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ISSN 1517-6959
Ano 12
Nº 37
Janeiro/Fevereiro
Março/Abril
2006
R$ 5,00
Influenza Aviária: 
Novo desafio para a Medicina Veterinária
Questões éticas relacionadas com
 a publicação científica pág. 71
A Revista CFMV é editada quadrimestralmente pelo 
Conselho Federal de Medicina Veterinária 
e destina-se à divulgação de trabalhos técnico-científicos
(revisões, artigos de educação continuada, artigos originais) 
e matérias de interesse da Medicina Veterinária e da Zootecnia. 
A distribuição é gratuita aos inscritos no sistema CFMV/CRMVs 
e órgãos públicos. Correspondência e solicitações de números avulsos 
devem ser enviadas ao Conselho Federal de Medicina Veterinária 
no seguinte endereço:
SIA - Trecho 6 - Lote 130 e 140
Brasília-DF – Cep: 71205-060
Fone: (61) 2106-0400 - Fax: (61) 2106-0444
Site: www.cfmv.org.br - E-mail: cfmv@cfmv.org.br
A Revista CFMV é indexada na base de dados AGROBASE
Revista CFMV. – v. 1, n.1 (1995) – 
 Brasília: Conselho Federal de Medicina Veterinária,
 1995 – 
 Quadrimestral
 ISSN 1517 – 6959
1. Medicina Veterinária – Brasil – Periódicos.
 I. Conselho Federal de Medicina Veterinária.
 AGRIS L70
 CDU 619(81)(05)
ENTREVISTA 3
10
12
19
66
72
BEM-ESTAR ANIMAL
puBLIcAçõES 76
AgENdA 78
opINIão 80
Professora Maria das Dores Correia Palha
I Congresso Nacional de Saúde Pública Veterinária
 Diagnóstico das fases do Ciclo estral através da citologia vaginal em cadelas 
 apreendidas pelo Centro de Vigilância Ambiental da Cidade do Recife-PE
 Acrobustite bovina: Revisão de literatura
 Ceratite ulcerativa por Pseudomonas Aeruginosa no cavalo - revisão
 As múltiplas faces e desafios de uma profissão chamada Medicina Veterinária
 Dirofilariose canina: Situação atual no Brasil 
A crueldade com animais: como identificar seus sinais? 
O Médico Veterinário e a prevenção da violência doméstica
Questões éticas relacionadas com a publicação científica
 Tratamento da Dor para o Clínico de Pequenos Animais
 Orientações da OMS/FAO/OIE para a Vigilância, Prevenção e Controle da Tenía-
se/Cisticercose
 Doenças de Ruminantes e Eqüinos - Volumes 1 e 2
 Atlas de Anatomia Aplicada dos Animais Domésticos
Prêmio Paulo Dacorso Filho
SupLEMENTo TécNIco
pREMIAção 
ENSINo MédIco-VETERINá-
14
XV Seminário Nacional de Ensino da Medicina Veterinária
SAúdE púBLIcA VETERINá-
Influenza Aviária: E agora?
15INfLuENzA AVIáRIA
Aves migratórias e a Influenza Aviária no Brasil
éTIcA NA puBLIcAção cIENTífIcA
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
EDITORIAL
Ano XII – N° 37
Janeiro a Abril de 2006
CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA 
VETERINÁRIA
SIA - Trecho 6 - Lote 130 e 140
Brasília-DF – Cep: 71205-060
Fone: (61) 2106-0400
Fax: (61) 2106-0444
www.cfmv.org.br
cfmv@cfmv.org.br
Tiragem: 72.000 exemplares
DIRETORIA EXECuTIVA
Benedito Fortes de Arruda
Presidente
Eliel Judson Duarte de Pinheiro
Vice-Presidente
Eduardo Luiz Silva Costa 
Secretário-Geral
Enio Gomes da Silva
Tesoureiro
Conselheiros Efetivos
Paulo Antônio da Costa Bilégo
Oriana Bezerra Lima
Amilson Pereira Said
Nelmon Oliveira da Costa
Adeilton Ricardo da Silva
Carlos Marcos Barcellos de Oliveira
Conselheiros Suplentes
Antonio Roberto de Araújo Neves
José Heriberto Teixeira de Albuquerque
Nina de Oliveira Ramos e Andrade
Célio Macedo da Fonseca
José Franklin de Paula da Silva
Felipe Nauar Chaves
Comitê Editorial
Eliel Judson Duarte de Pinheiro
Presidente
CRMV-BA nº 0140
Eduardo Luiz Silva Costa
CRMV-SE nº 0037
Enio Gomes da Silva
CRMV-DF nº 0400
Editor
Rômulo José Vieira
CRMV-PI nº 0080
Jornalista Responsável
Marcus Vinicius O. dos Santos
DRT DF 2795JP
Os artigos assinados são de inteira respon-
sabilidade dos autores, não representando, 
necessariamente, 
a opinião do CFMV
Fone: 
(61)3342-3653
CLSW 302 
Bl. C Sala 127 
Sudoeste 
 Brasília - DF
expressaografica@hotmail.com
Nos últimos anos, a Revista CFMV tem contemplado uma política editorial 
voltada para a discussão de temas de grande relevância para o aperfeiçoa-
mento técnico-profissional da Medicina Veterinária e da Zootecnia.
Nesta nova fase da publicação, busca-se ampliar as reflexões profissio-
nais relacionadas com as diferentes problemáticas no âmbito da Medicina 
Veterinária e da Zootecnia. São temas relacionados à pecuária nacional 
e à sociedade em geral, a exemplo das questões sanitárias dos rebanhos, do 
bem-estar animal e da biodiversidade, além da sustentabilidade dos diferentes 
ecossistemas brasileiros.
Sintonizado com os anseios dos múltiplos atores sociais, o CFMV vem priorizando 
o debate acerca da humanização da ciência. Esse estímulo é proporcionado por 
meio da sensibilização de professores, pesquisadores, estudantes e de outros 
profissionais e instituições públicas, para a questão crucial da ética. Essa diretriz 
primordial deve ser analisada e discutida tanto na docência, pesquisa, saúde 
pública e produção animal, quanto em relação aos animais de companhia, na 
luta em defesa da implementação de normativas específicas no âmbito gover-
namental e das entidades de especialistas.
Ocupam destaque nesta edição, matérias de grande interesse nacional, como 
o Projeto Biofauna e a Influenza Aviária, dentre outras, que possibilitam uma 
melhor compreensão e maior participação no debate em prol dos interesses 
nacionais.
Sob esta ótica, os novos gestores do CFMV e desta publicação conti-nuam 
convocando os colegas a contribuírem com artigos, sugestões e críticas cons-
trutivas, no sentido de consolidar ainda mais o edificante e meritório trabalho 
dos médicos veterinários e zootecnistas brasileiros.
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
ENTREVISTA
Tida como um santuário 
ecológico da humanidade, 
a Amazônia abriga em seu 
notável ecossistema uma 
diversidade fabulosa de 
espécimes animais e vege-
tais, muitos dos quais amea-
çados de extinção pela 
ação predatória de des-
bravadores inescrupulosos 
ou do rentável negócio da 
biopirataria internacional. 
Neste cenário ameaçador 
para as futuras gerações 
dos povos amazônicos, 
surge a figura singular da 
médica veterinária Maria 
das Dores Correia Palha, 
uma dedicada e competen-
te professora da Universi-
dade Federal Rural da Amazônia (UFRA), em Belém, 
no Pará, cujo trabalho a frente da equipe do Projeto 
Biofauna tem chamado a atenção de autoridades, pes-
quisadores, ambientalistas e estudantes, bem como de 
organismos nacionais e estrangeiros cuja preocupação 
está voltada para a preservação da fauna, da flora e 
do meio ambiente. 
