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Elementos de substrato e de superestrato na língua portuguesa História da Língua Portuguesa Aula de 22 de outubro Elementos de substrato celta e de superestrato germânico na língua portuguesa Os povos celtas, germânicos e árabes influenciaram a diferenciação horizontal do latim vulgar e do romance hispânico nos períodos pré-romano e proto-românico. Esta influência é sobretudo notória no domínio do léxico. Elementos de substrato celta na língua portuguesa A língua portuguesa tem certamente uma base latina. Mas não pode ser negligenciada a importância de uma língua anterior, pré- existente, e das que posteriormente entraram em contacto com o latim vulgar hispânico. São línguas dominadas que deixam no entanto vestígios. Formação dos romances na Península Ibérica Expansão dos romances para o sul da Península Ibérica Influência do substrato A influência de substrato consiste num complexo processo de assimilação e um longo período de bilinguismo que se traduzem numa influência da língua dominada sobre a língua dominante. Substrato Pré-Indoeuropeu na Península Ibérica A península ibérica foi habitada por povos não indo-europeus, antes da chegada de celtas: - Euscaros, - Iberos, - Tartessos. Substrato Pré-Indoeuropeu na Península Ibérica Posposição de adjetivos poderá ter sido favorecida pelo substrato pré-indoeuropeu: - Vila Nova, Villa Nueva, Ville Neuve, Pont Newydd. De modelo indoeuropeu: - Neville, Novgorod, Newcastle, Neapolis. Palavras de provável origem pré-indoeuropeia: - buraco, coelho, gordo, nava, páramo, tojo Migração dos Celtas Celtas: migração indo-europeia que ocupou a meseta central e as áreas do noroeste. Inicialmente seriam tribos semi-nómadas, posteriormente sedentarizadas. Ocuparam algumas regiões pouco povoadas e pressionaram também os iberos. Elementos de substrato celta na língua portuguesa Toponímia celta •O sufixo -briga (elevação, fortificação, castelo): Conímbriga, Cetóbriga, Lacóbriga, Sesímbriga, Tongóbriga, … Elementos de substrato celta na língua portuguesa •Topónimos com o radical brag-: Braga, Bragança •Topónimos com o radical pen-: Penalva, Penafiel, Penamacor, Penodono •Topónimos com o sufixo -antia : Numantia, Pallantia, Bragantia, Argança •… e outros: Bagunte, Vila do Conde (< Condate), Cruña (< Culunia), Évora (< eburos), Rates, Santagões, … Elementos de substrato celta na língua portuguesa Toponímia celta •Os principais cursos de água: Minho, Mondego, Douro, Tejo, Guadiana Elementos de substrato celta na língua portuguesa Sobre os elementos de substrato celta diz Serafim da Silva Neto: “tais palavras dizem respeito a acidentes de terreno, a produções agrícolas, a instrumentos e coisas do campo.” Elementos de substrato celta na língua portuguesa Provável origem celta: - lousa (lâmina de pedra), - grenha (capelos, barba) - braga (calções típicos gauleses), - olga (campo fértil), - barro. Elementos de substrato celta na língua portuguesa Provável ou possível origem celta Disposição de terreno arroio, balsa, barranco, barroca, bouça, brejo, barga, bardo, charneca, chedas, cocoruto, córrego / corgo, gândara/gandra, laje, lájea, lapa (solapa) lasca, lura, maninho, mata, mouta, queiró, seara, toca, várzea… Elementos de substrato celta na língua portuguesa Provável ou possível origem celta Outros campos semânticos berço, bruxa, cambo, camurça, caruma, carvalho coto, gamo, manteiga, tascar, tasquinhar trapo Elementos de substrato celta na língua portuguesa Traços do fonetismo das línguas românicas a atribuir ao substrato celta? Elementos de substrato celta