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Análise das obras literárias da UEL © Hexag Sistema de Ensino, 2018 Direitos desta edição: Hexag Sistema de Ensino, São Paulo, 2019 Todos os direitos reservados. Autores Lucas Limberti Murilo de Almeida Gonçalves Pércio Luis Ferreira Diretor geral Herlan Fellini Coordenador geral Raphael de Souza Motta Responsabilidade editorial, programação visual, revisão e pesquisa iconográfica Hexag Sistema de Ensino Diretor editorial Pedro Tadeu Batista Editoração eletrônica Arthur Tahan Miguel Torres Bruno Alves Oliveira Cruz Eder Carlos Bastos de Lima Felipe Lopes Santos Iago Kaveckis Letícia de Brito Matheus Franco da Silveira Raphael de Souza Motta Raphael Campos Silva Projeto gráfico e capa Raphael Campos Silva Foto da capa pixabay (http://pixabay.com) Impressão e acabamento PSP Digital Gráfica e Editora LTDA ISBN: 978-85-9542-114-1 Todas as citações de textos contidas neste livro didático estão de acordo com a legislação, tendo por fim único e exclusivo o ensino. Caso exista algum texto, a respeito do qual seja necessária a inclusão de informação adicional, ficamos à disposição para o contato pertinente. Do mesmo modo, fizemos todos os esforços para identificar e localizar os titulares dos direitos sobre as imagens publicadas e estamos à disposição para suprir eventual omissão de crédito em futuras edições. O material de publicidade e propaganda reproduzido nesta obra é usado apenas para fins didáticos, não representando qual- quer tipo de recomendação de produtos ou empresas por parte do(s) autor(es) e da editora. 2019 Todos os direitos reservados para Hexag Sistema de Ensino. Rua Luís Góis, 853 – Mirandópolis – São Paulo – SP CEP: 04043-300 Telefone: (11) 3259-5005 www.hexag.com.br contato@hexag.com.br UEL diversifica na escolha de gêneros literários Universidade Estadual de Londrina vai do Barroco ao contemporâneo na prova de Literatura A prova de Literatura da Universidade Estadual de Londrina chega com dez obras literárias em sua lista de leituras obrigatórias. Partindo do Barroco, passando pelos românticos até chegar na literatura que se produz atualmente, o vestibular ganha um peso especial na pluralidade de gêneros. Esta especificidade requer uma atenção especial do candidato, no que diz respeito a entender como cada tipo de texto se comporta esteticamente. A lista conta com romances, poemas, crônicas, diário e peça teatral, um percurso em gêneros diversos que vão cobrar destreza analítica e bastante atenção à relação estética, ou seja, a interação entre forma e conteúdo. Cronologicamente, a lista começa com Poemas escolhidos, de Gregório de Matos – uma escolha bem interessante que leva o candidato aos primórdios da produção literária no Brasil, com o nosso primeiro grande poeta: o irreverente “Boca do Inferno”. Na sequência, temos dois representantes do Romantismo. Da literatura portuguesa, desponta o famoso escritor das nove- las passionais, Camilo Castelo Branco, com Amor de perdição – um amor proibido, famílias brigadas no spleen do século. Este ro- mance é considerado um Romeu e Julieta lusitano. O outro romântico da lista é o brasileiro José de Alencar, criador de um projeto de literatura nacional, com uma obra do gênero dramático: O demônio familiar. Em quatro atos, o espetáculo se passa na segunda metade do século XIX, no Rio de Janeiro, e gira em torno da escravidão e dos efeitos do progresso sobre as relações sociais. Clara do Anjos é a próxima obra aqui analisada, na qual Lima Barreto expõe o papel feminino e os preconceitos que a mulher sofria na passagem do século XIX para o XX, como a submissão, o abandono, a violência e o constrangimento público. O segundo representante do gênero lírico na lista da UEL é o poeta Carlos Drummond de Andrade, com seu estrondoso livro de estreia: Alguma poesia. O candidato deverá analisar poemas mais do que famosos em nossa literatura, como “Poema de sete faces”, “No meio do caminho” e “Quadrilha”. O gênero diário aparece com a obra Quarenta dias, na qual Maria Valéria Rezende cria a personagem Alice, vinda do Nordeste brasileiro para Porto Alegre. Lá, ela registra seu cotidiano em um diário (chamado de Barbie), e que, apesar de seu nome, não vive nem de perto no “País das Maravilhas”. A magnânima novela A hora da estrela, de Clarice Lispector, surge na lista também com uma nordestina, a Macabéa, que vai para o Rio de Janeiro, onde viverá sua existência pisada pelo ardor da cidade grande. Escritos recheados de um olhar crítico e singelo para a condição da mulher, a partir de um revelador mergulho em sua íntima geografia. Comédia para se ler na escola é um dos livros mais divertidos da lista. Ana Maria Machado organiza crônicas do escritor Luis Fernando Verissimo, que, de forma bem-humorada, irônica e crítica, discute as questões cotidianas, as relações sociais, sexuais e políticas, além de pensar, em caráter metalinguístico, sobre a língua portuguesa. A literatura contemporânea está representada na lista com a figura de Cristovão Tezza, e sua obra O filho eterno, discu- tindo a relação do pai com seu filho, que possui síndrome de Down... Enfim, as dificuldades e belezas dessa biografia narrada em terceira pessoa. Encerrando o conjunto de dez obras, surge Vozes anoitecidas, que traz a figura de grande destaque da literatura lusófona africana em seu primeiro livro de contos, o moçambicano Mia Couto – um escritor contemporâneo que se destaca por retratar as mazelas de seu povo, mesclando as lendas míticas e perspectivas culturais com uma linguagem inventiva, cheia de neologismos bem ao estilo do brasileiro Guimarães Rosa. Como ele gosta de afirmar, é um leitor assíduo e assumidamente influenciado pela obra rosiana. Seguindo as orientações e as análises propostas neste volume especial do “Entre Aspas”, tenho certeza de que os candi- datos darão conta de entender o processo constitutivo desta lista tão plural e, ao mesmo tempo, tão interessante. Boas leitura e análise! Lucas Limberti PREFÁCIO SUMÁRIO UEL ENTRE ASPAS Obra 1: Poemas escolhidos 5 Obra 2: Amor de perdição 17 Obra 3: O demônio familiar 27 Obra 4: Clara dos Anjos 37 Obra 5: Alguma poesia 47 Obra 6: Quarenta dias 57 Obra 7: A hora da estrela 65 Obra 8: Comédias para se ler na escola 81 Obra 9: O filho eterno 91 Obra 10: Vozes anoitecidas 101 L ENTRE ASPAS C Poemas escolhidos Obras L C Gregório de Matos 7 GREGÓRIO DE MATOS GUERRA, O BOCA DO INFERNO “De que pode servir calar, quem cala nunca se há de falar, o que se sente? Sempre se há de sentir, o que se fala!” (Gregório de Matos Guerra) O primeiro poeta brasileiro: adequação e irreverência Gregório de Matos (1633-1696) é o maior poeta barroco brasileiro e um dos fundadores da poesia lírica e satírica em nosso país. Nasceu em Salvador, estudou no Colégio dos Jesuítas e, depois, em Coimbra, Portugal, onde cur- sou Direito, tornou-se juiz e ensaiou seus primeiros po- emas satíricos. Retornando ao Brasil, em 1681, exerceu os cargos de tesoureiro-mor e de vigário-geral, porém, sempre se recusou a vestir-se como clérigo. Devido às suas sátiras, foi perseguido pelo governador baiano Antônio de Souza Menezes, o Braço de Prata. Depois de se casar com Maria dos Povos e exercer a função de advogado, saiu pelo recôncavo baiano como cantor itinerante, dedicando-se às sátiras e aos poemas erótico-irônicos, o que lhe custou alguns anos de exílio em Angola. Voltou doente ao Brasil e, impedido de entrar na Bahia, morreu em Recife. Ao contrário do padre Antônio Vieira, Gregório foi de encontro a uma tendência generalizadora da época, se alastrando e acolhendo a poesia religio- sa, os costumes e a reflexão moral. Em relação aos costumes temáticos, convivem nos poemas e nas vonta- des de seus fieis um desenfreado sentimento de sensualismo, erotismo e paixão idealizada. Da estética reteve o poeta ao gosto pelo jogo de palavras e das brincadeiras. Ilustração de Carybé para o livro Bahia, imagens da terrae do povo. 8 O “língua de trapo” Gregório de Matos primou pela irreverência. Foi irre- verente como pessoa, ao afrontar os valores e a falsa moral da sociedade baiana de seu tempo com compor- tamentos considerados indecorosos; como poeta líri- co, ao seguir e, ao mesmo tempo, quebrar os modelos barrocos europeus; como poeta satírico, ao denunciar as contradições da sociedade baiana de século XVII, criticando os mais diferentes grupos sociais – gover- nantes, fidalgos, comerciantes, escravos, mulatos etc. –, numa linguagem que agrega ao código da língua portuguesa vocábulos indígenas e africanos, além de palavras de baixo calão. Pelo fato de não ter publicado nenhuma obra em vida, seus poemas foram transmitidos oralmente, na Bahia, até meados do século XIX, quando então foram reunidos em livro por Varnhagen. Antes disso, houve algumas complicações de valor discutível, pois os copistas nem sempre seguiram critérios científicos para realizar esse tipo de trabalho. Por isso, há contro- vérsias sobre a autoria de alguns dos poemas atribuí- dos ao poeta baiano, e é comum os textos apresenta- rem algumas variações de vocabulário ou de sintaxe, dependendo da edição consultada. Apesar desses problemas, a obra de Gregório de Matos vem sendo reconhecida como aquela que, além de ter iniciado uma tradição entre nós, superou os limites do próprio Barroco. Em pleno século XVII, o poeta chegou a ser um dos precursores da poesia moderna brasileira do século XX. Barroco no Brasil O marco inicial do Barroco brasileiro é 1601, ano em que o poeta português Bento Teixeira publicou, no Brasil, o poema épico “Prosopopeia“, com estrofes em oitava rima e versos decassílabos, tal qual Os lusíadas, de Camões, cujo modelo ele seguiu de perto. Embora nessa época não houvesse um público leitor significativo no Brasil, a poesia barroca ganhou impulso com a fundação de várias academias literárias, entre os anos de 1720 e 1750. Estendeu-se por todo o século XVII e início do século XVIII, e seu final se deu com a fundação da academia chamada Arcádia Ultra- marina, em 1768, e a ascensão do movimento árcade. O retrato crítico da Bahia Gregório de Matos Guerra, por Camila Martins Saraiva No Brasil, Gregório de Matos encontrará na sátira a arma mais poderosa para criticar o cenário político de sua época. Seguindo os passos de Juvenal, o poeta vai ridicularizar os políticos corruptos que governam a Bahia, de forma tão debochada que isso lhe valerá também o desterro de sua terra natal. Observe, no tre- cho abaixo, como ele critica a falta de princípios dos políticos de sua cidade. [...] na política de estado nunca houve princípios certos, [...] Eia! Estamos na Bahia, onde agrada a adulação, onde a verdade é baldão, e a virtude hipocrisia: sigamos esta harmonia de tão fátua consonância, e inda que seja ignorância 9 seguir erros conhecidos, sejam-me a mim permitidos, se em ser besta está a ganância. MATOS, Gregório de. In: WISNIK, José Miguel. Poemas escolhidos. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 70-71 Tendência ao dualismo e ao culto do contraste Um modo de ver o universo dualista faz destacar o contraste pela já citada tentativa de aproximar opos- tos. Por isso, o Barroco literário é, ao mesmo tempo, místico e sensual, religioso e erótico, espiritual e carnal. Esse eixo dualista ocasiona nas manifestações barrocas um conflito entre o homem e o mundo. Para traduzi-lo, os recursos da linguagem figurada mais utilizados são antíteses, metáforas, sinestesias e hipérboles. Nasce o Sol, e não dura mais que um dia, Depois da luz, se segue a noite escura, Em tristes sombras morre a formosura, Em continuas tristezas a alegria Note, neste trecho, o contraste entre dia e noite; luz e sombra; nasce e morre; tristeza e alegria. Soneto fusionista O soneto fusionista é um aspecto muito importante a ser analisado quando se trata da poesia barroca de Gregório de Matos, muito porque a relação entre for- ma e conteúdo revelam aspectos da arte e da socieda- de seiscentista baiana. A primeira questão se dá no âmbito da progres- são semântica em que os 14 versos se estruturam, do ponto de vista temático em: Tese: apresentação de um tema específico. Antítese: apresentação de uma progressão se- mântica contraditória em relação ao proposto na tese. Síntese: a conclusão que representa uma fu- são entre os aspectos contrários anteriormente apresentados. As obras barrocas revelam grande atenção de seus artistas aos detalhes. Nas artes plásticas, configu- ra-se no excesso de ornamentação. Na literatura, tra- duz-se pela exploração dos jogos de palavras, pelo uso de figuras de linguagem, pelas sutilezas de raciocínio. Dependendo da forma como explora o rebuscamento formal e o raciocínio lógico, o Barroco literário se clas- sifica em estilos cultista e conceptista. O estilo cultista ou cultismo, muito influenciado pelo poeta espanhol Luis de Gongora (1561-1627), é caracterizado pela linguagem rebuscada, culta, extra- vagante, que supervaloriza o uso de metáforas e hipér- boles, e pela valorização dos jogos. O poema a seguir é um exemplo do emprego do estilo cultista: O todo sem a parte não é todo, A parte sem o todo não é parte, Mas se a parte o faz todo, sendo parte, Não se diga, que é parte, sendo todo. Em todo sacramento esta deus todo, E todo assiste inteiro em qualquer parte, E feito em partes todo em toda a parte, Em qualquer parte sempre fica o todo. O braço de Jesus não seja parte, Pois que feito Jesus em parte todo, Assiste cada parte em sua parte. Não se sabendo parte deste todo, Um braço, que lhe acharam, sendo parte, Nos disse as partes todas deste todo. O estilo conceptista ou conceptismo valoriza o raciocínio lógico, racionalista. A ideia é exposta por meio de conceitos, analogias, histórias paralelas que facilitam o entendimento. 10 POEMAS ESCOLHIDOS A obra é uma coletânea de poemas escolhidos pelo professor José Miguel Wisnik, nos anos 1970; todavia, ganhou nova roupagem, com uma nova visita ao livro pelo seu próprio organizador. Os melhores poemas de Gregório de Matos, nas diversas modalidades que cul- tivou, como é o caso da satírica, da encomiástica, da lírica amorosa e da religiosa. Características Poesia satírica A crítica aos mais variados aspectos do sistema e do poder fez de Gregório de Matos o poeta maldito. A ca- pacidade de provocação aos políticos e a ridiculariza- ção dos que viviam para bajular e louvar os poderosos foram traços que contribuíram para o “abrasileiramen- to” do Barroco importado da Europa. O crítico social mordaz, que aponta a sociedade de competição, em que vence quem for mais esperto e/ou desonesto, apresenta-se no soneto a seguir trans- crito, que vem precedido da seguinte expedição: “Con- templando nas coisas do mundo desde o seu retiro, lhe atira com seu ápage, como quem a nado escapou da tormenta”. Neste mundo é mais rico o que mais rapa: Quem mais limpo se faz, tem mais carepa Com sua língua, ao nobre o vil decepa: O velhaco maior sempre tem capa. Mostra o patife da nobreza o mapa: Quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa: Quem menos falar pode, mais increpa: Quem dinheiro tiver, pode ser papa. A flor baixa se inculca por tulipa: Bengala hoje na mão, ontem garlopa: Mais isento se mostra o que mais chupa. Para a tropa do Trapo vazo a tripa, E mais não digo, porque a Musa topa Em apa, epa, ipa, opa, upa. “Para a tropa do trapo vazo a tripa” é uma expressão idiomática que se aproxima de “não quero mais dar importância a esse bando de miseráveis”. No poema a seguir, Gregório de Matos critica, de forma impiedosa, a incompetência, a promiscuidade e a desonestidade. O poema vem procedido da seguin- te explicação: “Torna a definir o poeta os maus modos de obrar na governança da Bahia, principalmente na- quela universal fome, que padecia a cidade”. EPÍLOGO Que falta nesta cidade?...... Verdade.Que mais por sua desonra?...... Honra. Falta mais que se lhe ponha?...... Vergonha. O demo a viver se exponha, Por mais que a fama a exalta, Nesta cidade onde falta Verdade, honra, vergonha. [...] E que justiça a resguarda?...... Bastarda. É grátis distribuída?...... Vendida. Que tem, que a todos assusta?...... Injusta. Valha-nos Deus, o que custa, O que El-Rei nos dá de graça, que anda a justiça [na praça Bastarda, vendida, injusta. [...] O açúcar já se acabou?...... Baixou. E o dinheiro se extinguiu?...... Subiu. Logo já convalesceu?...... Morreu. À Bahia aconteceu O que a um doente acontece, Cai na cama, o mal lhe cresce, Baixou, subiu, morreu. 11 A câmara não acode?...... Não pode. Pois não tem todo o poder?...... Não quer. É que o governo a convence?...... Não vence. Quem haverá que tal pense, Que uma câmara tão nobre, Por ver-se mísera e pobre, Não pode, não quer, na vence. Num ritmo de perguntas e repostas, o verso se estrutura bem aos modelos da tradição oral. O espaço é a Bahia em que o eu poemático critica os desmandos de sua cidade, a degradação moral e religiosa, bem como o aspecto econômico. Os oportunistas da socie- dade são os detentores do poder político e econômico, enquanto os trabalhadores honestos encontram-se na pobreza. Conforme explica o professor José Wisnik – or- ganizador do livro escolhido para a análise –, o poe- ma satírico de Gregório de Matos é marcado por essa cizânia entre uma sociedade do homem bem nascido, dita “normal”, e outra, considerada “absurda”, que é composta por pessoas oportunistas, mas que estão instauradas no poder. No entanto, no caso de Gregório de Matos, a “sociedade absurda” é real, pois é na Bahia onde ele vive e, pela lógica aplicada, inverte-se o conceito apre- endido. Logo, tanto uma como outra são consideradas absurdas, em que o impasse é o da realidade histórica, um mesmo local, duas Bahia: uma “normal”, que é vista com ar nostálgico, e outra “absurda” e amaldi- çoada. Poesia lírica: sacra e amorosa No conjunto da obra de Gregório de Matos, a poesia lírica é idealista, às vezes emocional, às vezes concei- tual, mas quase sempre preocupada com a busca de entender contradições, conforme ensina o professor Antônio Candido. Nesse soneto, o xeque entre as temáticas con- troversas da “culpa” versus “perdão” ganha formato no soneto fusionista. O eu lírico se vale da linguagem para conseguir seu perdão e salvação enfrentando o poder divino. Logo, mesma forma como o poder divino, colocado aqui na figura de Jesus, precisa perdoar, o pecador precisa pecar para poder ser perdoado. Apresenta versos decassílabos (versos com dez sílabas poéticas), rimas regulares, ou seja, rimas opos- tas ou interpoladas nos dois quartetos (ABBA-ABBA) e rimas mistas nos dois tercetos (CDE-CDE). Ressalta-se na lírica sacra o senso do pecado, ao lado do desejo do perdão, como se pode verificar neste soneto: A Jesus Cristo Nosso Senhor Pequei, Senhor; mas não porque hei pecado, Da vossa alta clemência me despido; Porque, quanto mais tenho delinquido, Vos tenho a perdoar mais empenhado. Se basta a vos irar tanto pecado, A abrandar-vos sobeja um só gemido: Que a mesma culpa, que vos há ofendido, Vos tem para o perdão lisonjeado. Se uma ovelha perdida e já cobrada Glória tal e prazer tão repentinho Vos deu, como afirmais na Sacra História: Eu sou, senhor, a ovelha desgarrada, Cobrai-a; e a não queirais, Pastor divino Perder na vossa ovelha a vossa glória. O lirismo amoroso é contraditório, fortemente marcado pela ambiguidade da mulher, vista a partir de uma dualidade entre a matéria e o espírito. No soneto dedicado à D. Ângela de Souza Paredes, transcrito a se- guir, o eu lírico está diante do dilema: qual a finalidade da beleza, se esta leva à perdição? Que papel tem o anjo (a mulher admirada), se causa a desventura? Não vira em minha vida a formosura, Ouvia falar dela a cada dia E ouvida, me incitava e me movia A querer ver tão bela arquitetura: Ontem a vi, por minha desventura Na cara, no bom ar, na galhardia De uma mulher, que em Anjo se mentia De um Sol, que se trajava em criatura: Matem-me, disse eu vendo abrasar-me, Se esta a coisa não é, que encarecer-me Sabia o mundo e tanto exagerar-me: Olhos meus, disse então por defender-me, Se a beleza heis de ver para matar-me, Antes olhos cegueis, do que eu perder-me 12 A poesia lírico-amorosa de Gregório de Matos é construída em torno de contradições e pares de opos- tos, utilizando figuras de linguagens como o oximoro, que reforça essas contradições. Porém, deve-se ter em mente que estas contradições não se anulam e a men- sagem final que o poeta passa é de que “diferença é identidade”. Poesia lírica filosófica A lírica filosófica de Gregório de Matos evidencia um poeta que, tal qual os clássicos, transmite um forte sen- so do “desconcerto do mundo” e preocupa-se com a transitoriedade da vida, o escoamento do tempo e a fragilidade do ser humano, como se pode perceber no soneto que segue. À INSTABILIDADE DAS COISAS NO MUNDO Nasce o Sol, e não dura mais que um dia, Depois da luz se segue a noite escura, Em tristes sombras morre a formosura, Em contínuas tristezas, a alegria. Porém, se acaba o Sol, por que nascia? Se é tão formosa a Luz, por que não dura? Como a beleza assim se transfigura? Como o gosto da pena assim se fia? Mas no Sol, e na Luz falta a firmeza, Na formosura não dê Constância, E na alegria sinta-se a tristeza, Começa o mundo enfim pela ignorância, E tem qualquer dos bens por natureza. A firmeza somente na inconstância. Esse soneto exemplifica, pelo tema desenvolvi- do, o estado transitório da condição humana. Ao lon- go do poema, repete-se a utilização da antítese, pela aproximação de duas ideias naturalmente opostas. Na segunda estrofe, o elemento comum a todos os versos é o ponto de interrogação, que representa não só o questionamento do eu poético, como tam- bém sua perplexidade diante do mistério insolúvel do universo. Essa visão de mundo corresponde à da arte bar- roca, que vê o homem como um ser instável diante da realidade que lhe faz apelos opostos, ora dirigidos aos sentidos, ora dirigidos ao espírito. Poesia erótica Também alcunhado de profano, o poeta exalta a sen- sualidade e a volúpia das amantes que conquistou na Bahia, além dos escândalos sexuais envolvendo os conventos da cidade. NECESSIDADES FORÇOSAS DA NATUREZA HUMANA Descarto-me da tronga, que me chupa, Corro por um conchego todo o mapa, O ar da feia me arrebata a capa, O gadanho da limpa até a garupa. Busco uma freira, que me desentupa A via, que o desuso às vezes tapa, Topo-a, topando-a todo o bolo rapa, Que as cartas lhe dão sempre com chalupa. Que hei de fazer, se sou de boa cepa, E na hora de ver repleta a tripa, Darei por quem mo vase toda Europa? Amigo, quem se alimpa da carepa, Ou sofre uma muchacha, que o dissipa, Ou faz da mão sua cachopa. 13 APROFUNDE SEUS CONHECIMENTOS d) lamenta a inexistência de instituições reli- giosas, pois elas organizariam moralmente a cidade. e) descreve as condições do local, mostrando que os habitantes vivem rusticamente e com poucos recursos. 3. (UCS) As obras literárias marcam diferentes visões de mundo, não apenas dos autores, mas também de épocas históricas distintas. Reflita sobre isso e leia os fragmentos dos poemas de Gregório de Matos e de Tomás An- tônio Gonzaga. Arrependido estou de coração, de coração vos busco, dai-me abraços, abraços, que me rendem vossa luz. Luz, que claro me mostra a salvação, a salvação pretendo em tais abraços, misericórdia, amor, Jesus, Jesus! (MATOS, Gregório. Pecador contrito aos pés do Cristo crucificado. In: TUFANO, Douglas. Estudos de literatura brasileira. 4 ed. rev. e ampl. São Paulo: Moderna, 1988, p. 66.) Minha bela Marília, tudo passa; a sorte deste mundo é mal segura; se vem depois dos males a ventura, vem depois dos prazeres a desgraça. Estão osmesmos deuses sujeitos ao poder do ímpio fado: Apolo já fugiu do céu brilhante, já foi pastor de gado. (GONZAGA, Tomás António. Lira XIV. In: TUFANO, Douglas Estudos de literatura brasileira. 4 ed. rev. e ampl. São Paulo: Moderna, 1988, p. 77.) Em relação aos poemas, analise a veracidade (V) ou a falsidade (F) das proposições abaixo. ( ) O poema de Gregório de Matos apresenta um sujeito lírico torturado pelo peso de seus pecados e desejoso de aproximar-se do Divino. ( ) Tomás Antônio Gonzaga, embora perten- ça ao mesmo período literário de Gre- gório de Matos, revela neste poema um sujeito lírico consciente da brevidade da vida. ( ) Em relação às marcas de religiosidade, a visão antagônica que se coloca entre os dois poemas reflete, no Barroco, a influ- ência do cristianismo e, no Arcadismo, a da mitologia grega. Assinale a alternativa que preenche correta- mente os parênteses, de cima para baixo. a) V V V b) V F F c) V F V d) F F F e) F V F 1. (Uepa) Nasce o Sol, e não dura mais que um dia, Depois da luz se segue a noite escura, Em tristes sombras morre a formosura, Em contínuas tristezas a alegria. (Gregório de Matos Guerra) Assinale a alternativa que contém uma carac- terística da comunicação poética, típica do estilo Barroco, existente no quarteto acima. a) Reflexão sobre o caráter humano da divinda- de. b) Associação da natureza com a permanência da realidade espiritual. c) Presença da irreverência satírica do poeta com base no paradoxo. d) Utilização do pleonasmo para reforçar a su- perioridade do cristianismo sobre o protes- tantismo. e) Uso de ideias contrastantes com base no re- curso da antítese. 2. (G1 IFSP) Leia o soneto do escritor barroco Gregório de Matos. DESCRIÇÃO DA CIDADE DE SERGIPE D’EL-REI Três dúzias de casebres remendados, Seis becos, de 1mentrastos entupidos, Quinze soldados, rotos e despidos, Doze porcos na praça bem criados. Dois conventos, seis frades, três letrados, Um juiz, com bigodes, sem ouvidos, Três presos de piolhos carcomidos, Por comer dois meirinhos esfaimados. As damas com sapatos de 2baeta, Palmilha de tamanca como frade, Saia de 3chita, cinta de raqueta. O feijão, que só faz 4ventosidade Farinha de pipoca, pão que greta, De Sergipe d’El-Rei esta é a cidade. (DIMAS, Antônio. Gregório de Matos. São Paulo: Nova Cultural, 1988.) 1mentrasto: tipo de erva 2baeta: tecido felpudo 3chita: tecido de algodão de pouco valor 4ventosidade: que provoca flatulência Pela leitura do soneto, é correto afirmar que o poeta: a) critica veladamente o governo português por ter escolhido essa cidade para ser a sede administrativa da colônia. b) escreve esse poema para expor as angústias vividas durante o período em que cumpria a primeira ordem de desterro. c) comenta a elegância e a sensualidade das damas, visto que sempre apreciou as mulhe- res brasileiras. 14 4. (UFPR) Considerando a poesia de Gregório de Matos e o momento literário em que sua obra se insere, avalie as seguintes afirmativas: I. Apresentando a luta do homem no emba- te entre a carne e o espírito, a terra e o céu, o presente e a eternidade, os poemas religiosos do autor correspondem à sen- sibilidade da época e encontram paralelo na obra de um seu contemporâneo, padre Antônio Vieira. II. Os poemas erótico-irônicos são um exem- plo da versatilidade do poeta, mas não são representativos da melhor poesia do autor, por não apresentarem a mesma so- fisticação e riqueza de recursos poéticos que os poemas líricos ou religiosos apre- sentam. III. Como bom exemplo da poesia barroca, a poesia do autor incrementa e exagera al- guns recursos poéticos, deixando sua lin- guagem mais rebuscada e enredada pelo uso de figuras de linguagem raras e de resultados tortuosos. IV. A presença do elemento mulato nessa poesia resgata para a literatura uma di- mensão social problemática da sociedade baiana da época: num país de escravos, o mestiço é um ser em conflito, vítima e algoz em uma sociedade violentamente desigual. Assinale a alternativa correta. a) Somente as afirmativas I e II são verdadeiras. b) Somente as afirmativas I, II e III são verda- deiras. c) Somente as afirmativas I, III e IV são verda- deiras. d) Somente as afirmativas II e IV são verdadei- ras. e) Somente as afirmativas III e IV são verdadei- ras. 5. (Uff) Senhora Dona Bahia, nobre e opulenta cidade, madrasta dos naturais, e dos estrangeiros madre: Dizei-me por vida vossa em que fundais o ditame de exaltar os que aqui vêm, e abater os que aqui nascem? Se o fazeis pelo interesse de que os estranhos vos gabem, isso os paisanos fariam com conhecidas vantagens. E suposto que os louvores em boca própria não valem, se tem força esta sentença, mor força terá a verdade. O certo é, pátria minha, que fostes terra de alarves, e inda os ressábios vos duram desse tempo e dessa idade. Haverá duzentos anos, nem tantos podem contar-se, que éreis uma aldeia pobre e hoje sois rica cidade. Então vos pisavam índios, e vos habitavam cafres, hoje chispais fidalguias, arrojando personagens. (Gregório de Matos_ Nota: entenda-se “Bahia” como cidade. Vocabulário alarves: que ou quem é rústico, abrutado, grosseiro ignorante: que ou o que é tolo, parvo, es- túpido ressábios: sabor; gosto que se tem depois. cafres: indivíduo de raça negra Todas as afirmativas sobre a construção es- tética ou a produção textual do poema de Gregório de Matos (texto) estão adequadas, exceto uma. Assinale-a. a) Existem antíteses, características de textos no período barroco. b) Há uma personificação, pois a Bahia, ser inanimado, é tratada como ser vivo. c) A ausência de métrica aproxima o poema do Modernismo. d) O eu lírico usa o vocativo, transformando a Bahia em sua interlocutora. e) Há diferença de tratamento para os habitan- tes locais e os estrangeiros. TEXTO PARA AS PRÓXIMAS TRÊS QUESTÕES 1Triste Bahia! Oh quão dessemelhante 2 Estás, e estou do nosso antigo estado! 3 Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado, 4 Rica te vejo eu já, tu a mi abundante. 5 A ti trocou-te a máquina mercante, 6 Que em tua larga barra tem entrado, 7 A mim foi-me trocando, e tem trocado 8 Tanto negócio, e tanto negociante. 9 Deste em dar tanto açúcar excelente 10 Pelas drogas inúteis, que abelhuda 11 Simples aceitas do sagaz Brichote. 12 Oh se quisera Deus, que de repente 13 Um dia amanheceras tão sisuda 14 Que fora de algodão o teu capote! (MATOS, Gregório de. Poesias selecionadas. 3. ed. São Paulo: FTD, 1998, p. 141.) 