A nossa entrevistada possui uma formação sólida e ec-
lética no campo da ciência veterinária, visto que após 
sua diplomação em Medicina Veterinária pela UFRPE 
(1982), no Recife, mudou-se para a capital alagoana, 
onde atuou junto a Secretaria de Agricultura e a Empresa 
de Pesquisa Agropecuária de Alagoas (EPEAL). (1982-
1989) e posteriormente, ingressou como Professora 
Assistente na Universidade Federal de Alagoas (UFAL), 
onde permaneceu até 1993, sempre trabalhando na área 
de Reprodução Animal. A partir de 1994, possivelmente 
movida pelo desafio de pesquisar a rica fauna da Região 
Amazônica, transferiu-se para Belém-PA, ingressando 
na Faculdade de Ciências Agrárias do Pará (FCAP), 
depois transformada em Universidade Federal Rural 
Professora Maria das Dores Correia Palha
 
da Amazônia (UFRA), onde 
permanece até o presente 
momento. Para galgar uma 
merecida posição de desta-
que na vida acadêmica, con-
cluiu o mestrado em Medi-
cina Veterinária na UFRPE 
(1992) e o doutorado em Ci-
ências Biológicas na UFPE 
(1999), este último voltado 
para uma espécie silvestre, 
visto que a sua tese versou 
sobre “Jacaretinga (Caiman 
crocodilus crocodilus), em 
cativeiro – aspectos biológi-
cos e reprodutivos”. Como 
uma pesquisadora diligente 
nesta nova especialidade, em 
2001 participou do I Curso 
Internacional em Medicina 
da Conservação, promovido pelo Instituto de Projetos e 
PesquisasEcológicas (IPE) o que tem servido de escopo 
para estabelecer as linhas de pesquisa “Conservação 
de animais silvestres, produção de animais silvestres e 
recursos faunísticos”. 
Para coroar a sua intensa atividade de pesquisa, a Profa. 
Maria das Dores vem participando desde 1994, junto 
com uma eficiente equipe de pesquisadores e estudantes, 
do Projeto Biofauna – Biologia geral e reprodutiva na 
conservação e produção de animais silvestres da Ama-
zônia, o qual tem possibilitado uma melhor compreensão 
do delicado ecossistema da Região, o treinamento de 
profissionais e estudantes universitários, particular-
mente de Medicina Veterinária, e a produção de uma 
vasta e atualizada literatura científica. Em conexão com 
isto, a nossa entrevistada foi co-autora do livro “Biblio-
grafia sobre animais silvestres da Amazônia” e autora 
principal de capítulo de livro intitulado “Levantamento 
da fauna silvestre em duas comunidades de várzea da 
Amazônia Oriental”. Mas o grande destaque de seu 
incansável trabalho acadêmico está concentrado na 
Avanços Científicos em Defesa 
da Fauna Amazônica
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
ENTREVISTA
formação de jovens pesquisadores, através do Pro-
grama de Iniciação Científica da UFRA/CNPq, onde 
já orientou 26 projetos de pesquisa de estudantes de 
graduação e 17 estágios supervisionados obrigatórios 
e outras orientações de formandos e profissionais.
Comprometida com a carreira universitária e com a 
profissão, a Profa. Maria das Dores tem participado 
de inúmeras bancas de pós-graduação, em nível de 
mestrado, exame de qualificação e doutorado e atuado 
como consultora (ad hoc), na análise de vários projetos 
de pesquisa. Coordenou, também, o curso de especiali-
zação em “Manejo para a conservação e produção de 
animais silvestres”. Expressiva tem sido ainda a sua 
participação em congressos brasileiros de Medicina 
Veterinária, de Ecologia, de Iniciação Científica e da 
Sociedade de Zoológicos do Brasil e internacionais, com 
destaque para o IV e V Congresso Internacional sobre 
Manejo da Fauna en Amazonia e Latinoamerica, em 
Assunção – Paraguai (1999) e Cartagena – Colômbia 
(2001), respectivamente. 
Dessa forma, tendo como respaldo os indicadores de pro-
dução científica e a visão holística da Profa. Maria das 
Dores acerca da problemática que envolve o ecossistema 
amazônico, estamos confiantes de que o seu edificante 
trabalho profissional, pautado em princípios éticos e hu-
manísticos, em muito contribuirá para o desenvolvimento 
sustentável da Amazônia. 
Inicialmente, gostaríamos de 
saber como surgiu o Projeto Bio-
Fauna e quais os seus principais 
objetivos no contexto da Região 
Amazônica? 
Profª. Maria das Dores Correia 
- O Projeto Bio-Fauna surgiu em 
1994, após rodada de reuniões 
com pesquisadores e profissionais 
atuantes na área animal, sobre as 
possibilidades de desenvolvermos 
um projeto integrado de pesquisa. 
Recém-chegada à região, após ex-
periências profissionais no Nordeste 
e Sul do Brasil, com ênfase em re-
produção biotecnológica, optamos 
pelo tema dos animais silvestres por 
entender que havia uma lacuna na 
Universidade Federal Rural da Ama-
zônia, então Faculdade de Ciências 
Agrárias do Pará (FCAP). Aliás, é 
bom frisar que adotamos comumente 
o termo animais “silvestres”, ao 
invés de “selvagens”, tecnicamente 
mais apropriado, em função de ser 
utilizado na legislação ambiental 
brasileira e mais aceito por parte 
dos interlocutores leigos. Não havia 
uma rotina de trabalho e as expe-
riências prévias, além de escassas, 
tinham caráter pontual. Em nossa 
avaliação, atuar nesta temática seria 
imprescindível, por ser a UFRA uma 
instituição comprometida com a di-
mensão ecológica e socioeconômica 
da região. Além disso, constatamos 
que Belém apresentava condições 
bastante favoráveis em seu cenário 
institucional em C&T, para apoio 
ao trabalho com animais silvestres, 
propícias a um projeto integrado. 
Em relação aos objetivos, aconte-
ceu um fato interessante. Inicial-
mente, sob influência da formação 
biotecnológica, nossa idéia era de 
um projeto do tipo “Arca de Noé”, 
aonde pudéssemos colocar a fauna 
amazônica (células somáticas, ga-
metas e embriões), em um botijão de 
nitrogênio líquido. Nossas primei-
ras incursões foram neste sentido, 
incluindo primatas não-humanos. 
Posteriormente, fizemos uma ava-
liação e verificamos que havia tantas 
lacunas em termos de pessoal, infra-
estrutura, integração institucional 
e de conhecimentos básicos sobre 
as espécies, que dificultavam um 
trabalho dinâmico e de cunho mais 
aplicado. Para se ter uma idéia, na-
quela época, apenas engatinhávamos 
nas colheitas de sêmen em primatas, 
enquanto diversos laboratórios em 
países desenvolvidos já dominavam 
há anos (e continuam dominando) o 
conhecimento sobre aspectos avan-
çados da reprodução biotecnológica 
de nossas espécies, especialmente 
aquelas de interesse biomédico. 
Refletimos sobre a validade de fazer 
pesquisas extremamente básicas 
naquelas condições e resolvemos rea-
dequar o projeto atuando em áreas 
mais aplicadas nos âmbitos bioló-
gico e socioeconômico, de maior 
adequação à realidade local. Me 
pergunto se essa correção de rumos 
é um exercício crítico comum aos 
nossos grupos de pesquisa.
Quais as principais linhas temáti-
cas desenvolvidas pelo Bio-Fauna? 
Que tipo de cooperação técnica o 
Projeto mantêm na atualidade?
