrivaninha. Entretanto, neste trabalho, quis 
fazer uma obra mais livre, menos sujeita a um esquema preconcebido, dife-
rente de minha tese universitária sobre o exorcismo, que estava repleta de no-
tas de rodapé, de citações eruditas e de temas que os acadêmicos consideram 
sérios e graves. Não me seria difícil aplicar a todo o conteúdo desse livro um 
outro aspecto formal, aparentemente mais orgânico, porém fiz uma obra tal 
qual gostaria de ler. Então, com o livro terminado, contemplo uma construção 
intelectual sobre o mundo dos anjos caídos.
O leitor observará que há mínimas referências bibliográficas nessa obra. 
Isso se deve ao fato de que desde o princípio determinei que todo esse edi-
fício conceitual se baseasse sobre dois únicos alicerces: a Bíblia e minha ex-
periência. A partir daí se levantou toda, pedra por pedra, a base da lógica. O 
leitor não deve, portanto, ler esse livro como uma recopilação dos ensinos do 
magistério da Igreja, mas sim como algo que pode alcançar a razão humana 
partindo da Sagrada Escritura.
14 SVMMA DAEMONIACA
Esse livro me recorda uma construção arquitetônica medieval. Com seus 
pilares, suas galerias e caminhos tortuosos. Um livro com seus capitéis, pórti-
cos e criptas. Por essa obra sobre o demônio se pode ir e vir, pode-se percorrer 
a ela exaustivamente ou passear por ela; é uma obra teológica, uma espécie 
de labirinto demoníaco com suas questões, partes, apêndices, suplementos 
e anexos. Uma construção de todas as formas, levantada com conceitos em 
vez de pedras, ou, melhor dizendo, com as pedras dos conceitos. Uma cons-
trução erigida sobre as firmes leis da lógica, um falso labirinto submetido a 
uma estrutura férrea que se esconde sob a aparente selva de questões. Espero 
que o leitor não esqueça, durante sua leitura – pelo passeio ao âmago dessa 
construção –, o que não foi esquecido durante sua escrita: que toda constru-
ção teológica é erguida para a maior glória de Deus. É curioso como até uma 
construção teológica sobre o demônio pode proclamar o poder da onipotente 
mão divina.
Nota: O título em latim desta obra, Svmma Daemoniaca, se traduz 
como Suma de questões relativas ao demônio. Em latim, o substantivo 
svmma significa suma, conjunto, generalidades. O adjetivo daemoniaca 
pode significar maligno, demoníaco, mas também o relativo ao demônio, o 
que concerne ao demônio, e é neste segundo sentido que se deve considerar 
o título.
Tratado de demonologia
 17
PARTE I
Natureza demoníaca
Questão 1 
O que é um demônio?
Um demônio é um ser espiritual de natureza angélica condenado eterna-
mente. Não tem corpo, não há em seu ser nenhum tipo de matéria sutil, nem 
nada semelhante à matéria, pois se trata de uma existência de caráter inteira-
mente espiritual. Spiritus, em latim, significa sopro, hálito. Uma vez que não 
têm corpo, os demônios não sentem a menor inclinação para nenhum pecado 
que se cometa com o corpo. Portanto, a gula ou a luxúria são impraticáveis 
para eles. Podem tentar os homens a pecar nesses campos, porém, só com-
preendem esses pecados de modo meramente intelectual, uma vez que não 
possuem sentidos corporais. Os pecados dos demônios, portanto, são exclusi-
vamente espirituais.
Eles não nasceram maus, porém, depois de criados, foram submetidos a 
uma prova antes que lhes fosse oferecida a visão da essência da Divindade, 
pois viam a Deus, mas não viam Sua essência. Neste caso, o verbo ver é fi-
gurativo, já que a visão dos anjos é intelectual. Como, para muitos, será difí-
cil compreender o fato de que puderam ver/conhecer a Deus, porém não ver/
conhecer Sua essência, poderíamos exemplificar que eles viam a Deus como 
uma luz, que O ouviam com uma voz majestosa e santa, mas Seu rosto per-
manecia sem se revelar. De todo modo, mesmo que não penetrassem em Sua 
essência, sabiam que era seu Criador e que era Santo, o Santo entre os Santos.
18 SVMMA DAEMONIACA
Antes que penetrassem na visão beatífica dessa essência divina, Deus os 
pôs a prova. Nessa prova, uns obedeceram, outros, não. Os que desobedece-
ram de forma definitiva, tornaram-se demônios. Eles por si só se transforma-
ram no que são. Ninguém os fez assim.
A psicologia dos anjos atravessou uma série de fases antes que eles se trans-
formassem em demônios. Essas fases não aconteceram no tempo material, 
mas sim na eternidade (evo)1. Para os humanos, por se dar na eternidade (evo), 
estas fases pareceram instantâneas. Porém, o que para nós parece breve, para 
eles, foi muito demorado. As fases de transformação de anjos em demônios 
foram as seguintes:
No início ficaram em dúvida se a desobediência à Lei Divina talvez fosse o 
melhor. Nesse momento, em que voluntariamente aceitaram ser uma opção a 
considerar a possibilidade de desobediência a Deus, já cometeram um pecado. 
A partir daí, a aceitação da dúvida se constituiu um pecado venial, que pou-
co a pouco foi evoluindo para um pecado mais grave. Porém, nenhum deles, 
nessa primeira fase, estava disposto a se afastar definitivamente, nem mesmo 
o diabo. 
Já mais tarde, assentou-se neles o que suas vontades haviam escolhido, ape-
sar dos conselhos da inteligência, a qual lhes recordava que a desobe diência 
era contra a razão. Suas vontades foram se afastando de Deus e, consequente-
mente, suas inteligências foram aceitando como verdadeiro o mal que haviam 
escolhido, consolidando-se no erro. A vontade de desobedecer foi se afirman-
do, fazendo-se cada vez mais profunda. Assim, suas inteligências passaram 
a buscar cada vez mais razões para que tudo se tornasse cada vez mais justi-
ficável. Finalmente, esse processo os levou ao pecado mortal, que se deu em 
um momento concreto, por meio de um ato da vontade. Cada anjo, em de-
terminado momento, não quis só desobedecer, mas, inclusive, optou por ter 
uma existência à margem da Lei Divina. Não era um esfriamento com relação 
ao Amor de Deus, uma simples desobediência a algo que lhes fosse difícil de 
1 Evo: Significa a eternidade que é o tempo dos espíritos. Uma explicação mais detalhada aparecerá 
mais adiante.
Natureza demoníaca 19
aceitar; mas na vontade de muitos deles, encontrava-se a ideia de um destino 
separado da Santíssima Trindade, um destino autônomo.
Os que perseveraram nesse pensamento e nessa decisão começaram um 
processo de justificação dessa escolha. Passaram a se autoconvencer de que 
Deus não era Deus. Ele era apenas mais um espírito. Até poderia ser seu Cria-
dor, porém n’Ele havia erros e falhas. Começaram a acalentar a ideia que havia 
surgido em seus pensamentos: a de uma existência separada de Deus e de 
Suas normas. A existência separada de Deus aparecia como uma existência 
mais livre. As normas de Deus, a obediência a Ele e à Sua vontade, apareciam 
progressivamente como uma opressão. Deus passava a ser visto como um ti-
rano do qual deveriam se libertar. Nessa nova fase de distanciamento, já não 
buscavam simplesmente um destino fora de Deus, uma vez que Deus mesmo 
lhes parecia um obstáculo para alcançar a liberdade. Pensavam que a beleza 
e a felicidade do mundo angélico seriam muito melhores sem um opressor. 
Por que haveria um espírito que se elevava sobre os demais espíritos? Por que 
sua vontade devia se impor sobre a dos outros espíritos? Por que uma vontade 
deve se impor sobre outras vontades? Devem ter pensado: “Não somos crian-
ças, não somos escravos!”. Deus já não era um elemento que tinham deixado 
para trás, mas que começava a se converter para eles em um mal. E assimco-
meçaram a odiá-l’O. O chamado de Deus para que estes anjos voltassem era 
visto como uma intromissão inaceitável. Nessa fase, o ódio cresceu mais em 
alguns espíritos e menos em outros.
Pode surpreender que um anjo chegue a odiar a Deus, porém deve-se 
compreender que Deus já não era visto por eles como um bem, mas como 
um obstá culo, uma opressão; Ele representava as cadeias dos mandamentos, 
a falta de liberdade. Já não era visto como Pai, mas como fonte de ordens 
e mandamentos. O ódio nasceu com a energia de suas vontades, resistindo 
continuamente aos chamados de Deus que, como um pai, os buscava. O ódio 
nasceu como reação lógica de uma vontade que tem de firmar-se na decisão 
de abandonar a casa paterna, para dizer em termos que sejam inteligíveis para 
nós. É como alguém que deseja sair de casa; no início quer apenas partir, mas 
se o pai o chama mais de uma vez, o filho acaba dizendo que o deixe em paz. 
20 SVMMA DAEMONIACA
Deus os chamava, pois sabia que, quanto mais tempo suas vontades ficassem 
afastadas d’Ele, mais se afirmariam nesse afastamento.
Contudo, muitos dos anjos que haviam se afastado, em um primeiro mo-
mento, voltaram. Essa é a grande luta nos Céus de que fala o Apocalipse 12:
“Houve então uma batalha nos Céus: Miguel e seus anjos guerrearam con-
tra o Dragão. O Dragão lutou, juntamente com os seus anjos, mas foi derrotado; 
e eles perderam seu lugar nos Céus. Assim foi expulso o grande Dragão, a antiga 
Serpente, que é chamado Demônio ou Satanás, o sedutor do mundo inteiro. Ele 
foi expulso para a Terra, e os seus anjos foram expulsos com ele” (Ap 12,7-9).
Como os anjos podem lutar entre si? Se não têm corpo, quais armas fo-
ram usadas? O anjo é espírito, o único combate que se pode travar entre 
eles é o intelectual. As únicas armas que podem usar são os instrumentos 
intelectuais. Deus enviava a graça a cada anjo para que voltasse à fidelida-
de e se mantivesse nela. Os anjos davam argumentos aos rebeldes para que 
voltassem à obediência. No entanto, os anjos rebeldes mostravam suas ra-
zões para fundamentar sua postura e introduzir a rebelião entre os anjos 
fiéis. Nessa conversação entre milhares e milhares de anjos, houve baixas de 
todos os lados: anjos rebeldes regressaram à obediência; anjos fiéis foram con-
vencidos com a sedução dos argumentos malignos.
A transformação em demônios foi progressiva. Com o passar do tempo – a 
eternidade é um tipo de tempo – uns odiaram mais a Deus, outros menos. 
Uns se fizeram mais soberbos, outros nem tanto. Cada anjo rebelde foi se 
deformando mais e mais em pecados específicos. Assim como, ao contrário, 
os anjos fiéis foram se santificando progressivamente. Uns se santificaram 
mais em uma virtude, outros em outra. Cada anjo se fixou em um aspecto 
ou outro da divindade, amou com uma medida de amor. Por isso entre os 
anjos fiéis surgiram muitas distinções, segundo a intensidade das virtudes 
que praticaram.
Cada anjo tinha sua própria natureza dada por Deus, porém, cada um se 
santificou numa medida própria segundo a Graça de Deus e a correspondên-
cia de Sua vontade. Exatamente o contrário ocorreu no caso dos demônios. 
Cada um recebeu de Deus uma natureza, se deformou segundo seus próprios 
Natureza demoníaca 21
caminhos extraviados. Por isso, a batalha acabou quando cada um deles per-
maneceu enquadrado em sua postura de forma irreversível. Chegou um mo-
mento em que havia só mudanças acidentais em cada ser espiritual, cada de-
mônio se manteve firme em sua imprudência, em seus ciúmes, em seu ódio, 
em sua inveja, soberba, em seu egoísmo…
A batalha havia acabado. Podiam seguir discutindo, disputando, exortan-
do-se durante milhões de anos, para dizer em termos humanos, porém havia 
somente mudanças acidentais. Foi então que os anjos foram admitidos na pre-
sença divina e se deixou que os demônios se afastassem, que ficassem abando-
nados à situação de prostração moral que haviam escolhido para si.
Como se pode observar, não se trata de ter enviado os demônios a um 
lugar de chamas e aparatos de tortura, mas que fossem deixados como es-
tavam, abandonados em sua liberdade, em sua vontade. Não foram levados 
a nenhuma parte. Eles não ocupam um lugar, não há onde levá-los. Não há 
instrumentos de tortura, nem chamas que possam atormentá-los, nem ca-
deias que os prendam. Tampouco os anjos fiéis entraram em algum lugar. 
Simplesmente receberam a graça da visão beatífica. Tanto o Céu dos anjos 
como o Inferno dos demônios são estados. Cada anjo tem em seu interior seu 
próprio Céu, esteja onde estiver. Cada demônio, esteja onde estiver, leva em 
seu espírito seu próprio Inferno.
O momento em que não há como voltar atrás é quando um anjo vê a 
essência de Deus. Porque depois de ver Deus, já não poderá mudar de opinião, 
nem esconder a menor coisa que O ofenda, pois a inteligência assimilaria que 
esconder uma falta seria o mesmo que esconder esterco em frente a um tesou-
ro. Pecar, a partir de então, torna-se impossível. 
O anjo, antes de entrar nos Céus, compreendia Deus, compreendia o que 
era, imaginava Sua santidade, Sua onipotência, sabedoria, amor… Depois de 
ser aceito para contemplar Sua essência, não só a compreende, como também 
a vê. Quer dizer, vê Sua santidade, Seu amor etc., se preenche de tal amor, de 
tal veneração, que jamais, por nada, quer se separar d’Ele. Por isso o pecado 
passa a ser impossível.
22 SVMMA DAEMONIACA
O demônio fica irremediavelmente ligado ao que escolheu, desde o instan-
te em que Deus decide não insistir mais. Chega um momento em que Deus 
toma a decisão de não enviar mais as graças de arrependimento, pois Ele com-
preende que enviar mais graças só serve para que o demônio se assegure mais 
naquilo que sua vontade escolheu. Porque cada graça de arrependimento só 
pode ser superada, só pode ser vencida, afirmando-se mais no ódio. Chega 
um momento em que Deus Amor dá as costas2 e deixa Seu filho seguir seu 
caminho. Deixa o demônio seguir sua vida separado.
Podemos dizer que não é de uma hora para outra que o anjo se transforma 
em demônio, já que se trata de um processo lento, gradual, evolutivo. Há um 
tempo certo em que o espírito angélico tem de tomar a decisão de desprezar 
ou não o seu Criador. Já foi dito que nesse processo pode-se voltar atrás, essa 
é a celestial batalha de que fala o Apocalipse (cf. Ap 12,7-9). Mas chega um 
momento em que os demônios se afastam cada vez mais. Não haveria sentido 
insistir. O Criador respeita a liberdade de cada um.
Portanto, o demônio é um anjo que decidiu ter seu destino distante de 
Deus e quer viver livre, sem amarras. Frequentemente, ele é representado 
em pinturas e esculturas de modo disforme, uma forma muito adequada de 
representá-lo, pois se trata de um espírito angélico deformado. Segue sendo 
anjo; somente sua inteligência e sua vontade são deformadas. A solidão inte-
rior em que permanecerá, por séculos e séculos, os ciúmes ao compreender 
que os fiéis gozam da visão de um Ser Infinito levam-no a reprovar seu pró-
prio pecado mais uma vez. Como odeia a si mesmo, odeia a Deus, odeia aos 
que lhe deram razões para afastar-se.
Mas nem todos sofrem igualmente. Durante a batalha, uns anjos se de-
formaram mais que outros. Aqueles que mais sofrem são os que mais se 
2 Um grande amigo meu, professor da Universidade de Alcalá de Henares, ficou um pouco surpreso 
com essa expressão de ‘dar as costas’ e, inclusive, me sugeriu a possibilidade de uma correção 
na formulação da frase. Pode, de verdade, o Amor Infinito, fazer tal coisa? Sem dúvida, sim. A 
rebeldia da criatura faz com que, finalmente, Deus a abandone a sua própria sorte. Que momento 
é esse em que a criatura é abandonada? É o momento em que Deus decide não lhe conceder mais 
nenhuma graça de arrependimento. Nesse instante podemos dizer que Deus deu as costas ao ser 
que criou. Quando ocorre essa terrível e temível decisão, a criatura já está julgada.
Natureza demoníaca 23
deformaram. Porém, é necessário recordar novamente que essa é uma defor-midade da inteligência e da vontade.
A inteligência está deformada, obscurecida pelas mesmas razões que justi-
ficou seu caminho, sua libertação. A vontade impôs à inteligência sua decisão, 
e a inteligência se viu impelida a justificar tal decisão. A inteligência funcio-
nou como um mecanismo de justificação, de argumentação daquilo que a 
vontade a estimulava aceitar. Como se vê, o processo tem uma extraordinária 
semelhança com o processo de aviltamento dos humanos. Não esqueçamos 
que nós, humanos, somos um espírito em um corpo. Se nos omitimos diante 
dos pecados relativos ao corpo, sofreremos o mesmo processo interno que 
leva uma pessoa boa a acabar na máfia, ou a tornar-se um soldado num cam-
po de concentração ou um terrorista. Em princípio, o conceito de pecado, de 
tentação, de evolução da própria iniquidade é igual tanto no espírito angélico 
como no espírito do homem. Os pecados humanos são sempre pecados do 
espírito, ainda que os cometa com o corpo, já que este é tão somente um ins-
trumento daquilo que o espírito decide com seu livre-arbítrio.
Assim como um menino atravessa um período da infância, o anjo que aca-
ba de ser criado não tem experiência. O ser humano tem tentações com ou-
tras pessoas, e os anjos também as têm. O homem pode pecar por ideais tais 
como a pátria, a honra da família, o bem-estar de um filho. O espírito angéli-
co também tem por trás de si grandes causas, que, mesmo sendo distintas das 
humanas, presumem uma complexa correlação angélica de todo esse mundo 
humano que conhecemos.
Nós, humanos, somos também espírito, apesar de possuirmos um corpo. 
Só temos de olhar nosso interior para compreender como se pode cair no pe-
cado, como se pode degradar-se. Sendo assim, os pecados dos anjos começam 
a nos parecer mais próximos e já não são tão incompreensíveis.
24 SVMMA DAEMONIACA
Questão 2 
Por que Deus impôs uma prova aos espíritos angélicos?
Por que não concedeu a visão beatífica a todos quando os criou? Por que se 
arriscou a que alguns se convertessem em demônios? Deus poderia ter criado 
os espíritos angélicos e diretamente ter-lhes concedido a graça da visão beatí-
fica. Isto era perfeitamente possível à Sua onipotência e não cometeria nenhu-
ma injustiça ao fazê-lo. Porém, tinha três poderosas razões para conceder-lhes 
uma fase de prova antes da visão beatífica.
A razão menos importante de todas era que Deus teria que dar a cada ser 
racional um grau de felicidade. Todos no Céu veem a Deus, mas ninguém 
pode gozar d’Ele em um grau infinito, isso é impossível. Só Deus usufrui in-
finitamente. Cada ser finito usufrui ao máximo, sem desejar mais, de modo 
finito. Usufrui finitamente de um bem infinito. A comparação que se pode 
fazer para compreender esse conceito metafísico é que cada ser racional tem 
um vaso, Deus preenche esse vaso até a borda, plenamente. Porém, cada vaso 
tem uma determinada medida.
Deus, em Sua sabedoria, determinou algo especialmente inteligente: que 
cada um determinasse o grau de glória que usufruiria durante a eternidade 
(evo). Dado que isto é para sempre e é algo muito importante, Deus deixou 
que tal decisão ficasse em nossas mãos. Logo, já que cada um tem um grau de 
glória, o mais lógico é que cada um decida esse grau. O modo? Uma prova. 
Segundo a generosidade, o amor, a constância e demais virtudes que manifes-
temos nessa prova, assim nessa medida será o grau. Como se vê, é uma dispo-
sição magnífica das coisas, uma disposição em que se manifesta a sabedoria 
infinita de Deus.
Se essa razão exposta é importante, considero que ainda é mais considerar 
o fato de que o único momento no qual um espírito pode desenvolver sua 
fé, sua generosidade para com Deus, é enquanto ainda não O vê. Depois, ao 
vê-l’O, será grato pelo que contempla. Porém, esse amor generoso na fé, essa 
confiança em Deus mesmo na obscuridade, só é possível antes da visão. Tudo 
será possível, menos isso. Digamos que é um aspecto do espírito que, se não 
Natureza demoníaca 25
se desenvolve antes da visão física da essência de Deus, será absolutamente 
impossível depois. Por isso a prova é um dom de Deus. Um dom para que em 
nós germine e se desenvolva a flor da fé com todos os seus frutos. Essa flor 
em nós não poderá nascer durante toda a eternidade, pois não poderá haver 
fé onde existe visão. E atrás da fé e como consequência dela vêm as virtudes 
subsequentes. Cada anjo desenvolveria umas mais que outras.
Antes de tudo, o tempo de prova dava a possibilidade de que nasceriam e 
se desenvolveriam as virtudes teologais. Alguns anjos desenvolveriam mais a 
virtude da perseverança, outros a virtude da humildade, da súplica, etc.
Claro que conceder a um ser a possibilidade de que lhe nasça a fé supõe 
arriscar-se que germine nesse mesmo ser não a fé, mas o mal. Deus, ao dar a 
liberdade, sabe que, uma vez concedida, pode desencadear ao ser o bem ou o 
mal. Deus cria o cosmos como quer, como deseja, segundo Sua vontade, sem 
nenhuma dificuldade, sem nenhum limite. Porém, o santo não se cria, faz-se a 
si mesmo com a ação da graça. Conceder o dom da liberdade aos espíritos su-
põe que possa aparecer uma madre Teresa de Calcutá ou um Hitler. Uma vez 
que se concede o presente da liberdade, esta vem com todas as consequências. 
Querer que apareça o bem espiritual supõe de antemão aceitar a possibilidade 
de que apareça o mal espiritual. No cosmos material não há bem espiritual, 
nem a menor quantidade dele. O bem do cosmos material é um bem mate-
rial; a glorificação do universo físico ao Criador é uma glorificação material 
e inconsciente. O bem espiritual é qualitativamente superior, porém supõe 
necessariamente ter que admitir esse risco. Por isso a aparição do mal não foi 
um transtorno aos planos divinos. A possibilidade da aparição do mal já fazia 
parte dos planos divinos antes da criação das criaturas pensantes.
De todas as maneiras, apesar de a prova ser necessária para determinar o 
grau de glória, a razão mais importante, a razão mais poderosa para conceder 
o dom da liberdade, era obter o amor de um modo livre. Sem essa prova, Deus 
obteria a gratidão dos seres pela glória concedida. Porém, Deus é um Ser que 
ama e quer ser amado. O único modo de se obter esse amor na fé, esse amor 
que confia, esse amor desinteressado mesmo na obscuridade própria d’Aquele 
que não vê, era propor uma prova. Volto a repetir que o mesmo Deus que pode 
26 SVMMA DAEMONIACA
criar milhas de cosmos somente com um ato de Sua vontade não pode criar 
esse amor que nasce daquele que é provado no sofrimento da fé. O amor a 
Deus não se cria, é uma doação por parte da criatura.
Questão 3 
Por que Deus não retirou a liberdade 
daqueles que começaram a pecar?
Por que Deus não retira a liberdade quando vê que alguém avança pelo 
caminho do mal? Não o faz porque realizar tal coisa suporia que tal espírito 
penderia para sempre ao mal. Permitir que siga fazendo o mal oferece-lhe a 
possibilidade de que retorne ao bem. Retirar-lhe da prova faria com que co-
metesse menos pecados, porém o espírito de quem foi retirada a possibilidade 
da prova ficaria petrificado no mal para sempre. De modo que permitir que 
alguém mau siga fazendo o mal dá-lhe a possibilidade de retroceder.
Questão 4 
Todos os demônios são iguais?
Já vimos que cada demônio pecou com uma determinada intensidade. 
Além disso, cada demônio pecou em um ou em vários pecados em especial. 
A rebelião teve sua raiz na soberba, porém dessa raiz nasceram outros peca-
dos. Observamos isso muito claramente nos exorcismos; há uns demônios 
que pecam mais pela ira, outros pelo egoísmo, outros pela cólera, etc. Cada 
demônio tem sua psicologia, sua forma de ser particular. Há os falantes, os 
mais irônicos e depreciativos; em um aparece de modo especial a soberba, em 
outro o pecado do ódio, etc. Apesar de todos terem se afastado de Deus, uns 
se afastaram mais do que outros.
Temos de recordar que, como nos diz São Paulo, são nove as hierarquias 
de anjos. As hierarquias superiores são mais poderosas,belas e inteligentes 
que as inferiores. Cada anjo é completamente distinto de outro. Não há raças 
de anjos, para usar um termo zoológico, uma vez que cada um esgota sua 
Natureza demoníaca 27
espécie. Todavia, certamente é possível agrupar os anjos em distintos grandes 
grupos ou hierarquias, também chamadas coros, pois esses grupos formam 
uma espécie de coro que entoa louvores a Deus. Seu canto, certamente, não 
procede da voz, já que se trata mais de um louvor espiritual que emite sua 
vontade ao conhecer e amar a Santíssima Trindade.
De cada uma das nove hierarquias caíram anjos que se transformaram em 
demônios. Digamos que há demônios que são virtudes, potestades, serafins, 
etc. Mesmo sendo demônios, conservam intacto seu poder e inteligência.
Por tudo o que dissemos, está claro que existe uma hierarquia demoníaca. 
Os exorcistas comprovam que entre eles há os que têm poder superior sobre 
os outros. Em que consiste esse poder? Impossível saber, pois não se conhece 
como um demônio pode obrigar outro a fazer algo dado que não existe corpo 
para empurrar ou forçar. Aliás, é comprovado que um demônio superior pode 
forçar um inferior a não sair de um corpo durante um exorcismo. Mesmo que 
o inferior esteja sofrendo ou queira sair, o superior pode impedi-lo. Como um 
demônio pode forçar outro, sendo esse intangível, é algo que, repito, escapa à 
nossa compreensão.
Questão 5 
Zoologia e demonologia
Poderíamos dizer que existe um certo paralelismo entre a zoologia e a de-
monologia. Pois, mesmo que cada ser angélico seja completamente diferente 
de qualquer outro, já que é único em sua forma3, é possível englobá-los em 
grandes grupos. Quer dizer, imaginemos que de cada espécie de mamífero 
3 Aqui a palavra forma é usada em seu sentido filosófico, que é diferente do sentido usual que as 
pessoas dão a esse vocábulo. Quando se diz que cada anjo esgota em sua forma, se quer dizer 
o seguinte: entre os homens, por exemplo, a forma é a mesma (a forma humana), porém o que 
individualiza cada ser humano é a matéria. Uma mesma forma, porém com distinta matéria. 
Como os anjos não têm matéria, cada anjo precisa ter uma forma distinta para distinguir-se dos 
outros. Isto vale para todos os seres que existem sem matéria. Por isso Deus tem de ser um, e nunca 
poderia haver dois. A forma divina do Ser Infinito não tem matéria que o individualize. Assim, 
se houvesse duas formas divinas, quem as distinguiria? Seria um só ser, não pode ser de outra 
maneira.
28 SVMMA DAEMONIACA
existisse um único exemplar: um só cervo, um só gamo, um só cavalo, etc. 
Cada qual seria distinto, mas, dentro do mundo animal poderíamos agrupá-
-los em uma espécie, a dos mamíferos, não por serem eles iguais, mas porque 
são mais semelhantes entre si do que os pertencentes à espécie dos insetos, 
dos peixes, etc. Esses mamíferos seriam distintos entre si, porém se poderia 
agrupá-los entre os que têm mais semelhança. Pois o mesmo acontece com as 
naturezas angélicas. Cada uma delas é distinta, mas podem ser agrupadas em 
grandes grupos – no caso em nove deles – segundo diz a Bíblia:
Serafins
Querubins
Tronos
Dominações
Virtudes
Potestades
Principados
Arcanjos
Anjos
As diferenças entre os animais são, às vezes, muito grandes, porém no 
mundo angélico são ainda maiores, pois a forma está livre das leis da biologia 
e da matéria. E, portanto, se grande é a diferença entre uma libélula e uma 
águia, muito maiores são as diferenças entre as naturezas angélicas. Se grande 
é a diferença entre uma joaninha e uma baleia azul, infinitamente maior é a 
diferença entre um anjo da nona hierarquia e outro da primeira.
Natureza demoníaca 29
Questão 6 
Astronomia e demonologia
Existe um certo paralelismo entre a astronomia e a demonologia. O siste-
ma solar é como uma espécie de parábola do que é Deus, os anjos e os demô-
nios. Deus seria o Astro Rei ao redor do qual giram todos os astros do sistema 
solar, pois Ele é o centro. Ele ilumina todos.
O restante dos planetas, asteroides e satélites seriam os santos e os anjos. O 
sistema de rotação dos satélites ao redor dos planetas seria a imagem da ilu-
minação de uns seres angélicos sobre outros. Mesmo que os satélites girem em 
torno de um planeta, também giram ao redor do Sol. Por mais intermediações 
que existam, Deus sempre é o centro. Aliás, os demônios seriam como esses 
corpos que vão se afastando do poder de atração solar. O Sol os atrai, não dei-
xa de atrair nunca, não deixa de iluminar, de dar calor. Entretanto, esses cor-
pos vão-se afastando tanto (livremente) que vivem nas trevas exteriores, no 
frio do vazio e da escuridão. Deus continua a atraí-los a cada instante, a cada 
segundo. Porém, eles já estão infinitamente fora do alcance de Sua atração e 
Sua luz. O Sol não os priva de sua luz; eles é que preferiram a direção oposta.
Muitos homens se perguntam onde está a linha divisória entre a condena-
ção eterna e a salvação. Essa parábola astronômica traz luz sobre o tema, pois 
essa linha é como o limite da força gravitacional. Um pode estar muito longe, 
porém, se ligado pela força gravitacional ao Sol, está unido a Ele. Entretan-
to, mesmo que um vague completamente livre, não se trata da condenação 
eterna.
Se vemos essa parábola astronômica sob o prisma da Terra, devemos fa-
zer certas mudanças (acrescentar as estrelas); também podemos acrescentar 
certos matizes (incluir a Lua). Deus seria o Sol, a Virgem a Lua e os anjos, 
as estrelas. A diferença entre a luz do Sol e a das estrelas seria a imagem da 
diferença entre o ser de Deus e o dos espíritos angélicos. Os anjos seriam um 
pálido e débil pontinho de luz diante da luz cegante e irresistível de Deus. A 
diferença entre a luz das estrelas e a da Lua seria a diferença entre os anjos e a 
30 SVMMA DAEMONIACA
luz de Deus. Sempre se vê em passagens bíblicas que as estrelas, luminosas e 
muito distantes da Terra, são imagens dos seres angélicos4.
Questão 7 
Quais são os nomes dos demônios?
Satã: é o mais poderoso, inteligente e belo dos demônios que se rebelaram. 
Chama-se Satã ou Satanás no Antigo Testamento. Sua raiz primitiva signifi-
caria atacar, acusar, ser um adversário, resistir. Satã significaria adversário, 
inimigo, opositor.
Diabo: é como o Novo Testamento chama a Satã. Diabo vem do verbo gre-
go diaballo, acusar. As pessoas usam a palavra “diabo” e “demônio” como si-
nônimos, porém, a Bíblia, não. A Bíblia sempre usa essa palavra no singular e 
se referindo ao mais poderoso deles. A Sagrada Escritura também o chama de 
o Acusador, o Inimigo, o Tentador, o Maligno, o Assassino desde o princípio, 
o Pai da mentira, o Príncipe desse mundo, a Serpente.
Belzebu: normalmente esse nome é utilizado como sinônimo do demônio e 
provém de Baal-zebul que significa senhor das moscas. Aparece em 2Reis 1,2.
Lilith: aparece em Isaías 34,14. A tradição judaica o considerou como um 
ser demoníaco. Na mitologia mesopotâmica é um gênio com cabeça e corpo 
de mulher, porém com asas e pés de pássaro.
Asmodeu: aparece no Livro de Tobias. O termo procede do persa aesma 
daeva, que significa espírito de cólera.
Seirim: aparecem em Isaías 13,21, Levítico 17,7 e em Baruc 4,35 e se pode 
traduzir como os peludos. Deriva do hebraico sa’ir, que significa peludo ou 
bode.
Demônio: do grego daimon, que significa gênio. Na mitologia greco-roma-
na não era necessariamente uma entidade maléfica. Porém, no Novo Testa-
mento, esse termo sempre é usado para designar seres espirituais malignos.
4 É no âmbito dessa parábola astronômica que temos de compreender passagens como Apocalipse 
12,4; Isaías 14,12-15, entre muitas outras.
Natureza demoníaca 31
Belial ou Beliar: da raiz baal, que significa senhor. Aparece, por exemplo, 
em 2Cor 6,15.
Apolíon: significa destruidor, aparece em Apocalipse 9,11. Sobre ele, diz-se 
que seu nome em hebraico é Abadon, que significa perdição, destruição.
Lúcifer: é um nome extrabíblico que significa estrela da manhã. A imensa 
maioria dos textos eclesiásticos usa o nome deLúcifer como sinônimo do de-
mônio. Entretanto, o padre Gabriele Amorth considera que é o nome próprio 
do demônio segundo em importância na hierarquia demoníaca. Sou inteira-
mente da mesma opinião, e o que conhecemos pelos exorcismos nos confir-
maria que Lúcifer é alguém distinto de Satã.
O nome se origina por ter sido um anjo de natureza especialmente privile-
giada nos Céus angélicos, antes de se rebelar e se deformar. Alguns traduzem 
o nome de Lúcifer como “o que porta a luz”. Essa tradução é errônea, já que a 
palavra em latim era luciferarius.
A título de curiosidade, direi que em um exorcismo um demônio revelou 
que os cinco demônios mais poderosos do Inferno eram nessa ordem: Satã, 
Lúcifer, Belzebu, Belial e Meridiano. É segura essa hierarquia? Só Deus sabe. O 
que é certo, e o sabemos pela Sagrada Escritura e pelos exorcismos, é que cada 
demônio tem um nome. Um nome dado por Deus e que expressa a natureza de 
seu pecado. Outros nomes diferentes de demônios ditos por eles em exorcis-
mos são: Perversão, Morte, Porta, Morada, etc. Outros, entretanto, dizem no-
mes que não sabemos o que significam: Elisedei, Quobad, Jansen, Eishelij, etc.
Em alguns livros de magos e bruxas colocam-se extensas listas de nomes. 
Estas listas inacabáveis são tão exaustivas como inventadas. Não têm mais 
valor que a imaginação de seus autores. Pois alguns não só oferecem a lista 
dos nomes, mas também o número de demônios que povoam o Inferno. Essas 
descrições detalhadas das legiões infernais são puramente inventadas. Ir mais 
além dos breves dados da Sagrada Escritura supõe adentrar no mundo da lite-
ratura, abandonando o terreno seguro e firme da Palavra de Deus. A Teologia 
pode dizer muitas coisas acerca dos demônios, porém sempre de modo geral, 
32 SVMMA DAEMONIACA
trabalhando com conceitos. A Teologia, ao trabalhar com essências, nada 
pode dizer sobre um demônio concreto.
O autor de certa lista de demônios (tão exaustiva como inventada) disse 
que um deles, chamado Xaphán, foi quem sugeriu a Satã que ateasse fogo no 
Céu, porém foram arremessados ao Inferno antes que cometessem tal ato vil. 
Disse, também, que esse demônio está eternamente encarregado de manter 
acesas as chamas do Inferno. Não há mais o que dizer a tal inventor de mitos, 
além de aconselhá-lo a ler esse livro, onde descobrirá que não há forma de ate-
ar fogo no Céu, nem há uma maneira de manter acesas as chamas do Inferno.
Questão 8 
O tempo existe para os demônios?
Sim, o tempo transcorre para os demônios. Não é um tempo como o nosso 
(que é um tempo material), porém, trata-se de um tempo próprio dos espíritos, 
chamado “eternidade” (evo) (“aevum”, em latim). A eternidade é a sucessão de 
atos de entendimento e vontade em um ser espiritual. Os atos da razão e da 
vontade se sucedem provocando um antes e um depois, um antes de determi-
nado ato do entendimento, ou de um ato de querer algo. Desde o momento 
em que há um antes e um depois, há algum tipo de tempo. Portanto, quando 
se diz que os espíritos no Céu e no Inferno estão na eternidade, deve-se com-
preender essa afirmação como uma interminável sucessão temporal, uma su-
cessão de tempo sem fim, entretanto, com um princípio (que é quando foram 
criados). Somente Deus está em um eterno presente, só n’Ele não há sucessão 
de tempo de nenhuma forma. N’Ele não transcorreu nunca nem um segundo, 
nem um só antes nem depois. A eternidade de Deus é qualitativamente distin-
ta da eternidade do tempo material (com um princípio, porém sem fim) e da 
eternidade do eterno (evo) (também com um princípio e sem fim).
Sobre esse tipo de tempo, a eternidade do eterno (evo), São Tomás de Aqui-
no falou, já no século XIII, na Primeira Parte da Questão X, artigo V de sua 
Svmma Theologica, e talvez para alguns possa parecer que seu raciocínio era 
excessivamente teórico. Porém, depois de haver escutado relatos de pessoas 
Natureza demoníaca 33
que passaram por experiências próximas da morte, que viveram a experiência 
da separação do corpo, de entrar em um túnel, etc., comprovei que, quando 
se perguntava a eles se havia tempo nessa experiência, se notaram o tempo 
transcorrer, as explicações que davam concordavam perfeitamente com o que 
Santo Tomás de Aquino explica sobre a eternidade (o evo) ao falar dos espíri-
tos sem matéria.
Questão 9 
Em que pensa um demônio?
Todo anjo caído conserva a inteligência da sua natureza angélica, e com 
ela segue tomando conhecimento. Conhece e indaga com sua mente o mundo 
material e o espiritual, o mundo real e o conceitual. Como ser espiritual, emi-
nentemente intelectual, não há dúvida de que está profundamente interessado 
pelas questões conceituais. Ele sabe muito bem que a Filosofia é a mais elevada 
das ciências. Inclusive sabe que a Teologia está sobre a Filosofia, porém odeia 
Deus. No conhecimento encontra prazer, mas também sofrimento. Ele sofre 
cada vez que esse conhecimento o leva a considerar Deus. E o demônio per-
cebe continuamente a ordem e a glória do Criador em todas as coisas. Até nas 
coisas aparentemente mais neutras ele encontra o reflexo e a lembrança dos 
atributos divinos. 
No entanto, o demônio não sofre o tempo todo. Muitas vezes, simples-
mente, pensa. Sofre apenas em certos momentos, quando se lembra de Deus, 
quando volta a ter consciência de seu estado miserável, de sua separação de 
Deus, quando lhe atormenta a consciência. Umas vezes sofre mais e outras 
menos, pois seu sofrimento não é uniforme, entretanto estas variações se dão 
segundo a intensidade que marca a deformidade moral de cada demônio.
Seria horrível pensar nos demônios como seres permanentemente em so-
frimento, em cada instante, em cada momento. A separação de Deus produz 
sofrimento por toda a eternidade, mas é o sofrimento de uma máquina de tor-
mento em ação constante. O demônio nem sempre está a tentar, nem sempre 
está contorcido de dores espirituais.
34 SVMMA DAEMONIACA
Questão 10 
Qual a linguagem dos demônios?
A linguagem dos demônios é exatamente a mesma que a dos anjos. Os an-
jos não necessitam nenhuma língua, nenhum idioma para comunicar-se entre 
si, pois o fazem com espécies inteligíveis. As espécies inteligíveis são os pen-
samentos que se transmitem entre eles. Nós nos comunicamos por meio das 
palavras; eles se comunicam diretamente pelo pensamento em estado puro, 
sem necessidade de mediações sensíveis ou de signos. As espécies inteligíveis 
podem ter comunicação de pensamentos, de imagens, de sentimentos, etc. 
A transmissão dessas espécies inteligíveis é telepática, produz-se à vontade 
e pode dar lugar a diálogos como os que temos. As inteligências humanas 
comunicam nossos pensamentos por meio de palavras, que são sinais, en-
quanto os espíritos podem transmitir entre si o pensamento em estado puro.
Questão 11 
Onde estão os demônios?
Tanto as almas dos condenados como os demônios não podem situar-se 
nas coordenadas do espaço. Tampouco se pode dizer que estão em outra di-
mensão. Que significa estar ou não em outra dimensão para o espírito? Sim-
plesmente não estão em nenhum lugar. Existem, porém não estão nem aqui 
nem ali.
Dizemos que um demônio está em determinado lugar quando ele atua em 
determinado lugar. Se um demônio está tentando alguém aqui, significa que 
ele está aqui. Se um demônio possui um corpo ali, ele está ali. Se um demônio 
move uma cadeira em um fenômeno poltergeist, dizemos que está naquele 
lugar concreto. Porém, na realidade, não está ali, simplesmente está atuando 
naquele lugar.
O Inferno, o Céu e o Purgatório são estados. Depois da ressurreição, os 
corpos dos condenados estarão em um lugar concreto e, por isso, o Inferno 
será um lugar. Os corpos dos bem-aventurados também ocuparão um lugar. 
Natureza demoníaca 35
Por isso a Bíblia diz: “…e vi um Céu novo e uma Terra nova” (Ap 21,1). Ali os 
bem-aventurados habitarão na Terra restaurada de novo depois da destruição 
que narra o Apocalipse. E se os bem-aventurados habitarão corporalmente esta 
Terra, onde estarão os homens condenados?Nada se pode afirmar com segu-
rança. Alguns pensam que seu lugar estará no centro desse mesmo mundo.
Questão 12 
Conhecem o futuro?
Eles não veem o futuro, porém, às vezes, podem conjecturá-lo. Com sua 
inteligência, muito superior à humana, podem deduzir pelas causas alguns fa-
tos que sucederão no porvir. O que pertence somente à liberdade humana está 
indeterminado, e eles não têm conhecimento. Não sabem o que eu decidirei 
livremente. Porém, com sua inteligência superior, veem os efeitos das coisas 
onde nós não veríamos nada. Sem dúvida, há ocasiões em que eles sabem 
com toda segurança o que acontecerá, algo que nem o mais inteligente dos 
humanos poderia suspeitar, por mais que analisasse os fatores que estão no 
presente. Em outras ocasiões, nem uma natureza angélica da maior hierarquia 
poderia deduzi-lo. A liberdade humana é um grande fator de indeterminação 
em suas previsões.
Questão 13 
Um demônio pode fazer algum ato bom?
O demônio não está sempre fazendo o mal; muitas vezes, simplesmente, 
pensa. E nisso não realiza mal algum, é um mero ato de sua natureza. Aliás, 
o demônio não pode fazer atos morais sobrenaturais. Ou seja, não pode fazer 
um ato de caridade, de arrependimento sobrenatural, de glorificação sincera 
a Deus, etc., pois para tais atos se necessita de uma graça sobrenatural. Pode 
glorificar a Deus, porém, à força, não porque queira fazê-lo. Pode arrepender-
-se de ter se afastado de Deus, mas, sem pedir perdão, repelindo somente o 
mal que lhe sobreveio dessa ação, sem a dor de ter ofendido a Deus. E assim, 
36 SVMMA DAEMONIACA
com sua inteligência e sua vontade, é capaz de fazer muitos outros atos na-
turais. Entretanto, o demônio nunca mostrará a mínima compaixão, nem o 
menor ato de amor. Seu coração somente odeia, é insensível ao sofrimento 
dos demais.
Questão 14 
O demônio pode experimentar algum prazer?
O demônio não sente com nenhum de nossos cinco sentidos. Sente somente 
com sua inteligência e sua vontade. Só goza com a sua inteligência e a sua von-
tade. Pode parecer pouca coisa, mas não é. Os prazeres intelectuais podem ser 
tão variados quanto os de nossos cinco sentidos. Na realidade, são muito mais 
variados. O gozo que nos proporciona uma ópera, uma sinfonia, uma partida 
de xadrez ou um livro são prazeres eminentemente espirituais, uma vez que 
essa informação penetra em nosso espírito por meio de aparências sensíveis. O 
mundo espiritual visto por nós através desse nosso mundo pode parecer sem 
sabor, sem cor, entediante, porém isso é um erro. O mundo espiritual é muito 
mais variado, rico e deleitável do que nos oferece o cosmo material.
Os demônios gozam dos prazeres, pois suas duas potências espirituais (co-
nhecimento e vontade) estão intactas. A ação de sua natureza ficou intacta 
apesar do afastamento de Deus. O que não podem fazer é amar a nada com 
amor sobrenatural. A capacidade de amar foi aniquilada na psicologia do de-
mônio. Ele conhece o amor, porém não ama. O prazer que sente ao ter êxito 
em fazer um mal é exatamente o mesmo que sente uma pessoa na Terra ao 
vencer seu inimigo. Trata-se de um prazer cheio de ódio, sem sossego.
Questão 15 
O demônio é livre para fazer mais ou menos mal?
O demônio faz o mal quando quer, nada o obriga a fazê-lo. É um ser livre, 
suas ações ficam a cargo de sua vontade. Deseja fazer o mal, e para consegui-
-lo, terá de tentar. Porém, para tentar, terá que insistir. Uns demônios insistem 
Natureza demoníaca 37
mais, outros desistem antes. Há demônios mais firmes e alguns mais pregui-
çosos. Há demônios que pelo ardor de sua cólera perseguem as almas como 
verdadeiros predadores. Outros estão abatidos numa espécie de depressão e 
não possuem tanto ódio para constantemente estarem perseguindo almas. 
Mas aqui falamos de vontades, já que todos odeiam a Deus e todos são caça-
dores de almas.
Questão 16 
Quais são os mais malignos de todos os demônios?
Poderia parecer que os demônios mais perversos têm de ser os de maior 
hierarquia, mas não é assim. Não há relação entre natureza e pecado. Uma 
natureza angélica da última hierarquia pode ser muito mais perversa que a de 
um anjo superior. O mal que pode cometer um ser livre não depende da inte-
ligência nem do poder que possui. Colocamos como exemplo de malignidade 
o chefe da SS5 nazista, Heinrich Himmler. Porém, não pode ser que algum de 
seus subordinados fosse pior? Certamente que sim. Entre os homens vemos 
que pode existir alguém menos inteligente em um posto muito menor, mas 
muito mais perverso que um grande ditador. E o dito para o mal vale para o 
bem. Um anjo da última hierarquia pode exercitar mais suas virtudes que um 
da mais alta hierarquia. Da mesma maneira que uma velhinha humilde sem 
estudos, que se dedicou aos serviços domésticos durante sua vida toda, pode 
ser mais santa que um arcebispo ou um sumo pontífice.
Uma pergunta interessante que surge de tudo isso é se a hierarquia que nos 
fornece a Bíblia (anjos, arcanjos, principados…) é uma hierarquia da graça ou 
da natureza. Ou seja, os serafins são os mais santos ou só os mais poderosos; 
é deles que mais brilha o fulgor da inteligência. Considero que se trata de uma 
hierarquia segundo a natureza, pois as descrições visuais dos quatro viventes 
ao redor do Cordeiro (os anjos de maior hierarquia) transmitem a impressão 
de poder e conhecimento, tal qual os nomes das nove hierarquias. Os nomes 
de “principado” ou “potestade”, para citar dois exemplos, indicam mais poder. 
Além disso, é mais simples fazer hierarquia da natureza do que da graça.
5 SS é a sigla de Schützstaffel, a “Tropa de Proteção” nazista. 
 39
PARTE II
A tentação e o pecado
Questão 17 
Por que pecamos?
A tentação é a situação em que a vontade tem de escolher entre duas 
opções, sabendo que uma opção é boa e a outra má, porém se sente atraída 
para a última. Sabe que se trata da má, mas, por alguma razão, sente atra-
ção para ela. O erro de cair na tentação não é falta de inteligência, não é um 
problema de debilidade da razão, pois se não soubesse que essa opção era a 
má, pecaria por ignorância e, portanto, não pecaria. Para pecar a pessoa deve 
saber o que está escolhendo. Não existe pecado sem má consciência. Isso é o 
que faz o pecado tão interessante do ponto de vista intelectual: por que esco-
lhemos o mal sabendo que é mal? É um verdadeiro mistério.
