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1 Beatriz Machado de Almeida Gastroenterologia – Hemorragia digestiva – Aula 6 Hemorragia digestiva *Observação sobre hemorragia digestiva crônica: Não foi abordada em aula, pois os pacientes com episódios recorrentes de hemorragia digestiva serão acompanhados em consultório e a frequência de investigação diagnóstica é muito semelhante àquela que será feita na emergência, a diferença é que, no caso da crônica, é feita ao longo de semanas a meses. Além disso, não há a necessidade de estabilizar o paciente, de iniciar terapia aguda. Mas as causas da hemorragia são basicamente as mesmas, embora em níveis de gravidade diferentes. Introdução • Ocorrência comum: ❖ Consultórios e emergências; ❖ Em termos de consulta, tanto com o clínico geral quanto com o gastro, e até mesmo durante o plantão (clínica, cirurgia, pediatria), muito provavelmente aparecerão pacientes com hemorragia digestiva. • Admissões hospitalares. ❖ É a causa mais comum de admissão hospitalar. ❖ Até 150/100.000 – população geral dos EUA; O dado varia de acordo com a referência. Não se atentar ao número. Lembrar apenas que é uma ocorrência comum e é uma causa de internação hospitalar. ❖ Mortalidade 5-10%; Grau importante de morbimortalidade. ❖ Incidência se mantém estável, embora o tratamento clínico das doenças que causam hemorragia digestiva, como às úlceras, por exemplo, seja bom. • Potencialmente fatal x ambulatorial: Existe o paciente que vai para emergência e o que está bem em casa, com episódios discretos e que se dirige ao ambulatório. Não significa que o paciente ambulatorial não tenha uma doença potencialmente fatal; o paciente pode ter um câncer que sangra pouco e tem apenas episódios repetidos de hematoquezia, ou seja, não deixa de ser um paciente mais grave, embora não seja aquele paciente com risco de vida iminente. Enquanto existem os casos em que o paciente pode ter uma hemorragia muito importante, que ele chega instável na emergência, com choque hipovolêmico, onde outras considerações precisam ser feitas. • Diversas causas: ❖ Condições benignas/doenças graves. Existem diferentes causas de hemorragia digestiva, das mais variadas, desde uma úlcera, doença, a princípio, benigna, uma gastrite, uma esofagite até doenças muito graves, como uma cirrose com varizes de esôfago, CA, colite isquêmica, etc. • Diferentes manifestações: Por ter etiologia variada, os pacientes têm diferentes manifestações, muitas vezes apresentando apenas a hemorragia. Principalmente nos casos que chegam na emergência, não se sabe por que o paciente está sangrando e, às vezes, não se tem muito tempo para tentar descobrir a causa do sangramento antes de fazer alguma medida. • História detalhada: Além da queixa principal, ou seja, além do sangramento, o que esse paciente tem? Será que esse paciente tem outro sinal de descompensação de doença hepática? Será que, além da hemorragia, o paciente tem icterícia? Ascite? Ou será que tem outros sinais como telangiectasia, eritema palmar, rarefação de pelos ou ginecomastia? História de doença hepática (para pensar em doença hepática descompensada)? Será que pode ser um sangramento por varizes de esôfago? Será que esse paciente tem uma história prévia de dispepsia? Uma dor epigástrica em queimação que piora com alimentos e que acorda o paciente à noite (para pensar em úlcera)? Esse paciente já vinha vomitando por algum outro motivo e no 4°/5° episódio de vômito saiu um pouco de sangue (para suspeitar de laceração de esôfago – Síndrome de Mallory-Weiss)? Todas essas perguntas são feitas considerando hemorragia digestiva alta. Hemorragia digestiva baixa – O paciente é homem? Idoso? Sem sintomas prévios? (para suspeitar de doença diverticular sangrando). • Exame físico: São a história clínica detalhada e o exame físico que darão um norte, embora, no contexto da emergência, isso nem sempre significa mudança de conduta. A não 2 Beatriz Machado de Almeida