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Sociedade e 
Contemporaneidade
???????????
Sociedade e 
Contemporaneidade
Organizado por Universidade Luterana do Brasil
Universidade Luterana do Brasil – ULBRA
Canoas, RS
2016
Arlete Aparecida Hildebrando de Arruda
Deivison Moacir Cezar de Campos
Everton Rodrigo Santos
Gabriela Ramos de Almeida
Honor de Almeida Neto
Julieta Beatriz Ramos Desaulniers
Paulo G. M. de Moura
Rodrigo Perla Martins
Conselho Editorial EAD
Andréa de Azevedo Eick
Ângela da Rocha Rolla
Astomiro Romais
Claudiane Ramos Furtado
Dóris Gedrat
Honor de Almeida Neto
Maria Cleidia Klein Oliveira
Maria Lizete Schneider
Luiz Carlos Specht Filho
Vinicius Martins Flores
Obra organizada pela Universidade Luterana do Brasil. 
Informamos que é de inteira responsabilidade dos autores 
a emissão de conceitos.
Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida 
por qualquer meio ou forma sem prévia autorização da 
ULBRA.
A violação dos direitos autorais é crime estabelecido na Lei 
nº 9.610/98 e punido pelo Artigo 184 do Código Penal.
Dados técnicos do livro
Diagramação: Marcelo Ferreira
Revisão: Geórgia Marques Píppi
No Brasil, quem decide ser um profissional ou empreendedor com formação em nível superior revela diversas expectativas. Quer que 
seu currículo seja considerado diferenciado em meio a inúmeros outros 
currículos profissionais. Quer ter maior satisfação em seu trabalho ou 
empreendimento. Quer ganhar mais, seja como assalariado, seja como 
empresário. Quer pautar seu exercício profissional por maior qualificação 
em termos de conhecimento e prática, tornando-se, com isso, um agen-
te de transformação social, política, econômica e cultural. Quer tornar-se 
um formador de opinião. Sem dúvida alguma, é muito provável que estas 
e outras expectativas sejam alcançadas. De modo sistemático, estudos e 
análises revelam que profissionais com formação em nível superior têm 
grandes vantagens e destaque na sociedade, no ambiente empreendedor e 
no mercado de trabalho no Brasil.
Os cursos de graduação da ULBRA são projetados tendo por referência 
tais expectativas e querem acompanhar os estudantes que neles ingressam 
para que elas sejam alcançadas. São quatro as diretrizes fundamentais 
propostas pelos cursos:
1) Intermediar conhecimento atualizado, pertinente à área profissio-
nal e pautado permanentemente por inovação;
2) Mover os estudantes a cultivarem de modo intensivo sua formação 
pessoal (valores, princípios, caráter, hábitos e referências éticas);
3) Avaliar incessantemente seus conteúdos, práticas e formas sob o 
critério da empregabilidade de seus egressos;
4) Valorizar o empreendedorismo, ou seja, estabelecer em todos 
os âmbitos do curso e da universidade as condições para que os 
Apresentação
Apresentação v
acadêmicos estejam imersos em uma cultura empreendedora e de-
senvolvam ou aperfeiçoem sua consciência empreendedora.
A disciplina Sociedade e Contemporaneidade está entre as que de 
forma mais direta interpelam estudantes e professores em relação a essas 
diretrizes fundamentais. Independente do curso de graduação, é essencial 
que todos os envolvidos – estudantes, docentes e equipes administrativas 
de suporte ao ensino – estejam referenciados em dois trilhos que correm 
paralelamente de modo indissociado, orientando o processo de formação 
como um todo: o projeto pedagógico do curso com sua matriz curricular 
e todos os demais elementos que o compõem e a carreira profissional 
a ser construída. Nesta disciplina, abre-se concretamente a possibilidade 
de compreender no contexto social, seja no mais próximo ou naquele mais 
amplo, levando em conta suas múltiplas facetas, as consequências e as 
possibilidades para quem decidiu fazer um curso superior e construir uma 
carreira profissional diferenciada no mercado de trabalho e no ambiente 
empresarial.
Os conteúdos a seguir, cuidadosamente redigidos e sistematizados por 
professores de alta qualificação e experiência, serão, por vezes, considera-
dos desafiadores e complexos quanto a sua compreensão. O foco perma-
nente na carreira que se está desenvolvendo, justamente por isso, será um 
grande auxílio a iluminar os passos de cada estudante em seu progresso e 
descobertas.
Prof. Dr. Ricardo Willy Rieth
Sociólogo, teólogo, professor do PPGEDU e vice-reitor da Universida-
de Luterana do Brasil
 1 A Sociedade Contemporânea: Uma Rede Dinâmica ..............1
 2 Redes Sociais na era Digital ................................................31
 3 Novas Identidades em uma Sociedade em Transformação ...55
 4 Jogo de Espelhos: A Crise das Identidades Sociais na 
Sociedade Contemporânea .................................................75
 5 Educação na era Digital ......................................................99
 6 Fronteiras da Tolerância: Etnicidade, Gênero e Religião .....120
 7 Trabalho e Emprego no Mundo das Novas 
Tecnologias.......................................................................144
 8 O Brasil no Cenário Internacional da Contemporaneidade 180
 9 Organizações e Participação Política e Social no Mundo 
Contemporâneo ...............................................................198
 10 Meio Ambiente e Sustentabilidade ....................................223
Sumário
Honor de Almeida Neto1
Capítulo 1
A Sociedade 
Contemporânea: Uma 
Rede Dinâmica1
1 Doutor em Serviço Social pela PUCRS (2004), Mestre (1999) e Graduado em 
Ciências Sociais pela mesma Universidade (1995). Coordenador do curso CST 
em Gestão Pública na modalidade EAD e do curso de Ciência Política da ULBRA 
Canoas. Integra o grupo de pesquisa Sociedade Informacional, Individualidades, 
Políticas Sociais da ULBRA. Pesquisador com experiência na área das Ciências Hu-
manas e Sociais com ênfase na análise de processos de formação da Criança e do 
Adolescente e do impacto das Novas Tecnologias de Informação e Comunicação 
(NTIC) na qualidade das relações humanas e sociais.
2 Sociedade e Contemporaneidade
Introdução
Vivemos em um período marcado pela inovação tecnológica 
cuja velocidade dos fenômenos e a complexidade, que envol-
ve toda e qualquer temática a ser pesquisada, deixa a todos 
uma sensação de incerteza quanto ao futuro. Para um melhor 
entendimento dos códigos que distinguem a era em que vi-
vemos - Era Digital- e o estágio atual do capitalismo, aponto 
nesse capítulo alguns pressupostos. O objetivo é instrumentali-
zar você, aluno, para que possa apreender alguns princípios e 
categorias teóricas contemporâneas das Ciências Sociais, ou 
seja, para que tenha mais elementos para entender esse nosso 
tempo, tempo em que nas palavras de Baumann “o homem 
ganha em liberdade, mas perde em certezas [...]” (BAUMANN, 
2001). Categorias de análise e conceitos são instrumentais das 
ciências, sobretudo das ciências humanas e sociais, e funcio-
nam como “óculos”, como lentes que ampliam o nosso olhar 
sobre a realidade aproximando-nos com mais rigor e objeti-
vidade desta realidade. Proponho nesse capítulo uma breve 
análise do impacto das Novas Tecnologias de Informação e 
Comunicação (NTIC) na qualidade das relações humanas e 
sociais, uma análise sócio-técnica da sociedade contemporâ-
nea, que tenha como centro ou como nó central as mediações 
sociais, os meios através dos quais nos comunicamos uns com 
os outros.
A história das relações humanas e da construção social 
dos fenômenos não pode ser desvinculada da história das me-
diações sociais, das técnicas, das tecnologias disponíveis em 
cada período histórico, bem como, das rupturas que a pe-
Capítulo 1 A Sociedade Contemporânea: Uma Rede Dinâmica 3
netrabilidade dessas mediações instaura nas sociedades, em 
todas as suas dimensões. Ao se complexificarem, as media-
ções instauram mudanças nas relaçõessociais e geram novas 
possibilidades.
Mas então, quais são essas novas mediações? Quais são 
as suas características? Qual é a penetrabilidade nas socieda-
des e quais os impactos e transformações que instauram?
1.1 Novas mediações tecnológicas: novas 
revoluções
Jornais, revistas, programas de rádio e TV, simpósios acadê-
micos, filmes, documentários, sites, convergência de mídias e 
inúmeros novos aplicativos móveis apontam para o fato de 
que vivemos em uma sociedade da informação, era digital, 
planetária, sociedade midiática, fluída, em rede. O conceito 
de mídia, segundo Pierre Levy, refere-se “ao suporte ou veículo 
da mensagem. O impresso, o rádio, a televisão, o cinema ou 
a Internet, por exemplo, são mídias” (LEVY, p. 61).
Embora o acesso e a troca de informações sempre estives-
sem presentes na sociedade, hoje, as mediações disseminam a 
informação de uma maneira inédita e com características que 
a distinguem das mediações anteriores, instaurando profundas 
mudanças na dinâmica dos fenômenos. Os dispositivos comu-
nicacionais, hoje disponíveis, possibilitam diferentes formas de 
comunicação entre as pessoas, rompem com a comunicação 
passiva, típica de mediações anteriores. Abrem novas possibi-
4 Sociedade e Contemporaneidade
lidades aos sujeitos cujas ações retroagem sobre a sociedade, 
complexificando-a. Lembrem-se que o homem constrói a cul-
tura que constrói o homem e assim sucessivamente.
Quanto às características dessas mídias, Levy aponta para 
três grandes categorias, um-todos, um-um e todos-todos. A 
imprensa, o rádio e a televisão são estruturados de acordo 
com o princípio um-todos: um centro emissor envia suas men-
sagens a um grande número de receptores passivos e disper-
sos. O correio ou telefone organizam relações recíprocas entre 
interlocutores, mas apenas para contato indivíduo a indivíduo 
ou ponto a ponto (LEVY, 1999). O advento das mídias inte-
rativas, como a Internet, trouxe de original, para as relações 
sociais, a maior possibilidade de conexão entre as pessoas, 
em tempo muitíssimo mais veloz e independente da distância, 
do espaço. Ou seja, os computadores além de agregarem for-
mas de comunicação típicas de outras eras, como a escrita, a 
imagem e o som, e acelerarem a velocidade das informações, 
permitem uma interconexão planetária inédita que efetivamen-
te nos transforma em moradores de uma “aldeia global”. 
O ciberespaço permite que comunidades constituam de 
forma progressiva e de maneira cooperativa um contexto 
comum (dispositivo todos-todos); [...] são os novos disposi-
tivos informacionais (mundos virtuais, informações em fluxo) 
e comunicacionais (comunicação todos-todos) que são os 
maiores portadores de mutações culturais (LEVY, 1999, p. 
63). O ciberespaço, este novo espaço de troca, de relação, 
é construído em função das novas tecnologias e de suas ca-
racterísticas. Na comparação com as mediações anteriores, 
sobretudo a imprensa e a televisão, a Internet é potencialmen-
Capítulo 1 A Sociedade Contemporânea: Uma Rede Dinâmica 5
te transformadora, visto que, a televisão e a imprensa podem 
impor uma visão da realidade e proibir a resposta, a crítica e 
o confronto entre posições divergentes. [...] Em contrapartida, 
a diversidade das fontes e a discussão aberta são inerentes 
ao funcionamento de um ciberespaço2 que é incontrolável por 
essência (LEVY, 1999). A Internet é um meio de comunicação 
que permite, pela primeira vez, a comunicação de muitos com 
muitos e em escala global. Assim como a difusão da máquina 
impressora no Ocidente criou o que MacLuhan chamou de a 
Galáxia de Gutenberg, ingressamos agora num novo mundo 
de comunicação: a Galáxia da Internet (CASTELLS, 2003).
O impacto das tecnologias é central para que possamos 
entender o que define-se como Terceira Revolução Industrial 
e/ou Era Digital, e as novas possibilidades associadas a esse 
nosso tempo. Como tipo ideal, podemos identificar três gran-
des rupturas, três grandes revoluções. Motor da acumulação 
e expansão capitalista, a máquina a vapor promoveu a revo-
lução tecnológica do Séc. XVIII. O mesmo ocorreu com a ele-
tricidade no século XIX e com a automação, que representam 
o estágio mais recente da evolução tecnológica, ou a terceira 
onda da Revolução Industrial (ALBORNOZ, 2000). Caracteri-
zada como um processo de mudança de uma economia agrá-
ria e manual para uma economia dominada pela indústria, a 
Primeira Revolução Industrial tem início na Inglaterra em 1760 
e se alastra para o resto do mundo, provocando profundas 
mudanças na sociedade. Caracteriza-se pelo uso de novas 
fontes de energia; invenção de máquinas que permitem au-
2 Ver conceito no glossário ao final do capítulo.
6 Sociedade e Contemporaneidade
mentar a produção com menor gasto de energia humana; di-
visão e especialização do trabalho; desenvolvimento do trans-
porte e da comunicação e aplicação da ciência na indústria. 
A revolução também promove mudanças na estrutura agrária 
e o declínio da terra como fonte de riqueza; a produção em 
grande escala voltada ao mercado internacional; a afirmação 
do poder econômico da burguesia; o crescimento das cidades 
e o surgimento da classe operária, tendo como espaço de tra-
balho a fábrica. Segundo Lester Thurow (EXAME, 2001), se há 
trezentos anos cerca de 90% da população vivia da agricultu-
ra, atividade que era exercida com a mesma tecnologia primi-
tiva - cavalos, bois, pessoas e fertilizantes de origem animal, 
foi a invenção da máquina a vapor que fez com que 8 mil anos 
de agricultura como atividade dominante da humanidade che-
gassem ao fim. E, em 30 anos, os industriais da Inglaterra 
conseguiram reunir uma fortuna maior que a dos nobres, que 
foram os homens mais ricos dos séculos anteriores. 
A Primeira Revolução Industrial caracterizou-se pela con-
centração dos trabalhadores nas fábricas e pelas transforma-
ções na rotina das cidades e no próprio trabalho. O uso de 
máquinas permitiu o ingresso de mulheres e de crianças no 
mundo do trabalho, principais vítimas do trabalho precarizado 
do começo do período de industrialização. Para aumentar o 
desempenho dos operários, a produção foi dividida em várias 
operações. O operário executava uma única etapa, sempre do 
mesmo modo, o que o alienou do processo de trabalho, ou 
seja, fez com que este perdesse a noção do produto final de 
seu trabalho.
Capítulo 1 A Sociedade Contemporânea: Uma Rede Dinâmica 7
Entre a segunda metade do século XIX e a primeira meta-
de do século XX, após a Primeira Guerra Mundial, surgiu um 
novo período denominado “Segunda Revolução Industrial”. 
Uma das principais características deste período foi a crença 
na lucratividade advinda da ciência, ao contrário do empiris-
mo tecnológico, avesso à ciência, típico da Primeira Revolução 
Industrial. A invenção da eletricidade potencializou a capaci-
dade produtiva do homem, libertando-o dos limites da noite 
e do dia. A energia elétrica esteve para a Segunda Revolução 
Industrial como a máquina a vapor esteve para a Primeira. 
Trouxe um enorme aumento da produção industrial e para au-
mentar a produtividade do trabalho, Frederick W. Taylor criou 
o método de administração científica que se tornaria conheci-
do como taylorismo. Taylor apontava como grande problema 
das técnicas administrativas existentes o desconhecimento pela 
gerência, bem como pelos trabalhadores, dos métodos que 
otimizassem o trabalho, tarefa que seria efetivada pela gerên-
cia, através de experimentações sistemáticas de controle de 
tempos e de movimentos. Uma vez descobertos, os métodos 
foram repassados aos trabalhadores que se transformaram em 
executores de tarefas pré-definidas. Vê-se aqui a diminuição 
de espaços voltados à auto-organização3 dos trabalhadores, 
típicos da época e do então estágio de desenvolvimentodas 
forças produtivas4, rígidas, controladoras, hierarquizadas e 
com tarefas compartimentadas e mecânicas. O salário tinha 
uma relação estreita com o tempo de execução da tarefa, da 
3 Ver glossário ao final do capítulo.
4 Ver glossário ao final do capítulo.
8 Sociedade e Contemporaneidade
jornada de trabalho. Veremos posteriormente que essa relação 
entre tempo e salário modifica-se na atualidade.
Primeiro foi a substituição das ferramentas manuais pelas 
máquinas; depois, a eletricidade e o motor de combustão in-
terna, bem como o início das tecnologias de comunicação, 
como o telégrafo e o telefone, sendo ambos períodos mar-
cados por transformações constantes e de grande velocidade 
(CASTELLS, 1999). A gênese da Terceira Revolução Industrial 
encontra-se no período Pós Segunda Guerra Mundial, quando 
as indústrias química e eletrônica desenvolveram-se. Tempo e 
espaço são dimensões centrais para entendermos as mudan-
ças pelas quais a sociedade vem passando, o tempo hoje é 
atemporal (as respostas se dão em tempo real) e o espaço é 
desterritorializado (daí vivemos em uma aldeia global).
A transformação do modelo produtivo começou a se apoiar 
nas tecnologias que já vinham surgindo nas décadas do pós-
-guerra e nos avanços das novas tecnologias da informação. 
Em substituição ao taylorismo (americano), o método de pro-
dução japonês (toyotismo) combina máquinas de alta comple-
xidade com uma nova forma gerencial e administrativa de pro-
dução, menos hierarquizada. As empresas estão achatando 
suas tradicionais pirâmides organizacionais e delegando, cada 
vez mais, a responsabilidade pela tomada de decisão às equi-
pes de trabalho. Hoje, os computadores e dispositivos móveis 
tornam-se a principal ferramenta em quase todos os setores 
da economia, do conhecimento, da informação e, também, 
requisito primordial ao trabalhador.
Capítulo 1 A Sociedade Contemporânea: Uma Rede Dinâmica 9
Na relação entre capital (recursos) e trabalho (mão 
de obra), típica do nosso período histórico, um novo perfil de 
trabalhador é exigido pelo mercado, com maior valorização 
de sua capacidade criativa. As tecnologias, hoje disponíveis, 
demandam novas competências aos trabalhadores, para além 
de meras habilidades, restritas a tarefas repetitivas e rígidas. A 
valorização de competências humanas, em meio ao proces-
so produtivo, leva diversos autores a denominar a sociedade 
atual como sociedade do conhecimento. A maior exigência 
de qualificação da mão de obra aumenta também o fosso 
de desempregados e subempregados. Ou seja, a inclusão 
social, hoje, passa pela inclusão digital.
Quanto aos pressupostos da Sociedade Informacional, 
Castells (1999) distingue modo de desenvolvimento de modo 
de produção. O modo de produção diz respeito à forma como 
é distribuído o produto do trabalho, como são feitos a apro-
priação e o uso do excedente e podendo ser, portanto, capi-
talista (sob o domínio do capital), ou estadista (sob o domínio 
e controle do Estado). Já o modo de desenvolvimento é deter-
minado pelo elemento principal para a produtividade, outrora 
o modo de desenvolvimento agrário (cuja riqueza maior era a 
posse da terra), depois a indústria (fontes de energia, industria-
lismo) e, hoje em dia, o controle e a produção de informação 
(informacionalismo). Tratam-se de “procedimentos mediante 
os quais os trabalhadores atuam sobre a matéria para gerar o 
produto, em última análise, determinando o nível e a qualida-
de do excedente” (CASTELLS, 1999, p. 34).
Historicamente, os modos de desenvolvimento modelam o 
comportamento social e, inclusive, a comunicação simbólica 
10 Sociedade e Contemporaneidade
dos povos. No modo de desenvolvimento informacional, as 
relações técnicas de produção difundem-se por todo o con-
junto de relações e estruturas sociais, ou seja, há uma íntima 
ligação entre cultura e forças produtivas que tende a trazer o 
surgimento de novas formas históricas de interação, controle 
e transformação social. As instituições, as companhias e a so-
ciedade em geral transformam a tecnologia, qualquer tecno-
logia, apropriando-a, modificando-a, experimentando-a [...] 
esta é a lição que a história social da tecnologia ensina [...]. 
A comunicação consciente (linguagem humana) é o que faz 
a especificidade biológica da espécie humana. Como nossa 
prática é baseada na comunicação, e a Internet transforma 
o modo como nos comunicamos, nossas vidas são profun-
damente afetadas por essa nova tecnologia da comunicação 
(CASTELLS, 2003).
Se, ao longo da história da humanidade, a riqueza este-
ve sempre ligada à posse e ao controle de recursos materiais 
como a terra, o ouro, o petróleo (fonte de energia); hoje a 
riqueza não é algo material, palpável, ela é imaterial: o co-
nhecimento. O conhecimento é a fonte primária de riqueza na 
sociedade pós-industrial. A revolução tecnológica e a transfor-
mação social estão ligadas à penetrabilidade da informação 
por toda a estrutura social, daí que o grau de desenvolvimento 
das sociedades, atualmente no modo de desenvolvimento in-
formacional, tem no número de computadores por habitante 
um indicador fundamental (CASTELLS, 1999). Ao transformar 
e produzir tecnologia, em busca de novos conhecimentos e 
novas formas de processamento das informações, nossa so-
ciedade acaba inevitavelmente se organizando em forma de 
rede, sendo esta uma de suas características principais. Hoje, 
Capítulo 1 A Sociedade Contemporânea: Uma Rede Dinâmica 11
com a acentuação da globalização através das NTIC, redi-
mensionam-se as noções de espaço e de tempo, e ao aproxi-
mar distâncias e comunicar os fatos em tempo real, as novas 
mediações permitem que muitas intervenções no contato entre 
as pessoas possam acontecer. O maior número de mediações 
faz com que as pessoas interajam mais, o que aumenta a ve-
locidade dos fenômenos e a sua complexidade.
O que é inerente à sociedade informacional é o fato de 
as tecnologias agora disponíveis ampliarem, em quantidades 
impensáveis e imprevisíveis, as ações humanas e o seus alcan-
ces, quaisquer que sejam essas ações, boas ou ruins. Imagine, 
por exemplo, que pela internet podemos realizar uma obra 
social, mas também organizar uma briga de torcidas organi-
zadas de futebol. Imagine a extensão da ação de um pedófilo, 
por exemplo, que antes tinha apenas os grupos familiares e os 
vizinhos como potenciais alvos de sua ação. Hoje ele tem o 
mundo todo.
Concomitantemente, novos espaços e formas de articula-
ção são potencializados pois a informação, fonte de poder na 
sociedade informacional, é mais socializada fazendo com que 
relações sociais antes desconhecidas, venham à tona modi-
ficando culturas. A maior visibilidade dos fenômenos sociais 
faz com que estes sejam construídos através de relações cada 
vez mais secundárias e menos primárias: “[...] vivemos numa 
época de mundialização, todos os nossos grandes proble-
mas deixaram de ser particulares para se tornarem mundiais 
[...]” (MORIN, 1999, p. 19). Os fenômenos sociais, hoje, são 
construídos de forma cada vez mais complexa, necessitando 
por parte do analista outros “óculos”, daí o uso da categoria 
12 Sociedade e Contemporaneidade
de análise “Rede Dinâmica”. A “Rede Dinâmica” é um concei-
to que condensa a complexidade e a diversidade do mundo 
atual, e os potenciais trazidos pelas novas mediações que ca-
racterizam a Terceira Revolução Industrial. Manuel Castells de-
monstra a lógica que rege a teia que une e move as inúmeras 
mutações verificadas no social, estreitamente associadas ao 
ritmo veloz com que ocorrem, denominadas por ele de socie-
dade informacional. Há uma lógica de funcionamento desse 
nosso mundo aparentemente ilógico, mesmo construído com 
um grau cada vez maior de imprevisibilidade e de incerteza. 
Tal lógicaé a lógica da rede à qual vivemos conectados, in-
terligados, interdependentes. Trata-se de um novo paradigma 
que perpassa a dinâmica social. A figura abaixo apresenta as 
dimensões do conceito de Rede Dinâmica:
O movimento de produção das sociedades sempre foi, ao 
longo da História, auto-eco-organizativo, porém, na Tercei-
Capítulo 1 A Sociedade Contemporânea: Uma Rede Dinâmica 13
ra Revolução Industrial, ou era pós-industrial temos mais es-
paços para realizar os nossos potenciais, pois as mediações, 
hoje, têm mais elementos voltados à autonomia, estão mais 
de acordo com o ritmo de cada um. Por exemplo, não neces-
sitamos mais aguardar o ritmo e a boa vontade do caixa do 
banco para pagarmos uma conta. Não precisamos sequer nos 
deslocar até o banco (cujo atendimento presencial está, aliás, 
em extinção), mas precisamos de conhecimento sobre como 
operar uma transferência bancária pelo computador. Temos 
hoje, potencialmente, melhores condições de interagir com o 
social a partir de uma postura mais autônoma. O pressupos-
to de produção das sociedades, atualmente, constrói-se do 
individual para o coletivo, através dos movimentos que desen-
cadeiam seus agentes, das energias e interesses dos agentes 
individuais para o todo. Trata-se, também, por isso, de uma 
sociedade eminentemente aprendente, no sentido de poder 
constituir-se enquanto um espaço de formação para os seus 
agentes (ALMEIDA NETO, 2007).
Há, hoje em dia, a necessidade de forjar um novo habitus5 
no trabalhador, mais flexível e que acompanhe esse frenético 
ritmo de inovações. Como as tecnologias rompem as barrei-
ras de tempo e de espaço, observa-se uma descentralização 
crescente das tarefas no âmbito do trabalho (do emprego em 
processo de extinção). A remuneração não se dá mais na re-
lação direta entre tempo e salário, ou seja, não se calcula 
mais em função do tempo em que o trabalhador cumpre sua 
jornada na empresa, fábrica, mas sim pelo produto do seu tra-
5 Ver glossário ao final do capítulo.
14 Sociedade e Contemporaneidade
balho. Assim, o controle do tempo passa à mão do trabalha-
dor. Emergem profissionais liberais com vários empregadores 
e que têm na mobilidade de sua mão de obra um diferencial. 
As tecnologias permitem essa fluidez nos locais de trabalho, 
atualmente em grande parte restritos ao computador pessoal, 
ou mesmo a um celular de última geração. Esse novo profis-
sional é ele próprio sua empresa.
Na sociedade informacional tende a envelhecer a organiza-
ção cuja capacidade de reestruturação, de desburocratização 
das ações e agilidade na gestão sejam limitadas. Aqui, repor-
tamo-nos a uma outra dimensão que caracteriza a sociedade 
do conhecimento, a de não se organizar em uma perspectiva 
apenas local, mas sim glocal. A riqueza da sociedade em rede 
está em sua diversidade e não na uniformidade, temos condi-
ções de explorar a diversidade dos agentes que a compõem, 
os diversos e impensáveis capitais que possuem, que formam o 
que Levy denomina de inteligência coletiva, coletivos inteligen-
tes a serem construídos de forma intencional pela Rede. Levy 
refere a engenharia do laço social como “a arte de suscitar 
coletivos inteligentes e valorizar ao máximo a diversidade das 
qualidades humanas” (LEVY, 1998, p. 32). Quanto melhor os 
grupos humanos conseguem se constituir em coletivos inteli-
gentes, em sujeitos cognitivos, abertos, capazes de iniciativa, 
de imaginação e de reação rápidas, melhor asseguram seu su-
cesso no ambiente altamente competitivo que é o nosso (LEVY, 
1998).
Outra dimensão da metáfora “Rede Dinâmica” é a visi-
bilidade, a “aldeia global” é possibilitada pelas NTIC que 
permitem fazer circular as informações internas e externas, o 
Capítulo 1 A Sociedade Contemporânea: Uma Rede Dinâmica 15
que a torna também cada vez mais interdependente e, por 
isso, também, mais complexa. Quando Levy refere o potencial 
democrático da sociedade informacional, ele fala da possibi-
lidade de construção de coletivos inteligentes que valorizem 
a diversidade das inúmeras redes que a dinâmica do social 
constrói e reconstrói, que escapem de controles verticalizados, 
que misturem lazer, cultura, trabalho e produção, pois se inse-
rem na lógica econômica dos mercados. É importante ressal-
tar que, inevitavelmente, toda a sociedade está sendo afetada 
pela nova dinâmica social, fato que reforça a importância de 
lançar um olhar que dê conta destas transformações.
1.2 Movimentos Sociais: o poder em 
xeque na Sociedade em Rede 
Dinâmica
Como forma de materializar esse conceito abstrato na aproxi-
mação com a realidade contemporânea, podemos nos repor-
tar às manifestações que ocorreram no ano de 2013 no Brasil, 
na esteira de outros movimentos sociais concomitantes que fo-
ram observados em outros países. Se as relações humanas e 
sociais são relações de poder e de dominação, as relações de 
poder na sociedade da informação são colocadas em xeque 
frente ao potencial democrático e revolucionário da sociedade 
em rede, inerente ao nosso novo ecossistema informacional, 
digital. Em primeiro lugar, trata-se de uma relação horizonta-
lizada e não verticalizada. A informação que sempre foi fonte 
de poder é hoje socializada e reconstruída a todo instante, sem 
16 Sociedade e Contemporaneidade
um controle central. A Rede Dinâmica é horizontal, democrá-
tica, não linear.
A cultura associada às novas tecnologias é a cultura da 
autonomia, muito presente na relação dos jovens (geração 
internet), em relação às instituições e aos poderes instituídos 
da sociedade. As práticas nas redes sociais materializam essa 
cultura que se choca com a cultura, por exemplo, da sala de 
aula, cujo tipo de organização (escola) é ainda vertical e tra-
dicional, assim como de outras tantas instituições tipicamente 
modernas (rígidas, hierarquizadas, burocráticas, controlado-
ras). Nas palavras de Castells (2012) a nova cultura da auto-
nomia empodera os jovens e traz a eles felicidade. Traz felici-
dade, pois a internet aumenta duas áreas fundamentais para 
isso, a sociabilidade e o empoderamento.
A Rede não tem centro, começo, nem fim, tem várias entra-
das e várias saídas. Sendo assim, os movimentos sociais que 
emergiram em 2013 começaram na Internet, estes são: “espa-
ços de autonomia, muito além do controle de governos e em-
presas que monopolizavam os canais de comunicação como 
alicerces de seu poder” (CASTELLS, 2012, p. 7). Assim, “indi-
víduos formaram redes [...] uniram-se e sua união os ajudou 
a superar o medo, essa emoção paralisante em que poderes 
constituídos se sustentam”. Bem de acordo com a velocidade 
que distingue nosso tempo, “os movimentos espalharam-se 
por contágio num mundo ligado pela internet caracterizado 
pela difusão rápida, viral, de imagens e ideias”.
Como vivemos em uma aldeia global e em rede, podería-
mos perguntar onde começaram os movimentos? Desenvolve-
Capítulo 1 A Sociedade Contemporânea: Uma Rede Dinâmica 17
ram-se em rede: no mundo árabe, Espanha, Grécia, Portugal, 
Itália, Grã-Bretanha, além de Israel e Estados Unidos, Ásia e 
Brasil, Tunísia e Islândia.
Mas o que há de comum entre todos eles? Observa-se que 
“em todos os casos, os movimentos ignoraram partidos polí-
ticos, desconfiaram da mídia, não reconheceram nenhuma li-
derança e rejeitaram toda a organização formal, sustentando-
-se na internet e em assembleias locais” (CASTELLS, 2012, p. 
16). E de onde vêm os movimentos sociais? “São a resposta 
às injustiças de todas as sociedades: exploração econômica; 
pobreza desesperançada” (idem). São ainda frutos da “desi-
gualdade injusta; comunidade política antidemocrática; Esta-
dos repressivos; Judiciário injusto; racismo; xenofobia; nega-
ção cultural; censura; brutalidade policial; incitação à guerra; 
fanatismo religioso;descuido com o nosso planeta azul; des-
respeito à liberdade pessoal; violação da privacidade; geron-
tocracia; intolerância; sexismo; homofobia e outras atrocida-
des que retratam os monstros que somos nós” (2012, p. 16). 
Qualquer relação com o cenário político brasileiro atual, não 
é mera coincidência.
Dessa forma, os movimentos transformaram o medo em 
indignação e a indignação em esperança. Isso porque as re-
lações de poder são constitutivas da sociedade, pois aqueles 
que têm o poder constroem as instituições conforme seus va-
lores e interesses. E quais as formas de exercer o poder? Pela 
coerção (violência exercida pelo Estado) e/ou pela construção 
de significados na mente das pessoas, mediante mecanismos 
de manipulação simbólica. Até porque “torturar corpos é me-
nos eficaz que moldar mentalidades” (idem, p. 11). Mas onde 
18 Sociedade e Contemporaneidade
há poder há também contrapoder, pois, “esse processamento 
mental é condicionado pelo ambiente da comunicação, e a 
mudança do ambiente (como observamos com as NTIC) afeta 
diretamente as normas de construção de significado e, portan-
to, as relações de poder” (2012). Como vimos a comunicação 
que temos hoje é de “todos com todos”, uma comunicação 
em massa, baseada em redes horizontais de comunicação in-
terativa que, geralmente, são difíceis de controlar por parte de 
governos ou empresas, “por isso empresas e governos temem 
a internet” (idem, p. 12).
Se é verdade que o ciberespaço é também um espaço, 
um lugar, é preciso que um movimento que ocorre neste novo 
lugar, imaterial, materialize-se nos espaços públicos locais, 
urbanos. Pois “ao assumir e ocupar o espaço urbano, os ci-
dadãos reivindicam sua própria cidade, uma cidade da qual 
foram expulsos pela especulação imobiliária e pela burocracia 
municipal”. Não é por acaso que observamos de forma cres-
cente a substituição de espaços públicos, voltados ao interesse 
público (nem do Estado nem do mercado), por espaços de 
consumo. Shoppings centers, por exemplo, não são espaços 
públicos, são espaços privados e voltados ao consumo e não 
à convivência social.
Se uma das características principais da rede dinâmica e 
do nosso tempo é a velocidade, cabe ressaltar o quão efême-
ros foram e são esses movimentos, ”constituem assim, comu-
nidades instantâneas de prática transformadora”. Interessante 
observar o poder de viralização de postagens e mobilizações 
nas redes sociais, em torno de determinadas causas, a uma 
velocidade impensada e atingindo um número expressivo de 
Capítulo 1 A Sociedade Contemporânea: Uma Rede Dinâmica 19
pessoas. Essa é uma possibilidade associada a características 
das novas tecnologias e do grau de comunicação e interação 
que engendram. Ou seja, após postada uma mensagem na 
rede, ela assume “vida própria”, não tem mais dono, é por 
natureza imprevisível uma mensagem auto-eco-organizativa.
Lembro de um caso emblemático que ocorreu justamente 
nesse período em sala de aula, quando uma aluna expressou 
sua preocupação e pavor com o fato de que, na esteira das 
mobilizações dos jovens que ocorreram concomitantemen-
te (em rede) em diversas cidades do Brasil e do Rio Grande 
do Sul, ela havia proposto uma mobilização com o objetivo 
de qualificar e garantir o transporte de sua cidade do inte-
rior gaúcho até a universidade e de forma gratuita. A aluna 
relatou que em poucos minutos havia mais de 100 curtidas, 
comentários e compartilhamentos e que, ao longo do dia, na 
medida em que aumentavam as curtidas e interações a partir 
de sua provocação, ela havia arrastado, involuntariamente, 
uma multidão de jovens até a frente da prefeitura da cidade 
para protestar e pressionar. Trata-se de um caso sintomático, 
pois “no Brasil, sem que ninguém esperasse [...] sem líderes e 
sem partidos nem sindicatos [...] um grito de indignação contra 
o aumento do preço dos transportes reuniu multidões em mais 
de 350 cidades” (CASTELLS, 2012, p. 178). Um dos motivos 
das manifestações, mas não o único, foi a questão do preço 
do transporte público, o Passe Livre, pois “ a mobilidade é um 
direito universal e a imobilidade estrutural das metrópoles bra-
sileiras é resultado de um modelo caótico [...] produzido pela 
especulação imobiliária e pela corrupção municipal” (idem, 
anterior). E ainda, na esteira desse processo ”um transporte 
20 Sociedade e Contemporaneidade
a serviço da indústria do automóvel, cujas vendas o governo 
subsidia” (idem, anterior).
O movimento colocou em cheque o neopatrimonialismo 
brasileiro, tanto a classe política como as instituições políti-
cas, modernas, burocráticas, morosas e que usam a demo-
cracia a serviço dos profissionais da política. Exigiu também 
mais democracia não mais reduzida a “um mercado de votos 
em eleições realizadas de tempos em tempos, mercado do-
minado pelo dinheiro e pelo clientelismo e pela manipulação 
midiática” (idem, p. 179). Colocou em xeque a classe política 
pela própria natureza e morfologia do movimento, em rede 
dinâmica. Afinal: em uma manifestação sem líderes, ou com 
inúmeros líderes, com quem negociar? Quem cooptar? Como 
comprar o líder?
As lideranças, assim como o próprio movimento, são efê-
meras, fluidas. Por essa razão, essas manifestações pegaram 
a todos desprevenidos: políticos, mídia, intelectuais (sobretu-
do os modernos) e sociedade como um todo: “milhares de 
pessoas eram ao mesmo tempo indivíduos e coletivos, sempre 
conectadas em rede e enredadas na rua, mão na mão, tuítes a 
tuítes, post a post, imagem a imagem” (idem, 2012). Tratou-se 
de um movimento dos jovens, da cultura da internet “[...] que 
a gerontocracia dominante não entende e suspeita, quando 
seus próprios filhos e netos se comunicam pela internet e ela 
sente que está perdendo o controle” (idem, p. 179). E não há 
mesmo como ter controle, imprevisibilidade é uma das dimen-
sões da rede dinâmica, “pois a autocomunicação de massas 
é a plataforma tecnológica da cultura da autonomia” (idem, 
p. 180).
Capítulo 1 A Sociedade Contemporânea: Uma Rede Dinâmica 21
Inúmeras foram as bandeiras desse movimento em rede, 
bem de acordo com a diversidade e complexidade que carac-
terizam nosso tempo: transporte público gratuito; a corrupção 
entre o Estado e a especulação imobiliária; o meio-ambiente 
e a diversidade (inclusive o direito dos homossexuais); o di-
nheiro gasto na copa; a PEC 37 (proposta de emenda cons-
titucional); a saúde e a segurança pública; o salário do Ney-
mar. O movimento contemplava inúmeras bandeiras, inclusive 
antidemocráticas. Mas havia algo ainda mais em comum: a 
restrição aos políticos e aos partidos, essas estruturas políticas 
tipicamente modernas (hierarquizadas, com caciques, chefes). 
Todos disseram “chega” à política tradicional feita pelos e para 
os políticos, para a elite econômica aliada ao Estado em todas 
as suas formas.
Hoje a capacidade de mobilização das pessoas é espon-
tânea, não depende da permissão de um partido de massa, 
como ocorria nas antigas manifestações. O paradoxo é que 
temos instituições “democráticas” piramidais para atender as 
demandas em rede (horizontais). Outro aspecto central à essa 
análise está ligado à nova visibilidade típica da sociedade 
contemporânea. O movimento não foi em nada pautado pela 
mídia tradicional, aliás, de pouca importância na vida cada 
vez mais individualista, customizada e autônoma dos jovens. 
Assim, rompe-se o monopólio da opinião e da informação que 
circula, pois cada elemento da rede é a mídia, com seu celular 
ligado e registrando em tempo real os fatos, retroagindo sobre 
outros fatos e outras postagens (informações), exercitando as-
sim a inteligência coletiva. Por fim o movimento, assim como 
a rede, é fluído, flexível e efêmero, pode desaparecer, como 
desapareceu realmente aqui no Brasile reaparecer com outra 
22 Sociedade e Contemporaneidade
roupagem, outros propósitos, novas bandeiras, afinal a rede 
é dinâmica.
Finalizando esse capítulo aponto para a absoluta imprevisi-
bilidade que distingue nosso tempo e que desafia os intelectuais, 
e a mudança radical que as novas mediações trouxeram e vêm 
instaurando na vida das pessoas e das sociedades, pois “o que 
é irreversível no Brasil e no mundo é o empoderamento dos 
cidadãos, sua autonomia comunicativa e a consciência dos 
jovens de que tudo que sabemos do futuro é que eles o farão” 
(CASTELLS, 2012, p. 182). Mas fiquemos atentos, pois tudo 
ainda está por se definir, o ciberespaço é também uma arena 
de lutas, de disputas e as forças conservadoras têm uma ca-
pacidade imensa de reorganização e reestruturação. Assim ao 
instrumentalizar os alunos e os jovens, sobretudo, a respeito 
dos códigos que distinguem nosso tempo, neste diálogo ne-
cessário com a ciência, pensamos poder contribuir para esse 
fazer e esse novo devir.
Glossário
Auto-organização - Os seres vivos são auto-organizadores 
que se autoproduzem incessantemente. O princípio de auto-
-eco-organização vale, evidentemente, de maneira específica 
para os humanos, que desenvolvem a sua autonomia na de-
pendência da cultura, e para as sociedades que dependem do 
meio geoecológico (MORIN, 1999, p. 33).
Capítulo 1 A Sociedade Contemporânea: Uma Rede Dinâmica 23
Ciberespaço - É o novo meio de comunicação que surge 
da interconexão mundial dos computadores. O termo espe-
cifica não apenas a infra-estrutura material da comunicação 
digital, mas também o universo oceânico de informações que 
ela abriga, assim como os seres humanos que navegam e ali-
mentam esse universo (LEVY, 1999, p. 17).
Força produtiva - Força produtiva não é senão a capaci-
dade de trabalhar real dos homens vivos: a capacidade de 
produzir por meio do seu trabalho e com a utilização de de-
terminados meios materiais de produção, os meios materiais 
para a satisfação das necessidades sociais da vida, o que quer 
dizer em condições capitalistas, a capacidade de produzir mer-
cadorias. Tudo o que aumenta esse efeito útil da capacidade 
humana de trabalhar (e portanto, em condições capitalistas, 
inevitavelmente também o lucro dos seus exploradores) é uma 
nova força produtiva social. Disponível em: <https://comu-
nism0.wordpress.com/o-conceito-de-forcas-produtivas/>.
Habitus - “é um sistema adquirido de preferências, de prin-
cípios de visão e de divisão (o que comumente chamamos de 
gosto), de estruturas cognitivas duradouras (que são essencial-
mente produto da incorporação de estruturas objetivas e de 
esquemas de ação que orientam a percepção da situação e a 
resposta adequada). O habitus é essa espécie de senso práti-
co do que se deve fazer em dada situação [...]” (BOURDIEU, 
1997, p. 42).
24 Sociedade e Contemporaneidade
Recapitulando
 Â A história da humanidade, das relações humanas e so-
ciais esteve sempre, senão determinada, altamente in-
fluenciada pelas tecnologias disponíveis em cada perío-
do.
 Â As tecnologias mudam as formas de produção de rique-
za e de distribuição destas riquezas.
 Â Novas formas de produção engendram novas formas de 
relações e modificam culturas, transformando socieda-
des.
 Â Modos de produção são as formas como são produzi-
das e, sobretudo, distribuídas as riquezas de uma socie-
dade. Podem ser estatais (sobre o controle do estado, 
estatismo) e capitalistas (sobre o controle das empresas 
privadas).
 Â Modo de desenvolvimento refere-se àquilo que produz 
a riqueza de uma sociedade, podem ser agrário, cuja 
maior fonte de riqueza é a terra; industrial (indústria) e 
informacional (a informação).
 Â A revolução industrial teve três grandes rupturas, três 
grandes transformações, todas associadas às tecnolo-
gias disponíveis nesses períodos históricos.
 Â Vivemos no modo de desenvolvimento informacional 
que rompe com as noções clássicas de tempo e de es-
paço, impondo uma nova velocidade aos fenômenos 
sociais.
Capítulo 1 A Sociedade Contemporânea: Uma Rede Dinâmica 25
 Â Os dispositivos comunicacionais complexificam as rela-
ções humanas e sociais, pois se constroem na relação 
todos-todos, sendo assim, essas relações são construí-
das de forma cada vez mais secundária e menos primá-
ria.
 Â Vivemos na sociedade em rede com maior velocidade e 
visibilidade nos fenômenos sociais.
 Â O indivíduo e a formação demandada a ele são centrais 
para a nova produção do social, por isso “ganhamos 
em liberdade, mas perdemos em certezas”.
 Â Temos a capacidade de disseminar e compartilhar nos-
sos conhecimentos, construindo coletivos inteligentes.
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26 Sociedade e Contemporaneidade
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THUROW, Lester. A Terceira Revolução Industrial. Entrevis-
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TERCEIRA Revolução Industrial e a Reengenharia. Disponível 
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Acesso em: 08 jan. 2004.