Profª. Maria das Dores Correia 
- Atuamos em três grandes áreas de 
 pesquisa relacionadas aos recursos 
faunísticos: os estudos básicos (ge-
rais e reprodutivos), a conservação 
e o aproveitamento em bases susten-
táveis. Atualmente desenvolvemos 
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
ENTREVISTA
projetos envolvendo educação (am-
biental e científica, com enfoque em 
recursos faunísticos) e aspectos bio-
lógicos e econômicos de quelônios 
em cativeiro (muçuãs – Kinosternon 
scorpioides e tartaruga-da-Amazô-
nia – Podocnemis expansa), com 
interface com a vida livre, além de 
abrigarmos um estudo sobre doenças 
infecciosas em carnívoros. Afora a 
pesquisa, prestamos serviços insti-
tucionais diversos (com ênfase na 
qualificação de pessoal externo) e 
atuamos no ensino formal de gradu-
ação e pós-graduação. Temos vários 
parceiros, formais e informais, em 
especial com atuação acadêmica-
científica, e em instâncias variadas, 
visando a conservação ambiental, o 
combate ao tráfico, a proteção e o 
bem-estar da fauna silvestre. Dentre 
alguns parceiros governamentais 
destacamos as Secretarias Estadual 
e Municipal de Meio Ambiente; a 
Secretaria Estadual de Transpor-
tes; as Polícias Ambiental, Civil 
e Militar; o Corpo de Bombeiros; 
o Exército brasileiro; o Banco da 
Amazônia (BASA); a Embrapa e 
o Museu Paraense Emílio Goeldi, 
além de diversas Universidades e 
do Ibama. Na esfera privada, temos 
experimentado parcerias com em-
presas (Celpa, Supermercados Líder, 
Eletronorte, Fazenda Inhamuns, etc.) 
e ONGs, entre as quais Instituto So-
cioambiental do Amapá (IESA-AP), 
Novos Curupiras, Rede Nacional 
de Combate ao Tráfico de Animais 
Silvestres (RENCTAS-DF), Instituto 
Milton Thiago de Mello (IMTM-
DF), Humane Society International 
(HSI-USA), entre outras. 
Considerando sua posição de co-
ordenadora do Bio-Fauna, bem 
como sua formação profissional, 
como tem sido a atuação de sua 
equipe na Medicina da Conser-
vação? 
Profª. Maria das Dores Correia 
- Desde o início de 2001, temos 
participado de eventos e fóruns de 
debates sobre a temática. Fizemos 
diversos esforços no sentido de 
viabilizar projetos de capacitação e 
de pesquisa, tendo parcerias como a 
Universidade de Illinois, USA, mas 
esbarramos na dificuldade de capta-
ção de recursos e em outros entraves. 
Na prática, além da oferta de cursos 
de extensão e da inclusão do tema 
nas disciplinas sob nossa responsabi-
lidade, abrigamos uma pesquisa em 
andamento sobre doenças em carní-
voros silvestres e sua relaçãocom os 
demais animais (domésticos ou não) 
e o homem. Vale enfatizar ainda que 
o nosso serviço de reabilitação clíni-
ca, o SOS Fauna, foi concebido para 
ser uma ferramenta importante para 
estudos das doenças dos animais 
silvestres e suas interfaces com os 
demais grupos animais e o homem. 
No entanto, somos poucos e neces-
sitamos ampliar a infra-estrutura 
material e humana, especialmente no 
tocante ao apoio diagnóstico. Faz-
se necessária uma ampla discussão 
interinstitucional para que se reúnam 
as competências locais à serviço de 
trabalhos voltados à saúde na Ama-
zônia, considerando os amplos con-
textos de saúde: humana, animal e 
ambiental. Também temos realizado 
estudos sobre indicadores de susten-
tabilidade para comunidades ribeiri-
nhas da Amazônia, em parceria com 
o Projeto Várzea – ISARH/UFRA, 
que abrangem aspectos de saúde 
e qualidade de vida, relevantes ao 
tema da Medicina da Conservação. 
Recentemente, mediante parceria 
UFRA-UFF-FIOCRUZ, reforça-
mos nosso quadro de pessoal e de 
possibilidades nesta área. Estamos 
discutindo a integração dos esfor-
ços de pesquisas que realizamos 
na UFRA, sobre indicadores de 
sustentabilidade global no contexto 
amazônico, aos trabalhos da Fiocruz 
sobre vulnerabilidade aos riscos 
ambientais. As iniciativas mencio-
nadas são ainda bastante tímidas, 
mas há que se admitir que o estudo 
efetivo das interações complexas de 
distintos componentes dos sistemas 
ecológicos, requer o estabelecimento 
de parcerias interinstitucionais, com 
o aproveitamento da excelência em 
termos da infra-estrutura material e 
pessoal. Nesta questão, a formação 
de equipes multidisciplinares de alto 
nível, integradas para o exercício 
transdisciplinar, conforme os desa-
fios da Medicina da Conservação, 
demanda tempo e investimento 
financeiro para sua constituição e 
consolidação. Uma das primeiras 
ações, fruto deste convênio, deverá 
ser um seminário sobre transdisci-
plinaridade na UFRA, considerando 
que entre nós os departamentos aca-
dêmicos desapareceram dando lugar 
aos institutos temáticos.
Sendo o Bio-Fauna um projeto 
estratégico da uFRA, como a Sra. 
avalia o impacto deste na formação 
multidisciplinar de estudantes de 
graduação e de pós-graduação?
Profª. Maria das Dores Correia 
- Temos a satisfação de observar 
que os estudantes e profissionais que 
transitam em nosso projeto adquirem 
um treinamento diferenciado em sua 
capacidade de leitura do ambiente 
(em seus distintos contextos) e na 
resolução de problemas. Prezamos 
pela excelência das especialidades 
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
ENTREVISTA
técnicas abraçadas por cada um, 
mas nossa rotina faz com que, 
adicionalmente, tenham contato 
com uma variedade de desafios e 
experiências que os enriquecem 
dia-a-dia, contribuindo para uma 
visão mais sistêmica. É comum ver 
os Médicos Veterinários apoiando 
trabalhos de levantamentos florís-
ticos e os Engenheiros Florestais 
auxiliando os estudos da fauna. E 
ambos participando da capacitação 
de professores de ensino médio e 
profissionalizante, por exemplo. Um 
dos principais pontos que valoriza 
a formação de nosso pessoal é que 
somos desafiados rotineiramente à 
resolução de problemas e tal reso-
lução, não demanda meramente um 
exercício pessoal e solitário. Ao 
contrário, nos motiva a comparti-
lhar curiosidades e conhecimentos, 
procurando identificar parceiros 
que nos apóiem, embora ainda seja-
mos poucos. Para muitos alunos, eu 
diria até que para muitos de nossos 
colegas professores, ainda é difícil 
entender seus papéis como poten-
ciais transformadores da realidade 
local. A UFRA forma profissionais 
para os mais diversos rincões da 
Amazônia, é pois, fundamental que 
os professores, em suas disciplinas 
e projetos, conheçam e reconheçam 
essa dimensão e a missão institu-
cional. A extensa rotina do projeto, 
com interlocutores diversos e em 
situações variadas, sejam reuniões, 
debates, viagens, trabalhos práticos, 
entre outros, se torna um exercício 
de relações interpessoais e inte-
rinstitucionais que contribui para 
a formação dos que transitam no 
Bio-Fauna. Temos tido oportunida-
des de testemunhar manifestações 
idealistas e éticas, ao ponto de que 
recém-graduados que transitaram no 
Projeto, chegaram a recusar propos-
tas de trabalho por não concordarem 
com o estilo de gestão ou a filosofia 
do empregador. Isso aponta para um 
idealismo incomum em nosso país, 
nos dias atuais. 
Como tem sido a integração da 
equipe do Bio-Fauna junto às 
 comunidades da região amazô-
nica? Qual a contribuição do 
Projeto para o desenvolvimento 
sustentável da Região?
