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Sexualidade e Diversidade Sexual 1 
A construção Histórica da Sexualidade 5 
O Preconceito e a Discriminação em Relação à Diversidade Sexual 8 
O Código de Ética Profissional e a Resolução nº 001/1999 9 
Heteronormatividade e homofobia: uma problemática social 13 
Psicologia Histórico-Cultural: algumas considerações sobre a constituição do sujeito
15 
Homofobia e Sua Relação com as Práticas de Psicologia 17 
A Formação em Psicologia e a Diversidade Sexual 23 
Manifestações da Homofobia e sua Relação com a Psicologia 26 
A prática psicológica e a sexualidade como categoria de subjetivação 33 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Sexualidade e Diversidade Sexual 
 
 
 
A sexualidade humana envolve quatro aspectos: gênero; e papel, identidade 
e orientação sexual. Termos como heteroafetividade, homoafetividade e 
biafetividade fazem parte da orientação sexual; que diz respeito à atração que se 
sente por outros indivíduos. 
A sexualidade humana é um tema que gera polêmicas e muitas 
controvérsias, uma vez que envolve questões afetivas, papéis esperados e 
desempenhados em uma sociedade, e também comportamentos. De forma geral, 
ela envolve quatro aspectos. O primeiro é o gênero, que corresponde ao sexo da 
pessoa. Assim, temos o sexo feminino e o masculino. Temos também aqueles que 
nascem com características sexuais tanto de um sexo quanto de outro: os 
hermafroditas. 
Quanto a estes, seu gênero costuma ser considerado de acordo com as 
características físicas predominantes – femininas ou masculinas. No entanto, em 
alguns países, são adotados como um terceiro sexo. O segundo aspecto da 
sexualidade humana é a orientação sexual. Ela diz respeito à atração que se sente 
por outros indivíduos. Ela geralmente também envolve questões sentimentais, e não 
somente sexuais. Assim, se a pessoa gosta de indivíduos do sexo oposto, falamos 
que ela é heterossexual (ou heteroafetiva). Se a atração é por aqueles do mesmo 
sexo, sua orientação é homossexual (ou homoafetiva). Há também aqueles que se 
interessam por ambos: os bissexuais (ou biafetivos). 
Pessoas do gênero masculino com orientação homossexual geralmente são 
chamados de gays; e as do gênero feminino, lésbicas. Alguns consideram, ainda, os 
assexuais, que seriam aqueles indivíduos que não sentem atração sexual; e os 
pansexuais: pessoas cuja identificação com o outro independe de seu gênero, 
orientação, papel e identidade sexual (estes dois últimos serão explicados mais 
adiante). Há outras fontes que adotam que a pansexualidade pode também 
abranger o interesse sexual por outros animais, ou até mesmo outros seres vivos e 
objetos. 
É mais adequado dizer homoafetividade do que homossexualidade; assim 
como heteroafetividade, em substituição ao termo heterossexualidade, e assim por 
diante. Isso porque o sufixo “-sexual” tende a compreender que essas relações se 
reduzem unicamente a tal aspecto (o sexual), o que não pode ser utilizado como 
regra. 
Quanto ao termo “homossexualismo”, cada vez mais em desuso, ele é 
incorreto, uma vez que o sufixo “ismo” sugere que essa orientação sexual é uma 
doença, o que não pode ser considerado verdade sem que existem provas 
concretas disso. 
Quanto ao terceiro aspecto, o papel sexual, ele está relacionado ao 
comportamento de gênero que a pessoa desempenha na sociedade. Assim, envolve 
muitos clichês, como por exemplo: 
 
1- Uma mulher “feminina”: ou seja, que se comporta de forma condizente 
com o que a sociedade geralmente espera dela, nesse sentido – se maquia, é 
delicada, enfim...; 
 
2- Uma mulher que não é vaidosa e gosta de esportes violentos, é 
“masculinizada”; 
 
3- Um homem delicado, sensível, “afeminado”; 4- Um homem rude, viril, é 
“masculino”, “másculo”; 
O papel sexual não necessariamente se apresenta relacionado à orientação 
sexual, tal como a priori possa parecer. Assim, nesses quatro exemplos, todos eles 
podem ser heterossexuais. Ou, por exemplo, o “homem másculo” pode ter atração 
por outros homens (orientação homo, bisou pansexual), embora seu papel sexual 
mostre o contrário. 
Finalmente, temos o quarto aspecto: a identidade sexual, que seria a forma 
como o indivíduo se percebe em relação ao gênero que possui. Quando a pessoa 
de determinado gênero se sente mais como se fosse de outro, independentemente 
de sua orientação sexual (às vezes até mesmo de seu papel sexual), falamos que 
ela é transexual. 
Pontualmente falando, transexual seria aquele cuja identidade sexual não é a 
mesma que seu sexo biológico; sendo normalmente aquele que recorre a cirurgias 
de mudança de sexo. Logo, transexuais costumam sentir atração por pessoas do 
mesmo gênero que o seu (ex.: pessoa de gênero masculino, identidade sexual 
feminina, e que se sente atraída por indivíduos de gênero masculino), mas vale 
frisar novamente que, quando o assunto é sexualidade humana, não existem regras 
muito categóricas. 
Transexuais e travestis não são a mesma coisa! Estes últimos são aqueles 
cuja identidade sexual é mista, se sentem tanto homens quanto mulheres. Assim, 
costumam vestir-se e se comportar como se fossem do gênero oposto (papel 
sexual), “equilibrando sua 'dupla identidade'”. Observação: Em 05/05/2011, em 
nosso país, o Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu a união estável entre 
casais do mesmo sexo como entidade familiar; permitindo com que tenham os 
mesmos direitos que envolvem uma união estável entre indivíduos do sexo oposto. 
No Brasil, a sigla referente à diversidade sexual é a LGBT, sigla para 
lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros. Este último termo engloba os travestis e 
transexuais. Na formação em Psicologia, é fundamental o reconhecimento da 
importância de uma discussão aprofundada sobre o tema da sexualidade. As ações 
formativas deveriam somar esforços para que a diversidade das sexualidades 
pudesse ser respeitada, o que torna necessário questionar: o que, de fato, tem sido 
feito para diminuir a discriminação e o preconceito em relação às múltiplas formas 
de expressão da sexualidade? 
Como a formação leva o aluno ou profissional a compreender os vínculos 
essenciais entre as formas individuais de expressão do desejo e as formas pelas 
quais a sociedade coage e estimula sua satisfação? 
Como os muitos preconceitos que se manifestam nos indivíduos se 
relacionam com aquilo que, por meio de uma construção social e histórica, se 
consolidou como um conjunto de diferenças, e como essa questão é compreendida 
e debatida durante a formação? 
A categoria profissional dos psicólogos expressou, em seu último código de 
ética, normas que se opõem a toda forma de discriminação, violência, opressão e 
exploração, explicitando a posição política da categoria em relação a várias 
questões, em especial quanto à discriminação de homossexuais, quanto à violência 
em relação a mulheres e crianças, entre outras questões. Mas é preciso reconhecer 
que a formação em Psicologia nem sempre dá condições para que os valores que 
subjazem a essas normas sejam refletidos. 
Na maior parte das vezes, na universidade, essa discussão se restringe a 
conteúdo específicos de algumas disciplinas, mas o que parece ser mais produtivo éorientar de forma mais geral a formação em uma direção crítica. Nesse sentido, a 
construção social das diferenças precisa ser compreendida nas mediações entre a 
sociedade e o indivíduo, pois é nele que se consolidam formas de reação àquilo que 
se considera diferente, que mantêm e justificam essas construções sociais. Seria 
necessário que a graduação acadêmica proporcionasse condições para que os 
alunos refletissem sobre algumas dificuldades e contradições sociais e históricas 
nessa temática, inclusive percebendo sobre os próprios preconceitos. 
O campo da sexualidade é um foro privilegiado para discutir criticamente 
questões como a discriminação e o preconceito, pois envolve a articulação entre a 
vida pública e a vida privada. Ao mesmo tempo em que estão envolvidos valores, 
conceitos, padrões e regras que se constituem em determinado contexto social e 
histórico, também estão envolvidos elementos subjetivos como as fantasias e o 
desejo. 
A formação do psicólogo fornece subsídios para que essa relação seja 
pensada, tornando possível uma compreensão mais abrangente sobre a dinâmica 
entre sexualidade e poder, desejo e violência, entre o individual e o social. É 
importante que na formação em Psicologia a discussão sobre a construção social 
das diferenças esteja relacionada com o exercício de reflexão, o movimento de olhar 
para si, de se colocar em questão, de reconhecer como as normas vigentes em 
nossa sociedade permeiam a educação de todos, inclusive daqueles que se 
propõem a pensar criticamente sobre elas e problematizar e questionar o 
preconceito e a discriminação que tais normas alimentam. 
É preciso se debruçar sobre os temas com um olhar crítico, buscando 
entender a organização social em que esses elementos são gerados e fortalecidos, 
reconhecendo sempre que, por sermos frutos dessa mesma sociedade, estamos 
necessariamente inseridos e envolvidos com as questões que discutimos. 
É necessário avaliar de que forma estereótipos e preconceitos foram 
aprendidos e apreendidos, muitas vezes, tomados como fenômenos naturais, para 
que sejam buscadas condições de, nas práticas realizadas, tais preconceitos não 
serem reproduzidos e reiterados (JUNQUEIRA, 2009; KAWATA; NAKAIA; 
FIGUEIRÓ, 2010; KEHL, 2002; LOURO, 1996; MAIA, 2009). 
A formação em Psicologia pode proporcionar reflexões que desestabilizem a 
crença em uma verdade imutável, universal, a-histórica e neutra, que cristaliza as 
formas de se viver a sexualidade, como se fosse um fenômeno natural e 
inquestionável (RIOS; PORCHAT; TEIXEIRA FILHO, 2011). 
Diante dessas considerações, três pontos centrais para a discussão sobre a 
sexualidade e a diversidade na formação e na atuação de psicólogos serão 
apresentados. Apesar dos estudos que contemplem a homossexualidade serem 
recentes no Brasil, é possível encontra-las, sobre tudo nas ciências humanas e 
sociais. No Brasil as primeiras iniciativas de manifestações ligadas diretamente ao 
movimento homossexual surgiram no final da década de 70. 
Nos últimos anos, a Psicologia brasileira tornou-se alvo de críticas e até 
mesmo de ação civil pública, devido a Resolução 001/99: pela defesa da livre 
orientação sexual. A ação proposta pelo Ministério Público Federal (MPF), no dia 1º 
de dezembro de 2011, alegou que tal resolução do Conselho Federal de Psicologia 
(CFP) violou inúmeros princípios e regras constitucionais, como o da legalidade, o 
direito fundamental ao livre exercício profissional, o princípio da dignidade da 
pessoa humana e a liberdade de manifestação do pensamento, dentre outros. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A construção Histórica da Sexualidade 
 