15 6. (UEL) No que diz respeito à relação entre o eu lírico e a Bahia, considere as afirmativas a seguir. I. Na primeira estrofe, o eu lírico identifi- ca-se com a Bahia, pois ambos sofrem a perda de um antigo estado. II. Na primeira estrofe, a Bahia aparece per- sonificada, fato confirmado no momento em que ela e o eu lírico se olham. III. Na terceira estrofe, constata-se que a Bahia não está isenta da culpa pela perda de seu antigo estado. IV. Na quarta estrofe, o eu lírico conclui que a lamentável situação da Bahia está em conformidade com a vontade divina. Assinale a alternativa correta. a) Somente as afirmativas I e II são corretas. b) Somente as afirmativas II e IV são corretas. c) Somente as afirmativas III e IV são corretas. d) Somente as afirmativas I, II e III são corretas. e) Somente as afirmativas I, III e IV são corre- tas. 7. (UEL) A partir da leitura do texto, considere as afirmativas a seguir. I. O poema faz parte da produção de Gregó- rio de Matos caracterizada pelo cunho sa- tírico, visto que ridiculariza vícios e im- perfeições e assume um tom de censura. II. As figuras do desconsolado poeta, da tris- te Bahia e do sagaz Brichote são imagens poéticas utilizadas para expressar a exis- tência de um triângulo amoroso. III. O poema apresenta a degradação da Bahia e do eu lírico, em virtude do sistema de trocas imposto à Colônia, o qual privile- giava os comerciantes estrangeiros. IV. Osversos “Que em tua larga barra tem entrado” e “Deste em dar tanto açúcar excelente” conferem ao poema um tom erótico, pois, simbolicamente, sugerem a ideia de solicitação ao prazer. Assinale a alternativa correta. a) Somente as afirmativas I e II são corretas. b) Somente as afirmativas I e III são corretas. c) Somente as afirmativas III e IV são corretas. d) Somente as afirmativas I, II e IV são corretas. e) Somente as afirmativas II, III e IV são corre- tas. 8. (UEL) Sobre figuras de linguagem no poema, considere as afirmativas a seguir. I. A descrição do eu lírico e da Bahia confi- gura uma antítese entre o estado antigo e o atual de ambos. II. A antítese é verificada na oposição en- tre as expressões “máquina mercante” e “drogas inúteis”, embora ambas se refi- ram à Bahia. III. Os versos 3 e 4 são exemplos do papel re- levante da gradação no conjunto do poe- ma, pois enumeram estados de espírito do eu lírico. IV. Os versos “Um dia amanheceras tão sisu- da/ Que fora de algodão o teu capote!” configuram exemplos de personificação e metáfora, respectivamente. Assinale a alternativa correta. a) Somente as afirmativas I e IV são corretas. b) Somente as afirmativas II e III são corretas. c) Somente as afirmativas III e IV são corretas. d) Somente as afirmativas I, II e III são corre- tas. e) Somente as afirmativas I, II e IV são corre- tas. 9. (G1 CFT-MG) O poeta Gregório de Matos tor- nou-se importante na representação da lite- ratura barroca brasileira porque: a) enfatizou a produção poética satírica em de- trimento da religiosa. b) pautou sua vida pelo respeito às normas e costumes sociais e estéticos. c) criticou membros do clero e do poder políti- co e exaltou índios e mulatos. d) apropriou-se de formas e temas do barroco europeu, adequando-os ao contexto local. 10. (UEG) Segue neste soneto a máxima de bem viver, que é envolver-se na confusão dos nés- cios para passar melhor a vida. Carregado de mim ando no mundo, E o grande peso embarga-me as passadas, Que como ando por vias desusadas, Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo. O remédio será seguir o imundo Caminho, onde dos mais vejo as pisadas, Que as bestas andam juntas mais ousadas, Do que anda só o engenho mais profundo. Não é fácil viver entre os insanos, Erra, quem presumir que sabe tudo, Se o atalho não soube dos seus danos. O prudente varão há de ser mudo, Que é melhor neste mundo, mar de enganos, Ser louco c'os demais, que só, sisudo. (MATOS, Gregório de. Poemas escolhidos. São Paulo: Cultrix, 1989, p. 253.) (Aleijadinho, Cristo do carregamento da Cruz. Enciclopédia Barsa, 1998) 16 Pequei, Senhor; mas não porque hei pecado, Da vossa alta clemência me despido; Porque quanto mais tenho delinquido, Vos tenho a perdoar mais empenhado. (Obra poética de Gregório de Matos. Rio de Janeiro: Record, 1990.) Durante o período colonial brasileiro, as principais manifestações artísticas, popu- lares ou eruditas, foram, assim como nos demais aspectos da vida cotidiana, marca- das pela influência da religiosidade. Nesse sentido, com base na análise da presença da religiosidade na obra de Aleijadinho e Gre- gório de Matos, é correto afirmar: a) Ambas são modelos da arte barroca, uma vez que se inspiram mais na temática cristã do que em elementos oriundos da mitologia greco-romana. b) A presença da temática religiosa em ambos deve-se à influência protestante holandesa na região da Bahia e de Minas Gerais. c) No trecho do poema, tem-se a expressão de um pecador que, embora creia em Deus, não tem certeza de que obterá o perdão divino. d) A pobreza estética da obra de Aleijadinho e Matos deriva da censura promovida pela San- ta Inquisição às obras artísticas no Brasil. GABARITO 1. E 2. E 3. C 4. C 5. C 6. D 7. B 8. A 9. D 10. A L OBRAS C Amor de perdição Obras L C Camilo Castelo Branco 19 CAMILO CASTELO BRANCO O escritor Camilo Castelo Branco nasceu na Freguesia dos Mártires, em Lisboa, Portugal, no dia 16 de março de 1825. Filho de Manuel Joaquim Botelho Castelo Branco e de Jacinta Rosa do Espírito Santo Ferreira, ficou órfão muito cedo, de mãe com apenas 1 ano e de pai com 10 anos. Sua biografia dramática certamente poderia assemelhar-se à sua obra, especialmente suas tradicionais novelas de cunho passional, do qual ele foi o criador. Composta de mais de cem obras, suas publicações seguem a lógica folhetinesca, abordando temas em no- velas satíricas, de terror, de mistério, históricas e passionais. O ficcionista viveu de literatura e foi um dos primeiros portugueses a viver de sua produção. Em 1889, foi homenageado na Academia de Lisboa e se tornou uma cele- bridade como escritor. É autor de várias crônicas de cunho irreverente para jornais. Recebeu o título de visconde, concedido pelo rei de Portugal, D. Luís I. Casou-se aos 16 anos de idade, porém não durou muito e separado seguiu para o Porto, em 1843. Lá, ingressou na faculdade de Medicina, mas não finalizou o curso, lançando-se ao jornalismo e à vida boemia por- tuense. Em 1845, publicou seus primeiros trabalhos literários. Foi detido, julgado e, inclusive, preso, em 1852, por protagonizar escândalos amorosos na época, bigamia etc. Porém, no ano de 1856, conheceu o grande amor de sua vida, só que havia mais um problema: Ana Plácido já era casada com um comerciante brasileiro, mas abandonou o marido em 1859 e foi viver com Camilo. O casal, sempre assolado pelas questões financeiras, foi morar em Lisboa e depois em São Miguel de Seide. O ano de 1863 foi decisivo em sua carreira, pois publicou Amor de perdição, um de seus romances mais renomados. Suas novelas também reconstituíram um panorama dos costumes de Portugal de seu tempo. Camilo sempre buscou estabelecer profunda sintonia com a cultura do povo português. Tipicamente, viveu os dramas dos relacionamentos burgueses, a ideia de que os relacionamentos são como contratos, onde as pessoas são mercadorias e posses, por isso a instituição da monogamia tanto o assolava, bem como o influenciava nas tradicionais novelas passionais da segunda geração romântica portuguesa. A tragédia da geração que não aceitou os ditames burgueses, e trouxe ou levou da própria vida os temas de suas obras literárias, fez com que Camilo tivesse um fim marcado por uma tragédia: cegueira, em 1887, e suicídio, em 1 de junho de 1890. 20 Contexto: o Romantismo em Portugal Certamente, a literatura escrita na França, Inglaterra e Alemanha influenciou muito os escritores ligados ide- ologicamente ao liberalismo português. O momento antimiguelista, dos partidários de D. Pedro, conectava os jovens escritores Almeida Garret e Alexandre Hercu- lano, inclusive exilados na Inglaterra e na França, onde tomaram contato com as obras de Lord Byron, Walter Scott e William Shakespeare. O Romantismo português durou aproximada- mente 40 anos, tendo como marco final, por volta de 1865, a Questão Coimbrã, ou questão do Bom Senso e do Bom Gosto, encabeçada por Antero de Quental. Como em países europeus, o Romantismo português atrelou-se ao liberalismo e à ideologia burguesa, assu- mindo compromissos com o novo público leitor. Geração do Romantismo português A luta entre liberais e conservadores foi o pano de fun- do para que os românticos implantassem, ao seu tem- po, as reformas literárias que de fato modificariam o quadro estético neoclássico português, no qual a pro- dução se desenvolveu de forma inédita em Portugal. Houve três momentos distintos no desenvol- vimento do Romantismo português. A obra Coração, cabeça e estômago encontra-se na segunda geração romântica (ultrarromântica). A primeira geração, atuante entre os anos de 1825 e 1840, muito contribuiu para a consolidação do liberalismo em Portugal, principalmente com Almeida Garrett e Ale- xandre Herculano. A segunda geração, ou ultrarromântica, le- vou o movimento ao exagero e prevaleceu entre os anos de 1840 e 1860. Seu maior escritor foi Camilo CasteloBranco. A terceira geração, a de transição para o Re- alismo, teve presença marcante nos anos de 1860, sobretudo com Júlio Dinis. Linhas temáticas Caricatura de Camilo Castelo Branco feita por Júlio Pomar Um escritor profissional: “Não deixei de escrever um só dia”. Essa afirmação demonstra um escritor que as- sumiu a literatura como uma missão cotidiana. Camilo Castelo Branco concentrou seus esforços profissionais na carreira de escritor, que era a fonte de seu sustento. Em suas várias obras, é possível observar que ele estruturou linhas temáticas específicas, lembrando que a obra em questão, Coração, cabeça e estômago, se coloca na vertente satírica. Foco satírico, com predomínio à crítica de costumes (destaque para Coração, cabeça e estômago e para A queda dum anjo). Foco de mistério – são exemplos Os misté- rios de Lisboa e Livro negro de Padre Dinis. Foco histórico: O judeu, e a série O regicida, A filha do regicida e A caveira do mártir. 21 AMOR DE PERDIÇÃO O romance Amor de perdição, escrito de 1862, nar- ra a história de amor de Simão Botelho e Teresa de Albuquerque, dois jovens que experimentam sua pri- meira e grande paixão. A inimizade entre as respec- tivas famílias impede o casamento. Depois de todos os obstáculos sucessivamente colocados à realização amorosa dos apaixonados, a solução em seu favor vai se tornando impossível. O pai de Teresa, Tadeu de Albuquerque, deseja casar a filha com Baltasar Coutinho, recusado por ela. Decide, então, interná-la num convento, esperando ver terminado o romance entre Teresa e Simão. A partir daí, os namorados comunicam-se por cartas, na maior parte das vezes levadas e trazidas por uma mendiga, que consegue passar despercebida du- rante quase todo o tempo. A tentativa de Simão ir ao encontro de Teresa no convento coincide com o momento em que lá tam- bém estão o pai dela e o pretendente. Após discutirem, Simão dispara contra Baltasar, na frente de Teresa, ferindo-o mortalmente. Entrega- -se, em seguida, à justiça, sem nenhuma decisão de atenuar o crime. Preso na cadeia da Relação da cidade do Porto, é condenado à morte; logo em seguida, tem a pena comutada e deve ser enviado para exílio na Ásia, por dez anos. Simão consome-se em sofrimentos, assim como Teresa. Em um convento dirigido por uma parenta, Te- resa morre quando vê partir o navio que levará o ama- do ao degredo. Pouco tempo depois, Simão também morre. No decorrer dos acontecimentos, há o suicídio de Mariana, amiga e dedicada companheira de Simão em todas as desgraças. Amando-o silenciosamente du- rante todo o tempo, atira-se ao mar quando o corpo do moço é lançado às águas. Leia alguns trechos do romance Amor de per- dição: Fragmento 1 No espaço de três meses fez-se maravilhosa mudança nos costumes de Simão. As companhias da ralé, desprezou-as. Saía de casa raras vezes, ou só, ou com a irmã mais nova, sua predileta. O campo, as árvo- res e os sítios mais sombrios e ermos eram o seu receio. Nas doces noites de estio demorava-se por fora até ao romper da alva. Aqueles que assim o viam admiravam- -lhe o ar cismador e o recolhimento que o sequestrava da vida vulgar. Em casa encerrava-se no seu quarto, a saía quando o chamavam para a mesa. D. Rita pasma da transfiguração, e o marido, bem convencido dela, ao fim de cinco meses consentiu que seu filho lhe dirigisse a palavra. Simão Botelho amava. Ai está uma palavra única, explicando o que parecia absurda reforma aos dezessete anos. Amava Simão uma sua vizinha, menina de quinze anos, rica herdeira, regularmente bonita e bem nascida. Da janela do seu quarto é que ele a vira a primeira vez, para amá-la sempre. Não ficara ela incó- lume na ferida que fizera no coração do vizinho: amou- -o também, e com mais serenidade que a usual nos seus anos. [...] Teresa de Albuquerque devia ser, por ventura, uma exceção no seu amor. O magistrado e sua família eram odiosos ao pai de Teresa, por motivos de litígios, em que Domingos Botelho lhe deu sentenças contra. Afora isso, ainda no ano anterior dois criadores de Tadeu de Albuquerque tinham sido feridos na celebrada pancadaria da fonte. É, pois, evidente que o amor de Teresa, declinando de si o dever de obtemperar e sacrificar-se ao justo azedu- me de seu pai, era verdadeiro e forte. E este amor era singularmente discreto e cau- teloso. Viram-se e falaram-se três meses, sem darem rebate à vizinhança, e nem sequer suspeitas às duas famílias. O destino, que ambos se prometiam, era o 22 mais honesto: ele ia formar-se para poder sustentá-la, se não tivesse outros recursos; ela esperava que seu velho pai falecesse para, senhora sua, lhe dar, com o coração, o seu grande patrimônio. Fragmento 2 Acerca de Simão Botelho, nunca diante de sua filha Tadeu de Albuquerque proferiu palavra, nem antes nem depois do disparate do corregedor. O que ele fez logo foi chamar a Vizeu o sobrinho de Castro-d’Aire, e preveni-lo do seu desígnio, para que ele, em face de Te- resa, procedesse como convinha a enamorado de fei- ção, e mutuamente, se apaixonassem e prometessem auspicioso futuro ao casamento. Por parte de Baltasar Coutinho a paixão in- flamou-se tão depressa, quanto o coração de Teresa se congelou de terror e repugnância. O morgado de Castro-d’Aire, atribuindo a frieza de sua prima à mo- déstia, inocência e acanhamento, lisonjeou-se do vir- ginal melindre daquela alma, e saboreou de antemão o prazer de uma lenta, mas segura conquista. Verdade é que Baltasar nunca se explicara de modo que Teresa lhe desse resposta decisiva; um dia, porém, instigado por seu tio, afoitou-se o ditoso noivo a falar assim à melancólica menina: — É tempo de lhe abrir meu coração. Está bem disposta a ouvir-me? — Eu estou sempre bem disposta a ouvi-lo, pri- mo Baltasar. O desdém aborrecido desta resposta abalou algum tempo as convicções do fidalgo, respeito à ino- cência, modéstia e acanhamento da sua prima. Ainda assim, quis ele no momento persuadir-se que a boa vontade não poderia exprimir-se de outro modo, e con- tinuou: — Os nossos corações penso eu que estão uni- dos; agora é preciso que as nossas casas se unam. Teresa empalideceu, e baixou os olhos. — Acaso lhe diria eu alguma cousa desagradá- vel? – prosseguiu Baltasar, rebatido pela desfiguração de Teresa. — Disse-me o que é impossível fazer-se – res- pondeu ela sem turvação. — O primo engana-se: os nossos corações não estão unidos. Sou muito sua ami- ga, mas nunca pensei em ser sua esposa, nem me lem- brou que o primo pensasse em tal. — Lucro saber, pelo menos, que a minha prima ama outro homem... É exato? — É. — E com tamanha paixão que desobedece a seu pai? — Não desobedeço: o coração é mais forte que a submissa vontade de uma filha. Desobedeceria, se casasse contra a vontade de meu pai; mas eu não dis- se ao primo Baltasar que casava; disse-lhe unicamente que amava. Fragmento 3 O coração de Teresa estava mentindo. Vão lá sinceridade coração! Para finos entendedores, o diálogo do anterior capítulo definiu a filha de Tadeu de Albuquerque. É mu- lher varonil, tem força de caráter, orgulho fortalecido pelo amor, despego das vulgares apreensões, se são apreensões a renúncia que uma filha fez do seu alve- drio às imprevidentes e caprichosas vontades de seu pai. [...] Teresa adivinha que a lealdade tropeça a cada passo na estrada real da vida, e que os melhores fins se atingem por atalhos onde não cabem a franqueza e a sinceridade. Estes ardis são raros na idade inexperta de Teresa; mas a mulher do romance quase nunca é trivial, e esta, de que rezam os meus apontamentos, era distintíssima. A mim me basta, para crer em sua distinção, a celebridade que ela veio a ganhar à conta da desgraça. Da carta que ela escreveu a Simão Botelho, con- tando as cenas descritas, a crítica deduz que a meni- na de Vizeu contemporizava com o pai, pondoa mira no futuro, sem passar pelo dissabor do convento, nem romper com o velho em manifesta desobediência. Na narrativa que fez ao acadêmico omitiu ela as ameaças do primo Baltasar, cláusula que, a ser transmitida, arre- bataria de Coimbra o moço, em que sobejavam brios e bravura para mantê-los. Fragmento 4 Às onze horas da noite, o comandante recolhe- ra-se num beliche de passageiro, e Mariana, sentada no pavimento, com o rosto sobre os joelhos, parecia sucumbir ao quebranto das trabalhosas e aflitivas ho- ras daquele dia. Simão Botelho velava prostrado no camarote, com os braços cruzados sobre o peito, e os olhos fitos 23 na luz que balançava, pendente dum arame. O ouvido tê-lo-ia, talvez, atento a um assobio da ventania: devia de soar-lhe como um ai plangente aquele silvo agudo, voz única no silêncio da terra e céu. À meia-noite, estendeu Simão o braço trêmulo ao maço das cartas que Teresa lhe enviara, e contem- plou um pouco a que estava ao de cima, que era dela. Rompeu a obreia, e dispôs-se no camarote para alcan- çar o baço clarão da lâmpada. Dizia assim a carta: É já o meu espírito que te fala, Simão. A tua ami- ga morreu. A tua pobre Teresa, à hora em que leres esta carta, se meu Deus não engana, está em descanso. Eu devia poupar-te esta última tortura; não devia escrever-te; mas perdoa à tua esposa do céu a culpa, pela consolação que sinto em conversar contigo a esta hora, hora final da noite da minha vida. Oh! Simão, de que céu tão lindo caímos! À hora que te escrevo, estás tu para entrar na nau dos degre- dados, e eu na sepultura. Que importa morrer, se não podemos jamais ter nesta vida a nossa esperança de há três anos?! Poderias tu com a desesperança e com a vida, Simão? Eu não podia. Os instantes do dormir eram os escas- sos benefícios que Deus me concedia; a morte é mais que uma necessidade, é uma misericórdia divina, uma bem-aventurança para mim. (CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de perdição. São Paulo: Ática, 1975.) Glossário declinando: afastado obtemperar: obedecer rebate: sinal desígnio: intenção morgado: filho mais velho melindre: delicadeza afoitou-se: encorajou-se turvação: impedimento alvedrio: vontade própria 24 APROFUNDE SEUS CONHECIMENTOS 3. (Mackenzie) Assinale o fragmento que, em- bora pertencendo ao mesmo estilo de época de Camilo Castelo Branco, apresenta ponto de vista irônico sobre a aventura amorosa. a) ”Eu te amo, Maria, eu te amo tanto/ Que meu peito me dói como em doença/ E quanto mais me seja a dor intensa/ Mais cresce na minha alma teu encanto.” (Vinicius de Morais) b) ”O Amor enganoso, que fingia,/ Mil vonta- des alheias enganando,/ Me fazia zombar de quem o tinha.” (Camões) c) ”E o eco ao longe murmurou – é ela!/ E a vi – minha fada aérea e pura –/ A minha lavadeira na janela!” (Álvares de Azevedo) d) ”Cansei-me de tentar o teu segredo:/ No teu olhar sem cor, – frio escalpelo –,/ O meu olhar quebrei, a debatê-lo,/ Como a onda na crista dum rochedo.” (Camilo Pessanha) e) ”Ai! Se eu te visse, Madalena pura,/ Sobre o veludo reclinada a meio,/ Olhos cerrados na volúpia doce,/ Os braços frouxos – palpitante o seio!...” (Casimiro de Abreu) 4. (Mackenzie) De acordo com o texto: a) o amor de Simão e Teresa é visto pelo narra- dor como uma brincadeira de criança. b) o amor de Simão e Teresa, caracterizado como ”amor à primeira vista”, foi intenso no início, mas não durou muito. c) Teresa, aos quinze anos, amava como uma ”avezinha que ensaia o voo fora do ninho”. d) o caso de amor entre Simão e Teresa quebrou as expectativas do narrador com relação a namoros de juventude. e) o amor de Simão e Teresa é prova de que os poetas e prosadores estão enganados com relação aos relacionamentos juvenis. 5. Assinale corretamente qual alternativa aponta a atitude de Simão na novela pas- sional Amor de perdição, de Camilo Castelo Branco, após o assassinato de Baltasar, na cidade do Porto. a) Foge com o ferreiro João da Cruz. b) Casa-se com Mariana. c) Suicida-se em frente ao convento. d) Volta como herói para Viseu. e) Assume a culpa e seu castigo. 6. (Fuvest) Na novela Amor de perdição, de Ca- milo Castelo Branco: a) Simão ficou indeciso entre o amor de Maria- na e o de Teresa. b) Simão rejeitou a oportunidade que lhe foi oferecida para livrar-se do desterro. c) a apresentação do pai e de suas origens jus- tifica o orgulho que a família de Simão os- tenta. TEXTO PARA AS PRÓXIMAS QUATRO QUESTÕES Amava Simão uma sua vizinha, menina de quinze anos, rica herdeira, regularmente bo- nita e bem-nascida. Da janela do seu quarto é que ele a vira a primeira vez, para amá- -la sempre. Não ficara ela incólume da feri- da que fizera no coração do vizinho: amou-o também, e com mais seriedade que a usual nos seus anos. Os poetas cansam-nos a paciência a falarem do amor da mulher aos quinze anos, como paixão perigosa, única e inflexível. Alguns prosadores de romances dizem o mesmo. En- ganam-se ambos. O amor dos quinze anos é uma brincadeira; é a última manifestação do amor às bonecas; é a tentativa da avezinha que ensaia o voo fora do ninho, sempre com os olhos fitos na ave-mãe, que a está da fron- de próxima chamando; tanto sabe a primeira o que é amar muito, como a segunda o que é voar para longe. Teresa de Albuquerque devia ser, porventu- ra, uma exceção no seu amor. (Camilo Castelo Branco, Amor de perdição) 1. (Mackenzie) Assinale a alternativa correta. a) A divergência do narrador com relação à concepção de amor veiculada pela ficção é prova de que o texto pertence ao Realismo. b) No contexto, a crítica a poetas e prosadores funciona como estratégia para o narrador obter credibilidade dos leitores. c) A temática do amor não correspondido, im- plícita no texto, revela-nos um ponto de vis- ta narrativo comprometido com a fidelidade aos fatos da realidade. d) O estilo romântico do texto é comprovado pela linguagem rebuscada com que o nar- rador comenta a fragilidade do amor entre Simão e Teresa. e) O aproveitamento de temática amorosa nos moldes de Romeu e Julieta, de Shakespeare, atesta o estilo clássico de Camilo Castelo Branco. 2. (Mackenzie) Assinale a alternativa correta. a) A analogia presente no segundo parágrafo corresponde a um argumento do narrador para provar a afirmação ”Enganam-se ambos”. b) A analogia presente no segundo parágrafo contradiz a afirmação ”Enganam-se ambos”. c) A analogia presente no segundo parágrafo retoma e confirma a afirmação feita por po- etas e prosadores. d) O último período do texto exemplifica a ana- logia usada pelo narrador no segundo pará- grafo. e) O último período contesta, ironicamente, a afirmação feita pelo narrador no primeiro parágrafo. 25 d) o autor revela grande respeito pelas institui- ções religiosas de seu tempo. e) Ritinha, irmã mais nova de Simão, abando- nou a família para apoiá-lo em suas dificul- dades. 7. (Mackenzie) É uma característica da obra de Camilo Castelo Branco: a) a influência rica em sua poesia de símbolos, imagens alegóricas e construções. b) a oscilação entre o lirismo e o sarcasmo, dei- xando páginas de autêntica dramaticidade, vibrando com personagens que comumente intervêm no enredo, tecendo comentários piedosos, indignados ou sarcásticos. c) a busca de uma forma adequada para conter o sentimentalismo do passado e das formas românticas. d) o fato de deixar ao mundo um alerta sobre o mal-estar trazido pela civilização moderna e industrializada. e) o apego ao conto como principal realização literária, através do qual se tornou um dos autores mais respeitados na literatura por- tuguesa. 8. Amor de perdição é um romance de Camilo Castelo Branco em que a instituição ”famí- lia” desempenha um papel decisivo. a) Estabeleça um paralelo entre os papéis exer- cidos pela família Albuquerque sobre Teresa e aqueles exercidos pela família Botelho so- bre Simão. b) Nesse romance, um dos tópicos importantesé o da relação entre pais e filhos: contraste as relações que se dão na família de João da Cruz, por um lado, com as que se dão nas famílias Botelho e Albuquerque, por outro. 9. Leia com atenção o trecho a seguir, extraído do último capítulo de Amor de perdição, de Camilo Castelo Branco: ”Viram-na, um momento, bracejar, não para resistir à morte, mas para abraçar-se ao ca- dáver de Simão, que uma onda lhe atirou aos braços. O comandante olhou para o sí- tio donde Mariana se atirara, e viu, enleado no cordame, o avental, e à flor da água, um rolo de papéis, que os marujos recolheram na lancha.” a) Que relação há, em Amor de perdição, entre as personagens Simão e Mariana? b) No trecho citado, o narrador menciona um ”rolo de papéis”. Que papéis são esses? c) Considerando as respostas dadas aos itens [a] e [b], analise a função desempenhada pela personagem Mariana na estrutura do romance. GABARITO 1. B 2. A 3. C 4 D 5. E 6. B 7. E 8. a) Os Albuquerque e os Botelho representam as intrigas familiares marcados pelo ódio e falta de compreensão. Nesse contexto, surge o drama amoroso vivido por Teresa e Simão. b) As famílias Albuquerque e Botelho são tradicionalistas e sujeitam as transfor- mações. A família de João da Cruz, mais humilde, tem uma relação mais amorosa com a filha. 9. a) Mariana ama Simão em segredo mas não é correspondida. b) As cartas trocadas entre Simão e Teresa. c) Ela funciona como elo entre Simão e Te- resa e simboliza o amor puro e desinte- ressado. L OBRAS C O demônio familiar Obras L C José de Alencar 29 JOSÉ DE ALENCAR José Martiniano de Alencar Júnior (1829-1877) foi romancista, dramaturgo, jornalista, advogado e político bra- sileiro. É um dos maiores representantes da corrente literária indianista. Destacou-se na carreira literária com a publicação do romance O guarani, em forma de folhetim, no Diário do Rio de Janeiro, no qual alcançou enorme sucesso. Este romance serviu de inspiração ao músico Carlos Gomes, que compôs a ópera heterônima. Foi escolhido por Machado de Assis para patrono da cadeira no 23 da Academia Brasileira de Letras. Consolidou o romance brasileiro ao escrever movido pelo sentimento de missão patriótica. O regionalismo presente em suas obras abriu caminho para outros sertanistas preocupados em mostrar o Brasil rural. Criou uma literatura nacionalista, na qual se evidencia uma maneira de sentir e pensar tipicamente brasileiras. Suas obras são especialmente bem-sucedidas, quando o autor transporta a tradição indígena para a ficção. Tão grande foi a pre- ocupação de José de Alencar em retratar sua terra e seu povo, que muitas das páginas de seus romances relatam mitos, lendas, tradições, festas religiosas, usos e costumes observados pessoalmente por ele, com o intuito de cada vez mais abrasileirar seus textos. Nasceu no sítio Alagadiço Novo, perto de Fortaleza, no Ceará, no dia 1o de maio de 1829. Filho de José Martiniano de Alencar, senador do império, e de Ana Josefina, em 1838 mudou-se com a família para o Rio de Janeiro. Com nove anos, José de Alencar e Antônio Gonçalves Dias (futuro poeta), atravessaram o sertão em um carro de boi e ficaram deslumbrados ao ver um grupo de índios, com penas coloridas, arcos e flechas. Chegando em Salvador, tomaram um navio e seguiram para a capital do império. Com dez anos, José de Alencar ingressou no Colégio de Instrução Elementar. Durante a noite, presenciava os encontros políticos de seu pai. Em sua casa, tramou-se a maioridade de D. Pedro II, decretada em 1840. Com 14 anos, Alencar foi para São Paulo, onde terminou o secundário e ingressou na Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Em 1844, ao ver o sucesso do livro A moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo, resolveu que seria escritor de romances. Entregou-se à leitura dos autores mais influentes da época, como Alexandre Dumas, Balzac, Byron, entre outros. Em 1847, com 18 anos, escreveu seu primeiro romance, Os contrabandistas (obra inacabada). Em 1848, foi para Pernambuco, onde continuou seu curso na Faculdade de Direito de Olinda, concluindo em 1851. De volta a São Paulo, levou o esboço de dois romances históricos – Alma de Lázaro e O ermitão da Glória –, que só seriam publicados no fim da vida. 30 Ainda em 1851, voltou para o Rio de Janeiro, onde exerceu a advocacia. Em 1854, ingressou no Cor- reio Mercantil, na seção “Ao Correr da Pena“, na qual comentava os acontecimentos sociais, as estreias de peças teatrais, os novos livros e as questões políticas. Em 1855, assumiu as funções de gerente e redator – chefe do Diário do Rio, no qual publicou seu primeiro romance, Cinco minutos (1856). No dia 1o de janeiro de 1857, começou a publicar o romance O guarani, em forma de folhetim, que alcançou enorme sucesso e logo foi editado em livro. Em 1858, abandonou o jornalismo para ser che- fe da Secretaria do Ministério da Justiça, chegando a consultor com o título de conselheiro, ao mesmo tem- po em que lecionava Direito Mercantil. Em 1860, com a morte do pai, candidatou-se a deputado pelo Ceará, pelo Partido Conservador, sendo reeleito em quatro le- gislaturas. Em visita a sua terra natal, encantou-se com a lenda de “Iracema“ e a transformou em livro. Em 1865, sob um pseudônimo, publicou Cartas de Erasmo, dirigidas ao imperador, no qual pintava a situação do país. Defendia um governo forte e propu- nha uma abolição gradativa da escravatura. Embora D. Pedro II não simpatizasse com Alencar, não se opôs a sua escolha para o Ministério da Justiça do Império. Em 1870, foi eleito senador pelo Ceará, porém, com os conflitos com o ministro da Marinha, não foi o escolhi- do. Voltou para a Câmara, onde permaneceu até 1877, rompido com o Partido Conservador. Mesmo no auge da carreira política, José de Alencar não abandonou a literatura. Em 1864, casou- -se com Georgina, com quem teve quatro filhos, entre eles, Mário Alencar, que seguiria a carreira de letras do pai. Viu suas obras atacadas por jornalistas e críticos, que faziam campanha sistemática contra o romancista. Triste e desiludido, publicou sob o pseudônimo de Sê- nio. Porém, a maioria o louvava. Durante toda sua vida, procurou trazer para os livros as tradições, a história, a vida rural e urbana do Brasil. Ficou famoso a ponto de ser aclamado por Machado de Assis como “o chefe da literatura nacional“. José de Alencar faleceu aos 48 anos, vítima da tuberculose no Rio de Janeiro, em 12 de dezembro de 1877. O DEMÔNIO FAMILIAR A peça “O demônio familiar“ foi encenada pela pri- meira vez no Teatro do Ginásio do Rio de Janeiro, no dia 5 de setembro de 1857, fundindo uma temática europeia, como a interferência do dinheiro nas rela- ções afetivas, com uma temática brasileira, a atuação do escravo no interior das casas das famílias brasileiras. O objetivo de José de Alencar era produzir uma peça original e de efeito moral, capaz de revelar a sin- gularidade da comédia brasileira e de educar as famí- lias no combate a um vício, que era o de permitir a figura do escravo no interior das casas. Tema Quanto ao aspecto temático, “O demônio familiar“ apresenta uma ideia curiosa: aparentemente, a peça é avançada para a época. Em 1857 (ano de estreia da peça), trinta anos antes da abolição da escravidão, o tema do abolicionismo soaria aos ouvidos da pla- teia como algo avançado e contrário aos interesses da elite dominante. Entretanto, a apologia da liberdade é apenas aparente, pois a liberdade na peça é vista como um instrumento de punição. A liberdade traria para o escravo consequências severas, porque ele teria de aprender com a vida o que não conseguiu assimi- lar como escravo, como o respeito e a educação. Em outras palavras, a escravidão é um mal não porque o branco subjuga o negro, mas porque a maldade vem do negro. Este paga com tramas e desejos mesquinhos o bem que lhes queria seus senhores. Em suma,não se trata de livrar o negro da crueldade do branco, mas de preservar o branco das maldades do negro. Como a “classe” branca era econômica e poli- ticamente a dominadora, podia falar e escrever o que quisesse, como a mensagem interpretada acima. José de Alencar emprega recursos convencionais para se fazer entender pelo público, objetivando a educação moral das famílias brasileiras. As principais lições são: a escravidão é um mal, porque expõe a família à falta de escrúpulo dos negros; a família é mais importante que a sociedade, pois é ela que fornece as bases para que o indivíduo possa evitar os prazeres excessivos da vida social; na família, a mulher, por desconhecer os perigos do mundo, deve sempre agir em nome do verdadeiro amor; e o dinheiro interfere, de forma negativa, nas relações afetivas. 