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Sexualidade e Diversidade Sexual 1 A construção Histórica da Sexualidade 5 O Preconceito e a Discriminação em Relação à Diversidade Sexual 8 O Código de Ética Profissional e a Resolução nº 001/1999 9 Heteronormatividade e homofobia: uma problemática social 13 Psicologia Histórico-Cultural: algumas considerações sobre a constituição do sujeito 15 Homofobia e Sua Relação com as Práticas de Psicologia 17 A Formação em Psicologia e a Diversidade Sexual 23 Manifestações da Homofobia e sua Relação com a Psicologia 26 A prática psicológica e a sexualidade como categoria de subjetivação 33 Sexualidade e Diversidade Sexual A sexualidade humana envolve quatro aspectos: gênero; e papel, identidade e orientação sexual. Termos como heteroafetividade, homoafetividade e biafetividade fazem parte da orientação sexual; que diz respeito à atração que se sente por outros indivíduos. A sexualidade humana é um tema que gera polêmicas e muitas controvérsias, uma vez que envolve questões afetivas, papéis esperados e desempenhados em uma sociedade, e também comportamentos. De forma geral, ela envolve quatro aspectos. O primeiro é o gênero, que corresponde ao sexo da pessoa. Assim, temos o sexo feminino e o masculino. Temos também aqueles que nascem com características sexuais tanto de um sexo quanto de outro: os hermafroditas. Quanto a estes, seu gênero costuma ser considerado de acordo com as características físicas predominantes – femininas ou masculinas. No entanto, em alguns países, são adotados como um terceiro sexo. O segundo aspecto da sexualidade humana é a orientação sexual. Ela diz respeito à atração que se sente por outros indivíduos. Ela geralmente também envolve questões sentimentais, e não somente sexuais. Assim, se a pessoa gosta de indivíduos do sexo oposto, falamos que ela é heterossexual (ou heteroafetiva). Se a atração é por aqueles do mesmo sexo, sua orientação é homossexual (ou homoafetiva). Há também aqueles que se interessam por ambos: os bissexuais (ou biafetivos). Pessoas do gênero masculino com orientação homossexual geralmente são chamados de gays; e as do gênero feminino, lésbicas. Alguns consideram, ainda, os assexuais, que seriam aqueles indivíduos que não sentem atração sexual; e os pansexuais: pessoas cuja identificação com o outro independe de seu gênero, orientação, papel e identidade sexual (estes dois últimos serão explicados mais adiante). Há outras fontes que adotam que a pansexualidade pode também abranger o interesse sexual por outros animais, ou até mesmo outros seres vivos e objetos. É mais adequado dizer homoafetividade do que homossexualidade; assim como heteroafetividade, em substituição ao termo heterossexualidade, e assim por diante. Isso porque o sufixo “-sexual” tende a compreender que essas relações se reduzem unicamente a tal aspecto (o sexual), o que não pode ser utilizado como regra. Quanto ao termo “homossexualismo”, cada vez mais em desuso, ele é incorreto, uma vez que o sufixo “ismo” sugere que essa orientação sexual é uma doença, o que não pode ser considerado verdade sem que existem provas concretas disso. Quanto ao terceiro aspecto, o papel sexual, ele está relacionado ao comportamento de gênero que a pessoa desempenha na sociedade. Assim, envolve muitos clichês, como por exemplo: 1- Uma mulher “feminina”: ou seja, que se comporta de forma condizente com o que a sociedade geralmente espera dela, nesse sentido – se maquia, é delicada, enfim...; 2- Uma mulher que não é vaidosa e gosta de esportes violentos, é “masculinizada”; 3- Um homem delicado, sensível, “afeminado”; 4- Um homem rude, viril, é “masculino”, “másculo”; O papel sexual não necessariamente se apresenta relacionado à orientação sexual, tal como a priori possa parecer. Assim, nesses quatro exemplos, todos eles podem ser heterossexuais. Ou, por exemplo, o “homem másculo” pode ter atração por outros homens (orientação homo, bisou pansexual), embora seu papel sexual mostre o contrário. Finalmente, temos o quarto aspecto: a identidade sexual, que seria a forma como o indivíduo se percebe em relação ao gênero que possui. Quando a pessoa de determinado gênero se sente mais como se fosse de outro, independentemente de sua orientação sexual (às vezes até mesmo de seu papel sexual), falamos que ela é transexual. Pontualmente falando, transexual seria aquele cuja identidade sexual não é a mesma que seu sexo biológico; sendo normalmente aquele que recorre a cirurgias de mudança de sexo. Logo, transexuais costumam sentir atração por pessoas do mesmo gênero que o seu (ex.: pessoa de gênero masculino, identidade sexual feminina, e que se sente atraída por indivíduos de gênero masculino), mas vale frisar novamente que, quando o assunto é sexualidade humana, não existem regras muito categóricas. Transexuais e travestis não são a mesma coisa! Estes últimos são aqueles cuja identidade sexual é mista, se sentem tanto homens quanto mulheres. Assim, costumam vestir-se e se comportar como se fossem do gênero oposto (papel sexual), “equilibrando sua 'dupla identidade'”. Observação: Em 05/05/2011, em nosso país, o Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu a união estável entre casais do mesmo sexo como entidade familiar; permitindo com que tenham os mesmos direitos que envolvem uma união estável entre indivíduos do sexo oposto. No Brasil, a sigla referente à diversidade sexual é a LGBT, sigla para lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros. Este último termo engloba os travestis e transexuais. Na formação em Psicologia, é fundamental o reconhecimento da importância de uma discussão aprofundada sobre o tema da sexualidade. As ações formativas deveriam somar esforços para que a diversidade das sexualidades pudesse ser respeitada, o que torna necessário questionar: o que, de fato, tem sido feito para diminuir a discriminação e o preconceito em relação às múltiplas formas de expressão da sexualidade? Como a formação leva o aluno ou profissional a compreender os vínculos essenciais entre as formas individuais de expressão do desejo e as formas pelas quais a sociedade coage e estimula sua satisfação? Como os muitos preconceitos que se manifestam nos indivíduos se relacionam com aquilo que, por meio de uma construção social e histórica, se consolidou como um conjunto de diferenças, e como essa questão é compreendida e debatida durante a formação? A categoria profissional dos psicólogos expressou, em seu último código de ética, normas que se opõem a toda forma de discriminação, violência, opressão e exploração, explicitando a posição política da categoria em relação a várias questões, em especial quanto à discriminação de homossexuais, quanto à violência em relação a mulheres e crianças, entre outras questões. Mas é preciso reconhecer que a formação em Psicologia nem sempre dá condições para que os valores que subjazem a essas normas sejam refletidos. Na maior parte das vezes, na universidade, essa discussão se restringe a conteúdo específicos de algumas disciplinas, mas o que parece ser mais produtivo éorientar de forma mais geral a formação em uma direção crítica. Nesse sentido, a construção social das diferenças precisa ser compreendida nas mediações entre a sociedade e o indivíduo, pois é nele que se consolidam formas de reação àquilo que se considera diferente, que mantêm e justificam essas construções sociais. Seria necessário que a graduação acadêmica proporcionasse condições para que os alunos refletissem sobre algumas dificuldades e contradições sociais e históricas nessa temática, inclusive percebendo sobre os próprios preconceitos. O campo da sexualidade é um foro privilegiado para discutir criticamente questões como a discriminação e o preconceito, pois envolve a articulação entre a vida pública e a vida privada. Ao mesmo tempo em que estão envolvidos valores, conceitos, padrões e regras que se constituem em determinado contexto social e histórico, também estão envolvidos elementos subjetivos como as fantasias e o desejo. A formação do psicólogo fornece subsídios para que essa relação seja pensada, tornando possível uma compreensão mais abrangente sobre a dinâmica entre sexualidade e poder, desejo e violência, entre o individual e o social. É importante que na formação em Psicologia a discussão sobre a construção social das diferenças esteja relacionada com o exercício de reflexão, o movimento de olhar para si, de se colocar em questão, de reconhecer como as normas vigentes em nossa sociedade permeiam a educação de todos, inclusive daqueles que se propõem a pensar criticamente sobre elas e problematizar e questionar o preconceito e a discriminação que tais normas alimentam. É preciso se debruçar sobre os temas com um olhar crítico, buscando entender a organização social em que esses elementos são gerados e fortalecidos, reconhecendo sempre que, por sermos frutos dessa mesma sociedade, estamos necessariamente inseridos e envolvidos com as questões que discutimos. É necessário avaliar de que forma estereótipos e preconceitos foram aprendidos e apreendidos, muitas vezes, tomados como fenômenos naturais, para que sejam buscadas condições de, nas práticas realizadas, tais preconceitos não serem reproduzidos e reiterados (JUNQUEIRA, 2009; KAWATA; NAKAIA; FIGUEIRÓ, 2010; KEHL, 2002; LOURO, 1996; MAIA, 2009). A formação em Psicologia pode proporcionar reflexões que desestabilizem a crença em uma verdade imutável, universal, a-histórica e neutra, que cristaliza as formas de se viver a sexualidade, como se fosse um fenômeno natural e inquestionável (RIOS; PORCHAT; TEIXEIRA FILHO, 2011). Diante dessas considerações, três pontos centrais para a discussão sobre a sexualidade e a diversidade na formação e na atuação de psicólogos serão apresentados. Apesar dos estudos que contemplem a homossexualidade serem recentes no Brasil, é possível encontra-las, sobre tudo nas ciências humanas e sociais. No Brasil as primeiras iniciativas de manifestações ligadas diretamente ao movimento homossexual surgiram no final da década de 70. Nos últimos anos, a Psicologia brasileira tornou-se alvo de críticas e até mesmo de ação civil pública, devido a Resolução 001/99: pela defesa da livre orientação sexual. A ação proposta pelo Ministério Público Federal (MPF), no dia 1º de dezembro de 2011, alegou que tal resolução do Conselho Federal de Psicologia (CFP) violou inúmeros princípios e regras constitucionais, como o da legalidade, o direito fundamental ao livre exercício profissional, o princípio da dignidade da pessoa humana e a liberdade de manifestação do pensamento, dentre outros. A construção Histórica da Sexualidade O conceito de sexualidade é cultural e histórico. A sexualidade “sadia” ou “moralmente decente” depende de concepções biológicas, médicas, sociais, educacionais, religiosas e morais construídas em diferentes culturas e momentos históricos. Muitos comportamentos sexuais já foram considerados “normais” ou “anormais” dependendo do contexto em que eles foram julgados. É necessário, então, adotar uma perspectiva histórica para compreender que nossos hábitos e nossa moral não são necessariamente os únicos válidos (CHAUÍ, 1985; USSEL,1981). As práticas sexuais entre pessoas do mesmo sexo sempre existiram em diferentes sociedades e culturas, embora o conceito de homossexualidade seja muito recente. A homossexualidade, assim como a heterossexualidade, são convenções sociais que, na modernidade, foram elaboradas e justificadas principalmente a partir de construções científicas que conceberam, nomearam e estudaram as práticas homoeróticas; essas práticas não eram novidade, mas o julgamento sobre elas como práticas pecaminosas, sendo crime ou perversão, é um fenômeno mais atual. Segundo Castañeda (2007, p. 23): A identidade homossexual é um fenômeno relativamente recente. Antes do século XIX, havia práticas homoeróticas (mais ou menos toleradas em diferentes sociedades), mas não pessoas homossexuais. Aqueles que tinham práticas homoeróticas não eram considerados seres à parte, nem por eles mesmos nem pela sociedade: não se concebia a existência de uma identidade fundamentalmente diferente. Isso mudou na era moderna, com a penalização da homossexualidade pelos Estados e sua patologização pelos médicos. Assim, apareceu pela primeira vez a figura do homossexual, cuja identidade essencial está definida pelo seu comportamento sexual. Na cultura ocidental, marcada pela influência da religião judaico-cristã, condena-se, há muito tempo, todo comportamento não reprodutivo, como por exemplo, a pederastia. A homossexualidade foi severamente punida por se considerar bom somente o sexo realizado dentro do casamento e voltado à reprodução. A partir da modernidade, a ciência juntamente com a religião, classificou e patologizou comportamentos sexuais, tidos como desviantes e pervertidos e a homossexualidade, antes chamada de homossexualismo, passou a representar estigmas de degeneração e imoralidade (CHAUI, 1985; COSTA, 1995; KATZ, 