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Crescer na Era das Mídias: após a morte da infância (After the Death of Childhood: growing up in the age of electronic media) David Buckingham Tradução: Gilka Girardello e Isabel Orofino Referencia: BUCKINGHAM, David. Crescer na Era das Mídias: após a morte da infância. Tradução de Gilka Girardello e Isabel Orofino. Florianópolis. 2006. Título original: After the death of childhood: growing up in the age of eletronic media. Trabalho não publicado. Buckingham - Crescer na era das mídias - inteiro.doc. 1 arquivo (760 Kb). Word 2003. 2 (CONTRACAPA) “As mídias vitimizam as crianças ou lhes dão poder? Lúcido e capaz de enxergar longe, David Buckingham nos desvia dos clichês sobre a infância pós-moderna e nos leva até as ruas, escolas, quartos e salas-de-estar onde estão as crianças de verdade, tentando lidar não só com as mudanças tecnológicas, mas também com as transformações nas instituições e nos valores.” Elihu Katz, Universidade da Pennsylvania “Crescer na Era das Mídias” é uma excelente revisão crítica da agitação que cerca a infância e as mídias neste raiar do século XXI. O livro debate as questões com grande estilo e extrema clareza, chegando a conclusões que são de importância vital, não apenas para educadores e profissionais de mídia, como para qualquer adulto interessado e informado.” Valerie Walkerdine, Universidade de Western Sydney “ Este é um livro tremendamente impressionante. David Buckingham investiga um grande número de afirmações sobre as crianças e suas relações com as mídias, e as confronta com a solidez das verdadeiras pesquisas. Você não precisa concordar com cada um dos argumentos que ele desenvolve ou com as posições a que ele chega para reconhecer que este é um trabalho de fôlego excepcional e rica inteligência.” Martin Barker, Universidade de Sussex. 3 Qual será o destino da infância no século XXI? Será que as crianças estarão vivendo cada vez mais “infâncias midiáticas”, dominadas pela tela eletrônica? Será que seu crescente acesso às mídias adultas vai ajudar a abolir as diferenças entre infância e maturidade? Ou será que o advento das novas mídias irá aumentar ainda mais o fosso entre as gerações? David Buckingham faz uma revisão lúcida e acessível das mudanças recentes, tanto na infância quando no ambiente das mídias. Ele refuta o simplismo do pânico moralista diante das influências negativas das mídias, assim como o otimismo exagerado sobre a ‘geração eletrônica’. No processo, ele aponta os desafios colocados pela proliferação das novas tecnologias, a privatização das mídias e do espaço público, e a polarização entre os que têm e os que não têm acesso às mídias. Ele argumenta que as crianças não podem mais ser excluídas ou protegidas do mundo adulto da violência, do comercialismo e da política, tendo que ser preparadas para lidar com ele; e que são necessárias novas estratégias para proteger os direitos delas enquanto consumidoras e cidadãs. Baseado em extensas pesquisas, este livro lança um novo olhar às preocupações já estabelecidas sobre os efeitos das mídias nas crianças. Ele aborda de modo desafiador e revigorante as eternas preocupações de pesquisadores, familiares, educadores, produtores de mídia e planejadores. David Buckingham é Professor do Instituto de Educação da Universidade de Londres. 4 CONTEÚDO Agradecimentos.................................................................... Introdução 1. Em Busca da Infância................................................ Parte I 2. A Morte da Infância................................................... 3. A Geração Eletrônica................................................. Parte II 4. Infâncias em Mudança................................................ 5. Mídias em Mudança................................................... 6. Paradigmas em Mudança........................................... Parte III 7. As Crianças assistindo à Violência......................... 8. As Crianças como Consumidoras................................ 9. As Crianças como Cidadãs.......................................... Conclusão 10. Os Direitos de Mídia das Crianças............................ Notas Referências Índice Remissivo 5 PREFÁCIO À EDIÇÃO BRASILEIRA Para aqueles de nós que estamos próximos de crianças na vida diária – pais, mães, familiares, professores ou outros profissionais – é difícil ignorar a importância cada vez maior das mídias eletrônicas. Em todas as sociedades industrializadas – e também em muitos países em desenvolvimento – as crianças hoje passam mais tempo em companhia dos meios de comunicação do que com seus familiares, professores e amigos. As crianças parecem cada vez mais viver ‘infâncias midiáticas’: suas experiências diárias são repletas das narrativas, imagens e mercadorias produzidas pelas grandes corporações globalizadas de mídia. Poderíamos mesmo dizer que hoje o próprio significado da infância nas sociedades contemporâneas está sendo criado e definido por meio das interações das crianças com as mídias eletrônicas. Crescer na Era das Mídias procura oferecer uma revisão crítica e equilibrada das pesquisas e debates nesse campo. O livro tenta caminhar sobre a linha estreita que separa o desespero sombrio tantas vezes característico das discussões sobre ‘a morte da infância’ e o otimismo embriagador que celebra a nova autonomia da ‘geração eletrônica’. A infância, como argumentamos no livro, certamente está mudando. Mas as mídias estão longe de ser a causa única dessas mudanças: elas nem são as destruidoras autônomas da infância, nem suas libertadoras. Se quisermos compreender o verdadeiro significado da mídia na vida das crianças, teremos que pensar num contexto amplo. Precisaremos levar em conta as mudanças no estatuto social das crianças e as diferentes formas como a infância foi sendo definida ao longo da história. Na busca de delinear esse amplo contexto, espero que o livro possa interessar não apenas a especialistas em comunicação, mas também a todos os que estudam as crianças e trabalham com elas Fico especialmente feliz com a publicação desta edição brasileira. Ao escrever o livro, tentei arduamente levar em conta os potenciais leitores em outros países, apesar de ser difícil fazer isso sem cair em generalizações e abstrações. Tenho a certeza de que os leitores brasileiros perceberão muitas diferenças entre suas próprias culturas e aquela de onde derivou este livro. Diferentes histórias, crenças religiosas e sistemas políticos inevitavelmente geram diferentes concepções de infância. As características da família e da escola – as duas instituições-chave que em grande parte delimitam e definem as vidas das crianças – variam bastante de uma cultura para outra. Até certo ponto, isto talvez limite a relevância e a aplicabilidade de alguns de meus argumentos. Por outro lado, fica reforçada uma de minhas idéias centrais: a de que a infância não é absoluta nem universal, e sim relativa e diversificada. A idéia de infância é uma construção social, que assume diferentes formas em diferentes contextos históricos, sociais e culturais. Ao mesmo tempo, porém, a infância também é cada vez mais um fenômeno global. O argumento de Kenichi Ohmae, citado no capítulo 3, é muito relevante nesse sentido. Ohmae sugere que – em resultado da disseminação global das mídias eletrônicas – as crianças de hoje podem ter mais em comum com crianças de outras culturas do que com seus próprios pais. Depois da publicação de Crescer na Era das Mídias Eletrônicas, estive envolvido com um projeto internacional sobre Pokémon que ilustrou amplamente esta questão. Aquele era um fenômeno de mídia bastante inacessível aos adultos – que mais parecia, aliás, planejado para excluí-los. Mas presenciei situações onde o Pokémon parecia servir como um tipo de ‘língua franca’ – uma base para acomunicação e a construção de amizade entre crianças que tinham muito pouco em comum em termos de linguagem verbal. É claro que a lógica econômica das modernas indústrias de mídia exige isso: produzir e adaptar produtos para um mercado global já não é uma conseqüência extra, e sim uma necessidade cada vez maior. 6 Nesse sentido, alguns poderiam dizer que as mídias fornecem uma ‘cultura comum’ global às crianças, que transcende as fronteiras nacionais e as diferenças culturais estabelecidas. Para uns, isso pode ser considerado uma forma de liberação – uma oportunidade de as crianças irem além dos entraves limitadores da tradição. Para outros, no entanto, trata-se apenas de mais uma evidência do processo global de homogeneização, em que as especificidades das experiências e identidades culturais das crianças são negligenciadas e até mesmo destruídas. Será que à medida que as crianças vão crescendo todas juntas, sob os signos do capital – Pokémon, Disney, MacDonalds – irá desaparecer o caráter local e situado da infância? Ou será que na verdade as crianças interpretam e recriam as culturas globais através dos filtros mediadores de experiências e significados locais? Essas questões são centrais nos debates contemporâneos sobre a globalização da cultura, mas provavelmente se aplicam de modo especial à nossa compreensão da infância. Ao ler meu texto através do filtro de suas próprias experiências culturais, certamente você verá emergir diferenças. Nosso aprendizado sobre essas diferenças lança luz sobre aquilo que consideramos ponto pacífico em nossas próprias culturas, o que pode por sua vez gerar um diálogo global mais informado e receptivo sobre o futuro da infância. Espero que esta publicação contribua para esse diálogo. David Buckingham Londres, 2004 7 Agradecimentos Em muitos aspectos, este livro é uma compilação – ao menos provisória – de uma área de pesquisa que tem me preocupado há mais de quinze anos. Assim, ele se baseia em trabalhos anteriormente publicados, e em alguns trechos diretamente revisa e incorpora materiais de livros e artigos anteriores. Desde o início, porém, o livro foi concebido como um projeto coerente, e inclui uma considerável quantidade de materiais inéditos. Gostaria de agradecer às muitas pessoas que trabalharam comigo nos inúmeros projetos empíricos de pesquisa nos quais este livro se baseia, especialmente Mark Allerton, Sara Bragg, Hannah Davies, Valerie Hey, Sue Howard, Ken Jones, Peter Kelley, Gunther Kress, Gemma Moss e Julian Sefton-Green. Agradecimentos especiais vão para Peter Kelley por seu trabalho com os dados estatísticos apresentados no capítulo 4. Gostaria também de agradecer às muitas organizações que financiaram os projetos: o Economic and Social Research Council, o Broadcasting Standards Council, a Nuffield Foundation, a Spencer Foundation e o Arts Council of England. Tenho uma dívida especial com o Professor Elihu Katz e a Annenberg School for Communication, na Filadélfia, pela bolsa que me permitiu começar a trabalhar no livro. E ao Institute of Education por proporcionar um ambiente de trabalho solidário. Gostaria também de agradecer a outros colegas internacionais com quem debati estas questões, ou cuja pesquisa informou e apoiou a minha, em especial a Elizabeth Auclaire, Kirsten Drotner, JoEllen Fisherkeller, Horst Niesyto, Geoff Lealand e Joe Tobin. Agradeço também aos diversos grupos de alunos, acadêmicos e professores que foram os destinatários de alguns destes argumentos durante os últimos anos, e que ajudaram a reformular e a desenvolver minhas idéias; entre eles, meus alunos de mestrado no curso de Cultura das Mídias para Crianças no Institute of Education, assim como a platéias na França, Alemanha, Noruega, Dinamarca, Finlândia, em Luxemburgo, no Canadá, na Austrália, nos Estados Unidos e na Inglaterra. Finalmente, minha profunda gratidão a Célia Greenwood, Clemency Ngayah-Otto e Julian Sefton-Green por sua cuidadosa leitura do manuscrito; e para meus assistentes-mirins de pesquisa Nathan e Louis Greenwood, que sempre demonstraram uma saudável independência em relação às idéias de seu pai. Este livro é dedicado a eles. 8 INTRODUÇÃO Capítulo 1. Em Busca da Infância Uma das lamentações mais freqüentes nos últimos anos do século XX foi o desaparecimento da infância. Ela ecoou através de um amplo conjunto de campos sociais – a família, a escola, a política, e, talvez principalmente, as mídias. É claro que a figura da criança sempre foi foco dos medos, desejos e fantasias dos adultos. Nos últimos anos, porém, os debates sobre a infância assumiram cada vez mais um sentido de ansiedade e pânico. As certezas tradicionais sobre o significado e o status da infância têm sido constantemente corroídas e abaladas. Parecemos não saber mais onde encontrar a infância. O lugar da criança nesses debates, no entanto, é profundamente ambíguo. Por um lado, as crianças são vistas cada vez mais como sob ameaça e em perigo. Assim, temos assistido a uma sucessão de investigações importantes sobre o abuso infantil, tanto nas famílias como nas escolas e lares infantis. As reportagens sobre assassinatos de crianças e os escândalos sobre filhos ‘esquecidos sozinhos em casa’ são freqüentes na imprensa; e a histeria pública sobre o risco de ondas de seqüestros cometidos por pedófilos é cada vez mais intensa. Enquanto isso, nossos jornais e telas de TV mostram cenas das infâncias bem diferentes das crianças nos países em desenvolvimento: os meninos de rua da América Latina, os pequenos soldados da África e as vítimas de turismo sexual na Ásia. Por outro lado, as crianças também são cada vez mais percebidas como uma ameaça ao restante de nós – como violentas, anti-sociais e sexualmente precoces. Cresce a preocupação com o aparente colapso da disciplina escolar, o aumento da criminalidade infantil, do consumo de drogas e da gravidez na adolescência. Já na década de 1970 começara a pairar a ameaça de uma incontrolável subclasse de jovens, presa num limbo entre a escola e o trabalho – mas agora os delinqüentes são ainda mais jovens. O jardim sagrado da infância tem sido crescentemente violado; apesar disso, as próprias crianças parecem relutar cada vez mais em ficarem confinadas a ele. As mídias estão envolvidas nisso de formas contraditórias. De um lado, elas são o veículo primordial onde se travam os debates correntes sobre a natureza em mutação da infância – e, nesse processo, sem dúvida contribuem para o crescente sentimento de medo e pânico. De outro lado, no entanto, as mídias são freqüentemente acusadas de serem as causas originárias de tais problemas – de provocarem indisciplina e comportamentos agressivos, de inflamarem a sexualidade precoce e de destruírem os laços sociais saudáveis que poderiam prevenir sua ocorrência. Os jornalistas, os sabichões midiáticos, os auto-proclamados guardiães da moralidade pública – e um número cada vez maior de acadêmicos e políticos – são incessantemente chamados a se pronunciar sobre os perigos que as mídias oferecem às crianças: a influência de vídeos violentos e ‘revoltantes’, a mediocrização dos programas infantis de televisão, a sexualidade explícita das revistas para os jovens e o fácil acesso à pornografia pela internet. E as mídias são agora rotineiramente condenadas pela “comercialização” da infância – pela transformação das crianças em consumidoras vorazes, levadas pela sedução enganosa dos publicitários a desejar aquilo de que não precisam. Ao mesmo tempo, as próprias mídias exibem uma fascinação ambivalente pela própria idéia de infância. Os filmes de Hollywood começaram a se preocupar com a figura do adulto-criança (Forest Gump,Toys, Dumb and Dumberi) e a da criança-adulta (Jack, Little Man Tate, Bigii) A imagens da publicidade mostram uma ambivalência similar, desde a famosa dupla diabo negro-anjo branco da campanha das roupas Benetton às ninfetas top- models dos anúncios de Calvin Klein.Enquanto isso, o reerguimento da Corporação Disney indica o potencial global da orientação mercadológica da “cultura infantil” convencional, tanto para as crianças como para os adultos – apesar de, ironicamente, Kids, o controvertido 9 filme em estilo documentário mostrando drogas e sexo casual entre jovens adolescentes em Nova York, pertencer também a uma subsidiária da Disney. Entra aí também a figura de Michael Jackson – nas palavras de seu biógrafo, ‘o homem que nunca foi criança e a criança que nunca cresceu’.iii Desde a cruzada das crianças, representada em seu vídeo Heal the World, passando por sua obsessão pelo imaginário de Disney e Peter Pan, até os escândalos em torno do suposto abuso sexual de crianças, Jackson é a epítome da intensa incerteza e do desconforto que rodeiam a noção de infância na modernidade tardia. As respostas dos políticos e dos planejadores a esse sentimento de crise têm sido amplamente autoritárias e punitivas. É verdade que existe nos últimos anos uma ênfase renovada nos direitos da criança, impulsionada pela Conferência das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança - apesar de na prática isso ser muitas vezes interpretado como uma simples questão de as crianças terem direito a proteção por parte dos adultos. Na maioria dos outros aspectos, tem havido um entusiasmo crescente pelas políticas sociais mais disciplinadoras. Assim, vemos a introdução de ‘toques de recolher’ para os jovens e a construção de novas prisões infantis. Na Grã-Bretanha, foram suprimidos benefícios estatais antes concedidos aos jovens; e são organizadas ‘tropas de choque’ para garantir a disciplina nas escolas. Tais políticas parecem voltadas mais para proteger os adultos das crianças do que para proteger as crianças dos adultos. Em relação às mídias, a resposta oficial predominantemente tem sido de ordem disciplinar. No rastro de um crescente pânico moralista sobre a influência do sexo e da violência nos meios de comunicação, os governos de muitos países criaram leis mais rígidas de censura; e na América do Norte assistimos à introdução do V-chip, um dispositivo técnico adaptado a todos os novos aparelhos de televisão, que aparentemente irá filtrar materiais “violentos”. Enquanto isso, aumenta o interesse no potencial de softwares de bloqueio, com títulos sintomaticamente antropomórficos como Net Nanny (‘Net Babá’) e Cyber-Sitter, que prometem restringir o acesso das crianças a sites da internet proscritos. Apesar desta busca por uma solução tecnológica fácil para o problema, os governos nacionais parecem cada vez menos capazes de regular as corporações comerciais que hoje controlam a circulação global das mercadorias midiáticas – incluindo as que se destinam ao mercado infantil. Entretanto, as interpretações dessas mudanças na infância – e do papel dos meios de comunicação em refleti-las ou produzi-las – estão agudamente polarizadas. De um lado, acham-se os que argumentam que a infância tal como a conhecemos está desaparecendo ou morrendo, e que as mídias – particularmente a televisão – são as maiores culpadas. As mídias aparecem aí como responsáveis pelo apagamento das fronteiras entre infância e idade adulta, e consequentemente por um abalo na autoridade dos adultos. De outro lado, estão aqueles que argumentam que há um crescente abismo de gerações no uso das mídias – que a experiência dos jovens com as novas tecnologias (especialmente com os computadores) está cavando um fosso entre sua cultura e a da geração de seus pais. Longe de apagar as fronteiras, as mídias são vistas aí como responsáveis por um fortalecimento delas – apesar de agora serem os adultos aqueles que se acredita terem mais a perder, uma vez que a habilidade das crianças com a tecnologia lhes dá acesso a novas formas de cultura e comunicação que em grande parte escapam ao controle dos pais. Até certo ponto, esses argumentos podem ser vistos como parte de uma ansiedade mais geral com relação à mudança social que tende a acompanhar o advento de um novo milênio. A metáfora da ‘morte’ está em toda parte – inclusive nas estantes das livrarias, onde os livros sobre a morte da infância acham-se ao lado de livros sobre a morte do eu, da sociedade, da ideologia e da história. Tais debates em geral não permitem mais que uma escolha limitada entre um grandioso desespero e um otimismo apressado. 10 Na primeira parte deste livro, reviso com maiores detalhes esses argumentos contrastantes e procuro desafiar a retórica totalizante que os caracteriza. Como indicarei, ambas as posições baseiam-se em visões essencialistas da infância e dos meios de comunicação – e das relações entre eles. Mesmo com todas as suas limitações, porém, tais argumentos apontam para dois pressupostos significativos que formam a base desta minha análise. Tanto implícita quanto explicitamente, eles sugerem que a noção de infância seja em si uma construção social, histórica; e que a cultura e a representação – também sob a forma das mídias eletrônicas – sejam uma das principais arenas em que essa construção é desenvolvida e sustentada. Construindo a infância A idéia de que a infância é uma construção social é hoje um lugar-comum na história e na sociologia da infância; e está sendo cada vez mais aceita até mesmo por alguns psicólogosiv. A premissa central aqui é a de que ‘a criança’ não é uma categoria natural ou universal, determinada simplesmente pela biologia. Nem é algo que tenha um sentido fixo, em cujo nome se possa tranqüilamente fazer reivindicações. Ao contrário, a infância é variável - histórica, cultural e socialmente variável. As crianças são vistas – e vêem a si mesmas – de formas muito diversas em diferentes períodos históricos, em diferentes culturas e em diferentes grupos sociais. Mais que isso: mesmo essas definições não são fixas. O significado de ‘infância’ está sujeito a um constante processo de luta e negociação, tanto no discurso público (por exemplo, na mídia, na academia ou nas políticas públicas) como nas relações pessoais, entre colegas e familiares. Não se está querendo sugerir que os indivíduos biológicos a quem podemos coletivamente concordar em chamar de “crianças” de algum modo não existam, ou não possam ser descritos. O que se pretende é dizer que tais definições coletivas são o resultado de processos sociais e discursivos. Há nisso um certo grau de circularidade. As crianças são definidas como uma categoria particular, com características e limitações particulares, tanto por si mesmas como pelos outros – pais, professores, pesquisadores, políticos, planejadores, agências de bem-estar social e (claro) os meios de comunicação. Essas definições são codificadas em leis e políticas; e se materializam em formas particulares de práticas sociais e institucionais, que por sua vez ajudam a produzir as formas de comportamento vistas como tipicamente “infantis” – ao mesmo tempo que geram formas de resistência a elas.v A escola, por exemplo, é uma instituição social que efetivamente constrói e define o que significa ser uma criança – e uma criança de uma determinada idade. A separação das crianças pela idade biológica em vez de pela ‘habilidade’, a natureza altamente regulamentada das relações entre professor e aluno, a organização do currículo e do horário das atividades cotidianas, o processo de avaliação – todos servem de diferentes maneiras para reforçar e naturalizar pressupostos particulares sobre o que as crianças são e devem ser. Apesar disso, em geral essas definições só são explicitadas nas formas especializadas de discurso institucional e profissional das quais as próprias crianças são amplamente excluídas. É claro que nem todas essas definições e discursos são necessariamente consistentes ou coerentes. É de se esperar, ao contrário, que eles se caracterizem pela resistência e pela contradição. A escola e a família, por exemplo, parecem apresentar definições claras dos direitos e responsabilidades de adultos ecrianças. No entanto, como bem sabem os pais e os professores, as crianças rotineiramente desafiam e negociam essas definições, nem sempre de forma direta e sim às vezes através do que poderíamos chamar de táticas de guerrilha. Além disso, as expectativas dessas instituições são muitas vezes contraditórias em si mesmas. De um lado, por exemplo, os pais e os professores todos os dias conclamam as crianças a 11 ‘crescerem’, e a se comportarem da forma que consideram madura e responsável; de outro lado, eles negam privilégios às crianças, baseados em que elas ainda não têm idade para apreciá-los ou não merecem fazê-lo. ‘Infância’ é, portanto, um termo mutável e relacional, cujo sentido se define principalmente por sua oposição a uma outra expressão mutável, ‘Idade Adulta’. Mesmo, porém, onde os papéis de crianças e adultos estão respectivamente definidos por lei, existem consideráveis incerteza e inconsistência. Assim, a idade em que a infância termina legalmente é definida de forma primária (e crucial) em termos da exclusão das crianças de práticas definidas como propriamente “adultas”, sendo as mais óbvias o emprego remunerado, o sexo, o consumo de álcool e o voto. Em cada caso, as crianças são vistas como atingindo a maioridade numa idade diferente. No Reino Unido, por exemplo, elas podem pagar impostos aos 16 anos, mas não podem receber benefícios do estado até os 17, e não podem votar até os 18. Elas têm direito ao sexo heterossexual aos 16 anos; mas não podem assistir a imagens explícitas de tal atividade, no cinema, antes dos 18. Apesar disso, claro, as crianças de verdade se envolvem em muitas dessas atividades bem antes de estarem legalmente autorizadas a fazê-lo. Representando a Infância De modo geral, a definição e a manutenção da categoria ‘infância’ depende da produção de dois tipos principais de discurso. Primeiro, os discursos sobre a infância, produzidos por adultos prioritariamente para adultos – não só na forma dos discursos acadêmicos ou profissionais , mas também na forma de romances, programas de televisão e literatura popular de auto-ajuda. De fato, o discurso ‘científico’ ou ‘factual’ sobre a infância ( por exemplo, o da psicologia, o da fisiologia ou o da medicina) está muitas vezes ligado aos discursos ‘culturais’ ou ‘ficcionais’ (como a filosofia, a literatura imaginativa ou a pintura). Em segundo lugar, há discursos produzidos por adultos para crianças, na forma de literatura infantil, ou de programas infantis para televisão e outras mídias – que, apesar do rótulo, são raramente produzidos pelas próprias crianças. Assim, o período em que emergiu nossa definição de infância caracteristicamente moderna - a segunda metade do século XIX -caracterizou-se por uma explosão desses discursos. Durante esse período, as crianças foram sendo gradual e sistematicamente segregadas do mundo dos adultos, por exemplo através da elevação dos anos para a maioridade, da introdução da educação obrigatória, e das tentativas de erradicação do trabalho infantil. As crianças foram removidas aos poucos das fábricas e das ruas, e colocadas dentro das escolas; uma série de novas instituições e agências sociais buscaram supervisionar seu bem-estar, de acordo com um ideal doméstico bastante ligado à classe média, voltado assim a garantir a “riqueza da nação”.vi Essa demarcação da infância como um estágio distinto da vida – e a remoção das crianças daquilo que Harry Hendrick chamou de ‘atividades socialmente significantes’vii - justificou- se e refletiu-se através de discursos de ambos os tipos. A obra dos poetas românticos e dos romancistas vitorianos, por exemplo, deu ênfase central à pureza inata e à bondade natural das crianças. Para escritores tão diversos como Dickens e Wordsworth, a figura da criança tornou-se um símbolo poderoso na crítica ao industrialismo e à desigualdade social. A infância passou a ser, de acordo com o historiador Hugh Cunningham, ‘um substituto para a religião’.viii Foi também nessa época que o estudo científico da infância – mais notadamente na forma da pediatria e da psicologia do desenvolvimento – começou a se estabelecer;ix e esse trabalho logo chegou à literatura popular de aconselhamento dirigida aos pais. 12 Esse período também foi muitas vezes considerado como a Era de Ouro da literatura infantil: a obra de autores como Lewis Carroll, Edward Lear e J.M.Barrie refletiu a fascinação generalizada com a infância e o anseio por ela – para não falarmos das tensões não resolvidas em torno da sexualidade das crianças – que caracterizavam a época.x Ao mesmo tempo, a origem de formas mais ‘vulgares’ ( e na verdade violentas) de literatura popular dirigida às crianças – e especialmente aos meninos das classes trabalhadoras – pode ser situada nesse período; assim como o primeiro mercado de brinquedos em larga escala e de materiais educacionais planejados para uso doméstico.xi Isto não quer dizer, é claro, que as ‘crianças’ tenham sido de algum modo trazidas à existência por esses meios, ou mesmo que tais discursos e representações não houvessem existido antes. Simplesmente observamos que as mudanças históricas mais amplas no status social das crianças são freqüentemente acompanhadas desse tipo de proliferação discursiva. Como veremos, processos semelhantes ocorreram nos séculos XVI e XVII, e continuam a ocorrer hoje em dia. Inevitavelmente, os públicos desses dois tipos de discurso tendem a se superpor. As crianças muitas vezes se mostram extremamente interessadas em certas formas de discurso sobre a infância, especialmente quando isso toca em formas mais claramente proibidas de comportamento adulto. E os adultos têm um papel significativo na mediação dos textos para crianças, por exemplo quando compram e lêem livros para elas, ou as levam ao cinema. Certos tipos de textos – os filmes contemporâneos ‘para toda a família’ de Disney e Spielberg, por exemplo – podem ser vistos precisamente como formas de unir esses dois públicos: eles contam a adultos e crianças histórias muito sedutoras sobre os significados relativos da infância e da idade adulta. Como em boa parte da literatura do século XIX, a figura da criança é ao mesmo tempo um símbolo de esperança e um meio de expor a culpa e a hipocrisia dos adultos. Tais filmes costumam definir o significado da infância projetando sua perda futura: tanto para adultos como para crianças, eles mobilizam ansiedades sobre a dor da mútua separação, ao mesmo tempo em que oferecem fantasias tranqüilizadoras sobre como essa dor pode ser superada.xii Tais representações culturais da infância são muitas vezes contraditórias, portanto. Elas muitas vezes dizem mais sobre os investimentos adultos e infantis na idéia da infância do que sobre a realidade das vidas das crianças; e elas são freqüentemente imbuídas da nostalgia de uma Era de Ouro perdida, de brincadeira e liberdade. No entanto, essas representações não podem ser desconsideradas como mera ilusão. Seu poder depende do fato de que elas também contêm uma certa verdade: elas têm de falar, de forma inteligível, tanto às experiências vividas pelas crianças como às lembranças dos adultos, o que pode trazer, a um só tempo, dor e prazer. Como argumenta Patricia Holland, essas representações da infância fazem parte de um esforço contínuo da parte dos adultos para ganhar controle sobre a infância e suas implicações – não apenas sobre as crianças reais, mas também sobre nossas próprias infâncias, pelas quais estamos sempre em luto e as quais reinventamos sem parar. Essas imagens, diz ela, Exibem o esforço social e psíquico exigido pela negociação da difícil distinção entre adulto e criança, para manter as crianças separadas de uma idade adulta que nunca pode ser plenamente atingida. Tenta-se estabelecer categorias opostas e duais e mantê-las firmes em uma dicotomia que contrasta com a continuidade real entre o crescimento e o desenvolvimento. Trava-se uma ativa batalha para mantera infância – quando não as crianças reais – como pura e não-contaminada.xiii Como enfatiza Holland, essas construções culturais da infância cumprem funções não apenas para as crianças, mas também para os adultos. A idéia da infância serve como um repositório de qualidades que os adultos vêem ao mesmo tempo como preciosas e problemáticas – qualidades que não conseguem tolerar como parte deles mesmos; e serve 13 também como um mundo de sonho dentro do qual podemos escapar das pressões e responsabilidades da maturidade.xiv Essas representações, defende Holland, refletem ‘o desejo de usar a infância para assegurar o status da idade adulta – muitas vezes às custas das próprias crianças’.xv Infância, poder e ideologia Esta visão da infância como uma construção social e cultural é, assim, e até certo ponto, uma visão relativista. Ela nos faz recordar que nossa noção contemporânea de infância – aquilo que as crianças são e devem ser – é comparativamente recente em sua origem e em geral restrita às sociedades industrializadas do Ocidente. A maior parte das crianças do mundo de hoje não vive de acordo com a ‘nossa’ concepção de infância.xvi Julgar essas construções alternativas da infância – e as crianças cujas vidas são vividas em meio a elas – como meramente ‘primitivas’ é demonstrar um etnocentrismo perigosamente estreito. Da mesma forma, essa perspectiva nos leva a questionar a noção de que foi na idade moderna que as ‘necessidades’ inatas das crianças tiveram pela primeira vez um verdadeiro reconhecimento. Ao contrário, tais definições das características e necessidades singulares da infância são em si mesmas produzidas cultural e historicamente; e implicam necessariamente formas particulares de organização social e política. Além disso, tal noção de infância nos relembra que nenhuma descrição de crianças – e conseqüentemente nenhuma invocação da idéia de infância – pode ser neutra. Ao contrário, qualquer discussão nesse campo é inevitavelmente informada por uma ideologia da infância – ou seja, por um conjunto de significados que servem para racionalizar, manter ou desafiar relações de poder existentes entre adultos e crianças, assim como entre os próprios adultos.xvii Isso fica mais evidente quando consideramos a forma como a figura da criança é usada pelos movimentos sociais, desde os claramente progressistas até os nitidamente reacionários. Em sua análise do pânico moralista que tem caracterizado a vida social britânica nas últimas duas décadas, Philip Jenkins identifica uma ‘política de substituição’, a partir de iniciativas de cunho moral tanto da esquerda quanto da direita.xviii Em um clima de crescente incerteza, a invocação de temores relacionados às crianças é um meio poderoso de atrair a atenção e o apoio públicos: campanhas contra a homossexualidade são redefinidas como campanhas contra pedófilos; campanhas contra a pornografia tornam-se campanhas contra a pornografia infantil; e campanhas contra a imoralidade e o satanismo tornam-se campanhas contra o abuso infantil ritualizado. Aqueles que têm a audácia de colocar em dúvida os clamores sobre o caráter avassalador desses fenômenos podem ser facilmente estigmatizados como hostis às crianças. Não se está querendo sugerir, entretanto, que essas preocupações sejam necessariamente falsas ou ilegítimas. Ao contrário: elas não seriam percebidas tão amplamente se não se fundassem de algum modo em ansiedades pré-existentes – as quais, como indica Jenkins, são em si uma resposta a mudanças sociais fundamentais, por exemplo quanto à natureza da família. No entanto, a invocação da figura da criança ameaçada serve a funções particulares, tanto dos grupos militantes quanto do governo. A onda de preocupação em torno do abuso infantil nos anos 80, por exemplo, fortaleceu as ambições políticas tanto de grupos evangélicos cristãos como de feministas, cuja influência veio a dominar as agências de assistência e serviço social. Permitiu ainda que o governo afastasse as atenções públicas de problemas econômicos e sociais mais difíceis de atender; como resultado, é certamente discutível até que ponto as próprias crianças obtiveram algum benefício com essas campanhas. 14 Claro, esse tipo de pânico moralista não é a única arena em que a noção de infância é usada assim. O discurso ambientalista, por exemplo, muitas vezes se endereça implicitamente às crianças, baseando-se na idéia de que elas representam ‘o futuro’ e estão de algum modo mais ‘próximas da natureza’. A figura da criança no interior do feminismo, ou na história do movimento trabalhistaxix também é altamente carregada de significações. A criança é vista muitas vezes como a vítima mais indefesa de políticas sociais dirigidas primeiramente contra as mulheres, ou contra as classes trabalhadoras; também aqui, o apelo à proteção das crianças age como um poderoso meio de mobilizar apoio.xx Para pessoas com as mais variadas motivações, a política adulta é freqüentemente levada a efeito em nome da infância. Do mesmo modo, a produção de textos para crianças – tanto nas modernas mídias eletrônicas quanto em formas mais tradicionais, como a literatura infantil – também pode ser vista como apoio para ideologias da infância particulares. Essa atividade se caracteriza tradicionalmente por um equilíbrio complexo entre motivações ‘positivas’ e ‘negativas’. Por um lado, os produtores têm sido fortemente informados pela necessidade de proteger as crianças de aspectos ‘indesejáveis’ do mundo adulto. De fato, em alguns aspectos, os textos para crianças podem ser caracterizados basicamente em termos daquilo que eles não são – ou seja, em termos da ausência de representações vistas como influência moral negativa, mais obviamente ligadas a sexo e violência.xxi Por outro lado, há também fortes motivações pedagógicas: esses textos se caracterizam muitas vezes pela tentativa de educar, de dar lições de moral ou ‘imagens positivas’, e assim fornecer modelos de comportamento vistos como socialmente desejáveis. Os produtores culturais, os planejadores e os legisladores nesse campo estão preocupados, assim, não apenas em proteger as crianças de danos, mas também em lhes ‘fazer bem’. Em ambos os campos, as definições adultas da infância são simultaneamente repressivas e produtivas. Elas são desenhadas para proteger e ao mesmo tempo controlar as crianças – ou seja, para confiná-las a arenas e comportamentos sociais que não se mostrem como ameaça aos adultos, ou nos quais os adultos serão (imagina-se) incapazes de ameaçá- las. Essas definições buscam não apenas prevenir certos tipos de comportamento, mas também ensinar e estimular outros. Elas produzem ativamente certas formas de subjetividade nas crianças, enquanto tentam reprimir outras. E, como sugeri, servem a funções semelhantes com relação aos próprios adultos. Entretanto, talvez de modo inevitável, os adultos sempre monopolizaram o poder de definir a infância. Eles estabeleceram os critérios pelos quais as crianças devem ser comparadas e julgadas. Eles definiram os tipos de comportamento apropriados ou aceitáveis para as crianças de diferentes idades. Mesmo quando assumiram a posição de simplesmente descrever as crianças, ou falar em nome delas, os adultos inevitavelmente acabaram estabelecendo definições normativas do que se entende por infantil. As crianças certamente podem ‘falar por si mesmas’ e falam, apesar de raramente terem a oportunidade de fazê-lo no âmbito público, nem mesmo sobre assuntos que têm a ver diretamente com elas. Os contextos nos quais elas podem falar, e as respostas que podem dar, são ainda amplamente controlados pelos adultos; e sua habilidade de articular construções públicas alternativas de ‘infância’ seguem sendo rigidamente limitadas. Mesmo os argumentos em favor dos ‘direitos das crianças’ são desenvolvidos predominantemente pelos adultos, e em termos adultos. É claro que as crianças podem resistir, ou recusar-se a reconhecerem-senas definições adultas – e nesse sentido o poder adulto está longe de ser absoluto ou incontestável. No entanto, seu espaço de resistência é principalmente o das relações interpessoais, na ‘micropolítica’ da família ou da sala de aula. Além disso, as crianças podem ser cúmplices ativas na manutenção das definições do que é ‘adulto’ ou ‘infantil’, ainda que por omissão: as diferenças de idade, e os significados a elas ligados, são um dos principais campos onde as relações de poder são encenadas, não apenas entre adultos e crianças, mas 15 também entre as próprias crianças. As crianças rotineiramente mostram a outras crianças ‘qual é o seu lugar’, rindo delas ou acusando-as de terem gostos ou comportamentos ‘de bebê; e é comum que se esforcem para distanciarem-se dessas acusações. As distinções entre ‘adulto’ e ‘criança são mutuamente fiscalizadas, dos dois lados. Como veremos, isso tem significativas implicações para a pesquisa sobre as relações das crianças com as mídias – um espaço que elas às vezes percebem como sendo particularmente seu. A Infância como exclusão Esta análise aponta para uma visão menos benigna da construção da infância do que aquela em geral usada nos debates sobre ‘a morte da infância’. Certamente as definições de infância são variadas e muitas vezes contraditórias. Em qualquer momento histórico, em qualquer grupo social ou cultural, poderemos encontrar muitas definições conflitantes – algumas das quais poderão ser resíduos de concepções anteriores, enquanto outras talvez tenham surgido há pouco. Entretanto, na história recente dos países industrializados, a infância tem sido essencialmente definida como uma questão de exclusão. Mesmo com toda a ênfase pós-romântica na sabedoria e na compreensão inatas das crianças, elas são definidas principalmente em termos do que não são e do que não conseguem fazer. As crianças não são adultos; portanto, não podem ter acesso às coisas que os adultos definem como ‘suas’, e que os adultos acreditam ser os únicos capazes de compreender e controlar. De modo geral, é negado às crianças o direito de auto-determinação: elas precisam contar com os adultos para representar seus interesses e argumentar em seu nome. A ‘infância’, da forma como é predominantemente concebida, atua nesse sentido como supressora de poderesxxii das crianças. Isso decorre em grande parte de as crianças serem definidas de um modo não-social – ou, mais precisamente, pré-social. Assim, a disciplina acadêmica que até recentemente se atribuía exclusividade no estudo das crianças é a psicologia. É uma disciplina que (pelo menos em suas formas mais influentes e predominantes) interpreta o estudo da interação humana em termos da psique ou da personalidade individual; e define o modo como as crianças vão mudando ao correr do tempo como um processo teleológico de desenvolvimento em direção a um objetivo pré-determinado. As crianças são aí construídas como indivíduos isolados, cujo desenvolvimento cognitivo percorre uma seqüência lógica de ‘idades e estágios’ em direção à maturidade e à racionalidade adultas. Se a infância é definida, desse modo, como um processo de ‘tornar-se’, a idade adulta é vista como um estado acabado, no qual o desenvolvimento efetivamente cessou. Aqueles que não atingem esse estado são avaliados em termos de patologias individuais, e identificados como casos merecedores de tratamento.xxiii Se essa abordagem vem sendo cada vez mais questionada ( inclusive dentro da própria psicologia) a construção da infância dominante nesse campo claramente sustenta uma visão das crianças como essencialmente em falta, incompletas. O comportamento das crianças é avaliado em termos do quanto é ou não ‘apropriado’ a sua idade biológica. O índice de ‘maturidade ou ‘imaturidade torna-se o padrão pelo qual elas são medidas e com o qual medem a si próprias. Essas diferenças são definidas em termos do que passa a ser visto como qualidades especificamente adultas: racionalidade, moralidade, autocontrole e ‘boas maneiras’. Isso não implica, é claro, que a condição adulta seja sempre e necessariamente privilegiada em relação à infância nesses discursos – ao menos abertamente. As crianças podem ser definidas em termos de sua falta de racionalidade, entendimento social ou autocontrole; mas, de modo semelhante, elas podem também ser louvadas (ainda que de 16 modo paternalista) por sua ausência de artificialidade, autoconsciência e inibição. Evidentemente existe toda uma indústria de auto-ajuda baseada na idéia de que os adultos devem entrar em contato com sua ‘criança interior – idéias que reforçam implicitamente as noções românticas da infância como um lugar de verdade e pureza.xxiv O que continua sendo perturbador para muitos adultos, entretanto, são as conseqüências de as crianças ‘cruzarem a fronteira’. As manifestações de comportamento ‘precoce ameaçam a separação entre adultos e crianças, representando assim um desafio ao poder adulto. É nesse ponto que os discursos liberais sobre o desenvolvimento da criança, com sua ênfase no atendimento afetivo e no crescimento natural, começam a fraquejar. A saúde psicológica das crianças parece decididamente exigir de nós que patrulhemos a linha divisória entre adultos e crianças, no lar, na escola, e na ampla arena da cultura pública. Esse processo não é portanto apenas uma questão de separação entre crianças e adultos; ele envolve também uma ativa exclusão das crianças daquilo que é considerado o mundo adulto. Tal tentativa de excluir as crianças aplica-se mais obviamente aos campos da violência e da sexualidade, da economia e da política. E o significado dos meios de comunicação eletrônicos nesse contexto relaciona-se, claramente, com o fato de eles serem uma das fontes primárias de conhecimento sobre tais assuntos. Tanto em relação às mídias como a esses outros campos sociais, os dilemas fundamentais têm a ver com acesso e controle. Como explicarei adiante, esses dilemas estão se tornando cada vez mais agudos em conseqüência das novas tecnologias e da proliferação global das mídias eletrônicas. Os clamores por mais controle emergem renovados, precisamente porque a possibilidade de controle marcha a passos firmes para o desaparecimento. Minha posição não é liberacionista, porém. Em princípio, não nego a dependência biológica prolongada das crianças em relação aos adultos; nem contesto a idéia de que os indivíduos de fato se desenvolvam e mudem com a idade. ‘Maturidade’ é certamente uma palavra relativa, mas que não está inteiramente desligada da idade biológica. Além do mais, a exclusão que identifiquei não se relaciona apenas com a imposição de alguma forma monolítica de ‘poder adulto’. Ao contrário, ela é alcançada por meio da ativa cumplicidade das próprias crianças; e também exclui os adultos daquilo que é visto como domínio apropriado às crianças. Mais que isso: quando dou ênfase ao caráter mutável das construções sociais da infância, não quero propor que tais construções sejam uma falsificação da essência da infância, ou um tipo de imposição artifical sobre a criança ‘natural’. Nem tampouco estou sugerindo que essa essência natural pudesse ser libertada caso num passe de mágica conseguíssemos remover as fontes de poder. Nesse sentido, o chamado à ‘liberação das crianças’ parece se caracterizar por um tipo de romantismo muito parecido com os argumentos protecionistas aos quais ele tenta se opor. Eu proporia, mesmo assim, que a construção dominante das crianças como indivíduos pré-sociais impede de fato qualquer consideração que as tome como seres sociais, ou mesmo como cidadãos. Ao definirmos as crianças em termos de sua exclusão da sociedade adulta, e em termos de sua falta de habilidade ou de interesse em demonstrar o que definimos como características ‘adultas’, estamos ativamente produzindo o tipo de consciência e de comportamento que certos adultos julgam tão problemático. As diferenças que se percebe comoexistentes entre adultos e crianças justificam a segregação das crianças: mas essa segregação dá origem, então, ao comportamento que justifica a própria percepção das diferenças. Como já deixei implícito, a cultura e a representação são aspectos cruciais de todo o processo, tanto para as crianças como para os adultos. Por diversas razões, as mídias eletrônicas têm um papel cada vez mais significativo na definição das experiências culturais da infância contemporânea. Não há mais como excluir as crianças dessas mídias e das coisas que elas representam; nem como confiná-las a materiais que os adultos julguem bons para 17 elas. A tentativa de proteger as crianças restringindo o acesso às mídias está destinada ao fracasso. Ao contrário, precisamos agora prestar muito mais atenção em como preparar as crianças para lidar com essas experiências; e, ao fazê-lo, temos de parar de defini-las simplesmente em termos do que lhes falta. Um esquema do livro Nos dois próximos capítulos, discuto duas análises contrastantes sobre a natureza mutante da infância e sobre o papel das mídias nas vidas das crianças. De um lado está a tese da ‘morte da infância’, comumente associada ao trabalho de Neil Postman – a visão de que a televisão e outros meios eletrônicos no mínimo diluíram as fronteiras entre a infância e a idade adulta, se é que não as apagaram completamente. Do outro lado está um argumento cada vez mais popular entre os entusiastas das chamada ‘revolução das comunicações’ – a idéia de que as novas mídias eletrônicas estão dando mais liberdade e poder às crianças e aos jovens. Como tentarei mostrar, há fortes semelhanças - assim como fragilidades em comum – nesses argumentos aparentemente tão diversos. Minha crítica a essas posições levanta uma série de questões fundamentais, que serão tratadas mais diretamente na segunda parte do livro. Elas têm relação mais óbvia com a natureza mutante da infância – tanto em termos das nossas idéias sobre a infância como em termos das vidas reais das crianças. Elas