Uma resposta simples, que não é falsa, mas que tampouco explica o as-
sunto, é contestar que pecamos por debilidade; o que é certo, mas também é 
certo que não somos tão débeis para não resistirmos. Se não fôssemos capazes 
de resistir, aí não haveria pecado. Não teríamos escolha. Se existe pecado é 
porque podemos escolher. E sabemos por experiência que escolhemos o que 
queremos. Se queremos fazer algo, nada nem ninguém nos pode obrigar a 
querer outra coisa. Logo, por mais débeis que sejamos, sempre é possível resis-
tir. Como se vê, não podemos nos desculpar nem pelo campo da inteligência 
nem pelo da vontade. Fazemos o mal porque queremos.
Poderíamos dizer que cometemos o mal pelo bem que conseguimos com 
ele. Mas devemos nos lembrar que a inteligência percebe que esse bem é uma 
40 SVMMA DAEMONIACA
maçã envenenada. Percebe que é um “pseudobem”, que acarreta mais mal que 
o bem que possui. Por isso, por mais desejável que nos pareça esse bem, a 
consciência nos diz: “Não deves escolher essa opção”. Assim dizer que faze-
mos o mal porque nos parece um bem é certo, mas também é igualmente certo 
que sabemos que esse bem oferecido é, no final das contas, um mal. De modo 
que a explicação de que fazemos o mal pelo bem que nos oferece, é uma ex-
plicação adequada, é algo que nos ajuda a compreender o pecado, mas não o 
explica completamente. Talvez nunca possamos, enquanto estivermos na Ter-
ra, explicar completamente esse mistério da maçã envenenada que comemos 
cientes do veneno.
Questão 18 
Quantas tentações procedem do demônio?
Não há nada que possa dizer quantas tentações procedem do demônio 
e quantas de nosso interior.Mas parece razoável pensar que a maior parte 
das tentações procede de nós mesmos. Não necessitamos de ninguém para 
sermos tentados. Basta a liberdade para poder usá-la mal. Basta ter de tomar 
uma decisão em uma eleição para optar conscientemente pela decisão errada. 
Conscientemente, sem paliativos, sem poder culpar a ninguém, a não ser a 
nós mesmos.
É certo que o demônio tentou a primeira mulher. Mas sem o demônio po-
deríamos pecar igualmente. A tentação não necessita dele; ela basta a si mes-
ma. Se não, quem tentou o demônio?
Questão 19 
Podemos ser tentados além de nossas possibilidades?
O ser humano é fraco. Sendo assim, Deus cuida de nós como de crianças. 
Por isso diz a Bíblia:
“Não tendes sido provados além do que é humanamente suportável. Deus é 
fiel, e não permitirá que sejais provados acima de vossas forças. Pelo contrário, 
A tentação e o pecado 41
junto com a provação ele providenciará o bom êxito, para que possais suportá-
-la” (1Cor 10,13).
Que a tentação deve ser permitida por Deus é algo que aparece de maneira 
muito clara no Livro de Jó. Porém, em outro lugar da Bíblia, justo antes da 
Paixão, Jesus diz a São Pedro:
“Simão, Simão! Satanás pediu permissão para peneirar-vos, como se faz 
com o trigo” (Lc 22,31).
“Pediu permissão”, logo a crença da tentação deve ser permitida. Não afir-
mar essa doutrina significaria que estamos nas mãos de um destino cego e 
que qualquer um, por mais fraco que for, pode ser tentado com um poder e 
uma intensidade acima das forças que tem para suportar. Portanto, a mensa-
gem é tão clara como tranquilizadora: Deus, como Pai que é, vela para que 
nenhum de Seus filhos se veja pressionado mais do que pode suportar. De 
tudo isto se percebe a sabedoria que há por trás do velho ditado: Deus aperta, 
mas não afoga.
Questão 20 
Por que o diabo tentou Jesus?
O diabo sabia que Jesus era Deus, sabia, portanto, que era impossível que 
pecasse. Por que O tentou então? E mais, sabia que o feito de resistir a qual-
quer tentação O santificaria mais como Homem. E que, portanto, o demônio, 
ao tentá-l’O na realidade, por fim e sem querê-lo, se converteria em instru-
mento de santificação de Jesus. Por que então fazer algo inútil e que serviria 
para o bem? A resposta é simples: o diabo não pôde resistir. A tentação foi 
demasiadamente grande, mesmo para o diabo. Tentar a Deus! Não podia dei-
xar escapar aquela ocasião. Sabia que era impossível fazê-l’O pecar, porém não 
pôde resistir à tentação de tentá-l’O. A situação era como a do fumante que 
sabe o mal que o cigarro faz, mas não pode deixar de fumar. Assim, o diabo 
sabia que tentá-l’O era um erro, porém caiu na tentação. A criatura tentando 
Deus! Era lógico que cairia no erro de tentar, pois para resistir a tal tentação o 
42 SVMMA DAEMONIACA
demônio teria necessitado da virtude da fortaleza. E qualquer coisa podemos 
pedir ao demônio, menos virtude.
Da mesma maneira, às vezes, os demônios fazem coisas que a longo prazo 
os prejudicam, porém não resistem a fazer um mal agora, ainda que, conten-
do-se, poderiam conseguir um mal maior depois. Por tudo isso se vê que até o 
demônio sofre tentação. Tentação que procede do seu próprio interior.
Questão 21 
O demônio sabe que Deus é impecável?
Sabe-o perfeitamente, tão bem como o melhor dos teólogos, não tem a me-
nor dúvida disso. Não obstante, quando o demônio tentou a Deus feito Ho-
mem, tentou se autoconvencer de que, talvez, não fosse tão bom como acre-
ditava. Talvez Deus fosse fraco, talvez houvesse algum calcanhar de Aquiles 
na Divindade que o demônio desconhecia. Se fizesse cair algo na Perfeição, a 
Perfeição se desmoronaria. Conseguir que Deus pecasse parecia impossível, 
porém tinha de tentar. Se conseguisse desagradar a Deus, o demônio não se-
ria um pecador, pois o bem e o mal não existiriam. Bastava um único pecado 
venial da Santíssima Trindade para que a linha divisória entre o bem e o mal 
ficasse desfigurada para sempre, para que pudesse afirmar que, na realidade, 
nunca existira. Porque a santidade de Deus era a garantia dessa divisão. Se 
Deus pecasse apenas uma vez durante toda a eternidade, já não seria Deus. Já 
não haveria garantia alguma dessa distinção; nem garantia, nem fundamento.
A própria inteligência do demônio lhe dizia que tal empreitada seria im-
possível, mas seu desejo o levou a deformar seus próprios pensamentos. Pre-
cisava tentar o impossível.
A tentação e o pecado 43
Questão 22 
É possível distinguir as tentações que procedem 
de nós mesmos das tentações do demônio?
A tentação que provém do demônio não se distingue em nada dos nossos 
próprios pensamentos, já que o demônio tenta infundir em nós espécies inte-
ligíveis. Ou seja, o demônio introduz em nossa inteligência, memória e imagi-
nação objetos apropriados a nosso entendimento que em nada se distinguem 
dos nossos pensamentos. Uma espécie inteligível é justamente isso, o que há 
em nosso pensamento quando exercitamos a ação de pensar. Imaginar uma 
árvore, resolver uma equação matemática, desenvolver um raciocínio lógico, 
compor uma frase, tudo isso são espécies inteligíveis. Nós as produzimos no 
interior do nosso espírito racional, porém um anjo também pode produzi-las 
e comunicá-las silenciosamente.
Comunicamos nossas espécies inteligíveis, sobretudo, pela linguagem, ain-
da que também possamos fazê-lo, por exemplo, com a pintura ou a música. 
Porém, sempre por um meio externo, enquanto o anjo pode transmitir essa 
espécie sem necessidade de meio algum. Por isso não existe maneira de dis-
tinguir o que vem de dentro de nós, de um anjo, de um demônio ou de Deus 
diretamente.
Pois bem, as pessoas que levam muitos anos esforçando-se na vida espiri-
tual, com uma vida de oração muito intensa, podem advertir que há tentações 
que aparecem com uma intensidade bastante surpreendente e com uma es-
tranha persistência sem que tenha motivo para isso. Por exemplo, a leitura de 
um livro contra a fé produz tentações contra a fé, é lógico; porém, se essa ten-
tação aparece logo no início muito intensa e persiste durante semanas, pode 
ser sinal de que seja uma tentação do demônio. Não é uma certeza. De modo 
geral, as tentações sem causa razoável, muito intensas e persistentes, podem 
proceder do demônio. No entanto, com essas características tão vagas nunca 
podemos estar cem por cento seguros.
A nós sacerdotes chegam pessoas de intensa vida de oração e que, sem ja-
mais haver tido nenhum problema psicológico, sentem desejos de blasfemar 
44 SVMMA DAEMONIACA
contra Deus ou de pisar num crucifixo, por exemplo. Se essas perturbações 
são crônicas, é razoável pensar que têm sua origem em uma enfermidade. 
Porém, se sua aparição é repentina e a pessoa parece ter mente sã, existe razão 
para suspeitar que sejam tentações procedentes do demônio.
O psiquiatra que tiver lido essa explicação, seguramente pensará que o des-
crito se deve a um processo de ação-reação. A tais psiquiatras queremos dizer 
que conhecemos perfeitamente esses mecanismos do subconsciente, porém 
também os recordamos de que o demônio existe. E sua existência fica mais 
evidente quando a tentação obsessiva desaparece prontamente sem jamais 
voltar a aparecer. As tentações do demônio nunca são crônicas. E, por vee-
mentes que sejam, quando desaparecem, não deixam a mais leve sequela na 
psique que as padeceu.
Questão 23 
O que fazer diante da tentação?
Repeli-la de pronto. A tentação nada pode nos fazer se a repelimos; se não 
dialogamos com ela, é inofensiva. Porque desde o momento em que dialoga-
mos com ela, em que ponderamos os prós e os contras do que nos diz, em que 
consideramos o que nos propõe, desde esse instante nossa fortaleza se enfra-
quece, nossa oposição se debilita. Uma vez iniciado o diálogo, necessitamos de 
muito mais força de vontade para repeli-la.
Outra coisa que nós confessores observamos, é que alguns penitentes, mui-
to devotos, às vezes se agoniam diante de certas tentações que os empurram 
a cometer grandes pecados. Essas pessoas, devotase religiosas, não explicam 
como lhes vêm esses pensamentos e, além disso, se sentem muito culpadas; 
culpadas e impotentes. Tendo compreendido o que é uma espécie inteligível 
infundida por um demônio, compreende-se que o melhor modo de trabalhar 
contra ela é ignorá-la, fazer justamente o contrário do que nos propõe ou se 
pôr a rezar. Desesperar-se não serve para nada. Então, se um não se desespera, 
aquele que se desespera é o demônio.
A tentação e o pecado 45
O demônio nos pode introduzir pensamentos, imagens ou recordações, 
porém não pode introduzir-se em nossa vontade. Podemos ser tentados, mas 
ao final fazemos o que queremos. Nem todos os poderes do Inferno podem 
forçar alguém a cometer o mais leve pecado.
Questão 24 
O demônio pode ter alguma tática para nos tentar?
O demônio é um ser inteligente, não é nenhuma força ou energia. Portan-
to, devemos compreender que a tentação tende a ser um diálogo. Um diálogo 
entre a pessoa que resiste e o tentador. Se a pessoa resiste a considerar a ten-
tação, essa não será mais que a insistência por parte do demônio, porém sem 
resposta de nossa parte.
O demônio pode estar ao nosso lado durante muito tempo, analisando-
-nos, conhecendo-nos e tentando-nos, atacando-nos em nosso ponto mais 
fraco. O demônio pode ser extraordinariamente pragmático, ou seja, sabe 
quando tem suas possibilidades de êxito, por isso tenta somente quando sabe 
que tem alguma possibilidade. Se ele percebe que uma pessoa não vai come-
ter um pecado grande, pode tentar para que cometa algo menos grave. Se ele 
sabe que nem sequer isso pode conseguir, tenta só para que cometa alguma 
imperfeição, nem sequer um pecado. E dentro do campo da imperfeição, ele 
tentará aquilo que sabe que é possível. Por exemplo, ele sabe que tentar a gula 
a um asceta pode ser perda de tempo. Porém, o demônio sabe talvez que tem 
maiores possibilidades de êxito se tentá-lo a exceder-se no jejum. E se vê que 
por esse caminho tem êxito, começará a tentá-lo para que se exceda no jejum 
de um modo que mais favoreça sua soberba ou de um modo que seja pior para 
sua saúde, etc. Outro exemplo: é sabido que não tem sentido tentar a uma 
monja para que deixe a oração; o que vê com melhor possibilidade é tentá-la 
para que prolongue o tempo de oração em detrimento do trabalho que tem 
obrigação de fazer.
Em outras ocasiões, o demônio atua de maneira mais realista e procura 
conseguir que a alma creia que já não tem mais que obedecer seu confessor, 
46 SVMMA DAEMONIACA
já que é um homem menos espiritual que ela mesma. O demônio não tenta de 
qualquer maneira, mas analisa e ataca onde vê que tem alguma possibilidade. 
E, no geral, ele tem alguma possibilidade onde justamente o homem virtuoso 
crê que tem menos possibilidades.
Coloquei exemplos de tentações dirigidas a homens de oração e ascéticos, 
porque o homem entregue ao pecado é um homem sem proteção, sem a pro-
teção das virtudes. Sem essas couraças, todo seu espírito apresenta múltiplos 
flancos desguarnecidos, expostos à ação das tentações. Se Deus não protege 
essas almas, qualquer uma delas pode ser combustível do fogo de suas pró-
prias paixões, ajudado pela ação dos demônios. Por isso pedimos no Pai-nosso 
que nos livre do mal. Isto demonstra que, mesmo dispondo da liberdade para 
resistir, convém que peçamos ao Criador que nos proteja. Por essa razão, Deus 
nos colocou um anjo da guarda, para que as inspirações malignas sejam com-
pensadas pelas inspirações do bem. Além disso, se alguém é tentado e ora, a 
tentação desaparece. Ela é incompatível com a oração. A oração cria primeiro 
uma barreira contra a tentação, pois nossa vontade e nossa inteligência se cen-
tram em Deus. E, se insistirmos um pouco mais, o demônio não poderá resistir 
e fugirá.
Questão 25 
Deus pode tentar?
“Ninguém, ao ser tentado, deve dizer: ‘É Deus que me tenta’, pois Deus não 
pode ser tentado pelo mal e tampouco tenta a alguém” (Tg 1,13).
Este versículo nos ensina duas coisas: a primeira, que Deus não pode ser 
tentado. O que se pode oferecer como tentação a Deus que Ele já não O tenha? 
Que desfrute, que prazer, que gozo Ele já não possui? Em Deus a tentação é 
metafisicamente impossível, pois não tem nada a oferecer-Lhe.
A segunda coisa que nos ensina esse versículo é que Deus não tenta nin-
guém. Deus é bom, por isso não pode tentar ao mal. Deus só pode conduzir 
A tentação e o pecado 47
para o bem, nunca nos apresentará o mal como bem, nunca nos induzirá 
ao erro.
Se Deus não pode ser tentado, por que o demônio tentou Jesus? Porque 
Deus feito Homem poderia, sim, ser tentado. Do mesmo modo, é impossível 
para Deus sofrer, mas Deus encarnado pôde sofrer.
Questão 26 
Por que Deus permite a tentação?
Se Deus não tenta, por que a permite? Teremos a resposta no versículo que diz:
“Considerai uma grande alegria, meus irmãos, quando tiverdes de passar 
por diversas provações, pois sabeis que a prova da fé produz em vós a constân-
cia” (Tg 1,2-3).
Se não existisse a tentação, não poderia haver essa constância da virtu-
de que resiste sempre contra toda sedução tentadora. Dito de outro modo, 
existem determinados tipos de virtudes que jamais existiriam sem ter antes 
resistido à tentação.
Isto nos leva a pensar o seguinte: Deus poderia ter contido os demônios 
de maneira que nunca pudessem interferir na história dos homens. Porém, 
Deus sabia que os demônios, mesmo se por um lado fossem causa de males, 
também seriam uma oportunidade de maiores bens, pois fariam com que a 
virtude fosse mais valiosa. De um certo modo, poderíamos dizer que aceitou 
a possibilidade de que haveria mais obscuridade neste mundo se conseguisse 
com isso que a luz fosse mais pura e luminosa. Do contrário, bastaria uma 
simples ordem de Deus para que nem um só demônio pudesse entrar jamais 
em contato com algum ser humano. Logo, se permitiu esse contato, é porque 
sabia que disso se viriam bens.
48 SVMMA DAEMONIACA
Questão 27 
O que é a morte eterna?
Um espírito (como uma alma) é indestrutível, não sofre rupturas, não so-
fre desgastes, não pode ser dividido. O espírito não pode morrer. Continuará 
existindo independentemente dos pecados que cometa, e, por mais que queira 
morrer, a vida permanecerá com ele. Porém, o que queremos dizer com “pe-
cado mortal”, “morte eterna” e outras expressões similares é que a vida sobre-
natural de uma alma ou espírito pode, sim, morrer. O pecado mortal acaba 
com a vida sobrenatural. O espírito segue existindo, mas com uma vida mera-
mente natural. A vontade e a inteligência com todas as suas potências seguem 
operando. Mas não há mais a vida da graça. O espírito, enquanto estiver sem a 
graça, estará como um cadáver. Essa expressão pode parecer hiperbólica, mas 
é exata. O espírito que peca mortalmente é como um cadáver inanimado, ina-
nimado pela graça santificante. Desde esse momento, só vive para a natureza 
e por sua natureza. Seu espírito está desprovido de sobrenatureza.
Desde o momento em que a graça deixa de vivificar um espírito, como o 
que sucede com um corpo que já não está vivificado por uma alma, começa a 
corrupção. Assim como um corpo começa a transformar-se em corrupção, as-
sim o espírito começa a corromper-se, à medida que sua vontade vai cedendo.
São muitos os homens que vivem só para a natureza de seu ser, esquecendo-
-se completamente a sobrenatureza que Deus lhes daria de bom grado. O nível 
de corrupção varia muito segundo a pessoa. Mas se pudéssemos nos aproxi-
mar de alguns desses espíritos, veríamos que são verdadeiros cadáveres, que 
expelem um mau cheiro como aqueles em avançado estado de decomposição.
Questão 28 
Qual é o processo que leva à morte eterna?
“Antes, cada qual é tentado por sua própria concupiscência, que o arrasta e 
seduz. Em seguida, a concupiscência concebe o pecado e o dá à luz; e o pecado, 
uma vez maduro, gera a morte” (Tg 1,14-15).
A tentação e o pecado 49
O Apóstolo São Tiago descreve em dois versículos com uma incrível pro-
fundidade, do início ao fim, o processoque produz a morte da alma. O pecado 
não se produz sem motivo, nem de súbito, nem é algo que surge abruptamente 
diante de nós sem que tenhamos culpa, uma vez que há, como bem descreve o 
Apóstolo, todo um processo. A tradução do grego destes dois versículos deve 
ser muito precisa para não perder as matizes que existem nos verbos. O pro-
cesso descrito é o seguinte:
As paixões
↓
Gestação do pecado
↓
Dá-se à luz o pecado
↓
O pecado recomeça uma gestação
↓
Dá-se à luz a morte
A imagem de uma mulher gestando em seu ventre, durante meses, uma 
criança é a imagem da pessoa que gesta a iniquidade em seu interior. O pe-
cado aparece em um dado momento, em um momento concreto, um segun-
do antes não existe o pecado, um segundo depois, sim. Mas esse pecado se 
produz, vem à luz porque antes houve uma prévia gestação. E assim como 
no mundo da zoologia, quanto mais longa é a gestação, maior é o que se dá à 
luz; assim também no campo espiritual: quanto maior é o pecado, maior é a 
gestação necessária para dar esse passo.
Aqui está a resposta à pergunta que tantas pessoas se fazem sobre como é 
possível que tal indivíduo tenha cometido tal barbaridade. Nenhuma barba-
ridade moral aparece sem um processo que, ainda que oculto aos olhos dos 
demais, se vai desenrolando no interior da pessoa.
50 SVMMA DAEMONIACA
O Apóstolo São Tiago usa a expressão “dar à luz” porque o pecado real-
mente foi “concebido” e “gestado” previamente. A sedução e a vontade 
atuam como o espermatozoide e o óvulo. A paixão trata de abrir caminho, de 
penetrar na vontade. Porém, se esta não a acolhe, a sedução fica estéril, não 
produz nada. Enquanto a vontade se fecha, nem milhares e nem milhões de 
espermatozoides conseguirão penetrar em seu seio. Se a vontade acolher a 
sedução, ocorrerá irremediavelmente a concepção do pecado. Mesmo assim, 
o pecado pode ser eliminado. Caso isso não aconteça, ele se reproduzirá. O 
pecado resulta em mais pecado, reproduz-se, aumenta em quantidade, muda 
qualitativamente, transformando-se em faltas piores.
Se o primeiro pecado tem um processo anterior, o pecado que se deixa nas-
cer também começa um novo processo, o qual leva à morte: a morte da alma. 
E a morte da alma leva à morte eterna.
A alma invadida pelo pecado é como uma alma morta, pois não tem vida 
sobrenatural dentro de si. E se a alma morta decide permanecer até o final 
nesse estado de corrupção, está destinada à morte eterna, à condenação. Co-
nhecer tudo isso nos leva a valorizar ainda mais a ação sobrenatural da graça 
divina, que em qualquer momento desse processo (enquanto ainda não ocor-
reu a morte eterna) pode vivificar a alma. O perdão de Deus não é somente 
perdão, mas vivificação. E o que já disse aqui para o pecado e as paixões, vale, 
só que ao contrário, para a graça e a virtude. A vida em Cristo é um processo, 
uma vida que se desenvolve.
 51
PARTE III
A ação do demônio no homem 
e na natureza
Questão 29 
Que diferença existe entre natural, preternatural e sobrenatural?
Estes três termos são usados de forma bastante equívoca nos sermões. No 
entanto, o significado de cada um destes termos é preciso e inequívoco.
Natural: é a atuação que se adequa ao trabalho da natureza. Se subentende, 
ao falar da natureza, que nos referimos à natureza do universo material.
Preternatural: é a atuação que vai além das obras da natureza do universo 
material. O que é fruto da atuação de uma natureza angélica ou demoníaca é 
preternatural. A palavra provém de praeter naturam, mais além da natureza.
Sobrenatural: é a atuação que vai além de qualquer natureza criada. Essa 
forma de trabalhar é própria de Deus somente.
A natureza material pode realizar coisas surpreendentes, porém sempre se-
gundo as leis do cosmo material. Os demônios podem fazer levitar um objeto 
no ar, transformar algo instantaneamente, etc. Eles podem fazer coisas que 
vão mais além das possibilidades do mundo material, porém não podem atuar 
além das leis da sua natureza angélica, pois não podem tudo, nem sequer no 
mundo material. Deus, entretanto, é capaz de criar um órgão do nada; um 
demônio não poderia.
52 SVMMA DAEMONIACA
Estas diferenças também são válidas nas coisas que acontecem em nossa 
alma. Por exemplo, uma bela paisagem pode recordar a beleza de Deus, é algo 
natural. Porém, um anjo ou demônio podem enviar diretamente inspirações 
para nossa mente. Deus vai mais além, pode enviar graças espirituais (de ar-
rependimento, de ação de graças, etc.) ao mais profundo de nosso espírito, 
produzindo mudanças radicais em um segundo. Toda a atuação da graça é 
sobrenatural. E a graça sempre é enviada diretamente por Deus.
Questão 30 
Os demônios aumentam seu castigo pelo 
mal que causam aos homens?
Já dissemos que cada demônio é livre para fazer mais mal ou menos mal 
contra os homens. Parece lógico, então, que isso acarrete algum tipo de cas-
tigo suplementar. Nunca pensei que o Juízo Final representasse algo além de 
uma proclamação pública de sua pena, porém, segundo o que aprendi nos 
exorcismos, parece que o Juízo Final será algo mais que uma mera declaração 
solene, pois, pelo que dizem os demônios, terão que dar conta do que fizeram 
contra os homens ou contra Deus até o momento em que estiverem total-
mente fora do nosso caminho e destino. No Juízo Final nenhum condenado 
deixará de estar condenado, todos terão de prestar contas do mal infligido no 
exercício de sua liberdade.
Questão 31 
É possível fazer um pacto com o demônio?
As pessoas podem pensar que os pactos com o demônio só existem na lite-
ratura, mas estão equivocadas. Há pessoas que conscientemente pactuam com 
o demônio e lhe entregam a alma para conseguir algo nessa vida. A ideia de 
um pacto formal com o demônio aparece pela primeira vez no século V, nos 
escritos de São Jerônimo. Esse padre da Igreja conta como um jovem recorreu 
a um mago para obter favores de uma bela mulher, e como aquele lhe impôs 
A ação do demônio no homem e na natureza 53
como pagamento por seus serviços a renúncia a Cristo, por escrito. Uma se-
gunda aparição desse tipo de pacto encontramos no século VI, na lenda de 
Teófilo; que aceita ser um servidor do demônio e assina um pacto formal. Essa 
lenda se expandiu pela Europa durante a Idade Média.
É possível um pacto com o demônio. Certamente, uma pessoa pode assinar 
um papel, porém não vai se apresentar ao demônio nem para entregar-lhe 
o papel, nem para recolhê-lo. Quando uma pessoa faz um pacto desse tipo, 
sempre espera que apareça alguém, mas é ele mesmo quem tem de escrever os 
termos. Uma vez firmado o pacto, não lhe aparece nada, algo que pegue o pa-
pel nas mãos. Tudo isso deve ser muito desanimador para quem esperava que 
lhe sucedesse algo. Ainda assim, se alguém invoca repetidas vezes o demônio, 
coisas podem lhe acontecer. A essa cena tão pouco teatral, tão decepcionante 
para quem acreditava haver alguma aparição, deve-se avisar:
I – Firmar um pacto não significa obter uma vida de riquezas, honras e 
luxúria desenfreada. Eu conheci pessoalmente duas pessoas que fizeram esse 
pacto e, francamente, seu nível de vida ficou pior. Tampouco parece que o de-
mônio fosse especialmente generoso com eles no aspecto carnal. Isso acontece 
porque o demônio não é Deus nem pode dar tudo aquilo que quer;
II – A alma pode arrepender-se sempre que quiser com um simples ato de 
sua vontade. Arrependendo-se, o pacto se desfaz como papel molhado, sejam 
quais sejam os termos do contrato. Inclusive, mesmo se houve a inclusão de 
uma cláusula contra a possibilidade de arrependimento, essa não serve para 
nada. Deus, que nos deu a liberdade para fazer o que quisermos, não nos deu 
liberdade para renunciar à liberdade. Isto é válido também na eternidade, no 
Céu ou no Inferno, onde seguiremos sendo livres. Quem está no Céu já não 
quer mais pecar, e quem está no Inferno já não quer arrepender-se.
Muitos pensam que o demônio pode proporcionar o triunfo nos negócios. 
Porém, a razão pela qual o demônio não pode conceder nem ao menosisso 
aos seus servos é porque o êxito no trabalho depende da combinação de mui-
tas causas e fatores. O demônio só pode tentar, por exemplo, um chefe que 
escolha um empregado em vez de outro. Mas a tentação pode ser superada, 
portanto, nem uma coisa tão simples como essa é segura em um pacto com 
o demônio.
54 SVMMA DAEMONIACA
O grande poder do pacto com o demônio é fazer a pessoa pensar que já está 
condenada, faça o que fizer. É difícil fazer uma pessoa que firmou um pacto 
com o demônio continuar sendo livre como antes. Porém, é assim.
Questão 32 
O demônio pode provocar uma enfermidade mental?
Sim, o demônio pode tentar, também pode fazê-lo de forma contínua, 
intensa, sem cessar, e tratar de provocar tanto uma obsessão ou uma fobia, 
quanto uma depressão ou outras enfermidades. Costumamos dizer que pode 
transmitir espécies inteligíveis, transmiti-las com tal frequência que pertur-
baria seriamente a vida normal da pessoa, ao ponto de desequilibrá-la. Mas 
Deus impede sua livre ação sobre nós. Toda ação do demônio sobre os homens 
deve ser permitida por Deus.
Acrescento, ainda, à questão inicial: podemos contrair uma enfermidade 
mental sem a intervenção do demônio? A resposta seria exatamente a mesma: 
sim, se Deus permitir. Essa é uma resposta de caráter quase universal, mas por 
mais abrangente que seja – na verdade, quase tudo cabe nela –, temo muito 
que não exista outra resposta para essa pergunta.
Conhecido o mecanismo interno utilizado para provocar a tentação – a in-
fusão de espécies inteligíveis em nossa inteligência, memória e imaginação –, 
esse modus operandi também pode ser usado de modo tão persistente que 
desequilibre a pessoa. Está no domínio do poder do demônio fazê-lo. A úni-
ca coisa que pode impedi-lo é a vontade de Deus. No entanto, Ele sempre o 
impede? Certamente que não. Se Deus nem sempre impede a ação das causas 
naturais que provocam a enfermidade, tampouco impedirá sempre a ação do 
demônio.
Entretanto, nessa área de atuação do demônio, para além do campo da 
tentação, o desempenho dele é excepcional. Toda doença mental é proveniente 
de causas naturais, até que se prove o contrário. De outro modo, se pusermos 
de um lado uma pessoa enferma de causas naturais e de outro uma pessoa 
A ação do demônio no homem e na natureza 55
com enfermidade mental de causa demoníaca, não haveria uma maneira de 
distinguir uma da outra, porque só vemos o efeito externo.
Questão 33 
O demônio pode provocar doenças no corpo?
Primeiramente, devemos deixar claro que as doenças aparecem devido a 
causas naturais. Pensar que as doenças têm suas causas no mundo dos espí-
ritos, seria como regressar a um estado pré-científico, no qual a razão seria 
substituída pelo mito. Se os demônios existem, em vista disso, não se pode 
descartar absolutamente que eles possam agir algumas vezes neste campo. As 
regras gerais são como o próprio nome sugere, “gerais”, mas nada impede que 
aconteçam eventos especiais, por mais raros que estes sejam. Normalmente, 
do céu chove água, ou cai neve ou granizo, mas, algumas vezes, um meteorito 
também cai do céu.
Assim, essa também é uma maneira extraordinária e incomum, pela qual 
Deus pode permitir que um demônio cause uma enfermidade. Na verdade, 
São Lucas menciona explicitamente o caso de “uma mulher que, havia dezoito 
anos, era possessa de um espírito que a detinha doente: andava curvada e não 
podia absolutamente erguer-se” (cf. Lc 13,10-14). Não se diz que essa mulher 
estivesse possuída, mas pode-se dizer que o demônio era a causa dessa en-
fermidade. Essa afirmação é categórica no Evangelho. A isso podemos acres-
centar o caso da morte dos maridos de Sara, no Livro de Tobias, causados 
pelo demônio Asmodeus (Tb 3). Santa Teresa de Lisieux escreveu um capítulo 
muito interessante ao falar sobre sua vida:
“A doença que veio me acometer provinha, na verdade, do demônio. Furioso 
com o vosso ingresso no Carmelo [...] desejou vingar-se em mim de todo o dano 
que nossa família haveria de causar-lhe no futuro, mas não me fez quase so-
frer; pude seguir meus estudos, e ninguém se preocupou por mim. Havia finais 
de ano que atravessei com uma contínua dor de cabeça. (...) Isso durou até a 
festa da Páscoa de 1883. (...) Ao despir-me, senti-me invadida por um estra-
nho tremor. Eu não sei como descrever uma enfermidade tão estranha. Hoje 
estou convencida de que foi obra do demônio. (...) Quase sempre parecia estar 
56 SVMMA DAEMONIACA
delirando, pronunciando palavras sem sentido. (...) Muitas vezes parecia estar 
inconsciente, incapaz de executar o menor movimento. (...) Eu acredito que o 
demônio tinha recebido um poder externo sobre mim, mas não podia se apro-
ximar da minha alma, nem do meu espírito, se não para inspirar-me imensos 
temores de certas coisas” (História de uma alma, cap. III).
Questão 34 
Como distinguir se uma visão é um problema 
demoníaco ou psiquiátrico? 
O tempo é a melhor maneira de discernir se algo é um problema psiquiá-
trico ou se é ação do demônio. Se uma visão, voz ou algo que parece ser ex-
traordinário for uma enfermidade mental, inevitavelmente, irá se desenvol-
ver. As psicoses tendem a desenvolver-se. Não ficam presas. E o tempo acaba 
desenvolvendo-as de maneira tal que tudo fica claro. Mas quando alguém se 
refere a um caso de visão e pede a um teólogo para discernir sobre ele, na 
maioria das vezes é absolutamente impossível. Depois de alguns meses, os 
casos mais obscuros tornam-se claros. E se deixarmos que a enfermidade siga 
o seu curso, no final de alguns anos, o assunto torna-se claro até mesmo para 
os membros da família mais neófitos nessa área.
Para dar um exemplo: se um penitente desconhecido se ajoelha no con-
fessionário e diz ao confessor que a Virgem lhe disse em alto som que o ama 
e que seja bom, o sacerdote não pode saber se tem diante de si uma pessoa 
que sofreu uma alucinação ou uma locução. Provavelmente, nem o melhor 
teólogo do mundo poderia saber. Mas se o confessasse durante um ano, as 
coisas ficariam cada vez mais claras, e em menos tempo. Pois, se o peniten-
te está doente, paulatinamente vai desenvolver a enfermidade e dirá que a 
Virgem lhe revela mais e mais coisas, e estas serão cada vez mais e mais sin-
gulares. Passados cinco anos, a enfermidade ficará evidente não somente ao 
confessor, mas também aos seus familiares, pois a natureza absurda e ilógica 
das alucinações se desenvolverá normalmente, já que se trata de uma doença. 
A ação do demônio no homem e na natureza 57
E conforme avançam, os transtornos mentais tendem a desligar-se cada vez 
mais das leis da lógica.
Questão 35 
Os demônios podem causar pesadelos?
Sim, ainda que não haja uma maneira de saber quando um pesadelo tem 
causa natural ou quando é demoníaca. Nós só podemos suspeitar de que eles 
tenham uma origem demoníaca quando houver outros indícios no sono que 
assim o indiquem. Há casos em que nenhum psiquiatra encontra uma causa 
razoável, ou consciente ou subconsciente, para que uma pessoa normal sofra, 
todas as noites, terrores noturnos que a façam despertar encharcada de suor 
e gritando. Às vezes, estes períodos de pesadelos muito intensos estão ligados 
a ações, como ter feito um rito com crenças ocultas ou ter iniciado uma vida 
espiritual mais intensa. Nestes casos, aconselharia o uso de água benta e, antes 
de dormir, podemos pedir a Deus para nos proteger de qualquer influência 
maléfica durante a noite. Se fazendo isso os pesadelos cessarem completamen-
te, teríamos um sinal de sua origem.
Questão 36 
Os demônios podem ler nossos pensamentos?
Os demônios podem nos tentar, mas não podem ler nossos pensamentos. 
Embora, dada sua inteligência, possam adivinhar o que pensamos. Por serem 
seres mais inteligentes do que nós, eles deduzem muito mais coisas com maior 
segurança do que deduziríamos com poucos sinais exteriores. Mas se deve 
sempre lembrar que eles estão fora de nossas almas; só Deus pode ler a nossa 
alma. Se mentalmente nos dirigimos a um santo, anjo ou demônio,eles po-
dem nos escutar. Por isso, é indiferente fazer a oração tanto por via oral como 
mentalmente. Também, é indiferente ordenar mentalmente ou em voz alta 
para que um demônio saia. Nos casos distintos de possessão, foi observado 
que o demônio obedece ordens dadas mentalmente.
58 SVMMA DAEMONIACA
Questão 37 
Podem provocar catástrofes ou acidentes? 
Se os demônios tivessem as mãos livres para provocá-los, o mundo intei-
ro, de um extremo ao outro, cairia numa desordem irreparável. Os casos de 
poltergeist são uma prova de que um demônio pode suspender algo no ar ou 
mover um objeto. Se o demônio pudesse mover um parafuso de seu lugar, os 
aviões, automóveis, tanques de combustível ou de armas sofreriam acidentes 
contínuos. Apenas com deslocar um cabo, poderia causar um curto-circuito 
ou um incêndio. O demônio move as coisas nos fenômenos poltergeist, mas 
logo se vê que não pode mover nem um cabo ou um parafuso. Não pode pro-
vocar acidentes voluntários. Por quê? Porque Deus o impede.
O mesmo é válido para as tempestades, os furacões, os terremotos e outros 
desastres que ocorrem na natureza. Deve ser afirmado categoricamente que 
os desastres e acidentes que ocorrem na natureza são provocados por causas 
naturais. Porém, isso não significa que, alguma vez, de forma extraordinária, 
excepcionalmente, o demônio não possa causar esse tipo de coisa, se Deus 
assim o permitir. A Bíblia nos ensina, em Apocalipse, que no fim dos tempos 
Deus permitirá uma manifestação mais livre dos poderes demoníacos. E as-
sim, em Apocalipse 13,13-14 fala-se desses prodígios. Entretanto, não devemos 
pensar que os acidentes ou desastres são causados por ação demoníaca, a me-
nos que haja algo objetivo que nos faça pensar sobre isso. 
Por exemplo, uma época comecei a rezar por uma senhora que sofria de 
influência demoníaca. Poucos minutos depois, começou a chover, depois a 
cair granizo, e o temporal foi ficando cada vez mais intenso. Finalmente, um 
vento típico de tempestade começou a bater contra o templo. O vento foi de 
tal intensidade que eu tive de parar a oração; o estrondo não impedia somente 
ouvir as orações, mas mesmo para falar era preciso quase gritar. Tudo come-
çou a ranger; o templo inteiro rangia como um barco de madeira no oceano. 
Repentinamente, o teto da igreja cedeu e se abriu em um de seus extremos. 
Começamos a rezar para que o telhado inteiro não se levantasse. Aquela cena 
com o vento agitando com fúria as toalhas do altar – as quais saíram voando –, 
A ação do demônio no homem e na natureza 59
os tijolos caindo sobre o presbitério da parte mais alta do teto da igreja, e os 
trovões troando sem parar, formaram uma cena assustadora e inesquecível.
Pois bem, aqui temos um episódio em que é razoável pensar que havia 
uma relação entre a oração sobre aquela pessoa e o que aconteceu em seguida. 
Como curiosidade, deve-se dizer que o departamento de meteorologia mais 
próximo não detectou nenhum vento anormal, razão pela qual, a princípio, a 
seguradora se negava a pagar pelos prejuízos. 
Questão 38 
O demônio pode fazer milagres? 
“Tendo Moisés e Aarão chegado à presença do faraó, fizeram o que o Senhor 
tinha ordenado. Aarão jogou sua vara diante do rei e de sua gente, e ela se tor-
nou uma serpente. Mas o faraó, mandando vir os sábios, os encantadores e os 
mágicos, estes fizeram o mesmo com os seus encantamentos: jogaram cada um 
suas varas, que se transformaram em serpentes. Mas a vara de Aarão engoliu 
as deles” (Ex 7,10-12).
Na Idade Média, ao se falar aos teólogos, bastava que alguém apresentasse 
esse texto e tudo ficava claro. Hoje, no entanto, quando alguém apresenta um 
texto da Bíblia aos teólogos, é preciso depois provar que o texto significa o 
que diz. A autoridade da Bíblia nunca esteve tão baixa entre os teólogos. Em 
raros temas, como a demonologia, percebe-se de maneira mais clara o que diz 
a Bíblia. Quando a Sagrada Escritura trata da demonologia, não há que buscar 
sentidos raros e distorcidos.
O texto apresentado no Êxodo mostra que os demônios são capazes de re-
alizar coisas extraordinárias além das leis naturais que conhecemos. Eles não 
podem fazer ações impossíveis para a sua natureza angélica. Não podem criar 
algo do nada, não podem viver em um homem morto, não podem ignorar 
as leis da natureza. Os que agem devem fazê-lo segundo as leis da natureza. 
Deus, sim, pode agir além dessas leis: pode criar algo, pode devolver a visão 
a um cego apenas com o Seu desejo, pode restaurar um corpo que esteja cor-
rompido. Um demônio pode curar a cegueira de alguém somente se, com a 
sua força e por meio das leis da natureza, for possível; assim como um médico 
60 SVMMA DAEMONIACA
pode curar certas enfermidades com o seu conhecimento e os meios ao seu al-
cance. Do mesmo modo, uma pequena enfermidade, por exemplo, em alguns 
casos pode curá-la e em outros não. O seu poder não é capaz de dar vida ao 
tecido morto, mas pode acelerar os processos, colocar fim em algo, etc.
O que foi dito referente a esse assunto é válido para o restante dos fenôme-
nos. Pode suspender algo no ar, pode conceder grande força física a alguém 
em um dado momento, pode provocar uma tempestade. Mas não pode tornar 
uma pessoa imortal, pois as leis biológicas seguem seu curso. Não pode trans-
formar a água em vinho, mas pode extraí-la de um recipiente fechado e trocá-
-la por vinho. Não pode criar um olho em uma cavidade vazia no rosto, mas 
poderia tirar uma pedra do rim. Cada demônio age de acordo com o poder de 
sua natureza, sem sair dos limites que a lei cósmica lhe impõe. Deus é o único 
onipotente cujo limite é o impossível. E assim, nem mesmo Deus pode criar um 
círculo quadrado, tampouco pode pecar, esquecer de algo ou criar outro Deus.
O fato de o demônio fazer coisas extraordinárias explica por que o faraó e 
sua corte permaneceram firmes em não deixar partir o povo hebreu, apesar 
de serem testemunhas dos prodígios que Deus fazia. O faraó via com seus 
próprios olhos que seus mágicos também faziam coisas extraordinárias, e por 
isso pensou que com a ajuda de todos os seus deuses poderia lutar contra o 
“deus” desconhecido e hebreu. Ele não entendeu que o deus desconhecido não 
era um deus, e sim Deus.
Da mesma maneira que os mágicos dos faraós transformaram seus cajados 
em serpentes (Ex 7,12) ou fizeram aparecer as rãs (Ex 8,3), assim também, no 
final da História, Deus permitirá que os demônios façam feitos extraordiná-
rios, os quais narra o Apocalipse. Como se diz no último livro da Bíblia, no 
final dos tempos haverá pessoas que farão prodígios pela obra do demônio.
Questão 39 
Como sabemos que algo é causado pelo demônio? 
O mundo material é regido por leis e causas materiais. Mas às vezes nos 
perguntamos se tal doença, catástrofe ou acidente foi causado pelo demônio. 
Para responder a essa pergunta poderíamos formular a seguinte máxima:
A ação do demônio no homem e na natureza 61
NIHIL PER DAEMONIUM, NISI DEMONSTRATUM
(nada é causado pelo demônio, até que se prove o contrário).
Essa regra não é perfeita, porque embora acredite que tal tentação tenha 
sua origem em mim, essa pode proceder do demônio sem que eu sequer possa 
suspeitá-lo. Isto também se aplica a qualquer outra área onde a causa exterior 
provenha de uma intervenção oculta do demônio. No entanto, há mais bene-
fícios em seguir estritamente essa regra do que se deixar levar por uma contí-
nua suspeita. Deve-se afirmar categoricamente que o natural tem uma causa 
natural. Um cientista só pode atribuir às causas não físicas aqueles fenômenos 
impossíveis de serem explicados pelas causas desse mundo material. Tampou-
co seria mais científico se todos resolvessem explicar os feitos preternaturais 
com as leis desse mundo. Por exemplo, um feito em que uma virgem de gesso 
chore sangue humano (caso de Civitavecchia, Itália) é um fato sobrenatural. 
Se um cientista insiste em explicar isso com razões naturais, a única coisa 
que demonstra é o quão pouco razoável pode ser. Quer dizer: demonstrariaestar usando a razão a favor de seu capricho, como um meio para chegar a 
uma verdade que já tenha decidido de antemão. Um cientista que usa a razão 
para seu capricho, já não é um cientista, e sim uma espécie de bruxo ou má-
gico da razão. E assim, diante de determinados fatos, certas pessoas, apesar 
de suas qualificações, agem tão irracionalmente quanto um bruxo caribenho 
dançando ao redor do fogo. Dançam ao redor do fogo da razão, mas são as 
suas decisões tomadas de antemão que guiam seus movimentos nessa dança. 
Em geral, quando um ato é extremamente preternatural e não há como 
negá-lo, por mais racional que seja, esses tipos de cientistas teimosos tiram da 
manga uma solução que valha para todos: os poderes da mente podem fazer 
milagres.
O cientista não crê nos milagres, e se você disser que o viu com seus pró-
prios olhos, chama-o de louco. Mas se o milagre ocorrer diante dos olhos dele, 
a resposta é rápida: os poderes da mente... Ali, nesses poderes, há resposta para 
tudo. Não importa que seja uma estigmatização, a liquidificação de um san-
gue coagulado (caso do sangue de São Genaro e de São Pantaleão), não comer 
nada durante anos (caso de Teresa Newmann, Áustria), etc., etc.
62 SVMMA DAEMONIACA
Os escribas e fariseus não levaram em consideração os milagres de Jesus, 
pois eles encontraram uma desculpa perfeita para tranquilizar sua consciên-
cia: disseram que Ele os realizava com o poder do demônio. Hoje, essa descul-
pa é inadequada, principalmente se quem o diz é ateu. Então, apelar para os 
poderes da mente, às forças do universo ou o famoso “só conhecemos cerca de 
5% de tudo o que nos cerca”, fica melhor.
Questão 40 
O demônio pode causar má sorte? 
Essa é uma das perguntas que mais frequentemente as pessoas que, em 
algum momento de suas vidas, acreditam estar sofrendo com os efeitos de 
algum tipo de magia fazem aos sacerdotes. A primeira coisa a ser respondida 
seria que, a partir de uma perspectiva cristã, falar de boa ou má sorte é um 
modo superficial de considerar as coisas. Digo superficial, embora deva pre-
cisar que, como modus loquendi seja admissível, teologicamente é incorreto.
Tudo que externamente parece ser má sorte deve ser considerado como 
uma provação, e aquilo que aparenta ser boa sorte deve ser considerado como 
bênção. Deus permite o mal por meio de todo tipo de causa secundária, entre 
as quais a ação do demônio. Mas como saber se o demônio está envolvido em 
uma maré de azar que surge em nossa vida? Não há como responder, uma vez 
que se trata de uma causa real, mas invisível. Somente quando os aconteci-
mentos são completamente inexplicáveis, tanto pelo modo como se sucede-
ram como porque não há uma maneira racional para explicá-los, é que seria 
admissível pensar que por trás há uma causa demoníaca.
O sacerdote deve responder que não há forma alguma de saber se o demô-
nio está ou não por trás desses acontecimentos que lhe foram referidos. Mas, 
no caso de haver realmente a influência do demônio, o modo de combatê-lo é 
a oração. A oração é o que atrai a bênção divina e afasta o ser maligno.
Normalmente, as pessoas perguntam quantas orações devem fazer, de que 
modo e quais são elas. A resposta que lhes dou é: quanto mais oração fizer, 
mais atrairá a bênção divina sobre você e os seus.
A ação do demônio no homem e na natureza 63
As pessoas buscam modos complicados, quase mágicos, de voltar à paz. 
Devemos explicar-lhes que Deus é um Deus de simplicidade.
Questão 41 
O que é o malefício?
Malefício é aquela operação que se realiza com o objetivo de prejudicar o 
outro com o auxílio de demônios. Existem malefícios para matar, para causar 
a possessão, para que alguém vá mal nos negócios, para alguém ficar doente, 
etc. Como já foi dito, os malefícios só produzem efeitos se Deus o permitir. 
Quanto mais alguém reza, mais protegido está contra todas estas influências.
O antigo rito de exorcismos dizia em sua praenotanda: mande o demônio 
dizer se permanece naquele corpo por alguma obra maléfica ou sinais ou ins-
trumentos maléficos, os quais, se o possesso tiver comido, que os vomite. Ou que 
revele se estiverem em algum lugar fora do corpo. E, encontrados, que sejam 
queimados completamente. 
Se o possesso vomita um objeto maléfico, esse deve ser queimado. Mas é 
melhor que o exorcista não toque nele com as mãos. Se o tocar, convém que 
reze enquanto o faz e que depois lave as mãos com água benta. Do contrário, 
esse tipo de objeto pode lhe provocar, em determinado momento, alguns pro-
blemas de saúde durante certo tempo.
Questão 42 
O malefício tem eficácia? 