 
O conceito de sexualidade é cultural e histórico. A sexualidade “sadia” ou 
“moralmente decente” depende de concepções biológicas, médicas, sociais, 
educacionais, religiosas e morais construídas em diferentes culturas e momentos 
históricos. Muitos comportamentos sexuais já foram considerados “normais” ou 
“anormais” dependendo do contexto em que eles foram julgados. 
É necessário, então, adotar uma perspectiva histórica para compreender que 
nossos hábitos e nossa moral não são necessariamente os únicos válidos (CHAUÍ, 
1985; USSEL,1981). As práticas sexuais entre pessoas do mesmo sexo sempre 
existiram em diferentes sociedades e culturas, embora o conceito de 
homossexualidade seja muito recente. 
A homossexualidade, assim como a heterossexualidade, são convenções 
sociais que, na modernidade, foram elaboradas e justificadas principalmente a partir 
de construções científicas que conceberam, nomearam e estudaram as práticas 
homoeróticas; essas práticas não eram novidade, mas o julgamento sobre elas 
como práticas pecaminosas, sendo crime ou perversão, é um fenômeno mais atual. 
Segundo Castañeda (2007, p. 23): A identidade homossexual é um fenômeno 
relativamente recente. Antes do século XIX, havia práticas homoeróticas (mais ou 
menos toleradas em diferentes sociedades), mas não pessoas homossexuais. 
Aqueles que tinham práticas homoeróticas não eram considerados seres à parte, 
nem por eles mesmos nem pela sociedade: não se concebia a existência de uma 
identidade fundamentalmente diferente. 
Isso mudou na era moderna, com a penalização da homossexualidade pelos 
Estados e sua patologização pelos médicos. Assim, apareceu pela primeira vez a 
figura do homossexual, cuja identidade essencial está definida pelo seu 
comportamento sexual. Na cultura ocidental, marcada pela influência da religião 
judaico-cristã, condena-se, há muito tempo, todo comportamento não reprodutivo, 
como por exemplo, a pederastia. 
A homossexualidade foi severamente punida por se considerar bom somente 
o sexo realizado dentro do casamento e voltado à reprodução. A partir da 
modernidade, a ciência juntamente com a religião, classificou e patologizou 
comportamentos sexuais, tidos como desviantes e pervertidos e a 
homossexualidade, antes chamada de homossexualismo, passou a representar 
estigmas de degeneração e imoralidade (CHAUI, 1985; COSTA, 1995; KATZ, 1996; 
NAPHY, 2004; SPENCER,1996). 
A década de 1970 foi marcada por fatos importantes como a retirada da 
homossexualidade do rol de doenças e patologia dos regulamentos médicos, como 
o Manual de Diagnóstico e Estatístico de Perturbações Mentais3 e o Classificação 
Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde 
(CID-10), de acordo com Castañeda (2007) e Farias e Maia (2009). Jurandir Freire 
Costa (1995, p. 256) nos diz que: Homossexualidade e heterossexualidade são 
identidades socioculturais como quaisquer outras e não marca uma ‘lei universal da 
diferença de sexos’, inscrita no coração dos homens. Foram construídas pelas 
ideologias médicas e podem ser desconstruídas por outras teorias. 
O que as mantém em cartaz não são as leis do inconsciente, é nosso 
vocabulário moral. E se esse vocabulário estigmatiza, discrimina e faz mal a quem é 
discriminado, não vejo por que mantê-lo na ordem do dia. Considerando o termo 
“homossexual”, excessivamente comprometido com o contexto médico-legal, 
psiquiátrico, sexológico e higienista de onde surgiu, Costa (1995) propõe a utilização 
de “homoerotismo”, como umanoção mais flexível e que descreve melhor a 
pluralidade das práticas e desejos. Segundo o autor, o termo tomado de um 
psicanalista chamado Ferenczi exclui a alusão à doença, ao desvio, à anormalidade, 
à perversão e nega a ideia de que existe algo como uma “substância homossexual”, 
não possuindo a forma substantiva que indica uma identidade. 
Muitas pessoas ainda reproduzem concepções de homossexualidade 
vinculadas à ideia de enfermidade resultando em nossa sociedade manifestações 
de preconceito, intolerância e homofobia. A homofobia é um termo usado 
geralmente em referência a um conjunto de emoções negativas: aversão, desprezo, 
ódio, desconfiança, desconforto e medo, que se vinculam ao preconceito e aos 
mecanismos de discriminação e violência contra pessoas homossexuais, 
bissexuais, transexuais, travestis etc. Junqueira (2009, p. 375) ressalta a 
importância de pensarmos a homofobia para além destes aspectos de ordem 
emocional, como discute no trecho a seguir: 
É preciso [...] considerar a existência de um variado e dinâmico arsenal de 
normas, injunções disciplinadoras e disposições de controle voltadas a estabelecer 
e a determinar padrões e imposições normalizantes no que concerne a corpo, 
gênero, sexualidade e o que lhe diz respeito, direta ou indiretamente. [...] ela [a 
homofobia], inclusive, diz respeito a valores, mecanismos de exclusão, disposições 
e estruturas hierarquizantes, relações de poder, sistemas de crenças e de 
representação, padrões relacionais e identitários, todos voltados a naturalizar, 
impor, sancionar e legitimar uma única sequência sexo-gênero-sexualidade 
centrada na heterossexualidade e rigorosamente regulada pelas normas de gênero. 
Os padrões definidores de normalidade se fundamentam em uma lógica binária, 
restringindo a sexualidade a dois polos, deixando de lado tudo o que é “estranho” 
(LOURO, 2007). 
E, a partir dessa crença dualista e determinista, reproduzimos uma educação 
também excludente, que restringe violentamente as manifestações eróticas 
consideradas “diferentes” e “desviantes” (MAIA; MAIA, 2009). Entende-se por 
heteronormatividade a presença em inúmeros meios de valores, crenças e ideias 
que tanto afirmam positivamente o vínculo heterossexual como negam a existência 
ou o valor dos vínculos homossexuais. Com isso, as situações em que existem 
variações da orientação sexual heterossexual são ignoradas ou condenadas a partir 
de crenças sociais, políticas, religiosas ou culturais. A heteronormatividade 
representa um modo de compreender o mundo em que a única forma considerada 
“normal” de expressão do desejo sexual seria a heterossexualidade (JUNQUEIRA, 
2009; LOURO, 2007; MISKOLCI, 2012). 
Miskolci (2012), ao discutir a heteronormatividade destaca que o conjunto de 
prescrições que fundamenta processos sociais de regulação e controle não atinge 
somente aqueles que são descritos como desviantes e anormais; os ideais 
normativos não são repressores apenas para os que não se sentem atraídos pelo 
sexo oposto, e sim, o modelo imposto de gênero e sexualidade supostamente 
coerente, superior e “natural” é inalcançável e opressor para todos. 
Deve fazer parte da formação em Psicologia a reflexão e a discussão sobre 
esses modelos, assim como sobre as contradições relacionadas às normas e 
padrões sociais, e também sobre a forma como são consubstanciadas nas 
subjetividades, nos sentimentos, ideias, memórias e aspirações dos sujeitos, 
desenvolvendo uma crítica abrangente e profunda da dificuldade em formar-se 
como um indivíduo em nossa sociedade. 
De outro modo reproduz-se, impensadamente ou não, esses padrões, que 
são modelados pela cultura desde a educação oferecida na família, na escola e 
também nos meios de comunicação. No entanto, a formação em Psicologia precisa 
ser pensada como uma educação sexual formal, como uma proposta intencional de 
educar em sexualidade, e não pode ser aceitável um viés heteronormativo, ou a 
mera reprodução de modelos. 
É preciso investir em processos de formação em cursos de graduação que 
esclareçam sobre os valores sociais e a construção cultural da sexualidade. É 
preciso desconstruir determinismos naturalistas, estimulando a reflexão de que o 
que somos em relação à nossa sexualidade é uma construção subjetiva, mas 
também social. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
O Preconceito e a Discriminação em Relação 
à Diversidade Sexual 
 
 
 
Em nossa sociedade é frequente o preconceito e a discriminação em relação 
à diversidade sexual, inclusive em núcleos que deveriam apoiar e educar, visto que 
muitas pessoas, por exemplo, quando revelam sua orientação sexual ao núcleo 
familiar sofrem discriminação e até mesmo represálias, agressões e ameaças 
destes. 
As escolas também podem ser citadas como exemplos, tendo em vista que o 
uso de palavrões que, se referem a sexualidade de forma pejorativa, visando 
ofender o oprimido ou sua família, são bastante utilizados nesse espaço e tem 
gerado transtornos a muitos alunos. 
É necessário, do ponto de vista dos autores do presente artigo que, o 
psicólogo atue contribuindo para a superação do preconceito. Como sugere Cruz, 
confirmado por Perucchi et al.2, “não há mais espaço para a ignorância sexual, 
homofobia e não reconhecimento da diversidade sexual e cultural”. Estudos se 
referem quanto à atuação e papel de determinados órgãos e profissionais frente à 
homofobia. 
Por exemplo, Nascimento, Pimentel relatam sobre o papel da Delegacia e 
Defensoria Pública no combate e prevenção da homofobia, garantindo o direito à 
assistência psicossocial e jurídica. (...) desnaturalizar os ideais acerca da 
sexualidade de forma ampla; perceber que o padrão heteronormativo foi construído 
e é reconstruído sócio historicamente todos os dias; romper com o silêncio nas 
diversas situações homofóbicas; posicionar-se contra a discriminação, seja por cor, 
etnia, valor religioso ou outros; e, além disso, impor-se como ser político no mundo. 
Ao que se refere às problematizações necessárias à Psicologia, Santos 
aborda as produções discursivas sobre a homossexualidade e a construção da 
homofobia, destacando que é fundamental que a Psicologia se compreenda como 
prática política, pois, “a dicotomia entre clínica (no sentido mais amplo do termo) ou 
qualquer intervenção por parte da Psicologia e da política precisa ser 
problematizada a fim de que não reiteremos e perpetuemos enunciados que 
reforcem lógicas heteronormativas e que possuem poder de exclusão” 
 
 
 
 
 
O Código de Ética Profissional e a Resolução 
nº 001/1999 
 
 
 
 
A defesa dos direitos humanos e a busca pela consolidação de políticas 
públicas são elementos que orientam a ação do Sistema de Conselhos de 
Psicologia. Dentre os compromissos assumidos estão o enfrentamento a toda forma 
de preconceito e o fortalecimento de práticas psicológicas baseadas na inclusão e 
no respeito às diferenças (CECARELI; KAHHALE; OLIVEIRA, 2011; UZIEL, 2011). 
Em 1999, foi aprovada pelo Conselho Federal de Psicologia a resolução nº 
001/1999, que prevê que a atuação profissional não deve abordar a 
homossexualidade como patologia, distúrbio ou perversão, mas comouma das 
muitas formas de expressões possíveis das sexualidades. 
Mais do que não abordar como doença, é apontada como compromisso dos 
profissionais da Psicologia a contribuição para a reflexão sobre o preconceito e a 
busca pelo combate e a desconstrução de discriminações e estigmatizações. 
Essa resolução baseia-se tanto numa dimensão teórica quanto numa 
dimensão ética: quanto à primeira, o fundamento está no princípio de que a 
homossexualidade não se constitui uma doença, um distúrbio ou uma perversão e, 
portanto, não deve ser “tratada” com promessas de cura ou reversão; quanto à 
segunda, está no dever de trabalhar para que todas as formas de violência, 
discriminação, negligência e exploração sejam suprimidas. 
 
Considerando [...] que a forma como cada um vive sua sexualidade faz parte 
da identidade do sujeito, a qual deve ser compreendida na sua totalidade e [...] a 
homossexualidade não constitui doença, nem distúrbio e nem perversão, [...] que 
há, na sociedade, uma inquietação em torno de práticas sexuais desviantes da 
norma estabelecida sócio culturalmente [O CFP] Resolve: Art. 1º Os psicólogos 
atuarão segundo os princípios éticos da profissão notadamente aqueles que 
disciplinam a nãodiscriminação e a promoção e bem- -estar das pessoas e da 
humanidade. Art. 2º Os psicólogos deverão contribuir, com seu conhecimento, para 
uma reflexão sobre o preconceito e o desaparecimento de discriminações e 
estigmatizações contra aqueles comportamentos ou práticas homoeróticas. Art. 3º 
Os psicólogos não exercerão qualquer ação que favoreça a patologização de 
comportamentos ou práticas homoeróticas, nem adotarão ação coercitiva tendente a 
orientar homossexuais para tratamentos não solicitados. Parágrafo Único - Os 
psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que proponham tratamento e 
cura das homossexualidades. Art. 4º Os psicólogos não se pronunciarão, nem 
participarão de pronunciamentos públicos, nos meios de comunicação de massa, de 
modo a reforçar os preconceitos sociais existentes em relação aos homossexuais 
como portadores de qualquer desordem psíquica (CONSELHO FEDERAL DE 
PSICOLOGIA, 1999). 
 
 
Apresentar e discutir sobre as normas presentes no código de ética na 
formação em Psicologia não se refere a apresentá-la de forma dogmática ou 
relativista, mas sim, visando propiciar uma relação reflexiva, que vise o 
desenvolvimento da autonomia. 
Essa resolução, que se coloca ao lado de outras demandas atuais da 
sociedade, destaca a necessidade de que os profissionais reflitam sobre sua 
formação e sobre suas práticas, pois também no campo das teorias e práticas há a 
necessidade de rever pressupostos, analisar ações costumeiras e investigar as 
consequências da adoção de novos postulados. 
Alguns deles se tornam ultrapassados pela própria dinâmica social, pela 
emergência de novas forças políticas e novos sujeitos. Desde a criação da 
Resolução, há mais de 10 anos, muitos psicólogos a comemoram como um avanço 
social do Conselho, outros se informaram e estudaram o tema, reconhecendo sua 
pertinência, mas também existiram aqueles que, por diversas razões, mostraram-se 
intolerantes e muito resistentes em modificar suas concepções ou sua prática. 
Nesse sentido, torna-se importante considerar as questões: o que mudou na 
formação e na atuação dos psicólogos desde a Resolução? O que psicólogos e 
outros profissionais sabem ou pensam sobre essa resolução e sobre a temática da 
sexualidade e da homossexualidade? O que se pode fazer durante a formação para 
ampliar essa compreensão e desenvolver o respeito à diversidade? 
Estudos e pesquisas a esse respeito no Brasil são raros, talvez porque o 
registro das atitudes e concepções dos psicólogos a esse respeito, antes e depois 
da Resolução, seria muito abrangente e complexo. Mas seria muito interessante que 
se pudesse realizar um debate mais amplo e aprofundado sobre a questão. 
A importância da discussão sobre as relações entre a Psicologia e a 
diversidade sexual e a demarcação do posicionamento crítico da categoria sobre a 
promoção dos direitos das pessoas Lébiscas, Gays, Bissexuais, Travestis e 
Transexuais (LGBT) motivou a organização do Seminário Nacional de Psicologia e 
Diversidade Sexual: desafios para uma sociedade de direitos, ocorrido em 2010, em 
Brasília, cujos debates realizados, apoiados na Resolução nº 001/99, foram 
publicados em 2011, no livro Psicologia e diversidade sexual: desafios para uma 
sociedade de direitos. 
Nesse evento, profissionais da Psicologia como Ana Paula Uziel, Daniela 
Murta Amaral, Edna Peters, Kahhale, Janne Calhau Mourão, Fernando Silva 
Teixeira Filho, Luan Carpes Barros Cassal, Luis Felipe Rios, Marcus Vinícius de 
Oliveira, Patrícia Porchat, Paulo Roberto Ceccarelli, Rosângela Aparecida Talib e 
Wiliam Siqueira Peres, assim como de outras áreas da ciência, debateram sobre a 
relação entre a Psicologia e a diversidade sexual. 
Nesse debate, ressaltou-se a atuação da Psicologia e a promoção de direitos 
e do exercício pleno da cidadania e a importância de pensar a sexualidade, o 
gênero e a orientação sexual como construções sociais e históricas, de modo a 
problematizar a compreensão normativa que engessa a sexualidade em divisões, 
classificações e hierarquias. 
Além disso, alertou-se sobre a necessidade de se refletir criticamente sobre a 
força da heteronormatividade em nossa sociedade e o combate a todas as formas 
de preconceito, dentre elas, a homofobia. A expressão da Resolução se insere em 
um contexto mais amplo, em que se divulgavam afirmações contra ao movimento de 
patologização de toda forma de expressão sexual que difere da norma e/ou do 
pensamento hegemônico. 
A forma como os padrões de normalidade é muitas vezes reforçada pelos 
discursos médico, psicológico, psiquiátrico, jurídico, acadêmico etc. se reflete em 
um quadro em que se determina a quem será acessível ou não a cidadania. 
Assim, outro compromisso estabelecido pelo Conselho Federal, discutido por 
Paulo Roberto Cecarelli, Edna Kahalle e Marcus Vinicius Oliveira (2011), no 
seminário citado acima, seria o engajamento na campanha pela despatologização 
das identidades trans, já que a transexualidade continua sendo considerada uma 
doença tanto pelo DSM, quanto pelo CID. Nesse sentido, Marchi, Bento e Peres 
(2011, p. 104) ressaltam a importância da promoção de uma Psicologia: 
 
[...] comprometida com a emancipação psicossocial e cultural das pessoas, 
sem classificação, sem patologização e sem reducionismos teóricos, rompendo de 
vez com paradigmas binários, universais e essencialistas de manutenção ao 
sistema sexo/gênero/desejo que tanto impede o direito de ser, estar e circular no 
mundo das pessoas que não se filiam aos modelos heteronormativos, racistas e 
misóginos diante da vida. 
 