Atividades
 1) Assinale a alternativa incorreta:
a) As tecnologias são centrais para a produção das so-
ciedades, pois constituem-se em mediações, em meio 
de comunicação entre os homens.
b) O que há de novo hoje, na sociedade informacional, 
é o papel central que assume a mídia de massa como 
a televisão, o jornal e o rádio.
28 Sociedade e Contemporaneidade
c) A internet revoluciona o mundo e a forma como nos 
comunicamos uns com os outros, pois coloca em rela-
ção direta todos com todos.
d) Vivemos em um mundo onde a velocidade e a visibi-
lidade transformam as relações primárias em relações 
construídas cada vez mais de forma secundária.
e) As novas mídias permitem a construção de uma Inte-
ligência coletiva pela maior possibilidade que cria de 
conexão entre as pessoas.
 2) Quanto à diferençaentre modos de produção e modos de 
desenvolvimento é correto afirmar que:
a) Modos de desenvolvimento referem-se à forma como 
é distribuída a riqueza do trabalho do homem.
b) Informacionalismo é o modo de produção típico do 
capitalismo industrial.
c) No modo de produção capitalista, o controle da distri-
buição do produto do trabalho é do Estado.
d) O modo de desenvolvimento é determinado pelo ele-
mento principal para a produtividade, antes agrário, 
depois industrial e hoje informacional.
e) No modo de desenvolvimento agrário a principal fonte 
de produção de riqueza foi a indústria.
 3) A sociedade, atualmente, organiza-se em rede, em Rede 
Dinâmica nas palavras de Castells. Quais das alternativas 
Capítulo 1 A Sociedade Contemporânea: Uma Rede Dinâmica 29
abaixo não apresentam dimensões do conceito de Rede 
Dinâmica?
a) Visibilidade, fluidez, velocidade.
b) Autonomia, aumento do potencial democrático, flui-
dez.
c) Rigidez, controle, relações verticalizadas.
d) Interdependência, auto-organização, complexidade.
e) Indeterminação, abertura, flexibilidade.
 4) Não são características do novo mundo do trabalho hoje:
a) A demanda por trabalhadores com inúmeras compe-
tências, muito além de habilidades restritas a tarefas 
pré-determinadas.
b) A remuneração em função do produto do trabalho em 
detrimento ao tempo gasto na função.
c) A incerteza e a constante necessidade de reinvenção 
de produtos e de trabalhadores.
d) O fim do emprego mas não o fim do trabalho.
e) O controle cada vez mais rígido por parte das gerên-
cias das empresas, sobretudo empresas de ponta.
 5) Quais das alternativas abaixo não são características da 
cultura associada às novas mídias e à sociedade do co-
nhecimento?
a) Autonomia;
30 Sociedade e Contemporaneidade
b) Empoderamento;
c) Participação;
d) Passividade;
e) Democratização.
Gabriela Ramos de Almeida1
Capítulo 2
Redes Sociais na era 
Digital1
1 Doutora em Comunicação e Informação pela UFRGS (2015), Mestre em Comu-
nicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA (2009), Bacharel em Comunica-
ção Social com Habilitação em Jornalismo pelo Centro Universitário Estácio - FIB 
(2004). Atualmente é professora e pesquisadora no curso de Comunicação Social 
da ULBRA, nas habilitações em Jornalismo e Produção Audiovisual, e coordenado-
ra adjunta do curso de Jornalismo. Como pesquisadora e docente, atua na área 
de Comunicação, com ênfase em Audiovisual, principalmente nos seguintes temas: 
narrativas audiovisuais, cinema documentário, ensaio fílmico, poéticas contempo-
râneas, teorias do cinema, teorias da arte e jornalismo em vídeo e televisão.
32 Sociedade e Contemporaneidade
Introdução
A morte de uma dona de casa por espancamento, em 2014, no 
Guarujá (São Paulo), após ter sido “condenada” pelo tribunal 
popular das redes sociais e linchada brutalmente pelos conter-
râneos nas ruas do bairro onde vivia, se tornou paradigmático 
ao revelar, a um só tempo, o poder de viralização da informa-
ção na Internet e os perigos decorrentes da falta de cuidado 
e de critério ao tomar como verdade e passar adiante aquilo 
que se lê online. Fabiane Maria de Jesus era casada, tinha dois 
filhos ainda pequenos e foi vítima de um boato de uma página 
do Facebook que publicou um suposto retrato falado de uma 
mulher acusada de sequestrar crianças em Bonsucesso, no Rio 
de Janeiro, para praticar rituais de magia negra. Fabiane foi 
confundida com o desenho, atacada na rua e linchada por um 
grupo de pessoas da sua própria cidade, que não questionou 
a veracidade da informação, a data da publicação ou o local 
onde teriam acontecido os crimes atribuídos à mulher (como 
se soube posteriormente, toda a história era falsa: não havia 
sequestro e nem magia negra, e um retrato falado relativo ao 
caso não havia sido divulgado originalmente pela polícia).
Para aumentar os contornos brutais do acontecimento, os 
algozes de Fabiane registraram o linchamento com celulares 
e publicaram vídeos explícitos no YouTube, como se não hou-
vesse problema algum no justiçamento com as próprias mãos; 
na execução sumária de uma pessoa que passa de suspeita 
a culpada, e de culpada a condenada à pena de morte, sem 
sequer saber do que estava sendo acusada, sem ser levada à 
Justiça e sem possibilidade alguma de defesa (física e moral). 
Capítulo 2 Redes Sociais na era Digital 33
Para piorar ainda mais, os vídeos se tornaram virais2, ou seja, 
foram compartilhados por milhares de usuários de redes so-
ciais digitais.
A polícia identificou nos vídeos alguns dos agressores e 
arrolou no processo também o administrador da página do 
Facebook em que o retrato falado foi publicado, que foi res-
ponsabilizado pela divulgação do boato. No entanto, ainda 
que não seja possível culpabilizar criminalmente os usuários 
de redes sociais que compartilharam um boato como se fosse 
verdade, podemos questionar se eles também não são res-
ponsáveis, em alguma medida, pelo trágico desfecho do caso. 
O questionamento se torna ainda mais plausível quando se 
considera que a página em questão não era de um jornal ou 
meio qualquer de imprensa (ou seja, conteúdo produzido por 
jornalistas profissionais) e sim, apenas uma página amadora 
de divulgação de notícias policiais locais.
O exemplo que abre este texto permite iniciar uma discus-
são sobre diversos aspectos que envolvem a chamada sociabi-
lidade online e alguns fenômenos a ela associados, especial-
mente o consumo de notícias e de conteúdo de entretenimento; 
a presença dos indivíduos nas redes sociais digitais; a criação 
de narrativas pessoais sobre suas próprias vidas; os laços que 
2 Mendes Júnior e Costa definem o viral como algo que “se refere à forma 
de comunicação cuja dinâmica replica a da introdução de um vírus num 
sistema, disseminação abrangente, veloz e fora de controle. Na era da 
tecnologia, quando milhares de pessoas estão conectados à webesfera o 
tempo todo, ideias são propagadas rapidamente nas redes sociais.” (MEN-
DES JÚNIOR e COSTA, 2014, s/p).
34 Sociedade e Contemporaneidade
estabelecem com outros usuários e os seus comportamentos 
de produção e difusão de informações e conteúdos diversos.
Redes sociais “analógicas” sempre existiram em alguma 
medida como espaços de sociabilidade envolvendo grupos 
unidos por laços familiares, profissionais, de amizade ou in-
teresses em comum. Mas, ao mesmo tempo, o cenário que se 
desenha após a popularização da Internet banda larga, das 
redes sociais e dos dispositivos móveis de comunicação (como 
smartphones, tablets e notebooks) embaralha alguns conceitos 
e torna confusos alguns limites que dizem respeito aos fenôme-
nos mencionados acima como, por exemplo: as fronteiras en-
tre o público e o privado (muito mais fáceis de serem definidas 
no passado, quando as pessoas se expunham prioritariamente 
em seus círculos pessoais mais próximos); as diferenças entre 
a notícia e o boato; entre um jornalista e um cidadão comum 
que presencia um fato e o relata numa rede social; ou entre 
uma rede social e um veículo de comunicação tradicionalmen-
te instituído. No entanto, antes de avançar, é necessário definir 
o que são exatamente as redes sociais na era digital e estabe-
lecer alguns parâmetros que vão nortear a discussão proposta 
pelo texto.
2.1 As redes sociais como espaços de 
sociabilidade
Talvez as redes sociais não sejam responsáveis pela criação 
de fenômenos sociais ou comunicacionais até então inexisten-
tes, mas certamente modificam seus modos de operação, ao 
Capítulo 2 Redes Sociais na era Digital 35
afetar a sociabilidade humana ampliando exponencialmente 
o seu alcance. Nossa perspectiva, alinhada com Manuel Cas-
tells, evita o dilema do determinismo tecnológico e considera 
que “a tecnologiaé a sociedade, e a sociedade não pode 
ser entendida ou representada sem suas ferramentas tecno-
lógicas” (CASTELLS, 2009, p. 43, grifo do autor). Entretanto, 
algumas questões podem ser levantadas a respeito do modo 
como a tecnologia, em sua inevitável inserção no cotidiano 
dos indivíduos nas sociedades industrializadas, interfere nesta 
sociabilidade.
Muitos exemplos podem ser convocados para exemplificar 
a discussão ou iniciar um debate sobre as possibilidades da 
comunicação pós-redes sociais digitais (qualquer usuário de 
ferramentas e plataformas como Facebook, Instagram, Twitter 
ou YouTube é capaz de citar um caso viralizado que tenha lhe 
chamado muito a atenção). Como explica Raquel Recuero, 
estes fenômenos representam mudanças nos modos de “orga-
nização, identidade, conversação e mobilização social”, pois 
a comunicação passa a permitir uma capacidade de conexão 
diferente: as redes conectam não apenas computadores, mas 
pessoas (RECUERO, 2010, p. 16-17).
A autora aponta a possibilidade de expressão e sociabi-
lização por meio das ferramentas de comunicação mediada 
pelo computador (e posteriormente pelos demais dispositivos 
móveis, podemos acrescentar) como a principal mudança que 
a Internet trouxe à sociedade. O que define uma rede social, 
segundo Recuero, são seus elementos: “atores (pessoas, insti-
tuições ou grupos; os nós da rede) e suas conexões (interações 
ou laços sociais)” (RECUERO, 2010, p. 24).
36 Sociedade e Contemporaneidade
Os sites de redes sociais, a exemplo do Facebook, permi-
tem a criação de espaços públicos mediados, ou seja, “am-
bientes onde as pessoas podem reunir-se publicamente através 
da mediação da tecnologia” (BOYD apud RECUERO, 2009). 
Estes ambientes guardam algumas características que são de-
finidas por Boyd e recuperadas por Recuero:
• Persistência: Refere-se ao fato de aquilo que foi dito 
permanecer no ciberespaço. Ou seja, as informações, 
uma vez publicadas, ficam no ciberespaço;
• Capacidade de Busca (searchability): Refere-se à capa-
cidade que esses espaços têm de permitir a busca e per-
mitir que os atores sociais sejam rastreados, assim como 
outras informações;
• Replicabilidade: Aquilo que é publicado no espaço di-
gital pode ser replicado a qualquer momento, por qual-
quer indivíduo. Isso implica também no fato de que essas 
informações são difíceis de ter sua autoria determinada;
• Audiências Invisíveis: Nos públicos mediados, há a 
presença de audiências nem sempre visíveis através da 
participação [...] (RECUERO, 2009).
Apesar do lugar de protagonismo que as redes sociais ocu-
pam na sociabilidade do nosso tempo, é importante lembrar 
que elas se expandem fora e além do ambiente virtual, no 
modo como os indivíduos se utilizam delas para criar novos 
laços ou manter os já existentes – laços estes que irão afetar 
a sua vida de forma concreta. E não apenas isso: as pessoas 
passam boa parte do tempo em que estão acordadas aces-
Capítulo 2 Redes Sociais na era Digital 37
sando redes sociais para fins de relacionamento pessoal, mas 
também para falar de si, trabalhar, se informar, divulgar, co-
mentar e compartilhar conteúdos, tornando mais complexa a 
sua presença online.
Este comportamento contribui para a criação de comuni-
dades virtuais, definidas por André Lemos como agregações 
“em torno de interesses comuns, independentes de fronteiras 
ou demarcações territoriais fixas”, instituindo um território sim-
bólico e não físico (LEMOS, 1997, s/p). O alargamento dos 
laços sociais em espaços que não são definidos geografica-
mente constitui uma mudança importante do cotidiano pós-
-redes sociais digitais, embora, como aponta Recuero (2010, 
p. 135), tecnologias anteriores como o telefone e a carta já 
proporcionassem a comunicação entre os indivíduos indepen-
dente de sua presença física num mesmo lugar.
O que ocorre, segundo Lemos, é que o ciberespaço (for-
mado pelas redes informáticas, a realidade virtual e o universo 
multimídia) promove uma forma distinta de cultura que se de-
senha a partir da convergência do social com o tecnológico. 
Como aponta o autor, não deixa de ser interessante que a tec-
nologia, vista historicamente como um instrumento de aliena-
ção, desencantamento e individualismo se torne a ferramenta 
promotora de um novo tipo de sociabilidade: “A cibercultura 
que se forma sob os nossos olhos mostra como as novas tec-
nologias são efetivamente ferramentas de compartilhamento 
de emoções, de convivialidade e de retorno comunitário” (LE-
MOS, 1997, s/p).
38 Sociedade e Contemporaneidade
2.2 A construção da presença online
No presente, quando falamos em redes sociais, as referên-
cias imediatas são Facebook, Twitter e Instagram. No entan-
to, alguns anos antes da popularização destas ferramentas 
já existiam outras plataformas de autopublicação e troca de 
mensagens que permitiam a qualquer usuário da rede pro-
duzir e compartilhar seus próprios conteúdos e opiniões em 
blogs e fotologs, bem como existiam sites, fóruns e serviços 
de comunicação instantânea que os usuários utilizavam como 
chats (a exemplo dos instant messengers como o extinto MSN 
e de sites como Bate-Papo UOL ou Terra Chat, para ficar nos 
brasileiros).
O tipo de uso que deles se fazia é semelhante ao que ocor-
re atualmente, embora as redes mais populares hoje operem 
uma espécie de junção entre as funcionalidades das ferramen-
tas de autopublicação e os serviços de troca instantânea de 
mensagens. Este uso que visa à exposição e ao relacionamento 
interpessoal situa-se naquilo que Paula Sibilia (2003) nomeia 
como “imperativo da visibilidade”, um desejo de exibição que 
muitas vezes torna pouco definíveis as fronteiras entre o públi-
co e o privado, a depender de como um sujeito decide existir 
e se expor nas redes sociais digitais. A existência de uma rede 
específica para o compartilhamento de fotografias como o Ins-
tagram, por exemplo, denuncia e ao mesmo tempo alimenta a 
lógica da exposição online baseada numa construção de si a 
ser tornada pública.
Para Sibilia (2003, s/p), mais do que simplesmente respon-
der se os limites entre público e privado se apagaram, é im-
Capítulo 2 Redes Sociais na era Digital 39
portante considerar que a subjetividade contemporânea está 
passando por um processo de alteração bastante significativo, 
do qual as redes sociais são sintoma e fomentadoras, mas 
que também aparece na busca por visibilidade presente em 
publicações como revistas de celebridades, em reality shows, 
documentários em primeira pessoa e biografias e autobiogra-
fias literárias. As chamadas “narrativas do eu” vivem transfor-
mações profundas, “acompanhando as mudanças que estão 
acontecendo em todos os âmbitos – marcados pela acelera-
ção, a virtualização, a globalização, a digitalização” (SIBILIA, 
2003, s/p).
A presença online é transformada, portanto, numa espécie 
de “performance” em que o indivíduo alimenta uma projeção 
de si num perfil de rede social (ou de várias, de forma com-
plementar). Há pessoas que passam inclusive a ganhar a vida 
em função desta exposição, transformando seu cotidiano em 
produto a ser consumido por outros usuários das mesmas re-
des: não são artistas, modelos, atletas, políticos ou figuras de 
referência em qualquer área. São celebridades da Internet, e 
hoje este título tem valor por si só, principalmente comercial.
Talvez a socialite norte-americana Kim Kardashian seja o 
exemplo maior neste segmento que extrapola em muito as re-
des sociais digitais: ganhou fama após a divulgação de um 
vídeo amador de sexo explícito que ela mesma tornou público 
(nem a intimidade do ato sexual resistiu ao imperativo da vi-
sibilidade), expandiu sua presença da Internet à comunicação 
massiva tradicional (especialmente a televisão e as publica-
ções impressas) e, enfim,passou a atuar como modelo e em-
presária, nunca deixando de alimentar os seus perfis nas redes 
40 Sociedade e Contemporaneidade
sociais, principal espaço de divulgação do produto que ela 
vende, que é a sua própria persona.
Diferentemente do que quer o senso comum, a ideia de 
performance atrelada à presença online não está vinculada à 
mentira ou ao fingimento, pois as coisas são mais complexas 
do que nos diz o meme segundo o qual todas as pessoas são 
felizes nas redes sociais. O fato de a presença online pressu-
por performance não significa necessariamente que as pesso-
as mintam em relação ao que expõem, mas sim que escolhem, 
selecionam aquilo que querem tornar público a respeito da 
sua vida, trabalho, convívio familiar, interesses pessoais, lazer 
e dos diversos aspectos da sua rotina.
Mesmo que por vezes haja a impressão de superexposição, 
os indivíduos fazem recortes segundo aquilo que consideram 
suas maiores qualidades, ou ainda de acordo com o modo 
como gostariam de ser vistos socialmente. E a partir deste re-
corte, cada um vai construindo as suas possibilidades de so-
cialização nas redes sociais digitais e constituindo grupos de 
interesse. Como explica Recuero:
Judith Donath (1999) sustenta que a percepção do Outro 
é essencial para a interação humana. Ela mostra que, no 
ciberespaço, pela ausência de informações que geral-
mente permeiam a comunicação face a face, as pessoas 
são julgadas e percebidas por suas palavras. Essas pala-
vras, constituídas como expressões de alguém, legitima-
das pelos grupos sociais, constroem as percepções que 
os indivíduos têm dos atores sociais. É preciso, assim, 
colocar rostos, informações que gerem individualidade e 
Capítulo 2 Redes Sociais na era Digital 41
empatia, na informação geralmente anônima do ciberes-
paço (RECUERO, 2010, p. 27).
As pessoas constroem, assim, através da distinção, uma 
persona pública “adequada” às redes sociais digitais que gosta 
de algumas coisas e detesta outras (sim, falar do que se detes-
ta é tão importante quanto falar do que se ama na elaboração 
desta performance); que frequenta determinados ambientes e 
círculos sociais (embora certamente não apenas aqueles que 
mostra); que manifesta opiniões políticas a partir de um deter-
minado lugar de fala; que tenta tomar cuidado com o que diz 
a depender de quem vai ler. Mas não é esta, afinal, a forma 
como todos nós tentamos nos expor e nos projetar enquanto 
sujeitos nos mais diversos âmbitos da vida fora da Internet?
2.3 O consumo e a difusão da informação 
com o advento das redes sociais 
digitais
A seção anterior do texto foi iniciada com menções aos blogs 
e fotologs, apontados como espaços de sociabilidade online 
que antecederam as redes sociais que conhecemos e utiliza-
mos atualmente. É possível, no entanto, apontar uma diferen-
ça fundamental de alcance entre os conteúdos publicados nos 
blogs dos primórdios da Internet e aquilo que circula nas re-
des sociais do presente: nos blogs, o usuário publicava algo e 
esperava que alguém desempenhasse a ação de ir até a sua 
página para ler o seu conteúdo (divulgado prioritariamente 
por email e por messengers).
42 Sociedade e Contemporaneidade
Enquanto isso, redes sociais como Facebook e Twitter são 
alimentadas de forma endógena pelos próprios usuários, que 
produzem conteúdos ou compartilham conteúdos produzidos 
por terceiros (que podem ou não ser empresas jornalísticas ou 
de entretenimento formalmente constituídas), de acordo com 
uma lógica segundo a qual basta estar online com estas pá-
ginas abertas para “receber” aquilo que seus contatos nestas 
redes irão compartilhar.
A possibilidade de compartilhamento potencializa imensa-
mente o alcance dos conteúdos, e um post publicado numa 
rede social pode se tornar viral em poucas horas (algo que 
dificilmente acontecia com as publicações daqueles primeiros 
blogs). Atualmente, o potencial de alcance dos blogs é maior 
do que no passado em função da profissionalização do campo 
e também da possibilidade de viralização dos seus links nas re-
des sociais mais populares. Os blogs foram vistos, inicialmen-
te, como uma forma amadora de divulgação de textos e ideias 
ou como uma espécie de diário virtual, mas hoje, apesar de 
seguirem abrigando conteúdos amadores e pessoais, também 
formam, em sua vertente mais profissionalizada, um espaço 
importante de produção de conteúdo e publicação fora do es-
paço convencional dos grandes veículos de comunicação (ou 
mesmo hospedados nos portais destes veículos).
No entanto, o fato de, a princípio, qualquer pessoa poder 
se tornar um produtor de conteúdo ao publicar um texto, fo-
tografia, vídeo ou informação numa rede social não significa 
que todo usuário produza notícia ou possa ser considerado 
um jornalista. A distinção entre informação e notícia é funda-
mental, especialmente em um momento em que a falta de cri-
Capítulo 2 Redes Sociais na era Digital 43
tério em relação àquilo que se decide passar adiante – seja no 
Facebook, no Twitter ou mesmo no Whatsapp – pode resultar 
em tragédias como a da dona de casa Fabiane de Jesus ou, de 
forma menos grave, na destruição da reputação de indivíduos 
e empresas em poucos minutos. Por este motivo é importante, 
também, pensarmos no nosso próprio lugar enquanto consu-
midores e divulgadores de todo tipo de conteúdo nas redes 
sociais, especialmente aqueles que incluem juízos de valor.
A Internet inaugurou possibilidades até então inéditas de 
autopublicação, ou seja, qualquer pessoa que disponha de 
um computador ou dispositivo móvel com acesso à rede e 
um perfil em rede social ou plataformas de compartilhamento 
como o YouTube pode divulgar o que quiser. Se, antes, tínha-
mos um cenário em que poucas empresas e grupos de comu-
nicação produziam quase todo o conteúdo e as informações 
que eram consumidas pelas populações em escala mundial (o 
que caracterizava a comunicação de massa), atualmente esta 
produção é muito mais difusa e descentralizada, o que tem 
inclusive provocado uma crise no jornalismo como o conhece-
mos e ocasionado enxugamentos em redações.
No entanto, quando se tem um volume de informações cir-
culando tão grande que inclusive supera as possibilidades de 
que todas elas sejam efetivamente consumidas, o jornalismo 
opera como um balizador fundamental no sentido de orien-
tar os cidadãos em relação à diferença entre notícias e meras 
informações produzidas e divulgadas de forma amadora, que 
não passaram pelos processos envolvidos na criação de con-
teúdo jornalístico. São algumas destas etapas: elaboração de 
uma pauta, checagem e verificação, apuração, realização de 
44 Sociedade e Contemporaneidade
entrevistas com todos os lados envolvidos e pesquisa docu-
mental, bem como a avaliação dos chamados “valores-notí-
cia” (conjunto de qualidades ou atributos de um fato, que são 
levados em consideração no momento em que se analisa se 
um acontecimento qualquer deve ou não ser noticiado, como 
a quantidade de pessoas envolvidas e a sua importância so-
cial, fator tragédia, a proximidade local, atualidade, concor-
rência, perfil editorial da empresa, as chances de interessar a 
um grande número de pessoas, entre outros)3.
É possível que o caso da dona de casa assassinada no 
Guarujá não tivesse um fim trágico e cruel se a história do fal-
so retrato falado tivesse sido devidamente apurada. A notícia 
não seria a suspeita de que uma mulher sequestrava crianças 
para usá-las em rituais de magia negra, e sim que um perigo-
so boato envolvendo um crime falso estava mobilizando uma 
cidade e poderia resultar numa tentativa de vingança por parte 
da população.
Esse equilíbrio entre a liberdade proporcionada pela auto-
publicação na Internet e o respeito à informação de qualidade 
é bastante difícil de seralcançado, mas a função balizadora 
do jornalismo segue forte: normalmente, quando queremos 
verificar se uma informação publicada numa rede social é ver-
dadeira ou não, consultamos a imprensa tradicional, buscan-
do as rádios conceituadas na produção de notícias, acessando 
os portais dos jornais de maior credibilidade ou mesmo aguar-
dando o noticiário televisivo. O problema ocorre quando o 
3 Ver, a este respeito: TRAQUINA, Nelson. Jornalismo: questões, teorias e estórias. 
Lisboa: Vega, 1999.
Capítulo 2 Redes Sociais na era Digital 45
ímpeto de compartilhar se sobrepõe à necessidade de saber 
se um fato qualquer é falso ou verdadeiro e quais são as suas 
nuances, contribuindo para a circulação de boatos que só au-
mentam a sensação de confusão e excesso de informação que 
é partilhada por muitos usuários das redes sociais.
A existência da imprensa e de veículos de comunicação 
com grande credibilidade construída historicamente não quer 
dizer que o jornalismo é infalível. É possível que o Jornalismo, 
como instituição, nunca tenha sido tão criticado quanto no 
presente. Se, antigamente, tínhamos um cenário em que se 
tomava como verdade absoluta o que era noticiado pelo jor-
nalismo, atualmente as redes sociais não apenas ampliam a 
circulação das notícias como também oferecem outras visões, 
contrapontos, espaços de resposta e desmentidos, exigindo do 
usuário um papel bastante ativo na filtragem e na avaliação 
daquilo que ele consome e que vai ajudar a constituir a sua 
experiência no mundo.
A relação do jornalismo com as redes sociais, portanto, é 
de retroalimentação, tanto do ponto de vista de quem produz 
notícias quanto de quem consome4: a imprensa baseia a sua 
produção de notícias em parte na repercussão real ou poten-
cial de determinados assuntos nas redes sociais, de modo que 
as redes pautam efetivamente o jornalismo. O contrário tam-
bém ocorre, e as discussões nas redes sociais são pautadas 
4 Sobre a ausência de uma vocação essencialmente jornalística das redes 
sociais digitais e sua relação de complementariedade com o jornalismo, 
ver o artigo Redes Sociais na Internet, Difusão de Informação e Jornalismo: 
Elementos para discussão, de Raquel Recuero (2009).
46 Sociedade e Contemporaneidade
pelo que o jornalismo noticia, especialmente no âmbito da 
política e dos costumes.
Ao mesmo tempo, como consumidores, quando lemos algo 
numa rede social que pode ser conteúdo amador ou falso, 
buscamos acessar o portal da Folha de São Paulo, da Globo, 
ou localmente da Zero Hora ou da rádio Gaúcha para veri-
ficar se aquilo é verdade; em seguida, voltamos para a rede 
social e somos expostos ao compartilhamento massivo destas 
mesmas notícias, acompanhado de comentários que confir-
mam, problematizam, desmentem ou complementam aquela 
informação que acabamos de consumir, num fluxo bastante 
complexo e circular. Ocorre que esse fluxo será quase sempre 
determinado por aquilo que cada um escolhe consumir nas re-
des sociais, a depender de quem sejam as suas conexões nas 
redes e do tipo de conteúdo publicado pelas páginas e perfis 
que o indivíduo segue.
Em outros tempos, o máximo que o consumidor de notícias 
e conteúdos podia fazer era trocar de canal, de estação, desli-
gar a TV ou o rádio e fechar o jornal/revista (mas nunca alterar 
aquilo que tinha sido produzido e estava sendo exposto). Hoje 
em dia, o usuário pode selecionar de forma mais ativa os con-
teúdos e as notícias com os quais deseja ter contato de acordo 
com diversos critérios, como o interesse pessoal por um con-
junto de assuntos, o seu posicionamento político-ideológico, 
seus valores familiares, religiosos etc. Assim se decide, por 
exemplo, quais páginas e perfis cada um quer acompanhar.
No entanto, quando as pessoas aplicam esses filtros, por 
vezes acabam restringindo também o seu universo informativo 
Capítulo 2 Redes Sociais na era Digital 47
e de referências, fazendo com que a experiência de consu-
mo de notícias e conteúdos se baseie somente no que seus 
contatos nas redes e as páginas que segue compartilham. Ao 
mesmo tempo em que esta abertura representa uma possibili-
dade de autonomia do indivíduo que passa a ser responsável 
pelo seu consumo de bens simbólicos, também pode significar 
uma restrição da sua “dieta” informacional e cultural, levando 
a uma interpretação do mundo pouco tolerante e aberta à 
diferença, já que é possível que a pessoa receba apenas con-
teúdos com os quais concorda de antemão e que dialogam 
com a sua própria visão de mundo.
Isto pode acontecer a partir do momento em que as pessoas 
passam a tomar como universais alguns conjuntos de parâme-
tros e valores que na verdade são individuais ou, no máximo, 
dizem respeito apenas àquele grupo de pessoas que são suas 
conexões nas redes, criando falsos consensos. É importante 
considerar a existência de uma relação pendular e dialética 
entre a experiência individual e a coletividade. Do contrário, 
ao restringir o nosso consumo de informações apenas ao que 
nos interessa pessoalmente ou a pessoas e páginas que di-
vulgam notícias alinhadas à nossa visão de mundo, podemos 
passar a achar que esses valores são universais.
O consenso sobre um assunto qualquer nas minhas redes 
sociais não significa que aquela é a visão geral da opinião 
pública, apenas que é a visão compartilhada pelos meus con-
tatos (que pode condizer com a visão da opinião pública, mas 
não o vai necessariamente). É fundamental, portanto, que os 
indivíduos sejam capazes de dialogar, inclusive, com outros 
que comungam valores distintos, mas que habitam o mesmo 
48 Sociedade e Contemporaneidade
bairro, cidade, estado, país, contribuindo para a formação de 
uma experiência coletiva mais plural.
A ideia de performance e de produção de uma projeção de 
si que aparece no uso que é feito das redes sociais digitais está 
associada não apenas àquilo de muito pessoal que um sujeito 
publica (como relatos de viagens, impressões sobre lugares 
e produtos ou fotografias de momentos íntimos e familiares). 
O que ele comenta, opina e compartilha nas redes também 
constitui uma parte importante desta performance, pois ajuda 
a construir uma persona que comunga de uma determinada 
visão de mundo e utiliza o espaço das redes para manifestá-la.
O modo como nos relacionamos com os indivíduos que 
nos são próximos no contato físico (como parentes, colegas de 
trabalho ou da universidade, amigos etc.) também é afetado 
por essa projeção, pois, ao estabelecer conexões nas redes 
sociais com as pessoas que conhecemos pessoalmente, toma-
mos contato com opiniões e interesses que por vezes nos eram 
desconhecidos, descortinando outras facetas destas pessoas, 
para o bem e para o mal. Podemos dizer que a experiência 
da rede social não se encerra no ambiente virtual, e sim trans-
cende a vida concreta. E porque, também, é fundamental agir 
nas redes sociais com a mesma responsabilidade e critério que 
pautam a vida fora delas.
Capítulo 2 Redes Sociais na era Digital 49
Recapitulando
Este capítulo buscou discutir a participação dos usuários nas 
redes sociais digitais a partir de algumas noções centrais, a sa-
ber: a rede social como espaço de sociabilidade; a construção 
da presença online; a exposição de si e o consumo e difusão 
da informação. Estes aspectos estão todos articulados entre 
si, pois é justamente em função da organização de uma rede 
social como espaço de sociabilidade que o indivíduo ao mes-
mo tempo se informa, difunde informações e performatiza, ou 
seja, se expõe no nível pessoal e usa as próprias informações 
que difunde como forma de construir uma imagem de si.
A ideia de performance online não se dá apenas em função 
do borramento das fronteiras entre público e privado, como na 
exposição pessoal, na publicação defotos ou no ato de tornar 
público aspectos e fatos da vida íntima. Aquilo que compar-
tilhamos em termos de conteúdo, o cuidado que temos (ou 
que nos falta) no momento de difundir informações e o que 
aprovamos ou rechaçamos no momento em que manifesta-
mos nossas opiniões também constituem a nossa presença nas 
redes sociais.
Referências
CANCLINI, Néstor Garcia. A globalização imaginada. São 
Paulo: Iluminuras, 2010.
50 Sociedade e Contemporaneidade
CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede (A era da informa-
ção: economia, sociedade e cultura; v. 1). São Paulo: Paz 
e Terra, 2010.
LEMOS, André. Ciber-socialidade: tecnologia e vida so-
cial na cultura contemporânea. Logos: Comunicação e 
universidade. N. 1, vol. 4, 1997. Disponível em <http://
www.e-publicacoes.uerj.br/ojs/index.php/logos/article/
view/14575/11038>.
MENDES JÚNIOR, Hélio, COSTA, Alfredo. A Comunicação 
Viral nas redes sociais da internet: Estudo de dois casos 
de repercussão. Comunicação, Cultura e Sociedade. n. 3, 
vol. 3, Jan-Ago 2014. Disponível em <http://periodicos.
unemat.br/index.php/ccs/article/view/63/51>.
RECUERO, Raquel. Redes Sociais na Internet, Difusão de 
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In: SOSTER, Demétrio de Azeredo; FIRMINO, Fernando. 
(Org.). Metamorfoses jornalísticas 2: a reconfiguração da 
forma. Santa Cruz do Sul: UNISC, 2009. Disponível em 
<http://www.raquelrecuero.com/artigos/artigoredesjorna-
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RECUERO, Raquel. Redes sociais na Internet. Porto Alegre: 
Sulina, 2010.
SIBILIA, Paula. Os diários íntimos na Internet e a crise da 
interioridade psicológica. Anais do XII Encontro da Com-
pós (Recife), 2003. Disponível em <http://www.compos.
org.br/data/biblioteca_1049.PDF>.
Capítulo 2 Redes Sociais na era Digital 51
TRAQUINA, Nelson. Jornalismo: questões, teorias e estórias. 
Lisboa: Vega, 1999.
Atividades
 1) Assinale a alternativa FALSA:
a) As redes sociais digitais amplificam o alcance da co-
municação humana.
b) A possibilidade de expressão e sociabilização por meio 
das ferramentas de interação mediada por computa-
dor foi a principal mudança que a internet trouxe à 
sociedade.
c) Os elementos das redes sociais são as pessoas e suas 
conexões.
d) Não existiam redes sociais antes do surgimento das 
redes sociais digitais.
e) As redes sociais funcionam para que os indivíduos 
criem novos laços e mantenham os já existentes.
 2) Assinale a alternativa FALSA:
a) Comunidades virtuais são agregações em torno de in-
teresses comuns, independentes de fronteiras ou de-
marcações territoriais fixas.
b) Comunidades virtuais não foram a primeira tecnologia 
que tornou possível a comunicação entre os indivídu-
52 Sociedade e Contemporaneidade
os, independente de sua presença física num mesmo 
lugar.
c) O ciberespaço é formado por redes informáticas, rea-
lidade virtual e universo multimídia.
d) A tecnologia é um instrumento de alienação, desen-
cantamento e individualismo.
e) As tecnologias alteram o compartilhamento de emo-
ções, o convívio e a vida em comunidade.
 3) Assinale a alternativa VERDADEIRA:
a) As redes sociais são a primeira ferramenta de auto-
publicação de conteúdos na internet de que dispõe o 
usuário “comum” (ou seja, aquele que não faz parte 
de um grupo de comunicação instituído).
b) Antes das redes sociais não existiam outros espaços de 
busca por visibilidade individual.
c) O imperativo da visibilidade é o desejo de exibição 
que borra as fronteiras entre o público e o privado.
d) A ideia de performance online está ligada à constru-
ção de uma imagem de si que não condiz com a rea-
lidade, ou seja, que é falsa.
e) A construção de uma persona pública para as redes 
sociais é maléfica para as relações entre os indivíduos.
Capítulo 2 Redes Sociais na era Digital 53
 4) Assinale a alternativa FALSA:
a) Blogs, fotologs, fanpages e canais no Youtube de usuá-
rios “comuns” normalmente não têm o mesmo alcance 
dos conteúdos produzidos pelos meios de comunica-
ção tradicionais.
b) As redes sociais contribuem para a viralização dos 
conteúdos publicados em blogs e assim para a sua 
audiência.
c) Os blogs começaram como uma espécie de diário vir-
tual.
d) Os blogs são uma forma amadora de produção de 
conteúdo.
e) A lógica de compartilhamentos de conteúdo em redes 
como Facebook e Twitter é endógena, pois basta estar 
online para receber o conteúdo, sem precisar buscá-lo 
fora da rede social.
 5) Assinale a alternativa verdadeira:
a) Qualquer pessoa pode publicar conteúdo informativo 
numa rede social, logo, qualquer pessoa é um jorna-
lista em potencial.
b) Não existe diferença entre informação e notícia.
c) O jornalismo não possui mais função social e baliza-
dora num mundo com tamanha quantidade de infor-
mações circulando.
54 Sociedade e Contemporaneidade
d) Os valores-notícia são um conjunto de qualidades 
ou atributos de um fato que fazem com que ele tenha 
mais chances de virar notícia do que outro.
e) A imprensa não se baseia nos conteúdos publicados e 
compartilhados em redes sociais.
Julieta Beatriz Ramos Desaulniers1
Capítulo 3
Novas Identidades em 
uma Sociedade em 
Transformação1
Novas Identidades em uma Sociedade ...
1 Graduada em Licenciatura Plena em Ciências Sociais pela Unisinos (1973). Mes-
tre em Sociologia pela UFRGS (1984) e Doutora em Ciências Humanas – Educação, 
pela UFRGS e Sorbonne/Paris. Integra o Banco de Avaliadores (BASis), vinculado 
ao (INEP/SINAES), atuando como Avaliadora de IES. Tem interesse pelo aprimora-
mento e/ou implantação de práticas e iniciativas voltadas à gestão estratégica de 
competências & formação de individualidades e suas articulações com tecnologias 
de informação e comunicação (TICs), tecnologias relacionais (TRs), inteligência co-
letiva, responsabilidade social e sustentabilidade.
56 Sociedade e Contemporaneidade
Introdução
Sabemos, por experiência própria, que o ritmo de mudanças 
em relação a tudo que nos rodeia parece intensificar-se a cada 
dia. E, para quem ainda não se deu conta disso, na prática, 
basta apenas lembrar um aspecto que é indicador por excelên-
cia da passagem do tempo – data de validade: seja de aconte-
cimentos, artefatos, alimentos ou idade de seres vivos (huma-
nos ou não). Refletir sobre o quanto isso mobiliza as pessoas 
na contemporaneidade parece suficiente para nos flagrarmos 
de que estamos passando por profundas transformações.
Esse fenômeno intensifica-se com a última revolução tec-
nológica, a partir da segunda metade do século XX, quando 
se instauram novas formas de comunicação, que se esten-
dem rapidamente por todo o tecido social, gerando profun-
das mudanças nas relações que fundamentam a produção da 
sociedade. Tais tecnologias sintetizam o conjunto de saberes 
acumulados pelas iniciativas e ações desenvolvidas pela hu-
manidade, constituindo novos suportes à interação social.
Nesse contexto, a todo e qualquer processo, impõe-se 
mais velocidade, independente de área ou campo em que ele 
se situe no espaço social, já que agora os eventos disseminam-
-se ao mesmo tempo e para todos os lugares. Assim, rompe-se 
o paradigma que se sustenta na especialização associado à 
visão linear e fragmentada, passando a predominar a perspec-
tiva da complexidade, que se apoia em princípios vinculados 
à digitalidade. Instaura, igualmente, a “incerteza como forma 
social” (KOKOREFF & RODRIGUES, 2005, p. 6), tanto que as 
“leis da física quântica exprimem possibilidades e não mais 
Capítulo 3 Novas Identidades em uma Sociedade ... 57
certezas” (PRIGOGINE, 1996, p. 13). Ou seja, as ciências an-
tes tidas e classificadas como exatas, na prática, não apontam 
certezas e sim probabilidades.
3.1 Indivíduo, individualidades,individualização2
Afinal, do que se está falando?
Trata-se da era digital, na contemporaneidade, que se 
constitui pelo conjunto de transformações provocadas pela in-
trodução de novas tecnologias de informação e comunicação 
(NTIC). Esse processo impõe uma reflexão em busca de uma 
explicação para a singularidade dos seres que lhe facultam, 
concedem, outorgam a sua crescente autonomia. Desse ponto 
de vista, a questão do indivíduo parece igualmente assumir 
sentido de desafio à análise no campo das ciências huma-
nas e sociais, e, por isso, os debates são ainda mais intensos 
(MOLÉNAT, 2006, p. 38).
Indaga-se, então: tal fenômeno pode ser considerado 
como produto de um processo de evolução histórica ou libe-
rado das tradições? Reflexivo ou pressionado pela urgência? 
Identidade(s), individualidade(s) e/ou indivíduo – como cate-
gorias de análise –, estão para se tornar o tema predileto de 
análises de cientistas sociais?
2 Mais detalhes referentes a esse item, consultar DESAULNIERS, Julieta Beatriz Ra-
mos. Formação e cidadania em tempos líquidos: desafios e possibilidades. Traba-
lho apresentado no ISA, 2/2008.
58 Sociedade e Contemporaneidade
 Â Indivíduo
Pode-se dizer que “vivemos em uma sociedade onde o in-
divíduo ganhou em liberdade, mas perdeu em certezas”. De 
um lado, o indivíduo se emancipa por dispor de meios para re-
alizar e cumprir o que se apresenta como seu destino pessoal 
(no consumo, em comunicação e mobilidade etc.). Mas, de 
outro lado, evolui também num universo em que as regras se 
tornam mais frouxas ou instáveis (KOKOREFF & RODRIGUES, 
2005).
É consenso, entre pensadores, que o conjunto de muta-
ções que colocam em jogo posições e tomadas de posição 
dos agentes sociais “navega para longe [...] para além do al-
cance do controle dos cidadãos, para a extraterritorialidade 
das redes eletrônicas” (BAUMAN, 2001, p. 50). Quando fa-
lamos em extraterritorialidade, estamos nos referindo à ideia 
de que, com a internet, os territórios hoje são redefinidos, não 
são mais limitados ao espaço físico, demarcado, delimitado. 
Em outros termos, parece decisivo o papel que as NTIC assu-
mem nesse processo, como principal mediação nas relações 
desencadeadas pelos indivíduos na construção do social em 
tempos líquidos.
Afinal, “numa sociedade de indivíduos cada um deve ser 
um indivíduo” e, “ser um indivíduo significa ser diferente de 
todos os outros” (BAUMAN, 2007, p. 25-26). E ser um indiví-
duo é aceitar uma responsabilidade inalienável pela direção e 
pelas consequências da interação. E “A livre escolha pode ser 
uma ficção, mas a presunção do direito de escolher livremen-
te transforma essa ficção numa realidade” (BAUMAN, 2007). 
Capítulo 3 Novas Identidades em uma Sociedade ... 59
Ficção, no sentido de que somos induzidos a escolher, dentre 
opções predeterminadas e, não só fogem necessariamente do 
nosso controle, como não nos trazem garantia nenhuma de 
sucesso. É certo que, para ser um indivíduo “numa sociedade 
de indivíduos custa dinheiro, muito dinheiro” (p. 37), mas “ren-
der-se às pressões da globalização, nos dias de hoje, tende a 
ser uma reivindicação em nome da autonomia individual e da 
liberdade de autoafirmação” (BAUMAN, 2007, p. 53).
Por isso, a autonomia do indivíduo é uma exigência, co-
locando-o muitas vezes em uma situação de ansiedade, já 
que cada ser não dispõe dos mesmos recursos para enfrentar 
possíveis mudanças com as quais venha a se deparar. Nessa 
perspectiva, a produção do social tende a se apoiar cada vez 
mais no potencial do indivíduo que, por sua vez, passa a de-
pender de suas possibilidades para interagir e, assim, construir 
sua(s) identidade(s), visando fortalecer a sua individualidade. 
Vale observar que tal processo é permeado por mobilidade, 
desejos voláteis, flexibilidade, capacidade para assumir riscos, 
responsabilidade por si, atuação em rede, identidade constru-
ída de valores “líquidos”, tensão entre escolhas (contraditó-
rias), desejo de errância (BAUMAN, 2000).
Hoje, quando se ouve a palavra indivíduo, dificilmente se 
pensa em indivisibilidade, se é que se chega a pensar nisso. 
“Pelo contrário, indivíduo (tal como o átomo da física química) 
se refere a uma estrutura complexa e heterogênea com ele-
mentos notoriamente separáveis mantidos juntos numa unida-
de precária” (BAUMAN, 2007). E, ainda, “bastante frágil por 
uma combinação de gravitação e repulsão de forças centrípe-
60 Sociedade e Contemporaneidade
tas e centrífugas num equilíbrio dinâmico, mutável e continua-
mente vulnerável” (BAUMAN, 2007).