1996; NAPHY, 2004; SPENCER,1996). A década de 1970 foi marcada por fatos importantes como a retirada da homossexualidade do rol de doenças e patologia dos regulamentos médicos, como o Manual de Diagnóstico e Estatístico de Perturbações Mentais3 e o Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde (CID-10), de acordo com Castañeda (2007) e Farias e Maia (2009). Jurandir Freire Costa (1995, p. 256) nos diz que: Homossexualidade e heterossexualidade são identidades socioculturais como quaisquer outras e não marca uma ‘lei universal da diferença de sexos’, inscrita no coração dos homens. Foram construídas pelas ideologias médicas e podem ser desconstruídas por outras teorias. O que as mantém em cartaz não são as leis do inconsciente, é nosso vocabulário moral. E se esse vocabulário estigmatiza, discrimina e faz mal a quem é discriminado, não vejo por que mantê-lo na ordem do dia. Considerando o termo “homossexual”, excessivamente comprometido com o contexto médico-legal, psiquiátrico, sexológico e higienista de onde surgiu, Costa (1995) propõe a utilização de “homoerotismo”, como umanoção mais flexível e que descreve melhor a pluralidade das práticas e desejos. Segundo o autor, o termo tomado de um psicanalista chamado Ferenczi exclui a alusão à doença, ao desvio, à anormalidade, à perversão e nega a ideia de que existe algo como uma “substância homossexual”, não possuindo a forma substantiva que indica uma identidade. Muitas pessoas ainda reproduzem concepções de homossexualidade vinculadas à ideia de enfermidade resultando em nossa sociedade manifestações de preconceito, intolerância e homofobia. A homofobia é um termo usado geralmente em referência a um conjunto de emoções negativas: aversão, desprezo, ódio, desconfiança, desconforto e medo, que se vinculam ao preconceito e aos mecanismos de discriminação e violência contra pessoas homossexuais, bissexuais, transexuais, travestis etc. Junqueira (2009, p. 375) ressalta a importância de pensarmos a homofobia para além destes aspectos de ordem emocional, como discute no trecho a seguir: É preciso [...] considerar a existência de um variado e dinâmico arsenal de normas, injunções disciplinadoras e disposições de controle voltadas a estabelecer e a determinar padrões e imposições normalizantes no que concerne a corpo, gênero, sexualidade e o que lhe diz respeito, direta ou indiretamente. [...] ela [a homofobia], inclusive, diz respeito a valores, mecanismos de exclusão, disposições e estruturas hierarquizantes, relações de poder, sistemas de crenças e de representação, padrões relacionais e identitários, todos voltados a naturalizar, impor, sancionar e legitimar uma única sequência sexo-gênero-sexualidade centrada na heterossexualidade e rigorosamente regulada pelas normas de gênero. Os padrões definidores de normalidade se fundamentam em uma lógica binária, restringindo a sexualidade a dois polos, deixando de lado tudo o que é “estranho” (LOURO, 2007). E, a partir dessa crença dualista e determinista, reproduzimos uma educação também excludente, que restringe violentamente as manifestações eróticas consideradas “diferentes” e “desviantes” (MAIA; MAIA, 2009). Entende-se por heteronormatividade a presença em inúmeros meios de valores, crenças e ideias que tanto afirmam positivamente o vínculo heterossexual como negam a existência ou o valor dos vínculos homossexuais. Com isso, as situações em que existem variações da orientação sexual heterossexual são ignoradas ou condenadas a partir de crenças sociais, políticas, religiosas ou culturais. A heteronormatividade representa um modo de compreender o mundo em que a única forma considerada “normal” de expressão do desejo sexual seria a heterossexualidade (JUNQUEIRA, 2009; LOURO, 2007; MISKOLCI, 2012). Miskolci (2012), ao discutir a heteronormatividade destaca que o conjunto de prescrições que fundamenta processos sociais de regulação e controle não atinge somente aqueles que são descritos como desviantes e anormais; os ideais normativos não são repressores apenas para os que não se sentem atraídos pelo sexo oposto, e sim, o modelo imposto de gênero e sexualidade supostamente coerente, superior e “natural” é inalcançável e opressor para todos. Deve fazer parte da formação em Psicologia a reflexão e a discussão sobre esses modelos, assim como sobre as contradições relacionadas às normas e padrões sociais, e também sobre a forma como são consubstanciadas nas subjetividades, nos sentimentos, ideias, memórias e aspirações dos sujeitos, desenvolvendo uma crítica abrangente e profunda da dificuldade em formar-se como um indivíduo em nossa sociedade. De outro modo reproduz-se, impensadamente ou não, esses padrões, que são modelados pela cultura desde a educação oferecida na família, na escola e também nos meios de comunicação. No entanto, a formação em Psicologia precisa ser pensada como uma educação sexual formal, como uma proposta intencional de educar em sexualidade, e não pode ser aceitável um viés heteronormativo, ou a mera reprodução de modelos. É preciso investir em processos de formação em cursos de graduação que esclareçam sobre os valores sociais e a construção cultural da sexualidade. É preciso desconstruir determinismos naturalistas, estimulando a reflexão de que o que somos em relação à nossa sexualidade é uma construção subjetiva, mas também social. O Preconceito e a Discriminação em Relação à Diversidade Sexual Em nossa sociedade é frequente o preconceito e a discriminação em relação à diversidade sexual, inclusive em núcleos que deveriam apoiar e educar, visto que muitas pessoas, por exemplo, quando revelam sua orientação sexual ao núcleo familiar sofrem discriminação e até mesmo represálias, agressões e ameaças destes. As escolas também podem ser citadas como exemplos, tendo em vista que o uso de palavrões que, se referem a sexualidade de forma pejorativa, visando ofender o oprimido ou sua família, são bastante utilizados nesse espaço e tem gerado transtornos a muitos alunos. É necessário, do ponto de vista dos autores do presente artigo que, o psicólogo atue contribuindo para a superação do preconceito. Como sugere Cruz, confirmado por Perucchi et al.2, “não há mais espaço para a ignorância sexual, homofobia e não reconhecimento da diversidade sexual e cultural”. Estudos se referem quanto à atuação e papel de determinados órgãos e profissionais frente à homofobia. Por exemplo, Nascimento, Pimentel relatam sobre o papel da Delegacia e Defensoria Pública no combate e prevenção da homofobia, garantindo o direito à assistência psicossocial e jurídica. (...) desnaturalizar os ideais acerca da sexualidade de forma ampla; perceber que o padrão heteronormativo foi construído e é reconstruído sócio historicamente todos os dias; romper com o silêncio nas diversas situações homofóbicas; posicionar-se contra a discriminação, seja por cor, etnia, valor religioso ou outros; e, além disso, impor-se como ser político no mundo. Ao que se refere às problematizações necessárias à Psicologia, Santos aborda as produções discursivas sobre a homossexualidade e a construção da homofobia, destacando que é fundamental que a Psicologia se compreenda como prática política, pois, “a dicotomia entre clínica (no sentido mais amplo do termo) ou qualquer intervenção por parte da Psicologia e da política precisa ser problematizada a fim de que não reiteremos e perpetuemos enunciados que reforcem lógicas heteronormativas e que possuem poder de exclusão” O Código de Ética Profissional e a Resolução nº 001/1999 A defesa dos direitos humanos e a busca pela consolidação de políticas públicas são elementos que orientam a ação do Sistema de Conselhos de Psicologia. Dentre os compromissos assumidos estão o enfrentamento a toda forma de preconceito e o fortalecimento de práticas psicológicas baseadas na inclusão e no respeito às diferenças (CECARELI; KAHHALE; OLIVEIRA, 2011; UZIEL, 2011). Em 1999, foi aprovada pelo Conselho Federal de Psicologia a resolução nº 001/1999, que prevê que a atuação profissional não deve abordar a homossexualidade como patologia, distúrbio ou perversão, mas comouma das muitas formas de expressões possíveis das sexualidades. Mais do que não abordar como doença, é apontada como compromisso dos profissionais da Psicologia a contribuição para a reflexão sobre o preconceito e a busca pelo combate e a desconstrução de discriminações e estigmatizações. Essa resolução baseia-se tanto numa dimensão teórica quanto numa dimensão ética: quanto à primeira, o fundamento está no princípio de que a homossexualidade não se constitui uma doença, um distúrbio ou uma perversão e, portanto, não deve ser “tratada” com promessas de cura ou reversão; quanto à segunda, está no dever de trabalhar para que todas as formas de violência, discriminação, negligência e exploração sejam suprimidas. Considerando [...] que a forma como cada um vive sua sexualidade faz parte da identidade do sujeito, a qual deve ser compreendida na sua totalidade e [...] a homossexualidade não constitui doença, nem distúrbio e nem perversão, [...] que há, na sociedade, uma inquietação em torno de práticas sexuais desviantes da norma estabelecida sócio culturalmente [O CFP] Resolve: Art. 1º Os psicólogos atuarão segundo os princípios éticos da profissão notadamente aqueles que disciplinam a nãodiscriminação e a promoção e bem- -estar das pessoas e da humanidade. Art. 2º Os psicólogos deverão contribuir, com seu conhecimento, para uma reflexão sobre o preconceito e o desaparecimento de discriminações e estigmatizações contra aqueles comportamentos ou práticas homoeróticas. Art. 3º Os psicólogos não exercerão qualquer ação que favoreça a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas, nem adotarão ação coercitiva tendente a orientar homossexuais para tratamentos não solicitados. Parágrafo Único - Os psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades. Art. 4º Os psicólogos não se pronunciarão, nem participarão de pronunciamentos públicos, nos meios de comunicação de massa, de modo a reforçar os preconceitos sociais existentes em relação aos homossexuais como portadores de qualquer desordem psíquica (CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 1999). Apresentar e discutir sobre as normas presentes no código de ética na formação em Psicologia não se refere a apresentá-la de forma dogmática ou relativista, mas sim, visando propiciar uma relação reflexiva, que vise o desenvolvimento da autonomia. Essa resolução, que se coloca ao lado de outras demandas atuais da sociedade, destaca a necessidade de que os profissionais reflitam sobre sua formação e sobre suas práticas, pois também no campo das teorias e práticas há a necessidade de rever pressupostos, analisar ações costumeiras e investigar as consequências da adoção de novos postulados. Alguns deles se tornam ultrapassados pela própria dinâmica social, pela emergência de novas forças políticas e novos sujeitos. Desde a criação da Resolução, há mais de 10 anos, muitos psicólogos a comemoram como um avanço social do Conselho, outros se informaram e estudaram o tema, reconhecendo sua pertinência, mas também existiram aqueles que, por diversas razões, mostraram-se intolerantes e muito resistentes em modificar suas concepções ou sua prática. Nesse sentido, torna-se importante considerar as questões: o que mudou na formação e na atuação dos psicólogos desde a Resolução? O que psicólogos e outros profissionais sabem ou pensam sobre essa resolução e sobre a temática da sexualidade e da homossexualidade? O que se pode fazer durante a formação para ampliar essa compreensão e desenvolver o respeito à diversidade? Estudos e pesquisas a esse respeito no Brasil são raros, talvez porque o registro das atitudes e concepções dos psicólogos a esse respeito, antes e depois da Resolução, seria muito abrangente e complexo. Mas seria muito interessante que se pudesse realizar um debate mais amplo e aprofundado sobre a questão. A importância da discussão sobre as relações entre a Psicologia e a diversidade sexual e a demarcação do posicionamento crítico da categoria sobre a promoção dos direitos das pessoas Lébiscas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (LGBT) motivou a organização do Seminário Nacional de Psicologia e Diversidade Sexual: desafios para uma sociedade de direitos, ocorrido em 2010, em Brasília, cujos debates realizados, apoiados na Resolução nº 001/99, foram publicados em 2011, no livro Psicologia e diversidade sexual: desafios para uma sociedade de direitos. Nesse evento, profissionais da Psicologia como Ana Paula Uziel, Daniela Murta Amaral, Edna Peters, Kahhale, Janne Calhau Mourão, Fernando Silva Teixeira Filho, Luan Carpes Barros Cassal, Luis Felipe Rios, Marcus Vinícius de Oliveira, Patrícia Porchat, Paulo Roberto Ceccarelli, Rosângela Aparecida Talib e Wiliam Siqueira Peres, assim como de outras áreas da ciência, debateram sobre a relação entre a Psicologia e a diversidade sexual. Nesse debate, ressaltou-se a atuação da