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cristoescrito@hotmail.com 2020 8. Rute Concepção Seus nomes dizem muito! Rute e Orfa – destinos distintos Rute e os gentios Boaz e o Remidor presente Fulano e o remidor ausente A linhagem tripla de Boaz 1. Concepção O livro de Rute é um parêntesis entre toda a sequência desas- trosa de Juízes e o próximo livro – o último juiz e profeta e ‘sacerdote’ Samuel. O livro insere um belo tipo da figura de Jesus e seu parentesco hábil para trazer os desterrados de Israel e agregar os gentios à famí- lia de Deus. É uma bela e triste história – com uma provisão final graciosa – de uma família que sai para peregrinar para fora de sua terra, em território estranho, com deuses e costumes estranhos. A morte de todos os homens desta família trará a oportunida- de de revelar o íntimo de duas mulheres estrangeiras – Rute e Orfa. Mais uma vez, como frisamos no livro anterior, os homens saem do cenário, restando às mulheres tomar decisões desafiadoras. Finalmente, dois homens surgem, um bem disposto a remir, outro mais preocupado com seus negócios. E nossa vida não é assim? A quem queremos servir? Aos outros ou a nós mesmos? Quem preza- mos mais? A lei graciosa de Deus ou a lei mesquinha dos homens? Um terá seu nome registrado para sempre, outro será esqueci- do para sempre. O livro gira em torno de três pessoas – Noemi, Rute e Boaz – e suas responsabilidades acrescidas pela morte de três outras. Interessante também notar que este é o oitavo livro, número que representa na Escritura as coisas novas. Um livro curto, porém de dimensões tipicamente incalculáveis e que vamos tentar trazer ao leitor e leitora em nossas próximas notas. 2. Seus nomes dizem muito! Há uma brincadeira – O que é, o que é? – que pergunta assim: ‘O que é, o que é que é seu mas é mais utilizado pelos outros?’ ‘Nossos nomes’ é a resposta. Todos os nomes da Escritura têm muito a dizer. Não quer dizer propriamente que todos os nomes que damos ou recebemos influencia- rão no resultado de nossas vidas. Mas nas “escrituras que não podem errar”, seus nomes sinalizam toda uma situação, uma relação, uma atu- ação. Em Rute podemos exemplificar. “E era o nome deste homem Elimeleque, e o de sua mulher No- emi, e os de seus dois filhos Malom e Quiliom, efrateus, de Belém de Judá” (1.2). Elimeleque significa ‘Deus é rei’ e Noemi, ‘Agradável’. Israel começou sua história muito bem represen- tado por estes nomes – fez uma aliança eterna com seu rei divino e se tornou agra- dável a Ele. Moisés entoou a con- dição do primeiro nome logo que saíram do Egito. “Tu os introduzirás, e os plantarás no monte da tua herança, no lugar que tu, ó Senhor, aparelhaste para a tua habitação, no santuário, ó Senhor, que as tuas mãos estabeleceram. O Senhor reinará eterna e perpetuamente” (Ex 15.17-18). A segunda condição fica registrada em Deuteronômio, relem- brando todo o ocorrido entre Moisés e seu povo antes de adentrarem à sua terra prometida. “Tão-somente o Senhor se agradou de teus pais para os amar; e a vós, descendência deles, escolheu, depois deles, de todos os povos como neste dia se vê” (Dt 10.15). Mas se este casal representa o estado do que era, ou do que es- perava Deus de seu povo, seus filhos Malom (Doente) e Quiliom (Tristeza) revelam o estado de coisas a que chegou este povo sem a direção divina e sua graça salvadora. Lembre-se de que comentamos em Juízes que cada um fazia o que bem entendia, e esta triste história se passa neste momento som- brio. “E sucedeu que, nos dias em que os juízes julgavam, houve uma fome na terra; por isso um homem de Belém de Judá saiu a pere- grinar nos campos de Moabe, ele e sua mulher, e seus dois fi- lhos” (1.1). A fome apareceu pois a verdadeira comida havia sido despreza- da. Assim como desprezaram o maná no passado, agora desprezaram suas leis eternas. O resultado não poderia ser outro a não ser a doença e a tristeza. Não nos fala muito dos dias de hoje? Doenças sociais, morais, mentais, espirituais que refletem um estado de profunda depressão co- mo nunca visto antes. A depressão é a doença da vez. A resposta se encontra em Rute – Amizade. “Adúlteros e adúlteras, não sabeis vós que a amizade do mundo é inimizade contra Deus? Portanto, qualquer que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus” (Tg 4.4). Os frutos certos da associação com o mundo são para o pecado e a tristeza, os frutos certos da associação com Deus são para a santi- dade e a plenitude. Passaremos em seguida às duas esposas tomadas em terra es- trangeira. 