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Fases do processo contratual São três as fases do processo contratual, quais sejam, a fase pré-contratual, a fase contratual e a fase pós-contratual. A primeira fase é a fase pré-contratual. Trata-se do momento em que as partes interessadas em firmar um contrato estão realizando as primeiras tratativas para a possível celebração de um futuro negócio. A fase pré-contratual abrange as etapas preliminares anteriores ao contrato, nas quais as partes apresentam suas propostas, ajustam os termos do acordo e produzem documentos pré-contratuais com o propósito de alinhar o entendimento sobre determinados pontos. Se as negociações forem bem sucedidas, essa fase se encerra com a conclusão do pacto. As partes não estão obrigadas a celebrar o contrato, mas precisam observar a boa-fé, mesmo que o negócio não esteja e nem venha a ser concluído, sob pena de responsabilidade. Uma hipótese de responsabilidade civil pré-contratual é a situação na qual uma das partes desiste de um contrato cuja as tratativas já estavam em estágio avançado e a outra parte nutriu legítimas expectativas de que o contrato seria firmado. É o caso do Recurso Especial nº 1.367.955-SP, ocasião em que o STJ aplicou o princípio da boa-fé objetiva para julgar procedente o pedido de responsabilidade civil de uma sociedade empresária do ramo de eventos contra uma companhia varejista em razão da última ter desistido, inesperadamente, das negociações, as quais já se encontravam em fase avançada, para a realização de um evento. A fase contratual é a segunda fase do programa. Estende-se da celebração do contrato até o momento que ele encerra, ocasião em que se extingue o vínculo contratual. Na fase contratual, o devedor tem a obrigação de satisfazer, através da ação de dar, fazer ou não fazer, o interesse do credor, para que dessa forma seja alcançado o resultado almejado pelas partes quando da celebração do contrato. Para a devida execução do pacto celebrado, é necessário que sejam respeitados os deveres anexos ou laterais, os quais não precisam estar previstos no contrato, uma vez que são impostos pela boa-fé objetiva. Isso porque às partes não basta o mero cumprimento da prestação principal, é imprescindível que sejam satisfeitas as legítimas expectativas dos contratantes e os interesses relevantes para a coletividade. São deveres anexos: lealdade e confiança recíprocas; assistência; informação; sigilo e confidencialidade (GAGLIANO, 2017, p. 136) e obrigam as partes a observarem a boa-fé e a função social do contratos. Para exemplificar a exigência da observância dos deveres anexos, eis um exemplo real: um grupo de cerca de 50 formandos precisou do aluguel de cadeiras para a cerimônia de colação de grau e para tanto contratou uma empresa experiente e conhecida no mercado, a qual já havia prestado esse tipo de serviço para diversas outras turmas. A comissão de formatura, todavia, na ocasião do contrato, não estipulou o número de cadeiras, apenas exigiu que ao invés das convencionais de plástico, as cadeiras fossem de acrílico, que todavia são mais fáceis de quebrar e consequentemente mais difíceis de serem transportadas. No dia da colação de grau, a empresa, para amenizar o trabalho de transportar objetos frágeis, entregou apenas 100 cadeiras, um número muito pequeno ao se levar em consideração a quantidade de formandos, de forma que a maioria dos convidados na cerimônia ficaram em pé. No caso, não havia estipulação do número de assentos, logo o contratante cumpriu com sua obrigação, mas a outra parte confiou que, levando em consideração a experiência da sociedade empresária no ramo, esta levaria uma quantidade de cadeiras razoável. Com esse exemplo, é possível compreender que a fiel execução do contrato perpassa o simples cumprimento da obrigação principal e exige dos contratantes um comportamento leal e probo. A terceira e última fase é a fase pós contratual, a qual se inicia no momento em que se encerra o contrato. Muito embora esteja desfeito o vínculo entre as partes, permanece o dever de zelar pela boa-fé, e o comportamento prejudicial ao ex-contratante pode ensejar responsabilização. É possível verificar uma hipótese de responsabilidade pós-contratual no contrato de franchising, ou franquia. Mesmo após o contrato ter encerrado, e, assim, não haver mais vínculo entre o franqueador e o franqueado, a este último é defeso o uso do know-how adquirido através do contrato em empreendimento concorrente. Etapas e atos (por fase do processo contratual) Na fase pré-contratual é possível verificar duas etapas: a etapa negociatória e a etapa decisória. A etapa negociatória começa com o primeiro contato entre as partes e se estende até que um dos possíveis contratantes apresente uma proposta. Trata-se do momento das negociações preliminares, oportunidade que as partes podem, ainda, produzir os documentos pré-contratuais. Através desses documentos as partes buscam deixar claro alguns entendimentos e expectativas com relação ao contrato que poderá ser firmado. A etapa decisória, por sua vez, se inicia logo após a etapa negociatória, com a apresentação da proposta por uma das partes interessadas, que será chamada de proponente (ou policitante). Essa etapa se estende até o contrato ser firmado. O contrato é considerado celebrado quando a proposta é aceita pela parte a quem foi enviada a proposta, a qual é chamada de aceitante (ou policitado, ou oblato). Nessa ocasião, se encerra a fase pré-contratual. Se o aceitante fizer alguma ressalva à proposta, tal ato não será considerado aceitação, mas uma contraproposta, a qual o aceitante está vinculado, pois é obrigado a cumprir caso o proponente aceite. Celebrado o contrato, dá-se início à fase