têm a ver também com a natureza mutante das mídias – não somente ao nível da tecnologia, mas também quanto à forma e ao conteúdo dos textos midiáticos e da interação entre os produtores de comunicação e seus públicos. Essas questões ligam-se também, por fim, com a forma como entendemos as relações das crianças com as mídias, quer pensemos em termos de ‘usos’ ou ‘efeitos’, como ‘ativas’ e ‘passivas’, ou como um fenômeno essencialmente psicológico ou social. Minha própria posição diante desses temas é apresentada nos capítulos 4, 5 e 6. Atravessando todas essas questões há diversas preocupações mais específicas, relacionadas ao lugar das mídias eletrônicas na sociedade contemporânea. Tais questões assumem uma forma particular, e em alguns casos uma intensidade particular, em relação às crianças; elas têm um significado mais amplo também. Trata-se de áreas que, de diferentes maneiras, são predominantemente definidas em termos de exclusão – ou seja, como áreas da vida ‘adulta às quais, defende-se, as crianças não deveriam ter acesso. Incluem-se nesse campo em primeiro lugar as questões ligadas à moralidade, tipicamente centradas em representações de sexo e violência. Em segundo lugar, estão as questões ligadas ao lugar do comércio e às relações entre o mercado e a esfera pública. Isso nos leva à terceira área-chave, a da cidadania – ou seja, a das relações entre as crianças e a atividade e o debate ‘políticos’ num sentido amplo. Esses três temas são tratados na terceira parte do livro, respectivamente nos capítulos 7, 8 e 9. Ao enfatizar as complexidades e as dificuldades dessas questões, minha intenção também é apontar as conseqüências de meus argumentos para a formulação de políticas futuras, não só em relação às mídias em si, mas também em termos das experiências e dos direitos das crianças como público. Tais projeções mais específicas começam a emergir ao final de cada um dos capítulos da parte III e são reunidas e melhor desenvolvidas em meu capítulo de conclusão. Esses argumentos, e alguns dos exemplos específicos que aparecem ao longo do livro, são forçosamente ligados em parte à situação na Grã-Bretanha; há dificuldades óbvias em fazer generalizações a partir de características sociais e culturais de um contexto nacional para outro. Mesmo assim, acredito que muitos dos argumentos gerais aqui expostos possam ter uma ressonância internacional. Apesar de seu título provocativo, então, este livro não é mais uma lamentação pela morte da infância; nem é simplesmente uma celebração do que poderá sucedê-la. Ao 18 contrário, ele busca fornecer a base de uma compreensão mais realista e abrangente da experiência das crianças que crescem na era dos meios eletrônicos. Precisamos dessa compreensão se quisermos ajudá-las a lidar com os desafios do presente, sem falar nos do futuro. PARTE I Capítulo 2: A Morte da Infância A noção de que as crianças estão crescendo privadas da infância tornou-se corriqueira na psicologia popular. Ao longo das últimas três ou quatro décadas, argumenta-se, houve uma mudança radical no modo como a sociedade trata as crianças e no comportamento delas próprias. Os críticos apontam as evidências de aumento nos índices de violência e atividade sexual entre os jovens, e a crescente desintegração da vida familiar, concluindo que a segurança e a inocência que caracterizavam a experiência da infância nas gerações anteriores perderam-se para sempre. Dois livros, ambos publicados nos EUA no início da década de 1980, estiveram entre os primeiros a levantar essas preocupações: The Hurried Child (A Criança Apressada), de David Elkind (1981)xxv, e Children without Childhood (Crianças sem Infância), de Marie Winn (1984). Nas capas desses livros, slogans semelhantes sintetizavam seus argumentos: ‘Crescendo Rápido Demais Cedo Demais’ (Elkind) e ‘Crescendo Rápido Demais no Mundo do Sexo e das Drogas’ (Winn). Esses autores parecem descrever fenômenos similares, mas suas análises das causas desses fenômenos são bem diferentes. Como psicólogo da infância, Elkind parte do estresse que, segundo ele, caracteriza a vida das crianças de hoje. Ele aponta para o aumento dos índices de distúrbios psicológicos causados pelo divórcio; o aumento dos casos de gravidez e doenças venéreas na adolescência; e o número crescente de jovens tentando a fuga através das drogas, do crime, do suicídio e do ingresso em seitas religiosas. As crianças, diz ele, estão sendo ‘aceleradas’ infância afora por seus pais, pelas escolas e também pelos meios de comunicação. Os pais, estressados e frustrados por suas próprias vidas profissionais, tendem a jogar suas ansiedades sobre as crianças, pressionando-as cada vez mais cedo a ter sucesso acadêmico e esportivo e paralisando-as com o medo do fracasso. As escolas tornaram-se produtivistas, obcecadas por avaliação e pelo treinamento impositivo de ‘habilidades básicas’. Os pais estão sendo convocados a transformar o lar em extensão da escola, proporcionando às crianças uma instrução formal e programada, ao invés do aprendizado mais informal do passado. Os meios de comunicação refletem e ao mesmo tempo produzem esta ‘aceleração’ das crianças. Segundo Elkind, faltam à televisão as ‘barreiras intelectuais’ das mídias mais antigas, porque ela não exige que as crianças aprendam a interpretá-la. Ao simplificar o acesso das crianças à informação, a TV abre-lhes as portas a experiências antes reservadas aos adultos: ‘cenas de violência ou de intimidade sexual que uma criança pequena não seria capaz de imaginar a partir de uma descrição verbal, são agora apresentadas direta e graficamente na tela da televisão.’xxvi Num certo nível, isso significa que a experiência humana torna-se ‘homogeneizada’; mesmo que as próprias crianças não necessariamente entendam aquilo que assistem, a televisão cria um tipo de ‘pseudo- sofisticação’, que leva os adultos a tratarem as crianças como maisadultas do que realmente são. Elkind desenvolve um argumento semelhante em relação aos livros infantis contemporâneos, onde o foco nos pobres, nos deficientes, nos doentes e naqueles com problemas emocionais parece representar uma pressão a mais sobre as crianças, no sentido de fazê-las crescer antes do tempo. Ao mesmo tempo, ele condena o rock como emocionalmente regressivo, como um estímulo à masturbação e ao uso de drogas ilícitas. O problema-chave, de acordo com Elkind, é que as crianças são expostas a essas experiências antes de estarem ‘emocionalmente prontas’ para lidar com elas: As crianças apressadas são forçadas a assumir a parafernália física, psicológica e social da idade adulta antes de estarem prontas para lidar com ela. Vestimos nossas crianças com fantasias de 19 adultos em miniatura (muitas vezes de marcas famosas), as expomos ao sexo e à violência gratuitos, e esperamos que elas sejam capazes de lidar com um ambiente social cada vez mais perturbador – o divórcio, a ausência de um dos pais, a homossexualidade.xxvii Em contraste, Elkind propõe que o amadurecimento deva ser lento, seguindo um ritmo próprio. Apoiado no modelo do desenvolvimento infantil de Piaget, ele argumenta que as crianças só aprendem verdadeiramente quando estão prontas para fazê-lo. Forçá-las a passar por cima de estágios em seu desenvolvimento tornará muito mais difícil para elas estabelecerem um sentido seguro de sua identidade pessoal, deixando-as despreparadas para as dificuldades da adolescência. Marie Winn, em seu livro ‘Crianças sem Infância’, faz eco a muitas das preocupações de Elkind. Ela também indica uma crescente epidemia de problemas sociais que afetam as crianças; e, apesar de tomar cuidado para não exagerá-los, argumenta que tem havido uma ‘perda de controle’ generalizada por parte dos pais e um amplo ‘declínio na supervisão das crianças’. Se é verdade que problemas como o abuso de drogas e a gravidez na adolescência sempre existiram entre as classes sociais mais baixas, eles estão agora se espalhando entre as crianças de classe média. Como Elkind, Winn se espanta com o apagamento das fronteiras entre adultos e crianças, e com o fato de que ‘as crianças têm uma aparência, uma fala e um comportamento muito pouco infantis’xxviii Usando grande quantidade de exemplos anedóticos, ela afirma que a maioria dos pais mostra despreocupação, ignorância ou fatalismo diante de sua própria impotência em alterar a situação. Como Elkind, Winn acusa as mídias por ‘doutrinarem as crianças sobre os segredos da vida adulta’ – que para ela se referem principalmente a sexo e violência. Se é verdade que a autora compartilha as preocupações dele com o ‘novo realismo’ nos livros infantis, e o foco em ‘gangues de estupradores, homossexualismo e violência sádica’ no cinema, sua maior ansiedade é a televisão. Os pais têm poucas chances de controlar a exposição de seus filhos a todas as variedades da sexualidade adulta, a cada permuta e combinação de brutalidade e violência humanas, a cada aspecto de doença, moléstia e sofrimento, a cada assustadora possibilidade de desastres com causas naturais ou humanas que possa ser impingido sobre uma infância inocente e livre de preocupações. O aparelho de TV está sempre ali, pronto para destruir todos os seus planos cuidadosos.xxix Mesmo assim, a preocupação de Winn com a TV – que é extensamente desenvolvida em seu livro anterior - The Plug-in Drugxxx (‘A Droga de ligar na Tomada’) - não tem relação apenas com os conteúdos. Independente do que elas assistam, ela argumenta, a televisão priva as crianças da brincadeira e de outras formas de interação saudável. O aparelho é usado como ‘babá eletrônica’ por um número muito grande de pais . Apesar de suas semelhanças, os diagnósticos feitos por esses dois autores, e portanto suas receitas de mudança, são bem diferentes. A posição de Winn é essencialmente um conservadorismo moralista. Ela se mostra horrorizada com o declínio da família nuclear tradicional, a independência financeira cada vez maior das mulheres, o ‘enfraquecimento dos padrões sexuais’ e o papel cada vez menor da religião organizada. Ela lamenta o movimento em direção ao ensino misto, à desaprovação aos castigos físicos e à visibilidade pública cada vez maior da homossexualidade. Nesse sentido, seu livro vincula-se claramente ao refluxo moralista contra a ‘permissividade’ dos anos 60 que caracterizou a década de 1980 de Ronald Reagan e Margaret Thatcher. Para Elkind, em contraste, o problema não parece ser tanto a permissividade, mas a falta dela. Ele compartilha algumas das preocupações moralistas gerais de Winn, mas lamenta a tendência ao abandono das práticas educativas baseadas na noção de ‘auto-expressão’. Se essa abordagem pode ter produzido ‘crianças mimadas’, que permanecem muito tempo na infância, o pêndulo agora foi longe demais na direção oposta: as ‘crianças apressadas’ estão sujeitas a excessiva pressão e disciplina por parte dos adultos. Winn e Elkind estão unidos, porém, em seu desejo de voltar a uma era anterior – a qual Winn chama, aparentemente sem ironia, de ‘a Idade de Ouro da Inocência’, uma idade na qual (diz ela) ‘a inocência era verdadeiramente uma bênção, era uma vez, muito tempo atrásxxxi’. Os dois autores parecem situar esse período no início do século XX, ou mesmo um pouco antes. Ambos, no entanto, 20 têm consciência de que esta Idade de Ouro era em si um estágio particular na longa história da infância. Winn, por exemplo, compara a abordagem ‘não-civilizada’ da educação das crianças na Idade Média com a ênfase na proteção e no cuidado afetivo que emergiu durante o século XIX. As crianças, ela observa, eram gradualmente separadas do mundo adulto, para que pudessem ser preparadas a exercer seus papéis futuros em uma sociedade industrial cada vez mais complexa. ‘Lenta e dolorosamente, as crianças eram ajudadas a adquirir as habilidades de cooperação, consideração e sensibilidade social, de que iriam precisar algum dia nos novos tipos de trabalho disponíveis aos adultos nas vilas e cidades.’xxxii Naquela época, diz Winn, as crianças mostravam ‘uma aceitação relativamente dócil de seu papel como seres dependentes e desprovidos de muita escolha sobre a vida e mesmo sobre seu comportamento cotidiano’xxxiii – e, como resultado, seu modo de agir passou a ser visto como caracteristicamente infantil. Hoje, ao contrário, as crianças mostram muito menos reverência diante dos que estão em situação de autoridade. Seus ‘poderes críticos’, de acordo com Winn, foram ‘despertados cedo demais’.xxxiv Elas sabem que os adultos nem sempre merecem confiança ou respeito simplesmente por serem adultos. As crianças, ao que parece, chegam a reivindicar o direito de escolher que roupas vestir! É significativo que os dois autores reconheçam que os processos que descrevem devam ser vistos no contexto mais amplo dos movimentos por igualdade social que se seguiram às lutas por Direitos Civis e ao renascimento do feminismo. Mas é no caso das crianças que ambos procuram definir um limite a essas tendências. Em vez de estender a igualdade às crianças, Elkind defende que precisamos dar um tempo a elas para que cresçam e aprendam longe dos adultos. Não é discriminatório, ele sugere, enfatizarmos as ‘necessidades especiais’ das crianças; ao contrário, ‘é a única forma de atingirmos uma verdadeira igualdade’.xxxv Para Winn, há aí uma clara implicação: os pais devem reforçar ativamente as fronteiras entre adultos e crianças. Eles deveriam estar menos preocupados com a preparação e mais com a proteção. Os pais devem reafirmar sua autoridade, e, assim devolver às crianças seu direito de ‘serem crianças’. A análise de Elkind talvez seja menos abertamente coercitiva, mas é igualmente normativa. Em vez de enfatizar a responsabilidade dos pais na manutenção da inocência de suas crianças, Elkind indica que isso acontecerá naturalmente, se as crianças não forem forçadas a crescerantes de estarem ‘prontas’. Nesse relato, portanto, as normas psicológicas tomam o lugar das normas sociais, e inevitavelmente as apóiam. Se é fato que os dois autores reconhecem a existência da mudança histórica, ambos acabam caindo novamente na noção da infância como um fenômeno ‘natural, visto implicitamente como atemporal. Os mitos da alfabetização Apesar das diferenças entre eles, os argumentos desenvolvidos nesses livros são uma referência poderosa no pensamento popular contemporâneo sobre a infância, parecendo unir pessoas que têm convicções políticas e morais contrastantes. Eles dão corpo a uma crescente ansiedade sobre as mudanças sociais, e especialmente sobre a mudança nas relações de poder entre adultos e crianças, típica de tantos comentários na imprensa sobre a educação de crianças. Mas, como veremos no decorrer deste livro, muitos dos temas que eles discutem têm sido tratados também - é verdade que com mais cautela - pelos estudos acadêmicos sobre a infância, e especialmente sobre as relações das crianças com as mídias. Para investigar essas idéias, volto-me agora a quatro trabalhos escritos por acadêmicos: The Disappearance of Childhood, (‘O Desaparecimento da Infância’) de Neil Postmanxxxvi, e No Sense of Place (‘Sem Noção de Lugar’), de Joshua Meyrowitz, publicados no começo da década de 1980; A is for Ox (‘A de Boi’), de Barry Sanders, e a coletânea Kinderculture (‘Cultura Infantil’xxxvii) de Shirley Steinberg e Joe Kincheloe, ambos publicados em meados dos anos noventa. Também aqui, os subtítulos ou slogans de capa são sintomáticos: ‘Como a TV está mudando a vida das crianças’ 21 (Postman); ‘O Impacto das Mídias Eletrônicas no Comportamento Social’ (Meyrowitz); ‘O Colapso da Leitura e o Aumento da Violência na Era Eletrônica’ (Sanders); e ‘A Construção Corporativa da Infância’ (Steinberg e Kincheloe). Como esses títulos sugerem, todos os quatro livros oferecem uma análise bastante unidimensional das causas desses processos. Enquanto Elkind e Winn tentavam explicar as mudanças contemporâneas na infância por meio de argumentos gerais sobre as formas de educar as crianças, estes últimos autores identificam no drama um único vilão: as mídias eletrônicas. O livro de Postman foi o primeiro dos quatro a ser escrito, e também o que tem a linguagem mais popular. Como Elkind e Winn, ele oferece uma gama variada de evidências para provar que a infância – ou pelo menos a distinção entre adultos e crianças – está desaparecendo. Ele aponta a eliminação das brincadeiras tradicionais e dos estilos de vestuário tipicamente infantis; a crescente homogeneização nos interesses de lazer, linguagem, hábitos alimentares e preferências de entretenimento de crianças e adultos; e o aumento na criminalidade infantil, no consumo de drogas, na atividade sexual e na gravidez na adolescência. Fica especialmente chocado com o uso erótico de crianças em filmes e comerciais, o predomínio de temas ‘adultos’ nos livros infantis e aquilo que considera uma ênfase mal-conduzida nos ‘direitos das crianças’ . No entanto, como os outros autores discutidos aqui, Postman não tem ilusões de que a infância seja um fenômeno atemporal. A partir da obra do historiador francês Philippe Arièsxxxviii, ele descreve a ‘invenção’ e a evolução da infância desde a Idade Média. Em suas próprias palavras, essa é a história de ‘como a imprensa inventou a infância e de como os meios eletrônicos estão acabando com ela.’xxxix Como a frase sugere, Postman atribui um papel determinante às tecnologias e aos atributos humanos que elas (como que automaticamente) requerem ou cultivam. A imprensa, ele afirma, criou de fato a nossa moderna noção de individualidade; e foi esse ‘senso de eu intensificado’ que levou ao ‘florescimento da infância’. A imprensa exigia o aprendizado da alfabetização, e conseqüuentemente a invenção de escolas, de modo a colocar em cheque a ‘exuberância’ das crianças e a cultivar ‘a quietude, a imobilidade, a contemplação e a regulação das funções corporais’.xl Mas a imprensa e a escola não apenas criaram a criança: no processo, criaram também ‘o conceito moderno de adulto.’ A maturidade tornou-se, nas palavras de Postman, um feito simbólico e não apenas biológico. Como Winn, Postman vê como a vantagem da imprensa sua habilidade em preservar os ‘segredos’ adultos daqueles que ainda não foram alfabetizados. A televisão, ao contrário, é um ‘meio de exposição total’, que torna a informação ‘incontrolável’. Os ‘mistérios sombrios e fugidios’ da vida adulta (e particularmente do sexo) não estão mais escondidos das crianças, ele sugere. A televisão de fato acaba com a vergonha, qualidade que Postman vê como pré-requisito para a existência da infância. Entretando, a visão que Postman tem das diferenças entre essas mídias não está centralmente preocupada com seu conteúdo, e sim com suas implicações para a cognição. Seguindo Harold Innis e Marshall McLuhanxli, ele argumenta que a imprensa é essencialmente simbólica e linear, e por isso cultiva a abstração e o pensamento lógico: Quase todas as características que associamos com a maturidade são (ou eram) aquelas geradas ou amplificadas pelos requisitos de uma cultura plenamente letrada: a capacidade de autocontrole, a tolerância pelo adiamento da gratificação, a habilidade sofisticada para o pensamento conceitual e seqüencial, a preocupação com a continuidade histórica e com o futuro, a grande valorização da razão e da hierarquia.xlii Em contraste, a televisão é um meio visual, afirma Postman. Ela não requer habilidades especiais para sua interpretação, nem as cultiva. Ela não oferece proposições, e não precisa conformar-se às regras da evidência ou da lógica: é essencialmente irracional. As implicações de tais mudanças tecnológicas para as relações entre adultos e crianças foram diretas, portanto. Por meio da imprensa e da escolarização, diz Postman, ‘os adultos viram-se com um controle sem precedentes sobre o ambiente simbólico dos jovens, e desse modo foram capazes de 22 estabelecer as condições pelas quais uma criança se tornaria adulta, e mesmo obrigados a estabelecê- las’.xliii Na era da televisão, esse poder e esse controle tornaram-se impossíveis. Nas entrelinhas do texto de Postman há uma forma de conservadorismo moral que tem muito em comum com a que vimos em Marie Winn. O que lhe parece especialmente perturbador na ‘era da TV’ é a derrocada das ‘boas maneiras’. Se por um lado Postman se afasta do que vê como a ‘arrogância’ da chamada Maioria Moral, ele explicitamente compartilha com ela o desejo de ‘fazer o relógio andar para trás’. Ele apóia ‘suas tentativas de restaurar um sentido de inibição e reverência diante da sexualidade’ e de estabelecer escolas que insistam nos ‘padrões rigorosos de civilité’; e convoca os pais a imprimir nas crianças o valor do ‘autocontrole nas atitudes, na linguagem e no estilo’ e a necessidade ‘da reverência e da responsabilidade pelos mais velhos’.xliv Mesmo assim, Postman não é muito otimista quanto às chances dessa sobrevivência: ele reconhece como um papel ‘monástico’ o dos pais que limitarem a exposição de seus filhos às mídias, que lhes ensinarem boas maneiras e que assim ‘resistirem ao espírito da época’. O tom de No Sense of Place, de Joshua Meyrowitz, é bem menos polêmico e bem mais acadêmico do que o de The Disappearance of Childhood. Apesar de ter aparecido dois anos depois, o livro de Meyrowitz deixa implícito que Postman e outros estavam popularizando idéias que haviam sido desenvolvidas originalmente por ele.xlv Como os outros autores que estou comentando, Meyrowitz propõe que a infância e a idade adulta estejam se fundindo, em conseqüência das mudanças nos meios de comunicação. O argumento de Meyrowitz, porém, é muito mais amplo que o de Postman. A diferença essencial entre a televisão e as mídias mais antigas é, segundo ele, o fato de que a televisão torna os comportamentos ‘de bastidores’ visíveis atodos. Ela revela fatos que contradizem os mitos e ideais dominantes. De fato, ela não permite que os grupos poderosos mantenham ‘segredos’, minando assim os alicerces de sua autoridade. Desse modo, a televisão não apenas confundiu as fronteiras entre as crianças e os adultos, mas também entre os homens e as mulheres, e entre os cidadãos individuais e seus representantes políticos. Ao mesmo tempo, Meyrowitz é muito mais agnóstico do que Postman. Suas descrições das mudanças contemporâneas na infância, se bem que coincidentes em muitos sentidos com as que consideramos até agora, são muito mais equilibradas. Assim, ao observar o aumento da criminalidade infantil, ele destaca também o enfraquecimento das abordagens paternalistas na educação das crianças e a nova ênfase no bem-estar infantil e nos direitos das crianças. Da mesma forma, ele descreve os livros infantis como ‘um gueto informacional’, argumentando que os novos meios de comunicação permitem às crianças comunicarem-se diretamente umas com as outras de formas antes impossíveis. O objetivo final de Meyrowitz não é julgar se tais mudanças são boas ou más, ou se elas representam um desvio não-natural dos papéis ‘apropriados’ para adultos e crianças. De fato, ele refuta com energia as descrições universalistas do desenvolvimento infantil, dos tipos a que aderem Elkind e outros, em última análise; ele argumenta que ‘a criança’ e a ‘psicologia da criança’ são construções sociais, que refletem determinados valores culturais muito específicos (e cada vez mais questionáveis). A noção da ‘inocência’ infantil, ele sugere, não reflete um estado essencial ou natural: ao contrário, ela foi produzida deliberadamente para justificar a separação social entre adultos e crianças.xlvi Nesse sentido, Meyrowitz tem pouca simpatia por argumentos sobre as implicações cognitivas das diferentes mídias. Ele faz uma clara distinção entre a imprensa e a televisão, mas a define em termos dos seus usos sociais. A imprensa, para ele, tende a segregar crianças e adultos, pois requer um aprendizado prolongado da alfabetização; a televisão, por sua vez, tende a reintegrá-los, porque suas formas simbólicas básicas – figuras e sons – são imediatamente acessíveis. Independentemente das mensagens específicas que transmite, a televisão modifica o padrão do fluxo de informação que entra nas casas, desafiando o controle dos adultos e permitindo que a criança pequena esteja vicariamente ‘presente’ às interações adultas: ‘A Televisão remove as barreiras que uma vez colocavam as pessoas de diferentes idades e diferentes habilidades de leitura em situações sociais diferentes. O uso generalizado da televisão equivale a uma ampla decisão social de permitir que as crianças pequenas estejam presentes a guerras e funerais, namoros e seduções, tramas criminosas e coquetéis.’xlvii 23 Como Winn e Postman, portanto, Meyrowitz afirma que a televisão mina as tentativas adultas de manter ‘sigilo’, apesar de ele não demonstrar a mesma preocupação moralista diante dessa situação. Controlar o acesso das crianças às mídias – a resposta preferida de Postman – tende a ser difícil, ele sugere. Com a televisão, a prática do controle familiar precisa tornar-se aberta e visível, de um modo que não era necessário com a imprensa. Além do mais, a televisão alerta as crianças para a existência de comportamentos ‘de bastidor’, mesmo que nem sempre os revele explicitamente; e freqüentemente exibe às crianças as formas como os adultos procuram manter tais comportamentos longe das vistas delas. Assim, a televisão não apenas revela ‘segredos’: ela também revela ‘o segredo da secretude’, tornando os adultos vulneráveis à acusação de hipocrisia.xlviii Se, portanto, Meyrowitz rejeita implicitamente o determinismo tecnológico de Postman, ele coloca em seu lugar o que poderíamos chamar (ainda que não soe bem) de um ‘determinismo do sistema de informação’. A diferença crucial entre a televisão e a imprensa, ele sugere, está nas possibilidades que a leitura oferece de ‘separação entre os sistemas de informação adultos e infantis’. Em outras palavras, o que faz a diferença não são os processos cognitivos, ou mesmo o conteúdo: é o fato de que a imprensa permite que as crianças sejam separadas dos adultos, e a televisão, não. À medida que as distinções entre os sistemas de informação para crianças e adultos se diluem, argumenta Meyrowitz, tendem inevitavemente a ocorrer mudanças nos comportamentos sociais. O livro de Barry Sanders A is for Ox (‘A de Boi’) é um desenvolvimento mais recente destes temas, e de certa forma o mais apocalíptico deles. Como Neil Postman, Sanders expõe sua tese central em termos ousados: ‘Os seres humanos tais como os conhecemos’, escreve, ‘são produtos da alfabetização’.xlix E, como os jovens têm menos interesse na ‘cultura do livro’, e os índices de alfabetização seguem caindo, a idéia de um ‘ser humano crítico e autônomo’ está desaparecendo rapidamente. Os analfabetos, argumenta Sanders, são incapazes de pensar de forma abstrata e crítica, ou de se distanciarem de sua experiência imediata. Eles não conseguem desenvolver um sentido de consciência individual, apenas um tipo tribal de ‘consciência de grupo’. Seu mundo é cheio de violência auto-destrutiva, é ‘um mundo marcado por dor e morte, um mundo cheio de desespero e marginalidade, suicídios adolescentes, gangues assassinas, lares desfeitos e homicídios’.l A causa primordial dessa epidemia de violência jovem, como se pode imaginar, é a televisão (e, num grau menor, os computadores domésticos). Mas, assim como os outros autores discutidos aqui, o problema não está tanto em que determinados tipos de conteúdo televisivo produzam comportamentos imitativos – apesar de Sanders claramente acreditar que isso ocorra. O problema são os tipos de consciência cuja produção é atribuída à televisão. Em uma original manobra argumentativa, Sanders diz que principal vítima da televisão não é tanto a leitura, mas sim a oralidade – e particularmente a prática doméstica da narração oral de histórias. Ver televisão em vez de conversar destrói a habilidade de as crianças desenvolverem sua própria voz e seus poderes imaginativos. Claro, a televisão contém linguagem oral, mas trata-se de uma falsa oralidade, ‘uma mentira auditiva e visual’. Ao destruir a ‘verdadeira oralidade’, a televisão também destrói as bases da alfabetização, já que seu desenvolvimento depende da existência prévia da oralidade. A visão que Sanders tem da relação entre a leitura do texto impresso e a televisão é semelhante à luta maniqueísta entre o bem e o mal. A leitura é de fato equiparada à noção de autonomia do euli, e desse modo com a vida em si. Assim, sugere Sanders, os membros analfabetos de gangues não possuem a autonomia do eu, e por isso não dão valor à vida humana. ‘As culturas orais’, ele argumenta, ‘ não operam com o mesmo conceito de ‘assassinato’ que as culturas letradas. Nelas não se pode ‘tirar’ a vida de alguém, porque uma vida demarcada, plenamente articulada e internalizada só existe em uma cultura letrada.’lii A violência torna-se assim uma forma de compensação por aquilo que perdem aqueles que não sabem ler; ao passo que o letramento ‘civiliza’ os indivíduos, transformando-os em ‘membros consentidos do corpo político’. Por outro lado, os efeitos negativos da televisão são devastadores: 24 [A televisão] debilita os jovens (....) provoca um curto-circuito no desenvolvimento natural, emocional, de que eles precisam para tornar-se seres humanos saudáveis (...) estrangula o desenvolvimento de suas próprias vozes e nega a eles seus poderes imaginativos (...) apaga as próprias imagens das crianças (...) enfraquece a vontade (...) [e] desfere um dos golpes psicológicos mais debilitantes ao negar ao jovem a oportunidade de voltar-se para dentro de si mesmo e conversar em silêncio com aquele construto social que brota, o eu.liii À luz dessa análise apocalíptica, talvez não surpreendao fato de que as conclusões de Sanders sejam tão sombrias. A ‘crise’ identificada por ele só pode ser resolvida, ao que parece, por uma ‘revisão em bloco do nosso atual modo de vida’. Para Sanders, as escolas são claramente uma parte do problema, em vez de uma solução potencial: na era da ‘cultura eletrônica de massa’, diz, as escolas transformaram o letramento em mercadoria, ao impor padrões arbitrários de correção e formas mecanizadas de instrução. Assim, ele sugere que a alfabetização, ao menos na pré-escola, seja substituída por uma ampla ênfase nas artes orais. Outra sugestão concreta de Sanders, porém, é menos radical, e compartilhada por vários dos outros autores que estamos considerando. Toda mãe, afirma, deveria voltar para casa. É a família nuclear que irá garantir a leitura, assim como a leitura é que irá garantir a sobrevivência da infância, e, em última análise, da própria sociedade. Se as conclusões de Sanders, Postman e Winn são essencialmente conservadoras, o texto final que quero examinar aqui ilustra o apelo a esse argumento também por parte da esquerda. No livro que organizaram, Kinderculture (‘A Cultura da Infância’), Shirley Steinberg e Joe Kincheloe desenvolvem o que parece ser uma versão politicamente mais radical da ‘morte da infância’. Como Postman e outros, esses autores defendem a idéia de que ‘as noções tradicionais da infância como um tempo de inocência e dependência foram solapadas’, nem tanto pela mudança nas estruturas familiares ou nas práticas de criação dos filhos, mas ‘pelo acesso das crianças à cultura popular durante o final do século XX’.liv Na mesma linha, afirmam que é em virtude do conhecimento proporcionado pelas mídias que a autoridade adulta tem sido desafiada: ‘Enquanto as crianças pós-modernas ganham conhecimento irrestrito sobre coisas antes mantidas em segredo, a mística dos adultos enquanto reverenciados guardiões dos segredos do mundo começa a se desintegrar.’lv O vilão principal da cena, porém, não são tanto as mídias em si, mas o capital empresarial – ainda que, na prática, os dois pareçam ser vistos como indistinguíveis; e a preocupação central não são tanto as conseqüências cognitivas das mídias, e sim seu papel de portadoras de ideologia. Apesar da explícita rejeição que os autores fazem às teorias conspirativas ao velho estilo, sua descrição de ideologia deriva claramente das análises da ‘sociedade de massas’ desenvolvidas nas décadas de 1930 e 1940. Tanto as mídias como seus públicos são vistos como verdadeiramente homogêneos. Argumenta-se que as mídias são responsáveis por garantir que as massas aceitem uma ordem social injusta, por meio de um processo de falsas ilusões e mistificação. Elas oferecem uma forma de falso prazer que destrói a capacidade imaginativa, o pensamento crítico e conseqüentemente a possibilidade de resistência. Essa teoria é mais comumente identificada com a obra da Escola de Frankfurt – ou seja, com a esquerda política – mas também tem muito em comum com os argumentos do conservadorismo cultural.lvi Pela descrição de Steinberg e Kincheloe, ela se alinha facilmente às noções mais tradicionais de ‘efeitos das mídias’, como por exemplo em relação à influência da violência nas telas.lvii Esse argumento, entretanto, assume uma forma particular quando se refere às crianças, que se presume serem especialmente vulneráveis à manipulação ideológica. Assim, as mídias são vistas aqui como agentes de uma ideologia unidimensional que ‘ocupa a psique humana’. É uma ideologia que não trabalha pelo ‘bem social’, ou pelo ‘bem-estar das crianças’, mas simplesmente para o ‘ganho individual’. Ela apóia os princípios do ‘mercado livre’ e as noções direitistas de ‘valores familiares’; é militarista, patriarcal, racista e marcada por preconceitos de classe; e sistematicamente desistoriciza e ignora a opressão e a desigualdade. Acima de tudo, essa ideologia é irresistível: ‘bombardeia’ e ‘manipula’ incessantemente as crianças, deixando-as abandonadas, confusas e desorientadas. ‘A cultura infantil produzida pelas grandes empresas’, argumentam os organizadores do livro, coloniza a consciência norte-americana de uma forma que reprime conflitos e diferenças (...) Em virtude de seu poder de enfiar os tentáculos 25 profundamente na vida privada das crianças, os produtores da cultura infantil empresarial constantemente desestabilizam a identidade das crianças.’lviii Como está implícito nessa citação, devemos assumir a existência de um estado natural de infância – uma identidade estável situada na ‘vida privada’ das crianças – que é sistematicamente negada e pervertida pelas mídias capitalistas. O dano é aqui tanto psíquico quanto social. Os jovens, dizem-nos, são ‘prejudicados cognitivamente’ por sua experiência com os meios de comunicação, e ‘perdem a fé em que possam chegar a ver sentido em qualquer coisa’lix. Como resultado, apenas os adultos – nesse caso, ‘os profissionais da infância com senso crítico’ – é que são vistos como capazes de contrapor tal avalanche ideológica. Steinberg e Kincheloe, assim como vários de seus colaboradores, defendem que esses indivíduos adotem uma forma de ‘pedagogia crítica’ – de fato, uma forma de contra-doutrinação. O objetivo dessa pedagogia é igualmente unidimensional: habilitar as crianças a oporem-se aos prazeres sedutores da cultura popular, a desafiá- los e a resistir-lhes, conformando-se assim à ‘consciência crítica´ adotada por seus professores.lx Em última análise, se é verdade que as soluções preferidas por esses autores são muito diferentes da ênfase conservadora de Postman e Sanders, também eles parecem propor uma revitalização da autoridade adulta. Uma condição pós-moderna? A própria noção de ‘morte da infância’ é, claro, um sintoma de seu tempo. Apesar das diferenças entre eles, todos esses autores estão respondendo ao que identificam como uma moléstia contemporânea; e a natureza de suas respostas reflete uma combinação de pânico e nostalgia característica das últimas décadas do século XX. Nesse contexto, não parece incorreto definir a ‘infância’ como uma idéia em si fundamentalmente moderna. Como diversos desses autores sugerem, a separação entre crianças e adultos começou na Renascença, e ganhou força com a expansão da industrialização capitalista. A demarcação da infância como um estágio distinto da vida – e o próprio estudo da infância como tal - dependia da remoção das crianças da força de trabalho e das ruas, e de seu confinamento em instituições de escolarização obrigatória. Definir as crianças como inerentemente ‘irracionais’ justificava a introdução de um longo período no qual elas pudessem ser treinadas nas artes do autocontrole e do comportamento disciplinado. Nesse sentido, nossa noção contemporânea de infância pode ser vista como parte do projeto Iluminista, com sua ênfase no desenvolvimento da racionalidade enquanto um meio de assegurar a estabilidade da ordem social.lxi Nessa perspectiva, a ‘ morte da infância’ poderia ser entendida como um sintoma da pós- modernidade, um reflexo do destino que nos aguarda enquanto assistimos ao colapso final do ‘sonho da razão’. Embora nenhum dos autores aqui examinados revele grande simpatia pelo pós-modernismo, alguns de seus argumentos, ao menos, têm muito em comum com o trabalho de teóricos como Baudrillard. A diluição das fronteiras, a derrocada do ‘eu’, a predominância da cultura visual, a morte do social – todas essas são idéias recorrentes na retórica do pós-modernismo. O que diferencia o trabalho desses autores, entretanto (com exceção de Meyrowitz), é que eles não observam o mundo com uma fascinação ambivalente, mas sim com um incontrolável terror. É claro que seria tentador simplesmente desprezar muitos desses argumentos como hipérboles vazias. De fato, ao resumi-los, deliberadamente evitei algumas de suas excentricidades mais espetaculares; e isso às vezes exigiu considerável contenção de minha parte. Mesmo assim, a tese da ‘morteda infância’ merece ser levada a sério. Por mais exagerada e ocasionalmente histérica que possa parecer, ela aponta de fato para certas mudanças históricas fundamentais, e para algumas das questões mais amplas nelas envolvidas. Antes de esquematizar a perspectiva bastante diferente que será desenvolvida neste livro, portanto, é preciso enfrentar as limitações dessa abordagem. Como 26 poderemos comparar os argumentos sobre ‘a morte da infância’ com o que se sabe sobre a natureza transitória da vida das crianças ? Como podemos levar em conta, de forma adequada, as evidências históricas ? E quão justificados são os pressupostos teóricos em que esses argumentos se baseiam?. A História como Representação A história da infância é em última análise uma história de representações. Como já foi indicado por muitos historiadores, há poucas evidências disponíveis nas quais se poderia basear uma história das próprias crianças. Como as mulheres, as crianças têm sido grandemente ‘escondidas da história’ – uma coincidência que está longe de ser acidental. Num nível, isso cria significativos problemas metodológicos. Até que ponto podemos ler as representações culturais da infância como reflexos da realidade das vidas das crianças?. O trabalho de Phillippe Ariès, por exemplo, ao qual é muitas vezes creditada a ‘invenção’ da infâncialxii, tem sido questionado precisamente nesses termos. A tese de Ariès baseia-se primariamente em uma análise de como as crianças foram representadas – ou, mais freqüentemente,como não foram representadas - em pinturas medievais e renascentistas. Com base nisso, ele delineia os modos como as crianças foram sendo gradualmente identificadas enquanto um grupo diferenciado, com seus próprios passatempos e estilos de vestir, no final do século XVI e no início do século XVII. De acordo com seus críticos, porém, essas evidências são muito inadequadas. Os dados demográficos, por exemplo, sugerem que sua análise só pode ser aplicada às crianças das classes superiores; e os relatos contemporâneos existentes, apesar de limitados, desafiam seu argumento de que os laços afetivos entre adultos e crianças e os programas específicos de cuidado infantil fossem praticamente ausentes dos tempos medievais.lxiii Em última análise, os dados de Ariès talvez revelem mais sobre as mudanças nas convenções da representação artística do que sobre as mudanças nas realidades sociais. Mais recentemente, os historiadores da infância reconheceram ativamente sua confiança nas representações – e nesse plano seu trabalho passou a focalizar mais explicitamente a evolução das idéias adultas sobre a infância do que as realidades das vidas das crianças. Carolyn Steedman, por exemplo, analisa a figura de ‘Mignon’lxiv, recorrente na cultura popular ao longo do século XIX, e que parece personificar uma noção de ‘interioridade humana’ ou subjetividade associada à infância que, (segundo ela) teria surgido naquela época.lxv A história dos ‘filhos dos pobres’ escrita por Hugh Cunningham traz o subtítulo Representações da Infância desde o Século XVII e indica os modos como as crianças das classe trabalhadora eram gradualmente levadas a se ajustarem às definições da classe média sobre como devia ser uma infância “adequada”.lxvi Valerie Walkerdine analisa a figura de Little Orphan Annielxvii, em meados do século XX, no contexto das representações de outras meninas da classe operária, argumentando que ela ao mesmo tempo articula e resolve ansiedades mais gerais sobre o conhecimento e a inocência, que refletem as tensões sócio-políticas daquele período.lxviii Da mesma forma, Patricia Holland traça a evolução das construções contemporâneas da infância ao longo das últimas três décadas, através de uma leitura das representações adultas em anúncios, fotografias e outros artefatos da mídia.lxix De diferentes formas, todos esses autores apontam a significação das representações culturais da infância como base para as mudanças nas políticas sociais. As imagens da infância – como pecadora e corrompida ou como pura e inocente – foram usadas conscientemente pelos reformadores sociais do século XIX; do mesmo modo, imagens igualmente estereotipadas das crianças como livres e naturais fazem parte da retórica visual da ´liberação das crianças´ em tempos mais recentes. Todos esses autores argumentam, no entanto, que as representações funcionam como meios para os adultos lidarem com seus próprios conflitos não-resolvidos sobre a infância. Tais imagens e textos são, assim, não apenas a materialização de idéias sobre a infância, mas também veículos para os sentimentos ambivalentes dos adultos com relação às crianças, e sobre suas próprias infâncias – sentimentos de medo, ansiedade, compaixão, nostalgia, prazer e desejo. Ou seja, eles nos falam muito mais sobre os adultos do que sobre as crianças. 27 Esses estudos históricos mostram claramente que o medo de que as crianças se tornem adultas prematuramente – que sejam privadas da ‘infância’ – tem uma longa história. De fato, autores como Marie Winn e Neil Postman baseiam-se explicitamente em uma das mais sedutoras fantasias pós- românticas sobre a infância: a noção de uma Idade de Ouro pré-industrial, um idílico Jardim do Éden no qual as crianças podiam brincar livremente, a salvo da corrupção. A persistência de tais fantasias deveria em si nos levar a questionar as afirmações contemporâneas sobre a ‘morte da infância’. Uma idéia particular sobre a infância pode perfeitamente estar desaparecendo; é muito mais difícil, porém, identificar as conseqüências disso em termos da realidade vivida pelas crianças. Certamente, podemos colocar em xeque a validade ou a representatividade das evidências sobre esse ponto. O livro de Winn, por exemplo, é repleto de casos anedóticos sobre filhos de pais ricos que se retiram para suas casas de campo nos finais de semana, deixando seus adolescentes na cidade, sem supervisão; Sanders, por sua vez, parece tomar relatos jornalísticos das gangues de Los Angeles como provas factuais das atitudes dos jovens em geral. Indo além, é importante distinguir entre as mudanças fundamentais e aquelas que podem ser meramente superficiais. Por exemplo, será que o fato de os adultos hoje vestirem roupas semelhantes às das crianças (ao menos em alguns contextos sociais) significa necessariamente que eles se tornaram mais ‘infantis’ ? Será que as semelhanças entre os hábitos alimentares e as preferências musicais de crianças e adultos implicam automaticamente que as diferenças entre eles desapareceram ? É claro, não se pretende negar que possam ter ocorrido mudanças concretas. O que se quer apenas é reconhecer a parcialidade e as funções retóricas das evidências apresentadas, tanto sobre o passado como sobre o presente. Este é mais obviamente o caso dos textos populares que se apóiam fundamentalmente em episódios isolados ou em fontes jornalísticas, como os de Winn e Sanders. Mas também aparece nos casos em que as evidências assumem a forma aparentemente mais ‘objetiva’ de estatísticas sociais.lxx Os índices de criminalidade, por exemplo, estão sujeitos a muitas possibilidades de interpretação, e não podem ser tomados como reflexo direto da incidência de tipos particulares de comportamento. Como vou discutir no capítulo 6, a pesquisa acadêmica também se apóia em construções retóricas e teóricas da infância que inevitavelmente acabam determinando o que vale como evidência. Mesmo assim, os historiadores têm desafiado cada vez mais a narrativa otimista da ‘invenção’ da infância na qual esses argumentos se baseiam. Lloyd de Mause é provavelmente o nome mais influente ligado a essa visão – compartilhada por Postman e por Winn – de que a moderna concepção da infância foi em essência um desenvolvimento civilizado e humanizador.lxxi De acordo com De Mause, o modo ‘infanticida’ de criar filhos, característico da Idade Média, foi gradualmente dando espaço ao nosso modelo moderno, “de ajuda”, à medidaque a negligência e a crueldade foram sendo substituídas por cuidado e atenção. Mas esse relato foi questionado por muitos autores posteriores. Carmen Luke, por exemplo, defende que o que hoje interpretamos como indiferença adulta com relação às crianças (por exemplo, as práticas como o enfaixamento dos bebês) tinha muito a ver com as limitações materiais da época.lxxii A esse respeito, ela argumenta que De Mause implicitamente julga o passado desde a perspectiva das noções contemporâneas sobre a ‘ natureza humana’. Ao mesmo tempo, as idéias de De Mause tendem a reforçar uma complacência com o presente que desconsidera a contínua ocorrência de abuso infantil e de práticas rotineiras como os castigos físicos. Argumentos semelhantes podem ser levantados sobre a história mais recente da infância. Também aí a ênfase na mudança abrupta parece ter levado a um descaso pelas sólidas evidências de continuidade. Assim, por exemplo, Winn sugere que as crianças das classes trabalhadoras ‘ganharam’ uma infância ao serem removidas da força de trabalho e dos perigos da rua, para serem colocadas na escola. Como diz Cunningham, essa versão da história é uma espécie de romance heróico, no qual os filhos dos trabalhadores são resgatados de uma vida de selvageria pela intervenção dos beneméritos de classe média.lxxiii Só que além de desconsiderar o papel dos militantes da classe trabalhadora, essa história ignora a continuidade da existência do trabalho infantil em algumas das áreas mais 28 marginalizadas e exploradas da economia.lxxiv Ela faz também uma análise benevolente demais do papel da escolarização, que negligencia sua função disciplinadora – mais do que apenas iluminadora – das ‘classes perigosas’. Apesar da retórica civilizadora que a cerca, a escolarização obrigatória tendeu de fato a encorajar o mesmo grau de regulamentação, repetição e disciplina das fábricas de onde as crianças foram removidas. lxxv Para além do determinismo tecnológico. Uma análise histórica mais detalhada também nos leva a questionar o tipo de determinismo que caracteriza essas discussões. Como indiquei, as afirmações sobre a “morte da infância” baseiam-se tipicamente em uma oposição entre a imprensa e os meios eletrônicos, particularmente a televisão. Mais ostensivamente no trabalho de Postman, a imprensa é vista como responsável pela criação de nossa concepção contemporânea da infância; e a televisão, como aquilo que a está destruindo. Dessa perspectiva, a tecnologia é vista como autônoma em relação a outras forças sociais, exercendo sua influência sem depender dos contextos e propósitos em que é usada. Como indica Carmen Luke, a noção de que a imprensa escrita de algum modo tenha criado a ‘infância” é no mínimo uma simplificação exagerada.lxxvi Ela aponta o fato de que a noção moderna de infância emergiu muito antes na Alemanha do que na França, em grande parte devido a diferenças teológicas. O público leitor era muito maior na Alemanha, em resultado da ênfase luterana em garantir que todos os fiéis tivessem acesso às escrituras na língua vernacular. A imprensa levou à emergência de uma linguagem padronizada, e a uma ‘sistematização dos discursos’, incluindo a preocupação com a pedagogia e a criação dos filhos; isso levou por sua vez à implementação da escolaridade obrigatória e a uma ênfase crescente nos cuidados e na atenção paternas. A alfabetização nas escolas, durante esse período, era parte de um amplo leque de estratégias autoritárias voltadas ao cultivo da obediência, da auto-disciplina e do conformismo religioso. Como fica implícito, a análise de Ariés sobre a ‘invenção da infância’ pode valer especificamente para a França, mas não deve ser traduzida automaticamente para o restante da Europa. O relato de Luke, além disso, sugere que o surgimento de nossa concepção moderna de infância não tenha sido uma conseqüência automática da invenção da imprensa – o que também de fato não foi o caso da Reforma. Ao contrário, a moderna concepção da infância surgiu como resultado de uma complexa rede de inter-relações entre ideologia, governo, pedagogia e tecnologia, cada uma delas tendendo a reforçar as outras; como resultado, ela desenvolveu-se de formas diferentes, e em diferentes níveis, dependendo de cada contexto nacional. De fato, se retrocedermos na história até bem antes do surgimento da imprensa e da leitura, há claras evidências de que as crianças eram mesmo definidas como um grupo social distinto, ao qual as pessoas se dirigiam de forma diferente. A República de Platão, por exemplo, contém prescrições bem definidas sobre as histórias e representações às quais as crianças deveriam ou não ser expostas; a mesma coisa faz o Talmud hebraico.lxxvii Além disso, se a infância é meramente uma conseqüência da leitura e da imprensa, é difícil interpretar a demarcação explícita da fronteira entre a infância e a idade adulta – ‘os ritos de passagem’ – em sociedades não-letradas. A oposição entre a imprensa e os meios eletrônicos baseia-se também num conjunto de pressupostos empíricos que têm sido amplamente colocados em xeque. A noção de que os índices de alfabetização estão caindo, por exemplo, é extremamente questionável – apesar de também neste caso ser difícil estabelecer-se evidências definitivas, já que o que ‘significa’ alfabetização (e portanto o que está sendo medido) varia muito ao longo do tempo.lxxviii A noção de que a televisão de certa forma suplantou a leitura de livros é ainda mais dúbia. Um estudo atrás do outro vem mostrando que a televisão toma o lugar de atividades ‘funcionalmente equivalentes’, como a leitura de gibis ou a audição de rádio, mais do que a leitura de livros. Parece ser mais o caso de que não se lia muito antes da televisão e que ainda se lê pouco hoje.lxxix Do mesmo modo, podemos questionar a afirmação de que os jovens que hoje tanto preocupam os adultos tendem a ser os mais expostos às mídias eletrônicas. Os membros de gangues que para Sanders são emblemáticos da juventude contemporânea 29 tendem, suspeitamos, a passar muito menos tempo em casa vendo TV do que outros jovens; e apesar das afirmações desse autor, é bem menos provável que eles tenham computadores em casa. E existe no mínimo um debate considerável entre os pesquisadores sobre a relação causal entre os índices de abuso de drogas, atividade sexual ou crimes violentos e a audiência de televisão, ou mesmo a audiência de tipos particulares de programas.lxxx Em última análise, as afirmações de Postman e outros apóiam-se em uma visão do público das mídias como uma massa homogênea. As crianças, em particular, são vistas implicitamente como passivas e indefesas diante da manipulação das mídias. Os públicos não são vistos aqui como socialmente diferenciados, ou como capazes de responder criticamente ao que assistem. A televisão, por causa de sua natureza inerentemente ‘visual’(perguntaríamos onde foi parar a trilha sonora) é vista como se passasse inteiramente ao largo da cognição. Ela não requer investimentos intelectuais, emocionais ou imaginativos: simplesmente vai se imprimindo na consciência infantil. Mais uma vez, não é apresentada qualquer base empírica para essas afirmações: elas parecem ser tão auto-evidentes que é como se não fosse necessário comprová-las. E, no entanto, como veremos no capítulo 6, tais idéias são diretamente refutadas pela maior parte das pesquisas contemporâneas sobre a relação das crianças com a televisão. A noção de que a imprensa e a televisão produzem diferentes formas de consciência é, por sua própria natureza, mais difícil de contestar. Mesmo assim, os estudos antropológicos e psicológicos da leitura questionam cada vez mais a idéia de que a habilidade de ler e escrever tenha benefícios cognitivos independentes dos contextos sociais em que é adquirida ou usada.lxxxi Por outro lado, muitos críticos argumentam que as mídias eletrônicas requerem tipos particulares de ‘alfabetização’ – ou seja, habilidades particularesque precisam ser aprendidas para que possam ser interpretadas.lxxxii Tais afirmações estão abertas a uma discussão considerável, como se pode prever; apesar de que no fundo a questão primeira e crucial seja o que se entende por ‘alfabetização’. Postman e outros opõem-se diretamente a uma definição redutora de alfabetização, entendida simplesmente em termos da codificação e decodificação mecânica da escrita. Embora eles não usem o termo, seu argumento gira em torno de um tipo de ‘alfabetização cultural’, referente a um conjunto de qualidades vistas como ‘civilizadas’ ou mesmo essencialmente ‘humanas’lxxxiii. Essa ampliação da noção de alfabetização é certamente importante e produtiva. No entanto, parece bastante contraditório confinar a alfabetização a uma tecnologia particular – a do livro impresso – e sugerir que seja essa tecnologia o que a produza. Os limites da proteção Em última análise, a tese da ‘morte da infância’ oferece um campo bem limitado para a mudança ou a intervenção positiva. Postman e Sanders, especialmente, parecem cair num tipo de grandioso fatalismo a respeito do futuro. Sua resposta às diversas crises que descrevem é clamar pelo desligamento dos aparelhos de televisão e dos computadores, assim como pela paralisação dos relógios. Suas receitas de mudança são também bastante conservadoras: elas envolvem uma reafirmação da moralidade tradicional, de estruturas familiares e papéis de gênero hierárquicos, e de formas convencionais de criação dos filhos. Ao propor tais idéias, porém, é como se reconhecessem que o tempo delas já passou. Mesmo Steinberg e Kincheloe, apesar de todo o seu auto-proclamado radicalismo, parecem compartilhar dessa mesma posição essencialmente conservadora e pessimista. Se por um lado eles reconhecem que as mudanças podem ser ‘liberadoras’ para as crianças, sua análise geral é a de que as crianças são seres inertes diante do crescente poder das grandes empresas. Somente Meyrowitz parece conseguir evitar esse tipo de fatalismo – muito em virtude de sua posição agnóstica, e de sua recusa em ver as mudanças como um tipo de distorção do que seria a infância ‘natural’. 