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Sociedade e Contemporaneidade ??????????? Sociedade e Contemporaneidade Organizado por Universidade Luterana do Brasil Universidade Luterana do Brasil – ULBRA Canoas, RS 2016 Arlete Aparecida Hildebrando de Arruda Deivison Moacir Cezar de Campos Everton Rodrigo Santos Gabriela Ramos de Almeida Honor de Almeida Neto Julieta Beatriz Ramos Desaulniers Paulo G. M. de Moura Rodrigo Perla Martins Conselho Editorial EAD Andréa de Azevedo Eick Ângela da Rocha Rolla Astomiro Romais Claudiane Ramos Furtado Dóris Gedrat Honor de Almeida Neto Maria Cleidia Klein Oliveira Maria Lizete Schneider Luiz Carlos Specht Filho Vinicius Martins Flores Obra organizada pela Universidade Luterana do Brasil. Informamos que é de inteira responsabilidade dos autores a emissão de conceitos. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem prévia autorização da ULBRA. A violação dos direitos autorais é crime estabelecido na Lei nº 9.610/98 e punido pelo Artigo 184 do Código Penal. Dados técnicos do livro Diagramação: Marcelo Ferreira Revisão: Geórgia Marques Píppi No Brasil, quem decide ser um profissional ou empreendedor com formação em nível superior revela diversas expectativas. Quer que seu currículo seja considerado diferenciado em meio a inúmeros outros currículos profissionais. Quer ter maior satisfação em seu trabalho ou empreendimento. Quer ganhar mais, seja como assalariado, seja como empresário. Quer pautar seu exercício profissional por maior qualificação em termos de conhecimento e prática, tornando-se, com isso, um agen- te de transformação social, política, econômica e cultural. Quer tornar-se um formador de opinião. Sem dúvida alguma, é muito provável que estas e outras expectativas sejam alcançadas. De modo sistemático, estudos e análises revelam que profissionais com formação em nível superior têm grandes vantagens e destaque na sociedade, no ambiente empreendedor e no mercado de trabalho no Brasil. Os cursos de graduação da ULBRA são projetados tendo por referência tais expectativas e querem acompanhar os estudantes que neles ingressam para que elas sejam alcançadas. São quatro as diretrizes fundamentais propostas pelos cursos: 1) Intermediar conhecimento atualizado, pertinente à área profissio- nal e pautado permanentemente por inovação; 2) Mover os estudantes a cultivarem de modo intensivo sua formação pessoal (valores, princípios, caráter, hábitos e referências éticas); 3) Avaliar incessantemente seus conteúdos, práticas e formas sob o critério da empregabilidade de seus egressos; 4) Valorizar o empreendedorismo, ou seja, estabelecer em todos os âmbitos do curso e da universidade as condições para que os Apresentação Apresentação v acadêmicos estejam imersos em uma cultura empreendedora e de- senvolvam ou aperfeiçoem sua consciência empreendedora. A disciplina Sociedade e Contemporaneidade está entre as que de forma mais direta interpelam estudantes e professores em relação a essas diretrizes fundamentais. Independente do curso de graduação, é essencial que todos os envolvidos – estudantes, docentes e equipes administrativas de suporte ao ensino – estejam referenciados em dois trilhos que correm paralelamente de modo indissociado, orientando o processo de formação como um todo: o projeto pedagógico do curso com sua matriz curricular e todos os demais elementos que o compõem e a carreira profissional a ser construída. Nesta disciplina, abre-se concretamente a possibilidade de compreender no contexto social, seja no mais próximo ou naquele mais amplo, levando em conta suas múltiplas facetas, as consequências e as possibilidades para quem decidiu fazer um curso superior e construir uma carreira profissional diferenciada no mercado de trabalho e no ambiente empresarial. Os conteúdos a seguir, cuidadosamente redigidos e sistematizados por professores de alta qualificação e experiência, serão, por vezes, considera- dos desafiadores e complexos quanto a sua compreensão. O foco perma- nente na carreira que se está desenvolvendo, justamente por isso, será um grande auxílio a iluminar os passos de cada estudante em seu progresso e descobertas. Prof. Dr. Ricardo Willy Rieth Sociólogo, teólogo, professor do PPGEDU e vice-reitor da Universida- de Luterana do Brasil 1 A Sociedade Contemporânea: Uma Rede Dinâmica ..............1 2 Redes Sociais na era Digital ................................................31 3 Novas Identidades em uma Sociedade em Transformação ...55 4 Jogo de Espelhos: A Crise das Identidades Sociais na Sociedade Contemporânea .................................................75 5 Educação na era Digital ......................................................99 6 Fronteiras da Tolerância: Etnicidade, Gênero e Religião .....120 7 Trabalho e Emprego no Mundo das Novas Tecnologias.......................................................................144 8 O Brasil no Cenário Internacional da Contemporaneidade 180 9 Organizações e Participação Política e Social no Mundo Contemporâneo ...............................................................198 10 Meio Ambiente e Sustentabilidade ....................................223 Sumário Honor de Almeida Neto1 Capítulo 1 A Sociedade Contemporânea: Uma Rede Dinâmica1 1 Doutor em Serviço Social pela PUCRS (2004), Mestre (1999) e Graduado em Ciências Sociais pela mesma Universidade (1995). Coordenador do curso CST em Gestão Pública na modalidade EAD e do curso de Ciência Política da ULBRA Canoas. Integra o grupo de pesquisa Sociedade Informacional, Individualidades, Políticas Sociais da ULBRA. Pesquisador com experiência na área das Ciências Hu- manas e Sociais com ênfase na análise de processos de formação da Criança e do Adolescente e do impacto das Novas Tecnologias de Informação e Comunicação (NTIC) na qualidade das relações humanas e sociais. 2 Sociedade e Contemporaneidade Introdução Vivemos em um período marcado pela inovação tecnológica cuja velocidade dos fenômenos e a complexidade, que envol- ve toda e qualquer temática a ser pesquisada, deixa a todos uma sensação de incerteza quanto ao futuro. Para um melhor entendimento dos códigos que distinguem a era em que vi- vemos - Era Digital- e o estágio atual do capitalismo, aponto nesse capítulo alguns pressupostos. O objetivo é instrumentali- zar você, aluno, para que possa apreender alguns princípios e categorias teóricas contemporâneas das Ciências Sociais, ou seja, para que tenha mais elementos para entender esse nosso tempo, tempo em que nas palavras de Baumann “o homem ganha em liberdade, mas perde em certezas [...]” (BAUMANN, 2001). Categorias de análise e conceitos são instrumentais das ciências, sobretudo das ciências humanas e sociais, e funcio- nam como “óculos”, como lentes que ampliam o nosso olhar sobre a realidade aproximando-nos com mais rigor e objeti- vidade desta realidade. Proponho nesse capítulo uma breve análise do impacto das Novas Tecnologias de Informação e Comunicação (NTIC) na qualidade das relações humanas e sociais, uma análise sócio-técnica da sociedade contemporâ- nea, que tenha como centro ou como nó central as mediações sociais, os meios através dos quais nos comunicamos uns com os outros. A história das relações humanas e da construção social dos fenômenos não pode ser desvinculada da história das me- diações sociais, das técnicas, das tecnologias disponíveis em cada período histórico, bem como, das rupturas que a pe- Capítulo 1 A Sociedade Contemporânea: Uma Rede Dinâmica 3 netrabilidade dessas mediações instaura nas sociedades, em todas as suas dimensões. Ao se complexificarem, as media- ções instauram mudanças nas relaçõessociais e geram novas possibilidades. Mas então, quais são essas novas mediações? Quais são as suas características? Qual é a penetrabilidade nas socieda- des e quais os impactos e transformações que instauram? 1.1 Novas mediações tecnológicas: novas revoluções Jornais, revistas, programas de rádio e TV, simpósios acadê- micos, filmes, documentários, sites, convergência de mídias e inúmeros novos aplicativos móveis apontam para o fato de que vivemos em uma sociedade da informação, era digital, planetária, sociedade midiática, fluída, em rede. O conceito de mídia, segundo Pierre Levy, refere-se “ao suporte ou veículo da mensagem. O impresso, o rádio, a televisão, o cinema ou a Internet, por exemplo, são mídias” (LEVY, p. 61). Embora o acesso e a troca de informações sempre estives- sem presentes na sociedade, hoje, as mediações disseminam a informação de uma maneira inédita e com características que a distinguem das mediações anteriores, instaurando profundas mudanças na dinâmica dos fenômenos. Os dispositivos comu- nicacionais, hoje disponíveis, possibilitam diferentes formas de comunicação entre as pessoas, rompem com a comunicação passiva, típica de mediações anteriores. Abrem novas possibi- 4 Sociedade e Contemporaneidade lidades aos sujeitos cujas ações retroagem sobre a sociedade, complexificando-a. Lembrem-se que o homem constrói a cul- tura que constrói o homem e assim sucessivamente. Quanto às características dessas mídias, Levy aponta para três grandes categorias, um-todos, um-um e todos-todos. A imprensa, o rádio e a televisão são estruturados de acordo com o princípio um-todos: um centro emissor envia suas men- sagens a um grande número de receptores passivos e disper- sos. O correio ou telefone organizam relações recíprocas entre interlocutores, mas apenas para contato indivíduo a indivíduo ou ponto a ponto (LEVY, 1999). O advento das mídias inte- rativas, como a Internet, trouxe de original, para as relações sociais, a maior possibilidade de conexão entre as pessoas, em tempo muitíssimo mais veloz e independente da distância, do espaço. Ou seja, os computadores além de agregarem for- mas de comunicação típicas de outras eras, como a escrita, a imagem e o som, e acelerarem a velocidade das informações, permitem uma interconexão planetária inédita que efetivamen- te nos transforma em moradores de uma “aldeia global”. O ciberespaço permite que comunidades constituam de forma progressiva e de maneira cooperativa um contexto comum (dispositivo todos-todos); [...] são os novos disposi- tivos informacionais (mundos virtuais, informações em fluxo) e comunicacionais (comunicação todos-todos) que são os maiores portadores de mutações culturais (LEVY, 1999, p. 63). O ciberespaço, este novo espaço de troca, de relação, é construído em função das novas tecnologias e de suas ca- racterísticas. Na comparação com as mediações anteriores, sobretudo a imprensa e a televisão, a Internet é potencialmen- Capítulo 1 A Sociedade Contemporânea: Uma Rede Dinâmica 5 te transformadora, visto que, a televisão e a imprensa podem impor uma visão da realidade e proibir a resposta, a crítica e o confronto entre posições divergentes. [...] Em contrapartida, a diversidade das fontes e a discussão aberta são inerentes ao funcionamento de um ciberespaço2 que é incontrolável por essência (LEVY, 1999). A Internet é um meio de comunicação que permite, pela primeira vez, a comunicação de muitos com muitos e em escala global. Assim como a difusão da máquina impressora no Ocidente criou o que MacLuhan chamou de a Galáxia de Gutenberg, ingressamos agora num novo mundo de comunicação: a Galáxia da Internet (CASTELLS, 2003). O impacto das tecnologias é central para que possamos entender o que define-se como Terceira Revolução Industrial e/ou Era Digital, e as novas possibilidades associadas a esse nosso tempo. Como tipo ideal, podemos identificar três gran- des rupturas, três grandes revoluções. Motor da acumulação e expansão capitalista, a máquina a vapor promoveu a revo- lução tecnológica do Séc. XVIII. O mesmo ocorreu com a ele- tricidade no século XIX e com a automação, que representam o estágio mais recente da evolução tecnológica, ou a terceira onda da Revolução Industrial (ALBORNOZ, 2000). Caracteri- zada como um processo de mudança de uma economia agrá- ria e manual para uma economia dominada pela indústria, a Primeira Revolução Industrial tem início na Inglaterra em 1760 e se alastra para o resto do mundo, provocando profundas mudanças na sociedade. Caracteriza-se pelo uso de novas fontes de energia; invenção de máquinas que permitem au- 2 Ver conceito no glossário ao final do capítulo. 6 Sociedade e Contemporaneidade mentar a produção com menor gasto de energia humana; di- visão e especialização do trabalho; desenvolvimento do trans- porte e da comunicação e aplicação da ciência na indústria. A revolução também promove mudanças na estrutura agrária e o declínio da terra como fonte de riqueza; a produção em grande escala voltada ao mercado internacional; a afirmação do poder econômico da burguesia; o crescimento das cidades e o surgimento da classe operária, tendo como espaço de tra- balho a fábrica. Segundo Lester Thurow (EXAME, 2001), se há trezentos anos cerca de 90% da população vivia da agricultu- ra, atividade que era exercida com a mesma tecnologia primi- tiva - cavalos, bois, pessoas e fertilizantes de origem animal, foi a invenção da máquina a vapor que fez com que 8 mil anos de agricultura como atividade dominante da humanidade che- gassem ao fim. E, em 30 anos, os industriais da Inglaterra conseguiram reunir uma fortuna maior que a dos nobres, que foram os homens mais ricos dos séculos anteriores. A Primeira Revolução Industrial caracterizou-se pela con- centração dos trabalhadores nas fábricas e pelas transforma- ções na rotina das cidades e no próprio trabalho. O uso de máquinas permitiu o ingresso de mulheres e de crianças no mundo do trabalho, principais vítimas do trabalho precarizado do começo do período de industrialização. Para aumentar o desempenho dos operários, a produção foi dividida em várias operações. O operário executava uma única etapa, sempre do mesmo modo, o que o alienou do processo de trabalho, ou seja, fez com que este perdesse a noção do produto final de seu trabalho. Capítulo 1 A Sociedade Contemporânea: Uma Rede Dinâmica 7 Entre a segunda metade do século XIX e a primeira meta- de do século XX, após a Primeira Guerra Mundial, surgiu um novo período denominado “Segunda Revolução Industrial”. Uma das principais características deste período foi a crença na lucratividade advinda da ciência, ao contrário do empiris- mo tecnológico, avesso à ciência, típico da Primeira Revolução Industrial. A invenção da eletricidade potencializou a capaci- dade produtiva do homem, libertando-o dos limites da noite e do dia. A energia elétrica esteve para a Segunda Revolução Industrial como a máquina a vapor esteve para a Primeira. Trouxe um enorme aumento da produção industrial e para au- mentar a produtividade do trabalho, Frederick W. Taylor criou o método de administração científica que se tornaria conheci- do como taylorismo. Taylor apontava como grande problema das técnicas administrativas existentes o desconhecimento pela gerência, bem como pelos trabalhadores, dos métodos que otimizassem o trabalho, tarefa que seria efetivada pela gerên- cia, através de experimentações sistemáticas de controle de tempos e de movimentos. Uma vez descobertos, os métodos foram repassados aos trabalhadores que se transformaram em executores de tarefas pré-definidas. Vê-se aqui a diminuição de espaços voltados à auto-organização3 dos trabalhadores, típicos da época e do então estágio de desenvolvimentodas forças produtivas4, rígidas, controladoras, hierarquizadas e com tarefas compartimentadas e mecânicas. O salário tinha uma relação estreita com o tempo de execução da tarefa, da 3 Ver glossário ao final do capítulo. 4 Ver glossário ao final do capítulo. 8 Sociedade e Contemporaneidade jornada de trabalho. Veremos posteriormente que essa relação entre tempo e salário modifica-se na atualidade. Primeiro foi a substituição das ferramentas manuais pelas máquinas; depois, a eletricidade e o motor de combustão in- terna, bem como o início das tecnologias de comunicação, como o telégrafo e o telefone, sendo ambos períodos mar- cados por transformações constantes e de grande velocidade (CASTELLS, 1999). A gênese da Terceira Revolução Industrial encontra-se no período Pós Segunda Guerra Mundial, quando as indústrias química e eletrônica desenvolveram-se. Tempo e espaço são dimensões centrais para entendermos as mudan- ças pelas quais a sociedade vem passando, o tempo hoje é atemporal (as respostas se dão em tempo real) e o espaço é desterritorializado (daí vivemos em uma aldeia global). A transformação do modelo produtivo começou a se apoiar nas tecnologias que já vinham surgindo nas décadas do pós- -guerra e nos avanços das novas tecnologias da informação. Em substituição ao taylorismo (americano), o método de pro- dução japonês (toyotismo) combina máquinas de alta comple- xidade com uma nova forma gerencial e administrativa de pro- dução, menos hierarquizada. As empresas estão achatando suas tradicionais pirâmides organizacionais e delegando, cada vez mais, a responsabilidade pela tomada de decisão às equi- pes de trabalho. Hoje, os computadores e dispositivos móveis tornam-se a principal ferramenta em quase todos os setores da economia, do conhecimento, da informação e, também, requisito primordial ao trabalhador. Capítulo 1 A Sociedade Contemporânea: Uma Rede Dinâmica 9 Na relação entre capital (recursos) e trabalho (mão de obra), típica do nosso período histórico, um novo perfil de trabalhador é exigido pelo mercado, com maior valorização de sua capacidade criativa. As tecnologias, hoje disponíveis, demandam novas competências aos trabalhadores, para além de meras habilidades, restritas a tarefas repetitivas e rígidas. A valorização de competências humanas, em meio ao proces- so produtivo, leva diversos autores a denominar a sociedade atual como sociedade do conhecimento. A maior exigência de qualificação da mão de obra aumenta também o fosso de desempregados e subempregados. Ou seja, a inclusão social, hoje, passa pela inclusão digital. Quanto aos pressupostos da Sociedade Informacional, Castells (1999) distingue modo de desenvolvimento de modo de produção. O modo de produção diz respeito à forma como é distribuído o produto do trabalho, como são feitos a apro- priação e o uso do excedente e podendo ser, portanto, capi- talista (sob o domínio do capital), ou estadista (sob o domínio e controle do Estado). Já o modo de desenvolvimento é deter- minado pelo elemento principal para a produtividade, outrora o modo de desenvolvimento agrário (cuja riqueza maior era a posse da terra), depois a indústria (fontes de energia, industria- lismo) e, hoje em dia, o controle e a produção de informação (informacionalismo). Tratam-se de “procedimentos mediante os quais os trabalhadores atuam sobre a matéria para gerar o produto, em última análise, determinando o nível e a qualida- de do excedente” (CASTELLS, 1999, p. 34). Historicamente, os modos de desenvolvimento modelam o comportamento social e, inclusive, a comunicação simbólica 10 Sociedade e Contemporaneidade dos povos. No modo de desenvolvimento informacional, as relações técnicas de produção difundem-se por todo o con- junto de relações e estruturas sociais, ou seja, há uma íntima ligação entre cultura e forças produtivas que tende a trazer o surgimento de novas formas históricas de interação, controle e transformação social. As instituições, as companhias e a so- ciedade em geral transformam a tecnologia, qualquer tecno- logia, apropriando-a, modificando-a, experimentando-a [...] esta é a lição que a história social da tecnologia ensina [...]. A comunicação consciente (linguagem humana) é o que faz a especificidade biológica da espécie humana. Como nossa prática é baseada na comunicação, e a Internet transforma o modo como nos comunicamos, nossas vidas são profun- damente afetadas por essa nova tecnologia da comunicação (CASTELLS, 2003). Se, ao longo da história da humanidade, a riqueza este- ve sempre ligada à posse e ao controle de recursos materiais como a terra, o ouro, o petróleo (fonte de energia); hoje a riqueza não é algo material, palpável, ela é imaterial: o co- nhecimento. O conhecimento é a fonte primária de riqueza na sociedade pós-industrial. A revolução tecnológica e a transfor- mação social estão ligadas à penetrabilidade da informação por toda a estrutura social, daí que o grau de desenvolvimento das sociedades, atualmente no modo de desenvolvimento in- formacional, tem no número de computadores por habitante um indicador fundamental (CASTELLS, 1999). Ao transformar e produzir tecnologia, em busca de novos conhecimentos e novas formas de processamento das informações, nossa so- ciedade acaba inevitavelmente se organizando em forma de rede, sendo esta uma de suas características principais. Hoje, Capítulo 1 A Sociedade Contemporânea: Uma Rede Dinâmica 11 com a acentuação da globalização através das NTIC, redi- mensionam-se as noções de espaço e de tempo, e ao aproxi- mar distâncias e comunicar os fatos em tempo real, as novas mediações permitem que muitas intervenções no contato entre as pessoas possam acontecer. O maior número de mediações faz com que as pessoas interajam mais, o que aumenta a ve- locidade dos fenômenos e a sua complexidade. O que é inerente à sociedade informacional é o fato de as tecnologias agora disponíveis ampliarem, em quantidades impensáveis e imprevisíveis, as ações humanas e o seus alcan- ces, quaisquer que sejam essas ações, boas ou ruins. Imagine, por exemplo, que pela internet podemos realizar uma obra social, mas também organizar uma briga de torcidas organi- zadas de futebol. Imagine a extensão da ação de um pedófilo, por exemplo, que antes tinha apenas os grupos familiares e os vizinhos como potenciais alvos de sua ação. Hoje ele tem o mundo todo. Concomitantemente, novos espaços e formas de articula- ção são potencializados pois a informação, fonte de poder na sociedade informacional, é mais socializada fazendo com que relações sociais antes desconhecidas, venham à tona modi- ficando culturas. A maior visibilidade dos fenômenos sociais faz com que estes sejam construídos através de relações cada vez mais secundárias e menos primárias: “[...] vivemos numa época de mundialização, todos os nossos grandes proble- mas deixaram de ser particulares para se tornarem mundiais [...]” (MORIN, 1999, p. 19). Os fenômenos sociais, hoje, são construídos de forma cada vez mais complexa, necessitando por parte do analista outros “óculos”, daí o uso da categoria 12 Sociedade e Contemporaneidade de análise “Rede Dinâmica”. A “Rede Dinâmica” é um concei- to que condensa a complexidade e a diversidade do mundo atual, e os potenciais trazidos pelas novas mediações que ca- racterizam a Terceira Revolução Industrial. Manuel Castells de- monstra a lógica que rege a teia que une e move as inúmeras mutações verificadas no social, estreitamente associadas ao ritmo veloz com que ocorrem, denominadas por ele de socie- dade informacional. Há uma lógica de funcionamento desse nosso mundo aparentemente ilógico, mesmo construído com um grau cada vez maior de imprevisibilidade e de incerteza. Tal lógicaé a lógica da rede à qual vivemos conectados, in- terligados, interdependentes. Trata-se de um novo paradigma que perpassa a dinâmica social. A figura abaixo apresenta as dimensões do conceito de Rede Dinâmica: O movimento de produção das sociedades sempre foi, ao longo da História, auto-eco-organizativo, porém, na Tercei- Capítulo 1 A Sociedade Contemporânea: Uma Rede Dinâmica 13 ra Revolução Industrial, ou era pós-industrial temos mais es- paços para realizar os nossos potenciais, pois as mediações, hoje, têm mais elementos voltados à autonomia, estão mais de acordo com o ritmo de cada um. Por exemplo, não neces- sitamos mais aguardar o ritmo e a boa vontade do caixa do banco para pagarmos uma conta. Não precisamos sequer nos deslocar até o banco (cujo atendimento presencial está, aliás, em extinção), mas precisamos de conhecimento sobre como operar uma transferência bancária pelo computador. Temos hoje, potencialmente, melhores condições de interagir com o social a partir de uma postura mais autônoma. O pressupos- to de produção das sociedades, atualmente, constrói-se do individual para o coletivo, através dos movimentos que desen- cadeiam seus agentes, das energias e interesses dos agentes individuais para o todo. Trata-se, também, por isso, de uma sociedade eminentemente aprendente, no sentido de poder constituir-se enquanto um espaço de formação para os seus agentes (ALMEIDA NETO, 2007). Há, hoje em dia, a necessidade de forjar um novo habitus5 no trabalhador, mais flexível e que acompanhe esse frenético ritmo de inovações. Como as tecnologias rompem as barrei- ras de tempo e de espaço, observa-se uma descentralização crescente das tarefas no âmbito do trabalho (do emprego em processo de extinção). A remuneração não se dá mais na re- lação direta entre tempo e salário, ou seja, não se calcula mais em função do tempo em que o trabalhador cumpre sua jornada na empresa, fábrica, mas sim pelo produto do seu tra- 5 Ver glossário ao final do capítulo. 14 Sociedade e Contemporaneidade balho. Assim, o controle do tempo passa à mão do trabalha- dor. Emergem profissionais liberais com vários empregadores e que têm na mobilidade de sua mão de obra um diferencial. As tecnologias permitem essa fluidez nos locais de trabalho, atualmente em grande parte restritos ao computador pessoal, ou mesmo a um celular de última geração. Esse novo profis- sional é ele próprio sua empresa. Na sociedade informacional tende a envelhecer a organiza- ção cuja capacidade de reestruturação, de desburocratização das ações e agilidade na gestão sejam limitadas. Aqui, repor- tamo-nos a uma outra dimensão que caracteriza a sociedade do conhecimento, a de não se organizar em uma perspectiva apenas local, mas sim glocal. A riqueza da sociedade em rede está em sua diversidade e não na uniformidade, temos condi- ções de explorar a diversidade dos agentes que a compõem, os diversos e impensáveis capitais que possuem, que formam o que Levy denomina de inteligência coletiva, coletivos inteligen- tes a serem construídos de forma intencional pela Rede. Levy refere a engenharia do laço social como “a arte de suscitar coletivos inteligentes e valorizar ao máximo a diversidade das qualidades humanas” (LEVY, 1998, p. 32). Quanto melhor os grupos humanos conseguem se constituir em coletivos inteli- gentes, em sujeitos cognitivos, abertos, capazes de iniciativa, de imaginação e de reação rápidas, melhor asseguram seu su- cesso no ambiente altamente competitivo que é o nosso (LEVY, 1998). Outra dimensão da metáfora “Rede Dinâmica” é a visi- bilidade, a “aldeia global” é possibilitada pelas NTIC que permitem fazer circular as informações internas e externas, o Capítulo 1 A Sociedade Contemporânea: Uma Rede Dinâmica 15 que a torna também cada vez mais interdependente e, por isso, também, mais complexa. Quando Levy refere o potencial democrático da sociedade informacional, ele fala da possibi- lidade de construção de coletivos inteligentes que valorizem a diversidade das inúmeras redes que a dinâmica do social constrói e reconstrói, que escapem de controles verticalizados, que misturem lazer, cultura, trabalho e produção, pois se inse- rem na lógica econômica dos mercados. É importante ressal- tar que, inevitavelmente, toda a sociedade está sendo afetada pela nova dinâmica social, fato que reforça a importância de lançar um olhar que dê conta destas transformações. 1.2 Movimentos Sociais: o poder em xeque na Sociedade em Rede Dinâmica Como forma de materializar esse conceito abstrato na aproxi- mação com a realidade contemporânea, podemos nos repor- tar às manifestações que ocorreram no ano de 2013 no Brasil, na esteira de outros movimentos sociais concomitantes que fo- ram observados em outros países. Se as relações humanas e sociais são relações de poder e de dominação, as relações de poder na sociedade da informação são colocadas em xeque frente ao potencial democrático e revolucionário da sociedade em rede, inerente ao nosso novo ecossistema informacional, digital. Em primeiro lugar, trata-se de uma relação horizonta- lizada e não verticalizada. A informação que sempre foi fonte de poder é hoje socializada e reconstruída a todo instante, sem 16 Sociedade e Contemporaneidade um controle central. A Rede Dinâmica é horizontal, democrá- tica, não linear. A cultura associada às novas tecnologias é a cultura da autonomia, muito presente na relação dos jovens (geração internet), em relação às instituições e aos poderes instituídos da sociedade. As práticas nas redes sociais materializam essa cultura que se choca com a cultura, por exemplo, da sala de aula, cujo tipo de organização (escola) é ainda vertical e tra- dicional, assim como de outras tantas instituições tipicamente modernas (rígidas, hierarquizadas, burocráticas, controlado- ras). Nas palavras de Castells (2012) a nova cultura da auto- nomia empodera os jovens e traz a eles felicidade. Traz felici- dade, pois a internet aumenta duas áreas fundamentais para isso, a sociabilidade e o empoderamento. A Rede não tem centro, começo, nem fim, tem várias entra- das e várias saídas. Sendo assim, os movimentos sociais que emergiram em 2013 começaram na Internet, estes são: “espa- ços de autonomia, muito além do controle de governos e em- presas que monopolizavam os canais de comunicação como alicerces de seu poder” (CASTELLS, 2012, p. 7). Assim, “indi- víduos formaram redes [...] uniram-se e sua união os ajudou a superar o medo, essa emoção paralisante em que poderes constituídos se sustentam”. Bem de acordo com a velocidade que distingue nosso tempo, “os movimentos espalharam-se por contágio num mundo ligado pela internet caracterizado pela difusão rápida, viral, de imagens e ideias”. Como vivemos em uma aldeia global e em rede, podería- mos perguntar onde começaram os movimentos? Desenvolve- Capítulo 1 A Sociedade Contemporânea: Uma Rede Dinâmica 17 ram-se em rede: no mundo árabe, Espanha, Grécia, Portugal, Itália, Grã-Bretanha, além de Israel e Estados Unidos, Ásia e Brasil, Tunísia e Islândia. Mas o que há de comum entre todos eles? Observa-se que “em todos os casos, os movimentos ignoraram partidos polí- ticos, desconfiaram da mídia, não reconheceram nenhuma li- derança e rejeitaram toda a organização formal, sustentando- -se na internet e em assembleias locais” (CASTELLS, 2012, p. 16). E de onde vêm os movimentos sociais? “São a resposta às injustiças de todas as sociedades: exploração econômica; pobreza desesperançada” (idem). São ainda frutos da “desi- gualdade injusta; comunidade política antidemocrática; Esta- dos repressivos; Judiciário injusto; racismo; xenofobia; nega- ção cultural; censura; brutalidade policial; incitação à guerra; fanatismo religioso;descuido com o nosso planeta azul; des- respeito à liberdade pessoal; violação da privacidade; geron- tocracia; intolerância; sexismo; homofobia e outras atrocida- des que retratam os monstros que somos nós” (2012, p. 16). Qualquer relação com o cenário político brasileiro atual, não é mera coincidência. Dessa forma, os movimentos transformaram o medo em indignação e a indignação em esperança. Isso porque as re- lações de poder são constitutivas da sociedade, pois aqueles que têm o poder constroem as instituições conforme seus va- lores e interesses. E quais as formas de exercer o poder? Pela coerção (violência exercida pelo Estado) e/ou pela construção de significados na mente das pessoas, mediante mecanismos de manipulação simbólica. Até porque “torturar corpos é me- nos eficaz que moldar mentalidades” (idem, p. 11). Mas onde 18 Sociedade e Contemporaneidade há poder há também contrapoder, pois, “esse processamento mental é condicionado pelo ambiente da comunicação, e a mudança do ambiente (como observamos com as NTIC) afeta diretamente as normas de construção de significado e, portan- to, as relações de poder” (2012). Como vimos a comunicação que temos hoje é de “todos com todos”, uma comunicação em massa, baseada em redes horizontais de comunicação in- terativa que, geralmente, são difíceis de controlar por parte de governos ou empresas, “por isso empresas e governos temem a internet” (idem, p. 12). Se é verdade que o ciberespaço é também um espaço, um lugar, é preciso que um movimento que ocorre neste novo lugar, imaterial, materialize-se nos espaços públicos locais, urbanos. Pois “ao assumir e ocupar o espaço urbano, os ci- dadãos reivindicam sua própria cidade, uma cidade da qual foram expulsos pela especulação imobiliária e pela burocracia municipal”. Não é por acaso que observamos de forma cres- cente a substituição de espaços públicos, voltados ao interesse público (nem do Estado nem do mercado), por espaços de consumo. Shoppings centers, por exemplo, não são espaços públicos, são espaços privados e voltados ao consumo e não à convivência social. Se uma das características principais da rede dinâmica e do nosso tempo é a velocidade, cabe ressaltar o quão efême- ros foram e são esses movimentos, ”constituem assim, comu- nidades instantâneas de prática transformadora”. Interessante observar o poder de viralização de postagens e mobilizações nas redes sociais, em torno de determinadas causas, a uma velocidade impensada e atingindo um número expressivo de Capítulo 1 A Sociedade Contemporânea: Uma Rede Dinâmica 19 pessoas. Essa é uma possibilidade associada a características das novas tecnologias e do grau de comunicação e interação que engendram. Ou seja, após postada uma mensagem na rede, ela assume “vida própria”, não tem mais dono, é por natureza imprevisível uma mensagem auto-eco-organizativa. Lembro de um caso emblemático que ocorreu justamente nesse período em sala de aula, quando uma aluna expressou sua preocupação e pavor com o fato de que, na esteira das mobilizações dos jovens que ocorreram concomitantemen- te (em rede) em diversas cidades do Brasil e do Rio Grande do Sul, ela havia proposto uma mobilização com o objetivo de qualificar e garantir o transporte de sua cidade do inte- rior gaúcho até a universidade e de forma gratuita. A aluna relatou que em poucos minutos havia mais de 100 curtidas, comentários e compartilhamentos e que, ao longo do dia, na medida em que aumentavam as curtidas e interações a partir de sua provocação, ela havia arrastado, involuntariamente, uma multidão de jovens até a frente da prefeitura da cidade para protestar e pressionar. Trata-se de um caso sintomático, pois “no Brasil, sem que ninguém esperasse [...] sem líderes e sem partidos nem sindicatos [...] um grito de indignação contra o aumento do preço dos transportes reuniu multidões em mais de 350 cidades” (CASTELLS, 2012, p. 178). Um dos motivos das manifestações, mas não o único, foi a questão do preço do transporte público, o Passe Livre, pois “ a mobilidade é um direito universal e a imobilidade estrutural das metrópoles bra- sileiras é resultado de um modelo caótico [...] produzido pela especulação imobiliária e pela corrupção municipal” (idem, anterior). E ainda, na esteira desse processo ”um transporte 20 Sociedade e Contemporaneidade a serviço da indústria do automóvel, cujas vendas o governo subsidia” (idem, anterior). O movimento colocou em cheque o neopatrimonialismo brasileiro, tanto a classe política como as instituições políti- cas, modernas, burocráticas, morosas e que usam a demo- cracia a serviço dos profissionais da política. Exigiu também mais democracia não mais reduzida a “um mercado de votos em eleições realizadas de tempos em tempos, mercado do- minado pelo dinheiro e pelo clientelismo e pela manipulação midiática” (idem, p. 179). Colocou em xeque a classe política pela própria natureza e morfologia do movimento, em rede dinâmica. Afinal: em uma manifestação sem líderes, ou com inúmeros líderes, com quem negociar? Quem cooptar? Como comprar o líder? As lideranças, assim como o próprio movimento, são efê- meras, fluidas. Por essa razão, essas manifestações pegaram a todos desprevenidos: políticos, mídia, intelectuais (sobretu- do os modernos) e sociedade como um todo: “milhares de pessoas eram ao mesmo tempo indivíduos e coletivos, sempre conectadas em rede e enredadas na rua, mão na mão, tuítes a tuítes, post a post, imagem a imagem” (idem, 2012). Tratou-se de um movimento dos jovens, da cultura da internet “[...] que a gerontocracia dominante não entende e suspeita, quando seus próprios filhos e netos se comunicam pela internet e ela sente que está perdendo o controle” (idem, p. 179). E não há mesmo como ter controle, imprevisibilidade é uma das dimen- sões da rede dinâmica, “pois a autocomunicação de massas é a plataforma tecnológica da cultura da autonomia” (idem, p. 180). Capítulo 1 A Sociedade Contemporânea: Uma Rede Dinâmica 21 Inúmeras foram as bandeiras desse movimento em rede, bem de acordo com a diversidade e complexidade que carac- terizam nosso tempo: transporte público gratuito; a corrupção entre o Estado e a especulação imobiliária; o meio-ambiente e a diversidade (inclusive o direito dos homossexuais); o di- nheiro gasto na copa; a PEC 37 (proposta de emenda cons- titucional); a saúde e a segurança pública; o salário do Ney- mar. O movimento contemplava inúmeras bandeiras, inclusive antidemocráticas. Mas havia algo ainda mais em comum: a restrição aos políticos e aos partidos, essas estruturas políticas tipicamente modernas (hierarquizadas, com caciques, chefes). Todos disseram “chega” à política tradicional feita pelos e para os políticos, para a elite econômica aliada ao Estado em todas as suas formas. Hoje a capacidade de mobilização das pessoas é espon- tânea, não depende da permissão de um partido de massa, como ocorria nas antigas manifestações. O paradoxo é que temos instituições “democráticas” piramidais para atender as demandas em rede (horizontais). Outro aspecto central à essa análise está ligado à nova visibilidade típica da sociedade contemporânea. O movimento não foi em nada pautado pela mídia tradicional, aliás, de pouca importância na vida cada vez mais individualista, customizada e autônoma dos jovens. Assim, rompe-se o monopólio da opinião e da informação que circula, pois cada elemento da rede é a mídia, com seu celular ligado e registrando em tempo real os fatos, retroagindo sobre outros fatos e outras postagens (informações), exercitando as- sim a inteligência coletiva. Por fim o movimento, assim como a rede, é fluído, flexível e efêmero, pode desaparecer, como desapareceu realmente aqui no Brasile reaparecer com outra 22 Sociedade e Contemporaneidade roupagem, outros propósitos, novas bandeiras, afinal a rede é dinâmica. Finalizando esse capítulo aponto para a absoluta imprevisi- bilidade que distingue nosso tempo e que desafia os intelectuais, e a mudança radical que as novas mediações trouxeram e vêm instaurando na vida das pessoas e das sociedades, pois “o que é irreversível no Brasil e no mundo é o empoderamento dos cidadãos, sua autonomia comunicativa e a consciência dos jovens de que tudo que sabemos do futuro é que eles o farão” (CASTELLS, 2012, p. 182). Mas fiquemos atentos, pois tudo ainda está por se definir, o ciberespaço é também uma arena de lutas, de disputas e as forças conservadoras têm uma ca- pacidade imensa de reorganização e reestruturação. Assim ao instrumentalizar os alunos e os jovens, sobretudo, a respeito dos códigos que distinguem nosso tempo, neste diálogo ne- cessário com a ciência, pensamos poder contribuir para esse fazer e esse novo devir. Glossário Auto-organização - Os seres vivos são auto-organizadores que se autoproduzem incessantemente. O princípio de auto- -eco-organização vale, evidentemente, de maneira específica para os humanos, que desenvolvem a sua autonomia na de- pendência da cultura, e para as sociedades que dependem do meio geoecológico (MORIN, 1999, p. 33). Capítulo 1 A Sociedade Contemporânea: Uma Rede Dinâmica 23 Ciberespaço - É o novo meio de comunicação que surge da interconexão mundial dos computadores. O termo espe- cifica não apenas a infra-estrutura material da comunicação digital, mas também o universo oceânico de informações que ela abriga, assim como os seres humanos que navegam e ali- mentam esse universo (LEVY, 1999, p. 17). Força produtiva - Força produtiva não é senão a capaci- dade de trabalhar real dos homens vivos: a capacidade de produzir por meio do seu trabalho e com a utilização de de- terminados meios materiais de produção, os meios materiais para a satisfação das necessidades sociais da vida, o que quer dizer em condições capitalistas, a capacidade de produzir mer- cadorias. Tudo o que aumenta esse efeito útil da capacidade humana de trabalhar (e portanto, em condições capitalistas, inevitavelmente também o lucro dos seus exploradores) é uma nova força produtiva social. Disponível em: <https://comu- nism0.wordpress.com/o-conceito-de-forcas-produtivas/>. Habitus - “é um sistema adquirido de preferências, de prin- cípios de visão e de divisão (o que comumente chamamos de gosto), de estruturas cognitivas duradouras (que são essencial- mente produto da incorporação de estruturas objetivas e de esquemas de ação que orientam a percepção da situação e a resposta adequada). O habitus é essa espécie de senso práti- co do que se deve fazer em dada situação [...]” (BOURDIEU, 1997, p. 42). 24 Sociedade e Contemporaneidade Recapitulando  A história da humanidade, das relações humanas e so- ciais esteve sempre, senão determinada, altamente in- fluenciada pelas tecnologias disponíveis em cada perío- do.  As tecnologias mudam as formas de produção de rique- za e de distribuição destas riquezas.  Novas formas de produção engendram novas formas de relações e modificam culturas, transformando socieda- des.  Modos de produção são as formas como são produzi- das e, sobretudo, distribuídas as riquezas de uma socie- dade. Podem ser estatais (sobre o controle do estado, estatismo) e capitalistas (sobre o controle das empresas privadas).  Modo de desenvolvimento refere-se àquilo que produz a riqueza de uma sociedade, podem ser agrário, cuja maior fonte de riqueza é a terra; industrial (indústria) e informacional (a informação).  A revolução industrial teve três grandes rupturas, três grandes transformações, todas associadas às tecnolo- gias disponíveis nesses períodos históricos.  Vivemos no modo de desenvolvimento informacional que rompe com as noções clássicas de tempo e de es- paço, impondo uma nova velocidade aos fenômenos sociais. Capítulo 1 A Sociedade Contemporânea: Uma Rede Dinâmica 25  Os dispositivos comunicacionais complexificam as rela- ções humanas e sociais, pois se constroem na relação todos-todos, sendo assim, essas relações são construí- das de forma cada vez mais secundária e menos primá- ria.  Vivemos na sociedade em rede com maior velocidade e visibilidade nos fenômenos sociais.  O indivíduo e a formação demandada a ele são centrais para a nova produção do social, por isso “ganhamos em liberdade, mas perdemos em certezas”.  Temos a capacidade de disseminar e compartilhar nos- sos conhecimentos, construindo coletivos inteligentes. Referências ALBORNOZ, Suzana. O que é trabalho. São Paulo: Brasilien- se, 2000, Coleção Primeiros Passos. ALMEIDA NETO, Honor de. Trabalho Infantil na Terceira Revolução Industrial. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2007. Disponível em E-book: <http://www.pucrs.br/edipucrs/on- line/trabalhoinfantil.pdf>. ASSMANN, Hugo; MO SUNG, Jung. Competência e sen- sibilidade solidária - educar para a esperança. Rio de Janeiro: Vozes, 2000. 26 Sociedade e Contemporaneidade BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. R.J.: Ed. Zahar, 2001. BOURDIEU, Pierre. Razões práticas: sobre a teoria da ação. São Paulo: Papirus, 1997. CAPRA Fritjof. A teia da vida. São Paulo: Cultrix, 1989. CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede - A era da infor- mação: economia, sociedade e cultura. São Paulo: Paz e Terra, 1999. ______________. A Galáxia da Internet: reflexões sobre a Internet, os negócios e a sociedade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2003. _____________. Redes de Indignação e Esperança: movi- mentos sociais na era da internet. Rio de Janeiro: Zahar, 2013. LÉVY, Pierre. As tecnologias da inteligência: o futuro do pen- samento na era da informática. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993. ______. O que é o virtual? São Paulo: Editora 34, 1996. ______. A inteligência coletiva. São Paulo: Loyola, 1998. ______. Cibercultura. São Paulo: Ed. 34, 1999. MARIOTTI, Humberto. Autopoiese, Cultura e Sociedade. IECPS (Instituto de Estudos de Complexidade e Pensamen- to Sistêmico). Disponível em: < http://www.geocities.com/ complexidade>. Acesso em: 29 abr. 2004. Capítulo 1 A Sociedade Contemporânea: Uma Rede Dinâmica 27 MORIN, Edgar. Da necessidade de um pensamento com- plexo. In: MARTINS, Francisco Menezes; SILVA, Juremir Machado da. (ORGs.) Para navegar no século XXI: tecno- logias do imaginário e cibercultura. Porto Alegre: Sulina/ EDIPUCRS, 1999. THUROW, Lester. A Terceira Revolução Industrial. Entrevis- tado por Nely Caixeta, Revista Exame, São Paulo, ideias, p. 100-108, 28 de nov. 2001. REFÊNCIAS DIGITAIS: A SEGUNDA revolução industrial. Disponível em: <http:/www. ufv.br>Acesso em: 08 jan. 2004. TERCEIRA Revolução Industrial e a Reengenharia. Disponível em: <http:/www.ime.usp.br/projetos/fim-dos-empregos> Acesso em: 08 jan. 2004. Atividades 1) Assinale a alternativa incorreta: a) As tecnologias são centrais para a produção das so- ciedades, pois constituem-se em mediações, em meio de comunicação entre os homens. b) O que há de novo hoje, na sociedade informacional, é o papel central que assume a mídia de massa como a televisão, o jornal e o rádio. 28 Sociedade e Contemporaneidade c) A internet revoluciona o mundo e a forma como nos comunicamos uns com os outros, pois coloca em rela- ção direta todos com todos. d) Vivemos em um mundo onde a velocidade e a visibi- lidade transformam as relações primárias em relações construídas cada vez mais de forma secundária. e) As novas mídias permitem a construção de uma Inte- ligência coletiva pela maior possibilidade que cria de conexão entre as pessoas. 2) Quanto à diferençaentre modos de produção e modos de desenvolvimento é correto afirmar que: a) Modos de desenvolvimento referem-se à forma como é distribuída a riqueza do trabalho do homem. b) Informacionalismo é o modo de produção típico do capitalismo industrial. c) No modo de produção capitalista, o controle da distri- buição do produto do trabalho é do Estado. d) O modo de desenvolvimento é determinado pelo ele- mento principal para a produtividade, antes agrário, depois industrial e hoje informacional. e) No modo de desenvolvimento agrário a principal fonte de produção de riqueza foi a indústria. 3) A sociedade, atualmente, organiza-se em rede, em Rede Dinâmica nas palavras de Castells. Quais das alternativas Capítulo 1 A Sociedade Contemporânea: Uma Rede Dinâmica 29 abaixo não apresentam dimensões do conceito de Rede Dinâmica? a) Visibilidade, fluidez, velocidade. b) Autonomia, aumento do potencial democrático, flui- dez. c) Rigidez, controle, relações verticalizadas. d) Interdependência, auto-organização, complexidade. e) Indeterminação, abertura, flexibilidade. 4) Não são características do novo mundo do trabalho hoje: a) A demanda por trabalhadores com inúmeras compe- tências, muito além de habilidades restritas a tarefas pré-determinadas. b) A remuneração em função do produto do trabalho em detrimento ao tempo gasto na função. c) A incerteza e a constante necessidade de reinvenção de produtos e de trabalhadores. d) O fim do emprego mas não o fim do trabalho. e) O controle cada vez mais rígido por parte das gerên- cias das empresas, sobretudo empresas de ponta. 5) Quais das alternativas abaixo não são características da cultura associada às novas mídias e à sociedade do co- nhecimento? a) Autonomia; 30 Sociedade e Contemporaneidade b) Empoderamento; c) Participação; d) Passividade; e) Democratização. Gabriela Ramos de Almeida1 Capítulo 2 Redes Sociais na era Digital1 1 Doutora em Comunicação e Informação pela UFRGS (2015), Mestre em Comu- nicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA (2009), Bacharel em Comunica- ção Social com Habilitação em Jornalismo pelo Centro Universitário Estácio - FIB (2004). Atualmente é professora e pesquisadora no curso de Comunicação Social da ULBRA, nas habilitações em Jornalismo e Produção Audiovisual, e coordenado- ra adjunta do curso de Jornalismo. Como pesquisadora e docente, atua na área de Comunicação, com ênfase em Audiovisual, principalmente nos seguintes temas: narrativas audiovisuais, cinema documentário, ensaio fílmico, poéticas contempo- râneas, teorias do cinema, teorias da arte e jornalismo em vídeo e televisão. 32 Sociedade e Contemporaneidade Introdução A morte de uma dona de casa por espancamento, em 2014, no Guarujá (São Paulo), após ter sido “condenada” pelo tribunal popular das redes sociais e linchada brutalmente pelos conter- râneos nas ruas do bairro onde vivia, se tornou paradigmático ao revelar, a um só tempo, o poder de viralização da informa- ção na Internet e os perigos decorrentes da falta de cuidado e de critério ao tomar como verdade e passar adiante aquilo que se lê online. Fabiane Maria de Jesus era casada, tinha dois filhos ainda pequenos e foi vítima de um boato de uma página do Facebook que publicou um suposto retrato falado de uma mulher acusada de sequestrar crianças em Bonsucesso, no Rio de Janeiro, para praticar rituais de magia negra. Fabiane foi confundida com o desenho, atacada na rua e linchada por um grupo de pessoas da sua própria cidade, que não questionou a veracidade da informação, a data da publicação ou o local onde teriam acontecido os crimes atribuídos à mulher (como se soube posteriormente, toda a história era falsa: não havia sequestro e nem magia negra, e um retrato falado relativo ao caso não havia sido divulgado originalmente pela polícia). Para aumentar os contornos brutais do acontecimento, os algozes de Fabiane registraram o linchamento com celulares e publicaram vídeos explícitos no YouTube, como se não hou- vesse problema algum no justiçamento com as próprias mãos; na execução sumária de uma pessoa que passa de suspeita a culpada, e de culpada a condenada à pena de morte, sem sequer saber do que estava sendo acusada, sem ser levada à Justiça e sem possibilidade alguma de defesa (física e moral). Capítulo 2 Redes Sociais na era Digital 33 Para piorar ainda mais, os vídeos se tornaram virais2, ou seja, foram compartilhados por milhares de usuários de redes so- ciais digitais. A polícia identificou nos vídeos alguns dos agressores e arrolou no processo também o administrador da página do Facebook em que o retrato falado foi publicado, que foi res- ponsabilizado pela divulgação do boato. No entanto, ainda que não seja possível culpabilizar criminalmente os usuários de redes sociais que compartilharam um boato como se fosse verdade, podemos questionar se eles também não são res- ponsáveis, em alguma medida, pelo trágico desfecho do caso. O questionamento se torna ainda mais plausível quando se considera que a página em questão não era de um jornal ou meio qualquer de imprensa (ou seja, conteúdo produzido por jornalistas profissionais) e sim, apenas uma página amadora de divulgação de notícias policiais locais. O exemplo que abre este texto permite iniciar uma discus- são sobre diversos aspectos que envolvem a chamada sociabi- lidade online e alguns fenômenos a ela associados, especial- mente o consumo de notícias e de conteúdo de entretenimento; a presença dos indivíduos nas redes sociais digitais; a criação de narrativas pessoais sobre suas próprias vidas; os laços que 2 Mendes Júnior e Costa definem o viral como algo que “se refere à forma de comunicação cuja dinâmica replica a da introdução de um vírus num sistema, disseminação abrangente, veloz e fora de controle. Na era da tecnologia, quando milhares de pessoas estão conectados à webesfera o tempo todo, ideias são propagadas rapidamente nas redes sociais.” (MEN- DES JÚNIOR e COSTA, 2014, s/p). 34 Sociedade e Contemporaneidade estabelecem com outros usuários e os seus comportamentos de produção e difusão de informações e conteúdos diversos. Redes sociais “analógicas” sempre existiram em alguma medida como espaços de sociabilidade envolvendo grupos unidos por laços familiares, profissionais, de amizade ou in- teresses em comum. Mas, ao mesmo tempo, o cenário que se desenha após a popularização da Internet banda larga, das redes sociais e dos dispositivos móveis de comunicação (como smartphones, tablets e notebooks) embaralha alguns conceitos e torna confusos alguns limites que dizem respeito aos fenôme- nos mencionados acima como, por exemplo: as fronteiras en- tre o público e o privado (muito mais fáceis de serem definidas no passado, quando as pessoas se expunham prioritariamente em seus círculos pessoais mais próximos); as diferenças entre a notícia e o boato; entre um jornalista e um cidadão comum que presencia um fato e o relata numa rede social; ou entre uma rede social e um veículo de comunicação tradicionalmen- te instituído. No entanto, antes de avançar, é necessário definir o que são exatamente as redes sociais na era digital e estabe- lecer alguns parâmetros que vão nortear a discussão proposta pelo texto. 2.1 As redes sociais como espaços de sociabilidade Talvez as redes sociais não sejam responsáveis pela criação de fenômenos sociais ou comunicacionais até então inexisten- tes, mas certamente modificam seus modos de operação, ao Capítulo 2 Redes Sociais na era Digital 35 afetar a sociabilidade humana ampliando exponencialmente o seu alcance. Nossa perspectiva, alinhada com Manuel Cas- tells, evita o dilema do determinismo tecnológico e considera que “a tecnologiaé a sociedade, e a sociedade não pode ser entendida ou representada sem suas ferramentas tecno- lógicas” (CASTELLS, 2009, p. 43, grifo do autor). Entretanto, algumas questões podem ser levantadas a respeito do modo como a tecnologia, em sua inevitável inserção no cotidiano dos indivíduos nas sociedades industrializadas, interfere nesta sociabilidade. Muitos exemplos podem ser convocados para exemplificar a discussão ou iniciar um debate sobre as possibilidades da comunicação pós-redes sociais digitais (qualquer usuário de ferramentas e plataformas como Facebook, Instagram, Twitter ou YouTube é capaz de citar um caso viralizado que tenha lhe chamado muito a atenção). Como explica Raquel Recuero, estes fenômenos representam mudanças nos modos de “orga- nização, identidade, conversação e mobilização social”, pois a comunicação passa a permitir uma capacidade de conexão diferente: as redes conectam não apenas computadores, mas pessoas (RECUERO, 2010, p. 16-17). A autora aponta a possibilidade de expressão e sociabi- lização por meio das ferramentas de comunicação mediada pelo computador (e posteriormente pelos demais dispositivos móveis, podemos acrescentar) como a principal mudança que a Internet trouxe à sociedade. O que define uma rede social, segundo Recuero, são seus elementos: “atores (pessoas, insti- tuições ou grupos; os nós da rede) e suas conexões (interações ou laços sociais)” (RECUERO, 2010, p. 24). 36 Sociedade e Contemporaneidade Os sites de redes sociais, a exemplo do Facebook, permi- tem a criação de espaços públicos mediados, ou seja, “am- bientes onde as pessoas podem reunir-se publicamente através da mediação da tecnologia” (BOYD apud RECUERO, 2009). Estes ambientes guardam algumas características que são de- finidas por Boyd e recuperadas por Recuero: • Persistência: Refere-se ao fato de aquilo que foi dito permanecer no ciberespaço. Ou seja, as informações, uma vez publicadas, ficam no ciberespaço; • Capacidade de Busca (searchability): Refere-se à capa- cidade que esses espaços têm de permitir a busca e per- mitir que os atores sociais sejam rastreados, assim como outras informações; • Replicabilidade: Aquilo que é publicado no espaço di- gital pode ser replicado a qualquer momento, por qual- quer indivíduo. Isso implica também no fato de que essas informações são difíceis de ter sua autoria determinada; • Audiências Invisíveis: Nos públicos mediados, há a presença de audiências nem sempre visíveis através da participação [...] (RECUERO, 2009). Apesar do lugar de protagonismo que as redes sociais ocu- pam na sociabilidade do nosso tempo, é importante lembrar que elas se expandem fora e além do ambiente virtual, no modo como os indivíduos se utilizam delas para criar novos laços ou manter os já existentes – laços estes que irão afetar a sua vida de forma concreta. E não apenas isso: as pessoas passam boa parte do tempo em que estão acordadas aces- Capítulo 2 Redes Sociais na era Digital 37 sando redes sociais para fins de relacionamento pessoal, mas também para falar de si, trabalhar, se informar, divulgar, co- mentar e compartilhar conteúdos, tornando mais complexa a sua presença online. Este comportamento contribui para a criação de comuni- dades virtuais, definidas por André Lemos como agregações “em torno de interesses comuns, independentes de fronteiras ou demarcações territoriais fixas”, instituindo um território sim- bólico e não físico (LEMOS, 1997, s/p). O alargamento dos laços sociais em espaços que não são definidos geografica- mente constitui uma mudança importante do cotidiano pós- -redes sociais digitais, embora, como aponta Recuero (2010, p. 135), tecnologias anteriores como o telefone e a carta já proporcionassem a comunicação entre os indivíduos indepen- dente de sua presença física num mesmo lugar. O que ocorre, segundo Lemos, é que o ciberespaço (for- mado pelas redes informáticas, a realidade virtual e o universo multimídia) promove uma forma distinta de cultura que se de- senha a partir da convergência do social com o tecnológico. Como aponta o autor, não deixa de ser interessante que a tec- nologia, vista historicamente como um instrumento de aliena- ção, desencantamento e individualismo se torne a ferramenta promotora de um novo tipo de sociabilidade: “A cibercultura que se forma sob os nossos olhos mostra como as novas tec- nologias são efetivamente ferramentas de compartilhamento de emoções, de convivialidade e de retorno comunitário” (LE- MOS, 1997, s/p). 38 Sociedade e Contemporaneidade 2.2 A construção da presença online No presente, quando falamos em redes sociais, as referên- cias imediatas são Facebook, Twitter e Instagram. No entan- to, alguns anos antes da popularização destas ferramentas já existiam outras plataformas de autopublicação e troca de mensagens que permitiam a qualquer usuário da rede pro- duzir e compartilhar seus próprios conteúdos e opiniões em blogs e fotologs, bem como existiam sites, fóruns e serviços de comunicação instantânea que os usuários utilizavam como chats (a exemplo dos instant messengers como o extinto MSN e de sites como Bate-Papo UOL ou Terra Chat, para ficar nos brasileiros). O tipo de uso que deles se fazia é semelhante ao que ocor- re atualmente, embora as redes mais populares hoje operem uma espécie de junção entre as funcionalidades das ferramen- tas de autopublicação e os serviços de troca instantânea de mensagens. Este uso que visa à exposição e ao relacionamento interpessoal situa-se naquilo que Paula Sibilia (2003) nomeia como “imperativo da visibilidade”, um desejo de exibição que muitas vezes torna pouco definíveis as fronteiras entre o públi- co e o privado, a depender de como um sujeito decide existir e se expor nas redes sociais digitais. A existência de uma rede específica para o compartilhamento de fotografias como o Ins- tagram, por exemplo, denuncia e ao mesmo tempo alimenta a lógica da exposição online baseada numa construção de si a ser tornada pública. Para Sibilia (2003, s/p), mais do que simplesmente respon- der se os limites entre público e privado se apagaram, é im- Capítulo 2 Redes Sociais na era Digital 39 portante considerar que a subjetividade contemporânea está passando por um processo de alteração bastante significativo, do qual as redes sociais são sintoma e fomentadoras, mas que também aparece na busca por visibilidade presente em publicações como revistas de celebridades, em reality shows, documentários em primeira pessoa e biografias e autobiogra- fias literárias. As chamadas “narrativas do eu” vivem transfor- mações profundas, “acompanhando as mudanças que estão acontecendo em todos os âmbitos – marcados pela acelera- ção, a virtualização, a globalização, a digitalização” (SIBILIA, 2003, s/p). A presença online é transformada, portanto, numa espécie de “performance” em que o indivíduo alimenta uma projeção de si num perfil de rede social (ou de várias, de forma com- plementar). Há pessoas que passam inclusive a ganhar a vida em função desta exposição, transformando seu cotidiano em produto a ser consumido por outros usuários das mesmas re- des: não são artistas, modelos, atletas, políticos ou figuras de referência em qualquer área. São celebridades da Internet, e hoje este título tem valor por si só, principalmente comercial. Talvez a socialite norte-americana Kim Kardashian seja o exemplo maior neste segmento que extrapola em muito as re- des sociais digitais: ganhou fama após a divulgação de um vídeo amador de sexo explícito que ela mesma tornou público (nem a intimidade do ato sexual resistiu ao imperativo da vi- sibilidade), expandiu sua presença da Internet à comunicação massiva tradicional (especialmente a televisão e as publica- ções impressas) e, enfim,passou a atuar como modelo e em- presária, nunca deixando de alimentar os seus perfis nas redes 40 Sociedade e Contemporaneidade sociais, principal espaço de divulgação do produto que ela vende, que é a sua própria persona. Diferentemente do que quer o senso comum, a ideia de performance atrelada à presença online não está vinculada à mentira ou ao fingimento, pois as coisas são mais complexas do que nos diz o meme segundo o qual todas as pessoas são felizes nas redes sociais. O fato de a presença online pressu- por performance não significa necessariamente que as pesso- as mintam em relação ao que expõem, mas sim que escolhem, selecionam aquilo que querem tornar público a respeito da sua vida, trabalho, convívio familiar, interesses pessoais, lazer e dos diversos aspectos da sua rotina. Mesmo que por vezes haja a impressão de superexposição, os indivíduos fazem recortes segundo aquilo que consideram suas maiores qualidades, ou ainda de acordo com o modo como gostariam de ser vistos socialmente. E a partir deste re- corte, cada um vai construindo as suas possibilidades de so- cialização nas redes sociais digitais e constituindo grupos de interesse. Como explica Recuero: Judith Donath (1999) sustenta que a percepção do Outro é essencial para a interação humana. Ela mostra que, no ciberespaço, pela ausência de informações que geral- mente permeiam a comunicação face a face, as pessoas são julgadas e percebidas por suas palavras. Essas pala- vras, constituídas como expressões de alguém, legitima- das pelos grupos sociais, constroem as percepções que os indivíduos têm dos atores sociais. É preciso, assim, colocar rostos, informações que gerem individualidade e Capítulo 2 Redes Sociais na era Digital 41 empatia, na informação geralmente anônima do ciberes- paço (RECUERO, 2010, p. 27). As pessoas constroem, assim, através da distinção, uma persona pública “adequada” às redes sociais digitais que gosta de algumas coisas e detesta outras (sim, falar do que se detes- ta é tão importante quanto falar do que se ama na elaboração desta performance); que frequenta determinados ambientes e círculos sociais (embora certamente não apenas aqueles que mostra); que manifesta opiniões políticas a partir de um deter- minado lugar de fala; que tenta tomar cuidado com o que diz a depender de quem vai ler. Mas não é esta, afinal, a forma como todos nós tentamos nos expor e nos projetar enquanto sujeitos nos mais diversos âmbitos da vida fora da Internet? 2.3 O consumo e a difusão da informação com o advento das redes sociais digitais A seção anterior do texto foi iniciada com menções aos blogs e fotologs, apontados como espaços de sociabilidade online que antecederam as redes sociais que conhecemos e utiliza- mos atualmente. É possível, no entanto, apontar uma diferen- ça fundamental de alcance entre os conteúdos publicados nos blogs dos primórdios da Internet e aquilo que circula nas re- des sociais do presente: nos blogs, o usuário publicava algo e esperava que alguém desempenhasse a ação de ir até a sua página para ler o seu conteúdo (divulgado prioritariamente por email e por messengers). 42 Sociedade e Contemporaneidade Enquanto isso, redes sociais como Facebook e Twitter são alimentadas de forma endógena pelos próprios usuários, que produzem conteúdos ou compartilham conteúdos produzidos por terceiros (que podem ou não ser empresas jornalísticas ou de entretenimento formalmente constituídas), de acordo com uma lógica segundo a qual basta estar online com estas pá- ginas abertas para “receber” aquilo que seus contatos nestas redes irão compartilhar. A possibilidade de compartilhamento potencializa imensa- mente o alcance dos conteúdos, e um post publicado numa rede social pode se tornar viral em poucas horas (algo que dificilmente acontecia com as publicações daqueles primeiros blogs). Atualmente, o potencial de alcance dos blogs é maior do que no passado em função da profissionalização do campo e também da possibilidade de viralização dos seus links nas re- des sociais mais populares. Os blogs foram vistos, inicialmen- te, como uma forma amadora de divulgação de textos e ideias ou como uma espécie de diário virtual, mas hoje, apesar de seguirem abrigando conteúdos amadores e pessoais, também formam, em sua vertente mais profissionalizada, um espaço importante de produção de conteúdo e publicação fora do es- paço convencional dos grandes veículos de comunicação (ou mesmo hospedados nos portais destes veículos). No entanto, o fato de, a princípio, qualquer pessoa poder se tornar um produtor de conteúdo ao publicar um texto, fo- tografia, vídeo ou informação numa rede social não significa que todo usuário produza notícia ou possa ser considerado um jornalista. A distinção entre informação e notícia é funda- mental, especialmente em um momento em que a falta de cri- Capítulo 2 Redes Sociais na era Digital 43 tério em relação àquilo que se decide passar adiante – seja no Facebook, no Twitter ou mesmo no Whatsapp – pode resultar em tragédias como a da dona de casa Fabiane de Jesus ou, de forma menos grave, na destruição da reputação de indivíduos e empresas em poucos minutos. Por este motivo é importante, também, pensarmos no nosso próprio lugar enquanto consu- midores e divulgadores de todo tipo de conteúdo nas redes sociais, especialmente aqueles que incluem juízos de valor. A Internet inaugurou possibilidades até então inéditas de autopublicação, ou seja, qualquer pessoa que disponha de um computador ou dispositivo móvel com acesso à rede e um perfil em rede social ou plataformas de compartilhamento como o YouTube pode divulgar o que quiser. Se, antes, tínha- mos um cenário em que poucas empresas e grupos de comu- nicação produziam quase todo o conteúdo e as informações que eram consumidas pelas populações em escala mundial (o que caracterizava a comunicação de massa), atualmente esta produção é muito mais difusa e descentralizada, o que tem inclusive provocado uma crise no jornalismo como o conhece- mos e ocasionado enxugamentos em redações. No entanto, quando se tem um volume de informações cir- culando tão grande que inclusive supera as possibilidades de que todas elas sejam efetivamente consumidas, o jornalismo opera como um balizador fundamental no sentido de orien- tar os cidadãos em relação à diferença entre notícias e meras informações produzidas e divulgadas de forma amadora, que não passaram pelos processos envolvidos na criação de con- teúdo jornalístico. São algumas destas etapas: elaboração de uma pauta, checagem e verificação, apuração, realização de 44 Sociedade e Contemporaneidade entrevistas com todos os lados envolvidos e pesquisa docu- mental, bem como a avaliação dos chamados “valores-notí- cia” (conjunto de qualidades ou atributos de um fato, que são levados em consideração no momento em que se analisa se um acontecimento qualquer deve ou não ser noticiado, como a quantidade de pessoas envolvidas e a sua importância so- cial, fator tragédia, a proximidade local, atualidade, concor- rência, perfil editorial da empresa, as chances de interessar a um grande número de pessoas, entre outros)3. É possível que o caso da dona de casa assassinada no Guarujá não tivesse um fim trágico e cruel se a história do fal- so retrato falado tivesse sido devidamente apurada. A notícia não seria a suspeita de que uma mulher sequestrava crianças para usá-las em rituais de magia negra, e sim que um perigo- so boato envolvendo um crime falso estava mobilizando uma cidade e poderia resultar numa tentativa de vingança por parte da população. Esse equilíbrio entre a liberdade proporcionada pela auto- publicação na Internet e o respeito à informação de qualidade é bastante difícil de seralcançado, mas a função balizadora do jornalismo segue forte: normalmente, quando queremos verificar se uma informação publicada numa rede social é ver- dadeira ou não, consultamos a imprensa tradicional, buscan- do as rádios conceituadas na produção de notícias, acessando os portais dos jornais de maior credibilidade ou mesmo aguar- dando o noticiário televisivo. O problema ocorre quando o 3 Ver, a este respeito: TRAQUINA, Nelson. Jornalismo: questões, teorias e estórias. Lisboa: Vega, 1999. Capítulo 2 Redes Sociais na era Digital 45 ímpeto de compartilhar se sobrepõe à necessidade de saber se um fato qualquer é falso ou verdadeiro e quais são as suas nuances, contribuindo para a circulação de boatos que só au- mentam a sensação de confusão e excesso de informação que é partilhada por muitos usuários das redes sociais. A existência da imprensa e de veículos de comunicação com grande credibilidade construída historicamente não quer dizer que o jornalismo é infalível. É possível que o Jornalismo, como instituição, nunca tenha sido tão criticado quanto no presente. Se, antigamente, tínhamos um cenário em que se tomava como verdade absoluta o que era noticiado pelo jor- nalismo, atualmente as redes sociais não apenas ampliam a circulação das notícias como também oferecem outras visões, contrapontos, espaços de resposta e desmentidos, exigindo do usuário um papel bastante ativo na filtragem e na avaliação daquilo que ele consome e que vai ajudar a constituir a sua experiência no mundo. A relação do jornalismo com as redes sociais, portanto, é de retroalimentação, tanto do ponto de vista de quem produz notícias quanto de quem consome4: a imprensa baseia a sua produção de notícias em parte na repercussão real ou poten- cial de determinados assuntos nas redes sociais, de modo que as redes pautam efetivamente o jornalismo. O contrário tam- bém ocorre, e as discussões nas redes sociais são pautadas 4 Sobre a ausência de uma vocação essencialmente jornalística das redes sociais digitais e sua relação de complementariedade com o jornalismo, ver o artigo Redes Sociais na Internet, Difusão de Informação e Jornalismo: Elementos para discussão, de Raquel Recuero (2009). 46 Sociedade e Contemporaneidade pelo que o jornalismo noticia, especialmente no âmbito da política e dos costumes. Ao mesmo tempo, como consumidores, quando lemos algo numa rede social que pode ser conteúdo amador ou falso, buscamos acessar o portal da Folha de São Paulo, da Globo, ou localmente da Zero Hora ou da rádio Gaúcha para veri- ficar se aquilo é verdade; em seguida, voltamos para a rede social e somos expostos ao compartilhamento massivo destas mesmas notícias, acompanhado de comentários que confir- mam, problematizam, desmentem ou complementam aquela informação que acabamos de consumir, num fluxo bastante complexo e circular. Ocorre que esse fluxo será quase sempre determinado por aquilo que cada um escolhe consumir nas re- des sociais, a depender de quem sejam as suas conexões nas redes e do tipo de conteúdo publicado pelas páginas e perfis que o indivíduo segue. Em outros tempos, o máximo que o consumidor de notícias e conteúdos podia fazer era trocar de canal, de estação, desli- gar a TV ou o rádio e fechar o jornal/revista (mas nunca alterar aquilo que tinha sido produzido e estava sendo exposto). Hoje em dia, o usuário pode selecionar de forma mais ativa os con- teúdos e as notícias com os quais deseja ter contato de acordo com diversos critérios, como o interesse pessoal por um con- junto de assuntos, o seu posicionamento político-ideológico, seus valores familiares, religiosos etc. Assim se decide, por exemplo, quais páginas e perfis cada um quer acompanhar. No entanto, quando as pessoas aplicam esses filtros, por vezes acabam restringindo também o seu universo informativo Capítulo 2 Redes Sociais na era Digital 47 e de referências, fazendo com que a experiência de consu- mo de notícias e conteúdos se baseie somente no que seus contatos nas redes e as páginas que segue compartilham. Ao mesmo tempo em que esta abertura representa uma possibili- dade de autonomia do indivíduo que passa a ser responsável pelo seu consumo de bens simbólicos, também pode significar uma restrição da sua “dieta” informacional e cultural, levando a uma interpretação do mundo pouco tolerante e aberta à diferença, já que é possível que a pessoa receba apenas con- teúdos com os quais concorda de antemão e que dialogam com a sua própria visão de mundo. Isto pode acontecer a partir do momento em que as pessoas passam a tomar como universais alguns conjuntos de parâme- tros e valores que na verdade são individuais ou, no máximo, dizem respeito apenas àquele grupo de pessoas que são suas conexões nas redes, criando falsos consensos. É importante considerar a existência de uma relação pendular e dialética entre a experiência individual e a coletividade. Do contrário, ao restringir o nosso consumo de informações apenas ao que nos interessa pessoalmente ou a pessoas e páginas que di- vulgam notícias alinhadas à nossa visão de mundo, podemos passar a achar que esses valores são universais. O consenso sobre um assunto qualquer nas minhas redes sociais não significa que aquela é a visão geral da opinião pública, apenas que é a visão compartilhada pelos meus con- tatos (que pode condizer com a visão da opinião pública, mas não o vai necessariamente). É fundamental, portanto, que os indivíduos sejam capazes de dialogar, inclusive, com outros que comungam valores distintos, mas que habitam o mesmo 48 Sociedade e Contemporaneidade bairro, cidade, estado, país, contribuindo para a formação de uma experiência coletiva mais plural. A ideia de performance e de produção de uma projeção de si que aparece no uso que é feito das redes sociais digitais está associada não apenas àquilo de muito pessoal que um sujeito publica (como relatos de viagens, impressões sobre lugares e produtos ou fotografias de momentos íntimos e familiares). O que ele comenta, opina e compartilha nas redes também constitui uma parte importante desta performance, pois ajuda a construir uma persona que comunga de uma determinada visão de mundo e utiliza o espaço das redes para manifestá-la. O modo como nos relacionamos com os indivíduos que nos são próximos no contato físico (como parentes, colegas de trabalho ou da universidade, amigos etc.) também é afetado por essa projeção, pois, ao estabelecer conexões nas redes sociais com as pessoas que conhecemos pessoalmente, toma- mos contato com opiniões e interesses que por vezes nos eram desconhecidos, descortinando outras facetas destas pessoas, para o bem e para o mal. Podemos dizer que a experiência da rede social não se encerra no ambiente virtual, e sim trans- cende a vida concreta. E porque, também, é fundamental agir nas redes sociais com a mesma responsabilidade e critério que pautam a vida fora delas. Capítulo 2 Redes Sociais na era Digital 49 Recapitulando Este capítulo buscou discutir a participação dos usuários nas redes sociais digitais a partir de algumas noções centrais, a sa- ber: a rede social como espaço de sociabilidade; a construção da presença online; a exposição de si e o consumo e difusão da informação. Estes aspectos estão todos articulados entre si, pois é justamente em função da organização de uma rede social como espaço de sociabilidade que o indivíduo ao mes- mo tempo se informa, difunde informações e performatiza, ou seja, se expõe no nível pessoal e usa as próprias informações que difunde como forma de construir uma imagem de si. A ideia de performance online não se dá apenas em função do borramento das fronteiras entre público e privado, como na exposição pessoal, na publicação defotos ou no ato de tornar público aspectos e fatos da vida íntima. Aquilo que compar- tilhamos em termos de conteúdo, o cuidado que temos (ou que nos falta) no momento de difundir informações e o que aprovamos ou rechaçamos no momento em que manifesta- mos nossas opiniões também constituem a nossa presença nas redes sociais. Referências CANCLINI, Néstor Garcia. A globalização imaginada. São Paulo: Iluminuras, 2010. 50 Sociedade e Contemporaneidade CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede (A era da informa- ção: economia, sociedade e cultura; v. 1). São Paulo: Paz e Terra, 2010. LEMOS, André. Ciber-socialidade: tecnologia e vida so- cial na cultura contemporânea. Logos: Comunicação e universidade. N. 1, vol. 4, 1997. Disponível em <http:// www.e-publicacoes.uerj.br/ojs/index.php/logos/article/ view/14575/11038>. MENDES JÚNIOR, Hélio, COSTA, Alfredo. A Comunicação Viral nas redes sociais da internet: Estudo de dois casos de repercussão. Comunicação, Cultura e Sociedade. n. 3, vol. 3, Jan-Ago 2014. 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Atividades 1) Assinale a alternativa FALSA: a) As redes sociais digitais amplificam o alcance da co- municação humana. b) A possibilidade de expressão e sociabilização por meio das ferramentas de interação mediada por computa- dor foi a principal mudança que a internet trouxe à sociedade. c) Os elementos das redes sociais são as pessoas e suas conexões. d) Não existiam redes sociais antes do surgimento das redes sociais digitais. e) As redes sociais funcionam para que os indivíduos criem novos laços e mantenham os já existentes. 2) Assinale a alternativa FALSA: a) Comunidades virtuais são agregações em torno de in- teresses comuns, independentes de fronteiras ou de- marcações territoriais fixas. b) Comunidades virtuais não foram a primeira tecnologia que tornou possível a comunicação entre os indivídu- 52 Sociedade e Contemporaneidade os, independente de sua presença física num mesmo lugar. c) O ciberespaço é formado por redes informáticas, rea- lidade virtual e universo multimídia. d) A tecnologia é um instrumento de alienação, desen- cantamento e individualismo. e) As tecnologias alteram o compartilhamento de emo- ções, o convívio e a vida em comunidade. 3) Assinale a alternativa VERDADEIRA: a) As redes sociais são a primeira ferramenta de auto- publicação de conteúdos na internet de que dispõe o usuário “comum” (ou seja, aquele que não faz parte de um grupo de comunicação instituído). b) Antes das redes sociais não existiam outros espaços de busca por visibilidade individual. c) O imperativo da visibilidade é o desejo de exibição que borra as fronteiras entre o público e o privado. d) A ideia de performance online está ligada à constru- ção de uma imagem de si que não condiz com a rea- lidade, ou seja, que é falsa. e) A construção de uma persona pública para as redes sociais é maléfica para as relações entre os indivíduos. Capítulo 2 Redes Sociais na era Digital 53 4) Assinale a alternativa FALSA: a) Blogs, fotologs, fanpages e canais no Youtube de usuá- rios “comuns” normalmente não têm o mesmo alcance dos conteúdos produzidos pelos meios de comunica- ção tradicionais. b) As redes sociais contribuem para a viralização dos conteúdos publicados em blogs e assim para a sua audiência. c) Os blogs começaram como uma espécie de diário vir- tual. d) Os blogs são uma forma amadora de produção de conteúdo. e) A lógica de compartilhamentos de conteúdo em redes como Facebook e Twitter é endógena, pois basta estar online para receber o conteúdo, sem precisar buscá-lo fora da rede social. 5) Assinale a alternativa verdadeira: a) Qualquer pessoa pode publicar conteúdo informativo numa rede social, logo, qualquer pessoa é um jorna- lista em potencial. b) Não existe diferença entre informação e notícia. c) O jornalismo não possui mais função social e baliza- dora num mundo com tamanha quantidade de infor- mações circulando. 54 Sociedade e Contemporaneidade d) Os valores-notícia são um conjunto de qualidades ou atributos de um fato que fazem com que ele tenha mais chances de virar notícia do que outro. e) A imprensa não se baseia nos conteúdos publicados e compartilhados em redes sociais. Julieta Beatriz Ramos Desaulniers1 Capítulo 3 Novas Identidades em uma Sociedade em Transformação1 Novas Identidades em uma Sociedade ... 1 Graduada em Licenciatura Plena em Ciências Sociais pela Unisinos (1973). Mes- tre em Sociologia pela UFRGS (1984) e Doutora em Ciências Humanas – Educação, pela UFRGS e Sorbonne/Paris. Integra o Banco de Avaliadores (BASis), vinculado ao (INEP/SINAES), atuando como Avaliadora de IES. Tem interesse pelo aprimora- mento e/ou implantação de práticas e iniciativas voltadas à gestão estratégica de competências & formação de individualidades e suas articulações com tecnologias de informação e comunicação (TICs), tecnologias relacionais (TRs), inteligência co- letiva, responsabilidade social e sustentabilidade. 56 Sociedade e Contemporaneidade Introdução Sabemos, por experiência própria, que o ritmo de mudanças em relação a tudo que nos rodeia parece intensificar-se a cada dia. E, para quem ainda não se deu conta disso, na prática, basta apenas lembrar um aspecto que é indicador por excelên- cia da passagem do tempo – data de validade: seja de aconte- cimentos, artefatos, alimentos ou idade de seres vivos (huma- nos ou não). Refletir sobre o quanto isso mobiliza as pessoas na contemporaneidade parece suficiente para nos flagrarmos de que estamos passando por profundas transformações. Esse fenômeno intensifica-se com a última revolução tec- nológica, a partir da segunda metade do século XX, quando se instauram novas formas de comunicação, que se esten- dem rapidamente por todo o tecido social, gerando profun- das mudanças nas relações que fundamentam a produção da sociedade. Tais tecnologias sintetizam o conjunto de saberes acumulados pelas iniciativas e ações desenvolvidas pela hu- manidade, constituindo novos suportes à interação social. Nesse contexto, a todo e qualquer processo, impõe-se mais velocidade, independente de área ou campo em que ele se situe no espaço social, já que agora os eventos disseminam- -se ao mesmo tempo e para todos os lugares. Assim, rompe-se o paradigma que se sustenta na especialização associado à visão linear e fragmentada, passando a predominar a perspec- tiva da complexidade, que se apoia em princípios vinculados à digitalidade. Instaura, igualmente, a “incerteza como forma social” (KOKOREFF & RODRIGUES, 2005, p. 6), tanto que as “leis da física quântica exprimem possibilidades e não mais Capítulo 3 Novas Identidades em uma Sociedade ... 57 certezas” (PRIGOGINE, 1996, p. 13). Ou seja, as ciências an- tes tidas e classificadas como exatas, na prática, não apontam certezas e sim probabilidades. 3.1 Indivíduo, individualidades,individualização2 Afinal, do que se está falando? Trata-se da era digital, na contemporaneidade, que se constitui pelo conjunto de transformações provocadas pela in- trodução de novas tecnologias de informação e comunicação (NTIC). Esse processo impõe uma reflexão em busca de uma explicação para a singularidade dos seres que lhe facultam, concedem, outorgam a sua crescente autonomia. Desse ponto de vista, a questão do indivíduo parece igualmente assumir sentido de desafio à análise no campo das ciências huma- nas e sociais, e, por isso, os debates são ainda mais intensos (MOLÉNAT, 2006, p. 38). Indaga-se, então: tal fenômeno pode ser considerado como produto de um processo de evolução histórica ou libe- rado das tradições? Reflexivo ou pressionado pela urgência? Identidade(s), individualidade(s) e/ou indivíduo – como cate- gorias de análise –, estão para se tornar o tema predileto de análises de cientistas sociais? 2 Mais detalhes referentes a esse item, consultar DESAULNIERS, Julieta Beatriz Ra- mos. Formação e cidadania em tempos líquidos: desafios e possibilidades. Traba- lho apresentado no ISA, 2/2008. 58 Sociedade e Contemporaneidade  Indivíduo Pode-se dizer que “vivemos em uma sociedade onde o in- divíduo ganhou em liberdade, mas perdeu em certezas”. De um lado, o indivíduo se emancipa por dispor de meios para re- alizar e cumprir o que se apresenta como seu destino pessoal (no consumo, em comunicação e mobilidade etc.). Mas, de outro lado, evolui também num universo em que as regras se tornam mais frouxas ou instáveis (KOKOREFF & RODRIGUES, 2005). É consenso, entre pensadores, que o conjunto de muta- ções que colocam em jogo posições e tomadas de posição dos agentes sociais “navega para longe [...] para além do al- cance do controle dos cidadãos, para a extraterritorialidade das redes eletrônicas” (BAUMAN, 2001, p. 50). Quando fa- lamos em extraterritorialidade, estamos nos referindo à ideia de que, com a internet, os territórios hoje são redefinidos, não são mais limitados ao espaço físico, demarcado, delimitado. Em outros termos, parece decisivo o papel que as NTIC assu- mem nesse processo, como principal mediação nas relações desencadeadas pelos indivíduos na construção do social em tempos líquidos. Afinal, “numa sociedade de indivíduos cada um deve ser um indivíduo” e, “ser um indivíduo significa ser diferente de todos os outros” (BAUMAN, 2007, p. 25-26). E ser um indiví- duo é aceitar uma responsabilidade inalienável pela direção e pelas consequências da interação. E “A livre escolha pode ser uma ficção, mas a presunção do direito de escolher livremen- te transforma essa ficção numa realidade” (BAUMAN, 2007). Capítulo 3 Novas Identidades em uma Sociedade ... 59 Ficção, no sentido de que somos induzidos a escolher, dentre opções predeterminadas e, não só fogem necessariamente do nosso controle, como não nos trazem garantia nenhuma de sucesso. É certo que, para ser um indivíduo “numa sociedade de indivíduos custa dinheiro, muito dinheiro” (p. 37), mas “ren- der-se às pressões da globalização, nos dias de hoje, tende a ser uma reivindicação em nome da autonomia individual e da liberdade de autoafirmação” (BAUMAN, 2007, p. 53). Por isso, a autonomia do indivíduo é uma exigência, co- locando-o muitas vezes em uma situação de ansiedade, já que cada ser não dispõe dos mesmos recursos para enfrentar possíveis mudanças com as quais venha a se deparar. Nessa perspectiva, a produção do social tende a se apoiar cada vez mais no potencial do indivíduo que, por sua vez, passa a de- pender de suas possibilidades para interagir e, assim, construir sua(s) identidade(s), visando fortalecer a sua individualidade. Vale observar que tal processo é permeado por mobilidade, desejos voláteis, flexibilidade, capacidade para assumir riscos, responsabilidade por si, atuação em rede, identidade constru- ída de valores “líquidos”, tensão entre escolhas (contraditó- rias), desejo de errância (BAUMAN, 2000). Hoje, quando se ouve a palavra indivíduo, dificilmente se pensa em indivisibilidade, se é que se chega a pensar nisso. “Pelo contrário, indivíduo (tal como o átomo da física química) se refere a uma estrutura complexa e heterogênea com ele- mentos notoriamente separáveis mantidos juntos numa unida- de precária” (BAUMAN, 2007). E, ainda, “bastante frágil por uma combinação de gravitação e repulsão de forças centrípe- 60 Sociedade e Contemporaneidade tas e centrífugas num equilíbrio dinâmico, mutável e continua- mente vulnerável” (BAUMAN, 2007). Enfim, nesses tempos, conforme Bauman, “tudo corre ago- ra por conta do indivíduo”. Cabe a ele descobrir o que é capaz de fazer, [...] “esticar essa capacidade ao máximo e escolher os fins a que essa capacidade poderia melhor servir” (2001). Pois, “numa sociedade de consumo, compartilhar a depen- dência de consumidor – a dependência universal das compras – é a condição sine qua non de toda liberdade individual; aci- ma de tudo da liberdade de ser diferente, de ter identidade” (BAUMAN, 2001, p. 98).  