 
Muitas pessoas recorrem aos profissionais da Psicologia nos mais diversos 
âmbitos (clínica, escola, hospitais, meios de comunicação) para buscar ajuda com 
relação ao sofrimento por se sentir diferentes, desajustadas, inadequadas, 
desviantes do que é tido como normalidade. 
É forte a imagem da Psicologia como a “guardiã” dessa normalidade,como 
se coubesse aos profissionais ajustar, corrigir, buscar em suas intervenções adaptar 
as pessoas aos modelos do que é tido como positivo e valorizado (KEHL, 2002; 
MAIA, 2009; OLIVEIRA, 2011). 
 
Diante destas considerações, como pensar uma formação em Psicologia que 
não contribua para a produção e a reprodução de normatividades? Seria 
imprescindível que nessa formação, os valores, concepções e normas aprendidas e 
incorporadas no decorrer da educação, sejam pensados e repensados de forma 
crítica e consciente, para não serem reproduzidos de modo irrefletido. 
É preciso afinar nossos olhares para reconhecer como, em nossas práticas, 
podemos reforçar o sofrimento que nos propomos a combater (MAIA, 2009; PAIVA, 
2008). É importante refletir que o psicólogo, geralmente devido à credibilidade e à 
autoridade conferida à categoria profissional, acaba por assumir um papel 
prescritivo, oferecendo regras e modelos sobre como as pessoas devem ser, ou 
ainda oferecer explicações naturalizantes e essencializantes sobre os modos de 
desejar, sentir prazer e se relacionar; quando deveriam de fato esclarecer, promover 
a reflexão e lutar pela autonomia dos sujeitos (KEHL, 2002; OLIVEIRA, 2011). 
Castañeda (2007) exemplifica a questão, afirmando que frequentemente os 
psicólogos são consultados para que expliquem as “causas” da ocorrência de 
homossexualidade pelas mais diversas pessoas: professores, jornalistas, 
comunidade em geral, e também dos próprios sujeitos que se identificam como 
homossexuais e suas famílias. Isso, segundo a autora, reflete a dificuldade atual em 
nossa sociedade em lidar com as diferenças. 
Embora haja, de fato, várias tentativas teóricas de explicações para o 
fenômeno da homossexualidade, não há estudos conclusivos sobre essa questão e 
nem isso nos parece ser necessário (CASTAÑEDA, 2007; COSTA, 1995; KATZ, 
1996). Costa (1995) indica a necessidade de identificar fatores genéticos ou outros 
que influenciem ou determinem sobre os desejos eróticos. No entanto, a questão 
mais importante para a qual se deve atentar seria não sobre quais são esses 
fatores, mas as motivações e interesses em saber sobre eles. 
Na mesma direção, Weeks (2010) afirma que a principal preocupação não 
deveria ser com o que causa a homossexualidade ou a heterossexualidade nos 
indivíduos, mas compreender o que leva a nossa cultura a privilegiar uma forma e 
marginalizar a outra, atribuindo tanta importância a essa divisão, e por que essa 
visão gera tanta intolerância, violência, preconceito e discriminação. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Heteronormatividade e homofobia: uma 
problemática social 
 
 
 
 
Para compreendermos a homofobia, é importante que haja um entendimento 
sobre sexualidade, levando-se em conta uma construção histórica. Nesse sentido, 
dois pontos são importantes: a heteronormatividade e a ideologia machista. Santos4 
defende que “um olhar sobre a construção discursiva da homossexualidade nos 
permite problematizar como, ao longo da história, a homofobia é enunciada a partir 
de uma norma heterossexual”. 
Com base em dados históricos acerca da relação de poder e sexo analisado 
através da concepção foucaultiana, compreendemos que o século XVII foi uma 
época de invenções tecnológicas de controle e do surgimento do capitalismo na 
qual o sexo era entendido como incompatível ao mundo do trabalho e houve o 
controle de discursos sobre o assunto. Inicialmente o falar do sexo foi reprimido e, 
posteriormente, foi regulado pela moralidade cristã e depois pela racionalidade 
científica. 
No Brasil, silenciosamente os assuntos relativos à homossexualidade foram 
sendo evidenciados, visto que aprendemos a moralizar e a esconder, principalmente 
quando pensamos na forte influência que o cristianismo exerce em relação a este 
tema, já que este prega a homossexualidade como um pecado, contrário a moral 
cristã. Borges et al.5 afirmam que no Brasil morrem, por ano, aproximadamente 120 
homossexuais, o que indica forte desrespeito à livre expressão da sexualidade e o 
grau de homofobia em nosso país. 
Ao longo dos anos, discursos homofóbicos comumente velados ocorrem na 
sociedade brasileira, direcionando o pensamento dos brasileiros, em geral, para 
uma visão heteronormativa da sexualidade humana. 
A heteronormatividade é a ideia de que apenas a heterossexualidade é 
natural em nossa sociedade, reforçando a homofobia, e fazendo com que não se 
discuta e compreenda sobre gênero e diversidade sexual. A homofobia ocorre, 
muitas vezes, sem questionamentos dos sujeitos envolvidos neste processo, por 
conta dos estados de "negação, hierarquização, diversionismo, apelo ao senso de 
oportunidade e antecipação fatalista" nos quais estão contextualizados. 
 
 
 
A partir do entendimento destes discursos velados, a Psicologia pode 
contribuir para que haja uma desconstrução dos mesmos, visto que, estes discursos 
são nocivos a uma compreensão ampla acerca da homossexualidade, livre de 
estereótipos e conceitos sexistas e excludentes. Outro aspecto a ser considerado na 
constituição do fenômeno da homofobia é o machismo. Para Borges et al.5 o 
machismo, é uma das facetas que dá sustentação ao preconceito contra 
homossexuais. 
Ele é algo que vivemos e revivemos, quase todos os dias, em nosso 
cotidiano. Existe um sistema ideológico que dá sustentação ao machismo de forma 
a tornar os sexos diferentes, e mais do que isso, um dos sexos sendo dominante. 
No Brasil, a sexualidade ao longo do tempo, foi colocada sob um controle sutil, 
saindo um pouco da visão cristã, e passando para a visão médico-científica, 
pautadas no Higienismo e o Eugenismo. 
Devido às questões da época no país, os médicos higienistas tratavam além 
do corpo, as emoções e a sexualidade. A homossexualidade era tida como uma 
doença. Tal concepção só começou a ser revista na década de 90, com a retirada 
da homossexualidade do Código Internacional de Doenças como um marco dessa 
mudança. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Psicologia Histórico-Cultural: algumas 
considerações sobre a constituição do sujeito 
 
 
 
 
A Psicologia Histórico-Cultural tem como base epistemológica o Marxismo 
(materialismo histórico dialético) e parte da premissa de que o homem é um ser 
histórico-social, ou seja, que não nasce formado e imutável, e sim, se constrói como 
homem a partir das relações que estabelece com o meio e com outros, sendo um 
ser ativo, histórico e social. 
Nesse sentido, não é só determinado pela realidade que o contém, como 
também determina esta realidade. Marques e Marques destacam que Vygotsky 
afirma que construir conhecimento decorre de uma ação partilhada, que implica num 
processo de mediação entre sujeitos por meio da interação do indivíduo histórico 
com o ambiente sociocultural onde habita. 
A heterogeneidade do grupo enriquece a informação e a comunicação, 
ampliando consequentemente as capacidades individuais. Para a perspectiva da 
psicologia Histórico-Cultural, os conceitos de sentido e significado são importantes 
para a análise dos fenômenos. A significação é construída na esfera social, e a 
internalização dependeráda mediação externa. O sentido pessoal refere-se a um 
sentido particular, dependendo de uma condição subjetiva, ou seja, o homem se 
apropria de conceitos construídos socialmente e nesse processo constitui também 
um sentido pessoal a essas significações. 
As transformações do significado ocorrem a partir de experiências vividas 
pelo sujeito, e também, das definições e referências de diferentes sistemas 
conceituais, mediadas pelo conhecimento já consolidado na cultura. Com base 
nessas premissas os objetivos gerais do presente trabalho permeiam a 
compreensão dos sentidos e significados que estudantes de Psicologia têm sobre 
diversidade sexual na prática profissional do Psicólogo, em contextos das Políticas 
Públicas em enfrentamento dos processos de exclusão-inclusão das diferentes 
formas de manifestação da sexualidade humana. 
Por outro lado, são objetivos específicos identificar os sentidos e significados 
de estudantes de Psicologia acerca da diversidade sexual; verificar os sentidos e 
significados que estudantes de Psicologia têm a respeito das Políticas Públicas 
direcionadas a inclusão da diversidade sexual; verificar os sentidos e significados 
que estudantes de Psicologia têm a respeito da determinação ou não das Políticas 
Públicas sobre o fazer Psicológico nos processos de exclusão-inclusão da 
diversidade sexual. 
O levantamento da literatura realizado permitiu verificar que nossa sociedade 
carece de uma mudança na concepção que tem acerca da diversidade sexual, 
ainda observada por muitos indivíduos de forma preconceituosa e embasada em 
conceitos discriminatórios que são reforçados “por lógicas heteronormativas e que 
possuem poder de exclusão”. 
Desse modo, identificou-se como hipótese inicial que seria possível nos 
deparar com preconceito velado por parte de sujeitos colaboradores com a pesquisa 
em relação à diversidade sexual, pautados pela reprodução de discursos de uma 
sociedade que ainda hoje é repleta de exclusão e discriminação. 
 
 
 
 
 
 
 
 
Homofobia e Sua Relação com as Práticas de 
Psicologia 
 
 
 
 
De modo geral, sempre houve relações sexuais entre pessoas do mesmo 
sexo biológico. Porém, em cada período histórico, aconteceram variações quanto às 
sanções e/ou permissividades atribuídas às mesmas. Entretanto, não poderemos 
dizer que se trate de uma história da homofobia, pois que este conceito está (como 
veremos adiante), intimamente ligado à criação dos conceitos de hetero, homo e 
bissexualidade. 
Na era Clássica Para os gregos, a relação entre pessoas do mesmo sexo 
era permitida em alguns casos específicos e tinha um caráter educacional, de 
cidadania e refinamento dos sentidos. 
Como diz o historiador da arte, James Smalls (2003, 17): A prática declarada 
da homossexualidade era difundida nas cidades-estados gregas desde o começo do 
século VI antes de Cristo e tornou-se parte integrante das tradições da Grécia 
arcaica e clássica. A homossexualidade masculina, ou mais precisamente a 
pederastia, estava ligada ao treinamento militar e à iniciação dos jovens meninos à 
cidadania. A maioria de nossas informações sobre a homossexualidade na Grécia 
provém da arte, da literatura e da mitologia existentes nas Cidades-estados 
atenienses. [...] O primeiro testemunho de relações homoeróticas na Grécia Antiga 
provém de um fragmento escrito pelo historiador Efóros de Kyme (v. 405- 330 av. 
JC), que conta a história de um antigo ritual que ocorria na Creta Doriana no século 
VII AC, no qual os homens maduros iniciavam os jovens meninos às atividades 
masculinas como a caça, os banquetes e, provavelmente também às relações 
sexuais. 
 