30 É significativo que todas essas propostas sejam dirigidas aos pais: ela ordenam que os pais dêem passos maiores para proteger ou controlar suas crianças, ou para ajudá-las a resistir à influência das mídias. Pouca ou nenhuma agência independente é atribuída às crianças em si. Como em suas relações com os meios eletrônicos, as crianças são vistas implicitamente como receptores passivos das tentativas adultas de controle e manipulação. Sua luta por autonomia – e, em decorrência dela, sua resistência à autoridade adulta – é o problema. Não é oferecida qualquer base para uma solução. Ao negar o papel ativo das crianças na criação de sua própria cultura, e ao concebê-las simplesmente como vítimas passivas, a tese da ‘morte da infância’ garante assim sua própria desesperança. Mesmo com todas essas críticas, porém, os argumentos que analisei neste capítulo levantam de fato algumas questões complexas e difíceis, que não podem ser simplesmente desconsideradas. Elas nos alertam para mudanças contemporâneas significativas, tanto em nossas noções da infância, como nas relações das crianças com as mídias – ainda que os relatos que façam delas sejam simplistas e unidimensionais. Acima de tudo, elas indicam que a questão das crianças e das mídias não é apenas um tema localizado, estando, ao contrário, no coração dos debates contemporâneos sobre cultura e comunicações. Elas levantam uma série de questões fundamentais, ligadas à alfabetização, à moralidade, à cidadania, e às relações entre a cultura e o comércio – questões que por várias razões são particularmente agudas no caso das crianças, mas que possuem também uma relevância muito mais geral. Na parte II do livro, apresento detalhadamente minha própria análise desses processos. Antes de fazê-lo, porém, preciso levar em conta uma visão bastante diferente desses temas. Trata-se de uma visão aparentemente oposta à análise pessimista e conservadora da tese da ‘morte da infância’ – apesar de, como argumentarei, sofrer de limitações semelhantes. Capítulo 3 A Geração Eletrônica A relação entre a infância e as mídias eletrônicas tem sido muitas vezes percebida em termos essencialistas. As crianças tendem a ser vistas como possuidoras de qualidades inerentes, que se ligam de um modo único às características inerentes a cada meio de comunicação. Na maioria dos casos, é claro, essa relação é definida como negativa: atribui-se às mídias eletrônicas um singular poder de explorar a vulnerabilidade das crianças, de abalar sua individualidade e destruir sua inocência. A tese da ‘morte da infância’ promovida por Neil Postman e outros, examinada no capítulo 2, é uma versão especialmente aguda desse argumento. Ela fala diretamente a muitos dos medos e desejos que os adultos sentem com relação à infância – e de fato a uma nostalgia idealizada de seu próprio passado. Com isso, acaba alimentando um pessimismo generalizado, uma forma de desesperança grandiosa que acaba sendo paralisadora. Mais recentemente, porém, começou a emergir uma construção bem mais positiva dessa relação. Longe de serem vítimas passivas das mídias, as crianças passam a ser vistas como dotadas de uma forma poderosa de ‘alfabetização midiática’, uma sabedoria natural espontânea de certo modo negado aos adultos. As novas tecnologias de mídia, em especial, são consideradas capazes de oferecer às crianças novas oportunidades para a criatividade, a comunidade, a auto-realização. Se é verdade que alguns manifestam preocupação quanto ao crescente abismo entre as gerações no uso das mídiaslxxxiv, outros têm celebrado as novas mídias como meios de atribuição de poder (‘empoderamento’) e mesmo de ‘libertação’ às crianças. Os defensores dessa visão, longe de conclamar os adultos a reafirmarem sua autoridade sobre os jovens, tipicamente sugerem que os adultos os ‘escutem’ e tentem ‘alcançar o nível deles’. Em certo sentido, essas idéias mais otimistas – que serão revisadas em detalhe neste capítulo – podem ser consideradas conseqüências das mudanças tecnológicas. Essas idéias concentram-se primeiramente nas relações das crianças com as tecnologias digitais – os computadores e as novas formas de cultura e comunicação ‘interativas’ que eles possibilitam. Em alguns casos, esses 31 argumentos opõem diretamente as novas mídias e a velha mídia televisiva, que fora vista como a principal causa da ‘morte da infância’. Nesta perspectiva, os computadores são entendidos como uniformemente bons para as crianças, do mesmo jeito que a televisão era uniformemente má. Mas essa distinção não tem a ver apenas com a tecnologia. De fato, vários dos autores examinados no capítulo anterior procuraram estender seus argumentos sobre a influência funesta das mídias, de modo a que abrangessem não só a televisão, mas também os computadores. Em A is for Ox, Barry Sanders culpa os computadores domésticos, assim como a televisão, pela destruição da ‘verdadeira oralidade’ e pela maré crescente de violência que a ela se seguiu. O livro de Neil Postman Technopolylxxxv, enquanto isso, condena os computadores – bem como o uso da tecnologia na indústria, na medicina e na maior parte da vida social – em termos muito semelhantes aos que usara em seus livros anteriores para condenar a televisão.lxxxvi Reconhecendo explicitamente suas dívidas para com os luditaslxxxvii, Postman acusa a tecnologia de desumanizar, destruir as formas naturais da cultura e da comunicação em favor de uma burocracia mecanicista. Como à televisão, aos computadores também é atribuído o papel de abalar a racionalidade, a moralidade e a coerência social, e de gerar caos e confusão. Apesar de seu determinismo tecnológico, Postman não parece perceber grande diferença entre as tecnologias ‘novas’ e as ‘velhas’. Como veremos, alguns dos autores cujos trabalhos serão examinadosneste capítulo também se recusam a fazer distinções absolutas entre as tecnologias em si. No entanto, eles sugerem que as mídias contemporâneas preferidas pelos jovens têm qualidades fundamentalmente diferentes daquelas da geração de seus pais. As novas mídias são vistas como mais democráticas que autoritárias; mais diversificadas do que homogêneas; mais participatórias do que passivas. Avalia-se que elas engendram novas formas de consciência entre os jovens, que os levam além da limitada imaginação de seus pais e professores. Se esses autores nem sempre dizem que as tecnologias determinam as consciências, eles parecem acreditar que as mídias o fazem. Pesadelos e utopias Ao desenvolver esses argumentos mais otimistas, os defensores da ‘geração eletrônica’ precisam inevitavelmente lutar contra as visões muito mais negativas que tendem a predominar no debate público. Na verdade, o surgimento das novas formas de comunicação e cultura tem causado uma reação quase esquizofrênica. De um lado, atribui-se a essas novas formas um enorme potencial positivo, especialmente quanto à aprendizagem; do outro lado, elas são freqüentemente vistas como prejudiciais àqueles que se considera especialmente vulneráveis. Nos dois casos, são as crianças – ou talvez, mais precisamente, a idéia de infância – o veículo de muitos desses temores e aspirações. Essa ambivalência já aparecia nos primórdios da televisão. Em meio aos medos correntes quanto ao impacto da violência na tela, é interessante lembrar que a televisão foi inicialmente promovida entre os pais como um meio educacional.lxxxviii Assim, nas décadas de 1950 e 1960, a televisão e outras tecnologias eletrônicas eram geralmente vistas como a materialização do futuro da educação: elas eram descritas como ‘máquinas de ensinar’ que iriam trazer novas experiências e novas formas de aprender do mundo exterior para dentro da sala de aula.lxxxix Mesmo naquela época, porém, as esperanças utópicas no futuro eram contrabalançadas pelos receios de declínio ou perda culturais. Havia quem defendesse vigorosamente a noção de que a televisão poderia substituir o professor, mas essa idéia também causava ansiedade e preocupação, como se poderia esperar. Da mesma forma, no espaço doméstico a televisão era vista tanto como uma nova forma de reunir a família quanto como algo que abalaria a interação familiar natural.xc O meio foi celebrado como uma forma de nutrir o desenvolvimento emocional e educacional das crianças, e ao mesmo tempo condenado por afastá-las de atividades mais saudáveis e valiosas. As reações contemporâneas à tecnologia digital também são ambivalentes. Por um lado, existe uma argumentação muito pessimista sobre o impacto dos computadores na vida das crianças. Essa visão concentra-se não em seu potencial educacional, mas em seu papel enquanto um meio de 32 entretenimento – e depende implicitamente de uma distinção absoluta entre as duas coisas. Muitas das ansiedades regularmente ensaiadas em relação à televisão parecem agora ter sido transferidas à nova mídia. Assim, os computadores são muitas vezes tidos como influência negativa sobre o comportamento infantil. Os vídeo-games, por exemplo, são acusados de causar violência imitativa – e se diz que quanto mais realistas se tornam os efeitos gráficos, mais tendem a encorajar as crianças a copiá-los.xci Há também quem acredite que essas tecnologias fazem mal ao cérebro – e ao corpo todo. Daí surgirem numerosos estudos clínicos de fenômenos como o “ombro de Nintendo” e as crises epilépticas supostamente causadas por vídeo-games; cita-se cada vez mais pesquisas que buscam comprovar os perigos do ‘vício’ nos computadores e seus efeitos negativos sobre a imaginação e o desempenho acadêmico.xcii Os computadores são também acusados de prejudicar a vida social: eles aparentemente tornam as pessoas anti-sociais, destruindo a interação humana normal e o aconchego familiar. O fenômeno japonês do ‘Otaku’, ou a ‘tribo-dos-que-ficam-em-casa’ torna-se emblemático das formas como os jovens acabam preferindo a distância e o anonimato da comunicação virtual à realidade das interações face-a-face.xciii Por fim, os computadores ainda por cima são considerados danosos à política e à moralidade. Os ‘games’ são tidos como uma atividade altamente marcada em termos de gênero, o que reforça os estereótipos tradicionais e os papéis-modelo negativos;xciv enquanto isso, cresce a maré de preocupação com o acesso à pornografia pela Internet e sua capacidade de corromper os jovens.xcv Mas, por outro lado, existe também uma forma de utopismo visionário – ainda que mais focado na educação que no entretenimento. Diz-se que os computadores proporcionam novas formas de aprendizado que transcendem as limitações dos velhos métodos, em especial os métodos ‘lineares’ como a imprensa e a televisão. As crianças são apontadas como sendo quem melhor reponde a essas novas abordagens: o computador liberaria sua criatividade natural e seu desejo de aprender, aparentemente bloqueados ou frustrados pelos métodos antiquados.xcvi Essa perspectiva utópica é cada vez mais popular nos estudos sobre alfabetização e arte. Alguns autores, por exemplo, acreditam que a tecnologia digital acarretará uma forma nova e democrática de alfabetização. Ela colocará os meios de expressão e comunicação ao alcance de todos, e desse modo ‘garantirá à imaginação pública direitos genuinamente inéditos’ (nas palavras de Richard Lanham)xcvii . Enquanto isso, o potencial criativo oferecido pelas novas tecnologias é visto muitas vezes como capaz de tornar desnessário o treinamento nas técnicas artísticas: o computador, dizem alguns, vai nos transformar a todos em artistas. Longe de destruir as relações humanas e as formas de aprender ‘naturais’, a tecnologia digital vai liberar a espontaneidade e a imaginação inatas das crianças.xcviii Essa retórica utópica reflete-se com força nos anúncios de computadores e softwares, particularmente aqueles que se dirigem aos pais e professores.xcix As propagandas da Apple ou da Microsoft, por exemplo, se esforçam para contrapor as visões populares da tecnologia como algo não natural ou inumano e conseqüentemente ameaçador. O foco delas não são as especificações científicas, mas a mágica promessa tecnológica: o computador é representado aí como uma janela para novos mundos, uma forma de desenvolver o senso de encantamento nas crianças e sua sede de saber. ‘Onde’, elas perguntam, ‘você quer ir hoje?’. Como indicarei, existem paralelos interessantes entre o caráter utópico de certos textos acadêmicos (e quase acadêmicos) sobre os computadores e a retórica persuasiva dos camelôs. Esse mesmo tom vai sendo adotado também pelos políticos e planejadores, interessados em apresentar a ‘super-rodovia da informação’ como a solução para todos os problemas da escola atual. Essas idéias são de fato dois lados da mesma moeda. Sem querer desconsiderar as preocupações com o impacto negativo das tecnologias – ou mesmo negar seu enorme potencial – eu proporia que essas posições aparentemente contrastantes compartilham de fragilidades semelhantes. Assim como nos debates em torno da televisão, tanto os argumentos positivos quanto os negativos baseiam-se em noções essencialistas da infância e da tecnologia. Eles efetivamente ligam uma mitologia sobre a infância a uma mitologia paralela sobre a tecnologia. Assim, as crianças são vistas como possuidoras de uma criatividade natural e espontânea, que seria (talvez paradoxalmente) liberada 33 pela máquina; ao mesmo tempo, elas são vistas como vulneráveis, inocentes e carentes de proteção contra os danos que a tecnologia inevitavelmente lhes causará. Assim, de um lado o computador vira um conveniente bode expiatório, um objeto mau no qual podemos descarregar nossos temores e frustrações – sejam eles ligados à violência, à imoralidade, ao comercialismo, o sexismo ou o declínio dos ‘valores familiares’. Igualmente, do outro lado,o computador serve como uma panacéia, portadora de sonhos e esperanças, um agente mágico que irá liberar a sabedoria e a virtude até então escondidas. Mas, quer vejamos essas mudanças como boas ou más, elas são interpretadas como conseqüência inexorável da implementação ou da disponibilização da tecnologia. A tecnologia é vista como responsável pela transformação das relações sociais, de nosso funcionamento mental, de nossas concepções básicas de conhecimento e cultura – e, o que é crucial neste contexto – pela transformação do que significa aprender, e ser criança. Assim, então, ambas as posições se caracterizam por um tipo de determinismo tecnológico.c Vista desse ângulo, a tecnologia emerge de um processo neutro de pesquisa e desenvolvimento científicos, mais do que da interação de complexas forças sociais, econômicas e políticas – forças que, para começar, têm um papel crucial na definição de quais as tecnologias que serão desenvolvidas e comercializadas. Da mesma forma que nos debates sobre a imprensa e sobre a televisão examinados no capítulo anterior, o computador é visto predominantemente como uma força autônoma de certo modo independente da sociedade humana, e que age sobre ela a partir do exterior. A nova retórica das gerações Minha ênfase maior neste capítulo é o lado utópico dessa tese. Pretendo examinar quatro livros-chave cujo foco está especificamente nas conseqüências das novas tecnologias de mídia para as crianças e jovens: Growing Up Digital, de Don Tapscottci, The Connected Family, de Seymour Papertcii, Virtuous Reality, de Jon Katz, e Playing the Futureciii, de Douglas Rushkoff.civ Todos eles foram publicados entre a metade e o final da década de 1990. Com a exceção do trabalho de Papert, não foram escritos por acadêmicos, ao contrário dos textos sobre ‘a morte da infância’ comentados no capítulo 2. Como a maioria daqueles textos, porém, estes são essencialmente livros ‘populares’, polêmicas redigidas para o público em geral, mais do que para leitores acadêmicos. Aqui também os subtítulos são sintomáticos: The Rise of the Net Generation (A Ascenção da Geração Internet) (Tapscott); Bridging the Digital Generation Gap (Construindo uma Ponte sobre o Abismo Digital entre as Gerações); How Kids´Culture Can Teach Us to Thrive in an Age of Chaos (Como a Cultura das Crianças Pode nos Ensinar a Prosperar em uma Era de Caos) (Rushkoff). Somente o do livro de Katz tem um tom mais sarcástico e menos fervoroso: How América Surrendered Discussion of Moral Values to Opportunists, Nitwits and Blockheads like William Bennett (Como a América entregou a discussão sobre valores morais a oportunistas, tolos e estúpidos como William Bennett), uma frase que explicarei mais adiante. Em muitos sentidos, esses livros espelham uma imagem inversa à da tese da ‘morte da infância’ comentada no capítulo 2. Enquanto Postman e outros percebem as mídias como agentes de um declínio social generalizado, estes autores as vêem como agentes de uma forma igualmente abrangente de progresso social. Enquanto Postman e outros vêem as mídias como uma influência enormemente poderosa e negativa sobre as crianças, estes autores acreditam que as crianças é que são as poderosas, sendo as mídias os meios pelos quais adquirem poder. E enquanto Postman deseja retornar a uma noção tradicional de infância, na qual as crianças são ensinadas mais uma vez a conhecer o seu lugar, estes autores negociam, todos eles, com um tipo de retórica geracional na qual as crianças e os jovens são vistos como agentes de uma transformação muito mais ampla da sociedade como um todo. O livro de Don Tapscott, Growing Up Digital, é o mais consistente deles, e o mais decididamente otimista. Seu argumento baseia-se em dois conjuntos de oposições binárias, entre tecnologias (a televisão versus a internet) e entre gerações (a geração do baby- boomcv versus a 34 ‘geração- internet´). Aí, a televisão é vista como passiva, enquanto a internet é ativa; a televisão emburrece seus usuários, enquanto a internet aguça sua inteligência; a televisão difunde uma única visão de mundo, enquanto a internet é democrática e interativa; a televisão isola, enquanto a internet cria comunidades; e assim por diante. Assim como a televisão é a antítese da internet, também a ‘geração TV’ é a antítese da ‘geração-internet’. Como a tecnologia que elas controlam, os valores da ‘geração TV’ são cada vez mais conservadores, ‘hierárquicos, inflexíveis e centralizados’. Em contraste, os jovens da net são ‘ávidos por expressão, descoberta e auto-desenvolvimento’: eles são sabidos, auto-confiantes, analíticos, criativos, inquisitivos, tolerantes com a diversidade, socialmente conscientes, globalmente orientados – e a lista vai adiante. Em última análise, porém, essas diferenças entre gerações são vistas como produzidas pela tecnologia, em vez de resultantes de outras forças sociais, históricas ou culturais. Ao contrário de seus pais, que são retratados como ‘tecnófobos’ incompetentes, as crianças são vistas como possuidoras de uma relação intuitiva e espontânea com a tecnologia digital. ‘Para muitas crianças’, dizem alguns, ‘usar a nova tecnologia é tão natural como respirar’.cvi Nessa visão, é por meio da tecnologia que elas adquirem poder. As crianças tornaram-se ‘ativas’, mas só porque a tecnologia lhes possibilitou isso: [As crianças de hoje] têm novas e poderosas ferramentas para investigação, análise, auto- expressão, influência e brincadeira. Elas têm uma mobilidade sem precedentes. Estão encolhendo o planeta de uma forma que seus pais nunca teriam conseguido imaginar. Ao contrário da televisão, que era feita para elas, as crianças é que são os atores no mundo digital.cvii Como fica implícito, Tapscott é um determinista tecnológico assumido. Em todas as áreas que ele examina – a psicologia do indivíduo, a escolarização, o trabalho, a vida familiar, o mercado – a tecnologia digital resulta em mudanças inevitáveis (e inevitavelmente positivas), enquanto os valores da geração-internet substituem os dos ‘filhos do baby-boom, com suas formas de pensar antiquadas e tecnofóbicas’. A tecnologia digital, argumenta Tapscott, garante mudanças estruturais – democratização, liberdade de escolha e expressão, abertura, inovação, colaboração. Ela desenvolve uma nova autenticidade humana caracterizada por independência do pensamento, confiança nos outros e em si, honestidade, partilha, e um saudável ceticismo com relação à autoridade. Com o tempo, ela poderá até mesmo provocar uma ‘explosão geracional’, um ‘despertar social’, que colocará por terra as hierarquias tradicionais de conhecimento e poder. Tapscott se baseia parcialmente em dados de pesquisa de mercado, assim como em seu próprio uso da internet. O texto é entremeado de ‘balões’ contendo ‘fragmentos sonoros’ descontextualizados da fala de jovens em salas de bate-papo on-line, todos eles parecendo concordar com a idéia de Tapscott de que ‘os jovens estão construindo uma nova cultura’.cviii Ficamos sabendo pouco sobre esses jovens, além da idade e do lugar onde vivem. Eles formam claramente um grupo auto- selecionado, não-representativo; ainda assim, é uma questão fundamental saber se eles representam uma visão do futuro para todos os jovens. É verdade que Tapscott reconhece algumas das limitações da ‘revolução digital’, ainda que tardiamente. Ele admite que a distância crescente entre os ‘tecnologicamente ricos’ e os ‘tecnologicamente pobres’ reflete e ao mesmo tempo agrava desigualdades sociais mais amplas nos Estados Unidos; e explica que essa distância não irá diminuir simplesmente com mais equipamento, sendo necessário investir mais fundamentalmente em infra-estrutura e em conhecimento especializado. Mas Tapscott, por outro lado, parece assumir sem questionamento a ‘lógica’ do capitalismo: a internet, diz ele, é ‘uma criatura das forças de mercado’, que, ao oferecerescolha e controle a seus usuários, é inerentemente ‘democratizadora’.cix Ele também faz generalizações quanto à força de trabalho do futuro, ao concentrar-se apenas em uma possível elite empresarial. Preocupações potenciais com o impacto das novas tecnologias sobre o trabalho não-qualificado, por exemplo, são simplesmente ignoradas. Apesar de toda sua insistência na consciência social dos ‘jovens internautas’, a nova era de Tapscott parece representar a ‘apoteose do consumismo’ – uma era garantida pela propaganda sob medida, por uma força de trabalho ‘flexível e pela busca incansável de lucros através da ‘inovação’. 35 Seymour Papert é uma das autoridades citadas por Tapscott, e parece gozar de um status de guru nesse campo (e até mesmo cultivá-lo). The Connected Family apresenta-se como um livro de auto- ajuda para os pais, buscando combinar o senso comum doméstico da literatura de aconselhamento com eventuais inspirações ao estilo zen. Argumentos que alguns leitores poderão achar banais e paternalistas são apresentados como se possuíssem uma profundidade infantil. Como proclama no prefácio seu colega Nicholas Negroponte, ‘Seymour é a criança emancipada’.cx Como o livro anterior de Papert, sintomaticamente intitulado The Children´s Machine (‘A Máquina das Crianças’)cxi, The Connected Family combina a fé na sabedoria natural das crianças com uma fé idêntica no potencial liberador da tecnologia digital como meio de aprendizagem. Ele começa assim: Ao redor do mundo há um caso de amor apaixonado entre as crianças e os computadores. Tenho trabalhado com crianças e computadores na África, na Ásia e na América, em cidades, subúrbios, fazendas e selvas. Trabalhei com crianças pobres e ricas; com filhos de pais letrados e de pais analfabetos. Mas essas diferenças não parecem ter importância. Em todos os lugares, com poucas exceções, vejo o mesmo brilho em seus olhos, o mesmo desejo de se apropriarem daquela coisa. E mais do que desejarem-na, as crianças parecem saber que de um modo profundo ela já lhes pertence. Elas sabem que podem dominá-la com mais facilidade que seus pais. Elas sabem que são a geração dos computadores.cxii Entranhada nesse tom sussurrante, quase místico, há uma negação das diferenças culturais e das desigualdades sociais que é sintomática da abordagem essencialista de Papert. Parece existir um tipo de essência natural da infância – um conhecimento inato, uma fluência espontânea, uma sede de aprender – que é liberada de algum modo automático por essa tecnologia. As crianças aparentemente saberiam intuitivamente como usar computadores; e o modo de operação dos computadores parece coincidir magicamente com o modo natural de aprender das crianças. Como sugere a última frase, Papert vê isso em termos de uma diferença de gerações: como Tapscott, ele representa os pais e as crianças como receosos e incompetentes em suas relações com os computadores, embora relutem em abrir mão do controle. Em geral, as crianças da ‘geração do computador’ de Papert são mais jovens que a ‘geração- internet’ de Tapscott, mas a análise que ele faz dos benefícios da tecnologia para a aprendizagem é muito semelhante. Papert anuncia sua filiação a uma forma de psicologia cognitiva, influenciada por Piaget; e sua ênfase, de acordo com isso, está na aprendizagem individualizada, ‘auto-dirigida’, que prossegue no ritmo natural da criança. Os problemas surgem apenas, explica ele, quando os pais, os professores e os criadores de software tentam impor seus pressupostos antiquados e os métodos de aprender inspirados em seu próprio tempo de estudantes. Papert critica duramente, portanto, os pacotes básicos de softwares ‘instrucionais’ que são amplamente promovidos pelo mercado, especialmente aqueles que tentam ‘enganar’ as crianças tentando fazê-las acreditar que estão simplesmente brincando. Como fica implícito, Papert não ignora alguns dos aspectos negativos do entusiasmo contemporâneo pelos computadores. Ele reconhece que o uso da internet pode ser lento e frustrante, que alguns softwares comerciais são mal planejados, e que o uso de computadores na escola é quase sempre limitado e pouco imaginativo. Mas ele sugere que esses sejam fenômenos temporários, meros reflexos do fato de que ainda são os adultos que controlam essas mídias. Quando se der rédea solta às crianças, as conseqüências deverão ser somente positivas: crianças de aprendizado lento se transformarão em alunos-modelo, as famílias se tornarão mais atentas e comunicativas, os professores descobrirão novos mundos de aprendizado – tudo em virtude de seu acesso à tecnologia. O livro de Jon Katz Virtuous Reality se caracteriza por um otimismo semelhante, embora (como o subtítulo sugere), ele dedique mais energia à crítica. Depois da ofegante retórica propagandística de Tapscott e Papert, o humor agudo de Katz é sem dúvida um alívio. Onde Tapscott busca acalmar as ansiedades das famílias com relação à corrupção moral que vêem emergir das mídias digitais – mais obviamente na forma de pornografia on-line – Katz ataca diretamente o novo autoritarismo moralista 36 que domina os debates contemporâneos sobre a juventude nos Estados Unidos (e também na Grã- Bretanha). Para ele, os softwares de bloqueio e o V-chip, por exemplo, são ataques fundamentais à liberdade das crianças – embora veja como consolo o fato de eles serem ineficazes. Ele é cáustico em relação aos lucrativos sermões moralistas do ex-ministro de Educação e czar das drogas na Casa Branca William Bennett, e com o desejo de outros ‘midiófobos’ de culparem as mídias por tudo o que vêem como os males do mundo. Alguns dos alvos de Katz são fáceis demais, mas sua posição sobre a eterna questão dos efeitos das mídias representa um desafio importante às visões predominantes, especialmente nos Estados Unidos. Assim, ele contesta a idéia de que os conteúdos sexuais nas mídias sejam necessariamente maus para as crianças; e argumenta que culpar as mídias pelos crimes violentos é apenas um meio de distrair a atenção das suas causas mais fundamentais ( e difíceis de tratar). Ele nos recorda de que as novas tecnologias realmente minaram a possibilidade do controle centralizado; e que boa parte da cultura infantil (e juvenil) deve ser subversiva por definição. Nosso objetivo, ele argumenta, não deveria ser impedir que as crianças tivessem acesso a tais materiais, mas capacitá-las a lidar com eles. Como Tapscott e Papert, Katz é totalmente otimista quanto aos jovens, e irônico com relação à geração de seus pais. Os filhos do baby-boom são, afirma ele, cada vez mais conservadores: eles não conseguem entender a ‘revolução na informação’ ou o caráter ‘rebelde’ da atual cultura jovem, recorrendo assim a tentativas sempre mais desesperadas de controlá-la e censurá-la. Em contraste, os filhos deles é que agora são mais liberais e socialmente conscientes. Segundo Katz, eles aceitam menos a autoridade estabelecida; valorizam a interatividade mais que a passividade; apreciam a diversidade e a franqueza; e não gostam das mídias que se levam muito a sério. São ‘cidadãos de uma nova ordem’. A posição de Katz é explicitamente informada pela noção de ‘direitos das crianças’, um tema que (como veremos em outros capítulos) experimenta hoje um ressurgimento. Ao contrário da retórica protecionista que freqüentemente transparece nesses debates, a ênfase de Katz é explicitamente política. Ele recupera Tom Paine, tanto como modelo de um tipo popular de polêmica jornalística que para ele foi extinto pelo conservadorismo empresarial, quanto como por sua argumentação em torno dos direitos humanos. A internet ‘é a materialização de tudo aquilo em que Paine acreditava’, diz Katz. Ela está finalmente permitindo que as crianças escapem ao controle adulto: Estes novos equipamentos não estão apenas tornando os jovens mais sofisticados, alterando suas idéias sobre o que são a cultura e a leitura, eles estão transformando-os – conectando-s uns aosoutros, dando-lhes um novo senso de identidade política.(...)Enquanto as comunicações digitais soltam suas fagulhas mesmo através das mais fortificadas fronteiras e são rebatidas mundo afora, independentes de governos e censores, as crianças podem pela primeira vez ir além dos limites sufocantes da convenção social, além das rígidas noções dos mais velhos sobre o que é bom para elas.cxiii Apesar de sua disposição em proclamar uma ‘revolução das crianças’, o contrato-modelo de Katz para pais e filhos fornece um equilíbrio mais realista (e até mesmo conservador) entre direitos e responsabilidades. As crianças, defende ele, têm o ‘direito moral de acesso’ à cultura das mídias; mas elas também precisam negociar com as condições estabelecidas por seus pais, por exemplo quanto à privacidade, e com as expectativas deles quanto ao desempenho escolar e ao comportamento.cxiv Apesar de seu otimismo geral, Katz não compartilha da visão essencialista das tecnologias de mídia assumida por Papert e Tapscott. Diferentemente de Tapscott, ele também sabe que a palavra ‘mídias’ é um substantivo plural.cxv Katz não opõe a televisão às mídias digitais, mas as ‘novas’ formas culturais às ‘velhas’. Desse modo, ele é particularmente incisivo quanto ao fracasso do tradicional jornalismo de notícias em acertar o passo com o que vê como uma mudança na relação dos jovens com a informação. Ele é positivo a respeito da ‘interatividade’, não apenas nas mídias digitais, mas também em programas de entrevistas, TV a cabo e música rap – que ele descreve coletivamente como ‘uma das grandes explosões criativas da cultura moderna’.cxvi Mas Katz não defende que o novo deva simplesmente substituir o velho. Por exemplo, ele vê a ‘interatividade’ das novas mídias como 37 potencialmente empoderadora e democratizante, e como um desafio ao controle centralizado; mas ele observa também que é importante manter os aspectos positivos das ‘velhas’ mídias, como os jornais e a televisão, por sua habilidade em criar uma cultura comum e fornecer ‘a coerência, a racionalidade e o contexto’ que podem nos ajudar a achar nosso rumo em meio à avalanche de informação. Não se trata, ele insiste, de escolher ou uma certa cultura da informação ou outra. Também aqui, a abordagem de Katz é bem mais equilibrada do que seus ocasionais rompantes de retórica geracional poderiam fazer esperar. Ao contrário, o livro Playing the Future, de Douglas Rushkoff, entrega-se à retórica com total abandono. Suas idéias também se baseiam em uma oposição binária entre a nova geração das mídias – a ‘geração da tela’ (screenagers), como ele os chama, e seus pais, os ‘filhos do baby-boom’. À medida que estes ficaram mais velhos, diz Rushkoff, eles simplesmente retornaram aos valores autoritários que tentaram destruir na década de 1960. Os jovens é que agora são a maior esperança da evolução social. Enquanto seus pais adotam a linearidade e as confortáveis certezas da moralidade dualista, a ‘geração da tela’ abraça a descontinuidade, a turbulência e a complexidade. Os jovens, argumenta Rushkoff, têm ‘habilidades adaptativas naturais’ que lhes permitem lidar com os problemas da pós-modernidade; só eles são capazes de entender o ‘funcionamento secreto da tecnologia’. Os adultos terão que abandonar sua função de educadores e modelos, e aceitar o fato de que precisam correr atrás para alcançar seus filhos. Se continuarem fiéis às ‘obsoletas e naufragantes instituições do passado’, adverte, eles simplesmente ‘afundarão junto com o navio’.cxvii Como Katz, Rushkoff não adota o tipo de determinismo tecnológico presente nos trabalhos de Tapscott e Papert. Seu ‘conflito de gerações’ não é primeiramente uma questão de tecnologia, mas de diferenças entre ‘novas’ e ‘velhas’ mídias. Assim como Katz, Rushkoff caracteriza as novas mídias – não apenas a internet, mas também a TV a cabo, os videogames, a MTV, os jogos de interpretação de papéis e as sub-culturas da moda – como inerentemente mais ‘interativas’ e portanto mais democráticas do que a ‘monocultura’ hierárquica que a precedeu. Essas mídias, diz ele, permitem que os jovens se tornem eles mesmos produtores culturais, fugindo assim ao controle de seus guardiões familiares. De todos esses autores, Rushkoff é o mais abertamente simpático às novas formas da cultura midiática dos jovens. Ele examina um amplo conjunto de mídias, dos pogs e Power Rangers às subculturas de vampiros, mosh pits e piercing, celebrando ‘a individualidade, a estranheza, a inconsistência, a abertura e até mesmo a mutação’.cxviii Ele faz uma análise particularmente interessante da ‘espiritualidade pagã’ e romântica da cultura infanto-juvenil contemporânea, argumentando que ela representa uma reação contra a dominação tecnológica e ao mesmo tempo uma habilidade instintiva de evoluir junto com ela. De acordo com Rushkoff, esses novos modos de ser não aparecem apenas nas formas de mídia preferidas, mas também nos diferentes modos como as crianças se orientam em relação a elas. O zapear , o surfar entre canais, é o modo característico da geração da tela, mais do que a obediência passiva à programação linear. Como Tapscott, Rushkoff sustenta que a geração da tela desenvolveu novas habilidades cognitivas que lhe permitem lidar com o excesso de informação, processando-a muito mais rapidamente. Seu uso das mídias não se caracteriza pela escravidão obediente, mas por uma forma de ironia coletiva ou de ‘participação distanciada’: os jovens recusam-se a serem persuadidos ou arrastados ao papel de espectadores passivos. Como o subtítulo sugere, a perspectiva de Rushkoff é informada pela ‘teoria do caos’ – assim como todo o seu raciocínio. Ele vê esse processo de adaptação como uma questão de ‘evolução da espécie’, que pode ser explicada em termos de metáforas extraídas do mundo natural: os processos históricos e sociais são vistos como seqüências aparentemente arbitrárias de eventos descontínuos. Rushkoff insiste várias vezes em que existem ‘padrões maiores’ ou ‘estruturas subjacentes’ (como nos fractais) em meio à turbulência aparentemente casual, embora ele nunca explique adequadamente o que eles são. Seu argumento pula o tempo todo entre um tema e outro, através de analogias dúbias e de saltos no processo lógico, de uma forma que relembra Marshall McLuhan. Quanto mais diversificado 38 torna-se o material, e mais rapidamente prossegue o raciocínio, mais fica parecendo ser o ‘caos geral’ realmente a única solução. Desse modo, Rushkoff parece estar buscando adesão não por meio de argumentos e evidências, mas por uma espécie de ato de fé. O otimismo parece obrigatório. Os jovens, ele nos diz, evoluirão naturalmente para o próximo estágio da humanidade. As mídias são nossas ‘parceiras na evolução cultural’, e a tecnologia está ‘ a cada dia refletindo mais precisamente os nossos desejos e prioridades’.cxix Como Tapscott, Rushkoff é entusiástico em relação às formas como a tecnologia está transformando os locais de trabalho. Ele assegura que a tecnologia produzirá o fim do trabalho mecânico; e ‘a visão de mundo da geração da tela’ transformará a cultura empresarial, tornando-a mais democrática e socialmente reponsável, e encorajando uma nova honestidade e um novo sentido de comunidade. Na mesma linha, Rushkoff aceita implicitamente a noção de que, ao criar novas formas midiáticas ‘interativas e grátis para todos’, o mercado também gerou maior possibilidade de escolha para os consumidores e portanto uma nova receptividade às necessidades culturais dos públicos. Ele garante que isso é ‘a cultura entregue a seus próprios mecanismos’. Mas o ‘sistema fractal de livre fluxo’ de Rushkoff implicitamente apresenta o anarquismo como uma justificativa para o liberalismo de livre-mercado. Em sua conclusão, o mercado torna-se de fato uma ‘força da natureza’; ‘nossas mídias promovem (sic) a livre comunicação, nossa economia promove a opção’cxx, regozija-se ele. Os limites dootimismo O vigoroso otimismo desses livros é até certo ponto muito atraente. Como a nostalgia dos autores da ‘morte da infância’, ele tem um apelo emocional direto a que fica difícil resistir. Seria reconfortante concordar, com Tapscott e outros, que os jovens não são excessivamente ávidos por riqueza, materialistas e anti-sociais; e que eles acabarão derrubando as burocracias governamentais hierárquicas, abrindo caminho a uma sociedade livre e igualitária. Essa posição representa um desafio poderoso à estigmatização da juventude e às políticas sociais autoritárias que têm se tornado cada vez mais populares junto aos governos nos dois lados do Atlântico. Com relação às mídias, esses argumentos fornecem também uma alternativa valiosa aos pressupostos que costumam informar o debate público. Em vez de conceber as crianças como consumidores passivos de mídias todo-poderosas, esses autores enfatizam sua sofisticação crítica e competência. Em alguns casos até corajosamente, eles também questionam o moralismo simplista que domina os debates públicos sobre a influência ‘do sexo e da violência’. As crianças e os jovens são aí definidos não como vítimas iludidas, mas como agentes ativos em suas negociações com as mídias. No entanto, como sugeri, esse otimismo também escorrega em um tipo de ilusão que pode não corresponder aos fatos. Ao contrário dos relatos históricos examinados no capítulo anterior, não se pode esperar que esse tipo de futurologia consiga lidar só com dados rigorosos. Os exemplos que Tapscott cita, extraídos de conversas em salas de bate-papo da Internet, ou as anedotas de Papert sobre internautas de 4 anos de idade, tentam funcionar como previsões de uma nova geração que se vai gestando: são por definição utópicos. Mas salientar só o que é positivo, desse jeito, levanta questões inevitáveis sobre o que estará sendo omitido. Assim, esses autores ignoram amplamente as desconfortáveis questões empíricas sobre como essas tecnologias são planejadas, produzidas e postas no mercado, e como elas são de fato usadas pelas crianças de verdade. Podemos, por exemplo, mencionar o domínio do mercado de informática por umas poucas indústrias multinacionais imensamente lucrativas; a crescente integração horizontal e vertical das indústrias de entretenimento; e a aceleração em massa da obsolescência planejada dos equipamentos de computador. A alegação de que as novas mídias necessariamente propiciam maior ‘diversidade’ ou ‘liberdade de escolha’ – em oposição a um simples aumento em quantidade (e conseqüentemente em lucratividade) – está longe de ser provada. Também o entusiasmo quanto às possibilidades democráticas da internet pode esfriar um pouco se considerarmos seu uso cada vez maior na patrulha do comportamento dos consumidores, na dominação global do tráfego na internet 39 por parte dos países ‘desenvolvidos’, e no caráter não-democrático de muitas das chamadas ‘comunidades virtuais’. Por enquanto existe pouca evidência de que a internet seja mais democrática – ou que tenha gerado mais atividade política e mudança – do que comparáveis tecnologias mais antigas como o rádio, o telefone ou as fotocopiadoras. Por fim, o otimismo sobre o potencial dos computadores na educação precisa ser contrabalançado pelo declínio dos investimentos públicos, pelo crescente envolvimento das empresas comerciais nas escolas, e pela pressão cada vez maior sobre os pais para que compensem os eventuais fracassos da educação pública. Os dados de pesquisa sobre os títulos de software mais vendidos ou sobre os usos reais dos computadores nas salas-de-aula sugerem que essa nova tecnologia tem claramente reforçado os métodos tradicionais de aprendizagem, ao invés de desafiá-los.cxxi Em termos do uso que os jovens fazem das mídias, diversos conceitos-chave permanecem indefinidos. Por exemplo, a noção de ‘interatividade’ – e a distinção, ligada a ela, entre ‘ativo’ e ‘passivo’ – são aplicadas indiscriminadamente a textos midiáticos e experiências muito diferentes entre si: uma sala de bate-papo on-line é ‘interativa’ de um modo muito diverso de um jogo de lutas em computador, que é por sua vez diferente de um programa de entrevistas na TV, ou de uma festa rave. Além do mais, as crianças não sabem ‘naturalmente’ como usar computadores: como os adultos, muitas vezes elas experimentam confusão, tédio e frustração. A proliferação de novas mídias, e as características da Internet em particular, exigem novas e significativas habilidades em termos de como localizar, selecionar e avaliar a informação. No presente, os benefícios criativos, educacionais e comunicativos dessas tecnologias são apenas percebidos por uma pequena elite – que, como outras elites, é predominante branca, masculina e de classe média. Tanto em termos globais quanto no interior dos países tecnologicamente ricos, cresce a polarização entre os ‘ricos em informação’ e os ‘pobres em informação’; e isso não tem a ver apenas com a distribuição desigual de equipamentos, mas também com o ‘capital’ cultural e tecnológico necessário para aprender a usá-lo de modo criativo e efetivo.cxxii Para sermos justos, os livros examinados aqui reconhecem até certo ponto esses problemas. Tanto Tapscott quanto Katz, por exemplo, admitem a crescente desigualdade no acesso à tecnologia, o que mostra a falsidade da visão essencialista do ‘caso de amor’ das crianças de Papert; mas seu reconhecimento dos perigos potenciais da situação acaba se perdendo na torrente de otimismo. Da mesma forma, Papert admite que a tecnologia informática é usada de forma limitada nos lares e escolas, assim como reconhece algumas debilidades nos softwares; mas a culpa disso é simplesmente colocada sobre algum grupo genérico de ‘adultos’ conservadores, que terão de acabar cedendo controle à nova geração. Em última análise, todos esses autores tendem a negligenciar os contextos sociais reais nos quais as tecnologias são produzidas e usadas, e as diferenças sociais que os caracterizam. Sua posição essencialista os leva a argumentar em termos absolutistas sobre as diferenças entre gerações, como se as ‘gerações’ fossem bem demarcadas e homogêneas. Assim como os ‘adultos’ e os ‘pais’ são condenados como uniformemente conservadores e ligados ao passado, também as ‘crianças’ e os ‘jovens’ são vistos como capazes de se adaptar naturalmente e sem esforço a todo tipo de mudança. Essa visão essencialista da infância é reforçada por uma visão essencialista da tecnologia (ou das mídias). As novas mídias, e especialmente as digitais, são descritas como inerentemente ‘interativas’, e portanto ‘democráticas’, independente do modo como são usadas. Todos esses autores listam os atributos psicológicos da ‘geração eletrônica’ como se eles fossem conseqüências inevitáveis de sua relação com a tecnologia. Mais obviamente no caso de Rushkoff, a tecnologia torna-se equivalente a uma forma de biologia. Como resultado, esses autores concebem a mudança social basicamente como uma conseqüência inevitável da passagem do tempo – ou, nos termos de Rushkoff, como um processo de evolução natural. O que fica pressuposto de forma acrítica é o papel do mercado. Se é verdade que alguns deles, notavelmente Papert, lamentam aqui e ali a influência do mercado, ela é vista como algo fadado a desaparecer, assim como os valores conservadores da geração mais velha abrem caminho aos 40 valores democráticos dos jovens. Em outros casos, principalmente no livro de Rushkoff, o mercado é abertamente celebrado como um tipo de força natural benéfica. Argumenta-se que o mercado irá inevitavelmente cumprir a promessa da tecnologia, uma vez que ambos representam a materialização dos valores humanos essenciais dos jovens. Assim como o desespero grandiloqüente dos autores da ‘morte da infância’, portanto, esse otimismo generalizado revela limitações importantes no que diz respeito a suas implicações para o estabelecimento de políticas. Mesmo com toda a sua retóricavoltada a ‘levantar o moral’, Tapscott é o único que sugere alguns modos concretos de tornar mais igualitário o acesso das crianças à tecnologia, principalmente através de projetos comunitários assistencialistas. Papert preocupa-se mais com a forma como os pais podem exercer pressão para mudar as ‘culturas de aprendizagem’ das escolas; enquanto o contrato-modelo de Katz entre pais e filhos dá ênfase ainda mais firme aos modelos individualistas de mudança social. Entretanto, assim como os autores da ‘morte da infância’ colocam a responsabilidade pela mudança sobre os pais, todos estes autores parecem ter uma fé cega na sabedoria da juventude. No processo, as crianças acabam carregadas com todo o peso de nossas esperanças e aspirações. Como diz a conclusão do livro de Tapscott, a melhor abordagem é simplesmente ‘ouvir as crianças’ – como se todas elas estivessem dizendo a mesma coisa, e como se devêssemos colocar toda a nossa confiança em simplesmente segui-las.cxxiii Rumo a alternativas Em um nível, os argumentos examinados neste capítulo são diametralmente opostos aos discutidos no capítulo 2. O vigoroso ataque de Jon Katz à hipocrisia moralista dos ‘midiófobos’ da América, por exemplo, poderia facilmente ser aplicado ao furioso discurso de Barry Sanders. Steinberg e Kincheloe, os editores de Kinderculture, representam claramente a geração do baby-boom, cujos gostos e valores são tão cabalmente rejeitados por Douglas Rushkoff.cxxiv Enquanto Seymour Papert e Neil Postman talvez compartilhem algumas críticas à escola contemporânea, seus diagnósticos de como ela deveria mudar situam-se em pólos opostos. E mais amplamente, claro, o otimismo incansável dos defensores da ‘geração eletrônica’ contrasta frontalmente com o pessimismo dos que lamentam a ‘morte da infância’ Mesmo assim, essas posições aparentemente contrastantes também têm muito em comum. É claro que nem todos os textos que examinei são igualmente deterministas ou unidimensionais. As análises de Joshua Meyrowitz (em um dos lados) e as de Jon Katz (no outro) são muito mais cheias de nuance e incerteza do que os argumentos mais absolutistas junto aos quais os agrupei aqui. Em suas versões mais ‘fortes’ – por exemplo, nos trabalhos de Neil Postman e de Don Tapscott – essas posições compartilham severas limitações. As duas perspectivas adotam uma visão essencialista da ‘infância’ e da ‘juventude’, e fazem uma interpretação excessivamente determinista do papel das mídias e da tecnologia. Ambas refletem um tipo de sentimentalismo sobre as crianças e os jovens que deixa de reconhecer a diversidade das experiências vividas da infância, assim como das relações das crianças com as mídias. Nesse sentido, a visão tradicional das crianças como essencialmente inocentes e vulneráveis à influência das mídias é equilibrada pela igualmente romântica visão delas como naturalmente ‘entendidas em mídia’. Nenhuma dessas visões, a meu ver, oferece uma base realista para a elaboração de políticas culturais, sociais e educacionais que possam de fato habilitar todas as crianças a lidar com as realidades culturais em mudança nas quais nasceram. Colocar em questão essas idéias, no entanto, não é negar as mudanças significativas que realmente têm ocorrido em nossas concepções da infância e na realidade das vidas cotidianas das crianças. Nem é sugerir que as mídias sejam de algum modo estranhas a essas mudanças, ou que sejam mero reflexo delas. Como irei argumentar, uma resposta positiva e efetiva a essas mudanças só será possível se entendermos sua complexidade e potenciais contradições. Simplesmente culpar ou festejar as mídias é superestimar seu poder e subestimar as diversas maneiras como as crianças criam seus próprios significados e prazeres. 