Muitas pessoas perguntam se a maldição funciona; alguns a chamam ina-
dequadamente de “mau olhado”, embora não tenha nada que ver com o olhar 
ou os olhos. A primeira coisa que deve ser dita é que aquele que faz o male-
fício, como quem o encomendou, será o primeiro prejudicado pelo demônio. 
Sem dúvida será prejudicado com algum tipo de influência demoníaca, com a 
possessão ou com enfermidades. Nunca se invoca o demônio em vão.
64 SVMMA DAEMONIACA
Depois, as pessoas perguntam se existe proteção contra o que foi feito. Pois 
bem, isso depende da vontade de Deus, isto é, a esse respeito afirma-se o mes-
mo que de um acidente, enfermidade ou catástrofe. Em nossa existência sobre 
a Terra Deus permite bens e males, porque a vida é uma prova antes do Juízo. 
É fato que a pessoa que ora e vive na graça de Deus está protegida por Ele. 
Quanto mais orarmos e quanto mais desenvolvida estiver a nossa vida espiri-
tual, mais protegidos nos encontraremos.
Como é possível saber se alguém é vítima de um malefício? Não existe uma 
maneira de saber, uma vez que a ação do demônio é invisível. Só temos a cer-
teza quando há uma possessão ou uma influência demoníaca na pessoa cujos 
sinais sejam visíveis ao exorcista. Também é possível deduzir que um mal seja 
fruto de um malefício, quando aquele vier acompanhado de feitos preternatu-
rais malignos. Mas, salvo apareçam sinais externos que demonstrem ser uma 
causa demoníaca, nunca se poderá saber se algo tem sua origem ou não em 
causas naturais.
Questão 43 
O que fazer em caso de malefício? 
O que fazer se alguém tiver qualquer suspeita de que tenham colocado uma 
maldição sobre ele? Como já foi dito, se é praticamente impossível chegar à 
certeza neste assunto, mesmo para um especialista, que dirá para uma pessoa 
com muito menos conhecimento sobre o tema. Mas, se o malefício foi pratica-
do, o único modo de destruí-lo é fazendo o contrário.
Quer dizer: se uma pessoa invocou o demônio para fazer o mal, a vítima 
deve invocar a Deus para que Ele a proteja, ajude e bendiga. O bem sempre é 
mais forte que o mal.
Àqueles que vêm à minha paróquia dizendo que sofrem um malefício, sal-
vo em casos excepcionais, digo-lhes que é impossível comprovar a causa de-
moníaca, mas que se na realidade sofreram um malefício, o único remédio é 
o seguinte:
A ação do demônio no homem e na natureza 65
• Rezar três mistérios do rosário;
• Ler o Evangelho durante cinco minutos;
• Orar por alguns instantes em uma igreja.
Claro que poderia acrescentar outras coisas. Mas como a maior parte das 
pessoas que vem pedir ajuda não faz nenhuma oração, tampouco se pode im-
por-lhes muito mais. Sobretudo, nos casos de influência, nos casos em que 
não há uma possessão. Já quando há possessão, sentem-se mais necessitadas 
de ajuda e estão dispostas a orar mais. Aos três pontos anteriores se pode 
aconselhar-lhes, se os vir muito afligidos, outros pontos adicionais:
• Ir à Missa (três vezes durante a semana, principalmente aos domingos);
• Colocar em casa um crucifixo bento por um sacerdote;
• Colocar uma imagem da Virgem Maria;
• Rezar diariamente um Salmo.
Ao fazer estas ações, se o mal que sofrem vem do demônio, esse irá se 
afastando. Mas se não cessa, seria sinal de que não estava sendo provocado 
por um malefício. Nos casos em que o sacerdote for exorcista, poderia rezar 
para comprovar se há alguma influência sobre a pessoa; e se o malefício ti-ver alguma influência, o sacerdote pode fazer oração de libertação. Mas, em 
outras ocasiões, o demônio sai depois de ter causado o mal (por exemplo, na 
saúde). Quer dizer, se por causa de um malefício uma pessoa sofre um proble-
ma de saúde, mas o exorcista vê que não há nenhuma influência, então essa 
enfermidade é como outra qualquer, porque sua cura dependerá da medicina; 
em casos como esse o demônio chegou na pessoa, causou o mal e foi embora. 
Neste caso aplicam-se as causas naturais para justificar o mal provocado, e 
não é necessário mais nada.
Questão 44 
O que é o feitiço?
O feitiço é aquela operação feita para conseguir algo de positivo com o au-
xílio de demônios. Neste caso, a intenção é buscar algo de positivo no feitiço 
66 SVMMA DAEMONIACA
usado para prejudicar alguém, ou seja, que alguém enamore por quem o fez, 
que os negócios caminhem bem, que seja promovido no trabalho, etc. Como 
está claro que o demônio não pode tudo, ele apenas tenta. Logo, pode inter-
ferir em algo através da tentação. Não se pode conseguir aquilo que busca 
através dele. Assim, muitas vezes, ele acaba provocando a possessão ou algum 
tipo de influência. E ele sempre o faz, ou à pessoa ou à vítima do feitiço.
Se durante o exorcismo for possível localizar o objeto do feitiço ou do ma-
lefício, deve-se destruí-lo. Mas caso não o encontre, será completamente in-
diferente, uma vez que a oração a Deus é que vai destruir toda a influência 
demoníaca daquele objeto. O mesmo procedimento deve ser aplicado para o 
malefício, pois o demônio está definitivamente agindo.
Questão 45 
O modo de fazer um malefício ou um feitiço é importante? 
Não, dá na mesma usar vísceras de animais ou o cabelo da vítima, dá na 
mesma usar um boneco de cera ou desenhar um pentagrama no chão rodeado 
de velas. É indiferente a utilização de uns materiais ou de outros, de algumas 
conjurações ou de outras. O que realmente faz com que tudo dê resultado é a 
invocação do demônio. A maneira pela qual ele é invocado é irrelevante.
No entanto, para o demônio interessa fazer que seus servidores acreditem 
que tais rituais e materiais tenham importância, pois assim faz as pessoas 
pensarem que elas têm a capacidade de dominar essas influências. Pelos ritos, 
os bruxos acreditam que mantêm o domínio da situação.
O que eu falo sobre os malefícios e feitiços vale também aos exorcismos. 
São indiferentes os objetos e ritos com os quais exorcizamos o demônio. O 
importante é a fé em Deus. Podemos exorcizar o demônio munidos somente 
com o nome de Cristo e a fé. Ainda existem exorcistas que dão uma grande 
importância às maneiras e objetos com os quais se realizam o exorcismo.
Em qualquer caso, ainda que o sacerdote esteja somente armado com o 
nome de Cristo, a oração fará que o demônio revele ao exorcista a existência 
de algumas coisas que o atormentam mais que outras, uma vez que certos 
A ação do demônio no homem e na natureza 67
símbolos o atormentam de determinado modo, pois os pecados que o levaram 
à reprovação e agora atormentam sua alma foram específicos.
Anexo à questão 45
Durante muitos anos sustentei a postura apresentada na questão 45, pos-
tura essa que me parecia a mais racional, uma vez que me agarrei a ela com 
unhas e dentes. No entanto, a prática do exorcismo foi desmentindo tal colo-
cação de modo tão claro que mudei a minha opinião. Considerava que existia 
algum tipo de relação desconhecida entre determinados objetos e o espírito. 
Usar ou não algum tipo de material humano (unhas, fio de cabelo ou sangue, 
por exemplo) da pessoa contra a qual se vai fazer o malefício não é indiferente. 
Assim como tampouco é indiferente que esse objeto maléfico (aquele com o 
qual foi feito o malefício) seja queimado caso seja encontrado.
Ademais, pensava que, se isso era válido para o mal, também o seria para o 
bem. Quer dizer: eu acreditava que, em um exorcismo, o mais importante era 
a fé, mas que não era a mesma coisa usar um objeto ou outro para exorcizar.
Apresentarei alguns exemplos: em determinado momento em que Deus 
nos revelara (por meio do possesso) que teríamos de usar cinzas da Quarta-
-feira de Cinzas junto com o óleo do crisma sobre um possesso, teve fim uma 
grande possessão que, caso contrário, haveria de se prolongar por vários dias. 
Em outros casos, fazer sinais-da-cruz sobre determinada parte do corpo do 
possesso pode cortar o mal, inclusive em horas.
A tese de que a única coisa que importa é a fé e de que o objeto ou o modo 
são indiferentes me parecia uma tese tão bela como despretensiosa e inofensi-
va. Eu considerava que o fato de o material ter certa relevância neste campo, 
tanto para fazer malefícios como para exorcizar, não significava que cairía-
mos na magia, e sim significava simplesmente reconhecer que entre o material 
e o espiritual existem relações muito mais complexas do que imaginamos, e 
todas elas regidas não pela irracionalidade, mas por uma racionalidade tal que 
nos supera.
68 SVMMA DAEMONIACA
Mantive essa segunda postura durante três anos. Depois, houve novamen-
te um progresso em mim com relação à compreensão dessas realidades, o que 
me fez voltar à primeira postura. Hoje em dia eu acredito que o objeto para 
fazer um malefício e o modo de fazê-lo são completamente indiferentes. São 
os demônios que nos fazem acreditar que importam. Os demônios têm maior 
interesse em atacar uma pessoa que os invocam de determinada maneira, sob 
certos rituais ou usando determinados objetos. Em si mesmos, os rituais são 
indiferentes, mas o Inferno quer nos convencer do contrário, para criar assim 
uma espécie de ciência maléfica. O que importa para a eficácia de um male-
fício são duas coisas: a vontade de quem o realiza e invoca os demônios, e a 
vontade dos demônios de atacar uma pessoa.
A mesma doutrina é válida para conseguir um milagre ou uma interven-
ção de Deus. Os objetos de um ritual (um sacrifício do Antigo Testamento, 
uma liturgia de adoração) são indiferentes, importa apenas a vontade de quem 
pede e o desejo de Deus. Não existe uma fórmula para fazer um milagre. A 
vontade de quem invoca, clama e pede, a vontade de quem atua é que realiza 
todo o ato.
Então, por que nos exorcismos determinados elementos parecem ter uma 
eficácia concreta para afligir e afastar demônios? Somente porque são símbo-
los de realidades espirituais. E o símbolo pode afligir os demônios a ponto de 
expulsá-los.
Questão 46 
Qual é a diferença entre magia branca e magia negra? 
A magia branca é aquela praticada para alcançar o bem, e magia negra é 
praticada para alcançar o mal. Ambas são ineficazes. E se alguma vez tiver 
eficácia será pela intervenção do demônio. Ninguém tem poderes mágicos, 
é o demônio que está por detrás disso, mesmo que os videntes, os homens 
santos, magos ou bruxos não saibam. E eles próprios, se invocam tais poderes, 
acabam sendo possuídos. 
A ação do demônio no homem e na natureza 69
Questão 47 
Os magos adivinham o futuro pela intervenção do demônio? 
Certamente que não. E eu o nego de modo tão taxativo por duas razões. 
Primeira: os demônios não sabem tudo, somente aquilo o que podem deduzir, 
porque são incapazes de ver o futuro. Segunda: os demônios buscam o nosso 
mal, e mesmo que conheçam algum fato futuro, não vão nos ajudar revelan-
do-os. Ainda assim, excepcionalmente, podem revelar algum fato concreto 
para que alguém se torne dependente desse tipo de pessoas.
Nunca um cristão, em nenhuma circunstância, deve consultar esse tipo de 
pessoa. A consulta a um mago, vidente, constitui sempre um pecado grave. E 
ainda que essas pessoas digam que possuem poderes de vidência, o sacerdote 
jamais se deve dirigir até elas para ver se há ou não possessão. Aquilo que o 
sacerdote não vir com a sua ciência não deve supri-lo com a falsa ciência des-
ses videntes.
Questão 48 
O demônio intervém no horóscopo, tarô e 
outras formas de adivinhar o futuro?
No início, o demônio somente intervém quando é invocado. Estas formas 
de adivinhação nas quais não se invocamas forças ocultas nem os seres espi-
rituais não são demoníacas. São práticas supersticiosas, mas não demoníacas. 
Se bem que aqueles que as praticam sentirão cada vez mais tentação de invo-
car tais forças e seres desconhecidos.
Não é irrelevante dizer que não é possível conhecer o futuro, nem mesmo 
invocando os demônios, muito menos com práticas de astrologia, cartoman-
cia, etc. Quem as pratica é a prova concreta de que por meio delas não se 
pode obter nenhum benefício. Os únicos que podem obter algum benefício 
de tais adivinhações são os charlatões profissionais, que são os primeiros a 
não acreditar nelas e que sabem dosar suas previsões para não serem pegos de 
surpresa.
70 SVMMA DAEMONIACA
Questão 49 
Um demônio pode causar falsas visões em um místico? 
As naturezas angélicas têm o poder de inspirar visões e locuções em qual-
quer mente humana. Agora, para evitar a confusão que esses acontecimentos 
podem causar às almas, caso ocorram com frequência, Deus praticamente 
não permite que se ocorram. Apenas os permite em raríssimas ocasiões e 
quando a pessoa tem meios para descobrir a verdade. E se Deus não con-
trolasse o poder do demônio, esse apareceria continuamente, como anjo ou 
santo. Há casos em que se revelou, inclusive, com a aparência de nosso Senhor 
Jesus Cristo.
Num caso excepcional em que haja uma revelação mística a uma alma, e 
se o diretor espiritual entende que o demônio possa estar oculto, existem dois 
critérios que podem esclarecer:
1. Seguir toda inspiração que nos leve ao bem como se viesse de Deus;
2. Obedecer o diretor espiritual acima de toda revelação.
Se uma revelação, aparição ou mensagem, seja verdadeira ou falsa, seja fru-
to da imaginação, do demônio ou de Deus, nos leva a fazer o bem, quer dizer, 
nos incita a executar obras de caridade, de oração, de sacrifício, etc., então a 
sigamos como se viesse diretamente de Deus. Na pior das hipóteses, se for o 
demônio que estiver predicando o bem, por que não fazê-lo? Se o demônio 
nos predica o bom caminho, não devemos fazê-lo porque é mal o predicador? 
Com essa regra de conduta se elimina todo tipo de escrúpulo e se evitam per-
das de tempo de buscar a origem das inspirações da alma.
Agora, sempre se deve colocar à frente dessas supostas revelações a ordem 
do confessor ou diretor espiritual. Não importa a bondade e a nobreza que nos 
são solicitadas com essa suposta revelação; tudo deverá seguir a obediência ao 
confessor. Acrescento que aquilo que provém diretamente de Deus decorre 
pelos caminhos da obediência aos legítimos pastores. Receber revelações é um 
dom menor que a obediência.
A ação do demônio no homem e na natureza 71
Assim, se as revelações provierem do demônio, ou entrarão em conflito com 
a obediência ao confessor, ou imediatamente deixarão de conduzir ao bem, 
intercalando incitação ao mal. O demônio pouco aguenta provocando o bem. 
Agora, se a revelação é de Deus, não há conflito entre revelação e diretor espi-
ritual, pois a obediência a ele é obediência a Deus por intermédio desse clérigo.
A obediência a uma revelação é sempre uma obediência a uma suposta re-
velação. Ao contrário, a obediência ao diretor espiritual sempre é algo santo, 
sempre é algo seguro.
O dirigido deve recordar a máxima de obedecer sempre, desde que não seja 
pecado. O místico não somente não está liberado da obediência, como está 
sujeito a ela. E a razão disso é que o místico está sempre em perigo de cair em 
tentação. Por isso ele deve desconfiar mais de seu próprio juízo, deve subme-
ter-se e ser mais humilde que um homem mais pecador que ele. Do contrário, 
ele pode tornar-se como o diabo, que, enamorado de si, corrompe tudo o que 
receber.
Digo isso com especial conhecimento de causa, pois há alguns anos fui 
escolhido como diretor espiritual de uma alma que tinha vários dons extraor-
dinários. Pude comprovar a veracidade desses dons em muitas ocasiões, sem 
que me restasse dúvida a seu respeito. Mas aquela pessoa passou a não escutar 
mais as direções. Considerava que estava tão avançada na perfeição que pode-
ria ser guiada diretamente pelo Espírito Santo. Ao perceber que uma terrível 
soberba vinha no horizonte, mesmo distante, minhas indicações se converte-
ram em ordens. Mas a pessoa optou por seguir suas próprias inspirações. De 
maneira tal que, lentamente, ao longo dos anos seguintes, pude contemplar, 
sentado na primeira fila, essa pessoa dizer como havia chegado à soberbia. 
Finalmente, dei-lhe um ultimato: ou me obedecia ou eu deixaria de ser seu 
diretor espiritual. Optou por seguir seu próprio caminho, o do Espírito Santo, 
segundo ela. Um ano mais tarde eu soube, por seus amigos, que ela acabou 
caindo em pecados cada vez mais graves. Tanto assim que perdeu seus dons; 
dons que eu havia conhecido e que eram reais e impressionantes. Uma terrível 
história que sempre me relembra o feito de que no caminho à santidade há 
muitos que caíram na sarjeta, cujos nomes nunca conheceremos.
72 SVMMA DAEMONIACA
Questão 50 
Pode causar estigmas? 
Sim, o demônio pode causar estigmas. Eu relutei em acreditar em tal coisa, 
embora o cardeal Bona argumentasse que tal fato “foi comprovado através de 
alguns exemplos incontestáveis” (Discret. Spir, c7, no11) e que havia sido teste-
munha desse, no caso do possuído de Loudum. Eu resistia a aceitá-lo, porque 
considerava que os estigmas eram um fenômeno de caráter essencialmente 
externo, que envolviam uma espécie de comprovação divina a respeito do su-
jeito que os carregava. Quer dizer: outros fenômenos místicos são ocultos e 
são dados para o bem da pessoa que os possui, mas a estigmatização se dá 
essencialmente aos demais [para mostrar aos demais]. Por isso são marcas 
externas. E são, acredite, uma espécie de confirmação divina da santidade 
de quem os carrega. Assim, São Paulo afirma: “De ora em diante ninguém 
me moleste, porque trago em meu corpo as marcas de Jesus” (Gl 6,17). A esse 
versículo cabem várias interpretações, todas elas igualmente plausíveis. Mas 
ao falar-se sobre estigmas, pareceria fortalecer que se trata de uma espécie de 
manifestação do favor divino, impressão espontânea, por outro lado, entre 
as pessoas que conhecem tal fenômeno. Porém, ainda que seja assim, o certo 
é que mais tarde conheci (não em primeira mão, mas através de vídeos) um 
caso de pseudomessias que sangrava em algumas partes do corpo. Não eram 
propriamente estigmas, mas a pele sangrava.
Que conclusão tiramos de tudo isso? Talvez a grande lição do fato anedóti-
co seja que o mesmo Deus que nos dá sinais para saber a verdade, também nos 
deu a inteligência para discernir os sinais. O Deus de inteligência tem o prazer 
de propor esse tipo de quebra-cabeça para resolvermos. A estigmatização é 
um sinal divino, mas mesmo os sinais divinos devem ser discernidos.
A origem de qualquer caso de estigmatização, como de qualquer outro fe-
nômeno místico, será deduzida dos frutos que produza na vida daquela pes-
soa. Nós os conheceremos por seus frutos. Os frutos do Maligno são soberba 
e desobediência; definitivamente, o pecado. Os frutos da alma de Deus são a 
humildade, a obediência, a vida de sacrifícios e a virtude.
A ação do demônio no homem e na natureza 73
Torno a repetir que o fato de os estigmas poderem ser causados pelo de-
mônio é muito esporádico e acidental, mas o aprendizado que se tira deles é 
muito importante para qualquer área eclesiástica: tudo pode ser falsificado, 
menos a virtude. Os sinais, os raciocínios dos teólogos, as boas razões, as in-
tenções... tudo é suscetível de ser torcido ou manipulado. A única que não 
pode fingir as 24 horas do dia, os 365 dias do ano, é a virtude.
Questão 51 
Qual a forma que os demônios têm quando 
aparecem para os homens? 
Os demônios não têm uma forma visível determinada; ela é imaterial. No 
entanto, caso eles se manifestassem de forma visível, poderiam adotar a apa-
rência que desejassem. Qualquer forma, por mais bela que seja, humana ou 
angélica, está no âmbito da capacidade de seu poder.Poderiam mostrar-se 
com a aparência de um sacerdote conhecido, do nosso confessor, do Santo Pa-
dre. Como é lógica, tal situação criaria uma insegurança total, por isso Deus 
não a permite. E Deus, buscando o nosso bem, não somente não permite esse 
tipo de aparições tão enganosas como sequer permite que eles se mostrem de 
qualquer maneira, a não ser de determinados modos, com o objetivo de que 
nos fique claro que somos como crianças aos olhos deles.
Assim, a ele, Deus somente permite aparecer como sombras em movimen-
to, como coisas monstruosas, como homens pequenos de cor muito escura. 
Essa última forma de mostrar-se visualmente, como homenzinhos escuros e 
pequenos, aparece repetidas vezes na tradição literária cristã, desde a época 
dos Padres do Deserto. Não somente nesses casos, mas ainda com Santa Tere-
sa de Jesus, Santa Teresa de Lisieux (em um de seus sonhos) e em outros casos 
como o da menina Alexia (1971-1985), tornaram a aparecer homens pequenos 
e de cor muito escura.
Quando dizemos que Satanás é um dragão ou uma serpente, o que quere-
mos dizer é que ele tem o caráter monstruoso, feroz, venenoso e astuto des-
ses seres. Em caso algum tem essa forma visual, já que continua sendo um 
74 SVMMA DAEMONIACA
belíssimo anjo em sua natureza, ainda que repugnante em seu aspecto moral. 
Ele sofreu a deformação somente em sua personalidade, não em sua natureza. 
Seu ser foi deformado, mas a sua natureza permanece e permanecerá sempre 
intacta. Uma vez que ambas as coisas são inseparáveis, ele é realmente um 
monstro, um ser deformado, alguém que produz repugnância e aversão.
Questão 52 
É o demônio quem provoca a noite do espírito?
Qualquer pessoa que busque a Deus com todo o seu coração e dedique 
grandes esforços à oração e ao ascetismo penetrará, antes ou depois, em uma 
fase conhecida por todos os santos como a noite do espírito. É uma fase de 
evolução espiritual, e passar por ela é necessário para ingressar na vida mís-
tica. É impossível chegar a certos níveis de amor a Deus sem sofrer essa pu-
rificação, a qual se leva ao fim pelo sofrimento aceitado com o amor de Deus 
e perseverança. Essa noite consiste em uma série de tentações obsessivas de 
origem demoníaca.
Nessa fase é como se o demônio se empenhasse a todo custo em deter o 
avanço espiritual dessa pessoa, fazendo-a sucumbir em graves pecados. O de-
mônio sabe que, se não tentá-la a pecar, a alma se elevará irremediavelmente 
mais longe de seu alcance. A literatura dos santos é riquíssima em textos desse 
tipo; na sequência apresentarei a descrição que uma humilde costureira do 
século XIX, chamada Javiera del Valle, nos dá desta fase:
“Quando a alma resolve não querer nada senão seguir ao seu amado Reden-
tor, e colocando seu olhar fixo sobre Ele, se pudesse ver o que fez e sofreu por ela 
seu adorável Redentor, Satanás enfurecido prepara uma grande batalha e traz 
até ele todo o seu exército infernal.
(...) Se propõe arrancar de nós as três virtudes teologais. Mas onde vai colo-
car diretamente o seu alvo é na fé, porque, obtida essa, fica mais fácil conseguir 
as outras duas coisas; porque a fé é como o fundamento sobre o qual se levanta 
todo o edifício espiritual, que é o que ele mais quer e deseja, e pretende destruir.
Deus então silencia; não o impede em sua intenção; antes prepara o cami-
nho para que a batalha seja mais dura.
A ação do demônio no homem e na natureza 75
E também mantém Seus olhos firmes nele, pois prepara os caminhos para 
deixá-lo confuso na batalha, enganado e derrotá-lo completamente, para que 
saiamos vencedores desta batalha e nos tornemos invencíveis no que vier.
Quando Satanás já se aproxima da luta, a primeira coisa que diminui é 
a luz clara e formosa que Deus havia nos dado, para com ela conhecermos a 
verdade.
A escola [do Espírito Santo] se fecha; a memória e a razão pela força da dor 
e o sentimento que a alma tem parecem perdidos.
Pobre alma! Quer buscar ao seu Deus e não sabe. Quer chamá-l’O e não 
pode articular uma palavra. Tudo o que sabia foi esquecido; com uma profunda 
piedade, sente-se sozinha, sem companhia alguma.
A quem me compararei neste estado? A nada, se não é a essas noites de 
verão que de repente se levantam esses nevoeiros tão fortes e horríveis, que por 
sua obscuridade tenebrosa nada se vê, senão relâmpagos que assustam, trovões 
que deixam alguém tremendo, tufões que recordam a justiça de Deus no fim do 
mundo, o granizo e a pedra que parecem destruir tudo.
Não digo ao que poderia comparar: somente, sem seu Deus, sentir ir até ela 
um exército furioso, que gritam a ela que está enganada, que não existe Deus, 
e a cercam por todos os lados, repletos de retórica que ministram conferências, 
mesmo sem ela o desejar. Mas não a deixam prontamente, e com raciocínios 
tão fortes e violentos, à força, querem fazer com que ela acredite que não existe 
Deus, e com horríveis deboches dizem que não há o tal Deus a quem ela busca 
e o fazem como com um poder sobre as potências, para não se poder nem refle-
tir nem acreditar em outra coisa senão naquilo que a força e mais que a força 
querem fazer entender e crer; querem que não se acredite em mais nada além 
daquilo que eles dizem, e não acredite em nenhuma coisa mais.
(...) Nesta tão imensa e infinita piedade, a distância e como uma coisa que se 
sonha e depois não se sabe se sonhou, se recorda da Igreja, e do amor que deve-
mos ter a ela, e nesta recordação, como quando se falta conhecimento a alguém, 
volta-se e quer falar, e fala com palavras soltas. Assim é uma alma sem voz, e 
gaguejando, como que quisesse dizer: me uno a todo o credo de minha mãe, a 
Igreja e não quero crer em ninguém mais. E sem poder dizer mais nada, nem 
falar, nem entender, assim se foram meses e meses, até se passarem dois anos.
Eu tinha dezoito anos quando isso aconteceu, e quando eu tanto sofria e 
chorava sem consolo a perda da minha fé, amanheceu para mim o dia claro e 
formoso.
76 SVMMA DAEMONIACA
E assim como eu, sem saber de nada, nesse estado em que me vi metida, 
agora também vi e senti que me tiraram dele.”
Javiera del Valle (1856-1930)
Decenário do Espírito Santo, oitavo dia
A noite do espírito supõe uma série de tentações de ateísmo, de escrúpulos, 
de suicídio ou de depressão, e, em qualquer caso, são muito intensas. Santo 
Inácio de Loyola e Santa Teresa de Lisieux sofreram tentações de suicídio. 
Madre Teresa de Calcutá sofreu terríveis tentações que colocavam em perigo 
a fé e a existência de Deus. O grande mestre sobre a noite do espírito é, sem 
dúvida, São João da Cruz. A subida ao Monte Carmelo será, sem dúvida, a 
melhor leitura para os confessores destas almas atribuladas.
Os diretores espirituais, sobretudo os das religiosas, devem recordar a estas 
almas sofredoras que não há nada que possa evitar o sofrimento da noite do 
espírito. É uma fase que só termina quando Deus quiser. Devem consolar es-
tas almas relembrando-as de que o demônio está ali, cumprindo a função de 
um ciclo. Mas que por piores que sejam as suas tentações, mais breves serão. E 
quanto mais brandas, mais prolongadas.
 77
Parte IV
Questões teológicas
Questão 53 
Deus odeia os demônios? 
A resposta é não. Deus não odeia nada nem ninguém; Ele é um ato de amor 
puro, não há ódio em Deus. O agir de Deus é um ato somente de amor, no 
qual todos nós estamos incluídos. Se Deus permite o castigo do pecador, dize-
mos que Deus castiga o pecador. Se Deus presenteia o virtuoso, dizemos que 
ama o virtuoso. Se Deus premia mais um santo no Céu, dizemos que Deus 
ama mais ao santo. E assim poderíamos seguir com todas as enormes possi-
bilidades e todas as espécies de bênçãos, graças, sofrimentos e condenações. 
Mas isso é assim segundo nós mesmos (quoad nos, como diria Santo Tomás 
de Aquino), porque em Deus existe somente um único ato de vontade, e Sua 
vontade é amar somente.
E isso é terrível. Os condenados não podem pedir misericórdia de Deus, 
porque foi o Amor Infinito que os condenou a toda a eternidade. Na Divina 
Comédia,Dante coloca essa descrição na entrada do Inferno:
“Por mim se vai à cidade dolente; por mim se vai à eterna dor; por mim se 
vai entre a raça perdida (...) fez-me a Divina Potestade, a Suma Sapiência e o 
Primeiro Amor. (...) Oh! Deixai toda a esperança, vós que entrais!”
O terrível dessa descrição, por mais literária que seja, é que foi realmente 
o amor e não o ódio, que permitiu a existência do Inferno. Logo, não se pode 
78 SVMMA DAEMONIACA
apelar ao amor para que destrua o Inferno. Deus ama os demônios, mas os 
condena.
Se Deus não sente ódio, tampouco o exorcista deve odiar quando realizar o 
exorcismo. O demônio pode dizer coisas que incitem a odiá-lo, para dificultar 
o exorcismo. Recordo de um exorcismo em que a mãe perdeu o controle sobre 
si e dirigiu-se furiosa contra o demônio que possuía sua filha. Então, com 
toda tranquilidade, o demônio sorriu maldosamente e disse: com ódio não 
me expulsará.
Questão 54 
Os demônios podem unir-se e concentrar os seus 
esforços para influenciar uma sociedade? 
O grande poder do demônio é tentar, e como os demônios se comunicam 
entre si, podem colocar-se de acordo para tentar em uma mesma direção. Em 
1932, os demônios compreenderam perfeitamente que para o cumprimento 
de seus fins era necessário tentar as pessoas para que se votasse em um can-
didato que até então era um completo desconhecido: Hitler. Isso significa que 
sua ascensão ao poder se deu pela ação dos demônios? Não, mas eles, sem 
dúvida, ajudaram.
Do mesmo modo, devemos recordar-nos dos Santos Padres dos primeiros 
séculos da Igreja. Ao tratar sobre o tema de perseguição contra os cristãos, 
assinaram como primeira e principal causa, a instigação do demônio tanto 
sobre as massas como sobre os governantes.
Outro exemplo poderia ser o do cardeal Nasalli Rocca, que escreveu em 
sua Carta Pastoral da Quaresma (Bolonha, 1946) que o secretário do Papa, 
monsenhor Rinaldo Angeli, havia-lhe contado várias vezes que Leão XIII teve 
uma visão na qual os espíritos se concentravam sobre Roma; pois bem, essa 
foi a origem da oração que pediu a toda a Igreja que rezasse, e que foi expedida 
aos Ordinários em 1886.
Sim, de fato, os demônios também têm suas estratégias e se colocam de 
acordo para levá-las ao extremo. Podem concentrar-se em determinado lugar. 
Questões teológicas 79
Ademais, ambicionam todas as almas, mas sabem muito bem que algumas 
pessoas têm o dom de persuadir outras, por sua cultura, por seu poder ou por 
seu dinheiro. E, portanto, as forças do mal são conscientes de que essas eli-
tes são especialmente desejáveis. Os demônios nunca são neutros em política, 
analisam a situação e estão seguros de quais serão as pessoas que mais favo-
recerão suas estratégias. Felizmente, o lado do bem tem os anjos e as muitas 
pessoas que com sua oração destroem os planos das trevas. Por isso a oração 
e o sacrifício são tão importantes. Os monastérios e as pessoas orantes são as 
forças invisíveis que, não somente combatem o poder do Inferno neste mun-
do, como também mandam abundantemente sobre nós todo tipo de bênçãos.
Em qualquer caso, a explicação de uma luta invisível de poderes espiritu-
ais não nos deve fazer esquecer que os autores de nossa história somos nós 
mesmos. Essas forças invisíveis do mal não são mais que uma influência, e, ao 
final, cada homem faz o que quer e é responsável pelos seus atos. Nem todos 
os demônios do mundo podem obrigar alguém, ainda que seja um pecador, a 
tomar uma decisão se ele decidir tomar outra.
A oração é tão poderosa como os maiores exércitos ou as maiores fortunas. 
Uma pessoa humilde e desconhecida pode, apenas com a sua oração, evitar 
guerras, impedir que ideologias malignas cheguem ao poder, etc. Somente os 
demônios sabem até que ponto a oração é temível para eles.
Questão 55 
Por que Satanás não se manifesta aos 
homens mostrando todo o seu poder? 
Assim como o Messias se manifestou com milagres e muitos creram n’Ele, 
também o demônio poderia manifestar plenamente o seu poder para enganar 
e seduzir as multidões. Não há dúvida de que se Satanás se manifestasse aber-
tamente sob o disfarce de um anjo de luz, muitos o seguiriam. Poderia fazer 
maravilhas, curar algumas doenças, prever eventos futuros. São Paulo nos dá 
a razão pela qual Satanás não desenvolve o seu poder a plena luz:
80 SVMMA DAEMONIACA
“Agora, sabeis perfeitamente que algo o detém, de modo que ele só se mani-
festará a seu tempo. Porque o mistério da iniquidade já está em ação, apenas 
esperando o desaparecimento daquele que o detém. Então o tal ímpio se mani-
festará. Mas o Senhor Jesus o destruirá com o sopro de sua boca e o aniquilará 
com o resplendor da sua vinda. A manifestação do ímpio será acompanhada, 
graças ao poder de Satanás, de toda a sorte de portentos, sinais e prodígios en-
ganadores” (2Tes 2,6-9).
Em sua soberba, o diabo queria ser adorado; e em sua debilidade, a pessoa 
seria enganada. Mas ele não pode usar todo o seu poder, pois Deus retém 
a manifestação de sua força. Até Satanás, que odeia Deus e que procura fa-
zer todo o mal possível, está atado aos desígnios da vontade de Deus. E o 
desígnio de Deus faz com que ele não se possa manifestar abertamente até 
que cheguem os finais dos tempos. Até que chegue o momento, os prodígios 
estarão limitados aos pequenos grupos satânicos nos quais, ao ser invocado, 
pode mostrar-se. Por essas reduzidas e extraordinárias atuações, por seu feito 
ordinário (ou seja, a tentação) e pela concentração das forças demoníacas em 
lugares e momentos concretos para unir forças e mudar algo, São Paulo diz 
em sua Epístola que o mistério da iniquidade já está atuando, mas que, toda-
via, não deve ser revelado.
Questão 56 
Dentro da Igreja, a quem ele mais odeia? 
A Igreja conta entre os seus membros com cardeais, bispos, pastores de 
todos os tipos, teólogos, pessoas que trabalham na caridade, missionários etc., 
etc., mas o que o demônio odeia é o ascetismo. Isso nós podemos dizer com 
segurança, porque ninguém é tentado tanto quanto aquele que é dedicado à 
ascese. Caso aquele que realize uma função eclesial ou um ministério, leve 
nisso os anos que for, se decide começar uma vida mais ascética, comprovará 
que as tentações se multiplicam por cem. Isso se deve ao fato de o Maligno 
saber muito bem que a ascese é uma força poderosíssima, é a força da Cruz, e a 
força da Cruz quebra a influência dele no mundo. Alguém poderia dizer que o 
demônio mais deveria temer é o amor e, portanto, o que mais ele deveria odiar 
Questões teológicas 81
seriam as obras de caridade. Mas ele sabe que àquele que inicia o caminho de 
ascese, se perseverar, Deus concederá o dom da caridade em grau supremo. 
Entretanto, aquele que se dedica exclusivamente a realizar as obras de carida-
de pode nunca chegar a uma vida ascética. 
Há pessoas que têm dedicado sua vida inteira às obras de caridade, e, con-
tudo, abrigam muitos defeitos em sua alma. Alguém pode dedicar-se a ajudar 
os pobres e os enfermos, por exemplo, entretanto fazê-lo com murmurações, 
críticas, desobediências, etc. Porém, se o asceta perseverar na purificação gra-
dual de sua alma, obterá todos os dons. Por isso o demônio odeia o asceta com 
maior intensidade que a hierarquia eclesiástica ou mesmo aos exorcistas. O 
exorcista expulsa um, dois, uma dúzia de demônios... O asceta quebra de um 
modo muito mais poderoso a influência demoníaca neste mundo, simples-
mente por ostentar sobre seu corpo e seu espírito a paixão cotidiana de sua 
vida crucificada.
Questão 57 
Quando Jesus viveu na Terra como Homem, 
o demônio sabia que Ele era o Messias? 
Como já foi dito, o demônio não sabe tudo. Nem sequer conhece tudo o 
que acontece na Terra. Os demônios caminham neste mundo, estão entre nós, 
mas indo e vindo. Os espíritos malignos, de modo muito especial, vigiam os 
santos; e não passou despercebido por eles que Jesus era um Homem extraor-
dinariamente santo. O Maligno via que Jesus e Maria eram os humanos mais 
santos que habitavam a Terra. Não percebianeles cometimento de pecado al-
gum, nem mesmo qualquer imperfeição moral.
O demônio pode ser um pecador, mas conhece e pondera perfeitamente a 
virtude. Neste contexto, podemos dizer que é um apreciador da virtude, é um 
avaliador de joias espirituais. Essa tarefa, a de avaliador, ele a realiza como o 
mais perfeito mestre da vida espiritual. Em ambos os casos, e apesar de que 
Jesus e Maria estivessem sendo observados, ele via apenas seus corpos. A di-
vindade de Jesus é um atributo invisível. Quando começaram os milagres da 
82 SVMMA DAEMONIACA
vida pública de Jesus, os demônios cada vez mais insistentemente se pergun-
tavam se Aquele era um profeta, ou era o Messias. A suspeita foi gradualmente 
dando lugar à certeza; foi aumentando não apenas por aquilo que Ele fazia, 
mas por aquilo que disse e ensinou. Pode ser que em alguma ocasião os Após-
tolos escutassem Jesus sonolentos e entediados; no entanto, os demônios não 
perdiam uma só palavra. Depois de terem debatido e analisado muito entre si, 
a certeza de que Ele era Deus deve ter ficado clara muito depressa.
Mas, embora ficasse claro para eles que Aquele Homem não era um ho-
mem, o assunto teria sido complexo para um teólogo humano. Moisés havia 
feito milagres mais espetaculares. É verdade que Jesus fez milagres que iam 
além de uma natureza angélica (ressuscitar mortos, por exemplo). Mas contra 
isso se podia argumentar que no fundo não era Ele, Jesus, que os fazia, e sim 
Seu Pai, Deus. E se Ele, Jesus, os fazia por Sua própria força e não Deus Pai, 
como era possível distinguir de onde vinha o milagre, uma vez que eles só 
viam o feito? A questão não era simples, mas como bons conhecedores que são 
aqueles ligados à Teologia, logo compreenderam que Aquele Homem era Deus 
encarnado. E assim se Lhe manifestaram as possessões quando, por exemplo, 
eles disseram: “Você veio nos atormentar antes do tempo?”. Ao dizerem isso 
demonstraram saber que Ele era Deus, o próprio Deus que no final dos tem-
pos, no Juízo Final, os condenaria. 
Questão 58 
Jesus sofreu a tentação? 
Jesus era impecável. Como autêntico Homem que era, nada O impedia de 
pecar; Ele estava livre para pecar, bastava apenas um ato de Sua vontade. Po-
rém, ao mesmo tempo, era impossível que pecasse por causa de Sua bondade. 
No entanto, o fato de Jesus ter sido impecável não significa que não tenha so-
frido a tentação. Sofreu. Como Homem, padeceu os dardos da tentação, e com 
força teve de resistir a ela. N’Ele não havia concupiscência, não havia inclina-
ção ao mal, nem debilidade em Sua alma, mas para sentir os atormentadores 
dardos da tentação essas três coisas não fazem falta alguma. 
Questões teológicas 83
Muitas vezes, os cristãos ao meditar sobre a vida de Cristo, dando por certo 
que era Deus, não valorizam o suficiente o sofrimento da tentação sofrida por 
Ele.
Deveríamos agradecê-l’O, em especial à Sua última tentação na Cruz, a 
mais forte de todas, a mais pungente: o abandono. Da Paixão, valorizamos os 
Seus sofrimentos físicos, mas não nos damos conta de que Seus sofrimentos 
espirituais foram muito mais dolorosos do que os externos. A Paixão interna 
foi muito pior do que a externa, a Paixão espiritual foi muito pior do que a 
corporal. Ali, diante da Cruz, estava o Inferno inteiro. Todos os demônios 
estavam lá, em torno da Cruz, contemplando com prazer o seu triunfo: Deus 
crucificado! Esse era o maior de seus sonhos, seus desejos mais afeiçoados se 
tornavam realidade! 
O que eles não poderiam imaginar, nesse momento de vingança e ódio, era 
que a maior derrota foi Sua maior vitória. A maior derrota neste mundo era a 
maior vitória do Reino dos Céus. A redenção estava consumada. E depois, a 
ressurreição foi algo que os deixou sem palavras. Sua vitória demoníaca não 
tinha servido para nada, e Ele regressava ao Céu mais sublime com todos os 
tesouros do Amor obtidos em Sua Paixão. A derrota foi como uma gratifica-
ção que dava uma completa reviravolta. E eles, os demônios, haviam sido os 
instrumentos nessa vitória de amor.
Mas, se as coisas já não estiveram complicadas o suficiente para eles, 
houve outro acontecimento que foi a vitória do amor, e de repente tomaram 
consciên cia de que Deus Pai não havia perdoado a Paixão nem ao Seu próprio 
Filho. Esse feito teria consequências terríveis. Se Deus Pai, pela reparação dos 
pecados da humanidade, não havia perdoado nem ao Justo, então os demô-
nios poderiam esquecer de ser perdoados no final dos tempos. A Paixão na 
Cruz supunha que a Justiça Divina não tinha sido transgredida em vão. Na-
quele exato momento todos os demônios ficaram completamente conscientes 
de que sua condenação não teria indulto algum por séculos e séculos. Por 
isso, da alegria de contemplar a Cruz por sua vitória maligna, eles passaram 
a entender que recordariam para sempre da Justiça Divina. E assim, acima 
de tudo, os demônios odeiam a imagem da Cruz, mais do que a imagem da 
84 SVMMA DAEMONIACA
Virgem Maria ou qualquer outra imagem santa ou uma representação de um 
mistério sagrado. A memória do que eles contemplaram como testemunhas 
há dois mil anos é uma recordação que gostariam de apagar de suas mentes, 
mas não podem. Vendo qualquer cruz recordam de sua derrota e recordam 
que ali perderam a esperança de qualquer anistia.
Questão 59 
Qual foi a criatura mais magnífica criada 
por Deus, a Virgem ou Lúcifer?
A palavra Lúcifer é originária do latim e significa “Estrela da manhã”.6 
Ninguém deve estranhar que um ser maligno tenha um nome tão belo, pois 
este foi o nome que o Pai dos anjos colocou na criatura ao cria-la. O certo é 
que este era seu nome antes de cair.
É preciso entender que a natureza mais magnífica criada por Deus foi a de 
Lúcifer. A Virgem se santificou dia a dia, com esforço. Ela, com o seu sacrifí-
cio, seus atos e a Graça de Deus, conseguiu ser a criatura mais magnífica. Mas 
sua magnificência não foi um ato da criação de Deus, e sim de santificação. 
Tanto, que a criatura mais magnífica que Deus criou foi a maior de todas as 
criaturas angélicas. Deus criou Lúcifer magnífico em sua natureza, e ele se 
corrompeu. Deus criou Maria humilde em sua natureza, uma simples mulher 
e, portanto, inferior aos anjos, mas foi ela quem se santificou. Como se vê, há 
um grande paralelo entre ambas as figuras, mas um paralelo inverso:
• Uma delas é a criatura mais perfeita por natureza, a outra pela graça; 
• Uma delas se corrompe; a outra se santifica; 
• Uma delas quer ser rei e não servir, e, ao final, não é nada; a outra quer ser 
nada e servir e, no final, é rainha.
Além disso, inclusive com relação aos nomes, há um paralelo entre a estrela 
da manhã angélica (Lúcifer) e a estrela da manhã da redenção (Maria):
6 Eu, o autor, não intento julgar os valores sobre as questões que escrevi, mas esta questão é a minha 
favorita dentre todas encontradas em Svmma Daemoniaca.
Questões teológicas 85
• A primeira estrela caiu do firmamento angélico; a segunda estrela se 
elevou;
• A primeira estrela, que era espírito, caiu na Terra; a segunda estrela, que 
era corpo, ascendeu aos Céus;
• Lúcifer não quis aceitar o Filho de Deus feito Homem; a Virgem não so-
mente O aceitou como O acolheu em seu ventre; 
• Lúcifer era um ser espiritual que, finalmente, se tornou pior do que uma 
Besta (sem deixar de ser espiritual); ela era um ser material que finalmente se 
fez melhor do que um anjo (sem deixar de ser material); 
• Lúcifer se bestializou; ela se espiritualizou. 
Agora existe apenas uma estrela da manhã, que é a Virgem. Pois, ainda que 
a primeira estrela tenha caído, a segunda brilhou com a luz da graça, muito 
mais bela e intensamente que a primeira estrela, que brilhou somente com a 
luz de sua natureza.
Questão 60 
Por que a água benta atormenta o demônio? 
Como algo material pode ter alguma influência sobre algo espiritual? São 
campos tão distintos, tão independentes, que parece que o material não pode, 
de modo algum, expulsar, produzir incômodo ou qualquer efeito sobre um 
demônio.Há algum tempo escrevi que se o material (água benta, óleo do san-
to Crisma, etc.) tem capacidade para atormentar e expulsar os demônios, não 
é por sua própria materialidade, e sim porque a Igreja, ao abençoá-la, uniu a 
essa matéria um poder espiritual. Isso significa que a Igreja, com o poder re-
cebido de Jesus Cristo, pode unir um efeito espiritual a um objeto. Portanto, o 
objeto não é nada em si, é o poder de Cristo que está ali, unido àquele objeto.
De qualquer modo, a experiência dos últimos anos fez-me complementar 
essa opinião. Complementar, e não mudar. Sigo sustentando a mesma opi-
nião, mas comprovei que não é o mesmo abençoar um objeto ou outro. Há ob-
jetos que, pelo que simbolizam em si, têm uma efetividade concreta. E a esse 
86 SVMMA DAEMONIACA
respeito, posso contar uma anedota. Em certa ocasião, não tínhamos água na 
paróquia. Fazia muito frio e a água estava congelada nos canos. Não se podia 
dar de beber à pessoa possessa a água benta das pias, uma vez que já estava há 
alguns dias ali e, sobretudo, porque colocamos os dedos nela. Assim, quando 
já estava a ponto de sair da paróquia em busca de água naquela frígida manhã, 
me dei conta de que havia uma garrafa de limonada que tinha sobrado de uma 
reunião de catequistas. Ocorreu-me abençoar o conteúdo da garrafa, pensan-
do que o tipo de matéria era o de menos e que o importante era a oração que 
se vinculava a ela. Pois bem, logo observei que ainda que produzisse algum 
efeito, esse era muito menor. Passados alguns minutos, ordenei ao demônio 
em nome de Jesus que me dissesse por que estava agindo daquela maneira. 
Ele resistiu, mas ao final disse-me que a água era símbolo de pureza e limpe-
za, e que aquele outro líquido abençoado também lhe produzia algum efeito, 
mas menor.
Se observarmos os objetos que a Igreja tem abençoado ou consagrado, va-
mos perceber que todos eles possuem um simbolismo inerente: sal, incenso, 
água, óleo, velas, pão.
Questão 61 
Que outros objetos atormentam os demônios? 
As relíquias dos santos atormentam os demônios, porque elas estão cheias 
de unção espiritual desses santos. Um crucifixo atormenta o demônio, mesmo 
que não esteja abençoado, pois ele lembra a sua derrota no Calvário e a vitória 
de Deus; lembra que Ele será o seu Juiz no Dia do Juízo, etc. O mesmo é verda-
deiro para todas as imagens religiosas que o assombram, mesmo sem estarem 
abençoadas, e mais ainda se forem abençoadas. Em especial se na bênção foi 
expressamente pedido a Deus que repelisse aos demônios.
Questões teológicas 87
Questão 62 
Qual é o demônio meridiano? 