Gastroenterologia – Hemorragia digestiva – Aula 6 ser que se suspeite de hemorragia digestiva por varizes de esôfago, nesses casos, se muda a conduta. Exames complementares; ❖ Logicamente, são fundamentais. Conceitos importantes Hematêmese: Paciente vomita sangue. Existe a sensação de vômito, e o paciente põe, pela boca, sangue, podendo esse sangue ser vivo ou meio amassado/mais escuro (borra de café – sangramento tem um pouco mais de tempo que ocorreu). Resumindo, é pela boca e com sensação de vômito. Atenção para não confundir com hemoptise (tosse com sangue). A hematêmese, em geral, é sinal de hemorragia digestiva alta. Hematoquezia: Sangue visível nas fezes, podendo ser sangue vivo ou um sangue marrom escuro, vermelho vinho. Geralmente: sangramento de cólon esquerdo → sangue é vermelho vivo; sangramento de cólon direito → o sangue pode sair um pouco mais vermelho vinho ou amarronzado. Hematoquezia, sangue vivo nas fezes, habitualmente, significa hemorragia digestiva baixa, embora a HDA possa se manifestar como hematoquezia, por exemplo, uma hemorragia digestiva alta muito volumosa ou um paciente cujo trânsito intestinal está muito acelerado. O volume de sangue é tão grande ou ele está se movendo tão rápido, que não dá tempo de o sangue ser digerido e se tornar melena. * Enterorragia: Algumas referências trazem esse conceito, que significa a saída de sangue muito volumoso pelo ânus. Embora a maioria das referências traga apenas o conceito de hematoquezia, acrescentando que ela pode ser muito volumosa. Melena: Sangue digerido nas fezes. (Quem já viu ou já sentiu o cheiro, não esquece). As fezes ficam pretas, cor de piche, preguentas e com cheiro terrível. Melena, em geral, é sinal de hemorragia digestiva alta, porque o sangue já está a muito tempo sendo digerido. Hematêmese e melena, habitualmente, são sinais de hemorragia digestiva alta. Da mesma forma que com a hematoquezia, um paciente com hemorragia digestiva baixa pode apresentar melena. Por exemplo, um paciente que esteja com trânsito intestinal muito lento, pode manifestar hemorragia digestiva baixa como melena. Tipos de hemorragias digestivas Alta x Baixa Pela definição clássica: ❖ Hemorragia digestiva alta: Tudo aquilo que ocorre acima/antes do ângulo de Treitz. ❖ Hemorragia digestiva baixa: Tudo aquilo que ocorre abaixo/após o ângulo de Treitz. Essa definição clássica tem sido pouco utilizada. Atualmente, uma outra definição é incluída, que é a de hemorragia digestiva média. Média A hemorragia digestiva média seria no intestino delgado depois do duodeno (jejuno e íleo). Hemorragia digestiva alta é tudo aquilo que pode ser acessado pela EDA (até o duodeno), enquanto a hemorragia digestiva baixa é tudo aquilo que pode ser acessado pela colonoscopia (cólon, reto). Durante um tempo, a hemorragia digestiva média era classificada/chamada como obscura. Obscura A hemorragia digestiva obscura é aquela que, mesmo após EDA e colonoscopia bem feitas, não se sabe a causa, dúvida da localização. Não é sinônimo de hemorragia digestiva média. Mesmo que o exame tenha sido bem feito, a causa da hemorragia digestiva pode ser uma HD baixa que passou despercebida na colonoscopia. Geralmente, depois dos exames bem feitos, uma hemorragia digestiva, que ainda não se viu a causa, ou seja, que continua sendo obscura, essa hemorragia costuma ser de jejuno e íleo (média). Acaba uma coisa significando a outra, mas não são sinônimos. Sangramento oculto O sangue oculto nas fezes é um sangue que pode vir de qualquer lugar do trato (hemorragia alta, baixa, média), mas que não está clinicamente visível. É um sangramento de pouco volume, que não muda o aspecto das fezes. É aquele paciente que perde 5/10mL no dia. São quantidades que não são suficientes nem para o paciente vomitarsangue, nem para fazer 3 Beatriz Machado de Almeida Gastroenterologia – Hemorragia digestiva – Aula 6 hematoquezia (na maioria das vezes), a menos que seja um sangramento