41 CAPÍTULO 4 Infâncias em mudança Nos debates analisados nos dois capítulos anteriores foram feitas diversas considerações empíricas e teóricas a respeito da natureza transitória da infância. Mesmo que alguns dos autores que examino tenham uma perspectiva histórica muito mais longa, o centro das suas preocupações são as mudanças que, segundo eles, aconteceram nas últimas duas ou três décadas – especificamente como resultado do amplo acesso às mídias eletrônicas. Como já destaquei, os argumentos analisados nestes dois capítulos – e as evidências em que eles se baseiam – são de certo modo diametralmente opostos. Aqueles que propõem a tese da ‘morte da infância’ fazem uma reflexão muito diferente sobre a experiência contemporânea das crianças e dos jovens, em comparação com os defensores da ‘geração eletrônica’. A juventude violenta, drogada e enlouquecida de Barry Sanders, por exemplo, habita um universo diferente da ‘geração-internet’ socialmente responsável e autônoma de Don Tapscott; enquanto que a aparente irracionalidade e o niilismo da cultura juvenil contemporânea que tanto preocupam Neil Postman e os autores de Kinderculture são interpretados de modo muito mais positivo por Douglas Rushkoff e Jon Katz. Mesmo assim, apesar dessas diferenças, todos parecem convencidos de que estamos atravessando um período de mudança intensa e de longo alcance, tanto no que diz respeito aos conceitos dominantes de infância quanto à própria experiência vivida pelas crianças. Em certo sentido, todos os autores que estou analisando constróem histórias da infânciacxxv. Invocam representações culturais da infância e constróem narrativas históricas em torno delas. As crianças são representadas de modos diversos: ou como inocentes e vulneráveis, ou como pecaminosas e necessitando de controle, ou ainda como naturalmente sábias e de espírito livre. Também aparecem narrativas diversas sobre a infância: histórias de declínio, de civilização, de libertação, de repressão e controle. Como tenho procurado demonstrar, todos os nossos discursos sobre a infância se caracterizam por representações e histórias deste tipo: dos apelos subjetivos e imaginativos da ficção e da autobiografia até a autoridade reivindicada pela objetividade científica dos textos acadêmicos. É em parte através dessas histórias que os significados e a experiência vivida da infância são normalmente regulados e definidos. Neste capítulo eu proponho uma outra dessas histórias, ou um conjunto de histórias. Sugiro que a vida das crianças – e, portanto, os significados que atribuímos à ‘infância’ – realmente mudaram significativamente nas últimas duas ou três décadas. Em alguns aspectos, minha reflexão confirma vários dos argumentos centrais de ambos os lados do debate; embora ela também sugira que a infância esteja mudando de um modo muito menos dramático e muito mais ambivalente e contraditório do que aqueles analistas têm defendido. Fundamentalmente, sustento que para compreendermos tais mudanças é preciso avançar para além do essencialismo e reconhecer a natureza provisória e diversificada das infâncias contemporâneas. Nesse sentido, meu relato tem uma estrutura narrativa bem menos satisfatória – e em particular uma ausência de solução em seu final – quando comparada com as que examinei até agora. Este capítulo enfoca a natureza da mudança na vida das crianças ao longo das últimas duas ou três décadas. Minha reflexão está organizada de modo bem convencional, em termos de três principais campos. Primeiro considero o lugar das crianças na família; depois, as experiências educacionais e de profissionais das crianças; por fim, os usos que elas fazem de seu tempo de lazer. Para isso, recorro a diferentes fontes, desde estudos históricos e sociológicos, até relatórios oficiais e estatísticas do governocxxvi. Não preciso dizer que esta breve reflexão está longe de ser um mapeamento exaustivo. Ela se baseia primariamente em material relativo ao Reino Unido; e mesmo que se possa tentar generalizar alguns desses argumentos para outros países industrializados ocidentais, outros deles definitivamente 42 não poderão sê-locxxvii. A situação das crianças nos Estados Unidos –a respeito das quais as reflexões que examinei até agora se referiram principalmente – é diferente em vários e significativos aspectos, por motivos históricos e políticos complexoscxxviii. Além do mais, as comparações históricas deste tipo – a começar pela própria coleta de dados – são obviamente muito difíceis. Como tenho destacado, as crianças, em certa medida, têm sido ‘escondidas da história’; e as estatísticas oficiais ainda tendem a usar os pais ou a família, ao invés das crianças, como unidades básicas de contabilidadecxxix. E, o que é mais fundamental, a categoria ‘criança’ permanece extremamente escorregadia. A pergunta sobre quando termina a infância e quando começam a juventude ou a idade adulta recebe respostas muito diferentes em tempos diferentes e por motivos diferentes. E é claro que não podemos falar sobre as crianças enquanto uma categoria homogênea: o que a infância significa, e como ela é vivida, obviamente dependem de outros fatores sociais tais como gênero, ‘raça’ ou etnicidade, classe social, localização geográfica e assim por diante. Esses tipos de qualificação pareceriam tornar efetivamente impossível qualquer tentativa de generalização sobre ‘as crianças’. Porém o reconhecimento de que a infância é uma construção social não deveria nos impedir de falar a respeito das realidades materiais da vida das crianças – e de falar assim a respeito das diferenças sistemáticas entre as crianças e outros grupos sociaiscxxx. De fato, é através do permanente debate entre construções da infância que competem entre si que as políticas sociais são formuladas e as experiências reais das crianças empíricas são conseqüentemente formadas e definidas. Meu objetivo, entretanto, não é enfrentar os argumentos anteriores à luz dos fatos objetivos. Ao invés disso, busco oferecer as bases para uma história da infância bastante diferente – em especial uma história das relações das crianças com as mídias eletrônicas – que irá por sua vez sugerir conseqüências materiais bastante diferentes para os indivíduos que nós por ora chamamos de crianças. Algumas indicações iniciais desse argumento são apresentadas na conclusão deste capítulo. O lar e a família Talvez a menos ambígua de todas essas mudanças tenha ocorrido nas experiências das crianças com a vida familiar. No Reino Unido, e na maioria dos outros países industrializados, temos presenciado um contínuo declínio da família nuclear tradicional. Evidentemente, a família nuclear é em si um fenômeno histórico comparativamente recente; no Reino Unido pelo menos, algumas famílias de classe trabalhadora e minorias étnicas ainda cabem no ‘antigo’ modelo da família ampliada, onde três ou mais gerações vivem na mesma casa ou em proximidade. De fato, é duvidoso se alguma vez existiu a tal Idade de Ouro em que as famílias eram grandes, estáveis e provedoras de apoiocxxxi; o fato, porém, é que nas últimas décadas as estruturas familiares ‘não-tradicionais’, de vários tipos, têm se tornado mais comuns. Nesse sentido, a proporção de famílias ‘tradicionais’ (compostas por um casal com crianças dependentes) caiu nos últimos trinta e cinco anos, de 38% do total em 1961 para 25% em 1996-7. Embora a maioria das crianças britânicas com menos de 16 anos continue a viver com o pai e a mãe, a proporção das que vivem com apenas um dos genitores mais que dobrou desde 1972, para mais de uma criança em cada cinco. Essas famílias são em imensa maioria lideradas pelas mães: a proporção de pais sozinhos mudou pouco ao longo destas décadas. O número de casamentos diminuiu, enquanto a proporção de crianças nascidas fora do casamento aumentou enormemente, de 9% em 1975 para 34% em 1995. Mesmo que a maioria desses nascimentos seja registrada por ambos os pais, a tendência dessas crianças de viver com o pai e a mãe até os 16 anos é menor do que entre os filhos de pais casados. O índice de divórcios também dobrou nas últimas duas décadas, com dois em cada cinco casamentos terminando em divórcio, e uma criança em cada 65 sendo afetada nesse período. Estima-se que apenas a metade de todas as crianças da Grã-Bretanha pode ter a expectativa de passar toda a infância vivendo com seus pais naturais e casados. Outras mudanças também atingem significativamente a experiência de vida familiar das crianças. As famílias em si estão ficando menores: o número de famílias com três ou mais crianças 43 caiu, em uma proporção de 41% em 1972 para 26% em 1996, embora grande parte deste declínio tenha ocorrido nos anos 1970. Os índices de fertilidade diminuíram, não tanto porque as mulheres estão optando por não ter filhos, mas porque elas estão tendo menos filhos. Nesse contexto, a proporção de mães trabalhadoras aumentou significativamente – subindo da metade das mulheres casadas e com filhos para dois terços delas entre 1979 e 1994 – enquanto que o número de domicílios em que o homem é o único provedor financeiro ocupa agora apenas um quarto do total. As profissionais com filhos são muito mais comuns no mercado de trabalho do que as mulheres sem qualificação e com filhos, particularmente em regime de tempo integral. Em 1997, em três quintos dos casais casados e com filhos, ambos estavam trabalhando (tanto em meio período como em tempo integral) em comparação com apenas a metade em meados dos anos 1980. Ainda que exista uma grande expectativa de os homens se envolverem mais com o cuidado dos filhos, as evidências sugerem que – pelo menos no Reino Unido - na prática eles não têm conseguido acompanhar o ritmo da mudança em prol de atitudes mais igualitárias, inclusive em razão do aumento na jornada de trabalhocxxxii: em 1996, os homens contratados em tempo integral trabalhavam em média 46 horas por semana, mais do que em qualquer outro país da União Européia. Ao mesmo tempo, mais de um terço das crianças estão vivendo em famílias sem um provedor de salário de tempo integral; e o número de famílias sem-teto e com crianças dependentes aumentou quatro vezes desde o final dos anos 1970. As estimativas da instituição de caridade Shelter sugerem que em torno de 100.000 crianças no Reino Unidos são hoje sem-tetocxxxiii. Estas mudanças talvez sejam mais graduais do que alguns possam ter argumentado, mas elas são ainda assim muito significativas. Em suma, elas sugerem que para uma alta proporção de crianças a família não é mais o ambiente estável que muitos agentes políticos conservadores imaginamcxxxiv. Mesmo em famílias nucleares tradicionais, as crianças passam cada vez menos tempo com os seus paiscxxxv e mais tempo em instituições que oferecem alguma forma de cuidado. E é menos provável que as crianças tenham irmãos que lhes façam companhia. Estas mudanças também contribuem para uma crescente polarização entre ricos e pobres. Se é bem verdade que existem evidências do stress psicológico causado às crianças pelas separações conjugais, e alguma discussão sobre isso, suas conseqüências econômicas são óbviascxxxvi. As famílias com um único provedor tendem muito mais a viver abaixo da linha de pobreza e a depender dos benefícios do estado, e as mães solteiras tendem mais a estarem desempregadas do que as mulheres em famílias com os dois cônjuges. Tais famílias são muito mais numerosas entre os grupos que já sofrem a pobreza, notadamente os afro-caribenhos. Em uma situação na qual a renda familiar quase dobrou ao longo dos últimos 25 anos, a proporção de pessoas que vivem com renda abaixo da média continua a crescer. Ao mesmo tempo, há sinais de que o lugar da criança dentro da família tornou-se mais significativo, pelo menos simbolicamente. As estatísticas aqui são difíceis de comparar, mas a proporção da renda familiar destinada às crianças parece ter aumentado consideravelmente nas três últimas décadas. Isto resulta em parte da nova ênfase nas crianças enquanto um mercado em potencial. Se é possível dizer que o capitalismo criou ‘o adolescente’ nos anos 1950, hoje as crianças estão sendo cada vezmais endereçadas diretamente enquanto consumidoras elas próprias, e não mais como um meio de atingir aos paiscxxxvii. O mercado de bens de consumo infantil no Reino Unido é estimado em mais de $10 bilhões de libras por ano, sendo foco de uma crescente competitividade comercial. Por exemplo, o tamanho do mercado de brinquedos infantis cresceu imensamente; e as crianças em si têm mais renda de consumo, tanto em mesadas e presentes como através de trabalho remunerado (entre as crianças mais velhas). Ainda neste contexto, toda uma gama de tecnologias de consumo – de TV a cabo e câmeras de vídeo a computadores domésticos – tendem a ser encontradas com maior facilidade nas famílias com crianças do que nas semcxxxviii. Em certo sentido, esta nova ‘valorização’ da infância poderia ser vista como um fenômeno compensatório. O valor econômico que as crianças tinham no século XIX foi gradualmente substituído por uma ênfase no seu valor psicológico, e especialmente emocional, para seus paiscxxxix. Na medida em que pais e mães em geral passam menos tempo com as crianças, eles dão um valor 44 maior ao tempo em que estão com elas e investem mais substancialmente nele: o ‘tempo de qualidade’ tornou-se um tipo de mercadoriacxl. Nessa situação, gostar de ser pai e mãe, ou parecer gostar, tornou-se quase uma obrigaçãocxli. Como procurarei demonstrar, a urgência – e até mesmo a culpa – que envolvem estas questões é intensificada pela crescente ênfase no envolvimento dos pais na educação e pelo medo dos riscos do mundo exterior. A família é cada vez mais compreendida como um ambiente fundamental para a educação das crianças e ao mesmo tempo como um refúgio do mundo cruel. Mais qualitativamente, poderíamos afirmar que os estilos de cuidar das crianças – ou pelo menos os discursos sobre esses cuidados – têm mudado bastante nas quatro ou cinco últimas décadas. De modo geral, tem havido um distanciamento das abordagens behavioristas e em direção às abordagens baseadas na psicologia do desenvolvimentocxlii. A fundamentação na rígida disciplina física e no controle tem perdido espaço para uma ênfase na orientação e na afetividade. Muitos historiadores e sociólogos compreendem esta mudança como um ‘amaciamento’ ou uma ‘democratização’ generalizada das atitudes paterna e materna. Por exemplo, um estudo histórico representativo conclui que ‘a maioria das crianças de hoje tem um relacionamento mais amigável e íntimo com os seus pais’ do que ocorria em décadas anteriorescxliii. Por outro lado, discute-se a importância das diferenças de classe: pais e mães de classe média são geralmente mais suscetíveis a usar a palavra como meio de controle, enquanto que pais e mães da classe trabalhadora continuam a se apoiar em abordagens não-verbais e mais autoritáriascxliv. Outros, ainda, argumentam que a aparência de relações mais igualitárias entre pais e crianças mascara o que é na verdade uma forma de regulação psíquica mais intrusiva; e que agora existe uma pressão maior sobre pais e mães para garantir que seus filhos alcancem os índices de desenvolvimento apropriadoscxlv. Ao mesmo tempo, pode-se destacar o aumento da importância do abuso infantil como uma questão de política social – muito embora (como em todos os números relativos à criminalidade) existam dúvidas sobre se isso reflete uma maior freqüência do fenômeno, ou simplesmente uma maior sensibilidade com relação a ele e o conseqüente aumento das denúnciascxlvi. O abuso sexual infantil, sem sombra de dúvidas, tornou-se um dos ‘pânicos moralistas’ mais recorrentes do nosso tempo, muito embora os casos de abuso denunciados sejam de fato em sua maioria casos de negligência, a qual em si relaciona-se fortemente à pobreza. Entretanto, o leque de comportamentos popularmente definidos como ‘abuso infantil’ vem aumentando. Em alguns casos, pais e professores podem agora ser processados não apenas por abuso sexual ou crueldade explícita, mas também por bater nos filhos – o que em anos anteriores seria visto como bastante aceitável, e até como definitivamente bom para a criança. E apesar do medo generalizado de que as crianças sejam seqüestradas por pedófilos violentos, três quartos de todas as agressões violentas contra crianças em idade escolar são cometidas por membros da família. Aqui, novamente, a noção da família como um ambiente estável e livre de riscos torna-se difícil de sustentar. Locais de trabalho: educação e emprego Como observei anteriormente, a introdução da educação obrigatória no final do século XIX foi um dos principais meios de segregação das crianças do mundo dos adultos; foi também um dos maiores pré-requisitos para a nossa moderna concepção de infância. Ao longo do século XX houve uma permanente ampliação do tempo de educação obrigatória, o que se consolidou em 1972 com a definição da idade de 16 anos para sair da escola. Desde então tem havido um contínuo aumento na proporção de crianças em algum tipo de educação pré-escolar, assim como na proporção de jovens que permanecem estudando após o período obrigatório. A institucionalização da infância parece estar começando mais cedo e terminando mais tarde. Assim, a proporção de crianças com 3 e 4 anos de idade que freqüentam a escola (pelo menos em meio período) aumentou três vezes entre os anos de 1971 e 1996, chegando a 58%. O Governo Trabalhista definiu, em 1998, a meta de garantir vagas escolares gratuitas para todas as crianças de 4 45 anos de idade. Enquanto isso, no outro lado da balança, a proporção de jovens com idade entre 16 e 18 anos que estão recebendo alguma forma de treinamento ou educação continuada aumentou de um terço para três quartos do número total nesta faixa etária. As matrículas em cursos de aperfeiçoamento aumentaram em torno de 50% desde 1971, enquanto os números relativos à educação de nível superior triplicaram durante esse período, sendo que o crescimento mais significativo ocorreu na década de 1990. A proporção de alunas mulheres aumentou significativamente, de um terço para quase mais da metade, embora as que vêm dos grupos sócio-econômicos mais humildes continuem a estar muito pouco representadas. Nos últimos anos a educação se tornou muito mais proeminente nos debates públicos e nas propostas de governo. Entre 1971 e 1996, os gastos totais do governo com educação aumentaram em termos reais em mais de 60% (e em torno de 86% em creches e em ensino fundamental); porém, enquanto percentual relativo ao Produto Interno Bruto, estes números permaneceram comparativamente estáveis, em torno de 5%. O compromisso do governo em aumentar as vagas para as crianças pequenas e reduzir o tamanho das turmas no ensino fundamental tende a resultar em um pequeno aumento desse número; porém isso deverá ser compensado pela decisão de acabar com o ensino superior gratuito e a adoção de um sistema de empréstimos para os estudantes. Nesse contexto, o governo não parece inclinado a reduzir as isenções de impostos para a crescente proporção de pais ricos cujas crianças freqüentam as escolas particulares (hoje 8% das crianças no ensino médio). As preocupações com a ‘erosão dos padrões’ é evidentemente eterna, mas se intensificou drasticamente nos últimos anos. A introdução de um currículo nacional no final da década de 1980 pelo governo conservador, sustentada por uma grande bateria de testes, marcou uma ampliação significativa do controle centralizado da educação; contudo, isto foi justificado por meio de noções como ‘opção para os pais’, de modo que estes pudessem identificar a ‘melhor’ escola para as suas crianças em tabelas publicadas oficialmentecxlvii. As escolas estão cada vez mais submetidas a uma forma de mercantilização, e as grandes empresas têm um envolvimento central e crescente nestas iniciativas, em muitos níveis: desde a oferta de bônus que os consumidores podem trocar por equipamentos, até o envolvimento na administração escolar por meio de zonas de ação educacional.As corporações têm cada vez mais interesse em serem vistas como ‘patrocinadoras’ de escolas e fornecedoras de equipamentos ‘gratuitos’, materiais curriculares e contas de e-mailcxlviii. Apesar de toda a retórica sobre a opção do consumidor, porém, as próprias crianças ainda têm um controle comparativamente pequeno da organização cotidiana da escolarização, e ainda menor do currículo. Essa nova situação tem gerado uma atmosfera de grande competitividade, não apenas entre as escolas, mas também entre as próprias crianças. O Novo Trabalhismo e sua alardeada ênfase em ‘educação, educação e educação’ intensificou a pressão, insistindo em metas nacionais para as escolas, clubes de lição-de-casa e na necessidade de chamar à responsabilidade os pais omissos. Os pais também estão sendo cobrados a investir na educação dos filhos, dando-lhes orientação complementar em casa. Há uma onda crescente e massiva de publicações de livros e CD-ROMs do tipo ‘ajude seu filho’, incluindo testes para os diferentes estágios do currículo; e várias companhias comerciais estão desenvolvendo franquias de aulas particulares em artes e computação. A educação parece ser, portanto o trabalho da infância, e não se pode permitir que este se interrompa quando as crianças saem da sala de aulacxlix. O impacto dessas e de outras mudanças anteriores nos índices de desempenho escolar é complexo. Os resultados gerais nos exames públicos de avaliação têm melhorado gradualmente, embora muitos queixem-se de que os exames é teriam ficado mais fáceis. Os resultados das meninas também têm aumentado drasticamente em relação aos dos meninos, alcançando áreas do conhecimento e setores do sistema educacional que eram antes vistas como territórios masculinos. Ao mesmo tempo, apesar da eliminação parcial do antigo sistema de centros educativos e exames públicos em dois níveis, a classe social continua a exercer uma influência determinante no desempenho escolar dos os jovenscl. 46 As transformações na educação após o período obrigatório também precisam ser vistas no contexto do aumento do desemprego entre os jovens. O declínio da indústria britânica nos anos 70 levou a uma constante redução dos caminhos tradicionais por onde se chegava a um emprego: a proporção de jovens em treinamento, por exemplo, caiu de 25% em 1974 para 8% em 1984. A ameaça de uma sub-classe de jovens desempregados e rebeldes tornou-se a maior preocupação dos agentes de políticas públicas, particularmente após a onda de distúrbios nas áreas urbanas pobres no início dos anos 80. Em 1982 o desemprego entre os jovens com idade de 16 a 19 anos era de 28% - duas vezes maior do que entre a população em geral. Em meados dos anos 80, o Ministério do Emprego (que mais tarde foi significativamente anexado ao Ministério da Educação) lançou uma série de programas de treinamento, para combater o problema; isso foi reforçado em 1988, com o corte de benefícios estatais aos jovens de 16 e 17 anos (impedindo-os de se registrar como desempregados) e a subseqüente redução de benefícios para os que ainda tinham direito ao auxílio. Na verdade, os jovens têm sido encaminhados unicamente para a educação e o treinamento. Em 1974, 60% dos jovens com 16 anos saíam diretamente da escola para o emprego, enquanto apenas 3% ficavam desempregados. Em 1990, menos de 25% estavam empregados, enquanto que 52% ainda estavam estudando em tempo integral e 23% em programas de treinamentocli. Apesar de a fronteira entre ‘educação’ e ‘treinamento’ vir se tornando cada vez mais difusa nos últimos anos, as proporções gerais se mantiveram muito semelhantes. Embora os números do desemprego entre os jovens tenham caído, eles continuaram aumentando em relação à média nacional ao longo da última décadaclii, especialmente entre os rapazes (mais de 20% estavam desempregados em 1996) e especialmente entre os jovens negros, que tendem a demorar duas vezes mais que os brancos para conseguir emprego. Os níveis salariais nesta faixa etária também caíram, em relação aos dos adultos: 30% dos empregos oferecidos aos jovens pagam salários inferiores ao limite para complementação de renda (benefício do estado)cliii. Junto com a ‘inflação da qualificação’ e as mudanças no mercado de trabalho, estes processos afetam inevitavelmente as expectativas das crianças com relação às suas carreiras futuras. Há menos jovens que hoje esperam ter um emprego para a vida toda ou conseguir um trabalho fora da economia informal. A medida do governo que introduziu um salário mínimo para jovens trabalhadores em 1999, se comparada com o restante da população, dá uma clara demonstração das prioridades a este respeito. Com a abolição das bolsas para estudantes e o corte de benefícios para as pessoas entre 16 e 17 anos de idade, os jovens dependem cada vez mais da moradia e do apoio financeiro de seus pais: 64% dos jovens entre 16 e 24 anos hoje vivem com seus pais. Enquanto isso o número de jovens sem-teto - a quem essas possibilidades foram negadas ou que as rejeitaram - cresceu dramaticamente entre os anos de 1980 e 1990: a Children´s Society estima que 50.000 jovens, com idade média de 15 anos, fogem de casa todos os anos, a maioria deles para escapar de abusoscliv. Ainda que estes cenários refiram-se especificamente aos ‘jovens’, e não às ‘crianças’, eles concretamente ampliam o tempo de institucionalização e dependência das pessoas mais novas. É preciso observar, entretanto, que o emprego remunerado não se restringe àqueles que já passaram da idade mínima para deixar a escola. Assim como a criação da educação obrigatória, as leis relativas ao trabalho infantil que foram aplicadas no final do século XIX e início do século XX são vistas como uma pré-condição da infância contemporânea. Mesmo assim, as evidências indicam que um número significativo de crianças - não apenas nos países em desenvolvimento, mas também nos países ocidentais industrializados – estão envolvidas em trabalho remunerado, legalmente ou não. Pesquisas realizadas nas últimas décadas sugerem que mais de um terço das crianças podem estar realizando trabalho remunerado em qualquer momento dado; e que cerca de dois terços delas podem fazê-lo antes de alcançar os 16 anosclv. Trata-se geralmente de serviços menores, como os de entregador ou ajudante, e na medida em são quase sempre ilegais, não contam com regulação adequada (por exemplo, em termos de saúde e segurança), sendo geralmente muito mal pagos. Este fenômeno não se restringe às crianças de famílias mais pobres. Ao contrário, o que se percebe é que o trabalho 47 remunerado entre as crianças é às vezes uma resposta ao crescimento do mercado consumidor juvenil, visto pelas próprias crianças como um meio de ganhar dinheiro para os bens supérfluos que os pais não desejam ou não podem comprarclvi. Tempo livre? De acordo com os historiadores, nos últimos 50 anos o tempo de lazer das crianças foi sendo cada vez mais privatizado e submetido à supervisão dos adultosclvii. Em termos gerais, o principal lugar de lazer da criança foi deslocado dos espaços públicos (como as ruas) para os espaços familiares (a sala de estar) e daí para os espaços privados (o quarto de dormir). A ansiedade sobre ‘o perigo dos estranhos’, o tráfego e outras ameaças às crianças encorajaram pais e mães a equipar o lar (e em particular o quarto das crianças) como um local de diversão, uma alternativa tecnologicamente rica aos riscos potenciais do mundo exteriorclviii. Esse processo tornou-se possível a partir do aumento generalizado na renda para consumo e de inovações específicas como o aquecimento central; a redução no tamanho médio das famílias também entra aí, fazendo com que as crianças de hoje tendam mais a ter seu próprio quarto. Neste sentido, as pesquisas no Reino Unido sugerem que as crianças estão agora muito mais confinadas em casa, e são muito menos capazes de ir de um lado para outro com independência, do que há 25 anos atrásclix.Desde os anos 1970, o ‘brincar lá fora’ vem sendo continuamente sido substituído pelo entretenimento doméstico (especialmente através de televisão e computador) e – principalmente entre as classes mais privilegiadas - por atividades de lazer supervisionadas, como os esportes organizados, as aulas de música e assim por diante. As áreas públicas disponíveis para brincadeiras diminuíram, tanto nas cidades – onde aumentou a densidade populacional – quanto no interior – onde a industrialização das fazendas impede o acesso a grandes áreas. As crianças hoje são levadas de carro para a escola duas vezes mais do que nos anos 1970 (embora seja verdade que a aquisição de automóveis tenha também dobrado neste período) De qualquer maneira, as crianças das famílias mais ricas viajam um terço a mais do que os filhos de famílias menos favorecidas. Como já indiquei, estas mudanças devem-se em parte à crescente percepção do riscoclx. O medo dos pais com respeito à violência contra as crianças aumentou muito mais do que a real incidência de crimes, inclusive em resultado do sensacionalismo nas reportagens sobre um pequeno número de casos. Enquanto a incidência de seqüestros infantis aumentou, por exemplo, a maioria deles é cometida por membros da família (especialmente pais em litígio); e a incidência de assassinatos de crianças tem se mantido estável ao longo de várias décadas. Três quartos daqueles que são condenados por agressões contra as crianças são membros da família, muito embora a proporção se reduza bastante quando se trata de jovens entre 16 e 17 anos de idade. É o lar e não a rua o principal cenário dos crimes contra as crianças. Um outro elemento-chave aqui é a ameaça representada pelo transporte motorizado, que continua crescer de forma exponencial em muitas cidades. Na realidade, enquanto os acidentes rodoviários ainda são a maior causa de morte entre as crianças (somando três quartos das mortes de crianças entre 10 e 14 anos), estes diminuíram em dois terços desde o início da década de 1970. Estatísticas desse tipo podem obscurecer um complexo processo de causa e efeito: altas percepções de risco podem tornar os pais menos dispostos a deixar seus filhos saírem de casa desacompanhados, o que resulta em uma incidência menor dos perigos que eles temem. Em conseqüência disso, porém, a autonomia das crianças acaba sendo ainda mais restrita. A experiência das crianças com as mídias será examinada muito mais detalhadamente no próximo capítulo, mas já é possível delinear um processo semelhante também aqui. Em termos gerais, o entretenimento público (o cinema) tem perdido espaço para o entretenimento doméstico (a televisão vista em família), e este para o entretenimento individualizado (a TV, os computadores e os vídeo- games no quarto das crianças). Evidentemente, esta cena é excessivamente esquemática: entre outras coisas, ela subestima a dimensão social do uso contemporâneo das mídias (os jogos de computador, 48 por exemplo, são um grande foco de interação entre grupos de amigos); e ela negligencia as mudanças nas próprias mídias – a freqüência de crianças nos cinemas de fato aumentou nos anos 1990, apesar da maior tendência de as crianças serem acompanhadas pelos pais (e de assistirem ‘filmes familiares’) do que no início dos anos 197037. Além disso, é importante não negligenciar a sobrevivência de atividades culturais mais tradicionais – e mesmo de brincadeiras mais tradicionais e da cultura oral – entre as crianças. Por exemplo, a leitura infantil de livros e a freqüência às bibliotecas públicas na realidade aumentaram nos últimos anos, ainda que não de modo muito significativo; e pesquisas mais qualitativas sugerem que as crianças apropriam-se das novas mídias e tecnologias em suas brincadeiras tradicionais e jogos de rua38. Se a autonomia das crianças tem sido restrita em certo sentido, já que elas passam mais tempo de lazer sob a supervisão familiar, os recursos econômicos destinados ao seu lazer aumentaram substancialmente. O lazer infantil vinculou-se inexoravelmente à ‘revolução do consumo’ do período pós-guerra; e, neste processo, muitos serviços que eram antes oferecidos pelo estado (bibliotecas, quadras de esporte, museus e clubes de jovens) caíram em declínio ou precisaram se reinventar em termos comerciais – tornando-se assim menos acessíveis às crianças mais pobres. Como examinarei no capítulo 5, isto é o que ocorre especialmente com as mídias de difusão aberta, como TV e rádio. Por outro lado, as culturas das turmas de crianças mais velhas parecem resistir cada vez mais à regulação familiar; em muitos aspectos a ‘rebeldia adolescente’ tende a ser deflagrada cada vez mais cedo. Por exemplo, os jovens estão tendo sua primeira experiência sexual com muito menos idade do que em décadas anteriores; e estão amadurecendo fisicamente mais cedo (ao longo do último século o início da menstruação se antecipou em 2,5 anos, e cada vez mais garotas estão menstruando aos 10 anos de idade). A ameaça da AIDS pode ter mudado as práticas sexuais, mas não resultou em abstinência: 9% das pessoas soropositivas ao HIV são adolescentes. Os índices de gravidez na adolescência aumentaram bastante durante os anos 80, embora tenham ficado estáveis a partir de então. Enquanto isso as drogas vão se tornando quase um lugar-comum na experiência de lazer das crianças: apesar da ‘guerra contra as drogas’, o uso delas entre crianças atinge hoje os níveis mais altos já registrados. Em 1996, cerca de dois terços dos jovens entre 14 e 15 anos admitiam ter usado alguma droga ilegal, e uma proporção semelhante deles dizia beber álcool regularmente. O número de viciados registrados com idade abaixo de 21 anos mais que dobrou entre 1990 e 199539. Há também uma ansiedade crescente a respeito da incidência de criminalidade infantis, muito embora as estatísticas nesse campo estejam abertas a muitas interpretações diferentes40. O número de crianças consideradas culpadas ou advertidas por crimes no início dos anos 90 era oito vezes maior do que no início dos anos 80, embora o número de delitos infantis reconhecidos tenha caído de um patamar máximo a partir de meados dos anos 80. Roubo e assalto são as infrações mais comuns, e os meninos são três vezes mais ativos nesse sentido do que as meninas. Entretanto, a criminalidade infantil permanece restrita a uma minoria: em torno de apenas 3% dos jovens infratores cometem mais de um quarto dessas infrações. E, é claro, crianças e jovens correm um risco muito maior de serem vítimas do que grupos de outras faixas etárias: as pesquisas sobre criminalidade apontam que a maioria das crianças já foi de algum modo vítima, embora comparativamente poucos desses incidentes (apenas um décimo) tenham sido denunciados à polícia. Em parte por essas razões, a criminalidade infantil tem sido uma das questões centrais das políticas públicas das últimas décadas. Um pequeno número de casos de alta ressonância – especialmente o assassinato do menino de dois anos de idade James Bulger por dois garotos de 10 anos em 1993 - deu combustível à busca de políticas de direito criminal muito mais punitivas. Isto culminou com o Ato de Crime e Desordem de 1998, que, entre outras medidas, diminuiu a idade da responsabilidade criminal, possibilitando impor custódia a crianças a partir dos 10 anos de idade e autorizando o poder local a instituir ‘toques de recolher’ para as crianças41. O final dos anos 90 também assistiu à inauguração da primeira de uma série de prisões infantis particulares. Enquanto isso, cresceu a condenação à aparente falta de disciplina nas escolas, também baseada em uns poucos casos altamente difundidos pela imprensa: a expulsão escolar tornou-se muitíssimo mais freqüente, 49 esquemas de vigilância contra a ‘matação’ de aulas foram criados em vários locais, e o governo designou ‘comandos’ de inspetores escolares para vigiar escolas particularmente problemáticas. Fronteiras difusas?É claro que muitos outros elementos poderiam ser acrescentados ao cenário que acabamos de descrever. Minha versão sem dúvida simplifica demais algumas questões altamente complexas e não faz justiça às inconsistências e contradições que caracterizam toda forma de mudança social. Mesmo assim, ela indica que em diversas dimensões importantes o status e a experiência das crianças enquanto grupo social específico mudou bastante nas duas ou três últimas décadas. Se isso, porém, significa uma ‘crise’ da infância – ou mesmo sua morte – é uma questão bem mais complexa. No capítulo 1, busquei demonstrar que a concepção contemporânea da infância – que ainda continua a determinar a realidade material em que vivem as crianças – baseia-se em várias formas de separação ou exclusão. Como muitos historiadores têm demonstrado, a ‘invenção’ moderna da infância dependeu da separação entre adultos e crianças, e da exclusão das crianças de espaços da vida social considerados exclusividade dos ‘adultos’. Isto foi alcançado através, entre outras coisas, da retirada parcial das crianças do mundo do trabalho e da rua, e de sua reclusão à escola ou ao lar. As crianças foram definidas por sua exclusão dos espaços públicos do comércio e da política, e sua sujeição aos regimes de guarda moral e pedagógica especialmente projetados para policiar as fronteiras entre adultos e crianças. Os debates analisados nos dois capítulos anteriores sugerem que essas fronteiras tornaram-se cada vez mais difusas nos últimos anos – mesmo que as conseqüências desse fenômeno sejam avaliadas de formas muito diferentes. Em alguns aspectos minha versão confirma esta hipótese, embora, em outros, claramente discorde dela. As fronteiras realmente se tornaram mais difusas, porém em muitos aspectos elas também têm sido reforçadas e ampliadas. Assim, de um lado as crianças ganharam acesso a certos aspectos da vida ‘adulta’, especialmente aqueles considerados moralmente inapropriados, ou para os quais elas sejam vistas como psicologicamente imaturas. É possível destacar, por exemplo, o conhecimento e a experiência das crianças em áreas como sexo e drogas; sua experiência com o divórcio e as rupturas familiares; seu envolvimento com a criminalidade, tanto como agentes quanto como vítimas; e seu status cada vez mais importante enquanto mercado consumidor. Ainda que muitos destes fenômenos se refiram às crianças mais velhas, eles realmente revelam que hoje as crianças em geral têm conhecimento de muitas experiências antes negadas a elas – e em alguns casos buscam conhecê-las. Seria um exagero propor que estas mudanças tenham conduzido à ‘morte da infância’, mas elas sugerem de fato que o fim da ‘infância’ está chegando alguns anos mais cedo que no passado. Por outro lado – e também em resposta ao que acabamos de descrever - as crianças têm sido mais segregadas e excluídas. Elas hoje passam muito mais tempo de suas vidas confinadas em instituições abertamente planejadas para prepará-las para o mundo ‘adulto’ – e também para protegê- las dele. Isso é óbvio no caso do prolongamento da escolaridade e no confinamento das crianças ao lar; assim como no caso das medidas mais punitivas, por exemplo, na área da criminalidade infantil. Tanto no trabalho quanto na brincadeira, a vida das crianças torna-se cada vez mais institucionalizada, e, no caso do lazer, cada vez mais privatizada e domesticada42. Especialmente em casa, as crianças também se tornaram o foco de grandes investimentos, tanto de recursos econômicos como da preocupação dos pais – ainda que nem sempre do tempo deles. O lazer das crianças tornou-se muito mais ‘curricularizado’ e voltado ao consumo, nem sempre sendo fácil identificar a diferença entre os dois. Por conta disso, a ‘infância’ – ou pelo menos o período de dependência da criança ao adulto – está aumentando e não diminuindo. As crianças, ao que parece, não querem mais ser crianças; daí precisarmos cada vez mais encorajá-las a sê-lo. Um modo óbvio de interpretar estas mudanças é por meio das categorias de risco e segurança, que se tornaram proeminentes nas ciências sociais das últimas décadas43. Neste sentido, poderia ser 50 argumentado que as crianças estão sendo cada vez mais ameaçadas por perigos de vários tipos: ruptura familiar, pobreza, crime, exploração econômica e abuso. E poderia ser sugerido que as fontes tradicionais de segurança das crianças – especialmente a família nuclear – estão sendo continuamente abaladas. Nesse contexto, as políticas sociais contemporâneas, inclusive no atual governo trabalhista, podem ser vistas como uma tentativa de legislar contra as conseqüências mais óbvias da insegurança, ao disciplinarem os desvios e assegurarem que as crianças sejam mantidas mais rigorosamente sob supervisão adulta. Estes processos são essencialmente políticos, no sentido de que têm relação primordial com a mudança nas relações de poder e autoridade entre adultos e crianças. Entretanto, as políticas infantis contemporâneas podem ser interpretadas de várias maneiras. Há os que desejam resgatar as relações tradicionais e voltar a uma era em que as crianças eram ‘vistas, mas não ouvidas’; há também os que saúdam estas mudanças, considerando-as um aumento muito necessário do poder e da autonomia das crianças. Portanto, do lado positivo, pode-se identificar aí um processo de individuação, uma espécie de extensão dos direitos de cidadania em direção às crianças44. Nesse sentido, as crianças poderiam ser vistas como um grupo social, entre outros, (tais como as mulheres, as minorias étnicas, ou os portadores de necessidades especiais) que estavam previamente excluídos do exercício do poder social e que agora ganham acesso a ele. Assim, as crianças de hoje tiveram reconhecidos os direitos a educação, representação legal e bem-estar social que antes lhes eram negados. A questão dos direitos das crianças tornou-se também muito mais significativa nos últimos anos. A partir da Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos das Crianças, muitos países aprovaram novas leis de proteção dos direitos civis das crianças, tanto na família como em suas relações com as agências do estado. No Reino Unido, por exemplo, a Lei da Criança, de 1989, representa um pacto de difícil equilíbrio entre essa nova agenda de direitos e participação e a ênfase mais tradicional na proteção à criança; ela exige que os desejos individuais da criança sejam levados em consideração muito mais explicitamente pelas agências de bem-estar social e pelas instâncias do governo, assim como nos processos judiciais (casos de divórcio, por exemplo)45. Mesmo que ainda haja uma grande distância entre retórica e realidade, parece que as vozes das crianças estão começando a ser ouvidas. Como tentarei mostrar com mais detalhes nos capítulos à frente, essa ampliação dos direitos políticos das crianças tem sido acompanhada por uma espécie de empoderamento econômico (sendo até certo ponto motivada por ele), ou pelo menos é o que definem os defensores dessa corrente. As crianças ganharam um novo status não apenas como cidadãs, mas também como consumidoras: elas são vistas como um mercado cada vez mais valioso, mas ao mesmo tempo extremamente difícil de atingir e de controlar. Elas não podem ser simplesmente ‘exploradas’, e nem muito menos tratadas paternalisticamente por adultos que afirmam saber o que é bom para elas. Também aí tem sido investida uma energia considerável para garantir que as vozes das crianças sejam ouvidas. Porém, ao longo do processo, a diferença entre a criança cidadã e a criança consumidora pode ter se tornado cada vez mais difícil de sustentar46. Em um sentido muito mais negativo, podemos aqui destacar as formas com que a idéia de infância tem se tornado