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Crescer na Era das Mídias: 
após a morte da infância 
 
(After the Death of Childhood: growing up in 
the age of electronic media) 
 
 
 
David Buckingham 
 
 
 
Tradução: Gilka Girardello e Isabel Orofino 
 
 
 
 
Referencia: 
BUCKINGHAM, David. Crescer na Era das Mídias: após a morte da infância. Tradução de 
Gilka Girardello e Isabel Orofino. Florianópolis. 2006. Título original: After the death of 
childhood: growing up in the age of eletronic media. Trabalho não publicado. Buckingham - 
Crescer na era das mídias - inteiro.doc. 1 arquivo (760 Kb). Word 2003. 
 2
(CONTRACAPA) 
 
“As mídias vitimizam as crianças ou lhes dão poder? Lúcido e capaz de 
enxergar longe, David Buckingham nos desvia dos clichês sobre a infância 
pós-moderna e nos leva até as ruas, escolas, quartos e salas-de-estar onde 
estão as crianças de verdade, tentando lidar não só com as mudanças 
tecnológicas, mas também com as transformações nas instituições e nos 
valores.” 
 Elihu Katz, Universidade da Pennsylvania 
 
“Crescer na Era das Mídias” é uma excelente revisão crítica da agitação que 
cerca a infância e as mídias neste raiar do século XXI. O livro debate as 
questões com grande estilo e extrema clareza, chegando a conclusões que 
são de importância vital, não apenas para educadores e profissionais de 
mídia, como para qualquer adulto interessado e informado.” 
 Valerie Walkerdine, Universidade de Western Sydney 
 
 “ Este é um livro tremendamente impressionante. David 
Buckingham investiga um grande número de afirmações sobre as crianças e 
suas relações com as mídias, e as confronta com a solidez das verdadeiras 
pesquisas. Você não precisa concordar com cada um dos argumentos que ele 
desenvolve ou com as posições a que ele chega para reconhecer que este é 
um trabalho de fôlego excepcional e rica inteligência.” 
 Martin Barker, Universidade de Sussex. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 3
Qual será o destino da infância no século XXI? Será que as crianças 
estarão vivendo cada vez mais “infâncias midiáticas”, dominadas pela tela 
eletrônica? Será que seu crescente acesso às mídias adultas vai ajudar a abolir as 
diferenças entre infância e maturidade? Ou será que o advento das novas mídias 
irá aumentar ainda mais o fosso entre as gerações? 
 
David Buckingham faz uma revisão lúcida e acessível das mudanças 
recentes, tanto na infância quando no ambiente das mídias. Ele refuta o 
simplismo do pânico moralista diante das influências negativas das mídias, 
assim como o otimismo exagerado sobre a ‘geração eletrônica’. No 
processo, ele aponta os desafios colocados pela proliferação das novas 
tecnologias, a privatização das mídias e do espaço público, e a polarização 
entre os que têm e os que não têm acesso às mídias. Ele argumenta que as 
crianças não podem mais ser excluídas ou protegidas do mundo adulto da 
violência, do comercialismo e da política, tendo que ser preparadas para lidar 
com ele; e que são necessárias novas estratégias para proteger os direitos 
delas enquanto consumidoras e cidadãs. 
 
Baseado em extensas pesquisas, este livro lança um novo olhar às 
preocupações já estabelecidas sobre os efeitos das mídias nas crianças. Ele 
aborda de modo desafiador e revigorante as eternas preocupações de 
pesquisadores, familiares, educadores, produtores de mídia e planejadores. 
 
David Buckingham é Professor do Instituto de Educação da Universidade de 
Londres. 
 
 
 
 
 
 4
CONTEÚDO 
 
Agradecimentos.................................................................... 
 
Introdução 
1. Em Busca da Infância................................................ 
 
Parte I 
2. A Morte da Infância................................................... 
3. A Geração Eletrônica................................................. 
 
Parte II 
4. Infâncias em Mudança................................................ 
5. Mídias em Mudança................................................... 
6. Paradigmas em Mudança........................................... 
 
Parte III 
 7. As Crianças assistindo à Violência......................... 
8. As Crianças como Consumidoras................................ 
 9. As Crianças como Cidadãs.......................................... 
 
Conclusão 
 10. Os Direitos de Mídia das Crianças............................ 
 
Notas 
Referências 
Índice Remissivo 
 
 
 5
PREFÁCIO À EDIÇÃO BRASILEIRA 
 
Para aqueles de nós que estamos próximos de crianças na vida diária – pais, mães, 
familiares, professores ou outros profissionais – é difícil ignorar a importância cada vez 
maior das mídias eletrônicas. Em todas as sociedades industrializadas – e também em muitos 
países em desenvolvimento – as crianças hoje passam mais tempo em companhia dos meios 
de comunicação do que com seus familiares, professores e amigos. As crianças parecem cada 
vez mais viver ‘infâncias midiáticas’: suas experiências diárias são repletas das narrativas, 
imagens e mercadorias produzidas pelas grandes corporações globalizadas de mídia. 
Poderíamos mesmo dizer que hoje o próprio significado da infância nas sociedades 
contemporâneas está sendo criado e definido por meio das interações das crianças com as 
mídias eletrônicas. 
Crescer na Era das Mídias procura oferecer uma revisão crítica e equilibrada das 
pesquisas e debates nesse campo. O livro tenta caminhar sobre a linha estreita que separa o 
desespero sombrio tantas vezes característico das discussões sobre ‘a morte da infância’ e o 
otimismo embriagador que celebra a nova autonomia da ‘geração eletrônica’. A infância, 
como argumentamos no livro, certamente está mudando. Mas as mídias estão longe de ser a 
causa única dessas mudanças: elas nem são as destruidoras autônomas da infância, nem suas 
libertadoras. Se quisermos compreender o verdadeiro significado da mídia na vida das 
crianças, teremos que pensar num contexto amplo. Precisaremos levar em conta as mudanças 
no estatuto social das crianças e as diferentes formas como a infância foi sendo definida ao 
longo da história. Na busca de delinear esse amplo contexto, espero que o livro possa 
interessar não apenas a especialistas em comunicação, mas também a todos os que estudam as 
crianças e trabalham com elas 
Fico especialmente feliz com a publicação desta edição brasileira. Ao escrever o 
livro, tentei arduamente levar em conta os potenciais leitores em outros países, apesar de ser 
difícil fazer isso sem cair em generalizações e abstrações. Tenho a certeza de que os leitores 
brasileiros perceberão muitas diferenças entre suas próprias culturas e aquela de onde derivou 
este livro. Diferentes histórias, crenças religiosas e sistemas políticos inevitavelmente geram 
diferentes concepções de infância. As características da família e da escola – as duas 
instituições-chave que em grande parte delimitam e definem as vidas das crianças – variam 
bastante de uma cultura para outra. Até certo ponto, isto talvez limite a relevância e a 
aplicabilidade de alguns de meus argumentos. Por outro lado, fica reforçada uma de minhas 
idéias centrais: a de que a infância não é absoluta nem universal, e sim relativa e 
diversificada. A idéia de infância é uma construção social, que assume diferentes formas em 
diferentes contextos históricos, sociais e culturais. 
Ao mesmo tempo, porém, a infância também é cada vez mais um fenômeno global. O 
argumento de Kenichi Ohmae, citado no capítulo 3, é muito relevante nesse sentido. Ohmae 
sugere que – em resultado da disseminação global das mídias eletrônicas – as crianças de hoje 
podem ter mais em comum com crianças de outras culturas do que com seus próprios pais. 
Depois da publicação de Crescer na Era das Mídias Eletrônicas, estive envolvido com um 
projeto internacional sobre Pokémon que ilustrou amplamente esta questão. Aquele era um 
fenômeno de mídia bastante inacessível aos adultos – que mais parecia, aliás, planejado para 
excluí-los. Mas presenciei situações onde o Pokémon parecia servir como um tipo de ‘língua 
franca’ – uma base para acomunicação e a construção de amizade entre crianças que tinham 
muito pouco em comum em termos de linguagem verbal. É claro que a lógica econômica das 
modernas indústrias de mídia exige isso: produzir e adaptar produtos para um mercado global 
já não é uma conseqüência extra, e sim uma necessidade cada vez maior. 
 6
Nesse sentido, alguns poderiam dizer que as mídias fornecem uma ‘cultura comum’ 
global às crianças, que transcende as fronteiras nacionais e as diferenças culturais 
estabelecidas. Para uns, isso pode ser considerado uma forma de liberação – uma 
oportunidade de as crianças irem além dos entraves limitadores da tradição. Para outros, no 
entanto, trata-se apenas de mais uma evidência do processo global de homogeneização, em 
que as especificidades das experiências e identidades culturais das crianças são 
negligenciadas e até mesmo destruídas. Será que à medida que as crianças vão crescendo 
todas juntas, sob os signos do capital – Pokémon, Disney, MacDonalds – irá desaparecer o 
caráter local e situado da infância? Ou será que na verdade as crianças interpretam e recriam 
as culturas globais através dos filtros mediadores de experiências e significados locais? Essas 
questões são centrais nos debates contemporâneos sobre a globalização da cultura, mas 
provavelmente se aplicam de modo especial à nossa compreensão da infância. 
Ao ler meu texto através do filtro de suas próprias experiências culturais, certamente 
você verá emergir diferenças. Nosso aprendizado sobre essas diferenças lança luz sobre 
aquilo que consideramos ponto pacífico em nossas próprias culturas, o que pode por sua vez 
gerar um diálogo global mais informado e receptivo sobre o futuro da infância. Espero que 
esta publicação contribua para esse diálogo. 
David Buckingham 
Londres, 2004 
 7
Agradecimentos 
Em muitos aspectos, este livro é uma compilação – ao menos provisória – de uma área de 
pesquisa que tem me preocupado há mais de quinze anos. Assim, ele se baseia em trabalhos 
anteriormente publicados, e em alguns trechos diretamente revisa e incorpora materiais de livros 
e artigos anteriores. Desde o início, porém, o livro foi concebido como um projeto coerente, e 
inclui uma considerável quantidade de materiais inéditos. 
Gostaria de agradecer às muitas pessoas que trabalharam comigo nos inúmeros projetos 
empíricos de pesquisa nos quais este livro se baseia, especialmente Mark Allerton, Sara Bragg, 
Hannah Davies, Valerie Hey, Sue Howard, Ken Jones, Peter Kelley, Gunther Kress, Gemma 
Moss e Julian Sefton-Green. Agradecimentos especiais vão para Peter Kelley por seu trabalho 
com os dados estatísticos apresentados no capítulo 4. Gostaria também de agradecer às muitas 
organizações que financiaram os projetos: o Economic and Social Research Council, o 
Broadcasting Standards Council, a Nuffield Foundation, a Spencer Foundation e o Arts Council 
of England. 
Tenho uma dívida especial com o Professor Elihu Katz e a Annenberg School for 
Communication, na Filadélfia, pela bolsa que me permitiu começar a trabalhar no livro. E ao 
Institute of Education por proporcionar um ambiente de trabalho solidário. Gostaria também de 
agradecer a outros colegas internacionais com quem debati estas questões, ou cuja pesquisa 
informou e apoiou a minha, em especial a Elizabeth Auclaire, Kirsten Drotner, JoEllen 
Fisherkeller, Horst Niesyto, Geoff Lealand e Joe Tobin. Agradeço também aos diversos grupos 
de alunos, acadêmicos e professores que foram os destinatários de alguns destes argumentos 
durante os últimos anos, e que ajudaram a reformular e a desenvolver minhas idéias; entre eles, 
meus alunos de mestrado no curso de Cultura das Mídias para Crianças no Institute of 
Education, assim como a platéias na França, Alemanha, Noruega, Dinamarca, Finlândia, em 
Luxemburgo, no Canadá, na Austrália, nos Estados Unidos e na Inglaterra. 
Finalmente, minha profunda gratidão a Célia Greenwood, Clemency Ngayah-Otto e Julian 
Sefton-Green por sua cuidadosa leitura do manuscrito; e para meus assistentes-mirins de 
pesquisa Nathan e Louis Greenwood, que sempre demonstraram uma saudável independência 
em relação às idéias de seu pai. Este livro é dedicado a eles. 
 
 8
INTRODUÇÃO 
Capítulo 1. Em Busca da Infância 
 
Uma das lamentações mais freqüentes nos últimos anos do século XX foi o 
desaparecimento da infância. Ela ecoou através de um amplo conjunto de campos sociais – a 
família, a escola, a política, e, talvez principalmente, as mídias. É claro que a figura da 
criança sempre foi foco dos medos, desejos e fantasias dos adultos. Nos últimos anos, porém, 
os debates sobre a infância assumiram cada vez mais um sentido de ansiedade e pânico. As 
certezas tradicionais sobre o significado e o status da infância têm sido constantemente 
corroídas e abaladas. Parecemos não saber mais onde encontrar a infância. 
O lugar da criança nesses debates, no entanto, é profundamente ambíguo. Por um 
lado, as crianças são vistas cada vez mais como sob ameaça e em perigo. Assim, temos 
assistido a uma sucessão de investigações importantes sobre o abuso infantil, tanto nas 
famílias como nas escolas e lares infantis. As reportagens sobre assassinatos de crianças e os 
escândalos sobre filhos ‘esquecidos sozinhos em casa’ são freqüentes na imprensa; e a 
histeria pública sobre o risco de ondas de seqüestros cometidos por pedófilos é cada vez mais 
intensa. Enquanto isso, nossos jornais e telas de TV mostram cenas das infâncias bem 
diferentes das crianças nos países em desenvolvimento: os meninos de rua da América 
Latina, os pequenos soldados da África e as vítimas de turismo sexual na Ásia. 
Por outro lado, as crianças também são cada vez mais percebidas como uma ameaça 
ao restante de nós – como violentas, anti-sociais e sexualmente precoces. Cresce a 
preocupação com o aparente colapso da disciplina escolar, o aumento da criminalidade 
infantil, do consumo de drogas e da gravidez na adolescência. Já na década de 1970 começara 
a pairar a ameaça de uma incontrolável subclasse de jovens, presa num limbo entre a escola e 
o trabalho – mas agora os delinqüentes são ainda mais jovens. O jardim sagrado da infância 
tem sido crescentemente violado; apesar disso, as próprias crianças parecem relutar cada vez 
mais em ficarem confinadas a ele. 
As mídias estão envolvidas nisso de formas contraditórias. De um lado, elas são o 
veículo primordial onde se travam os debates correntes sobre a natureza em mutação da 
infância – e, nesse processo, sem dúvida contribuem para o crescente sentimento de medo e 
pânico. De outro lado, no entanto, as mídias são freqüentemente acusadas de serem as causas 
originárias de tais problemas – de provocarem indisciplina e comportamentos agressivos, de 
inflamarem a sexualidade precoce e de destruírem os laços sociais saudáveis que poderiam 
prevenir sua ocorrência. Os jornalistas, os sabichões midiáticos, os auto-proclamados 
guardiães da moralidade pública – e um número cada vez maior de acadêmicos e políticos – 
são incessantemente chamados a se pronunciar sobre os perigos que as mídias oferecem às 
crianças: a influência de vídeos violentos e ‘revoltantes’, a mediocrização dos programas 
infantis de televisão, a sexualidade explícita das revistas para os jovens e o fácil acesso à 
pornografia pela internet. E as mídias são agora rotineiramente condenadas pela 
“comercialização” da infância – pela transformação das crianças em consumidoras vorazes, 
levadas pela sedução enganosa dos publicitários a desejar aquilo de que não precisam. 
Ao mesmo tempo, as próprias mídias exibem uma fascinação ambivalente pela 
própria idéia de infância. Os filmes de Hollywood começaram a se preocupar com a figura do 
adulto-criança (Forest Gump,Toys, Dumb and Dumberi) e a da criança-adulta (Jack, Little 
Man Tate, Bigii) A imagens da publicidade mostram uma ambivalência similar, desde a 
famosa dupla diabo negro-anjo branco da campanha das roupas Benetton às ninfetas top-
models dos anúncios de Calvin Klein.Enquanto isso, o reerguimento da Corporação Disney 
indica o potencial global da orientação mercadológica da “cultura infantil” convencional, 
tanto para as crianças como para os adultos – apesar de, ironicamente, Kids, o controvertido 
 9
filme em estilo documentário mostrando drogas e sexo casual entre jovens adolescentes em 
Nova York, pertencer também a uma subsidiária da Disney. 
Entra aí também a figura de Michael Jackson – nas palavras de seu biógrafo, ‘o 
homem que nunca foi criança e a criança que nunca cresceu’.iii Desde a cruzada das crianças, 
representada em seu vídeo Heal the World, passando por sua obsessão pelo imaginário de 
Disney e Peter Pan, até os escândalos em torno do suposto abuso sexual de crianças, Jackson 
é a epítome da intensa incerteza e do desconforto que rodeiam a noção de infância na 
modernidade tardia. 
As respostas dos políticos e dos planejadores a esse sentimento de crise têm sido 
amplamente autoritárias e punitivas. É verdade que existe nos últimos anos uma ênfase 
renovada nos direitos da criança, impulsionada pela Conferência das Nações Unidas sobre os 
Direitos da Criança - apesar de na prática isso ser muitas vezes interpretado como uma 
simples questão de as crianças terem direito a proteção por parte dos adultos. Na maioria dos 
outros aspectos, tem havido um entusiasmo crescente pelas políticas sociais mais 
disciplinadoras. Assim, vemos a introdução de ‘toques de recolher’ para os jovens e a 
construção de novas prisões infantis. Na Grã-Bretanha, foram suprimidos benefícios estatais 
antes concedidos aos jovens; e são organizadas ‘tropas de choque’ para garantir a disciplina 
nas escolas. Tais políticas parecem voltadas mais para proteger os adultos das crianças do que 
para proteger as crianças dos adultos. 
Em relação às mídias, a resposta oficial predominantemente tem sido de ordem 
disciplinar. No rastro de um crescente pânico moralista sobre a influência do sexo e da 
violência nos meios de comunicação, os governos de muitos países criaram leis mais rígidas 
de censura; e na América do Norte assistimos à introdução do V-chip, um dispositivo técnico 
adaptado a todos os novos aparelhos de televisão, que aparentemente irá filtrar materiais 
“violentos”. Enquanto isso, aumenta o interesse no potencial de softwares de bloqueio, com 
títulos sintomaticamente antropomórficos como Net Nanny (‘Net Babá’) e Cyber-Sitter, que 
prometem restringir o acesso das crianças a sites da internet proscritos. Apesar desta busca 
por uma solução tecnológica fácil para o problema, os governos nacionais parecem cada vez 
menos capazes de regular as corporações comerciais que hoje controlam a circulação global 
das mercadorias midiáticas – incluindo as que se destinam ao mercado infantil. 
Entretanto, as interpretações dessas mudanças na infância – e do papel dos meios de 
comunicação em refleti-las ou produzi-las – estão agudamente polarizadas. De um lado, 
acham-se os que argumentam que a infância tal como a conhecemos está desaparecendo ou 
morrendo, e que as mídias – particularmente a televisão – são as maiores culpadas. As mídias 
aparecem aí como responsáveis pelo apagamento das fronteiras entre infância e idade adulta, 
e consequentemente por um abalo na autoridade dos adultos. De outro lado, estão aqueles que 
argumentam que há um crescente abismo de gerações no uso das mídias – que a experiência 
dos jovens com as novas tecnologias (especialmente com os computadores) está cavando um 
fosso entre sua cultura e a da geração de seus pais. Longe de apagar as fronteiras, as mídias 
são vistas aí como responsáveis por um fortalecimento delas – apesar de agora serem os 
adultos aqueles que se acredita terem mais a perder, uma vez que a habilidade das crianças 
com a tecnologia lhes dá acesso a novas formas de cultura e comunicação que em grande 
parte escapam ao controle dos pais. 
Até certo ponto, esses argumentos podem ser vistos como parte de uma ansiedade 
mais geral com relação à mudança social que tende a acompanhar o advento de um novo 
milênio. A metáfora da ‘morte’ está em toda parte – inclusive nas estantes das livrarias, onde 
os livros sobre a morte da infância acham-se ao lado de livros sobre a morte do eu, da 
sociedade, da ideologia e da história. Tais debates em geral não permitem mais que uma 
escolha limitada entre um grandioso desespero e um otimismo apressado. 
 10
Na primeira parte deste livro, reviso com maiores detalhes esses argumentos 
contrastantes e procuro desafiar a retórica totalizante que os caracteriza. Como indicarei, 
ambas as posições baseiam-se em visões essencialistas da infância e dos meios de 
comunicação – e das relações entre eles. Mesmo com todas as suas limitações, porém, tais 
argumentos apontam para dois pressupostos significativos que formam a base desta minha 
análise. Tanto implícita quanto explicitamente, eles sugerem que a noção de infância seja em 
si uma construção social, histórica; e que a cultura e a representação – também sob a forma 
das mídias eletrônicas – sejam uma das principais arenas em que essa construção é 
desenvolvida e sustentada. 
 
Construindo a infância 
 
 A idéia de que a infância é uma construção social é hoje um lugar-comum na história 
e na sociologia da infância; e está sendo cada vez mais aceita até mesmo por alguns 
psicólogosiv. A premissa central aqui é a de que ‘a criança’ não é uma categoria natural ou 
universal, determinada simplesmente pela biologia. Nem é algo que tenha um sentido fixo, 
em cujo nome se possa tranqüilamente fazer reivindicações. Ao contrário, a infância é 
variável - histórica, cultural e socialmente variável. As crianças são vistas – e vêem a si 
mesmas – de formas muito diversas em diferentes períodos históricos, em diferentes culturas 
e em diferentes grupos sociais. Mais que isso: mesmo essas definições não são fixas. O 
significado de ‘infância’ está sujeito a um constante processo de luta e negociação, tanto no 
discurso público (por exemplo, na mídia, na academia ou nas políticas públicas) como nas 
relações pessoais, entre colegas e familiares. 
 Não se está querendo sugerir que os indivíduos biológicos a quem podemos 
coletivamente concordar em chamar de “crianças” de algum modo não existam, ou não 
possam ser descritos. O que se pretende é dizer que tais definições coletivas são o resultado 
de processos sociais e discursivos. Há nisso um certo grau de circularidade. As crianças são 
definidas como uma categoria particular, com características e limitações particulares, tanto 
por si mesmas como pelos outros – pais, professores, pesquisadores, políticos, planejadores, 
agências de bem-estar social e (claro) os meios de comunicação. Essas definições são 
codificadas em leis e políticas; e se materializam em formas particulares de práticas sociais e 
institucionais, que por sua vez ajudam a produzir as formas de comportamento vistas como 
tipicamente “infantis” – ao mesmo tempo que geram formas de resistência a elas.v 
 A escola, por exemplo, é uma instituição social que efetivamente constrói e define o 
que significa ser uma criança – e uma criança de uma determinada idade. A separação das 
crianças pela idade biológica em vez de pela ‘habilidade’, a natureza altamente 
regulamentada das relações entre professor e aluno, a organização do currículo e do horário 
das atividades cotidianas, o processo de avaliação – todos servem de diferentes maneiras para 
reforçar e naturalizar pressupostos particulares sobre o que as crianças são e devem ser. 
Apesar disso, em geral essas definições só são explicitadas nas formas especializadas de 
discurso institucional e profissional das quais as próprias crianças são amplamente excluídas. 
É claro que nem todas essas definições e discursos são necessariamente consistentes 
ou coerentes. É de se esperar, ao contrário, que eles se caracterizem pela resistência e pela 
contradição. A escola e a família, por exemplo, parecem apresentar definições claras dos 
direitos e responsabilidades de adultos ecrianças. No entanto, como bem sabem os pais e os 
professores, as crianças rotineiramente desafiam e negociam essas definições, nem sempre de 
forma direta e sim às vezes através do que poderíamos chamar de táticas de guerrilha. Além 
disso, as expectativas dessas instituições são muitas vezes contraditórias em si mesmas. De 
um lado, por exemplo, os pais e os professores todos os dias conclamam as crianças a 
 11
‘crescerem’, e a se comportarem da forma que consideram madura e responsável; de outro 
lado, eles negam privilégios às crianças, baseados em que elas ainda não têm idade para 
apreciá-los ou não merecem fazê-lo. 
 ‘Infância’ é, portanto, um termo mutável e relacional, cujo sentido se define 
principalmente por sua oposição a uma outra expressão mutável, ‘Idade Adulta’. 
Mesmo, porém, onde os papéis de crianças e adultos estão respectivamente definidos 
por lei, existem consideráveis incerteza e inconsistência. Assim, a idade em que a 
infância termina legalmente é definida de forma primária (e crucial) em termos da 
exclusão das crianças de práticas definidas como propriamente “adultas”, sendo as 
mais óbvias o emprego remunerado, o sexo, o consumo de álcool e o voto. Em cada 
caso, as crianças são vistas como atingindo a maioridade numa idade diferente. No 
Reino Unido, por exemplo, elas podem pagar impostos aos 16 anos, mas não podem 
receber benefícios do estado até os 17, e não podem votar até os 18. Elas têm direito 
ao sexo heterossexual aos 16 anos; mas não podem assistir a imagens explícitas de tal 
atividade, no cinema, antes dos 18. Apesar disso, claro, as crianças de verdade se 
envolvem em muitas dessas atividades bem antes de estarem legalmente autorizadas a 
fazê-lo. 
 
Representando a Infância 
De modo geral, a definição e a manutenção da categoria ‘infância’ depende da produção de 
dois tipos principais de discurso. Primeiro, os discursos sobre a infância, produzidos por 
adultos prioritariamente para adultos – não só na forma dos discursos acadêmicos ou 
profissionais , mas também na forma de romances, programas de televisão e literatura 
popular de auto-ajuda. De fato, o discurso ‘científico’ ou ‘factual’ sobre a infância ( por 
exemplo, o da psicologia, o da fisiologia ou o da medicina) está muitas vezes ligado aos 
discursos ‘culturais’ ou ‘ficcionais’ (como a filosofia, a literatura imaginativa ou a pintura). 
Em segundo lugar, há discursos produzidos por adultos para crianças, na forma de literatura 
infantil, ou de programas infantis para televisão e outras mídias – que, apesar do rótulo, são 
raramente produzidos pelas próprias crianças. 
Assim, o período em que emergiu nossa definição de infância caracteristicamente moderna - 
a segunda metade do século XIX -caracterizou-se por uma explosão desses discursos. 
Durante esse período, as crianças foram sendo gradual e sistematicamente segregadas do 
mundo dos adultos, por exemplo através da elevação dos anos para a maioridade, da 
introdução da educação obrigatória, e das tentativas de erradicação do trabalho infantil. As 
crianças foram removidas aos poucos das fábricas e das ruas, e colocadas dentro das escolas; 
uma série de novas instituições e agências sociais buscaram supervisionar seu bem-estar, de 
acordo com um ideal doméstico bastante ligado à classe média, voltado assim a garantir a 
“riqueza da nação”.vi 
Essa demarcação da infância como um estágio distinto da vida – e a remoção das crianças 
daquilo que Harry Hendrick chamou de ‘atividades socialmente significantes’vii - justificou-
se e refletiu-se através de discursos de ambos os tipos. A obra dos poetas românticos e dos 
romancistas vitorianos, por exemplo, deu ênfase central à pureza inata e à bondade natural 
das crianças. Para escritores tão diversos como Dickens e Wordsworth, a figura da criança 
tornou-se um símbolo poderoso na crítica ao industrialismo e à desigualdade social. A 
infância passou a ser, de acordo com o historiador Hugh Cunningham, ‘um substituto para a 
religião’.viii Foi também nessa época que o estudo científico da infância – mais notadamente 
na forma da pediatria e da psicologia do desenvolvimento – começou a se estabelecer;ix e esse 
trabalho logo chegou à literatura popular de aconselhamento dirigida aos pais. 
 12
 Esse período também foi muitas vezes considerado como a Era de Ouro da literatura 
infantil: a obra de autores como Lewis Carroll, Edward Lear e J.M.Barrie refletiu a 
fascinação generalizada com a infância e o anseio por ela – para não falarmos das tensões não 
resolvidas em torno da sexualidade das crianças – que caracterizavam a época.x Ao mesmo 
tempo, a origem de formas mais ‘vulgares’ ( e na verdade violentas) de literatura popular 
dirigida às crianças – e especialmente aos meninos das classes trabalhadoras – pode ser 
situada nesse período; assim como o primeiro mercado de brinquedos em larga escala e de 
materiais educacionais planejados para uso doméstico.xi 
 Isto não quer dizer, é claro, que as ‘crianças’ tenham sido de algum modo trazidas à 
existência por esses meios, ou mesmo que tais discursos e representações não houvessem 
existido antes. Simplesmente observamos que as mudanças históricas mais amplas no status 
social das crianças são freqüentemente acompanhadas desse tipo de proliferação discursiva. 
Como veremos, processos semelhantes ocorreram nos séculos XVI e XVII, e continuam a 
ocorrer hoje em dia. 
 Inevitavelmente, os públicos desses dois tipos de discurso tendem a se superpor. As 
crianças muitas vezes se mostram extremamente interessadas em certas formas de discurso 
sobre a infância, especialmente quando isso toca em formas mais claramente proibidas de 
comportamento adulto. E os adultos têm um papel significativo na mediação dos textos para 
crianças, por exemplo quando compram e lêem livros para elas, ou as levam ao cinema. 
Certos tipos de textos – os filmes contemporâneos ‘para toda a família’ de Disney e 
Spielberg, por exemplo – podem ser vistos precisamente como formas de unir esses dois 
públicos: eles contam a adultos e crianças histórias muito sedutoras sobre os significados 
relativos da infância e da idade adulta. Como em boa parte da literatura do século XIX, a 
figura da criança é ao mesmo tempo um símbolo de esperança e um meio de expor a culpa e a 
hipocrisia dos adultos. Tais filmes costumam definir o significado da infância projetando sua 
perda futura: tanto para adultos como para crianças, eles mobilizam ansiedades sobre a dor da 
mútua separação, ao mesmo tempo em que oferecem fantasias tranqüilizadoras sobre como 
essa dor pode ser superada.xii 
 Tais representações culturais da infância são muitas vezes contraditórias, portanto. 
Elas muitas vezes dizem mais sobre os investimentos adultos e infantis na idéia da infância 
do que sobre a realidade das vidas das crianças; e elas são freqüentemente imbuídas da 
nostalgia de uma Era de Ouro perdida, de brincadeira e liberdade. No entanto, essas 
representações não podem ser desconsideradas como mera ilusão. Seu poder depende do fato 
de que elas também contêm uma certa verdade: elas têm de falar, de forma inteligível, tanto 
às experiências vividas pelas crianças como às lembranças dos adultos, o que pode trazer, a 
um só tempo, dor e prazer. 
 Como argumenta Patricia Holland, essas representações da infância fazem parte de 
um esforço contínuo da parte dos adultos para ganhar controle sobre a infância e suas 
implicações – não apenas sobre as crianças reais, mas também sobre nossas próprias 
infâncias, pelas quais estamos sempre em luto e as quais reinventamos sem parar. Essas 
imagens, diz ela, 
Exibem o esforço social e psíquico exigido pela negociação da difícil distinção entre adulto e 
criança, para manter as crianças separadas de uma idade adulta que nunca pode ser plenamente 
atingida. Tenta-se estabelecer categorias opostas e duais e mantê-las firmes em uma dicotomia que 
contrasta com a continuidade real entre o crescimento e o desenvolvimento. Trava-se uma ativa 
batalha para mantera infância – quando não as crianças reais – como pura e não-contaminada.xiii 
Como enfatiza Holland, essas construções culturais da infância cumprem funções 
não apenas para as crianças, mas também para os adultos. A idéia da infância serve como um 
repositório de qualidades que os adultos vêem ao mesmo tempo como preciosas e 
problemáticas – qualidades que não conseguem tolerar como parte deles mesmos; e serve 
 13
também como um mundo de sonho dentro do qual podemos escapar das pressões e 
responsabilidades da maturidade.xiv Essas representações, defende Holland, refletem ‘o desejo 
de usar a infância para assegurar o status da idade adulta – muitas vezes às custas das próprias 
crianças’.xv 
 
Infância, poder e ideologia 
Esta visão da infância como uma construção social e cultural é, assim, e até certo ponto, uma 
visão relativista. Ela nos faz recordar que nossa noção contemporânea de infância – aquilo 
que as crianças são e devem ser – é comparativamente recente em sua origem e em geral 
restrita às sociedades industrializadas do Ocidente. A maior parte das crianças do mundo de 
hoje não vive de acordo com a ‘nossa’ concepção de infância.xvi Julgar essas construções 
alternativas da infância – e as crianças cujas vidas são vividas em meio a elas – como 
meramente ‘primitivas’ é demonstrar um etnocentrismo perigosamente estreito. Da mesma 
forma, essa perspectiva nos leva a questionar a noção de que foi na idade moderna que as 
‘necessidades’ inatas das crianças tiveram pela primeira vez um verdadeiro reconhecimento. 
Ao contrário, tais definições das características e necessidades singulares da infância são em 
si mesmas produzidas cultural e historicamente; e implicam necessariamente formas 
particulares de organização social e política. 
Além disso, tal noção de infância nos relembra que nenhuma descrição de crianças – 
e conseqüentemente nenhuma invocação da idéia de infância – pode ser neutra. Ao contrário, 
qualquer discussão nesse campo é inevitavelmente informada por uma ideologia da infância – 
ou seja, por um conjunto de significados que servem para racionalizar, manter ou desafiar 
relações de poder existentes entre adultos e crianças, assim como entre os próprios adultos.xvii 
Isso fica mais evidente quando consideramos a forma como a figura da criança é 
usada pelos movimentos sociais, desde os claramente progressistas até os nitidamente 
reacionários. Em sua análise do pânico moralista que tem caracterizado a vida social britânica 
nas últimas duas décadas, Philip Jenkins identifica uma ‘política de substituição’, a partir de 
iniciativas de cunho moral tanto da esquerda quanto da direita.xviii Em um clima de crescente 
incerteza, a invocação de temores relacionados às crianças é um meio poderoso de atrair a 
atenção e o apoio públicos: campanhas contra a homossexualidade são redefinidas como 
campanhas contra pedófilos; campanhas contra a pornografia tornam-se campanhas contra a 
pornografia infantil; e campanhas contra a imoralidade e o satanismo tornam-se campanhas 
contra o abuso infantil ritualizado. Aqueles que têm a audácia de colocar em dúvida os 
clamores sobre o caráter avassalador desses fenômenos podem ser facilmente estigmatizados 
como hostis às crianças. 
Não se está querendo sugerir, entretanto, que essas preocupações sejam 
necessariamente falsas ou ilegítimas. Ao contrário: elas não seriam percebidas tão 
amplamente se não se fundassem de algum modo em ansiedades pré-existentes – as quais, 
como indica Jenkins, são em si uma resposta a mudanças sociais fundamentais, por exemplo 
quanto à natureza da família. No entanto, a invocação da figura da criança ameaçada serve a 
funções particulares, tanto dos grupos militantes quanto do governo. A onda de preocupação 
em torno do abuso infantil nos anos 80, por exemplo, fortaleceu as ambições políticas tanto 
de grupos evangélicos cristãos como de feministas, cuja influência veio a dominar as 
agências de assistência e serviço social. Permitiu ainda que o governo afastasse as atenções 
públicas de problemas econômicos e sociais mais difíceis de atender; como resultado, é 
certamente discutível até que ponto as próprias crianças obtiveram algum benefício com essas 
campanhas. 
 14
Claro, esse tipo de pânico moralista não é a única arena em que a noção de infância é 
usada assim. O discurso ambientalista, por exemplo, muitas vezes se endereça implicitamente 
às crianças, baseando-se na idéia de que elas representam ‘o futuro’ e estão de algum modo 
mais ‘próximas da natureza’. A figura da criança no interior do feminismo, ou na história do 
movimento trabalhistaxix também é altamente carregada de significações. A criança é vista 
muitas vezes como a vítima mais indefesa de políticas sociais dirigidas primeiramente contra 
as mulheres, ou contra as classes trabalhadoras; também aqui, o apelo à proteção das crianças 
age como um poderoso meio de mobilizar apoio.xx Para pessoas com as mais variadas 
motivações, a política adulta é freqüentemente levada a efeito em nome da infância. 
Do mesmo modo, a produção de textos para crianças – tanto nas modernas mídias 
eletrônicas quanto em formas mais tradicionais, como a literatura infantil – também pode ser 
vista como apoio para ideologias da infância particulares. Essa atividade se caracteriza 
tradicionalmente por um equilíbrio complexo entre motivações ‘positivas’ e ‘negativas’. Por 
um lado, os produtores têm sido fortemente informados pela necessidade de proteger as 
crianças de aspectos ‘indesejáveis’ do mundo adulto. De fato, em alguns aspectos, os textos 
para crianças podem ser caracterizados basicamente em termos daquilo que eles não são – ou 
seja, em termos da ausência de representações vistas como influência moral negativa, mais 
obviamente ligadas a sexo e violência.xxi Por outro lado, há também fortes motivações 
pedagógicas: esses textos se caracterizam muitas vezes pela tentativa de educar, de dar lições 
de moral ou ‘imagens positivas’, e assim fornecer modelos de comportamento vistos como 
socialmente desejáveis. Os produtores culturais, os planejadores e os legisladores nesse 
campo estão preocupados, assim, não apenas em proteger as crianças de danos, mas também 
em lhes ‘fazer bem’. 
Em ambos os campos, as definições adultas da infância são simultaneamente 
repressivas e produtivas. Elas são desenhadas para proteger e ao mesmo tempo controlar as 
crianças – ou seja, para confiná-las a arenas e comportamentos sociais que não se mostrem 
como ameaça aos adultos, ou nos quais os adultos serão (imagina-se) incapazes de ameaçá-
las. Essas definições buscam não apenas prevenir certos tipos de comportamento, mas 
também ensinar e estimular outros. Elas produzem ativamente certas formas de subjetividade 
nas crianças, enquanto tentam reprimir outras. E, como sugeri, servem a funções semelhantes 
com relação aos próprios adultos. 
Entretanto, talvez de modo inevitável, os adultos sempre monopolizaram o poder de 
definir a infância. Eles estabeleceram os critérios pelos quais as crianças devem ser 
comparadas e julgadas. Eles definiram os tipos de comportamento apropriados ou aceitáveis 
para as crianças de diferentes idades. Mesmo quando assumiram a posição de simplesmente 
descrever as crianças, ou falar em nome delas, os adultos inevitavelmente acabaram 
estabelecendo definições normativas do que se entende por infantil. As crianças certamente 
podem ‘falar por si mesmas’ e falam, apesar de raramente terem a oportunidade de fazê-lo no 
âmbito público, nem mesmo sobre assuntos que têm a ver diretamente com elas. Os contextos 
nos quais elas podem falar, e as respostas que podem dar, são ainda amplamente controlados 
pelos adultos; e sua habilidade de articular construções públicas alternativas de ‘infância’ 
seguem sendo rigidamente limitadas. Mesmo os argumentos em favor dos ‘direitos das 
crianças’ são desenvolvidos predominantemente pelos adultos, e em termos adultos. 
É claro que as crianças podem resistir, ou recusar-se a reconhecerem-senas 
definições adultas – e nesse sentido o poder adulto está longe de ser absoluto ou 
incontestável. No entanto, seu espaço de resistência é principalmente o das relações 
interpessoais, na ‘micropolítica’ da família ou da sala de aula. Além disso, as crianças podem 
ser cúmplices ativas na manutenção das definições do que é ‘adulto’ ou ‘infantil’, ainda que 
por omissão: as diferenças de idade, e os significados a elas ligados, são um dos principais 
campos onde as relações de poder são encenadas, não apenas entre adultos e crianças, mas 
 15
também entre as próprias crianças. As crianças rotineiramente mostram a outras crianças 
‘qual é o seu lugar’, rindo delas ou acusando-as de terem gostos ou comportamentos ‘de 
bebê; e é comum que se esforcem para distanciarem-se dessas acusações. As distinções entre 
‘adulto’ e ‘criança são mutuamente fiscalizadas, dos dois lados. Como veremos, isso tem 
significativas implicações para a pesquisa sobre as relações das crianças com as mídias – um 
espaço que elas às vezes percebem como sendo particularmente seu. 
 
A Infância como exclusão 
Esta análise aponta para uma visão menos benigna da construção da infância do que 
aquela em geral usada nos debates sobre ‘a morte da infância’. Certamente as definições de 
infância são variadas e muitas vezes contraditórias. Em qualquer momento histórico, em 
qualquer grupo social ou cultural, poderemos encontrar muitas definições conflitantes – 
algumas das quais poderão ser resíduos de concepções anteriores, enquanto outras talvez 
tenham surgido há pouco. Entretanto, na história recente dos países industrializados, a 
infância tem sido essencialmente definida como uma questão de exclusão. Mesmo com toda a 
ênfase pós-romântica na sabedoria e na compreensão inatas das crianças, elas são definidas 
principalmente em termos do que não são e do que não conseguem fazer. As crianças não são 
adultos; portanto, não podem ter acesso às coisas que os adultos definem como ‘suas’, e que 
os adultos acreditam ser os únicos capazes de compreender e controlar. De modo geral, é 
negado às crianças o direito de auto-determinação: elas precisam contar com os adultos para 
representar seus interesses e argumentar em seu nome. A ‘infância’, da forma como é 
predominantemente concebida, atua nesse sentido como supressora de poderesxxii das 
crianças. 
Isso decorre em grande parte de as crianças serem definidas de um modo não-social – 
ou, mais precisamente, pré-social. Assim, a disciplina acadêmica que até recentemente se 
atribuía exclusividade no estudo das crianças é a psicologia. É uma disciplina que (pelo 
menos em suas formas mais influentes e predominantes) interpreta o estudo da interação 
humana em termos da psique ou da personalidade individual; e define o modo como as 
crianças vão mudando ao correr do tempo como um processo teleológico de desenvolvimento 
em direção a um objetivo pré-determinado. As crianças são aí construídas como indivíduos 
isolados, cujo desenvolvimento cognitivo percorre uma seqüência lógica de ‘idades e 
estágios’ em direção à maturidade e à racionalidade adultas. Se a infância é definida, desse 
modo, como um processo de ‘tornar-se’, a idade adulta é vista como um estado acabado, no 
qual o desenvolvimento efetivamente cessou. Aqueles que não atingem esse estado são 
avaliados em termos de patologias individuais, e identificados como casos merecedores de 
tratamento.xxiii 
Se essa abordagem vem sendo cada vez mais questionada ( inclusive dentro da 
própria psicologia) a construção da infância dominante nesse campo claramente sustenta uma 
visão das crianças como essencialmente em falta, incompletas. O comportamento das 
crianças é avaliado em termos do quanto é ou não ‘apropriado’ a sua idade biológica. O 
índice de ‘maturidade ou ‘imaturidade torna-se o padrão pelo qual elas são medidas e com o 
qual medem a si próprias. Essas diferenças são definidas em termos do que passa a ser visto 
como qualidades especificamente adultas: racionalidade, moralidade, autocontrole e ‘boas 
maneiras’. 
Isso não implica, é claro, que a condição adulta seja sempre e necessariamente 
privilegiada em relação à infância nesses discursos – ao menos abertamente. As crianças 
podem ser definidas em termos de sua falta de racionalidade, entendimento social ou 
autocontrole; mas, de modo semelhante, elas podem também ser louvadas (ainda que de 
 16
modo paternalista) por sua ausência de artificialidade, autoconsciência e inibição. 
Evidentemente existe toda uma indústria de auto-ajuda baseada na idéia de que os adultos 
devem entrar em contato com sua ‘criança interior – idéias que reforçam implicitamente as 
noções românticas da infância como um lugar de verdade e pureza.xxiv 
O que continua sendo perturbador para muitos adultos, entretanto, são as 
conseqüências de as crianças ‘cruzarem a fronteira’. As manifestações de comportamento 
‘precoce ameaçam a separação entre adultos e crianças, representando assim um desafio ao 
poder adulto. É nesse ponto que os discursos liberais sobre o desenvolvimento da criança, 
com sua ênfase no atendimento afetivo e no crescimento natural, começam a fraquejar. A 
saúde psicológica das crianças parece decididamente exigir de nós que patrulhemos a linha 
divisória entre adultos e crianças, no lar, na escola, e na ampla arena da cultura pública. Esse 
processo não é portanto apenas uma questão de separação entre crianças e adultos; ele 
envolve também uma ativa exclusão das crianças daquilo que é considerado o mundo adulto. 
Tal tentativa de excluir as crianças aplica-se mais obviamente aos campos da 
violência e da sexualidade, da economia e da política. E o significado dos meios de 
comunicação eletrônicos nesse contexto relaciona-se, claramente, com o fato de eles serem 
uma das fontes primárias de conhecimento sobre tais assuntos. Tanto em relação às mídias 
como a esses outros campos sociais, os dilemas fundamentais têm a ver com acesso e 
controle. Como explicarei adiante, esses dilemas estão se tornando cada vez mais agudos em 
conseqüência das novas tecnologias e da proliferação global das mídias eletrônicas. Os 
clamores por mais controle emergem renovados, precisamente porque a possibilidade de 
controle marcha a passos firmes para o desaparecimento. 
Minha posição não é liberacionista, porém. Em princípio, não nego a dependência 
biológica prolongada das crianças em relação aos adultos; nem contesto a idéia de que os 
indivíduos de fato se desenvolvam e mudem com a idade. ‘Maturidade’ é certamente uma 
palavra relativa, mas que não está inteiramente desligada da idade biológica. Além do mais, a 
exclusão que identifiquei não se relaciona apenas com a imposição de alguma forma 
monolítica de ‘poder adulto’. Ao contrário, ela é alcançada por meio da ativa cumplicidade 
das próprias crianças; e também exclui os adultos daquilo que é visto como domínio 
apropriado às crianças. Mais que isso: quando dou ênfase ao caráter mutável das construções 
sociais da infância, não quero propor que tais construções sejam uma falsificação da essência 
da infância, ou um tipo de imposição artifical sobre a criança ‘natural’. Nem tampouco estou 
sugerindo que essa essência natural pudesse ser libertada caso num passe de mágica 
conseguíssemos remover as fontes de poder. Nesse sentido, o chamado à ‘liberação das 
crianças’ parece se caracterizar por um tipo de romantismo muito parecido com os 
argumentos protecionistas aos quais ele tenta se opor. 
Eu proporia, mesmo assim, que a construção dominante das crianças como indivíduos 
pré-sociais impede de fato qualquer consideração que as tome como seres sociais, ou mesmo 
como cidadãos. Ao definirmos as crianças em termos de sua exclusão da sociedade adulta, e 
em termos de sua falta de habilidade ou de interesse em demonstrar o que definimos como 
características ‘adultas’, estamos ativamente produzindo o tipo de consciência e de 
comportamento que certos adultos julgam tão problemático. As diferenças que se percebe 
comoexistentes entre adultos e crianças justificam a segregação das crianças: mas essa 
segregação dá origem, então, ao comportamento que justifica a própria percepção das 
diferenças. 
Como já deixei implícito, a cultura e a representação são aspectos cruciais de todo o 
processo, tanto para as crianças como para os adultos. Por diversas razões, as mídias 
eletrônicas têm um papel cada vez mais significativo na definição das experiências culturais 
da infância contemporânea. Não há mais como excluir as crianças dessas mídias e das coisas 
que elas representam; nem como confiná-las a materiais que os adultos julguem bons para 
 17
elas. A tentativa de proteger as crianças restringindo o acesso às mídias está destinada ao 
fracasso. Ao contrário, precisamos agora prestar muito mais atenção em como preparar as 
crianças para lidar com essas experiências; e, ao fazê-lo, temos de parar de defini-las 
simplesmente em termos do que lhes falta. 
 
