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HENRI PAUL HYACINTHE WALLON (1879-1962) A PSICOBIOLOGIA DA CRIANÇA Prof.ª Dra. Adriana M. da Rocha Veiga Universidade Federal de Santa Maria (Fotografia tratta da: Hommage à Henri Wallon, Bulletin International de l'Enseignement, juin 1950) TEORIA CONTEXTUAL DIALÉTICA DO DESENVOLVIMENTO HUMANO Uma vida dedicada à ciência Nascido em Paris, 15 de junho de 1879. 1899-1902: Ecole Normale Superieure. 1902: Professor Agregado de Filosofia do ensino médio de Bar-le-Duc. 1903 - 1908: Estudou Medicina. 1908: Doutor em Medicina - A interpretação baseada em delírio crônico (tese em medicina). 1908 - 1931: Assistente em Bicêtre e Salpêtrière. 1914 - 1918: Mobilizado em um batalhão de médicos. 1920 - 1937: Professor da Sorbonne. 1925 Doutor em Letras, com uma tese sobre a Criança turbulenta (tese de doutorado em Literatura). 2 1927: O laboratório está integrado na Escola Prática de Altos Estudos em que Wallon é nomeado diretor. Presidente da Sociedade Francesa de Psicologia. 1929: Participa da criação do Instituto de Psicologia de Paris do qual ele é membro do Conselho Diretivo e do Instituto Nacional de Formação Profissional, onde ele é professor. 1930: Princípios de Psicologia Aplicada. 1931: Participação no "círculo da nova Rússia." 1934 :As origens do caráter na criança. 1937-1949: Professor no Collège de France. 1941: O desenvolvimento psicológico da criança. Impedido de ensinar pelo governo de Vichy. 1942: adere ao Partido Comunista clandestino, após a execução de Politzer e do Físico Salomon pelos alemães. Junta-se à Resistência. 1942: Do Ato ao Pensamento. 1944: Secretário-Geral da Educação no governo de Libertação. 1945: Diretor da Frente Nacional (Coligação da Esquerda) Assembleia Consultiva Provisória. 1945: As origens do pensamento na criança. 1946: Membro da Assembleia Constituinte, em Paris. Acontece a Langevin como Presidente do Conselho de reforma da educação. 1948: Criação da Revista Enfance <http://www.persee.fr/web/revues/home/prescript/revue/enfan>. 1950-1952: Professor na Universidade de Cracóvia (Polônia). 1950: Os mecanismos da memória. 1951: Presidente da Sociedade de Psicologia de Medicina. 1954 Presidente das Jornadas Internacionais de Psicologia da Criança. Presidente da Sociedade Francesa de Educação. Presidente do Grupo Francês de Educação Nova. 1962. O seu último artigo, "Pluralidade e número nas crianças de 4 a 7 anos." Ele morreu em Paris, em 01 de dezembro de 1962. Les origines du caractère chez l'enfant (1934) - destaca a importância da afetividade no processo de desenvolvimento da personalidade da criança, que se iniciaria de forma sincrética e gradativamente adquiriria contornos mais nítidos através dos processos de diferenciação. A evolução psicológica da criança, Wallon (1941) - destaca a ligação indissolúvel entre o desenvolvimento psíquico e o desenvolvimento biológico do individuo, afirmando que não existe preponderância do desenvolvimento psíquico sobre o desenvolvimento biológico, mas ação recíproca. Há, portanto, uma incessante ação recíproca do ser vivo e de seu meio. OBRAS BÁSICAS DE HENRI WALLON Do ato ao pensamento (1942) - retoma a tese sobre a base orgânica no surgimento do pensamento, destacando que: "[...] do ato motor à representação houve transposição, sublimação desta intuição que, de incluída nas relações entre o organismo e o meio físico, se tornou esquematização mental. A evolução ocorrida entre o ato e o pensamento explica-se simultaneamente pelo oposto e pelo mesmo. (WALLON, 2008, p. 224). Concepção psicogenética dialética do desenvolvimento - grande contribuição para a compreensão da pessoa como ser integral. Movimento dialético: afetividade, cognição, níveis biológicos e socioculturais - contribuições para o processo ensino-aprendizagem. Valoriza a relação professor-aluno e a escola como elementos fundamentais no processo de desenvolvimento. Estabelece e explicita a relação entre psicologia e educação. Visão política de uma educação mais justa para uma sociedade democrática, expressa no projeto Langevin-Wallon, fruto de três anos de trabalho (1945-1947) - buscava repensar o sistema de ensino francês a partir dos princípios norteadores da Justiça e Dignidade, valorizando ainda a cultura geral e destacando a importância de primeiro ter-se orientação escolar e somente depois a profissional. Situa a escola como um meio fundamental no desenvolvimento do sujeitos. Por que estudarmos Henri Wallon? O Método: materialismo dialético