Enfim, nesses tempos, conforme Bauman, “tudo corre ago-
ra por conta do indivíduo”. Cabe a ele descobrir o que é capaz 
de fazer, [...] “esticar essa capacidade ao máximo e escolher 
os fins a que essa capacidade poderia melhor servir” (2001). 
Pois, “numa sociedade de consumo, compartilhar a depen-
dência de consumidor – a dependência universal das compras 
– é a condição sine qua non de toda liberdade individual; aci-
ma de tudo da liberdade de ser diferente, de ter identidade” 
(BAUMAN, 2001, p. 98).
 Â Individualidade
Autores apontam para o seguinte paradoxo: ao contrário 
da sociedade industrial, que produzia produtos e indivíduos, 
“a sociedade de consumo revela-se incapaz de produzir indi-
víduos que sirvam a ela e de servir-se dos indivíduos que ela 
produz”. Por isso, “não há, simplesmente, sociedade o bastan-
te para que os indivíduos possam definir-se pela maneira pela 
qual servem a ela”. Então, “no lugar de servir, trata-se agora 
de produzi-la” (GORZ, 2004, p. 77). Por isso, “devemos nos 
emancipar, ‘libertar-nos da sociedade’, mesmo se [...] poucas 
pessoas desejam ser libertadas” (BAUMAN, 2001). Ou seja, 
não há opção.
Nessa perspectiva, “a individualidade é uma fatalidade, 
não uma escolha” (2001, p. 43) e a “liberdade louvada pelos 
libertários não é, ao contrário do que eles dizem, uma garantia 
de felicidade. Vai trazer mais tristeza que alegria” (BAUMAN, 
2001). Ou seja, em outras palavras, enquanto indivíduo eu 
Capítulo 3 Novas Identidades em uma Sociedade ... 61
sou aquilo que eu posso ser, e não há modelo pronto de como 
eu deva ser. Por exemplo, as organizações procuram empre-
endedores, procuram pessoas que empreendam, mas não há 
um modelo de como ser e não será você, mesmo que seja um 
empreendedor de sucesso, um modelo aos outros. O ritmo 
de mudanças e a complexidade dos fatores que incidem em 
uma determinada realidade é muito grande e crescente. Em 
outras palavras, individualidade [...] “significa em primeiro lu-
gar a autonomia da pessoa, a qual, por sua vez, é percebida 
simultaneamente como direito e dever” (BAUMAN, 2007). Ou 
seja, “antes de qualquer outra coisa, a afirmação ‘eu sou um 
indivíduo’ significa que sou responsável por meus méritos e 
meus fracassos e que é minha tarefa cultivar os méritos e re-
parar os fracassos” (BAUMAN, 2007). É preciso apropriar-se 
de si mesmo.
Em mais detalhes, significa dizer que a “responsabilidade 
em resolver os dilemas gerados por circunstâncias voláteis e 
constantemente instáveis é jogada sobre os ombros dos indi-
víduos”, assim como “a virtude que se proclama servir melhor 
aos interesses do indivíduo não é a conformidade às regras, 
mas a flexibilidade: a prontidão em mudar repentinamente de 
táticas e de estilos, abandonar compromissos e lealdades sem 
arrependimento – e buscar oportunidades mais de acordo com 
sua disponibilidade atual do que com as próprias preferên-
cias” (BAUMAN, 2007b, p. 10).
Tudo isso porque “a força da sociedade e o seu poder so-
bre os indivíduos agora se baseiam no fato de ela ser ‘não 
localizável’ em sua atitude evasiva, versátil e volátil, assim 
como na imprevisibilidade desorientadora de seus movimen-
62 Sociedade e Contemporaneidade
tos” (BAUMAN, 2005, p. 58-59).Exemplo disso é o efeito que 
as eleições norte-americanas podem desencadear na vida do 
cidadão brasileiro, na relação com o Estado brasileiro e sua 
enorme carga tributária, com os serviços básicos, com a bolsa 
de valores e com a própria natureza. Estamos interligados e 
inter-relacionados com tudo e com todos, interdependentes.
 Â Individualização
Tal processo consiste em “transformar a identidade hu-
mana de um ‘dado’ em uma ‘tarefa’” (2001, p. 40), já que 
“numa sociedade líquido-moderna, as realizações individuais 
não podem solidificar-se em posses permanentes porque, em 
um piscar de olhos, os ativos se transformam em passivos, e as 
capacidades, em incapacidades” (BAUMAN, 2007, p. 7). Por 
isso que vida em tempos líquidos “significa constante autoexa-
me, autocrítica e autocensura”, que “alimenta a insatisfação 
do eu consigo mesmo” (BAUMAN, 2007, p. 19).
Bauman observa que a “sociedade de consumo líquido-
-moderna despreza os ideais de longo prazo e da totalidade” 
(2001, p. 63) e, do mesmo modo, se engana quem “espera 
encontrar um lugar, um futuro balizado, uma segurança, uma 
utilidade na sociedade – a sociedade do trabalho –, pois ela 
está morta”. Por isso, “é preciso que as mentalidades mudem 
para que a economia e a sociedade possam mudar” (GORZ, 
2004, p. 69-71). A ideia de totalidade reporta-nos a um es-
tágio do desenvolvimento capitalista que hoje está superado. 
Reporta-nos à sociedade industrial, que não existe mais, na 
qual a sociedade estruturava o indivíduo.
Capítulo 3 Novas Identidades em uma Sociedade ... 63
3.2 Identidades: uma categoria, várias 
abordagens
Identidades assumem novas configurações, visto que passam 
a ganhar “livre curso, e agora cabe a cada indivíduo, homem 
ou mulher, capturá-las em pleno voo, usando seus próprios 
recursos e ferramentas. O anseio por identidade vem do dese-
jo de segurança, ele próprio um sentimento ambíguo” (BAU-
MAN, 2005, p. 35).
Concebe-se identidade como algo que nos é revelado so-
mente através de um processo de invenção; “como alvo de um 
esforço, ‘um objetivo’; como uma coisa que ainda se precisa 
construir a partir do zero ou escolher entre alternativas e então 
lutar por ela e protegê-la lutando ainda mais” (2005, p. 21-
22).
Provavelmente, “fiquemos divididos entre o desejo de uma 
identidade de nosso gosto e a escolha e o temor de que, uma 
vez assumida essa identidade, possamos descobrir, como se 
não existisse uma ‘ponte se tivéssemos que bater em retira-
da’” (2005, p. 105), pois identidade é uma ideia inescapavel-
mente ambígua, uma faca de dois gumes (BAUMAN, 2005, p. 
82). Além disso, “mudar de identidade pode ser uma questão 
privada, mas sempre inclui a ruptura de certos vínculos e o 
cancelamento de certas obrigações”. E, ainda, “os que estão 
do lado que sofrem nunca são consultados, e menos ainda 
têm chance de exercitar sua liberdade de escolha” (BAUMAN, 
2001). É essencial, nesse sentido, tomar conta de sua vida e 
suas escolhas.
64 Sociedade e Contemporaneidade
Igualmente, de acordo com a abordagem de Stuart Hall, 
o sujeito pós-moderno “não tem uma identidade fixa, essen-
cial ou permanente”, já que está em processo constante de 
formação. Afirma que, embora a noção de identidade esteja 
relacionada a “pessoas que se parecem”, “sentem a mesma 
coisa” ou “chamam a si mesmas pelo nome”, estes elementos 
são referenciais insuficientes, pois não satisfazem aos pressu-
postos necessários à compreensão adequada do fenômeno da 
identidade (HALL, 1998, p. 45).
Como um processo, assim como uma narrativa ou como 
um discurso, “a identidade é sempre vista da perspectiva do 
outro” (HALL, 1998, p. 45). Essa é uma formulação funda-
mental, porque nos leva a considerar que identidades só po-
dem ser vislumbradas no que têm a dizer – sobre si e sobre o 
seu outro, na relação com o outro.
Hall argumenta que a formação de nossas identidades se 
dá culturalmente, ou seja, passa por uma escolha pessoal, 
mas fundamentalmente passa pela mediação de aspectos ob-
jetivos, presentes em normas, instituições, e atividades, enfim, 
nas ações e estruturas sociais contextualizadas em um determi-
nado tempo e lugar.
Um tipo diferente de mudança estrutural está transforman-
do as sociedades modernas no final do século XX. Isso frag-
menta as paisagens culturais de classe, gênero, sexualidade, 
etnia, raça e nacionalidade, que, no passado, forneciam a 
todos sólidas localizações como indivíduos sociais. Essas 
transformações estão também mudando nossas identidades 
Capítulo 3 Novas Identidades em uma Sociedade ... 65
pessoais, abalando a ideia que temos de nós próprios como 
sujeitos integrados à sociedade.
Para Hall, um processo irreversível de fluidez das culturas 
vem desenvolvendo o estreitamento das nações, pondo em 
evidência o vínculo do homem com as sociedades, testando-
-os como seres que se localizam em meio a um campo social 
e cultural indefinido. Nesse sentido, alerta sobre o papel da 
tecnologia para o cerco perante as identidades tácitas, nos 
mostrando como o impacto da globalização está mudando as 
identidades culturais nacionais, raça, gênero, etnia, na medi-
da em que os avanços da globalização vêm fragmentando as 
regulações culturais das identidades a ponto do surgimento de 
uma “crise de identidade”.
Tal perda de um “sentido de si” estável é chamada, algu-
mas vezes, de deslocamento ou descentração do sujeito. Esse 
duplo deslocamento – descentração dos indivíduos tanto de 
seu lugar no mundo social e cultural quanto de si mesmos – 
constitui uma “crise de identidade” para o indivíduo. Como 
observa o crítico cultural Kobena Mercer, “a identidade so-
mente se torna uma questão quando está em crise, quando 
algo que se supõe como fixo, coerente e estável é deslocado 
pela experiência da dúvida e da incerteza” (MERCER, 1990 
apud HALL, 1997, p. 07-22). Esses processos de mudança, 
tomados em conjunto, representam um processo de transfor-
mação tão fundamental e abrangente que somos compelidos 
a perguntar se não é a própria modernidade que está sendo 
transformada (HALL, 1997, p. 07-22).
66 Sociedade e Contemporaneidade
Vale destacar a influência da última fase da globalização 
sobre as identidades no que tange aos sistemas de represen-
tação, pois, ao acelerar processos de tal forma que se sente 
que o mundo é menor e as distâncias mais curtas, faz com que 
os eventos em um determinado lugar tenham impacto imedia-
to sobre pessoas e lugares situados a uma grande distância. 
Isso produziu a “compressão espaço-tempo”, pois “o espaço 
se encolhe para se tornar urna aldeia ‘global’ de telecomuni-
cações e uma ‘espaçonave planetária’ de interdependências 
econômicas e ecológicas” (HARVEY, 1989).
Mais recentemente, Canclini também considera a mo-
bilidade identitária tendo muito a ver com as possibilidades 
de conexão e desconexão das comunicações, ou das redes 
de informação, entretenimento e participação social ou uma 
combinação dessas modalidades (CANCLINI, 2005). Antony 
Giddens igualmente observa que o processo migratório de 
culturas passou a testar a estabilidade da identidade, possibili-
tada principalmente a partir da diminuição da relação tempo/
espaço (GIDDENS, 2002). Assim, verificam-se formas de clas-
sificação de como as identidades se constroem nesse processo.
Pesquisas têm relacionado identidade e diferença, enfati-
zando que a migração produz identidades plurais, mas tam-
bém identidades contestadas, em um processo que é caracte-
rizado por grandes desigualdades. A tendência das culturas se 
aproximarem diminuindo a disparidade entre tempo e espaço, 
se inicia a partir da flexibilização das relações sociais, bem 
como de uma “modernização das instituições”, abordada por 
Giddens (2002).
Capítulo 3 Novas Identidades em uma Sociedade ... 67
Dentreas perspectivas até aqui expostas, é oportuno con-
siderar as ideias de Canevacci, em especial, quando se refe-
re a “um novo sentido de identidade: uma identidade móvel, 
fluída, que incorporou os muitos fragmentos que – no espaço 
temporário de suas relações possíveis com o seu eu ou com 
o outro – se ‘veste’ ou se ‘traveste’ de acordo com as circuns-
tâncias”. Por isso, “a chamada personalidade narcisista emer-
gente, que, em nossa sociedade, expressaria uma estrutura de 
caráter que perdeu interesse pelo futuro [...]” (CANEVACCI, 
2005, p. 34).
Nesse contexto, alonga-se a fase mais móvel e criativa 
do sentir-se jovem – tornar-se um jovem interminável. Assim, 
“os jovens são atemporais no sentido de que ninguém pode 
sentir-se como excluído desse horizonte geracional” (CANE-
VACCI, 2005, p. 35-6).
Ao finalizar, mencionam-se argumentos que, em vez de 
identidades, herdadas ou adquiridas, defendem a utilização 
da categoria de análise identificação por estar mais próxima 
da realidade do mundo globalizado. É concebida como uma 
atividade que nunca termina, sempre incompleta, na qual to-
dos nós, por necessidade ou escolha, estamos engajados. Há 
pouca chance de que as tensões, os confrontos e os conflitos 
que essa atividade gera irão subsistir. A busca frenética por 
identidade não parece ser um resíduo dos tempos pré-globali-
zação que ainda não foram totalmente extirpados, que tendem 
a se tornar extintos conforme a globalização avança. Pelo con-
trário, essa guerra de identificação está em plena marcha na 
contemporaneidade.
68 Sociedade e Contemporaneidade
Recapitulando
O capítulo aponta para as implicações que as novas tecno-
logias de informação e comunicação impõem à sociedade, 
trazendo novo ritmo e nova velocidade aos fenômenos sociais, 
complexificando-os. Especificamente trata das mudanças ins-
tauradas na relação entre o indivíduo e a sociedade. Pois, em 
função de suas características, as novas técnicas impõem ao 
indivíduo a necessidade de tornar-se autônomo, livre, mes-
mo contra sua vontade. Por isso, nas palavras de Baumann, 
“ganhamos em liberdade, mas perdemos em certezas”. Pois, 
ao contrário do que ocorria nas sociedades industriais, cujos 
processos de formação de trabalhadores para o mundo do 
trabalho, por exemplo, eram claros e definidos, frente ao rit-
mo frenético de mudanças que caracteriza nosso tempo, esta 
nova sociedade não consegue preparar o tipo de trabalhador 
(ou produtor do social) de que necessita para seguir girando 
a roda do consumo. Trata-se deste novo estágio do capitalis-
mo, da transição da sociedade industrial para a sociedade do 
consumo e das implicações para a construção de identidades. 
Trata-se hoje de uma sociedade de indivíduos, e ser indivíduo 
significa ser diferente dos outros, pois as tecnologias permitem 
e obrigam a todos que sejam diferentes. 
A produção do social hoje depende cada vez mais da capa-
cidade individual de cada um em ser capaz de sintonizar-se 
com esse novo tempo. E isso gera cada vez mais exclusão 
e ansiedade, pois não temos todos as mesmas capacidades 
de lidar, por exemplo, com o movimento e a necessidade de 
reinvenção e de readaptação que as novas técnicas e, por 
Capítulo 3 Novas Identidades em uma Sociedade ... 69
conseguinte, a nova sociedade demandam. E não temos saí-
da, estamos todos entregues a nós mesmos e dependentes da 
forma como fomos formados. Nesse processo de construção e 
reconstrução em ritmo frenético, formamos nossa identidade, 
hoje em crise permanente, pois nessa sociedade não sobrevi-
vem ideais de longo prazo, a tradição e os valores permanen-
tes estão em xeque, tudo é fluido, volátil, em movimento. Por 
isso, as novas configurações culturais de classe, gênero, sexu-
alidade, etnia, raça e nacionalidade, que, nessa sociedade é 
líquida, não é sólida. Ser um indivíduo, atualmente, significa 
cada um ser responsável por seus méritos e seus fracassos e é 
sua, e somente sua a tarefa de cultivar os méritos e reparar os 
fracassos. Este novo estágio do capitalismo vem trazendo mais 
exclusão, e mais tristeza.
Referências
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neiro: Zahar, 2008.
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______. Globalização – as consequências humanas. Rio de 
Janeiro: Zahar, 2001.
70 Sociedade e Contemporaneidade
______. Em busca da política. Rio de Janeiro: Zahar, 2000.
CANEVACCI, M. Culturas extremas, mutações juvenis nos 
corpos das metrópoles. Rio de Janeiro: DP&A, 2005.
CANCLINI, Nestor García. Diferentes, desiguais e desco-
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CORCUFF, Philippe. As novas sociologias – construções da 
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DESAULNIERS, Julieta B. R. Formação e cidadania em tem-
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GIDDENS, Anthony. A constituição da sociedade. São Pau-
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GORZ, André. Misérias do presente, riquezas do possível. 
São Paulo: AnnaBlume, 2004.
HALL, Stuart. Identidades culturais na pós-modernidade. 
Rio de Janeiro: DP&A, 1997. Disponível em: <http://www.
angelfire.com/sk/holgonsi/hall1.html>.
HARVEY, David. Condição pós-moderna: uma pesquisa so-
bre as origens da mudança cultural. São Paulo: Loyola, 
1989.
KOKOREFF, Michel; RODRIGUES, Jacques. Une société de 
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MERCER, Kobena. Marginalization and contemporary cul-
tures. In: HALL, Stuart. Identidades culturais na pós-moder-
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Capítulo 3 Novas Identidades em uma Sociedade ... 71
MOLÉNAT, Xavier. Quel individu pour la sociologie? In: 
DORTIER, Jean-François (coord.). La pensée éclatée – la 
chronique des idées d’aujour’hui. In: Revue S. Humaines, 
n.167, jan. 2006.
PRIGOGINE, Ilya. O fim das certezas – tempo, caos e leis da 
natureza. São Paulo: Inesp, 1996.
Atividades
 1) Assinale a alternativa incorreta. Dentre os aspectos que 
distinguem a sociedade de consumidores podemos desta-
car:
a) as novas tecnologias de informação e comunicação 
que ao romperem as barreiras de tempo e espaço im-
põem novo ritmo e velocidade aos fenômenos sociais.
b) a demanda por autonomia imposta aos agentes so-
ciais pela característica das novas mediações, novas 
mídias.
c) a centralidade da figura do indivíduo em detrimento 
da sociedade, pois o indivíduo produz a sociedade 
como nunca antes na história.
d) o papel central da mídia de massa, sobretudo a tele-
visão que forma e molda as mentalidades de forma 
híbrida e volátil.
72 Sociedade e Contemporaneidade
e) identidade(s), individualidade(s) e/ou indivíduo – como 
categorias centrais de análise para entender a socie-
dade contemporânea.
 2) Assinale a alternativa incorreta. Nas palavras de Bauman 
na sociedade líquida moderna “ganhamos em liberdade, 
mas perdemos em certezas”, ou seja:
a) as tecnologias permitem uma maior autonomia aos 
agentes sociais.
b) a velocidade e complexidade do nosso tempo trazem 
cada vez mais imprevisibilidade e incapacidade de 
“prever” as novas demandas sociais em todas as áre-
as.
c) os valores tradicionais, hoje, estão em xeque perma-
nentemente.
d) estamos entregues a nossa capacidade de nos adap-
tarmos às mudanças frenéticas do nosso tempo e não 
teremos garantias nenhuma de sucesso.
e) a liberdade e a felicidade em, finalmente, nos tornar-
mos autônomos e livres da opressão da sociedade so-
bre os indivíduos.
 3) Assinale a alternativa correta. São exemplos da crise das 
identidades típicas da sociedade líquido-moderna:
a)as novas configurações familiares, não mais restritas à 
figura da mãe, do pai e dos filhos.
b) o fim do emprego típico da sociedade industrial.
Capítulo 3 Novas Identidades em uma Sociedade ... 73
c) a necessidade constante de readaptação e reconstru-
ção individual.
d) os valores tradicionais (permanentes) hoje colocados 
em xeque.
e) o fato de que a sociedade, atualmente, não produz 
os indivíduos de que necessita, diferente da sociedade 
industrial.
 4) Quanto ao conceito de indivíduo, ser indivíduo significa 
essencialmente:
a) ser diferente do outro.
b) ter características comuns: o engenheiro, o advogado, 
o médico, o pai de família.
c) pertencer a uma classe social determinada.
d) compartilhar valores religiosos e morais.
e) nenhuma das alternativas anteriores define o conceito 
de indivíduo.
 5) Assinale a alternativa incorreta. Quanto à ideia de indiví-
duo autônomo, na sociedade líquida-moderna isso signifi-
ca:
a) ser responsável pelos seus sucessos e pelos seus fra-
cassos.
b) não ter opção, pois as tecnologias e a própria socie-
dade do consumo impõem essa necessidade.
74 Sociedade e Contemporaneidade
c) conhecer-se, apoderar-se de si mesmo, de suas capa-
cidades e incapacidades.
d) ter flexibilidade e capacidade para assumir riscos.
e) Nenhuma das alternativas anteriores está correta.
Paulo G. M. de Moura1
Capítulo 4
Jogo de Espelhos: A 
Crise das Identidades 
Sociais na Sociedade 
Contemporânea1
Jogo de Espelhos: A Crise das Identidades Sociais ...
1 Bacharel em Ciências Sociais (1992), mestre em Ciência Política pela UFRGS 
(1998); doutor em Comunicação Social pela PUCRS (2004) e especialista em Edu-
cação à Distância pelo Senac/RS (2009). Professor Adjunto com Doutorado da 
ULBRA. Atua na área de Ciência Política com ênfase em Estudos Eleitorais e Partidos 
Políticos e na Área de Comunicação Política e Marketing Político. 
76 Sociedade e Contemporaneidade
Introdução
A sociedade contemporânea apresenta um alto grau de com-
plexidade, e a compreensão das transformações pela qual ela 
passa requer um olhar igualmente complexo e multidimensio-
nal. Isto é, precisamos analisar os acontecimentos e fenôme-
nos sociais por diversos ângulos e recorrendo a diversos instru-
mentos teóricos para podermos compreender o que se passa 
em todas as suas dimensões.
Uma dimensão muito importante das transformações em 
curso na sociedade atual diz respeito à chamada “crise das 
identidades culturais”. O conceito de identidade diz respeito à 
forma como nos percebemos ou somos percebidos em socie-
dade. Formamos nossas identidades por reflexo em relação às 
pessoas e meios sociais nos quais vivemos. O ambiente social 
contemporâneo é constantemente bombardeado pelos estímu-
los da mídia. Consequentemente, nossas identidades sociais 
experimentam profundas transformações. Entender esse pro-
cesso é fundamental para compreender a sociedade em que 
vivemos.
Capítulo 4 Jogo de Espelhos: A Crise das Identidades Sociais ... 77
4.1 De que cultura estamos falando?
Ao consultarmos o verbete “identidade” no Dicionário Aurélio 
Século XXI2, dentre as possíveis definições encontram-se as se-
guintes: “Conjunto de caracteres próprios e exclusivos de uma 
pessoa: nome, idade, estado, profissão, sexo, defeitos físicos, 
impressões digitais etc.; ou, ainda, aspecto coletivo de um 
conjunto de características pelas quais algo é definitivamente 
reconhecível, ou conhecido”.
Já o verbete “cultura”, na mesma fonte, nos revela uma 
quantidade bem maior de possíveis definições, dentre as quais 
se destacam: “O conjunto de características humanas que 
não são inatas e que se criam e se preservam ou aprimoram 
através da comunicação e da cooperação entre indivíduos em 
sociedade [Nas ciências humanas, opõe-se por vezes à ideia 
de natureza, ou de constituição biológica, e está associada a 
uma capacidade de simbolização considerada própria da vida 
coletiva e que é a base das interações sociais.]; a parte ou o 
aspecto da vida coletiva, relacionados à produção e transmis-
são de conhecimentos, à criação intelectual e artística etc.; o 
processo ou estado de desenvolvimento social de um grupo, 
um povo, uma nação, que resulta do aprimoramento de seus 
valores, instituições, criações etc.; civilização, progresso; ati-
vidade e desenvolvimento intelectuais de um indivíduo; saber, 
ilustração, instrução; refinamento de hábitos, modos ou gostos; 
apuro, esmero, elegância; Antropologia: o conjunto complexo 
2 FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Dicionário Aurélio eletrônico 
século XXI versão 3.0. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999. 1CD ROM. 
Produzido por Lexikon Informática.
78 Sociedade e Contemporaneidade
dos códigos e padrões que regulam a ação humana individual 
e coletiva, tal como se desenvolvem em uma sociedade ou 
grupo específico, e que se manifestam em praticamente todos 
os aspectos da vida: modos de sobrevivência, normas de com-
portamento, crenças, instituições, valores espirituais, criações 
materiais etc. [Como conceito das ciências humanas, esp. da 
antropologia, cultura pode ser tomada abstratamente, como 
manifestação de um atributo geral da humanidade (cf. acepç. 
5), ou, mais concretamente, como patrimônio próprio e distin-
tivo de um grupo ou sociedade específica (cf. acepç. 6).]; Filos: 
categoria dialética de análise do processo pelo qual o homem, 
por meio de sua atividade concreta (espiritual e material), ao 
mesmo tempo em que modifica a natureza, cria a si mesmo 
como sujeito social da história”.
Se procedermos à conversão do verbete “identidade” à 
condição de “conceito sociológico”, isto é, de ferramenta para 
a compreensão científica de um determinado fenômeno social, 
podemos dizer, então, que esse conceito define a forma como 
indivíduos e coletividades se veem ou são percebidas social-
mente. O mesmo procedimento aplicado ao verbete “cultura” 
revela-nos dois tipos de definições para o termo; um que se 
refere à cultura como atividade elitista relacionada à atividade 
artística ou à erudição de indivíduos ou grupos sociais com 
acesso à educação e ao conhecimento artístico e de atividades 
do gênero, e outro, que se refere a uma interpretação mais 
geral do termo, e que se relaciona a dimensões mais amplas 
da atividade humana em sociedade, envolvendo hábitos, cos-
tumes, valores e práticas sociais generalizadas e acessíveis a 
quaisquer indivíduos ou grupos sociais, independentemente 
do acesso que tenham à formação educacional ou ao conhe-
Capítulo 4 Jogo de Espelhos: A Crise das Identidades Sociais ... 79
cimento erudito do mundo das artes. Essa segunda definição 
do verbete é a que se aplica à conversão em conceito socioló-
gico para fins de estudo da crise das identidades culturais na 
sociedade contemporânea.
4.2 O que se entende por “crise das 
identidades sociais contemporâneas”
Um dos autores de maior destaque no estudo desse assunto 
é o cientista social jamaicano radicado na Inglaterra, Stuart 
Hall, que, num artigo sobre o tema3, argumenta que “as ve-
lhas identidades, que por tanto tempo estabilizaram o mundo 
social, estão em declínio, fazendo surgir novas identidades e 
fragmentando o indivíduo moderno, até aqui visto como um 
sujeito unificado”. Para Hall, a “crise de identidade” individual 
e coletiva tem origem no impacto das mudanças decorrentes 
do processo de globalização em curso, que estaria “deslocan-
do estruturas e processos centrais das sociedades modernas e 
abalando os quadros de referência que forneciam aos indiví-
duos uma ancoragem estável no mundo social”.
A globalização é comumente analisada pelo viés econô-
mico. No entanto, ela é, também, um processo complexo e 
inseparável de suas dimensões de integração social, política 
e cultural,que decorre da interconexão de todas as regiões 
e comunidades do planeta Terra, por sistemas de comunica-
ção on-line, em tempo real. Segundo Hall, esse processo de 
3 HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. São Paulo: DP&A, 1999.
80 Sociedade e Contemporaneidade
integração estaria fragmentando as “paisagens culturais de 
classe, gênero, sexualidade, etnia, raça e nacionalidade”, que 
forneciam “sólidas localizações aos indivíduos sociais” aos 
indivíduos e coletividades no período antecedente da história.
Identidades individuais contemporâneas estariam receben-
do o impacto dessas mudanças. Nesse contexto, desestrutura-
-se a percepção que os indivíduos contemporâneos têm de 
si mesmos. Antes nos percebíamos como sujeitos integrados, 
unos e harmônicos. Já não é mais assim. Segundo estudos 
contemporâneos, estaria em curso uma desestruturação das 
identidades dos indivíduos a partir de seu lugar no mundo so-
cial e cultural e dos indivíduos propriamente ditos. Esse proces-
so deu origem aos estudos contemporâneos sobre a “crise das 
identidades culturais” (HALL, 1999).
4.3 Sujeitos sociais modernos e 
contemporâneos
Stuart Hall nos mostra, em seu estudo, que a maneira como a 
condição de sujeito social é percebida na sociedade moderna 
evoluiu com o passar do tempo, passando por três diferentes 
definições:
a) sujeito do Iluminismo;
b) sujeito sociológico;
c) sujeito pós-moderno.
Capítulo 4 Jogo de Espelhos: A Crise das Identidades Sociais ... 81
Para Hall, o sujeito do Iluminismo partia de uma concep-
ção de indivíduo autocentrado, segundo a qual a pessoa hu-
mana seria totalmente unidimensional, racional e absoluta-
mente consciente de suas ações, orientadas a partir de num 
núcleo que emergia de seu interior a partir do nascimento, e 
desenvolvia-se ao longo de sua vida, permanecendo, em es-
sência, inalterada.
A noção posterior, de sujeito sociológico, partia da com-
preensão de a identidade dos sujeitos sociais decorrer de um 
processo de construção interativa da personalidade dos indiví-
duos, e refletia a complexidade do mundo moderno emergen-
te. Ou seja, a evolução da sociedade moderna levou à com-
preensão de que aquele “núcleo interior” do sujeito Iluminista 
não possuía a suposta autonomia e autossuficiência, sendo 
formado na interação com os indivíduos com quem se convive 
socialmente, estabelecendo-se, assim, relações de mediação 
social, a partir das quais se constroem os valores, sentidos e 
símbolos sociais; isto é, a cultura que envolve a vida dos indi-
víduos em sociedade.
Os sujeitos sociais modernos, então, não perderiam sua 
“essência interior”, mas agregariam a ela novos ingredientes 
através da interação com o mundo exterior e as identidades 
que a ele se expõe ao longo da vida. Estabelece-se, dessa 
forma, uma conexão entre os processos psíquicos individuais e 
os processos político-sociais e culturais nos quais o indivíduo 
se insere. A identidade, portanto, articula sujeito e estrutura, 
e “estabiliza tanto os sujeitos quanto os mundos culturais que 
eles habitam, tornando ambos reciprocamente mais unificados 
e predizíveis” (HALL, 1999, p. 12).
82 Sociedade e Contemporaneidade
Para Stuart Hall, o impacto da globalização sobre a vida 
dos indivíduos e das coletividades da sociedade contemporâ-
nea estaria transformando essa concepção de identidade do 
sujeito moderno, levada à crise em função das mudanças es-
truturais e institucionais do mundo em processo de globaliza-
ção cultural.
O sujeito da sociedade pós-moderna, então, deveria ser 
compreendido como alguém que não tem identidade fixa, 
nem essência una, estável e imutável. O sujeito pós-moderno, 
dessa forma, se comporia de múltiplas identidades fragmenta-
das, por vezes até contraditórias ou mesmo não completamen-
te autodefinidas pelo indivíduo.
Imerso num oceano de referências externas, composto de 
infinitas combinações de imagens, sons, informações e indiví-
duos multifacetados e globalmente inseridos, real ou virtual-
mente, em seus círculos de convivência, o indivíduo da so-
ciedade contemporânea estaria assistindo seus sistemas de 
classificação e construção de significados e representações 
culturais se multiplicarem e assumirem um grau de comple-
xidade nunca antes experimentado. Dessa forma, o sujeito 
contemporâneo teria sua identidade lapidada em contextos 
historicamente circunstanciados, e assumiria, em diferentes 
momentos e ambientes, identidades múltiplas, não necessaria-
mente ancoradas em suportes individuais, coerentes, estáveis 
e autodefinidos a partir do seu nascimento e preservado até 
sua morte.
Para o sociólogo Émile Durkheim (1858/1917), é a organi-
zação e a ordenação das coisas através de sistemas classifica-
Capítulo 4 Jogo de Espelhos: A Crise das Identidades Sociais ... 83
tórios que leva à construção de significados, pois nas relações 
sociais as formas de diferenciação simbólica e social (nós/eles; 
sagrado/profano; brasileiros/não brasileiros) estabelecem-se, 
em parte, através deles.
Para a cientista social Katherine Woodward, as formas pelas 
quais a cultura estabelece limites e distinções são fundamen-
tais para compreendermos como se constroem as identidades 
sociais e individuais, pois: “cada cultura tem suas próprias e 
distintivas formas de classificar o mundo. É pela construção de 
sistemas de classificação que a cultura propicia os meios pelos 
quais podemos dar sentido ao mundo social e construir signifi-
cados. Há, entre os membros de uma sociedade, certo grau de 
consenso sobre como classificar as coisas a fim de manter uma 
ordem social. Esses sistemas partilhados de classificação são, 
na verdade, o que se entende por cultura” (WOODWARD, 
2000, p. 40).
Já, segundo o sociólogo Anthony Giddens, na sociedade 
moderna, ao contrário do que ocorre nas sociedades tradi-
cionais, o processo de transformação social se processa de 
forma constante, rápida e permanente. Para ele: “[...] nas so-
ciedades tradicionais, o passado é venerado e os símbolos 
são valorizados porque contêm e perpetuam a experiência de 
gerações. A tradição é um meio de lidar com o tempo e o 
espaço, inserindo qualquer atividade ou experiência particular 
na continuidade do passado, presente e futuro, os quais, por 
sua vez, são estruturados por práticas sociais recorrentes”.4 E 
4 GIDDENS, A. The Consequences of Modernity. Cambridge: Polity Press, 1990, 
p. 37-38.
84 Sociedade e Contemporaneidade
mais, segundo Giddens, “à medida que áreas diferentes do 
globo são postas em interconexão umas com as outras, ondas 
de transformação social atingem virtualmente toda a superfície 
da terra”5 e a natureza das instituições contemporâneas.
As sociedades que passaram por processos de desenvolvi-
mento urbano e industrial tardio se comparadas aos países di-
tos “desenvolvidos”, são trespassadas por múltiplas divisões e 
antagonismos que geram uma variedade expressiva de identi-
dades individuais e coletivas. Para o autor Ernesto Laclau, seria 
a capacidade de articular de forma conjunta esses diferentes 
elementos de identidade que possibilitaria evitar a desintegra-
ção dessas sociedades, ainda que esse poder de articulação 
seja apenas parcial, o que, para esse autor, permite explicar-
mos a dinâmica evolutiva da história6. Para melhor compre-
ender sobre o que estamos falando, vamos nos concentrar na 
análise da questão das “identidades nacionais”.
4.4 A crise das identidades nacionais
O Estado-nação, juridicamente definido como unidade cons-
tituída pelo agregado povo-território-governo, é resultado de 
uma construção histórica e cultural resultante do processo de 
transição da sociedade feudal para a sociedade urbano-in-
dustrial. No mundo moderno, as identidades nacionais, isto 
é, o conjunto de elementos que compõema forma como de-
5 Ibid., 1990, p. 6.
6 LACLAU, E. New Reflections on the Resolution of our Time. Londres: Verso, 1990..
Capítulo 4 Jogo de Espelhos: A Crise das Identidades Sociais ... 85
terminadas sociedades nacionais se diferenciam das demais, 
constitui-se numa das principais âncoras da identidade cultural 
dos sujeitos modernos. Assim, os indivíduos tendem a definir-
-se e a apresentar-se publicamente perante o mundo que os 
cerca, a partir de sua identidade nacional, percebida como 
parte imanente de suas naturezas essenciais e como elemento 
estabilizador de seu psiquismo individual e social.
O filósofo Roger Scruton, por exemplo, aborda essa mes-
ma questão afirmando que: “A condição de homem (sic) exige 
que o indivíduo, embora exista e aja como ser autônomo, faça 
isso somente porque ele pode primeiramente identificar a si 
mesmo como algo mais amplo – como um membro de uma 
sociedade, grupo, classe, estado ou nação, de algum arranjo, 
ao qual ele pode até não dar um nome, mas que ele reconhe-
ce instintivamente como seu lar”7.
Para Stuart Hall, “as identidades nacionais não são coisas 
com as quais nós nascemos, mas são formadas e transforma-
das no interior da representação. [...] a nação não é apenas 
uma entidade política mas algo que produz sentidos – um sis-
tema de representação cultural” (HALL, 1999, p. 48-49). As 
identidades culturais nacionais, portanto, seriam construções 
sociais modernas, e os sentimentos de “lealdade e identifica-
ção que numa era pré-moderna ou em sociedades mais tra-
dicionais eram dados à tribo, ao povo, à religião e à região 
foram transferidas, gradualmente, nas sociedades ocidentais, 
à cultura nacional” (HALL, 1990, p. 49).
7 SCRUTON, R. Authority and allegiance. In: DONALD, J.; HALL, S. (orgs.). Politics 
and Ideology. Milton Keynes: Open University Press, 1986.
86 Sociedade e Contemporaneidade
Dessa forma as diferenças regionais e étnicas, caracterís-
ticas culturais das sociedades antigas, foram gradualmente 
sendo reconstruídas e redefinidas a partir da demarcação dos 
contornos da formação política nova e emergente com a so-
ciedade moderna: o estado nacional. O Estado-nação, então, 
se converteu na nova e poderosa fonte de significados para as 
identidades culturais modernas.
Para Stuart Hall, símbolos e representações compõem as 
culturas nacionais tanto quanto as instituições culturais. Uma 
cultura nacional é um discurso, um modo de construir sentidos 
que influencia e organiza tanto nossas ações quanto a con-
cepção que temos de nós mesmos (HALL, 1990, p. 50-51). 
As culturas nacionais, nesse contexto, seriam representações 
construídas ao longo da história, que conferem sentidos à per-
cepção que os indivíduos têm em relação à nação com a qual 
se identificam.
No contexto das transformações em curso na sociedade 
contemporânea, a globalização, entendida como processo 
multidimensional, estaria pressionando as estruturas do esta-
do moderno e provocando seu redimensionamento tanto no 
sentido vertical (político, jurídico, institucional e administrativo) 
como horizontal (geográfico), o que estaria provocando mu-
danças que explicam boa parte das crises sociais contempo-
râneas.
Assim, assistimos simultaneamente à desestruturação e 
reestruturação das fronteiras físicas e imaginárias dos Estados-
-nação, tal como se pode constatar pelas transformações em 
curso na comunidade europeia. Ocorre, de forma concomi-
Capítulo 4 Jogo de Espelhos: A Crise das Identidades Sociais ... 87
tante, o deslocamento do poder antes soberano e monopolista 
do estado nacional para instâncias regionais e locais de poder, 
dando origem a movimentos separatistas, políticas públicas de 
descentralização administrativa, ou, ainda, manifestações de 
xenofobia, ódio racial e fanatismo religioso, impulsionados 
por forças sociais em busca dos novos poderes da sociedade 
em transformação.
A unificação dos mercados nacionais no processo de for-
mação dos estados nacionais e da sociedade urbana e in-
dustrial moderna originou as estruturas jurídicas e políticas 
do estado moderno, e, consequentemente, de seu sistema de 
crenças e valores, de representação e identidade cultural. A 
globalização em suas diversas dimensões, fortemente influen-
ciada pelo processo de transnacionalização do capital, em 
muitos casos, está levando ao ressurgimento e à reconstrução 
de identidades culturais tradicionais que foram deslocadas de 
suas funções de identificação social no período de ascensão 
do estado nacional moderno.
Quando esse processo começou a revelar contornos mais 
claros, alguns autores imaginaram que o efeito desses proces-
sos levaria ao enfraquecimento ou destruição das formas na-
cionais de identidade cultural. O processo, no entanto, parece 
mais complexo do que puderam perceber esses autores. As 
transformações ocorrem em vários sentidos e produzem resul-
tados diversos, nem todos conforme as primeiras impressões 
sugeriram. Influenciadas pela dinâmica da globalização, en-
tão, as identidades nacionais, estariam sofrendo pressões no 
sentido de sua readequação a essa nova realidade.
88 Sociedade e Contemporaneidade
4.5 Avanços ou retrocessos?
Segundo Hall, o discurso da identidade nacional seria uma re-
presentação construída pelas estórias, mitos, crenças e valores 
das sociedades, “[...] se equilibra entre a tentação de retornar 
a glórias passadas e o impulso por avançar ainda mais em 
direção à modernidade. As culturas nacionais são tentadas, 
algumas vezes, a se voltar para o passado, a recuar defensi-
vamente para aquele ‘tempo perdido’, quando a nação era 
‘grande’; são tentadas a restaurar as identidades passadas” 
(HALL, 1999, p. 56).
A crise em curso na Europa, da virada da primeira para 
a segunda década deste século, parece comprovar as análi-
ses do autor, que aponta nesses comportamentos o “elemento 
regressivo, anacrônico, da estória da cultura nacional”. Se-
gundo Hall, em geral, movimentos sociais amparados nesses 
sentimentos nostálgicos ocultariam lutas por poder que bus-
cam mobilizar a sociedade com discursos de combate às su-
postas ameaças que viriam de fora e ameaçariam a “pureza” 
da identidade nacional “ameaçada”, com vistas a influenciar 
o destino das coletividades em direção ao futuro (HALL, 1999, 
p. 56).
Dessa forma, sustentadas pelas memórias do passado; no 
desejo por viver em conjunto; no impulso pela perpetuação da 
herança, as identidades culturais nacionais não devem ser in-
terpretadas como limitados pontos de lealdade, união e iden-
tificação simbólica, mas também, como estruturas de poder 
cultural. Para Hall, então, as identidades culturais nacionais 
devem ser pensadas como “constituindo um dispositivo discur-
Capítulo 4 Jogo de Espelhos: A Crise das Identidades Sociais ... 89
sivo que representa a diferença como unidade ou identidade. 
[...] sendo ‘unificadas’ apenas através do exercício de diferen-
tes formas de poder cultural” (HALL, 1999, p. 62).
Para esse autor, então, as culturas nacionais galvaniza-
ram socialmente aquilo que se entende por “modernidade”, 
e as identidades nacionais se sobrepuseram a outras fontes 
de identificação social, tais como, a noção que os indivíduos 
tinham com relação à classe social, ideologias, formas parti-
dárias, origens étnicas, dentre outras.
No contexto das transformações decorrentes do processo 
de globalização, então, esses elementos que compunham a 
identidade individual e social do sujeito moderno estariam 
deslocando o poder que identidades culturais nacionais ti-
nham como elementos organizadores da sociedade urbana e 
industrial.
4.6 As três tendências
Ao aprofundar seus estudos sobre a questão das identidades 
culturais em transformação, Hall constata pelo menos três pos-
síveis desdobramentos desse processo. Paraele:
a) as identidades nacionais estão se desintegrando, 
como resultado do crescimento da homogeneização cul-
tural do “pós-moderno” global; b) as identidades nacio-
nais e outras identidades “locais” ou particularistas estão 
sendo reforçadas pela resistência à globalização; e c) 
as identidades nacionais estão em declínio, mas novas 
90 Sociedade e Contemporaneidade
identidades – híbridas – estão tomando seu lugar (HALL, 
1999, p. 69).
O racismo protagonizado por grupos étnicos predominan-
tes em certas sociedades, e que se sentem ameaçados pela 
presença, em “seus” territórios, de contingentes populacionais 
migrantes num mundo em que o sistema de comunicação e 
transportes democratizou o acesso à informação e à mobili-
dade de segmentos sociais que, no passado tenderiam a se 
manter fixos em seus territórios de origem, é apenas uma das 
dimensões desse processo. A “invasão” da Europa Ocidental 
e dos EUA por contingentes de migrantes vindos da África, da 
América do Sul ou da Ásia, então, está na raiz de muitas das 
manifestações de racismo, xenofobia e intolerância cultural 
que vemos no noticiário com frequência hoje em dia.
Para Stuart Hall, o ressurgimento do nacionalismo na Eu-
ropa Oriental, assim como o crescimento de grupos funda-
mentalistas em diversas correntes religiosas, talvez sejam mais 
bem compreendidos se vistos como tentativas para reconstituir 
identidades supostamente “puras” de quem se sente ameaça-
do pelas mudanças e busca restaurar seus poderes e a coesão 
dos grupos sociais que se veem contagiados pelo hibridismo 
resultante da mistura de múltiplas e mútuas influências cultu-
rais em contato no mundo globalizado, em função das novas 
tecnologias de comunicação e transportes.