foco de preocupações mais amplas com respeito à mudança social, à ‘indisciplina’ e ao colapso moral – e, conseqüentemente, uma justificativa para a implantação de políticas sociais mais autoritárias47. Comojá argumentei, essas questões têm necessariamente dois lados: as crianças são vistas ao mesmo tempo como ameaçadas e como ameaçadoras. Por exemplo, nas discussões sobre o abuso infantil, as crianças são representadas como vítimas indefesas que necessitam da proteção dos adultos, apesar de serem os adultos (e membros da família) a principal causa de risco. Ao mesmo tempo, nos debates sobre a criminalidade infantil, as crianças são explicitamente identificadas como um risco para todos os demais. Aí a vitimização das crianças pelos adultos é amplamente ignorada em favor da necessidade de discipliná-las ainda mais severamente e em uma idade cada vez mais menor. A experiência aparentemente prematura das crianças com os aspectos da vida ‘adulta’ é vista aí não como um sintoma de empoderamento ou como uma ampliação 51 da autonomia, mas sim como um sinal de falhas mais amplas na ordem social; o resultado disso é que a liberdade infantil com relação ao controle adulto acaba sendo mais restrita do que encorajada. Os direitos das crianças ficam assim em segundo plano em relação ao poder dos pais; e se os pais parecerem ‘fracassar’, os filhos ficarão então sujeitos aos procedimentos do governo. Como quer que se interprete essas mudanças, está claro que nas últimas décadas ficou cada vez mais problemático definir a infância – e cada vez mais urgente. Como destaquei anteriormente, a ‘criança’ só existe desse modo: ela é definida primeiramente por aquilo que não é – ou seja, ‘o adulto’. Em outras palavras, as fronteiras têm que ser perpetuamente traçadas e retraçadas; e estão sujeitas a um processo de negociação constante. Na realidade, ao longo dos últimos 20 ou 30 anos o status da infância e as nossas concepções a respeito dela tornaram-se cada vez mais instáveis. As diferenças entre as crianças e outras categorias, como ‘jovens’ ou ‘adultos’, ficaram cada vez mais difíceis de sustentar, e ao mesmo tempo cada vez mais importantes em termos das políticas sociais e econômicas. Infâncias desiguais Se o status e a experiência das crianças, enquanto um grupo social diferenciado, estão certamente mudando, então precisamos observar também as mudanças significativas que têm ocorrido dentro desse grupo específico. Pelo menos algumas diferenças sociais parecem ter se diluído nas últimas três décadas. Isto fica claro em relação às questões de gênero. Se ainda há significativas disparidades no poder aquisitivo dos homens e das mulheres, as desigualdades entre meninos e meninas têm se reduzido continuamente em todas as áreas: do desempenho escolar ao valor da mesada, sem falar nos índices criminais. Ao mesmo tempo, as crianças tornaram-se mais diversas etnicamente: as minorias étnicas constituem 9% das crianças do Reino Unido, em comparação com os 5,5% do total da população. Aí também as diferenças no desempenho escolar, desemprego juvenil e pobreza têm começado a diminuir nas últimas décadas, embora os jovens negros e asiáticos tendam a receber salários menores e os garotos afro-caribenhos estejam muito mais sujeitos a serem expulsos da escola. Entretanto, é entre os garotos brancos de classe trabalhadora que os menores índices de desempenho escolar estão agora sendo registrados. E 50% dos jovens negros com 18 anos de idade estudam em período integral, contra apenas 30% dos jovens brancos48. Porém, a mudança mais marcante nesse campo (e não apenas no Reino Unido, mas também em muitos outros países industrializados) é o aumento da polarização entre ricos e pobres. A Grã- Bretanha possui hoje uma crescente subclasse, na qual as famílias com crianças são desproporcionalmente numerosas. Por exemplo, a proporção de crianças dependentes vivendo em lares com menos da metade da renda familiar média triplicou de 1,4 milhões (uma em dez) para 4,2 milhões (quase uma em três) entre 1979 e 1992. A porcentagem de crianças vivendo em famílias sem um provedor de salário em tempo integral aumentou de 20% em 1979 para 36% em 1993. Um milhão de crianças vivem hoje em residências oficialmente classificadas como inapropriadas para a habitação humana49. Mães e pais solteiros e famílias com crianças portadoras de necessidades especiais tendem a ser pobres. Se essas tendências podem em parte estar vinculadas a um movimento econômico mais amplo, elas resultam diretamente das políticas governamentais dos anos 80 e 90, por exemplo, nos setores de bem-estar social e impostos. Apesar de um aumento generalizado na renda de consumo familiar, a desigualdade de renda aumentou muito mais rápido no Reino Unido do que em qualquer outro país industrializado (com exceção da Nova Zelândia). Para os 10% mais pobres, a renda média de hoje não é mais alta do que 10 anos atrás. Enquanto isso, os 10% mais ricos controlam a mesma quantidade de renda que os 50% mais pobres. Esses processos têm implicações previsíveis com relação à ‘qualidade de vida’. Também aqui, melhorias gerais tendem a mascarar desigualdades crescentes. Na área da saúde, por exemplo, os índices de mortalidade infantil continuam a diminuir, embora não tão rápido quanto em outros países (99,2% das crianças de hoje sobrevivem ao seu primeiro ano, contra 97% em 1950); 52 enquanto que a altura média das crianças (um bom indicador da saúde como um todo) aumentou quase 1,4 centímetro desde o início dos anos 70. Entretanto, as crianças de classe trabalhadora tendem a sofrer mais de doenças crônicas do que as de classe média, e a ter mais cáries dentárias; os médicos atendem a uma proporção muito maior de crianças pobres em todas as categorias de consultas, especialmente em casos de doenças sérias. E, é claro, as crianças de famílias de baixa renda tendem a receber uma nutrição diária menos adequada e a não receber refeição alguma quando o dinheiro acaba. Como tenho procurado demonstrar, essas desigualdades trazem conseqüências para quase todos os setores da vida das crianças. As crianças mais pobres têm menos oportunidades educacionais e um pior desempenho escolar; elas têm menos opções de lazer; têm menos mobilidade e certamente estão em desvantagem quando se trata de adquirir mercadorias e serviços de consumo que muitos críticos têm destacado como os símbolos definidores da infância contemporânea. Além do mais, a pobreza tanto molda quanto é moldada por outras formas de desvantagem, como os efeitos do racismo e da ruptura familiar. Em conjunto, esses fatores sugerem que as crianças pobres e as ricas estão vivendo infâncias cada vez mais diferentes. A infância, portanto, está certamente mudando. As vidas das crianças são mais institucionalizadas e privatizadas, e menos estáveis e seguras, do que eram 30 anos atrás. As fronteiras entre crianças e adultos tornaram-se menos visíveis em algumas áreas, mas foram reforçadas e expandidas em outras. As crianças adquiriram poder, tanto político quanto econômico, mas também estão sujeitas a mais controle e vigilância por parte dos adultos. E a desigualdade entre crianças ricas e pobres cresceu exponencialmente. Como veremos no próximo capítulo, essas mudanças têm conseqüências específicas sobre o relacionamento das crianças com as mídias eletrônicas, mas seria altamente simplista identificar as mídias como sua causa principal. Não podemos examinar as mídias de forma isolada - seja como o agente causador do desaparecimento da infância, seja como a razão de seu maior poder. Ao contrário, é essencial situar a relação das crianças com as mídias no contexto das mudanças sociais e históricas mais amplas que procurei delinear aqui. CAPÍTULO 5 Mídias em mudança As preocupações com a natureza das mudanças na infância refletem-se diretamente nos debates contemporâneos sobre as mídias eletrônicas. Também aí as fronteiras tradicionais parecem se dissolver e as certezas consolidadas estão sob questionamento. Mesmo para aqueles de nós que cresceram na era da televisão, as mídias eletrônicas do futuro – é o que dizem – serão cadavez mais difíceis de compreender e controlar. Neste capítulo analiso algumas dessas mudanças no ambiente das mídias eletrônicas, dando ênfase especial às suas implicações quanto à infância e à juventude. Assim como no capítulo anterior, meu objetivo aqui é mais oferecer uma visão ampla, do que uma análise profunda; e os exemplos são mais ilustrativos do que necessariamente definitivos. Minha exposição será novamente organizada de modo relativamente convencional. Assim, vou analisar: tecnologias, instituições, textos e públicosclxi. Sustento que em cada uma destas áreas as crianças e os jovens estão na vanguarda de muitos dos processos ligados às mídias contemporâneas. Historicamente, diferentes paradigmas acadêmicos nos Estudos da Mídia tenderam a enfatizar algumas destas dimensões ao custo de outras e, conseqüentemente, chegaram a estimativas muito diversas a respeito do ‘poder’ da mídia. Minha ênfase, em contraste, está na interação entre essas dimensões, sem priorizar nenhuma delas. Implicitamente, portanto, sugiro 53 que o ‘poder’ da mídia não é meramente uma propriedade - ou função ou conseqüência – das tecnologias, das instituições, dos textos ou dos públicos. Ao contrário, ele é necessariamente uma relação entre esses diferentes fatoresclxii. Também aqui minha análise se relaciona com as abordagens antagônicas que foram discutidas nos capítulos 2 e 3. Como buscarei indicar, a leitura destas mudanças pode ser feita de modos muito diferentes. De um lado, há um panorama altamente pessimista, em que ecoam as preocupações de Neil Postman e dos autores de Kinderculture, debatidos no capítulo 2. Esse enfoque se baseia em um tipo de teoria da ‘sociedade de massas’ que é atraente para amplos setores do espectro político, desde a crítica ao capitalismo desenvolvida pela Escola de Frankfurt até o elitismo mais escancarado de certas críticas culturais conservadoras. Nessa perspectiva, argumenta-se que estamos entrando em uma era de crescente fragmentação e atomização, em que as noções de cultura comum, esfera pública e cidadania participativa estão definitivamente gastas. O que aparenta ser uma maior possibilidade de escolha é na realidade a repetição da mesmice: a homogeneização fantasiada de diversidade. O cidadão público foi reduzido a um consumidor privado, à mercê do controle das indústrias da consciênciaclxiii. Do outro lado, existe um cenário muito mais otimista, refletido no entusiasmo de Douglas Rushkoff e outros, e que foi debatido no capítulo 3. Trata-se de uma abordagem altamente ‘populista’; é também uma visão que une pessoas de universos políticos completamente diferentes: desde os empresários comerciais que lideram a ‘revolução das comunicações’ até os expoentes radicais da teoria da ‘recepção ativa’ nos Estudos Culturais acadêmicosclxiv. Aqui a ênfase recai sobre o potencial libertador das novas tecnologias da mídia: elas são vistas como amplificadoras do controle democrático das comunicações, capazes de transformar consumidores em produtores, possibilitando que novas vozes sejam ouvidas e que novas formas de identidade e subjetividade sejam representadas. Velhos modos de coerção e hierarquia estariam sendo superados, na medida em que surgem oportunidades para formas culturais mais novas, interativas e desafiadoras. É claro que o debate nem sempre é tão nitidamente polarizado – muito embora os dois lados façam sem dúvida muita caricatura um do outro, sobretudo na academia. Aqui novamente reconheço alguma verdade em ambas as perspectivas, embora ambas pareçam subestimar as resistências à mudança, assim como sua natureza ambivalente e contraditória. O que sugiro de mais significativo, entretanto, é que os termos do debate estão equivocados. Considerar que as crianças sejam ou vítimas passivas da mídia ou consumidoras ativas significa efetivamente vê-las como isoladas dos processos de mudança social e cultural mais amplos. Esta abordagem e suas implicações para a pesquisa serão desenvolvidas com mais profundidade no capítulo 6. Tecnologias Como vimos, nas discussões a respeito das relações das crianças com as mídias geralmente se atribui um poder determinante à tecnologia. Esses argumentos são problemáticos por diversas razões. As tecnologias não produzem mudança social independentemente dos contextos em que são usadas; além disso, as diferenças inerentes entre as tecnologias não são tão absolutas como geralmente se propõe. Entretanto, em combinação com outras mudanças, as novas tecnologias – especialmente as tecnologias digitais – têm efetivamente revolucionado o processo de produção em quase todas as áreas das indústrias da mídia, e agora estão também transformando rapidamente os processos de distribuição e recepçãoclxv. As mudanças recentes nas tecnologias da mídia podem ser compreendidas, em primeiro lugar, como uma simples questão de proliferação. Desde o advento da televisão, por exemplo, a tela doméstica da TV tornou-se o ponto de entrega de um número muito maior de mídias e meios de distribuição. O número de canais aumentou, tanto na televisão aberta como (de modo mais espetacular) a partir do cabo e do satélite;ao mesmo tempo, a tela tem sido utilizada para vídeo de várias maneiras, assim como para uma multiplicação de formas de mídia digital: dos videogames, jogos de computador e CD-Rom até a internet. 54 Em segundo lugar, tem havido um processo de convergência entre tecnologias de comunicação e de informação. Como as outras mudanças identificadas aqui, esta se norteia pelo comércio, mas também se tornou possível devido à digitalização. Ao longo da última década, o advento de processos como TV digital, internet, compras on-line, e exibição paga de filmes via satélite ou cabo têm embaralhado cada vez mais as diferenças entre a difusão linear da mídia de modelo aberto, como a televisão convencional, e a difusão estreita e interativa, como a da internet. Em terceiro lugar essas mudanças têm implicações quanto ao acesso. Nesse sentido, aspectos inacessíveis e muito caros de produção de mídia e toda uma gama de opções e novas formas midiáticas foram trazidas ao alcance do consumo doméstico. O preço de venda das câmeras de vídeo, câmeras digitais e do computador multimídia cai cada vez mais, à medida em que suas capacidades aumentam. E, pelo menos em princípio, a internet representa um meio de comunicação e distribuição não mais controlado exclusivamente por uma pequena elite. Nesse processo, argumenta-se que as fronteiras entre a produção e o consumo e entre a comunicação de massa e a comunicação interpessoal começam a desmoronar. Descrever o processo a partir desse ângulo significa sugerir que as distinções absolutas entre as tecnologias – entre mídia impressa e televisão, por exemplo, ou entre televisão e Internet - não se sustentam mais, se é que algum dia o fizeram. Pelo menos no caso das mídias, as novas tecnologias raramente substituem as velhas, mesmo que às vezes mudem o modo como elas são usadas. A tentativa de separar as tecnologias ‘tradicionais’ das ‘modernas’ e de isolar os efeitos cognitivos ou sociais de ambas é, portanto, uma tarefa difícil. Estas mudanças têm várias conseqüências específicas para as criançasclxvi. Como já destaquei, as crianças e os pais são dos mercados mais importantes para essas tecnologias. A TV a cabo e satélite, por exemplo, tem os públicos jovens como grandes alvos, e muitas das propagandas e promoções de computadores domésticos jogam com o mito popular de que a criança tem uma afinidade natural com as tecnologiasclxvii. No Reino Unido a adoção da televisão a cabo e satélite, de videocassetes, câmeras de vídeo e computadores domésticos é proporcionalmente muito maior em residências com crianças: 35% das residências com crianças hoje assinam a televisão a cabo ou satélite, por exemplo, em comparação com 25% do total; enquanto 90% das residências com crianças têm acesso ao videocasseteem comparação com 75% do total. Dois terços das crianças vivem em lares com um computador ou aparelho de videogame, o que é um número significativamente mais alto do que em qualquer outra faixa etária. As vendas de jogos eletrônicos e de computadores com capacidade para CD-Rom cresceram exponencialmente: as famílias com crianças pequenas registraram um aumento na posse de computadores em 50% de 1993 até 1996, comparados com um aumento total de 26%clxviii. Esta ampliação do acesso às tecnologias torna possível o seu uso de maneiras mais individualizadas. Assim, as crianças também tendem a viver em residências com dois ou mais aparelhos de TV: no Reino Unido metade das crianças de 7 a 10 anos, e três quartos daquelas de 11 a 14, hoje têm televisão no seu quarto, e uma proporção significativa têm videocassete. Estas tendências são encorajadas por uma democratização generalizada nos relacionamentos familiares e no relaxamento da autoridade paterna e materna, identificados no capítulo 4; isso, apesar de os usos coletivos das mídias – a ‘audiência em família’ – estarem longe de desaparecerclxix. De modo semelhante, muitas das novas formas culturais viabilizadas por essas tecnologias são diretamente associadas às crianças. Os jogos de computador, por exemplo, são predominantemente endereçados ao mercado infanto-juvenil; enquanto isso, a música popular (particularmente a música para dançar) é cada vez mais gerada por tecnologia digital, via recorte, colagem, citaçõesclxx, e edição com o uso de softwares. Ao mesmo tempo, o incrível acesso às novas tecnologias possibilita aos jovens desempenhar um papel muito mais ativo como produtores culturais. Mais e mais adolescentes têm computador doméstico nos quartos de dormir, podendo utilizá-lo para criar música, manipular imagens ou editar vídeos em um padrão relativamente profissional. Estas tecnologias também permitem uma manipulação altamente consciente e potencialmente subversiva de textos midiáticos 55 produzidos comercialmente, por exemplo, através da citação e da re-edição de material disponível, juntamente com a produção ‘original’ e criativa. No processo, eles fazem troça das noções de copyright e de propriedade intelectual. Evidentemente é importante não exagerar a escala dessas mudanças. Pelo menos no Reino Unido, apenas uma pequena minoria de crianças é usuária regular da internet, por exemplo: as estimativas mais recentes são inferiores a 6%. Do mesmo modo, muito poucas crianças estão explorando o potencial criativo da mídia digital: seus computadores domésticos são usados para jogos e como processador de textos em tarefas escolaresclxxi. Os níveis de acesso irão certamente aumentar bastante à medida que os preços caírem; mesmo assim, existe uma grande polarização entre os ‘tecnologicamente ricos’ e os ‘tecnologicamente pobres’. No Reino Unido, por exemplo, menos da metade de todas as crianças de classe trabalhadora têm acesso a computador em casa, se comparadas com as crianças de classe média, enquanto que o percentual de conexões à internet é de um décimo em relação às crianças de classe médiaclxxii. Assim como aconteceu com outras novas tecnologias (a TV na década de 1950, por exemplo), aqueles que têm maior renda são quase sempre os primeiros a adotá- las: eles passam a ter equipamentos mais novos e poderosos, assim como mais oportunidades para desenvolver as habilidades e competências necessárias ao seu uso. Isto se aplica não apenas ao computador doméstico, mas também à televisão a cabo e satélite, a qual (apesar da sua imagem decadente no mercado) tende a estar bem menos presente nas casas de famílias de baixa renda. Esta polarização já é visível há vários anos nos Estados Unidos, onde há uma grande disparidade entre as crianças que têm acesso à televisão a cabo, cujos pais podem comprar ou alugar vídeos e que vivem em áreas em que há uma vasta gama de materiais disponíveis, e as crianças privadas de quaisquer dessas oportunidadesclxxiii. Como veremos com mais detalhe nos capítulos subseqüentes, a ampliação do acesso das crianças às mídias está gerando uma preocupação crescente com respeito a sua exposição a materiais até então estritamente confinados ao domínio dos adultos, como é o caso óbvio da ‘violência’ e da pornografia. Em muitos sentidos, isso tem levado a um clamor cada vez maior por censura e por uma regulamentação mais rígida; e à busca de uma solução tecnológica, como o V-chip, ou, como é chamado, um ‘software de bloqueio’. Essa preocupação responde em parte ao desenvolvimento tecnológico. Quando comparadas a tecnologias mais antigas como o cinema ou a televisão aberta, por exemplo, mídias como o vídeo e a televisão a cabo e satélite diminuem significativamente o potencial de controle centralizado da mídia por parte dos governos nacionais. O vídeo, por exemplo, torna possível a cópia e a circulação de materiais em uma dimensão muito maior do que jamais tinha ocorrido com a imagem em movimento. Ele também permite que o material seja assistido não nos espaços públicos aos quais o acesso possa ser controlado, mas no espaço privado do lar, e nos horários escolhidos pelo espectador e não por um programador central de horários que defina o que é apropriado ou não para as crianças assistirem. Nesse sentido, o vídeo escapa às restrições de tempo e espaço; e ele efetivamente transfere a responsabilidade pelo controle da esfera pública para a esfera privada – do estado para o indivíduo. Assim, apesar de todos os esforços da indústria, o vídeo é extremamente difícil de ser policiado. Atualmente estima-se que o comércio de vídeos-piratas no Reino Unido equivalha a um terço ou a metade da indústria legal; e apesar das duras penalidades que possam ser aplicadas aos seus fornecedores, a grande maioria das crianças já assistiu a algum material em vídeo que não tenha sido legalmente obtidoclxxiv. A questão do controle tornou-se ainda mais crítica com o surgimento da tecnologia digital. Hoje é possível não apenas copiar e disponibilizar material, mas também enviá-lo para além das fronteiras nacionais, pela linha telefônica. A internet é hoje o meio mais caracteristicamente descentralizado: qualquer pessoa com acesso à tecnologia pode publicar o que quiser, e qualquer outra pessoa pode acessá-lo – muito embora, na realidade, ela esteja cada vez mais se tornando um meio comercial no qual os usuários precisam pagar pela informação, diretamente, ou indiretamente por meio de propagandas (cujo custo é transferido aos consumidores por meio do aumento dos preços). O 56 posicionamento da lei é ainda mais confuso aqui: há uma considerável incerteza sobre se a internet é um meio ‘editorial’ (caso em que os provedores de serviços podem ser processados por fornecerem material obsceno) ou se ela é simplesmente um meio de ‘comunicação’, como o telefone. Instituições Todos esses desenvolvimentos tecnológicos ajudaram a intensificar mudanças econômicas e institucionais fundamentais nas indústrias da mídia – e têm sido intensificados por elas. Três grandes tendências podem ser identificadas aqui, sendo cada uma delas sintomática de mudanças políticas e econômicas muito mais amplasclxxv. Em primeiro lugar podemos destacar a crescente privatização das mídias e o relativo declínio das ofertas proporcionadas pelo setor público. A grande maioria dos serviços e formas culturais das novas mídias identificados acima é orientada para o mercado; e mesmo aqueles que inicialmente não o eram – como a internet – estão cada vez mais sujeitos aos imperativos do mercado como, por exemplo, a necessidade de exibir anúncios e propagandas. A convergência tecnológica espelha a convergência econômica, na medida em que as tendências de consolidação dos monopólios são reforçadas pelas ideologias do ‘livre mercado’ dos governos nacionais. Neste ínterim, as produções do setor público – na TV aberta, por exemplo – vão sendo gradualmente comercializadaspor dentro; e a regulamentação sobre as funções sociais e culturais do meio vai aos poucos sendo abandonada em favor de uma preocupação mais estrita com a moralidade. Uma conseqüência inevitável dessas mudanças tem sido a integração das indústrias da mídia, uma integração tanto horizontal como vertical. O mercado midiático de hoje é dominado por um pequeno número de conglomerados multinacionais, e para as empresas de base nacional o sucesso no mercado internacional é cada vez mais reconhecido como necessário à sobrevivênciaclxxvi. Na prática, a globalização tende a significar a dominação por parte dos Estados Unidos: a maioria das indústrias de TV cabo e satélite no Reino Unido, por exemplo, pertence na verdade a companhias norteamericanas. Entretanto, na nova economia mundial, nem isso pode ser assegurado: companhias como a Sony, Matsushita e Bertelsmann, por exemplo, têm importância fundamental tanto no mercado dos EUA quanto no mercado mundial. Significativamente, a maioria destas corporações se caracteriza por impérios que atravessam várias mídias: eles integram difusão aberta, mercado editorial e tecnologia digital, e em muitos casos têm interesse tanto em hardware quanto em software. A integração vertical tem sido, portanto, acompanhada de uma forma de integração horizontal. Nesse novo ambiente, as mídias não são mais simplesmente um meio de garantir público para os anunciantes. Elas são cada vez mais um meio de garantir público para as outras mídias. Por outro lado, também é possível identificar formas de fragmentação, tanto no nível da produção quanto do consumo. Assim, um movimento em direção ao trabalho temporário e à terceirização ao longo das duas últimas décadas tem sido particularmente notável na indústria de broadcasting, tradicionalmente centralizada. Apesar de alguns argumentarem que isto gera uma participação maior de grupos minoritários, o fato é que a produção independente e em pequena escala é altamente precária. Nesse processo, como veremos adiante, os públicos também estão se tornando muito mais fragmentados e especializados, à medida que uma competitividade cada vez maior necessariamente dita um movimento em direção a ‘nichos de mercado’. Em certa medida, estas transformações reforçam tendências particulares implícitas na mudança tecnológica. Na realidade, o ritmo da mudança tecnológica é em si fortemente orientado pela incansável busca do capitalismo por novos mercados. Enquanto o índice de obsolescência das ‘velhas’ tecnologias - e dos softwares usados por elas – acelera-se, o mesmo ocorre com os índices de lucratividade. Enquanto isso, muitas das novas tecnologias, sobretudo a internet e a TV por satélite, atravessam as fronteiras dos países, ultrapassando de fato as regulamentações nacionais. Por outro lado, o aumento do acesso à tecnologia digital reduz o custo inicial de muitas áreas da produção 57 midiática (em alguns casos, também da distribuição) e conseqüentemente contribui para atenuar a diferença entre produtores ‘profissionais’ e ‘amadores’. Esses processos afetam as crianças de um modo bastante ambíguo. Como já observei, as crianças foram ‘descobertas’ como um novo alvo de mercado ao longo das últimas décadas. No caso da televisão comercial, por exemplo, as crianças não foram de início vistas como uma audiência especialmente valiosa. Nas primeiras décadas do sistema comercial de produção dos Estados Unidos, os programas só eram oferecidos às crianças a um custo mínimo e em horários em que os outros públicos não estivessem disponíveisclxxvii; e mesmo no Reino Unido, onde a tradição de serviço público é muito forte, a televisão para crianças tem recebido financiamento comparativamente menor. Na era contemporânea dos nichos de mercado, entretanto, as crianças de repente se tornaram muito mais valiosas: é atribuída a elas uma significativa capacidade de influenciar as decisões dos pais sobre o que comprar, além de terem também algum dinheiro disponível. Assim, o advento da TV a cabo no Reino Unido trouxe um grande número de canais especializados que competem para atrair a audiência infantil; e tanto nos canais terrestres como nos não-terrestres houve um aumento considerável na quantidade da programação oferecida às crianças, embora não necessariamente na sua qualidade e diversidadeclxxviii. Essas mudanças provocam cada vez mais clamores em defesa do serviço público de televisão aberta contra a invasão das iniciativas comerciais. A comercialização – é o que se diz - resulta no inexorável ‘emburrecimento’ da televisão para crianças: a produção nacional de gêneros como o teleteatro contemporâneo e documentários – argumenta-se - tem continuamente perdido espaço para os desenhos animados feitos nos Estados Unidos. Na realidade os dados concretos em torno desses pontos são bastante ambivalentesclxxix, e o debate claramente remete a questões muito mais amplas sobre identidade nacional e valor cultural, noções as quais (como veremos) são muitas vezes definidas de modo bastante conservador quando se trata de crianças. Entretanto, esses processos acarretaram uma mudança significativa (e que decididamente tem dois lados) no modo como o público infantil é visto, pelo menos pela indústria das mídias: como explicarei com maiores detalhes adiante, a compreensão da criança como vulnerável e carente de proteção cede cada vez mais espaço à visão da criança como consumidora soberanaclxxx. Mesmo assim, é preciso tomar cuidado com algumas destas questões. Tanto no campo da economia como no da tecnologia, corre-se o risco do determinismo, que tem caracterizado boa parte da sociologia das mídias. Neste caso, é muito fácil recair-se nas noções tradicionais das crianças como sendo vulneráveis à exploração comercial ou às seduções do imperialismo midiático. Ao menos no Reino Unido, as produções nacionais ainda são bastante populares entre as crianças, bem como entre os adultos; e determinados programas da televisão britânica continuam a servir como uma forma de ‘cultura comum’, tanto entre as crianças quanto entre as gerações. Como destaquei, em primeiro lugar a maioria das crianças não tem acesso à TV a cabo ou satélite – muito menos à internet. Além do mais, uma proporção significativa de produtos comerciais destinados às crianças simplesmente não consegue gerar lucro: o mercado é mais competitivo, mas é também muito mais incerto. Nesse sentido, há alguma justificativa para a freqüente declaração dos produtores de que as crianças são um mercado volátil e complexo, impossível de ser facilmente conhecido e controladoclxxxi. Textos Talvez o exemplo mais óbvio dos processos que estou descrevendo sejam as características em transformação dos textos midiáticos. De fato, os críticos pós-modernos sugerem que o próprio status dos textos esteja mudando: talvez não seja mais importante considerar os textos no seu sentido tradicional, enquanto objetos acabados, diferenciados, que de algum modo contêm um determinado significadoclxxxii. Em certo nível, isso pode ser compreendido como uma consequência da convergência tecnológica e econômica. Também aqui as fronteiras tornam-se difusas, tanto entre os textos em si 58 quanto entre as mídias. As distinções entre vídeos, jogos de computador, filmes, shows de TV, propagandas e textos impressos ficaram irrelevantes; e as mídias passaram a prender-se muito mais ao merchandising de uma ampla variedade de produtos. Um número cada vez maior de textos são apenas ‘estratégias’ para promover ou anunciar outros textos e mercadorias. Como resultado disso, a intertextualidade tornou-se a característica dominante da mídia contemporânea. Muitos dos textos tidos como distintamente pós-modernos são altamente alusivos, auto-referentes e irônicos. Eles conscientemente remetem a outros textos, na forma de pastiche, homenagem ou paródia; eles justapõem elementos incongruentes de períodos históricos, gêneros e contextos culturais diferentes;e brincam com as convenções estabelecidas sobre forma e representação. No processo, eles implicitamente se dirigem a seus leitores e espectadores enquanto consumidores ‘alfabetizados nas mídias’, conhecedores delas. Por fim, muitas dessas formas midiáticas se caracterizam por tipos de interatividade. Como vimos anteriormente, alguns dos mais utópicos defensores das multimídias interativas as compreendem como um meio de libertação das restrições mais tradicionais da mídia ‘linear’, tais como o filme e a televisão. Hipertextos, CD-Roms e jogos de computador, de acordo com essa compreensão, parecem abolir a diferença entre ‘leitor’ e ‘escritor’: o leitor (ou jogador) não está mais submetido passivamente ao texto – e de fato o único texto é aquele que o leitor decidir ‘escrever’. Entretanto, muitas afirmações desse tipo sobre as formas características da cultura pós- moderna precisam ser abordadas com bastante cuidado. Estes argumentos geralmente se baseiam em exemplos que não são representativos e em características de texto relativamente superficiais. Além do mais, poderíamos dizer que muitas destas transformações são ditadas por uma lógica principalmente econômica. Assim, a intertextualidade, o pastiche e a paródia muitas vezes são apenas fachadas para textos altamente convencionais em todos os outros sentidos. Na realidade, poderíamos argumentar que a ‘ironia’ tornou-se apenas outro recurso de mercado que possibilita às corporações da mídia garantirem um lucro adicional, na medida em que reciclam bens que já lhes pertencem. Do mesmo modo, a intertextualidade poderia ser compreendida, simplesmente, como uma conseqüência da crescente mercantilização e da necessidade de explorar sucessos através de uma variedade maior de mídias em um tempo mais curto. E apesar do potencial para a interatividade, há uma inegável lacuna entre a retórica e a realidade em grande parte dos softwares comerciais: muitos dos chamados ‘textos interativos’ estão longe de ser interativos e oferecem um repertório de possibilidades altamente fixo e circunscrito. Muitas dessas características se aplicam fortemente aos textos midiáticos destinados às crianças e aos jovensclxxxiii, e que são muito populares entre eles. Assim, muitas das novas formas culturais mais inovadoras foram inicialmente orientadas para esse público, e só mais tarde alcançaram o mercado adulto. Poderíamos destacar, por exemplo, a ironia consciente das histórias em quadrinhos contemporâneas; o uso da citação no rap e na dance music; o estilo alusivo da montagem dos vídeos musicais, a convergência entre mídia eletrônica, música e artes visuais da cultura clubber; ou a natureza genuinamente interativa – e altamente complexa – de alguns jogos de computador. E, apesar de todo o exagero retórico em torno da ‘cibercultura’, uma pequena minoria de jovens faz usos extremamente inovadores da internet, que realmente apontam para sua emergência como uma forma cultural única. Essas características não são, porém, encontradas apenas nas áreas mais arcanas da cultura juvenil: elas também podem ser percebidas em muitas formas da cultura popular dominante destinada às crianças mais jovens. Muitos dos desenhos animados e programas de TV mais populares entre as crianças, desde os Simpsons a Live and Kicking, estão cheios de referências a outros textos e gêneros, através de citação direta ou de colagens. Com freqüência eles buscam recursos culturais – tanto da alta cultura como da cultura popular do passado e do presente – de modo fragmentário e aparentemente paródico. Quem comparar as séries de desenhos animados atuais com aquelas de trinta anos atrás, vai se impressionar com o ritmo rápido, mas também com a ironia, a intertextualidade e o jogo complexo entre realidade e fantasia. Ao mesmo tempo, uma das tendências mais impressionantes nos últimos 59 anos no Reino Unido é a crescente popularidade da ‘TV-Retrô’, particularmente das séries mais conhecidas e ingênuas dos anos 1960´s: programas como Thunderbirds, Batman, The Avengers e The Man From UNCLE estão todos sendo re-apresentados, não apenas para preencher a grade da programação, mas sendo promovidos como produtos adequados a uma audiência jovem que se considera ‘conhecedora de mídia”. Mas os programas de TV não são apenas programas de TV: eles são também filmes, discos, histórias em quadrinhos, jogos de computador e brinquedos – sem falar em de camisetas, pôsteres, lancheiras, bebidas, álbuns de figurinhas, comidas e uma miríade de outros produtos. A cultura midiática infantil cada vez mais atravessa as fronteiras entre textos e entre formas midiáticas tradicionais, o que fica bastante óbvio ao se analisar fenômenos como Ninja Turtles, Super Mario Brothers ou Power Rangers. Nesse processo, a identidade do texto ‘original’ está longe de ser clara: as mercadorias são empacotadas e comercializadas como um fenômeno integrado, ao invés de o texto vir antes e ser seguido pelas outras mercadorias. E esses processos não se restringem exclusivamente ao trabalho das corporações ‘comerciais’, como ilustra o sucesso das produções de serviços públicos, tais como Sesame Street e mais recentemente os Teletubbies, da BBC. Evidentemente, Disney é o exemplo clássico deste fenômenoclxxxiv. Desde os primeiros tempos dos clubes do Mickey Mouse, as mercadorias e depois os parques temáticos são uma dimensão-chave do empreendimento, e de fato são esses aspectos que têm garantido sua contínua lucratividade. Entretanto, essa integração horizontal está assumindo agora uma escala diferente. Se você assistiu ao último filme da Disney, você poderá acompanhar programas baseados nele pelo canal Disney da TV, ou encontrar seus personagens no parque temático; você pode ir até a loja Disney do centro comercial local e comprar o vídeo, os pôsteres, as camisetas e outras mercadorias; você pode também colecionar brindes ou bonequinhos dos personagens nas caixas de flocos de milho ou em lanchonetes do tipo fast- food; e, se você estiver na onda digital, poderá comprar o livro de historinhas animado em CD-Rom, brincar com o jogo de computador, visitar o website, e assim por diante. As crianças estão realmente na vanguarda daquilo que a crítica cultural Marsha Kinder chama de ‘intertextualidade transmidiática’ e, como ela argumenta, a lógica desta mudança é fundamentalmente orientada pelo lucroclxxxv. O mesmo ocorre com a música popular e o sucesso de artistas como Madonna, Take That e as Spice Girls. Novamente, talvez o exemplo mais óbvio seja Michael Jackson. O Michael Jackson músico ou cantor é inseparável do Michael Jackson performista, produtor de vídeo ou astro do cinema, garoto-propaganda (pelo menos até recentemente), benemérito de instituições de caridade, ícone em camisetas e pôsteres e - mais espetacularmente – uma propriedade pública, alguém que é sujeito de todo um outro conjunto de textos, na TV, na imprensa popular e na conversa cotidiana. Michael Jackson produz mercadorias, mas também é ele próprio uma mercadoria. E, naturalmente, é emblemático de muitas das mudanças sociais mais amplas vistas como características da pós- modernidade, por causa da sua fundamental ambigüidade: ele é ao mesmo tempo masculino e feminino, preto e branco (o que não tem importância), e, o que é mais problemático, uma criança inocente e um adulto altamente sexual. Finalmente, é importante reconhecer as mudanças ao nível do conteúdo – as quais (como vimos no capítulo 2) são muitas vezes aquelas que mais alarmam os críticos adultos. Pelo menos no Reino Unido, a televisão para crianças mudou sem parar ao longo dos últimos vinte anos, no sentido de incorporar temas como sexo, drogas e dissolução familiar que antes seriam considerados tabu. Do mesmo modo, as revistas e os livros destinados ao mercado juvenil são muito criticados pelo tratamento franco e explícito que dão a esses temas. A recente controvérsia em torno de Love Bites, uma série de programasde educação sexual produzida pela London Weekend Television, por exemplo, ou os premiados romances ‘realistas’ para adolescentes, tais como Stone Cold de Robert Swindell ou Junk de Melvyn Burgess, ilustram claramente a ansiedade que esses temas provocamclxxxvi. Mesmo os desenhos animados feitos para crianças bem pequenas – das Tartarugas Ninja ao Biker Mice from Mars – parecem jogar com a ansiedade ‘adulta’ em torno de questões como a poluição ambiental, o declínio social e destruição global. E na cultura popular dominante voltada 60 para crianças há uma sensualidade e um cinismo que seriam impensáveis mesmo nos vertiginosos anos 60. É vital, certamente, não ignorar que existem também significativas continuidades. Apesar de todas as diferenças entre eles, Os Simpsons têm muito em comum com Os Flinstones; Teletubbies com Watch with Mother; e Michael Jackson com Elvis Presley ou Little Richard. Na verdade, uma vez que os textos populares do passado são cada vez mais reciclados e apropriados de maneiras diferentes pelas novas gerações, fica difícil traçar uma diferenciação absoluta baseada na época em que foram originalmente produzidos. De qualquer maneira, no ambiente midiático do qual as crianças hoje fazem parte, as fronteiras estão cada vez mais difusas, tanto entre as mídias quando entre os textos em si. Como busquei demonstrar, essas transformações são viabilizadas pelas mudanças tecnológicas, mas são também amplamente orientadas pelos interesses comerciais. Assim, esse ambiente pressupõe tipos muito diferentes de competências e conhecimentos – e parece encorajar diferentes modos de ‘atividade’ – por parte das audiências. As mídias contemporâneas cada vez mais se dirigem às crianças como se elas fossem consumidores altamente ‘alfabetizados midiaticamente’. Se elas o são de fato, e o que entendemos por isso, são porém questões bem mais complexas. Os Públicos As implicações destas mudanças com relação aos públicos têm sido tema de um debate considerável. Como vimos, os argumentos estruturam-se freqüentemente em termos das preocupações tradicionais a respeito do ‘poder’ das mídias. Assim, os defensores da ‘revolução das comunicações’ argumentam que os públicos estão sendo cada vez mais ‘empoderados’ pelas novas mídias, enquanto os críticos sugerem que eles estejam simplesmente mais abertos à manipulação e à exploração comercial. Entretanto, em várias áreas as implicações das mudanças são menos óbvias e muito mais difíceis de prever. Assim, com freqüência se diz que essas transformações resultarão em maior possibilidade de escolha para os consumidores; outros rebatem, dizendo tratar-se de uma escolha espúria. Por exemplo, a proliferação dos canais de televisão levou a um aumento significativo da quantidade de televisão disponível, mesmo levando-se em conta que há muita repetição. Se este aumento se sustentará a longo prazo, porém, é discutível: a quantidade de novos produtos não consegue acompanhar o ritmo do aumento de canais de difusão para os mesmos – inclusive porque a audiência de cada canal está diminuindo, já que mais canais estão disponíveis, e conseqüentemente o financiamento para novos produtos tende a decair. Na prática, portanto, os espectadores contam com cada vez mais oportunidades de ver as mesmas coisasclxxxvii. Entretanto, isto é em si uma mudança significativa: para aqueles que têm acesso a televisão a cabo e satélite, o simples ato de ‘ver televisão’ tende a ser significativamente diferente da experiência daqueles que só têm acesso à televisão aberta. Num certo nível, essas mudanças nitidamente dão aos espectadores o poder de agendarem sua própria audiência, pelo menos a partir do leque de materiais disponíveis; mas as mudanças também levantam questões mais complicadas sobre como os telespectadores localizam e selecionam o que querem assistir. Essas questões tornam-se mais complexas, até certo ponto, em função da interatividade. Deixando de lado por enquanto a discussão sobre se surfar a internet é mais ‘ativo’ do que zapear pelos canais de TV ou explorar as páginas de uma revista (por exemplo), a questão aqui é se as audiências querem de fato maior ‘atividade’. As pesquisas sugerem que grande parte do uso das mídias está longe de ser comprometido ou engajado: ao contrário, em grande parte das vezes esse uso é casual e distraídoclxxxviii. Se as pessoas vão querer chegar em casa da escola ou do trabalho e navegar por hipertextos interativos, ou se vão preferir apenas relaxar na frente da TV, é uma questão que permanece em aberto – inclusive para os produtores e anunciantes. Mesmo no caso dos usuários regulares cabe algum ceticismo quanto a esse ‘poder’ que aparentemente lhes é oferecido. A internet claramente permite aos usuários um controle muito maior 61 com relação à seleção do conteúdo e do ritmo em que este é ‘lido’. Mas no processo ela também permite uma vigilância muito mais detalhada do comportamento do consumidor: agora é muito mais fácil identificar o movimento dos usuários por entre os websites e no interior deles, construindo assim perfis de consumidores que podem vir a tornar-se alvo de propaganda eletrônica dirigida. Também aqui surgem questões novas e problemáticas a respeito das habilidades e competências exigidas pelo uso das novas mídias e especialmente para avaliar o que elas tornam disponível. Finalmente, como já observei, estas transformações podem resultar em uma crescente fragmentação dos públicos, uma vez que os textos estão sendo cada vez mais direcionados (e vendidos para) grupos especializados de consumidores. A multiplicidade dos canais de televisão, por exemplo, poderá causar o declínio da difusão aberta (e da ‘cultura comum’ que esta possibilita) em favor do ‘difusão estreita’; e a internet é o meio de comunicação por excelência para as pessoas que têm interesses especializados ou minoritários. Essas mudanças inevitavelmente levantam a questão de se é possível continuarmos a falar de uma cultura nacional compartilhada, ou mesmo de uma cultura compartilhada entre as gerações. Na medida em que transitamos de um sistema de 5 canais para um de 30 canais, e daí para um de 500 canais por exemplo, a televisão vai inevitavelmente se tornando uma experiência muito menos coletiva. Apesar disso, o alarde sobre a morte da ‘audiência massiva’ pode ser prematuro. Mesmo nos Estados Unidos, onde a maioria dos espectadores há muitos anos tem sistema de TV multi-canais, a maior parte das pessoas ainda se restringe a um pequeno número de emissoras – muito embora não se saiba por quanto tempo essa situação irá continuar clxxxix. Novamente, os pesquisadores da indústria precisam identificar em que medida os consumidores realmente querem fazer um uso das mídias completamente individualizado e ‘personalizado’ ou se eles desejam uma experiência mais compartilhada – pelo menos para poder conversar no dia seguinte a respeito do que assistiram. Também aqui surgem questões sobre a experiência de uso ou audiência das novas mídias que não podem ser compreendidas simplesmente em termos das noções tradicionais do ‘poder’ das mídias. Apesar de os eventuais resultados destas transformações serem difíceis de prever, está claro que as crianças são consideradas por muitos dos que estão na indústria midiática como a ‘vanguarda’ da mudança – ou pelo menos, que elas são posicionadas desse modo pelas operações do mercado. Assim, como observei, a adesão às novas mídias é geralmente maior em residências com crianças, e existe no mercado uma grande competitividade para atrair o mercado infantil. A audiência da TV convencional na Grã-Bretanha caiu em quase três horas por semana desde meados da década de 1980; e a audiência da televisão aberta está agora diminuindo sensivelmente nas residências com crianças e que possuem TV a cabo e satélite, enquanto aumenta a audiência dos canais especializados em programação infantilcxc. As crianças também tendem a ter maioracesso a computadores, videogames,, tecnologia de vídeo e música e assim por diante. De muitas maneiras, os usos que as crianças fazem das mídias parecem realmente se caracterizar por uma escolha, uma interatividade e uma diversidade cada vez maiores – muito embora, como já indiquei anteriormente, essas oportunidades não estejam disponíveis a todos de modo igualitário. Entretanto, as conseqüências dessas mudanças para as crianças têm sido interpretadas de formas bem contrastantes. Pelo menos nos países de fala inglesa, as matérias sensacionalistas sobre os males que a mídia supostamente faz às crianças dominam cada vez mais as manchetes. Os jornalistas, é claro, estão sempre interessados nesse tipo de história, desde que elas resultem em ‘bom material’ e, conseqüentemente vendam jornais, mas eles são apoiados nisso por aqueles que têm outras motivações. Assim, os políticos rotineiramente demonstram o rigor de suas políticas educacionais ao reclamarem da influência anti-educativa do lixo das telenovelas ou do ‘emburrecimento’ das crianças entregues aos Teletubbiescxci. Grupos religiosos armam cruzadas evangélicas condenando a influência materialista e a depravação moral das mídias contemporâneascxcii. Nesse quadro, basta aos acadêmicos em busca de publicidade instantânea sugerir que programas de TV como The Big Breakfast diminuem a capacidade de atenção das crianças, ou condenar a ‘humilhação ritualizada’ de Gladiators ou Blind Date, para aumentar o número dos centímetros de suas colunas nos jornaiscxciii. Nos últimos anos a 62 imprensa, de forma ansiosa e acrítica, publicou vários exemplos de ‘pesquisas acadêmicas’ espantosamente fracas e que buscavam mostrar (por exemplo) que até um terço das crianças passavam tempo no playground trocando material pornográfico obtido por computador, ou que os