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Família e Famílias - Práticas Sociais e Conversações Contemporâneas

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Livro: Família e Famílias – Práticas sociais e conversações contemporâneas 
 
NUMESS - Núcleo Mineiro de Estudos e Pesquisa em Serviço Social em parceria com 
 Ciclo CEAP – Centro de Estudos Avançados de Psicologia 
www.cicloceap.com.br 
Livro: Família e Famílias - Práticas sociais e 
conversações contemporâneas 
 
 
 
 
Apresentação 
 
Esse livro é um produto acadêmico de diversos enfoques sobre o 
estudo da família na sociedade contemporânea. 
 
Preocupação dos autores: divulgar e transmitir conhecimentos e 
investigações sociais sobre o tema para ampliar o debate interdisciplinar 
sobre o assunto, pois a família é histórica, afeta e é afetada pelas 
mudanças sociais, políticas e econômicas, estando em constantes crises e 
transformações. 
 
A publicação foi dividida em partes: 
 
1- Família, Política Social e Serviço Social: práticas e concepções. 
2- Família, Cuidado e Demandas Sociais: perspectivas críticas 
3- Família, Trabalho e Direitos Sociais: cenas contemporâneas 
 
Prefácio 
 
Este livro é expressão dos debates que se vem travando em torno do 
tema família e das relações que esta estruturou ao longo do tempo com o 
trabalho e a política social, incluindo-se aí o serviço social. 
 
Cabe investigar as fronteiras entre o público e o privado. Assim, é 
procedente investigar o papel das famílias nas tradições antiga e 
moderna para buscar os vestígios que modelaram o perfil contemporâneo 
de família. 
 
Livro: Família e Famílias – Práticas sociais e conversações contemporâneas 
 
NUMESS - Núcleo Mineiro de Estudos e Pesquisa em Serviço Social em parceria com 
 Ciclo CEAP – Centro de Estudos Avançados de Psicologia 
www.cicloceap.com.br 
A distinção privado-público não foi imune às contradições que o 
mundo moderno estruturou nem às mudanças que se operaram nas 
mentalidades e nos planos social e político. Daí, vem a tona o 
problema: é possível identificar uma equivalência entre o público e o 
privado? Se sim, como especificá-la? Se não, quais as alternativas e/ou os 
obstáculos que a ela se interpõem? 
 
Há que se observar que a equivalência entre o público e o privado 
foi modulada em um momento da história em que o privado se 
potenciou na direção do público → tendência que ganhou expressão no 
Brasil no final dos anos 1980, quando a mulher entrou na cena 
pública sob a mediação do trabalho e produziu um abalo nos 
alicerces da família patriarcal, insinuando certa igualdade entre os 
sexos. Tal processo se desenvolveu no bojo do movimento pela 
democratização do país, quando muitos dos temas até então de cunho 
privado foram submetidos à luz pública e aí requalificados a partir de uma 
dialética que configurou uma “relativa autonomia do privado”. 
 
No final dos anos 1990, essa dialética foi bloqueada pela 
mundialização do capital, que submeteu o político ao econômico. Tal 
fato veio atribuir ao privado funções antes públicas, como a proteção 
social. Neste processo, a relação família-trabalho também é 
reconfigurada. Inserida nesta rede complexa de relações, a família é 
obrigada a ultrapassar as suas funções tradicionais e a redefinir o espaço 
privado: ela é responsabilizada pelo resultado de programas públicos, 
sendo implicada na relação custo-benefício; além de ser obrigada a a 
avalizar as ações fragmentadas de agentes sociais que disputam o campo 
do social na junção privado-público, com promessas de integração social e 
melhorias de vida. 
 
Pode-se dizer que a família e o espaço privado são atravessados 
por ações que, segmentadas e contraditórias, absorvem as 
experiências populares, subtraindo-lhes as iniciativas e definindo, a 
partir daí, novos modos de intervenção e controle. Nestes registros, a 
noção do público como lugar do político se esvazia e se dobra a meros 
agenciamentos técnicos e a novas estratégias de relacionamento com o 
público. 
 
 
 
 
 
 
 
Livro: Família e Famílias – Práticas sociais e conversações contemporâneas 
 
NUMESS - Núcleo Mineiro de Estudos e Pesquisa em Serviço Social em parceria com 
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Parte I 
Família, Política e Serviço Social: Práticas e 
Concepções 
 
 
 
Texto 1: trata das concepções situadas na base do debte sobre as 
relações familiares e a assistencia social e das exigências 
colocadas aos assistentes sociais na lida com a família 
 
Família e Assistencia Social: 
Subsídios para o Debate do Trabalho dos Assistentes 
Sociais 
 
Regina Célia Tamaso Mioto 
 
O debate contemporâneo sobre a matricialidade sociofamiliar na política 
social reaviva o debate sobre a família. Este foi secundarizado por 
muito tempo no Serviço Social ante as novas exigências teórico-
metodológicas impostas para a consolidação da profissão nos marcos 
da teoria social crítica diante da pecha do conservadorismo 
profissional. Por isso, neste momento, impõem-se demarcar qual é o foco 
do debate sobre a família que interessa ao Serviço Social e oferecer 
alguns parâmetros para subsidiar a ação profissional no campo da 
política social, especialmente da política de assistencia social que tem por 
diretriz a matricialidade sociofamiliar. 
 
É a família que “cobre as insuficiências das políticas públicas, ou 
seja, longe de ser um “refúgio num mundo sem coração, é 
atravessada pela questão social (Campos: 2008). 
 
Ponto de partida deste trabalho: o reconhecimento da família como 
espaço complexo, que se constrói e se reconstrói histórica e 
cotidianamente por meio das relações e negociações que se estabelecem 
entre seus membros e entre estes e outras esferas da sociedade 
tais como Estado, trabalho e mercado. Reconhece-se que ela é 
capaz de produzir subjetividades, além de ser uma unidade de 
cuidado e de redistribuição interna de recursos, com papel importante na 
estruturação da sociedade em seus aspectos sociais, políticos e 
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econômicos. Logo, não é apenas uma construção privada, mas 
também pública. 
(Mioto, 2008; Campos; 2004). 
 
Esse ponto de partida é a base para delimitar o foco de interesse do 
Serviço Social sobre a temática da família: entendê-la na sua dimensão 
simbólica, multiplicidade e organização subsidia a compreensão sobre 
o lugar que lhe é atribuído na configuração da proteção social de uma 
sociedade, em determinado momento histórico. Como e quais famílias são 
incorporadas à política social; em que políticas e os quais os impactos que 
estas políticas têm nas suas vidas. 
 
A forma de gerir e distribuir os riscos sociais entre Estado, 
mercado e família faz diferença nas condições de vida de uma 
população (Esping- Andersen: 2000). 
 
1- Família e assistencia social: concepções 
 
A família, na história da humanidade, sempre foi uma instância 
importante de proteção social. Especialmente pelo trabalho não pago da 
mulher, constituiu-se em um dos pilares estruturantes do bem-estar 
social, em muitos países. Vê-se que, ao longo da história, se 
construíram diferentes formas de pensar a família no contexto da 
proteção social. 
 
Atualmente na sociedade brasileira, onde estão em disputa 
diferentes projetos de proteção social, o debate sobre o lugar da 
família na política social não pode ser descurado, especialmentequando 
se trata da política de assistencia social. O ponto de partida deste é 
a identificação das duas tendências ou concepções que subjazem à 
compreensão da relação família e assistencia social e interferem nas 
formas de encaminhamento da própria política: uma entende a 
família e assistencia social como ajuda pública e a outra entende esta 
relação como direito de cidadania. 
 
1.1 – A assistencia social como ajuda pública 
 
A relação entre assistência social e família, entendida como ajuda pública, 
ancora-se na idéia de que a família é a principal instância de proteção 
social. A assistência social se estabelece quando a família fracassa 
na provisão de bem-estar a seus membros. Assim, família e 
mercado são entendidos como canais naturais de provisão de bem-
estar. Somente quando estes falham é que há a intervenção pública 
temporária, ou seja: o bem-estar dos indivíduos fica condicionado às 
possibilidades de provisão de sua família. Incide nesta concepção a 
prevalência do princípio da subsidiariedade, constituinte da Doutrina 
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Social da Igreja (não por acaso), que consiste na centralidade que 
as famílias, comunidades, associações (tidas como instâncias 
menores), tem na provisão de bem-estar, prevendo a 
responsabilidade pública e coletiva apenas quando se esgota a 
capacidade dessas menores instâncias (Off, 1994; Campos, 2004). 
 
Ter essa compreensão sobre a divisão de responsabilidades da 
proteção social, significa conceber a relação entre assistencia social e 
família mediada pela idéia de falência, medida pela incapacidade em 
buscar, gerir e otimizar recursos que implica a sua relação com a 
esfera do Trabalho. Incapacidade também em desenvolver adequadas 
estratégias de sobrevivencia e convivência, em alterar 
comportamentos e estilos de vida, além de não se articular em redes de 
solidariedade. Nesse contexto, se estabelece a premissa que 
assistencia social deve ocorrer sob a forma de compensação e ter 
um caráter temporário. 
 
Atualmente, como indica Campos ( 2004), a falta de integração em 
uma sociabilidade familiar ou a imersão em uma sociabilidade tida 
como “problemática”, são entendidas como fatores de risco e as torna 
objeto de políticas sociais.Paralelamente, aquelas sociabilidades 
familiares que mantém a força da solidariedade e conseguem manter 
sua capacidade de proteção social, são estimuladas à reciprocidade e à 
autoprodução de serviços vinculados ao mercado. São alimentadas 
ideologicamente para se defenderem dos valores antifamiliares, 
confirmando um discurso oficial de valorização das redes familiares. 
Nessa conjuntura, os apoios informais tem papel preponderante e 
as redes familiares são amplamente reconhecidas. Essa premissa, 
porém, obscurece o fato de que pode haver limites para o 
comportamento adaptativo das pessoas pobres e não considera o 
diferencial de impacto das crises econômicas sobre os vários membros 
da família. A incidência cada vez maior da pobreza tem redundado numa 
decadência das chamadas “redes” ou “capital social” sobre o qual 
se estrutura parte das estratégias familiares de sobrevivência. Logo, 
conclui-se que, hoje, seria mais apropriado falar em “pobreza de 
recursos” das famílias do que em “recursos da pobreza”. (Mioto; Campos. 
Lima, 2006). 
 
Essa concepção foi delineada em meio ao desenvolvimento capitalista e ao 
liberalismo econômico (sec. XVIII e XIX) quando, com a separação entre 
casa e empresa, se conformou uma nova forma de família (nuclear 
burguesa). Então, foi delegada à família a responsabilidade pela 
reprodução social e também os problemas e os conflitos gerados na esfera 
da produção. A insuficiência de recursos para a provisão de bem-estar 
passou a ser tratada como “caso” ou “problema” de família. Essa é a 
concepção que se revitaliza no bojo do neoliberalismo, com a proposição 
do pluralismo de bem-estar social (Pereira, 2001; Mioto, 2008). 
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Proposição que se realiza num contexto em que se está mais distante da 
possibilidade de a família ter recursos suficientes para responder às 
necessidades de seus membros e às expectativas que lhes são 
colocadas (Martins, 1995; Mioto, 2004), questão crucial na análise da 
impossibilidade real dessa “revivencia” da família como instância principal 
de proteção social. 
 
1.2- A assistência social assumida como direito de cidadania 
 
Segunda concepção que pauta o debate da relação família e 
assistencia social no campo dos direitos sociais, da cidadania social. 
Para Esping-Andersen (2000), isso só ocorre quando o Estado se constitui 
na principal instância de provisão de bem – estar porque só 
quando ele se torna elemento ativo no ordenamento das relações 
sociais é que se torna possível a autonomia dos indivíduos. Assim, 
a cidadania é atingida quando os direitos sociais, na política e na 
legalidade, se tornam invioláveis e universais. Isso ocorre quando há 
a desmercadorização do indivíduo e de sua família em relação ao 
mercado, ou seja: quando a prestação de serviço é concebida como 
direito ou quando o indivíduo pode manter-se sem depender do 
mercado. O autor postula também que a cidadania social não pode 
estar apenas vinculada ao processo de desmercadorização, mas também a 
um processo de desfamiliarização, ou seja: da necessidade de haver um 
abrandamento da responsabilidade familiar em relação à provisão de 
bem-estar social. 
 
Nessa perspectiva, rompe-se com a idéia que a assistencia social só deve 
ocorrer no caso da falência das famílias e ela passa a ser pensada em 
termos de socializar os custos enfrentados pela família, sem esperar que 
sua capacidade se esgote. Nesta direção, Saraceno ( 1996) afirma 
que a presença do Estado na garantia dos direitos sociais torna 
possível a autonomia dos indivíduos em relação à autoridade familiar 
e da família em relação à parentela e à comunidade. 
No escopo desse alinhamento, vem o debate sobre a pertinência de 
tomar a família como unidade de referência/sujeito destinatário da 
política social, considerando alguns fatores: incapacidade de a política 
social abarcar a diversidade de famílias existentes; a política social, 
agregada a outras políticas, a uma cultura de especialistas, tende a ter 
forte impacto no processo de normatização da vida familiar e se 
constitui vetor importante de controle do Estado sobre a família. Além 
disso, os estudos feministas tem demonstrado que a política social 
tende a reforçar desigualdades e hierarquias culturalmente 
consolidadas, dentre as quais se destacam as de gênero, particularmente 
no âmbito dos programas de transferência de renda destinados à família 
(Parela, 2001; Gomes, 2000). 
 
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A crítica mais contundenteà afirmação da família como referência 
das políticas públicas, hoje, está associada à regressão da 
participação do Estado Social na provisão de bem-estar, ou seja: 
desvia da rota da garantia dos direitos sociais através da políticas 
públicas universalizantes e entra na rota da focalização das políticas 
nos segmentos mais pauperizados da população; fortalece o mercado 
enquanto instância de provisão de bem-estar e aposta na organização da 
sociedade civil como provedora. Nesta configuração, a família é chamada 
a reincorporar riscos sociais, retrocedendo assim a cidadania social. 
 
Quando se assume a Assistência social como direito de cidadania, 
considera-se que o acesso dos indivíduos a ela não está 
prioritariamente vinculado às condições de sua família, mas a sua 
própria condição. Desvincula-se da idéia de falência da família na 
provisão de bem-estar. Quando a política é pensada no sentido de 
“socializar”antecipadamente os custos enfrentados pela família, sem 
esperar que sua capacidade se esgote (Campos; Mioto, 3002). 
 
2 – A família na política de assistencia social brasileira: 
disputa entre as diferentes concepções. 
 
Essas formas de entender a relação família e proteção social estão 
presentes tanto no senso comum quanto nos formuladores e 
executores de política social e alinham-se a projetos societários 
diferentes. No Brasil, a família segundo Carvalho e Almeida (2003), 
vem exercendo o papel de amortecedor das crises do país, 
especialmente após os anos 1990. Apesar do baixo salário e da 
inconstância dos serviços públicos, ela tem viabilizado a reprodução 
social por meio da solidariedade e de práticas dos grupos 
domésticos. Então, a assistencia social está sendo construída na 
tensão entre as duas concepções apontadas. Essa tensão está 
presente na Loas e intensificou-se no processo de implantação dos 
programas de transferência de renda, na concepção do SUAS e nos 
processos de implementação deste Sistema. 
 
Essa tensão pode ser verificada no artigo 2, item V da Loas, que afirma “a 
garantia de um salário mínimo de benefício mensal à pessoa portadora de 
deficiência e ao idoso que comprovem não possuir meios de prover a 
própria manutenção ou tê-la provida pela sua família ( grifo 
nosso). Isso é reafirmado no artigo 20, que explica quem é a 
família e a renda para acesso ao benefício. A tensão também se 
expressa entre necessidades e mínimos sociais, dizendo que a 
assistencia social se realiza de forma integrada com as políticas 
setoriais, visando o enfrentamento da pobreza, à garantia dos 
mínimoa sociais, ao provimento de condições para atender às 
contingências sociais e à universalização de direitos. A tensão 
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aumenta quando eles se vinculam às famílias em situação de 
vulnerabilidade social. Ainda deve ser considerado que o acesso a 
esse direito vai ocorrer por meio de programas de transferência de 
renda e não como direito assegurado na Loas. Nesse processo 
contraditório, avança-se com a formulação, estruturação e 
implantação do SUAS, em que as tensões se multiplicam entre a 
afirmação da assistencia social como direito de cidadania e a afirmação da 
responsabilidade da família na provisão de bem-estar social. 
 
3 - O trabalho dos assistentes sociais: uma questão a ser 
debatida 
 
Partindo da existência de um projeto ético-político no campo de 
Serviço Social, espera-se que a competência ético-política dos 
Assistentes Sociais não fique restrita à vontade política e à adesão 
a valores. E sim se afirme mediante a capacidade dos profissionais 
em torná-los concretos por meio da apreensão das dimensões ética, 
política, intelectual e prática. Isso implica no desenvolvimento de ações 
estratégicas diante das condições objetivas da realidade, a fim de ampliar 
os limites da cidadania inscrita na sociedade capitalista atual. Implica num 
constante processo de tencionamento a favor da construção da política de 
assistencia social como direito de cidadania, buscando responder à 
orientação do Código de Ética. 
 
Diante disso, ressalta-se que, quando se fala em trabalho com 
família no campo da política social, postula-se a realização de dois 
movimentos: 
 
Primeiro: pensar a política de assistencia social como campo de 
tensões entre projetos distintos, alinhados a projetos societários 
diferentes.Embora a referida política tenha encetado um avanço, ela 
ainda não tem consolidada a inserção da família na perspectiva do 
direito. Coexistem perspectivas antagônicas de inclusão da família na 
política de assistencia social e essas se expressam no texto legal, nas 
diretrizes e nos encaminhamentos da gestão, e se materializam nos 
contextos institucionais. Logo, a identificação dos projetos em disputa 
desde o texto da lei até as posturas e atitudes de gestores e 
profissionais no cotidiano dos programas e serviços é elemento 
fundamental para a orientação de qualquer trabalho. 
 
Para tanto, exige - se conhecimento sobre as concepções postas em 
disputa e como elas se expressam no cotidiano do trabalho profissional. 
Isso demanda qualificação profissional nas suas dimensões teórica, ética 
e técnica para que se permita o diálogo com as diretrizes, 
normativas e orientações oficiais relativas à política de assistencia 
social, e possibilite o encaminhamento consciente e responsável das 
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ações profissionais. Em suma, a possibilidade de tencionar a política de 
assistencia social como direito de cidadania e fazer frente à tendência 
hegemônica da assistência social como ajuda pública só é possível 
por meio da percepção de que a política social não se constitui um bloco 
monolítico. O diálogo entre o profissional e as demandas que lhe são 
colocadas pelo arcabouço institucional da política só pode ser 
realizado a partir da formação profissional/projeto profissional. 
 
É a formação que vai permitir o distanciamento necessário para 
identificar as disputas em pauta, particularmente o papel que está 
sendo atribuído à família na proteção social, e decidir sobre a 
orientação de suas ações. Se o profissional deixa de estabelecer 
este diálogo, ele renuncia à própria profissionalidade, pois toda ação 
profissional implica em consciencia, responsabilidade e autonomia. 
Essa é a condição para que os assistentes sociais não continuem 
exercendo apenas o papel de executor terminal de política social. 
 
O segundo movimento consiste no redimensionamento do trabalho 
com famílias com base no pensamento social crítico, pautado em 
dois aspectos: a interpretação das demandas e o alcance e a 
direcionalidade das ações profissionais. O primeiro refere-se à 
interpretação das demandas postas pelas famílias aos assistentes 
sociais, entendidas como expressões de necessidades humanas 
básicas não satisfeitas decorrentes da desigualdade social.Essa 
premissa exige ultrapassar a lógica do tratamento das demandas como 
“problemas ou casos de família”e não admite que se vincule a satisfação 
das necessidades sociais à competência ou incompetência individual das 
famílias. Assim, compreende-se os processos familiares como uma 
construção singular, arquitetada na família, no entrecruzamento de 
múltiplas relações que condicionam e definem a dinâmica familiar e a sua 
“estrutura de proteção”. Articular ações profissionais a partir dessa 
perspectiva, oposta à lógica da responsabilização da família, implica no 
rompimento com a tradição ideológica que ainda marca o exercício 
profissional, pautada na identificação do problema e na busca de solução 
para eles. Portanto, não em torno das necessidades da família ou do 
conhecimento sobre qual é a “estrutura de proteção” para atender a tais 
necessidades em face das expectativas que se tem para a família. 
 
O outro aspecto relaciona-se ao alcance e à direcionalidade da ação 
profissional. Ao postular que as famílias apresentam demandas que 
extrapolam as suas possibilidades de respostas e cujas soluções se 
encontram fora delas, a ação profissional não pode direcionar-se apenas a 
ela enquanto sujeito singular. Entende-se que os problemas de 
proteção social não estão restritos às famílias, e a solução desses 
extrapola as suas possibilidades, pois está condicionada ao acesso à 
renda e ao usufruto de bens e serviços de caráter universal e de 
qualidade. Tal redimensionamento impõe uma nova lógica ao trabalho 
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com famílias na perspectiva dos Direitos, entendidos como caminhos para 
a concretização da cidadania por meio e políticas sociais de caráter 
universal orientadas para o atendimento das necessidades humanas e 
tendo o Estado como instancia responsável por essa garantia e atenção. 
Nessa perspectiva, as ações profissionais passam a incidir em 
diferentes níveis de atenção. Esses níveis seriam: proposição, 
articulação e avaliação de políticas sociais, organização e articulação 
de serviços e atendimentos a situações singulares. A atuação nesses 
níveis de atenção requer o encaminhamento de ações profissionais que se 
articulam em três processos: processos político- organizativos; processos 
de gestão e planejamento; e processos socioassistenciais. (Mioto; 
Nogueira, 2006; Mioto; Lima, 200). 
 
Trabalhar com famílias significa recorrer à categoria da totalidade e de 
integralidade como possibilidade de compreensão do objeto de trabalho. 
Para o desenvolvimento do trabalho com famílias é necessário 
conhecimento sobre os sujeitos das ações profissionais que seriam: 
as famílias, as instituições e os sujeitos organizados ou sociedade 
civil (conselhos de direitos, movimentos sociais, etc). É necessário 
clara distinção entre os objetivos das ações , as formas de 
abordagem dos sujeitos da ação e dos instrumentos técnico-
operativo. 
 
4 - A modo de conclusão 
 
Essa discussão configura a complexidade e contraditoriedade existentes 
em torno da questão da família como referência da política de assistencia 
social. Indica também que, ao tratá-la, estão sendo colocadas em 
movimento diferentes concepções sobre famílias e suas relações com 
outras esferas da sociedade, como Estado, Mercado e Trabalho. Dessas 
diferentes formas de concepções nascem diferentes formas de formular e 
executar as políticas públicas. 
 
Trabalhar com a idéia de matricialidade sociofamiliar não significa 
atender à lógica da cidadania e do Direito, como está na lei. A 
centralidade da família abre espaço para incrementar práticas que 
promovam a sua proteção e participação cidadã ou, ao inverso, que 
reforcem a lógica do controle do Estado sobre as famílias, por meio da 
reiteração de práticas de caráter disciplinador, tão presentes na 
história do Serviço Social e da assistencia social. 
 
 
 
 
 
 
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Texto 2: Problematiza elementos em torno da centralidade da 
família e da mulher no âmbito da proteção social. 
 
Famílias e Serviço Social – Algumas reflexões para o 
debate 
Rita de Cássia Santos Freitas 
 
Cenira Duarte Braga 
Nívea Valença Barros 
 
Este texto não traz respostas, pois não é conclusivo Ele foi 
elaborado a partir das experiências das autoras como professoras em 
disciplinas que versam sobre a família e redes, crianças e adolescentes, 
gênero e cultura. 
 
Famílias – existe um tema mais familiar? 
 
Falar sobre famílias significa pensá-las em suas relações com a sociedade 
mais ampla onde se inserem e nas formas como estas relações se 
atualizam na vida diária das pessoas que lhe dão concretude. Não 
podemos esquecer que a família faz parte de nossa vida privada. Nós, 
assistentes sociais, temos nossas famílias (e modelos) e trabalhamos com 
elas – em sua diversidade. 
 
Pensar a família na sociedade contemporânea significa considerar que 
vivemos num mundo globalizado, onde a reestruturação do trabalho e a 
retração do Estado na área social são realidades com que temos de lidar. 
As transformações demográficas constituem-se em outro fator para 
se pensar família hoje. Temos uma família transformada em seus 
elementos, em suas ocupações, nas formas de relacionamento, que 
aparecem nas análises “tradicionais” como caracterizando a fragmentação, 
crise ou um suposto fim das realidades familiares. Encontramos no 
dia a dia uma multiplicidade de tipos de família. 
 
O mundo familiar mostra-se, na realidade “vivida”, com uma variedade 
de formas, de organização, de crenças, valores e práticas. 
 
É localizando a família na complexidade da sociedade moderna, tendo por 
pressuposto sua pluralidade e a perspectiva de que os sujeitos sociais 
são sujeitos em transformação, que se inicia este texto. Sem negar 
a importância do fator econômico, enfatiza-se também a dimensão do 
simbólico e do cultural como dimensões importantes para se discutir 
família. Por isso, é fundamental a atenção para a formação histórica 
brasileira para conhecer essa realidade. 
 
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Primeiro é necessário se definir o que se pode entender sobre o termo: 
família. O que significa? O que caracteriza? São as relações de 
parentesco, os laços sanguíneos que a definem? Ou a proximidade 
física, a convivência entre as pessoas? 
 
As relações de parentesco são resultado da combinação de três relações 
básicas: a descendência entre pais e filhos; a consangüinidade entre 
irmãos; e a afinidade a partir do casamento, sendo a família 
considerada como grupo social por meio do qual se realizam esses 
vínculos. Contudo, tem-se convivido com realidades diferenciadas que 
conformam a constituição do fenômeno família para além das relações de 
parentesco. Pensar família hoje pressupõe seu entendimento enquanto um 
fenômeno que abrange as mais diferentes realidades. O indivíduo está 
envolvido em redes de significado( Geertz, 1997). A vida social é 
organizada a partir de modelos, de regras culturalmente elaboradas, e é a 
partir destes que os indivíduos vivem sua vida cotidianamente e se 
relacionam uns com os outros. Mas estes modelos não são estáticos. 
Eunice Durhan (1983), ao estudar famílias argumentava que modelos são 
mutáveis. Por isso mesmo, a existência de inúmeras exceções não 
significava (como não significa) a contestação da regra. 
Representava, sim, sua “aplicação maleável”para permitir a solução dos 
problemas cotidianos. 
 
Esse modelo da família que conhecemos tem sua história recente. 
Conforme P. Ariès (1981), no início do século XVIII é que começou a se 
desenhar o perfil de família que hoje conhecemos e aprendemos a pensar 
como universal, sem atentar para a sua construção social. A constituição 
desta família respondia às necessidades de um dado momento 
histórico. A importância dada à criança e a constituição de um novo 
papel da mulher, dando-lhe certo poder, são as molas mestras 
para a construção desses novos sujeitos. 
 
Essa é uma realidade moderna. O surgimento da família moderna 
é associado à separação entre o mundo privado e público, sendo o 
privado (a intimidade) da ordem dos sentimentos. As obras de Gilberto 
Freyre retratam a crescente privatização da vida doméstica, ao 
estudar a sociedade brasileira. Em Sobrados e Mocambos (2006), 
assiste-se ao processo de recolhimento da família à casa; a separação 
entre o mundo público e privado – a rua e a casa. As mudanças na família 
eram vistas como transformação da família patriarcal extensa e da 
qual ter-se-ia “saudade”, demonstrando, ainda hoje, a força desse 
símbolo. 
 
Uma das coisas que se tem aprendido é a necessidade de estabelecer 
diálogos além das fronteiras do serviço social, buscando a articulação com 
outros saberes. Há a necessidade de se voltar aos estudos sobre a 
realidade brasileira, sua história e cultura. Nesse sentido, o recurso à 
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demografia, à antropologia e à história é fundamental. Foi a partir deste 
que se pôde ir conhecendo que, mesmo no período colonial, a casa grande 
e a senzala não eram as únicas realidades possíveis – como viviam os 
brancos pobres neste período? E as famílias escravas, como se 
constituíam? E as relações entre brancos, escravos e índios? O 
recurso à antropologia é central para o assistente social. A 
perspectiva de compreender a família como uma realidade em rede e 
não nuclearizada deve-se estudos antropológicos. 
 
Enfatiza-se a importância de não esquecer os sujeitos em suas análises, 
mas também a necessidade de situar esses sujeitos historicamente. 
Desnaturalizar algo tão familiar é um salto fundamental para o 
assistente social, para que ele consiga lidar com realidades 
diferenciadas com um olhar que busque o conhecimento, não o 
julgamento e o preconceito – que habita dentro de nós. 
 
Afonso e Filgueiras (1995) já apontavam a existência de uma 
diversidade de arranjos familiares existentes, bem como a 
centralidade da família na vida das crianças e dos adolescentes. A 
partir da constatação dessa diversidade é que se pode escapar aos 
perigos de uma naturalização da família, entendendo-a enquanto um 
“grupo social cujos movimentos de organização – desorganização – 
reorganização mantêm estreita relação com o contexto sócio-cultural 
(Op. Cit., 06). É importante enfatizar essa diversidade de respostas 
possíveis para se poder escapar de uma leitura dicotomizante e 
empobrecedora. É fundamental sair da polaridade família estruturada x 
família desestruturada. 
 