Capítulo 4 Jogo de Espelhos: A Crise das Identidades Sociais ... 91
Recapitulando
O capítulo aborda uma dimensão muito importante das trans-
formações em curso na sociedade atual, que diz respeito à 
chamada “crise das identidades culturais”. Pois, se as tecno-
logias sempre foram determinantes para a formação da iden-
tidade dos agentes sociais, atualmente, as novas mediações 
sociais rompem e modificam as identidades, complexificando-
-as. Do ponto de vista sociológico, a identidade define a forma 
como indivíduos e coletividades se veem ou são percebidos 
socialmente e, as “velhas identidades”, que por tanto tempo 
estabilizaram o mundo social estão em declínio, fazendo surgir 
novas identidades e fragmentando o indivíduo moderno que 
até aqui era “visto” como um “sujeito unificado”. A globaliza-
ção fragmenta a cultura antes estabelecida e rompe com as 
noções de classe, gênero, sexualidade, etnia, raça e nacionali-
dade. Se até o período conhecido como modernidade, a iden-
tidade articulava e estabilizava a relação sujeito e estrutura, 
hoje, o sujeito contemporâneo encontra-se imerso num ocea-
no de referências externas, composto de infinitas combinações 
de imagens, sons, informações e indivíduos multifacetados e 
globalmente inseridos, real ou virtualmente, em seus círculos 
de convivência. O indivíduo da sociedade contemporânea as-
siste atônito aos seus sistemas de classificação e construção de 
significados e às representações culturais se multiplicarem e se 
complexificarem. À medida que áreas diferentes do globo são 
postas em interconexão, ondas de transformação social atin-
gem virtualmente toda a “superfície da terra” e a natureza das 
instituições contemporâneas. E, nesse sentido, a tradição não 
é mais valorizada, ao contrário, constitui-se em um entrave, 
92 Sociedade e Contemporaneidade
por isso a crise a que o capítulo se refere e que se estende à 
própria noção de identidade nacional. 
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94 Sociedade e Contemporaneidade
Atividades
 1) Quanto ao conceito de CULTURA, assinale a alternativa 
incorreta.
a) Refere-se ao conjunto de características humanas que 
não são inatas e que se criam e se preservam ou apri-
moram através da comunicação e da cooperação en-
tre indivíduos em sociedade. 
b) É biologicamente construído, refere-se à herança ge-
nética do sujeito e que, portanto, é de difícil modifica-
ção e transformação pelo meio social.
c) Opõe-se por vezes à ideia de natureza, ou de consti-
tuição biológica, e está associada a uma capacidade 
de simbolização considerada própria da vida coletiva 
e que é a base das interações sociais. 
d) É a parte ou o aspecto da vida coletiva relacionados à 
produção e transmissão de conhecimentos, à criação 
intelectual e artística, por exemplo.
e) É o processo ou estado de desenvolvimento social de 
um grupo, um povo, uma nação que resulta do apri-
moramento de seus valores, instituições e criações.
 2) Assinale a alternativa incorreta. Para entendermos a crise 
de identidade do sujeito contemporâneo é preciso, primei-
ramente, entendermos o próprio conceito de IDENTIDA-
DE, que: 
Capítulo 4 Jogo de Espelhos: A Crise das Identidades Sociais ... 95
a) Como “conceito sociológico”, que é, trata-se de uma 
ferramenta para a compreensão científica de um de-
terminado fenômeno social.
b) Esse conceito define a forma como indivíduos e coleti-
vidades se veem ou são percebidas socialmente.
c) Como é construído socialmente, rompe-se e modifica-
-se de acordo com o ritmo de mudanças sociais e, 
sobretudo, pela capacidade das pessoas interagirem, 
relacionarem-se entre si.
d) Trata-se de uma visão sobre si mesmo estritamente 
pessoal e individual, que em nada tem a ver com a 
forma como as pessoas e a sociedade definem esse 
indivíduo.
e) É um elemento importante no que diz respeito à coe-
são, integração e estabilização de uma sociedade.
 3) Quanto à crise das identidades na contemporaneidade é 
correto afirmar que:
a) “As velhasidentidades, que por tanto tempo estabiliza-
ram o mundo social, estão em declínio, fazendo surgir 
novas identidades e fragmentando o indivíduo moder-
no, até aqui visto como um sujeito unificado.”
b) A “crise de identidade” individual e coletiva tem origem 
no impacto das mudanças decorrentes do processo de 
globalização em curso, que estaria “deslocando estru-
turas e processos centrais das sociedades modernas e 
96 Sociedade e Contemporaneidade
abalando os quadros de referência que forneciam aos 
indivíduos uma ancoragem estável no mundo social.
c) É fruto do processo de globalização em todas as suas 
dimensões, pois ao colocar todos os sujeitos em rela-
ção, as tecnologias deslocam sentidos pré-estabeleci-
dos e rompem com tradições culturais, gerando incer-
tezas e desestabilizações aos sujeitos.
d) Ocorre em função do impacto das tecnologias que 
complexificam a sociedade e impõem nova velocida-
de aos fenômenos. Esta velocidade não consegue ser 
acompanhada pela assimilação dessas mudanças na 
forma de valores fixos e duráveis.
e) Todas as alternativas acima estão corretas.
 4) Stuart Hall nos mostra, em seu estudo, que a maneira 
como a condição de sujeito social é percebida na socie-
dade moderna evoluiu com o passar do tempo. Quanto a 
isso está correto afirmar que: 
a) O autor aponta para três tipos de sujeitos definidos ao 
longo da história: sujeito do iluminismo, sujeito socio-
lógico e sujeito pós-moderno.
b) O conceito de sujeito do iluminismo partia de uma 
concepção de indivíduo autocentrado, segundo a 
qual a pessoa humana seria unidimensional, racional 
e consciente de suas ações, orientadas a partir de um 
núcleo que emergia de seu interior a partir do nasci-
mento, e desenvolvia-se ao longo de sua vida, perma-
necendo, em essência, inalterada.
Capítulo 4 Jogo de Espelhos: A Crise das Identidades Sociais ... 97
c) O sujeito sociológico partia da compreensão de que a 
identidade dos sujeitos sociais decorre de um processo 
de construção interativa da personalidade dos indiví-
duos e, reflete a complexidade do mundo moderno 
emergente à época.
d) O sujeito da sociedade pós-moderna é compreendido 
como alguém que não tem identidade fixa, nem essên-
cia una, estável e imutável. É composto de múltiplas 
identidades fragmentadas, por vezes até contraditórias 
ou mesmo não completamente autodefinidas pelo in-
divíduo. 
e) Todas as alternativas acima estão corretas.
 5) Quanto ao conceito de IDENTIDADE NACIONAL é cor-
reto afirmar que:
a) O Estado-nação, juridicamente definido como unida-
de constituída pelo agregado povo-território-governo, 
é resultado de uma construção histórica e cultural re-
sultante do processo de transição da sociedade feudal 
para a sociedade urbano-industrial.
b) No mundo moderno é o conjunto de elementos que 
compõe a forma como determinadas sociedades na-
cionais se diferenciam das demais, assim, os indiví-
duos tendem a definir-se e a apresentar-se perante o 
mundo que os cerca, a partir de sua identidade nacio-
nal percebida como parte imanente de suas naturezas 
essenciais e como elemento estabilizador de seu psi-
quismo individual e social.
98 Sociedade e Contemporaneidade
c) As identidades culturais nacionais são construções so-
ciais modernas e os sentimentos de “lealdade e iden-
tificação que numa era pré-moderna ou em socie-
dades mais tradicionais eram dados à tribo, ao povo, 
à religião e à região (grifo nosso), foram transferidas, 
gradualmente, à cultura nacional”.
d) Das transformações em curso na sociedade contem-
porânea, a globalização, entendida como processo 
multidimensional, estaria pressionando as estruturas 
do estado moderno e provocando seu redimensiona-
mento tanto no sentido vertical (político, jurídico, ins-
titucional e administrativo) como horizontal (geográfi-
co), o que estaria provocando mudanças que explicam 
boa parte das crises sociais contemporâneas.
e) Todas as alternativas acima estão corretas.
Julieta Beatriz Ramos Desaulniers1
Honor de Almeida Neto2
Capítulo 5
Educação na era 
Digital12
1 Graduada em Licenciatura Plena em Ciências Sociais pela Unisinos (1973). Mes-
tre em Sociologia pela UFRGS (1984) e Doutora em Ciências Humanas – Educação, 
pela UFRGS e Sorbonne/Paris. Integra o Banco de Avaliadores (BASis), vinculado 
ao (INEP/SINAES), atuando como Avaliadora de IES. Tem interesse pelo aprimora-
mento e/ou implantação de práticas e iniciativas voltadas à gestão estratégica de 
competências & formação de individualidades e suas articulações com tecnologias 
de informação e comunicação (TICs), tecnologias relacionais (TRs), inteligência co-
letiva, responsabilidade social e sustentabilidade.
2 Doutor em Serviço Social pela PUCRS (2004), Mestre (1999) e Graduado em 
Ciências Sociais pela mesma Universidade (1995). Coordenador do curso CST 
em Gestão Pública na modalidade EAD e do curso de Ciência Política da ULBRA 
Canoas. Integra o grupo de pesquisa Sociedade Informacional, Individualidades, 
Políticas Sociais da ULBRA. Pesquisador com experiência na área das Ciências Hu-
manas e Sociais com ênfase na análise de processos de formação da Criança e do 
Adolescente e do impacto das Novas Tecnologias de Informação e Comunicação 
(NTIC) na qualidade das relações humanas e sociais.
100 Sociedade e Contemporaneidade
Introdução
As tecnologias digitais têm apresentado uma intensa evolução, 
desde o surgimento da microinformática, do computador pes-
soal (PC), até o presente, a era da hiperconexão planetária, 
possibilitada pela internet e os dispositivos móveis de comu-
nicação. Seremos profundamente diferentes daqui a alguns 
anos, considerando as transformações que vêm ocorrendo em 
nosso comportamento, produzidas por tais mediações. Nossa 
mobilidade física e informacional aumenta a cada dia. Redes 
sociais conectam a todos, mídias de massa perdem espaço 
para internet, pessoas ficam viciadas em tecnologia e games, 
crianças aprendem a ler em tablets e músicos ficam famosos 
sem o intermédio de gravadoras.
Estamos chegando, efetivamente, na condição cyborg – 
organismo cibernético formado por natureza e artifício –, em 
que o corpo funde-se com objetos da técnica, tornando-se, 
portanto, um híbrido. Há vários exemplos de cyborgs. Dentre 
os denominados cyborgs protéticos, há os mais radicais, tais 
como o famoso físico inglês Stephen Hawking, que vive numa 
cadeira de rodas motorizada e sua voz é gerada por circuitos 
digitais. E o cyber-artista australiano Sterlac, que utiliza o cor-
po como palco para experiências, transformando-o em uma 
espécie de novo corpo; metade carne, metade ciberespaço.
A maioria dos casos é menos evidente, mas um olhar mais 
atento denuncia a sua condição cyborg. Como exemplo, te-
mos as pessoas que utilizam próteses em seus corpos: silico-
nes, dentes postiços, marca-passos, lentes e outros artifícios 
Capítulo 5 Educação na era Digital 101
em que se associa o biológico ao tecnológico, natureza e arti-
fícial (LEMOS, 2008).
É incontornável, de acordo com estudiosos, que esse pro-
cesso remodela em ritmo acelerado, os fundamentos materiais 
da sociedade (CASTELLS, 1998). E, ao longo de toda a evolu-
ção da espécie humana, no decorrer da História, nunca houve 
mutações tão profundas e rápidas (ASSMANN, 1998). Nesse 
sentido, é oportuno assinalar que, como afirma Lévy:
[...] se medirmos simultaneamente o surgimento de uma 
nova temporalidade, o salto para dentro da acumula-
ção e processamento das informações, a reformulação 
dos saberes e do saber-fazer, a mudança dos hábitos, 
da sensibilidade e da inteligência, e, por fim, a univer-
salidade envolvida pela cultura informática, então não 
parece absurdo fazer a comparação com a passagem 
da pré-história. Estamos entrando na era pós-história. 
Umaforma cultural inédita está emergindo da indefinida 
recursão de um tipo novo de comunicação e processa-
mento simbólico (LÉVY, 1998, p. 37).
É sabido que “cada ser, principalmente o vivo, para existir, 
para viver, tem que se flexibilizar, adaptar-se, reestruturar-se, 
interagir, criar e coevoluir. Tem que se fazer um ser aprenden-
te. Caso contrário, morre” (ASSMANN, 1998). Essas são as 
condições vitais a todo ser humano e, por extensão, às or-
ganizações em que ele atua. É, igualmente, o caso daquelas 
entidades e/ou iniciativas que se dedicam e estão inseridas no 
campo educativo.
102 Sociedade e Contemporaneidade
5.1 Era digital: pressupostos e 
possibilidades
Digital, digitalidade, vida digital etc. Tais fenômenos são de-
sencadeados por uma revolução tecnológica e cultural sem 
precedentes, a partir da transformação de átomos em bits 
(NEGROPONTE, 1996). A codificação digital envolve o cará-
ter plástico, fluido, hipertextual, interativo e tratável em tempo 
real do conteúdo da mensagem. Transitar do ambiente ana-
lógico para o digital permitiu a criação e estruturação de ele-
mentos de informação, simulações e formatações evolutivas 
para os ambientes on-line de informação e comunicação que 
permitem criar, gerir, organizar, fazer movimentar uma docu-
mentação completa com base em textos, imagens e sons.
É importante salientar que digital significa:
[...] uma nova materialidade das imagens, sons e textos 
que, na memória do computador, são definidos matema-
ticamente e processados por algoritmos, que são conjun-
tos de comandos com disposição para múltiplas formata-
ções - intervenções - navegações operacionalizadas pelo 
computador. Uma vez que a imagem, o som e o texto, 
em sua formas digitais, não têm existência material, po-
dem ser entendidos como campos de possibilidades para 
a autoria dos interagentes. Isto é, por não terem ma-
terialidade fixa, podem ser manipulados infinitamente, 
dependendo apenas de decisões que cada interagente 
toma ao lidar com seus periféricos de interação como 
mouse, tela tátil, joystick, teclado (SILVA, 2010, p. 210).
Capítulo 5 Educação na era Digital 103
Esse intenso processo de mudanças na contemporanei-
dade, que envolve o indivíduo como o principal protagonista 
das práticas sociais e, por consequência, das práticas peda-
gógicas em seu conjunto, conta com um poderoso vetor – as 
novas tecnologias da informação e da comunicação (NTIC). 
São mediações que se caracterizam pelo ritmo acelerado ao 
produzirem as relações sociais, nas quais se formam as indi-
vidualidades, bem como pela sua velocidade na implantação 
desses processos estimulando a inovação.
Nesse contexto, rompe-se com o paradigma que se susten-
ta na especialização associado à visão linear e fragmentada, 
passando a predominar a perspectiva da complexidade, que 
se apoia em princípios vinculados à digitalidade. E, assim, os 
processos educativos dispõem de um conjunto de possíveis 
para se constituírem como “emergentes, abertos, contínuos, 
em fluxos, não lineares, que podem se reorganizar conforme 
os objetivos ou contextos, onde cada um ocupa uma posição 
singular e evolutiva”. (LÉVY, 1998, p. 1 e 2)
Conforme Lévy, é o advento do ciberespaço que:
[...] dissolve a pragmática da comunicação que, desde 
a invenção da escrita, havia reunido o universal e a to-
talidade. Ele nos leva, de fato, à situação existente antes 
da escrita – mas em outra escala e em outra órbita –, na 
medida em que a interconexão e o dinamismo, em tem-
po real, das memórias on-line tornam novamente possí-
vel para os parceiros da comunicação, compartilhar o 
mesmo contexto, o mesmo imenso hipertexto vivo (LÉVY, 
1998, p. 118).
104 Sociedade e Contemporaneidade
Assim, esse contexto compartilhado é um imenso hipertex-
to, mas, o leitor mantém sua autonomia, desde o ponto em 
que ele entra no hipertexto tomando uma decisão em meio a 
muitas opções. Como o hipertexto não é lido sequencialmen-
te, é possível construir vínculos automáticos entre diferentes 
partes do texto e realizar anotações de diferentes tipos. Com a 
digitalização do texto, ele pode ser composto também por sons 
e imagens animadas, além de ser estruturado em rede. Como 
diz Levy: “O hipertexto digital seria, portanto, definido como 
uma coleção de informações multimodais disposta em rede 
para a navegação rápida e intuitiva” (LÉVY, 1996).
Dessa forma, só é possível alguma compreensão se o 
leitor entrar no mundo do autor (através do hipertexto) e re-
criar, mental e emocionalmente, os sentidos dispostos através 
das informações, imagens, sons. Mas, ao mesmo tempo, ele 
reescreve o texto, já que tece uma teia diferente da original, 
ligando pontos remotos a partir da sua experiência com texto 
e, percorrendo de uma forma diferente, estabelece uma com-
preensão única.
Em outros termos, no ciberespaço ou no hipertexto mundial 
interativo, cada um pode adicionar, retirar e modificar partes 
da estrutura telemática, como um texto vivo, constituindo um 
organismo auto-organizante. É, igualmente, um ambiente que 
tende a promover competências múltiplas, reforçá-las e/ou até 
substituí-las, assim como gerar laços comunitários e instaurar 
a inteligência coletiva (LEMOS, 2002).
Por isso, Lévy afirma que “toda e qualquer reflexão séria 
sobre o devir dos sistemas educativos na cibercultura, que se 
Capítulo 5 Educação na era Digital 105
fundamentam nas NTIC, prescindem de uma análise prévia 
sobre a mutação contemporânea da relação com o saber”. 
Assinala que, “pela primeira vez na história da humanidade, 
a maioria das competências adquiridas por uma pessoa no 
começo do seu percurso profissional serão obsoletas no fim 
de sua carreira”. Como o conhecimento não para de crescer, 
“trabalhar equivale cada vez mais a aprender, transmitir sabe-
res e produzir conhecimentos”. O trabalho não possui mais a 
conotação de gerar bens duráveis, embora ao gerá-los, eles 
são decorrência natural da produção de conhecimento (LÉVY, 
1998, p. 1-2).
É o que Bauman também diz, quando se refere à sociedade 
líquido-moderna, onde “as realizações individuais não podem 
se solidificar em posses permanentes porque, em um piscar de 
olhos, os ativos transformam-se em passivos, e as capacidades 
em incapacidades. E ainda refere o autor que “as condições 
de ação e as estratégias de reação envelhecem rapidamente e 
se tornam obsoletas antes de os atores terem uma chance de 
aprendê-las efetivamente” (BAUMAN, 2007, p. 7).
Destaca-se que as NTIC, na condição de mediações que 
distinguem a sociedade informacional, como toda mediação, 
vêm despertando sentimentos (e mesmo práticas) paradoxais 
no cotidiano dos indivíduos. Em outros termos, a nova era dis-
põe ao mesmo tempo de possibilidades inéditas, tanto para 
um novo salto à hominização quanto para provocar depen-
dência e liberdade, violência e autonomia, medo e segurança. 
Isso vai depender do tipo de decisões de quem for utilizá-las 
(ASSMANN, 2002; MATURANA, 2000; LÉVY, 2001).
106 Sociedade e Contemporaneidade
5.2 Sistema educativo e novas mediações
Experimentamos, atualmente, um salto qualitativo em relação 
ao tipo de comunicação de massa que prevaleceu até o final 
do século XX. Verifica-se um deslocamento da lógica unívo-
ca da mídia de massa, pautada na recepção passiva, para o 
modo de comunicação interativa. Afinal, vivemos a cada dia 
mais intensamente o predomínio da modalidade comunicacio-
nal que caracteriza a cibercultura fundamentada na interativi-
dade, que se distingue por uma comunicação entendida como 
cocriação da mensagem, produto de emissão e recepção (SIL-
VA, 2010, p. 262-263).
Em outros termos, os sistemas educativos nessa era da ci-
bercultura são desafiados a se engajarem na dinâmica comu-
nicacional, entendida como colaboração todos-todose como 
faça você mesmo operativo. Nessa lógica, a mensagem não é 
mais emitida, não é mais um mundo fechado, paralisado, imu-
tável, intocável, sagrado, é um mundo aberto em rede, modifi-
cável na medida em que responde às solicitações daquele que 
a consulta. O receptor, agora, é convidado à livre criação, e a 
mensagem ganha sentido sob sua intervenção.
Nesse contexto, a interatividade manifesta-se em práticas, 
tais como: e-mails, listas, blogs, videologs, jornalismo on-line, 
Wikipédia, YouTube, MSN Messenger, Orkut, chats, MP3, Fa-
cebook e novos empreendimentos que aglutinam grupos de 
interesse como cibercidades, games, softwares livres, ciberati-
vismo, webarte, música eletrônica etc. No ciberespaço, cada 
sujeito pode adicionar, retirar e modificar conteúdos dessa 
estrutura; pode disparar informações e não somente receber, 
Capítulo 5 Educação na era Digital 107
uma vez que o polo da emissão está liberado; pode alimentar 
laços comunitários de troca de competências, de coletivização 
dos saberes, de construção colaborativa de conhecimento e de 
sociabilidade (LEMOS, 2002).
Obviamente, o computador on-line não é um meio de 
transmissão de informação como a televisão, mas um espaço 
de adentramento e manipulação em janelas móveis, plásticas 
e abertas a múltiplas conexões entre conteúdos e interagentes 
geograficamente dispersos. Para além das interferências, ma-
nipulações e modificações nos conteúdos presentes na tela do 
computador off-line, os interagentes podem interagir realizan-
do compartilhamentos e encontros de colaboração síncronos 
e assíncronos (SILVA, 2010, p. 269).
Por isso, a aprendizagem digital e on-line é exigência da 
cibercultura, isto é, do novo ambiente comunicacional que 
surge com a interconexão mundial de computadores em forte 
expansão no início do século XXI; novo espaço de comunica-
ção, de sociabilidade, de organização, de informação, de co-
nhecimento e de educação. A aprendizagem digital e on-line 
é demanda do novo contexto socioeconômico-tecnológico 
engendrado a partir do início da década de 1980, cuja ca-
racterística geral não está mais na centralidade da produção 
fabril ou da mídia de massa, mas na informação digitalizada 
em rede como nova infraestrutura básica, como novo modo 
de produção.
Devido às profundas transformações instauradas nos meios 
de comunicação, informação e transmissão (NTIC), fundadas 
nos códigos da digitalidade, novas demandas se impõem a 
108 Sociedade e Contemporaneidade
toda organização, em especial à organização escolar, que tem 
no fazer pedagógico o processo de produção que lhe distingue 
como campo educativo frente aos demais campos que consti-
tuem o espaço social. Nessa perspectiva, são inúmeras as me-
diações disponíveis para incrementar os processos educativos, 
comentados a seguir.
 Â Internet
A internet configura-se como a mídia de convergência, ofe-
recendo recursos fundamentais para a aplicação de estraté-
gias de comunicação, em que emissor e receptor deixam de 
ser compreendidos como polos estáticos e hibridizam-se em 
suas funções. Como um sistema essencialmente aberto, a web 
(World Wide Web – www) possibilita a busca de informações 
em toda a rede, num fluxo constante, aumentando a força 
de uma comunicação interativa, individualizada e, ao mesmo 
tempo, coletiva. Saad (2003) acredita que os diferenciais da 
World Wide Web são: interatividade, conectividade, flexibili-
dade, formação de comunidades e arquitetura informacional.
Essa grande rede composta por vários sistemas – a web –, 
caracteriza-se por um conjunto de servidores que suportam do-
cumentos formatados em linguagem HTML (HyperText Markup 
Language). Suportam links para outros documentos, gráficos, 
áudio e arquivos de vídeo. Possibilita ao usuário “passar de um 
documento para outro simplesmente clicando em links”. Ou-
tros servidores da internet não fazem parte da World Wide Web 
e, dentre os mais populares, destacam-se o Netscape Navi-
gator e o Microsoft Internet Explorer (STASIAK & BARICHELLO, 
2010, p. 18).
Capítulo 5 Educação na era Digital 109
Vale considerar os avanços significativos nas gerações da 
web. A atual, web 3.0, apresenta um sistema que inclui desde 
redes sociais, serviços empresariais on-line até sistemas GPS e 
televisão móvel, assim como etiquetas inteligentes, que permi-
tem lidar com a informação de forma mais acessível. Cientistas 
destacam como principal característica da web 3.0 a questão 
da convivência on-line, como acontece com os avatares em 
jogos virtuais, por exemplo (STASIAK & BARICHELLO, 2010, 
p. 19).
Indiscutivelmente, a web torna-se cada vez mais uma rea-
lidade em nossas vidas. O aumento do número de usuários 
é constante. De acordo com pesquisa do Ibope, em parceria 
com a Nielsen Online, no primeiro trimestre de 2012, o núme-
ro de pessoas com acesso à internet no Brasil chegou a 82,4 
milhões.
5.3 Impacto das novas mediações ao 
campo educativo
Investigações têm demonstrado o enorme potencial cognitivo 
das novas tecnologias, destacando as possibilidades de desen-
volvimento de competências bastante sofisticadas (metacogni-
tivas, afetivas, sociais etc.), desde que o contexto humano lhes 
sejam favoráveis. Aliás, tal contexto “[...] é essencial, pois de-
pendem de sua qualidade e pertinência, os benefícios que se 
pode obter de um ambiente informatizado”. Vale também ob-
servar que “[...] uma mesma tecnologia resultará em efeitos 
110 Sociedade e Contemporaneidade
cognitivos diversos, dependendo do contexto humano em que 
for utilizado” (DEPOVER, KARSENTI, KOMIS, 2007, p. 4).
De acordo com Silva, processos educativos na era digital 
dispõem da “infotecnologia em rede, favorável à proposição 
do conhecimento à maneira do hipertexto” em que não há 
mais a prevalência da distribuição de informação para recep-
ção solitária e em massa. Computadores, laptops, celulares, 
palmtops, tablets, iPhones conectados em rede mundial favo-
recem e intensificam a mediação, instaurando uma produção 
complexa do conhecimento, com participação colaborativa 
dos participantes envolvidos na aprendizagem, em redes que 
conectam textos, áudios, vídeos, gráficos e imagens em links 
na tela tátil (SILVA, 2005).
É fundamental perceber a nova ambiência comunicacio-
nal, que emerge com a cibercultura, e as possibilidades de 
interatividade e de criação coletiva nela disponíveis ao mundo 
educativo. Isso supõe colocar-se “a par da atualidade socio-
técnica informacional e comunicacional definida pela codifica-
ção digital (bits), a digitalização que garante o caráter plástico, 
hipertextual, interativo e tratável do conteúdo”, em tempo real. 
Desse modo, processos educativos passam a contemplar “ati-
tudes cognitivas e modos de pensamento” em sintonia com a 
contemporaneidade. Ou seja, contempla o novo espectador, 
a geração digital e, consequentemente, a qualidade em edu-
cação efetiva, que supõe participação, compartilhamento e 
colaboração (SILVA, 2005).
Capítulo 5 Educação na era Digital 111
5.3.1 Geração Internet
Há uma geração denominada de digital ou geração internet, 
que se constitui a partir do deslocamento da tela da TV (de 
massa) para a tela do computador on-line, passando a reque-
rer novas disposições comunicacionais do conjunto de agentes 
que atuam no âmbito do sistema educativo. Perfil e caracte-
rísticas dessa geração foram detalhados em obra publicada 
por Tapscott, onde destaca suas posturas quanto a: liberdade; 
integridade; colaboração; entretenimento; velocidade; inova-
ção (TAPSCOTT, 1999, p. 92). Nesse sentido, constam abaixo 
algumas afirmações por ele emitidas em A hora da geração 
digital:
 Â – [...] Eles estão buscando liberdade [...] (p. 93); [...] 
insistem na liberdade de escolha. Trata-se de uma ca-
racterística básica da mídiaque consomem (p. 95);
 Â – [...] usam a tecnologia para fugir do escritório e do 
expediente tradicionais; e que integram a vida domés-
tica e social à vida profissional [...] vejo sinais de uma 
tendência geracional (p. 93);
 Â – Eles preferem um horário flexível e uma remuneração 
baseada em seu desempenho e valor de mercado – e 
não no tempo em que ficam no escritório (p. 93);
 Â – [...] Eles parecem ter uma forte consciência do mundo 
à sua volta e querem saber mais sobre o que está acon-
tecendo (p. 99);
 Â – A geração Internet se importa com a integridade [...]; 
[...] e esperam que as outras pessoas também tenham 
112 Sociedade e Contemporaneidade
integridade (p. 105), que significa, sobretudo, dizer a 
verdade e cumprir seus compromissos (p. 106);
 Â – [...] são colaboradores naturais em todas as esferas da 
vida (p. 112);
 Â – Essa é a geração do relacionamento (p. 110);
 Â – Por terem crescido em um ambiente digital, eles con-
tam com a velocidade. Estão acostumados a respostas 
instantâneas, 24 horas por dia, sete dias por semana (p. 
115);
 Â – Essa geração foi criada em uma cultura de invenção. 
A inovação acontece em tempo real (p. 117).
A dinâmica que vem possibilitando a construção de uma 
geração digital, a qual se distingue radicalmente das gerações 
de todos os tempos, até aqui, desencadeia também transfor-
mações na educação. De acordo com Tapscott, a geração in-
ternet “[...] tem na ponta dos dedos, acesso a boa parte do 
conhecimento do mundo. Para eles, o aprendizado deve acon-
tecer onde e quando quiserem” (TAPSCOTT, 1999, p. 95-96). 
Neste sentido também rompe-se com a educação tradicional 
pois:
[...] ir a uma aula expositiva de um professor medíocre 
em um lugar e horário específicos, em uma sala na qual 
eles são receptores passivos, parece estranhamente an-
tiquado, ou até totalmente inapropriado. O mesmo vale 
para a política. Será que um modelo de democracia que 
oferece apenas duas opções e os obriga a ouvir duran-
te quatro anos, entre uma eleição e outra, políticos que 
Capítulo 5 Educação na era Digital 113
repetem infinitamente os mesmos discursos vai realmente 
satisfazer as suas necessidades? (TAPSCOTT, 1999, p. 
95-96).
Por fim, parece mesmo que a educação necessita reinven-
tar-se para dar conta dos anseios e demandas de formação da 
geração digital.
NOTAS
- Parte de nosso mundo se tornou ciberpunk:
(http://www.momentumsaga.com/2012/09/o-que-e-cy-
berpunk.html /).
- O termo cyberpunk aparece para designar um movimento 
literário no gênero da ficção científica, nos Estados Unidos, 
unindo altas tecnologias e caos urbano, sendo considerado 
como uma narrativa tipicamente pós-moderna. O termo pas-
sou a ser usado também para designar os ciber-rebeldes, o 
underground da informática, com os hackers, crackers, cyber-
punks, ctakus, zippies. Esses seriam os cyberpunks reais. As-
sim, o termo cyberpunk é, ao mesmo tempo, emblema de uma 
corrente da ficção científica e marca dos personagens do sub-
mundo da informática.
(http://www.academia.edu/1771479/Ficcao_cientifica_
cyberpunk_o_imaginario_da_cibercultura).
114 Sociedade e Contemporaneidade
Recapitulando
O capítulo aponta para o impacto da tecnologia na forma 
como indivíduos e sociedades sabem e aprendem. Ser apren-
dente é condição para pessoas e organizações sobreviverem e 
é característica da sociedade pós-moderna. Nunca na história 
humana as mutações se deram em ritmo tão veloz, e nós, se-
res humanos seremos muito diferentes daqui a alguns anos, 
pois estamos nos tornando cyborgs (o corpo mais a técnica). 
Estamos diante de um novo tipo de processamento simbólico 
associado à nova natureza das técnicas. Teremos de ser cada 
vez mais aprendentes, caso contrário ”morreremos”. Flexibili-
dade, adaptação e reestruturação são características do nosso 
tempo, das tecnologias e são demandas para os seres vivos 
humanos. O ciberespaço ou hipertexto mundial interativo é 
como um organismo vivo e auto-organizante e por isso, toda 
a discussão sobre educação que pretenda ser minimamente 
séria deve fundar-se nas novas tecnologias. 
Trabalhar significa, hoje, aprender saberes e produzir co-
nhecimentos. Pela primeira vez na história, as competências 
adquiridas no começo de uma carreira profissional tornar-se-
-ão obsoletas no seu final. O vetor das novas práticas pedagó-
gicas são as novas tecnologias de informação e comunicação. 
Trata-se de um novo paradigma, da complexidade e não mais 
da especialização associada a uma visão linear e fragmenta-
da. O ciberespaço ou hipertexto mundial interativo, compar-
tilhado por todos via internet, é produzido por todos que com 
ele interagem, onde cada um pode adicionar, retirar partes 
constituindo um organismo auto-organizante. A nova era traz 
Capítulo 5 Educação na era Digital 115
inúmeras e inéditas possibilidades (hominização, dependên-
cia e liberdade, violência e autonomia, medo e segurança). 
Trata-se de uma nova ambiência comunicacional com intera-
tividade e criação coletivas, que cria e recria novos modos de 
pensamento que aumentam as distâncias entre as gerações, 
pois as novas gerações têm na ponta dos dedos o acesso a 
boa parte do conhecimento do mundo, sem limites de tempo 
e espaço.
Referências
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Vozes, 1998.
BAUMAN, Zygmunt. Vida líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 
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Capítulo 5 Educação na era Digital 117
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nomadismo e mutação de direitos. São Paulo: ABCiber; 
Instituto Itaú Cultural, 2010. Disponível em <http://www.
abciber.org/publicacoes/livro2>.
Atividades
 1) Qual é o principal vetor para entendermos o novo papel 
da educação e as novas formas de aprender na contem-
poraneidade?
a) O papel central do professor e sua capacidade de 
transmitir conhecimentos e habilidades.
b) A escola e a universidade, casa por natureza do saber.
c) As novas tecnologias de informação e comunicação 
que permitem um conhecimento autônomo e um saber 
ilimitado e interativo.
d) A demanda por umsaber especializado e linear que 
identifique causas e efeitos nos fenômenos educacio-
nais.
e) O papel central dos governos e o investimento em 
educação, sobretudo educação de massa.
 2) São aspectos relacionados às novas formas de aprender e 
produzir conhecimentos nesta nossa era digital:
a) O fato de que hoje nos tornamos cyborgs (parte ho-
mens parte máquinas).
118 Sociedade e Contemporaneidade
b) O ritmo intenso e a nova velocidade dos fenômenos 
que demandam ao homem flexibilidade, capacidade 
de readaptação e aprendizado constante.
c) Autonomia e conhecimento disseminados e acessíveis 
e modificáveis em tempo real.
d) O fato de sermos mais autônomos para produzirmos e 
compartilharmos conhecimentos e novos saberes.
e) Todas as alternativas estão corretas.
 3) Assinale verdadeiro (V) ou falso (F).
( ) Para sobreviverem nesses novos tempos seres huma-
nos e organizações (quaisquer que sejam) precisam 
tornar-se aprendentes.
( ) Nunca antes na história da humanidade passamos por 
mutações tão profundas e rápidas.
( ) As tecnologias determinam por si só os rumos da his-
tória, estamos, portanto, diante de um novo determi-
nismo tecnológico que tende a trazer liberdade, auto-
nomia e segurança.
( ) A cibercultura tem na interatividade e na capacidade 
de cocriação de mensagens uma de suas característi-
cas principais.
( ) As formas de ação e as estratégias de reação na socie-
dade líquida-moderna tornam-se obsoletas antes mes-
mo dos atores sociais terem chances de aprendê-las.
Capítulo 5 Educação na era Digital 119
 4) Assinale as alternativas abaixo que não se constituem em 
características da Geração Digital ou Geração Internet se-
gundo Tapscott:
a) Liberdade;
b) Integridade;
c) Colaboração;
d) Velocidade;
e) Resistência à inovação.
 5) Assinale qual alternativa não está de acordo com a forma 
como a geração internet relaciona-se com as tecnologias:
( ) Insiste na liberdade de escolha, característica básica 
da mídia que consome.
( ) Prefere trabalhar em casa em horário flexível, seu es-
critório pode ser o seu próprio telefone celular.
( ) Quanto à remuneração de seu trabalho opta por re-
ceber por produto/tarefa e não pelo tempo gasto para 
executá-las.
( ) Tem consciência do mundo a sua volta, não é em nada 
alienada.
( ) Tem restrição à colaboração de qualquer tipo em fun-
ção de ser extremamente competitiva.
Deivison Moacir Cezar de Campos1
Capítulo 6
Fronteiras da Tolerância: 
Etnicidade, Gênero e 
Religião1
Fronteiras da Tolerância: Etnicidade, Gênero...
1 Doutor em Ciências da Comunicação. Mestre em História Social. Jornalista. 
Coordenador do Bacharelado em Jornalismo e do Núcleo de Estudos Afro-brasi-
leiro e Indígena da Ulbra.
Capítulo 6 Fronteiras da Tolerância: Etnicidade, Gênero... 121
Introdução
O último século é determinante para se pensar na questão 
da tolerância. Se por um lado, ocorre neste período a des-
naturalização discursiva e social da diferença, principalmente, 
étnico-racial, registrou episódios em que a intolerância foi so-
cialmente acolhida e, mesmo prevista, é regulada em lei, pro-
movendo um rastro de desigualdade, perseguição e violência. 
O imperialismo Europeu, os regimes fascistas, a Guerra Fria e 
o atual conflito cultural, que têm como marca o 11 de setem-
bro, podem ser considerados não somente episódios tópicos, 
mas a manifestação de um sistema mundo, que articula o po-
der a partir da ideia de opressão da diferença. No cotidiano, 
essas relações de poder marcam igualmente as dinâmicas so-
ciais, fazendo com que essa lógica igualmente esteja na base 
das interações pessoais. Desta forma, preconceitos herdados 
de períodos anteriores e aprofundados neste período histórico 
mediam as vivências cotidianas e são negados sob discursos 
de igualdade e universalidade.
O processo de expansão do domínio da Europa, a par-
tir das navegações e das ocupações territoriais, denominadas 
equivocadamente como descobrimentos, demandou a cons-
trução de discursos que sustentassem a exploração desses ter-
ritórios e de outros. Suportado pelo discurso evangelizador, 
construiu-se o entendimento de que as outras civilizações eram 
inferiores à Europeia e por isso poderiam e deveriam ser sub-
metidas aos colonizadores. Consequentemente, há uma nega-
ção dessas outras culturas e mesmo dos indivíduos diferentes. 
Neste processo, os indígenas americanos são considerados 
122 Sociedade e Contemporaneidade
seres naturais e os africanos tidos como sem alma, ou seja, 
inumanos, inaugurando um imaginário que será aprofundado 
durante o período de exploração escravista dessas populações 
e depois mantido através do racismo simbólico, estereótipos 
negativos e concreto, barreiras sociais que mantêm em sua 
maioria os descendentes indígenas e de africanos à margem 
social.
Esse imaginário ganhou estatuto de ciência no século XIX, 
numa perspectiva evolucionista. A justificativa científica da su-
perioridade branca sobre as outras raças teve como represen-
tantes principais o inglês Robert Knox, que escreveu Races of 
Men em 1850, e o francês Arthur de Gobineau, cujo texto Essai 
sur l’inegalité dês Races humaines foi produzido em 1855). O 
primeiro criou o mito racial saxão e o segundo, o mito ariano. 
Defendiam que as raças ocupavam posições diferentes dentro 
da natureza humana. Segundo Martiniano Silva:
Ambos os mitos tinham uma finalidade ideológica. Knox 
defendendo a expansão do imperialismo procurava pro-
var que o homem saxão era democrata por natureza e, 
por isso, o futuro dominador da terra. Gobineau, por ou-
tro lado, não gostava da democracia e procurou provar 
que o seu surgimento e, conseqüentemente, o do impe-
rialismo, era um sinal da morte iminente da ‘civilização’ 
(1987, p. 29).
A preocupação surgiu, segundo Barracloug (1976), nas 
colônias das potências imperialistas. Enquanto a população 
branca da Europa mantinha índices decrescentes de natali-
dade, a população não branca no mundo apresentava altos 
Capítulo 6 Fronteiras da Tolerância: Etnicidade, Gênero... 123
índices de crescimento. As medidas adotadas a partir dessas 
concepções vão levar à constituição das desigualdades socio-
culturais e econômicas e produzir um rastro de violência du-
rante todo o século, seja pelo Imperialismo que perdurou até 
os anos 1960 na Ásia e na África e manteve sistemas como o 
Apartheid, ou pelas grandes Guerras, originadas pela disputa 
territorial e da hegemonia política do Ocidente, que produzi-
ram o holocausto judeu.
Os avanços obtidos após o período de Guerra, principal-
mente através de documentos internacionais como a Declara-
ção Universal dos Direitos Humanos, não alcançaram a todas 
as culturas discriminadas e identidades coletivas vítimas de 
intolerância da mesma maneira. A proposição de universali-
dade, neste sentido, garante discursivamente a igualdade de 
direitos e acesso à cidadania plena. Na prática, no entanto, 
a intolerância às diferenças produz perseguições e impõe vio-
lências física e simbólica contra os grupos identificados como 
diferentes. A questão da tolerância perpassa, portanto, a dis-
cussão sobre as identidades étnico-culturais onde estão guar-
dadas as diferenças.
6.1 A identidade étnica e a constituição 
dos movimentos pela diferença
A identidade étnica refere-se a uma forma de pertencimento 
coletivo que se caracteriza pela partilha de valores culturais e 
que se identificam e são identificados a partir da diferença de 
outros grupos étnicos. Desta maneira, a diferença estabele-
124 Sociedade e Contemporaneidade
cida pela relação entre “nós e eles” (BARTH, 1998), ao mes-
mo tempo que identifica essa forma de pertencimento, produz 
as reações diversas que se materializam de forma negativacomo intolerância. Atualmente, a identificação com grupos so-
cialmente marginalizados tornou-se um ato político, mas por 
muito tempo foi encoberta pelo silêncio e pela opressão. Mes-
mo marginalizados a tomada de posição vai coincidir com a 
ampliação da esfera pública, num primeiro momento, com a 
inserção da nova classe surgida com a Revolução Industrial – 
os operários. O processo vai ser aprofundado com um novo 
tensionamento da esfera pública e a entrada de novos atores 
organizados quando o projeto da grande revolução se mostra 
utópico.
Os movimentos contemporâneos, pela diferença, são mar-
cados em sua origem pelo rompimento com os partidos tradi-
cionais de esquerda - comunistas e socialistas, nos anos 1960. 
Enquanto alguns dissidentes optaram pela justificativa teórica 
da violência2, paralelamente ao recrudescimento da luta ar-
mada e da guerrilha em vários lugares do Terceiro Mundo3, 
outros grupos optaram pela reivindicação de uma democracia 
direta e participativa, politizando a “valorização do cotidiano, 
do indivíduo, das relações pessoais, a valorização dos senti-
mentos e das emoções” (ARAÚJO, 2000, p. 43).
2 Hannah Arendt produziu um estudo referencial sobre a tendência de valorização 
e justificação teórica da violência no período. Para mais detalhes, ler ARENDT, Han-
nah. Sobre a violência [1969]. Rio de Janeiro, Relume-Dumará, 1994.
3 São desse período as guerras de descolonização dos países africanos, a Revolu-
ção Cubana, Revolução Chinesa, Vietnã e países latino-americanos. Neste sentido, 
surgem movimentos de minorias em países considerados desenvolvidos, como os 
Panteras Negras, nos EUA, ou o Exército Republicano Irlandes, o IRA, na Inglaterra.
Capítulo 6 Fronteiras da Tolerância: Etnicidade, Gênero... 125
Até este período, as questões específicas convergiam para 
a luta pela transformação global da sociedade, a grande Revo-
lução Socialista. A emergência das questões particulares leva 
ao surgimento de novos sujeitos e à valorização da diferença 
em detrimento da universalidade durante os anos 1970. O 
movimento feminista foi referencial no processo de reconfigu-
ração política, alertando para a existência de uma identidade 
feminina e formas de opressão a que somente as mulheres são 
socialmente submetidas (ARAÚJO, 2000).
Tendo como contexto a revolução de costumes e padrões 
de comportamento, movimentos alternativos constituídos por 
grupos que enfatizam a diferença, construirão, a partir de de-
mandas específicas, propostas de democracia participativa, 
confrontando a diluição e a burocratização promovidas pela 
democracia representativa. Ao mesmo tempo, vão inserir no 
campo político um novo conceito de esquerda e de represen-
tação política. Esses grupos propuseram como postulados a 
recusa à representação unificadora, o direito à voz, à valoriza-
ção de especificidades de sua condição minoritária, além da 
politização dos sentimentos e emoções. Desta maneira, pas-
saram a pensar o mundo, as interações e a política a partir 
de demandas específicas (ARAÚJO, 2000), produzindo novas 
formas de pertencimento.