jovens estavam sendo encorajados a cometer infrações de trânsito como resultado da sua exposição aos vídeo- gamescxciv. Significativamente, muitas destas preocupações dizem respeito à exposição das crianças à mídia para ‘adultos’. O que o Daily Mail em 1996 descreveu como sendo ‘o escândalo da geração assista-como-quiser’cxcv reflete o reconhecimento de que as crianças não estão mais limitadas aos materiais planejados para elas – embora as pesquisas sugiram que na realidade elas sempre preferiram a mídia dos adultos, pelo menos quando conseguiam ter acesso a elacxcvi. Assim, diz-se que as crianças estão em uma situação especial de risco, não apenas devido à violência nas telas, mas também por causa das imagens negativas da vida familiar mostradas nas novelas; é claro também que há uma grande ansiedade em torno dos perigos da Internet, como a pornografia e sedução pedófilacxcvii. Por outro lado, há também preocupações com respeito à introdução de temas que parecem ser inadequadamente adultos para a mídia infantil – como AIDS e homossexualismo - em programas de ficção infantis como Grange Hill e Byker Grove, ou conselhos explícitos sobre posições sexuais em revistas para adolescentes como Bliss e Morecxcviii. É claro que esse tipo de pânico moralista não chega a ser novidade: a fantasia de uma Idade de Ouro da inocência infantil, e a visão da mídia (de vários tipos) como uma influência corruptora já têm uma longa história. Mas, como destacarei no capítulo 7, essas preocupações também assumem formas diferentes a cada circunstância histórica. As ansiedades contemporâneas a respeito dos efeitos das mídias sobre as crianças refletem em parte o deslocamento de preocupações muito mais amplas com relação à mudança social; mas elas são também uma resposta às mudanças tecnológicas e culturais nas próprias mídias, mudanças que, como destaquei anteriormente, estão inextricavelmente ligadas à busca de novos mercados. É claro que precisamos pensar duas vezes antes de assumir que as manchetes e editoriais da imprensa popular sejam necessariamente um sinônimo da opinião pública. Ainda assim, o ritmo acelerado da mudança nos sugere que essas preocupações tendam a se intensificar nos próximos anos. Se o debate público sobre a relação entre as crianças e as mídias tornou-se mais preocupado em defender as crianças do mal – em um tipo de protecionismo moral – os discursos que circulam no interior das indústrias da mídia parecem se mover em outra direção. Ali, as crianças não são mais vistas como basicamente inocentes e vulneráveis à influência. Ao contrário, elas são cada vez mais consideradas consumidoras midiáticas sábias, sofisticadas e exigentes. A tentativa de proteger e educar as crianças através de mídias como a televisão tem sido cada vez mais condenada como paternalismo e condescendência. Os adultos - argumenta-se – vêm falando em ‘tatibitate’ com as crianças há tempo demais. Não é da conta deles - pelo menos no contexto da cultura popular - ficar dizendo para as crianças o que elas devem ou não pensar. Este argumento deriva, por um lado, de uma ênfase explicitamente liberacionista nos ‘direitos das crianças’; mas a ele também aderem entusiasticamente aqueles que celebram o papel das crianças como consumidoras. Para estes, a comercialização da cultura midiática infantil não é uma questão de exploração, e sim, pelo contrário, um meio de libertação. No novo ambiente orientado pelo mercado, comenta-se, as crianças pelo menos estão adquirindo o poder de tomar suas próprias decisões a respeito do que vão experimentar e conhecer, sem que as mãos controladoras dos adultos intervenham, pretendendo saber o que é bom para elas. Esse tipo de mudança é claramente visível na história recente da televisão para criançascxcix. A abordagem amplamente ‘centrada na criança’, que floresceu na Grã-Bretanha sob o duopólio regulamentado entre a BBC e as empresas comerciais durante as décadas de 1960 e 1970, perde cada vez mais espaço para uma abordagem essencialmente consumista. O espectador infantil não é mais visto enquanto uma consciência em desenvolvimento, como no contexto da imaginação psicológica, mas enquanto um consumidor sofisticado, crítico e que sabe diferenciar, um agente independente 63 dentro do mercado. As crianças se tornaram ‘kids’; e os kids, nos dizem, são ‘espertos’, ‘sabidos’ e ’conhecedores da cultura das ruas’. Acima de tudo, as crianças são ‘alfabetizadas em mídia’. Elas são difíceis de satisfazer; elas compreendem as estratégias de enganação e manipulação; e não querem ser tratadas com paternalismo. As crianças sabem o que querem da mídia – e é tarefa dos adultos oferecer isso a elas ao invés de recair em suas próprias crenças sobre o que é bom para elas. Esse discurso conecta-se freqüentemente, por sua vez, aos debates em torno dos direitos das crianças. Internacionalmente, o expoente mais bem sucedido no uso destes discursos tem sido o canal infantil Nickelodeon, inteiramente dedicado às crianças. O que encontramos aqui é uma retórica de ‘empoderamento’, uma noção do canal como uma ‘zona exclusiva das crianças ’, que dá voz a elas, que leva em conta o ponto de vista delas, que é amiga delas. Esse discurso está bem explícito nas declarações dos executivos da Nickelodeoncc, sendo também reforçado pela publicidade e pelas vinhetas que aparecem na tela entre um programa e outro. De modo significativo, as crianças parecem ser definidas aí primeiramente por sua condição de não-adultos. Os adultos são chatos, as crianças são divertidas. Os adultos são conservadores; as crianças são cheias de vida e inovadoras. Os adultos nunca irão entender; as crianças intuitivamente já sabem. Essas mudanças discursivas refletem claramente mudanças mais amplas no status das crianças como um grupo social distinto, como foi identificado no capítulo anterior. O que mais impressiona aqui, entretanto, é a aliança entre as mudanças econômicas e as sociais: existe uma confusão fundamental, um embaralhamento, entre a noção das crianças como cidadãs reais ou potenciais e a noção das crianças como consumidoras.No discurso da Nickelodeon, por exemplo, os ‘direitos’ mencionados são essencialmente os direitos do consumidor. As crianças têm o direito de consumir as coisas que os adultos lhes oferecem; e se as crianças têm sua própria cultura, trata-se de uma cultura criada para elas quase que inteiramente pelos adultos – uma cultura que,na verdade, eles venderam a elas. Do mesmo modo, as repetidas declarações dos produtores de que as crianças são espectadoras ‘exigentes’ ou ‘alfabetizadas em mídia’ parecem muitas vezes significar simplesmente que elas mudam rapidamente de canal quando vêem algo de que não gostam. Na prática, portanto, este discurso não define as crianças como atores sociais e políticos independentes, e muito menos lhes oferece responsabilidade ou controle democráticos: é o discurso da soberania do consumidor fantasiado de discurso dos direitos culturais. Em última análise, porém, a questão de se as crianças podem ser vistas como um público ‘ativo’ ou como vítimas ‘passivas’ das mídias – e se as mudanças encorajam uma ou outra dessas tendências – não pode ser respondida de forma abstrata. O poder da mídia não é um jogo de ‘soma- zero’, no qual os públicos ou são poderosos ou não têm qualquer poder. Na verdade, como sugeri, o padrão das mudanças contemporâneas levanta questões que vão além de escolhas do tipo ou/ou, tão tipicamente recorrentes neste debate; para investigá-las, precisamos levar em conta as diversas maneiras com que os públicos usam e interpretam as mídias, e os contextos sociais em que o fazem. Como examinarei no capítulo 6, as definições de público infantil que circulam na pesquisa acadêmica também estão mudando neste sentido; muito embora seja certamente discutível em que medida estas novas idéias levam suficientemente em consideração as mudanças mais amplas no ambiente midiático que procurei esquematizar aqui. De volta às fronteiras Falando em termos gerais, é possível identificar dois conjuntos de forças em ação nas mudanças que venho descrevendo. Podemos chamá-las de centrífugas e centrípetas. Por um lado, há forças que puxam para fora do centro, em direção à fragmentação, à diferenciação e à individualização. Do outro lado, há forças que reafirmam o controle centralizado, o poder do estado e do capital – forças de homogeneização e uniformidade. Essas forças operam tanto no macro-nível da política cultural quanto no micro-nível da experiência cotidiana da cultura: elas caracterizam o nacional ou o global e o local ou o doméstico. Muitas das mudanças orientam-se por uma complexa 64 combinação das duas tendências; e é por este motivo que suas conseqüências políticas e culturais tendem a se revelar bastante contraditórias. Assim, as novas tecnologias estão provocando uma convergência de mídias e formas de comunicação até então separadas, que está amplamente sujeita às operações do capitalismo global. Poderíamos dizer que as mídias estão se fundindo em uma forma de intertextualidade infinita, orientada pela mercantilização – uma cultura de consumo que efetivamente engole tudo que estiver em seu caminho. Porém, poderia igualmente ser argumentado que essas mesmas tecnologias abalam as formas tradicionais de regulação e de controle. Elas permitem que os ‘leitores’ escrevam seus próprios textos, ou desconstruam e reescrevam textos pré-existentes de muitas maneiras diferentes. As restrições geográficas e as hierarquias socialmente estabelecidas não mais se aplicam, uma vez que as mídias e os canais de comunicação estão continuamente se tornando mais abertos a todos – ou pelo menos aos que podem pagar por eles. Retomando a metáfora que usamos anteriormente, as fronteiras estão sendo atravessadas e embaralhadas de todas as formas. As distinções entre a produção e o consumo, entre comunicação interpessoal e de massa, entre alta cultura e cultura popular – tudo isso, argumenta-se, parece mais e mais irrelevante e redundante. Só que por outro lado as fronteiras também estão sendo reafirmadas e redesenhadas. O consumo e a produção de mídia tornam-se cada vez mais individualizados e privatizados; enquanto isso, o fosso entre os que têm e os que não têm acesso às novas tecnologias alarga-se continuamente. As implicações dessas mudanças para as crianças – e para a relação entre adultos e crianças - também têm duas faces. De um lado, as fronteiras parecem estar se diluindo. Muito mais do que com a televisão aberta, as novas tecnologias de mídia permitem o acesso das crianças a materiais antes restritos aos adultos. O vídeo, a internet, a televisão a cabo e a satélite tornam o que Neil Postman chama de ‘segredos adultos’ muito mais disponíveis às crianças do que faz a TV aberta. Também não é mais possível segregar as crianças do mundo do consumo: mesmo que não tenham renda para gastar, elas são cada vez mais endereçadas enquanto consumidores autônomos, encorajadas a tomar suas próprias decisões a respeito do que vão comprar, assistir e ler. Via internet, elas podem se comunicar muito mais facilmente umas com as outras e com os adultos, sem mesmo terem que se identificar como crianças. E até mesmo nos materiais produzidos explicitamente para crianças há reflexões sobre aspectos do mundo antes considerados inapropriados para que elas os vissem ou deles soubessem. Enquanto isso, outras fronteiras são claramente reafirmadas. Na medida em que aumenta o acesso das crianças às tecnologias, elas não têm mais que ler ou assistir o que seus pais escolhem. Na medida em que o ‘nicho de mercado’ infantil cresce em importância, as crianças têm cada vez mais condições de se restringirem às mídias produzidas especificamente para elas. Além do mais, as novas formas culturais ‘pós-modernas’ que caracterizam a cultura infanto-juvenil são, em muitos aspectos, altamente excludentes para os adultos: elas dependem de competências culturais particulares e de um conhecimento prévio de textos midiáticos específicos (em outras palavras, de uma forma de alfabetização midiática) disponíveis apenas aos mais jovens. Enquanto as crianças podem estar compartilhando cada vez mais de uma cultura global de mídia com crianças de outras partes do mundo, talvez estejam compartilhando cada vez menos com seus próprios pais. Precisamos, porém, estabelecer algumas distinções. São principalmente as crianças mais velhas as que estão ganhando acesso às mídias dos ‘adultos’, enquanto as crianças pequenas são as que estão sendo mais agressivamente alvejadas como um nicho de mercado. Se a fronteira entre as crianças mais velhas e os ‘jovens’ pode estar se diluindo, o fosso entre as crianças mais novas e as mais velhas pode estar se alargando. Ao mesmo tempo, não é apenas o público infantil que está sendo redefinido, mas também os públicos ‘jovem’ e ‘adulto’. Enquanto muitas crianças mais velhas aspiram cada vez mais à liberdade que elas imaginam existir na ‘juventude’, muitos adultos, inversamente, parecem deliciar-se com a irresponsabilidade e a subversão que identificam com a infânciacci. 65 Assim, a idade em que a infância termina – pelo menos, no que se refere às indústrias de mídia – parece estar continuamente diminuindo. Os produtores de televisão para crianças, por exemplo, reconhecem que o grosso da audiência das crianças mais velhas é dedicado à programação ‘adulta’, e que o conteúdo e o estilo dos programas destinados a elas refletem isso claramente. As questões sociais levantadas por uma novela infantil como Grange Hill, por exemplo, têm muito em comum com aquelas presentes nas novelas para adultos como EastEnders; enquanto o estilo visual e o ritmo dos programas de variedades para jovens, como Live and Kicking, claramente influenciaram a abordagem de programas ‘adultos’ como The Big Breakfast. Se é verdade que alguns críticos sempre reclamaram da precocidade dos programas infantis, outros estão agora começando a se queixar do que vêem como uma infantilização da televisão ‘adulta’. Poroutro lado, a categoria ‘juventude’ tornou-se extremamente elástica, parecendo se estender cada vez mais para cimaccii. No entusiasmo compartilhado pela música pop, roupas esportivas Nike, Nintendo e South Park, por exemplo, pessoas de 10 a 40 anos fazem parte de um mercado ‘juvenil’ que é bastante e conscientemente diferente de um mercado ‘familiar’. Nesse ambiente, a ‘juventude’ é percebida como uma escolha de estilo de vida, definida pela sua relação com marcas e mercadorias específicas, e também disponível para aqueles que estão bem fora dos seus limites biológicos (que são de qualquer modo fluidos). Na ‘televisão jovem’ e também no mercado de música popular, a ‘juventude’ possui um sentido simbólico que tanto pode se referir a identidades fantasiosas como a possibilidades materiais – um fenômeno que por si só ajuda a aumentar sua audiência e conseqüentemente seu valor de mercado. As campanhas publicitárias recentes do jogo de computador Mortal Kombat e do Sony Playstation, por exemplo, têm sido explicitamente endereçadas aos jovens adultos, sugerindo que os equipamentos estão sendo comercializados como um brinquedo aceitável para adultos. Também aqui, isso tem levado alguns comentadores a sugerir que os adultos, e particularmente o homem adulto, estão sendo encorajados a refugiar-se nas fantasias ‘imaturas’ da adolescênciacciii. Talvez o exemplo mais impressionante desta confusão de categorias etárias nos últimos anos tenha sido o sucesso cult da série pré-escolar da BBC Teletubbies, lançada em 1997. Longe de agradar apenas às crianças com menos de 5 anos, a série atraiu um público considerável entre crianças bem mais velhas, evidenciado em websites ‘não-oficiais’, em roupas e até mesmo em artigos em revistas de moda. Enquanto esse interesse pode ter sido em parte meramente nostálgico, sem dúvida foi para muitos irônico e usado como ‘criancice’ subversiva - e embora o fenômeno tenha sem dúvida gerado muito dinheiro, a BBC fez o que pôde para desencorajar o que considerou um entusiasmo ‘inapropriado’cciv. Como argumentou Marsha Kinderccv, esta reconfiguração das relações entre as gerações é altamente paradoxal. De um lado, existe um ‘exagero do conflito de gerações’, até mesmo um tipo de guerra de gerações, visível tanto nas mídias (por exemplo, nas estratégias promocionais da Nickelodeon, ou em filmes como Home Aloneccvi e em campanhas políticas). Ao mesmo tempo, existem novas formas de ‘endereçamento transgeracional’ que permitem que o mesmo produto seja comercializado para diferentes gerações. De acordo com Kinder, esta convergência entre gerações funciona em mão dupla: Não apenas os espectadores adultos estão ‘pedocratizados’ mas também os jovens espectadores estão sendo encorajados a adotar o gosto do adulto, criando-se posições de sujeitos para um público dualista composto de adultos infantilizados e de crianças precoces. Tais posições de sujeito parecem fornecer um ilusório sentido de empoderamento, tanto para as crianças que querem acelerar seu crescimento aderindo à cultura consumista, como para os adultos que querem manter sua juventude acompanhando os modismos mais recentes da cultura popccvii. Como sugerem esses exemplos, portanto, os modos como os consumidores são diferenciados, pelo menos em termos de idade, estão se tornando mais fluidos, complexos e incertos. Como observei, a retórica oficial das indústrias de mídia representa as crianças cada vez mais como um público ativo e 66 capaz de fazer diferenciações: longe de serem maleáveis e facilmente exploráveis, elas são vistas como extremamente difíceis de atrair e controlar. Mesmo assim, no ambiente cada vez mais competitivo das mídias contemporâneas, tais distinções assumem uma importância comercial crescente. Quantos anos você tem – ou quantos anos você imagina ter – é cada vez mais definido por aquilo que você consome. Nessa medida, a ‘infância’, assim como a ‘juventude’ tornou-se ela própria uma mercadoria simbólicaccviii. Infâncias midiáticas em mudança Em muitos sentidos podemos dizer, portanto, que as mudanças nas mídias reforçam as mudanças na infância identificadas no capítulo anterior – e são por elas reforçadas. Em termos gerais, as mudanças nessas duas esferas parecem se caracterizar por um sentimento crescente de instabilidade e insegurança: diferenciações e hierarquias estabelecidas se rompem, à medida que emergem novas formas culturais e identidades. Nessas duas esferas, as crianças parecem estar muito mais difíceis de definir e controlar. Há porém o perigo específico de se cair na retórica pós-modernista, como se tudo o que é sólido acabasse mesmo se desmanchando no ar. Esse tipo de tese parece com freqüência representar o abandono da explicação, uma dissolução na indiferença e na fluidez infinitas. Ela pode nos levar a negligenciar as continuidades e as contradições que estão em jogo; e pode chegar a tornar todo tipo de intervenção impossível ou redundante. Neste capítulo e no anterior, destaquei várias tendências que contradizem esta visão. Assim, como venho sustentando, as fronteiras entre crianças e adultos estão sendo reforçadas, e ao mesmo tempo atenuadas, tanto em relação à mídia quando num sentido mais amplo. A separação entre os mundos sociais e midáticos de crianças e adultos torna-se mais aparente, mesmo que os termos dessa separação estejam sendo reconfigurados. Em um certo nível, as crianças mais velhas não podem mais ser tão facilmente protegidas de experiências que eram tidas como moralmente prejudiciais ou inadequadas ao desenvolvimento. Os muros que cercam o jardim sagrado da infância ficaram muito mais fáceis de pular. E, contudo, as crianças, principalmente as crianças pequenas, participam cada vez mais de mundos culturais e sociais que são inacessíveis, e mesmo incompreensíveis, para seus pais. Do mesmo modo, as crianças estão ganhando poder, tanto como cidadãs quanto como consumidoras; muito embora em ambos os casos a natureza deste ganho de poder tenha claras limitações. As crianças são vistas cada vez mais como um mercado específico; neste processo, suas características e necessidades têm sido mais amplamente investigadas e reconhecidas – e, até certo ponto, atendidas. Porém, as formas como as crianças expressam sua próprias necessidades são muito restritas aos termos adultos: em grande medida, elas só conseguem afirmar sua necessidade em relação aos serviços e produtos que os adultos lhes podem prover. Nos debates a respeito das mudanças na natureza do ensino, e da oferta de lazer e de mídia, as vozes das crianças ainda são raramente ouvidas. A educação, por exemplo, foi redefinida como um serviço prestado ao consumidor – muito embora aqui os consumidores sejam os pais ao invés de as próprias crianças. Do mesmo modo, apesar da entusiástica perseguição às crianças enquanto consumidoras, o grau de responsabilidade democrática dos meios de comunicação ainda é insignificante. Enfim, os direitos autônomos das crianças – como consumidores ou como cidadãs – continuam a ser apenas vagamente reconhecidos. Nesse quadro, as atividades de lazer das crianças vão se tornando continuamente mais privatizadas e comercializadas. Elas passam a maior parte de seu tempo em casa ou em algum tipo de atividade supervisionada; enquanto isso, os produtos e serviços culturais que elas consomem têm cada vez mais que ser pagos em dinheiro vivo. Os espaços públicos da infância – tanto o espaço físico da brincadeira como os espaços virtuais do rádio e da televisão – caem em declínio ou são invadidos pelo mercado. Uma conseqüência inevitável disso é que, para as crianças tanto o mundo social quanto o da mídia estão se tornando cada vez mais desiguais. A polarização entre ricos e pobres é positivamente reforçada pela comercialização das mídias e pelo declínio do que o setor público proporciona. As 67 crianças mais pobres simplesmente têm menos acesso aos bens e serviços culturais:elas vivem não apenas em mundos sociais diferentes, mas também em mundos midiáticos diferentes. Permanece ainda a questão de que todas essas mudanças envolvem significativas oportunidades criativas e democráticas, particularmente no potencial que oferecem às crianças de se tornarem elas mesmas produtoras de mídia. As novas tecnologias trazem ao alcance das crianças meios de comunicação e de expressão cultural que lhes eram até então inacessíveis e que podem fazer suas visões e perspectivas serem muito mais amplamente ouvidas. Longe de contribuir para a polarização social, as mídias poderiam ser um meio de habilitar as crianças a se comunicarem através das diferenças. Entretanto, estas mudanças não se darão automaticamente, ou como simples resultado da disponibilização de equipamentos. Como discutirei adiante, precisaremos de intervenções muito mais criativas e orquestradas ao nível das políticas sociais e culturais, se quisermos que os direitos das crianças como produtoras e consumidoras das mídias eletrônicas se realizem mais plenamente. CAPÍTULO 6 Paradigmas em mudança Na introdução a este livro, argumentei que a ‘infância’ deveria ser compreendida como uma construção social. Isso não quer dizer que os indivíduos reais que chamamos de crianças de alguma forma não existam, ou que sejam só produto da imaginação coletiva. O que se quer dizer é apenas que a idéia de infância, e os pensamentos e emoções a ela vinculados, não são dados ou fixos: ao contrário, estão sujeitos a um contínuo processo de definição – a uma luta social pelo significado. Sugeri na introdução que a ‘infância’ era definida por meio de dois tipos de discursos: aqueles para as crianças e aqueles sobre elas. Meu foco principal, nos capítulos anteriores, foram os discursos endereçados ao público infantil – isto é, os textos midiáticos produzidos para as crianças, e as condições em que são produzidos, distribuídos e consumidos. Neste capítulo vou examinar os discursos sobre os públicos infantis – e, em particular, os diversos modos como as relações das crianças com as mídias eletrônicas têm sido definidas e debatidas no contexto da pesquisas acadêmicas. É claro que essas pesquisas não podem ser vistas de modo isolado, como uma mera busca da verdade científica, alheia a outros interesses. De fato, neste caso, a pesquisa tem sido fortemente determinada pelos tipos de discurso que tendem a dominar a arena pública mais ampla. E os pesquisadores são chamados a responder principalmente ao discurso dos políticos e dos jornalistas; para começar, é esse mesmo discurso que implicitamente define os parâmetros das pesquisas que tendem a receber financiamento. O discurso acadêmico sobre a audiência infantil tem que competir por autoridade e credibilidade com esses discursos mais populares, assim como com os da própria indústria da mídia. Esses discursos, porém, muitas vezes dão a idéia de que estamos todos falando sobre o mesmo objeto – ou seja, o público infantil. Quero sugerir que, ao contrário, estamos todos engajados na construção desse objeto, buscando atender aos nossos próprios interesses e objetivos. Assim, descrevemos, medimos e analisamos o público de diferentes modos; expressamos nossas preocupações e ansiedades a respeito dele; nós o observamos, o contamos, o interrogamos, fazemos experiências com ele; tentamos entretê-lo, informá-lo; manipulá-lo, empoderá-lo; e alguns de nós até gostam de imaginar que estão falando em nome desse público, ou ‘dando-lhe uma voz’. Porém, não importa o quanto essas atividades possam ser objetivas ou abertas, elas inevitavelmente definem o público a partir de modos parciais e particulares. Da cobertura sensacionalista na imprensa sobre casos de crianças corrompidas pela violência da mídia, até as complexidades técnicas da pesquisa de mercado e as preocupações 68 às vezes obscuras dos artigos acadêmicos, o processo de definir o público infantil é, em si mesmo, um tipo de indústria. O caso mais óbvio talvez seja a imprensa: as reportagens sobre ‘crianças em situações de risco’ são adequadas ao tipo de sensacionalismo que vende jornais - um fenômeno que se tornou muito mais proeminente, à medida em que as fronteiras entre o jornalismo ‘popular’ e o ‘de qualidade’ tornaram-se cada vez mais embaralhadasccix. Isso também acontece na pesquisa acadêmica. A relação entre as crianças e a mídia tem sido o foco de um empreendimento massivo de pesquisa, gerando milhares e milhares de estudos, financiados (por diversas razões) tanto por agências de governo como pelas próprias indústrias da mídia. Tem havido mais pesquisa e debate sobre este setor do público midiático do que sobre qualquer outro, um fenômeno que por si só reflete a complexidade dos investimentos emocionais, políticos e econômicos na idéia de infância. De qualquer modo, seja qual for a posição de onde falamos, estamos nos engajando em um discurso que nós, enquanto adultos, essencialmente controlamos, se é que não monopolizamos completamente. Tanto na academia como em outros contextos nos quais as relações das crianças com as mídias são discutidas e debatidas, o discurso sobre os públicos das mídias é inevitavelmente um discurso sobre outras pessoas. Neste processo, inevitavelmente nos posicionamos a respeito de quem são essas outras pessoas – e neste caso, a respeito do que é ou deveria ser a ‘infância’. Esses posicionamentos podem ser silenciosos, mas mesmo assim permeiam tudo o que fazemos: informam nossas perguntas, os métodos de investigação que adotamos e os critérios que usamos para definir o que deve ser considerado conhecimento válido. Alguns críticos vão mais longe. O público em si, eles argumentam, não apenas é uma construção, mas um tipo de ‘ficção invisível’ccx. É algo que imaginamos ou a respeito do qual fantasiamos, mas que nunca conseguiremos conhecer definitivamente. Isto estaria ocorrendo cada vez mais com as próprias indústrias da mídia. Ien Ang por exemplo, sugere que a indústria da televisão está agora às voltas com uma batalha perdida pelo controle e pela definição de seu públicoccxi. Na era da TV multi-canal, do vídeo e do controle remoto, ela argumenta, o comportamento dos públicos tornou-se cada vez mais difícil de prever. As pesquisas sobre índices de audiência são usadas como defesa contra a insegurança que esta situação gera, ainda que isso equivalha, a rigor, à perseguição de uma quimera.ccxii . Em suas versões mais extremas, esse argumento parece sugerir que os ‘públicos reais’ não passam de mero produto da imaginação da indústria ou mesmo dos pesquisadores. Para nós, acadêmicos, isto gera uma situação em que podemos ficar no conforto das nossas universidades, debatendo a validade retórica das construções discursivas a respeito dos públicos formuladas por outras pessoas, sem nunca termos que sujar as mãos com a realidade empíricaccxiii. Minha posição aqui é menos radicalmente construtivista. Acredito que existam públicos de verdade no mundo lá fora, mesmo que só possamos conhecê-los a partir de nossas próprias construções e representações. Mesmo reconhecendo que nunca haverá um acordo final, defendo que estas construções podem e devem ser julgadas em termos da validade de suas evidências empíricas e da coerência e da lógica de seus argumentos teóricos. Além do mais, essas construções claramente fazem uma diferença na vida das crianças reais: elas informam as criação das políticas culturais e as práticas de regulamentação e produção de mídia, assim como as ações de pais e professores. Como já argumentei, as visões contemporâneas acerca das relações das crianças com as mídias se caracterizam por duas formas contrastantes de sentimentalismo. De um lado, um sentimentalismo que é nosso velho conhecido: a construção da criança como inocente e vulnerável, e portanto carente da proteção dos adultos. De outro lado, um sentimentalismo mais contemporâneo: a construção da criança como conhecedorada mídia, como audiência ativa, possuidora de um tipo de sabedoria natural que orienta seu envolvimento com as novas 69 mídias e tecnologias. De modo geral, é a primeira visão que domina a arena pública, enquanto a segunda é cada vez mais adotada pelas indústrias. Mesmo no campo mais especializado da pesquisa acadêmica, os debates sobre as relações das crianças com as mídias freqüentemente se reduzem a uma escolha simples entre essas duas posições: se uma é falsa, então a outra deve necessariamente ser verdadeira. Meu primeiro objetivo neste capítulo é identificar os limites desses debates, buscando apontar para além deles. Como deixei implícito, ambas as concepções derivam de visões essencialistas da infância e das mídias eletrônicas; e ambas parecem refletir uma noção da criança enquanto consciência individual isolada. Em contraste, eu gostaria de defender uma abordagem mais plenamente social das relações entre as crianças e as mídias, capaz de situar nossa análise sobre os públicos em uma compreensão mais ampla da mudança social, institucional e histórica. Não é minha intenção oferecer aqui uma crítica abrangente da pesquisa acadêmica sobre a audiência infantil: várias revisões críticas desse tipo podem ser facilmente encontradas em outros lugaresccxiv. Meu objetivo é simplesmente propor algumas indicações da mudança nos modos como o objeto desta pesquisa – o público infantil – tem sido conceituado e definido, especialmente em trabalhos mais recentes. Ao fazê-lo, também pretendo apresentar algumas das preocupações e orientações teóricas básicas da minha própria pesquisa e assim expor a fundamentação das investigações mais específicas que serão relatadas nos capítulos seguintes. Ação e reação É possível ver a história da pesquisa acadêmica sobre as audiências como um contínuo processo de ação e reação, como um pêndulo que balança constantemente entre ‘a mídia poderosa’ e ‘os públicos poderosos’. Em um sentido amplo, nas duas últimas décadas houve um direcionamento decisivo para o poder da audiência, em muitas disciplinas e campos de investigação. Os públicos - afirma-se repetidamente - não se compõem de bobalhões dopados pela influência da mídia. Ao contrário, eles fazem julgamentos complexos e diferenciados a respeito do que lêem e assistem. São ativos e não passivos; críticos e não crédulos; criteriosos e não inconscientes; diversificados e não homogêneos. Como fica implícito, é freqüente nesses debates uma lógica dual implacável: ou é uma coisa, ou é a outra; isto é o que, a meu ver, precisa urgentemente ser questionado. Historicamente, a tradição dominante, em especial nos Estados Unidos, tem sido a pesquisa dos ‘efeitos’. Por motivos que refletem pressupostos subjacentes a respeito da infância, esta tradição continua a ser mais influente em relação às crianças do que em relação aos adultos. O paradigma dessas pesquisas se estabeleceu em grande medida por meio das primeiras experiências de laboratório sobre os efeitos da violência nas mídias. Baseadas em uma forma de behaviorismo ou ‘teoria da aprendizagem social’, essas pesquisas buscavam demonstrar conexões causais entre estímulos violentos e respostas agressivas; e foi esse modelo dos ‘efeitos’ que depois passou a informar a pesquisa em áreas como os estereótipos de papéis sexuais e a influência da propaganda. Em seu desenvolvimento, entretanto, a pesquisa dos efeitos tem cada vez mais enfatizado o papel das ‘variáveis intervenientes’ que atuam na mediação entre os públicos e as mídias. Longe de compreender os públicos como uma massa indiferenciada, os estudos psicológicos mais recentes tendem a se concentrar nas ‘diferenças individuais’ que levam os espectadores a responder de modos diferentes às mesmas mensagens. Como resultado, as estimativas a respeito do poder das mídias vêm sendo significativamente revisadas. Assim, como veremos no capítulo 8, a pesquisa sobre os efeitos da propaganda de televisão tem contestado cada vez mais a visão de que as crianças são simplesmente vítimas 70 passivas dos artifícios sedutores dos ‘persuasores ocultos’ccxv. Do mesmo modo, as pesquisas sobre a influência dos estereótipos sexuais questionam a idéia de que representações sexistas resultem necessariamente em atitudes sexistas, e que os ‘espectadores assíduos’ tendam portanto a adotar papéis mais tradicionaisccxvi. Nesse processo, a idéia de que ver televisão inevitavelmente substitui atividades mais ‘construtivas’ tais como a leitura de livros, ou a de que ela leva ao declínio da alfabetização gráfica, têm sido sistematicamente abaladas ccxvii. Em cada uma destas áreas, a influência potencial das mídias é cada vez mais estudada levando em conta as outras influências e forças sociais na vida das crianças. Como veremos no capítulo 7, é apenas na área da violência nas mídias que a noção de ‘efeitos diretos’ continua a dominar o campo, um fenômeno que é sintomático dos investimentos políticos mais amplos que estão em jogo. Rumo à audiência ativa Ao longo das duas últimas décadas, os pesquisadores no campo da Psicologia afastaram-se cada vez mais de uma perspectiva behaviorista, aproximando-se de perspectivas construtivistas (ou cognitivistas) – passando do foco no estímulo-resposta para o estudo dos modos como a criança entende, interpreta e avalia o que assiste e lê. As crianças não são vistas aqui como receptores passivos das mensagens da mídia, mas como processadores ativos de significados. Ao dar sentido às mídias, compreende-se que elas usem ‘esquemas’ ou ‘roteiros’; conjuntos de planos e expectativas que construíram a partir de suas experiências anteriores, tanto da mídia como do mundo em geral. Nesta perspectiva, o significado dos textos midiáticos não é apenas entregue ao público, mas construído por eleccxviii. Ao estudar a compreensão das crianças sobre a mídia, os psicólogos cognitivistas vêm tendendo a se concentrar nos aspectos ‘micro’ ao invés de nos ‘macro’, nas formas específicas de processamento mental, mais do que nas questões relativas ao papel das mídias na formação de atitudes e crenças. Assim, por exemplo, existem estudos detalhados sobre a atenção da criança à televisão; sobre o desenvolvimento de sua compreensão sobre as narrativas da mídia; sobre as relações entre ‘sistemas simbólicos’ e estilos de processamento cognitivo; e sobre a habilidade das crianças de interpretar as características formais da televisão. A maioria destas pesquisas usa uma abordagem piagetiana , tentando identificar ‘idades e estágios’ no desenvolvimento da compreensão da criança sobre as mídiasccxix. Um bom exemplo dessa abordagem pode ser encontrado nas pesquisas sobre o julgamento das crianças sobre a relação entre televisão e realidade. De um ponto-de-vista construtivista, compreende-se que esses julgamentos dependam tanto do desenvolvimento cognitivo geral da criança como da sua experiência com o meio de comunicação em si e com o mundo realccxx. Assim, em termos de desenvolvimento, as crianças gradualmente adquirem a habilidade para se ‘descentrar’, e a partir daí construir hipóteses a respeito das intenções dos produtores de mídia. Ao mesmo tempo, elas também aprendem a usar ‘pistas’ formais ou genéricas, e constroem um conjunto de conhecimentos cada vez maior a respeito dos processos de produção de televisão – por exemplo, sobre efeitos especiais, práticas de trabalho dos atores – que as tornam capazes de distinguir as mensagens em que elas se dispõem a confiar, em meio às demais. Por fim, as crianças são cada vez mais capazes de recorrer a seu próprio conhecimento ou crenças a respeito do mundo real, com o objetivo de avaliar a plausibilidade ou a autenticidade daquilo que assistem. A pesquisa neste campo sugere que até mesmo crianças pequenas (com seis ou sete anos de idade) são capazes de realizar julgamentos bastante complexos a respeito do status de realidade da televisão: longe deconsiderar o meio como uma ‘janela para o mundo’, elas empregam conjuntos de critérios diversos e potencialmente contraditórios para avaliar até que ponto ele está representando a realidade. Quando chegam ao início da adolescência, as 71 crianças começam a ter consciência do realismo enquanto uma categoria estética: conseguem apreciar o cuidado necessário para criar a ilusão de realismo, ao mesmo tempo em que a reconhecem como ilusão. Essas pesquisas, assim, corrigem de um modo importante a visão tradicional de que as crianças são incapazes de distinguir a televisão da realidade, uma visão freqüentemente expressa no debate público, e que ainda parece ser implicitamente compartilhada por alguns pesquisadores, sobretudo com relação à violência na tela. Como este exemplo sugere, a abordagem construtivista é uma alternativa valiosa ao behaviorismo da pesquisa dos ‘efeitos’. Mas ela também tem limitações significativas. O conceito de ‘atividade’ (um termo problemático, em todo caso) é ainda amplamente compreendido aqui em termos individualizados e não-sociais: como algo que acontece no encontro isolado entre a mente e o meio, ao invés de nos processos sociais da interação cotidiana. Além disso, a ‘atividade’ parece muitas vezes ser concebida como uma ‘variável interveniente’ em um processo que ainda é visto como sendo essencialmente de causa e efeito. Assim, os processos cognitivos por meio dos quais as crianças atribuem sentidos à propaganda, por exemplo, são vistos como mediadores entre estímulo e resposta – eles representam o que muitas vezes é significativamente definido como sendo ‘diferenças individuais’. Esses limites teóricos também se manifestam nos problemas metodológicos encontrados na maioria de tais pesquisas. Muitos dos procedimentos metodológicos básicos – especialmente os experimentos de laboratório – parecem ter sido importados por atacado da pesquisa dos efeitos. Assim como na pesquisa dos efeitos, a maioria destes trabalhos parece pressupor que uma atividade como ver televisão pode ser concebida em termos de uma série de variáveis, cuja natureza e sentido podem ser avaliados de antemão por meio do uso de medições objetivas e instrumentos. Estas variáveis podem então ser sistematicamente controladas na situação experimental, por exemplo, por meio da ‘combinação’ de grupos de sujeitos. No mínimo, não se pode ir muito longe ao extrapolar as descobertas de tais trabalhos para as situações de vida real. Enquanto isso, a pesquisa psicológica a respeito das crianças e da mídia tem permanecido bastante à margem de algumas das mudanças mais drásticas que ocorreram dentro do campo mais amplo da psicologia ao longo dos últimos vinte anos – cito como exemplos o desenvolvimento do trabalho da cognição socialmente situada, a influência da teoria psicanalítica, e a emergência da ‘psicologia discursiva’ e da ‘psicologia critica’ccxxi. Neste contexto, a psicologia do desenvolvimento tem sido cada vez mais criticada por sua supersimplificação dos contextos sociais das vidas das crianças, por seu descaso com as emoções e por seu apoio em idéias evolucionistas. Os psicólogos do desenvolvimento com freqüência são acusados de apresentar modelos de desenvolvimento ‘saudável’ social e culturalmente específicos como se fossem normas universais, e de estarem ligados ao controle e regulamentação repressivos de mães e crianças, por meio de várias formas de medições e testes. O desenvolvimentismo é visto cada vez mais, assim, como não-social, não-histórico e individualista. Desse ponto-de-vista mais crítico, há problemas significativos com o ‘mapa’ da mente humana que é oferecido por essas pesquisas. Os psicólogos cognitivistas que têm estudado as relações das crianças com as mídias continuam a crer que podem fazer distinções claras, por exemplo, entre cognição e afetividade (ou emoção), ou entre atitudes e comportamento, e que estas categorias podem ser facilmente avaliadas por meio de medidas e índices mecânicos e de testes psicométricos. Porém, a idéia de que tais fenômenos mentais existam, e que possam ser estudados isoladamente em relação aos processos sociais e interpessoais mais amplos, tem sido amplamente questionada. Do mesmo modo, muitas destas pesquisas implicitamente adotam uma visão racionalista do desenvolvimento da criança como uma progressão contínua em direção à 72 maturidade e à racionalidade adultas. No caso dos trabalhos sobre crianças e a mídia, a abordagem desenvolvimentista inevitavelmente privilegia certos tipos de julgamento (em especial julgamentos racionais, ‘críticos’) em detrimento de outros. Em contrapartida, tem havido muito pouco envolvimento com as questões relativas ao prazer (ou desprazer) e à fantasia. Nesta perspectiva, o telespectador crítico ideal é visto como se estivesse cercado por uma armadura de caráter racionalista que o protege das ilusões prazerosas promovidas pelas mídias. Públicos sociais É importante distinguir esse tipo de pesquisa, com ênfase psicológica, das análises de cunho mais sociológico do público infantil que recentemente começaram a emergir nos Estudos Culturais e da Comunicação, ainda que as duas tenham algumas coisas em comum. Também neste último campo tem havido em geral um afastamento da discussão sobre os efeitos, e uma preocupação maior com os significados e usos das mídias; mas tem também havido uma ênfase muito mais forte na localização dos usos das mídias no contexto amplo das relações sociais e interpessoais. O livro de Bob Hodge e David Tripp, Children and Television foi uma das primeiras tentativas de desenvolver esta abordagem do público infantilccxxii. Hodge e Tripp usam a abordagem de uma ‘semiótica social’, tanto para a análise da programação infantil quanto para os dados da audiência. Em comum com os construtivistas, eles consideram as crianças como produtoras ‘ativas’ de significado, e não como consumidoras passivas; apesar disso, (diferentemente da maioria dos psicólogos) eles também se interessam pelas restrições formais e ideológicas exercidas pelo texto. Enquanto a combinação de suas perspectivas teóricas nem sempre seja tão fácilccxxiii, o foco central do trabalho deles são os processos sociais e discursivos por meio dos quais o significado é construído, e as relações de poder que inevitavelmente os caracterizam. Como as crianças interpretam um desenho animado, por exemplo, e o que elas escolhem dizer a respeito dele quando estão na companhia de outras crianças ou de um adulto pesquisador, dependem da percepção que elas têm de sua própria posição social e das suas relações com os outros. Recentemente, desenvolvi e ampliei esta abordagem em uma série de estudos que investigam como as crianças definem e constroem suas identidades sociais através da fala sobre a televisãoccxxiv. Os julgamentos das crianças sobre gênero e representação, e os modos como elas recontam a narrativa da televisão, por exemplo, são analisados ali como processos inerentemente sociais; e o desenvolvimento do conhecimento sobre a televisão (‘alfabetização televisual’) e de uma perspectiva crítica sobre o meio são compreendidos a partir de suas motivações e objetivos sociais. Estes estudos usam uma forma de análise de discurso que enfatiza as funções da fala como uma forma de ‘ação social’ccxxv. Assim, por exemplo, analisei como o modo de os garotos falarem sobre as novelas – e as suas decisões sobre o que é ou não realista ou verossímil– são inseparáveis de seu próprio processo de construção da masculinidade; ou, para usar outro exemplo, como as discussões de crianças negras e brancas sobre ‘imagens positivas’ em programas como The Cosby Show (“A Família Cosby”) estão entrelaçadas com as dinâmicas das amizades inter-raciaisccxxvi. Paralelamente a esse trabalho, é possível identificar uma abordagem mais estritamente ‘etnográfica’ ou de observação, no estudo dos usos que as crianças fazem da mídia, tanto no contexto domésticoccxxvii,quanto no grupo de amigosccxxviii. O estudo de Marie Gillespie sobre o uso da televisão em uma comunidade sul-asiática em Londres, por exemplo, integra uma análise do papel da televisão na dinâmica familiar e do grupo de amigos com uma atenção voltada às respostas das crianças a gêneros específicos, tais como o telejornal e a novelaccxxix. As mídias são usadas aí em parte como um recurso heurístico para aquisição de 73 idéias sobre ‘outras’ culturas, ainda que (assim como nos trabalhos discutidos acima) haja uma ênfase auto-reflexiva sobre o papel do pesquisador, e sobre as relações de poder entre pesquisadores e seus sujeitos infantis, ênfase essa que está tipicamente ausente das pesquisas psicológicas. Por fim, existe hoje um volume crescente de pesquisa-ação em mídia-educação, focada na interação entre o conhecimento cotidiano dos alunos e o conhecimento mais ‘acadêmico’ que eles encontram na educação formal. Nesse contexto, a escola não é vista como necessariamente inimiga da cultura juvenil (como fazem alguns pesquisadores dos Estudos Culturais), mas, ao contrário, como uma das arenas sociais fundamentais em que aquela cultura é construída e encenadaccxxx. Em um sentido amplo, então, essas pesquisas vêem as crianças como agentes ativos, ao invés de receptores passivos da cultura adulta. Elas se propõem a investigar as experiências das crianças em seus próprios termos, ao invés de julgá-las em termos da inabilidade delas em usar ou compreender as mídias de modos apropriadamente ‘adultos’. Em princípio, essas pesquisas também oferecem uma perspectiva sobre o público infantil que é significativamente mais ‘social’ do que aquela oferecida pela perspectiva psicológica descrita anteriormente. Ao buscarem dar sentido às mídias, as crianças são vistas como empregando uma gama de estratégias e discursos derivados de diferentes lugares e experiências sociais (por exemplo, em termos de classe social, gênero, etnicidade). A produção de sentido a partir das mídias é, portanto, compreendida aí como um processo complexo de negociação socialccxxxi. A realidade revisitada Nos próximos capítulos vou incorporar algumas das descobertas desse tipo de pesquisa à discussão que farei sobre alguns aspectos específicos das relações das crianças com as mídias. Neste estágio, uma discussão mais ampla dos exemplos que citei anteriormente sobre os julgamentos que as crianças fazem do realismo na televisão deverá indicar diferenças e semelhanças entre esta abordagem e a da psicologia cognitiva. Ao invés de compreender esses julgamentos simplesmente como fenômenos cognitivos , minha pesquisa sugere que eles podem atender a uma variedade de funções sociaisccxxxii. No contexto de grupos de discussão, condenar um programa por ser ‘irreal’ serve como poderoso recurso para definir o próprio gosto pessoal, e também para reivindicar uma determinada identidade social. Por exemplo, as freqüentes reclamações das garotas sobre enredos ‘irreais’ ou eventos em desenhos animados de ação e aventura muitas vezes refletem um desejo de se distanciarem daquilo que elas vêem como preferências ‘infantis’ dos meninos, e de assim reivindicarem sua própria maturidade (de gênero). Por outro lado, a rejeição dos garotos ao ‘não-realismo’ dos homens musculosos em programas como Baywatch pode refletir ansiedades a respeito da fragilidade de sua própria identidade masculina. A rejeição dos meninos ao melodrama ou a rejeição das meninas aos filmes violentos de ação podem ser vistas, então, como algo além da aplicação mecânica de julgamentos fixos de gosto: ao contrário, essas rejeições representam a reivindicação ativa de uma determinada posição social – uma reivindicação às vezes hesitante e incerta, e em muitos casos aberta ao questionamento. Além do mais, tais julgamentos também podem ter o papel de possibilitar aos espectadores a regulação ou mesmo a