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A subjetividade no trabalho em questão
Laerte Idal Sznelwar, Seiji Uchida e Selma Lancman
Introdução
Ao propor uma discussão sobre a subjetividade e sua relação com o trabalho, 
abre-se uma questão que por muito tempo foi relegada à invisibilidade. 
O trabalho e os afetos com ele relacionados eram considerados como não 
relevantes, pois o que mais se privilegiava estava ligado à capacidade de 
trabalhar do indivíduo. Essa capacidade costuma ser definida a partir das 
visões preponderantes sobre o que seria o ser humano, em especial aquele 
que contribui para a produção dos bens necessários à civilização (cf. Arendt, 
1981; Dejours, 1999). Para Dejours (2005a), “trabalho é a atividade mani-
festada por homens e mulheres para realizar o que ainda não está prescrito 
pela organização do trabalho”.
Por subjetividade compreendemos antes de tudo “o caráter de todos os 
fenômenos psíquicos, enquanto fenômenos de consciência, que o sujeito 
relaciona consigo mesmo e chama de ‘meus’” (Abbagnano, 1998), mas 
acrescentamos a essa definição os fenômenos psíquicos inconscientes, no 
sentido freudiano.
Historicamente observamos também as mais variadas formas de domi-
nação do trabalhador que se expressaram nas diferentes maneiras como o 
trabalhar foi concebido e controlado. Nas premissas tayloristas-fordistas, o 
foco era os aspectos físicos e fisiológicos; mais recentemente, com o advento 
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das empresas flexíveis e enxutas, agregaram-se também aspectos mentais e 
cognitivos. No primeiro caso, o importante seria entender as capacidades 
humanas, para conseguir controlar as possibilidades de retorno através do 
esforço físico – desprovido de pensamento – pautado na gestão dos gestos e 
dos movimentos. Buscava-se conhecer os limites, as possibilidades de garantir 
a produção por meio da mecânica humana colocada à disposição de sistemas 
de produção. Com a evolução da tecnologia, principalmente após a Segunda 
Guerra Mundial, entra em voga, de modo crescente, a questão da inteligên-
cia, entendida como a capacidade do trabalhador de dar conta daquilo que 
as máquinas e os artefatos exigiriam dele e de garantir o funcionamento do 
sistema. Caracteriza-se assim o início do reconhecimento de que há algum 
tipo de pensamento, de inteligência, nas pessoas que poderia ser útil para o 
processo produtivo. 
Apesar de caricatural, esta primeira apresentação da problemática aqui 
tratada traz em seu bojo uma questão de fundo. As visões prevalentes sobre 
o ser humano, principalmente daquele que está trabalhando, ignoram a 
existência do sujeito. Este, quando muito, estaria restrito, segundo uma visão 
funcionalista, a seus aspectos biológicos e modos de funcionamento e limites. 
Onde estaria o sujeito capaz de sentir, desejar, decidir diante das incertezas 
do trabalho, de se constituir, se sujeitar, se emancipar? Como se constitui este 
sujeito, atuando em diferentes cenários socioculturais e históricos? Como 
ele poderia ser ator da construção da sua vida profissional, da sua forma de 
trabalhar e de sua saúde?
Essas questões foram tratadas de maneira muito incipiente pela Ergo-
nomia da Atividade e, de forma contundente e direta, pela Psicodinâmica 
do Trabalho (PDT) (cf. Dessors, 2009). A PDT se define como a análise 
psicodinâmica dos processos intersubjetivos mobilizados pela situação do 
trabalho. Dinâmico significa que “a investigação toma por centro de gravida-
de os conflitos que surgem do encontro entre um sujeito, portador de uma 
história singular preexistente a este encontro, e uma situação de trabalho 
cujas características são, por uma larga parte, fixadas independentemente 
da vontade do sujeito” (Molinier, 2006).
Desde os primórdios desta discussão nessas duas áreas de conhecimento, 
que têm pontos em comum na forma de compreender o trabalho, eviden-
ciou-se o fato de que não seria possível trabalhar e produzir seguindo-se 
estritamente as regras predefinidas, principalmente aquelas prescritas por 
determinados atores da produção – engenheiros e gestores. A existência, 
inexorável, de discrepância entre aquilo que estava previsto e prescrito e 
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a realidade foi e é um dos pontos centrais da discussão sobre a atividade, 
para a ergonomia. Assim, todos os que trabalham agem de modo diferente 
daquele que foi prescrito, para dar conta da variabilidade tanto no que diz 
respeito às condições e exigências da produção, como em relação às varia-
ções do estado de cada indivíduo e à diversidade humana, sempre presente 
(cf. Guerin et al., 2001; Hubault, 2000, 2004; Maggi e De Terssac, 2004).
No entanto, apesar de haver orientações principalmente da escola socio-
técnica com relação à organização do trabalho, que propõem um mínimo de 
prescrição e, portanto, reconhecimento implícito desta discrepância irrevo-
gável, as escolas dominantes, baseadas em princípios tayloristas e fordistas, 
mesmo que envoltas em uma aura de modernidade, mantêm o paradigma 
da relação concepção-execução como aspectos estanques e separados. 
Já para a PDT, a questão da relação entre o prescrito e o real, também 
presente em quase toda sua trajetória, é tratada sob o ponto de vista do zelo, 
isto é, como as pessoas se engajam para que a produção saia a contento. O 
zelo seria um ponto-chave, fundamental para que de fato haja produção. Para 
obter resultados, seria necessário que cada ator-trabalhador se colocasse em 
jogo e, ante a resistência do real, isto é, diante dos imprevistos que surgem 
no trabalho, agisse de forma criativa. Dejours (2005b) adota então uma 
definição do trabalho que é afeita à ação no âmbito da discrepância entre o 
prescrito e o real. Para evitar as confusões entre o trabalho real que implica 
a cooperação e o zelo, utilizam-se igualmente os termos trabalho efetivo 
ou trabalho realizado para falar do real do trabalho. Isto permite também 
distinguir o trabalho efetivamente realizado (e pelo qual a pessoa pode ser 
reconhecida) daquele que a pessoa teria eventualmente desejado realizar. 