É no meio dessa diversidade que se trabalha; é a partir dessas 
leituras que se vai definir família enquanto um processo de articulação 
de diferentes trajetórias de vida, onde se entrecruzam as relações de 
classe, gênero, etnia e geração. Além do lugar da reprodução 
biológica – é “o lugar onde se entrecruzam as relações sociais fundadas 
na diferença dos sexos e nas relações de filiação, de aliança e 
coabitação”(Lefaucheur, 1991, p. 479). 
 
A diversidade talvez seja uma das principais características humanas. É 
essa noção do outro”que constitui a base da vida social. Esta só é possível 
se se compartilhar um mínimo de valores comuns. A vida em sociedade 
demanda a construção de normas de convivência, de modelos de agir e 
pensar, de símbolos onde nos reconheçamos. Esses “modelos”de 
convivência e relacionamento esbarram na realidade concreta onde as 
pessoas vivem e sentem ( e para os quais tem de encontrar respostas e 
criar estratégias cotidianamente). Se hoje o modelo hegemônico é a 
família nuclear, não se pode negar que o recurso às avós, aos parentes 
e aos vizinhos continua sendo prática cotidiana, principalmente em 
nas classes populares - fazendo emergir de novo uma família extensa, 
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ainda que as pessoas não convivam na mesma casa ( Sarti, 2003). E esta 
é uma realidade não só das classes trabalhadoras. Alguns textos clássicos 
mostram como as famílias pobres se aglutinam em torno de um 
eixo central moral onde as mulheres ocupam posição central. É uma 
realidade que não pode ser vista como “desviante”, mas sim como a 
construção possível das relações familiares. Dessa forma, é 
fundamental desnaturalizar essas relações, tentando melhor conhecer 
esse fenômeno tão familiar e tão diverso. 
 
A coletivização no cuidado das crianças vem caracterizar o que Cláudia 
Fonseca ( 1990 e 2003) chama de “circulação de crianças”- um conceito 
que se considera central para o estudo das famílias brasileiras. Esse 
fenômeno pode ser entendido relacionado aos rearranjos conjugais, 
mas não só. Frente às grandes dificuldades econômicas, a internação 
dos filhos em escolas particulares ou a sua circulação entre amigos 
ou parentes aparece como uma alternativa importante em vários 
segmentos de classe. 
 
O fenômeno da circulação de crianças é central para discutirmos a 
família brasileira, pois faz parte da “cultura familiar”. 
 
A circulação de crianças: conceito fundamental para pensar a 
família brasileira 
 
A expressão “circulação de crianças” denomina a transferência e/ou 
partilha de responsabilidade de uma criança entre um adulto e outro. 
Interpretar esse fenômeno como abandono é descaracterizar o 
sentido dessa palavra; não considerando as questões que motivam essa 
dinâmica e desconsiderando as diferenças de outras realidades sociais. 
 
A circulação de crianças aparece como forma de demonstrar que a 
hegemonia do modelo de família moderno não se exerce da mesma 
forma em todas as camadas sociais. Este não está ao alcance de 
todos (material e simbolicamente falando). Cynthia Sarti afirma que 
nos tempos atuais, evidencia-se o conflito gerado pelo abandono das 
tradições. Fatos como amor, casamento, família, sexualidade, 
trabalho, que antes eram vividos a partir de papéis preestabelecidos, 
passaram a ser concebidos como parte de um projeto em que a 
individualidade adquire uma importância social cada vez maior(Sarti,2003), e onde nada pode estar previamente assegurado. No 
entanto, no universo cultural dos pobres, não estão dados os 
recursos simbólicos para a formulação desse projeto individual que 
pressupõe condições sociais específicas de educação e valores sociais, 
muitos dos quais alheios ao seu universo cultural. Ao invés de um projeto 
individualista moderno, é a tradição que se mantém como uma referência 
fundamental em suas exigências, já que: 
 
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 Pensam seu lugar no mundo a partir de uma lógica de 
reciprocidade de tipo tradicional em que o que conta 
decisivamente é a solidariedade dos laços de parentesco e de 
vizinhança com os quais viabilizam sua existência. Sua busca 
em serem modernos, ou seja, de usufruírem da possibilidade, 
dada por nossa época, de conceber e realizar projetos 
individuais, quando chega a ser formulada, torna-se uma 
busca frustrada, em que aparece o peso de sua subordinação 
social. (Sarti, 1995., p. 47) 
 
Como afirma a autora, as potencialidades do mundo contemporâneo são 
amplas, mas é árdua a tarefa de realizá-las. Não se pode pensar o 
universo simbólico dos pobres a partir de nosso próprio horizonte porque 
a família, para o pobre, não é a mesma que para a classe média. Família 
para o pobre é definida, segundo Cynthia Sarti, como aqueles em 
quem se pode confiar; não havendo status ou poder a ser 
transmitido. O que vai definir a extensão da família é a rede de obrigações 
construídas: “são da família aqueles com quem se pode contar, isto 
quer dizer, aqueles que retribuem ao que se dá, aqueles, portanto, 
para com quem se tem obrigações” (Sarti, 1994, p. 52). A família se 
define, assim, em torno de um eixo moral, onde a noção de 
obrigação sobrepõe-se à de parentesco. Assim, a circulação de 
crianças deveria ser vista enquanto um aspecto de organização 
diferenciada e não de “desorganização familiar”: “... a circulação de 
crianças..., seria apenas uma entre várias normalidades possíveis 
entre as práticas familiares na sociedade complexa atual” (Fonseca, 
2002, p. 56 – grifos nossos). 
 
A circulação envolve aspectos econômicos e culturais, sendo um das 
estratégias de sobrevivencia possíveis às nossas classes trabalhadoras. É 
dentro dessa experiência que ganham sentido as noções de parentesco e 
de relações familiares. Essas redes formadas por meio da circulação de 
crianças entre adultos – parentes ou não- não são harmônicas. 
Outra característica dessa prática é a formação de redes sociais em 
função da sobrevivencia a criança que, com isso, contribui para o 
fortalecimento de outras redes já existentes. 
 
Suely Gomes Costa (2002) traz para o debate a noção de “maternidade 
transferida” para se referir à forma como mulheres se atribuíram 
mútuas responsabilidades com a delegação de tarefas administrativas 
de suas casas a outras mulheres. Este é um fenômeno de longa duração 
histórica e pode ser localizado na circulação de crianças por outras casas, 
mas, principalmente, dentro das casas onde podemos encontrar a 
empregada, ou aquela pessoa que “da uma ajudazinha”. Outra realidade 
comum nas classes populares é como as irmãs mais velhas vão assumindo 
as atividades “típicas das mulheres” e passam a gerenciar a casa e os 
cuidados com os irmãos menores – não usufruindo da infância a que 
teriam direito, ao partilhar essas responsabilidades. 
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Como reflete Cláudia Fonseca, é fácil transformar crianças carentes 
em menores abandonados, culpabilizando seus pais. Ao projetar o 
ideal de uma infância inocente, muitas vezes denunciamos a 
exploração de crianças pobres. Não se tem o mesmo olhar contra 
a brutalidade cometida contra seus pais. Barros (2005) nos diz: “estas 
famílias, na maioria das vezes, estão sendo negligenciadas em termos 
de políticas públicas e também sofrem com o descaso com que são 
tratadas e com as injustiças geradas pela desigualdade social” (OP. Cit., p. 
217). O assistente social é um dos maiores notificadores da violência 
contra crianças e adolescentes. Mas, muitas vezes, as famílias acusadas 
de negligencia são extremamente negligenciadas. Cabe à família 
prover a proteção para criança e adolescente, diz a Constituição 
Federal (bem como o ECA). Mas ali diz também que essa é uma 
tarefa da família, da sociedade e do Estado. A quem denunciar a 
negligência sofrida por essas famílias? Como “enquadrar” o Estado que 
pode ser caracterizado como o principal agente perpetrador da violência – 
ao não possibilitar educação e saúde para as crianças e seus pais, por não 
oferecer políticas eficazes de transferência de renda, por não prover 
políticas culturais para essa população, por não garantir um padrão 
de sobrevivência mínimo e decente para cada cidadão e cidadã deste 
país? 
 
Dessa forma, a família moderna não deveria ser pensada enquanto 
uma meta a ser alcançada; sua ausência não significa um vácuo 
cultural; “a circulação de crianças é o exemplo de uma dinâmica 
alternativa; é indicação de formas familiares em grupos populares 
que longe de serem uma etapa anterior à família moderna, vem 
crescendo e se consolidando ao mesmo tempo que ela “( Fonseca, 
2002, p. 38 – grifo nosso). 
 
Assim, além de desnaturalizar a compreensão das diferentes 
realidades familiares, enfatiza-se a necessidade de conhecer mais 
proximamente a realidade das famílias brasileiras. 
 
Família hoje: diversidade e continuidades 
 
 No mundo novo em que vivemos, assistimos a mudança nos padrões de 
relacionamentos entre homens e mulheres que rebatem nas relações 
familiares. A posição das mulheres se alterou profundamente, uma vez 
que estão cada vez mais ocupando os espaços públicos, trabalhando e 
estudando mais – ainda que isso não tenha trazido transformações nas 
relações de gênero. Dizer que as mulheres estão mais no mundo 
público não significa dizer que elas tenham estado ausentes dele 
algum dia. As mulheres, principalmente as pobres, sempre 
trabalharam. A idéia recente do trabalho como emancipação é uma 
realidade mais das camadas médias. 
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A legislação sobre a família também mudou: o casamento não é 
mais o único mecanismo de reconhecimento legal das relações 
familiares. A Constituição Brasileira prevê como famílias a 
comunidade formada por qualquer um dos cônjuges e seus descendentes 
(art. 226). O reconhecimento se dá pela união formada pelo casamento, 
união estáve entre homem e mulher, incluindo a possibilidade da família 
monoparental – ainda está ausente o reconhecimento das relações 
homoafetivas. O ECA também define a família como uma 
comunidade “formada pelos pais ou qualquer deles e seus 
descendentes”. 
 
Hoje tem- se uma multiplicidade de tipos de organização familiar: o 
casal sem filhos, as famíliaschefiadas por mulheres; famílias 
extensas nas quais irmãos casados dividem a mesma casa; casais 
separados permanecem debaixo do mesmo teto; famílias formadas a 
partir de segundas uniões (famílias recombinadas). O reconhecimento 
de casais compostos por pessoas do mesmo sexo traz outro 
elemento revolucionador na definição das famílias modernas. 
 
Outra realidade que vem conquistando espaço é a discussão da 
paternidade. Em nossos campos de intervenção se tem aberto 
espaços para os homens participarem? Ou continuamos a utilizar 
visões generificadas dos papéis de homens e mulheres na família e não 
abrimos espaços nas instituições onde trabalhamos para que essa 
participação se dê de forma plena. A visão da masculinidade e dos 
homens como invulneráveis ainda percorre as falas de profissionais 
para os quais é difícil admitir que homens podem precisar de ajuda. 
 
Sente-se no dia a dia, e as análises de diversas disciplinas vêm 
comprovar essas impressões, o modo como a paternidade (e por 
conseqüência a masculinidade) vem sendo posta em questão e 
estabelecendo formas diferenciadas de exercício. Cresce o número 
de famílias em que os homens se afirmam como único chefe, 
exercendo o papel materno e paterno, entre os pobres, mas 
também nas camadas médias. O recurso a avós, tias ou amigos se faz 
necessário, estabelecendo uma rede de apoio mútuo. É impossível 
pensar a família brasileira sem atentar para a importância do 
parentesco e da vizinhança na vida das pessoas – uma realidade mais 
próxima das mulheres (socialmente predispostas a atuar em rede) do que 
dos homens. 
 
Trazer essa dimensão da realidade não quer dizer que não se enxergue a 
extrema vulnerabilidade das famílias monoparentais femininas expressa 
na chamada feminização da pobreza. É importante lembrar que a 
associação famílias monoparentais femininas e pobreza reforça o estigma 
de que as mulheres são menos capazes para cuidar de suas famílias 
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e de suas vidas sem a existência de um homem. Faller Vitale 
(2002) relembra que enquanto houver a associação maciça entre 
monoparentalidade e pobreza “(...) acaba por fortalecer muito mais a 
adjetivação dessas famílias como vulneráveis ou de risco do que como 
potencialmente autônomas” (Op.cit.,p.51). 
 
Outro dado interessante é a queda da taxa de fecundidade acompanhada 
de um aumento da expectativa de vida. Caminha junto com a queda da 
taxa de fecundidade a existência – principalmente nas camadas 
populares- da gravidez na adolescência. Ser mãe constitui a identidade 
para muitas mulheres jovens. A gravidez passa a fazer parte de seus 
cotidianos, podendo ser símbolo de status e de inserção na vida 
adulta. 
 
Nesse sentido, é interessante um comentário em relação ao 
surgimento dos chamados Estados- providência na Europa. Gisela Bock 
(1991) aponta como fundamental, na França, as reivindicações e os 
movimentos das mulheres. No pós-guerra, se assiste ao incremento 
do welfare state e para Nadine Lefaucheur (1991), este, ao entrar no 
lar, empurrou a dona de casa para fora dele, devido ao processo de 
coletivização do trabalho de reprodução. Conforme afirma 
Lefaucheur, os Estados do bem-estar permitiram às mulheres 
conhecer certa autonomia em relação aos homens e à instituição 
conjugal. Ajudou ainda na criação de postos de trabalho, públicos e 
privados. Onde os Estados-providência foram mais fortes, foi maior a 
autonomização das mulheres e menor feminização da pobreza. 
 
No processo de constituição de proteção social no Brasil, a realidade foi 
diferente. Enfatiza-se, com Góis (s/d), o fato de que a reprodução dos 
pobres, durante várias décadas da história brasileira, passou ao largo 
da intervenção estatal, pois sem a atenção dos mecanismos públicos a 
população engendrava sua sobrevivencia “no circuito das solidariedades 
sociais comunitárias e familiares”. Durante o Estado Novo – ao se 
consolidar uma política social mais interventiva – a família ocupou 
um papel de destaque. A importância dessas reflexões é mostrar, de 
um lado, como na construção da proteção social brasileira as 
solidariedades grupais se tornaram um elemento fundamental para a 
sobrevivencia das famílias pobres. De outro lado, tem-se o fato de 
que a família foi e é tomada como elemento de intervenção para 
as ações estatais. Recentemente, os programas de renda mínima 
recolocaram a família no centro da discussão sobre proteção social. 
Estes a tomam como alvo prioritário e como um “parceiro” preferencial 
para sua implementação. O Programa Bolsa-Família e o PETI ( 
Programa de Erradicação do Trabalho Infantil), direcionados para a 
infância carente, tinha na família o alvo prioritário de suas 
investidas. O Benefício de Prestação Continuada termina tendo a família 
como parâmetro para sua operacionalização, uma vez que o 
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recebimento de tal benefício está condicionado à renda de toda a 
família. Na área da saúde é que a família surge como elemento 
fundante. Tem-se o PSF (Programa de Saúde da Família) e, em alguns 
municípios, o PMF (Programa Médico de Família). A família aparece 
como uma dimensão fundamental para o estabelecimento e a 
implementação dessas políticas. 
 
Essa assistência, mais próxima e preventiva, pode significar uma efetiva 
melhora nas condições de vida da população atendida e tem gerado 
demandas entre os profissionais pela humanização no atendimento. 
Por outro lado, persistem as denúncias de falta de transparência, 
da continuidade de práticas clientelistas, de mau atendimento, etc. 
Na verdade, deve-se considerar a dialeticidade da realidade e ver, 
nesses processos, formas de continuidade e de rupturas com 
procedimentos e com a construção de novos protocolos de 
atendimento. O que parece inquestionável é a 
continuação/consolidação, hoje, da família como instância 
fundamental na elaboração das políticas sociais. Se as famílias estão 
sendo chamadas para uma “parceria” com o Estado, é importante pensar 
que uma parceria pressupõe uma relação de iguais e, nesse 
sentido, pode-se perguntar: como se dá essa participação da família, 
com que graus de autonomia? A centralidade da família trouxe como seu 
correlato a centralidade da figura feminina como interlocutora dessas 
políticas. 
 
Construindo uma conclusão: a centralidade da mulher nas políticas 
voltadas para a família A família tem um papel fundamental na hora da 
manutenção de seus membros. A proteção, o cuidar das crianças, dos 
idosos e doentes sempre se caracterizou como uma das características da 
família que teve historicamente na mulher um elemento de destaque. 
Nas políticas sociais dirigidas às famílias ( bem como idosos, 
crianças e adolescentes, enfermos e doentes mentais), o contato da 
família com a sociedade e o Estado continua ocorrendo, em grande 
parte, por meio da figura materna. As políticas sociais dirigidas a 
esse público tomam como pressuposto a presença de alguém em 
casapara cuidar daqueles, e esse lugar é “naturalmente” identificado 
com a mulher. A nossa sociedade não construiu condições para suprir a 
saída de casa dessas mulheres incorporadas ao mercado de 
trabalho, não apenas no que se refere à realização de tarefas 
domésticas, mas também em relação a esse suporte para as políticas 
sociais. 
 
A família que se conhece destinou um papel específico a estas, como 
mães e guardiãs do lar. Tem-se o movimento feminista negando esses 
papéis e sua hierarquização. Hoje, a prática ainda está bem 
diferente do discurso. Ser casada e ter filhos torna-se uma dificuldade, 
que é resolvida com o apelo para uma rede de solidariedade, formada por 
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parentesco ou vizinhança (normalmente constituída também por 
mulheres). Contudo, a inclusão simultânea da mulher nas esferas pública 
e privada, ainda que de modo contraditório, é uma realidade 
indiscutível. A maioria das políticas, porém, toma a mulher como 
aquela que está e fica em casa. É ela a responsável por receber os 
benefícios, é quem “pode” acompanhar crianças e idosos, “pode” ser a 
responsável por cuidar dos doentes crônicos ou terminais, ou 
doentes mentais que vão para casa. De que família se está falando? E de 
que mulheres? Estas têm efetivamente condições (econômicas e 
psicológicas) de cuidar de seus parentes? Podem abandonar 
trabalhos e afazeres para cuidar de seus entes queridos? 
 
Dessa forma, as políticas vêm continuamente reafirmando os papéis de 
gênero, contribuindo pouco para a transformação destes. O advento de 
muitas dessas políticas vai ao encontro de muitos desejos das 
mulheres, porém esse fato recoloca a responsabilidade por esses 
cuidados nas mãos das mulheres. Essa responsabilidade reafirma o 
local da casa como o local da mulher (Suárez; Libardoni, 2007) 
 
Concorda-se com Novellino (2005) que as políticas públicas para as 
mulheres pobres deveriam ser políticas de combate à pobreza que 
envolva não só renda, mas também acesso a serviços. Entretanto, estas 
deveriam ser igualmente políticas de gênero comprometidas com a luta 
pela igualdade de direitos e oportunidades para mulheres e homens. 
Políticas púbicas de gênero não podem envolver apenas mulheres; os 
homens devem necessariamente estar presentes. 
 
É importante não perder de vista a perspectiva universalista na hora de se 
pensar políticas públicas. No entanto, há diferenciais de gênero (e 
classe) que devem ser analisados e considerados quando da 
projeção e implementação de programas governamentais. 
 
O governo brasileiro começou, no final de década de 1990, a 
construção de uma política social focalizada no combate à pobreza. 
Ainda não se tem como medir os impactos reais dessas políticas no 
cotidiano as pessoas. A própria concepção de família nos programas 
precisa ser revista – esquecendo os limites do domicílio (Fonseca, 2001). 
A atuação do técnico que atende a essa população precisa estar atenta 
para o que esta verbaliza: é comum a fala entre assistentes sociais 
e estagiários sobre a ineficácia do PBF. Ao ouvi-las, pode-se permanecer 
na certeza de que essas pessoas estão alienadas e se está ali para dizer o 
certo, mostrando a “verdade”. Mas se pode- se partir do pressuposto 
de que essas pessoas são também sujeitos que tem saber, 
interesses e perspectivas que precisam ser respeitadas. Tratar o outro 
como sujeito respeitando sua alteridade não é tarefa fácil. 
 
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Por outro lado, têm-se relatos de profissionais questionando a 
estreiteza dos benefícios, mas contraditoriamente esses mesmos 
profissionais querem dizer aos usuários como devem gastar seu 
dinheiro. Nós podemos consumir bastante – e não sermos alienados- mas 
as classes trabalhadoras não podem ter a mesma autonomia... 
Contudo, as estratégias continuam sendo implementadas como 
fortalecimento das redes de parentesco e a circulação de crianças. Esse 
conjunto de questões demanda um esforço de atualização e a 
construção de uma agenda de investigação dentro do Serviço 
Social, essencial ao desenvolvimento de uma prática teórico-
metodológica e politicamente consistente nesse domínio. 
 
Texto 3 Apresenta reflexões acerca da atuação do serviço 
social no Juizado de Menores do Rio de Janeiro (antigo 
Distrito Federal) no período de 1938- 1950) 
 
O Serviço Social e a atuação junto à Infância, Juventude 
e Família Pobre no Juizado de Menores do Rio de Janeiro: 
Reflexão acerca da atuação profissional 
 
Sabrina Celestino 
 
Introdução 
 
No presente trabalho objetiva-se construir uma reflexão acerca da 
atuação do Serviço Social no então Juizado de Menores do Distrito 
Federal (Rio de Janeiro). 
 
A partir da construção histórica do Serviço Social, entende-se ser possível 
traçar uma análise acerca da atuação profissional junto à Infância, 
Juventude e a Família (pobre) e refleti-la, buscando conhecer os 
valores morais, éticos e políticos que orientavam os profissionais 
presentes nessa instituição. 
 
O campo sociojurídico, em especial o judiciário, se constitui em uma área 
desafiadora para a prática do assistente social. 
 
Tal desafio dá-se devido ao fato de a instituição judiciária ser 
predominantemente ocupada por profissionais do Direito e, embora o 
serviço social a integre, há mais de 70 anos, ainda luta por espaço, 
respeito e reconhecimento perante aqueles cuja tradição já legitimou. 
 
A tímida produção bibliográfica nesse campo, sobretudo no que se refere à 
história do serviço social na instituição, dificulta o conhecimento desta 
e da atuação profissional, fato que contribui para dificultar o 
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entendimento da definição quanto ao papel do assistente social nesse 
espaço. 
 
No Poder Judiciário como espaço onde os indivíduos se inserem 
para serem julgados, a atuação do assistente social junto à infância, 
juventude e a família, no início de sua inserção nesse espaço, esteve 
dirigida à culpabilização dos indivíduos pobres, e ao ajustamento 
destes aos padrões socialmente aceitáveis a partir de um ponto de vista 
conservador. 
 
Utilizou-se para realizar este trabalho a pesquisa bibliográfica e a pesquisa 
documental. 
 
1 – Inserção e atuação do serviço social junto à infância, 
juventude e família pobre no antigo Juizado de Menores 
 
São poucos os estudos que tratam da prática do assistente social 
no judiciário, sobretudo no que se refere ao Tribunal de Justiça do 
Estado do Rio de Janeiro (Distrito Federal) 
 
Resgatar a história de como o serviço social se insere no interior 
do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro se constitui de extrema 
importância, pois conhecer a gênese e o desenvolvimento da profissão 
nesse espaço possibilita a desconstrução da idéia de que esse campo se 
constitui em área nova para a atuaçãoprofissional. 
 
Aproximar dessa história também possibilita aprender sobre a 
prática profissional no interior do Poder Judiciário, relacionando-a 
com a gênese do serviço social no cenário nacional e mundial e, 
assim, apreender seus fundamentos. Tal história permite pensar qual 
ideologia esteve presente no momento de inserção do assistente social 
nesse espaço, conferindo aos profissionais funções e identidades que 
os acompanharam. 
 
O serviço social se insere no Tribunal de Justiça do Estado do Rio de 
Janeiro, requisitado a lidar com a “problemática” da infância, juventude e 
da família “desajustadas”. Esse tipo de atuação, que tinha como finalidade 
o ajustamento dos indivíduos ao meio, parte de uma concepção 
positivista, que tem como princípio que a sociedade é um todo orgânico 
em que todos os indivíduos tem funções e devem conviver em harmonia 
para que a estrutura social funcione. Nesse sentido, a questão social que 
se apresentava para os “menores” e para suas famílias era entendida 
como problemas individuais que necessitavam ser tratados de maneira 
que esses indivíduos pudessem conviver sem se apresentarem como risco 
para a sociedade como um todo. 
 
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No Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, o serviço social se 
inseriu através do então Juizado de Menores do Distrito Federal. Tal 
instituição se encontrava responsável tanto por executar quanto por 
regular as ações de assistencia e punição aos “menores abandonados e 
delinqüentes”. A ação dessa instituição se encontrava personificada na 
atuação da autoridade judiciária, cujas funções estavam estabelecidas 
no artigo 38 do Código de Menores: 
 
I - processar e julgar o abandono de menores, nos termos 
deste regulamento, e os crimes ou contravenções por eles 
perpetrada; 
II - inquirir e examinar o estado psíquico, mental e moral dos 
menores que comparecerem a juízo e, ao mesmo tempo, a situação 
social, moral e econômica dos pais, tutores e responsáveis por sua 
guarda. 
III - ordenar as medidas concernentes ao tratamento, 
colocação, guarda, vigilancia e educação dos menores 
abandonados ou delinqüentes; 
IV - decretar a suspensão ou a perda do pátrio poder ou a 
destituição da tutela e nomear tutores; 
V - praticar todos os atos de jurisdição voluntária, tendentes à 
proteção e assistência aos menores; 
VI - impor e executar as multas e que se refere este regulamento; 
VII - fiscalizar os estabelecimentos de preservação e de reforma, e 
quaisquer outros em que se achem menores sob sua jurisdição, 
tomando as providencias que lhe parecerem necessárias; 
VIII - cumprir e fazer cumprir as disposições deste 
regulamento, aplicando nos casos omissos as disposições de 
outras leis que forem aplicáveis às causas cíveis e criminais da sua 
competência; 
IX - organizar uma estatística anual e um relatório documentado do 
movimento do juiz, que remeterá ao Ministério da Justiça. (Código 
de Menores 1923). 
a)os exames médico-legais dos menores b) orientação e 
seleção profissional; c) responder às consultas feitas pelos 
estabelecimentos oficiais de educação ou por 
estabelecimentos e pessoas particulares, a critério do juiz 
de menores; d) realizar estudos e pesquisas de caráter 
científico relacionados com a especialidade; e) lavrar 
pareceres sobre assuntos médico-pedagógicos referentes à 
infância; f) organizar anualmente cursos do Serviço Social do 
Juizado de Menores. (Pinheiro, 1985ª, p. 53). 
 
A partir de Silva (2003), pode-se verificar que o Laboratório criado 
a partir do artigo 131 do Código de Menores e pelo artigo 3 da 
Lei n: 65, de 13 de junho de 1936, a fim de desenvolver suas 
funções, passou por duas fases. Na primeira (1935 a 1937) desenvolvia 
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sua atuação voltada para a identificação legal e médico/psicológica dos 
menores”. 
 
O serviço Social se insere no interior do Tribunal de Justiça do 
Distrito Federal e no então Juizado de Menores, via Laboratório de 
Biologia Infantil, instalado neste Juizado. 
 
Diante disso, pode-se perceber a direção criminológica que se encontrava 
presente nesse serviço, que tinha como função principal identificar o 
perfil dos “ menores abandonados e delinqüentes”a partir de uma prática 
da Medicina Legal de Identificação. 
 
As ações do Laboratório de Biologia Infantil estavam direcionadas a 
buscar nas ações dos “menores” causas de cunho biológico para que 
fosse estabelecida uma forma de tratamento que permitisse a 
reintegração destes na sociedade. Essa busca por uma “patologia social” 
não estabelecia conexões entre as ações dos “menores” e a estrutura 
social. Essas ações representavam uma “doença”individual que deveria 
ser tratada de maneira que permitisse a formação deste como um adulto 
de bem que não trouxesse riscos para a harmonia social. 
 
Verifica-se que a intervenção desenvolvida apenas numa metodologia 
diagnóstica, que visava o estudo de cunho biológico, não dava conta de 
“constatar”as causas dos “crimes dos menores delinqüentes”, sendo 
assim, como afirma Silva (2003); 
 
A principal intenção dos idealizadores do laboratório era promover a 
profilaxia criminal, por meio da identificação das crianças que 
apresentariam propensão à delinqüência. No entanto, a partir 
dos resultados dos primeiros exames feitos, médicos e 
magistrados tiveram que repensar a própria questão da 
delinqüência infantil. Nesse novo contexto, passaram a se 
realizar com maior freqüência no LBI cursos e seminários que 
tinham como tema a assistencia social. Assim, o ambiente 
familiar e o meio social em que se encontravam grande parte 
dos menores internados nos ISS ganharam importância nas 
pesquisas desenvolvidas no laboratório (Op. Cit.) 
 
 É na segunda fase do Laboratório de Biologia Infantil (1938 -1939) 
que o Serviço Social irá ser percebido como uma profissão 
necessária para o funcionamento institucional. A referida instituição 
passa a realizar a investigação médico/psicológica e a ser 
responsável pelo encaminhamento profissional dos “menores”. 
 
Interligadas às ações desenvolvidas pelo então Juizado de Menores do 
Distrito Federal e do Laboratório de Biologia Infantil, estavam as 
instituições responsáveis por receber os menores internados pelo 
Juizado. 
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2 – A contribuição do Juizado de Menores para a formação dos 
primeiros quadros profissionais A instituição judiciária do 
Distrito Federal (Rio de Janeiro) se configurou como uma 
das que contribuiu para a formação dos primeiros quadros 
profissionais. 
 
Algumas iniciativas começaram a serem tomadas para a formação 
de profissionais que pudessem intervir sobre a expressão da questão 
social no que se refere à infância e juventude que, por meio de 
intervenção do Estado, tomava forma de política pública. Verificamosem 
1936, por meio do Juizado de Menores do Distrito Federal sua inserção 
nessas ações. 
 