Esses pertencimentos possibilitaram a construção de agen-
das políticas a fim de reivindicar as demandas por direitos e 
cidadania de maneira específica, mas ao mesmo tempo arti-
culada. Em sentido contrário, o processo de Globalização re-
legou essas demandas a um segundo plano (BAUMAN, 2005; 
SANTOS, 2000). Entendida como processo de internaciona-
126 Sociedade e Contemporaneidade
lização do Capital, a Globalização tem sido potencializada 
pelas novas condições tecnológicas. A emergência de um mer-
cado global, em que empresas articulam os fluxos econômicos 
e não há uma esfera real de regulação desse mercado, pro-
voca um estímulo ao consumo, que sobrepõe as questões de 
pertencimento e principalmente as reivindicações de direito à 
cidadania plena.
A ideia de identidade contemporânea, caracterizada pela 
fluidez e pelo movimento, surge dessa crise do pertencimento 
e do esforço em estabelecer a relação entre o que deve ser 
e o que é (BAUMAN, 2005). As narrativas resultantes desse 
processo de disputa através dos meios técnicos, principalmen-
te, as redes sociais, constroem “vínculos que conectam o eu 
a outras pessoas e um pressuposto de que tais vínculos são 
fidedignos e gozam de estabilidade com o passar do tempo” 
(BAUMAN, 2005, p. 75). Com isso, produzem sentidos para 
a relação entre identidade e diferença colocados em crise por 
uma organização mundo, que busca incluir pelo consumo.
6.2 A Globalização e a crise do 
pertencimento
As identidades étnico-culturais têm sido impactadas e redefini-
das na contemporaneidade pelo mercado (CANCLINI, 1998; 
FURTADO, 1983). O principal elemento é a dicotomia existen-
te entre uma estrutura coordenada a partir de iniciativas nacio-
nais que contrapõe o fluxo econômico transnacional, ou seja, 
a relação entre Estado e o capital internacional desterritoria-
Capítulo 6 Fronteiras da Tolerância: Etnicidade, Gênero... 127
lizado (FURTADO, 1983). Soros (2001) alerta, neste sentido, 
que o sistema capitalista global não possui uma contrapartida 
política, esvaziando os debates sobre os grandes temas. O 
econômico passa a tornar-se central na vida das pessoas e os 
tributos deslocam-se do capital para os consumidores, restrin-
gido a cidadania a lógicas de mercado.
No entanto, essa fluidez desse tempo e as formas de orga-
nização impostas pela Globalização fazem com que as pes-
soas tenham necessidade de identificação coletiva, transcen-
dendo em direção à liberdade e ao direito de ser (SANTOS, 
2000). Igualmente, as demandas que se referiam exclusiva-
mente ao local agregam questões globais aumentado, dessa 
forma, a importância dos movimentos sociais que buscam a 
constituição de uma cidadania que não se restrinja a inclu-
são econômica. Por outro lado, as incertezas fazem com que 
a intolerância seja aprofundada e manifestada em diferentes 
aspectos do social. Segundo Martin-Barbero (2006, p. 63), 
“Os nacionalismos, as xenofobias ou os fundamentalismos re-
ligiosos não se esgotam no cultural, pois eles remetem, em 
períodos mais ou menos longos de sua história, a exclusões 
sociais e políticas, a desigualdades e a injustiças acumuladas 
e sedimentadas”.
O 11 de Setembro, como marco de início de novas rela-
ções no mercado globalizado, problematizou ainda mais essa 
relação espacial, impactando diretamente nas concepções de 
cidadania e pertencimento, introduzindo o fundamentalismo 
da segurança que transformaram as relações de fronteiras e as 
vias de comunicação (MATIN-BARBERO, 2006). A desconfian-
ça torna-se então método, a violação do direito à privacidade 
128 Sociedade e Contemporaneidade
e à liberdade torna-se regra, desencadeando um agravamento 
dos preconceitos, apartheid e fanatismos (2006). Com isso, 
muitos dos avanços conquistados nas últimas décadas pelos 
movimentos sociais, pautados pela Declaração dos Direitos 
Humanos, sofreram um retrocesso.
No novo sistema mundo, o fechamento das fronteiras, ini-
ciado pelo 11 de setembro, pode ser usado como metáfora 
para que se observe as fronteiras estabelecidas entre as dife-
rentes identidades nas relações cotidianas. Historicamente re-
primidos em suas diferenças, o corpo e as manifestações cultu-
rais que não atendem aos padrões normatizados pela cultura 
Ocidental, ao mesmo tempo que não são tolerados, resistem a 
partir de seu lugar identitário, essa mesma diferença pelo qual 
são socialmente discriminados. Em relação ao corpo, a iden-
tidade étnico-racial negra e a identidade de gênero são ques-
tões centrais nesse processo de intolerância. No que se refere 
às identidades culturais, as religiões são um âmbito em que há 
pouca e por vezes nenhuma tolerância entre denominações.
6.3 Intolerânciaao negro
A exclusão do negro do projeto de desenvolvimento econô-
mico remonta ao final do século XIX. A ideologia do trabalho 
livre, pensada sob os símbolos da civilização (ordem) e do pro-
gresso, numa perspectiva positiva, contribuiu para a margina-
lização dos negros libertos, que no imaginário herdado do es-
cravismo e das teorias evolucionistas representavam barbárie 
e primitivismo. Reforçado pelos estereótipos, marcas invisíveis 
Capítulo 6 Fronteiras da Tolerância: Etnicidade, Gênero... 129
deixadas pela escravidão, a marca visível da cor da pele liga o 
presente e o passado, demarcando o lugar social relegado ao 
indivíduo negro na sociedade brasileira.
No Brasil, por exemplo, a mestiçagem, imposta como uma 
síntese da nacionalidade, “é uma antiga concessão, incorpo-
rada no decorrer dos anos pelo senso comum, à presença ma-
ciça de não brancos em uma sociedade que valoriza a bran-
quitude” (SOVIK, 2009, p. 39). Essa valorização é constitutiva 
não só da cultura brasileira, mas da modernidade Ocidental 
e persiste nas culturas contemporâneas. Nesse sentido, Gil-
roy (2001) aponta que “o estranho prestígio ligado ao valor 
metafísico da brancura ainda são correntes e circulam bem” 
(p. 52). Referindo Franz Fanon, diz ainda que a “desgraça da 
dominação racial não é a condição de ser negro, mas de ser 
negro em relação ao branco” (p. 63).
Dessa forma, a necessidade de adequação aos padrões 
etnocêntricos europeus tornou-se elemento repressor do per-
tencimento afro, levando a um processo de integração social 
pela assimilação cultural. Historicamente, no entanto, obser-
vam-se estratégias e movimentos de resistência ao projeto 
unificador de identidade nacional, principalmente através de 
práticas e vivências comunitárias, culturais e discursivas, ge-
radas inicialmente dentro das comunidades negras. Essa tra-
dição e identidade têm sido permanente presentificadas por 
suas características desterritorializadas. A dissociação entre 
referências simbólicas e territoriais, provocada pelas diásporas 
globais, e a condição de ser e não pertencer possibilitou essa 
condição de contra-modernidade (GILROY, 2001) à negritude.
130 Sociedade e Contemporaneidade
Neste sentido, a intolerância contra o negro é um dos ele-
mentos que estão na base do Ocidente, acabando por ser 
naturalizado. Com isso, a maioria da população foi relega-
da à marginalização socioeconômica, à criminalização e, em 
muitos casos, à eliminação sistemática do indivíduo negro. Em 
todo o planeta, mesmo na África, todos os índices sociais rea-
firmam essa situação. Nas relações cotidianas essas formas 
de intolerância transformam-se principalmente em violência. A 
persistência dessa forma de controle e até mesmo intolerância 
à diferença podem ser observadas através do lugar do jovem 
negro na sociedade brasileira.
As poucas fotografias de um tumbeiro mostram que os 
escravizados na África eram predominantemente jovens sau-
dáveis do sexo masculino. Esses mesmos que até o início do 
século XX eram compulsoriamente enviados às guerras e para 
servirem na Marinha, que mesmo depois da Abolição mante-
ve a chibata, como forma de controle e racismo. Durante o 
século XX, os jovens negros foram excluídos do ensino e do 
mercado de trabalho, frequentemente presos, muitos sem co-
meter crimes, em função das delegacias de costumes e da lei 
de vadiagem.
Essa falta de oportunidade levou ao envolvimento de parte 
dos jovens com a criminalidade, resultando nos altos índices 
de detenções, prisões e assassinatos registrados nas últimas 
décadas. Atualmente, em função do controle e pressão dos 
movimentos sociais, tem-se acesso aos dados que apontam 
para o genocídio dos jovens negros no Brasil, o que mobili-
zou até mesmo a Anistia Internacional e a Organização das 
Nações Unidas. Aproximadamente 77% dos assassinados têm 
Capítulo 6 Fronteiras da Tolerância: Etnicidade, Gênero... 131
como vítima negros e, na maioria, jovens. São aproximada-
mente 150 mortos a cada dia.
As discussões sobre políticas afirmativas também indicam 
um nível de intolerância quanto à integração dos negros nas 
esferas da cidadania. O debate público, principalmente a par-
tir dos meios de comunicação, reforça a perspectiva sobre ca-
pacidade e meritocracia. As medidas, no entanto, propõem-se 
a oferecer oportunidades de estudo e inserção no mercado de 
trabalho, a fim de quebrar o ciclo que historicamente mantém 
a população negra marginalizada, conforme referido acima. 
Observa-se, portanto, nesta discussão, uma incoerência entre 
contexto e discurso. Enquanto socialmente a população negra 
enfrenta barreiras simbólicas, através de estereótipos, como o 
da malandragem, da preguiça e da incapacidade de realizar 
atividades complexas e reflexivas, as medidas adotadas para 
construir oportunidades e superar essas barreiras são negadas.
6.4 Intolerância religiosa
A religião tem sido, durante a história da humanidade, um 
foco permanente de conflito principalmente em função da do-
minação de territórios, ou mesmo por transposição espacial. 
A religião tem, também, sofrido com a intolerância. Pode-se 
referir a perseguição sofrida pelo Cristianismo no Império Ro-
mano, das religiões chamadas pagãs pelo Cristianismo, assim 
como as Cruzadas, a perseguição aos Reformadores e à In-
quisição. Também se registrou o combate às tradições indíge-
nas e africanas no período de colonização. A religião judaica 
132 Sociedade e Contemporaneidade
igualmente tem sido vítima de perseguição nas mais diversas 
partes do Ocidente, tendo sido responsabilizada a partir de 
argumentos políticos e econômicos, pelos mais diferentes pro-
blemas sociais. Recentemente, tem-se em pauta o conflito de 
cunho cultural entre Ocidente e fundamentalistas da religião 
muçulmana, que justificam a partir da religião seus atos polí-
ticos.
No Brasil, o número de denúncias sobre intolerância reli-
giosa tem crescido nos últimos anos também pelo surgimento 
de Canais de denúncia. Mesmo que a Constituição garanta a 
liberdade religiosa, desde o início do período republicano, as 
religiões de matriz africana são o principal alvo de intolerân-
cia. A perseguição se deu principalmente pela igreja Católica, 
no período escravista, sob a justificativa de evangelização dos 
negros que pelo trabalho se redimiriam dos pecados. O Esta-
do foi responsável pela perseguição no início da era Vargas e, 
atualmente, o embate tem sido travado com algumas novas 
igrejas evangélicas e se dá politicamente pelo fato de disputa-
rem a atenção e a crença de um mesmo público.
Simbolicamente, as religiões de matriz africana por suas 
características não cristãs e não dogmáticas acabam, muitas 
vezes, em função do desconhecimento, sendo confundidas 
com magia negra – esta última originária da Europa, e ado-
ração do Diabo, numa referência Cristã que não faz sentido 
na cosmovisão original. A sacralização de animais e o uso 
de instrumentos de percussão têm sido permanentemente ten-
sionados pelos detratores e mesmo pelo Estado. São muitas 
as decisões judiciais que, em função da lei do silêncio, prin-
cipalmente, proíbem o toque de tambores. Cultos indígenas 
Capítulo 6 Fronteiras da Tolerância: Etnicidade, Gênero... 133
de outras matrizes que não cristãs têm, igualmente, sofrido 
perseguição.
De outro lado, observa-se atos de intolerância discursivos 
contra igrejas evangélicas, principalmente as referenciadas 
como neopentecostais. A atuação de algumas igrejas em re-
lação às outras, e a outras religiões acabam, por generaliza-
ção, sendo vistas como intolerantes. Esse processo leva a um 
fenômeno de intolerância pela acusação de intolerância. O 
desconhecimento de princípios e dos ritos das outras igrejas/
religiões está na base da intolerância religiosa,assim como a 
falta de alteridade na relação estabelecida a partir dessa for-
ma de pertencimento.
6.5 A intolerância de gênero
As normatividades sobre o corpo estão diretamente relacio-
nadas com a discussão sobre a questão de gênero, entendida 
como as sociedades definem masculino e feminino. Na pers-
pectiva das Ciências Naturais, principalmente as Biológicas, 
as características são apontadas como naturais, ou seja, ge-
neticamente codificadas. Nas Ciências Humanas e Sociais, no 
entanto, pesquisadores defendem que se trata de uma constru-
ção social em determinados momentos históricos, sendo este o 
motivo pelo qual as noções tendem a se transformar em dife-
rentes épocas históricas (LOURO, 1997). Vem desta perspec-
tiva a frase de Simone de Beauvoir, “Ninguém nasce mulher, 
torna-se mulher”, utilizada em uma prova do Exame Nacional 
do Ensino Médio e que tem circulado amplamente na internet.
134 Sociedade e Contemporaneidade
No entanto, as marcações de gêneros normatizadas a par-
tir da perspectiva biológica fomentam a intolerância a qual-
quer corpo que não atenda a esses princípios. A discussão 
sobre o tema ganha cunho político a fim de desconstruir os 
lugares sociais reservados ao masculino e ao feminino e, por 
outro, para desconstruir a crença de que existe somente uma 
maneira de existir socialmente enquanto homem ou mulher. 
O principal argumento apresentado, principalmente pelos 
movimentos feministas, é de que existe uma grande diferença 
entre ser mulher no Brasil e na China, por exemplo, o que 
reforça que as normas são social e culturalmente construídas. 
Desta maneira, a discussão sobre identidade de gênero con-
tém em si a eliminação dos marcadores normativos sobre ser 
homem e mulher, a fim de que as barreiras simbólicas e sociais 
impostas por essas referências sejam superadas.
6.6 A tolerância como dever na 
contemporaneidade
A tolerância é um dos suportes a partir dos quais as demo-
cracias modernas foram constituídas. As características repre-
sentativas e de universalidade do modelo político estabelecido 
no Ocidente não se mostraram historicamente inclusivos à di-
ferença, privilegiando um discurso único de matriz europeia. 
O debate sobre tolerância desta maneira tem que levar em 
conta as relações de poder social (FORST, 2009). Por isso, o 
princípio de tolerância tem em si a questão de autoridade de 
um grupo, que tolera, sobre outro que venha a ser tolerado. 
Capítulo 6 Fronteiras da Tolerância: Etnicidade, Gênero... 135
São contra essas normatividades que os movimentos sociais 
têm militado.
A presença negra nas sociedades fora do continente afri-
cano originou-se num processo de desumanização. A inserção 
do corpo negro, nos períodos posteriores à exploração escra-
vista, manteve as barreiras simbólicas que erigiram as barrei-
ras legais e socioeconômicas ainda mantidas. Esse lugar so-
cial construído como projeto, portanto, é a principal fonte de 
intolerância que afeta a todos que buscam novos espaços, ou 
simplesmente para a manutenção do controle social. A aceita-
ção da diferença nesse caso desestabiliza o status quo vigente.
A intolerância religiosa acaba por ter um complicador, o 
campo que se organiza a partir da crença. Inserir-se num sis-
tema de crença provoca, necessariamente, a recusa de outras 
crenças possíveis. No entanto, a ideia de alteridade está pre-
sente em todo sistema de pensamento religioso, o que pode 
acionar se não a aceitação dos princípios de crença da outra 
igreja/religião, a aceitação da diferença.
Da mesma maneira, as normas estabelecidas sobre o que 
é masculino e feminino tensionam a identidade de gênero no 
sentido de pressionar os indivíduos a ocuparem papeis pre-
viamente estabelecidos. Os avanços nesse sentido têm sido 
conquistados frente a violências físicas e simbólicas, mas en-
contram respaldo legal, como a Lei Maria da Penha, e na acei-
tação da diferença.
Apesar da crise do pertencimento aprofundada pela Glo-
balização, é possível observar que algumas das questões ain-
da são demandas apresentadas pelos grupos identitários e têm 
136 Sociedade e Contemporaneidade
obtido respostas mais imediatas do mercado de consumo do 
que sócio-políticas. Isso acaba por gerar um dissociamento 
entre a vivência cotidiana e a cidadania. Os movimentos so-
ciais tomaram para si o projeto de construção da tolerância 
em relação à diferença e da construção de uma sociedade 
realmente democrática e cidadã.
Recapitulando
 Â A intolerância às diferenças produz perseguições e im-
põe violências física e simbólica contra os grupos identi-
ficados como diferentes.
 Â Atualmente, a identificação com um grupo socialmente 
marginalizado tornou-se um ato político, mas por muito 
tempo foi encoberta pelo silêncio e pela opressão.
 Â Os movimentos contemporâneos pela diferença são 
marcados em sua origem pelo rompimento com os par-
tidos tradicionais de esquerda - comunistas e socialistas, 
nos anos 1960. Enquanto alguns optaram pela violên-
cia, outros reivindicaram a construção de uma demo-
cracia direta e participativa.
 Â Tendo como contexto a revolução de costumes e padrões 
de comportamento, movimentos alternativos, constituí-
dos por grupos que enfatizam a diferença, construirão, a 
partir de demandas específicas, propostas de democra-
cia participativa, confrontando a diluição e a burocrati-
zação promovida pela democracia representativa.
Capítulo 6 Fronteiras da Tolerância: Etnicidade, Gênero... 137
 Â A fluidez do contemporâneo e as formas de organização 
impostas pela Globalização fazem com que as pessoas 
tenham necessidade de identificação coletiva, transcen-
dendo em direção ao direito de ser.
 Â A intolerância contra o negro é um dos elementos basi-
lares do Ocidente, acabando por ser naturalizado. Com 
isso, a maioria da população foi relegada à margina-
lização socioeconômica, à criminalização e em muitos 
casos à eliminação sistemática do indivíduo negro.
 Â As religiões organizam-se a partir de um sistema de 
crença que provoca necessariamente a recusa de ou-
tras crenças possíveis. No entanto, a ideia de alteridade 
está presente em todo sistema de pensamento religioso 
o que pode acionar se não a aceitação dos princípios 
de crença da outra igreja/religião, a aceitação da dife-
rença.
 Â As normatividades sobre o corpo estão diretamente rela-
cionadas à discussão sobre questão de gênero, entendi-
do como as sociedades definem masculino e feminino, 
produzindo a intolerância.
 Â Os movimentos sociais tomaram para si o projeto de 
construção da tolerância em relação à diferença e da 
construção de uma sociedade realmente de igualdade 
de direitos.
138 Sociedade e Contemporaneidade
Referências
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Atividades
 1) “O último século é determinante para se pensar a ques-
tão da tolerância. Se por um lado, ocorre neste período a 
desnaturalização discursiva e social da diferença, princi-
palmente, étnico-racial, registrou episódios em que a in-
tolerância foi socialmente acolhida e, mesmo prevista, é 
regulada em lei, promovendo um rastro de desigualdade, 
perseguição e violência.”
 A partir da afirmação acima é possível afirmar que a sen-
tença verdadeira é:
140 Sociedade e Contemporaneidade
a) ( ) As Grandes Guerras não estão relacionadas com o 
sistema Imperialista que aprofundou a diferença étni-
co-racial a partir de teorias científicas.
b) ( ) O aumento da população europeia e o decréscimo 
de natalidade entre a população não branca possibi-
litou um domínio territorial europeu, baseado na dife-
rença.
c) ( ) As teorias raciais vigentes na primeira metade do 
século XX defendiam a igualdade entre as raças.
d) ( ) O Imperialismo produziu desigualdades sociocultu-
rais e econômicas, além de um rastro de violência que 
perdurou até os anos 1990 com o Apartheid.
e) ( ) O holocausto judeu não tem relação direta com 
discursos de intolerância racial.
 2) A partir da leitura do texto, considere se as afirmações 
abaixo são verdadeiras (V) ou falsas (F).
a) ( ) A identidade étnica refere-se a uma forma de per-
tencimento coletivo que se caracteriza pela partilha de 
valores culturais e que se identificam e são identifica-
dos a partir da diferença de outros grupos étnicos.
b) ( ) Atualmente, a identificação com grupos socialmen-
te marginalizados tornou-se um ato político, mas por 
muito tempo foi encoberta pelo silêncio e pela opres-
são.
Capítulo 6 Fronteiras da Tolerância: Etnicidade, Gênero... 141
c) ( ) Os movimentos pela diferença surgem no início do 
século XX, fomentados pelos tradicionais partidos de 
esquerda.
d) ( ) O movimento ecológico foi referencial no processo 
de reconfiguração política nos anos 1970.
e) ( ) Os movimentos pela diferença propõem a constru-
ção de uma democracia participativa, confrontando a 
diluição e a burocratização promovidas pela demo-
cracia representativa.
 3) A intolerância à diferença esteve historicamente acompa-
nhada pela violência. Qual dos acontecimentos referidos 
abaixo não tem relação com intolerância à diferença?
a) ( ) Escravismo mercantil.
b) ( ) Holocausto judeu.
c) ( ) Apartheid.
d) ( ) Revolução Russa.
e) ( ) 11 de Setembro.
 4) A partir da leitura do texto, considere as questões abaixo:
I – A exclusão do negro do projeto de desenvolvimento 
econômico remonta ao final do século XIX.
II – A valorização da branquitude é constitutiva não só da 
cultura brasileira, mas da modernidade Ocidental e 
persiste nas culturas contemporâneas.
142 Sociedade e Contemporaneidade
III – O movimento negro criou nas últimas décadas estra-
tégias de integração e adesão ao projeto unificador de 
identidade nacional.
IV – Nas relações cotidianas, as diferentes formas de in-
tolerância contra a população negra manifestam-se, 
principalmente, através de violência simbólica ou físi-
ca.
A partir das afirmações acima, podem ser consideradas 
corretas as questões:
a) ( ) I, II e III.
b) ( ) I, II e IV.
c) ( ) II, III e IV.
d) ( ) I, III e IV.
e) ( ) Todas estão corretas.
 5) As discussões sobre políticas afirmativas também indicam 
um nível de intolerância quanto à integração dos negros 
nas esferas de cidadania. Considerando a leitura do texto 
e as questões abaixo é possível afirmar que a afirmação 
que não está correta é:
a) ( ) O debate público, principalmente a partir dos meios 
de comunicação, reforça a perspectiva sobre capaci-
dade e meritocracia.
b) ( ) O debate público sobre políticas afirmativas, 
principalmente a partir dos meios de comunicação, 
Capítulo 6 Fronteiras da Tolerância: Etnicidade, Gênero... 143
baseia-se na perspectiva de construção de oportuni-
dade. 
c) ( ) As políticas afirmativas propõem-se a oferecer aos 
negros oportunidades de estudo e inserção no merca-
do de trabalho.
d) ( ) As políticas afirmativas objetivam quebrar o ciclo 
socioeconômico e cultural que historicamente mantêm 
a população negra marginalizada.
e) ( ) Enquanto socialmente a população negra enfrenta 
barreiras simbólicas, através de estereótipos negativos, 
as medidas adotadas para construir oportunidades e 
superar essas barreiras são negadas.
Everton Rodrigo Santos1
Capítulo 7
Trabalho e Emprego 
no Mundo das Novas 
Tecnologias1
1 Graduado em Licenciatura Plena em Ciências Sociais pela UNISINOS (1992), 
mestre (1996) doutor (2005) e pós-doutor (2012-2013) em Ciência Política pela 
UFRGS. É consultor e avaliador da Capes, professor e pesquisador da ULBRA e da 
Universidade Feevale, atuando na graduação e pós-graduação stricto sensu. Como 
pesquisador é vinculado ao Grupo de Pesquisa Capital Social e Desenvolvimento 
Sustentável na América Latina da UFRGS, ao Grupo Metropolização e Desenvolvi-
mento Regional da Feevale e ao Grupo Sociedade Informacional, Individualidades, 
Políticas Sociais da ULBRA. Trabalha na área das Ciências Sociais e interdisciplinar, 
tendo publicado inúmeros artigos, capítulos de livros e livros. Tem como suas princi-
pais preocupações a temática da democracia, da cultura política, do capital social 
e das políticas públicas.
Capítulo 7 Trabalho e Emprego no Mundo das Novas Tecnologias 145
Empregabilidade/empreendedorismo/desafios e oportuni-
dades ao profissional do século XXI.
Everton Rodrigo Santos
Introdução
O Brasil vem despontando no cenário internacional como a 
sexta economia mundial aliada a um relativo declínio das de-
sigualdades sociais, a partir de seu crescimento econômico e 
da redução dos juros de nossa economia. Esta oportunidade, 
singular na história recente do país, abriu-se justamente num 
contexto novo, do fim da rivalidade entre o capitalismo e o 
comunismo e ao mesmo tempo do declínio dos EUA como 
superpotência hegemônica, dando vazão aos ditos “países 
emergentes”, entre eles o Brasil.
Para o País isto tem significado oportunidades de emprego 
e renda, diminuição da pobreza e o aumento da chamada 
“classe média”, que tem na sua obtenção de título de curso 
superior sua principal realização profissional. Neste sentido, 
cumpre ressaltar os fluxos migratórios tradicionais de brasi-
leiros. A procura de emprego em países ditos desenvolvidos 
diminuiu significativamente, havendo, em alguns casos, um 
efeito reverso, não só com a fixação de cidadãos no País, mas 
a existência de imigração de norte-americanos e europeus 
(apesar da crise da economia norte-americana e da Europa) 
para países como o Brasil, vindo ocupar postos de trabalho 
que demandam boa qualificação profissional. É sintomático 
146 Sociedade e Contemporaneidade
este efeito, uma vez que os dados divulgados pelos órgãos ofi-
ciais do próprio governo têm apontado para uma discrepância 
entre o crescimento de nosso PIB (Produto Interno Bruto) e oparco investimento em pesquisa e ensino para acompanhar 
devidamente nosso desenvolvimento nacional. Há, portanto, 
um hiato entre um país que “parece querer emergir”, uma 
economia que clama por mão de obra qualificada e as pos-
sibilidades deste desenvolvimento ameaçado justamente pela 
falta desta “mão de obra”.
Assim, este capítulo “Trabalho e emprego no mundo das 
novas tecnologias” tem por objetivo apresentar as novas con-
dições de empregabilidade neste mundo de novas tecnologias 
que está se descortinando, portanto, de novas oportunidades 
e ameaças para o Brasil e os brasileiros, num contexto novo 
da economia do conhecimento. Então, a pergunta provocativa 
para abrir nosso capítulo é: como se caracteriza este novo 
cenário da economia do conhecimento? Quais as condições 
de empregabilidade nesta nova economia num mundo de no-
vas tecnologias? Quais são as competências necessárias, as 
qualidades imprescindíveis para o profissional do século XXI 
conectar-se neste país, neste mundo?
Para responder a estas questões, dividimos este capítulo em 
três partes interdependentes. Na primeira parte, “Economia do 
conhecimento”, vamos caracterizar o contexto em que vivemos 
como um momento novo de uma sociedade pós-industrial des-
te início de século, que não é mais a economia de exploração 
do início de nossa colonização, nem mesmo a economia agro-
exportadora da primeira metade do século passado ou mesmo 
a economia industrial recente, mas uma economia que tem 
Capítulo 7 Trabalho e Emprego no Mundo das Novas Tecnologias 147
no conhecimento e no avanço tecnológico extraordinário sua 
principal mola propulsora para o desenvolvimento. Na segun-
da parte, tendo como base esta compreensão, discutiremos a 
“Empregabilidade na era da economia do conhecimento”, ou 
seja, a empregabilidade passará necessariamente pela rede-
finição das carreiras, passando-se das “carreiras organizacio-
nais” tradicionais às “carreiras sem fronteiras”.
Num terceiro momento, “Planejamento e gestão de carrei-
ra – o profissional do século XXI”, discutiremos a necessária 
gestão e planejamento de sua carreira, a necessidade de au-
tonomia no planejamento profissional dando ênfase na res-
ponsabilidade individual, propondo ao final do capítulo uma 
metodologia mínima para o começo do seu planejamento.
7.1 A economia do conhecimento
O Brasil, como sabemos, foi uma colônia portuguesa que 
desde o século XV, com a chegada dos primeiros europeus, 
teve seu processo de colonização marcado pela exploração 
de seus recursos naturais nos primeiros séculos de sua história. 
Este processo foi fruto da política mercantilista europeia colo-
nialista que impulsionou as grandes navegações na procura 
de novas terras e riquezas na expansão ultramarítima.
As extrações do pau-brasil nas costas litorâneas com a 
utilização da mão de obra indígena, num primeiro momen-
to, abasteceram a coroa portuguesa com recursos naturais 
que caracterizaram uma economia de exploração (RIBEIRO, 
148 Sociedade e Contemporaneidade
2000), em que as riquezas do País eram transladadas da colô-
nia para a Europa. Tal economia significava o enriquecimento 
da metrópole portuguesa em prejuízo da colônia e de seus 
habitantes autóctones.
Posteriormente, na sequência histórica e dado o início da 
colonização propriamente dito, a partir de 1530, os ciclos da 
cana-de-açúcar e do ouro (nos séculos XVI a XVIII) com a uti-
lização da mão de obra escrava africana, e, a partir do início 
do século XIX, o ciclo do café com a ajuda da mão de obra de 
imigrantes alemães e italianos, caracterizariam uma economia 
de produtos primários para a exportação.
Alguns estudiosos argumentavam que o Brasil exportava 
produtos primários para os países centrais e em troca impor-
tava produtos industrializados no final do século XIX e início 
do XX, justamente porque a Europa já havia se constituído em 
uma importante região industrializada nesta época. Dada esta 
divisão internacional do trabalho, com o Brasil exportando 
produtos primários e importando produtos industrializados, 
nós teríamos “vantagens comparativas” em relação a eles, 
pois nossos produtos agrícolas seriam vendidos mais caro em 
comparação com a importação dos produtos industrializa-
dos deles (países centrais) mais baratos, pois o uso de no-
vos maquinários industriais tenderia a baratear os preços dos 
produtos industrializados importados em comparação com o 
não uso destes maquinários nos produtos primários. Assim, ex-
portar produtos primários e importar produtos industrializados 
davam “vantagens comparativas” para o Brasil, pois vendería-
mos caro e importaríamos barato.
Capítulo 7 Trabalho e Emprego no Mundo das Novas Tecnologias 149
Todavia, uma forte crítica dos estudos da Cepal (Comissão 
Econômica para a América Latina) demonstrou que este racio-
cínio estava equivocado, pois as exportações de produtos pri-
mários teriam um limite, “as pessoas não podem comer mais 
do que a sua barriga suporta”, mas os produtos industrializa-
dos podem ser comprados de maneira abundante (MANTE-
GA, 1990). Ou seja, a demanda por produtos industrializados 
tende a ser maior do que a demanda por produtos primários 
e, assim, teríamos uma alta no preço dos produtos industria-
lizados europeu-americanos e uma queda nos produtos pri-
mários exportados (a lei da oferta e da procura). Um mau 
negócio para nós! Dada esta constatação, o Brasil passa a 
investir pesadamente numa política para a industrialização do 
País, principalmente a partir dos anos 1930, buscando recupe-
rar este gap com a criação de um parque industrial brasileiro 
capitaneado pelo Estado.
O Brasil passou, ao longo do século XX, a consolidar-se 
como um país de economia industrial. Com um êxodo rural 
expressivo de agricultores para os centros urbanos, a expan-
são da mão de obra assalariada, a criação do salário mínimo, 
da carteira de trabalho e toda legislação trabalhista moderna 
edificada a partir da Era Vargas. O processo de industrializa-
ção brasileiro se tornou irreversível já nos anos 1940 e 1950.
Quando o Brasil se consolida como uma nação industrial, 
os países centrais, que até então eram países industriais, pas-
sam paulatinamente a exportar suas indústrias para os paí-
ses ditos “periféricos”, de “terceiro mundo”, como os países 
latino-americanos, não só porque encontram uma mão de 
obra barata, uma legislação flexível, tributos menores, mas, 
150 Sociedade e Contemporaneidade
também, a inexistência de uma legislação ambiental que puna 
indústrias poluentes. Todavia, estes países centrais passam a 
concentrar-se cada vez mais na produção do conhecimento.
Na verdade, a nova divisão internacional do trabalho, prin-
cipalmente na segunda metade do século XX, passa a ocorrer 
entre aqueles países que produzem o conhecimento, tecno-
logia e inovação, e aqueles que são os consumidores deste 
conhecimento e destas tecnologias. Neste caso, tanto os EUA 
quanto a Europa e posteriormente alguns países asiáticos fo-
ram os grandes produtores de conhecimento, não só pelos 
investimentos e o acúmulo de capital que realizaram em pris-
cas eras, como pelo acúmulo de conhecimento através do de-
senvolvimento de pesquisas e inovações tecnológicas no pós-
-guerra.
Este padrão de consumidores de tecnologia e pesquisa, 
pelos países “periféricos”, “emergentes”, ficou mais ou menos 
estável até o final dos anos 1980, quando a divisão do mun-
do entre capitalistas pró Estados Unidos e os comunistas pró 
União Soviética era vigente. Contudo, três grandes impactos 
de proporções tectônicas mudaram a ordem política, a ordem 
econômica e a ordem tecnológica, alterando o panorama in-
ternacional de maneira significativamente profunda, segundo 
ZaKaria (2008).
O fim da União Soviética e a queda do muro de Berlim 
simbolizaram a mudança da ordempolítica, com o colapso de 
um modelo de sociedade dita “comunista”, que tinha no par-
tido único e na economia centralizada e planificada seu mote 
central, alterando a ordem mundial na qual a rivalidade entre 
Capítulo 7 Trabalho e Emprego no Mundo das Novas Tecnologias 151
o mundo capitalista e o mundo comunista passa a dar lugar à 
liberalização dos regimes autoritários, a difusão da democra-
cia liberal, tornando-se ponto de pauta principal na agenda 
internacional de países que até então viviam sob os auspícios 
da União Soviética, entre eles os países do leste europeu.
Na ordem econômica, intensificou-se a livre movimentação 
do capital e do dinheiro, agora não mais restrita aos países ca-
pitalistas, mas a todos aqueles que se aventurarem a ingressar 
nesta ordem “por livre e espontânea pressão”, dadas as novas 
circunstâncias econômicas, que não deixavam margem para o 
isolamento. Neste sentido, houve a difusão de bancos centrais 
independestes em diferentes países e um forte controle da in-
flação em países da América Latina como o Brasil e a Argenti-
na, por exemplo, que enfrentavam altos índices inflacionários. 
Certamente, o controle desta inflação possibilitou equilibrar 
estas economias, estabilizando-as politicamente. A Índia e a 
China, neste sentido, foram duas grandes nações dignas de 
nota na contribuição para a contenção da inflação mundial 
produzindo produtos de custo barato para o mundo ociden-
tal de maneira abundante. Atualmente, não se consegue mais 
comprar uma “lembrancinha” de nenhum país no mundo que 
não tenha um made in China. Até a loja oficial dos Beatles na 
Baker Street em Londres é made in China.
Junto a estas mudanças de ordem econômica e política, 
também a mudança tecnológica tornou este mundo mais 
conectado, interligado como uma “aldeia global”, como diz 
Friedman (2000), “o mundo é plano”. Desde as grandes na-
vegações, temos uma intensificação destes processos de inter-
conexão entre os povos sob a face da Terra. O desenvolvimen-
152 Sociedade e Contemporaneidade
to tecnológico das comunicações com o acesso aos telefones 
móveis, a banda larga dando acesso à rede internacional de 
computadores (internet), a TV digital, as viagens intercontinen-
tais mais rápidas, mais baratas e acessíveis, certamente, torna-
ram este mundo muito menor, “muito frequentado”.
Estas três ordens de mudanças deixaram o mundo mais 
aberto, é verdade, mais conectado e, portanto, mais exigen-
te, na medida em que permitiram pela instantaneidade e vi-
sibilidade dos acontecimentos mundiais a comparação entre 
países, regiões, pessoas e empresas, abrindo a competição in-
ternacional para muitos países, inclusive os ditos “países emer-
gentes”, como nós. É verdade, também, que esta conexão 
internacional alargou os mercados, diversificou os produtos, 
aumentou os concorrentes levando à destruição de muitos em-
pregos, inclusive redesenhando-os numa nova era econômica, 
que chamaremos aqui de “economia do conhecimento”, cujas 
fontes de riqueza não são mais os recursos naturais ou o tra-
balho físico dos séculos pretéritos, mas o conhecimento e a co-
municação (STEWART, 1998). Nesta nova economia, a disputa 
agora é pela posse, produção e distribuição do conhecimento 
em escala global.
Este, evidentemente, sempre foi um componente importante 
na história da evolução da humanidade. Desde a pré-história, 
na passagem do período da pedra lascada ao período da pe-
dra polida, no domínio manual de determinadas técnicas para 
o fabrico de instrumentos, avançando-se à revolução industrial 
inglesa, com a mecanização do trabalho, lá estava o conheci-
mento como mola propulsora dos avanços científicos e tecno-
lógicos. Contudo, nunca anteriormente visto, o conhecimento 
Capítulo 7 Trabalho e Emprego no Mundo das Novas Tecnologias 153
tomaria a centralidade que tem na contemporaneidade, por 
esta razão a denominação de economia do conhecimento.
Do acúmulo de ferramentas, máquinas, capital econômico, 
passamos à busca de acúmulo de conhecimento, de “capital 
intelectual” 2. Como argumenta Stewart (1998), a Volkswagen 
havia declarado nos anos 1990 que precisava de dois ter-
ços de seus funcionários para manter sua produtividade, e os 
empregos na indústria, nos EUA, caíram de 34% da força de 
trabalho em 1950 para 16% em 1996 e atualmente chegam 
a 12%.
É lugar-comum constatar que cada vez mais as empresas 
têm investido em tecnologias de ponta, substituindo trabalha-
dores, operários das linhas de montagens por robôs, compu-
tadores e equipamentos mais sofisticados. Se, por um lado, 
este fenômeno destruiu vários empregos, por outro, criou uma 
série de oportunidades para gerentes, projetistas, comercian-
tes e operadores. As empresas passaram a depender cada vez 
mais da produção do conhecimento, de patentes e pesquisas. 
Indústrias que transportam informações estão crescendo mais 
rápido do que aquelas que transportam mercadorias, o tráfe-
go internacional de telefone vem aumentando 16% ao ano e 
30% do tráfego da internet (STEWART, 1998).
Dentro desta perspectiva, há o surgimento das chamadas 
“indústrias culturais”, “indústrias criativas” que têm na explo-
ração da criatividade e do talento individual, capacidade para 
a criação de riqueza e trabalho. Entretanto, esta exploração 
2 Veremos no item seguinte a definição de “capital intelectual”.
154 Sociedade e Contemporaneidade
econômica diferencia-se daquela meramente industrial, por-
que passa obrigatoriamente pela devida apropriação dos di-
reitos de propriedade intelectual. Assim, um filme, um livro, 
um CD, um software podem ser agregadores expressivos de 
valores tanto quanto produtos clássicos como carros ou ele-
trodomésticos de um país ou região. Tudo isso num mundo 
em que as pessoas estão menos pobres e mais propensas ao 
consumo de massa.
Apesar das oportunidades que se abriram neste início de 
século, o professor Zakaria (2008), da Universidade de Har-
vard, tem apontado que a proporção de pessoas que vivem 
apenas com 1 dólar ou menos por dia no mundo despencou 
de 40% em 1981 para 18% em 2004, e estima-se que cairá a 
patamares de 15% de 2015 em diante. O fato é que a miséria 
está diminuindo em países que abrigam 80% da população 
mundial. Em 142 países, que incluem a China, Índia, Brasil, 
Rússia, Indonésia, Turquia, Quênia e África do Sul, as popula-
ções pobres estão sendo absorvidas por economias produtivas 
e crescentes. Este fenômeno está criando uma situação em 
que os países que outrora eram apenas observadores no ce-
nário internacional passam a ser agora atores protagonistas. 
Assim, complementa o autor, há evidências destas oportunida-
des quando verificamos que o edifício mais alto do mundo fica 
em Dubai e não em Nova York, o homem mais rico do mundo 
é um mexicano, o maior avião do mundo está sendo fabrica-
do na Ucrânia e na Rússia, a maior indústria cinematográfica 
do mundo (dentro da perspectiva da indústria criativa) não é 
Hollywood nos EUA, mas Bollywood na Índia.
Capítulo 7 Trabalho e Emprego no Mundo das Novas Tecnologias 155
Então, sinteticamente, para fecharmos este ponto, pode-
mos dizer que, passada a fase da economia de exploração no 
Brasil, com a exploração de nossos recursos naturais, tivemos 
uma relação de dependência com os produtos industrializados 
das nações centrais pela exportação de nossos produtos pri-
mários, constituindo-nos como uma economia agroexportado-
ra. Posteriormente, com o processo de industrialização no Bra-
sil, ou seja, quando o Brasil consegue tornar-se uma economia 
industrializada, passamos a ser dependentes do conhecimento 
dos países centrais capitalistas. Na contemporaneidade, com 
as principais economias do mundo constituindo-se como eco-
nomia do conhecimento, a disputa passa a ser agora pela 
produção e distribuiçãodeste conhecimento. Nós vivemos um 
delay no Brasil em relação a estas economias, mas precisamos 
e devemos nas próximas décadas recuperar esta distância, a 
fim de podermos avançar.
7.2 Empregabilidade na era da economia 
do conhecimento
Se estamos vivendo um processo de mudança para uma nova 
era da economia do conhecimento, evidentemente precisare-
mos repensar também o emprego nesta nova ordem das coi-
sas. Os especialistas têm provocado o debate dizendo que, 
atualmente, não podemos mais falar em “mão de obra do 
trabalhador”, mas em “cérebro de obra do trabalhador”, pois 
o mercado passa a exigir cada vez mais trabalhadores qua-
156 Sociedade e Contemporaneidade
lificados que usam, por sua vez, cada vez mais o cérebro e 
menos as mãos.
Há um aumento nos empregos que pagam bem aos tra-
balhadores do conhecimento, como cargos executivos, admi-
nistrativos, gerenciais e consultorias, ou seja, aqueles cargos 
que criam e agregam valor. Por outro lado, há uma queda no 
número de cargos de apoio administrativo, burocrático, aque-
les cargos que não criam valor e que podem ser facilmente 
substituídos por um bom software (STEWART, 1998). De fato, o 
“capital intelectual” passa a ser uma propriedade central nesta 
nova economia para aqueles que desejam ingressar, perma-
necer ou ascender neste novo ambiente. Mas o que é o capital 
intelectual? O capital intelectual aqui não é o capital como 
usualmente conhecemos, o capital material, capital financeiro.
Quando nós compramos uma empresa, por exemplo, de 
remédios, não estamos comprando propriamente o seu capi-
tal físico, seus pavilhões, escritórios, ferramentas, laboratórios, 
mas, sobretudo, estamos comprando seus talentos, capacida-
des e habilidades em produzir e fabricar remédios, segundo 
Stewart (1998). Dessa forma, o capital intelectual é o conheci-
mento existente em uma organização que pode ser usado para 
obter uma vantagem competitiva, o chamado conhecimento 
útil, a inteligência aplicada como um ativo para criar ou agre-
gar valor.
Se analisarmos a economia doméstica de uma pessoa de 
ensino superior completo, com um emprego estável para dar 
outro exemplo, veremos que provavelmente o grande percen-
tual de capital que esta pessoa possui não é o capital econô-
Capítulo 7 Trabalho e Emprego no Mundo das Novas Tecnologias 157
mico dela, seu carro (às vezes financiado) ou mesmo sua casa 
própria, mas possivelmente seu capital intelectual. Seis meses 
ou um ano de desemprego podem solapar o patrimônio de 
uma vida. Claro, este trabalhador gera ao mês quantias signi-
ficativas de valor através de seu salário. O maior patrimônio 
que alguém pode ter nesta nova economia é o seu capital 
intelectual, sua formação, é ele que gera valor e que, portan-
to, deve ser cuidado, fomentado, estimulado, ele se constitui 
em um ativo, em outras palavras, ele é um investimento, pois 
é gerador de renda e receita, ao contrário de uma casa ou 
carro, que, aliás, de maneira geral, são passivos, criadores de 
despesas3.
