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Sejam bem-vindos à disciplina CLÍNICA MÉDICA II, ministrada pelo Professor Msc. JOSÉ
LUIZ F. MOLINA FILHO. O objetivo desta disciplina é combinar a teoria com a prática,
seguindo um plano de ensino que inclui cronograma, assuntos e referências
bibliográficas.
A disciplina aborda as questões "COMO ABORDAR PROBLEMAS CLÍNICOS?" e os
"PADRÕES DE DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL".
A ARTE DA MEDICINA E A RESPONSABILIDADE DO MÉDICO
Sobre a prática médica, uma citação do Harrison’s Principles of Internal Medicine, de
1950, afirma: “Não se pode conferir a um ser humano nenhuma oportunidade, nenhuma
responsabilidade ou obrigação maior do que a de tornar-se médico. Ao assistir pessoas
que sofrem, o médico precisa ter habilidade técnica, conhecimento científico e
compreensão humana...”. Essa afirmação destaca que a medicina dificilmente será
substituída por atividades não humanas, pois exige o entendimento do outro ser humano,
misturado com linguagem verbal, não verbal, percepções, emoções e afeto. A inteligência
artificial pode acrescentar muito na base de dados, mas o entendimento humano é
insubstituível.
Essa responsabilidade é um grande estímulo para o aperfeiçoamento e estudo contínuo.
A boa preparação impacta diretamente na qualidade do atendimento ao paciente e em
sua vida e de sua família. A medicina, além de ser um trabalho de alto valor e impacto na
vida das pessoas, oferece muitas oportunidades e reconhecimento pelo trabalho.
Sir. William Osler, conhecido como o “Pai da Clínica Médica”, destacou a importância da
união entre teoria e prática ao afirmar: “Praticar a Medicina sem os conhecimentos
teóricos é como navegar sem bússola; praticar a Medicina apenas com a teoria é
como jamais ter entrado no mar.”. Isso significa que a teoria fornece a direção (como
um GPS), enquanto a prática é essencial para aplicar esse conhecimento na realidade.
Não se pode ser apenas teórico, nem apenas prático de "orelhada".
Nosso desafio na medicina é transpor os conhecimentos dos livros e artigos
científicos para a situação clínica. A ferramenta mais importante para alcançar uma boa
prática médica é o conhecimento teórico associado a uma HISTÓRIA CLÍNICA
“perfeita”. Uma "história clínica perfeita", ou a melhor possível, envolve uma anamnese e
exame físico detalhados, integrados ao conhecimento de bagagem teórica.
A prática da medicina é frequentemente descrita como “A ARTE DA MEDICINA”. Essa
"arte" é a aplicação da ciência e do conhecimento, sendo composta por:
• Conhecimento clínico (teórico e prático).
• Experiência.
• Intuição.
• Discernimento.
A intuição e o discernimento são usados constantemente na prática, como um "sexto
sentido" que, baseado na experiência, auxilia na escolha da melhor conduta para um
paciente específico. Essa escolha deve considerar o contexto social, as crenças
religiosas, o contexto familiar, aspectos socioeconômicos, culturais e epidemiológicos do
paciente, pois uma pneumonia, por exemplo, é diferente em cada indivíduo. Contudo, não
se pode depender apenas da intuição; a prática médica deve ser sempre embasada
cientificamente.
Um médico habilidoso precisa realizar avaliações essenciais várias vezes ao dia, que
incluem:
• Definir quando um indício clínico deve ser mais bem investigado ou descartado
como uma “pista falsa”.
• Ponderar se um tratamento proposto acarreta riscos maiores do que a própria
doença.
Essas decisões diárias, que envolvem desde o diagnóstico até a conduta e o que se fala
ao paciente, são difíceis, mas se tornam mais naturais com a prática. A habilidade médica
também se manifesta ao lidar com pacientes prolixos ou introvertidos, utilizando a
linguagem não verbal e estabelecendo uma boa relação médico-paciente. A confiança
do paciente é crucial, pois um resultado positivo é medido pelo efeito do tratamento no
paciente, não apenas pela conduta inicial do médico. Para isso, é fundamental dedicar
tempo adequado à consulta, mesmo que a realidade do sistema de saúde apresente
desafios de produtividade, como no SUS. Em alguns casos, pode ser necessário dividir
uma consulta complexa em duas etapas para garantir a resolução do problema do
paciente. O paciente valoriza o interesse do médico em resolver seu problema.
EXAMES COMPLEMENTARES
Em relação aos EXAMES COMPLEMENTARES, eles são uma extensão da avaliação
clínica:
• A solicitação deve ser baseada na história clínica e exame físico. Eles devem ser
pedidos com um objetivo claro para auxiliar no processo de tomada de decisão,
evitando confusão desnecessária.