recusa retroativa de suas próprias reações afetivas – por exemplo, o medo ou tristeza. A especulação sobre os efeitos especiais nos filmes de terror ou a sua condenação como ‘irreais’, por exemplo, pode servir para prevenir a acusação de que se seja ‘moleirão’ o suficiente para achá-los assustadores, o que parece preocupar especialmente alguns garotos. Enquanto o prazer em tais filmes claramente depende, até certo ponto, da disponibilidade para ‘suspender a descrença’ – deixando-se assustar – esse tipo de discussão 74 posterior pode ser útil como um meio de aprender a ‘lidar’ com reações emocionais potencialmente indesejáveis. Entretanto, seria falso apresentar esses processos em termos de uma simples oposição entre razão e prazer, ou cognição e afeto. Há, sem dúvidas, um prazer considerável neste tipo de conversa crítica: ridicularizar a natureza ‘irreal’ da televisão, especular sobre ‘como ela é feita’ e brincar com a relação entre televisão e realidade parecem ser aspectos importantes da interação cotidiana da maioria dos telespectadores com o meio. Evidentemente esse tipo de conversa depende, até certo ponto, da negação do próprio prazer – ou desprazer - no momento da audiência. Mas a conversa também parece proporcionar um sentido de poder e controle sobre a experiência, e assim uma prazerosa sensação de segurança. Acima de tudo, é importante destacar que não se trata meramente de um fenômeno psicológico, que aconteça ‘dentro da cabeça das crianças’. Pelo contrário, esse tipo de conversa crítica atende a funções sociais ou interpessoais específicas no contexto do diálogo com os outros. O próprio contexto da pesquisa é crucial aqui. Qualquer adulto que faça perguntas sobre televisão às crianças – particularmente no contexto escolar, como tem sido o caso das minhas pesquisas – parece estar fazendo um convite a esse tipo de discurso crítico. A maioria das crianças sabe que muitos adultos não gostam que elas assistam televisão ‘demais’, e elas estão familiarizadas com pelo menos alguns dos argumentos a respeito dos seus efeitos negativos sobre elas. Em alguns casos, estes argumentos são discutidos abertamente, embora as crianças geralmente gostem de escapulir a tais cobranças: seus irmãos menores até podem imitar o que assistem, mas certamente aquelas acusações não se aplicam a elas. Assim como os adultos parecem deslocar os ‘efeitos’ da televisão para cima das crianças – deixando subentendido que eles próprios não correm risco – da mesma forma as crianças tendem a sugerir que esses argumentos se aplicam apenas a outras crianças muito mais novas que elas. Em certo sentido, os julgamentos sobre a ‘irrealidade’ da televisão poderiam estar servindo a uma função semelhante, ainda que de modo mais indireto. Eles permitem que os falantes se apresentem como telespectadores ou telespectadoras sofisticados, capazes de ‘ver através’ das ilusões que a televisão oferece. De fato, esses julgamentos representam uma reivindicação de status social – e particularmente, neste contexto, uma reivindicação do status de ‘adulto’. Ainda que estas reivindicações possam se dirigir em parte ao entrevistador e às outras crianças do grupo, elas com freqüência parecem depender de uma distinção entre o falante e um ‘outro’ invisível: aqueles telespectadores que são imaturos ou tolos o suficiente para acreditar que o que assistem é real. É significativo que muitas vezes haja aí distinções claras em termos de classe social. De modo geral, as crianças de classe média nos meus estudos tendem mais a perceber o contexto da entrevista em termos ‘educacionais’, e a ajustar suas respostas de acordo com isso. Em contraste, muitas das crianças de classe trabalhadora tendem a usar o convite para conversar sobre a televisão como uma oportunidade para exibir seus próprios gostos e celebrar seus próprios prazeres junto com o grupo de amigos. Enquanto as crianças de classe média dirigem a maioria de suas falas ao entrevistador, respeitando o seu poder, isto acontece muito menos com as crianças de classetrabalhadora, para quem o entrevistador parece às vezes quase irrelevante. Assim, os julgamentos sobre a realidade da televisão são muito mais preocupantes para as crianças de classe média. Tanto quantitativa quanto qualitativamente, seus julgamentos são mais complexos e sofisticados do que aqueles da maioria de seus colegas da classe trabalhadora. Estes argumentos, porém, não devem servir de base para quaisquer conclusões simplistas sobre os níveis de ‘alfabetização midiática’ em diferentes classes sociais. Não é que as crianças de classe média sejam, de alguma forma, ‘mais críticas’ ou ‘mais alfabetizadas em mídia’ do que as crianças de classe trabalhadora. O que parece é que 75 esses discursos críticos servem a funções sociais particulares que são mais importantes para elas nesse contexto, funções essas que têm a ver, pelo menos em parte, com a definição da sua própria posição de classe. Esses discursos lhes fornecem meios poderosos de demonstrar sua própria autoridade crítica, e conseqüentemente de se distinguir daqueles ‘outros’ invisíveis – a audiência de ‘massa’ – que supostamente correm mais riscos de sofrer os efeitos prejudiciais da televisão. Em minha pesquisa, este tem sido o caso, particularmente, de alguns meninos de classe média mais velhos (entre onze e doze anos de idade) entre os quais torcer o nariz para as debilidades da televisão popular parece conferir um status considerável entre o grupo de amigos. Costuma haver aí um alto grau de competição, com as crianças rivalizando para ver quem faz a gozação mais inteligente sobre os piores programas de auditório, ou quem imita de modo mais ridículo a canastrice dos atores nas novelas. É muito mais difícil admitir que se gosta de alguma coisa, com exceção dos documentários ou filmes ‘adultos’. Em muitos casos esses garotos só admitem assistir os programas ‘para ver como são besteira’ – apesar de os conhecerem tão bem como os fãs confessos. Em contrapartida, as garotas de classe média parecem muito mais confortáveis em reconhecer e celebrar seus próprios prazeres, principalmente quando estão em grupos somente femininos. Em grupos mistos, porém, e diante da competição dos garotos, com freqüência quem faz as críticas mais severas da televisão é que sai vencendo. Mesmo que o discurso crítico não seja explicitamente formulado em termos de classe, é visível uma linha muito tênue entre o menosprezo da televisão popular e o menosprezo de sua audiência. Como sugere Pierre Bourdieu, o discurso crítico representa uma forma valiosa de capital cultural e uma demonstração tangível de distinção socialccxxxiii. O processo de ‘tornar-se crítico’ faz parte do modo como as crianças de classe média buscam se diferenciar dos ‘outros’, e desta forma se socializam ativamente em direção a uma pertença de classe. Porém muita coisa se perde, ou ao menos é desvalorizada neste processo. Os discursos críticos sobre as mídias com freqüência assumem a forma de um cinismo intelectual e de uma sensação de superioridade em relação às ‘outras pessoas’. Eles podem resultar em uma ironia superficial ou mesmo em desprezo meramente complacente pelos prazeres populares. Talvez principalmente entre os meninos, para quem a expressão do prazer é aparentemente muito mais arriscada e problemática, o discurso do julgamento crítico parece oferecer a segurança de simular o exercício de um controle racional absoluto. Como este exemplo sugere, o julgamento das crianças a respeito da realidade daquilo que assistem na TV não pode ser visto como um processo puramente cognitivo ou intelectual. Ao contrário, é ao fazer julgamentos ‘críticos’ desse tipo que as crianças buscam definir suas identidades sociais, tanto em relação a seus amigos quanto em relação aos adultos. Assim, compreender as mídias não é simplesmente uma questão do que acontece na cabeça das crianças: é fundamentalmente um fenômeno social. Os limites da audiência ativa Em resumo então, três ênfases centrais podem ser identificadas nesta pesquisa. De modo geral, ela define a criança como um público ativo; ela busca compreender o ponto de vista da criança em seus próprios termos; e busca situar os usos que as crianças fazem das mídias dentro do contexto mais amplo das relações sociais e interpessoais. Apesar de todas essas características serem importantes e valiosas, há problemas e limitações em cada uma delas; ao identificá-los, buscarei indicar áreas para desenvolvimentos futuros. A visão das crianças como participantes ‘ativas’ no processo de produção de significado é compartilhada tanto pelos pesquisadores dos Estudos Culturais como pelas abordagens construtivistas delineadas anteriormente. O significado não é visto como inerente 76 ao texto, mas como produto de uma ‘negociação’ entre texto e leitor. As crianças são vistas como um público competente e sofisticado, em vez de simplesmente como vítimas passivas da manipulação da mídia. Nesse sentido, este tipo de pesquisa é um desafio importante a muitas das certezas que costumam circular no debate público. Entretanto, esta pesquisa tem sido excessivamente determinada por uma reação contra as ansiedades quanto aos efeitos negativos das mídias. Como resultado, ela corre o risco de adotar uma abordagem ‘centrada na criança’ muito simplista, na busca de celebrar a sofisticação da criança ‘conhecedora da mídia’ e de provar (infinitamente) que as crianças não são crédulas ou passivas como freqüentemente se diz que elas são. Num certo sentido, o termo ‘ativo’ (e a oposição entre ativo e passivo) tornou-se um tipo de slogan vazioccxxxiv. Há vários problemas óbvios nisso. Por exemplo, com freqüência se assume implicitamente que se as crianças são ‘ativas’, então de algum modo elas não serão influenciadas por aquilo que assistem ou lêem. Mas não é isto o que necessariamente ocorre. De fato, poder-se-ia argumentar que em alguns casos ser ‘ativo’ é estar mais aberto à influência. A propaganda contemporânea, por exemplo, cada vez mais parece se endereçar ao telespectador sofisticado e ‘crítico’, exigindo positivamente uma resposta ‘ativa’; e ao valorizar o telespectador desse modo, ela pode muito bem se revelar mais poderosa do que as abordagens mais antiquadas de ‘venda agressiva’ccxxxv. Além disso, este tipo de celebração da sofisticação das crianças como usuárias de mídia pode nos levar a negligenciar o fato de que existem áreas sobre as quais elas precisam saber mais. É inevitável que haja lacunas no conhecimento das crianças, embora não necessariamente onde se supõe que elas estejam. Do mesmo modo, o conhecimento das crianças sobre as mídias vai se desenvolvendo conforme elas crescem, o que evidentemente depende das perspectivas críticas disponíveis a elas, tanto no interior das mídias como além delas. Simplesmente celebrar o ‘poder’ dos receptores é ignorar o fato de que as relações dos receptores com as mídias se desenvolvem e modificam – e ignorar a própria possibilidade de que elas possam ser modificadas. Em última instância, portanto, há o perigo de que o argumento da relação ‘ativa’ das crianças com as mídias – e inclusive de seus altos níveis de ‘alfabetização midiática’ – torne- se um tipo de senso comum retórico. Para muitos pesquisadores (entre os quais me incluo), há aí uma coincidência desconfortável entre as construções do público infantil que circulam no interior da indústria e aquelas que têm sido cada vez mais apresentadas pela academia. Em ambos os contextos, a imagem romântica da criança ‘conhecedora da mídia’ começa a dominar o debate. Como tenho sugerido, tais conclusões podem facilmente confundir-se com os argumentos em torno da soberania do consumidor; neste processo, os pesquisadores que assumem este ponto de vista podem acabar se tornando meros apologistas das corporações comerciais. Ao invés de simplesmente explorar a natureza da ‘atividade’ das crianças enquanto público, precisamos dizer mais a respeito das suas conseqüênciase implicações, inclusive no campo das políticas culturais e educacionais. A segunda ênfase-chave neste tipo de pesquisa está em assumir o ponto de vista da criança. Diferentemente de boa parte das pesquisas psicológicas, esse trabalho não se propõe a julgar as crianças principalmente em termos do que elas não podem fazer – isto é, em termos das suas inabilidades de fazer julgamentos ‘adultos’ e racionais, por exemplo a respeito das diferenças entre os textos mídiáticos e o mundo real. Ao contrário, o objetivo aqui é compreender a experiência das crianças com as mídias em seus próprios termos, ao invés de nos termos dos adultos. Considerando-se o contexto mais amplo dos debates públicos a respeito das crianças e as mídias, essa ênfase é também de importância vital. Como já observei anteriormente, esses debates são quase que exclusivamente conduzidos entre adultos; muitos nem mesmo pensam que seja necessário verificar o que as crianças têm a dizer. Ainda assim, mesmo entre os que se colocam como representantes dos interesses das 77 crianças, existe um perigo real em assumir-se que os adultos possam facilmente falar ou agir em nome das crianças. Como venho indicando, há dificuldades significativas para se estabelecer evidências das experiências e visões das crianças. As estatísticas sociais têm uma inegável autoridade, mas muitas vezes dependem de um somatório das crianças que minimiza as diferenças entre elas. Em contraste, a apresentação e a análise de transcrições literais das falas das crianças – como fiz amplamente em minhas próprias pesquisas – é uma prática que tem óbvias limitações em termos de representatividade, embora muitas vezes possua um ar de autenticidade direta que está muito ausente dos resultados das pesquisas quantitativas ou relatos de experiências de laboratório. Assim mesmo, também aí há o perigo do romantismo. É certamente ingênuo acreditar que possamos algum dia assumir o ponto de vista da criança – ou que esse ponto de vista seja algo que simplesmente se revelará a nós caso façamos as perguntas certas. Este tipo de pesquisa às vezes assume implicitamente que os dados falam por si, e que a pesquisa meramente fornece um fórum no qual as vozes das crianças podem ser diretamente ouvidasccxxxvi. A idéia de que possamos simplesmente ‘ouvir as vozes das crianças’ desse modo é no mínimo insincera. Pelo menos em princípio, a análise de discurso oferece um modo de ir além da visão de que a fala seja um meio transparente de acesso ao que se passa na cabeça das pessoasccxxxvii. Nessa perspectiva, a fala é compreendida como uma forma de ação social: ela é usada para vigiar e construir identidades, para estabelecer e negociar relações interpessoais, e para reivindicar e exercer poder social. Portanto, longe de tomar aquilo que as crianças falam literalmente, essa abordagem compreende a fala como uma arena – ainda que muitas vezes tensa e disputada – na qual as crianças definem o que significa ser criança, ou ser criança em um determinado grupo social. Este é o tipo de análise que tenho desenvolvido em meu próprio trabalho, e que informa minha compreensão dos julgamentos infantis sobre a realidade da televisão mencionados acima. A limitação evidente desta abordagem, entretanto, é sua recusa a olhar além do nível do comportamento lingüístico e considerar as dinâmicas psíquicas ou emocionais das relações das crianças com as mídias. Além do mais, ao rejeitar o uso ‘realista’ da fala enquanto dado, pode-se em última instância tornar impossível a avaliação de sua veracidade (ou da ausência de veracidade) e assim de fazer qualquer inferência sobre sua confiabilidade ou precisãoccxxxviii. Paradoxalmente, devolver a fala ao seu contexto social desta maneira pode reduzi-la ao nível da mera performance. A terceira ênfase significativa neste tipo de pesquisa é a tentativa de analisar os usos e interpretações que as crianças fazem das mídias como parte de um padrão mais amplo de relações e processos sociais. As mídias são vistas aqui não como sendo ‘influência externas’, mas como estando inextricavelmente entrelaçadas nas relações e dinâmicas familiares e de grupos de amigos – relações necessariamente caracterizadas por desigualdades sociais e pelo exercício de poder social. Esta é uma questão- chave que diferencia os Estudos Culturais da psicologia convencional, mesmo quando ambos parecem compartilhar a ênfase na audiência ‘ativa’. As crianças são vistas aqui não apenas como cognitivamente ativas, mas também como socialmente ativas – como agentes sociais por direito próprio. Em última análise, porém, a maior parte dessas pesquisas têm sido bastante superficial a respeito disto. Apesar das referências ocasionais à ‘etnografia’, são poucas as pesquisas sobre mídia que envolvem a imersão de longo prazo que caracteriza a etnografia no campo da antropologiaccxxxix. Boa parte delas se baseiam em uma convivência muito limitada com os próprios sujeitos da pesquisa: são feitas suposições de todo tipo a respeito das crianças e de como elas são representativas de categorias sociais particulares, com base em umas poucas entrevistas. 78 Neste sentido, ainda temos muito chão pela frente para chegarmos a desenvolver uma análise social mais ampla da audiência infantil. Há algumas conexões importantes a serem forjadas entre a pesquisa de mídia e infância e o volume crescente de pesquisas no campo da sociologia e história da infância ao qual faço referência em vários lugares deste livro. O foco da maior parte desse trabalho está nas experiências e relações sociais cotidianas das crianças, investigadas geralmente com o uso de métodos etnográficos ou métodos qualitativos. Como tenho destacado, a sociologia da infância coloca um amplo desafio teórico às tendências universalizantes da psicologia – às visões da infância como uma seqüência de idades e estágios descontextualizados - e à noção de que possamos compreender processos psicológicos (tais como cognição e afeto) isoladamente dos contextos sociais nos quais eles ocorrem. Mais que isso, os sociólogos da infância têm combatido o que compreendem como um modelo deficitário da infância – uma visão da infância como um tipo de ensaio para a vida adulta – o que está implícito não apenas nas noções cognitivas do desenvolvimento infantil, mas também nas teorias psicológicas da socializaçãoccxl. Por enquanto, contudo, este tipo de trabalho tem sido dominado por uma agenda sociológica comparativamente convencional: tem-se dado muito pouca atenção à cultura, às mídias, ou mesmo aos usos que as crianças fazem dos artefatos produzidos comercialmente, como os brinquedosccxli. Nesse processo, tem-se efetivamente negligenciado a natureza mediada da infância contemporânea. Como Sonia Livingstone propôs recentemente, a nova criança sociológica parece viver uma infância não-mediada: ou seja, é ‘uma criança livre de cuidados, brincando de pula-sela com os amiguinhos em um parque próximo; e não uma criança no seu quarto, escutando música com fones de ouvido e vendo televisão’ccxlii. Além disso, a sociologia da infância tem se caracterizado por alguns dos mesmos problemas que identifiquei com relação à pesquisa sobre as mídias. Em termos gerais, os sociólogos tentaram substituir o que vêem como a criança ‘incompetente’, construída pelos psicólogos, pela criança ‘competente’, que compreende o mundo em seus próprios termos e que é capaz de tomar decisões sobre sua própria vida. Porém, como tenho destacado, pode-se também questionar o valor dessa mera substituição das noções de incompetência infantil – a visão das crianças como adultos incompletos – pela visão oposta das crianças naturalmente competentes e sofisticadas. Também aqui reside o perigo de uma reação exagerada contra a marginalização e a depreciação implícita das crianças, atribuindo a elas um grau espetacular de auto-conhecimento e autonomia. Reconstruindo a audiência infantil Os debates contemporâneossobre o poder das mídias nos Estudos Culturais e de Comunicação têm se polarizado cada vez mais. De um lado, há uma forma de populismo, na qual a cultura popular é vista como um meio de ‘resistência’ contra as ideologias dominantes, e conseqüentemente como uma forma de ‘empoderamento’. De outro lado, há uma crescente reação contra a chamada ‘celebração do receptor’, e a tendência à queda em um pessimismo cultural generalizado. Quando a questão são as crianças e os jovens enquanto público, o debate tende a ser conduzido em termos das mesmas escolhas polarizadas. De um lado, está a noção tradicional das crianças como inocentes e vulneráveis à influência; do outro, a noção igualmente sentimental da criança como sofisticada, desenvolta na cultura urbana, crítica e competente por natureza. Ambas são construções sobre a infância, e ambas têm apelos emocionais genuínos, ainda que de tipos diferentes; mas em última instância ambas fazem uma supersimplificação da complexidade e da diversidade das relações das crianças com as mídias. Em termos de desenvolvimentos futuros, portanto, pode haver duas direções possíveis para a pesquisa da audiência infantil. Ambas, em certo sentido, são o projeto deste 79 livro. Por um lado, temos que reposicionar nossas análises sobre as relações das crianças com as mídias no contexto de uma compreensão mais ampla das suas vidas sociais, assim como da história recente da infância, como foi delineado no capítulo 4. Como espero indicar nos próximos capítulos, isso pode nos dar uma perspectiva bastante diferente do debate público contemporâneo a respeito destas questões, debate esse que, especialmente no caso das discussões sobre violência e comercialismo, parece ter se tornado excessivamente simplista e repetitivo. Por outro lado, precisamos também olhar as próprias mídias de forma mais ampla. A análise da recepção nos Estudos Culturais e de Comunicação tem se distanciado cada vez mais das questões relativas aos textos e instituições midiáticas; e dos dois lados muito do que se faz são caricaturas mútuas. Como argumentou Graham Murdock, os estudos de recepção ‘precisam ir além dos atos de consumo e resposta imediatos, para analisar as estruturas subjacentes que fornecem os contextos e os recursos para a atividade do público’ccxliii. Sem querer negar a atividade criativa e interpretativa dos receptores, portanto, precisamos olhar também para as condições materiais e simbólicas mais amplas nas quais essas atividades ocorrem – olhar, por exemplo, para as restrições e possibilidades incorporadas aos textos midiáticos, e para as dinâmicas econômicas, institucionais e sociais que determinam formas específicas de consumo midiático. Como sugeri no capítulo 5, precisamos entender as relações entre tecnologias, instituições, textos e audiências, sem necessariamente priorizar qualquer um deles. À primeira vista, essas duas orientações parecem apontar em direções opostas. Entretanto, elas estão longe de ser incompatíveis. De formas diferentes, ambas sugerem a necessidade de irmos além da construção individualista da infância, e de trabalharmos em direção a uma análise social mais ampla. Nesse contexto, o público infantil não mais é visto em termos essencialistas – ou ativo ou passivo, ou competente ou incompetente. Ao contrário, nosso objetivo é identificar uma variedade de formas diferentes de atividade e competência que tendam aproximadamente a ocorrer sob determinadas condições sociais e culturais. Neste capítulo e nos dois que o precederam, busquei delinear os parâmetros mais amplos desta abordagem. Trata-se de uma abordagem que oferece um modo mais complexo – mas também, espero, mais produtivo – para a compreensão das mudanças contemporâneas nas relações das crianças com as mídias, do que aqueles identificadas nos capítulos 2 e 3. Nos próximos três capítulos, procuro aplicar essa abordagem de maneira mais detalhada. O capítulo 7 examina a eterna questão da violência nas mídias; o capítulo 8, o comercialismo e a propaganda; e o capítulo 9, as questão da política e da cidadania. Cada um desses capítulos se fundamenta em meus próprios estudos empíricos, situados por suas vez no contexto das pesquisas e debates mais amplos no campo. Em cada caso, focalizo as implicações do acesso cada vez maior das crianças aos mundos sociais e culturais que até há pouco tempo estavam confinados aos adultos. Ao discutir as experiências das crianças com esses mundos, e os debates que as cercam, busco fornecer uma base mais construtiva tanto para a pesquisa futura quanto para as políticas culturais e educacionais. CAPÍTULO 7 As Crianças assistindo à violência Discutir a questão da violência neste contexto talvez signifique nos rendermos a algo tediosamente inevitável. Na grande maioria dos debates públicos sobre as relações das crianças com as mídias, a violência virou uma obsessão cada vez maior, parecendo muitas vezes excluir qualquer outro aspecto ou preocupação interessante. Dentro do amplo conjunto de experiências que a mídia oferece às crianças, a violência parece ser vista como a instância 80 definidora – o fenômeno que de alguma forma sintetiza tudo o que realmente precisamos saber a respeito do lugar que as mídias ocupam nas vidas delas. Ao longo das duas últimas décadas a violência na mídia tem estado ligada a um ‘pânico moralista’ geral a respeito da infânciaccxliv. Nesse processo, as questões relativas ao impacto das mídias acabam sendo freqüentemente enredadas no debate sobre o impacto dos fatos reais. A violência na mídia é muitas vezes entendida como sendo, ela própria, uma forma de violência contra as crianças, cometida por adultos que têm a sede de lucros como única motivação. Para muitos, a violência na mídia é uma forma de abuso infantil por meios eletrônicos, e que não tem diferença em relação aos abusos e à crueldade física ccxlv. Ao mesmo tempo, claro, a violência na mídia é rotineiramente apontada como sendo a causa primordial de uma onda crescente de criminalidade juvenil. São raras as reportagens sobre crimes violentos que não tentam, em algum momento, jogar a responsabilidade sobre as mídias. A cobertura do assassinato do diretor de uma escola de Londres, Philip Lawrence, por exemplo, e a do grande número de homicídios aleatórios nas escolas dos Estados Unidos – sem falar das chacinas em Dunblane e Port Arthur na Austrália – fizeram muitas especulações sobre a influência das mídias, apesar de esta não ter qualquer relevância para as circunstâncias em que aqueles crimes foram cometidos. O furor em torno do impacto dos vídeos violentos que se seguiu ao assassinato de um menino de 2 anos, James Bulger, por dois garotos de dez anos em 1993, talvez seja o exemplo mais espetacular deste tipo de ‘pânico midiático’ na Grã-Bretanha, e é certamente o que foi mais amplamente discutidoccxlvi. Neste exemplo, assim como em muitos outros, a mídia foi claramente usada como um conveniente bode expiatório para evitar explicar fatos complicados demais, ou simplesmente horríveis demais. E isso, apesar de não haver qualquer prova de que os assassinos do menino tivessem sequer assistido ao filme que para muitos os tinha inspirado, e muito menos de que o assassinato tenha mesmo sido um crime por imitaçãoccxlvii. Este tipo de conexão entre uma mídia ‘ruim’ e a criminalidade violenta tornou-se parte de um senso-comum demonizante ao qual muitos políticos e outras pessoas recorrem com facilidade quando procuram demonstrar autoridade e responsabilidade morais – aproveitando para afastar a atenção pública de causas mais profundas da violência na sociedade. As propostas de regulamentação da violência na mídia tendem a enfrentar menos oposição do que as tentativas de lidar com outras questões que contribuem mais significativamente para as causas de crimes violentos, tais como a pobreza e a desintegração familiar – ou como, nos Estados Unidos, o fácil acesso a armas. Mas talvezo mais impressionante seja o sucesso obtido por certas formas de cristianismo evangélico, em muitas sociedades aparentemente seculares, na definição dos termos do debate público sobre estas questõesccxlviii. Como já observei, tais ansiedades costumam conduzir a clamores por um controle mais rígido – pelo aumento da censura e de outras formas de regulamentação centralizada. Se acrescentarmos as crianças a essa equação, ela ganhará uma força retórica ainda maior. Enquanto a censura dirigida aos adultos poderia ser rejeitada como sendo autoritária ou por infringir as liberdades individuais, o apelo à proteção das crianças encontra muito menos resistência. Particularmente nos Estados Unidos, a noção de infância tem cada vez mais substituído a noção de ‘segurança nacional’ como justificativa para a censura, e uma das causas disso é sua capacidade de angariar apoio político. As crianças, aparentemente pervertidas por uma ‘dieta’ de sexo e violência nas mídias, acabam sendo vistas, implicitamente, como uma ameaça interna à manutenção da ordem social. 81 Pânico midiático? Como muitos críticos já demonstraram, esse tipo de ‘pânico midiático’ tem uma longa história: ela é pelo menos tão antiga quanto o filósofo grego Platão, que propunha banir as obras dos dramaturgos da sua República ideal, por suas influências perniciosas sobre as impressionáveis mentes infantisccxlix. Nos tempos modernos, estas ansiedades se misturaram às preocupações mais gerais com o iminente colapso da ordem social ao alcance das ‘massas’ indisciplinadas - e em particular, com as tendências criminosas atribuídas aos jovens da classe trabalhadora urbana, especialmente os do sexo masculinoccl. Tais argumentos, assim como as lamúrias generalizadas a respeito da ‘morte da infância’, são muitas vezes motivadas pela nostalgia de uma Idade de Ouro imaginária que sempre parece ter existido duas gerações atrás. Até certo ponto, tais preocupações podem ser vistas como manifestação de um desdém elitista pela ‘cultura de massa’, e do menosprezo pelo ‘rebanho de iguais’ com o qual ela é identificada. Mas essas preocupações também refletem o medo das forças ‘irracionais’ que aparentemente seriam liberadas por essas novas mídias. Desde as primeiras críticas ao jornalismo popular e ao hábito perigoso da leitura de romances, até os receios que hoje cercam os jogos de computador, sempre houve uma preocupação com os perigos da superestimulação, da sensualidade e do sensacionalismo. Tanto em termos sociais como psicológicos, as ansiedades provocadas pelas mídias podem ser vistas como reflexo de um medo genérico da perda do controleccli. Não podemos pensar, porém, que estas preocupações sejam atemporais. Ao contrário, elas assumem formas bastante diferentes, dependendo das circunstâncias históricas particulares. Como já sugeri, a crescente intensidade desse debate precisa ser vista à luz do próprio status da infância, cada vez mais discutido e problemático. Na década de 1980, a Grã-Bretanha assistiu a uma série de ondas de pânico moralista, relacionadas uma à outra, a partir de coisas que eram percebidas como ameaça às crianças: assassinatos em série, pornografia infantil, seqüestros cometidos por pedófilos e rituais satânicos envolvendo abuso infantil, todos apresentados como se fossem uma epidemia.cclii. Tudo isso funcionou como um foco poderoso para as atividades de grupos de interesses bem diferenciados e mesmo para alianças entre eles. A questão do acesso das crianças à violência nas mídias tem servido como veículo para campanhas semelhantes, dando visibilidade aos mesmos ‘empreendedores da moral’. Aqui também, a ênfase específica nas crianças serve como uma forma poderosa de carrear apoio para campanhas de caráter muito mais amplo; a intromissão do estado na esfera privada torna-se bem mais agradável quando é proposta em nome das criançasccliii. É possível detectar nesse debate algumas construções de infância bastante contraditórias. De um lado, obviamente, está a noção pós-romântica da criança inocente e vulnerável, que precisa ser protegida das influências não-naturais do mundo adulto. Por baixo disso, entretanto, está uma visão muito mais antiga, a da criança como portadora do pecado original. Nessa perspectiva, as crianças são ‘naturais’ não em um sentido positivo, mas em um sentido negativo: elas possuem ímpetos de violência, sexualidade, e comportamento anti- social que são difíceis de controlar – e que influências ‘irracionais’, como as da mídia, teriam o poder de liberar. Também aqui o caso do menino Bulger é um exemplo muito interessante, inclusive porque o filme que se alegou ter levado os assassinos a cometerem o crime – Child´s Play 3 (“Chucky, O brinquedo assassino”) – toca em ansiedades bastante reais em torno da questão da infância e mostra uma hostilidade considerável diante da autoridade adultaccliv. Mas a noção de ‘pânico moralista’ pode ser usada de forma equivocada. De fato, o debate em torno da violência nas mídias só raramente se eleva ao nível do ‘pânico’ – se compreendermos ‘pânico’ como algo irracional ou incontrolável. Na verdade, o uso do termo 82 às vezes parece significar que o público em geral está sofrendo de um tipo de falsa consciência, artificialmente criada por um jornalismo irresponsável e sensacionalista. Certamente há situações em que as preocupações com a violência nas mídias são provocadas e usadas com objetivos políticos mais amploscclv. Porém, isto não seria possível ou significativo se elas não se ligassem de alguma forma a ansiedades pré-existentes. A preocupação com a violência nas mídias é poderosa também porque se nutre de esperanças e medos genuínos que sempre fizeram parte do cuidado que as famílias dedicam aos filhos. Evidentemente, não devemos supor que as manchetes e os editoriais na imprensa popular sejam necessariamente um sinônimo da opinião pública: precisamos aprender muito mais sobre as formas como esses argumentos são interpretados pelos próprios pais e pelas criançascclvi. Mas seria no mínimo arrogante deduzir que as tentativas dos pais de proteger seus filhos daquilo que julgam prejudicial sejam meros frutos de um ‘pânico’ irracional. Além disso, as preocupações contemporâneas sobre o impacto da violência na mídia sobre as crianças precisam ser reconhecidas como uma resposta genuína às mudanças nas próprias mídias. Como já comentei, as novas tecnologias de mídia – especialmente o vídeo e a internet - são menos suscetíveis ao controle centralizado do que as tecnologias que as precederam, como o cinema e a televisão aberta. Não pretendo sugerir que os jovens no passado não tivessem acesso a materiais violentos (ou mesmo explicitamente sexuais), mas é difícil negar que esses materiais sejam hoje muito mais acessíveis às crianças de todas as classes sociais, e cada vez mais cedo. Em um sentido fundamental, estas novas tecnologias tiram o controle do estado e o colocam nas mãos da família – que nem sempre é capaz ou suficientemente responsável para exercê-lo. Este debate, portanto, liga-se às tentativas mais gerais de jogar a culpa da aparente crise de disciplina entre os jovens sobre uma suposta permissividade na criação dos filhos. Na realidade, as evidências estatísticas sobre qualquer aumento na quantidade de violência na mídia estão longe de ser conclusivascclvii. Mesmo assim, a natureza destas representações, em si, tem inegavelmente mudado. Ao se comparar os filmes de terror modernos com os clássicos do gênero, ou os filmes policiais contemporâneos com os originais da década de 1930, percebe-se claramente que a violência na tela tornou-se muito mais gráfica e espetacularizada. De fato, essas mudanças começaram várias décadas atrás, com filmes como The Wild Bunch (“Meu Ódio será sua Herança”) (1969) e The Exorcist (“O Exorcista”) (1973), freqüentemente considerados ‘divisores de água’ em seus respectivos gêneros. A origem dessas tendências está na revisãodo Código de Produção Hays, em Hollywood e às inovações na tecnologia de efeitos especiais; está também (ainda que talvez de modo mais restrito) na emergência do cinema como uma ‘mídia de diretor’cclviii. As cenas de tiroteio, por exemplo, tornaram-se muito mais realistas, especialmente no modo como exibem as conseqüências dos ferimentos – apesar de ser discutível que isso tenha ou não resultado em uma ‘glorificação’ da violência (ou, mais ainda, que tenha provocado efeitos sobre comportamentos específicos). A popularidade dessas características não se restringe de modo algum ao material ‘adulto’. O terror, por exemplo, tem cada vez mais se tornado o gênero predileto de muitas crianças, tanto meninas quanto meninos; e isto é igualmente visível também nas preferências das crianças quanto às ‘velhas’ mídias, como indica o extraordinário sucesso comercial de séries de livros infantis de terror, como Goosebumps e Point Horrorcclix. Na promoção mercadológica de séries como estas, as fronteiras entre os ‘livros infantis’ e as obras mais ‘adultas’ de autores como Stephen King estão cada vez mais embaralhadas. Por todas estas razões, portanto, é importante prestarmos atenção às relações das crianças com a violência nas mídias, ao invés de simplesmente descartá-las como sendo mais um caso de pânico moralista irracional. Porém, mesmo que a violência – ou pelo menos o 83 acesso das crianças a ela – esteja aumentando, como isso poderia ser explicado? Por que as crianças decidem ativamente se expor a tais materiais, e o que elas fazem com eles? Alguns críticos sugerem que os públicos em geral na verdade preferem assistir a filmes e programas de televisão sem violência. Os índices de audiência apontam de forma consistente para uma tendência que o crítico Michael Medved chama, em tom de aprovação, de ‘entretenimento pró-familiar’cclx. Porém, comenta-se também que o aumento aparente da violência na mídia é orientado pelo mercado global: a violência serve como um ingrediente dramático que não necessita de tradução e é instantaneamente compreensível pela maioria das culturascclxi. Outros têm considerado a popularidade da violência na mídia como um sintoma de mudanças mais amplas no Zeitgeist. Para eles, a popularidade da violência reflete as ansiedades provocadas pelas mudanças nos papéis masculinos e femininos, ou por sentimentos de insegurança mais gerais, induzidos pelo ritmo acelerado da mudança social e tecnológica. Outros, ainda, acreditam que essa popularidade represente o retorno a uma forma reprimida de paganismo, uma tentativa de reconexão com a natureza e com as verdades sensuais do corpo que teriam sido perdidas cclxii. O problema fundamental desses argumentos, assim como da maioria das pesquisas e debates sobre o tema de modo geral, é a idéia implícita de que a ‘violência’ seja um fenômeno singular. Como ela é o ingrediente comum que aparentemente une gêneros tão díspares quanto o terror, a ficção científica, os filmes de ação, jogos de computador, desenhos animados e séries policiais, imagina-se que a violência explique a popularidade de todos eles. Porém, mesmo se nos limitarmos aos tipos de filmes que são mais recorrentes nestes debates, ficará claro que as funções, conseqüências e representações da violência – e por extensão qualquer efeito possível que ela possa ter – são muito diversas. Equacionar a violência em Die Hard (“Duro de Matar”) com aquela em Henry, Portrait of a Serial Killer (“Henry, o retrato de um assassino”), Pulp Fiction ou Evil Dead (“A Morte do Demônio”) é negligenciar seus objetivos e significados. Como afirma Martin Barker, esta fusão ignora as diferenças de formas, contextos e narrativas. Como resultado, diz ele, “ a expressão ‘violência na mídia’ é sempre usada de modo a sugerir acima de tudo a imagem de um caos sem motivo, a qual pode se chamar facilmente de ‘gratuita’”.cclxiii. E nesse processo simplesmente se ignora a questão de como os públicos interpretam a violência – ou uma questão ainda anterior: se a razão pela qual eles escolhem assistir a esses materiais será mesmo a violência. Se a violência na tela mudou em si, precisamos nos perguntar se mudou também a percepção que os públicos têm da violência. Os relatos sobre os primórdios do cinema descrevem como o público gritava e corria para fora do cinema quando se deparava com cenas de colisões de trens ou queda de edifícios; ou até mesmo, em tempos mais remotos, como os espectadores desmaiavam nos momentos mais melodramáticos das tragédias jacobinascclxiv. Na medida em que as convenções de realismo mudaram, o mesmo ocorreu com as expectativas do público; e também seria razoável esperar que, com o tempo, a idade em que os espectadores se tornam capazes de ‘lidar’ com materiais potencialmente perturbadores tenda a diminuir. O excesso, o humor e a cafonice que caracterizam muitas das representações contemporâneas de comportamentos violentos precisam ser compreendidos nessa perspectiva: eles permitem que os filmes provoquem medo e excitação e ao mesmo tempo permitem que o público ria dos exageros e dos fatos inverossímeis que retratamcclxv. Essa atitude aparentemente distanciada com relação à violência, ao invés de ser tomada como evidência de uma ‘dessensibilização’, poderia muito bem ser vista como um reflexo da sofisticação dos públicos contemporâneos. Ainda assim, conforme os debates comentados nos capítulos 2 e 3, a questão da relação das crianças com a violência na mídia parece representar algo muito maior e mais 84 difícil de definir. O fantasma da criança depravada e brutalizada pela violência na mídia passou a representar uma enfermidade social generalizada, um declínio terminal de nossa civilização. Como resultado, ficou muito mais difícil compreender essa relação em seus próprios termos. Se quisermos responder efetivamente ao aparente entusiasmo das crianças pela violência na mídia, precisaremos olhar mais de perto o modo como elas a interpretam e vivem, separando essa questão do conjunto maior de preocupações que ela hoje incorpora e representa. Os limites dos ‘efeitos’ É aqui, claro, que a pesquisa de audiência deveria desempenhar um papel significativo. Porém, a pesquisa sobre as relações das crianças com a violência na mídia permanece dominada por uma compreensão bastante redutora dos seus efeitos. Se podemos conceber a violência na mídia como causadora de muitos tipos de efeitos – gerar o medo, por exemplo, ou encorajar crenças específicas a respeito da natureza dos crimes e da autoridade – a preocupação central das pesquisas tem sido a capacidade da violência midiática de produzir comportamento agressivo, particularmente entre as crianças. Aqui novamente as crianças são definidas em geral em termos do que lhes falta – isto é, em termos de sua inabilidade de se conformarem às normas dos adultos. A violência imitativa é implicitamente vista como algo que emerge da incapacidade das crianças de distinguir entre realidade e ficção. As crianças copiam o que vêem na televisão - argumenta- se - porque lhes falta a experiência e a capacidade intelectual que lhes permitiriam ver além da ilusão de realidade oferecida pelo meio. Elas tomam o que assistem como um reflexo fiel do mundo, como um guia confiável de comportamento, simplesmente porque são imaturas demais para dar-se conta disso. Nesse contexto, a ‘violência’ é tipicamente vista como uma propriedade quantificável da ‘mensagem’ ou do ‘estímulo’, e as experiências controladas em contextos artificiais de laboratório são consideradas as únicas formas capazes de demonstrar cientificamente como é que os espectadores respondem a ela. Mesmo nos casos em que os pesquisadores usaram questionários ou métodos mais naturalistas, a violência – tanto na mídia como no cotidiano – é geralmente abstraída dos contextos em que ocorre e das motivações dos agentescclxvi. E em muitas destas pesquisas, as correlações entre a assistênciae o comportamento continuam a ser vistas como evidências de uma causalidade. Existe hoje um volume crescente de críticas aos problemas metodológicos e teóricos destas pesquisas, e muitas análises têm ressaltado a natureza incipiente e muitas vezes contraditória das suas conclusões cclxvii. Enquanto isso, como indiquei, a pesquisa a respeito de outros aspectos das relações das crianças com as mídias – mesmo no contexto da psicologia dominante – já chegou muito além dos pressupostos behavioristas que continuam a embasar a grande maioria das pesquisas sobre a violênciacclxviii. Na compreensão de muitos outros pesquisadores, essa abordagem não consegue sustentar sua hipótese central: a de que a violência na mídia torne as pessoas mais agressivas do que elas teriam sido de outro modo, ou a de que ela faz com que as pessoas cometam atos de violência que não teriam de outro modo cometido. A violência na mídia pode influenciar a forma ou o estilo de tais atos, mas não é em si causa suficiente para provocá-los. Pesquisas sociológicas a respeito da violência na vida real consistentemente sugerem que suas causas têm múltiplos fatores, e muito raramente confirmam os clamores exagerados sobre o impacto das mídias cclxix. Nesse contexto, buscar provas dos ‘efeitos da violência na mídia’ é insistir em fazer perguntas simplistas a respeito de temas sociais que são muito complexos. Entretanto, por vários motivos, esse tipo de estudo dos ‘efeitos’ continua sendo muito popular nos Estados Unidos. Isto resulta em parte da predominância, naquele país, de 85 tradições acadêmicas empiricistas e relativamente conservadoras, que foram legitimadas, elas próprias, pelos primeiros estudos experimentais sobre a violência na televisão; e essas tradições também refletem um conjunto particular de relacionamentos institucionais entre pesquisa acadêmica, governo e as indústrias da mídiacclxx. Entretanto, a proeminência continuada de tais pesquisas deve também ser um sintoma da paralisia política bastante estabelecida que rodeia a questão do controle de armas em uma nação onde há mais armas do que pessoas. Os pesquisadores em outros países podem com razão se sentir irritados pelo modo como as pesquisas dos Estados Unidos são citadas rotineiramente pelos propagandistas contra a violência na mídia como se elas fossem aplicáveis universalmente, um processo que ironicamente ecoa o que George Gerbner e outros vêem como o imperialismo orientado pelo mercado da própria violência na mídiacclxxi. Como isso deixa implícito, boa parte da motivação para questionar-se a pesquisa dos efeitos tem sido política, ao invés de puramente metodológica ou teórica. Os questionamentos emergem nem tanto devido às preocupações “acadêmicas”, e sim em reação aos modos como a pesquisa tem sido usada no contexto do debate público e na formulação de políticas, para justificar uma censura mais rigorosa e desviar a atenção de causas muito mais arraigadas de fenômenos tais como a criminalidade violentacclxxii. É claro que questionar os pressupostos da pesquisa de efeitos não significa negar o fato de que a mídia tenha um grau de poder para influenciar o público. Significa apenas sugerir que a natureza daquele poder e de sua influência não pode ser vista como um processo unidimensional de causa e efeito. Entretanto, a maioria dos pesquisadores que questiona essa abordagem têm estrategicamente evitado o tema da violência em seus próprios trabalhos, e nesse sentido eles podem ter contribuído para a polarização que atualmente caracteriza o debate. Desafiar simplesmente as limitações metodológicas da pesquisa de efeitos e insistir nas complexidades teóricas do tema é uma estratégia essencialmente negativa. Nos discussões acaloradas que ocorrem em torno de eventos como o assassinato de James Bulger, tais argumentos são rapidamente incorporados à lógica excludente - “ou isto, ou aquilo”. Estamos mesmo dizendo que a mídia não tem efeitos? Podemos provar isso? Já que não é possível prová-lo, então pareceria melhor não nos arriscarmos a sair do terreno seguro. É como se esta lógica fosse impossível de ser superada – e desafiá-la fosse apenas uma ‘enrolação’ acadêmica. Esta situação se torna mais complicada porque muitos dos que desafiam as afirmações simplistas a respeito dos efeitos imitativos também desejam apontar a influência da violência na mídia em outras áreas. Muitos questionam a idéia de que a violência televisiva leve diretamente a atos de agressão física, mas ao mesmo tempo argumentam que ela encoraja uma ideologia militarista ou formas tradicionais de masculinidadecclxxiii. Mesmo que se tratem de tipos diferentes de ‘efeitos’ essas tensões e aparentes contradições não podem ser resolvidas com facilidade. Diante da urgência e do fervor das campanhas em favor da censura, fica extremamente difícil articular uma alternativa positiva, especialmente uma alternativa que tenha aceitação no debate popular. Defender a violência na mídia com base na ‘liberdade de expressão’ ou fundamentar os próprios argumentos com apelos à ‘qualidade artística’ é praticamente garantir que não se seja levado a sério. E questionar a censura, como alguns têm tentado fazer, com base em que ela é inevitavelmente ‘política’ – e que a censura da violência pornográfica deveria ser equiparada, por exemplo, à censura das notícias sobre a Irlanda do Norte – é pressupor coisas demais. No que, então, poderia se basear uma abordagem alternativa? 