Individualidade Autores apontam para o seguinte paradoxo: ao contrário da sociedade industrial, que produzia produtos e indivíduos, “a sociedade de consumo revela-se incapaz de produzir indi- víduos que sirvam a ela e de servir-se dos indivíduos que ela produz”. Por isso, “não há, simplesmente, sociedade o bastan- te para que os indivíduos possam definir-se pela maneira pela qual servem a ela”. Então, “no lugar de servir, trata-se agora de produzi-la” (GORZ, 2004, p. 77). Por isso, “devemos nos emancipar, ‘libertar-nos da sociedade’, mesmo se [...] poucas pessoas desejam ser libertadas” (BAUMAN, 2001). Ou seja, não há opção. Nessa perspectiva, “a individualidade é uma fatalidade, não uma escolha” (2001, p. 43) e a “liberdade louvada pelos libertários não é, ao contrário do que eles dizem, uma garantia de felicidade. Vai trazer mais tristeza que alegria” (BAUMAN, 2001). Ou seja, em outras palavras, enquanto indivíduo eu Capítulo 3 Novas Identidades em uma Sociedade ... 61 sou aquilo que eu posso ser, e não há modelo pronto de como eu deva ser. Por exemplo, as organizações procuram empre- endedores, procuram pessoas que empreendam, mas não há um modelo de como ser e não será você, mesmo que seja um empreendedor de sucesso, um modelo aos outros. O ritmo de mudanças e a complexidade dos fatores que incidem em uma determinada realidade é muito grande e crescente. Em outras palavras, individualidade [...] “significa em primeiro lu- gar a autonomia da pessoa, a qual, por sua vez, é percebida simultaneamente como direito e dever” (BAUMAN, 2007). Ou seja, “antes de qualquer outra coisa, a afirmação ‘eu sou um indivíduo’ significa que sou responsável por meus méritos e meus fracassos e que é minha tarefa cultivar os méritos e re- parar os fracassos” (BAUMAN, 2007). É preciso apropriar-se de si mesmo. Em mais detalhes, significa dizer que a “responsabilidade em resolver os dilemas gerados por circunstâncias voláteis e constantemente instáveis é jogada sobre os ombros dos indi- víduos”, assim como “a virtude que se proclama servir melhor aos interesses do indivíduo não é a conformidade às regras, mas a flexibilidade: a prontidão em mudar repentinamente de táticas e de estilos, abandonar compromissos e lealdades sem arrependimento – e buscar oportunidades mais de acordo com sua disponibilidade atual do que com as próprias preferên- cias” (BAUMAN, 2007b, p. 10). Tudo isso porque “a força da sociedade e o seu poder so- bre os indivíduos agora se baseiam no fato de ela ser ‘não localizável’ em sua atitude evasiva, versátil e volátil, assim como na imprevisibilidade desorientadora de seus movimen- 62 Sociedade e Contemporaneidade tos” (BAUMAN, 2005, p. 58-59).Exemplo disso é o efeito que as eleições norte-americanas podem desencadear na vida do cidadão brasileiro, na relação com o Estado brasileiro e sua enorme carga tributária, com os serviços básicos, com a bolsa de valores e com a própria natureza. Estamos interligados e inter-relacionados com tudo e com todos, interdependentes.  Individualização Tal processo consiste em “transformar a identidade hu- mana de um ‘dado’ em uma ‘tarefa’” (2001, p. 40), já que “numa sociedade líquido-moderna, as realizações individuais não podem solidificar-se em posses permanentes porque, em um piscar de olhos, os ativos se transformam em passivos, e as capacidades, em incapacidades” (BAUMAN, 2007, p. 7). Por isso que vida em tempos líquidos “significa constante autoexa- me, autocrítica e autocensura”, que “alimenta a insatisfação do eu consigo mesmo” (BAUMAN, 2007, p. 19). Bauman observa que a “sociedade de consumo líquido- -moderna despreza os ideais de longo prazo e da totalidade” (2001, p. 63) e, do mesmo modo, se engana quem “espera encontrar um lugar, um futuro balizado, uma segurança, uma utilidade na sociedade – a sociedade do trabalho –, pois ela está morta”. Por isso, “é preciso que as mentalidades mudem para que a economia e a sociedade possam mudar” (GORZ, 2004, p. 69-71). A ideia de totalidade reporta-nos a um es- tágio do desenvolvimento capitalista que hoje está superado. Reporta-nos à sociedade industrial, que não existe mais, na qual a sociedade estruturava o indivíduo. Capítulo 3 Novas Identidades em uma Sociedade ... 63 3.2 Identidades: uma categoria, várias abordagens Identidades assumem novas configurações, visto que passam a ganhar “livre curso, e agora cabe a cada indivíduo, homem ou mulher, capturá-las em pleno voo, usando seus próprios recursos e ferramentas. O anseio por identidade vem do dese- jo de segurança, ele próprio um sentimento ambíguo” (BAU- MAN, 2005, p. 35). Concebe-se identidade como algo que nos é revelado so- mente através de um processo de invenção; “como alvo de um esforço, ‘um objetivo’; como uma coisa que ainda se precisa construir a partir do zero ou escolher entre alternativas e então lutar por ela e protegê-la lutando ainda mais” (2005, p. 21- 22). Provavelmente, “fiquemos divididos entre o desejo de uma identidade de nosso gosto e a escolha e o temor de que, uma vez assumida essa identidade, possamos descobrir, como se não existisse uma ‘ponte se tivéssemos que bater em retira- da’” (2005, p. 105), pois identidade é uma ideia inescapavel- mente ambígua, uma faca de dois gumes (BAUMAN, 2005, p. 82). Além disso, “mudar de identidade pode ser uma questão privada, mas sempre inclui a ruptura de certos vínculos e o cancelamento de certas obrigações”. E, ainda, “os que estão do lado que sofrem nunca são consultados, e menos ainda têm chance de exercitar sua liberdade de escolha” (BAUMAN, 2001). É essencial, nesse sentido, tomar conta de sua vida e suas escolhas. 64 Sociedade e Contemporaneidade Igualmente, de acordo com a abordagem de Stuart Hall, o sujeito pós-moderno “não tem uma identidade fixa, essen- cial ou permanente”, já que está em processo constante de formação. Afirma que, embora a noção de identidade esteja relacionada a “pessoas que se parecem”, “sentem a mesma coisa” ou “chamam a si mesmas pelo nome”, estes elementos são referenciais insuficientes, pois não satisfazem aos pressu- postos necessários à compreensão adequada do fenômeno da identidade (HALL, 1998, p. 45). Como um processo, assim como uma narrativa ou como um discurso, “a identidade é sempre vista da perspectiva do outro” (HALL, 1998, p. 45). Essa é uma formulação funda- mental, porque nos leva a considerar que identidades só po- dem ser vislumbradas no que têm a dizer – sobre si e sobre o seu outro, na relação com o outro. Hall argumenta que a formação de nossas identidades se dá culturalmente, ou seja, passa por uma escolha pessoal, mas fundamentalmente passa pela mediação de aspectos ob- jetivos, presentes em normas, instituições, e atividades, enfim, nas ações e estruturas sociais contextualizadas em um determi- nado tempo e lugar. Um tipo diferente de mudança estrutural está transforman- do as sociedades modernas no final do século XX. Isso frag- menta as paisagens culturais de classe, gênero, sexualidade, etnia, raça e nacionalidade, que, no passado, forneciam a todos sólidas localizações como indivíduos sociais. Essas transformações estão também mudando nossas identidades Capítulo 3 Novas Identidades em uma Sociedade ... 65 pessoais, abalando a ideia que temos de nós próprios como sujeitos integrados à sociedade. Para Hall, um processo irreversível de fluidez das culturas vem desenvolvendo o estreitamento das nações, pondo em evidência o vínculo do homem com as sociedades, testando- -os como seres que se localizam em meio a um campo social e cultural indefinido. Nesse sentido, alerta sobre o papel da tecnologia para o cerco perante as identidades tácitas, nos mostrando como o impacto da globalização está mudando as identidades culturais nacionais, raça, gênero, etnia, na medi- da em que os avanços da globalização vêm fragmentando as regulações culturais das identidades a ponto do surgimento de uma “crise de identidade”. Tal perda de um “sentido de si” estável é chamada, algu- mas vezes, de deslocamento ou descentração do sujeito. Esse duplo deslocamento – descentração dos indivíduos tanto de seu lugar no mundo social e cultural quanto de si mesmos – constitui uma “crise de identidade” para o indivíduo. Como observa o crítico cultural Kobena Mercer, “a identidade so- mente se torna uma questão quando está em crise, quando algo que se supõe como fixo, coerente e estável é deslocado pela experiência da dúvida e da incerteza” (MERCER, 1990 apud HALL, 1997, p. 07-22). Esses processos de mudança, tomados em conjunto, representam um processo de transfor- mação tão fundamental e abrangente que somos compelidos a perguntar se não é a própria modernidade que está sendo transformada (HALL, 1997, p. 07-22). 66 Sociedade e Contemporaneidade Vale destacar a influência da última fase da globalização sobre as identidades no que tange aos sistemas de represen- tação, pois, ao acelerar processos de tal forma que se sente que o mundo é menor e as distâncias mais curtas, faz com que os eventos em um determinado lugar tenham impacto imedia- to sobre pessoas e lugares situados a uma grande distância. Isso produziu a “compressão espaço-tempo”, pois “o espaço se encolhe para se tornar urna aldeia ‘global’ de telecomuni- cações e uma ‘espaçonave planetária’ de interdependências econômicas e ecológicas” (HARVEY, 1989). Mais recentemente, Canclini também considera a mo- bilidade identitária tendo muito a ver com as possibilidades de conexão e desconexão das comunicações, ou das redes de informação, entretenimento e participação social ou uma combinação dessas modalidades (CANCLINI, 2005). Antony Giddens igualmente observa que o processo migratório de culturas passou a testar a estabilidade da identidade, possibili- tada principalmente a partir da diminuição da relação tempo/ espaço (GIDDENS, 2002). Assim, verificam-se formas de clas- sificação de como as identidades se constroem nesse processo. Pesquisas têm relacionado identidade e diferença, enfati- zando que a migração produz identidades plurais, mas tam- bém identidades contestadas, em um processo que é caracte- rizado por grandes desigualdades. A tendência das culturas se aproximarem diminuindo a disparidade entre tempo e espaço, se inicia a partir da flexibilização das relações sociais, bem como de uma “modernização das instituições”, abordada por Giddens (2002). Capítulo 3 Novas Identidades em uma Sociedade ... 67 Dentreas perspectivas até aqui expostas, é oportuno con- siderar as ideias de Canevacci, em especial, quando se refe- re a “um novo sentido de identidade: uma identidade móvel, fluída, que incorporou os muitos fragmentos que – no espaço temporário de suas relações possíveis com o seu eu ou com o outro – se ‘veste’ ou se ‘traveste’ de acordo com as circuns- tâncias”. Por isso, “a chamada personalidade narcisista emer- gente, que, em nossa sociedade, expressaria uma estrutura de caráter que perdeu interesse pelo futuro [...]” (CANEVACCI, 2005, p. 34). Nesse contexto, alonga-se a fase mais móvel e criativa do sentir-se jovem – tornar-se um jovem interminável. Assim, “os jovens são atemporais no sentido de que ninguém pode sentir-se como excluído desse horizonte geracional” (CANE- VACCI, 2005, p. 35-6). Ao finalizar, mencionam-se argumentos que, em vez de identidades, herdadas ou adquiridas, defendem a utilização da categoria de análise identificação por estar mais próxima da realidade do mundo globalizado. É concebida como uma atividade que nunca termina, sempre incompleta, na qual to- dos nós, por necessidade ou escolha, estamos engajados. Há pouca chance de que as tensões, os confrontos e os conflitos que essa atividade gera irão subsistir. A busca frenética por identidade não parece ser um resíduo dos tempos pré-globali- zação que ainda não foram totalmente extirpados, que tendem a se tornar extintos conforme a globalização avança. Pelo con- trário, essa guerra de identificação está em plena marcha na contemporaneidade. 68 Sociedade e Contemporaneidade Recapitulando O capítulo aponta para as implicações que as novas tecno- logias de informação e comunicação impõem à sociedade, trazendo novo ritmo e nova velocidade aos fenômenos sociais, complexificando-os. Especificamente trata das mudanças ins- tauradas na relação entre o indivíduo e a sociedade. Pois, em função de suas características, as novas técnicas impõem ao indivíduo a necessidade de tornar-se autônomo, livre, mes- mo contra sua vontade. Por isso, nas palavras de Baumann, “ganhamos em liberdade, mas perdemos em certezas”. Pois, ao contrário do que ocorria nas sociedades industriais, cujos processos de formação de trabalhadores para o mundo do trabalho, por exemplo, eram claros e definidos, frente ao rit- mo frenético de mudanças que caracteriza nosso tempo, esta nova sociedade não consegue preparar o tipo de trabalhador (ou produtor do social) de que necessita para seguir girando a roda do consumo. Trata-se deste novo estágio do capitalis- mo, da transição da sociedade industrial para a sociedade do consumo e das implicações para a construção de identidades. Trata-se hoje de uma sociedade de indivíduos, e ser indivíduo significa ser diferente dos outros, pois as tecnologias permitem e obrigam a todos que sejam diferentes. A produção do social hoje depende cada vez mais da capa- cidade individual de cada um em ser capaz de sintonizar-se com esse novo tempo. E isso gera cada vez mais exclusão e ansiedade, pois não temos todos as mesmas capacidades de lidar, por exemplo, com o movimento e a necessidade de reinvenção e de readaptação que as novas técnicas e, por Capítulo 3 Novas Identidades em uma Sociedade ... 69 conseguinte, a nova sociedade demandam. E não temos saí- da, estamos todos entregues a nós mesmos e dependentes da forma como fomos formados. Nesse processo de construção e reconstrução em ritmo frenético, formamos nossa identidade, hoje em crise permanente, pois nessa sociedade não sobrevi- vem ideais de longo prazo, a tradição e os valores permanen- tes estão em xeque, tudo é fluido, volátil, em movimento. Por isso, as novas configurações culturais de classe, gênero, sexu- alidade, etnia, raça e nacionalidade, que, nessa sociedade é líquida, não é sólida. Ser um indivíduo, atualmente, significa cada um ser responsável por seus méritos e seus fracassos e é sua, e somente sua a tarefa de cultivar os méritos e reparar os fracassos. Este novo estágio do capitalismo vem trazendo mais exclusão, e mais tristeza. Referências BAUMAN, Zygmunt. A sociedade individualizada. Rio de Ja- neiro: Zahar, 2008. ______. Vida líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2007. ______. Tempos líquidos. Rio de Janeiro: Zahar, 2007b. ______. Identidade. Rio de Janeiro: Zahar, 2005. ______. Amor líquido – sobre a fragilidade dos laços huma- nos. Rio de Janeiro: Zahar, 2004. ______. Globalização – as consequências humanas. Rio de Janeiro: Zahar, 2001. 70 Sociedade e Contemporaneidade ______. Em busca da política. Rio de Janeiro: Zahar, 2000. CANEVACCI, M. Culturas extremas, mutações juvenis nos corpos das metrópoles. Rio de Janeiro: DP&A, 2005. CANCLINI, Nestor García. Diferentes, desiguais e desco- nectados. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2005. CORCUFF, Philippe. As novas sociologias – construções da realidade social. Bauru/SP: Edusc, 2001. DESAULNIERS, Julieta B. R. Formação e cidadania em tem- pos líquidos: desafios e possibilidades. Trabalho apresen- tado no ISA, 02/2008. GIDDENS, Anthony. A constituição da sociedade. São Pau- lo: Martins Fontes, 1989. GORZ, André. Misérias do presente, riquezas do possível. São Paulo: AnnaBlume, 2004. HALL, Stuart. Identidades culturais na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 1997. Disponível em: <http://www. angelfire.com/sk/holgonsi/hall1.html>. HARVEY, David. Condição pós-moderna: uma pesquisa so- bre as origens da mudança cultural. São Paulo: Loyola, 1989. KOKOREFF, Michel; RODRIGUES, Jacques. Une société de l’incertitude. In: Revue Sciences Humaines, sept-oct 2005. MERCER, Kobena. Marginalization and contemporary cul- tures. In: HALL, Stuart. Identidades culturais na pós-moder- nidade. Rio de Janeiro: DP&A, 1997. Capítulo 3 Novas Identidades em uma Sociedade ... 71 MOLÉNAT, Xavier. Quel individu pour la sociologie? In: DORTIER, Jean-François (coord.). La pensée éclatée – la chronique des idées d’aujour’hui. In: Revue S. Humaines, n.167, jan. 2006. PRIGOGINE, Ilya. O fim das certezas – tempo, caos e leis da natureza. São Paulo: Inesp, 1996. Atividades 1) Assinale a alternativa incorreta. Dentre os aspectos que distinguem a sociedade de consumidores podemos desta- car: a) as novas tecnologias de informação e comunicação que ao romperem as barreiras de tempo e espaço im- põem novo ritmo e velocidade aos fenômenos sociais. b) a demanda por autonomia imposta aos agentes so- ciais pela característica das novas mediações, novas mídias. c) a centralidade da figura do indivíduo em detrimento da sociedade, pois o indivíduo produz a sociedade como nunca antes na história. d) o papel central da mídia de massa, sobretudo a tele- visão que forma e molda as mentalidades de forma híbrida e volátil. 72 Sociedade e Contemporaneidade e) identidade(s), individualidade(s) e/ou indivíduo – como categorias centrais de análise para entender a socie- dade contemporânea. 2) Assinale a alternativa incorreta. Nas palavras de Bauman na sociedade líquida moderna “ganhamos em liberdade, mas perdemos em certezas”, ou seja: a) as tecnologias permitem uma maior autonomia aos agentes sociais. b) a velocidade e complexidade do nosso tempo trazem cada vez mais imprevisibilidade e incapacidade de “prever” as novas demandas sociais em todas as áre- as. c) os valores tradicionais, hoje, estão em xeque perma- nentemente. d) estamos entregues a nossa capacidade de nos adap- tarmos às mudanças frenéticas do nosso tempo e não teremos garantias nenhuma de sucesso. e) a liberdade e a felicidade em, finalmente, nos tornar- mos autônomos e livres da opressão da sociedade so- bre os indivíduos. 3) Assinale a alternativa correta. São exemplos da crise das identidades típicas da sociedade líquido-moderna: a)as novas configurações familiares, não mais restritas à figura da mãe, do pai e dos filhos. b) o fim do emprego típico da sociedade industrial. Capítulo 3 Novas Identidades em uma Sociedade ... 73 c) a necessidade constante de readaptação e reconstru- ção individual. d) os valores tradicionais (permanentes) hoje colocados em xeque. e) o fato de que a sociedade, atualmente, não produz os indivíduos de que necessita, diferente da sociedade industrial. 4) Quanto ao conceito de indivíduo, ser indivíduo significa essencialmente: a) ser diferente do outro. b) ter características comuns: o engenheiro, o advogado, o médico, o pai de família. c) pertencer a uma classe social determinada. d) compartilhar valores religiosos e morais. e) nenhuma das alternativas anteriores define o conceito de indivíduo. 5) Assinale a alternativa incorreta. Quanto à ideia de indiví- duo autônomo, na sociedade líquida-moderna isso signifi- ca: a) ser responsável pelos seus sucessos e pelos seus fra- cassos. b) não ter opção, pois as tecnologias e a própria socie- dade do consumo impõem essa necessidade. 74 Sociedade e Contemporaneidade c) conhecer-se, apoderar-se de si mesmo, de suas capa- cidades e incapacidades. d) ter flexibilidade e capacidade para assumir riscos. e) Nenhuma das alternativas anteriores está correta. Paulo G. M. de Moura1 Capítulo 4 Jogo de Espelhos: A Crise das Identidades Sociais na Sociedade Contemporânea1 Jogo de Espelhos: A Crise das Identidades Sociais ... 1 Bacharel em Ciências Sociais (1992), mestre em Ciência Política pela UFRGS (1998); doutor em Comunicação Social pela PUCRS (2004) e especialista em Edu- cação à Distância pelo Senac/RS (2009). Professor Adjunto com Doutorado da ULBRA. Atua na área de Ciência Política com ênfase em Estudos Eleitorais e Partidos Políticos e na Área de Comunicação Política e Marketing Político. 76 Sociedade e Contemporaneidade Introdução A sociedade contemporânea apresenta um alto grau de com- plexidade, e a compreensão das transformações pela qual ela passa requer um olhar igualmente complexo e multidimensio- nal. Isto é, precisamos analisar os acontecimentos e fenôme- nos sociais por diversos ângulos e recorrendo a diversos instru- mentos teóricos para podermos compreender o que se passa em todas as suas dimensões. Uma dimensão muito importante das transformações em curso na sociedade atual diz respeito à chamada “crise das identidades culturais”. O conceito de identidade diz respeito à forma como nos percebemos ou somos percebidos em socie- dade. Formamos nossas identidades por reflexo em relação às pessoas e meios sociais nos quais vivemos. O ambiente social contemporâneo é constantemente bombardeado pelos estímu- los da mídia. Consequentemente, nossas identidades sociais experimentam profundas transformações. Entender esse pro- cesso é fundamental para compreender a sociedade em que vivemos. Capítulo 4 Jogo de Espelhos: A Crise das Identidades Sociais ... 77 4.1 De que cultura estamos falando? Ao consultarmos o verbete “identidade” no Dicionário Aurélio Século XXI2, dentre as possíveis definições encontram-se as se- guintes: “Conjunto de caracteres próprios e exclusivos de uma pessoa: nome, idade, estado, profissão, sexo, defeitos físicos, impressões digitais etc.; ou, ainda, aspecto coletivo de um conjunto de características pelas quais algo é definitivamente reconhecível, ou conhecido”. Já o verbete “cultura”, na mesma fonte, nos revela uma quantidade bem maior de possíveis definições, dentre as quais se destacam: “O conjunto de características humanas que não são inatas e que se criam e se preservam ou aprimoram através da comunicação e da cooperação entre indivíduos em sociedade [Nas ciências humanas, opõe-se por vezes à ideia de natureza, ou de constituição biológica, e está associada a uma capacidade de simbolização considerada própria da vida coletiva e que é a base das interações sociais.]; a parte ou o aspecto da vida coletiva, relacionados à produção e transmis- são de conhecimentos, à criação intelectual e artística etc.; o processo ou estado de desenvolvimento social de um grupo, um povo, uma nação, que resulta do aprimoramento de seus valores, instituições, criações etc.; civilização, progresso; ati- vidade e desenvolvimento intelectuais de um indivíduo; saber, ilustração, instrução; refinamento de hábitos, modos ou gostos; apuro, esmero, elegância; Antropologia: o conjunto complexo 2 FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Dicionário Aurélio eletrônico século XXI versão 3.0. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999. 1CD ROM. Produzido por Lexikon Informática. 78 Sociedade e Contemporaneidade dos códigos e padrões que regulam a ação humana individual e coletiva, tal como se desenvolvem em uma sociedade ou grupo específico, e que se manifestam em praticamente todos os aspectos da vida: modos de sobrevivência, normas de com- portamento, crenças, instituições, valores espirituais, criações materiais etc. [Como conceito das ciências humanas, esp. da antropologia, cultura pode ser tomada abstratamente, como manifestação de um atributo geral da humanidade (cf. acepç. 5), ou, mais concretamente, como patrimônio próprio e distin- tivo de um grupo ou sociedade específica (cf. acepç. 6).]; Filos: categoria dialética de análise do processo pelo qual o homem, por meio de sua atividade concreta (espiritual e material), ao mesmo tempo em que modifica a natureza, cria a si mesmo como sujeito social da história”. Se procedermos à conversão do verbete “identidade” à condição de “conceito sociológico”, isto é, de ferramenta para a compreensão científica de um determinado fenômeno social, podemos dizer, então, que esse conceito define a forma como indivíduos e coletividades se veem ou são percebidas social- mente. O mesmo procedimento aplicado ao verbete “cultura” revela-nos dois tipos de definições para o termo; um que se refere à cultura como atividade elitista relacionada à atividade artística ou à erudição de indivíduos ou grupos sociais com acesso à educação e ao conhecimento artístico e de atividades do gênero, e outro, que se refere a uma interpretação mais geral do termo, e que se relaciona a dimensões mais amplas da atividade humana em sociedade, envolvendo hábitos, cos- tumes, valores e práticas sociais generalizadas e acessíveis a quaisquer indivíduos ou grupos sociais, independentemente do acesso que tenham à formação educacional ou ao conhe- Capítulo 4 Jogo de Espelhos: A Crise das Identidades Sociais ... 79 cimento erudito do mundo das artes. Essa segunda definição do verbete é a que se aplica à conversão em conceito socioló- gico para fins de estudo da crise das identidades culturais na sociedade contemporânea. 4.2 O que se entende por “crise das identidades sociais contemporâneas” Um dos autores de maior destaque no estudo desse assunto é o cientista social jamaicano radicado na Inglaterra, Stuart Hall, que, num artigo sobre o tema3, argumenta que “as ve- lhas identidades, que por tanto tempo estabilizaram o mundo social, estão em declínio, fazendo surgir novas identidades e fragmentando o indivíduo moderno, até aqui visto como um sujeito unificado”. Para Hall, a “crise de identidade” individual e coletiva tem origem no impacto das mudanças decorrentes do processo de globalização em curso, que estaria “deslocan- do estruturas e processos centrais das sociedades modernas e abalando os quadros de referência que forneciam aos indiví- duos uma ancoragem estável no mundo social”. A globalização é comumente analisada pelo viés econô- mico. No entanto, ela é, também, um processo complexo e inseparável de suas dimensões de integração social, política e cultural,que decorre da interconexão de todas as regiões e comunidades do planeta Terra, por sistemas de comunica- ção on-line, em tempo real. Segundo Hall, esse processo de 3 HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. São Paulo: DP&A, 1999. 80 Sociedade e Contemporaneidade integração estaria fragmentando as “paisagens culturais de classe, gênero, sexualidade, etnia, raça e nacionalidade”, que forneciam “sólidas localizações aos indivíduos sociais” aos indivíduos e coletividades no período antecedente da história. Identidades individuais contemporâneas estariam receben- do o impacto dessas mudanças. Nesse contexto, desestrutura- -se a percepção que os indivíduos contemporâneos têm de si mesmos. Antes nos percebíamos como sujeitos integrados, unos e harmônicos. Já não é mais assim. Segundo estudos contemporâneos, estaria em curso uma desestruturação das identidades dos indivíduos a partir de seu lugar no mundo so- cial e cultural e dos indivíduos propriamente ditos. Esse proces- so deu origem aos estudos contemporâneos sobre a “crise das identidades culturais” (HALL, 1999). 4.3 Sujeitos sociais modernos e contemporâneos Stuart Hall nos mostra, em seu estudo, que a maneira como a condição de sujeito social é percebida na sociedade moderna evoluiu com o passar do tempo, passando por três diferentes definições: a) sujeito do Iluminismo; b) sujeito sociológico; c) sujeito pós-moderno. Capítulo 4 Jogo de Espelhos: A Crise das Identidades Sociais ... 81 Para Hall, o sujeito do Iluminismo partia de uma concep- ção de indivíduo autocentrado, segundo a qual a pessoa hu- mana seria totalmente unidimensional, racional e absoluta- mente consciente de suas ações, orientadas a partir de num núcleo que emergia de seu interior a partir do nascimento, e desenvolvia-se ao longo de sua vida, permanecendo, em es- sência, inalterada. A noção posterior, de sujeito sociológico, partia da com- preensão de a identidade dos sujeitos sociais decorrer de um processo de construção interativa da personalidade dos indiví- duos, e refletia a complexidade do mundo moderno emergen- te. Ou seja, a evolução da sociedade moderna levou à com- preensão de que aquele “núcleo interior” do sujeito Iluminista não possuía a suposta autonomia e autossuficiência, sendo formado na interação com os indivíduos com quem se convive socialmente, estabelecendo-se, assim, relações de mediação social, a partir das quais se constroem os valores, sentidos e símbolos sociais; isto é, a cultura que envolve a vida dos indi- víduos em sociedade. Os sujeitos sociais modernos, então, não perderiam sua “essência interior”, mas agregariam a ela novos ingredientes através da interação com o mundo exterior e as identidades que a ele se expõe ao longo da vida. Estabelece-se, dessa forma, uma conexão entre os processos psíquicos individuais e os processos político-sociais e culturais nos quais o indivíduo se insere. A identidade, portanto, articula sujeito e estrutura, e “estabiliza tanto os sujeitos quanto os mundos culturais que eles habitam, tornando ambos reciprocamente mais unificados e predizíveis” (HALL, 1999, p. 12). 82 Sociedade e Contemporaneidade Para Stuart Hall, o impacto da globalização sobre a vida dos indivíduos e das coletividades da sociedade contemporâ- nea estaria transformando essa concepção de identidade do sujeito moderno, levada à crise em função das mudanças es- truturais e institucionais do mundo em processo de globaliza- ção cultural. O sujeito da sociedade pós-moderna, então, deveria ser compreendido como alguém que não tem identidade fixa, nem essência una, estável e imutável. O sujeito pós-moderno, dessa forma, se comporia de múltiplas identidades fragmenta- das, por vezes até contraditórias ou mesmo não completamen- te autodefinidas pelo indivíduo. Imerso num oceano de referências externas, composto de infinitas combinações de imagens, sons, informações e indiví- duos multifacetados e globalmente inseridos, real ou virtual- mente, em seus círculos de convivência, o indivíduo da so- ciedade contemporânea estaria assistindo seus sistemas de classificação e construção de significados e representações culturais se multiplicarem e assumirem um grau de comple- xidade nunca antes experimentado. Dessa forma, o sujeito contemporâneo teria sua identidade lapidada em contextos historicamente circunstanciados, e assumiria, em diferentes momentos e ambientes, identidades múltiplas, não necessaria- mente ancoradas em suportes individuais, coerentes, estáveis e autodefinidos a partir do seu nascimento e preservado até sua morte. Para o sociólogo Émile Durkheim (1858/1917), é a organi- zação e a ordenação das coisas através de sistemas classifica- Capítulo 4 Jogo de Espelhos: A Crise das Identidades Sociais ... 83 tórios que leva à construção de significados, pois nas relações sociais as formas de diferenciação simbólica e social (nós/eles; sagrado/profano; brasileiros/não brasileiros) estabelecem-se, em parte, através deles. Para a cientista social Katherine Woodward, as formas pelas quais a cultura estabelece limites e distinções são fundamen- tais para compreendermos como se constroem as identidades sociais e individuais, pois: “cada cultura tem suas próprias e distintivas formas de classificar o mundo. É pela construção de sistemas de classificação que a cultura propicia os meios pelos quais podemos dar sentido ao mundo social e construir signifi- cados. Há, entre os membros de uma sociedade, certo grau de consenso sobre como classificar as coisas a fim de manter uma ordem social. Esses sistemas partilhados de classificação são, na verdade, o que se entende por cultura” (WOODWARD, 2000, p. 40). Já, segundo o sociólogo Anthony Giddens, na sociedade moderna, ao contrário do que ocorre nas sociedades tradi- cionais, o processo de transformação social se processa de forma constante, rápida e permanente. Para ele: “[...] nas so- ciedades tradicionais, o passado é venerado e os símbolos são valorizados porque contêm e perpetuam a experiência de gerações. A tradição é um meio de lidar com o tempo e o espaço, inserindo qualquer atividade ou experiência particular na continuidade do passado, presente e futuro, os quais, por sua vez, são estruturados por práticas sociais recorrentes”.4 E 4 GIDDENS, A. The Consequences of Modernity. Cambridge: Polity Press, 1990, p. 37-38. 84 Sociedade e Contemporaneidade mais, segundo Giddens, “à medida que áreas diferentes do globo são postas em interconexão umas com as outras, ondas de transformação social atingem virtualmente toda a superfície da terra”5 e a natureza das instituições contemporâneas. As sociedades que passaram por processos de desenvolvi- mento urbano e industrial tardio se comparadas aos países di- tos “desenvolvidos”, são trespassadas por múltiplas divisões e antagonismos que geram uma variedade expressiva de identi- dades individuais e coletivas. Para o autor Ernesto Laclau, seria a capacidade de articular de forma conjunta esses diferentes elementos de identidade que possibilitaria evitar a desintegra- ção dessas sociedades, ainda que esse poder de articulação seja apenas parcial, o que, para esse autor, permite explicar- mos a dinâmica evolutiva da história6. Para melhor compre- ender sobre o que estamos falando, vamos nos concentrar na análise da questão das “identidades nacionais”. 4.4 A crise das identidades nacionais O Estado-nação, juridicamente definido como unidade cons- tituída pelo agregado povo-território-governo, é resultado de uma construção histórica e cultural resultante do processo de transição da sociedade feudal para a sociedade urbano-in- dustrial. No mundo moderno, as identidades nacionais, isto é, o conjunto de elementos que compõema forma como de- 5 Ibid., 1990, p. 6. 6 LACLAU, E. New Reflections on the Resolution of our Time. Londres: Verso, 1990.. Capítulo 4 Jogo de Espelhos: A Crise das Identidades Sociais ... 85 terminadas sociedades nacionais se diferenciam das demais, constitui-se numa das principais âncoras da identidade cultural dos sujeitos modernos. Assim, os indivíduos tendem a definir- -se e a apresentar-se publicamente perante o mundo que os cerca, a partir de sua identidade nacional, percebida como parte imanente de suas naturezas essenciais e como elemento estabilizador de seu psiquismo individual e social. O filósofo Roger Scruton, por exemplo, aborda essa mes- ma questão afirmando que: “A condição de homem (sic) exige que o indivíduo, embora exista e aja como ser autônomo, faça isso somente porque ele pode primeiramente identificar a si mesmo como algo mais amplo – como um membro de uma sociedade, grupo, classe, estado ou nação, de algum arranjo, ao qual ele pode até não dar um nome, mas que ele reconhe- ce instintivamente como seu lar”7. Para Stuart Hall, “as identidades nacionais não são coisas com as quais nós nascemos, mas são formadas e transforma- das no interior da representação. [...] a nação não é apenas uma entidade política mas algo que produz sentidos – um sis- tema de representação cultural” (HALL, 1999, p. 48-49). As identidades culturais nacionais, portanto, seriam construções sociais modernas, e os sentimentos de “lealdade e identifica- ção que numa era pré-moderna ou em sociedades mais tra- dicionais eram dados à tribo, ao povo, à religião e à região foram transferidas, gradualmente, nas sociedades ocidentais, à cultura nacional” (HALL, 1990, p. 49). 7 SCRUTON, R. Authority and allegiance. In: DONALD, J.; HALL, S. (orgs.). Politics and Ideology. Milton Keynes: Open University Press, 1986. 86 Sociedade e Contemporaneidade Dessa forma as diferenças regionais e étnicas, caracterís- ticas culturais das sociedades antigas, foram gradualmente sendo reconstruídas e redefinidas a partir da demarcação dos contornos da formação política nova e emergente com a so- ciedade moderna: o estado nacional. O Estado-nação, então, se converteu na nova e poderosa fonte de significados para as identidades culturais modernas. Para Stuart Hall, símbolos e representações compõem as culturas nacionais tanto quanto as instituições culturais. Uma cultura nacional é um discurso, um modo de construir sentidos que influencia e organiza tanto nossas ações quanto a con- cepção que temos de nós mesmos (HALL, 1990, p. 50-51). As culturas nacionais, nesse contexto, seriam representações construídas ao longo da história, que conferem sentidos à per- cepção que os indivíduos têm em relação à nação com a qual se identificam. No contexto das transformações em curso na sociedade contemporânea, a globalização, entendida como processo multidimensional, estaria pressionando as estruturas do esta- do moderno e provocando seu redimensionamento tanto no sentido vertical (político, jurídico, institucional e administrativo) como horizontal (geográfico), o que estaria provocando mu- danças que explicam boa parte das crises sociais contempo- râneas. Assim, assistimos simultaneamente à desestruturação e reestruturação das fronteiras físicas e imaginárias dos Estados- -nação, tal como se pode constatar pelas transformações em curso na comunidade europeia. Ocorre, de forma concomi- Capítulo 4 Jogo de Espelhos: A Crise das Identidades Sociais ... 87 tante, o deslocamento do poder antes soberano e monopolista do estado nacional para instâncias regionais e locais de poder, dando origem a movimentos separatistas, políticas públicas de descentralização administrativa, ou, ainda, manifestações de xenofobia, ódio racial e fanatismo religioso, impulsionados por forças sociais em busca dos novos poderes da sociedade em transformação. A unificação dos mercados nacionais no processo de for- mação dos estados nacionais e da sociedade urbana e in- dustrial moderna originou as estruturas jurídicas e políticas do estado moderno, e, consequentemente, de seu sistema de crenças e valores, de representação e identidade cultural. A globalização em suas diversas dimensões, fortemente influen- ciada pelo processo de transnacionalização do capital, em muitos casos, está levando ao ressurgimento e à reconstrução de identidades culturais tradicionais que foram deslocadas de suas funções de identificação social no período de ascensão do estado nacional moderno. Quando esse processo começou a revelar contornos mais claros, alguns autores imaginaram que o efeito desses proces- sos levaria ao enfraquecimento ou destruição das formas na- cionais de identidade cultural. O processo, no entanto, parece mais complexo do que puderam perceber esses autores. As transformações ocorrem em vários sentidos e produzem resul- tados diversos, nem todos conforme as primeiras impressões sugeriram. Influenciadas pela dinâmica da globalização, en- tão, as identidades nacionais, estariam sofrendo pressões no sentido de sua readequação a essa nova realidade. 88 Sociedade e Contemporaneidade 4.5 Avanços ou retrocessos? Segundo Hall, o discurso da identidade nacional seria uma re- presentação construída pelas estórias, mitos, crenças e valores das sociedades, “[...] se equilibra entre a tentação de retornar a glórias passadas e o impulso por avançar ainda mais em direção à modernidade. As culturas nacionais são tentadas, algumas vezes, a se voltar para o passado, a recuar defensi- vamente para aquele ‘tempo perdido’, quando a nação era ‘grande’; são tentadas a restaurar as identidades passadas” (HALL, 1999, p. 56). A crise em curso na Europa, da virada da primeira para a segunda década deste século, parece comprovar as análi- ses do autor, que aponta nesses comportamentos o “elemento regressivo, anacrônico, da estória da cultura nacional”. Se- gundo Hall, em geral, movimentos sociais amparados nesses sentimentos nostálgicos ocultariam lutas por poder que bus- cam mobilizar a sociedade com discursos de combate às su- postas ameaças que viriam de fora e ameaçariam a “pureza” da identidade nacional “ameaçada”, com vistas a influenciar o destino das coletividades em direção ao futuro (HALL, 1999, p. 56). Dessa forma, sustentadas pelas memórias do passado; no desejo por viver em conjunto; no impulso pela perpetuação da herança, as identidades culturais nacionais não devem ser in- terpretadas como limitados pontos de lealdade, união e iden- tificação simbólica, mas também, como estruturas de poder cultural. Para Hall, então, as identidades culturais nacionais devem ser pensadas como “constituindo um dispositivo discur- Capítulo 4 Jogo de Espelhos: A Crise das Identidades Sociais ... 89 sivo que representa a diferença como unidade ou identidade. [...] sendo ‘unificadas’ apenas através do exercício de diferen- tes formas de poder cultural” (HALL, 1999, p. 62). Para esse autor, então, as culturas nacionais galvaniza- ram socialmente aquilo que se entende por “modernidade”, e as identidades nacionais se sobrepuseram a outras fontes de identificação social, tais como, a noção que os indivíduos tinham com relação à classe social, ideologias, formas parti- dárias, origens étnicas, dentre outras. No contexto das transformações decorrentes do processo de globalização, então, esses elementos que compunham a identidade individual e social do sujeito moderno estariam deslocando o poder que identidades culturais nacionais ti- nham como elementos organizadores da sociedade urbana e industrial. 4.6 As três tendências Ao aprofundar seus estudos sobre a questão das identidades culturais em transformação, Hall constata pelo menos três pos- síveis desdobramentos desse processo. Paraele: a) as identidades nacionais estão se desintegrando, como resultado do crescimento da homogeneização cul- tural do “pós-moderno” global; b) as identidades nacio- nais e outras identidades “locais” ou particularistas estão sendo reforçadas pela resistência à globalização; e c) as identidades nacionais estão em declínio, mas novas 90 Sociedade e Contemporaneidade identidades – híbridas – estão tomando seu lugar (HALL, 1999, p. 69). O racismo protagonizado por grupos étnicos predominan- tes em certas sociedades, e que se sentem ameaçados pela presença, em “seus” territórios, de contingentes populacionais migrantes num mundo em que o sistema de comunicação e transportes democratizou o acesso à informação e à mobili- dade de segmentos sociais que, no passado tenderiam a se manter fixos em seus territórios de origem, é apenas uma das dimensões desse processo. A “invasão” da Europa Ocidental e dos EUA por contingentes de migrantes vindos da África, da América do Sul ou da Ásia, então, está na raiz de muitas das manifestações de racismo, xenofobia e intolerância cultural que vemos no noticiário com frequência hoje em dia. Para Stuart Hall, o ressurgimento do nacionalismo na Eu- ropa Oriental, assim como o crescimento de grupos funda- mentalistas em diversas correntes religiosas, talvez sejam mais bem compreendidos se vistos como tentativas para reconstituir identidades supostamente “puras” de quem se sente ameaça- do pelas mudanças e busca restaurar seus poderes e a coesão dos grupos sociais que se veem contagiados pelo hibridismo resultante da mistura de múltiplas e mútuas influências cultu- rais em contato no mundo globalizado, em função das novas tecnologias de comunicação e transportes. Capítulo 4 Jogo de Espelhos: A Crise das Identidades Sociais ... 91 Recapitulando O capítulo aborda uma dimensão muito importante das trans- formações em curso na sociedade atual, que diz respeito à chamada “crise das identidades culturais”. Pois, se as tecno- logias sempre foram determinantes para a formação da iden- tidade dos agentes sociais, atualmente, as novas mediações sociais rompem e modificam as identidades, complexificando- -as. Do ponto de vista sociológico, a identidade define a forma como indivíduos e coletividades se veem ou são percebidos socialmente e, as “velhas identidades”, que por tanto tempo estabilizaram o mundo social estão em declínio, fazendo surgir novas identidades e fragmentando o indivíduo moderno que até aqui era “visto” como um “sujeito unificado”. A globaliza- ção fragmenta a cultura antes estabelecida e rompe com as noções de classe, gênero, sexualidade, etnia, raça e nacionali- dade. Se até o período conhecido como modernidade, a iden- tidade articulava e estabilizava a relação sujeito e estrutura, hoje, o sujeito contemporâneo encontra-se imerso num ocea- no de referências externas, composto de infinitas combinações de imagens, sons, informações e indivíduos multifacetados e globalmente inseridos, real ou virtualmente, em seus círculos de convivência. O indivíduo da sociedade contemporânea as- siste atônito aos seus sistemas de classificação e construção de significados e às representações culturais se multiplicarem e se complexificarem. À medida que áreas diferentes do globo são postas em interconexão, ondas de transformação social atin- gem virtualmente toda a “superfície da terra” e a natureza das instituições contemporâneas. E, nesse sentido, a tradição não é mais valorizada, ao contrário, constitui-se em um entrave, 92 Sociedade e Contemporaneidade por isso a crise a que o capítulo se refere e que se estende à própria noção de identidade nacional. Referências CASTELLS, M. A era da informação: economia, sociedade e cultura. São Paulo: Paz e Terra, 1999. FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Dicionário Aurélio eletrônico século XXI. Versão 3.0. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999. 1CD ROM. Produzido por Lexikon In- formática. GAXIE. D. Le cens caché. Inégalités culturelles et ségrea- tion politique. Paris: Du Soleil, 1978; e SOFRES. Opinion publique 1984. Paris: Gallimard, 1984. GIDDENS, A. The Consequences of Modernity. Cambridge: Polity Press, 1990. GAY, Paul du; HALL, Stuart et al. Doing Cultural Studies: the story oh the Sony Walkman. Sage Publications: Lon- don-Thousand Oaks-New Delhi in association with The Open University, 1977. HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. São Paulo: DP&A, 1999. HALL, Stuart. Identidade cultural e diáspora. Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, n. 24, 1996, p. 68-76. Capítulo 4 Jogo de Espelhos: A Crise das Identidades Sociais ... 93 LACLAU, E. 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Petrópolis/RJ: Vozes, 2000. 94 Sociedade e Contemporaneidade Atividades 1) Quanto ao conceito de CULTURA, assinale a alternativa incorreta. a) Refere-se ao conjunto de características humanas que não são inatas e que se criam e se preservam ou apri- moram através da comunicação e da cooperação en- tre indivíduos em sociedade. b) É biologicamente construído, refere-se à herança ge- nética do sujeito e que, portanto, é de difícil modifica- ção e transformação pelo meio social. c) Opõe-se por vezes à ideia de natureza, ou de consti- tuição biológica, e está associada a uma capacidade de simbolização considerada própria da vida coletiva e que é a base das interações sociais. d) É a parte ou o aspecto da vida coletiva relacionados à produção e transmissão de conhecimentos, à criação intelectual e artística, por exemplo. e) É o processo ou estado de desenvolvimento social de um grupo, um povo, uma nação que resulta do apri- moramento de seus valores, instituições e criações. 2) Assinale a alternativa incorreta. Para entendermos a crise de identidade do sujeito contemporâneo é preciso, primei- ramente, entendermos o próprio conceito de IDENTIDA- DE, que: Capítulo 4 Jogo de Espelhos: A Crise das Identidades Sociais ... 95 a) Como “conceito sociológico”, que é, trata-se de uma ferramenta para a compreensão científica de um de- terminado fenômeno social. b) Esse conceito define a forma como indivíduos e coleti- vidades se veem ou são percebidas socialmente. c) Como é construído socialmente, rompe-se e modifica- -se de acordo com o ritmo de mudanças sociais e, sobretudo, pela capacidade das pessoas interagirem, relacionarem-se entre si. d) Trata-se de uma visão sobre si mesmo estritamente pessoal e individual, que em nada tem a ver com a forma como as pessoas e a sociedade definem esse indivíduo. e) É um elemento importante no que diz respeito à coe- são, integração e estabilização de uma sociedade. 3) Quanto à crise das identidades na contemporaneidade é correto afirmar que: a) “As velhasidentidades, que por tanto tempo estabiliza- ram o mundo social, estão em declínio, fazendo surgir novas identidades e fragmentando o indivíduo moder- no, até aqui visto como um sujeito unificado.” b) A “crise de identidade” individual e coletiva tem origem no impacto das mudanças decorrentes do processo de globalização em curso, que estaria “deslocando estru- turas e processos centrais das sociedades modernas e 96 Sociedade e Contemporaneidade abalando os quadros de referência que forneciam aos indivíduos uma ancoragem estável no mundo social. c) É fruto do processo de globalização em todas as suas dimensões, pois ao colocar todos os sujeitos em rela- ção, as tecnologias deslocam sentidos pré-estabeleci- dos e rompem com tradições culturais, gerando incer- tezas e desestabilizações aos sujeitos. d) Ocorre em função do impacto das tecnologias que complexificam a sociedade e impõem nova velocida- de aos fenômenos. Esta velocidade não consegue ser acompanhada pela assimilação dessas mudanças na forma de valores fixos e duráveis. e) Todas as alternativas acima estão corretas. 4) Stuart Hall nos mostra, em seu estudo, que a maneira como a condição de sujeito social é percebida na socie- dade moderna evoluiu com o passar do tempo. Quanto a isso está correto afirmar que: a) O autor aponta para três tipos de sujeitos definidos ao longo da história: sujeito do iluminismo, sujeito socio- lógico e sujeito pós-moderno. b) O conceito de sujeito do iluminismo partia de uma concepção de indivíduo autocentrado, segundo a qual a pessoa humana seria unidimensional, racional e consciente de suas ações, orientadas a partir de um núcleo que emergia de seu interior a partir do nasci- mento, e desenvolvia-se ao longo de sua vida, perma- necendo, em essência, inalterada. Capítulo 4 Jogo de Espelhos: A Crise das Identidades Sociais ... 97 c) O sujeito sociológico partia da compreensão de que a identidade dos sujeitos sociais decorre de um processo de construção interativa da personalidade dos indiví- duos e, reflete a complexidade do mundo moderno emergente à época. d) O sujeito da sociedade pós-moderna é compreendido como alguém que não tem identidade fixa, nem essên- cia una, estável e imutável. É composto de múltiplas identidades fragmentadas, por vezes até contraditórias ou mesmo não completamente autodefinidas pelo in- divíduo. e) Todas as alternativas acima estão corretas. 5) Quanto ao conceito de IDENTIDADE NACIONAL é cor- reto afirmar que: a) O Estado-nação, juridicamente definido como unida- de constituída pelo agregado povo-território-governo, é resultado de uma construção histórica e cultural re- sultante do processo de transição da sociedade feudal para a sociedade urbano-industrial. b) No mundo moderno é o conjunto de elementos que compõe a forma como determinadas sociedades na- cionais se diferenciam das demais, assim, os indiví- duos tendem a definir-se e a apresentar-se perante o mundo que os cerca, a partir de sua identidade nacio- nal percebida como parte imanente de suas naturezas essenciais e como elemento estabilizador de seu psi- quismo individual e social. 98 Sociedade e Contemporaneidade c) As identidades culturais nacionais são construções so- ciais modernas e os sentimentos de “lealdade e iden- tificação que numa era pré-moderna ou em socie- dades mais tradicionais eram dados à tribo, ao povo, à religião e à região (grifo nosso), foram transferidas, gradualmente, à cultura nacional”. d) Das transformações em curso na sociedade contem- porânea, a globalização, entendida como processo multidimensional, estaria pressionando as estruturas do estado moderno e provocando seu redimensiona- mento tanto no sentido vertical (político, jurídico, ins- titucional e administrativo) como horizontal (geográfi- co), o que estaria provocando mudanças que explicam boa parte das crises sociais contemporâneas. e) Todas as alternativas acima estão corretas. Julieta Beatriz Ramos Desaulniers1 Honor de Almeida Neto2 Capítulo 5 Educação na era Digital12 1 Graduada em Licenciatura Plena em Ciências Sociais pela Unisinos (1973). Mes- tre em Sociologia pela UFRGS (1984) e Doutora em Ciências Humanas – Educação, pela UFRGS e Sorbonne/Paris. Integra o Banco de Avaliadores (BASis), vinculado ao (INEP/SINAES), atuando como Avaliadora de IES. Tem interesse pelo aprimora- mento e/ou implantação de práticas e iniciativas voltadas à gestão estratégica de competências & formação de individualidades e suas articulações com tecnologias de informação e comunicação (TICs), tecnologias relacionais (TRs), inteligência co- letiva, responsabilidade social e sustentabilidade. 2 Doutor em Serviço Social pela PUCRS (2004), Mestre (1999) e Graduado em Ciências Sociais pela mesma Universidade (1995). Coordenador do curso CST em Gestão Pública na modalidade EAD e do curso de Ciência Política da ULBRA Canoas. Integra o grupo de pesquisa Sociedade Informacional, Individualidades, Políticas Sociais da ULBRA. Pesquisador com experiência na área das Ciências Hu- manas e Sociais com ênfase na análise de processos de formação da Criança e do Adolescente e do impacto das Novas Tecnologias de Informação e Comunicação (NTIC) na qualidade das relações humanas e sociais. 100 Sociedade e Contemporaneidade Introdução As tecnologias digitais têm apresentado uma intensa evolução, desde o surgimento da microinformática, do computador pes- soal (PC), até o presente, a era da hiperconexão planetária, possibilitada pela internet e os dispositivos móveis de comu- nicação. Seremos profundamente diferentes daqui a alguns anos, considerando as transformações que vêm ocorrendo em nosso comportamento, produzidas por tais mediações. Nossa mobilidade física e informacional aumenta a cada dia. Redes sociais conectam a todos, mídias de massa perdem espaço para internet, pessoas ficam viciadas em tecnologia e games, crianças aprendem a ler em tablets e músicos ficam famosos sem o intermédio de gravadoras. Estamos chegando, efetivamente, na condição cyborg – organismo cibernético formado por natureza e artifício –, em que o corpo funde-se com objetos da técnica, tornando-se, portanto, um híbrido. Há vários exemplos de cyborgs. Dentre os denominados cyborgs protéticos, há os mais radicais, tais como o famoso físico inglês Stephen Hawking, que vive numa cadeira de rodas motorizada e sua voz é gerada por circuitos digitais. E o cyber-artista australiano Sterlac, que utiliza o cor- po como palco para experiências, transformando-o em uma espécie de novo corpo; metade carne, metade ciberespaço. A maioria dos casos é menos evidente, mas um olhar mais atento denuncia a sua condição cyborg. Como exemplo, te- mos as pessoas que utilizam próteses em seus corpos: silico- nes, dentes postiços, marca-passos, lentes e outros artifícios Capítulo 5 Educação na era Digital 101 em que se associa o biológico ao tecnológico, natureza e arti- fícial (LEMOS, 2008). É incontornável, de acordo com estudiosos, que esse pro- cesso remodela em ritmo acelerado, os fundamentos materiais da sociedade (CASTELLS, 1998). E, ao longo de toda a evolu- ção da espécie humana, no decorrer da História, nunca houve mutações tão profundas e rápidas (ASSMANN, 1998). Nesse sentido, é oportuno assinalar que, como afirma Lévy: [...] se medirmos simultaneamente o surgimento de uma nova temporalidade, o salto para dentro da acumula- ção e processamento das informações, a reformulação dos saberes e do saber-fazer, a mudança dos hábitos, da sensibilidade e da inteligência, e, por fim, a univer- salidade envolvida pela cultura informática, então não parece absurdo fazer a comparação com a passagem da pré-história. Estamos entrando na era pós-história. Umaforma cultural inédita está emergindo da indefinida recursão de um tipo novo de comunicação e processa- mento simbólico (LÉVY, 1998, p. 37). É sabido que “cada ser, principalmente o vivo, para existir, para viver, tem que se flexibilizar, adaptar-se, reestruturar-se, interagir, criar e coevoluir. Tem que se fazer um ser aprenden- te. Caso contrário, morre” (ASSMANN, 1998). Essas são as condições vitais a todo ser humano e, por extensão, às or- ganizações em que ele atua. É, igualmente, o caso daquelas entidades e/ou iniciativas que se dedicam e estão inseridas no campo educativo. 102 Sociedade e Contemporaneidade 5.1 Era digital: pressupostos e possibilidades Digital, digitalidade, vida digital etc. Tais fenômenos são de- sencadeados por uma revolução tecnológica e cultural sem precedentes, a partir da transformação de átomos em bits (NEGROPONTE, 1996). A codificação digital envolve o cará- ter plástico, fluido, hipertextual, interativo e tratável em tempo real do conteúdo da mensagem. Transitar do ambiente ana- lógico para o digital permitiu a criação e estruturação de ele- mentos de informação, simulações e formatações evolutivas para os ambientes on-line de informação e comunicação que permitem criar, gerir, organizar, fazer movimentar uma docu- mentação completa com base em textos, imagens e sons. É importante salientar que digital significa: [...] uma nova materialidade das imagens, sons e textos que, na memória do computador, são definidos matema- ticamente e processados por algoritmos, que são conjun- tos de comandos com disposição para múltiplas formata- ções - intervenções - navegações operacionalizadas pelo computador. Uma vez que a imagem, o som e o texto, em sua formas digitais, não têm existência material, po- dem ser entendidos como campos de possibilidades para a autoria dos interagentes. Isto é, por não terem ma- terialidade fixa, podem ser manipulados infinitamente, dependendo apenas de decisões que cada interagente toma ao lidar com seus periféricos de interação como mouse, tela tátil, joystick, teclado (SILVA, 2010, p. 210). Capítulo 5 Educação na era Digital 103 Esse intenso processo de mudanças na contemporanei- dade, que envolve o indivíduo como o principal protagonista das práticas sociais e, por consequência, das práticas peda- gógicas em seu conjunto, conta com um poderoso vetor – as novas tecnologias da informação e da comunicação (NTIC). São mediações que se caracterizam pelo ritmo acelerado ao produzirem as relações sociais, nas quais se formam as indi- vidualidades, bem como pela sua velocidade na implantação desses processos estimulando a inovação. Nesse contexto, rompe-se com o paradigma que se susten- ta na especialização associado à visão linear e fragmentada, passando a predominar a perspectiva da complexidade, que se apoia em princípios vinculados à digitalidade. E, assim, os processos educativos dispõem de um conjunto de possíveis para se constituírem como “emergentes, abertos, contínuos, em fluxos, não lineares, que podem se reorganizar conforme os objetivos ou contextos, onde cada um ocupa uma posição singular e evolutiva”. (LÉVY, 1998, p. 1 e 2) Conforme Lévy, é o advento do ciberespaço que: [...] dissolve a pragmática da comunicação que, desde a invenção da escrita, havia reunido o universal e a to- talidade. Ele nos leva, de fato, à situação existente antes da escrita – mas em outra escala e em outra órbita –, na medida em que a interconexão e o dinamismo, em tem- po real, das memórias on-line tornam novamente possí- vel para os parceiros da comunicação, compartilhar o mesmo contexto, o mesmo imenso hipertexto vivo (LÉVY, 1998, p. 118). 104 Sociedade e Contemporaneidade Assim, esse contexto compartilhado é um imenso hipertex- to, mas, o leitor mantém sua autonomia, desde o ponto em que ele entra no hipertexto tomando uma decisão em meio a muitas opções. Como o hipertexto não é lido sequencialmen- te, é possível construir vínculos automáticos entre diferentes partes do texto e realizar anotações de diferentes tipos. Com a digitalização do texto, ele pode ser composto também por sons e imagens animadas, além de ser estruturado em rede. Como diz Levy: “O hipertexto digital seria, portanto, definido como uma coleção de informações multimodais disposta em rede para a navegação rápida e intuitiva” (LÉVY, 1996). Dessa forma, só é possível alguma compreensão se o leitor entrar no mundo do autor (através do hipertexto) e re- criar, mental e emocionalmente, os sentidos dispostos através das informações, imagens, sons. Mas, ao mesmo tempo, ele reescreve o texto, já que tece uma teia diferente da original, ligando pontos remotos a partir da sua experiência com texto e, percorrendo de uma forma diferente, estabelece uma com- preensão única. Em outros termos, no ciberespaço ou no hipertexto mundial interativo, cada um pode adicionar, retirar e modificar partes da estrutura telemática, como um texto vivo, constituindo um organismo auto-organizante. É, igualmente, um ambiente que tende a promover competências múltiplas, reforçá-las e/ou até substituí-las, assim como gerar laços comunitários e instaurar a inteligência coletiva (LEMOS, 2002). Por isso, Lévy afirma que “toda e qualquer reflexão séria sobre o devir dos sistemas educativos na cibercultura, que se Capítulo 5 Educação na era Digital 105 fundamentam nas NTIC, prescindem de uma análise prévia sobre a mutação contemporânea da relação com o saber”. Assinala que, “pela primeira vez na história da humanidade, a maioria das competências adquiridas por uma pessoa no começo do seu percurso profissional serão obsoletas no fim de sua carreira”. Como o conhecimento não para de crescer, “trabalhar equivale cada vez mais a aprender, transmitir sabe- res e produzir conhecimentos”. O trabalho não possui mais a conotação de gerar bens duráveis, embora ao gerá-los, eles são decorrência natural da produção de conhecimento (LÉVY, 1998, p. 1-2). É o que Bauman também diz, quando se refere à sociedade líquido-moderna, onde “as realizações individuais não podem se solidificar em posses permanentes porque, em um piscar de olhos, os ativos transformam-se em passivos, e as capacidades em incapacidades. E ainda refere o autor que “as condições de ação e as estratégias de reação envelhecem rapidamente e se tornam obsoletas antes de os atores terem uma chance de aprendê-las efetivamente” (BAUMAN, 2007, p. 7). Destaca-se que as NTIC, na condição de mediações que distinguem a sociedade informacional, como toda mediação, vêm despertando sentimentos (e mesmo práticas) paradoxais no cotidiano dos indivíduos. Em outros termos, a nova era dis- põe ao mesmo tempo de possibilidades inéditas, tanto para um novo salto à hominização quanto para provocar depen- dência e liberdade, violência e autonomia, medo e segurança. Isso vai depender do tipo de decisões de quem for utilizá-las (ASSMANN, 2002; MATURANA, 2000; LÉVY, 2001). 106 Sociedade e Contemporaneidade 5.2 Sistema educativo e novas mediações Experimentamos, atualmente, um salto qualitativo em relação ao tipo de comunicação de massa que prevaleceu até o final do século XX. Verifica-se um deslocamento da lógica unívo- ca da mídia de massa, pautada na recepção passiva, para o modo de comunicação interativa. Afinal, vivemos a cada dia mais intensamente o predomínio da modalidade comunicacio- nal que caracteriza a cibercultura fundamentada na interativi- dade, que se distingue por uma comunicação entendida como cocriação da mensagem, produto de emissão e recepção (SIL- VA, 2010, p. 262-263). Em outros termos, os sistemas educativos nessa era da ci- bercultura são desafiados a se engajarem na dinâmica comu- nicacional, entendida como colaboração todos-todose como faça você mesmo operativo. Nessa lógica, a mensagem não é mais emitida, não é mais um mundo fechado, paralisado, imu- tável, intocável, sagrado, é um mundo aberto em rede, modifi- cável na medida em que responde às solicitações daquele que a consulta. O receptor, agora, é convidado à livre criação, e a mensagem ganha sentido sob sua intervenção. Nesse contexto, a interatividade manifesta-se em práticas, tais como: e-mails, listas, blogs, videologs, jornalismo on-line, Wikipédia, YouTube, MSN Messenger, Orkut, chats, MP3, Fa- cebook e novos empreendimentos que aglutinam grupos de interesse como cibercidades, games, softwares livres, ciberati- vismo, webarte, música eletrônica etc. No ciberespaço, cada sujeito pode adicionar, retirar e modificar conteúdos dessa estrutura; pode disparar informações e não somente receber, Capítulo 5 Educação na era Digital 107 uma vez que o polo da emissão está liberado; pode alimentar laços comunitários de troca de competências, de coletivização dos saberes, de construção colaborativa de conhecimento e de sociabilidade (LEMOS, 2002). Obviamente, o computador on-line não é um meio de transmissão de informação como a televisão, mas um espaço de adentramento e manipulação em janelas móveis, plásticas e abertas a múltiplas conexões entre conteúdos e interagentes geograficamente dispersos. Para além das interferências, ma- nipulações e modificações nos conteúdos presentes na tela do computador off-line, os interagentes podem interagir realizan- do compartilhamentos e encontros de colaboração síncronos e assíncronos (SILVA, 2010, p. 269). Por isso, a aprendizagem digital e on-line é exigência da cibercultura, isto é, do novo ambiente comunicacional que surge com a interconexão mundial de computadores em forte expansão no início do século XXI; novo espaço de comunica- ção, de sociabilidade, de organização, de informação, de co- nhecimento e de educação. A aprendizagem digital e on-line é demanda do novo contexto socioeconômico-tecnológico engendrado a partir do início da década de 1980, cuja ca- racterística geral não está mais na centralidade da produção fabril ou da mídia de massa, mas na informação digitalizada em rede como nova infraestrutura básica, como novo modo de produção. Devido às profundas transformações instauradas nos meios de comunicação, informação e transmissão (NTIC), fundadas nos códigos da digitalidade, novas demandas se impõem a 108 Sociedade e Contemporaneidade toda organização, em especial à organização escolar, que tem no fazer pedagógico o processo de produção que lhe distingue como campo educativo frente aos demais campos que consti- tuem o espaço social. Nessa perspectiva, são inúmeras as me- diações disponíveis para incrementar os processos educativos, comentados a seguir.  Internet A internet configura-se como a mídia de convergência, ofe- recendo recursos fundamentais para a aplicação de estraté- gias de comunicação, em que emissor e receptor deixam de ser compreendidos como polos estáticos e hibridizam-se em suas funções. Como um sistema essencialmente aberto, a web (World Wide Web – www) possibilita a busca de informações em toda a rede, num fluxo constante, aumentando a força de uma comunicação interativa, individualizada e, ao mesmo tempo, coletiva. Saad (2003) acredita que os diferenciais da World Wide Web são: interatividade, conectividade, flexibili- dade, formação de comunidades e arquitetura informacional. Essa grande rede composta por vários sistemas – a web –, caracteriza-se por um conjunto de servidores que suportam do- cumentos formatados em linguagem HTML (HyperText Markup Language). Suportam links para outros documentos, gráficos, áudio e arquivos de vídeo. Possibilita ao usuário “passar de um documento para outro simplesmente clicando em links”. Ou- tros servidores da internet não fazem parte da World Wide Web e, dentre os mais populares, destacam-se o Netscape Navi- gator e o Microsoft Internet Explorer (STASIAK & BARICHELLO, 2010, p. 18). Capítulo 5 Educação na era Digital 109 Vale considerar os avanços significativos nas gerações da web. A atual, web 3.0, apresenta um sistema que inclui desde redes sociais, serviços empresariais on-line até sistemas GPS e televisão móvel, assim como etiquetas inteligentes, que permi- tem lidar com a informação de forma mais acessível. Cientistas destacam como principal característica da web 3.0 a questão da convivência on-line, como acontece com os avatares em jogos virtuais, por exemplo (STASIAK & BARICHELLO, 2010, p. 19). Indiscutivelmente, a web torna-se cada vez mais uma rea- lidade em nossas vidas. O aumento do número de usuários é constante. De acordo com pesquisa do Ibope, em parceria com a Nielsen Online, no primeiro trimestre de 2012, o núme- ro de pessoas com acesso à internet no Brasil chegou a 82,4 milhões. 5.3 Impacto das novas mediações ao campo educativo Investigações têm demonstrado o enorme potencial cognitivo das novas tecnologias, destacando as possibilidades de desen- volvimento de competências bastante sofisticadas (metacogni- tivas, afetivas, sociais etc.), desde que o contexto humano lhes sejam favoráveis. Aliás, tal contexto “[...] é essencial, pois de- pendem de sua qualidade e pertinência, os benefícios que se pode obter de um ambiente informatizado”. Vale também ob- servar que “[...] uma mesma tecnologia resultará em efeitos 110 Sociedade e Contemporaneidade cognitivos diversos, dependendo do contexto humano em que for utilizado” (DEPOVER, KARSENTI, KOMIS, 2007, p. 4). De acordo com Silva, processos educativos na era digital dispõem da “infotecnologia em rede, favorável à proposição do conhecimento à maneira do hipertexto” em que não há mais a prevalência da distribuição de informação para recep- ção solitária e em massa. Computadores, laptops, celulares, palmtops, tablets, iPhones conectados em rede mundial favo- recem e intensificam a mediação, instaurando uma produção complexa do conhecimento, com participação colaborativa dos participantes envolvidos na aprendizagem, em redes que conectam textos, áudios, vídeos, gráficos e imagens em links na tela tátil (SILVA, 2005). É fundamental perceber a nova ambiência comunicacio- nal, que emerge com a cibercultura, e as possibilidades de interatividade e de criação coletiva nela disponíveis ao mundo educativo. Isso supõe colocar-se “a par da atualidade socio- técnica informacional e comunicacional definida pela codifica- ção digital (bits), a digitalização que garante o caráter plástico, hipertextual, interativo e tratável do conteúdo”, em tempo real. Desse modo, processos educativos passam a contemplar “ati- tudes cognitivas e modos de pensamento” em sintonia com a contemporaneidade. Ou seja, contempla o novo espectador, a geração digital e, consequentemente, a qualidade em edu- cação efetiva, que supõe participação, compartilhamento e colaboração (SILVA, 2005). Capítulo 5 Educação na era Digital 111 5.3.1 Geração Internet Há uma geração denominada de digital ou geração internet, que se constitui a partir do deslocamento da tela da TV (de massa) para a tela do computador on-line, passando a reque- rer novas disposições comunicacionais do conjunto de agentes que atuam no âmbito do sistema educativo. Perfil e caracte- rísticas dessa geração foram detalhados em obra publicada por Tapscott, onde destaca suas posturas quanto a: liberdade; integridade; colaboração; entretenimento; velocidade; inova- ção (TAPSCOTT, 1999, p. 92). Nesse sentido, constam abaixo algumas afirmações por ele emitidas em A hora da geração digital:  – [...] Eles estão buscando liberdade [...] (p. 93); [...] insistem na liberdade de escolha. Trata-se de uma ca- racterística básica da mídiaque consomem (p. 95);  – [...] usam a tecnologia para fugir do escritório e do expediente tradicionais; e que integram a vida domés- tica e social à vida profissional [...] vejo sinais de uma tendência geracional (p. 93);  – Eles preferem um horário flexível e uma remuneração baseada em seu desempenho e valor de mercado – e não no tempo em que ficam no escritório (p. 93);  – [...] Eles parecem ter uma forte consciência do mundo à sua volta e querem saber mais sobre o que está acon- tecendo (p. 99);  – A geração Internet se importa com a integridade [...]; [...] e esperam que as outras pessoas também tenham 112 Sociedade e Contemporaneidade integridade (p. 105), que significa, sobretudo, dizer a verdade e cumprir seus compromissos (p. 106);  – [...] são colaboradores naturais em todas as esferas da vida (p. 112);  – Essa é a geração do relacionamento (p. 110);  – Por terem crescido em um ambiente digital, eles con- tam com a velocidade. Estão acostumados a respostas instantâneas, 24 horas por dia, sete dias por semana (p. 115);  – Essa geração foi criada em uma cultura de invenção. A inovação acontece em tempo real (p. 117). A dinâmica que vem possibilitando a construção de uma geração digital, a qual se distingue radicalmente das gerações de todos os tempos, até aqui, desencadeia também transfor- mações na educação. De acordo com Tapscott, a geração in- ternet “[...] tem na ponta dos dedos, acesso a boa parte do conhecimento do mundo. Para eles, o aprendizado deve acon- tecer onde e quando quiserem” (TAPSCOTT, 1999, p. 95-96). Neste sentido também rompe-se com a educação tradicional pois: [...] ir a uma aula expositiva de um professor medíocre em um lugar e horário específicos, em uma sala na qual eles são receptores passivos, parece estranhamente an- tiquado, ou até totalmente inapropriado. O mesmo vale para a política. Será que um modelo de democracia que oferece apenas duas opções e os obriga a ouvir duran- te quatro anos, entre uma eleição e outra, políticos que Capítulo 5 Educação na era Digital 113 repetem infinitamente os mesmos discursos vai realmente satisfazer as suas necessidades? (TAPSCOTT, 1999, p. 95-96). Por fim, parece mesmo que a educação necessita reinven- tar-se para dar conta dos anseios e demandas de formação da geração digital. NOTAS - Parte de nosso mundo se tornou ciberpunk: (http://www.momentumsaga.com/2012/09/o-que-e-cy- berpunk.html /). - O termo cyberpunk aparece para designar um movimento literário no gênero da ficção científica, nos Estados Unidos, unindo altas tecnologias e caos urbano, sendo considerado como uma narrativa tipicamente pós-moderna. O termo pas- sou a ser usado também para designar os ciber-rebeldes, o underground da informática, com os hackers, crackers, cyber- punks, ctakus, zippies. Esses seriam os cyberpunks reais. As- sim, o termo cyberpunk é, ao mesmo tempo, emblema de uma corrente da ficção científica e marca dos personagens do sub- mundo da informática. (http://www.academia.edu/1771479/Ficcao_cientifica_ cyberpunk_o_imaginario_da_cibercultura). 114 Sociedade e Contemporaneidade Recapitulando O capítulo aponta para o impacto da tecnologia na forma como indivíduos e sociedades sabem e aprendem. Ser apren- dente é condição para pessoas e organizações sobreviverem e é característica da sociedade pós-moderna. Nunca na história humana as mutações se deram em ritmo tão veloz, e nós, se- res humanos seremos muito diferentes daqui a alguns anos, pois estamos nos tornando cyborgs (o corpo mais a técnica). Estamos diante de um novo tipo de processamento simbólico associado à nova natureza das técnicas. Teremos de ser cada vez mais aprendentes, caso contrário ”morreremos”. Flexibili- dade, adaptação e reestruturação são características do nosso tempo, das tecnologias e são demandas para os seres vivos humanos. O ciberespaço ou hipertexto mundial interativo é como um organismo vivo e auto-organizante e por isso, toda a discussão sobre educação que pretenda ser minimamente séria deve fundar-se nas novas tecnologias. Trabalhar significa, hoje, aprender saberes e produzir co- nhecimentos. Pela primeira vez na história, as competências adquiridas no começo de uma carreira profissional tornar-se- -ão obsoletas no seu final. O vetor das novas práticas pedagó- gicas são as novas tecnologias de informação e comunicação. Trata-se de um novo paradigma, da complexidade e não mais da especialização associada a uma visão linear e fragmenta- da. O ciberespaço ou hipertexto mundial interativo, compar- tilhado por todos via internet, é produzido por todos que com ele interagem, onde cada um pode adicionar, retirar partes constituindo um organismo auto-organizante. A nova era traz Capítulo 5 Educação na era Digital 115 inúmeras e inéditas possibilidades (hominização, dependên- cia e liberdade, violência e autonomia, medo e segurança). Trata-se de uma nova ambiência comunicacional com intera- tividade e criação coletivas, que cria e recria novos modos de pensamento que aumentam as distâncias entre as gerações, pois as novas gerações têm na ponta dos dedos o acesso a boa parte do conhecimento do mundo, sem limites de tempo e espaço. Referências ASSMANN, Hugo. Reencantar a educação. Rio de Janeiro: Vozes, 1998. BAUMAN, Zygmunt. Vida líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2007. ______. Comunidade: a busca por segurança no mundo atual. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. CASTELLS, M. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 2005. DEPOVER, Christian; KARSENTI, Thierry; KOMIS, Vassilis. En- seigner avec les tecnologies – favoriser les apprentis- sages, developper des competences. Quebec: Presses de Univ. du Québec, 2007. HALL, S. Identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2000. 116 Sociedade e Contemporaneidade LEMOS, A. Cultura das redes: ciberensaios para o século XXI. Salvador: EDUFBA, 2002. NEGROPONTE, N. A vida digital. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. TAPSCOTT, Don. A hora da geração digital. Rio de Janeiro: Agir Neg, 1999. Referências Digitais SILVA, Marco. Educação na cibercultura: o desafio comuni- cacional do professor presencial e on-line. In Revista da FA- EEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v.12, n.20, p. 261-271, jul./dez., 2003. Disponível em: <http:// www.uneb.br/revistadafaeeba/files/2011/05/numero20. pdf)>. ______. O desafio comunicacional da cibercultura à edu- cação via internet. In: STASIAK, Daiana; BARICHELLO, Eugenia M. da R. Estratégias comunicacionais em portais institucionais: apontamentos sobre as práticas de relações públicas na internet brasileira. In: STASIAK, Daiana; SAN- TI, Vilso Junior (orgs.). Estratégias e identidades midiáticas: matizes da comunicação contemporânea. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2011. Disponível em <http://www.pucrs.br/ orgaos>. Site com glossário. Disponível em <http://www.paraenten- der.com/internet/rede-social>. TRIVINHO, Eugênio; DOS REIS, Angela Pintor; Equipe do Cen- cib/PUCSP. A cibercultura em transformação: poder, li- Capítulo 5 Educação na era Digital 117 berdade e sociabilidade em tempos de compartilhamento, nomadismo e mutação de direitos. São Paulo: ABCiber; Instituto Itaú Cultural, 2010. Disponível em <http://www. abciber.org/publicacoes/livro2>. Atividades 1) Qual é o principal vetor para entendermos o novo papel da educação e as novas formas de aprender na contem- poraneidade? a) O papel central do professor e sua capacidade de transmitir conhecimentos e habilidades. b) A escola e a universidade, casa por natureza do saber. c) As novas tecnologias de informação e comunicação que permitem um conhecimento autônomo e um saber ilimitado e interativo. d) A demanda por umsaber especializado e linear que identifique causas e efeitos nos fenômenos educacio- nais. e) O papel central dos governos e o investimento em educação, sobretudo educação de massa. 2) São aspectos relacionados às novas formas de aprender e produzir conhecimentos nesta nossa era digital: a) O fato de que hoje nos tornamos cyborgs (parte ho- mens parte máquinas). 118 Sociedade e Contemporaneidade b) O ritmo intenso e a nova velocidade dos fenômenos que demandam ao homem flexibilidade, capacidade de readaptação e aprendizado constante. c) Autonomia e conhecimento disseminados e acessíveis e modificáveis em tempo real. d) O fato de sermos mais autônomos para produzirmos e compartilharmos conhecimentos e novos saberes. e) Todas as alternativas estão corretas. 3) Assinale verdadeiro (V) ou falso (F). ( ) Para sobreviverem nesses novos tempos seres huma- nos e organizações (quaisquer que sejam) precisam tornar-se aprendentes. ( ) Nunca antes na história da humanidade passamos por mutações tão profundas e rápidas. ( ) As tecnologias determinam por si só os rumos da his- tória, estamos, portanto, diante de um novo determi- nismo tecnológico que tende a trazer liberdade, auto- nomia e segurança. ( ) A cibercultura tem na interatividade e na capacidade de cocriação de mensagens uma de suas característi- cas principais. ( ) As formas de ação e as estratégias de reação na socie- dade líquida-moderna tornam-se obsoletas antes mes- mo dos atores sociais terem chances de aprendê-las. Capítulo 5 Educação na era Digital 119 4) Assinale as alternativas abaixo que não se constituem em características da Geração Digital ou Geração Internet se- gundo Tapscott: a) Liberdade; b) Integridade; c) Colaboração; d) Velocidade; e) Resistência à inovação. 5) Assinale qual alternativa não está de acordo com a forma como a geração internet relaciona-se com as tecnologias: ( ) Insiste na liberdade de escolha, característica básica da mídia que consome. ( ) Prefere trabalhar em casa em horário flexível, seu es- critório pode ser o seu próprio telefone celular. ( ) Quanto à remuneração de seu trabalho opta por re- ceber por produto/tarefa e não pelo tempo gasto para executá-las. ( ) Tem consciência do mundo a sua volta, não é em nada alienada. ( ) Tem restrição à colaboração de qualquer tipo em fun- ção de ser extremamente competitiva. Deivison Moacir Cezar de Campos1 Capítulo 6 Fronteiras da Tolerância: Etnicidade, Gênero e Religião1 Fronteiras da Tolerância: Etnicidade, Gênero... 1 Doutor em Ciências da Comunicação. Mestre em História Social. Jornalista. Coordenador do Bacharelado em Jornalismo e do Núcleo de Estudos Afro-brasi- leiro e Indígena da Ulbra. Capítulo 6 Fronteiras da Tolerância: Etnicidade, Gênero... 121 Introdução O último século é determinante para se pensar na questão da tolerância. Se por um lado, ocorre neste período a des- naturalização discursiva e social da diferença, principalmente, étnico-racial, registrou episódios em que a intolerância foi so- cialmente acolhida e, mesmo prevista, é regulada em lei, pro- movendo um rastro de desigualdade, perseguição e violência. O imperialismo Europeu, os regimes fascistas, a Guerra Fria e o atual conflito cultural, que têm como marca o 11 de setem- bro, podem ser considerados não somente episódios tópicos, mas a manifestação de um sistema mundo, que articula o po- der a partir da ideia de opressão da diferença. No cotidiano, essas relações de poder marcam igualmente as dinâmicas so- ciais, fazendo com que essa lógica igualmente esteja na base das interações pessoais. Desta forma, preconceitos herdados de períodos anteriores e aprofundados neste período histórico mediam as vivências cotidianas e são negados sob discursos de igualdade e universalidade. O processo de expansão do domínio da Europa, a par- tir das navegações e das ocupações territoriais, denominadas equivocadamente como descobrimentos, demandou a cons- trução de discursos que sustentassem a exploração desses ter- ritórios e de outros. Suportado pelo discurso evangelizador, construiu-se o entendimento de que as outras civilizações eram inferiores à Europeia e por isso poderiam e deveriam ser sub- metidas aos colonizadores. Consequentemente, há uma nega- ção dessas outras culturas e mesmo dos indivíduos diferentes. Neste processo, os indígenas americanos são considerados 122 Sociedade e Contemporaneidade seres naturais e os africanos tidos como sem alma, ou seja, inumanos, inaugurando um imaginário que será aprofundado durante o período de exploração escravista dessas populações e depois mantido através do racismo simbólico, estereótipos negativos e concreto, barreiras sociais que mantêm em sua maioria os descendentes indígenas e de africanos à margem social. Esse imaginário ganhou estatuto de ciência no século XIX, numa perspectiva evolucionista. A justificativa científica da su- perioridade branca sobre as outras raças teve como represen- tantes principais o inglês Robert Knox, que escreveu Races of Men em 1850, e o francês Arthur de Gobineau, cujo texto Essai sur l’inegalité dês Races humaines foi produzido em 1855). O primeiro criou o mito racial saxão e o segundo, o mito ariano. Defendiam que as raças ocupavam posições diferentes dentro da natureza humana. Segundo Martiniano Silva: Ambos os mitos tinham uma finalidade ideológica. Knox defendendo a expansão do imperialismo procurava pro- var que o homem saxão era democrata por natureza e, por isso, o futuro dominador da terra. Gobineau, por ou- tro lado, não gostava da democracia e procurou provar que o seu surgimento e, conseqüentemente, o do impe- rialismo, era um sinal da morte iminente da ‘civilização’ (1987, p. 29). A preocupação surgiu, segundo Barracloug (1976), nas colônias das potências imperialistas. Enquanto a população branca da Europa mantinha índices decrescentes de natali- dade, a população não branca no mundo apresentava altos Capítulo 6 Fronteiras da Tolerância: Etnicidade, Gênero... 123 índices de crescimento. As medidas adotadas a partir dessas concepções vão levar à constituição das desigualdades socio- culturais e econômicas e produzir um rastro de violência du- rante todo o século, seja pelo Imperialismo que perdurou até os anos 1960 na Ásia e na África e manteve sistemas como o Apartheid, ou pelas grandes Guerras, originadas pela disputa territorial e da hegemonia política do Ocidente, que produzi- ram o holocausto judeu. Os avanços obtidos após o período de Guerra, principal- mente através de documentos internacionais como a Declara- ção Universal dos Direitos Humanos, não alcançaram a todas as culturas discriminadas e identidades coletivas vítimas de intolerância da mesma maneira. A proposição de universali- dade, neste sentido, garante discursivamente a igualdade de direitos e acesso à cidadania plena. Na prática, no entanto, a intolerância às diferenças produz perseguições e impõe vio- lências física e simbólica contra os grupos identificados como diferentes. A questão da tolerância perpassa, portanto, a dis- cussão sobre as identidades étnico-culturais onde estão guar- dadas as diferenças. 6.1 A identidade étnica e a constituição dos movimentos pela diferença A identidade étnica refere-se a uma forma de pertencimento coletivo que se caracteriza pela partilha de valores culturais e que se identificam e são identificados a partir da diferença de outros grupos étnicos. Desta maneira, a diferença estabele- 124 Sociedade e Contemporaneidade cida pela relação entre “nós e eles” (BARTH, 1998), ao mes- mo tempo que identifica essa forma de pertencimento, produz as reações diversas que se materializam de forma negativacomo intolerância. Atualmente, a identificação com grupos so- cialmente marginalizados tornou-se um ato político, mas por muito tempo foi encoberta pelo silêncio e pela opressão. Mes- mo marginalizados a tomada de posição vai coincidir com a ampliação da esfera pública, num primeiro momento, com a inserção da nova classe surgida com a Revolução Industrial – os operários. O processo vai ser aprofundado com um novo tensionamento da esfera pública e a entrada de novos atores organizados quando o projeto da grande revolução se mostra utópico. Os movimentos contemporâneos, pela diferença, são mar- cados em sua origem pelo rompimento com os partidos tradi- cionais de esquerda - comunistas e socialistas, nos anos 1960. Enquanto alguns dissidentes optaram pela justificativa teórica da violência2, paralelamente ao recrudescimento da luta ar- mada e da guerrilha em vários lugares do Terceiro Mundo3, outros grupos optaram pela reivindicação de uma democracia direta e participativa, politizando a “valorização do cotidiano, do indivíduo, das relações pessoais, a valorização dos senti- mentos e das emoções” (ARAÚJO, 2000, p. 43). 2 Hannah Arendt produziu um estudo referencial sobre a tendência de valorização e justificação teórica da violência no período. Para mais detalhes, ler ARENDT, Han- nah. Sobre a violência [1969]. Rio de Janeiro, Relume-Dumará, 1994. 3 São desse período as guerras de descolonização dos países africanos, a Revolu- ção Cubana, Revolução Chinesa, Vietnã e países latino-americanos. Neste sentido, surgem movimentos de minorias em países considerados desenvolvidos, como os Panteras Negras, nos EUA, ou o Exército Republicano Irlandes, o IRA, na Inglaterra. Capítulo 6 Fronteiras da Tolerância: Etnicidade, Gênero... 