A acedia é a contínua e intensa vontade pelas coisas espirituais que sofrem 
os ascetas em determinado momento da evolução de sua vida interior. O de-
mônio que tenta aos que se mortificam com a acedia é chamado pela tradição 
demônio meridiano. O nome de meridiano vem de uma má tradução do versí-
culo do Salmo 91,6 por São Jerônimo. O Salmo dizia em hebraico: “Não tenha 
medo (...) a destruição que assola no sul”. Mas São Jerônimo o traduziu como: 
“Não tenha medo do demônio meridiano”. Meridianus em latim significa tan-
to “do sul” como “do meio-dia”.
Desde que o versículo na Vulgata ficou assim, foram muitos os comenta-
ristas que construíram suas exegeses sob a segunda acepção da palavra latina. 
E assim foi sendo criada toda uma literatura que falava do demônio que vinha 
para tentar os eremitas ao meio-dia. Por que ao meio-dia? Porque era essa a 
hora para descansarem do trabalho da parte da manhã, depois do almoço. 
Nesse tempo de descanso, na solidão, sem qualquer oração marcada para o 
momento, era quando sentiam o peso da vida ascética que tinham abraçado. 
Assim se explica porque era nesse momento do dia que sentiam as punhaladas 
da tentação.
O demônio meridiano da literatura ascética não representa um demônio, 
mas sim um tipo de tentação. Ou seja, um sentimento contínuo e prolongado 
de desânimo que os eremitas sofrem ao sentir a dureza da vida que abraça-
ram, unido a uma despreocupação pelas coisas espirituais.
Isso que acabo de escrever é o que a tradição espiritual entende por de-
mônio meridiano. Pois bem, além disso, é o nome de algum demônio em 
particular? Todas as tentações de acedia procedem de um demônio? Se for um 
demônio em particular, isso é algo de que nunca poderemos ter plena certeza, 
mas em um caso de possessão um demônio havia dito que Meridiano era o 
quinto demônio na importância da hierarquia demoníaca. Mas uma vez que 
não está dito na Bíblia, não podemos estar certos, à pergunta sobre se a tenta-
ção acedia procede sempre do demônio, a resposta é que não necessariamente. 
88 SVMMA DAEMONIACA
Uma pessoa que se encontra em uma situação de renúncia total dos prazeres 
do mundo pode sofrer estas tentações, sem a necessidade da intervenção do 
demônio.
Questão 63 
Como os anjos ocupam o seu tempo? 
No mundo dos anjos, como ocorre no dos seres humanos, alguns se ocu-
pam com algumas coisas, e outros de outras. Embora os anjos não tenham de 
cultivar ou construir casas nem fazer artefatos, nem nada de tudo aquilo que 
ocupa o nosso tempo. Os anjos estão empenhados em glorificar a Deus, em se 
aprofundar no mundo do conhecimento, em se relacionar entre si e em ajudar 
os homens. 
O mundo intelectual é um mundo tão vasto que eles se ocupam de maneira 
bastante semelhante a nossa. Em uma universidade, por exemplo, pode haver 
centenas de professores, cada um especializado em um ramo da aprendiza-
gem. Em uma universidade trabalham longas horas por dia centenas de pro-
fessores e catedráticos, e todo esse trabalho, toda essa atividade, estão ordena-
dos para produzir uma coisa: o conhecimento. O mesmo acontece no mundo 
dos espíritos angélicos. As relações entre os anjos podem parecer pouca coisa. 
Mas as relações entre os homens exigem eventos formais, como embaixado-
res, cônsules, visitas, reuniões. Uma centena de seres humanos se comunicam 
entre si de uma vez. Mas seis bilhões, não. Algo semelhante acontece com os 
anjos que formam uma verdadeira parceria, uma sociedade complexa. Além 
disso, essas relações entre os anjos não são apenas as relações de conhecimen-
to, mas também de caridade. Os anjos não apenas se comunicam, também 
se reencontram, eles se querem bem, etc. Não esqueçamos de que somos ho-
mens, e como eles, com compreensão e vontade. E nossas relações nos servem 
muito bem para entender como são as interações entre os seres dotados dessas 
duas potências da alma.
Questões teológicas 89
Questão 64 
Existe um sacerdócio no mundo angélico? 
Em primeiro lugar, deve ficar claro que entre os homens há um sacerdó-
cio natural. Melquisedeque era um sacerdote real, segundo a Bíblia afirma, 
e nem ao menos pertencia ao Povo Eleito. A essência do sacerdócio está em 
oferecer sacrifícios. O sacerdote é aquele que oferece sacrifícios em nome de 
toda a comunidade. É uma característica de todas as civilizações a nomeação 
de alguém para lidar com o culto da Divindade. E o sacerdócio, mesmo que 
não seja diretamente estabelecido por Deus, é verdadeiro, um exercício que 
dá glória à Divindade, pois se oferece uma adoração a Ele em nome de todos. 
Essa função litúrgica, cultural, sacrifical é uma instituição que não somente 
Deus condena em Apocalipse, como também a eleva: faça a sua escolha e Ele 
lhe concederá graças especiais.
Como dissemos antes, há muitas ocupações entre os anjos, e não devemos 
esquecer da mais importante de todas: a glorificação da Divindade. Todos os 
anjos Lhe glorificam. Mas não há somente uma glorificação individual, há 
também uma coletiva, suficiente para que Deus seja glorificado, elogiado e 
exaltado para cada um dos seres inteligentes. O amor a Deus leva a glorificá-
-l’O de todos os modos e sentidos possíveis. E uma dessas formas é a glo-
rificação coletiva. Quando várias pessoas que amam a Deus se colocam de 
comum acordo para honrá-l’O conjuntamente, a partir desse momento estão 
sendo colocadas as bases de um ato litúrgico. Quando esse ato já não é maisde 
algumas centenas de pessoas, mas de milhares, então temos uma verdadeira 
liturgia celestial. 
Nesse sentido sim, é que há anjos que cumprem função sacerdotal. Ou seja, 
existem espíritos angélicos, nessa liturgia eterna, que representam todos os 
anjos. Que sacrifício eles oferecem? O sacrifício de louvor a todos os espíritos 
que representam e cuja glória oferecem à Santíssima Trindade. Esse é um sa-
crifício incruento e imaterial. É uma oferta de glória7.
7 Devo dizer que essa questão a respeito do sacerdócio dos anjos se me propôs pela primeira vez 
voltada à etimologia do nome Leviatã. No Antigo Testamento, Levi era o nome do sacerdote por 
90 SVMMA DAEMONIACA
Questão 65 
É certo pintar o demônio com chifres e corpo de um homem? 
Já se disse que o demônio não tem forma alguma que se possa ver, porém 
esse modo de representação tradicional com cornos é bastante convencional. 
Isto é, trata-se de um sinal assentado pela tradição ocidental durante sécu-
los, que é portador de um significado. De qualquer modo, é um sinal mui-
to adequado, porque combina dois elementos: a racionalidade representada 
pela forma humana (única forma visual que conhecemos de ser racional) e 
a bestialidade simbolizada pelos cornos, rabos e garras. De modo que esta-
mos diante de um símbolo muito simples, mas que reflete tanto a inteligência 
como o caráter cheio de fúria, de animalesca bestialidade que caracteriza as 
manifestações deles em todas as épocas por meio dos possessos.
Igualmente, o modo de representar os anjos que tem decantado a tradição 
iconográfica é muito adequado. O anjo, ao ser representado como homem 
com asas, é um modo de significar pelo aspecto humano a racionalidade, e 
pelas asas a sutileza. Isto é, as asas representam a capacidade de transportar-se 
de um lugar a outro a vontade, sem obstáculos. Também é curioso observar 
que os anjos são representados vestidos, enquanto os demônios não, como 
sinal de seu caráter bestial.
Questão 66 
Por que há água benta na entrada da Igreja?
A purificação com água benta acompanha de devoção produz três efei-
tos: atrai a graça divina, purifica a alma e afasta o demônio. Esse gesto de 
purificar-se com água benta atrai para nós graças divinas pela oração da Igre-
ja. A Igreja orou sobre essa água com o poder da Cruz de Cristo. O poder 
excelência. Não poderia ser que o Leviatã fosse a corrupção de Levi, bem como Judas Iscariotes 
foi a corrupção de um Apóstolo? Teria cumprido Leviatã, antes de cair, uma função sacerdotal? 
Só Deus o sabe. Após a Bíblia os nomes não são casuais, todos encerram um mistério. E o mais 
terrível de todos os demônios tem o nome do sacerdote por excelência. Em minha opinião, Leviatã 
é a corrupção de Levi.
Questões teológicas 91
sacerdotal deixou uma influência sobre essa água. Ao mesmo tempo, ela puri-
fica parte de nossos pecados, tanto os veniais como o reato que fica em nossa 
alma. O terceiro poder da água benta é afastar o demônio. O demônio pode 
entrar perfeitamente numa igreja, seus muros não o retêm, o solo sagrado não 
o refreia. No entanto, a água benta é o que o afasta.
As pessoas costumam se queixar de que se distraem muito na igreja; o de-
mônio tem grande interesse em nos distrair justamente quando estamos em 
contato com as realidades sagradas. Por isso é tão útil a água benta da entrada. 
Ainda usando a água benta podemos nos distrair, mas teremos a segurança 
de que isso procede de nós e não do demônio. Ainda que, com os olhos do 
corpo, não possamos ver a cruz que a água benta forma em nosso corpo ao 
nos purificarmos, o demônio, sim, pode vê-la. Para ele, essa cruz é de fogo, é 
como um coração que não pode traspassar. Insisto que se purificar com água 
benta ao entrar numa igreja não é um mero símbolo, essa água tem um poder, 
um poder que Cristo ganhou com Seus sofrimentos na Cruz e que o sacerdote 
administra com toda facilidade.
Questão 67 
O demônio é um mero símbolo do mal ou ele realmente existe? 
Sempre me admirou a capacidade de algumas pessoas para se fecharem à 
realidade. Compreendo aquelas que não creem e com humildade dizem que 
não viram nada extraordinário em toda sua vida, e que, portanto, suspendem 
seu julgamento. Mas é surpreendente encontrar pessoas que asseguram com 
firmeza absoluta, taxativa, que é impossível que o demônio exista. Chegaram 
a tal conclusão depois de revisar todos os rincões do universo com um dom 
extraordinário que lhes permite ver os espíritos? Ninguém, salvo por especial 
permissão de Deus, pode ver os espíritos. Mas os fenômenos que eles pro-
duzem (possessão de pessoas, infestação de lugares), sim, é possível vê-los. 
Quando um possesso, no meio de uma sessão de exorcismo, vomita peda-
ços de ferro, isso é uma prova. Quando o copo se move sem ser tocado em 
um tabuleiro de ouija, isso é uma prova ao menos da existência de espíritos. 
92 SVMMA DAEMONIACA
Quando toda uma família acorda no meio da noite por causa dos ruídos ter-
ríveis vindos de uma casa, que quando a abrem comprovam que está vazia, 
isso é uma prova. Mas nenhuma prova convencerá aos fanáticos do ateísmo. 
Porque neles o ateísmo não é só uma postura, senão uma fé, um dogma, uma 
religião à qual se agarram com todas suas forças. Não com as forças de sua ra-
zão, senão de seu espírito. Nesses casos não há nada o que fazer. Só rezar para 
que Deus envie Sua graça e se abram à verdade.
Nota a essa questão
Faz anos, a primeira versão de Svmma Daemoniaca incluía aqui um pe-
queno iocus, um jogo irônico com os conceitos. Mas essa broma foi mal-inter-
pretada pelos leitores mais humildes. Então, depois do último protesto, decidi 
mudar o conteúdo da questão e deixá-lo exatamente como está.
 93
Parte V
Pergunt as bíblicas
Questão 68 
Qual é a diferença entre o temor a Deus e ao demônio? 
“Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma; 
temei antes aquele que pode precipitar a alma e o corpo na geena” (Mt 10,28).
Esse versículo, apesar de sua simplicidade, é de uma complexidade extra-
ordinária. A grande questão subjacente é: de quem devo ter medo? Numa pri-
meira leitura parece que o que se afirma é que teria que se temer ao demônio. 
A mensagem do versículo seria “não temais aos homens, não temais aos que 
vos podem fazer mal nesta vida; temei ao demônio, isto é, temei aos que vos 
podem fazer mal para a outra vida”. O ensinamento seria que não devemos 
nos preocupar pelos males dessa vida, senão pelos da futura e perpétua.
Estou seguro de que essa leitura tem-se tornado mais frequente e popular 
ao longo da história. E não é errônea. O ensinamento que transmite é claro 
e singelo: se é verdade que nos preocupamos pelos que nos provocam males 
neste mundo, bem mais deveríamos nos preocupar por aquele que procura o 
nosso mal eterno.
Mas acho que há um sentido bem mais profundo no versículo. E a men-
sagem mais sutil é a de que ninguém pode levar-nos ao Inferno, senão Deus. 
Nem homens, nem demônios, só Deus é o Juiz, só Ele pode nos enviar àquele 
lugar. Daí que o que nos diz o versículo é que se vivemos neste mundo para a 
94 SVMMA DAEMONIACA
eternidade não há razão para temer a ninguém. Só ao Juiz eterno. O versículo, 
portanto, seria uma incitação ao santo temor de Deus.
O temor ao demônio é pelos males que nos possa causar na vida mate-
rial (enfermidades, desgraças) ou na vida espiritual (nos fazer pecar ou nos 
condenar). Mas tais males não estão em sua mão. As desgraças e doenças só 
chegarão a nós se assim Deus o permitir. O pecado é a condenação somente 
se nós quisermos. Logo, o temor ao demônio não faz sentido, pois tudo está 
nas mãos de Deus. O temor ao demônio está, portanto, teologicamente infun-
dado, não faz sentido. Com Deus não há razão para temer ao demônio. Ser 
crente e temer ao demônio supõe uma contradição.
O temor ao demônio parte do pressuposto de uma verdadeira falta de fé na 
onipotência de Deus, uma verdadeira desconfiança em Seu cuidado amoroso, 
e uma verdadeira ofensa à Sua santidade, pois um Deus que permitissesem 
razão alguma o sofrimento de Seus filhos seria um Deus injusto. O temor ao 
demônio, portanto, é negativo. Falo, certamente, do temor consentido, não 
do sentimento. O sentimento de medo para esse ser é inevitável para algumas 
pessoas e está acima de suas forças, como para outras é o temor às alturas ou 
às serpentes.
Se o temor ao demônio é negativo, o santo temor de Deus é um dom do Es-
pírito Santo. É o temor de ofender-Lhe, o temor de perder-Lhe e, sobretudo, o 
temor que nos produz comparecer ante à santidade de Sua presença, sabendo 
– como o sabemos – que somos nada e indignos. Chegará um dia em que, no 
Reino dos Céus, quando já não temeremos nem Lhe perder, nem Lhe ofender, 
pois será impossível, ainda manteremos, por toda a eternidade, o santo temor 
de Deus. Nem contemplando-O a cada dia, nem contemplando-O como Pai, 
perderemos esse santo dom. Pelo contrário, seremos ainda mais conscientes 
da infinita distância entre Sua grandeza e a nossa pequenez. Esse dom de 
Deus leva-nos a ser mais agradecidos por permitir-nos estar diante d’Ele sem 
merecê-l’O. É um temor bom que não é contrário ao amor, pois o aperfeiçoa.
Claro que há um temor mau de Deus que leva ao desespero, e desse medo 
São João fala em sua Epístola. Esse medo o incita ao demônio, enquanto o te-
mor de Deus é um dom do Espírito Santo. O maravilhoso e profundo versículo 
Perguntas bíblicas 95
do capítulo 10 de Mateus é como se nos dissesse: não deveríeis temer a nada 
nem a ninguém, mas se temeis (porque sois débeis), temei aquele que provoca 
males eternos e não os males desse mundo. Mas as mesmas palavras, exata-
mente as mesmas, que nos dizem isso, nos dizem ao mesmo tempo: mas em 
verdade, temei só a Deus que é o Juiz da eternidade. Bem se vê, é um versículo 
com duas peças internas que parecem contraditórias, mas que formam um 
quebra-cabeça que se encaixa do modo mais inteligente possível.
Questão 69 
Que ordem seguem as três tentações que Jesus sofreu no deserto? 
Todo mundo conhece as tentações que Satanás fez Jesus padecer no deser-
to. A tentação do pão, dos reinos e de ser reconhecido. Agora, por que ele Lhe 
tenta para que o adore, quando não conseguiu sequer que aceitasse a tentação 
de que quebrasse o jejum? Por que, finalmente, tenta que se retire do piná-
culo do Templo? Se Ele tinha desprezado a glória do mundo inteiro, por que 
a última tentação é a de menor tamanho? À primeira vista, pareceria lógico 
que a tentação começasse por um pecado maior. E como falha, tenta-O com 
pecados cada vez menores, de menor malícia. Se uma chave não se encaixa 
em uma fechadura, tenta-se com outra menor. Que lógica seguem essas ten-
tações? Pareceria mais razoável que O tentasse com a idolatria primeiro, e ao 
não obter êxito, que O tentasse com algo intermediário e, finalmente, com 
aquilo que nem ao menos é um pecado venial, como romper com um jejum 
voluntário.
No entanto, essa primeira impressão de que essa seria uma sequência iló-
gica de tentações é falsa. O ataque segue uma série de lógica mais sutil. Segue 
a ordem de tentações que sofre uma alma que decide viver uma vida espiri-
tual. Por isso, há grande simbolismo nestas três tentações. O primeiro demô-
nio tenta com as tentações da carne, simbolizadas pelo pão. Essa tentação de 
asceta simboliza o que é chamado a noite do sentido. Se a alma resiste a essa 
tentação (todos os apetites do corpo), não há razão para continuar tentando 
em um campo em que a alma já tenha sido suficientemente fortificada. 
96 SVMMA DAEMONIACA
Após a noite dos sentidos, o demônio tenta-O com o mundo. O Santo sente 
a beleza do mundo, as atrações desse mundo que Ele deixou. Esse é um sím-
bolo da noite do espírito. Na noite do espírito não se tenta com essa ou aquela 
alegria particular. Mas a tentação é, então, todo o mundo em que vive, mas 
que já não goza. Se ele resiste a essa tentação, cai a soberba, pois, uma vez que 
atravessa a noite do espírito, o único perigo que resta é o orgulho pelos pró-
prios dons recebidos.
Assim, a última tentação vai contra a humildade. As três tentações são sím-
bolos de uma das fases das tentações da vida espiritual. Para isso deve ser 
acrescentado que aquelas com as quais o demônio tentou Jesus foram parti-
cularmente sutis. Tenta-O primeiro, não ao pecado, senão à imperfeição, quer 
dizer, deixar de fazer um bem. Depois tenta com o bem espiritual dos povos. É 
como se lhe dissesse: “Faça um sinal de reconhecimento para mim que sou so-
berbo, e em pagamento me ponho de teu lado. Só te peço um sinal de reconhe-
cimento e ajudar-te-ei em tua tarefa de salvar almas. É que não és humilde? É 
que não és capaz de se aniquilar um pouco mais pelo bem eterno das almas?”. 
A segunda tentação, como se vê, também admite um sentido tremendamente 
espiritual. Não pedia que Jesus deixasse de ser Deus, só se Lhe pedia o sacri-
fício de se humilhar um pouco. O Justo que tinha feito tantos sacrifícios pelas 
almas não poderia fazer um mais? É a tentação de fazer um pequeno mal por 
conseguir um grandessíssimo bem. A terceira tentação é a da soberbia, a de 
não se ocultar, a de ser reconhecido publicamente. Era prescindir do fato de 
que é Deus, no momento em que Ele determina o que engrandece aos Seus 
servidores. Mas ainda que Deus determine esse momento e essa hora, por que 
não adiantá-lo? Por que permanecer na escuridão quando se pode fazer tanto 
bem saindo à luz de modo tão grandioso e espetacular? A terceira tentação, 
como se vê, é a mais complexa de todas.
Perguntas bíblicas 97
Questão 70 
O que são os mil anos em que o demônio ficará preso? 
“Ele apanhou o dragão, a primitiva serpente, que é o demônio e Satanás, e o 
acorrentou por mil anos. Atirou-o no abismo, que fechou e selou por cima, para 
que já não seduzisse as nações, até que se completassem mil anos. Depois disso, 
ele deve ser solto por um pouco de tempo” (Ap 20,2-3).
Esses mil anos podem ser um símbolo da eternidade de condenação do de-
mônio? Não, porque o texto que se segue diz que depois desse aprisionamento 
ele será solto por algum tempo. Na minha opinião, esse período de mil anos é 
um símbolo de tempo que decorre entre o fim das perseguições sofridas pela 
Igreja, no seu início, até as perseguições do final dos tempos. Isto é, desde o 
fim das perseguições romanas até que se iniciem outras por trás da Grande 
Apostasia. É evidente que a Igreja tem sofrido muitas perseguições a partir 
daquelas sofridas desde o Império, mas tanto as do início quanto as posterio-
res (como as descritas no Apocalipse) têm uma característica em comum: a sua 
universalidade.
Também se poderia entender, mas de modo secundário, ou seja, como um 
símbolo acidental, que esses mil anos são o tempo da cristandade. A cristan-
dade é um conceito técnico de significado muito específico, que durou desde 
a proclamação do cristianismo como religião oficial na época de Teodósio até 
a rebelião protestante. Depois de um milênio do cristianismo, essa realidade 
foi quebrada e os cristãos estão divididos, o que favorece a ação do demônio.
Na minha opinião, esses mil anos são simbólicos do que foi dito no início 
dessa questão, mas seu segundo sentido também pode ser aplicado, ainda que 
como um símbolo secundário dentro do símbolo primário.
98 SVMMA DAEMONIACA
Questão 71 
Que significado teria o envio dos bodes para 
Azazel no Livro de Levítico? 
“Deitarão sortes os dois bodes, um para o Senhor, e outro para Azazel. Im-
porá as duas mãos sobre a sua cabeça, e confessará sobre ele todas as iniquida-
des dos israelitas, todas as suas desobediências, todos os seus pecados. Pô-los-á 
sobre a cabeça do bode e o enviará ao deserto pelas mãos de um homem encar-
regado disso. O bode levará, pois, sobre si, todas as iniquidades deles para uma 
terra selvagem. Quando o bode tiver sido mandado para o deserto, o homem 
que tiver conduzido o bode a Azazel no deserto lavará suas vestes e banhar-se-
-á. Depois disso poderá voltar ao acampamento” (Lv 16,8.21-22.26).
Essa estranha entidade chamada Azazelera misteriosa ainda poucos sé-
culos depois, inclusive para os próprios judeus. Nem se sabe com precisão a 
origem etimológica da palavra, e não se repete esse nome em toda a Bíblia. 
Mas havia uma preocupação constante entre os judeus que os fazia pensar 
em se tratar de um espírito maligno. Isso ocorre porque o texto deixa claro 
que Azazel é o oposto d’Aquele para quem é oferecido o cordeiro sacrifical 
na tenda do encontro. Um cordeiro, o Yahvéh, o Cordeiro sem mancha, sem 
defeito, e que foi oferecido com todos os ritos. E o outro é um cordeiro ao qual 
se abandona, com todos os pecados. 
O significado do ritual do Levítico é que Azazel carrega todos os pecados 
do povo eleito, carrega o mal de Israel. O sacrifício imaculado para Yahvéh é 
o Cordeiro portador da iniquidade para Azazel. É como se o pecado se con-
centrasse em um ser que Satanás devorará, no estilo da bola de gordura e de 
cabelo que carrega o dragão do Livro de Daniel no capítulo 14. Essa passagem 
das ovelhas de Azazel e o dragão de Daniel, na minha opinião, são como duas 
peças que se encaixam à luz do Novo Testamento, são complementadas por 
um novo sentido muito mais profundo. Cristo seria a ovelha abandonada a 
Azazel, a ovelha que carrega todos os pecados e que é devorada pelo dragão, 
mas que, uma vez devorada, deve arrebentar o seio de Satanás. 
Perguntas bíblicas 99
Questão 72 
Por que a Sagrada Escritura diz que os 
demônios estão nas regiões do ar? 
“Revesti-vos da armadura de Deus, para que possais resistir às ciladas do 
demônio. Pois não é contra homens de carne e sangue que temos de lutar, mas 
contra os principados e potestades, contra os príncipes deste mundo tenebroso, 
contra as forças espirituais do mal (espalhadas) nos ares” (Ef 6,11-12).
A Sagrada Escritura ao falar dos demônios sempre os situa em dois lugares: 
ou no Inferno (isto é, no que está embaixo, pois isso significa Inferno) ou no 
ar. Ao dizer que estão no ar, o que se quer expressar é que podem estar em 
todas as partes, que não se deslocam como nós sobre a Terra, e sim que se 
movem com completa liberdade. São Paulo volta a mencionar isto ao chamar 
o diabo “príncipe das potestades do ar” (Ef 2,2). Ainda a esse versículo, cabe 
traduzi-lo também como “o dominador do poder do ar”.
Quando a Sagrada Escritura diz que alguns estão no Inferno, está queren-
do dizer que não estão tentando os homens? Provavelmente signifique isso. 
O que não parece é que tenha diferença de sofrimento entre esse “estar no 
Inferno” e “estar entre os homens tentando”.
Questão 73 
Por que na Bíblia Deus chama o demônio 
de “o príncipe desse mundo”? 
Em certos momentos, a Bíblia utiliza para referir-se ao diabo expressões 
que podem parecer excessivas. No entanto, tudo no Livro Sagrado está perfei-
tamente medido. Deus é o Dominus (Senhor) e o Rex (Rei); estes dois termos 
sempre estão reservados a Deus na Sagrada Escritura. Só há um Rei e um 
único Senhor. Isto é, só há um detentor do poder e um único detentor dos 
direitos.
100 SVMMA DAEMONIACA
Deus é o Rex, enquanto o diabo é o princeps. Essa palavra – princeps – em 
latim significa “o que ocupa o primeiro lugar, o primeiro, o mais importante, 
o principal”. Existe uma longa tradição, que remonta aos Santos Padres, que 
considera que o diabo, antes de se rebelar, era o mais poderoso e belo de todos 
os anjos. Ainda que essa tradição seja extrabíblica, há certos versículos que de 
um modo obscuro estariam em consonância com ela. Assim, pelo exemplo, a 
Sagrada Escritura ao denominar “príncipe deste mundo” quer dizer, sem dei-
xar lugar a dúvidas: o mais importante desse mundo.
Questão 74 
Por que o demônio Asmodeu fugiu após Tobias 
queimar o coração e o fígado do peixe?
Já foi dito antes que não há poder algum na matéria que possa influenciar 
no espírito. Também já foram feitas as considerações pertinentes a essa afir-
mação. O que teria expulsado Asmodeu não seria, propriamente falando, a 
virtude inerente ao coração e fígado do peixe, senão a obediência de Tobias ao 
fazer o que o anjo lhe pediu. Foi a obediência, e não aquelas entranhas, o que 
provocou o exorcismo. Ou dito de outro modo, não foi aquela matéria senão o 
poder de Deus o que expulsou o demônio.
Da mesma maneira, quando Deus no Antigo Testamento mandou que se 
sacrificasse um cordeiro no altar do Templo para a purificação dos pecados, 
Ele sabia que a materialidade dessa morte não perdoava nada, nem tinha qual-
quer efeito espiritual, era a obediência ao Deus que mandava esse rito que 
apurava e provocava efeitos espirituais. O rito em si não apurava, o rito era a 
verificação dessa obediência.
Essa questão a respeito das entranhas do peixe é muito útil para recordar 
que, no exercício do ministério do exorcismo, há que se evitar toda tentação 
de cair em qualquer tipo de espécie de práticas mágicas, ainda que seu conteú-
do tenha cunho cristão. É o poder de Deus o que expulsa o demônio, o que 
vai além da simplicidade de fazer questão da oração e da singela aplicação 
de objetos abençoados sobre o corpo do possesso, o que vai além da plena 
Perguntas bíblicas 101
transparência da fé, é matéria não só perigosa, senão errada. Pois seria cair em 
práticas mágicas com a desculpa de que as estamos fazendo com objetos aben-
çoados ou orações dirigidas a Deus. Seria uma espécie de rito mágico, por 
exemplo, se o sacerdote dissesse que para libertar alguém do demônio tivesse 
que aplicar nele uma mistura de óleo sagrado com água benta e incenso em pó 
durante quatro domingos seguidos, e que após cada sessão, seria necessário 
recitar um Pai-nosso de pé e outro de joelhos. Ou outro exemplo de prática 
mágica com elementos cristãos, seria dizer que é preciso rezar determinada 
oração sete vezes e que depois de cada uma tivesse que dar água benta para a 
pessoa beber e, em seguida, fazê-la olhar a imagem da Virgem com as mãos 
unidas e recitando três vezes o Glória ao Pai. Tudo isto, mesmo feito com o 
uso de objetos cristãos, seria, de fato, uma prática mágica, pois a eficácia da li-
bertação já estaria na fé em Deus, na oração simples dirigida a Ele com a con-
fiança de um menino que pede a seu pai; nestes casos, a eficácia teria passado 
à materialidade de um objeto que deve ser aplicado de modo extremamente 
determinado como condição para que a oração dê resultado.
Questão 75 
Há algum significado nesse coração e 
no fígado do peixe de Tobias? 
Podemos fazer uma leitura simbólica do que faz Tobias com o demônio 
Asmodeu, entendendo-o como uma alegoria da ação de Jesus com respeito 
ao diabo. Não em vão tob em hebreu significa bom. A luta entre Tobias e o 
peixe seria ilustração da luta entre o Bom por excelência – Jesus – e Leviatã. 
O Leviatã é símbolo do diabo disfarçado com atributos de monstro marinho. 
Cristo vence e arranca-lhe o coração e o fígado, e queima-os. Isto produziria o 
exorcismo do mundo, a conjuração do mal no mundo humano. Isto é, o poder 
de Satanás fica quebrantado depois da vitória de Cristo na Cruz. “Vi Satanás 
cair como um raio”, dirá Jesus. Certamente, o mundo não estava possuído por 
Satanás, é uma imagem, embora jazesse nas trevas.
102 SVMMA DAEMONIACA
O casamento entre Tobias e Sara, libertada do poder do demônio, seria 
uma metáfora do casamento místico entre Cristo e a Igreja. A recuperação da 
visão do pai de Tobias seria símbolo da visão espiritual recuperada. Visão per-
dida com o pecado. A simbologia messiânica da visão dos cegos produz-se já 
no Livro de Tobias com o fel do fígado do peixe derrotado. O fel é símbolo do 
sofrimento redentor. O sofrimento de Cristo devolveu-nos a visão. Mas para 
obter esse fel que nos produz a salvação foi necessária essa luta com Leviatã. O 
fel, símbolo do sofrimento de Cristo, aplicado por Sua própria mão, devolve a 
visão à humanidade. A visão que perdemos pela cegueira que nos produziu o 
Príncipe desse mundo.
É interessante observar que o fel amargo é produzido pelo peixe, símbolo 
do diabo. Ele o produz e carrega essa amargura em seu seio. Masesse mesmo 
fel (símbolo do sofrimento) nas mãos de Tobias (símbolo de Cristo) transfor-
ma-se em medicina. Cristo transforma o sofrimento em medicina de reden-
ção. Também é curioso que em toda a Bíblia se mencione uma só vez o fato de 
salgar um peixe, e isso é em Tobias 6,5. Que símbolo há em salgar esse peixe 
que personifica o Leviatã? Acredito que esse é o símbolo da condenação eter-
na. O pescado salgado já não se corrompe. Está morto, completamente mor-
to, não se corrompe. Esse peixe salgado seria representação da morte eterna 
do Leviatã.
Questão 76 
O que quer dizer São Paulo ao afirmar que Cristo 
levou os demônios em Seu cortejo triunfal? 
“Jesus espoliou os principados e potestades, e os expôs ao ridículo, triunfan-
do deles pela cruz” (Col 2,15).
Quando se fala de principados e potestades, refere-se aos anjos pertencen-
tes a essas duas hierarquias que se rebelaram. Há uns principados e potestades 
angélicos que se mantiveram fiéis, e outros principados e potestades que se 
tornaram demoníacos. De que se lhes despoja aos rebeldes? Do poder sobre a 
Perguntas bíblicas 103
humanidade. Os demônios graças aos pecados dos homens estavam exercen-
do sobre estes um verdadeiro poder. Essa influência exercida pela tentação 
foi quebrantada graças à Cruz. A Cruz não é o limite para limitar o poder 
do demônio sobre a Terra, caso contrário, ele seria completamente destruído. 
A Redenção é uma libertação como a do Povo Eleito do Egito. O Povo Eleito 
escapou do jugo do pecado. Esse é o racha dos principados e potestades.
Quando São Paulo diz que Cristo os levou em Seu cortejo triunfal, está 
pensando na imagem dos generais vitoriosos entrando na Urbe, seguidos a 
pé pelos caudilhos (líderes) inimigos derrotados. O que essa imagem literária 
quer expressar é que entre o Messias e Satanás houve uma verdadeira luta. 
Luta essa espiritual, mas uma verdadeira e autêntica luta.
De qualquer forma, o cortejo de vencidos não foi como os cortejos mate-
riais, pois os espíritos não ocupam lugar nem se pode colocá-los em fila. A 
exibição pública de que fala São Paulo foi a exposição ante todos os anjos e 
bem-aventurados de todas as vitórias que conseguiu nessas batalhas espiritu-
ais contra os espíritos malignos.
Questão 77 
Por que o demônio é chamado de acusador? 
“Porque foi precipitado o acusador de nossos irmãos, que os acusava, dia e 
noite, diante do nosso Deus” (Ap 12,10b).
Satanás alegra-se cada vez que os homens pecam, e não perde nenhuma 
oportunidade de dizer a Deus que tal ou qual alma caiu. Satanás cada vez que 
quer falar a seu Criador só tem que se dirigir a Ele. Deus escuta tudo o que 
se diz, isto é, conhece qualquer espécie inteligível que procede de qualquer 
demônio. O demônio não precisa ir a nenhum lugar, pois Deus está em todas 
as partes. Satanás recorda a Deus os pecados que cometemos, é o que deseja 
expressar quando nos acusa. Esse tipo de comunicação entre Deus e Satanás 
vem sendo refletida tanto no Livro de Jó, quando ambos falam, como no Livro 
de Zacarias (Zc 3,1).
104 SVMMA DAEMONIACA
A única coisa que Satanás deseja com isso é recordar a Deus seus triunfos 
sobre nós. Depois do Julgamento Final, já não se cometerão mais pecados, 
assim, o diabo não poderá mais nos acusar de nada. 
Questão 78 
Deus e o demônio falam entre si?
Na questão anterior, tornou-se evidente que é o próprio Satanás que fala, 
às vezes, censurando Deus pelos pecados que cometemos. Mas isso não é um 
diálogo verdadeiro e autêntico. Estas conversas acontecem? Ainda que ambos 
sejam dois seres espirituais, e os seres espirituais por sua própria natureza 
gostam da comunicação entre si, no entanto, estas conversas não acontecem. 
Por parte do diabo não há nenhum interesse em começar uma conversa com 
Aquele a quem odeia com todas as suas forças. E por parte de Deus, também 
não há interesse algum em falar com aquele que respira ódio contra Ele conti-
nuamente. Deus tem Sua dignidade, e por isso não quer conversar com quem 
Lhe insulta e blasfema continuamente. Não quer conversar porque na realida-
de não há nada sobre que falar.
Questão 79 
É permitido insultar os demônios? 
Na Sagrada Escritura, podemos encontrar três versículos que estão indubi-
tavelmente relacionados e se colocam um junto ao outro.
“O (anjo do) Senhor disse a Satã: O Senhor te confunda, Satã! Confunda-te 
o Senhor que escolheu Jerusalém. (Josué) não é porventura um tição escapado 
ao incêndio?” (Zc 3,2).
“Ora, quando o arcanjo Miguel discutia com o demônio e lhe disputava o 
corpo de Moisés, não ousou fulminar contra ele uma sentença de execração, 
mas disse somente: Que o próprio Senhor te repreenda!” (Jud 1,9).
Perguntas bíblicas 105
“Audaciosos, arrogantes, não temem falar injuriosamente das glórias, em-
bora os anjos, superiores em força e poder, não pronunciem contra elas, aos 
olhos do Senhor, o julgamento injurioso” (2Pd 2,10b-11).
Os textos tanto de São Pedro como da Epístola de São Judas Tadeu são 
provas de que, naquela época, existiu algum tipo de culto pagão que, entre as 
coisas que praticavam em seus ritos, também insultava entidades espirituais 
malignas. Trata-se de daemones (gênios) ou quiçá mais provavelmente de de-
terminados eones, figuras espirituais que apareceram nas doutrinas gnósticas. 
Os textos deixam claro que só insultavam as entidades malignas. No entanto, 
ambos os Apóstolos censuram tal prática, pois dirão que nem os anjos insul-
tam os demônios, pois estes, ainda que se tenham rebelado, seguem com uma 
natureza gloriosa, muito superior à natureza do cosmo material. E por isso os 
anjos não os insultam, não querem insultar seres que por sua natureza repre-
sentam o ápice da criação de Deus.
Estes versículos interessantíssimos nos mostram que é suficiente para ator-
mentar os demônios apenas que os anjos peçam a Deus que lhes contenha ou 
lhes repreenda. Pois inclusive os demônios, seres rebeldes, não podem resistir 
ao poder divino quando esse refreia os poderes de sua natureza. A repreen-
são de Deus deve ser algo terrível, já que é com ela que os anjos ameaçam os 
demônios.
Os anjos estão diante da presença do Altíssimo, e a santidade d’Ele é tama-
nha que não querem manchar sua boca proferindo sentenças ofensivas para 
nada nem ninguém. Por isso, nesses dois casos, os Apóstolos se limitam a 
lhes comunicar que vão pedir a Deus que os contenha ou repreenda. Os anjos 
não insultam, só desejam amar e abençoar. Por isso a lição desses versículos é 
clara: ninguém deve insultar os demônios. Ninguém deve insultar ninguém, 
nem mesmo os demônios.
Nos exorcismos, eles são chamados de serpente, dragão, besta imunda, etc., 
mas tais termos não são insultos, pois apenas lhes dizem o que são, ainda que 
isso os atormente. Deve-se dizer-lhes a verdade para que não resistam mais ao 
sofrimento que lhes produz ouvir a verdade, e saiam. Mas isto lhes é dito sem 
106 SVMMA DAEMONIACA
ódio. Com autoridade e poder, mas sem ódio. O ódio não serviria para nada. 
O ódio não procede de Deus.
Questão 80 
Por que o Apóstolo Tiago diz que os demônios creem em Deus? 
No seminário, quando eu era um jovem imberbe e ainda com bastante 
cabelo na cabeça, durante uma aula o professor nos mostrou o seguinte versí-
culo da Sagrada Escritura:
“Crês que há um só Deus. Fazes bem. Também os demônios creem e 
tremem” (Tg 2,19).
O professor disse-nos que, embora o original grego use o verbo “crer”, na 
realidade o Apóstolo queria dizer que até os demônios sabem que Deus existe 
e se estremecem.
A explicação do professor satisfez-me completamente. Não só parecia con-
gruente, como parecia ser a única explicação possível. Os demônios não po-
diam ter fé, já sabiam que Deus existia, eu pensava. No entanto, somente uma 
coisa não me deixava feliz nesse tema do verbo grego: por que o Apóstolo 
tinha usado uma palavra se queria usar outra? Por que ele tinha usado o ver-
bo crer podendo usar perfeitamente o verbo saber? O assunto ficou esquecido 
durante uns quinze anos em minha memória, até quea conversa com um 
demônio durante um exorcismo me deu a resposta; uma resposta que jamais 
teria me ocorrido, ainda que eu tivesse pensado sobre o tema durante quinze 
anos mais. Procurei aquele diálogo com esse demônio, mas infelizmente não 
o transcrevi ao acabar a sessão. Basicamente, a resposta a essa questão é a 
seguinte:
Os demônios não veem Deus, sabem que Ele existe, mas não podem vê-l’O. 
Com sua inteligência conhecem que existe um ser espiritual que não é apenas 
um espírito, mas a Divindade. Porém, somente os bem-aventurados veem Sua 
essência.
Perguntas bíblicas 107
Os demônios O escutaram (isto é, têm conhecimento das espécies inte-
ligentes que se comunicam diretamente com eles), viram Seus efeitos (por 
exemplo, a criação do cosmo), mas não veem Sua essência. Sua inteligência 
diz-lhes que o Criador, tem de ser um Ser infinito. Mas ainda que conheçam 
Sua existência, não viram o que veem os bem-aventurados. Nesse sentido, 
pode-se dizer que eles creem, ainda que não tenham visto.
Mas não é uma fé sobrenatural, pois eles creem que existe o que sua inteli-
gência lhes diz que deve existir e que Ele é do modo como sua inteligência lhes 
diz que tem de ser.
Darei um exemplo dessa fé natural: eu não tenho a menor dúvida de que 
o continente asiático exista, ainda que nunca tenha estado nele, nem o tenha 
visto. Acredito em sua existência somente com a inteligência, de um modo 
natural. Algo assim sucede com os demônios. Assim como achar que a exis-
tência da Ásia não é um ato sobrenatural, os demônios creem em Deus de um 
modo natural. Mas saber que Ele existe não lhes causa gozo, mas pesar.
Por que o Apóstolo diz que estremecem? Estremecem por saber que existe 
essa felicidade e não podem gozá-la. O que os aflige não é tanto o fato de já 
terem perdido Deus, senão a felicidade de Deus. Além disso, nunca viram essa 
felicidade, nem a gozaram, e, no entanto, sabem que existe.
Também estremecem porque temem o castigo de Deus. Odeiam-n’O e te-
mem que Ele aja como eles, de modo vingativo ante esse ódio. Porque eles O 
veem segundo a deformação de sua inteligência.
Questão 81 
Os acontecimentos no Livro de Jó são históricos? 
Muitos afirmam que o Livro de Jó se trata de uma narração fictícia. Contra 
essa opinião estão os dados concretos do livro a respeito da região e tribo à 
qual pertencia, além da consideração contínua do povo judeu de que tal Livro 
era histórico. Não há dúvida de que o grande argumento na contramão de 
que seja um livro histórico tem suas raízes nos desastres que Satanás provo-
ca contra o justo no capítulo 1. Se lemos o texto, reconheço que acontecem 
108 SVMMA DAEMONIACA
fatos difíceis de crer. Mas se o analisamos novamente, veremos que tudo o que 
ocorre se reduz a que:
1. as reses foram roubadas;
2. um raio mata o gado menor sem especificar número;
3. posteriormente, um acidente mata seus filhos.
Isso é tudo. Depois disso, Jó cai doente. Em minha paróquia conheci casos 
de acidentes ou más notícias tão espetaculares como estes que aparecem na 
história de Jó. Inclusive o caso de um raio que mata um rebanho inteiro po-
derá parecer algo extraordinário, mas é algo que conheci na minha terra. Ali, 
nos arredores de Ganaderos dos Pirineus, antes de conhecer a história de Jó, 
eu já sabia que um raio poderia matar um rebanho inteiro.
Portanto, sustento que os acontecimentos do Livro de Jó são históricos, pois 
o lugar geográfico onde sucedeu e os detalhes contidos nele podem perfeita-
mente ser históricos; não há detalhes que nos forcem a pensar que se trata de 
um texto de sabedoria.
Questão 82 
Por que se diz que Leviatã tem muitas cabeças? 
Se o Leviatã é apenas um, se é um único ser individual, por que o Salmo 
73(74),14 diz: “Quebrastes as cabeças do Leviatã”?
De modo semelhante, o Sumo Pontífice é a cabeça visível da Igreja. E como 
todo Papa é uma pessoa, cada um a sua vez é a cabeça da Igreja. De forma se-
melhante, também há personagens ao longo da história que são como cabeças 
visíveis e manifestas da iniquidade e poder de Satanás. Pode-se facilmente 
rastrear a história e encontrar “esses cabeças”: Antíoco Epifânio, Nero, Dio-
cleciano, Napoleão, Hitler, Stalin, Pol Pot. Mas se em cada momento a Igreja 
tem apenas uma cabeça, o mal e a iniquidade podem ter múltiplas cabeças 
simultaneamente. A Igreja forma um corpo místico, o mal não. O bem é a 
ordem, a unidade. O mal é a desordem, a dispersão.
Perguntas bíblicas 109
Questão 83 
Por que Satanás aparece com mais frequência 
no Novo Testamento do que no Antigo? 
A palavra “Satanás” aparece 18 vezes no Antigo Testamento. No Novo Tes-
tamento, “Satanás” aparece 35 vezes e “diabo” 36 vezes. O termo “demônio” 
aparece 21 vezes no Novo, enquanto no Antigo Testamento, os termos equiva-
lentes a daemon (seirim, Lilith, etc.) aparecem muitas vezes menos. O Novo 
Testamento é bem menos extenso, entretanto os demônios aparecem mais ve-
zes. Por quê?
Acredito que seja porque Deus não iria infundir o medo no povo eleito. 
Também não quis dar vazão a que se implantasse a falsa crença de um dua-
lismo em igualdade de condições: um Deus do bem e um deus do mal. O 
paralelismo a que se tivesse prestado esse dualismo talvez tivesse sido fácil: 
um Deus do bem com Seus anjos e um deus do mal também com seus anjos. 
Por isso Deus não só silencia bastante a figura dos demônios, como inclusive 
vai além. Não só a figura central será Deus, como também o mundo angélico 
aparecerá em contadas ocasiões, para não dar espaço a idolatrias. No entanto, 
no Novo Testamento, o Apocalipse já pode ser preenchido e apresentado de 
maneira mais profunda da existência do mundo espiritual. 
Questão 84 
O Anticristo é o diabo? 
Muitos, inclusive clérigos, identificam a figura bíblica do Anticristo com a 
do diabo; tal identificação é um erro. O Anticristo é apresentado no Apocalipse 
sempre como um homem. Expressamente em Ap 13,18 diz-se que o 666, o 
número do Anticristo, é número de um ser humano. Logo, se é um ser huma-
no, não pode ser um espírito. O Anticristo não é o demônio; portanto, é um 
homem que propaga o ódio, a guerra e o mal. Nero, Napoleão e especialmente 
Hitler são figuras e esboços perfeitos do Anticristo.
110 SVMMA DAEMONIACA
Seu próprio nome, “Anticristo”, também nos esclarece muito sobre a figura 
que representa. Isto é, trata-se da figura contrária a Cristo. Jesus era um Ho-
mem, o Anticristo também. Cristo estendeu o amor, a paz, a misericórdia. O 
Anticristo vai estender ódio, guerra, vingança. Ambos fizeram prodígios na 
vida, ambos têm os seus seguidores. Um deles é a figura humilde, que acaba 
crucificada, o outro é uma figura de orgulho e triunfo. Um deles tem um Pai 
que é Deus, o outro tem um pai que é Satanás. 
Questão 85 
Satanás pode ter um filho? 
Não, é absolutamente impossível que um espírito tenha um filho. Um es-
pírito não pode procriar carnalmente. Um ser imaterial não pode fertilizar 
nada. A ideia que aparece em muitos romances e filmes de que, no final dos 
tempos, o demônio terá seu filho para ser o Anticristo não é apenas extrabí-
blica, mas teologicamente impossível.
Se ele se mostrar com uma aparência corporal, não deixará de ser uma 
mera aparência. Essa aparência não é o seu corpo; ele não tem corpo. O aspecto 
com o qual se revela é algo completamente fora de seu ser.
Alguém poderia pensar que é possível estar com uma aparência corporal 
e em seu interior carregar um óvulo tomado de uma mulher ou um esperma-
tozoide tomado de um homem, e que assim seria possível manter uma rela-
ção. Essa possibilidade nunca se deu na realidade, mas, ainda que se desse, o 
problema da impossível paternidade do diabo segue sendo insolúvel, pois essa 
aparência corporal seria mera portadora de uma semente alheia. Ainda que 
tivesse uma relação em que fecundasse uma mulher ou fosse fecundado esse 
óvulo, o problema continuaria sendo o mesmo: ele só foi portador daquele 
óvulo alheio ou daquele espermatozoide. Não importa como seja, o diabo não 
pode ter um filho.Perguntas bíblicas 111
Questão 86 
Existe uma paternidade espiritual do demônio? 
