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Prévia do material em texto

cristoescrito@hotmail.com 
2020 
8. Rute 
Concepção 
Seus nomes dizem muito! 
Rute e Orfa – destinos distintos 
Rute e os gentios 
Boaz e o Remidor presente 
Fulano e o remidor ausente 
A linhagem tripla de Boaz 
 
1. Concepção 
 
O livro de Rute é um parêntesis entre toda a sequência desas-
trosa de Juízes e o próximo livro – o último juiz e profeta e 
‘sacerdote’ Samuel. 
O livro insere um belo tipo da figura de Jesus e seu parentesco 
hábil para trazer os desterrados de Israel e agregar os gentios à famí-
lia de Deus. 
É uma bela e triste história – com uma provisão final graciosa 
– de uma família que sai para peregrinar para fora de sua terra, em 
território estranho, com deuses e costumes estranhos. 
A morte de todos os homens desta família trará a oportunida-
de de revelar o íntimo de duas mulheres estrangeiras – Rute e Orfa. 
Mais uma vez, como frisamos no livro anterior, os homens 
saem do cenário, restando às mulheres tomar decisões desafiadoras. 
Finalmente, dois homens surgem, um bem disposto a remir, 
outro mais preocupado com seus negócios. E nossa vida não é assim? 
A quem queremos servir? Aos outros ou a nós mesmos? Quem preza-
mos mais? A lei graciosa de Deus ou a lei mesquinha dos homens? 
Um terá seu nome registrado para sempre, outro será esqueci-
do para sempre. 
O livro gira em torno de três pessoas – Noemi, Rute e Boaz – 
e suas responsabilidades acrescidas pela morte de três outras. 
Interessante também notar que este é o oitavo livro, número 
que representa na Escritura as coisas novas. 
Um livro curto, porém de dimensões tipicamente incalculáveis 
e que vamos tentar trazer ao leitor e leitora em nossas próximas notas. 
 
2. Seus nomes dizem muito! 
 
Há uma brincadeira – O que é, o que é? – que pergunta assim: 
‘O que é, o que é que é seu mas é mais utilizado pelos outros?’ 
‘Nossos nomes’ é a resposta. 
Todos os nomes da Escritura têm muito a dizer. Não quer dizer 
propriamente que todos os nomes que damos ou recebemos influencia-
rão no resultado de nossas vidas. Mas nas “escrituras que não podem 
errar”, seus nomes sinalizam toda uma situação, uma relação, uma atu-
ação. Em Rute podemos exemplificar. 
“E era o nome deste homem Elimeleque, e o de sua mulher No-
emi, e os de seus dois filhos Malom e Quiliom, efrateus, de Belém 
de Judá” (1.2). 
Elimeleque significa ‘Deus é rei’ e Noemi, ‘Agradável’. 
Israel começou sua 
história muito bem represen-
tado por estes nomes – fez 
uma aliança eterna com seu 
rei divino e se tornou agra-
dável a Ele. 
Moisés entoou a con-
dição do primeiro nome logo 
que saíram do Egito. 
“Tu os introduzirás, e os plantarás no monte da tua herança, no 
lugar que tu, ó Senhor, aparelhaste para a tua habitação, no santuário, 
ó Senhor, que as tuas mãos estabeleceram. O Senhor reinará eterna e 
perpetuamente” (Ex 15.17-18). 
A segunda condição fica registrada em Deuteronômio, relem-
brando todo o ocorrido entre Moisés e seu povo antes de adentrarem à 
sua terra prometida. 
“Tão-somente o Senhor se agradou de teus pais para os amar; e 
a vós, descendência deles, escolheu, depois deles, de todos os povos 
como neste dia se vê” (Dt 10.15). 
Mas se este casal representa o estado do que era, ou do que es-
perava Deus de seu povo, seus filhos Malom (Doente) e Quiliom 
(Tristeza) revelam o estado de coisas a que chegou este povo sem a 
direção divina e sua graça salvadora. 
Lembre-se de que comentamos em Juízes que cada um fazia o 
que bem entendia, e esta triste história se passa neste momento som-
brio. 
“E sucedeu que, nos dias em que os juízes julgavam, houve 
uma fome na terra; por isso um homem de Belém de Judá saiu a pere-
grinar nos campos de Moabe, ele e sua mulher, e seus dois fi-
lhos” (1.1). 
A fome apareceu pois a verdadeira comida havia sido despreza-
da. Assim como desprezaram o maná no passado, agora desprezaram 
suas leis eternas. O resultado não poderia ser outro a não ser a doença 
e a tristeza. 
Não nos fala muito dos dias de hoje? Doenças sociais, morais, 
mentais, espirituais que refletem um estado de profunda depressão co-
mo nunca visto antes. A depressão é a doença da vez. 
A resposta se encontra em Rute – Amizade. 
“Adúlteros e adúlteras, não sabeis vós que a amizade do mundo 
é inimizade contra Deus? Portanto, qualquer que quiser ser amigo do 
mundo constitui-se inimigo de Deus” (Tg 4.4). 
Os frutos certos da associação com o mundo são para o pecado 
e a tristeza, os frutos certos da associação com Deus são para a santi-
dade e a plenitude. 
Passaremos em seguida às duas esposas tomadas em terra es-
trangeira. 
 