Foi desenvolvida a construção e o desenvolvimento de curso de 
formação para assistentes sociais destinadas a lidar com a temática d 
“menor”, conferida a duas assistentes sociais oriundas da Escola de 
Serviço Social de São Paulo (Maria Keel e Albertina Ramos). Ambas 
formadas pela Universidade de Serviço Social de Bruxelas, na Bélgica. 
 
Aquelas profissionais foram convidadas a prestar orientação técnica e 
estruturar o curso nos moldes da Escola de São Paulo, à qual as 
assistentes sociais pertenciam. 
 
O curso esteve estruturado em duas partes: técnica e prática. A 
parte prática era ministrada pelas assistentes sociais paulistas que 
desenvolviam atividades que “contavam de aulas práticas, visitas, de 
observação a obras sociais, pesquisas, relatórioa, fichas e provas 
(Pinheiro, 1985, p. 52). Apesar do curso não ser regulamentado como 
de nível superior, às profissionais que se formavam era conferido o título 
de assistente social. 
 
Após o término do curso, uma das assistentes sociais por ele 
formada ( Maria Isolina Pinheiro) foi indicada para atuar como 
assistente técnica do Laboratório de Biologia Infantil e como assistente 
social do Juizado de Menores do Distrito Federal. 
 
Ao concluir o curso no Juizado de Menores, Maria Isolina iniciou suas 
atividades na área social, por meio do Serviço de Obras Sociais do Rio 
de Janeiro (SOS), com crianças da localidade Ponta do Cajú, 
ocupando um cargo de Assistente Social e se tornando funcionária 
do Ministério da Justiça do Brasil (Pinheiro, 1985). 
 
 Em 1938, Maria Isolina, por meio de funções no Laboratório de 
Biologia Infantil, passa a “formar profissionais técnicos de serviço social” 
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em parceria com a SOS, estruturando um curso intensivo de serviço 
social. 
 
Mesmo direcionado para uma prática de ajustamento funcional à 
estrutura, que buscava garantir a harmonia social e contribuía para 
o modelo de modernização conservadora, as profissionais referidas 
passaram para a história do serviço social, obtendo uma série de 
conquistas para a categoria e possibilitando que a profissão ganhasse, 
em seus primórdios, legitimidade social e política. 
 
Observamos que a profissão se insere no Juizado de Menores do Distrito 
Federal para lidar com os ditos “desajustamentos sociais”, numa 
perspectiva biológica dos “menores” e suas famílias. 
 
A profissão ainda não tinha referencia ética própria, visto que o primeiro 
Código de Ética Profissional foi formulado em 1947. A atuação do Serviço 
Social baseava-se em valores morais católicos, nos valores sociais e 
religiosos dominantes na sociedade da época. A perspectiva 
conservadora visava a uma investigação das causas biológicas para os 
“desajustamentos dos menores” e famílias. Estabelecia-se um tratamento 
por meio da institucionalização, da educação moral e cívica e da 
profissionalização com vistas ao idealizado progresso da nação. 
 
Próximo capítulo abordará, por meio dos estudos dos pareceres 
sociais de 1938 a 1950, como se desenvolvia a intervenção 
profissional na área da infância e juventude pobre e suas famílias, 
a fim de apontar elementos para um debate acerca da forma como os 
princípios e valores que direcionavam a ação profissional vão contribuir e 
ganhar expressão no Código de ética da profissão. 
 
3-Considerações a partir da pesquisa 
 
Foram consultados 460 processos que se estenderam entre 1938 e 1950 
no Juizado de Menores do Distrito Federal (Rio de Janeiro), dos quais foi 
possível retirar algumas informações essenciais para fundamentar a 
análise. 
 
No período analisado no Juizado de Menores e na intervenção do 
Serviço Social, verificou-se que prevalecia uma moral que convergia 
com a cultura católica da época. A tendência da intervenção 
profissional desse momento histórico era de reproduzir a visão 
conservadora da instituição e da sociedade. 
 
A partir da obra de Pimentel (1945) verificamos quanto ao Juizado de 
Menores junto a seu público alvo: exerce uma função tutelar, assistindo 
aqueles a quem se faltou a proteção dos que lhe deram o ser. Vê-se 
portanto, quanto é valiosa e nobre a sua ação. Representa a 
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sociedade assegurando medidas de proteção, assistindo a infância 
desvalida e regenerando a infância pervertida. Daí a sua dupla função: 
jurídico-social. Jurídico enquanto cumpre as leis especializadas e 
salvaguarda os direitos dos menores; social, enquanto amparar e educar 
o menor, transformando-o no cidadão que vai exercer papel digno e 
humano na sociedade (Op. Cit., p. 18). 
 
3.1 - Uma análise da atuação profissional junto a infância, a 
juventude e a família pobre 
 
Ao analisamos os processos, verificamos que nas situações com fins 
de internação, era utilizada uma ficha, espécie de questionário 
socioeconômico, nos quais. Às vezes, tinha a assinatura de um comissário 
de vigilancia. Além deste, havia em todos os processos uma entrevista 
realizada com os pais e/ou responsáveis, mas não eram assinadas por 
um profissional de Serviço Social. 
 
Diante das entrevistas verificamos que sua estrutura e linguagem 
se apresentam como típicas de pareceres sociais atuais. No entanto, 
apresentavam uma descric’~ao de situação familiar ea partir de uma visão 
moral, higiênica e conservadora do “problema”das famílias e das crianças. 
 
Mesmo estando descritas nas pesquisas bibliográficas e em documentos 
históricos, através deste estudo não foi confirmada a presença e 
participação de profissionais de serviço social na construção de 
pareceres sociais. Desse modo, só se pode comprovar a presença 
desses profissionais na instituição judiciária a partir de 1942, via 
pareceres sociais do Serviço de Assistencia ao Menor (SAM). Verifica-se 
que o serviço social realizava uma análise biopsicossocial dos “menores”. 
Isto porque o Laboratório de Biologia Infantil ainda era responsável 
por essa ação, pelo encaminhamento dos “menores” às instituições 
de internação, e pelo “acompanhamento”das internações subseqüentes. 
Assim, pode-se constatar que: O Serviço de Assistencia ao Menor 
(SAM) já está plenamente implantado em 1942. (Batista, 2003). 
 
Ao tratar do histórico da política de proteção à infância e 
juventude no Brasil, o SAM foi um modelo criado com a finalidade de 
centralizar as ações destinadas aos “menores”, de maneira que pudesse 
se desenvolver controle mais eficaz dos mesmos, tendo a ameaça 
comunista como uma contratransferência do desenvolvimento de 
uma política de “educação para o trabalho”, na perspectiva positivista do 
progresso da nação. 
 
O Serviço Social compreendia o processo de cumprimento desse ideal de 
nação. Não desenvolvia uma prática que refletisse as causas das situações 
apresentadas pelas crianças e pelas famílias. Ademais, a profissão ainda 
não havia realizado um debate sobre a ética profissional que 
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permitisse um aprofundamento dos princípios que direcionavam a 
atuação. 
 
A partir desta pesquisa foi possível notar que os pareceres sociais 
manifestavam uma atuação profissional reprodutora de valores, 
realizando um movimento de individualização dos problemas, por 
meio da culpabilização, como se nota a seguir: 
 
Sindicância 1 – Solicitação de Internação Menino 10 anos 
As informações foram prestadas pela irmã do Sr. A., pai do 
menor, a requerente de sua internação. Residem em prédio 
próprio e de acordo com o que pude observar, sou de parecer que o 
menino não precisa ser internado em estabelecimentos mantidos 
pelo governo, e que se destinam a receber crianças pobres, sem 
recursos para se educarem e se manterem. Se o pai do referido 
menor quer interná-lo para corrigir a sua vadiagem deve 
interná-lo em colégio particular, pois possui para isso recursos 
necessários. A vaga que esse menor irá ocupar no SAM, 
provavelmente seria em prejuízo de algum outro que a 
merece e dela necessite. (Processo do Juizado de Menores do 
Distrito Federal, 1942). 
 
Nota-se que não se parte de uma noção de cidadão de direito, 
nem que a internação, seguida da profissionalização dos jovens, 
tivesse um caráter universal. Aliado a isso, o profissional faz uma 
sugestão para que o direito não fosse concedido, ou seja: havia o 
entendimento de que esse serviço deveria destinar-se apenas à 
população pobre, o que contribuía para reforçar a tese de que era esta a 
população que necessitava ser corrigida. 
 
Verifica-se neste estudo que a atuação profissional visava seguir as 
exigências da instituição e não as demandas das famílias que 
recorriam aos serviços. Não se percebeu nenhum trabalho ou 
encaminhamento que permitisse entender as questões que levaram a 
família a recorrer ao Juizado, nem as questões que trazia ou como 
elas poderiam ser “resolvidas”. A atuação foi de julgamento e não de 
investigação das causas e dos direitos desses usuários. 
 
Outro exemplo: 
 
Sindicância 2 – Solicitação de Internação irmãos de 14 e 11 
anos. 
Investigando o processo em situação de verdadeira miséria. 
Contudo, declarou-nos ter desistido da internação por não 
querer separar-se dos filhos. (Processo do Juizado de Menores 
do Distrito Federal, 1942). Procuramos convencê-la do mal que 
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estava praticando em sacrificar os filhos pelo amor materno 
egoísta, porém ela continuou firme em seu propósito. 
 
Atuação baseada num juízo de valores sobre os sentimentos de 
mãe. Nenhum movimento contribuía para que os filhos permanecessem 
na família. 
 
Assim, diante dessa situação que ilustra apenas uma gama de 
entendimentos preconceituosos – moralizantes, culpabilizadores e 
punitivos, que o modelo de sociedade burguesa impunha às famílias 
pobres – pode-se compreender que a profissão esteve mergulhada 
nesses padrões de sociedade, reforçando-os em sua própria visão 
inconsciente dos direitos da infância, da juventude e da família. 
 
Sindicância 3 – Solicitação de Internação – menino 14 anos 
A requerente, saindo para trabalhar, deixa os quatro filhos sozinhos. 
O mais velho, vendo-se sem governo, passa todo o tempo em 
más companhias, não obedecendo a pessoa alguma, tendo 
mesmo abandonado a escola em que se achava matriculado. Pela 
falta de assistência moral em que se encontra o menor, e sendo o 
mesmo filhos de um alcoólatra, julgamos tratar-se de um caso de 
internação urgente. (Processo do Juizado de Menores do Distrito 
Federal, 1942). 
 
Situação expressa um juízo de valor à medida que a questão da 
assistencia moral é julgada pelo fato da criança ser filho de um 
“alcoólatra”. Percebe-se como a profissional busca na família e não 
na sociedade as causas da situação apresentada. Coloca-se o fato da mãe 
ter necessidade de trabalhar como uma questão que possibilita o 
abandono dos filhos, mas não há questionamentos sobre as 
necessidades da família e o direito da mulher de defender seu próprio 
sustento. 
 
No que se refere à atuação o junto às famílias, as situações observadas 
nos processos explicitam como essa prática se desenvolvia. Como afirma 
Iamamoto: 
 
Buscava-se na história familiar os elementos explicativos de 
comportamentos individuais “anômalos”ou “desviantes” de um 
padrão tido como normal”. A família, como grupo social básico, é 
erigida como núcleo do trabalho profissional e como referência 
para a apreensão da vida em sociedade em contrapartida às 
classes sociais. (2004, p.29) 
 
Diante desse contexto, percebemos que a atuação profissional era de 
enquadramento das famílias, ao que a sociedade e o Estado entendiam 
como comportamento “ajustado”e “normal”. A reflexão sobre as condições 
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de vida desses indivíduos recebia forte influência da ação católica e da 
perspectiva higienista. 
 
Outras considerações a partir dos Arquivos do Tribunal de Justiça. 
Primeiro: a análise dos processos de 1949 permitiu verificar a presença da 
Agência de Serviço Social do Juizado de Menores com o objetivo de 
enfrentar o problema do “desajustamento social” entre os “menores” de 
um modo mais prático e coerente com a moderna técnica da 
assistência social. (Borges; Nascimento, 2001). 
 
 A atuação profissional nesse órgão do Juizado de Menores já expressava 
maior sistematização da ação profissional, fato que pode ser 
demonstrado na forma de organização das “entrevistas e/ou 
inquéritos/sindicâncias”. Se no período anterior esses documentos 
eram construídos como meros relatos, corridos e carregados de 
valores morais, evocando concepções religiosas, no momento em 
questão verifica-se a preocupação com a sistematização dos dados 
observados nas entrevistas individuais e em grupo, visita domiciliar, etc. 
 
No entanto, mesmo constatando que a atuação caminhava para a 
sistematização da prática, os valores morais encontravam presentes nos 
pareceres, disfarçados em uma redação mais “neutra”, com forte presença 
da moralização das famílias e seus filhos. 
 
Avalia-se que a atuação desenvolvida pelo profissional de serviço 
social no então Juizado de Menores era fruto da sociedade da época e 
se encontrava imersa em limites profissionais, graças a ausência de uma 
produção do conhecimento e uma direção mais crítica da sociedade e da 
profissão. Tais limites são identificados como um momento da história da 
profissionalização do serviço social numa sociedade que se moderniza nos 
molde conservadores. 
 
Considerações Finais 
 
A intenção na construção deste trabalho é a possibilidade de uma análise 
histórica da profissão, buscar entender como se deu a inserção das 
primeiras profissionais no Juizado de Menores do Distrito Federal e refletir 
sobre a atuação profissional, a fim de verificar quais os princípios que 
seguia essa ação. 
 
Tendo realizado uma análiseacerca da sociedade brasileira e dos ideais 
que a cercavam, como aqueles de harmonia social alimentados pelo 
positivismo, verifica -se que os princípios do “bem comum”e da “justiça 
social” apregoados pela Igreja Católica partiam da Encíclica de Leão XIII e 
da Teoria Neotomista. Foi possível entender como esses ideais 
influenciaram o nascimento e desenvolvimento da profissão. 
 
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Passamos a analisar a atuação das profissionais do Tribunal de 
Justiça do Distrito Federal no então Juizado de Menores e no 
Laboratório d Biologia Infantil, órgãos pelos quais se deu a inserção 
profissional, em 1938, no Poder Judiciário. 
 
A análise dos processos no período histórico situado entre 1938 e 
1950 denota ser a atuação profissional fundamentada no pensamento 
conservador de origem positivista, aliado à concepção higienista e a 
uma moral religiosa de influência católica. Esse arcabouço tendia à 
culpabilização dos indivíduos por suas mazelas, por meio do diagnóstico 
da “patologia social”, derivando daí a intervenção voltada para o 
ajustamento e a regeneração social, os quais contribuiriam para a 
construção do projeto de nação, determinado pelo Estado brasileiro, 
pautado na harmonia social. 
 
Podemos reafirmar que os princípios a valores da Igreja Católica 
tiveram forte influência nos primeiros espaços profissionais do serviço 
social, assim como nas primeiras agências de formação profissional. 
 
O pensamento tomista ou neotomista fundamentou os princípios 
“éticos” da profissão e exerceu influência, tornando-se central no 
primeiro Código de Ética do Assistente Social. O Serviço Social é 
resultado do contexto histórico-social e expressão da organização da 
sociedade e de suas formas de consciência, no enfrentamento da 
questão social no marco das relações das classes sociais entre si e 
com o Estado. 
 
A contribuição deste trabalho situa-se na possibilidade de trazer à tona os 
princípios ético-políticos que direcionavam o trabalho profissional em 
um âmbito institucional, com forte expressão na história da 
profissão, como é o caso do Poder Judiciário. 
 
 
 
Texto 4 – Trata-se de um esforço de sistematização teórica em 
torno de ptáticas sociais desenvolvidas a partir dos dispositivos 
jurídicos e políticos com foco no poder tutelar sobre as famílias no 
Brasil. 
 
A construção do Direito da Infância e Juventude e a 
atuação jurisdicional junto às famílias 
 
Ana Lúcia Gomes de Alcântara 
 
O interesse nesta temática veio da inserção da autora como assistente 
social no Poder Judiciário do Rio de Janeiro, na Vara da Infância e da 
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Juventude de Nova Iguaçu, onde atua em casos envolvendo 
crianças e adolescentes em situação de risco pessoal e social. Esses 
caso chegam até a Justiça por meio de denúncias ou de procura 
espontânea, tendo por pressuposto a ameaça ou violação de algum 
direito daquela criança ou adolescente, necessitando assim de uma 
intervenção do Estado que garanta o exercício de seu direito legal, como 
cidadãos de direitos. 
 
Muitas vezes, a criança e o adolescente atendidos na Vara da 
Infância e Juventude pertencem às camadas mais empobrecidas da 
população e advêm de famílias cujos direitos também não foram 
respeitados ou garantidos pelo Estado, uma vez que não tem 
condições de suprir o mínimo para sua subsistência ou capacidade de 
enfrentamento para os problemas do cotidiano. 
 
São inúmeras as situações de risco pessoal, social e familiar a que 
as crianças e adolescentes estão expostos: violência doméstica (física e 
sexual e psicológica), negligência, abandono material , afetivo e 
intelectual. 
 
Recentemente, tem-se percebido a abertura de procedimentos por 
parte do Ministério Público ou propostos pelos Conselhos Tutelares, 
com o título de “responsabilização por infração administrativa” que 
chegam ao setor com a solicitação de estudos sociais. No processo 
de elaboração destes estudos, algumas questões pertinentes à 
natureza desse procedimento tem chamado a atenção, 
principalmente aqueles que visam “penalizar”pais e responsáveis pelo 
descumprimento dos deveres inerentes ao poder familiar. 
 
Temos nos indagado sobre os motivos que levaram e/ou 
justificaram a abertura de processos dessa natureza e quais as 
implicações jurídicas e a repercussão desses processos na vida dos 
sujeitos representados e na dinâmica de suas respectivas famílias. Isso 
porque temos observado uma demanda crescente de processos dessa 
natureza, requisitando do assistente social a intermediação entre os 
propósitos institucionais e a realidade das famílias assistidas, no sentido 
de não reproduzir os valores de controle e penalização sob a ótica do 
Poder Judiciário. 
 
O Poder Judiciário, historicamente, assumiu a função de dirimir conflitos e 
estabelecer o controle sobre a vida dos indivíduos e de suas famílias. 
Além de exercer o poder de julgar e penalizar, ainda exerce “poder 
de polícia”por meio da aplicação de penalidades ditas administrativas. 
 
Será que o Judiciário, após a publicação do Eca, vem exercendo efetivo 
controle e repressão sobre as famílias, ou por meio da mediação com 
outros profissionais, abandona a prática do “poder tutelar sobre os filhos 
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dos pobres”e caminha na perspectiva da construção de direitos e 
mudanças de mentalidade na convivência familiar e do exercício cotidiano 
do poder familiar? 
 
Para responder a esta questão, o estudo apresentado volta-se para a 
reconstrução histórica da atuação jurisdicional junto às famílias, a 
partir das leis direcionadas ao público infanto-juvenil, com foco nos 
Códigos de Menores elaborados em 1924, 197 e no Estatuto da Criança e 
Adolescente (ECA) 1989. 
 
1 – A abordagem sobre as famílias nos Códigos de Menores e 
no Estatuto da Criança e do Adolescente 
 
Apenas no início do século XX surge na sociedade uma cobrança 
direcionada ao Estado para gerencias a política de assistencia à infância e 
a criação de leis. 
 
Em 1923, foi instalado o primeiro Juízo de Menores do país. No Rio de 
Janeiro, então capital federal. O Código de Menores, idealizado por 
Mello Mattos, foi promulgado em 1927. Este modelo institucional - 
político permaneceu até meados da década de 1980, funcionando como 
órgão do atendimento oficial do “menor”, podendo este ser recolhido nas 
ruas ou levado pela própria família. 
 
O juízo de menores tinha diversas funções, mas chamava a 
atenção a internação de menores abandonados e delinqüentes: prática 
popularizada entre as classes pobres como alternativa de cuidados e 
educação. Com a instauração da justiça de menores, foi incorporado na 
assistencia o espírito científico da época, transcrito na prática jurídica pelo 
inquérito médico-psicológico e social do menor.Costa(1989) compara a intervenção do Estado Moderno nas famílias 
como semelhante ao tratamento dado à loucura: sem que ferisse os 
princípios do liberalismo e da liberdade individual, mas mantendo o 
comportamento transgressor sob controle, por meio da tutela psiquiátrica 
(dispositivo médico). 
 
Segundo o autor, a primeira delas, por meio da medicina doméstica 
que objetivava a conservação e educação das crianças, reorganizando a 
dinâmica das famílias mais abastadas (da burguesia) para que cuidassem 
de seus filhos (estes eram deixados sob cuidados de terceiros). A 
segunda intervenção era dirigida às famílias pobres por meio de 
“campanhas de moralização e higiene da coletividade”. 
 
A partir da categoria de menor abandonado, definida pela ausência 
dos pais e pela incapacidade da família de oferecer condições 
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apropriadas de vida a sua prole, foram criadas várias subcategorias. 
Trata-se da presença do Estado no planejamento e na implementação das 
políticas de atendimento ao menor. 
 
Para machado (2003), tal mecanismo é ideológico e transforma a 
infância desvalida em infância delinqüente. 
 
Foi no contexto de expressa preocupação com o suposto aumento 
da criminalidade juvenil que se construiu a confusão conceitual 
criança/carente – criança/delinqüente, que no Brasil de hoje 
...ainda continua a produzir seus efeitos. É que historicamente 
e num processo de cunho ideológico, construiu-se uma identificação 
entre a infância socialmente desvalida e a infância delinqüente. 
(Machado, 2003, p.32). 
 
Marques (1976) ressalta que apenas na Constituição de 1934 surge a 
preocupação com o problema dos “menores no Brasil”, por meio de leis 
que visavam a sua proteção e da família (cap. “Ordem Econômica e Social 
e a Família, Educação e Cultura). O autor cita o artigo do Código Mello 
Mattos que em sua opinião visa ao amparo e à proteção do que a punição: 
“O menor, de um ou outro sexo, abandonado ou delinqüente, que tiver 
menos de 18 anos de idade será submetido pela autoridade 
competente às medidas de assistencia e proteção contidas nesse 
código”(p. 65). 
 
O texto pode transparecer proteção, pois obedece às decisões de 
eventos internacionais. No entanto, evidencia a característica de 
punição implícita na proposta de institucionalização que transformou 
numa política pública o encarceramento de crianças e jovens pobres 
brasileiros. 
 
O Código de Menor Mello Mattos se coloca como instrumento de 
proteção e vigilância da infância e adolescência vítimas da família 
em seus direitos básicos. A família era concebida como a principal 
e única violadora dos direitos de suas crianças. O juiz era a única 
autoridade pública capaz de exercer a autoridade e vigilancia sobre o 
menor abandonado ou delinqüente. 
 
Percebemos que as iniciativas educacionais eram entrelaçadas com 
os objetivos de assistência e controle social de uma população que, 
junto com o crescimento e reordenamento das cidades e a 
constituição de um Estado Nacional, torna-se representada como 
perigosa. Os menores passam a ser alvo específico da intervenção 
formadora e reformadora do Estado, assim como as instituições religiosas 
e filantrópicas. 
 
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Denzelot nos fala acerca do controle exercido pelo Estado sobre as 
famílias: 
 
O Estado diz às famílias: mantende vossa gente nas regras 
da obediência às nossas exigências, com o que podereis fazer 
deles o uso que vos convier, e se eles transgredirem vossas 
injunções, nos vos forneceremos o apoio necessário para 
chamá-los à ordem. (1985, p 51). 
 
No período republicano, são criadas leis que transferem da família para os 
representantes dos poderes públicos o poder de decidir sobre o 
destino do menor, levando à culpabilização da família e à 
desautorização do poder parental. A intervenção sobre as famílias 
pobres, promovida pelo Estado, desautorizava os pais em seu papel 
parental, acusando-os de incapazes. Assim, os assistentes sociais 
justificavam a institucionalização de crianças. 
 
O protagonismo da área jurídica nos assuntos relativos à infância e 
juventude era notório até a década de 1940, sendo responsável pelo 
destino e pela aplicação de medidas “aos pobres e delinqüentes”. 
 
O Código de Menores de 1979 (Lei n: 6.697 de 10/10/ de 1979) 
refletia a fidelidade dos juízes de menores à lei de Mello Mattos. 
Colocou-se como instrumento de controle social da infância e da 
adolescência vítimas da negligencia, omissão e violação de seus direitos 
pela sociedade e pela família. 
 
A criança e o adolescente considerados em situação irregular eram 
objeto de medidas judiciais. O Código de 1979, como o anterior, 
não abria espaço à participação de outros setores da sociedade, 
limitando os poderes da autoridade policial, judiciária e administrativa. A 
fiscalização da lei cabia só ao juiz e seus auxiliares. A referida lei 
dispõe sobre a assistência, proteção e vigilância àqueles que 
estivessem em perigo moral, com desvio de conduta em virtude de 
grave inadaptação familiar ou comunitária, autor de infração penal ( 
menor em situação irregular). →As crianças e os adolescentes 
considerados hoje em situação de risco pessoal e familiar, alvo de 
proteção segundo o ECA, seriam considerados alvos privilegiados de 
vigilância da autoridade judiciária. 
 
A medidas aplicáveis às crianças e adolescentes se confundiam no 
mesmo artigo das medidas socioeducativas e protetivas. 
 
A Constituição de 1988 (art. 227) abriu caminho para a 
promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente que subverte 
a compreensão da ordem social, da garantia de direitos e da 
atuação do judiciário, imputando à família novo papel. A família, antes 
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objeto de intervenção do judiciário, passou a ser coresponsável, junto 
com o Estado e a sociedade, pelo dever de assegurar direitos 
fundamentais. 
 
Para Machado (2003), o contexto social de ampla mobilização 
popular formou uma grande “Frente Parlamentar suprapartidária” em 
defesa dos direitos de crianças e adolescentes. 
 
Eventos de caráter internacional também influenciaram a Constituição e a 
elaboração do ECA. Este se coloca como instrumento legal de defesa dos 
direitos e indicação de deveres voltados para o conjunto da população 
infanto-juvenil e não apenas para aqueles considerados em risco social e 
pessoal, os “pobres” ou “delinqüentes”, com nova denominação de 
adolescentes em conflito com a lei”. 
 
O ECA trouxe a possibilidade de participação de outros órgãos da 
organização da sociedade civil (Conselhos de Direito, Conselhos 
Tutelares e organizações de defesa jurisdicional) de caráter 
governamental e não-governamental dirigidas ao público infanto-juvenil. 
Ações no âmbito da famíliasão possíveis pelo Conselho Tutelar que 
pode acompanhar e atuar de modo preventivo na aplicação de 
medidas protetivas. 
 
Outra diferença está na concepção de municipalização e rede de 
atendimento à criança e ao adolescente no acesso e na defesa dos 
direitos fundamentais, retirando da Justiça o protagonismo na área 
da infância e juventude, para então compor a rede como parceiro “igual”. 
Assim, o poder instituído por lei pode contradizer o viés do autoritarismo e 
ser porta-voz do que for decidido coletivamente. 
 
Percebemos reflexos dessa nova postura na atuação da equipe 
interdisciplinar quando busca parceria e discussão conjunta com outras 
instituições, interferindo na decisão judicial. 
 
2 – Responsabilização das famílias e tutela sobre os filhos dos 
pobres 
 
Nem sempre, historicamente, a infância foi uma situação com que 
a família tinha que se preocupar e alvo da intervenção do Estado, 
como tutor. O Código Mello Mattos foi um instrumento de tutela do 
Estado sobre os filhos dos pobres e desprovidos de informação, durante 
décadas, colocando nas mãos do Juiz de Menores a centralidade das 
decisões sobre as crianças e os adolescentes, enquadrados na categoria 
de carentes e/ou delinqüente. 
 
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O Código de 1927 (Mello Mattos), no artigo 25, menciona pena de prisão e 
multa para quem encontrar recém-nascido ou menor de sete anos 
abandonado e não apresentá-lo à autoridade judiciária ou não avisar 
do seu achado; ou entregar a terceiros criança sem a devida 
autorização judicial. O Código de 1979 considera como responsável 
“aquele que não sendo pai ou mãe”, exerce, a qualquer título, vigilância, 
direção ou educação de menor, ou voluntariamente o traz em seu 
poder ou companhia, independentemente de ato judicial. 
 
O Eca relaciona o abandono nos artigos que falam sobre os 
direitos fundamentais e a convivência familiar, determinando que os 
casos de abandono devam ser notificados. A colocação em família 
substituta via medida judicial, também é prevista. 
 
Percebemos no cotidiano do trabalho muitas crianças “repassadas” de 
família em família sem a devida notificação; “adoção à brasileira” (sem o 
devido processo legal) que, em algumas situações, acarreta a devolução 
da criança, quando o cuidado se torna mais complexo, do ponto de vista 
educativo e material. 
 
O Código de 1927 dedica artigos a menores ditos mendigos, vadios 
(aqueles que vagam pelas ruas) e libertinos (aqueles que na rua 
perseguem ou convidam pessoas para a prática de atos obscenos), alvos 
de medidas de proteção, encaminhados para a institucionalização 
→libertinos seriam identificados, hoje, como as crianças e adolescentes 
vítimas de exploração sexual, abuso sexual, etc.). 
 
Desde 1927, a suspensão ou perda do pátrio poder devido a maus 
tratos, comportamento inadequado com os filhos, castigos excessivos, 
abandono material ou intelectual, fazem parte do Código. 
 
Seu artigo 9 chama a atenção por destacar a organização familiar 
desde o quantitativo de membros num determinado espaço físico, a 
condição de higiene e o comportamento dos indivíduos. Nos dias de hoje, 
não haveria instituições que comportassem o número de crianças que 
vivem em famílias com tais características. 
 