Psicologia e a promoção de direitos e do exercício pleno da cidadania e a importância de pensar a sexualidade, o gênero e a orientação sexual como construções sociais e históricas, de modo a problematizar a compreensão normativa que engessa a sexualidade em divisões, classificações e hierarquias. Além disso, alertou-se sobre a necessidade de se refletir criticamente sobre a força da heteronormatividade em nossa sociedade e o combate a todas as formas de preconceito, dentre elas, a homofobia. A expressão da Resolução se insere em um contexto mais amplo, em que se divulgavam afirmações contra ao movimento de patologização de toda forma de expressão sexual que difere da norma e/ou do pensamento hegemônico. A forma como os padrões de normalidade é muitas vezes reforçada pelos discursos médico, psicológico, psiquiátrico, jurídico, acadêmico etc. se reflete em um quadro em que se determina a quem será acessível ou não a cidadania. Assim, outro compromisso estabelecido pelo Conselho Federal, discutido por Paulo Roberto Cecarelli, Edna Kahalle e Marcus Vinicius Oliveira (2011), no seminário citado acima, seria o engajamento na campanha pela despatologização das identidades trans, já que a transexualidade continua sendo considerada uma doença tanto pelo DSM, quanto pelo CID. Nesse sentido, Marchi, Bento e Peres (2011, p. 104) ressaltam a importância da promoção de uma Psicologia: [...] comprometida com a emancipação psicossocial e cultural das pessoas, sem classificação, sem patologização e sem reducionismos teóricos, rompendo de vez com paradigmas binários, universais e essencialistas de manutenção ao sistema sexo/gênero/desejo que tanto impede o direito de ser, estar e circular no mundo das pessoas que não se filiam aos modelos heteronormativos, racistas e misóginos diante da vida. Muitas pessoas recorrem aos profissionais da Psicologia nos mais diversos âmbitos (clínica, escola, hospitais, meios de comunicação) para buscar ajuda com relação ao sofrimento por se sentir diferentes, desajustadas, inadequadas, desviantes do que é tido como normalidade. É forte a imagem da Psicologia como a “guardiã” dessa normalidade,como se coubesse aos profissionais ajustar, corrigir, buscar em suas intervenções adaptar as pessoas aos modelos do que é tido como positivo e valorizado (KEHL, 2002; MAIA, 2009; OLIVEIRA, 2011). Diante destas considerações, como pensar uma formação em Psicologia que não contribua para a produção e a reprodução de normatividades? Seria imprescindível que nessa formação, os valores, concepções e normas aprendidas e incorporadas no decorrer da educação, sejam pensados e repensados de forma crítica e consciente, para não serem reproduzidos de modo irrefletido. É preciso afinar nossos olhares para reconhecer como, em nossas práticas, podemos reforçar o sofrimento que nos propomos a combater (MAIA, 2009; PAIVA, 2008). É importante refletir que o psicólogo, geralmente devido à credibilidade e à autoridade conferida à categoria profissional, acaba por assumir um papel prescritivo, oferecendo regras e modelos sobre como as pessoas devem ser, ou ainda oferecer explicações naturalizantes e essencializantes sobre os modos de desejar, sentir prazer e se relacionar; quando deveriam de fato esclarecer, promover a reflexão e lutar pela autonomia dos sujeitos (KEHL, 2002; OLIVEIRA, 2011). Castañeda (2007) exemplifica a questão, afirmando que frequentemente os psicólogos são consultados para que expliquem as “causas” da ocorrência de homossexualidade pelas mais diversas pessoas: professores, jornalistas, comunidade em geral, e também dos próprios sujeitos que se identificam como homossexuais e suas famílias. Isso, segundo a autora, reflete a dificuldade atual em nossa sociedade em lidar com as diferenças. Embora haja, de fato, várias tentativas teóricas de explicações para o fenômeno da homossexualidade, não há estudos conclusivos sobre essa questão e nem isso nos parece ser necessário (CASTAÑEDA, 2007; COSTA, 1995; KATZ, 1996). Costa (1995) indica a necessidade de identificar fatores genéticos ou outros que influenciem ou determinem sobre os desejos eróticos. No entanto, a questão mais importante para a qual se deve atentar seria não sobre quais são esses fatores, mas as motivações e interesses em saber sobre eles. Na mesma direção, Weeks (2010) afirma que a principal preocupação não deveria ser com o que causa a homossexualidade ou a heterossexualidade nos indivíduos, mas compreender o que leva a nossa cultura a privilegiar uma forma e marginalizar a outra, atribuindo tanta importância a essa divisão, e por que essa visão gera tanta intolerância, violência, preconceito e discriminação. Heteronormatividade e homofobia: uma problemática social Para compreendermos a homofobia, é importante que haja um entendimento sobre sexualidade, levando-se em conta uma construção histórica. Nesse sentido, dois pontos são importantes: a heteronormatividade e a ideologia machista. Santos4 defende que “um olhar sobre a construção discursiva da homossexualidade nos permite problematizar como, ao longo da história, a homofobia é enunciada a partir de uma norma heterossexual”. Com base em dados históricos acerca da relação de poder e sexo analisado através da concepção foucaultiana, compreendemos que o século XVII foi uma época de invenções tecnológicas de controle e do surgimento do capitalismo na qual o sexo era entendido como incompatível ao mundo do trabalho e houve o controle de discursos sobre o assunto. Inicialmente o falar do sexo foi reprimido e, posteriormente, foi regulado pela moralidade cristã e depois pela racionalidade científica. No Brasil, silenciosamente os assuntos relativos à homossexualidade foram sendo evidenciados, visto que aprendemos a moralizar e a esconder, principalmente quando pensamos na forte influência que o cristianismo exerce em relação a este tema, já que este prega a homossexualidade como um pecado, contrário a moral cristã. Borges et al.5 afirmam que no Brasil morrem, por ano, aproximadamente 120 homossexuais, o que indica forte desrespeito à livre expressão da sexualidade e o grau de homofobia em nosso país. Ao longo dos anos, discursos homofóbicos comumente velados ocorrem na sociedade brasileira, direcionando o pensamento dos brasileiros, em geral, para uma visão heteronormativa da sexualidade humana. A heteronormatividade é a ideia de que apenas a heterossexualidade é natural em nossa sociedade, reforçando a homofobia, e fazendo com que não se discuta e compreenda sobre gênero e diversidade sexual. A homofobia ocorre, muitas vezes, sem questionamentos dos sujeitos envolvidos neste processo, por conta dos estados de "negação, hierarquização, diversionismo, apelo ao senso de oportunidade e antecipação fatalista" nos quais estão contextualizados. A partir do entendimento destes discursos velados, a Psicologia pode contribuir para que haja uma desconstrução dos mesmos, visto que, estes discursos são nocivos a uma compreensão ampla acerca da homossexualidade, livre de estereótipos e conceitos sexistas e excludentes. Outro aspecto a ser considerado na constituição do fenômeno da homofobia é o machismo. Para Borges et al.5 o machismo, é uma das facetas que dá sustentação ao preconceito contra homossexuais. Ele é algo que vivemos e revivemos, quase todos os dias, em nosso cotidiano. Existe um sistema ideológico que dá sustentação ao machismo de forma a tornar os sexos diferentes, e mais do que isso, um dos sexos sendo dominante. No Brasil, a sexualidade ao longo do tempo, foi colocada sob um controle sutil, saindo um pouco da visão cristã, e passando para a visão médico-científica, pautadas no Higienismo e o Eugenismo. Devido às questões da época no país, os médicos higienistas tratavam além do corpo, as emoções e a sexualidade. A homossexualidade era tida como uma doença. Tal concepção só começou a ser revista na década de 90, com a retirada da homossexualidade do Código Internacional de Doenças como um marco dessa mudança. Psicologia Histórico-Cultural: algumas considerações sobre a constituição do sujeito A Psicologia Histórico-Cultural tem como base epistemológica o Marxismo (materialismo histórico dialético) e parte da premissa de que o homem é um ser histórico-social, ou seja, que não nasce formado e imutável, e sim, se constrói como homem a partir das relações que estabelece com o meio e com outros, sendo um ser ativo, histórico e social. Nesse sentido, não é só determinado pela realidade que o contém, como também determina esta realidade. Marques e Marques destacam que Vygotsky afirma que construir conhecimento decorre de uma ação partilhada, que implica num processo de mediação entre sujeitos por meio da interação do indivíduo histórico com o ambiente sociocultural onde habita. A heterogeneidade do grupo enriquece a informação e a comunicação, ampliando consequentemente as capacidades individuais. Para a perspectiva da psicologia Histórico-Cultural, os conceitos de sentido e significado são importantes para a análise dos fenômenos. A significação é construída na esfera social, e a internalização dependeráda mediação externa. O sentido pessoal refere-se a um sentido particular, dependendo de uma condição subjetiva, ou seja, o homem se apropria de conceitos construídos socialmente e nesse processo constitui também um sentido pessoal a essas significações. As transformações do significado ocorrem a partir de experiências vividas pelo sujeito, e também, das definições e referências de diferentes sistemas conceituais, mediadas pelo conhecimento já consolidado na cultura. Com base nessas premissas os objetivos gerais do presente trabalho permeiam a compreensão dos sentidos e significados que estudantes de Psicologia têm sobre diversidade sexual na prática profissional do Psicólogo, em contextos das Políticas Públicas em enfrentamento dos processos de exclusão-inclusão das diferentes formas de manifestação da sexualidade humana. Por outro lado, são objetivos específicos identificar os sentidos e significados de estudantes de Psicologia acerca da diversidade sexual; verificar os sentidos e significados que estudantes de Psicologia têm a respeito das Políticas Públicas direcionadas a inclusão da diversidade sexual; verificar os sentidos e significados que estudantes de Psicologia têm a respeito da determinação ou não das Políticas Públicas sobre o fazer Psicológico nos processos de exclusão-inclusão da diversidade sexual. O levantamento da literatura realizado permitiu verificar que nossa sociedade carece de uma mudança na concepção que tem acerca da diversidade sexual, ainda observada por muitos indivíduos de forma preconceituosa e embasada em conceitos discriminatórios que são reforçados “por lógicas heteronormativas e que possuem poder de exclusão”. Desse modo, identificou-se como hipótese inicial que seria possível nos deparar com preconceito velado por parte de sujeitos colaboradores com a pesquisa em relação à diversidade sexual, pautados pela reprodução de discursos de uma sociedade que ainda hoje é repleta de exclusão e discriminação. Homofobia e Sua Relação com as Práticas de Psicologia De modo geral, sempre houve relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo biológico. Porém, em cada período histórico, aconteceram variações quanto às sanções e/ou permissividades atribuídas às mesmas. Entretanto, não poderemos dizer que se trate de uma história da homofobia, pois que este conceito está (como veremos adiante), intimamente ligado à criação dos conceitos de hetero, homo e bissexualidade. Na era Clássica Para os gregos, a relação entre pessoas do mesmo sexo era permitida em alguns casos específicos e tinha um caráter educacional, de cidadania e refinamento dos sentidos. Como diz o historiador da arte, James Smalls (2003, 17): A prática declarada da homossexualidade era difundida nas cidades-estados gregas desde o começo do século VI antes de Cristo e tornou-se parte integrante das tradições da Grécia arcaica e clássica. A homossexualidade masculina, ou mais precisamente a pederastia, estava ligada ao treinamento militar e à iniciação dos jovens meninos à cidadania. A maioria de nossas informações sobre a homossexualidade na Grécia provém da arte, da literatura e da mitologia existentes nas Cidades-estados atenienses. [...] O primeiro testemunho de relações homoeróticas na Grécia Antiga provém de um fragmento escrito pelo historiador Efóros de Kyme (v. 405- 330 av. JC), que conta a história de um antigo ritual que ocorria na Creta Doriana no século VII AC, no qual os homens maduros iniciavam os jovens meninos às atividades masculinas como a caça, os banquetes e, provavelmente também às relações sexuais. Segundo esse autor o tema do homoerotismo masculino foi amplamente debatido por Platão em seus três diálogos: Lisis, Fédro e o Banquete. A descrição das relações afetivo-sexuais entre iguais é descrita em passagens desses diálogos como paiderastia (pederastia), isto é, “o amor erótico ativo de um adulto por um belo e passivo