• Seu resultado deve ser capaz de auxiliar no processo de tomada de decisão. O
valor de um exame pode variar drasticamente dependendo do paciente e de sua
probabilidade pré-teste de ter uma doença, como demonstrado por um teste de
esforço alterado em uma mulher jovem com queixa atípica (16% de chance de
doença coronariana) versus um homem com mais de 55 anos e queixa típica de
angina (97% de chance de doença coronariana).
• É crucial lembrar que os exames não fazem diagnóstico, os médicos fazem. Eles
são ferramentas que complementam a avaliação, mas não substituem o raciocínio
clínico e a compreensão do contexto do paciente. Um hemograma, por exemplo, só
tem significado quando interpretado à luz dos sintomas, histórico, uso de
medicamentos, idade, e outras condições do paciente.
ABORDAGEM DO PROBLEMA CLÍNICO: 4 PASSOS NA SOLUÇÃO
Para sistematizar a avaliação do problema clínico, seguimos quatro passos fundamentais:
1. Estabelecimento do diagnóstico:
◦ Processo do diagnóstico (habilidades necessárias):
▪ Conhecimento: Essencial e adquirido através do estudo constante.
▪ Obtenção de dados de maneira consciente: Semiologia é a base
para isso.
▪ Registros organizados.
▪ Tempo/evolução da doença: Fundamental para diferenciar
possibilidades diagnósticas.
▪ Lógica do raciocínio clínico: Deve ser exercitada continuamente.
▪ Uso racional e criterioso de exames complementares.
▪ Experiência: Vem com o tempo, mas é crucial não ficar parado e
buscar evoluir.
◦ Como buscar o diagnóstico:
▪ Identificar o problema objetivo principal: Organizar os sintomas do
paciente para focar a investigação. Se há mais de um sintoma,
entender o principal ou se podem se juntar.
▪ Procurar características discriminatórias: No decorrer da anamnese
e exame físico, buscar sinais que aproximem de um diagnóstico e
afastem outros, incluindo o uso de exames complementares. Ex: A
tosse tem características discriminatórias como tempo de evolução (3
dias vs. 3 meses) e presença de febre.
2. Avaliação da gravidade da doença (estadiamento):
◦ Deve ser feita por triagem clínica, identificando sinais de gravidade e o estágio
da doença.
◦ Isso orienta a conduta e o local de tratamento (ambulatório, hospital, UTI). Ex:
Uma pielonefrite em estágio inicial vs. com sinais de sepse.
3. Estabelecimento do tratamento:
◦ O tratamento deve ser adaptado ao estágio da doença (gravidade) e ao
diagnóstico. A mesma doença pode ser tratada de formas diferentes
dependendo do paciente e da sua gravidade.
◦ Os objetivos do tratamento são sempre:
▪ Alívio de sintomas: Dar conforto ao paciente.
▪ Prevenção de complicações.
▪ Redução de mortalidade.
◦ É essencial considerar os três objetivos. Em pacientes paliativos, mesmo que
a morte não possa ser evitada, o conforto sempre pode ser proporcionado.
4. Acompanhamento da resposta do paciente ao tratamento:
◦ A avaliação da resposta pode ser clínica (melhora da dor, estado geral,
ausência de febre) e/ou laboratorial(ex: queda de leucócitos, PCR).
◦ É uma oportunidade de confirmar ou redirecionar a hipótese diagnóstica
inicial. Se o tratamento não deu certo, pode indicar um diagnóstico inicial
incorreto ou a necessidade de uma nova conduta (ex: bactéria resistente).
◦ É uma preciosa fonte de aprendizado.
◦ É importante orientar o paciente sobre o retorno, que varia de acordo com a
necessidade (ex: infecção aguda vs. demência, ou reavaliaçãode imagem em
6 semanas).
◦ Deve-se evitar criticar a conduta de colegas, pois o contexto e as
informações disponíveis mudam com o tempo. O paciente pode apresentar
histórias diferentes em cada atendimento.
ABORDAGEM PELA LEITURA
Para melhorar o arsenal na investigação clínica, é fundamental aumentar o conhecimento
teórico e prático. A leitura orientada pelo problema clínico melhora a retenção de
informações e facilita a aplicação do “conhecimento teórico” ao “conhecimento
clínico”. O estudante deve tornar-se perito nesta abordagem.
Ao estudar um caso clínico, o aluno deve fazer perguntas ao material de estudo, como:
• Qual é o diagnóstico mais provável?
• Como confirmar o diagnóstico?
• Qual deve ser o próximo passo?
• Qual é o mecanismo mais provável desse processo? (Ex: PTI - processo autoimune
de produção de anticorpos IgG contra plaquetas, com retirada dos complexos pelo
baço, resultando em destruição periférica; medula óssea mostra aumento de
megacariócitos).
• Quais são os fatores de risco para esta doença?
• Quais são as complicações associadas com a doença?