Profª. Maria das Dores Correia 
- Essa vivência tem permitido con-
tato com comunidades rurais, espe-
cialmente extrativistas ribeirinhos, 
em ações integradas com o Projeto 
Várzea, da UFRA. Finalizamos 
alguns anos atrás, estudos na área 
do estuário amazônico, trabalhando 
com comunidades representativas 
do ecossistema de várzeas flúvio-
marinhas, ou seja, que têm influência 
direta das marés. Além disso, temos 
feito diversas viagens para cursos de 
capacitação e realização de estudos 
de campo. Com isto, favorecemos 
aos nossos estudantes possibilidades 
de imersão na realidade amazôni-
ca. Recentemente, concluímos um 
estudo pioneiro na região sobre o 
impacto na fauna e na flora de uma 
estrada que cortou uma extensa área 
florestal de relevância ecológica es-
tratégica. Lideramos os estudos que 
contou com profissionais de diversas 
 áreas (Engenheiros Agrônomos, 
Engenheiros Florestais, Médicos 
Veterinários, Biólogos etc.). Por 
quase um ano, realizamos estudos 
in-situ que implicaram também em 
uma abordagem comunitária, para 
avaliar os reflexos dos impactos 
da estrada sobre as comunidades. 
Agora, por exemplo, uma de nossas 
bolsistas, concluinte do curso de 
Medicina Veterinária, encontra-se 
ministrando um treinamento sobre 
prevenção de acidentes ofídicos 
destinado a mulheres extrativistas, 
que foi requisitado por uma As-
sociação Comunitária do Marajó, 
por intermédio da ONG Novos 
Curupiras. Todas estas experiências 
nos permitem conhecer melhor as 
relações homem-fauna-ecossistema 
e entender o uso da fauna e suas im-
plicações ecológicas-econômicas e 
socio-culturais. Também nos ajudam 
a perceber e valorizar a sabedoria 
popular, coisa bastante alijada da 
realidade acadêmica, pela postura 
extremamente meritocrática e orto-
doxa das Universidades brasileiras. 
Do ponto de vista das comunidades 
urbanas, temos vivenciado contatos 
diversos. No ano passado, iniciamos 
um projeto em parceria com a Escola 
de Ensino Fundamental e Médio Vir-
gílio Libonati, da Secretaria Estadual 
de Educação, localizada no campus-
sede da UFRA, e cujos alunos são 
extremamente carentes. Um de nos-
sos primeiros trabalhos foi o levanta-
mento socioeconômico das famílias 
dos alunos. As atividades práticas, 
incluindo o processamento de dados, 
Todas estas experiências 
nos permitem conhe-
cer melhor as relações 
homem-fauna-ecossiste-
ma e entender o uso da 
fauna e suas implicações 
 ecológicas-econômicas e 
socio-culturais. 
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
foram realizadas por estudantes do 
Curso de Medicina Veterinária, que 
se inteiraram da realidade e ficaram 
mais motivados pelo trabalho. Fica 
difícil entender como uma escola 
localizada dentro do Campus, que 
inclusive é rota de passagem de 
todos, professores, pessoal técnico-
administrativo e estudantes, esteja 
fora da rotina da Universidade. O 
projeto que desenvolvemos de edu-
cação ambiental e cidadã é uma das 
poucas iniciativas de aproximação 
da UFRA com a referida escola. Por 
outro lado, o serviço de reabilitação 
clínica de animais silvestres, o SOS 
Fauna, inaugurado em 2002, implica 
em contatos eventuais com pessoas 
da comunidade. É comum animais 
mutilados serem alvo da sensibili-
dade das pessoas que os apanham 
e os encaminham ao nosso serviço. 
Treinamosnosso pessoal não so-
mente a dar atenção aos animais em 
sofrimento, mas para conversar com 
as pessoas buscando conscientizá-
las para a causa ambiental. Explica-
mos detalhadamente o porquê dos 
animais ficarem vulneráveis, numa 
cidade onde as áreas verdes estão 
desaparecendo e os impactos nega-
tivos sobre a fauna silvestre se mul-
tiplicam. Explicamos, por exemplo, 
como o impacto dos fogos de artifí-
cio, comuns durante jogos de fute-
bol, festas religiosas, comícios etc., 
desnorteia os animais, especialmente 
as aves, tornando-as alvos fáceis de 
pedradas, tiros e outras agressões. É 
gratificante ouvir de muitos deles: 
“Eu nunca havia pensado nisso!”. 
Nesta hora a gente sabe que ganhou 
um parceiro. No caso de pessoas que 
praticam a manutenção domiciliar 
ilegal, ainda muito comum em nossa 
região, temos que explicar que, após 
a reabilitação, o animal será enca-
minhado para destinação mediante 
intervenção de um órgão ambiental. 
Nossa interação com as comunida-
des, seja nos trabalhos de campo ou 
na prestação de serviços ao público, 
ajuda na compreensão da realidade 
local e ressalta o papel institucional 
e de cada um de nós, pesquisadores 
e técnicos, em contribuir para me-
lhorar nossa realidade. 
Como o Bio-Fauna tem contri-
buído no combate ao tráfico de 
animais silvestres e na defesa da 
biodiversidade? Neste contexto, 
comente a importância do SOS 
Fauna.
Profª. Maria das Dores Correia 
- De várias maneiras. Temos diver-
sos parceiros e atuamos em coope-
ração. Participamos de campanhas 
de conscientização, programas de 
educação ambiental, redes de discus-
são, capacitação de pessoal, além de 
realizarmos e apoiarmos pesquisas 
nesse tema. Vale destacar o apoio ao 
trabalho desenvolvido pela RENC-
TAS, em nível nacional e interna-
cional, e por outras ONGs, além 
das iniciativas de nossos parceiros 
governamentais. Por exemplo, as 
Polícias civil e militar e o Corpo de 
Bombeiros demandam nosso apoio 
para suas campanhas educativas e 
para o treinamento de seus efetivos. 
É gratificante acompanhar nossos 
estudantes engajados nestes traba-
lhos, sejam em praças, aeroportos, 
escolas etc. Outra iniciativa de 
destaque é o Fórum Fauna – Fórum 
Permanente de Discussão sobre 
Fauna Selvagem no Pará, criado em 
2002, que congrega mais de uma 
centena de voluntários atuantes na 
proteção e conservação da fauna. 
Três grandes problemas prioritários 
foram estabelecidos pelo Fórum: a 
viabilização do CETAS-Belém e de 
um Serviço Integrado de Documen-
tação e Informação e a capacitação 
de pessoal. Várias ações foram 
realizadas em caráter voluntário. 
Consideramos, por exemplo, que o 
nosso serviço de reabilitação clínica 
(SOS Fauna) deva ser ampliado em 
suas potencialidades e integrado a 
uma estrutura maior, que envolva a 
reabilitação ecológica, possibilitan-
do condições de sobrevivência do 
animal em vida livre, a depender da 
situação. Para isso, temos que viabi-
lizar o CETAS-Belém, há muito uma 
bandeira defendida pelo Bio-Fauna. 
No entanto, esta é uma questão deli-
cada, pois embora no discurso todos 
queiram o CETAS, na prática quem 
quer arcar com a responsabilidade 
técnica e, especialmente, financeira? 
Este esforço, se tem pouco mérito 
ecológico direto, tem uma capaci-
dade impressionante de sensibilizar 
as pessoas, tanto que a reabilitação 
clínica é a ação do Bio-Fauna que 
mais tem tido divulgação na mídia 
e repercussão na comunidade leiga. 
