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Câncer de colo uterino Definição: O câncer de colo uterino consiste em uma patologia de crescimento lento e insidioso, iniciado a partir de transformações intraepiteliais progressivas, que levam de 10-15 anos para evoluir para neoplasia. Fisiopatologia: O papilomaví rus humano (HPV) promove alterações citológicas denominas coilocitose e displasia leve. Essas células apresentam altos níveis de DNA de HPV e antígeno do capsídeo. À medida que as lesões da neoplasia intraepitelial cervical (NIC) tornam-se mais graves, os coilócitos desaparecem, o número de cópias do HPV diminui e o antígeno do capsídeo desaparece. Concomitante a isso, partes do DNA do HPV são integradas ao DNA ativo das células do hospedeiro. A interação do DNA do HPV ao DNA ativo da célula do hospedeiro é capaz de promover uma aceleração nas mitoses celulares, aumentando a chance de atipias e câncer. Estudos recentes sugerem que o HPV possui proteínas que interagem com os genes supressores de tumor p53 e erb. Quadro clínico: O câncer de colo uterino, inicialmente, na grande maioria das vezes, é assintomático. Quando sintomático, pode apresentar corrimento vaginal, dor, e sangramento anormal. O sangramento é o sintoma mais comum em mulheres com câncer, normalmente não está associado ao período menstrual e muitas vezes ocorre pós-coito (sinusorragia); Em estágios mais avançados de neoplasia, pode haver queixa de leucorreia vaginal fétida e dor, resultantes de processos inflamatórios, associados ou não à infecção do tumor. Fatores de risco: O principal fator de risco para o desenvolvimento das lesões NIC é a infecção pelo papilomaví rus humano (HPV), porém apenas alguns tipos causam lesões intraepiteliais de alto grau e câncer (HPV 16, 18, 31, 33, 35, 39, 45, 51, 52, 56, 58, 59 e 68). O HPV 16 é o tipo mais comum no câncer invasor e na NIC II e III, sendo encontrado em 47% dos casos de neoplasia de colo de útero; Associados à ação do HPV estão os fatores ambientais, como o tabagismo, a iniciação sexual precoce, a multiplicidade de parceiros sexuais, a multiparidade e o uso de contraceptivos, a coinfecção com o vírus da imunodeficiência humana (HIV) e outras doenças sexualmente transmissíveis (DST) e o hábito alimentar. Exame Físico: Inspeção e exame especular: Deve-se realizar a inspeção da vulva, vagina e colo, observando o aspecto, a forma, a presença de lesões ou tumores (pólipos, condilomas, papilomas), a aparência, a cor, a fluidez e viscosidade das secreções cervicovaginais. *Sempre mobilizar o espéculo, uma vez que pode ocultar lesões. Toque vaginal bimanual: Avaliar espessamentos ou irregularidade nas paredes vaginais, investigar se há extensão da lesão para os fórnices vaginais e avaliar útero e anexos. Toque retal: Avaliar infiltração e extensão de paramétrios, volume do tumor e, em caso de acometimento dos paramétrios, se há fixação à parede pélvica. Abordagem Diagnóstica: O estudo histopatológico é o método diagnóstico padrão-ouro para o câncer de colo uterino. No diagnóstico de afecções cervicais, o tipo histológico mais comum é o escamoso, Manuelle Graciano Ferreira porém a incidência relativa e absoluta do adenocarcinoma vem aumentando. Ambos são causados pela infecção por HPV. Diagnóstico Citopatológico e Conduta Inicial: Colpocitologia (Papanicolau) Células escamosas atípicas de significado indeterminado: Possivelmente não neoplásicas (ASC-US): < 30 anos: repetir citologia em 12 meses; ≥ 30 anos: repetir citologia em seis meses; Se os dois exames citopatológicos subsequentes com intervalo de seis meses (no caso de mulheres com mais de 30 anos) ou 12 meses (no caso de mulheres com