O método adotado é o da observação pura. Considera que esta metodologia permite conhecer a criança em seu contexto, “só podemos entender as atitudes da criança se entendermos a trama do ambiente no qual está inserida”. Buscou a base de seu método dialético no materialismo histórico por entender que a natureza, quer seja física ou mental, é uma realidade objetiva que existe fora e independente da consciência. A dialética é o método que considera que a natureza não é uma acumulação acidental de objetos, mas sim resultado de movimentos cuja causalidade se dá na história =tempo=espaço. A observação nas atividades de aula é uma habilidade fundamental, básica, que o professor precisa desenvolver, não só para conhecer seus alunos, mas também para identificar em qual estágio de desenvolvimento a criança se encontra e a partir desse ponto adequar os estímulos e atividades mais corretas ao seu desenvolvimento e aprendizagem. Domínios funcionais Os domínios funcionais "entre os quais vai se distribuir o estudo das etapas que a criança percorre serão, portanto, os da afetividade, do ato motor, do conhecimento e da pessoa" (WALLON, 1995, p. 117) – são construtos teóricos que ajudam na compreensão dos processos de desenvolvimento e aprendizagem. Wallon (2007, p. 113): ”as exigências da descrição obrigam a tratar de forma distinta alguns grandes conjuntos funcionais, o que certamente não pode se feito sem certa artificialidade". O desenvolvimento é visto como um fenômeno dialético, permeado de conflitos internos e externos. PESSOA AFETIVIDADE Conhecimento: COGNIÇÃO Ato motor: MOVIMENTO Pessoa é a denominação dada por Wallon ao domínio funcional que coordena os demais, responsável pelo desenvolvimento da consciência e da identidade do eu. A pessoa, como campo funcional, cumpre um papel integrador importante, mas não absoluto. Domínio funcional: pessoa. Atividades cognitivas, em duas categorias: Movimentos instrumentais - ações executadas para alcançar um objetivo imediato e, em si, não diretamente relacionado com outro indivíduo; este seria o caso de ações como andar, pegar objetos, mastigar etc. Movimentos expressivos - associados a outros indivíduos ou sendo usados para uma estruturação do pensamento do próprio movimentador. Ex.: Falar, gesticular, sorrir. O movimento contribui na atividade de estruturação do pensamento no período anterior à aquisição da linguagem. Conjunto funcional: MOVIMENTO. Base para o desenvolvimento dos demais. Emoção, sentimentos e paixão são desdobramento da afetividade, sem contudo, reduzi-los uns aos outros. Afetividade = apresenta diferentes manifestações ao longo do desenvolvimento, apresentando uma base orgânica até alcançar relações dinâmicas com a cognição, sobretudo quanto aos sentimentos. Base orgânica da afetividade = o meio social vai gradativamente transformando a afetividade orgânica, moldando-a e tornando suas manifestações cada vez mais sociais, unindo o corpo e o meio social. Dimensão fundante na formação da pessoa completa. Domínio funcional: afetividade. Domínio funcional: cognição Wallon (2008, p. 117) “O que permite à inteligência esta transferência do plano motor para o plano especulativo não pode evidentemente ser explicado, no desenvolvimento do indivíduo, pelo simples fato de suas experiências motoras combinarem-se entre si para melhor adaptar-se exigências múltiplas e instáveis do real. O que está em jogo são as aptidõesda espécie, particularmente as que fazem do homem um ser essencialmente social”. Esse domínio funcional: "[...] permite a aquisição e a manutenção do conhecimento por meio de imagens, noções, ideias e representações. É ele que permite ainda registrar e rever o passado, fixar e analisar o presente e projetar futuros possíveis e imaginários". Conjuntos funcionais: Os conjuntos funcionais revezam-se, ao longo dos estágios de desenvolvimento. No estágio sensório-motor, projetivo e categorial, nos quais o movimento se dá para fora, para o conhecimento do outro (força centrífuga), o predomínio é do conjunto funcional cognitivo. Nos estágios impulsivo-emocional, personalismo, puberdade e adolescência, nos quais predomina o movimento para si mesmo (força centrípeta) há uma maior prevalência do conjunto funcional afetivo. O domínio funcional cognitivo oferece um conjunto de funções que permite: "[...] identificar e definir [...] significações, classificá-las, dissociá-las, reuni-las, confrontar suas relações lógicas e experimentais, tentar reconstruir por meio delas qual pode ser a estrutura das coisas" (WALLON, 2007, p. 117). Sob dois princípios fundamentais: 1- Alternância: Sensibilidade introceptiva (viscerais); Sensibilidade proprioceptiva (estimulação dos músculos e seus anexos); Sensibilidade extereoceptiva: estimulada pelos agentes exteriores do organismo (visão, audição, olfato, etc...) e do córtex cerebral. Como se dá o desenvolvimento dialético, sob o ponto de vista de Henri Wallon? 