• Qual é o melhor tratamento? (Ex: PTI - corticosteroides ou esplenectomia em casos
refratários).
Essa forma de estudo, vivenciando o caso e respondendo às dúvidas, torna o
aprendizado mais prazeroso, palatável e memorizável.
DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL: 8 ESTRATÉGIAS
Para trabalhar o diagnóstico diferencial (o primeiro passo da abordagem do problema
clínico), que consiste em eliminar possibilidades até chegar ao diagnóstico ou estreitar o
leque de opções, existem várias estratégias que podem ser usadas, inclusive em
conjunto:
1. Organização em grades:
◦ Consiste em organizar informações para facilitar a investigação.
◦ Exemplo: Icterícia. A icterícia pode ser investigada sabendo se a
predominância da bilirrubina é direta ou indireta.
▪ Hiperbilirrubinemia direta: Causas incluem obstrução de vias biliares
e lesão hepatocelular. Ocorre quando o problema é após a conjugação
da bilirrubina no fígado.
▪ Hiperbilirrubinemia indireta: Causas incluem hemólise e alteração
nas vias de conjugação. Ocorre quando o problema é antes da
bilirrubina passar pelo fígado.
▪ Isso permite usar fatores discriminatórios para saber a causa (ex:
paciente com hemólise terá quebra de massa, diferente de alteração de
conjugação).
2. Diagnóstico topográfico/anatômico:
◦ Identifica a localização do problema, muito utilizado na neurologia.
◦ Avalia a localização da lesão ao longo do sistema nervoso (músculo, junção
neuromuscular, nervos periféricos, plexopatias, raiz nervosa, neurônio motor
inferior, neurônio motor superior, medula, encéfalo).
◦ Exemplo: Plegia braquial direita. A investigação pode ser direcionada pela
avaliação do tônus (flácido/espástico), atrofia, reflexos e outros sinais,
evitando exames desnecessários como ressonância de crânio se a suspeita
for periférica.
3. Organização em síndromes:
◦ Síndrome (do grego syndromos = andar junto) é um conjunto de sinais e
sintomas que ocorrem associadamente, mas podem ser determinados por
diferentes causas.
◦ Exemplo: SÍNDROME ANÊMICA. Agrupa sintomas como cansaço aos
esforços, astenia, palidez, sopro sistólico pancardíaco, taquicardia e
hipotensão.
◦ Após identificar a síndrome, o trabalho continua para descobrir a causa
subjacente (ex: perda de sangue, carência, hemólise, déficit de produção).
4. Padrão de reconhecimento:
◦ Intrinsecamente relacionada à experiência clínica ("aquilo que o médico já
viu") e à abstração consciente. É uma forma mais fácil, mas depende de
experiência.
◦ Ocorre quando o médico infere uma doença porque o quadro clínico é igual a
casos já vistos.
◦ Exemplo: Quadro agudo de Febre + Mialgias + tosse seca + anosmia,
levando à suspeita de COVID-19.
◦ Limitação: Depende da experiência (não funciona bem para doenças raras).
5. Método fisiopatológico:
◦ Organiza as possibilidades diagnósticas com base nos mecanismos
fisiopatológicos da doença.
◦ Exemplo: Pancitopenia (redução das três séries sanguíneas: vermelha,
plaquetária e branca). Pode ser classificada como pré-medular (carencial:
B12, ácido fólico, ferro), medular (aplasia, mielodisplasia) ou pós-medular
(hiperesplenismo, destruição periférica autoimune).
◦ A diferenciação é feita por avaliação clínica e exames complementares, às
vezes até por biópsia.
6. Fluxogramas/Algoritmos:
◦ Representação gráfica do problema, muito utilizada em emergências clínicas.
◦ Simplifica e acelera o processo de diagnóstico e conduta, sendo essencial em
pacientes graves.
◦ Exemplos: Algoritmos de parada cardíaca, AVC, infarto, embolia pulmonar,
arritmias.
7. Escores diagnósticos:
◦ Utilizam critérios de risco validados clinicamente para aproximar-se de um
determinado diagnóstico.
◦ Exemplo: Escores como o Wells para embolia pulmonar, onde cada item
presente confere uma pontuação, classificando o paciente em risco baixo,
moderado ou alto.
8. Mnemônicos e frases de efeito:
◦ Mnemônicos: Acrônimos ou acrósticos que ajudam a memorizar informações.
▪ Exemplos: ABCDE para avaliação de lesões de pele (assimetria,
bordas, etc.), ou o ABCDE do paciente traumatizado.
◦ Frases de efeito: Frases curtas que encapsulam um conceito importante.
▪ Exemplo: “O lúpus dá tudo, mas nem tudo de uma lúpica é do
lúpus.”. Isso significa que o lúpus pode acometer qualquer sistema
orgânico e causar diversas complicações, mas um paciente com lúpus
pode ter outras doenças não relacionadas à condição.