31 Forma No que tange ao aspecto formal, a peça não apresenta novidades, pois emprega recursos típicos da tradição teatral para a solução dos problemas de enredo. O recurso inesperado surge na forma de uma carta de alforria ao moleque Pedro, funcionando como um ins- trumento de punição para a personagem. A técnica que liga um ato ao outro da peça é conhecida como “técnica do gancho”, porque cria um pequeno suspense no final do ato para prender a aten- ção do espectador. O texto se configura como comédia, portanto, traz consigo a crítica de costumes, não aos moldes gregos, pois é romântico, mas com aspectos da observação social em perspectiva da não realização amorosa ou conflitos típicos da ascensão da burguesia. Escola literária A peça de José de Alencar reúne alguns dos ingre- dientes românticos mais convencionais. Todo o enre- do é montado sobre tensões, maledicências, fofocas, mal-entendidos, que lhe dão o ritmo rocambolesco e complicado das narrativas folhetinescas do Romantis- mo. Estão presentes, ainda, os inescapáveis obstáculos para a realização amorosa do par central, como o pro- jetado casamento da heroína com Azevedo e as atitu- des de Pedro, que fazem com que o herói não se sinta amado por Henriqueta. Porém, José de Alencar conduz as confusões da narrativa até o nível das contradições, que fazem com que a peça atinja um nível superior, ao expor ao espectador diferentes perspectivas a respeito dos conceitos em jogo. Assim, o amor romântico aparece em duas for- mas distintas: de um lado, o amor contido e confor- mado de Henriqueta, que se submete às vontades do destino; e de outro, o amor decidido e ativo de Car- lotinha, que luta por seu amor, não se rendendo às circunstâncias que conduziam à inevitável separação. A peça vai ainda além: há, de um lado, o amor or- namental defendido por Azevedo; e de outro, o amor que é pura sinceridade proposto por Alfredo. Os dois rapazes personificam ainda duas posições contrárias a respeito da arte brasileira: o afrancesado Azevedo vê nela apenas imitação de modelos europeus, enquanto Alfredo – nesse sentido, porta-voz do autor – destaca seus traços de originalidade e nacionalismo. Contexto A peça consegue ainda registrar os novos costumes de uma sociedade que se urbaniza com rapidez. A novi- dade capitalista atinge as relações sociais, colocando em foco a chamada question d’argent (problemas fi- nanceiros), um dos temas mais frequentes do nascente Realismo francês. Ressalve-se que essa questão é fo- calizada de uma perspectiva romântica, à medida que desvia os homens de sentimentos verdadeiros. Além disso, há uma cena em que se relata o interesse que as vitrines coloridas despertam em Pedro – sugestão de que aqueles novos hábitos teriam contribuição decisiva nos desvios morais do menino. Moral Em “O demônio familiar“, todas as lições de moral são dadas pelo personagem Eduardo. A moral da peça é justamente esta: os efeitos do progresso sobre as rela- ções sociais, principalmente para quem – como Pedro – não tem consciência plenamente formada pela edu- cação. Esse argumento caminha no sentido da defesa 32 da escravidão, como forma de tutela sobre o negro que, de outra maneira, estaria submetido aos desvios mo- rais fornecidos pela liberdade plena. Na transmissão dessa moralidade tão peculiar, destaca-se a imagem do herói, Eduardo, moço equilibrado e honrado, cuja nobreza de caráter contrasta com os maus princípios defendidos por Azevedo, com manias europeizadas. Linguagem No plano da linguagem, José de Alencar se mostra tensionado a mostrar as potencialidades da língua brasileira. Vai estabelecendo diferenças no nível de lin- guagem, de acordo com a localização social do falante. Neste tocante, a linguagem será modulada tanto ao coloquialismo desregrado de Pedro quanto à retórica mais educada de Eduardo. Resumo Peça teatral escrita para ser encenada em quatro atos, a ação se desenrola na cidade do no Rio de Janeiro, já na segunda metade do século XIX. A trama gira em tor- no da família da viúva D. Maria e seu filho mais velho, Eduardo, que acabara de se formar médico e assume a posição de líder familiar. Ele vai auxiliar a condução dos destinos da irmã Carlotinha (jovem que mantém um discreto namoro com Alfredo, amigo do irmão) e cuidar também do irmão caçula, Jorge. Eduardo possui um escravo particular: Pedro, um moleque nada interessado no trabalho doméstico e que não perdia nenhuma oportunidade de passear pela cidade que se urbanizava. O grande amor de Edu- ardo é Henriqueta, amiga de Carlotinha, que também ama o rapaz. No entanto, a união é impedida pelo pro- jeto de casamento da moça com Azevedo, moço rico recém-chegado de Paris, ao qual ela se submetia para auxiliar seu pai, Vasconcelos, a saldar algumas dívidas. Pedro, menino escravo da família de Eduardo, assume um papel essencial no enredo, em função de suas intromissões na vida amorosa dos amos. Ao mes- mo tempo em que luta para promover a união entre Carlotinha e Alfredo, usa artifícios para separar Hen- riqueta e Eduardo, aproximando-o de uma viúva rica interessada nele. Quando Eduardo descobre tudo, ameaça ven- der Pedro, mas o menino implora para ficar e se com- promete a resolver tudo. Começa, então, a desenvolver ações no sentido contrário, inventando coisas a respei- to de Henriqueta para fazer Azevedo desistir do casa- mento. Enquanto isso, Eduardo também se movimenta no sentido de romper a obrigação do casamento da amada com Azevedo. Para tanto, salda por conta pró- pria as dívidas de Vasconcelos. Procurando agora deixar Henriqueta livre para seu amo, Pedro busca separá-la de Azevedo. Para tan- to, tenta aproximar este de Carlotinha, provocando um mal-entendido entre esta e Alfredo. Mais uma vez, Eduardo descobre todas as ações do moleque e escla- rece tudo aos familiares e aos envolvidos. Declara seu amor a Henriqueta, ao mesmo tempo em que Azevedo se afasta. Alfredo e Carlotinha finalmente tornam pú- blico seu amor. Para o moleque Pedro, responsável por todos os desencontros da peça, sobra o castigo final: Eduar- do lhe entrega a sua carta de alforria, o que significa deixá-lo, dali por diante, por sua própria conta e sem a proteção da família que o acolhia. Personagens Eduardo: é um jovem médico, órfão de pai, que exerce o papel de chefe de família. Res- ponsável pela mãe e pelos irmãos, opõe-se ao casamento por interesse. Carlotinha: é irmã de Eduardo, e procura aju- dar a amiga Henriqueta, pois sabe que ela e Eduardo se amam. Porém, Henriqueta foi pro- metida pelo pai em casamento a Azevedo, em troca do perdão de dívidas da família. 33 Azevedo: homem rico e pedante, valoriza so- mente o que é estrangeiro. Deseja casar-se ape- nas para desfilar com uma mulher bonita nos salões e, assim, angariar prestígio. Alfredo: amigo de Eduardo, é jovem modesto, sincero e de bons princípios; está apaixonado por Carlotinha e por ela é correspondido. Pedro: é o escravo da família, que tudo faz para realizar seu desejo: tomar-se cocheiro,a fim de ascender socialmente, revelando, assim, a postura política do autor. Espaço O registro espacial do drama de José de Alencar re- produz a preocupação central da peça, que é a de destacar a vida familiar no Rio de Janeiro na segunda metade do século XIX. Praticamente, todos os atos se passam na “casa de Eduardo”. Cenário: ambientado na casa de Eduardo Ato 1o: gabinete de estudo (cena primeira a XV). Ato 2o: jardim (cena primeira a IX) Ato 3o: sala interior (cena primeira a XVIII) Ato 4o: sala de visitas (cena primeira a XVII) Vida urbana: passeio público, Rio de Janeiro Os espaços externos aparecem apenas indireta- mente, é possível perceber referências à Rua do Catete, aos hábitos urbanos, como o teatro, as lojas da moda, e outros recantos mundanos da cidade. Tempo Os três primeiros atos da peça ocorrem em um único dia. O quarto ato ocorre um mês após os acontecimen- tos do final do terceiro ato. Foco narrativo O foco narrativo – se é que podemos atribuir este con- ceito no gênero dramático –, se estabelece em terceira pessoa, com base em diálogos diretos entre as perso- nagens. Análise Nota-se que José de Alencar, na obra em questão, mos- trou alguns comportamentos cariocas do século XIX: o rico influenciado pela cultura europeia e vivendo em função dela (Azevedo); o falso rico (sr. Vasconcelos); o casamento por interesse financeiro ou social (Vascon- celos e Azevedo); a moça virginal e sonhadora (Carlo- tinha); o serviçal negro e fofoqueiro (Pedro); a viúva e mãe exemplar (dona Maria); o verdadeiro amor (Edu- ardo e Henriqueta); e o jovem humilde e nacionalista (Alfredo). A trama é leve, a linguagem é objetiva, mes- clando termos da língua francesa e da língua portu- guesa. O objetivo da comédia é provocar riso no pú- blico e, de forma graciosa, mostrar os comportamentos ridículos de uma sociedade. Diferente da crença de que os demônios são causadores do mal, Pedro, o serviçal, age de maneira pensada, desejando o bem para ele e para os demais; quando percebe que causou algum mal, ele volta e repara. O personagem está mais para anjo do que para diabo. É ele quem dá o tom de humor à narrativa, atra- vés de uma série de confusões. Nota-se, também, que era totalmente improvável o criado Pedro ser tratado como membro da família de dona Maria, visto que era escravo. As mulheres da época, superficiais e artificiais, eram bonecas enfeitadas a fim de laçarem um marido o mais rapidamente possível e domesticá-los Sem dú- vida alguma, a peça “O demônio familiar“ é uma obra considerada abolicionista, vendo sobretudo a questão pelo lado do senhor (o escravo Pedro introduz na casa de Eduardo a mentira, a fofoca e a intriga), então, cabe à família alforriá-lo (punição) pelo mau comportamen- to do negro escravo. 34 APROFUNDE SEUS CONHECIMENTOS 2. Leia a seguinte passagem de “O demônio fa- miliar“. O texto teatral, exemplificado pelo trecho acima, apresenta se melhanças com o tex- to narrativo por utilizar personagens, re- presentar ações e marcação de tempo e espa- ço. No texto tea tral: a) as ações das personagens são descritas por um nar rador, sendo este o mediador da nar- rativa. b) as falas das personagens são diluídas no tex- to, sen do confundidas com a voz do narra- dor. c) as características das personagens são reve- ladas por meio de suas falas e assim a ação é conduzida por elas mesmas. d) as vozes das personagens são importantes para a construção da narrativa, embora haja a voz de um narrador onisciente. e) as atitudes das personagens são conduzidas por um narrador intruso, embora o conflito esteja nos diálo gos. 3. Um dos motores essenciais do riso na comé- dia é o quiproquó, situação na qual equívo- cos, mentiras, trocas de objetos ou de pessoas acabam por gerar confusões que alimentam o conflito dramático. Logo nas primeiras cenas de “O demônio familiar“, de José de Alencar, há referência a um quiproquó, ins- taurado quando Pedro: a) entregou a Azevedo uma carta de Carlotinha destinada a Henriqueta, levando Alfredo a sentir-se enganado. b) distorceu as palavras de Azevedo, induzindo Vasconcelos a se indispor com o pretendente de Henriqueta. c) inventou falsas pretensões de Vasconcelos e este se irritou, indispondo-se com Azevedo. d) entregou a Azevedo uma violeta, inventan- do ter sido enviada, com um beijo, por Car- lotinha. e) mentiu a Eduardo sobre Henriqueta e este fechou sua janela, fazendo a jovem sentir-se desprezada por ele. 4. Em “O demônio familiar“, de José de Alen- car, o personagem que dá título à peça é: a) Eduardo. b) Alfredo c) Azevedo. d) Vasconcelos. e) Pedro. 1. Leia atentamente o trecho retirado da peça teatral “O demônio familiar“, de José de Alencar. EDUARDO: Por que, minha irmã? Todos de- vemos perdoar-nos mutuamente; todos so- mos culpados por havermos acreditado ou consentido no fato primeiro, que é a causa de tudo isto. O único inocente é aquele que não tem imputação, e que fez apenas uma travessura de criança, levado pelo instinto da amizade. Eu o corrijo, fazendo do autô- nomo homem; restituo-o a sociedade, porém expulso-o do seio de minha família e fecho- -lhe para sempre a porta de minha casa. (A Pedro) Toma: é tua carta de liberdade, ela será a tua punição de hoje em diante, porque as tuas faltas recairão unicamente sobre ti; porque a moral e a lei te pedirão uma conta severa de tuas ações. Livre, sentirás a neces- sidade do trabalho honesto e apreciarás os nobres sentimentos que hoje não compreen- des. (Pedro beija-lhe a mão) AZEVEDO: Mas agora, por simples curiosida- de, diz-me, Gamim, que interesse tinhas em desfazer o meu casamento? PEDRO: Sr. moço Eduardo gosta de sinhá Henriqueta! AZEVEDO: Ah!... Bah!... EDUARDO: Sim, meu amigo. Eu amo Henri- queta e para mim esse casamento seria uma desgraça; para o senhor era uma pequena questão de gosto e para seu pai um compro- misso de honra. Hoje mesmo pretendia sol- ver essa obrigação. Aqui está uma ordem so- bre o Souto; O Sr. Vasconcelos nada lhe deve. VASCONCELOS: Como? Fico então seu devedor? EDUARDO: Essa dívida é o dote de sua filha. HENRIQUETA: Oh! Que nobre coração! EDUARDO: Quem mo deu? HENRIQUETA: Sou eu que sinto orgulho em lhe pertencer, Eduardo. (O demônio familiar, José de Alencar) Sobre a peça, é incorreta a alternativa: a) A atmosfera da classe burguesa do século XIX é apresentada em tonalidades românti- cas. b) Ideologicamente, subjaz a ideia de que a es- cravidão não é tão maléfica, e que a relação entre patrões e escravos é cordial. c) O papel conferido à mulher representa a su- balternidade e a submissão características do patriarcalismo burguês. d) A história dramatiza as relações familiares em que o escravo é recompensado com a al- forria, em paga de seus serviços domésticos. 35 5. Leia atentamente o trecho retirado da peça teatral “O demônio familiar“. EDUARDO: Os antigos acreditavam que toda a casa era habitada por um demônio familiar, do qual dependia o sossego e a tranquilidade das pessoas que nela viviam. Nós, os brasi- leiros, realizamos infelizmente esta crença; temos no nosso lar doméstico esse demônio familiar. Quantas vezes não partilha conos- co as carícias de nossas mães, os folguedos de nossos irmãos e uma parte das atenções da família! Mas vem um dia, como hoje, em que ele, na sua ignorância ou na sua malícia, perturba a paz doméstica; e faz do amor, da amizade, da reputação, de todos esses obje- tos santos, um jogo de criança. Este demônio familiar de nossas casas, que todos conhece- mos, ei-lo. a) A quem Eduardo se refere como “demônio familiar”? b) Qual é o principal desejo do “demônio fami- liar”? c) Segundo Eduardo, o que o torna um “demô- nio familiar”? 6. No final da peça “O demônio familiar“, de José de Alencar, ocorre a união entre os pa- res românticos da peça. a) Qual o artifício empregado pelo autor dapeça para dificultar a união entre os pares? b) Pode-se dizer que este artifício tem uma fi- nalidade que transcende o aspecto literário? Justifique sua resposta. 7. ATO IV Em casa de Eduardo. Sala de visitas. Cena primeira Eduardo, Henriqueta, Carlotinha, Pedro (Carlotinha na janela; Pedro sacudindo os tapetes.) CARLOTINHA (baixo, a Pedro): Não passará ainda hoje? PEDRO: Não sei, nhanhã. CARLOTINHA: Está doente?... Zangado comi- go?... Por quê? PEDRO: Não se importe mais com ele! Há tanto moço bonito! Sr. Azevedo... (Pedro vai colocar o tapete e sai.) No fragmento anterior transcrito, a persona- gem Carlotinha está preocupada com a au- sência do seu amado. a) Quem é o seu amado? b) Qual o motivo da ausência do rapaz? 8. Leia atentamente o trecho retirado da peça teatral “O demônio familiar“. EDUARDO (a Pedro): Toma, é a tua carta de liberdade, ela será a tua punição de hoje em diante, porque as tuas faltas recairão unica- mente sobre ti; porque a moral e a lei te pe- dirão uma conta severa de tuas ações. Livre, sentirás a necessidade do trabalho honesto e apreciarás os nobres sentimentos que hoje não compreendes. (Pedro beija-lhe a mão.) Ao entregar a carta de alforria a Pedro, Edu- ardo afirma que ela será, para o escravo ago- ra liberto, uma punição. a) Por que, segundo Eduardo, a carta de alfor- ria será uma punição para Pedro? b) No contexto da peça, qual a visão de José de Alencar sobre a abolição da escravidão? 36 GABARITO 1. D 2. C 3. E 4. E 5. a) Eduardo refere-se ao seu escravo Pedro. b) O principal desejo de Pedro é tornar-se cocheiro. c) O que o torna um “demônio familiar” é o fato de o escravo menosprezar todo o afe- to que lhe é dedicado pelos seus senhores e agir sempre de acordo com interesses inescrupulosos. Pedro não consegue ab- sorver a moral, o carinho e o afeto da família em que se encontra, agindo so- mente em função de uma ambição mes- quinha, que é a de tornar-se cocheiro de amos ricos. 6. a) O artifício são as traquinagens do escra- vo Pedro, que, em nome do seu desejo de tornar-se cocheiro, procura aproximar seus senhores de pessoas ricas. b) Sim. As traquinagens de Pedro o trans- formam no “demônio familiar”, capaz de comprometer a moralidade de uma famí- lia. O objetivo maior de Alencar parece ser uma defesa da abolição, não pelo absurdo da exploração do trabalho do negro, mas pelo fato de este só trazer malefícios para a família brasileira. 7. a) O amado de Carlotinha é o moço Alfredo. b) Alfredo anda ausente por motivo de uma traquinagem de Pedro. Este lhe mostrou uma carta escrita por Carlotinha e desti- nada a Henriqueta. Como gracejo, Carlo- tinha havia escrito no envelope o nome do destinatário – Madame Azevedo. Pedro ocultou o primeiro nome do sobrescrito com o dedo, mostrando a Alfredo o nome de seu rival no amor, Azevedo, dizendo- -lhe que a carta era destinada a ele. 8. a) Porque, uma vez livre, Pedro não contará mais com a proteção de seu senhor, de- vendo responder pelos seus atos. Livre, Pedro terá que aprender sozinho os valo- res que não conseguiu absorver na convi- vência com uma família honesta. b) No contexto da peça, Alencar vê a abolição como algo necessário para o bem-estar da família, pois os desejos mesquinhos dos escravos não condizem com a nobreza e a dignidade de uma família de “bem”. Sua visão é a de que o negro não merece ser escravo do branco, pois não sabe e não consegue entender os valores dignos que lhe são transmitidos pelos seus senhores. L OBRAS C Clara dos Anjos Obras L C Lima Barreto 39 LIMA BARRETO Afonso Henrique de Lima Barreto (1881-1922) nasceu no Rio de Janeiro, no dia 13 de maio de 1881, foi escritor e jornalista. Filho de Joaquim Henriques e Amália Augusta, ambos pobres e mestiços, sofreu esse preconceito em toda sua vida. Seu pai era tipógrafo e sua mãe, professora primária. Logo cedo, ficou órfão de mãe. Lima Barreto estudou no Liceu Popular Niteroiense, concluiu o curso secundário no Colégio Pedro II e fez faculdade de Engenharia na Escola Politécnica. Seu pai enlouqueceu e foi internado, por isso, em 1904, foi obrigado a abandonar o curso de Engenharia. Para sustentar a família, empregou-se na Secretaria de Guerra e, concomitan- temente, escrevia para alguns jornais do Rio de Janeiro. Ainda estudante, já colaborava para a Revista da Época e para a Quinzena Alegre. Em 1905, passou a es- crever para o Correio da Manhã, que era um jornal de grande prestígio na época. Lima Barreto publicou o romance Recordações do escrivão Isaías Caminha, em 1909. O texto acompanha a trajetória de um jovem mulato que, vindo do interior, sofre sérios preconceitos raciais. Em 1915, escreveu Triste fim de Policarpo Quaresma e, em 1919, escreveu Vida e morte de M.J. Gonzaga de Sá. Esses três romances apresentam nítidos traços autobiográficos. A obra-prima de Lima Barreto, não perturbada pela caricatura, foi Triste fim de Policarpo Quaresma, na qual o autor conta o drama de um velho aposentado, Policarpo, em sua luta pela salvação do Brasil. 40 Com seu espírito inquieto e rebelde, seu incon- formismo com a mediocridade reinante, Lima Barreto se entrega ao álcool. Suas constantes depressões o le- vam duas vezes para o hospício. Em 1 de novembro de 1922, morreu de um ataque cardíaco. CLARA DOS ANJOS Concluído em 1922, ano da morte de Lima Barreto, o romance Clara dos Anjos é uma denúncia áspera do preconceito racial e social, vivenciado por Clara, uma jovem mulata de 17 anos. Ela é filha de Joaquim dos Anjos, carteiro, flautista e casado com Engrácia, dona de casa. Eles moram em um casebre simples e humilde que possui dois quartos, sala de jantar e de visitas, co- zinha, despensa e quintal, situada no subúrbio do Rio de Janeiro. A família não frequenta a casa dos outros, ape- nas a de Antônio da Silva Marramaque, padrinho de Clara. Possui poucos vizinhos, inclusive alguns deles eram estrangeiros. Em seu aniversário, Clara conhece o violeiro que fora convidado para tocar na festa... Seu nome é Cassi Jones de Azevedo. Cassi Jones é branco (a questão racial é pre- ponderante para o enredo, sobretudo no conjunto da obra de Lima Barreto), tem vinte e poucos anos e pos- sui fama de sedutor. De classe mais abastada, sempre envia cartas de amor a Clara para que ela se apaixone. Clara acredita na pureza do amor, é ingênua e frágil e não possui grandes ambições. O plano do rapaz dá certo e ela resolve se entregar a ele. O padrinho de Clara intercede pela afilhada, mas é assassinado por Cassi e uns capangas. Passa o tempo, descobre-se que a moça está grávida e, logo, Cassi desaparece em fuga. Clara pensa em interromper a gravidez, todavia segue o conselho de sua mãe e vai à casa de Cassi esperando “repa- ração”, mas é maltratada pela mãe do rapaz, que a humilha por ser mulata e pobre. Portanto, tudo isso faz com que Clara se dê conta de sua posição na so- ciedade, do lugar da mulher, que é pobre e negra do subúrbio carioca. Estética O Realismo-Naturalismo, que tanto influenciou Lima Barreto na composição de Clara dos Anjos, é cientificis- ta e determinista, considerando que as ações humanas são produtos de leis naturais: do meio, das caracterís- ticas hereditárias e do momento histórico. Portanto, os romances naturalistas procuravam, através da repre- sentação literária, demonstrar teses extraídas de teo- rias científicas. Para isso, o Naturalismo buscou compor um registro implacável da realidade, incluindo seus as- pectos repugnantes e grotescos. São exatamente esses os aspectos que mais chamam a atenção na narrativa exagerada de Clara dos Anjos. Temática Em Clara dos Anjos, relata-se a estória de uma pobre mulata, filha de um carteiro de subúrbio, que apesar das cautelas excessivas da família, é iludida, seduzida e, como tantas outras, desprezada, enfim, por um rapazde condição social menos humilde que a sua. É uma estória na qual se tenta pintar em cores ásperas o dra- ma de tantas outras moças da mesma cor e do mesmo ambiente. O romancista procurou fazer de sua perso- nagem uma figura apagada, de natureza “amorfa e pastosa“, como se nela quisesse resumir a fatalidade que persegue tantas criaturas de sua casta. 41 Linguagem Com uma linguagem descuidada, suas obras são im- pregnadas da justa preocupação com os fatos históri- cos e com os costumes sociais. Lima Barreto torna-se uma espécie de cronista e um caricaturista, vingando- -se da hostilidade dos escritores e do público burguês. Poucos aceitam aqueles contos e romances que revela- vam a vida cotidiana das classes populares, sem qual- quer idealização. Produz um tipo de literatura que se distancia dos padrões e, por isso, foi muito criticado pelos bele- tristas tradicionais. As injustiças sociais e as dificulda- des das primeiras décadas da república são as temáti- cas primordiais de suas obras. Espaço O romance se passa no subúrbio carioca e Lima Bar- reto descreve o ambiente suburbano com riqueza de detalhes, como os vários tipos de “casas, casinhas, ca- sebres, barracões, choças”, e a vida das pessoas que ali vivem. Ao descrever o subúrbio, aborda o advento dos “bíblias”, os protestantes que alugam uma antiga chá- cara e passam a conquistar novos fiéis para seu culto: Joaquim dos Anjos ainda conhecera a “chácara“ habitada pelos proprietários respectivos; mas, ulti- mamente, eles se tinham retirado para fora e alu- gado aos “bíblias“... O povo não os via com hos- tilidade, mesmo alguns humildes homens e pobres raparigas dos arredores frequentavam-nos, já por encontrar nisso um sinal de superioridade intelectu- al sobre os seus iguais, já por procurarem, em outra casa religiosa que não a tradicional, lenitivo para suas pobres almas alanceadas, além das dores que seguem toda e qualquer existência humana. E reflete sobre a nova seita: Era Shays Quick ou Quick Shays daquela raça curio- sa de yankees fundadores de novas seitas cristãs. De quando em quando, um cidadão protestante dessa raça que deseja a felicidade de nós outros, na terra e no céu, à luz de uma sua interpretação de um ou mais versículos da Bíblia, funda uma novíssi- ma seita, põe-se a propagá-la e logo encontra dedi- cados adeptos, os quais não sabem muito bem por que foram para tal novíssima religiãozinha e qual a diferença que há entre esta e a de que vieram. Personagens Marrameque Poeta modesto, semiparalisado, que frequen- tara uma pequena roda de boêmios e literatos, dizia ter conhecido Paula Nei e ser amigo pessoal de Luís Murat. Clara, a “natureza elementar” Tinha 17 anos, era ingênua e fora criada “com muito desvelo, recato e carinho; e, a não ser com a mãe ou pai, só saía com dona Margarida, uma viúva muito séria, que morava nas vizinhanças e ensinava à Clara bordados e costuras”. Clara era a segunda filha do casal, “o único filho sobrevivente… Os demais… Haviam morrido”. Cassi, o corruptor Por intermédio de Lafões, o carteiro Joaquim passa a receber em casa o pretendente de Clara, Cassi Jones de Azevedo, que pertencia a uma posição social melhor. 42 Joaquim dos Anjos Joaquim é um carteiro que achava ser músico. Escreveu algumas valsas, tangos e polcas. Dona Engrácia Era católica romana e trazia seus filhos para a mesma religião. Caracterizava-se por ser caseira, com uma boa dose de insegurança e rudeza. Calado Músico e compositor brasileiro. Patápio Silva Uma polca sua – “Siri sem unha“ – e uma val- sa – “Mágoas do coração“ – tiveram algum sucesso, a ponto de vender a propriedade de cada uma, por 50 mil-réis, a uma casa de música e piano da Rua Ouvidor. João Pintor Era um cidadão que visitava “os bíblias“, aque- les que pregavam o evangelho. Um preto retinto, gros- sos lábios, malares proeminentes, testa curta, dentes muito bons e muitos claros, longos braços, manoplas enormes, longas pernas e uns tais pés que não havia calçado. Mr. Shays É um homem cheio de eloquência bíblica, che- fiava uma seita e fazia seus adeptos ouvirem a palavra. Quando os adeptos sentem-se preparados, põem-se a propagá-la. Eduardo Lafões Era um homem simplório, que vivia em círculos limitados, habituado a ver o valor dos homens nas rou- pas e no parentesco, gostava de assuntos de comércio. Frequentava, aos domingos, a casa de Joaquim para jogar o solo. Manuel Borges de Azevedo e Salustiana Baeta de Azevedo São os pais de Cassi. O pai não gostava dos procedimentos do filho, enquanto a mãe cobria-lhe as desfeitas com as proteções. Dona Margarida Weber Pestana Dona de uma pensão, Margarida é uma senho- ra viúva e corajosa. Ela é mãe de Ezequiel. No Brasil, casou-se com um tipógrafo, que morreu dois anos após o casamento. Dona Laurentina Jácone Figura que gostava de rezar e ficar cuidando das questões da paróquia e da igreja. Dona Vicêntina O seu procedimento era inatacável e exercia a sua profissão de cartomante com toda a seriedade e convicção. Praxedes Maria dos Santos Foi um dos convidados de Joaquim. Era um ho- mem bom. Ele gostava de ser tratado por doutor Pra- xedes. Etelvina Etelvina é colega de Clara. Um crioula que no- tou a impaciência de Clara, quando Cassi ainda não chegou à festa. Leonardo Flores O grande poeta. Velho Valentim Um dos portugueses da história. Barcelos Figura na história de um português fichado na detenção. Arnaldo Arnaldo é um colega do grupo dos Valdevino (grupo de desocupados da turma de Cassi). Menezes É o dentista da família, que atua como um inter- mediário entre as cartas e bilhetes de Cassi para Clara. Senhor Monção Um caixeiro vendedor; Belmiro Bernedes & Cia. – “tocava realejo“, era um moço português simpático, educado e de bom porte. Dona Castolina É a esposa de Menezes. Helena Tia de Marramaque, econômica, prendada, cos- turava para o arsenal do governo. Leopoldo Era marinheiro. Cedo, saiu do seio da família para melhorar de vida. Há 30 anos, não via a família. 43 A crítica Lima Barreto claramente não gostava da influência dos EUA no Brasil, especialmente critica as “novas seitas cristãs”. Como colocou Antônio Arnoni Prado sobre o tom profético: O autor de Clara dos Anjos interessou-se pelos Es- tados Unidos, em virtude do tratamento desuma- no que este país dispensava aos seus cidadãos de cor. (...) Censurou duramente a discriminação racial estadunidense, assim como o expansionismo impe- rialista dos yankees, que, através da diplomacia do dólar, ia, a seu ver, convertendo o Brasil num autên- tico protetorado. Clara é uma mulata pobre, que vive no subúrbio carioca com seus pais, Joaquim e Engrácia, mulher “se- dentária e caseira”. Joaquim era carteiro, “gostava de violão e de modinhas. Ele mesmo tocava flauta, instru- mento que já foi muito estimado em outras épocas, não o sendo atualmente como outrora”. Também “compu- nha valsas, tangos e acompanhamentos de modinhas”. Além da música, a outra diversão do pai de Clara era passar as tardes de domingo jogando solo com seus dois amigos: o compadre Marramaque e o português Eduardo Lafões, um guarda de obras públicas. Clara engravida e Cassi Jones desaparece. Con- vencida pela vizinha, dona Margarida, que procurara na tentativa de conseguir um empréstimo e fazer um aborto, ela confessa o que está acontecendo à sua mãe. É levada a procurar a família de Cassi e pedir “reparação do dano”. A mãe do rapaz humilha Clara, mostrando-se profundamente ofendida porque uma negra quer se casar com seu filho. Clara “agora é que tinha a noção exata da sua situação na sociedade. Fora preciso ser ofendida irremediavelmente nos seus melindres de solteira, ouvir os desaforos da mãe do seu algoz, para se convencer de que ela não era uma moça como as outras; era muito menos no conceito de todos”. O autor representa,na figura de Clara e no seu drama, a condição social da mulher, pobre e negra, ge- ração após geração. No final do romance, consciente e lúcida, Clara reflete sobre a sua situação: O que era preciso, tanto a ela como às suas iguais, era educar o caráter, revestir-se de vontade, como possuía essa varonil dona Margarida, para se de- fender de Cassi e semelhantes, e bater-se contra to- dos os que se opusessem, por este ou aquele modo, contra a elevação dela, social e moralmente. Nada a fazia inferior às outras, senão o conceito geral e a covardia com que elas o admitiam... No final do livro, especialmente na cena final, ao relatar o que se passara na casa da família de Cassi Jones para a sua mãe, conclui, em desespero, como se falasse em nome dela, da mãe e de todas as mulheres em iguais condições: “— Nós não somos nada nesta vida”. 