na língua portuguesa •Mais provável influência: –O grupo -kt- sofre vocalização do primeiro elemento; iodização -kt- > yt (t∫) •Exemplo: lacte- > leite, lait, leche, cp. llaeth (galês). –A área de sonorização das consoantes surdas intervocálicas -p- -t- -k- coincide com a área em que -kt- evolui para –yt- •Exemplo: cupa->cuba; totu->todo; vaca->vaga Elementos de substrato celta na língua portuguesa •Exemplos antigos de sonorização séc. IVº/Vº –pudore (<putore) –quodannis (<quot annis) –migat (<micat) –seriga (<serica) –lebrosus (<leprosus) Elementos de substrato celta na língua portuguesa •A lenição celta. –Termo proposto por Thurneysen para designar o conjunto de fenómenos que caraterizam as línguas celtas insulares: evolução de consoantes que tem origem num decréscimo de energia articulatória, daí a designação de abrandamento. Em celta as consoantes intervocálicas sonorizam. *katu- (batalha), dá em irlandês cath, em galês cad p > Ø -, -t > -θ- ou -d- , -k- > -χ- ou -g- •A evolução do sistema consonântico do românico ocidental é análoga a este processo. Elementos de substrato celta na língua portuguesa •Similitude de tratamento das oclusivas em britónico e no românico ocidental enquadra-se numa semelhança de estrutura fonológica. Há um paralelismo evidente. •Mesmo um estruturalista convicto como André Martinet considera a hipótese de substrato celta para explicar a área geográfica do fenómeno de sonorização das consoantes surdas intervocálicas. Elementos de substrato celta na língua portuguesa •A distribuição geográfica do fenómeno coincide largamente com certas áreas da Europa ocidental onde se falava celta por volta do ano 300 a.C. como o norte da Itália, a Gália, a Hispânia central e setentrional e as Ilhas Britânicas. Elementos de substrato celta na língua portuguesa •Tavani afirma que é notório o facto de na mesma área em que coincidem a lenição celta e a sonorização das surdas intervocálicas, outros fenómenos parecem ligar a evolução românica ao substrato celta: –por exemplo a passagem de -kt-> -χt- > -it- (yt/tš), cuja origem céltica é quase unanimemente admitida. •nocte-> noite, nuit, noche; •lacte-> leite, lait, leche (cf. galês llaeth) Reformas administrativas romanas Reformas administrativas romanas Reinos germânicos na Península Ibérica Elementos de superestrato germânico na língua portuguesa Os elementos lexicais de superestrato germânico na língua portuguesa podem ter entrado no idioma por diferentes vias: •ou diretamente de um idioma germânico – empréstimos ao gótico da época visigótica, em íntimo contacto com os romances hispânicos; •ou através do latim vulgar tardio já germanizado; •ou ainda através de um idioma galo-românico (antigo francês, antigo provençal). Elementos de superestrato germânico na língua portuguesa •Distribuição das palavras de superestrato germânico por campos semânticos específicos ligados ao quotidiano, como por exemplo os da atividade bélica, do vestuário, da culinária, ou da referência à natureza Elementos de superestrato germânico na língua portuguesa: Atividade bélica •aleive, aleivoso, amarrar, arrear, bando, banda, •Bandeira, (a)bastecer, brida, dardo, elmo, esmagar, espiar, espião, espora, esporão, estribo, flanco, fona, forrar, forro, franco, galardão, guarda, guardar, guardião, guerra, (*werra), íngreme, roubar, trégua… Elementos de superestrato germânico na língua portuguesa: Vestuário •Agasalhar, ataviar, bordar, brunir, fato, feltro, franzir, guardar, (esguardar), guarir, guarecer, guarnir, guarnecer, luva , osa, roupa… Elementos de superestrato germânico na língua portuguesa Expressão