Um esquema do livro 
Nos dois próximos capítulos, discuto duas análises contrastantes sobre a natureza mutante 
da infância e sobre o papel das mídias nas vidas das crianças. De um lado está a tese da 
‘morte da infância’, comumente associada ao trabalho de Neil Postman – a visão de que a 
televisão e outros meios eletrônicos no mínimo diluíram as fronteiras entre a infância e a 
idade adulta, se é que não as apagaram completamente. Do outro lado está um argumento 
cada vez mais popular entre os entusiastas das chamada ‘revolução das comunicações’ – a 
idéia de que as novas mídias eletrônicas estão dando mais liberdade e poder às crianças e 
aos jovens. Como tentarei mostrar, há fortes semelhanças - assim como fragilidades em 
comum – nesses argumentos aparentemente tão diversos. 
Minha crítica a essas posições levanta uma série de questões fundamentais, que serão 
tratadas mais diretamente na segunda parte do livro. Elas têm relação mais óbvia com a 
natureza mutante da infância – tanto em termos das nossas idéias sobre a infância como em 
termos das vidas reais das crianças. Elas têm a ver também com a natureza mutante das 
mídias – não somente ao nível da tecnologia, mas também quanto à forma e ao conteúdo dos 
textos midiáticos e da interação entre os produtores de comunicação e seus públicos. Essas 
questões ligam-se também, por fim, com a forma como entendemos as relações das crianças 
com as mídias, quer pensemos em termos de ‘usos’ ou ‘efeitos’, como ‘ativas’ e ‘passivas’, 
ou como um fenômeno essencialmente psicológico ou social. Minha própria posição diante 
desses temas é apresentada nos capítulos 4, 5 e 6. 
Atravessando todas essas questões há diversas preocupações mais específicas, 
relacionadas ao lugar das mídias eletrônicas na sociedade contemporânea. Tais questões 
assumem uma forma particular, e em alguns casos uma intensidade particular, em relação às 
crianças; elas têm um significado mais amplo também. Trata-se de áreas que, de diferentes 
maneiras, são predominantemente definidas em termos de exclusão – ou seja, como áreas da 
vida ‘adulta às quais, defende-se, as crianças não deveriam ter acesso. Incluem-se nesse 
campo em primeiro lugar as questões ligadas à moralidade, tipicamente centradas em 
representações de sexo e violência. Em segundo lugar, estão as questões ligadas ao lugar do 
comércio e às relações entre o mercado e a esfera pública. Isso nos leva à terceira área-chave, 
a da cidadania – ou seja, a das relações entre as crianças e a atividade e o debate ‘políticos’ 
num sentido amplo. Esses três temas são tratados na terceira parte do livro, respectivamente 
nos capítulos 7, 8 e 9. 
Ao enfatizar as complexidades e as dificuldades dessas questões, minha intenção 
também é apontar as conseqüências de meus argumentos para a formulação de políticas 
futuras, não só em relação às mídias em si, mas também em termos das experiências e dos 
direitos das crianças como público. Tais projeções mais específicas começam a emergir ao 
final de cada um dos capítulos da parte III e são reunidas e melhor desenvolvidas em meu 
capítulo de conclusão. Esses argumentos, e alguns dos exemplos específicos que aparecem ao 
longo do livro, são forçosamente ligados em parte à situação na Grã-Bretanha; há 
dificuldades óbvias em fazer generalizações a partir de características sociais e culturais de 
um contexto nacional para outro. Mesmo assim, acredito que muitos dos argumentos gerais 
aqui expostos possam ter uma ressonância internacional. 
Apesar de seu título provocativo, então, este livro não é mais uma lamentação pela 
morte da infância; nem é simplesmente uma celebração do que poderá sucedê-la. Ao 
 18
contrário, ele busca fornecer a base de uma compreensão mais realista e abrangente da 
experiência das crianças que crescem na era dos meios eletrônicos. Precisamos dessa 
compreensão se quisermos ajudá-las a lidar com os desafios do presente, sem falar nos do 
futuro. 
 
PARTE I 
Capítulo 2: A Morte da Infância 
A noção de que as crianças estão crescendo privadas da infância tornou-se corriqueira na 
psicologia popular. Ao longo das últimas três ou quatro décadas, argumenta-se, houve uma mudança 
radical no modo como a sociedade trata as crianças e no comportamento delas próprias. Os críticos 
apontam as evidências de aumento nos índices de violência e atividade sexual entre os jovens, e a 
crescente desintegração da vida familiar, concluindo que a segurança e a inocência que caracterizavam 
a experiência da infância nas gerações anteriores perderam-se para sempre. 
Dois livros, ambos publicados nos EUA no início da década de 1980, estiveram entre os 
primeiros a levantar essas preocupações: The Hurried Child (A Criança Apressada), de David Elkind 
(1981)xxv, e Children without Childhood (Crianças sem Infância), de Marie Winn (1984). Nas capas 
desses livros, slogans semelhantes sintetizavam seus argumentos: ‘Crescendo Rápido Demais Cedo 
Demais’ (Elkind) e ‘Crescendo Rápido Demais no Mundo do Sexo e das Drogas’ (Winn). Esses 
autores parecem descrever fenômenos similares, mas suas análises das causas desses fenômenos são 
bem diferentes. 
Como psicólogo da infância, Elkind parte do estresse que, segundo ele, caracteriza a vida das 
crianças de hoje. Ele aponta para o aumento dos índices de distúrbios psicológicos causados pelo 
divórcio; o aumento dos casos de gravidez e doenças venéreas na adolescência; e o número crescente 
de jovens tentando a fuga através das drogas, do crime, do suicídio e do ingresso em seitas religiosas. 
As crianças, diz ele, estão sendo ‘aceleradas’ infância afora por seus pais, pelas escolas e também 
pelos meios de comunicação. Os pais, estressados e frustrados por suas próprias vidas profissionais, 
tendem a jogar suas ansiedades sobre as crianças, pressionando-as cada vez mais cedo a ter sucesso 
acadêmico e esportivo e paralisando-as com o medo do fracasso. As escolas tornaram-se produtivistas, 
obcecadas por avaliação e pelo treinamento impositivo de ‘habilidades básicas’. Os pais estão sendo 
convocados a transformar o lar em extensão da escola, proporcionando às crianças uma instrução 
formal e programada, ao invés do aprendizado mais informal do passado. 
Os meios de comunicação refletem e ao mesmo tempo produzem esta ‘aceleração’ das 
crianças. Segundo Elkind, faltam à televisão as ‘barreiras intelectuais’ das mídias mais antigas, porque 
ela não exige que as crianças aprendam a interpretá-la. Ao simplificar o acesso das crianças à 
informação, a TV abre-lhes as portas a experiências antes reservadas aos adultos: ‘cenas de violência 
ou de intimidade sexual que uma criança pequena não seria capaz de imaginar a partir de uma 
descrição verbal, são agora apresentadas direta e graficamente na tela da televisão.’xxvi Num certo 
nível, isso significa que a experiência humana torna-se ‘homogeneizada’; mesmo que as próprias 
crianças não necessariamente entendam aquilo que assistem, a televisão cria um tipo de ‘pseudo-
sofisticação’, que leva os adultos a tratarem as crianças como maisadultas do que realmente são. 
Elkind desenvolve um argumento semelhante em relação aos livros infantis contemporâneos, onde o 
foco nos pobres, nos deficientes, nos doentes e naqueles com problemas emocionais parece representar 
uma pressão a mais sobre as crianças, no sentido de fazê-las crescer antes do tempo. Ao mesmo 
tempo, ele condena o rock como emocionalmente regressivo, como um estímulo à masturbação e ao 
uso de drogas ilícitas. 
O problema-chave, de acordo com Elkind, é que as crianças são expostas a essas experiências 
antes de estarem ‘emocionalmente prontas’ para lidar com elas: 
As crianças apressadas são forçadas a assumir a parafernália física, psicológica e social da 
idade adulta antes de estarem prontas para lidar com ela. Vestimos nossas crianças com fantasias de 
 19
adultos em miniatura (muitas vezes de marcas famosas), as expomos ao sexo e à violência gratuitos, e 
esperamos que elas sejam capazes de lidar com um ambiente social cada vez mais perturbador – o 
divórcio, a ausência de um dos pais, a homossexualidade.xxvii 
Em contraste, Elkind propõe que o amadurecimento deva ser lento, seguindo um ritmo 
próprio. Apoiado no modelo do desenvolvimento infantil de Piaget, ele argumenta que as crianças só 
aprendem verdadeiramente quando estão prontas para fazê-lo. Forçá-las a passar por cima de estágios 
em seu desenvolvimento tornará muito mais difícil para elas estabelecerem um sentido seguro de sua 
identidade pessoal, deixando-as despreparadas para as dificuldades da adolescência. 
Marie Winn, em seu livro ‘Crianças sem Infância’, faz eco a muitas das preocupações de 
Elkind. Ela também indica uma crescente epidemia de problemas sociais que afetam as crianças; e, 
apesar de tomar cuidado para não exagerá-los, argumenta que tem havido uma ‘perda de controle’ 
generalizada por parte dos pais e um amplo ‘declínio na supervisão das crianças’. Se é verdade que 
problemas como o abuso de drogas e a gravidez na adolescência sempre existiram entre as classes 
sociais mais baixas, eles estão agora se espalhando entre as crianças de classe média. Como Elkind, 
Winn se espanta com o apagamento das fronteiras entre adultos e crianças, e com o fato de que ‘as 
crianças têm uma aparência, uma fala e um comportamento muito pouco infantis’xxviii Usando grande 
quantidade de exemplos anedóticos, ela afirma que a maioria dos pais mostra despreocupação, 
ignorância ou fatalismo diante de sua própria impotência em alterar a situação. 
Como Elkind, Winn acusa as mídias por ‘doutrinarem as crianças sobre os segredos da vida 
adulta’ – que para ela se referem principalmente a sexo e violência. Se é verdade que a autora 
compartilha as preocupações dele com o ‘novo realismo’ nos livros infantis, e o foco em ‘gangues de 
estupradores, homossexualismo e violência sádica’ no cinema, sua maior ansiedade é a televisão. 
Os pais têm poucas chances de controlar a exposição de seus filhos a todas as variedades da 
sexualidade adulta, a cada permuta e combinação de brutalidade e violência humanas, a cada aspecto 
de doença, moléstia e sofrimento, a cada assustadora possibilidade de desastres com causas naturais 
ou humanas que possa ser impingido sobre uma infância inocente e livre de preocupações. O aparelho 
de TV está sempre ali, pronto para destruir todos os seus planos cuidadosos.xxix 
Mesmo assim, a preocupação de Winn com a TV – que é extensamente desenvolvida em seu 
livro anterior - The Plug-in Drugxxx (‘A Droga de ligar na Tomada’) - não tem relação apenas com os 
conteúdos. Independente do que elas assistam, ela argumenta, a televisão priva as crianças da 
brincadeira e de outras formas de interação saudável. O aparelho é usado como ‘babá eletrônica’ por 
um número muito grande de pais . 
Apesar de suas semelhanças, os diagnósticos feitos por esses dois autores, e portanto suas 
receitas de mudança, são bem diferentes. A posição de Winn é essencialmente um conservadorismo 
moralista. Ela se mostra horrorizada com o declínio da família nuclear tradicional, a independência 
financeira cada vez maior das mulheres, o ‘enfraquecimento dos padrões sexuais’ e o papel cada vez 
menor da religião organizada. Ela lamenta o movimento em direção ao ensino misto, à desaprovação 
aos castigos físicos e à visibilidade pública cada vez maior da homossexualidade. Nesse sentido, seu 
livro vincula-se claramente ao refluxo moralista contra a ‘permissividade’ dos anos 60 que 
caracterizou a década de 1980 de Ronald Reagan e Margaret Thatcher. 
Para Elkind, em contraste, o problema não parece ser tanto a permissividade, mas a falta dela. 
Ele compartilha algumas das preocupações moralistas gerais de Winn, mas lamenta a tendência ao 
abandono das práticas educativas baseadas na noção de ‘auto-expressão’. Se essa abordagem pode ter 
produzido ‘crianças mimadas’, que permanecem muito tempo na infância, o pêndulo agora foi longe 
demais na direção oposta: as ‘crianças apressadas’ estão sujeitas a excessiva pressão e disciplina por 
parte dos adultos. 
Winn e Elkind estão unidos, porém, em seu desejo de voltar a uma era anterior – a qual Winn 
chama, aparentemente sem ironia, de ‘a Idade de Ouro da Inocência’, uma idade na qual (diz ela) ‘a 
inocência era verdadeiramente uma bênção, era uma vez, muito tempo atrásxxxi’. Os dois autores 
parecem situar esse período no início do século XX, ou mesmo um pouco antes. Ambos, no entanto, 
 20
têm consciência de que esta Idade de Ouro era em si um estágio particular na longa história da 
infância. Winn, por exemplo, compara a abordagem ‘não-civilizada’ da educação das crianças na 
Idade Média com a ênfase na proteção e no cuidado afetivo que emergiu durante o século XIX. As 
crianças, ela observa, eram gradualmente separadas do mundo adulto, para que pudessem ser 
preparadas a exercer seus papéis futuros em uma sociedade industrial cada vez mais complexa. ‘Lenta 
e dolorosamente, as crianças eram ajudadas a adquirir as habilidades de cooperação, consideração e 
sensibilidade social, de que iriam precisar algum dia nos novos tipos de trabalho disponíveis aos 
adultos nas vilas e cidades.’xxxii Naquela época, diz Winn, as crianças mostravam ‘uma aceitação 
relativamente dócil de seu papel como seres dependentes e desprovidos de muita escolha sobre a vida 
e mesmo sobre seu comportamento cotidiano’xxxiii – e, como resultado, seu modo de agir passou a ser 
visto como caracteristicamente infantil. 
Hoje, ao contrário, as crianças mostram muito menos reverência diante dos que estão em 
situação de autoridade. Seus ‘poderes críticos’, de acordo com Winn, foram ‘despertados cedo 
demais’.xxxiv Elas sabem que os adultos nem sempre merecem confiança ou respeito simplesmente por 
serem adultos. As crianças, ao que parece, chegam a reivindicar o direito de escolher que roupas 
vestir! 
É significativo que os dois autores reconheçam que os processos que descrevem devam ser 
vistos no contexto mais amplo dos movimentos por igualdade social que se seguiram às lutas por 
Direitos Civis e ao renascimento do feminismo. Mas é no caso das crianças que ambos procuram 
definir um limite a essas tendências. Em vez de estender a igualdade às crianças, Elkind defende que 
precisamos dar um tempo a elas para que cresçam e aprendam longe dos adultos. Não é 
discriminatório, ele sugere, enfatizarmos as ‘necessidades especiais’ das crianças; ao contrário, ‘é a 
única forma de atingirmos uma verdadeira igualdade’.xxxv 
Para Winn, há aí uma clara implicação: os pais devem reforçar ativamente as fronteiras entre 
adultos e crianças. Eles deveriam estar menos preocupados com a preparação e mais com a proteção. 
Os pais devem reafirmar sua autoridade, e, assim devolver às crianças seu direito de ‘serem crianças’. 
A análise de Elkind talvez seja menos abertamente coercitiva, mas é igualmente normativa. Em vez de 
enfatizar a responsabilidade dos pais na manutenção da inocência de suas crianças, Elkind indica que 
isso acontecerá naturalmente, se as crianças não forem forçadas a crescerantes de estarem ‘prontas’. 
Nesse relato, portanto, as normas psicológicas tomam o lugar das normas sociais, e inevitavelmente as 
apóiam. Se é fato que os dois autores reconhecem a existência da mudança histórica, ambos acabam 
caindo novamente na noção da infância como um fenômeno ‘natural, visto implicitamente como 
atemporal. 
 
Os mitos da alfabetização 
 Apesar das diferenças entre eles, os argumentos desenvolvidos nesses livros são uma 
referência poderosa no pensamento popular contemporâneo sobre a infância, parecendo unir pessoas 
que têm convicções políticas e morais contrastantes. Eles dão corpo a uma crescente ansiedade sobre 
as mudanças sociais, e especialmente sobre a mudança nas relações de poder entre adultos e crianças, 
típica de tantos comentários na imprensa sobre a educação de crianças. Mas, como veremos no 
decorrer deste livro, muitos dos temas que eles discutem têm sido tratados também - é verdade que 
com mais cautela - pelos estudos acadêmicos sobre a infância, e especialmente sobre as relações das 
crianças com as mídias. 
 Para investigar essas idéias, volto-me agora a quatro trabalhos escritos por acadêmicos: The 
Disappearance of Childhood, (‘O Desaparecimento da Infância’) de Neil Postmanxxxvi, e No Sense of 
Place (‘Sem Noção de Lugar’), de Joshua Meyrowitz, publicados no começo da década de 1980; A is 
for Ox (‘A de Boi’), de Barry Sanders, e a coletânea Kinderculture (‘Cultura Infantil’xxxvii) de Shirley 
Steinberg e Joe Kincheloe, ambos publicados em meados dos anos noventa. Também aqui, os 
subtítulos ou slogans de capa são sintomáticos: ‘Como a TV está mudando a vida das crianças’ 
 21
(Postman); ‘O Impacto das Mídias Eletrônicas no Comportamento Social’ (Meyrowitz); ‘O Colapso 
da Leitura e o Aumento da Violência na Era Eletrônica’ (Sanders); e ‘A Construção Corporativa da 
Infância’ (Steinberg e Kincheloe). Como esses títulos sugerem, todos os quatro livros oferecem uma 
análise bastante unidimensional das causas desses processos. Enquanto Elkind e Winn tentavam 
explicar as mudanças contemporâneas na infância por meio de argumentos gerais sobre as formas de 
educar as crianças, estes últimos autores identificam no drama um único vilão: as mídias eletrônicas. 
 O livro de Postman foi o primeiro dos quatro a ser escrito, e também o que tem a linguagem 
mais popular. Como Elkind e Winn, ele oferece uma gama variada de evidências para provar que a 
infância – ou pelo menos a distinção entre adultos e crianças – está desaparecendo. Ele aponta a 
eliminação das brincadeiras tradicionais e dos estilos de vestuário tipicamente infantis; a crescente 
homogeneização nos interesses de lazer, linguagem, hábitos alimentares e preferências de 
entretenimento de crianças e adultos; e o aumento na criminalidade infantil, no consumo de drogas, na 
atividade sexual e na gravidez na adolescência. Fica especialmente chocado com o uso erótico de 
crianças em filmes e comerciais, o predomínio de temas ‘adultos’ nos livros infantis e aquilo que 
considera uma ênfase mal-conduzida nos ‘direitos das crianças’ . 
 No entanto, como os outros autores discutidos aqui, Postman não tem ilusões de que a infância 
seja um fenômeno atemporal. A partir da obra do historiador francês Philippe Arièsxxxviii, ele descreve 
a ‘invenção’ e a evolução da infância desde a Idade Média. Em suas próprias palavras, essa é a história 
de ‘como a imprensa inventou a infância e de como os meios eletrônicos estão acabando com ela.’xxxix 
Como a frase sugere, Postman atribui um papel determinante às tecnologias e aos atributos humanos 
que elas (como que automaticamente) requerem ou cultivam. A imprensa, ele afirma, criou de fato a 
nossa moderna noção de individualidade; e foi esse ‘senso de eu intensificado’ que levou ao 
‘florescimento da infância’. A imprensa exigia o aprendizado da alfabetização, e conseqüuentemente a 
invenção de escolas, de modo a colocar em cheque a ‘exuberância’ das crianças e a cultivar ‘a 
quietude, a imobilidade, a contemplação e a regulação das funções corporais’.xl Mas a imprensa e a 
escola não apenas criaram a criança: no processo, criaram também ‘o conceito moderno de adulto.’ A 
maturidade tornou-se, nas palavras de Postman, um feito simbólico e não apenas biológico. 
 Como Winn, Postman vê como a vantagem da imprensa sua habilidade em preservar os 
‘segredos’ adultos daqueles que ainda não foram alfabetizados. A televisão, ao contrário, é um ‘meio 
de exposição total’, que torna a informação ‘incontrolável’. Os ‘mistérios sombrios e fugidios’ da vida 
adulta (e particularmente do sexo) não estão mais escondidos das crianças, ele sugere. A televisão de 
fato acaba com a vergonha, qualidade que Postman vê como pré-requisito para a existência da 
infância. 
 Entretando, a visão que Postman tem das diferenças entre essas mídias não está centralmente 
preocupada com seu conteúdo, e sim com suas implicações para a cognição. Seguindo Harold Innis e 
Marshall McLuhanxli, ele argumenta que a imprensa é essencialmente simbólica e linear, e por isso 
cultiva a abstração e o pensamento lógico: 
 Quase todas as características que associamos com a maturidade são (ou eram) aquelas 
geradas ou amplificadas pelos requisitos de uma cultura plenamente letrada: a capacidade de 
autocontrole, a tolerância pelo adiamento da gratificação, a habilidade sofisticada para o pensamento 
conceitual e seqüencial, a preocupação com a continuidade histórica e com o futuro, a grande 
valorização da razão e da hierarquia.xlii 
 
Em contraste, a televisão é um meio visual, afirma Postman. Ela não requer habilidades especiais para 
sua interpretação, nem as cultiva. Ela não oferece proposições, e não precisa conformar-se às regras da 
evidência ou da lógica: é essencialmente irracional. 
 As implicações de tais mudanças tecnológicas para as relações entre adultos e crianças foram 
diretas, portanto. Por meio da imprensa e da escolarização, diz Postman, ‘os adultos viram-se com um 
controle sem precedentes sobre o ambiente simbólico dos jovens, e desse modo foram capazes de 
 22
estabelecer as condições pelas quais uma criança se tornaria adulta, e mesmo obrigados a estabelecê-
las’.xliii Na era da televisão, esse poder e esse controle tornaram-se impossíveis. 
Nas entrelinhas do texto de Postman há uma forma de conservadorismo moral que tem muito 
em comum com a que vimos em Marie Winn. O que lhe parece especialmente perturbador na ‘era da 
TV’ é a derrocada das ‘boas maneiras’. Se por um lado Postman se afasta do que vê como a 
‘arrogância’ da chamada Maioria Moral, ele explicitamente compartilha com ela o desejo de ‘fazer o 
relógio andar para trás’. Ele apóia ‘suas tentativas de restaurar um sentido de inibição e reverência 
diante da sexualidade’ e de estabelecer escolas que insistam nos ‘padrões rigorosos de civilité’; e 
convoca os pais a imprimir nas crianças o valor do ‘autocontrole nas atitudes, na linguagem e no 
estilo’ e a necessidade ‘da reverência e da responsabilidade pelos mais velhos’.xliv Mesmo assim, 
Postman não é muito otimista quanto às chances dessa sobrevivência: ele reconhece como um papel 
‘monástico’ o dos pais que limitarem a exposição de seus filhos às mídias, que lhes ensinarem boas 
maneiras e que assim ‘resistirem ao espírito da época’. 
O tom de No Sense of Place, de Joshua Meyrowitz, é bem menos polêmico e bem mais 
acadêmico do que o de The Disappearance of Childhood. Apesar de ter aparecido dois anos depois, o 
livro de Meyrowitz deixa implícito que Postman e outros estavam popularizando idéias que haviam 
sido desenvolvidas originalmente por ele.xlv Como os outros autores que estou comentando, 
Meyrowitz propõe que a infância e a idade adulta estejam se fundindo, em conseqüência das mudanças 
nos meios de comunicação. O argumento de Meyrowitz, porém, é muito mais amplo que o de 
Postman. A diferença essencial entre a televisão e as mídias mais antigas é, segundo ele, o fato de que 
a televisão torna os comportamentos ‘de bastidores’ visíveis atodos. Ela revela fatos que contradizem 
os mitos e ideais dominantes. De fato, ela não permite que os grupos poderosos mantenham 
‘segredos’, minando assim os alicerces de sua autoridade. Desse modo, a televisão não apenas 
confundiu as fronteiras entre as crianças e os adultos, mas também entre os homens e as mulheres, e 
entre os cidadãos individuais e seus representantes políticos. 
Ao mesmo tempo, Meyrowitz é muito mais agnóstico do que Postman. Suas descrições das 
mudanças contemporâneas na infância, se bem que coincidentes em muitos sentidos com as que 
consideramos até agora, são muito mais equilibradas. Assim, ao observar o aumento da criminalidade 
infantil, ele destaca também o enfraquecimento das abordagens paternalistas na educação das crianças 
e a nova ênfase no bem-estar infantil e nos direitos das crianças. Da mesma forma, ele descreve os 
livros infantis como ‘um gueto informacional’, argumentando que os novos meios de comunicação 
permitem às crianças comunicarem-se diretamente umas com as outras de formas antes impossíveis. O 
objetivo final de Meyrowitz não é julgar se tais mudanças são boas ou más, ou se elas representam um 
desvio não-natural dos papéis ‘apropriados’ para adultos e crianças. De fato, ele refuta com energia as 
descrições universalistas do desenvolvimento infantil, dos tipos a que aderem Elkind e outros, em 
última análise; ele argumenta que ‘a criança’ e a ‘psicologia da criança’ são construções sociais, que 
refletem determinados valores culturais muito específicos (e cada vez mais questionáveis). A noção da 
‘inocência’ infantil, ele sugere, não reflete um estado essencial ou natural: ao contrário, ela foi 
produzida deliberadamente para justificar a separação social entre adultos e crianças.xlvi 
 Nesse sentido, Meyrowitz tem pouca simpatia por argumentos sobre as implicações cognitivas 
das diferentes mídias. Ele faz uma clara distinção entre a imprensa e a televisão, mas a define em 
termos dos seus usos sociais. A imprensa, para ele, tende a segregar crianças e adultos, pois requer um 
aprendizado prolongado da alfabetização; a televisão, por sua vez, tende a reintegrá-los, porque suas 
formas simbólicas básicas – figuras e sons – são imediatamente acessíveis. Independentemente das 
mensagens específicas que transmite, a televisão modifica o padrão do fluxo de informação que entra 
nas casas, desafiando o controle dos adultos e permitindo que a criança pequena esteja vicariamente 
‘presente’ às interações adultas: ‘A Televisão remove as barreiras que uma vez colocavam as pessoas 
de diferentes idades e diferentes habilidades de leitura em situações sociais diferentes. O uso 
generalizado da televisão equivale a uma ampla decisão social de permitir que as crianças pequenas 
estejam presentes a guerras e funerais, namoros e seduções, tramas criminosas e coquetéis.’xlvii 
 23
Como Winn e Postman, portanto, Meyrowitz afirma que a televisão mina as tentativas adultas 
de manter ‘sigilo’, apesar de ele não demonstrar a mesma preocupação moralista diante dessa situação. 
Controlar o acesso das crianças às mídias – a resposta preferida de Postman – tende a ser difícil, ele 
sugere. Com a televisão, a prática do controle familiar precisa tornar-se aberta e visível, de um modo 
que não era necessário com a imprensa. Além do mais, a televisão alerta as crianças para a existência 
de comportamentos ‘de bastidor’, mesmo que nem sempre os revele explicitamente; e freqüentemente 
exibe às crianças as formas como os adultos procuram manter tais comportamentos longe das vistas 
delas. 
Assim, a televisão não apenas revela ‘segredos’: ela também revela ‘o segredo da secretude’, 
tornando os adultos vulneráveis à acusação de hipocrisia.xlviii 
Se, portanto, Meyrowitz rejeita implicitamente o determinismo tecnológico de Postman, ele 
coloca em seu lugar o que poderíamos chamar (ainda que não soe bem) de um ‘determinismo do 
sistema de informação’. A diferença crucial entre a televisão e a imprensa, ele sugere, está nas 
possibilidades que a leitura oferece de ‘separação entre os sistemas de informação adultos e infantis’. 
Em outras palavras, o que faz a diferença não são os processos cognitivos, ou mesmo o conteúdo: é o 
fato de que a imprensa permite que as crianças sejam separadas dos adultos, e a televisão, não. À 
medida que as distinções entre os sistemas de informação para crianças e adultos se diluem, argumenta 
Meyrowitz, tendem inevitavemente a ocorrer mudanças nos comportamentos sociais. 
O livro de Barry Sanders A is for Ox (‘A de Boi’) é um desenvolvimento mais recente destes 
temas, e de certa forma o mais apocalíptico deles. Como Neil Postman, Sanders expõe sua tese central 
em termos ousados: ‘Os seres humanos tais como os conhecemos’, escreve, ‘são produtos da 
alfabetização’.xlix E, como os jovens têm menos interesse na ‘cultura do livro’, e os índices de 
alfabetização seguem caindo, a idéia de um ‘ser humano crítico e autônomo’ está desaparecendo 
rapidamente. Os analfabetos, argumenta Sanders, são incapazes de pensar de forma abstrata e crítica, 
ou de se distanciarem de sua experiência imediata. Eles não conseguem desenvolver um sentido de 
consciência individual, apenas um tipo tribal de ‘consciência de grupo’. Seu mundo é cheio de 
violência auto-destrutiva, é ‘um mundo marcado por dor e morte, um mundo cheio de desespero e 
marginalidade, suicídios adolescentes, gangues assassinas, lares desfeitos e homicídios’.l 
A causa primordial dessa epidemia de violência jovem, como se pode imaginar, é a televisão 
(e, num grau menor, os computadores domésticos). Mas, assim como os outros autores discutidos 
aqui, o problema não está tanto em que determinados tipos de conteúdo televisivo produzam 
comportamentos imitativos – apesar de Sanders claramente acreditar que isso ocorra. O problema são 
os tipos de consciência cuja produção é atribuída à televisão. Em uma original manobra 
argumentativa, Sanders diz que principal vítima da televisão não é tanto a leitura, mas sim a oralidade 
– e particularmente a prática doméstica da narração oral de histórias. Ver televisão em vez de 
conversar destrói a habilidade de as crianças desenvolverem sua própria voz e seus poderes 
imaginativos. Claro, a televisão contém linguagem oral, mas trata-se de uma falsa oralidade, ‘uma 
mentira auditiva e visual’. Ao destruir a ‘verdadeira oralidade’, a televisão também destrói as bases da 
alfabetização, já que seu desenvolvimento depende da existência prévia da oralidade. 
A visão que Sanders tem da relação entre a leitura do texto impresso e a televisão é semelhante 
à luta maniqueísta entre o bem e o mal. A leitura é de fato equiparada à noção de autonomia do euli, e 
desse modo com a vida em si. Assim, sugere Sanders, os membros analfabetos de gangues não 
possuem a autonomia do eu, e por isso não dão valor à vida humana. ‘As culturas orais’, ele 
argumenta, ‘ não operam com o mesmo conceito de ‘assassinato’ que as culturas letradas. Nelas não se 
pode ‘tirar’ a vida de alguém, porque uma vida demarcada, plenamente articulada e internalizada só 
existe em uma cultura letrada.’lii A violência torna-se assim uma forma de compensação por aquilo 
que perdem aqueles que não sabem ler; ao passo que o letramento ‘civiliza’ os indivíduos, 
transformando-os em ‘membros consentidos do corpo político’. Por outro lado, os efeitos negativos da 
televisão são devastadores: 
 24
[A televisão] debilita os jovens (....) provoca um curto-circuito no desenvolvimento natural, emocional, 
de que eles precisam para tornar-se seres humanos saudáveis (...) estrangula o desenvolvimento de suas 
próprias vozes e nega a eles seus poderes imaginativos (...) apaga as próprias imagens das crianças (...) 
enfraquece a vontade (...) [e] desfere um dos golpes psicológicos mais debilitantes ao negar ao jovem a 
oportunidade de voltar-se para dentro de si mesmo e conversar em silêncio com aquele construto social que 
brota, o eu.liii 
À luz dessa análise apocalíptica, talvez não surpreendao fato de que as conclusões de Sanders 
sejam tão sombrias. A ‘crise’ identificada por ele só pode ser resolvida, ao que parece, por uma 
‘revisão em bloco do nosso atual modo de vida’. Para Sanders, as escolas são claramente uma parte do 
problema, em vez de uma solução potencial: na era da ‘cultura eletrônica de massa’, diz, as escolas 
transformaram o letramento em mercadoria, ao impor padrões arbitrários de correção e formas 
mecanizadas de instrução. Assim, ele sugere que a alfabetização, ao menos na pré-escola, seja 
substituída por uma ampla ênfase nas artes orais. Outra sugestão concreta de Sanders, porém, é menos 
radical, e compartilhada por vários dos outros autores que estamos considerando. Toda mãe, afirma, 
deveria voltar para casa. É a família nuclear que irá garantir a leitura, assim como a leitura é que irá 
garantir a sobrevivência da infância, e, em última análise, da própria sociedade. 
Se as conclusões de Sanders, Postman e Winn são essencialmente conservadoras, o texto final 
que quero examinar aqui ilustra o apelo a esse argumento também por parte da esquerda. No livro que 
organizaram, Kinderculture (‘A Cultura da Infância’), Shirley Steinberg e Joe Kincheloe desenvolvem 
o que parece ser uma versão politicamente mais radical da ‘morte da infância’. Como Postman e 
outros, esses autores defendem a idéia de que ‘as noções tradicionais da infância como um tempo de 
inocência e dependência foram solapadas’, nem tanto pela mudança nas estruturas familiares ou nas 
práticas de criação dos filhos, mas ‘pelo acesso das crianças à cultura popular durante o final do século 
XX’.liv Na mesma linha, afirmam que é em virtude do conhecimento proporcionado pelas mídias que a 
autoridade adulta tem sido desafiada: ‘Enquanto as crianças pós-modernas ganham conhecimento 
irrestrito sobre coisas antes mantidas em segredo, a mística dos adultos enquanto reverenciados 
guardiões dos segredos do mundo começa a se desintegrar.’lv 
O vilão principal da cena, porém, não são tanto as mídias em si, mas o capital empresarial – ainda que, 
na prática, os dois pareçam ser vistos como indistinguíveis; e a preocupação central não são tanto as 
conseqüências cognitivas das mídias, e sim seu papel de portadoras de ideologia. Apesar da explícita 
rejeição que os autores fazem às teorias conspirativas ao velho estilo, sua descrição de ideologia deriva 
claramente das análises da ‘sociedade de massas’ desenvolvidas nas décadas de 1930 e 1940. Tanto as 
mídias como seus públicos são vistos como verdadeiramente homogêneos. Argumenta-se que as 
mídias são responsáveis por garantir que as massas aceitem uma ordem social injusta, por meio de um 
processo de falsas ilusões e mistificação. Elas oferecem uma forma de falso prazer que destrói a 
capacidade imaginativa, o pensamento crítico e conseqüentemente a possibilidade de resistência. Essa 
teoria é mais comumente identificada com a obra da Escola de Frankfurt – ou seja, com a esquerda 
política – mas também tem muito em comum com os argumentos do conservadorismo cultural.lvi Pela 
descrição de Steinberg e Kincheloe, ela se alinha facilmente às noções mais tradicionais de ‘efeitos das 
mídias’, como por exemplo em relação à influência da violência nas telas.lvii Esse argumento, 
entretanto, assume uma forma particular quando se refere às crianças, que se presume serem 
especialmente vulneráveis à manipulação ideológica. Assim, as mídias são vistas aqui como agentes 
de uma ideologia unidimensional que ‘ocupa a psique humana’. É uma ideologia que não trabalha pelo 
‘bem social’, ou pelo ‘bem-estar das crianças’, mas simplesmente para o ‘ganho individual’. Ela apóia 
os princípios do ‘mercado livre’ e as noções direitistas de ‘valores familiares’; é militarista, patriarcal, 
racista e marcada por preconceitos de classe; e sistematicamente desistoriciza e ignora a opressão e a 
desigualdade. Acima de tudo, essa ideologia é irresistível: ‘bombardeia’ e ‘manipula’ incessantemente 
as crianças, deixando-as abandonadas, confusas e desorientadas. ‘A cultura infantil produzida pelas 
grandes empresas’, argumentam os organizadores do livro, coloniza a consciência norte-americana de 
uma forma que reprime conflitos e diferenças (...) Em virtude de seu poder de enfiar os tentáculos 
 25
profundamente na vida privada das crianças, os produtores da cultura infantil empresarial 
constantemente desestabilizam a identidade das crianças.’lviii Como está implícito nessa citação, 
devemos assumir a existência de um estado natural de infância – uma identidade estável situada na 
‘vida privada’ das crianças – que é sistematicamente negada e pervertida pelas mídias capitalistas. O 
dano é aqui tanto psíquico quanto social. Os jovens, dizem-nos, são ‘prejudicados cognitivamente’ por 
sua experiência com os meios de comunicação, e ‘perdem a fé em que possam chegar a ver sentido em 
qualquer coisa’lix. 
Como resultado, apenas os adultos – nesse caso, ‘os profissionais da infância com senso crítico’ – é 
que são vistos como capazes de contrapor tal avalanche ideológica. Steinberg e Kincheloe, assim 
como vários de seus colaboradores, defendem que esses indivíduos adotem uma forma de ‘pedagogia 
crítica’ – de fato, uma forma de contra-doutrinação. O objetivo dessa pedagogia é igualmente 
unidimensional: habilitar as crianças a oporem-se aos prazeres sedutores da cultura popular, a desafiá-
los e a resistir-lhes, conformando-se assim à ‘consciência crítica´ adotada por seus professores.lx Em 
última análise, se é verdade que as soluções preferidas por esses autores são muito diferentes da ênfase 
conservadora de Postman e Sanders, também eles parecem propor uma revitalização da autoridade 
adulta. 
 
Uma condição pós-moderna? 
 A própria noção de ‘morte da infância’ é, claro, um sintoma de seu tempo. Apesar das 
diferenças entre eles, todos esses autores estão respondendo ao que identificam como uma moléstia 
contemporânea; e a natureza de suas respostas reflete uma combinação de pânico e nostalgia 
característica das últimas décadas do século XX. 
 Nesse contexto, não parece incorreto definir a ‘infância’ como uma idéia em si 
fundamentalmente moderna. Como diversos desses autores sugerem, a separação entre crianças e 
adultos começou na Renascença, e ganhou força com a expansão da industrialização capitalista. A 
demarcação da infância como um estágio distinto da vida – e o próprio estudo da infância como tal - 
dependia da remoção das crianças da força de trabalho e das ruas, e de seu confinamento em 
instituições de escolarização obrigatória. Definir as crianças como inerentemente ‘irracionais’ 
justificava a introdução de um longo período no qual elas pudessem ser treinadas nas artes do 
autocontrole e do comportamento disciplinado. Nesse sentido, nossa noção contemporânea de infância 
pode ser vista como parte do projeto Iluminista, com sua ênfase no desenvolvimento da racionalidade 
enquanto um meio de assegurar a estabilidade da ordem social.lxi 
Nessa perspectiva, a ‘ morte da infância’ poderia ser entendida como um sintoma da pós-
modernidade, um reflexo do destino que nos aguarda enquanto assistimos ao colapso final do ‘sonho 
da razão’. Embora nenhum dos autores aqui examinados revele grande simpatia pelo pós-modernismo, 
alguns de seus argumentos, ao menos, têm muito em comum com o trabalho de teóricos como 
Baudrillard. A diluição das fronteiras, a derrocada do ‘eu’, a predominância da cultura visual, a morte 
do social – todas essas são idéias recorrentes na retórica do pós-modernismo. O que diferencia o 
trabalho desses autores, entretanto (com exceção de Meyrowitz), é que eles não observam o mundo 
com uma fascinação ambivalente, mas sim com um incontrolável terror. 
É claro que seria tentador simplesmente desprezar muitos desses argumentos como hipérboles 
vazias. De fato, ao resumi-los, deliberadamente evitei algumas de suas excentricidades mais 
espetaculares; e isso às vezes exigiu considerável contenção de minha parte. Mesmo assim, a tese da 
‘morteda infância’ merece ser levada a sério. Por mais exagerada e ocasionalmente histérica que 
possa parecer, ela aponta de fato para certas mudanças históricas fundamentais, e para algumas das 
questões mais amplas nelas envolvidas. Antes de esquematizar a perspectiva bastante diferente que 
será desenvolvida neste livro, portanto, é preciso enfrentar as limitações dessa abordagem. Como 
 26
poderemos comparar os argumentos sobre ‘a morte da infância’ com o que se sabe sobre a natureza 
transitória da vida das crianças ? Como podemos levar em conta, de forma adequada, as evidências 
históricas ? E quão justificados são os pressupostos teóricos em que esses argumentos se baseiam?. 
 
A História como Representação 
A história da infância é em última análise uma história de representações. Como já foi 
indicado por muitos historiadores, há poucas evidências disponíveis nas quais se poderia basear uma 
história das próprias crianças. Como as mulheres, as crianças têm sido grandemente ‘escondidas da 
história’ – uma coincidência que está longe de ser acidental. Num nível, isso cria significativos 
problemas metodológicos. Até que ponto podemos ler as representações culturais da infância como 
reflexos da realidade das vidas das crianças?. O trabalho de Phillippe Ariès, por exemplo, ao qual é 
muitas vezes creditada a ‘invenção’ da infâncialxii, tem sido questionado precisamente nesses termos. 
A tese de Ariès baseia-se primariamente em uma análise de como as crianças foram representadas – 
ou, mais freqüentemente,como não foram representadas - em pinturas medievais e renascentistas. 
Com base nisso, ele delineia os modos como as crianças foram sendo gradualmente identificadas 
enquanto um grupo diferenciado, com seus próprios passatempos e estilos de vestir, no final do século 
XVI e no início do século XVII. De acordo com seus críticos, porém, essas evidências são muito 
inadequadas. Os dados demográficos, por exemplo, sugerem que sua análise só pode ser aplicada às 
crianças das classes superiores; e os relatos contemporâneos existentes, apesar de limitados, desafiam 
seu argumento de que os laços afetivos entre adultos e crianças e os programas específicos de cuidado 
infantil fossem praticamente ausentes dos tempos medievais.lxiii Em última análise, os dados de Ariès 
talvez revelem mais sobre as mudanças nas convenções da representação artística do que sobre as 
mudanças nas realidades sociais. 
Mais recentemente, os historiadores da infância reconheceram ativamente sua confiança nas 
representações – e nesse plano seu trabalho passou a focalizar mais explicitamente a evolução das 
idéias adultas sobre a infância do que as realidades das vidas das crianças. Carolyn Steedman, por 
exemplo, analisa a figura de ‘Mignon’lxiv, recorrente na cultura popular ao longo do século XIX, e que 
parece personificar uma noção de ‘interioridade humana’ ou subjetividade associada à infância que, 
(segundo ela) teria surgido naquela época.lxv A história dos ‘filhos dos pobres’ escrita por Hugh 
Cunningham traz o subtítulo Representações da Infância desde o Século XVII e indica os modos como 
as crianças das classe trabalhadora eram gradualmente levadas a se ajustarem às definições da classe 
média sobre como devia ser uma infância “adequada”.lxvi Valerie Walkerdine analisa a figura de Little 
Orphan Annielxvii, em meados do século XX, no contexto das representações de outras meninas da 
classe operária, argumentando que ela ao mesmo tempo articula e resolve ansiedades mais gerais sobre 
o conhecimento e a inocência, que refletem as tensões sócio-políticas daquele período.lxviii Da mesma 
forma, Patricia Holland traça a evolução das construções contemporâneas da infância ao longo das 
últimas três décadas, através de uma leitura das representações adultas em anúncios, fotografias e 
outros artefatos da mídia.lxix 
De diferentes formas, todos esses autores apontam a significação das representações culturais 
da infância como base para as mudanças nas políticas sociais. As imagens da infância – como 
pecadora e corrompida ou como pura e inocente – foram usadas conscientemente pelos reformadores 
sociais do século XIX; do mesmo modo, imagens igualmente estereotipadas das crianças como livres e 
naturais fazem parte da retórica visual da ´liberação das crianças´ em tempos mais recentes. Todos 
esses autores argumentam, no entanto, que as representações funcionam como meios para os adultos 
lidarem com seus próprios conflitos não-resolvidos sobre a infância. Tais imagens e textos são, assim, 
não apenas a materialização de idéias sobre a infância, mas também veículos para os sentimentos 
ambivalentes dos adultos com relação às crianças, e sobre suas próprias infâncias – sentimentos de 
medo, ansiedade, compaixão, nostalgia, prazer e desejo. Ou seja, eles nos falam muito mais sobre os 
adultos do que sobre as crianças. 
 27
Esses estudos históricos mostram claramente que o medo de que as crianças se tornem adultas 
prematuramente – que sejam privadas da ‘infância’ – tem uma longa história. De fato, autores como 
Marie Winn e Neil Postman baseiam-se explicitamente em uma das mais sedutoras fantasias pós-
românticas sobre a infância: a noção de uma Idade de Ouro pré-industrial, um idílico Jardim do Éden 
no qual as crianças podiam brincar livremente, a salvo da corrupção. A persistência de tais fantasias 
deveria em si nos levar a questionar as afirmações contemporâneas sobre a ‘morte da infância’. Uma 
idéia particular sobre a infância pode perfeitamente estar desaparecendo; é muito mais difícil, porém, 
identificar as conseqüências disso em termos da realidade vivida pelas crianças. 
Certamente, podemos colocar em xeque a validade ou a representatividade das evidências 
sobre esse ponto. O livro de Winn, por exemplo, é repleto de casos anedóticos sobre filhos de pais 
ricos que se retiram para suas casas de campo nos finais de semana, deixando seus adolescentes na 
cidade, sem supervisão; Sanders, por sua vez, parece tomar relatos jornalísticos das gangues de Los 
Angeles como provas factuais das atitudes dos jovens em geral. Indo além, é importante distinguir 
entre as mudanças fundamentais e aquelas que podem ser meramente superficiais. Por exemplo, será 
que o fato de os adultos hoje vestirem roupas semelhantes às das crianças (ao menos em alguns 
contextos sociais) significa necessariamente que eles se tornaram mais ‘infantis’ ? Será que as 
semelhanças entre os hábitos alimentares e as preferências musicais de crianças e adultos implicam 
automaticamente que as diferenças entre eles desapareceram ? 
É claro, não se pretende negar que possam ter ocorrido mudanças concretas. O que se quer 
apenas é reconhecer a parcialidade e as funções retóricas das evidências apresentadas, tanto sobre o 
passado como sobre o presente. Este é mais obviamente o caso dos textos populares que se apóiam 
fundamentalmente em episódios isolados ou em fontes jornalísticas, como os de Winn e Sanders. Mas 
também aparece nos casos em que as evidências assumem a forma aparentemente mais ‘objetiva’ de 
estatísticas sociais.lxx 
Os índices de criminalidade, por exemplo, estão sujeitos a muitas possibilidades de 
interpretação, e não podem ser tomados como reflexo direto da incidência de tipos particulares de 
comportamento. Como vou discutir no capítulo 6, a pesquisa acadêmica também se apóia em 
construções retóricas e teóricas da infância que inevitavelmente acabam determinando o que vale 
como evidência. 
Mesmo assim, os historiadores têm desafiado cada vez mais a narrativa otimista da ‘invenção’ 
da infância na qual esses argumentos se baseiam. Lloyd de Mause é provavelmente o nome mais 
influente ligado a essa visão – compartilhada por Postman e por Winn – de que a moderna concepção 
da infância foi em essência um desenvolvimento civilizado e humanizador.lxxi De acordo com De 
Mause, o modo ‘infanticida’ de criar filhos, característico da Idade Média, foi gradualmente dando 
espaço ao nosso modelo moderno, “de ajuda”, à medidaque a negligência e a crueldade foram sendo 
substituídas por cuidado e atenção. Mas esse relato foi questionado por muitos autores posteriores. 
Carmen Luke, por exemplo, defende que o que hoje interpretamos como indiferença adulta com 
relação às crianças (por exemplo, as práticas como o enfaixamento dos bebês) tinha muito a ver com 
as limitações materiais da época.lxxii A esse respeito, ela argumenta que De Mause implicitamente 
julga o passado desde a perspectiva das noções contemporâneas sobre a ‘ natureza humana’. Ao 
mesmo tempo, as idéias de De Mause tendem a reforçar uma complacência com o presente que 
desconsidera a contínua ocorrência de abuso infantil e de práticas rotineiras como os castigos físicos. 
Argumentos semelhantes podem ser levantados sobre a história mais recente da infância. 
Também aí a ênfase na mudança abrupta parece ter levado a um descaso pelas sólidas evidências de 
continuidade. Assim, por exemplo, Winn sugere que as crianças das classes trabalhadoras ‘ganharam’ 
uma infância ao serem removidas da força de trabalho e dos perigos da rua, para serem colocadas na 
escola. Como diz Cunningham, essa versão da história é uma espécie de romance heróico, no qual os 
filhos dos trabalhadores são resgatados de uma vida de selvageria pela intervenção dos beneméritos de 
classe média.lxxiii Só que além de desconsiderar o papel dos militantes da classe trabalhadora, essa 
história ignora a continuidade da existência do trabalho infantil em algumas das áreas mais 
 28
marginalizadas e exploradas da economia.lxxiv Ela faz também uma análise benevolente demais do 
papel da escolarização, que negligencia sua função disciplinadora – mais do que apenas iluminadora – 
das ‘classes perigosas’. Apesar da retórica civilizadora que a cerca, a escolarização obrigatória tendeu 
de fato a encorajar o mesmo grau de regulamentação, repetição e disciplina das fábricas de onde as 
crianças foram removidas. lxxv 
 
Para além do determinismo tecnológico. 
Uma análise histórica mais detalhada também nos leva a questionar o tipo de determinismo 
que caracteriza essas discussões. Como indiquei, as afirmações sobre a “morte da infância” baseiam-se 
tipicamente em uma oposição entre a imprensa e os meios eletrônicos, particularmente a televisão. 
Mais ostensivamente no trabalho de Postman, a imprensa é vista como responsável pela criação de 
nossa concepção contemporânea da infância; e a televisão, como aquilo que a está destruindo. Dessa 
perspectiva, a tecnologia é vista como autônoma em relação a outras forças sociais, exercendo sua 
influência sem depender dos contextos e propósitos em que é usada. 
 Como indica Carmen Luke, a noção de que a imprensa escrita de algum modo tenha criado a 
‘infância” é no mínimo uma simplificação exagerada.lxxvi Ela aponta o fato de que a noção moderna de 
infância emergiu muito antes na Alemanha do que na França, em grande parte devido a diferenças 
teológicas. O público leitor era muito maior na Alemanha, em resultado da ênfase luterana em garantir 
que todos os fiéis tivessem acesso às escrituras na língua vernacular. A imprensa levou à emergência 
de uma linguagem padronizada, e a uma ‘sistematização dos discursos’, incluindo a preocupação com 
a pedagogia e a criação dos filhos; isso levou por sua vez à implementação da escolaridade obrigatória 
e a uma ênfase crescente nos cuidados e na atenção paternas. A alfabetização nas escolas, durante esse 
período, era parte de um amplo leque de estratégias autoritárias voltadas ao cultivo da obediência, da 
auto-disciplina e do conformismo religioso. Como fica implícito, a análise de Ariés sobre a ‘invenção 
da infância’ pode valer especificamente para a França, mas não deve ser traduzida automaticamente 
para o restante da Europa. O relato de Luke, além disso, sugere que o surgimento de nossa concepção 
moderna de infância não tenha sido uma conseqüência automática da invenção da imprensa – o que 
também de fato não foi o caso da Reforma. Ao contrário, a moderna concepção da infância surgiu 
como resultado de uma complexa rede de inter-relações entre ideologia, governo, pedagogia e 
tecnologia, cada uma delas tendendo a reforçar as outras; como resultado, ela desenvolveu-se de 
formas diferentes, e em diferentes níveis, dependendo de cada contexto nacional. 
De fato, se retrocedermos na história até bem antes do surgimento da imprensa e da leitura, há 
claras evidências de que as crianças eram mesmo definidas como um grupo social distinto, ao qual as 
pessoas se dirigiam de forma diferente. A República de Platão, por exemplo, contém prescrições bem 
definidas sobre as histórias e representações às quais as crianças deveriam ou não ser expostas; a 
mesma coisa faz o Talmud hebraico.lxxvii Além disso, se a infância é meramente uma conseqüência da 
leitura e da imprensa, é difícil interpretar a demarcação explícita da fronteira entre a infância e a idade 
adulta – ‘os ritos de passagem’ – em sociedades não-letradas. 
A oposição entre a imprensa e os meios eletrônicos baseia-se também num conjunto de 
pressupostos empíricos que têm sido amplamente colocados em xeque. A noção de que os índices de 
alfabetização estão caindo, por exemplo, é extremamente questionável – apesar de também neste caso 
ser difícil estabelecer-se evidências definitivas, já que o que ‘significa’ alfabetização (e portanto o que 
está sendo medido) varia muito ao longo do tempo.lxxviii A noção de que a televisão de certa forma 
suplantou a leitura de livros é ainda mais dúbia. Um estudo atrás do outro vem mostrando que a 
televisão toma o lugar de atividades ‘funcionalmente equivalentes’, como a leitura de gibis ou a 
audição de rádio, mais do que a leitura de livros. Parece ser mais o caso de que não se lia muito antes 
da televisão e que ainda se lê pouco hoje.lxxix Do mesmo modo, podemos questionar a afirmação de 
que os jovens que hoje tanto preocupam os adultos tendem a ser os mais expostos às mídias 
eletrônicas. Os membros de gangues que para Sanders são emblemáticos da juventude contemporânea 
 29
tendem, suspeitamos, a passar muito menos tempo em casa vendo TV do que outros jovens; e apesar 
das afirmações desse autor, é bem menos provável que eles tenham computadores em casa. E existe no 
mínimo um debate considerável entre os pesquisadores sobre a relação causal entre os índices de 
abuso de drogas, atividade sexual ou crimes violentos e a audiência de televisão, ou mesmo a 
audiência de tipos particulares de programas.lxxx 
Em última análise, as afirmações de Postman e outros apóiam-se em uma visão do público das 
mídias como uma massa homogênea. As crianças, em particular, são vistas implicitamente como 
passivas e indefesas diante da manipulação das mídias. Os públicos não são vistos aqui como 
socialmente diferenciados, ou como capazes de responder criticamente ao que assistem. A televisão, 
por causa de sua natureza inerentemente ‘visual’(perguntaríamos onde foi parar a trilha sonora) é vista 
como se passasse inteiramente ao largo da cognição. Ela não requer investimentos intelectuais, 
emocionais ou imaginativos: simplesmente vai se imprimindo na consciência infantil. Mais uma vez, 
não é apresentada qualquer base empírica para essas afirmações: elas parecem ser tão auto-evidentes 
que é como se não fosse necessário comprová-las. E, no entanto, como veremos no capítulo 6, tais 
idéias são diretamente refutadas pela maior parte das pesquisas contemporâneas sobre a relação das 
crianças com a televisão. 
A noção de que a imprensa e a televisão produzem diferentes formas de consciência é, por sua 
própria natureza, mais difícil de contestar. Mesmo assim, os estudos antropológicos e psicológicos da 
leitura questionam cada vez mais a idéia de que a habilidade de ler e escrever tenha benefícios 
cognitivos independentes dos contextos sociais em que é adquirida ou usada.lxxxi Por outro lado, 
muitos críticos argumentam que as mídias eletrônicas requerem tipos particulares de ‘alfabetização’ – 
ou seja, habilidades particularesque precisam ser aprendidas para que possam ser interpretadas.lxxxii 
Tais afirmações estão abertas a uma discussão considerável, como se pode prever; apesar de 
que no fundo a questão primeira e crucial seja o que se entende por ‘alfabetização’. Postman e outros 
opõem-se diretamente a uma definição redutora de alfabetização, entendida simplesmente em termos 
da codificação e decodificação mecânica da escrita. Embora eles não usem o termo, seu argumento 
gira em torno de um tipo de ‘alfabetização cultural’, referente a um conjunto de qualidades vistas 
como ‘civilizadas’ ou mesmo essencialmente ‘humanas’lxxxiii. Essa ampliação da noção de 
alfabetização é certamente importante e produtiva. No entanto, parece bastante contraditório confinar a 
alfabetização a uma tecnologia particular – a do livro impresso – e sugerir que seja essa tecnologia o 
que a produza. 
 