44 APROFUNDE SEUS CONHECIMENTOS 3. (UFU) — Mamãe, Mamãe! — Que é minha filha? — Nós não somos nada nesta vida. Todos os Santos – Rio de Janeiro – Dezembro de 1921-janeiro de 1922. BARRETO, Lima. Clara dos Anjos. Tecnoprint/Ediouro, s/d, p. 77. De acordo com o trecho acima, assinale a al- ternativa correta. a) O diálogo entre dona Engrácia e sua filha Clara simboliza de forma alegórica a desu- manização da mulher negra e pobre, numa sociedade regida por D. Pedro I, mas mani- pulada por uma elite branca preconceituosa. b) Este pequeno diálogo pode ser considerado uma metáfora de uma classe social típica da primeira república: indivíduos escravos, sem perspectiva de ascensão econômica, os quais lutavam pela assinatura da lei Áurea. c) O diálogo entre Clara e sua mãe, Engrácia, que aparece ao final do romance Clara dos Anjos, publicado em plena monarquia, sim- boliza a falta de perspectiva da mulher ne- gra, analfabeta e pobre. d) Este pequeno diálogo, que fecha o final do romance Clara dos Anjos, pode ser conside- rado uma metáfora do sofrimento de uma classe social que, mesmo com a assinatura da lei Áurea, continuava estigmatizada etni- camente. 4. (UEPB) Considere as afirmações: I. Os pensamentos de Clara revelam as difi- culdades da mulher em geral, negra em particular, nas últimas décadas do século XIX e primeiras décadas do século XX, em ter seus direitos assegurados num país que se transforma mas ainda mantém velhas estruturas oligárquicas de exclusão: “Ela devia ter aprendido da boca dos seus pais que a sua honestidade de moça e de mu- lher tinha todos por inimigos”. II. As trajetórias de Cassi e Clara demonstram ao longo do romance como, a despeito de serem ambos da pequena burguesia sem posses, as relações sociais não deixaram de ser ainda fortemente racializadas: “Ora, uma mulatinha, filha de um carteiro!”. III. Em Clara dos Anjos, em meio a seus muitos tipos humanos, aparecem na narrativa per- sonagens nos quais sobressai uma espécie de força moral incorruptível, humana e so- lidária, como dona Margarida: “O que era preciso, tanto a ela como as suas iguais, era educar o caráter, revestir-se de vontade, como possuía essa varonil dona Margarida, para se defender de Cassi e semelhantes, e bater-se contra todos os que se opusessem, por este ou aquele modo, contra a elevação dela, social e moralmente”. 1. (UFU) Texto I O único personagem feminino que escapa ao estereótipo de “coisa amorfa e pastosa” nesse romance (Clara dos Anjos) é dona Mar- garida, uma forte e voluntariosa senhora alemã, de olhos azuis e “traços enérgicos”. MICHELETTI, Guaraciaba. Contra o racismo e a injustiça. In: BARRETO, Lima. Clara dos Anjos. Rio de Janeiro: Ática, 2011, p. 10. Texto II A mórbida ternura da mãe por ele, a que não eram estranhas as suas vaidades pessoais, junto à indiferença desdenhosa do pai, com o tempo, fizeram de Cassi o tipo mais completo de vagabundo doméstico que se pode imagi- nar. É um tipo bem brasileiro. Se já era egoís- ta, triplicou de egoísmo. Na vida, ele só via o seu prazer, se esse prazer era o mais imediato possível. Nenhuma consideração de amizade, de respeito pela dor dos outros, pela desgraça dos semelhantes, de ditame moral o detinha, quando procurava uma satisfação qualquer. Só se detinha diante da força, da decisão de um revólver empunhado com decisão. BARRETO, Lima. Clara dos Anjos. São Paulo: Ática, 2011, p. 35. Com base nos textos, faça o que se pede. a) Dona Engrácia, esposa de Joaquim dos Anjos e mãe de Clara, encaixa-se na definição do texto I. Apresente, em um parágrafo, as ca- racterísticas de dona Engrácia que revelam, no contexto da obra, que ela é “coisa amorfa e pastosa”. b) Para além da condição de progenitora, dona Salustiana, mãe de Cassi Jones, protegia-o de forma desmesurada, com grande intensi- dade. A partir da leitura do texto II, expli- que, em um parágrafo, os planos e objetivos de dona Salustiana para defender o filho dos crimes que este cometia. 2. (UFU) Uma dúvida lhe veio, ele era branco; ela mulata. Mas, que tinha isto? Havia tantos casos... Lembra-se de alguns... E ela estava tão convencida de haver uma paixão sincera no valdevinos, que, ao fazer esse inquéri- to, já recolhida, ofegava, chorava, e os seus seios duros quase estouravam de virgindade e ansiedade de amar. BARRETO, Lima. Clara dos Anjos. São Paulo: Tecnoprint/Ediouro, s/d, p. 100. a) Elabore um texto explicando quais as conse- quências advindas do rápido romance entre a ingênua Clara dos Anjos e o conquistador Cassi Jones, em pleno Rio de Janeiro do sé- culo XIX. b) Elabore um texto explicando os motivos da reação negativa de dona Salustiana, mãe de Cassi Jones, quando Clara dos Anjos a visi- tou acompanhada de dona Margarida. 45 a) Nenhuma está correta. b) Apenas II e III estão corretas. c) Apenas I e II estão corretas. d) Apenas I está correta. e) Todas estão corretas. 5. (UEPB) Considere o fragmento de Clara dos Anjos para responder à questão. A educação que recebera, de mimos e vigi- lâncias, era errônea. Ela devia ter aprendido da boca dos seus pais que a sua honestidade de moça e de mulher tinha todos por inimi- go, mas isto ao vivo, com exemplos, clara- mente... O bonde vinha cheio. Olhou todos aqueles homens e mulheres... Não haveria um talvez, entre toda aquela gente de am- bos os sexos, que não fosse indiferente à sua desgraça... Ora, uma mulatinha, filha de um carteiro! O que era preciso, tanto a ela como as suas iguais, era educar o caráter, revestir- -se de vontade, como possuía essa varonil D. Margarida, para se defender de Cassis e se- melhantes, e bater-se contra todos os que se opusessem, por este ou aquele modo, contra a elevação dela, social e moralmente. Nada a fazia inferior às outras, senão o conceito geral e a covardia com que elas o admitiam... Chegaram em casa; Joaquim ainda não tinha vindo. D. Margarida relatou a entrevista, por entre o choro e os soluços da filha e da mãe. Num dado momento, Clara ergueu-se da cadeira em que se sentara e abraçou muito fortemente a mãe, dizendo, com um grande acento de desespero: — Mamãe! Mamãe! — Que é minha filha? — Nós não somos nada nesta vida. Assinale a alternativa correia. a) Clara dos Anjos é ambientado em uma cida- de imaginária, na qual a estrutura agrária do Brasil colonial e de suas relações sociais tradicionais não permitia casamentos entre brancos e negros. b) Em Clara dos Anjos e em suas principais obras, a linguagem de Lima Barreto é o por- tuguês parnasiano, no qual o trabalho retó- rico com a linguagem tinha prioridade sobre sua comunicabilidade. c) O romance Clara dos Anjos é narrado em ter- ceira pessoa por um narrador que emite opi- niões e juízos de valor sobre as personagens e as cenas que narra. d) Os personagens de Clara dos Anjos são po- bres que, à força de viverem em uma socie- dade de privilégios, sucumbem, sem exce- ção, à corrupção e à miséria. e) Clara dos Anjosé um romance de resignação, que nos ensina a nos conformarmos com o lugar que nos é previamente reservado em nossa sociedade, sem lutar por condições humanas mais dignas nem por cidadania plena. 6. (Enem) Texto I Eu amo a rua. Esse sentimento de natureza toda íntima não vos seria revelado por mim se não julgasse, e razões não tivesse para jul- gar, que este amor assim absoluto e assim exagerado e partilhado por todos vos. Nós somos irmãos, nós nos sentimos parecidos e iguais; nas cidades, nas aldeias, nos povo- ados, não porque soframos, com a dor e os desprazeres, a lei e a polícia, mas porque nos une, nivela e agremia o amor da rua. E este mesmo o sentimento imperturbável e indis- solúvel, o único que, como a própria vida, resiste as idades e as épocas. RIO. J. A rua. In: A alma encantadora das ruas. São Paulo: Companhia das Letras, 2008 (fragmento). Texto II A rua dava-lhe uma forca de fisionomia, mais consciência dela. Como se sentia estar no seu reino, na região em que era rainha e imperatriz. O olhar cobiçoso dos homens e o de inveja das mulheres acabavam o sen- timento de sua personalidade, exaltavam-no ate. Dirigiu-se para a rua do Catete com o seu passo miúdo e solido. [...] No caminho trocou cumprimento com as raparigas pobres de uma casa de cômodos da vizinhança. [...] E debaixo dos olhares maravilhados das pobres raparigas, ela continuou o seu ca- minho, arrepanhando a saia, satisfeita que nem uma duquesa atravessando os seus do- mínios. BARRETO, L. Um e outro. In: Clara dos Anjos. Rio de Janeiro: Mérito (fragmento). A experiência urbana e um tema recorrente em crônicas, contos e romances do final do século XIX e início do XX, muitos dos quais elegem a rua para explorar essa experiência. Nos fragmentos I e II, a rua é vista, respecti- vamente, como lugar que: a) desperta sensações contraditórias e desejo de reconhecimento. b) favorece o cultivo da intimidade e a exposi- ção dos dotes físicos. c) possibilita vínculos pessoais duradouros e encontros casuais. d) propicia o sentido de comunidade e a exibi- ção pessoal. e) promove o anonimato e a segregação social. 46 GABARITO 1. a) Dona Engrácia é uma “coisa amorfa e pas- tosa”, pois representa o estereótipo da tradicional mulher brasileira do início do século XX: sua submissão às vontades do marido, sua religiosidade e seu descaso com os reais sentimentos da filha ilus- tram um panorama do Brasil patriarcal. b) Dona Salustiana temia aparentar ser uma mulher que era, de classe média; por esse motivo, temia que seu filho se envolves- se com mulheres mais pobres ou mesmo trabalhasse. Para tanto, usa de sua influ- ência e contrata advogados para que seu filho saia impune, mesmo que tal com- portamento fosse antiético ou prejudicial para a formação do caráter do próprio fi- lho. 2. a) Do breve romance entre Clara dos Anjos e Cassi Jones, ocorreram a gravidez dela, a qual se tornaria mãe solteira em um con- texto social que não aceitava esse fato, colocando-a em situação desonrosa; o as- sassinato do padrinho dela, Marramaque, personagem que tentava alertá-la a res- peito de Cassi Jones; processo de amadu- recimento de Clara, percebendo que sua condição depende da visão da sociedade em que vive – nitidamente vítima do de- terminismo de meio. b) Dona Salustiana não aceita Clara dos Anjos, pois a protagonista representa o oposto de Cassi Jones: ela é afrodescen- dente, pertence à classe baixa da socieda- de, reside em áreas marginais. Por esses motivos, dona Salustiana não aceita que Clara sinta-se em condições de ser repa- rada pela situação de desonra ocasionada por Cassi Jones. 3. D 4. E 5. C 6. D L OBRAS C Alguma poesia Obras L C Carlos Drummond de Andrade 49 CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira do Mato Dentro, em Minas Gerais, no dia 31 de outubro de 1902. De uma família de fazendeiros em decadência, estudou na cidade de Belo Horizonte e com os jesuítas no Colégio Anchieta de Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, de onde foi expulso por “insubordinação mental“. De novo em Belo Horizonte, começou a carreira de escritor como colaborador do Diário de Minas, que aglutinava os adeptos locais do incipiente movimento modernista mineiro. Ante a insistência familiar para que obtivesse um diploma, formou-se em Farmácia na cidade de Ouro Preto, em 1925. Fundou com outros escritores A Revista, que, apesar da vida breve, foi importante veículo de afirmação do Modernismo em Minas. Ingressou no serviço público e, em 1934, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde foi chefe de gabinete de Gustavo Capanema, ministro da Educação, até 1945. Passou, depois, a trabalhar no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e se aposentou em 1962. Desde 1954, colaborou como cronista no Correio da Manhã e, a partir do início de 1969, no Jornal do Brasil. O Modernismo não chega a ser dominante nem mesmo nos primeiros livros de Drummond – Alguma poesia (1930) e Brejo das almas (1934) –, em que o poema-piada e a descontração sintática pareceriam revelar o con- trário. A dominante é a individualidade do autor, poeta da ordem e da consolidação, ainda que sempre, e fecunda- mente, contraditórias. Torturado pelo passado, assombrado com o futuro, ele se detém num presente dilacerado por este e por aquele, testemunha lúcida de si mesmo e do transcurso dos homens, de um ponto de vista melancólico e cético. Mas, enquanto ironiza os costumes e a sociedade, asperamente satírico em seu amargor e desencanto, entrega-se com empenho e requinte construtivo à comunicação estética desse modo de ser e estar. Vem daí o rigor, que beira a obsessão. O poeta trabalha sobretudo com o tempo, em sua cintilação cotidiana e subjetiva, no que destila do corrosivo. Em Sentimento do mundo (1940), em José (1942) e, sobretudo, em A rosa do povo (1945), Drummond lançou-se ao encontro da história contemporânea e da experiência coletiva, partici- pando, solidarizando-se social e politicamente, descobrindo na luta a explicitação de sua mais íntima apreensão para com a vida como um todo. A surpreendente sucessão de obras-primas, nesses livros, indica a plena maturidade do poeta, mantida sempre. Alvo de admiração irrestrita, tanto pela obra quanto pelo seu comportamento como escritor, Carlos Drummond de Andrade morreu na cidade do Rio de Janeiro, em 17 de agosto de 1987, poucos dias após a morte de sua única filha, a cronista Maria Julieta Drummond de Andrade. 50 ALGUMA POESIA Drummond publicou Alguma poesia em 1930, numa edição simples, com pequena tiragem não comercial (apenas 500 exemplares). Uma perspectiva bem in- dependente, intitulada Pindorama. A obra assinala a estreia de um autor que, então com 28 anos, iria revo- lucionar a poesia de língua portuguesa no século XX. Não é para menos. Com peças como “Poema de sete faces”, “Infância”, “No meio do caminho”, “O sobre- vivente”, entre tantos outros textos decisivos, o livro demonstra já a enorme maturidade do jovem Drum- mond, ainda estabelecido em Belo Horizonte. O volume apresenta 49 poesias, reunindo pro- duções de Carlos Drummond de Andrade, de 1925 a 1930, e está dedicado ao poeta e amigo Mário de An- drade, que publicou, no mesmo período, Remate dos males, obra que viria a dar uma nova conformação à poética de uma das figuras mais importantes do Mo- dernismo brasileiro. Alguma poesia é escrito sob a efervescência da modernidade oriunda da Semana de Arte Moderna de 1922. Entre outros aspectos, surge a prática do poema- -piada, que utiliza os coloquialismos apregoados pela estética influenciada por Oswald de Andrade, cultiva a poesia do cotidiano, negando os antigos influxos par- nasiano-simbolistas que dominaram a poesia até então. Dois anos antes, Drummond havia causado es- cândalo entre as hostes literárias ao publicar, na Revis- ta de Antropofagia,o poema “No meio do caminho”. Era o início da carreira de escândalo do poema, recons- truída na década de 1960 pelo próprio autor em um li- vro que reuniria os ataques, as paródias e as contendas relacionadas ao poema. Mas para além da polêmica, Alguma poesia já apresenta aquilo de melhor que Drummond iria ofe- recer ao longo de quase 60 anos de uma das carrei- ras mais fecundas da literatura moderna: o lirismo, o humor, o tom meditativo e irônico, a observação de- sencantada dos fatos, o sensualismo, a reflexão aguda sobre o amor e a morte. NO MEIO DO CAMINHO No meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra. Nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas. Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho no meio do caminho tinha uma pedra. (ANDRADE, Carlos Drummond de. Alguma poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.) 51 Características Prosaísmo: um tipo de escolha poética que pressupõe a adoção de processos que aproximam-se da prosa, como o discurso direto, a ausência de rimas, a conversa com o leitor etc. Versilibrismo: a ideia de verso livre, sem a preocupação formal da metrificação, em geral. Percepção de mundo do íntimo ao universal na perspectiva filosófica, um processo metonímico de poe- tizar assuntos cotidianos e banais. Densidade e compactação na constituição da matéria poética, com linguagem dinâmica, concisa e irônica. Recriação de temas poéticos que são imagens que retratam cenas do cotidiano: retorno à infância em Itabira, as relações com a família, a metrópole carioca, o poeta e a capital do país. Temas O indivíduo (um eu todo retorcido) – o eterno conflito entre o eu e o social Seção que investiga a formação do poeta e sua visão acerca do mundo. Sempre lúcido, discorre com amar- gor, pessimismo, ironia e humor o que ele, atento observador, capta de si mesmo e das coisas que o rodeiam. Alguns poemas sintetizam a visão do indivíduo, como o poema de abertura “Poema de sete faces“ em que designa o seu destino. As sete faces correspondem a sete estrofes, apesar de configurar-se de maneira descontínua, inesperada e coloquial. Escrito com versos livres e com estrofes heterogêneas. Drummond é irônico na revelação do eu e do mundo, colocando-se como gauche (esquerdo, desajeitado), todavia seu coração transborda com humor sarcástico e desencantado. De maneira antilírica, sua emoção surge em secura. Observe o tom de confidência da última estrofe e, assim, o poema expõe o contato com um mundo fragmentário, múltiplo e caótico. 52 O poeta gauche é um contemplador orgulhoso que se considera maior que o mundo num ínterim que se vê arrebatado pela tenacidade da realidade, pelo dualismo do “Eu menor que o Mundo”, o poeta sente- -se fraco e, se titubear, em apelo a Deus questionando por que mesmo o abandonou. Confira o poema: POEMA DE SETE FACES Quando nasci, um anjo torto desses que vivem na sombra disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida. As casas espiam os homens que correm atrás de mulheres. A tarde talvez fosse azul, não houvesse tantos desejos. O bonde passa cheio de pernas: pernas brancas pretas amarelas. Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu [coração. Porém meus olhos não perguntam nada. O homem atrás do bigode é sério, simples e forte. Quase não conversa. Tem poucos, raros amigos o homem atrás dos óculos e do bigode. Meu Deus, por que me abandonaste se sabias que eu não era Deus se sabias que eu era fraco. Mundo mundo vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo seria uma rima, não seria uma solução. Mundo mundo vasto mundo, mais vasto é meu coração. Eu não devia te dizer mas essa lua mas esse conhaque botam a gente comovido como o diabo. (ANDRADE, Carlos Drummond de. Alguma poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.) A terra natal, Itabira – saudades e vivências A família (a família que me dei) em Itabira e as vivências íntimas de menino Uma das constantes temáticas de Drummond, presente desde Alguma poesia até seus versos finais, é a família, sua vivência interiorana em Minas Gerais, a paisagem que marca sua memória. Contrariando o lugar-comum, ao invés de se referir à família como algo que lhe foi atribuído por Deus, o poeta coloca um “que me dei“ e analisa suas relações pessoais, consciente de que se assentam na perspectiva pessoal. De modo mui- to individual, retrata o escoar do tempo, como é possí- vel observar em “Infância“, “Família“, “Sesta“, alguns dos mais significativos poemas de Alguma poesia. INFÂNCIA Meu pai montava a cavalo, ia para o campo. Minha mãe ficava sentada cosendo. Meu irmão pequeno dormia. Eu sozinho menino entre mangueiras lia a história de Robinson Crusoé, comprida história que não acaba mais. No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu a ninar nos longes da senzala – e nunca se [esqueceu chamava para o café. Café preto que nem a preta velha café gostoso café bom. Minha mãe ficava sentada cosendo olhando para mim: — Psiu... Não acorde o menino. Para o berço onde pousou um mosquito. E dava um suspiro... que fundo! Lá longe meu pai campeava no mato sem fim da fazenda. E eu não sabia que minha história era mais bonita que a do Robinson Crusoé. (ANDRADE, Carlos Drummond de. Alguma poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.) Amigos – homenagem aos amigos reais ou intelectuais 53 O choque social e a evolução humana – a violência humana Drummond constrói poemas em que contempla a mudança dos tempos, o progresso chegando e inva- dindo a antiga paisagem, como em “A rua diferente“ ou “Sobrevivente“. Ele acaba tendo nesta temática a produção de um tipo de poema que passa a ser uma das mais emblemáticas de nossa literatura. A RUA DIFERENTE Na minha rua estão cortando árvores botando trilhos construindo casas. Minha rua acordou mudada. Os vizinhos não se conformam. Eles não sabem que a vida tem dessas exigências brutas. Só minha filha goza o espetáculo e se diverte com os andaimes, a luz da solda autógena e o cimento escorrendo nas formas. O conhecimento amoroso (amar-amaro) – o amor altruísta (como só ele poderia existir) Com o jogo de palavras “amar-amaro“, títu- lo emprestado de um poema do livro Lição de coisas, o poeta acrescenta ao substantivo “amar“ o adjetivo “amargo“, sentimento recorrente em alguns de seus poemas e livros escritos posteriormente. Em Alguma po- esia, o tema é tratado com boas doses de humor, sátira ou pitadas de idealismo, como em “Toada do amor“, “Sentimental“, “Quero me casar“, “Quadrilha“. QUADRILHA João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que [amava Lili que não amava ninguém. João foi para os Estados Unidos, Teresa para o [convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para [tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto [Fernandes que não tinha entrado na história. Paisagem e viagens – um grupo de poesias faz anotações sobre viagens, retratando paisa- gens vistas e vividas, mas também recuperando as influências recebidas da sempre subservien- te postura brasileira ante as supercivilizações, como em “Lanterna mágica“, “Europa, França e Bahia“. “Lanterna Mágica” é, na verdade, um conjun- to de pequenos poemas numerados que Drummond incluiu no seu primeiro livro, Alguma poesia. São oito poemas ao todo, sendo cinco deles sobre cidades mi- neiras, um sobre Nova Friburgo (RJ), um sobre o Rio de Janeiro e outro sobre a Bahia. A expressão “lanterna mágica” sugere a projeção de imagens coloridas, de slides com cartões postais projetáveis na parede, mos- trando imagens de pontos turísticos do mundo inteiro. LANTERNA MÁGICA Belo Horizonte Meus olhos têm melancolias minha boca tem rugas. Velha cidade! As árvores são repetidas. Debaixo de cada árvore faço minha cama, em cada ramo dependuro meu paletó. Lirismo. Pelosjardins Versailles ingenuidade de velocípedes. E o velho fraque na casinha de alpendre com duas janelas [dolorosas A própria poesia – metalinguagem Exercícios lúdicos – a consequência do amar e desamar Uma visão, ou tentativa da existência – o estar no mundo 54 APROFUNDE SEUS CONHECIMENTOS 4. (Fuvest) POLÍTICA LITERÁRIA O poeta municipal discute com o poeta estadual qual deles é capaz de bater o poeta federal. Enquanto isso o poeta federal tira ouro do nariz. (Carlos Drummond de Andrade, Alguma poesia) ANEDOTA BÚLGARA Era uma vez um czar naturalista que caçava homens. Quando lhe disseram que também se caçam [borboletas e andorinhas, ficou muito espantado e achou uma barbaridade. (Carlos Drummond de Andrade, Alguma poesia) Costuma-se reconhecer que estes poemas, pertencentes ao Modernismo, apresentam aspectos característicos do “poema-piada“, modalidade bastante praticada nesse período literário. a) Identifique um recurso de estilo tipicamente modernista que esteja presente em ambos os poemas. Explique-o sucintamente. Considere a seguinte afirmação: O poema-piada visa a um humorismo instan- tâneo e, por isso, esgota-se em si mesmo, não indo além desse objetivo imediato. b) A afirmação aplica-se aos poemas aqui repro- duzidos? Justifique brevemente sua resposta. TEXTO PARA AS PRÓXIMAS DUAS QUESTÕES No meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra. Nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas. Nunca me esquecerei que no meio do [caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra. (ANDRADE, Carlos Drummond de. Alguma poesia. In: Reunião: 10 livros de poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 1969.) 5. (PUC-SP) As alternativas a seguir destacam recursos de linguagem que dão expressividade ao texto em questão. Contudo, uma delas se constitui em vício de linguagem. Indique-a. a) Quiasmo ou ordenação cruzada, presente em “No meio do caminho tinha uma pedra/ ti- nha uma pedra no meio do caminho.“ b) Metáfora, expressa nas palavras “caminho e pedra“ 1. (PUC-MG) Todas as alternativas abaixo, so- bre o “Poema de sete faces“, de Alguma poe- sia, são verdadeiras, exceto: a) Cada uma das sete estrofes do poema repre- senta uma das faces mencionadas no título. b) A presença e a ausência de rimas no poema podem significar ruptura com as estéticas literárias anteriores. c) A inexistência de pontuação entre alguns de seus versos pode estar ligada à liberdade de expressão modernista. d) Foi o primeiro poema escrito por Carlos Drummond de Andrade, razão pela qual abre o livro. 2. (PUC-MG) Entre os grupos de versos que se seguem, de Alguma poesia, marque aquele no qual o tema não foi abordado de modo prosaico. a) Me abraçou com tanto amor me apertou com tanto fogo me beijou, me consolou. b) Meu pai montava a cavalo, ia para o campo. Minha mãe ficava sentada cosendo. Meu irmão pequeno dormia. c) O homem disse para o amigo: — Breve irei a tua casa e levarei minha mulher. d) Um silvo breve: Atenção, siga. Dois silvos breves: Pare. Um silvo breve à noite: Acenda a lanterna. Um silvo longo: Diminua a marcha. Um silvo longo e breve: Motoristas a postos. (A este sinal todos os motoristas tomam lugar nos seus veículos para movimentá-los imediatamente.) 3. (PUC-MG) Leia os versos abaixo, parte do “Poema de sete faces“, de Alguma poesia. Mundo mundo vasto mundo, mais vasto é meu coração. Se considerarmos que Tomás Antônio Gon- zaga é autor do verso “Eu tenho um coração maior que o mundo“, podemos afirmar que, nos dois versos de Drummond acima trans- critos, existe: a) mera cópia do verso de Tomás Antônio Gon- zaga. b) plágio visível do verso de Tomás Antônio Gonzaga. c) intertextualidade flagrante com o verso de Tomás Antônio Gonzaga. d) apropriação indevida do verso de Tomás An- tônio Gonzaga. 55 c) Hipérbato, em “No meio do caminho tinha uma pedra“ d) Anáfora, em “Nunca me esquecerei“ e) Solecismo, em “Tinha uma pedra no meio do caminho.“ 6. (PUC-SP) O texto suscitou, desde sua pu- blicação em 1930, muita polêmica na lite- ratura brasileira, provocando adesões e re- pulsas entusiásticas. É, contudo, um texto com posição marcada na produção de Carlos Drummond de Andrade. Da leitura dele po- de-se entender que: a) não chega a ser propriamente um poema, porque um simples jogo verbal e lúdico não faz despertar vibrações intelectuais de poe- sia. b) é um texto de forma aparentemente simples, mas o esquema de repetição, aí, quase abso- luta, o descarta do universo poético. c) faz uso irreverente de modismos da lingua- gem coloquial, marca-se pela repetição, e re- vela, como poema, consciência da realidade linguística brasileira. d) o uso do verbo “ter“ por “haver“ constitui um erro gramatical e impede o texto de rea- lizar-se como poema. e) a estrutura prosaica da composição e a au- sência de recursos imagéticos prejudicam a organização poética do texto. GABARITO 1. A 2. C 3. D 4. a) Ambos os poemas são compostos em ver- sos denominados “livres“, pois não obe- decem às convenções da métrica tradicio- nal, isossilábica (isto é, na qual os versos “medem“ o mesmo número de sílabas). Em ambos os poemas, o registro de lin- guagem é coloquial, ou seja, próprio da conversação, despido dos traços retóricos que caracterizam o discurso de registro formal, típico da tradição literária de que o Modernismo de então procurava afas- tar-se. Em ambos os poemas, o humor (outro ingrediente de predileção moder- nista) é essencial ao efeito crítico e não compromete sua gravidade. b) Nos dois poemas, o humorismo é instru- mento de crítica, de “crítica de vida“: em “Política literária“, trata-se da vida cul- tural, suas relações com o poder e suas hierarquias espúrias; em “Anedota búlga- ra“, trata-se da opressão política. 5. E 6. C Qu��� nt� � ia� L OBRAS C Quarenta dias Obras L C Maria Valéria Rezende 59 MARIA VALÉRIA REZENDE Maria Valéria Rezende nasceu em 1942, na cidade de Santos (SP), onde viveu até aos 18 anos. Vive na Paraíba desde 1976, tendo já recebido o título de cidadania paraibana. Formada em Língua e Literatura Francesas, Pedagogia e com mestrado em Sociologia, dedica-se, desde os anos 1960, à educação popular, em diferentes regiões do Brasil e no exterior, tendo trabalhado em todos os continentes. Desde 2004, participa do Clube do Conto da Paraíba. O seu romance O voo da guará vermelha foi publica- do em Portugal, França e na Espanha. Escreve ficção, poesia e é também tradutora. Além disso, é ainda ativista e participa do Movimento Mulherio das Letras. Ganhou um Prêmio Jabuti em 2009, categoria infantil, com a obra No risco do caracol e, em 2013, na ca- tegoria juvenil, outro Jabuti com o romance Ouro dentro da cabeça. Os Jabutis para melhor romance e o livro do ano de ficção chegaram em 2015, com o romance Quarenta dias. O seu último romance, Outros cantos (2016), é o vencedor do Prêmio Casa de Las Américas (Cuba, 2017), do Prêmio São Paulo de Literatura e do terceiro lugar no Prêmio Jabuti 2017. A literatura de Maria Valéria também é marcada por uma opção preferencial pelos pobres, sobre gente que nem sequer sabe ler e escrever. “Eu não entendo nada de rico e também não acho que eles precisam ser mostrados.” “Chega uma hora em que não quero mais saber dos sofrimentos íntimos de um jovem jornalista frus- trado porque não consegue terminar um romance sobre um jovem jornalista que quer ser escritor.” QUARENTA DIAS “Quarenta dias no deserto, quarenta anos” é o que diz (ou escreve) Alice, a narradora de Quarenta dias, romance magistral de Maria Valéria Rezende, ao anotar num caderno escolar pautado, com a imagem da boneca Barbie na capa, seu mergulho gra- dual em dias de desespero, perdida numa periferia empobrecida que ela não conhece, à procurade um rapaz que ela não sabe ao certo se existe. Alice é uma professora aposentada, que mantinha uma vida pacata em João Pessoa até ser obrigada pela 60 filha a deixar tudo para trás e se mudar para Porto Alegre. Mas uma reviravolta familiar a deixa abandonada à própria sorte, numa cidade que lhe é estranha, e impossibilitada de voltar ao antigo lar. Ao saber que Cícero Araújo, filho de uma conhecida da Paraíba, desapareceu em algum lugar dali, ela se lança numa busca frenética, que a levará às raias da insanidade. “Eu não contava mais horas nem dias”, escreve Alice em Quarenta dias, um relato emocional e profundo. “Guiavam- -me o amanhecer e o entardecer, a chuva, o frio, o sol, a fome que se resolvia com qualquer coisa, não mais de dez reais por dia (...). Onde andaria o filho de Socorro?, a que bando estranho se havia juntado, em que praça ficara es- quecido?”