Outro ponto que Dejours enfaticamente defende é o de que o real se faz de 
início conhecer emocional e afetivamente. Quando o trabalhador se frustra, 
se irrita, se sente mal, se sente perdido e confuso diante dos imprevistos é 
que ele, através destas reações emocionais, se dá conta do obstáculo e da 
resistência do real (cf. Idem). 
Há aí uma forte inspiração em conceitos oriundos da metapsicologia 
psicanalítica, pois o trabalhar envolve não só a razão, mas também desejos, 
afetos e emoções que estão relacionados com algo que não está estabelecido, 
normalizado e apaziguado. Ao contrário, o trabalho seria um esforço para su-
perar o não prescrito, uma construção constante, que acrescente algo àquilo 
que não se previu, que está em constante negociação entre o desejo e o real.
Desse modo, se tudo fosse resolvido pelas prescrições, não seria necessário 
trabalhar. Bastaria operar, no sentido proposto pelas visões mais clássicas e 
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reducionistas de certas escolas de organização. Operar, funcionar e respeitar 
as prescrições seria a perspectiva de um trabalhador enquanto instrumento 
ou recurso da produção, não a de um sujeito. Logo, as premissas da PDT 
estão centradas nas possibilidades do desenvolvimento dos sujeitos. Para esta 
abordagem, deve-se considerar que não existe um sujeito isolado, solipsista, 
ele existe e se constitui numa relação intersubjetiva na qual o trabalho é 
elemento indissociável. É sempre em relação ao outro que ele se constrói, 
existe e pode ser reconhecido; portanto, as relações entre o coletivo dos tra-
balhadores é fundamental. A PDT, ao focar o sujeito, não estaria propondouma individualização e um isolamento do trabalhador, numa relação entre 
seus desejos e conflitos com a produção. Ao contrário, não apenas em seus 
fundamentos teóricos, mas sobretudo em suas propostas de ação, a impor-
tância do outro, do coletivo, é central. A construção de um caminho no 
sentido da emancipação não seria um movimento individual, isolado, mas 
um caminho com e em relação com os outros, pautado na intersubjetivi-
dade e na constituição de coletivos. Assim, fica evidente a importância e a 
centralidade do trabalho para a constituição dos indivíduos e da sociedade.
Outra questão central para as ciências do trabalho, em especial para a 
PDT e para a ergonomia, é a questão da saúde. Assim como se constroem 
as competências profissionais, aqui entendidas como o potencial para agir, 
a saúde seria, inspirado na proposta de Dejours, construção, busca, ideal, 
objetivo a ser atingido, mas nunca totalmente alcançado. Distante da pro-
posição que considera a saúde mais um estado de bem-estar do que uma 
contraposição à doença, a sua definição estaria relacionada, de um lado, 
com uma dinâmica de vida pautada pelo que as pessoas fazem e podem 
fazer dentro de determinadas condições organizacionais e, de outro, com 
seus aspectos genéticos e fenotípicos. Desenvolver a saúde é desenvolver 
um patrimônio fundado num corpo-sujeito dentro das incertezas e buscas 
de continuidade, moderada por desafios constantes (cf. Dejours, 2009).
Nesta perspectiva, é necessário introduzir a questão da relação sofrimento-
prazer associada ao trabalho, elemento central para a PDT. Muitos criticam 
a PDT por considerá-la reducionista, pois ao focar a questão do sofrimento 
estaria evidenciando os aspectos negativos do trabalho numa espécie de ode 
ao sofrimento, que, como consequência, seria uma espécie de indutor de 
seu crescimento e serviria para torná-lo o ponto central do trabalhar. Isto 
não corresponde ao que de fato propõe este campo do conhecimento, cuja 
intenção é evidenciar a racionalidade pathica com relação ao trabalhar. Assim, 
trata-se das vivências dos sujeitos, da sua relação com o mundo através de seu 
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corpo e da sua psiquê. O sofrimento no trabalho torna-se evidente quando 
não é mais possível transformá-lo em prazer através das realizações do sujeito, 
reconhecidas pelos outros como úteis e belas. Ou, como afirma Molinier, “o 
sofrimento no trabalho começa no momento em que ele se torna patogênico, 
isto é, exatamente lá onde a parte criativa do trabalho cessa” (Molinier, 2006, 
p. 60). Segundo Dejours: 
O sofrimento começa quando a relação homem-organização do trabalho é blo-
queada, quando o trabalhador utilizou ao máximo suas faculdades intelectuais, 
psicossensório-motoras, psicoafetivas de aprendizagem e de adaptação. Quando 
um trabalhador utilizou tudo o que dispunha de saber e poder sobre a organização 
do trabalho e quando ele não pode mais mudar a tarefa; isto é, quando esgotou os 
meios de defesa contra o constrangimento físico. Não é tanto a importância dos 
constrangimentos mentais ou psíquicos do trabalho que faz aparecer o sofrimento 
(se bem que este fator seja uma evidência importante) quanto a impossibilidade de 
toda a evolução em direção ao alívio. A certeza de que o nível atingido de insatisfação 
não pode mais diminuir marca a entrada no sofrimento (Dejours, 2000, pp. 78-79).
Molinier e Dejours falam de situações em que é necessária a criatividade 
para resolver os desafios que o contexto de trabalho apresenta ao trabalhador. 
A elaboração criativa dos imprevistos e problemas envolve um sofrimento 
criativo, ou seja, sofre-se criativamente para enfrentar a situação. Quando 
o trabalhador utilizou todos os seus recursos e não tem mais como mudar 
a tarefa, surge o sofrimento patogênico. Falar em sofrimentos criativo e 
patogênico não significa que existam dois tipos de sofrimento, mas que 
na realidade esses termos designam dois destinos diferentes do sofrimento: 
“O destino do sofrimento criativo é o de se transformar em prazer e em 
experiência estruturante. O destino do sofrimento patogênico é a doença 
que surge quando as defesas não cumprem mais sua função defensiva” 
(Molinier, 2006, p. 60).