orificial (perto do ânus). Deve ser pesquisado através de análise bioquímicas das fezes. Isso vale para qualquer sangramento de pequena monta, pois qualquer um deles pode ser um sangramento obscuro. Autolimitada em até 80% dos casos Esse é um outro conceito importante. A hemorragia digestiva é autolimitada em 80% dos casos. Então, na maioria dos casos, mesmo aqueles que chegam na emergência relatando que sangraram muito, o sangramento para sozinho. O que não significa que o paciente não vá sangrar novamente a qualquer momento, com isso, o paciente precisa, muitas vezes, ser manejado de forma rápida. Para lembrar do conceito clássico de hemorragia alta e baixa. A alta seria tudo até o ângulo de Treitz, enquanto a baixa seria tudo depois do ângulo de Treitz. Mas esse conceito de usar apenas o ângulo de Treitz é pouco utilizado em provas, por exemplo, de gastro. (Nas provas da matéria também não pretende cobrar o conceito dessa forma, por ser um conceito um pouco ultrapassado). O paciente chegou. E a agora? Quando o paciente chega para ser atendido, ainda não se sabe a causa do sangramento. Ele chega falando que sangrou, o médico ainda não sabe se foi por cima, por baixo. Princípios clínicos Primeiro é preciso ter calma e pensar que tem certas coisas que serão importantes independente de qual é a situação. Exemplo, se está lidando com um paciente com edema agudo de pulmão, choque cardiogênico, hemorragia digestiva e sepse, a primeira coisa a ser feita é a estabilização hemodinâmica. • Estabilização hemodinâmica: As coisas são feitas simultaneamente; ao mesmo tempo que se checa o pulso, pode ir olhando a mão do paciente (ver se há eritema palmar, por exemplo), mas a primeira coisa do exame físico inicial é avaliar se o paciente está estável ou instável. O paciente tem taquicardia? Hipotensão? Tontura? Mucosas descoradas? Rebaixamento do nível de consciência? Como está o padrão ventilatório? Qual o seu estado hemodinâmico? (Não necessariamente o choque em si, mas as alterações hemodinâmicas da perda sanguínea têm estágios. Começa com o paciente tendo apenas taquicardia, que evolui para uma hipotensão ortostática, depois hipotensão supina). Portanto, deve-se procurar por sinais de instabilidade nesse paciente. • Parada do sangramento ativo: O paciente ainda está com sangramento ativo? Porque se sim, é interessante agir para tentar interromper esse sangramento que está ativo. • Tratamento da doença de base: Avaliada a estabilidade do paciente e feita a resolução do sangramento ativo, é preciso investigar qual é a doença de base para tratá-la. • Prevenção de novo episódio: Definida a doença de base, é preciso prevenir novos episódios de sangramento. Avaliação inicial Teremos várias fases da abordagem desse paciente. • Determinar a gravidade: A avaliação inicial do paciente é para determinar a gravidade do quadro. Quanto sangrou? Sangrou muito? Encheria um copo de café? Uma colher de sopa? Quanto sangrou (tanto por cima quanto por baixo, não importa)? Fazer perguntas de quantidade dessa forma para que o paciente possa estimar um valor em mL. ❖ Sinais vitais – Procurar indícios de choque. ❖ Hipotensão, taquicardia, extremidades (Como está o tempo de enchimento capilar desse paciente? O pulso está cheio? Filiforme?). Primeira coisa é ir atrás dos sinais de estabilidade clínica. História clínica: Enquanto se avalia o estado clínico do paciente, de forma simultânea, perguntar como foi que aconteceu. 