. Quarenta dias conta a história da paraibana Ali- ce, professora, que após muita insistência de sua filha, troca João Pessoa por Porto Alegre, para ajudar a filha na futura gravidez. Alice depara-se com uma cidade com costumes diferentes e diferente linguajar, onde os nordestinos parecem restritos à periferia da cidade. Alice, sozinha em Porto Alegre, lança-se sem rumo pela cidade a fim de descobrir o paradeiro de Cíce- ro Araújo, filho de uma conhecida da Paraíba. Dormindo em parques, em hospitais, rodoviárias com um motivo (ou não) para encontrar o filho de uma amiga pernam- bucana. Os encontros e aprendizados com as pessoas do lugar é o que impulsiona Alice a viver essa provação. A solidão, falta de ação, solidariedade, angus- tia. Uma denúncia ambulante quanto ao racismo e ao preconceito. ”Barbie” é o ponto de desabafos de Alice, em seu caderninho infantil de anotações, ela luta com a relação com a filha, o genro e sua vida de ”cinza” em que foi forçada a viver devido a tanta pressão dos familiares. Quando Alice abre a porta e sai sem destino por uma cidade até então desconhecida, suas vivências permitem uma aventura nas ruas frias e desertas de Porto Alegre. “E aqui estou vomitando nestas páginas amareladas os primeiros garranchos com que vou enchê-las até botar tudo para fora e esconjurar toda essa gente que tomou conta de mim e grita e anda para lá e para cá e chora e xinga e gargalha e geme e mija e sorri e caga e fede e arenga e escarra e morre e ressuscita sem parar Ave-Maria! Quanto nome feio acabei de escrever!, eu que nunca fui disso! Nem me importa, ninguém vai ler essa...” “Ninguém vai ler o que escrevo, mas escrevo. É a úni- ca maneira de voltar inteiramente, se é que ainda dá para fazer meia-volta-volver.” “Já enchi páginas e não achei o começo. Deixe de em- bromar, Alice, confesse que o broto desse espinheiro que cresceu dentro de você foi a revelação do egoís- mo da sua filha.” “Em resumo, o certo para ela é que eu, afinal, já tinha chegado ao fim da minha vida própria, agora o que me restava era reduzir-me a avó. Eu, de cara, disse não, eu não queria me mudar pra Porto Alegre, aquele frio danado!, nem era preciso, que hoje a moda é todo mundo botar a pobre da criança presa numa creche assim que desmama, eu não havia de largar pra trás tudo o que custei tanto a conquistar, meus velhos amigos, os alunos que se tornavam novos amigos, a praia, o Atlântico todinho na minha frente, planos de viagens e atividades que tinha tido que adiar até então, mas ainda em tempo de realizar, a vida que eu considerva feliz, apesar das cicatrizes. Foi pelas cicatrizes que ela me pegou e não me largou mais, chantageando: por minha culpa ela tinha cres- cido praticamente sozinha, eu me ausentava, só pen- sando em trabalhar pra esquecer a tragédia da minha juventude, ela não tinha culpa de nada, fui eu que nem tive coragem de recomeçar a vida, de lhe dar um novo pai, que ela, a bem-dizer, nunca teve nenhum, não lhe dei irmãos, eu nem imaginava como doía ver Umberto, eufórico, assando churrasco com sua enorme família gaúcha, o bando de irmãos que ele tinha, os sobrinhos, os pais, um casal feliz e realizado, recebendo todos de braços abertos, inclusive a ela, mas não era a mesma coisa, não eram do mesmo sangue (...)” 61 Linguagem A personagem de Alice depara-se com uma cidade com costumes diferentes e diferente linguajar, onde os nordestinos parecem restritos à periferia da cidade. A modalidade discursiva se mostra algo importante na obra, uma vez que as diferenças regionais se estabe- lecem para além da perspectiva meramente vinculada ao léxico, mas que subscrevem aspectos fundamental- mente sociais. A voz dos sujeitos marginalizados ecoa na literatura de Quarenta dias a partir da periferia, dos próprios lugares de fala, constituindo o sujeito empo- derado do seu discurso que tem a autonomia devida para falar da realidade vivenciada. “O texto foi escrito de maneira cuidadosamente des- cuidada. “Inventei” a história, que não tem nada de autobiográfico, e fui para Porto Alegre “testá-la”, fazendo em parte o que a personagem faria. Escrevi tudo depois que voltei pra casa”. (Maria Valéria Rezende) Intertextualidade Durante os quarenta dias, a personagem vivencia in- tensamente, na busca por Cícero, as mais diversas experiências na descoberta de um mundo que, apesar de tão perto, lhe parecia tão longe, repleto de coisas desconhecidas. Assim como a ”Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carrol, que adentra no Wonderland pela curiosidade despertada pelo coelho, e ao cair no bura- co depara-se com um mundo mágico, repleto de seres fantásticos, distantes de sua realidade. Porém, o mun- do que Alice da obra Quarenta dias se refere é deveras diferente. A linguagem leva o leitor a uma viagem ári- da a um mundo para ela desconhecido, o mundo dos grandes centros suburbanos, desbravando espaços que não lhes eram comuns, em situações inimagináveis. Tempo e espaço O nome do título refere-se aos 40 dias que Alice passa- rá em Porto Alegre, migrando de uma vida nordestina para um ambiente sem conhecidos e amigos, no qual o consumismo, o comodismo tentam sua vida vazia, uma antítese aos 40 dias que Jesus passa no deserto, tentado pelo diabo com coisas materiais. A narradora divide a cidade em duas partes (a superfície e as rachaduras), as brechas da cidade. A superfície corresponde aos bairros nobres, ao passo que as rachaduras da cidade representam as periferias, as localidades à marginalizadas. Ao findar sua jornada (quarenta dias) por Porto Alegre. Alice escreve em seu caderno de Barbie (diário): “Continuei por semanas minha romaria pelo avesso da cidade, explorando livremente todas as brechas, quase invisíveis para quem vive na superfície”. 62 Gênero e foco narrativo O gênero da obra analisada é um ”diário”, onde desa- bafos de uma mulher comum que tem sua vida virada de cabeça para baixo por acontecimentos e é pegando um lápis e escrevendo na ”Barbie” que ela consegue entender o que se passa na sua vida. O aspecto específico do gênero leva em con- sideração quesitos como a primeira pessoa (instância narrativa), relato pessoal (intimismo) e a metalingua- gem em que o suporte papel passa a interlocutor do emissor. O tom confessional da narrativa é propício para esse sentimento. Em um caderno velho, com a Barbie na capa, Alice despeja suas memórias, especialmente as mais recentes, desde sua mudança a contragosto para o sul. Esta escolha técnica torna possível refletir como a memória é construída na obra Quarenta dias sob a perspectiva da configuração da cidade e da represen- tação da violência. Personagens Alice: personagem narradora, nasceu em Boi Velho (Paraíba), tem cerca de 60 anos, viúva de um desaparecido político e professora de línguas. Aldenora/Norinha: é filha única de Alice, pos- sui 33 anos, faz doutorado na Ufrgs, em Porto Alegre (primeira fase do curso), é egoísta e mi- mada. Obrigaa mãe a se mudar de João Pes- soa para Porto Alegre para cuidar do filho que pretendem ter. Umberto: é marido de Norinha, 35 anos, faz doutorado na Ufrgs, em Porto Alegre (já defen- dendo a tese) Aldenor: marido de Alice; é um desaparecido político – ele aparece na história somente na lembrança de Alice. Elizete: prima de Alice, que mora em João Pes- soa – totalmente influenciada por Norinha; é contato de Alice entre a Paraíba e o Rio Grande do Sul. Milena: faxineira de Alice, assim “brasileiri- nha” (do Nordeste do país) como a patroa. Lola, Arturo, Penha, Galo e outros: pessoas que Alice encontra nas ruas de Porto Alegre. Cícero Araújo: filho de uma manicure conhe- cida de Alice, que morava em João Pessoa e se mudara para Porto Alegre, mas nunca mais ha- via dado notícia. 63 APROFUNDE SEUS CONHECIMENTOS seus rancores, dores e vivências ocorridas depois de sua mudança para Porto Alegre, em um caderno com a capa da Barbie. Retra- ta várias críticas sociais. d) Quarenta dias foi escrito por Maria Valéria Rezende e relata, em forma de poesia, as di- ficuldades vividas por Alice após sua repen- tina mudança para Porto Alegre. GABARITO 1. B 2. C 1. Sobre a autora Maria Valéria Rezende, é cor- reto afirmar: a) Foi uma autora realista, que ajudou a com- bater os ideais românticos. Suas narrativas eram voltadas para a análise psicológica e criticam à sociedade, relatando os problemas da época. Escreveu obras como O mulato, Casa de pensão e O cortiço. b) Maria Valéria estreou na ficção em 2001, com o livro de contos Vasto mundo. Ganhou duas vezes o prêmio Jabuti, uma delas em 2015, com o livro Quarenta dias, que relata as dificuldades de Alice ao se mudar para Porto Alegre. Em suas obras, Maria costuma utilizar referências das culturas eruditas e populares, apresentando sempre uma crítica a sociedade. c) Autora regionalista e de enorme sucesso, relata em suas obras a beleza do Nordeste, mostrando apenas a qualidade da região, sem se preocupar em denunciar os inúmeros problemas vividos pela população. Sua obra mais famosa foi Vidas secas. d) Maria Valéria lançou seu primeiro livro, Vasto mundo, em 2001, e desde então não parou mais de escrever. Publicou livros que fizeram muito sucesso, como Quarenta dias. Também escreveu obras infantis, como O voo da guará vermelha. Em suas obras, Maria não costuma utilizar referências de culturas po- pulares e se preocupa somente em relatar a vida das elites brasileiras. Não é possível encontrar nenhuma crítica social em suas obras. 2. “Engraçado é que eu tinha a impressão de, afinal, quase nada ver de tão estranho as- sim, neste Sul tão longe de casa, o povo misturado de todas as cores, os petiscos de pobre, aquele tanto de negros gaúchos que eu nunca soube que existiam, violência e so- lidariedade, pobreza e necessidades, iguais às da minha terra, a pedir milagres”. Esse trecho foi retirado do livro Quarenta dias. Sobre ele é correto afirmar: a) Foi escrito por Maria Valéria Rezende e re- trada a vida e as dificuldades que Alice, personagem principal, passou ao se mudar para Porto Alegre para poder reencontrar o sobrinho. b) Escrito por Maria Valéria Rezende, conta so- bre as aventuras de uma burguesa na cidade de Porto Alegre, junto com a sua filha Nori- nha e seu marido Umberto. c) Quarenta Dias se apresenta em formato de diário, escrito pela personagem principal. Após viver uma aventura de 40 dias pelas ruas de Porto Alegre, Alice desabafa sobre L OBRAS C A hora da estrela Obras L C Clarice Lispector 67 CLARICE LISPECTOR O mundo intimista e o apelo social de Clarice Lispector Clarice Lispector nasceu em Tchetchelnik, na Ucrânia, no dia 10 de dezembro de 1920. Chegou ao Brasil em março de 1922, passou a infância na cidade do Recife e, em 1937, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde se formou em Direito. Estreou na literatura ainda muito jovem com o romance Perto do coração selvagem (1943), que teve calo- rosa acolhida da crítica e recebeu o Prêmio Graça Aranha. Em 1944, recém-casada com um diplomata, viajou para Nápoles, na Itália, onde serviu num hospital durante os últimos meses da Segunda Guerra Mundial. Depois de uma longa estada na Suíça e nos Estados Unidos, voltou a morar no Rio de Janeiro. Clarice começou a colaborar na imprensa em 1942 e, ao longo de toda a vida, nunca se desvinculou to- talmente do jornalismo. Trabalhou na Agência Nacional e nos jornais A Noite e Diário da Noite. Foi colunista do Correio da Manhã e realizou diversas entrevistas para a revista Manchete. A autora também foi cronista do Jornal do Brasil. Produzidos entre 1967 e 1973, esses textos estão reunidos no volume A descoberta do mundo. “Os sonhos são a expressão de um desejo.” (Freud) Entre suas obras mais importantes estão a reunião de contos em A legião estrangeira (1964) e Laços de família (1972) e os romances A paixão segundo G.H. (1964) e A hora da estrela (1977). Foi internada logo depois do lançamento da obra A hora da estrela e, por causa do câncer no ovário, faleceu no dia 9 de dezembro de 1977, um dia antes de completar 57 anos e menos de dois meses depois de lançar um dos seus livros mais famosos. 68 Contexto histórico A partir de 1930, o Modernismo ganhou uma nova no- menclatura e passou a ser chamado de Neorrealismo, uma vez que retomava alguns aspectos do Realismo- -Naturalismo, porém com algumas peculiaridades, como a questão do Nordeste brasileiro e suas mazelas, bem como a questão do mergulho no intimismo psico- lógico do sujeito. A implementação do Estado Novo do governo Vargas e a Primeira Guerra Mundial tiverem violenta influência sobre a produção literária em questão. A realidade brasileira foi descrita e observada com os olhos atentos e críticos dos escritores brasilei- ros, em que as relações entre o homem e a sociedade foram atreladas ao lado emocional das personagens, sobretudo em seus aspectos psicológicos. A década de 1930 trouxe três fases internas ao momento histórico, ligadas pela lógica modernista de consolidação e aproximação do sujeito e da literatura: a fase regionalista; a fase urbana; e a fase intimista. Destas três fases, podemos enquadrar o conto “Amor”, de Clarice Lispector, ao momento intimista, em que os autores buscaram as reverberações psico- lógicas do sujeito, no sentido em que elas destacam a real situação do homem de seu tempo. Logo, a fase intimista tem, por consequência, a influência das teorias psicanalíticas de Freud, bem como de outras correntes da psicologia. Ou seja, a in- fluência do escritor se dá em função do mundo interior, também chamado de sondagem psicológica. Terceira fase modernista: ficção experimental As experimentações que acrescentaram direções novas ao curso literário no Brasil ganharam corpo com a pu- blicação, em 1943, do romance Perto do coração selva- gem, de Clarice Lispector. Nesta obra, a escritora esmiú- ça o interior do ser humano, dando à luz a grandeza da vida e do significado das experiências dos seres. Três anos mais tarde, em 1946, Guimarães Rosa publicou o livro de contos Sagarana, no qual as regi- ões brasileiras dos sertões indefinidos transcendiam o âmbito da realidade histórica e transformavam-se em espaços de seres míticos. Clarice aproximou da palavra escrita o ato de pensar e de narrar com grande criatividade, enquanto Guimarães realizou uma verdadeira alquimia verbal, ao fundir sua experiência pessoal à experiência coleti- va. Os escritos de Clarice revelaram uma ficcionista de aguda sensibilidade, o que levaria a crítica literária ao espanto diante de sua obra. Perplexos também ficaram os críticos diante de Guimarães Rosa, cujas ousadias mórficas estabeleceram uma completa transformação linguística na literatura ao recriar o mundo sertanejo. Características de ficção do terceiro tempo modernista Narrativas interiorizadas: fluxo da cons- ciência – Uma das marcas mais flagrantes da ficçãoexperimental é a interiorização do narrar, o chamado fluxo da consciência. Geralmente, as narrativas são centradas em momentos de vivência interior dos personagens. Aconteci- mentos exteriores provocaram a interioriza- ção. É assim em A hora da estrela, na qual o narrador-personagem, Rodrigo S.M., conduz a narrativa entremeando os fatos narrados com o instante da sua própria história, sobretudo seus pensamentos e dramas psicológicos de ordem existencial, social e afetiva. Da consciência para o inconsciente – A consciência de uma ou mais personagens é fla- grada e relatada numa época qualquer, em lugar qualquer. Assim se dá também nos romances e contos de Clarice Lispector: um acontecimento pode liberar ideais que vão até o inconsciente da personagem. Narrativas em primeira pessoa – A narra- ção em primeira pessoa não é um mero acaso na ficção desse tempo. Ela proporciona ao re- lato um intimismo inigualável, assim como lhe outorga verossimilhança. O narrador funciona como uma pessoa que confessa e o leitor ou ouvinte, como confidente: Revelando-se uma “sentidora”, uma “intuiti- va“, ressaltou em alguns depoimentos que seus livros, mais do que histórias, continham “impressões”, pois “não se preocupam com os fatos em si, porque o im- portante é a repercussão do fato no indivíduo”. 69 A HORA DA ESTRELA A hora da estrela (1977) foi o último livro publicado, em vida, por Clarice Lispector. O narrador do romance é Rodrigo S.M., escritor que ironiza, por meio de con- tínuas intrusões no texto, o estilo de narrativa que ele próprio utiliza. A protagonista é Macabéa, reduzida ao apelido Maca, imagem irônica dos sete macabeus, persona- gens bíblicas, “herança do sertão”, todas as formas de repressão cultural, o que a deixa alheada de si e da sociedade. Dessa forma, segundo o narrador, ela nunca se deu “conta de que vivia numa sociedade técnica onde ela era um parafuso dispensável”. Ignorava até mesmo por que se deslocou de Alagoas para o Rio de Janeiro, onde passara a viver com mais quatro colegas na Rua do Acre, e por que trabalhava como datilógrafa. Seu namorado, Olímpico de Jesus, também nor- destino, procurava a ascensão social a qualquer pre- ço – seja roubo ou crime de morte. Ela nada possuía nesse sentido: vai perdê-lo, por isso, para sua colega Glória, que possuía os atrativos materiais que ele am- bicionava. Enredo 1 O narrador conta a história de Macabéa, jovem alago- ana de 19 anos que vive no Rio de Janeiro. Órfã, mal se lembrava dos pais, que morreram quando ela era ainda criança. Foi criada por uma tia muito religiosa e moralista, cheia de superstições e tabus, os quais ela passou para a sobrinha. Essa tia também tinha certo prazer mórbido em castigar Macabéa com cascudos na cabeça, muitas ve- zes sem motivo, além de privá-la de sua única paixão: a goiabada com queijo na sobremesa. Assim, depois de uma infância miserável, sem conforto nem amor, sem ter tido amigos nem animais de estimação, Macabéa vai para a cidade grande com a tia. Apesar de ter estudado pouco e não saber es- crever direito, Macabéa faz um curso de datilografia e consegue um emprego, no qual recebe menos que o salário mínimo. Após a morte da tia, deixa de ir à igreja e passa a repartir um quarto de pensão com quatro balconistas de uma loja popular. Macabéa cheirava mal, pois raramente tomava banho. À noite, não dormia direito por causa da tosse persistente, da azia – em virtude do café frio que to- mava antes de se deitar – e da fome, que ela disfarçava comendo pedacinhos de papel. A moça tinha hábitos e manias que aliviavam um pouco a solidão e o vazio de sua existência. Entreti- nha-se ouvindo a Rádio Relógio num aparelho empres- tado de uma das colegas. Essa emissora informava a hora certa, transmitia cultura inútil e propaganda, sem nenhuma música. A garota colecionava também anún- cios de jornais e revistas, que colava num álbum. Certa vez, cobiçou um creme cosmético, que preferia comer em vez de passar na pele. Era muito magra e pálida, pois não se alimenta- va direito. Basicamente, vivia de cachorro-quente com Coca-Cola, que comia na hora do almoço, em pé, no balcão de uma lanchonete ou no escritório em que trabalhava. Não sabia o que era uma refeição quente. Seus luxos consistiam em pintar de vermelho as unhas, que roía depois, comprar uma rosa e, quando recebia o salário, ir ao cinema, o que a fazia desejar ser estrela de cinema, como Marilyn Monroe, seu grande sonho. 70 Certo dia, o chefe de Macabéa, Raimundo, cansado do péssimo trabalho que ela executava, com textos datilografados cheios de erros de ortografia e marcas de gordura, resolve despedi-la. A reação da garota, de se desculpar pelo aborrecimento causado, acaba desarmando Raimundo, que decide mantê-la por mais um tempo. Num dia 7 de maio, Macabéa mente dizendo que arrancaria um dente e falta ao trabalho para poder aproveitar a liberdade da solidão e fazer algo diferente. Assim que as colegas saem para trabalhar, ela colo- ca uma música alta, dança, toma café solúvel e até mesmo se dá ao luxo de se entediar. É nesse dia que conhece Olímpico de Jesus, único namorado que teve. Não foi um namoro convencional. Olímpico também havia migrado do Nordeste, onde matara um homem, fugindo para o Rio de Janeiro. Conseguira em- prego numa metalúrgica, o que dá delírios de grandeza em Macabéa. Afinal, ambos tinham profissão: ela era datilógrafa e ele, metalúrgico. Mau-caráter e ambicioso, Olímpico morava de favor no trabalho, roubava os colegas e almejava um dia ser deputado. O passeio dos namorados era sem- pre seguido de chuvas e de programas gratuitos, como sentar-se em bancos de praça para conversar. Nessas ocasiões, Olímpico se irritava com as perguntas que Macabéa fazia, o que a levava constantemente a se desculpar, pois não queria perdê-lo, apesar de seus maus-tratos. Certo dia, admitindo que ela nunca lhe dava despesa, Olímpico decide pagar um cafezinho para Macabéa no bar da esquina. Avisa, porém, que se o café com leite fosse mais caro, ela pagaria a diferença. Macabéa, emocionada com a ”bondade” do namora- do, acaba enchendo o copo de açúcar para aproveitar, ficando enjoada depois. Em um passeio ao zoológico, Macabéa fica com tanto medo do rinoceronte que uri- na na roupa e tenta disfarçar para não desagradar ao namorado. Um dia, vendo que só o chefe e sua colega de escritório, Glória, recebiam telefonemas, Macabéa dá uma ficha telefônica para que Olímpico ligue para ela. Ele se recusa, dizendo que não queria ouvir as ”bobagens” dela. Leia um trecho do romance [...] Olímpico de Jesus trabalhava de operário numa metalúrgica e ela nem notou que ele não se chama- va de “operário”, e sim de “metalúrgico”. Macabéa ficava contente com a posição social dele porque tam- bém tinha orgulho de ser datilógrafa, embora ganhas- se menos que o salário mínimo. Mas ela e Olímpico eram alguém no mundo. “Metalúrgico e datilógrafa” formavam um casal de classe. A tarefa de Olímpico ti- nha o gosto que se sente quando se fuma um cigarro acendendo-o do lado errado, na ponta da cortiça. O trabalho consistia em pegar barras de metal que vi- nham deslizando de cima da máquina para colocá- -las embaixo, sobre uma placa deslizante. Nunca se perguntara por que colocava a barra embaixo. A vida não lhe era má e ele até economizava um pouco de dinheiro: dormia de graça numa guarita em obras de demolição por camaradagem do vigia. Macabéa disse: — As boas maneiras são a melhor herança. — Pois para mim a melhor herança é mesmo muito dinheiro. Mas um dia vou ser muito rico – disse ele que tinha uma grandeza demoníaca: a sua força sangrava. Os negócio públicos interessavam Olímpico. Ele adorava ouvir discursos [...]. Ele dizia alto e sozinho: — Sou muito inteligente, ainda vou ser deu- tado. [...] Macabéa era na verdade uma figura medieval enquantoOlímpico de Jesus se julgava peça-chave, dessas que abrem qualquer porta. Macabéa simples- mente não era técnica, ela era só ela. Não, não quero ter sentimentalismo e portanto vou cortar o coitado implícito dessa moça. Mas tenho que anotar que Ma- cabéa nunca recebera uma carta em vida e o telefone do escritório só chamava o chefe e Glória. Ela uma vez pediu a Olímpico que lhe telefonasse. Ele disse: — Telefonar para ouvir as tuas bobagens? [...] As poucas conversas entre os namorados ver- savam sobre farinha, carne-de-sol, carne-seca, rapadu- ra, melado. Pois esse era o passado de ambos e eles esqueciam o amargor da infância porque esta, já que 71 passou, é sempre acre-doce e dá até nostalgia. Pare- ciam por demais irmãos, coisa que – só agora estou percebendo – não dá para casar. Mas eu não sei se eles sabiam disso. Casariam ou não? [...] Enfim o que fosse acontecer, aconteceria. E por enquanto nada acontecia, os dois não sabiam inventar acontecimentos. Sentavam-se no que é de graça: ban- co de praça pública. E ali acomodados, nada os distin- guia do resto do nada. Para a grande glória de Deus. Ele: — Pois é. Ela: — Pois é o quê? Ele: — Eu só disse pois é! Ela: — Mas “pois é” o quê? Ele: — Melhor mudar de conversa porque você não me entende. Ela: — Entender o quê? Ele: — Santa Virgem, Macabéa, vamos mudar de assunto e já! Ela: — Falar então de quê? Ele: — Por exemplo, de você. Ela: — Eu?! Ele: — Por que esse espanto? Você não é gen- te? Gente fala de gente. Ela: — Desculpe mas não acho que sou muito gente. Ele: — Mas todo mundo é gente, meu Deus! Ela: — É que não me habituei. Ele: — Não se habituou com quê? Ela: — Ah, não sei explicar. Ela: — E então? Ele: — Olhe, eu vou embora porque você é im- possível! Ela: — É que só sei ser impossível, não sei mais nada. Que é que eu faço para conseguir ser possível? Ele: — Pare de falar porque você só diz bestei- ra! Diga o que é do teu agrado. Ela: — Acho que não sei dizer. Ele: — Não sabe quê? Ela: — Hein? Ele: — Olhe, até estou suspirando de agonia. Vamos não falar em nada, está bem? Ela: — Sim, está bem, como você quiser. Ele: — É, você não tem solução. Quanto a mim, de tanto me chamarem, eu virei eu. No sertão da Para- íba não há quem não sabia quem é Olímpico. E um dia o mundo todo vai saber de mim. Ela: — É? Ele: — Pois se eu estou dizendo! Você não acredita? Ela: — Acredito sim, acredito, acredito, não que- ro lhe ofender. [...] In: CAMPEDELLI, Samira Youssef; ABDALA JR., Benjamin. Clarice Lispector. São Paulo: Abril Educação, 1981. Até que, após conhecer Glória, Olímpico decide romper com Macabéa para ficar com a sua amiga. O rapaz considera a troca um progresso, já que elas eram opostas: Glória era loira (oxigenada), cheia de corpo, morava numa casa confortável, tinha três refeições por dia e, o mais importante, seu pai era açougueiro, pro- fissão ambicionada por Olímpico. Após esse episódio, Macabéa vai ao médico e descobre que tem tuberculose, mas não entende muito bem a gravidade da doença. Sente-se bem só por ter ido ao consultório e não acha necessário comprar o medicamento receitado. Com dor na consciência por ter roubado o namorado de Macabéa, Glória a convida para lanchar em sua casa. Macabéa, mais uma vez, aproveita a oportunidade e come demais. Apesar de passar mal, não vomita para não desperdiçar o luxo do chocolate, mas sente remorsos por ter roubado uma rosquinha. Finalmente, aconselhada por Glória, Macabéa vai até uma cartomante para saber de sua sorte. Lá, é recebida pela própria, madama Carlota, que impres- siona a pobre moça pelo ”requinte” de sua residência, repleta de plástico, e pela amabilidade afetada com que a trata. Após madama Carlota contar sobre sua vida como prostituta e cafetina, lê as cartas para Ma- cabéa, que, emocionada, pela primeira vez vislumbra um futuro e se permite ter esperança. Afinal, iria se casar com um estrangeiro rico, que daria todo o amor de que ela precisava. Inebriada com as previsões da cartomante, Ma- cabéa atravessa a rua sem olhar e é atropelada por uma Mercedes-Benz. Caída na calçada e sangrando, seu fim é testemunhado por inúmeros espectadores que se aglomeram em torno dela, sem que nenhum ofereça socorro. Por fim, a garota tosse sangue e morre. Havia chegado a hora da estrela. 72 Enredo 2 Começa quando o narrador, andando pela rua, cap- ta o olhar de desespero de uma jovem nordestina no meio da multidão. A partir daí, nasce Macabéa, que representa a miséria inerente ao autor e a todas as pessoas. Em uma relação de amor e ódio, Rodrigo S.M. narra a vida dessa moça como tentativa de se livrar da sensação de mal-estar que ela representa e que o contagiava, ao mesmo tempo em que se apieda e se revolta, inclusive se sentindo culpado por viver num padrão mais elevado que a maioria da população mar- ginalizada. Dessa forma, intima o leitor a também se colo- car no lugar do outro para experimentar essa miséria e perceber que, no fundo, ela faz parte de todos nós. Por isso, não basta denunciar as mazelas sociais, como a fase anterior do Modernismo pregava, mas induzir o leitor a uma epifania, uma revelação, ainda que des- pertada pela náusea, como nesse caso. Enredo 3 Nessa parte, Rodrigo S.M. discute a limitação da litera- tura diante da busca existencial. Também ironicamente condena os autores de estilo pretensamente original, que abusam de modismos, de adornos que descaracte- rizam o poder das palavras, bem como a obsessão pelo rigor formal, pela ortografia impecável. Assim, há na obra diversos recursos metalin- guísticos. Essas três narrativas se interligam, não sen- do possível separá-las, pois o livro nem mesmo tem divisão por capítulos. Cena de ”A hora da estrela”, filme de Suzana Amaral baseado no romance homônimo de Clarice Lispector Características da obra Personagens tensos e inadaptados ao mundo: seus personagens, representativos da situação alienada dos indivíduos das grandes cidades, geralmente são tensos e inadaptados a um mundo repetitivo e inautêntico, que os despersonaliza. Quebra da fronteira entre a voz do narra- dor e a dos personagens: Clarice afasta-se das técnicas tradicionais do romance, caracteri- zado como um espelho de época. Sua literatura é um ambíguo espelho da mente, registrado através do fluxo da consciência, que indefine as fronteiras entre a voz do narrador e a dos personagens. Narrativa interiorizada: rompe-se a narra- tiva referencial, ligada a acontecimentos. Em lugar dela, emerge interiorizada, centrada num momento de vivência interior do personagem (ou do narrador). É possível, até mesmo, que um acontecimento exterior provoque o desencade- ar do fluxo da consciência: um acontecimento pode liberar ideias que vão até o inconsciente do personagem. Epifania ou momentos de revelação: a abertura da consciência para momentos “lumi- nosos”, de revelação, é o que mais marca os personagens de Clarice. Personagens Macabéa Alagoana, 19 anos, foi criada por uma tia beata que batia nela (sobre a cabeça, com força); completamente inconsciente, raramente percebe o que há à sua volta. A principal característica de Macabéa é a sua completa alienação. Ela não sabe nada de nada. Feia, mora numa pensão em companhia de três moças que são balconis- tas nas Lojas Americanas (Maria da Penha, Maria da Graça e Maria José). Macabéa recebe o apelido de Maca e é a protagonista da história. Possivelmente, o nome Macabéa seja uma alusão aos macabeus bíblicos, sete ao todo, teimosos, criaturas destemidas demais no enfren- 73 tamento do mundo; a alusão, no entanto, faz-se pelo lado do avesso, pois Macabéa é o inverso deles. É pobre, magra e passa a morar no Rio de Janeiro com a tia, que morre em seguida. Trabalha como datiló- grafa. Gosta de Coca-Cola. Fã de Marilyn Monroe, sonha em ser estrela de cinema e escuta a Rádio Relógio. É feia, cheira mal por não gostar de tomar banho e é (e morre) virgem.Não tem autoestima, inteligência e esperteza. É uma jovem sem qualquer tipo de vida interior, sem futuro e com um passado inexpressivo, quase cretina. A datilógrafa vivia numa espécie de atordoado nim- bo, entre o céu e inferno. Nunca pensara em “eu sou eu”. Olímpico Apresentava-se como Olímpico de Jesus Moreira Cha- ves. Trabalhava numa metalúrgica e não se classificava como ”operário”: era um ”metalúrgico”. Ambicioso, orgulhoso e matara um homem antes de migrar da Paraíba. Queria ser muito rico, um dia; e um dia queria também ser deputado. Um secreto desejo era ser tou- reiro, gostava de ver sangue. Nordestino que veio do sertão por ter matado um homem, é bem falante, metido, convencido, vaido- so e usa dente de ouro. Trata sempre mal sua namo- rada Macabéa, que, por medo de perdê-lo, sempre se desculpa quando deveria ser o contrário. E não é que ele dava para fazer discurso? Tinha o tom cantado e o palavreado seboso, próprio para que abre a boca e fala pedindo e ordenando os di- reitos do homem (...) Rodrigo S.M. Narrador-personagem da história, tem domínio abso- luto sobre o que escreve, inclusive sobre a morte de Macabéa, no final. (...) para falar da moça tenho que não fazer a barba durante dias para adquirir olheiras escuras por dor- mir um pouco, só cochilar de pura exaustão, sou um trabalhador manual. Além de vestir-me com roupa velha rasgada. Tudo isso para me pôr no nível da nordestina (...) Em relação à história da vida da protagonista, ele está em terceira pessoa. É um narrador de onisci- ência relativa, que sabe o que se passa pela cabeça da nordestina, mas também apresenta insegurança no que diz. Há uma narrativa à parte, feita em primeira pessoa por Rodrigo S.M., que se mostra tanto como pessoa quanto como profissional. Assim, o narrador se mani- festa, no decorrer da história, de três formas: através de um monólogo e reflexão; conta e descreve de forma simples o que acontece; e valoriza o discurso direto. É o pseudoautor e narrador do relato. Apresen- ta-se como profissional escritor. É um narrador intru- so, por isso (e também por revelar seus sentimentos) torna-se uma das personagens. É o primeiro narrador masculino na obra de Clarice. Ele questiona o tempo inteiro o seu modo de narrar, o seu estilo, a sua capaci- dade de compreender Macabéa. Em última instância, o que ele procura é desvendar o significado da literatura e da existência. E ouço passos cadenciados na rua. Tenho um arrepio de medo. Ainda bem que o que vou escrever já deve estar na certa de algum modo escrito em mim (...) Na obra, o narrador-personagem tem o intuito de narrar a história sem sentimentalismo, pois o fato da autora ter criado um narrador masculino é para que ele não relate com comoção Macabéa, e dê a ela um final feliz: (...) também eu não faço a menor falta, e até o que escrevo, um outro escreveria. Um outro escritor sim, mas teria que ser homem porque escritora mulher pode lacrimejar piegas (...) Glória Filha de um açougueiro, nascida e criada no Rio de Janeiro, Glória rouba Olímpico de Macabéa. Tem um ”quê” de selvagem, cheia de corpo, é esperta, atenta ao mundo. Colega de trabalho de Macabéa, é gorda, bran- ca e tem cabelos crespos e pretos, que ela oxigenava sempre. Um adágio popular que caracterizaria bem sua relação com Macabéa é “quem tem uma amiga dessas não precisa de uma inimiga”, pois ela acaba ficando 74 com o namorado de Macabéa e a recomenda ir a uma cartomante... A nordestina, ao sair da casa da adivi- nha, acaba morrendo. O fato de ser carioca tornava-a pertencente ao ambi- cioso clã do sul do país. Vendo-a, ele logo adivinhou que, apesar de feia, Glória era bem alimentada. Madame Carlota É a mulher de Olaria que colocará as cartas do baralho para ”ler a sorte” de Macabéa. Contará que foi prostituta quando jovem, que depois montou uma casa de mulhe- res e ganhou muito dinheiro com isso. Come bombons, diz que é fã de Jesus Cristo e impressiona Macabéa. Na verdade, madame Carlota é uma enganadora vulgar. (...) então caí na vida. E gostei porque sou uma pessoa muito carinhosa, tinha carinho por todos os homens (...) Raimundo Silveira Chefe do escritório em que Macabéa trabalha. Tenta demiti-la por ter muitos erros de ortografia e sujar os papéis nos quais datilografava, mas acaba admitindo-a de volta. Outras personagens Ainda há as três Marias que moram com Macabéa no mesmo quarto e o médico que diagnostica sua tuber- culose. Espaço Apesar de se passar no Rio de Janeiro, ocorre que o espaço físico, externo, não importa muito nesta histó- ria. O ”lado de dentro” das criaturas é o que interessa aos intimistas. Embora a história de Macabéa seja profundamente dramática, a narrativa é toda permeada de muito hu- mor e ironia. O próprio nome da protagonista consti- tui-se numa grande ironia (tragicomédia). Pobre, seco, ininteligível, frio – no sentido de isenção de paixão, insensível, indiferente – desinteres- sante, morto. O ambiente é, na verdade, uma descrição de Macabéa. Parece que em todo o espaço que a nor- destina visita, há penetração de suas características, além das angústias da vida da protagonista que atin- gem o pseudoautor. Tempo O tempo é psicológico, pois há uma análise psicoló- gica mais aprofundada dos personagens, que revela, por meio da narrativa interior, o fluxo da consciência e o intimismo. Pelos indícios que o narrador nos oferece, o tempo é a época em que Marylin Monroe já havia mor- rido – possivelmente, fins da década de 1960 ou co- meço da década de 1970 –, mas faz ainda um grande sucesso como mito que povoa a cabeça e os sonhos de Macabéa. Segundo Affonso Romano de Sant’Anna, os ro- mances e contos de Clarice Lispector percorrem, geral- mente, quatro passos: 1. O personagem é disposto em uma determinada situação cotidiana. 