3. Rute e Orfa – destinos distintos 
 
Estas duas mulheres se ligaram aos dois filhos de Noemi quan-
do estes “chegaram aos campos de Moabe, e ficaram ali” (1.2). As du-
as mulheres eram moabitas. 
Moabe e seu irmão Amom eram filhos de Ló (sobr inho de 
Abraão) por um ato sexual ilícito com suas duas filhas depois do julga-
mento de Sodoma e Gomorra. Não eram um povo inimigo de Israel, já 
que tinham certa parentela, mas tinham uma triste sentença sobre eles. 
“Nenhum amonita nem moabita entrará na congregação do Se-
nhor; nem ainda a sua décima geração entrará na congregação do Se-
nhor eternamente... Não lhes procurarás nem paz nem bem em todos 
os teus dias para sempre” (Dt 23.3,6). 
Mesmo assim, eles se ca-
sam com elas porque Deus tem 
certos planos que não consegui-
mos compreender. 
“E morreram também 
ambos, Malom e Quiliom, fican-
do assim a mulher desamparada 
dos seus dois filhos e de seu ma-
rido. 
Então se levantou ela com as su-
as noras, e voltou dos campos de 
Moabe, porquanto na terra de 
Moabe ouviu que o Senhor tinha 
visitado o seu povo, dando-lhe 
pão” (1.5-6). 
Dez anos se refugiaram por aquela terra estrangeira, como diz o 
texto sagrado. Fugiram por causa da fome, e voltaram porque certa-
mente um juiz havia libertado o povo e o Senhor tornou a abençoá-los. 
Então entra em cena a escolha direcionada pelo amor. 
“Então levantaram a sua voz, e tornaram a chorar; e Orfa bei-
jou a sua sogra, porém Rute se apegou a ela” (1.14). 
Podemos chorar e beijar, mas poucos estão dispostos a abando-
nar sua comodidade para servir alguém que nada tem a oferecer mate-
rialmente. Orfa se foi, preferiu a comodidade, o certo, o costume. Rute 
se apegou ao destino daquela pobre mulher. Ouçamos suas palavras, 
ainda valem para hoje. 
“Disse, porém, Rute: Não me instes para que te abandone, e 
deixe de seguir-te; porque aonde quer que tu fores irei eu, e onde quer 
que pousares, ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o 
meu Deus; onde quer que morreres morrerei eu, e ali serei sepultada. 
Faça-me assim o Senhor, e outro tanto, se outra coisa que não seja a 
morte me separar de ti” (1.16-17). 
Uma pecadora estrangeira se dispôs a se juntar eternamente ao 
destino de uma pobre mulher que nada tinha a oferecer. 
Invertendo a figura, Deus se junta eternamente a pecadores que 
nada podem oferecer. Ele, no entanto, tem algo de supremo valor a 
oferecer – perdão e vida eterna. E fico profundamente irritado quando 
alguém levanta a suspeita de que um cristão verdadeiro, que se juntou 
a Cristo pela fé em Sua obra salvadora, pode perder sua salvação. 
Esta fala não é de Deus. É daquele que odeia nossas almas. 
Não é de alguém que amou o mundo de tal maneira... Que se despiu da 
divindade, vestiu-se da fraqueza humana e morreu por aqueles que não 
valem nada. Sua salvação é eterna, como seu caráter é perfeito e eter-
no. É um Deus imutável em suas decisões. É um Deus justo e fiel que 
não quebra sua promessa. Uma vez salvos, salvos para sempre, SIM! 
Rute jurou fidelidade, quanto mais o Eterno! 
Orfa não saberá de nada destas coisas, ainda que chore ou beije 
sua sogra. Estas coisas só podem ser aquilatadas por aqueles que esti-
verem próximos na vida e na morte, no muito ou no pouco. Como bem 
escreveu Paulo. 
“Sei estar abatido, esei também ter abundância; em toda a ma-
neira, e em todas as coisas estou instruído, tanto a ter fartura, como a 
ter fome; tanto a ter abundância, como a padecer necessidade. Posso 
todas as coisas em Cristo que me fortalece” Fp 4.12-13). 
Rute terá um destino certo e gracioso, Orfa retornará ao seu 
destino comum e mortal. 
Em nossas relações com Deus, com nosso cônjuge, com nossos 
irmãos da carne e do corpo de Cristo, a quem temos nos assemelhado 
mais? Às meras lágrimas de Orfa ou à decisão imutável de Rute? 
Possamos nós também tomar decisões que não envolvam só o 
material, mas que busque o bem daqueles que nos cercam e atenda aos 
conselhos inabaláveis de nosso Deus. 
A seguir acompanharemos Rute e o destino dos gentios. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
4. Rute e os gentios 
 