Segundo esse autor o tema do homoerotismo masculino foi amplamente 
debatido por Platão em seus três diálogos: Lisis, Fédro e o Banquete. A descrição 
das relações afetivo-sexuais entre iguais é descrita em passagens desses diálogos 
como paiderastia (pederastia), isto é, “o amor erótico ativo de um adulto por um belo 
e passivo adolescente [ (a palavra paiderastia é derivada de pais (jovem menino) e 
eran (amar) ]. 
No Lisis e no Banquete, Sócrates (um dos protagonistas dos diálogos) 
pesquisa ativamente a beleza de jovens adolescentes. Para Sócrates, o (homo) 
eros era a pesquisa de finalidades nobres no pensamento e na ação. ” (Idem, p. 17) 
para os atenienses, entretanto, a pederastia era o modo principal de inserção social 
e de educação dos homens jovens e livres visando iniciá-los à virilidade e à 
cidadania. E, o mais surpreendente, “enquanto instituição, ela foi o complemento, e 
não a rival, do casamento heterossexual” (Ibidem). 
Os praticantes da pederastia eram chamados de erastes e eromenos, sendo 
o primeiro o homem maduro, ou “aquele que ama” [em Esparta, “o inspirado”], em 
geral barbado e de nível social elevado, o qual era estimulado a procurar ativamente 
um jovem rapaz (erômeno, ou “objeto de amor” [em Esparta, “o ouvinte”]) e 
“despertar nele a compreensão e o respeito e as virtudes masculinas da coragem e 
da honra” (Ibidem, p. 18). 
Vemos que, do mesmo modo que as relações heterossexuais tinham a sua 
função social de procriação e garantia de hereditariedade e de descendentes, o que 
implica em manutenção da economia social, dos bens e territórios; as relações 
homoeróticas, no caso específico de Grécia e de Esparta, como bem descrito em O 
Banquete, tinham também uma função: tratava-se de educar o jovem ao patriotismo, 
atos de bravura e lealdade importantes à política local e à defesa da Cidade-Estado. 
Porém, seria um engodo imaginar que essas relações fossem “livres” e “liberadas”. 
Como nos conta Smalls (2003, p. 18): Muitas cenas pintadas sobre vasos 
ilustram o que se passava nos banquetes ou symposia, nos quais os jovens 
meninos frequentemente davam de beber aos convivas. 
O Banquete de Platão descreve as regras estritas da sedução e do amor que 
governam a relação entre o eraste e o erômeno. Há inúmeros tabus. Por exemplo, 
um jovem menino não poderia em nenhum caso fazer o papel de agressor, de 
conquistador, ou daquele que penetra. 
 
A sedução ou atividade sexual entre dois meninos ou dois homens da mesma 
idade ou da mesma classe social eram igualmente desaconselhadas. Esperava-se 
que elas fossem intergeracionais e que a divisão de classes fosse respeitada. 
Resta-nos pensar sobre o porquê da existência dessas regras? Para que elas 
serviam? Teriam elas as mesmas funções que hoje? Os gregos daquela época 
tinham como ideal e valor máximo da existência a beleza, a força, o vigor, o 
heroísmo e a liberdade. Para eles, o corpo masculino concentrava esses ideais. 
Assim temos que: O objetivo do sistema educacional na Grécia – chamado 
de Paidéia – era alcançar a perfeição masculina cultuando o corpo, o espírito e a 
alma. A pederastia, cujo objetivo era o de favorecer o amor erótico entre os homens 
e as pessoas jovens, surgia como um modo eficaz para encorajar esse ideal. 
(Smalls, 2003, p. 18) 
Mas o que dizer do homoerotismo feminino? Havia uma desigualdade muito 
acentuada entre os gêneros masculino e feminino. À mulher eram reservados 
apenas três lugares na hierarquiasocial: procriadoras, prostitutas ou sacerdotisas. 
Não havia outras formas de inserção social do feminino. Claro, haveria de ter 
aquelas que não se conformassem com esses lugares, e é daí que surge a história 
da sacerdotisa Safo e da lesbianidade. Mas antes é importante lembrar que Esparta, 
diferentemente dos Gregos, de algum modo, institucionalizaram o homoerotismo 
feminino em comunas ou entidades educacionais de mulheres e jovens meninas 
chamadas de “thiasois”. Smalls nos conta (2003, p. 29-32): Os thiasoi eram escolas 
nas quais “as mulheres maduras ensinavam as adolescentes a música e a dança, o 
charme e a beleza2 ”. 
Como os meninos com seus erastes, as meninas de classe social mais alta 
eram separadas da sociedade e tomavam parte em rituais consagrados à Diana, 
deusa da virgindade e da caça. Teoricamente, as thiasoi eram escolas destinadas a 
preparar as jovens meninas ao casamento, mas a natureza de seu envolvimento 
centrada na mulher favorecia entre elas as relações afetivas e sexuais íntimas. 
Entre outros elementos de uma educação refinada, mas limitada, muitas jovens 
meninas aprendiam a escrita e a poesia. 
Os poemas líricos (poesia acompanhada por uma lira) de Safo são os mais 
célebres, conhecidos por exaltar o amor passional de uma mulher por outra mulher. 
Assim é que chegamos a Safo: poetisa influente em sua época, nascida na Ilha de 
Egéia Lesbos (de onde deriva a palavra lesbianismo), próxima à costa daquilo que 
hoje conhecemos como Turquia. 
Era professora em thiasos e seus poemas falavam de amores entre 
mulheres, suas próprias alunas, e em relação aos homens. Por fim, vemos que a 
relação homoerótica era não só aceita, mas também incentivada na Era Clássica. E, 
como todas as relações sociais, eram governadas por normas e valores bastante 
rígidos. O que nos faz crer que o sexo é muito mais influenciado pela cultura do que 
propriamente pela biologia. 
A influência grega em Roma foi grande e contundente. Entretanto, em Roma, 
os valores e as normas que organizavam as relações homoeróticas eram outros. Os 
romanos conquistaram além dos gregos, os etruscos que já tinham outros valores 
relativos às (homos) sexualidades. Assim é que Smalls (idem) nos conta que: A 
aproximação romana em relação à sexualidade em geral e a homossexualidade em 
particular, entretanto, foi muito diferente. 
Junto aos romanos, a dominação sexual masculina sobre as mulheres e os 
outros homens era tida por conquista (aquisição): os romanos ricos mantinham 
frequentemente instrutores, escravos e jovens meninos para seu prazer sexual, e a 
prostituição masculina e feminina era legalizada. Os romanos da Antiguidade 
podiam ter relações sexuais com seus escravos masculinos ou femininos sem ter de 
temer a marginalização social ou a censura. 
O importante para o amor-próprio de um romano era manter a aparência de 
uma masculinidade ativa que, por essência, significava que ele tinha a preferência 
de ser “sempre aquele que penetra” mais do que o que é penetrado. Os homens 
romanos eram preocupados em manter uma aparência pública da masculinidade 
que era fundada sobre o poder da penetração do pênis. 
Assim, que o parceiro sexual fosse masculino ou feminino, não era problema. 
A homossexualidade não era tecnicamente punida desde que ela não violasse as 
estritas estruturas de classe ou os papéis sociais. Não tão filosóficos quanto os 
gregos em relação ao homoerotismo masculino, a regra principal era que um 
cidadão romano, maduro, não poderia se deixar penetrar ou praticar sexo oral. A 
passividade e a sodomia eram imediatamente associadas ao feminino. Smalls 
complementa: “tal como na Grécia, era também inconveniente para um cidadão 
romano potencial ou confirmadamente se submeter à penetração anal ou vir a 
praticar o sexo oral; esses eram atos reservados às mulheres (que civilmente não 
eram consideradas como cidadãos), aos escravos e aos prostitutos masculinos e 
femininos. 
O tabu contra a relação sexual anal era assim tão forte que, contrariamente à 
sua prática na Grécia Antiga, a pederastia era estritamente interditada em Roma” 
(Idem, p. 36). Por ser ainda uma sociedade que valoriza o masculino, mais 
propriamente que o prazer, pode-se inferir que o sexismo e o machismo romano até 
hoje se encontram presentes na nossa sociedade. 
Dele, acreditamos nascer a aversão, o asco, o repúdio ou a sensação de 
estranhamento não só por parte de alguns homossexuais, mas também de 
heterossexuais em relação aos homens efeminados. Ou seja, a associação desses 
à figura da mulher é um fator de desvalorização, entendido aqui como um demérito 
que precisa ser evitado. 
Entretanto, isso irá mudar com a chegada do Império Romano no qual 
veremos a liberação das práticas sexuais entre os homens. Entretanto, ainda assim, 
essa liberação ficou restrita aos Imperadores – basta-nos lembrar dos casos de 
Nero, Augusto e Hadria. Com o declínio do Império romano, o qual coincide com a 
legalização do catolicismo em Roma no século IV pelo Imperador Constantino 
(274-338), as regras e valores em relação às práticas homoeróticas mudam e 
endurecem cada vez mais até chegarmos ao período conhecido como Idade Média. 
Idade Média A religião católica se torna a religião oficial do Império Romano em 381 
sob o reinado de Teodoro o Grande3 (346-365). Já com os Imperadores 
Constantino e Constante, e reafirmado pelo código de Teodoro de 390, os atos 
homossexuais se tornam puníveis de morte na fogueira. 
Do mesmo modo, a lesbianidade foi proscrita por lei de 287 D.C., imposta por 
Diocletino (245-313) e Maximiano. É difícil de aceitar, mas a “pena de morte punindo 
os atos homossexuais masculinos e femininos persistiram no Código Civil até o 
século XVIII na maioria dos países Europeus do Ocidente” (Smalls, 2003, p. 47). 
Segundo este autor: 
As medidas extremas tomadas por esses soberanos eram justificadas pelas 
racionalizações teológicas da moral sexual fixadas por São Paulo, depois Santo 
Agostinho e São Jerônimo. 
De todos os Santos da Igreja, é Santo Agostinho quem teve a mais longa 
influência sobre os comportamentos sexuais no Ocidente cristão. Por volta de 400 
D.C., Agostinho ataca o mito clássico e tenta “corrigir” seus aspectos pagãos 
imorais. Invocando o Antigo Testamento, ele repetirá com insistência que todas as 
formas de satisfação sexual que não fossem com fins procriativos eram depravadas, 
pois seu único objetivo era o prazer e não a reprodução da espécie (p. 47) Ainda 
nesse período a palavra homossexualidade não existia, e em seu lugar, utilizava-se 
o termo ‘sodomita’. 
Segundo os estudiosos, A noção medieval de sodomia e a justificativa de sua 
condenação encontram sua origem nas interpretações particulares da fonte bíblica 
do Gênese, onde a destruição de Sodoma é descrita. Furioso pelo pecado da 
sodomia, Deus destruiu a cidade de Sodoma com uma chuva de fogo. A história 
sugere uma punição por diversos crimes sexuais cometidos pelos homens e 
mulheres de todas as tendências sexuais. 
A interdição da sodomia, seja ela cometida por héterosou homossexuais, era 
fundada sobre o seu aspecto não procriativo. Ainda que a sodomia fosse aplicável 
também à relação heterossexual anal, o termo era mais aplicado aos homossexuais. 
O “pecado de Sodoma” tornou-se pouco a pouco o eufemismo normal para a 
relação entre homens (Smalls, p. 52) Assim, percebemos que o problema das 
relações homoeróticas com penetração era o fato de o sêmen vir a ser 
desperdiçado. 
Portanto, a sodomia (penetração anal) e a masturbação eram condenadas. 
Mas essa última não era considerada um pecado nefando passível de morte como a 
primeira. Os únicos pecados nesse grau eram mesmo a sodomia e a bestialidade. 
“A relação entre a sodomia e a bestialidade era uma lembrança da 
Antiguidade – tempos onde os cristãos associavam as práticas pagãs à sodomia e 
aos sátiros” (Smalls, p. 51). 
Desse modo, a sodomia passa a ser não apenas “um pecado contra a 
natureza humana” (entenda-se como natureza humana a vontade de Deus para que 
o homem procrie), mas também um ato criminal. Desse modo: A sodomia, vício 
atribuído principalmente aos eclesiásticos, foi muito frequentemente ligada à 
heresia. 
Durante o papado de Gregório VII (1073-1085), o celibato do clérigo era tido 
como obrigatório. Os meios para se assegurar a conformidade foram sem 
misericórdia e deram nascença a uma cruzada pelo puritanismo moral dirigido 
contra os cristãos ortodoxos, os mulçumanos e os judeus, bem como aos heréticos 
e aos sodomitas. Após 1250, as penas severas foram ordenadas contra os atos 
homossexuais e fizeram parte do direito canônico. (Smalls, p. 54) Com o fim da 
Idade Média em 1492, a Itália já iniciara a sua revolução cultural, conhecida como 
Humanismo e Neoplatonismo da Renascença. 
Ao mesmo tempo em que a sodomia ainda era criminalizada, os praticantes 
desses atos já se reuniam em subculturas específicas que lhes fortificavam como 
forma de resistência a punições empregadas. Assim, aos poucos, vemos nascer nos 
grandes centros não apenas as revoluções artísticas e culturais, mas também um 
meio de preservação e anonimato que até hoje garantem aos homossexuais uma 
forma de vida mais visível e tolerante. Temos, nesse período, algumas cidades 
europeias como Londres, Veneza e Florença que até hoje se destacam como 
centros de proteção aos direitos humanos e cívicos das pessoas homossexuais. 
Mas, ao mesmo tempo, naquele período: A combinação da sodomia, como 
tabu religioso e um número crescente de práticas sexuais clandestinas provocaram 
um “processo administrativo de repressão” e de procedimentos policialescos 
inovadores. Alertada por um desenvolvimento de conhecimentos profanos e uma 
renascença do paganismo, a sociedade medieval declinante redobrou os esforços 
para erradicar a sodomia. 
Em países como a Alemanha, a perseguição aos sodomitas e àqueles que 
eram acusados de bruxaria se intensificou profundamente. O entusiasmo para com 
as execuções e humilhações públicas dos homossexuais aumentou. A morte na 
fogueira tornou-se a forma mais espetacular de pena capital para a sodomia. [...], 
todavia, as estratégias de repressão se instalaram e assumiram as formas de 
mutilação, de exílio, de multas, e outras medidas drásticas, até a que compreendia a 
condenação a ser queimado vivo. (Smalls, p. 62). 
Com isso, vemos que a Idade Média foi um marco em relação aos extremos 
que se pode chegar, em termos de punição para com os atos homoeróticos entre 
homens. Mas será que houve tantas mudanças assim? No Brasil, segundo os dados 
do Grupo Gay da Bahia (GGB): “126 gays, travestis e lésbicas foram assassinados 
no Brasil em 2002. 
 
