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Sociedade, educação e vida moral/ RODRIGUES, Alberto Tosi. Sociologia da Educação. Rio de Janeiro: Lamparina, 2007, 6. ed. “[...] o francês Émile Durkheim (1858-1917) vislumbrou em sua obra a existência de um ‘reino social’, que seria distinto do mineral e do vegetal.” (p.18) "Ele chamava este reino social, às vezes, de ‘reino moral’. O reino moral seria o lugar onde se processariam justamente os ‘fenômenos morais’, e seria composto por ambientes constituídos pelas ‘idéias’ ou pelos ‘ideais’ coletivos.” (p. 18) “[...] O senso comum, as maneiras habituais de pensar são, portanto, contrárias ao estudo científico dos fenômenos sociais. [...] Daí a necessidade de tratar os fatos sociais como coisas.” (p.19-20) “Tratar os fatos sociais como coisas, portanto, é uma postura intelectual, uma atitude mental.” (p. 20) “Por outro lado, é possível reconhecer o fenômeno social porque ele se impõe aos indivíduos, ou seja, os fatos sociais exercem coerção sobre os comportamentos individuais.” (p. 20) “Para ele, as representações podem ser individuais (pessoais) ou coletivas (compartilhadas). As representações sobre os fatos sociais são representações coletivas [...]. Na cabeça desse ser social que habita em nós não trafegam apenas estados mentais pessoais, mas um conjunto de crenças, de hábitos, de valores, os quais não revelam coisas que ‘pensamos com nossa própria cabeça’ [...]. Revelam, sim, o quanto há dos outros em nós.” (p.21) “As representações coletivas [...], elas não derivam dos indivíduos considerados isoladamente, mas de sua cooperação.” (p. 21) “Se agimos segundo a vontade da sociedade, é porque assim aprendemos. Por que fomos educados para isso. Essa educação, naturalmente, não se faz no vácuo. Ela tem conteúdos. Tais conteúdos são dados pelo meio moral que compartilhamos.” (p. 22-23) “Este meio moral, nos diz Durkheim, é produzido pela cooperação entre os indivíduos, através de um processo de interação que chamou de divisão do trabalho social. [...] E este tipo diferente de cooperação, por sua vez, dá origem a uma vida moral diferente. Vida moral que será a base dos conteúdos transmitidos na forma de crença, valores e normas de geração para geração. E que cada nova geração, ao nascer, recebe pronta na forma de educação.” (p. 23) “Durkheim observa que uma condição fundamental para que a sociedade possa existir é a presença de um consenso. Pois sem consenso não há cooperação entre os indivíduos e, portanto, não há vida social.” (p. 24) “Quando os homens possuem pouca divisão do trabalho em sua vida em comum, existe entre eles um tipo de solidariedade baseado na semelhança entre as pessoas. [...] O tipo de solidariedade que se estabelece entre essas pessoas é o que Durkheim chama de solidariedade mecânica. As pessoas estão juntas porque fazem juntas as mesmas coisas.” (p. 24) “Na sociedade industrial moderna há uma solidariedade por diferença e não mais por semelhança. É o que Durkheim chama de solidariedade orgânica. As pessoas não estão juntas porque fazem as mesmas coisas, mas o contrário: estão juntas porque fazem coisas diferentes e, portanto, para viver (inclusive para comer, beber e vestir) dependem das outras, que fazem coisas que elas não querem ou não são mais capazes de fazer.” (p. 25) “A diferenciação social, isto é, a passagem da solidariedade mecânica para a orgânica, é similar à luta pela sobrevivência no reino animal. A divisão do trabalho, para Durkheim, é a solução pacífica da luta pela vida.” (p. 25) “Durkheim assinala que quando há pouca divisão do trabalho e, em decorrência, solidariedade mecânica, a consciência coletiva é mais forte e extensiva a um número maior de pessoas. Isso ocorre porque desempenhando funções sociais muito semelhantes, os indivíduos pensam ‘com a mesma cabeça’, por assim dizer. Quando, ao contrário, há muita divisão do trabalho e, em decorrência, solidariedade orgânica, cada pessoa, em diversas circunstâncias da vida, tem uma margem maior de liberdade, para pensar e agir por conta própria.” (p. 25-26) “[...] E quando há forte diferenciação social há muitos lugares diferentes de onde se olhar as regras. A tendência será, então, o conflito, decorrente da competição imposta pela diferenciação. Os indivíduos passam a guiar-se pela busca da satisfação de interesses que são cada vez mais pessoais e cada vez menos coletivos, [...]. É assim que Durkheim vê um fenômeno extremamente disseminado nos dias de hoje: o individualismo.” (p. 26) “[...] quanto mais individualista em termos de crenças e valores é uma sociedade, mais importante se torna resolver o problema de como preservar uma parte da consciência coletiva, que era quase total nas sociedades pouco diferenciadas. Pois quanto mais o individualismo cresce, mais a consciência coletiva diminui. Se fosse deixada para seguir seu rumo sem controle, a solidariedade orgânica (baseada na diferença) provocaria a desintegração da sociedade, provocaria o que Durkheim chamou de anomia, isto é, a ausência de regras, o caos.” (p. 27) “Assim, a educação, para Émile Durkheim, é essencialmente o processo pelo qual aprendemos a ser membros da sociedade. A educação é socialização.” (p. 27) “Para Durkheim, a educação adequada é a educação própria ao meio moral que cada um compartilha. [...] Assim, não existe uma educação única para que aprendam a ser membros da sociedade.” (p. 28) “É fundamental que haja certa homogeneidade, e a educação deve perpetuá-la e reforçá-la na alma da criança que é educada, insistiu o sociólogo francês. Assim como é fundamental para ele que, a partir de certo ponto, a educação se diferencie, para adequar as crianças a seus meios específicos de vida.” (p. 28-29) “[...] ser igual e diferente ao mesmo tempo. Só a educação pela qual passamos é capaz de nos fazer assim. E é por isso que a educação é um processo social.” (p. 29