125 Até este período, as questões específicas convergiam para a luta pela transformação global da sociedade, a grande Revo- lução Socialista. A emergência das questões particulares leva ao surgimento de novos sujeitos e à valorização da diferença em detrimento da universalidade durante os anos 1970. O movimento feminista foi referencial no processo de reconfigu- ração política, alertando para a existência de uma identidade feminina e formas de opressão a que somente as mulheres são socialmente submetidas (ARAÚJO, 2000). Tendo como contexto a revolução de costumes e padrões de comportamento, movimentos alternativos constituídos por grupos que enfatizam a diferença, construirão, a partir de de- mandas específicas, propostas de democracia participativa, confrontando a diluição e a burocratização promovidas pela democracia representativa. Ao mesmo tempo, vão inserir no campo político um novo conceito de esquerda e de represen- tação política. Esses grupos propuseram como postulados a recusa à representação unificadora, o direito à voz, à valoriza- ção de especificidades de sua condição minoritária, além da politização dos sentimentos e emoções. Desta maneira, pas- saram a pensar o mundo, as interações e a política a partir de demandas específicas (ARAÚJO, 2000), produzindo novas formas de pertencimento. Esses pertencimentos possibilitaram a construção de agen- das políticas a fim de reivindicar as demandas por direitos e cidadania de maneira específica, mas ao mesmo tempo arti- culada. Em sentido contrário, o processo de Globalização re- legou essas demandas a um segundo plano (BAUMAN, 2005; SANTOS, 2000). Entendida como processo de internaciona- 126 Sociedade e Contemporaneidade lização do Capital, a Globalização tem sido potencializada pelas novas condições tecnológicas. A emergência de um mer- cado global, em que empresas articulam os fluxos econômicos e não há uma esfera real de regulação desse mercado, pro- voca um estímulo ao consumo, que sobrepõe as questões de pertencimento e principalmente as reivindicações de direito à cidadania plena. A ideia de identidade contemporânea, caracterizada pela fluidez e pelo movimento, surge dessa crise do pertencimento e do esforço em estabelecer a relação entre o que deve ser e o que é (BAUMAN, 2005). As narrativas resultantes desse processo de disputa através dos meios técnicos, principalmen- te, as redes sociais, constroem “vínculos que conectam o eu a outras pessoas e um pressuposto de que tais vínculos são fidedignos e gozam de estabilidade com o passar do tempo” (BAUMAN, 2005, p. 75). Com isso, produzem sentidos para a relação entre identidade e diferença colocados em crise por uma organização mundo, que busca incluir pelo consumo. 6.2 A Globalização e a crise do pertencimento As identidades étnico-culturais têm sido impactadas e redefini- das na contemporaneidade pelo mercado (CANCLINI, 1998; FURTADO, 1983). O principal elemento é a dicotomia existen- te entre uma estrutura coordenada a partir de iniciativas nacio- nais que contrapõe o fluxo econômico transnacional, ou seja, a relação entre Estado e o capital internacional desterritoria- Capítulo 6 Fronteiras da Tolerância: Etnicidade, Gênero... 127 lizado (FURTADO, 1983). Soros (2001) alerta, neste sentido, que o sistema capitalista global não possui uma contrapartida política, esvaziando os debates sobre os grandes temas. O econômico passa a tornar-se central na vida das pessoas e os tributos deslocam-se do capital para os consumidores, restrin- gido a cidadania a lógicas de mercado. No entanto, essa fluidez desse tempo e as formas de orga- nização impostas pela Globalização fazem com que as pes- soas tenham necessidade de identificação coletiva, transcen- dendo em direção à liberdade e ao direito de ser (SANTOS, 2000). Igualmente, as demandas que se referiam exclusiva- mente ao local agregam questões globais aumentado, dessa forma, a importância dos movimentos sociais que buscam a constituição de uma cidadania que não se restrinja a inclu- são econômica. Por outro lado, as incertezas fazem com que a intolerância seja aprofundada e manifestada em diferentes aspectos do social. Segundo Martin-Barbero (2006, p. 63), “Os nacionalismos, as xenofobias ou os fundamentalismos re- ligiosos não se esgotam no cultural, pois eles remetem, em períodos mais ou menos longos de sua história, a exclusões sociais e políticas, a desigualdades e a injustiças acumuladas e sedimentadas”. O 11 de Setembro, como marco de início de novas rela- ções no mercado globalizado, problematizou ainda mais essa relação espacial, impactando diretamente nas concepções de cidadania e pertencimento, introduzindo o fundamentalismo da segurança que transformaram as relações de fronteiras e as vias de comunicação (MATIN-BARBERO, 2006). A desconfian- ça torna-se então método, a violação do direito à privacidade 128 Sociedade e Contemporaneidade e à liberdade torna-se regra, desencadeando um agravamento dos preconceitos, apartheid e fanatismos (2006). Com isso, muitos dos avanços conquistados nas últimas décadas pelos movimentos sociais, pautados pela Declaração dos Direitos Humanos, sofreram um retrocesso. No novo sistema mundo, o fechamento das fronteiras, ini- ciado pelo 11 de setembro, pode ser usado como metáfora para que se observe as fronteiras estabelecidas entre as dife- rentes identidades nas relações cotidianas. Historicamente re- primidos em suas diferenças, o corpo e as manifestações cultu- rais que não atendem aos padrões normatizados pela cultura Ocidental, ao mesmo tempo que não são tolerados, resistem a partir de seu lugar identitário, essa mesma diferença pelo qual são socialmente discriminados. Em relação ao corpo, a iden- tidade étnico-racial negra e a identidade de gênero são ques- tões centrais nesse processo de intolerância. No que se refere às identidades culturais, as religiões são um âmbito em que há pouca e por vezes nenhuma tolerância entre denominações. 6.3 Intolerânciaao negro A exclusão do negro do projeto de desenvolvimento econô- mico remonta ao final do século XIX. A ideologia do trabalho livre, pensada sob os símbolos da civilização (ordem) e do pro- gresso, numa perspectiva positiva, contribuiu para a margina- lização dos negros libertos, que no imaginário herdado do es- cravismo e das teorias evolucionistas representavam barbárie e primitivismo. Reforçado pelos estereótipos, marcas invisíveis Capítulo 6 Fronteiras da Tolerância: Etnicidade, Gênero... 129 deixadas pela escravidão, a marca visível da cor da pele liga o presente e o passado, demarcando o lugar social relegado ao indivíduo negro na sociedade brasileira. No Brasil, por exemplo, a mestiçagem, imposta como uma síntese da nacionalidade, “é uma antiga concessão, incorpo- rada no decorrer dos anos pelo senso comum, à presença ma- ciça de não brancos em uma sociedade que valoriza a bran- quitude” (SOVIK, 2009, p. 39). Essa valorização é constitutiva não só da cultura brasileira, mas da modernidade Ocidental e persiste nas culturas contemporâneas. Nesse sentido, Gil- roy (2001) aponta que “o estranho prestígio ligado ao valor metafísico da brancura ainda são correntes e circulam bem” (p. 52). Referindo Franz Fanon, diz ainda que a “desgraça da dominação racial não é a condição de ser negro, mas de ser negro em relação ao branco” (p. 63). Dessa forma, a necessidade de adequação aos padrões etnocêntricos europeus tornou-se elemento repressor do per- tencimento afro, levando a um processo de integração social pela assimilação cultural. Historicamente, no entanto, obser- vam-se estratégias e movimentos de resistência ao projeto unificador de identidade nacional, principalmente através de práticas e vivências comunitárias, culturais e discursivas, ge- radas inicialmente dentro das comunidades negras. Essa tra- dição e identidade têm sido permanente presentificadas por suas características desterritorializadas. A dissociação entre referências simbólicas e territoriais, provocada pelas diásporas globais, e a condição de ser e não pertencer possibilitou essa condição de contra-modernidade (GILROY, 2001) à negritude. 130 Sociedade e Contemporaneidade Neste sentido, a intolerância contra o negro é um dos ele- mentos que estão na base do Ocidente, acabando por ser naturalizado. Com isso, a maioria da população foi relega- da à marginalização socioeconômica, à criminalização e, em muitos casos, à eliminação sistemática do indivíduo negro. Em todo o planeta, mesmo na África, todos os índices sociais rea- firmam essa situação. Nas relações cotidianas essas formas de intolerância transformam-se principalmente em violência. A persistência dessa forma de controle e até mesmo intolerância à diferença podem ser observadas através do lugar do jovem negro na sociedade brasileira. As poucas fotografias de um tumbeiro mostram que os escravizados na África eram predominantemente jovens sau- dáveis do sexo masculino. Esses mesmos que até o início do século XX eram compulsoriamente enviados às guerras e para servirem na Marinha, que mesmo depois da Abolição mante- ve a chibata, como forma de controle e racismo. Durante o século XX, os jovens negros foram excluídos do ensino e do mercado de trabalho, frequentemente presos, muitos sem co- meter crimes, em função das delegacias de costumes e da lei de vadiagem. Essa falta de oportunidade levou ao envolvimento de parte dos jovens com a criminalidade, resultando nos altos índices de detenções, prisões e assassinatos registrados nas últimas décadas. Atualmente, em função do controle e pressão dos movimentos sociais, tem-se acesso aos dados que apontam para o genocídio dos jovens negros no Brasil, o que mobili- zou até mesmo a Anistia Internacional e a Organização das Nações Unidas. Aproximadamente 77% dos assassinados têm Capítulo 6 Fronteiras da Tolerância: Etnicidade, Gênero... 131 como vítima negros e, na maioria, jovens. São aproximada- mente 150 mortos a cada dia. As discussões sobre políticas afirmativas também indicam um nível de intolerância quanto à integração dos negros nas esferas da cidadania. O debate público, principalmente a par- tir dos meios de comunicação, reforça a perspectiva sobre ca- pacidade e meritocracia. As medidas, no entanto, propõem-se a oferecer oportunidades de estudo e inserção no mercado de trabalho, a fim de quebrar o ciclo que historicamente mantém a população negra marginalizada, conforme referido acima. Observa-se, portanto, nesta discussão, uma incoerência entre contexto e discurso. Enquanto socialmente a população negra enfrenta barreiras simbólicas, através de estereótipos, como o da malandragem, da preguiça e da incapacidade de realizar atividades complexas e reflexivas, as medidas adotadas para construir oportunidades e superar essas barreiras são negadas. 6.4 Intolerância religiosa A religião tem sido, durante a história da humanidade, um foco permanente de conflito principalmente em função da do- minação de territórios, ou mesmo por transposição espacial. A religião tem, também, sofrido com a intolerância. Pode-se referir a perseguição sofrida pelo Cristianismo no Império Ro- mano, das religiões chamadas pagãs pelo Cristianismo, assim como as Cruzadas, a perseguição aos Reformadores e à In- quisição. Também se registrou o combate às tradições indíge- nas e africanas no período de colonização. A religião judaica 132 Sociedade e Contemporaneidade igualmente tem sido vítima de perseguição nas mais diversas partes do Ocidente, tendo sido responsabilizada a partir de argumentos políticos e econômicos, pelos mais diferentes pro- blemas sociais. Recentemente, tem-se em pauta o conflito de cunho cultural entre Ocidente e fundamentalistas da religião muçulmana, que justificam a partir da religião seus atos polí- ticos. No Brasil, o número de denúncias sobre intolerância reli- giosa tem crescido nos últimos anos também pelo surgimento de Canais de denúncia. Mesmo que a Constituição garanta a liberdade religiosa, desde o início do período republicano, as religiões de matriz africana são o principal alvo de intolerân- cia. A perseguição se deu principalmente pela igreja Católica, no período escravista, sob a justificativa de evangelização dos negros que pelo trabalho se redimiriam dos pecados. O Esta- do foi responsável pela perseguição no início da era Vargas e, atualmente, o embate tem sido travado com algumas novas igrejas evangélicas e se dá politicamente pelo fato de disputa- rem a atenção e a crença de um mesmo público. Simbolicamente, as religiões de matriz africana por suas características não cristãs e não dogmáticas acabam, muitas vezes, em função do desconhecimento, sendo confundidas com magia negra – esta última originária da Europa, e ado- ração do Diabo, numa referência Cristã que não faz sentido na cosmovisão original. A sacralização de animais e o uso de instrumentos de percussão têm sido permanentemente ten- sionados pelos detratores e mesmo pelo Estado. São muitas as decisões judiciais que, em função da lei do silêncio, prin- cipalmente, proíbem o toque de tambores. Cultos indígenas Capítulo 6 Fronteiras da Tolerância: Etnicidade, Gênero... 133 de outras matrizes que não cristãs têm, igualmente, sofrido perseguição. De outro lado, observa-se atos de intolerância discursivos contra igrejas evangélicas, principalmente as referenciadas como neopentecostais. A atuação de algumas igrejas em re- lação às outras, e a outras religiões acabam, por generaliza- ção, sendo vistas como intolerantes. Esse processo leva a um fenômeno de intolerância pela acusação de intolerância. O desconhecimento de princípios e dos ritos das outras igrejas/ religiões está na base da intolerância religiosa,assim como a falta de alteridade na relação estabelecida a partir dessa for- ma de pertencimento. 6.5 A intolerância de gênero As normatividades sobre o corpo estão diretamente relacio- nadas com a discussão sobre a questão de gênero, entendida como as sociedades definem masculino e feminino. Na pers- pectiva das Ciências Naturais, principalmente as Biológicas, as características são apontadas como naturais, ou seja, ge- neticamente codificadas. Nas Ciências Humanas e Sociais, no entanto, pesquisadores defendem que se trata de uma constru- ção social em determinados momentos históricos, sendo este o motivo pelo qual as noções tendem a se transformar em dife- rentes épocas históricas (LOURO, 1997). Vem desta perspec- tiva a frase de Simone de Beauvoir, “Ninguém nasce mulher, torna-se mulher”, utilizada em uma prova do Exame Nacional do Ensino Médio e que tem circulado amplamente na internet. 134 Sociedade e Contemporaneidade No entanto, as marcações de gêneros normatizadas a par- tir da perspectiva biológica fomentam a intolerância a qual- quer corpo que não atenda a esses princípios. A discussão sobre o tema ganha cunho político a fim de desconstruir os lugares sociais reservados ao masculino e ao feminino e, por outro, para desconstruir a crença de que existe somente uma maneira de existir socialmente enquanto homem ou mulher. O principal argumento apresentado, principalmente pelos movimentos feministas, é de que existe uma grande diferença entre ser mulher no Brasil e na China, por exemplo, o que reforça que as normas são social e culturalmente construídas. Desta maneira, a discussão sobre identidade de gênero con- tém em si a eliminação dos marcadores normativos sobre ser homem e mulher, a fim de que as barreiras simbólicas e sociais impostas por essas referências sejam superadas. 6.6 A tolerância como dever na contemporaneidade A tolerância é um dos suportes a partir dos quais as demo- cracias modernas foram constituídas. As características repre- sentativas e de universalidade do modelo político estabelecido no Ocidente não se mostraram historicamente inclusivos à di- ferença, privilegiando um discurso único de matriz europeia. O debate sobre tolerância desta maneira tem que levar em conta as relações de poder social (FORST, 2009). Por isso, o princípio de tolerância tem em si a questão de autoridade de um grupo, que tolera, sobre outro que venha a ser tolerado. Capítulo 6 Fronteiras da Tolerância: Etnicidade, Gênero... 135 São contra essas normatividades que os movimentos sociais têm militado. A presença negra nas sociedades fora do continente afri- cano originou-se num processo de desumanização. A inserção do corpo negro, nos períodos posteriores à exploração escra- vista, manteve as barreiras simbólicas que erigiram as barrei- ras legais e socioeconômicas ainda mantidas. Esse lugar so- cial construído como projeto, portanto, é a principal fonte de intolerância que afeta a todos que buscam novos espaços, ou simplesmente para a manutenção do controle social. A aceita- ção da diferença nesse caso desestabiliza o status quo vigente. A intolerância religiosa acaba por ter um complicador, o campo que se organiza a partir da crença. Inserir-se num sis- tema de crença provoca, necessariamente, a recusa de outras crenças possíveis. No entanto, a ideia de alteridade está pre- sente em todo sistema de pensamento religioso, o que pode acionar se não a aceitação dos princípios de crença da outra igreja/religião, a aceitação da diferença. Da mesma maneira, as normas estabelecidas sobre o que é masculino e feminino tensionam a identidade de gênero no sentido de pressionar os indivíduos a ocuparem papeis pre- viamente estabelecidos. Os avanços nesse sentido têm sido conquistados frente a violências físicas e simbólicas, mas en- contram respaldo legal, como a Lei Maria da Penha, e na acei- tação da diferença. Apesar da crise do pertencimento aprofundada pela Glo- balização, é possível observar que algumas das questões ain- da são demandas apresentadas pelos grupos identitários e têm 136 Sociedade e Contemporaneidade obtido respostas mais imediatas do mercado de consumo do que sócio-políticas. Isso acaba por gerar um dissociamento entre a vivência cotidiana e a cidadania. Os movimentos so- ciais tomaram para si o projeto de construção da tolerância em relação à diferença e da construção de uma sociedade realmente democrática e cidadã. Recapitulando  A intolerância às diferenças produz perseguições e im- põe violências física e simbólica contra os grupos identi- ficados como diferentes.  Atualmente, a identificação com um grupo socialmente marginalizado tornou-se um ato político, mas por muito tempo foi encoberta pelo silêncio e pela opressão.  Os movimentos contemporâneos pela diferença são marcados em sua origem pelo rompimento com os par- tidos tradicionais de esquerda - comunistas e socialistas, nos anos 1960. Enquanto alguns optaram pela violên- cia, outros reivindicaram a construção de uma demo- cracia direta e participativa.  Tendo como contexto a revolução de costumes e padrões de comportamento, movimentos alternativos, constituí- dos por grupos que enfatizam a diferença, construirão, a partir de demandas específicas, propostas de democra- cia participativa, confrontando a diluição e a burocrati- zação promovida pela democracia representativa. Capítulo 6 Fronteiras da Tolerância: Etnicidade, Gênero... 137  A fluidez do contemporâneo e as formas de organização impostas pela Globalização fazem com que as pessoas tenham necessidade de identificação coletiva, transcen- dendo em direção ao direito de ser.  A intolerância contra o negro é um dos elementos basi- lares do Ocidente, acabando por ser naturalizado. Com isso, a maioria da população foi relegada à margina- lização socioeconômica, à criminalização e em muitos casos à eliminação sistemática do indivíduo negro.  As religiões organizam-se a partir de um sistema de crença que provoca necessariamente a recusa de ou- tras crenças possíveis. No entanto, a ideia de alteridade está presente em todo sistema de pensamento religioso o que pode acionar se não a aceitação dos princípios de crença da outra igreja/religião, a aceitação da dife- rença.  As normatividades sobre o corpo estão diretamente rela- cionadas à discussão sobre questão de gênero, entendi- do como as sociedades definem masculino e feminino, produzindo a intolerância.  Os movimentos sociais tomaram para si o projeto de construção da tolerância em relação à diferença e da construção de uma sociedade realmente de igualdade de direitos. 138 Sociedade e Contemporaneidade Referências ARAÚJO, Maria Paula do Nascimento. A utopia fragmenta- da. As novas esquerdas no Brasil e no mundo na década de 70. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2000. BARRACLOUGH, Geoffrey. Introdução à História Contem- porânea. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1983. BARTH, Fredrik. Grupos étnicos e suas fronteiras. In POU- TIGNAT, P.; STREIFF-FENART, J. Teorias da etnicidade. São Paulo: Ed. 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Se por um lado, ocorre neste período a desnaturalização discursiva e social da diferença, princi- palmente, étnico-racial, registrou episódios em que a in- tolerância foi socialmente acolhida e, mesmo prevista, é regulada em lei, promovendo um rastro de desigualdade, perseguição e violência.” A partir da afirmação acima é possível afirmar que a sen- tença verdadeira é: 140 Sociedade e Contemporaneidade a) ( ) As Grandes Guerras não estão relacionadas com o sistema Imperialista que aprofundou a diferença étni- co-racial a partir de teorias científicas. b) ( ) O aumento da população europeia e o decréscimo de natalidade entre a população não branca possibi- litou um domínio territorial europeu, baseado na dife- rença. c) ( ) As teorias raciais vigentes na primeira metade do século XX defendiam a igualdade entre as raças. d) ( ) O Imperialismo produziu desigualdades sociocultu- rais e econômicas, além de um rastro de violência que perdurou até os anos 1990 com o Apartheid. e) ( ) O holocausto judeu não tem relação direta com discursos de intolerância racial. 2) A partir da leitura do texto, considere se as afirmações abaixo são verdadeiras (V) ou falsas (F). a) ( ) A identidade étnica refere-se a uma forma de per- tencimento coletivo que se caracteriza pela partilha de valores culturais e que se identificam e são identifica- dos a partir da diferença de outros grupos étnicos. b) ( ) Atualmente, a identificação com grupos socialmen- te marginalizados tornou-se um ato político, mas por muito tempo foi encoberta pelo silêncio e pela opres- são. Capítulo 6 Fronteiras da Tolerância: Etnicidade, Gênero... 141 c) ( ) Os movimentos pela diferença surgem no início do século XX, fomentados pelos tradicionais partidos de esquerda. d) ( ) O movimento ecológico foi referencial no processo de reconfiguração política nos anos 1970. e) ( ) Os movimentos pela diferença propõem a constru- ção de uma democracia participativa, confrontando a diluição e a burocratização promovidas pela demo- cracia representativa. 3) A intolerância à diferença esteve historicamente acompa- nhada pela violência. Qual dos acontecimentos referidos abaixo não tem relação com intolerância à diferença? a) ( ) Escravismo mercantil. b) ( ) Holocausto judeu. c) ( ) Apartheid. d) ( ) Revolução Russa. e) ( ) 11 de Setembro. 4) A partir da leitura do texto, considere as questões abaixo: I – A exclusão do negro do projeto de desenvolvimento econômico remonta ao final do século XIX. II – A valorização da branquitude é constitutiva não só da cultura brasileira, mas da modernidade Ocidental e persiste nas culturas contemporâneas. 142 Sociedade e Contemporaneidade III – O movimento negro criou nas últimas décadas estra- tégias de integração e adesão ao projeto unificador de identidade nacional. IV – Nas relações cotidianas, as diferentes formas de in- tolerância contra a população negra manifestam-se, principalmente, através de violência simbólica ou físi- ca. A partir das afirmações acima, podem ser consideradas corretas as questões: a) ( ) I, II e III. b) ( ) I, II e IV. c) ( ) II, III e IV. d) ( ) I, III e IV. e) ( ) Todas estão corretas. 5) As discussões sobre políticas afirmativas também indicam um nível de intolerância quanto à integração dos negros nas esferas de cidadania. Considerando a leitura do texto e as questões abaixo é possível afirmar que a afirmação que não está correta é: a) ( ) O debate público, principalmente a partir dos meios de comunicação, reforça a perspectiva sobre capaci- dade e meritocracia. b) ( ) O debate público sobre políticas afirmativas, principalmente a partir dos meios de comunicação, Capítulo 6 Fronteiras da Tolerância: Etnicidade, Gênero... 143 baseia-se na perspectiva de construção de oportuni- dade. c) ( ) As políticas afirmativas propõem-se a oferecer aos negros oportunidades de estudo e inserção no merca- do de trabalho. d) ( ) As políticas afirmativas objetivam quebrar o ciclo socioeconômico e cultural que historicamente mantêm a população negra marginalizada. e) ( ) Enquanto socialmente a população negra enfrenta barreiras simbólicas, através de estereótipos negativos, as medidas adotadas para construir oportunidades e superar essas barreiras são negadas. Everton Rodrigo Santos1 Capítulo 7 Trabalho e Emprego no Mundo das Novas Tecnologias1 1 Graduado em Licenciatura Plena em Ciências Sociais pela UNISINOS (1992), mestre (1996) doutor (2005) e pós-doutor (2012-2013) em Ciência Política pela UFRGS. É consultor e avaliador da Capes, professor e pesquisador da ULBRA e da Universidade Feevale, atuando na graduação e pós-graduação stricto sensu. Como pesquisador é vinculado ao Grupo de Pesquisa Capital Social e Desenvolvimento Sustentável na América Latina da UFRGS, ao Grupo Metropolização e Desenvolvi- mento Regional da Feevale e ao Grupo Sociedade Informacional, Individualidades, Políticas Sociais da ULBRA. Trabalha na área das Ciências Sociais e interdisciplinar, tendo publicado inúmeros artigos, capítulos de livros e livros. Tem como suas princi- pais preocupações a temática da democracia, da cultura política, do capital social e das políticas públicas. Capítulo 7 Trabalho e Emprego no Mundo das Novas Tecnologias 145 Empregabilidade/empreendedorismo/desafios e oportuni- dades ao profissional do século XXI. Everton Rodrigo Santos Introdução O Brasil vem despontando no cenário internacional como a sexta economia mundial aliada a um relativo declínio das de- sigualdades sociais, a partir de seu crescimento econômico e da redução dos juros de nossa economia. Esta oportunidade, singular na história recente do país, abriu-se justamente num contexto novo, do fim da rivalidade entre o capitalismo e o comunismo e ao mesmo tempo do declínio dos EUA como superpotência hegemônica, dando vazão aos ditos “países emergentes”, entre eles o Brasil. Para o País isto tem significado oportunidades de emprego e renda, diminuição da pobreza e o aumento da chamada “classe média”, que tem na sua obtenção de título de curso superior sua principal realização profissional. Neste sentido, cumpre ressaltar os fluxos migratórios tradicionais de brasi- leiros. A procura de emprego em países ditos desenvolvidos diminuiu significativamente, havendo, em alguns casos, um efeito reverso, não só com a fixação de cidadãos no País, mas a existência de imigração de norte-americanos e europeus (apesar da crise da economia norte-americana e da Europa) para países como o Brasil, vindo ocupar postos de trabalho que demandam boa qualificação profissional. É sintomático 146 Sociedade e Contemporaneidade este efeito, uma vez que os dados divulgados pelos órgãos ofi- ciais do próprio governo têm apontado para uma discrepância entre o crescimento de nosso PIB (Produto Interno Bruto) e oparco investimento em pesquisa e ensino para acompanhar devidamente nosso desenvolvimento nacional. Há, portanto, um hiato entre um país que “parece querer emergir”, uma economia que clama por mão de obra qualificada e as pos- sibilidades deste desenvolvimento ameaçado justamente pela falta desta “mão de obra”. Assim, este capítulo “Trabalho e emprego no mundo das novas tecnologias” tem por objetivo apresentar as novas con- dições de empregabilidade neste mundo de novas tecnologias que está se descortinando, portanto, de novas oportunidades e ameaças para o Brasil e os brasileiros, num contexto novo da economia do conhecimento. Então, a pergunta provocativa para abrir nosso capítulo é: como se caracteriza este novo cenário da economia do conhecimento? Quais as condições de empregabilidade nesta nova economia num mundo de no- vas tecnologias? Quais são as competências necessárias, as qualidades imprescindíveis para o profissional do século XXI conectar-se neste país, neste mundo? Para responder a estas questões, dividimos este capítulo em três partes interdependentes. Na primeira parte, “Economia do conhecimento”, vamos caracterizar o contexto em que vivemos como um momento novo de uma sociedade pós-industrial des- te início de século, que não é mais a economia de exploração do início de nossa colonização, nem mesmo a economia agro- exportadora da primeira metade do século passado ou mesmo a economia industrial recente, mas uma economia que tem Capítulo 7 Trabalho e Emprego no Mundo das Novas Tecnologias 147 no conhecimento e no avanço tecnológico extraordinário sua principal mola propulsora para o desenvolvimento. Na segun- da parte, tendo como base esta compreensão, discutiremos a “Empregabilidade na era da economia do conhecimento”, ou seja, a empregabilidade passará necessariamente pela rede- finição das carreiras, passando-se das “carreiras organizacio- nais” tradicionais às “carreiras sem fronteiras”. Num terceiro momento, “Planejamento e gestão de carrei- ra – o profissional do século XXI”, discutiremos a necessária gestão e planejamento de sua carreira, a necessidade de au- tonomia no planejamento profissional dando ênfase na res- ponsabilidade individual, propondo ao final do capítulo uma metodologia mínima para o começo do seu planejamento. 7.1 A economia do conhecimento O Brasil, como sabemos, foi uma colônia portuguesa que desde o século XV, com a chegada dos primeiros europeus, teve seu processo de colonização marcado pela exploração de seus recursos naturais nos primeiros séculos de sua história. Este processo foi fruto da política mercantilista europeia colo- nialista que impulsionou as grandes navegações na procura de novas terras e riquezas na expansão ultramarítima. As extrações do pau-brasil nas costas litorâneas com a utilização da mão de obra indígena, num primeiro momen- to, abasteceram a coroa portuguesa com recursos naturais que caracterizaram uma economia de exploração (RIBEIRO, 148 Sociedade e Contemporaneidade 2000), em que as riquezas do País eram transladadas da colô- nia para a Europa. Tal economia significava o enriquecimento da metrópole portuguesa em prejuízo da colônia e de seus habitantes autóctones. Posteriormente, na sequência histórica e dado o início da colonização propriamente dito, a partir de 1530, os ciclos da cana-de-açúcar e do ouro (nos séculos XVI a XVIII) com a uti- lização da mão de obra escrava africana, e, a partir do início do século XIX, o ciclo do café com a ajuda da mão de obra de imigrantes alemães e italianos, caracterizariam uma economia de produtos primários para a exportação. Alguns estudiosos argumentavam que o Brasil exportava produtos primários para os países centrais e em troca impor- tava produtos industrializados no final do século XIX e início do XX, justamente porque a Europa já havia se constituído em uma importante região industrializada nesta época. Dada esta divisão internacional do trabalho, com o Brasil exportando produtos primários e importando produtos industrializados, nós teríamos “vantagens comparativas” em relação a eles, pois nossos produtos agrícolas seriam vendidos mais caro em comparação com a importação dos produtos industrializa- dos deles (países centrais) mais baratos, pois o uso de no- vos maquinários industriais tenderia a baratear os preços dos produtos industrializados importados em comparação com o não uso destes maquinários nos produtos primários. Assim, ex- portar produtos primários e importar produtos industrializados davam “vantagens comparativas” para o Brasil, pois vendería- mos caro e importaríamos barato. Capítulo 7 Trabalho e Emprego no Mundo das Novas Tecnologias 149 Todavia, uma forte crítica dos estudos da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina) demonstrou que este racio- cínio estava equivocado, pois as exportações de produtos pri- mários teriam um limite, “as pessoas não podem comer mais do que a sua barriga suporta”, mas os produtos industrializa- dos podem ser comprados de maneira abundante (MANTE- GA, 1990). Ou seja, a demanda por produtos industrializados tende a ser maior do que a demanda por produtos primários e, assim, teríamos uma alta no preço dos produtos industria- lizados europeu-americanos e uma queda nos produtos pri- mários exportados (a lei da oferta e da procura). Um mau negócio para nós! Dada esta constatação, o Brasil passa a investir pesadamente numa política para a industrialização do País, principalmente a partir dos anos 1930, buscando recupe- rar este gap com a criação de um parque industrial brasileiro capitaneado pelo Estado. O Brasil passou, ao longo do século XX, a consolidar-se como um país de economia industrial. Com um êxodo rural expressivo de agricultores para os centros urbanos, a expan- são da mão de obra assalariada, a criação do salário mínimo, da carteira de trabalho e toda legislação trabalhista moderna edificada a partir da Era Vargas. O processo de industrializa- ção brasileiro se tornou irreversível já nos anos 1940 e 1950. Quando o Brasil se consolida como uma nação industrial, os países centrais, que até então eram países industriais, pas- sam paulatinamente a exportar suas indústrias para os paí- ses ditos “periféricos”, de “terceiro mundo”, como os países latino-americanos, não só porque encontram uma mão de obra barata, uma legislação flexível, tributos menores, mas, 150 Sociedade e Contemporaneidade também, a inexistência de uma legislação ambiental que puna indústrias poluentes. Todavia, estes países centrais passam a concentrar-se cada vez mais na produção do conhecimento. Na verdade, a nova divisão internacional do trabalho, prin- cipalmente na segunda metade do século XX, passa a ocorrer entre aqueles países que produzem o conhecimento, tecno- logia e inovação, e aqueles que são os consumidores deste conhecimento e destas tecnologias. Neste caso, tanto os EUA quanto a Europa e posteriormente alguns países asiáticos fo- ram os grandes produtores de conhecimento, não só pelos investimentos e o acúmulo de capital que realizaram em pris- cas eras, como pelo acúmulo de conhecimento através do de- senvolvimento de pesquisas e inovações tecnológicas no pós- -guerra. Este padrão de consumidores de tecnologia e pesquisa, pelos países “periféricos”, “emergentes”, ficou mais ou menos estável até o final dos anos 1980, quando a divisão do mun- do entre capitalistas pró Estados Unidos e os comunistas pró União Soviética era vigente. Contudo, três grandes impactos de proporções tectônicas mudaram a ordem política, a ordem econômica e a ordem tecnológica, alterando o panorama in- ternacional de maneira significativamente profunda, segundo ZaKaria (2008). O fim da União Soviética e a queda do muro de Berlim simbolizaram a mudança da ordempolítica, com o colapso de um modelo de sociedade dita “comunista”, que tinha no par- tido único e na economia centralizada e planificada seu mote central, alterando a ordem mundial na qual a rivalidade entre Capítulo 7 Trabalho e Emprego no Mundo das Novas Tecnologias 151 o mundo capitalista e o mundo comunista passa a dar lugar à liberalização dos regimes autoritários, a difusão da democra- cia liberal, tornando-se ponto de pauta principal na agenda internacional de países que até então viviam sob os auspícios da União Soviética, entre eles os países do leste europeu. Na ordem econômica, intensificou-se a livre movimentação do capital e do dinheiro, agora não mais restrita aos países ca- pitalistas, mas a todos aqueles que se aventurarem a ingressar nesta ordem “por livre e espontânea pressão”, dadas as novas circunstâncias econômicas, que não deixavam margem para o isolamento. Neste sentido, houve a difusão de bancos centrais independestes em diferentes países e um forte controle da in- flação em países da América Latina como o Brasil e a Argenti- na, por exemplo, que enfrentavam altos índices inflacionários. Certamente, o controle desta inflação possibilitou equilibrar estas economias, estabilizando-as politicamente. A Índia e a China, neste sentido, foram duas grandes nações dignas de nota na contribuição para a contenção da inflação mundial produzindo produtos de custo barato para o mundo ociden- tal de maneira abundante. Atualmente, não se consegue mais comprar uma “lembrancinha” de nenhum país no mundo que não tenha um made in China. Até a loja oficial dos Beatles na Baker Street em Londres é made in China. Junto a estas mudanças de ordem econômica e política, também a mudança tecnológica tornou este mundo mais conectado, interligado como uma “aldeia global”, como diz Friedman (2000), “o mundo é plano”. Desde as grandes na- vegações, temos uma intensificação destes processos de inter- conexão entre os povos sob a face da Terra. O desenvolvimen- 152 Sociedade e Contemporaneidade to tecnológico das comunicações com o acesso aos telefones móveis, a banda larga dando acesso à rede internacional de computadores (internet), a TV digital, as viagens intercontinen- tais mais rápidas, mais baratas e acessíveis, certamente, torna- ram este mundo muito menor, “muito frequentado”. Estas três ordens de mudanças deixaram o mundo mais aberto, é verdade, mais conectado e, portanto, mais exigen- te, na medida em que permitiram pela instantaneidade e vi- sibilidade dos acontecimentos mundiais a comparação entre países, regiões, pessoas e empresas, abrindo a competição in- ternacional para muitos países, inclusive os ditos “países emer- gentes”, como nós. É verdade, também, que esta conexão internacional alargou os mercados, diversificou os produtos, aumentou os concorrentes levando à destruição de muitos em- pregos, inclusive redesenhando-os numa nova era econômica, que chamaremos aqui de “economia do conhecimento”, cujas fontes de riqueza não são mais os recursos naturais ou o tra- balho físico dos séculos pretéritos, mas o conhecimento e a co- municação (STEWART, 1998). Nesta nova economia, a disputa agora é pela posse, produção e distribuição do conhecimento em escala global. Este, evidentemente, sempre foi um componente importante na história da evolução da humanidade. Desde a pré-história, na passagem do período da pedra lascada ao período da pe- dra polida, no domínio manual de determinadas técnicas para o fabrico de instrumentos, avançando-se à revolução industrial inglesa, com a mecanização do trabalho, lá estava o conheci- mento como mola propulsora dos avanços científicos e tecno- lógicos. Contudo, nunca anteriormente visto, o conhecimento Capítulo 7 Trabalho e Emprego no Mundo das Novas Tecnologias 153 tomaria a centralidade que tem na contemporaneidade, por esta razão a denominação de economia do conhecimento. Do acúmulo de ferramentas, máquinas, capital econômico, passamos à busca de acúmulo de conhecimento, de “capital intelectual” 2. Como argumenta Stewart (1998), a Volkswagen havia declarado nos anos 1990 que precisava de dois ter- ços de seus funcionários para manter sua produtividade, e os empregos na indústria, nos EUA, caíram de 34% da força de trabalho em 1950 para 16% em 1996 e atualmente chegam a 12%. É lugar-comum constatar que cada vez mais as empresas têm investido em tecnologias de ponta, substituindo trabalha- dores, operários das linhas de montagens por robôs, compu- tadores e equipamentos mais sofisticados. Se, por um lado, este fenômeno destruiu vários empregos, por outro, criou uma série de oportunidades para gerentes, projetistas, comercian- tes e operadores. As empresas passaram a depender cada vez mais da produção do conhecimento, de patentes e pesquisas. Indústrias que transportam informações estão crescendo mais rápido do que aquelas que transportam mercadorias, o tráfe- go internacional de telefone vem aumentando 16% ao ano e 30% do tráfego da internet (STEWART, 1998). Dentro desta perspectiva, há o surgimento das chamadas “indústrias culturais”, “indústrias criativas” que têm na explo- ração da criatividade e do talento individual, capacidade para a criação de riqueza e trabalho. Entretanto, esta exploração 2 Veremos no item seguinte a definição de “capital intelectual”. 154 Sociedade e Contemporaneidade econômica diferencia-se daquela meramente industrial, por- que passa obrigatoriamente pela devida apropriação dos di- reitos de propriedade intelectual. Assim, um filme, um livro, um CD, um software podem ser agregadores expressivos de valores tanto quanto produtos clássicos como carros ou ele- trodomésticos de um país ou região. Tudo isso num mundo em que as pessoas estão menos pobres e mais propensas ao consumo de massa. Apesar das oportunidades que se abriram neste início de século, o professor Zakaria (2008), da Universidade de Har- vard, tem apontado que a proporção de pessoas que vivem apenas com 1 dólar ou menos por dia no mundo despencou de 40% em 1981 para 18% em 2004, e estima-se que cairá a patamares de 15% de 2015 em diante. O fato é que a miséria está diminuindo em países que abrigam 80% da população mundial. Em 142 países, que incluem a China, Índia, Brasil, Rússia, Indonésia, Turquia, Quênia e África do Sul, as popula- ções pobres estão sendo absorvidas por economias produtivas e crescentes. Este fenômeno está criando uma situação em que os países que outrora eram apenas observadores no ce- nário internacional passam a ser agora atores protagonistas. Assim, complementa o autor, há evidências destas oportunida- des quando verificamos que o edifício mais alto do mundo fica em Dubai e não em Nova York, o homem mais rico do mundo é um mexicano, o maior avião do mundo está sendo fabrica- do na Ucrânia e na Rússia, a maior indústria cinematográfica do mundo (dentro da perspectiva da indústria criativa) não é Hollywood nos EUA, mas Bollywood na Índia. Capítulo 7 Trabalho e Emprego no Mundo das Novas Tecnologias 155 Então, sinteticamente, para fecharmos este ponto, pode- mos dizer que, passada a fase da economia de exploração no Brasil, com a exploração de nossos recursos naturais, tivemos uma relação de dependência com os produtos industrializados das nações centrais pela exportação de nossos produtos pri- mários, constituindo-nos como uma economia agroexportado- ra. Posteriormente, com o processo de industrialização no Bra- sil, ou seja, quando o Brasil consegue tornar-se uma economia industrializada, passamos a ser dependentes do conhecimento dos países centrais capitalistas. Na contemporaneidade, com as principais economias do mundo constituindo-se como eco- nomia do conhecimento, a disputa passa a ser agora pela produção e distribuiçãodeste conhecimento. Nós vivemos um delay no Brasil em relação a estas economias, mas precisamos e devemos nas próximas décadas recuperar esta distância, a fim de podermos avançar. 7.2 Empregabilidade na era da economia do conhecimento Se estamos vivendo um processo de mudança para uma nova era da economia do conhecimento, evidentemente precisare- mos repensar também o emprego nesta nova ordem das coi- sas. Os especialistas têm provocado o debate dizendo que, atualmente, não podemos mais falar em “mão de obra do trabalhador”, mas em “cérebro de obra do trabalhador”, pois o mercado passa a exigir cada vez mais trabalhadores qua- 156 Sociedade e Contemporaneidade lificados que usam, por sua vez, cada vez mais o cérebro e menos as mãos. Há um aumento nos empregos que pagam bem aos tra- balhadores do conhecimento, como cargos executivos, admi- nistrativos, gerenciais e consultorias, ou seja, aqueles cargos que criam e agregam valor. Por outro lado, há uma queda no número de cargos de apoio administrativo, burocrático, aque- les cargos que não criam valor e que podem ser facilmente substituídos por um bom software (STEWART, 1998). De fato, o “capital intelectual” passa a ser uma propriedade central nesta nova economia para aqueles que desejam ingressar, perma- necer ou ascender neste novo ambiente. Mas o que é o capital intelectual? O capital intelectual aqui não é o capital como usualmente conhecemos, o capital material, capital financeiro. Quando nós compramos uma empresa, por exemplo, de remédios, não estamos comprando propriamente o seu capi- tal físico, seus pavilhões, escritórios, ferramentas, laboratórios, mas, sobretudo, estamos comprando seus talentos, capacida- des e habilidades em produzir e fabricar remédios, segundo Stewart (1998). Dessa forma, o capital intelectual é o conheci- mento existente em uma organização que pode ser usado para obter uma vantagem competitiva, o chamado conhecimento útil, a inteligência aplicada como um ativo para criar ou agre- gar valor. Se analisarmos a economia doméstica de uma pessoa de ensino superior completo, com um emprego estável para dar outro exemplo, veremos que provavelmente o grande percen- tual de capital que esta pessoa possui não é o capital econô- Capítulo 7 Trabalho e Emprego no Mundo das Novas Tecnologias 157 mico dela, seu carro (às vezes financiado) ou mesmo sua casa própria, mas possivelmente seu capital intelectual. Seis meses ou um ano de desemprego podem solapar o patrimônio de uma vida. Claro, este trabalhador gera ao mês quantias signi- ficativas de valor através de seu salário. O maior patrimônio que alguém pode ter nesta nova economia é o seu capital intelectual, sua formação, é ele que gera valor e que, portan- to, deve ser cuidado, fomentado, estimulado, ele se constitui em um ativo, em outras palavras, ele é um investimento, pois é gerador de renda e receita, ao contrário de uma casa ou carro, que, aliás, de maneira geral, são passivos, criadores de despesas3. Se o sujeito investisse em um curso de pós-graduação ao invés de trocar de carro, a sua empregabilidade não só au- mentaria, como seu salário, de acordo com pesquisas recen- tes divulgadas pelos órgãos oficiais, aumentaria em cerca de 101%. Com o salário dobrado, aí sim ele poderia desfrutar da compra de um carro melhor. Mas como o investimento não foi feito, o salário não vai dobrar e suas receitas tenderão a min- guar, pois suas perspectivas de futuro serão, previsivelmente, aumento de despesas e diminuição de receitas. 