Este efeito deve ser usado em prol 
da conscientização sobre a conserva-
ção dos recursos faunísticos, sendo 
imprescindível que o SOS Fauna ou 
serviços semelhantes sejam mobili-
ENTREVISTA
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
zados na educação ambiental. Outro 
aspecto de muita importância é a 
contribuição do SOS Fauna na capa-
citação de pessoal. Nossos relatórios 
demonstram a grande mobilização 
de interessados das mais diversas 
áreas, especialmente de Medicina 
Veterinária, Biologia e Direito Am-
biental. Talvez o Bio-Fauna seja 
o único projeto da área animal 
da UFRA a receber estudantes de 
fora do estado, inclusive de outros 
países. Desde sua inauguração, em 
2002, tivemos 38 orientações de es-
tagiários locais e sete de estagiários 
procedentes de outros Estados ou do 
exterior; 9 orientações de TCC/ECC 
(locais, outros Estados e exterior); 9 
orientações de bolsistas Pibic/CNPq; 
3 orientações de estudantes de pós-
graduação; 4 contratações de pesqui-
sadores (bolsistas do projeto); além 
de 77 visitas recebidas (individuais 
ou delegações). Estes números são 
bastante expressivos para nossas 
condições e mostram o esforço e a 
repercussão do trabalho. No entanto, 
nem tudo são flores, temos uma série 
de problemas a tratar, desde a grande 
burocracia legal às vaidades pesso-
ais e institucionais, passando pelas 
fragilidades inerentes ao nosso meio, 
por exemplo, a carência de profissio-
nais especializados para suporte às 
diversas demandas técnicas e tecno-
lógicas deste trabalho. Hoje, grande 
parte de nosso tempo tem sido gasto 
nestes entraves, o que efetivamente 
compromete nosso rendimento. 
Praticamente não temos conseguido 
acesso a mecanismos para fixar e 
apoiar a qualificação do pessoal que 
nós treinamos e que tem perfil para 
continuar no projeto. Há necessida-
de urgente de maior investimento 
nos programas locais de pesquisa 
e pós-graduação específicos para a 
temática da conservação ambiental 
e dos recursos faunísticos. 
Partindo da premissa que o Bio-
Fauna é uma experiência bem 
sucedida de conservação da na-
tureza, seria possível implantar 
projetos similares para outros 
ecossistemas brasileiros, a exem-
plo da caatinga e do cerrado?
Profª. Maria das Dores Correia 
- Claro que sim, com profissio-
nalismo, idealismo, criatividade, 
compromisso e o engajamento de 
pessoas competentes e convergentes. 
Infelizmente, na maioria das vezes 
quem tem o recurso financeiro não 
tem as qualidades mencionadas e 
vice-versa. Em algumas situações há 
excelente infra-estrutura física e de 
equipamentos, sem que haja a mes-
ma excelência em termos de pessoal 
qualificado. Este é o nosso problema 
principal, seja em termos quantita-
tivos ou qualitativos, há carência de 
pessoal dedicado à temática. Penso 
que nesta seara não há uma receita. 
Quem transita em meio ambiente e 
em recursos faunísticos, mais espe-
cificamente, aprende que tudo está 
em construção. O importante é ser 
sempre ascendente. Sempre digo 
aos que buscam ajuda para projetos 
envolvendo a fauna silvestre que 
tenham cuidado com os “vendedores 
de ilusões”. Muitas vezes os elabo-
radores de projetos visam somente 
o lucro, atuando fora de padrões 
éticos. É comum que se verifiquem 
projetos estapafúrdios, de execução 
difícil ou tecnicamente inviável, e 
isto é especialmente grave quando 
os consultores não se envolvem 
na implementação dos mesmos, 
pois não há co-responsabilidade. 
É importantíssimo que os projetos 
sejam crivados por profissionais de 
alto nível técnico e ético. Também é 
difícil que bons projetos neste âmbi-
to sejam executados por uma única 
instituição. Pela natureza de seus 
desafios, é fundamental a multidis-
ciplinaridade e o caráter interinstitu-
cional. No entanto, alcançar isso não 
é um exercício simples, mais pela 
vaidade e pouco profissionalismo 
do que pelos eventuais entraves 
burocráticos. 
Tendo em vista a ampla degra-
dação ambiental em nosso país, 
gostaríamos que a Sra. fizesse 
uma reflexão sobre a importância 
das nossas universidades forma-
rem profissionais comprometidos 
com a preservação das espécies e 
sustentabilidade dos ecossistemas 
ameaçados.
Profª. Maria das Dores Correia - A 
Universidade tem que estar compro-
metida com a sua realidade e a sua 
comunidade. Somos parte de uma 
Universidade pública e é preciso 
resgatar o valor que isso represen-
ta. Independente de nossas áreas 
de trabalho, temos o privilégio e a 
responsabilidade de influenciar não 
somente a formação, mas a consci-
ENTREVISTA
RevistacfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
ência e o caráter de nossos estudan-
tes. Eles refletirão os exemplos que 
receberam. Existe privilégio maior 
que ser liberado do trabalho e ficar 
seis, sete anos em média, recebendo 
salário e bolsa de estudos para se 
pós-graduar naquilo que você esco-
lheu? Nestas condições privilegia-
das, nossa qualificação é fruto de um 
investimento do povo (em grande 
parte assalariado e analfabeto) e isto 
implica num grande compromisso, 
embora poucos tenham essa consci-
ência. É incrível ver colegas que se 
fecham em estudos focais, pouco 
inseridos no contexto regional, e 
conduzindo atividades pouco inte-
gradas. Temos visto que há maior 
preocupação com a quantidade de 
trabalhos gerados do que com a 
qualidade ou a pertinência insti-
ENTREVISTA
tucional e social dos mesmos. A 
alta competitividade imposta pelos 
indicadores de qualidade científica, 
atualmente em voga, está contri-
buindo para alguns equívocos. Por 
exemplo, tenho ouvido críticas de 
parte de alguns pesquisadores por-
que trabalhamos a campo. Muitos 
estão deixando de realizar pesquisas 
aplicadas, preferindo estudos em 
laboratório, mais rápidos e com-
petitivos. Estes cientistas findam 
obtendo mais acesso a recursos, e 
formando geração de científicos com 
este viés. Imagine se em regiões de 
fronteira como a Amazônia, formos 
levados por este pensamento? Os 
efeitos seriam desastrosos. Uma 
Universidade como a UFRA, por 
exemplo, deveria ter um tratamento 
especial por parte de órgãos federais 
das áreas de Educação e de C&T. Ela 
forma profissionais na Amazônia e 
para a Amazônia, e durante décadas 
foi a única escola especializada em 
ciências agrárias da região. Seus 
ex-alunos estão espalhados por 
toda a Amazônia atuando como 
prestadores de serviços autônomos, 
extensionistas, agentes financeiros, 
gestores públicos, líderes políticos, 
empresários, líderes espirituais, 
entre outros. Qualquer estímulo re-
cebido durante a fase de formação 
universitária é essencial ao seu de-
sempenho. Pode-se imaginar o que 
isso representa para a Amazônia? 
Lembro que duas décadas atrás, 
praticamente não se falava de con-
servação ambiental e muito menos 
de fauna nas escolas de Medicina 
Veterinária. Durante a graduação, 
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
PREMIAçãO
No dia 09 de maio de 2006, no 
Palácio das Convenções de Cuia-
bá (MT), foi entregue ao Prof. Dr. 
Rômulo Cerqueira Leite, o Prê-
mio Paulo Dacorso Filho – Versão 
2005. A premiação ocorreu durante 
a abertura do XXXIII Congresso 
Brasileiro de Medicina Veterinária 
(Conbravet), que reuniu autoridades 
e representantes de Sociedades e 
Conselhos de Medicina Veterinária 
do Brasil.