2. Prepara-se um evento, que é pressentido dis- cretamente. 3. Ocorre o evento, que lhe “ilumina” a vida. 4. Ocorre o desfecho, que aponta um personagem mudado, “reformado” interiormente. 75 APROFUNDE SEUS CONHECIMENTOS — Eu também acho esquisito mas minha mãe botou ele por promessa a Nossa Senhora da Boa Morte se eu vingasse, até um ano de idade eu não era chamada porque não tinha nome, eu preferia continuar a nunca ser chamada em vez de ter um nome que ninguém tem mas parece que deu certo – parou um instante re- tomando o fôlego perdido e acrescentou desa- nimada e com pudor – pois como o senhor vê eu vinguei... pois é... — Também no sertão da Paraíba promessa é questão de grande dívida de honra. Eles não sabiam como se passeia. Andaram sob a chuva grossa e pararam diante da vitrine de uma loja de ferragem onde estavam expostos atrás do vidro canos, latas, parafusos grandes e pregos. E Macabéa, com medo de que o silêncio já significasse uma ruptura, disse ao lançado recém-lançado-namorado: — Eu gosto tanto de parafuso e prego, e o se- nhor? Da segunda vez em que se encontraram caía uma chuva fininha que ensopava os ossos. Sem nem ao menos se darem as mãos caminhavam na chuva que na cara de Macabéa parecia lágri- mas escorrendo. (Clarice Lispector, A hora da estrela) Neste excerto, as falas de Olímpico e Macabéa: a) aproximam-se do cômico, mas, no âmbito do livro, evidenciam a oposição cultural entre a mulher nordestina e o homem do sul do país. b) demonstram a incapacidade de expressão verbal das personagens, reflexo da privação econômica de que são vítimas. c) beiram às vezes o absurdo, mas, no contexto da obra, adquirem um sentido de humor e sátira social. d) registram, com sentimentalismo, o eterno conflito que opõe os princípios antagônicos do Bem e do Mal. 3. (Fuvest) Considere as seguintes compara- ções entre Vidas secas e A hora da estrela: I. Os narradores de ambos os livros adotam um estilo sóbrio e contido, avesso a expansões emocionais, condizente com o mundo de es- cassez e privação que retratam.II. Em ambos os livros, a carência de lingua- gem e as dificuldades de expressão, presen- tes, por exemplo, em Fabiano e Macabéa, manifestam aspectos da opressão social. III. A personagem sinha Vitória (Vidas se- cas), por viver isolada em meio rural, não possui elementos de referência que a façam aspirar por bens que não possui; já Macabéa, por viver em meio urbano, possui sonhos típicos da sociedade de consumo. 1. Leia o texto. Domingo ela acordava mais cedo para ficar mais tempo sem fazer nada. O pior momento de sua vida era nesse dia ao fim da tarde: caía em meditação inquieta, o vazio do seco domingo. Suspirava. Tinha saudade de quando era pequena – farofa seca – e pensava que fora feliz. Na verdade por pior a infância é sempre encantada, que susto. Nunca se queixava de nada, sabia que as coisas são assim mesmo e – quem organi- zou a terra dos homens? [...] Juro que não posso fazer nada por ela. Afianço-vos que se eu pudesse melhoraria as coisas. Eu bem sei que dizer que a datilógrafa tem o corpo cariado é um dizer de brutalidade pior que qualquer palavrão. (Clarice Lispector, A hora da estrela) Nas alternativas abaixo, transcrevem-se adaptações de comentários críticos colhidos em bibliografia especializada. Todos se refe- rem à produção de Clarice Lispector, exceto: a) A linguagem contém como que uma armadi- lha: a sua simplicidade enganosa. Nem pela escolha dos vocábulos, nem por sua cons- trução frásica parece ultrapassar um tom de coloquialismo e de narração sem surpresas. b) É essa existência absurda, ameaçadora e estranha, revelando-se nos indivíduos e a despeito deles, o único fundo permanente de encontro ao qual as personagens se des- tacam e de onde tiram a densidade humana que as caracteriza. c) Em sua ficção, o cotidiano é, a partir de cer- to momento, completamente desagregado. d) Numa obra literária, para que o jogo da lin- guagem tenha a propriedade reveladora, é necessário que a linguagem, além de ser ins- trumento da ficção, seja também, de certo modo, o seu objeto, como de fato ocorre nos textos da autora. e) O mito poético foi a solução romanesca ado- tada pela autora. Uma obra de tão aguda modernidade que, paradoxalmente, se nutre de velhas tradições, as mesmas que davam à gesta dos cavaleiros feudais a aura do conví- vio com o sagrado e o demoníaco. 2. (Fuvest) Leia o texto. Ele se aproximou e com voz cantante de nor- destino que a emocionou, perguntou-lhe: — E se me desculpe, senhorinha, posso convi- dar a passear? — Sim, respondeu atabalhoadamente com pressa antes que ele mudasse de ideia. — E, se me permite, qual é mesmo a sua graça? — Macabéa. Maca — O quê? Bea, foi ela obrigada a completar. — Me desculpe mas até parece doença, doença de pele. 76 Está correto apenas o que se afirma em: a) I. b) II. c) III. d) I e II. e) II e III. 4. (Fuvest) Identifique a afirmação correta so- bre A hora da estrela, de Clarice Lispector. a) A força da temática social, centrada na mi- séria brasileira, afasta do livro as preocupa- ções com a linguagem, frequentes em outros escritores da mesma geração. b) Se o discurso do narrador critica principal- mente a própria literatura, as falas de Maca- béa exprimem sobretudo as críticas da per- sonagem às injustiças sociais. c) O narrador retarda bastante o início da nar- ração da história de Macabéa, vinculando esse adiamento a um auto questionamento radical. d) Os sofrimentos da migrante nordestina são realçados, no livro, pelo contraste entre suas desventuras na cidade grande e suas lem- branças de uma infância pobre, mas vivida no aconchego familiar. e) O estilo do livro é caracterizado, principal- mente, pela oposição de duas variedades linguísticas: linguagem culta, literária, em contraste com um grande número de expres- sões regionais nordestinas. 5. (Fuvest) Sobre o narrador de A hora da estre- la, de Clarice Lispector, pode-se afirmar que: a) é do tipo observador, pois revela não ter conhecimento sobre o que se passa no uni- verso sentimental e psíquico da personagem (Macabéa). b) é onisciente, pois assume o papel de criador de uma vida, sobre a qual detém todas as in- formações; o poder da onisciência é, para ele, fonte de satisfação, pois Rodrigo S.M. perce- be que os fatos dependem de seu arbítrio. c) é do tipo observador, pois limita-se a des- crever superficialmente as emoções de Ma- cabéa, o que fica evidente nas ocorrências enigmáticas do termo “explosão“, apresen- tado sempre entre parênteses. d) constitui-se como um personagem, pois nar- ra em primeira pessoa; não há, entretanto, referências à sua história pessoal, visto que seu objetivo é falar sobre um personagem de ficção (Macabéa). e) é um dos personagens do livro; entretanto, ao apresentar-se não só como narrador, mas também como criador da história, problema- tiza a essência da literatura de ficção, que reside na recriação arbitrária do real. 6. (Fuvest) Devo registrar aqui uma alegria. é que a moça num aflitivo domingo sem faro- fa teve urna inesperada felicidade que era inexplicável: no cais do porto viu um arco- -íris. Experimentando o leve êxtase, ambi- cionou logo outro: queria ver, como uma vez em Maceió, espocarem mudos fogos de ar- tifício. Ela quis mais porque é mesmo uma verdade que quando se dá a mão, essa gen- tinha quer todo o resto, o zé-povinho sonha com fome de tudo. E quer mas sem direito algum, pois não é? (Clarice Lispector, A hora da estrela) Considerando-se no contexto da obra o tre- cho sublinhado, é correto afirmar que, nele, o narrador: a) assume momentaneamente as convicções elitistas que, no entanto, procura ocultar no restante da narrativa. b) reproduz, em estilo indireto livre, os pensa- mentos da própria Macabéa diante dos fogos de artifício. c) hesita quanto ao modo correto de interpretar a reação de Macabéa frente ao espetáculo. d) adota uma atitude panfletária, criticando diretamente as injustiças sociais e cobrando sua superação. e) retoma uma frase feita, que expressa pre- conceito antipopular, desenvolvendo-a na direçao da ironia. 7. (Fuvest) “A ação desta história terá como resultado minha transfiguração em outrem (…)” Neste excerto de A hora da estrela, o narra- dor expressa uma de suas tendências mais marcantes, que ele irá reiterar ao longo de todo o livro. Entre os trechos abaixo, o único que não expressa tendência corres- pondente é: a) “Vejo a nordestina se olhando ao espelho e (…) no espelho aparece o meu rosto cansa- do e barbudo. Tanto nós nos intertrocamos” b) “é paixão minha ser o outro. No caso a ou- tra” c) “Enquanto isso, Macabéa no chão parecia se tornar cada vez mais uma Macabéa, como se chegasse a si mesma” d) “Queiram os deuses que eu nunca descreva o lázaro porque senão eu me cobriria de lepra” e) “Eu te conheço até o osso por intermédio de uma encantação que vem de mim para ti” 8. (PUC-SP) A obra A hora da estrela, de Clarice Lispector, marca-se pela depuração da arte de escrever e dialoga com todo o universo ficcional da autora. Despontam nela as per- plexidades da narrativa moderna. 77 Indique a alternativa que não condiz com esse romance entendido como um todo. a) A história são as fracas aventuras de uma moça alagoana, “numa cidade toda feita contra ela”, o Rio de Janeiro. b) Macabéa, personagem do romance, tem a co- ragem e o heroísmo dos fortes e se torna, na vida, a grande estrela com que sempre sonhou. c) A estrela que dá título à obra é a estrela de cinema e só aparece mesmo na hora da morte. d) A narrativa constrói-se da alternância entre as reflexões do narrador que parece narrar a si mesmo e os fatos apresentados que dão o retrato da protagonista. e) O espaço da ação é o social-urbano, mas res- trito à “Rua do Acre para morar” e à “Rua do Lavradio para trabalhar”. 9. (PUC-SP) A respeito de A hora da estrela, de Clarice Lispector, indique a alternativa que não confirma as possibilidadesnarrativas do romance. a) Livro com muitos títulos que se resumem à história de uma inocência pisada, de uma miséria anônima. b) História do narrador Rodrigo S.M., que se faz personagem, narrando-se a si mesmo e com- petindo com a protagonista. c) História da própria narração, que conta a si mesma, problematizando a difícil tarefa de narrar. d) História de Macabéa, moça anônima e que não fazia falta a ninguém. e) História de Olímpico de Jesus, paraibano e metalúrgico, vivendo o mesmo drama de Ma- cabéa e identificando-se com ela. 10. (PUC-SP) Assinale a alternativa que não está de acordo com a personagem Macabéa, do ro- mance A hora da estrela, de Clarice Lispector. a) Nordestina pobre, anônima e semianalfabe- ta, era impotente para a vida e não fazia falta a ninguém. b) Tinha a “felicidade pura dos idiotas” e “vivia num atordoado limbo entre céu e inferno”. c) Personagem-título do romance, embora feita de matéria rala, tornou-se, na vida, a grande estrela com que sempre sonhou. d) Ingênua, acreditou no que a cartomante lhe disse, mas acabou sendo atropelada e morta por um Mercedes amarelo. e) Viveu um conto de fadas às avessas, deline- ando um contraponto bíblico sem, contudo, apresentar a coragem e o heroísmo dos fortes. 11. (Fuvest) Será que eu enriqueceria este relato se usasse alguns difíceis termos técnicos? Mas aíque está: esta história não tem nenhuma técnica, nem de estilo, ela é ao deus-dará. Eu que também não mancharia por nada deste mundo com palavras brilhantes e falsas uma vida parcacomo a da datilógrafa. (Clarice Lispector, A hora da estrela) Em A hora da estrela, o narrador questiona- -se quanto ao modo e, até, à possibilidade de narrar a história. De acordo com o trecho acima, isso deriva do fato de ser ele um nar- rador: a) iniciante, que não domina as técnicas neces- sárias ao relato literário. b) pós-moderno, para quem as preocupações de estilo são ultrapassadas. c) impessoal, que aspira a um grau de objetivi- dade máxima no relato. d) objetividade, que se preocupa apenas com a precisão técnica do relato. e) autocrítico que percebe a inadequação de um estilo sofisticado para narrar a vida popular. 12. (UFV) Leia o trecho abaixo. Bem, é verdade que também eu não tenho piedade do meu personagem principal, a nordestina: é um relato que desejo frio. (...) Não se trata apenas da narrativa, é antes de tudo vida primária que respira, respira, res- pira. (...) Como a nordestina, ha milhares de moçasespalhadas por cortiços, vagas de cama num quarto, atrás de balcões trabalhando até a estafa. Não notam sequer que são facilmente subs- tituíveis e que tanto existiriam como não existiriam. (Clarice Lispector) Em uma das alternativas abaixo, há um as- pecto do livro de Clarice Lispector, A hora da estrela, presente no fragmento acima, que o aproxima do chamado “romance de 30“, rea- lizado por escritores como Graciliano Ramos e Rachel de Queiroz. a) A preocupação excessiva com o próprio ato de narrar. b) O intimismo da narrativa, que ignora os pro- blemas sociais de seus personagens. c) A construção de personagens que têm sua condição humana degradada por culpa do meio e da opressão. d) A necessidade de provar que as ações huma- nas resultam do meio, da raça e do momento. e) A busca de traços peculiares da Região Nor- deste. 78 13. (Acafe) No livro A hora da estrela, ocorre a quebra das convenções da arte de narrar: o narrador estabelece com o leitor um jogo. Assim, é verdadeiro o que se afirma em: a) O narrador faz uma narrativa aberta para o leitor, procurando fazer com que o leitor se identifique com os personagens. b) Existe um narrador que dificulta a localiza- ção de sua voz, misturando-a com a das ou- tras personagens. c) A escritura do texto é extremamente rebus- cada e, portanto, difícil de estabelecer qual- quer relação do texto com o narrador. d) O narrador, a todo momento, chama a aten- ção do leitor, alertando-o de que se trata de uma obra de ficção e, consequentemente, dificultando uma identificação do leitor com os personagens. e) Não é possível identificarmos a presença do narrador. 14. (Acafe) Sobre o texto “Tentarei tirar ouro de carvão. Sei que estou adiando a história e que brinco de bola sem a bola. O fato é um ato? Juro que este livro é feito sem pa- lavras.“, extraído do livro A hora da estrela, pode-se afirmar que: a) o narrador-escritor vai transformar situações cotidianas em uma história de vida, de fatos e acontecimentos, e o “livro é feito sem pa- lavras“ pelo fato de ser um retrato da vida. b) a história de Macabéa (protagonista do livro) é um conto de fadas, em que ela encontra o seu príncipe e vivem felizes para sempre. c) o narrador explica a relação de poder que um homem mantém sobre a mulher. d) é uma crítica ao “canibalismo“ deste mundo cão, no caso, a anulação do ser humano pela cidade grande. e) se trata de um jogo de palavras em que o autor busca explicar a história de vida de um trabalhador sem qualificação, vivendo numa grande metrópole. 15. (Acafe) Sobre o romance A hora da estrela, de Clarice Lispector, é falso afirmar que: a) ao ser atropelada e morta por um caminhão Mercedes-Bens, a protagonista tem, enfim, um grande momento, à maneira de uma es- trela de cinema, no centro da cena cinema- tográfica. b) narra a história de Macabéa, uma alagoana simples que se muda para o Rio de Janeiro, onde passa a morar numa pensão. c) distante de seu meio, alheia ao mundo da cultura e sem compreender claramente os valores que regem uma cidade grande e com- petitiva como o Rio de Janeiro, Macabéa não consegue definir sua própria identidade. d) opondo-se a um curso sentimental, retórico, ornamental da poética nacional, a autora construiu uma poesia antilírica, anticonfes- sional, presa ao real e dirigida ao intelecto. e) Olímpico, namorado de Macabéa e também nordestino, ao contrário dela, deseja ascen- der na vida a qualquer preço. 16. (PUC-Camp) Maquiavel (...) admitia que a posição dos subalternos é estratégica para a análise de quem está por cima. Relacionando-se a frase acima com o roman- ce A hora da estrela, de Clarice Lispector, verifica-se que a afirmação de Maquiavel: a) se confirma, pois Rodrigo faz excelente aná- lise das classes privilegiadas. b) se confirma, pois Macabéa faz análise crítica do poder de seus superiores. c) não se confirma, pois Rodrigo tem reduzida consciência de sua classe social. d) não se confirma, pois Macabéa não tira pro- veito crítico de sua posição. e) não se confirma, pois Olímpico não se inte- ressa por quem tem algum poder. 17. (PUC-RS) ________, a personagem de Clarice Lispector, em A hora da estrela, é uma nor- destina, pobre, feia, sem vida interior, inca- paz de manter a relação com o namorado. Sua “hora da estrela” só acontece quando sai feliz e distraída da cartomante e ________. No romance, os problemas existenciais estão relacionados às ________ da moça. As lacunas podem ser, correta e respectiva- mente, preenchidas por: a) Gabriela – é assassinada e desaparece – cren- ças religiosas b) Macabéa – é atropelada e morre – condições socioculturais c) Aurora – encontra Fernando e se casa – de- bilidades físicas d) Capitu – é atropelada mas salva-se – dificul- dades financeiras e) Diadorim – volta ao sertão e vive só – neces- sidades econômicas 18. (Enem) Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécu- la e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou. [...] Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever. Como come- çar pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer? Se antes da pré-pré-história já havia os monstros apocalípticos? Se esta história não existe, passará a existir. Pensar é um ato. Sentir é um fato. Os doisjuntos – sou eu que escrevo o que estou escrevendo. [...] Felicidade? Nunca vi palavra mais doi- da, inventada pelas nordestinas que andam por aí aos montes. Como eu irei dizer agora, esta história será o resultado de uma visão gradual – há dois anos e meio venho aos poucos descobrindo os por- quês. É visão da iminência de. De quê? Quem sabe se mais tarde saberei. Como que estou es- crevendo na hora mesma em que sou lido. Só não inicio pelo fim que justificaria o começo 79 – como a morte parece dizer sobre a vida – porque preciso registrar os fatos antecedentes. LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1998 (fragmento). A elaboração de uma voz narrativa peculiar acompanha a trajetória literária de Clarice Lispector, culminada com a obra A hora da estrela, de 1977, ano da morte da escritora. Nesse fragmento, nota-se essa peculiaridade porque o narrador: a) observa os acontecimentos que narra sob uma óptica distante, sendo indiferente aos fatos e às personagens. b) relata a história sem ter tido a preocupação de investigar os motivos que levaram aos eventos que a compõem. c) revela-se um sujeito que reflete sobre ques- tões existenciais e sobre a construção do discurso. d) admite a dificuldade de escrever uma histó- ria em razão da complexidade para escolher as palavras exatas. e) propõe-se a discutir questões de natureza fi- losófica e metafísica, incomuns na narrativa de ficção. 19. (Fuvest) Em A hora da estrela, o narrador apresenta a seguinte reflexão: “Pois na hora da morte a pessoa se torna brilhante estrela de cinema, é o instante de glória de cada um e é quando como no canto coral se ouvem agudos sibilantes“. Com base nela, explique: a) Por que o romance tem o título “A hora da estrela“? b) Por que é irônica a relação entre o título e a história de Macabéa? 20. (Fuvest) Leia este trecho de A hora da estre- la, de Clarice Lispector, no qual Macabéa, de- pois de receber o aviso que seria despedida do emprego, olha-se no espelho: Depois de receber o aviso foi ao banheiro para ficar sozinha porque estava toda ator- doada. Olhou maquinalmente ao espelho que encimava a pia imunda e rachada, cheia de cabelos, o que tanto combinava com sua vida. Pareceu-lhe o espelho baço e escureci- do não refletia imagem alguma. Sumira por acaso sua existência física? Logo depois pas- sou a ilusão e enxergou a cara toda deforma- da pelo espelho ordinário: o nariz tornado enorme como o de um palhaço de nariz de papelão. Olhou-se e levemente pensou: tão jovem e já com ferrugem. a) Neste trecho, o fato de parecer, a Macabéa, não se ver refletida no espelho liga-se imediata- mente ao aviso de que seria despedida. Pro- jetando essa ausência de reflexo no contexto mais geral da obra, como você interpreta? b) Também no contexto da obra, explique por que o narrador diz que Macabéa pensou “le- vemente“? GABARITO 1. E 2. C 3. B 4. C 5. E 6. E 7. C 8. B 9. E 10. C 11. E 12. C 13. D 14. A 15. D 16. D 17. B 18. D 19. a) A hora da estrela alude, metaforicamen- te, à morte, ao instante de fulguração rá- pida, mas reveladora de todo um sentido de existência. É a epifania à maneira de Clarice Lispector, dentro da óptica exis- tencialista da busca do sentido da experi- ência humana. b) A ironia, trágica no caso, dá-se pela dis- crepância entre a breve aspiração de gló- ria de Macabéa, insuflada pela cartoman- te (a miragem da estrela hollywoodiana), a sua condição social (migrante nordes- tina marginalizada no Rio de Janeiro) e seu destino: atropelada por um carro de luxo, na porta do Copacabana Palace. A hora da estrela, banal e reveladora, é o instante maior de Macabéa, anônima, es- tatelada na rua, mas objeto da atenção fugaz de transeuntes anônimos. 20. a) O fato de Macabéa não se ver refletida no espelho remete ao fato de ser a nordes- tina uma “Maria Ninguém“ que sequer é nomeada em boa parte da obra. A datiló- grafa é um ser “invisível“, que não é per- cebido pela maioria da sociedade. A sua potencial demissão apenas reforça o seu caráter de pessoa dispensável, descartá- vel pelo sistema, “enferrujada“. b) A alienação de Macabéa a impede de con- siderar qualquer questão em toda a sua amplitude. Pensa “levemente“, ou super- ficialmente, sem se aprofundar nas ra- zões dos fenômenos que a circundam ou que a afetam. L OBRAS C Comédias para se ler na escola Obras L C Luis Fernando Verissimo 83 LUIS FERNANDO VERISSIMO Luis Fernando Verissimo, filho do escritor Erico Verissimo e de Mafalda Halfen Volpe, é um escritor brasileiro, famoso por suas crônicas e contos de humor; é também jornalista, tradutor, roteirista de programas para televisão e músico. Nasceu em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, no dia 26 de setembro de 1936. Em 1941, sua família foi morar nos Estados Unidos, onde ele fez o curso primário em São Francisco e Los Angeles. Fez o curso secundário no Roosevelt High School, em Washington. Desenvolveu o gosto pelo jazz, chegando a ter aulas de saxofone. De volta ao Brasil, em 1956, retornou para Porto Alegre, onde começou a trabalhar na Editora Globo, no departamento de artes. Em 1960, passou a integrar o conjunto musical “Renato e seu sexteto“. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde trabalhou como tradutor e redator publicitário. Em 1963, casou-se com a carioca Lúcia Helena Massa, com quem teve três filhos. Em 1967, voltou para Porto Alegre, ingressou no jornal Zero Hora, trabalhando como revisor de textos. A partir de 1969, passou a assinar sua própria coluna diária. No mesmo ano, começou a redigir para a agência de publicidade MPM Propaganda. Trabalhou no Jornal Folha da Manhã, entre 1970 e 1975, escrevendo contos sempre bem humorados sobre esporte, música, cinema, literatura e política. Em 1973, publicou O popular, uma coletânea de textos já publicados nos jornais onde trabalhava. Em 1975, retornou ao Zero Hora, passou a escrever para o Jornal do Brasil e publicou A grande mulher nua. Publicou Ed Mort e outras histórias, em 1979, livro de crônicas cujo personagem viria a ser um dos mais populares de sua obra. Entre 1980 e 1981, morou em Nova Iorque, época em que escreveu Traçando Nova Iorque. Luis Fernando Verissimo lançou, em 1981, na Feira do Livro de Porto Alegre, o livro de crônicas O analista de Bagé, que se esgotou em dois dias. Entre 1982 e 1989, foi redator semanal, com artigos bem humorados, para a Revista Veja. Em 1994, publicou Comédias da vida privada, que foi adaptada para uma minissérie na televisão. Passou a integrar o grupo “Jazz 6“, em 1995, lançando os álbuns “Agora é hora“ (1997), “Speak low“ (2000), “A bossa do jazz“ (2003) e “Four“ (2006). Em 2003, seu livro Clube dos anjos, na versão em inglês (The club of angels), foi escolhido pela New York Public Library um dos 25 melhores livros daquele ano. Em 2004, recebeu o Prix Deus Oceans do Festival de Cultu- ras Latinas de Biarritz, na França. Recebeu o prêmio Juca Pato e foi considerado o intelectual do ano pela União Brasileira de Escritores, em 1997. No dia 21 de novembro de 2012, o escritor foi internado no Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, em consequência do agravamento de uma gripe do tipo Influenza A. Durante 24 dias de internação, doze foram passados na UTI. Já recuperado, recebeu alta no dia 14 de dezembro. No dia 3 de janeiro, escreveu sua primeira coluna para o Jornal O Estado de São Paulo. Disponível em: <www.ebiografia.com/luis_fernando_verissimo>. Por Dilva Frasão. Acesso em: 19 ago. 2018. 84 Contexto histórico A literatura brasileira contemporânea engloba as produ- ções do final do século XX e da primeira metade do sé- culo XXI, sendo marcada pela pluralidade de tendências. A contemporaneidade aglutina um conjunto de caraterísticas das mais diversas escolas literárias anteriores. Neste sentido, apresenta uma mistura de tendências que irão inovar a poesia e a prosa (contos,crônicas, romances, novelas etc.) do período. COMÉDIAS PARA SE LER NA ESCOLA O título, publicado em 2001, resulta da teoria de Luis Fernando Verissimo de que até pessoas que não têm o hábito da leitura poderão gostar muito de seu texto. Apesar do título indicar uma ambientação es- pecífica para a leitura, ou seja, a escola, é ideal para ser lida em qualquer lugar, sobretudo para aqueles que desejam ter momentos de descontração. Verissimo sempre aparece em forma de carica- tura na capa das últimas edições de seus livros. Em Comédias para se ler na escola, o autor surge sentado em uma cadeira escolar, arremessando um aviãozinho de papel. Ana Maria Machado na abertura do texto de Verissimo Ana Maria Machado é responsável pela apresenta- ção e pela seleção dos textos do livro aqui analisado. A dobradinha não podia ser melhor: de um lado, as histórias de um mestre do humor; de o outro, o olhar perspicaz de uma das especialistas em literatura para jovens. Leitora inveterada de Luis Fernando Verissimo, Ana Maria preparou uma seleção de crônicas capaz de despertar nos leitores e estudantes o prazer e a paixão pela leitura. “Depois de ler este livro, duvido que algum jo- vem ainda seja capaz de dizer, sinceramente, que não curte ler. E, para não ficar achando que só gosta deste livro, que leia os outros do autor. Aposto que, em sua maioria, os novos leitores vão se viciar em livro e sair procurando outros textos, de outros autores. Com von- tade de, um dia, chegar a escrever assim. Quem sabe? O Verissimo nunca pensou que ia ser escritor quando crescesse. Seu negócio era mesmo um bom solo de sa- xofone, instrumento em que ainda arrasa, escondido. Mas com essa história de ser músico, desenvolveu tan- to o ouvido que acabou assim: hoje ele ouve (e conta pra nós) até o que pensamos, sentimos e sonhamos em silêncio. Em qualquer idade.