Se o sujeito investisse em um curso de pós-graduação ao 
invés de trocar de carro, a sua empregabilidade não só au-
mentaria, como seu salário, de acordo com pesquisas recen-
tes divulgadas pelos órgãos oficiais, aumentaria em cerca de 
101%. Com o salário dobrado, aí sim ele poderia desfrutar da 
compra de um carro melhor. Mas como o investimento não foi 
feito, o salário não vai dobrar e suas receitas tenderão a min-
guar, pois suas perspectivas de futuro serão, previsivelmente, 
aumento de despesas e diminuição de receitas.
3 É muito comum as pessoas acharem que casa e carro são investimentos, que são 
ativos. Ledo engano, não são. Eles só poderiam ser um ativo, ou seja, geradores 
de renda e receita, se a casa fosse de aluguel e o carro fosse um táxi, por exemplo. 
De fato, a casa para moradia e o carro da família são passivos, são geradores de 
despesas. Inclusive, a classe média no mundo é uma classe que adora, via de regra, 
quando recebe um aumento de salário, aumentar as suas despesas comprando um 
carro novo, comprando uma casa maior, quando não uma casa na praia, aumen-
tando suas despesas, diminuindo ainda mais suas receitas e comprometendo seu 
futuro.
158 Sociedade e Contemporaneidade
Na era da economia do conhecimento, portanto, a empre-
gabilidade vai passar necessariamente por investimentos em 
“ativos intelectuais”, cursos de graduação, cursos de extensão, 
pós-graduação, aprendizado de línguas etc. Todavia, dada a 
história recente do Brasil, que se constituiu ao longo do século 
passado em um país de base industrial, principalmente a partir 
da década 1970, com um crescimento econômico expressi-
vo, podemos constatar que os investimentos em formação não 
eram o mote principal daqueles trabalhadores, via de regra a 
mão de obra tinha baixa qualificação. O emprego passava tão 
somente pela ideia de treinamento, e a empregabilidade em 
uma organização era para toda a vida. Na década de 1980, 
foi a chamada “década perdida”, marcada pela estagnação 
da economia, planos econômicos e inflação galopante. O 
emprego dentro de uma empresa seguia a sequência de car-
gos. Temos, assim, as chamadas “carreiras organizacionais”. 
Segundo este conceito, estas carreiras seriam ligadas às gran-
des organizações, grandes empresas concebidas para revelar 
um único cenário de emprego, cujas características, segundo 
Veloso (2012), sintetizando autores especializados, seriam:
 Â ambiente estável e dinâmico;
 Â a economia é subordinada às grandes firmas que geram 
oportunidades de emprego;
 Â mudanças nas firmas geram mudanças de carreiras;
 Â há interdependência entre empresa e pessoa;
 Â as empresas oferecem carreiras para toda a vida;
Capítulo 7 Trabalho e Emprego no Mundo das Novas Tecnologias 159
 Â o empreendimento é uma opção e não um elemento 
necessário;
 Â os empregados são parte da organização;
 Â a carreira é predeterminada pela empresa e não pelo 
indivíduo.
Nos anos 1990, o avanço tecnológico, a necessidade de 
competitividade, a redução dos postos de trabalho e as priva-
tizações mudaram este panorama. A reengenharia, a terceiri-
zação, o downsizing4, fizeram com que o emprego passasse a 
ser representado por novas possibilidades e empregabilidade 
(VELOSO, 2012). Nos anos 2000, com a intensificação da 
globalização, um ambiente marcado por fusões, aquisições, 
responsabilidade social e ambiental, busca-se o alinhamento 
entre vida pessoal e profissional.
Nos anos 2010, tivemos um crescimento econômico no 
País que foi capaz de proporcionar uma relativa queda no 
desemprego e na desigualdade social no País, aliados a um 
aumento do crédito pessoal e imobiliário, o crescimento de 
pequenas e médias empresas jogaram água no moinho das 
novas “carreiras sem fronteiras”. Que carreira é essa? Carrei-
ras que vêm se constituindo a partir dos anos 1990 em diante. 
Segundo Veloso (2012), são carreiras que não têm a fronteira 
da organização como parâmetro, ou seja, o desenvolvimen-
to profissional não está ligado a somente uma organização, 
como era antes, portanto trabalhar pode não significar ter um 
4 É a racionalização da estrutura organizacional que implica a diminuição de ní-
veis hierárquicos e custos nas empresas.
160 Sociedade e Contemporaneidade
emprego fixo em uma empresa estruturada. Elas surgem não 
somente porque os trabalhadores mudaram, mas porque as 
próprias organizações passaram a necessitar de quadros pro-
fissionais mais flexíveis. Portanto, a história de uma pessoa que 
passa a maior parte da sua vida em uma única empresa vai ser 
cada vez mais rara na contemporaneidade, segundo a auto-
ra. Sintetizando autores consagrados, as características destas 
carreiras são:
 Â ter a pessoa como principal responsável pela carreira;
 Â apresentar condições de mobilidadepor meio de fron-
teiras organizacionais e valor do trabalho, independente 
do empregador;
 Â ser subsidiada por informações sobre o mercado de 
trabalho e redes de relacionamento (networks, capital 
social);
 Â reconhecer formas de progressão e de continuidade in-
dependente da hierarquia organizacional, bem como 
ser permeada pela conciliação entre necessidades pro-
fissionais, pessoais e familiares;
 Â ter condições de se organizar por meio do indivíduo e 
não somente mediante possibilidades oferecidas pela 
organização;
 Â reconhecer possibilidades de atuação em pequenos 
projetos;
 Â considerar a aprendizagem como fator para o desenvol-
vimento profissional e para a continuidade da carreira;
Capítulo 7 Trabalho e Emprego no Mundo das Novas Tecnologias 161
 Â ter a ação e participação não contratual como elemen-
tos essenciais ao seu desenvolvimento.
Como podemos ver, a ideia de estabilidade no emprego é 
substituída pela ideia de empregabilidade, em outras palavras, 
a pessoa perde a segurança de que vai estar empregada ama-
nhã naquela empresa, porém ganha com a possibilidade, não 
somente de estar empregada em duas ou mais organizações, 
mas também de ser facilmente empregada em outra organiza-
ção porque é ela mesma quem faz a gestão de sua carreira. 
Não se monitora mais o seu cargo hierárquico dentro da em-
presa (sua função), mas o grau de sua colaboração para levar 
adiante os projetos da organização. Nesta ordem das coisas, 
perde-se a ideia do salário, daquele ganho único e certo de 
uma determinada organização. Agora, as pessoas passam a 
ter renda, que se constitui na composição de ganhos, quer seja 
com consultoria, palestras, empregos por determinadas horas, 
semanas ou meses sazonais ou até mesmo a aposentadoria 
pública ou privada que se soma a esta renda (dada a amplia-
ção da expectativa de vida).
Neste tipo de carreira, torna-se imperativo a pessoa ser um 
empreendedor de sua própria vida profissional. Neste sentido, 
segundo Veloso (2012), devemos atentar para os ganhos que 
podem ter as pessoas e as organizações.
O que pode ganhar uma pessoa com esta modalidade de 
carreira:
 Â autonomia e auto-organização na composição de seus 
horários e dias de trabalho;
162 Sociedade e Contemporaneidade
 Â conhecimento acumulado em diferentes organizações;
 Â ganhos maiores na composição da renda final;
 Â tolerância, adaptabilidade, flexibilidade;
 Â status e respeitabilidade profissional são ampliadas;
 Â relacionamentos mais horizontalizados dentro das pró-
prias organizações.
O que pode ganhar uma organização com esta carreira:
 Â quadros mais qualificados, com experiências diversifica-
das;
 Â quadros mais motivados devido aos ganhos maiores;
 Â conhecimento, pois quando o indivíduo deixar a organi-
zação, parte do seu conhecimento ficará;
 Â experiência, pois ao se mover entre organizações, o in-
divíduo leva o benefício de sua experiência para outro 
cenário;
 Â economia na qualificação de quadros que muitas vezes 
já entram na organização altamente capitalizados.
Portanto, como podemos constatar, as “carreiras sem fron-
teiras” vieram como uma tendência tímida nos anos 1990, 
mas vêm se consolidando no contexto dessa nova economia 
do conhecimento. As perspectivas para 2020 são bastante oti-
mistas, especialistas têm apontado que o mercado consumidor 
brasileiro irá quase dobrar de tamanho, passando dos atuais 
2,2 trilhões para 3,5 trilhões de reais até o final da década, 
Capítulo 7 Trabalho e Emprego no Mundo das Novas Tecnologias 163
chegando o consumo no Brasil a 65% do PIB, numa clara ex-
pansão de renda do brasileiro das regiões metropolitanas em 
direção ao interior. Parte desta expansão pode ser explicada 
pelo fato de que o número de pessoas inativas (crianças e ido-
sos) tende a diminuir gradativamente, chegando em 2022 ao 
auge do chamado “bônus demográfico”, quando, de cada 10 
pessoas, 6 estarão no mercado de trabalho produzindo e con-
sumindo5. A classe média brasileira, que em 2002 correspon-
dia a 38% da população, hoje está em 53% e deve chegar a 
patamares em torno de 60% até 2022. Junto destas mudanças 
houve um aumento dos anos de escolarização, de 8 para 12 
anos de estudo, passando-se da escolarização de ensino fun-
damental completo para o ensino superior incompleto desta 
nova classe média, segundo dados da Secretaria de Assuntos 
Estratégicos (SAE), bem como o aumento na intensificação das 
viagens nacionais e internacionais. Assim, ao que tudo indica, 
haverá uma tendência no aprofundamento das “carreiras sem 
fronteiras”, em que os indivíduos passam a primar, agora com 
maior renda e escolarização, pela sua autorrealização e o su-
cesso psicológico e não mais meramente o sucesso externo, 
da “carreira pela carreira”6. Neste sentido, as “carreiras sem 
fronteiras” tenderão também a ultrapassar de forma mais visí-
vel as fronteiras não só organizacionais, mas também nacio-
nais, da empregabilidade continental e intercontinental.
5 Ver Revista Exame. Edição 1.022. Ano 46, n. 16, 22/8/2012.
6 Semelhante à “carreira sem fronteiras” existe a “carreira proteana”, que pres-
supõe também a autonomia das pessoas em relação à organização, a busca por 
empregabilidade e não estabilidade no trabalho e também desenvolvimento psi-
cológico.
164 Sociedade e Contemporaneidade
7.3 Planejamento e gestão de carreira – o 
profissional do século XXI
De posse da compreensão das características da economia do 
conhecimento, bem como das condições que dão empregabi-
lidade às pessoas neste novo contexto, passemos agora para 
o planejamento e a gestão propriamente ditos da sua carreira 
profissional. Partindo do pressuposto de que na “carreira sem 
fronteiras” a responsabilidade com a sua gestão e o planeja-
mento são das pessoas e não mais das organizações, teremos 
uma tarefa nova e dificultosa diante da tradição brasileira de 
ver as carreiras gestadas e planejadas somente pelas empre-
sas. 
Atualmente, é falsa a ideia de que há uma escolha em 
encontrar um bom emprego com uma carreira segura e linear 
ou trabalhar por conta própria tendo mais autonomia e liber-
dade para empreender. Na economia do conhecimento, todos 
trabalhamos por “conta própria” de forma autônoma e em-
preendedora7. Em outras palavras, o ato de empreender está 
intrinsecamente ligado às profissões do presente e vão estar no 
futuro próximo. O empreendedor aqui não é aquele dos anos 
1980, em que o sujeito resolve abrir seu próprio negócio e ele 
resolve abrir uma pousada na “Praia do Rosa” para ganhar di-
7 A não ser que você faça um concurso público em carreiras altamente estrutura-
das. Todavia, mesmo assim, é comum nesta opção profissional de carreira as pes-
soas estrategicamente optarem por fazer vários concursos até chegarem naquele 
desejado, havendo, assim, espaços bem claros de autonomia. Não é raro pessoas 
provenientes das forças policiais que se aposentam cedo, constituindo-se em con-
sultores na área de segurança, ou mesmo pilotos das forças armadas, passando 
para a iniciativa privada após a aposentadoria.
Capítulo 7 Trabalho e Emprego no Mundo das Novas Tecnologias 165
nheiro nos verões com os turistas. Não, o empreendedorismo 
de que estamos falando aqui é aquele que mobiliza recursos 
externos para crescer e alcançar seus objetivos, na esteira de 
Drucker, porém, voltados para sua carreira e não necessaria-
mente para “abrir uma empresa”. Imaginem que profissionais 
na área da saúde como enfermeiros, médicos, odontólogos, 
fisioterapeutas, que não tiverem nenhum traço empreendedor, 
não investirem em equipamentos, livros, revistas especializadas 
para se atualizarem ao longo de suas carreiras, vão ter que es-
perar que o Hospital, a Empresa, a Universidade, a Organiza-
ção o faça? Não! A carreira é sua nãoda empresa, lembram 
da “carreira sem fronteiras”?! Um turismólogo, um arquiteto, 
um urbanista vão ter que viajar por algumas das cidades mais 
importantes do mundo em virtude de suas formações e para se 
atualizarem. Viajar para eles é um investimento. Quem paga-
rá a viagem deles(as) a Paris, a Barcelona, a Buenos Aires? A 
empresa? Você confiaria o planejamento de sua viagem a um 
profissional da área do turismo que nunca viajou ali na esqui-
na? É preciso planejar e investir na sua carreira, é preciso ter 
uma estratégia de carreira.
7.3.1 Estratégia de carreira
Primeiramente, é preciso dizer que escolher um curso de nível 
superior não é necessariamente escolher uma carreira. Certo?! 
Há especialistas na área de RH que afirmam que a ordem 
correta seria escolher primeiro a carreira e só depois o curso. 
Por exemplo, eu posso escolher fazer uma carreira como cor-
retor de imóveis e fazer um curso de direito, ou mesmo fazer 
a carreira como gestor numa empresa de calçados ou metal 
166 Sociedade e Contemporaneidade
mecânica e ter feito engenharia, administração, contabilidade 
etc. Posso escolher fazer uma carreira no setor público e fazer 
uma graduação em gestão pública, mas também em medicina 
ou engenharia de trânsito. O curso escolhido não necessaria-
mente me coloca na carreira. Qual é a sua carreira?
Qualquer que seja a carreira escolhida será preciso que 
você saiba de antemão que o mercado de trabalho precisa e 
vai precisar cada vez mais de pessoas “qualificadas e inteligen-
tes”! Sim, mas vamos substituir estes dois clichês pelo conceito 
de competência. Em outras palavras, o mercado de trabalho 
precisa de pessoas competentes, pessoas capazes de serem 
“CHA”. Primeiro, que tenham Conhecimento, ou seja, que te-
nham “saber” apreendido na escolarização formal e informal, 
mas não necessariamente posto em prática. Segundo, que te-
nham Habilidade, que “saibam fazer”, que tenham experiên-
cia, que saibam, sobretudo, colocar em prática o conhecimen-
to. Terceiro, é a Atitude, é o “querer fazer”, a disposição que 
articula o conhecimento e a habilidade. Portanto, a “era do 
Coeficiente de Inteligência elevado”, da inteligência cognitiva, 
por si só, hoje em dia, não diz absolutamente mais nada.
Feito esta primeira e importante observação é necessário 
traçarmos um plano de ação para nossa carreira, uma estra-
tégia. A estratégia aqui é entendida como um conjunto de de-
cisões, e escolha de caminhos por meio dos quais as pessoas 
buscarão atingir seus objetivos, fundamentalmente, a estraté-
gia é tomar decisões pensadas (ROSA, 2011), é o seu plano. 
É a partir dela que será possível ampliar as possibilidades de 
seu êxito profissional.
Capítulo 7 Trabalho e Emprego no Mundo das Novas Tecnologias 167
7.3.2 Formulando sua estratégia
7.3.2.1 Objetivos
Primeiramente, a pessoa deve considerar o que quer. O objeti-
vo de fazer a gestão da sua carreira é conseguir sua realização 
pessoal, sua felicidade e o que isso significa na sociedade con-
temporânea, implicadas aqui as realizações de ordem material 
e imaterial.
7.3.2.2 Potencial – forças e fraquezas
Definida a etapa dos objetivos, o indivíduo deve avaliar suas 
potencialidades, isto são suas forças e fraquezas. Segundo 
Rosa (2011), a ideia de que todos podem é falsa, algumas 
pessoas terão uma enorme dificuldade para atuar em uma 
determinada área e outras mais facilidade. Assim, olhe-se com 
seus próprios olhos, conheça seus defeitos, suas qualidades, 
seus limites de talento, “inteligência” e motivações. Olhe-se 
com os olhos dos outros, veja o que eles pensam de você, qual 
é a imagem que você transmite, quais qualidades provocam 
admiração e quais causam rejeição? O senso comum diz, não 
me interessam o que os outros pensam de mim, interessa o 
que eu sou. Ledo engano, do ponto de vista social, “você é o 
que a sociedade diz que você é. A sociedade é Deus” dizia um 
grande sociólogo francês.
Quais são as suas forças? Você é disciplinado, estudioso, 
conciliador, articulado, “educado”? Quais são suas fraque-
zas? Você tem gostos inadequados, gosta de fazer piadas, faz 
comentários deselegantes sobre o comportamento dos outros 
ou tem explosões de raiva? Independente de quem quer que 
168 Sociedade e Contemporaneidade
você seja, peça sempre a opinião dos de “fora” sobre você, 
pare para refletir, faça terapia para se conhecer melhor.
7.3.2.3 Ambiente – oportunidades e ameaças
Segundo Rosa (2011), o mundo traz para cada pessoa um 
conjunto específico de oportunidades e ameaças. Nesse sen-
tido, a pessoa deve identificar os fatores positivos e negativos 
que estão à sua volta, desde as transformações no mundo do 
emprego e da tecnologia às demandas sociais. Assim, é preci-
so atentar-se para as forças econômicas que podem aumentar 
ou diminuir a renda de determinadas classes sociais, abrindo-
-se oportunidades de novos empregos ou mesmo ameaçando 
os já existentes, mudanças tecnológicas que podem melhorar 
o desempenho no trabalho ou levar a obsolescência de de-
terminada profissão. Também cumpre lembrar que é preciso 
atentar para o mercado específico que determinada categoria 
se refere, digamos o campo de atuação e as alterações deste.
Uma profissão importante hoje pode não ser amanhã. Um 
arquiteto que esteja numa área de mercado saturada, por 
exemplo, deverá procurar uma outra região, estado ou mesmo 
buscar alternativas de profissão no limite.
Uma empresa onde você trabalha ou quer trabalhar, tem 
futuro, vai crescer, há boas condições de ambiente de traba-
lho? Funções dentro das empresas podem ser tornar mais ou 
menos importantes dependendo do macroambiente, finanças, 
marketing, produção ou mesmo se extinguir (ROSA, 2011).
Como está a sua rede social (social network, seu capital 
social), a rede de pessoas com quem você se relaciona? De 
Capítulo 7 Trabalho e Emprego no Mundo das Novas Tecnologias 169
nada adianta aquele facebook, blog, twitter, que você despen-
de horas atualizando com fotos, frases e mensagens, se de 
nada ajudarão na hora de achar um emprego, ter indicação 
para alguma oportunidade, pois a “qualidade” das pessoas 
que você adiciona, que “te seguem”, não tem nenhum impac-
to sobre sua vida profissional, mesmo que tenha para sua vida 
pessoal. Cuidado com o desperdício de seu tempo e talento.
Abaixo, observe o Quadro Swot Pessoal para realizar a aná-
lise de potencial e análise ambiental, conforme Rosa (2011).
170 Sociedade e Contemporaneidade
Quadro Swot Pessoal
Análise do Pró-
prio Potencial
Forças (Strengths)
Características e situações 
pessoais que facilitarão a re-
alização dos objetivos de car-
reira.
Fraquezas (Weaknesses)
Características e situa-
ções pessoais que di-
ficultarão a realização 
dos objetivos de carrei-
ra.
Análise do Am-
biente. Situação 
atual e Tendên-
cias
Oportunidades (Opportunities)
Situações ou eventos do am-
biente (mercado) que facilita-
rão a realização dos objetivos 
de carreira.
Ameaças (Threats)
Situações ou eventos 
do ambiente (mercado) 
que dificultarão a reali-
zação dos objetivos de 
carreira.
Este quadro proporciona um exercício bem prático para 
o início da formulação de sua estratégia. Uma vez feito este 
exercício, passemos agora as dicas, observações e os retoques 
que ajudarão no desenho de sua carreira profissional.
7.3.3 Inteligência emocional e etiqueta 
profissional
Foram abundantemente divulgados nos últimos anos os con-
ceitos do psicólogo americano Daniel Goleman que diferen-
ciam a inteligência cognitiva, aquela inteligência baseada no 
saber de conteúdos, teorias, resolução de equações, daquela 
inteligência emocional ou social que está ligada à capacidade 
das pessoas saberem conviver com os outros, administraremseus conflitos. Pesquisas organizacionais destacaram que esta 
Capítulo 7 Trabalho e Emprego no Mundo das Novas Tecnologias 171
inteligência emocional teria mais peso para definir o sucesso 
profissional de um indivíduo do que a outra. Como dizem os 
especialistas em administração e psicologia, um funcionário 
pode ser treinado, ensinado cognitivamente, mas não com 
tanta facilidade consegue-se mudar comportamentos sociais, 
como um desvio de conduta, por exemplo.
Atualmente, torna-se extremamente importante saber ad-
ministrar as emoções, aquele profissional que quer ampliar seu 
potencial de crescimento na carreira terá necessariamente que 
se qualificar emocional e socialmente. Neste sentido, segundo 
Rosa (2011), há algumas emoções que derrubam e outras que 
promovem as pessoas nas organizações:
Emoções que promovem Emoções que derrubam
Amor
Alegria
Felicidade
Admiração
Coragem
Autoestima
Crença(em si mesmo, nas 
possibilidades)
Otimismo
Confiança (nas pessoas)
Tranquilidade
Bom Humor
Ódio
Tristeza
Infelicidade
Inveja
Medo
Autorrejeição
Descrença
Pessimismo
Desconfiança
Ansiedade
Mal Humor
De posse deste quadro você pode fazer também o exercício 
de mapear quais destas emoções (checando com você mes-
mo ou com a ajuda de pessoas próximas) são predominantes 
em sua atuação profissional. Uma vez identificadas podem 
172 Sociedade e Contemporaneidade
ser melhor trabalhadas para seu aperfeiçoamento emocional. 
Juntamente com a inteligência emocional está também a eti-
queta profissional. Etiqueta? Sim, aqui entendida como “um 
conjunto de regras criadas a fim de que a interação entre os 
seres humanos aconteça dentro de princípios que trazem o 
respeito mútuo”(LEÃO, 2005). Vamos lá?!
 Â Cumprimentos
Cumprimente todas as pessoas que passar pelo seu ca-
minho no trabalho, do segurança ao presidente da empresa. 
O cumprimento sempre deve partir da pessoa que tem a pri-
mazia. Mulher estende a mão para o homem, os mais velhos 
estendem a mão para os jovens, o superior hierárquico na 
empresa estende a mão para aquele mais baixo na hierarquia. 
Homens sempre se levantam para apertar a mão, mulheres 
podem ficar sentadas, bem como pessoas idosas. Mulheres 
só levantam para cumprimentar idosos ou autoridades (LEÃO, 
2005). Beijos não existem em ambientes profissionais formais.
 Â Conversação
Segundo Leão (2005), saber ouvir é a virtude das pessoas 
elegantes e inteligentes, fale, mas dê chance para os outros 
também falarem, pergunte sobre a pessoa, assim esta se sen-
tirá incluída e com interesse em você. Evite palavrões, gírias, 
fofocas, cuidado com piadas sobre etnias, religião, time de 
futebol, a chance de um escorregão é sempre iminente, bem 
como o tom e o volume de sua fala. Se tiver que atender a um 
chamado no celular peça licença para seu interlocutor, mas dê 
a preferência a quem está fisicamente com você.
Capítulo 7 Trabalho e Emprego no Mundo das Novas Tecnologias 173
Seus problemas pessoais, são pessoais, não profissionais! 
Jamais perca a noção exata da distância que deve haver entre 
seus superiores e você, em ambiente profissional temos cole-
gas, não necessariamente amigos. Isso vale para o ambiente 
acadêmico. Uma relação mais fraterna e menos formal sem-
pre deve partir do superior hierárquico.
 Â Convites
Todas as vezes que você receber um convite de alguém ou 
de uma organização agradeça, se for pedida a confirmação 
o faça o mais breve possível. Se não puder comparecer, não 
hesite em negar. Pior do que não ir é confirmar a presença e 
depois não comparecer. Se for seu líder, chefe, então...
A retribuição de um convite se faz com outro convite. Sem-
pre que for convidado a ir a casa de alguém pela primeira vez 
leve um presente, é absolutamente elegante. Quando convi-
dar alguém para sair a regra é: “quem convida dá banquete”, 
pague a conta! A não ser que combinem ir juntos ao local ou 
estejam em horário de almoço na empresa. Nestas circunstân-
cias, pagar a conta de um colega, por exemplo, de trabalho, 
pode parecer presunçoso.
 Â Roupas
O ambiente, bem como a atividade que vamos desenvolver 
sempre é determinante das roupas que vamos usar. Evidente-
mente, se você trabalha numa loja como uma SurfShop sua 
roupa será completamente diferente daquela se você traba-
lhasse em uma loja clássica que vende roupas masculinas for-
mais, quer seja o gerente ou vendedor. Observe o seu ambien-
174 Sociedade e Contemporaneidade
te de trabalho, observe como seus colegas se vestem. Cuidado 
para não usar a roupa para expressar-se, por mais difícil que 
seja, isso pode ser feito nas horas vagas, no ambiente de tra-
balho o que conta é a discrição e adequação (ROSA, 2011). 
Por quê? Porque você está representando muitas vezes a orga-
nização, seus colegas e não a você mesmo.
 Â Facebook, Twitter, e-mails, blogs etc. (Redes Sociais)
Atualmente, com as novas tecnologias, há um nível de 
exposição dos indivíduos jamais visto na história recente da 
humanidade. Vivemos uma perda de privacidade, ao mesmo 
tempo em que somos chamados e compelidos a refletirmos 
eticamente sobre nossos comportamentos que se tornaram 
cada vez mais públicos, por sua vez. Assim, sua imagem está 
diretamente relacionada com aquilo que você posta, tecla, fo-
tografa, segue etc. Ao colocar em seu currículo acadêmico, 
em sua netaula, uma foto sua na praia em trajes de banho 
tomando uma cerveja com amigos, você está querendo co-
municar exatamente o quê? Que imagem? De um estudante 
de matemática, de marketing, de engenharia de trânsito, de 
tecnologia da informação, disciplinado, organizado? A foto 
não está indicando isso. Certas fotos devem ser guardadas 
para a intimidade.
Se tiver um Facebook, ele deve ser construído de tal ma-
neira que sua mãe, sua mulher, seu marido e ou mesmo seu 
superior hierárquico possam olhá-lo a qualquer momento e 
não cause espanto algum. Hoje em dia, as empresas vascu-
lham sempre as redes sociais antes da contratação de qual-
quer pessoa. Seus e-mails em ambientes acadêmicos e profis-
Capítulo 7 Trabalho e Emprego no Mundo das Novas Tecnologias 175
sionais devem conter assinatura, credenciais e cuidados com o 
português. Sempre iniciando com Caro, Prezado(a), Senhor(a), 
Estimado(a), pode ser finalizado com Atenciosamente, Cordial-
mente, Obrigado, Abraço etc. Não encha a caixa de e-mail 
dos seus colegas com “correntes da sorte”, poesias de gosto 
duvidoso com Power Points que saltam na tela com musiqui-
nhas de igual teor. Quando você precisar realmente de uma 
ajuda ou da solidariedade destes colegas, não será levado a 
sério. Inclusive, a partir de certo momento, as pessoas come-
çarão a deletar você, sem sequer abrir seu e-mail. Para fina-
lizar este capítulo, mas não a discussão do “Trabalho e Em-
prego no Mundo das Novas Tecnologias”, queremos salientar 
que este capítulo teve tão somente a ideia de provocá-lo para 
entrar nesta interessante e imprescindível discussão sobre você 
e seu futuro profissional!
Recapitulando
O capítulo tratou sobre o trabalho e o emprego no mundo 
das novas tecnologias. Neste sentido, demonstrou que nós 
transitamos de uma economia de exploração lá em nossos 
primórdios da colonização portuguesa para outras formas de 
economia até chegarmos à economia do conhecimento, cuja 
exigência, de trabalho e emprego, é completamente diferente 
na contemporaneidade. 
Nesta nova economia, o conhecimento e a informação 
(capital intelectual) são fundamentais para podermos ter em-
pregabilidade. O emprego passa a ser além de temporário, 
176 Sociedade e Contemporaneidade
não mais para a vida toda, também “sem fronteiras”. Este 
novo “trabalhador” não faz mais uma “carreira organizacio-
nal”, subindo postos dentro da empresa na qual trabalha, mas 
exercendo atividadespara além das fronteiras da organiza-
ção, ou seja, fazendo uma “carreira sem fronteiras”. Este novo 
trabalhador terá de ser, acima de tudo, um empreendedor na 
sua profissão, investindo na sua formação permanente, plane-
jando sua carreira, que exigirá para além de uma inteligência 
cognitiva, uma inteligência emocional.
Referências
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do século XXI. 3. ed. Lisboa: Actual, 2006.
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RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro. A formação e o sentido 
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STEWART, Thomas A. Capital intelectual. A nova vantagem 
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sição profissional no Brasil. São Paulo: Atlas, 2012.
ZAKARIA, Fareed. O mundo pós-americano. São Paulo: 
Companhia das Letras, 2008.
Atividades
 1) De acordo com o texto, o Brasil passou pela transição en-
tre vários modelos de economia, entre eles, a economia 
baseada nas extrações do pau-brasil nas costas litorâneas 
com a utilização da mão de obra indígena no início da 
colonização. Posteriormente, no século XX, com êxodo ru-
ral expressivo de agricultores para os centros urbanos, a 
expansão da mão de obra assalariada, a criação do salá-
rio mínimo, da carteira de trabalho e de toda a legislação 
trabalhista moderna edificada a partir da Era Vargas, o 
país teve outro modelo de economia. São respectivamente 
dois modelos descritos acima:
a) Economia agroexportadora e industrial.
b) Economia de exploração e industrial.
c) Economia do Conhecimento e industrial.
d) Economia de exploração e agroexportadora.
e) Economia de exportação e agroexportação.
 2) Com base neste capítulo, as fontes de riqueza, no Brasil 
contemporâneo, não são mais os recursos naturais ou o 
178 Sociedade e Contemporaneidade
trabalho físico dos séculos pretéritos, mas o conhecimento 
e a comunicação, o capital intelectual. Nessa nova econo-
mia, a disputa, agora, é:
a) Pela posse, produção e distribuição de bens agrícolas 
em escala global.
b) Pela posse, produção e distribuição de mercadorias 
em escala global.
c) Pela posse, produção e distribuição de commodities 
em escala global.
d) Pela posse, produção e distribuição do conhecimento 
em escala global.
e) Pela posse, produção e distribuição de bens duráveis 
em escala global.
 3) De acordo com o texto, as emoções que derrubam qual-
quer um no ambiente profissional são:
a) Amor - Alegria - Felicidade.
b) Admiração - Coragem - Autoestima.
c) Ódio - Tristeza - Infelicidade.
d) Ódio - Tristeza - Amor.
e) Desconfiança - Ansiedade - Bom humor
 4) De acordo com o que foi lido neste capítulo, o uso das 
novas tecnologias nos permite:
a) Uma sempre completa e segura privacidade.
Capítulo 7 Trabalho e Emprego no Mundo das Novas Tecnologias 179
b) Uma não exposição de nossas vidas.
c) Um anonimato completo daquilo que postamos e se-
guimos.
d) Uma completa privacidade e não exposição de nossas 
vidas.
e) Uma exposição jamais vista dos indivíduos e uma 
completa perda de privacidade que nos obriga a pen-
sarmos eticamente sobre aquilo que postamos e segui-
mos.
 5) De acordo com este capítulo, o empreendedorismo pode 
ser visto como:
a) O ato de empreender um negócio, uma empresa ou 
um comércio.
b) O ato de empreender um negócio, um comércio ou 
uma loja.
c) O ato de mobilizar recursos externos para crescer e 
alcançar seus objetivos na carreira.
d) O ato de mobilizar recursos externos para crescer e 
alcançar objetivos para sua empresa.
e) O ato de empreender um pequeno negócio comercial 
ou industrial.
Rodrigo Perla Martins1
Capítulo 8
O Brasil no Cenário 
Internacional da 
Contemporaneidade1
O Brasil no Cenário Internacional...
1 Professor de História, Doutor em História pela PUCRS e Mestre em Ciência Polí-
tica pela UFRGS.
Capítulo 8 O Brasil no Cenário Internacional... 181
Introdução
O ano 2000 chegou para o Brasil como um misto de espe-
rança e preocupação. A desvalorização da moeda – um ano 
antes – a inserção externa brasileira, a desigualdade social e 
um número expressivo de pobres fazia com que o cenário na-
cional não fosse o que se almejava.
Desde a década de 50 se tinha a percepção que o Brasil 
seria “o país do futuro”. Mas no princípio do novo século pa-
recia que o futuro tinha chegado, mas não ao Brasil... Pelo 
menos era isso que se percebia no país, já que havia incer-
tezas econômicas, reformas sociais reprimidas e faltava – de 
uma maneira geral – mais protagonismo externo para o país 
inserir-se de maneira mais altiva no cenário internacional. Isto 
é, não aceitando imposições políticas e econômicas sem ne-
nhum tipo de crítica e proposição.
Apesar disso, lentamente, o país tinha iniciado uma gui-
nada em suas opções externas de inserção internacional, bem 
como iniciou uma reorganização interna (política, econômica 
e social) forte. Politicamente falando, novos agentes atuavam 
no cenário nacional tentando construir uma agenda onde seus 
interesses estivem contemplados em uma democracia relativa-
mente consolidada. Economicamente, o Plano Real passava 
por uma reorganização importante e, de uma certa maneira, 
demandada pela população. E socialmente, políticas públicas 
importantes que buscavam uma inclusão e que respondiam a 
anseios historicamente devidos à maioria dos brasileiros.
182 Sociedade e Contemporaneidade
A articulação entre o cenário interno e externo foi o que 
diferenciou o país a partir dos anos 2000. Isto é, as ques-
tões internas refletiram no cenário internacional e vice-versa. 
Não que isso seja uma novidade na história do país, mas sim, 
parece que um certo protagonismo externo em suas posições 
políticas muitas vezes carregaram consigo as opções internas 
no campo social, político e econômico.
Especificamente na questão social e política interna a 
Constituição de 88 pode ser considerada um marco histórico. 
Conforme José Murilo de Carvalho, a consolidação democrá-
tica aconteceu na Carta de 1988. Nela, grupos sociais (Sem 
Terras, Negros, Índios e excluídos em geral) conquistaram o 
direito de ocupar a agenda pública com suas demandas so-
ciais. Apesar disso, muitas medidas necessitavam ser tiradas 
do papel de maneira objetiva. Isto é, transformar o texto cons-
titucional em políticas públicas de qualidade.
Desse conjunto de expectativas, desejos e consolidações 
sociais, como o Brasil articulou, no período histórico, entre o 
ano 2000 e 2014, as questões internas e de inserção externa 
necessárias no cenário internacional? Para essa pergunta ire-
mos elencar, a seguir, dois momentos que dividimos em ques-
tões internas e externas. Isto é, apontaremos questões brasi-
leiras do período que se articulam à questão externa. Isto é, 
como o país inseriu-se no cenário internacional a partir de 
decisões de cunho interno que influenciaram no cenário inter-
nacional.
Capítulo 8 O Brasil no Cenário Internacional... 183
8.1 Brasil – questões internas
Internamente o país também sofreu mudanças interessantes. 
Primeiramente o debate de ideias - que influenciaram grupos 
progressistas mundialmente – no I Fórum Social Mundial (FSM) 
que aconteceu na cidade de Porto Alegre – no Rio Grande do 
Sul - no verão de 2001. O mesmo discutiu e refletiu sobre “um 
outro mundo possível”. Esse encontro percorreu diversas cida-
des do mundo – derivandomuitas vezes em fóruns temáticos 
– e enfrentando debates e políticas com ideias de contracor-
rente. De alguma forma a sociedade organizada brasileira foi 
propositiva e não somente reativa em relação ao debate sobre 
o capitalismo mundial.
Do ponto de vista eleitoral, podemos afirmar que a corre-
lação de forças políticas na sociedade brasileira alterou-se e, 
a eleição presidencial de 2002, definiu – de alguma forma – a 
mudança do grupo político no poder. Luiz Inácio Lula da Silva 
assumiu a presidência da República e com ele houve conti-
nuidades e alterações de opções que fizeram com que o país 
se apresentasse ao mundo de maneira diferente – inclusive 
propondo alternativas a impasses diplomáticos, servindo de 
exemplo para construção de políticas de combate à fome e à 
pobreza no mundo.
As correções de rumo que a moeda (Real) sofreu serviram 
de base para até mesmo as reformas sociais que aconteceram 
no período. Isso, de alguma forma, é a evidência de continui-
dade possível entre o período FHC e Lula. A desvalorização de 
1999 e os ajustes de rota de 2000 até 2005 fizeram com que 
184 Sociedade e Contemporaneidade
o país conseguisse manter inflação baixa e contas públicas 
organizadas.
Socialmente as políticas públicas, a partir de 2000, imple-
mentadas atenderam demandas históricas de grande parte da 
população mais carente do país. Fome Zero (depois substi-
tuído pelo programa de renda “Bolsa Família”), Lei 10639, 
PROUNI, FIES, Minha Casa – Minha Vida, REUNI, Ciências 
sem Fronteiras. Pretendemos aqui mostrar as possíveis conti-
nuidades de tais políticas. As mesmas podem ter mudado de 
nome ao longo do processo e até mesmo terem alterado seus 
conteúdos. Mas a perspectiva aqui colocada tem como base a 
necessidade de políticas públicas e não se a mesma foi criada 
por este ou por aquele governo. Assim, os programas e políti-
cas públicas, de uma maneira geral, atenderam as demandas 
dos movimentos sociais organizados e também a população 
que necessita das mesmas demandas, mas sem uma organi-
zação direta.
Se pegarmos o exemplo da questão étnico-racial no Brasil 
(especificamente a questão negra), a partir da lei 10639/2003, 
veremos que à Secretaria de Políticas Públicas de Promoção da 
Igualdade Racial (SEPPIR), criada em março de 2003, “com-
pete assessorar direta e imediatamente o Presidente da Repú-
blica na formulação, coordenação e articulação de políticas e 
diretrizes para a promoção da igualdade racial [...]”. A partir 
daí propõe uma forma de tratamento para a questão racial no 
cotidiano escolar ao estabelecer “novas diretrizes e recomen-
dar práticas pedagógicas que reconheçam a importância dos 
africanos e afro-brasileiros no processo de formação nacio-
nal”.
Capítulo 8 O Brasil no Cenário Internacional... 185
O PROUNI, data do ano de 2005 e financia integralmente 
as vagas aos estudantes ou 50% do curso em instituições pri-
vadas de ensino superior no Brasil (MEC – site: prouniportal.
mec.gov.br). Criado no primeiro governo de Luiz Inácio Lula 
da Silva, o programa trabalha nos parâmetros da renúncia 
fiscal por parte do Estado para financiar o custeio das vagas 
compradas nas instituições de ensino superior. As instituições 
de ensino recebem isenção de impostos. Esta compra de va-
gas pelo Estado colaborou sobremaneira para o maior acesso 
ao ensino superior por parte da população de baixa renda. 
Estima-se que passados 10 anos de implementação do pro-
grama, mais de 1 milhão de egressos tenham sido formados 
nas IES privadas e comunitárias em todo Brasil.
Este programa atende a população jovem e universitária 
que estava fora do ensino superior. O FIES atende aqueles que 
acessam o ensino privado superior e recebem um financia-
mento do Estado brasileiro. Com carência e pagamentos com 
juro baixo, o programa sofre ajustes constantes e atinge boa 
parte da população excluída dessa etapa de ensino.
Até o início do ano 2000, o Brasil tinha menos alunos que 
o Paraguai – em números relativos – no quesito ocupação do 
ensino superior. De uma maneira geral, é somente depois do 
PROUNI – em um primeiro momento – e do FIES (a partir de 
2010) que o Brasil consegue aproximar e até mesmo superar 
aquele país (MEC – site: prouniportal.mec.gov.br).
Já o FIES (Fundo de Financiamento Estudantil) é um pro-
grama também do MEC que tem como objetivo financiar a 
graduação no ensino superior em instituições privadas e co-
186 Sociedade e Contemporaneidade
munitárias. Por sua vez, o mesmo tem taxas atraentes para 
os alunos. Com pagamentos simbólicos trimestrais e carência 
de 18 meses para começar a pagar depois do fim do curso. 
Sendo que o pagamento do mesmo será feito em três vezes o 
tempo financiado do curso acrescido de 12 meses (MEC – site: 
sisfiesportal.mec.gov.br). De maneira específica os cursos de 
licenciatura ainda tem mais uma vantagem. Esta versa sobre o 
abatimento de 1% do total devido caso seja professor em rede 
pública com no mínimo 20 horas de contrato (MEC – site: sis-
fiesportal.mec.gov.br).
O crescimento da rede federal pública de ensino superior 
contribuiu de maneira determinante para alcançar a meta de 
estudantes brasileiros no ensino superior. Rapidamente pode-
mos citar o caso do REUNI (Programa de Apoio a Planos de 
Reestruturação e Expansão das Universidades Federais) nas IES 
públicas federais, a criação dos cursos tecnólogos em todas 
IES (públicas, privadas e comunitárias) e a disseminação dos 
cursos à distância que fizeram crescer a oferta de ensino supe-
rior no país.
O aumento de estudantes na educação superior foi resul-
tado direto das políticas criadas. Dois programas proporciona-
ram isso na questão do acesso de cidadãos ao ensino superior 
privado, assim como o aumento de vagas públicas no sistema 
federal de ensino a partir da construção de institutos federais 
de ensino e até mesmo da criação de novas universidades pú-
blicas federais.
Politicamente as continuidades entre o governo de Fer-
nando Henrique Cardoso e Lula – em um primeiro momen-
Capítulo 8 O Brasil no Cenário Internacional... 187
to consolidou a democracia. Isso porque muitas ações foram 
mantidas, outras alteradas e novas propostas. Estas últimas de 
cunho social que foram bem recebidas no planeta. O exem-
plo do Bolsa Família até hoje recebe premiações pelo mundo, 
bem como é copiado por diversos países – até mesmo euro-
peus. Inclusive teve ampliação a partir de 2009 para combater 
a crise econômica internacional. Em 2009 chegou-se a 12,4 
milhões de famílias que acessavam tal política.
Em 2015 o Brasil saiu do mapa da fome no mundo, con-
forme a ONU. E o programa Bolsa família teve papel prepon-
derante nesta conquista da sociedade brasileira.
8.2 Brasil – Questões externas
No sistema internacional, o Brasil se colocou como fornecedor 
de matérias-primas importantes para parceiros políticos e até 
mesmo antigos mercados externos. Apesar do volumoso tama-
nho de recursos financeiros que o Brasil prospectou com essa 
venda, ainda se faz necessário uma política industrial coerente 
e consolidada para que o perfil econômico brasileiro mude de 
fato.
As commodities vendidas, ao longo do período aqui estu-
dado, estavam valorizadas comercialmente e o Brasil aprovei-
tou o momento. Os preços das mesmas eram altos e a deman-
da pelos produtos também.
Os Jogos Pan Americanos no Rio em 2007, a Copa do 
Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2015 “trouxeram” o mun-
188 Sociedade e Contemporaneidade
do ao Brasil e, este, aos olhos do mundo. Dentro de um cir-
cuito de eventos estrangeiros, o país consolidou posição de 
importância entre os países que podem receber esse tipo de 
evento. Apesar de manifestações democráticas discutindo a 
validade dos mesmos em um país ainda com muitas carências.
Temos ainda a questão do descobrimentodo pré-sal e de 
sua importância econômica para o Brasil. Apesar da desvalori-
zação do preço de mercado do produto, a reserva encontrada 
abre possibilidades de futuro para o Brasil na autossuficiência 
do produto na questão interna e uma certa independência ex-
terna.
