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Tatiane Lira – MED UFPE Câncer de colo de útero CASOS CLÍNICOS · Caso clínico 1: · ASCUS: sigla em inglês que significa céls escamosas atípicas de significado indeterminado → alteração que ainda não é classificada como displasia. · NIC: neoplasia intraepitelial cervical (nomenclatura atual das antigas displasias). · Conização cervical: remoção, do colo do útero, de peça cirúrgica em forma de cone (base é a ectocérvice e a altura é o canal). · A pcte tem diagnóstico de lesão precursora da neoplasia de colo. · Pode se observar vários fatores de risco: HPV, tabagismo, uso de ACO, coito precoce, múltiplos parceiros. · Caso clínico 2: · Fatores de risco p/ CA de colo (e lesões precursoras)? Letra C. · Consumo de álcool, parto à fórceps, DIU e diabetes NÃO são fatores de risco. · Múltiplos parceiros → + de 5. · Relação precoce → antes dos 16a. · Caso clínico 3: · NIC: lesões precursoras do CA de colo; I, II, III (carcinoma in situ), IV (carcinoma invasivo). · NIC I: tem grande chance (70%) de regressão espontânea dentro de 6m → letra A. · NIC III: conduta é conização. · HPV é uma infecção que determina aparecimento de atipia no colo do útero. · Caso clínico 4: · Na colposcopia, adiciona ácido acético → reage no epitélio do colo → fica esbranquiçado se hiperplasia no epitélio. · Às vezes, esse epitélio acetobranco pode penetrar no canal cervical → é definido o grau de penetração. · Quando penetra bastante, não se ve até onde foi; mas no caso da pcte: +2 → início do canal cervical. · Ao analisar o cone, o patologista encontra invasão em 5% dos casos. · Conduta conservadora: preservar o útero → letra A (invasão < 4mm e extensão horizontal < 8mm). · Estadiamento do CA de colo: ○ Estádio I: se limita ao colo. ▪ Invasão até 5mm → maior sobrevida, baixa incidência de metástase de linfonodos (~1%) → Ia: microcarcinoma → tto c/ conização. ☆ Ia1: + segurança (até 3mm) → conização segura. ☆ Ia2: 3-5mm. ▪ Invasão > 5mm → menor sobrevida → Ib → tto c/ cirurgia radical (retira útero, trompas, ⅓ da vagina, parametrios, linfonodos pélvicos, paraaórticos). · Caso clínico 5: · Carcinogênese tem 4 etapas: promoção, iniciação, progressão, propagação. · Letra A: HPV participa da iniciação e promoção (não tem virulência p/ promover processo de invasão). · Iniciação: agente cancerígeno causa mutações do DNA (lesa o núcleo da cél) → alterações eletrofílicas (então uma cél iniciada não tem sinais histopatológicos). · Agente pode ser eliminado e a cél voltar ao normal ou permanecer e provocar alterações. · Promoção: evolui p/ alteração na quantidade cromatina (aqui já tem sinais histopatológicos: aumento do núcleo, cromatina grosseira) → aparecem as NICs. · Estágios iniciais da NIC podem regredir mas a partir de carcinoma in situ (NIC III) não regride → vai invadir localmente → progressão (o principal gatilho p/ invasão é imunossupressão). · Propagação é a disseminação do câncer, através das metástases. CÂNCER DE COLO DE ÚTERO · Fatores de risco: · Lesões precursoras: NICs. · Coitarca precoce: < 16a. · Primiparidade precoce (< 16a) e multiparidade (4-6 filhos). · Múltiplos parceiros: + de 5 parceiros na vida. · Parceiros de risco (3x): c/ IST, + de 20 parceiras durante a vida. · Imunossupressão: ○ Lupus, transplantadas, diabéticas. ○ HIV (HIV positivo + câncer invasor = AIDS). · Tabagismo: é fator imunossupressor → diminuição de cél de Langerhans (na pele e na mucosa) → afeta imunidade celular. · ACHO: fator imunossupressor → deprime imunidade do epitélio cérvico-vaginal; aumenta o risco de adenocarcinoma (originados da endocérvice → mucosa glandular, representam a minoria dos cânceres). · Infecções genitais (ISTs) de repetição: ○ HPV, HSV. ○ Clamídia: lesiona núcleo da cél e facilita a infecção por HPV. · Hipovitaminose: ○ Vit. A: ▪ Inibe a proliferação, permitindo a diferenciação. ▪ Regressão: NIC II 43% c/ vit. A X 27% c/ placebo. · Má higiene: metabólitos → ação carcinogênica. · Baixo nível socioeconômico: denominador comum de todos os fatores. · HPV: · A maioria dos cânceres de colo dependem da infecção por HPV. · Na citologia: ○ Céls azuis são intermediárias, basófilas. ○ HPV infecta cél e determina aparecimento de grande vacúolo em torno do núcleo → cél em balão → chamado de coilocitose (patognomônico). ○ Tem binucleação e disqueratose. · Na histopatologia: ○ HPV promove crescimento epitelial formando papilas (observadas na superfície pelo colposcópio no exame de colo e vagina). · Prevalência da infecção pelo HPV: ○ 60% da população mundial já teve e 15% está c/ infecção pelo HPV. ○ Mas também é frequente a regressão espontânea. ○ Preocupação: a partir de 29a → infecção persiste → pcte de risco p/ câncer. · Subtipos do HPV: ○ Sabe-se que existe + de 200 subtipos de HPV. ○ Alguns têm potencial oncogênico: ▪ Baixo risco: 6 e 11 (condiloma acuminado / verruga). ▪ Alto risco: 16 (é o + frequente na carcinogênese), 18, 45, 56. ○ Mas têm alta taxa de regressão. · Estrutura do HPV: ○ Tem 8 mil pares de bases. ○ Genes do vírus se arrumam nas regiões: ▪ E (early): ☆ Genes responsáveis pela replicação viral. ☆ E6 e E7 → proteínas carcinogênicas: bombardeiam os genes que defendem a cél da carcinogênese. ☆ E6 bombardeia p53 e E7 bombardeia pRB. ▪ L (late): ☆ Genes responsáveis pela formação do capsídeo. ☆ L1 que é usada nas vacinas: Se esvazia o núcleo (tira DNA do vírus) → fica somente a “casca” / capsídeo → c/ isso que é feita a vacina → então não tem perigo de determinar a doença (não envolve as proteínas de replicação). · História natural do HPV: ○ Comportamento episomal: bombardear DNA (mas não se incorporar a ele) → forma coilócitos → mata a cél, que se rompe → não leva a câncer. ○ Ou se integra ao DNA das céls basais → se multiplica junto c/ a cél → o que leva à carcinogênese. · Carcinogênese do HPV: ○ Infecções na Zona de Transição (céls metaplásicas na mucosa endocervical [formada por glândulas] → é fisiológico → maioria das mulheres na puberdade sofre eversão → essa mucosa fica na ectocérvice → ectopia: sofre metaplasia p/ transformar as céls em escamosas e as céls metaplásicas sofrem mutação facilmente e são propícias p/ desenvolvimento de câncer na presença de HPV). ○ Infecção persistente: organismo não elimina o vírus. ○ Promove iniciação e promoção. ○ Progressão: ligada a outros fatores, ocorre por metilação dos genes mutantes. ○ Propagação: ocorre posteriormente c/ metástases. · Lesões precursoras: · Classificação citológica: ○ Mudança de nomenclatura: neoplasia intraepitelial cervical → lesão intraepitelial escamosa. ○ Br ainda não adotou nomenclatura de Bethesda → NIC II pode regredir e NIC III a conduta é conização (se agrupar tem que tomar essa conduta em II e III). ○ ASC-US: cél escamosa atípica de significado indeterminado → céls que não são normais mas ainda não têm característica de NIC I → conduta é repetir c/ 6m. ○ ASC-H: cél escamosa c/ grande atípica (high) → chance maior de poder ter NIC III → conduta é colposcopia. ○ AGUS (AGA): cél glandular atípica de significado indeterminado. · Classificação histológica: · Diagnóstico histopatológico: ○ Epitélio normal: +/- 20 camadas de céls; céls basais*, parabasais*, intermediárias** e superficiais**; é diferenciado → cél vai aumentando de tamanho (citoplasma aumenta e núcleo diminui). *Céls imaturas. // **Têm glicogênio (então p/ investigar se epitélio é anormal, observa se tem glicogênio); céls maduras; descamam. ○ HPV infecta céls basais → núcleo fica grande (c/ muitas cromatina) → céls derivadas dessas céls basais têm núcleo atípico → descamação de céls escamosas intermediárias e superficiais atípicas. ○ A velocidade mitótica das céls vai aumentando → vão ocupando cada vez + o epitélio → 1/3: NIC I; 2/3 NIC II e todas as camadas NIC II: · Céls c/ significado indeterminado: ○ ASC-H e imunossuprimidas: vai direto p/ colposcopia. ○ Lesões intraepiteliais de baixo grau em adolescentes: regridem 91% em 3a. ○ Lesões intraepiteliais de baixo grau persistente (12m): tem que fazer colposcopia. · Teste do iodo p/ avaliar se tem área anormal(também pode evidenciar na