Pincelamos em nota anterior que, se os moabitas não eram ini-
migos de Israel, também não eram amigos. Foi ordenado a Israel a res-
peito deles que não procurassem “nem paz nem bem em todos os teus 
dias para sempre” (Dt 23.6). 
No entanto Boaz se compadeceu daquela pobre mulher, che-
gando a declarar: 
“Bem se me contou quanto fizeste à tua sogra, depois da morte 
de teu marido; e deixaste a teu pai e a tua mãe, e a terra onde nasceste, 
e vieste para um povo que antes não conheceste. 
O Senhor retribua o teu feito; e te seja concedido pleno galardão da 
parte do Senhor Deus de Israel, sob cujas asas te vieste abrigar” (2.11-
12). 
Vimos que Noemi e seu marido peregrinavam desterrados pela 
fome em terra estranha. Seus filhos se misturaram com aquelas moabi-
tas que não eram para eles. 
Creio que esta tipologia nos ensine sobre a posição dos gentios, 
durante o período de exercício de Israel. A lei tinha sido dada a eles, e 
os gentios estavam afastados de toda esta realidade, como bem declara 
Paulo. 
“Que naquele tempo estáveis [vós gentios] sem Cristo, separa-
dos da comunidade de Israel, e estranhos às alianças da promessa, 
não tendo esperança, e sem 
Deus no mundo” (Ef 2.12). 
Mas como “para com Deus, não 
há acepção de pessoas” (Rm 
2.11), havia sempre a esperança, 
ditada pela própria lei de Moi-
sés, de acolhimento do estran-
geiro. 
“Como um natural entre vós será o estrangeiro que peregri-
na convosco; amá-lo-ás como a ti mesmo, pois estrangeiros fostes na 
terra do Egito. Eu sou o Senhor vosso Deus” (Lv 19.34). 
Lembre-se de que a própria Rute decidiu pelo povo de Israel e 
pelo seu Deus. 
Era um tipo da misericórdia estendida aos gentios, tanto no 
exercício da lei em Moisés quanto na graça em Jesus. Assim como Is-
rael, representado pela família de Elimeleque, peregrinava em terra 
estrangeira, Israel também agora [embora indevidamente em sua terra] 
vive distante de seu Deus, e a oportunidade de salvação é estendida 
aos gentios. 
“Para que a bênção de Abraão [relacionada somente a Israel 
pela Lei] chegasse aos gentios por Jesus Cristo, e para que pela fé nós 
[gentios] recebamos a promessa do Espírito” (Gl 3.14). 
Havia esperança para um estrangeiro que quisesse peregrinar e 
crer no Deus de Israel, assim como há esperança hoje para os gentios 
de participarem de tantas promessas dadas unicamente àquele povo, “a 
saber, que os gentios são coerdeiros [herdeiros juntamente com Israel 
debaixo deste período da graça sem as obras da lei], e de um mesmo 
corpo, e participantes da promessa em Cristo pelo evangelho” (Ef 3.6). 
“Mas agora em Cristo Jesus, vós [gentios], que antes estáveis 
longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto” (Ef 2.13). 
É desta extensão graciosa que Rute ensina, mas que só pode ser 
validada pela obra de remissão de um homem – Boaz. 
É dele que falaremos em nosso próximo encontro. 
 