Os limites da proteção 
Em última análise, a tese da ‘morte da infância’ oferece um campo bem limitado para a 
mudança ou a intervenção positiva. Postman e Sanders, especialmente, parecem cair num tipo de 
grandioso fatalismo a respeito do futuro. Sua resposta às diversas crises que descrevem é clamar pelo 
desligamento dos aparelhos de televisão e dos computadores, assim como pela paralisação dos 
relógios. Suas receitas de mudança são também bastante conservadoras: elas envolvem uma 
reafirmação da moralidade tradicional, de estruturas familiares e papéis de gênero hierárquicos, e de 
formas convencionais de criação dos filhos. Ao propor tais idéias, porém, é como se reconhecessem 
que o tempo delas já passou. 
Mesmo Steinberg e Kincheloe, apesar de todo o seu auto-proclamado radicalismo, parecem 
compartilhar dessa mesma posição essencialmente conservadora e pessimista. Se por um lado eles 
reconhecem que as mudanças podem ser ‘liberadoras’ para as crianças, sua análise geral é a de que as 
crianças são seres inertes diante do crescente poder das grandes empresas. Somente Meyrowitz parece 
conseguir evitar esse tipo de fatalismo – muito em virtude de sua posição agnóstica, e de sua recusa 
em ver as mudanças como um tipo de distorção do que seria a infância ‘natural’. 
 30
É significativo que todas essas propostas sejam dirigidas aos pais: ela ordenam que os pais 
dêem passos maiores para proteger ou controlar suas crianças, ou para ajudá-las a resistir à influência 
das mídias. Pouca ou nenhuma agência independente é atribuída às crianças em si. Como em suas 
relações com os meios eletrônicos, as crianças são vistas implicitamente como receptores passivos das 
tentativas adultas de controle e manipulação. Sua luta por autonomia – e, em decorrência dela, sua 
resistência à autoridade adulta – é o problema. Não é oferecida qualquer base para uma solução. Ao 
negar o papel ativo das crianças na criação de sua própria cultura, e ao concebê-las simplesmente 
como vítimas passivas, a tese da ‘morte da infância’ garante assim sua própria desesperança. 
Mesmo com todas essas críticas, porém, os argumentos que analisei neste capítulo levantam de 
fato algumas questões complexas e difíceis, que não podem ser simplesmente desconsideradas. Elas 
nos alertam para mudanças contemporâneas significativas, tanto em nossas noções da infância, como 
nas relações das crianças com as mídias – ainda que os relatos que façam delas sejam simplistas e 
unidimensionais. Acima de tudo, elas indicam que a questão das crianças e das mídias não é apenas 
um tema localizado, estando, ao contrário, no coração dos debates contemporâneos sobre cultura e 
comunicações. Elas levantam uma série de questões fundamentais, ligadas à alfabetização, à 
moralidade, à cidadania, e às relações entre a cultura e o comércio – questões que por várias razões são 
particularmente agudas no caso das crianças, mas que possuem também uma relevância muito mais 
geral. 
Na parte II do livro, apresento detalhadamente minha própria análise desses processos. Antes 
de fazê-lo, porém, preciso levar em conta uma visão bastante diferente desses temas. Trata-se de uma 
visão aparentemente oposta à análise pessimista e conservadora da tese da ‘morte da infância’ – apesar 
de, como argumentarei, sofrer de limitações semelhantes. 
 
Capítulo 3 
A Geração Eletrônica 
 A relação entre a infância e as mídias eletrônicas tem sido muitas vezes percebida em termos 
essencialistas. As crianças tendem a ser vistas como possuidoras de qualidades inerentes, que se ligam 
de um modo único às características inerentes a cada meio de comunicação. Na maioria dos casos, é 
claro, essa relação é definida como negativa: atribui-se às mídias eletrônicas um singular poder de 
explorar a vulnerabilidade das crianças, de abalar sua individualidade e destruir sua inocência. A tese 
da ‘morte da infância’ promovida por Neil Postman e outros, examinada no capítulo 2, é uma versão 
especialmente aguda desse argumento. Ela fala diretamente a muitos dos medos e desejos que os 
adultos sentem com relação à infância – e de fato a uma nostalgia idealizada de seu próprio passado. 
Com isso, acaba alimentando um pessimismo generalizado, uma forma de desesperança grandiosa que 
acaba sendo paralisadora. 
Mais recentemente, porém, começou a emergir uma construção bem mais positiva dessa 
relação. Longe de serem vítimas passivas das mídias, as crianças passam a ser vistas como dotadas de 
uma forma poderosa de ‘alfabetização midiática’, uma sabedoria natural espontânea de certo modo 
negado aos adultos. As novas tecnologias de mídia, em especial, são consideradas capazes de oferecer 
às crianças novas oportunidades para a criatividade, a comunidade, a auto-realização. Se é verdade que 
alguns manifestam preocupação quanto ao crescente abismo entre as gerações no uso das mídiaslxxxiv, 
outros têm celebrado as novas mídias como meios de atribuição de poder (‘empoderamento’) e mesmo 
de ‘libertação’ às crianças. Os defensores dessa visão, longe de conclamar os adultos a reafirmarem 
sua autoridade sobre os jovens, tipicamente sugerem que os adultos os ‘escutem’ e tentem ‘alcançar o 
nível deles’. 
 Em certo sentido, essas idéias mais otimistas – que serão revisadas em detalhe neste capítulo – 
podem ser consideradas conseqüências das mudanças tecnológicas. Essas idéias concentram-se 
primeiramente nas relações das crianças com as tecnologias digitais – os computadores e as novas 
formas de cultura e comunicação ‘interativas’ que eles possibilitam. Em alguns casos, esses 
 31
argumentos opõem diretamente as novas mídias e a velha mídia televisiva, que fora vista como a 
principal causa da ‘morte da infância’. Nesta perspectiva, os computadores são entendidos como 
uniformemente bons para as crianças, do mesmo jeito que a televisão era uniformemente má. 
Mas essa distinção não tem a ver apenas com a tecnologia. De fato, vários dos autores 
examinados no capítulo anterior procuraram estender seus argumentos sobre a influência funesta das 
mídias, de modo a que abrangessem não só a televisão, mas também os computadores. Em A is for Ox, 
Barry Sanders culpa os computadores domésticos, assim como a televisão, pela destruição da 
‘verdadeira oralidade’ e pela maré crescente de violência que a ela se seguiu. O livro de Neil Postman 
Technopolylxxxv, enquanto isso, condena os computadores – bem como o uso da tecnologia na indústria, 
na medicina e na maior parte da vida social – em termos muito semelhantes aos que usara em seus 
livros anteriores para condenar a televisão.lxxxvi Reconhecendo explicitamente suas dívidas para com os 
luditaslxxxvii, Postman acusa a tecnologia de desumanizar, destruir as formas naturais da cultura e da 
comunicação em favor de uma burocracia mecanicista. Como à televisão, aos computadores também é 
atribuído o papel de abalar a racionalidade, a moralidade e a coerência social, e de gerar caos e 
confusão. Apesar de seu determinismo tecnológico, Postman não parece perceber grande diferença 
entre as tecnologias ‘novas’ e as ‘velhas’. 
Como veremos, alguns dos autores cujos trabalhos serão examinadosneste capítulo também se 
recusam a fazer distinções absolutas entre as tecnologias em si. No entanto, eles sugerem que as 
mídias contemporâneas preferidas pelos jovens têm qualidades fundamentalmente diferentes daquelas 
da geração de seus pais. As novas mídias são vistas como mais democráticas que autoritárias; mais 
diversificadas do que homogêneas; mais participatórias do que passivas. Avalia-se que elas engendram 
novas formas de consciência entre os jovens, que os levam além da limitada imaginação de seus pais e 
professores. Se esses autores nem sempre dizem que as tecnologias determinam as consciências, eles 
parecem acreditar que as mídias o fazem. 
 
Pesadelos e utopias 
 Ao desenvolver esses argumentos mais otimistas, os defensores da ‘geração eletrônica’ 
precisam inevitavelmente lutar contra as visões muito mais negativas que tendem a predominar no 
debate público. Na verdade, o surgimento das novas formas de comunicação e cultura tem causado 
uma reação quase esquizofrênica. De um lado, atribui-se a essas novas formas um enorme potencial 
positivo, especialmente quanto à aprendizagem; do outro lado, elas são freqüentemente vistas como 
prejudiciais àqueles que se considera especialmente vulneráveis. Nos dois casos, são as crianças – ou 
talvez, mais precisamente, a idéia de infância – o veículo de muitos desses temores e aspirações. 
 Essa ambivalência já aparecia nos primórdios da televisão. Em meio aos medos correntes 
quanto ao impacto da violência na tela, é interessante lembrar que a televisão foi inicialmente 
promovida entre os pais como um meio educacional.lxxxviii Assim, nas décadas de 1950 e 1960, a 
televisão e outras tecnologias eletrônicas eram geralmente vistas como a materialização do futuro da 
educação: elas eram descritas como ‘máquinas de ensinar’ que iriam trazer novas experiências e novas 
formas de aprender do mundo exterior para dentro da sala de aula.lxxxix Mesmo naquela época, porém, 
as esperanças utópicas no futuro eram contrabalançadas pelos receios de declínio ou perda culturais. 
Havia quem defendesse vigorosamente a noção de que a televisão poderia substituir o professor, mas 
essa idéia também causava ansiedade e preocupação, como se poderia esperar. Da mesma forma, no 
espaço doméstico a televisão era vista tanto como uma nova forma de reunir a família quanto como 
algo que abalaria a interação familiar natural.xc O meio foi celebrado como uma forma de nutrir o 
desenvolvimento emocional e educacional das crianças, e ao mesmo tempo condenado por afastá-las 
de atividades mais saudáveis e valiosas. 
 As reações contemporâneas à tecnologia digital também são ambivalentes. Por um lado, existe 
uma argumentação muito pessimista sobre o impacto dos computadores na vida das crianças. Essa 
visão concentra-se não em seu potencial educacional, mas em seu papel enquanto um meio de 
 32
entretenimento – e depende implicitamente de uma distinção absoluta entre as duas coisas. Muitas das 
ansiedades regularmente ensaiadas em relação à televisão parecem agora ter sido transferidas à nova 
mídia. Assim, os computadores são muitas vezes tidos como influência negativa sobre o 
comportamento infantil. Os vídeo-games, por exemplo, são acusados de causar violência imitativa – e 
se diz que quanto mais realistas se tornam os efeitos gráficos, mais tendem a encorajar as crianças a 
copiá-los.xci Há também quem acredite que essas tecnologias fazem mal ao cérebro – e ao corpo todo. 
Daí surgirem numerosos estudos clínicos de fenômenos como o “ombro de Nintendo” e as crises 
epilépticas supostamente causadas por vídeo-games; cita-se cada vez mais pesquisas que buscam 
comprovar os perigos do ‘vício’ nos computadores e seus efeitos negativos sobre a imaginação e o 
desempenho acadêmico.xcii Os computadores são também acusados de prejudicar a vida social: eles 
aparentemente tornam as pessoas anti-sociais, destruindo a interação humana normal e o aconchego 
familiar. O fenômeno japonês do ‘Otaku’, ou a ‘tribo-dos-que-ficam-em-casa’ torna-se emblemático 
das formas como os jovens acabam preferindo a distância e o anonimato da comunicação virtual à 
realidade das interações face-a-face.xciii Por fim, os computadores ainda por cima são considerados 
danosos à política e à moralidade. Os ‘games’ são tidos como uma atividade altamente marcada em 
termos de gênero, o que reforça os estereótipos tradicionais e os papéis-modelo negativos;xciv enquanto 
isso, cresce a maré de preocupação com o acesso à pornografia pela Internet e sua capacidade de 
corromper os jovens.xcv 
 Mas, por outro lado, existe também uma forma de utopismo visionário – ainda que mais 
focado na educação que no entretenimento. Diz-se que os computadores proporcionam novas formas 
de aprendizado que transcendem as limitações dos velhos métodos, em especial os métodos ‘lineares’ 
como a imprensa e a televisão. As crianças são apontadas como sendo quem melhor reponde a essas 
novas abordagens: o computador liberaria sua criatividade natural e seu desejo de aprender, 
aparentemente bloqueados ou frustrados pelos métodos antiquados.xcvi Essa perspectiva utópica é cada 
vez mais popular nos estudos sobre alfabetização e arte. Alguns autores, por exemplo, acreditam que a 
tecnologia digital acarretará uma forma nova e democrática de alfabetização. Ela colocará os meios de 
expressão e comunicação ao alcance de todos, e desse modo ‘garantirá à imaginação pública direitos 
genuinamente inéditos’ (nas palavras de Richard Lanham)xcvii . 
Enquanto isso, o potencial criativo oferecido pelas novas tecnologias é visto muitas vezes como capaz 
de tornar desnessário o treinamento nas técnicas artísticas: o computador, dizem alguns, vai nos 
transformar a todos em artistas. Longe de destruir as relações humanas e as formas de aprender 
‘naturais’, a tecnologia digital vai liberar a espontaneidade e a imaginação inatas das crianças.xcviii 
 Essa retórica utópica reflete-se com força nos anúncios de computadores e softwares, 
particularmente aqueles que se dirigem aos pais e professores.xcix As propagandas da Apple ou da 
Microsoft, por exemplo, se esforçam para contrapor as visões populares da tecnologia como algo não 
natural ou inumano e conseqüentemente ameaçador. O foco delas não são as especificações científicas, 
mas a mágica promessa tecnológica: o computador é representado aí como uma janela para novos 
mundos, uma forma de desenvolver o senso de encantamento nas crianças e sua sede de saber. ‘Onde’, 
elas perguntam, ‘você quer ir hoje?’. Como indicarei, existem paralelos interessantes entre o caráter 
utópico de certos textos acadêmicos (e quase acadêmicos) sobre os computadores e a retórica 
persuasiva dos camelôs. Esse mesmo tom vai sendo adotado também pelos políticos e planejadores, 
interessados em apresentar a ‘super-rodovia da informação’ como a solução para todos os problemas 
da escola atual. 
 Essas idéias são de fato dois lados da mesma moeda. Sem querer desconsiderar as 
preocupações com o impacto negativo das tecnologias – ou mesmo negar seu enorme potencial – eu 
proporia que essas posições aparentemente contrastantes compartilham de fragilidades semelhantes. 
Assim como nos debates em torno da televisão, tanto os argumentos positivos quanto os negativos 
baseiam-se em noções essencialistas da infância e da tecnologia. Eles efetivamente ligam uma 
mitologia sobre a infância a uma mitologia paralela sobre a tecnologia. Assim, as crianças são vistas 
como possuidoras de uma criatividade natural e espontânea, que seria (talvez paradoxalmente) liberada 
 33
pela máquina; ao mesmo tempo, elas são vistas como vulneráveis, inocentes e carentes de proteção 
contra os danos que a tecnologia inevitavelmente lhes causará. 
 Assim, de um lado o computador vira um conveniente bode expiatório, um objeto mau no qual 
podemos descarregar nossos temores e frustrações – sejam eles ligados à violência, à imoralidade, ao 
comercialismo, o sexismo ou o declínio dos ‘valores familiares’. Igualmente, do outro lado,o 
computador serve como uma panacéia, portadora de sonhos e esperanças, um agente mágico que irá 
liberar a sabedoria e a virtude até então escondidas. Mas, quer vejamos essas mudanças como boas ou 
más, elas são interpretadas como conseqüência inexorável da implementação ou da disponibilização da 
tecnologia. A tecnologia é vista como responsável pela transformação das relações sociais, de nosso 
funcionamento mental, de nossas concepções básicas de conhecimento e cultura – e, o que é crucial 
neste contexto – pela transformação do que significa aprender, e ser criança. 
Assim, então, ambas as posições se caracterizam por um tipo de determinismo tecnológico.c 
Vista desse ângulo, a tecnologia emerge de um processo neutro de pesquisa e desenvolvimento 
científicos, mais do que da interação de complexas forças sociais, econômicas e políticas – forças que, 
para começar, têm um papel crucial na definição de quais as tecnologias que serão desenvolvidas e 
comercializadas. Da mesma forma que nos debates sobre a imprensa e sobre a televisão examinados 
no capítulo anterior, o computador é visto predominantemente como uma força autônoma de certo 
modo independente da sociedade humana, e que age sobre ela a partir do exterior. 
 
A nova retórica das gerações 
Minha ênfase maior neste capítulo é o lado utópico dessa tese. Pretendo examinar quatro 
livros-chave cujo foco está especificamente nas conseqüências das novas tecnologias de mídia para as 
crianças e jovens: Growing Up Digital, de Don Tapscottci, The Connected Family, de Seymour 
Papertcii, Virtuous Reality, de Jon Katz, e Playing the Futureciii, de Douglas Rushkoff.civ Todos eles 
foram publicados entre a metade e o final da década de 1990. Com a exceção do trabalho de Papert, 
não foram escritos por acadêmicos, ao contrário dos textos sobre ‘a morte da infância’ comentados no 
capítulo 2. Como a maioria daqueles textos, porém, estes são essencialmente livros ‘populares’, 
polêmicas redigidas para o público em geral, mais do que para leitores acadêmicos. 
Aqui também os subtítulos são sintomáticos: The Rise of the Net Generation (A Ascenção da 
Geração Internet) (Tapscott); Bridging the Digital Generation Gap (Construindo uma Ponte sobre o 
Abismo Digital entre as Gerações); How Kids´Culture Can Teach Us to Thrive in an Age of Chaos 
(Como a Cultura das Crianças Pode nos Ensinar a Prosperar em uma Era de Caos) (Rushkoff). 
Somente o do livro de Katz tem um tom mais sarcástico e menos fervoroso: How América 
Surrendered Discussion of Moral Values to Opportunists, Nitwits and Blockheads like William 
Bennett (Como a América entregou a discussão sobre valores morais a oportunistas, tolos e estúpidos 
como William Bennett), uma frase que explicarei mais adiante. 
Em muitos sentidos, esses livros espelham uma imagem inversa à da tese da ‘morte da 
infância’ comentada no capítulo 2. Enquanto Postman e outros percebem as mídias como agentes de 
um declínio social generalizado, estes autores as vêem como agentes de uma forma igualmente 
abrangente de progresso social. Enquanto Postman e outros vêem as mídias como uma influência 
enormemente poderosa e negativa sobre as crianças, estes autores acreditam que as crianças é que são 
as poderosas, sendo as mídias os meios pelos quais adquirem poder. E enquanto Postman deseja 
retornar a uma noção tradicional de infância, na qual as crianças são ensinadas mais uma vez a 
conhecer o seu lugar, estes autores negociam, todos eles, com um tipo de retórica geracional na qual as 
crianças e os jovens são vistos como agentes de uma transformação muito mais ampla da sociedade 
como um todo. 
O livro de Don Tapscott, Growing Up Digital, é o mais consistente deles, e o mais 
decididamente otimista. Seu argumento baseia-se em dois conjuntos de oposições binárias, entre 
tecnologias (a televisão versus a internet) e entre gerações (a geração do baby- boomcv versus a 
 34
‘geração- internet´). Aí, a televisão é vista como passiva, enquanto a internet é ativa; a televisão 
emburrece seus usuários, enquanto a internet aguça sua inteligência; a televisão difunde uma única 
visão de mundo, enquanto a internet é democrática e interativa; a televisão isola, enquanto a internet 
cria comunidades; e assim por diante. Assim como a televisão é a antítese da internet, também a 
‘geração TV’ é a antítese da ‘geração-internet’. Como a tecnologia que elas controlam, os valores da 
‘geração TV’ são cada vez mais conservadores, ‘hierárquicos, inflexíveis e centralizados’. Em 
contraste, os jovens da net são ‘ávidos por expressão, descoberta e auto-desenvolvimento’: eles são 
sabidos, auto-confiantes, analíticos, criativos, inquisitivos, tolerantes com a diversidade, socialmente 
conscientes, globalmente orientados – e a lista vai adiante. 
Em última análise, porém, essas diferenças entre gerações são vistas como produzidas pela 
tecnologia, em vez de resultantes de outras forças sociais, históricas ou culturais. Ao contrário de seus 
pais, que são retratados como ‘tecnófobos’ incompetentes, as crianças são vistas como possuidoras de 
uma relação intuitiva e espontânea com a tecnologia digital. ‘Para muitas crianças’, dizem alguns, 
‘usar a nova tecnologia é tão natural como respirar’.cvi Nessa visão, é por meio da tecnologia que elas 
adquirem poder. As crianças tornaram-se ‘ativas’, mas só porque a tecnologia lhes possibilitou isso: 
[As crianças de hoje] têm novas e poderosas ferramentas para investigação, análise, auto-
expressão, influência e brincadeira. Elas têm uma mobilidade sem precedentes. Estão encolhendo o 
planeta de uma forma que seus pais nunca teriam conseguido imaginar. Ao contrário da televisão, que 
era feita para elas, as crianças é que são os atores no mundo digital.cvii 
 
Como fica implícito, Tapscott é um determinista tecnológico assumido. Em todas as áreas que 
ele examina – a psicologia do indivíduo, a escolarização, o trabalho, a vida familiar, o mercado – a 
tecnologia digital resulta em mudanças inevitáveis (e inevitavelmente positivas), enquanto os valores 
da geração-internet substituem os dos ‘filhos do baby-boom, com suas formas de pensar antiquadas e 
tecnofóbicas’. A tecnologia digital, argumenta Tapscott, garante mudanças estruturais – 
democratização, liberdade de escolha e expressão, abertura, inovação, colaboração. Ela desenvolve 
uma nova autenticidade humana caracterizada por independência do pensamento, confiança nos outros 
e em si, honestidade, partilha, e um saudável ceticismo com relação à autoridade. Com o tempo, ela 
poderá até mesmo provocar uma ‘explosão geracional’, um ‘despertar social’, que colocará por terra as 
hierarquias tradicionais de conhecimento e poder. 
Tapscott se baseia parcialmente em dados de pesquisa de mercado, assim como em seu próprio 
uso da internet. O texto é entremeado de ‘balões’ contendo ‘fragmentos sonoros’ descontextualizados 
da fala de jovens em salas de bate-papo on-line, todos eles parecendo concordar com a idéia de 
Tapscott de que ‘os jovens estão construindo uma nova cultura’.cviii Ficamos sabendo pouco sobre 
esses jovens, além da idade e do lugar onde vivem. Eles formam claramente um grupo auto-
selecionado, não-representativo; ainda assim, é uma questão fundamental saber se eles representam 
uma visão do futuro para todos os jovens. 
É verdade que Tapscott reconhece algumas das limitações da ‘revolução digital’, ainda que 
tardiamente. Ele admite que a distância crescente entre os ‘tecnologicamente ricos’ e os 
‘tecnologicamente pobres’ reflete e ao mesmo tempo agrava desigualdades sociais mais amplas nos 
Estados Unidos; e explica que essa distância não irá diminuir simplesmente com mais equipamento, 
sendo necessário investir mais fundamentalmente em infra-estrutura e em conhecimento especializado. 
Mas Tapscott, por outro lado, parece assumir sem questionamento a ‘lógica’ do capitalismo: a internet, 
diz ele, é ‘uma criatura das forças de mercado’, que, ao oferecerescolha e controle a seus usuários, é 
inerentemente ‘democratizadora’.cix Ele também faz generalizações quanto à força de trabalho do 
futuro, ao concentrar-se apenas em uma possível elite empresarial. Preocupações potenciais com o 
impacto das novas tecnologias sobre o trabalho não-qualificado, por exemplo, são simplesmente 
ignoradas. Apesar de toda sua insistência na consciência social dos ‘jovens internautas’, a nova era de 
Tapscott parece representar a ‘apoteose do consumismo’ – uma era garantida pela propaganda sob 
medida, por uma força de trabalho ‘flexível e pela busca incansável de lucros através da ‘inovação’. 
 35
Seymour Papert é uma das autoridades citadas por Tapscott, e parece gozar de um status de guru 
nesse campo (e até mesmo cultivá-lo). The Connected Family apresenta-se como um livro de auto-
ajuda para os pais, buscando combinar o senso comum doméstico da literatura de aconselhamento com 
eventuais inspirações ao estilo zen. Argumentos que alguns leitores poderão achar banais e 
paternalistas são apresentados como se possuíssem uma profundidade infantil. Como proclama no 
prefácio seu colega Nicholas Negroponte, ‘Seymour é a criança emancipada’.cx Como o livro anterior 
de Papert, sintomaticamente intitulado The Children´s Machine (‘A Máquina das Crianças’)cxi, The 
Connected Family combina a fé na sabedoria natural das crianças com uma fé idêntica no potencial 
liberador da tecnologia digital como meio de aprendizagem. Ele começa assim: 
Ao redor do mundo há um caso de amor apaixonado entre as crianças e os computadores. Tenho 
trabalhado com crianças e computadores na África, na Ásia e na América, em cidades, subúrbios, 
fazendas e selvas. Trabalhei com crianças pobres e ricas; com filhos de pais letrados e de pais 
analfabetos. Mas essas diferenças não parecem ter importância. Em todos os lugares, com poucas 
exceções, vejo o mesmo brilho em seus olhos, o mesmo desejo de se apropriarem daquela coisa. E mais 
do que desejarem-na, as crianças parecem saber que de um modo profundo ela já lhes pertence. Elas 
sabem que podem dominá-la com mais facilidade que seus pais. Elas sabem que são a geração dos 
computadores.cxii 
 
Entranhada nesse tom sussurrante, quase místico, há uma negação das diferenças culturais e das 
desigualdades sociais que é sintomática da abordagem essencialista de Papert. Parece existir um tipo 
de essência natural da infância – um conhecimento inato, uma fluência espontânea, uma sede de 
aprender – que é liberada de algum modo automático por essa tecnologia. As crianças aparentemente 
saberiam intuitivamente como usar computadores; e o modo de operação dos computadores parece 
coincidir magicamente com o modo natural de aprender das crianças. Como sugere a última frase, 
Papert vê isso em termos de uma diferença de gerações: como Tapscott, ele representa os pais e as 
crianças como receosos e incompetentes em suas relações com os computadores, embora relutem em 
abrir mão do controle. 
Em geral, as crianças da ‘geração do computador’ de Papert são mais jovens que a ‘geração-
internet’ de Tapscott, mas a análise que ele faz dos benefícios da tecnologia para a aprendizagem é 
muito semelhante. Papert anuncia sua filiação a uma forma de psicologia cognitiva, influenciada por 
Piaget; e sua ênfase, de acordo com isso, está na aprendizagem individualizada, ‘auto-dirigida’, que 
prossegue no ritmo natural da criança. Os problemas surgem apenas, explica ele, quando os pais, os 
professores e os criadores de software tentam impor seus pressupostos antiquados e os métodos de 
aprender inspirados em seu próprio tempo de estudantes. Papert critica duramente, portanto, os pacotes 
básicos de softwares ‘instrucionais’ que são amplamente promovidos pelo mercado, especialmente 
aqueles que tentam ‘enganar’ as crianças tentando fazê-las acreditar que estão simplesmente 
brincando. 
Como fica implícito, Papert não ignora alguns dos aspectos negativos do entusiasmo 
contemporâneo pelos computadores. Ele reconhece que o uso da internet pode ser lento e frustrante, 
que alguns softwares comerciais são mal planejados, e que o uso de computadores na escola é quase 
sempre limitado e pouco imaginativo. Mas ele sugere que esses sejam fenômenos temporários, meros 
reflexos do fato de que ainda são os adultos que controlam essas mídias. Quando se der rédea solta às 
crianças, as conseqüências deverão ser somente positivas: crianças de aprendizado lento se 
transformarão em alunos-modelo, as famílias se tornarão mais atentas e comunicativas, os professores 
descobrirão novos mundos de aprendizado – tudo em virtude de seu acesso à tecnologia. 
O livro de Jon Katz Virtuous Reality se caracteriza por um otimismo semelhante, embora (como 
o subtítulo sugere), ele dedique mais energia à crítica. Depois da ofegante retórica propagandística de 
Tapscott e Papert, o humor agudo de Katz é sem dúvida um alívio. Onde Tapscott busca acalmar as 
ansiedades das famílias com relação à corrupção moral que vêem emergir das mídias digitais – mais 
obviamente na forma de pornografia on-line – Katz ataca diretamente o novo autoritarismo moralista 
 36
que domina os debates contemporâneos sobre a juventude nos Estados Unidos (e também na Grã-
Bretanha). Para ele, os softwares de bloqueio e o V-chip, por exemplo, são ataques fundamentais à 
liberdade das crianças – embora veja como consolo o fato de eles serem ineficazes. Ele é cáustico em 
relação aos lucrativos sermões moralistas do ex-ministro de Educação e czar das drogas na Casa 
Branca William Bennett, e com o desejo de outros ‘midiófobos’ de culparem as mídias por tudo o que 
vêem como os males do mundo. 
Alguns dos alvos de Katz são fáceis demais, mas sua posição sobre a eterna questão dos efeitos 
das mídias representa um desafio importante às visões predominantes, especialmente nos Estados 
Unidos. Assim, ele contesta a idéia de que os conteúdos sexuais nas mídias sejam necessariamente 
maus para as crianças; e argumenta que culpar as mídias pelos crimes violentos é apenas um meio de 
distrair a atenção das suas causas mais fundamentais ( e difíceis de tratar). Ele nos recorda de que as 
novas tecnologias realmente minaram a possibilidade do controle centralizado; e que boa parte da 
cultura infantil (e juvenil) deve ser subversiva por definição. Nosso objetivo, ele argumenta, não 
deveria ser impedir que as crianças tivessem acesso a tais materiais, mas capacitá-las a lidar com eles. 
Como Tapscott e Papert, Katz é totalmente otimista quanto aos jovens, e irônico com relação à 
geração de seus pais. Os filhos do baby-boom são, afirma ele, cada vez mais conservadores: eles não 
conseguem entender a ‘revolução na informação’ ou o caráter ‘rebelde’ da atual cultura jovem, 
recorrendo assim a tentativas sempre mais desesperadas de controlá-la e censurá-la. Em contraste, os 
filhos deles é que agora são mais liberais e socialmente conscientes. Segundo Katz, eles aceitam 
menos a autoridade estabelecida; valorizam a interatividade mais que a passividade; apreciam a 
diversidade e a franqueza; e não gostam das mídias que se levam muito a sério. São ‘cidadãos de uma 
nova ordem’. 
A posição de Katz é explicitamente informada pela noção de ‘direitos das crianças’, um tema 
que (como veremos em outros capítulos) experimenta hoje um ressurgimento. Ao contrário da retórica 
protecionista que freqüentemente transparece nesses debates, a ênfase de Katz é explicitamente 
política. Ele recupera Tom Paine, tanto como modelo de um tipo popular de polêmica jornalística que 
para ele foi extinto pelo conservadorismo empresarial, quanto como por sua argumentação em torno 
dos direitos humanos. A internet ‘é a materialização de tudo aquilo em que Paine acreditava’, diz Katz. 
Ela está finalmente permitindo que as crianças escapem ao controle adulto: 
Estes novos equipamentos não estão apenas tornando os jovens mais sofisticados, alterando suas 
idéias sobre o que são a cultura e a leitura, eles estão transformando-os – conectando-s uns aosoutros, 
dando-lhes um novo senso de identidade política.(...)Enquanto as comunicações digitais soltam suas 
fagulhas mesmo através das mais fortificadas fronteiras e são rebatidas mundo afora, independentes de 
governos e censores, as crianças podem pela primeira vez ir além dos limites sufocantes da convenção 
social, além das rígidas noções dos mais velhos sobre o que é bom para elas.cxiii 
 
Apesar de sua disposição em proclamar uma ‘revolução das crianças’, o contrato-modelo de 
Katz para pais e filhos fornece um equilíbrio mais realista (e até mesmo conservador) entre direitos e 
responsabilidades. As crianças, defende ele, têm o ‘direito moral de acesso’ à cultura das mídias; mas 
elas também precisam negociar com as condições estabelecidas por seus pais, por exemplo quanto à 
privacidade, e com as expectativas deles quanto ao desempenho escolar e ao comportamento.cxiv 
Apesar de seu otimismo geral, Katz não compartilha da visão essencialista das tecnologias 
de mídia assumida por Papert e Tapscott. Diferentemente de Tapscott, ele também sabe que a palavra 
‘mídias’ é um substantivo plural.cxv Katz não opõe a televisão às mídias digitais, mas as ‘novas’ 
formas culturais às ‘velhas’. Desse modo, ele é particularmente incisivo quanto ao fracasso do 
tradicional jornalismo de notícias em acertar o passo com o que vê como uma mudança na relação dos 
jovens com a informação. Ele é positivo a respeito da ‘interatividade’, não apenas nas mídias digitais, 
mas também em programas de entrevistas, TV a cabo e música rap – que ele descreve coletivamente 
como ‘uma das grandes explosões criativas da cultura moderna’.cxvi Mas Katz não defende que o novo 
deva simplesmente substituir o velho. Por exemplo, ele vê a ‘interatividade’ das novas mídias como 
 37
potencialmente empoderadora e democratizante, e como um desafio ao controle centralizado; mas ele 
observa também que é importante manter os aspectos positivos das ‘velhas’ mídias, como os jornais e 
a televisão, por sua habilidade em criar uma cultura comum e fornecer ‘a coerência, a racionalidade e 
o contexto’ que podem nos ajudar a achar nosso rumo em meio à avalanche de informação. Não se 
trata, ele insiste, de escolher ou uma certa cultura da informação ou outra. Também aqui, a abordagem 
de Katz é bem mais equilibrada do que seus ocasionais rompantes de retórica geracional poderiam 
fazer esperar. 
Ao contrário, o livro Playing the Future, de Douglas Rushkoff, entrega-se à retórica com 
total abandono. Suas idéias também se baseiam em uma oposição binária entre a nova geração das 
mídias – a ‘geração da tela’ (screenagers), como ele os chama, e seus pais, os ‘filhos do baby-boom’. 
À medida que estes ficaram mais velhos, diz Rushkoff, eles simplesmente retornaram aos valores 
autoritários que tentaram destruir na década de 1960. Os jovens é que agora são a maior esperança da 
evolução social. Enquanto seus pais adotam a linearidade e as confortáveis certezas da moralidade 
dualista, a ‘geração da tela’ abraça a descontinuidade, a turbulência e a complexidade. Os jovens, 
argumenta Rushkoff, têm ‘habilidades adaptativas naturais’ que lhes permitem lidar com os problemas 
da pós-modernidade; só eles são capazes de entender o ‘funcionamento secreto da tecnologia’. Os 
adultos terão que abandonar sua função de educadores e modelos, e aceitar o fato de que precisam 
correr atrás para alcançar seus filhos. Se continuarem fiéis às ‘obsoletas e naufragantes instituições do 
passado’, adverte, eles simplesmente ‘afundarão junto com o navio’.cxvii 
Como Katz, Rushkoff não adota o tipo de determinismo tecnológico presente nos trabalhos 
de Tapscott e Papert. Seu ‘conflito de gerações’ não é primeiramente uma questão de tecnologia, mas 
de diferenças entre ‘novas’ e ‘velhas’ mídias. Assim como Katz, Rushkoff caracteriza as novas mídias 
– não apenas a internet, mas também a TV a cabo, os videogames, a MTV, os jogos de interpretação 
de papéis e as sub-culturas da moda – como inerentemente mais ‘interativas’ e portanto mais 
democráticas do que a ‘monocultura’ hierárquica que a precedeu. Essas mídias, diz ele, permitem que 
os jovens se tornem eles mesmos produtores culturais, fugindo assim ao controle de seus guardiões 
familiares. 
De todos esses autores, Rushkoff é o mais abertamente simpático às novas formas da cultura 
midiática dos jovens. Ele examina um amplo conjunto de mídias, dos pogs e Power Rangers às 
subculturas de vampiros, mosh pits e piercing, celebrando ‘a individualidade, a estranheza, a 
inconsistência, a abertura e até mesmo a mutação’.cxviii Ele faz uma análise particularmente 
interessante da ‘espiritualidade pagã’ e romântica da cultura infanto-juvenil contemporânea, 
argumentando que ela representa uma reação contra a dominação tecnológica e ao mesmo tempo uma 
habilidade instintiva de evoluir junto com ela. 
De acordo com Rushkoff, esses novos modos de ser não aparecem apenas nas formas de 
mídia preferidas, mas também nos diferentes modos como as crianças se orientam em relação a elas. 
O zapear , o surfar entre canais, é o modo característico da geração da tela, mais do que a obediência 
passiva à programação linear. Como Tapscott, Rushkoff sustenta que a geração da tela desenvolveu 
novas habilidades cognitivas que lhe permitem lidar com o excesso de informação, processando-a 
muito mais rapidamente. Seu uso das mídias não se caracteriza pela escravidão obediente, mas por 
uma forma de ironia coletiva ou de ‘participação distanciada’: os jovens recusam-se a serem 
persuadidos ou arrastados ao papel de espectadores passivos. 
Como o subtítulo sugere, a perspectiva de Rushkoff é informada pela ‘teoria do caos’ – 
assim como todo o seu raciocínio. Ele vê esse processo de adaptação como uma questão de ‘evolução 
da espécie’, que pode ser explicada em termos de metáforas extraídas do mundo natural: os processos 
históricos e sociais são vistos como seqüências aparentemente arbitrárias de eventos descontínuos. 
Rushkoff insiste várias vezes em que existem ‘padrões maiores’ ou ‘estruturas subjacentes’ (como nos 
fractais) em meio à turbulência aparentemente casual, embora ele nunca explique adequadamente o 
que eles são. Seu argumento pula o tempo todo entre um tema e outro, através de analogias dúbias e de 
saltos no processo lógico, de uma forma que relembra Marshall McLuhan. Quanto mais diversificado 
 38
torna-se o material, e mais rapidamente prossegue o raciocínio, mais fica parecendo ser o ‘caos geral’ 
realmente a única solução. 
Desse modo, Rushkoff parece estar buscando adesão não por meio de argumentos e 
evidências, mas por uma espécie de ato de fé. O otimismo parece obrigatório. Os jovens, ele nos diz, 
evoluirão naturalmente para o próximo estágio da humanidade. As mídias são nossas ‘parceiras na 
evolução cultural’, e a tecnologia está ‘ a cada dia refletindo mais precisamente os nossos desejos e 
prioridades’.cxix Como Tapscott, Rushkoff é entusiástico em relação às formas como a tecnologia está 
transformando os locais de trabalho. Ele assegura que a tecnologia produzirá o fim do trabalho 
mecânico; e ‘a visão de mundo da geração da tela’ transformará a cultura empresarial, tornando-a mais 
democrática e socialmente reponsável, e encorajando uma nova honestidade e um novo sentido de 
comunidade. Na mesma linha, Rushkoff aceita implicitamente a noção de que, ao criar novas formas 
midiáticas ‘interativas e grátis para todos’, o mercado também gerou maior possibilidade de escolha 
para os consumidores e portanto uma nova receptividade às necessidades culturais dos públicos. Ele 
garante que isso é ‘a cultura entregue a seus próprios mecanismos’. Mas o ‘sistema fractal de livre 
fluxo’ de Rushkoff implicitamente apresenta o anarquismo como uma justificativa para o liberalismo 
de livre-mercado. Em sua conclusão, o mercado torna-se de fato uma ‘força da natureza’; ‘nossas 
mídias promovem (sic) a livre comunicação, nossa economia promove a opção’cxx, regozija-se ele. 
 