Sim, o único caminho possível para a paternidade do demônio é a pater-
nidade espiritual. Isto é, do mesmo modo que aquele que realiza as obras de 
Deus acaba se parecendo cada vez mais com seu Pai, assim também aquele 
que faz as obras da iniquidade, paulatinamente, vai-se parecendo mais com 
ela. Neste sentido, sim, existe uma paternidade espiritual. E por isso em At 
13,10 se diz do mago Élimas que era filho do diabo. E por isso também São 
João diz em 1Jo 3,8: “Aquele que peca é do demônio”. E em 1Jo 3,10: “Nisso se 
mostram os filhos de Deus e os filhos do diabo”. E o mesmo Jesus em 1Jo 8,44 
diz: “Vocês sois filhos de vosso pai que é o diabo”.
Questão 87 
A Besta do Apocalipse é o demônio? 
Não, o Apocalipse distingue muito bem entre três figuras: o Anticristo, a 
Besta e o Dragão (ou Serpente). O Anticristo é um homem, a Besta é um po-
der político, uma grande nação que leva a guerra aos confins do mundo, e o 
Dragão (ou Serpente), que é o diabo. Todos os versículos do Apocalipse estão 
escritos de acordo com essa distinção nítida e em nenhum momento do livro 
há conflitos nem ambiguidades entre estas três figuras. Embora, em algum 
momento entre a figura da Besta e do Anticristo há certa identificação, pois o 
Anticristo é a cabeça da Besta. 
Questão 88 
O que significa o 666? 
Todo mundo dá como certo que o 666 é o número ou símbolo do diabo. 
Mas desse número que aparece num só versículo (Ap 13,18) se diz que é o 
número da Besta, pois é número de um ser humano. Logo, não é o número do 
diabo, senão o do Anticristo.
112 SVMMA DAEMONIACA
Centenas de pessoas perguntaram-me, ao longo de minha vida, o que 
signi fica esse número e a quem corresponde. Sempre lhes respondo que está 
muito claro: quando chegar o fim dos tempos já se saberá. É uma mensagem 
codificada para reconhecer o Anticristo; até que ele chegue, não tem nenhum 
sentido fazer especulações. Essa profecia é como algumas profecias do Anti-
go Testamento com respeito ao Messias. Profecias que resultavam completa-
mente incompreensíveis ante-eventum. Mas post-eventum ficam perfeitamen-
te claras e iluminadas. O número dá-se como símbolo para reconhecê-lo, de 
maneira que, quando vier, ficará claro o sentido da profecia. 
 113
Parte VI
O Inferno
Questão 89 
Quantos demônios se condenaram? 
Ninguém pode responder a essa pergunta. Sabemos que existem milhares 
de milhões de anjos, já que no Livro de Daniel se diz, referindo-se aos anjos, 
que “milhares e milhares o serviam, dezenas de milhares o assistiam” (Dn 7,10). 
Seria razoável pensar que os condenados sejam um número muito inferior ao 
número dos que se salvaram, inclusive que os condenados formem um núme-
ro exíguo. A condenação eterna é algo tão terrível que pouquíssimos são os 
que perseveram no mal, apesar do convite da graça ao arrependimento. Aqui 
na Terra existe muito pecado porque em nós, os humanos, existe a fragilida-
de da carne. Entre as fileiras dos anjos houve menos pecados, pois neles não 
existe a concupiscência. Por outro lado, ainda que entre os anjos exista um 
número menor de pecados, os pecados que tiveram foram mais intensos e de 
maior culpabilidade, pois não existia o estímulo das paixões corporais.
Poderíamos dizer que entre os anjos os pecados foram menos abundantes, 
mas mais demoníacos. Enquanto, neste mundo, os pecados são mais abun-
dantes, mas menos intensos, pois procedem em sua maior parte da debilidade.
Apesar dessa diferença, os paralelismos entre o mundo humano e o angé-
lico são evidentes. A evolução da santidade ou a da iniquidade são similares, 
ainda que não idênticas. Podemos compreender como é a psicologia de um 
demônio, pois alguns homens entre nós chegam a ser como demônios. Um 
SS como Menguele, um mafioso que assassina por dinheiro, um terrorista 
114 SVMMA DAEMONIACA
que procura fazer o maior mal possível, são como demônios com corpo. E 
ainda que, enquanto estejam vivos, possam se arrepender, cada vez mais vão 
se assemelhando a verdadeiros demônios ainda em vida. De modo contrário, 
também entre nós há homens que chegam a tal grau de bondade que são como 
verdadeiros anjos com corpo.
Como se vê, tanto a iniquidade como a santidade chegam em alguns ho-
mens a um grau tão elevado, que tanto a condenação como a beatitude já 
começam em vida. Também há homens que vivem num verdadeiro estado de 
ódio e raiva contínua, bem como há outros que vivem imersos num verdadei-
ro abismo de amor. A eternidade não é outra coisa senão a continuação nesse 
estado em que cada um se colocou. Para os santos a eternidade será esse amor 
que já possuem, mais Deus. Para os condenados, a condenação será deixar-
-lhes pela eternidade nesse estado em que já se encontram na Terra. Céu e 
Inferno já começam na Terra. Muitos, muitíssimos escritores eclesiásticos ao 
longo da história quiseram encontrar uma resposta à pergunta de quantos an-
jos se condenaram no versículo de Ap 12,4 onde se diz: “[o Dragão] varreu com 
sua cauda a terceira parte das estrelas do Céu e lançou-as a terra”. Eu interpre-
taria esse versículo no sentido de que, num primeiro momento, uma terceira 
parte dos anjos deixou-se seduzir pelas razões de Satanás. Mas depois, em 
minha opinião, muitos voltaram graças à grande batalha que houve nos Céus.
Questão 90 
Por que Deus não aniquila o demônio? 
Os demônios são uma manifestação do poder de Deus em Seu atributo 
da justiça. A mera existência dos demônios proclama que a Lei de Deus não 
se ofende em vão. Eles são uma prova de que a santidade da Trindade é in-
violável. O que viola essa santidade deforma a si mesmo, transformando-se 
em demônio. Há uma violação dessa Lei e dessa santidade que é reversível, 
mas se a vontade opta por não retornar dessa transgressão, então a defor-
mação torna-se eterna. Assim os demônios dão glória a Deus. Dão glória 
a Deus com sua existência. Glorificam-n’O sem querê-l’O, do único modo 
que podem: sendo demônios. Eles são a terrível prova da ordem divina. Sua 
O Inferno 115
existência mostra o poder de Deus que contém e castiga seres tão podero-
sos. Sua existência também é uma mostra da santidade divina, pois na his-
tória de cada um deles consta que Deus, como um Pai, chamou-os tantas e 
tantas vezes ao arrependimento. Sua existência mostra Sua sabedoria, a sa-
bedoria de Sua ordem; uma ordem com limites. Seria melhor que jamais ti-
vessem existido demônios, mas a Criação é mais rica, mais variada, com a 
existência desse tipo de entes maléficos. Até os seres disformes enriquecem 
a Criação com sua mera presença. Uma catedral não seria mais bela se ar-
rancássemos dela seus seres monstruosos e híbridos esculpidos em seus ca-
pitéis e gárgulas. Tudo tem seu lugar, sua razão de ser. Os demônios, como 
se disse, mostram a justiça de Deus, Sua santidade e Sua sabedoria ao criar 
tal ordem na Criação. Uma ordem tão perfeita do Universo, que nem o mal 
destrói essa arquitetura divina. Seria preferível que não existisse o mal, mas já 
que existe, até ele engrandece mais essa catedral disposta pela mente da San-
tíssima Trindade. A catedral tem suas altas torres, mas também suas criptas e 
subterrâneos sombrios.
O dito pode parecer muito poético, mas há momentos em que a Teologia só 
pode expressar com poesia certos conceitos. Mas voltando à férrea lógica dos 
conceitos teológicos, há que considerar, por outro lado, que os demônios não 
sofrem em todos os momentos. De forma que, inclusive eles, gozam do dom 
da existência.
A existência é um dom. E mesmo sofrendo em muitos momentos e ao viver 
uma vida longe de Deus, os demônios gozam do grau mais baixo de felicida-
de, a felicidade de existir. Gozam da potência racional do conhecimento. De 
modo que, para eles, é preferível existir a não existir. Até para os demônios 
Deus é bom, ao lhes conceder a existência.
Existir é um bem, ainda que seja sofrendo. Se deixassem de existir deixa-
riam de sofrer, mas perderiam a possibilidade de todobem, por menor que 
fosse. O bem da existência no meio do sofrimento é pequeno, mas real. Quem 
perde a existência perde completamente tudo.
Então por que na Sagrada Escritura se diz: “Ai daquele por quem o Fi-
lho do homem é entregue! Era-lhe melhor não ter nascido” (Mt 26,24). Sobre 
esse tema dei muitas voltas e reconheço que para ele não tenho uma solução. 
Por um lado, considero que meu raciocínio é verdadeiro e explica por que o 
116 SVMMA DAEMONIACA
Senhor os mantém na existência. Já que Deus não desejaria manter existências 
que são só sofrimento e dor em estado puro. Pelo menos, assim me parece. 
Mas por outra parte, as palavras de Jesus parecem indicar que, numa situação 
assim, é preferível não existir. Queira Deus que atinja luzes para entender esse 
paradoxo. Às vezes, em um livro, há que se deixar constância do que se sabe, 
e daquilo que se duvida.
Questão 91 
Será que os demônios prefeririam deixar de existir? 
Nos séculos dos séculos sucedem-se os demônios sem esperança. Indubi-
tavelmente, se pudessem suicidar-se, antes ou depois, desesperados, cheios de 
tristeza, acabariam com suas vidas para pôr fim a seus sofrimentos. Não têm 
órgãos, não podem se envenenar, não podem deixar de comer. Nem sequer 
podem morrer de tristeza. Faça o que façam, seguirão existindo.
De qualquer jeito, já se disse que ainda que sofram por toda a eternidade, 
não sofrem em todos os instantes. De maneira que, ainda que eles não O reco-
nheçam, sua existência é um dom de Deus. E embora vez ou outra caiam em 
atos de ódio, de raiva, de ressentimento, o resto do tempo conhecem e gozam 
de uma existência natural, a de sua própria natureza.
Questão 92 
A pior condenação é a dos demônios ou a dos homens? 
Depende. Há homens que cometeram pecados piores do que os cometidos 
por alguns demônios, assim como existem homens que são maiores no Céu 
que alguns anjos. O pecado, como a virtude, não é dependente da natureza, 
mas, essencialmente, da vontade. Da mesma forma que aqui no mundo uma 
pessoa sem cultura e nenhum poder pode cometer um pecado mais intensa-
mente do que um poderoso governante ou um filósofo reputado e de renome. 
Assim como uma mulher de idade avançada e analfabeta pode ser muito mais 
santa que o Papa. A ordem da graça não está relacionada com a ordem da na-
tureza. Ou, dito de outra forma, os méritos ou deméritos são independentes 
O Inferno 117
da natureza recebida, só dependem da nossa vontade e da graça. Portanto, há 
homens que pecaram mais do que os demônios e eles vão sofrer mais do que 
estes. Assim, também existem anjos da hierarquia inferior que amaram mais 
que os serafins, e, portanto, desfrutaram mais do que estes. 
Questão 93 
Por que o Inferno deve ser eterno? 
O arrependimento só pode vir da graça. Se Deus não envia uma graça ao 
espírito, fazendo-o perceber o mal cometido, não pode haver arrependimen-
to sobrenatural. Sem a graça, um demônio pode entender que foi uma má 
decisão ter se rebelado, pois tal decisão lhe causou males, portanto tem sido 
um tolo. Mas o arrependimento sobrenatural é, qualitativamente, outra coisa. 
Não é apenas um ato de nossa compreensão. É um dom de Deus enviado ao 
espírito para que dobremos os nossos joelhos e peçamos de coração perdão a 
Deus, com humildade. Sem essa graça invisível, tem lugar a dor de uma deci-
são errada, mas sem pedido de desculpas. Corresponde a admitir o erro que se 
cometeu, mas com soberba. Os demônios podem até admitir que sua escolha 
os levou ao sofrimento, mas nem por isso param de odiar a Deus.
Deus não envia nenhuma graça de arrependimento aos demônios. Houve 
um tempo em que ainda lhes foi concedida uma última, mas agora não há 
mais. Os demônios sabem que o último trem partiu e não há mais nenhum 
outro. Nem por toda a eternidade. É nesse sentido que podemos dizer que os 
demônios foram abandonados por Deus, pois o Criador abandonou-os para 
sempre. 
Como se vê, a eternidade da pena não é dada por uma decisão Divina ar-
bitrária, uma vez que ela é aplicada àqueles que se perderam e não quiseram 
mais voltar. Muitas vezes, muitos cristãos consideram que Deus é demasiada-
mente severo por impor a condenação eterna, e não percebem ser Ele, Deus, 
que foi abandonado e que é dado exatamente o que eles querem.
Alguns, ao lerem isto, pensarão: “Ah, pois eu, por mais que peque não que-
rerei afastar-me de Deus, sempre quererei pedir perdão”. E com tal pensamento 
118 SVMMA DAEMONIACA
ficarão tranquilos sem sair do pecado. A esses há que lhes dizer que ninguém 
que está condenado por toda a eternidade pensou que o estaria algum dia. Se 
uma pessoa continua no pecado, esses pecados levar-lhe-ão a outros pecados 
piores. E esses a outros piores. E finalmente não irá mais pedir perdão. É o que 
acontece com os consumidores de droga: no princípio eles eram, todos, pesso-
as normais que quando viram os casos mais extremos se perguntaram como 
era possível chegar a tal necessidade e fragilidade. Pois o mesmo acontece com 
o pecado. Todo condenado achou que não chegaria a traspassar certos limites. 
Questão 94 
Deus pode perdoar os demônios? 
No ano 543 o Papa Virgílio proclamou: “Se alguém diz ou pensa que o cas-
tigo dos demônios ou dos homens ímpios é temporário e em algum momento 
terá fim, ou que dar-se-á a reabilitação ou restabelecimento dos demônios ou 
dos homens ímpios, seja anátema” (DS 411). Deus pode perdoar qualquer pe-
cado por mais grave que seja. Mas Deus não pode perdoar um demônio. Por-
que Deus não pode perdoar quem não se arrepende de seu pecado. Fazer tal 
coisa seria uma desordem, e Deus não pode cometer desordens. Como se vê, 
o problema não está no pecado (Deus pode perdoar tudo), senão na vontade 
(Deus não força a vontade). Como se disse anteriormente, muita gente pensa 
que Deus não deveria ser tão severo e teria de perdoar os condenados. Mas 
pela razão já alegada, o mesmo Deus que pode criar um milhão de cosmos 
somente por querer, não pode perdoar um só demônio. Deus que pode tudo 
não pode o impossível. E é impossível que Deus, que cria uma vontade livre, 
depois a force. Terrível advertência essa aos que traspassam a Lei de Deus com 
toda tranquilidade, vez ou outra, dizendo em seu coração: “Deus perdoar-
-me-á tudo”. Os que fazem assim desconhecem que há um limite para além 
do qual a misericórdia de Deus dá a volta e abandona o pecador à justiça. Ou 
em outras palavras, para esclarecer: há um limite para além do qual a alma se 
endurece a tal ponto que recusa toda graça. E ali, nesse ponto, o Criador não 
pode fazer outra coisa senão deixar a criatura seguir seu caminho.
O Inferno 119
Questão 95 
Que punições há no Inferno? 
Existe fogo? Sim, existe o fogo do remorso. Fogo material não, pois os de-
mônios nem estão em nenhum lugar, nem nenhum castigo corporal lhes pode 
causar dano. Esse remorso que nada pode apagar, que arde no interior de cada 
espírito condenado, que atormenta espiritualmente os espíritos é o fogo que 
não se apaga (Mc 9,48), o fogo eterno (Mt 25,41), o forno de fogo (Mt 13,42), o 
fogo ardente (Hb 10,27), o lago de fogo sulfuroso (Ap 19,20), a geena de fogo (Mt 
5,22), o lume que atormenta (Lc 16,25). O verme que nunca morre de que se 
fala em Marcos 9,48 é igualmente o verme do arrependimento, que atravessa 
a consciência vez ou outra durante a eternidade. As trevas exteriores (Mt 8,12) 
são as trevas e escuridão do afastamento de Deus. As penas do Inferno não 
são outras que o ódio, a tristeza, a ira, a solidão, a melancolia, o arrependi-
mento e o sofrimento que produz a própria deformação do espírito; isto é a 
deformação de todos os pecados que contém cada anjo caído. Se analisarmos 
os termos que usa a Bíblia ao falar da condenação, veremos termos de afas-
tamento, do fogo do arrependimento, mas nunca termos de tortura que seja 
aplicada por parte do Juiz. Ao falar da condenação, a Bíblia nunca apresenta 
Deus como o torturador. Usa termos impessoais, como fogo, trevas ou lago 
sulfuroso. A condenação, portanto, é o afastamento deDeus e é a tortura que 
cada espírito aplica a si mesmo pela própria deformação do espírito. Deus 
não criou os sofrimentos infernais; o Inferno é fruto da deformação de cada 
espírito.
Parte VII – Apêndices
 123
Apêndice 1
A mística cidade de Deus
Ao falar do pecado dos demônios é necessário transcrever os escritos de uma monja concepcionista do século XVII, a Venerável Soror María de Jesús de 
Agreda (1602 -1665+), que afirmou ter recebido revelações sobre esse tema. O traba-
lho que nos fala dessas revelações foi intitulado A mística cidade de Deus. É surpre-
endente meditar sobre estes parágrafos escritos por uma humilde freira, que nunca 
estudou Teologia. É impressionante ver como as questões mais complexas e profun-
das da demonologia foram reveladas por Deus a essa humilde freira. Apresentamos 
a seguir as passagens essenciais relativas ao pecado dos demônios.
A mística Cidade de Deus 
Livro 1, cap. 7, nº 82
Da terra, diz Moisés, que estava vazia, e não o diz do Céu; porque neste 
criou os anjos. Disse Deus: seja feita a luz, e foi feita a luz; porque não fala só 
da luz material, senão também das luzes angélicas ou intelectuais. E não os 
recordou mais claramente que fazê-los conhecer sob este nome, pela condição 
tão fácil dos hebreus em atribuir à divindade as coisas novas e de menor apre-
ço que os espíritos angélicos; mas foi muito legítima a metáfora da luz para 
significar a natureza angélica, e misticamente a luz da ciência e graça com que 
foram iluminados em sua criação.
Tinha de dividir logo o Senhor a luz das trevas e chamar à luz dia e as 
trevas noite; e isto não sucedeu só entre a noite e o dia naturais, mas entre os 
anjos bons e maus, que aos bons deu a luz eterna de Sua vista, e a chamou dia, 
e dia eterno; e aos maus chamou noite do pecado e foram arrastados para as 
124 SVMMA DAEMONIACA
eternas trevas do Inferno; para que todos entendamos quão juntas andaram 
a liberalidade misericordiosa do Criador e vivificador e a justiça de retíssimo 
Juiz no castigo. 
Nº 83
Foram os anjos criados no Céu empíreo e em graça, para que com ela pre-
cedesse o merecimento ao prêmio da glória; que ainda que estivessem no lugar 
dela, não se lhes tinha mostrado a Divindade cara a cara e com clara notícia, 
até que com a graça o mereceram os que foram obedientes à vontade divina. E 
assim estes anjos santos, como os demais apóstatas, duraram muito pouco no 
primeiro estado de viadores; porque a criação, estado e termo, foram em três 
estadias ou mórulas divididas com algum intervalo em três instantes. No pri-
meiro, foram todos criados e enfeitados com graça e dons, tornando formosas 
e perfeitas criaturas. A esse instante seguiu-se uma mórula, em que a todos 
foi proposta e intimada a vontade de Seu Criador, e se lhes estabeleceu lei e 
preceito de fazer, reconhecendo-O por supremo Senhor, e para que cumpris-
sem com o fim para que os tinha criado. Nessa mórula, estadia ou intervalo 
sucedeu entre São Miguel e seus anjos, com o Dragão e os seus aquela grande 
batalha que diz São João no cap. 12 do Apocalipse; e os bons anjos, perseveran-
do em graça, mereceram a felicidade eterna e os inobedientes, levantando-se 
contra Deus, mereceram o castigo que têm.
Nº 84
Posto que nessa segunda mórula pôde suceder tudo muito brevemente, se-
gundo a natureza angélica e o poder divino, entendi que a piedade do Altís-
simo se deteve um pouco e que com algum intervalo apresentou-lhes o bem 
e o mau, a verdade e a falsidade, o justo e o injusto, sua graça e amizade e a 
malícia do pecado e inimizade de Deus, o prêmio e o castigo eterno e a per-
dição para Lúcifer e os que lhe seguissem; e Sua Majestade mostrou-lhes o 
Inferno e suas penas e eles viram tudo, que em sua natureza tão superior e 
A mística cidade de Deus 125
excelente todas as coisas se podem ver, como elas em si mesmas, sendo criadas 
e limitadas; de sorte que, antes de cair da graça, viram claramente o lugar do 
castigo. E embora não conhecessem por esse modo o prêmio da glória, tive-
ram dela outro conhecimento e a promessa manifesta e expressa do Senhor, 
com que o Altíssimo justificou sua causa e agiu com suma equidade e retidão. 
E porque toda essa bondade e justificativa não bastou para deter Lúcifer e seus 
seguidores, foram, como pertinazes, castigados e lançados na profundeza das 
cavernas infernais, e os bons confirmados na graça e glória eterna. E isto tudo 
foi no terceiro instante, em que se conheceu de fato que nenhuma criatura, 
exceto Deus, é impecável por natureza.
Nº 85
Segundo a má inclinação que então teve Lúcifer, acometeu-o desordena-
díssimo amor por si mesmo; e passou a ver-se com maiores dons e formosura 
de natureza e graça que os outros anjos inferiores. Neste conhecimento dete-
ve-se demasiado; e o agrado que teve de si mesmo, retardou-lhe e o entibiou 
no agradecimento que devia a Deus, como a causa única de tudo o que tinha 
recebido. E voltando-se a remirar, deleitando-se novamente de sua formosura 
e graça, passou a atribuí-las e amá-las como suas; e esse amor próprio desme-
dido não só o fez engrandecer-se com o que tinha recebido de outra virtude 
superior, como também o forçou a invejar e cobiçar outros dons e excelên-
cias alheias que não tinha. E porque não as pôde conseguir, concebeu ódio 
mortal e indignação contra Deus, que do nada o tinha criado, e contra todas 
Suas criaturas.
Nº 86
Daqui se originaram a desobediência, presunção, injustiça, infidelidade, 
blasfêmia e quase uma espécie de idolatria, porque desejou para si a adora-
ção e reverência devidas a Deus. Blasfemou de sua divina grandeza e santi-
dade, faltou à fé e lealdade que devia, pretendeu destruir todas as criaturas e 
126 SVMMA DAEMONIACA
presumiu que poderia tudo isto e bem mais; e assim sempre sua soberba sobe 
e persevera, embora sua arrogância seja maior do que sua fortaleza, porque 
nessa não pode crescer e no pecado um abismo chama a outro abismo. O 
primeiro anjo que pecou foi Lúcifer, como consta do capítulo 14 de Isaías, 
e esse induziu a outros a que lhe seguissem; e assim se chama príncipe dos 
demônios, não por natureza, que por ela não pôde ter esse título, senão pela 
culpa. E os que pecaram não foram de uma só ordem ou hierarquia, pois de 
todas caíram muitos.
Nº 87
E para manifestar, como se me tem mostrado, que honra e excelência fo-
ram o que com soberba apeteceu e causou inveja a Lúcifer, advirto que, como 
nas obras de Deus há equidade, peso e medida, antes que os anjos se pudessem 
inclinar a diversos fins, determinou sua providência lhes manifestar imedia-
tamente após sua criação o fim para que os tinha criado de natureza tão ele-
vada e excelente. E de tudo isto tiveram ilustração dessa maneira:
Em primeiro lugar, tiveram conhecimento muito expresso do ser de Deus, 
uno em substância e trino em pessoas, e receberam ordem de que o adoras-
sem e reverenciassem como seu Criador e sumo Senhor, infinito em seu ser e 
com alguma diferença; porque os anjos bons obedeceram por amor e justiça, 
rendendo seu afeto de boa vontade, admitindo e crendo o que estava nas suas 
forças e obedecendo com alegria; mas Lúcifer rendeu-se por parecer-lhe ser 
impossível o contrário. E não o fez com caridade perfeita, porque dividiu a 
vontade em si mesmo e na verdade infalível do Senhor; e isto fez com que o 
mandato se lhe tornasse algo violento e dificultoso e não o cumpriu com afeto 
cheio de amor e justiça; e assim se dispôs para não perseverar nele; e embora 
não lhe tirasse a graça essa frouxidão e tibieza em fazer estes primeiros atos 
com dificuldade, começava aqui a sua má disposição, porque sofreu alguma 
debilidade e fraqueza na virtude e espírito, e sua formosura não resplandeceu 
como devia. E a meu parecer, o efeito que fez em Lúcifer essa frouxidão e 
dificuldade foi semelhante ao que faz na alma um pecado venial advertido; 
A mística cidade de Deus 127
mas não afirmo que pecou venial nem mortalmente então, porque cumpriu o 
mandato de Deus; mas foi remisso e imperfeito essecumprimento, mais por 
o compelir a força da razão do que por amor e vontade de obedecer; e assim 
se dispôs a cair.
Nº 88
Em segundo lugar, manifestou-lhes Deus, tinha de criar uma natureza hu-
mana e criaturas racionais inferiores, para que amassem, temessem e reveren-
ciassem a Deus, como a seu autor e bem eterno, e que a essa natureza tinha 
de favorecer muito; e que a segunda pessoa da mesma Trindade Santíssima 
se tinha de humanizar e se fazer Homem, elevar a natureza humana à união 
hipostática e Pessoa divina, e que Àquele suposto Homem e Deus tinham de 
reconhecer por cabeça, não só enquanto Deus, mas também enquanto Ho-
mem, e Lhe tinham de reverenciar e adorar; e que os próprios anjos tinham de 
ser inferiores em dignidade e graças e Seus servos. E deu-lhes compreensão da 
conveniência e equidade, justiça e razão, que havia nisto; porque a aceitação 
dos merecimentos previstos d’Aquele Homem e Deus tinha-lhes merecido a 
graça que possuíam e a glória que possuiriam; e que para glória d’Ele próprio 
tinham sido criados eles e todas as outras criaturas sê-lo-iam, porque a todas 
tinha de ser superior; e todas as que fossem capazes de conhecer e gozar de 
Deus tinham de ser povo e membros daquela cabeça, para reconhecer-Lhe e 
reverenciar-Lhe. E de tudo isto deu logo mandato aos anjos.
Nº 89
A esse preceito todos os obedientes e santos anjos se renderam e prestaram 
assentimento e obséquio com humilde e amoroso afeto de toda sua vontade; 
mas Lúcifer com soberba e inveja resistiu e provocou aos anjos, seus seguido-
res, para que fizessem o mesmo, como de fato o fizeram, seguindo a ele e de-
sobedecendo ao divino mandamento. Persuadindo-lhes, o mau Príncipe que 
seria sua cabeça e que teriam principado independente e separado de Cristo. 
128 SVMMA DAEMONIACA
Tanta cegueira pôde causar num anjo a inveja e a soberba e um afeto tão de-
sordenado, que fosse causa e contágio para transmitir a tantos o pecado. 
Nº 90
Foi aqui a grande batalha que São João diz ter acontecido no Céu; porque os 
anjos obedientes e santos, com ardente zelo de defender a glória do Altíssimo 
e a honra do previsto Verbo encarnado pediram licença e como benepláci-
to ao Senhor para resistir e contradizer o Dragão, e lhes foi concedida essa 
permissão. Mas nisto sucedeu outro mistério: quando se determinou a todos 
os anjos que tinham de obedecer ao Verbo encarnado, foi lhes imposto um 
terceiro mandato, de que tinham de ter simultaneamente por superiora uma 
mulher, em cujas entranhas tomaria carne humana esse Unigênito do Pai; e 
que essa mulher tinha de ser sua Rainha e de todas as criaturas e que se tinha 
de distinguir e sobressair a todas, angélicas e humanas, nos dons de graça e 
glória. Os anjos bons, por obedecerem a esse mandato do Senhor, adiantaram 
e engrandeceram sua humildade e com ela aceitaram e louvaram o poder e 
sacramentos do Altíssimo; mas Lúcifer e seus confederados, com esse mandato 
e mistério, elevaram-se à maior soberba e presunção; e com desordenado furor 
desejou para si a excelência de ser cabeça de toda a linhagem humana e ordens 
angélicas e que, se tinha de ser mediante a união hipostática, fosse com ele.
Nº 91
E em quanto ao ser inferior à Mãe do Verbo Encarnado e Senhora nossa, 
resistiu-o com horrendas blasfêmias, convertendo-se em desbocada indigna-
ção contra o Autor de tão grandes maravilhas; e provocando aos demais, disse 
esse Dragão: Injustos são estes mandatos e faz agravo à minha grandeza; e a 
essa natureza, que Tu, Senhor, olhas com tanto amor e propões a favorecer 
tanto, eu persegui-la-ei e destruirei e nisto empregarei todo meu poder e cui-
dado. E a essa mulher, Mãe do Verbo, derrubá-la-ei do estado em que a pro-
metes pôr e a minhas mãos perecerá Teu plano.
A mística cidade de Deus 129
Nº 92
Essa soberba presunção enojou tanto ao Senhor que, humilhando Lúcifer, 
disse-lhe: Essa mulher, a quem não quiseste respeitar, quebrantar-te-á a cabe-
ça e por ela serás vencido e aniquilado. E se por tua soberba entrar a morte no 
mundo, pela humildade dessa mulher entrará a vida e a saúde dos mortais; e 
de sua natureza e espécie destes dois gozarão o prêmio e coroas que tu e teus 
seguidores perdestes. 
E a tudo isto replicava o Dragão com indignada soberba contra o que en-
tendia da divina vontade e Seus decretos; ameaçava toda a linhagem humana. 
E os anjos bons conheceram a justa indignação do Altíssimo contra Lúcifer 
e os demais apóstatas e com as armas do entendimento, da razão e verdade 
brigavam contra eles. 
Cap. 8, nº 103 
E foi visto no Céu outro sinal: avistou-se um Dragão grande e vermelho, 
que tinha sete cabeças e dez cornos e sete diademas em suas cabeças; e com 
a cauda arrastava a terceira parte das estrelas do Céu e lançou-as à Terra. 
Após o que está dito, se seguiu o castigo de Lúcifer e seus aliados. Porque às 
suas blasfêmias contra aquela assinalada mulher, seguiu-se a pena de achar-se 
convertido de anjo formoso em Dragão feroz e horroroso, aparecendo tam-
bém o sinal sensível e exterior figura. E levantou com furor sete cabeças, que 
foram sete legiões ou esquadrões, em que se dividiram todos os que lhe segui-
ram e caíram; e a cada principado ou congregação destas lhe deu sua cabeça, 
ordenando-lhes que pecassem e tomassem por sua conta incitar e mover aos 
sete pecados mortais, que comumente se chamam capitais, porque neles estão 
contidos os demais pecados e são como cabeças dos bandos que se levantam 
contra Deus. Estes são: soberba, inveja, avareza, ira, luxúria, gula e preguiça; 
que foram os sete diademas com que Lúcifer convertido em Dragão foi coroa-
do, dando-lhe o Altíssimo esse castigo e o tendo negociado ele, como prêmio 
de sua horrível maldade, para si e para seus anjos confederados; que a todos 
130 SVMMA DAEMONIACA
foi determinado castigo e penas correspondentes à sua malícia e a terem sido 
autores dos sete pecados capitais. 
Nº 104
Os dez cornos das cabeças são os triunfos da iniquidade e malícia do Dra-
gão e a glorificação e exaltação arrogante e vã que ele se atribui a si mesmo na 
execução dos vícios. E com estes depravados afetos, para conseguir o fim de 
sua arrogância, ofereceu aos infelizes anjos sua depravada e venenosa amizade 
e fingidos principados, maiorias e prêmios. E estas promessas, cheias de bes-
tial ignorância e erro, foram a cauda com que o dragão arrastou a terceira par-
te das estrelas do Céu; que os anjos estrelas eram e, se perseverassem, luziriam 
depois com os demais anjos e justos, como o Sol, em perpétuas eternidades; 
mas lançou-os na Terra o castigo merecido de seu infortúnio até o centro dela, 
que é o Inferno, onde carecerão eternamente de luz e de alegria.
Cap. 9, nº 109
E aconteceu no Céu uma grande batalha: Miguel e seus anjos brigavam 
com o Dragão, e o Dragão e seus anjos brigavam. Tendo manifestado o Senhor 
o que está dito aos bons e maus anjos, o santo príncipe Miguel e seus colegas 
pela divina permissão brigaram com o Dragão e seus seguidores. E foi admi-
rável essa batalha, porque se brigava com os entendimentos e vontades.
Nº 107
Com estas armas brigavam São Miguel e seus anjos e combatiam como 
com fortes raios ao Dragão e aos seus, que também brigavam com blasfêmias; 
mas à vista do santo Príncipe, e não podendo resistir, se desfazia em furor e 
por seu tormento quisesse fugir, mas a vontade divina ordenou que não só fos-
se castigado senão também fosse vencido, e a seu pesar conhecesse a verdade 
A mística cidade de Deus 131
e poder de Deus; embora blasfemando, dizia: Injusto é Deus em levantar à 
natureza humana sobre a angélica.
(...) Mas São Miguel replicou-lhe: Quem há que se possa igualar e comparar 
com o Senhor que habita nos Céus?
Livro 1, cap. 9, nº 110
O que em seu pensamento feria às gentes foi trazido aos infernos, como diz 
Isaías, capítulo 14, ao profundo do lago, e seu cadáver entregue à podridão e 
ao verme de sua má consciência; e se cumpriu em Lúcifer tudo quanto disse 
naquele lugar o profeta Isaías, capítulo 14.
 133
Apêndice2
O Leviatã e Beemot
Há um texto da Escritura que os Santos Padres têm aplicado a Satanás. O texto do profeta Ezequiel é dirigido contra o príncipe de Tiro, mas o leitor vai logo 
perceber que estes versos são melhor aplicados a Satanás do que a um ser humano:
“Eras um modelo de perfeição, cheio de sabedoria, de uma beleza acabada. 
Estavas no Éden, jardim de Deus, estavas coberto de gemas diversas: sardôni-
ca, topázio e diamante, crisólito, ônix e jaspe, safira, carbúnculo e esmeralda; 
trabalhados em ouro. Tamborins e flautas, estavam a teu serviço, prontos desde 
o dia em que foste criado. Eras um querubim protetor colocado sobre a monta-
nha santa de Deus; passeavas entre as pedras de fogo. Foste irrepreensível em 
teu proceder desde o dia em que foste criado, até que a iniquidade apareceu em 
ti. (...) Teu coração se inflou de orgulho devido à tua beleza, arruinaste a tua 
sabedoria, por causa do teu esplendor (...) assim, de ti fiz jorrar o fogo que te 
devorou” (Ez 28,12 ss).
Existe um segundo texto, do profeta Isaías, ao qual acontece o mesmo que 
ao primeiro texto apresentado. Os versículos aplicam-se melhor a outra figura 
do mundo demoníaco do que ao príncipe babilônico ao qual eram destinados:
“Como caíste do Céu, estrela brilhante, filho da manhã, foi lançado à terra, 
tu que derrotou as nações? Você disse em seu coração subir ao Céu, acima das 
estrelas de Deus irá levantar o meu trono. (...) Por outro lado, foi levado para o 
túmulo” (Is 14,12-15).
Se nos fixarmos nestes dois textos de Isaías e Ezequiel, dar-nos-emos conta 
de que ocultamente está se falando de Satanás (no de Ezequiel) e de Lúcifer 
(no de Isaías). Por isso, no segundo texto, nos é dito que era um astro rutilante, 
134 SVMMA DAEMONIACA
filho da aurora, pois Lúcifer significa estrela da manhã. Normalmente, a tra-
dição identifica a figura de Satanás e Lúcifer, no entanto, alguns exorcistas 
têm advertido (entre eles o padre Gabriele Amorth) que são dois demônios 
diferentes, os dois demônios mais altos na hierarquia demoníaca. Em apoio 
dessa distinção entre o diabo e Lúcifer viriam os textos do Livro de Jó referidos 
ao Leviatã e ao Beemot. A tradição judaica e patrística sempre entendeu que 
Leviatã era figura que representava a Satanás. Mas então, quem era Beemot? 
A figura de Lúcifer entendida não como sinônimo do diabo seria a resposta. 
Para ver tais diferenças apresento a seguir o texto de Jó 40,10-28; 41 referente 
a tais seres. 
“Vê Beemot, que criei contigo, nutre-se de erva como o boi. Sua força resi-
de nos rins, e seu vigor nos músculos do ventre. Levanta sua cauda como (um 
ramo) de cedro, os nervos de suas coxas são entrelaçados. Seus ossos são tubos 
de bronze, sua estrutura é feita de barras de ferro. É obra-prima de Deus, foi 
criado como o soberano de seus companheiros. As montanhas fornecem-lhe a 
pastagem, os animais dos campos divertem-se em volta dele. Deita-se sob os 
lótus, no segredo dos caniços e dos brejos; os lótus cobrem-no com sua sombra, 
os salgueiros da margem o cercam. Quando o rio transborda, ele não se assusta; 
mesmo que o Jordão levantasse até a sua boca, ele ficaria tranquilo. Quem o 
seguraria pela frente, e lhe furaria as ventas para nelas passar cordas?
Poderás tu fisgar Leviatã com um anzol, e amarrar-lhe a língua com uma 
corda? Serás capaz de passar um junco em suas ventas, ou de furar-lhe a man-
díbula com um gancho? Ele te fará muitos rogos, e te dirigirá palavras ternas? 
Concluirá ele um pacto contigo, a fim de que faças dele sempre teu escravo? 
Brincarás com ele como com um pássaro, ou atá-lo-ás para divertir teus filhos? 
Será ele vendido por uma sociedade de pescadores, e dividido entre os negocian-
tes? Crivar-lhe-ás a pele de dardos, fincar-lhe-ás um arpão na cabeça? Tenta 
pôr a mão nele, sempre te lembrarás disso, e não recomeçarás.
Tua esperança será lograda, bastaria seu aspecto para te arrasar. Ninguém 
é bastante ousado para provocá-lo; quem lhe resistiria face a face? Quem pôde 
afrontá-lo e sair com vida, debaixo de toda a extensão do Céu? Não quero ca-
lar (a glória) de seus membros, direi seu vigor incomparável. Quem levantou a 
dianteira de sua couraça? Quem penetrou na dupla linha de sua dentadura? 
Quem lhe abriu os dois batentes da goela, em que seus dentes fazem reinar o 
terror? Sua costa é um aglomerado de escudos, cujas juntas são estreitamente 
O Leviatã e Beemot 135
ligadas; uma toca a outra, o ar não passa por entre elas; uma adere tão bem à 
outra, que são encaixadas sem se poderem desunir. Seu espirro faz jorrar a luz, 
seus olhos são como as pálpebras da aurora. De sua goela saem chamas, esca-
pam centelhas ardentes. De suas ventas sai uma fumaça, como de uma marmi-
ta que ferve entre chamas. Seu hálito queima como brasa, a chama jorra de sua 
goela. Em seu pescoço reside a força, diante dele salta o espanto. As barbelas de 
sua carne são aderentes, esticadas sobre ele, inabaláveis. Duro como a pedra é 
seu coração, sólido como a mó fixa de um moinho. Quando se levanta, tremem 
as ondas, as vagas do mar se afastam. Se uma espada o toca, ela não resiste, 
nem a lança, nem a azagaia, nem o dardo. O ferro para ele é palha; o bronze, 
pau podre. A flecha não o faz fugir, as pedras da funda são palhinhas para ele. 
O martelo lhe parece um fiapo de palha; ri-se do assobio da azagaia. Seu ventre 
é coberto de cacos de vidro pontudos, é uma grade de ferro que se estende sobre 
a lama. Faz ferver o abismo como uma panela, faz do mar um queimador de 
perfumes. Deixa atrás de si um sulco brilhante, como se o abismo tivesse cabelos 
brancos. Não há nada igual a ele na terra, pois foi feito para não ter medo de 
nada; afronta tudo o que é elevado, é o rei dos mais orgulhosos animais.”
Como se vê, a Bíblia dedica quase integralmente dois capítulos à descrição 
dos dois seres mais grandiosos criados pela mão de Deus. Yahvéh não terá in-
conveniente algum em elogiar em seu Livro Santo a grandeza da natureza da 
criatura que Sua mão criou. Estamos a falar nem mais nem menos da obra que 
coroava sua Criação visível e invisível. Eles, ex natura, nasceram como prín-
cipes da Criação e, no entanto, outra criatura, uma serva, foi coroada como 
rainha dos anjos, ex gratia. Feita essa salvação e voltando aos capítulos 40 e 41 
de Jó, Deus está falando da obra criada mais sublime, do ápice, de Sua Criação. 
De uma delas se diz que é a obra-prima. É tradição, extrabíblica, afirmar que 
se rebelou o mais belo dos anjos. De qualquer modo, ainda que a Palavra de 
Deus elogiasse o poderio que Ele lhes confiou e a grandeza que possuem, os 
descreve como monstros, como seres malignos, dignos de temor, seres dos 
quais há que se afastar.
Estas duas naturezas angélicas, Satanás e Lúcifer, são descritas sob a apa-
rência de duas figuras mitológicas, duas gigantescas figuras procedentes do 
caos inicial, duas figuras que já apareciam na mitologia ugarítica da metade 
do segundo milênio antes de Cristo. Leviatã (Satanás, a Serpente Antiga, o 
136 SVMMA DAEMONIACA
Dragão) aparece sob a forma de um monstro marítimo, habitante do Abismo. 
Beemot (Lúcifer) é nos descrito como um monstro gigantesco que, embora 
habite as profundezas dos pântanos, é um terrível monstro terrestre. Expres-
samente, nos é dito que ele é “a obra mestre de Deus”. É possível que embora 
Satanás fosse o que acabou sendo, o mais maligno de todos os anjos que se 
rebelaram, o que se fez o mais perverso de todos, no entanto, Lúcifer talvez 
fosse superior em natureza. O nome de estrela da manhã parece indicar essa 
preeminência de natureza, e a afirmação de que Beemot, e não Leviatã, fora a 
obra-prima do Criador, de novo parece confirmar essa hipótese.
Se compararmos os textos referentes ao Leviatã e Beemot com Ezequiel 
e Isaías, certamente tiraríamos várias conclusões. O diabo era o modelo da 
perfeição, um querubim, consagrado como um escudo, sábio e belo. Enquanto 
Lúcifer foi a obra-prima de Deus, que lhe deu uma espada; o seu nome está re-
lacionado à luz, logo brilhava comouma luz especial e única no Firmamento 
das naturezas angélicas. A tradição apresenta Satanás como o mais perverso; 
foi ele quem liderou a rebelião, enquanto que Lúcifer é a estrela da manhã. A 
existência de duas grandes figuras do Inferno, em vez de apenas uma, rompe 
a ideia que levaria ao pensamento de que Satanás é como o ‘deus’ do lado 
maligno. Assim, Satanás goste ou não, o que fica dito indicaria que, apesar da 
liderança do diabo, as multidões infernais têm duas grandes figuras demoní-
acas. Esse tipo de dualidades na cúpula é sempre uma mortificação para os 
orgulhosos. Não deixa de ter um pouco de graça o fato de que nem o diabo 
tenha podido ter tudo a seu gosto.
Depois das seguintes considerações teológicas não resisto a tratar de fazer 
uma exegese espiritual do texto de Jó. De Beemot nos é falado de sua força, 
de seu vigor, dos músculos de seu ventre. É dito que possui uma cauda que 
é como um cedro, bem é sabido que um simples crocodilo com sua cauda 
poderia não só matar a um homem, senão partir uma barca sem problema. A 
cauda de um crocodilo é uma arma formidável, calçada de músculos, incon-
tida por muitos homens. É dito que sua estrutura é como de bronze e ferro. E 
O Leviatã e Beemot 137
acrescenta-se que o Criador lhe deu sua espada. A espada só se dá a um guer-
reiro. Um espírito angélico só pode fazer a guerra de um modo intelectual. 
De modo que essa espada era uma espada intelectual. 
O versículo As montanhas fornecem-lhe a pastagem, os animais dos campos 
divertem-se em volta dele, poder-se-ia entender da seguinte maneira: as mon-
tanhas são símbolos dos mais elevados e grandiosos espíritos angélicos, que 
como montanhas se elevam sobre o resto. Todos reconhecem a grandeza que 
Deus derramou neles, esse é o tributo. Os animais dos campos são símbolos 
dos demônios, espíritos que se transformaram em seres bestiais. São tão po-
derosos que nada os assusta, no entanto, vivem em esconderijos e pântanos.
No versículo, Quem o seguraria pela frente, e lhe furaria as ventas para 
nelas passar cordas? Poderás tu fisgar Leviatã com um anzol, e amarrar-lhe a 
língua com uma corda?, dado que o olho é símbolo do conhecimento, pode-se 
interpretar que nem com o conhecimento nem pela força se pode dominá-lo.
De Leviatã diz-se que vive no “tehom”, o Oceano originário. Do mar no 
Apocalipse é dito que simboliza a multidão das gentes. No meio desse “mar” 
o Leviatã move-se e mergulha. Não é possível pescá-lo, nem apanhá-lo, nem 
amarrá-lo, como não é possível subjugar a sua língua. Jamais pedir-te-á algo, 
pois é altivo e soberbo. Não é possível fazer um pacto, nem aliança com ele, 
trata-se de um ser bestial que só procura devorar-te. Não é possível negociar 
com ele, ele não serve a teus fins, acabas ao final em suas garras.
Crivar-lhe-ás a pele de dardos, fincar-lhe-ás um arpão na cabeça? É impos-
sível atravessar sua pele, mas a Mulher esmagou sua cabeça.
Tenta pôr a mão nele, sempre te lembrarás disso, e não recomeçarás. Não 
se pode dizer de um modo mais claro que não se pode jogar com o demônio. 
Aquele que se envolve ou pactue com o demônio comprovará que com ele não 
se brinca, que jamais alguém o invoca em vão.
Tua esperança será lograda, bastaria seu aspecto para te arrasar. À vista do 
poder, força e furor de Satanás perde-se a esperança da salvação. Só ao vê-lo, 
fica-se desalentado, sem esperança de sobreviver ao combate. Os depoimen-
tos de todos os santos que sofreram as tentações do diabo na noite escura são 
coincidentes. Se não houvesse Deus para lhe impor limite, o combate de uma 
138 SVMMA DAEMONIACA
alma com ele seria tão desigual que não haveria a possibilidade de resistir aos 
seus embates. Quem lhe resistiria face a face? Deus só permite a Satanás tentar 
uma alma quando esta já está muito curtida na luta ascética e fortalecida pela 
graça. E só com a ajuda de Cristo que a alma sai vitoriosa. Esse combate de 
que se fala é espiritual. Mas Deus põe-lhe limites à sua ação na alma e no cor-
po. Pois sua natureza angélica da mais alta hierarquia lhe permitiria provocar 
doenças, acidentes, desastres e, definitivamente, matar a vontade. Por isso diz 
a Bíblia: Ninguém é bastante ousado para provocá-lo. Os que lhe provocam 
são aqueles que lhe invocam. Os que fazem isso não sabem que forças estão 
despertando.
Quem pôde afrontá-lo e sair com vida, debaixo de toda a extensão do Céu? 
[para que a interpretação seguinte desse versículo faça sentido, apresenta-se 
aqui a tradução da versão original em espanhol: Quem me adiantou algum 
serviço para que eu lhe pague? Quanto há baixo todos os Céus, meu é!]. Esse 
versículo é uma intervenção de Satanás. Ele pergunta-se a quem deve pagar 
algo, pois acha que não deve nada a ninguém. Em sua soberba, afirma que 
quanto há debaixo dos Céus é seu em razão do pecado, ademais, é o Príncipe 
deste mundo. Sabe que os Céus são de Deus, mas reclama que conquistou a 
Terra com suas seduções, semeando o pecado, o ódio, a guerra.