O Prêmio Paulo Dacorso Filho 
– uma das grandes homenagens da 
Medicina Veterinária no país – é 
concedido pelo Conselho Federal 
de Medicina Veterinária, como re-
conhecimento a profissionais que 
mais se destacaram na sua área de 
Prêmio Paulo Dacorso Filho
Versão 2005
atuação. A premiação foi outorgada 
ao Prof. Dr. Rômulo Cerqueira Leite, 
durante a 67ª Sessão Plenária Ordi-
nária do CFMV.
A distinção honorífica represen-
ta, segundo o CFMV, “o reconhe-
cimento da classe Médico Veteri-
nária Brasileira a este profissional, 
pelos relevantes serviços prestados 
à Sociedade Brasileira e a Medi-
cina Veterinária por meio de sua 
atuação na docência e na pesquisa 
na área de reprodução animal”.
O Prof. Dr. Rômulo Leite é Mé-
dico Veterinário formado pela Uni-
versidade Federal Fluminense (UFF) 
e Presidente do Colégio Brasileiro 
de Reprodução Animal (CBRA). 
É Doutor em Ciências Veterinárias 
pela Universidade Federal Rural do 
Rio de Janeiro (UFRRJ), Mestre 
em Medicina Veterinária, com dois 
títulos pela Universidade Federal de 
Minas Gerais (UFMG) e professor 
adjunto da Escola de Veterinária da 
UFMG. O homenageado atua nas 
subáreas de Medicina Veterinária 
Preventiva (especialidade Saúde 
Animal – Programas Sanitários) e 
de Reprodução Animal.
O Prêmio Paulo Dacorso Filho 
soma-se, na carreira do Prof. Dr. Rô-
mulo Leite, à premiação do Mérito 
Acadêmico Científico, concedido 
pela UFRRJ e ao Prêmio Moacyr 
Gomes de Freitas, pelo Colégio 
Brasileiro de Parasitologia Veteri-
nária.
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
PREMIAçãO
Seu currículo apresenta números 
expressivos. Sua trajetória inclui a 
participação em doze projetos de 
pesquisa, a publicação de 131 arti-
gos completos e de seis resumos em 
periódicos. Em eventos, apresentou 
21 trabalhos completos, 197 resu-
mos e 27 resumos expandidos. Sua 
produção inclui ainda seis produtos 
tecnológicos, um processo e quatro 
trabalhos técnicos. Como professor 
universitário orientou 25 trabalhos 
de mestrado e dez de doutorado, 
além de cinco iniciações científicas 
e três trabalhos diferenciados. In-
tegrou 80 bancas examinadoras de 
dissertações e 13 de teses de douto-
rado e seis de outros tipos. Participou 
de 34 eventos, 13 qualificações de 
doutorado e seis de outros tipos. Fez 
parte de duas bancas de comissões 
julgadoras de avaliação de cursos, 
além de cinco outras participações. 
Ao longo de sua trajetória já regis-
trou 25 participações em eventos. 
Atualmente o Professor Rômulo Lei-
te orienta um trabalho de mestrado e 
sete de doutorado.
A brilhante trajetória acadêmica 
do nosso homenageado serviu de 
referencial para o CFMV distingui-
lo com esta importante insigne da 
Medicina Veterinária Brasileira - o 
Prêmio Prof. Paulo Dacorso Filho. 
Parabéns, mestre Rômulo Cerquei-
ra Leite por este belo exemplo de 
vida às novas gerações de médicos 
veterinários.
Quem foi Paulo Dacorso Fi-
lho – O Prof. Paulo Dacorso Filho 
nasceu em 14 de abril de 1914 em 
Tupanciretan (RS) e faleceu no dia 
4 de julho de 1975 no Rio de Janeiro 
(RJ). Formou-se na Escola Nacio-
nal de Veterinária da Universidade 
Rural do Brasil em 1934. Obteve o 
título de Mestre (Master of Science) 
em Patologia pela Universidade 
Wisconsin (EUA), em 1947. Em 
1952 formou-se também em Me-
dicina, pela Escola de Medicina 
e Cirurgia do Rio de Janeiro. Foi 
chefe do Laboratório de Anatomia 
Patológica do Hospital-Escola São 
Francisco de Assis de 1952 a 1974. 
Na Universidade Rural do Brasil foi 
eleito Reitor, cargo que ocupou entre 
1965 e 1968. 
Como professor, lecionou em 
instituições do Rio de Janeiro, Bahia 
e Rio Grande do Sul. Contribuiu para 
o desenvolvimento de muitos acadê-
micos. Por seus méritos pedagógi-
cos, foi eleito dez vezes paraninfo e 
homenageado por várias turmas de 
formandos. Da sua produção acadê-
mica consta a publicação de cerca de 
70 artigos científicos.
Como dirigente, ocupou diversos 
cargos em respeitadas instituições. 
No Conselho Nacional de Desen-
volvimento Científico e Tecnoló-
gico (CNPq) foi Diretor do Setor 
de Veterinária entre 1966 e 1974 
e conselheiro entre 1960 e 1965. 
Fez parte de várias associações e 
sociedades e também foi membro 
do Conselho Federal de Medicina 
Veterinária (CFMV).
No decorrer de sua trajetória, o 
Prof. Paulo Dacorso teve sua impor-
tância reconhecida por meio de di-
versos títulos e premiações que rece-
beu. Os mais representativos foram 
o Prêmio Niesseiken, do Instituto 
de Biologia do Japão, a medalha de 
ouro da Embaixada da Venezuela e o 
título de Professor “Honoris Causa” 
concedido pela Universidade Fede-
ral de Santa Maria (UFSM). Após a 
sua morte, aos 64 anos, seguiram-se 
outras homenagens significativas. O 
CFMV instituiu o Prêmio Paulo Da-
corso Filho e a Academia Brasileira 
de Medicina Veterinária o elegeu 
patrono da cadeira número 20. O 
Centro de Controle de Zoonoses do 
Rio de Janeiro e um prédio no cam-
pus da Universidade Federal Rural 
do Rio de Janeiro (UFRRJ) foram 
batizados com o seu nome.
O Professor Hugo Edison Bar-
boza de Rezende, distinguido com 
o Prêmio Paulo Dacorso Filho, em 
2000, exalta o caráter e o conhe-
cimento do patrono da premiação. 
“Impressionou-medesde a primeira 
aula como homem de caráter forte, 
franco, enérgico e disciplinado. 
Culto. Era fácil notar o domínio que 
possuía do conhecimento na área 
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
ENSINO MéDICO-VETERINáRIO
XV Seminário Nacional de 
Ensino da Medicina Veterinária 
O XV Seminário Nacional de 
Ensino de Medicina Veterinária foi 
realizado no período de 26 a 28 de 
abril deste ano, em João Pessoa (PB). 
Promovido pelo Conselho Federal 
de Medicina Veterinária (CFMV), o 
evento debateu temas relevantes em 
relação ao ensino brasileiro na área, 
dentro da atual conjuntura político-
econômica e social.
Com a finalidade de comunicar 
a classe docente da Medicina Ve-
terinária sobre os rumos do Ensino 
Superior no mundo, foi dedicado 
espaço ao tema dentro dos seminá-
rios de ensino que privilegiaram a 
discussão da formação profissional. 
Assim, o Professor Doutor Célio 
Cunha, Professor Adjunto da Facul-
dade de Educação da Universidade 
de Brasília (UnB), coordenador, 
editor e assessor especial da Orga-
nização das Nações Unidas para a 
Educação, Ciência e Cultura (Unes-
co) discorreu sobre as linhas gerais 
dessa perspectiva mundial. Sua apre-
sentação intitulada “Tendências da 
Educação Superior no Século XXI: 
Por uma visão renovada” propor-
cionou uma visão global dos rumos 
da educação superior no mundo. O 
especialista mostrou ser evidente a 
escassez de investimentos públicos 
no atendimento das necessidades da 
formação escolar dos brasileiros.