 
O Estado da Bahia foi pela primeira vez o campeão, com 20 mortes! A maior 
parte destes homicídios foram cometidos com requintes de crueldade, incluindo 
espancamento, tortura, muitas facadas e diversas declarações dos assassinos que 
confirmam sua condição de crimes homofóbicos: “Matei porque odeio gay” foi a 
justificativa dada por um jovem criminoso para estrangular e esfaquear um 
homossexual de Salvador. 
A cada três dias um homossexual brasileiro é barbaramente assassinado, 
vítima da homofobia”. Ou seja, esses dados sugerem que ainda somos muito 
medievais em nosso modo de compreender as práticas homoeróticas. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 A Formação em Psicologia e a Diversidade 
Sexual 
 
 
 
 
A leitura da Resolução nº 001/99, do Conselho Federal de Psicologia, leva ao 
entendimento de que cabe ao psicólogo contribuir para que gays, lésbicas, travestis 
e transexuais sejam tratados com igualdade e respeito. A orientação sexual faz 
parte integrante do sujeito e está relacionada à interação de inúmeros fatores 
psicológicos e sociais. 
É preciso ressaltar que o sofrimento pelo qual as pessoas com desejos 
homoeróticos passam decorre em grande medida não da existência destes desejos, 
mas da relação intolerante da sociedade. O atendimento deve priorizar as 
dificuldades que enfrenta qualquer pessoa em situação de estigmatização por uma 
diferença. Em geral, não é o desejo homoerótico que incomoda o sujeito, mas a 
dificuldade de lidar com este desejo diante de uma sociedade homofóbica, o que 
ocasiona conflitos familiares e interpessoais diversos. 
Nesse sentido, independentemente da abordagem teórica em que se baseie 
o psicólogo em sua atividade profissional, o que se propõe no atendimento de 
clientes homossexuais não é o “tratamento” da homossexualidade, como se fosse 
uma “doença curável”. Sousa Filho (2011) discute que a orientação sexual não se 
trata de uma essência ou substância, mas sim de uma construção em que se 
imbricam dimensões sociais, culturais, históricas e pessoais. 
Sendo uma expressão do desejo, está relacionada a elementos singulares, 
que abrange prazeres, sensações, fantasias, imaginação, práticas eróticas etc. Mas 
também não podemos perder de vista a dinâmica entre o subjetivo e o social, sendo 
a orientação sexual construída permeada de relações de poder em constante vigília 
sob os padrões, os ideais e os modelos culturais, o que a torna um fenômeno 
individual tanto quanto coletivo. 
Não é possível pensarmos a questão da orientação sexual sem pensarmos 
os padrões de gênero, a história pessoal, as relações familiares, sociais e o 
contexto da cultura como um todo. Na atuação clínica, é preciso compreender o 
fenômeno da homossexualidade para além do âmbito privado, e embora a 
discriminação apareça no sofrimento particular do cliente atendido, não podemos 
perder de vista que ela só existe no contexto social que produz a noção de que esta 
é uma diferença desvantajosa. 
 
Muitas queixas existem em função de relacionamentos interpessoais e 
processos subjetivos que podem ou não ter a ver com a orientação do desejo do 
sujeito. É importante também considerar que o preconceito atinge não só os 
indivíduos estigmatizados pelo desejo homoerótico, mas também seus familiares. A 
própria introjeção de certa “culpa”, ocorre entre as pessoas que se percebem 
homossexuais e também seus pais e mães atribuindo o fato de alguém se tornar 
homossexual a umafalha na educação ou na estrutura familiar. 
É comum que as famílias busquem os serviços de psicólogos, pedindo 
explicações ou mesmo tratamentos para reverter e curar a homossexualidade e, 
nesse sentido, o psicólogo deveria esclarecer e reconhecer que o sofrimento dos 
familiares está relacionado à falta de referências sobre a diversidade e ao padrão 
heteronormativo aprendido (CASTAÑEDA, 2007). 
Outras questões importantes somariam ao papel do psicólogo, já previsto na 
Resolução nº 001/99 do Conselho Federal de Psicologia, e merecem ser 
destacadas: em primeiro lugar, o psicólogo deve atuar como um agente de 
esclarecimento e reflexão que busque minimizar as situações sociais 
preconceituosas. 
A omissão e o silêncio podem contribuir para a reprodução e a legitimação de 
situações, discursos e práticas excludentes. Além disso, é necessário que o 
psicólogo, em qualquer atuação, busque colaborar como agente de educação 
sexual e como mediador em instituições educativas, como a escola e a família. 
Ao trabalhar, por exemplo, como formador de agentes educativos em projetos 
de intervenção intencionais em educação sexual, é preciso que o psicólogo discuta 
e reflita sobre as questões de gênero e diversidade, sobre os preconceitos e 
estereótipos relacionados à sexualidade e sobre os padrões que são transmitidos e 
reforçados por meio de uma socialização repressiva. 
O psicólogo tem um importante papel nos projetos de educação sexual 
realizados em instituições escolares ou outras, espaços em que pode atuar 
aprofundando a reflexão necessária e mediando a formação continuada de 
educadores de crianças e jovens que se propõem a trabalhar intencionalmente com 
o tema da sexualidade. 
Nesse sentido, cabe ao psicólogo considerar a existência da diversidade 
humana em relação aos padrões afetivos e sexuais, buscando problematizar a 
reprodução de normas, valores e práticas heteronormativas. Para isso, é importante 
que a formação em Psicologia propicie momentos em que seja possível refletir 
sobre essas questões, lembrando que fomos educados em meio a estereótipos 
sobre a sexualidade em uma socialização tão repressiva que muitas vezes sequer 
permite a expressão do sofrimento que dela resulta. 
 
 
 
A atenção para as múltiplas possibilidades de se expressar desejos, se 
relacionar e buscar prazer, as novas configurações familiares e amorosas, para o 
acolhimento e o respeito àqueles que, por não corresponderem aos padrões 
normativos vigentes, e são vítimas de discriminação violenta, depende que o 
profissional tenha tido a oportunidade de pensar e repensar sobre os próprios 
preconceitos, para que possa buscar não reproduzir os padrões normativos de 
modo explícito ou implícito. 
Como parte da auto avaliação permanente, é importante que o psicólogo 
reflita e questione constantemente os padrões do que é tido culturalmente como 
normalidade, inclusive aqueles inerentes à própria ciência psicológica e, ao estudar, 
é preciso sempre estar aberto às novas formas de ler e compreender o mundo, às 
mudanças sociais e, principalmente, é preciso sempre considerar criticamente as 
crenças, valores e concepções pessoais, pois estas são também fruto de sua 
história de vida pessoal, na atuação profissional que exerce. 
Na educação em geral o padrão da normalidade impõe condições estreitas 
para a adaptação dos indivíduos, o que gera sofrimento pessoal, discriminação e 
preconceito, violência física e simbólica. 
É preciso ficar claro que sempre houve padrões e que, mesmo numa 
sociedade livre, provavelmente existiriam também formas mais ou menos 
padronizadas de conduta humana; a questão é como o indivíduo pode se apropriar 
desses padrões, se ele pode, durante sua formação, refletir sobre esses padrões e 
sobre suas qualidades ou contradições. 
Ou a educação ocorre por meio de uma reflexão sobre a sociedade e sobre o 
próprio sujeito, estimulando tanto a crítica quanto a autocrítica, ou é grande a 
possibilidade de que a mera ilustração sobre sexualidade resulte em uma ação 
normativa e repressiva. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Manifestações da Homofobia e sua Relação 
com a Psicologia 
 
 
 
 
 
Enquanto dispositivo de controle, a homofobia enreda os mais variados 
discursos (religiosos, científicos, políticos, etc.), para garantir uma percepção 
negativa e homogeneizada da homossexualidade no campo social, que resulta no 
campo individual, em uma homofobia interiorizada. 
O jurista argentino radicado na França, Daniel Borrillo (2000) aponta que as 
pessoas homossexuais são vitimizadas do seguinte modo: 
 
1) Os homens homossexuais são vitimizados, pois, em sendo homo, se 
“igualam” às mulheres na posição (“passiva”) de eventual receptor do pênis. Logo, 
são vistos como “efeminados”, deixando de fazer parte do universo viril. Por isso, o 
estereótipo de que todos os homossexuais masculinos são “mulherzinhas”, 
“desmunhecados” e/ou “marica”. 
 
2) De outro lado, as mulheres homossexuais são vitimizadas, já que, em 
sendo homo, supostamente deixam de cumprir sua função de “fêmea” reprodutora 
dos filhos “de um macho”, e não são aceitas no universo viril, ainda que 
emasculadas, pois não possuem o pênis. 
 
Em acréscimo, ao se identificarem enquanto lésbicas, assumem uma postura 
“ativa” em relação ao seu desejo sexual. Como tal atividade é exclusiva do universo 
masculino, elas são rechaçadas pelos homens e pelas outras mulheres, pois 
quebraram a barreira do silêncio em relação à suposta passividade feminina. De 
modo semelhante, autores como Blumenfeld (1992), Isay (1998) e Hardin (2000) 
assinalam que tais efeitos englobam: 
 
1) Negação da sua orientação sexual (do reconhecimento das suas atrações 
emocionais) para si mesmo e para os outros; 
 
2) Tentativas de mudar a sua orientação sexual; 
 
 
3) Sentimento de que nunca se é “suficientemente bom”, o qual conduz à 
instauração de mecanismos compensatórios, como, por exemplo, ser 
excessivamente bom na escola ou no trabalho (para ser aceito); 
 
4) Baixa autoestima e imagem negativa do próprio corpo, depressão, 
vergonha, defensividade, raiva e/ou ressentimento – o que pode levar ao suicídio já 
em tenra juventude; 
 
5) Desprezo pelos membros mais “assumidos” e “óbvios” da comunidade 
LGBT; 
 
6) Negação de que a homofobia é um problema social sério; 7) Projeção de 
preconceitos em outro grupo-alvo (reforçados pelos preconceitos já existentes na 
sociedade); 
 
8) Tendência de tornar-se psicológica ou fisicamente abusivo; ou permanecer 
em um relacionamento abusivo; 
 
9) Tentativas de se passar por heterossexual, casando-se, por vezes, com 
alguém do sexo oposto, para ganhar aprovação social ou na esperança de “se 
curar”; 
 
10) Práticas sexuais não seguras e outros comportamentos autodestrutivos e 
de risco (incluindo a gravidez e o de ser infectado pelo vírus HIV); 
 
11) Separação de sexo e amor e/ou medo de intimidade, capaz de gerar até 
mesmo um desejo de ser celibatário (a); 
 
12) Abuso de substâncias (incluindo comida, álcool, drogas e outras). Assim, 
como podemos perceber, há muitas consequências da homofobia. 
 