Falar da criatividade implica para Dejours compreender que ninguém se 
sabe criativo ou considera sua produção criativa. É na relação com o outro, 
que julga e reconhece nosso trabalho ou nossa obra como engenhosa e cria-
tiva, que teremos certeza do que realizamos. Ou seja, será no campo social 
que criaremos a consciência de nossa criatividade. Dejours alerta ainda que é 
sempre o fazer que deve ser julgado, e não o ser. Para a PDT, dois são os crité-
rios fundamentais que o outro (chefia, clientes e pares dentro da organização 
do trabalho) utiliza para avaliar o que fazemos: utilidade e beleza. A chefia e 
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os clientes irão julgar se o que realizamos é útil econômica e socialmente. Já 
o par julgará se a nossa solução, obedecendo às regras de ofício, foi bela. Daí 
expressões como “foi bela a sua solução”, “que beleza de trabalho”, para res-
saltar a originalidade e a singularidade do que realizamos. Este julgamento e 
reconhecimento do outro é essencial para a realização de si e a construção da 
identidade, condições essenciais para o desenvolvimento e o amadurecimento 
do indivíduo no trabalho. 
Por identidade, a PDT entende a
[...] armadura da saúde mental, o resultado do trabalho de unificação psíquica 
que mantém o sentimento de estabilidade e coerência do eu através do tempo e 
dos destinos da história singular. Nossa identidade não está jamais completamente 
assegurada, vê-se na necessidade de ser reconfirmada sem cessar, essencialmente, 
ante o olhar do outro. Se este olhar é subtraído no caminho, ou o que é pior, desde 
o princípio, isto implica que a dificuldade para construir uma unidade psíquica 
pode desembocar na enfermidade mental. Nesse sentido, a saúde é intersubjetiva 
(Molinier, 2006, p. 60).
Aprendemos com a psicanálise que a construção da identidade como 
processo de individuação e desenvolvimento da identidade sexual é sempre 
inacabada e marca o sujeito com impasses relacionais oriundos das relações 
primitivas com os pais. Dessa forma, “o sofrimento do sujeito é herdeiro 
do sofrimento de seus pais. O sofrimento é, portanto, [...] ontologicamente 
primeiro, existencial e anterior ao trabalho” (Idem, pp. 60-61). 
Lancman e Uchida explicitam este processo. Os autores observam que 
Dejours pensa a gênese do sofrimento que preexiste ao trabalho pelo conceito 
de angústia do ponto de vista psicanalítico. Analisa sua origem no sujeito 
em suas relações primitivas com os pais. 
A criança, inicialmente, é suscetível à angústia dos pais, principalmente aquela com 
a qual os pais têm dificuldades de lidar. Ao vivenciá-la, passa a senti-la como se fosse 
sua, pois nesta etapa de sua vida não tem condições de distinguir o que é seu e o que 
é dos seus pais. Quando adquire a capacidade de falar, tenta expressar esta angústia 
para poder elaborá-la, mas infelizmente não encontra espaço psíquico propício nos 
pais, pois estes não têm condições de ajudá-la na medida em que a criança recoloca 
em cena aquilo que os fez sofrer. Esta angústia não elaborada vai adquirir uma carac-
terística enigmática e será origem de uma curiosidade jamais satisfeita, de um desejo 
de saber e compreender que periodicamente será reposto pelas situações conjunturais. 
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Ao mesmo tempo, vai-se constituir como zona de fragilidade psíquica do sujeito, uma 
face obscura e para sempre desconhecida. Um dos espaços sociais privilegiados em 
que esta criança, ao se tornar adulto, vai reporesta angústia é o trabalho. Neste locus 
irá procurar, indiretamente, elaborar este sofrimento primitivo e, a cada enigma do 
trabalho que resolve, sentirá que se fortalece psiquicamente e a zona de obscuridade 
diminui um pouco (Lancman e Uchida, 2003).
Um dos aspectos essenciais da questão do trabalhar está ligado ao fato 
de que os sujeitos precisam desenvolver suas atividades em cenários que, em 
grande parte, são modulados por decisões de outros e que de alguma maneira 
determinam aquilo que deve ser feito. São eles que definem os preceitos or-
ganizacionais que pautam as relações dentro de determinada organização, são 
eles que definem as tarefas e a maneira como os sujeitos serão avaliados. Tra-
balhando em cenários onde parte significativa das suas possibilidades de agir 
são definidas de modo heterônomo, cabe aos sujeitos negociar suas margens 
de manobra e constituir coletivos nos quais poderão encontrar espaços para 
criar formas de solidariedade e de cooperação.
Todavia, certos modos de organizar o trabalho, principalmente aqueles 
que buscam combater a organização coletiva de trabalhadores em qualquer 
nível da hierarquia e pautados em processos cada vez mais sofisticados de 
individualização, podem ser bastante perigosos no que diz respeito à saúde 
mental. Neste âmbito, há inúmeros exemplos, principalmente em empresas 
de serviços de massa, que ilustram essa perspectiva. Ao se constituir um 
sistema de trabalho, bastante comum em centrais de atendimento mediado 
por telefone, que privilegia de todas as formas tarefas nas quais, para se obter 
resultados, o sujeito trabalha quase completamente isolado, a possibilidade 
de formação de coletivos fica bastante comprometida. Coerente com esses 
preceitos organizacionais, todo o processo de avaliação, recompensa e punição 
é centrado no indivíduo, assim como a responsabilização por aquilo que não 
dá certo. A existência de equipes de trabalho, como muitas vezes são deno-
minados os agrupamentos de trabalhadores sob a supervisão de um superior 
hierárquico, reveste-se de fortes tintas de eufemismo (cf. Dejours, 2003).