adolescente [ (a palavra paiderastia é derivada de pais (jovem menino) e eran (amar) ]. No Lisis e no Banquete, Sócrates (um dos protagonistas dos diálogos) pesquisa ativamente a beleza de jovens adolescentes. Para Sócrates, o (homo) eros era a pesquisa de finalidades nobres no pensamento e na ação. ” (Idem, p. 17) para os atenienses, entretanto, a pederastia era o modo principal de inserção social e de educação dos homens jovens e livres visando iniciá-los à virilidade e à cidadania. E, o mais surpreendente, “enquanto instituição, ela foi o complemento, e não a rival, do casamento heterossexual” (Ibidem). Os praticantes da pederastia eram chamados de erastes e eromenos, sendo o primeiro o homem maduro, ou “aquele que ama” [em Esparta, “o inspirado”], em geral barbado e de nível social elevado, o qual era estimulado a procurar ativamente um jovem rapaz (erômeno, ou “objeto de amor” [em Esparta, “o ouvinte”]) e “despertar nele a compreensão e o respeito e as virtudes masculinas da coragem e da honra” (Ibidem, p. 18). Vemos que, do mesmo modo que as relações heterossexuais tinham a sua função social de procriação e garantia de hereditariedade e de descendentes, o que implica em manutenção da economia social, dos bens e territórios; as relações homoeróticas, no caso específico de Grécia e de Esparta, como bem descrito em O Banquete, tinham também uma função: tratava-se de educar o jovem ao patriotismo, atos de bravura e lealdade importantes à política local e à defesa da Cidade-Estado. Porém, seria um engodo imaginar que essas relações fossem “livres” e “liberadas”. Como nos conta Smalls (2003, p. 18): Muitas cenas pintadas sobre vasos ilustram o que se passava nos banquetes ou symposia, nos quais os jovens meninos frequentemente davam de beber aos convivas. O Banquete de Platão descreve as regras estritas da sedução e do amor que governam a relação entre o eraste e o erômeno. Há inúmeros tabus. Por exemplo, um jovem menino não poderia em nenhum caso fazer o papel de agressor, de conquistador, ou daquele que penetra. A sedução ou atividade sexual entre dois meninos ou dois homens da mesma idade ou da mesma classe social eram igualmente desaconselhadas. Esperava-se que elas fossem intergeracionais e que a divisão de classes fosse respeitada. Resta-nos pensar sobre o porquê da existência dessas regras? Para que elas serviam? Teriam elas as mesmas funções que hoje? Os gregos daquela época tinham como ideal e valor máximo da existência a beleza, a força, o vigor, o heroísmo e a liberdade. Para eles, o corpo masculino concentrava esses ideais. Assim temos que: O objetivo do sistema educacional na Grécia – chamado de Paidéia – era alcançar a perfeição masculina cultuando o corpo, o espírito e a alma. A pederastia, cujo objetivo era o de favorecer o amor erótico entre os homens e as pessoas jovens, surgia como um modo eficaz para encorajar esse ideal. (Smalls, 2003, p. 18) Mas o que dizer do homoerotismo feminino? Havia uma desigualdade muito acentuada entre os gêneros masculino e feminino. À mulher eram reservados apenas três lugares na hierarquiasocial: procriadoras, prostitutas ou sacerdotisas. Não havia outras formas de inserção social do feminino. Claro, haveria de ter aquelas que não se conformassem com esses lugares, e é daí que surge a história da sacerdotisa Safo e da lesbianidade. Mas antes é importante lembrar que Esparta, diferentemente dos Gregos, de algum modo, institucionalizaram o homoerotismo feminino em comunas ou entidades educacionais de mulheres e jovens meninas chamadas de “thiasois”. Smalls nos conta (2003, p. 29-32): Os thiasoi eram escolas nas quais “as mulheres maduras ensinavam as adolescentes a música e a dança, o charme e a beleza2 ”. Como os meninos com seus erastes, as meninas de classe social mais alta eram separadas da sociedade e tomavam parte em rituais consagrados à Diana, deusa da virgindade e da caça. Teoricamente, as thiasoi eram escolas destinadas a preparar as jovens meninas ao casamento, mas a natureza de seu envolvimento centrada na mulher favorecia entre elas as relações afetivas e sexuais íntimas. Entre outros elementos de uma educação refinada, mas limitada, muitas jovens meninas aprendiam a escrita e a poesia. Os poemas líricos (poesia acompanhada por uma lira) de Safo são os mais célebres, conhecidos por exaltar o amor passional de uma mulher por outra mulher. Assim é que chegamos a Safo: poetisa influente em sua época, nascida na Ilha de Egéia Lesbos (de onde deriva a palavra lesbianismo), próxima à costa daquilo que hoje conhecemos como Turquia. Era professora em thiasos e seus poemas falavam de amores entre mulheres, suas próprias alunas, e em relação aos homens. Por fim, vemos que a relação homoerótica era não só aceita, mas também incentivada na Era Clássica. E, como todas as relações sociais, eram governadas por normas e valores bastante rígidos. O que nos faz crer que o sexo é muito mais influenciado pela cultura do que propriamente pela biologia. A influência grega em Roma foi grande e contundente. Entretanto, em Roma, os valores e as normas que organizavam as relações homoeróticas eram outros. Os romanos conquistaram além dos gregos, os etruscos que já tinham outros valores relativos às (homos) sexualidades. Assim é que Smalls (idem) nos conta que: A aproximação romana em relação à sexualidade em geral e a homossexualidade em particular, entretanto, foi muito diferente. Junto aos romanos, a dominação sexual masculina sobre as mulheres e os outros homens era tida por conquista (aquisição): os romanos ricos mantinham frequentemente instrutores, escravos e jovens meninos para seu prazer sexual, e a prostituição masculina e feminina era legalizada. Os romanos da Antiguidade podiam ter relações sexuais com seus escravos masculinos ou femininos sem ter de temer a marginalização social ou a censura. O importante para o amor-próprio de um romano era manter a aparência de uma masculinidade ativa que, por essência, significava que ele tinha a preferência de ser “sempre aquele que penetra” mais do que o que é penetrado. Os homens romanos eram preocupados em manter uma aparência pública da masculinidade que era fundada sobre o poder da penetração do pênis. Assim, que o parceiro sexual fosse masculino ou feminino, não era problema. A homossexualidade não era tecnicamente punida desde que ela não violasse as estritas estruturas de classe ou os papéis sociais. Não tão filosóficos quanto os gregos em relação ao homoerotismo masculino, a regra principal era que um cidadão romano, maduro, não poderia se deixar penetrar ou praticar sexo oral. A passividade e a sodomia eram imediatamente associadas ao feminino. Smalls complementa: “tal como na Grécia, era também inconveniente para um cidadão romano potencial ou confirmadamente se submeter à penetração anal ou vir a praticar o sexo oral; esses eram atos reservados às mulheres (que civilmente não eram consideradas como cidadãos), aos escravos e aos prostitutos masculinos e femininos. O tabu contra a relação sexual anal era assim tão forte que, contrariamente à sua prática na Grécia Antiga, a pederastia era estritamente interditada em Roma” (Idem, p. 36). Por ser ainda uma sociedade que valoriza o masculino, mais propriamente que o prazer, pode-se inferir que o sexismo e o machismo romano até hoje se encontram presentes na nossa sociedade. Dele, acreditamos nascer a aversão, o asco, o repúdio ou a sensação de estranhamento não só por parte de alguns homossexuais, mas também de heterossexuais em relação aos homens efeminados. Ou seja, a associação desses à figura da mulher é um fator de desvalorização, entendido aqui como um demérito que precisa ser evitado. Entretanto, isso irá mudar com a chegada do Império Romano no qual veremos a liberação das práticas sexuais entre os homens. Entretanto, ainda assim, essa liberação ficou restrita aos Imperadores – basta-nos lembrar dos casos de Nero, Augusto e Hadria. Com o declínio do Império romano, o qual coincide com a legalização do catolicismo em Roma no século IV pelo Imperador Constantino (274-338), as regras e valores em relação às práticas homoeróticas mudam e endurecem cada vez mais até chegarmos ao período conhecido como Idade Média. Idade Média A religião católica se torna a religião oficial do Império Romano em 381 sob o reinado de Teodoro o Grande3 (346-365). Já com os Imperadores Constantino e Constante, e reafirmado pelo código de Teodoro de 390, os atos homossexuais se tornam puníveis de morte na fogueira. Do mesmo modo, a lesbianidade foi proscrita por lei de 287 D.C., imposta por Diocletino (245-313) e Maximiano. É difícil de aceitar, mas a “pena de morte punindo os atos homossexuais masculinos e femininos persistiram no Código Civil até o século XVIII na maioria dos países Europeus do Ocidente” (Smalls, 2003, p. 47). Segundo este autor: As medidas extremas tomadas por esses soberanos eram justificadas pelas racionalizações teológicas da moral sexual fixadas por São Paulo, depois Santo Agostinho e São Jerônimo. De todos os Santos da Igreja, é Santo Agostinho quem teve a mais longa influência sobre os comportamentos sexuais no Ocidente cristão. Por volta de 400 D.C., Agostinho ataca o mito clássico e tenta “corrigir” seus aspectos pagãos imorais. Invocando o Antigo Testamento, ele repetirá com insistência que todas as formas de satisfação sexual que não fossem com fins procriativos eram depravadas, pois seu único objetivo era o prazer e não a reprodução da espécie (p. 47) Ainda nesse período a palavra homossexualidade não existia, e em seu lugar, utilizava-se o termo ‘sodomita’. Segundo os estudiosos, A noção medieval de sodomia e a justificativa de sua condenação encontram sua origem nas interpretações particulares da fonte bíblica do Gênese, onde a destruição de Sodoma é descrita. Furioso pelo pecado da sodomia, Deus destruiu a cidade de Sodoma com uma chuva de fogo. A história sugere uma punição por diversos crimes sexuais cometidos pelos homens e mulheres de todas as tendências sexuais. A interdição da sodomia, seja ela cometida por héterosou homossexuais, era fundada sobre o seu aspecto não procriativo. Ainda que a sodomia fosse aplicável também à relação heterossexual anal, o termo era mais aplicado aos homossexuais. O “pecado de Sodoma” tornou-se pouco a pouco o eufemismo normal para a relação entre homens (Smalls, p. 52) Assim, percebemos que o problema das relações homoeróticas com penetração era o fato de o sêmen vir a ser desperdiçado. Portanto, a sodomia (penetração anal) e a masturbação eram condenadas. Mas essa última não era considerada um pecado nefando passível de morte como a primeira. Os únicos pecados nesse grau eram mesmo a sodomia e a bestialidade. “A relação entre a sodomia e a bestialidade era uma lembrança da Antiguidade – tempos onde os cristãos associavam as práticas pagãs à sodomia e aos sátiros” (Smalls, p. 51). Desse modo, a sodomia passa a ser não apenas “um pecado contra a natureza humana” (entenda-se como natureza humana a vontade de Deus para que o homem procrie), mas também um ato criminal. Desse modo: A sodomia, vício atribuído principalmente aos eclesiásticos, foi muito frequentemente ligada à heresia. Durante o papado de Gregório VII (1073-1085), o celibato do clérigo era tido como obrigatório. Os meios para se assegurar a conformidade foram sem misericórdia e deram nascença a uma cruzada pelo puritanismo moral dirigido contra os cristãos ortodoxos, os mulçumanos e os judeus, bem como aos heréticos e aos sodomitas. Após 1250, as penas severas foram ordenadas contra os atos homossexuais e fizeram parte do direito canônico. (Smalls, p. 54) Com o fim da Idade Média em 1492, a Itália já iniciara a sua revolução cultural, conhecida como Humanismo e Neoplatonismo da Renascença. Ao mesmo tempo em que a sodomia ainda era criminalizada, os praticantes desses atos já se reuniam em subculturas específicas que lhes fortificavam como forma de resistência a punições empregadas. Assim, aos poucos, vemos nascer nos grandes centros não apenas as revoluções artísticas e culturais, mas também um meio de preservação e anonimato que até hoje garantem aos homossexuais uma forma de vida mais visível e tolerante. Temos, nesse período, algumas cidades europeias como Londres, Veneza e Florença que até hoje se destacam como centros de proteção aos direitos humanos e cívicos das pessoas homossexuais. Mas, ao mesmo tempo, naquele período: A combinação da sodomia, como tabu religioso e um número crescente de práticas sexuais clandestinas provocaram um “processo administrativo de repressão” e de procedimentos policialescos inovadores. Alertada por um desenvolvimento de conhecimentos profanos e uma renascença do paganismo, a sociedade medieval declinante redobrou os esforços para erradicar a sodomia. Em países como a Alemanha, a perseguição aos sodomitas e àqueles que eram acusados de bruxaria se intensificou profundamente. O entusiasmo para com as execuções e humilhações públicas dos homossexuais aumentou. A