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SEMIOTÉCNICA Pamela Elis Astorga Galleguillos Eliminação urinária: processo de enfermagem para problemas urinários Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: � Listar as principais medidas executadas pela enfermagem para estimu- lar a eliminação urinária de forma alternativa, ou seja, sem dispositivos invasivos. � Descrever os cuidados de enfermagem para a manutenção temporária de dispositivos para diurese: sonda de demora, alívio e uripen. � Identificar as principais consequências da infecção urinária relacionada a dispositivos urinários, tanto para o paciente como para a instituição. Introdução A eliminação urinária e os seus processos de excreção são essenciais para a vida, uma vez que o corpo humano, para o seu funcionamento normal, precisa da retirada das impurezas e substâncias que ultrapassam as necessidades orgânicas. Quando o sistema urinário não funciona de maneira correta, todos os demais sistemas do organismo humano são afetados, refletindo em alterações corporais e impedindo o indivíduo de participar em atividades fora do seu domicílio. Neste capítulo, você verá sobre o processo de enfermagem executado em pacientes com problemas urinários, adquirindo conhecimento sobre medidas que estimulam a eliminação urinária sem a utilização de dispo- sitivos invasivos, os cuidados a serem executados para a manutenção temporária de dispositivos para diurese, bem como as consequências de uma possível infecção urinária proveniente desses dispositivos. Principais medidas para estimular a eliminação urinária de forma alternativa De acordo com Gomes et al. (2018), a retenção urinária, como mostrado na Figura 1, é caracterizada quando a urina, produzida normalmente, fica retida na bexiga, uma vez que esse órgão não consegue esvaziar-se corretamente através do reflexo de micção. Figura 1. Ilustração de uma bexiga com retenção urinária e de outra normal. Fonte: ilusmedical/Shutterstock.com. Dessa forma, a urina fica constantemente retida na bexiga, causando diver- sas sensações desagradáveis, como sudorese, pressão, desconforto e agitação. O indivíduo com retenção pode até vir urinar pequenas quantidades ou em gotas durante o dia, mas isso é insuficiente para aliviar o desconforto. Quanto à incontinência urinária, muitos são os tratamentos que podem ser aplicados ao paciente, desde técnicas comportamentais (como a utilização de estimulação elétrica), tratamentos farmacológicos (como o uso de estrógeno ou colágeno) e mecânicos (como o uso de pessários: anéis rígidos com o propósito de reposicionar a uretra) ou intervenções cirúrgicas (como o sling, que corresponde à inserção de uma pequena tela abaixo da uretra). Eliminação urinária: processo de enfermagem para problemas urinários2 Taylor et al. (2014) pontuam os termos mais utilizados quanto aos problemas urinários, conforme a seguir. � Anúria: corresponde à insuficiência renal ou parada completa do rim — a eliminação de urina em um período de 24 horas é inferior a 50 mL. � Disúria: dificuldade ou dor ao urinar. � Glicosúria: presença de glicose na urina. � Noctúria: acordar durante a noite para urinar. � Poliúria: eliminação excessiva de urina. � Piúria: presença de pus na urina. � Incontinência urinária: perda involuntária de urina. Gomes et al. (2018) relatam que alguns fatores podem propiciar o desen- volvimento dessa retenção urinária, como o uso de certos medicamentos, o aumento da próstata, o colapso vaginal, a obstrução retal, o parto, o trauma cirúrgico após a retirada de cateter vesical de demora, entre outros. Para estimular a eliminação urinária de maneira natural, em primeiro lugar, o profissional da área de saúde deverá optar por medidas não invasivas para, assim, promover a micção do paciente com incontinência. A primeira medida mencionada por Costa e Eugenio (2014) corresponde a abrir a torneira da pia do banheiro. Essa ação está ligada ao fato de a bexiga e a uretra estarem conectadas ao sistema límbico. Assim sendo, alguns objetos e ações podem provocar a ativação desse sistema, alertando que a bexiga está cheia e precisa ser esvaziada. Ainda nessa mesma visão, Gomes et al. (2018), como também Costa e Eugenio (2014), relatam que o profissional de saúde poderá encaminhar o paciente ao banho — se estiver em condições —, uma vez que proporcionará conforto e relaxamento, favorecendo a micção. Outra medida que proporcionará bem-estar ao paciente, como também relaxamento muscular, está em posicionar compressas (ou bolsas) com água morna na região inferior do abdome do paciente. Como a retenção pode estar vinculada a fatores psicológicos, provenientes de alterações bruscas do ambiente, devido à hospitalização e mudança de domicílio, o profissional poderá disponibilizar um local com o máximo de privacidade possível, quando o paciente utilizar a comadre. 