3. Rute e Orfa – destinos distintos Estas duas mulheres se ligaram aos dois filhos de Noemi quan- do estes “chegaram aos campos de Moabe, e ficaram ali” (1.2). As du- as mulheres eram moabitas. Moabe e seu irmão Amom eram filhos de Ló (sobr inho de Abraão) por um ato sexual ilícito com suas duas filhas depois do julga- mento de Sodoma e Gomorra. Não eram um povo inimigo de Israel, já que tinham certa parentela, mas tinham uma triste sentença sobre eles. “Nenhum amonita nem moabita entrará na congregação do Se- nhor; nem ainda a sua décima geração entrará na congregação do Se- nhor eternamente... Não lhes procurarás nem paz nem bem em todos os teus dias para sempre” (Dt 23.3,6). Mesmo assim, eles se ca- sam com elas porque Deus tem certos planos que não consegui- mos compreender. “E morreram também ambos, Malom e Quiliom, fican- do assim a mulher desamparada dos seus dois filhos e de seu ma- rido. Então se levantou ela com as su- as noras, e voltou dos campos de Moabe, porquanto na terra de Moabe ouviu que o Senhor tinha visitado o seu povo, dando-lhe pão” (1.5-6). Dez anos se refugiaram por aquela terra estrangeira, como diz o texto sagrado. Fugiram por causa da fome, e voltaram porque certa- mente um juiz havia libertado o povo e o Senhor tornou a abençoá-los. Então entra em cena a escolha direcionada pelo amor. “Então levantaram a sua voz, e tornaram a chorar; e Orfa bei- jou a sua sogra, porém Rute se apegou a ela” (1.14). Podemos chorar e beijar, mas poucos estão dispostos a abando- nar sua comodidade para servir alguém que nada tem a oferecer mate- rialmente. Orfa se foi, preferiu a comodidade, o certo, o costume. Rute se apegou ao destino daquela pobre mulher. Ouçamos suas palavras, ainda valem para hoje. “Disse, porém, Rute: Não me instes para que te abandone, e deixe de seguir-te; porque aonde quer que tu fores irei eu, e onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus; onde quer que morreres morrerei eu, e ali serei sepultada. Faça-me assim o Senhor, e outro tanto, se outra coisa que não seja a morte me separar de ti” (1.16-17). Uma pecadora estrangeira se dispôs a se juntar eternamente ao destino de uma pobre mulher que nada tinha a oferecer. Invertendo a figura, Deus se junta eternamente a pecadores que nada podem oferecer. Ele, no entanto, tem algo de supremo valor a oferecer – perdão e vida eterna. E fico profundamente irritado quando alguém levanta a suspeita de que um cristão verdadeiro, que se juntou a Cristo pela fé em Sua obra salvadora, pode perder sua salvação. Esta fala não é de Deus. É daquele que odeia nossas almas. Não é de alguém que amou o mundo de tal maneira... Que se despiu da divindade, vestiu-se da fraqueza humana e morreu por aqueles que não valem nada. Sua salvação é eterna, como seu caráter é perfeito e eter- no. É um Deus imutável em suas decisões. É um Deus justo e fiel que não quebra sua promessa. Uma vez salvos, salvos para sempre, SIM! Rute jurou fidelidade, quanto mais o Eterno! Orfa não saberá de nada destas coisas, ainda que chore ou beije sua sogra. Estas coisas só podem ser aquilatadas por aqueles que esti- verem próximos na vida e na morte, no muito ou no pouco. Como bem escreveu Paulo. “Sei estar abatido, esei também ter abundância; em toda a ma- neira, e em todas as coisas estou instruído, tanto a ter fartura, como a ter fome; tanto a ter abundância, como a padecer necessidade. Posso todas as coisas em Cristo que me fortalece” Fp 4.12-13). Rute terá um destino certo e gracioso, Orfa retornará ao seu destino comum e mortal. Em nossas relações com Deus, com nosso cônjuge, com nossos irmãos da carne e do corpo de Cristo, a quem temos nos assemelhado mais? Às meras lágrimas de Orfa ou à decisão imutável de Rute? Possamos nós também tomar decisões que não envolvam só o material, mas que busque o bem daqueles que nos cercam e atenda aos conselhos inabaláveis de nosso Deus. A seguir acompanharemos Rute e o destino dos gentios. 