morte na fogueira tornou-se a forma mais espetacular de pena capital para a sodomia. [...], todavia, as estratégias de repressão se instalaram e assumiram as formas de mutilação, de exílio, de multas, e outras medidas drásticas, até a que compreendia a condenação a ser queimado vivo. (Smalls, p. 62). Com isso, vemos que a Idade Média foi um marco em relação aos extremos que se pode chegar, em termos de punição para com os atos homoeróticos entre homens. Mas será que houve tantas mudanças assim? No Brasil, segundo os dados do Grupo Gay da Bahia (GGB): “126 gays, travestis e lésbicas foram assassinados no Brasil em 2002. O Estado da Bahia foi pela primeira vez o campeão, com 20 mortes! A maior parte destes homicídios foram cometidos com requintes de crueldade, incluindo espancamento, tortura, muitas facadas e diversas declarações dos assassinos que confirmam sua condição de crimes homofóbicos: “Matei porque odeio gay” foi a justificativa dada por um jovem criminoso para estrangular e esfaquear um homossexual de Salvador. A cada três dias um homossexual brasileiro é barbaramente assassinado, vítima da homofobia”. Ou seja, esses dados sugerem que ainda somos muito medievais em nosso modo de compreender as práticas homoeróticas. A Formação em Psicologia e a Diversidade Sexual A leitura da Resolução nº 001/99, do Conselho Federal de Psicologia, leva ao entendimento de que cabe ao psicólogo contribuir para que gays, lésbicas, travestis e transexuais sejam tratados com igualdade e respeito. A orientação sexual faz parte integrante do sujeito e está relacionada à interação de inúmeros fatores psicológicos e sociais. É preciso ressaltar que o sofrimento pelo qual as pessoas com desejos homoeróticos passam decorre em grande medida não da existência destes desejos, mas da relação intolerante da sociedade. O atendimento deve priorizar as dificuldades que enfrenta qualquer pessoa em situação de estigmatização por uma diferença. Em geral, não é o desejo homoerótico que incomoda o sujeito, mas a dificuldade de lidar com este desejo diante de uma sociedade homofóbica, o que ocasiona conflitos familiares e interpessoais diversos. Nesse sentido, independentemente da abordagem teórica em que se baseie o psicólogo em sua atividade profissional, o que se propõe no atendimento de clientes homossexuais não é o “tratamento” da homossexualidade, como se fosse uma “doença curável”. Sousa Filho (2011) discute que a orientação sexual não se trata de uma essência ou substância, mas sim de uma construção em que se imbricam dimensões sociais, culturais, históricas e pessoais. Sendo uma expressão do desejo, está relacionada a elementos singulares, que abrange prazeres, sensações, fantasias, imaginação, práticas eróticas etc. Mas também não podemos perder de vista a dinâmica entre o subjetivo e o social, sendo a orientação sexual construída permeada de relações de poder em constante vigília sob os padrões, os ideais e os modelos culturais, o que a torna um fenômeno individual tanto quanto coletivo. Não é possível pensarmos a questão da orientação sexual sem pensarmos os padrões de gênero, a história pessoal, as relações familiares, sociais e o contexto da cultura como um todo. Na atuação clínica, é preciso compreender o fenômeno da homossexualidade para além do âmbito privado, e embora a discriminação apareça no sofrimento particular do cliente atendido, não podemos perder de vista que ela só existe no contexto social que produz a noção de que esta é uma diferença desvantajosa. Muitas queixas existem em função de relacionamentos interpessoais e processos subjetivos que podem ou não ter a ver com a orientação do desejo do sujeito. É importante também considerar que o preconceito atinge não só os indivíduos estigmatizados pelo desejo homoerótico, mas também seus familiares. A própria introjeção de certa “culpa”, ocorre entre as pessoas que se percebem homossexuais e também seus pais e mães atribuindo o fato de alguém se tornar homossexual a umafalha na educação ou na estrutura familiar. É comum que as famílias busquem os serviços de psicólogos, pedindo explicações ou mesmo tratamentos para reverter e curar a homossexualidade e, nesse sentido, o psicólogo deveria esclarecer e reconhecer que o sofrimento dos familiares está relacionado à falta de referências sobre a diversidade e ao padrão heteronormativo aprendido (CASTAÑEDA, 2007). Outras questões importantes somariam ao papel do psicólogo, já previsto na Resolução nº 001/99 do Conselho Federal de Psicologia, e merecem ser destacadas: em primeiro lugar, o psicólogo deve atuar como um agente de esclarecimento e reflexão que busque minimizar as situações sociais preconceituosas. A omissão e o silêncio podem contribuir para a reprodução e a legitimação de situações, discursos e práticas excludentes. Além disso, é necessário que o psicólogo, em qualquer atuação, busque colaborar como agente de educação sexual e como mediador em instituições educativas, como a escola e a família. Ao trabalhar, por exemplo, como formador de agentes educativos em projetos de intervenção intencionais em educação sexual, é preciso que o psicólogo discuta e reflita sobre as questões de gênero e diversidade, sobre os preconceitos e estereótipos relacionados à sexualidade e sobre os padrões que são transmitidos e reforçados por meio de uma socialização repressiva. O psicólogo tem um importante papel nos projetos de educação sexual realizados em instituições escolares ou outras, espaços em que pode atuar aprofundando a reflexão necessária e mediando a formação continuada de educadores de crianças e jovens que se propõem a trabalhar intencionalmente com o tema da sexualidade. Nesse sentido, cabe ao psicólogo considerar a existência da diversidade humana em relação aos padrões afetivos e sexuais, buscando problematizar a reprodução de normas, valores e práticas heteronormativas. Para isso, é importante que a formação em Psicologia propicie momentos em que seja possível refletir sobre essas questões, lembrando que fomos educados em meio a estereótipos sobre a sexualidade em uma socialização tão repressiva que muitas vezes sequer permite a expressão do sofrimento que dela resulta. A atenção para as múltiplas possibilidades de se expressar desejos, se relacionar e buscar prazer, as novas configurações familiares e amorosas, para o acolhimento e o respeito àqueles que, por não corresponderem aos padrões normativos vigentes, e são vítimas de discriminação violenta, depende que o profissional tenha tido a oportunidade de pensar e repensar sobre os próprios preconceitos, para que possa buscar não reproduzir os padrões normativos de modo explícito ou implícito. Como parte da auto avaliação permanente, é importante que o psicólogo reflita e questione constantemente os padrões do que é tido culturalmente como normalidade, inclusive aqueles inerentes à própria ciência psicológica e, ao estudar, é preciso sempre estar aberto às novas formas de ler e compreender o mundo, às mudanças sociais e, principalmente, é preciso sempre considerar criticamente as crenças, valores e concepções pessoais, pois estas são também fruto de sua história de vida pessoal, na atuação profissional que exerce. Na educação em geral o padrão da normalidade impõe condições estreitas para a adaptação dos indivíduos, o que gera sofrimento pessoal, discriminação e preconceito, violência física e simbólica. É preciso ficar claro que sempre houve padrões e que, mesmo numa sociedade livre, provavelmente existiriam também formas mais ou menos padronizadas de conduta humana; a questão é como o indivíduo pode se apropriar desses padrões, se ele pode, durante sua formação, refletir sobre esses padrões e sobre suas qualidades ou contradições. Ou a educação ocorre por meio de uma reflexão sobre a sociedade e sobre o próprio sujeito, estimulando tanto a crítica quanto a autocrítica, ou é grande a possibilidade de que a mera ilustração sobre sexualidade resulte em uma ação normativa e repressiva. Manifestações da Homofobia e sua Relação com a Psicologia Enquanto dispositivo de controle, a homofobia enreda os mais variados discursos (religiosos, científicos, políticos, etc.), para garantir uma percepção negativa e homogeneizada da homossexualidade no campo social, que resulta no campo individual, em uma homofobia interiorizada. O jurista argentino radicado na França, Daniel Borrillo (2000) aponta que as pessoas homossexuais são vitimizadas do seguinte modo: 1) Os homens homossexuais são vitimizados, pois, em sendo homo, se “igualam” às mulheres na posição (“passiva”) de eventual receptor do pênis. Logo, são vistos como “efeminados”, deixando de fazer parte do universo viril. Por isso, o estereótipo de que todos os homossexuais masculinos são “mulherzinhas”, “desmunhecados” e/ou “marica”. 2) De outro lado, as mulheres homossexuais são vitimizadas, já que, em sendo homo, supostamente deixam de cumprir sua função de “fêmea” reprodutora dos filhos “de um macho”, e não são aceitas no universo viril, ainda que emasculadas, pois não possuem o pênis. Em acréscimo, ao se identificarem enquanto lésbicas, assumem uma postura “ativa” em relação ao seu desejo sexual. Como tal atividade é exclusiva do universo masculino, elas são rechaçadas pelos homens e pelas outras mulheres, pois quebraram a barreira do silêncio em relação à suposta passividade feminina. De modo semelhante, autores como Blumenfeld (1992), Isay (1998) e Hardin (2000) assinalam que tais efeitos englobam: 1) Negação da sua orientação sexual (do reconhecimento das suas atrações emocionais) para si mesmo e para os outros; 2) Tentativas de mudar a sua orientação sexual; 3) Sentimento de que nunca se é “suficientemente bom”, o qual conduz à instauração de mecanismos compensatórios, como, por exemplo, ser excessivamente bom na escola ou no trabalho (para ser aceito); 4) Baixa autoestima e imagem negativa do próprio corpo, depressão, vergonha, defensividade, raiva e/ou ressentimento – o que pode levar ao suicídio já em tenra juventude; 5) Desprezo pelos membros mais “assumidos” e “óbvios” da comunidade LGBT; 6) Negação de que a homofobia é um problema social sério; 7) Projeção de preconceitos em outro grupo-alvo (reforçados pelos preconceitos já existentes na sociedade); 8) Tendência de tornar-se psicológica ou fisicamente abusivo; ou permanecer em um relacionamento abusivo; 9) Tentativas de se passar por heterossexual, casando-se, por vezes, com alguém do sexo oposto, para ganhar aprovação social ou na esperança de “se curar”; 10) Práticas sexuais não seguras e outros comportamentos autodestrutivos e de risco (incluindo a gravidez e o de ser infectado pelo vírus HIV); 11) Separação de sexo e amor e/ou medo de intimidade, capaz de gerar até mesmo um desejo de ser celibatário (a); 12) Abuso de substâncias (incluindo comida, álcool, drogas e outras). Assim, como podemos perceber, há muitas consequências da homofobia. Todavia, gostaria de destacar uma, que tem a ver com um projeto que nósdesenvolvemos na UNESP de Assis, que passou por um edital de concorrência do Ministério da Saúde em 2007, como parte de implementação das propostas do Programa “Brasil sem homofobia”. Tal pesquisa busca investigar a relação entre homofobia sofrida por adolescentes LGBT e ideações e tentativas de suicídio. A hipótese é que a homofobia produz um estado de isolamento no (a) jovem que se sente atraído (a) por alguém do mesmo sexo biológico e, isolado (a), sem ter com quem falar, dividir suas histórias, com medo de ser rejeitado (a) por sentir e desejar diferente do que seus/suas colegas supostamente heterossexuais sente, este (a) jovem teria mais chances de pensar e/ou tentar se matar comparativamente àqueles que se dizem heterossexuais. Segundo pesquisas norte-americanas e europeias dos anos de 1990 e 2000, respectivamente, que também, pautaram-se nesta mesma hipótese, os resultados demonstraram que para cada jovem heterossexual que tenta suicídio, existem três jovens homossexuais que tentam se matar. Entretanto, segundo o psicólogo norte americano Savin-Williams (2005), estudos semelhantes realizados por psicólogos e psiquiatras, já haviam sido feitos, especialmente nas décadas de 70. Ou seja, o suicídio em jovens LGBT não é um fenômeno recente. Porém, diferentemente do momento atual, naquela época, a hipótese para a interpretação destas ideações e tentativas de suicídio é que o responsável não seria a homofobia, mas sim o “homossexualismo”. Vejam que, temos aqui a participação da psicologia dando sustentação teórica a interpretações homofóbicas. Evidentemente, que hoje, a nossa questão é a vulnerabilidade dos jovens hetero e homo em relação à homofobia. A nossa participação é no sentido de tentar dar elementos para a desconstrução da homofobia. Porém, é quase impossível de se realizar isso sem que seja necessário desconstruirmos o binômio dos gêneros e dos sexos. A heterossexualidade existe para se colocar como palavra e conceito, superior à homossexualidade. Se vamos combater a