 
 
 
 
5. Boaz e o Remidor presente 
 
Todos os símbolos e tipos que a Escritura 
proporciona são precisos e detalhados em inúmeros 
aspectos. O problema está sempre na nossa falta de 
intimidade com a Palavra para não alcançar sua ex-
tensão espiritual. Temos tentado esboçar estes mui-
tos sinais mas não é uma tarefa fácil. 
Falamos há pouco sobre a oportunidade dada aos gentios de 
alcançar as promessas a Abrão na pessoa de Rute. Agora tentaremos 
buscar os sinais correspondentes em Boaz. 
O nome Boaz, numa rápida busca pela internet, é interpretado 
como ‘rapidez’ ou ‘força’. E talvez estas duas virtudes formem o cará-
ter deste exemplar israelita. 
A sua rapidez se nota na fala de Noemi a Rute. 
“Espera, minha filha, até que saibas como irá o caso, porque 
aquele homem não descansará até que conclua hoje este negó-
cio” (3.18). 
Sua força se vê no fato da própria Bíblia descrevê-lo como 
“homem valente e poderoso” (2.1). 
E aqui nós devemos entrar na simbologia que temos insistido 
há algumas notas atrás. Ninguém duvida que Boaz seja tipo perfeito de 
Jesus, o verdadeiro remidor das almas. Eles tinham que cumprir duas 
condições: tinham que ser um parente próximo e deveriam ter condi-
ções de pagamento para poder resgatar. Há duas seguranças de resgate 
para Israel em sua lei – o resgate da propriedade (leia Levítico 25) e o 
resgate do nome do herdeiro (leia Deuteronômio 25). 
O primeiro resgate traria os bens do falecido para a família no-
vamente, não se passaria no caso da venda para um judeu de outra tri-
bo ou pior ainda, para as mãos de um estrangeiro rico. O segundo res-
gate dará um herdeiro para que haja “sucessor do nome do seu irmão 
falecido, para que o seu nome não se apague em Israel” (Dt 25.6). 
Noemi estava nesta dupla situação. Seu marido e seus dois fi-
lhos morreram já em terra estranha e precisava agora vender suas pos-
ses, portanto um remidor traria a terra de volta à sua família, como ela 
mesmo lamentou – “Cheia parti, porém vazia o Senhor me fez tor-
nar” (1.21). 
E também não haveria um herdeiro para prosseguir a linhagem 
daquela família. Tudo seria muito mais fácil, se aquela esposa que re-
solveu voltar com ela não fosse gentia. 
Boaz tinha tanto condições de comprar aquela terra de volta 
para a família de Noemi quanto era de parentesco próximo, como ela 
mesma garante. 
“Então Noemi disse à sua nora: Bendito seja ele do Senhor, que 
ainda não tem deixado a sua beneficência nem para com os vivos nem 
para com os mortos. Disse-lhe mais Noemi: Este homem é nosso pa-
rente chegado, e um dentre os nossos remidores” (2.20). 
Boaz vai usar de certa astúcia santa para resgatar as duas obri-
gações, tanto a terra como a esposa. Oferece primeiro a terra ao 
‘fulano’ que tinha direito maior que ele, e depois atrela esta obrigação 
ao resgate também do herdeiro. 
“Ó fulano, vem cá, assenta-te aqui... Então disse ao remidor: 
Aquela parte da terra que foi de Elimeleque, nosso irmão, Noemi, 
que tornou da terra dos moabitas, está vendendo. 
E eu resolvi informar-te disso e dizer-te: Compra-a diante dos habitan-
tes, e diante dos anciãos do meu povo; se a hás de redimir, redime-a, e 
se não a houveres de redimir, declara-mo, para que o saiba, pois outro 
não há senão tu que a redima, e eu depois de ti. Então disse ele: Eu 
a redimirei. 
Disse porém Boaz: No dia em que comprares a terra da mão de Noe-
mi, também a comprarás da mão de Rute, a moabita, mulher do 
falecido, para suscitar o nome do falecido sobre a sua herança. 
Então disse o remidor: Para mim não a poderei redimir, para que não 
prejudique a minha herança; toma para ti o meu direito de remissão, 
porque eu não a poderei redimir” (4.1-6). 
O fulano só via a terra, Boaz via a mulher. Eu não preciso di-
zer, certo da fidelidade de Deus, que este casal foi superiormente feliz. 
Quando um casamento está baseado na vontade do Senhor, com lei ou 
sem lei, ele é ditoso. Poderão aparecer problemas, mas eles serão supe-
rados todos pela fidelidade e bondade divinas. 
Mas vamos ao tipo, e vou ser bem direto. Israel só terá a posse 
de sua terra novamente depois que nosso Boaz celeste desposar sua 
esposa gentia – a Igreja comprada com sangue. O sanguemisturado do 
judeu Boaz ao sangue da moabita derruba toda inimizade, toda separa-
ção religiosa que Paulo adverte. 
“Mas agora em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe 
[gentios], já pelo sangue de Cristo chegastes perto [judeus]. 
Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos [gentios e judeus] 
fez um [a Igreja]; e, der rubando a parede de separação que estava 
no meio, na sua carne desfez a inimizade, isto é, a lei dos mandamen-
tos, que consistia em ordenanças, para criar em si mesmo dos dois um 
novo homem, fazendo a paz” (Ef 2.13-15). 
 Ainda vamos comentar sobre as distinções da Igreja e de Isra-
el. Deus tem plano bem definido para os dois. Podemos adiantar que, 
na presente era da formação da Igreja ou corpo de Cristo, nenhuma 
distinção há entre um gentio individual e um judeu individual – ambos 
se salvam na oferta do Evangelho da morte e ressurreição de Jesus pe-
la fé unicamente. No entanto, a nação de Israel como um todo está co-
mo que ‘congelada’ no plano divino. Agem segundo os rumos de Juí-
zes, fazendo o que bem entendem. 
Mas quando a Igreja for chamada aos céus em breve para seu 
casamento celestial com nosso Boaz, Israel entrará em cena novamen-
te. 
Voltando ao nosso tipo, não é por acaso que da união de Boaz e 
Rute descenda o rei Davi, e mais adiante o Rei dos Reis. 
Mas se Boaz aceitou sua dupla obrigação, aquele fulano rejei-
tou uma delas. É dele que falaremos a seguir. Pois não pode faltar um 
til ou um jota em todos os aspectos da Palavra de Deus. 
6. Fulano e o remidor ausente 
 