Todavia, gostaria de destacar uma, que tem a ver com um projeto que nósdesenvolvemos na UNESP de Assis, que passou por um edital de concorrência do 
Ministério da Saúde em 2007, como parte de implementação das propostas do 
Programa “Brasil sem homofobia”. Tal pesquisa busca investigar a relação entre 
homofobia sofrida por adolescentes LGBT e ideações e tentativas de suicídio. 
A hipótese é que a homofobia produz um estado de isolamento no (a) jovem 
que se sente atraído (a) por alguém do mesmo sexo biológico e, isolado (a), sem ter 
com quem falar, dividir suas histórias, com medo de ser rejeitado (a) por sentir e 
desejar diferente do que seus/suas colegas supostamente heterossexuais sente, 
este (a) jovem teria mais chances de pensar e/ou tentar se matar comparativamente 
àqueles que se dizem heterossexuais. 
Segundo pesquisas norte-americanas e europeias dos anos de 1990 e 2000, 
respectivamente, que também, pautaram-se nesta mesma hipótese, os resultados 
demonstraram que para cada jovem heterossexual que tenta suicídio, existem três 
jovens homossexuais que tentam se matar. 
Entretanto, segundo o psicólogo norte americano Savin-Williams (2005), 
estudos semelhantes realizados por psicólogos e psiquiatras, já haviam sido feitos, 
especialmente nas décadas de 70. 
Ou seja, o suicídio em jovens LGBT não é um fenômeno recente. Porém, 
diferentemente do momento atual, naquela época, a hipótese para a interpretação 
destas ideações e tentativas de suicídio é que o responsável não seria a homofobia, 
mas sim o “homossexualismo”. Vejam que, temos aqui a participação da psicologia 
dando sustentação teórica a interpretações homofóbicas. 
Evidentemente, que hoje, a nossa questão é a vulnerabilidade dos jovens 
hetero e homo em relação à homofobia. A nossa participação é no sentido de tentar 
dar elementos para a desconstrução da homofobia. Porém, é quase impossível de 
se realizar isso sem que seja necessário desconstruirmos o binômio dos gêneros e 
dos sexos. 
A heterossexualidade existe para se colocar como palavra e conceito, 
superior à homossexualidade. Se vamos combater a homofobia, transfobia, 
lesbofobia na Psicologia, temos que pensar qual é o sentido de vivermos no 
universo onde os seres humanos são divididos em macho e fêmea, homem e 
mulher, para que isso? Qual é a função disso? 
Parece-me que este dualismo faz muito mais sentido, em sociedades 
teocráticas, onde os padrões de gênero são rígidos, do que propriamente em 
sociedades democráticas, de espírito laico, influenciadas por ideais liberais de 
autonomia do sujeito, que crê em sujeitos de direito capazes de decidir sobre seus 
próprios prazeres. Do ponto de vista da despatologização da homossexualidade, 
temos que em 1973, a Associação Americana de Psiquiatria retirou-a do Código 
Internacional de Doenças (CID), em 1975 foi a vez da Associação Americana de 
Psicologia que estabelece não ser a homossexualidade motivo para o tratamento de 
uma pessoa, bem como em 17 de maio (Dia Internacional de Luta contra a 
Homofobia), a Assembleia Geral da Organização Mundial da Saúde (OMS) retirou a 
homossexualidade do código 302 das doenças mentais, declarando não ser a 
mesma nem “doença, nem distúrbio e nem perversão”. 
A psicologia brasileira, no entanto, em 1999 estabelecerá a conhecida 
resolução 1/99 que normatiza a atuação da categoria em relação à conduta perante 
os (as) pacientes homossexuais. 
Apesar disso, entretanto, vemos nascerem posições contrárias a esta 
resolução por parte de alguns grupos evangélicos que se sentem capazes de ‘curar’ 
a homossexualidade, ou antes, de fazer com que pessoas que se sintam 
desconfortáveis com sua homossexualidade venham a se tornar heterossexual. 
É curioso notar, entretanto, que os psicólogos evangélicos pertencentes a 
estes grupos, dizem se apoiar em pesquisas e argumentos científicos do campo da 
psicologia. Mas como a homofobia atravessa a Psicologia? A Psicologia tende a não 
aceitar as teorias que se pautam exclusivamente em argumentos genéticos para 
explicar as orientações sexuais. 
De modo geral, as teorias psicológicas vigentes se pautam em argumentos 
sociais e histórias de vida das pessoas. Em relação a esta última, a teoria mais 
expoente é a da psicanálise. Para quem já leu o célebre trabalho de Kenneth 
Lewes, The Psychoanalytic Theory of Male Homosexuality, de 1988 (reeditado como 
Psychoanalysis and Male Homosexuality em 1995), deve se lembrar do apanhado 
geral que o autor faz sobre pelo menos hipóteses teóricas que partem das 
colocações de Freud sobre as formas da sexuação e, mais especificamente, da 
homossexualidade masculina. 
De modo geral, temos que a primeira estaria relacionada ao Complexo de 
Castração, que faria com que o menino ao ‘ver’ que sua mãe é castrada (sem 
pênis), sentiria grande ansiedade em perder também o seu o que provocaria uma 
‘alucinação’ sobre a existência de um pênis na mãe o que, mais tarde, se 
transformaria em um fetiche. 
A segunda diz respeito a uma grande identificação do filho com a mãe que, 
narcisicamente iria nela se espelhar reproduzindo junto a outros homens o carinho 
que dela teria recebido quando criança. Na terceira, o menino assumiria uma 
identidade feminina e iria buscar em outros homens o amor do pai. E, por último, a 
inveja e o ciúme em relação à figura do pai e irmãos. 
Para Freud, entretanto, a homossexualidade nunca foi uma patologia. 
Todavia, por conta de sua crença no pensamento darwinista de que a reprodução 
seria o fim último da sexualidade, embora não se reduziria a esta (vide sua hipótese 
sobre a polimorfia sexual), irá localizar o desenvolvimento sexual na 
heterossexualidade, o que lhe permitirá dizer que a homossexualidade seja um 
atraso no desenvolvimento sexual. Isso implica em dizer que se a reprodução for a 
finalidade de nossa existência, portanto, a homossexualidade não nos permitirá 
cumprir essa finalidade, não devendo, entretanto, ser creditada a ela nenhuma 
tendência patológica em si. 
Porém, as afirmações freudianas não serão suficientes para contribuir para a 
desestigmatização da homossexualidade. Sua ideia a respeito de uma 
bissexualidade inata a todo (a) se nós, a qual irá tomar direções diversas a partir 
das fantasias inconscientes derivadas da passagem pelo Édipo, irão dar margem 
para se pensar que a homossexualidade seja resultante de uma ‘eleição’ 
(inconsciente) de objeto. Logo, sendo construída dentro de um jogo cênico edípico, 
ela poderia ser desconstruída? 
Ou melhor, ‘reparada’ como afirmam os defensores das terapias reparatórias 
dos movimentos de exatas? 
Bastaria, em análise, reconstruir cenas edípicas definidoras da 
homossexualidade para que, no jogo transferencial com o (a) analista uma nova 
‘eleição de objeto de gozo sexual’ possa advir? Desnecessário dizer que estas 
hipóteses nunca encontraram comprovação inclusive junto a teóricos da psicanálise, 
mais precisamente dos estudiosos de Lacan. 
Não cabe aqui, com o pouco espaço/tempo que temos de discorrer 
aprofundadamente sobre as querelas da ‘origem da homossexualidade’ na 
psicanálise. Cabe, entretanto, nos questionarmos sobre seus efeitos. A ideia de 
‘eleição inconscientede objeto’ não passou desapercebida ao senso-comum que na 
sua incompreensão sobre o inconsciente entende ‘eleição’ como escolha e não 
acontecimento. 
Assim, crê-se ser a homossexualidade uma opção, um estilo de vida. Mas 
pensamos também assim em relação à heterossexualidade? Se sim, qual foi o dia 
em que as pessoas heterossexuais aqui presentes escolheram a sua orientação 
sexual? Alguém saberia me dizer? Claro que não. Isto porque não escolhemos a 
nossa orientação como quem escolhe o que vai comer hoje, o que comeu ontem, o 
que irá comer amanhã. 
A orientação sexual, seja qual for, é um acontecimento em nossas vidas e 
não se confunde com o gênero, isto é, com nossa identidade masculina ou feminina, 
com nossa forma (cultural) de expressá-la. O que, na verdade, escolhemos é para 
quem iremos contar o que sentimos, o que, quem e como desejamos. 
E essa escolha está intimamente ligada ao contexto em que vivemos. Logo, 
quanto mais homofóbico for este contexto, maiores serão as chances de a pessoa 
homossexual se fechar em seus ‘armários’ por medo de sofrer alguma retaliação, 
por se sentir ‘estranha’, inadequada e anormal perante uma sociedade onde todos 
(as) são compulsória e presumivelmente heterossexuais. 
Outro aspecto importante que limita as contribuições psicanalíticas em torno 
das (homos) sexualidades é propriamente a sua referência fálica no tocante à 
sexuação. Mais uma vez aqui, por mais que se afirme não ser o falo redutível ao 
pênis, não se trata de uma afirmação unânime entre os psicanalistas. 
Novamente, o que parece comprometer estas explicações são os substratos 
biológicos que dariam materialidade à questão da genitalidade, apesar de se afirmar 
veemente que no inconsciente não há diferença sexual. 
Acreditamos que a Psicologia, seja a partir das contribuições da psicanálise, 
seja a partir das neurociências, ainda assim, não irá avançar, pois, estas hipóteses 
e argumentos teóricos estão pautados na dualidade dos gêneros enquanto 
materialidades não apenas concretas, mas também “naturais”, como se o corpo 
fosse um suporte ‘já dado’ no qual a cultura se apoie. Não seria esse corpo, desde 
já, uma interpretação? 
 
 
É justamente esta binaridade biológica que dá suporte ontológico à 
homofobia. Ademais, temos as questões sociais pungentes que, como assinala a 
psicóloga mexicana Marina Casteñada (2007, p. 24), nos obrigam a rever nossos 
referenciais. 
Deste modo, como ela coloca: A pergunta “quem é homossexual? ”, suscita 
sempre grandes discussões. O Movimento de Liberação Gay nos anos 70 e 80 
propôs a liberação não somente de uma população específica, mas do homossexual 
em cada um de nós. Estipulou a existência de uma bissexualidade natural e inerente 
a todos os seres humanos. Bissexualidade que é depois circunscrita e reprimida 
pelo imperativo da heterossexualidade como “socialização aceitável 
compulsoriamente”. 
O objetivo foi, portanto, libertar não somente os homossexuais, mas a 
sociedade em seu conjunto. Esse programa foi modificado ao longo dos anos 90. As 
associações gays nos países industrializados fixaram-se um objetivo muito mais 
restrito, ao adotar um modelo étnico da homossexualidade: nessa perspectiva, os 
homossexuais constituem uma comunidade, que como toda a minoria oprimida, 
deve ter os mesmos direitos que a maioria, mantendo ao mesmo tempo uma 
identidade cultural própria. 
Mais recentemente, o Movimento Queer propôs a abolição de todas essas 
categorias, argumentando que qualquer classificação fundamentada sobre a 
sexualidade ou até mesmo o gênero deriva de um discurso social essencialmente 
repressivo. 
Assim, pudemos ver que os paradigmas do século XX sobre a definição das 
identidades sexuais, ainda parecem sustentar as teorias psicológicas sobre a 
questão das homossexualidades. 
Neste caso, é importante lembrar que as mesmas têm como referência o 
aspecto biológico (genital) como apoio para a diferenciação entre os sexos. Assim, 
ainda se fala de homossexual como aquele ou aquela que tem relações sexuais ou 
atração afetiva por pessoas de mesmo sexo genital. 
E, por conta de ser esta a referência universalmente adotada é que 
encontramos o problema, por exemplo, das pessoas transexuais que, na maioria 
das vezes, se afeiçoam por pessoas de mesmo sexo genital, porém, sentindo se 
como pertencendo ao gênero oposto. Conclusão, estas pessoas acabam 
consumando uma relação heterossexual (que também tem em sua definição a 
referência do sexo genital), mas ainda assim são mal compreendidas como sendo 
homossexuais. 
De outro lado, as sexualidades são os processos pelos quais os desejos são 
construídos e atravessam as pessoas, compondo ou não as suas orientações 
sexuais. 
 
 
Em uma palavra, as sexualidades são as formas e modos pelos quais as 
pessoas obtêm prazer; e tais processos podem ou não incluir as suas orientações 
sexuais e, não necessariamente, incluem também as suas identidades de gênero e, 
mais importante, não necessariamente incluem os genitais, como é o caso, por 
exemplo, do sadismo/masoquismo, onde o prazer apoia-se na dor, na cena de 
poder/submissão. 
Observamos uma nova paisagem no território das sexualidades que se 
constrói, tendendo mais às diversidades sexuais entendidas aqui como devires, 
possibilidades regidas pelos afetos e sentimentos do que propriamente pelo 
biológico. 
Desse modo, uma identidade sexual, ou, uma identidade de gênero, são 
cada vez mais entendidas como atos políticos, efeitos da cultura e, por seu turno, o 
desejo, o prazer e a orientação sexual são pensadas mais pela via dos encontros, 
dos acontecimentos e dos afetos. 
Assim, não se diz mais: “Uma pessoa optou por ser homossexual”, pois o 
desejo, a atração física por alguém não é da ordem da consciência. O desejo sexual 
nasce em nós, como a flecha do Cupido que enche de amor e poesia nossas vidas 
sejam em relações efêmeras, sejam em relações de compromissos mais 
duradouros. 
Não é apenas difícil tratarmos das questões relativas às homossexualidades 
na psicologia. Antes, é também muito complexo falarmos sobre sexualidades neste 
campo de saber, para além dos determinantes biológicos que supostamente 
guardam sobre elas alguma verdade já secularmente naturalizada. 
Entretanto, temos diante de nós a responsabilidade social como categoria 
profissional, de tentar diminuir as desigualdades sociais, compreender melhor o 
risco e a opressão que cada gênero enfrenta na rede social, reduzir as 
vulnerabilidades sociais, garantir o acesso aos dispositivos de saúde e de educação 
a todas as pessoas, independentemente do gênero, orientação sexual ou condição 
psíquica. 
Assim, combater a homofobia é, antes de tudo, uma meta a ser atingida e 
isso requer de nós não somente uma revisão pessoal de valores, crenças e 
discursos, mas também uma busca ativa de novos referentes teóricos 
profundamente comprometidos com a desnaturalização de verdades seculares. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A prática psicológica e a sexualidade como 
categoria de subjetivação 
 
 
 
 
 
Os intelectuais na sociedade democrática constituem uma comunidade de críticos 
culturais,mas os psicólogos raramente se viram assim. Em grande parte, porque 
ficaram aprisionados à autoimagem gerada pela ciência positivista. Nessa 
perspectiva, a Psicologia lida apenas com verdades subjetivas e evita a crítica 
cultural. Mas até a Psicologia Científica se arranjará melhor quando reconhecer que 
a suas verdades, como todas as verdades acerca da condição humana, se referem 
ao ponto de vista que toma sobre tal condição. 
Jerome Bruner 
 