homofobia, transfobia, lesbofobia na Psicologia, temos que pensar qual é o sentido de vivermos no universo onde os seres humanos são divididos em macho e fêmea, homem e mulher, para que isso? Qual é a função disso? Parece-me que este dualismo faz muito mais sentido, em sociedades teocráticas, onde os padrões de gênero são rígidos, do que propriamente em sociedades democráticas, de espírito laico, influenciadas por ideais liberais de autonomia do sujeito, que crê em sujeitos de direito capazes de decidir sobre seus próprios prazeres. Do ponto de vista da despatologização da homossexualidade, temos que em 1973, a Associação Americana de Psiquiatria retirou-a do Código Internacional de Doenças (CID), em 1975 foi a vez da Associação Americana de Psicologia que estabelece não ser a homossexualidade motivo para o tratamento de uma pessoa, bem como em 17 de maio (Dia Internacional de Luta contra a Homofobia), a Assembleia Geral da Organização Mundial da Saúde (OMS) retirou a homossexualidade do código 302 das doenças mentais, declarando não ser a mesma nem “doença, nem distúrbio e nem perversão”. A psicologia brasileira, no entanto, em 1999 estabelecerá a conhecida resolução 1/99 que normatiza a atuação da categoria em relação à conduta perante os (as) pacientes homossexuais. Apesar disso, entretanto, vemos nascerem posições contrárias a esta resolução por parte de alguns grupos evangélicos que se sentem capazes de ‘curar’ a homossexualidade, ou antes, de fazer com que pessoas que se sintam desconfortáveis com sua homossexualidade venham a se tornar heterossexual. É curioso notar, entretanto, que os psicólogos evangélicos pertencentes a estes grupos, dizem se apoiar em pesquisas e argumentos científicos do campo da psicologia. Mas como a homofobia atravessa a Psicologia? A Psicologia tende a não aceitar as teorias que se pautam exclusivamente em argumentos genéticos para explicar as orientações sexuais. De modo geral, as teorias psicológicas vigentes se pautam em argumentos sociais e histórias de vida das pessoas. Em relação a esta última, a teoria mais expoente é a da psicanálise. Para quem já leu o célebre trabalho de Kenneth Lewes, The Psychoanalytic Theory of Male Homosexuality, de 1988 (reeditado como Psychoanalysis and Male Homosexuality em 1995), deve se lembrar do apanhado geral que o autor faz sobre pelo menos hipóteses teóricas que partem das colocações de Freud sobre as formas da sexuação e, mais especificamente, da homossexualidade masculina. De modo geral, temos que a primeira estaria relacionada ao Complexo de Castração, que faria com que o menino ao ‘ver’ que sua mãe é castrada (sem pênis), sentiria grande ansiedade em perder também o seu o que provocaria uma ‘alucinação’ sobre a existência de um pênis na mãe o que, mais tarde, se transformaria em um fetiche. A segunda diz respeito a uma grande identificação do filho com a mãe que, narcisicamente iria nela se espelhar reproduzindo junto a outros homens o carinho que dela teria recebido quando criança. Na terceira, o menino assumiria uma identidade feminina e iria buscar em outros homens o amor do pai. E, por último, a inveja e o ciúme em relação à figura do pai e irmãos. Para Freud, entretanto, a homossexualidade nunca foi uma patologia. Todavia, por conta de sua crença no pensamento darwinista de que a reprodução seria o fim último da sexualidade, embora não se reduziria a esta (vide sua hipótese sobre a polimorfia sexual), irá localizar o desenvolvimento sexual na heterossexualidade, o que lhe permitirá dizer que a homossexualidade seja um atraso no desenvolvimento sexual. Isso implica em dizer que se a reprodução for a finalidade de nossa existência, portanto, a homossexualidade não nos permitirá cumprir essa finalidade, não devendo, entretanto, ser creditada a ela nenhuma tendência patológica em si. Porém, as afirmações freudianas não serão suficientes para contribuir para a desestigmatização da homossexualidade. Sua ideia a respeito de uma bissexualidade inata a todo (a) se nós, a qual irá tomar direções diversas a partir das fantasias inconscientes derivadas da passagem pelo Édipo, irão dar margem para se pensar que a homossexualidade seja resultante de uma ‘eleição’ (inconsciente) de objeto. Logo, sendo construída dentro de um jogo cênico edípico, ela poderia ser desconstruída? Ou melhor, ‘reparada’ como afirmam os defensores das terapias reparatórias dos movimentos de exatas? Bastaria, em análise, reconstruir cenas edípicas definidoras da homossexualidade para que, no jogo transferencial com o (a) analista uma nova ‘eleição de objeto de gozo sexual’ possa advir? Desnecessário dizer que estas hipóteses nunca encontraram comprovação inclusive junto a teóricos da psicanálise, mais precisamente dos estudiosos de Lacan. Não cabe aqui, com o pouco espaço/tempo que temos de discorrer aprofundadamente sobre as querelas da ‘origem da homossexualidade’ na psicanálise. Cabe, entretanto, nos questionarmos sobre seus efeitos. A ideia de ‘eleição inconscientede objeto’ não passou desapercebida ao senso-comum que na sua incompreensão sobre o inconsciente entende ‘eleição’ como escolha e não acontecimento. Assim, crê-se ser a homossexualidade uma opção, um estilo de vida. Mas pensamos também assim em relação à heterossexualidade? Se sim, qual foi o dia em que as pessoas heterossexuais aqui presentes escolheram a sua orientação sexual? Alguém saberia me dizer? Claro que não. Isto porque não escolhemos a nossa orientação como quem escolhe o que vai comer hoje, o que comeu ontem, o que irá comer amanhã. A orientação sexual, seja qual for, é um acontecimento em nossas vidas e não se confunde com o gênero, isto é, com nossa identidade masculina ou feminina, com nossa forma (cultural) de expressá-la. O que, na verdade, escolhemos é para quem iremos contar o que sentimos, o que, quem e como desejamos. E essa escolha está intimamente ligada ao contexto em que vivemos. Logo, quanto mais homofóbico for este contexto, maiores serão as chances de a pessoa homossexual se fechar em seus ‘armários’ por medo de sofrer alguma retaliação, por se sentir ‘estranha’, inadequada e anormal perante uma sociedade onde todos (as) são compulsória e presumivelmente heterossexuais. Outro aspecto importante que limita as contribuições psicanalíticas em torno das (homos) sexualidades é propriamente a sua referência fálica no tocante à sexuação. Mais uma vez aqui, por mais que se afirme não ser o falo redutível ao pênis, não se trata de uma afirmação unânime entre os psicanalistas. Novamente, o que parece comprometer estas explicações são os substratos biológicos que dariam materialidade à questão da genitalidade, apesar de se afirmar veemente que no inconsciente não há diferença sexual. Acreditamos que a Psicologia, seja a partir das contribuições da psicanálise, seja a partir das neurociências, ainda assim, não irá avançar, pois, estas hipóteses e argumentos teóricos estão pautados na dualidade dos gêneros enquanto materialidades não apenas concretas, mas também “naturais”, como se o corpo fosse um suporte ‘já dado’ no qual a cultura se apoie. Não seria esse corpo, desde já, uma interpretação? É justamente esta binaridade biológica que dá suporte ontológico à homofobia. Ademais, temos as questões sociais pungentes que, como assinala a psicóloga mexicana Marina Casteñada (2007, p. 24), nos obrigam a rever nossos referenciais. Deste modo, como ela coloca: A pergunta “quem é homossexual? ”, suscita sempre grandes discussões. O Movimento de Liberação Gay nos anos 70 e 80 propôs a liberação não somente de uma população específica, mas do homossexual em cada um de nós. Estipulou a existência de uma bissexualidade natural e inerente a todos os seres humanos. Bissexualidade que é depois circunscrita e reprimida pelo imperativo da heterossexualidade como “socialização aceitável compulsoriamente”. O objetivo foi, portanto, libertar não somente os homossexuais, mas a sociedade em seu conjunto. Esse programa foi modificado ao longo dos anos 90. As associações gays nos países industrializados fixaram-se um objetivo muito mais restrito, ao adotar um modelo étnico da homossexualidade: nessa perspectiva, os homossexuais constituem uma comunidade, que como toda a minoria oprimida, deve ter os mesmos direitos que a maioria, mantendo ao mesmo tempo uma identidade cultural própria. Mais recentemente, o Movimento Queer propôs a abolição de todas essas categorias, argumentando que qualquer classificação fundamentada sobre a sexualidade ou até mesmo o gênero deriva de um discurso social essencialmente repressivo. Assim, pudemos ver que os paradigmas do século XX sobre a definição das identidades sexuais, ainda parecem sustentar as teorias psicológicas sobre a questão das homossexualidades. Neste caso, é importante lembrar que as mesmas têm como referência o aspecto biológico (genital) como apoio para a diferenciação entre os sexos. Assim, ainda se fala de homossexual como aquele ou aquela que tem relações sexuais ou atração afetiva por pessoas de mesmo sexo genital. E, por conta de ser esta a referência universalmente adotada é que encontramos o problema, por exemplo, das pessoas transexuais que, na maioria das vezes, se afeiçoam por pessoas de mesmo sexo genital, porém, sentindo se como pertencendo ao gênero oposto. Conclusão, estas pessoas acabam consumando uma relação heterossexual (que também tem em sua definição a referência do sexo genital), mas ainda assim são mal compreendidas como sendo homossexuais. De outro lado, as sexualidades são os processos pelos quais os desejos são construídos e atravessam as pessoas, compondo ou não as suas orientações sexuais. Em uma palavra, as sexualidades são as formas e modos pelos quais as pessoas obtêm prazer; e tais processos podem ou não incluir as suas orientações sexuais e, não necessariamente, incluem também as suas identidades de gênero e, mais importante, não necessariamente incluem os genitais, como é o caso, por exemplo, do sadismo/masoquismo, onde o prazer apoia-se na dor, na cena de poder/submissão. Observamos uma nova paisagem no território das sexualidades que se constrói, tendendo mais às diversidades sexuais entendidas aqui como devires, possibilidades regidas pelos afetos e sentimentos do que propriamente pelo biológico. Desse modo, uma identidade sexual, ou, uma identidade de gênero, são cada vez mais entendidas como atos políticos, efeitos da cultura e, por seu turno, o desejo, o prazer e a orientação sexual são pensadas mais pela via dos encontros, dos acontecimentos e dos afetos. Assim, não se diz mais: “Uma pessoa optou por ser homossexual”, pois o desejo, a atração física por alguém não é da ordem da consciência. O desejo sexual nasce em nós, como a flecha do Cupido que enche de amor e poesia nossas vidas sejam em relações efêmeras, sejam em relações de compromissos mais duradouros. Não é apenas difícil tratarmos das questões relativas às homossexualidades na psicologia. Antes, é também muito complexo falarmos sobre sexualidades neste campo de saber, para além dos determinantes biológicos que supostamente guardam sobre elas alguma verdade já secularmente naturalizada. Entretanto, temos diante de nós a responsabilidade social como categoria profissional, de tentar diminuir as desigualdades sociais, compreender melhor o risco e a opressão que cada gênero enfrenta na rede social, reduzir as vulnerabilidades sociais, garantir o acesso aos dispositivos de saúde e de educação a todas as pessoas, independentemente do gênero, orientação sexual ou condição psíquica. Assim, combater a homofobia é, antes de tudo, uma meta a ser atingida e isso requer de nós não somente uma revisão pessoal de valores, crenças e discursos, mas também uma busca ativa de novos referentes teóricos profundamente comprometidos com a desnaturalização de verdades seculares. A prática psicológica e a sexualidade como categoria de subjetivação Os intelectuais na sociedade democrática constituem uma comunidade de críticos culturais,mas os psicólogos raramente se viram assim. Em grande parte, porque ficaram aprisionados à autoimagem gerada pela ciência positivista. Nessa perspectiva, a Psicologia lida apenas com verdades subjetivas e evita a crítica cultural. Mas até a Psicologia Científica se arranjará melhor quando reconhecer que a suas verdades, como todas as verdades acerca da condição humana, se referem ao ponto de vista que toma sobre tal condição. Jerome Bruner A primeira pesquisa, desenvolvida no Rio de Janeiro entre 2000 e 2004, originou minha tese de doutorado , em que foi discutida a questão juventude e homossexualidade, e em que as questões do recorrer à Psicologia foram se fazendo presentes ao longo das entrevistas. A segunda, realizada em Recife entre 2005 e 2006, foi uma pesquisa que fiz logo que entrei na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), onde eu tentei compreender como os psicólogos que lidavam com a psicoterapia infantil pensavam a questão da homossexualidade na infância e na adolescência . Por fim, a terceira pesquisa, realizada entre 2005 e 2010, é uma pesquisa multicêntrica que teve campo no Rio de Janeiro e em Recife, Porto Alegre e São Paulo, onde nós tentamos reconstruir a história do modo como católicos, evangélicos e afro brasileiros enfrentam a epidemia de HIV/Aids . Nela, nós também pudemos entrar em contato com as questões de homossexualidade dentro das religiões. Um primeiro ponto que nós precisamos considerar, antes de começar a discussão, é o que eu tenho chamado de homofobia generalizada. Nós vivemos numa sociedade, e já dizia Michel Foucault , que, desde a emergência da burguesia, elegeu o sexo como o lugar de dizer a verdade das pessoas. E isso vai se fazer na sociedade ocidental a partir da heteronorma que se diz pelo sistema de sexo-gênero e que pede por alinhamentos de gestualidades, adereços e sotaque – o modo como eu tenho tentado caracterizar o que alguns chamam de “performance de gênero” – na inter-relação com sexo, desejo, posições sexuais (insertivo/ receptivo). Os autores-chave para pensarmos nisso são Gayle Rubin e Judith Butler . Eu creio que esses nomes serão recorrentemente citados aqui ao longo desse seminário. O modo como a heteronorma apreende as homossexualidades será matizado em diferentes espaços da sociedade brasileira. Quando a família ou a própria pessoa, na infância e/ou juventude, depara-se com questões que são remetidas às de homossexualidades, recorre a instituições ou pessoas que ofertam algum tipo de terapia, em busca de ajuda para lidar com o sofrimento. Porque esse alinhamento entre gênero, desejo e sexualidade – alinhamento esse que, por exemplo, dita que um homem “ajustado” deve ser aquele que tenha performances corporais que remetem preponderantemente à masculinidade como definida culturalmente, que deseje mulheres e se utilize das práticas sexuais comumente concebidas como próprias à heterossexualidade/ masculinidade – situa o modo das pessoas pensarem o sujeito. À medida que a criança ou o jovem começa a se mostrar diferente do esperado para um homem ou uma mulher, a família assustada vai buscar por estas instituições ou pessoas que ofertam ajuda. O que eu observei na pesquisa da tese, quando eu pedi aos jovens que falassem de suas trajetórias sexuais, é que eles recorrentemente diziam que a Psicologia e a religião foram as principais instâncias de oferta de cuidado procuradas. Por isso eu estarei trazendo estes dois campos, para nós pensarmos esses itinerários terapêuticos e o modo como, nesses itinerários, a pessoa é “cuidada”. Para iniciar a discussão, trarei fragmentos da trajetória de vida de Saulo (o nome é fictício). Na infância, ele foi pego com mais dois colegas numa brincadeira sexual no banheiro da escola. Isso gerou um pânico moral dentro da escola, a diretora foi chamada, a psicóloga da escola foi acionada e ele foi encaminhado para a psicoterapia. Ele e os dois colegas. Saulo também passou por vivências de abuso sexual na infância. No entanto, quando ele vai descrever a sua trajetória de vida, essa vivência do abuso tinha menos impacto, em termos de sofrimento, do que o fato de ter sido estigmatizado como homossexual ao longo da vida escolar. Porque ele não pôde sair dessa escola: ele continuou nela até finalizar o Ensino Médio e lá era apontado recorrentemente como a “bichinha”. O que é interessante é que essa cena da brincadeira sexual vai ter uma infinidade de interpretações a depender dos atores que entraram em contato com ela: a escola percebeu o acontecido como comportamento inadequado; a família, que tinha passagem pelo candomblé, mas,cujo pai tinha se convertido para a religião evangélica, percebeu tudo aquilo como provocado pelo feitiço do ex-pai de santo; e a psicóloga que atendeu as crianças em terapia informou, tanto para Saulo como para a família, que aquele comportamento era natural. De certa forma, nesse contexto, a psicóloga, que estava usando de uma perspectiva de naturalização da sexualidade, conseguiu dar certo apoio, certa estabilidade ou sustentação para uma infinidade de conflitos afetivos que estavam surgindo quando Saulo relia a vida dele. Só que nem sempre os psicólogos atuam deste modo, e nós poderemos discutir isso ao longo da apresentação. Vale abrir um parêntese para dizer que, em geral, quem está discutindo esse campo da sexualidade numa perspectiva mais emancipatória, que reconhece os contextos e a construção da sexualidade, tem enfatizado a perspectiva epistemológica construcionista como a mais promissora, em oposição à do essencialismo. Mas, de propósito, tomarei aqui algumas falas que, embora localizem a sexualidade e a homossexualidade como coisas construídas, partem, a partir desse princípio, para uma atuação que, embora seja descrita como cuidadora, não é tão cuidadora assim. Do mesmo modo, tratarei de outras cenas, como a da psicóloga descrita por Saulo, que, embora naturaliza se a homossexualidade, conseguiu ser, por um bom tempo da vida dele, a única referência positiva para o que vivia. Além de embaralhar natural e construído de propósito, eu vou trazer conjuntamente teorias/práticas religiosas e teorias/práticas científicas como formas de lidar com o sofrimento referido às homossexualidades. Depois, vou tentar fazer uma discussão sobre a singularidade de cada um desses fazeres, e justificar por que penso que estes dois campos devem continuar distintos (ou, pelo menos, quando se trata das questões religiosas do terapeuta) no momento de se oferecer ajuda psicológica a alguém, seja no que se refere à homossexualidade, seja em toda e qualquer demanda por ajuda. As duas supracitadas linhas de apreensão teórica da homossexualidade vão ocorrer tanto na religião como na Psicologia. Em relação aos que dizem o que é ou não é natural, no ponto de vista da ciência, os psicólogos vão se utilizar de um campo maior de discussão sobre a homossexualidade: eles vão dizer que a causa da homossexualidade vai estar nos hormônios, nos genes, nas malformações de órgãos e por aí vai. No ponto de vista da religião, esse natural é percebidocomo a carne, a categoria cristã que vai localizar o desejo sexual, e também, para algumas denominações (religiões afro-brasileiras e evangélicas pentecostais), um conjunto de entes espirituais que estarão, de alguma forma, mobilizando a pessoa. São esses os dois principais fatores que, do ponto de vista religioso, conduziram a pessoa à homossexualidade. Localizar como natural não significa, do ponto de vista prático, que a homossexualidade vá ser percebida como algo ruim. Na verdade, quando nós fazemos a leitura da psicóloga de Saulo, ainda que ela percebesse aquilo como natural, ela conseguiu, a partir desse entendimento, construir uma perspectiva cuidadora, no sentido pleno, sobre o sofrimento que estava sendo experimentado por ele. Na primeira e na última das pesquisas, nós também percebemos isso em relação aos pais e mães de santo do candomblé, os quais também entendem a homossexualidade como da natureza da pessoa, intrínseca (não é algo que se constrói, mas algo com que já se nasce, como uma orientação), mas que também conseguem fazer um acolhimento cuidador sobre esse sofrimento experimentado por pessoas com práticas homossexuais – uma das razões para a forte presença de homossexuais no candomblé. Por outro lado, nós também podemos, a partir deste mesmo princípio, chegar a tratamentos que consideram a homossexualidade como estado doentio do organismo e da alma, que pede por alguma intervenção no sentido de correção. Nessa perspectiva, nós temos, por exemplo, os católicos. É muito curioso o modo como eles descreveram, ao longo dos relatos obtidos na última pesquisa que nós realizamos, essa questão. Localizando o “homossexualismo” (sic.) como uma tentação, o grave não é sentir o desejo, porque todos nós somos sujeitos à carne, todos temos uma infinidade de desejos que podem nos desviar do caminho traçado por Deus. A questão é a prática homossexual. Então, eles têm denominado o “homossexualismo” como esse desejo, e o problema da expressão, da realização desse desejo como “homossexualidade” (sic.). De certa forma, os padres entrevistados invertem o que nós, num campo da ciência, hoje, temos pensado em termos desses nomes, de como utilizá-los. Nós temos abolido o termo “homossexualismo”, porque o “ismo” remete a doença, e preferido “homossexualidade”, que remete à expressão da sexualidade. E aí, também, eu localizo, dentro do campo de entendimento da homossexualidade como natural, por exemplo, os evangélicos que Marcelo Natividade estudou. De certa forma, esses “agentes demoníacos” que se aproximam da pessoa são concebidos como da natureza espiritual, ainda que do lado obscuro; mas eles também são percebidos, de certa forma, como naturalizados. Alguns pais e mães de santo da umbanda também compartilham dessa perspectiva, associando a homossexualidade masculina à influência de entidades femininas, em especial, de Pomba Gira. Numa outra perspectiva, nós temos religiosos e psicólogos que vão situar a homossexualidade como algo construído. De propósito, e para confrontar o princípio epistemológico pelo qual eu próprio me guio, vou acentuar aqui as falas que, ainda que percebam a sexualidade como construção social, pensam a homossexualidade como algo negativo e atuam no sentido de mudar a orientação sexual rumo a heterossexualidade. Do lado religioso, nós temos, por exemplo, o discurso do Movimento Pela Sexualidade Sadia – Moses, e aqui eu tomo um fragmento discursivo de Jose Sataloni, uma de suas principais lideranças: A influência maligna existe como em qualquer outro pecado, pois Jesus disse que o diabo é mentiroso e nunca se firmou na verdade (Jo 8.44). A homossexualidade é uma mentira dentro dos propósitos maravilhosos de Deus para a sexualidade humana. (...) O psiquiatra John White traz uma informação esclarecedora sobre a questão: “Até agora, a ciência buscou em vão uma causa física para a homossexualidade”(...). Se não existem provas de que o homossexualismo seja de ordem biológica, devemos questionar, então, quais são os fatores que levam uma pessoa à homossexualidade. Ankerberg e Weldon falam da ausência de fatores orgânicos e a realidade de que homossexualismo é um comportamento aprendido. (...) Cientistas do comportamento humano, conselheiros e terapeutas de ex-homossexuais têm quase a mesma opinião sobre as causas do homossexualismo: a maioria dos homossexuais teve problemas na área familiar. Nós percebemos como a religião se apropria, nesse caso, da Psicologia,e das teorias das ciências do comportamento de um modo geral a partir de uma perspectiva construcionista. Só que o problema é que, na avaliação do comportamento, a homossexualidade é vista como um problema em si, pois é um desvio do estabelecido pela divindade, conforme os parâmetros morais do grupo. E, se é construído, pode ser desconstruído. Do lado da Psicologia, chamou-me a atenção como psicólogos também se apropriam da perspectiva psicanalítica, na ideia do desejo sexual como construído ao longo da vida, e, avaliando a homossexualidade a partir da moral sexual heterossexista, propõem-se a mudar a orientação sexual de seus clientes. Como exemplo, tenho o relato da psicoterapeuta Luziara (o nome é fictício): Acho que, o que aparece na adolescência (...), a homossexualidade, mas não como, necessariamente, a perversão propriamente dita, ou a prática homossexual propriamente dita; mas a homossexualidade latente, que todo mundo tem, e que na adolescência tá muito mais à tona. (...) é a noção de bissexualidade, que Freud fala, quando fala de sexualidade, né? Que ele diz: ‘Todos somos bissexuais’. (...) Não no sentido de práticas bissexuais, necessariamente, mas, quer seja um homem, seja uma mulher, tanto o homem quanto a mulher, o ser humano traz a possibilidade de ser homo ou ser heterossexual. (...) Na verdade, ser homem ou ser mulher depende das identificações que o sujeito vai fazer ao longo da vida. Então, é isso que vai determinar uma escolha, né? Existe sempre uma homossexualidade latente, né? (...) Então, na minha leitura, na minha escuta, dentro dessa escuta psicanalítica, a escolha sexual não é definida pelo aspecto biológico. (...) se eu for fazer uma escolha heterossexual, a identificação tem que ser predominantemente feminina, o que não que dizer que não haja traços de identificações masculinas também. (...) E só atendendo o paciente em particular é que você pode entender o que na história daquele sujeito singularmente contribuiu para ele tornar-se homossexual, né? Ou não! Agora, teoricamente, de modo geral, a questão das identificações é uma questão fundamental, né? Para essa definição da identidade sexual, que é uma coisa que vai ser afirmada, que vem sendo construída desde sempre, mas que vai ser afirmada na adolescência. (Luziara) Muitos caminhos podem ser explorados a partir desse fragmento de relato. Um, por exemplo, é o da recorrente associação, muito direta, entre identidade de gênero e desejo sexual, que observei sendo feita entre várias de minhas entrevistadas de orientação psicanalítica. Mas o que eu queria realmente enfatizar hoje é a categoria perversão, recorrente no relato de Luziara, e da maior parte das psicólogas de base psicanalítica entrevistadas. Aliás, é a própria noção de perversão que, de certomodo, vai valorar algumas formas contra-hegemônicas de agenciar sexogênero-desejo como antinaturais. No relato acima transcrito, vemos Luziara dizer como é que a homossexualidade se constrói e, depois, emitir uma série de juízos de valor sobre a homossexualidade. Pautada na psicanálise, tira o telus da sexualidade da ordem da natureza, do instinto sexual, e o restitui, no plano da cultura, à pulsão. É claro que, para Sigmund Freud, foi muito importante tomar a perversão para construir a teoria dele. Aquilo que se chamava “perversão sexual” era justamente a prova empírica de que a sexualidade era construída, e ofereceu o caminho para ele chegar a um dos conceitos mais caros à psicanálise: o conceito de pulsão. Mas não podemos deixar de lembrar que perversão é uma categoria oitocentista carregada de moralismo. E Freud não abandonou a noção, mas a incorporou, dentro de seu esquema conceitual, como uma estrutura psíquica. Utilizando uma noção que vem de Gayle Rubin, quando nós fazemos uma leitura do inconsciente teórico da psicanálise, nós percebemos que a noção de perversão está marcada pela ideia de anormalidade e fundada na matriz hetero normalizante, onde o desejo sexual socialmente bom, altruísta, deve se orientar para o outro sexo, visando a reprodução da espécie. Uma noção, que, conforme Jurandir Freire Costa, atendia às prerrogativas da burguesia emergente. Nós encontramos isso em Freud nos Três ensaios...17. Então, é como se ele dissesse: “Olha, tudo bem. Somos seres de desejo, mas no final das contas, todos têm de direcionar sua pulsão para o socialmente útil...”