Os limites dootimismo 
O vigoroso otimismo desses livros é até certo ponto muito atraente. Como a nostalgia dos 
autores da ‘morte da infância’, ele tem um apelo emocional direto a que fica difícil resistir. Seria 
reconfortante concordar, com Tapscott e outros, que os jovens não são excessivamente ávidos por 
riqueza, materialistas e anti-sociais; e que eles acabarão derrubando as burocracias governamentais 
hierárquicas, abrindo caminho a uma sociedade livre e igualitária. Essa posição representa um desafio 
poderoso à estigmatização da juventude e às políticas sociais autoritárias que têm se tornado cada vez 
mais populares junto aos governos nos dois lados do Atlântico. 
Com relação às mídias, esses argumentos fornecem também uma alternativa valiosa aos 
pressupostos que costumam informar o debate público. Em vez de conceber as crianças como 
consumidores passivos de mídias todo-poderosas, esses autores enfatizam sua sofisticação crítica e 
competência. Em alguns casos até corajosamente, eles também questionam o moralismo simplista que 
domina os debates públicos sobre a influência ‘do sexo e da violência’. As crianças e os jovens são aí 
definidos não como vítimas iludidas, mas como agentes ativos em suas negociações com as mídias. 
No entanto, como sugeri, esse otimismo também escorrega em um tipo de ilusão que pode não 
corresponder aos fatos. Ao contrário dos relatos históricos examinados no capítulo anterior, não se 
pode esperar que esse tipo de futurologia consiga lidar só com dados rigorosos. Os exemplos que 
Tapscott cita, extraídos de conversas em salas de bate-papo da Internet, ou as anedotas de Papert sobre 
internautas de 4 anos de idade, tentam funcionar como previsões de uma nova geração que se vai 
gestando: são por definição utópicos. Mas salientar só o que é positivo, desse jeito, levanta questões 
inevitáveis sobre o que estará sendo omitido. 
Assim, esses autores ignoram amplamente as desconfortáveis questões empíricas sobre como 
essas tecnologias são planejadas, produzidas e postas no mercado, e como elas são de fato usadas pelas 
crianças de verdade. Podemos, por exemplo, mencionar o domínio do mercado de informática por 
umas poucas indústrias multinacionais imensamente lucrativas; a crescente integração horizontal e 
vertical das indústrias de entretenimento; e a aceleração em massa da obsolescência planejada dos 
equipamentos de computador. A alegação de que as novas mídias necessariamente propiciam maior 
‘diversidade’ ou ‘liberdade de escolha’ – em oposição a um simples aumento em quantidade (e 
conseqüentemente em lucratividade) – está longe de ser provada. Também o entusiasmo quanto às 
possibilidades democráticas da internet pode esfriar um pouco se considerarmos seu uso cada vez 
maior na patrulha do comportamento dos consumidores, na dominação global do tráfego na internet 
 39
por parte dos países ‘desenvolvidos’, e no caráter não-democrático de muitas das chamadas 
‘comunidades virtuais’. Por enquanto existe pouca evidência de que a internet seja mais democrática – 
ou que tenha gerado mais atividade política e mudança – do que comparáveis tecnologias mais antigas 
como o rádio, o telefone ou as fotocopiadoras. Por fim, o otimismo sobre o potencial dos 
computadores na educação precisa ser contrabalançado pelo declínio dos investimentos públicos, pelo 
crescente envolvimento das empresas comerciais nas escolas, e pela pressão cada vez maior sobre os 
pais para que compensem os eventuais fracassos da educação pública. Os dados de pesquisa sobre os 
títulos de software mais vendidos ou sobre os usos reais dos computadores nas salas-de-aula sugerem 
que essa nova tecnologia tem claramente reforçado os métodos tradicionais de aprendizagem, ao invés 
de desafiá-los.cxxi 
Em termos do uso que os jovens fazem das mídias, diversos conceitos-chave permanecem 
indefinidos. Por exemplo, a noção de ‘interatividade’ – e a distinção, ligada a ela, entre ‘ativo’ e 
‘passivo’ – são aplicadas indiscriminadamente a textos midiáticos e experiências muito diferentes 
entre si: uma sala de bate-papo on-line é ‘interativa’ de um modo muito diverso de um jogo de lutas 
em computador, que é por sua vez diferente de um programa de entrevistas na TV, ou de uma festa 
rave. Além do mais, as crianças não sabem ‘naturalmente’ como usar computadores: como os adultos, 
muitas vezes elas experimentam confusão, tédio e frustração. A proliferação de novas mídias, e as 
características da Internet em particular, exigem novas e significativas habilidades em termos de como 
localizar, selecionar e avaliar a informação. No presente, os benefícios criativos, educacionais e 
comunicativos dessas tecnologias são apenas percebidos por uma pequena elite – que, como outras 
elites, é predominante branca, masculina e de classe média. Tanto em termos globais quanto no 
interior dos países tecnologicamente ricos, cresce a polarização entre os ‘ricos em informação’ e os 
‘pobres em informação’; e isso não tem a ver apenas com a distribuição desigual de equipamentos, 
mas também com o ‘capital’ cultural e tecnológico necessário para aprender a usá-lo de modo criativo 
e efetivo.cxxii 
Para sermos justos, os livros examinados aqui reconhecem até certo ponto esses problemas. 
Tanto Tapscott quanto Katz, por exemplo, admitem a crescente desigualdade no acesso à tecnologia, o 
que mostra a falsidade da visão essencialista do ‘caso de amor’ das crianças de Papert; mas seu 
reconhecimento dos perigos potenciais da situação acaba se perdendo na torrente de otimismo. Da 
mesma forma, Papert admite que a tecnologia informática é usada de forma limitada nos lares e 
escolas, assim como reconhece algumas debilidades nos softwares; mas a culpa disso é simplesmente 
colocada sobre algum grupo genérico de ‘adultos’ conservadores, que terão de acabar cedendo 
controle à nova geração. 
Em última análise, todos esses autores tendem a negligenciar os contextos sociais reais nos 
quais as tecnologias são produzidas e usadas, e as diferenças sociais que os caracterizam. Sua posição 
essencialista os leva a argumentar em termos absolutistas sobre as diferenças entre gerações, como se 
as ‘gerações’ fossem bem demarcadas e homogêneas. Assim como os ‘adultos’ e os ‘pais’ são 
condenados como uniformemente conservadores e ligados ao passado, também as ‘crianças’ e os 
‘jovens’ são vistos como capazes de se adaptar naturalmente e sem esforço a todo tipo de mudança. 
Essa visão essencialista da infância é reforçada por uma visão essencialista da tecnologia (ou das 
mídias). As novas mídias, e especialmente as digitais, são descritas como inerentemente ‘interativas’, 
e portanto ‘democráticas’, independente do modo como são usadas. Todos esses autores listam os 
atributos psicológicos da ‘geração eletrônica’ como se eles fossem conseqüências inevitáveis de sua 
relação com a tecnologia. Mais obviamente no caso de Rushkoff, a tecnologia torna-se equivalente a 
uma forma de biologia. 
Como resultado, esses autores concebem a mudança social basicamente como uma 
conseqüência inevitável da passagem do tempo – ou, nos termos de Rushkoff, como um processo de 
evolução natural. O que fica pressuposto de forma acrítica é o papel do mercado. Se é verdade que 
alguns deles, notavelmente Papert, lamentam aqui e ali a influência do mercado, ela é vista como algo 
fadado a desaparecer, assim como os valores conservadores da geração mais velha abrem caminho aos 
 40
valores democráticos dos jovens. Em outros casos, principalmente no livro de Rushkoff, o mercado é 
abertamente celebrado como um tipo de força natural benéfica. Argumenta-se que o mercado irá 
inevitavelmente cumprir a promessa da tecnologia, uma vez que ambos representam a materialização 
dos valores humanos essenciais dos jovens. 
Assim como o desespero grandiloqüente dos autores da ‘morte da infância’, portanto, esse 
otimismo generalizado revela limitações importantes no que diz respeito a suas implicações para o 
estabelecimento de políticas. Mesmo com toda a sua retóricavoltada a ‘levantar o moral’, Tapscott é o 
único que sugere alguns modos concretos de tornar mais igualitário o acesso das crianças à tecnologia, 
principalmente através de projetos comunitários assistencialistas. Papert preocupa-se mais com a 
forma como os pais podem exercer pressão para mudar as ‘culturas de aprendizagem’ das escolas; 
enquanto o contrato-modelo de Katz entre pais e filhos dá ênfase ainda mais firme aos modelos 
individualistas de mudança social. Entretanto, assim como os autores da ‘morte da infância’ colocam a 
responsabilidade pela mudança sobre os pais, todos estes autores parecem ter uma fé cega na sabedoria 
da juventude. No processo, as crianças acabam carregadas com todo o peso de nossas esperanças e 
aspirações. Como diz a conclusão do livro de Tapscott, a melhor abordagem é simplesmente ‘ouvir as 
crianças’ – como se todas elas estivessem dizendo a mesma coisa, e como se devêssemos colocar toda 
a nossa confiança em simplesmente segui-las.cxxiii 
 
Rumo a alternativas 
Em um nível, os argumentos examinados neste capítulo são diametralmente opostos aos 
discutidos no capítulo 2. O vigoroso ataque de Jon Katz à hipocrisia moralista dos ‘midiófobos’ da 
América, por exemplo, poderia facilmente ser aplicado ao furioso discurso de Barry Sanders. 
Steinberg e Kincheloe, os editores de Kinderculture, representam claramente a geração do baby-boom, 
cujos gostos e valores são tão cabalmente rejeitados por Douglas Rushkoff.cxxiv Enquanto Seymour 
Papert e Neil Postman talvez compartilhem algumas críticas à escola contemporânea, seus 
diagnósticos de como ela deveria mudar situam-se em pólos opostos. E mais amplamente, claro, o 
otimismo incansável dos defensores da ‘geração eletrônica’ contrasta frontalmente com o pessimismo 
dos que lamentam a ‘morte da infância’ 
Mesmo assim, essas posições aparentemente contrastantes também têm muito em comum. É 
claro que nem todos os textos que examinei são igualmente deterministas ou unidimensionais. As 
análises de Joshua Meyrowitz (em um dos lados) e as de Jon Katz (no outro) são muito mais cheias de 
nuance e incerteza do que os argumentos mais absolutistas junto aos quais os agrupei aqui. Em suas 
versões mais ‘fortes’ – por exemplo, nos trabalhos de Neil Postman e de Don Tapscott – essas 
posições compartilham severas limitações. As duas perspectivas adotam uma visão essencialista da 
‘infância’ e da ‘juventude’, e fazem uma interpretação excessivamente determinista do papel das 
mídias e da tecnologia. Ambas refletem um tipo de sentimentalismo sobre as crianças e os jovens que 
deixa de reconhecer a diversidade das experiências vividas da infância, assim como das relações das 
crianças com as mídias. Nesse sentido, a visão tradicional das crianças como essencialmente inocentes 
e vulneráveis à influência das mídias é equilibrada pela igualmente romântica visão delas como 
naturalmente ‘entendidas em mídia’. Nenhuma dessas visões, a meu ver, oferece uma base realista 
para a elaboração de políticas culturais, sociais e educacionais que possam de fato habilitar todas as 
crianças a lidar com as realidades culturais em mudança nas quais nasceram. 
Colocar em questão essas idéias, no entanto, não é negar as mudanças significativas que 
realmente têm ocorrido em nossas concepções da infância e na realidade das vidas cotidianas das 
crianças. Nem é sugerir que as mídias sejam de algum modo estranhas a essas mudanças, ou que sejam 
mero reflexo delas. Como irei argumentar, uma resposta positiva e efetiva a essas mudanças só será 
possível se entendermos sua complexidade e potenciais contradições. Simplesmente culpar ou festejar 
as mídias é superestimar seu poder e subestimar as diversas maneiras como as crianças criam seus 
próprios significados e prazeres. 
 41
 
CAPÍTULO 4 
Infâncias em mudança 
 
Nos debates analisados nos dois capítulos anteriores foram feitas diversas considerações 
empíricas e teóricas a respeito da natureza transitória da infância. Mesmo que alguns dos autores que 
examino tenham uma perspectiva histórica muito mais longa, o centro das suas preocupações são as 
mudanças que, segundo eles, aconteceram nas últimas duas ou três décadas – especificamente como 
resultado do amplo acesso às mídias eletrônicas. 
Como já destaquei, os argumentos analisados nestes dois capítulos – e as evidências em que 
eles se baseiam – são de certo modo diametralmente opostos. Aqueles que propõem a tese da ‘morte 
da infância’ fazem uma reflexão muito diferente sobre a experiência contemporânea das crianças e dos 
jovens, em comparação com os defensores da ‘geração eletrônica’. A juventude violenta, drogada e 
enlouquecida de Barry Sanders, por exemplo, habita um universo diferente da ‘geração-internet’ 
socialmente responsável e autônoma de Don Tapscott; enquanto que a aparente irracionalidade e o 
niilismo da cultura juvenil contemporânea que tanto preocupam Neil Postman e os autores de 
Kinderculture são interpretados de modo muito mais positivo por Douglas Rushkoff e Jon Katz. 
Mesmo assim, apesar dessas diferenças, todos parecem convencidos de que estamos atravessando um 
período de mudança intensa e de longo alcance, tanto no que diz respeito aos conceitos dominantes de 
infância quanto à própria experiência vivida pelas crianças. 
Em certo sentido, todos os autores que estou analisando constróem histórias da infânciacxxv. 
Invocam representações culturais da infância e constróem narrativas históricas em torno delas. As 
crianças são representadas de modos diversos: ou como inocentes e vulneráveis, ou como pecaminosas 
e necessitando de controle, ou ainda como naturalmente sábias e de espírito livre. Também aparecem 
narrativas diversas sobre a infância: histórias de declínio, de civilização, de libertação, de repressão e 
controle. Como tenho procurado demonstrar, todos os nossos discursos sobre a infância se 
caracterizam por representações e histórias deste tipo: dos apelos subjetivos e imaginativos da ficção e 
da autobiografia até a autoridade reivindicada pela objetividade científica dos textos acadêmicos. É 
em parte através dessas histórias que os significados e a experiência vivida da infância são 
normalmente regulados e definidos. 
Neste capítulo eu proponho uma outra dessas histórias, ou um conjunto de histórias. Sugiro 
que a vida das crianças – e, portanto, os significados que atribuímos à ‘infância’ – realmente mudaram 
significativamente nas últimas duas ou três décadas. Em alguns aspectos, minha reflexão confirma 
vários dos argumentos centrais de ambos os lados do debate; embora ela também sugira que a infância 
esteja mudando de um modo muito menos dramático e muito mais ambivalente e contraditório do que 
aqueles analistas têm defendido. Fundamentalmente, sustento que para compreendermos tais 
mudanças é preciso avançar para além do essencialismo e reconhecer a natureza provisória e 
diversificada das infâncias contemporâneas. Nesse sentido, meu relato tem uma estrutura narrativa 
bem menos satisfatória – e em particular uma ausência de solução em seu final – quando comparada 
com as que examinei até agora. 
Este capítulo enfoca a natureza da mudança na vida das crianças ao longo das últimas duas ou 
três décadas. Minha reflexão está organizada de modo bem convencional, em termos de três principais 
campos. Primeiro considero o lugar das crianças na família; depois, as experiências educacionais e de 
profissionais das crianças; por fim, os usos que elas fazem de seu tempo de lazer. Para isso, recorro a 
diferentes fontes, desde estudos históricos e sociológicos, até relatórios oficiais e estatísticas do 
governocxxvi. 
Não preciso dizer que esta breve reflexão está longe de ser um mapeamento exaustivo. Ela se 
baseia primariamente em material relativo ao Reino Unido; e mesmo que se possa tentar generalizar 
alguns desses argumentos para outros países industrializados ocidentais, outros deles definitivamente 
 42
não poderão sê-locxxvii. A situação das crianças nos Estados Unidos –a respeito das quais as reflexões 
que examinei até agora se referiram principalmente – é diferente em vários e significativos aspectos, 
por motivos históricos e políticos complexoscxxviii. Além do mais, as comparações históricas deste tipo 
– a começar pela própria coleta de dados – são obviamente muito difíceis. Como tenho destacado, as 
crianças, em certa medida, têm sido ‘escondidas da história’; e as estatísticas oficiais ainda tendem a 
usar os pais ou a família, ao invés das crianças, como unidades básicas de contabilidadecxxix. E, o que 
é mais fundamental, a categoria ‘criança’ permanece extremamente escorregadia. A pergunta sobre 
quando termina a infância e quando começam a juventude ou a idade adulta recebe respostas muito 
diferentes em tempos diferentes e por motivos diferentes. E é claro que não podemos falar sobre as 
crianças enquanto uma categoria homogênea: o que a infância significa, e como ela é vivida, 
obviamente dependem de outros fatores sociais tais como gênero, ‘raça’ ou etnicidade, classe social, 
localização geográfica e assim por diante. 
Esses tipos de qualificação pareceriam tornar efetivamente impossível qualquer tentativa de 
generalização sobre ‘as crianças’. Porém o reconhecimento de que a infância é uma construção social 
não deveria nos impedir de falar a respeito das realidades materiais da vida das crianças – e de falar 
assim a respeito das diferenças sistemáticas entre as crianças e outros grupos sociaiscxxx. De fato, é 
através do permanente debate entre construções da infância que competem entre si que as políticas 
sociais são formuladas e as experiências reais das crianças empíricas são conseqüentemente formadas 
e definidas. Meu objetivo, entretanto, não é enfrentar os argumentos anteriores à luz dos fatos 
objetivos. Ao invés disso, busco oferecer as bases para uma história da infância bastante diferente – 
em especial uma história das relações das crianças com as mídias eletrônicas – que irá por sua vez 
sugerir conseqüências materiais bastante diferentes para os indivíduos que nós por ora chamamos de 
crianças. Algumas indicações iniciais desse argumento são apresentadas na conclusão deste capítulo. 
 
O lar e a família 
Talvez a menos ambígua de todas essas mudanças tenha ocorrido nas experiências das 
crianças com a vida familiar. No Reino Unido, e na maioria dos outros países industrializados, temos 
presenciado um contínuo declínio da família nuclear tradicional. Evidentemente, a família nuclear é 
em si um fenômeno histórico comparativamente recente; no Reino Unido pelo menos, algumas 
famílias de classe trabalhadora e minorias étnicas ainda cabem no ‘antigo’ modelo da família 
ampliada, onde três ou mais gerações vivem na mesma casa ou em proximidade. De fato, é duvidoso 
se alguma vez existiu a tal Idade de Ouro em que as famílias eram grandes, estáveis e provedoras de 
apoiocxxxi; o fato, porém, é que nas últimas décadas as estruturas familiares ‘não-tradicionais’, de 
vários tipos, têm se tornado mais comuns. 
Nesse sentido, a proporção de famílias ‘tradicionais’ (compostas por um casal com crianças 
dependentes) caiu nos últimos trinta e cinco anos, de 38% do total em 1961 para 25% em 1996-7. 
Embora a maioria das crianças britânicas com menos de 16 anos continue a viver com o pai e a mãe, a 
proporção das que vivem com apenas um dos genitores mais que dobrou desde 1972, para mais de 
uma criança em cada cinco. Essas famílias são em imensa maioria lideradas pelas mães: a proporção 
de pais sozinhos mudou pouco ao longo destas décadas. O número de casamentos diminuiu, enquanto 
a proporção de crianças nascidas fora do casamento aumentou enormemente, de 9% em 1975 para 
34% em 1995. Mesmo que a maioria desses nascimentos seja registrada por ambos os pais, a 
tendência dessas crianças de viver com o pai e a mãe até os 16 anos é menor do que entre os filhos de 
pais casados. O índice de divórcios também dobrou nas últimas duas décadas, com dois em cada 
cinco casamentos terminando em divórcio, e uma criança em cada 65 sendo afetada nesse período. 
Estima-se que apenas a metade de todas as crianças da Grã-Bretanha pode ter a expectativa de passar 
toda a infância vivendo com seus pais naturais e casados. 
Outras mudanças também atingem significativamente a experiência de vida familiar das 
crianças. As famílias em si estão ficando menores: o número de famílias com três ou mais crianças 
 43
caiu, em uma proporção de 41% em 1972 para 26% em 1996, embora grande parte deste declínio 
tenha ocorrido nos anos 1970. Os índices de fertilidade diminuíram, não tanto porque as mulheres 
estão optando por não ter filhos, mas porque elas estão tendo menos filhos. Nesse contexto, a 
proporção de mães trabalhadoras aumentou significativamente – subindo da metade das mulheres 
casadas e com filhos para dois terços delas entre 1979 e 1994 – enquanto que o número de domicílios 
em que o homem é o único provedor financeiro ocupa agora apenas um quarto do total. As 
profissionais com filhos são muito mais comuns no mercado de trabalho do que as mulheres sem 
qualificação e com filhos, particularmente em regime de tempo integral. Em 1997, em três quintos 
dos casais casados e com filhos, ambos estavam trabalhando (tanto em meio período como em tempo 
integral) em comparação com apenas a metade em meados dos anos 1980. Ainda que exista uma 
grande expectativa de os homens se envolverem mais com o cuidado dos filhos, as evidências sugerem 
que – pelo menos no Reino Unido - na prática eles não têm conseguido acompanhar o ritmo da 
mudança em prol de atitudes mais igualitárias, inclusive em razão do aumento na jornada de 
trabalhocxxxii: em 1996, os homens contratados em tempo integral trabalhavam em média 46 horas por 
semana, mais do que em qualquer outro país da União Européia. Ao mesmo tempo, mais de um terço 
das crianças estão vivendo em famílias sem um provedor de salário de tempo integral; e o número de 
famílias sem-teto e com crianças dependentes aumentou quatro vezes desde o final dos anos 1970. As 
estimativas da instituição de caridade Shelter sugerem que em torno de 100.000 crianças no Reino 
Unidos são hoje sem-tetocxxxiii. 
Estas mudanças talvez sejam mais graduais do que alguns possam ter argumentado, mas elas 
são ainda assim muito significativas. Em suma, elas sugerem que para uma alta proporção de crianças 
a família não é mais o ambiente estável que muitos agentes políticos conservadores imaginamcxxxiv. 
Mesmo em famílias nucleares tradicionais, as crianças passam cada vez menos tempo com os seus 
paiscxxxv e mais tempo em instituições que oferecem alguma forma de cuidado. E é menos provável 
que as crianças tenham irmãos que lhes façam companhia. Estas mudanças também contribuem para 
uma crescente polarização entre ricos e pobres. Se é bem verdade que existem evidências do stress 
psicológico causado às crianças pelas separações conjugais, e alguma discussão sobre isso, suas 
conseqüências econômicas são óbviascxxxvi. As famílias com um único provedor tendem muito mais a 
viver abaixo da linha de pobreza e a depender dos benefícios do estado, e as mães solteiras tendem 
mais a estarem desempregadas do que as mulheres em famílias com os dois cônjuges. Tais famílias 
são muito mais numerosas entre os grupos que já sofrem a pobreza, notadamente os afro-caribenhos. 
Em uma situação na qual a renda familiar quase dobrou ao longo dos últimos 25 anos, a proporção de 
pessoas que vivem com renda abaixo da média continua a crescer. 
Ao mesmo tempo, há sinais de que o lugar da criança dentro da família tornou-se mais 
significativo, pelo menos simbolicamente. As estatísticas aqui são difíceis de comparar, mas a 
proporção da renda familiar destinada às crianças parece ter aumentado consideravelmente nas três 
últimas décadas. Isto resulta em parte da nova ênfase nas crianças enquanto um mercado em 
potencial. Se é possível dizer que o capitalismo criou ‘o adolescente’ nos anos 1950, hoje as crianças 
estão sendo cada vezmais endereçadas diretamente enquanto consumidoras elas próprias, e não mais 
como um meio de atingir aos paiscxxxvii. O mercado de bens de consumo infantil no Reino Unido é 
estimado em mais de $10 bilhões de libras por ano, sendo foco de uma crescente competitividade 
comercial. Por exemplo, o tamanho do mercado de brinquedos infantis cresceu imensamente; e as 
crianças em si têm mais renda de consumo, tanto em mesadas e presentes como através de trabalho 
remunerado (entre as crianças mais velhas). Ainda neste contexto, toda uma gama de tecnologias de 
consumo – de TV a cabo e câmeras de vídeo a computadores domésticos – tendem a ser encontradas 
com maior facilidade nas famílias com crianças do que nas semcxxxviii. 
Em certo sentido, esta nova ‘valorização’ da infância poderia ser vista como um fenômeno 
compensatório. O valor econômico que as crianças tinham no século XIX foi gradualmente 
substituído por uma ênfase no seu valor psicológico, e especialmente emocional, para seus paiscxxxix. 
Na medida em que pais e mães em geral passam menos tempo com as crianças, eles dão um valor 
 44
maior ao tempo em que estão com elas e investem mais substancialmente nele: o ‘tempo de qualidade’ 
tornou-se um tipo de mercadoriacxl. Nessa situação, gostar de ser pai e mãe, ou parecer gostar, 
tornou-se quase uma obrigaçãocxli. Como procurarei demonstrar, a urgência – e até mesmo a culpa – 
que envolvem estas questões é intensificada pela crescente ênfase no envolvimento dos pais na 
educação e pelo medo dos riscos do mundo exterior. A família é cada vez mais compreendida como 
um ambiente fundamental para a educação das crianças e ao mesmo tempo como um refúgio do 
mundo cruel. 
Mais qualitativamente, poderíamos afirmar que os estilos de cuidar das crianças – ou pelo 
menos os discursos sobre esses cuidados – têm mudado bastante nas quatro ou cinco últimas décadas. 
De modo geral, tem havido um distanciamento das abordagens behavioristas e em direção às 
abordagens baseadas na psicologia do desenvolvimentocxlii. A fundamentação na rígida disciplina 
física e no controle tem perdido espaço para uma ênfase na orientação e na afetividade. Muitos 
historiadores e sociólogos compreendem esta mudança como um ‘amaciamento’ ou uma 
‘democratização’ generalizada das atitudes paterna e materna. Por exemplo, um estudo histórico 
representativo conclui que ‘a maioria das crianças de hoje tem um relacionamento mais amigável e 
íntimo com os seus pais’ do que ocorria em décadas anteriorescxliii. Por outro lado, discute-se a 
importância das diferenças de classe: pais e mães de classe média são geralmente mais suscetíveis a 
usar a palavra como meio de controle, enquanto que pais e mães da classe trabalhadora continuam a se 
apoiar em abordagens não-verbais e mais autoritáriascxliv. Outros, ainda, argumentam que a aparência 
de relações mais igualitárias entre pais e crianças mascara o que é na verdade uma forma de regulação 
psíquica mais intrusiva; e que agora existe uma pressão maior sobre pais e mães para garantir que seus 
filhos alcancem os índices de desenvolvimento apropriadoscxlv. 
Ao mesmo tempo, pode-se destacar o aumento da importância do abuso infantil como uma 
questão de política social – muito embora (como em todos os números relativos à criminalidade) 
existam dúvidas sobre se isso reflete uma maior freqüência do fenômeno, ou simplesmente uma maior 
sensibilidade com relação a ele e o conseqüente aumento das denúnciascxlvi. O abuso sexual infantil, 
sem sombra de dúvidas, tornou-se um dos ‘pânicos moralistas’ mais recorrentes do nosso tempo, 
muito embora os casos de abuso denunciados sejam de fato em sua maioria casos de negligência, a 
qual em si relaciona-se fortemente à pobreza. Entretanto, o leque de comportamentos popularmente 
definidos como ‘abuso infantil’ vem aumentando. Em alguns casos, pais e professores podem agora 
ser processados não apenas por abuso sexual ou crueldade explícita, mas também por bater nos filhos 
– o que em anos anteriores seria visto como bastante aceitável, e até como definitivamente bom para a 
criança. E apesar do medo generalizado de que as crianças sejam seqüestradas por pedófilos violentos, 
três quartos de todas as agressões violentas contra crianças em idade escolar são cometidas por 
membros da família. Aqui, novamente, a noção da família como um ambiente estável e livre de riscos 
torna-se difícil de sustentar. 
 
Locais de trabalho: educação e emprego 
Como observei anteriormente, a introdução da educação obrigatória no final do século XIX foi 
um dos principais meios de segregação das crianças do mundo dos adultos; foi também um dos 
maiores pré-requisitos para a nossa moderna concepção de infância. Ao longo do século XX houve 
uma permanente ampliação do tempo de educação obrigatória, o que se consolidou em 1972 com a 
definição da idade de 16 anos para sair da escola. Desde então tem havido um contínuo aumento na 
proporção de crianças em algum tipo de educação pré-escolar, assim como na proporção de jovens que 
permanecem estudando após o período obrigatório. A institucionalização da infância parece estar 
começando mais cedo e terminando mais tarde. 
Assim, a proporção de crianças com 3 e 4 anos de idade que freqüentam a escola (pelo menos 
em meio período) aumentou três vezes entre os anos de 1971 e 1996, chegando a 58%. O Governo 
Trabalhista definiu, em 1998, a meta de garantir vagas escolares gratuitas para todas as crianças de 4 
 45
anos de idade. Enquanto isso, no outro lado da balança, a proporção de jovens com idade entre 16 e 
18 anos que estão recebendo alguma forma de treinamento ou educação continuada aumentou de um 
terço para três quartos do número total nesta faixa etária. As matrículas em cursos de aperfeiçoamento 
aumentaram em torno de 50% desde 1971, enquanto os números relativos à educação de nível superior 
triplicaram durante esse período, sendo que o crescimento mais significativo ocorreu na década de 
1990. A proporção de alunas mulheres aumentou significativamente, de um terço para quase mais da 
metade, embora as que vêm dos grupos sócio-econômicos mais humildes continuem a estar muito 
pouco representadas. 
Nos últimos anos a educação se tornou muito mais proeminente nos debates públicos e nas 
propostas de governo. Entre 1971 e 1996, os gastos totais do governo com educação aumentaram em 
termos reais em mais de 60% (e em torno de 86% em creches e em ensino fundamental); porém, 
enquanto percentual relativo ao Produto Interno Bruto, estes números permaneceram 
comparativamente estáveis, em torno de 5%. O compromisso do governo em aumentar as vagas para 
as crianças pequenas e reduzir o tamanho das turmas no ensino fundamental tende a resultar em um 
pequeno aumento desse número; porém isso deverá ser compensado pela decisão de acabar com o 
ensino superior gratuito e a adoção de um sistema de empréstimos para os estudantes. Nesse contexto, 
o governo não parece inclinado a reduzir as isenções de impostos para a crescente proporção de pais 
ricos cujas crianças freqüentam as escolas particulares (hoje 8% das crianças no ensino médio). 
As preocupações com a ‘erosão dos padrões’ é evidentemente eterna, mas se intensificou 
drasticamente nos últimos anos. A introdução de um currículo nacional no final da década de 1980 
pelo governo conservador, sustentada por uma grande bateria de testes, marcou uma ampliação 
significativa do controle centralizado da educação; contudo, isto foi justificado por meio de noções 
como ‘opção para os pais’, de modo que estes pudessem identificar a ‘melhor’ escola para as suas 
crianças em tabelas publicadas oficialmentecxlvii. As escolas estão cada vez mais submetidas a uma 
forma de mercantilização, e as grandes empresas têm um envolvimento central e crescente nestas 
iniciativas, em muitos níveis: desde a oferta de bônus que os consumidores podem trocar por 
equipamentos, até o envolvimento na administração escolar por meio de zonas de ação educacional.As corporações têm cada vez mais interesse em serem vistas como ‘patrocinadoras’ de escolas e 
fornecedoras de equipamentos ‘gratuitos’, materiais curriculares e contas de e-mailcxlviii. Apesar de 
toda a retórica sobre a opção do consumidor, porém, as próprias crianças ainda têm um controle 
comparativamente pequeno da organização cotidiana da escolarização, e ainda menor do currículo. 
Essa nova situação tem gerado uma atmosfera de grande competitividade, não apenas entre as 
escolas, mas também entre as próprias crianças. O Novo Trabalhismo e sua alardeada ênfase em 
‘educação, educação e educação’ intensificou a pressão, insistindo em metas nacionais para as escolas, 
clubes de lição-de-casa e na necessidade de chamar à responsabilidade os pais omissos. Os pais 
também estão sendo cobrados a investir na educação dos filhos, dando-lhes orientação complementar 
em casa. Há uma onda crescente e massiva de publicações de livros e CD-ROMs do tipo ‘ajude seu 
filho’, incluindo testes para os diferentes estágios do currículo; e várias companhias comerciais estão 
desenvolvendo franquias de aulas particulares em artes e computação. A educação parece ser, 
portanto o trabalho da infância, e não se pode permitir que este se interrompa quando as crianças saem 
da sala de aulacxlix. 
O impacto dessas e de outras mudanças anteriores nos índices de desempenho escolar é 
complexo. Os resultados gerais nos exames públicos de avaliação têm melhorado gradualmente, 
embora muitos queixem-se de que os exames é teriam ficado mais fáceis. Os resultados das meninas 
também têm aumentado drasticamente em relação aos dos meninos, alcançando áreas do 
conhecimento e setores do sistema educacional que eram antes vistas como territórios masculinos. Ao 
mesmo tempo, apesar da eliminação parcial do antigo sistema de centros educativos e exames públicos 
em dois níveis, a classe social continua a exercer uma influência determinante no desempenho escolar 
dos os jovenscl. 
 46
As transformações na educação após o período obrigatório também precisam ser vistas no 
contexto do aumento do desemprego entre os jovens. O declínio da indústria britânica nos anos 70 
levou a uma constante redução dos caminhos tradicionais por onde se chegava a um emprego: a 
proporção de jovens em treinamento, por exemplo, caiu de 25% em 1974 para 8% em 1984. A ameaça 
de uma sub-classe de jovens desempregados e rebeldes tornou-se a maior preocupação dos agentes de 
políticas públicas, particularmente após a onda de distúrbios nas áreas urbanas pobres no início dos 
anos 80. Em 1982 o desemprego entre os jovens com idade de 16 a 19 anos era de 28% - duas vezes 
maior do que entre a população em geral. Em meados dos anos 80, o Ministério do Emprego (que 
mais tarde foi significativamente anexado ao Ministério da Educação) lançou uma série de programas 
de treinamento, para combater o problema; isso foi reforçado em 1988, com o corte de benefícios 
estatais aos jovens de 16 e 17 anos (impedindo-os de se registrar como desempregados) e a 
subseqüente redução de benefícios para os que ainda tinham direito ao auxílio. Na verdade, os jovens 
têm sido encaminhados unicamente para a educação e o treinamento. Em 1974, 60% dos jovens com 
16 anos saíam diretamente da escola para o emprego, enquanto apenas 3% ficavam desempregados. 
Em 1990, menos de 25% estavam empregados, enquanto que 52% ainda estavam estudando em tempo 
integral e 23% em programas de treinamentocli. Apesar de a fronteira entre ‘educação’ e ‘treinamento’ 
vir se tornando cada vez mais difusa nos últimos anos, as proporções gerais se mantiveram muito 
semelhantes. 
Embora os números do desemprego entre os jovens tenham caído, eles continuaram 
aumentando em relação à média nacional ao longo da última décadaclii, especialmente entre os rapazes 
(mais de 20% estavam desempregados em 1996) e especialmente entre os jovens negros, que tendem a 
demorar duas vezes mais que os brancos para conseguir emprego. Os níveis salariais nesta faixa etária 
também caíram, em relação aos dos adultos: 30% dos empregos oferecidos aos jovens pagam salários 
inferiores ao limite para complementação de renda (benefício do estado)cliii. Junto com a ‘inflação da 
qualificação’ e as mudanças no mercado de trabalho, estes processos afetam inevitavelmente as 
expectativas das crianças com relação às suas carreiras futuras. Há menos jovens que hoje esperam ter 
um emprego para a vida toda ou conseguir um trabalho fora da economia informal. A medida do 
governo que introduziu um salário mínimo para jovens trabalhadores em 1999, se comparada com o 
restante da população, dá uma clara demonstração das prioridades a este respeito. Com a abolição das 
bolsas para estudantes e o corte de benefícios para as pessoas entre 16 e 17 anos de idade, os jovens 
dependem cada vez mais da moradia e do apoio financeiro de seus pais: 64% dos jovens entre 16 e 24 
anos hoje vivem com seus pais. 
Enquanto isso o número de jovens sem-teto - a quem essas possibilidades foram negadas ou 
que as rejeitaram - cresceu dramaticamente entre os anos de 1980 e 1990: a Children´s Society estima 
que 50.000 jovens, com idade média de 15 anos, fogem de casa todos os anos, a maioria deles para 
escapar de abusoscliv. 
Ainda que estes cenários refiram-se especificamente aos ‘jovens’, e não às ‘crianças’, eles 
concretamente ampliam o tempo de institucionalização e dependência das pessoas mais novas. É 
preciso observar, entretanto, que o emprego remunerado não se restringe àqueles que já passaram da 
idade mínima para deixar a escola. Assim como a criação da educação obrigatória, as leis relativas ao 
trabalho infantil que foram aplicadas no final do século XIX e início do século XX são vistas como 
uma pré-condição da infância contemporânea. Mesmo assim, as evidências indicam que um número 
significativo de crianças - não apenas nos países em desenvolvimento, mas também nos países 
ocidentais industrializados – estão envolvidas em trabalho remunerado, legalmente ou não. Pesquisas 
realizadas nas últimas décadas sugerem que mais de um terço das crianças podem estar realizando 
trabalho remunerado em qualquer momento dado; e que cerca de dois terços delas podem fazê-lo antes 
de alcançar os 16 anosclv. Trata-se geralmente de serviços menores, como os de entregador ou 
ajudante, e na medida em são quase sempre ilegais, não contam com regulação adequada (por 
exemplo, em termos de saúde e segurança), sendo geralmente muito mal pagos. Este fenômeno não se 
restringe às crianças de famílias mais pobres. Ao contrário, o que se percebe é que o trabalho 
 47
remunerado entre as crianças é às vezes uma resposta ao crescimento do mercado consumidor juvenil, 
visto pelas próprias crianças como um meio de ganhar dinheiro para os bens supérfluos que os pais 
não desejam ou não podem comprarclvi. 
 
Tempo livre? 
De acordo com os historiadores, nos últimos 50 anos o tempo de lazer das crianças foi sendo 
cada vez mais privatizado e submetido à supervisão dos adultosclvii. Em termos gerais, o principal lugar 
de lazer da criança foi deslocado dos espaços públicos (como as ruas) para os espaços familiares (a 
sala de estar) e daí para os espaços privados (o quarto de dormir). A ansiedade sobre ‘o perigo dos 
estranhos’, o tráfego e outras ameaças às crianças encorajaram pais e mães a equipar o lar (e em 
particular o quarto das crianças) como um local de diversão, uma alternativa tecnologicamente rica aos 
riscos potenciais do mundo exteriorclviii. Esse processo tornou-se possível a partir do aumento 
generalizado na renda para consumo e de inovações específicas como o aquecimento central; a 
redução no tamanho médio das famílias também entra aí, fazendo com que as crianças de hoje tendam 
mais a ter seu próprio quarto. 
Neste sentido, as pesquisas no Reino Unido sugerem que as crianças estão agora muito mais 
confinadas em casa, e são muito menos capazes de ir de um lado para outro com independência, do 
que há 25 anos atrásclix.Desde os anos 1970, o ‘brincar lá fora’ vem sendo continuamente sido 
substituído pelo entretenimento doméstico (especialmente através de televisão e computador) e – 
principalmente entre as classes mais privilegiadas - por atividades de lazer supervisionadas, como os 
esportes organizados, as aulas de música e assim por diante. As áreas públicas disponíveis para 
brincadeiras diminuíram, tanto nas cidades – onde aumentou a densidade populacional – quanto no 
interior – onde a industrialização das fazendas impede o acesso a grandes áreas. As crianças hoje são 
levadas de carro para a escola duas vezes mais do que nos anos 1970 (embora seja verdade que a 
aquisição de automóveis tenha também dobrado neste período) De qualquer maneira, as crianças das 
famílias mais ricas viajam um terço a mais do que os filhos de famílias menos favorecidas. 
Como já indiquei, estas mudanças devem-se em parte à crescente percepção do riscoclx. O 
medo dos pais com respeito à violência contra as crianças aumentou muito mais do que a real 
incidência de crimes, inclusive em resultado do sensacionalismo nas reportagens sobre um pequeno 
número de casos. Enquanto a incidência de seqüestros infantis aumentou, por exemplo, a maioria 
deles é cometida por membros da família (especialmente pais em litígio); e a incidência de 
assassinatos de crianças tem se mantido estável ao longo de várias décadas. Três quartos daqueles que 
são condenados por agressões contra as crianças são membros da família, muito embora a proporção 
se reduza bastante quando se trata de jovens entre 16 e 17 anos de idade. É o lar e não a rua o principal 
cenário dos crimes contra as crianças. 
Um outro elemento-chave aqui é a ameaça representada pelo transporte motorizado, que 
continua crescer de forma exponencial em muitas cidades. Na realidade, enquanto os acidentes 
rodoviários ainda são a maior causa de morte entre as crianças (somando três quartos das mortes de 
crianças entre 10 e 14 anos), estes diminuíram em dois terços desde o início da década de 1970. 
Estatísticas desse tipo podem obscurecer um complexo processo de causa e efeito: altas percepções de 
risco podem tornar os pais menos dispostos a deixar seus filhos saírem de casa desacompanhados, o 
que resulta em uma incidência menor dos perigos que eles temem. Em conseqüência disso, porém, a 
autonomia das crianças acaba sendo ainda mais restrita. 
A experiência das crianças com as mídias será examinada muito mais detalhadamente no 
próximo capítulo, mas já é possível delinear um processo semelhante também aqui. Em termos gerais, 
o entretenimento público (o cinema) tem perdido espaço para o entretenimento doméstico (a televisão 
vista em família), e este para o entretenimento individualizado (a TV, os computadores e os vídeo-
games no quarto das crianças). Evidentemente, esta cena é excessivamente esquemática: entre outras 
coisas, ela subestima a dimensão social do uso contemporâneo das mídias (os jogos de computador, 
 48
por exemplo, são um grande foco de interação entre grupos de amigos); e ela negligencia as mudanças 
nas próprias mídias – a freqüência de crianças nos cinemas de fato aumentou nos anos 1990, apesar da 
maior tendência de as crianças serem acompanhadas pelos pais (e de assistirem ‘filmes familiares’) do 
que no início dos anos 197037. Além disso, é importante não negligenciar a sobrevivência de 
atividades culturais mais tradicionais – e mesmo de brincadeiras mais tradicionais e da cultura oral – 
entre as crianças. Por exemplo, a leitura infantil de livros e a freqüência às bibliotecas públicas na 
realidade aumentaram nos últimos anos, ainda que não de modo muito significativo; e pesquisas mais 
qualitativas sugerem que as crianças apropriam-se das novas mídias e tecnologias em suas brincadeiras 
tradicionais e jogos de rua38. 
Se a autonomia das crianças tem sido restrita em certo sentido, já que elas passam mais tempo 
de lazer sob a supervisão familiar, os recursos econômicos destinados ao seu lazer aumentaram 
substancialmente. O lazer infantil vinculou-se inexoravelmente à ‘revolução do consumo’ do período 
pós-guerra; e, neste processo, muitos serviços que eram antes oferecidos pelo estado (bibliotecas, 
quadras de esporte, museus e clubes de jovens) caíram em declínio ou precisaram se reinventar em 
termos comerciais – tornando-se assim menos acessíveis às crianças mais pobres. Como examinarei 
no capítulo 5, isto é o que ocorre especialmente com as mídias de difusão aberta, como TV e rádio. 
Por outro lado, as culturas das turmas de crianças mais velhas parecem resistir cada vez mais à 
regulação familiar; em muitos aspectos a ‘rebeldia adolescente’ tende a ser deflagrada cada vez mais 
cedo. Por exemplo, os jovens estão tendo sua primeira experiência sexual com muito menos idade do 
que em décadas anteriores; e estão amadurecendo fisicamente mais cedo (ao longo do último século o 
início da menstruação se antecipou em 2,5 anos, e cada vez mais garotas estão menstruando aos 10 
anos de idade). A ameaça da AIDS pode ter mudado as práticas sexuais, mas não resultou em 
abstinência: 9% das pessoas soropositivas ao HIV são adolescentes. Os índices de gravidez na 
adolescência aumentaram bastante durante os anos 80, embora tenham ficado estáveis a partir de 
então. Enquanto isso as drogas vão se tornando quase um lugar-comum na experiência de lazer das 
crianças: apesar da ‘guerra contra as drogas’, o uso delas entre crianças atinge hoje os níveis mais altos 
já registrados. Em 1996, cerca de dois terços dos jovens entre 14 e 15 anos admitiam ter usado 
alguma droga ilegal, e uma proporção semelhante deles dizia beber álcool regularmente. O número de 
viciados registrados com idade abaixo de 21 anos mais que dobrou entre 1990 e 199539. 
Há também uma ansiedade crescente a respeito da incidência de criminalidade infantis, muito 
embora as estatísticas nesse campo estejam abertas a muitas interpretações diferentes40. O número de 
crianças consideradas culpadas ou advertidas por crimes no início dos anos 90 era oito vezes maior do 
que no início dos anos 80, embora o número de delitos infantis reconhecidos tenha caído de um 
patamar máximo a partir de meados dos anos 80. Roubo e assalto são as infrações mais comuns, e os 
meninos são três vezes mais ativos nesse sentido do que as meninas. Entretanto, a criminalidade 
infantil permanece restrita a uma minoria: em torno de apenas 3% dos jovens infratores cometem mais 
de um quarto dessas infrações. E, é claro, crianças e jovens correm um risco muito maior de serem 
vítimas do que grupos de outras faixas etárias: as pesquisas sobre criminalidade apontam que a 
maioria das crianças já foi de algum modo vítima, embora comparativamente poucos desses incidentes 
(apenas um décimo) tenham sido denunciados à polícia. 
Em parte por essas razões, a criminalidade infantil tem sido uma das questões centrais das 
políticas públicas das últimas décadas. Um pequeno número de casos de alta ressonância – 
especialmente o assassinato do menino de dois anos de idade James Bulger por dois garotos de 10 
anos em 1993 - deu combustível à busca de políticas de direito criminal muito mais punitivas. Isto 
culminou com o Ato de Crime e Desordem de 1998, que, entre outras medidas, diminuiu a idade da 
responsabilidade criminal, possibilitando impor custódia a crianças a partir dos 10 anos de idade e 
autorizando o poder local a instituir ‘toques de recolher’ para as crianças41. O final dos anos 90 
também assistiu à inauguração da primeira de uma série de prisões infantis particulares. Enquanto isso, 
cresceu a condenação à aparente falta de disciplina nas escolas, também baseada em uns poucos casos 
altamente difundidos pela imprensa: a expulsão escolar tornou-se muitíssimo mais freqüente, 
 49
esquemas de vigilância contra a ‘matação’ de aulas foram criados em vários locais, e o governo 
designou ‘comandos’ de inspetores escolares para vigiar escolas particularmente problemáticas. 
 
Fronteiras difusas?É claro que muitos outros elementos poderiam ser acrescentados ao cenário que acabamos de 
descrever. Minha versão sem dúvida simplifica demais algumas questões altamente complexas e não 
faz justiça às inconsistências e contradições que caracterizam toda forma de mudança social. Mesmo 
assim, ela indica que em diversas dimensões importantes o status e a experiência das crianças 
enquanto grupo social específico mudou bastante nas duas ou três últimas décadas. Se isso, porém, 
significa uma ‘crise’ da infância – ou mesmo sua morte – é uma questão bem mais complexa. 
No capítulo 1, busquei demonstrar que a concepção contemporânea da infância – que ainda 
continua a determinar a realidade material em que vivem as crianças – baseia-se em várias formas de 
separação ou exclusão. Como muitos historiadores têm demonstrado, a ‘invenção’ moderna da 
infância dependeu da separação entre adultos e crianças, e da exclusão das crianças de espaços da vida 
social considerados exclusividade dos ‘adultos’. Isto foi alcançado através, entre outras coisas, da 
retirada parcial das crianças do mundo do trabalho e da rua, e de sua reclusão à escola ou ao lar. As 
crianças foram definidas por sua exclusão dos espaços públicos do comércio e da política, e sua 
sujeição aos regimes de guarda moral e pedagógica especialmente projetados para policiar as 
fronteiras entre adultos e crianças. 
Os debates analisados nos dois capítulos anteriores sugerem que essas fronteiras tornaram-se 
cada vez mais difusas nos últimos anos – mesmo que as conseqüências desse fenômeno sejam 
avaliadas de formas muito diferentes. Em alguns aspectos minha versão confirma esta hipótese, 
embora, em outros, claramente discorde dela. As fronteiras realmente se tornaram mais difusas, porém 
em muitos aspectos elas também têm sido reforçadas e ampliadas. 
Assim, de um lado as crianças ganharam acesso a certos aspectos da vida ‘adulta’, 
especialmente aqueles considerados moralmente inapropriados, ou para os quais elas sejam vistas 
como psicologicamente imaturas. É possível destacar, por exemplo, o conhecimento e a experiência 
das crianças em áreas como sexo e drogas; sua experiência com o divórcio e as rupturas familiares; seu 
envolvimento com a criminalidade, tanto como agentes quanto como vítimas; e seu status cada vez 
mais importante enquanto mercado consumidor. Ainda que muitos destes fenômenos se refiram às 
crianças mais velhas, eles realmente revelam que hoje as crianças em geral têm conhecimento de 
muitas experiências antes negadas a elas – e em alguns casos buscam conhecê-las. Seria um exagero 
propor que estas mudanças tenham conduzido à ‘morte da infância’, mas elas sugerem de fato que o 
fim da ‘infância’ está chegando alguns anos mais cedo que no passado. 
Por outro lado – e também em resposta ao que acabamos de descrever - as crianças têm sido 
mais segregadas e excluídas. Elas hoje passam muito mais tempo de suas vidas confinadas em 
instituições abertamente planejadas para prepará-las para o mundo ‘adulto’ – e também para protegê-
las dele. Isso é óbvio no caso do prolongamento da escolaridade e no confinamento das crianças ao lar; 
assim como no caso das medidas mais punitivas, por exemplo, na área da criminalidade infantil. Tanto 
no trabalho quanto na brincadeira, a vida das crianças torna-se cada vez mais institucionalizada, e, no 
caso do lazer, cada vez mais privatizada e domesticada42. Especialmente em casa, as crianças também 
se tornaram o foco de grandes investimentos, tanto de recursos econômicos como da preocupação dos 
pais – ainda que nem sempre do tempo deles. O lazer das crianças tornou-se muito mais 
‘curricularizado’ e voltado ao consumo, nem sempre sendo fácil identificar a diferença entre os dois. 
Por conta disso, a ‘infância’ – ou pelo menos o período de dependência da criança ao adulto – está 
aumentando e não diminuindo. As crianças, ao que parece, não querem mais ser crianças; daí 
precisarmos cada vez mais encorajá-las a sê-lo. 
Um modo óbvio de interpretar estas mudanças é por meio das categorias de risco e segurança, 
que se tornaram proeminentes nas ciências sociais das últimas décadas43. Neste sentido, poderia ser 
 50
argumentado que as crianças estão sendo cada vez mais ameaçadas por perigos de vários tipos: ruptura 
familiar, pobreza, crime, exploração econômica e abuso. E poderia ser sugerido que as fontes 
tradicionais de segurança das crianças – especialmente a família nuclear – estão sendo continuamente 
abaladas. Nesse contexto, as políticas sociais contemporâneas, inclusive no atual governo trabalhista, 
podem ser vistas como uma tentativa de legislar contra as conseqüências mais óbvias da insegurança, 
ao disciplinarem os desvios e assegurarem que as crianças sejam mantidas mais rigorosamente sob 
supervisão adulta. 
Estes processos são essencialmente políticos, no sentido de que têm relação primordial com a 
mudança nas relações de poder e autoridade entre adultos e crianças. Entretanto, as políticas infantis 
contemporâneas podem ser interpretadas de várias maneiras. Há os que desejam resgatar as relações 
tradicionais e voltar a uma era em que as crianças eram ‘vistas, mas não ouvidas’; há também os que 
saúdam estas mudanças, considerando-as um aumento muito necessário do poder e da autonomia das 
crianças. 
Portanto, do lado positivo, pode-se identificar aí um processo de individuação, uma espécie de 
extensão dos direitos de cidadania em direção às crianças44. Nesse sentido, as crianças poderiam ser 
vistas como um grupo social, entre outros, (tais como as mulheres, as minorias étnicas, ou os 
portadores de necessidades especiais) que estavam previamente excluídos do exercício do poder social 
e que agora ganham acesso a ele. Assim, as crianças de hoje tiveram reconhecidos os direitos a 
educação, representação legal e bem-estar social que antes lhes eram negados. A questão dos direitos 
das crianças tornou-se também muito mais significativa nos últimos anos. A partir da Convenção das 
Nações Unidas sobre os Direitos das Crianças, muitos países aprovaram novas leis de proteção dos 
direitos civis das crianças, tanto na família como em suas relações com as agências do estado. No 
Reino Unido, por exemplo, a Lei da Criança, de 1989, representa um pacto de difícil equilíbrio entre 
essa nova agenda de direitos e participação e a ênfase mais tradicional na proteção à criança; ela exige 
que os desejos individuais da criança sejam levados em consideração muito mais explicitamente pelas 
agências de bem-estar social e pelas instâncias do governo, assim como nos processos judiciais (casos 
de divórcio, por exemplo)45. Mesmo que ainda haja uma grande distância entre retórica e realidade, 
parece que as vozes das crianças estão começando a ser ouvidas. 
Como tentarei mostrar com mais detalhes nos capítulos à frente, essa ampliação dos direitos 
políticos das crianças tem sido acompanhada por uma espécie de empoderamento econômico (sendo 
até certo ponto motivada por ele), ou pelo menos é o que definem os defensores dessa corrente. As 
crianças ganharam um novo status não apenas como cidadãs, mas também como consumidoras: elas 
são vistas como um mercado cada vez mais valioso, mas ao mesmo tempo extremamente difícil de 
atingir e de controlar. Elas não podem ser simplesmente ‘exploradas’, e nem muito menos tratadas 
paternalisticamente por adultos que afirmam saber o que é bom para elas. Também aí tem sido 
investida uma energia considerável para garantir que as vozes das crianças sejam ouvidas. Porém, ao 
longo do processo, a diferença entre a criança cidadã e a criança consumidora pode ter se tornado cada 
vez mais difícil de sustentar46. 
Em um sentido muito mais negativo, podemos aqui destacar as formas com que a idéia de 
infância tem se tornado foco de preocupações mais amplas com respeito à mudança social, à 
‘indisciplina’ e ao colapso moral – e, conseqüentemente, uma justificativa para a implantação de 
políticas sociais mais autoritárias47. Comojá argumentei, essas questões têm necessariamente dois 
lados: as crianças são vistas ao mesmo tempo como ameaçadas e como ameaçadoras. Por exemplo, 
nas discussões sobre o abuso infantil, as crianças são representadas como vítimas indefesas que 
necessitam da proteção dos adultos, apesar de serem os adultos (e membros da família) a principal 
causa de risco. Ao mesmo tempo, nos debates sobre a criminalidade infantil, as crianças são 
explicitamente identificadas como um risco para todos os demais. Aí a vitimização das crianças pelos 
adultos é amplamente ignorada em favor da necessidade de discipliná-las ainda mais severamente e 
em uma idade cada vez mais menor. A experiência aparentemente prematura das crianças com os 
aspectos da vida ‘adulta’ é vista aí não como um sintoma de empoderamento ou como uma ampliação 
 51
da autonomia, mas sim como um sinal de falhas mais amplas na ordem social; o resultado disso é que 
a liberdade infantil com relação ao controle adulto acaba sendo mais restrita do que encorajada. Os 
direitos das crianças ficam assim em segundo plano em relação ao poder dos pais; e se os pais 
parecerem ‘fracassar’, os filhos ficarão então sujeitos aos procedimentos do governo. 
Como quer que se interprete essas mudanças, está claro que nas últimas décadas ficou cada vez 
mais problemático definir a infância – e cada vez mais urgente. Como destaquei anteriormente, a 
‘criança’ só existe desse modo: ela é definida primeiramente por aquilo que não é – ou seja, ‘o adulto’. 
Em outras palavras, as fronteiras têm que ser perpetuamente traçadas e retraçadas; e estão sujeitas a 
um processo de negociação constante. Na realidade, ao longo dos últimos 20 ou 30 anos o status da 
infância e as nossas concepções a respeito dela tornaram-se cada vez mais instáveis. As diferenças 
entre as crianças e outras categorias, como ‘jovens’ ou ‘adultos’, ficaram cada vez mais difíceis de 
sustentar, e ao mesmo tempo cada vez mais importantes em termos das políticas sociais e econômicas. 
 