A aproximação do Brasil com os países do sul do mundo 
– sem deixar de atentar para as relações com o norte – fez 
com que o país mudasse suas relações políticas, comerciais e 
estratégicas na inserção internacional. As empresas brasileiras 
foram estimuladas a exportar para mercados abertos por essa 
nova inserção externa. O Brasil forneceu mercadorias para 
África e Ásia. Estimulou contatos a partir de pontos convergen-
tes com países estrategicamente interessantes (Rússia, Índia, 
China e África do Sul). Não teve preconceito em relação à 
aproximação com países fora do eixo ocidental. Muitas vezes 
financiando obras onde as empresas brasileiras foram deman-
dadas a atuar, gerando emprego e renda no Brasil. Além dis-
so, conseguiu uma inserção externa – politicamente falando 
– que não se tinha registro em tempos atuais. Um aumento 
significativo de embaixadas (na África, principalmente) que fi-
zeram com que o Brasil aumentasse seu peso no cenário in-
ternacional. Isso sem contar as inúmeras viagens presidenciais 
aos países parceiros. Dentre as tantas aberturas de janelas de 
Capítulo 8 O Brasil no Cenário Internacional... 189
oportunidade para o país, essa atuação trouxe também mer-
cados externos de consumo de produtos brasileiros.
Essa questão até trouxe novamente a demanda de ocupar 
um cargo no Conselho de Segurança da ONU (demanda bra-
sileira ainda da década de 90) e com isso, propor um reforma 
não só deste Conselho, mas também da ONU como um todo. 
Também na questão internacional, o Brasil atuou em fóruns ex-
ternos tentando liderar discussões que colocaram o país com 
perfil de liderança no cenário externo exercendo um grande 
protagonismo. Essa liderança construída trouxe demandas 
maiores no cenário internacional. Até mesmo mediações em 
conflitos em regiões que o Brasil tinha pouca influência.
A proposição de grupos diplomáticos paralelos aos exis-
tentes fez do Brasil uma liderança internacional de grande 
respeito por parte de seus pares. A figura do presidente Lula 
era respeitada por líderes internacionais. E contíguo a isso, as 
políticas sociais brasileiras ficaram conhecidas pelos impactos 
na realidade nacional, mas também através de discursos pre-
sidenciais em fóruns internacionais, onde as mesmas foram 
copiadas e adaptadas em outros países.
Além disso, pelo lado político da inserção externa, o Brasil 
propôs articulações entre países que ficavam à beira de deci-
sões internacionais. E a partir de então eram até mesmo ouvi-
dos e propositivos. Os casos do G20 e dos BRICS são exemplo 
desta atuação brasileira. O século XXI chegou ao Brasil, mas 
o país também alterou seu perfil interno e externo e, assim, 
conseguiu influenciar decisões em fóruns externos de grande 
importância no sistema internacional.
190 Sociedade e Contemporaneidade
Os programas de envio de alunos brasileiros para o ex-
terior (Ciências sem Fronteiras) e a chegada de estrangeiros 
nos intercâmbios colocaram o Brasil no cenário internacional 
de mobilidade acadêmica. As trocas entre ida de alunos bra-
sileiros para universidades estrangeiras e a cooperação com 
outros países a partir da chegada ao Brasil de alunos estran-
geiros (principalmente na colaboração com países africanos 
ao receber estudantes deste continente – onde até mesmo 
universidades foram criadas com auxílio do Brasil), proporcio-
naram uma abertura do país para o mundo. A diversidade 
interna foi reforçada e o Brasil, assim, pode afirmar que está 
conectado ao mundo nessas vagas de cooperação científica 
internacional.
Isso sem falar na chegada de trabalhadores estrangeiros 
para morar no Brasil. Refugiados e migrantes do mundo, bem 
como trabalhadores da Europa e dos EUA, que aportaram no 
Brasil, atraídos pelas grandes obras e pelo crescimento econô-
mico dos últimos anos e até mesmo, fugindo de crises de todas 
ordens em seus países.
O início do século XXI trouxe ainda a reaproximação do 
Brasil com o continente africano. A eleição do primeiro presi-
dente operário, no Brasil, também trouxe retomadas e inova-
ções nesta relação. A partir de um padrão de conduta externa 
– construído desde 1960 – passando por relações low profile 
ente 1990 e 2002 – o Brasil procurou reconstruir as relações 
com o continente em um novo patamar.
Ao contrário da década de 70 que o discurso da africa-
nidade era somente para estabelecer relações econômicas 
Capítulo 8 O Brasil no Cenário Internacional... 191
e comerciais, a política externa brasileira do governo Lula 
(2003-2010) buscava apresentar o Brasil como um parceiro 
para estabelecer relações com base na dívida histórica que o 
Brasil tem com a população afrodescendente nativa e com a 
África de uma maneira geral, além, é claro, da perspectiva de 
colaboração acima de questões ideológicas ou diretamente 
econômica.
Não somente o pragmatismo dos anos 1970 se fazia pre-
sente nos contatos com o continente, mas também e principal-
mente pelas novas concepções nesta aproximação. Se antes 
o continente era visto somente como mero fornecedor de ma-
térias-primas e consumidor de manufaturados, agora, a pro-
posta brasileira era: “vamos juntos buscar o desenvolvimento 
em todos níveis”. Tanto é que esta reaproximação tinha base 
social ampla na sociedade brasileira e propunha uma agenda 
envolvente que tratava de diversas questões importantes para 
sociedades do continente africano e do Brasil.
Neste governo o mote foi a abertura de embaixadas e con-
sulados ao longo do continente, sendo que a dita diplomacia 
presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva pode ter sido deter-
minante para a aproximação Brasil-África neste momento. As 
parcerias econômicas, retomada de contatos e abertura de 
mercados para produtos brasileiros e presença comercial de 
empresas privadas do Brasil proporcionaram um estreitamento 
de relações.
Pelo lado científico, podemos dizer que houve um incenti-
vo, por parte do Brasil, de viagens e intercâmbio de estudantes 
africanos para universidades brasileiras. Cabe ressaltar, tam-
192 Sociedade e Contemporaneidade
bém, a criação de laboratórios para produção de remédios na 
África no combate à AIDS.
Empresas estatais brasileiras também se instalaram no con-
tinente para capacitação agrícola como no caso da EMBRAPA 
(Empresa brasileira de pesquisa agropecuária) e até mesmo o 
SEBRAE (Serviço brasileiro de apoio a micro e pequenas em-
presas) atuando como capacitadores de mão de obra na Áfri-
ca, entre outras ações dos Ministérios da Educação, da Cultura 
e da Ciência e Tecnologia que estabelecem vários programas 
de cooperação.
Por último, cabe lembrar do bloco econômico e político 
que inclui Brasil e um país africano, no caso específico, a Áfri-
ca do sul, a partir do BRICS. O mesmo nasceu de maneira 
informal a partir de atuação com agenda comum em foros in-
ternacionais. Esta agenda externa comum que inclui questões 
comerciais, políticas e econômicas (dentre outras) permitiu a 
criação deste grupo que atua junto em demandas específicas 
no sistema internacional dominado por potências econômicas.
Como finalização, podemos apontar que o futuro do Brasil 
foi construído a partir da década de 90 – quando as questões 
econômicas começaram a ser resolvidas e depois nos anos 
2000 quando a questão social e democrática foi consolidada.
As articulações que podemos apontar entre cenário interno e 
externo ou então a base do protagonismo brasileiro no exte-
rior foi resultado das mudanças que ocorreram ao longo do 
ano 2000, principalmente no que tange às políticaspúblicas 
objetivadas.
Capítulo 8 O Brasil no Cenário Internacional... 193
Apesar de tudo, o Brasil continua sendo uma sociedade 
com desigualdades sociais extremas, com níveis de pobreza 
inaceitáveis (alguns números falam em 20 milhões de brasilei-
ros que ainda não acessaram as políticas públicas vigentes). 
Enfim, uma realidade inaceitável e o enfrentamento em seu 
início.
Se na década de 50 o Brasil era o país do futuro, parece 
que entre os anos 2000 e 2014 o futuro chegou. E esta maio-
ridade trouxe muita responsabilidade para toda a nação.
Recapitulando
Vimos no texto que a primeira década do século XXI, no Brasil, 
foi marcada por desafios e avanços, bem como esperanças e 
algumas mudanças em questões sociais clássicas no país. Ao 
longo do século passado buscamos avanços de ordem econô-
mica que resultariam em alterações sociais. O ano de 1988 
é a chave para entendermos as mudanças que construímos 
enquanto nação. A constituição cidadã foi projetada como um 
instrumento indicador de mudanças. Mas isso não foi possível 
em um primeiro momento, já que as mesmas não surgem de 
maneira mágica. A partir do Fórum Social Mundial se refletiu 
a respeito daquilo que se queria construir socialmente para a 
maioria da população. Obviamente que o Brasil não é, nem 
nunca foi uma ilha. Assim, suas opções políticas sempre esti-
veram articuladas a questões externas importantes para a rea-
lidade brasileira.
194 Sociedade e Contemporaneidade
Parece que a chegada de Lula ao poder, em 2003, colocou 
em prática algumas demandas há muito exigidas pela cidada-
nia como um todo. Foi possível colocar uma certa agenda so-
cial em primeiro plano da política nacional até 2010. Diversas 
políticas públicas (Bolsa Família, Cotas raciais, PROUNI, FIES, 
Minha Casa - Minha Vida etc.) foram executadas bem como a 
economia interna do país foi dinamizada a partir de uma maior 
ação do Estado. Dessa forma, em torno de 40 milhões de pes-
soas foram incluídas ao mercado de consumo, ao sonho da 
casa própria e ao ensino superior. Assim como questões raciais 
foram colocadas em evidência no país a partir das Cotas Racias 
no ensino público. Pelo lado externo, um maior protagonismo 
do país acelerou contatos com países de mesmo perfil e arti-
culou medidas de cunho integrador. A África foi um dos alvos 
na perspectiva externa de inserção brasileira e de integração. 
Se iniciamos o século com certo ceticismo, penso que chega-
mos ao final da primeira década com um perfil diferenciado 
do país.
Referências
CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil: o longo 
caminho. Rio de Janeiro: Ed. Record, 2015.
CERVO, Amado L. Inserção Internacional. Formação dos 
conceitos brasileiros. São Paulo: Saraiva, 2008.
GRABOWSKI, Gabriel. Políticas públicas, Estado e socieda-
de. In: MARTINS, Rodrigo Perla e MACHADO, Carlos R. S. 
Capítulo 8 O Brasil no Cenário Internacional... 195
Identidades, Movimentos e Conceitos: Fundamentos para 
realidade brasileira. Novo Hamburgo: Ed. Feevale, 2013.
VIZENTINI, Paulo G. F. Política externa brasileira: De Vargas 
a Lula. São Paulo: Perseu Abramo, 2003.
Atividades
Marque a alternativa conforme solicitado.
 1) Qual o lema do Fórum Social Mundial (FSM) e qual a ci-
dade do Brasil o mesmo foi criado? Respectivamente.
a) Um outro planeta é possível - Rio de Janeiro.
b) Um outro mundo é possível - Porto Alegre.
c) Mudança mundial é possível - Curitiba.
d) Uma outra cidade é possível - São Paulo.
e) Nenhuma das respostas acima.
 2) Sobre a Constituição de 1988 - a mesma é conhecida 
como:
a) Constituição de Direitos.
b) Constituição dos Cidadãos.
c) Constituição Cidadã.
d) Constituição da Cidade.
e) Constituição pós-Ditadura.
196 Sociedade e Contemporaneidade
 3) Principal política pública brasileira reconhecida e premia-
da por diversos países que ajudou a combater a fome e a 
miséria no Brasil:
a) Fome Zero.
b) Vale Gás.
c) PROUNI.
d) Bolsa de doutorado.
e) Bolsa família.
 4) O protagonismo externo brasileiro, a partir de 2003, teve 
como um de seus principais objetivos:
a) A Europa e seu mercado interno.
b) Os EUA e seu mercado interno.
c) A Ásia e seus recursos naturais.
d) A África e as parcerias de desenvolvimento.
e) Nenhuma das respostas acima.
 5) Desde o período da escravidão, no Brasil, existem mo-
vimentos sociais que lutaram pelo fim do trabalho escra-
vo. Atualmente, os mesmos conquistaram avanços sociais 
importantes para as populações afrodescendentes, desde 
1988. Assinale a alternativa que apresenta um avanço es-
pecífico relacionado com essa temática.
a) Política de cotas raciais.
b) Bolsa escola.
Capítulo 8 O Brasil no Cenário Internacional... 197
c) Programa universidade para poucos.
d) Bolsa de mestrado.
e) Nenhuma das respostas acima.
Paulo G. M. de Moura1
Capítulo 9
Organizações e 
Participação Política 
e Social no Mundo 
Contemporâneo
1 Bacharel em Ciências Sociais (1992), mestre em Ciência Política pela UFRGS 
(1998); doutor em Comunicação Social pela PUCRS (2004) e especialista em Edu-
cação à Distância pelo Senac/RS (2009). Professor Adjunto com Doutorado da 
ULBRA. Atua na área de Ciência Política com ênfase em Estudos Eleitorais e Partidos 
Políticos e na Área de Comunicação Política e Marketing Político. 
Capítulo 9 Organizações e Participação Política e Social no... 199
“É óbvio que as elites organizadas existentes em todas as 
sociedades humanas desde o princípio da história” sem-
pre tentaram se apropriar de todos os recursos para “con-
quistar e/ou preservar o poder. Dizer isso é o mesmo que 
dizer que em todas as sociedades humanas (excetuando-
-se o breve intervalo dos gregos ou, mais propriamente, 
dos atenienses dos séculos VI e V antes da Era Comum e, 
em parte, algumas sociedades dos últimos dois séculos) 
tivemos regimes autocráticos e não democráticos. Todo 
o tempo histórico (considerando como início da chama-
da história o surgimento do primeiro sistema autocrático 
estável, com o advento do Estado sumeriano, provavel-
mente em Kish, na antiga Mesopotâmia, há cerca de seis 
milênios) foi, praticamente, tempo de autocracia; não 
de democracia. Se pudéssemos contar o tempo histórico 
(das chamadas civilizações) como um dia de 24 horas, 
tivemos democracia (ou melhor, experiências localizadas 
de democracia), apenas por 96 minutos (e olhe lá!).” Au-
gusto de Franco2
Introdução
O exercício da liderança é uma marca das sociedades huma-
nas. Na pré-história, quando a humanidade vivia em bandos 
nômades, a hierarquia de poder e a estratificação social eram 
extremamente simples. Cada sociedade cria o seu subsistema 
2 www.diegocasagrande.com.br, coluna de Augusto de Franco acessada em 
4/5/2007.
200 Sociedade e Contemporaneidade
político. Tal como acontece entre lobos e leões, havia um líder 
sobre o bando de liderados e vigorava a lei do mais forte. Na 
medida em que a humanidade foi caminhando em direção à 
civilização, foi também, gradativamente, sofisticando as estru-
turas dos sistemas sociais e políticos; desenvolvendo formas 
específicas de organização e de exercício do poder.
A liderança social e o poder político ao longo da história, 
sempre estiveram associados às formas de organização social 
e ao nível de distribuição do direito de participação da socie-
dade nas decisões coletivas que lhe dizem respeito. Se o poder 
se encontra mais concentrado nas mãos de um indivíduo, de 
grupos oligárquicos, ou do Estado do que distribuído na socie-
dade, o sistema político pode ser considerado autoritário, ou, 
autocrático, e vice e versa, se mais distribuídos para um gran-
de número ou para a maioria dos membros dessa sociedade, 
seu sistema político é considerado democrático.
Assim como acontece nas esferaseconômica, social e cul-
tura, também a esfera política da sociedade contemporânea 
passa por profundas transformações. Entender o que se passa 
nessa dimensão da nossa vida em sociedade também é impor-
tante para sabermos nos situar nesse mundo em constante e 
acelerada mudança.
9.1 O poder nas sociedades antigas
Nas sociedades antigas, excetuados os casos referidos por Au-
gusto de Franco na citação acima, predominava o exercício 
Capítulo 9 Organizações e Participação Política e Social no... 201
do poder despótico ou oligárquico, exercido com predomínio 
do uso da força. Os governantes eram vistos como deuses ou 
intermediários da relação entre o povo e os deuses, e, como 
consequência, o povo não participava das tomadas de deci-
sões sobre seu destino, já que a justificativa para o poder dos 
governantes era de origem religiosa. Isto é, entendia-se que o 
direito ao poder era desígnio divino. Religião e poder cami-
nharam juntos ao longo de séculos. Na sociedade ocidental 
a separação entre o Estado e a Igreja somente aconteceu no 
final da Idade Média, quando teve início a Era Moderna.
Na Idade Média o sistema social organizava-se a partir da 
propriedade da terra e os senhores feudais, seus proprietários, 
deliberavam os assuntos políticos (guerra, impostos, punição 
de crimes, etc.), por sua livre vontade, mas sempre aconse-
lhados por membros da hierarquia da Igreja, que, com eles 
compartilhavam o exercício do poder e se constituía na úni-
ca organização hierarquizada e presente em todo o território 
europeu e parte das regiões antes integrantes do Império Ro-
mano, das quais os europeus não haviam sido expulsos pelos 
antigos povos bárbaros, civilizados por gregos e romanos nos 
séculos anteriores.
9.2 O poder na sociedade moderna
Com a irrupção da Era Moderna, o ressurgimento do fenôme-
no urbano na esteira das revoluções comercial e industrial, as 
formas de organização dos sistemas social, econômico, políti-
co e cultural, típicos da sociedade Antiga, de base econômica 
202 Sociedade e Contemporaneidade
agrícola e artesanal, foram desestruturadas pelas mudanças 
provocadas pelas revoluções Comercial e Industrial.
O sistema de produção industrial baseado na especializa-
ção do trabalho, na produção através de linhas de montagem 
e no uso intensivo de máquinas, então, substituiu o modo de 
produção feudal, desencadeando o surgimento do modo de 
produção capitalista, e depois do socialista. Estes dois sistemas 
econômicos e seus respectivos regimes políticos, embora ideo-
logicamente diferentes do pondo de vista da relação do Estado 
com a economia e a sociedade, tinham seus sistemas econô-
micos baseados na produção fabril. O surgimento e a expan-
são do comércio, a mecanização da agricultura e o surgimen-
to das fábricas deslocaram o meio de sobrevivência do povo 
para as cidades. Em pouco tempo, a população, que antes era 
pouco numerosa e vivia isolada e fragmentada nas proprie-
dades feudais, migrou para as cidades, concentrando-se no 
entorno dos palácios e catedrais, sedes do poder. Tornou-se, 
então, necessário criar formas de organização e participação 
dessas pessoas nas decisões sobre o seu destino coletivo das 
sociedades urbanas.
As sociedades capitalista e socialista desenvolveram, en-
tão, organizações sociais e sistemas de participação do povo 
nas decisões coletivas, cuja essência baseava-se na legitima-
ção pelo apoio da maioria. Surgiu, dessa maneira, a chamada 
democracia representativa. Essa forma de participação polí-
tica baseia-se na realização de eleições periódicas, às quais 
concorrem candidatos inscritos em partidos políticos, na busca 
de votos para receberem o aval do povo ao seu acesso ao 
exercício do poder nos parlamentos, tribunais e governos. Nos 
Capítulo 9 Organizações e Participação Política e Social no... 203
regimes socialistas, os mecanismos de votação e delegação 
de representação são um pouco diferentes. Enquanto nos re-
gimes de tipo liberal-democrático a votação é direta, secreta 
e universal, nos regimes socialistas as votações e escolhas de 
representantes ocorrem em assembleias, e os representantes, 
originalmente, eram eleitos como delegados de seu local de 
trabalho, ou moradia. Além dessas diferenças, sob o socia-
lismo existe apenas um partido e há restrições às liberdades 
democráticas, o que não acontece nas democracias liberais.
Para viabilizar o funcionamento desse sofisticado sistema 
criou-se um enorme aparato burocrático encarregado da ad-
ministração. Aos representantes eleitos caberia a função de le-
gislar, estabelecer diretrizes políticas e administrativas e tomar 
decisões, e ao quadro de funcionários permanentes caberia a 
responsabilidade de garantir a continuidade do funcionamen-
to dos serviços públicos, independentemente dos representan-
tes eleitos periodicamente para definir os rumos políticos dos 
governos.
Nos regimes socialistas, varia a forma como essas peças se 
encaixam como engrenagens do sistema, pois, não havendo 
alternância de partidos no poder, devido à existência de um 
partido tido como detentor do conhecimento sobre os rumos 
que a sociedade deve tomar, em geral, os representantes elei-
tos se convertem em homologadores das decisões do partido. 
Essa distorção, inicialmente mais evidente nos regimes socia-
listas, no entanto, se instalou também nas democracias libe-
rais, com a intromissão cada vez maior dos governos sobre 
as funções dos legisladores através de artifícios normativos e 
políticos.
204 Sociedade e Contemporaneidade
A finalidade desse aparato, na teoria, tanto em um caso 
como no outro, seria a de redistribuição dos recursos públicos 
arredados como impostos ou como resultado das empresas 
do Estado. Nas democracias liberais esses recursos são dispu-
tados pelas forças sociais organizadas em sindicatos, grupos 
de pressão e partidos, dentre outras formas de associação. 
Nos regimes socialistas os planejadores da economia à testa 
do Estado são os tomadores de decisões sobre o destino dos 
investimentos e do gasto público.
A origem dessas estruturas de gestão política e administrati-
va da sociedade moderna é o modelo de estrutura administra-
tiva que surgiu nas fábricas, no momento em que as empresas 
foram crescendo e necessitando cada vez mais de especialistas 
em administração para dar conta da crescente complexida-
de provocada pela proliferação do trabalho especializado e a 
decorrente compartimentalização das estruturas de produção. 
Aos administradores, portanto, caberia a função de integrar e 
intermediar as relações entre os tomadores e executores das 
decisões, separados por tarefas, atividades e departamentos 
responsáveis pelas diferentes funções na cadeia produtiva ou 
burocrática.
O sociólogo alemão Max Weber foi quem primeiro perce-
beu que esse tipo de sistema, que foi criado para tornar as or-
ganizações modernas mais eficientes e produtivas, apresenta-
va distorções que tenderiam a produzir o resultado oposto ao 
esperado por quem o inventou e desenvolveu. Com o tempo, 
todas as estruturas administrativas das organizações modernas 
foram assumindo esse modelo.
Capítulo 9 Organizações e Participação Política e Social no... 205
9.3 A lógica do sistema
A radiografia da estrutura é a de um organograma com uma 
cabeça no topo, onde se situa o comando central da organiza-
ção, que no passado se compunha, em geral, pelos donos do 
negócio nas empresas privadas. Dessa cúpula parte o fluxo de 
comandos. O sentido das informações partidas desse núcleo 
decisor era vertical, unidirecional e descendente.
No miolo do organograma, isto é, nas estruturas interme-
diárias situadas no espaço entre quem decide e quem faz, as 
ordens disparadas pela cúpula caem num labirinto de depar-
tamentos especializados que, em tese, deveriamtorná-la mais 
nítida, adequada e exequível, do ponto de vista do objetivo de 
quem deu origem ao comando. No entanto, tal como acon-
tece na brincadeira de “telefone sem fio”, na qual crianças 
sentam-se uma ao lado da outra em sequência, a primeira 
conta uma pequena história que deve ser recontada para o 
amigo sentado logo ao lado, e assim por diante, até que o 
último da fila, depois de ouvir a história que lhe é repassada 
pelo penúltimo, expõe a todos o que ouviu. Como diz o ditado 
popular, “quem conta um conto aumenta um ponto”, a história 
contada no fim da fila raramente coincide com as informações 
que deram origem no outro extremo da linha.
Dessa forma, ao percorrerem os labirintos dos departamen-
tos administrativos das organizações modernas, as decisões 
e comandos que deveriam gerar um determinado resultado 
executado pelos integrantes da base do organograma, rara-
mente se traduziram naquilo que o emissor esperava ao emitir 
o comando, pois as informações contidas nas ordens são di-
206 Sociedade e Contemporaneidade
luídas e distorcidas em seu conteúdo estratégico no trâmite da 
mensagem da cúpula que a produz ou reproduz para a base 
que deve obedecer aos comandos superiores.
Os indivíduos da base do organograma devem exercer 
suas funções como engrenagens de uma esteira mecânica 
sem precisar saber quais os motivos que originaram o coman-
do, o contexto e os objetivos gerais que sua tarefa, articulada 
com as demais tarefas sincronizadas das outras engrenagens, 
deve gerar como resultado final. As peças inferiores dessa es-
teira são alimentadas com informações parciais e elementa-
res, apenas suficientes para a execução repetitiva de ações 
sincronizadas com outros integrantes de seu nível na estrutura 
hierárquica do organograma. As atividades das engrenagens 
da base do organograma devem ser padronizadas nos movi-
mentos e sincronizadas no tempo de execução, tornando-se, 
praticamente, uma extensão da máquina.
O tráfego das informações entre a cúpula e a base do or-
ganograma percorre caminhos tortuosos de um intrincado sis-
tema cujo fim seria planejar, gerenciar, controlar e supervisio-
nar o funcionamento eficiente da estrutura. Mas, com o tempo, 
a burocracia que se desenvolveu no espaço entre a base e 
a cúpula das organizações modernas foi sofrendo atrofias e 
distorções.
Os diferentes departamentos burocráticos dessas estruturas 
passaram a disputar entre si o poder de acesso e controle de 
cada vez mais funções, recursos e informações, com o objetivo 
de adquirir poder, importância estratégica e vantagens funcio-
nais. Com isso, os diferentes escaninhos do organograma bu-
Capítulo 9 Organizações e Participação Política e Social no... 207
rocrático passaram a filtrar, politizar e distorcer informações e 
ordens, visando valorizar sua posição estratégica na estrutura 
das organizações, e, assim, tentar prejudicar seus adversários 
internos que lutam pelos mesmos fins, com os mesmos méto-
dos. Controlando recursos e informações os burocratas, na 
prática, usurpam o poder de fato da cúpula do organograma.
O efeito de acumulação das disfunções das engrenagens 
e do sistema como um todo, introduziu irracionalidade no fun-
cionamento das organizações e no fluxo de informações que 
deveria fazer com que se produzissem os resultados previstos 
por seu objetivo. Dessa maneira, as soluções propostas pelos 
burocratas, invariavelmente levam à necessidade de amplia-
ção das estruturas burocráticas. Mais e mais burocratas são 
contratados, levando à criação de mais departamentos com 
a suposta atribuição de resolver os problemas que proliferam 
justamente devido ao excesso de burocracia.
O gigantismo tornou-se, então, um problema adicional às 
demais distorções, criando um círculo vicioso entrópico e auto-
fágico. A burocracia resiste às mudanças e inovações, pois es-
sas são percebidas como ameaças às suas posições de poder 
nas estruturas; perde-se nas atividades meio em prejuízo da 
missão precípua da organização a que pertence, e apresenta 
resistência e rigidez diante de situações que requerem soluções 
não previstas em regras, mesmo que não ilegais. Desperdício, 
lentidão, ineficiência e corrupção tornam-se consequências 
inevitáveis dessas disfunções sistêmicas.
Ainda que competindo internamente com os demais setores 
burocráticos, o comportamento coletivo dos integrantes dessas 
208 Sociedade e Contemporaneidade
estruturas é corporativo. Isto é, os interesses de todos na pre-
servação da estrutura que lhes garante a sobrevivência coin-
cidem nos conflitos com agentes externos, formando uma teia 
invisível em defesa do sistema, aí sim de forma ágil e eficaz.
Essas distorções ocorrem em organizações públicas e pri-
vadas. No entanto, nas empresas privadas o imperativo do 
lucro e a competição no mercado, assim como a presença de 
um proprietário no controle da organização, contribuem para 
minimizar as distorções. No setor público não há concorrência 
e nem “dono do negócio” ao alcance dos olhos dos funcio-
nários burocráticos. A rotatividade dos administradores polí-
ticos e a propriedade pública dificultam os controles, tornam 
a organização mais suscetível às pressões e impõem maiores 
obstáculo às correções. Dado o caráter aparentemente “gra-
tuito” dos serviços públicos, e a natureza política e, teorica-
mente, democrática da função do Estado, além da constante 
permanência dos funcionários junto aos gestores eleitos, e a 
permeabilidade dos políticos à pressão dos interesses corpo-
rativos, somam-se para agravar as distorções, tornando-as um 
problema mais grave do que aqueles que afetam as organiza-
ções privadas.
Max Weber constatou que essa lógica se apresenta em 
todas as organizações complexas nascidas com a sociedade 
moderna. Todas elas, conforme a Sociologia da Burocracia 
de Weber, requerem lideranças administrativas especializadas. 
O autor descreve a burocratização como uma mudança da 
organização baseada na autoridade tradicional para outra 
voltada para metas e ações racionais e legais. No caso da 
Alemanha, conforme constatou em seu estudo, a burocracia 
Capítulo 9 Organizações e Participação Política e Social no... 209
prussiana assumiu o comando político da nação, dando ori-
gem a um sistema de dominação política de tipo burocrático 
que ele caracterizou como patrimonialista.
9.4 A crise das instituições da era 
moderna
As organizações criadas pela sociedade ao longo da era mo-
derna tornaram-se ineficientes, lentas, grandes e excessiva-
mente burocráticas. A falência financeira e a corrupção são 
os sintomas mais visíveis de muitas delas. O descrédito da po-
pulação nos políticos está nas primeiras páginas dos jornais 
na maior parte dos países do mundo. Como consequência, 
as instituições encarregadas da tomada de decisões coletivas 
criadas pela sociedade moderna, tais como partidos, parla-
mentos, governos, tribunais e demais órgãos estatais sofrem 
crises causadas pela ineficiência, que leva à falta de legitimi-
dade e credibilidade perante a sociedade.
A crise das instituições políticas encarregadas de processar 
as decisões coletivas na sociedade atual, é, ao mesmo tempo, 
causa e efeito dos deslocamentos de poder provocados pelo 
impacto das novas tecnologias e das transformações por elas 
geradas. Sob circunstâncias normais, as deliberações políti-
cas dos governos e suas instituições cumprem suas atividades 
até o fim. Atualmente, essas estruturas políticas não cumprem 
suas funções. O dinheiro público se perde na burocracia e 
na corrupção. Cada vez mais impostos são cobrados da so-
ciedade, que não vê o retorno em serviços públicos de segu-
210 Sociedade e Contemporaneidade
rança, educação, saúde e infraestrutura. As vítimas, em geral, 
são aquelasque mais necessitam desses serviços e que menos 
condições têm de obtê-los pelos próprios meios.
O tipo de liderança baseada no poder burocrático, impes-
soal e abstrato, que decide sobre muitos assuntos, tornou-se 
inadequado à nova realidade. A execução das decisões de-
pende de órgãos executores que não as executam. A autori-
dade é constrangida por leis superadas e fiscalizada por orga-
nismos corrompidos e ineficientes. A legitimidade da liderança 
precisa se legitimar pelo voto da maioria, mas a população se 
abstém de participar.
O novo sistema econômico que emerge com a sociedade 
contemporânea compõe um sistema social cujo nível de diver-
sidade e complexidade é infinitamente maior do que o existen-
te no período anterior. As decisões políticas e administrativas, 
agora, dependem de corpos técnicos sofisticados que abaste-
cem o líder de informações sobre áreas que este desconhece 
se não estudá-las e não se preparar para não errar. A alta 
especialização do conhecimento, a complexidade, o volume 
e a velocidade das informações que envolvem a tomada de 
decisões, limitam o poder da liderança nas organizações da 
sociedade contemporânea, tornando-a mais temporária, flexí-
vel, colegiada e consensual.
As estruturas estatais da sociedade moderna foram construí-
das na época em que o principal meio de transporte e troca 
de mensagens à distância era o cavalo. Os estados nacio-
nais estavam recém se formando nessa época. As diferentes 
regiões do mundo eram isoladas umas das outras e as econo-
Capítulo 9 Organizações e Participação Política e Social no... 211
mias eram mais protegidas por leis vigentes dentro das frontei-
ras nacionais. As decisões a serem tomadas por governantes 
num contexto como esse envolviam um volume muito menor 
de variáveis, que demandavam mais tempo de quem precisava 
decidir. As decisões tomadas de forma relativamente isoladas 
pela distância geográfica e pela lentidão dos sistemas de co-
municação e transportes, pouca ou nenhuma consequência 
causavam além das fronteiras territoriais de cada Estado na-
cional.
As instituições políticas remanescentes da sociedade mo-
derna (governos, parlamentos, tribunais) também refletem 
uma forma obsoleta de lidar com o conhecimento. Este tipo 
de estrutura anacrônica produz intermináveis problemas jurídi-
cos, disputas interburocráticas e o consequente aumento dos 
custos do Estado. A ineficiência do Estado, por sua vez, leva 
à geração de efeitos secundários adversos, às vezes piores do 
que a tentativa inicial de solucionar um determinado problema 
na sua origem. A centralização do poder não funciona. Os 
governos e as instituições jurídicas e políticas da sociedade 
moderna foram pensados para tomar decisões num ambiente 
em que uma informação poderia levar dias para atingir cír-
culos mais amplos da sociedade. As reações eventualmente 
adversas eram mais raras e mais fáceis de contornar.
9.5 A emergência de um novo sistema
Assim como acontece com o sistema econômico interligado 
por redes de comunicação em tempo real, o sistema políti-
212 Sociedade e Contemporaneidade
co também reflete a aceleração generalizada das mudanças, 
intensificando o colapso das estruturas burocráticas. A veloci-
dade com que as informações circulam é maior do que o po-
der de resposta das estruturas burocráticas. Mais inteligência e 
criatividade e menos burocracia é a nova regra.
O sistema econômico da sociedade moderna criou a pro-
dução e o consumo de massas. Enormes quantidades de pro-
dutos seriados, jogados ao mercado consumidor, influenciaram 
o surgimento do comportamento social de massas. O compor-
tamento das audiências dos canais de televisão abertos, que 
recebem a mesma programação transmitida para milhões de 
telespectadores, simultaneamente, induzem ao comportamen-
to de massas. Essa característica surgiu, também, no sistema 
político da sociedade moderna, dando origem a organizações 
de massas, tais como os partidos e os sindicatos e seus líderes 
de massas (Hitler, Stalin, Mussolini) com suas ideologias de 
massas.
As tecnologias contemporâneas estão criando um sistema 
oposto, no qual a regra é a segmentação da produção e do 
consumo. Os produtos cada vez mais são feitos para segmen-
tos específicos de consumidores com demandas específicas. 
Os meios digitais de comunicação em rede produzem conteú-
dos segmentados. A indústria da mídia produz estilos musicais 
diversos que influenciam e são influenciados por estilos de vida 
grupal também diversos no jeito de vestir, de agir socialmente 
e de comportar-se nos grupos de convivência. Como conse-
quência, o sistema social está se fragmentando ao refletir essa 
tendência da produção e do consumo.
Capítulo 9 Organizações e Participação Política e Social no... 213
O ambiente político faz parte do sistema social e foi, em 
seguida, contagiado pelo impacto dessas transformações. No-
vas organizações minoritárias, que agem em âmbito local, em-
bora articuladas em redes que geram influência para além das 
fronteiras nacionais surgem no mundo todo. Ambientalistas, 
pacifistas, gays, feministas, e outros, com formas inovadoras 
de manifestação de suas insatisfações e reivindicações, inva-
diram o palco antes monopolizado pelos sindicatos e pelos 
partidos.
A velocidade e a abrangência dos novos sistemas de comu-
nicação em rede, a diversidade desses grupos e organizações 
de novo tipo estão dando origem à criação de um sistema 
político de contornos ainda indefinidos. A desmassificação das 
organizações políticas reflete as tendências tecnológicas da 
produção simbólica, das comunicações em rede e da cultura 
tribal, devastando a capacidade dos políticos tradicionais de 
tomarem decisões com base na mentalidade e nos paradig-
mas do passado.
A formação de maiorias estáveis, necessárias para a le-
gitimação do poder dos governos, ao longo da história da 
sociedade moderna, está cada vez mais difícil e sujeita às ins-
tabilidades. Por vezes, formar maiorias estáveis é impraticável. 
As circunstâncias podem ser diferentes de país a país, mas a 
crise das organizações modernas é transversal a todos os que 
não conseguem acompanhar a velocidade das mudanças e a 
se adaptar à nova realidade supercomplexa.
As novas maiorias, quando se tornam possíveis, cada vez 
mais se articulam como uma colcha de retalhos de grupos 
214 Sociedade e Contemporaneidade
minoritários, que se conectam e se desconectam em torno de 
causas pontuais em curtos espaços de tempo. A diversidade 
social é tão grande que a lógica da representação de mas-
sas não consegue gerar consensos em nome de uma suposta 
“vontade geral”, na qual se baseia a ideia de “democracia 
representativa” inventada pela sociedade moderna. A própria 
democracia representativa está em crise.
As novas e velozes tecnologias da informação geraram 
uma correspondente sofisticação e diversificação dos proble-
mas sobre os quais os governantes precisam decidir. Um siste-
ma político eficiente precisa operar na escala correspondente 
aos problemas sobre os quais decide, integrando diretrizes dís-
pares, decidindo no momento certo e refletindo a diversidade 
da sociedade que lhe dá sustentação.
O ativismo de minorias reflete as demandas de um novo 
sistema econômico que requer, para sua existência, um siste-
ma social mais diversificado do que qualquer outro que já exis-
tiu. A capacidade de negociação e articulação entre os grupos 
minoritários de interesses diversos precisa ser incorporada ao 
sistema normativo e ao formato das instituições para permitir a 
construção de uma nova democracia.
Atualmente, grupos de pressão bem organizados têm mais 
poder sobre as decisões governamentais do que as amplas 
maiorias do passado. Controlar o poder de influência das 
tecnocracias superespecializadassobre os gestores públicos é 
outro cuidado fundamental. Por isso, talvez seja o caso de des-
locarem-se algumas decisões hoje nas mãos dos “representan-
tes”, para o eleitorado, rompendo os círculos tecnocráticos de 
Capítulo 9 Organizações e Participação Política e Social no... 215
decisão e recorrendo às novas tecnologias de comunicação 
como forma de consultar à população criando-se, assim, no-
vas formas de processar decisões coletivas que contemplem 
os interesses das pessoas diretamente atingidas pelas decisões 
em questão. Plebiscitos e referendos são cada vez mais usa-
dos para legitimar decisões controvertidas com apoio social 
amplo.
Deslocar o poder de decisão para instituições mais próxi-
mas das causas de cada problema pode ser uma alternativa 
viável já que há problemas que não podem ser resolvidos no 
nível local e outros que não podem ser resolvidos no nível 
nacional, além de outros que requerem respostas em diversos 
níveis. Fazem-se necessárias novas instituições mundiais capa-
zes de gerenciar soluções para problemas mundiais que não 
mais podem ser resolvidos por governos nacionais de forma 
isolada, sem causar consequências sobre a população de ou-
tros países.
As grandes catástrofes ambientais, os problemas com o cli-
ma do planeta, o combate ao terrorismo e ao crime organi-
zado; a administração das crises do mercado financeiro inter-
nacional, dentre outros, são exemplos desse tipo de problema 
global que requer soluções globais. A descentralização das 
estruturas de decisão e gestão econômica pode dar origem a 
novas unidades econômicas regionais livres da configuração 
interna dos mapas nacionais. Movimentos de pressão inver-
sa pela integração do mundo em bloco, seguidos de crises 
e tendências protecionistas e de “fechamento de fronteiras” 
estão transformando os sistemas econômicos, políticos e so-
ciais e requerendo flexibilidade e criatividade na criação de 
216 Sociedade e Contemporaneidade
novos arranjos institucionais dos agentes políticos mundiais. 
As decisões econômicas isoladas, eventualmente tomadas por 
governos nacionais em benefício de uma região podem gerar 
impactos negativos sobre outras, no contexto da interdepen-
dência de um sistema econômico e social articulado em rede.
Na sociedade contemporânea, as decisões precisaram 
ser compartilhadas através de novos sistemas de participação 
democrática e representação por organismos colegiados. O 
novo sistema político não poderá funcionar sem democracia, 
mas precisará de uma nova democracia sustentada em valores 
e ideias adequadas às novas instituições políticas.
A lógica que rege o funcionamento das redes sociais, 
potencializadas pelo uso em escala da tecnologia digital, é 
radicalmente diferente das estruturas burocráticas das orga-
nizações do passado industrial. O caráter democrático do co-
nhecimento faz com que a riqueza simbólica do novo sistema 
econômico circule em alta velocidade nas redes digitais de 
comunicação, impondo a criatividade, a agilidade e a flexibili-
dade como requisitos imprescindíveis à sobrevivência no novo 
ambiente competitivo. Para isso, a descentralização das deci-
sões e ações e a eliminação de estruturas intermediárias entre 
os que executam e os que decidem; a assincronia e a aleato-
riedade das relações entre os componentes dos sistemas-rede 
são fundamentais.
Esses princípios foram assimilados rapidamente pelas or-
ganizações empresariais, que criaram novos métodos de ges-
tão da produção e novas formas de organização do trabalho. 
Corporações transnacionais incorporaram técnicas gerenciais 
Capítulo 9 Organizações e Participação Política e Social no... 217
adaptadas à lógica da economia que se articula em rede, den-
tro e fora das organizações. Milhões de colaboradores diretos 
e indiretos dessas organizações se conectam ao novo sistema 
por imposição do novo mundo do trabalho.
As empresas-rede conectam-se com consumidores-rede 
através de técnicas de marketing de rede. As redes invadiram 
também o mundo do entretenimento e das diversões do indi-
víduo contemporâneo no momento em que as tecnologias de 
comunicação digital invadiram os lares dos cidadãos comuns. 
A telefonia celular, a Internet, a TV a Cabo, os computadores 
portáteis interligam e outros aparatos tecnológicos interligam 
cada vez mais indivíduos na malha digital.
Sob a óptica desse novo sistema, a diversidade cultural é 
consequência inevitável. A permanente fragmentação do te-
cido social e a produção de diversidade respondem à nova 
lógica da criação e da circulação do capital simbólico que 
converte ideias em valor ao lançá-las à rede de trocas midiáti-
cas em escala global.
A matriz sistêmica e os sistemas de participação democrá-
tica dos cidadãos nas decisões coletivas sobre o destino da 
sociedade em que vivem devem se adaptar a essas mudanças. 
Só seremos capazes de criar soluções inovadoras para esses e 
outros problemas que estão surgindo se soubermos entendê-
-los.
218 Sociedade e Contemporaneidade
Recapitulando
O capítulo “Organizações e Participação Política e Social no 
Mundo Contemporâneo” tratou das formas de participação 
política e social ao longo da história humana.
 Â À medida que a sociedade evolui, também evoluem as 
formas de participação.
 Â Nas sociedades antigas os governantes eram vistos 
como deuses e intermediários das relações entre povo 
e Deus.
 Â Na era moderna houve a separação da Igreja e Estado, 
o desenvolvimento do comércio e da indústria e surgiu a 
ideia da representação política. Políticos que represen-
tavam o povo.
 Â Este sistema, atualmente, está em crise devido a sua 
crescente burocracia e distanciamento das demandas 
populares.
 Â A nova sociedade contemporânea com as novas tecno-
logias e formas de participação em rede exigem uma 
outra arquitetura institucional, uma outra estrutural or-
ganizacional mais próxima da população.
 Â Nesta ordem das coisas há uma crise da democracia 
representativa que precisa ser se não resolvida, enca-
minhada, sob pena de perdermos o “trem da história”.
Capítulo 9 Organizações e Participação Política e Social no... 219
Referências
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Tradução de A. F. Bastos e L. Leitão. 4. ed. Lisboa: Editorial 
Presença, 1996b.
Atividades
 1) O exercício da liderança é uma marca das sociedades hu-
manas. Na pré-história, quando a humanidade vivia em 
bandos nômades, a hierarquia de poder e a estratificação 
social eram extremamente simples. Cada sociedade cria o 
220 Sociedade e Contemporaneidade
seu subsistema político. Tal como acontece entre lobos e 
leões, havia um líder sobre o bando de liderados e vigora-
va a lei do mais forte. Na medida em que a humanidade 
foi caminhando em direção à civilização:
a) foi também, gradativamente, sofisticando as estruturas 
dos sistemas culturais e econômicos.
b) foi também, gradativamente, sofisticando somente as 
estruturas dos sistemas sociais.
c) foi também, gradativamente, sofisticando somente as 
estruturas políticas.
d) foi também, gradativamente, sofisticando as estruturas 
dos sistemas sociais e políticos.
e) não foi gradativamente, sofisticandoas estruturas dos 
sistemas sociais e políticos.
