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Pé diabético Vitória Araujo o Introdução: � É uma das complicações mais impactantes do diabetes mellitus (DM), e sua incidência tende a aumentar à medida que a epidemia global do DM ascende, diante da maior longevidade da população e da associação com obesidade. � O DM é também a principal causa de amputação não traumática de membros inferiores, e mais de 1 milhão de pessoas perdem uma parte do membro inferior a cada ano, ou seja, uma amputação a cada 20 segundos no mundo. o Epidemiologia: � A incidência anual de UPD varia entre 2 e 4%, e a prevalência, entre 4 e 10%; a incidência cumulativa ao longo da vida é de 25%. � Os dados são provavelmente mais altos em países com baixa situação socioeconômica e em desenvolvimento. o Mecanismos da ulceração: � As UPD resultam da presença simultânea de dois ou mais fatores de risco, e a forma mais comum de ND, a polineuropatia diabética periférica (PND), constitui o fator permissivo principal, e DAOP deflagra ou complica o processo da ulceração em pessoas com DM. o Polineuropatia diabética periférica: acarreta insensibilidade por dano às fibras nervosas finas (tipo C e delta) pela exposição prolongada à hiperglicemia, associada a fatores cardiovasculares e deformidades estruturais dos pés, por meio do comprometimento das fibras grossas (beta A, alfa). Este último resulta em perda da propriocepção, do movimento articular e da percepção de posição segmentar pelos receptores nas pernas e nos pés, e, em estágios avançados, em fraqueza muscular e alterações da arquitetura óssea, em consequência do envolvimento tardio das fibras grossas motoras (A alfa). Observam-se deformidades neuropáticas típicas: dedos em garra ou em martelo, proeminências de metatarsos e acentuação do arco. Consequentemente, surgem áreas de pressão anormal (cabeça dos metatarsos, região dorsal e plantar dos dedos dos pés) e modifica-se o padrão normal da marcha ao caminhar. *A tríade da UPD é conjunção de PND, deformidade e traumatismo. O comprometimento das fibras simpáticas (finas) pela neuropatia autonômica (NAD) periférica resulta em diminuição ou ausência de sudorese (anidrose) e pele ressecada, predispondo a rachaduras e fissuras. Além disso, alterações na microcirculação pela denervação dos receptores nociceptivos perivasculares e pelo espessamento da membrana basal dos capilares desequilibram os mecanismos reguladores da vasodilatação e vasoconstrição, com aumento do fluxo e surgimento de fístulas arteriovenosas que desviam esse fluxo dos tecidos profundos. O resultado clínico é um pé “quente”, veias dorsais distendidas e, algumas vezes, edema. *É importante ressaltar que o comprometimento microvascular é funcional, ocorre na ausência de macrovasculopatia e não é responsável direto pelas ulcerações e amputações. o Pé de Charcot: uma complicação grave e incomum, atualmente considerada uma síndrome inflamatória, que surge após lesão ou traumatismo leve despercebido, úlcera prévia, infecção ou cirurgia, amputação menor previa, que mantem um ciclo contínuo de inflamação. A inflamação descontrolada do pé causa osteólise e deslocamento da fratura e desabamento do osso ou dos ossos afetados. É observada em ambos os tipos de DM, e parece haver maior frequência no DM, está associada a significativa morbidade e risco de amputação, e a baixa qualidade de vida. o DAOP: influencia diretamente o desenvolvimento de UPD e determina a evolução mediante o grau de gravidade da isquemia. As lesões surgem após traumatismo, mesmo de pequena intensidade, predominam nas faces lateral e medial dos pés, bem como nas extremidades digitais, e são dolorosas (na ausência de PND).14,15 A DAOP constitui um fator de risco independente para UPD e amputação, além de estar associada a maior risco cardiovascular. o Fatores de risco: � Polineuropatia diabética; � Deformidades neuropáticas; � Traumatismo; � LMA; � Pressão plantar anormal; � Histórico de UPD; � Reitinopatia; � Doença renal do diabetes; o Manifestações clínicas: � Pé neuropático: o Quente, bem perfundido, pulsos amplos, vasos dorsais dilatados; o Anidrose, pele seca com tendência a rachaduras e fissuras; o Arco médio elevado, metatarsos proeminentes, dedos em garra/martelo; o Áreas de pressão plantar