3 É muito comum as pessoas acharem que casa e carro são investimentos, que são ativos. Ledo engano, não são. Eles só poderiam ser um ativo, ou seja, geradores de renda e receita, se a casa fosse de aluguel e o carro fosse um táxi, por exemplo. De fato, a casa para moradia e o carro da família são passivos, são geradores de despesas. Inclusive, a classe média no mundo é uma classe que adora, via de regra, quando recebe um aumento de salário, aumentar as suas despesas comprando um carro novo, comprando uma casa maior, quando não uma casa na praia, aumen- tando suas despesas, diminuindo ainda mais suas receitas e comprometendo seu futuro. 158 Sociedade e Contemporaneidade Na era da economia do conhecimento, portanto, a empre- gabilidade vai passar necessariamente por investimentos em “ativos intelectuais”, cursos de graduação, cursos de extensão, pós-graduação, aprendizado de línguas etc. Todavia, dada a história recente do Brasil, que se constituiu ao longo do século passado em um país de base industrial, principalmente a partir da década 1970, com um crescimento econômico expressi- vo, podemos constatar que os investimentos em formação não eram o mote principal daqueles trabalhadores, via de regra a mão de obra tinha baixa qualificação. O emprego passava tão somente pela ideia de treinamento, e a empregabilidade em uma organização era para toda a vida. Na década de 1980, foi a chamada “década perdida”, marcada pela estagnação da economia, planos econômicos e inflação galopante. O emprego dentro de uma empresa seguia a sequência de car- gos. Temos, assim, as chamadas “carreiras organizacionais”. Segundo este conceito, estas carreiras seriam ligadas às gran- des organizações, grandes empresas concebidas para revelar um único cenário de emprego, cujas características, segundo Veloso (2012), sintetizando autores especializados, seriam:  ambiente estável e dinâmico;  a economia é subordinada às grandes firmas que geram oportunidades de emprego;  mudanças nas firmas geram mudanças de carreiras;  há interdependência entre empresa e pessoa;  as empresas oferecem carreiras para toda a vida; Capítulo 7 Trabalho e Emprego no Mundo das Novas Tecnologias 159  o empreendimento é uma opção e não um elemento necessário;  os empregados são parte da organização;  a carreira é predeterminada pela empresa e não pelo indivíduo. Nos anos 1990, o avanço tecnológico, a necessidade de competitividade, a redução dos postos de trabalho e as priva- tizações mudaram este panorama. A reengenharia, a terceiri- zação, o downsizing4, fizeram com que o emprego passasse a ser representado por novas possibilidades e empregabilidade (VELOSO, 2012). Nos anos 2000, com a intensificação da globalização, um ambiente marcado por fusões, aquisições, responsabilidade social e ambiental, busca-se o alinhamento entre vida pessoal e profissional. Nos anos 2010, tivemos um crescimento econômico no País que foi capaz de proporcionar uma relativa queda no desemprego e na desigualdade social no País, aliados a um aumento do crédito pessoal e imobiliário, o crescimento de pequenas e médias empresas jogaram água no moinho das novas “carreiras sem fronteiras”. Que carreira é essa? Carrei- ras que vêm se constituindo a partir dos anos 1990 em diante. Segundo Veloso (2012), são carreiras que não têm a fronteira da organização como parâmetro, ou seja, o desenvolvimen- to profissional não está ligado a somente uma organização, como era antes, portanto trabalhar pode não significar ter um 4 É a racionalização da estrutura organizacional que implica a diminuição de ní- veis hierárquicos e custos nas empresas. 160 Sociedade e Contemporaneidade emprego fixo em uma empresa estruturada. Elas surgem não somente porque os trabalhadores mudaram, mas porque as próprias organizações passaram a necessitar de quadros pro- fissionais mais flexíveis. Portanto, a história de uma pessoa que passa a maior parte da sua vida em uma única empresa vai ser cada vez mais rara na contemporaneidade, segundo a auto- ra. Sintetizando autores consagrados, as características destas carreiras são:  ter a pessoa como principal responsável pela carreira;  apresentar condições de mobilidadepor meio de fron- teiras organizacionais e valor do trabalho, independente do empregador;  ser subsidiada por informações sobre o mercado de trabalho e redes de relacionamento (networks, capital social);  reconhecer formas de progressão e de continuidade in- dependente da hierarquia organizacional, bem como ser permeada pela conciliação entre necessidades pro- fissionais, pessoais e familiares;  ter condições de se organizar por meio do indivíduo e não somente mediante possibilidades oferecidas pela organização;  reconhecer possibilidades de atuação em pequenos projetos;  considerar a aprendizagem como fator para o desenvol- vimento profissional e para a continuidade da carreira; Capítulo 7 Trabalho e Emprego no Mundo das Novas Tecnologias 161  ter a ação e participação não contratual como elemen- tos essenciais ao seu desenvolvimento. Como podemos ver, a ideia de estabilidade no emprego é substituída pela ideia de empregabilidade, em outras palavras, a pessoa perde a segurança de que vai estar empregada ama- nhã naquela empresa, porém ganha com a possibilidade, não somente de estar empregada em duas ou mais organizações, mas também de ser facilmente empregada em outra organiza- ção porque é ela mesma quem faz a gestão de sua carreira. Não se monitora mais o seu cargo hierárquico dentro da em- presa (sua função), mas o grau de sua colaboração para levar adiante os projetos da organização. Nesta ordem das coisas, perde-se a ideia do salário, daquele ganho único e certo de uma determinada organização. Agora, as pessoas passam a ter renda, que se constitui na composição de ganhos, quer seja com consultoria, palestras, empregos por determinadas horas, semanas ou meses sazonais ou até mesmo a aposentadoria pública ou privada que se soma a esta renda (dada a amplia- ção da expectativa de vida). Neste tipo de carreira, torna-se imperativo a pessoa ser um empreendedor de sua própria vida profissional. Neste sentido, segundo Veloso (2012), devemos atentar para os ganhos que podem ter as pessoas e as organizações. O que pode ganhar uma pessoa com esta modalidade de carreira:  autonomia e auto-organização na composição de seus horários e dias de trabalho; 162 Sociedade e Contemporaneidade  conhecimento acumulado em diferentes organizações;  ganhos maiores na composição da renda final;  tolerância, adaptabilidade, flexibilidade;  status e respeitabilidade profissional são ampliadas;  relacionamentos mais horizontalizados dentro das pró- prias organizações. O que pode ganhar uma organização com esta carreira:  quadros mais qualificados, com experiências diversifica- das;  quadros mais motivados devido aos ganhos maiores;  conhecimento, pois quando o indivíduo deixar a organi- zação, parte do seu conhecimento ficará;  experiência, pois ao se mover entre organizações, o in- divíduo leva o benefício de sua experiência para outro cenário;  economia na qualificação de quadros que muitas vezes já entram na organização altamente capitalizados. Portanto, como podemos constatar, as “carreiras sem fron- teiras” vieram como uma tendência tímida nos anos 1990, mas vêm se consolidando no contexto dessa nova economia do conhecimento. As perspectivas para 2020 são bastante oti- mistas, especialistas têm apontado que o mercado consumidor brasileiro irá quase dobrar de tamanho, passando dos atuais 2,2 trilhões para 3,5 trilhões de reais até o final da década, Capítulo 7 Trabalho e Emprego no Mundo das Novas Tecnologias 163 chegando o consumo no Brasil a 65% do PIB, numa clara ex- pansão de renda do brasileiro das regiões metropolitanas em direção ao interior. Parte desta expansão pode ser explicada pelo fato de que o número de pessoas inativas (crianças e ido- sos) tende a diminuir gradativamente, chegando em 2022 ao auge do chamado “bônus demográfico”, quando, de cada 10 pessoas, 6 estarão no mercado de trabalho produzindo e con- sumindo5. A classe média brasileira, que em 2002 correspon- dia a 38% da população, hoje está em 53% e deve chegar a patamares em torno de 60% até 2022. Junto destas mudanças houve um aumento dos anos de escolarização, de 8 para 12 anos de estudo, passando-se da escolarização de ensino fun- damental completo para o ensino superior incompleto desta nova classe média, segundo dados da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), bem como o aumento na intensificação das viagens nacionais e internacionais. Assim, ao que tudo indica, haverá uma tendência no aprofundamento das “carreiras sem fronteiras”, em que os indivíduos passam a primar, agora com maior renda e escolarização, pela sua autorrealização e o su- cesso psicológico e não mais meramente o sucesso externo, da “carreira pela carreira”6. Neste sentido, as “carreiras sem fronteiras” tenderão também a ultrapassar de forma mais visí- vel as fronteiras não só organizacionais, mas também nacio- nais, da empregabilidade continental e intercontinental. 5 Ver Revista Exame. Edição 1.022. Ano 46, n. 16, 22/8/2012. 6 Semelhante à “carreira sem fronteiras” existe a “carreira proteana”, que pres- supõe também a autonomia das pessoas em relação à organização, a busca por empregabilidade e não estabilidade no trabalho e também desenvolvimento psi- cológico. 164 Sociedade e Contemporaneidade 7.3 Planejamento e gestão de carreira – o profissional do século XXI De posse da compreensão das características da economia do conhecimento, bem como das condições que dão empregabi- lidade às pessoas neste novo contexto, passemos agora para o planejamento e a gestão propriamente ditos da sua carreira profissional. Partindo do pressuposto de que na “carreira sem fronteiras” a responsabilidade com a sua gestão e o planeja- mento são das pessoas e não mais das organizações, teremos uma tarefa nova e dificultosa diante da tradição brasileira de ver as carreiras gestadas e planejadas somente pelas empre- sas. Atualmente, é falsa a ideia de que há uma escolha em encontrar um bom emprego com uma carreira segura e linear ou trabalhar por conta própria tendo mais autonomia e liber- dade para empreender. Na economia do conhecimento, todos trabalhamos por “conta própria” de forma autônoma e em- preendedora7. Em outras palavras, o ato de empreender está intrinsecamente ligado às profissões do presente e vão estar no futuro próximo. O empreendedor aqui não é aquele dos anos 1980, em que o sujeito resolve abrir seu próprio negócio e ele resolve abrir uma pousada na “Praia do Rosa” para ganhar di- 7 A não ser que você faça um concurso público em carreiras altamente estrutura- das. Todavia, mesmo assim, é comum nesta opção profissional de carreira as pes- soas estrategicamente optarem por fazer vários concursos até chegarem naquele desejado, havendo, assim, espaços bem claros de autonomia. Não é raro pessoas provenientes das forças policiais que se aposentam cedo, constituindo-se em con- sultores na área de segurança, ou mesmo pilotos das forças armadas, passando para a iniciativa privada após a aposentadoria. Capítulo 7 Trabalho e Emprego no Mundo das Novas Tecnologias 165 nheiro nos verões com os turistas. Não, o empreendedorismo de que estamos falando aqui é aquele que mobiliza recursos externos para crescer e alcançar seus objetivos, na esteira de Drucker, porém, voltados para sua carreira e não necessaria- mente para “abrir uma empresa”. Imaginem que profissionais na área da saúde como enfermeiros, médicos, odontólogos, fisioterapeutas, que não tiverem nenhum traço empreendedor, não investirem em equipamentos, livros, revistas especializadas para se atualizarem ao longo de suas carreiras, vão ter que es- perar que o Hospital, a Empresa, a Universidade, a Organiza- ção o faça? Não! A carreira é sua nãoda empresa, lembram da “carreira sem fronteiras”?! Um turismólogo, um arquiteto, um urbanista vão ter que viajar por algumas das cidades mais importantes do mundo em virtude de suas formações e para se atualizarem. Viajar para eles é um investimento. Quem paga- rá a viagem deles(as) a Paris, a Barcelona, a Buenos Aires? A empresa? Você confiaria o planejamento de sua viagem a um profissional da área do turismo que nunca viajou ali na esqui- na? É preciso planejar e investir na sua carreira, é preciso ter uma estratégia de carreira. 7.3.1 Estratégia de carreira Primeiramente, é preciso dizer que escolher um curso de nível superior não é necessariamente escolher uma carreira. Certo?! Há especialistas na área de RH que afirmam que a ordem correta seria escolher primeiro a carreira e só depois o curso. Por exemplo, eu posso escolher fazer uma carreira como cor- retor de imóveis e fazer um curso de direito, ou mesmo fazer a carreira como gestor numa empresa de calçados ou metal 166 Sociedade e Contemporaneidade mecânica e ter feito engenharia, administração, contabilidade etc. Posso escolher fazer uma carreira no setor público e fazer uma graduação em gestão pública, mas também em medicina ou engenharia de trânsito. O curso escolhido não necessaria- mente me coloca na carreira. Qual é a sua carreira? Qualquer que seja a carreira escolhida será preciso que você saiba de antemão que o mercado de trabalho precisa e vai precisar cada vez mais de pessoas “qualificadas e inteligen- tes”! Sim, mas vamos substituir estes dois clichês pelo conceito de competência. Em outras palavras, o mercado de trabalho precisa de pessoas competentes, pessoas capazes de serem “CHA”. Primeiro, que tenham Conhecimento, ou seja, que te- nham “saber” apreendido na escolarização formal e informal, mas não necessariamente posto em prática. Segundo, que te- nham Habilidade, que “saibam fazer”, que tenham experiên- cia, que saibam, sobretudo, colocar em prática o conhecimen- to. Terceiro, é a Atitude, é o “querer fazer”, a disposição que articula o conhecimento e a habilidade. Portanto, a “era do Coeficiente de Inteligência elevado”, da inteligência cognitiva, por si só, hoje em dia, não diz absolutamente mais nada. Feito esta primeira e importante observação é necessário traçarmos um plano de ação para nossa carreira, uma estra- tégia. A estratégia aqui é entendida como um conjunto de de- cisões, e escolha de caminhos por meio dos quais as pessoas buscarão atingir seus objetivos, fundamentalmente, a estraté- gia é tomar decisões pensadas (ROSA, 2011), é o seu plano. É a partir dela que será possível ampliar as possibilidades de seu êxito profissional. Capítulo 7 Trabalho e Emprego no Mundo das Novas Tecnologias 167 7.3.2 Formulando sua estratégia 7.3.2.1 Objetivos Primeiramente, a pessoa deve considerar o que quer. O objeti- vo de fazer a gestão da sua carreira é conseguir sua realização pessoal, sua felicidade e o que isso significa na sociedade con- temporânea, implicadas aqui as realizações de ordem material e imaterial. 7.3.2.2 Potencial – forças e fraquezas Definida a etapa dos objetivos, o indivíduo deve avaliar suas potencialidades, isto são suas forças e fraquezas. Segundo Rosa (2011), a ideia de que todos podem é falsa, algumas pessoas terão uma enorme dificuldade para atuar em uma determinada área e outras mais facilidade. Assim, olhe-se com seus próprios olhos, conheça seus defeitos, suas qualidades, seus limites de talento, “inteligência” e motivações. Olhe-se com os olhos dos outros, veja o que eles pensam de você, qual é a imagem que você transmite, quais qualidades provocam admiração e quais causam rejeição? O senso comum diz, não me interessam o que os outros pensam de mim, interessa o que eu sou. Ledo engano, do ponto de vista social, “você é o que a sociedade diz que você é. A sociedade é Deus” dizia um grande sociólogo francês. Quais são as suas forças? Você é disciplinado, estudioso, conciliador, articulado, “educado”? Quais são suas fraque- zas? Você tem gostos inadequados, gosta de fazer piadas, faz comentários deselegantes sobre o comportamento dos outros ou tem explosões de raiva? Independente de quem quer que 168 Sociedade e Contemporaneidade você seja, peça sempre a opinião dos de “fora” sobre você, pare para refletir, faça terapia para se conhecer melhor. 7.3.2.3 Ambiente – oportunidades e ameaças Segundo Rosa (2011), o mundo traz para cada pessoa um conjunto específico de oportunidades e ameaças. Nesse sen- tido, a pessoa deve identificar os fatores positivos e negativos que estão à sua volta, desde as transformações no mundo do emprego e da tecnologia às demandas sociais. Assim, é preci- so atentar-se para as forças econômicas que podem aumentar ou diminuir a renda de determinadas classes sociais, abrindo- -se oportunidades de novos empregos ou mesmo ameaçando os já existentes, mudanças tecnológicas que podem melhorar o desempenho no trabalho ou levar a obsolescência de de- terminada profissão. Também cumpre lembrar que é preciso atentar para o mercado específico que determinada categoria se refere, digamos o campo de atuação e as alterações deste. Uma profissão importante hoje pode não ser amanhã. Um arquiteto que esteja numa área de mercado saturada, por exemplo, deverá procurar uma outra região, estado ou mesmo buscar alternativas de profissão no limite. Uma empresa onde você trabalha ou quer trabalhar, tem futuro, vai crescer, há boas condições de ambiente de traba- lho? Funções dentro das empresas podem ser tornar mais ou menos importantes dependendo do macroambiente, finanças, marketing, produção ou mesmo se extinguir (ROSA, 2011). Como está a sua rede social (social network, seu capital social), a rede de pessoas com quem você se relaciona? De Capítulo 7 Trabalho e Emprego no Mundo das Novas Tecnologias 169 nada adianta aquele facebook, blog, twitter, que você despen- de horas atualizando com fotos, frases e mensagens, se de nada ajudarão na hora de achar um emprego, ter indicação para alguma oportunidade, pois a “qualidade” das pessoas que você adiciona, que “te seguem”, não tem nenhum impac- to sobre sua vida profissional, mesmo que tenha para sua vida pessoal. Cuidado com o desperdício de seu tempo e talento. Abaixo, observe o Quadro Swot Pessoal para realizar a aná- lise de potencial e análise ambiental, conforme Rosa (2011). 170 Sociedade e Contemporaneidade Quadro Swot Pessoal Análise do Pró- prio Potencial Forças (Strengths) Características e situações pessoais que facilitarão a re- alização dos objetivos de car- reira. Fraquezas (Weaknesses) Características e situa- ções pessoais que di- ficultarão a realização dos objetivos de carrei- ra. Análise do Am- biente. Situação atual e Tendên- cias Oportunidades (Opportunities) Situações ou eventos do am- biente (mercado) que facilita- rão a realização dos objetivos de carreira. Ameaças (Threats) Situações ou eventos do ambiente (mercado) que dificultarão a reali- zação dos objetivos de carreira. Este quadro proporciona um exercício bem prático para o início da formulação de sua estratégia. Uma vez feito este exercício, passemos agora as dicas, observações e os retoques que ajudarão no desenho de sua carreira profissional. 7.3.3 Inteligência emocional e etiqueta profissional Foram abundantemente divulgados nos últimos anos os con- ceitos do psicólogo americano Daniel Goleman que diferen- ciam a inteligência cognitiva, aquela inteligência baseada no saber de conteúdos, teorias, resolução de equações, daquela inteligência emocional ou social que está ligada à capacidade das pessoas saberem conviver com os outros, administraremseus conflitos. Pesquisas organizacionais destacaram que esta Capítulo 7 Trabalho e Emprego no Mundo das Novas Tecnologias 171 inteligência emocional teria mais peso para definir o sucesso profissional de um indivíduo do que a outra. Como dizem os especialistas em administração e psicologia, um funcionário pode ser treinado, ensinado cognitivamente, mas não com tanta facilidade consegue-se mudar comportamentos sociais, como um desvio de conduta, por exemplo. Atualmente, torna-se extremamente importante saber ad- ministrar as emoções, aquele profissional que quer ampliar seu potencial de crescimento na carreira terá necessariamente que se qualificar emocional e socialmente. Neste sentido, segundo Rosa (2011), há algumas emoções que derrubam e outras que promovem as pessoas nas organizações: Emoções que promovem Emoções que derrubam Amor Alegria Felicidade Admiração Coragem Autoestima Crença(em si mesmo, nas possibilidades) Otimismo Confiança (nas pessoas) Tranquilidade Bom Humor Ódio Tristeza Infelicidade Inveja Medo Autorrejeição Descrença Pessimismo Desconfiança Ansiedade Mal Humor De posse deste quadro você pode fazer também o exercício de mapear quais destas emoções (checando com você mes- mo ou com a ajuda de pessoas próximas) são predominantes em sua atuação profissional. Uma vez identificadas podem 172 Sociedade e Contemporaneidade ser melhor trabalhadas para seu aperfeiçoamento emocional. Juntamente com a inteligência emocional está também a eti- queta profissional. Etiqueta? Sim, aqui entendida como “um conjunto de regras criadas a fim de que a interação entre os seres humanos aconteça dentro de princípios que trazem o respeito mútuo”(LEÃO, 2005). Vamos lá?!  Cumprimentos Cumprimente todas as pessoas que passar pelo seu ca- minho no trabalho, do segurança ao presidente da empresa. O cumprimento sempre deve partir da pessoa que tem a pri- mazia. Mulher estende a mão para o homem, os mais velhos estendem a mão para os jovens, o superior hierárquico na empresa estende a mão para aquele mais baixo na hierarquia. Homens sempre se levantam para apertar a mão, mulheres podem ficar sentadas, bem como pessoas idosas. Mulheres só levantam para cumprimentar idosos ou autoridades (LEÃO, 2005). Beijos não existem em ambientes profissionais formais.  Conversação Segundo Leão (2005), saber ouvir é a virtude das pessoas elegantes e inteligentes, fale, mas dê chance para os outros também falarem, pergunte sobre a pessoa, assim esta se sen- tirá incluída e com interesse em você. Evite palavrões, gírias, fofocas, cuidado com piadas sobre etnias, religião, time de futebol, a chance de um escorregão é sempre iminente, bem como o tom e o volume de sua fala. Se tiver que atender a um chamado no celular peça licença para seu interlocutor, mas dê a preferência a quem está fisicamente com você. Capítulo 7 Trabalho e Emprego no Mundo das Novas Tecnologias 173 Seus problemas pessoais, são pessoais, não profissionais! Jamais perca a noção exata da distância que deve haver entre seus superiores e você, em ambiente profissional temos cole- gas, não necessariamente amigos. Isso vale para o ambiente acadêmico. Uma relação mais fraterna e menos formal sem- pre deve partir do superior hierárquico.  Convites Todas as vezes que você receber um convite de alguém ou de uma organização agradeça, se for pedida a confirmação o faça o mais breve possível. Se não puder comparecer, não hesite em negar. Pior do que não ir é confirmar a presença e depois não comparecer. Se for seu líder, chefe, então... A retribuição de um convite se faz com outro convite. Sem- pre que for convidado a ir a casa de alguém pela primeira vez leve um presente, é absolutamente elegante. Quando convi- dar alguém para sair a regra é: “quem convida dá banquete”, pague a conta! A não ser que combinem ir juntos ao local ou estejam em horário de almoço na empresa. Nestas circunstân- cias, pagar a conta de um colega, por exemplo, de trabalho, pode parecer presunçoso.  Roupas O ambiente, bem como a atividade que vamos desenvolver sempre é determinante das roupas que vamos usar. Evidente- mente, se você trabalha numa loja como uma SurfShop sua roupa será completamente diferente daquela se você traba- lhasse em uma loja clássica que vende roupas masculinas for- mais, quer seja o gerente ou vendedor. Observe o seu ambien- 174 Sociedade e Contemporaneidade te de trabalho, observe como seus colegas se vestem. Cuidado para não usar a roupa para expressar-se, por mais difícil que seja, isso pode ser feito nas horas vagas, no ambiente de tra- balho o que conta é a discrição e adequação (ROSA, 2011). Por quê? Porque você está representando muitas vezes a orga- nização, seus colegas e não a você mesmo.  Facebook, Twitter, e-mails, blogs etc. (Redes Sociais) Atualmente, com as novas tecnologias, há um nível de exposição dos indivíduos jamais visto na história recente da humanidade. Vivemos uma perda de privacidade, ao mesmo tempo em que somos chamados e compelidos a refletirmos eticamente sobre nossos comportamentos que se tornaram cada vez mais públicos, por sua vez. Assim, sua imagem está diretamente relacionada com aquilo que você posta, tecla, fo- tografa, segue etc. Ao colocar em seu currículo acadêmico, em sua netaula, uma foto sua na praia em trajes de banho tomando uma cerveja com amigos, você está querendo co- municar exatamente o quê? Que imagem? De um estudante de matemática, de marketing, de engenharia de trânsito, de tecnologia da informação, disciplinado, organizado? A foto não está indicando isso. Certas fotos devem ser guardadas para a intimidade. Se tiver um Facebook, ele deve ser construído de tal ma- neira que sua mãe, sua mulher, seu marido e ou mesmo seu superior hierárquico possam olhá-lo a qualquer momento e não cause espanto algum. Hoje em dia, as empresas vascu- lham sempre as redes sociais antes da contratação de qual- quer pessoa. Seus e-mails em ambientes acadêmicos e profis- Capítulo 7 Trabalho e Emprego no Mundo das Novas Tecnologias 175 sionais devem conter assinatura, credenciais e cuidados com o português. Sempre iniciando com Caro, Prezado(a), Senhor(a), Estimado(a), pode ser finalizado com Atenciosamente, Cordial- mente, Obrigado, Abraço etc. Não encha a caixa de e-mail dos seus colegas com “correntes da sorte”, poesias de gosto duvidoso com Power Points que saltam na tela com musiqui- nhas de igual teor. Quando você precisar realmente de uma ajuda ou da solidariedade destes colegas, não será levado a sério. Inclusive, a partir de certo momento, as pessoas come- çarão a deletar você, sem sequer abrir seu e-mail. Para fina- lizar este capítulo, mas não a discussão do “Trabalho e Em- prego no Mundo das Novas Tecnologias”, queremos salientar que este capítulo teve tão somente a ideia de provocá-lo para entrar nesta interessante e imprescindível discussão sobre você e seu futuro profissional! Recapitulando O capítulo tratou sobre o trabalho e o emprego no mundo das novas tecnologias. Neste sentido, demonstrou que nós transitamos de uma economia de exploração lá em nossos primórdios da colonização portuguesa para outras formas de economia até chegarmos à economia do conhecimento, cuja exigência, de trabalho e emprego, é completamente diferente na contemporaneidade. Nesta nova economia, o conhecimento e a informação (capital intelectual) são fundamentais para podermos ter em- pregabilidade. O emprego passa a ser além de temporário, 176 Sociedade e Contemporaneidade não mais para a vida toda, também “sem fronteiras”. Este novo “trabalhador” não faz mais uma “carreira organizacio- nal”, subindo postos dentro da empresa na qual trabalha, mas exercendo atividadespara além das fronteiras da organiza- ção, ou seja, fazendo uma “carreira sem fronteiras”. Este novo trabalhador terá de ser, acima de tudo, um empreendedor na sua profissão, investindo na sua formação permanente, plane- jando sua carreira, que exigirá para além de uma inteligência cognitiva, uma inteligência emocional. Referências FRIEDMAN, Thomas. O mundo é plano. Uma breve História do século XXI. 3. ed. Lisboa: Actual, 2006. MANTEGA, Guido. A economia política brasileira. Petrópo- lis/RJ: Vozes, 1990. PINSKY, Jaime (Org.). Cultura e elegância. São Paulo: Con- texto, 2005. REVISTA EXAME. Edição 1.022. Ano 46, n. 16, 22/8/2012. RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro. A formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Cia. das Letras, 2005. ROSA, José Antonio. Carreira: planejamento e gestão. São Paulo: Editora Série Profissional, 2013. STEWART, Thomas A. Capital intelectual. A nova vantagem competitiva das empresas. São Paulo: Campus, 1998. Capítulo 7 Trabalho e Emprego no Mundo das Novas Tecnologias 177 VELOSO, Elza Fátima Rosa. Carreiras sem fronteiras e tran- sição profissional no Brasil. São Paulo: Atlas, 2012. ZAKARIA, Fareed. O mundo pós-americano. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. Atividades 1) De acordo com o texto, o Brasil passou pela transição en- tre vários modelos de economia, entre eles, a economia baseada nas extrações do pau-brasil nas costas litorâneas com a utilização da mão de obra indígena no início da colonização. Posteriormente, no século XX, com êxodo ru- ral expressivo de agricultores para os centros urbanos, a expansão da mão de obra assalariada, a criação do salá- rio mínimo, da carteira de trabalho e de toda a legislação trabalhista moderna edificada a partir da Era Vargas, o país teve outro modelo de economia. São respectivamente dois modelos descritos acima: a) Economia agroexportadora e industrial. b) Economia de exploração e industrial. c) Economia do Conhecimento e industrial. d) Economia de exploração e agroexportadora. e) Economia de exportação e agroexportação. 2) Com base neste capítulo, as fontes de riqueza, no Brasil contemporâneo, não são mais os recursos naturais ou o 178 Sociedade e Contemporaneidade trabalho físico dos séculos pretéritos, mas o conhecimento e a comunicação, o capital intelectual. Nessa nova econo- mia, a disputa, agora, é: a) Pela posse, produção e distribuição de bens agrícolas em escala global. b) Pela posse, produção e distribuição de mercadorias em escala global. c) Pela posse, produção e distribuição de commodities em escala global. d) Pela posse, produção e distribuição do conhecimento em escala global. e) Pela posse, produção e distribuição de bens duráveis em escala global. 3) De acordo com o texto, as emoções que derrubam qual- quer um no ambiente profissional são: a) Amor - Alegria - Felicidade. b) Admiração - Coragem - Autoestima. c) Ódio - Tristeza - Infelicidade. d) Ódio - Tristeza - Amor. e) Desconfiança - Ansiedade - Bom humor 4) De acordo com o que foi lido neste capítulo, o uso das novas tecnologias nos permite: a) Uma sempre completa e segura privacidade. Capítulo 7 Trabalho e Emprego no Mundo das Novas Tecnologias 179 b) Uma não exposição de nossas vidas. c) Um anonimato completo daquilo que postamos e se- guimos. d) Uma completa privacidade e não exposição de nossas vidas. e) Uma exposição jamais vista dos indivíduos e uma completa perda de privacidade que nos obriga a pen- sarmos eticamente sobre aquilo que postamos e segui- mos. 5) De acordo com este capítulo, o empreendedorismo pode ser visto como: a) O ato de empreender um negócio, uma empresa ou um comércio. b) O ato de empreender um negócio, um comércio ou uma loja. c) O ato de mobilizar recursos externos para crescer e alcançar seus objetivos na carreira. d) O ato de mobilizar recursos externos para crescer e alcançar objetivos para sua empresa. e) O ato de empreender um pequeno negócio comercial ou industrial. Rodrigo Perla Martins1 Capítulo 8 O Brasil no Cenário Internacional da Contemporaneidade1 O Brasil no Cenário Internacional... 1 Professor de História, Doutor em História pela PUCRS e Mestre em Ciência Polí- tica pela UFRGS. Capítulo 8 O Brasil no Cenário Internacional... 181 Introdução O ano 2000 chegou para o Brasil como um misto de espe- rança e preocupação. A desvalorização da moeda – um ano antes – a inserção externa brasileira, a desigualdade social e um número expressivo de pobres fazia com que o cenário na- cional não fosse o que se almejava. Desde a década de 50 se tinha a percepção que o Brasil seria “o país do futuro”. Mas no princípio do novo século pa- recia que o futuro tinha chegado, mas não ao Brasil... Pelo menos era isso que se percebia no país, já que havia incer- tezas econômicas, reformas sociais reprimidas e faltava – de uma maneira geral – mais protagonismo externo para o país inserir-se de maneira mais altiva no cenário internacional. Isto é, não aceitando imposições políticas e econômicas sem ne- nhum tipo de crítica e proposição. Apesar disso, lentamente, o país tinha iniciado uma gui- nada em suas opções externas de inserção internacional, bem como iniciou uma reorganização interna (política, econômica e social) forte. Politicamente falando, novos agentes atuavam no cenário nacional tentando construir uma agenda onde seus interesses estivem contemplados em uma democracia relativa- mente consolidada. Economicamente, o Plano Real passava por uma reorganização importante e, de uma certa maneira, demandada pela população. E socialmente, políticas públicas importantes que buscavam uma inclusão e que respondiam a anseios historicamente devidos à maioria dos brasileiros. 182 Sociedade e Contemporaneidade A articulação entre o cenário interno e externo foi o que diferenciou o país a partir dos anos 2000. Isto é, as ques- tões internas refletiram no cenário internacional e vice-versa. Não que isso seja uma novidade na história do país, mas sim, parece que um certo protagonismo externo em suas posições políticas muitas vezes carregaram consigo as opções internas no campo social, político e econômico. Especificamente na questão social e política interna a Constituição de 88 pode ser considerada um marco histórico. Conforme José Murilo de Carvalho, a consolidação democrá- tica aconteceu na Carta de 1988. Nela, grupos sociais (Sem Terras, Negros, Índios e excluídos em geral) conquistaram o direito de ocupar a agenda pública com suas demandas so- ciais. Apesar disso, muitas medidas necessitavam ser tiradas do papel de maneira objetiva. Isto é, transformar o texto cons- titucional em políticas públicas de qualidade. Desse conjunto de expectativas, desejos e consolidações sociais, como o Brasil articulou, no período histórico, entre o ano 2000 e 2014, as questões internas e de inserção externa necessárias no cenário internacional? Para essa pergunta ire- mos elencar, a seguir, dois momentos que dividimos em ques- tões internas e externas. Isto é, apontaremos questões brasi- leiras do período que se articulam à questão externa. Isto é, como o país inseriu-se no cenário internacional a partir de decisões de cunho interno que influenciaram no cenário inter- nacional. Capítulo 8 O Brasil no Cenário Internacional... 183 8.1 Brasil – questões internas Internamente o país também sofreu mudanças interessantes. Primeiramente o debate de ideias - que influenciaram grupos progressistas mundialmente – no I Fórum Social Mundial (FSM) que aconteceu na cidade de Porto Alegre – no Rio Grande do Sul - no verão de 2001. O mesmo discutiu e refletiu sobre “um outro mundo possível”. Esse encontro percorreu diversas cida- des do mundo – derivandomuitas vezes em fóruns temáticos – e enfrentando debates e políticas com ideias de contracor- rente. De alguma forma a sociedade organizada brasileira foi propositiva e não somente reativa em relação ao debate sobre o capitalismo mundial. Do ponto de vista eleitoral, podemos afirmar que a corre- lação de forças políticas na sociedade brasileira alterou-se e, a eleição presidencial de 2002, definiu – de alguma forma – a mudança do grupo político no poder. Luiz Inácio Lula da Silva assumiu a presidência da República e com ele houve conti- nuidades e alterações de opções que fizeram com que o país se apresentasse ao mundo de maneira diferente – inclusive propondo alternativas a impasses diplomáticos, servindo de exemplo para construção de políticas de combate à fome e à pobreza no mundo. As correções de rumo que a moeda (Real) sofreu serviram de base para até mesmo as reformas sociais que aconteceram no período. Isso, de alguma forma, é a evidência de continui- dade possível entre o período FHC e Lula. A desvalorização de 1999 e os ajustes de rota de 2000 até 2005 fizeram com que 184 Sociedade e Contemporaneidade o país conseguisse manter inflação baixa e contas públicas organizadas. Socialmente as políticas públicas, a partir de 2000, imple- mentadas atenderam demandas históricas de grande parte da população mais carente do país. Fome Zero (depois substi- tuído pelo programa de renda “Bolsa Família”), Lei 10639, PROUNI, FIES, Minha Casa – Minha Vida, REUNI, Ciências sem Fronteiras. Pretendemos aqui mostrar as possíveis conti- nuidades de tais políticas. As mesmas podem ter mudado de nome ao longo do processo e até mesmo terem alterado seus conteúdos. Mas a perspectiva aqui colocada tem como base a necessidade de políticas públicas e não se a mesma foi criada por este ou por aquele governo. Assim, os programas e políti- cas públicas, de uma maneira geral, atenderam as demandas dos movimentos sociais organizados e também a população que necessita das mesmas demandas, mas sem uma organi- zação direta. Se pegarmos o exemplo da questão étnico-racial no Brasil (especificamente a questão negra), a partir da lei 10639/2003, veremos que à Secretaria de Políticas Públicas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), criada em março de 2003, “com- pete assessorar direta e imediatamente o Presidente da Repú- blica na formulação, coordenação e articulação de políticas e diretrizes para a promoção da igualdade racial [...]”. A partir daí propõe uma forma de tratamento para a questão racial no cotidiano escolar ao estabelecer “novas diretrizes e recomen- dar práticas pedagógicas que reconheçam a importância dos africanos e afro-brasileiros no processo de formação nacio- nal”. Capítulo 8 O Brasil no Cenário Internacional... 185 O PROUNI, data do ano de 2005 e financia integralmente as vagas aos estudantes ou 50% do curso em instituições pri- vadas de ensino superior no Brasil (MEC – site: prouniportal. mec.gov.br). Criado no primeiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva, o programa trabalha nos parâmetros da renúncia fiscal por parte do Estado para financiar o custeio das vagas compradas nas instituições de ensino superior. As instituições de ensino recebem isenção de impostos. Esta compra de va- gas pelo Estado colaborou sobremaneira para o maior acesso ao ensino superior por parte da população de baixa renda. Estima-se que passados 10 anos de implementação do pro- grama, mais de 1 milhão de egressos tenham sido formados nas IES privadas e comunitárias em todo Brasil. Este programa atende a população jovem e universitária que estava fora do ensino superior. O FIES atende aqueles que acessam o ensino privado superior e recebem um financia- mento do Estado brasileiro. Com carência e pagamentos com juro baixo, o programa sofre ajustes constantes e atinge boa parte da população excluída dessa etapa de ensino. Até o início do ano 2000, o Brasil tinha menos alunos que o Paraguai – em números relativos – no quesito ocupação do ensino superior. De uma maneira geral, é somente depois do PROUNI – em um primeiro momento – e do FIES (a partir de 2010) que o Brasil consegue aproximar e até mesmo superar aquele país (MEC – site: prouniportal.mec.gov.br). Já o FIES (Fundo de Financiamento Estudantil) é um pro- grama também do MEC que tem como objetivo financiar a graduação no ensino superior em instituições privadas e co- 186 Sociedade e Contemporaneidade munitárias. Por sua vez, o mesmo tem taxas atraentes para os alunos. Com pagamentos simbólicos trimestrais e carência de 18 meses para começar a pagar depois do fim do curso. Sendo que o pagamento do mesmo será feito em três vezes o tempo financiado do curso acrescido de 12 meses (MEC – site: sisfiesportal.mec.gov.br). De maneira específica os cursos de licenciatura ainda tem mais uma vantagem. Esta versa sobre o abatimento de 1% do total devido caso seja professor em rede pública com no mínimo 20 horas de contrato (MEC – site: sis- fiesportal.mec.gov.br). O crescimento da rede federal pública de ensino superior contribuiu de maneira determinante para alcançar a meta de estudantes brasileiros no ensino superior. Rapidamente pode- mos citar o caso do REUNI (Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais) nas IES públicas federais, a criação dos cursos tecnólogos em todas IES (públicas, privadas e comunitárias) e a disseminação dos cursos à distância que fizeram crescer a oferta de ensino supe- rior no país. O aumento de estudantes na educação superior foi resul- tado direto das políticas criadas. Dois programas proporciona- ram isso na questão do acesso de cidadãos ao ensino superior privado, assim como o aumento de vagas públicas no sistema federal de ensino a partir da construção de institutos federais de ensino e até mesmo da criação de novas universidades pú- blicas federais. Politicamente as continuidades entre o governo de Fer- nando Henrique Cardoso e Lula – em um primeiro momen- Capítulo 8 O Brasil no Cenário Internacional... 187 to consolidou a democracia. Isso porque muitas ações foram mantidas, outras alteradas e novas propostas. Estas últimas de cunho social que foram bem recebidas no planeta. O exem- plo do Bolsa Família até hoje recebe premiações pelo mundo, bem como é copiado por diversos países – até mesmo euro- peus. Inclusive teve ampliação a partir de 2009 para combater a crise econômica internacional. Em 2009 chegou-se a 12,4 milhões de famílias que acessavam tal política. Em 2015 o Brasil saiu do mapa da fome no mundo, con- forme a ONU. E o programa Bolsa família teve papel prepon- derante nesta conquista da sociedade brasileira. 8.2 Brasil – Questões externas No sistema internacional, o Brasil se colocou como fornecedor de matérias-primas importantes para parceiros políticos e até mesmo antigos mercados externos. Apesar do volumoso tama- nho de recursos financeiros que o Brasil prospectou com essa venda, ainda se faz necessário uma política industrial coerente e consolidada para que o perfil econômico brasileiro mude de fato. As commodities vendidas, ao longo do período aqui estu- dado, estavam valorizadas comercialmente e o Brasil aprovei- tou o momento. Os preços das mesmas eram altos e a deman- da pelos produtos também. Os Jogos Pan Americanos no Rio em 2007, a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2015 “trouxeram” o mun- 188 Sociedade e Contemporaneidade do ao Brasil e, este, aos olhos do mundo. Dentro de um cir- cuito de eventos estrangeiros, o país consolidou posição de importância entre os países que podem receber esse tipo de evento. Apesar de manifestações democráticas discutindo a validade dos mesmos em um país ainda com muitas carências. Temos ainda a questão do descobrimentodo pré-sal e de sua importância econômica para o Brasil. Apesar da desvalori- zação do preço de mercado do produto, a reserva encontrada abre possibilidades de futuro para o Brasil na autossuficiência do produto na questão interna e uma certa independência ex- terna. A aproximação do Brasil com os países do sul do mundo – sem deixar de atentar para as relações com o norte – fez com que o país mudasse suas relações políticas, comerciais e estratégicas na inserção internacional. As empresas brasileiras foram estimuladas a exportar para mercados abertos por essa nova inserção externa. O Brasil forneceu mercadorias para África e Ásia. Estimulou contatos a partir de pontos convergen- tes com países estrategicamente interessantes (Rússia, Índia, China e África do Sul). Não teve preconceito em relação à aproximação com países fora do eixo ocidental. Muitas vezes financiando obras onde as empresas brasileiras foram deman- dadas a atuar, gerando emprego e renda no Brasil. Além dis- so, conseguiu uma inserção externa – politicamente falando – que não se tinha registro em tempos atuais. Um aumento significativo de embaixadas (na África, principalmente) que fi- zeram com que o Brasil aumentasse seu peso no cenário in- ternacional. Isso sem contar as inúmeras viagens presidenciais aos países parceiros. Dentre as tantas aberturas de janelas de Capítulo 8 O Brasil no Cenário Internacional... 