4 Beatriz Machado de Almeida Gastroenterologia – Hemorragia digestiva – Aula 6 ❖ Características do sangramento: Foi uma hematêmese? Melena? Hematoquezia? Sangrou muito? Pouco? Não perguntar a quantidade em mL, mas sim com objetos do dia a dia, para caracterizar o volume do sangramento. ❖ Possibilidades diagnósticas: Qual a história que o paciente tem? Que outros dados ele tem? Por exemplo, é um paciente que já tem história sugestiva de dispepsia? Dispepsia sugestiva de úlcera, de gastrite, de DRGE? Ou é um paciente com indícios de doença hepática crônica, tanto pela história clínica quanto pelo exame físico? É um paciente idoso que veio com hematoquezia do nada, ou seja, hemorragia digestiva baixa sem sintomas prévios, o que sugere doença diverticular? • Exame físico: ❖ Sonda nasogástrica? – É um tanto que controverso. Não necessariamente o paciente chega à emergência sangrando, às vezes, ele relata que houve sangramento. Nesses casos, é possível passar a sonda nasogástrica com dois objetivos: confirmar que existiu um sangramento e dar uma limpada para preparar o paciente para endoscopia. Deve-se passar a sonda nasogástrica, observar o retorno da sonda e colocar um pouco de soro dentro do estômago através da sonda e puxar o soro de volta, fazendo a lavagem para ver o que volta (se vem sangue). Se veio sangue, a depender da coloração do sangramento, já é possível identificar se realmente foi uma hemorragia digestiva alta. Quanto a passagem da sonda, as referências divergem; algumas falam que em todo paciente deve ser feita a sondagem nasogástrica, porque, de qualquer forma, mesmo que não encontre nada, está limpando potenciais resquícios que tenham ficado no trato, melhorando a endoscopia. Outras referências evidenciam que não há benefícios. Havendo dúvida se o paciente tem hemorragia digestiva alta ou não e se quer investigar, a passagem da sonda com a lavagem é uma possibilidade. A passagem da sonda nasogástrica também é interessante nos casos dos pacientes que apresentam hematoquezia e, mesmo assim, se suspeita de hemorragia digestiva alta. • Internar ou não internar? Decidir se interna ou não o paciente. Lógico que, se o paciente está instável ou se o sangramento foi volumoso, não tem muito o que pensar, é um paciente que precisa de internamento. Mas aquele paciente que chega relatando um pequeno sangramento quando passou o papel higiênico para se limpar ou que caiu uma gotinha no vaso sanitário, que pintou a água do vaso e a água ficou meio rosa, esses são indícios de sangramentos orificiais. Os sangramentos orificiais são causados por fissuras anais, hemorroidas. Ou, ainda, aquele paciente que relata escape de um pouco de sangue após tossir e apresenta esse quadro pelos últimos 3 meses. A depender da condição do paciente, se ele vai conseguir acompanhar esse quadro no ambulatório, é possível optar por garantir a estabilidade clínica e liberar esse paciente. Mas a decisão pelo internamento do paciente é uma decisão difícil e individualizada, ou seja, deve-se olhar caso a caso. Avaliação inicial – reanimação • SIMULTANEAMENTE: O paciente chegou, tendo sinal de instabilidade hemodinâmica (como se fosse no trauma), enquanto se está colhendo a história e fazendo o exame físico, passar dois acessos calibrosos e hidratar o paciente. • Um ou dois cateteres calibrosos: ❖ Cristaloide – Será feito de volume para o paciente o quanto for necessário, o quanto aquele paciente tolerar de volume (alguns não toleram tanto volume, por exemplo, um paciente com insuficiência cardíaca – entra o dilema, porque o paciente chega hipotenso mas se for feito muito volume para ele, ele encharca e faz edema pulmonar). ❖ Sistólica > 100; FC < 100* – Idealmente, hidratar o paciente para tentar manter a PAM acima de um certo nível (sistólica acima de 100 mm/Hg) e a FC abaixo de 100 bpm. ❖ *Embora existam os valores para guiar o atendimento, o ideal é se guiar pelo seu paciente e por sua melhora clínica. • Concentrado de hemácias: Muitas vezes, é preciso fazer transfusão de sangue mesmo (concentrado dehemácias). Deve ser uma coisa bem indicada. 