 
A primeira pesquisa, desenvolvida no Rio de Janeiro entre 2000 e 2004, 
originou minha tese de doutorado , em que foi discutida a questão juventude e 
homossexualidade, e em que as questões do recorrer à Psicologia foram se fazendo 
presentes ao longo das entrevistas. 
A segunda, realizada em Recife entre 2005 e 2006, foi uma pesquisa que fiz 
logo que entrei na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), onde eu tentei 
compreender como os psicólogos que lidavam com a psicoterapia infantil pensavam 
a questão da homossexualidade na infância e na adolescência . 
Por fim, a terceira pesquisa, realizada entre 2005 e 2010, é uma pesquisa 
multicêntrica que teve campo no Rio de Janeiro e em Recife, Porto Alegre e São 
Paulo, onde nós tentamos reconstruir a história do modo como católicos, 
evangélicos e afro brasileiros enfrentam a epidemia de HIV/Aids . 
Nela, nós também pudemos entrar em contato com as questões de 
homossexualidade dentro das religiões. Um primeiro ponto que nós precisamos 
considerar, antes de começar a discussão, é o que eu tenho chamado de homofobia 
generalizada. Nós vivemos numa sociedade, e já dizia Michel Foucault , que, desde 
a emergência da burguesia, elegeu o sexo como o lugar de dizer a verdade das 
pessoas. 
E isso vai se fazer na sociedade ocidental a partir da heteronorma que se diz 
pelo sistema de sexo-gênero e que pede por alinhamentos de gestualidades, 
adereços e sotaque – o modo como eu tenho tentado caracterizar o que alguns 
chamam de “performance de gênero” – na inter-relação com sexo, desejo, posições 
sexuais (insertivo/ receptivo). Os autores-chave para pensarmos nisso são Gayle 
Rubin e Judith Butler . 
Eu creio que esses nomes serão recorrentemente citados aqui ao longo 
desse seminário. O modo como a heteronorma apreende as homossexualidades 
será matizado em diferentes espaços da sociedade brasileira. 
Quando a família ou a própria pessoa, na infância e/ou juventude, depara-se 
com questões que são remetidas às de homossexualidades, recorre a instituições 
ou pessoas que ofertam algum tipo de terapia, em busca de ajuda para lidar com o 
sofrimento. 
Porque esse alinhamento entre gênero, desejo e sexualidade – alinhamento 
esse que, por exemplo, dita que um homem “ajustado” deve ser aquele que tenha 
performances corporais que remetem preponderantemente à masculinidade como 
definida culturalmente, que deseje mulheres e se utilize das práticas sexuais 
comumente concebidas como próprias à heterossexualidade/ masculinidade – situa 
o modo das pessoas pensarem o sujeito. 
À medida que a criança ou o jovem começa a se mostrar diferente do 
esperado para um homem ou uma mulher, a família assustada vai buscar por estas 
instituições ou pessoas que ofertam ajuda. 
O que eu observei na pesquisa da tese, quando eu pedi aos jovens que 
falassem de suas trajetórias sexuais, é que eles recorrentemente diziam que a 
Psicologia e a religião foram as principais instâncias de oferta de cuidado 
procuradas. 
Por isso eu estarei trazendo estes dois campos, para nós pensarmos esses 
itinerários terapêuticos e o modo como, nesses itinerários, a pessoa é “cuidada”. 
Para iniciar a discussão, trarei fragmentos da trajetória de vida de Saulo (o nome é 
fictício). 
Na infância, ele foi pego com mais dois colegas numa brincadeira sexual no 
banheiro da escola. Isso gerou um pânico moral dentro da escola, a diretora foi 
chamada, a psicóloga da escola foi acionada e ele foi encaminhado para a 
psicoterapia. Ele e os dois colegas. Saulo também passou por vivências de abuso 
sexual na infância. No entanto, quando ele vai descrever a sua trajetória de vida, 
essa vivência do abuso tinha menos impacto, em termos de sofrimento, do que o 
fato de ter sido estigmatizado como homossexual ao longo da vida escolar. 
Porque ele não pôde sair dessa escola: ele continuou nela até finalizar o 
Ensino Médio e lá era apontado recorrentemente como a “bichinha”. O que é 
interessante é que essa cena da brincadeira sexual vai ter uma infinidade de 
interpretações a depender dos atores que entraram em contato com ela: a escola 
percebeu o acontecido como comportamento inadequado; a família, que tinha 
passagem pelo candomblé, mas,cujo pai tinha se convertido para a religião 
evangélica, percebeu tudo aquilo como provocado pelo feitiço do ex-pai de santo; e 
a psicóloga que atendeu as crianças em terapia informou, tanto para Saulo como 
para a família, que aquele comportamento era natural. 
De certa forma, nesse contexto, a psicóloga, que estava usando de uma 
perspectiva de naturalização da sexualidade, conseguiu dar certo apoio, certa 
estabilidade ou sustentação para uma infinidade de conflitos afetivos que estavam 
surgindo quando Saulo relia a vida dele. 
Só que nem sempre os psicólogos atuam deste modo, e nós poderemos 
discutir isso ao longo da apresentação. Vale abrir um parêntese para dizer que, em 
geral, quem está discutindo esse campo da sexualidade numa perspectiva mais 
emancipatória, que reconhece os contextos e a construção da sexualidade, tem 
enfatizado a perspectiva epistemológica construcionista como a mais promissora, 
em oposição à do essencialismo. 
Mas, de propósito, tomarei aqui algumas falas que, embora localizem a 
sexualidade e a homossexualidade como coisas construídas, partem, a partir desse 
princípio, para uma atuação que, embora seja descrita como cuidadora, não é tão 
cuidadora assim. Do mesmo modo, tratarei de outras cenas, como a da psicóloga 
descrita por Saulo, que, embora naturaliza se a homossexualidade, conseguiu ser, 
por um bom tempo da vida dele, a única referência positiva para o que vivia. 
Além de embaralhar natural e construído de propósito, eu vou trazer 
conjuntamente teorias/práticas religiosas e teorias/práticas científicas como formas 
de lidar com o sofrimento referido às homossexualidades. 
Depois, vou tentar fazer uma discussão sobre a singularidade de cada um 
desses fazeres, e justificar por que penso que estes dois campos devem continuar 
distintos (ou, pelo menos, quando se trata das questões religiosas do terapeuta) no 
momento de se oferecer ajuda psicológica a alguém, seja no que se refere à 
homossexualidade, seja em toda e qualquer demanda por ajuda. 
As duas supracitadas linhas de apreensão teórica da homossexualidade vão 
ocorrer tanto na religião como na Psicologia. Em relação aos que dizem o que é ou 
não é natural, no ponto de vista da ciência, os psicólogos vão se utilizar de um 
campo maior de discussão sobre a homossexualidade: eles vão dizer que a causa 
da homossexualidade vai estar nos hormônios, nos genes, nas malformações de 
órgãos e por aí vai. 
No ponto de vista da religião, esse natural é percebidocomo a carne, a 
categoria cristã que vai localizar o desejo sexual, e também, para algumas 
denominações (religiões afro-brasileiras e evangélicas pentecostais), um conjunto 
de entes espirituais que estarão, de alguma forma, mobilizando a pessoa. São 
esses os dois principais fatores que, do ponto de vista religioso, conduziram a 
pessoa à homossexualidade. 
Localizar como natural não significa, do ponto de vista prático, que a 
homossexualidade vá ser percebida como algo ruim. Na verdade, quando nós 
fazemos a leitura da psicóloga de Saulo, ainda que ela percebesse aquilo como 
natural, ela conseguiu, a partir desse entendimento, construir uma perspectiva 
cuidadora, no sentido pleno, sobre o sofrimento que estava sendo experimentado 
por ele. 
Na primeira e na última das pesquisas, nós também percebemos isso em 
relação aos pais e mães de santo do candomblé, os quais também entendem a 
homossexualidade como da natureza da pessoa, intrínseca (não é algo que se 
constrói, mas algo com que já se nasce, como uma orientação), mas que também 
conseguem fazer um acolhimento cuidador sobre esse sofrimento experimentado 
por pessoas com práticas homossexuais – uma das razões para a forte presença de 
homossexuais no candomblé. 
Por outro lado, nós também podemos, a partir deste mesmo princípio, chegar 
a tratamentos que consideram a homossexualidade como estado doentio do 
organismo e da alma, que pede por alguma intervenção no sentido de correção. 
Nessa perspectiva, nós temos, por exemplo, os católicos. É muito curioso o modo 
como eles descreveram, ao longo dos relatos obtidos na última pesquisa que nós 
realizamos, essa questão. 
Localizando o “homossexualismo” (sic.) como uma tentação, o grave não é 
sentir o desejo, porque todos nós somos sujeitos à carne, todos temos uma 
infinidade de desejos que podem nos desviar do caminho traçado por Deus. A 
questão é a prática homossexual. Então, eles têm denominado o 
“homossexualismo” como esse desejo, e o problema da expressão, da realização 
desse desejo como “homossexualidade” (sic.). 
De certa forma, os padres entrevistados invertem o que nós, num campo da 
ciência, hoje, temos pensado em termos desses nomes, de como utilizá-los. Nós 
temos abolido o termo “homossexualismo”, porque o “ismo” remete a doença, e 
preferido “homossexualidade”, que remete à expressão da sexualidade. 
E aí, também, eu localizo, dentro do campo de entendimento da 
homossexualidade como natural, por exemplo, os evangélicos que Marcelo 
Natividade estudou. 
De certa forma, esses “agentes demoníacos” que se aproximam da pessoa 
são concebidos como da natureza espiritual, ainda que do lado obscuro; mas eles 
também são percebidos, de certa forma, como naturalizados. Alguns pais e mães de 
santo da umbanda também compartilham dessa perspectiva, associando a 
homossexualidade masculina à influência de entidades femininas, em especial, de 
Pomba Gira. 
Numa outra perspectiva, nós temos religiosos e psicólogos que vão situar a 
homossexualidade como algo construído. De propósito, e para confrontar o princípio 
epistemológico pelo qual eu próprio me guio, vou acentuar aqui as falas que, ainda 
que percebam a sexualidade como construção social, pensam a homossexualidade 
como algo negativo e atuam no sentido de mudar a orientação sexual rumo a 
heterossexualidade. 
Do lado religioso, nós temos, por exemplo, o discurso do Movimento Pela 
Sexualidade Sadia – Moses, e aqui eu tomo um fragmento discursivo de Jose 
Sataloni, uma de suas principais lideranças: 
 
A influência maligna existe como em qualquer outro pecado, pois Jesus 
disse que o diabo é mentiroso e nunca se firmou na verdade (Jo 8.44). A 
homossexualidade é uma mentira dentro dos propósitos maravilhosos de 
Deus para a sexualidade humana. (...) O psiquiatra John White traz uma 
informação esclarecedora sobre a questão: “Até agora, a ciência buscou em 
vão uma causa física para a homossexualidade”(...). Se não existem provas de 
que o homossexualismo seja de ordem biológica, devemos questionar, então, 
quais são os fatores que levam uma pessoa à homossexualidade. Ankerberg e 
Weldon falam da ausência de fatores orgânicos e a realidade de que 
homossexualismo é um comportamento aprendido. (...) Cientistas do 
comportamento humano, conselheiros e terapeutas de ex-homossexuais têm 
quase a mesma opinião sobre as causas do homossexualismo: a maioria dos 
homossexuais teve problemas na área familiar. 
 
 
 
Nós percebemos como a religião se apropria, nesse caso, da Psicologia,e 
das teorias das ciências do comportamento de um modo geral a partir de uma 
perspectiva construcionista. Só que o problema é que, na avaliação do 
comportamento, a homossexualidade é vista como um problema em si, pois é um 
desvio do estabelecido pela divindade, conforme os parâmetros morais do grupo. E, 
se é construído, pode ser desconstruído. Do lado da Psicologia, chamou-me a 
atenção como psicólogos também se apropriam da perspectiva psicanalítica, na 
ideia do desejo sexual como construído ao longo da vida, e, avaliando a 
homossexualidade a partir da moral sexual heterossexista, propõem-se a mudar a 
orientação sexual de seus clientes. Como exemplo, tenho o relato da psicoterapeuta 
Luziara (o nome é fictício): 
 
 
 
Acho que, o que aparece na adolescência (...), a homossexualidade, mas 
não como, necessariamente, a perversão propriamente dita, ou a prática 
homossexual propriamente dita; mas a homossexualidade latente, que todo 
mundo tem, e que na adolescência tá muito mais à tona. (...) é a noção de 
bissexualidade, que Freud fala, quando fala de sexualidade, né? Que ele diz: 
‘Todos somos bissexuais’. (...) Não no sentido de práticas bissexuais, 
necessariamente, mas, quer seja um homem, seja uma mulher, tanto o homem 
quanto a mulher, o ser humano traz a possibilidade de ser homo ou ser 
heterossexual. (...) Na verdade, ser homem ou ser mulher depende das 
identificações que o sujeito vai fazer ao longo da vida. Então, é isso que vai 
determinar uma escolha, né? Existe sempre uma homossexualidade latente, 
né? (...) Então, na minha leitura, na minha escuta, dentro dessa escuta 
psicanalítica, a escolha sexual não é definida pelo aspecto biológico. (...) se eu 
for fazer uma escolha heterossexual, a identificação tem que ser 
predominantemente feminina, o que não que dizer que não haja traços de 
identificações masculinas também. (...) E só atendendo o paciente em 
particular é que você pode entender o que na história daquele sujeito 
singularmente contribuiu para ele tornar-se homossexual, né? Ou não! Agora, 
teoricamente, de modo geral, a questão das identificações é uma questão 
fundamental, né? Para essa definição da identidade sexual, que é uma coisa 
que vai ser afirmada, que vem sendo construída desde sempre, mas que vai 
ser afirmada na adolescência. (Luziara) 
 