4. Rute e os gentios Pincelamos em nota anterior que, se os moabitas não eram ini- migos de Israel, também não eram amigos. Foi ordenado a Israel a res- peito deles que não procurassem “nem paz nem bem em todos os teus dias para sempre” (Dt 23.6). No entanto Boaz se compadeceu daquela pobre mulher, che- gando a declarar: “Bem se me contou quanto fizeste à tua sogra, depois da morte de teu marido; e deixaste a teu pai e a tua mãe, e a terra onde nasceste, e vieste para um povo que antes não conheceste. O Senhor retribua o teu feito; e te seja concedido pleno galardão da parte do Senhor Deus de Israel, sob cujas asas te vieste abrigar” (2.11- 12). Vimos que Noemi e seu marido peregrinavam desterrados pela fome em terra estranha. Seus filhos se misturaram com aquelas moabi- tas que não eram para eles. Creio que esta tipologia nos ensine sobre a posição dos gentios, durante o período de exercício de Israel. A lei tinha sido dada a eles, e os gentios estavam afastados de toda esta realidade, como bem declara Paulo. “Que naquele tempo estáveis [vós gentios] sem Cristo, separa- dos da comunidade de Israel, e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo” (Ef 2.12). Mas como “para com Deus, não há acepção de pessoas” (Rm 2.11), havia sempre a esperança, ditada pela própria lei de Moi- sés, de acolhimento do estran- geiro. “Como um natural entre vós será o estrangeiro que peregri- na convosco; amá-lo-ás como a ti mesmo, pois estrangeiros fostes na terra do Egito. Eu sou o Senhor vosso Deus” (Lv 19.34). Lembre-se de que a própria Rute decidiu pelo povo de Israel e pelo seu Deus. Era um tipo da misericórdia estendida aos gentios, tanto no exercício da lei em Moisés quanto na graça em Jesus. Assim como Is- rael, representado pela família de Elimeleque, peregrinava em terra estrangeira, Israel também agora [embora indevidamente em sua terra] vive distante de seu Deus, e a oportunidade de salvação é estendida aos gentios. “Para que a bênção de Abraão [relacionada somente a Israel pela Lei] chegasse aos gentios por Jesus Cristo, e para que pela fé nós [gentios] recebamos a promessa do Espírito” (Gl 3.14). Havia esperança para um estrangeiro que quisesse peregrinar e crer no Deus de Israel, assim como há esperança hoje para os gentios de participarem de tantas promessas dadas unicamente àquele povo, “a saber, que os gentios são coerdeiros [herdeiros juntamente com Israel debaixo deste período da graça sem as obras da lei], e de um mesmo corpo, e participantes da promessa em Cristo pelo evangelho” (Ef 3.6). “Mas agora em Cristo Jesus, vós [gentios], que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto” (Ef 2.13). É desta extensão graciosa que Rute ensina, mas que só pode ser validada pela obra de remissão de um homem – Boaz. É dele que falaremos em nosso próximo encontro. 5. Boaz e o Remidor presente Todos os símbolos e tipos que a Escritura proporciona são precisos e detalhados em inúmeros aspectos. O problema está sempre na nossa falta de intimidade com a Palavra para não alcançar sua ex- tensão espiritual. Temos tentado esboçar estes mui- tos sinais mas não é uma tarefa fácil. Falamos há pouco sobre a oportunidade dada aos gentios de alcançar as promessas a Abrão na pessoa de Rute. Agora tentaremos buscar os sinais correspondentes em Boaz. O nome Boaz, numa rápida busca pela internet, é interpretado como ‘rapidez’ ou ‘força’. E talvez estas duas virtudes formem o cará- ter deste exemplar israelita. A sua rapidez se nota na fala de Noemi a Rute. “Espera, minha filha, até que saibas como irá o caso, porque aquele homem não descansará até que conclua hoje este negó- cio” (3.18). Sua força se vê no fato da própria Bíblia descrevê-lo como “homem valente e poderoso” (2.1). E aqui nós devemos entrar na simbologia que temos insistido há algumas notas atrás. Ninguém duvida