189 oportunidade para o país, essa atuação trouxe também mer- cados externos de consumo de produtos brasileiros. Essa questão até trouxe novamente a demanda de ocupar um cargo no Conselho de Segurança da ONU (demanda bra- sileira ainda da década de 90) e com isso, propor um reforma não só deste Conselho, mas também da ONU como um todo. Também na questão internacional, o Brasil atuou em fóruns ex- ternos tentando liderar discussões que colocaram o país com perfil de liderança no cenário externo exercendo um grande protagonismo. Essa liderança construída trouxe demandas maiores no cenário internacional. Até mesmo mediações em conflitos em regiões que o Brasil tinha pouca influência. A proposição de grupos diplomáticos paralelos aos exis- tentes fez do Brasil uma liderança internacional de grande respeito por parte de seus pares. A figura do presidente Lula era respeitada por líderes internacionais. E contíguo a isso, as políticas sociais brasileiras ficaram conhecidas pelos impactos na realidade nacional, mas também através de discursos pre- sidenciais em fóruns internacionais, onde as mesmas foram copiadas e adaptadas em outros países. Além disso, pelo lado político da inserção externa, o Brasil propôs articulações entre países que ficavam à beira de deci- sões internacionais. E a partir de então eram até mesmo ouvi- dos e propositivos. Os casos do G20 e dos BRICS são exemplo desta atuação brasileira. O século XXI chegou ao Brasil, mas o país também alterou seu perfil interno e externo e, assim, conseguiu influenciar decisões em fóruns externos de grande importância no sistema internacional. 190 Sociedade e Contemporaneidade Os programas de envio de alunos brasileiros para o ex- terior (Ciências sem Fronteiras) e a chegada de estrangeiros nos intercâmbios colocaram o Brasil no cenário internacional de mobilidade acadêmica. As trocas entre ida de alunos bra- sileiros para universidades estrangeiras e a cooperação com outros países a partir da chegada ao Brasil de alunos estran- geiros (principalmente na colaboração com países africanos ao receber estudantes deste continente – onde até mesmo universidades foram criadas com auxílio do Brasil), proporcio- naram uma abertura do país para o mundo. A diversidade interna foi reforçada e o Brasil, assim, pode afirmar que está conectado ao mundo nessas vagas de cooperação científica internacional. Isso sem falar na chegada de trabalhadores estrangeiros para morar no Brasil. Refugiados e migrantes do mundo, bem como trabalhadores da Europa e dos EUA, que aportaram no Brasil, atraídos pelas grandes obras e pelo crescimento econô- mico dos últimos anos e até mesmo, fugindo de crises de todas ordens em seus países. O início do século XXI trouxe ainda a reaproximação do Brasil com o continente africano. A eleição do primeiro presi- dente operário, no Brasil, também trouxe retomadas e inova- ções nesta relação. A partir de um padrão de conduta externa – construído desde 1960 – passando por relações low profile ente 1990 e 2002 – o Brasil procurou reconstruir as relações com o continente em um novo patamar. Ao contrário da década de 70 que o discurso da africa- nidade era somente para estabelecer relações econômicas Capítulo 8 O Brasil no Cenário Internacional... 191 e comerciais, a política externa brasileira do governo Lula (2003-2010) buscava apresentar o Brasil como um parceiro para estabelecer relações com base na dívida histórica que o Brasil tem com a população afrodescendente nativa e com a África de uma maneira geral, além, é claro, da perspectiva de colaboração acima de questões ideológicas ou diretamente econômica. Não somente o pragmatismo dos anos 1970 se fazia pre- sente nos contatos com o continente, mas também e principal- mente pelas novas concepções nesta aproximação. Se antes o continente era visto somente como mero fornecedor de ma- térias-primas e consumidor de manufaturados, agora, a pro- posta brasileira era: “vamos juntos buscar o desenvolvimento em todos níveis”. Tanto é que esta reaproximação tinha base social ampla na sociedade brasileira e propunha uma agenda envolvente que tratava de diversas questões importantes para sociedades do continente africano e do Brasil. Neste governo o mote foi a abertura de embaixadas e con- sulados ao longo do continente, sendo que a dita diplomacia presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva pode ter sido deter- minante para a aproximação Brasil-África neste momento. As parcerias econômicas, retomada de contatos e abertura de mercados para produtos brasileiros e presença comercial de empresas privadas do Brasil proporcionaram um estreitamento de relações. Pelo lado científico, podemos dizer que houve um incenti- vo, por parte do Brasil, de viagens e intercâmbio de estudantes africanos para universidades brasileiras. Cabe ressaltar, tam- 192 Sociedade e Contemporaneidade bém, a criação de laboratórios para produção de remédios na África no combate à AIDS. Empresas estatais brasileiras também se instalaram no con- tinente para capacitação agrícola como no caso da EMBRAPA (Empresa brasileira de pesquisa agropecuária) e até mesmo o SEBRAE (Serviço brasileiro de apoio a micro e pequenas em- presas) atuando como capacitadores de mão de obra na Áfri- ca, entre outras ações dos Ministérios da Educação, da Cultura e da Ciência e Tecnologia que estabelecem vários programas de cooperação. Por último, cabe lembrar do bloco econômico e político que inclui Brasil e um país africano, no caso específico, a Áfri- ca do sul, a partir do BRICS. O mesmo nasceu de maneira informal a partir de atuação com agenda comum em foros in- ternacionais. Esta agenda externa comum que inclui questões comerciais, políticas e econômicas (dentre outras) permitiu a criação deste grupo que atua junto em demandas específicas no sistema internacional dominado por potências econômicas. Como finalização, podemos apontar que o futuro do Brasil foi construído a partir da década de 90 – quando as questões econômicas começaram a ser resolvidas e depois nos anos 2000 quando a questão social e democrática foi consolidada. As articulações que podemos apontar entre cenário interno e externo ou então a base do protagonismo brasileiro no exte- rior foi resultado das mudanças que ocorreram ao longo do ano 2000, principalmente no que tange às políticaspúblicas objetivadas. Capítulo 8 O Brasil no Cenário Internacional... 193 Apesar de tudo, o Brasil continua sendo uma sociedade com desigualdades sociais extremas, com níveis de pobreza inaceitáveis (alguns números falam em 20 milhões de brasilei- ros que ainda não acessaram as políticas públicas vigentes). Enfim, uma realidade inaceitável e o enfrentamento em seu início. Se na década de 50 o Brasil era o país do futuro, parece que entre os anos 2000 e 2014 o futuro chegou. E esta maio- ridade trouxe muita responsabilidade para toda a nação. Recapitulando Vimos no texto que a primeira década do século XXI, no Brasil, foi marcada por desafios e avanços, bem como esperanças e algumas mudanças em questões sociais clássicas no país. Ao longo do século passado buscamos avanços de ordem econô- mica que resultariam em alterações sociais. O ano de 1988 é a chave para entendermos as mudanças que construímos enquanto nação. A constituição cidadã foi projetada como um instrumento indicador de mudanças. Mas isso não foi possível em um primeiro momento, já que as mesmas não surgem de maneira mágica. A partir do Fórum Social Mundial se refletiu a respeito daquilo que se queria construir socialmente para a maioria da população. Obviamente que o Brasil não é, nem nunca foi uma ilha. Assim, suas opções políticas sempre esti- veram articuladas a questões externas importantes para a rea- lidade brasileira. 194 Sociedade e Contemporaneidade Parece que a chegada de Lula ao poder, em 2003, colocou em prática algumas demandas há muito exigidas pela cidada- nia como um todo. Foi possível colocar uma certa agenda so- cial em primeiro plano da política nacional até 2010. Diversas políticas públicas (Bolsa Família, Cotas raciais, PROUNI, FIES, Minha Casa - Minha Vida etc.) foram executadas bem como a economia interna do país foi dinamizada a partir de uma maior ação do Estado. Dessa forma, em torno de 40 milhões de pes- soas foram incluídas ao mercado de consumo, ao sonho da casa própria e ao ensino superior. Assim como questões raciais foram colocadas em evidência no país a partir das Cotas Racias no ensino público. Pelo lado externo, um maior protagonismo do país acelerou contatos com países de mesmo perfil e arti- culou medidas de cunho integrador. A África foi um dos alvos na perspectiva externa de inserção brasileira e de integração. Se iniciamos o século com certo ceticismo, penso que chega- mos ao final da primeira década com um perfil diferenciado do país. Referências CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil: o longo caminho. Rio de Janeiro: Ed. Record, 2015. CERVO, Amado L. Inserção Internacional. Formação dos conceitos brasileiros. São Paulo: Saraiva, 2008. GRABOWSKI, Gabriel. Políticas públicas, Estado e socieda- de. In: MARTINS, Rodrigo Perla e MACHADO, Carlos R. S. Capítulo 8 O Brasil no Cenário Internacional... 195 Identidades, Movimentos e Conceitos: Fundamentos para realidade brasileira. Novo Hamburgo: Ed. Feevale, 2013. VIZENTINI, Paulo G. F. Política externa brasileira: De Vargas a Lula. São Paulo: Perseu Abramo, 2003. Atividades Marque a alternativa conforme solicitado. 1) Qual o lema do Fórum Social Mundial (FSM) e qual a ci- dade do Brasil o mesmo foi criado? Respectivamente. a) Um outro planeta é possível - Rio de Janeiro. b) Um outro mundo é possível - Porto Alegre. c) Mudança mundial é possível - Curitiba. d) Uma outra cidade é possível - São Paulo. e) Nenhuma das respostas acima. 2) Sobre a Constituição de 1988 - a mesma é conhecida como: a) Constituição de Direitos. b) Constituição dos Cidadãos. c) Constituição Cidadã. d) Constituição da Cidade. e) Constituição pós-Ditadura. 196 Sociedade e Contemporaneidade 3) Principal política pública brasileira reconhecida e premia- da por diversos países que ajudou a combater a fome e a miséria no Brasil: a) Fome Zero. b) Vale Gás. c) PROUNI. d) Bolsa de doutorado. e) Bolsa família. 4) O protagonismo externo brasileiro, a partir de 2003, teve como um de seus principais objetivos: a) A Europa e seu mercado interno. b) Os EUA e seu mercado interno. c) A Ásia e seus recursos naturais. d) A África e as parcerias de desenvolvimento. e) Nenhuma das respostas acima. 5) Desde o período da escravidão, no Brasil, existem mo- vimentos sociais que lutaram pelo fim do trabalho escra- vo. Atualmente, os mesmos conquistaram avanços sociais importantes para as populações afrodescendentes, desde 1988. Assinale a alternativa que apresenta um avanço es- pecífico relacionado com essa temática. a) Política de cotas raciais. b) Bolsa escola. Capítulo 8 O Brasil no Cenário Internacional... 197 c) Programa universidade para poucos. d) Bolsa de mestrado. e) Nenhuma das respostas acima. Paulo G. M. de Moura1 Capítulo 9 Organizações e Participação Política e Social no Mundo Contemporâneo 1 Bacharel em Ciências Sociais (1992), mestre em Ciência Política pela UFRGS (1998); doutor em Comunicação Social pela PUCRS (2004) e especialista em Edu- cação à Distância pelo Senac/RS (2009). Professor Adjunto com Doutorado da ULBRA. Atua na área de Ciência Política com ênfase em Estudos Eleitorais e Partidos Políticos e na Área de Comunicação Política e Marketing Político. Capítulo 9 Organizações e Participação Política e Social no... 199 “É óbvio que as elites organizadas existentes em todas as sociedades humanas desde o princípio da história” sem- pre tentaram se apropriar de todos os recursos para “con- quistar e/ou preservar o poder. Dizer isso é o mesmo que dizer que em todas as sociedades humanas (excetuando- -se o breve intervalo dos gregos ou, mais propriamente, dos atenienses dos séculos VI e V antes da Era Comum e, em parte, algumas sociedades dos últimos dois séculos) tivemos regimes autocráticos e não democráticos. Todo o tempo histórico (considerando como início da chama- da história o surgimento do primeiro sistema autocrático estável, com o advento do Estado sumeriano, provavel- mente em Kish, na antiga Mesopotâmia, há cerca de seis milênios) foi, praticamente, tempo de autocracia; não de democracia. Se pudéssemos contar o tempo histórico (das chamadas civilizações) como um dia de 24 horas, tivemos democracia (ou melhor, experiências localizadas de democracia), apenas por 96 minutos (e olhe lá!).” Au- gusto de Franco2 Introdução O exercício da liderança é uma marca das sociedades huma- nas. Na pré-história, quando a humanidade vivia em bandos nômades, a hierarquia de poder e a estratificação social eram extremamente simples. Cada sociedade cria o seu subsistema 2 www.diegocasagrande.com.br, coluna de Augusto de Franco acessada em 4/5/2007. 200 Sociedade e Contemporaneidade político. Tal como acontece entre lobos e leões, havia um líder sobre o bando de liderados e vigorava a lei do mais forte. Na medida em que a humanidade foi caminhando em direção à civilização, foi também, gradativamente, sofisticando as estru- turas dos sistemas sociais e políticos; desenvolvendo formas específicas de organização e de exercício do poder. A liderança social e o poder político ao longo da história, sempre estiveram associados às formas de organização social e ao nível de distribuição do direito de participação da socie- dade nas decisões coletivas que lhe dizem respeito. Se o poder se encontra mais concentrado nas mãos de um indivíduo, de grupos oligárquicos, ou do Estado do que distribuído na socie- dade, o sistema político pode ser considerado autoritário, ou, autocrático, e vice e versa, se mais distribuídos para um gran- de número ou para a maioria dos membros dessa sociedade, seu sistema político é considerado democrático. Assim como acontece nas esferaseconômica, social e cul- tura, também a esfera política da sociedade contemporânea passa por profundas transformações. Entender o que se passa nessa dimensão da nossa vida em sociedade também é impor- tante para sabermos nos situar nesse mundo em constante e acelerada mudança. 9.1 O poder nas sociedades antigas Nas sociedades antigas, excetuados os casos referidos por Au- gusto de Franco na citação acima, predominava o exercício Capítulo 9 Organizações e Participação Política e Social no... 201 do poder despótico ou oligárquico, exercido com predomínio do uso da força. Os governantes eram vistos como deuses ou intermediários da relação entre o povo e os deuses, e, como consequência, o povo não participava das tomadas de deci- sões sobre seu destino, já que a justificativa para o poder dos governantes era de origem religiosa. Isto é, entendia-se que o direito ao poder era desígnio divino. Religião e poder cami- nharam juntos ao longo de séculos. Na sociedade ocidental a separação entre o Estado e a Igreja somente aconteceu no final da Idade Média, quando teve início a Era Moderna. Na Idade Média o sistema social organizava-se a partir da propriedade da terra e os senhores feudais, seus proprietários, deliberavam os assuntos políticos (guerra, impostos, punição de crimes, etc.), por sua livre vontade, mas sempre aconse- lhados por membros da hierarquia da Igreja, que, com eles compartilhavam o exercício do poder e se constituía na úni- ca organização hierarquizada e presente em todo o território europeu e parte das regiões antes integrantes do Império Ro- mano, das quais os europeus não haviam sido expulsos pelos antigos povos bárbaros, civilizados por gregos e romanos nos séculos anteriores. 9.2 O poder na sociedade moderna Com a irrupção da Era Moderna, o ressurgimento do fenôme- no urbano na esteira das revoluções comercial e industrial, as formas de organização dos sistemas social, econômico, políti- co e cultural, típicos da sociedade Antiga, de base econômica 202 Sociedade e Contemporaneidade agrícola e artesanal, foram desestruturadas pelas mudanças provocadas pelas revoluções Comercial e Industrial. O sistema de produção industrial baseado na especializa- ção do trabalho, na produção através de linhas de montagem e no uso intensivo de máquinas, então, substituiu o modo de produção feudal, desencadeando o surgimento do modo de produção capitalista, e depois do socialista. Estes dois sistemas econômicos e seus respectivos regimes políticos, embora ideo- logicamente diferentes do pondo de vista da relação do Estado com a economia e a sociedade, tinham seus sistemas econô- micos baseados na produção fabril. O surgimento e a expan- são do comércio, a mecanização da agricultura e o surgimen- to das fábricas deslocaram o meio de sobrevivência do povo para as cidades. Em pouco tempo, a população, que antes era pouco numerosa e vivia isolada e fragmentada nas proprie- dades feudais, migrou para as cidades, concentrando-se no entorno dos palácios e catedrais, sedes do poder. Tornou-se, então, necessário criar formas de organização e participação dessas pessoas nas decisões sobre o seu destino coletivo das sociedades urbanas. As sociedades capitalista e socialista desenvolveram, en- tão, organizações sociais e sistemas de participação do povo nas decisões coletivas, cuja essência baseava-se na legitima- ção pelo apoio da maioria. Surgiu, dessa maneira, a chamada democracia representativa. Essa forma de participação polí- tica baseia-se na realização de eleições periódicas, às quais concorrem candidatos inscritos em partidos políticos, na busca de votos para receberem o aval do povo ao seu acesso ao exercício do poder nos parlamentos, tribunais e governos. Nos Capítulo 9 Organizações e Participação Política e Social no... 203 regimes socialistas, os mecanismos de votação e delegação de representação são um pouco diferentes. Enquanto nos re- gimes de tipo liberal-democrático a votação é direta, secreta e universal, nos regimes socialistas as votações e escolhas de representantes ocorrem em assembleias, e os representantes, originalmente, eram eleitos como delegados de seu local de trabalho, ou moradia. Além dessas diferenças, sob o socia- lismo existe apenas um partido e há restrições às liberdades democráticas, o que não acontece nas democracias liberais. Para viabilizar o funcionamento desse sofisticado sistema criou-se um enorme aparato burocrático encarregado da ad- ministração. Aos representantes eleitos caberia a função de le- gislar, estabelecer diretrizes políticas e administrativas e tomar decisões, e ao quadro de funcionários permanentes caberia a responsabilidade de garantir a continuidade do funcionamen- to dos serviços públicos, independentemente dos representan- tes eleitos periodicamente para definir os rumos políticos dos governos. Nos regimes socialistas, varia a forma como essas peças se encaixam como engrenagens do sistema, pois, não havendo alternância de partidos no poder, devido à existência de um partido tido como detentor do conhecimento sobre os rumos que a sociedade deve tomar, em geral, os representantes elei- tos se convertem em homologadores das decisões do partido. Essa distorção, inicialmente mais evidente nos regimes socia- listas, no entanto, se instalou também nas democracias libe- rais, com a intromissão cada vez maior dos governos sobre as funções dos legisladores através de artifícios normativos e políticos. 204 Sociedade e Contemporaneidade A finalidade desse aparato, na teoria, tanto em um caso como no outro, seria a de redistribuição dos recursos públicos arredados como impostos ou como resultado das empresas do Estado. Nas democracias liberais esses recursos são dispu- tados pelas forças sociais organizadas em sindicatos, grupos de pressão e partidos, dentre outras formas de associação. Nos regimes socialistas os planejadores da economia à testa do Estado são os tomadores de decisões sobre o destino dos investimentos e do gasto público. A origem dessas estruturas de gestão política e administrati- va da sociedade moderna é o modelo de estrutura administra- tiva que surgiu nas fábricas, no momento em que as empresas foram crescendo e necessitando cada vez mais de especialistas em administração para dar conta da crescente complexida- de provocada pela proliferação do trabalho especializado e a decorrente compartimentalização das estruturas de produção. Aos administradores, portanto, caberia a função de integrar e intermediar as relações entre os tomadores e executores das decisões, separados por tarefas, atividades e departamentos responsáveis pelas diferentes funções na cadeia produtiva ou burocrática. O sociólogo alemão Max Weber foi quem primeiro perce- beu que esse tipo de sistema, que foi criado para tornar as or- ganizações modernas mais eficientes e produtivas, apresenta- va distorções que tenderiam a produzir o resultado oposto ao esperado por quem o inventou e desenvolveu. Com o tempo, todas as estruturas administrativas das organizações modernas foram assumindo esse modelo. Capítulo 9 Organizações e Participação Política e Social no... 205 9.3 A lógica do sistema A radiografia da estrutura é a de um organograma com uma cabeça no topo, onde se situa o comando central da organiza- ção, que no passado se compunha, em geral, pelos donos do negócio nas empresas privadas. Dessa cúpula parte o fluxo de comandos. O sentido das informações partidas desse núcleo decisor era vertical, unidirecional e descendente. No miolo do organograma, isto é, nas estruturas interme- diárias situadas no espaço entre quem decide e quem faz, as ordens disparadas pela cúpula caem num labirinto de depar- tamentos especializados que, em tese, deveriamtorná-la mais nítida, adequada e exequível, do ponto de vista do objetivo de quem deu origem ao comando. No entanto, tal como acon- tece na brincadeira de “telefone sem fio”, na qual crianças sentam-se uma ao lado da outra em sequência, a primeira conta uma pequena história que deve ser recontada para o amigo sentado logo ao lado, e assim por diante, até que o último da fila, depois de ouvir a história que lhe é repassada pelo penúltimo, expõe a todos o que ouviu. Como diz o ditado popular, “quem conta um conto aumenta um ponto”, a história contada no fim da fila raramente coincide com as informações que deram origem no outro extremo da linha. Dessa forma, ao percorrerem os labirintos dos departamen- tos administrativos das organizações modernas, as decisões e comandos que deveriam gerar um determinado resultado executado pelos integrantes da base do organograma, rara- mente se traduziram naquilo que o emissor esperava ao emitir o comando, pois as informações contidas nas ordens são di- 206 Sociedade e Contemporaneidade luídas e distorcidas em seu conteúdo estratégico no trâmite da mensagem da cúpula que a produz ou reproduz para a base que deve obedecer aos comandos superiores. Os indivíduos da base do organograma devem exercer suas funções como engrenagens de uma esteira mecânica sem precisar saber quais os motivos que originaram o coman- do, o contexto e os objetivos gerais que sua tarefa, articulada com as demais tarefas sincronizadas das outras engrenagens, deve gerar como resultado final. As peças inferiores dessa es- teira são alimentadas com informações parciais e elementa- res, apenas suficientes para a execução repetitiva de ações sincronizadas com outros integrantes de seu nível na estrutura hierárquica do organograma. As atividades das engrenagens da base do organograma devem ser padronizadas nos movi- mentos e sincronizadas no tempo de execução, tornando-se, praticamente, uma extensão da máquina. O tráfego das informações entre a cúpula e a base do or- ganograma percorre caminhos tortuosos de um intrincado sis- tema cujo fim seria planejar, gerenciar, controlar e supervisio- nar o funcionamento eficiente da estrutura. Mas, com o tempo, a burocracia que se desenvolveu no espaço entre a base e a cúpula das organizações modernas foi sofrendo atrofias e distorções. Os diferentes departamentos burocráticos dessas estruturas passaram a disputar entre si o poder de acesso e controle de cada vez mais funções, recursos e informações, com o objetivo de adquirir poder, importância estratégica e vantagens funcio- nais. Com isso, os diferentes escaninhos do organograma bu- Capítulo 9 Organizações e Participação Política e Social no... 207 rocrático passaram a filtrar, politizar e distorcer informações e ordens, visando valorizar sua posição estratégica na estrutura das organizações, e, assim, tentar prejudicar seus adversários internos que lutam pelos mesmos fins, com os mesmos méto- dos. Controlando recursos e informações os burocratas, na prática, usurpam o poder de fato da cúpula do organograma. O efeito de acumulação das disfunções das engrenagens e do sistema como um todo, introduziu irracionalidade no fun- cionamento das organizações e no fluxo de informações que deveria fazer com que se produzissem os resultados previstos por seu objetivo. Dessa maneira, as soluções propostas pelos burocratas, invariavelmente levam à necessidade de amplia- ção das estruturas burocráticas. Mais e mais burocratas são contratados, levando à criação de mais departamentos com a suposta atribuição de resolver os problemas que proliferam justamente devido ao excesso de burocracia. O gigantismo tornou-se, então, um problema adicional às demais distorções, criando um círculo vicioso entrópico e auto- fágico. A burocracia resiste às mudanças e inovações, pois es- sas são percebidas como ameaças às suas posições de poder nas estruturas; perde-se nas atividades meio em prejuízo da missão precípua da organização a que pertence, e apresenta resistência e rigidez diante de situações que requerem soluções não previstas em regras, mesmo que não ilegais. Desperdício, lentidão, ineficiência e corrupção tornam-se consequências inevitáveis dessas disfunções sistêmicas. Ainda que competindo internamente com os demais setores burocráticos, o comportamento coletivo dos integrantes dessas 208 Sociedade e Contemporaneidade estruturas é corporativo. Isto é, os interesses de todos na pre- servação da estrutura que lhes garante a sobrevivência coin- cidem nos conflitos com agentes externos, formando uma teia invisível em defesa do sistema, aí sim de forma ágil e eficaz. Essas distorções ocorrem em organizações públicas e pri- vadas. No entanto, nas empresas privadas o imperativo do lucro e a competição no mercado, assim como a presença de um proprietário no controle da organização, contribuem para minimizar as distorções. No setor público não há concorrência e nem “dono do negócio” ao alcance dos olhos dos funcio- nários burocráticos. A rotatividade dos administradores polí- ticos e a propriedade pública dificultam os controles, tornam a organização mais suscetível às pressões e impõem maiores obstáculo às correções. Dado o caráter aparentemente “gra- tuito” dos serviços públicos, e a natureza política e, teorica- mente, democrática da função do Estado, além da constante permanência dos funcionários junto aos gestores eleitos, e a permeabilidade dos políticos à pressão dos interesses corpo- rativos, somam-se para agravar as distorções, tornando-as um problema mais grave do que aqueles que afetam as organiza- ções privadas. Max Weber constatou que essa lógica se apresenta em todas as organizações complexas nascidas com a sociedade moderna. Todas elas, conforme a Sociologia da Burocracia de Weber, requerem lideranças administrativas especializadas. O autor descreve a burocratização como uma mudança da organização baseada na autoridade tradicional para outra voltada para metas e ações racionais e legais. No caso da Alemanha, conforme constatou em seu estudo, a burocracia Capítulo 9 Organizações e Participação Política e Social no... 209 prussiana assumiu o comando político da nação, dando ori- gem a um sistema de dominação política de tipo burocrático que ele caracterizou como patrimonialista. 9.4 A crise das instituições da era moderna As organizações criadas pela sociedade ao longo da era mo- derna tornaram-se ineficientes, lentas, grandes e excessiva- mente burocráticas. A falência financeira e a corrupção são os sintomas mais visíveis de muitas delas. O descrédito da po- pulação nos políticos está nas primeiras páginas dos jornais na maior parte dos países do mundo. Como consequência, as instituições encarregadas da tomada de decisões coletivas criadas pela sociedade moderna, tais como partidos, parla- mentos, governos, tribunais e demais órgãos estatais sofrem crises causadas pela ineficiência, que leva à falta de legitimi- dade e credibilidade perante a sociedade. A crise das instituições políticas encarregadas de processar as decisões coletivas na sociedade atual, é, ao mesmo tempo, causa e efeito dos deslocamentos de poder provocados pelo impacto das novas tecnologias e das transformações por elas geradas. Sob circunstâncias normais, as deliberações políti- cas dos governos e suas instituições cumprem suas atividades até o fim. Atualmente, essas estruturas políticas não cumprem suas funções. O dinheiro público se perde na burocracia e na corrupção. Cada vez mais impostos são cobrados da so- ciedade, que não vê o retorno em serviços públicos de segu- 210 Sociedade e Contemporaneidade rança, educação, saúde e infraestrutura. As vítimas, em geral, são aquelasque mais necessitam desses serviços e que menos condições têm de obtê-los pelos próprios meios. O tipo de liderança baseada no poder burocrático, impes- soal e abstrato, que decide sobre muitos assuntos, tornou-se inadequado à nova realidade. A execução das decisões de- pende de órgãos executores que não as executam. A autori- dade é constrangida por leis superadas e fiscalizada por orga- nismos corrompidos e ineficientes. A legitimidade da liderança precisa se legitimar pelo voto da maioria, mas a população se abstém de participar. O novo sistema econômico que emerge com a sociedade contemporânea compõe um sistema social cujo nível de diver- sidade e complexidade é infinitamente maior do que o existen- te no período anterior. As decisões políticas e administrativas, agora, dependem de corpos técnicos sofisticados que abaste- cem o líder de informações sobre áreas que este desconhece se não estudá-las e não se preparar para não errar. A alta especialização do conhecimento, a complexidade, o volume e a velocidade das informações que envolvem a tomada de decisões, limitam o poder da liderança nas organizações da sociedade contemporânea, tornando-a mais temporária, flexí- vel, colegiada e consensual. As estruturas estatais da sociedade moderna foram construí- das na época em que o principal meio de transporte e troca de mensagens à distância era o cavalo. Os estados nacio- nais estavam recém se formando nessa época. As diferentes regiões do mundo eram isoladas umas das outras e as econo- Capítulo 9 Organizações e Participação Política e Social no... 211 mias eram mais protegidas por leis vigentes dentro das frontei- ras nacionais. As decisões a serem tomadas por governantes num contexto como esse envolviam um volume muito menor de variáveis, que demandavam mais tempo de quem precisava decidir. As decisões tomadas de forma relativamente isoladas pela distância geográfica e pela lentidão dos sistemas de co- municação e transportes, pouca ou nenhuma consequência causavam além das fronteiras territoriais de cada Estado na- cional. As instituições políticas remanescentes da sociedade mo- derna (governos, parlamentos, tribunais) também refletem uma forma obsoleta de lidar com o conhecimento. Este tipo de estrutura anacrônica produz intermináveis problemas jurídi- cos, disputas interburocráticas e o consequente aumento dos custos do Estado. A ineficiência do Estado, por sua vez, leva à geração de efeitos secundários adversos, às vezes piores do que a tentativa inicial de solucionar um determinado problema na sua origem. A centralização do poder não funciona. Os governos e as instituições jurídicas e políticas da sociedade moderna foram pensados para tomar decisões num ambiente em que uma informação poderia levar dias para atingir cír- culos mais amplos da sociedade. As reações eventualmente adversas eram mais raras e mais fáceis de contornar. 9.5 A emergência de um novo sistema Assim como acontece com o sistema econômico interligado por redes de comunicação em tempo real, o sistema políti- 212 Sociedade e Contemporaneidade co também reflete a aceleração generalizada das mudanças, intensificando o colapso das estruturas burocráticas. A veloci- dade com que as informações circulam é maior do que o po- der de resposta das estruturas burocráticas. Mais inteligência e criatividade e menos burocracia é a nova regra. O sistema econômico da sociedade moderna criou a pro- dução e o consumo de massas. Enormes quantidades de pro- dutos seriados, jogados ao mercado consumidor, influenciaram o surgimento do comportamento social de massas. O compor- tamento das audiências dos canais de televisão abertos, que recebem a mesma programação transmitida para milhões de telespectadores, simultaneamente, induzem ao comportamen- to de massas. Essa característica surgiu, também, no sistema político da sociedade moderna, dando origem a organizações de massas, tais como os partidos e os sindicatos e seus líderes de massas (Hitler, Stalin, Mussolini) com suas ideologias de massas. As tecnologias contemporâneas estão criando um sistema oposto, no qual a regra é a segmentação da produção e do consumo. Os produtos cada vez mais são feitos para segmen- tos específicos de consumidores com demandas específicas. Os meios digitais de comunicação em rede produzem conteú- dos segmentados. A indústria da mídia produz estilos musicais diversos que influenciam e são influenciados por estilos de vida grupal também diversos no jeito de vestir, de agir socialmente e de comportar-se nos grupos de convivência. Como conse- quência, o sistema social está se fragmentando ao refletir essa tendência da produção e do consumo. Capítulo 9 Organizações e Participação Política e Social no... 213 O ambiente político faz parte do sistema social e foi, em seguida, contagiado pelo impacto dessas transformações. No- vas organizações minoritárias, que agem em âmbito local, em- bora articuladas em redes que geram influência para além das fronteiras nacionais surgem no mundo todo. Ambientalistas, pacifistas, gays, feministas, e outros, com formas inovadoras de manifestação de suas insatisfações e reivindicações, inva- diram o palco antes monopolizado pelos sindicatos e pelos partidos. A velocidade e a abrangência dos novos sistemas de comu- nicação em rede, a diversidade desses grupos e organizações de novo tipo estão dando origem à criação de um sistema político de contornos ainda indefinidos. A desmassificação das organizações políticas reflete as tendências tecnológicas da produção simbólica, das comunicações em rede e da cultura tribal, devastando a capacidade dos políticos tradicionais de tomarem decisões com base na mentalidade e nos paradig- mas do passado. A formação de maiorias estáveis, necessárias para a le- gitimação do poder dos governos, ao longo da história da sociedade moderna, está cada vez mais difícil e sujeita às ins- tabilidades. Por vezes, formar maiorias estáveis é impraticável. As circunstâncias podem ser diferentes de país a país, mas a crise das organizações modernas é transversal a todos os que não conseguem acompanhar a velocidade das mudanças e a se adaptar à nova realidade supercomplexa. As novas maiorias, quando se tornam possíveis, cada vez mais se articulam como uma colcha de retalhos de grupos 214 Sociedade e Contemporaneidade minoritários, que se conectam e se desconectam em torno de causas pontuais em curtos espaços de tempo. A diversidade social é tão grande que a lógica da representação de mas- sas não consegue gerar consensos em nome de uma suposta “vontade geral”, na qual se baseia a ideia de “democracia representativa” inventada pela sociedade moderna. A própria democracia representativa está em crise. As novas e velozes tecnologias da informação geraram uma correspondente sofisticação e diversificação dos proble- mas sobre os quais os governantes precisam decidir. Um siste- ma político eficiente precisa operar na escala correspondente aos problemas sobre os quais decide, integrando diretrizes dís- pares, decidindo no momento certo e refletindo a diversidade da sociedade que lhe dá sustentação. O ativismo de minorias reflete as demandas de um novo sistema econômico que requer, para sua existência, um siste- ma social mais diversificado do que qualquer outro que já exis- tiu. A capacidade de negociação e articulação entre os grupos minoritários de interesses diversos precisa ser incorporada ao sistema normativo e ao formato das instituições para permitir a construção de uma nova democracia. Atualmente, grupos de pressão bem organizados têm mais poder sobre as decisões governamentais do que as amplas maiorias do passado. Controlar o poder de influência das tecnocracias superespecializadassobre os gestores públicos é outro cuidado fundamental. Por isso, talvez seja o caso de des- locarem-se algumas decisões hoje nas mãos dos “representan- tes”, para o eleitorado, rompendo os círculos tecnocráticos de Capítulo 9 Organizações e Participação Política e Social no... 215 decisão e recorrendo às novas tecnologias de comunicação como forma de consultar à população criando-se, assim, no- vas formas de processar decisões coletivas que contemplem os interesses das pessoas diretamente atingidas pelas decisões em questão. Plebiscitos e referendos são cada vez mais usa- dos para legitimar decisões controvertidas com apoio social amplo. Deslocar o poder de decisão para instituições mais próxi- mas das causas de cada problema pode ser uma alternativa viável já que há problemas que não podem ser resolvidos no nível local e outros que não podem ser resolvidos no nível nacional, além de outros que requerem respostas em diversos níveis. Fazem-se necessárias novas instituições mundiais capa- zes de gerenciar soluções para problemas mundiais que não mais podem ser resolvidos por governos nacionais de forma isolada, sem causar consequências sobre a população de ou- tros países. As grandes catástrofes ambientais, os problemas com o cli- ma do planeta, o combate ao terrorismo e ao crime organi- zado; a administração das crises do mercado financeiro inter- nacional, dentre outros, são exemplos desse tipo de problema global que requer soluções globais. A descentralização das estruturas de decisão e gestão econômica pode dar origem a novas unidades econômicas regionais livres da configuração interna dos mapas nacionais. Movimentos de pressão inver- sa pela integração do mundo em bloco, seguidos de crises e tendências protecionistas e de “fechamento de fronteiras” estão transformando os sistemas econômicos, políticos e so- ciais e requerendo flexibilidade e criatividade na criação de 216 Sociedade e Contemporaneidade novos arranjos institucionais dos agentes políticos mundiais. As decisões econômicas isoladas, eventualmente tomadas por governos nacionais em benefício de uma região podem gerar impactos negativos sobre outras, no contexto da interdepen- dência de um sistema econômico e social articulado em rede. Na sociedade contemporânea, as decisões precisaram ser compartilhadas através de novos sistemas de participação democrática e representação por organismos colegiados. O novo sistema político não poderá funcionar sem democracia, mas precisará de uma nova democracia sustentada em valores e ideias adequadas às novas instituições políticas. A lógica que rege o funcionamento das redes sociais, potencializadas pelo uso em escala da tecnologia digital, é radicalmente diferente das estruturas burocráticas das orga- nizações do passado industrial. O caráter democrático do co- nhecimento faz com que a riqueza simbólica do novo sistema econômico circule em alta velocidade nas redes digitais de comunicação, impondo a criatividade, a agilidade e a flexibili- dade como requisitos imprescindíveis à sobrevivência no novo ambiente competitivo. Para isso, a descentralização das deci- sões e ações e a eliminação de estruturas intermediárias entre os que executam e os que decidem; a assincronia e a aleato- riedade das relações entre os componentes dos sistemas-rede são fundamentais. Esses princípios foram assimilados rapidamente pelas or- ganizações empresariais, que criaram novos métodos de ges- tão da produção e novas formas de organização do trabalho. Corporações transnacionais incorporaram técnicas gerenciais Capítulo 9 Organizações e Participação Política e Social no... 217 adaptadas à lógica da economia que se articula em rede, den- tro e fora das organizações. Milhões de colaboradores diretos e indiretos dessas organizações se conectam ao novo sistema por imposição do novo mundo do trabalho. As empresas-rede conectam-se com consumidores-rede através de técnicas de marketing de rede. As redes invadiram também o mundo do entretenimento e das diversões do indi- víduo contemporâneo no momento em que as tecnologias de comunicação digital invadiram os lares dos cidadãos comuns. A telefonia celular, a Internet, a TV a Cabo, os computadores portáteis interligam e outros aparatos tecnológicos interligam cada vez mais indivíduos na malha digital. Sob a óptica desse novo sistema, a diversidade cultural é consequência inevitável. A permanente fragmentação do te- cido social e a produção de diversidade respondem à nova lógica da criação e da circulação do capital simbólico que converte ideias em valor ao lançá-las à rede de trocas midiáti- cas em escala global. A matriz sistêmica e os sistemas de participação democrá- tica dos cidadãos nas decisões coletivas sobre o destino da sociedade em que vivem devem se adaptar a essas mudanças. Só seremos capazes de criar soluções inovadoras para esses e outros problemas que estão surgindo se soubermos entendê- -los. 218 Sociedade e Contemporaneidade Recapitulando O capítulo “Organizações e Participação Política e Social no Mundo Contemporâneo” tratou das formas de participação política e social ao longo da história humana.  À medida que a sociedade evolui, também evoluem as formas de participação.  Nas sociedades antigas os governantes eram vistos como deuses e intermediários das relações entre povo e Deus.  Na era moderna houve a separação da Igreja e Estado, o desenvolvimento do comércio e da indústria e surgiu a ideia da representação política. Políticos que represen- tavam o povo.  Este sistema, atualmente, está em crise devido a sua crescente burocracia e distanciamento das demandas populares.  A nova sociedade contemporânea com as novas tecno- logias e formas de participação em rede exigem uma outra arquitetura institucional, uma outra estrutural or- ganizacional mais próxima da população.  Nesta ordem das coisas há uma crise da democracia representativa que precisa ser se não resolvida, enca- minhada, sob pena de perdermos o “trem da história”. Capítulo 9 Organizações e Participação Política e Social no... 219 Referências CASTELLS, M. A era da informação: economia, sociedade e cultura. São Paulo: Paz e Terra, 1999. GIDDENS, Anthony. Sociologia. 