No capítulo de crimes e contravenções praticados pelos pais, o 
Código fala em multas: em relação a qualquer deles que colaborar 
para situação de negligencia ou delinqüência do filho (art. 60); omissão 
por se descuidarem da educação dos filhos (art. 75), negar alimentos, 
desobedecendo a ordem judicial ( art. 137), etc. 
 
O Código de 1979 segue na mesma linha conservadora, adotando, 
porém, a categoria de menor em situação irregular, com viés mais 
assistencialista. Seu artigo 39 coloca as medidas que podem ser 
aplicadas aos pais: advertência, obrigação de submeter o menor a 
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tratamento...; perda ou suspensão do pátrio poder; destituição da tutela e 
perda da guarda. 
 
O Juiz poderia decretar a perda do pátrio poder aos pais que “por 
negligência ou má conduta, desassistirem o menor quanto às suas 
necessidades básicas ou descumprirem, sem justa causa, as 
obrigações fixadas em juízo”. Não identificamos nesse Código item 
relativo à penalidade imposta aos pais no capítulo das infrações 
cometidas contra a assistencia, proteção e vigilancia a menores, em 
relação ao descumprimento de deveres com os filhos. Refere-se à 
família como desestruturada e desajustada, responsável pelo 
comportamento anti-social de seus tutelados. O Código fala em multa na 
mesma forma do anterior. 
 
Essa modalidade de penalidade administrativa reaparecerá no ECA, 
restando –nos entender os motivos legais e doutrinários que levaram à 
inclusão da família como objeto de aplicação de penalidades de 
cunho pecuniário. 
 
Quanto à responsabilização da família, como o Eca contribui neste 
aspecto? A partir de trabalho comparativo entre o Código de 1924 e o 
Eca – aponta-se que este último não foi uma ruptura e que o Estatuto 
tem ainda vários aspectos conservadores e que permitem a 
responsabilização das famílias, por meio da sua “ penalização”: no caso 
de pais que violam direitos das crianças e dos adolescentes, além da 
perda do poder familiar, eles podem ser penalizados criminalmente, 
com aplicação de multa pecuniária (art. 249). 
 
Observa-se que o ECA não permite a perda/suspensão do poder familiar 
pela falta de recursos materiais dos pais (art. 23). No entanto, 
percebemos que tal condição aliada ao uso excessivo de álcool e drogas, 
comportamento agressivo e inadequado à convivência com crianças 
e adolescentes, distúrbios psiquiátricos (sem tratamento) podem 
contribuir sim para a perda/suspensão do poder familiar e a 
responsabilização por meio da instauração de processos de ordem 
penal e administrativo ( os RIAS), disponibilizando a criança para 
adoção. 
 
Nos Códigos de Menores anteriores ao ECA, a falta de recursos materiais 
poderia caracterizar situação irregular à crianças e adolescentes, 
passíveis de medidas judiciais, sendo avaliado como “abandono material”. 
Os pais seriam punidos com a entrega do filho para adoção ou 
institucionalização. 
 
No artigo 129 do ECA é referenciada medida que pode ser aplicada aos 
pais e responsáveis em caso de desrespeito aos direitos de crianças e 
adolescentes. No caso de agressões graves, o artigo 130 prevê, inclusive, 
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o afastamento do agressor da moradia comum com a criança e o 
adolescente – vítima, preservando os vínculos familiares dela. 
 
Caso essas medidas, indicadas pelos conselheiros, não sejam 
cumpridas, cabe ao Conselho Tutelas apresentar representação ao 
Ministério Público contra os pais ou responsáveis. 
 
Para alguns autores, a infração se destina acasos de menor 
gravidade, visando garantir direitos fundamentais. Casos de extrema 
gravidade (agressões físicas severas, etc) e abuso sexual, deveriam 
ter registro de ocorrência nas delegacias de polícia, tornando-se crimes 
cometidos contra a criança e o adolescente, respondidos de forma 
processual em outras varas (criminais e juizado especial criminal), 
onde o agressor pode ser punido com pena de privação de librdade.. 
 
Ramos (2006) afirma que alguns autores da área de Direito 
consideram que o uso de infração administrativa, por parte do 
Judiciário, configura-se como poder de polícia exercido pelo Poder Público, 
isto é, simboliza a interferência do Estado na vida do indivíduo ( 
do interesse particular e privado), preservando o interesse público e 
limitando interesses desses indivíduos. 
 
As infrações administrativas são procedimentos opostos aos princípios 
normativos de uma determinada organização social e que pressupõe a 
interferência do Estado na vida do indivíduo ou de pessoa jurídica, com o 
objetivo de proteger “interesses tutelados pela sociedade, com sanções de 
cunho administrativo, ou seja, restritivas de direitos, mas não restritivas 
da liberdade, geralmente importando num pagamento de uma multa 
pecuniária, suspensão do programa ou da atividade, fechamento de 
estabelecimento, apreensão de material ou simples advertência” (Ramos, 
2006, p. 420). 
 
De acordo ainda com esse autor, no artigo 249 do Estatuto (objeto de 
estudo desta pesquisa), o Estado se faz presente para coibir e 
reprimir abusos no exercício das funções de assistência e proteção 
de crianças e adolescentes no âmbito familiar. No entanto, durante 
séculos a família foi autônoma na criação e educação dos filhos; a 
infância não tinha visibilidade como infância e como questão que 
exigisse a intervenção do Estado. Há menos de um século, a infância e a 
família vêm sendo tuteladas pelo Estado e reguladas a partir de normas 
que estabelecem procedimentos a serem seguidos, sob pena de 
interferência do poder público. 
 
Considerações Finais 
 
Nosso interesse neste estudo foi um esforço para desvendar as 
contradições vividas no exercício profissional do assistente social, na 
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Justiça da Infância e da Juventude, ao elaborar estudos sociais 
demandados pelos procedimentos de responsabilização por infração 
administrativa, no que cabe ao suprimento dos deveres inerentes ao 
poder familiar. O profissional de Serviço Social tem uma função 
relevante na análise das demandas sociais, nas ações do poder 
judiciário na área da Infância e Juventude, com ênfase em vários 
artigos do Eca. 
 
No entanto, identificamos dificuldades na elaboração dos pareceres 
sociais: a inexistência de um estudo ou suporte teórico e metodológico 
que contribua para a compreensão do contexto socioeconômico- 
cultural vivenciado pelas “famílias–alvo” da ação da Justiça. A 
construção desse suporte teórico-metodológico deve ser pautada 
num referencial crítico dialético coadunado com o projeto ético-
político da profissão. 
 
Contudo, há um contraponto que nos preocupa. Ele se refere ao fato de 
como, historicamente, o Poder Judiciário vem atuando frente às demandas 
sociais no contexto de pauperização e desigualdade social, entendendo ser 
necessário um estudo preliminar sobre a nossa contribuição como 
assistentes sociais e interlocutores na dinâmica institucional, para uma 
atuação jurídica mais democrática e voltada para a defesa dos 
0direitos dessa camada da população. 
 
Pensar esse fazer profissional significa compreendê-lo, ser capaz de 
propor as mudanças para a qualificação da atuação profissional. Se 
nos propomos compreender os fenômenos com que lidamos, numa 
perspectiva de totalidade, temos de entender a relação com outros fatores 
sociais, econômicos e políticos que estão correlacionados a essa realidade. 
 
O debate cotidiano e o pensar sobre a prática profissional levam a 
acreditar que nossas inquietações podem ser comuns a outros 
profissionais do universo sóciojuridico, principalmente por não 
conseguirmos clarificar a essência de nosso papel profissional sem nos 
confundirmos com os propósitos institucionais historicamente construídos, 
“tão somente voltados para ações disciplinadoras e de controle social, 
no âmbito da regulação caso a caso” (Fávero, 2003, p. 11). 
 
 Em seus estudos, Fávero (2003) analisa o Poder Judiciário como 
um Poder de Estado, que tem sido historicamente responsável pela 
aplicação das leis e pela distribuição da Justiça, sendo visto pela 
população como se estivesse num nível superior ou à parte dos 
demais poderes. Muitas vezes, este poder se coloca contrário aos 
legítimos interesses e direitos conquistados pela sociedade brasileira. 
A Justiça, na maioria dos casos, é alcançada só por aqueles que têm maior 
poder financeiro e maior grau de informação. 
 
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Quanto às famílias atendidas na Justiça da Infância e Juventude, o 
profissional de Serviço Social estará comprometido com a defesa de seus 
direitos, no sentido de facilitar o acesso à informação, às políticas 
públicas, possibilitando a reflexão do seu papel como sujeito ou 
reforçará o caráter disciplinador e punitivo da instituição judiciária? 
 
 
 
Parte II 
 
FAMÍLIA, CUIDADO E DEMANDAS SOCIAIS: 
 
 
 
Perspectivas Críticas 
 
Eixo articulador: a temática do cuidado que vem sendo debatido de 
forma crítica no contexto das políticas sociais. 
 
Texto 1 - Problematiza o conceito de cuidado articulado à análise 
da política pública de saúde mental na atualidade, enfocando a 
questão dos cuidadores e da produção do cuidado no cenário 
familiar e nos serviços públicos de saúde mental junto aos 
portadores de transtorno mental. 
 
 
Loucura e Família: (Re) Pensando o Ethos da Produção 
do Cuidado 
 
Marco José de Oliveira Duarte 
 
Introdução 
 
Texto apresenta reflexões do autor a partir de pesquisa iniciada nos anos 
1990 nas suas atividades de extensão e supervisão junto aos servidores 
públicos de saúde mental no Rio de Janeiro. Problematiza a produção do 
cuidado pelo conjunto dos trabalhadores na relação com os usuários dos 
serviços de saúde mental e suas famílias. Os sujeitos da pesquisa 
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foram técnicos e familiares que cuidam das pessoas portadoras de 
transtorno mental, seja nos serviços de saúde mental ou no espaço da 
família. 
 
Não se enfoca os aspectos conceituais da temática da família, mas 
sinaliza-se que as abordagens já feitas apontam para a perspectiva 
do pensamento social crítico. Tem-se como preocupação analítica 
como as conseqüências da reforma psiquiátrica refletem sobre as 
famílias dos doentes mentais, principalmente sobre as pessoasresponsáveis pelos cuidados com eles no espaço doméstico e a 
relação com os serviços de saúde mental. Essa família ora é vista como 
suporte, recurso, provedora de cuidados, ora vista de forma negativa, 
incomoda e culpabilizada pelos técnicos nos serviços públicos de saúde 
mental. Na contramão dessa tendência aparecem na cena política e 
institucional associações de usuários e familiares que se colocam como 
sujeitos de direitos e protagonistas nos espaços públicos dos serviços de 
saúde mental, construindo a esfera pública e o controle social no referido 
campo. 
 
Notas sobre a temática do cuidado 
 
Sentido etimológico do termo cuidado: filosofia→ palavra de origem latina, 
derivada do verbo cogitare, mas com referência no vocabulário latino, 
curare. O verbo cogitare origina-se do vocábulo co-agitare, 
significando agitação de pensamento, revolver o espírito ou tornar a 
pensar em alguma coisa, em suma: supor e imaginar. curare, era usada 
em contexto de relação de amor e de amizade, implicando em tratar, 
curar, de pôr cuidado. 
 
Neste pressuposto, entende-se que cuidado implica em cuidar do outro 
em toda sua dimensão humana, subjetiva e objetiva, no campo do 
pensamento, da emoção e da ação. Em sentido amplo, o termo 
cuidado não se restringe a uma delimitação assistencial no interior dos 
serviços de saúde em geral. 
 
Descuido e descaso são o oposto de cuidado. Logo, cuidar é mais 
que um ato, é uma atitude ética e política de responsabilidade, é 
mais que um ato reduzido a uma operação técnico – interventiva, 
só surge quando a existência de alguém tem importância. Dedica-se 
à pessoa, dispõe-se a participar de seu destino, de suas buscas, de 
seus sofrimentos e sucessos, de sua vida. Cuidar pode provocar 
preocupações, inquietação e sentido de responsabilidade. Por sua 
natureza, inclui duas significações básicas: de solicitude e atenção para 
com o outro; e de preocupação e inquietação porque a pessoa se sente 
envolvida e afetivamente ligada ao outro. 
 
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Cuidar abrange mais que um momento de atenção, de zelo e de 
desvelo. Representa uma atitude de ocupação, de preocupação, de 
responsabilização e de desenvolvimento afetivo; uma postura ético 
– estética para com o outro com quem se lida no espaço 
institucional e na complexidade da vida social, seja ele usuário, 
portador de transtorno mental; o familiar, o colega de profissão ou 
outro agente profissional da organização de saúde. 
 
O cuidado não institucionalizado é uma prática socialmente assumida por 
uma ótica de gênero, inclusive aos portadores de transtorno mental. 
Geralmente, recai sobre as mulheres (mães, irmãs, filhas esposas, 
companheiras) por exporem essa vocação socialmente construída pelo e 
para o gênero feminino. 
 
...estudiosos tornaram conhecida a ética do cuidado. (...) diz respeito às 
implicações morais do cuidado a partir das formas locais (...) dos 
conjuntos institucionais, sociais e políticos do cuidado na era moderna, e 
a partir de atitudes de interesse aos comportamentos de cuidar e 
suas práticas. A matriz da ética do cuidado foi adotada para ser 
utilizada por sociólogos, assistentes sociais, advogados, psicólogos, 
geógrafos antropólogos, cientistas políticos, teóricos da política e 
em disciplinas como comunicação, estudos literários, bioética, estudos 
urbanos, teologia e engenharia. (...) A compreensão do tema 
originou-se, sobretudo, da visão feminista sobre cuidado. Quando se 
considera que o cuidado é, freqüentemente, atribuído aos tipos de 
trabalhos e preocupações que são relegados às mulheres. Não é de 
surpreender que as feministas tenham se destacado nesta área. Isto 
posto, não há consenso sobre o significado de cuidado ( Tronto, 2007, p. 
285 – 286). 
 
O trabalho do cuidado na esfera doméstica não tem importância por não 
portar valor econômico, por ser marcado pela invisibilidade na lógica da 
produção de valores posta pelo capital nos ditames do mercado e de um 
Estado que não reconhece esse investimento. No entanto, é nesse âmago 
que a economia e a 
política devem entrar, pois é nesse cenário que se produzem e 
reproduzem comportamentos socialmente construídos, uma arena de 
conflitos, disputas, cooptações, refúgio de um mundo sem corações, 
uma oficina das relações sociais. 
 
Por outro lado, tomando como referência a extensão do cuidado de 
forma institucionalizada da vida social, as demais profissões, 
principalmente aquelas que o campo da saúde e da seguridade social, são 
operadoras dessa constituição do processo de trabalho nas organizações 
sociais em que o cuidado se faz público (Merhy, 2002). Isso se dá ao 
lidar com o doente, a criança e o adolescente, a velhice, os 
portadores de necessidades especiais, os desvalidos e vulneráveis de 
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outra ordem. Essas intervenções profissionais e o conjunto de práticas 
de cuidado são cada vez mais presentes no cotidiano das 
instituições públicas e, no caso da saúde mental, ampliando suas 
preocupações para uma base territorial – comunitária, politizando e 
articulando redes sociais de forma a garantir a integralidade da 
atenção, a intersetorialidade das políticas públicas e suas abordagens 
(Vasconcelos, 2009). 
 
A política de saúde mental e as novas formas de produção de 
cuidados 
 
Considerando, historicamente, o aspecto jurídico-legal no campo da 
política de saúde mental, o modelo técnico- assistencial predominante 
no Brasil, até finais do século XX, propunha a hospitalização e o 
asilamento do doente mental, visando atender à segurança da 
ordem e da moral públicas (Amarante, 1998). Embora dominante, este 
modelo hospitalocêntrico - manicomial tinha por princípio ético-político a 
exclusão, a reclusão e o isolamento social por toda uma vida (Foucault, 
2006). O tratamento psiquiátrico tinha como característica as 
internações longas – institucionalização- e o conseqüente 
afastamento e corte dos laços sociais do doente no seu ambiente social, 
familiar e de trabalho, caso houvesse. 
 
A partir da década de 1960 em outros países e da década de 
1980 no Brasil, essa forma de atendimento começou a ser discutida 
sob o ponto de vista ético – político e institucional entre os 
trabalhadores de saúde mental. Gradualmente, a idéia de 
desinstitucionalização da loucura (Amarante, 1996) e do doente 
mental foi permeando as discussões e o trabalho de produção do 
cuidado dos trabalhadores da saúde mental, de familiares e da 
sociedade em geral no sentido de (re)envolver a família no 
tratamento, atendê-la e apoiá-la em suas dificuldades frente ao 
sofrimento do ente familiar. 
 
Essa perspectiva ocorreu por se acreditar que a família do doente 
mental também sofre com ele e ambos precisam de apoio, suporte e 
cuidado, já que o peso deste vai sobrecarregar um dos familiares, 
sobressaindo as mulheres. Assim, a família torna-se usuária do 
serviço e aliada no processo de produção de cuidado. 
 
O enfoqueda loucura como doença e da psiquiatria como especialidade 
médica é recente na história da humanidade (200 anos). A loucura 
sempre existiu, bem como lugares para se cuidar dos loucos 
(templos, domicílios e instituições), mas a instituição psiquiátrica 
propriamente dita, é uma construção social do século XVIII. A partir 
daí estabeleceu-se o “diferente”, aquele que não segue o padrão de 
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comportamento que a sociedade define. O doente mental é excluído 
do convívio dos iguais, dos “normais” (Foucault, 2001), afastado dos 
donos da razão, dos produtivos e dos que não ameaçavam a sociedade. 
Foram seqüestrados do interior de suas famílias, pela ordem e pelo poder 
psiquiátricos, para os manicômios (Foucault, 1988), porque para a 
psiquiatria, as famílias não sabiam lidar com seus diferentes. Dessa 
forma, negou-se o tratamento moral, os direitos, os desejos e a história 
dos portadores de transtorno mental. Havia uma particularidade nesse 
modelo de tratamento: ao mesmo tempo em que os loucos eram 
separados da sociedade, os médicos (alienistas) viviam com seus 
pacientes diuturnamente e protagonizaram mudanças e inovações para a 
gênese de uma história da loucura. 
 
Nesses dois séculos de enclausuramento da loucura por via da 
internação, o interno, devido a esse sentido de cuidado médico – 
psiquiátrico, perdeu e lhe foi negado os vínculos sociais e afetivos. 
Essa prática institucionalizada de controle não se restringiu ao 
tratamento dos loucos, tendo atingido outros tipos de segmentos 
sociais ditos vulneráveis: orfanatos para os ditos menores; asilos 
para os velhos; colônias para os leprosos, etc. 
 
Na atualidade, encontram-se grandes desafios a partir da trajetória 
das reformas psiquiátricas que trouxeram a desinstitucionalização do 
doente mental e sua relação com a família. De um lado a cultura 
institucional do cuidado que diz que lugar de louco é no hospício e por isso 
a defesa da internação como único modo de responder à crise; por 
outro as tentativas dos trabalhadores da saúde mental na 
(re)habilitação desses sujeitos a partir de serviços abertos e comunitários 
à sua família, ao seu território e à sociedade. 
 
É evidente que não será de imediato que as mentalidades mudarão 
frente a lida com a loucura e os loucos. Isso contempla a “indústria 
da loucura”, as agências formadoras de opinião e os órgãos de formação 
profissional com modelos de ensino- aprendizagem que se baseiam 
na neutralidade, no tecnicismo, nos especialismos e numa leitura da 
doença centrada no corpo doente, sem levar em consideração as 
determinações sociais do processo saúde-doença-cuidado (Amarante, 
2007). 
 
O ponto de partida desta análise centra-se no espaço que a 
loucura e a política de saúde mental, na atualidade, ocupam na 
constituição da sociedade moderna. A loucura tem sido associada à 
articulação de um ethos próprio, ocupando a esfera da privacidade na sua 
forma de enclausuramento da diferença e, por outro lado, na construção 
de respostas pelo poder público, por meio dos novos serviços públicos de 
saúde mental em coexistência com a velha ordem manicomial. A 
loucura tem começado a ganhar força na esfera pública, articulando 
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discursos políticos referentes aos direitos de seus usuários. Desse 
modo, a relação entre Estado e loucura se coloca no debate sobre novas 
identidades e noções de sujeito presentes na contenda pelos direitos 
sociais, civis e políticos. 
 
No contexto brasileiro, se faz necessário pontuar o aparecimento da 
temática da loucura em todos os veículos da mídia, sobre 
particularmente três eventos. 
 
1) enunciação política e coletiva em forma de denúncias de 
maus-tratos, morte e violência institucional no interior das 
instituições psiquiátricas demarcadas pelo modelo assistencial 
hegemônico caracterizado pelo aparato manicomial e 
hospitalocêntrico. Essas denúncias vinham acompanhadas de 
uma proposta de atenção e cuidado em sintonia com as 
experiências de reformas psiquiátricas internacionais, a 
construção de um modelo substitutivo ao manicômio, aos 
moldes da reforma italiana. 
2) Refere-se à polêmica nos debates legislativos em torno do 
estabelecimento da Lei Federal n: 10. 216 de 2001 – Lei da Saúde 
Mental, que coloca a questão da proteção e dos direitos das 
pessoas portadoras de transtorno mental, direciona o modelo 
assistencial e define os tipos de internação (voluntária, involuntária 
e compulsória) e suas formas de proceder. Estabelece que a 
internação, em qualquer modalidade, só será indicada quando 
os recursos extra-hospitalares se mostrarem insuficientes. Inclui a 
proibição de novos leitos psiquiátricos e hospitais do gênero. Coloca 
como fundamental o envolvimento e a importância da família como 
partícipe da produção do cuidado. Seu artigo 3 diz, 
É responsabilidade do Estado o desenvolvimento da 
política de saúde mental, a assistência e a promoção de 
ações de saúde aos portadores de transtornos mentais, com a 
devida participação da sociedade e da família, a qual será 
prestada em estabelecimento de saúde mental, assim 
entendidas as instituições ou unidades que ofereçam 
assistência em saúde aos portadores de transtornos mentais. 
O texto demonstra uma mudança de paradigma que diz respeito ao 
rompimento com a identificação do louco como doente mental 
(mesmo que a concepção de doença mental ainda prevaleça), 
usando a expressão “sofrimento psíquico”, instituindo um novo 
lugar social para os assim identificados. A redação oficial rompeu 
com o historicamente instituído: a loucura como doença mental. 
3) O terceiro fato analisado foi a retomada da loucura e a atual 
política nacional de saúde mental a partir da Lei de Reforma 
Psiquiátrica consolidada. Conseqüência, por um lado, da abordagem 
de temas sobre a loucura na mídia (novelas) e de reportagens 
escritas de crítica à atual política do setor. 
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Neste contexto pós-reforma psiquiátrica, com avanços no campo 
legislativo e na ampliação da rede de serviços substitutivos ao manicômio, 
o preconceito ainda é presente para com os ditos loucos. 
 
Mudanças culturais e políticas fazem com que esse grupo de 
pessoas, cujos comportamentos são objeto de controle e 
disciplinamento por divergirem do que se convencionou chamar 
normalidade, busque de forma organizada o seu reconhecimento e 
sua legitimidade, reivindicando direitos e cidadania. 
 
 
Procuraremos retratar os modos em que se estruturaram essas 
ambigüidades entre ser um elemento excluído na história das 
racionalidades e, agora, incluído na gestão e na constituição de um 
discurso mais solidário para com esses sujeitos, no campo da promoção 
do cuidado e da atenção psicossocial.Loucura e família: Questões micropolíticas do cuidado 
 
As ações de cuidado em saúde mental, para serem participativas, 
dialógicas e pactuadas devem contemplar uma multiplicidade de 
olhares sobre as avaliações e as decisões: olhar do gestor, do 
planejador, do usuário, do familiar e do técnico. Assim, propõe-se 
um corte na análise que se segue, frente à variedade de 
perspectivas, considerando as diversidades políticas, teóricas e 
conceituais presentes nos grupos de usuários, familiares e 
profissionais. Traçaremos apontamentos políticos na construção desse 
campo específico de saúde mental. 
 
A Lei da Reforma Psiquiátrica, em seu artigo 2, coloca um novo estatuto 
de cidadania dos portadores de transtorno mental. Diz em seu parágrafo 
único, 
I - ter acesso ao melhor tratamento do sistema de saúde, 
consentâneo às suas necessidades; 
II - ser tratada com humanidade e respeito e no interesse 
exclusivo de beneficiar sua saúde, visando alcançar sua 
recuperação pela inserção na família, no trabalho e na comunidade; 
III - ser protegida contra qualquer forma de abuso e exploração; 
IV- ter garantia de sigilo nas informações prestadas; 
V - ter direito à presença médica, em qualquer tempo, para 
esclarecer a necessidade ou não de sua hospitalização 
involuntária; 
VI - ter livre acesso aos meios de comunicação disponíveis; 
VII - receber o maior número de informações a respeito de sua 
doença e de seu tratamento; 
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VII - ser tratada em ambiente terapêutico pelos meios menos 
invasivos possíveis; 
IX - ser tratada, preferencialmente, em serviços comunitários da 
saúde mental”. 
 
A política assistencial da reforma psiquiátrica não é simplesmente uma 
transferência do usuário para fora dos muros do hospital, “confinando-o”à 
vida em casa, aos cuidados de quem puder assisti-lo ou entregue a 
própria sorte. Esse tem sido o discurso dos setores conservadores. 
 
Alguns profissionais esforçam-se na tentativa de construção da 
autonomia, da recuperação e da reabilitação do sujeito portador de 
transtorno mental à família e à sociedade. Alguns autores referem-se à 
família para aludir ao fato da crescente intolerância e preconceito 
para com os portadores de transtorno mental., conseqüência de uma 
mudança de atitude ético-estética das pessoas e da sociedade. Essas 
mudanças constituem-se em um processo social e complexo que 
refletirá no âmbito individual, familiar e institucional. As instituições 
e a sociedade estão cada vez mais chamadas a lidar com o 
“desviante”, o diferente e excluído, mais pela imposição de um 
estatuto das cidadanias conquistado por esses segmentos sociais, do que 
por suas capacidades técnico-interventivas. 
 
Na literatura brasileira sobre saúde mental e família, os autores se 
referem à necessidade de cuidado à família dos portadores de transtorno 
mental como parte do projeto terapêutico ou estratégia do cuidado. 
Observa-se que não são freqüentes as discussões e os trabalhos 
que demonstram um conhecimento contextualizado de como e por 
quem esses usuários são cuidados fora dos serviços de saúde mental, ou 
seja, na família. 
 
A relação loucura e família na questão do cuidado, observa-se três tipos 
de sobrecarga: a financeira, o desenvolvimento ou quebra das rotinas 
familiares e as manifestações de doença física e emocional. 
 
Nesse sentido, a inclusão das familiares – cuidadoras nos novos modelos 
técnico - assistenciais, como os Centros de Atenção Psicossocial 
(CAPS), torna-se um desafio às equipes . Por um lado, a família 
não está fora nem imune ao contexto geral da sociedade: aponta a 
internação prolongada como resposta a sua angústia, impotência, 
desespero, exaustão e alívio na sobrecarga do cuidado e por 
arcarem sozinhas com os custos desse cuidado no espaço doméstico. 
 
Outra questão é o não entendimento pela família e pela sociedade da 
mudança do modelo de cuidado de base territorial e comunitária. 
 
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Por outro lado, os profissionais acabam por naturalizar ou banalizar, não 
dando importância às queixas dos referidos casos que chegam aos 
serviços, demonstrando um ato de não acolhimento e não cuidado para 
com o sujeito portador de transtorno mental e sua família (Duarte, 
1999). 
 
Percebemos que há um modelo idealizado de família impregnado nos 
profissionais do campo, pautado no nuclear burguês. Com isso, esses 
técnicos vitimizam os usuários em detrimento de suas famílias, sem 
entender e contextualizar esses sofrimentos pela ótica do ethos do 
cuidado que chegam aos equipamentos desse mesmo cuidado. 
 
Vários estudiosos têm chamado a atenção sobre a sobrecarga que 
a família enfrenta na convivência com o portador de transtorno 
mental, desencadeando atitudes de incompreensão familiar e 
rejeição, culpa e vergonha, motivadoras de reinternações sucessivas ou 
permanentes. 
 
Frente ao transtorno mental, segundo especialistas, as famílias tentam 
resolver a questão internamente, depois na rede de parentesco e nas 
redes sociais e religiosas. Só por último procuram os serviços 
públicos de saúde mental. No trabalho cotidiano do cuidado, o 
grupo dificilmente está disponível e/ou disposto a trabalhar a dimensão 
subjetiva e objetiva do cuidado. É comum profissionais exigirem que a 
família aceite a doença sem oferecer-lhes suporte, orientação e direitos. 
 
Às vezes a família não se mostra favorável a respeito da 
desinstitucionalização do doente mental, exercendo pressão para que os 
serviços continuem a manter a custódia e a tutela dos usuários porque o 
encargo pesado não é aceito passivamente e não encontram ecos para 
suas demandas. 
 
Os diferentes percursos da reforma psiquiátrica brasileira têm 
evidenciado a fragilidade do sistema de saúde para oferecer outro tipo 
de cuidado que não a internação pelas instituições conveniadas, mesmo 
de forma complementar. A necessidade de outro tipo de abordagem 
com as famílias cuidadoras se localiza em um cotidiano de tensão, 
de conflitos, de angústias, além delas se encontrarem, na maioria 
das vezes, desorganizadas, envergonhadas, estigmatizadas e sem 
estarem prontas politicamente para se colocar como agentes das 
reivindicações de direitos. Ao contrário, encontram-se fragilizadas e 
vulneráveis para resolver a problemática da vida cotidiana, acrescida 
das dificuldades geradas pela convivência familiar, pela manutenção 
e pelo cuidado com seu portador de transtorno mental; mesmo que 
haja políticas públicas que garantam direitos e benefícios para 
manutenção dos gastos financeiros com os doentes. 
 