86 Falando de violência Ao invés de pressupormos que a violência seja uma categoria objetiva – que poderia ser medida simplesmente contando a freqüência com que ocorre – poderíamos começar a investigar o que o próprio público define como violento. As pesquisas sugerem que haja aí uma significativa variação. Os estudos descobriram, por exemplo, que as meninas percebem certas ações na televisão como ‘violentas’, e os meninos, nãocclxxiv; que os telespectadores britânicos acham mais grave a violência nos programas britânicos do que nos produzidos nos Estados Unidoscclxxv; e que a mesma ação pode ser percebida como violenta em um contexto (um drama realista, por exemplo), mas não em outro (uma série humorística, por exemplo)cclxxvi. São também previsíveis as diferenças entre as crianças e os adultos – ou pelo menos entre elas e os pesquisadores adultos. Nesse sentido, os estudos descobriram que as crianças em geral não percebem os desenhos animados como violentos, apesar de eles costumarem estar no topo das listagens de programas mais violentos feitas pelos pesquisadores cclxxvii. Do mesmo modo, a ‘violência’ que tanto preocupa os críticos adultos dos jogos de computador é com freqüência tão ritualizada e onírica que os próprios jogadores não percebem nela qualquer analogia significativa com os comportamentos da vida realcclxxviii. Há até quem argumente que a palavra ‘violento’ é predominantemente usada por pessoas que não conhecem bem os gêneros e que desejam julgá-los de forma negativa. O termo não é comumente usado por fãs desses gêneros, exceto com o sentido de ironiacclxxix. É verdade que as pesquisas freqüentemente apontam reais preocupações dos públicos com relação à incidência e aos efeitos da ‘violência na mídia’; mas o que eles realmente querem dizer com isto é uma questão mais complexa. Nas pesquisas que faço sobre a opinião de pais e crianças sobre estas questões, encontro bastante esse tipo de argumentocclxxx. Os dois grupos tendem a definir a violência televisiva como uma ‘má influência’ – ainda que má para os outros, não para eles mesmos. Precisamos, assim, reconhecer as funções sociais e as motivações de tais argumentos, ao invés de simplesmente tomá-los literalmente. Para os pais, falar a respeito dos efeitos negativos da televisão parece atribuir um status social considerável a quem fala. Lamentar os efeitos prejudiciais da violência na televisão e defender a necessidade de um controle mais severo pareceuma forma muito efetiva de aparecer na posição de ‘pais e mães preocupados’. Tais respostas - é claro - tendem a ser produzidas em situações nas quais as pessoas são endereçadas e definidas como ‘pais e mães’, sobretudo em resposta às investigações sérias de pesquisadores acadêmicos. Como numerosos estudos têm mostrado, esses encontros são atravessados por uma ‘tendenciosidade ligada ao desejo de status social’, o que leva pais e mães a assumir posições de ‘princípios’, e a superestimar o nível de controle que exercem sobre seus filhoscclxxxi. Entretanto, muitas vezes é difícil sustentar esse tipo de generalização a respeito dos efeitos da mídia diante das evidências disponíveis, sobretudo a respeito dos próprios filhos. Os relatos idealizados dos pais sobre seu próprio controle freqüentemente começam a desmoronar quando se pede que a pessoa descreva a realidade e as negociações da vida familiar. Pais e mães costumam reconhecer que suas crianças imitam o que assistem na televisão; porém, tentarão deixar implícito que para elas tal comportamento é uma forma de ‘brincadeira’, que dificilmente seria levada adiante na vida real. É claro, dizem, que os filhos dos outros poderão ser levados a cometer atos imitativos de violência; mas não apontam a mídia como culpada, e sim a forma como os pais criam seus filhos, que consideram inadequada. Quando se conversa com as crianças, é comum ocorrer um deslocamento semelhante. É claro que as crianças de dez anos de idade dirão que a violência na televisão pode causar violência na vida real. Mas nós não somos influenciados pelo que assistimos, dizem: só as criancinhas é que copiam o que assistem. A gente pode até ter feito 87 isso quando éramos menores, agora não. Mas quando você conversa com as ‘criancinhas’, a história é a mesma: ‘as outras pessoas’, ao que parece, estão sempre em outro lugar. Há um tipo de regressão infinita aqui, na medida em que as crianças de cada faixa etária reivindicam já ter chegado à idade da razão vários anos antes. Tais relatos a respeito dos efeitos das mídias fazem parte geralmente de uma ‘narrativa do eu’ mais ampla, na qual as crianças constróem uma identidade positiva por meio da negação da imaturidade de seu “eu” mais jovem. Em minha pesquisa, tanto as crianças como pais e mães citaram regularmente casos como o assassinato de James Bulger ou o massacre de Hungerfordcclxxxii como provas da influência negativa da violência na mídia – apesar da falta de evidências que caracteriza esses casos. Tais argumentos, porém, muitas vezes estão envoltos por um grau considerável de ambivalência, subjetividade e incoerência. No caso da morte de Bulger, por exemplo, a maioria dos indivíduos na minha pesquisa duvidaram da idéia de que o filme “Chucky, o brinquedo assassino 3” havia sido o grande culpado; e muitas das crianças ridicularizaram a idéia, sugerindo que ela era sintoma da hipocrisia e da histeria da imprensa popularcclxxxiii. Ao contrário de grande parte da cobertura jornalística, as crianças insistiram na necessidade de se explicar os crimes levando em conta influências sociais e psicológicas mais amplas. Em última análise, entretanto, as preocupações de pais, mães e crianças foram bastante diferentes daquelas dos políticos e outros comentaristas, e também da maioria dos pesquisadores nesse campo. A preocupação central entre os pais e as mães em minha pesquisa, pelo menos em relação a suas próprias crianças, não era a de que elas se tornassem agressivas por influência do que assistissem, mas sim que elas ficassem emocionalmente perturbadas ou aflitas. Do mesmo modo, crianças mais velhas concordaram que as mais jovens não deveriam ser expostas a certos programas, pois teriam dificuldade em lidar com eles. Nesse sentido, um ‘vídeo negativo’ foi definido não como aquele que faria as crianças agirem mal, mas como aquele que talvez as fizesse ter pesadelos. Como essas observações sugerem, os discursos sobre os efeitos da mídia carregam um peso social considerável: eles são um meio poderoso na definição do eu em relação aos outros, sobretudo em termos de maturidade e ‘saúde’ emocional. Porém, ao mesmo tempo, devemos ter cautela antes de supor que as pessoas simplesmente engulam integralmente todas essas idéias – e que, assim, os defensores de mais censura à violência na mídia representem necessariamente o que pensa a maioria da população, por mais influência que eles tenham junto aos políticos que elegeram. O mais importante, talvez, é entendermos mais claramente o que as pessoas querem dizer quando reclamam que há ‘violência demais na televisão’, ao invés de supormos que isso reflita obrigatoriamente a crença em uma epidemia de crimes “por imitação”. Lendo os ‘efeitos’ Como sugeri, portanto, precisamos entender mais exatamente os tipos de efeitos em questão. A violência televisiva, por exemplo, pode ter efeitos comportamentais – por exemplo, levando à agressão, ou encorajando as pessoas a tomarem medidas de autoproteção. Ela pode ter efeitos emocionais – por exemplo, ao produzir choque, nojo ou excitação. E ela pode ter efeitos ideológicos ou de atitude – por exemplo, ao levar os espectadores a acreditar que estejam mais vulneráveis a ameaças de pessoas com determinadas características, ou em tipos particulares de situações, acreditando assim que sejam necessárias formas específicas de legislação e políticas sociais para prevenir essas ameaças. Esses diferentes níveis de ‘efeitos’ podem estar relacionados entre si – respostas emocionais podem levar a certos tipos de comportamento, por exemplo – mas a conexões entre eles tendem a ser complexas e 88 diversas. E ver qualquer um desses efeitos como prejudicial ou benéfico em si é uma questão igualmente complexa e que depende dos critérios de avaliação que se use. Em minha pesquisa sobre o assunto, me concentrei especificamente nos ‘efeitos’ emocionais da televisão e do vídeo sobre as criançascclxxxiv. Nesta área, pelo menos, está claro que a televisão produz efeitos poderosos, e também que as crianças com freqüência decidem ver TV justamente com o objetivo de experimentar esses efeitos. A televisão pode provocar respostas ‘negativas’ - preocupação, medo, tristeza - assim como pode gerar respostas ‘positivas’ - diversão, excitação, prazer; além disso, ela muitas vezes gera reações ‘positivas’ e ‘negativas’ ao mesmo tempo. Entretanto, a questão de se estas respostas devem ser vistas como benéficas ou prejudiciais está longe de ser uma questão simples e direta. Respostas emocionais que são percebidas como ‘negativas’ podem ter conseqüências ‘positivas’, por exemplo, em termos da aprendizagem das crianças ou de seu comportamento futuro. Assim, as crianças (e os adultos) podem ficar extremamente perturbados com as imagens dos crimes violentos ou conflitos sociais que aparecem nos noticiários da televisão; mas muitos poderiam argumentar que tais experiências são necessárias como parte da tarefa de se tornar um cidadão informado – e de fato este é um argumento que as crianças utilizam em sua própria defesa. O medo da criminalidade, por exemplo, do tipo que às vezes se julga ter sido induzido pelas reportagens de TVo, pode levar a um desejo ilógico de se afastar do mundo externo; mas pode também ser necessário como um pré-requisito para a prevenção dos crimes. Do mesmo modo, a ficção infantil sempre envolveu reações ‘negativas’ tais como medo e tristeza, baseada na idéia de que experimentar tais emoções em um contexto fictício pode capacitar as crianças a superar os medos que elas tenham na vida real. Experiências que são vistas como negativas em curto prazo podem ter benefícios positivos em longo prazo. Neste sentido, portanto, as conseqüências de tais respostas emocionais não podem facilmente ser classificadas como sendo ou ‘positivas’ ou ‘negativas’. Uma distinção fundamental que precisa ser feita aqui – e que é freqüentemente ignorada nos debates públicossobre o tema – é a que existe entre fato e ficção. Muitas crianças ficam certamente assustadas pelos filmes de terror, e por algumas representações explícitas de crimes, particularmente quando elas envolvem ameaças às pessoas. Mas elas podem também ficar muito aflitas e até assustadas com o que assistem nos telejornais ou em documentários. Minha pesquisa sugere que as crianças desenvolvem uma série de estratégias para lidar com os sentimentos indesejáveis desejados induzidos por materiais ficcionais. Estas estratégias vão desde a rejeição direta (as crianças simplesmente se recusam a assistir, ou – de modo mais ambivalente – se escondem atrás do sofá), a formas de monitoramento psicológico ( preparam-se conscientemente ou tentam “pensar positivamente”). Embora essas estratégias sejam claramente transferidas a partir das reações a situações estressantes da vida real, as crianças também desenvolvem formas de conhecimento genérico – ou ‘alfabetização midiática’ – para lidar especificamente com experiências da mídia. Por exemplo: tentar prever o desfecho de uma narrativa a partir de experiências prévias com aquele gênero; usar informações obtidas fora daquele texto da mídia, tanto em conversas como em materiais publicitários; e usar a própria compreensão sobre como é criada a ilusão de realismo - por meio de efeitos especiais, por exemplo. De todas essas formas, as crianças buscam confirmar a noção de que o que estão assistindo é, precisamente, ficcional. Isto não quer dizer, claro, que essas estratégias sempre dêem resultado, ou que não sejam cometidos ‘enganos’ de diversos tipos: na verdade seria impossível desenvolver essas estratégias sem, em algum momento, ter vivido experiências negativas. Estas estratégias são simultaneamente ‘cognitivas’ e ‘sociais: elas envolvem autoconsciência e autocontrole, mas também se manifestam em performances sociais de 89 vários tipos, tanto no contexto imediato da audiência como mais tarde, nas conversas. São estratégias que dependem muito das experiências ou dos conhecimento prévios, e existem evidências de que elas podem ser explicitamente ensinadas, por exemplo, pelos pais ou pelos irmãos mais velhoscclxxxv. Entretanto, continuará a haver diferenças claras nesse sentido entre os telespectadores mais experientes e os menos experientes, o que vale tanto para as crianças como para os adultos. Os ‘fãs’, tendo se comprometido com um gênero particular, tendem a ser muito mais capazes de prever o que vai acontecer – e, por conseqüência, de monitorar e controlar suas reações – do que os telespectadores eventuais ou pouco assíduos. De fato, um aspecto crucial da preferência por gêneros como os filmes de terror ou de ‘ação’ é a forma como eles jogam com os conhecimentos prévios de seus fãs, e se alimentam deles – de sua familiaridade com as convenções narrativas estabelecidas, a caracterização e os diálogoscclxxxvi. Boa parte da ironia e do humor sarcástico que alimenta o uso da ‘violência’ nestes gêneros não será percebida pelo espectador menos experiente, que tenderá a tomá-los ao pé-da-letra – a não ser talvez quando o humor for mais explícito, como por exemplo em filmes como Demolition Man (“O Demolidor”) ou Scream (“Pânico”). Por outro lado, muitas vezes as crianças acham bem mais difícil lidar com os sentimentos negativos produzidos por material não-ficcional. Elas podem aprender a controlar o medo de um vilão monstruoso como Freddy Kruger ao reafirmar a si próprias que ele é mera ficção; mas não podem recorrer a isso quando se deparam com notícias sobre terríveis assassinatos em série ou com cenas de sofrimento e guerra na Bósnia ou em Ruanda. À medida que vão ganhando experiência com a violência na ficção, as crianças podem de fato se tornar ‘anestesiadas’ quanto à violência ficcional, ou pelo menos desenvolver estratégias para lidar com ela; entretanto a idéia de que elas se tornem insensíveis quanto à violência na vida real ainda está por ser comprovada cclxxxvii. Em contraste, entretanto, deve haver muito pouco que as crianças possam fazer para lidar melhor com suas respostas ‘negativas’ ao material não-ficcional, justamente porque elas têm tão pouco poder para intervir nos assuntos que lhes dizem respeito. Em minha pesquisa, por exemplo, as crianças com freqüência relataram como haviam se sentido perturbadas ao assistir a reportagens sobre crimes violentos, e contaram ter ficado muito mais ansiosas com a cobertura da imprensa no caso Bulger do que com o filme que supostamente o teria provocado. A diferença entre fato e ficção nem sempre é nítida, porém. Entre essas formas diferentes, as crianças também estão aprendendo a estabelecer diferenciações sutis sobre o que seria mais ou menos realista e plausívelcclxxxviii. Como já sugeri, estas diferenciações dependem da natureza e do contexto em que a violência aparece, das expectativas das crianças e de seu conhecimento sobre os gêneros e sobre o próprio meio. “Chucky, o brinquedo assassino 3”, por exemplo, foi descrito por muitas das crianças em minha pesquisa como uma comédia (o que em minha opinião é uma classificação bastante precisa); porém outros filmes de terror, tais como Pet Sematery (“Cemitério Maldito”) e até mesmo The Omen (“A Profecia”) parecem ter sido vistos como mais verossímeis, e portanto mais assustadores. Os programas de ficção considerados mais realistas (como Casualty, drama televisivo sobre um hospital) foram recebidos com mais credibilidade e julgados mais perturbadores, enquanto programas factuais que usavam recursos ‘ficcionais’, tais como encenações de crimes, às vezes foram tratados com irreverência. É significativo, porém, que um programa muitas vezes descrito como o mais assustador deliberadamente violava estas distinções: não era um vídeo de ‘baixaria’ mas um programa de televisão chamado Ghostwatch, transmitido pela BBC no Halloween em 1992. O programa aparentemente mostrava uma caçada de fantasmas na vida real, em uma casa nos arredores de Londres; usando todas as convenções dos canais abertos de TV para uma reportagem externa ao vivo, inclusive apresentadores conhecidos representando a si próprios, o programa parece ter conseguido enganar muitos telespectadores. Várias crianças disseram 90 ter achado o programa muito perturbador, mas diversas crianças mais velhas expressaram grande interesse em assisti-lo novamente; e há cópias em vídeo ainda em circulação, mostrando que o seu status cult permanece. Como isso deixa claro, a distinção entre fato e ficção não é fixa nem direta, e brincar com as fronteiras entre essas categorias é um tipo de prazer nitidamente arriscado. Então, por que as crianças assistem a isso? Ao invés de simplesmente condenarmos a violência na tela, portanto, faz sentido começarmos pela seguinte pergunta: por que as pessoas – e em particular as crianças – escolhem decididamente assisti-la? As pesquisas sobre o tema em geral buscam responder a essa pergunta usando uma concepção patológica do telespectador. O gosto pela violência é visto como um sintoma de imaturidade sexual, falta de inteligência, ou problemas de personalidade mais graves. Poderia parecer, em última análise, que as pessoas só assistem a este tipo de coisa porque há alguma coisa fundamentalmente errada com elas. O gosto potencial pela violência na tela é até certo ponto bastante fácil de compreender. Para muitos telespectadores, existe excitação visceral em assistir a representações gráficas de violência – uma excitação reconhecida, é claro, desde as tragédias gregas da antigüidade. Alguns críticos se entusiasmam de vez em quando com a ‘poesia’ ou ‘beleza’ de determinadas seqüências de violência na tela, enquanto outros reconhecem seu apelo vagamente contra-cultural e subversivocclxxxix. Como já destaquei, muitos filmes encorajam uma forma auto-consciente de ironia ou um senso de humor ‘repulsivo’ como reação à violência na tela, o que sugere que esta não deva ser tomadaao pé-da-letra. As chamadas publicitárias para os filmes violentos – do tipo ‘será que você agüenta?’ – também sugerem o prazer que pode ser obtido quando se ‘testa’ conscientemente as próprias reações psicológicas ccxc. Exemplos extremos de violência gráfica podem levantar questões morais e filosóficas desafiadoras a respeito de nossa própria cumplicidade no processo, não apenas em ‘filmes de arte’ como Man Bites Dog ou Broken Mirrors mas também em formas mais dominantes de entretenimento, como Reservoir Dogs (“Cães de Aluguel”) ou Natural Born Killers (“Assassinos por Natureza”)ccxci. Todas estas questões podem dar idéia do significado da experiência e do prazer da violência na tela em si – e poucas delas tem sido sequer reconhecidas, muito menos investigadas sistematicamente pelas pesquisas convencionais. Porém, a presença ou ausência da ‘violência’ pode não ser em si mesma uma explicação suficiente, ou mesmo particularmente significativa para a razão pela qual as pessoas decidem se expor a tais materiais. Também aqui precisamos olhar para além da ‘violência’ , em direção aos contextos genéricos e dramáticos em que ela ocorre. Vamos examinar o caso do terror. Na medida em que gêneros aparentemente violentos como os filmes de terror realmente geram emoções negativas, talvez eles sejam populares porque nos permitem entender e lidar com preocupações e ansiedades da vida real na arena comparativamente segura da ficção. De fato, muitos filmes de terror parecem ser implicitamente endereçados às crianças, ou pelo menos ‘à criança que existe em todos nós’. Não é de surpreender que tantos dos livros, filmes, e programas de televisão aparentemente aterrorizantes que as crianças preferem sejam aqueles que lidam com o medo dos grandes e incompreensíveis ‘monstros’ que as rodeiam. Uma leitura alternativa seria a de que esses programas mostram personagens que parecem crianças, ou com dimensões reprimidas da infância, que se vingam do mundo adulto. Talvez por isso o personagem Chucky do filme “Brinquedo Assassino 3” tenha ofendido a tantos adultos: ele representa uma afronta direta e altamente consciente a noções tão louvadas de inocência infantil. 91 Em minha pesquisa sobre as respostas das crianças ao terror, encontrei uma considerável ambivalência. De um lado, os relatos das crianças sobre filmes de terror com freqüência vinham acompanhados de desdém. Muitas negavam com veemência que tivessem medo de filmes de terror, e chegaram a ridicularizar quem disse ter medo. Muitas gostavam de afirmar que agora não sentiam mais medo desses filmes, ainda que o tivessem sentido quando eram mais novas. Algumas das crianças relataram cenas de tortura e mutilação extremamente cruéis, em um tom deliberadamente casual, como que para garantir que realmente não sentiam medo. Diversas crianças tentaram usar seus limitados conhecimentos sobre o gênero narrativo, e sua compreensão sobre o processo de produção, para se distanciarem do medo que tais filmes lhes tinham evidentemente provocado; para os telespectadores mais jovens ou menos experientes, contudo, este conhecimento era incerto, e seus efeitos nem sempre garantidos. Filmes como Child´s Play (“Chucky, o boneco diabólico”) e Nightmare on Elm Street (“A Hora do Pesadelo”) foram freqüentemente descritos como ‘não-realistas’ e até mesmo como engraçados, particularmente pelas crianças mais velhas. Muitas gostavam de fazer referência ao uso excessivo de ‘ketchup’ e maquiagem; mas manifestaram também um certo apreço estético pelos efeitos especiais bem produzidos. Por outro lado, houve muitas amostras de que os filmes de terror realmente assustam as crianças, e de que as reações desse tipo podem às vezes ser bastante duradouras. Essas experiências pareciam se cristalizar em torno de uma única cena ou imagem descontextualizada que as crianças ‘rebobinavam’ em suas cabeças. Em muitos casos, as crianças contaram como a sensação de medo se intensificava depois do momento em que assistiam às cenas. Algumas falaram do medo de entrar em um quarto escuro ou de ir tomar água na cozinha depois de ver um filme de terror. Outras contaram que roupas penduradas na porta ou uma sombra na cortina podiam temporariamente tomar a forma de um Alien – embora, é claro, estes medos sejam lugares-comuns e não resultem apenas daquelas experiências de espectador. Uma razão possível da intensificação dos medos seja o fato de que muitas das estratégias de negociação disponíveis no momento da audiência não mais funcionem na escuridão e no isolamento do quarto de dormir, onde a única opção é esconder-se debaixo das cobertas. Isto nos faz pensar também sobre a interessante questão da ‘suspensão da descrença’ que às vezes é vista como um pré-requisito para a experiência do terror. Noel Carrol argumenta que o terror na verdade não depende da suspensão da descrença - pelo menos no sentido de um ato consciente que acontece de uma vez por todasccxcii. Jamais abrimos mão da nossa crença de que o monstro seja ficcional, ele sugere: ao invés disso, o medo que sentimos é reação ao pensamento ou à imaginação de que o monstro poderia ser real. Assim, o medo evocado pelo terror muitas vezes depende de uma dúvida a respeito do sobrenatural de forma mais geral – e de uma disposição para ao menos considerarmos a possibilidade de sua existência – o que é bastante comum, mesmo em sociedades aparentemente seculares. Talvez o mais crucial a ser enfatizado aqui, entretanto, é que em quase todos os relatos as crianças assumiram a posição da vítima e não do ‘monstro’. Como Carol Clover argumenta de modo muito convincente em seu estudo sobre a dinâmica de filmes sobre ‘vingança de estupro’ e ‘estripadoresccxciii’, o terror contemporâneo com freqüência identifica- se com a vítima: o que é percebido como ‘bom terror’, ela sugere, poderia ser o que melhor consegue ‘ferir’ seus espectadores, brincando com medos e desejos que são muitas vezes considerados ‘femininos’. Longe de glorificar uma identificação sádica e misógina com o assassino (masculino), os espectadores podem de fato estar adotando a posição masoquista da vítima (feminina). A noção de que aqui, bem como na audiência cinemática em geral, os 92 espectadores sejam necessariamente levados a adotar o ‘olhar masculino’, sádico e dominador, é uma questão que certamente permanece em aberto. Em certo sentido, é claro, essa ambivalência pode ser vista como uma função da situação de entrevista. Assumir que tivemos medo é, sob alguns aspectos, admitir fraqueza; porém argumentar que o filme não é assustador é abalar o status ‘contracultural’ ou ‘adulto’ do filme, e conseqüentemente nosso próprio status enquanto espectadores. Entretanto, esta ambivalência pode também estar indicando as tensões envolvidas na experiência da audiência em si. Assim, apesar de muitas das crianças contarem que tiveram medo e pesadelos depois de assistirem a filmes de terror, sua primeira motivação para fazê-lo foi claramente o prazer. Mesmo quando reconheciam que os filmes eram assustadores, isso era freqüentemente visto como sinônimo do prazer que eles proporcionavam. Muitas das crianças expressaram o desejo de assistir novamente a coisas ‘assustadoras’, mesmo quando suas primeiras experiências pareciam ter sido bastante traumáticas. O desejo de ‘ver de novo’ – e a prática de fazê-lo – têm relação, de certo modo, com reviver o prazer, simplesmente. Muitas crianças alegaram ter assistido a filmes de terror favoritos ‘muitas e muitas vezes’, enquanto outras contaram como adiantavam o vídeo até as ‘melhores partes’ – ou seja, os momentos mais assustadores e ‘violentos’ – ou assistiam a esses trechos novamenteccxciv. Ao mesmo tempo, este tipo de audiência repetida ajuda as crianças a lidar com sentimentos negativos: rebobinar a fita possibilita ‘ver como aquilo foi feito’ e conseqüentemente vencer o medo. Isto nos sugere uma visão bem diferente sobre o impacto da tecnologiadaquela que é freqüentemente defendida nos debates públicos. Como já observei, comenta-se que o ‘problema’ do vídeo nesse contexto é que ele abala as regulamentações centralizadas; e também, às vezes, que ele estimula uma atenção excessiva e doentia aos momentos descontextualizados de violência. Porém, como tenho destacado, ele também pode permitir que os espectadores exerçam um controle muito mais positivo, contribuindo para o desenvolvimento de suas competências como público. Mesmo no caso dos espectadores mais entusiastas de terror, entretanto, viu-se que o prazer apareceu como inseparável da possibilidade de sofrimento – apesar de o equilíbrio entre os dois ser, às vezes, difícil de alcançar. Esta ambivalência talvez fique mais visível na pose característica do espectador de terror, descrita por várias crianças: espreitando por cima da almofada, ou espiando por entre os dedos quase fechados. Essa pose permite que a pessoa se sinta ‘segura’, ao mesmo tempo em que satisfaz o desejo de saber o fim da história. Mesmo assim, os principais focos de prazer que as crianças obtêm assistindo a esses filmes apareceram como sendo a transgressão e a destruição. Em geral as crianças não optaram por focalizar a restauração da ordem ou a derrota do monstro, mas as violações dos tabus sociais, sexuais e físicos apresentados no filme. Seria ir longe demais sugerir, como fazem alguns críticos, que estas transgressões sejam de alguma forma politicamente ‘progressistas’, ou até mesmo psiquicamente terapêuticas – que o monstro represente de alguma forma todos os grupos sociais desprivilegiados, ou as energias sexuais reprimidas, cujas ameaças inerentes precisam ser contidas pela sociedade burguesaccxcv. Entretanto, muito do gosto pelo terror deve certamente residir não apenas no prazer de ver a maldade destruída ou controlada, mas também em vê-la triunfar, mesmo que temporariamente. Isto não quer dizer que os telespectadores simplesmente se ‘identifiquem’ com o monstro – o contrário seria mais provável. Mas a ‘dor’ envolvida no ato de assistir não deveria ser vista simplesmente como o pólo oposto do prazer, como se a presença de um significasse a ausência ou a remoção do outro. A ambivalência e a complexidade das experiências das crianças com o terror deveriam nos levar a questionar muitos dos pressupostos freqüentes a este respeito – idéias geralmente baseadas na ignorância, não apenas das crianças, mas também do próprio gênero 93 narrativo. Com certeza as crianças ficam muitas vezes assustadas ou enojadas diante dos filmes de terror, mas isso acontece também com os adultos. A idéia de que a experiência seja, portanto, necessariamente negativa ou traumática, ou que ela inevitavelmente ‘deprave ou corrompa’ não é mais válida do que a idéia de que ela seja de alguma forma automaticamente terapêutica. Pode ser que, como adultos, seja nossa responsabilidade ajudar as crianças a aprenderem a lidar com tais experiências; mas é importante que o façamos de um modo que respeite a complexidade do processo e que confira poder às crianças para que tomem as decisões em seu próprio nome. Mudanças nos lugares de regulamentação As mudanças tecnológicas das duas últimas décadas abalaram drasticamente a habilidade do estado de controlar o tráfego das imagens em movimento. Um número crescente e substancial de crianças ‘menores de idade’ têm assistido a um tipo de material ao qual não têm oficialmente acesso legal – e que alguns gostariam de banir de vez. Entrevistei crianças com apenas 6 anos de idade que tinham visto filmes da série “A Hora do Pesadelo”, ainda que possam ser exceções; e arriscaria dizer que a maioria dos garotos e garotas no início da adolescência já assistiram a pelo menos um desses filmes ou algum filme da série “Chucky” – sendo que quase todos eles são impróprios para menores de 18 anos na Grã- Bretanha. Do mesmo modo, filmes como Pulp Fiction e Goodfellas(“os Bons Companheiros”) e séries como Terminator (“O Exterminador do Futuro”), Die Hard (“Duro de Matar”) e Lethal Weapon (“Máquina Mortífera”) possuem uma legião considerável de fãs entre os garotos adolescentes mais jovens, com idade bem inferior a 15 ou 18 anos. Se o objetivo da regulamentação da mídia é impedir o acesso das crianças a esses materiais, então ela está fracassando redondamente. Nessa situação, boa parte da responsabilidade pelo controle tem sido transferida, inevitavelmente, aos familiares. Isto, porém, é em si um motivo considerável de preocupação. Como já observei, o debate sobre os efeitos da mídia tem cada vez mais se entrelaçado com o debate sobre o papel dos pais – um debate que, no rastro das preocupações com os abusos infantis em décadas recentes, tem assumido um tom cada vez mais urgente. Talvez o aspecto que mais deva causar indignação em todo esse debate seja o modo como pais e mães de classe trabalhadora têm sido culpabilizados. Eles são vistos como pais inadequados, vivendo vidas caóticas e sem objetivo em conjuntos habitacionais estatais país afora, e acusados de lavar as mãos de toda a responsabilidade para com seus filhos, sem ligar a mínima atenção para se elas estarão sendo corrompidas ou traumatizadas pelas imagens de uma violência sem sentidoccxcvi. Obviamente, é difícil saber se tais pais e mães realmente existem. Ao longo de vários anos de pesquisa neste campo com crianças, pais e mães provenientes de um amplo leque de contextos sociais – inclusive alguns claramente carentes do ponto de vista material – ainda não encontrei, nem ouvi falar de famílias que não tentem controlar o tipo de programa ou filme que suas crianças assistem, pelo menos antes da adolescência. Entretanto, como tenho observado, a preocupação central dos pais e das mães com relação ao chamado material ‘violento’ não é o medo de que seus filhos venham a se tornar criminosos ou assassinos de crianças. Ao contrário, eles querem é protegê-los de materiais que as crianças possam considerar assustadores ou angustiantes. E, ao mesmo tempo, as crianças também estão aprendendo, de diferentes maneiras, a proteger a si próprias de tais experiências. Entretanto, o problema para os pais (e também para os produtores de mídia) é que é muito difícil prever o que exatamente as crianças acharão perturbador ou angustiante. Muitas das crianças que entrevistei descreveram experiências bem pouco prováveis que tiveram em sua primeira infância, tais como se sentirem assustadas por causa de filmes aparentemente 94 inócuos como Mary Poppins ou Chitty Chitty Bang Bang (“O Calhambeque Mágico”) Não é apenas uma questão de desenvolvimento psicológico: entrevistei crianças de 6 anos de idade que afirmaram com naturalidade não terem sentido medo de “A Hora do Pesadelo” e adolescentes de 15 anos que disseram justamente o contrário. Para os pais e mães, isto torna difícil saber quando e como intervir. Banir simplesmente o material vai dar a ele um sabor de fruto proibido, fazendo com que as crianças procurem ainda mais assisti-lo em outro lugar. Respostas instintivas – desligar a fita quando as cenas parecerem ir longe demais, ou mandar as crianças para outra sala – pode privá-las do alívio reconfortante oferecido ao final da narrativa. Pelo menos em princípio, as crianças geralmente aceitam que os pais e mães tenham razão ao tentar protegê-las de tais experiências. Na prática, entretanto, há muita negociação em torno do que se compreende como ‘apropriado’ para as crianças assistirem; e muitas delas parecem conseguir muito bem escapar às tentativas de regulação dos pais. Aqui, novamente, os debates no interior da família envolvem questões muito mais amplas a respeito das características próprias da infância e da idade adulta, muito embora vários dos pais e mães em minhas pesquisas reconhecessem ter aprendido muito com as suas crianças sobre o assunto, e que suas visões mudaram com o passar do tempoccxcvii. Porém, apesar de pais, mães e crianças às vezesentrarem em conflito, todos em geral defendiam o direito de tomarem suas próprias decisões a respeito do que deveria ser assistido. Se é verdade que tanto as crianças como os pais em geral conhecem as formas de regulamentação das mídias – como as classificações para vídeos e as políticas de ‘audiência familiar’ para televisão a cabo – eles freqüentemente as questionam e rejeitam. Em termos gerais, os pais e as crianças concordam que a responsabilidade da regulação deveria ser compartilhada entre eles, e não estar nas mãos dos outros. As mudanças tecnológicas, econômicas e culturais – assim como a crescente diversidade de opiniões sobre temas como gosto e moralidade – têm portanto abalado cada vez mais o status da regulação centralizada. Isto significa, então, que ela simplesmente deveria ser abandonada? Em última análise, não acredito que seja realista adotar uma posição libertária por atacado, pelo menos em relação às crianças. Por uma série de razões bastante genuínas, os adultos sempre vão querer ‘censurar’ ou controlar as imagens e textos disponíveis às crianças. A questão não é se, mas como e onde isto ocorre. Para o bem ou para mal, há uma tendência inexorável em direção a formas ‘privatizadas’ de regulação, que colocam maior responsabilidade nas mãos de cada consumidor individualccxcviii. Certamente, políticos e lobistas continuarão a bradar pela necessidade de censura mais rígida. Nos rastros do caso Bulger, por exemplo, as autoridades que classificam os filmes receberam um poder maior de censurar a violência no vídeo, e as penalidades por fornecer fitas de vídeo classificadas para 18 anos aos jovens ‘menores de idade’ hoje excedem aquelas aplicadas ao fornecimento de drogas pesadas. Entretanto, as próprias agências de regulamentação começam a aceitar a lógica dessa situaçãoccxcix. Na Europa, ao menos, parece haver pouco apoio para a introdução do V-chipccc, e existe um movimento positivo em direção a que seja oferecida uma “orientação ao consumidor’ mais detalhada sobre o conteúdo de filmes e programas, particularmente no que se refere a temas de preocupação geral. Entretanto, muito mais poderia ser feito para tornar o sistema bem mais informativo e responsável, assegurando que os cidadãos comuns sejam envolvidos nos processos de tomada de decisões. O fundamental é que nos movamos em direção a uma situação na qual a regulamentação da mídia em termos de gosto ou moralidade se baseie mais na orientação do que na imposição legal, como ocorre hoje na Grã-Bretanhaccci. A negação contínua do direito dos adolescentes de fazerem escolhas informadas sobre o que vão assistir é no mínimo anacrônica: está fora de compasso com a opinião da maioria dos pais, e parece ter sido planejada para estimular o comportamento que se propõe a prevenir. 95 No entanto, sugerir que deveríamos passar a responsabilidade aos pais, mães e crianças desta forma não significa termos fé cega no ‘poder do consumidor’. Em seu pior sentido, este argumento parece aliar-se à privatização da infância – e da mídia – identificada nos capítulos anteriores. Como Patricia Holland defende, precisamos de uma ‘visão mais ampla’ capaz de ‘permitir às crianças crescerem para além do estreito e superaquecido ambiente familiar em direção a uma esfera pública diversificada’cccii. Ainda que eu apóie claramente um sistema de regulamentação mais privatizado, ao menos em relação a questões de gosto e moralidade, qualquer sistema deste tipo necessitará de apoio substancial por parte da esfera pública. Nesse sentido, a mera ‘orientação ao consumidor’ não é suficiente. Precisamos de iniciativas muito mais coerentes e consistentes ao nível das políticas culturais e educacionais, que habilitem as crianças, seus pais e suas mães a se tornarem participantes críticos e informados da cultura das mídias. Como argumentarei adiante, isto exigirá uma forma renovada de pensar as relações entre o público e o privado, e o papel de instituições públicas como as escolas. Essas questões, e a ‘visão mais ampla’ da qual elas podem fazer parte, serão desenvolvidas no capítulo de conclusão. Desconfio, porém, que os moralistas de plantão continuarão a evitar aquilo que está realmente em questão no debate sobre as crianças e a violência na mídia. Como tenho sugerido, esse debate é na verdade a respeito de outras coisas, muitas das quais tem muito pouco a ver com a mídia e com as crianças. A questão da violência na mídia parece estar servindo como um código para representar ansiedades muito diversas, embora fundamentais – a respeito do declínio da família, da religião organizada, sobre a natureza cambiante das leituras e da cultura contemporânea, e sobre o ritmo da mudança tecnológica. Essas são ansiedades difíceis de enfrentar, quanto mais de superar; e elas têm mais origem nas turbulências sociais gerais das três últimas décadas do que nas mudanças ‘locais’ nas próprias mídias. Se pode haver algum benefício em tentarmos abordar as relações das crianças com a violência midiática em si, essas ansiedades mais gerais, em última análise, serão impossíveis de ignorar. CAPÍTULO 8 As crianças como consumidoras Se o debate público sobre o impacto da violência na mídia tem sido dominado por pessoas ligadas politicamente à direita, a questão do consumismo e da publicidade tem um status semelhante no campo da esquerda. Nos dois casos, as crianças são o foco especial de preocupação, a partir de sua aparente vulnerabilidade à influência das mídias. Nos dois casos, atribui-se às mídias um super-poder capaz de governar comportamentos, moldar atitudes, construir e definir as identidades das crianças. E, nos dois casos, as preocupações têm levado a exigências de uma maior proteção à criança, na forma de mais rigidez na censura e na regulamentação das mídias. Como já argumentei, esta ênfase nas crianças pode ser vista como parte de uma ‘política de substituição’ mais geralccciii. Também aqui as manifestações de ansiedade e preocupação com as crianças acabam sendo uma forma de carrear apoio para posições que não são, de modo algum, específica ou unicamente relacionadas às crianças. Inserir as crianças na equação sem dúvida torna as questões mais dramáticas; mas ao mesmo tempo acaba representando as próprias crianças como realmente desprovidas de poder. Livros como a antologia Kinderculture (“Cultura Infantil: a construção corporativa da infância”) discutida no capítulo 2, materializam essas preocupações em sua retórica máximaccciv. As crianças são vistas ali como vítimas indefesas de um tipo de lavagem cerebral, nas mãos dos conglomerados capitalistas da mídia. As corporações comerciais são acusadas de ‘colonizar a consciência das crianças’ impondo falsas ideologias e inculcando valores materialistas aos quais as 96 crianças parecem especialmente incapazes de resistir. É claro que a preocupação com as relações entre as crianças e a cultura de consumo nem sempre são motivadas por argumentos tão explicitamente anti-capitalistas. Porém, assim como no debate sobre a violência, assume-se genericamente que as crianças são um ‘público especial’, um grupo cujas características e necessidades inatas deixa especialmente em situação de risco. Mais uma vez, minha intenção aqui não é sugerir que essas preocupações estejam simplesmente equivocadas, ou então rejeitá-las como se fossem uma forma de ‘pânico político’. Há motivos genuínos para que tais preocupações tenham se tornado mais intensas nos últimos anos; e é preciso construir respostas mais aprofundadas, tanto com relação às políticas midiáticas como quanto à educação. Entretanto, assim como no debate sobre a violência na tela, as preocupações com as relações entre as crianças e a cultura de consumo têm se revestido de um significado muito mais simbólico. A imagem popular das crianças como meras vítimas inocentes dos artifícios sedutores dos capitalistas malvados recorre a ideologias da infância quesão muito mais fundamentais. A ansiedade que cerca as relações das crianças com a cultura de consumo pode ser associada a preocupações muito antigas com o envolvimento das crianças na força de trabalho. Como a historiadora Ludmilla Jordanova demonstrou, as críticas ao trabalho infantil no final do século XIX refletiam crenças mais gerais sobre a natureza essencial da infância: As crianças eram (vistas como) carinhosas, impressionáveis, vulneráveis, puras, merecedoras de proteção dos pais, e conseqüentemente, muito facilmente corruptíveis pelo mercado. Havia duas principais justificativas para esta caracterização das crianças: uma delas era o cristianismo, que retratava as crianças como num ‘estado de vida sagrado’; a outra justificativa era ideológica, apresentando as crianças como sendo de algum modo ‘naturalmente’ incompatíveis com o mundo das mercadoriascccv. Como Jordanova argumenta, a relação das crianças com a economia é um aspecto-chave de tensão na aparente transição do status de criança (no âmbito da ‘natureza’) para o de adulto (no âmbito da ‘cultura’). Assim, essa relação é uma arena crucial para a negociação e a definição do significado de infância. Também aqui, portanto, a questão central é o modo como interpretamos o crescente envolvimento das crianças em áreas da vida ‘adulta’ das quais elas tinham sido tradicionalmente excluídas. Na tentativa de desenvolver uma resposta mais construtiva a esta questão, precisaremos novamente desentranhá-la das preocupações mais amplas que ela passou a simbolizar e representar. A emergência da criança consumidora Os últimos cinqüenta anos têm assistido a um aumento impressionante no raio de abrangência e na escala da atividade de consumocccvi. O leque de produtos de consumo oferecidos pelo mercado aumentou significativamente; fazer compras tornou-se um passatempo popular bastante procurado, ficando em segundo lugar apenas em relação a assistir televisão; e as oportunidades de fazer compras são cada vez mais variadas e disponíveis. Mais e mais atividades e aspectos da interação humana – particularmente aqueles relacionados ao lazer – são disponibilizados pelo mercado comercial. Entretanto, foi apenas nas duas últimas décadas que a procura incessante do capitalismo por novos mercados passou a se concentrar tão intensamente nas crianças. Assim como os adolescentes foram aparentemente ‘descobertos’ como um grupo consumidor diferente durante a expansão econômica no pós-guerra, agora as crianças é que se tornaram um dos alvos mais procurados pelo marketing segmentado. A redução do tamanho das famílias, a freqüência dos divórcios e das famílias monoparentais e o aumento geral de renda de consumo (embora desigualmente distribuída), combinados com a nova ‘valorização’ simbólica da infância, têm dado mais voz às crianças nas decisões de compras domésticas. Como os publicitários já reconheceram, as crianças podem até não ter muita renda própria para gastar, mas seu ‘poder de importunar’ exerce uma influência real nas 97 decisões de compras da família. Nos Estados Unidos, por exemplo, o mercado para crianças é calculado em 10 bilhões de dólares por ano; mas a influência total das crianças nas compras domésticas supera os 130 bilhões de dólares anuais, de acordo com as estimativas. cccvii O comércio varejista também adotou técnicas de vendas mais ‘focadas nas crianças’; os gastos com a publicidade dirigida a esse grupo social têm crescido exponencialmente, e ampliou-se o mercado de promoções gerais voltadas ao público infantil, sobretudo nas escolascccviii. Enquanto isso, a desregulamentação gradual das indústrias da mídia e as mudanças em direção aos sistemas midiáticos globais e multi-canais têm gerado uma nova supremacia dos interesses comerciais e um correspondente declínio nos investimentos do setor público. A questão de se as crianças estão sendo atendidas adequadamente neste novo ambiente midiático é particularmente difícil de responder com relação à televisão. Como já observei, a quantidade de televisão disponível às crianças tem aumentado significativamente, tanto nos canais abertos quanto (e mais espetacularmente ainda) nos canais por assinatura, embora isso não tenha sido acompanhado por um aumento na qualidade e na diversidade (como quer que elas sejam definidas). Em muitos países, os defensores da televisão para criança engajam-se em uma luta contínua, não tanto para ampliar ou melhorar a oferta de programas para as crianças, mas simplesmente para preservá-la. Se é verdade que tem havido algumas vitórias – por exemplo, o Broadcasting Act no Reino Unido em 1990, e o Children´s Television Act nos Estados Unidos em 1990 – o cumprimento das responsabilidades regulamentares das emissoras de televisão com relação às crianças continua sendo motivo de preocupação. Essas discussões giram agora cada vez mais em torno da Internet, onde também proliferam os sites comerciais destinados às crianças. Esses sites geralmente combinam atividades ‘educativas’ superficiais com mensagens publicitárias e tentativas de captação de dados para pesquisas de mercadocccix. Também aí as crianças emergem como um novo e importante alvo do mercado; nesse processo, as fronteiras entre ‘educação’ e ‘entretenimento’, e entre conteúdo e propaganda, tornam-se cada vez mais difusas. A convergência da mídia e o marketing integrado levam a uma situação na qual todos os textos das mídias podem ser considerados propagandas para outros textos das mídias. Além disso, como já observei, a contínua comercialização da mídia destinada às crianças também contribui para a ampliação do fosso entre os ‘ricos em informação’ e os ‘pobres em informação’, processo no qual os telespectadores restritos aos canais de TV aberta e que não têm acesso às novas tecnologias encontram-se em grande desvantagem. As reações a essas mudanças encontram-se severamente polarizadas. Por um lado, muitos críticos vêem o mercado como sendo inerentemente contrário aos verdadeiros interesses e necessidades das crianças. A mídia comercial, argumentam, faz pouco mais do que a incitar ao consumismo e explorar a vulnerabilidade das crianças. Stephen Kline, por exemplo, coloca essa posição em termos sombrios: O mercado nunca irá inspirar as crianças com ideais elevados, imagens positivas da personalidade, ou oferecer histórias que as ajudem a se ajustar aos problemas da vida ou promover brincadeiras que as ajudem a amadurecer. Não se pode esperar que os interesses comerciais em busca de lucros máximos se preocupem com os valores culturais ou objetivos sociais situados além da linha cultural consumista que sustenta as mídias comerciaiscccx. Em contraste, há aqueles que argumentam ser o mercado um modo mais efetivo de atender às necessidades das crianças do que o sistema de teledifusão pública, considerado antiquado e paternalista. Nas palavras de Geraldine Laybourne, uma das fundadoras do canal Nickelodeon, ‘o que é bom para os negócios é bom para as crianças’cccxi. Como vimos, é típico dos novos produtores comerciais declarar que não estão simplesmente servindo as crianças (ou, como são chamados nesse contexto, os “kids”cccxii), mas dando poder a elas. As crianças são caracterizadas aí como um público exigente e sofisticado, difícil de atingir e satisfazer. Longe de serem vítimas passivas da cultura comercial, as crianças são vistas como consumidoras soberanas e todo-poderosas. 98 Tais debates, portanto, trazem à tona inevitavelmente todo tipo de concepção a respeito das necessidades das crianças e de como atendê-las. Stephen Kline, por exemplo, afirma que as crianças demandam ‘ideais elevados’ e ‘imagens positivas da personalidade’, e que elas precisam de ajuda para se ajustar e amadurecer – deixando subentendido que essas coisas só podem ser fornecidas às crianças por adultos bem-intencionados e livres de motivações comerciais. Geraldine Laybourne e outros provavelmente compartilhariam