“ 85 Gênero: crônica A crônica narra, de forma artística e pessoal, fatos do cotidiano, geralmente colhidos no noticiário jornalísti- co. Geralmente, é um texto curto e leve, escrito com o objetivo de divertir o leitor e também levá-lo a refletir criticamente sobre a vida e o comportamento humanos. O narrador presente na crônica pode ser do tipo observador ou personagem. A crônica emprega geral- mente a variedade padrão informal em linguagem cur- ta e direta, próxima do leitor. Linguagem Comédias para se ler na escola é um livro de textos curtos, fáceis e divertidos, escritos numa linguagem clara e coloquial. As situações inusitadas são escritas em uma linguagem que até os menos adeptos da lite- ratura se identificam. No livro, o autor encontra alguns exemplos de um trabalho que se debruça sobre a gra- mática da língua, o discurso, tudo por meio de jogos linguísticos e de ironia. A linguagem inteligente ficou marcada na obra de Verissimo, que costumava utilizar a ironia para tra- tar de temas como a política nacional. A língua por- tuguesa se estabelece como mecanismo para o sur- gimento de situações cômicas e também serve para apontar uma realidade. Em caráter metalinguístico, o texto cede lugar a reflexões em torno da linguagem e seu funcionamento. Temas Foram reunidas diversas crônicas humorísticas a res- peito da vida alheia. O leitor é convidado a viajar entre as situações mais esquisitas no dia a dia de uma pes- soa comum. As personagens fictícias deixam aqueles que leem com vontade de perguntar: por que essas coisas não acontecem comigo? O tema predominante das crônicas é o cotidia- no. Veja como é possível subdividir esta abordagem, a partir de alguns parâmetros que ajudam o entendi- mento da obra: Exercício da linguagem Neste aspecto, é possível perceber a habilidade que o autor, um “artesão das letras”, possui, no que tange aos exercícios de linguagem ou de estilo. As crô- nicas que melhor exemplificam este parâmetro temá- tico são: “Palavreado“, “Jargão“, “O ator“ e “Siglas“. Comédia de erros A comédia é, sem dúvida, uma das marcas re- gistradas do autor. Este parâmetro está presente espe- cialmente nas crônicas “O homem trocado“, “Suflê de chuchu“ e “Sozinhos“. Fábula Luis Fernando Verissimo cria pequenas fábulas que apresentam moralidade não explícita. Surgem em crônicas como “A novata“, “Hábito nacional“ e “Pode acontecer“. Memórias O resgate do passado aparece em crônicas de memórias como “Adolescência“, “A bola“ e “História estranha“. Originalidade Temas cotidianos são abordados com origina- lidade em crônicas como “Da timidez“, “Fobias“ e “ABC“. 86 Estrutura A coletânea de crônicas escolhida por Ana Maria Ma- chado conta com uma reunião de 35 narrativas curtas. O livro é dividido em seis partes. Acompanhe as especificidades de cada uma delas: Parte 1: equívocos Nesta primeira parte do livro, as crônicas são selecio- nadas sob a perspectiva da imaginação. Situações apa- rentemente surreais que prendem os leitores, sobretu- do aqueles afeitos ao tema da aventura. A espada A crônica trata de um garoto de 7 anos que ganha uma misteriosa espada no dia de seu aniver- sário. Ele fala ao pai que agora era um thunder boy. O pai, à princípio, não o leva a sério, porém, surpreende- -se quando escuta um barulho bem alto e vê seu filho cumprindo sua missão de thunder boy. O marajá O marido de dona Morgadinha está cansado das crises de histeria da mulher, no que diz respeito à limpeza da casa. Ele pede a um amigo que se finja de marajá, a fim de que a mulher se esquecesse um pouco da mania de limpeza. Não dá certo, e a mulher se apaixona pelo falso marajá. O homem trocado Uma das crônicas mais engraçadas do livro, tra- ta de um homem que teve toda a vida trocada, desde seu nascimento, e agora estava em um hospital para operar a apendicite, mas enganaram-se na cirurgia: trocaram-lhe o sexo. Suflê de chuchu Duda é uma garota de classe média que vai ten- tar a vida na Europa, mas não tem habilidades e não sabe fazer nada. Ela fica ligando para a mãe com o obje- tivo de receber explicações sobre assuntos domésticos. Sozinhos A crônica trata de dois velhinhos roncadores que descobrem, mesmo que sem querer, que ladrões – ou a morte – invadiram sua casa. A foto A crônica narra a história de uma família que se junta para tirar foto com a bisa e o biso, que já estão muito velhinhos. Como ninguém queria deixar de apa- recer na foto, o velhinho se irrita, tira a foto da família e vai dormir. Parte 2: outros tempos Nesta segunda parte da obra, é possível verificar como o autor lida com a temática do passado, mergulhando na juventude, e como as lembranças podem ser bem- -humoradas, como apresentadas no futuro. A bola Esta crônica trata de um garoto viciado em videogame, que ganha uma bola, mas não sabe o que fazer com ela, para a decepção de seu pai. História estranha Um homem, do alto de seus 40 anos, se reco- nhece em uma criança que está brincando no parque. A criança também o identifica, eles se abraçam e o garoto pensa em como seria sentimental quando cres- cesse. Vivendo e... Nesta crônica, o narrador começa a recordar do que fazia na infância e percebe que já não é mais ca- paz nem de cuspir com a língua entre os dentes como outrora. Adolescência Um garoto ganha um violino e perturba a vizi- nhança como o barulho, inclusive o próprio pai. Para tanto, os vizinhos e o pai, que já estavam cansados, contratam Vandeca Furacão para que o garoto se es- quecesse do instrumento musical. 87 Parte 3: de olho na linguagem Nesta parte, o autor prova que é possível ser bem-hu- morado sem abdicar do bom português. Sexa Nesta história bem intrigante, embaraçosa e engraçada, um garoto interroga o pai sobre o feminino de sexo. Pá, pá, pá Com apelo interessante sobre o cotidiano da linguagem, esta crônica fala sobre um brasileiro que tenta explicar a uma estadunidense o que significam certas expressões da línguacomo “pois é”, “pois sim“, “pois não“ e “pá, pá, pá”. Defenestração Nesta crônica, o narrador brinca com o signifi- cado de certas palavras e se interroga com o sentido de “defenestrar”, que é o ato de atirar algo ou alguém da janela. Tintim A questão da linguagem mais uma vez ganha destaque na caracterização de elementos brasileiros. Brincadeira com as expressões brasileiras: “tintim“ – barulho das moedas. Papos Nesta crônica, o narrador, por meio da colo- cação pronominal, brinca com as palavras e critica a gramática. O jargão O narrador desta crônica imagina ser um ma- rinheiro, mesmo que não entenda nada de barcos. Ele começa a usar vários jargões (provavelmente inventa- dos), fazendo uma crítica aos economistas que usam palavras as quais ninguém entende, mas que as pesso- as jamais ousariam questionar. Pudor O significado de algumas palavras é o tema da brincadeira do narrador desta crônica. Entre elas, “tri- lhão”, que antigamente significava um número muito alto, impossível de se imaginar e que, hoje, devido à inflação e às mudanças de planos econômicos, torna- -se quase íntimo nosso. Palavreado O narrador brinca com as palavras e imagina novos significados para elas, como é o caso de “fa- lácia“, “lascívia“, “fornida“, “lipídio“, “otorrino“, “pseudônimo“ etc. Parte 4: fábulas Nesta parte, Verissimo aponta para as situações mais embaraçosas e engraçadas do cotidiano. A novata Esta história narra o primeiro dia de trabalho na vida de uma jornalista. No início, o chefe não acredi- ta muito na moça, mas ela se revela uma profissional bem ousada. Bobagem Nesta crônica, Verissimo conta a história de dois amigos que não se viam há muitos anos, porque estavam brigados e nem se lembravam do porquê. Am- bos pensaram que deveria ser bobagem: conversaram, beberam, marcaram um outro encontro, mas um deles não compareceu porque havia se lembrado da boba- gem que os fez brigar. Hábito nacional Nesta crônica engraçada e crítica da realidade brasileira, Verissimo apresenta vários políticos famosos brasileiros que morrem em um desastre de avião. Surge, então, são Pedro, que quer levá-los direto para o infer- no, mas Deus lhes perdoa. “Sabe como é, brasileiro...”. Pode acontecer A trágica realidade política surge nesta crôni- ca em que dois amigos tramam atacar o Congresso Nacional e pegar políticos como reféns. O fracasso se deu, pois, no dia combinado, os políticos faltaram ao serviço. Direitos humanos Algemiro é um motorista, personagem cen- tral desta crônica. Ao levar uns estadunidenses para conhecer o Rio de Janeiro, encontra Budum Filho, um homem que estava lhe vendendo o dinheiro do jogo de bicho. O motorista briga com o rapaz, mas este se faz de vítima para os gringos, que o defendem. 88 Segurança Esta crônica fala de moradores de um condomí- nio fechado que estão cansados de serem assaltados. Por isso, tentam buscar maneiras de se livrar dos la- drões e ficam cada vez mais trancados em suas pró- prias casas. Ao final, fazem uma rebelião, querendo fugir do condomínio. Parte 5: falando sério Esta parte junta crônicas cuja temática aponta para problemas comuns do cidadão brasileiro. Fobias Nesta crônica, o autor expõe diversos tipos de medo e aversões a alguma coisa, como claustrofobia, acrofobia, Collorfobia etc. Do ponto de vista da lingua- gem, ele brinca com o leitor querendo saber como se chamaria o medo de não ter o que ler. Anedotas O narrador faz reflexões sobre as anedotas e diz que nem todos os humoristas conseguem fazê-la, pois é um processo único. Da timidez As pessoas tímidas são o tema desta crônica, que mesmo querendo se esconder de todos, sempre acaba chamando a atenção, de alguma forma. ABC A relação da caligrafia com a idade é o tema desta crônica. O narrador faz comentários irônicos so- bre o tamanho das letras, de acordo com as idades. Quanto mais velhos ficamos, mais as letras diminuem, porém, segundo o narrador, esse processo está errado. Parte 6: exercícios de estilo No conjunto final da obra, o autor brinca com estilos de texto, sem perder seu estilo. Amor – “poema mais ou menos de amor” Esta crônica fala de alguém que queria ser o guarda-roupa da amada para guardar seus segredos. Um, dois, três Nesta história de caráter metalinguístico, o narrador diz querer fazer uma crônica que enchesse o mundo de magia. O ator A vida do ator é tematizada nesta crônica sob um aspecto que tange a peculiaridade de sua função. Ele leva seu trabalho tão a sério, que confunde sua vida com a de seu personagem, perdendondo sua própria identidade. O recital Esta crônica gira em torno da figura de um in- vasor que tenta tocar seu instrumento musical, que é uma tuba (instrumento de sopro) junto com um quar- teto de cordas e, claro, a confusão está feita. Siglas Numa comédia de moralidade política, esta crô- nica apresenta personagens que estão preocupados em arrumar uma sigla para seu novo partido. Porém, esquecem-se de seus princípios e de suas lutas e, em nome de uma boa sigla para o partido, mudam seus ideais políticos. Rápido Estruturada em forma de diálogos, esta crônica de poucas palavras conta a história de vida um casal que se encontra, casa-se, tem filhos, viram avós e já estão na idade “perigosa”: a de morrer de velhice. O classificado através da história Nesta crônica, o autor faz brincadeiras com a própria língua e com os objetos a serem vendidos, como se estivessem estrtuturados em classificados de jornais. 89 APROFUNDE SEUS CONHECIMENTOS 16) O pai fica intimidado com o assunto so- bre sexo, puxado pelo filho, e desconver- sa, aproveitando a oportunidade para en- sinar gramática ao menino. 2. (UFSM) Assinale a alternativa em que não se enquadra a ficção de Luis Fernando Verissi- mo. a) Enfatiza o diálogo com a exploração de dis- curso direto não mediado pelo narrador. b) A irreverência é uma característica frequen- te em suas histórias. c) Para o emprego da sátira e de outros recur- sos do cômico, privilegia temas do tempo do império. d) Utiliza o recurso de explorar diferentes e particulares sentidos de determinados vocá- bulos. e) Costuma recorrer a estratégias como o exa- gero e a inversão da ordem lógica. 3. (Enem PPL) DA TIMIDEZ Ser um tímido notório é uma contradição. O tímido tem horror a ser notado, quanto mais a ser notório. Se ficou notório por ser tími- do, então tem que se explicar. Afinal, que retumbante timidez é essa, que atrai tanta atenção? Se ficou notório apesar de ser tími- do, talvez estivesse se enganando junto com os outros e sua timidez seja apenas um es- tratagema para ser notado. Tão secreto que nem ele sabe. É como no paradoxo psicana- lítico, só alguém que se acha muito superior procura o analista para tratar um complexo de inferioridade, porque só ele acha que se sentir inferior é doença. [...] O tímido tenta se convencer de que só tem problemas com multidões, mas isto não é vantagem. Para o tímido, duas pessoas são uma multidão. Quando não consegue escapar e se vê diante de uma plateia, o tímido não pensa nos membros da plateia como indiví- duos. Multiplica-os por quatro, pois cada in- divíduo tem dois olhos e dois ouvidos. Qua- tro vias, portanto, para receber suas gafes. Não adianta pedir para a plateia fechar os olhos, ou tapar um olho e um ouvido para cortar o desconforto do tímido pela meta- de. Nada adianta. O tímido, em suma, é uma pessoa convencida de que é o centro do Uni- verso, e que seu vexame ainda será lembrado quando as estrelas virarem pó. VERISSIMO, Luis Fernando. Comédias para se ler na escola. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. 1. (UFSC) — Pai… — Hmmm? — Como é o feminino de sexo? [...] — Não tem. — Sexo não tem feminino? — Não. — Só tem sexo masculino? — É. Quer dizer, não. Existem dois sexos. Masculino e feminino. — E como é o femininode sexo? — Não tem feminino. Sexo é sempre mas- culino. — Mas tu mesmo disse que tem sexo mascu- lino e feminino. — O sexo pode ser masculino ou feminino. A palavra “sexo” é masculina. O sexo masculi- no, o sexo feminino. — Não devia ser “a sexa”? [...] — A palavra é masculina. — Não. “A palavra” é feminino. Se fosse masculina seria “O pal…” — Chega! Vai brincar, vai. O garoto sai e a mãe entra. O pai comenta: — Temos que ficar de olho nesse guri... — Por quê? — Ele só pensa em gramática. VERISSIMO, Luis Fernando. Comédias para se ler na escola. Apresentação e seleção de Ana Maria Machado. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, p. 53-54. Considerando o texto, o livro Comédias para se ler na escola e a biografia de seu autor, assinale a(s) proposição(ões) corretas(s). 01) Ana Maria Machado, ao fazer a apresen- tação do livro de Luis Fernando Verissi- mo, diz que o autor tem “uma admirável economia no uso das palavras – tudo é enxuto, nada sobra” (p. 14). Essa carac- terística do estilo do autor pode ser per- cebida no texto acima. 02) A crônica “Sexa”, que integra a parte do livro intitulada “De olho na linguagem”, aborda um aspecto gramatical da língua portuguesa – a flexão de gênero – e se organiza em torno da confusão entre gê- nero gramatical e sexo biológico. 04) Existe um contraste entre o título do li- vro e o seu conteúdo, pois Verissimo, de forma recorrente, retrata cenas densas de sua infância num tom intimista, carrega- do de saudosismo e melancolia. 08) Luis Fernando Verissimo, filho do escri- tor gaúcho Erico Verissimo, pode ser situ- ado na categoria de romancista, como seu pai. 90 Entre as estratégias de progressão textual presentes nesse trecho, identifica-se o em- prego de elementos conectores. Os elemen- tos que evidenciam noções semelhantes es- tão destacados em: a) “Se ficou notório por ser tímido” e “[...] en- tão tem que se explicar”. b) “então tem que se explicar” e “[...] quando as estrelas virarem pó”. c) “[...] ficou notório apesar de ser tímido [...] e “[...] mas isto não é vantagem [...]. d) “[...] um estratagem para ser notado [...]” e “Tão secreto que nem ele sabe”. e) “[...] como no paradoxo psicanalítico [...]” e “[...] porque só ele acha [...]”. TEXTO PARA AS PRÓXIMAS TRÊS QUESTÕES VIVENDO E... Eu sabia fazer pipa e hoje não sei mais. Du- vido que se hoje pegasse uma bola de gude conseguisse equilibrá-la na dobra do dedo indicador sobre a unha do polegar, quanto mais jogá-la com a 1precisão que tinha quan- do era garoto. (...) Juntando-se as duas mãos de um determi- nado jeito, com os polegares para dentro, e assoprando pelo buraquinho, tirava-se um silvo bonito que inclusive variava de tom conforme o posicionamento das mãos. Hoje não sei mais que jeito é esse. Eu sabia a 2fór- mula de fazer cola caseira. Algo envolvendo farinha e água e 3muita confusão na cozi- nha, de onde éramos expulsos sob ameaças. Hoje não sei mais. A gente começava a con- tar depois de ver um relâmpago e 11o núme- ro a que chegasse quando ouvia a trovoada, multiplicado por outro número, dava a 4dis- tância exata do relâmpago. Não me lembro mais dos números. (...) 12Lembro o orgulho com que consegui, pela primeira vez, cuspir corretamente pelo espa- ço adequado entre os dentes de cima e a pon- ta da língua de modo que o cuspe ganhasse distância e pudesse ser mirado. Com prática, conseguia-se controlar a 5trajetória elíptica da cusparada com uma 6mínima margem de erro. Era 7puro instinto. Hoje o mesmo feito requereria 8complicados cálculos de balísti- ca, e eu provavelmente só acertaria a frente da minha camisa. Outra 9habilidade perdida. Na verdade, deve-se revisar aquela antiga frase. É vivendo e __________. Não falo da- quelas 13coisas que deixamos de fazer porque não temos mais as condições físicas e a cora- gem de antigamente, como subir em bonde andando – mesmo porque 14não há mais bon- des andando. Falo da sabedoria desperdiça- da, das 10artes que nos abandonaram. Algu- mas até úteis. Quem nunca desejou ainda ter o cuspe certeiro de garoto para acertar em algum alvo contemporâneo, bem no olho, e depois sair correndo? Eu já. (Luis Fernando Verissimo, Comédias para se ler na escola.) 4. (Fuvest) Considere as seguintes substitui- ções propostas para diferentes trechos do texto: I. “o número a que chegasse” (ref. 11) = o número a que alcançasse. II. “Lembro o orgulho” (ref. 12) = Recordo- -me do orgulho. III. “coisas que deixamos de fazer” (ref. 13) = coisas que nos descartamos. IV. “não há mais bondes” (ref. 14) = não existe mais bondes. A correção gramatical está preservada ape- nas no que foi proposto em: a) I. b) II. c) III. d) II e IV. e) I, III e IV. 5. (Fuvest) Um dos contrastes entre passado e presente que caracterizam o desenvolvimen- to do texto manifesta-se na oposição entre as seguintes expressões: a) “precisão” (ref. 1) / “fórmula” (ref. 2). b) “muita confusão” (ref. 3) / “distância exa- ta” (ref. 4). c) “trajetória elíptica” (ref. 5) / “mínima mar- gem de erro” (ref. 6). d) “puro instinto” (ref. 7) / “complicados cál- culos” (ref. 8). e) “habilidade perdida” (ref. 9) / “artes que nos abandonaram” (ref. 10). 6. (Fuvest) A palavra que o cronista omite no título, substituindo-a por reticências, ele a emprega no último parágrafo, na posição marcada com pontilhado. Tendo em vista o contexto, conclui-se que se trata da palavra: a) desanimando. b) crescendo. c) inventando. d) brincando. e) desaprendendo. GABARITO 1. 01 + 02 = 03 2. C 3. C 4. B 5. D 6. E L OBRAS C O filho eterno Obras L C Cristovão Tezza 93 CRISTOVÃO TEZZA “Literatura sempre foi sentida por mim, ou por parte da minha geração, como a linguagem que não se enqua- dra.” (Cristovão Tezza) Cristovão Tezza nasceu em Lages, Santa Catarina, em 1952. Em junho de 1959, morreu seu pai; dois anos depois, a família se mudou para Curitiba, Paraná. Em 1968, passou a integrar o Centro Capela de Artes Populares (Cecap), dirigido por Wilson Galvão do Rio Apa, com quem trabalhou até 1977. Ainda em 1968, participou da primeira peça de Denise Stoklos e, no ano seguinte, de duas montagens do grupo XPTO, dirigido por Ari Para-raio, sempre em Curitiba. Em 1970, concluiu o ensino médio no Colégio Estadual do Paraná. No ano seguinte, entrou para a Escola de Formação de Oficiais da Marinha Mercante (RJ), desligando-se, em agosto do mesmo ano. Em dezembro de 1974, foi a Portugal estudar Letras na Universidade de Coimbra, matriculado pelo Convênio Luso-Brasileiro, mas como a universidade estava fechada pela Revolução dos Cravos, passou um ano perambulando pela Europa. Em janeiro de 1977, casou-se. Em 1984, mudando-se para Florianópolis, Santa Catarina, trabalhou como professor de Língua Portuguesa da UFSC. Voltou a Curitiba em 1986, dando aulas na UFPR até 2009, quando se demitiu para dedicar-se exclusivamente à literatura. Seus primeiros livros – os contos de A cidade inventada e os romances Gran Circo das Américas e O terroris- ta lírico – foram publicados entre 1979 e 1981. Hoje, fora de mercado, estão disponíveis apenas em versão digital. Em 1985, publicou o romance Ensaio da paixão, mas foi apenas em 1988, quando publicou Trapo, que seu nome começou a se tornar conhecido nacionalmente. Nos dez anos seguintes, publicou os romances Aventuras provisórias (Prêmio Petrobras de Literatura), Juliano Pavollini, A suavidade do vento, O fantasma da infância e Uma noite em Curitiba. Em 1998, seu romance Breve espaço entre cor e sombra foi contemplado com o Prêmio Machado de Assis da Biblioteca Nacional (melhor romance do ano); e O fotógrafo, publicado em 2004, recebeu, no ano seguinte, o Prêmio da Academia Brasileira de Letras de melhor romance do ano e o Prêmio Bravo! de melhor obra. Sua tese de doutorado (USP), “Entre a prosa e a poesia: Bakhtin e o formalismo russo“, foi publicada em 2002.Também na área acadêmica, Cristovão Tezza escreveu dois livros didáticos em parceria com o linguista Carlos 94 Alberto Faraco (Prática de texto e Oficina de texto) e há vários anos publica, eventualmente, resenhas e textos críticos em revistas e jornais. Durante um ano, assinou uma coluna quinzenal no “Rodapé Literário“ da Folha de S.Paulo. De março de 2008 a novembro de 2014 foi cronista do jornal curitibano Gazeta do Povo. Em 2006, assinou contrato com a Editora Re- cord, que começou a relançar sua obra. Em julho de 2007, foi publicado seu novo romance, O filho eterno, que recebeu, em dezembro do mesmo ano, o Prêmio da APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte) de melhor obra de ficção do ano. Em 2008, recebeu os prê- mios Jabuti de melhor romance, Bravo! de melhor obra, Portugal-Telecom de Literatura em Língua Portuguesa (1° lugar) e o Prêmio São Paulo de Literatura de melhor livro do ano. Em 2009, recebeu o prêmio Zaffari & Bour- bon, da Jornada Literária de Passo Fundo, como o me- lhor livro dos últimos dois anos. Em dezembro de 2009, O filho eterno foi considerado pelo jornal O Globo uma das dez melhores obras de ficção da década, no Brasil. Em março de 2010, a tradução francesa de O filho eterno (Le fils du printemps) recebeu o prêmio Charles Brisset, concedido pela Associação Francesa de Psiquiatria. O romance foi lançado na Itália, Inglater- ra, Portugal, França, Holanda, Espanha (em catalão), México, Estados Unidos, Austrália, China e Eslovênia, e já tem edições contratadas na Dinamarca, Noruega, Macedônia, Ucrânia e Sérvia. Em 2011, a Companhia Atores de Laura, do Rio de Janeiro, montou uma adaptação teatral de “O filho eterno“, um monólogo com direção de Daniel Herz e atuação de Charles Fricks. A peça recebeu os prêmios Shell de melhor ator e de direção de movimento; APTR de melhor ator; e Orilaxé de melhor direção. A adapta- ção do texto foi de Bruno Lara Resende. Em abril de 2012, O filho eterno entrou na lista dos dez finalistas do Prêmio Internacional Impac-Dublin de Literatura. Em dezembro de 2016, a produtora RT Fe- atures, em parceria com a Globo Filmes e a distribuidora Sony, lançou “O filho eterno“, em circuito nacional, com direção de Paulo Machline, e com Marcos Veras, Débora Falabella e Pedro Vinicius nos papéis principais. Em abril de 2017, Cristovão Tezza começou a assinar uma coluna quinzenal no caderno Ilustrada da Folha de S.Paulo. O FILHO ETERNO O romance é introduzido por duas epígrafes significati- vas: a primeira, de Thomas Bernhard, apresenta o con- flito entre o desejo pela descrição fiel da verdade e o re- sultado dessa descrição; a segunda, de S. Kierkegaard, aponta a reflexão especular entre pai e filho, tema de que se ocupa o livro em suas 222 páginas: as vicissi- tudes, o calvário e as amarras de um jovem escritor ao receber a notícia de que seu primeiro filho era portador da síndrome de Down e a peregrinação vital em torno desse fato até sua liberta aceitação. S. Kierkegaard Personagens Os personagens da história são o pai, a mãe (que pos- sui um certo apagamento), Felipe (o filho eterno), a filha e a irmã. A descrição da trajetória do pai conse- quentemente apresenta a do filho. 95 Desde a euforia do nascimento do filho até saber que ele possui síndrome de Down, fato que o faz eternamente pai. A impossibilidade de recomeço, as primeiras reações como vergonha e rejeição até o entendimento da morte como símbolo de liberdade, uma vez que crianças com esta especialidade vivem menos. Pai É o próprio escritor ficcionalizado, um homem das Letras que vive sustentado pela mulher. Configura- -se como idealista, apesar de teimoso, e seu mundo mental é deveras imaturo. Algumas vezes, o pai é per- sonagem introvertido, ansioso, que tem dificuldades para demonstrar seus sentimentos. Um homem de 28 anos, que bebe e fuma com- pulsivamente. Vê a solidão como um projeto de vida, para assim demonstrar sua aversão à sociedade, e a literatura como fuga da realidade. O pai é apresentado em dois planos, o presente e o passado: a. Presente: o pai é professor universitário da fa- culdade de Letras e também é escritor. Vive as várias recusas das editoras e troca a poesia pela prosa. Com a persistência nas publicações, tem um princípio de reconhecimento. b. Passado: retoma o envolvimento com drogas, os vandalismos da adolescência, o período que viveu na Europa como imigrante ilegal (Portugal e Alemanha), seus pensamentos anarquistas, o grupo de teatro e retorno a Antonina, no Paraná. Mãe A mãe possui um apagamento e, segundo o narrado, lamenta ter dado à luz a um filho com síndro- me de Down. Lamenta também que tenha estragado a vida do marido, esperando que ele diga o contrário, mas o mesmo não retruca aceitando. Filho Felipe é o nome do filho, o único personagem que tem nome na narrativa. Durante toda a narrativa, Felipe recebe estímulos para sua evolução motora e mental: a esperança do pai, com isto, é aproximar o filho da normalidade, uma conquista que, na verdade, sabe que será impossível. Segundo o narrador: “Observem os olhos, que tem as pregas nos cantos, e a pálpebra oblíqua... O dedo mindinho das mãos, arqueado para dentro... Achatamen- to da parte posterior do crânio... A hipotonia muscular... A baixa implantação da orelha e...” Segundo o pai: “(...) é uma pedra silenciosa no meio do caminho.” Foco narrativo A obra se configura em uma narrativa em terceira pes- soa, ao invés da primeira pessoa do singular. Com esse expediente de foco narrativo, que é uma exceção ao gênero, Tezza dá uma cara diferenciada ao romance autobiográfico e, mesmo que os aspectos mais exacer- bados de sua vida e sua alma estejam latentes no tex- to, ainda continua sendo a ficção. Logo, considera-se uma ficcionalização da experiência pessoal ou auto- ficção com traços intimistas e subjetividade discursiva. O narrador invade os pensamentos do pai tes- temunhando todos os acontecimentos de sua vida, de forma invisível está presente em todos os cenários da narrativa; assim, expõe ao leitor os sentimentos, as emoções e as aflições de criar um filho com necessida- des especiais, em uma época que pouco se sabia sobre a síndrome. Quando o autor foi questionado sobre o expe- diente, a resposta foi muito reveladora para o entendi- mento do teto em geral. Por que escrever o livro na terceira pessoa? -Esse detalhe técnico foi muito importante para mim. Era absolutamente fundamental que eu me afas- tasse da experiência pessoal para transformá-la em literatura. Ao descobrir a terceira pessoa, percebi a chave da narrativa, o que me deu uma liberdade ma- ravilhosa. Claro que eu poderia escrever em primeira pessoa ”mantendo distância”, digamos assim. Mas como a experiência era muito pessoal, seria bem mais 96 difícil; eu correria o grande risco de transformar o texto em confissão, o que destruiria o romance. Mas não po- dia perder de vista a dimensão concreta daquele pai. Assim, ao mesmo tempo mantive algumas ”pistas” pessoais espalhadas pelo livro, como para lembrar o narrador do lastro existencial do personagem, para lhe dar mais carne e consistência, para o narrador saber exatamente de quem ele estava falando. O personagem escreveu um livro chamado ”Trapo”, que, por acaso, é o título de um antigo livro meu; o nome do seu filho é Felipe, que é o nome do meu filho, mas o próprio pai não tem nome; é alguém que ainda não encontrou o seu nome. Essa realidade dupla, que aparece como que num espelho meio oxi- dado – umas partes nítidas, outras escuras e difusas, outras ocultas, algumas escancaradas – é uma das chaves narrativas do livro. No processo de transformar biografia em ficção, criamos uma outra percepção da realidade, que é, enfim, a arma da literatura. Gostaria de me estender um pouco mais sobre essa terceira pessoa e a relação entre literatura e vida, oubiografia, que é uma coisa que está chamando bastante atenção da crítica. Sobre a fronteira entre uma coisa e outra está o fato de que a literatura recorta e escolhe apenas o que tem relevância à unidade temática propos- ta pela narrativa, que afinal tem um começo, um meio, um fim e um narrador que, em cada momento, tem a visão completa do conjunto. A responsabilidade do narrador diz respeito exclusivamente a essa estrutura romanesca, não aos ”fatos” ou às ”verdades”. Assim, o romance tem uma intensidade dramática que, de fato, não existe na vida, que se dilui pelo tempo. Não vivemos 200 páginas; vivemos 50, 60, 70 anos a fio, um conjunto disparatado de fatos que não são ”organizados” por alguém. Cristovão Tezza Espaço e tempo O romance se desenvolve em plano linear, de 1980 a 2006; porém, o leitor deve atentar-se para as digres- sões que voltam aos anos de 1960 e 1970. A história se passa no Brasil, predominantemente em Curitiba, no estado do Paraná, mas também em Antonina (PR). A linha cronológica da narrativa se desenvolve à medi- da que Felipe (o filho eterno) cresce, aprende a andar, desenvolve a fala e inicia a vida escolar. O narrador apresenta passagens da adolescên- cia do pai e, neste sentido, surgem as transformações do espaço que ocorrem juntamente com as interrup- ções do tempo cronológico. Este expediente aparece sempre em que o pai reflete sobre si e sobre a própria vida: regredindo no tempo e no espaço. É ai que sur- gem as digressões, que voltam no tempo e no espaço, como quando ele morava em Portugal ou na Alema- nha, os trabalhos, os estudos, a infância em Santa Ca- tarina, o grupo de teatro amador, o mestre guru e o primeiro amor vivido na ilha da Cotinga. O tema, por Cristovão Tezza Só quem tem um filho especial sabe o que quer dizer esse eterno. É uma eternidade laica, concreta, visceral- mente amarrada à vida cotidiana. Começo lentamente a me “livrar“ do roman- ce, o que sempre acontece comigo depois de publicar meus livros. Com esse, esta separação está demoran- 97 do mais pelo impacto que o romance está tendo entre os leitores, mas felizmente já consigo vê-lo um pouco mais do lado de fora, digamos assim. De fato, eu te- mia que a literatura do romance não fosse percebida, eclipsada pelo tema, mas isso não aconteceu. E tam- bém a exposição pública, se O filho eterno fosse lido apenas como depoimento pessoal, o que também não aconteceu. Hoje, estou muito tranquilo quanto a isso. Sei que escrever é uma atividade dura, difícil, áspera – não temos de esperar nada de ninguém, a não ser da própria cabeça. Mas posso dizer que O filho eterno me deu uma profunda e rara alegria como escritor. O tema do livro é naturalmente reflexivo, trans- cende os limites do enredo, e assim obrigou a narração a abrir muitas comportas, desde a retomada biográfica do pai até as reflexões mais duras sobre a realidade que ele viveu. Talvez daí venha essa ideia de “liberta- ção“ que o romance sugere. Queremos dizer a verdade e, no entanto, não dizemos a verdade. Descrevemos algo buscando fideli- dade à verdade e, no entanto, o descrito é outra coisa que não a verdade. No momento em que enfim se volta para a cama, não há mais ninguém no quarto - só ele, a mu- lher, a criança no colo dela. Ele não consegue olhar para o filho. Sim - a alma ainda está cabeceando atrás de uma solução, já que não pode voltar cinco minutos no tempo. Mas ninguém está condenado a ser o que é, ele descobre, como quem vê a pedra filosofal: eu não preciso deste filho, ele chegou a pensar, e o pen- samento como que foi deixando-o novamente em pé, ainda que ele avançasse passo a passo trôpego para a sombra. Eu também não preciso desta mulher, ele qua- se acrescenta, num diálogo mental sem interlocutor: como sempre, está sozinho. 