6. ed. Porto Alegre: Artmed, 2005. TOFFLER, Alvin. A Terceira Onda. São Paulo: Record, 1980. ______. Powershift – as mudanças no poder. São Paulo: Re- cord, 1990. WEBER, M. A objetividade do conhecimento nas ciências sociais. In: COHN, G. (Org.). Max Weber. 4. ed. São Pau- lo: Ática, 1991. ______. Conceptos sociológicos fundamentales. In: ______. Economía y sociedad: esbozo de sociología comprensiva. México: Fondo de Cultura Económica, 1996. ______. A ética protestante e o espírito do capitalismo. Tradução de A. F. Bastos e L. Leitão. 4. ed. Lisboa: Editorial Presença, 1996b. Atividades 1) O exercício da liderança é uma marca das sociedades hu- manas. Na pré-história, quando a humanidade vivia em bandos nômades, a hierarquia de poder e a estratificação social eram extremamente simples. Cada sociedade cria o 220 Sociedade e Contemporaneidade seu subsistema político. Tal como acontece entre lobos e leões, havia um líder sobre o bando de liderados e vigora- va a lei do mais forte. Na medida em que a humanidade foi caminhando em direção à civilização: a) foi também, gradativamente, sofisticando as estruturas dos sistemas culturais e econômicos. b) foi também, gradativamente, sofisticando somente as estruturas dos sistemas sociais. c) foi também, gradativamente, sofisticando somente as estruturas políticas. d) foi também, gradativamente, sofisticando as estruturas dos sistemas sociais e políticos. e) não foi gradativamente, sofisticandoas estruturas dos sistemas sociais e políticos. 2) O poder nas sociedades antigas, excetuados os casos referidos por Augusto de Franco na citação acima, pre- dominava o exercício do poder despótico ou oligárquico, exercido com predomínio do uso da força. Neste sentido os governantes eram vistos como: a) déspotas esclarecidos. b) deuses ou intermediários das relações entre povo e deuses. c) democratas esclarecidos. d) fascistas e totalitários. Capítulo 9 Organizações e Participação Política e Social no... 221 e) Autoritários e Democratas. 3) Com a irrupção da Era Moderna, o ressurgimento do fe- nômeno urbano na esteira das revoluções comercial e industrial, as formas de organização dos sistemas social, econômico, político e cultural, típicos da sociedade Anti- ga, de base econômica agrícola e artesanal, foram deses- truturadas pelas mudanças provocadas pelas revoluções Comercial e Industrial. Neste sentido foram desenvolvidas: a) formas de participação somente para os líderes reli- giosos. b) formas de participação somente para as mulheres na organização destas pessoas nas decisões coletivas. c) formas de não participação e não organização destas pessoas nas decisões coletivas. d) formas de participação e organização destas pessoas nas decisões coletivas. e) Todas as alternativas estão corretas. 4) É correto afirmar que nos regimes socialistas os planejado- res da economia que estão à testa do Estado são: a) os tomadores de decisão sobre o destino dos investi- mentos e do gasto público. b) os tomadores de decisão somente sobre os investimen- tos públicos. c) os tomadores de decisão somente sobre os gastos pú- blicos. 222 Sociedade e Contemporaneidade d) os tomadores de decisão somente sobre o destino dos investimentos referentes à população pertencente ao partido do governo. e) Todas as alternativas estão incorretas. 5) De acordo com o capítulo “Organizações e Participação Política e Social no Mundo Contemporâneo”, há uma crise das instituições modernas. Assim seria correto afirmar que: a) O novo sistema social que emerge com a sociedade contemporânea é extremamente simples e infinitamen- te menor do que o período existente. b) O novo sistema social que emerge com a sociedade contemporânea é extremamente complexo, mas infini- tamente menor do que o período existente. c) O novo sistema social que emerge com a sociedade contemporânea é extremamente simples e único que pode ser comparado ao sistema moderno. d) O novo sistema social que emerge com a sociedade contemporânea é antigo e baseado em crenças reli- giosas pré-existentes. e) O novo sistema social que emerge com a sociedade contemporânea é extremamente complexo e infinita- mente maior do que o período existente. Arlete Aparecida Hildebrando de Arruda1 Capítulo 10 Meio Ambiente e Sustentabilidade1 1 Graduada em Licenciatura Plena em Ciências Sociais pela Uniplac (1975), mes- trado em Antropologia, Política e Sociologia pela UFRGS (1983) e doutorado em Ciências Sociais Aplicadas pela Unisinos (2010). Atualmente, é professora/pesqui- sadora da ULBRA Canoas, atuando principalmente nos seguintes temas: prevenção coletiva, riscos socioambientais, riscos urbanos, gestão pública urbana, pensamen- to político brasileiro, política latino-americana, desastres naturais, planejamento urbano, participação política e projetos em políticas públicas. 224 Sociedade e Contemporaneidade Águas que movem moinhos São as mesmas águas Que encharcam o chão E sempre voltam humildes Pro fundo da terra Terra! Planeta Água. (Guilherme Arantes) Introdução Qual é a possível relação existente entre o restaurante Noma (o melhor do mundo) e a Conferência de Copenhague (COP.15) sobre mudanças climáticas? Para tecer a resposta à indagação inicial, transcreve-se a fala do genial chef de cozinha René Redzepi (2012): “O pen- samento dos dinamarqueses foi expandido quando passamos a utilizar produtos locais em receitas já existentes, mas antes preparadas com ingredientes de outras culturas”. Essa postura de escolher produtos locais para seus fabu- losos pratos está de acordo com as proposições de que só haverá um freio no aquecimento global se forem reduzidos os transportes de mercadorias e houver um aproveitamento dos recursos locais. Observa-se aqui um dos princípios do desen- volvimento sustentável aplicado a um negócio. Capítulo 10 Meio Ambiente e Sustentabilidade 225 A disposição de agir no local também está dentro de outro movimento global, trata-se da preocupação com a diversida- de biológica. Se há consumo e apreço somente para certos produtos e animais no mundo, muitas espécies de seres vivos, plantas, animais, insetos, flores são desprezados e, logo, são consentidas suas extinções. Reconhecer a biodiversidade de cada localidade ou região faz parte também dos princípios da sustentabilidade. A ONU sofreu pressão de cientistas e movimentos ambien- talistas mundiais e, por isso, decretou para valorizar os diver- sos biomas no período 2011/2020 como sendo a Década da Biodiversidade. Para que esses objetivos sejam alcançados até 2020, já em 2010, na cidade de Nagoya, no Japão, chegou- -se por consenso a um Plano estratégico de Conservação da Biodiversidade (CDB), onde os países signatários adotarão medidas para preservação de ambientes terrestres, aquáticos e marinhos. 226 Sociedade e Contemporaneidade Retomando a indagação inicial, pode-se dizer que há uma relação sim, entre os lucros do restaurante Noma (e a fama trazida para a Dinamarca) e a questão ambiental. A identida- de nacional e regional tem em um dos seus pilares a gastro- nomia – a comida (italiana, japonesa, tailandesa etc.). Ela se expressa pela variedade de produtos. Isso se chama biodiver- sidade (ou diversidade da natureza viva). A perda da biodiver- sidade, aliada às mudanças climáticas são preocupações não só dos cientistas, ambientalistas mas dos empresários, econo- mistas, engenheiros, médicos, sociólogos, publicitários, comu- nicadores, religiosos, que pressionam e gestionam junto aos governos, parlamentos e instituições públicas e privadas, por mudanças nos planos de intervenção e na regulamentação de ações que afetam ao meio ambiente local, regional, nacional ou planetário. Por isso, nas pautas de noticiários, programas e reportagens os temas como economia verde, responsabilidade ambiental, novo Código Florestal, degelo do ártico, sustenta- bilidade nas empresas, bancos verdes, ecovilas, cidades sus- tentáveis estão cada dia com maior frequência presentes nas mídias. E, em tempo, convém lembrar que o Brasil tem 25% da biodiversidade mundial. A ONU sofre pressões para realizar convenções e confe- rências que levem à assinatura de do- cumentos e protocolos sobre temas que preocupam segmentos importan- tes das sociedades. Essas conferên- cias têm uma enorme influência sobre as nações, porque o que é protocola- do passa a ser exigência internacio- Capítulo 10 Meio Ambiente e Sustentabilidade 227 nal e repercute no comércio mundial. Nos países tornam-se leis e regulamentos. As conferências que trataram do meio ambiente buscaram garantir a qualidade de vida no planeta e a sustentabilidade da terra. Conhecer as principais conferências e os conceitos que nelas foram estabelecidos é da maior importância para compreender o tempo atual. Uma forma clássica de organizar as convenções, fóruns e conferências da ONU é a apresenta- ção de documentos e, sobre eles, se ajustam os termos para que os chefes de Estado os assinem após debates e chegada ao consenso dos signatários. Inicialmente, esses documentos são rascunhos (já acertados entre os diplomatas e os técnicos dos altos escalões dos gover- nosdos países envolvidos. Em cada documento há um slogan que o resume. Nosso futuro comum foi o da conferência de 1972 e o futuro que queremos em 2012. Em cada documento há posicionamentos que se expressam em conceitos, que levam a disputas para qual conceito deverá predominar. Em 1972 os países desenvolvidos defendiam um “desenvolvimento zero” e os países chamados na época subdesenvolvidos, defendiam “o desenvolvimento a qualquer custo”. Preparando a Rio92, o debate era entre Ecodesenvolvimento e Desenvolvimento Sus- tentável. E vinte anos após, os documentos trouxeram novas disputas. Os conceitos foram: desenvolvimento sustentável e economia verde ou justiça ambiental e economia verde. O texto que veremos a seguir esclarecerá as razões dessas disputas conceituais. A importância desses documentos tem a ver tanto com a vida cotidiana como a produção, comerciali- 228 Sociedade e Contemporaneidade zação, consumo, descarte, reciclagem, tipo de emprego que teremos, ar que respiramos, qualidade da vida urbana e op- ções de alimentos e do tipo de saúde que nos reserva o meio ambiente. O slogan da Agenda 21 “Pense globalmente e aja localmente”, convida a todos e a cada um em particular a calcular o que pessoalmente estamos “gastando do planeta” com o cálculo da pegada ecológica, e por outro lado estimula a participar e “formar uma aliança global para cuidar da terra e um dos outros ou arriscar a nossa destruição e a diversidade da vida” (Carta da Terra). 10.1 Justiça socioambiental X O precificar a natureza A polêmica na conferência chamada Rio+20, no ano de 2012, teve grande repercussão na mídia. As indagações nas manchetes dos jornais eram: economia verde ou desenvolvi- mento sustentável; ambientalismo de mercado ou justiça am- biental? Para entendermos esses posicionamentos, o marco é o momento atual do sistema capitalista mundial. Nos países emergentes, grandes empreendimentos estão sendo construí- dos visando alcançar o chamado crescimento econômico. A reação por parte dos movimentos pela justiça ambiental, se- gundo Henri Acselrad (2011) é de que tais projetos são respon- sáveis pelo deslocamento compulsório de grandes contingen- tes populacionais, pelo aniquilamento de grupos indígenas e por impactos irreversíveis dos ecossistemas, nos quais vivem e se reproduzem uma ampla diversidade de grupos e formações Capítulo 10 Meio Ambiente e Sustentabilidade 229 socioculturais. Para os países chamados desenvolvidos que vi- vem uma crise econômica desde 2008, a forma de voltar o sis- tema capitalista de obter crescimento será da financeirização e a colocação de preços a todos os serviços e produtos am- bientais, com isso voltando a movimentar bilhões e lançando novas formas de mercados, como já aconteceu anteriormente com o mercado de carbono. Partem do princípio de que a toxicidade e a poluição atingem a todos, indistintamente. Para os movimentos da justiça ambiental, a exposição de grupos sociais aos riscos ambientais não é equitativa. São desiguais as condições de acesso dos diferentes setores da população à proteção ambiental. Posicionam-se contra o discurso científico de que a “polui- ção é democrática”. E que a sociedade atual, também cha- mada de “sociedade de riscos” afeta a todos, não importando de que maneira ou onde as pessoas vivem. Guidens (2000) e Beck (2004). Por justiça ambiental entende-se: A condição de existência social em que se verifica igual proteção aos distintos grupos sociais com relação aos danos ambientais, por intermédio de leis e regulações democraticamente concebidas, que impeçam ao merca- do impor decisões discriminatórias com base em raça, cor, nacionalidade ou status socioeconômico. Ela resulta de um tratamento justo e de um envolvimento efetivo de todos os grupos sociais, no desenvolvimento, implemen- tação e respeito a leis, normas e políticas ambientais. Por tratamento justo, define-se que nenhum grupo de 230 Sociedade e Contemporaneidade pessoas, seja ele definido por raça, etnia ou classe so- cioeconômica, deve arcar de forma concentrada e desi- gualmente distribuída com as consequências ambientais negativas resultantes de operações industriais, agrícolas, comerciais, de obras de infraestrutura ou da implemen- tação de programas e políticas federais, estaduais, muni- cipais e locais (ACSELRAD, 2011, p. 45). A ideia de que o bem-estar social depende do crescimento econômico e de que as empresas somente se envolvem com a questão ambiental se ela movimentar o mercado. Desde os anos 1990, para controlar a poluição atmosférica, surgiu o mercado de carbono e agora a nova proposta que veio no Relatório da Economia verde (REV). Está definida como uma economia que resulta do bem es- tar da humanidade e da qualidade social, ao mesmo tempo em que reduz, significativamente, riscos ambientais e escassez ecológica. O desenvolvimento deve manter, aprimorar e re- construir bens naturais, vendo-os como um bem econômico. A natureza para a economia verde é fragmentada em bens e serviços ambientais. O rio, o córrego, o bioma, a paisagem podem ter preços diferentes e valorização distinta no mercado e deverão esses os ganhos econômicos para gerarem empre- gos chamados verdes. Distinta é a posição para os que veem a natureza como bens comuns. Para Bollier os bens comuns se referem a: Recursos compartilhados que uma comunidade constrói e mantém (biblioteca, parque, rua), os recursos nacionais Capítulo 10 Meio Ambiente e Sustentabilidade 231 que pertencem a todos (lagos, florestas, vida silvestre, espaço radioelétrico) e os recursos mundiais dos quais os seres vivos necessitam para poder sobreviver (atmosfera, água, biodiversidade) (BOLLIER 2008, p. 38). Para Leroy (2011, p. 4): Estamos tão envolvidos na sociedade capitalista, domi- nada por noções como propriedade privada, consumo e mercado, e tão saturados pela informação e pela publici- dade dominantes, que não percebemos espontaneamen- te que há ainda uma porção grande da nossa realidade e do planeta que está situada fora dos circuitos mercantis. Paradoxalmente, é a fome voraz do mercado, na busca da apropriação privada e da mercantilização do que ain- da lhe escapa, que contribui para dar maior atenção e valorizar a reflexão sobre os bens comuns. Entretanto, se de fato o mercado se interessa e avança sobre todos os ecossistemas e recursos mencionados, em contrapartida devemos reconhecer e afirmar que a humanidade atual e futura precisa e precisará desses bens e que, nesse senti- do, eles não são a nossa propriedade particular, com os quais podemos fazer o que queremos. São bens comuns da humanidade, tanto no sentido espacial, superando fronteiras (p. ex., é importante lembrar que a Amazônia exerce um papel no clima continental e, provavelmente, mundial e que as sementes que são a base da segurança alimentar mundial, cruzaram os oceanos), quanto tem- poral, para as gerações futuras. Para os defensores da economia verde, o patrimônio am- biental precisa ser contabilizado, cada bem natural ser avalia- 232 Sociedade e Contemporaneidade do e dado um preço. Pela precificação dos bens ambientais se poderia dar maior valor ao patrimônio natural do país e provocar uma mudança nos hábitos de consumo, evitando o desperdício. Para essa visão, se a sociedade é mercantil e se temos hoje uma economia qualificada de marrom – a “econo- mia marrom” (baseada no petróleo e gás ou economia fóssil), esta deverá ser transmutada via uma transição tecnológica e financeira para a “economia verde”. No Brasil, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) lan- çou um documento no dia 14/06/2012 para uma plateia de 800 representantes da indústria nacional, informando à socie- dade o desempenho sustentável dos seus filiados. Segundoo presidente da CNI, Sr. Robson Braga de Andrade, que repre- senta 27 federações de indústrias nos estados e no Distrito Federal, são mais de 1 mil sindicatos patronais associados e 196 mil estabelecimentos industriais. A sustentabilidade pas- sou a fazer parte da agenda estratégica das empresas. Disse ele em entrevista ao Jornal O Globo, em 20/06/2012: “hoje, as indústrias brasileiras não tratam da sustentabilidade como manifestação de boas intenções. Elas incorporam seus princí- pios nos planos de negócios”. Para a CNI a economia verde já é uma realidade nacional. Capítulo 10 Meio Ambiente e Sustentabilidade 233 10.2 Os principais impactos trazidos pela sustentabilidade Os principais impactos, desde a ECO-92, ocorreram na redução das emissões de ga- ses de efeito estufa, graças à reciclagem, uso de insumos renováveis e reaproveita- mento da água. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) fez uma pesquisa inédita com 60 executivos de grandes empresas do país, a qual aponta que, para a maioria deles, ser sustentável tem impacto positivo na competitividade. E, por outro lado, não aderir a essa postura, para 39%, coloca em risco a sobrevi- vência da empresa no mercado. Outros 18% temem imagem negativa da corporação. Vemos, abaixo, os principais resultados da pesquisa sobre sustentabilidade empresarial:  70% dizem que ser sustentável representa custo adicio- nal para a empresa. Geralmente, gera custos e reduz rentabilidade no curto prazo, mas compensa em médio e longo prazo (Custo, nesse caso, deve ser visto como investimento em consultorias especializadas, P&D, ino- vação, capacitação, treinamento, entre outros).  93% consideram alto o impacto da sustentabilidade nas políticas de inovação da empresa – como a procura por soluções de eficiência para o menor uso de recursos na- 234 Sociedade e Contemporaneidade turais e para o atendimento de demanda dos consumi- dores.  83% relacionam sustentabilidade à economia verde ou aos três pilares do conceito de sustentabilidade (ambien- tal, econômico e social) – o que demonstra visão mais contemporânea e consciente em relação ao tema, em que já se superou a dicotomia crescimento econômico X preservação do meio ambiente.  86% das empresas ouvidas monitoram suas ações de sustentabilidade. Muitas utilizam ferramentas sofistica- das – seja por sistemas próprios ou se submetem às re- gras rígidas de programas internacionais (como Global Reporting Initiative). Há consenso de que o papel do governo é importantíssi- mo nesse processo, em particular na criação de instrumentos formais que possam garantir condições de competitividade às empresas que abraçam a lógica da sustentabilidade. 10.3 Economia verde: mais inclusão social, menos impacto ambiental Para os executivos entrevistados pela CNI, a economia ver- de, de forma simplificada, significa: produzir mais para aten- der às demandas da humanidade, dos mercados emergentes, dos mais excluídos, com mais inteligência e menos impacto. E, principalmente, deve-se desenvolver ações em três frentes: políticas de inovação e de incentivo para a adoção de novos Capítulo 10 Meio Ambiente e Sustentabilidade 235 padrões de produção e mudança cultural, em especial no que diz respeito ao comportamento de consumo. As principais correntes econômicas que defendem a Eco- nomia verde são: 10.3.1 Em economia não existe almoço grátis O Relatório Economia Verde da ONU, que tenta apontar al- guns caminhos para uma nova abordagem da economia e da questão ambiental não escapou às críticas. Considera possível 236 Sociedade e Contemporaneidade conciliar crescimento econômico, sustentabilidade e inclusão social, embora não apresente estimativas para os custos da inclusão social. Para Mário Ramos Ribeiro, pesquisador e pro- fessor da Universidade Federal do Pará (UFPA), o Relatório começa a ficar assustador quando se debruça sobre a agricultura e defende a retirada imediata de todos os subsídios fiscais concedidos à energia de combustível fóssil do setor pesqueiro e diversos subsetores da agri- cultura. Um período de transição e de adaptação, nem pensar [...] Em economia não existe almoço grátis. Al- guém sempre está pagando. É um equívoco cruel preten- der convencer os países emergentes de que não existem elevados custos de transição e que sem transferência de recursos financeiros e tecnologias, o “desemprego verde” virá. (O artigo foi publicado no sítio ECO Agência, em 7/2/2012.) O debate ambiental quase nunca é imune a divergências pontuais, dentre elas destacam-se as que afirmam a geração de empregos relacionados à sustentabilidade, em contrapar- tida há os que temem que aumentará a fome no mundo, por- que ela é uma tragédia que a cada seis segundos mata uma criança por causa da desnutrição. Em um cenário de escassez de alimentos, devido à mudança climática, redução da água potável, preços dos bens naturais e falta de proteção aos ecos- sistemas, a fome vai aumentar. Para pensar em vivenciar a sustentabilidade, temos que ir além de fechar a torneira ou usar uma sacola de pano. Para Capítulo 10 Meio Ambiente e Sustentabilidade 237 ser sustentável a exigência é: repensar padrões éticos e, sobre- tudo, hábitos de consumo. 10.4 O preço da preservação As políticas voltadas para a preservação do ambiente estão amarradas a uma lógica de mercadores nos Fóruns multila- terais, especialmente nas reuniões voltadas para o clima. O mais importante acordo climático multilateral foi assinado na cidade de Kyoto, no Japão. O pacto trouxe limites e volume determinado para as emissões de gases de efeito estufa (GEES) feitos pelos países desenvolvidos. Caso o limite seja ultrapas- sado, abre-se a possibilidade de compra de créditos de carbo- no nos países em desenvolvimento, num sistema em que sujar o planeta compensa as más práticas pagando para que outros façam a faxina atmosférica, no dizer de Verena Glass para a revista Desafios do Desenvolvimento/IPEA (2012). Mercado de carbono é o termo genérico utilizado para de- nominar os sistemas de negociação de certificados de redução de emissões de GEES: um crédito de carbono equivale a uma tonelada de CO2 que deixou de ser produzida. Para Jutta Kill (2012), líder da entidade que monitora as políticas europeias para florestas, a ONG Fern, a economia verde tem um lado B, devido ao mecanismo para o desenvolvimento limpo (MDL) que, com a crise econômica, fez com os créditos de carbono ficarem mais baratos nos países em desenvolvimento do que a permissão. Assim diz ela: “poluir se torna uma ação mais van- 238 Sociedade e Contemporaneidade tajosa do que investir em tecnologias que reduzam as emissões de GEES” (2012, p. 31). Para o grupo de pesquisa em Ecologia política do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (CLACSO), “uma tônica crescente no discurso da sociedade civil vem sendo a denún- cia, em vários espaços internacionais, da captura corporativa da crise ambiental e climática, causada pelo modelo vigente de produção e consumo, e sua cooptação pelas corporações, com vistas a maquiar de verde uma nova etapa de acumulação e apropriação dos bens comuns”, falou a representante do GT, Camila Moreno (2012). 10.5 Rousseau e o futuro que queremos Neste ano de 2012 há muitas profecias e também muitas co- memorações. Tratar sobre as profecias que têm como foco esse ano não cabe neste artigo. Embora o fundador da socio- logia Auguste COMTE (1798-1857) afirmava que usando o método sociológico, podia-se fazer previsões, resumindo neste slogan: “Ver para prever. Prever para Prover”. Mas, aqui se quer enfatizar a concepção de igualdade, fraternidade, con- ceitos fixados no livro: “Contrato Social”, de Rousseau, bem antes da revoluçãofrancesa. Dentre as comemorações de 2012 que se quer enfatizar, destaca-se a do tricentenário do nascimento do pensador Jean-Jacques Rousseau. Essa data passou a ser uma inspira- ção para um movimento que quer refletir um jeito diferente de Capítulo 10 Meio Ambiente e Sustentabilidade 239 os seres humanos se relacionarem tanto entre si, como com a natureza e, especialmente, com instituições, denominado o movimento “DAY AFTER”, ou Rio+20+um dia, este tem como princípio a solidariedade com os seres vivos, o oposto do indi- vidualismo atual, em que cada um puxa para si os benefícios e vantagens, mesmo de questões que deveriam ser de todas as pessoas, países e do planeta. Jean Jacques Rousseau servirá como âncora, porque, já no século XVIII, ele não só falava de solidariedade, como também chamava a atenção para uma nova relação do homem com a natureza e, por conseguinte, com a educação e com a eco- nomia. O famoso escritor e ecossocioeconomista polonês Ig- nacy Sachs (um dos primeiros organizadores das conferências sobre meio ambiente) diz: “Daqui para frente poderemos dar forma a um novo Contrato Social do século XXI e ter um mega contrato social em nível internacional” (2012), considerando as cinco dimensões do ecodesenvolvimento: social, econômi- ca, ecológica, espacial e cultural. Associa a obra de Rousseau aos compromissos coletivos, porque o contrato social repousa sobre o princípio da mutualidade. “Os compromissos que nos ligam ao corpo social não são obrigatórios, senão porque são mútuos, e sua natureza é tal, que ao cumpri-los não se pode trabalhar para outro sem trabalhar também para si” (Contrato Social, livro II, cap. IV). “O estabelecimento do contrato social é um pacto de es- pécie particular, por ele cada qual se compromete com todos, de onde resulta o compromisso recíproco de todos para com cada um, que é o objeto imediato da união” (Cartas escritas desde a montanha, parte I, carta VI). 240 Sociedade e Contemporaneidade E para educar-se para o convívio com a pluralidade de crenças, de valores, de ideias dentro da democracia, enfim, aprender a tolerância, propõe um tratado de educação cujo personagem é Emílio, o qual deve ser educado junto à natu- reza. “É dentro do coração do homem que o espetáculo da natureza existe; para vê-lo, é preciso senti-lo” (Rousseau). O documento da Assembleia da ONU, sobre desenvolvi- mento sustentável, tem como título: “O futuro que queremos”, e foi aprovado por 188 delegações dos Estados Membros na Rio+20, no dia 22/06/2012, após decisão consensual em assembleia, como resultado dos esforços multilaterais. “Hoje é tempo de multilateralismo, que se constroem consensos his- tóricos, o consenso possível. Não há método único. Tenho que respeitar quem pensa diferente de mim” (Presidente Dilma Rousseff). 10.6 Quais ações serão desenvolvidas como prioritárias, após a Rio+20? Primeiramente, foram definidas as áreas temáticas e as ques- tões transversais, são elas: a erradicação da pobreza, a se- gurança alimentar, a nutrição/agricultura sustentável, a água e o saneamento, energia, o turismo sustentável, o transporte sustentável, cidades sustentáveis e assentamentos humanos, saúde e população, promoção do emprego pleno e produtivo, do trabalho digno para todos, e das proteções sociais, ocea- nos e mares, pequenos Estados insulares em desenvolvimento (SIDS), países menos desenvolvidos, países em desenvolvimen- Capítulo 10 Meio Ambiente e Sustentabilidade 241 to sem litoral, África, os esforços regionais, redução do risco de desastres naturais, as mudanças climáticas, florestas, bio- diversidade, desertificação, degradação do solo e seca, mon- tanhas, produtos químicos e resíduos, consumo e produção sustentáveis, mineração, Educação, a igualdade de gênero e empoderamento das mulheres. Os temas acima estão descritos no documento, assim como são definidos os meios de implementação e formas de financiamentos para se alcançar as metas propostas até o ano de 2015. O documento aprovado é bastante esclarecedor da situação mundial em face de como se encontra cada um dos conceitos e temas alocados acima. Vale a pena conferir o do- cumento “O Futuro que queremos” completo e em português que contém 55 páginas e está nos site: www.rets.org.br/sites/ default/files/ofuturoquequeremos. 10.6.1 Cúpula dos povos: venha reinventar o mundo O slogan acima foi o chamado à participação da sociedade civil. Movimento paralelo, contrapondo-se ao que estaria sen- do debatido na Rio+20 com os representantes dos países e dos chefes de Estado. Já em 1992, para pressionar o que estaria sendo decidido para a Agenda 21, formou-se o Fórum Global que, em 45 tendas instaladas no Aterro do Flamengo, debateram e gera- ram Tratados entre ONGs e movimentos sociais, independen- tes dos governantes, mas articuladas a lutas e agendas socio- 242 Sociedade e Contemporaneidade ambientais que questionaram o modelo de desenvolvimento em curso. Já naquela época, vozes do Fórum Global denunciavam: “Recusamos energicamente que o conceito de Desenvolvimen- to Sustentável seja transformado em mera categoria econômi- ca, restrita às novas tecnologias e subordinada a cada novo produto no mercado” (Declaração do Rio de Janeiro, Fórum Global, ECO 92). Para as mesmas ONGs da época, o termo Desenvolvimen- to Sustentável foi tão amplamente utilizado para encobrir vio- lações de direitos e injustiças ambientais que hoje não quer dizer mais nada. Para Fátima Mello, do Núcleo de Justiça Am- biental e Direitos, FASE: “De novo nós, a Cúpula dos Povos, afirmamos que a economia verde é mais uma tentativa das corporações legitimarem a supressão de direitos e a apropria- ção privada da natureza para manterem suas taxas de lucro” (2012, p. 10). Esses movimentos mostram que há semelhanças entre o que ocorreu há vinte anos. Também consideram as dinâmicas que diferenciam a lógica do Fórum Global 92 e a Cúpula dos Povos de 2012. Destacam-se que, atualmente, há solidez nas práticas que respeitam as pessoas e o ambiente, como a produção de ali- mentos saudáveis na agroecologia. Na Cúpula essas práticas, vivências e experiências foram apresentadas nas tendas e esse espaço chamou-se Territórios do Futuro, porque aconteceram em territórios de resistência. Capítulo 10 Meio Ambiente e Sustentabilidade 243 Nas plenárias, debates, assembleias na Cúpula dos Povos, buscou-se a aproximação de visões comuns e uma forma de juntar forças para agirem no plano político. A principal afir- mação para que se possa reinventar o mundo é que a huma- nidade precisa ser regida sob o signo dos bens comuns, dos direitos, da justiça social e ambiental. 10.6.2 Da ação do ambientalista Lutzemberger à criação do MMA No ano de 2012 homenageou-se a memória e o legado do am- bientalista José Lutzemberger, que faleceu no dia 14/5/2002. Tivemos no Brasil a atuação de grandes conservacionistas, preservacionistas, porém com uma visão da ação sobre o mo- delo capitalista o mais ousado foi Lutzemberger. Formado em agronomia, fluente em cinco idiomas, possuía grande capaci- dade de comunicação, executivo da BASF, empresa de defen- sivos agrícolas, por mais de 10 anos. Ao conhecer os traba- lhos de Rachel Carson sobre os efeitos dos produtos químicos no planeta, pede demissão e torna-se consultor, empresário e pesquisador de alternativas para a produção saudável de ali- mentos. Funda, com outros pesquisadores e estudiosos, uma ONG para divulgar e pressionar os governos local, regional e, posteriormente, o nacional, para a criação de reservas e/ou a proibição de produtos cancerígenos na alimentação humana ou de animais. Recebeu inúmeros prêmios e ao ser convidado para assu- mir a Secretaria Especial do Meio Ambiente, em 1990, conse-guiu trazer para o Brasil, no Rio de Janeiro, a 1ª grande Con- ferência Mundial, chamada ECO 92 ou Rio 92. A partir dessa 244 Sociedade e Contemporaneidade data, o governo federal começa a institucionalizar a questão ambiental, com a criação do Ministério do Meio Ambiente, diretorias e Fundações. A missão do Ministério é: promover a adoção de princípios e estratégias para o conhecimento, a proteção e a recuperação do meio ambiente, o uso sustentável dos recursos naturais, a valorização dos serviços ambientais e a inserção do desenvolvimento sustentável na formulação e na implementação de políticas públicas, de forma transversal e compartilhada, participativa e democrática, em todos os níveis e instâncias de governo e sociedade. No organograma do Ministério do Meio Ambiente pode-se ver as várias funções e as obrigações que pretende desempe- nhar junto à nação brasileira. Capítulo 10 Meio Ambiente e Sustentabilidade 245 A partir desta data, organiza-se nos estados e municípios as secretarias de meio ambiente, as fundações, como a Fe- pam (Fundação Estadual de Proteção Ambiental) no RS, Fatma (Fundação do Meio Ambiente) em SC, a Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo) e outros. Em cada estado e município existem as Comissões de Meio Ambiente, e nelas são representados os órgãos públicos e entidades, universida- des e ONGs locais ou estaduais. “Lutzemberger falava que gostaria de voltar de tanto em tan- to tempo, pois tinha curiosidade para ver como estaria o pla- neta” (Lilian Dreyer, biógrafa do ecologista, C.P., 14/2/2012). Caso isso fosse possível, Lutz veria que há muitos movimentos que convergem para o princípio do cuidado, da convivência e do compartilhamento de todos os seres vivos no planeta cha- mado GAIA2, pelos antigos. 10.7 As políticas e as leis ambientais As conferências mundiais, os movimentos ambientais, as orga- nizações de consumidores, todos pressionam poderes execu- tivo, legislativo, judiciário para apresentação e o desenvolvi- mento de políticas ambientais. O ministério do meio ambiente, cumprindo a Agenda 21, realizou conferências consultivas e 2 Divindade Grega – Gaia, Geia, Gea ou Gê era a deusa da Terra, a Mãe Terra, como elemento primordial e latente de uma potencialidade geradora quase absurda. Segundo Hesíodo, no princípio surge o Caos, e do Caos nascem Gaia, Tártaro, Eros (o amor), Érebo e Nix (a noite) (Wikipédia, a enciclopédia livre). 246 Sociedade e Contemporaneidade participativas nos estados brasileiros. A partir dessa foram apresentados planos, programas e ações que se expressam nas políticas e setores no organograma do Ministério do MMA. Destacamos abaixo as principais políticas e as respectivas leis:  Política Nacional do Meio Ambiente LEI Nº 6.938, DE 31 DE AGOSTO DE 1981.  Política Nacional de Educação Ambiental LEI Nº 9.795, DE 27 DE ABRIL DE 1999.  Política Nacional de Resíduos sólidos LEI Nº 12.305, DE 2 DE AGOSTO DE 2010.  Política Nacional de Mudanças climáticas LEI Nº 12.187, DE 29 DE DEZEMBRO DE 2009.  Código Florestal 18 DE OUTUBRO DE 2012 – A SER SANCIONADO PELA PRES. DILMA ROUSSEFF. No momento em que todos os países, todos os setores da economia, da cultura, dos governos falam em sustentabilida- de, responsabilidade socioambiental, consumo consciente, mercado ético, conservação ambiental, impactos ambientais, bens comuns e tantos outros conceitos associados a estes e a outros que exigem cumprimentos de políticas, de leis, e de regulamentações nacionais e globais e a demanda por pro- fissionais que compreendam a contemporaneidade. Vemos Capítulo 10 Meio Ambiente e Sustentabilidade 247 que nos negócios, os clientes, os consumidores, as instituições financeiras exigem práticas de corresponsabilidade no desen- volvimento social e na preservação do meio ambiente. Na Revista Época Negócios (2009, p. 126) consta que: “diante de uma agenda de negócios que foi invadida por te- mas antes periféricos, como meio ambiente e relações com a sociedade, o desafio agora é encontrar pessoas para a área da sustentabilidade”. No mesmo artigo lemos: “o profissio- nal tem que ter uma visão de toda a cadeia produtiva, ter a competência de compreender o negócio de forma holística, mostrar resultados concretos e saber se relacionar com os no- vos atores da cena dos negócios. Dar atenção às ONGs, às comunidades afetadas pela localização e pelo negócio e à atuação da mídia”. Para a cientista política Carla Duprat, diretora de sustenta- bilidade do grupo Camargo Correia, “é preciso uma capaci- dade enorme de organização e comunicação, além de buscar soluções dentro e fora da empresa e valorizar o conhecimento existente” (2009, p. 126). A tarefa dessa executiva e de sua equipe, a qual são chamados de “guardiões da sustentabilida- de”, é disseminar o conceito e colocar mudanças em prática nas doze empresas do grupo, cujos negócios vão da engenha- ria e construção civil à fabricação das sandálias havaianas. Assim, as possibilidades e as potencialidades de trabalho na área da sustentabilidade e da avaliação ambiental são enormes. No entanto, a sociedade é uma rede e um inter- cruzamento de interesses, de visões, de crenças, de poderes que se manifestam em contradições, tensões, conflitos que não 248 Sociedade e Contemporaneidade se resolvem com soluções tecnicistas, legalistas e que desco- nhecem as desigualdades sociais, as injustiças ambientais e autoritarismos herdados de um passado colonial, tirânico, pa- trimonialista e paternalista. Assim, com a constituição de 1988, incluíram as questões de participação pública, institucional e política. As audiências públicas vieram para serem considerados os efeitos sociais, culturais, econômicos, ambientais e institucionais, vivenciados pelos grupos atingidos, de qualquer atividade pública ou pri- vada que altere de maneira indesejada a forma como as pes- soas moram, trabalham, se relacionam umas com as outras, elaboram sua expressão coletiva e seus modos próprios de subjetivação. Para Henri Acselrad “a dimensão ambiental não pode ser avaliada de modo separado da dimensão social e cultural”. Recapitulando As questões ambientais iniciam-se nos locais mais próximos das pessoas, desde a casa, passando pelo trabalho, lazer e a cidade onde residem. Mas, como vivemos em uma casa co- mum (o Planeta Terra), no dizer dos documentos das Confe- rências Mundiais do Meio Ambiente, o cuidado com o meio ambiente é global. A Agenda 21, um plano acordado entre todos os países signatários da ECO-92, orienta quais são as ações promoto- ras e fiscalizadoras que devem ser realizadas em cada locali- Capítulo 10 Meio Ambiente e Sustentabilidade 249 dade para se obter a sustentabilidade da terra. O slogan da agenda é: “Pense globalmente e aja localmente”. É um convite – compromisso de todos e a cada um em particular de calcular o quanto de nosso consumo pessoal está “gastando do pla- neta”. A ferramenta para essa verificação do rastro pessoal do que a terra nos oferta se faz através do chamado cálculo da pegada ecológica. Deste modo, a busca pela sustentabilida- de leva à inovação no aproveitamento dos resíduos, a novas formas de comércio, à criação de materiais biodegradáveis, assim como retorno a alimentos orgânicos e, especialmente, uma dupla preocupação de um lado com o luxo, que trata de ofertar vivências saudáveis, com a pobreza para que ocorra a justiça socioambiental. Referências ACSELRAD, Henri. Conflitos ambientais no Brasil. Rio de Ja- neiro: Relume Dumará. Fundação Heinrich Böll, 2004. BECK, Ulrich. O que é globalização? – Equívocos do glo- balismo, respostas à globalização. São Paulo: Paz e Terra, 1999. ______. Liberdade ou Capitalismo – UlrichBeck conversa com Johannes Wilms. São Paulo: Unesp, 2003. BOFF, Leonardo. Saber cuidar – ética do humano – compai- xão pela terra. Petrópolis/RJ: Vozes, 1999. 250 Sociedade e Contemporaneidade CARSON, Rachel. 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Atividades 1) Assinale F (falso) ou V (verdadeiro) ao lado das assertivas abaixo: a) ( ) Há uma relação entre alimentação e pegada eco- lógica. b) ( ) Justiça socioambiental quer dizer colocar preço em todos os serviços ambientais. c) ( ) Desenvolvimento sustentável quer dizer a mesma coisa que Economia Verde. d) ( ) A ECO-92 foi a maior conferência voltada para a questão ambiental e dela saiu o documento chamado AGENDA 21. e) ( ) Não há uma relação entre alimentação e pegada ecológica. 2) Leia as assertivas abaixo e identifique as corretas com um X: Capítulo 10 Meio Ambiente e Sustentabilidade 253 a) ( ) Para passar a viver mais a sustentabilidade, temos que ir além de fechar a torneira ou usar uma sacola de pano. Para ser sustentável, a exigência é de repensar os padrões éticos e sobretudo o hábito de consumo. b) ( ) Mercado do carbono é o termo genérico utilizado para denominar os sistemas de negociação de certifi- cados de redução de emissões de GEES: um crédito de carbono equivale a uma tonelada de CO2 que dei- xou de ser produzida. c) ( ) As ações do ambientalista Lutzemberger geraram mudanças na organização do Estado brasileiro pela criação do Ministério do Meio Ambiente. d) ( ) O Ministério do Meio Ambiente é voltado somente para a preocupação climática. e) ( ) Todas as alternativas acima estão incorretas. 3) Assinale, abaixo, as políticas corretas: As políticas e as leis ambientais que orientam os Princípios, programas e ações são: a) ( ) Política Nacional do Meio Ambiente; b) ( ) Política Nacional de Economia Criativa; c) ( ) Política Nacional de Resíduos sólidos; d) ( ) Política Nacional de Educação Ambiental; e) ( ) Nenhuma das alternativas acima está correta. 254 Sociedade e Contemporaneidade 4) Os clientes e os consumidores estão mais exigentes em re- lação às mercadorias e aos produtos a serem adquiridos. Assinale com F (Falso) ou V (Verdadeiro) as razões para essas exigências: a) ( ) A preocupação com o meio ambiente. b) ( ) A preocupação com a saúde pessoal. c) ( ) A educação ambiental já chegou a todos. d) ( ) Os produtos são mais baratos e acessíveis ao poder de compra. e) ( ) Nenhuma das alternativas acima está correta. 5) Aprofundando o conceito de Justiça Ambiental para ACSELRAD: I - A condição de existência social em que se verifica igual proteção aos distintos grupos sociais com relação aos danos ambientais, por intermédio de leis e regulações democraticamente concebidas, que impeçam ao mer- cado impor decisões discriminatórias com base em raça, cor nacionalidade ou status socioeconômico. Ela resulta de um tratamento justo e de um envolvimento efetivo de todos os grupos sociais, no desenvolvimen- to, implementação e respeito a leis, normas e políticas ambientais. II- Para LEROY, estamos tão envolvidos na sociedade capitalista dominada por noções como propriedade privada, consumo e mercado e tão saturados pela informação e pela publicidade dominantes, que não Capítulo 10 Meio Ambiente e Sustentabilidade 255 percebemos espontaneamente que há ainda uma por- ção grande da nossa realidade e do planeta que está situada fora dos circuitos mercantis. III- Para BOLLIER, recursos compartilhados são o que uma comunidade constrói e mantém (biblioteca, parque, rua), os recursos nacionais que pertencem a todos como lagos, florestas, vida silvestre, espaço radioelé- trico e os recursos mundiais dos quais os seres vivos necessitam para poder sobreviver (atmosfera, água, biodiversidade). IV- A Poluição é democrática, afeta todas as classes so- ciais, não importando onde moram e quanto ganham. As correlações corretas entre as citações de autores são: a) ( ) I, II e IV b) ( ) II, III e IV c) ( ) I, II e III d) ( ) Nenhuma correlação está correta. e) ( ) Todas as correlações acima estão corretas. 256 Gabarito Gabarito Capítulo 1 1) b 2) d 3) c 4) e 5) d Capítulo 2 1) d 2) d 3) c 4) d 5) d Capítulo 3 1) d 2) e 3) b 4) a 5) e Capítulo 4 1) b Gabarito 257 2) d 3) e 4) e 5) e Capítulo 5 1) c 2) e 3) a-V, b-V, c-F, d-V, e-V 4) e 5) a-V, b-V, c-V, d-V, e-F Capítulo 6 1) a 2) a-V, b-V, c-F, d-F, e-V 3) d 4) d 5) b Capítulo 7 1) b 2) d 3) c 4) e 258 Gabarito 5) c Capítulo 8 1) b 2) c 3) e 4) d 5) a Capítulo 9 1) d 2) b 3) d 4) a 5) e Capítulo 10 1) a-V, b-F, c-F, d-V, e-F 2) a, b, c 3) a, c, d 4) a-V, b-V, c-F, d-F, e-F 5) c