anormal (hiperqueratose), calosidades; o Edema, hiperemia, alterações articulares graves (pé de Charcot); � Pé isquêmico: o Pé frio, má perfusão, pulsos diminuídos ou ausentes; o Pele fina, brilhante; o Cianose, rubor postural, palidez à elevação; o Unha atrofiadas, ausência/rarefação de pelos; � Pé neuroisquêmico: o Combinação dos achados neuropáticos e vasculares, com ou sem deformidades; o Anamnese: � Avaliação importante: o Tempo de doença do DM e controle glicêmico; o História de complicações micro e macrovasculares; o História de úlceras, amputação ou by-pass em membros; o História de tabagismo; o Dor ou desconforto em MMII; o Cuidados de higiene e proteção dos pés; o Qualidade da acuidade visual; o Exame físico: � Inspeção: o Avaliar anatomia do pé: deformidades (dedo em garra, proeminência dos metatarsos, Artropatia de Charcot); o Hidratação: neuropatia frequentemente apresenta pele ressecada (fissuras e úlceras); o Coloração, temperatura, distribuição dos pelos: pele pálida, avermelhada, azulada ou arroxeada, fria e rarefação de pelos são sinais de ins. arterial; o Integridade de unhas e pele: distrofias ungueais, lesões esfoliativas, úmidas interdigitais, calosidades, corte da unha; � Testes qualitativos: o Avaliam fibras grossas e finas, de modo qualitativo, com respostas subjetivas de presente ou ausente: diapasão 128 Hz (sensibilidade vibratória), martelo (reflexos aquileu), pino, palito ou neurotip (sensibilidade à dor), martelo de Buck (reflexos aquileu) � Testes semiquantitativos: o Monofilamento 10 g: Avalia a sensibilidade protetora plantar (SPP), conduzida pelas fibras grossas mielinizadas. Qualquer área insensível é considerada anormal; o Pressão plantar: Vários métodos avaliam a PP, desde simples plantígrafos sem escala de força até plantígrafos com escala de força, validados com relação ao pedobarógrafo, que, com plataformas e palmilhas dotadas de sensores, captam, por meio da pisada, a pressão anormal; portanto, o ponto de corte, indicativo de PP anormal, varia segundo os sistemas empregados. A PP também norteia a confecção de palmilhas para aliviar a distribuição de carga. o Vasculares: A palpação dos pulsos (pedioso e tibial) deve ser sempre efetuada, porém há grande variação intra e interobservadores, mesmo em mãos experientes. Isquemia crítica de membros (pode inviabilizar o membro, urgência médica). Avaliação de sinais de insuficiência venosa (edema, hiperpigmentação da pele, dermarolipoesclerose, eczema ou úlcera; *Dados demográficos -Idade, sexo, tipo e duração do DM, comorbidades (dislipidemia, HAS, complicações diabéticas) *Histórico prévio -Úlcera, amputação *Remoção obrigatória dos calçados -Exame dos calçados, exame dos pés Achados clínicos -Deformidades, calos, rachaduras, maceração da pele, micoses, coloração/temperatura da pele Detecção de polineuropatia periférica* -Monofilamento 10 g (cor laranja, SORRI)* -Vibração (diapasão 128 Hz) -Dor (pino, palito) -Sensibilidade ao frio (cabo do diapasão 128 Hz) -Reflexos aquileus (martelo) *Detecção de doença vascular periférica -Inspeção da pele, palpação dos pulsos, determinação do ITB (ecodoppler manual) Biomecânica (pressão plantar) -Plantígrafos (Harris Mat®, PressureStat®) -Plataformas, palmilhas com sensores o Ulcerações: � Definição: lesão espessada que atinge a derme, localiza-se abaixo do tornozelo e acomete pacientes diabéticos, independentemente de sua duração; � Gangrena: necrose contínua da pele e de estruturas subjacentes: músculo, tendão, osso, articulação; � Classificação: o Agudas: secundárias à escoriação dérmica; o Crônicas: consequência do aumento da pressão sobre pontosespecíficos; o Arteriais: resultante de um quadro de insuficiência venosa periférica; � Avaliar: o Localização anatômica; o Tamanho: diâmetro, área, observar se não há exposição de estruturas profundas, como estruturas ósseas e tendões; o Exsudato: quantidade, aspecto, odor; o Bordas/margens: aderida, marcerada, descolada, fibrótica, hiperquerotótica... o Pele perilesional: edema, coloração, temperatura, endurecimento, flutuação, descamação... o Infecção: presença de sinais sugestivos de infecção concomitante; o Exames de imagem: � Radiografia simples; � Ressonância magnética; � Cintilografias ósseas/tomografias; � Biópsia óssea;