microscopia): adição de iodo no colo → reação c/ glicogênio (céls neoplásicas não têm glicogênio) → marrom (iodo positivo). OBS.: Teste de Schiller é + quando o do iodo é - (coloração amarelo-mostarda) e é - quando o do iodo é + (coloração marrom-escuro). · Microscopia: Evidenciando junção escamo-colunar (junção de epitélio escamoso e glandular). · Colposcopia: Observa papilas (características do epitélio glandular que veio p/ fora): ectopia → acontece em 90% das mulheres. · Evolução: Zona de transformação à esquerda: tendência é epitélio escamoso vizinho começar a avançar pelo glandular → cobre epitélio glandular → muco fica preso → forma cisto, pode deixar orifício por onde sai muco, pode deixar algumas ilhotas glandulares. // Teste do iodo positivo à direita (epitélio glandular não tem glicogênio, não pega o iodo). Ectopia, escamoso avançando por cima do glandular → observa cistos, orifícios, ilhotas abertas. // Teste do iodo positivo. HPV determina hiperplasia do epitélio, aumenta cromatina no núcleo; coloca-se ácido acético → reage c/ proteínas do epitélio (que estão aumentadas pela hiperplasia) → imagem acetobranca. Observa aspecto em mosaico → merece fazer biópsia. À esquerda, epitélio hiperplásico: + céls, núcleos grandes, + vascularização → colo terá mácula avermelhada (pode significar que na profundidade tem neoplasia); à direita, reação do ác. acético c/ proteínas → esbranquiçado (tem que biopsiar p/ ver se tem atipia). · Biópsia: · AGC: atipias de céls glandulares ○ Muitas vezes se faz o CONE p/ estudar adenocarcinoma. ○ Colhe citologia c/ escova → observa céls glandulares atípicas → conização. · Adenocarcinoma in situ 9% ○ CONE → AIS 48% e invasor 38%. · Invasor 41% · ASC-US: céls escamosas atípicas de significado indeterminado; diretrizes brasileiras · Rastreamento: diagnóstico de doença s/ sinais e sintomas · Citologia oncótica cervical: ○ Colhe, c/ escova, material da ecto/endocérvice → coloração de papanicolau → examinado p/ ver se tem atipias. ○ NIC I → repete c/ 6m pois 70% regride. ○ NIC II ou III → colposcopia. · Co-Teste (HPV-DNA): · Taxa de NIC III: 1,44 x 1,77. · Apenas 0,1% dos CA de colo são diagnosticados < 21a → então o rastreamento começa c/ 21a (EUA e Europa: 3 citologias anuais normais → 3 em 3 anos) → No Br, começa c/ 25a (2 citologias anuais normais → 3 em 3 anos até 64a). · Estudo (Seattle): das pctes c/ CA de colo estádio I, 27% tinham citologia negativa dentro de 1a antes. · Diagnóstico: · Assintomático: ○ Pode ficar s/ sintoma até estádio II. · Sintomático: ○ Corrimento aquoso, sinusiorragia, sangramento vaginal, dor pélvica-lombar, hematoquezia, passagem vaginal de urina e fezes. · Exame especular: ○ Normal a tumor exofítico. ○ Carcinomas invasivos iniciais: mácula rubra (região em torno do orifício cervical externo bastante avermelhada; mas pode ser também ectopia fisiológica). ○ Carcinomas + avançados: colo em barril. · Citologia/colposcopia: ○ Analisa áreas c/ epitélio atípico. · Biópsia/conização: ○ CONE: excisão parcial do colo; pode ter base larga e altura pequena ou o contrário. ○ Excisões c/ uma alça em pcte c/ NIC I e II → evitar conização. ○ NIC III → conização (quase certeza que é câncer invasivo). · Classificação histológica: · Carcinoma de céls escamosas, adenocarcinoma e carcinoma adenoescamoso: · Importante p/ prognóstico e tto. · De pequenas céls é o + agressivo dos CA de céls escamosas. · Verrucoso é o menos agressivo. · De céls não queratinizantes é o + comum. · De todos os tipos, de céls claras é o + agressivo. · Estadiamento: · Biópsia faz o diagnóstico definitivo. · O estádio pré-operatório não é alterado por achados cirúrgicos. · RNM e TC não são usados p/ estadiamento. · “Guidelines” da FIGO: ○ Avaliação clínica. ○ Colposcopia. ○ Curetagem endocervical. ○ Conização: tto conservador. ○ Histeroscopia. ○ Cistoscopia. ○ Proctoscopia. ○ Urologia excretora. ○ Rx de pulmão/esqueleto. · FIGO, 2018: propagação local por contiguidade: colo → vagina (estádio II) → paramétrio (estádio III) Estádio 0 - Carcinoma in situ, carcinoma