3Eliminação urinária: processo de enfermagem para problemas urinários Vaughans (2012) menciona, como medida para estimular a eliminação urinária, exercícios realizados para o melhoramento do tônus muscular ab- dominal e perineal, como o denominado Kegel. Brubaker (2018) relata que o exercício de Kegel pode ser realizado tanto por homens quanto por mulheres, permitindo ao indivíduo conhecer os mús- culos corretos para serem contraídos. O paciente pode realizá-lo em qualquer posição — sentando em uma cadeira ou deitado. O profissional deve orientá-lo a realizar de 8 a 12 exercícios de contração dos músculos do assoalho pélvico (Figura 2), por volta de três vezes ao dia, de três a quatro dias na semana. Ao realizar o exercício, o paciente deve manter os músculos contraídos por 6 a 10 segundos. Figura 2. Músculos do pavimento pélvico feminino. Fonte: AGROTEC (2010, documento on-line). Em relação às manobras específicas, Amorim (2006) relata a denominada estimulação suprapúbica, que corresponde à estimulação digital com leves toques, realizada com as pontas dos dedos feitas na região citada. Essa per- cussão poderá provocar a contração reflexa do detrusor com esvaziamento vesical. Contudo, o autor desaconselha essa manobra em crianças, devido a Eliminação urinária: processo de enfermagem para problemas urinários4 possíveis riscos provenientes da pressão vesical originada e, também, pelo fato de não se ter a certeza do completo esvaziamento da bexiga, podendo aumentar os riscos de uma infecção. Outra manobra mencionada por Amorim (2006) é a Valsava Credé, que corresponde ao aumento da pressão abdominal (Valsalva) ou a pressão manual com a mão espalmada ou fechada, na região suprapúbica (Credé). Essa técnica é indicada quando o paciente não tiver risco de infecção ascendente (ureteres e renais), uma vez que pode possibilitar o refluxo vesico ureteral. Por fim, Carvalho, Comarú e Camargo (1976) relatam a importância dos exercícios de respiração abdominal como estimulantes do esvaziamento vesical, por meio dos quais o paciente não movimenta a parte superior do corpo para respirar, somente o abdome. Todos os métodos citados para estimular a eliminação urinária requerem paciência por parte do profissional e cooperação por parte do paciente, uma vez que são procedimentos que necessitam de apoio mútuo para enfrentar e ultrapassar essa fase que requer muito empenho. Cuidados para manutenção temporária de dispositivos para diurese A sonda ou o cateterismo vesical, de acordo com Costa e Eugenio (2014), correspondem a uma introdução de um cateter estéril, pela uretra até a bexiga, que tem como objetivo: � controlar o volume urinário; � proporcionar conforto acerca da distensão da bexiga, devido à retenção urinária; � preparar o paciente para a cirurgia; � ajudar no diagnóstico de lesões no trato urinário; � avaliar a diurese horária. Os dispositivos de diurese a serem utilizados para a prática médica de- pendem de vários motivos, como o tempo de utilização (temporário ou in- determinado) do instrumento, a situação clínicado paciente, entre outros. A seguir, serão discorridos os cuidados de enfermagem para sonda de demora, alívio e uripen. 5Eliminação urinária: processo de enfermagem para problemas urinários Sonda de demora A sonda vesical de demora, ou também chamada de sonda Foley (Figura 5a), corresponde a um dispositivo que possui um pequeno balão interno que, depois de cheio, prende a sonda dentro da bexiga por tempo indeterminado, como pode ser observado na Figura 3, a seguir. Constitui-se de um sistema fechado, cuja extremidade externa está ligada a uma bolsa coletora. Figura 3. Localização do cateter vesical: 1) cateter vesical; 2) uretra; 3) balão do cateter; 4) bexiga; 5) intestino; 6) testículo; 7) próstata; 8) vagina; 9) útero. Fonte: Freitas (2018, documento on-line). Taylor et al. (2014) evidenciam os cuidados que o profissional de enferma- gem deve assumir quanto à sonda vesical de demora, conforme listados a seguir. � Lavar as mãos antes e depois de cuidar do paciente. � Realizar a higienização da área perineal, principalmente ao redor do meato, diariamente e depois de cada evacuação. Essa limpeza deverá ser feita com água e sabão neutro ou com um sabão perineal, enxaguando bem a região. Não de deve utilizar talco ou loções, tampouco antibióticos ou produtos antimicrobianos no meato uretral. � Limpar o cateter, higienizando-o delicadamente do meato para