5 Beatriz Machado de Almeida Gastroenterologia – Hemorragia digestiva – Aula 6 O paciente que está hemodinamicamente estável, não está com taquicardia importante, não está hipotenso, mas a hemoglobina dele está de 10 g/dL. O paciente não é coronariopata, é um paciente que tolera anemia. Nessas situações, não precisa transfundir (transfundir só vai tratar a ansiedade do médico). Um paciente como o descrito, mesmo com a hemoglobina de 10 g/dL, pode, inclusive, ser submetido à endoscopia. Indicações (2) para transfusão sanguínea nos casos de hemorragia digestiva: anemia importante; instabilidade hemodinâmica, apesar da reanimação/prova de volume (apesar de já ter sido administrado bastante volume com cristaloide para o paciente). ❖ Se instabilidade, apesar de volume: Se o paciente continua instável, apesar da infusão de volume (exemplo, já colocou 1,5L de cristaloide nesse paciente), fazer a transfusão. Mas a transfusão, nesse caso, é indicada pela instabilidade hemodinâmica persistente e não pelo nível da hemoglobina. ❖ Se anemia (Qual o limite???): Então qual o limiar de hemoglobina para definir se a anemia é importante e precisar de transfusão? Isso não existe, é muito complicado falar de limiar de transfusão. Se é um paciente que está bem, está hemodinamicamente estável, sem risco de complicação de anemia (exemplo, não é um paciente com angina que pode infartar por conta da anemia, não fará um AVC por conta da anemia), pode tolerar uma hemoglobina até de 8 g/dL. Mas se é um paciente que corre um sério risco de fazer angina por causa da anemia, não deve deixar a hemoglobina chegar até 8, usar o limiar de 9/10 g/dL. MUITA ATENÇÃO!!! – Paciente com hemorragia por varizes de esôfago. Aquele paciente com doença hepática crônica, hipertensão portal e que está sangrando por conta das varizes de esôfago. Se esse paciente receber muito volume e ainda receber transfusão de sangue, a pressão no sistema porta e nas varizes de esôfago irá aumentar, piorando o sangramento, podendo levar o paciente a óbito. Nos pacientes com hemorragia varicosa, a hidratação deve ser mais cautelosa e tolera-se um limiar de hemoglobina bem mais baixo, 7 g/dL, desde que se consiga o mínimo de estabilidade clínica. * Não tem como calcular o risco de que se deve ou não fazer a transfusão. Tem que ir pela estabilidade clínica do paciente, é individualizado, paciente a paciente, avaliando cada variável do indivíduo. * A depender, se o paciente tiver distúrbios de coagulação, alargamento do TP, avaliar se é necessário fazer outras coisas em termo de coagulopatia para esse paciente. • Concentrado de plaquetas e plasma fresco congelado: O paciente está sangrando e com plaqueta abaixo de 50.000, pode ser necessário fazer plaqueta. • Oferta de oxigênio: de acordo com a necessidade. ❖ IOT se necessário – Às vezes, vai ser necessário intubar. Se o paciente tem rebaixamento do nível de consciência e está com HDA, ele tem sério risco de broncoaspirar. Caso isso aconteça, piora bastante o quadro. Atenção para ter limiar baixo de decidir intubar o paciente, podendo ser necessário sim. • Monitorização constante: Dados vitais; exames seriados; débito urinário. Existem coisas que são básicas da avaliação bioquímica inicial: • Hemograma: Hb, Ht, VCM; plaquetas Não existe hemograma sem plaquetas, não precisa pedir “hemograma completo”. ❖ Coagulograma; ❖ Função e perfil hepáticos; ❖ Função renal e eletrólitos; ❖ Gasometria; ❖ Tipagem sanguínea e testes de reação cruzada. Porque você pode precisar transfundir esse paciente a qualquer momento. Situação (na prática): Paciente sangrando e usa AAS, usa varfarina ou heparina. O que fazer? Primeiramente suspende, na fase aguda. Pode ser que seja recolocado no dia seguinte, mas naquele momento precisa tirar. Situação (na prática): É preciso fazer os antagonistas da coagulação? É preciso reverter anticoagulação do paciente? É individualizado, não há resposta certa. Se puder não reverter, tente não reverter, por conta do risco de trombose. Se não reverter, é melhor, porém, 6 Beatriz Machado de Almeida Gastroenterologia – Hemorragia digestiva – Aula 6 se o indivíduo continuar se esvaindo em sangue, pode ser feito a vitamina K, etc. Terapia inicial • Começar antes mesmo de saber a causa? Às vezes, sim! Faz parte do nosso protocolo inicial, junto a hidratação, algumas