Infelizmente este tipo de paradigma organizacional se tornou muito 
prevalente em atividades de serviço. Aparentemente inspirados em prin-
cípios tayloristas-fordistas, a impressão é de que a disseminação de seus 
conceitos aparece como a única possibilidade de organização do trabalho 
nessas empresas; aquelas que, por desventura, adotam outros preceitos, 
estariam fadadas ao insucesso. Ao que tudo indica, o paradigma organiza-
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cional proposto radicaliza os pressupostos do taylorismo-fordismo, onde 
há uma linha de montagem que mantém interdependência entre os traba-
lhadores, uma vez que a tarefa de quem trabalha a jusante é, pelo menos 
em parte, modulada por aquilo que seu colega realiza a montante. No caso 
de uma central de atendimento, não é essa a realidade. Os trabalhadores 
de atendimento são dispostos como uma grande linha de frente que recebe 
as chamadas e onde cada um desenvolve seu trabalho isoladamente. Não 
existe espaço para a cooperação; ao contrário, a competição prevalece. 
Aliás, qualquer contato pode ser considerado uma interferência negativa 
para o desenvolvimento da atividade. O controle exercido sobre os traba-
lhadores também privilegia a ausência de trocas, o isolamento. 
Pergunta-se: não seria este tipo de organização do trabalho detentor de 
um amplo potencial patogênico? Os estudos desenvolvidos nas centrais 
de atendimento mediado por telefone, em bancos, em empresas de cartão 
de crédito, em empresas de telefonia (cf. Sznelwar e Mascia, 2000; Szne-
lwar e Abrahão, 2007) corroboram a hipótese deste potencial patogênico. 
Uma quantidade muito significativa de trabalhadores sofre de distúrbios 
psíquicos e músculo-esqueléticos.
Poderíamos imputar esses problemas em grande parte à falta de um 
coletivo, desestruturado pelos processos de competição, que poderia servir 
como proteção, como locus privilegiado para a criação de normas, para o 
desenvolvimento de atividades deônticas. Estas dependem basicamente das 
dinâmicas de troca que possam ser construídas, deliberadas, da criação de 
regras de ofício comum e que ajudem a tecer relações profissionais de qua-
lidade, isto é, que permitam aos trabalhadores existirem como sujeitos. A 
constituição de uma profissão depende da possibilidade de fazer parte de 
determinado coletivo fecundado por regras mais ou menos estabilizadas. 
O quanto cada um contribui para o enriquecimento da profissão e, nesta 
construção, reforça sua identidade, ao trilhar um caminho para a realização 
de si, é fundamental na busca da saúde.
Nesta perspectiva, a cooperação será um dos pilares fundamentais para 
que se constitua um ambiente de trabalho em que haja confiança naquilo 
que os outros fazem. A confiança só pode se estabelecer em situações em que 
o outro consegue avaliar aquilo que cada um faz, como age e de que maneira 
contribui positivamente para o trabalho coletivo. A constituição de uma vida 
comum no trabalho é possível se houver condições para isso e, sobretudo, se 
as atitudes da hierarquia da empresa, no longo prazo, não forem contrárias. 
Há hoje mecanismos muito mais sutis para destruir os coletivos se compa-
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rarmos aos métodos prevalentes no período da industrialização em massa, no 
começo do século passado, em que o controle sobre os trabalhadores ainda 
era muito mais incipiente. Para destruir a solidariedade entre os indivíduos, 
bastou a instituição de mecanismos cada vez mais sofisticados para reforçar 
a concorrência e o espírito competitivo. Ameaças veladas, como a perda do 
emprego ou de premiação, funcionam e são muito eficazes. Constituir um 
ambiente de confiança entre os trabalhadores é um longo processo, destruí-
lo é aparentemente muito rápido e relativamente fácil. Completando esse 
quadro, a instauração de mecanismos de controle individualizados e sistemá-
ticos, apoiados por sistemas de informação de alto desempenho, permite às 
hierarquias obter um conhecimento sobre as ações dos indivíduos de modo 
mais preciso e em tempo real.
Não seria um exagero imputar a esses modos de organização do trabalho 
graves problemas de saúde mental, como síndromes do pânico e depressões. 
Este fato reforça a ideia de que a dominação sobre os trabalhadores está longe 
de ser ultrapassada e põe de lado a sua preconizada substituição por meios 
mais democráticos de gestão. Em casos extremos, redundam em tentativas 
de autoagressão, levando a suicídios às vezes em escala nunca antes notificada 
em determinadas empresas. 
Dentre as hipóteses avançadas por pesquisadores em PDT, impasses 
podem ser criados pelo fato de os sujeitos se verem compelidos a agir de 
acordo com preceitos que consideram eticamente condenáveis. Há muito 
espaço em uma determinada organização para que se cometam as mais va-
riadas formas de perversão. Nesta perspectiva se situam as diferentes formas 
de assédio que têm como características a invisibilidade e o fato de estarem 
dirigidas às pessoas de maneira individual.
Nesses cenários, são possíveis as mais diversas práticas, que, infeliz-
mente, se tornaram muito frequentes. O simples não reconhecimento do 
esforço feito pelos sujeitos para produzirem com qualidade, muitas vezes 
em situações adversas, já seria uma maneira insidiosa de reforçar o registro 
do sofrimento patogênico. Práticas mais sofisticadas, aplicadas de maneira 
sistemática para desestabilizar as pessoas, fazem parte inclusive de temas 
explorados por consultores (cf. Durieux e Jourdain, 1999). Sua banalização é 
um cenário possível e existente. O desdém, o menosprezo pelo desempenho 
dos outros e pelo que são, seria a consequência esperada. 
Nesta perspectiva, ficam mais evidentes certasambiguidades que se 
constroem na implantação de sistemas de qualidade. Sistemas de avaliação 
que desconsiderem o zelo, aquilo que as pessoas fazem para bem trabalhar e 
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conseguir resultados adequados, induzem a práticas pautadas pelo cinismo, 
uma forma de defesa muito comum e que reforça a desconfiança. 