fora. Eliminação urinária: processo de enfermagem para problemas urinários6 � Estimular a ingestão de água pelo paciente, para que ela se previna de possíveis infecções, além de irrigar naturalmente o cateter, aumentando a quantidade de urina eliminada. � Incentivar o paciente a se movimentar, conforme prescrição. � Verificar constantemente o volume e a característica da urina eliminada, registrando os dados no formulário do paciente. A característica da urina pode ser visualizada através da sonda de drenagem e pela bolsa de coleta. Registrar a eliminação e a ingestão a cada 8 horas. Para verificar a quantidade eliminada, o profissional deve esvaziar a urina em um recipiente com uma escala de medida, uma vez que a bolsa de coleta possui uma escala aproximada. A Figura 4, a seguir, mostra um exemplo de formulário de ingestão e eliminação. � Não abrir o sistema de drenagem para a obtenção de amostras de urina. Caso a sonda for desconectada, e o sistema de drenagem tiver sido contaminado, o profissional deve trocar o sistema de coleta. � Fixar a sonda vesical de demora masculina para cima, em região supra- púbica ou inguinal. Dessa forma, previne-se lesões da uretra provocadas pela sonda, uma vez que ela fixada por muito tempo para baixo pode fazer pressão excessiva sobre a parte inferior da uretra, provocando necrose e, posteriormente, fístula. � Ao realizar o esvaziamento da bolsa, ter cuidado para que o bico da drenagem não toque superfícies contaminadas. � Esvaziar a bolsa coletora, no mínimo, a cada 8 horas através da válvula de drenagem, ou não deixar que ela encha. � Orientar o paciente sobre a importância da prática de higienização pessoal, principalmente após as evacuações. � Ficar atento a quaisquer sinais/sintomas de infecção, como: ardência e irritação no meato, urina com odor forte ou turva, febre e calafrios. � Ao auxiliar o paciente a tomar banho, posicionar o recipiente de coleta mais baixo que a bexiga, para que a drenagem seja realizada. Fazer a troca do cateter de demora de maneira individualizada, baseada em sin- tomas clínicos, como: incrustações no cateter, vazamento, sangramento e infecção do trato urinário (ITU) vinculado ao cateter. � Higienizar o cateter duas vezes ao dia. � Nunca acomodar o saco coletor no chão e orientar o paciente, sempre que for preciso, a transportá-lo dentro de uma sacola de plástico, para evitar que as bactérias contaminem a sonda. 7Eliminação urinária: processo de enfermagem para problemas urinários Figura 4. Formulário de ingestão e eliminação. Fonte: Taylor et al. (2014, p. 1263). Sonda de alívio Já a sonda de alívio é utilizada para o esvaziamento imediato da bexiga, sem ter a permanência dela, sendo retirada após a eliminação da urina. Esse procedimento deve ser realizado quando todas as medidas de micção não invasivas forem descartadas. A diferença entre a sonda vesical de demora e de alívio pode ser observada na Figura 5, a seguir. Eliminação urinária: processo de enfermagem para problemas urinários8 Figura 5. a) Sonda vesical de demora; b) sonda vesical de alívio. Fonte: a) Fibra Cirúrgica (c2018, documento on-line) e b) Cirúrgica Estilo (c2019, documento on-line). (a) (b) A seguir, listamos os cuidados que o profissional de enfermagem deve aplicar quanto à sonda vesical de alívio. � Antes do procedimento, como medida de conforto, aplicar calor na região do ventre, logo abaixo do umbigo, uma vez que auxilia no alívio da tensão muscular pélvica, além de estimular a circulação local. � Redobrar o cuidado quanto à higienização íntima, principalmente na região perianal. � Orientar sobre o desconforto e a ardência para micção após o procedi- mento, devido à introdução do cateter no canal da uretra, que poderá causar microlesões. � Não forçar a reintrodução do cateter após terminar o procedimento. � Não aspirar a diurese a fim de apressar a eliminação de urina ou obter maior quantidade do líquido. � Não deixar o paciente ficar com a bexiga muito cheia de urina, pois, quando isso ocorre, o músculo da parede da bexiga, que é responsável pela contração ao urinar, tende a perder o tônus, atrasando a retomada da micção espontânea. � Observar alterações locais ou sintomas, como: dor, febre, secreções e hiperemia local. � Atentar-se quanto ao histórico de infecções urinárias do paciente, uma vez que poderá ser necessário tomar medidas preventivas referentes a eventuais processos infecciosos provenientes do procedimento. � Descartar a sonda após o uso, pois é de uso único estéril e apirogênico. 