coisas. Por exemplo: ❖ Inibidor de bomba de prótons: As causas mais comuns de hemorragia digestiva alta são causas cloridropépticas, ex: gastrites, úlceras, etc. Mesmo pacientes com cirrose, podem ter feito uma úlcera, podendo estar sangrando por conta da úlcera. Um paciente com HDA já começa, mesmo antes da endoscopia, com um IBP venoso. Se houver possibilidade de uso de um esomeprazol venoso, se dá preferência; caso contrário, é feito um pantoprazol venoso, o que estiver disponível, pela via venosa. ❖ Octreotide – Atenção! Caso haja suspeita de que o paciente tenha hipertensão portal e que a hemorragia seja fruto de varizes, já se inicia, também, o vasoconstrictor esplâncnico venoso. Porque isso vai reverter o processo de vasodilatação patológica da veia porta, revertendo em parte, a circulação hiperdinâmica. Explicação: Na hipertensão portal, o paciente tem uma vasodilatação esplâncnica patológica, gerando um aumento do débito cardíaco e retenção de sangue naquela circulação, fenômeno chamado de circulação hiperdinâmica. Na hora que se reverte a vasodilatação patológica, isso melhora a circulação hiperdinâmica, o sangue se redistribui melhor para outros locais, que não a circulação esplâncnica, diminuindo a pressão nas varizes. Obs: não é diminuir o calibre da porta além do que deveria; é apenas reverter a vasodilatação patológica que ocorre na hipertensão portal. Diagnóstico Depois de garantir a estabilidade clínica, procura-se o diagnóstico. ❖ Anamnese e exame físico; ❖ Endoscopia alta e baixa (colonoscopia); Se o paciente estiver instável, já foi feito volume de cristaloide, sangue, IBP e o paciente não para de sangrar, não pode endoscopar. Logo, nesses casos, existem outras possibilidades de exames: ❖ Cintilografia; ❖ Angio TC; ❖ Angiografia; * Porém, a depender da situação, caso haja risco iminente de vida, encaminha para a cirurgia. A última opção é a cirurgia, sendo idealmente estabilizar o paciente e mandá-lo para endoscopia. Porém, existem essas outras opções de diagnóstico. Abaixo, temos a imagem de uma angiotomografia (tomografia com protocolo especial para ver vasos e sangramentos): Angiotomografia Angiotomografia: tomografia com protocolo especial para ver vasos e sangramentos. ❖ Primeira imagem (A): fase pré-contraste; ❖ Segunda imagem (B): fase com contraste, em que se pode ver um sangramento na parede do cólon, sinalizado pela seta branca. É possível com a angiotomografia dar o diagnóstico, porém, não tem como intervir. Cintilografia com hemácias marcadas Aplica-se o tecnécio e o radionuclídeo para o paciente, observando e fazendo várias imagens por um tempo. A parte mais escura superior é o fígado. Nas imagens é possível ver o início do sangramento (seta vermelha) na flexura 7 Beatriz Machado de Almeida Gastroenterologia – Hemorragia digestiva – Aula 6 esplênica, que vai descendo. Também não dá para intervir, mas pode ser feito com o paciente instável. A região mais escura inferior é relativa à eliminação pela bexiga, por estar sendo eliminado pelo rim, porém não conta. Angiografia A angiografia é um exame contrastado e cateterizado. Ou seja, cateteriza-se o vaso, jogando o contraste dentro dele, o que gera imagens como a seguinte: Imagem: ramos da artéria mesentérica superior. Uma coisa legal desseexame é que ele permite intervenção, podendo, ao achar o vaso, injetar direto no vaso sangrante um vasoconstritor. Porém, essa intervenção pode dar errado, causando uma isquemia mesentérica, arritmia grave ou embolia altamente seletiva, por conta do vasoconstritor. Obs.: A professora reiterou que não quer que saibamos ver a imagem da angiografia, apenas entender que o exame existe. Sinalizou também, que a intenção é mostrar que existem outros exames diagnósticos que não sejam a endoscopia ou a colonoscopia. E reiterou que a sedação para endoscopia, num paciente grave, é prejudicial, assim como a mobilização da endoscopia, com um sangramento competente, para a