Vimos na nota anterior que Boaz se prontificou a resgatar tanto 
a terra quanto a suscitar descendência à família de Elimeleque, pois se 
seu nome bem significa ‘Deus é rei’, este rei precisaria de um príncipe. 
Vimos também que Noemi tinha um remidor ainda mais próximo, que 
a Escritura resolveu chamá-lo simplesmente de ‘fulano’. 
Então perguntamos – Se Boaz que aceitou o encargo da dupla 
remissão representa nosso remidor Jesus, e ninguém questiona o con-
trário, quem representaria este fulano? 
Sei que vou entrar numa conversa perigosa, mas não posso dei-
xar de seguir a tipologia bíblica. Não podemos ter medo de buscar a 
verdade. 
Vou ser claro e direto – representa Lúcifer quando ainda minis-
trava nas regiões celestiais. 
Na tríade de anjos nomeados e autorizados pela Escritura – Mi-
guel, Gabriel e Lúcifer, coube o exercício triplo ministerial – Governo, 
Profecia e Sacerdócio respectivamente. Esta mesma ordem tem seu 
paralelo divino no Pai, Espírito Santo e Filho. Há todo um embasa-
mento doutrinário, com farta demonstração de casos, tipos, símbolos, 
inúmeras passagens que fortalecem estes paralelos mas que não posso 
adentrar neste espaço. Vou tocar algumas vezes neste assunto confor-
me o andamento das notas pelos livros seguintes. 
Mas você pode ter um bom início sobre o tema lendo outro li-
vro deste autor – ‘O princípio da substituição dos mordomos desde a 
esfera celeste’ – exposto livremente em https://issuu.com/
ministerioescrito/docs/do_verdadeiro_-_substitui____o 
O texto em Rute garante que não havia nenhuma dificuldade 
para o fulano em comprar a terra, o problema estava em se associar a 
uma estrangeira. 
“Para mim não a poderei redimir, para que não prejudique a 
minha herança; toma para ti o meu direito de remissão, porque eu não 
a poderei redimir” (4.6). 
Ele só enxergava a terra, a mulher seria um empecilho. Mas o 
que me parece demonstrar bem o caráter dos dois remidores era a pena 
ou sinal imposto ao desertor. 
“Havia, pois, já de muito tempo este costume em Israel, quanto 
a remissão e permuta, para confirmar todo o negócio; o homem descal-
çava o sapato e o dava ao seu próximo; e isto era por testemunho 
em Israel. 
Disse, pois, o remidor a Boaz: Toma-a para ti. E descalçou o sapa-
to” (4.7-8). 
Há uma bela descrição das armas do cristão na figura guerreira 
usada por Paulo. 
“Portanto, tomai toda a armadura de Deus... Estai, pois, firmes, 
tendo cingidos os vossos lombos com a verdade, e vestida a couraça da 
justiça; e calçados os pés na preparação do evangelho da paz... Tomai 
também o capacete da salvação, e a espada do Espírito, que é a palavra 
de Deus” (Ef 6.13-17). 
O fulano não estava preparado para testemunhar da paz, para 
garantir graciosamente vida àquela pobre estrangeira. Se fosse uma 
israelita seria diferente. Seu sapato é removido e entregue a Boaz 
“porque ao que tem, ser-lhe-á dado; e, ao que não tem, até o que tem 
lhe será tirado” (Mc 4.25). 