Infâncias desiguais 
Se o status e a experiência das crianças, enquanto um grupo social diferenciado, estão 
certamente mudando, então precisamos observar também as mudanças significativas que têm 
ocorrido dentro desse grupo específico. Pelo menos algumas diferenças sociais parecem ter se 
diluído nas últimas três décadas. Isto fica claro em relação às questões de gênero. Se ainda há 
significativas disparidades no poder aquisitivo dos homens e das mulheres, as desigualdades entre 
meninos e meninas têm se reduzido continuamente em todas as áreas: do desempenho escolar ao 
valor da mesada, sem falar nos índices criminais. 
Ao mesmo tempo, as crianças tornaram-se mais diversas etnicamente: as minorias étnicas 
constituem 9% das crianças do Reino Unido, em comparação com os 5,5% do total da população. 
Aí também as diferenças no desempenho escolar, desemprego juvenil e pobreza têm começado a 
diminuir nas últimas décadas, embora os jovens negros e asiáticos tendam a receber salários 
menores e os garotos afro-caribenhos estejam muito mais sujeitos a serem expulsos da escola. 
Entretanto, é entre os garotos brancos de classe trabalhadora que os menores índices de 
desempenho escolar estão agora sendo registrados. E 50% dos jovens negros com 18 anos de idade 
estudam em período integral, contra apenas 30% dos jovens brancos48. 
Porém, a mudança mais marcante nesse campo (e não apenas no Reino Unido, mas também 
em muitos outros países industrializados) é o aumento da polarização entre ricos e pobres. A Grã-
Bretanha possui hoje uma crescente subclasse, na qual as famílias com crianças são 
desproporcionalmente numerosas. Por exemplo, a proporção de crianças dependentes vivendo em 
lares com menos da metade da renda familiar média triplicou de 1,4 milhões (uma em dez) para 4,2 
milhões (quase uma em três) entre 1979 e 1992. A porcentagem de crianças vivendo em famílias 
sem um provedor de salário em tempo integral aumentou de 20% em 1979 para 36% em 1993. Um 
milhão de crianças vivem hoje em residências oficialmente classificadas como inapropriadas para a 
habitação humana49. Mães e pais solteiros e famílias com crianças portadoras de necessidades 
especiais tendem a ser pobres. Se essas tendências podem em parte estar vinculadas a um 
movimento econômico mais amplo, elas resultam diretamente das políticas governamentais dos 
anos 80 e 90, por exemplo, nos setores de bem-estar social e impostos. Apesar de um aumento 
generalizado na renda de consumo familiar, a desigualdade de renda aumentou muito mais rápido 
no Reino Unido do que em qualquer outro país industrializado (com exceção da Nova Zelândia). 
Para os 10% mais pobres, a renda média de hoje não é mais alta do que 10 anos atrás. Enquanto 
isso, os 10% mais ricos controlam a mesma quantidade de renda que os 50% mais pobres. 
Esses processos têm implicações previsíveis com relação à ‘qualidade de vida’. Também aqui, 
melhorias gerais tendem a mascarar desigualdades crescentes. Na área da saúde, por exemplo, os 
índices de mortalidade infantil continuam a diminuir, embora não tão rápido quanto em outros 
países (99,2% das crianças de hoje sobrevivem ao seu primeiro ano, contra 97% em 1950); 
 52
enquanto que a altura média das crianças (um bom indicador da saúde como um todo) aumentou 
quase 1,4 centímetro desde o início dos anos 70. Entretanto, as crianças de classe trabalhadora 
tendem a sofrer mais de doenças crônicas do que as de classe média, e a ter mais cáries dentárias; 
os médicos atendem a uma proporção muito maior de crianças pobres em todas as categorias de 
consultas, especialmente em casos de doenças sérias. E, é claro, as crianças de famílias de baixa 
renda tendem a receber uma nutrição diária menos adequada e a não receber refeição alguma 
quando o dinheiro acaba. 
Como tenho procurado demonstrar, essas desigualdades trazem conseqüências para quase 
todos os setores da vida das crianças. As crianças mais pobres têm menos oportunidades 
educacionais e um pior desempenho escolar; elas têm menos opções de lazer; têm menos 
mobilidade e certamente estão em desvantagem quando se trata de adquirir mercadorias e serviços 
de consumo que muitos críticos têm destacado como os símbolos definidores da infância 
contemporânea. Além do mais, a pobreza tanto molda quanto é moldada por outras formas de 
desvantagem, como os efeitos do racismo e da ruptura familiar. Em conjunto, esses fatores sugerem 
que as crianças pobres e as ricas estão vivendo infâncias cada vez mais diferentes. 
A infância, portanto, está certamente mudando. As vidas das crianças são mais 
institucionalizadas e privatizadas, e menos estáveis e seguras, do que eram 30 anos atrás. As 
fronteiras entre crianças e adultos tornaram-se menos visíveis em algumas áreas, mas foram 
reforçadas e expandidas em outras. As crianças adquiriram poder, tanto político quanto 
econômico, mas também estão sujeitas a mais controle e vigilância por parte dos adultos. E a 
desigualdade entre crianças ricas e pobres cresceu exponencialmente. 
Como veremos no próximo capítulo, essas mudanças têm conseqüências específicas sobre o 
relacionamento das crianças com as mídias eletrônicas, mas seria altamente simplista identificar as 
mídias como sua causa principal. Não podemos examinar as mídias de forma isolada - seja como o 
agente causador do desaparecimento da infância, seja como a razão de seu maior poder. Ao 
contrário, é essencial situar a relação das crianças com as mídias no contexto das mudanças sociais 
e históricas mais amplas que procurei delinear aqui. 
 
 
CAPÍTULO 5 
Mídias em mudança 
 
As preocupações com a natureza das mudanças na infância refletem-se diretamente nos 
debates contemporâneos sobre as mídias eletrônicas. Também aí as fronteiras tradicionais 
parecem se dissolver e as certezas consolidadas estão sob questionamento. Mesmo para aqueles 
de nós que cresceram na era da televisão, as mídias eletrônicas do futuro – é o que dizem – 
serão cadavez mais difíceis de compreender e controlar. 
Neste capítulo analiso algumas dessas mudanças no ambiente das mídias eletrônicas, 
dando ênfase especial às suas implicações quanto à infância e à juventude. Assim como no 
capítulo anterior, meu objetivo aqui é mais oferecer uma visão ampla, do que uma análise 
profunda; e os exemplos são mais ilustrativos do que necessariamente definitivos. Minha 
exposição será novamente organizada de modo relativamente convencional. Assim, vou 
analisar: tecnologias, instituições, textos e públicosclxi. Sustento que em cada uma destas áreas 
as crianças e os jovens estão na vanguarda de muitos dos processos ligados às mídias 
contemporâneas. 
Historicamente, diferentes paradigmas acadêmicos nos Estudos da Mídia tenderam a 
enfatizar algumas destas dimensões ao custo de outras e, conseqüentemente, chegaram a 
estimativas muito diversas a respeito do ‘poder’ da mídia. Minha ênfase, em contraste, está na 
interação entre essas dimensões, sem priorizar nenhuma delas. Implicitamente, portanto, sugiro 
 53
que o ‘poder’ da mídia não é meramente uma propriedade - ou função ou conseqüência – das 
tecnologias, das instituições, dos textos ou dos públicos. Ao contrário, ele é necessariamente 
uma relação entre esses diferentes fatoresclxii. 
Também aqui minha análise se relaciona com as abordagens antagônicas que foram discutidas 
nos capítulos 2 e 3. Como buscarei indicar, a leitura destas mudanças pode ser feita de modos muito 
diferentes. De um lado, há um panorama altamente pessimista, em que ecoam as preocupações de 
Neil Postman e dos autores de Kinderculture, debatidos no capítulo 2. Esse enfoque se baseia em um 
tipo de teoria da ‘sociedade de massas’ que é atraente para amplos setores do espectro político, desde a 
crítica ao capitalismo desenvolvida pela Escola de Frankfurt até o elitismo mais escancarado de certas 
críticas culturais conservadoras. Nessa perspectiva, argumenta-se que estamos entrando em uma era de 
crescente fragmentação e atomização, em que as noções de cultura comum, esfera pública e cidadania 
participativa estão definitivamente gastas. O que aparenta ser uma maior possibilidade de escolha é na 
realidade a repetição da mesmice: a homogeneização fantasiada de diversidade. O cidadão público foi 
reduzido a um consumidor privado, à mercê do controle das indústrias da consciênciaclxiii. 
Do outro lado, existe um cenário muito mais otimista, refletido no entusiasmo de Douglas 
Rushkoff e outros, e que foi debatido no capítulo 3. Trata-se de uma abordagem altamente ‘populista’; 
é também uma visão que une pessoas de universos políticos completamente diferentes: desde os 
empresários comerciais que lideram a ‘revolução das comunicações’ até os expoentes radicais da 
teoria da ‘recepção ativa’ nos Estudos Culturais acadêmicosclxiv. Aqui a ênfase recai sobre o potencial 
libertador das novas tecnologias da mídia: elas são vistas como amplificadoras do controle 
democrático das comunicações, capazes de transformar consumidores em produtores, possibilitando 
que novas vozes sejam ouvidas e que novas formas de identidade e subjetividade sejam representadas. 
Velhos modos de coerção e hierarquia estariam sendo superados, na medida em que surgem 
oportunidades para formas culturais mais novas, interativas e desafiadoras. 
É claro que o debate nem sempre é tão nitidamente polarizado – muito embora os dois lados 
façam sem dúvida muita caricatura um do outro, sobretudo na academia. Aqui novamente reconheço 
alguma verdade em ambas as perspectivas, embora ambas pareçam subestimar as resistências à 
mudança, assim como sua natureza ambivalente e contraditória. O que sugiro de mais significativo, 
entretanto, é que os termos do debate estão equivocados. Considerar que as crianças sejam ou vítimas 
passivas da mídia ou consumidoras ativas significa efetivamente vê-las como isoladas dos processos 
de mudança social e cultural mais amplos. Esta abordagem e suas implicações para a pesquisa serão 
desenvolvidas com mais profundidade no capítulo 6. 
 
Tecnologias 
Como vimos, nas discussões a respeito das relações das crianças com as mídias geralmente se 
atribui um poder determinante à tecnologia. Esses argumentos são problemáticos por diversas razões. 
As tecnologias não produzem mudança social independentemente dos contextos em que são usadas; 
além disso, as diferenças inerentes entre as tecnologias não são tão absolutas como geralmente se 
propõe. Entretanto, em combinação com outras mudanças, as novas tecnologias – especialmente as 
tecnologias digitais – têm efetivamente revolucionado o processo de produção em quase todas as áreas 
das indústrias da mídia, e agora estão também transformando rapidamente os processos de distribuição 
e recepçãoclxv. 
As mudanças recentes nas tecnologias da mídia podem ser compreendidas, em primeiro lugar, 
como uma simples questão de proliferação. Desde o advento da televisão, por exemplo, a tela 
doméstica da TV tornou-se o ponto de entrega de um número muito maior de mídias e meios de 
distribuição. O número de canais aumentou, tanto na televisão aberta como (de modo mais 
espetacular) a partir do cabo e do satélite;ao mesmo tempo, a tela tem sido utilizada para vídeo de 
várias maneiras, assim como para uma multiplicação de formas de mídia digital: dos videogames, 
jogos de computador e CD-Rom até a internet. 
 54
Em segundo lugar, tem havido um processo de convergência entre tecnologias de comunicação 
e de informação. Como as outras mudanças identificadas aqui, esta se norteia pelo comércio, mas 
também se tornou possível devido à digitalização. Ao longo da última década, o advento de processos 
como TV digital, internet, compras on-line, e exibição paga de filmes via satélite ou cabo têm 
embaralhado cada vez mais as diferenças entre a difusão linear da mídia de modelo aberto, como a 
televisão convencional, e a difusão estreita e interativa, como a da internet. 
Em terceiro lugar essas mudanças têm implicações quanto ao acesso. Nesse sentido, aspectos 
inacessíveis e muito caros de produção de mídia e toda uma gama de opções e novas formas midiáticas 
foram trazidas ao alcance do consumo doméstico. O preço de venda das câmeras de vídeo, câmeras 
digitais e do computador multimídia cai cada vez mais, à medida em que suas capacidades aumentam. 
E, pelo menos em princípio, a internet representa um meio de comunicação e distribuição não mais 
controlado exclusivamente por uma pequena elite. Nesse processo, argumenta-se que as fronteiras 
entre a produção e o consumo e entre a comunicação de massa e a comunicação interpessoal 
começam a desmoronar. 
Descrever o processo a partir desse ângulo significa sugerir que as distinções absolutas entre as 
tecnologias – entre mídia impressa e televisão, por exemplo, ou entre televisão e Internet - não se 
sustentam mais, se é que algum dia o fizeram. Pelo menos no caso das mídias, as novas tecnologias 
raramente substituem as velhas, mesmo que às vezes mudem o modo como elas são usadas. A 
tentativa de separar as tecnologias ‘tradicionais’ das ‘modernas’ e de isolar os efeitos cognitivos ou 
sociais de ambas é, portanto, uma tarefa difícil. 
Estas mudanças têm várias conseqüências específicas para as criançasclxvi. Como já destaquei, 
as crianças e os pais são dos mercados mais importantes para essas tecnologias. A TV a cabo e 
satélite, por exemplo, tem os públicos jovens como grandes alvos, e muitas das propagandas e 
promoções de computadores domésticos jogam com o mito popular de que a criança tem uma 
afinidade natural com as tecnologiasclxvii. No Reino Unido a adoção da televisão a cabo e satélite, de 
videocassetes, câmeras de vídeo e computadores domésticos é proporcionalmente muito maior em 
residências com crianças: 35% das residências com crianças hoje assinam a televisão a cabo ou 
satélite, por exemplo, em comparação com 25% do total; enquanto 90% das residências com crianças 
têm acesso ao videocasseteem comparação com 75% do total. Dois terços das crianças vivem em 
lares com um computador ou aparelho de videogame, o que é um número significativamente mais alto 
do que em qualquer outra faixa etária. As vendas de jogos eletrônicos e de computadores com 
capacidade para CD-Rom cresceram exponencialmente: as famílias com crianças pequenas 
registraram um aumento na posse de computadores em 50% de 1993 até 1996, comparados com um 
aumento total de 26%clxviii. 
Esta ampliação do acesso às tecnologias torna possível o seu uso de maneiras mais 
individualizadas. Assim, as crianças também tendem a viver em residências com dois ou mais 
aparelhos de TV: no Reino Unido metade das crianças de 7 a 10 anos, e três quartos daquelas de 11 a 
14, hoje têm televisão no seu quarto, e uma proporção significativa têm videocassete. Estas tendências 
são encorajadas por uma democratização generalizada nos relacionamentos familiares e no 
relaxamento da autoridade paterna e materna, identificados no capítulo 4; isso, apesar de os usos 
coletivos das mídias – a ‘audiência em família’ – estarem longe de desaparecerclxix. 
De modo semelhante, muitas das novas formas culturais viabilizadas por essas tecnologias são 
diretamente associadas às crianças. Os jogos de computador, por exemplo, são predominantemente 
endereçados ao mercado infanto-juvenil; enquanto isso, a música popular (particularmente a música 
para dançar) é cada vez mais gerada por tecnologia digital, via recorte, colagem, citaçõesclxx, e edição 
com o uso de softwares. Ao mesmo tempo, o incrível acesso às novas tecnologias possibilita aos 
jovens desempenhar um papel muito mais ativo como produtores culturais. Mais e mais adolescentes 
têm computador doméstico nos quartos de dormir, podendo utilizá-lo para criar música, manipular 
imagens ou editar vídeos em um padrão relativamente profissional. Estas tecnologias também 
permitem uma manipulação altamente consciente e potencialmente subversiva de textos midiáticos 
 55
produzidos comercialmente, por exemplo, através da citação e da re-edição de material disponível, 
juntamente com a produção ‘original’ e criativa. No processo, eles fazem troça das noções de 
copyright e de propriedade intelectual. 
Evidentemente é importante não exagerar a escala dessas mudanças. Pelo menos no Reino 
Unido, apenas uma pequena minoria de crianças é usuária regular da internet, por exemplo: as 
estimativas mais recentes são inferiores a 6%. Do mesmo modo, muito poucas crianças estão 
explorando o potencial criativo da mídia digital: seus computadores domésticos são usados para jogos 
e como processador de textos em tarefas escolaresclxxi. Os níveis de acesso irão certamente aumentar 
bastante à medida que os preços caírem; mesmo assim, existe uma grande polarização entre os 
‘tecnologicamente ricos’ e os ‘tecnologicamente pobres’. No Reino Unido, por exemplo, menos da 
metade de todas as crianças de classe trabalhadora têm acesso a computador em casa, se comparadas 
com as crianças de classe média, enquanto que o percentual de conexões à internet é de um décimo em 
relação às crianças de classe médiaclxxii. Assim como aconteceu com outras novas tecnologias (a TV na 
década de 1950, por exemplo), aqueles que têm maior renda são quase sempre os primeiros a adotá-
las: eles passam a ter equipamentos mais novos e poderosos, assim como mais oportunidades para 
desenvolver as habilidades e competências necessárias ao seu uso. Isto se aplica não apenas ao 
computador doméstico, mas também à televisão a cabo e satélite, a qual (apesar da sua imagem 
decadente no mercado) tende a estar bem menos presente nas casas de famílias de baixa renda. Esta 
polarização já é visível há vários anos nos Estados Unidos, onde há uma grande disparidade entre as 
crianças que têm acesso à televisão a cabo, cujos pais podem comprar ou alugar vídeos e que vivem 
em áreas em que há uma vasta gama de materiais disponíveis, e as crianças privadas de quaisquer 
dessas oportunidadesclxxiii. 
Como veremos com mais detalhe nos capítulos subseqüentes, a ampliação do acesso das 
crianças às mídias está gerando uma preocupação crescente com respeito a sua exposição a materiais 
até então estritamente confinados ao domínio dos adultos, como é o caso óbvio da ‘violência’ e da 
pornografia. Em muitos sentidos, isso tem levado a um clamor cada vez maior por censura e por uma 
regulamentação mais rígida; e à busca de uma solução tecnológica, como o V-chip, ou, como é 
chamado, um ‘software de bloqueio’. 
Essa preocupação responde em parte ao desenvolvimento tecnológico. Quando comparadas a 
tecnologias mais antigas como o cinema ou a televisão aberta, por exemplo, mídias como o vídeo e a 
televisão a cabo e satélite diminuem significativamente o potencial de controle centralizado da mídia 
por parte dos governos nacionais. O vídeo, por exemplo, torna possível a cópia e a circulação de 
materiais em uma dimensão muito maior do que jamais tinha ocorrido com a imagem em movimento. 
Ele também permite que o material seja assistido não nos espaços públicos aos quais o acesso possa 
ser controlado, mas no espaço privado do lar, e nos horários escolhidos pelo espectador e não por um 
programador central de horários que defina o que é apropriado ou não para as crianças assistirem. 
Nesse sentido, o vídeo escapa às restrições de tempo e espaço; e ele efetivamente transfere a 
responsabilidade pelo controle da esfera pública para a esfera privada – do estado para o indivíduo. 
Assim, apesar de todos os esforços da indústria, o vídeo é extremamente difícil de ser policiado. 
Atualmente estima-se que o comércio de vídeos-piratas no Reino Unido equivalha a um terço ou a 
metade da indústria legal; e apesar das duras penalidades que possam ser aplicadas aos seus 
fornecedores, a grande maioria das crianças já assistiu a algum material em vídeo que não tenha sido 
legalmente obtidoclxxiv. 
A questão do controle tornou-se ainda mais crítica com o surgimento da tecnologia digital. 
Hoje é possível não apenas copiar e disponibilizar material, mas também enviá-lo para além das 
fronteiras nacionais, pela linha telefônica. A internet é hoje o meio mais caracteristicamente 
descentralizado: qualquer pessoa com acesso à tecnologia pode publicar o que quiser, e qualquer outra 
pessoa pode acessá-lo – muito embora, na realidade, ela esteja cada vez mais se tornando um meio 
comercial no qual os usuários precisam pagar pela informação, diretamente, ou indiretamente por meio 
de propagandas (cujo custo é transferido aos consumidores por meio do aumento dos preços). O 
 56
posicionamento da lei é ainda mais confuso aqui: há uma considerável incerteza sobre se a internet é 
um meio ‘editorial’ (caso em que os provedores de serviços podem ser processados por fornecerem 
material obsceno) ou se ela é simplesmente um meio de ‘comunicação’, como o telefone. 
 
Instituições 
Todos esses desenvolvimentos tecnológicos ajudaram a intensificar mudanças econômicas e 
institucionais fundamentais nas indústrias da mídia – e têm sido intensificados por elas. Três grandes 
tendências podem ser identificadas aqui, sendo cada uma delas sintomática de mudanças políticas e 
econômicas muito mais amplasclxxv. 
Em primeiro lugar podemos destacar a crescente privatização das mídias e o relativo declínio 
das ofertas proporcionadas pelo setor público. A grande maioria dos serviços e formas culturais das 
novas mídias identificados acima é orientada para o mercado; e mesmo aqueles que inicialmente não o 
eram – como a internet – estão cada vez mais sujeitos aos imperativos do mercado como, por exemplo, 
a necessidade de exibir anúncios e propagandas. A convergência tecnológica espelha a convergência 
econômica, na medida em que as tendências de consolidação dos monopólios são reforçadas pelas 
ideologias do ‘livre mercado’ dos governos nacionais. Neste ínterim, as produções do setor público – 
na TV aberta, por exemplo – vão sendo gradualmente comercializadaspor dentro; e a regulamentação 
sobre as funções sociais e culturais do meio vai aos poucos sendo abandonada em favor de uma 
preocupação mais estrita com a moralidade. 
Uma conseqüência inevitável dessas mudanças tem sido a integração das indústrias da mídia, 
uma integração tanto horizontal como vertical. O mercado midiático de hoje é dominado por um 
pequeno número de conglomerados multinacionais, e para as empresas de base nacional o sucesso no 
mercado internacional é cada vez mais reconhecido como necessário à sobrevivênciaclxxvi. Na prática, a 
globalização tende a significar a dominação por parte dos Estados Unidos: a maioria das indústrias de 
TV cabo e satélite no Reino Unido, por exemplo, pertence na verdade a companhias norteamericanas. 
Entretanto, na nova economia mundial, nem isso pode ser assegurado: companhias como a Sony, 
Matsushita e Bertelsmann, por exemplo, têm importância fundamental tanto no mercado dos EUA 
quanto no mercado mundial. Significativamente, a maioria destas corporações se caracteriza por 
impérios que atravessam várias mídias: eles integram difusão aberta, mercado editorial e tecnologia 
digital, e em muitos casos têm interesse tanto em hardware quanto em software. A integração vertical 
tem sido, portanto, acompanhada de uma forma de integração horizontal. Nesse novo ambiente, as 
mídias não são mais simplesmente um meio de garantir público para os anunciantes. Elas são cada 
vez mais um meio de garantir público para as outras mídias. 
Por outro lado, também é possível identificar formas de fragmentação, tanto no nível da 
produção quanto do consumo. Assim, um movimento em direção ao trabalho temporário e à 
terceirização ao longo das duas últimas décadas tem sido particularmente notável na indústria de 
broadcasting, tradicionalmente centralizada. Apesar de alguns argumentarem que isto gera uma 
participação maior de grupos minoritários, o fato é que a produção independente e em pequena escala 
é altamente precária. Nesse processo, como veremos adiante, os públicos também estão se tornando 
muito mais fragmentados e especializados, à medida que uma competitividade cada vez maior 
necessariamente dita um movimento em direção a ‘nichos de mercado’. 
Em certa medida, estas transformações reforçam tendências particulares implícitas na mudança 
tecnológica. Na realidade, o ritmo da mudança tecnológica é em si fortemente orientado pela 
incansável busca do capitalismo por novos mercados. Enquanto o índice de obsolescência das 
‘velhas’ tecnologias - e dos softwares usados por elas – acelera-se, o mesmo ocorre com os índices de 
lucratividade. Enquanto isso, muitas das novas tecnologias, sobretudo a internet e a TV por satélite, 
atravessam as fronteiras dos países, ultrapassando de fato as regulamentações nacionais. Por outro 
lado, o aumento do acesso à tecnologia digital reduz o custo inicial de muitas áreas da produção 
 57
midiática (em alguns casos, também da distribuição) e conseqüentemente contribui para atenuar a 
diferença entre produtores ‘profissionais’ e ‘amadores’. 
Esses processos afetam as crianças de um modo bastante ambíguo. Como já observei, as 
crianças foram ‘descobertas’ como um novo alvo de mercado ao longo das últimas décadas. No caso 
da televisão comercial, por exemplo, as crianças não foram de início vistas como uma audiência 
especialmente valiosa. Nas primeiras décadas do sistema comercial de produção dos Estados Unidos, 
os programas só eram oferecidos às crianças a um custo mínimo e em horários em que os outros 
públicos não estivessem disponíveisclxxvii; e mesmo no Reino Unido, onde a tradição de serviço público 
é muito forte, a televisão para crianças tem recebido financiamento comparativamente menor. Na era 
contemporânea dos nichos de mercado, entretanto, as crianças de repente se tornaram muito mais 
valiosas: é atribuída a elas uma significativa capacidade de influenciar as decisões dos pais sobre o que 
comprar, além de terem também algum dinheiro disponível. Assim, o advento da TV a cabo no Reino 
Unido trouxe um grande número de canais especializados que competem para atrair a audiência 
infantil; e tanto nos canais terrestres como nos não-terrestres houve um aumento considerável na 
quantidade da programação oferecida às crianças, embora não necessariamente na sua qualidade e 
diversidadeclxxviii. 
Essas mudanças provocam cada vez mais clamores em defesa do serviço público de televisão 
aberta contra a invasão das iniciativas comerciais. A comercialização – é o que se diz - resulta no 
inexorável ‘emburrecimento’ da televisão para crianças: a produção nacional de gêneros como o 
teleteatro contemporâneo e documentários – argumenta-se - tem continuamente perdido espaço para os 
desenhos animados feitos nos Estados Unidos. Na realidade os dados concretos em torno desses 
pontos são bastante ambivalentesclxxix, e o debate claramente remete a questões muito mais amplas 
sobre identidade nacional e valor cultural, noções as quais (como veremos) são muitas vezes definidas 
de modo bastante conservador quando se trata de crianças. Entretanto, esses processos acarretaram 
uma mudança significativa (e que decididamente tem dois lados) no modo como o público infantil é 
visto, pelo menos pela indústria das mídias: como explicarei com maiores detalhes adiante, a 
compreensão da criança como vulnerável e carente de proteção cede cada vez mais espaço à visão da 
criança como consumidora soberanaclxxx. 
Mesmo assim, é preciso tomar cuidado com algumas destas questões. Tanto no campo da 
economia como no da tecnologia, corre-se o risco do determinismo, que tem caracterizado boa parte 
da sociologia das mídias. Neste caso, é muito fácil recair-se nas noções tradicionais das crianças como 
sendo vulneráveis à exploração comercial ou às seduções do imperialismo midiático. Ao menos no 
Reino Unido, as produções nacionais ainda são bastante populares entre as crianças, bem como entre 
os adultos; e determinados programas da televisão britânica continuam a servir como uma forma de 
‘cultura comum’, tanto entre as crianças quanto entre as gerações. Como destaquei, em primeiro lugar 
a maioria das crianças não tem acesso à TV a cabo ou satélite – muito menos à internet. Além do 
mais, uma proporção significativa de produtos comerciais destinados às crianças simplesmente não 
consegue gerar lucro: o mercado é mais competitivo, mas é também muito mais incerto. Nesse sentido, 
há alguma justificativa para a freqüente declaração dos produtores de que as crianças são um mercado 
volátil e complexo, impossível de ser facilmente conhecido e controladoclxxxi. 
 
Textos 
Talvez o exemplo mais óbvio dos processos que estou descrevendo sejam as características em 
transformação dos textos midiáticos. De fato, os críticos pós-modernos sugerem que o próprio status 
dos textos esteja mudando: talvez não seja mais importante considerar os textos no seu sentido 
tradicional, enquanto objetos acabados, diferenciados, que de algum modo contêm um determinado 
significadoclxxxii. 
Em certo nível, isso pode ser compreendido como uma consequência da convergência 
tecnológica e econômica. Também aqui as fronteiras tornam-se difusas, tanto entre os textos em si 
 58
quanto entre as mídias. As distinções entre vídeos, jogos de computador, filmes, shows de TV, 
propagandas e textos impressos ficaram irrelevantes; e as mídias passaram a prender-se muito mais ao 
merchandising de uma ampla variedade de produtos. Um número cada vez maior de textos são apenas 
‘estratégias’ para promover ou anunciar outros textos e mercadorias. 
Como resultado disso, a intertextualidade tornou-se a característica dominante da mídia 
contemporânea. Muitos dos textos tidos como distintamente pós-modernos são altamente alusivos, 
auto-referentes e irônicos. Eles conscientemente remetem a outros textos, na forma de pastiche, 
homenagem ou paródia; eles justapõem elementos incongruentes de períodos históricos, gêneros e 
contextos culturais diferentes;e brincam com as convenções estabelecidas sobre forma e 
representação. No processo, eles implicitamente se dirigem a seus leitores e espectadores enquanto 
consumidores ‘alfabetizados nas mídias’, conhecedores delas. 
Por fim, muitas dessas formas midiáticas se caracterizam por tipos de interatividade. Como 
vimos anteriormente, alguns dos mais utópicos defensores das multimídias interativas as 
compreendem como um meio de libertação das restrições mais tradicionais da mídia ‘linear’, tais 
como o filme e a televisão. Hipertextos, CD-Roms e jogos de computador, de acordo com essa 
compreensão, parecem abolir a diferença entre ‘leitor’ e ‘escritor’: o leitor (ou jogador) não está mais 
submetido passivamente ao texto – e de fato o único texto é aquele que o leitor decidir ‘escrever’. 
Entretanto, muitas afirmações desse tipo sobre as formas características da cultura pós-
moderna precisam ser abordadas com bastante cuidado. Estes argumentos geralmente se baseiam em 
exemplos que não são representativos e em características de texto relativamente superficiais. Além do 
mais, poderíamos dizer que muitas destas transformações são ditadas por uma lógica principalmente 
econômica. Assim, a intertextualidade, o pastiche e a paródia muitas vezes são apenas fachadas para 
textos altamente convencionais em todos os outros sentidos. Na realidade, poderíamos argumentar 
que a ‘ironia’ tornou-se apenas outro recurso de mercado que possibilita às corporações da mídia 
garantirem um lucro adicional, na medida em que reciclam bens que já lhes pertencem. Do mesmo 
modo, a intertextualidade poderia ser compreendida, simplesmente, como uma conseqüência da 
crescente mercantilização e da necessidade de explorar sucessos através de uma variedade maior de 
mídias em um tempo mais curto. E apesar do potencial para a interatividade, há uma inegável lacuna 
entre a retórica e a realidade em grande parte dos softwares comerciais: muitos dos chamados ‘textos 
interativos’ estão longe de ser interativos e oferecem um repertório de possibilidades altamente fixo e 
circunscrito. 
Muitas dessas características se aplicam fortemente aos textos midiáticos destinados às 
crianças e aos jovensclxxxiii, e que são muito populares entre eles. Assim, muitas das novas formas 
culturais mais inovadoras foram inicialmente orientadas para esse público, e só mais tarde alcançaram 
o mercado adulto. Poderíamos destacar, por exemplo, a ironia consciente das histórias em quadrinhos 
contemporâneas; o uso da citação no rap e na dance music; o estilo alusivo da montagem dos vídeos 
musicais, a convergência entre mídia eletrônica, música e artes visuais da cultura clubber; ou a 
natureza genuinamente interativa – e altamente complexa – de alguns jogos de computador. E, apesar 
de todo o exagero retórico em torno da ‘cibercultura’, uma pequena minoria de jovens faz usos 
extremamente inovadores da internet, que realmente apontam para sua emergência como uma forma 
cultural única. 
Essas características não são, porém, encontradas apenas nas áreas mais arcanas da cultura 
juvenil: elas também podem ser percebidas em muitas formas da cultura popular dominante destinada 
às crianças mais jovens. Muitos dos desenhos animados e programas de TV mais populares entre as 
crianças, desde os Simpsons a Live and Kicking, estão cheios de referências a outros textos e gêneros, 
através de citação direta ou de colagens. Com freqüência eles buscam recursos culturais – tanto da alta 
cultura como da cultura popular do passado e do presente – de modo fragmentário e aparentemente 
paródico. Quem comparar as séries de desenhos animados atuais com aquelas de trinta anos atrás, vai 
se impressionar com o ritmo rápido, mas também com a ironia, a intertextualidade e o jogo complexo 
entre realidade e fantasia. Ao mesmo tempo, uma das tendências mais impressionantes nos últimos 
 59
anos no Reino Unido é a crescente popularidade da ‘TV-Retrô’, particularmente das séries mais 
conhecidas e ingênuas dos anos 1960´s: programas como Thunderbirds, Batman, The Avengers e The 
Man From UNCLE estão todos sendo re-apresentados, não apenas para preencher a grade da 
programação, mas sendo promovidos como produtos adequados a uma audiência jovem que se 
considera ‘conhecedora de mídia”. 
Mas os programas de TV não são apenas programas de TV: eles são também filmes, discos, 
histórias em quadrinhos, jogos de computador e brinquedos – sem falar em de camisetas, pôsteres, 
lancheiras, bebidas, álbuns de figurinhas, comidas e uma miríade de outros produtos. A cultura 
midiática infantil cada vez mais atravessa as fronteiras entre textos e entre formas midiáticas 
tradicionais, o que fica bastante óbvio ao se analisar fenômenos como Ninja Turtles, Super Mario 
Brothers ou Power Rangers. Nesse processo, a identidade do texto ‘original’ está longe de ser clara: 
as mercadorias são empacotadas e comercializadas como um fenômeno integrado, ao invés de o texto 
vir antes e ser seguido pelas outras mercadorias. E esses processos não se restringem exclusivamente 
ao trabalho das corporações ‘comerciais’, como ilustra o sucesso das produções de serviços públicos, 
tais como Sesame Street e mais recentemente os Teletubbies, da BBC. 
Evidentemente, Disney é o exemplo clássico deste fenômenoclxxxiv. Desde os primeiros tempos 
dos clubes do Mickey Mouse, as mercadorias e depois os parques temáticos são uma dimensão-chave 
do empreendimento, e de fato são esses aspectos que têm garantido sua contínua lucratividade. 
Entretanto, essa integração horizontal está assumindo agora uma escala diferente. Se você assistiu ao 
último filme da Disney, você poderá acompanhar programas baseados nele pelo canal Disney da TV, 
ou encontrar seus personagens no parque temático; você pode ir até a loja Disney do centro comercial 
local e comprar o vídeo, os pôsteres, as camisetas e outras mercadorias; você pode também colecionar 
brindes ou bonequinhos dos personagens nas caixas de flocos de milho ou em lanchonetes do tipo fast-
food; e, se você estiver na onda digital, poderá comprar o livro de historinhas animado em CD-Rom, 
brincar com o jogo de computador, visitar o website, e assim por diante. As crianças estão realmente 
na vanguarda daquilo que a crítica cultural Marsha Kinder chama de ‘intertextualidade transmidiática’ 
e, como ela argumenta, a lógica desta mudança é fundamentalmente orientada pelo lucroclxxxv. 
O mesmo ocorre com a música popular e o sucesso de artistas como Madonna, Take That e as 
Spice Girls. Novamente, talvez o exemplo mais óbvio seja Michael Jackson. O Michael Jackson 
músico ou cantor é inseparável do Michael Jackson performista, produtor de vídeo ou astro do cinema, 
garoto-propaganda (pelo menos até recentemente), benemérito de instituições de caridade, ícone em 
camisetas e pôsteres e - mais espetacularmente – uma propriedade pública, alguém que é sujeito de 
todo um outro conjunto de textos, na TV, na imprensa popular e na conversa cotidiana. Michael 
Jackson produz mercadorias, mas também é ele próprio uma mercadoria. E, naturalmente, é 
emblemático de muitas das mudanças sociais mais amplas vistas como características da pós-
modernidade, por causa da sua fundamental ambigüidade: ele é ao mesmo tempo masculino e 
feminino, preto e branco (o que não tem importância), e, o que é mais problemático, uma criança 
inocente e um adulto altamente sexual. 
Finalmente, é importante reconhecer as mudanças ao nível do conteúdo – as quais (como 
vimos no capítulo 2) são muitas vezes aquelas que mais alarmam os críticos adultos. Pelo menos no 
Reino Unido, a televisão para crianças mudou sem parar ao longo dos últimos vinte anos, no sentido 
de incorporar temas como sexo, drogas e dissolução familiar que antes seriam considerados tabu. Do 
mesmo modo, as revistas e os livros destinados ao mercado juvenil são muito criticados pelo 
tratamento franco e explícito que dão a esses temas. A recente controvérsia em torno de Love Bites, 
uma série de programasde educação sexual produzida pela London Weekend Television, por 
exemplo, ou os premiados romances ‘realistas’ para adolescentes, tais como Stone Cold de Robert 
Swindell ou Junk de Melvyn Burgess, ilustram claramente a ansiedade que esses temas 
provocamclxxxvi. Mesmo os desenhos animados feitos para crianças bem pequenas – das Tartarugas 
Ninja ao Biker Mice from Mars – parecem jogar com a ansiedade ‘adulta’ em torno de questões como 
a poluição ambiental, o declínio social e destruição global. E na cultura popular dominante voltada 
 60
para crianças há uma sensualidade e um cinismo que seriam impensáveis mesmo nos vertiginosos anos 
60. 
É vital, certamente, não ignorar que existem também significativas continuidades. Apesar de 
todas as diferenças entre eles, Os Simpsons têm muito em comum com Os Flinstones; Teletubbies com 
Watch with Mother; e Michael Jackson com Elvis Presley ou Little Richard. Na verdade, uma vez que 
os textos populares do passado são cada vez mais reciclados e apropriados de maneiras diferentes 
pelas novas gerações, fica difícil traçar uma diferenciação absoluta baseada na época em que foram 
originalmente produzidos. 
De qualquer maneira, no ambiente midiático do qual as crianças hoje fazem parte, as fronteiras 
estão cada vez mais difusas, tanto entre as mídias quando entre os textos em si. Como busquei 
demonstrar, essas transformações são viabilizadas pelas mudanças tecnológicas, mas são também 
amplamente orientadas pelos interesses comerciais. Assim, esse ambiente pressupõe tipos muito 
diferentes de competências e conhecimentos – e parece encorajar diferentes modos de ‘atividade’ – 
por parte das audiências. As mídias contemporâneas cada vez mais se dirigem às crianças como se 
elas fossem consumidores altamente ‘alfabetizados midiaticamente’. Se elas o são de fato, e o que 
entendemos por isso, são porém questões bem mais complexas. 
 