Mas apesar de toda presunção, Deus não sente mágoa na hora de elogiar o 
ápice de sua Criação, que é ele, e por isso diz Yahvéh: Não quero calar (a gló-
ria) de seus membros, direi seu vigor incomparável. Quem levantou a dianteira 
de sua couraça? Quem penetrou na dupla linha de sua dentadura? Quem lhe 
abriu os dois batentes da goela, em que seus dentes fazem reinar o terror? Sua 
costa é um aglomerado de escudos, cujas juntas são estreitamente ligadas; uma 
toca a outra, o ar não passa por entre elas; uma adere tão bem à outra, que são 
encaixadas sem se poderem desunir.
Essa referência aos escudos dá-nos ideia de suas dimensões, cada escama é 
do tamanho de um escudo.
Quando diz que nem o ar [sopro, na versão espanhola] passa entre elas, po-
demos recordar que ar (em latim spiritus) pode-se interpretar como o fato de 
O Leviatã e Beemot 139
que em Satanás o Espírito Santo com suas inspirações não pode penetrar. Está 
hermeticamente fechado (formam bloco, não se separam), nada entra nele.
Seu espirro faz jorrar a luz, seus olhos são como as pálpebras da aurora. De 
sua goela saem chamas, escapam centelhas ardentes. De suas ventas sai uma fu-
maça, como de uma marmita que ferve entre chamas. Seu hálito queima como 
brasa, a chama jorra de sua goela. Essa figura mítica exala chamas de sua boca 
como um dragão. De fato esse é o Dragão de que se fala no Apocalipse.
Duro como a pedra é seu coração, sólido como a mó fixa de um moinho. 
Esse versículo refere-se a sua fortaleza, mas também a seu coração duro e sem 
misericórdia.
Alguns exegetas contra a tradição ininterrupta do povo hebreu, afirmaram 
que o Leviatã é o crocodilo. É surpreendente como os exegetas preservam suas 
teorias agarrando-se a elas e desprezando tudo o que no texto não lhes atrai.
O texto afirma claramente coisas que não se associam com o crocodilo: 
diz-se que vive no mar, que exala lumes de sua boca, que faz ferver o abismo 
como um caldeirão. Estes são detalhes concretos, mas o texto integral indica 
que se trata de algo mais que um mero animal. Feito esse inciso para os exe-
getas, prossigamos com a análise da passagem bíblica.
A todo ser altivo olha de frente, é rei sobre todas as bestas ferozes! Antes 
elogiou-se muito ao Beemot, mas em nenhum momento chama-o rei. Lúcifer 
é a obra mestre de Deus, mas Satanás é o rei sobre todas as Bestas ferozes. Acho 
que estas passagens de Jó deixam claro que um é superior em natureza e outro 
em perversidade e maldade. Para quem percebe, a espada nada representa, 
nem a lança, nem a arma arrojadiça, nem a ponta de uma lança; considera 
o ferro como palha, o bronze qual madeira carcomida. Há homens soberbos 
e poderosos que se creem invulneráveis. E não sabem que se uma nature-
za angélica maligna quer matar alguém (e Deus lhe permite), nem os muros 
poderão evitar que entre onde queira, nem as armas nem os guarda-costas 
conter-lhe-ão, nem todo o poder do mundo poderá evitar que faça seu dano. 
Seu ventre é coberto de cacos de vidro pontudos, é uma grade de ferro que 
seestende sobre a lama. Quando se vêem as terríveis paisagens de ruínas das 
guerras, metaforicamente, é como se por ali tivesse passado esse monstro com 
140 SVMMA DAEMONIACA
o seu ventre como um trilho, arrasando tudo. Além disso, já dissemos que 
o mar simboliza a multidão dos povos, de maneira que ele, o semeador da 
guerra e da morte, Faz ferver o abismo como uma panela, faz do mar um 
queimador de perfumes. Ele instiga para que o mar dos povos se inflame com 
o fogo do ódio e da guerra. Deixa atrás de si um sulco brilhante, como se o 
abismo tivesse cabelos brancos. Esse sulco brilhante, isto é, esse rastro (como 
o que deixam os barcos) são as vidas dos homens que arrasta e destrói no seu 
caminho pelas multidões.
Não há nada igual a ele na terra, pois foi feito para não ter medo de nada. 
Sim, isso o comprovei nos exorcismos, o diabo aparenta não temer a ninguém, 
nem a Deus. Posso assegurar que não parece que exista nele temor de Deus, só 
ódio. Mas existe nele um verdadeiro conhecimento de que Deus pode tudo e 
o pode castigar, o fato é que não quer pensar nesta situação porque tal pensa-
mento lhe tortura. Fala de Deus com fúria, e até blasfema d’Ele, mas ainda que 
não queira temê-lo e fale como se não o temesse, na realidade, sua inteligência 
lhe diz que Ele é onipotente. O diabo teme a Deus, mesmo que não queira 
admitir ou pensar sobre isso. Sua inteligência deformada recorda-lhe constan-
temente que deve temê-Lo, pois no final dos tempos será arrastado ao lago de 
fogo e enxofre, símbolo do sofrimento eterno que produzir-lhe-á sua própria 
iniquidade suportada pelos séculos dos séculos. Penso que esse lago não será 
outra coisa senão o símbolo desse sofrimento. Não será nada físico, nem algo 
criado por Deus para produzir sofrimento. Se o mar simboliza a multidão dos 
povos, desse mar só se condenará um lago que será de fogo e arrependimento.
 141
Apêndice 3
O demônio e as Regras 
de S anto Inácio de Loyola
Sobre a forma de o demônio agir na hora de tentar um alma, transcrevemos as profundas palavras de Santo Inácio de Loyola em seus Exercícios espirituais, 
quando nas Regras para discernir espíritos escreveu:
Regra 1. Àqueles que vão de pecado mortal em pecado mortal costuma, 
geralmente, o inimigo propor gozos aparentes e despertar-lhes na imaginação 
prazeres e desejos impuros, para mais os conservar e mergulhar em seus ví-
cios e pecados. Ao contrário, o bom espírito causa-lhes remorsos e estímulos 
de consciência para os retirar de tão lastimoso estado.
Regra 2. Com aqueles que procuram intensamente purificar-se de seus pe-
cados, e progredir no serviço de Deus, Nosso Senhor, dá-se o contrário do que 
foi dito na primeira Regra. Pois neles costuma o demônio suscitar perturba-
ções de consciência, tristeza e desânimo, inquietando-os com falsas razões, 
para que não sigam adiante na sua santificação.
Regra 12: O inimigo (...) mostra-se fraco contra o forte, e forte contra o 
fraco. (...) Do mesmo modo costuma o nosso inimigo enfraquecer e fugir, se 
aquele que se exercita nas coisas espirituais lhe resiste varonilmente e se opõe 
diametralmente às suas sugestões; se, pelo contrário, aquele que se exercita, 
142 SVMMA DAEMONIACA
começa a ter medo e a perder a coragem em lhe resistir, não há fera no mundo 
mais terrível, que este inimigo da natureza humana.
Regra 14. Porta-se também o demônio como um general, quando quer 
apoderar-se duma fortaleza. Pois, à semelhança dum comandante ou chefe 
militar que, depois de assentar os arraiais, explora as fortificações e obras de 
defesa, para saber qual é a parte mais fraca, para começar por ela o ataque: 
assim o Maligno espírito anda rondando em volta de nós para explorar as 
nossas virtudes teologais, cardeais e morais, a fim de começar por onde nos 
achar mais fraco, e nos render.
Manual do exorcista
 145
Capítulo I
A possessão
A fim de evitar mal-entendidos e confusões, a numeração das questões do Ma-nual continua a numeração do Tratado da Demonologia. Tanto o Tratado 
quanto o Manual formam uma unidade temática, embora o Tratado aborde ques-
tões teóricas sobre a essência das coisas, enquanto o Manual aborda mais o tema dos 
fenômenos.
Questão 96 
O que é a possessão? 
A possessão é o fenômeno pelo qual um espírito do mal reside em um 
corpo e em determinados momentos pode falar e se mover por meio desse 
mesmo corpo, sem que a pessoa possa evitá-lo. O espírito do mal não reside 
na alma, permanecendo esta livre e incapaz de ser possuída. Apenas o corpo 
é suscetível de possessão.
Questão 97 
Quais são as características essenciais para 
se diagnosticar uma possessão? 
Os critérios diagnósticos que deveria apresentar um sujeito para que sus-
peitássemos de possessão seriam os seguintes:
146 SVMMA DAEMONIACA
1. Ante o sagrado ou o religioso dá-se uma gama de sensações que vão, 
segundo o sujeito, desde o incômodo até o horror, desde a leve expressão de 
moléstia até a manifestação de ira e fúria.
2. Nesses casos mais extremos, o horror leva a acessos de fúria, acompa-
nhados normalmente de blasfêmias ou insultos dirigidos para o objeto religio-
so que se encontra próximo. 
3. O possesso, nos episódios agudos de manifestação de ira furiosa, perde 
a consciência. Quando volta a si não recorda de nada. A amnésia é total e 
absoluta. Enquanto tem lugar a crise de fúria, a pessoa sofre uma mudança de 
personalidade, é como se dela emergisse uma segunda personalidade.
4. Essa segunda personalidade sempre tem um caráter maligno. É comum 
nesses momentos que as pupilas se voltem para cima, ou para abaixo, deixan-
do os olhos brancos. Os músculos faciais põem-se frequentemente em tensão. 
Também as mãos mostram rigidez. Nesses momentos de crise, a pessoa arti-
cula a voz cheia de ódio e raiva.
5. Acabada a crise furiosa, a pessoa volta lentamente à normalidade; o trân-
sito de volta à normalidade é praticamente similar quanto ao tempo e ao modo 
que se observa da volta do estado de hipnose ao estado normal de consciência.
6. Fora das crises furiosas em que emerge a segunda personalidade, a pes-
soa leva uma vida completamente normal, sem que essa patologia afete nada, 
nem seu trabalho nem suas relações sociais. O sujeito aparece como uma pes-
soa perfeitamente sensata. A todo momento distingue perfeitamente entre a 
realidade e o mundo intrapsíquico, não se observa uma conduta delirante.
7. Em alguns casos, expõem coisas que parecem alucinações sensoriais (ex-
põem que, esporadicamente, veem sombras, sentem uma sensação estranha 
em alguma parte do corpo ou ouvem grunhidos). Pelo contrário, não ouvem 
vozes internas, nem sentem que algo lhes corre abaixo da pele.
A possessão 147
Questão 98 
Considerações da psiquiatria8
Ao explicar esse fenômeno a psiquiatras, a esses sete critérios ter-se-ia que 
acrescentar que não se pode considerar dentro do campo da possessão os ca-
sos em que o sujeito meramente diz sentir uma presença. Na maior parte dos 
casos, esses fenômenos de possessão produzem-se depois de participar de al-
gum tipo de rito envolvendo práticas ocultas, curandeiria, etc. Essas pessoas, 
tal como se mencionou no ponto 7, sofrem alucinações sensoriais sempre com 
uma temática muito precisa (a referida no citado ponto), mas não se veem 
afetadas por nenhum tipo de delírio. Pelo contrário, há uma total ausência de 
construção patológica de conjuntos de ideias que possam justificar esse tipo 
de transtornos explicados nos outros pontos anteriores. O paciente mantém 
um raciocínio claro e se mostra extremamente crítico com respeito aos sin-
tomas que ele mesmo descreve ao médico. É muito frequente que comece sua 
exposição ao especialista médico ou ao sacerdote com as palavras “vai pensar 
que estou louco”, “você não vai acreditar em mim” ou “não sei por onde come-
çar”. O próprio possesso é o primeiro a reconhecer que seu discurso vai pare-
cer pouco digno de crédito. Ele situa perfeitamente no tempo o início de seus 
transtornos e costuma referir como causa deles a participaçãonesses ritos. 
Quando se diz de alguém que é um psicótico cabem várias definições: 
“A definição mais limitada de psicótico se restringe a ilusões ou alucinações 
notáveis, com as alucinações tendo lugar com ausência de conhecimento de 
sua natureza patológica”9. Como se vê, não consegue se encaixar esse tipo de 
paciente no conceito de psicótico, já que mantém uma contínua consciência 
crítica com respeito aos transtornos que refere.
Poderíamos dizer que a possessão tem um ligeiro aspecto em comum com 
a esquizofrenia paranoide, dado que a característica essencial de uma esqui-
zofrenia de tipo paranoide é a presença de notáveis ilusões ou alucinações no 
8 Essa questão foi escrita para os psiquiatras, o leitor não especializado nessa área pode ignorá-la.
9 DSM IV, p. 273. Neste livro, cita-as da obra Diagnostical and Statiscal Manual of Mental Disorders 
da American Psychiatric Association, far-se-ão seguindo a edição norte-americana de 1994.
148 SVMMA DAEMONIACA
contexto de uma relativa preservação da função cognitiva e afetiva10. O ponto 
7 (exposto anteriormente) daria a impressão de que esse tipo de paciente en-
traria na classificação para tal tipo de doença. Embora haja que fazer notar 
que nesses tipos de alucinações manterão uma temática constante. Ainda que 
decorram em vários anos, as alucinações não mudarão de temática, nem tam-
bém variarão em sua frequência, a qual será tão irrelevante que não levará a 
classificar a pessoa que as sofre de pessoa esquizóide. Nesse tipo de doente 
essa patologia alucinatória em nenhum caso deriva para o delírio.
O que realmente é relevante, o fator predominante, será que nos momentos 
de maior fúria nos emerge essa segunda personalidade que dá todos os sinais 
de que o paciente deve sofrer uma desordem dissociativa da personalidade. 
A presença de uma identidade diferente que toma controle sobre a conduta 
da pessoa entra plenamente na descrição dessa patologia da dissociação. Essa 
segunda identidade sempre aparece com traços muito fixos: falará com rai-
va, com ira, expondo um grande ódio para tudo o que for relativo à religião, 
além de falar com a expressão facial manifestando uma grande tensão. Em 
alguns pacientes essa segunda identidade é loquaz, em cujo caso manifesta 
uma grande insolência em seu vocabulário e expressões blasfemas. Em outros 
pacientes essa segunda identidade é quase silenciosa, falando em contadas 
ocasiões e de um modo extremamente lacônico, suas intervenções carregadas 
de ódio e tensão têm em comum com o tipo anterior o fato de que a voz muda 
por efeito dessa ira contida. 
Falando da generalidade das patologias de personalidade dissociada, nes-
ses casos, o paciente assume um segundo papel de modo inconsciente, e fruto 
da profunda assimilação inconsciente dessa segunda personalidade pode vir a 
prontitude e coerência das respostas adequadas. Mas há que se fazer notar que 
nos doentes de possessão essa segunda identidade sempre apresenta os mes-
mos impulsos, ainda que dividida nesses dois tipos citados (personalidade lo-
quaz ou muda). Quais são esses impulsos? Essa segunda personalidade mani-
festa-se exclusivamente nos momentos de fúria, que produzirão a amnésia de 
tudo o que foi dito e realizado durante essa crise. Tal segunda personalidade 
10 DSM, p. 287.
A possessão 149
sempre é maligna e manifesta uma terrível aversão a todo o sagrado (pessoas, 
objetos ou palavras).
O horror que os possessos sentem por tudo o que é sagrado não supõe ne-
nhuma fobia específica, já que, inclusive se aparecesse como sintoma isolado 
e completamente desligado de todo o quadro de sintomas que acompanham 
essa síndrome, apareceria claramente que essa rejeição não provoca ansiedade, 
mas uma reação automática de ira. O possesso não manifesta uma ansiedade 
provocada por uma exposição a qualquer objeto, pessoa ou palavra sagrada, 
antes essa exposição é causa de emergência da segunda personalidade. A au-
sência de fobia a essa reação também não provoca nenhuma desordem obses-
sivo-compulsiva, nem dá lugar a nenhum tipo de ritual de repreensão (usada 
aqui a palavra ritual em seu sentido psiquiátrico; dado o tema que tratamos, o 
esclarecimento não é desnecessário). O pensamento em todo momento (salvo 
nos momentos de transe) é claro, e essa é outra característica que costuma 
chamar a atenção dos especialistas que atendem tais pacientes: a clareza de 
pensamento, a capacidade de autocrítica, coexistindo com os outros traços 
patológicos que por sua gravidade deveriam implicar uma evolução para uma 
profunda desestruturação da personalidade e o raciocínio.
Recapitulando, se um psiquiatra não soubesse nada de possessões, os sin-
tomas que observaria num possesso típico levar-lhe-iam a ver nele uma de-
sordem dissociativa da personalidade que provoca alucinações sensoriais (es-
cassas), uma aversão aguda ao sagrado, junto com agitações próprias de uma 
crise histeriforme.
Como se vê um complexo conjunto de sintomas, todos eles num mesmo 
sujeito e se manifestando com simultaneidade; isso nos leva a recusar as clas-
sificações simplistas daqueles que, sem ter visto um caso real, sentenciam que 
se trata de uma ou outra doença mental. O quadro sintomatológico aqui de-
finido reflete uma síndrome tão especial que não podemos mantê-lo afastado 
da patologia psiquiátrica. Há que admitir que nos encontramos não ante uma 
desordem mental simples, senão ante uma síndrome para o que há que se 
procurar um lugar específico dentro da catalogação médica. E digo uma sín-
drome porque é um conjunto de sinais e sintomas que existem há um tempo e 
150 SVMMA DAEMONIACA
definem um quadro doentio determinado, que se repete de um modo milimé-
trico nos pacientes que dele padecem e cuja simultaneidade na concorrência 
desses traços (antes descritos) levam à perplexidade os especialistas que os 
atendem. Portanto, é totalmente inadequado falar desse fato como esquizo-
frenia, psicose, e muito menos como epilepsia, porque o quadro inteiro não 
se enquadra na catalogação de cada uma destas doenças. Essa síndrome só 
se enquadra em pequenas partes da sintomatologia dessas outras patologias. 
Penso que o melhor termo, já que há que criar uma denominação ex profeso, 
seria síndrome demoniopática de dissociação da personalidade.
O DSM, no Apêndice I, oferece um glossário de síndromes relacionadas 
com culturas étnicas determinadas11, na p. 849 aparece o termo “zar” ao que 
se dá a seguinte definição descritiva: 
“Um termo geral da Etiópia, Somália, Egito, Sudão, Irã e outras sociedades 
do Médio Oriente aplicado à experiência de espíritos possuindo uma pessoa. As 
pessoas possuídas por um espírito podem experimentar episódios dissociativos 
que podem incluir gritos, risos, golpes da cabeça contra a parede, cantos ou 
prantos. As pessoas podem mostrar apatia e isolamento, recusando-se a comer 
ou a terminar as tarefas diárias, ou podem desenvolver uma relação em longo 
prazo com o espírito que os possuem”.
Mas, bem mais importante que esse termo, que tinha que resumir já que 
esta obra faz menção, o DSM, no anexo 300.15 dedicado a “desordens não 
especificadas de outra maneira” (p. 490), trata de um modo confuso e mis-
turado com outras desordens, o quadro que aqui se apresentou de um modo 
detalhado. Esse anexo trata esse tema de um modo que resume essa questão, 
e já adverte que há casos em que “a característica predominante é um sintoma 
dissociativo (...) e que [no entanto] não concordam com os critérios de nenhu-
ma desordem específica”. É interessante observar quão categóricos se mos-
tram alguns especialistas ao classificar a síndrome que descrevi (e das quais 
eles só tiveram referências) como uma mera e simples dissociação, quando o 
mesmo DSM, ante à evidência de casos conhecidos de primeira mão, adverte 
claramente que há casos que escapam aos critérios da mesma classificação. E 
11 DSM, p. 849.
A possessão 151
de modo expresso o DSM menciona a possessão (ao final do ponto 4 do anexo 
300.15) como um tipo de transe noqual a característica predominante é essa 
dissociação da personalidade, mas cujas características não coincidem com os 
critérios dados para nenhum tipo de desordem de dissociação.
Denominemo-lo como o denominemos há que convir que o classificar em 
outra das categorias até agora existentes é podar o fenômeno de muitos de 
seus elementos específicos. Por isso é mais adequado criar um termo espe-
cífico para uma realidade específica. Não basta dizer que é uma patologia 
demoniopática, pois são muitas as desordens psiquiátricas nas quais o doente 
crê ser um demônio, ou que a pessoa com a que convive se transformou num 
demônio, ou que ouve vozes de demônios, etc.
Também não basta dizer que é uma mera dissociação da personalidade, 
porque a dissociação aqui descrita apresenta um quadro demasiado sui ge-
neris nas características que a acompanham (exemplo: fase convulsiva sem 
perda de consciência, uma fobia exacerbada no meio de uma crise de apa-
rência histeriforme). No entanto, essa dissociação da personalidade, sendo só 
mais um sintoma diagnóstico, é o mais específico da possessão. Por isso acho 
que, psiquiatricamente, o termo mais adequado seria, como já disse antes, 
síndrome demoniopática de dissociação da personalidade, incluindo na pala-
vra síndrome de todas as fobias específicas e os outros aspectos dos que fa-
lei. Acho que, de todos os termos, é o mais descritivo de suas características 
essenciais. O adjetivo demoniopático não aparece em vão, já que designa o 
tema com o qual decorre a doença, e é necessário mencioná-lo para evitar 
confusões com o termo desordem de transe de dissociação, que é mencionado 
no DSM (anexo 300.15, ponto 4, p. 490) e que prestar-se-ia a confusão com 
outros casos, já que há transes (por exemplo, os hipnóticos) nos que se pode 
produzir essa dissociação temporária e induzida e que nada têm a ver com o 
quadro aqui descrito. Acrescentar-se o termo de dissociação de personalidade 
também é necessário, pois além de ser a característica mais patente e predo-
minante nessa doença, ajuda-nos a não confundir tal patologia com outras em 
que o doente crê estar possesso mas cujo quadro é claramente esquizóide. O 
esquizóide apresentará quiçá um quadro histriônico, um quadro obsessivo e 
152 SVMMA DAEMONIACA
seu pensamento aparecerá desestruturado, características estas radicalmente 
diferentes do quadro que apresentam os afetados da síndrome já descrita.
Questão 99 
O demônio também tem a alma do possuído? 
Não. Como se vê é um fenômeno que afeta ao corpo. A alma pode estar na 
graça de Deus. O raciocínio e a vontade seguem pensando e decidindo com 
liberdade. Se um possesso morre, e está em graça de Deus, a alma deveria ir ao 
Céu. Por tudo o que foi dito, também lhe é lícito comungar. Em alguns casos 
isto será possível, em outros, não será possível nem entrar no templo. Mas o 
possesso não é responsável, moralmente falando, pelo que faça ou diga duran-
te os transes de possessão. Pelo contrário, o possesso é perfeitamente livre e, 
portanto, responsável pelo que faça fora desses transes.
Questão 100 
Qual é a forma mais prática de saber se alguém está possuído? 
Falar com o suposto possesso para que nos explique o que se passa é im-
portante, mas há que se recordar que o doente mental pode ter lido todos os 
livros sobre o tema e imitar perfeitamente os sinais que leu. Por isso, o melhor 
é que o suposto possesso nos explique o que lhe passa com grande brevidade 
e depois, sem mais preâmbulos, orar sobre ele. É a oração que dará a segu-
rança de que se trata de uma possessão ou não. Se a pessoa está possessa, ao 
abençoá-la durante algum tempo, começará a crispar as mãos, a tensão ir-se-á 
refletindo em seu rosto, fechará os olhos, levantam-se as pálpebras. Se segue 
fazendo a oração, o possesso pode começar a gritar ou a falar, com uma voz 
maligna. Em outros casos, começa um riso maligno, ou a bufar. Há casos em 
que não se observa transe, o possesso no momento abre os olhos e fala. Sua 
voz é maligna e agoniada, e fala para ordenar que pare, que detenha a oração. 
Ainda que não se observe transe, ao voltar a si não recordará nada. Em outros 
casos o que não se observa é que surja essa segunda vontade. A única coisa 
A possessão 153
que se percebe externamente é que a pessoa fica com os olhos brancos e não 
se move. Às vezes, quando muito, pode agitar um pouco as mãos ou o corpo, 
mas levemente. Esses são os demônios mudos, não falam, mas ainda que não 
falem durante muito tempo, ao começar o ritual de exorcismo a pessoa entra 
em transe.
Questão 101 
Que truques o demônio pode usar para 
esconder a sua presença no possuído? 
Essa questão deve ser lida com muito cuidado por todos que irão se dedicar 
ao ministério do exorcismo de modo contínuo, porque é uma questão funda-
mental. Importante porque será neste aspecto que o demônio tentará enganar 
muitos exorcistas, fazendo-os acreditar que não há possessão. Existem dois 
truques que alguns demônios podem usar para evitar a identificação, depen-
dendo se são demônios abertos ou fechados. Mais adiante será explicado que 
tipo de demônios são estes.
Se é um demônio dos denominados abertos, tratará primeiro de ocultar-se, 
de não se manifestar. Alguns podem resistir sem se manifestar durante cinco 
minutos ou até mais. Por isso é importante falar com o suposto possesso antes 
de lhe abençoar, para ver se o caso é verossimilmente de possessão ou não. 
Porque se a possessão parece verossímil, há que insistir mais tempo na oração 
de bênção. O demônio que é dos abertos quando não resiste mais ao poder 
da oração, faz entrar em transe o possesso, o qual fecha os olhos e os deixa 
brancos por trás das pálpebras. Mas sem mover-se, sem chamar a atenção. Se 
o sacerdote deixasse de abençoar-lhe e não lhe tivesse levantado as pálpebras, 
o possesso voltaria imediatamente a si, sem recordar nada, e o sacerdote fica-
ria enganado achando que não tem nada. Se é um demônio dos fechados fará 
justo o contrário do que o explicado com os abertos. Abrirá os olhos e dirá 
que o que tem é psicológico, rirá do sacerdote enquanto reza, perguntar-lhe-á 
que tolice está recitando, se está tratando de convencê-lo de que está possesso. 
154 SVMMA DAEMONIACA
Mas, curiosamente, quando volta a si, se o sacerdote lhe pergunta por que lhe 
disse tal ou qual coisa, verá que não se recorda de nada.
Quando o sacerdote ora por uma pessoa para discernir se está possessa e 
começa esse comportamento zombador ou depreciativo, ao acabar, o sacer-
dote deve lhe perguntar por que lhe disse isso ou aquilo, porque no espaço de 
tempo que orou sobre a pessoa é um intervalo de tempo em branco que pas-
sa completamente despercebido para o possesso. Costuma ser normal neste 
tipo de demônio que, durante a oração para discernir, o possesso ria do que 
está a fazer o sacerdote. Depois, inclusive, pede-lhe perdão: “perdoe-me, mas 
é engraçado o que está fazendo, me parece uma tolice”. O possesso já está em 
transe, fala com voz completamente normal, com gestos e reações que dão a 
entender que é ele mesmo. Mas o sacerdote deve suspeitar de que ele veio vê-lo 
motu próprio para ver se está possesso, por que, de repente, ao rezar tudo lhe 
faz graça, por que não se pode aguentar o riso e comenta que acha que tudo o 
que se passa, na realidade, é psicológico? Tudo isso lhe deve fazer suspeitar, e 
se não recordar nada do que foi dito, tudo está claro: é possessão. E quando se 
procede ao exorcismo ver-se-á ainda mais claro12.
Às vezes essa estratégia o demônio usa inclusive durante o exorcismo. É 
gracioso que inclusive após ter entendido orações em latim e ter mostrado 
certa repulsa a todo objeto sagrado, faz uma desesperada tentativa de conven-
cer a todos os presentes com voz normal de que na realidade o seu problema 
é uma doença mental e que lhe deixem. Mas se o exorcista insiste, volta a 
manifestar-se como aquilo que é, como um demônio.
Questão 102 
Quais são os demônios ocultos? 
Os demônios abditi ou ocultos são os que seescondem no interior do pos-
sesso sem se manifestar de modo algum. A pessoa nota uma mudança em 
sua vida, sente coisas estranhas que a fazem suspeitar que uma força externa 
12 Em ocasiões observei que essa hilaridade, essas dúvidas, procedem de uma tentação intensa do 
demônio, sem necessidade de entrar em transe, com perfeita consciência.
A possessão 155
entrou nela, e pode experimentar fenômenos preternaturais. Mas, para sua 
desgraça, quando o sacerdote ora, o demônio resiste e não dá nenhum sinal 
de estar ali.
Nesses casos, o que tem de fazer é orar muito, durante semanas ou meses. 
Oração em geral não é demais e também não é necessária uma oração espe-
cífica contra o demônio. Basta que reze o rosário diariamente, vá à Missa e 
fale com Deus por um momento. A oração é o que faz esses demônios ocultos 
saírem para fora do possesso, pois é como se estivessem no interior da pessoa 
e pouco a pouco fossem sendo sacados para fora. Por isso, qualquer pessoa a 
quem um exorcista tenha dito que não tem nada demoníaco, tem o direito a 
ser examinada de novo após um mês. E, inclusive, que se ore por ela mais três 
ou quatro vezes, levando um mês entre cada momento de oração.
Nesse sentido, há possessos cujos demônios se ocultaram de forma tão 
absoluta que nenhum exorcista pôde detectar sua presença por, mais conheci-
mento e experiência que tivesse.
Há casos, no entanto, em que se sucedeu algo preternatural diante de vá-
rias testemunhas. E que, depois de muita insistência, o demônio não pôde 
mais e se manifestou com toda sua raiva. Também houve casos de demônios 
ocultos que puderam resistir por mais de duas horas de exorcismo sem dar o 
menor sinal de estar ali. Conheci casos nos quais, durante a sessão de exorcis-
mo, a pessoa não dava sinais nem se portava ligeiramente mal. Mas o exorcista 
e familiares estavam seguros de que o demônio estava presente pelas coisas 
das quais tinham sido testemunhas em ocasiões precedentes. No entanto, por 
mais que resista, quando um demônio oculto não pode mais e revela sua pre-
sença, agirá como todos os demônios nos possessos. Não obstante, um exor-
cista não deve insistir tanto tempo exorcizando uma pessoa sem sinais, salvo 
que não tenha a menor dúvida de que se trata de um caso de possessão.
Nesse sentido, o exorcista pode afirmar sem a menor dúvida que alguém 
está possesso. O contrário não é tão fácil de afirmar. De certo modo, o que se 
pode assegurar é que a pessoa não dá sinais de possessão. No entanto, como 
norma geral, é preciso deixar a pessoa tranquila e convém ser firme ao dizer: 
você não tem nada. Fazer de outra maneira seria deixar em um constante 
156 SVMMA DAEMONIACA
desassossego psicológico todas as pessoas que vêm nos ver. Mas ser categórico 
ao dizer a alguém que não tem nada, não significa ter de aceitar voltar a vê-lo 
se esse o pede.
Recordo de um caso de uma pessoa que afirmava que tinha visto umas lu-
zes entrando em sua casa pela janela. Eu examinei e não vi sinal de possessão 
algum. O problema era que toda a família tinha visto aquele fenômeno, inclu-
sive uma menina pequena. Todos os integrantes da família estavam presentes 
diante de mim e confirmaram a história. Assim, a minha resposta foi:
1. Se não tivesse tido mais testemunhas do que você me diz, estaria seguro
de que o seu caso é meramente psicológico;
2. Mas dado que há mais pessoas que confirmam sua história, tenho minhas
dúvidas;
3. Por outro lado, você não dá sinais de possessão;
4. Assim, faça o seguinte:
— Tome a medicação que o psiquiatra lhe deu e siga todas suas indicações.
— Ao mesmo tempo, ore, reze o rosário, vá a Missa.
Se o seu problema for psiquiátrico, já estará tomando o remédio.
Se for um problema que tem que ver com o demônio, Deus escutará a 
oração e ajudar-lhe-á.
E pode voltar a me ver dentro de um mês, dois ou seis meses.
Tenho segmentado todos os elementos da resposta porque essa valerá para 
todos os casos nos quais a possessão não está clara, e cada ponto da resposta 
tem sua razão de ser. Ao cabo de um tempo, a pessoa voltou e viu-se claramen-
te que era um problema de possessão. Casos como estes infelizmente se dão. E 
digo “infelizmente” porque oxalá que tudo estivesse mais claro, que tudo fosse 
mais singelo. Mas esse tema tem o nível de complexidade que Deus quis. Nem 
mais, nem menos.
Portanto, há demônios ocultos que podem resistir dez minutos, vinte, uma 
hora, duas... E há os que estão tão enraizados que precisarão de meses para 
A possessão 157
que pela oração do sacerdote não possam mais resistir e tenham que se mani-
festar. Reconheço que esse tipo de demônio oculto introduz um nível de in-
determinação em nossos diagnósticos que, para mim, pessoalmente, é muito 
desagradável. Mas as coisas são como são. E esse tipo de demônio, lamentavel-
mente, existe. A demonologia é como é, não se trata de uma fórmula que um 
teólogo tenha criado e na qual tudo seja tão facilmente delimitado, que nos 
movamos com a mais perfeita das seguranças na hora de dar-lhe uma ordem. 
Questão 103 
Que frase deve ser dita para saber se alguém está possuído? 
Basta apenas que o sacerdote abençoe a pessoa, com orações já feitas ou im-
provisadas. Ao cabo de certo tempo, podem-se intercalar as seguintes frases 
fáceis de memorizar:
In nomine Iesu, exorcizo-te.
In nomine Iesu, dic nomen tuum.
In nomine Iesu, si es hic, manifesta te.
Ao dirigir-se ao demônio, há que o fazer com autoridade. Ao demônio não 
se pede nada, se ordena. Fazê-lo em latim ajudará a que a pessoa não saiba em 
que momento estamos dirigindo ao demônio e deixamos de a abençoar. Se a 
pessoa não dá nenhum sinal nem de transe, nem de que emerja essa segunda 
personalidade, então não está possessa. De qualquer jeito, há demônios que 
se escondem muito, que com todas as suas forças resistem à oração. Por isso, 
convém insistir um pouco. Normalmente, não é necessário insistir mais de 
três ou quatro minutos. Em 95% dos casos de possessão, o demônio costuma 
manifestar-se em poucos segundos. 
Mas como há muitos tipos de demônios, convém que o sacerdote se en-
comende a Deus para que o ilumine. Se algo o faz suspeitar que ali há um 
demônio, pode insistir mais. Ainda que não precise de mais de quatro mi-
nutos, normalmente. Durante esse tempo em que está a abençoar a pessoa, 
é muito importante que o sacerdote se concentre muito na oração. Quanto 
mais se concentrar, mais força terá sua oração e mais obrigará ao demônio a 
158 SVMMA DAEMONIACA
manifestar-se. É muito conveniente que o sacerdote feche os olhos para não 
se distrair olhando a pessoa. Mas convém que tenha alguém mais atento ao 
possesso, no caso dele tentar se lançar sobre o sacerdote enquanto estiver com 
os olhos fechados, concentrado na oração. O sacerdote, ainda que esteja con-
centrado na oração, tem de se fixar, depois de um momento, nos olhos. Pois 
em alguns casos os olhos fecham-se para entrar em transe. Ou em outros, o 
demônio olha através deles, e o demônio tem um olhar especial, maligno. Se 
vir esse olhar, ao insistir, ele acabará se manifestando caso esteja presente.
Questão 104 
Quais são as causas da possessão? 
As causas que sempre existiram para explicar porque houve a possessão 
são as seguintes:
1. O pacto com o demônio;
2. Assistir sessões a cultos satânicos ou a ritos de crenças ocultas;
3. Que uma criança tenha sido oferecida por sua mãe a Satanás;
4. A maldição.
A possessão nunca é contagiosa. Viver com um possesso não supõe ne-
nhum perigo de que se pegue algo desse tipo. Como se vê, fica possesso o 
que abre uma porta ao demônio. A gente pensa que os pecados provocam a 
possessão, mas não, há que abrir expressamente uma porta ao demônio para 
que entre. Uma coisa é o pecado e outra a possessão. Um não leva ao outro. 
Da mesma maneira que um pode abrir a porta ao demônio, ainda que não 
seja demasiado mau, assim também outro pode ser muito mau e não ficar 
possesso.
Pode parecer lógico que fique possesso aquele que voluntariamente tenha 
aberto uma porta ao demônio,mas pode parecer mais estranho que alguém 
fique possesso por um malefício. Isto é, por alguém que tenha feito um rito 
para que fique ele possesso ou para matá-lo.
A possessão 159
Mas não nos esqueçamos que a possessão só afeta o corpo, não a alma, 
com o que não há nenhum problema com respeito à justiça divina. Do mesmo 
modo que alguém pode ir à máfia para encomendar uma morte, às vezes Deus 
também permite esse mal com respeito ao corpo.
A possessão só se produzirá se Deus a permitir. Não importam os ritos que 
se façam para que alguém morra ou fique possesso, se Deus não o permite 
não ocorrerá nada. E quanto mais vida espiritual e de oração tiver a pessoa, 
mais protegida estará contra todas as influências do maligno. De qualquer 
jeito, que pessoa inocente e até na graça de Deus fique possessa sem culpa não 
é uma teoria, é algo comprovado há séculos. Deus permite-o porque muitas 
vezes os males do corpo são uma fonte de bênçãos muito grande para a alma. 
E depois de uma possessão a pessoa fica mais agradecida a Deus e com uma 
vida espiritual bem mais forte, para sempre. Por outro lado, há que dizer que 
as pessoas que praticam malefícios contra a saúde de outras pessoas, ou para 
que fiquem possessas, não costumam fazê-lo durante muito tempo, já que 
esse tipo de pessoa costuma encontrar o castigo divino muito cedo. Poucas 
coisas atraem tanto o castigo divino como praticar malefícios contra os ou-
tros. Esse tipo de pessoas pode praticar suas más artes por pouco tempo antes 
que Deus lhes reclame a vida e as chame ao Seu terrível julgamento.
Questão 105 
Por que o demônio age por possessão? 
Se o demônio sabe que possuir alguém supõe o risco de que, ao final, essa 
possessão produza bens maiores para a alma da pessoa, então por que o faz? 
Ademais, a possessão não supõe um desmascaramento do demônio? Não lhe 
seria mais proveitoso se manter completamente oculto? Sem dúvida seria mais 
conveniente ao demônio não possuir ninguém. Mas ele possui por uma única 
e simples razão: fazer sofrer. Procura fazer sofrer e na possessão pode fazê-lo 
de um modo direto. A possessão em longo prazo supõe um prejuízo para os 
planos do Maligno, pois ele é descoberto, mas em curto prazo obtém o sofri-
mento da pessoa. E o demônio não se resiste a obter algo seguro aqui e agora. 
160 SVMMA DAEMONIACA
O que se disse antes a respeito do porquê o demônio não resistiu a tentar o Fi-
lho de Deus é igualmente válido para essa matéria. Resistir à tentação requer 
virtude, e não podemos pedir virtude ao demônio. Por isso ele procura sem-
pre o benefício aqui e agora. A Igreja pensa em longo prazo, mas o demônio é 
impulsionado por suas próprias paixões. Ainda que pareça um contrassenso, 
o demônio é brinquedo de suas próprias paixões e impulsos que não controla.
Questão 106 
Por que Deus permite que haja possessões? 
Deus permite esse estranho fenômeno por quatro motivos:
1. Mostra a verdade da religião católica;
2. É a punição dos pecadores;
3. É o benefício espiritual dos bons;
4. Produz saudáveis lições para os homens. 
Se Deus permite a doença, mais razões tem para permitir algo cuja exis-
tência é uma verdadeira razão para crer. Um fenômeno no que se comprova o 
poder de Deus, o poder de Cristo e o poder da Igreja. A possessão é como uma 
janela aberta pela qual podemos nos somar ao mundo de ódio e sofrimento 
demoníaco. Uma janela aberta pela qual podemos presenciar algo do poder 
invisível das naturezas angélicas. E o bem que vem de presenciar tudo isso 
ficará nos presentes e familiares normalmente para toda a vida. Digo “nor-
malmente”, pois presenciar um exorcismo não significa que todas as pessoas 
que presenciam tal fenômeno a partir de então tenham fé. Há quem, após ser 
testemunha de um exorcismo, atribua a causas naturais ou, ao menos, desco-
nhecidas. Se teve quem não creu em Jesus mesmo tendo presenciado as curas 
e milagres que realizava, não podemos nos estranhar de que isso aconteça. Te-
mos de compreender que vejamos o que vejamos (um milagre, um exorcismo, 
o que seja) o que nos faz crer é a graça. Se livremente decidimos resistir a esse 
convite interior e invisível, não importa que vejamos a multiplicação dos pães 
e dos peixes. Ainda que se abrissem os céus e Deus nos falasse do alto entre as 
A possessão 161
nuvens, pensaríamos se tratar de uma alucinação. Não é o que vemos, senão a 
graça, a que acende no interior de nossa alma imortal o lume da fé. 
Questão 107 
Qual é a diferença entre a dupla personalidade e a possessão? 
A doença de dupla personalidade tem uma causa natural, a possessão é 
causada pelo demônio. A doença surge por causas psiquiátricas, a possessão 
normalmente é causada por se participar de rituais ocultos. 
A doença é curada apenas com a ciência psiquiátrica; no exorcismo, a pos-
sessão simplesmente desaparece. Na doença não há fenômenos extraordiná-
rios; na possessão, algumas vezes existem. 
Questão 108 
Que fenômenos extraordinários se dão na possessão? 
Basta que tenha transe ou o aparecimento da personalidade demoníaca 
para que falemos de possessão. Há casos de possessão em que não haverá 
manifestação de fenômeno extraordinário algum. Mas os fenômenos mais 
frequentes são: o demônio entende qualquer idioma, inclusive as línguas já 
“extintas”. Obedecerá às ordens que se lhe sejam dadas em latim, grego, he-
braico ou em outros idiomas de imediato, independentemente da idade ou 
inteligência do sujeito possesso. Ainda que não costume ser frequente, al-
gumas vezes os possessos falam outros idiomas, mesmo que desconhecidos. 
Mostram uma grande força, às vezes durante muitas horas. E algumas vezes, 
uma força física claramente impossível, podendo levantar várias pessoas ao 
mesmo tempo.
Também se pode conhecer coisas ocultas. Mas o fato mais extraordinário 
de todos, e o menos frequente, é a levitação. 
162 SVMMA DAEMONIACA
Questão 109 
No Evangelho, a possessão não poderia ser uma 
mera simbologia da libertação do mal? 
Negar a realidade das possessões e dizer que são apenas um mero símbolo 
da libertação do mal é uma afirmação herética. Essa afirmação é contrária à 
tradição constante da Igreja. Os santos, os doutores da Igreja, os padres, a prá-
tica constante da Igreja no Oriente e no Ocidente ao longo de sua história são 
unânimes em dizer que a possessão é o domínio do demônio sobre o corpo.
Os Evangelhos distinguem de forma muito clara doença e possessão. A dis-
tinção entre ambas realidades não deixa qualquer dúvida a qualquer evange-
lista. Sempre se deixou claro que a possessão é causada por um ser espiritual 
maligno. É um fenômeno de possessão tão sui generis que inclusive se usa um 
verbo especial quando Jesus vai expulsar esses daemonia; o verbo é exorkizo 
(conjurar), e as pessoas não serão chamadas enfermas, mas daimonizomenoi. 
A possessão não é curada, o possuído é libertado. O grupo de pessoas que foi 
apresentado pelos quatro evangelistas gritou, teve crises de agitação. Jesus se 
dirigia a estes daimonia, no imperativo, dando ordens sem demonstrar mise-
ricórdia alguma. 
Questão 110 
Houve possessões na época do Antigo Testamento? 
No Antigo Testamento, só é testemunhado um caso de possível possessão, 
que aparece no Primeiro Livro de Samuel:
“O espírito do Senhor retirou-se de Saul. Entretanto veio sobre ele, da par-
te do Senhor, um espírito deprimente. Os oficiais de Saul disseram-lhe: ‘Estás 
sofrendo de um espírito deprimente enviado por Deus’. E sempre que o espírito 
deprimente de Deus acometia Saul, Davi tomava a cítara e tocava. Saul se acal-
mava, sentia-se melhor e o espírito deprimente o deixava” (1Sm 16,14.15.23).
A possessão 163
Esse texto parece um testemunho de possessão, porque fala de um espírito 
maligno que se agitou, que agrediu e que mais adiante se diz que se apoderava 
dele. Isso aparece em 1Sm 18,10, onde se afirma que o “espírito deprimente en-
viado por Deus apoderou-se de Saul, e teve um delírio em meio à sua casa. (...) 
Arremessou-a contra Davi, dizendo: ‘Vou cravar Davina parede’. Mas Davi, 
por duas vezes, se esquivou”.
Na época do Antigo Testamento, é claro, houve também casos de posses-
sões, embora não tenham sido registrados na Bíblia. Onde houve prática de 
feitiçaria e invocação a forças malignas, houve possessões. 
Questão 111 
Por que hoje há menos casos de possessão 
do que na época do Evangelho? 
É comum escutar que depois que Cristo derramou Seu Sangue no Calvá-
rio, o poder do demônio sobre o mundo foi quebrado, e é por isso que hoje há 
menos casos de possessão. Bem, essa é uma afirmação muito difícil de provar. 
Porque nem de uma época ou de outra temos todas as estatísticas. Enfim, fo-
ram muitos os ritos da antiguidade em que se invocaram os espíritos e deuses 
e que favoreciam a possessão. Por isso, é claro que a possessão foi mais comum 
na Babilônia pagã da Europa de Carlos Magno. Não foi a redenção de Cristo, 
mas o crescimento da Igreja e o abandono de tais rituais de invocação de espí-
ritos malignos que fez com que a possessão se tornasse algo realmente excep-
cional. Porque, embora Cristo nos tenha redimido, se invocam os demônios, 
provocam as possessões. Portanto, não é o fato da redenção o que reduziu o 
número de possessões, mas a erradicação dessas práticas de conjuração das 
forças do mal ao implantar-se o cristianismo. 
164 SVMMA DAEMONIACA
Questão 112 
Quais são os tipos de demônios que aparecem nas possessões? 
Existem dois tipos principais de demônios que provocam dois tipos dife-
rentes de possessão. Os aperti (abertos) e os clausi (fechados). Os demônios 
clausi fazem com que o possesso feche os olhos ao entrar em transe; sob as 
pálpebras os olhos estão brancos. Os demônios aperti provocam uma pos-
sessão em cujos transes o possesso mantém os olhos abertos, olhando com 
fúria e ódio, e falando volubilidade. Os aperti são volúveis e violentos, e temos 
de sujeitá-los entre várias das pessoas presentes. O grito dos clausi só ocorre 
depois de algum tempo e sempre sem abrir os olhos. Os clausi, ao fim de um 
momento de orações falam, mas outros são completamente mudos, entram 
em transe, mas não dizem nada. Um terceiro tipo de demônio seriam os de-
mônios abditi, isto é, os ocultos. Sabe-se que estão ali, dentro do corpo dos 
possessos, porque alguma vez se manifestaram indubitavelmente. Mas depois 
se ocultam sem dar o menor sinal de sua presença. Esses demônios ocultos, 
uma vez que se manifestem, fá-lo-ão como demônios fechados ou abertos. 
Disse antes que são diferentes tipos de demônios, mas na realidade, para ser 
preciso, teria que dizer que os qualificamos assim segundo seu modo de reagir 
durante o exorcismo. Qualificamo-los assim segundo sua reação, mas sem 
chegar a penetrar na essência do que lhes distingue. Ainda que sejam diferen-
tes tipos de demônios, o modo de proceder do sacerdote com eles no começo 
será o mesmo, seja o tipo que for. Depois se verá o que atormenta cada um de 
modo mais específico, e atuará especialmente sob este.
Questão 113 
O que acontece se um possuído morre antes do demônio ter saído?
Muitas pessoas acreditam que se ele morrer enquanto estiver possuído vai 
para o Inferno. Isso é um erro. Se a pessoa está na graça de Deus irá para o 
Céu. A possessão só afeta o corpo. E, morta a pessoa, o demônio sai e entra 
em outra. 
A possessão 165
Questão 114 
As almas dos condenados podem possuir? 
Sim, na minha opinião, as almas dos condenados podem possuir de for-
ma exatamente igual que um demônio. Alguns possessos em transe insistem, 
durante as sessões de exorcismo, que não são demônios, mas sim falecidos. 
A pergunta que se fazem alguns exorcistas é se não estão mentindo, por isso, 
essa é uma questão debatida entre exorcistas. No entanto, há que levar em 
conta que, por mais que se lhes ordene no nome de Jesus que digam a verdade, 
não cedem nessa afirmação. Cederão em tudo (beijarão a cruz, aclamarão a 
Deus, etc.), mas não cederão na afirmação inicial de que não são demônios, 
mas pessoas humanas condenadas ao Inferno. Se obedecem em tudo, mas 
se mantêm firmes só em tal afirmação, é um indício mais que razoável para 
acreditar que dizem a verdade. 