que Boaz seja tipo perfeito de Jesus, o verdadeiro remidor das almas. Eles tinham que cumprir duas condições: tinham que ser um parente próximo e deveriam ter condi- ções de pagamento para poder resgatar. Há duas seguranças de resgate para Israel em sua lei – o resgate da propriedade (leia Levítico 25) e o resgate do nome do herdeiro (leia Deuteronômio 25). O primeiro resgate traria os bens do falecido para a família no- vamente, não se passaria no caso da venda para um judeu de outra tri- bo ou pior ainda, para as mãos de um estrangeiro rico. O segundo res- gate dará um herdeiro para que haja “sucessor do nome do seu irmão falecido, para que o seu nome não se apague em Israel” (Dt 25.6). Noemi estava nesta dupla situação. Seu marido e seus dois fi- lhos morreram já em terra estranha e precisava agora vender suas pos- ses, portanto um remidor traria a terra de volta à sua família, como ela mesmo lamentou – “Cheia parti, porém vazia o Senhor me fez tor- nar” (1.21). E também não haveria um herdeiro para prosseguir a linhagem daquela família. Tudo seria muito mais fácil, se aquela esposa que re- solveu voltar com ela não fosse gentia. Boaz tinha tanto condições de comprar aquela terra de volta para a família de Noemi quanto era de parentesco próximo, como ela mesma garante. “Então Noemi disse à sua nora: Bendito seja ele do Senhor, que ainda não tem deixado a sua beneficência nem para com os vivos nem para com os mortos. Disse-lhe mais Noemi: Este homem é nosso pa- rente chegado, e um dentre os nossos remidores” (2.20). Boaz vai usar de certa astúcia santa para resgatar as duas obri- gações, tanto a terra como a esposa. Oferece primeiro a terra ao ‘fulano’ que tinha direito maior que ele, e depois atrela esta obrigação ao resgate também do herdeiro. “Ó fulano, vem cá, assenta-te aqui... Então disse ao remidor: Aquela parte da terra que foi de Elimeleque, nosso irmão, Noemi, que tornou da terra dos moabitas, está vendendo. E eu resolvi informar-te disso e dizer-te: Compra-a diante dos habitan- tes, e diante dos anciãos do meu povo; se a hás de redimir, redime-a, e se não a houveres de redimir, declara-mo, para que o saiba, pois outro não há senão tu que a redima, e eu depois de ti. Então disse ele: Eu a redimirei. Disse porém Boaz: No dia em que comprares a terra da mão de Noe- mi, também a comprarás da mão de Rute, a moabita, mulher do falecido, para suscitar o nome do falecido sobre a sua herança. Então disse o remidor: Para mim não a poderei redimir, para que não prejudique a minha herança; toma para ti o meu direito de remissão, porque eu não a poderei redimir” (4.1-6). O fulano só via a terra, Boaz via a mulher. Eu não preciso di- zer, certo da fidelidade de Deus, que este casal foi superiormente feliz. Quando um casamento está baseado na vontade do Senhor, com lei ou sem lei, ele é ditoso. Poderão aparecer problemas, mas eles serão supe- rados todos pela fidelidade e bondade divinas. Mas vamos ao tipo, e vou ser bem direto. Israel só terá a posse de sua terra novamente depois que nosso Boaz celeste desposar sua esposa gentia – a Igreja comprada com sangue. O sanguemisturado do judeu Boaz ao sangue da moabita derruba toda inimizade, toda separa- ção religiosa que Paulo adverte. “Mas agora em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe [gentios], já pelo sangue de Cristo chegastes perto [judeus]. Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos [gentios e judeus] fez um [a Igreja]; e, der rubando a parede de separação que estava no meio, na sua carne desfez a inimizade, isto é, a lei dos mandamen- tos, que consistia em ordenanças, para criar em si mesmo dos dois um novo homem, fazendo a paz” (Ef 2.13-15). Ainda vamos comentar sobre as distinções da Igreja e de Isra- el. Deus tem plano bem definido para os dois. Podemos adiantar que, na presente era da formação da Igreja ou corpo de Cristo, nenhuma distinção há entre um gentio individual e um judeu individual – ambos se salvam na oferta do Evangelho da morte e ressurreição de Jesus pe- la fé unicamente. No entanto, a nação de Israel como um todo está co- mo que ‘congelada’ no plano divino. Agem segundo os rumos de Juí- zes, fazendo o que bem entendem. Mas quando a Igreja for chamada aos céus em breve para seu casamento celestial com nosso Boaz, Israel entrará em cena novamen- te. Voltando ao nosso tipo, não é por acaso que da união de Boaz e Rute descenda o rei Davi, e mais adiante o Rei dos Reis. Mas se Boaz aceitou sua dupla obrigação, aquele fulano rejei- tou uma delas. É dele que falaremos a seguir. Pois não pode faltar um til ou um jota em todos os aspectos da Palavra de Deus. 6. Fulano e o remidor ausente Vimos na nota anterior que Boaz se prontificou a resgatar tanto a terra quanto a suscitar descendência à família de Elimeleque, pois se seu nome bem significa ‘Deus é rei’, este rei precisaria de um príncipe. Vimos também que Noemi tinha um remidor ainda mais próximo, que a Escritura resolveu chamá-lo simplesmente de ‘fulano’. Então perguntamos – Se Boaz que aceitou o encargo da dupla remissão representa nosso remidor Jesus, e ninguém questiona o con- trário, quem representaria este fulano? Sei que vou entrar numa conversa perigosa, mas não posso dei- xar de seguir a tipologia bíblica. Não podemos ter medo de buscar a verdade. Vou ser claro e direto – representa Lúcifer quando ainda minis- trava nas regiões celestiais. Na tríade de anjos nomeados e autorizados pela Escritura – Mi- guel, Gabriel e Lúcifer, coube o exercício triplo ministerial – Governo, Profecia e Sacerdócio respectivamente. Esta mesma ordem tem seu paralelo divino no Pai, Espírito Santo e Filho. Há todo um embasa- mento doutrinário, com farta demonstração de casos, tipos, símbolos, inúmeras passagens que fortalecem estes paralelos mas que não posso adentrar neste espaço. Vou tocar algumas vezes neste assunto confor- me o andamento das notas pelos livros seguintes. Mas você pode ter um bom início sobre o tema lendo outro li- vro deste autor – ‘O princípio da substituição dos mordomos desde a esfera celeste’ – exposto livremente em https://issuu.com/ ministerioescrito/docs/do_verdadeiro_-_substitui____o O texto em Rute garante que não havia nenhuma dificuldade para o fulano em comprar a terra, o problema estava em se associar a uma estrangeira. “Para mim não a poderei redimir, para que não prejudique a minha herança; toma para ti o meu direito de remissão, porque eu não a poderei redimir” (4.6). Ele só enxergava a terra, a mulher seria um empecilho. Mas o que me parece demonstrar bem o caráter dos dois remidores era a pena ou sinal imposto ao desertor. “Havia, pois, já de muito tempo este costume em Israel, quanto a remissão e permuta, para confirmar todo o negócio; o homem descal- çava o sapato e o dava ao seu próximo; e isto era por testemunho em Israel. Disse, pois, o remidor a Boaz: Toma-a para ti. E descalçou o sapa- to” (4.7-8). Há uma bela descrição das armas do cristão na figura guerreira usada por Paulo. “Portanto, tomai toda a armadura de Deus... Estai, pois, firmes, tendo cingidos os vossos lombos com a verdade, e vestida a couraça da justiça; e calçados os pés na preparação do evangelho da paz... Tomai também o capacete da salvação, e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus” (Ef 6.13-17). O fulano não estava preparado para testemunhar da paz, para garantir graciosamente vida àquela pobre estrangeira. Se fosse uma israelita seria diferente. Seu sapato é removido e entregue a Boaz “porque ao que tem, ser-lhe-á dado; e, ao que não tem, até o que tem lhe será tirado” (Mc 4.25). Lúcifer, como sacerdote que era, também teve a oportunidade no passado remoto de oferecer seus dons a uma humanidade que ainda cairia. Mas ele não poderia se rebaixar, como o Filho fez, ao ponto de descer à esfera humana para salvar seres que não eram de sua ordem, de sua ca- tegoria, de sua glória. Uma conversa no tem- po mais distante conclama alguém que tives- se coragem, humildade e amor suficientes para remir uma humanidade que viria a se perder. “Depois disto ouvi a voz do Senhor, que dizia: A quem envia- rei, e quem há de ir por nós? Então disse eu: Eis-me aqui, envia-me a mim. Então disse ele: Vai, e dize a este