contratual, na qual o devedor executa as suas obrigações. A obrigação pode ser de dar, de fazer ou de não fazer, e tem como objetivo alcançar o resultado projetado pelas partes, de maneira a satisfazer a legítima expectativa dos contratantes. Pagamento é o termo dado à execução de qualquer tipo obrigação, ainda que não seja de entrega de dinheiro (GONÇALVES, 2017, p. 290). Para que a execução do contrato se dê de maneira satisfatória, faz-se necessário que seja respeitado o tempo do pagamento, sob pena do devedor incorrer em inadimplemento. O respeito ao tempo do pagamento é essencial para a fiel execução do contrato. Por exemplo, se um casal de nubentes celebra um contrato de compra e venda com um confeiteiro para adquirir o bolo de casamento da festa, se o confeiteiro entrega o bolo no dia seguinte ao evento, a perda para o casal é inestimável, ainda que ressarcidas as despesas. Além disso, para que o contrato seja executado de forma idônea, também é essencial que seja respeitado o lugar do pagamento. Se não estipulado no contrato, presume-se no domicílio do devedor, caracterizando-se a obrigação como quesível, ou querable. Se o contrato determinar local diverso, a obrigação é portável, ou portable. Em respeito ao princípio da boa-fé objetiva, o lugar do pagamento não é absoluto: se credor aceita que o devedor regularmente efetue o pagamento em lugar diverso, aquele perde o direito de ter o pagamento no local estipulado (à perda dá-se o nome de supressio), ao passo que este adquire o direito de que o pagamento continue sendo feito no local de sempre (à aquisição dá-se o nome de surrectio). Eis, portanto, mais um exemplo de aplicação do princípio da boa-fé objetiva durante a fase contratual. No que tange ao término do contrato, que dá início à fase pós contratual, tem-se que o contrato pode ser extinto de forma natural, através do adimplemento, ou de forma artificial, na hipótese de verificada alguma circunstância anômala durante a execução do contrato que obste a sua continuação. As causas de extinção anormal podem se dar por fato antecedente à celebração do contrato, o qual enseja a anulação do contrato, na hipótese de serem verificadas nulidades, ou a redibição do contrato, caso sejam encontrados vícios ocultos. A extinção anormal pode ocorrer também por fato superveniente, o qual se dá durante o cursodo contrato que está em plena execução. É o caso da resilição, quando ambas partes de maneira bilateral, ou um dos contratantes de maneira unilateral (havendo previsão para tanto), decide por encerrar o contrato sem necessariamente apresentar uma causa justa. Outra hipótese de extinção por fato superveniente é a resolução do contrato, situação em que a extinção do contrato, diferente do que ocorre na resilição, é motivada. Sobre a fase pós-contratual, tem-se que, ainda que encerrado o contrato, às partes cabe o dever de agir com lealdade e probidade, conservando ainda a boa-fé, mesmo que não haja mais vínculo contratual. Possibilidades de inadimplemento e consequências possíveis O inadimplemento se dá quando o devedor não cumpre com suas obrigações e pode ser absoluto ou relativo. O inadimplemento absoluto se caracteriza quando a prestação não é mais útil para o credor, de modo que o contrato será dado por extinto e resolvido em perdas e danos. Pode-se exemplificar o inadimplemento total com um caso fictício de uma mãe que celebra um contrato de prestação de serviço com um fotógrafo para que este tire fotografias de sua filha na festa de aniversário de 15 anos dela. Se o fotógrafo, no dia da festa, não aparece no local do evento para tirar as fotos da debutante, ele, o devedor, se encontra inadimplente, e o inadimplemento na hipótese é total, pois a prestação não serve mais ao credor, qual seja, à mãe da adolescente. O inadimplemento relativo, por sua vez, é também chamado de mora, e verifica-se quando a prestação ainda é útil ao credor. Nesse caso, purga-se a mora e dá-se continuidade ao fluxo contratual. Outrora, defendia-se que o credor poderia optar entre extinção do contrato ou a purgação da mora, entretanto, hoje entende-se que, se o objeto ainda é aproveitável ao credor, é direito do devedor purgar a mora e seguir com o contrato. Um exemplo de inadimplemento relativo é a hipótese de uma pessoa que firma um contrato de compra e venda para adquirir o carro de outrem, porém, depois de adquirido o veículo, não efetua o pagamento do automóvel no dia estipulado. Nessa circunstância, o recebimento do valor ainda interessa ao credor, logo o devedor pode realizar o pagamento da dívida acrescido das devidas penalidades e assim, prosseguir o contrato para finalizá-lo da maneira planejada pelas partes. O conceito amplo de inadimplemento inclui não apenas a falta de realização da prestação estipulada, mas também o desrespeito à boa-fé objetiva. Chama-se de violação positiva a execução do contrato sem o devido cumprimento dos deveres anexos. É considerado inadimplemento pois a prestação, embora cumprida, não é realizada de maneira a satisfazer o legítimo interesse do credor e atingir o desfecho almejado quando da celebração do pacto. Assim, mesmo que o objeto tenha sido entregue ou a obrigação tenha sido feita, o contrato é considerado inadimplido pois o credor encontra-se insatisfeito com o resultado da prestação. Fluxograma Fase pré-contratual Fase contratual Fase pós-contratual etapa decisória etapa negociatória Primeiros contatos Proposta Contraproposta Aceitação Execução da Obrigação Inadimplemento Inadimplemento Absoluto Inadimplemento relativo (mora) Extinção do Contrato Purgação da mora Continuação da fluxo do contrato Garantias pós-cumprimento do contrato Resilição Resolução Bilateral Unilateral Cumprimento integral da obrigação