Nas empresas onde esses cenários são prevalentes, surge um desafio de 
monta. Como transformar essas situações? Como criar novos acordos com 
relação ao trabalho e que tipos de compromisso poderiam ser implementados 
visando à construção de modos menos nefastos de produção? Parece-nos evi-
dente que as relações sociais de produção são construtos nos quais questões 
de dominação, de diferenças sociais e culturais estão presentes e atuam como 
moduladores fundamentais com relação ao vivido pelas pessoas. Todavia, 
a existência de espaços de discussão, deliberação e construção de acordos é 
importante para o desenvolvimento dessas relações, reforçando a existência 
dos coletivos e permitindo que os sujeitos trilhem caminhos em direção à 
realização de si e à emancipação.
Ação em psicodinâmica do trabalho
A psicodinâmica do trabalho não pode ser resumida a uma tentativa de 
entender o trabalhar dos sujeitos, numa busca de aprofundar o conhecimento 
somente sobre este aspecto que se sabe central da vida. Reforçar a centra-
lidade do trabalho e sua importância para os sujeitos, trilhar um caminho 
em busca da emancipação numa perspectiva intersubjetiva é a perspectiva 
primordial deste campo. Assim, a proposta não se resume a um estudo sobre 
o trabalhar, mas sim à constituição de um processo de ação, onde quem 
atua por meio da psicodinâmica do trabalho age como um facilitador, como 
alguém que se propõe a uma escuta arriscada, a um papel de sistematizar 
ideias construídas em grupos de expressão. Agir com grupos de expressão 
constituídos por trabalhadores, quase sempre homogêneos no que diz res-
peito à profissão e ao nível hierárquico, é consonante com as propostas de 
Arendt, postas em prática por Dejours e diferentes pesquisadores em PDT, 
visando facilitar a expressão no que diz respeito às vivências do trabalho.
Propor a constituição de grupos de expressão inspirados na construção de 
um discurso comum, pautado na perspectiva de uma racionalidade pathica, 
exige dos proponentes a resposta a diferentes demandas sociais referentes 
às questões tratadas pela PDT, em especial à relação entre o sofrimento e 
o prazer (cf. Dejours, 1987, p. 52). Ainda, aquilo que estamos buscando 
situa-se na perspectiva da racionalidade dramatúrgica ou racionalidade em 
relação à representação do eu. Trata-se de evidenciar a importância do agir 
expressivo, que é constituído por formas por intermédio das quais a ação 
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deve ser posta em cena para que sua legitimidade e sua justificação possam 
ser compreendidas pelo outro. O agir expressivo está ligado à dimensão 
intersubjetiva, inerente à ação. O mundo que alimenta o agir expressivo é 
o mundo subjetivo (Dejours 1997, pp. 68-69).
Assim, partindo de uma determinada solicitação, procura-se entender as 
origens dessa questão e propor aos trabalhadores que constituam grupos de 
expressão, formados por voluntários que estejam dispostos a compartilhar 
com colegas e pesquisadores suas experiências. Reitere-se que esta troca visa 
à construção de um discurso comum, que seja fruto do trabalho coletivo 
construído ao longo das horas que passam juntos, balizadas pelo objetivo 
de, após desvelar as vivências como sujeitos, construir um discurso comum 
que reflita aquilo que o grupo constitui. Cabe, portanto, aos pesquisadores 
que também trabalham em grupo (duas ou três pessoas) escutar, observar, se 
deixar envolver, sistematizar e devolver aos integrantes do grupo um docu-
mento que seja por eles validado e que reflita o melhor possível aquilo que o 
grupo construiu conjuntamente. Para isso, o importante é buscar recuperar 
aquilo que se passou, refletir sobre o dito, mas também sobre o não dito, 
para permitir, nos momentos de validação, um processo final de enriqueci-
mento do conteúdo do documento que se tornará público. O trabalho dos 
pesquisadores é enriquecido por um processo de supervisão desenvolvido por 
um colega, que não participa diretamente do grupo, mediante discussões e 
reflexões sobre o conteúdo das falas e a condução dos trabalhos.
Outra etapa a ser constituída, além da entrega de um documento final 
validado pelo grupo, é propor um processo de validação ampliada, em que 
colegas que não participaram diretamente do processo possam ter acesso a 
essas questões e trabalhá-las, para no final contribuir no sentido do enrique-
cimento dos resultados, difundir mais o debate e permitir que aumentem 
as possibilidades de transformação do trabalhar em coletivos maiores. Uma 
vez que haja identificação com aquilo que foi constituído em determinado 
grupo de expressão e que ocorra ressonância com suas próprias vivências, isto 
vai permitir o deslocamento de um posicionamento solipsista com relação 
à questão do sofrimento e do prazer no trabalho para um posicionamento 
mais coletivo. O que está em jogo não seria mudar de atitude para aceitar 
imposições da organização do trabalho, mas facilitar um movimento em 
prol da transformação do trabalho em si.
Propor que as pessoas expressem e reflitam sobre questões sensíveis do 
seu trabalhar e que ao mesmo tempo as afetam pessoalmente é um processo 
arriscado. Isso implica por parte dos facilitadores uma preparação para acessar 
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a vulnerabilidade do outro, desenvolver uma escuta que ajude as pessoas a 
compreender que os desafios do trabalhar não é uma questão individual e 
que os sentimentos de fracasso, medo, inaptidão, não devem ser tratados 
como um reflexo exclusivo de características pessoais, mas também talvez 
resultantes de maneiras inapropriadas de se constituir a organização do 
trabalho. 