povo: Ouvis, de fato, e não enten- deis, e vedes, em verdade, mas não percebeis” (Is 6.8-9). A resposta vai muito além do envio de Isaías, mas fala das pa- lavras que o próprio Senhor Jesus pronunciou em seu ministério terre- no. Portanto, um dia o Pai perguntou ao seu santo séquito quem se ha- bilitaria a ir no caminho do homem que se perderia bem à frente. Lúci- fer calou-se, o Filho bradou. “E outra vez: Porei nele [em Jesus] a minha confiança. E outra vez: Eis-me aqui a mim, e aos filhos que Deus me deu” (Hb 2.13). Eu não tenho dúvida alguma de que naquele momento o anjo perdeu muito, espiritualmente falando, e que vai refletir em todo seu ministério, no mesmo sentido do texto que citamos acima de Mc 4.25. A partir daqui começa sua queda espiritual, de abismo em abismo, até que seu coração se eleva ao ponto de cobiçar o próprio trono de Deus e que comentaremos em breve quando analisarmos Absalão, filho dileto de Davi. Interessante notarmos, quando da tentação de Jesus no deserto por este insistente inimigo, que ele só tem a oferecer terra, glória, hon- ra, mas nada relacionado a salvação, humildade, perdão. Ele não só perdeu seu sapato, primeiro degrau da perdição, mas perdeu todas as suas armas espirituais. Todo alto privilégio encerra em si mesmo grande responsabili- dade, e quando o primeiro é desprezado o segundo é trazido à memó- ria. Um privilégio desprezado é caminho certo para perdermos não só o privilégio, mas todas as coisas que a acompanham. O fulano perdeu o privilégio de possuir uma mulher sem igual, então perdeu também seu direito à terra. Boaz terá tudo, porque se submeteu à vontade de Deus além da lei em si mesma. A lei é dura e sem misericórdia, a gra- ça é leve e transformadora. Se há dificuldade em aceitar o que falamos acima, não pode- mos contudo desprezar todo seu conteúdo. A Escritura e o Espírito Santo, aliados à perseverança no estudo, devem ser nosso norte nas questões de difícil interpretação. Virar o rosto não iluminará nossas dúvidas íntimas, nossa perplexidade em questões de cunho eterno e invisível. E assim como as sementes do Fulano e Lúcifer ficaram desco- nhecidas e perdidas, as de Boaz e Jesus gritarão para sempre. É o que veremos em nossa próxima nota. 7. A linhagem tripla de Boaz Como comentamos em nossa segunda nota a respeito da impor- tância moral e espiritual dos nomes bíblicos, também aqui a semente tripla de Boaz dirá muito da última. “Boaz gerou a Obede, e Obede gerou a Jessé, e Jessé gerou a Davi” (Rt 4.21-22). Vimos que o nome Boaz está relacionado tanto à rapidez quan- to força. Sua determinação espiritual levou a uma sequência genética admirável de filhos e nomes que produzemo caráter precioso de Davi ao final. Obede significa ‘o que serve’ e também possivelmente ‘o que adora’. Davi que viria desta linhagem foi servo perfeito tanto quanto pastoreava as ovelhas de seu pai bem como servia o rei Saul. Adorava ao Senhor dos Exércitos de forma exemplar com um cuidado extrema- do. Jessé significa "Deus existe" ou "presente de Deus". Jessé mostra um Deus presente na vida de Davi, como bem atestam as Escrituras, e do ponto de vista de Israel, foi um presente divino para a nação como um rei sem igual, tanto em determinação na conquista de espaço na Palestina de então, como no zelo em cumprir a vontade do Senhor. Graças a Boaz, tanto uma linha piedosa é preservada em meio à confusão dos juízes, como vimos nas anotações do livro anterior, co- mo um rei conforme o coração do Senhor será provisionado à futura nação. Desnecessário dizer que todas as características descritas acima falam sumamente do Filho de Deus – Ele veio para servir ao Pai e aos homens, adorar seu Pai na beleza da Sua santidade, revelar o Deus in- visível e presentear a humanidade caída com a maior das graças, seu sacrifício na cruz. Também desnecessário dizer que o cristão – hoje – não poderia ser diferente do caráter daquele que ele diz que crê e serve. Boaz e Rute são luz na escuridão do período de Juízes, abrindo caminho para o próximo livro que vamos analisar a seguir – Samuel. Até lá pela graça de Deus em Cristo Jesus!