9Eliminação urinária: processo de enfermagem para problemas urinários � Após a passagem do cateter e/ou coletar a urina, registrar em prontuário as características da urina, o motivo do procedimento e a intercorrência durante o procedimento, caso exista. Uripen Já o uripen, de acordo com Vaughans (2012), consiste na inserção de um dispo- sitivo externo —preservativo, tubo e bolsa de drenagem — para a eliminação da urina, conforme a Figura 6. É importante que o profissional realize a troca do preservativo com frequência e observe as condições do pênis, como se há ruptura da pele. Figura 6. Conectando a bainha do preservativo ao aparelho de drenagem. Fonte: Taylor et al. (2014, p. 1297). Os cuidados que o profissional de enfermagem deve aplicar quanto ao uripen são descritos a seguir. Eliminação urinária: processo de enfermagem para problemas urinários10 � Fazer a tricotomia dos pelos da região, antes de realizar o procedimento. � Realizar a higienização da região com água e sabão neutro, antes do procedimento. � Lembrar-se de deixar um espaço livre na ponta do pênis, ao inserir o uripen. � Atentar-se para não apertar demais, ao colocar o micropore em torno do uripen. � Evitar o uso de esparadrapo comum, uma vez que pode causar alergias e lesões no pênis. � Orientar o paciente para evitar o manuseio do dispositivo, para que o mesmo descole do local apropriado. � Examinar sempre a integridade da pele do pênis e da região, à procura de lesões ou inchaços, e anotar em prontuário do paciente. � Caso o uripen esteja vazando ao redor do dispositivo, retirar o mesmo e instalar um novo — a reutilização pode provocar infecções urinárias e lesionar o pênis. � Trocar o dispositivo a cada 24 horas ou quando houver deslocamento do dispositivo. Principais consequências da infecção urinária relacionada a dispositivos urinários A equipe de enfermagem tem um papel muito importante na prevenção e no controle da ITU. A principal causa dessa incidência está relacionadaà inserção de cateter urinário, trazendo graves consequências tanto para o paciente quanto para a instituição de saúde. De acordo com Lacerda et al. (2015), a ITU está muito vinculada a sondas vesicais, sendo o maior causador de infecção no ambiente hospitalar, prin- cipalmente pelo tempo prolongado da utilização desse dispositivo, em sua maioria, em pacientes idosos. Dentre as várias pesquisas sobre ITU, o principal agente bacteriano en- volvido na infecção são os bastonetes Gram-negativos, especialmente a Es- cherichia coli — natural da flora intestinal do homem —, conforme dados da Figura 7, gerados em um hospital de Minas Gerais, em 2007 (SILVEIRA et al., 2010 apud LACERDA et al., 2015). 11Eliminação urinária: processo de enfermagem para problemas urinários Figura 7. Agentes patogênicos mais prevalentes nas ITU. Fonte: Lacerda et al. (2015, documento on-line). Assim sendo, a ITU pode gerar várias complicações ao paciente, como as descritas a seguir. � Prostatite, que gera dor, inchaço e inflamação da glândula da próstata. A dor pode alastrar-se para a região entre o ânus e o escroto, ou na parte inferior das costas, no pênis ou nos testículos. � Epididimite, que corresponde à inflamação do epidídimo, estrutura em forma de um tubo, que envolve e une cada testículo. � Orquite, que é o acometimento do próprio testículo pela infecção. � Cistite, infecção originada na bexiga. � Pielonefrite, que é o acometimento dos rins. � Infecção generalizada. � Endocardite, quando o agente infeccioso circula pela corrente sanguínea e se anexa aos músculos do coração. � Osteomielite vertebral, quando o agente infeccioso circula pela corrente sanguínea e se aloja nos ossos das vértebras. � Artrite séptica. � Endoftalmite, quando o microrganismo acomete os olhos. � Meningite bacteriana. Contudo, a ITU não gera consequências somente para o paciente, mas para a instituição de saúde, uma vez que aumenta a internação hospitalar, acar- retando proporcionalmente um aumento nos custos referentes ao tratamento (TOLENTINO et al., 2013). Eliminação urinária: processo de enfermagem para problemas urinários12 Desse modo, a instituição deve desenvolver, promover, treinar e monitorar os seus trabalhadores a partir de protocolos relacionados à sondagem vesical, abordando, principalmente, a sua indicação, a técnica, os tipos de sondagem, os cuidados para a sua manutenção e a indicação de troca da sonda. É papel fundamental da enfermagem observar e aplicar o conjunto de medidas que sinergicamente favorecem a diminuição da incidência da ITU proveniente do cateterismo vesical, por meio da padronização de toda assis- tência aplicada ao paciente. AGROTEC: Revista Agropecuária Técnica. Tudo sobre ejaculação adiantado masculina. 2010. 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