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Outra situação penosa para as famílias administrarem e aceitarem é 
a improdutividade dos seus doentes mentais, cuja manutenção pesa 
no orçamento.O lidar com o cuidado cotidiano na família é carregado de vergonha e, às 
vezes, demonstra realidades ignoradas pelos serviços ( Ex.: 
agressividade) e revelam situações que não podem prescindir de suporte 
de cuidado. 
 
O momento de uma reincidência ou do agravamento do estado mental de 
um usuário dos serviços torna-se perturbador para as famílias e, 
especialmente, para as cuidadoras, frente as dificuldades para 
compreender e para evitar um desfecho desastroso da crise. 
 
O discurso das familiares – cuidadoras analisado revelou a 
multiplicidade de problemas, ansiedades, medos, vergonhas e 
tristezas que elas vivem durante as crises de seus entes em 
sofrimento. A percepção delas quanto ao tratamento dispensado aos 
doentes é condizente com o que mais acontece: tratamento 
medicamentoso para contenção e tornar o paciente mais adaptado 
ao seu contexto social, acreditando na cura. 
 
A idéia de reabilitação psicossocial não deve ser entendida como 
adaptação ou ajustamento do louco a um padrão de normalidade, mas 
como reintegrar-se e recuperar-se e à rede intersubjetiva, possibilitando 
ao sujeito o sentimento de estar no mundo com sua diferença. 
 
Observa-se que a emancipação do sujeito e o emergir da capacidade de 
gerenciar sua própria vida se dá em graus diferentes para alguns e 
não acontece para todos. Através do trabalho de campo, 
observamos que as cuidadoras mais pobres e que têm seus 
doentes agressivos, violentos ou intolerantes aos familiares, tem maior 
grau de rejeição e querem que o familiar doente fique internado de forma 
permanente. Entretanto, quando há possibilidade de acesso, de 
acolhimento, de uma escuta, essas cuidadoras manifestaram que a 
internação é o último recurso, quando seus entes estão em crise, do qual 
não podem prescindir. 
 
 O rompimento com a continuidade instituída pela representação 
social da loucura e dos doentes mentais; a superação das contradições 
presentes no imaginário social e no mundo concreto das famílias, 
cuidadoras ou não, sobre as concepções acerca do que vem a ser 
a doença, o tratamento, a reabilitação, a cura, a internação e os 
serviços de saúde mental, significa um processo pedagógico de 
revisão e reconstrução do conceito de loucura e dos portadores de 
transtorno mental no lidar com a existência-sofrimento. 
 
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 Está se vendo surgir ações coletivas de usuários presentes na cultura, na 
política e nos serviços. Isso denota a real possibilidade de revisão e 
desconstrução dos conceitos que implicam em mudança de postura 
ética, estética e política por parte desses sujeitos, no sentido de ir 
implicando-se para toda a sociedade, inventando e recriando novas 
formas de cuidar e de exercer a cidadania desses sujeitos no cotidiano da 
família, dos serviços, do território e da vida. 
 
Considerações Finais 
 
Um dos objetivos dos CAPS é incentivar que as famílias participem, 
da melhor forma possível, do cotidiano dos serviços. Os familiares 
são, muitas vezes, o elo mais próximo que os usuários têm com o 
mundo e por isso são pessoas muito importantes para o trabalho 
de CAPS, não somente incentivando o usuário a se envolver no 
projeto terapêutico, mas também participando diretamente das 
atividades do serviço. Os familiares são considerados pelos CAPS 
como parceiros no tratamento. (Brasil, 2004, p. 29) 
 
A reforma psiquiátrica brasileira, tendo como desafio a 
desinstitucionalização da loucura, pela construção de novos modelos de 
assistencia (CPAS), coloca em foco a relação de parceria com a família, 
tendo em vista que em ambos os territórios há um ethos de produção de 
cuidados, na intenção de possibilitar uma ova forma de ser destes 
serviços, na concretização de uma tensão psicossocial. 
 
São vários os atores desta cena: técnicos, familiares e os usuários, 
todos imbuídos de uma ética do cuidado, apesar dos limites e riscos. 
 
 Os novos serviços não se limitam à substituição do hospital por 
um aparato externo envolvendo questões de caráter técnico-
administrativo e assistencial. Envolve questões do campo jurídico – 
político e sociocultural. Exige que haja um deslocamento das 
práticas de integralidade do cuidado em saúde mental, antes 
centradas nos leitos psiquiátricos e nos procedimentos médicos para 
práticas de cuidado realizadas no território com base comunitária, com 
participação e controle social. 
 
A questão principal é buscar outro lugar social para a loucura na nossa 
cultura. Isso coloca em debate o outro pólo da questão: a cidadania dos 
portadores de transtorno mental e sua relação com os serviços, assunto 
debatido na esfera pública e de controle social no campo da saúde 
mental (nas conferências nacionais de saúde mental). 
 
A reforma psiquiátrica vem se desenvolvendo no Brasil há vários anos , 
oriunda de um movimento social de cunho sindical,e apontou as 
inconveniências do modelo oficial vindos da psiquiatria clássica que 
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propiciava a exclusão e a cronicidade dos doentes mentais em todo o país. 
 
Apesar do pouco tempo, o novo modelo vem sendo edificado a partir das 
tentativas e contribuições de vários segmentos da sociedade, se 
implicando com a desconstrução do modelo hegemônico-dominante. 
 
 A agenda pública da saúde mental aponta as diretrizes do 
processo de reforma psiquiátrica brasileira, sendo que a construção da 
política vem se dando timidamente: 
 
a) a desistitucionalização e substituição do modelo de cuidado ( 
redução de leitos e cuidado extra-hospitalar e comunitário); 
b) implantação e consolidação da rede de atenção psicossocial, 
incluindo atenção básica (base comunitária, territorialização, 
parcerias em perspectiva intersetorial) 
c) política de álcool e drogas no campo da saúde pública na 
perspectiva de redução de danos; 
d) inclusão social da pessoa com transtorno mental pela via da 
economia solidária; 
e) formação permanente de recursos humanos ; 
f) construção de novos referenciais para a loucura e o cidadão. 
 
São vários os desafios na construção dos novos modelos técnico- 
assistencial dos serviços públicos de saúde mental, tendo por referencia o 
ethos do cuidado por parte de todos para a concretização de um espaço 
aberto e de base territorial – comunitária. A necessidade de 
avaliação constante, de vigilancia atenta para que não sejam 
reproduzidas práticas da velha ordem manicomial. 
 
 
Texto 2 – Tematiza as relações entre trabalho, família e políticas 
sociais a partir do recorte de gênero. 
 
“Entre o trabalho e a família” – Contradições das 
respostas públicas às reconfigurações da divisão sexual 
do trabalho 
 
Andréa de Sousa Gama 
 
Introdução 
 
Estados de Bem – Estar social contemporâneos surgido em diferentes 
momentos e diferentes formas, a partir da Segundo Guerra Mundial 
passam a partilhar similitudes.O núcleo central das reformas é a 
provisão da proteção social pelo Estado, às pessoas cuja pobreza 
resultava das dificuldades de sesustentarem por meio do trabalho 
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assalariado devido a acidesntes de trabalho, doença, desemprego e 
velhice. Gozavam de um direito social, reconhecido como tarefa do 
Estado, e relacionado a uma concepção de cidadania. Mas a relação 
entre trabalho e cidadania pode ser vista de forma diferente. Como 
pensar os direitos sociais da mulher? De que forma as mulheres 
são cidadãs? A cidadania da mulher passa pelo trabalho assalariado? 
O trabalho não remunerado pode ser inscrito no âmbito da 
cidadania? 
 
A divisão sexual do trabalho e a ideologia de gênero que a 
acompanham vem sendo incorporada aos processos de reforma dos 
Estados de Bem –Estar Social, inspirada na visão maternalista e nos 
ideais feministas igualitaristas. A partir da década de 1970, feministas 
desenvolvem críticas ao sistema de bem-estar social. A Conferência 
Internacional da Mulher (1975) reconhece a relevância do Estado 
para a solução do problema da dependência feminina em relação 
aos homens, promoção da igualdade de oportunidade no trabalho, 
na educação, igualdade salarial, creches, aborto e contracepção, 
medidas relacionadas à autonomia feminina. Ao mesmo tempo, as 
relações entre o Estado e a família foram postas em evidência, 
principalmente a forma pela qual o Estado estruturou a provisão de 
bem estar social por meio do trabalho “invisível”da mulher. Desde então, 
as críticas às políticas sociais tem se ampliado e sustentado. Por um 
lado, o Estado constrói e reconstrói no âmbito político, provisão das 
desigualdades de gênero; por outro lado, o reconhecimento de que as 
mulheres necessitam de proteção social pública. 
 
Este texto enfatiza o vínculo entre trabalho, família e políticas 
sociais, destacando que essas relações são diferenciadas por gênero. A 
autora apresenta experiências internacionais que mostram a importância 
de políticas governamentais que respondem aos conflitos atuais 
entre trabalho e família e como diferentes modelos de reforma dos 
sistemas de proteção social têm efeitos distintos para a promoção da 
igualdade de gênero. 
 
A possibilidade de redução das desigualdades (inclusive as de gênero) 
passa pela proteção social que pode afetar positivamente a inserção 
produtiva feminina, reduzindo as vulnerabilidades decorrentes da 
divisão social e sexual do trabalho; promovendo incentivos que 
alavanquem a autonomia financeira, familiar e profissional – 
ocupacional da mulher. É tarefa essencial integrar a cidadania 
feminina no sistema de proteção social, de forma a superar os impasses 
vindos do conflito trabalho – família. 
 
Este trabalho pretende refletir sobre a relação entre o trabalho não 
remunerado no seio da família e o trabalho remunerado no mercado 
de trabalho, de forma a melhor articular proteção social e gênero. 
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Interpretações das (novas) configurações da divisão sexual do 
trabalho 
 
Os primeiros movimentos de mulheres tiveram um papel decisivo 
na criação e nas reformas dos sistemas de proteção social 
contemporâneos. As reivindicações feministas dirigiam-se à 
maternidade (feminismo maternalista). 
 
Naquele contexto, os movimentos das mulheres lutaram por um tipo de 
Estado -providência e cidadania que reconhecesse os direitos e as 
necessidades relacionadas com os riscos dos assalariados masculinos 
e das mães assalariadas ou não. Eles inspiraram e modelaram 
legislação sobre proteção social em diversos países: licença e subsídios 
de maternidade, abono ou salário família, etc. Contribuía para a 
proliferação dessa legislação o declínio das taxas de fecundidade. A 
pobreza das famílias e a questão populacional eram as causas mais 
importantes para a manipulação das medidas públicas de proteção 
social à maternidade. 
 
Questão crucial no debate feminista; a atividade que as mulheres realizam 
como mães e que pode ser considerada pertencente ao domínio do 
trabalho→ feministas maternalistas (início do século XX):lutavam 
pela dignidade da maternidade, pelo seu reconhecimento como 
trabalho e pela remuneração total ou parcial pelo Estado; a 
sociedade devia o reconhecimento social, político e econômico do 
trabalho doméstico; a maternidade deveria ser reconhecida como trabalho 
e remunerada com um salário (subvencionada pelo Estado), veículo para 
independência “financeira” das mães e para uma mudança nas relações 
entre os sexos. 
 
Inicia-se a gestação do conceito de divisão sexual do trabalho que, além 
de denunciar as desigualdades entre homens e mulheres repensava o 
próprio “trabalho”. A ancoragem era a idéia de que o trabalho 
doméstico era um “trabalho” e que, a definição deste deve 
obrigatoriamente incluir aquele. 
 
Durante e após a Segunda Guerra Mundial: passagem dos 
benefícios à maternidade para os abonos centrados na família→ 
intuito de manter a capacidade de consumo do trabalhador com 
filhos (derrota para os objetivos originais do feminismo maternalista). 
Diversos grupos feministas opunham-se às políticas centradas na 
maternidade e lutavam pela igualdade entre homens e mulheres. O 
crescimento da economia industrial, a ampliação do emprego e das 
condições de trabalho fez com que as mulheres considerassem mais fácil 
conseguir a emancipação pelo trabalho assalariado e pela 
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redistribuição de responsabilidades entre o casal do que por meio de 
reconhecimento público da maternidade como uma função social. 
 
Durante os anos 1960 -70, a participação feminina no mercado de 
trabalho levou ao abandono às premissas maternalistas. Entretanto, os 
movimentos das mulheres não abandonaram a necessidade da provisão 
estatal, Novos contornos se estabelecem para a questão da 
maternidade, notadamente para sua conjugação com o trabalho 
remunerado. 
 
Uma questão básica para o bem- estar é como alocar a sua produção, a 
partir da interdependência dos seus três pilares: família, mercado e 
Estado. Apesar da inexistência de uma concepção unívoca de direitos 
sociais quanto aos papéis atribuídos a cada um desses pilares, a 
crítica feminista vai incidir sobre o papel das mulheres na provisão 
do bem – estar, por meio do trabalho doméstico não remunerado e 
do cuidado exercido na esfera da produção social. 
 
Carole Pateman (2000) observa que o direito ao trabalho não pode 
ser compreendido sem a devida atenção às conexões existentes 
entre o mundo público do trabalho e da cidadania e o mundo 
privado das relações familiares. Destaca que o salário é o traço 
característico da cidadania moderna, pois garante a autonomia, o 
que significa que as mulheres correm o risco de serem cidadãs de 
segunda classequando permanecem na inatividade para cuidar dos 
filhos, dos idosos e dos doentes. A construção do trabalhador 
masculino como provedor e da sua esposa como dependente foi 
oficialmente consagrada por legislações que conformam o Estado de 
Bem – Estar Social. Logo, este se estrutura sobre uma divisão do 
trabalho por gênero que estrutura a provisão do bem - estar. 
 
 A ideologia de gênero dificulta a percepção da relevância do trabalho 
doméstico das mulheres, deixando a impressão de que elas são 
dependentes dos maridos, embora a organização do trabalho deles 
e a mais- valia do seu empregador também se beneficiem desse trabalho 
feminino “invisível”. 
 
Mcintosh (2000) desenvolve crítica ao assalariamento e ao sistema de 
bem – estar social que ocultam a separação “patriarcal”entre a produção e 
a reprodução social. A característica específica da opressão feminina 
estaria relacionada à articulação entre o sistema salarial e o sistema 
familiar e a divisão sexual do trabalho. Historicamente, com a 
separação do âmbito da produção e da reprodução social, com a 
emergência da família nuclear burguesa e da sociedade de mercado, 
o trabalho remunerado das mulheres foi assentando de forma 
subalterna, ao mesmo tempo em que o trabalho não remunerado ficou 
invisível. 
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Em geral, as análises feministas que buscam a integração do 
trabalho não remunerado às teorias e tipologias do Estado de Bem – 
Estar Social denunciam que este trabalho não remunerado não poderia ter 
sido negligenciado. O desenvolvimento do Estado de Bem- Estar 
Social está assentado no pressuposto de que certos aspectos do bem 
– estar podem e devem continuar a ser promovidos pelas mulheres em 
casa, como parte de sua responsabilidade na esfera privada e não 
por meio de previsão pública. Um exemplo atual é o processo de 
assistencialização e filantopização das políticas sociais, assentado no 
corolário de que as mulheres usam de forma mais eficiente os recursos 
escassos. Uma escolha que revela contradições muitas vezes 
incontornáveis da autonomia feminina. 
 
A relação das mulheres com o Estado moderno é mais complexa que a dos 
homens, pois elas são ao mesmo tempo clientes, trabalhadoras 
remuneradas e trabalhadoras não remuneradas. Pode-se considerar 
que o trabalho remunerado exerceu papel determinante na redução 
da dependência das mulheres em relação aos homens, reforçando seu 
poder de negociação no interior da família e abrindo novas possibilidades 
fora do casamento. Os mercados de trabalho modificaram-se. O 
processo de reestruturação produtiva fomentou uma “flexibilização” 
considerável. As mulheres que sempre tiveram tendência a ocupar 
empregos “”precários” viram o número destes empregos aumentar. Nos 
anos 1990, a retração dos Estados de Bem – Estar Social teve importância 
particular para as mulheres, na medida em que estas dependem de uma 
“renda social “ sob a forma do usufruto de serviços públicos. 
 
A literatura internacional sugere que as tentativas de reformar os 
sistemas de seguridade social, por meio da “individualização” dos 
benefícios e da eliminação dos direitos de acesso das mulheres como 
esposas, foram negativas para muitas delas. Muitas passaram a não 
ser elegíveis para benefícios previdenciários e se tornaram dependentes 
de programas assistenciais. O conflito entre os objetivos da independência 
das mulheres, dos seus direitos de beneficiárias como esposa e as 
garantias de provisão de benefícios próprios adequados à fase idosa 
parecem longe de definição. A principal debilidade deste tipo de resposta 
pública de não considerar a interação entre a divisão sexual do 
trabalho e a provisão social dos benefícios é causa da diferenciação de 
gênero em termos do direito de acesso a benefícios por parte de homens 
e mulheres. 
 
Em um crescente número de países, a participação e a escolaridade 
das mulheres no mercado de trabalho tem se assemelhado a dos 
homens. Observa-se a erosão do curso de vida masculino em face da 
instabilidade do emprego e do desemprego. Isso vem provocando 
tendência de maior aproximação nas características de inserção no 
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trabalho entre homens e mulheres. Entretanto, as tensões da 
igualdade de gêneros permanecem porque as forças que impedem a 
convergência também criam e aprofundam desigualdades: 
relacionadas com segregação e discriminação de gênero no mercado 
de trabalho; condições precárias no trabalho e a divisão desigual do 
trabalho doméstico. 
 
Esping- Andersen (2002): -propõe quatro arenas políticas fundamentais 
para a reconstrução do modelo de bem – estar: crianças e famílias, 
relações de gênero, vida de trabalho e aposentadoria. Tais áreas 
representam o alicerce das chances de vida dos cidadãos. O autor 
defende que as mulheres podem ocupar o centro da sociedade pós-
industrial; que ascensão do emprego feminino esteve assentada na 
emergência da economia de serviços que foi alavancada pela 
entrada da mulher no mercado de trabalho. A economia de serviços 
como resultado de novas tecnologias e de mudanças nas relações 
financeiras e de produção, também é decorrente da mudança no 
comportamento das famílias pelo quase desaparecimento do modelo da 
mulher do lar e das empregadas domésticas; e pela ampliação do 
emprego de mãe e esposas. O aumento da participação feminina no 
mercado de trabalho implicou numa dupla dimensão do emprego, visível 
no âmbito do consumo de massa e na capacidade aquisitiva das 
famílias → autor peca por refuncionalizar o papel das mulheres no 
contexto das reformas atuais dos Estados de Bem - Estar Social; 
não aprofundar as relações entre as transformações do trabalho, as 
novas formas de produção e emprego e as novas configurações da 
divisão sexual do trabalho. Subavaliar o caráter e a dimensão 
dessas mudanças para homens e mulheres significa naturalizar a 
inserção desigual das mulheres no mercado de trabalho atual. 
 
Em segundo lugar, ao propor políticas de famílias orientadas nas 
condições econômicas e sociais da infância, tende a minimização das 
reivindicações das mulheres assentada na efetividade do emprego 
das mães para a prevenção da pobreza das crianças. Nessa 
direção, as políticas de igualdade de gênero serão conformadas por 
meio da “ conciliação” maternidade e emprego, em que o trabalho 
feminino será fundamental para manter as famílias acima do nível 
de pobreza, para contribuir para o financiamento da Previdência Social 
e para ser uma das peças- chave de equilíbrio da economia pós –
industrial. 
 
A demanda atual por essa “conciliação” oculta as novas modalidades da 
divisão sexual do trabalho resultante do processo de flexibilização e 
precarização do trabalho. Ao mesmo tempo em que a força de trabalho se 
feminilizou, constata-se que a flexibilização pode reforçar as formas mais 
estereotipadas das relações de gênero, por meio das novas formas 
de gestão do tempo e do espaçodo trabalho, segmentado por 
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sexo. Outra manifestação desse processo está relacionada ao 
fenômeno das desigualdades entre as mulheres não mais medidas pelos 
homens, mas pelas relações de trabalho. Ao mesmo tempo em que 
aumenta o número de mulheres em profissões de nível superior, 
cresce o de mulheres em situação precária 
 
Terceiro: reorganização do trabalho no campo doméstico remete a 
externalização ou delegação deste à enorme reserva de mulheres em 
situação precária, migrantes, negras, pauperizadas. 
 
Refletindo sobre o significado desta mudança histórica, em termos 
da concepção do Estado de Bem-Estar Social sobre as mulheres, têm-
se as políticas amigáveis às mulheres. Na União Européia, a política da 
“conciliação” entre trabalho- vida familiar passou a ser prioridade do 
governo. Entretanto, na essência desta política há um paradoxo: o 
objetivo de se chegar a igualdade pela promoção da “conciliação”. Essa é 
ima política fortemente sexuada porque consagra o status quo, 
segundo o qual homens e mulheres não são iguais perante o trabalho 
profissional. 
 
Stratigaki (2004) mostra que a concepção da “conciliação” trabalho- 
vida familiar introduzida para encorajar a igualdade de gênero no 
mercado de trabalho foi gradualmente sendo substituída por um 
objetivo mercado – orientado (encorajando formas flexíveis de 
emprego). A autora caracteriza este processo como cooptação das 
concepções de gênero por políticas públicas que modificaram o sentido 
dos objetivos originais pela prevalência de prioridades econômicas. 
Esse processo consolidou as responsabilidades e os papéis das mulheres 
como prestadoras primárias do trabalho de assistencia. 
 
Contradições da proposição da conciliação trabalho – família em 
perspectiva comparada 
 
A “compatibilidade” trabalho- vida familiar está contingenciada pela 
natureza do suporte institucional. Estudos que analisam a problemática 
da “conciliação” entre trabalho remunerado e responsabilidades 
familiares tem operado análises a partir das mudanças na estrutura 
das famílias e no mercado de trabalho. Em geral, buscam analisar as 
desigualdades de gênero no mercado de trabalho, no interior da família e 
as variações das políticas sociais e de mercado de trabalho quanto 
ao nível de suporte oferecido aos pais e no quanto incentivam as 
divisões dos “cuidados”e do trabalho remunerado com base na igualdade 
de gênero. Procuram mensurar os efeitos da maternidade e da 
paternidade sobre as condições e perspectivas de trabalho de homens e 
mulheres, o papel e a eficácia das políticas públicas de apoio ao modelo 
onde ambos os cônjuges trabalham. 
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O trabalho de Crompton e Lyonette (2007) observa que conjugar 
trabalho e família está eivado de pressões e tensões e que os níveis 
desse conflito variam com as circunstancias nacionais, individuais e 
familiares. Ao desenvolver um estudo comparativo sobre os níveis de 
conflito trabalho – vida familiar de famílias com duplo rendimento, 
concluem que os índices de tais conflitos são menores quando há 
um forte apoio dos governos para as famílias com dois provedores de 
rendimento. 
 
Outras pesquisas mostraram os efeitos diferenciados da paternidade 
e da maternidade sobre a participação no trabalho. Ocorre uma 
ampliação da inserção no mercado de trabalho e o aumento do 
número de horas trabalhado resultante das pressões economicas 
com o aumento da família, para homens, as mulheresveem sua 
remuneração diminuir, veeem aumentat os anos de afastamento do 
mercado de trabalho, o trabalho em tempo parcial e a inatividade, 
principalmente quando as crianças são pequenas. 
 
Gornick e Meyers (20070) apresentam as variações das políticas 
sociais e de mercado de trabalho na Europa e nos EUA quanto ao 
nível de suporte oferecido aos pais e quanto incentivam as divisões dos 
“cuidados”e do trabalho remunerado com base na igualdade de genero. As 
autoras destacam os países social – democratas como os mais bem 
sucedidos na promoção da igualdade de genero que valoriza tanto o 
trabalho remjnerado quanto o bem-eestar infantil. 
 
Orloff (s/sd) ao analisar a trajetória político-institucional das políticas 
que envolvem o “adeus ao maternalismo”a partir do modelo sueco e 
do americano, desmistifica-os destacando que ambos apresentam 
lacunas no objetivo da igualdade de gênero nas esferas do trabalho e do 
“cuidado”. Na Suécia políticas viabilizam a conciliação entre trabalho e 
família, na qual as mulheres são as maiores beneficiárias. A social-
democracia tem papel importante nesse cenário: visa a promover a 
igualdade de genero por meio de emprego feminino e da criação de 
serviços públicos. A lógica : se a igualdade entre homens e mulheres deve 
ser conquistada, o trabalho remunerado deve ser atraente para as 
mulheres; compatibilização entre a maternidade e aparticipação no 
mercado de trabalho foi a estratégia desenvolvida. As mulheres 
contam com uma ampla rede de serviços públicos voltados para o 
“ciodado”, o que tem contribuído para a ‘desfamiliarização‘ do “cuidado”. 
Faria (2002) apresenta dados que mostram que os benefícios 
relacionados à licença para os pais não conseguem fazer com que 
os homens passem a assumir um papel significativo no ambito doméstico 
da criação dos filhos. 
 
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Segundo Orloff (s/d), o modelo sueco é “generoso”, propiciando licenças 
longas, flexíveis e destinadas a suprir necessidades diversas, oferecendo 
compensações pelas perdas salariais, parece plausível afirmar que a 
ênfase do sistema recai mais sobre a possibilidade de se “compatibilizar”a 
maternidade com o trabalho remunerado do que sobre o declarado 
objetivo de induzir a criação de uma simetria entre os papéis 
designados os pais e mães. 
 
O modelo americano do “trabalho para todos” desenvolve políticas de 
gênero orientadas pelo mercado. A diversificação do mercado de trabalho 
entre homens e mulheres tem raízes no feminismo liberal norte-
americano, fundamentado nas noções de justiça e direitos individuais e da 
adoção de políticas de ação afirmativa. Entretanto, o Estado não 
intervém no trabalho de assistência, pois é entendido como um 
assunto privado, de escolha individual. Apesar dos altos níveis de 
empregabilidade feminina e com menor taxa de emprego de tempo 
parcial, existe um gap nas taxas de emprego de mães de crianças 
pequenas que, pela compreensão do “cuidado” restrita ao lócus privado e 
a sua mercantilização, enseja desigualdades sociais entre mulheres e 
as famílias. Após a reforma do sistema de proteção social 
americano, em 1996, o objeto das políticas se restringe as mulheres 
pobres e às chefes de família. Há incentivos à provisão do setor privado 
de “cuidados”. O aumento das desigualdades entre as mulheresestá 
relacionado com os custos do “cuidado”. Expressam essas 
desigualdades as maiores taxas de desemprego e de trabalho em 
tempo parcial entre mulheres pobres com filhos pequenos. O dilema 
americano reside na necessidade de se promover um “suporte neutro de 
gênero” para as trabalhadoras com responsabilidades familiares. 
 
A autora enfatiza que a liberalização da economia traz como prioridade a 
empregabilidade e as políticas direcionadas ao “cuidado” vão sendo 
erodidas. Isso tende a aumentar a participação feminina no mercado 
de trabalho e a reprivatizar o “cuidado” na família por meio de 
subsídios em renda para crianças ou mesmo por meio do mercado. 
Sugere como alternativa o modelo de “cuidador universal” para homens e 
mulheres e a transversalização da política do “cuidado” entre Estado, 
família e mercado. Pondera que esse deve ser valorizado como uma 
atividade humana, como parte intrínseca da vida social e na qual todas as 
instâncias devem ser envolvidas. 
 
Jane Lewis (2001) reconhece a relação entre trabalho remunerado, não 
remunerado e bem-estar social e sugere a construção de modelos de 
Estado de Bem-Estar Social a partir de uma tipologia alternativa: países 
em que o padrão homem-provedor é forte, modificado ou fraco. 
Para pensar os diferentes regimes de Estado de Bem-Estar social 
ela elege as variáveis a seguir: 
 
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a) os Estados de Bem-Estar social estão fundados no padrão 
homem-provedor e mulher dependente do homem trabalhador 
pelas pensões e outros benefícios; 
b) deve-se colocar no centro da análise as relações de 
gênero em associação com a relação capital x trabalho; 
c) trazer a família e o trabalho não remunerado como parte do 
regime de proteção social; 
d) nas análises comparativas dos Estado de Bem-Estar social, 
considerar a participação feminina no mercado de trabalho e o 
nível de empregabilidade das mulheres como um indicador do 
nível de bem-estar.; 
e) deve-se analisar a cobertura dos Estados de Bem-Estar Social 
para o trabalho de assistência, por meio dos serviços e das 
provisões gerados pelo Estado, família e mercado para aqueles que 
necessitam de cuidados. 
 
 A autora propõe a passagem do modelo do homem-provedor para o 
modelo adulto trabalhador e diz que existem seis possibilidades de 
transição para este modelo, em que a posição de homens e mulheres no 
mercado de trabalho organiza a gestão dos cuidados entre família, 
Estado e mercado. Destaca as ambigüidades presentes no atual modelo 
de políticas públicas: 
 
1-O modelo do adulto-trabalhador abarca um homem e uma 
mulher provedores, porém com status diversos porque o trabalho 
não remunerado ainda carece da devida relevância pública; 
2-as mudanças da família foram mais acentuadas, em termos das 
mudanças de gênero, do que aquelas no mercado de trabalho, 
pela maior individualização e pela descomplementaridade dos 
papéis de homens e mulheres. Apesar da mudança da 
participação feminina no mercado de trabalho, ela ainda ocorre 
em situação desfavorável para as mulheres, pois a 
permanência delas no trabalho não remunerado impacta 
desfavoravelmente a sua inserção produtiva e corrobora o atributo 
do “cuidado” às mulheres. Como promover outra posição da mulher 
no mercado de trabalho? Por meio da promoção do trabalho em 
tempo integral ou complementando a renda daquelas que não 
conseguem sair do trabalho parcial, bem como de políticas 
relacionadas ao trabalho não remunerado. 
 