 2) O poder nas sociedades antigas, excetuados os casos 
referidos por Augusto de Franco na citação acima, pre-
dominava o exercício do poder despótico ou oligárquico, 
exercido com predomínio do uso da força. Neste sentido 
os governantes eram vistos como:
a) déspotas esclarecidos.
b) deuses ou intermediários das relações entre povo e 
deuses.
c) democratas esclarecidos.
d) fascistas e totalitários.
Capítulo 9 Organizações e Participação Política e Social no... 221
e) Autoritários e Democratas.
 3) Com a irrupção da Era Moderna, o ressurgimento do fe-
nômeno urbano na esteira das revoluções comercial e 
industrial, as formas de organização dos sistemas social, 
econômico, político e cultural, típicos da sociedade Anti-
ga, de base econômica agrícola e artesanal, foram deses-
truturadas pelas mudanças provocadas pelas revoluções 
Comercial e Industrial. Neste sentido foram desenvolvidas:
a) formas de participação somente para os líderes reli-
giosos.
b) formas de participação somente para as mulheres na 
organização destas pessoas nas decisões coletivas.
c) formas de não participação e não organização destas 
pessoas nas decisões coletivas.
d) formas de participação e organização destas pessoas 
nas decisões coletivas.
e) Todas as alternativas estão corretas.
 4) É correto afirmar que nos regimes socialistas os planejado-
res da economia que estão à testa do Estado são:
a) os tomadores de decisão sobre o destino dos investi-
mentos e do gasto público.
b) os tomadores de decisão somente sobre os investimen-
tos públicos.
c) os tomadores de decisão somente sobre os gastos pú-
blicos.
222 Sociedade e Contemporaneidade
d) os tomadores de decisão somente sobre o destino dos 
investimentos referentes à população pertencente ao 
partido do governo.
e) Todas as alternativas estão incorretas.
 5) De acordo com o capítulo “Organizações e Participação 
Política e Social no Mundo Contemporâneo”, há uma crise 
das instituições modernas. Assim seria correto afirmar que:
a) O novo sistema social que emerge com a sociedade 
contemporânea é extremamente simples e infinitamen-
te menor do que o período existente.
b) O novo sistema social que emerge com a sociedade 
contemporânea é extremamente complexo, mas infini-
tamente menor do que o período existente.
c) O novo sistema social que emerge com a sociedade 
contemporânea é extremamente simples e único que 
pode ser comparado ao sistema moderno.
d) O novo sistema social que emerge com a sociedade 
contemporânea é antigo e baseado em crenças reli-
giosas pré-existentes.
e) O novo sistema social que emerge com a sociedade 
contemporânea é extremamente complexo e infinita-
mente maior do que o período existente.
Arlete Aparecida Hildebrando de Arruda1
Capítulo 10
Meio Ambiente e 
Sustentabilidade1
1 Graduada em Licenciatura Plena em Ciências Sociais pela Uniplac (1975), mes-
trado em Antropologia, Política e Sociologia pela UFRGS (1983) e doutorado em 
Ciências Sociais Aplicadas pela Unisinos (2010). Atualmente, é professora/pesqui-
sadora da ULBRA Canoas, atuando principalmente nos seguintes temas: prevenção 
coletiva, riscos socioambientais, riscos urbanos, gestão pública urbana, pensamen-
to político brasileiro, política latino-americana, desastres naturais, planejamento 
urbano, participação política e projetos em políticas públicas.
224 Sociedade e Contemporaneidade
Águas que movem moinhos 
São as mesmas águas 
Que encharcam o chão 
E sempre voltam humildes 
Pro fundo da terra 
Terra! Planeta Água.
(Guilherme Arantes)
Introdução
Qual é a possível relação existente entre o restaurante Noma (o 
melhor do mundo) e a Conferência de Copenhague (COP.15) 
sobre mudanças climáticas?
Para tecer a resposta à indagação inicial, transcreve-se a 
fala do genial chef de cozinha René Redzepi (2012): “O pen-
samento dos dinamarqueses foi expandido quando passamos 
a utilizar produtos locais em receitas já existentes, mas antes 
preparadas com ingredientes de outras culturas”.
Essa postura de escolher produtos locais para seus fabu-
losos pratos está de acordo com as proposições de que só 
haverá um freio no aquecimento global se forem reduzidos os 
transportes de mercadorias e houver um aproveitamento dos 
recursos locais. Observa-se aqui um dos princípios do desen-
volvimento sustentável aplicado a um negócio.
Capítulo 10 Meio Ambiente e Sustentabilidade 225
A disposição de agir no local também está dentro de outro 
movimento global, trata-se da preocupação com a diversida-
de biológica. Se há consumo e apreço somente para certos 
produtos e animais no mundo, muitas espécies de seres vivos, 
plantas, animais, insetos, flores são desprezados e, logo, são 
consentidas suas extinções. Reconhecer a biodiversidade de 
cada localidade ou região faz parte também dos princípios da 
sustentabilidade.
A ONU sofreu pressão de cientistas e movimentos ambien-
talistas mundiais e, por isso, decretou para valorizar os diver-
sos biomas no período 2011/2020 como sendo a Década da 
Biodiversidade. Para que esses objetivos sejam alcançados até 
2020, já em 2010, na cidade de Nagoya, no Japão, chegou-
-se por consenso a um Plano estratégico de Conservação da 
Biodiversidade (CDB), onde os países signatários adotarão 
medidas para preservação de ambientes terrestres, aquáticos 
e marinhos.
226 Sociedade e Contemporaneidade
Retomando a indagação inicial, pode-se dizer que há uma 
relação sim, entre os lucros do restaurante Noma (e a fama 
trazida para a Dinamarca) e a questão ambiental. A identida-
de nacional e regional tem em um dos seus pilares a gastro-
nomia – a comida (italiana, japonesa, tailandesa etc.). Ela se 
expressa pela variedade de produtos. Isso se chama biodiver-
sidade (ou diversidade da natureza viva). A perda da biodiver-
sidade, aliada às mudanças climáticas são preocupações não 
só dos cientistas, ambientalistas mas dos empresários, econo-
mistas, engenheiros, médicos, sociólogos, publicitários, comu-
nicadores, religiosos, que pressionam e gestionam junto aos 
governos, parlamentos e instituições públicas e privadas, por 
mudanças nos planos de intervenção e na regulamentação de 
ações que afetam ao meio ambiente local, regional, nacional 
ou planetário. Por isso, nas pautas de noticiários, programas e 
reportagens os temas como economia verde, responsabilidade 
ambiental, novo Código Florestal, degelo do ártico, sustenta-
bilidade nas empresas, bancos verdes, ecovilas, cidades sus-
tentáveis estão cada dia com maior frequência presentes nas 
mídias. E, em tempo, convém lembrar que o Brasil tem 25% da 
biodiversidade mundial.
A ONU sofre pressões para realizar convenções e confe-
rências que levem à assinatura de do-
cumentos e protocolos sobre temas 
que preocupam segmentos importan-
tes das sociedades. Essas conferên-
cias têm uma enorme influência sobre 
as nações, porque o que é protocola-
do passa a ser exigência internacio-
Capítulo 10 Meio Ambiente e Sustentabilidade 227
nal e repercute no comércio mundial. Nos países tornam-se 
leis e regulamentos.
As conferências que trataram do meio ambiente buscaram 
garantir a qualidade de vida no planeta e a sustentabilidade 
da terra. Conhecer as principais conferências e os conceitos 
que nelas foram estabelecidos é da maior importância para 
compreender o tempo atual. Uma forma clássica de organizar 
as convenções, fóruns e conferências da ONU é a apresenta-
ção de documentos e, sobre eles, se ajustam os termos para 
que os chefes de Estado os assinem após debates e chegada 
ao consenso dos signatários.
Inicialmente, esses documentos são rascunhos (já acertados 
entre os diplomatas e os técnicos dos altos escalões dos gover-
nosdos países envolvidos. Em cada documento há um slogan 
que o resume. Nosso futuro comum foi o da conferência de 
1972 e o futuro que queremos em 2012. Em cada documento 
há posicionamentos que se expressam em conceitos, que levam 
a disputas para qual conceito deverá predominar. Em 1972 os 
países desenvolvidos defendiam um “desenvolvimento zero” e 
os países chamados na época subdesenvolvidos, defendiam 
“o desenvolvimento a qualquer custo”. Preparando a Rio92, o 
debate era entre Ecodesenvolvimento e Desenvolvimento Sus-
tentável. E vinte anos após, os documentos trouxeram novas 
disputas. Os conceitos foram: desenvolvimento sustentável e 
economia verde ou justiça ambiental e economia verde.
O texto que veremos a seguir esclarecerá as razões dessas 
disputas conceituais. A importância desses documentos tem a 
ver tanto com a vida cotidiana como a produção, comerciali-
228 Sociedade e Contemporaneidade
zação, consumo, descarte, reciclagem, tipo de emprego que 
teremos, ar que respiramos, qualidade da vida urbana e op-
ções de alimentos e do tipo de saúde que nos reserva o meio 
ambiente. O slogan da Agenda 21 “Pense globalmente e aja 
localmente”, convida a todos e a cada um em particular a 
calcular o que pessoalmente estamos “gastando do planeta” 
com o cálculo da pegada ecológica, e por outro lado estimula 
a participar e “formar uma aliança global para cuidar da terra 
e um dos outros ou arriscar a nossa destruição e a diversidade 
da vida” (Carta da Terra).
10.1 Justiça socioambiental X O precificar 
a natureza
A polêmica na conferência chamada Rio+20, no ano de 
2012, teve grande repercussão na mídia. As indagações nas 
manchetes dos jornais eram: economia verde ou desenvolvi-
mento sustentável; ambientalismo de mercado ou justiça am-
biental? Para entendermos esses posicionamentos, o marco é 
o momento atual do sistema capitalista mundial. Nos países 
emergentes, grandes empreendimentos estão sendo construí-
dos visando alcançar o chamado crescimento econômico. A 
reação por parte dos movimentos pela justiça ambiental, se-
gundo Henri Acselrad (2011) é de que tais projetos são respon-
sáveis pelo deslocamento compulsório de grandes contingen-
tes populacionais, pelo aniquilamento de grupos indígenas e 
por impactos irreversíveis dos ecossistemas, nos quais vivem e 
se reproduzem uma ampla diversidade de grupos e formações 
Capítulo 10 Meio Ambiente e Sustentabilidade 229
socioculturais. Para os países chamados desenvolvidos que vi-
vem uma crise econômica desde 2008, a forma de voltar o sis-
tema capitalista de obter crescimento será da financeirização 
e a colocação de preços a todos os serviços e produtos am-
bientais, com isso voltando a movimentar bilhões e lançando 
novas formas de mercados, como já aconteceu anteriormente 
com o mercado de carbono. Partem do princípio de que a 
toxicidade e a poluição atingem a todos, indistintamente. Para 
os movimentos da justiça ambiental, a exposição de grupos 
sociais aos riscos ambientais não é equitativa. São desiguais 
as condições de acesso dos diferentes setores da população à 
proteção ambiental.
Posicionam-se contra o discurso científico de que a “polui-
ção é democrática”. E que a sociedade atual, também cha-
mada de “sociedade de riscos” afeta a todos, não importando 
de que maneira ou onde as pessoas vivem. Guidens (2000) e 
Beck (2004).
Por justiça ambiental entende-se:
A condição de existência social em que se verifica igual 
proteção aos distintos grupos sociais com relação aos 
danos ambientais, por intermédio de leis e regulações 
democraticamente concebidas, que impeçam ao merca-
do impor decisões discriminatórias com base em raça, 
cor, nacionalidade ou status socioeconômico. Ela resulta 
de um tratamento justo e de um envolvimento efetivo de 
todos os grupos sociais, no desenvolvimento, implemen-
tação e respeito a leis, normas e políticas ambientais. 
Por tratamento justo, define-se que nenhum grupo de 
230 Sociedade e Contemporaneidade
pessoas, seja ele definido por raça, etnia ou classe so-
cioeconômica, deve arcar de forma concentrada e desi-
gualmente distribuída com as consequências ambientais 
negativas resultantes de operações industriais, agrícolas, 
comerciais, de obras de infraestrutura ou da implemen-
tação de programas e políticas federais, estaduais, muni-
cipais e locais (ACSELRAD, 2011, p. 45).
A ideia de que o bem-estar social depende do crescimento 
econômico e de que as empresas somente se envolvem com 
a questão ambiental se ela movimentar o mercado. Desde os 
anos 1990, para controlar a poluição atmosférica, surgiu o 
mercado de carbono e agora a nova proposta que veio no 
Relatório da Economia verde (REV).
Está definida como uma economia que resulta do bem es-
tar da humanidade e da qualidade social, ao mesmo tempo 
em que reduz, significativamente, riscos ambientais e escassez 
ecológica. O desenvolvimento deve manter, aprimorar e re-
construir bens naturais, vendo-os como um bem econômico.
A natureza para a economia verde é fragmentada em bens 
e serviços ambientais. O rio, o córrego, o bioma, a paisagem 
podem ter preços diferentes e valorização distinta no mercado 
e deverão esses os ganhos econômicos para gerarem empre-
gos chamados verdes.
Distinta é a posição para os que veem a natureza como 
bens comuns. Para Bollier os bens comuns se referem a:
Recursos compartilhados que uma comunidade constrói 
e mantém (biblioteca, parque, rua), os recursos nacionais 
Capítulo 10 Meio Ambiente e Sustentabilidade 231
que pertencem a todos (lagos, florestas, vida silvestre, 
espaço radioelétrico) e os recursos mundiais dos quais os 
seres vivos necessitam para poder sobreviver (atmosfera, 
água, biodiversidade) (BOLLIER 2008, p. 38).
Para Leroy (2011, p. 4):
Estamos tão envolvidos na sociedade capitalista, domi-
nada por noções como propriedade privada, consumo e 
mercado, e tão saturados pela informação e pela publici-
dade dominantes, que não percebemos espontaneamen-
te que há ainda uma porção grande da nossa realidade e 
do planeta que está situada fora dos circuitos mercantis. 
Paradoxalmente, é a fome voraz do mercado, na busca 
da apropriação privada e da mercantilização do que ain-
da lhe escapa, que contribui para dar maior atenção e 
valorizar a reflexão sobre os bens comuns. Entretanto, se 
de fato o mercado se interessa e avança sobre todos os 
ecossistemas e recursos mencionados, em contrapartida 
devemos reconhecer e afirmar que a humanidade atual e 
futura precisa e precisará desses bens e que, nesse senti-
do, eles não são a nossa propriedade particular, com os 
quais podemos fazer o que queremos. São bens comuns 
da humanidade, tanto no sentido espacial, superando 
fronteiras (p. ex., é importante lembrar que a Amazônia 
exerce um papel no clima continental e, provavelmente, 
mundial e que as sementes que são a base da segurança 
alimentar mundial, cruzaram os oceanos), quanto tem-
poral, para as gerações futuras.
Para os defensores da economia verde, o patrimônio am-
biental precisa ser contabilizado, cada bem natural ser avalia-
232 Sociedade e Contemporaneidade
do e dado um preço. Pela precificação dos bens ambientais 
se poderia dar maior valor ao patrimônio natural do país e 
provocar uma mudança nos hábitos de consumo, evitando o 
desperdício. Para essa visão, se a sociedade é mercantil e se 
temos hoje uma economia qualificada de marrom – a “econo-
mia marrom” (baseada no petróleo e gás ou economia fóssil), 
esta deverá ser transmutada via uma transição tecnológica e 
financeira para a “economia verde”.
No Brasil, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) lan-
çou um documento no dia 14/06/2012 para uma plateia de 
800 representantes da indústria nacional, informando à socie-
dade o desempenho sustentável dos seus filiados. Segundoo 
presidente da CNI, Sr. Robson Braga de Andrade, que repre-
senta 27 federações de indústrias nos estados e no Distrito 
Federal, são mais de 1 mil sindicatos patronais associados e 
196 mil estabelecimentos industriais. A sustentabilidade pas-
sou a fazer parte da agenda estratégica das empresas. Disse 
ele em entrevista ao Jornal O Globo, em 20/06/2012: “hoje, 
as indústrias brasileiras não tratam da sustentabilidade como 
manifestação de boas intenções. Elas incorporam seus princí-
pios nos planos de negócios”. Para a CNI a economia verde já 
é uma realidade nacional.
Capítulo 10 Meio Ambiente e Sustentabilidade 233
10.2 Os principais impactos trazidos pela 
sustentabilidade
Os principais impactos, desde a ECO-92, 
ocorreram na redução das emissões de ga-
ses de efeito estufa, graças à reciclagem, 
uso de insumos renováveis e reaproveita-
mento da água.
A Confederação Nacional da Indústria 
(CNI) fez uma pesquisa inédita com 60 
executivos de grandes empresas do país, 
a qual aponta que, para a maioria deles, ser sustentável tem 
impacto positivo na competitividade. E, por outro lado, não 
aderir a essa postura, para 39%, coloca em risco a sobrevi-
vência da empresa no mercado. Outros 18% temem imagem 
negativa da corporação.
Vemos, abaixo, os principais resultados da pesquisa sobre 
sustentabilidade empresarial: 
 Â 70% dizem que ser sustentável representa custo adicio-
nal para a empresa. Geralmente, gera custos e reduz 
rentabilidade no curto prazo, mas compensa em médio 
e longo prazo (Custo, nesse caso, deve ser visto como 
investimento em consultorias especializadas, P&D, ino-
vação, capacitação, treinamento, entre outros).
 Â 93% consideram alto o impacto da sustentabilidade nas 
políticas de inovação da empresa – como a procura por 
soluções de eficiência para o menor uso de recursos na-
234 Sociedade e Contemporaneidade
turais e para o atendimento de demanda dos consumi-
dores.
 Â 83% relacionam sustentabilidade à economia verde ou 
aos três pilares do conceito de sustentabilidade (ambien-
tal, econômico e social) – o que demonstra visão mais 
contemporânea e consciente em relação ao tema, em 
que já se superou a dicotomia crescimento econômico X 
preservação do meio ambiente.
 Â 86% das empresas ouvidas monitoram suas ações de 
sustentabilidade. Muitas utilizam ferramentas sofistica-
das – seja por sistemas próprios ou se submetem às re-
gras rígidas de programas internacionais (como Global 
Reporting Initiative).
Há consenso de que o papel do governo é importantíssi-
mo nesse processo, em particular na criação de instrumentos 
formais que possam garantir condições de competitividade às 
empresas que abraçam a lógica da sustentabilidade.
10.3 Economia verde: mais inclusão 
social, menos impacto ambiental
Para os executivos entrevistados pela CNI, a economia ver-
de, de forma simplificada, significa: produzir mais para aten-
der às demandas da humanidade, dos mercados emergentes, 
dos mais excluídos, com mais inteligência e menos impacto. 
E, principalmente, deve-se desenvolver ações em três frentes: 
políticas de inovação e de incentivo para a adoção de novos 
Capítulo 10 Meio Ambiente e Sustentabilidade 235
padrões de produção e mudança cultural, em especial no que 
diz respeito ao comportamento de consumo.
As principais correntes econômicas que defendem a Eco-
nomia verde são:
10.3.1 Em economia não existe almoço grátis
O Relatório Economia Verde da ONU, que tenta apontar al-
guns caminhos para uma nova abordagem da economia e da 
questão ambiental não escapou às críticas. Considera possível 
236 Sociedade e Contemporaneidade
conciliar crescimento econômico, sustentabilidade e inclusão 
social, embora não apresente estimativas para os custos da 
inclusão social. Para Mário Ramos Ribeiro, pesquisador e pro-
fessor da Universidade Federal do Pará (UFPA),
o Relatório começa a ficar assustador quando se debruça 
sobre a agricultura e defende a retirada imediata de todos 
os subsídios fiscais concedidos à energia de combustível 
fóssil do setor pesqueiro e diversos subsetores da agri-
cultura. Um período de transição e de adaptação, nem 
pensar [...] Em economia não existe almoço grátis. Al-
guém sempre está pagando. É um equívoco cruel preten-
der convencer os países emergentes de que não existem 
elevados custos de transição e que sem transferência de 
recursos financeiros e tecnologias, o “desemprego verde” 
virá. (O artigo foi publicado no sítio ECO Agência, em 
7/2/2012.)
O debate ambiental quase nunca é imune a divergências 
pontuais, dentre elas destacam-se as que afirmam a geração 
de empregos relacionados à sustentabilidade, em contrapar-
tida há os que temem que aumentará a fome no mundo, por-
que ela é uma tragédia que a cada seis segundos mata uma 
criança por causa da desnutrição. Em um cenário de escassez 
de alimentos, devido à mudança climática, redução da água 
potável, preços dos bens naturais e falta de proteção aos ecos-
sistemas, a fome vai aumentar.
Para pensar em vivenciar a sustentabilidade, temos que ir 
além de fechar a torneira ou usar uma sacola de pano. Para 
Capítulo 10 Meio Ambiente e Sustentabilidade 237
ser sustentável a exigência é: repensar padrões éticos e, sobre-
tudo, hábitos de consumo.
10.4 O preço da preservação
As políticas voltadas para a preservação do ambiente estão 
amarradas a uma lógica de mercadores nos Fóruns multila-
terais, especialmente nas reuniões voltadas para o clima. O 
mais importante acordo climático multilateral foi assinado na 
cidade de Kyoto, no Japão. O pacto trouxe limites e volume 
determinado para as emissões de gases de efeito estufa (GEES) 
feitos pelos países desenvolvidos. Caso o limite seja ultrapas-
sado, abre-se a possibilidade de compra de créditos de carbo-
no nos países em desenvolvimento, num sistema em que sujar 
o planeta compensa as más práticas pagando para que outros 
façam a faxina atmosférica, no dizer de Verena Glass para a 
revista Desafios do Desenvolvimento/IPEA (2012).
Mercado de carbono é o termo genérico utilizado para de-
nominar os sistemas de negociação de certificados de redução 
de emissões de GEES: um crédito de carbono equivale a uma 
tonelada de CO2 que deixou de ser produzida. Para Jutta Kill 
(2012), líder da entidade que monitora as políticas europeias 
para florestas, a ONG Fern, a economia verde tem um lado 
B, devido ao mecanismo para o desenvolvimento limpo (MDL) 
que, com a crise econômica, fez com os créditos de carbono 
ficarem mais baratos nos países em desenvolvimento do que a 
permissão. Assim diz ela: “poluir se torna uma ação mais van-
238 Sociedade e Contemporaneidade
tajosa do que investir em tecnologias que reduzam as emissões 
de GEES” (2012, p. 31).
Para o grupo de pesquisa em Ecologia política do Conselho 
Latino-Americano de Ciências Sociais (CLACSO), “uma tônica 
crescente no discurso da sociedade civil vem sendo a denún-
cia, em vários espaços internacionais, da captura corporativa 
da crise ambiental e climática, causada pelo modelo vigente de 
produção e consumo, e sua cooptação pelas corporações, com 
vistas a maquiar de verde uma nova etapa de acumulação e 
apropriação dos bens comuns”, falou a representante do GT, 
Camila Moreno (2012).
10.5 Rousseau e o futuro que queremos
Neste ano de 2012 há muitas profecias e também muitas co-
memorações. Tratar sobre as profecias que têm como foco 
esse ano não cabe neste artigo. Embora o fundador da socio-
logia Auguste COMTE (1798-1857) afirmava que usando o 
método sociológico, podia-se fazer previsões, resumindo neste 
slogan: “Ver para prever. Prever para Prover”. Mas, aqui se 
quer enfatizar a concepção de igualdade, fraternidade, con-
ceitos fixados no livro: “Contrato Social”, de Rousseau, bem 
antes da revoluçãofrancesa.
Dentre as comemorações de 2012 que se quer enfatizar, 
destaca-se a do tricentenário do nascimento do pensador 
Jean-Jacques Rousseau. Essa data passou a ser uma inspira-
ção para um movimento que quer refletir um jeito diferente de 
Capítulo 10 Meio Ambiente e Sustentabilidade 239
os seres humanos se relacionarem tanto entre si, como com 
a natureza e, especialmente, com instituições, denominado o 
movimento “DAY AFTER”, ou Rio+20+um dia, este tem como 
princípio a solidariedade com os seres vivos, o oposto do indi-
vidualismo atual, em que cada um puxa para si os benefícios 
e vantagens, mesmo de questões que deveriam ser de todas as 
pessoas, países e do planeta.
Jean Jacques Rousseau servirá como âncora, porque, já no 
século XVIII, ele não só falava de solidariedade, como também 
chamava a atenção para uma nova relação do homem com 
a natureza e, por conseguinte, com a educação e com a eco-
nomia. O famoso escritor e ecossocioeconomista polonês Ig-
nacy Sachs (um dos primeiros organizadores das conferências 
sobre meio ambiente) diz: “Daqui para frente poderemos dar 
forma a um novo Contrato Social do século XXI e ter um mega 
contrato social em nível internacional” (2012), considerando 
as cinco dimensões do ecodesenvolvimento: social, econômi-
ca, ecológica, espacial e cultural. Associa a obra de Rousseau 
aos compromissos coletivos, porque o contrato social repousa 
sobre o princípio da mutualidade. “Os compromissos que nos 
ligam ao corpo social não são obrigatórios, senão porque são 
mútuos, e sua natureza é tal, que ao cumpri-los não se pode 
trabalhar para outro sem trabalhar também para si” (Contrato 
Social, livro II, cap. IV).
“O estabelecimento do contrato social é um pacto de es-
pécie particular, por ele cada qual se compromete com todos, 
de onde resulta o compromisso recíproco de todos para com 
cada um, que é o objeto imediato da união” (Cartas escritas 
desde a montanha, parte I, carta VI).
240 Sociedade e Contemporaneidade
E para educar-se para o convívio com a pluralidade de 
crenças, de valores, de ideias dentro da democracia, enfim, 
aprender a tolerância, propõe um tratado de educação cujo 
personagem é Emílio, o qual deve ser educado junto à natu-
reza. “É dentro do coração do homem que o espetáculo da 
natureza existe; para vê-lo, é preciso senti-lo” (Rousseau).
O documento da Assembleia da ONU, sobre desenvolvi-
mento sustentável, tem como título: “O futuro que queremos”, 
e foi aprovado por 188 delegações dos Estados Membros na 
Rio+20, no dia 22/06/2012, após decisão consensual em 
assembleia, como resultado dos esforços multilaterais. “Hoje 
é tempo de multilateralismo, que se constroem consensos his-
tóricos, o consenso possível. Não há método único. Tenho 
que respeitar quem pensa diferente de mim” (Presidente Dilma 
Rousseff).
10.6 Quais ações serão desenvolvidas 
como prioritárias, após a Rio+20?
Primeiramente, foram definidas as áreas temáticas e as ques-
tões transversais, são elas: a erradicação da pobreza, a se-
gurança alimentar, a nutrição/agricultura sustentável, a água 
e o saneamento, energia, o turismo sustentável, o transporte 
sustentável, cidades sustentáveis e assentamentos humanos, 
saúde e população, promoção do emprego pleno e produtivo, 
do trabalho digno para todos, e das proteções sociais, ocea-
nos e mares, pequenos Estados insulares em desenvolvimento 
(SIDS), países menos desenvolvidos, países em desenvolvimen-
Capítulo 10 Meio Ambiente e Sustentabilidade 241
to sem litoral, África, os esforços regionais, redução do risco 
de desastres naturais, as mudanças climáticas, florestas, bio-
diversidade, desertificação, degradação do solo e seca, mon-
tanhas, produtos químicos e resíduos, consumo e produção 
sustentáveis, mineração, Educação, a igualdade de gênero e 
empoderamento das mulheres.
Os temas acima estão descritos no documento, assim 
como são definidos os meios de implementação e formas de 
financiamentos para se alcançar as metas propostas até o ano 
de 2015. O documento aprovado é bastante esclarecedor da 
situação mundial em face de como se encontra cada um dos 
conceitos e temas alocados acima. Vale a pena conferir o do-
cumento “O Futuro que queremos” completo e em português 
que contém 55 páginas e está nos site: www.rets.org.br/sites/
default/files/ofuturoquequeremos.
10.6.1 Cúpula dos povos: venha reinventar o 
mundo
O slogan acima foi o chamado à participação da sociedade 
civil. Movimento paralelo, contrapondo-se ao que estaria sen-
do debatido na Rio+20 com os representantes dos países e 
dos chefes de Estado.
Já em 1992, para pressionar o que estaria sendo decidido 
para a Agenda 21, formou-se o Fórum Global que, em 45 
tendas instaladas no Aterro do Flamengo, debateram e gera-
ram Tratados entre ONGs e movimentos sociais, independen-
tes dos governantes, mas articuladas a lutas e agendas socio-
242 Sociedade e Contemporaneidade
ambientais que questionaram o modelo de desenvolvimento 
em curso.
Já naquela época, vozes do Fórum Global denunciavam: 
“Recusamos energicamente que o conceito de Desenvolvimen-
to Sustentável seja transformado em mera categoria econômi-
ca, restrita às novas tecnologias e subordinada a cada novo 
produto no mercado” (Declaração do Rio de Janeiro, Fórum 
Global, ECO 92).
Para as mesmas ONGs da época, o termo Desenvolvimen-
to Sustentável foi tão amplamente utilizado para encobrir vio-
lações de direitos e injustiças ambientais que hoje não quer 
dizer mais nada. Para Fátima Mello, do Núcleo de Justiça Am-
biental e Direitos, FASE: “De novo nós, a Cúpula dos Povos, 
afirmamos que a economia verde é mais uma tentativa das 
corporações legitimarem a supressão de direitos e a apropria-
ção privada da natureza para manterem suas taxas de lucro” 
(2012, p. 10).
Esses movimentos mostram que há semelhanças entre o 
que ocorreu há vinte anos. Também consideram as dinâmicas 
que diferenciam a lógica do Fórum Global 92 e a Cúpula dos 
Povos de 2012.
Destacam-se que, atualmente, há solidez nas práticas que 
respeitam as pessoas e o ambiente, como a produção de ali-
mentos saudáveis na agroecologia. Na Cúpula essas práticas, 
vivências e experiências foram apresentadas nas tendas e esse 
espaço chamou-se Territórios do Futuro, porque aconteceram 
em territórios de resistência.
Capítulo 10 Meio Ambiente e Sustentabilidade 243
Nas plenárias, debates, assembleias na Cúpula dos Povos, 
buscou-se a aproximação de visões comuns e uma forma de 
juntar forças para agirem no plano político. A principal afir-
mação para que se possa reinventar o mundo é que a huma-
nidade precisa ser regida sob o signo dos bens comuns, dos 
direitos, da justiça social e ambiental.
10.6.2 Da ação do ambientalista Lutzemberger 
à criação do MMA
No ano de 2012 homenageou-se a memória e o legado do am-
bientalista José Lutzemberger, que faleceu no dia 14/5/2002. 
Tivemos no Brasil a atuação de grandes conservacionistas, 
preservacionistas, porém com uma visão da ação sobre o mo-
delo capitalista o mais ousado foi Lutzemberger. Formado em 
agronomia, fluente em cinco idiomas, possuía grande capaci-
dade de comunicação, executivo da BASF, empresa de defen-
sivos agrícolas, por mais de 10 anos. Ao conhecer os traba-
lhos de Rachel Carson sobre os efeitos dos produtos químicos 
no planeta, pede demissão e torna-se consultor, empresário e 
pesquisador de alternativas para a produção saudável de ali-
mentos. Funda, com outros pesquisadores e estudiosos, uma 
ONG para divulgar e pressionar os governos local, regional e, 
posteriormente, o nacional, para a criação de reservas e/ou a 
proibição de produtos cancerígenos na alimentação humana 
ou de animais.
Recebeu inúmeros prêmios e ao ser convidado para assu-
mir a Secretaria Especial do Meio Ambiente, em 1990, conse-guiu trazer para o Brasil, no Rio de Janeiro, a 1ª grande Con-
ferência Mundial, chamada ECO 92 ou Rio 92. A partir dessa 
244 Sociedade e Contemporaneidade
data, o governo federal começa a institucionalizar a questão 
ambiental, com a criação do Ministério do Meio Ambiente, 
diretorias e Fundações. A missão do Ministério é: promover 
a adoção de princípios e estratégias para o conhecimento, a 
proteção e a recuperação do meio ambiente, o uso sustentável 
dos recursos naturais, a valorização dos serviços ambientais e 
a inserção do desenvolvimento sustentável na formulação e na 
implementação de políticas públicas, de forma transversal e 
compartilhada, participativa e democrática, em todos os níveis 
e instâncias de governo e sociedade.
No organograma do Ministério do Meio Ambiente pode-se 
ver as várias funções e as obrigações que pretende desempe-
nhar junto à nação brasileira.
Capítulo 10 Meio Ambiente e Sustentabilidade 245
A partir desta data, organiza-se nos estados e municípios 
as secretarias de meio ambiente, as fundações, como a Fe-
pam (Fundação Estadual de Proteção Ambiental) no RS, Fatma 
(Fundação do Meio Ambiente) em SC, a Cetesb (Companhia 
Ambiental do Estado de São Paulo) e outros. Em cada estado 
e município existem as Comissões de Meio Ambiente, e nelas 
são representados os órgãos públicos e entidades, universida-
des e ONGs locais ou estaduais.
“Lutzemberger falava que gostaria de voltar de tanto em tan-
to tempo, pois tinha curiosidade para ver como estaria o pla-
neta” (Lilian Dreyer, biógrafa do ecologista, C.P., 14/2/2012).
Caso isso fosse possível, Lutz veria que há muitos movimentos 
que convergem para o princípio do cuidado, da convivência e 
do compartilhamento de todos os seres vivos no planeta cha-
mado GAIA2, pelos antigos.
10.7 As políticas e as leis ambientais
As conferências mundiais, os movimentos ambientais, as orga-
nizações de consumidores, todos pressionam poderes execu-
tivo, legislativo, judiciário para apresentação e o desenvolvi-
mento de políticas ambientais. O ministério do meio ambiente, 
cumprindo a Agenda 21, realizou conferências consultivas e 
2 Divindade Grega – Gaia, Geia, Gea ou Gê era a deusa da Terra, a Mãe 
Terra, como elemento primordial e latente de uma potencialidade geradora 
quase absurda. Segundo Hesíodo, no princípio surge o Caos, e do Caos 
nascem Gaia, Tártaro, Eros (o amor), Érebo e Nix (a noite) (Wikipédia, a 
enciclopédia livre).
246 Sociedade e Contemporaneidade
participativas nos estados brasileiros. A partir dessa foram 
apresentados planos, programas e ações que se expressam 
nas políticas e setores no organograma do Ministério do MMA.
Destacamos abaixo as principais políticas e as respectivas 
leis:
 Â Política Nacional do Meio Ambiente
 LEI Nº 6.938, DE 31 DE AGOSTO DE 1981.
 Â Política Nacional de Educação Ambiental
 LEI Nº 9.795, DE 27 DE ABRIL DE 1999.
 Â Política Nacional de Resíduos sólidos
 LEI Nº 12.305, DE 2 DE AGOSTO DE 2010.
 Â Política Nacional de Mudanças climáticas
 LEI Nº 12.187, DE 29 DE DEZEMBRO DE 2009.
 Â Código Florestal
18 DE OUTUBRO DE 2012 – A SER SANCIONADO PELA 
PRES. DILMA ROUSSEFF.
No momento em que todos os países, todos os setores da 
economia, da cultura, dos governos falam em sustentabilida-
de, responsabilidade socioambiental, consumo consciente, 
mercado ético, conservação ambiental, impactos ambientais, 
bens comuns e tantos outros conceitos associados a estes e 
a outros que exigem cumprimentos de políticas, de leis, e de 
regulamentações nacionais e globais e a demanda por pro-
fissionais que compreendam a contemporaneidade. Vemos 
Capítulo 10 Meio Ambiente e Sustentabilidade 247
que nos negócios, os clientes, os consumidores, as instituições 
financeiras exigem práticas de corresponsabilidade no desen-
volvimento social e na preservação do meio ambiente.
Na Revista Época Negócios (2009, p. 126) consta que: 
“diante de uma agenda de negócios que foi invadida por te-
mas antes periféricos, como meio ambiente e relações com a 
sociedade, o desafio agora é encontrar pessoas para a área 
da sustentabilidade”. No mesmo artigo lemos: “o profissio-
nal tem que ter uma visão de toda a cadeia produtiva, ter a 
competência de compreender o negócio de forma holística, 
mostrar resultados concretos e saber se relacionar com os no-
vos atores da cena dos negócios. Dar atenção às ONGs, às 
comunidades afetadas pela localização e pelo negócio e à 
atuação da mídia”.
Para a cientista política Carla Duprat, diretora de sustenta-
bilidade do grupo Camargo Correia, “é preciso uma capaci-
dade enorme de organização e comunicação, além de buscar 
soluções dentro e fora da empresa e valorizar o conhecimento 
existente” (2009, p. 126). A tarefa dessa executiva e de sua 
equipe, a qual são chamados de “guardiões da sustentabilida-
de”, é disseminar o conceito e colocar mudanças em prática 
nas doze empresas do grupo, cujos negócios vão da engenha-
ria e construção civil à fabricação das sandálias havaianas.
Assim, as possibilidades e as potencialidades de trabalho 
na área da sustentabilidade e da avaliação ambiental são 
enormes. No entanto, a sociedade é uma rede e um inter-
cruzamento de interesses, de visões, de crenças, de poderes 
que se manifestam em contradições, tensões, conflitos que não 
248 Sociedade e Contemporaneidade
se resolvem com soluções tecnicistas, legalistas e que desco-
nhecem as desigualdades sociais, as injustiças ambientais e 
autoritarismos herdados de um passado colonial, tirânico, pa-
trimonialista e paternalista.
Assim, com a constituição de 1988, incluíram as questões 
de participação pública, institucional e política. As audiências 
públicas vieram para serem considerados os efeitos sociais, 
culturais, econômicos, ambientais e institucionais, vivenciados 
pelos grupos atingidos, de qualquer atividade pública ou pri-
vada que altere de maneira indesejada a forma como as pes-
soas moram, trabalham, se relacionam umas com as outras, 
elaboram sua expressão coletiva e seus modos próprios de 
subjetivação. Para Henri Acselrad “a dimensão ambiental não 
pode ser avaliada de modo separado da dimensão social e 
cultural”.
Recapitulando
As questões ambientais iniciam-se nos locais mais próximos 
das pessoas, desde a casa, passando pelo trabalho, lazer e a 
cidade onde residem. Mas, como vivemos em uma casa co-
mum (o Planeta Terra), no dizer dos documentos das Confe-
rências Mundiais do Meio Ambiente, o cuidado com o meio 
ambiente é global.
A Agenda 21, um plano acordado entre todos os países 
signatários da ECO-92, orienta quais são as ações promoto-
ras e fiscalizadoras que devem ser realizadas em cada locali-
Capítulo 10 Meio Ambiente e Sustentabilidade 249
dade para se obter a sustentabilidade da terra. O slogan da 
agenda é: “Pense globalmente e aja localmente”. É um convite 
– compromisso de todos e a cada um em particular de calcular 
o quanto de nosso consumo pessoal está “gastando do pla-
neta”. A ferramenta para essa verificação do rastro pessoal do 
que a terra nos oferta se faz através do chamado cálculo da 
pegada ecológica. Deste modo, a busca pela sustentabilida-
de leva à inovação no aproveitamento dos resíduos, a novas 
formas de comércio, à criação de materiais biodegradáveis, 
assim como retorno a alimentos orgânicos e, especialmente, 
uma dupla preocupação de um lado com o luxo, que trata de 
ofertar vivências saudáveis, com a pobreza para que ocorra a 
justiça socioambiental.
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Atividades
 1) Assinale F (falso) ou V (verdadeiro) ao lado das assertivas 
abaixo:
a) ( ) Há uma relação entre alimentação e pegada eco-
lógica.
b) ( ) Justiça socioambiental quer dizer colocar preço em 
todos os serviços ambientais.
c) ( ) Desenvolvimento sustentável quer dizer a mesma 
coisa que Economia Verde.
d) ( ) A ECO-92 foi a maior conferência voltada para a 
questão ambiental e dela saiu o documento chamado 
AGENDA 21. 
e) ( ) Não há uma relação entre alimentação e pegada 
ecológica.
 2) Leia as assertivas abaixo e identifique as corretas com um 
X:
Capítulo 10 Meio Ambiente e Sustentabilidade 253
a) ( ) Para passar a viver mais a sustentabilidade, temos 
que ir além de fechar a torneira ou usar uma sacola de 
pano. Para ser sustentável, a exigência é de repensar 
os padrões éticos e sobretudo o hábito de consumo.
b) ( ) Mercado do carbono é o termo genérico utilizado 
para denominar os sistemas de negociação de certifi-
cados de redução de emissões de GEES: um crédito 
de carbono equivale a uma tonelada de CO2 que dei-
xou de ser produzida.
c) ( ) As ações do ambientalista Lutzemberger geraram 
mudanças na organização do Estado brasileiro pela 
criação do Ministério do Meio Ambiente.
d) ( ) O Ministério do Meio Ambiente é voltado somente 
para a preocupação climática.
e) ( ) Todas as alternativas acima estão incorretas.
 3) Assinale, abaixo, as políticas corretas: As políticas e as leis 
ambientais que orientam os Princípios, programas e ações 
são: 
a) ( ) Política Nacional do Meio Ambiente;
b) ( ) Política Nacional de Economia Criativa;
c) ( ) Política Nacional de Resíduos sólidos;
d) ( ) Política Nacional de Educação Ambiental;
e) ( ) Nenhuma das alternativas acima está correta.
254 Sociedade e Contemporaneidade
 4) Os clientes e os consumidores estão mais exigentes em re-
lação às mercadorias e aos produtos a serem adquiridos. 
Assinale com F (Falso) ou V (Verdadeiro) as razões para 
essas exigências: 
a) ( ) A preocupação com o meio ambiente.
b) ( ) A preocupação com a saúde pessoal. 
c) ( ) A educação ambiental já chegou a todos.
d) ( ) Os produtos são mais baratos e acessíveis ao poder 
de compra.
e) ( ) Nenhuma das alternativas acima está correta.
 5) Aprofundando o conceito de Justiça Ambiental para 
ACSELRAD:
I - A condição de existência social em que se verifica igual 
proteção aos distintos grupos sociais com relação aos 
danos ambientais, por intermédio de leis e regulações 
democraticamente concebidas, que impeçam ao mer-
cado impor decisões discriminatórias com base em 
raça, cor nacionalidade ou status socioeconômico. Ela 
resulta de um tratamento justo e de um envolvimento 
efetivo de todos os grupos sociais, no desenvolvimen-
to, implementação e respeito a leis, normas e políticas 
ambientais. 
II- Para LEROY, estamos tão envolvidos na sociedade 
capitalista dominada por noções como propriedade 
privada, consumo e mercado e tão saturados pela 
informação e pela publicidade dominantes, que não 
Capítulo 10 Meio Ambiente e Sustentabilidade 255
percebemos espontaneamente que há ainda uma por-
ção grande da nossa realidade e do planeta que está 
situada fora dos circuitos mercantis. 
III- Para BOLLIER, recursos compartilhados são o que uma 
comunidade constrói e mantém (biblioteca, parque, 
rua), os recursos nacionais que pertencem a todos 
como lagos, florestas, vida silvestre, espaço radioelé-
trico e os recursos mundiais dos quais os seres vivos 
necessitam para poder sobreviver (atmosfera, água, 
biodiversidade). 
IV- A Poluição é democrática, afeta todas as classes so-
ciais, não importando onde moram e quanto ganham. 
As correlações corretas entre as citações de autores são: 
a) ( ) I, II e IV
b) ( ) II, III e IV
c) ( ) I, II e III
d) ( ) Nenhuma correlação está correta.
e) ( ) Todas as correlações acima estão corretas.
256 Gabarito
Gabarito
Capítulo 1
 1) b
 2) d
 3) c
 4) e
 5) d
Capítulo 2
 1) d
 2) d
 3) c
 4) d
 5) d
Capítulo 3
 1) d
 2) e
 3) b
 4) a
 5) e
Capítulo 4
 1) b
Gabarito 257
 2) d
 3) e
 4) e
 5) e
Capítulo 5
 1) c
 2) e
 3) a-V, b-V, c-F, d-V, e-V
 4) e
 5) a-V, b-V, c-V, d-V, e-F
Capítulo 6
 1) a
 2) a-V, b-V, c-F, d-F, e-V
 3) d
 4) d
 5) b
Capítulo 7
 1) b
 2) d
 3) c
 4) e
258 Gabarito
 5) c
Capítulo 8
 1) b
 2) c
 3) e
 4) d
 5) a
Capítulo 9
 1) d
 2) b
 3) d
 4) a
 5) e
Capítulo 10
 1) a-V, b-F, c-F, d-V, e-F
 2) a, b, c
 3) a, c, d
 4) a-V, b-V, c-F, d-F, e-F
 5) c

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