sala de cirurgia. Terapia definitiva • Farmacológica: Às vezes o IBP é a única coisa necessária para o sangramento parar, sem precisar fazer nada na endoscopia. • Endoscópica: Por cima ou por baixo. Tem opção de injetar adrenalina na lesão sangrante, usar hemoclipe, utilizar substâncias que parem o sangramento ou que provoquem hemostasia/tamponamento, etc. • Angiográfica: Já foi citada anteriormente • Cirúrgica: Quando tudo falha e o paciente tem risco de vida. Hemorragia digestiva – causas Acima, uma foto de um livro de gastro. Na prova, pergunta-se qual a causa mais comum de HDA. Reposta: úlcera péptica. Porém, se for olhar no uptodate, é possível ver que gastrites e esofagites estão ficando mais comuns do que as úlceras, porém, todas são doenças dispépticas. Outras causas: Varizes de esôfago, gastropatia hipertensiva portal, Mallory-Weiss, etc. Úlcera péptica ❖ Causa mais comum de HDA; ❖ O sangramento é a complicação mais frequente da doença ulcerosa; ❖ Fatores de risco: acidez, H.pylori, uso de AINES. Imagem: situações que podemos achar na endoscopia: ❖ A: Temos um vaso com um jato de sangue → Úlcera sangrante. ❖ B: Úlcera que não está sangrando, porém tem um vaso na iminência de sangrar. ❖ C: Coágulo aderido na úlcera. ❖ D: Úlcera que sangrou recentemente, porém não está com um sangramento ativo no momento. 8 Beatriz Machado de Almeida Gastroenterologia – Hemorragia digestiva – Aula 6 TRATAMENTO Existem várias estratégias para estancar o sangramento de uma úlcera. • Hemostasia endoscópica; ❖ Sangramento ativo/coágulo aderido/vaso visível; ❖ Injeção de epinefrina; ❖ Coagulação térmica – Aquece o local para queimar e parar o sangramento; ❖ Hemoclipe; ❖ Selante de fibrina; ❖ Pó hemostático; ❖ Terapia combinada. TERAPIA COMBINADA A e B - úlcera sangrando - Terapia combinada, com a coagulação térmica e a adição de hemoclipe, “clipando” a úlcera. Outra terapia combinada, iniciando com injeção de adrenalina e, após, eletrocauterização, parando o sangramento. Novamente, temos o hemoclipe. Primeiro, injeta-se adrenalina e logo em seguida, coloca- se o hemoclipe. Esofagites É interessante lembrar que as esofagites estão se tornando causas mais frequentes de hemorragia. Logo, a terapia mais farmacológica é preponderante, no intuito de se reduzir a acidez, ou a causa da esofagite que pode ser outra. Varizes no TGI Também são causas importantes. Acima, temos as varizes (setas pretas). Primeira imagem (seta branca) é possível identificar um sangramento. Na segunda, varizes na iminência de sangrar, com a presença do sinal da cor vermelha (red spots). Na terceira imagem, tem-se um sangramento importante com complexidade para pará-lo. Tratamento • Estabilização hemodinâmica: ❖ Cuidado para não elevar a pressão portal. • Balão de Sengstaken-Blakemore: ❖ Falha na estabilização, falência do controle de sangramento – Não consegue fazer o sangramento parar e nem mandar para a endoscopia → passa o balão. ❖ Ponte até EDA. • Terapia farmacológica: ❖ Vasoconstrictores esplâncnicos. • Terapia endoscópica: ❖ Assim que possível. BALÃO DE SEGNSTAKEN-BLAKEMORE Se o profissional já treinou passar sonda nasogástrica, sabe como passar o balão. Ele funciona sendo introduzido como uma sonda nasogástrica, enche o balão gástrico (fixa no local) e insufla o esofágico, comprimindo o esôfago, para comprimir as varizes. Esse balão deve ficar por um tempo mínimo, porque pode fazer necrose de esôfago. Porém, é um jeito de fazer uma ponte até a endoscopia. 