Os Públicos 
As implicações destas mudanças com relação aos públicos têm sido tema de um debate 
considerável. Como vimos, os argumentos estruturam-se freqüentemente em termos das preocupações 
tradicionais a respeito do ‘poder’ das mídias. Assim, os defensores da ‘revolução das comunicações’ 
argumentam que os públicos estão sendo cada vez mais ‘empoderados’ pelas novas mídias, enquanto 
os críticos sugerem que eles estejam simplesmente mais abertos à manipulação e à exploração 
comercial. Entretanto, em várias áreas as implicações das mudanças são menos óbvias e muito mais 
difíceis de prever. Assim, com freqüência se diz que essas transformações resultarão em maior 
possibilidade de escolha para os consumidores; outros rebatem, dizendo tratar-se de uma escolha 
espúria. Por exemplo, a proliferação dos canais de televisão levou a um aumento significativo da 
quantidade de televisão disponível, mesmo levando-se em conta que há muita repetição. Se este 
aumento se sustentará a longo prazo, porém, é discutível: a quantidade de novos produtos não 
consegue acompanhar o ritmo do aumento de canais de difusão para os mesmos – inclusive porque a 
audiência de cada canal está diminuindo, já que mais canais estão disponíveis, e conseqüentemente o 
financiamento para novos produtos tende a decair. Na prática, portanto, os espectadores contam com 
cada vez mais oportunidades de ver as mesmas coisasclxxxvii. 
Entretanto, isto é em si uma mudança significativa: para aqueles que têm acesso a televisão a 
cabo e satélite, o simples ato de ‘ver televisão’ tende a ser significativamente diferente da experiência 
daqueles que só têm acesso à televisão aberta. Num certo nível, essas mudanças nitidamente dão aos 
espectadores o poder de agendarem sua própria audiência, pelo menos a partir do leque de materiais 
disponíveis; mas as mudanças também levantam questões mais complicadas sobre como os 
telespectadores localizam e selecionam o que querem assistir. 
Essas questões tornam-se mais complexas, até certo ponto, em função da interatividade. 
Deixando de lado por enquanto a discussão sobre se surfar a internet é mais ‘ativo’ do que zapear 
pelos canais de TV ou explorar as páginas de uma revista (por exemplo), a questão aqui é se as 
audiências querem de fato maior ‘atividade’. As pesquisas sugerem que grande parte do uso das 
mídias está longe de ser comprometido ou engajado: ao contrário, em grande parte das vezes esse uso 
é casual e distraídoclxxxviii. Se as pessoas vão querer chegar em casa da escola ou do trabalho e navegar 
por hipertextos interativos, ou se vão preferir apenas relaxar na frente da TV, é uma questão que 
permanece em aberto – inclusive para os produtores e anunciantes. 
Mesmo no caso dos usuários regulares cabe algum ceticismo quanto a esse ‘poder’ que 
aparentemente lhes é oferecido. A internet claramente permite aos usuários um controle muito maior 
 61
com relação à seleção do conteúdo e do ritmo em que este é ‘lido’. Mas no processo ela também 
permite uma vigilância muito mais detalhada do comportamento do consumidor: agora é muito mais 
fácil identificar o movimento dos usuários por entre os websites e no interior deles, construindo assim 
perfis de consumidores que podem vir a tornar-se alvo de propaganda eletrônica dirigida. Também 
aqui surgem questões novas e problemáticas a respeito das habilidades e competências exigidas pelo 
uso das novas mídias e especialmente para avaliar o que elas tornam disponível. 
Finalmente, como já observei, estas transformações podem resultar em uma crescente 
fragmentação dos públicos, uma vez que os textos estão sendo cada vez mais direcionados (e vendidos 
para) grupos especializados de consumidores. A multiplicidade dos canais de televisão, por exemplo, 
poderá causar o declínio da difusão aberta (e da ‘cultura comum’ que esta possibilita) em favor do 
‘difusão estreita’; e a internet é o meio de comunicação por excelência para as pessoas que têm 
interesses especializados ou minoritários. Essas mudanças inevitavelmente levantam a questão de se é 
possível continuarmos a falar de uma cultura nacional compartilhada, ou mesmo de uma cultura 
compartilhada entre as gerações. Na medida em que transitamos de um sistema de 5 canais para um 
de 30 canais, e daí para um de 500 canais por exemplo, a televisão vai inevitavelmente se tornando 
uma experiência muito menos coletiva. 
Apesar disso, o alarde sobre a morte da ‘audiência massiva’ pode ser prematuro. Mesmo nos 
Estados Unidos, onde a maioria dos espectadores há muitos anos tem sistema de TV multi-canais, a 
maior parte das pessoas ainda se restringe a um pequeno número de emissoras – muito embora não se 
saiba por quanto tempo essa situação irá continuar clxxxix. Novamente, os pesquisadores da indústria 
precisam identificar em que medida os consumidores realmente querem fazer um uso das mídias 
completamente individualizado e ‘personalizado’ ou se eles desejam uma experiência mais 
compartilhada – pelo menos para poder conversar no dia seguinte a respeito do que assistiram. 
Também aqui surgem questões sobre a experiência de uso ou audiência das novas mídias que não 
podem ser compreendidas simplesmente em termos das noções tradicionais do ‘poder’ das mídias. 
Apesar de os eventuais resultados destas transformações serem difíceis de prever, está claro 
que as crianças são consideradas por muitos dos que estão na indústria midiática como a ‘vanguarda’ 
da mudança – ou pelo menos, que elas são posicionadas desse modo pelas operações do mercado. 
Assim, como observei, a adesão às novas mídias é geralmente maior em residências com 
crianças, e existe no mercado uma grande competitividade para atrair o mercado infantil. A audiência 
da TV convencional na Grã-Bretanha caiu em quase três horas por semana desde meados da década de 
1980; e a audiência da televisão aberta está agora diminuindo sensivelmente nas residências com 
crianças e que possuem TV a cabo e satélite, enquanto aumenta a audiência dos canais especializados 
em programação infantilcxc. As crianças também tendem a ter maioracesso a computadores, 
videogames,, tecnologia de vídeo e música e assim por diante. De muitas maneiras, os usos que as 
crianças fazem das mídias parecem realmente se caracterizar por uma escolha, uma interatividade e 
uma diversidade cada vez maiores – muito embora, como já indiquei anteriormente, essas 
oportunidades não estejam disponíveis a todos de modo igualitário. 
Entretanto, as conseqüências dessas mudanças para as crianças têm sido interpretadas de 
formas bem contrastantes. Pelo menos nos países de fala inglesa, as matérias sensacionalistas sobre os 
males que a mídia supostamente faz às crianças dominam cada vez mais as manchetes. Os jornalistas, 
é claro, estão sempre interessados nesse tipo de história, desde que elas resultem em ‘bom material’ e, 
conseqüentemente vendam jornais, mas eles são apoiados nisso por aqueles que têm outras 
motivações. Assim, os políticos rotineiramente demonstram o rigor de suas políticas educacionais ao 
reclamarem da influência anti-educativa do lixo das telenovelas ou do ‘emburrecimento’ das crianças 
entregues aos Teletubbiescxci. Grupos religiosos armam cruzadas evangélicas condenando a influência 
materialista e a depravação moral das mídias contemporâneascxcii. Nesse quadro, basta aos acadêmicos 
em busca de publicidade instantânea sugerir que programas de TV como The Big Breakfast diminuem 
a capacidade de atenção das crianças, ou condenar a ‘humilhação ritualizada’ de Gladiators ou Blind 
Date, para aumentar o número dos centímetros de suas colunas nos jornaiscxciii. Nos últimos anos a 
 62
imprensa, de forma ansiosa e acrítica, publicou vários exemplos de ‘pesquisas acadêmicas’ 
espantosamente fracas e que buscavam mostrar (por exemplo) que até um terço das crianças passavam 
tempo no playground trocando material pornográfico obtido por computador, ou que os jovens 
estavam sendo encorajados a cometer infrações de trânsito como resultado da sua exposição aos vídeo-
gamescxciv. 
Significativamente, muitas destas preocupações dizem respeito à exposição das crianças à 
mídia para ‘adultos’. O que o Daily Mail em 1996 descreveu como sendo ‘o escândalo da geração 
assista-como-quiser’cxcv reflete o reconhecimento de que as crianças não estão mais limitadas aos 
materiais planejados para elas – embora as pesquisas sugiram que na realidade elas sempre preferiram 
a mídia dos adultos, pelo menos quando conseguiam ter acesso a elacxcvi. Assim, diz-se que as 
crianças estão em uma situação especial de risco, não apenas devido à violência nas telas, mas também 
por causa das imagens negativas da vida familiar mostradas nas novelas; é claro também que há uma 
grande ansiedade em torno dos perigos da Internet, como a pornografia e sedução pedófilacxcvii. Por 
outro lado, há também preocupações com respeito à introdução de temas que parecem ser 
inadequadamente adultos para a mídia infantil – como AIDS e homossexualismo - em programas de 
ficção infantis como Grange Hill e Byker Grove, ou conselhos explícitos sobre posições sexuais em 
revistas para adolescentes como Bliss e Morecxcviii. 
É claro que esse tipo de pânico moralista não chega a ser novidade: a fantasia de uma Idade de 
Ouro da inocência infantil, e a visão da mídia (de vários tipos) como uma influência corruptora já têm 
uma longa história. Mas, como destacarei no capítulo 7, essas preocupações também assumem formas 
diferentes a cada circunstância histórica. As ansiedades contemporâneas a respeito dos efeitos das 
mídias sobre as crianças refletem em parte o deslocamento de preocupações muito mais amplas com 
relação à mudança social; mas elas são também uma resposta às mudanças tecnológicas e culturais nas 
próprias mídias, mudanças que, como destaquei anteriormente, estão inextricavelmente ligadas à busca 
de novos mercados. É claro que precisamos pensar duas vezes antes de assumir que as manchetes e 
editoriais da imprensa popular sejam necessariamente um sinônimo da opinião pública. Ainda assim, 
o ritmo acelerado da mudança nos sugere que essas preocupações tendam a se intensificar nos 
próximos anos. 
Se o debate público sobre a relação entre as crianças e as mídias tornou-se mais preocupado 
em defender as crianças do mal – em um tipo de protecionismo moral – os discursos que circulam no 
interior das indústrias da mídia parecem se mover em outra direção. Ali, as crianças não são mais 
vistas como basicamente inocentes e vulneráveis à influência. Ao contrário, elas são cada vez mais 
consideradas consumidoras midiáticas sábias, sofisticadas e exigentes. A tentativa de proteger e 
educar as crianças através de mídias como a televisão tem sido cada vez mais condenada como 
paternalismo e condescendência. Os adultos - argumenta-se – vêm falando em ‘tatibitate’ com as 
crianças há tempo demais. Não é da conta deles - pelo menos no contexto da cultura popular - ficar 
dizendo para as crianças o que elas devem ou não pensar. Este argumento deriva, por um lado, de uma 
ênfase explicitamente liberacionista nos ‘direitos das crianças’; mas a ele também aderem 
entusiasticamente aqueles que celebram o papel das crianças como consumidoras. Para estes, a 
comercialização da cultura midiática infantil não é uma questão de exploração, e sim, pelo contrário, 
um meio de libertação. No novo ambiente orientado pelo mercado, comenta-se, as crianças pelo 
menos estão adquirindo o poder de tomar suas próprias decisões a respeito do que vão experimentar e 
conhecer, sem que as mãos controladoras dos adultos intervenham, pretendendo saber o que é bom 
para elas. 
Esse tipo de mudança é claramente visível na história recente da televisão para criançascxcix. A 
abordagem amplamente ‘centrada na criança’, que floresceu na Grã-Bretanha sob o duopólio 
regulamentado entre a BBC e as empresas comerciais durante as décadas de 1960 e 1970, perde cada 
vez mais espaço para uma abordagem essencialmente consumista. O espectador infantil não é mais 
visto enquanto uma consciência em desenvolvimento, como no contexto da imaginação psicológica, 
mas enquanto um consumidor sofisticado, crítico e que sabe diferenciar, um agente independente 
 63
dentro do mercado. As crianças se tornaram ‘kids’; e os kids, nos dizem, são ‘espertos’, ‘sabidos’ e 
’conhecedores da cultura das ruas’. Acima de tudo, as crianças são ‘alfabetizadas em mídia’. Elas são 
difíceis de satisfazer; elas compreendem as estratégias de enganação e manipulação; e não querem ser 
tratadas com paternalismo. As crianças sabem o que querem da mídia – e é tarefa dos adultos oferecer 
isso a elas ao invés de recair em suas próprias crenças sobre o que é bom para elas. 
Esse discurso conecta-se freqüentemente, por sua vez, aos debates em torno dos direitos das 
crianças. Internacionalmente, o expoente mais bem sucedido no uso destes discursos tem sido o 
canal infantil Nickelodeon, inteiramente dedicado às crianças. O que encontramos aqui é uma retórica 
de ‘empoderamento’, uma noção do canal como uma ‘zona exclusiva das crianças ’, que dá voz a elas, 
que leva em conta o ponto de vista delas, que é amiga delas. Esse discurso está bem explícito nas 
declarações dos executivos da Nickelodeoncc, sendo também reforçado pela publicidade e pelas 
vinhetas que aparecem na tela entre um programa e outro. De modo significativo, as crianças parecem 
ser definidas aí primeiramente por sua condição de não-adultos. Os adultos são chatos, as crianças são 
divertidas. Os adultos são conservadores; as crianças são cheias de vida e inovadoras. Os adultos 
nunca irão entender; as crianças intuitivamente já sabem. 
Essas mudanças discursivas refletem claramente mudanças mais amplas no status das crianças 
como um grupo social distinto, como foi identificado no capítulo anterior. O que mais impressiona 
aqui, entretanto, é a aliança entre as mudanças econômicas e as sociais: existe uma confusão 
fundamental, um embaralhamento, entre a noção das crianças como cidadãs reais ou potenciais e a 
noção das crianças como consumidoras.No discurso da Nickelodeon, por exemplo, os ‘direitos’ 
mencionados são essencialmente os direitos do consumidor. As crianças têm o direito de consumir as 
coisas que os adultos lhes oferecem; e se as crianças têm sua própria cultura, trata-se de uma cultura 
criada para elas quase que inteiramente pelos adultos – uma cultura que,na verdade, eles venderam a 
elas. Do mesmo modo, as repetidas declarações dos produtores de que as crianças são espectadoras 
‘exigentes’ ou ‘alfabetizadas em mídia’ parecem muitas vezes significar simplesmente que elas 
mudam rapidamente de canal quando vêem algo de que não gostam. Na prática, portanto, este 
discurso não define as crianças como atores sociais e políticos independentes, e muito menos lhes 
oferece responsabilidade ou controle democráticos: é o discurso da soberania do consumidor 
fantasiado de discurso dos direitos culturais. 
Em última análise, porém, a questão de se as crianças podem ser vistas como um público 
‘ativo’ ou como vítimas ‘passivas’ das mídias – e se as mudanças encorajam uma ou outra dessas 
tendências – não pode ser respondida de forma abstrata. O poder da mídia não é um jogo de ‘soma-
zero’, no qual os públicos ou são poderosos ou não têm qualquer poder. Na verdade, como sugeri, o 
padrão das mudanças contemporâneas levanta questões que vão além de escolhas do tipo ou/ou, tão 
tipicamente recorrentes neste debate; para investigá-las, precisamos levar em conta as diversas 
maneiras com que os públicos usam e interpretam as mídias, e os contextos sociais em que o fazem. 
Como examinarei no capítulo 6, as definições de público infantil que circulam na pesquisa acadêmica 
também estão mudando neste sentido; muito embora seja certamente discutível em que medida estas 
novas idéias levam suficientemente em consideração as mudanças mais amplas no ambiente midiático 
que procurei esquematizar aqui. 
 
De volta às fronteiras 
Falando em termos gerais, é possível identificar dois conjuntos de forças em ação nas 
mudanças que venho descrevendo. Podemos chamá-las de centrífugas e centrípetas. Por um lado, há 
forças que puxam para fora do centro, em direção à fragmentação, à diferenciação e à 
individualização. Do outro lado, há forças que reafirmam o controle centralizado, o poder do estado e 
do capital – forças de homogeneização e uniformidade. Essas forças operam tanto no macro-nível da 
política cultural quanto no micro-nível da experiência cotidiana da cultura: elas caracterizam o 
nacional ou o global e o local ou o doméstico. Muitas das mudanças orientam-se por uma complexa 
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combinação das duas tendências; e é por este motivo que suas conseqüências políticas e culturais 
tendem a se revelar bastante contraditórias. 
Assim, as novas tecnologias estão provocando uma convergência de mídias e formas de 
comunicação até então separadas, que está amplamente sujeita às operações do capitalismo global. 
Poderíamos dizer que as mídias estão se fundindo em uma forma de intertextualidade infinita, 
orientada pela mercantilização – uma cultura de consumo que efetivamente engole tudo que estiver em 
seu caminho. Porém, poderia igualmente ser argumentado que essas mesmas tecnologias abalam as 
formas tradicionais de regulação e de controle. Elas permitem que os ‘leitores’ escrevam seus próprios 
textos, ou desconstruam e reescrevam textos pré-existentes de muitas maneiras diferentes. As 
restrições geográficas e as hierarquias socialmente estabelecidas não mais se aplicam, uma vez que as 
mídias e os canais de comunicação estão continuamente se tornando mais abertos a todos – ou pelo 
menos aos que podem pagar por eles. 
Retomando a metáfora que usamos anteriormente, as fronteiras estão sendo atravessadas e 
embaralhadas de todas as formas. As distinções entre a produção e o consumo, entre comunicação 
interpessoal e de massa, entre alta cultura e cultura popular – tudo isso, argumenta-se, parece mais e 
mais irrelevante e redundante. Só que por outro lado as fronteiras também estão sendo reafirmadas e 
redesenhadas. O consumo e a produção de mídia tornam-se cada vez mais individualizados e 
privatizados; enquanto isso, o fosso entre os que têm e os que não têm acesso às novas tecnologias 
alarga-se continuamente. 
As implicações dessas mudanças para as crianças – e para a relação entre adultos e crianças - 
também têm duas faces. De um lado, as fronteiras parecem estar se diluindo. Muito mais do que com 
a televisão aberta, as novas tecnologias de mídia permitem o acesso das crianças a materiais antes 
restritos aos adultos. O vídeo, a internet, a televisão a cabo e a satélite tornam o que Neil Postman 
chama de ‘segredos adultos’ muito mais disponíveis às crianças do que faz a TV aberta. Também não 
é mais possível segregar as crianças do mundo do consumo: mesmo que não tenham renda para gastar, 
elas são cada vez mais endereçadas enquanto consumidores autônomos, encorajadas a tomar suas 
próprias decisões a respeito do que vão comprar, assistir e ler. Via internet, elas podem se comunicar 
muito mais facilmente umas com as outras e com os adultos, sem mesmo terem que se identificar 
como crianças. E até mesmo nos materiais produzidos explicitamente para crianças há reflexões sobre 
aspectos do mundo antes considerados inapropriados para que elas os vissem ou deles soubessem. 
Enquanto isso, outras fronteiras são claramente reafirmadas. Na medida em que aumenta o 
acesso das crianças às tecnologias, elas não têm mais que ler ou assistir o que seus pais escolhem. Na 
medida em que o ‘nicho de mercado’ infantil cresce em importância, as crianças têm cada vez mais 
condições de se restringirem às mídias produzidas especificamente para elas. Além do mais, as novas 
formas culturais ‘pós-modernas’ que caracterizam a cultura infanto-juvenil são, em muitos aspectos, 
altamente excludentes para os adultos: elas dependem de competências culturais particulares e de um 
conhecimento prévio de textos midiáticos específicos (em outras palavras, de uma forma de 
alfabetização midiática) disponíveis apenas aos mais jovens. Enquanto as crianças podem estar 
compartilhando cada vez mais de uma cultura global de mídia com crianças de outras partes do 
mundo, talvez estejam compartilhando cada vez menos com seus próprios pais. 
Precisamos, porém, estabelecer algumas distinções. São principalmente as crianças mais 
velhas as que estão ganhando acesso às mídias dos ‘adultos’, enquanto as crianças pequenas são as que 
estão sendo mais agressivamente alvejadas como um nicho de mercado. Se a fronteira entre as 
crianças mais velhas e os ‘jovens’ pode estar se diluindo, o fosso entre as crianças mais novas e as 
mais velhas pode estar se alargando. Ao mesmo tempo, não é apenas o público infantil que está sendo 
redefinido, mas também os públicos ‘jovem’ e ‘adulto’. Enquanto muitas crianças mais velhas 
aspiram cada vez mais à liberdade que elas imaginam existir na ‘juventude’, muitos adultos, 
inversamente, parecem deliciar-se com a irresponsabilidade e a subversão que identificam com a 
infânciacci. 
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Assim, a idade em que a infância termina – pelo menos, no que se refere às indústrias de mídia 
– parece estar continuamente diminuindo. Os produtores de televisão para crianças, por exemplo, 
reconhecem que o grosso da audiência das crianças mais velhas é dedicado à programação ‘adulta’, e 
que o conteúdo e o estilo dos programas destinados a elas refletem isso claramente. As questões 
sociais levantadas por uma novela infantil como Grange Hill, por exemplo, têm muito em comum com 
aquelas presentes nas novelas para adultos como EastEnders; enquanto o estilo visual e o ritmo dos 
programas de variedades para jovens, como Live and Kicking, claramente influenciaram a abordagem 
de programas ‘adultos’ como The Big Breakfast. Se é verdade que alguns críticos sempre reclamaram 
da precocidade dos programas infantis, outros estão agora começando a se queixar do que vêem como 
uma infantilização da televisão ‘adulta’. 
Poroutro lado, a categoria ‘juventude’ tornou-se extremamente elástica, parecendo se estender 
cada vez mais para cimaccii. No entusiasmo compartilhado pela música pop, roupas esportivas Nike, 
Nintendo e South Park, por exemplo, pessoas de 10 a 40 anos fazem parte de um mercado ‘juvenil’ 
que é bastante e conscientemente diferente de um mercado ‘familiar’. Nesse ambiente, a ‘juventude’ é 
percebida como uma escolha de estilo de vida, definida pela sua relação com marcas e mercadorias 
específicas, e também disponível para aqueles que estão bem fora dos seus limites biológicos (que são 
de qualquer modo fluidos). Na ‘televisão jovem’ e também no mercado de música popular, a 
‘juventude’ possui um sentido simbólico que tanto pode se referir a identidades fantasiosas como a 
possibilidades materiais – um fenômeno que por si só ajuda a aumentar sua audiência e 
conseqüentemente seu valor de mercado. As campanhas publicitárias recentes do jogo de computador 
Mortal Kombat e do Sony Playstation, por exemplo, têm sido explicitamente endereçadas aos jovens 
adultos, sugerindo que os equipamentos estão sendo comercializados como um brinquedo aceitável 
para adultos. Também aqui, isso tem levado alguns comentadores a sugerir que os adultos, e 
particularmente o homem adulto, estão sendo encorajados a refugiar-se nas fantasias ‘imaturas’ da 
adolescênciacciii. 
Talvez o exemplo mais impressionante desta confusão de categorias etárias nos últimos anos 
tenha sido o sucesso cult da série pré-escolar da BBC Teletubbies, lançada em 1997. Longe de agradar 
apenas às crianças com menos de 5 anos, a série atraiu um público considerável entre crianças bem 
mais velhas, evidenciado em websites ‘não-oficiais’, em roupas e até mesmo em artigos em revistas de 
moda. Enquanto esse interesse pode ter sido em parte meramente nostálgico, sem dúvida foi para 
muitos irônico e usado como ‘criancice’ subversiva - e embora o fenômeno tenha sem dúvida gerado 
muito dinheiro, a BBC fez o que pôde para desencorajar o que considerou um entusiasmo 
‘inapropriado’cciv. 
Como argumentou Marsha Kinderccv, esta reconfiguração das relações entre as gerações é 
altamente paradoxal. De um lado, existe um ‘exagero do conflito de gerações’, até mesmo um tipo de 
guerra de gerações, visível tanto nas mídias (por exemplo, nas estratégias promocionais da 
Nickelodeon, ou em filmes como Home Aloneccvi e em campanhas políticas). Ao mesmo tempo, 
existem novas formas de ‘endereçamento transgeracional’ que permitem que o mesmo produto seja 
comercializado para diferentes gerações. De acordo com Kinder, esta convergência entre gerações 
funciona em mão dupla: 
Não apenas os espectadores adultos estão ‘pedocratizados’ mas também os jovens 
espectadores estão sendo encorajados a adotar o gosto do adulto, criando-se posições de sujeitos para 
um público dualista composto de adultos infantilizados e de crianças precoces. Tais posições de 
sujeito parecem fornecer um ilusório sentido de empoderamento, tanto para as crianças que querem 
acelerar seu crescimento aderindo à cultura consumista, como para os adultos que querem manter sua 
juventude acompanhando os modismos mais recentes da cultura popccvii. 
Como sugerem esses exemplos, portanto, os modos como os consumidores são diferenciados, 
pelo menos em termos de idade, estão se tornando mais fluidos, complexos e incertos. Como observei, 
a retórica oficial das indústrias de mídia representa as crianças cada vez mais como um público ativo e 
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capaz de fazer diferenciações: longe de serem maleáveis e facilmente exploráveis, elas são vistas como 
extremamente difíceis de atrair e controlar. Mesmo assim, no ambiente cada vez mais competitivo das 
mídias contemporâneas, tais distinções assumem uma importância comercial crescente. Quantos anos 
você tem – ou quantos anos você imagina ter – é cada vez mais definido por aquilo que você consome. 
Nessa medida, a ‘infância’, assim como a ‘juventude’ tornou-se ela própria uma mercadoria 
simbólicaccviii. 
 
Infâncias midiáticas em mudança 
Em muitos sentidos podemos dizer, portanto, que as mudanças nas mídias reforçam as 
mudanças na infância identificadas no capítulo anterior – e são por elas reforçadas. Em termos gerais, 
as mudanças nessas duas esferas parecem se caracterizar por um sentimento crescente de instabilidade 
e insegurança: diferenciações e hierarquias estabelecidas se rompem, à medida que emergem novas 
formas culturais e identidades. Nessas duas esferas, as crianças parecem estar muito mais difíceis de 
definir e controlar. Há porém o perigo específico de se cair na retórica pós-modernista, como se tudo o 
que é sólido acabasse mesmo se desmanchando no ar. Esse tipo de tese parece com freqüência 
representar o abandono da explicação, uma dissolução na indiferença e na fluidez infinitas. Ela pode 
nos levar a negligenciar as continuidades e as contradições que estão em jogo; e pode chegar a tornar 
todo tipo de intervenção impossível ou redundante. 
Neste capítulo e no anterior, destaquei várias tendências que contradizem esta visão. Assim, 
como venho sustentando, as fronteiras entre crianças e adultos estão sendo reforçadas, e ao mesmo 
tempo atenuadas, tanto em relação à mídia quando num sentido mais amplo. A separação entre os 
mundos sociais e midáticos de crianças e adultos torna-se mais aparente, mesmo que os termos dessa 
separação estejam sendo reconfigurados. Em um certo nível, as crianças mais velhas não podem mais 
ser tão facilmente protegidas de experiências que eram tidas como moralmente prejudiciais ou 
inadequadas ao desenvolvimento. Os muros que cercam o jardim sagrado da infância ficaram muito 
mais fáceis de pular. E, contudo, as crianças, principalmente as crianças pequenas, participam cada vez 
mais de mundos culturais e sociais que são inacessíveis, e mesmo incompreensíveis, para seus pais. 
Do mesmo modo, as crianças estão ganhando poder, tanto como cidadãs quanto como 
consumidoras; muito embora em ambos os casos a natureza deste ganho de poder tenha claras 
limitações. As crianças são vistas cada vez mais como um mercado específico; neste processo, suas 
características e necessidades têm sido mais amplamente investigadas e reconhecidas – e, até certo 
ponto, atendidas. Porém, as formas como as crianças expressam sua próprias necessidades são muito 
restritas aos termos adultos: em grande medida, elas só conseguem afirmar sua necessidade em relação 
aos serviços e produtos que os adultos lhes podem prover. Nos debates a respeito das mudanças na 
natureza do ensino, e da oferta de lazer e de mídia, as vozes das crianças ainda são raramente ouvidas. 
A educação, por exemplo, foi redefinida como um serviço prestado ao consumidor – muito embora 
aqui os consumidores sejam os pais ao invés de as próprias crianças. Do mesmo modo, apesar da 
entusiástica perseguição às crianças enquanto consumidoras, o grau de responsabilidade democrática 
dos meios de comunicação ainda é insignificante. Enfim, os direitos autônomos das crianças – como 
consumidores ou como cidadãs – continuam a ser apenas vagamente reconhecidos. 
Nesse quadro, as atividades de lazer das crianças vão se tornando continuamente mais 
privatizadas e comercializadas. Elas passam a maior parte de seu tempo em casa ou em algum tipo de 
atividade supervisionada; enquanto isso, os produtos e serviços culturais que elas consomem têm cada 
vez mais que ser pagos em dinheiro vivo. Os espaços públicos da infância – tanto o espaço físico da 
brincadeira como os espaços virtuais do rádio e da televisão – caem em declínio ou são invadidos pelo 
mercado. Uma conseqüência inevitável disso é que, para as crianças tanto o mundo social quanto o da 
mídia estão se tornando cada vez mais desiguais. A polarização entre ricos e pobres é positivamente 
reforçada pela comercialização das mídias e pelo declínio do que o setor público proporciona. As 
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crianças mais pobres simplesmente têm menos acesso aos bens e serviços culturais:elas vivem não 
apenas em mundos sociais diferentes, mas também em mundos midiáticos diferentes. 
Permanece ainda a questão de que todas essas mudanças envolvem significativas 
oportunidades criativas e democráticas, particularmente no potencial que oferecem às crianças de se 
tornarem elas mesmas produtoras de mídia. As novas tecnologias trazem ao alcance das crianças 
meios de comunicação e de expressão cultural que lhes eram até então inacessíveis e que podem fazer 
suas visões e perspectivas serem muito mais amplamente ouvidas. Longe de contribuir para a 
polarização social, as mídias poderiam ser um meio de habilitar as crianças a se comunicarem através 
das diferenças. Entretanto, estas mudanças não se darão automaticamente, ou como simples resultado 
da disponibilização de equipamentos. Como discutirei adiante, precisaremos de intervenções muito 
mais criativas e orquestradas ao nível das políticas sociais e culturais, se quisermos que os direitos das 
crianças como produtoras e consumidoras das mídias eletrônicas se realizem mais plenamente. 
 
CAPÍTULO 6 
Paradigmas em mudança 
 
Na introdução a este livro, argumentei que a ‘infância’ deveria ser compreendida 
como uma construção social. Isso não quer dizer que os indivíduos reais que chamamos de 
crianças de alguma forma não existam, ou que sejam só produto da imaginação coletiva. O 
que se quer dizer é apenas que a idéia de infância, e os pensamentos e emoções a ela 
vinculados, não são dados ou fixos: ao contrário, estão sujeitos a um contínuo processo de 
definição – a uma luta social pelo significado. 
Sugeri na introdução que a ‘infância’ era definida por meio de dois tipos de 
discursos: aqueles para as crianças e aqueles sobre elas. Meu foco principal, nos capítulos 
anteriores, foram os discursos endereçados ao público infantil – isto é, os textos midiáticos 
produzidos para as crianças, e as condições em que são produzidos, distribuídos e 
consumidos. Neste capítulo vou examinar os discursos sobre os públicos infantis – e, em 
particular, os diversos modos como as relações das crianças com as mídias eletrônicas têm 
sido definidas e debatidas no contexto da pesquisas acadêmicas. 
É claro que essas pesquisas não podem ser vistas de modo isolado, como uma mera 
busca da verdade científica, alheia a outros interesses. De fato, neste caso, a pesquisa tem 
sido fortemente determinada pelos tipos de discurso que tendem a dominar a arena pública 
mais ampla. E os pesquisadores são chamados a responder principalmente ao discurso dos 
políticos e dos jornalistas; para começar, é esse mesmo discurso que implicitamente define os 
parâmetros das pesquisas que tendem a receber financiamento. O discurso acadêmico sobre a 
audiência infantil tem que competir por autoridade e credibilidade com esses discursos mais 
populares, assim como com os da própria indústria da mídia. 
Esses discursos, porém, muitas vezes dão a idéia de que estamos todos falando sobre 
o mesmo objeto – ou seja, o público infantil. Quero sugerir que, ao contrário, estamos todos 
engajados na construção desse objeto, buscando atender aos nossos próprios interesses e 
objetivos. Assim, descrevemos, medimos e analisamos o público de diferentes modos; 
expressamos nossas preocupações e ansiedades a respeito dele; nós o observamos, o 
contamos, o interrogamos, fazemos experiências com ele; tentamos entretê-lo, informá-lo; 
manipulá-lo, empoderá-lo; e alguns de nós até gostam de imaginar que estão falando em 
nome desse público, ou ‘dando-lhe uma voz’. Porém, não importa o quanto essas atividades 
possam ser objetivas ou abertas, elas inevitavelmente definem o público a partir de modos 
parciais e particulares. 
Da cobertura sensacionalista na imprensa sobre casos de crianças corrompidas pela 
violência da mídia, até as complexidades técnicas da pesquisa de mercado e as preocupações 
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às vezes obscuras dos artigos acadêmicos, o processo de definir o público infantil é, em si 
mesmo, um tipo de indústria. O caso mais óbvio talvez seja a imprensa: as reportagens sobre 
‘crianças em situações de risco’ são adequadas ao tipo de sensacionalismo que vende jornais - 
um fenômeno que se tornou muito mais proeminente, à medida em que as fronteiras entre o 
jornalismo ‘popular’ e o ‘de qualidade’ tornaram-se cada vez mais embaralhadasccix. Isso 
também acontece na pesquisa acadêmica. A relação entre as crianças e a mídia tem sido o 
foco de um empreendimento massivo de pesquisa, gerando milhares e milhares de estudos, 
financiados (por diversas razões) tanto por agências de governo como pelas próprias 
indústrias da mídia. Tem havido mais pesquisa e debate sobre este setor do público midiático 
do que sobre qualquer outro, um fenômeno que por si só reflete a complexidade dos 
investimentos emocionais, políticos e econômicos na idéia de infância. 
De qualquer modo, seja qual for a posição de onde falamos, estamos nos engajando 
em um discurso que nós, enquanto adultos, essencialmente controlamos, se é que não 
monopolizamos completamente. Tanto na academia como em outros contextos nos quais as 
relações das crianças com as mídias são discutidas e debatidas, o discurso sobre os públicos 
das mídias é inevitavelmente um discurso sobre outras pessoas. Neste processo, 
inevitavelmente nos posicionamos a respeito de quem são essas outras pessoas – e neste caso, 
a respeito do que é ou deveria ser a ‘infância’. Esses posicionamentos podem ser silenciosos, 
mas mesmo assim permeiam tudo o que fazemos: informam nossas perguntas, os métodos de 
investigação que adotamos e os critérios que usamos para definir o que deve ser considerado 
conhecimento válido. 
Alguns críticos vão mais longe. O público em si, eles argumentam, não apenas é 
uma construção, mas um tipo de ‘ficção invisível’ccx. É algo que imaginamos ou a respeito 
do qual fantasiamos, mas que nunca conseguiremos conhecer definitivamente. Isto estaria 
ocorrendo cada vez mais com as próprias indústrias da mídia. Ien Ang por exemplo, sugere 
que a indústria da televisão está agora às voltas com uma batalha perdida pelo controle e pela 
definição de seu públicoccxi. Na era da TV multi-canal, do vídeo e do controle remoto, ela 
argumenta, o comportamento dos públicos tornou-se cada vez mais difícil de prever. As 
pesquisas sobre índices de audiência são usadas como defesa contra a insegurança que esta 
situação gera, ainda que isso equivalha, a rigor, à perseguição de uma quimera.ccxii . Em suas 
versões mais extremas, esse argumento parece sugerir que os ‘públicos reais’ não passam de 
mero produto da imaginação da indústria ou mesmo dos pesquisadores. Para nós, 
acadêmicos, isto gera uma situação em que podemos ficar no conforto das nossas 
universidades, debatendo a validade retórica das construções discursivas a respeito dos 
públicos formuladas por outras pessoas, sem nunca termos que sujar as mãos com a realidade 
empíricaccxiii. 
Minha posição aqui é menos radicalmente construtivista. Acredito que existam 
públicos de verdade no mundo lá fora, mesmo que só possamos conhecê-los a partir de 
nossas próprias construções e representações. Mesmo reconhecendo que nunca haverá um 
acordo final, defendo que estas construções podem e devem ser julgadas em termos da 
validade de suas evidências empíricas e da coerência e da lógica de seus argumentos teóricos. 
Além do mais, essas construções claramente fazem uma diferença na vida das crianças reais: 
elas informam as criação das políticas culturais e as práticas de regulamentação e produção 
de mídia, assim como as ações de pais e professores. 
Como já argumentei, as visões contemporâneas acerca das relações das crianças com 
as mídias se caracterizam por duas formas contrastantes de sentimentalismo. De um lado, um 
sentimentalismo que é nosso velho conhecido: a construção da criança como inocente e 
vulnerável, e portanto carente da proteção dos adultos. De outro lado, um sentimentalismo 
mais contemporâneo: a construção da criança como conhecedorada mídia, como audiência 
ativa, possuidora de um tipo de sabedoria natural que orienta seu envolvimento com as novas 
 69
mídias e tecnologias. De modo geral, é a primeira visão que domina a arena pública, 
enquanto a segunda é cada vez mais adotada pelas indústrias. Mesmo no campo mais 
especializado da pesquisa acadêmica, os debates sobre as relações das crianças com as mídias 
freqüentemente se reduzem a uma escolha simples entre essas duas posições: se uma é falsa, 
então a outra deve necessariamente ser verdadeira. 
Meu primeiro objetivo neste capítulo é identificar os limites desses debates, buscando 
apontar para além deles. Como deixei implícito, ambas as concepções derivam de visões 
essencialistas da infância e das mídias eletrônicas; e ambas parecem refletir uma noção da 
criança enquanto consciência individual isolada. Em contraste, eu gostaria de defender uma 
abordagem mais plenamente social das relações entre as crianças e as mídias, capaz de situar 
nossa análise sobre os públicos em uma compreensão mais ampla da mudança social, 
institucional e histórica. 
Não é minha intenção oferecer aqui uma crítica abrangente da pesquisa acadêmica 
sobre a audiência infantil: várias revisões críticas desse tipo podem ser facilmente 
encontradas em outros lugaresccxiv. Meu objetivo é simplesmente propor algumas indicações 
da mudança nos modos como o objeto desta pesquisa – o público infantil – tem sido 
conceituado e definido, especialmente em trabalhos mais recentes. Ao fazê-lo, também 
pretendo apresentar algumas das preocupações e orientações teóricas básicas da minha 
própria pesquisa e assim expor a fundamentação das investigações mais específicas que serão 
relatadas nos capítulos seguintes. 
 
Ação e reação 
É possível ver a história da pesquisa acadêmica sobre as audiências como um 
contínuo processo de ação e reação, como um pêndulo que balança constantemente entre ‘a 
mídia poderosa’ e ‘os públicos poderosos’. Em um sentido amplo, nas duas últimas décadas 
houve um direcionamento decisivo para o poder da audiência, em muitas disciplinas e 
campos de investigação. Os públicos - afirma-se repetidamente - não se compõem de 
bobalhões dopados pela influência da mídia. Ao contrário, eles fazem julgamentos complexos 
e diferenciados a respeito do que lêem e assistem. São ativos e não passivos; críticos e não 
crédulos; criteriosos e não inconscientes; diversificados e não homogêneos. Como fica 
implícito, é freqüente nesses debates uma lógica dual implacável: ou é uma coisa, ou é a 
outra; isto é o que, a meu ver, precisa urgentemente ser questionado. 
Historicamente, a tradição dominante, em especial nos Estados Unidos, tem sido a 
pesquisa dos ‘efeitos’. Por motivos que refletem pressupostos subjacentes a respeito da 
infância, esta tradição continua a ser mais influente em relação às crianças do que em relação 
aos adultos. O paradigma dessas pesquisas se estabeleceu em grande medida por meio das 
primeiras experiências de laboratório sobre os efeitos da violência nas mídias. Baseadas em 
uma forma de behaviorismo ou ‘teoria da aprendizagem social’, essas pesquisas buscavam 
demonstrar conexões causais entre estímulos violentos e respostas agressivas; e foi esse 
modelo dos ‘efeitos’ que depois passou a informar a pesquisa em áreas como os estereótipos 
de papéis sexuais e a influência da propaganda. 
 Em seu desenvolvimento, entretanto, a pesquisa dos efeitos tem cada vez mais 
enfatizado o papel das ‘variáveis intervenientes’ que atuam na mediação entre os públicos e 
as mídias. Longe de compreender os públicos como uma massa indiferenciada, os estudos 
psicológicos mais recentes tendem a se concentrar nas ‘diferenças individuais’ que levam os 
espectadores a responder de modos diferentes às mesmas mensagens. Como resultado, as 
estimativas a respeito do poder das mídias vêm sendo significativamente revisadas. 
Assim, como veremos no capítulo 8, a pesquisa sobre os efeitos da propaganda de 
televisão tem contestado cada vez mais a visão de que as crianças são simplesmente vítimas 
 70
passivas dos artifícios sedutores dos ‘persuasores ocultos’ccxv. Do mesmo modo, as pesquisas 
sobre a influência dos estereótipos sexuais questionam a idéia de que representações sexistas 
resultem necessariamente em atitudes sexistas, e que os ‘espectadores assíduos’ tendam 
portanto a adotar papéis mais tradicionaisccxvi. Nesse processo, a idéia de que ver televisão 
inevitavelmente substitui atividades mais ‘construtivas’ tais como a leitura de livros, ou a de 
que ela leva ao declínio da alfabetização gráfica, têm sido sistematicamente abaladas ccxvii. 
Em cada uma destas áreas, a influência potencial das mídias é cada vez mais estudada 
levando em conta as outras influências e forças sociais na vida das crianças. Como veremos 
no capítulo 7, é apenas na área da violência nas mídias que a noção de ‘efeitos diretos’ 
continua a dominar o campo, um fenômeno que é sintomático dos investimentos políticos 
mais amplos que estão em jogo. 
 
Rumo à audiência ativa 
Ao longo das duas últimas décadas, os pesquisadores no campo da Psicologia 
afastaram-se cada vez mais de uma perspectiva behaviorista, aproximando-se de perspectivas 
construtivistas (ou cognitivistas) – passando do foco no estímulo-resposta para o estudo dos 
modos como a criança entende, interpreta e avalia o que assiste e lê. As crianças não são 
vistas aqui como receptores passivos das mensagens da mídia, mas como processadores 
ativos de significados. Ao dar sentido às mídias, compreende-se que elas usem ‘esquemas’ 
ou ‘roteiros’; conjuntos de planos e expectativas que construíram a partir de suas experiências 
anteriores, tanto da mídia como do mundo em geral. Nesta perspectiva, o significado dos 
textos midiáticos não é apenas entregue ao público, mas construído por eleccxviii. 
Ao estudar a compreensão das crianças sobre a mídia, os psicólogos cognitivistas 
vêm tendendo a se concentrar nos aspectos ‘micro’ ao invés de nos ‘macro’, nas formas 
específicas de processamento mental, mais do que nas questões relativas ao papel das mídias 
na formação de atitudes e crenças. Assim, por exemplo, existem estudos detalhados sobre a 
atenção da criança à televisão; sobre o desenvolvimento de sua compreensão sobre as 
narrativas da mídia; sobre as relações entre ‘sistemas simbólicos’ e estilos de processamento 
cognitivo; e sobre a habilidade das crianças de interpretar as características formais da 
televisão. A maioria destas pesquisas usa uma abordagem piagetiana , tentando identificar 
‘idades e estágios’ no desenvolvimento da compreensão da criança sobre as mídiasccxix. 
Um bom exemplo dessa abordagem pode ser encontrado nas pesquisas sobre o 
julgamento das crianças sobre a relação entre televisão e realidade. De um ponto-de-vista 
construtivista, compreende-se que esses julgamentos dependam tanto do desenvolvimento 
cognitivo geral da criança como da sua experiência com o meio de comunicação em si e com 
o mundo realccxx. Assim, em termos de desenvolvimento, as crianças gradualmente adquirem 
a habilidade para se ‘descentrar’, e a partir daí construir hipóteses a respeito das intenções dos 
produtores de mídia. Ao mesmo tempo, elas também aprendem a usar ‘pistas’ formais ou 
genéricas, e constroem um conjunto de conhecimentos cada vez maior a respeito dos 
processos de produção de televisão – por exemplo, sobre efeitos especiais, práticas de 
trabalho dos atores – que as tornam capazes de distinguir as mensagens em que elas se 
dispõem a confiar, em meio às demais. Por fim, as crianças são cada vez mais capazes de 
recorrer a seu próprio conhecimento ou crenças a respeito do mundo real, com o objetivo de 
avaliar a plausibilidade ou a autenticidade daquilo que assistem. 
A pesquisa neste campo sugere que até mesmo crianças pequenas (com seis ou sete 
anos de idade) são capazes de realizar julgamentos bastante complexos a respeito do status de 
realidade da televisão: longe deconsiderar o meio como uma ‘janela para o mundo’, elas 
empregam conjuntos de critérios diversos e potencialmente contraditórios para avaliar até que 
ponto ele está representando a realidade. Quando chegam ao início da adolescência, as 
 71
crianças começam a ter consciência do realismo enquanto uma categoria estética: conseguem 
apreciar o cuidado necessário para criar a ilusão de realismo, ao mesmo tempo em que a 
reconhecem como ilusão. Essas pesquisas, assim, corrigem de um modo importante a visão 
tradicional de que as crianças são incapazes de distinguir a televisão da realidade, uma visão 
freqüentemente expressa no debate público, e que ainda parece ser implicitamente 
compartilhada por alguns pesquisadores, sobretudo com relação à violência na tela. 
Como este exemplo sugere, a abordagem construtivista é uma alternativa valiosa ao 
behaviorismo da pesquisa dos ‘efeitos’. Mas ela também tem limitações significativas. O 
conceito de ‘atividade’ (um termo problemático, em todo caso) é ainda amplamente 
compreendido aqui em termos individualizados e não-sociais: como algo que acontece no 
encontro isolado entre a mente e o meio, ao invés de nos processos sociais da interação 
cotidiana. Além disso, a ‘atividade’ parece muitas vezes ser concebida como uma ‘variável 
interveniente’ em um processo que ainda é visto como sendo essencialmente de causa e 
efeito. Assim, os processos cognitivos por meio dos quais as crianças atribuem sentidos à 
propaganda, por exemplo, são vistos como mediadores entre estímulo e resposta – eles 
representam o que muitas vezes é significativamente definido como sendo ‘diferenças 
individuais’. 
Esses limites teóricos também se manifestam nos problemas metodológicos 
encontrados na maioria de tais pesquisas. Muitos dos procedimentos metodológicos básicos 
– especialmente os experimentos de laboratório – parecem ter sido importados por atacado da 
pesquisa dos efeitos. Assim como na pesquisa dos efeitos, a maioria destes trabalhos parece 
pressupor que uma atividade como ver televisão pode ser concebida em termos de uma série 
de variáveis, cuja natureza e sentido podem ser avaliados de antemão por meio do uso de 
medições objetivas e instrumentos. Estas variáveis podem então ser sistematicamente 
controladas na situação experimental, por exemplo, por meio da ‘combinação’ de grupos de 
sujeitos. No mínimo, não se pode ir muito longe ao extrapolar as descobertas de tais trabalhos 
para as situações de vida real. 
Enquanto isso, a pesquisa psicológica a respeito das crianças e da mídia tem 
permanecido bastante à margem de algumas das mudanças mais drásticas que ocorreram 
dentro do campo mais amplo da psicologia ao longo dos últimos vinte anos – cito como 
exemplos o desenvolvimento do trabalho da cognição socialmente situada, a influência da 
teoria psicanalítica, e a emergência da ‘psicologia discursiva’ e da ‘psicologia critica’ccxxi. 
Neste contexto, a psicologia do desenvolvimento tem sido cada vez mais criticada por sua 
supersimplificação dos contextos sociais das vidas das crianças, por seu descaso com as 
emoções e por seu apoio em idéias evolucionistas. Os psicólogos do desenvolvimento com 
freqüência são acusados de apresentar modelos de desenvolvimento ‘saudável’ social e 
culturalmente específicos como se fossem normas universais, e de estarem ligados ao 
controle e regulamentação repressivos de mães e crianças, por meio de várias formas de 
medições e testes. O desenvolvimentismo é visto cada vez mais, assim, como não-social, 
não-histórico e individualista. 
Desse ponto-de-vista mais crítico, há problemas significativos com o ‘mapa’ da 
mente humana que é oferecido por essas pesquisas. Os psicólogos cognitivistas que têm 
estudado as relações das crianças com as mídias continuam a crer que podem fazer distinções 
claras, por exemplo, entre cognição e afetividade (ou emoção), ou entre atitudes e 
comportamento, e que estas categorias podem ser facilmente avaliadas por meio de medidas e 
índices mecânicos e de testes psicométricos. Porém, a idéia de que tais fenômenos mentais 
existam, e que possam ser estudados isoladamente em relação aos processos sociais e 
interpessoais mais amplos, tem sido amplamente questionada. 
Do mesmo modo, muitas destas pesquisas implicitamente adotam uma visão 
racionalista do desenvolvimento da criança como uma progressão contínua em direção à 
 72
maturidade e à racionalidade adultas. No caso dos trabalhos sobre crianças e a mídia, a 
abordagem desenvolvimentista inevitavelmente privilegia certos tipos de julgamento (em 
especial julgamentos racionais, ‘críticos’) em detrimento de outros. Em contrapartida, tem 
havido muito pouco envolvimento com as questões relativas ao prazer (ou desprazer) e à 
fantasia. Nesta perspectiva, o telespectador crítico ideal é visto como se estivesse cercado 
por uma armadura de caráter racionalista que o protege das ilusões prazerosas promovidas 
pelas mídias. 
 
Públicos sociais 
É importante distinguir esse tipo de pesquisa, com ênfase psicológica, das análises 
de cunho mais sociológico do público infantil que recentemente começaram a emergir nos 
Estudos Culturais e da Comunicação, ainda que as duas tenham algumas coisas em comum. 
Também neste último campo tem havido em geral um afastamento da discussão sobre os 
efeitos, e uma preocupação maior com os significados e usos das mídias; mas tem também 
havido uma ênfase muito mais forte na localização dos usos das mídias no contexto amplo 
das relações sociais e interpessoais. 
O livro de Bob Hodge e David Tripp, Children and Television foi uma das primeiras 
tentativas de desenvolver esta abordagem do público infantilccxxii. Hodge e Tripp usam a 
abordagem de uma ‘semiótica social’, tanto para a análise da programação infantil quanto 
para os dados da audiência. Em comum com os construtivistas, eles consideram as crianças 
como produtoras ‘ativas’ de significado, e não como consumidoras passivas; apesar disso, 
(diferentemente da maioria dos psicólogos) eles também se interessam pelas restrições 
formais e ideológicas exercidas pelo texto. Enquanto a combinação de suas perspectivas 
teóricas nem sempre seja tão fácilccxxiii, o foco central do trabalho deles são os processos 
sociais e discursivos por meio dos quais o significado é construído, e as relações de poder 
que inevitavelmente os caracterizam. Como as crianças interpretam um desenho animado, 
por exemplo, e o que elas escolhem dizer a respeito dele quando estão na companhia de 
outras crianças ou de um adulto pesquisador, dependem da percepção que elas têm de sua 
própria posição social e das suas relações com os outros. 
Recentemente, desenvolvi e ampliei esta abordagem em uma série de estudos que 
investigam como as crianças definem e constroem suas identidades sociais através da fala 
sobre a televisãoccxxiv. Os julgamentos das crianças sobre gênero e representação, e os modos 
como elas recontam a narrativa da televisão, por exemplo, são analisados ali como processos 
inerentemente sociais; e o desenvolvimento do conhecimento sobre a televisão 
(‘alfabetização televisual’) e de uma perspectiva crítica sobre o meio são compreendidos a 
partir de suas motivações e objetivos sociais. Estes estudos usam uma forma de análise de 
discurso que enfatiza as funções da fala como uma forma de ‘ação social’ccxxv. Assim, por 
exemplo, analisei como o modo de os garotos falarem sobre as novelas – e as suas decisões 
sobre o que é ou não realista ou verossímil– são inseparáveis de seu próprio processo de 
construção da masculinidade; ou, para usar outro exemplo, como as discussões de crianças 
negras e brancas sobre ‘imagens positivas’ em programas como The Cosby Show (“A Família 
Cosby”) estão entrelaçadas com as dinâmicas das amizades inter-raciaisccxxvi. 
Paralelamente a esse trabalho, é possível identificar uma abordagem mais 
estritamente ‘etnográfica’ ou de observação, no estudo dos usos que as crianças fazem da 
mídia, tanto no contexto domésticoccxxvii,quanto no grupo de amigosccxxviii. O estudo de Marie 
Gillespie sobre o uso da televisão em uma comunidade sul-asiática em Londres, por exemplo, 
integra uma análise do papel da televisão na dinâmica familiar e do grupo de amigos com 
uma atenção voltada às respostas das crianças a gêneros específicos, tais como o telejornal e a 
novelaccxxix. As mídias são usadas aí em parte como um recurso heurístico para aquisição de 
 73
idéias sobre ‘outras’ culturas, ainda que (assim como nos trabalhos discutidos acima) haja 
uma ênfase auto-reflexiva sobre o papel do pesquisador, e sobre as relações de poder entre 
pesquisadores e seus sujeitos infantis, ênfase essa que está tipicamente ausente das pesquisas 
psicológicas. Por fim, existe hoje um volume crescente de pesquisa-ação em mídia-educação, 
focada na interação entre o conhecimento cotidiano dos alunos e o conhecimento mais 
‘acadêmico’ que eles encontram na educação formal. Nesse contexto, a escola não é vista 
como necessariamente inimiga da cultura juvenil (como fazem alguns pesquisadores dos 
Estudos Culturais), mas, ao contrário, como uma das arenas sociais fundamentais em que 
aquela cultura é construída e encenadaccxxx. 
Em um sentido amplo, então, essas pesquisas vêem as crianças como agentes ativos, 
ao invés de receptores passivos da cultura adulta. Elas se propõem a investigar as 
experiências das crianças em seus próprios termos, ao invés de julgá-las em termos da 
inabilidade delas em usar ou compreender as mídias de modos apropriadamente ‘adultos’. 
Em princípio, essas pesquisas também oferecem uma perspectiva sobre o público infantil que 
é significativamente mais ‘social’ do que aquela oferecida pela perspectiva psicológica 
descrita anteriormente. Ao buscarem dar sentido às mídias, as crianças são vistas como 
empregando uma gama de estratégias e discursos derivados de diferentes lugares e 
experiências sociais (por exemplo, em termos de classe social, gênero, etnicidade). A 
produção de sentido a partir das mídias é, portanto, compreendida aí como um processo 
complexo de negociação socialccxxxi. 
 