As maneiras de organizar o trabalho que privilegiam o individual e fo-
calizam todo processo de constituição das relações nas organizações numa 
perspectiva de isolar as pessoas e solicitar que o desempenho de cada um 
seja o mote principal – em detrimento da construção de coletivos em que 
predominem a cooperação e a solidariedade – devem ser compreendidas e, se 
possível, superadas na constituição dos processos de produção. Estão em jogo 
relações de poder e dominação que, mesmo sem serem focos de uma ação em 
PDT, constituem os cenários onde as práticas mais ou menos nefastas podem 
se constituir. Uma ação em PDT não é uma proposta de apaziguar conflitos 
ou de transformar diretamente as relações de poder, mas sim de permitir que, 
a partir da expressão dos trabalhadores, se possam constituir processos de 
deliberação que ajudem a transformar a organização do trabalho.
Reflexões sobre ações em PDT
Partindo de diferentes tipos de demanda, expressas por diversos atores 
sociais, foram realizadas ações ao longo dos últimos vinte anos por pesqui-
sadores que buscaram desenvolver este campo em nossa realidade. Essas 
ações, inspiradas na PDT e de acordo com os seus preceitos, foram propostas 
para diferentes grupos profissionais (cf. Sznelwar et al., 2004; Lancman e 
Andrade, 2006; Lancman et al., 2007). Ressalte-se que as demandas não 
foram endereçadas para este grupo enquanto um coletivo de pesquisadores 
em PDT, mas sim como profissionais identificados no espaço público como 
atuantes na área de saúde e trabalho, reabilitação e ergonomia, pois a PDT 
era pouco conhecida em nosso meio. Assim, muitos trabalhos desenvolvidos 
foram originados em demandas ligadas aos poderes públicos, a determina-das empresas e, mais recentemente, a sindicatos de trabalhadores. Dentre 
os profissionais que participaram dessas ações, os mais prevalentes foram 
trabalhadores dos setores bancário-financeiro, de centrais de atendimento, 
de serviços de atenção primária e secundária em saúde pública, de transporte 
público, de limpeza hospitalar, de segurança pública e aqueles responsáveis 
por regular o tráfego de veículos.
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A partir de reflexões sobre os resultados dessas ações, ressaltamos dois 
aspectos fundamentais:
a) A perspectiva de falar e ser ouvido sobre a sua experiência e de aprender a 
ouvir os outros com relação a questões semelhantes é uma vivência ímpar. 
Aquilo que se constrói nos grupos pode servir como reforço fundamental 
para a identidade dos sujeitos e para criar novas perspectivas com relação 
ao trabalho.
b) A possibilidade de se apropriar do sentido por meio de um documento 
em que o sujeito se sente, de certa forma, como criador e, através dele, 
representado, abre uma nova perspectiva para ele. Desvelar algo que 
sempre fora invisível no espaço público e cujo conteúdo autoriza a ser 
divulgado propicia algo não vivido anteriormente. Ser proprietário de um 
discurso comum constituído de questões íntimas sobre o trabalhar onde 
cada qual pode identificar-se é inédito para aqueles que participaram.
A incerteza que se instala na finalização desses processos, tanto para os 
sujeitos participantes como para os pesquisadores, traz muitas inquietações. 
Será que este tipo de ação propiciará uma transformação de fato? Os coletivos 
saíram mesmo reforçados? Aquilo que foi vivenciado ajudará os sujeitos a tri-
lhar caminhos no registro da emancipação em detrimento dos processos de 
alienação? O papel dos pesquisadores termina na entrega dos documentos e 
nas mais variadas formas de disseminação dos resultados ou haveria outros 
momentos a serem construídos?
Parece evidente que todos esses aspectos refletem os desafios da constitui-
ção do campo, principalmente como perspectiva de ação na pólis, no sentido 
mais primordial da política, o de agir no espaço público para facilitar proces-
sos mais amplos de deliberação relativos a um aspecto fundamental da cida-
dania, que seria a existência e a constituição dos sujeitos através do trabalhar.
Dentre as ações citadas, apresentaremos a seguir alguns exemplos de 
resultados:
Para quem trabalha com enfermagem, um dos pontos fundamentais é garantir 
que o processo de cuidado do paciente seja finalizado em conformidade com as 
necessidades desse e que não haja erros. Este profissional que mantém o contato 
direto com aquele que necessita de cuidados é quem finaliza o processo e que pode 
reparar uma falha que ocorreu a montante, mas também é ele quem pode intro-
duzir uma falha que não poderá mais ser recuperada. Portanto, ser preciso em suas 
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funções e ter condições de trabalhar de maneira segura são centrais nesta profissão 
(Sznelwar et al., 2006).
Ainda neste caso, trabalhar com enfermagem exige compaixão, ou seja, 
nada se pode fazer com relação ao outro se a subjetividade não for mobi-
lizada. É evidente que não se trata nesse sentido de uma profissão em que 
se possa “cumprir procedimentos” sem se deixar invadir pelo outro, pelo 
sofrimento do outro. Exigir que um profissional de saúde, mais especifica-
mente o pessoal de enfermagem, se atenha exclusivamente àquilo que pode 
ser definido como “técnico”, “procedimental”, portanto frio e exclusivo do 
mundo da tarefa, seria destruir um dos pontos centrais da profissão. Poder 
sofrer, sentir junto, chorar são fundamentais na constituição deste corpo de 
profissão. Sobretudo, poder compartilhar com colegas e valorizar este aspecto 
central da profissão torna-se algo fundamental para evitar um processo de 
reificação dos trabalhadores e também dos pacientes.