Questão 115 
Um possesso pode se matar? 
Dado que o demônio toma posse de um corpo e pode movê-lo e falar atra-
vés dele, muitas pessoas se perguntam se em tal estado poderia chegar a ma-
tar. A experiência demonstra que o possesso em estado de transe pode fazer 
muitas coisas: ficar com os olhos parados, ter convulsões, gritar, etc. Mas não 
costuma fazer coisas contra si mesmo ou a outros, pela simples razão de que 
Deus não o permite. O demônio quer possuir todo o mal que possa ter, mas 
Deus estabelece limites à sua vontade, e ele não pode passar. Enfim, se a pes-
soa possuída tem um espírito suicida, aí sim há um perigo real de que, neste 
estado de transe, o demônio leve-a a atirar-se de uma janela ou lançar-se con-
tra alguma coisa, etc. Os possessos com espírito suicida devem ser vigiados, 
e as autorizações episcopais para proceder ao seu exorcismo devem seguir os 
seus trâmites com a maior urgência.
166 SVMMA DAEMONIACA
Questão 116 
Um possesso pode matar?
Embora alguns possessos em transe possam ser agressivos contra alguém 
em particular, é muito raro que eles possam fazer algum mal. A experiência 
mostra que o possesso grita com alguém, pode olhar com ódio ou usar as 
mãos como garras e coisas semelhantes. Mas é muito raro que tente atingi-
-lo ou golpeá-lo com algo. E, geralmente, quando se trata de um raríssimo 
caso que o faça, no final, tudo fica apenas na tentativa, como se uma força o 
impedisse de realizar seu desejo. Mas essas tentativas de agressão ocorrem 
raramente e, repito, sem nunca conseguir ter êxito. 
Questão 117 
Os assassinos seriais que cometem crimes 
hediondos são possuídos? 
Muitas pessoas se perguntam se certos serial killers que cometem crimes 
hediondos não são realmente possessos. A resposta é simples: uns são sim-
plesmente doentes mentais, alguns podem ser loucos, outros não são nem do-
entes, nem possessos. Há certamente casos raros, que aparecem em jornais, 
de crimes horrendos que sugerem possessão. São os crimes cometidos por 
membros de seitas satânicas ou certos assassinatos em série, em que não é fácil 
distinguir a fronteira do que foi feito de forma consciente ou inconsciente.
Nessas pessoas desalmadas e ao mesmo tempo possessas, não é simples 
delimitar a linha do que foi cometido em estado consciente ou inconscien-
te, pois realizaram coisas tão horríveis, sem arrependimento algum, que essa 
distinção não é simples de ser feita. Normalmente, as descrições desse tipo 
de caso costumam relatar que o fato começou de forma consciente e de que 
pouco a pouco o agressor parecia entrar num frenesi em que já não parecia ter 
domínio de seus atos. São crimes cometidos por pessoas realmente malignas, 
em estado consciente, e que ao mesmo tempo estão possessas. Pessoas nas 
A possessão 167
quais é difícil distinguir onde acaba o dito ou feito voluntariamente e onde 
começa o dito ou feito em estado de possessão. 
Se depois, ao orar por um assassino em série, fosse descoberto que ele es-
tava possesso, isso não mudaria sua situação de responsabilidade perante a 
lei. A lei não pode eximir alguém de sua responsabilidade penal pelo fato da 
possessão. Em todo caso, a possessão pode equiparar-se, para efeitos legais, 
a uma doença alienante. Mas o que não se pode é deixar impunes as faltas 
sob a desculpa de uma causa invisível. Introduzir tal imunidade represen-
taria uma insegurança jurídica inaceitável que nenhum legislador sensato 
poderia aceitar.
 169
Capítulo II
O exorcismo e o exorcista 
Questão 118 
O que é o exorcismo? 
Exorcismo é o rito de ordenação ao demônio para que saia do corpo de um 
homem possuído. A essência do exorcismo é a conjuração, ou seja, a ordem 
dada ao demônio em nome de Jesus a deixar o corpo. O ritual de exorcismo 
da Igreja contém muitos ritos menores (a ladainha dos santos, a liturgia da 
Palavra, rezando a oração do Senhor,etc.), mas a sua verdadeira essência é a 
conjuração do demônio. As orações dirigidas a Deus são deprecativas, ou seja, 
suplicamos a Ele, enquanto ao demônio nunca se pede nada, apenas se lhe 
conjura, ou seja, se lhe ordena. E se lhe ordena pelo poder sacerdotal ou pelo 
poder inerente ao próprio nome de nosso Redentor.
Se não houvesse conjuração em um exorcismo, não haveria exorcismo real. 
A característica definitiva e específica do exorcismo é a conjuração. Na verda-
de, a palavra grega exorkizein significa apenas conjurar.
Coloco dois exemplos do Ritual de Exorcismos de 1998.
Fórmula de oração deprecativa a Deus: 
Deus, criador e defensor do gênero humano, volta Teus olhos sobre esse ser-
vo Teu [nome do possesso] que formaste à Tua imagem e o qual chamas à Tua 
amizade.
170 SVMMA DAEMONIACA
O velho inimigo atormenta-o cruelmente, oprime-o com austera força, per-
turba-o com feroz terror.
Envia sobre ele Teu Espírito Santo que o fortaleça nas tristezas, que lhe ensi-
ne a suplicar na tribulação e que o guarde com Tua poderosa proteção.
Escuta, Pai Santo, o gemido da Igreja que Te suplica.
Não permitas que o Teu filho seja possuído pelo pai da mentira. Não per-
mitas que Teu servo, a quem Teu Filho redimiu com Seu sangue, seja retido no 
cativeiro do diabo.
Não permitas que o templo do Espírito Santo seja habitado por um espírito 
imundo.
Escuta, Deus misericordioso, as súplicas da ditosa Virgem Maria, cujo Filho 
morrendo na Cruz pisou a cabeça da Serpente Antiga e confiou-a como mãe de 
todos os homens.
Que brilhe neste servo a luz da verdade, que entre nele o gozo da paz, que o 
possua o Espírito de santidade e que morando nele o torne sereno e puro.
Fórmula de conjuração ao demônio:
Conjuro-te, Satanás, inimigo da salvação humana, a que reconheças a justi-
ça e bondade de Deus Pai, o qual, com justo julgamento, condenou tua soberba 
e inveja.
Afasta-te desse servo [nome do possesso] que o Senhor fez à Sua imagem, que 
enalteceu com seus dons e que adotou como filho de misericórdia.
Conjuro-te, Satanás, príncipe desse mundo, a que reconheças o poder e força 
de Jesus Cristo, o qual te venceu no deserto, te derrotou no horto, te despojou 
na Cruz, e ressuscitando do sepulcro levou consigo teus troféus ao Reino de Luz.
Retrocede dessa criatura [nome do possesso] que nascendo a fez irmã sua e 
morrendo a adquiriu com seu sangue.
Conjuro-te, Satanás, sedutor do gênero humano, a que reconheças o Espírito 
de verdade e graça, o qual repeliu tuas insídias e confundiu tuas mentiras.
O exorcismo e o exorcista 171
Saia dessa criatura de Deus [nome do possesso] a que Ele lacrou com o selo 
celestial.
Saia desse homem que com a união espiritual Deus fez templo sagrado.
Saia pois, Satanás, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.
Saia pela fé e pela oração da Igreja. Saia pelo sinal da santa cruz de nosso 
Senhor Jesus Cristo que vive e reina, pelos séculos dos séculos. Amém!
Questão 119 
Qual é a maneira ideal de organizar o ministério do exorcista? 
O ideal é que esse ministério seja muito bem organizado com um número 
suficiente de pessoas treinadas para a missão a que serão confiadas. Se para 
isso se considera que é melhor concentrar o ministério na capital da arqui-
diocese, o melhor é que em cada diocese se faça dessa maneira. Depois não é 
obrigatório que em cada diocese tenha um exorcista. O modo que vou expor 
para organizar esse ministério está pensado para uma grande arquidiocese 
que possua uma grande afluência de casos a examinar.
A parte mais delicada desse ministério não é o exorcismo, senão o discer-
nimento. Porque se equivocamo-nos e dizemos que não está possessa uma 
pessoa, estaremos infligindo por omissão e causando dano terrível, que pode 
ter que levar sobre os ombros por toda uma vida. Mas, por outro lado, se dize-
mos que está possessa e não o está, a Igreja ficará muito desprestigiada.
Um só descuido neste sentido pode ter péssimas consequências, pois a im-
prensa só se fixará no erro e não nos sucessos. Por isso convém concentrar 
experiência em poucas pessoas e não começar com novos grupos a cada caso. 
E, no caso de os especialistas em discernir deverem estar só na arquidiocese, 
não haveria problema dadas as facilidades de comunicação que existem hoje 
em dia.
Uma vez que se comprovasse que o caso é verdadeiro, o especialista pode-
ria dar as indicações oportunas para que, na diocese onde reside o possesso, 
um sacerdote autorizado procedesse ao exorcismo. 
172 SVMMA DAEMONIACA
Ainda que para cada caso seja suficiente uma pessoa, convém que sejam 
três as pessoas integrantes dessa equipe de discernimento. Três pessoas de 
diferentes idades para que se morrer uma não se vá todo o conhecimento com 
ela, pelo contrário o conhecimento se vá colocando em comum.
Por mais que essa ciência do discernimento seja relatada por escrito, nada 
poderá suprir nessa matéria a experiência. Por isso, é muito benéfico que o 
exorcista jovem seja ensinado pelo de idade mais avançada.
Depois, comprovado que um caso é de autêntica possessão e conseguida 
a autorização, o ideal é que o exorcista tenha uma equipe de leigos que lhe 
ajudem durante o exorcismo. Leigos que sujeitem ao possesso e que rezem 
durante o ato litúrgico. Podem ser entre cinco e dez. Dez pode parecer muito, 
mas se estão rezando, então não excedem esse número, pois a oração se soma. 
A oração dessa equipe de leigos que assistem às sessões não é algo sem muita 
importância. Pelo contrário, o poder da oração de um grupo é muito superior 
ao de um sacerdote sozinho.
Não necessariamente a equipe de sacerdotes que discerne tem que ser a 
mesma que depois faz os exorcismos. Como já foi dito, o exorcismo é uma 
operação mais fácil de fazer que a ação de receber a pessoa e discernir, pois 
para o exorcismo basta seguir o manual. E se há dúvida, pode-se consultar 
com alguém da equipe de discernimento.
No entanto, nenhum manual pode dar a ajuda necessária para discernir 
os casos verdadeiros dos falsos. É nesse labor de discernir que convém que 
se acumule a experiência e que as pessoas sejam fixas, sempre as mesmas, 
sem mudanças. Por outro lado, exorcizar faz-se com muita frequência, é um 
ministério muito pesado, e ainda que pareça paradoxo, é uma função de uma 
grande monotonia e que costuma cansar muito por ser sempre a mesma. Por 
isso, discernir é um labor e exorcizar é outro. Não necessariamente devem 
estar unidos.
Resumindo, o ideal é que o ministério nas grandes arquidioceses que aten-
dem muitos casos se organize com três grupos de pessoas:
O exorcismo e o exorcista 173
Os consultores,
encarregados do discernimento;
Os exorcistas,
encarregados de levar a cabo o exorcismo;
Os assistentes,
a equipe de leigos que assistem com sua oração e ajudam nos exorcismos. 
Entre os assistentes poderia haver leigos mais fixos nesse ministério que 
se encarregassem do acompanhamento espiritual dos possessos e de suas fa-
mílias. Os possessos, na maior parte dos casos, precisam de uma verdadeira 
catequese para aproximar-se de Cristo.
Alguns desses assistentes, com os anos, podem acumular tal experiência 
que, algum deles, poderiam chegar a ser um dos consultores. Se esse leigo é 
psiquiatra, seu julgamento parecerá mais justo à hora de discernir os casos. 
Mas digo, parecerá, porque em minha experiência nada é tão valioso como o 
sentido comum e a vida espiritual.
Questão 120 
É obrigatório um relatório psiquiátrico 
para se proceder o exorcismo? 
Não, a ideia de que um relatório psiquiátrico seja obrigatório antes de pros-
seguir com um exorcismo não consta em qualquer legislação sobre este assun-
to. Se um bispo espera que um psiquiatra lhe diga: esse homem está possesso, 
normalmente não se fará nenhum exorcismo, ainda que ali estivesse o ende-
moninhado de Gerasa, que carregava dentro de si uma legião.
O relatório psiquiátrico só vai falar de possibilidades. Se o exorcista está 
seguro de que a pessoa está possessa, por que precisaria de um relatório 
174 SVMMA DAEMONIACApsiquiátrico? Além disso, em várias ocasiões, já me ocorreu que uma doença 
psiquiátrica de um possesso coexistia com uma verdadeira possessão. De que 
teria servido um relatório, nesse caso?
A partir do momento em que pode coexistir uma doença psiquiátrica com 
a possessão, que sentido teria um relatório psiquiátrico? Se estiver enfermo, 
não pode estar possuído?
Questão 121 
Por que é necessária a permissão do bispo para exorcizar? 
No início, na Igreja primitiva, não era preciso da permissão do bispo. Esse 
ministério era exercido sempre que necessário. No entanto, logo se impôs a 
regra de que ninguém o exerceria sem a permissão do bispo. E assim acontece 
desde o ano 416, quando o Papa Inocêncio I escreveu uma carta ao bispo de 
Gubbio, na qual disse: 
“Você tem solicitude caritativa por estes batizados, que depois do batismo 
são possuídos pelo demônio, por causa de algum vício ou pecado. E para esse 
fim, pode ser nomeado um padre ou diácono. Já que realizar exorcismo não é 
lícito a não ser com a autorização do bispo.”13
Por que a Igreja impôs essa regra? A Igreja percebeu que essa área exigia 
cuidados especiais. Prudência para evitar que iluminados e visionários agis-
sem por conta própria. Também era um campo extremamente delicado para 
que um ato imprudente de um clérigo causasse danos aos supostos possuídos 
e ao prestígio da Igreja em geral. Por isso se optou por estabelecer vigilância 
especial neste ministério; vigilância essa que resultou na restrição que já apa-
rece no século V, na citada carta. É interessante acrescentar que no Oriente 
esse ministério era exercido como uma atividade carismática que não requeria 
da autorização expressa do bispo. 
13 De his vero baptizatis, qui postea a demonio, vitio aliquo aut peccato interveniente, ARRIPIUNTUR, 
est sollicita dilectio tua, si a presbytero vel diacono possint aut debeant designari. Quod hoc, nisi 
episcopus praeceperit non licet. PL XX, 557-558.
O exorcismo e o exorcista 175
Questão 122 
Qual era a ordem menor do exorcistado?
A ordem menor do exorcistado era uma bênção que a Igreja dava através 
de um rito litúrgico, no qual se pedia a graça de Deus para exercer esse mi-
nistério. Então, embora tivessem recebido essa ordem menor, não poderiam 
exercer esse ministério sem a permissão do seu bispo. Com o documento Mi-
nisteria Quaedam, Paulo VI suprimiu esta ordem menor. Alguns acharam 
que isso significava a perda de uma arma para lutar contra o demônio. Mas 
não era. A mesma ordem menor era totalmente desconhecida nos primórdios 
da Igreja. Essa ordem menor não era um sacramento, mas um sacramental 
criado pela Igreja. 
O poder exorcístico está incluído na autoridade do Sacramento da Ordem. 
O Sacramento da Ordem que foi uma bênção simples, na qual se pedia a graça 
de Deus para exercer bem esse ministério, era apenas isso. Portanto, mesmo 
que esta ordem tenha sido extinta, a autoridade do exorcista não foi reduzida 
em nada. A autoridade da ordem, a fé e a oração do sacerdote serão as fontes 
de seu poder sobre os demônios. 
Questão 123 
O que fazer em caso de ausência absoluta de exorcista? 
Às vezes me perguntaram o que deve ser feito caso o sacerdote esteja au-
sente, por exemplo, em locais de missão. No início eu tentava responder à per-
gunta com respostas do tipo: deve-se conseguir chegar até um sacerdote. Mas 
os anos têm me mostrado situações que me fizeram entender, efetivamente, 
que existem casos em que não há possibilidade alguma para se chegar até um 
sacerdote. E situações nas quais, quando se chega até o sacerdote, este tem tan-
to trabalho acumulado que não pode se dedicar horas e horas a um exorcismo. 
Para esses casos completamente excepcionais, nos quais é impossível obter 
ajuda ordinária da Igreja, os cristãos do lugar devem reunir-se e rezar a se-
guinte oração exorcismus missionalis:
176 SVMMA DAEMONIACA
Senhor Deus Todo Poderoso,
misericordioso e onipotente,
Pai, Filho e Espírito Santo,
expulsa toda influência
dos espíritos malignos.
Pai, em nome de Cristo,
peço-lhe para quebrar todas as cadeias
que os demônios têm sobre esta pessoa.
Despeje sobre ela o precioso Sangue de Seu Filho.
Seu Sangue imaculado e redentor
rompe todos os laços que existem no seu corpo e mente.
Tudo isso, pedimos pela intercessão da Virgem Maria.
São Miguel Arcanjo, intercedei, em seu auxílio.
Em nome de Jesus eu ordeno
a todo demônio que possa ter
alguma influência sobre ele,
que saia para sempre.
Por Sua flagelação, por Sua coroa de espinhos,
Sua Cruz, pelo Seu Sangue, por Sua ressurreição,
eu ordeno que todo espírito maligno saia.
Por Deus verdadeiro, por Deus santo,
pelo Deus que tudo pode,
eu lhe ordeno, demônio imundo,
que saia em nome de Jesus,
meu Salvador e Senhor. Amém.
O exorcismo e o exorcista 177
Essa oração deve ser repetida todos os dias durante um período que pode 
variar de alguns minutos a meia hora ou meia hora ou mais. Pede-se com hu-
mildade através das orações a Deus, para que o demônio saia, com o tom de 
uma ordem. Gritar não tem mais efeito. Se o demônio não se agita ao repeti-
-la, reza-se o rosário em grupo e em voz alta. Terminado o rosário, repete-se 
a oração. Se tornar a dar sinais de agitação, reza-se outro rosário. O ideal é 
prosseguir assim durante muito tempo.
Essa oração, junto com o rosário, tem a vantagem de ser uma prece breve 
unida a uma maneira sincera de se exorcizar, que pode ser usada também 
fazendo-se ligeiras adaptações, nos casos de infestação. Inclusive, caso não 
seja um caso de possessão, a pessoa pode usá-lo para se libertar da influência 
que venha do demônio. Mas não é uma oração de proteção, e sim de expulsão. 
E, portanto, deve ser usada somente por pessoas que sem dúvida tenham esses 
tipos de distúrbios para a qual se destina.
Em cada caso deverão ser feitas mudanças de sentença. Por exemplo, onde 
se diz: expulsa toda influência dos espíritos malignos, deverá ser dito expulsa 
desta casa toda influência... É preciso repetir que esta oração é sugerida para 
os lugares de missão, para não deixar desamparados aqueles possessos para os 
quais a aplicação das regras gerais representaria uma desproteção da fé cristã.
Alguém pode ver este exorcismus missionalis como uma porta aberta para 
que qualquer um comece a praticar exorcismos. Acredito ser necessário in-
sistir sobre as condições em que deve ser usado: na absoluta impossibilidade 
de acesso aos ministros sagrados durante meses. Não é próprio da caridade 
deixar essas pessoas desamparadas. Gostaria de fazer um comparativo: todo 
medicamento deve ser dispensado com receita médica; então, o que deve ser 
feito se um enfermo com cálculos no rim estiver em um lugar onde não tenha 
médico e nem hospitais? 
Logo, creio que deveria dizer algo para essas pessoas indefesas, mesmo 
com o risco do que digo para eles ser usado por aqueles que não estiverem 
nessa situação. Mas o risco de que existam pessoas que não sigam as normas 
canônicas e façam exorcismos quando não são autorizadas, não significa que 
178 SVMMA DAEMONIACA
não se deva dizer nada para os casos de fiéis, filhos da Igreja que se encontrem 
nessa penosa situação.
Questão 124 
Um não católico pode ser exorcizado?
Sim, os não batizados ou batizados em outros credos podem ser exorci-
zados. O exorcismo será uma grande oportunidade para se aproximarem de 
Deus e da Igreja. Aqueles que pertencem a religiões monoteístas não são obri-
gados a abandonar sua crença. Por exemplo, se um muçulmano pede exorcis-
mo, não é necessária a fé em Cristo para ser exorcizado. Basta, por outro lado, 
que aumente sua fé no único Deus Verdadeiro, Criador e Juiz de todos os seres 
vivos, e viver uma vida justa e adequada à lei natural. Sim, pode-se pedir que 
ele aumente seu tempo de oração, a oração a Deus, sem exigir que ele ore ou à 
Virgem Maria ou aos santos, ainda que possa sugeri-lo. No entanto, a alguém 
que pertence a uma religião politeísta, deve-se exigir como condição para co-
meçar o exorcismo que abandone a sua falsa crençanos deuses e aceite a Deus. 
Questão 125 
Os animais podem ser infectados? 
A possessão de animais, objetos ou lugares é chamada infestação. A pos-
sessão de lugares é um fenômeno comum, mas nos animais é estranhíssima. 
Quase nunca acontece. Se ocorrer, o demônio sairia após o sacrifício do ani-
mal, e não voltaria novamente. Isto é, ao deixar o animal (porque ele está 
morto), o demônio já não pode mais possuir ou prejudicar a ninguém. Tenho 
tido conhecimento de raríssimos casos de infestação dos animais. Houve um 
caso de infestação de uma casa, em que fui o sacerdote a realizar o exorcismo 
do lugar. A partir daquele dia a casa foi libertada, mas o cão, um cão muito 
grande, começou a ter o seguinte comportamento estranho: sempre que se 
abrisse o portão ele saia correndo em direção a uma estrada movimentada e 
O exorcismo e o exorcista 179
deitava no meio do asfalto. Poucas vezes tiveram que tirá-lo de lá, pois logo 
morreu atropelado por um carro.
A infestação do lar pode ocorrer quando na casa têm sido continuamente 
praticado rituais satânicos, feitiçaria ou qualquer outra forma de ocultismo. 
A infestação de um objeto só ocorre se este tenha sido usado em um feitiço 
ou magia ritual. Podemos saber que um determinado objeto está infestado 
porque esse provoca fenômenos demoníacos no local onde se encontra; nor-
malmente o faz com uma influência externa. Isto é, onde o objeto estiver, 
poderá haver coisas em movimento, ruídos inexplicáveis, odores, etc. O que 
você precisa fazer é queimá-lo. 
Enfim, apesar de eu ter explicado aqui a percepção quase unânime de exor-
cistas, tenho sérias dúvidas de que um objeto possa sofrer uma infestação. 
Eu acho que é muito difícil provar a relação entre um objeto e a influência 
externa. Os demônios possuem corpos ou estão em lugares, mas vejo clara-
mente que se ligam a objetos. Não vejo nenhum problema teológico nisso, 
mas vejo que é difícil provar essa relação. Hoje eu sou cético, não acredito que 
haja algum objeto com as más influências. Os demônios nos exorcismos estão 
sempre falando que possuíam essa pessoa graças à combinação de um deter-
minado objeto que tornou-se uma maldição, mas acredito ser muito difícil 
provar essa relação. 
Questão 126 
É verdade que o demônio se vinga dos exorcistas?
O demônio já está tentando fazer o pior que pode. Se pudesse fazer mais 
mal, ele o faria. Se o sacerdote reza o terço todos os dias e pede a Deus para 
protegê-lo contra todas as ciladas do mal, nada tem a temer. O poder de Deus 
é infinito, já o do demônio não é. Enfim, São Paulo nos diz: “Ponha a arma-
dura de Deus para que você possa resistir às ciladas do demônio”. E mais: “Sa-
bemos que aquele que nasceu de Deus não peca, mas o que e gerado de Deus se 
acautela, e o Maligno não o toca” (1Jo 5,18). Jesus disse: “Eis que vos dei poder 
para pisar serpentes e escorpiões, todo o poder e autoridade contra o inimigo, e 
180 SVMMA DAEMONIACA
nada pode prejudicá-lo” (Lc 10,17-19). As palavras de Jesus são taxativas: nada 
pode prejudicá-lo. Para um cristão, temer o demônio está totalmente injustifi-
cado, pois a fé em Deus rechaça todo temor. Ainda menina, antes de ingressar 
no Carmelo, Santa Teresa de Lisieux, teve um sonho maravilhoso:
“Sonhei uma noite que saía a passear sozinha pelo jardim. Chegando ao 
pé dos degraus que precisava subir para ali chegar, estaquei tomada de pavor. 
Diante de mim, rente ao caramanchão, havia uma barrica de cal e sobre a 
barrica dançavam, com espantosa agilidade, dois medonhos diabinhos, não 
obstante os ferros de engomar que tinham nos pés. De chofre lançaram sobre 
mim seus olhares chamejantes, mas ao mesmo instante, parecendo muito mais 
assustados do que eu, precipitaram-se da barrica abaixo e foram esconder-se 
na rouparia que ficava defronte. Ao vê-los tão pouco valorosos, quis saber o que 
iriam fazer e acerquei-me da janela. Lá estavam os míseros diabinhos a correr 
por sobre as mesas, não sabendo o que fazer para se esquivarem do meu olhar. 
De vez em quando chegavam até a janela, e olhavam com um ar inquieto, se 
eu ainda estava lá e como sempre me avistassem, começavam a correr de novo 
como desatinados. – Sem dúvida, este sonho nada tem de extraordinário, acre-
dito, no entanto, que o Bom Deus permitiu que guarde sua lembrança, a fim de 
me provar que uma alma em estado de graça nada deve temer dos demônios, 
que são uns poltrões, capazes de fugir diante do olhar de uma criança...” (Santa 
Teresa de Lisieux, História de uma Alma, capítulo I).
E Santa Teresa de Jesus escreveu no Livro da Vida: 
“Pois, se este Senhor é poderoso, como vejo e sei que é, e se os demônios são 
seus escravos (e disto não há que duvidar pois é de fé), sendo eu serva deste Se-
nhor e Rei, que mal me podem eles fazer a mim? Porque não hei-de ter fortaleza 
para bater-me com todo o inferno?
Tomava uma cruz na mão e parecia-me verdadeiramente dar-me Deus âni-
mo, pois me vi outra em breve tempo, e não temeria lutar com eles a braços, 
parecia-me que facilmente, com aquela cruz, os venceria a todos. E assim disse: 
‘agora vinde todos que, sendo eu serva do Senhor, quero ver o que me podeis 
fazer’. Sem dúvida me parecia que me tinham medo, porque fiquei sossegada e 
tão sem temor de todos eles que, até hoje, se me tiraram todos os medos que cos-
tumava ter. Pois, ainda que algumas vezes os veja, como depois direi, não mais 
lhes tenho tido medo, antes me parece que eles mo têm a mim. Ficou-me um tal 
domínio sobre eles, dádiva concedida pelo Senhor de todos, que deles não se me 
O exorcismo e o exorcista 181
dá mais que de moscas. Parecem-me tão cobardes que, em vendo que os têm em 
pouco, perdem toda a força.
Não sabem estes inimigos reais acometer, senão a quem veem que se lhes 
rende ou quando o permite Deus para maior bem de Seus servos que tentem e 
atormentem. Prouvera a Sua Majestade temêssemos a quem devemos temer e 
entendêssemos que nos pode vir maior dano dum pecado venial do que de todo 
o inferno junto, pois isso é mesmo assim; que espantados nos trazem estes de-
mônios, porque nós nos queremos espantar.
(...) Esta é a grande lástima; mas se tudo aborrecemos por Deus e nos abra-
çamos com a cruz e tratamos de O servir de verdade, o demônio foge destas 
verdades como de pestilência. É amigo de mentiras e a mesma mentira. Não 
fará pacto com quem anda na verdade.
(...) Não entendo estes nossos medos: é demônio! é demônio! quando pode-
mos dizer: Deus! Deus! e fazê-lo tremer. Sim, pois bem sabemos que não se pode 
mover se o Senhor não lho permite. Que é isto?! É, sem dúvida, ter eu mais medo 
aos que lhe têm tão grande medo do que a ele mesmo, porque o demônio não me 
pode fazer nada” (Santa Teresa de Jesus, Livro da Vida, capítulo 25, nº 19-22). 
O cardeal Ratzinger escreveu a esse respeito:
“O mistério da iniquidade está inserido na perspectiva cristã fundamental, 
ou seja, a partir da perspectiva da ressurreição de Jesus Cristo e sua vitória 
sobre o poder do mal. Nessa ótica, a liberdade do cristão e sua tranquila con-
fiança que rechaça o medo (1Jo 4,18) toma toda sua dimensão: a verdade ex-
clui o medo assim permite conhecer o poder do Maligno” (Palavras do cardeal 
Ratzinger no livro do Cardeal Joseph Suenens, “Renovação e o poder 
das trevas”).
Como você vê, a nossa fé nos ensina que o demônio existe, mas também 
nos ensina que existe dentro da construção teológica da fé em Deus. E a fé em 
Deus, nosso Senhor, é incompatível com o medo. E a fé em Deus destrói todo 
o medo.
Nota A. De todas as maneiras, a experiência tem me ensinado que muitas 
vezes os leigos que participam do exorcismo ajudando o sacerdote, naquele 
mesmo dia, são despertados pelo demônio no meio da noite. No início, ao 
182 SVMMA DAEMONIACA
ouvir essas coisas, pensava que era devido a preocupações do subconsciente. 
Mas depois de alguns anos, eu percebi que não, que certamente o demônio 
raivoso, pelo bem que foi feito às almas, era quem os despertava naquela mes-
ma noite. Alguns, até mesmo por várias noites.Em todos estes anos, apenas uma única vez a ação foi um pouco mais ex-
tensa. Um dos leigos que participaram não acreditava em todas essas coisas; 
na verdade, não estava praticando a sua fé. Frequentou mais por curiosidade. 
Convidei-o porque sabia que ia fazer um grande bem para a alma. E, assim, 
ele teve um grande benefício para sua vida espiritual. O problema era que sua 
filha, no dia seguinte, à uma da manhã, em sua casa, começou a apresentar 
os mesmos sintomas de um possesso que durou por duas horas. Muito preo-
cupado, o marido disse à esposa que não sabia o que era um possesso, mas 
aquilo o que via em sua filha era o mesmo que havia presenciado um dia antes 
na igreja. A menina chorou inconsolavelmente por duas horas, sem causa, e 
sem que nada pudesse ser feito para acabar com suas lágrimas. Inclusive, num 
dado momento começou a falar com uma voz rouca. Eles começaram a orar e 
em duas horas, aquela menina de seis anos, voltou ao normal. É um caso que 
mostra como o demônio sente raiva por ser descoberto. E isso mostra como 
ele tenta se vingar, mas que a vingança não pode ir além de alguém acordar 
no meio da noite. O que eu mencionei sobre a menina é uma exceção, e neste 
campo, às vezes há exceções.
Nota B. Para mim, pessoalmente, a única coisa que aconteceu de natureza 
extraordinária foi que certa noite, já deitado, a luz se acendeu poucos minutos 
depois que eu havia deitado. E só aconteceu uma vez. Conheço mais sacer-
dotes que se dedicam a estas coisas e que, como eu, nunca lhes ocorreu nada, 
ou apenas algo tão trivial como o que acabo de contar. Mas, assim como a 
exceção da menina descrita na Nota 1, houve também um exorcista a quem o 
demônio incendiasse o carro, poucos dias depois. Como se vê, nesta matéria 
há coisas excepcionais que às vezes acontecem. Infelizmente, algumas pessoas 
pensam que isso é normal. 
O exorcismo e o exorcista 183
Questão 127 
É verdade que durante o exorcismo o possesso 
pode revelar os pecados dos presentes? 
É verdade que os demônios abertos costumam com frequência revelar os 
pecados das pessoas presentes. No entanto, o que eles dizem é pura invenção, 
embora o possesso diga muitos detalhes sobre o lugar e o tempo de tais peca-
dos. Em muitas ocasiões, pensei que estava diante de determinado demônio 
que poderia revelar alguns dos meus pecados, mas ele não se rebelou, porque 
Deus protege a reputação dos sacerdotes e o demônio não tem permissão para 
falar por eles. Certa vez, em um exorcismo, um possesso teria dito a um ra-
paz que estava ali presente que este morreria dentro de um mês em um carro 
branco. E nada aconteceu. O demônio loquaz mente, só é fiável aquele a quem 
se pergunta em nome de Jesus. E mesmo este só é fiável caso se insista na or-
dem para que diga a verdade em nome de Jesus. 
Questão 128 
Quem pode ser um exorcista? 
É fortemente enfatizado que seja um homem virtuoso. Sem dúvida, o ideal 
é que quanto mais virtuoso melhor. Mas qualquer sacerdote pode fazer o ritu-
al de exorcismo também. Mesmo os padres não muito edificantes podem ex-
pulsar os demônios sem nenhum problema. Precisará de mais tempo do que o 
virtuoso, mas eles se vão. E embora o que eu diga possa chocar alguém, posso 
garantir que até mesmo um padre em pecado mortal pode executar um exor-
cismo para expulsar o demônio. Por quê? Porque o exorcismo é uma oração 
litúrgica da Igreja. No exorcismo manifesta o poder da oração, o sacramento 
do poder sacerdotal e o poder do nome de Jesus. A santidade do padre pode 
ajudar, mas não é uma condição necessária. E considerar que o exorcismo é 
uma ação perigosa para o sacerdote é um erro grave, assim como é considerar 
que para exorcizar precise de um dom especial. O único dom que é necessário 
é o dom do sacerdócio. 
184 SVMMA DAEMONIACA
Se a santidade não é essencial para o exercício desse ministério, o que se faz 
necessário, neste caso, é que o exorcista seja uma pessoa com senso comum. 
O senso comum é a única coisa que não pode ser fornecida pela Igreja. Este 
senso ou se tem ou não. Os iluminados e visionários devem ser afastados des-
se ministério. Curiosamente, estes tipos de pessoa sentirão uma inclinação 
entusiasta para exercer, sinal evidente de que devem ser afastados dele. Isto 
acontece como no episcopado. O que manifesta um interesse entusiástico e 
irreprimível por ser bispo possui todos os sinais para não ser chamado para 
exercer tal função. Mas, além do senso comum, se vai exercer o ministério de 
exorcista de forma usual, deve ser uma pessoa que esteja disposta a dedicar 
tempo, interesse e carinho no desempenho desta função, pois, se tem muito 
conhecimento e virtude, mas vai atender com pressa ou sem interesse a pessoa 
que diz estar possessa, então exercerá mal tal função. Nesses casos é preferível 
um sacerdote menos virtuoso, mas com vontade de ajudar.
Questão 129 
Existe exorcismos fora da Igreja Católica? 
Sim, há reais e eficazes exorcismos em distintas denominações cristãs. Por 
um lado, manter as raízes ortodoxas conserva o apostolado, com o qual os sa-
cerdotes têm uma força verdadeira. Por outro lado, as raízes protestantes têm 
o nome de Jesus e a fé em Deus. E em nome de Jesus e através da fé se pode 
expulsar o demônio. Deus não desejou impor muitas condições para a sua va-
lidade. Assim, o batismo é válido em todas as denominações cristãs. Como o 
Redentor conhecia o grande sofrimento que a possessão causaria naqueles que 
padeceriam dela, Ele não quis impor condições muito restritas para a eficácia 
do exorcismo.
No âmbito ortodoxo, os exorcismos são muito semelhantes aos do rito ca-
tólico. No exorcismo pentecostal protestante é tipicamente um grupo de fiéis 
que se reúne para louvar a Deus e no meio desse louvor, é ordenado que o de-
mônio saia em nome de Jesus. É a fé e o poder desse nome que irá expulsá-los. 
Infelizmente, fora do mundo pentecostal, os outros ramos protestantes têm 
O exorcismo e o exorcista 185
perdido a tradição sobre como proceder em casos de possessão e muitas vezes 
se referem a eles como casos da Igreja Católica ou das igrejas pentecostais. É 
curioso que os seguidores de Cristo (luteranos, anglicanos, episcopais, etc.) 
não saibam o que fazer com os casos de opressão do mal. Depois de expe-
rimentar uma tradição de séculos, os métodos não podem ser inventados a 
partir do nada.
Questão 130 
Já existia o exorcismo antes de Cristo?
Naqueles tempos, existia quem dizia exorcizar. Mas o poder de expulsar 
os demônios foi dado por Jesus aos Seus seguidores. Assim, não havia exor-
cismos válidos antes de Cristo; e tampouco o há atualmente, fora do âmbito 
cristão. Hoje em dia bruxos e magos dizem exorcizar, mas seus exorcismos são 
taxativamente ineficazes.
De qualquer maneira, tampouco podemos excluir taxativamente que antes 
de Cristo alguma pessoa pudesse ter recebido o dom de Deus para exercer 
esse ministério. Existiam santos antes de Cristo, homens justos que buscaram 
a Deus. É perfeitamente possível que algumas dessas poucas pessoas justas, 
dedicadas à oração e de vida ascética, pudessem expulsar demônios em nome 
do único e verdadeiro Deus.
Questão 131 
Por que alguns exorcismos duram bem mais tempo? 
Isso já acontecia no tempo de Jesus e aparece na passagem de Mc 9,17-18. 
Os Apóstolos não foram capazes de expulsar um demônio, e Jesus perguntou: 
“Por que não podemos dirigir?”. A resposta está na distinção entre poder e 
autoridade: “Chamando os Doze e lhes deu poder e autoridade sobre todos os 
tipos de demônios” (Lc 9,1).
186 SVMMA DAEMONIACA
Os Apóstolos e seus sucessores tinham recebido toda a autoridade para ex-
pulsar demônios, mas não todo o poder. Quando os Apóstolos não puderam 
expulsar aquele demônio, a resposta de Jesus não foi o aumento da autoridade 
dada a eles, que já era plena, mas sim dizer-lhes: esta espécie de demônio só 
sai com jejum e oração. Ou seja, a autoridade não pode ser aumentada, mas 
o poder em si mesmo é suscetível de ser aumentado. A santidade da pessoa 
aumenta esse poder.E assim aparece em Mc 9,38: “Mestre, vimos um homem 
expulsar demônios em teu nome e tentou detê-lo, porque ele não era daqueles 
que nos seguiram”. Aqui vemos uma pessoa que não tinha autoridade, mas 
tinha o poder sobre os demônios. 
Enfim, nem todos os demônios têm o mesmo poder, pois nem todos são da 
mesma hierarquia. Os mais altos na hierarquia, ou seja, as naturezas angélicas 
pertencentes ao mais alto coro, são os mais difíceis para sair do corpo. Satanás 
e Lúcifer são os mais difíceis de exorcizar. No entanto, por mais santo que seja 
o exorcista, estes exorcismos levam tempo. Cada operação leva tempo por sua 
própria natureza (um nascimento, que um osso se una, etc.), de modo que 
cada exorcismo leva tempo e não se deve ser impaciente. 
Questão 132 
É preferível continuar até o fim em uma 
sessão ou ter várias sessões? 
É preferível ter várias sessões a fim de dar tempo para que o indivíduo 
avance mais na vida espiritual. A vida de oração e de descoberta de Jesus deve 
ir de mãos dadas com as sessões. Caso contrário, após a saída do demônio, se a 
pessoa volta à sua antiga vida de pecado, o demônio pode entrar nela de novo.
Enfim, há sessões em que se torna claro que o demônio está para sair. Lo-
gicamente, não faz sentido parar a sessão quando se vê que ele pode sair a 
qualquer momento. Conheço casos de sessões que duraram de seis a sete ho-
ras, mas não conheço ninguém que se dedica a esse ministério continuamente 
para se dedicar mais de uma hora a cada sessão. Quem gasta seis horas em 
cada sessão se esgota neste ministério e acaba pedindo para deixá-lo.
O exorcismo e o exorcista 187
Esse ministério se exercita por anos e deve ser realizado de um modo mo-
derado e dentro de uma grande ordem. Cada sessão deve ser de uma hora ou 
duas no máximo. Então você tem que parar e dar a ordem para continuar na 
próxima semana. As sessões de uma hora serão a cada semana ou a cada duas 
semanas. 
O exorcista não deve se esgotar. Se você receber muitos casos, você não 
deve gastar mais do que metade do dia nesse ministério. E de preferência, não 
mais do que três ou quatro dias por semana. É bom que o exorcista tenha ou-
tras funções paroquiais. Batismos, confissões, escritório, casamentos e outros 
trabalhos envolvidos na vida da paróquia representam uma variação contínua 
que é um enriquecimento do sacerdócio.
Passar tempo no ministério de exorcista seria um empobrecimento. Se há 
muitos casos devem ter outros exorcistas; tente não levar tudo sobre os seus 
ombros. Nisto é possível que, com os anos, invada o exorcista um certo or-
gulho, considerando-se uma espécie de homem providencial, de forma que 
não encontre ninguém adequado para formar e que o ajude neste ministério. 
O exorcista deve estar sempre em guarda contra as astutas ciladas do demô-
nio, que vai tentá-lo com o orgulho. Talvez o orgulho seja o maior perigo do 
exorcista. 
Questão 133 
Dicas para exorcismo
1. O sacerdote deve começar com o ritual e, ao atingir o final dele, deve 
continuar com aquilo que mais atormenta o demônio.
2. O sacerdote pode retirar-se para fazer outros trabalhos enquanto o gru-
po de leigos reza o terço em voz alta para a libertação do indivíduo. Então, o 
padre, rezando o breviário pode descansar, dar um pequeno passeio, etc.
3. O ritual do exorcismo pode ser interrompido a qualquer momento no 
meio do seu decurso para insistir naquilo que pareça ter mais efeito.
188 SVMMA DAEMONIACA
4. Só o exorcista deve se dirigir ao demônio. Mesmo que o demônio se 
dirigida a alguém, ninguém deve respondê-lo, nem pedir, nem repreender. 
Não porque haja perigo em tal coisa, mas porque permitir tais intervenções 
significaria que o ritual poderia cair em desordem.
5. O rosário tem um poder único de enfraquecer o demônio. O demônio 
pode não obedecer ao exorcista, mas após a recitação do rosário, beijará o 
crucifixo, olhará para uma imagem da Virgem ou fará qualquer coisa que o 
exorcista ordene. E se não obedecer, fá-lo-á após o segundo, ou até após o ter-
ceiro. Quando o demônio começa a obedecer, significa que já está severamen-
te enfraquecido pelo poder da oração. E uma vez que ele está enfraquecido, 
sua saída estará mais próxima.
6. Quando ele começa a dizer coisas como “assassinos”, “vocês estão me 
matando”, “eu posso...”, a sua saída já é iminente.
7. É muito útil perguntar: em nome de Jesus, o que vai fazer você sair? Se 
você perguntar o que o atormenta, ou o que assombra mais, às vezes, ele diz 
alguma coisa. Mas quando perguntado o que vai fazê-lo sair, às vezes a respos-
ta é outra. Embora, é claro, resista muito mais a responder aquilo que é mais 
importante.
8. Quando o demônio debilitado se nega a responder o que o vai fazer sair, 
convida-se os presentes para rezar uma Ave-Maria para que responda. Orar 
com fé e concentração é essencial.
9. Às vezes, se faz com que os demônios saiam antes de responder.
10. Convém percorrer em círculo e aspergir com água benta onde se vai 
exorcizar, para pedir a Deus Pai que derrame o Sangue de Seu Filho naquele 
local, a fim de evitar que os demônios de fora possam vir para se comunicar 
com os que estão dentro ou ajudá-los. Algumas vezes, durante um exorcismo, 
o demônio pode chamar outros para ajudá-lo.
11. É muito útil dar água benta para o demônio beber durante o exorcismo. 
Mas isso deve ser feito quando o demônio obedecer. Caso contrário, se for 
forçado, ou cuspirá tudo para fora ou de nada lhe terá servido.
O exorcismo e o exorcista 189
12. É muito útil dar a comunhão ao possuído durante o exorcismo. É claro 
que este deve estar na graça de Deus. Não deve ser dada a comunhão à força, 
mas quando ele obedecer. Em seguida, o mesmo homem possuído, pela or-
dem do padre, deve abrir a boca e não profanar a Eucaristia.
A dica número 2, que afirma que o exorcista pode retirar-se para fazer 
outros trabalhos no meio da sessão, enquanto o grupo reza o rosário é mui-
to importante. Porque com apenas meia hora de descanso, o exorcista chega 
novo e descansado, enquanto o demônio já está esgotado e enfraquecido ain-
da mais, porque não teve descanso. Tais rupturas podem ser repetidas várias 
vezes, permitindo ao exorcista dedicar-se a atividades completamente fora do 
exorcismo e em outros lugares na comunidade, ou mesmo na casa paroquial. 
Quando ele voltar, vai encontrar o demônio mais fraco pelo poder da oração, 
para que reinicie o exorcismo.
No entanto, existem demônios que a mera reza do rosário em grupo não os 
afeta, de modo que o possesso sai do transe. Se isso acontecer, um membro lei-
go da equipe deve ir até o padre para que retome a sessão. Se o possesso sai do 
transe, não acontece nada, nada de mal pode lhe acontecer, mas isso significa 
que a oração do rosário não mortifica o demônio e o exorcismo fica suspenso 
até o sacerdote voltar e retomar suas orações. Existem alguns padres que se 
dedicam ao ministério do exorcismo que tem a graça do dom carismático de 
línguas, um dom concedido pelo Espírito Santo. Esse é claramente um dom 
que você não pode aprender, mas que Deus lhe dá. Se o sacerdote tem esse 
dom desenvolvido, será sempre útil usá-lo no ritual de exorcismo. Mas insisto 
que esse dom deve ter muito desenvolvimento carismático. Se assim for, então 
pode começar a orar em línguas após a ladainha dos santos e pedir a Deus 
Sua bênção e proteção. A sessão inteira deve estar sob a direção do padre, que 
tem permissão para esse exorcismo. Portanto, se um leigo ou outro sacerdote 
desobedecer a suas instruções, que esse seja expulso do local e de imediato. 
Por exemplo, quando um padre presente se colocar a interferir ou a perguntar 
ao demônio contra a vontade daquele que dirige a sessão.
190 SVMMA DAEMONIACA
Questão 134 
Como você sabe quando o demônio é o último? 
Dado que um possesso pode ter vários demônios, surge a dúvida de quan-
do sai o último demônio. Toda vez que sai um demônio, a pessoa sente-se em 
paz, recobra a consciência e ao abrir os olhos, ainda sente a alegria espiritual. 
É fácil de saber:deve-se rezar para a pessoa mais dois ou três minutos. Se 
ainda houver um demônio dentro, a pessoa entra em transe ou se irrita. Mas 
se a pessoa ainda está consciente, pergunte-lhe se ela sente alguma coisa. Se 
responder não, então é hora de dar graças a Deus. Aconselho a todos se ajoe-
lhar e agradecer a Deus pela libertação do demônio, e a todos os santos e os 
anjos pela ajuda. Se o padre não sabia nada sobre isso, depois que o demônio 
sair e o possesso recobrar a consciência, ele pensará que tudo acabou, mas não 
é assim, pois as pessoas vão ligar para você dizendo que ainda têm alguns dos 
sintomas que as levaram a solicitar um exorcismo. Então teria que repetir as 
orações para retirar o último demônio ou os que ainda permanecem. 
Questão 135 
Pode ser repossuída a pessoa que tenha sido exorcizada? 
Essa questão traz muito desespero ao possesso e sua família durante o pro-
cesso de liberação. Deve-se responder a eles categoricamente que não, não 
voltará a ser possuído. Se a pessoa viver na graça de Deus, rezar, confessar, ir 
à Missa, não tem nada a temer; assim estará como que blindada e o mal não 
pode penetrá-la. Se a pessoa liberada, no entanto, volta à sua antiga vida de 
pecado, pode ser possuída novamente. E se for possuída, será ainda pior.