A realidade revisitada 
Nos próximos capítulos vou incorporar algumas das descobertas desse tipo de 
pesquisa à discussão que farei sobre alguns aspectos específicos das relações das crianças 
com as mídias. Neste estágio, uma discussão mais ampla dos exemplos que citei 
anteriormente sobre os julgamentos que as crianças fazem do realismo na televisão deverá 
indicar diferenças e semelhanças entre esta abordagem e a da psicologia cognitiva. 
Ao invés de compreender esses julgamentos simplesmente como fenômenos 
cognitivos , minha pesquisa sugere que eles podem atender a uma variedade de funções 
sociaisccxxxii. No contexto de grupos de discussão, condenar um programa por ser ‘irreal’ serve 
como poderoso recurso para definir o próprio gosto pessoal, e também para reivindicar uma 
determinada identidade social. Por exemplo, as freqüentes reclamações das garotas sobre 
enredos ‘irreais’ ou eventos em desenhos animados de ação e aventura muitas vezes refletem 
um desejo de se distanciarem daquilo que elas vêem como preferências ‘infantis’ dos 
meninos, e de assim reivindicarem sua própria maturidade (de gênero). Por outro lado, a 
rejeição dos garotos ao ‘não-realismo’ dos homens musculosos em programas como 
Baywatch pode refletir ansiedades a respeito da fragilidade de sua própria identidade 
masculina. A rejeição dos meninos ao melodrama ou a rejeição das meninas aos filmes 
violentos de ação podem ser vistas, então, como algo além da aplicação mecânica de 
julgamentos fixos de gosto: ao contrário, essas rejeições representam a reivindicação ativa de 
uma determinada posição social – uma reivindicação às vezes hesitante e incerta, e em muitos 
casos aberta ao questionamento. 
Além do mais, tais julgamentos também podem ter o papel de possibilitar aos 
espectadores a regulação ou mesmo a recusa retroativa de suas próprias reações afetivas – por 
exemplo, o medo ou tristeza. A especulação sobre os efeitos especiais nos filmes de terror ou 
a sua condenação como ‘irreais’, por exemplo, pode servir para prevenir a acusação de que se 
seja ‘moleirão’ o suficiente para achá-los assustadores, o que parece preocupar especialmente 
alguns garotos. Enquanto o prazer em tais filmes claramente depende, até certo ponto, da 
disponibilidade para ‘suspender a descrença’ – deixando-se assustar – esse tipo de discussão 
 74
posterior pode ser útil como um meio de aprender a ‘lidar’ com reações emocionais 
potencialmente indesejáveis. 
Entretanto, seria falso apresentar esses processos em termos de uma simples oposição 
entre razão e prazer, ou cognição e afeto. Há, sem dúvidas, um prazer considerável neste tipo 
de conversa crítica: ridicularizar a natureza ‘irreal’ da televisão, especular sobre ‘como ela é 
feita’ e brincar com a relação entre televisão e realidade parecem ser aspectos importantes da 
interação cotidiana da maioria dos telespectadores com o meio. Evidentemente esse tipo de 
conversa depende, até certo ponto, da negação do próprio prazer – ou desprazer - no 
momento da audiência. Mas a conversa também parece proporcionar um sentido de poder e 
controle sobre a experiência, e assim uma prazerosa sensação de segurança. 
Acima de tudo, é importante destacar que não se trata meramente de um fenômeno 
psicológico, que aconteça ‘dentro da cabeça das crianças’. Pelo contrário, esse tipo de 
conversa crítica atende a funções sociais ou interpessoais específicas no contexto do diálogo 
com os outros. O próprio contexto da pesquisa é crucial aqui. Qualquer adulto que faça 
perguntas sobre televisão às crianças – particularmente no contexto escolar, como tem sido o 
caso das minhas pesquisas – parece estar fazendo um convite a esse tipo de discurso crítico. 
A maioria das crianças sabe que muitos adultos não gostam que elas assistam televisão 
‘demais’, e elas estão familiarizadas com pelo menos alguns dos argumentos a respeito dos 
seus efeitos negativos sobre elas. Em alguns casos, estes argumentos são discutidos 
abertamente, embora as crianças geralmente gostem de escapulir a tais cobranças: seus 
irmãos menores até podem imitar o que assistem, mas certamente aquelas acusações não se 
aplicam a elas. Assim como os adultos parecem deslocar os ‘efeitos’ da televisão para cima 
das crianças – deixando subentendido que eles próprios não correm risco – da mesma forma 
as crianças tendem a sugerir que esses argumentos se aplicam apenas a outras crianças muito 
mais novas que elas. 
Em certo sentido, os julgamentos sobre a ‘irrealidade’ da televisão poderiam estar 
servindo a uma função semelhante, ainda que de modo mais indireto. Eles permitem que os 
falantes se apresentem como telespectadores ou telespectadoras sofisticados, capazes de ‘ver 
através’ das ilusões que a televisão oferece. De fato, esses julgamentos representam uma 
reivindicação de status social – e particularmente, neste contexto, uma reivindicação do status 
de ‘adulto’. Ainda que estas reivindicações possam se dirigir em parte ao entrevistador e às 
outras crianças do grupo, elas com freqüência parecem depender de uma distinção entre o 
falante e um ‘outro’ invisível: aqueles telespectadores que são imaturos ou tolos o suficiente 
para acreditar que o que assistem é real. 
É significativo que muitas vezes haja aí distinções claras em termos de classe social. 
De modo geral, as crianças de classe média nos meus estudos tendem mais a perceber o 
contexto da entrevista em termos ‘educacionais’, e a ajustar suas respostas de acordo com 
isso. Em contraste, muitas das crianças de classe trabalhadora tendem a usar o convite para 
conversar sobre a televisão como uma oportunidade para exibir seus próprios gostos e 
celebrar seus próprios prazeres junto com o grupo de amigos. Enquanto as crianças de classe 
média dirigem a maioria de suas falas ao entrevistador, respeitando o seu poder, isto 
acontece muito menos com as crianças de classetrabalhadora, para quem o entrevistador 
parece às vezes quase irrelevante. 
Assim, os julgamentos sobre a realidade da televisão são muito mais preocupantes 
para as crianças de classe média. Tanto quantitativa quanto qualitativamente, seus 
julgamentos são mais complexos e sofisticados do que aqueles da maioria de seus colegas da 
classe trabalhadora. Estes argumentos, porém, não devem servir de base para quaisquer 
conclusões simplistas sobre os níveis de ‘alfabetização midiática’ em diferentes classes 
sociais. Não é que as crianças de classe média sejam, de alguma forma, ‘mais críticas’ ou 
‘mais alfabetizadas em mídia’ do que as crianças de classe trabalhadora. O que parece é que 
 75
esses discursos críticos servem a funções sociais particulares que são mais importantes para 
elas nesse contexto, funções essas que têm a ver, pelo menos em parte, com a definição da 
sua própria posição de classe. Esses discursos lhes fornecem meios poderosos de demonstrar 
sua própria autoridade crítica, e conseqüentemente de se distinguir daqueles ‘outros’ 
invisíveis – a audiência de ‘massa’ – que supostamente correm mais riscos de sofrer os 
efeitos prejudiciais da televisão. 
Em minha pesquisa, este tem sido o caso, particularmente, de alguns meninos de 
classe média mais velhos (entre onze e doze anos de idade) entre os quais torcer o nariz para 
as debilidades da televisão popular parece conferir um status considerável entre o grupo de 
amigos. Costuma haver aí um alto grau de competição, com as crianças rivalizando para ver 
quem faz a gozação mais inteligente sobre os piores programas de auditório, ou quem imita 
de modo mais ridículo a canastrice dos atores nas novelas. É muito mais difícil admitir que se 
gosta de alguma coisa, com exceção dos documentários ou filmes ‘adultos’. Em muitos casos 
esses garotos só admitem assistir os programas ‘para ver como são besteira’ – apesar de os 
conhecerem tão bem como os fãs confessos. Em contrapartida, as garotas de classe média 
parecem muito mais confortáveis em reconhecer e celebrar seus próprios prazeres, 
principalmente quando estão em grupos somente femininos. Em grupos mistos, porém, e 
diante da competição dos garotos, com freqüência quem faz as críticas mais severas da 
televisão é que sai vencendo. 
Mesmo que o discurso crítico não seja explicitamente formulado em termos de 
classe, é visível uma linha muito tênue entre o menosprezo da televisão popular e o 
menosprezo de sua audiência. Como sugere Pierre Bourdieu, o discurso crítico representa 
uma forma valiosa de capital cultural e uma demonstração tangível de distinção socialccxxxiii. 
O processo de ‘tornar-se crítico’ faz parte do modo como as crianças de classe média buscam 
se diferenciar dos ‘outros’, e desta forma se socializam ativamente em direção a uma pertença 
de classe. Porém muita coisa se perde, ou ao menos é desvalorizada neste processo. Os 
discursos críticos sobre as mídias com freqüência assumem a forma de um cinismo 
intelectual e de uma sensação de superioridade em relação às ‘outras pessoas’. Eles podem 
resultar em uma ironia superficial ou mesmo em desprezo meramente complacente pelos 
prazeres populares. Talvez principalmente entre os meninos, para quem a expressão do prazer 
é aparentemente muito mais arriscada e problemática, o discurso do julgamento crítico 
parece oferecer a segurança de simular o exercício de um controle racional absoluto. 
Como este exemplo sugere, o julgamento das crianças a respeito da realidade daquilo 
que assistem na TV não pode ser visto como um processo puramente cognitivo ou intelectual. 
Ao contrário, é ao fazer julgamentos ‘críticos’ desse tipo que as crianças buscam definir suas 
identidades sociais, tanto em relação a seus amigos quanto em relação aos adultos. Assim, 
compreender as mídias não é simplesmente uma questão do que acontece na cabeça das 
crianças: é fundamentalmente um fenômeno social. 
 
Os limites da audiência ativa 
Em resumo então, três ênfases centrais podem ser identificadas nesta pesquisa. De 
modo geral, ela define a criança como um público ativo; ela busca compreender o ponto de 
vista da criança em seus próprios termos; e busca situar os usos que as crianças fazem das 
mídias dentro do contexto mais amplo das relações sociais e interpessoais. Apesar de todas 
essas características serem importantes e valiosas, há problemas e limitações em cada uma 
delas; ao identificá-los, buscarei indicar áreas para desenvolvimentos futuros. 
A visão das crianças como participantes ‘ativas’ no processo de produção de 
significado é compartilhada tanto pelos pesquisadores dos Estudos Culturais como pelas 
abordagens construtivistas delineadas anteriormente. O significado não é visto como inerente 
 76
ao texto, mas como produto de uma ‘negociação’ entre texto e leitor. As crianças são vistas 
como um público competente e sofisticado, em vez de simplesmente como vítimas passivas 
da manipulação da mídia. Nesse sentido, este tipo de pesquisa é um desafio importante a 
muitas das certezas que costumam circular no debate público. 
Entretanto, esta pesquisa tem sido excessivamente determinada por uma reação 
contra as ansiedades quanto aos efeitos negativos das mídias. Como resultado, ela corre o 
risco de adotar uma abordagem ‘centrada na criança’ muito simplista, na busca de celebrar a 
sofisticação da criança ‘conhecedora da mídia’ e de provar (infinitamente) que as crianças 
não são crédulas ou passivas como freqüentemente se diz que elas são. Num certo sentido, o 
termo ‘ativo’ (e a oposição entre ativo e passivo) tornou-se um tipo de slogan vazioccxxxiv. 
Há vários problemas óbvios nisso. Por exemplo, com freqüência se assume 
implicitamente que se as crianças são ‘ativas’, então de algum modo elas não serão 
influenciadas por aquilo que assistem ou lêem. Mas não é isto o que necessariamente ocorre. 
De fato, poder-se-ia argumentar que em alguns casos ser ‘ativo’ é estar mais aberto à 
influência. A propaganda contemporânea, por exemplo, cada vez mais parece se endereçar 
ao telespectador sofisticado e ‘crítico’, exigindo positivamente uma resposta ‘ativa’; e ao 
valorizar o telespectador desse modo, ela pode muito bem se revelar mais poderosa do que as 
abordagens mais antiquadas de ‘venda agressiva’ccxxxv. 
 Além disso, este tipo de celebração da sofisticação das crianças como usuárias de 
mídia pode nos levar a negligenciar o fato de que existem áreas sobre as quais elas precisam 
saber mais. É inevitável que haja lacunas no conhecimento das crianças, embora não 
necessariamente onde se supõe que elas estejam. Do mesmo modo, o conhecimento das 
crianças sobre as mídias vai se desenvolvendo conforme elas crescem, o que evidentemente 
depende das perspectivas críticas disponíveis a elas, tanto no interior das mídias como além 
delas. Simplesmente celebrar o ‘poder’ dos receptores é ignorar o fato de que as relações dos 
receptores com as mídias se desenvolvem e modificam – e ignorar a própria possibilidade de 
que elas possam ser modificadas. 
Em última instância, portanto, há o perigo de que o argumento da relação ‘ativa’ das 
crianças com as mídias – e inclusive de seus altos níveis de ‘alfabetização midiática’ – torne-
se um tipo de senso comum retórico. Para muitos pesquisadores (entre os quais me incluo), 
há aí uma coincidência desconfortável entre as construções do público infantil que circulam 
no interior da indústria e aquelas que têm sido cada vez mais apresentadas pela academia. 
Em ambos os contextos, a imagem romântica da criança ‘conhecedora da mídia’ começa a 
dominar o debate. Como tenho sugerido, tais conclusões podem facilmente confundir-se com 
os argumentos em torno da soberania do consumidor; neste processo, os pesquisadores que 
assumem este ponto de vista podem acabar se tornando meros apologistas das corporações 
comerciais. Ao invés de simplesmente explorar a natureza da ‘atividade’ das crianças 
enquanto público, precisamos dizer mais a respeito das suas conseqüênciase implicações, 
inclusive no campo das políticas culturais e educacionais. 
A segunda ênfase-chave neste tipo de pesquisa está em assumir o ponto de vista da 
criança. Diferentemente de boa parte das pesquisas psicológicas, esse trabalho não se propõe 
a julgar as crianças principalmente em termos do que elas não podem fazer – isto é, em 
termos das suas inabilidades de fazer julgamentos ‘adultos’ e racionais, por exemplo a 
respeito das diferenças entre os textos mídiáticos e o mundo real. Ao contrário, o objetivo 
aqui é compreender a experiência das crianças com as mídias em seus próprios termos, ao 
invés de nos termos dos adultos. Considerando-se o contexto mais amplo dos debates 
públicos a respeito das crianças e as mídias, essa ênfase é também de importância vital. Como 
já observei anteriormente, esses debates são quase que exclusivamente conduzidos entre 
adultos; muitos nem mesmo pensam que seja necessário verificar o que as crianças têm a 
dizer. Ainda assim, mesmo entre os que se colocam como representantes dos interesses das 
 77
crianças, existe um perigo real em assumir-se que os adultos possam facilmente falar ou agir 
em nome das crianças. 
Como venho indicando, há dificuldades significativas para se estabelecer evidências 
das experiências e visões das crianças. As estatísticas sociais têm uma inegável autoridade, 
mas muitas vezes dependem de um somatório das crianças que minimiza as diferenças entre 
elas. Em contraste, a apresentação e a análise de transcrições literais das falas das crianças – 
como fiz amplamente em minhas próprias pesquisas – é uma prática que tem óbvias 
limitações em termos de representatividade, embora muitas vezes possua um ar de 
autenticidade direta que está muito ausente dos resultados das pesquisas quantitativas ou 
relatos de experiências de laboratório. 
Assim mesmo, também aí há o perigo do romantismo. É certamente ingênuo 
acreditar que possamos algum dia assumir o ponto de vista da criança – ou que esse ponto de 
vista seja algo que simplesmente se revelará a nós caso façamos as perguntas certas. Este tipo 
de pesquisa às vezes assume implicitamente que os dados falam por si, e que a pesquisa 
meramente fornece um fórum no qual as vozes das crianças podem ser diretamente 
ouvidasccxxxvi. A idéia de que possamos simplesmente ‘ouvir as vozes das crianças’ desse 
modo é no mínimo insincera. 
Pelo menos em princípio, a análise de discurso oferece um modo de ir além da visão 
de que a fala seja um meio transparente de acesso ao que se passa na cabeça das 
pessoasccxxxvii. Nessa perspectiva, a fala é compreendida como uma forma de ação social: ela 
é usada para vigiar e construir identidades, para estabelecer e negociar relações interpessoais, 
e para reivindicar e exercer poder social. Portanto, longe de tomar aquilo que as crianças 
falam literalmente, essa abordagem compreende a fala como uma arena – ainda que muitas 
vezes tensa e disputada – na qual as crianças definem o que significa ser criança, ou ser 
criança em um determinado grupo social. Este é o tipo de análise que tenho desenvolvido em 
meu próprio trabalho, e que informa minha compreensão dos julgamentos infantis sobre a 
realidade da televisão mencionados acima. 
A limitação evidente desta abordagem, entretanto, é sua recusa a olhar além do nível 
do comportamento lingüístico e considerar as dinâmicas psíquicas ou emocionais das 
relações das crianças com as mídias. Além do mais, ao rejeitar o uso ‘realista’ da fala 
enquanto dado, pode-se em última instância tornar impossível a avaliação de sua veracidade 
(ou da ausência de veracidade) e assim de fazer qualquer inferência sobre sua confiabilidade 
ou precisãoccxxxviii. Paradoxalmente, devolver a fala ao seu contexto social desta maneira pode 
reduzi-la ao nível da mera performance. 
A terceira ênfase significativa neste tipo de pesquisa é a tentativa de analisar os usos 
e interpretações que as crianças fazem das mídias como parte de um padrão mais amplo de 
relações e processos sociais. As mídias são vistas aqui não como sendo ‘influência externas’, 
mas como estando inextricavelmente entrelaçadas nas relações e dinâmicas familiares e de 
grupos de amigos – relações necessariamente caracterizadas por desigualdades sociais e pelo 
exercício de poder social. Esta é uma questão- chave que diferencia os Estudos Culturais da 
psicologia convencional, mesmo quando ambos parecem compartilhar a ênfase na audiência 
‘ativa’. As crianças são vistas aqui não apenas como cognitivamente ativas, mas também 
como socialmente ativas – como agentes sociais por direito próprio. 
Em última análise, porém, a maior parte dessas pesquisas têm sido bastante 
superficial a respeito disto. Apesar das referências ocasionais à ‘etnografia’, são poucas as 
pesquisas sobre mídia que envolvem a imersão de longo prazo que caracteriza a etnografia no 
campo da antropologiaccxxxix. Boa parte delas se baseiam em uma convivência muito limitada 
com os próprios sujeitos da pesquisa: são feitas suposições de todo tipo a respeito das 
crianças e de como elas são representativas de categorias sociais particulares, com base em 
umas poucas entrevistas. 
 78
Neste sentido, ainda temos muito chão pela frente para chegarmos a desenvolver uma 
análise social mais ampla da audiência infantil. Há algumas conexões importantes a serem 
forjadas entre a pesquisa de mídia e infância e o volume crescente de pesquisas no campo da 
sociologia e história da infância ao qual faço referência em vários lugares deste livro. O foco 
da maior parte desse trabalho está nas experiências e relações sociais cotidianas das crianças, 
investigadas geralmente com o uso de métodos etnográficos ou métodos qualitativos. Como 
tenho destacado, a sociologia da infância coloca um amplo desafio teórico às tendências 
universalizantes da psicologia – às visões da infância como uma seqüência de idades e 
estágios descontextualizados - e à noção de que possamos compreender processos 
psicológicos (tais como cognição e afeto) isoladamente dos contextos sociais nos quais eles 
ocorrem. Mais que isso, os sociólogos da infância têm combatido o que compreendem como 
um modelo deficitário da infância – uma visão da infância como um tipo de ensaio para a 
vida adulta – o que está implícito não apenas nas noções cognitivas do desenvolvimento 
infantil, mas também nas teorias psicológicas da socializaçãoccxl. 
Por enquanto, contudo, este tipo de trabalho tem sido dominado por uma agenda 
sociológica comparativamente convencional: tem-se dado muito pouca atenção à cultura, às 
mídias, ou mesmo aos usos que as crianças fazem dos artefatos produzidos comercialmente, 
como os brinquedosccxli. Nesse processo, tem-se efetivamente negligenciado a natureza 
mediada da infância contemporânea. Como Sonia Livingstone propôs recentemente, a nova 
criança sociológica parece viver uma infância não-mediada: ou seja, é ‘uma criança livre de 
cuidados, brincando de pula-sela com os amiguinhos em um parque próximo; e não uma 
criança no seu quarto, escutando música com fones de ouvido e vendo televisão’ccxlii. 
Além disso, a sociologia da infância tem se caracterizado por alguns dos mesmos 
problemas que identifiquei com relação à pesquisa sobre as mídias. Em termos gerais, os 
sociólogos tentaram substituir o que vêem como a criança ‘incompetente’, construída pelos 
psicólogos, pela criança ‘competente’, que compreende o mundo em seus próprios termos e 
que é capaz de tomar decisões sobre sua própria vida. Porém, como tenho destacado, pode-se 
também questionar o valor dessa mera substituição das noções de incompetência infantil – a 
visão das crianças como adultos incompletos – pela visão oposta das crianças naturalmente 
competentes e sofisticadas. Também aqui reside o perigo de uma reação exagerada contra a 
marginalização e a depreciação implícita das crianças, atribuindo a elas um grau espetacular 
de auto-conhecimento e autonomia. 
 
Reconstruindo a audiência infantil 
Os debates contemporâneossobre o poder das mídias nos Estudos Culturais e de 
Comunicação têm se polarizado cada vez mais. De um lado, há uma forma de populismo, na 
qual a cultura popular é vista como um meio de ‘resistência’ contra as ideologias dominantes, 
e conseqüentemente como uma forma de ‘empoderamento’. De outro lado, há uma crescente 
reação contra a chamada ‘celebração do receptor’, e a tendência à queda em um pessimismo 
cultural generalizado. Quando a questão são as crianças e os jovens enquanto público, o 
debate tende a ser conduzido em termos das mesmas escolhas polarizadas. De um lado, está a 
noção tradicional das crianças como inocentes e vulneráveis à influência; do outro, a noção 
igualmente sentimental da criança como sofisticada, desenvolta na cultura urbana, crítica e 
competente por natureza. Ambas são construções sobre a infância, e ambas têm apelos 
emocionais genuínos, ainda que de tipos diferentes; mas em última instância ambas fazem 
uma supersimplificação da complexidade e da diversidade das relações das crianças com as 
mídias. 
Em termos de desenvolvimentos futuros, portanto, pode haver duas direções 
possíveis para a pesquisa da audiência infantil. Ambas, em certo sentido, são o projeto deste 
 79
livro. Por um lado, temos que reposicionar nossas análises sobre as relações das crianças com 
as mídias no contexto de uma compreensão mais ampla das suas vidas sociais, assim como da 
história recente da infância, como foi delineado no capítulo 4. Como espero indicar nos 
próximos capítulos, isso pode nos dar uma perspectiva bastante diferente do debate público 
contemporâneo a respeito destas questões, debate esse que, especialmente no caso das 
discussões sobre violência e comercialismo, parece ter se tornado excessivamente simplista e 
repetitivo. 
Por outro lado, precisamos também olhar as próprias mídias de forma mais ampla. A 
análise da recepção nos Estudos Culturais e de Comunicação tem se distanciado cada vez 
mais das questões relativas aos textos e instituições midiáticas; e dos dois lados muito do que 
se faz são caricaturas mútuas. Como argumentou Graham Murdock, os estudos de recepção 
‘precisam ir além dos atos de consumo e resposta imediatos, para analisar as estruturas 
subjacentes que fornecem os contextos e os recursos para a atividade do público’ccxliii. Sem 
querer negar a atividade criativa e interpretativa dos receptores, portanto, precisamos olhar 
também para as condições materiais e simbólicas mais amplas nas quais essas atividades 
ocorrem – olhar, por exemplo, para as restrições e possibilidades incorporadas aos textos 
midiáticos, e para as dinâmicas econômicas, institucionais e sociais que determinam formas 
específicas de consumo midiático. Como sugeri no capítulo 5, precisamos entender as 
relações entre tecnologias, instituições, textos e audiências, sem necessariamente priorizar 
qualquer um deles. 
À primeira vista, essas duas orientações parecem apontar em direções opostas. 
Entretanto, elas estão longe de ser incompatíveis. De formas diferentes, ambas sugerem a 
necessidade de irmos além da construção individualista da infância, e de trabalharmos em 
direção a uma análise social mais ampla. Nesse contexto, o público infantil não mais é visto 
em termos essencialistas – ou ativo ou passivo, ou competente ou incompetente. Ao 
contrário, nosso objetivo é identificar uma variedade de formas diferentes de atividade e 
competência que tendam aproximadamente a ocorrer sob determinadas condições sociais e 
culturais. 
Neste capítulo e nos dois que o precederam, busquei delinear os parâmetros mais 
amplos desta abordagem. Trata-se de uma abordagem que oferece um modo mais complexo – 
mas também, espero, mais produtivo – para a compreensão das mudanças contemporâneas 
nas relações das crianças com as mídias, do que aqueles identificadas nos capítulos 2 e 3. 
Nos próximos três capítulos, procuro aplicar essa abordagem de maneira mais detalhada. O 
capítulo 7 examina a eterna questão da violência nas mídias; o capítulo 8, o comercialismo e 
a propaganda; e o capítulo 9, as questão da política e da cidadania. Cada um desses capítulos 
se fundamenta em meus próprios estudos empíricos, situados por suas vez no contexto das 
pesquisas e debates mais amplos no campo. Em cada caso, focalizo as implicações do acesso 
cada vez maior das crianças aos mundos sociais e culturais que até há pouco tempo estavam 
confinados aos adultos. Ao discutir as experiências das crianças com esses mundos, e os 
debates que as cercam, busco fornecer uma base mais construtiva tanto para a pesquisa futura 
quanto para as políticas culturais e educacionais. 
 