Lúcifer, como sacerdote que era, também teve a oportunidade 
no passado remoto de oferecer seus dons a 
uma humanidade que ainda cairia. Mas ele 
não poderia se rebaixar, como o Filho fez, ao 
ponto de descer à esfera humana para salvar 
seres que não eram de sua ordem, de sua ca-
tegoria, de sua glória. Uma conversa no tem-
po mais distante conclama alguém que tives-
se coragem, humildade e amor suficientes para remir uma humanidade 
que viria a se perder. 
“Depois disto ouvi a voz do Senhor, que dizia: A quem envia-
rei, e quem há de ir por nós? Então disse eu: Eis-me aqui, envia-me a 
mim. 
Então disse ele: Vai, e dize a este povo: Ouvis, de fato, e não enten-
deis, e vedes, em verdade, mas não percebeis” (Is 6.8-9). 
A resposta vai muito além do envio de Isaías, mas fala das pa-
lavras que o próprio Senhor Jesus pronunciou em seu ministério terre-
no. Portanto, um dia o Pai perguntou ao seu santo séquito quem se ha-
bilitaria a ir no caminho do homem que se perderia bem à frente. Lúci-
fer calou-se, o Filho bradou. 
“E outra vez: Porei nele [em Jesus] a minha confiança. E outra 
vez: Eis-me aqui a mim, e aos filhos que Deus me deu” (Hb 2.13). 
Eu não tenho dúvida alguma de que naquele momento o anjo 
perdeu muito, espiritualmente falando, e que vai refletir em todo seu 
ministério, no mesmo sentido do texto que citamos acima de Mc 4.25. 
A partir daqui começa sua queda espiritual, de abismo em abismo, até 
que seu coração se eleva ao ponto de cobiçar o próprio trono de Deus e 
que comentaremos em breve quando analisarmos Absalão, filho dileto 
de Davi. 
Interessante notarmos, quando da tentação de Jesus no deserto 
por este insistente inimigo, que ele só tem a oferecer terra, glória, hon-
ra, mas nada relacionado a salvação, humildade, perdão. Ele não só 
perdeu seu sapato, primeiro degrau da perdição, mas perdeu todas as 
suas armas espirituais. 
Todo alto privilégio encerra em si mesmo grande responsabili-
dade, e quando o primeiro é desprezado o segundo é trazido à memó-
ria. Um privilégio desprezado é caminho certo para perdermos não só 
o privilégio, mas todas as coisas que a acompanham. O fulano perdeu 
o privilégio de possuir uma mulher sem igual, então perdeu também 
seu direito à terra. Boaz terá tudo, porque se submeteu à vontade de 
Deus além da lei em si mesma. A lei é dura e sem misericórdia, a gra-
ça é leve e transformadora. 
Se há dificuldade em aceitar o que falamos acima, não pode-
mos contudo desprezar todo seu conteúdo. A Escritura e o Espírito 
Santo, aliados à perseverança no estudo, devem ser nosso norte nas 
questões de difícil interpretação. Virar o rosto não iluminará nossas 
dúvidas íntimas, nossa perplexidade em questões de cunho eterno e 
invisível. 
E assim como as sementes do Fulano e Lúcifer ficaram desco-
nhecidas e perdidas, as de Boaz e Jesus gritarão para sempre. É o que 
veremos em nossa próxima nota. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
7. A linhagem tripla de Boaz 
 