de sentimentos •barão, gabar, onta, orgulho, •ufano, ufanar-se, à ufa Elementos de superestrato germânico na língua portuguesa Natureza •alce, fresco, ganso, jardim, marta, texugo… Elementos de superestrato germânico na língua portuguesa: Culinária •adobar/adubar (preparar, temperar, conseguir), arenque, arrumar, •banco (exposição de produtos), brasa, broa, escanção ( copeiro) •espeto, espetar, estaca, guisar, guisado (*wisa ‘maneira’), sala •toalha … Elementos de superestrato germânico na língua portuguesa: Elementos marítimos •bombordo •bote •estibordo •frete, fretar •guindaste •mastro •quilha Elementos de superestrato germânico na língua portuguesa: Outros •albergue,alberga, albergaria , aia, aio, botar, branco, brotar, burgo, •dançar, desaguisado (guisa; *wisa), desmaiar, esmaiar, enguiçar, •esmalte, escarnir, escarnecer, escárnio, esquina, gabar, harpa, loja, •mostrengo, rapar, rico, sabão, tascar, tampa… Elementos de superestrato germânico na língua portuguesa: Antroponímicos •Fernando •Gonçalo •Guilherme •Gustavo •Henrique •Rodrigo •Ricardo Elementos de superestrato germânico na língua portuguesa: Toponímia (Muito frequente no Entre-Douro-e-Minho e na Galiza) •Forjães, Guimarães (Vimara), Vermoim (Vermudo) •Gondarém (Gondario), Gemunde, Guilhufe, Guifões, •Gueifães, Gonceiro, Goda, Valgoda, Aldegoda •Gondim, Godim, Godinho (Gudino) •Midões (Mido), Nevogilde •Roriz, Sandim, Sendim (Sendino) Elementos de superestrato germânico na língua portuguesa: Patronímico Patronímico construído com o genitivo: - Nunici > Nunez - Henriquici > Henriques - Paici> Pais ●Elementos de superestrato árabe na língua portuguesa: ● Elementos de superestrato árabe: cerca de 1000 palavras identificáveis geralmente pelo artigo al- . ● Pode estar assimilado como em azeite; arroz; açúcar; adufe. ● Campos semânticos específicos: Agricultura; culinária; militar; técnico/profissional; administrativo; matemática. ●Elementos de superestrato árabe na língua portuguesa: ● Agricultura: açude, alface, alfarroba, azeite, algodão, arroba, azenha, arroz, bolota, sémola, azeitona, açucena. ● Culinária: acepipe, açúcar. ● Voc. militar: alferes, refém. ●Elementos de superestrato árabe na língua portuguesa: ● Voc. técnico/profissional: alicate, azulejo, alicerce, alambique, alquimia, albarda, alfaiate, alfinete, almofada. ● Administrativo: alcaide, almoxarife, alfândega, armazém, arrabalde, aldeia. ● Matemática: zero, cifra, álgebra, algarismo, algoritmo, aritmética. ●Elementos de superestrato árabe na língua portuguesa: ● Adjetivos: azul, carmim, carmezim, mesquinho, baldio, forro ● Expressão: Oxalá! (Queira Deus!) ●Elementos de superestrato árabe na língua portuguesa: ● Toponímia: ● Algarve, Almada, Alcântara, Alcácer, Odemira, Odeceixe, Aljezur. ● Mais frequente no sul de Portugal. Reinos germânicos na Península Ibérica Área da formação da Língua Portuguesa Fratura na área entre Douro e Mondego: Isoglosas Bibliografia •Manuel Said Ali (1966), Gramática Histórica da Língua Portuguêsa, São Paulo (6.ª ed.) •Ana Maria Brito et al. (eds., 2004), Linguística Histórica e História da Língua Portuguesa: Actas do Encontro de Homenagem a Maria Helena Paiva. Porto. •Ivo Castro (2006), Introdução à História do Português, Lisboa. •Joan Corominas / José A. Pascual, Diccionario crítico e#mológico castellano e hispánico. Madrid. •Neto, S. da Silva, História da Língua Portuguesa (1952), 3ª ed., Rio de Janeiro, Presença, 1979. •Giuseppe Tavani (1968), Preistoria e protostoria delle lingue ispaniche •Paul Teyssier (1983), História da Língua Portuguesa. Lisboa (trad. de Celso Cunha).