O enfoque no ensino da Medicina 
Veterinária foi debatido em dife-
rentes aspectos, o que evidenciou a 
importância da gestão administrativa 
para a manutenção adequada de um 
Hospital-Escola. A apresentação do 
Dr. Lázaro Manoel Camargo, da 
Universidade de Cuiabá (UNIC), 
mostrou ser possível manter um esta-
belecimento desse tipo, que concilie 
a utilização acadêmica e pedagógica 
com a viabilidade econômica.
Foi demostrado durante a expo-
sição do Professor Felipe Wouk, 
membro da Comissão Nacional de 
Residência Médico-Veterinária, que 
os Nosocômios Veterinários não 
vêm sendo utilizados em seu poten-
cial pleno pois, na prática, não se 
constituem verdadeiros laboratórios 
de ensino prático da profissão.
A formação acadêmica, também 
discutida durante as palestras proferi-
das por diversos professores, revelou 
preocupação, que, no decorrer dos de-
bates ficou mais evidente e justificada. 
Na visão daqueles docentes os custos 
relativos ao atendimento dos animais 
nos hospitais-escola não são eleva-
dos, o que permite a absorção dentro 
do próprio “sistema”, considerando 
que o objetivo da instituição é a 
formação profissional e não apenas 
a existência do Hospital Veterinário 
Universitário. A perspectiva de que 
o lucro não é o objetivo esteve pre-
sente durante os debates.
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
Um dos eixos do Seminário foi 
o Exame Nacional de Certificação 
Profissional (ENCP), resultado de 
discussões de toda a comunidade 
de médicos veterinários e de pro-
fessores da área. A preocupação 
com os atuais índices de reprovação 
mostrou-se bastante fundamentada, 
pois o percentual de alunos consi-
derados inaptos tem-se mantido alto 
nos últimos exames, observando-se 
que o perfil das provas não tem se 
alterado. A visão de que a prova 
é, de fato, muito extensa, também 
foi considerada no decorrer das 
discussões.
Seguindo as Diretrizes Curricu-
lares Nacionais da Medicina Veteri-
nária e privilegiando uma formação 
humanística e baseada em compe-
tências e habilidades específicas, foi 
sugerido um novo modelo de prova, 
que poderá ser aplicado nos próxi-
mos exames. Assim deverão ser ava-
liados também o desenvolvimento 
da capacidade de expressão, tomada 
de decisões, ação crítica e reflexiva 
dos estudantes adquiridos durante o 
transcurso da graduação.
A proposta aprovada no Seminá-
rio, a ser encaminhada ao CFMV, foi 
a de que o novo exame tenha duração 
de cinco horas, com 100 questões 
objetivas, cujo valor corresponde 
a 80% da nota final. O número de 
questões provenientes de casos clí-
nicos e situações práticas aumentou 
e ficará entre 45 e 60. Já o número 
de questões por caso clínico e situa-
ção prática diminuiu para três. Fará 
parte da prova a produção de um 
texto baseado na interpretação de 
um assunto relacionado à profissão. 
A sugestão é que essa parte da prova 
represente 20% da pontuação total. 
Nela o candidato não poderá zerar, 
ou será desclassificado.
 “INEP - Avaliação de cursos. 
Instrumentos e Legislação”, foi 
tema da palestra da Professora Iara 
de Moraes Xavier, Coordenadora-
Geral de Avaliação Institucional e 
das Condições de Oferta dos Cursos 
de Graduação do Instituto Nacional 
de Pesquisas Educacionais Anísio 
Teixeira do Ministério da Educação 
(INEP/MEC) e da Professora Lena 
Cavalcante Falcão, Coordenadora das 
Condições de Ensino dos Cursos de 
Graduação, também do INEP/MEC. 
Na palestra, o Sistema Nacional de 
Avaliação da Educação Superior 
(SINAES) foi objeto de discussões. 
Entrou em pauta o debate sobre um 
novo instrumento para avaliação 
institucional e de curso.
Fechando o tema Ensino, o Pro-
fessor Marcos Tarciso Maseto, da 
Pontifícia Universidade Católica 
de São Paulo (PUC-SP) mostrou 
com clareza a necessidade de se 
proporcionar um ambiente adequado 
para a aplicação de aulas interdisci-
plinares. O docente mostrou como, 
às vezes, a interdisciplinaridade é 
confundida com multidisciplinari-
dade e como discernir uma da outra 
na instrumentalização pedagógica. A 
palestra causou ótima receptividade 
junto à platéia.
O consenso de que o Médico 
Veterinário deve assumir o seu 
papel junto ao Sistema Único de 
Saúde (SUS) ficou nítido durante 
a exposição do Médico Veterinário 
Mauro Maciel de Arruda. Chamando 
a atenção para a necessária conscien-
tização da comunidade acadêmica 
quanto as reais atribuições do pro-
fissional, o expositor lembrou ainda 
que o conhecimento dos veterinários 
em epidemiologia e no controle das 
zoonoses e animais sinantrópicos, 
por exemplo, é muitas vezes igno-
ENSINO MéDICO-VETERINáRIO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
I Congresso Nacional de Saúde Pública Veterinária
Aconteceu, no período de 27 a 
30 de novembro de 2005, no SESC 
de Guarapari (ES), o I Congresso 
Nacional de Saúde Pública Veteri-
nária, que teve como tema central 
“A Medicina Veterinária na Cons-
trução da Saúde Pública”. O evento 
foi o único do setor a contemplar os 
mais diversos campos de atuação 
da Medicina Veterinária na busca 
de um novo paradigma referente à 
integralidade da atenção à saúde das 
populações, a partir das formações 
específicas da área veterinária. 
Certamente um dos principais 
êxitos do Congresso diz respeito a 
ratificação, por parte dos presen-
tes, do necessário fortalecimento 
da Associação Brasileira de Saúde 
Pública Veterinária (ABSPV) como 
parte da identidade dos colegas que 
atuam no campo da saúde pública 
veterinária. 
O evento estimulou a reflexão 
 ampla e aprofundada sobre os deter-
minantes do processo saúde-doença 
e as possibilidades de intervenção 
dos profissionais da área no sentido 
de melhorar a qualidade de vida da 
população. 
O objetivo de promover a inte-
gração de Médicos Veterinários da 
Saúde Pública Veterinária do país foi 
amplamente alcançado. O indicador 
de tal êxito foi materializado nas ma-
nifestações de avaliação do Congres-
so por parte de seus participantes. 
Vários congressistas manifestaram 
a necessidade da criação de núcle-
os regionais da ABSPV no país, 
como maneira de dar continuidade 
e aprofundamento a integração já 
referida anteriormente. Ficou claro 
que a integralidade da atenção em 
saúde no SUS e sua consolidação, 
necessariamente passam também 
pelo Médico Veterinário.
Ganhou expressão entre os pre-
sentes a imperiosa e urgente necessi-
dade de investimentos no redesenho 
dos currículos dos cursos de Medi-cina Veterinária, no tocante à saúde 
pública, assim como a adoção da 
prática de desenvolvimento nos esta-
dos do país de programas de Educa-
ção Continuada nos diversos campos 
da saúde pública veterinária. 
Enfaticamente foi defendida pe-
los congressistas a importância da 
divulgação das diferentes atribui-
ções do Médico Veterinário em seu 
exercício profissional e, entre elas, 
sua importância na promoção da 
saúde humana e prevenção de doen-
ças e agravos causados por animais 
ao homem. O público presente en-
tendeu a necessidade da sociedade, 
em geral, vir a conhecer melhor o 
abrangente espectro de intervenções 
da Medicina Veterinária, incluindo, 
por conseguinte, a saúde pública 
veterinária.