Lewis (2003) prioriza a evolução das políticas em matéria de 
trabalho de assistência não remunerado, que constitui elemento 
importante na posição das mulheres no mercado de trabalho. Em muitos 
países europeus são vários os mecanismos institucionais 
desenvolvidos que procuram repassar para as famílias, para o 
mercado e/ou para o setor beneficente o trabalho de assistência às 
pessoas idosas, crianças e outros dependentes, por meio da diminuição 
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da oferta pública de assistência, da pulverização e precarização do 
emprego de serviços de proximidade, da transferência de benefícios em 
serviço para benefícios em dinheiro, etc. 
 
Jenson (1997) defende a introdução do “cuidado” como central na 
definição dos modelos de Estado de Bem-Estar Social, subordinando o 
trabalho nesta definição.Ele pergunta: Quais as conseqüências de um 
regime de “cuidado”(care) para a equidade de gênero? Esses aspectos 
são obscurecidos pela ausência de um diagnóstico dos custos 
diferenciados do cuidado dos dependentes para as famílias, o Estado e o 
mercado? Por exemplo, as análises econômicas avaliam como altos os 
custos despendidos pelo Estado com a assistencia a idosos, mas não 
consideram os custos que as famílias tem quando dispensam esta 
atenção. Isso se deve à suposição de que as famílias, 
especialmente as mulheres, provêm serviços sociais gratuitos. 
 
Para as feministas sempre houveram duas questões a propósito do 
trabalho não remunerado das mulheres: como avaliá-lo e como 
dividi-lo equitativamente com os homens. Nenhum país conseguiu 
avaliar estes aspectos. Toda a história do feminismo mostra que não é 
possível preconizar políticas que objetivem reconhecer a “diferença” 
feminina em relação à carga de trabalho não remunerado e opô-las às 
políticas que visam realizar a igualdade entre homens e mulheres na 
esfera do trabalho remunerado. 
 
Lewis ( 2003) fornece um exemplo da dificuldade de “conciliar” 
trabalho remunerado e trabalho não remunerado, quando analisa 
dilemas de mães sozinhas em relação aos diferentes âmbitos do trabalho 
em associação com a natureza dos sistemas de proteção social na Europa. 
 
As diversas concepções sobre as mães sozinhas determinam as variadas 
formas com que os Estados respondem a essas demandas. Na Grã-
Bretanha, mães sozinhas querem trabalhar, mas a ausência de estrutura 
acessível para o cuidado das crianças as impede. Na Suécia elas tem suas 
necessidades de cuidados com as crianças atendidas como um benefício 
social universal. Muitas feministas destacaram o imperativo que 
representa para as mulheres a questão do trabalho do cuidado. 
Trata-se de um imperativo de ordem moral que pode justificar 
uma lógica diferente diante do estímulo de um trabalho remunerado. 
 
Nos EUA, o auxílio público em relação às mães sozinhas é 
estigmatizado e representa um montante irrisório. Na Alemanha, as 
mães sozinhas devem se contentar com benefícios de assistência 
de segunda categoria. A taxa de participação das mães sozinhas no 
mercado de trabalho alemão é mais elevada do que a das mulheres 
casadas. No Reino Unido as mães sozinhas são tratadas mais como 
trabalhadoras do que mães. 
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É difícil saber como conceber a melhor as políticas que trata da 
complexa questão da relaçãoentre trabalho remunerado e não 
remunerado porque o problema é cheio de desigualdades entre os 
sexos. MaLaughlin e Glendinning, citados por Lewis (2003), 
sugeriram pensar na “desfamilização”em vez da desmercantilização 
no sentido das condições nas quais os indivíduos se comprometem com a 
vida em família. Essa noção implicaria em questionar até onde é 
necessário ajudar os homens e as mulheres a “conciliar” trabalho 
remunerado e não remunerado e a idéia de que há um direito de 
não responsabilização pelo trabalho de assistência e o direito contrário de 
optar por exercê-lo. Isso significa que uma ética do cuidado deve ser 
exercida voluntariamente. O objetivo da política social deve ser 
oferecer a possibilidade de uma escolha. O problema vem da 
relação complexa que as mulheres mantêm com o trabalho remunerado 
ou não remunerado e com o sistema de direitos sociais. 
 
As discussões recentes têm apontado que a noção de “desfamilização” 
reproduz a dicotomia entre a esfera pública e privada e a 
desvalorização do cuidado/reprodução social frente à esfera do mercado. 
O cuidado tem uma dimensão de pessoalidade, de relação e a sua 
mercantilização ou publicização não resolve totalmente essa questão. 
Atualmente, já se pensa na redução da jornada de trabalho não só 
como medida de enfrentamento do desemprego e da exploração do 
trabalho, mas introduzindo a utilização do tempo da vida, abrindo 
caminho para a valorização da esfera da reprodução social e para a 
partilha do cuidado entre homens e mulheres. 
 
Texto 3 – O texto traz reflexões em torno do fenômeno da 
maternidade e da paternidade adolescente e sobre a importância 
das políticas sociais voltadas para o cuidado com esses 
grupos, em virtude da prerrogativa legal de proteção que eles 
possuem, e pelo impacto que esses cuidados geram para os 
filhos desses adolescentes. 
 
Famílias com adolescentes genitores: entre o Direito ai 
cuidado e a responsabilidade de cuidar 
 
Aline de Carvalho Martins 
Rozânia Bicego Xavier 
 
 Introdução 
 
O fenômeno da maternidade e da paternidade adolescente não é novidade 
no cenário brasileiro, pois já no Brasil colônia as pessoas casavam-se 
muito jovens e, ainda adolescentes, eram pais. 
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A alteração dessa prática teve início com o advento da industrialização e a 
conseqüente separação das esferas pública e privada da vida humana. 
Nesse contexto, a infância e a adolescência começaram a formação 
para o mundo do trabalho, observando-se o aumento da idade em que 
ocorria o matrimônio. 
 
No pós-guerra, observa-se a entrada da mulher no mercado de 
trabalho, o que implicou significativas mudanças sociais, incluindo 
nestas o controle da fertilidade. Esta circunstância deu à mulher a 
possibilidade de redefinir sua participação social para além da esfera 
privada. Hoje, projetos profissionais constituem um dos motivos para a 
maternidade tardia. 
 
Nesse quadro, a gravidez na adolescência tem, atualmente, um caráter de 
classe, com a maternidade e paternidade adolescentes sendo 
experiências que vêm ocorrendo nos setores mais empobrecidos das 
classes trabalhadoras. 
 
Este texto pretende refletir sobre o desejo de reprodução dos 
adolescentes, sua articulação com a realidade socioeconômica de 
suas famílias e sobre a importância de políticas sociais voltadas 
para o cuidado com esses grupos, em virtude da prerrogativa legal que 
eles possuem e pelo impacto que esses cuidados geram para os filhos 
desses adolescentes. 
 
Adolescente: afinal, do que estamos falando? 
 
O conceito de adolescência surge com o advento da modernidade. 
Considera-se que esta fase tem início com as mudanças físicas no 
desenvolvimento, que ocorrem a partir da puberdade. É um fenômeno que 
pressupõe um período de transição psicossocial para a vida adulta 
e se articula ao ambiente sociocultural do indivíduo, de modo que será 
influenciado pela condição de classe → fenômeno cultural e social, 
permeado por transformações físicas, biológicas e psicológicas ( 
transição para a fase adulta), influenciadas pelo momento histórico e 
pelas características individuais. 
 
 Somente em alguns segmentos da sociedade é possível que a passagem 
para o mundo adulto seja feita progressivamente. Pobreza e desigualdade 
(como no Brasil) fazem com que muitas crianças já tenham 
responsabilidades do mundo adulto, sem que haja qualquer transição. 
 
 No Brasil, muitos adolescentes (e crianças) exercem papéis 
maternos - paternos em relação a seus irmãos ou outras crianças 
menores. A provisão e o cuidado, diante da ausência do Estado, passam a 
ser assumidos exclusivamente pelas famílias, com ônus para crianças 
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e adolescentes, que têm violado o seu direito ao cuidado e ao 
desenvolvimento em detrimento da necessidade de cuidar de outros 
membros de suas famílias. 
 
Pretende-se nesse artigo refletir sobra a questão de maternidade – 
paternidade na adolescência no contexto social das classes 
trabalhadoras urbanas pobres. 
 
Maternidade adolescente: entre as esferas do desejo e do risco 
 
A escolarização e a condição socioeconômica da mãe implicam 
diretamente na qualidade de tempo e na relação que esta terá com o seu 
bebê, nas condições e no acesso aos serviços de saúde e nos riscos de 
mortalidade de seu filho. 
 
 A centralidade materna e a primazia da responsabilidade da mãe frente 
aos filhos vem sendo reforçadas nos direitos sociais brasileiros que 
primam por uma hierarquia de gênero e reafirmam a 
responsabilização feminina nos cuidados com a criança, contribuindo 
para com as desigualdades existentes na sociedade. O UNICEF 
atenta para o fato de que a garantia dos direitos das mulheres e 
ações de equidade de gênero são fundamentais para uma melhora nos 
direitos da criança. Sociedades mais igualitárias em suas relações de 
gênero conseguem garantir melhores cuidados também para as 
crianças. 
 
Entretanto, se a condição materna irá impactar a situação da criança, o 
contrário também é verdadeiro. A gravidez precoce pode ser obstáculo 
ao progresso educacional, econômico e social da mulher, pode 
prejudicar a sua condição de vida futura, bem como de seus filhos. Santos 
(2006) afirma que só 23% das mulheres brasileiras que tiveram um filho 
com menos de 20 anos terminaram a antiga oitava série. 
 
A vivência da gravidez na adolescência é distinta em diferentes 
grupos e mais acentuada em adolescentes que não tiveram a escola 
como prioridade na infância. Em contextos sociais marcados por falta de 
apoio ou de materialização de direitos, ausência de aparatos sociais 
(creche, pré-escola) para seus filhos, contribuirá para essa decisão por 
parte das adolescentes. 
 
A percepção da adolescente de uma entrada subordinada na esfera 
pública, devido ao extrato social que ocupa e da ausência de apoio público 
para a superação da condição de pobreza, pode contribuir para a 
construção de projetos voltados para a esfera privada, como o 
exercício damaternidade. Com baixa escolaridade, ausência de 
projetos de vida voltados para o âmbito profissional e com 
dificuldade de efetivar ações com vistas a algum desejo, a maternidade 
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na adolescência aparece como um sucesso em um âmbito da vida, 
estabelecido pelas adolescentes. Diante de oportunidades restritivas, 
a gravidez pode constituir importante elemento identitário e apresentar-
se como uma conquista positiva para muitas adolescentes. 
 
Ganhos com a gravidez adolescente: afirmação da fertilidade, desejo de 
ter alguém para amar e cuidar, possibilidade de por fim a uma relação 
abusiva com a família de origem, um compromisso, um elemento de 
aliança entre um homem e uma mulher. 
 
A transição positiva tende a ser potencializada se a adolescente 
passa a constituir, com seu companheiro, uma nova família, 
firmando independência em relação a sua família de origem. A 
adolescente alcança um status social positivo de independência social, o 
que facilita a sua identidade e amadurecimento. 
 
Em relação às adolescentes mães, as principais dificuldades são comuns a 
todas: falta de dinheiro, difícil retorno a escola, falta de creche e de 
emprego. Estas dificuldades se apresentaram com tal intensidade a 
algumas que estas cogitam o retorno a suas famílias de origem para 
atender as suas necessidades e de seus filhos: principal forma acessada 
pelas famílias pobres. 
 
A proteção dos direitos das adolescentes torna-se mais necessária 
quando estas são mães, devido ao seu potencial multiplicativo. 
 
É de fundamental importância ressaltar as necessidades de ações de 
cuidado e proteção direcionadas para essa adolescente como sujeito, uma 
vez que sua identidade materna tende a ganhar no imaginário público um 
reconhecimento maior do que de adolescente. Por isso, em muitos 
serviços públicos, observa-se a negação de suas histórias de vida ou 
de suas necessidades peculiares, limitando-se a atenção a suas 
necessidades físicas. 
 
Duas prerrogativas que as mães adolescentes têm para uma inserção 
privilegiada nas políticas sociais: sua condição de adolescente e de 
mãe, que necessita ser cuidada e também instrumentalizada no 
cuidado, a partir de uma abordagem integralizada, capaz de gerar 
um cuidado humanizado e de qualidade. 
 
O impacto da gravidez na adolescência apresenta repercussões em 
nível de classe, de idade e de gênero. Esse fenômeno de genitores 
adolescentes apresenta características e questões distintas em relação 
àqueles que se tornam pais e àquelas que se tornam mães. 
 
Paternidade adolescente: desafios da participação e do cuidado O 
exercício da paternidade não se apresenta de modo uniforme nas 
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diversas sociedades ou entre os homens de um mesmo grupo. 
Trata-se de uma construção cultural, firmada a partir dos valores 
adquiridos ao longo da vida, da experiência relativa à sexualidade, 
permeada pela subjetividade dos indivíduos nela envolvidos. 
 
Mesmo considerando diferentes especificidades para o exercício da 
paternidade, é importante destacar que o envolvimento afetivo e 
efetivo do homem com a criança implicará em vantagem para 
ambos. A qualidade da relação do homem com o seu filho tem impacto na 
qualidade de vida deste, inclusive nos indicadores de saúde. O 
envolvimento paterno repercute na aceitação da gestação e no 
número de consultas de pré-natal realizadas pela mulher. 
 
Pesquisas demonstram que os cuidados dos homens junto a seus 
filhos fazem com que eles desenvolvam o autocuidado e competências 
como emoções, receptividade, empatia e compaixão. Tais sentimentos 
possibilitariam às crianças os benefícios de uma relação afetiva mais 
próxima; a construção da auto-estima infantil; uma maior satisfação 
com a situação conjugal que sobrepõe a questão do provedor ou do 
disciplinador, historicamente firmada. A participação do pai na vida das 
crianças as torna fisicamente mais saudáveis, emocionalmente mais 
seguras e mentalmente mais perspicazes, com melhor desempenho 
em testes de inteligência e a manutenção do sentimento de solidariedade 
humana, pertencimento social e igualdade, essenciais ao seu bem-estar. 
Os elos estabelecidos por uma criança ao longo de sua vida irão lhe 
proporcionar desenvolvimento físico, capacidade para relacionamentos 
e desenvoltura, contribuindo com sua capacidade de interação e 
associação, de construção de novos elos. 
 
Apesar da importância em relação à saúde e ao desenvolvimento 
sócio-afetivo e emocional das crianças, a atenção dos pais (homens) 
teve reconhecimento internacional só recentemente. No Brasil, as políticas 
sociais, muitas vezes, deixam de incentivar o exercício da 
paternidade. A proteção à paternidade se expressa de maneira frágil 
no reconhecimento público, por meio de políticas sociais referentes à 
pequena licença-paternidade e na garantia de afastamento do 
trabalho dos servidores públicos para acompanhamento de filhos 
doentes. 
 
Este é uma realidade que atravessa diferentes políticas públicas: a área 
da saúde pode ser ilustrativa. A maioria dos serviços públicos de pré-natal 
e maternidade na América Latina e no Brasil não considera os homens em 
suas práticas. Dessa forma, reforça o afastamento deles dos 
cuidados com os filhos, ignorando as transformações sociais relativas 
à paternidade em voga e contribuindo para uma sobrecarga feminina. 
É possível identificar uma retórica que valorize a presença do homem; 
entretanto, não existem práticas que efetivamente o incluam nesse 
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processo. Os pais ainda são tidos como visitas nas unidades de saúde. 
Sua experiência, suas dúvidas e seus temores são desconhecidos e 
por isso não são considerados como demandas e nem são atendidos 
pelos serviços. 
 
Essas dificuldades são maiores quando os pais são adolescentes, 
uma vez que a paternidade está associada ao despertar de 
sentimentos de responsabilidade. Sem serem capazes de congregar 
dois pilares fundamentais para o exercício da paternidade - provisão 
e responsabilidade – essa experiência pode se tornar socialmente 
recriminada e/ou renegada pela família uma vez que, nas classes 
populares contribui para agravar condições de pobreza, diferenças sociais, 
dificultando inclusive acesso a bens de consumo. 
 
A paternidade na adolescência pode aparecer como elemento que 
contribua para uma transição abrupta para o universo adulto, com a 
entrada precoce no mercado de trabalho, evasão escolar, redefinição de 
sonhos, planos de abdicação de vivencias típicas da adolescência, em 
função do sustento familiar e da dedicação à família. A contradição dessa 
experiência se dá com base na exaltação de sua virilidade. O adolescente 
passa a ser considerado verdadeiramente homem, devido a sua 
capacidade reprodutivaadquire o status de “macho”, importante 
elemento de afirmação de sua identidade de gênero. 
 
Outra dimensão da identidade de gênero na relação do homem 
com a mãe de seu filho: participação dele na vida das crianças, 
ainda se constitue em um cuidado complementar ao cuidado 
materno. 
Homens intencionam uma maior participação na vida de seus filhos 
seletiva e orientada pelas atividades de que eles gostam, e não pelas 
necessidades reais de seus filhos. As novas formas de participação 
masculina ainda procuram preservar os privilégios das relações 
hierárquicas de gênero construídas em nossa sociedade, e os 
adolescentes tendem a incorporar essas contradições vivenciadas por 
homens adultos. 
 
Há que destacar, nesse processo, que os homens não parecem ter como 
referencial de masculinidade o cuidado consigo mesmo ou com outrem. O 
envolvimento ativo no cuidado e a responsabilidade com as crianças 
parecem ainda estar fora do imaginário social de muitos, sendo 
identificados por eles como uma função materna. Com freqüência, o ele 
acredita não ser capaz de cuidar de seu filho e, considera a mãe a figura 
mais adequada para exercer esse papel. 
 
As próprias experiências pessoais contribuem para esses 
entendimentos. Muitos homens relatam uma relação ruim ou distante 
com seu próprio pai durante a infância. De fato, parece difícil 
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implantar uma rotina de cuidados que eles próprios não conseguiram 
receber. Tampouco, as imagens sociais vêm difundindo uma relação 
positiva entre pai e filho. 
 
A participação do adolescente na vida dos filhos pode ser 
estimulada com políticas públicas que promovam e incentivem esse 
cuidado e com práticas cotidianas que possam agregar valor nesse 
sentido. 
 
O Brasil: compromissos e contradições nos cuidados com os 
adolescentes e suas famílias 
 
A adolescência e a infância são concebidas como períodos de especial 
proteção no âmbito jurídico-legal brasileiro. O Estado brasileiro, a partir 
da década de 1980, reafirmou o compromisso com a proteção, o estímulo 
e cuidados como fatores relevantes ao desenvolvimento das crianças e 
dos adolescentes desse país, seja por meio de assinaturas de 
documentos internacionais ou da implementação de leis que 
valorizam esse compromisso, a partir das perspectivas da 
universalidade e da igualdade. Os documentos tratam da superação de 
conceitos de infância, do qual o Código de Menores foi o principal ícone, 
com a figura do “menor” que se opunha ao conceito de “criança”. 
 
Entretanto, crianças e adolescentes das classes trabalhadoras não 
vem efetivamente se constituindo como prioridade para as políticas 
sociais do Brasil, por três motivos: pela pouca importância que a mão de 
obra não qualificada tem no capitalismo atua,; por sua pouca 
capacidade de consumo, e por uma ausência da ideologia da 
proteção. Embora os pressupostos políticos apresentados firmem que 
adolescentes que são pais e mães deveriam ser alvo duplo de proteção – 
esses compromissos políticos Não vêem se traduzindo em políticas 
sociais suficientes, em que o Estado se responsabilize pelo 
oferecimento direto de serviços públicos às crianças ou proteção e amparo 
das famílias para que essas possam se constituir em agentes de 
cuidados. Pelo contrário, parte-se do princípio de que a família 
constitui um lócus importante nos processos de cuidados, educação 
e proteção de crianças, com seu “desejo espontâneo de cuidar e a 
predisposição para proteger, educar e até fazer sacrifício”(Pereira, 
2004,p.36). Nessa realidade, as famílias se constituem sua principal 
possibilidade de reprodução. 
 
Com a ausência de um Estado de Bem-Estar Social consolidado, associado 
a falta de políticas públicas que expressem o apoio efetivo do 
Estado, a proteção social passa a ser tratado como uma questão 
individual ou mesmo como uma incapacidade da família em gerar um 
padrão de cuidado, especialmente para as crianças. A condição de 
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ausência de apoio público e a pobreza irão implicar, muitas vezes, na 
necessidade da inserção precoce de seus filhos nas responsabilidades 
próprias do universo do adulto. 
 
O exercício das responsabilidades de adulto – associado a pouca 
expectativa de ascensão social por meio da inserção profissional 
qualificada, torna desejado o reconhecimento social por meio do exercício 
da maternidade e da paternidade para os adolescentes. A repercussão da 
ausência pública junto a esse segmento é clara: penaliza ainda 
mais os adolescentes pobres e restringe as suas potencialidades de 
desenvolvimento e as de sua prole. 
 
Famílias apoiadas conseguem oferecer um cuidado mais satisfatório 
e de maior qualidade às suas crianças e seus adolescentes. 
 
PARTE III 
 
FAMÍLIA, TRABALHO E DIREITOS SOCIAIS: 
CENAS CONTEMPORÂNEAS 
 
 
 
 
Texto 1: reflete sobre as possibilidades de, no Brasil, a 
família cumprir sua funções no âmbito da reprodução social, 
diante da realidade contemporânea, marcada pela crise do 
trabalho assalariado e regressão do Estado no campo dos direitos 
sociais. 
 
Família, trabalho e Reprodução Social: Limites da 
realidade brasileira 
 
Monica Maria Torres de Alencar 
 
 
 
 
Livro: Família e Famílias – Práticas sociais e conversações contemporâneas 
 
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Introdução 
 
A família vem sendo tida como referência central dos programas 
sociais, fato que reforça seu papel como referência da política 
social. Torna-se hegemônica a proposição de que, através de 
programas com foco na família, potencializam-se ações efetivas de 
combate à pobreza e miséria. 
 
A revalorização da família como espaço de proteção social tem se dado a 
partir de várias legislações e programas a ela destinados (LOAS, ECA, 
Estatuto do Idoso, Programa de Saúde da Família, Programas de Renda 
Mínima, Fome Zero). 
 
Com a criação do SUAS, observa-se a perspectiva da “matricialidade 
sócio-familiar” com destaque na PNAS, tornando a família locus 
privilegiado das ações de enfrentamento da pobreza no país. 
 
Há uma tendência mundial de criação de programas sociais para a família, 
sendo que em alguns países observa-se um viés conservador, 
representando uma reação às conquistas femininas. Exempol: medidas e 
instrumentos que objetivam intervir no modelo de família para lograr 
certo modelo ideal de família. 
 
Quais os processos histórico- sociais que se situam na base desse 
movimento no Brasil e que passaram a conferir uma nova centralidade da 
família na proteção social e quais as reais possibilidades dela operar como 
fator de proteção social? 
 
Na realidade atual, aumenta a responsabilidade da família, reatualizando-
a nas relações sociais como espaço para reinventar a vida na 
dimensão material e moral.Pensar família é remetê-la a processos 
sociais contemporâneos, pois ela é uma realidade histórica. 
 
Propõe-se, no textotomá-la como: 
 
Unidade social que realiza concretamente dentro de uma situação de 
classe onde, do ponto de vista de seus membros, a organização e 
ação da família está voltada para a busca das condições de 
sobrevivencia e, de um ponto de vista mais amplo, sua ação está 
voltada para a reprodução da força de trabalho em seus 
aspectos materiais e ideológicos. (Fausto Neto, 1982, p. 10) 
 
Família e reprodução social: abordagens históricas e teóricas No espaço 
privado das famílias, as classes trabalhadoras viabilizam sua sobrevivência 
cotidiana em um esforço coletivo para acionar estratégias para lidar 
com as adversidades do “mundo do trabalho”. No Brasil, a reprodução da 
força de trabalho depende “tanto do montante do salário real, ou seja, 
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da quantidade e qualidade dos valores de uso adquiridos no 
mercado, quanto dos bens e serviços domésticos e estatais de que 
o trabalhador e sua família podem dispor em cada momento: ( 
Singer, 1979, p. 120). 
 
A família como realidade histórica, cujas funções e papéis se 
relacionam a processos sociais, econômicos e culturais, ocupa papel 
central na reprodução social. Ela participa da reprodução da força de 
trabalho do ponto de vista material e ideológico. Cumpre papéis de 
socialização e educação das crianças e funciona como anteparo 
assistencial a doenças, velhice e em circunstâncias adversas 
relacionadas ao trabalho. A forma de inserção no mercado de trabalho 
define as suas condições de vida e demarcam as suas fronteiras de 
inserção social. 
 
Com a generalização do trabalho assalariado, faz-se a distinção 
entre a vida pública e a privada, separando os espaços: locais de 
trabalho e da vida doméstica. Há um retraimento do trabalho no 
universo doméstico. A vida doméstica se liberta do trabalho até então ali 
realizado e a família perde seu lugar como unidade econômica, reforçando 
a sua função educativa e assistencial. 
 
A família é responsável por manter em condições compatíveis a força de 
trabalho adulta para sua venda no mercado de trabalho e prepara os 
futuros trabalhadores ao garantir a socialização e manutenção de crianças 
e jovens. Garante que os custos sociais desse empreendimento não 
sejam repassados à sociedade e ao Estado. É, pois, a esfera 
privada responsável pela organização do processo de administração 
do trabalho doméstico, operando tarefas na produção de valores de uso 
na esfera privada. Esse conjunto de atividades se constitui em 
trabalho não pago, ou seja, tem relações direta com a exploração 
da força de trabalho e tende a ser naturalizado e tido como próprio do 
universo feminino. 
 
A família constitui-se ainda como unidade de renda e consumo, onde se 
articulam as possibilidades de auferir renda, definem-se as formas de 
trabalho e as possibilidades de consumo. 
 
Para Fausto Neto (1982), a família como unidade de renda, 
compartilha recursos econômicos gerados pelos esforços de trabalho 
de todos. . O processo de geração de renda diz respeito ao 
trabalho assalariado e pressupõe a relação formal empregatícia. 
 
Nessa sociedade, são muitas as exigências sobre a família, sendo 
que o nível dessas exigências depende do padrão de regulação social 
em contextos históricos específicos. No Brasil, a importância da família na 
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reprodução social tornou-se mais forte em razão das condições 
econômicas, sociais, das determinações ideológicas e culturais. 
 
Telles( 1992) diz que a família se constituiu, no Brasil, como valor moral e 
medida de uma ordem legítima de vida, a partir da qual se tornou 
possível articular valores, normas e identidades capazes de moldar 
relações sociais. Ela se constitui em garantia ética, moral e 
material. Na sociedade brasileira, caracterizada pela lógica da 
destituição e privação de direitos, as necessidades sociais são 
tratadas como dramas da vida privada, de forma despolitizada, quando na 
verdade se trata de questões de ordem pública, afetas à sociedade e em 
particular ao Estado. 
 
Numa sociedade que não abre lugar para o indivíduo e o cidadão, na 
qual, portanto, a insegurança, a violência e a incivilidade são a 
regra da vida social, é no espaço privado da família que as 
classes trabalhadoras constroem uma medida de plausabilidade 
para suas vidas; é espaço que viabiliza a sobrevivência 
cotidiana através do esforço coletivo de todos os seus 
membros; é o espaço no qual se constroem os sinais de uma 
respeitabilidade que neutraliza ao estigma da pobreza; é o espaço 
ainda onde elaboram um sentido de dignidade que compensa 
moralmente as adversidades impostas pelo salário baixo, pelo 
trabalho instável, pelo desemprego periódico e pela moradia 
precária. ( Telles, 1992, p. 137). 
 
Essa autora lembra como a centralidade da família no Brasil, como núcleo 
da vida social, deita raiz na hegemonia da tradição familista e 
privativista da sociedade, onde as identidades são construídas com 
base nas relações privadas. O familismo brasileiro tende a persistir 
na contemporaneidade, como paradigma de moralidade ao refundar a 
matriz patriarcal da família estruturada nas relações hierárquicas entre 
homens e mulheres, pais e filhos na família nuclear moderna. 
 
A atenção sobre as classes trabalhadoras e suas famílias situa-se 
no marco de um projeto político-ideológico de consolidação do ethos 
burguês fundado na valorização do trabalho e em um padrão de 
moralidade que erigia a família como fundamento da nação. 
Entendia-se que por meio dela o Estado chegava ao homem e este ao 
Estado (Gomes, 1982) e, então, uma vida familiar ordenada e disciplinada 
passou a ser o alvo de práticas sociais diversas (médicos, juristas, 
filantropos, Estado brasileiro). 
 
Desde o final do século XIX, as famílias das classes trabalhadoras 
se tornaram objeto de práticas disciplinares e moralizantes que 
pretendiam delimitar formas de sociabilidade, valores, hábitos e 
condutas. Essas práticas se constituíam em estratégias que, 
penetrando no cotidiano das classes trabalhadoras, objetivavam 
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operar a sua domesticação, redefinindo seu modo de vida, tendo 
como parâmetro o universo dos valores burgueses e urbanos. 
Médicos higienistas, reformadores sociais, filantropos, instauravam 
práticas disciplinares, interessados em novas mentalidades e novos 
comportamentos. Essa intervenção nas classes populares tinham 
como preocupação as condutas consideradas “antisociais”, a indisciplina 
de qualquer tipo ( do trabalho, do lazer, do sexo). 
 