A ação desenvolvida com os Agentes Comunitários da Saúde (ACS) foi 
bastante esclarecedora com relação à subjetividade no trabalho. Trabalhar 
como ACS e acompanhar a vida das famílias em determinadas comunida-
des exige dedicação sem limites e capacidade de se dispor a criar soluções 
para questões muito complicadas, em situações de carência, violência e 
demanda sem fim. Este tipo de trabalho, assim como o de outros traba-
lhadores que atuam em serviços básicos de saúde, em especial no Programa 
de Saúde da Família (PSF), é construído na arte do acompanhamento, 
na possibilidade de se envolver com as famílias sem confundir os papéis, 
trabalhando como alguém que, ao mesmo tempo, porta uma mensagem 
do Estado e uma mensagem dos cidadãos. Traduzir essas mensagens e 
transformá-las em ações efetivas para promover a saúde das pessoas é 
um grande desafio, que abre o caminho para a construção da profissão 
e da promoção da própria saúde desses trabalhadores. A inexistência de 
condições propícias para isso e a falta de reconhecimento dos pares, dos 
outros profissionais e dos gestores do sistema podem se tornar graves en-
traves. Isso pode gerar condições para que não haja qualidade no trabalho 
e criar cenários que favoreçam o sofrimento patogênico (cf. Lancman et 
al., 2007).
Os trabalhadores que atuam em serviços especializados para pacientes 
com distúrbios mentais graves e persistentes são outro exemplo. Trabalhar 
com a assim chamada “loucura” requer destes profissionais a construção de 
um coletivo que os faça sentir mais seguros via a constituição de espaços de 
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cooperação, como é o caso dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). 
Trabalhar nesta perspectiva é se envolver, é entrar no “banho”, é se molhar. 
Atuar com este tipo de doente, com distúrbios mentais severos, como no caso 
de certos quadros psicóticos, é estar sempre em busca de soluções criativas, 
do reconhecimento de sua qualidade e do apoio de colegas e da hierarquia, 
apesar de não se poder avaliar os resultados pela cura dos pacientes, pois 
a maioria dificilmente tem “alta”. O reconhecimento do trabalho aparece 
tanto pela expressão dos próprios doentes como pelas pequenas ações de 
todos que trabalham nessas instituições (cf. Lancman, 2008).
Nos serviços hospitalares há uma série de profissionais cujo trabalho é ain-
da mais invisível, pois se trata de pessoas que atuam em setores responsáveis 
por manter as condições propícias para o atendimento e o desenvolvimento 
de ações de outros profissionais. Um exemplo seria o trabalho de profissionais 
da limpeza. Tipicamente, é um trabalho de bastidores, em que, por mais que 
se faça, o resultado dificilmente é reconhecido ou, ainda, reconhecível. Um 
dilema fundamental, mais ainda em hospitais, seria: o quão limpo é o limpo? 
Neste caso, não se trata de uma limpeza trivial, pois o temor de infecções 
hospitalares é constante. A possibilidade de reconhecimento pelos pares de 
um trabalho benfeito e belo torna-se muito difícil, ainda mais que, muitas 
vezes, alguns trabalham isoladamente em clínicas onde não há outros colegas 
da limpeza, mas sim trabalhadores de diversas categorias profissionais que 
pouco conhecem sobre a sua “arte”. Além disso, a sua ação não se limita a 
limpar: o fato de se sentirem integrantes da comunidade hospitalar faz com 
que cooperem agindo em situações que não lhes caberiam diretamente, como 
acudir alguém ou prestar alguma informação. Nesta perspectiva, processos 
de terceirização de atividades considerados como “não fim” em hospitais 
devem ser vistos com muito cuidado, pois esses profissionais expressam 
que se sentem mais identificados com as clínicas onde trabalham e com o 
trabalho de cuidado do que com a limpeza (cf. Sznelwar et al., 2004).
Quando se trata do trabalho bancário-financeiro e em centrais deatendi-
mento de outras áreas da economia, uma questão que surge com frequência 
crescente e preocupante diz respeito à mentira. Mentir para um cliente, para 
um colega, para a hierarquia, para um subordinado tornou-se bastante banal. 
Há situações onde, apesar de não estar documentada, a mentira se torna quase 
que prescrita. Quando um superior hierárquico diz ao trabalhador que ele 
pode responder qualquer coisa, ou ainda quando as metas devem ser cum-
pridas a qualquer custo, mesmo mediante a venda de determinado produto 
para alguém que claramente não vai usufruir dele, uma contradição de fato se 
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instaura. Qual seria o verdadeiro papel deste trabalhador, atender ao público 
e resolver problemas ou agir de qualquer maneira, contanto que cumpra o 
que lhe é imposto? A banalização dessas práticas e a desconsideração da im-
portância desse tipo de serviço como uma verdadeira atividade profissional 
são frequentes. Neste cenário, não é de se estranhar que sinais de sofrimento 
patogênico sejam cada vez mais observadas. 
Para trabalhadores que atuam no espaço público da cidade, como policiais 
e agentes de trânsito, pontos muito interessantes se apresentam com relação 
ao trabalho e à subjetividade. Um deles diz respeito a questões de gênero: 
para as mulheres há um grande desafio que se expressa no tema de atuar em 
profissões que se caracterizam como um trabalho masculino sem perder sua 
identidade de gênero e, ainda mais, buscar transformar este tipo de profissão 
ao introduzir a possibilidade de ser uma policial ou agente de trânsito man-
tendo o registro do feminino. Outras questões que não de gênero são parte 
fundamental da vivência desses profissionais. Eles agem em situações em que 
o conflito e a violência estão inexoravelmente presentes. Atuar na prevenção e 
no apaziguamento é a tônica do seu trabalho. Construir relações de coopera-
ção na comunidade onde atuam é algo fundamental para seu sucesso, mesmo 
que eles representem um Estado que não necessariamente é bem-visto. Sub-
verter essa situação e criar relações interpessoais em que possam ser considera-
dos agentes de garantia da cidadania não é muito fácil, até porque há grande 
discrepância na conduta desses trabalhadores e o estigma criado pelo fato 
de seu trabalho envolver regulações do espaço público e emissão de multas. 
Muitas vezes os critérios de avaliação do seu trabalho induzem práticas que 
exacerbam esses conflitos, por exemplo quando são avaliados pela quantidade 
de autuações e não pelos problemas que evitaram (cf. Molinier, 2006).
