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Osteomielite hematogênica aguda (OHA) Introdução · A antibioticoterapia adequada minimizou a mortalidade e as sequelas sistêmicas pela osteomielite · Entretanto, como a infecção do tecido ósseo é difícil de tratar, dada a agressividade local e a consequente destruição óssea, a função do membro afetado pode ser comprometida. Portanto, exige diagnóstico precoce · Maior prevalência que os tumores ósseos Definição Processo inflamatório e infeccioso do osso causado por um microorganismo infeccioso, resultando em destruição, necrose e neoformação de tecido ósseo. Patogênese Formas de alcance 1. Inoculação direta (feridas penetrantes, fraturas expostas, contaminações cirúrgicas)Esqueleto maduro 2. Contiguidade com foco de infecção (partes moles; ex: celulite) 3. Disseminação hematogênica É menos frequente que a osteomielite aguda por inoculação direta ou por contiguidade, mas é a mais frequente no esqueleto imaturo · É a osteomielite hematogênica aguda (OHA) Principal infecção óssea aguda em crianças · A disseminação hematogênica da bactéria até o tecido ósseo é um evento relativamente comum na infância e, em geral, consequência de processos infecciosos prévios e à distância ( IVAS como amigdalite, faringite, otite média, sinusite), infecção cutânea (piodermite) 2-3 semanas antes · Podem ser também atividades diárias Escovação dentária, manobra de Valsalva Contaminação local · O patógeno atinge o tecido ósseo, inicialmente asséptico, por disseminação hematogênica · A contaminação local pode ou não evoluir para um processo infeccioso, pois as células de defesa podem ou não debelar essa infecção Infecção O desenvolvimento da infecção do osso contaminado é predisposto por um desequilíbrio entre o ataque e a defesa. · Quantidade do inócuo · Virulência do germe · Resistência do hospedeiro Fisiopatologia · Início da instalação do processo infeccioso na metáfise dos ossos longos Características que influenciam na gênese na região metafisária · Padrão circulatório terminal na região da metáfise em direção à epifise: Na fase pré-escolar e escolar, o capilar terminal é incapaz de atravessar a fise e alcançar a epífise, portanto ele se concentra na região metafisária, tornando essa a área mais suscetível à disseminação hematogênica dos agentes etiológicos · Arteríolas estreitas se conectam aos sinusoides venosos mais largos, e fluxo sanguíneo local fica mais lento e nessa região, facilitando o depósito de possíveis bactérias conduzidas pelo sangue · Passagem de bactérias para fora do vaso Intervalos no endotélio dos vasos metafisários · Pequena concentração de monócitos nos sinusoides A defesa não chega em quantidade ideal Etiologia · Os principais agentes são as bactérias, sendo a mais prevalente S. aureus · Outros · S. pyogenes · Estafilococos coagulase-negativa · Pseudomonas aeruginosa (pacientes grandes queimados, imunodeprimidos) · Salmonella (A. falcifome) · Pode existir osteomielite viral Classificação Tempo de evolução · Aguda Início dos sintomas ≤ 2 semanas · É a mais frequente e, portanto, a mais relevante de o médico conhecer · Tem sinais e sintomas clássicos e graves que tornam o diagnóstico fácil · Muitas vezes o diagnóstico não é feito, pois o médico esquece que essa patologia existe · Subaguda Sintomatologia por > 2 semanas · Forma frustra, rara, que tende a passar derpercebida · Não aparecem sinais e sintomas clássicos · Crônica Sinais e sintomas há meses · Marcada por sequestro ósseo – o osso morto funciona como uma ilha de bactérias, que perpetua a infecção, e a doença cursa com períodos de acalmia e de agudização até a resolução por cirurgia Obs. O curso natural da osteomielite é evoluir necessariamente da forma aguda para a crônica, raramente passando pela forma subaguda. Diagnóstico clínico O diagnóstico necessariamente é clínico. A)Anamnese · História pregressa de foco infeccioso à distância 2 a 3 semanas antes · História de IVAS · História de infecção cutânea (Máculas hipocrômicas como lesões cicatriciais de piodermite) · Acontece muito mais no esqueleto imaturo (cç/ado), por características anatômicas e fisiológicas · Acomete ossos longos em 75% dos casos (fêmur > tíbia > úmero ) · No adulto o acometimento da OHA mais comum é vertebral · Em 90% dos casos apenas um osso acometido · Fatores de risco · · Endocardite · Presença de dispositivos intravasculares · Equipamentos ortopédicos · Uso de drogas injetáveis · Hemodiálise · Doença falciforme. B)Exame físico Manifestações gerais · · Febre alta > 38oC | A febre alta na cç previamente hígida alerta para provável infecção grave, apesar de não ser específico · · Irritabilidade · Letargia · Prostração Manifestações locais · Dor localizada periarticular (próximo à articulação) e progressiva (metáfise de osso longo) · Dx diferencial com artrite séptica (dor intrarticular) · Joelho e femur são os locais mais acometidos · Aumento da dor à palpação · Atitude antálgica Restrição do membro acometido (pela dor) · Edema, rubor, calor (sinais flogísticos) Diagnóstico laboratorial Se exame físico e anamnese corroboram o diagnóstico mas o laboratorial não, na dúvida, é OHA; · Hemograma: leucocitose com desvio à esquerda , mas 1/3 dos casos tem leucometria normal · Provas de atividade inflamatória: VHS e PCR – inflamação / infecção · VHS altera mais tardiamente, após 42 a 72h · PCR se eleva mais precocemente que VHS, e cai assim que se inicia a terapêutica correta, podendo ser usada como prova terapêutica. · Cultura + antibiograma O resultado demora dias a semanas, tempo que não pode ser esperado para iniciar o tratamento · Bacterioscopia Padrão-ouro · Deve ser sempre solicitada em suspeita diagnóstica · O material ósseo é colhido por punção óssea feita pelo especialista em centro cirúrgico (resultado disponível em horas) · Fecha o diagnóstico preciso (identifica o germe), mas existem falsos-negativos, e a clínica é soberana Diagnóstico por imagem · Radiografias simples fase aguda, altamente inespecífico, alterações relevantes após cerca de 10 dias!!! · Primeiros dias Aumento de partes moles (edema) com leve desmineralização metafisária, portanto inútil para a fase aguda da patologia, podendo ter utilidade na realização de diagnóstico diferencial (Ex. tumores ósseos) · 10-14 dias Lesões ósseas evidentes = Destruição óssea (lesão osteolítica) com levantamento periosteal (reação periosteal) | Se não morreu de sepse, vai ficar aleijada · Ultrassonografia · Uso limitado · Revela edema de partes moles · Localiza coleção líquida subperiosteal · Util em queixas de juntas: joelho e quadril para diferenciar OHA e artrite séptica · Ressonância magnética · Alta sensibilidade e especificidade na fase precoce de infecção do osso · Limitações restringem seu uso, por exemplo, necessidade de sedação e custo · Bem indicado na suspeita de OM de esqueleto axial · Hipointensidade em T1 e hiperintensidade em T2 · Abcesso intraósseo, superiosteal e de partes moles · Cintilografia óssea · Alta sensibilidade e baixa especificidade · Hipercaptação do radiofármaco reflete o fluxo sanguíneo e de atividade osteoblástica Tratamento · Suporte clínico a) Hidratação b) Reposição eletrolítica c) Cuidados intensivos (se necessário) · Antibioticoterapia · Começar com empírico Associação para Staphylococcus e outros germes - · Substituir por específico Em resultado de cultura + antibiograma Obs. Se não puder esperar a punção óssea para iniciar o tratamento (Ex. criança pré-sepse, ortopedia não disponível), inicia ATB, sabendo que o resultado da bacterioscopia pode ser mascarado. 1a opção EV Oxacilina (200mg/kg/dia, 4/4h) + aminoglicosídeo (GENTAMICINA 7,5 mg/kg/dia, 24h ou amicacina 15 mg/kg/dia, 12/12h) Obs. Oxacilina cobre G+ ; aminoglicosídeo cobre G- e potencializa ação da oxacilina. 2a opção EV Cefalosporina de 1a geração (Cefalotina 500 a 100 mg/kg/dia, 6/6h) + aminoglicosídeo Obs. Cefalosporina de 1a geração cobre gram-positivos. Paciente alérgico à penicilina ou risco de resistência a stafilococos EV Clindamicina 10 a 40 mg/kg/dia,8/8h – mínimo de 300mg ou vancomicina Tempo de antibioticoterapia · Terapia endovenosa dura em média 3-14 dias (monitorar pelos niveis de PCR) · Suspensão: Sem febre por aproximadamente 3 dias + queda de PCR · Transição terapia oral totalizando 4 a 8 semanas Até normalizar VHS (VHS 2/2 semanas) (Parâmetro para suspensão do medicamento e controle de cura) · Se após 12 semanas VHS não normalizar RNM para buscar condição que necessite drenagem cirurgica Antibiótico x Cirurgia · A maioria dos pacientes pode ser curada com antibiotico se for iniciado até 2 dias após inicio de sintomas. A partir do 2º ou 3 dia após o inicio dos sintomas ocorre a formação de abcesso intraosseo e fica mais dificil de tratar apenas com atb Indicação de intervenção cirurgica (drenagem do abcesso) na OM em criança · Paciente com mais de 48h de evolução do quadro · Paciente que não evolui com melhora após inicio de antibioticoterapia Obs: no adulto, a antibioticoterapia não é suficiente, sendo necessária a exploração cirúrgica da ferida (drenagem do pus, debridamento) + antibioticoterapia. Complicações · Infecção crônica · Necrose ossea · Disturbio do crescimento osseo (comprometimento da placa epifisial em esqueletos imaturos) · TVP · Envolvimento multissistêmico