Essas práticas realizaram-se em um período de transformações 
sociais, econômicas, políticas e culturais, demarcando uma nova forma 
de organização da produção e do trabalho.O processo de constituição do capitalismo no Brasil foi cheio de 
contradições, pois preservou elementos da ordem anterior. Assim, a 
constituição da sociedade urbana e industrial, as práticas sociais e 
políticas, foram se fazendo na tentativa de moldar a nação 
emergente. No bojo deste processo se situaram os mecanismos de 
normalização da vida social brasileira. 
 
Nesse contexto tornou-se importante a figura do trabalhador dócil e 
disciplinado para o trabalho na indústria emergente. Adquirem 
relevos as estratégias de disciplinamento das classes populares no 
trabalho, no lazer, no lar. 
 
No bojo desse processo, a família nuclear burguesa foi considerada 
instancia privilegiada de atuação para a reprodução de papéis e 
funções sociais; tornou-se parâmetro social e político, modelo de 
comportamento em oposição à decadência e degeneração moral 
que, segundo os especialistas, caracterizavam as famílias das classes 
populares. Intervém-se no modo de vida das classes trabalhadoras 
urbanas para redefinição de hábitos e costumes e na tentativa de definir 
novos valores e concepções de mundo. Adquiria forma uma moral 
familiar calcada numa rígida atribuição de papéis: homem provedor 
e chefe de família; mulhe:mãe, esposa e dona da casa. A 
organização da produção material exigia a socialização do trabalhador e 
de sua família por meio da internalização de um modo de vida fundado 
numa nova ética das relações afetivas, do trabalho, do lazer. 
 
Por meio de padrões de controle político e social, tentava-se 
constituir no Brasil a família moderna de acordo com as modalidades 
do modo de vida burguês. 
 
Colbari (1995) fala do processo de propagação ideológica do familiarismo 
na passagem do século, pelo pensamento católico e positivista para 
primar a moral familiar. Associado, articulava-se o discurso de 
valorização do trabalho identificado aos ideais de “ordem”, “progresso,” 
“civilidade”, e “moralidade”, em oposição ao “ócio”, “à marginalidade”, e 
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ao “vício”. A família seria o fundamento da moral e da ordem social, na 
qual a figura do pai é o elemento principal na preservação do 
equilíbrio. No Brasil, o familiarismo e a valorização do trabalho 
forneceram insumos para a articulação de uma política de 
normatização e disciplinamento das classes trabalhadoras urbanas, 
cujo conteúdo se expressava na disciplinarização do espaço urbano, no 
controle das unidades habitacionais, na regulação dos corpos e dos afetos. 
 
A família tornou-se fundamental para a interiorização de um modo 
de vida que requeria valores e atitudes afinados com a 
racionalidade da ordem social emergente. A cruzada moralizadora 
sobre as famílias das camadas populares pretendia a transformação 
de uma massa formada por “malandros”, “bêbados”, e “criminosos”, em 
trabalhadores cônscios do dever e da disciplina do trabalho. 
 
Essas práticas multiplicavam-se à medida que crescia a consciência 
do fundamento da família na construção da ordem social emergente. 
A família das classes trabalhadoras, uma vez atestada a sua 
incapacidade no desempenho do papel que lhe era conferido, tornou-se 
passível de intervenção. 
 
A ação do Estado tornou-se mais representativa à medida que a 
institucionalização da assistencia social acionou uma estrutura material 
voltada para o atendimento às classes trabalhadoras urbanas. 
Destacam-se as políticas assistenciais para os segmentos subalternos 
associadas à intervenção de cunho doutrinário. A política voltada 
para a família foi influenciada, durante o Estado Novo, pelos 
princípios da eugenia da família sadia e regular, de clara inspiração nazi-
fascista (Neder, 1994). 
 
Desse período histórico marca, no Brasil, a consolidação do 
capitalismo de base urbano – industrial, a partir de um projeto 
econômico e político-ideológico que reformulou a ação do Estado e da 
economia do país, estabelecendo novas formas de relação entre o Estado 
e as classes sociais emergentes. O estado brasileiro articulou medidas 
de legislação trabalhista e social, configurando a regulamentação do 
mercado de trabalho, passando a assumir os processos relativos à 
reprodução da força de trabalho. O reconhecimento político da “questão 
social” foi sendo explicitado, dava conteúdo e forma a uma estrutura 
jurídica e institucional responsável por regulamentar e gerir os 
conflitos e as relações de trabalho. Institucionalizou-se o conflito 
capital/trabalho, com o Estado passando a ser o grande mediador. 
 
A centralidade da família na sociedade brasileira se tece numa 
sociabilidade fundada na precariedade da vida social. As economias 
periféricas, como é o caso brasileiro, reproduzem as contradições 
econômicas e sociais inerentes ao capitalismo. A sociedade brasileira 
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é subalterna e dependente economicamente dos países hegemônicos 
do capitalismo central. Internamente, reproduz processos sociais 
excludentes, expressos na concentração de renda, no excedente de mão 
de obra, nas relações de trabalho informais. 
 
No Brasil, os direitos sociais e trabalhistas não se generalizaram ao 
conjunto dos trabalhadores. Foi o critério de inserção no mercado de 
trabalho que operou como mecanismo básico de definição de direitos 
sociais (cidadania regulada), predominando um sistema de proteção 
social de caráter contributivo e compulsório. O Estado não propiciou 
as condições de reprodução social da totalidade da força de trabalho 
e não promoveu o Welfare State liberal democrático. 
 
Em vês do Estado de Bem- Estar, o que temos é uma 
combinação permanente e alternada de paternalismo e 
repressão. O que se bem não impede que toda a população 
tenda a estar imersa no mercado capitalista, o faça como 
consumidora marginal dos seus produtos materiais e culturais, 
incluída aí a aspiração ao bem-estar e ao conforto, próprios 
de um capitalismo desenvolvido. Mas nunca na condição de 
população trabalhadora, com todas as suas implicações 
socioeconômicas, nem na condição de cidadã, com todas as 
suas implicações político-ideológicas ( Fiori, 1995, p. 42) 
 
Nas condições acima descritas, a mobilização da família tornou-se 
imprescindível para a sobrevivencia. Como unidade de relações sociais, de 
experiências afetivas, de reciprocidade e apoio mútuo entre seus 
membros, ela assume obrigações afetas à reprodução social Na 
sociedade brasileira, essas relações internas tendem a ser 
naturalizadas e potencializadas, podendo levar ao aprisionamento da 
família em torno dessas funções. As limitações ao pleno 
desenvolvimento da vida social de seus membros, principalmente das 
mulheres, tornam-se permanentes. As aspirações individuais são 
constrangidas pelo cotidiano da vida doméstica, aprisionando as 
potencialidades individuais. 
 
A realidade brasileira, a crise do trabalho e os limites da família 
 
 
O Estado como responsável pela proteção social, passou a ser 
definido mais comogestor do que interventor, operando-se o 
esvaziamento da política social como direito social e aumentando a 
possibilidade de privatização das responsabilidades públicas e a 
conseqüente quebra da garantia de direitos. Tornou-se hegemônica a 
perspectiva ideológica e política que propõe a divisão das 
responsabilidades entre o Estado e sociedade na oferta da proteção 
social. Foi neste contexto que houve a ”redescoberta da família como 
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importante substituto privado do Estado na provisão de bens e serviços 
sociais básicos, bem como os perigos e falácias dessa redescoberta” 
(Pereira, 2004, p. 25). 
 
A família tem sido apontada como um elemento fundamental de 
proteção social de seus membro, assumindo importância como suporte 
material e afetivo. Esse reconhecimento adensa as propostas de 
programas sociais tendo-a por centralidade e referência. 
 
Para Pereira (2001), o governo brasileiro, em momentos históricos 
distintos, sempre utilizou da família na provisão do bem-estar dos seus 
membros e os imperativos neoliberais recentes tornam mais forte 
essa perspectiva, colocando a família numa relação de coresponsabilidade 
com o Estado no campo da proteção social. 
 
Vem sendo cada vez mais difundida a idéia da responsabilidade 
familiar no sucesso ou fracasso dos seus membros, o que repõe a 
idéia do papel quase natural da família como referência na provisão 
de bens e serviços. Este proposição tem como cenário o aumento 
da pobreza a partir do aumento do desemprego e da diminuição 
dos recursos do Estado e da desmontagem do sistema de proteção 
e garantia vinculada ao emprego. 
 
Pergunta-se em que medida a família tem condições de suprir as 
funções em relação à reprodução social, em si considerando a 
realidade brasileira atual, marcada pela crise no trabalho assalariado e 
pela regressão do Estado no campo dos direitos sociais? Quais os 
limites das condições de vida e de trabalho das classes trabalhadoras 
urbanas pobres no Brasil de hoje que fragilizam as famílias ao fazer face à 
precariedade do trabalho, do emprego, aos baixos salários? 
 
São muitas as limitações para a família cumprir a função de 
reprodução social. Em um contexto que minimiza a responsabilidade 
do Estado neste sentido, ou seja: ao mesmo tempo em que se 
aponta a centralidade da família há o esvaziamento de importantes 
políticas setoriais ( saúde, educação) e tem-se o predomínio de políticas 
assistenciais residuais e focalizadas nos setores mais pobres. 
 
Acrescenta-se que tem predominado no país a ausência de políticas 
de emprego em um contexto de desconstrução do trabalho 
assalariado e dos direitos a ele associados. Essa centralidade traz, 
contraditoriamente, a possibilidade de tornar a família cativa no conjunto 
de responsabilidades que são privatizadas. 
 
Além disso, ter a família como referência central no âmbito da proteção 
social pode ser estratégico em um contexto histórico regressivo, com ela 
assumindo papel decisivo nos esquemas de proteção social, sendo 
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importante como fonte de suporte material e afetivo. Essa 
centralidade não pode significar transferência de responsabilidades e 
nem a possibilidade de despolitização da vida social. 
 
Desse modo, é importante considerar esses aspectos no âmbito dos 
programas sociais que têm a centralidade da família como fator de 
proteção social, desenvolvendo ações em um contexto de contenção 
de investimentos do Estado em relação às políticas sociais e de 
crise do padrão de sociabilidade fundado no trabalho assalariado. 
 
Essa centralidade não pode significar a penalização da família, 
devolvendo-lhe o peso de arcar com a esfera da produção social. 
Torna-se então questão central, atentar para as transformações em curso 
na sociedade brasileira, considerando o cenário no qual se movem as 
famílias das classes trabalhadoras, conhecendo-se assim os seus limites 
quanto às funções historicamente construídas. 
 
Em uma sociedade fundada no trabalho assalariado e na família 
como eixos organizadores da vida social, o processo de desigualdade 
social, ancorado na precarização do trabalho e no deslocamento do 
trabalho protegido assalariado tem uma repercussão ruim para a família e 
seus membros. 
 
Em um cenário de desemprego, emprego precário, baixos salários 
sem cobertura social, atingindo a cidadania, o cuidado com a família 
por meio as políticas sociais sob responsabilidade do Estado continua 
sendo a única saída. 
 
É pertinente considerar, nos programas sociais, um profundo 
conhecimento da realidade de vida e trabalho das famílias e de 
suas necessidades sociais. É preciso saber de que família se está 
falando, recuperando suas necessidades sociais numa dimensão de 
classe para se abrir condições para a efetivação dos direitos sociais 
por meio da politização de dimensões da vida social, especialmente 
quanto à reprodução social das famílias das classes trabalhadoras pobres. 
A família, no Brasil, sempre cumpriu papel de amortecedora do 
impacto das crises econômicas. Hoje, porém, ela tem dificuldades 
nessa direção em função das condições de vida e de trabalho das classes 
trabalhadoras que lhe impõem limitações materiais e morais neste 
sentido. As mudanças no “mundo do trabalho” fragilizam estratégias de 
sobrevivência das classes trabalhadoras urbanas pobres. A força de 
trabalho feminina aparece como um dos poucos recursos disponíveis para 
a sobrevivencia de muitas famílias. 
 
A referência da família como elemento importante de proteção 
social pressupõe a institucionalidade hegemônica da família nuclear, 
pautada na chefia masculina, pressupondo sólida inserção no mercado de 
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trabalho e salários condizentes para prover as necessidades de seus 
membros. Com a crise do trabalho e do emprego assalariado, a 
capacidade do homem ,atuar como provedor diminuiu. A “ética do 
provedor” como valor representativo para as classes trabalhadoras 
pobres não encontra correspondência na realidade social. 
 
No Brasil, as últimas décadas foram influenciadas por um contexto de 
recessão econômica, com ajuste estrutural da economia aliada à 
mudança do papel do Estado. Este contexto tendeu a produzir 
problemas estruturais quanto à absorção da força de trabalho, 
baixos salários e informalidade. A inserção subalterna e passiva do país 
na economia mundial trouxe agravamento à questão social, com aumento 
do desemprego e precarização do trabalho assalariado com crescente 
“desassalariamento” de parcela da População Economicamente Ativa, 
com conseqüente desestruturação do mercado de trabalho. 
 
Está em curso um processo de deslegitimação ideológica do 
trabalhoassalariado e dos valores a ele associados, conduzindo à 
fragmentação social, ao esvaziamento do poder sindical e 
organizativo dos trabalhadores, a uma lógica societária que pretende se 
desvencilhar do aparato político e institucional da chamada sociedade 
salarial. Funda-se uma sociabilidade fundada nos interesses 
individuais em detrimento dos interesses coletivos, nega o “direito ao 
trabalho” e as conquistas do trabalho assalariado com contratos e 
proteção social. 
 
Está sob ataque uma “sociedade na qual a maioria dos sujeitos sociais 
tem sua inserção social relacionada ao lugar que ocupam no salariado, 
ou seja, não só na renda, mas também seu status, sua proteção, sua 
identidade”(Castel, 1998, p. 169). 
 
 A flexibilização das relações de trabalho se relaciona às exigências de 
racionalização produtiva, sendo também expressão das mudanças no 
sentido do redesenho do Estado e seu papel na economia e na 
sociedade (abandono do papel de promotor e articulador de 
desenvolvimento social e econômico e na regulação social). No 
discurso oficial, porém, esta flexibilização aparece como “modernização” 
da sociedade e da economia brasileira, da necessidade de uma 
inserção competitiva. Entretanto, representa a interrupção de um 
processo de regulação social, sendo expressão do processo de 
desregulamentação econômica e social , sob a lógica do mercado. 
 
Do ponto de vista das relações entre Estado e Sociedade, passou-
se a questionar o papel do Estado brasileiro no processo de 
desenvolvimento econômico e social, preconizando seu enxugamento por 
meio de reformas estruturais, dirigindo o país para as privatizações, 
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desregulamentação e flexibilização das relações de trabalho, supressão 
dos direitos sociais e trabalhistas. 
 
Para Castel, foi de uma situação de trabalho sem proteção que emergiu na 
sociedade moderna o novo status do trabalho fundado em u tipo de 
proteção e de regulação, tornando-se uma forte referencia à medida 
que instaura a possibilidade de controlar o futuro porque o presente é 
estável. 
 
 A sociedade salarial foi tributária do crescimento econômico e do 
desenvolvimento do Estado social, via a instauração da seguridade social 
que proporcionava a garantia de uma proteção mais generalizada, a 
manutenção dos grandes equilíbrios e condução da economia na 
busca de um compromisso entre os diferentes parceiros. 
 
 No Brasil, ainda que não se tenha experimentado uma sociedade 
salarial, nem por isso a norma do emprego assalariado deixou de ser 
uma referência estruturante na dinâmica social e política brasileira. 
 
Década de 1980: retorna a perspectiva da cidadania salarial como pauta 
de discussão, num contexto de pressão democrática, de 
empobrecimento dos trabalhadores e suas famílias, de avanço da 
universalização da proteção social, da redução das desigualdades 
internas aos sistemas e da maior efetividade social do gasto. 
Priorizava-se a reforma das estruturas institucionais pela 
descentralização, transparência dos processos decisórios e participação 
da sociedade civil. A Constituição de 1988, ao definir o sistema de 
seguridade social ( saúde, assistencia social e previdência social) 
estabelece a cidadania como direito universal, independentemente do 
vínculo com o mercado formal de trabalho. 
 
Os efeitos da crise econômica não deram condições de se viabilizar 
ampla reforma institucional nos sistemas de proteção social. O 
contexto neoliberal, com a redução dos gastos públicos, conduziu à 
reorientação dos gastos sociais, subordinando-os aos objetivos 
macroeconômicos e do privilégio aos programas focalizados, dos fundos 
sociais de emergência e programas sociais compensatórios voltados para 
atendimento dos grupos pobres e vulneráveis. 
 
 Amplia-se programas sociais de corte assistencial, mas aprofunda-se as 
tendências de privatização nas áreas de saúde, educação e previdência 
que, hoje, convivem com as novas formas de gestão pública das 
políticas sociais que, através da descentralização e municipalização 
das ações, têm conduzido ao desmonte dos programas, tornando mais 
grave o quadro de miséria e pobreza do país. 
 
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Década de 1990: hegemonia da negação do trabalho assalariado, 
forte ataque aos parcos avanços assinalados na Constituição Federal 
de 1988, com a ideologia neoliberal incidindo sobre os direitos 
sociais e sobre o padrão de regulação das relações de trabalho. A 
limitação da família em operar como fator de proteção social reside 
nas mudanças na dinâmica e organização familiar no Brasil, 
decorrentes dos modos de vida, dos costumes e valores, expressos nas 
novas formas de convivência e padrões de conjugalidade. Rupturas 
e recomposições dos relacionamentos, florescimento de posturas 
individualistas podem redesenhar a interação entre os membros da 
família, fragilizando expectativas de apoio e de reciprocidade. As 
possibilidades de se contar com a família, predominantemente, tornam-
se limitadas à medida que se passa a ter dificuldades em acionar o 
provimento e o cuidado informal da família. 
 
O caráter histórico da família reproduz novas condições para o 
estabelecimento das relações entre seus membros no que se refere à 
divisão do trabalho doméstico, às relações de gênero e entre gerações, 
nos mecanismos de ajuda mútua e solidariedade em face das 
adversidades. 
 
Principais mudanças na família: diminuição do seu tamanho, diversificação 
dos arranjos domésticos que não passam, necessariamente, pelo 
modelo tradicional, com a mulher assumindo papel central no 
sustento familiar; dissolução de laços familiares e a possibilidade de 
recasamentos; opção tardia para o casamento ante a possibilidade de 
investimento profissional; adiamento da maternidade/paternidade; 
famílias monoparentais; casais sem filhos; casais do mesmo sexo. 
 
Pensar a família como central nos esquemas de proteção social é 
referir-se ao papel desempenhado pelas mulheres na esfera 
doméstica, para as quais sempre coube o cuidado para com as 
crianças, idosos, doentes, ainda que estejam envolvidas em atividades 
para prover o sustento da família. 
 
As mudanças nos padrões de relacionamento familiar poderiam gerir 
transformações nos papéis socialmente definidos para homens e 
mulheres, mas as práticas apontam para traços de permanências no 
padrão tradicional, existindo o desequilíbrio na distribuição do 
trabalho doméstico e na dinâmica da organização doméstica. Há a 
persistência de conflitos e tensões em torno da divisão sexual do trabalho 
doméstico e à forma de conciliação das mulheres entre a vida familiar e o 
trabalho. A situação se agrava no caso de mulheres com cônjuge, filhos, 
envolvida com cuidados dos seus membros e decisões na vida familiar. 
 
Imputar às famílias a responsabilidade central quanto ao cuidado e à 
proteção dos seus membros pode significar o retrocesso de conquistas na 
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luta pela igualdade dos sexos. A entrada da mulher no mercado de 
trabalho ainda precisa de uma redefinição dos padrões de hierarquia e 
sociabilidade, principalmente quanto à readequação do desempenho 
das tarefas domésticas e cuidado com os filhos, idosos e 
dependentes . 
 
Não houve mudanças na divisão sexual do trabalho doméstico e 
coloca-se o desafio, no âmbito das políticas sociais, à articulação de 
programas sociais, com recorte de gênero e voltados para o mercado de 
trabalho, de forma a atenuar a condição feminina marcada pela 
subalternidade na família e no trabalho. 
 
O que vem se delineando no país, desde a década de 1990 e o 
“enterro”dos pressupostos do Estado nacional desenvolvimentista, 
substituindo-o por uma estratégia liberal de desenvolvimento, que 
questiona as funções reguladoras do Estado e tem forte impacto no 
nível do emprego. A estratégia econômica tem sido privilegiar a 
esfera financeira ante as atividades produtivas e comerciais por meio 
das políticas de juros altos e câmbio sobrevalorizado. 
 
Em nome da crise fiscal do Estado, passou-se à crítica dos seus padrões 
de intervenção, colocando-se em xeque o seu papel central na 
redistribuição dos ganhos de produtividade do trabalho, na fixação e 
garantia de mecanismos institucionais e políticos que regulam a 
economia. Assim, operou-se o esvaziamento do Estado, admitindo-o 
forte em sua capacidade de romper o poder dos sindicatos, no 
controle do dinheiro, mas parco nos gastos sociais. Ele passa a ter um 
papel mais de gestor do que de interventor, configurando uma nova forma 
de intervenção sobre a questão social, reduzindo a sua ação no terreno 
do bem estar social, privatizando o financiamento e a produção de 
serviços, cortando gastos sociais com a eliminação de programas e 
benefícios, canalizando gastos para os grupos carentes e 
descentralizando no âmbito local. 
 
Dissemina-se uma sociabilidade possível no contexto da atual crise 
do capital que trouxe ampla ofensiva deste na produção e contra o 
trabalho. 
 
A sociedade e o Estado desobrigam-se da responsabilidade da 
incorporação dos trabalhadores no processo de trabalho e pela 
reprodução da força de trabalho, cabendo ao trabalhador 
desenvolver a autoresponsabilidade com sua inserção no trabalho e as 
necessidades para reproduzir-se como força de trabalho. 
 
Esse processo tenta alterar a sociabilidade construída em torno do 
trabalho assalariado esgarçando as relações sociais construídas no seu 
entorno. 
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O trabalho assalariado já foi a principal forma assumida pelo 
trabalho na sociedade capitalista e o assalariamento se converteu 
em princípio fundamental, tornando-se a porte de entrada e o 
acesso à cidadania. Todavia, na sociedade contemporânea o direito ao 
trabalho é negado. 
 
Texto 2 –reflexões sobre ao implementação do Programa 
BoSA Família (PBF) em Niterói – RJ, fundamentada em 
pesquisa sobre a questão. 
 
 
Retratos de Famílias: Perfil e Trajetórias dos Benefícios 
do Programa Bolsa Família 
 
Rosimary Gonçalves de Souza 
Giselle Lavinas Monnerat 
 
Introdução 
 
Artigo discute parte dos resultados da pesquisa “Programa Bolsa 
Família: Percepções e Trajetórias de inserção das famílias 
beneficiárias”, solicitada pela Coordenação do Núcleo de Benefício e 
Renda de Cidadania (NBRC) da Secretaria de Assistencia Social de Niterói 
– RJ, realizada em 2008 pela equipe de professores e pesquisadores da 
Faculdade de Serviço Social da Universidade do Estado do Rio de 
Janeiro (UERJ), para qualificar a implementação do PBF no 
Município, oferecendo o conhecimento do perfil e das necessidades das 
famílias beneficiadas. 
 
Procurou-se traçar o perfil social, econômico e demográfico das 
famílias atendidas, buscando compreender suas perspectivas de 
inserção social e profissional, contribuindo para o incremento da 
qualificação da gestão local do PBF. 
 
Niterói é um município que conta com bom desempenho em termos de 
indicadores sociais. Implantou o PBF em 2003. Após seis anos, a pesquisa 
visa identificar a repercussão do Programa sobre as famílias beneficiárias, 
as principais dificuldades em relação ao acesso ao circuito de 
cidadania e aos serviços sociais e mercado de trabalho. 
 
Bolsa Família: objetivo do programa e focalização na família 
 
O programa Bolsa Família, criado pelo governo federal em 2003, tem por 
objetivo instituir um programa nacional de transferência de renda as 
famílias pobres, pautado na gestão descentralizada e intersetorial. 
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Conforme a tendência dos programas de transferência de renda 
implantados a partir de 1990, o PBF exige das famílias o cumprimento 
de condicionalidades que se traduzem na obrigatoriedade de inserção de 
crianças, adolescentes, gestantes e nutrizes em determinados programas 
de saúde e de crianças e adolescentes na escola. O não 
cumprimento de tais exigências há o desligamento do Programa. De 
acordo com os objetivos oficiais do PBF, a exigência de contrapartida seria 
uma estratégia para associar o benefício monetário a ações que possam 
afetar as condições estruturais da pobreza . 
 
Há um reconhecimento pelo governo, formulador e coordenador do 
Programa no âmbito nacional, através do Ministério de 
Desenvolvimento Social (MDS), de que só a transferência monetária 
não é capaz de tirar as famílias beneficiárias da situação de 
vulnerabilidade social em que se encontram. Considera o caráter 
multidimensional e estrutural da pobreza no Brasil, cujas raízes e 
manifestações vão além da insufuciencia de renda , englobando outras 
dimensões de vulnerabilidade da população: saúde, educação, 
saneamento e acesso a bens e serviços. 
 
O foco prioritário do PBF é a família em situação de pobreza ou 
extrema pobreza. A definição desse perfil é feita pelo 
estabelecimento de uma linha de pobreza baseada na renda familiar 
per capita, cujo valor de referência vem sofrendo alterações com o passar 
do tempo. A população –alvo do programa se divide em dois grupos: 
famílias pobres e extremamente pobres, cuja transferência de renda 
se dá baseada em valores monetários diversos, que também variaram 
ao longo do processo de implantação do Programa. 
 
Deste modo, os critérios usados na pesquisa foram os vigentes em 
2008, cujos valores, a partir de então, variam de acordo com a 
renda mensal por pessoa da família e o número de crianças e 
adolescentes até 17 anos. Nesse período, o Programa passa a ter três 
tipos de benefícios: o Básico, o Variável e o Variável Vinculado ao 
Adolescente. 
O Benefício Básico: passou de R$50,00 para R$ 62,00 e é pago às 
famílias consideradas extremamente pobres, ou seja: aquelas com 
renda mensal de até R$60,00 por pessoa(pago mesmo que as 
família 
mesmo que elas não tenham crianças, adolescentes ou jovens). 
O Benefício Variável: (R$20,00) pago às famílias pobres, com 
renda mensal de até R$120,00 por pessoa, desde que tenham criança 
e adolescentes de até 15 anos. Cada família pode receber até três 
benefícios variáveis (até R$ 60,00). 
O Benefício Variável Vinculado ao Adolescente: valor R% 30,00, é 
pago a todas as famílias do PBF que tenham adolescentes de 16 e 17 
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anos freqüentando escola. Cada família pode receber até dois 
benefícios. (R$ 60,00). 
 
A formulação de programas sociais com foco na família e não só no 
indivíduo faz parte do debate sobre a reforma das políticas sociais 
desenvolvida desde 1980, mudando a perspectiva antes adotada que 
tinha nas políticas uma atuação disciplinadora (Ex. programas de 
controle de natalidade da década de 70). Hoje, considera-se a família 
como sujeito relevante no processo de proteção social. 
 
Entretanto, tratando-se de famílias pobres, a literatura a respeito é 
unânime em afirmar que elas, por si só, não dispõem do básico para 
promover a inserção social e o desenvolvimento pessoal de seus 
membros, demandando a ação do Estado para permitir-lhes o acesso a 
patamares básicos de cidadania. 
 
Marsiglia ( 2001) , estudiosa do tema , salienta a relevância de 
estudo afins para a definição de instrumentos de trabalho mais 
eficazes por parte de autoridades e técnicos que pretendem favorecer o 
acesso efetivo dessas famílias a serviços básicos no conjunto das políticas 
sociais. 
 
A abordagem focada na família exige um esforço teórico/ prático de 
concebê-la como paar de uma complexa rede de relações que 
articulam diferentes estratégias de sobrevivencia nas esferas 
econômicas, social, política e cultural. 
 
Essa tendência de priorizar a família como unidade de intervenção 
da política social se amplia na formulação do PBF, em 2003, e na 
definição do SUAS em 2004. Os idealizadores do PBF tomaram um 
conceito mais amplo de família rompendo com a idéia tradicional de 
núcleo familiar: “unidade nuclear, eventualmente ampliada por outros 
indivíduos que com ela tenham laços de parentesco ou afinidade, 
que forme um grupo doméstico, vivendo sob o mesmo teto e que se 
mantém pela contribuição de seus membros” (art, 2 da lei de criação do 
PBF, Brasil, 2004). 
 
O Bolsa Famíli amplia seu escopo de atendimento ao permitir o acesso de 
famílias sem filhos, gestantes e nutrizes, diferentemente dos 
programas de transferência de renda anteriores. Entretanto, ainda 
resguarda uma perspectiva restritiva, pois só as famílias sem filhos 
em situação de “extrema pobreza”são atendidas. 
 
Draibe (1998) ao tratar dos programas de transferência de renda 
implementados nos anos 1990, ressalta que o foco na família foi a forma 
encontrada pelos formuladores para aingir seu principal público – alvo – 
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crianças e adolescentes - e incluí-los em outras políticas, sobretudo 
educação, tornando pais e responsáveis meros intermediários nesse 
processo. Outro aspecto obaervado pela autora é que a 
contrapartida das famílias ( freqüência escolar, vacinação ações 
relativas à saúde da mulher) só são presvistas para os grupos já 
tradicionalmente priorizados na política social (gestantes, nutrizes, 
crianças e adolescentes). 
 
A atual priorização da família na formulação do PBF só representará 
avanço nos programas sociais se forem desenvolvidas ações de 
acompanhamento social das famílias beneficiárias, mas sem que 
este seja confundido com controle e fiscalização das contrapartidas 
por dizer respeito a um processo abrangente de intervenção 
profissional, com vistas à garantia de direitos traduzida na 
inserção dos beneficiários em ampla rede de proteção social. 
 