9 Beatriz Machado de Almeida Gastroenterologia – Hemorragia digestiva – Aula 6 TERAPIA ENDOSCÓPICA DEFINITIVA – LIGADURA ELÁSTICA Imagem: terapia endoscópica definitiva. Ela é idealmente feita através da ligadura elástica. O tubo do endoscópio entra, suga o local onde está a variz e coloca uma banda elástica ao redor dela, formando algo semelhante a um “coque de cabelo”, amarrando o lugar em que tinha as varizes (imagem D). Imagem: ligadura elástica. Eventualmente, a ligadura necrosa e cai, idealmente após a variz ter secado. Melhor terapia - mais efetiva p/ o sangramento agudo e para erradicar varizes a longo prazo. Imagem: é possível perceber que podem ser feitas várias ligaduras, amarrando várias vezes. Importante salientar que não faz disfagia. Lacerações de MALLORY-WEISS Causa de HDA. O paciente vomitou várias vezes e, por conta do aumento de pressão, ele lacera. Assim, o quinto vômito vem acompanhado de sangue. Não necessita de terapia específica; apenas controlar os vômitos. Outras causas de HDA • Neoplasias malignas: ❖ <1%; ❖ Tumores ulcerados; ❖ Correlacionar com a clínica. • Gastropatia hipertensiva portal: ❖ Ectasia de vasos da mucosa devido ao aumento da pressão portal. ❖ Tratar a HP. Hemorragia digestiva baixa ❖ A HDB é bem menos comum do que a HDA; ❖ A causa mais comum é a diverticulose, seguida de câncer, colites (normal ou isquêmica), etc. • Cerca de 24% dos casos de hemorragia digestiva; • Sexo masculino; • Incidência aumenta com idade; • Idosos do sexo masculino tem mais risco de fazer doença diverticular, que é a causa mais comum de sangramento baixo. Mas existem outras causas: • Doença diverticular, angiodisplasias, colite isquêmica, DII, tumores, doenças orificiais. Abordagem inicial • Abordagem inicial; A abordagem inicial é igual a da hemorragia digestiva geral, com apenas uma diferença*: • Diagnóstico (geral); ❖ Existe chance de HDA? ❖ Estável: Colonoscopia. *Esse paciente tem uma hematoquezia de grande volume? Se ela for de grande volume ou o paciente estiver instável, pode-se pensar que ele não tenha HDB e sim HDA (por ser mais comum e poder repercurtir em hematoquezia volumosa). Nessas situações, após a estabilização hemodinâmica é interessante começar pela endoscopia, que é um exame menos problemático, por não precisar de preparação, 10 Beatriz Machado de Almeida Gastroenterologia – Hemorragia digestiva – Aula 6 como a colonoscopia. Ou, se necessário, passa a sonda nasogástrica e vê se não há um sangramento alto. HDB – causas Doença diverticular do cólon Exemplos de divertículos (sangrando, com coágulo e com vaso visível na iminência de sangrar). É interessante não confundir diverticulite (inflamação) com diverticulose (sangra). O divertículo que sangra é o que não está inflamado. Suspeita-se que é um paciente com divertículo sangrando, quando é um paciente sem dor, idoso, homem, que vem com hematoquezia sem outros sintomas prévios. A doença diverticular do cólon é a causa mais comum de hematoquezia, porém não é a causa mais comum de sangue oculto nas fezes. A causa mais comum de HDB com sangue oculto é tumor/câncer, porque o sangramento é menor. Obs.: Doença diverticular e diverticulose são a mesma coisa, sinônimos. Se eu suspeito de HBD, paciente estável, desde que sangramento não seja muito volumoso, deve começar com a colonoscopia. Imagem: divertículo com coágulo. Angiodisplasiae angioectasia Outras coisas que podem acontecer são as mal formações vasculares, como por exemplo, as angiodisplasias e angioectasias. Essas mal formações começam a aparecer com a idade, sendo outra causa de HDB no idoso. Obs.: O divertículo também pode fazer sangue oculto, mas geralmente é um sangue mais volumoso, que dá para ver. Colites As colites sangram. Isquemia mesentérica, colites por doença inflamatória intestinal, colite por bactéria, colite por vírus, etc. O paciente dessa imagem tinha uma colite viral. Os tumores também sangram, só que muitas vezes é um sangramento oculto. Por isso é interessante pesquisar no paciente que vem com uma anemia ferropriva sem causa conhecida. O que levar da aula? ❖ O que é uma hemorragia digestiva? ❖ Como vem a clínica do paciente? ❖ Quais são os conceitos (alta, baixa, obscura, média)? ❖ Como se manifesta uma HDA? ❖ Como se manifesta uma HDB? ❖ Como é a abordagem inicial do paciente? ❖ Quais as causas mais comuns? Sem comparar abordagem aprofundada de doença ulcerosa péptica, porque será outra aula.