Mas é preciso deixar a pessoa muito calma, dizendo que se ela tiver uma 
vida cristã, o demônio não pode querer entrar. Além disso, devemos assegu-
rar-lhe que o demônio não vai voltar, apesar de que ela possa vir a cometer 
um pecado mortal ou mais. A possessão somente poderá voltar se a pessoa 
O exorcismo e o exorcista 191
estiver em estado de pecado. Ou seja, afastar-se de Deus. Como exemplo de 
que um demônio não pode retornar ao corpo, recordo-me do caso de uma 
mulher que foi libertada de todos os seus demônios. Ela me ligou alguns dias 
depois dizendo que se sentia mal, que sentia um aperto no peito e alguns dos 
sintomas que a levaram a solicitar um exorcismo. Isso me intrigou muito, por-
que tinha certeza de que todos os demônios tinham saído, e aquela senhora 
afirmou que desde que foi liberta, tinha orado muito, passou a ler a Bíblia e 
outras coisas. Coloquei as mãos sobre ela e orei sobre o assunto. Não entrou 
em transe, mas começou a sentir mais forte a opressão no peito, conforme 
avançava a oração, que não durou mais de cinco minutos. Essa opressão ficou 
mais fraca e desapareceu completamente. Ela nunca mais teve problemas. O 
que tinha acontecido neste caso? Como era um caso de influência, o demônio 
tinha saído, mas tentou voltar a entrar. Ele não pode tê-la porque ela usava a 
armadura da vida espiritual.
A oração do sacerdote quebrou a mera influência exercida pelo demônio 
no corpo e que se afastou para sempre e nunca mais voltou a incomodar. Esse 
é o caso em que vi mais claramente o esforço de um demônio para querer 
retornar a um corpo e não poder. A vida espiritual é a verdadeira armadura 
que nos protege.
Questão 136 
O que acontece se os demônios não saem por meio do exorcismo? 
Se os meses passam e nem um só demônio sai, pode ser que a pessoa pos-
sessa não esteja cumprindo os conselhos do exorcista. O exorcista deve tê-la 
aconselhado antes de começar a primeira sessão que vá a Missa, que ore, que 
se confesse, que cumpra os dez mandamentos. Há quem vá ao exorcista como 
quem vai ao médico, pensa que é como tomar um remédio e que pode seguir 
com a vida que levava antes. Mas se alguém quer ser exorcizado, deve mudar 
de vida e cumprir tudo o que Jesus nos ensina. Caso contrário o demônio que 
saiu voltará a entrar. E em alguns casos nem chega a sair, porque tem onde se 
192 SVMMA DAEMONIACA
agarrar. Se a pessoa não está disposta a abandonar o pecado, o sacerdote deve 
interromper as sessões de exorcismo até que a possessa decida obedecer suas 
indicações. Por exemplo, se alguém está numa união ilícita, a pessoa deve dar 
um tempo para entender as razões pelas quais deve pôr em ordem sua vida. 
Mas se os exorcismos começam antes de tomar a decisão que deve tomar, eles 
serão ineficazes. Aqui não vale a boa intenção, a lei de Deus é objetiva. Se o 
demônio tem onde se agarrar, não sai.
Nesses casos de oculta desobediência do possesso às indicações do exorcis-
ta costuma estar a causa dos casos de exorcismos que se prolongam para além 
do normal. Mas se o exorcista vê que a pessoa é sincera e que não parece ter 
nenhuma causa oculta, não terá outra solução que não seja insistir ou tentar 
com outro sacerdote para ver se ele tem mais sucesso. Um exorcista em seus 
primeiros casos pode fazer coisas que são ineficazes para com um determina-
do demônio; por isso tentar outro exorcista mais experimentado pode ser útil.
Questão 137 
O que faz um demônio deixar um corpo em um exorcismo?
São três as coisas que podem fazer um demônio deixar um corpo:
1. O próprio demônio que decide sair;
2. O poder sacerdotal que o obriga;
3. Um anjo enviado por Deus.
No caso de demônios mais fracos, eles próprios é que saem. As coisas sa-
gradas e a oração torturam-nos e chega um momento em que decidem sair 
para não seguirem sofrendo. Em certas ocasiões, ao saírem dizem coisas 
como: “Saio, não me expulsou, pois saio por minha vontade”.
Outros demônios são mais fortes que estes primeiros e, por mais que se-
jam torturados, ficam como que colados à pessoa. Sofrem, mas não se soltam 
do corpo do possesso. O exorcismo desses demônios prolonga-se mais, mas 
O exorcismo e o exorcista 193
finalmente a ordem do poder sacerdotal faz com que saiam. Com o exorcismo 
vão-se debilitando, e acabam sendo expulsos, arrastados pelo poder da oração.
Outros ainda, os de maior força, sofrem terrivelmente no exorcismo, nes-
ses casos é preciso vir um anjo para poder tirá-los do corpo. São tão poderosos 
por sua natureza angélica que é a oração deprecativa a Deus, que quando atin-
ge a medida prevista, permite que Ele envie Seu anjo. E é ao final do exorcismo 
que, repentinamente, se produz como que uma luta invisível. O possesso olha 
para um lugar determinado e começa a golpear. É então que se produzem as 
piores agitações e gritos. Ainda que o sacerdote se cale, o anjo já está ali e a 
libertação se produz por obra dessa luta invisível. 
Questão 138 
O que é mais importante: a confissão ou o exorcismo? 
Nós, seres humanos somos como meninos, e nos maravilhamos com o que 
é mais espetacular a nossos olhos. A confissão é menos espetacular, sua obra é 
mais discreta, mais silenciosa. No entanto, a confissão é um dom divino bem 
maior que o exorcismo. O exorcismo só retira o demônio do corpo, a confis-
são retira o mal de nosso espírito. A confissão destrói nossas ataduras com a 
iniquidade. E não é só isso, nos concede a graça santificante. A confissão não 
só perdoa, mas corrige nossa alma e enche-a de luz.
Questão 139 
Glossário 
O glossário que aparece a seguir é uma tentativa de ordenar todo o conjun-
to de termos e expressões que foram aparecendo na literatura exorcística. A 
necessidade de um glossário que unifique e racionalize é evidente, pois cada 
autor usa os termos dando-lhes o significado que crê convenientes. E assim, 
muitas vezes, quanto ao campo que delimita um termo, não se sabe muito 
bem nem onde começa nem onde termina. Até mesmo a palavra “exorcismo” 
194 SVMMA DAEMONIACA
tem um significado diferente em algumas páginas de uns autores com relação 
a outros. Se isso ocorre com uma palavra tão clara, o desconcerto é maior em 
outros termos mais complexos. Assim, o glossário que aparece a seguir supõe 
uma tentativa de racionalizar e unificar esse léxico, evitando polissemias que 
deem lugares a equívocos. Palavras como “obsessão”, “obsessos pelo demônio”, 
“exorcismo maior e menor”, “público” e “privado”, para dar só alguns exem-
plos, devem ser esclarecidas a fim de evitá-las para não dar lugar a equívocos; 
no lugar destes termos tão polissêmicos se oferece o seguinte glossário:
Possessão: é o fenômeno em que um espírito do mal reside em uma pessoa e 
em certos momentos pode falar e se moverpor meio dela, sem que essa possa 
evitá-lo.
Influência: é o fenômeno em que um demônio exerce certa influência sobre 
o corpo ou a mente de uma pessoa, mas sem chegar a possuir seu corpo. A 
influência pode ser interna ou externa.
Influência interna: na influência interna, o demônio exerce sua influência 
de dentro do corpo da pessoa. E assim, essa pode sentir intensas e persistentes 
tentações que se prolongam durante semanas ou meses. Ou também pode 
sofrer problemas em sua saúde, cuja origem está nesse demônio.
Influência externa: na influência externa, o demônio exerce sua influên-
cia de fora do corpo. A pessoa pode ver sombras, sofrer terríveis pesadelos e, 
sobretudo, tentações, mas tudo está fora dela; dentro não tem nenhum mau 
espírito. Na influência interna não há testemunhas, pois tudo se sucede de 
um modo interno. Na influência externa pode-se perceber ruídos, cheiros, ou 
movimento de coisas, isto é, fatos que ocorrem fora da pessoa. Ainda que, na 
imensa maioria das vezes, a influência externa reduz-se a tentar de um modo 
insistente.
O exorcismo e o exorcista 195
Infestação: o fenômeno em que os sinais de uma presença demoníaca não 
se manifestam em uma pessoa, mas somente em um lugar, objeto ou animal.
Malefício: essa operação é feita para prejudicar o outro com o auxílio de 
demônios. 
Magia: essa operação é feita para conseguir algo bom, mas com a ajuda de 
demônios.
Exorcismo: é o rito pelo qual se ordena ao demônio que saia do corpo do 
possuído.
Exorcismo ritual: é o exorcismo que se faz seguindo o Ritual de Exorcismo.
Exorcismo não ritual: é o exorcismo que se faz com orações particulares e 
não litúrgicas.
Conjuro: é a ordem dada ao demônio, em nome de Jesus, para que abando-
ne um corpo.
Mandatum: quando alguém, particularmente e de modo pontual, ordena 
ao demônio, em nome de Jesus, para que se afaste.
Oração de libertação: é a oração que se faz para acabar com a influência do 
demônio numa pessoa.
Demonopatia: toda patologia psiquiátrica que cursa com uma temática 
demoníaca.
196 SVMMA DAEMONIACA
Dimicatio: é o conjunto de orações feitas para afastar o demônio, não de 
uma pessoa, mas de uma comunidade, de um apostolado ou de um lugar am-
plo tal como uma cidade ou uma região.
Todo esse glossário foi elaborado com a ideia de criar termos técnicos que 
evitem o uso de outras palavras que tragam erros de sentido. E por essa razão, 
neste glossário a cada termo tem um único significado. Por isso a palavra “ob-
sessão”, de agora em diante, deverá ser usada sempre em seu sentido psiquiátri-
co. Caso contrário nunca estamos seguros de quando se usa em seu significado 
de perturbação mental e quando se usava no sentido latino de assédio.
Na literatura de séculos passados sempre que se falava de uma pessoa que 
sofria uma obsessão diabólica, o que queriam dizer era que sofria um assédio 
demoníaco. O termo não podia ser mais propício a confusões. 
Quanto à expressão “possessão local” é preferível que seja designada como 
“infestação”, reservando a palavra “possessão” só para a possessão pessoal. 
Caso contrário, a cada vez que falamos de possessão sempre fica a dúvida se o 
dito vale também para a possessão de um lugar.
“Exorcismo maior”, “exorcismo solene”, “exorcismo público”, são expres-
sões que convêm que sejam substituídas a seco por “exorcismos”. E se quiser-
mos ressaltar o fato de que se usou o ritual, diremos que foi um “exorcismo 
ritual”. Pois caso contrário, os termos são tão amplos e admitem tantas com-
binações que se pode dar realmente e sem faltar à verdade um verdadeiro 
“exorcismo menor público”, ou um “exorcismo maior privado”, etc.
O que antes se designava como exorcismo não solene, menor ou privado 
agora se denominará como “mandatum” (mantemos esse termo em latim), 
“oração de libertação”, ou “exorcismo não ritual”, de acordo com o que seja 
em cada caso.
A palavra “opressão” costuma ser usada por muitos exorcistas para signifi-
car influência. Nessa obra preferiu-se usar o termo “influência”. Tal preferên-
cia teve como razão meras questões de opinião, mas ambas são válidas.
 197
Capítulo III
Fenomenologia demoníaca 
Questão 140 
Qual é a fenomenologia demoníaca? 
A fenomenologia demoníaca pode ser enquadrada no seguinte diagrama:
normal
intensa
noite do espírito
sobre o corpo
sobre a mente
sobre o espírito
de um demônio clausus
de um demônio apertus
de um demônio abdius
interna
externa
tentação
influência
pessoa
Fenomenologia
lugar infestação
possessão
198 SVMMA DAEMONIACA
A “influência interna” é o fenômeno no qual um demônio exerce certa 
influência sobre o corpo, a mente ou o espírito de uma pessoa. Na “influên-
cia externa”, ao atuar do lado de fora, o demônio tem menos poder. É muito 
difícil poder atuar sobre o corpo do lado de fora, quando muito, costumam-
-se produzir sensações: calafrios, sensação de ter algo colado ao corpo, coisas 
assim, mas não doenças.
Já sobre a mente, a influência externa pode ser grande, pois o demônio 
pode tentar com lembranças, imaginações e pensamentos. Porém, do lado de 
fora é bem mais difícil influenciar o espírito da pessoa, infundindo nela sen-
sação de desespero, tão característica das pessoas que sofrem uma influência 
interna.
A possessão é o fenômeno no qual um demônio, em determinados mo-
mentos, possui o corpo de uma pessoa podendo movê-lo ou falar por meio 
dele.
De certo modo, a possessão é uma influência interna que chegou ao seu 
grau máximo, já não somente influencia, mas também domina o corpo em 
certos momentos. Porém, observe-se que esse domínio se produz em alguns 
momentos. O demônio, nem mesmo na possessão, pode fazer o que quer com 
o corpo a qualquer hora. 
Devemos observar que na tentação o demônio vai e vem, enquanto na in-
fluência externa o demônio está vez ou outra ao lado da vítima. Na influência 
interna está dentro, mas não há a possessão do corpo, enquanto que na pos-
sessão leva-se em conta o poder que um demônio pode ter sobre uma pessoa, 
havendo uma verdadeira possessão do corpo, de tal maneira, que a pessoa ou 
perde a consciência quando o demônio se move ou fala por meio dela, ou, se 
estiver consciente, o possesso vê o que o demônio faz com seu próprio corpo 
sem poder agir.
O demônio fechado é o que não fala, o aberto é o que fala e se manifesta 
abertamente. O demônio abditus é o que está dentro, mas não dá nenhum si-
nal de estar ali. Como sabemos, então, que está dentro um demônio abditus? 
Porque, em algum momento, ele manifestou sua presença, dando provas de 
que o que essa pessoa padecia era de natureza demoníaca.
Fenomenologia demoníaca 199
Para cada fenômeno demoníaco, há um tipo de oração específica:
Para a tentação, o mandatum;
Para a influência interna, a oração de libertação;
Para a possessão, o exorcismo;
Para a infestação, o exorcismo da casa;
Para a influência externa, o único remédio é o aumento do tempo de oração.
Sempre que formos tentados, podemos ordenar ao demônio que saia em 
nome de Deus. Mas se a influência é externa porque um demônio nos assedia, 
a única coisa que podemos fazer é aumentar nossa vida espiritual para que a 
oração, a graça, e a luz encham nossas almas e afastem esse demônio.
Para esclarecer essa questão e se ter uma visão geral, pus no início dela o 
esquema completo de todos os fenômenos extraordinários que podem aconte-
cer, enquanto que todos os fenômenos angélicos que podem suceder se enqua-
dram no diagrama seguinte:
para a vida sobrenatural
para a vida ordinária
para a vida extraordinária
inspirações
Fenômenos 
angélicos
milagres
aparições
Há que notar que o mundo angélico e seus fenômenos são bem mais belos 
que os demoníacos. Mas entender bem o mundo demoníaco supõe entender o 
mundo angélico, pois um demônio é um anjo caído. 
200 SVMMA DAEMONIACA
Questão 141 
O que é a influência externa? 
A influência externa é a situação na qual um demônio assedia de forma 
contínua uma pessoa. Esse assédio pode durar dias, semanas ou meses. Nain-
fluência externa, se movem coisas no local onde a pessoa está, ou provocam-se 
ruídos ou odores, e isso pode ser percebido por outras testemunhas e não só 
por quem sofre o assédio. Na influência interna, o demônio provoca visões ou 
sensações que só são vistas ou sentidas pela pessoa que sofre essa influência.
Contra a influência externa a própria oração do interessado é sumamente 
eficaz e muitas vezes basta para acabar com tal fenômeno. Quanto mais as-
sistir à Missa, ir à igreja, usar água benta e fazer atos de piedade, mais sofri-
mentos causará ao demônio que está ao seu lado. Porém, há casos em que a 
influência externa é usada por Deus como instrumento para a santificação, e 
o demônio acaba voltando, por mais que se ore.
Questão 142 
O que é a influência interna? 
A influência, em geral, é o fenômeno no qual um demônio exerce certo 
domínio sobre o corpo, a mente ou o espírito de uma pessoa. Neste tipo de 
ataque demoníaco, o mau espírito não chega a possuir o corpo da pessoa, de 
forma que não fala por meio dela. E se chega a mover alguma parte do corpo 
durante as orações (por exemplo, as mãos), indica que a pessoa está conscien-
te. Mas quando há uma influência interna, se houver uma movimentação no 
corpo, será ligeira: a pessoa fica rígida, agita os braços, faz caras estranhas, 
mas não passa disso.
A influência interna pode estar sobre o corpo, provocando determinadas 
doenças, ou sobre a mente, provocando uma influência do demônio sobre as 
potências da alma, induzindo-a de forma obsessiva a determinados vícios ou 
pensamentos obsessivos.
Fenomenologia demoníaca 201
Quando se ora por uma pessoa que sofre uma influência, a reação é dife-
rente à da possessão. A pessoa sente um mal-estar geral, não consegue con-
trolar a tensão que lhe provoca a oração e faz movimentos estranhos com 
os membros, mas sem perder a consciência. Em outras ocasiões, a influência 
manifesta-se por uma grande contração que se manifesta nas mãos ou no ros-
to, contração essa que costuma ser a fase prévia à manifestação da possessão, 
mas que nesses casos nunca passa dessa fase prévia, isto é, nunca se chega a 
produzir o transe. E não se produz o transe porque não há possessão do corpo, 
só uma influência sobre ele.
Para os casos de influência interna, a pessoa tem que receber oração de 
libertação. Deve ser bem feita pelo sacerdote ou por um grupo de leigos que 
orem por ela, para que a liberte. Sempre é preferível a oração comunitária à de 
uma pessoa sozinha, pois o poder da oração se soma.
Há que se acrescentar que quanto menor for a influência do demônio sobre 
uma pessoa mais difícil é discernir se há realmente algo demoníaco ou não. 
Em matéria de discernimento das influências demoníacas, é onde o sacerdo-
te costuma ter mais cautela ao dizer o que aflige aquela pessoa. A possessão 
costuma ter uma manifestação mais clara, mais perceptível. A influência de-
moníaca não, e quanto mais leve, mais difícil.
Quando alguém me procura para me consultar sobre o que tem e percebo 
que só há uma influência demoníaca, e até que isto esteja claro, costumo lhe 
dizer: “Em matéria de possessão falo com segurança, se digo-lhe que está pos-
sesso é que o está, mas quando só há uma influência não posso opinar com a 
mesma segurança, porque eu só julgo o lado externo”. Depois disso lhe dou 
conselhos espirituais e digo que quanto mais se fortalecer na vida espiritual, 
menos poder terá o demônio sobre ela.
Não obstante, em outros casos, a influência demoníaca sobre o corpo ou 
a mente de uma pessoa é evidente e inequívoca, a julgar pelos dados que já 
apresentei. Nesse caso, como no discernimento da possessão, a experiência 
permite opinar com total segurança nos casos em que esse nível de certeza é 
possível. Nem sempre é possível essa segurança, pois a possessão supõe isso: 
uma possessão sobre o corpo. Enquanto a influência interna supõe só uma 
202 SVMMA DAEMONIACA
influência, maior ou menor, mais ou menos segura segundo os sinais que se 
produzem quando se ora pela pessoa.
Eu já disse que a influência interna pode influir sobre o corpo, a mente ou 
o espírito. Alguns se surpreenderão com o fato de que o demônio pode influir 
diretamente no espírito, sem passar pela mente, mas é assim. O demônio pode 
influir no corpo (produzindo sensações e inclusive enfermidades), na mente 
(colocando imagens, pensamentos, palavras, etc.) ou no espírito, fazendo que 
a pessoa sinta desespero. Esse é o sentimento mais frequente, uma tristeza 
que parece superar a pessoa, que não sabe de onde ela vem, mas que sente ser 
muito forte. Em outros casos, menos frequentes, a pessoa sente ira, ansiedade 
ou temor.
Questão 143 
Qual é a diferença entre a influência interna e externa? 
Considero que essa é uma distinção na qual convém me aprofundar e es-
clarecer bem, pois neste campo das influências acha-se a maior parte das pes-
soas atendidas por um exorcista. Casos de possessões, há poucos, mas casos 
de influências muitos. Na influência externa o demônio está fora, na influên-
cia interna o demônio está dentro. Essa é a diferença radical entre ambos os 
fenômenos.
Num caso de influência externa, a pessoa nunca dará nenhum sinal. Nem 
entrará em transe, nem se sentirá mal, nem nada, porque o demônio está fora 
dela. Na influência interna sim, há sinais, porque o demônio está dentro. Isto 
é, quando o sacerdote ora pela pessoa, ela sente que se lhe movem as pálpe-
bras, os olhos ficam brancos, ou se lhe movem as mãos, ou começa arrotar, 
ou tem vontade de vomitar, ou sente dor numa determinada parte do corpo.
Chama-se influência interna porque a pessoa sente o mau espírito dentro 
de sí quando se ora por ela. E, além disso, quando ela é libertada, sente que 
esse espírito vai subindo e que sai pela sua boca. 
A influência externa faz padecer até um santo. Exemplo de influência ex-
terna é o do Cura d’Ars, que foi arrastado pelo demônio pelo chão da casa. E 
Fenomenologia demoníaca 203
não só os santos sofrem. Por exemplo, uma pessoa comum pode ver as coisas 
se moverem ou as portas se abrirem. Pode mudar de lugar, mas o fenômeno a 
persegue.
Outros exemplos de influência externa são a noite escura do espírito, que 
sofrem as pessoas que se dedicam à oração; uma crise de escrúpulos, que pode 
durar meses; ou terríveis tentações de desespero, apesar de uma vida espiri-
tual intensa, uma vez que na influência o demônio está em seu interior, mas 
sem possuir.
A influência no corpo produz doenças, já na mente produz idéias fixas, 
temor ou algum impulso introduzido pelo demônio na mente da pessoa. Se o 
demônio estivesse fora seria uma tentação, mas quando está em seu interior, é 
bem mais intensa e persistente. Portanto, é bem mais fácil acabar com a influ-
ência externa do que com a influência interna.
Na influência externa, com poucas orações, não importa quais sejam, o 
demônio se vê obrigado a se afastar, a menos que seja uma influência externa 
permitida por Deus para a edificação da alma, como é o caso da noite escura. 
Em casos assim, as orações não acabarão com ela.
Para muitos sacerdotes, inclusive àqueles dedicados a esse campo, esses 
três fenômenos (possessão, influências externa e interna) formam um magma 
em que não se distingue um do outro. Mas se veem que em muitos casos, as 
características da cada fenômeno aparecem perfeitamente delimitadas.
Questão 144 
O que é a oração de libertação? 
A oração de libertação é a oração que se faz para acabar com a influência 
do demônio numa pessoa. Costuma realizar-se por um sacerdote só ou por 
um grupo de leigos (com ou sem a presença de um sacerdote) que oram a Deus 
para que a pessoa seja liberada de toda influência demoníaca. Se no exorcismo 
se conjura ao demônio, na oração de libertação, pelo contrário, a oração é diri-
gida a Deus. Se for um grupo da Renovação Carismática, será muito útil que se 
ore em línguas. Se alguém do grupo quiser se dirigir ao demônio diretamente, 
204 SVMMA DAEMONIACA
essa pessoa deverá ter autorização do bispodo lugar para fazer tal coisa. Para 
a oração de exorcismo, requer-se uma autorização para cada caso.
Mas para que um grupo possa fazer oração de libertação, basta uma per-
missão geral do bispo para os casos que se apresentem. Tendo deixado claro o 
tema sobre as permissões episcopais, há de se dizer que ainda que em algum 
momento se ordene ao demônio para sair de uma pessoa, não é um exorcis-
mo. Não é um exorcismo, primeiro porque não há uma possessão, segundo 
porque não se dirige ao demônio em nenhum momento, só se ora a Deus para 
que libere a pessoa de qualquer má influência.
Ainda no caso em que se tenha essa permissão para se dirigir ao demônio 
e lhe ordenar que saia, não é um exorcismo nem litúrgica nem juridicamente 
falando. Trata-se de uma oração de libertação na que se inserem ordens ao de-
mônio. Mas se o grupo (ou quem dirige esse grupo) carece de tal autorização 
episcopal, bastará orar a Deus para que Ele destrua o poder do demônio sobre 
aquela pessoa.
As orações de libertação, às vezes, conseguem seu efeito em poucos minu-
tos, mas em outras ocasiões, podem ser necessárias muitas sessões. A influ-
ência, longe de ser algo leve, pode ser um fenômeno muito persistente e com 
graves consequências na saúde da pessoa. Por isso, pode haver casos em que 
o melhor a ser feito é que o sujeito passe por um desses grupos uma vez por 
semana, para que orem por ele alguns minutos de cada vez: cinco, dez ou 
quinze minutos.
Nos casos de influência o aumento da vida de oração da pessoa pode rom-
per essas ataduras do demônio sobre seu corpo e sua alma. O exorcismus mis-
sionalis que aparece nessa obra pode ser rezado pela mesma pessoa a cada dia, 
o qual constituiria uma oração de autolibertação.
Os grupos de oração de libertação devem ensinar aos que se dirigem a eles 
pedindo ajuda como realizar as orações de autolibertação. Ocorre com certa 
frequência que as pessoas peçam a libertação por meio dos grupos, mas os 
interessados não costumam se esforçar muito. Nos casos de influência, os in-
teressados podem fazer tanto por sua libertação como também o grupo.
Fenomenologia demoníaca 205
Questão 145 
Como fazer uma oração de libertação? 
Não há nenhum rito especial para esse tipo de oração, embora o Ritual de 
exorcismo no Apêndice II ofereça algumas orações sob o título de Súplicas 
que podem ser usadas particularmente pelos fiéis na luta contra os poderes das 
trevas.
O bom padre Orfila, sacerdote diocesano da Diocese de Gibraltar, com 
experiência no tema da libertação, escreveu-me uma certa ocasião: 
“Não existe uma oração específica para a libertação. Oramos pela libertação 
da mesma maneira que poderíamos fazer para a chuva ou para encontrar um 
estacionamento”.
Sábias palavras. Nunca, em toda essa luta contra o demônio, devemos pôr 
nossa confiança nas coisas, mas em Deus. Além disso, o fato de não existir 
uma oração determinada e específica para a libertação dá a liberdade de se 
adaptar a cada caso com o que se crê ser mais adequado. De qualquer modo, 
sugiro aqui como organizar o ministério de libertação das influências do 
demônio:
1. Todos de joelhos podem começar com um pedido pessoal a Deus, em 
silêncio, para que Ele os ajude a levar adiante o ministério;
2. O coordenador do grupo deve pedir a Deus, nessa oração pessoal silen-
ciosa, que o inspire sobre o que deve fazer, que o ajude a discernir e que não 
permita que se caia no erro no tratamento desse caso;
3. É conveniente que quem dirige o ministério faça uma oração improvisa-
da em voz alta;
4. Invocar a todos os santos com a ladainha;
5. Rezar um Salmo ou ler um trecho da Sagrada Escritura. Sempre é bom 
pedir a Deus com suas próprias palavras ou escutar o que Ele nos tem a dizer;
6. Oração deprecativa a Deus, pedindo que livre de toda influência ma-
ligna a pessoa;
206 SVMMA DAEMONIACA
7. Fazer questão das orações deprecativas, nas ordens, alternando-as com 
cantos, rosários, oração em línguas, etc., segundo o critério que julgue ser 
conveniente quem dirige o momento de oração.
Disse antes que se deve pedir nessa oração pessoal silenciosa a Deus ins-
piração sobre o que se deve fazer. Isso é muito importante, porque tanto o 
exorcismo como a oração de libertação supõe uma autêntica luta com entes 
espirituais, e daí que devemos pedir a Deus que nos ilumine nessa batalha. 
Batalha na qual nós atacamos e eles só resistem. Ao recitar a ladainha dos 
santos, pedimos a nossos exércitos que venham em nossa ajuda. A oração di-
rigida a Deus (sem dar ordens ao demônio, nem dirigir-se a ele para lhe per-
guntar nada) é um remédio sem nenhuma contraindicação.
É uma pena que a Igreja tenha esse tesouro de orações e às vezes fique in-
frutuoso. Mesmo se a pessoa não tiver nenhuma influência demoníaca, essas 
orações representarão não só uma inquietação psicológica para quem procura 
desesperadamente ajuda, mas uma verdadeira efusão de graça por parte de 
Deus. Se pedimos, a ação real de Deus atuará beneficamente tanto sobre o que 
padece um influxo do demônio, como sobre o que padece de um problema de 
sugestão ou medo patológico.
Ofereço, a seguir, algumas dessas orações do Apêndice II do Ritual de exor-
cismo. Todas elas podem ser usadas na oração de libertação ou pela pessoa que 
precisa de ajuda. 
Oração 
“Deus Onipotente, que aos abandonados fazes habitar em Tua casa, e con-
cedes a felicidade aos cativos, olha minha aflição, e vem em meu auxílio, ven-
ce ao inimigo iníquo, de maneira que superada a presença dele, minha liber-
dade atinja seu descanso e restituída a tranquila devoção, possa confessar que 
és admirável e que concedeste a Teu povo a força. Por Cristo nosso Senhor. 
Amém.”
Fenomenologia demoníaca 207
Invocações a nosso Senhor Jesus Cristo:
Jesus, Filho do Deus vivo, tem misericórdia de mim.
Jesus, Imagem do Pai,
Jesus, Sabedoria Eterna,
Jesus, Esplendor da Luz Eterna,
Jesus, Filho da Virgem Maria,
Jesus, Deus e Homem,
Jesus, Sumo Sacerdote,
Jesus, Herdeiro do Reino de Deus,
Jesus, Caminho, Verdade e Vida,
Jesus, Pão de Vida,
Jesus, Vida Verdadeira,
Jesus, Irmão dos Pobres,
Jesus, Amigo dos Pecadores,
Jesus, Médico da Alma e do corpo,
Jesus, Salvação dos oprimidos,
Jesus, Consolo dos abandonados,
Tu que vieste a esse mundo, tende misericórdia de mim.
Tu que liberaste os oprimidos pelo diabo,
Tu que pendeste da Cruz,
Tu que morreste por nós,
Tu que jazeste no sepulcro,
Tu que desceste aos infernos,
Tu que ressuscitaste dentre os mortos,
Tu que ascendeste aos Céus,
Tu que enviaste o Espírito Santo aos Apóstolos,
Teu que estás à direita do Pai,
Tu que tens de vir a julgar aos vivos e aos mortos.
Por Tua ressurreição, livra-me, Senhor,
Por Teu nascimento,
Por Teu batismo e Teu santo jejum,
208 SVMMA DAEMONIACA
Por Tua cruz e Tua Paixão,
Por Tua morte e ressurreição,
Por Tua admirável ascensão,
Pela efusão do Espírito Santo,
Por Tua gloriosa vinda.
Salva-me, Cristo Salvador, pela força de Tua Cruz
[o fiel pode fazer o sinal da Cruz],
Tu que salvaste Pedro no mar, tende misericórdia de mim.
Pelo sinal da cruz, livra-nos de nossos inimigos, Deus nosso.
Por Tua Cruz, salva-nos, Cristo redentor,
Que morrendo destruíste nossa morte
E ressuscitando restauraste a vida.
Honramos Tua Cruz, Senhor.
Recordamos Tua gloriosa Paixão.
Tende compaixão de nós,
Tu que padeceste por nós.
Adoramo-Te, Cristo, e Te bendizemos,
que por Tua Santa Cruz remiste o mundo.
Invocações à bem-aventurada Virgem Maria
Sob tua proteção acolhemo-nos, Santa Mãe de Deus.
Não ignorais nossas súplicas, bem antes livra-nos de todos os perigos,
Virgem gloriosa e bendita.
Consoladora dos aflitos, rogai por nós.
Auxílio dos cristãos, rogai por nós.
Me concede te aclamar, Virgem santa,
Dai-me força contra teus inimigos.
Fenomenologia demoníaca 209
Mãe minha, confiança minha.
Virgem Mãe de Deus, Maria,
suplica a Jesus em meu favor.
Questão 146 
O que é a infestação? 
A infestação é o fenômeno no qual um demônio possui um lugar. O de-
mônio ao possuir um lugar pode mover coisas à vontade ou provocar ruídosou cheiros. A infestação nunca provoca a possessão de nenhuma das pessoas 
que vivem nesse lugar. A causa de infestação costuma ser a prática frequente 
de ritos de crenças ocultas ou satânicas. Para acabar com a infestação de um 
lugar, há orações específicas no ritual de exorcismos.
Ao sacerdote não é fácil crer nos depoimentos a respeito do que acontece 
numa casa, a não ser que tenha depoimentos concordantes de ao menos duas 
testemunhas. Quando um possesso vai até o sacerdote, pode-se orar e com-
provar a manifestação do demônio; no caso da infestação, não ocorre nada 
quando o sacerdote ora no lugar infestado, de modo que tudo depende do que 
lhe digam. Por isso, não há modo algum de se ter certeza sobre o fato de haver 
uma verdadeira infestação ou não. A única forma de se ter alguma segurança 
é que obtenham vários depoimentos coincidentes a respeito dos fatos extraor-
dinários que se referem.
Nesses casos, o sacerdote pode orar uma vez na casa e depois incentivar a 
família a se reunir diariamente para todos orarem juntos. Podem rezar o ro-
sário, ler a Bíblia unidos, jogar uma vez ao dia água benta pela casa e reunir-se 
ante uma imagem sagrada e suplicar proteção, etc.
Nesses casos, as famílias pedem ao sacerdote que façam tudo, mas o sacer-
dote deve fazê-los entender que eles mesmos podem fazer o que pedem a ele. 
A oração unida de uma família pode perfeitamente quebrar o poder do de-
mônio sobre o lugar, quando eles perseveram orando juntos durante semanas 
ou meses.
210 SVMMA DAEMONIACA
Questão 147 
Os fantasmas existem? 
Uma vez que distinguimos bem possessão e infestação, aparece um terceiro 
fenômeno diferente dos outros dois: os fantasmas. Os fantasmas são aparições 
de pessoas que estão no Purgatório. As características desses aparecimentos 
são sempre as mesmas e muito diferentes da infestação:
1. A alma aparece com a forma humana;
2. Não diz nada;
3. Surge com aparência terrível.
Nunca move objetos, nem produz ruídos. Quando aparece fica olhando, 
com cara de poucos amigos, e depois desaparece sem mais nem menos. Sabe-
mos que não é um demônio porque o fenômeno nunca vai além e desaparece 
se são rezadas Missas e orações pela alma. Essas aparições são um modo de 
chamar a atenção para que se reze por essa alma. 
Questão 148 
O que é o mandatum? 
Mandatum é a ordem dada em particular e de modo pontual, ordenando ao 
demônio, em nome de Jesus, para que se afaste. Quando a tentação continua e 
é de grande intensidade, alguém, em silêncio interior, pode dar a ordem para 
que se vá o demônio da luxúria, a tentação contra a esperança, ou contra a fé, 
etc. Vou citar um exemplo. Basta apenas que mentalmente se lhe ordene: “Em 
nome de Jesus, espírito de rancor, afasta-te”. Esse mandatum praticado uma 
só vez e com fé costuma dar resultados tão imediatos como surpreendentes.
Mas ainda que o mandatum afaste o demônio de forma automática, pos-
teriormente ele pode voltar. E a pessoa deve entender que a tentação faz parte 
integrante de sua evolução espiritual. A tentação apura e fortalece, e podemos 
ter a plena segurança de que Deus não permitirá que sejamos tentados para 
além de nossas forças. A tentação é um combate espiritual, somos soldados 
de Cristo, e essas lutas invisíveis são parte de nossa prova sobre a Terra. Os 
Fenomenologia demoníaca 211
demônios tiveram sua prova e nós temos as nossas. Podemos evitar o pecado, 
mas não há forma de evitar a tentação. 
Questão 149 
Quais são os demônios íncubos e súcubos? 
Existe uma tradição literária segundo a qual para alguns varões apare-
ceriam demônios súcubos com os quais poderiam manter relações sexuais, 
enquanto às mulheres apareceriam demônios íncubos, adequados para que 
pudessem manter relações com elas. Inclusive, a tradição literária dizia que os 
demônios súcubos teriam a finalidade de recolher a semente do homem para 
depois, por meio de um demônio íncubo, poder deixar as mulheres grávidas.
A ideia da existência de gestações demoníacas é completamente literária e 
fictícia, não conheço nenhum caso real nem no presente, nem na história, ain-
da que materialmente fosse possível. Isto é, materialmente, não haveria pro-
blema algum que um demônio recolhesse a semente de um homem por esse 
meio e a depositasse na mulher por intermédio de um íncubo. Mas, repito, 
nunca houve caso algum que tenha tido um mínimo de credibilidade.
Deixo claro que, existem espíritos íncubos, isto é, os que têm relações com 
mulheres. E, em muito menor medida, espíritos súcubos, os que têm rela-
ções com homens. Se esses espíritos são demônios ou almas de seres humanos 
que não entraram no Céu, é algo difícil de saber. O que referem as pesso-
as que sofreram tais fenômenos é que os sentem com corpo, ainda que não 
possam vê-los.
Em princípio eu pensava que os demônios íncubos eram uma ficção, até 
que me chegou o caso de uma senhora que me contou um fenômeno demonía-
co muito curioso que por suas características concretas eu nunca tinha tido 
conhecimento. Como estava certo de que aquela mulher era séria e sensata, 
tomei nota do caso, mas não lhe dei maior importância. Até que, ao fim de 
um ano me apareceu um segundo caso. Já o segundo caso me deixou muito 
pensativo, pois os detalhes concordavam perfeitamente com o primeiro rela-
to. Mas quando deparei com o terceiro caso semelhante, me dei conta de que 
efetivamente podia existir esse fenômeno demoníaco.
212 SVMMA DAEMONIACA
As três mulheres contaram que sentiram alguém tocá-las, inclusive que as 
penetrava, mas que não podiam se mover, queriam gritar, mas não podiam. 
Ainda que o marido estivesse ao lado na cama nessa noite, nenhuma pôde 
sequer fazer um gesto que pudesse acordá-lo. Os relatos dessas mulheres (e 
das muitas mais que tenho escutado nos anos posteriores) não abundavam em 
mais detalhes, não ofereciam referências visuais, não eram relatos barrocos, 
mas muito sóbrios. Por conhecer bem essas mulheres e estar certo de sua sen-
satez foi o que me fez pensar que havia algo mais que um fenômeno literário.
Esse tipo de fenômeno é uma influência externa, e não tem por que ser 
sinal inequívoco de uma possessão. Uma mulher pode sofrer isso uma vez na 
vida e o fato não se repetir nunca mais. Se o demônio íncubo aparece com fre-
quência, será preciso examinar cuidadosamente a pessoa orando por ela, para 
averiguar se trata-se de uma influência ou de uma possessão.
O espírito súcubo é bem mais incomum que o íncubo, isto é, é mais raro 
que esse tipo de espírito seja sentido14 por homens que por mulheres. Ainda 
assim escutei, para citar só um exemplo, o caso de um sacerdote que, quando 
seminarista, uma noite sofreu tal fenômeno. Nunca mais voltou a sofrê-lo, 
mas é totalmente verdadeiro que o que se deu naquela noite foi real. Sentiu 
uma presença sobre sua cama, notava que era uma mulher, podia apalpá-la; 
se tratava de uma mulher exuberante. O seminarista, que sempre tinha sido 
completamente casto, ficou quieto, mas deixou que essa mulher se aproxi-
masse. Sentiu como esse espírito se unia a ele. Nunca mais voltou a sofrer tal 
experiência.
14 Observe-se que não utilizo o verbo “aparecer”, mas o verbo “sentir”.
 213
Capítulo IV
Casos
Os casos de possessão que aparecem na maioria dos livros sobre o demônio apresentam o problema de não terem sido presenciados diretamente por 
aqueles que os transcreveram, baseiam-se em depoimentos. Portanto, sempre 
apresentam o problema da fiabilidade; até que ponto as coisas aconteceram tal 
como contam as testemunhas? A minha experiência é que neste campo as im-
pressionadas testemunhas costumam aumentar as coisas, e há também o pro-
blema de passarem alguns anos entre o fato ocorrido e a transcrição dele. Por 
isso, o valor dessa parte do livro está na garantia do relato, já que conheci e tratei 
desses casos pessoalmente. Na relação que farei de cada pessoa tratada sempre 
distinguirei claramente entre o que ela me conta e aquilo do que fui testemunha 
direta. Evidentemente, só posso dar fé do que vi a respeitodo que me contam, 
uma vez que nem eu mesmo, às vezes, posso fazer um julgamento claro.
Acho que para os especialistas (tanto exorcistas como psiquiatras) será de 
utilidade dispor por escrito de um bom número de casos seguros e que refli-
tam a variedade de tipos de possessos que podem chegar a um departamento 
diocesano de atendimento a supostos possessos.
Por outro lado, a utilidade dessa compilação de casos que duraram anos 
também esclarece aos exorcistas que a imensa maioria das situações que che-
gam a nós estão bem longe de qualquer tipo de espetáculo e que, pelo contrá-
rio, requerem dos que os atendem uma grande paciência por serem tediosos. A 
realidade do dia a dia de nosso trabalho, frequentemente, tem mais a ver com 
um labor de confessionário ou de assessoramento psicológico do que com tra-
balhos cinematográficos. Há casos espetaculares, mas são poucos. Inclusive, 
nos casos em que há a influência de uma ação demoníaca invisível, na maior 
parte deles, sua ação é tão invisível e sutil que não têm nada de extraordinário. 
214 SVMMA DAEMONIACA
Sem dúvida, conhecer em detalhe o dia a dia desse ministério por meio desses 
casos vai tirar muito de seu mistério, mas era preciso mostrar o mais fielmen-
te possível a realidade, por mais desmistificadora que essa seja.
Os casos que apresento a seguir tratam de mostrar com a maior amplitude 
possível a gama de fenômenos demoníacos que o exorcista pode ter que aten-
der, a gama de casos que baterão à sua porta pedindo seu consolo e ajuda. Na 
compilação que segue, há casos extraordinários e surpreendentes, casos que 
seriam adequados para um filme, mas que não se equivoque o futuro exor-
cista: são casos recopilados, reunidos após anos atendendo a muitas pessoas, 
casos que não constituirão o labor ordinário de quem se dedique a esse minis-
tério. A seguinte lista de casos trata de ser representativa, mas não a palavra 
final de tudo o que me chegou nestes anos. Transcrever aqui todos os meus 
arquivos a respeito dos casos seria tedioso e, sem dúvida, repetitivo. Preferi 
simplesmente mostrar a gama de fatos que podem chegar a acontecer.
Caso 1 
O caso mais importante que tive na minha vida foi o de uma menina a 
quem chamarei Marta. Um caso pelo qual já estou rezando há cinco anos, e 
estou acompanhado de outro padre que reza comigo desde o terceiro ano. Re-
zamos três horas e meia por semana. Este caso, ainda inacabado, é tão longo e 
repleto de detalhes, que aqui só poderá ser resumido em termos gerais. Uma 
explicação completa exigiria um livro inteiro somente para detalhá-lo.
Marta era uma universitária em quem apareceram os sinais de possessão: 
transes, convulsões, perfeita compreensão de línguas desconhecidas, falava 
línguas estranhas, mostrava aversão ao sagrado, e assim por diante. Às vezes 
sabia de coisas completamente ocultas que eu não havia contado a ninguém. 
Entendia o latim quando lhe falava nesse idioma. Inclusive, em três ocasiões, 
chegou a levitar, uma delas em cima de um cadeirão. Eu não fui testemunha 
de nenhuma dessas levitações, mas sim do resto dos fenômenos aqui descritos.
Cinco anos de orações, com mais de três horas semanais como média, é 
algo que acaba com a paciência de qualquer um. Mas nem sua mãe, nem eu, 
temos a menor dúvida acerca do caráter sobrenatural do que ela padece. Nas 
sessões saíram muitos demônios, mas a razão para que o caso tenha sido tão 
Casos 215
longo, a princípio, estava na existência de um garoto obcecado por ela (obce-
cado por tê-la sexualmente) e o qual pertencia a uma seita satânica. Os demô-
nios por meio dela, nas sessões de oração, nos diziam que esse jovem seguia 
invocando-os para conseguir o que desejava. A seita inteira, em ocasiões, in-
vocava ao demônio com esse propósito. Nós exorcizávamos os demônios, mas 
o garoto obcecado por ela voltava a invocá-los para que entrassem nela nova-
mente, e foi assim, semana depois de semana. O Senhor deu-nos a entender, 
por meio da mesma possessa, que o único modo de acabar com essa situação 
era orar pelo membro da seita satânica, para que ele se convertesse. Se não 
se convertesse, Deus mesmo colocaria um fim a essa situação. O caso tinha-
-se alongado tanto para dar tempo ao membro da seita satânica, para que se 
arrependesse antes que a justiça divina caísse sobre ele com todo seu peso 
de eternidade. Também nos foi dito com frequência que o caso era tão lon-
go porque Deus através dos sofrimentos dela estava a ajudar a muitos outros 
casos pelo mundo. Isto é a ideia da corredenção: a ideia cristã de que nossos 
sofrimentos (se são recebidos com amor ou, ao menos, com resignação cristã) 
são transformados em graças que ajudam outros seres humanos. O nome do 
garoto deixou de aparecer nas sessões, e esse segundo aspecto, o do valor so-
brenatural da perseverança no sofrimento, parecia que era a única razão para 
que Deus permitisse uma duração tão prolongada.
Nesse caso, por meio de Marta, em algumas ocasiões os anjos nos falaram, 
dando-nos alento, movendo-nos à fé e ao amor a Deus. Às vezes, sentimos 
perfumes numa determinada parte da capela. Seguimos orando por ela com 
a tranquilidade de que nenhuma oração é infrutuosa e que a obediência aos 
planos de Deus obterá seu prêmio.
Caso 2 
Na noite de Halloween, um menino de onze anos notou que uma sombra se 
aproximava dele. Eu perguntei à família se nesse dia o menino tinha feito algo 
especial. Disseram-me que seu filho não tinha feito nada de especial relevân-
cia, salvo disfarçar-se de caveira com uma foice e com uma bola da qual saía 
sangue. Era uma fantasia para a festa do colégio que desagradou à sua mãe por 
216 SVMMA DAEMONIACA
ser excessivamente sangrenta, mas já estava comprada. Eu não entendi que a 
fantasia tivesse relação com o fato de que uma presença se manifestasse a ele.
A verdade é que nessa noite foi quando se deu o primeiro sintoma de todos: 
o aparecimento da primeira figura humana. Em dois ou três dias começaram 
os pesadelos para o menino, tremores e muito medo; ele já via mais figuras 
humanas pela casa, especialmente por um corredor.
Do seu quarto à cozinha tinha que ser levado nos braços, com a cabeça 
coberta por uma manta, porque tamanho era o pânico que as figuras do cor-
redor lhe davam, que se negava a passar por ali. Num determinado lugar do 
corredor, via as pessoas que lhe queriam agredir. O fenômeno começava à 
noite e por volta das duas ou três horas da manhã ainda não podia dormir 
pelo medo terrível que lhe provocava a visão desses homens. Ele via homens 
normais que lhe diziam coisas, lhe insultavam e ameaçavam. Esses homens 
levavam um facão. O menino dizia que via um deles com sangue, e com a cara 
tampada por algo negro. Também apareciam em sonhos; um deles o perse-
guia para matá-lo.
Esses sintomas foram se agravando. Assim, os pais decidiram consultar a 
uma taróloga. A mulher disse que ela podia solucionar o problema. Cobrou-
-lhes 300 euros e disse ao pai que fosse à casa dela naquela noite a sós que ela 
faria o que tinha que ser feito. O pai havia ido se consultar sozinho, sem levar 
o menino.
Não se sabe o que ela fez, mas naquele mesmo dia o menino ficou possesso. 
Pela primeira vez ele já não via mais homens ao seu redor, mas um ser malig-
no falava por meio dele e movia-o furiosamente pela casa, como se o demônio 
tivesse entrado nele. Nos dias seguintes começou a ter um comportamento 
que o acompanhou durante cinco longos e intermináveis meses. Às vezes o 
menino se autoflagelava com cristais ou ferros. Desde que ficou possesso não 
podiam comer com ele na cozinha, porque se dirigia para as facas e as agarra-
va para tentar se matar ou ameaçar à família. Durante meses foi preciso fazer 
todas suas refeições só com colher e garfo, mas nunca com faca. 
Em outras ocasiões, perdia a voz e só podia sussurrar. Outras vezes não 
podia engolir nada e tinha que passar metade do dia ou um dia inteiro sem 
comer nem beber absolutamente nada. Chegou a ficar um dia e meio sem 
comer nem beber. 
Casos 217
Obviamente,

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