menos de 30 anos) forem negativos, a mulher retorna à rotina trienal de rastreio; Porém, se o resultado de alguma citologia de repetição for igual ou sugestivo de lesão intraepitelial ou câncer, ela deve ser encaminhada à colposcopia. -Se a junção escamocolunar (JEC) for completamente visível, realizar biópsia; -Quando não for possível afastar lesão de alto grau (ASC-H): Encaminhar para colposcopia; Realizada a colposcopia: -Se JEC totalmente visível (ou seja, na zona de transformação - ZT - tipo 1 ou 2) e achados maiores: biópsia; -Se achados colposcópicos anormais, sem visão da JEC (ZT tipo 3): biópsia e avaliação do canal endocervical; -Caso resultado seja negativo ou NIC I: Iniciar seguimento (repetir citologia e colposcopia em seis meses). -Caso seja confirmada a presença de NIC II, seguir recomendação específica. Células glandulares atípicas de significado indeterminado (AGC): → Possivelmente não neoplásicas ou não se podendo afastar lesão de alto grau: -Encaminhar para colposcopia. Se ≥ 35 anos, realizar USG-TV; se anormal, realizar estudo anatomopatológico do endométrio; → Realizada a colposcopia com biópsia: -Se negativa ou NIC I: nova citologia com ênfase para o canal cervical ou raspado endocervical. Mantendo o resultado, controle citológico por 24 meses. Se exames consecutivos normais, retorna ao rastreio trienal; -Se adenocarcinoma in situ / câncer: conduta específica; -Se NIC II, III ou HSIL: EZT (exérese da zona de transformação) ou conização; -Se ACG: considerar idade, paridade e especificação do diagnóstico citológico inicial e/ou da nova citologia colhida, durante a colposcopia. → Células atípicas de origem indefinida (AOI): -Possivelmente não neoplásicas ou não se podendo afastar lesão de alto grau: Encaminhar para colposcopia; Realizada a colposcopia com biópsia: -Se NIC II, III ou câncer: conduta específica; -Se não apresentou alterações: repetir citopatológico em seis meses e seguimento. Lesão de baixo grau (LSIL): -Se ≤ 25 anos: Repetir em três anos; -Se > 25 anos: Repetir citologia em seis meses; -Se o resultado no citológico for mantido: Colposcopia; -Se colposcopia alterada: Biópsia; Realizada biópsia: -Se NIC II / III ou câncer: conduta específica; -Se não apresentar alterações: repetir citopatológico em seis ou 12 meses; se dois exames consecutivos normais: rastreio trienal; se persistência de LSIL/NIC I por mais de dois anos: Manuelle Graciano Ferreira manter seguimento citológico ou reencaminhar para colposcopia. Lesão de alto grau (HSIL): → Encaminhar para colposcopia; Realizada a colposcopia: -Se JEC visível com achado maior: excisão conforme tipo de zona de transformação; -Se JEC visível sem achado maior ou JEC não visível: biópsia e avaliação do canal; -Se JEC não visível com achado maior: excisão tipo 3 (conização); -Se for sem alterações: nova citologia ou investigação do canal. Se mantiver HSIL com JEC visível ou não mantiver: conduta específica ou controle citológico ou citocolposcópico. Se mantém HSIL e JEC não visível: excisão tipo 3 (conização); Realizada a biópsia: -Se câncer: encaminhar para unidade terciária (alta complexidade); -Se NIC I ou ausência de NIC: repetir citologia e colposcopia em seis meses; -Se NIC II / III: excisão conforme tipo de zona de transformação (ZN). Carcinoma invasor: Encaminhar para colposcopia. Realizada a colposcopia: -Se não houver suspeita de invasão: excisão da zona de transformação conforme tipo; -Se houver suspeita de invasão: biópsia; Realizada a biópsia: -Se carcinoma invasor: encaminhar para unidade de alta complexidade; -Se carcinoma microinvasor: excisão tipo 3 (conização); -Se NIC I / II / III com JEC visível: excisão tipo 1 