CAPÍTULO 7 
As Crianças assistindo à violência 
Discutir a questão da violência neste contexto talvez signifique nos rendermos a algo 
tediosamente inevitável. Na grande maioria dos debates públicos sobre as relações das 
crianças com as mídias, a violência virou uma obsessão cada vez maior, parecendo muitas 
vezes excluir qualquer outro aspecto ou preocupação interessante. Dentro do amplo conjunto 
de experiências que a mídia oferece às crianças, a violência parece ser vista como a instância 
 80
definidora – o fenômeno que de alguma forma sintetiza tudo o que realmente precisamos 
saber a respeito do lugar que as mídias ocupam nas vidas delas. 
Ao longo das duas últimas décadas a violência na mídia tem estado ligada a um 
‘pânico moralista’ geral a respeito da infânciaccxliv. Nesse processo, as questões relativas ao 
impacto das mídias acabam sendo freqüentemente enredadas no debate sobre o impacto dos 
fatos reais. A violência na mídia é muitas vezes entendida como sendo, ela própria, uma 
forma de violência contra as crianças, cometida por adultos que têm a sede de lucros como 
única motivação. Para muitos, a violência na mídia é uma forma de abuso infantil por meios 
eletrônicos, e que não tem diferença em relação aos abusos e à crueldade física ccxlv. 
Ao mesmo tempo, claro, a violência na mídia é rotineiramente apontada como sendo 
a causa primordial de uma onda crescente de criminalidade juvenil. São raras as reportagens 
sobre crimes violentos que não tentam, em algum momento, jogar a responsabilidade sobre as 
mídias. A cobertura do assassinato do diretor de uma escola de Londres, Philip Lawrence, 
por exemplo, e a do grande número de homicídios aleatórios nas escolas dos Estados Unidos 
– sem falar das chacinas em Dunblane e Port Arthur na Austrália – fizeram muitas 
especulações sobre a influência das mídias, apesar de esta não ter qualquer relevância para as 
circunstâncias em que aqueles crimes foram cometidos. 
O furor em torno do impacto dos vídeos violentos que se seguiu ao assassinato de um 
menino de 2 anos, James Bulger, por dois garotos de dez anos em 1993, talvez seja o 
exemplo mais espetacular deste tipo de ‘pânico midiático’ na Grã-Bretanha, e é certamente o 
que foi mais amplamente discutidoccxlvi. Neste exemplo, assim como em muitos outros, a 
mídia foi claramente usada como um conveniente bode expiatório para evitar explicar fatos 
complicados demais, ou simplesmente horríveis demais. E isso, apesar de não haver qualquer 
prova de que os assassinos do menino tivessem sequer assistido ao filme que para muitos os 
tinha inspirado, e muito menos de que o assassinato tenha mesmo sido um crime por 
imitaçãoccxlvii. 
Este tipo de conexão entre uma mídia ‘ruim’ e a criminalidade violenta tornou-se 
parte de um senso-comum demonizante ao qual muitos políticos e outras pessoas recorrem 
com facilidade quando procuram demonstrar autoridade e responsabilidade morais – 
aproveitando para afastar a atenção pública de causas mais profundas da violência na 
sociedade. As propostas de regulamentação da violência na mídia tendem a enfrentar menos 
oposição do que as tentativas de lidar com outras questões que contribuem mais 
significativamente para as causas de crimes violentos, tais como a pobreza e a desintegração 
familiar – ou como, nos Estados Unidos, o fácil acesso a armas. Mas talvezo mais 
impressionante seja o sucesso obtido por certas formas de cristianismo evangélico, em muitas 
sociedades aparentemente seculares, na definição dos termos do debate público sobre estas 
questõesccxlviii. 
Como já observei, tais ansiedades costumam conduzir a clamores por um controle 
mais rígido – pelo aumento da censura e de outras formas de regulamentação centralizada. Se 
acrescentarmos as crianças a essa equação, ela ganhará uma força retórica ainda maior. 
Enquanto a censura dirigida aos adultos poderia ser rejeitada como sendo autoritária ou por 
infringir as liberdades individuais, o apelo à proteção das crianças encontra muito menos 
resistência. Particularmente nos Estados Unidos, a noção de infância tem cada vez mais 
substituído a noção de ‘segurança nacional’ como justificativa para a censura, e uma das 
causas disso é sua capacidade de angariar apoio político. As crianças, aparentemente 
pervertidas por uma ‘dieta’ de sexo e violência nas mídias, acabam sendo vistas, 
implicitamente, como uma ameaça interna à manutenção da ordem social. 
 81
Pânico midiático? 
Como muitos críticos já demonstraram, esse tipo de ‘pânico midiático’ tem uma 
longa história: ela é pelo menos tão antiga quanto o filósofo grego Platão, que propunha banir 
as obras dos dramaturgos da sua República ideal, por suas influências perniciosas sobre as 
impressionáveis mentes infantisccxlix. Nos tempos modernos, estas ansiedades se misturaram 
às preocupações mais gerais com o iminente colapso da ordem social ao alcance das ‘massas’ 
indisciplinadas - e em particular, com as tendências criminosas atribuídas aos jovens da 
classe trabalhadora urbana, especialmente os do sexo masculinoccl. Tais argumentos, assim 
como as lamúrias generalizadas a respeito da ‘morte da infância’, são muitas vezes motivadas 
pela nostalgia de uma Idade de Ouro imaginária que sempre parece ter existido duas gerações 
atrás. 
Até certo ponto, tais preocupações podem ser vistas como manifestação de um 
desdém elitista pela ‘cultura de massa’, e do menosprezo pelo ‘rebanho de iguais’ com o qual 
ela é identificada. Mas essas preocupações também refletem o medo das forças ‘irracionais’ 
que aparentemente seriam liberadas por essas novas mídias. Desde as primeiras críticas ao 
jornalismo popular e ao hábito perigoso da leitura de romances, até os receios que hoje 
cercam os jogos de computador, sempre houve uma preocupação com os perigos da 
superestimulação, da sensualidade e do sensacionalismo. Tanto em termos sociais como 
psicológicos, as ansiedades provocadas pelas mídias podem ser vistas como reflexo de um 
medo genérico da perda do controleccli. 
Não podemos pensar, porém, que estas preocupações sejam atemporais. Ao 
contrário, elas assumem formas bastante diferentes, dependendo das circunstâncias históricas 
particulares. Como já sugeri, a crescente intensidade desse debate precisa ser vista à luz do 
próprio status da infância, cada vez mais discutido e problemático. Na década de 1980, a 
Grã-Bretanha assistiu a uma série de ondas de pânico moralista, relacionadas uma à outra, a 
partir de coisas que eram percebidas como ameaça às crianças: assassinatos em série, 
pornografia infantil, seqüestros cometidos por pedófilos e rituais satânicos envolvendo abuso 
infantil, todos apresentados como se fossem uma epidemia.cclii. Tudo isso funcionou como um 
foco poderoso para as atividades de grupos de interesses bem diferenciados e mesmo para 
alianças entre eles. A questão do acesso das crianças à violência nas mídias tem servido como 
veículo para campanhas semelhantes, dando visibilidade aos mesmos ‘empreendedores da 
moral’. Aqui também, a ênfase específica nas crianças serve como uma forma poderosa de 
carrear apoio para campanhas de caráter muito mais amplo; a intromissão do estado na esfera 
privada torna-se bem mais agradável quando é proposta em nome das criançasccliii. 
É possível detectar nesse debate algumas construções de infância bastante 
contraditórias. De um lado, obviamente, está a noção pós-romântica da criança inocente e 
vulnerável, que precisa ser protegida das influências não-naturais do mundo adulto. Por baixo 
disso, entretanto, está uma visão muito mais antiga, a da criança como portadora do pecado 
original. Nessa perspectiva, as crianças são ‘naturais’ não em um sentido positivo, mas em 
um sentido negativo: elas possuem ímpetos de violência, sexualidade, e comportamento anti-
social que são difíceis de controlar – e que influências ‘irracionais’, como as da mídia, teriam 
o poder de liberar. Também aqui o caso do menino Bulger é um exemplo muito interessante, 
inclusive porque o filme que se alegou ter levado os assassinos a cometerem o crime – 
Child´s Play 3 (“Chucky, O brinquedo assassino”) – toca em ansiedades bastante reais em 
torno da questão da infância e mostra uma hostilidade considerável diante da autoridade 
adultaccliv. 
Mas a noção de ‘pânico moralista’ pode ser usada de forma equivocada. De fato, o 
debate em torno da violência nas mídias só raramente se eleva ao nível do ‘pânico’ – se 
compreendermos ‘pânico’ como algo irracional ou incontrolável. Na verdade, o uso do termo 
 82
às vezes parece significar que o público em geral está sofrendo de um tipo de falsa 
consciência, artificialmente criada por um jornalismo irresponsável e sensacionalista. 
Certamente há situações em que as preocupações com a violência nas mídias são 
provocadas e usadas com objetivos políticos mais amploscclv. Porém, isto não seria possível 
ou significativo se elas não se ligassem de alguma forma a ansiedades pré-existentes. A 
preocupação com a violência nas mídias é poderosa também porque se nutre de esperanças e 
medos genuínos que sempre fizeram parte do cuidado que as famílias dedicam aos filhos. 
Evidentemente, não devemos supor que as manchetes e os editoriais na imprensa popular 
sejam necessariamente um sinônimo da opinião pública: precisamos aprender muito mais 
sobre as formas como esses argumentos são interpretados pelos próprios pais e pelas 
criançascclvi. Mas seria no mínimo arrogante deduzir que as tentativas dos pais de proteger 
seus filhos daquilo que julgam prejudicial sejam meros frutos de um ‘pânico’ irracional. 
Além disso, as preocupações contemporâneas sobre o impacto da violência na mídia 
sobre as crianças precisam ser reconhecidas como uma resposta genuína às mudanças nas 
próprias mídias. Como já comentei, as novas tecnologias de mídia – especialmente o vídeo e 
a internet - são menos suscetíveis ao controle centralizado do que as tecnologias que as 
precederam, como o cinema e a televisão aberta. Não pretendo sugerir que os jovens no 
passado não tivessem acesso a materiais violentos (ou mesmo explicitamente sexuais), mas é 
difícil negar que esses materiais sejam hoje muito mais acessíveis às crianças de todas as 
classes sociais, e cada vez mais cedo. Em um sentido fundamental, estas novas tecnologias 
tiram o controle do estado e o colocam nas mãos da família – que nem sempre é capaz ou 
suficientemente responsável para exercê-lo. Este debate, portanto, liga-se às tentativas mais 
gerais de jogar a culpa da aparente crise de disciplina entre os jovens sobre uma suposta 
permissividade na criação dos filhos. 
Na realidade, as evidências estatísticas sobre qualquer aumento na quantidade de 
violência na mídia estão longe de ser conclusivascclvii. Mesmo assim, a natureza destas 
representações, em si, tem inegavelmente mudado. Ao se comparar os filmes de terror 
modernos com os clássicos do gênero, ou os filmes policiais contemporâneos com os 
originais da década de 1930, percebe-se claramente que a violência na tela tornou-se muito 
mais gráfica e espetacularizada. De fato, essas mudanças começaram várias décadas atrás, 
com filmes como The Wild Bunch (“Meu Ódio será sua Herança”) (1969) e The Exorcist (“O 
Exorcista”) (1973), freqüentemente considerados ‘divisores de água’ em seus respectivos 
gêneros. A origem dessas tendências está na revisãodo Código de Produção Hays, em 
Hollywood e às inovações na tecnologia de efeitos especiais; está também (ainda que talvez 
de modo mais restrito) na emergência do cinema como uma ‘mídia de diretor’cclviii. As cenas 
de tiroteio, por exemplo, tornaram-se muito mais realistas, especialmente no modo como 
exibem as conseqüências dos ferimentos – apesar de ser discutível que isso tenha ou não 
resultado em uma ‘glorificação’ da violência (ou, mais ainda, que tenha provocado efeitos 
sobre comportamentos específicos). 
A popularidade dessas características não se restringe de modo algum ao material 
‘adulto’. O terror, por exemplo, tem cada vez mais se tornado o gênero predileto de muitas 
crianças, tanto meninas quanto meninos; e isto é igualmente visível também nas preferências 
das crianças quanto às ‘velhas’ mídias, como indica o extraordinário sucesso comercial de 
séries de livros infantis de terror, como Goosebumps e Point Horrorcclix. Na promoção 
mercadológica de séries como estas, as fronteiras entre os ‘livros infantis’ e as obras mais 
‘adultas’ de autores como Stephen King estão cada vez mais embaralhadas. 
Por todas estas razões, portanto, é importante prestarmos atenção às relações das 
crianças com a violência nas mídias, ao invés de simplesmente descartá-las como sendo mais 
um caso de pânico moralista irracional. Porém, mesmo que a violência – ou pelo menos o 
 83
acesso das crianças a ela – esteja aumentando, como isso poderia ser explicado? Por que as 
crianças decidem ativamente se expor a tais materiais, e o que elas fazem com eles? 
Alguns críticos sugerem que os públicos em geral na verdade preferem assistir a 
filmes e programas de televisão sem violência. Os índices de audiência apontam de forma 
consistente para uma tendência que o crítico Michael Medved chama, em tom de aprovação, 
de ‘entretenimento pró-familiar’cclx. Porém, comenta-se também que o aumento aparente da 
violência na mídia é orientado pelo mercado global: a violência serve como um ingrediente 
dramático que não necessita de tradução e é instantaneamente compreensível pela maioria das 
culturascclxi. 
Outros têm considerado a popularidade da violência na mídia como um sintoma de 
mudanças mais amplas no Zeitgeist. Para eles, a popularidade da violência reflete as 
ansiedades provocadas pelas mudanças nos papéis masculinos e femininos, ou por 
sentimentos de insegurança mais gerais, induzidos pelo ritmo acelerado da mudança social e 
tecnológica. Outros, ainda, acreditam que essa popularidade represente o retorno a uma 
forma reprimida de paganismo, uma tentativa de reconexão com a natureza e com as verdades 
sensuais do corpo que teriam sido perdidas cclxii. 
O problema fundamental desses argumentos, assim como da maioria das pesquisas e 
debates sobre o tema de modo geral, é a idéia implícita de que a ‘violência’ seja um 
fenômeno singular. Como ela é o ingrediente comum que aparentemente une gêneros tão 
díspares quanto o terror, a ficção científica, os filmes de ação, jogos de computador, 
desenhos animados e séries policiais, imagina-se que a violência explique a popularidade de 
todos eles. Porém, mesmo se nos limitarmos aos tipos de filmes que são mais recorrentes 
nestes debates, ficará claro que as funções, conseqüências e representações da violência – e 
por extensão qualquer efeito possível que ela possa ter – são muito diversas. Equacionar a 
violência em Die Hard (“Duro de Matar”) com aquela em Henry, Portrait of a Serial Killer 
(“Henry, o retrato de um assassino”), Pulp Fiction ou Evil Dead (“A Morte do Demônio”) é 
negligenciar seus objetivos e significados. Como afirma Martin Barker, esta fusão ignora as 
diferenças de formas, contextos e narrativas. Como resultado, diz ele, “ a expressão 
‘violência na mídia’ é sempre usada de modo a sugerir acima de tudo a imagem de um caos 
sem motivo, a qual pode se chamar facilmente de ‘gratuita’”.cclxiii. E nesse processo 
simplesmente se ignora a questão de como os públicos interpretam a violência – ou uma 
questão ainda anterior: se a razão pela qual eles escolhem assistir a esses materiais será 
mesmo a violência. 
Se a violência na tela mudou em si, precisamos nos perguntar se mudou também a 
percepção que os públicos têm da violência. Os relatos sobre os primórdios do cinema 
descrevem como o público gritava e corria para fora do cinema quando se deparava com 
cenas de colisões de trens ou queda de edifícios; ou até mesmo, em tempos mais remotos, 
como os espectadores desmaiavam nos momentos mais melodramáticos das tragédias 
jacobinascclxiv. Na medida em que as convenções de realismo mudaram, o mesmo ocorreu 
com as expectativas do público; e também seria razoável esperar que, com o tempo, a idade 
em que os espectadores se tornam capazes de ‘lidar’ com materiais potencialmente 
perturbadores tenda a diminuir. O excesso, o humor e a cafonice que caracterizam muitas das 
representações contemporâneas de comportamentos violentos precisam ser compreendidos 
nessa perspectiva: eles permitem que os filmes provoquem medo e excitação e ao mesmo 
tempo permitem que o público ria dos exageros e dos fatos inverossímeis que retratamcclxv. 
Essa atitude aparentemente distanciada com relação à violência, ao invés de ser tomada como 
evidência de uma ‘dessensibilização’, poderia muito bem ser vista como um reflexo da 
sofisticação dos públicos contemporâneos. 
Ainda assim, conforme os debates comentados nos capítulos 2 e 3, a questão da 
relação das crianças com a violência na mídia parece representar algo muito maior e mais 
 84
difícil de definir. O fantasma da criança depravada e brutalizada pela violência na mídia 
passou a representar uma enfermidade social generalizada, um declínio terminal de nossa 
civilização. Como resultado, ficou muito mais difícil compreender essa relação em seus 
próprios termos. Se quisermos responder efetivamente ao aparente entusiasmo das crianças 
pela violência na mídia, precisaremos olhar mais de perto o modo como elas a interpretam e 
vivem, separando essa questão do conjunto maior de preocupações que ela hoje incorpora e 
representa. 
Os limites dos ‘efeitos’ 
É aqui, claro, que a pesquisa de audiência deveria desempenhar um papel 
significativo. Porém, a pesquisa sobre as relações das crianças com a violência na mídia 
permanece dominada por uma compreensão bastante redutora dos seus efeitos. Se podemos 
conceber a violência na mídia como causadora de muitos tipos de efeitos – gerar o medo, por 
exemplo, ou encorajar crenças específicas a respeito da natureza dos crimes e da autoridade – 
a preocupação central das pesquisas tem sido a capacidade da violência midiática de produzir 
comportamento agressivo, particularmente entre as crianças. 
Aqui novamente as crianças são definidas em geral em termos do que lhes falta – isto 
é, em termos de sua inabilidade de se conformarem às normas dos adultos. A violência 
imitativa é implicitamente vista como algo que emerge da incapacidade das crianças de 
distinguir entre realidade e ficção. As crianças copiam o que vêem na televisão - argumenta-
se - porque lhes falta a experiência e a capacidade intelectual que lhes permitiriam ver além 
da ilusão de realidade oferecida pelo meio. Elas tomam o que assistem como um reflexo fiel 
do mundo, como um guia confiável de comportamento, simplesmente porque são imaturas 
demais para dar-se conta disso. 
Nesse contexto, a ‘violência’ é tipicamente vista como uma propriedade quantificável 
da ‘mensagem’ ou do ‘estímulo’, e as experiências controladas em contextos artificiais de 
laboratório são consideradas as únicas formas capazes de demonstrar cientificamente como é 
que os espectadores respondem a ela. Mesmo nos casos em que os pesquisadores usaram 
questionários ou métodos mais naturalistas, a violência – tanto na mídia como no cotidiano – 
é geralmente abstraída dos contextos em que ocorre e das motivações dos agentescclxvi. E em 
muitas destas pesquisas, as correlações entre a assistênciae o comportamento continuam a 
ser vistas como evidências de uma causalidade. 
Existe hoje um volume crescente de críticas aos problemas metodológicos e teóricos 
destas pesquisas, e muitas análises têm ressaltado a natureza incipiente e muitas vezes 
contraditória das suas conclusões cclxvii. Enquanto isso, como indiquei, a pesquisa a respeito de 
outros aspectos das relações das crianças com as mídias – mesmo no contexto da psicologia 
dominante – já chegou muito além dos pressupostos behavioristas que continuam a embasar a 
grande maioria das pesquisas sobre a violênciacclxviii. 
Na compreensão de muitos outros pesquisadores, essa abordagem não consegue 
sustentar sua hipótese central: a de que a violência na mídia torne as pessoas mais agressivas 
do que elas teriam sido de outro modo, ou a de que ela faz com que as pessoas cometam atos 
de violência que não teriam de outro modo cometido. A violência na mídia pode influenciar 
a forma ou o estilo de tais atos, mas não é em si causa suficiente para provocá-los. Pesquisas 
sociológicas a respeito da violência na vida real consistentemente sugerem que suas causas 
têm múltiplos fatores, e muito raramente confirmam os clamores exagerados sobre o impacto 
das mídias cclxix. Nesse contexto, buscar provas dos ‘efeitos da violência na mídia’ é insistir 
em fazer perguntas simplistas a respeito de temas sociais que são muito complexos. 
Entretanto, por vários motivos, esse tipo de estudo dos ‘efeitos’ continua sendo muito 
popular nos Estados Unidos. Isto resulta em parte da predominância, naquele país, de 
 85
tradições acadêmicas empiricistas e relativamente conservadoras, que foram legitimadas, elas 
próprias, pelos primeiros estudos experimentais sobre a violência na televisão; e essas 
tradições também refletem um conjunto particular de relacionamentos institucionais entre 
pesquisa acadêmica, governo e as indústrias da mídiacclxx. Entretanto, a proeminência 
continuada de tais pesquisas deve também ser um sintoma da paralisia política bastante 
estabelecida que rodeia a questão do controle de armas em uma nação onde há mais armas do 
que pessoas. Os pesquisadores em outros países podem com razão se sentir irritados pelo 
modo como as pesquisas dos Estados Unidos são citadas rotineiramente pelos propagandistas 
contra a violência na mídia como se elas fossem aplicáveis universalmente, um processo que 
ironicamente ecoa o que George Gerbner e outros vêem como o imperialismo orientado pelo 
mercado da própria violência na mídiacclxxi. 
Como isso deixa implícito, boa parte da motivação para questionar-se a pesquisa dos 
efeitos tem sido política, ao invés de puramente metodológica ou teórica. Os 
questionamentos emergem nem tanto devido às preocupações “acadêmicas”, e sim em reação 
aos modos como a pesquisa tem sido usada no contexto do debate público e na formulação de 
políticas, para justificar uma censura mais rigorosa e desviar a atenção de causas muito mais 
arraigadas de fenômenos tais como a criminalidade violentacclxxii. 
É claro que questionar os pressupostos da pesquisa de efeitos não significa negar o 
fato de que a mídia tenha um grau de poder para influenciar o público. Significa apenas 
sugerir que a natureza daquele poder e de sua influência não pode ser vista como um processo 
unidimensional de causa e efeito. Entretanto, a maioria dos pesquisadores que questiona essa 
abordagem têm estrategicamente evitado o tema da violência em seus próprios trabalhos, e 
nesse sentido eles podem ter contribuído para a polarização que atualmente caracteriza o 
debate. Desafiar simplesmente as limitações metodológicas da pesquisa de efeitos e insistir 
nas complexidades teóricas do tema é uma estratégia essencialmente negativa. Nos 
discussões acaloradas que ocorrem em torno de eventos como o assassinato de James Bulger, 
tais argumentos são rapidamente incorporados à lógica excludente - “ou isto, ou aquilo”. 
Estamos mesmo dizendo que a mídia não tem efeitos? Podemos provar isso? Já que não é 
possível prová-lo, então pareceria melhor não nos arriscarmos a sair do terreno seguro. É 
como se esta lógica fosse impossível de ser superada – e desafiá-la fosse apenas uma 
‘enrolação’ acadêmica. 
Esta situação se torna mais complicada porque muitos dos que desafiam as 
afirmações simplistas a respeito dos efeitos imitativos também desejam apontar a influência 
da violência na mídia em outras áreas. Muitos questionam a idéia de que a violência 
televisiva leve diretamente a atos de agressão física, mas ao mesmo tempo argumentam que 
ela encoraja uma ideologia militarista ou formas tradicionais de masculinidadecclxxiii. Mesmo 
que se tratem de tipos diferentes de ‘efeitos’ essas tensões e aparentes contradições não 
podem ser resolvidas com facilidade. 
Diante da urgência e do fervor das campanhas em favor da censura, fica 
extremamente difícil articular uma alternativa positiva, especialmente uma alternativa que 
tenha aceitação no debate popular. Defender a violência na mídia com base na ‘liberdade de 
expressão’ ou fundamentar os próprios argumentos com apelos à ‘qualidade artística’ é 
praticamente garantir que não se seja levado a sério. E questionar a censura, como alguns têm 
tentado fazer, com base em que ela é inevitavelmente ‘política’ – e que a censura da violência 
pornográfica deveria ser equiparada, por exemplo, à censura das notícias sobre a Irlanda do 
Norte – é pressupor coisas demais. No que, então, poderia se basear uma abordagem 
alternativa? 
 86
Falando de violência 
Ao invés de pressupormos que a violência seja uma categoria objetiva – que poderia 
ser medida simplesmente contando a freqüência com que ocorre – poderíamos começar a 
investigar o que o próprio público define como violento. As pesquisas sugerem que haja aí 
uma significativa variação. Os estudos descobriram, por exemplo, que as meninas percebem 
certas ações na televisão como ‘violentas’, e os meninos, nãocclxxiv; que os telespectadores 
britânicos acham mais grave a violência nos programas britânicos do que nos produzidos nos 
Estados Unidoscclxxv; e que a mesma ação pode ser percebida como violenta em um contexto 
(um drama realista, por exemplo), mas não em outro (uma série humorística, por 
exemplo)cclxxvi. São também previsíveis as diferenças entre as crianças e os adultos – ou pelo 
menos entre elas e os pesquisadores adultos. Nesse sentido, os estudos descobriram que as 
crianças em geral não percebem os desenhos animados como violentos, apesar de eles 
costumarem estar no topo das listagens de programas mais violentos feitas pelos 
pesquisadores cclxxvii. Do mesmo modo, a ‘violência’ que tanto preocupa os críticos adultos 
dos jogos de computador é com freqüência tão ritualizada e onírica que os próprios jogadores 
não percebem nela qualquer analogia significativa com os comportamentos da vida realcclxxviii. 
Há até quem argumente que a palavra ‘violento’ é predominantemente usada por pessoas que 
não conhecem bem os gêneros e que desejam julgá-los de forma negativa. O termo não é 
comumente usado por fãs desses gêneros, exceto com o sentido de ironiacclxxix. 
É verdade que as pesquisas freqüentemente apontam reais preocupações dos públicos 
com relação à incidência e aos efeitos da ‘violência na mídia’; mas o que eles realmente 
querem dizer com isto é uma questão mais complexa. Nas pesquisas que faço sobre a opinião 
de pais e crianças sobre estas questões, encontro bastante esse tipo de argumentocclxxx. Os dois 
grupos tendem a definir a violência televisiva como uma ‘má influência’ – ainda que má para 
os outros, não para eles mesmos. Precisamos, assim, reconhecer as funções sociais e as 
motivações de tais argumentos, ao invés de simplesmente tomá-los literalmente. 
Para os pais, falar a respeito dos efeitos negativos da televisão parece atribuir um 
status social considerável a quem fala. Lamentar os efeitos prejudiciais da violência na 
televisão e defender a necessidade de um controle mais severo pareceuma forma muito 
efetiva de aparecer na posição de ‘pais e mães preocupados’. Tais respostas - é claro - 
tendem a ser produzidas em situações nas quais as pessoas são endereçadas e definidas como 
‘pais e mães’, sobretudo em resposta às investigações sérias de pesquisadores acadêmicos. 
Como numerosos estudos têm mostrado, esses encontros são atravessados por uma 
‘tendenciosidade ligada ao desejo de status social’, o que leva pais e mães a assumir posições 
de ‘princípios’, e a superestimar o nível de controle que exercem sobre seus filhoscclxxxi. 
Entretanto, muitas vezes é difícil sustentar esse tipo de generalização a respeito dos 
efeitos da mídia diante das evidências disponíveis, sobretudo a respeito dos próprios filhos. 
Os relatos idealizados dos pais sobre seu próprio controle freqüentemente começam a 
desmoronar quando se pede que a pessoa descreva a realidade e as negociações da vida 
familiar. Pais e mães costumam reconhecer que suas crianças imitam o que assistem na 
televisão; porém, tentarão deixar implícito que para elas tal comportamento é uma forma de 
‘brincadeira’, que dificilmente seria levada adiante na vida real. É claro, dizem, que os 
filhos dos outros poderão ser levados a cometer atos imitativos de violência; mas não 
apontam a mídia como culpada, e sim a forma como os pais criam seus filhos, que 
consideram inadequada. Quando se conversa com as crianças, é comum ocorrer um 
deslocamento semelhante. É claro que as crianças de dez anos de idade dirão que a violência 
na televisão pode causar violência na vida real. Mas nós não somos influenciados pelo que 
assistimos, dizem: só as criancinhas é que copiam o que assistem. A gente pode até ter feito 
 87
isso quando éramos menores, agora não. Mas quando você conversa com as ‘criancinhas’, a 
história é a mesma: ‘as outras pessoas’, ao que parece, estão sempre em outro lugar. Há um 
tipo de regressão infinita aqui, na medida em que as crianças de cada faixa etária reivindicam 
já ter chegado à idade da razão vários anos antes. Tais relatos a respeito dos efeitos das 
mídias fazem parte geralmente de uma ‘narrativa do eu’ mais ampla, na qual as crianças 
constróem uma identidade positiva por meio da negação da imaturidade de seu “eu” mais 
jovem. 
Em minha pesquisa, tanto as crianças como pais e mães citaram regularmente casos 
como o assassinato de James Bulger ou o massacre de Hungerfordcclxxxii como provas da 
influência negativa da violência na mídia – apesar da falta de evidências que caracteriza esses 
casos. Tais argumentos, porém, muitas vezes estão envoltos por um grau considerável de 
ambivalência, subjetividade e incoerência. No caso da morte de Bulger, por exemplo, a 
maioria dos indivíduos na minha pesquisa duvidaram da idéia de que o filme “Chucky, o 
brinquedo assassino 3” havia sido o grande culpado; e muitas das crianças ridicularizaram a 
idéia, sugerindo que ela era sintoma da hipocrisia e da histeria da imprensa popularcclxxxiii. Ao 
contrário de grande parte da cobertura jornalística, as crianças insistiram na necessidade de se 
explicar os crimes levando em conta influências sociais e psicológicas mais amplas. 
Em última análise, entretanto, as preocupações de pais, mães e crianças foram 
bastante diferentes daquelas dos políticos e outros comentaristas, e também da maioria dos 
pesquisadores nesse campo. A preocupação central entre os pais e as mães em minha 
pesquisa, pelo menos em relação a suas próprias crianças, não era a de que elas se tornassem 
agressivas por influência do que assistissem, mas sim que elas ficassem emocionalmente 
perturbadas ou aflitas. Do mesmo modo, crianças mais velhas concordaram que as mais 
jovens não deveriam ser expostas a certos programas, pois teriam dificuldade em lidar com 
eles. Nesse sentido, um ‘vídeo negativo’ foi definido não como aquele que faria as crianças 
agirem mal, mas como aquele que talvez as fizesse ter pesadelos. 
Como essas observações sugerem, os discursos sobre os efeitos da mídia carregam 
um peso social considerável: eles são um meio poderoso na definição do eu em relação aos 
outros, sobretudo em termos de maturidade e ‘saúde’ emocional. Porém, ao mesmo tempo, 
devemos ter cautela antes de supor que as pessoas simplesmente engulam integralmente todas 
essas idéias – e que, assim, os defensores de mais censura à violência na mídia representem 
necessariamente o que pensa a maioria da população, por mais influência que eles tenham 
junto aos políticos que elegeram. O mais importante, talvez, é entendermos mais claramente o 
que as pessoas querem dizer quando reclamam que há ‘violência demais na televisão’, ao 
invés de supormos que isso reflita obrigatoriamente a crença em uma epidemia de crimes 
“por imitação”. 
Lendo os ‘efeitos’ 
Como sugeri, portanto, precisamos entender mais exatamente os tipos de efeitos em 
questão. A violência televisiva, por exemplo, pode ter efeitos comportamentais – por 
exemplo, levando à agressão, ou encorajando as pessoas a tomarem medidas de autoproteção. 
Ela pode ter efeitos emocionais – por exemplo, ao produzir choque, nojo ou excitação. E ela 
pode ter efeitos ideológicos ou de atitude – por exemplo, ao levar os espectadores a acreditar 
que estejam mais vulneráveis a ameaças de pessoas com determinadas características, ou em 
tipos particulares de situações, acreditando assim que sejam necessárias formas específicas 
de legislação e políticas sociais para prevenir essas ameaças. Esses diferentes níveis de 
‘efeitos’ podem estar relacionados entre si – respostas emocionais podem levar a certos tipos 
de comportamento, por exemplo – mas a conexões entre eles tendem a ser complexas e 
 88
diversas. E ver qualquer um desses efeitos como prejudicial ou benéfico em si é uma questão 
igualmente complexa e que depende dos critérios de avaliação que se use. 
Em minha pesquisa sobre o assunto, me concentrei especificamente nos ‘efeitos’ 
emocionais da televisão e do vídeo sobre as criançascclxxxiv. Nesta área, pelo menos, está claro 
que a televisão produz efeitos poderosos, e também que as crianças com freqüência decidem 
ver TV justamente com o objetivo de experimentar esses efeitos. A televisão pode provocar 
respostas ‘negativas’ - preocupação, medo, tristeza - assim como pode gerar respostas 
‘positivas’ - diversão, excitação, prazer; além disso, ela muitas vezes gera reações ‘positivas’ 
e ‘negativas’ ao mesmo tempo. 
Entretanto, a questão de se estas respostas devem ser vistas como benéficas ou 
prejudiciais está longe de ser uma questão simples e direta. Respostas emocionais que são 
percebidas como ‘negativas’ podem ter conseqüências ‘positivas’, por exemplo, em termos da 
aprendizagem das crianças ou de seu comportamento futuro. Assim, as crianças (e os 
adultos) podem ficar extremamente perturbados com as imagens dos crimes violentos ou 
conflitos sociais que aparecem nos noticiários da televisão; mas muitos poderiam argumentar 
que tais experiências são necessárias como parte da tarefa de se tornar um cidadão informado 
– e de fato este é um argumento que as crianças utilizam em sua própria defesa. O medo da 
criminalidade, por exemplo, do tipo que às vezes se julga ter sido induzido pelas reportagens 
de TVo, pode levar a um desejo ilógico de se afastar do mundo externo; mas pode também 
ser necessário como um pré-requisito para a prevenção dos crimes. Do mesmo modo, a 
ficção infantil sempre envolveu reações ‘negativas’ tais como medo e tristeza, baseada na 
idéia de que experimentar tais emoções em um contexto fictício pode capacitar as crianças a 
superar os medos que elas tenham na vida real. Experiências que são vistas como negativas 
em curto prazo podem ter benefícios positivos em longo prazo. Neste sentido, portanto, as 
conseqüências de tais respostas emocionais não podem facilmente ser classificadas como 
sendo ou ‘positivas’ ou ‘negativas’. 
Uma distinção fundamental que precisa ser feita aqui – e que é freqüentemente 
ignorada nos debates públicossobre o tema – é a que existe entre fato e ficção. Muitas 
crianças ficam certamente assustadas pelos filmes de terror, e por algumas representações 
explícitas de crimes, particularmente quando elas envolvem ameaças às pessoas. Mas elas 
podem também ficar muito aflitas e até assustadas com o que assistem nos telejornais ou em 
documentários. 
Minha pesquisa sugere que as crianças desenvolvem uma série de estratégias para 
lidar com os sentimentos indesejáveis desejados induzidos por materiais ficcionais. Estas 
estratégias vão desde a rejeição direta (as crianças simplesmente se recusam a assistir, ou – de 
modo mais ambivalente – se escondem atrás do sofá), a formas de monitoramento 
psicológico ( preparam-se conscientemente ou tentam “pensar positivamente”). Embora essas 
estratégias sejam claramente transferidas a partir das reações a situações estressantes da vida 
real, as crianças também desenvolvem formas de conhecimento genérico – ou ‘alfabetização 
midiática’ – para lidar especificamente com experiências da mídia. Por exemplo: tentar 
prever o desfecho de uma narrativa a partir de experiências prévias com aquele gênero; usar 
informações obtidas fora daquele texto da mídia, tanto em conversas como em materiais 
publicitários; e usar a própria compreensão sobre como é criada a ilusão de realismo - por 
meio de efeitos especiais, por exemplo. De todas essas formas, as crianças buscam confirmar 
a noção de que o que estão assistindo é, precisamente, ficcional. Isto não quer dizer, claro, 
que essas estratégias sempre dêem resultado, ou que não sejam cometidos ‘enganos’ de 
diversos tipos: na verdade seria impossível desenvolver essas estratégias sem, em algum 
momento, ter vivido experiências negativas. 
Estas estratégias são simultaneamente ‘cognitivas’ e ‘sociais: elas envolvem 
autoconsciência e autocontrole, mas também se manifestam em performances sociais de 
 89
vários tipos, tanto no contexto imediato da audiência como mais tarde, nas conversas. São 
estratégias que dependem muito das experiências ou dos conhecimento prévios, e existem 
evidências de que elas podem ser explicitamente ensinadas, por exemplo, pelos pais ou pelos 
irmãos mais velhoscclxxxv. Entretanto, continuará a haver diferenças claras nesse sentido entre 
os telespectadores mais experientes e os menos experientes, o que vale tanto para as crianças 
como para os adultos. Os ‘fãs’, tendo se comprometido com um gênero particular, tendem a 
ser muito mais capazes de prever o que vai acontecer – e, por conseqüência, de monitorar e 
controlar suas reações – do que os telespectadores eventuais ou pouco assíduos. De fato, um 
aspecto crucial da preferência por gêneros como os filmes de terror ou de ‘ação’ é a forma 
como eles jogam com os conhecimentos prévios de seus fãs, e se alimentam deles – de sua 
familiaridade com as convenções narrativas estabelecidas, a caracterização e os 
diálogoscclxxxvi. Boa parte da ironia e do humor sarcástico que alimenta o uso da ‘violência’ 
nestes gêneros não será percebida pelo espectador menos experiente, que tenderá a tomá-los 
ao pé-da-letra – a não ser talvez quando o humor for mais explícito, como por exemplo em 
filmes como Demolition Man (“O Demolidor”) ou Scream (“Pânico”). 
Por outro lado, muitas vezes as crianças acham bem mais difícil lidar com os 
sentimentos negativos produzidos por material não-ficcional. Elas podem aprender a 
controlar o medo de um vilão monstruoso como Freddy Kruger ao reafirmar a si próprias que 
ele é mera ficção; mas não podem recorrer a isso quando se deparam com notícias sobre 
terríveis assassinatos em série ou com cenas de sofrimento e guerra na Bósnia ou em Ruanda. 
À medida que vão ganhando experiência com a violência na ficção, as crianças podem de fato 
se tornar ‘anestesiadas’ quanto à violência ficcional, ou pelo menos desenvolver estratégias 
para lidar com ela; entretanto a idéia de que elas se tornem insensíveis quanto à violência na 
vida real ainda está por ser comprovada cclxxxvii. Em contraste, entretanto, deve haver muito 
pouco que as crianças possam fazer para lidar melhor com suas respostas ‘negativas’ ao 
material não-ficcional, justamente porque elas têm tão pouco poder para intervir nos assuntos 
que lhes dizem respeito. Em minha pesquisa, por exemplo, as crianças com freqüência 
relataram como haviam se sentido perturbadas ao assistir a reportagens sobre crimes 
violentos, e contaram ter ficado muito mais ansiosas com a cobertura da imprensa no caso 
Bulger do que com o filme que supostamente o teria provocado. 
A diferença entre fato e ficção nem sempre é nítida, porém. Entre essas formas 
diferentes, as crianças também estão aprendendo a estabelecer diferenciações sutis sobre o 
que seria mais ou menos realista e plausívelcclxxxviii. Como já sugeri, estas diferenciações 
dependem da natureza e do contexto em que a violência aparece, das expectativas das 
crianças e de seu conhecimento sobre os gêneros e sobre o próprio meio. “Chucky, o 
brinquedo assassino 3”, por exemplo, foi descrito por muitas das crianças em minha pesquisa 
como uma comédia (o que em minha opinião é uma classificação bastante precisa); porém 
outros filmes de terror, tais como Pet Sematery (“Cemitério Maldito”) e até mesmo The 
Omen (“A Profecia”) parecem ter sido vistos como mais verossímeis, e portanto mais 
assustadores. Os programas de ficção considerados mais realistas (como Casualty, drama 
televisivo sobre um hospital) foram recebidos com mais credibilidade e julgados mais 
perturbadores, enquanto programas factuais que usavam recursos ‘ficcionais’, tais como 
encenações de crimes, às vezes foram tratados com irreverência. 
É significativo, porém, que um programa muitas vezes descrito como o mais 
assustador deliberadamente violava estas distinções: não era um vídeo de ‘baixaria’ mas um 
programa de televisão chamado Ghostwatch, transmitido pela BBC no Halloween em 1992. 
O programa aparentemente mostrava uma caçada de fantasmas na vida real, em uma casa nos 
arredores de Londres; usando todas as convenções dos canais abertos de TV para uma 
reportagem externa ao vivo, inclusive apresentadores conhecidos representando a si próprios, 
o programa parece ter conseguido enganar muitos telespectadores. Várias crianças disseram 
 90
ter achado o programa muito perturbador, mas diversas crianças mais velhas expressaram 
grande interesse em assisti-lo novamente; e há cópias em vídeo ainda em circulação, 
mostrando que o seu status cult permanece. Como isso deixa claro, a distinção entre fato e 
ficção não é fixa nem direta, e brincar com as fronteiras entre essas categorias é um tipo de 
prazer nitidamente arriscado. 
Então, por que as crianças assistem a isso? 
Ao invés de simplesmente condenarmos a violência na tela, portanto, faz sentido 
começarmos pela seguinte pergunta: por que as pessoas – e em particular as crianças – 
escolhem decididamente assisti-la? As pesquisas sobre o tema em geral buscam responder a 
essa pergunta usando uma concepção patológica do telespectador. O gosto pela violência é 
visto como um sintoma de imaturidade sexual, falta de inteligência, ou problemas de 
personalidade mais graves. Poderia parecer, em última análise, que as pessoas só assistem a 
este tipo de coisa porque há alguma coisa fundamentalmente errada com elas. 
O gosto potencial pela violência na tela é até certo ponto bastante fácil de 
compreender. Para muitos telespectadores, existe excitação visceral em assistir a 
representações gráficas de violência – uma excitação reconhecida, é claro, desde as tragédias 
gregas da antigüidade. Alguns críticos se entusiasmam de vez em quando com a ‘poesia’ ou 
‘beleza’ de determinadas seqüências de violência na tela, enquanto outros reconhecem seu 
apelo vagamente contra-cultural e subversivocclxxxix. Como já destaquei, muitos filmes 
encorajam uma forma auto-consciente de ironia ou um senso de humor ‘repulsivo’ como 
reação à violência na tela, o que sugere que esta não deva ser tomadaao pé-da-letra. As 
chamadas publicitárias para os filmes violentos – do tipo ‘será que você agüenta?’ – também 
sugerem o prazer que pode ser obtido quando se ‘testa’ conscientemente as próprias reações 
psicológicas ccxc. Exemplos extremos de violência gráfica podem levantar questões morais e 
filosóficas desafiadoras a respeito de nossa própria cumplicidade no processo, não apenas em 
‘filmes de arte’ como Man Bites Dog ou Broken Mirrors mas também em formas mais 
dominantes de entretenimento, como Reservoir Dogs (“Cães de Aluguel”) ou Natural Born 
Killers (“Assassinos por Natureza”)ccxci. 
Todas estas questões podem dar idéia do significado da experiência e do prazer da 
violência na tela em si – e poucas delas tem sido sequer reconhecidas, muito menos 
investigadas sistematicamente pelas pesquisas convencionais. Porém, a presença ou ausência 
da ‘violência’ pode não ser em si mesma uma explicação suficiente, ou mesmo 
particularmente significativa para a razão pela qual as pessoas decidem se expor a tais 
materiais. Também aqui precisamos olhar para além da ‘violência’ , em direção aos contextos 
genéricos e dramáticos em que ela ocorre. 
Vamos examinar o caso do terror. Na medida em que gêneros aparentemente 
violentos como os filmes de terror realmente geram emoções negativas, talvez eles sejam 
populares porque nos permitem entender e lidar com preocupações e ansiedades da vida real 
na arena comparativamente segura da ficção. De fato, muitos filmes de terror parecem ser 
implicitamente endereçados às crianças, ou pelo menos ‘à criança que existe em todos nós’. 
Não é de surpreender que tantos dos livros, filmes, e programas de televisão aparentemente 
aterrorizantes que as crianças preferem sejam aqueles que lidam com o medo dos grandes e 
incompreensíveis ‘monstros’ que as rodeiam. Uma leitura alternativa seria a de que esses 
programas mostram personagens que parecem crianças, ou com dimensões reprimidas da 
infância, que se vingam do mundo adulto. Talvez por isso o personagem Chucky do filme 
“Brinquedo Assassino 3” tenha ofendido a tantos adultos: ele representa uma afronta direta e 
altamente consciente a noções tão louvadas de inocência infantil. 
 91
Em minha pesquisa sobre as respostas das crianças ao terror, encontrei uma 
considerável ambivalência. De um lado, os relatos das crianças sobre filmes de terror com 
freqüência vinham acompanhados de desdém. Muitas negavam com veemência que tivessem 
medo de filmes de terror, e chegaram a ridicularizar quem disse ter medo. Muitas gostavam 
de afirmar que agora não sentiam mais medo desses filmes, ainda que o tivessem sentido 
quando eram mais novas. Algumas das crianças relataram cenas de tortura e mutilação 
extremamente cruéis, em um tom deliberadamente casual, como que para garantir que 
realmente não sentiam medo. 
Diversas crianças tentaram usar seus limitados conhecimentos sobre o gênero 
narrativo, e sua compreensão sobre o processo de produção, para se distanciarem do medo 
que tais filmes lhes tinham evidentemente provocado; para os telespectadores mais jovens ou 
menos experientes, contudo, este conhecimento era incerto, e seus efeitos nem sempre 
garantidos. Filmes como Child´s Play (“Chucky, o boneco diabólico”) e Nightmare on Elm 
Street (“A Hora do Pesadelo”) foram freqüentemente descritos como ‘não-realistas’ e até 
mesmo como engraçados, particularmente pelas crianças mais velhas. Muitas gostavam de 
fazer referência ao uso excessivo de ‘ketchup’ e maquiagem; mas manifestaram também um 
certo apreço estético pelos efeitos especiais bem produzidos. 
Por outro lado, houve muitas amostras de que os filmes de terror realmente assustam 
as crianças, e de que as reações desse tipo podem às vezes ser bastante duradouras. Essas 
experiências pareciam se cristalizar em torno de uma única cena ou imagem 
descontextualizada que as crianças ‘rebobinavam’ em suas cabeças. Em muitos casos, as 
crianças contaram como a sensação de medo se intensificava depois do momento em que 
assistiam às cenas. Algumas falaram do medo de entrar em um quarto escuro ou de ir tomar 
água na cozinha depois de ver um filme de terror. Outras contaram que roupas penduradas 
na porta ou uma sombra na cortina podiam temporariamente tomar a forma de um Alien – 
embora, é claro, estes medos sejam lugares-comuns e não resultem apenas daquelas 
experiências de espectador. 
Uma razão possível da intensificação dos medos seja o fato de que muitas das 
estratégias de negociação disponíveis no momento da audiência não mais funcionem na 
escuridão e no isolamento do quarto de dormir, onde a única opção é esconder-se debaixo das 
cobertas. Isto nos faz pensar também sobre a interessante questão da ‘suspensão da 
descrença’ que às vezes é vista como um pré-requisito para a experiência do terror. Noel 
Carrol argumenta que o terror na verdade não depende da suspensão da descrença - pelo 
menos no sentido de um ato consciente que acontece de uma vez por todasccxcii. Jamais 
abrimos mão da nossa crença de que o monstro seja ficcional, ele sugere: ao invés disso, o 
medo que sentimos é reação ao pensamento ou à imaginação de que o monstro poderia ser 
real. Assim, o medo evocado pelo terror muitas vezes depende de uma dúvida a respeito do 
sobrenatural de forma mais geral – e de uma disposição para ao menos considerarmos a 
possibilidade de sua existência – o que é bastante comum, mesmo em sociedades 
aparentemente seculares. 
Talvez o mais crucial a ser enfatizado aqui, entretanto, é que em quase todos os 
relatos as crianças assumiram a posição da vítima e não do ‘monstro’. Como Carol Clover 
argumenta de modo muito convincente em seu estudo sobre a dinâmica de filmes sobre 
‘vingança de estupro’ e ‘estripadoresccxciii’, o terror contemporâneo com freqüência identifica-
se com a vítima: o que é percebido como ‘bom terror’, ela sugere, poderia ser o que melhor 
consegue ‘ferir’ seus espectadores, brincando com medos e desejos que são muitas vezes 
considerados ‘femininos’. Longe de glorificar uma identificação sádica e misógina com o 
assassino (masculino), os espectadores podem de fato estar adotando a posição masoquista da 
vítima (feminina). A noção de que aqui, bem como na audiência cinemática em geral, os 
 92
espectadores sejam necessariamente levados a adotar o ‘olhar masculino’, sádico e 
dominador, é uma questão que certamente permanece em aberto. 
Em certo sentido, é claro, essa ambivalência pode ser vista como uma função da 
situação de entrevista. Assumir que tivemos medo é, sob alguns aspectos, admitir fraqueza; 
porém argumentar que o filme não é assustador é abalar o status ‘contracultural’ ou ‘adulto’ 
do filme, e conseqüentemente nosso próprio status enquanto espectadores. Entretanto, esta 
ambivalência pode também estar indicando as tensões envolvidas na experiência da audiência 
em si. 
Assim, apesar de muitas das crianças contarem que tiveram medo e pesadelos depois 
de assistirem a filmes de terror, sua primeira motivação para fazê-lo foi claramente o prazer. 
Mesmo quando reconheciam que os filmes eram assustadores, isso era freqüentemente visto 
como sinônimo do prazer que eles proporcionavam. Muitas das crianças expressaram o 
desejo de assistir novamente a coisas ‘assustadoras’, mesmo quando suas primeiras 
experiências pareciam ter sido bastante traumáticas. O desejo de ‘ver de novo’ – e a prática 
de fazê-lo – têm relação, de certo modo, com reviver o prazer, simplesmente. Muitas crianças 
alegaram ter assistido a filmes de terror favoritos ‘muitas e muitas vezes’, enquanto outras 
contaram como adiantavam o vídeo até as ‘melhores partes’ – ou seja, os momentos mais 
assustadores e ‘violentos’ – ou assistiam a esses trechos novamenteccxciv. Ao mesmo tempo, 
este tipo de audiência repetida ajuda as crianças a lidar com sentimentos negativos: rebobinar 
a fita possibilita ‘ver como aquilo foi feito’ e conseqüentemente vencer o medo. 
Isto nos sugere uma visão bem diferente sobre o impacto da tecnologiadaquela que é 
freqüentemente defendida nos debates públicos. Como já observei, comenta-se que o 
‘problema’ do vídeo nesse contexto é que ele abala as regulamentações centralizadas; e 
também, às vezes, que ele estimula uma atenção excessiva e doentia aos momentos 
descontextualizados de violência. Porém, como tenho destacado, ele também pode permitir 
que os espectadores exerçam um controle muito mais positivo, contribuindo para o 
desenvolvimento de suas competências como público. 
Mesmo no caso dos espectadores mais entusiastas de terror, entretanto, viu-se que o 
prazer apareceu como inseparável da possibilidade de sofrimento – apesar de o equilíbrio 
entre os dois ser, às vezes, difícil de alcançar. Esta ambivalência talvez fique mais visível na 
pose característica do espectador de terror, descrita por várias crianças: espreitando por cima 
da almofada, ou espiando por entre os dedos quase fechados. Essa pose permite que a pessoa 
se sinta ‘segura’, ao mesmo tempo em que satisfaz o desejo de saber o fim da história. 
Mesmo assim, os principais focos de prazer que as crianças obtêm assistindo a esses 
filmes apareceram como sendo a transgressão e a destruição. Em geral as crianças não 
optaram por focalizar a restauração da ordem ou a derrota do monstro, mas as violações dos 
tabus sociais, sexuais e físicos apresentados no filme. Seria ir longe demais sugerir, como 
fazem alguns críticos, que estas transgressões sejam de alguma forma politicamente 
‘progressistas’, ou até mesmo psiquicamente terapêuticas – que o monstro represente de 
alguma forma todos os grupos sociais desprivilegiados, ou as energias sexuais reprimidas, 
cujas ameaças inerentes precisam ser contidas pela sociedade burguesaccxcv. Entretanto, 
muito do gosto pelo terror deve certamente residir não apenas no prazer de ver a maldade 
destruída ou controlada, mas também em vê-la triunfar, mesmo que temporariamente. Isto 
não quer dizer que os telespectadores simplesmente se ‘identifiquem’ com o monstro – o 
contrário seria mais provável. Mas a ‘dor’ envolvida no ato de assistir não deveria ser vista 
simplesmente como o pólo oposto do prazer, como se a presença de um significasse a 
ausência ou a remoção do outro. 
A ambivalência e a complexidade das experiências das crianças com o terror 
deveriam nos levar a questionar muitos dos pressupostos freqüentes a este respeito – idéias 
geralmente baseadas na ignorância, não apenas das crianças, mas também do próprio gênero 
 93
narrativo. Com certeza as crianças ficam muitas vezes assustadas ou enojadas diante dos 
filmes de terror, mas isso acontece também com os adultos. A idéia de que a experiência seja, 
portanto, necessariamente negativa ou traumática, ou que ela inevitavelmente ‘deprave ou 
corrompa’ não é mais válida do que a idéia de que ela seja de alguma forma automaticamente 
terapêutica. Pode ser que, como adultos, seja nossa responsabilidade ajudar as crianças a 
aprenderem a lidar com tais experiências; mas é importante que o façamos de um modo que 
respeite a complexidade do processo e que confira poder às crianças para que tomem as 
decisões em seu próprio nome. 
Mudanças nos lugares de regulamentação 
As mudanças tecnológicas das duas últimas décadas abalaram drasticamente a 
habilidade do estado de controlar o tráfego das imagens em movimento. Um número 
crescente e substancial de crianças ‘menores de idade’ têm assistido a um tipo de material ao 
qual não têm oficialmente acesso legal – e que alguns gostariam de banir de vez. Entrevistei 
crianças com apenas 6 anos de idade que tinham visto filmes da série “A Hora do Pesadelo”, 
ainda que possam ser exceções; e arriscaria dizer que a maioria dos garotos e garotas no 
início da adolescência já assistiram a pelo menos um desses filmes ou algum filme da série 
“Chucky” – sendo que quase todos eles são impróprios para menores de 18 anos na Grã-
Bretanha. Do mesmo modo, filmes como Pulp Fiction e Goodfellas(“os Bons 
Companheiros”) e séries como Terminator (“O Exterminador do Futuro”), Die Hard (“Duro 
de Matar”) e Lethal Weapon (“Máquina Mortífera”) possuem uma legião considerável de fãs 
entre os garotos adolescentes mais jovens, com idade bem inferior a 15 ou 18 anos. Se o 
objetivo da regulamentação da mídia é impedir o acesso das crianças a esses materiais, então 
ela está fracassando redondamente. 
Nessa situação, boa parte da responsabilidade pelo controle tem sido transferida, 
inevitavelmente, aos familiares. Isto, porém, é em si um motivo considerável de 
preocupação. Como já observei, o debate sobre os efeitos da mídia tem cada vez mais se 
entrelaçado com o debate sobre o papel dos pais – um debate que, no rastro das preocupações 
com os abusos infantis em décadas recentes, tem assumido um tom cada vez mais urgente. 
Talvez o aspecto que mais deva causar indignação em todo esse debate seja o modo como 
pais e mães de classe trabalhadora têm sido culpabilizados. Eles são vistos como pais 
inadequados, vivendo vidas caóticas e sem objetivo em conjuntos habitacionais estatais país 
afora, e acusados de lavar as mãos de toda a responsabilidade para com seus filhos, sem ligar 
a mínima atenção para se elas estarão sendo corrompidas ou traumatizadas pelas imagens de 
uma violência sem sentidoccxcvi. 
Obviamente, é difícil saber se tais pais e mães realmente existem. Ao longo de vários 
anos de pesquisa neste campo com crianças, pais e mães provenientes de um amplo leque de 
contextos sociais – inclusive alguns claramente carentes do ponto de vista material – ainda 
não encontrei, nem ouvi falar de famílias que não tentem controlar o tipo de programa ou 
filme que suas crianças assistem, pelo menos antes da adolescência. Entretanto, como tenho 
observado, a preocupação central dos pais e das mães com relação ao chamado material 
‘violento’ não é o medo de que seus filhos venham a se tornar criminosos ou assassinos de 
crianças. Ao contrário, eles querem é protegê-los de materiais que as crianças possam 
considerar assustadores ou angustiantes. E, ao mesmo tempo, as crianças também estão 
aprendendo, de diferentes maneiras, a proteger a si próprias de tais experiências. 
Entretanto, o problema para os pais (e também para os produtores de mídia) é que é 
muito difícil prever o que exatamente as crianças acharão perturbador ou angustiante. Muitas 
das crianças que entrevistei descreveram experiências bem pouco prováveis que tiveram em 
sua primeira infância, tais como se sentirem assustadas por causa de filmes aparentemente 
 94
inócuos como Mary Poppins ou Chitty Chitty Bang Bang (“O Calhambeque Mágico”) Não é 
apenas uma questão de desenvolvimento psicológico: entrevistei crianças de 6 anos de idade 
que afirmaram com naturalidade não terem sentido medo de “A Hora do Pesadelo” e 
adolescentes de 15 anos que disseram justamente o contrário. Para os pais e mães, isto torna 
difícil saber quando e como intervir. Banir simplesmente o material vai dar a ele um sabor de 
fruto proibido, fazendo com que as crianças procurem ainda mais assisti-lo em outro lugar. 
Respostas instintivas – desligar a fita quando as cenas parecerem ir longe demais, ou mandar 
as crianças para outra sala – pode privá-las do alívio reconfortante oferecido ao final da 
narrativa. 
Pelo menos em princípio, as crianças geralmente aceitam que os pais e mães tenham 
razão ao tentar protegê-las de tais experiências. Na prática, entretanto, há muita negociação 
em torno do que se compreende como ‘apropriado’ para as crianças assistirem; e muitas delas 
parecem conseguir muito bem escapar às tentativas de regulação dos pais. Aqui, novamente, 
os debates no interior da família envolvem questões muito mais amplas a respeito das 
características próprias da infância e da idade adulta, muito embora vários dos pais e mães em 
minhas pesquisas reconhecessem ter aprendido muito com as suas crianças sobre o assunto, e 
que suas visões mudaram com o passar do tempoccxcvii. Porém, apesar de pais, mães e 
crianças às vezesentrarem em conflito, todos em geral defendiam o direito de tomarem suas 
próprias decisões a respeito do que deveria ser assistido. Se é verdade que tanto as crianças 
como os pais em geral conhecem as formas de regulamentação das mídias – como as 
classificações para vídeos e as políticas de ‘audiência familiar’ para televisão a cabo – eles 
freqüentemente as questionam e rejeitam. Em termos gerais, os pais e as crianças concordam 
que a responsabilidade da regulação deveria ser compartilhada entre eles, e não estar nas 
mãos dos outros. 
As mudanças tecnológicas, econômicas e culturais – assim como a crescente 
diversidade de opiniões sobre temas como gosto e moralidade – têm portanto abalado cada 
vez mais o status da regulação centralizada. Isto significa, então, que ela simplesmente 
deveria ser abandonada? Em última análise, não acredito que seja realista adotar uma posição 
libertária por atacado, pelo menos em relação às crianças. Por uma série de razões bastante 
genuínas, os adultos sempre vão querer ‘censurar’ ou controlar as imagens e textos 
disponíveis às crianças. A questão não é se, mas como e onde isto ocorre. 
Para o bem ou para mal, há uma tendência inexorável em direção a formas 
‘privatizadas’ de regulação, que colocam maior responsabilidade nas mãos de cada 
consumidor individualccxcviii. Certamente, políticos e lobistas continuarão a bradar pela 
necessidade de censura mais rígida. Nos rastros do caso Bulger, por exemplo, as autoridades 
que classificam os filmes receberam um poder maior de censurar a violência no vídeo, e as 
penalidades por fornecer fitas de vídeo classificadas para 18 anos aos jovens ‘menores de 
idade’ hoje excedem aquelas aplicadas ao fornecimento de drogas pesadas. Entretanto, as 
próprias agências de regulamentação começam a aceitar a lógica dessa situaçãoccxcix. Na 
Europa, ao menos, parece haver pouco apoio para a introdução do V-chipccc, e existe um 
movimento positivo em direção a que seja oferecida uma “orientação ao consumidor’ mais 
detalhada sobre o conteúdo de filmes e programas, particularmente no que se refere a temas 
de preocupação geral. Entretanto, muito mais poderia ser feito para tornar o sistema bem mais 
informativo e responsável, assegurando que os cidadãos comuns sejam envolvidos nos 
processos de tomada de decisões. O fundamental é que nos movamos em direção a uma 
situação na qual a regulamentação da mídia em termos de gosto ou moralidade se baseie mais 
na orientação do que na imposição legal, como ocorre hoje na Grã-Bretanhaccci. A negação 
contínua do direito dos adolescentes de fazerem escolhas informadas sobre o que vão assistir 
é no mínimo anacrônica: está fora de compasso com a opinião da maioria dos pais, e parece 
ter sido planejada para estimular o comportamento que se propõe a prevenir. 
 95
No entanto, sugerir que deveríamos passar a responsabilidade aos pais, mães e 
crianças desta forma não significa termos fé cega no ‘poder do consumidor’. Em seu pior 
sentido, este argumento parece aliar-se à privatização da infância – e da mídia – identificada 
nos capítulos anteriores. Como Patricia Holland defende, precisamos de uma ‘visão mais 
ampla’ capaz de ‘permitir às crianças crescerem para além do estreito e superaquecido 
ambiente familiar em direção a uma esfera pública diversificada’cccii. Ainda que eu apóie 
claramente um sistema de regulamentação mais privatizado, ao menos em relação a questões 
de gosto e moralidade, qualquer sistema deste tipo necessitará de apoio substancial por parte 
da esfera pública. Nesse sentido, a mera ‘orientação ao consumidor’ não é suficiente. 
Precisamos de iniciativas muito mais coerentes e consistentes ao nível das políticas culturais 
e educacionais, que habilitem as crianças, seus pais e suas mães a se tornarem participantes 
críticos e informados da cultura das mídias. Como argumentarei adiante, isto exigirá uma 
forma renovada de pensar as relações entre o público e o privado, e o papel de instituições 
públicas como as escolas. 
Essas questões, e a ‘visão mais ampla’ da qual elas podem fazer parte, serão 
desenvolvidas no capítulo de conclusão. Desconfio, porém, que os moralistas de plantão 
continuarão a evitar aquilo que está realmente em questão no debate sobre as crianças e a 
violência na mídia. Como tenho sugerido, esse debate é na verdade a respeito de outras 
coisas, muitas das quais tem muito pouco a ver com a mídia e com as crianças. A questão da 
violência na mídia parece estar servindo como um código para representar ansiedades muito 
diversas, embora fundamentais – a respeito do declínio da família, da religião organizada, 
sobre a natureza cambiante das leituras e da cultura contemporânea, e sobre o ritmo da 
mudança tecnológica. Essas são ansiedades difíceis de enfrentar, quanto mais de superar; e 
elas têm mais origem nas turbulências sociais gerais das três últimas décadas do que nas 
mudanças ‘locais’ nas próprias mídias. Se pode haver algum benefício em tentarmos abordar 
as relações das crianças com a violência midiática em si, essas ansiedades mais gerais, em 
última análise, serão impossíveis de ignorar. 
 
CAPÍTULO 8 
As crianças como consumidoras 
 
Se o debate público sobre o impacto da violência na mídia tem sido dominado por pessoas 
ligadas politicamente à direita, a questão do consumismo e da publicidade tem um status semelhante 
no campo da esquerda. Nos dois casos, as crianças são o foco especial de preocupação, a partir de sua 
aparente vulnerabilidade à influência das mídias. Nos dois casos, atribui-se às mídias um super-poder 
capaz de governar comportamentos, moldar atitudes, construir e definir as identidades das crianças. E, 
nos dois casos, as preocupações têm levado a exigências de uma maior proteção à criança, na forma de 
mais rigidez na censura e na regulamentação das mídias. 
Como já argumentei, esta ênfase nas crianças pode ser vista como parte de uma ‘política de 
substituição’ mais geralccciii. Também aqui as manifestações de ansiedade e preocupação com as 
crianças acabam sendo uma forma de carrear apoio para posições que não são, de modo algum, 
específica ou unicamente relacionadas às crianças. Inserir as crianças na equação sem dúvida torna as 
questões mais dramáticas; mas ao mesmo tempo acaba representando as próprias crianças como 
realmente desprovidas de poder. 
Livros como a antologia Kinderculture (“Cultura Infantil: a construção corporativa da 
infância”) discutida no capítulo 2, materializam essas preocupações em sua retórica máximaccciv. As 
crianças são vistas ali como vítimas indefesas de um tipo de lavagem cerebral, nas mãos dos 
conglomerados capitalistas da mídia. As corporações comerciais são acusadas de ‘colonizar a 
consciência das crianças’ impondo falsas ideologias e inculcando valores materialistas aos quais as 
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crianças parecem especialmente incapazes de resistir. É claro que a preocupação com as relações 
entre as crianças e a cultura de consumo nem sempre são motivadas por argumentos tão explicitamente 
anti-capitalistas. Porém, assim como no debate sobre a violência, assume-se genericamente que as 
crianças são um ‘público especial’, um grupo cujas características e necessidades inatas deixa 
especialmente em situação de risco. 
Mais uma vez, minha intenção aqui não é sugerir que essas preocupações estejam 
simplesmente equivocadas, ou então rejeitá-las como se fossem uma forma de ‘pânico político’. Há 
motivos genuínos para que tais preocupações tenham se tornado mais intensas nos últimos anos; e é 
preciso construir respostas mais aprofundadas, tanto com relação às políticas midiáticas como quanto à 
educação. Entretanto, assim como no debate sobre a violência na tela, as preocupações com as 
relações entre as crianças e a cultura de consumo têm se revestido de um significado muito mais 
simbólico. A imagem popular das crianças como meras vítimas inocentes dos artifícios sedutores dos 
capitalistas malvados recorre a ideologias da infância quesão muito mais fundamentais. 
A ansiedade que cerca as relações das crianças com a cultura de consumo pode ser associada a 
preocupações muito antigas com o envolvimento das crianças na força de trabalho. Como a 
historiadora Ludmilla Jordanova demonstrou, as críticas ao trabalho infantil no final do século XIX 
refletiam crenças mais gerais sobre a natureza essencial da infância: 
 
As crianças eram (vistas como) carinhosas, impressionáveis, vulneráveis, puras, merecedoras de 
proteção dos pais, e conseqüentemente, muito facilmente corruptíveis pelo mercado. Havia duas principais 
justificativas para esta caracterização das crianças: uma delas era o cristianismo, que retratava as crianças 
como num ‘estado de vida sagrado’; a outra justificativa era ideológica, apresentando as crianças como 
sendo de algum modo ‘naturalmente’ incompatíveis com o mundo das mercadoriascccv. 
 
Como Jordanova argumenta, a relação das crianças com a economia é um aspecto-chave de 
tensão na aparente transição do status de criança (no âmbito da ‘natureza’) para o de adulto (no âmbito 
da ‘cultura’). Assim, essa relação é uma arena crucial para a negociação e a definição do significado 
de infância. 
Também aqui, portanto, a questão central é o modo como interpretamos o crescente 
envolvimento das crianças em áreas da vida ‘adulta’ das quais elas tinham sido tradicionalmente 
excluídas. Na tentativa de desenvolver uma resposta mais construtiva a esta questão, precisaremos 
novamente desentranhá-la das preocupações mais amplas que ela passou a simbolizar e representar. 
 
A emergência da criança consumidora 
Os últimos cinqüenta anos têm assistido a um aumento impressionante no raio de 
abrangência e na escala da atividade de consumocccvi. O leque de produtos de consumo oferecidos pelo 
mercado aumentou significativamente; fazer compras tornou-se um passatempo popular bastante 
procurado, ficando em segundo lugar apenas em relação a assistir televisão; e as oportunidades de 
fazer compras são cada vez mais variadas e disponíveis. Mais e mais atividades e aspectos da interação 
humana – particularmente aqueles relacionados ao lazer – são disponibilizados pelo mercado 
comercial. 
Entretanto, foi apenas nas duas últimas décadas que a procura incessante do capitalismo por 
novos mercados passou a se concentrar tão intensamente nas crianças. Assim como os adolescentes 
foram aparentemente ‘descobertos’ como um grupo consumidor diferente durante a expansão 
econômica no pós-guerra, agora as crianças é que se tornaram um dos alvos mais procurados pelo 
marketing segmentado. A redução do tamanho das famílias, a freqüência dos divórcios e das famílias 
monoparentais e o aumento geral de renda de consumo (embora desigualmente distribuída), 
combinados com a nova ‘valorização’ simbólica da infância, têm dado mais voz às crianças nas 
decisões de compras domésticas. Como os publicitários já reconheceram, as crianças podem até não 
ter muita renda própria para gastar, mas seu ‘poder de importunar’ exerce uma influência real nas 
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decisões de compras da família. Nos Estados Unidos, por exemplo, o mercado para crianças é 
calculado em 10 bilhões de dólares por ano; mas a influência total das crianças nas compras 
domésticas supera os 130 bilhões de dólares anuais, de acordo com as estimativas. cccvii O comércio 
varejista também adotou técnicas de vendas mais ‘focadas nas crianças’; os gastos com a publicidade 
dirigida a esse grupo social têm crescido exponencialmente, e ampliou-se o mercado de promoções 
gerais voltadas ao público infantil, sobretudo nas escolascccviii. 
Enquanto isso, a desregulamentação gradual das indústrias da mídia e as mudanças em 
direção aos sistemas midiáticos globais e multi-canais têm gerado uma nova supremacia dos interesses 
comerciais e um correspondente declínio nos investimentos do setor público. A questão de se as 
crianças estão sendo atendidas adequadamente neste novo ambiente midiático é particularmente difícil 
de responder com relação à televisão. Como já observei, a quantidade de televisão disponível às 
crianças tem aumentado significativamente, tanto nos canais abertos quanto (e mais espetacularmente 
ainda) nos canais por assinatura, embora isso não tenha sido acompanhado por um aumento na 
qualidade e na diversidade (como quer que elas sejam definidas). Em muitos países, os defensores da 
televisão para criança engajam-se em uma luta contínua, não tanto para ampliar ou melhorar a oferta 
de programas para as crianças, mas simplesmente para preservá-la. Se é verdade que tem havido 
algumas vitórias – por exemplo, o Broadcasting Act no Reino Unido em 1990, e o Children´s 
Television Act nos Estados Unidos em 1990 – o cumprimento das responsabilidades regulamentares 
das emissoras de televisão com relação às crianças continua sendo motivo de preocupação. 
Essas discussões giram agora cada vez mais em torno da Internet, onde também proliferam 
os sites comerciais destinados às crianças. Esses sites geralmente combinam atividades ‘educativas’ 
superficiais com mensagens publicitárias e tentativas de captação de dados para pesquisas de 
mercadocccix. Também aí as crianças emergem como um novo e importante alvo do mercado; nesse 
processo, as fronteiras entre ‘educação’ e ‘entretenimento’, e entre conteúdo e propaganda, tornam-se 
cada vez mais difusas. A convergência da mídia e o marketing integrado levam a uma situação na 
qual todos os textos das mídias podem ser considerados propagandas para outros textos das mídias. 
Além disso, como já observei, a contínua comercialização da mídia destinada às crianças também 
contribui para a ampliação do fosso entre os ‘ricos em informação’ e os ‘pobres em informação’, 
processo no qual os telespectadores restritos aos canais de TV aberta e que não têm acesso às novas 
tecnologias encontram-se em grande desvantagem. 
As reações a essas mudanças encontram-se severamente polarizadas. Por um lado, muitos 
críticos vêem o mercado como sendo inerentemente contrário aos verdadeiros interesses e 
necessidades das crianças. A mídia comercial, argumentam, faz pouco mais do que a incitar ao 
consumismo e explorar a vulnerabilidade das crianças. Stephen Kline, por exemplo, coloca essa 
posição em termos sombrios: 
O mercado nunca irá inspirar as crianças com ideais elevados, imagens positivas da 
personalidade, ou oferecer histórias que as ajudem a se ajustar aos problemas da vida ou 
promover brincadeiras que as ajudem a amadurecer. Não se pode esperar que os interesses 
comerciais em busca de lucros máximos se preocupem com os valores culturais ou objetivos 
sociais situados além da linha cultural consumista que sustenta as mídias comerciaiscccx. 
 
Em contraste, há aqueles que argumentam ser o mercado um modo mais efetivo de atender às 
necessidades das crianças do que o sistema de teledifusão pública, considerado antiquado e 
paternalista. Nas palavras de Geraldine Laybourne, uma das fundadoras do canal Nickelodeon, ‘o que 
é bom para os negócios é bom para as crianças’cccxi. Como vimos, é típico dos novos produtores 
comerciais declarar que não estão simplesmente servindo as crianças (ou, como são chamados nesse 
contexto, os “kids”cccxii), mas dando poder a elas. As crianças são caracterizadas aí como um público 
exigente e sofisticado, difícil de atingir e satisfazer. Longe de serem vítimas passivas da cultura 
comercial, as crianças são vistas como consumidoras soberanas e todo-poderosas. 
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Tais debates, portanto, trazem à tona inevitavelmente todo tipo de concepção a respeito das 
necessidades das crianças e de como atendê-las. Stephen Kline, por exemplo, afirma que as crianças 
demandam ‘ideais elevados’ e ‘imagens positivas da personalidade’, e que elas precisam de ajuda 
para se ajustar e amadurecer – deixando subentendido que essas coisas só podem ser fornecidas às 
crianças por adultos bem-intencionados e livres de motivações comerciais. Geraldine Laybourne e 
outros provavelmente compartilhariam

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