98 APROFUNDE SEUS CONHECIMENTOS d) Durante o tempo em que o personagem vi- veu em Portugal, ele se aliou aos revolucio- nários que fizeram a Revolução dos Cravos. e) O filho eterno é uma obra na qual se pode acompanhar a trajetória de Tezza, não só como homem, em sua relação com o filho, mas também seu percurso como autor, que se revela em plena maturidade nesta obra. 3. Sobre a obra O filho eterno, de Cristovão Tezza, assinale a alternativa correta. a) A obra é um romance nacionalista, em pri- meira pessoa. b) O livro se apoia no relato pessoal, sempre em primeira pessoa. c) O narrador da história se apoia no princípio lírico-poético para descrever as cenas. d) O narrador é em terceira pessoa, sendo uma exceção ao gênero memórias. 4. (UFSC) [...] Na escola especial que ele fre- quenta todos os dias, um paciente e talen- toso professor de arte cria números sur- preendentes de teatro com aquele grupo de crianças díspares. Uma das peças é uma versão simplificada da “Comédia dos er- ros“. Uma concepção original: em cena, as crianças dublam a própria voz, previamen- te gravada em trechos isolados que depois são montados na mesma sequência. Assim, cada uma das frases avulsas do texto, peno- samente praticadas pelas crianças e depois gravadas em sequência, são o pano de fundo de uma deliciosa e ingênua pantomima, que elas levam a cabo com comovente dedicação e eficiência. As crianças jamais seriam capa- zes de memorizar aquelas falas mais longas – e alguns deles, como o seu menino, sequer conseguiriam dizer naturalmente uma fra- se completa com uma oração subordinada e uma coordenada em sequência (a única es- trutura de que ele dá conta no seu dia é o conjunto básico sujeito-predicado, nessa or- dem, e jamais em voz passiva). TEZZA, Cristovão. O filho eterno. 8. ed. Rio de Janeiro: Record, 2009, p. 187. Considerando a obra O filho eterno e o frag- mento acima, é correto afirmar que: 01) o autor escreve na terceira pessoa, recur- so estilístico que lhe permite um certo distanciamento da esfera emocional, pois lança um olhar de fora sobre os fatos de sua vida. Assim, ao mesmo tempo em que o protagonista representa o próprio au- tor, também não deixa de ser uma perso- nagem de ficção – o pai no papel de anti- -herói –, o que dá ao romance um cunho autobiográfico. 1. Leia atentamente o trecho a seguir, retirado do livro O filho eterno, de Cristovão Tezza, e marque a única alternativa incorreta. Escrever: fingir que não está acontecendo nada, e escrever. Refugiado nesse silêncio, ele voltava à literatura, à maneira de anti- gamente. Uma roda de amigos – o retorno a tribo – e ele lê em voz alta o capítulo quatro do Ensaio da paixão, que continua a escrever para esquecer o resto. Ler em voz alta: um ritual que jamais repe- tiu na vida. Naquele momento, ouvir a pró- pria voz e rir de seus próprios achados, com a plateia exata, é um bálsamo. E ele escreve de outras coisas, não de seu filho ou de sua vida – em nenhum momento, ao longo de mais de vinte anos, a síndrome de Down en- trará em seu texto. Esse é um problema seu, ele repete, não dos outros, e você terá que resolvê-lo sozinho. (TEZZA, Cristovão. O filho eterno. Rio de Janeiro: Record, 2009, p. 63) a) O narrador em terceira pessoa é um recurso utilizado pelo autor que facilita o distancia- mento e mantém o narrador afastado do sen- timentalismo, já que o livro tem forte cunho autobiográfico. b) Ao narrar a história do filho com síndrome de Down, Cristovão Tezza abandona a ficção para construir uma autobiografia, na qual todos os fatos narrados realmente aconteceram. c) O filho eterno é um romance muito premiado, reconhecido pela crítica, de modo geral, já como um clássico, embora tenha sido publi- cado há pouco tempo. d) Embora a narrativa seja em terceira pessoa, o narrador, diversas vezes, parece penetrar na mente do personagem “pai”, aproximando-se da narração em primeira pessoa, embora per- sonagem e narrador nunca se confundam. e) O texto dialoga frequentemente com as várias artes e também há várias referênciasa outras obras de Tezza, como acontece no trecho se- lecionado. 2. Assinale a única alternativa correta sobre O filho eterno, de Cristovão Tezza. a) Este foi o primeiro livro de Cristovão Tezza a ter Curitiba como espaço. Em todos os ou- tros, a ação acontece em uma cidade de San- ta Catarina, onde o escritor nasceu. b) A leitura do romance remete o leitor ao pro- cesso de autoajuda, claramente identificado pelas explicações dadas pelo personagem “pai” sobre a síndrome de Down. c) Na narrativa, as figuras da mãe e da irmã desviam o foco narrativo da relação pai e filho, ganhando peso na história que se de- senvolve no núcleo familiar. 99 02) o texto busca destacar a extrema dificul- dade de inclusão de crianças especiais e a impossibilidade de levá-las a desenvolver atividades mais elaboradas e que requei- ram bom desempenho verbal, como o te- atro. 04) segundo o texto, o filho do protagonista seria incapaz de produzir a frase “Pai, eu quero que você fique aqui comigo e veja a nossa peça” ou a frase “Ontem eu fui convidado pra ir numa festinha de ani- versário”. 08) o uso do recurso da dublagem e a esco- lha de um texto adaptado, “Comédia dos erros“, revelam, por parte do professor, respectivamente, criatividade para aju- dar seus alunos a superar dificuldades e confiança nas potencialidades das crian- ças especiais. 16) essa passagem, relatando as atividades de teatro na escola frequentada por Fe- lipe, é emblemática da visão alienada do protagonista, que vive num mundo intei- ramente fantasioso, onde cartuns cômi- cos se alternam com cenas dramáticas. É nesse plano irreal que se projetam, ao longo do livro, conflitos entre casais, por um lado, e entre pais e filhos, por outro. GABARITO 1. B 2. E 3. D 4. 01 + 04 + 08 = 13 L OBRAS C Vozes anoitecidas Obras L C Mia Couto 103 MIA COUTO “Sou um escritor africano, branco e de língua portuguesa. Porque o idioma estabelece o meu territó- rio preferencial de mestiçagem, o lugar de reinvenção de mim. Necessito inscrever na língua do meu lado português a marca da minha individualidade africana. Necessito tecer um tecido africano e só o sei fazer usando panos e linhas europeias. O gesto de bordar me ensina que estou inventando uma outra ordem e nessa ordem esses valores iniciais de nacionalidade já pouco importam.” (Mia Couto) O autor Mia Couto é africano e nasceu em Beira, Moçambique, no ano de 1955. Filho de portugueses que emi- graram para Moçambique em meados do século XX, Mia nasceu e foi escolarizado em Beira. Além de um exímio escritor, é laureado em Biologia e Jornalismo. É filho do jornalista e escritor Fernando Couto. Começou a escrever muito cedo, com 14 anos. O exemplo paterno motivou-o para as primeiras produções literárias e, mais tarde, para o jornalismo. Depois, descubriu a sua vocação na crônica e no conto. Desde a estreia do primeiro livro de poemas Raiz de orvalho (1983), impôs-se como um dos escritores mais dotados da nova geração. Publicou uma seleção de crônicas com o título Cronicando, ganhando o Prêmio Anual da Crônica, em seu país. Em 1992, foi publicada a obra Terra sonâmbula, que é um romance sobre os efeitos da guerra e a devastação da paisagem natural e humana. José Eduardo Agualusa e Germano de Almeida são os escritores da nova geração que podemos comparar com Mia Couto, em quantidade de obra e reconhecimento internacional. O estilo do escritor é inovador porque introduz elementos, expressões e léxico que não são característicos dos outros autores. Desde a infância, conheceu diversos grupos étnicos em Moçambique, de maneira que pôde contar as histórias do seu povo. Na narrativa, o autor intenta mostrar as culturas que fazem parte do mosaico étnico de Moçambique. A linguagem literária de Mia Couto é tocada pela oralidade e cheia de neologismos, de aglutinação, de prefixação e de outros modos de recriação do léxico. 104 Destaca-se mundialmente como escritor, autor de mais de 30 livros, entre prosa e poesia. Seu romance Terra sonâmbula é considerado pela crítica um dos dez melhores livros africanos do século XX. Recebeu uma série de prêmios literários, entre eles o Prêmio Camões de 2013, o mais prestigioso da língua portuguesa, e o Neustadt Prize de 2014. É membro correspondente da Academia Brasileira de Letras. Mia Couto é o escritor moçambicano mais tra- duzido. Em suas obras, recria a língua portuguesa com influência moçambicana, utilizando o léxico de várias regiões do país e produzindo um modelo peculiar de narrativa africana. Contexto histórico A maioria dos contos da coletânea mostra persona- gens passando por dificuldades e problemas sociais, questões que incomodavam Mia Couto, uma vez que na época em que o livro foi escrito, o país passava pela guerra civil e a população sofria com isso. Soldados da Frelimo durante a guerra civil em Moçambique Numa Moçambique devastada pela guerra, o cenário que se tem é o da devastação por conflitos armados sequenciais. O processo de independência ocorreu de 1965 a 1975, em que a batalha se deu contra o domínio português. Na sequência da recente independência e da liberdade conquistada frente ao domínio de Portugal, em 1975, dois partidos começam a conflitar pelo poder local: de um lado, o Renamo, e de outro, o Frelimo. Como se sabe, depois de dez anos de guerra anticolo- nial (1965-1975), o país do sudeste africano viu-se às voltas com um longo e sangrento conflito interno que se estendeu de 1976 a 1992. Este estado de coisas fez milhares de vítimas e arrasou o país. A obra Vozes anoitecidas é também um reco- nhecimento das marcas da cultura moçambicana. A guerra civil em Moçambique é o cenário da maioria dos contos, que têm um sentido trágico, cujo fim é a morte. Isso se particulariza nas histórias pessoais de cada uma das personagens e suas desventuras. VOZES ANOITECIDAS “O que mais dói na miséria é a ignorância que ela tem de si mesma. Confrontados com a ausência de tudo, os homens abstêm-se do sonho, desar- mando-se do desejo de serem outros. Existem no nada essa ilusão de plenitude que faz parar a vida e anoitecer as vozes.” 105 A obra é composta por uma coletânea de contos do moçambicano Mia Couto, escrita no ano de 1987 e publicada no Brasil só em 2013. O livro foi vencedor de alguns importantes prêmios da literatura mundial, tais como o Prêmio Camões, e reúne doze pequenos contos. Vozes anoitecidas foi o livro de estreia de Mia Couto na prosa, apesar de, antes disso, já atuar como escritor – era jornalista e escrevia poemas. Já era um poeta moçambicano com muito renome. A obra Vozes anoitecidas, em todo seu lirismo, pode ser interpretada como a voz daqueles que não a tem. Na maioria dos contos, a temática proposta gira em torno da relação entre o sexo feminino, que é exal- tado, e o masculino, que é criticado, claro, em função da sua violência. Outra característica presente e que deve rece- ber atenção especial para uma melhor interpretação será o abandono da delimitação clara de onde está a realidade e a imaginação. Este aspecto traz para as alegorias valorosas doses interpretativas, pensando que uma obra realista, que abrange uma dolorosa re- alidade local, por vezes se permite sonhar com a ima- ginação. Segundo Mia Couto, “para um leitor europeu, a referência a um homem que, de noite, se transmuta em hiena pode ser do domínio do fantástico. Mas para um moçambicano rural (e para a maioria dos urbanos), esse detalhe é da ordem do natural”. Diferentemente das obras posteriores do escri- tor Mia Couto, Vozes anoitecidas não abrange muito a área dos neologismos (apesar de possuir neologismos que devem receber atenção especial do estudante), ou seja, da criação de palavras que dão um tom lírico, po- ético, apesar de carregar sensibilidade lírica em outros aspectos, sobretudo a temática de desenvolvimento das tramas. EstruturaA obra está dividida em doze contos. A narrativa crua e poética de Mia Couto já pode ser observada nesses pequenos contos, que valorizam o folclore e a oralida- de de Moçambique, através de personagens fortes e enigmáticos. Em toda a obra, entrelaçam-se episódios fantásticos, trágicos e humorísticos que incluem per- sonagens interessantes representativos da sociedade moçambicana. Linguagem A língua utilizada pelo autor na escrita dos contos é uma forma de nos informar sobre a constante crise que a sociedade moçambicana vive, através das histórias trágicas do seu cotidiano. Porém, a língua é um dos meios escolhidos pelo autor para recuperar as marcas culturais da oralidade da sociedade tradicional, a visão do mundo mítica e o onirismo, ou seja, a relação entre o homem, a natureza e a comunidade. A língua é um sistema em constante mudança e parece que Mia Cou- to sabe aproveitar tudo o que ela oferece com tanta facilidade. Comum também é a recriação literária dos falares populares, uma característica que o aproxima do escritor Guimarães Rosa. Nos doze contos da obra Vozes anoitecidas, o autor utiliza a tradição africana, a oralidade, uma lin- guagem coloquial cheia de inovações linguísticas e os traços do fantástico para retratar os problemas cotidia- nos do povo moçambicano. Usando o humor, o escritor revela os acontecimentos mais trágicos daqueles que sofrem pela miséria e pobreza e que têm muitas difi- culdades no dia a dia. Além disso, usa ironia e humor negro para criticar a sociedade, a guerra civil e a ideo- logia política do país. 106 Contos A fogueira Mostra um senhor cavando a sepultura de sua velha esposa, ainda viva. A ideia central se apresenta com a figura da mulher submissa, apesar do marido se preocupar com o fato de que não queria deixar a esposa sofrer, no caso de ele morrer antes. Ao final, não morreu a mulher, mas faleceu o marido. Na obra de Mia Couto, a única coisa certa na vida do casal é a morte. — Somos pobres, só temos nadas. Nem ninguém não temos. É melhor começar já a abrir tua cova, mulher. A mulher comovida, sorriu: — Como és bom marido! Tive sorte no homem da minha vida. Durante duas semanas, o velho dedicou-se ao bura- co. Quanto mais perto do fim, mais se demorava. Foi de repente, vieram as chuvas. A campa ficou cheia de água, parecia um charco sem respeito. O velho amaldiçoou as nuvens e os céus que as trouxeram. O último aviso do corvo falador Surge uma mostra de realismo mágico, uma das marcas registradas do escritor Mia Couto. Neste conto, o mito se instala no processo narrativo sem nenhuma surpresa. O pintor Zuzé, após um acesso de tosse, cos- pe um corvo, animal este muito especial oriundo da fronteira da vida e capaz de fornecer informações so- bre os mortos através de seu crocito. As pessoas acre- ditavam que Zuzé era detentor de poderes mágicos. Ele prestava consultas a toda gente e previa-lhes o futuro. Certa vez, no seu consultório chegou a dona Cândida (mulher mulata e esposa de Sulemane, que era comer- ciante indiano). Também era viúva de um negro que se chamava Evaristo. Zuzé disse à dona Cândida que trouxesse as roupas de Sulemane. Zuzé queria con- seguir novas roupas e não resistiu e vestiu as roupas entregues, mas Sulemane soube que Zuzé tomou o seu vestuário e o encontro dos dois resultou em agressão física. O corvo foi morto. Após isso, Zuzé faz algumas profecias sobre o que aconteceria a Sulemane. Zuzé previu uma praga na cidade e decidiu abandonar a re- gião, e todos seguiram o exemplo. Foi ali, no meio da praça, cheio da gente bichando na cantina. Zuzé Paraza, pintor reformado, cuspiu migalhas do cigarro “mata-ratos”. Depois, tossiu sacudindo a magreza do seu todo corpo. Então, assim contam os que viram, ele vomitou um corvo vivo. A notícia, como um relâmpago, correu a povoação. Afinal, esse Zuzé! Era mesmo, o gajo. Dono de bru- xezas, realmente. No dia seguinte, todos levanta- ram cedo. Correram à casa de Zuzé Paraza. Todos queriam ver o pintor, todos queriam-lhe pedir favor, encomendar felicidades. O dia em que explodiu Mabata-bata Narrativa que começa com fatos aparentemen- te inconcebíveis para a lógica racional (de um boi que explode) e que quando ganham status de realidade ve- rossímil e explicável, imediatamente se tornam surre- ais. Mabata-bata era o boi mais forte da manada sob a responsabilidade de Azarias, um jovem pastor que era órfão e vivia com o tio Raul e a avó Carolina. Certo dia, o Mabata-bata pisou numa mina, que explodiu, e ele morreu. Já que Azarias não regres- sava com os bois, a avó Carolina ficou muito preocu- pada. Seu tio decidiu ir procurá-lo, porém Carolina não queria que ele fosse, pois os soldados haviam dito que a região estava cheia de minas. Conseguiram localizar Azarias e muito prometeram-lhe um prêmio que es- colhesse: ele disse que queria ir à escola no próximo ano e seu tio Raul aceitou. Porém, finda a conversa, Azarias, de igual modo, acionou uma mina e morreu. Os pássaros de Deus Narrativa de fundo analítico sobre as linhas que separam a crença da religião e da loucura. A história narra o encontro de Ernesto Timba com um pássaro e os devotados cuidados que ele começa a ter para com a criatura. Certa vez, Ernesto salvou uma ave ajudando-a a retomar voo. Porém, a ave sempre re- gressava ao barco dele, que achava ser um sinal de Deus. Levou-o para casa, deu a ele o peixe que havia pescado. A mulher achava que ele estava louco. O pás- 107 saro engordava e fica só. Ernesto pediu a Deus que enviasse uma companheira para a ave solitária. Com o tempo, tiveram crias e Ernesto cuidava mais das aves do que da própria família. A mulher abandonou o lar e levou os filhos com ela. As pessoas achavam que era louco. Numa tarde, encontrou as aves mortas: haviam sido queimadas pelo fogo. Chorando, pediu a Deus que não castigasse ninguém porque ele queria entregar-se em nome da comunidade. Dias depois, foi encontrado morto com o seu corpo na superfície do rio. Desculpa: mais peregrino que o rio não conheço. As ondas vão, vão nessa ida sem fim. Há quanto tempo a água tem esse serviço? Sozinho sobre a velha ca- noa, Ernesto Timba media a sua vida. De como se vazou a vida de Ascolino do Perpétuo Socorro Este conto narra as peripécias de um português que vai ao bar todos os dias, montado na bicicleta que seu empregado vai pedalando. Até que um dia, ao re- tornar para casa de uma de suas bebedeiras, descobre que sua mulher o abandonou, e parte em seu encalço. No bar, Ascolino contava aos amigos sobre os aconte- cimentos da sua vida. Houvesse ou não visitas, repetia-se o ritual. Vasco João Joãoquinho, fiel e dedicado empregado, surgia da sombra das mangueiras. Fardava caqui, balalaica e calção engomado. Aproximava-se trazendo uma bicicleta. Ascolino Fernandes, protocolar, inclinava- -se perante ausentes e presentes. O empregado en- tregava-lhe uma pequena almofada que ele ajeitava no quadro da bicicleta. Acomodava-se, com cuidado de não manchar as calças na corrente. Ultimados os preparos, Vasco João Joãoquinho montava no selim e, com um puxão vigoroso, dava início ao desfile. Afinal, Carlota Gentina não chegou de voar? O marido de Carlota Gentina já está na prisão há seis anos e o conto gira em torno de seu relato confessional sobre o assassinato de sua esposa. Para explicar o motivo pelo qual matou sua mulher, conta a história do seu cunhado Bartolomeu, que achava que a mulher dele era feiticeira porque uma noite deu um gri- to de animal. Então, o marido de Carlota queria testar se Carlota era animal e deveria submetê-la a um sofri- mento profundo. Decidiu derramar no corpo de Carlota água fervente. Curiosamente, ela não gritou e não fez nada. Apenas chorou baixinho. Quando trouxe Carlota para fora de casa, viu que ela tinha morrido e concluiu que era um pássaro, e depois ficava sonhandocom ela. Em seus sonhos, ela cantava e ele viu a própria morte confessando que era culpado pelo crime. Barto- lomeu era consciente de seu engano, por isso entre- gou-se à polícia. Bartolomeu foi à prisão e contou-lhe tudo como se passou. A mulher de Bartolomeu não era animal e isso ele confirmou muitas vezes. Nem “gati- nhava”, nem “passarinhava”, nada: era pessoa. E se a irmã de Carlota não era animal, Carlota também não podia ser. Saíde, o Lata de Água O conto é uma metáfora crítica à violência con- tra a mulher. Um dos mais poéticos contos do conjunto da obra. O personagem principal do conto é Saíde: um homem infértil. Em função disso, ele fez um contrato com a mulher Júlia que outro homem ia engravidá-la. Só queria ter um filho com ela, nada mais, e não impor- tava quem seria o pai da criança. Às noites, Júlia saía e voltava muito tarde, de forma que engravidou. Saíde festejou a notícia, mas queria saber o nome do pai. Fazia parte do contrato o fato de que Saíde nunca perguntaria sobre a paterni- dade do filho. Na vizinhança, ninguém desconfiava da identidade do pai. Saíde, às vezes, gostava do filho e, às vezes, lhe parecia como um intruso na sua vida. A vida se tornou difícil, então bebia muito e batia na mu- lher. Certa vez, Júlia foi-se embora e Saíde fingia todas as noites bater nela. Queria que os vizinhos pensassem que a família permaneceu intacta, porque se sentia envergonhado da partida da mulher. Apesar disso, foi descoberto uma noite pelo chefe do quarteirão, Severi- no, que decidiu guardar o segredo de Saíde. As baleias de Quissico A história deste conto é ligeiramente parecida com “O dia em que explodiu Mabata-bata”. Aqui tam- bém surge a estranha inversão entre o real e o fan- tástico, onde o mágico é mais plausível e o real (pelo contesto de guerra), incrível. A personagem Bento João Mussavele imagina que existem as baleias salvadoras 108 que vão salvar a população da pobreza. Conforme um jornalista tratava-se de um peixe grande que aparecia à noite na praia e as pessoas chegavam e pediam vá- rias coisas, especialmente comida. Porém, tudo isto era uma fantasia. O povo de lá estava com muita fome e, por isso, inventava esses aparecimentos. Bento decidiu perguntar aos sábios do bairro sobre o assunto. O preto Agostinho disse que a baleia não era peixe, mas um mamífero, e esse papo não convenceu Bento. Falou também com o senhor Almeida sem su- cesso. Nesse momento, Bento decidiu viajar para a costa do Quissico. Chegou às casas abandonadas da praia e instalou-se numa delas. Finalmente, numa noite acordou e saiu de casa completamente nu, entrando na água. Pensava que tinha ouvido a baleia chamar por ele. Mas era só um sonho. De como o velho Jossias foi salvo das águas Estória mítica sobre os ciclos de seca e enchen- tes e o destino do intitulado Jossias atrelado a eles. O Agosto e o velho Jossias estavam à espera da chuva. Recordavam a grande fome que ocorrera há vinte anos, bem como das cerimônias para pedir a chuva. Porém, nenhuma gota de chuva caiu e os velhos insistiram a tal ponto que conversaram com os mortos no cemité- rio. Jossias queria levar as panelas do ngovo – aguar- dente de milho para os mortos. No caminho, começou a beber e perdeu a ra- zão sem restar quase nada. Para esconder o que tinha feito, encheu as panelas com a água estagnada de um poço abandonado. No momento em que descia pelas paredes do velho poço, as mesmas caíram sobre ele. Imaginou, então, que ninguém o iria encontrar. Mas, de repente, Deus mandou chuva. A água crescia e toda a terra foi inundada. No instante em que apareceu um barco com dois pretos e um branco. Jossias hesitava porque esse barco não podia salvá-lo da desgraça na vida, só na morte. Preferia morrer ali, perto da sua casa e terra. Finalmente, os homens salvaram-no e ele agar- rou-se com a velha manta bebendo chá quente. A história dos aparecidos O aparecimento de desaparecidos tira do eixo toda uma aldeia, que entra em debate para decidir se os recém-chegados estariam vivos ou mortos, estopim em que se desvelam escusas administrações governa- mentais. Crítica indireta aos governantes corruptos. O debate decidiria se Luís Fernando e Aníbal Mucavel estavam mortos ou vivos. As águas levaram a aldeia inteira e não ficou nada no lugar. Salvaram-se muitos e alguns desapareceram, entre os quais estavam Luís e Aníbal. Eles morreram dentro da água, até que numa uma tarde apareceram outra vez. Os vivos estavam muito assustados com a che- gada deles e chamaram a polícia. Não havia lugar para os mortos de regresso imprevisto. Luís e Aníbal tornaram-se o assunto e tinham de ir às autoridades para explicarem a sua situação. Um homem disse-lhes que eram apenas almas, e não a realidade materialista como os outros habitantes. Nesse caso, eles decidiram queixar-se a uma comissão que trabalhou durante dois dias. Em seguida, convocaram uma assembleia geral dos aldeões em que o chefe da comissão anunciou que os aparecidos devessem ser considerados vivos. Mas não deveriam repetir essa saída da aldeia ou da vida. É uma verdade: os mortos não devem aparecer, sal- tar a fronteira do mundo deles. Só vêm desorgani- zar a nossa tristeza. Já sabemos com certeza: o tal desapareceu. Consolamos as viúvas, as lágrimas já deitamos, completas. A menina de futuro torcido Misto de ingenuidade e obsessão do Joseldo Bastante, que acaba por encaminhar sua filha, a Fi- lomeninha para um fim trágico. Joseldo Bastante era um mecânico da pequena vila. Viajava e procurava ma- neiras para solucionar a sua vida e ganhar dinheiro. Chegaram à cidade notícias de um jovem que conse- guia revirar o corpo como se fosse uma cobra. Todos queriam vê-lo e tornou-se muito rico, foi até contrata- do por um empresário. Em função disso, Joseldo, que tinha doze filhos, resolveu que Filomeninha deveria ser contorcionista. A partir desse momento, o pai treinava a sua filha a curvar, e ela iniciou as ginásticas, apesar de evo- luir lentamente. Pela manhã, regava-a com água quen- te para os ossos dela ficarem adaptáveis. A menina estava toda torcida para trás e queixava-se de dores, todavia o pai não parava. Desejava todos os dias que o empresário passasse pela vila. Enquanto isso, Filo- meninha piorava, já quase não andava e começou a vomitar. Numa tarde, chegou o empresário à cidade e 109 a menina queixava-se do frio e nem o vestido largo po- dia esconder as estremeções dela. O empresário disse- -lhes que não lhe interessava o contorcionismo porque já o tinha visto e não provocava sensação. Naquele momento, lhe interessavam os ti- pos com dentes de aço, que podiam roer madeira e mastigar pregos. Quando voltaram no comboio, o pai abanou o braço da filha e foi então que o corpo de Filomeninha caiu torcido no colo do pai. Patanhoca, o cobreiro apaixonado Uma narrativa hermética em que se misturam os mais diversos temas: da eutanásia à xenofobia. A história é de Mississe, uma viúva chinesa misteriosa e muito triste. Ela bebia álcool e, durante as noites, gri- tava e chorava. Patanhoca foi chamado, o mecânico de serpentes, porque agarrava as cobras e, como era feio, sempre escondia a sua cara. Apaixonou-se pela dona Mississe, porém tinha vergonha de mostrar o seu corpo. Também, Patanhoca usava as cobras para a fe- char. Tinha medo de que ela fugisse com outro homem. Só Patanhoca podia afastar as serpentes e permitir a entrada e saída das pessoas de casa. Na noite do dia seguinte, Mississe pediu-lhe que entrasse e ficasse com ela. Assim, eles passaram a morar juntos e tiveram dois filhos. Infelizmente, uma vez Patanhoca estava bêbado e perdeu o controle das cobras, que picaram os seus filhos. A perda dos filhos era demais para Mississe e ela decidiu abandoná-lo mudando-se para o subúrbio da cidade. Mississe re- jeitava todos os novos pretendentese nunca superou esta perda. Na última noite, Mississe convidou o João (esta era a maneira que ela o chamava) para beber vinho com ela. Intentava seduzir e embeber o Pata- nhoca e conseguiu mais uma vez, o cobreiro perdeu o controle das cobras e Mississe morreu. 110 APROFUNDE SEUS CONHECIMENTOS 5. O que a personagem do empresário, no con- to “A menina de futuro torcido”, justificou para não contratar o show da menina contor- cida? a) Procurava mais um homem, e não uma mu- lher para a função. b) Não trabalhava mais no ramo do circo. c) Não gostou da maneira com que a garota se contorcia. d) Procurava tipos com dentes de aço que po- diam roer madeira e mastigar pregos. e) Alegou não ter dinheiro suficiente para ter o serviço daquele colosso do contorcionismo. GABARITO 1. B 2. C 3. E 4 E 5. D 1. Leia o trecho de Vozes anoitecidas, de Mia Couto. É uma verdade: os mortos não devem apa- recer, saltar a fronteira do mundo deles. Só vêm desorganizar a nossa tristeza. Já sabe- mos com certeza: o tal desapareceu. Conso- lamos as viúvas, as lágrimas já deitamos, completas. (A história dos aparecidos) Este trecho refere-se à(ao): a) surgimento de uma nova vida na aldeia. b) aparecimento de Luís e Aníbal. c) retorno de Jossias. d) morte de Mississe. e) reinício da guerra civil. 2. Sobre a obra Vozes anoitecidas, responda o motivo pelo qual o conto ”Saíde, o Lata de Água” é uma metáfora da violência contra a mulher. a) Saíde cavou uma cova para Júlia. b) Saíde engravidou forçosamente Júlia. c) Saíde batia em Júlia. d) Saíde afogou cruelmente Júlia. e) Saíde maldizia Júlia para os vizinhos. 3. O destino de Azarias no conto “O dia em que explodiu Mabata-bata”, de Vozes anoiteci- das, revela o que sobre o contexto de Mo- çambique? a) A relação entre a população carente e os po- líticos corruptos. b) A falta de recursos hídricos que levaram Azarias à morte. c) Ser deputado foi honra de seu trabalho duro pelo povo de Moçambique. d) A mina detonada levou Azarias e seu animal à morte. e) A reforma política levou Azarias para longe da família. 4. Qual o motivo pelo qual as pessoas acredita- vam que a personagem de Zuzé, do conto “O último aviso do corvo falador”, era detentor de poderes mágicos? a) Tinha o poder de conversar com animais. b) Conseguia ver o passado das pessoas. c) Sobreviveu a uma terrível praga. d) Voava como um corvo. e) Vomitou um corvo vivo.