Em todas essas situações fica evidente que, dependendo do modo como 
o trabalho é organizado, do conteúdo previsto nas tarefas e das práticas de 
avaliação, os cenários que poderiam ser propícios para a construção da saúde, 
do desenvolvimento profissional e do reforço dos ofícios podem ser bastante 
deletérios na perspectiva da psicodinâmica do trabalho. Um exemplo muito 
frequente é avaliar os resultados numa perspectiva apenas quantitativa, sem 
considerar os desafios reais do trabalho e o inevitável insucesso inerente a 
qualquer um deles. Este cenário não está presente apenas nas profissões 
citadas, mas tornou-se muito comum no mundo organizacional em geral, 
inclusive em meios antes considerados mais distantes deste tipo de organi-
zação do trabalho, como o da pesquisa acadêmica. As práticas de avaliação 
quase que exclusivamente quantitativas passaram a predominar.
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À guisa de conclusão
Consideramos a discussão com relação à questão da subjetividade no 
trabalho e as contribuições da PDT como iniciais e parciais, uma vez que 
o campo a ser explorado é muito mais abrangente e por recorrermos so-
mente àqueles conceitos que serviram para embasar os pontos de vista aqui 
explicitados. Em primeiro lugar, trazer para o debate público conceitos 
sobre a subjetividade fundamentados numa determinada racionalidade é 
um grande desafio. Propor que se aborde o trabalhar a partir de uma racio-
nalidade pathica, isto é, a partir de como os sujeitos constroem e vivenciam 
o seu trabalho, é uma tentativa de enriquecer as diferentes representações 
sociais existentes sobre o trabalho humano. Todavia, conforme já discutido 
por outros autores (cf. Molinier, 2006), não se trata de um único tipo de 
racionalidade que estaria em jogo, pois outras abordagens contribuem de 
maneira significativa, não só para a compreensão do que seria o trabalhar, 
mas também do que seria uma ação. No caso da racionalidade pathica, a 
questão reside em como o sujeito transforma o mundo e como seu trabalho o 
transforma, trabalho este que está inscrito no real do mundo. Por outro lado, 
agir para transformar o mundo do trabalho de cada sujeito é parte também 
de uma perspectiva ligada à racionalidade instrumental. Ao mesmo tempo, 
o trabalhar pode ser entendido a partir de uma racionalidade axiológica, em 
que a questão da comunicação e de suas possíveis distorções, de um ponto 
de vista habermasiano, também seria importante. A ação no mundo situa-se 
numa perspectiva ético-moral, ligada portanto à pretensão de uma vida boa. 
Por fim, podemos incluir a questão do agir expressivo, fundamental para 
entender como o sujeito se situa diante dos outros, reforçando a ideia de 
que a subjetividade é, na realidade, uma intersubjetividade, ou seja, aquilo 
que fazemos é com os outros e para os outros.
Num mundo em que predomina a lógica do capital financeiro, que 
exige um crescimento sem fim, impondo metas cada vez mais absurdas 
e defendendo a ideologia de que os homens são seres com capacidade de 
superação infinita, observamos a partir de nossas pesquisas várias formas de 
adoecimento psíquico no trabalho. Na ânsia de corresponder às exigências 
de que só se é bem-sucedido quando se atinge cada vez mais metas agres-
sivas e rigorosas, observamos que estes sujeitos se tornam visíveis não pelo 
sucesso, mas pelo preço que passam a pagar, ou seja, pela expressão dos seus 
sofrimentos patogênicos. Por outro lado, há sujeitos agindo em cenários mais 
propícios para o desenvolvimento da saúde, o que torna possível a reflexão 
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e a transformação. É nesse sentido que se pode pensar a questão do prazer 
no trabalho e a emancipação daqueles que trabalham.
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Resumo
A subjetividade no trabalho em questão
Neste artigo a subjetividade no trabalho e a centralidade do trabalho na construção 
do sujeito, da sua saúde mental e sua identidade são tratadas à luz da psicodinâmica 
do trabalho. Destaca-se, a partir de pesquisas e ações desenvolvidas, a invisibilidade, 
decorrente do que não é reconhecido pelos outros e pela hierarquia nas organizações. 
Diferentes maneiras de organizar o trabalho privilegiaram visões distintas e parciais das 
pessoas, desconsiderando a existência do sujeito. O conceito da racionalidade pathica 
distingue o sujeito de um operador, sendo a vivência, neste caso, central. O sujeito 
busca o sentido num processo de realização de si no interior de um coletivo, é aquele 
que zela para que os resultados do trabalho sejam os melhores possíveis.
Palavras-chave: Subjetividade e trabalho; Psicodinâmica do trabalho; Organização do 
trabalho; Saúde mental; Sofrimento.
Abstract
Subjectivity at work in question
This paper examines the question of subjectivity in the workplace and the central role 
of work in the construction of subjects and their mental health, in light of advances in 
the psychodynamics of work. One of the most recurrent issues appearing in studies and 
initiatives in this field is the invisibility of work, the lack of recognition from others, 
especially corporate hierarchies. Different ways of organizing work privilege distinct 
and partial views of people, ignoring the existence of the subject. The concept of pathic 
rationality helps distinguish a view of the worker’s subjectivity in which lived experi-
ence is central. The subject looks for meaning in a process of self-realization within a 
collective, striving to ensure that the end results of the work are as good as possible.
Keywords: Subjectivity and work; Psychodynamics of work; Work organization; Mental 
health; Suffering.
Texto recebido e aprovado em 
30/3/2011.
Laerte Idal Sznelwar é professor 
doutor do Departamento de 
Engenharia de Produção da Es-
cola Politécnica da USP. E-mail: 
<laertesz@usp.br>.
Seiji Uchida é professor doutor 
da Fundação Getulio Vargas. 
E-mail: <seiji.uchida@fgv.br>.
Selma Lancman é professora 
titular do Departamento de 
Fisioterapia, Fonoaudiologia e 
Terapia Ocupacional da FM-
USP. E-mail: <lancman@usp.br>.
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