2- Integração Funcional: a mudança de fase, assimilando o que já foi adquirido, não exclui o estágio precedente. Dá uma continuidade a tudo o que já foi adquirido. - Conflitos propulsores do desenvolvimento: * exógenos => desencontros entre as ações da criança e o ambiente exterior (adulto, cultura...) * endógenos => gerados pelos efeitos da maturação nervosa A alternância e a integração funcional ocorrem em um jogo dialético onde a maturação do sistema nervoso e as vivências sociocultural são vitais. Não têm uma base cronológica, mas sim uma sucessão funcional. Em cada estágio existe um conflito específico que a criança deve resolver. As respostas que a criança dispõe, sejam motoras, cognitivas ou afetivas são inseparáveis, estão integradas em unidades dialéticas. Na sucessão de estágios há uma alternância funcional , ou seja, ocorre a incorporação das conquistas realizadas nas fases => processo de integração e diferenciação. Os estágios de desenvolvimento humano, Segundo Wallon: O estágio posterior amplia e reforma os anteriores. Do nascimento até aproximadamente o primeiro ano de vida, a criança passa por uma fase denominada estágio impulsivo-emocional. É um estágio predominantemente afetivo, onde as emoções são o principal instrumento de interação com o meio. A relação com o ambiente desenvolve, na criança, sentimentos intraceptivos e fatores afetivos. Estágio impulsivo-emocional Estágio sensório-motor e projetivo É uma fase onde a inteligência predomina e o mundo externo prevalece nos fenômenos cognitivos. Os pensamentos, nesse estágio, muito comumente se projetam em atos motores. O eu depende do outro, seja para ser referência, seja para ser negado. Principalmente a partir do instante em que a criança começa a viver a chamada "crise de oposição", em que a negação do outro funciona como uma espécie de instrumento de descoberta de si própria. Por volta dos 3 anos de idade, chega a hora de saber quem “eu” sou. Manipulação, sedução e imitação de outra pessoa são características comuns nessa fase. Até mesmo a dor, o ódio e o sofrimento são elementos estimuladores da construção do eu. A formação do eu ESTÁGIO DO PERSONALISMO Este estágio, que se estende aproximadamente dos três aos seis anos de idade, é um período crucial para a formação da personalidade do indivíduo e da autoconsciência. Uma consequência do caráter autoafirmativo deste estágio é a crise negativista: a criança opõe-se sistematicamente ao adulto. Por outro lado, também se verifica uma fase de imitação motora e social. Estágio Categorial Neste estágio, a criança começa a desenvolver as capacidades de memória e atenção voluntárias. Este estágio geralmente manifesta-se entre os [seis e os onze anos de idade] Estágio da Adolescência Mais ou menos a partir dos onze, doze anos, a criança começa a passar pelas transformações físicas e psicológicas da adolescência. Este é um estágio caracterizadamente afetivo, onde o indivíduo passa por uma série de conflitos internos e externos. Os grandes marcos desse estágio são a busca de auto-afirmação e o desenvolvimento da sexualidade. REFERÊNCIAS NAUJORKS, M. I. Henri WalLon: por uma teoria dialética na educação. Santa Maria: UFSM, CE: Revista Educação Especial, 2006, N.º 26. Disponível em http://www.ufsm.br/ce/revista/ceesp/2006.htm0/02/a. MAHONEY, A. A.; ALMEIDA, L. R. de. Afetividade e processo ensino-aprendizagem: contribuições de Henri Wallon. Psicologia da educação, v. 20, p. 11-30, 2005. ISSN 1414-6975. WALLON, H. Les origines du caractère chez l'enfant: les préludes du sentiment de personnalité. Paris: Boivin, 1934. _____. As origens do pensamento na criança. São Paulo: Manole, 1986. _____. A evolução psicológica da criança. São Paulo: Martins Fontes, 2007. _____.Do ato ao pensamento: ensaio de psicologia comparada. Petrópolis: Vozes, 2008. FERREIRA, A. L. F. ACIOLY-RÉGNIER, N. M. Contribuições de Henri Wallon à relação cognição e afetividade na educação Dossiê: Cognição, Afetividade e Educação. Educar em Revista. N.º36 Curitiba, 2010. Disponível em: <http://dx.doi.org/10.1590/S0104-40602010000100003 > 25