intraepitelial. Estádio I - Carcinoma restrito ao colo uterino. IA - A invasão do estroma é limitada à profundidade de 5 mm e extensão de 7 mm. IA1 - Invasão até 3 mm em profundidade e extensão até 7 mm. IA2 - Invasão entre 3 a 5 mm de profundidade e extensão até 7 mm. Envolvimento do espaço vascular ou linfático não altera o estadiamento. OBS.: O diagnóstico dos estádios Ia1 e Ia2 deve se basear no exame microscópico do tecido removido, de preferência um cone, que deve incluir toda a lesão. IB - Tumor clinicamente visível limitado ao colo ou tumores pré-clínicos maiores do que o estádio IA. IB1 - Lesões até 4 cm. IB2 - Lesões maiores de 4 cm. Estádio II - O carcinoma estende-se além do colo, mas não há extensão para a parede, ou seja, o carcinoma acomete a vagina, mas não o terço inferior. II A - Invasão da vagina, sem atingir seu terço inferior, e ausência de comprometimento parametrial. II A1 - Tumor clinicamente visível ≤ 4 cm em seu maior diâmetro. II A2 - Tumor clinicamente visível > 4 cm em seu maior diâmetro. II B - Acometimento visível do paramétrio, mas sem atingir a parede pélvica. Estádio III - O carcinoma estendeu-se até a parede pélvica. Ao exame retal, não há espaço livre de câncer entre o tumor e a parede pélvica. O tumor acomete o terço inferior da vagina. Todos os casos de hidronefrose ou rim não funcionante devem ser incluídos, desde que excluídas outras causas. III A - Extensão ao terço inferior da vagina, mas não à parede pélvica, se houver comprometimento parametrial. III B - Extensão à parede pélvica ou hidronefrose ou rim não funcionante. Estádio IV - O carcinoma estendeu-se além da pelve verdadeira ou há acometimento visível da mucosa da bexiga ou do reto. IV A - Disseminação do tumor para órgãos adjacentes (bexiga e reto). IV B - Disseminação para órgãos distantes. · Exames complementares p/ estadiamento correto: · Toque retal: p/ identificação de infiltração do paramétrio (sente-o túrgido, endurecido); melhor que métodos de imagem · RNM. · TC. · PET - SCAN (Positron Emission Tomography): usado principalmente p/ ver linfonodos retroperitoneais. ○ Altamente sensível p/ linfonodos para-aórticos e incerto p/ linfonodos pélvicos. ○ 60 mulheres (estádio Ia1, Ib2, IIa): só detectou 1 de 10 mulheres c/ RNM negativa; apresentou falso-negativo p/ micrometástases em linfonodos < 8mm. · Lingangiografia. · USG. · Procedimentos (punção, etc). · Estádio cirúrgico / avaliação cirúrgica: ○ O envolvimento dos LN ilíacos comuns e para-aórticos altera o campo de irradiação em 18-43% dos casos. ○ A avaliação cirúrgica pode ser por laparotomia ou laparoscopia detectando metástases macro e microscópicas, às vezes, perdidas nos exames de imagem. · Tto: · Cirurgia: histerectomia radical ○ Abdominal (Piver 2/3; Wertheim-Meigs). ○ Vaginal assistida por laparoscopia. ○ Linfonodo sentinela. OBS.: conização ainda é procedimento diagnóstico. · Indicações p/ terapia adjuvante: ○ Doença de alto risco: RT x Quimioterapia ▪ Margens de ressecção próxima ou +. ▪ Linfonodos +. ▪ Envolvimento parametrial microscópico. ○ Doença de risco intermediário: Quimioterapia x RT isolada ▪ Tumor > 4cm. ▪ Invasão estromal profunda. ▪ Espaço linfovascular invadido. OBS.: se RT primária é utilizada concomitantemente c/ CISPLATINA (quimioterápico usado no CA de colo → aumenta a resposta do tumor a RT), adiciona + benefícios do que a RT isolada. · Braquiterapia: ○ Radioterapia local (colo e corpo do útero). ○ Não pega em paramétrio e linfonodos (eles têm que ser irradiados externamente c/ cobalto). · Follow-Up pós tto: · Avaliação clínica: LN supraclavicular/inguinal e exame reto-vaginal: ○ 3/3m por 1a. ○ 4/4m por 1a. ○ 6/6m por 3a. ○ Depois anualmente. · Citologia oncótica em casa visita. · Rx de tórax anual, · TC/PET SCAN. · Antígeno do carcinoma de céls escamosas. MAIS CASOS CLÍNICOS · Caso clínico 1: · Letra A: o ASC-H indica maior chance de invasão. · Caso clínico 2: · LetraD: como é próximo do colo (IIa1 ou IIa2); o tto cirúrgico é Piver 2/3 ou Wertheim-Meigs + quimioterapia. · Caso clínico 3: · Letra D.