A pesquisa: metodologia e características do universo 
pesquisado 
 
Adotou-se as metodologias quantitativas e qualitativa. Foram 
realizadas entrevistas semiestruturadas com 358 titulares do PPBF e 
pesquisa no Cadastro Único de Programas Sociais (onde se 
registram diversos dados das famílias pobres e especialmente as 
vinculadas ao Programa). 
 
Fez-se um recorte especial na região norte do município de Niterói, 
composta por 12 bairros, pelo fato do local concentrar quase metade 
do número de famílias beneficiárias do Programa. Outra opção 
metodológica foi a definição de um tempo mínimo de seis meses de 
inserção no PBF. Levou-se também em conta o padrão de focalização do 
programa que classifica , com base na renda per capita, as famílias em 
pobre e extremamente pobres para se captar os variados graus de 
vulnerabilidade social dos beneficiários do Bolsa Família. 
 
A metodologia abordou os seguintes eixos de análise: Tipo de 
chefia familiar; tipo de família; grau de escolaridade dos titulares; 
número de filhos e outros dependentes; faixa etária, grau de 
escolaridade e relação idade/série dos dependentes; condições de 
empregabilidade dos titulares; inserção na rede de proteção social 
existente no município; conhecimento e percepção sobre o PBF; tipo de 
consumo com os recursos do programa; cumprimento ou não das 
condicionalidades e dificuldades encontradas para tanto; diferentes 
expectativas e necessidades sociais das famílias beneficiárias. 
 
Perfil dos titulares e suas famílias 
 
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Sexo: Mulheres 92,2% dos beneficiários e homens 2,8%: comprova 
o objetivo de ter a mulher como titular preferencial do programa, 
ancorando-se na concepção de que elas teriam maiores condições de 
maximizar o benefício recebido, além de aumentar a chance de 
cumprimento da agenda de compromissos. Soma-se o fato de um 
percentual significativo de famílias brasileiras ser monoparental 
feminina. 
 
Idade 
 
-87,16% dos titulares tem entre 18 e 50 anos 
-25, % tem entre 18 e 30 anos 
-38,8% tem entre 30 e 40 anos 
-22,6% está entre 41 a 50 anos 
-12,6% está acima de 51 anos 
 
Estado Civil: casados ou amasiados 43,3%; solteiros (as) 39,1%; viúvos 
4,2% e divorciados 13,1%. 
 
Linha de Pobreza: 75,4% extremamente pobres; 24,6% pobres. 
 
Tipos de famílias: 56,42% monoparentais ( em geral com chefia 
feminina) e encontradas na linha de pobreza dos extremamente 
pobres; → dado demarca um conjunto de famílias em situação de extrema 
vulnerabilidade marcada pela insuficiência de renda e a presença de 
apenas um dos pais no contexto familiar. 43,57% das famílias são 
biparentais. 
 
Número de pessoas no domicílio: 56,43% tem entre três e quatro 
pessoas. 
 
Padrão de escolaridade: 32,68% tem de 5 a 8 série fundamental 
incompleta; 15,64 % ensino médio completo; 15,36% tem 4 série 
do ensino fundamental ou ensino médio incompleto; os outros índices se 
dividementre analfabetos (1,68%); alfabetizado (1,40%), superior 
incompleto ( 1,12%); superior completo (1,2%). 
 
Resultado da pesquisa aponta os titulares com baixa escolaridade: 
Considerando que 97,93% dos titulares são mulheres, pode-se inferir 
que questões de atividades relacionadas aos cuidados com os filhos 
e a casa constituem alguns dos fatores que interferem 
negativamente no processo de escolariza’’cão das totulares do PBF. 
Panorama agravado pelas dificuldades de acesso a creches e escolas em 
tempo integralefertadas pelo poder público. 
 
A perspectiva de atuar sobre as deficiências educacionais dos titulares, 
além de representar importante intervenção sobre as iniqüidades sociais 
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prevalentes no município, inscreve-se na inserção produtiva das famílias 
beneficiadas. O sucesso do programa depende das formas como os 
governos locais vão dar a atenção à idéia de articular a transferência 
direta de renda com ações estruturantes vistas como ponto de partida 
para romper com o círculo vicioso da pobreza. 
 
Do ponto de vista da formulação de políticas públicas, o objetivo 
de aumentar a escolaridade dos titulares do PBF e da família deve 
comparecer como prioridade na agenda do poder público local. 
 
 
Situação ocupacional e condições de inserção no mercado de 
trabalho 
 
Baixo percentual de beneficiados inseridos no mercado formal de trabalho: 
77,99% dos titulares não tem seguridade social, estando desprotegidos 
em situações de doença, invalidez e morte, aspectos da proteção 
social tradicionalmente incorporados à previdência social →dado revela o 
grau de precariedade das condições de trabalho e a carência de empregos 
para esse grupo. 22,63% estão desempregados e 13,67% não trabalham. 
Dentre os 77,99% sem previdência social, 5,92% são assalariados sem 
carteira de trabalho; 6,70% são autônomos e 28,77% fazem bico. Só 
10,% tem seguridade social (assalariados com carteira assinada; 
autônomo com previdência social e aposentado/pensionista) 
 
Com relação aos companheiros (as) dos titulares: entre 148 
pessoas 38,5% são segurados da previdência social (dado amplia o 
percentual de famílias com seguridade social para 38,5%).. Outras 
questões se colocam: os homens, em geral, são mais formalizados no 
mercado de trabalho do que as mulheres; por serem famílias beneficiárias 
do PBF mostra que a renda do trabalho formal é baixa. 
 
A dificuldade de inserção no mercado de trabalho é o dado que 
mais chama a atenção na pesquisa e revela que o PBF está bem 
focalizado. 
 
Renda familiar: - 10,06% dos titulares entrevistados declararam 
renda familiar igual a zero.; 64,80% declararam renda de até um 
salário-mínimo; 20,67% percebem entre 01 e 02 salários mínimos; 3,35% 
estão na faixa de 02 a 03 salários-mínimos; 0,56 recebem acima de três 
salários-mínimos. 
 
Perspectivas de futuro apontadas pelos beneficiários 
 
Pergunta: o que beneficiário acha que deveria ser feito para 
melhorar a renda da sua família? Dentre 208 entrevistados, 58,1% 
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mencionaram o trabalho como meio de melhorar a condição de renda 
própria e de sua família; 57 beneficiários responderam que seria 
conseguir um emprego com carteira assinada para si ou algum 
membro da família; 67 pessoas fizeram menção a um trabalho fixo; 
84 disseram que seria um trabalho para si, para membro da família ou 
conseguir um trabalho melhor; uma pessoa disse que a solução seria fazer 
biscates. 
 
Diante desses dados pontua-se: o trabalho com carteira assinada ou 
trabalho fixo são vistos como forma de sair da condição de 
vulnerabilidade social; no imaginário desse segmento social, o 
caminho para uma condição de vida adequada passa pelo viés do 
trabalho e não peloa condição de beneficiários de programa de 
transferência de renda.; a visão de alguns de que a melhoria na 
escolaridade tende a permitir uma inserção mais consistente no mundo 
do trabalho → a maioria dos entrevistados valorizam o trabalho como 
possibilidade de superação da condição de pobreza. 
 
Somente 8,3% dos entrevistados disseram não saber como fazer para 
aumentar a renda da familiar → dado evidencia que há entre os 
beneficiários do PBF pessoas que não antevêem perspectiva de futuro em 
condições de vida mais satisfatória. 
 
Considerações Finais 
 
Pode-se identificar baixa expectativa de melhoria futura das 
condições de vida entre a população pesquisada→ fato contraria 
objetivo traçado pelo PBF que é o de, a partir da inserção da 
família no Programa por um tempo, ela possa ter condições de 
construir alternativas para sair da condição de pobreza. 
 
Outro dado apurado é a concepção dos beneficiários de que a saída para 
sua condição de pobreza está na esfera do trabalho. Concepção 
contrasta com o perfil atual do mundo do trabalho, onde para uma 
inserção consistente exige-se do trabalhador tempo de formação e 
treinamento, além de investimento na escolaridade formal, contexto cujos 
cursos profissionalizantes estão em xeque neste sentido. 
 
A necessidade de intervenção sobre a contradição entre a saída da 
pobreza x baixa escolarização e requisições do mercado de trabalho 
atual foi incorporada ao desenho do PBF por meio da exigência da 
condicionalidade da educação. No Brasil e em outros países da 
America Latina, a discussão teórica e política acerca dos programas de 
transferência condicionada de renda teve início com a proposição de 
combinar o benefício monetário com a exigência de freqüência 
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escolar como estratégia de romper o ciclo de reprodução geracional da 
pobreza. 
 
Finalmente, por trás de um único problema se esconde uma diversidade 
empírica do mesmo fenômeno e é essa diversidade que os planejadores e 
executores dos programas devem estar atentos, sob pena de 
comprometer a eficácia da ação social pública. 
 
 
Texto 3 – Problematiza as diversas configurações familiares 
na contemporaneidade, tendo como enfoque as famílias 
homoafetivas. 
 
Família e Homossexualidade: Uma reflexão acerca das 
configurações da família na contemporaneidade e os 
Direitos Sociais 
 
Sabrina Silva Zacaron 
 
Introdução 
 
Objetivo: analisar a temática referente às diversas configurações 
familiares na atualidade, tendo por enfoque as famílias homoafetivas, 
bem como avaliar os reflexos jurídicos-legais dessa questão, ou seja, 
compreender como a legislação e os legisladores vem trabalhado a 
questão da relação conjugal entre homossexuais no contexto brasileiro. 
 
Família: grupo de pessoas portadoras de particularidades que se 
relacionam cotidianamente, traçam complexa rede de relações e 
emoções que não são necessariamente homogêneas e interativas, 
podendo assumir caráter conflitivo ou mesmo fugir do modelo tradicional 
de família nuclear.É preciso desconstruir o entendimento da família como instituição natural, 
relacionada só à procriação, pois ela é “uma construção histórica 
mutável”(Bruschini, 1993,p.50), podendo ter configurações diversas em 
relação a outras sociedades ou diferentes momentos históricos. Apesar da 
cultura da família nuclear ser ainda muito forte, não se pode 
desconsiderar as novas representações familiares: famílias 
monoparentais; com idosos sendo seu arrimo; constituídas após 
outros casamentos; uniões estáveis hetero e homoafetivas. 
 
Com relação à famílias homoafetivas, no Brasil não há legislação 
específica que a reconheça e a proteja, não obstante a existência de 
alguns projetos de lei que implicitamente tratam algumas das 
questões relacionadas aos direitos dos homossexuais. Dessa forma, a 
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situação de pessoas do esmo sexo que resolvem constituir família 
acaba por se configurar como uma situação que existe de fato, mas 
não de direito. 
 
Os direitos humanos e sociais dos homossexuais vem sendo 
negligenciados pelo judiciário ante à união estável, constituição familiar, 
os direitos sociais e previdenciários que são negados nessas 
situações, visto que a união entre pessoas do mesmo sexo não é 
considerada legítima perante a lei. Assim, não são compreendidos 
como uma formação familiar e não podem desfrutar de direitos que são 
garantidos às famílias constituídas por casais heterossexuais. 
 
A família na contemporaneidade 
 
Conforme Scott (2011), no contexto atual de globalização, a família 
continua a sofrer processos de transformações advindos das 
mudanças demográficas, no mundo do trabalho, relações de gênero 
e intensificação do processo de industrialização e psicologização da 
compreensão da vida social. 
 
Para traçar uma discussão sobre este processo, utilizaremos como 
aporte teórico o trabalho desenvolvido por Uziel (2002) que pensa a 
família como uma instituição que se mantém como organizadora da 
sociedade ocidental. Utiliza como norteadores para seu estudo a 
definição de famílias segundo o número de pessoas que compõem os 
laços parentais com a criança ((monoparentais ou pluriparentais), a 
forma de composição da família (recomposta, por adoção) e 
reflexões sobre a orientação sexual dos pais ( homoparentais). 
 
Em virtude da representatividade das famílias chefiadas por apenas 
um dos sexos, consideramos pertinente a discussão sobre 
monoparentalidade, visto que grande parte das famílias 
contemporâneas têm esta configuração. 
 
Segundo Uriel (2002), o termo monoparental foi cunhado do inglês 
e introduzido por sociólogas faministas para valorizar os Lars 
chefiados por mulheres, concedendo-lhes o mesmo statuto entre as 
famílias clássicas. 
 
Lefaucheur (1999) definiu na frança família monoparental como aquela 
composta por uma pessoa sem companheiro(a), vivendo em companhia 
de , pelo menos, uma criança de menos de 25 anos, solteira, 
reforçando a idéia que é preciso haver uma criança para que se constitua 
família. 
 
A definição de família monoparental remete à existência de criança 
no lar, onde quase sempre a mãe detém a guarda. Homens 
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solteiros, separados ou viúvos não são incluídos na configuração 
familiar, sendo considerados naturalmente incapazes no trato com a 
casa, as crianças e a vida familiar. Essa situação se agrava quando o 
homem é ainda homossexual. 
 
A família monoparental se expressa basicamente por dois aspectos 
que conjugam a sobrecarga sobre um dos integrantes do casal e a 
dessimetria entre as funções maternas e paternas da família nuclear. 
 
Conforme Lebovici ( apude Uziel, 2002), a monoparentalidade 
advém de três situações: separação, abandono durante a gravidez e 
decisão da mulher em ter filho sozinha →análise reducionista por 
desconsiderar o papel do homem na formação familiar. 
 
Entre os juristas, o ideal de família é a biparental: pai e mãe com papéis 
bem definidos, e os filhos sendo educados por ambos → idéia expressa na 
Convenção Internacional dos Direitos da Criança de 1989 e que ignora a 
pluralidade dos modelos familiares. 
 
Novos arranjos familiares incluem a idéia da pluriparentalidade (Uziel, 
2002), na lógica da soma e não da subtração, desafiando a lógica da 
primazia do biológico sobre o social, servindo de alternativas àqueles que 
não podem ter filhos. Tal debate surgiu na França, ante ao uso de 
tecnologias reprodutivas com doador anônimo e adoção por 
homossexuais. Tal conceito ( pluripaternidade) significaria reconhecer os 
limites da biologia e valorizar laços construídos com a convivência a partir 
do desejo → em vez de ser uma visão mais ampla de família, sem as 
amarras da família nuclear burguesa, seria uma forma de controle 
dos que fogem às regras que outorgam o direito ao exercício das relações 
parentais, surgindo como alternativa a suposta anormalidade seja devido 
à infertilidade ou à orientação social. 
 
Pluriparentalidade (uziel, 2002) : famílias recompostas ( ou 
restituídas) que se configuram pela reorgazação e a fragilização dos 
laços conjugais em decorrência das uniões livres e das práticas de 
coabitação. 
 
As famílias recompostas carecem de normas sobretudo jurídicas, o que 
talvez se dê pela dificuldade que as sociedades ocidentais têm em pensar 
a família fora das categorias clássicas de parentesco e aliança. Elas 
trazem indagações acerca do significado do “familiar”, visto que os papéis 
parentais, os deveres e as obrigações se multiplicam e se diferenciam. 
Nessa abordagem de família está implícita a idéia de rede. 
 
 A diferenciação entre “os meus, os seus e os nossos”, referentes aos 
vínculos afetivos com as pessoas que compõem o ambiente familiar, 
criada pelos divórcios e recasamentos, fica secundária, pois as 
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crianças passam a ter várias referencias parentais (o marido da mãe; a 
esposa do pai; o pai ou a mãe da irmã, etc.), sem termos genéricos 
que os identifiquem, demonstrando que a sacralidade da família 
nuclear vem cedendo espaço para a pluralidade de laços ( 
pluriparentalidade). 
 
A pluriparentalidade se coloca em relação à constituição da família 
homoparental, cujo enfoque analítico é voltado para a orientação 
sexual dos pais. São vários os discursos contra a parentalidade 
homossexual que associa a identidade sexual à negação da natureza. 
Além disso, a escolha de parceria do mesmo sexo vai contra o ideal de 
família nuclear. 
 
Um dos problemas acerca da homoparentalidade refere-se à possível 
influencia que os pais homossexuais exerceriam na orientação sexual 
de seus filhos, ou seja, estes tomariam o modelo de identidade 
sexual de seus pais. Segundo pesquisa ( Sullivam, 1995, apud Uziel, 
20020),tal consideração não se verifica, a partir de estudo 
comparativo de crianças filhos de heteros e homossexuais que não 
evidenciam diferenças significativas na escolha do objeto sexual dos 
filhos. Deve-se considerar que pais heterossexuais tem filhos 
homossexuais e o contrário também se dá, fato que vem negar as 
teorias psicanalíticas que defendem que a reprodução do modelo 
homossexual para os filhos seria inevitável. 
 
A deficiência de profissionais responsáveis por serviços de adoção é 
flagrante acercada temática gênero e sexualidade, principalmente em 
relação ao homossexual masculino. Enquadram a família 
monoparental numa dupla deficiência: “desvio” ante a sexualidade e a 
falta de uma pessoa para compor o que seria ideal de casal. 
 
Este trabalho parte do pressuposto de que a homossexualidade refere-se 
ao exercício da sexualidade e que as funções parentais não se ligam 
necessariamente, de forma simples e direta, ao exercício da 
sexualidade da criança. Os comportamentos humanos são diversos e 
assumem posições de acordo com o entendimento de cada época. Em 
dado momento da historio, determinou-se que as relações sexuais entre 
iguais era algo negativo, doentio e anormal, enquanto em outras 
épocas foi concebível e irrelevante, tratando-se em ambos os casos de 
construção social dos homens. Hoje, ainda se percebe, ao tratar a questão 
da família e da homossexualidade, que conceitos estabelecidos em dado 
momento histórico ( casal, conjugalidade, casamento) permanecem 
presentes no discurso e na legislação. 
 
O assistente social deve acompanhar a dinâmica da vida, as novas 
configurações da família brasileira e trazer para a discussão a família 
composta por pessoas do mesmo sexo. 
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O movimento homossexual mundial tem obtido adesão e respaldo da 
sociedade civil e de autoridades oficiais, configurando novas leis que 
têm promovido o debate acerca das questões concernentes à 
cidadania e equiparação de direitos. 
 
Homossexualidade e Justiça: reflexões sobre o tema 
 
A homossexualidade é um fenômeno social, portanto, de relevância 
jurídica. No Brasil, a discussão sobre a parceria civil entre casais do 
mesmo sexo ainda é polemica, ao contrário de alguns países da 
Europa que já avançaram nesta discussão e a legislação assegura aos 
homossexuais direitos plenos de cidadania. 
 
É importante assinalar na França a discussão do Pacto Civil de 
Solidariedade (PACS), visto que ele influenciou a criação do projeto 
apresentado por Roberto Jefferson, em 1999, disciplinando o pacto 
de solidariedade entre pessoas sem fazer referencia à orientação sexual. 
 
O pacto civil de solidariedade caracteriza-se pelo contrato entre 
duas pessoas físicas, maiores, de mesmo sexo ou de sexos 
diferentes, a fim de organizarem uma vida em comum, coabitarem 
e se ajudarem mútua e economicamente, sem alteração do estado civil. 
O projeto proíbe a contratação entre parentes diretos e colaterais até a 
terceira geração, para evitar o incesto. Não há exigência formal de 
comprovação ou intenção de uma relação conjugal como condição par 
assinar o pacto. 
 
Em relação aos bens, os parceiros decidem sobre a propriedade e 
sua eventual partilha em caso de ruptura do contrato. No que se 
refere à assistencia, o PACS modificou o código da seguridade 
social, passando o parceiro ao estatuto de cônjuge, não havendo limite 
para pactos sucessivos assinados por uma mesma pessoa, desde que não 
concomitantes. 
 
Não é objetivo do PACS criar uma entidade familiar alternativa, 
tanto que não trata dos direitos de filiação e de questões 
concernentes aos direitos das crianças. Não compromete o casamento 
tradicional que deve permanecer como opção para o cidadão. 
 
Na França, a polêmica em relação ao PACS se dá em função da 
perda da conquista da unicidade do casamento civil, criado em 1972 
como laicização da sociedade, conforme a declaração dos direitos do 
homem e em decorrência da igualdade dos cidadãos perante a lei. 
No entanto, o casamento exclui os homossexuais e o Pacs viria 
reverter essa exclusão. Em termos legais, ele se aproxima do casamento 
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por ser registrado e do concubinato por não ter tantas regras e 
obrigações. 
 
O processo de aprovação do PACS na França foi controverso, em 
clima de intolerância, trazendo-lhe diversas alterações. O Projeto 
despertou politicamente, várias opiniões e tendências com relação 
ao assunto. Foi ressaltada a sua importância contra o movimento da 
homofobia e um dos maiores argumentos a seu favor repousa sobre 
a questão da solidariedade, pois ele cria um laço social. Entretanto, 
os de opinião contrária argumentam que o PACS está mais voltado 
para a sexualidade do que para a solidariedade, sendo avanço para 
os homossexuais e perigo para a família em função da indefinição 
da lei, colocando a possibilidade de destruição da família tradicional. 
 
A proposta do PACS não visa interferir no direito da família, não adota 
direitos concernentes à filiação, adoção e reprodução assistida. Não 
dispõe sobre deveres de fidelidade, coabitação formal e não há 
vínculos entre as famílias contratantes, não gerando estatuto 
familiar. No projeto, a criança não é objetivo central como ocorre no 
casamento, sendo, no máximo, conseqüência. 
 
No Brasil, o que se observa são leis orgânicas municipais e 
constituições estaduais que penalizam a discriminação em função da 
orientação sexual. Apesar de atitudes vanguardistas em alguns 
destes municípios sobre a questão, não existe lei brasileira que considere 
o relacionamento homossexual como união estável. 
 
Em 1995, Marta Syplicy, na condição de deputada, apresentou 
projeto de emenda constitucional que visava incluir a liberdade de 
orientação sexual nos objetivos fundamentais da República. 
 
O Projeto de Lei n: 1.151/95 que, de certa forma regula a parceria civil 
entre pessoas do mesmo sexo, gerou polêmica no Congresso Nacional, 
com representantes da Igreja Católica e Evangélica e de segmentos 
conservadores da sociedade se posicionando. 
 
A defesa do projeto se baseia na idéia de justiça social, de direito de 
cidadania e respeito à diferença. Pela Constituição de 1998 são 
asseguradas: a liberdade e igualdade sem distinção de qualquer 
natureza; a dignidade da pessoa humana; a busca de uma 
sociedade livre, justa e solidária; a erradicação da marginalidade dos 
indivíduos e a promoção do bem-estar sem preconceitos de origem, 
raça, sexo ou idade, quaisquer outras formas de discriminação; além da 
inviolabilidade da intimidade da vida privada. Com base nesses 
argumentos, encontra-se o suporte jurídico da construção do direito 
à orientação sexual como direito personalíssimo, atributo inerente e 
inegável de toda a pessoa humana. 
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O projeto popõe direitos à propriedade, herança, sucessão, alimentos, 
previdência social, seguro-saúde, direito à nacionalidade em casos de 
estrangeiros que tenham perceiro)a) cidadão (a) brasileiro(a), 
declaração conjunta de imposto de renda e renda conjunta para 
comprar imóvel. No entanto, não contempla a criação de um núcleo 
familiar, vedando a adoção, tutela ou guarda de crianças/adolescente em 
conjunto, mesmo sendo filho de um dos parceiros. A parceria seria 
formalizada por um contrato em cartório, que deve tratar sobre 
patrimônio, deveres, impedimentos e obrigações mútuas, sem alterar 
o estado civil nem o direito usar o sobrenome do outro, visto que o status 
de casado não é proposto. 
 
Em princípio, o projeto não tem a intenção exclusiva de regularizar só 
relações estáveis de pessoas do mesmo sexo; qualquer pessoa poderia 
registrar outra como sua dependente/parceira, podendo tratar de amigos 
parentes e afins, sem necessariamente configurar uma relação 
amorosa. Assim, os homossexuais poderiam registrar sua parceria de 
forma que a outra parte tivesse direitos em relação a seus bens e 
questões previdenciárias. Seria uma forma de regularizar a situação 
dos casais homossexuais perante a sociedade. 
 
A questão central de discussão é a diferença entre casamento 
(instituição secular vinculada à relação homem e mulher) e a proposta 
do projeto que repercute no que se entende por casal e por 
família. Alguns deputados defenderam a questão ( Roberto Jefferson, 
Laura Carneiro), entendendo que o Estado deveria regular direitos e 
obrigações de um conjunto novo de pessoas. 
 
Foi criada uma Comissão Especial pelo presidente da Câmara, composta 
por deputa dos e especialistas e o texto sofreu alterações passando a 
disciplinar a parceria civil registrada entre pessoas do mesmo sexo ( 
em substituição do termo união ). 
 
Uziel (2002) analisou as discussões ocorridas nos trabalhos da 
comissão. Foram adotados vários posicionamentos contra e a favor. 
Deputados contráros valeram-se de argumentos religiosos, 
entendendo que a união entre pessoas do meso sexo poderia ameaçar a 
família, ferir a honra e a moral da Nação Católica e contribuir para a 
extinção da espécie humana pela falta de procria’’cão. Deputados 
favoráveis apostam na defesa dos direitos e garantias individuais a 
favor da liberdade ou pela necessidade de se regular uma situação 
de fato, reforçando a idéia de que o projeto ser uma possibilidade 
de transformação da sociedade brasileira em sintonia com a história 
social. Trata-se de estender uma condição humana para um direito 
social e civil, uma vez que a humanidade é plural e a relação social 
se coloca no foro íntimo de cada indivíduo. 
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Mesmo as propostas mais progressistas não abarcam a discussão 
sobre a constituição do núcleo familiar homossexual. Assim as 
pessoas do mesmo sexo que vivem uma união estável dependem 
do entendimento de juízes (conservadores) para decidir as questões 
referentes à constituição familiar ou direitos 
privedenciários/sucessórios. 
 
O Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul tem proferido decisões mais 
progressistas sobre a questão, havendo Desembargadores arbitrando 
em favor da partilha de bens entre homossexuais ser discutida em 
Vara de Família, considerando que o afeto envolvido entre homossexuais é 
semelhante ao existente numa união estável heterossexual. 
 
 Esse e outros exemplos na jurisprudência parecem orientar no 
sentido de reconhecer a sociedade de fato entre homossexuais. A Juza 
do Rio Grande do Sil, Maria Berenice Dias, coloca: (...) É difícil aceitar o 
diferente sobretudo quando o que é tido como normal ou convencional diz 
respeito à sexualidade e as relações interpessoais, o índice de 
repulsa e de dificuldade de aceitar se eleva de tal forma e com 
força expressiva que passa a ser preconceito, um tabu. (...) A omissão do 
legislador em regulamentar situações que não gozam de plana 
aceitação social certamente se deve ao receio de desagradar o 
eleitorado. Mas isso constitui um verdadeiro abuso do poder de legislar. 
Tentar eliminar situações que uma minoria, levada pela indiferença ou 
pelo fanatismo, não quer ver e insistir em rebater, é uma técnica cruel. 
(...) O resultado de tais ações não pode ser mais nefasto: a inexistência 
de legislação faz com que os juízes se sintam estimulados a 
reconhecer relações sociais que reclamam proteção jurídica. Deste 
modo, seja pelo silencio da lei ou por medo dos juízes se constrói uma 
legião de marginalizados, oprimidos e desvalidos pelo simples fato de 
viverem relações que alguns não aceitam como “verdadeiras” e legítimas 
e que por isso necessitam de referencias, regulamentação legal ( Dias, 
2003). 
 
Os conceitos sobre casal, união estável, parceria civil e família são plurais 
e divergentes, atravessando questões no campo cultural, moral e 
cognitivo. 
 
Apesar dos esforços relativos à legislação que trata a regulação civil entre 
pessoas do mesmo sexo, não se observa o reconhecimento dos 
núcleos compostos por homossexuais, com crianças ou não, como 
entidades familiares, pois o entendimento da família passa pela 
procriação. Essa discussão passa por um processo de construção e 
desconsrução de culturas, pelo que se entende de família. 
 
Considerações Finais 
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Discutir família é algo fascinante em função da diversidade de 
arranjos e expressões. Por isso, ao se escolher o tema deste 
trabalho, destacou-se a família composta por pessoas do meso 
sexo, entendeo que para muitos assistentes sociais esse tema ainda 
é tabu. O assunto é pouco discutido no Serviço Social e há pouca 
bibliografia a respeito A instituição familiar e todas as representações que 
a cercam são socialmente construídos, passíveis das mais variadas 
mutações por inscrever-se no contexto sócio-histórico. É uma construção 
dinâmica e cultural. 
 
O modelo de família composto por casal heterossexual foi construído a 
partir da idéia do casamento para fins de procriação, de perpetuação da 
espécie. Essa perspectiva guarda princípios de fundo econômico, religioso 
em que o sexo é concebível apenas para a procriação e a família para ser 
considerada supõe a existência de crianças. 
 
Na contemporaneidade a formação da família passa mais pela 
constituição de laços afetivos. Logo, todos os arranjos familiares são 
válidos, pois a família não poder ser reduzida a um único modelo, vista 
que é composta por seres humanos, com vivencias e experiências 
distintas, valores singulares, diferentes subjetividades e em constante 
transformação. 
 
A justificativa para a negação da entidade familiar para casais do 
mesmo sexo repousa na própria definição de casal. Este deve ser 
composto por homem e mulher, garantindo a perpetuação da espécie 
humana. Ora, regulara situação dessas pessoas não significabanir o 
casamento ou ameaçar a existência da espécie humana e sim 
agrupar mais um modelo familiar que se configura em nossos 
tempos.

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