 
 
 
Muitos caminhos podem ser explorados a partir desse fragmento de relato. 
Um, por exemplo, é o da recorrente associação, muito direta, entre identidade de 
gênero e desejo sexual, que observei sendo feita entre várias de minhas 
entrevistadas de orientação psicanalítica. 
Mas o que eu queria realmente enfatizar hoje é a categoria perversão, 
recorrente no relato de Luziara, e da maior parte das psicólogas de base 
psicanalítica entrevistadas. Aliás, é a própria noção de perversão que, de certomodo, vai valorar algumas formas contra-hegemônicas de agenciar 
sexogênero-desejo como antinaturais. 
No relato acima transcrito, vemos Luziara dizer como é que a 
homossexualidade se constrói e, depois, emitir uma série de juízos de valor sobre a 
homossexualidade. Pautada na psicanálise, tira o telus da sexualidade da ordem da 
natureza, do instinto sexual, e o restitui, no plano da cultura, à pulsão. É claro que, 
para Sigmund Freud, foi muito importante tomar a perversão para construir a teoria 
dele. 
Aquilo que se chamava “perversão sexual” era justamente a prova empírica 
de que a sexualidade era construída, e ofereceu o caminho para ele chegar a um 
dos conceitos mais caros à psicanálise: o conceito de pulsão. Mas não podemos 
deixar de lembrar que perversão é uma categoria oitocentista carregada de 
moralismo. 
E Freud não abandonou a noção, mas a incorporou, dentro de seu esquema 
conceitual, como uma estrutura psíquica. Utilizando uma noção que vem de Gayle 
Rubin, quando nós fazemos uma leitura do inconsciente teórico da psicanálise, nós 
percebemos que a noção de perversão está marcada pela ideia de anormalidade e 
fundada na matriz hetero normalizante, onde o desejo sexual socialmente bom, 
altruísta, deve se orientar para o outro sexo, visando a reprodução da espécie. Uma 
noção, que, conforme Jurandir Freire Costa, atendia às prerrogativas da burguesia 
emergente. 
Nós encontramos isso em Freud nos Três ensaios...17. Então, é como se ele 
dissesse: “Olha, tudo bem. Somos seres de desejo, mas no final das contas, todos 
têm de direcionar sua pulsão para o socialmente útil...”. Para a sociedade burguesa 
da época, o útil era colocar a reprodução biológica a serviço da reprodução social. 
Claro que, como mostra Jurandir Freire Costa, Freud falou muitas coisas sobre 
homossexualidade, suas posições foram mudando à medida que acumulava 
reflexões. No entanto, esse tipo de articulação, que remete a homossexualidade ao 
campo da anormalidade, do antinatural, continua presente nos relatos das 
psicólogas de base psicanalítica contemporâneas, como no de Marina (nome 
fictício): 
 
[Aí tu falou de um caso que tu teve, de homossexualidade na clínica...] 
Foi, mas foi no hospital, né? Ela era homossexual e ela me trazia de uma 
forma muito natural, falava lá da companheira dela, e a princípio assim me 
chocou, né? Foi o primeiro caso que eu tive. Chocou, mas depois me 
acostumei, né? Ela passou dois anos comigo, me acostumei. E quando ela 
falava da namorada, era como se fosse um casal normal, de heterossexual. (...) 
Olhe, eles (os homossexuais) sofrem muito. Por conta da recriminação, né? A 
sociedade recrimina, discrimina o homossexual, de uma maneira geral. Agora 
mesmo a gente teve um caso na novela, né? Um caso de um rapaz. E a gente 
via a sociedade toda recriminando, e é uma coisa que hoje em dia a gente vê 
tanto! É tão comum, né? Mas a sociedade não aceita, porque vai realmente 
contra as leis, vamos dizer, da natureza, né? Agora, que eles sofrem, sofrem! 
 
 
 
 
E, mais uma vez, do mesmo modo que no discurso do Moses, se a 
homossexualidade é valorada como ruim e é concebida como construída ao logo da 
vida, então o desejo sexual da pessoa pode e deve ser remodelado: 
 
 
 
Eu atendi um menino na clínica [com] que[m] acontecia isso: o pai era 
um pai omisso, e um marido omisso também, e um dia eu perguntei a esse 
menino... Foi um caso lindíssimo; e eu sempre procurando fazer com que ele 
descobrisse nesse pai alguma coisa que, assim, vamos dizer, fascinasse esse 
menino pelo pai. (...) E ele sempre enchia a mãe de qualidades. Ele falava: 
‘minha mãe é corajosa, minha mãe é isso, minha mãe é inteligente, me 
defende...’. Ele fazia desenhos maravilhosos, tem um desenho dele lindo, que 
é uma fera defendendo os filhotes. (...) E um dia eu perguntei: ‘mas me diga, 
hoje você falou todas essas coisas maravilhosas da sua mãe, e do seu pai, o 
que que você me diz?’ O menino respondeu: ‘a única coisa positiva que eu 
vejo no meu pai é ele ser torcedor do Sport (time de futebol local)!’ Então 
imagina? Então, meu trabalho durante seis anos, de terapia pesada, semanal, 
foi resgatar esse laço com o pai, não consegui totalmente, mas pelo menos 
esse menino não partiu para o homossexualismo. (Marina) 
 
 
 
 
O que nós observamos é que os aspectos essencialistas resistem lá mesmo 
nas teorias construcionistas. Eu lembro mais uma vez da Carol Vance, que promove 
essa discussão; ela diz que, no campo construcionista, não há um consenso sobre o 
que de fato é construído, se são as identidades, se são as práticas, se são os 
desejos. Para as psicólogas psicanaliticamente embasadas que escutei, da mesma 
forma que para o Moses, o que resiste como essência é a mesma matriz 
heterossexual. 
Então, o que eu acho é que mais importante do que pensar que o 
construcionismo é a saída para o debate que nós temos estabelecido talvez seja 
localizá-la em outro lugar, não propriamente teórico, mas naquele que propicia a 
construção de princípios ético-políticos para regular as práticas profissionais que se 
propõem à oferta de cuidado ao ser humano que sofre. 
Em outras palavras, a questão é menos da ordem de entender qual é a causa 
da homossexualidade e mais do entendimento do seu valor na ordem do mundo. 
Para alimentar essa discussão, nós podemos resgatar um livro que eu acho que é 
chave para construir uma resposta psi à homofobia, que é o livro A inocência e o 
vício, também do Jurandir Freire Costa. Nessa obra, o autor vai argumentar que os 
projetos de felicidade das pessoas com práticas homossexuais em nada ameaçam 
o contrato social. 
É a partir dessa avaliação ético-política que precisamos nortear nossas ações 
como psicólogos. E aí eu não vou falar em nome dos religiosos e nem para os 
religiosos, porque não tenho essa pretensão, mas na qualidade de psicólogo eu 
posso chamar meus pares para assumir esse lugar crítico, que remete ao 
chamamento de Jerome Bruner na epígrafe desta apresentação. 
Tomando como exemplo a psicoterapia, é importante lembrar que o mais 
importante instrumento de trabalho do psicólogo é ele mesmo. E se a 
pessoa-psicólogo é religiosa, não há como deixar essa dimensão da pessoa de fora 
do trabalho. 
O que se precisa lembrar é que, quando a psicoterapia se faz método clínico 
de conhecimento – que se institui na contemporaneidade entre 
intervenção-pesquisa perante um sujeito que demanda ajuda para um sofrimento –, 
este prevê recursos para que o sujeito-psicólogo lide com o fato de que a 
experiência terapêutica afeta ambos – cliente/terapeuta – e, sobretudo, que, no 
encontro clínico, a moralidade que constitui o terapeuta será acionada, virá 
inevitavelmente à tona: a ideologia político-partidária, o modo como lida com as 
relações de gênero e raciais, e, dentre outras tantas questões, o que a religião do 
terapeuta diz sobre o sofrimento que lhe é apresentado pelo cliente. 
Nós não podemos pensar que, quando nós entramos no setting, nossa 
prática será objetiva e neutra, a princípio. Ou ainda, o que é pior, que a nossa 
moralidade é a melhor moralidade para o nosso cliente. Tudo isso vai se atualizar 
nas nossas intervenções. Mesmo no nosso “hum hum!”. 
Às vezes acho que é esta a mais importante intervenção na práticaclínica – o 
“hum hum” –, porque é a menos refletida, e a mais usada para fazer falar; ainda 
assim, em um “hum hum”, pode-se conduzir um caminho, porque o psicólogo, 
querendo ou não, está num lugar de suposto saber. 
Existe uma variedade de modos de se realizar a análise das implicações que 
nos constituem. Cada abordagem tem o seu. Na psicanálise, meu marco 
teórico-metodológico para atuação, a ferramenta para lidar com tudo isso é, 
sobretudo, a análise da contratransferência e da transferência do terapeuta. Sozinho 
e/ou com meus pares, eu vou ver em que medida minha religiosidade, tanto quanto 
as minhas outras dimensões existenciais, interfere no atendimento. 
Por meio dessa análise, vou me permitir chegar mais perto da neutralidade 
idealizada, de modo que eu possibilite um ambiente verdadeiramente acolhedor e 
reflexivo para que o cliente possa reavaliar as bases que sustentam a 
crise/sofrimento que ele veio cuidar. 
É importante lembrar que, neste âmbito, diferentemente das religiões, que se 
dizem portadoras de verdades inquestionáveis, e concordando com André Lèvy, não 
é a teoria psicológica que deve “tampar” o vazio configurado pela crise de sentido 
apresentada pelo cliente. 
O psicólogo clínico é, inversamente, o agente que possibilita reflexões sobre 
os assentamentos socioculturais constituidores do cliente – inclusive, se for o caso, 
os religiosos. Não é o profissional de Psicologia quem vai dar a régua moral que 
oriente para onde deve tender a mudança e, assim, a superação do sofrimento. Esta 
é uma descoberta/criação do próprio cliente ao longo do processo. 
Não obstante, vivemos em sociedade, e nem toda prática ou mudança de 
conduta é considerada benigna e pode ou deve ser estimulada. Portanto, o 
psicólogo clínico precisa, sim, de alguma regulação mínima, não propriamente para 
orientar o cliente, mas para se orientar ao longo dos atendimentos. Na verdade, o 
processo terapêutico se institui no encontro entre dois projetos de mudança sobre 
uma mesma pessoa. 
O que quero dizer é que os parâmetros que guiam o terapeuta não devem 
ser contingentes a eles mesmos, mas devem estar respaldados em acordos mais 
ampliados do que é o bem viver em sociedade. 
 
E nós temos um conjunto de marcos regulatórios, gerais o suficiente para 
caber as diversidades socioculturais e as idiossincrasias individuais, do mesmo 
modo capazes de informar, com certa precisão, o que possa ameaçar o contrato 
social. São eles a Carta de Direitos Humanos (e outros acordos do sistema ONU), a 
Constituição Federal, o nosso Código de Ética Profissional e as resoluções de 
nosso conselho profissional. Todos esses documentos são acordos coletivos, 
pactuações entre conhecimentos de origens as mais diversas que devem pautar a 
vida em sociedade. 
Nessa linha, e para finalizar, gostaria de mais uma vez ressaltar a 
importância do nosso Conselho de Classe e a das Resoluções, em especial a da 
Resolução 1/99, objeto de reflexão deste seminário. As resoluções são, por 
princípio, acordos coletivos. São os psicólogos que fazem a profissão e a ciência 
que dizem qual conhecimento e qual prática, cientificamente embasada, é 
humanamente útil. Quando uma resolução surge, ela em geral vem para dar conta 
de um mau uso do conhecimento. A Resolução 1/99 foi instituída porque nós, como 
categoria, percebemos que estávamos contribuindo para transformar diferença em 
desigualdade. 
Ela é um dispositivo coletivo para nos colocar de volta à nossa missão, que, 
em última instância, é a de contribuir para tornar menos árdua e mais prazerosa a 
vida humana no mundo. 
 
 
 
 
 
 
 
Considerações Finais 
 
 
A formação em Psicologia deveria, segundo nosso juízo, orientar-se por 
esses mesmos princípios, e os educadores que promovem essa formação, 
evidentemente, também tem de refletir sobre si mesmos. 
Essa discussão precisa ser acompanhada de um debate amplo sobre a 
formação de psicólogos, principalmente no que diz respeito à sexualidade. A 
sexualidade não constitui, em muitos casos, uma disciplina específica nos cursos de 
formação e, além disso, não se trata somente da existência de uma disciplina 
específica, mas de realizar uma discussão que abarca várias disciplinas, como a 
ética, a filosofia, a história, a sociologia e, finalmente, a própria Psicologia. 
O foco dessa discussão seria tanto a violência e a discriminação no campo 
social como a formação do sujeito preconceituoso; o vínculo histórico entre 
sexualidade e poder necessitaria ser colocado como pano de fundo, o que permite 
tomar tais questões também numa perspectiva histórica. 
A persistência de atos violentos contra pessoas que destoam dos padrões 
vigentes evidencia a necessidade urgente de desenvolver pesquisas que 
compreendam o fenômeno da homofobia a partir da articulação entre indivíduo e 
cultura. 
Estas questões deveriam fazer parte do trabalho do psicólogo e de quem 
precisa e se beneficia de seus serviços. O reconhecimento da multiplicidade de 
formas de expressão da sexualidade, tema atual e relevante, interessa a todos 
aqueles que, como profissionais ou não, defendem uma sociedade que respeite a 
diversidade humana. 
 
 
 
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