. Para a sociedade burguesa da época, o útil era colocar a reprodução biológica a serviço da reprodução social. Claro que, como mostra Jurandir Freire Costa, Freud falou muitas coisas sobre homossexualidade, suas posições foram mudando à medida que acumulava reflexões. No entanto, esse tipo de articulação, que remete a homossexualidade ao campo da anormalidade, do antinatural, continua presente nos relatos das psicólogas de base psicanalítica contemporâneas, como no de Marina (nome fictício): [Aí tu falou de um caso que tu teve, de homossexualidade na clínica...] Foi, mas foi no hospital, né? Ela era homossexual e ela me trazia de uma forma muito natural, falava lá da companheira dela, e a princípio assim me chocou, né? Foi o primeiro caso que eu tive. Chocou, mas depois me acostumei, né? Ela passou dois anos comigo, me acostumei. E quando ela falava da namorada, era como se fosse um casal normal, de heterossexual. (...) Olhe, eles (os homossexuais) sofrem muito. Por conta da recriminação, né? A sociedade recrimina, discrimina o homossexual, de uma maneira geral. Agora mesmo a gente teve um caso na novela, né? Um caso de um rapaz. E a gente via a sociedade toda recriminando, e é uma coisa que hoje em dia a gente vê tanto! É tão comum, né? Mas a sociedade não aceita, porque vai realmente contra as leis, vamos dizer, da natureza, né? Agora, que eles sofrem, sofrem! E, mais uma vez, do mesmo modo que no discurso do Moses, se a homossexualidade é valorada como ruim e é concebida como construída ao logo da vida, então o desejo sexual da pessoa pode e deve ser remodelado: Eu atendi um menino na clínica [com] que[m] acontecia isso: o pai era um pai omisso, e um marido omisso também, e um dia eu perguntei a esse menino... Foi um caso lindíssimo; e eu sempre procurando fazer com que ele descobrisse nesse pai alguma coisa que, assim, vamos dizer, fascinasse esse menino pelo pai. (...) E ele sempre enchia a mãe de qualidades. Ele falava: ‘minha mãe é corajosa, minha mãe é isso, minha mãe é inteligente, me defende...’. Ele fazia desenhos maravilhosos, tem um desenho dele lindo, que é uma fera defendendo os filhotes. (...) E um dia eu perguntei: ‘mas me diga, hoje você falou todas essas coisas maravilhosas da sua mãe, e do seu pai, o que que você me diz?’ O menino respondeu: ‘a única coisa positiva que eu vejo no meu pai é ele ser torcedor do Sport (time de futebol local)!’ Então imagina? Então, meu trabalho durante seis anos, de terapia pesada, semanal, foi resgatar esse laço com o pai, não consegui totalmente, mas pelo menos esse menino não partiu para o homossexualismo. (Marina) O que nós observamos é que os aspectos essencialistas resistem lá mesmo nas teorias construcionistas. Eu lembro mais uma vez da Carol Vance, que promove essa discussão; ela diz que, no campo construcionista, não há um consenso sobre o que de fato é construído, se são as identidades, se são as práticas, se são os desejos. Para as psicólogas psicanaliticamente embasadas que escutei, da mesma forma que para o Moses, o que resiste como essência é a mesma matriz heterossexual. Então, o que eu acho é que mais importante do que pensar que o construcionismo é a saída para o debate que nós temos estabelecido talvez seja localizá-la em outro lugar, não propriamente teórico, mas naquele que propicia a construção de princípios ético-políticos para regular as práticas profissionais que se propõem à oferta de cuidado ao ser humano que sofre. Em outras palavras, a questão é menos da ordem de entender qual é a causa da homossexualidade e mais do entendimento do seu valor na ordem do mundo. Para alimentar essa discussão, nós podemos resgatar um livro que eu acho que é chave para construir uma resposta psi à homofobia, que é o livro A inocência e o vício, também do Jurandir Freire Costa. Nessa obra, o autor vai argumentar que os projetos de felicidade das pessoas com práticas homossexuais em nada ameaçam o contrato social. É a partir dessa avaliação ético-política que precisamos nortear nossas ações como psicólogos. E aí eu não vou falar em nome dos religiosos e nem para os religiosos, porque não tenho essa pretensão, mas na qualidade de psicólogo eu posso chamar meus pares para assumir esse lugar crítico, que remete ao chamamento de Jerome Bruner na epígrafe desta apresentação. Tomando como exemplo a psicoterapia, é importante lembrar que o mais importante instrumento de trabalho do psicólogo é ele mesmo. E se a pessoa-psicólogo é religiosa, não há como deixar essa dimensão da pessoa de fora do trabalho. O que se precisa lembrar é que, quando a psicoterapia se faz método clínico de conhecimento – que se institui na contemporaneidade entre intervenção-pesquisa perante um sujeito que demanda ajuda para um sofrimento –, este prevê recursos para que o sujeito-psicólogo lide com o fato de que a experiência terapêutica afeta ambos – cliente/terapeuta – e, sobretudo, que, no encontro clínico, a moralidade que constitui o terapeuta será acionada, virá inevitavelmente à tona: a ideologia político-partidária, o modo como lida com as relações de gênero e raciais, e, dentre outras tantas questões, o que a religião do terapeuta diz sobre o sofrimento que lhe é apresentado pelo cliente. Nós não podemos pensar que, quando nós entramos no setting, nossa prática será objetiva e neutra, a princípio. Ou ainda, o que é pior, que a nossa moralidade é a melhor moralidade para o nosso cliente. Tudo isso vai se atualizar nas nossas intervenções. Mesmo no nosso “hum hum!”. Às vezes acho que é esta a mais importante intervenção na práticaclínica – o “hum hum” –, porque é a menos refletida, e a mais usada para fazer falar; ainda assim, em um “hum hum”, pode-se conduzir um caminho, porque o psicólogo, querendo ou não, está num lugar de suposto saber. Existe uma variedade de modos de se realizar a análise das implicações que nos constituem. Cada abordagem tem o seu. Na psicanálise, meu marco teórico-metodológico para atuação, a ferramenta para lidar com tudo isso é, sobretudo, a análise da contratransferência e da transferência do terapeuta. Sozinho e/ou com meus pares, eu vou ver em que medida minha religiosidade, tanto quanto as minhas outras dimensões existenciais, interfere no atendimento. Por meio dessa análise, vou me permitir chegar mais perto da neutralidade idealizada, de modo que eu possibilite um ambiente verdadeiramente acolhedor e reflexivo para que o cliente possa reavaliar as bases que sustentam a crise/sofrimento que ele veio cuidar. É importante lembrar que, neste âmbito, diferentemente das religiões, que se dizem portadoras de verdades inquestionáveis, e concordando com André Lèvy, não é a teoria psicológica que deve “tampar” o vazio configurado pela crise de sentido apresentada pelo cliente. O psicólogo clínico é, inversamente, o agente que possibilita reflexões sobre os assentamentos socioculturais constituidores do cliente – inclusive, se for o caso, os religiosos. Não é o profissional de Psicologia quem vai dar a régua moral que oriente para onde deve tender a mudança e, assim, a superação do sofrimento. Esta é uma descoberta/criação do próprio cliente ao longo do processo. Não obstante, vivemos em sociedade, e nem toda prática ou mudança de conduta é considerada benigna e pode ou deve ser estimulada. Portanto, o psicólogo clínico precisa, sim, de alguma regulação mínima, não propriamente para orientar o cliente, mas para se orientar ao longo dos atendimentos. Na verdade, o processo terapêutico se institui no encontro entre dois projetos de mudança sobre uma mesma pessoa. O que quero dizer é que os parâmetros que guiam o terapeuta não devem ser contingentes a eles mesmos, mas devem estar respaldados em acordos mais ampliados do que é o bem viver em sociedade. E nós temos um conjunto de marcos regulatórios, gerais o suficiente para caber as diversidades socioculturais e as idiossincrasias individuais, do mesmo modo capazes de informar, com certa precisão, o que possa ameaçar o contrato social. São eles a Carta de Direitos Humanos (e outros acordos do sistema ONU), a Constituição Federal, o nosso Código de Ética Profissional e as resoluções de nosso conselho profissional. Todos esses documentos são acordos coletivos, pactuações entre conhecimentos de origens as mais diversas que devem pautar a vida em sociedade. Nessa linha, e para finalizar, gostaria de mais uma vez ressaltar a importância do nosso Conselho de Classe e a das Resoluções, em especial a da Resolução 1/99, objeto de reflexão deste seminário. As resoluções são, por princípio, acordos coletivos. São os psicólogos que fazem a profissão e a ciência que dizem qual conhecimento e qual prática, cientificamente embasada, é humanamente útil. Quando uma resolução surge, ela em geral vem para dar conta de um mau uso do conhecimento. A Resolução 1/99 foi instituída porque nós, como categoria, percebemos que estávamos contribuindo para transformar diferença em desigualdade. Ela é um dispositivo coletivo para nos colocar de volta à nossa missão, que, em última instância, é a de contribuir para tornar menos árdua e mais prazerosa a vida humana no mundo. Considerações Finais A formação em Psicologia deveria, segundo nosso juízo, orientar-se por esses mesmos princípios, e os educadores que promovem essa formação, evidentemente, também tem de refletir sobre si mesmos. Essa discussão precisa ser acompanhada de um debate amplo sobre a formação de psicólogos, principalmente no que diz respeito à sexualidade. A sexualidade não constitui, em muitos casos, uma disciplina específica nos cursos de formação e, além disso, não se trata somente da existência de uma disciplina específica, mas de realizar uma discussão que abarca várias disciplinas, como a ética, a filosofia, a história, a sociologia e, finalmente, a própria Psicologia. O foco dessa discussão seria tanto a violência e a discriminação no campo social como a formação do sujeito preconceituoso; o vínculo histórico entre sexualidade e poder necessitaria ser colocado como pano de fundo, o que permite tomar tais questões também numa perspectiva histórica. A persistência de atos violentos contra pessoas que destoam dos padrões vigentes evidencia a necessidade urgente de desenvolver pesquisas que compreendam o fenômeno da homofobia a partir da articulação entre indivíduo e cultura. Estas questões deveriam fazer parte do trabalho do psicólogo e de quem precisa e se beneficia de seus serviços. O reconhecimento da multiplicidade de formas de expressão da sexualidade, tema atual e relevante, interessa a todos aqueles que, como profissionais ou não, defendem uma sociedade que respeite a diversidade humana. Referências Bibliográficas SEXUALIDADE E DIVERSIDADE SEXUAL NA FORMAÇÃO EM PSICOLOGIA Ana Cláudia Bortolozzi Maia; Marcela Pastana ARAGUAIA, Mariana. "Orientação Sexual"; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/sexualidade/orientacao-sexual.htm. Acesso em 04 de março de 2020. Concepção de estudantes de psicologia sobre diversidade sexual: reflexões sobre o fazer psicológico. Aline Kogima Santana SANTOS. 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