Como comentamos em nossa segunda nota a respeito da impor-
tância moral e espiritual dos nomes bíblicos, também aqui a semente 
tripla de Boaz dirá muito da última. 
“Boaz gerou a Obede, e Obede gerou a Jessé, e Jessé gerou a 
Davi” (Rt 4.21-22). 
Vimos que o nome Boaz está relacionado tanto à rapidez quan-
to força. Sua determinação espiritual levou a uma sequência genética 
admirável de filhos e nomes que produzemo caráter precioso de Davi 
ao final. 
Obede significa ‘o que serve’ e também possivelmente ‘o que 
adora’. 
Davi que viria desta linhagem foi servo perfeito tanto quanto 
pastoreava as ovelhas de seu pai bem como servia o rei Saul. Adorava 
ao Senhor dos Exércitos de forma exemplar com um cuidado extrema-
do. 
Jessé significa "Deus existe" ou "presente de Deus". 
Jessé mostra um Deus presente na vida de Davi, como bem 
atestam as Escrituras, e do ponto de vista de Israel, foi um presente 
divino para a nação como um rei sem igual, tanto em determinação na 
conquista de espaço na Palestina de então, como no zelo em cumprir a 
vontade do Senhor. 
Graças a Boaz, tanto uma linha piedosa é preservada em meio à 
confusão dos juízes, como vimos nas anotações do livro anterior, co-
mo um rei conforme o coração do Senhor será provisionado à futura 
nação. 
Desnecessário dizer que todas as características descritas acima 
falam sumamente do Filho de Deus – Ele veio para servir ao Pai e aos 
homens, adorar seu Pai na beleza da Sua santidade, revelar o Deus in-
visível e presentear a humanidade caída com a maior das graças, seu 
sacrifício na cruz. 
Também desnecessário dizer que o cristão – hoje – não poderia 
ser diferente do caráter daquele que ele diz que crê e serve. 
Boaz e Rute são luz na escuridão do período de Juízes, abrindo 
caminho para o próximo livro que vamos analisar a seguir – Samuel. 
Até lá pela graça de Deus em Cristo Jesus!

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