ou 2); -Se NIC I / II / III sem JEC visível: conização. Adenocarcinoma in situ ou invasor: Encaminhar para colposcopia. Realizada colposcopia: -Se não sugerir invasão: excisão tipo 3 (conização); -Se câncer: encaminhar para unidade de alta complexidade; -Se adenocarcinoma in situ: histerectomia simples ou seguimento; -Se não for adenocarcinoma in situ: seguimento; -Se sugestiva de invasão: biópsia; Realizada biópsia: -Se câncer: encaminhar para unidade de alta complexidade; -Se adenocarcinoma in situ: histerectomia simples ou seguimento; -Se não for adenocarcinoma in situ: seguimento. ClassificaçãoHistológica Tumores Epiteliais → Carcinoma de células escamosas: - Grandes células não queratinizantes; - Grandes células queratinizantes; - Pequenas células; - Carcinoma verrucoso. → Adenocarcinoma: - Padrão comum; - Adenoma maligno; - Mucinoso; - Papilífero; - Endometrioide; - Células claras; - Adenoide cístico. → Carcinoma Adenoescamoso - Tumores mesenquimais: - Sarcoma estromal endocervical; - Carcinossarcoma; - Adenossarcoma; - Leiomiossarcoma; - Rabdomiossarcoma embrionário. → Outros: - Tumor do ducto de Gartner; Manuelle Graciano Ferreira - Tumores metastáticos; - Linfomas; - Melanomas; - Carcinoides. Estadiamento (FIGO, 2018): O tratamento do câncer de colo de útero é realizado de acordo com o estadiamento da doença. O estadiamento é realizado clinicamente, embora existam técnicas radiológicas modernas, tais como tomografia computadorizada, ressonância magnética, ultrassonografia ou tomografia por emissão de pósitrons. Estádio I: Carcinoma restrito ao colo uterino. Se houver extensão para o corpo uterino, deve ser desconsiderada. - IA: A invasão do estroma é limitada à profundidade de 5 mm, sendo diagnosticada apenas por microscopia; IA 1: Invasão do estroma < 3 mm em profundidade; IA 2: Invasão do estroma ≥ 3 e < 5 mm de profundidade; - IB: Lesão clinicamente visível limitada ao colo ou lesão microscópica maior que 1A2/IA2. Observação: A profundidade da invasão não deve ser maior do que 5 mm, medida a partir da base do epitélio, superficial ou glandular, do qual se origina. A profundidade da invasão é definida como a medida do tumor, desde a junção epitelial estromal da papila epitelial adjacente mais superficial até o ponto mais profundo da invasão. O envolvimento do espaço vascular, venoso ou linfático, não altera a classificação; IB 1: Carcinoma invasivo com invasão estromal ≥ 5 mm de profundidade e < 2 cm em sua maior extensão; IB 2: Carcinoma invasivo com invasão estromal ≥ 2 cm de profundidade e < 4 cm em sua maior extensão; - IB 3: Carcinoma invasivo ≥ 4 cm em sua maior extensão. Estádio II: O carcinoma cervical invade além do útero, mas não há extensão para a parede pélvica e terço inferior da vagina. - IIA: Invasão da vagina, sem atingir seu terço inferior, e ausência de comprometimento parametrial; IIA 1: Tumor clinicamente visível < 4 cm em seu maior diâmetro; IIA 2: Tumor clinicamente visível ≥ 4 cm em seu maior diâmetro; - IIB: Presença de envolvimento parametrial, porém sem acometimento da parede pélvica. Estádio III: O carcinoma estende-se até a parede pélvica e/ou acomete o terço inferior da vagina e/ou causa hidronefrose ou inatividade renal e/ou acomete linfonodos pélvicos e/ou aórticos. - IIIA: O tumor acomete o terço inferior da vagina, sem extensão para parede pélvica; - IIIB: Extensão para a parede pélvica e/ou hidronefrose ou inatividade renal; - IIIC: Acometimento dos linfonodos pélvicos e/ou aórticos, Manuelle Graciano Ferreira independentemente do tamanho e extensão do tumor; IIIC 1: Acometimento apenas de linfonodos pélvicos; IIIC 2: Acometimento de linfonodos para-aórticos. Estádio IV: O carcinoma estende-se além da pelve verdadeira ou acomete a mucosa da bexiga ou do reto (comprovado por biópsia). O edema bolhoso, por sua própria natureza, impede que um caso seja classificado no estádio IV. - IV A: Disseminação do tumor para órgãos adjacentes; - IV B: Disseminação para órgãos distantes. Abordagem Terapêutica (FIGO, 2018) O tratamento do câncer de colo do útero é realizado de acordo com o estadiamento da doença. Estádio I: IA 1: Conização; todavia, se houver invasão do espaço linfovascular ou presença de células tumorais acometendo a margem cirúrgica, a conduta é a histerectomia extrafascial total; se acometimento do espaço linfovascular, a linfadenectomia pélvica deve ser considerada, juntamente com a histerectomia radical modificada. Caso exista desejo reprodutivo, deve-se realizar a conização com um acompanhamento rigoroso; IA 2: Se houver desejo de gestar, pode-se realizar traquelectomia radical / conização + linfadenectomia pélvica. Se não houver: histerectomia radical tipo B com linfadenectomia pélvica; IB 1: Histerectomia radical tipo C com linfadenectomia pélvica. Se houver desejo de gestar, pode-se realizar traquelectomia radical + linfadenectomia pélvica; IB 2: Histerectomia radical tipo C com linfadenectomia pélvica e aórtica lateral ou radioterapia primária; IB 3: Quimiorradioterapia. Estádio II: IIA 1: Histerectomia radical tipo C com linfadenectomia pélvica e aórtica lateral ou radioterapia primária; IIA 2: Quimiorradioterapia; IIB: Quimiorradioterapia. Estádio III: Quimiorradioterapia. Estádio IV: IV A: Quimiorradioterapia; IV B: Quimioterapia. Prognóstico: O prognóstico da doença depende do estadiamento, tipo histológico, comprometimento do tumor, grau de diferenciação, diâmetro e volume do tumor, se há envolvimento parametrial, do corpo uterino e/ou vagina, presença de metástase linfonodal e a presença de invasão vascular. Quanto mais inicial for o tumor, maior a chance de cura. A sobrevida varia de 80% no estádio IB a 2-3 meses no estádio IV B. O tipo histológico de melhor prognóstico é o carcinoma de células escamosas, e quanto maior o grau de diferenciação, melhor. Manuelle Graciano Ferreira Na presença de infiltração extensa do colo (> 15 mm), a sobrevida é de 70% em 5 anos. A invasão da serosa do colo, do endométrio e da vagina piora muito o prognóstico, bem como o acometimento linfonodal. Acompanhamento: Primeiro ano: - Exame ginecológico a cada três meses; - Coleta de citopatológico e colposcopia do fundo de saco vaginal a cada seis meses; - Toque vaginal e retal; - USG abdominal total e transvaginal aos seis e 12 meses; - Raio-x de tórax aos 12 meses (nos estádios III e IV); - Hemograma na suspeita de anemia. Segundo ao quinto ano: - Consultas semestrais; - Repetir a rotina realizada no primeiro ano. Após o quinto ano: - Consultas e exames anuais. https://www.inca.gov.br/sites/ufu.sti.inca.local/fil es/media/document/diretrizesparaorastreament odocancerdocolodoutero_2016_corrigido.pdf https://www.scielo.br/j/rb/a/hfDHJSJSBTygzPJT 9NvX4Py/?lang=pt&format=pdf Manuelle Graciano Ferreira https://www.inca.gov.br/sites/ufu.sti.inca.local/files/media/document/diretrizesparaorastreamentodocancerdocolodoutero_2016_corrigido.pdf https://www.inca.gov.br/sites/ufu.sti.inca.local/files/media/document/diretrizesparaorastreamentodocancerdocolodoutero_2016_corrigido.pdf https://www.inca.gov.br/sites/ufu.sti.inca.local/files/media/document/diretrizesparaorastreamentodocancerdocolodoutero_2016_corrigido.pdf https://www.scielo.br/j/rb/a/hfDHJSJSBTygzPJT9NvX4Py/?lang=pt&format=pdf https://www.scielo.br/j/rb/a/hfDHJSJSBTygzPJT9NvX4Py/?lang=pt&format=pdf Manuelle Graciano Ferreira