O número de congressistas, con-
ferencistas e convidados que parti-
ciparam do Evento traduzem seus 
resultados. Cerca de 1.500 pessoas 
participaram do evento. A programa-
ção técnico-científica, condensada 
em quatro dias, contemplou 90 te-
mas de Saúde Pública Veterinária 
(zoonoses, raiva, inspeção de produ-
tos de origem animal, hantaviroses, 
entre outros) que contaram com a 
participação de 125 palestrantes do 
Brasil e do exterior. Foram realiza-
dos sete minicursos pré-congresso, 
em assuntos da maior relevância 
para a saúde pública veterinária 
(como, por exemplo: animais peço-
nhentos, investigação de surtos de 
origem alimentar e direito sanitário). 
Foram apresentados 390 trabalhos 
e premiadas três experiências bem-
sucedidas: O controle de roedores 
como auxiliar na diminuição de 
casos de leptospirose no município 
de Guarulhos/SP, 2001 a 2005, Dra. 
Cristina Magnabosco e Dra. Ively 
Maria Bastos; Atividades desenvol-
vidas no controle da dengue pela 
Equipe de Vigilância de Lauro de 
Freitas/BA de 1997 a 2003, Dra. Ma-
ria Tereza Vargas Leal Mascarenhas 
e Dr. José Alexandre Menezes Silva; 
e Controle populacional de cães e 
gatos no município de São Carlos/
SP, Dra. Renata G. D’ Agostino e 
Dr. Renato Bortoloti. 
SAúDE PúBLICA VETERINáRIA
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
Em 17/05/06, quarta-feira, a Or-
ganização Mundial da Saúde anun-
ciou a morte, numa mesma família, 
na Indonésia, de cinco pessoas, por 
Influenza Aviária e levantou, pela 
primeira vez, a possibilidade de infec-
ção intra-humana, isto é, uma pessoa 
infectada terá transmitido o vírus para 
as demais, temor já manifestado pela 
OMS desde 2003. Primeiro, o vírus, 
comum em aves silvestres, que se 
dissemina via migração, às vezes 
transoceânica, especialmente as 
aquáticas (Anseriformes,etc.), teria 
chegado às aves domésticas e dessas, 
por um salto em que se rompeu a 
barreira de classes (de aves para ma-
míferos), chegou ao homem e, era o 
que se temia, evoluiria a seguir para 
o novo tipo de adaptação (homem-
homem). Caso se confirme, o vírus 
finalmente tê-lo-ia conseguido 
A influenza é reconhecida clas-
sicamente como doença infecto-
contagiosa endêmica devida a um 
grupo de vírus (influenza vírus), dos 
grupos A, B e C, diversos subtipos 
nomeados por HxNx, em que H= 
hemaglutinina e N= neuraminidase. 
São reconhecidos atualmente quinze 
antígenos H e nove antígenos N. 
Mutações e rearranjos genéticos são 
responsáveis pela eclosão de novas 
estirpes dentro de um subtipo, de 
patogenicidade variável. A identi-
Influenza Aviária: E agora?
Nicodemos Alves de Macedo
Médico Veterinário, CRMV-PI nº 0152
Departamento de Clínica e Cirurgia 
 Veterinária, Centro de Ciências Agrárias 
Universidade Federal do Piauí 
CEP 64049-550, Teresina-PI
E-mail: namthepi@yahoo.com.br
ficação é dada por letras e números 
como segue: H0N1, (GRUPO A0, tipo 
humano). São tipos humanos ainda o 
H1N1 (A1), H2N1, H2N2, H3N1, H3N2; 
em animais temos: HswN1(suíno), 
HeqN2 (eqüino) H av N de 1 a 8 (aviar), 
entre outros. O equi é hoje chama-
do H7 N7. O H1 N1 é encontrado em 
suínos. 
A transmissão se dá pela via oro-
fecal e multiplicação viral na mucosa 
intestinal. A infecção humana se dá 
em contato íntimo com aves, em 
criatórios do tipo não industrial, com 
condições higiênicas precárias. A in-
gestão de carnes e ovos devidamente 
cozidos não parece oferecer risco 
para humanos.
A doença é classificada na lista 
A da O.I.E, isto é, de notificação 
compulsória.
Os anserifomes (patos, gansos, 
marrecos) raramente adoecem mas 
podem albergar e liberar o vírus para 
o meio; as demais aves domésticas, 
principalmente os pintos, podem 
apresentar quadro subclínico ou 
clínico agudo benigno com cura 
aparente, permanecendo portadores; 
Quadro 1 - Subtipos antigênicos do vírus da Influenza A
nesse caso, o transporte e comercia-
lização em aglomerados (mercados 
públicos, p.ex.) pode favorecer a 
contaminação ambiental e dissemi-
nação da doença; a movimentação de 
equipamentos e pessoas de um criató-
rio a outro também pode contribuir na 
ocorrência de surtos.
Surtos com alta mortalidade em 
criações domésticas não são comuns 
e sugerem a emergência de algum 
subtipo altamente virulento. O mé-
dico veterinário deve ficar alerta 
diante de quadro respiratório grave e 
repentino, acompanhado de diarréia, 
edema da cabeça, cianose, sinusite e 
lacrimejamento, especialmente em 
aves jovens e, em poedeiras, acom-
panhado de diminuição na postura.
A forma grave, especialmente o 
edema e cianose, exige diagnóstico 
diferencial com doença de Newcas-
tle ou, no caso de diarréia, cólera 
aviária. Devem ser encaminhados ao 
laboratório swab traqueal e intestinal 
para isolamento em ovo embrionado. 
Testes sorológicos (IDGA, ELISA 
ou Hi) permitem a tipagem da amos-
tra (laboratórios de referência).
INFLuENzA AVIáRIA
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
O controle da doença é reali-
zado pelo monitoramento de aves 
migratórias que adentram o território 
nacional (captura, colheita de soro 
sangüíneo, anilhagem e soltura, 
após resultado negativo), por amos-
tragem, segundo os pontos e épocas 
da respectiva rota, dados que podem 
ser obtidos junto ao IBAMA. Aves 
importadas devem, na medida do 
possível, ser acompanhadas de ates-
tados negativos e permanecer em 
quarentena, no ponto de desembar-
que, retestadas após esse prazo e, se 
negativas, enviadas ao destino.
O controle inclui ainda notificação 
rápida de toda suspeita de caso hu-
mano e animal, desinfeção rigorosa 
das instalações e, caso confirmado, 
abate e destruição de todo o lote (va-
zio sanitário). Os trabalhadores que 
lidam com aves devem ser mantidos 
sob observação e enviados ao servi-
ço médico assim que apresentarem 
qualquer quadro gripal, por brando 
que seja.
Entendidas as zoonoses como 
enfermidades transmissíveis que 
circulam naturalmente entre hu-
manos e animais e, dentre elas, as 
emergentes como as de registro 
recente, a humanidade encontra-se 
frente a uma ameaça real e assus-
tadora.
A intima relação influenza hu-
mana-influenza animal é sugerida 
desde 1918 (em suínos, Koen, 1918 
e Shope, 1931, vírus extremamente 
próximo do tipo A2 humano); em 
eqüinos, a influenza é conhecida 
desde o século XII e Kasel, (1965), 
nos Estados Unidos, reproduziu a 
doença em voluntários humanos e 
identificou o vírus como do grupo 
A, chamado Equi A.equi(HeqN2). 
Amostras muito próximas do tipo 
A humano foram encontradas em 
patos, na Europa, desde 1956. Da 
galinha doméstica se isolou, na 
Dinamarca em 1949, vírus próximo 
do tipo A humano, chamado, então, 
vírus N, e em aves migratórias, em 
1962 chamado vírus Tern. Em 1940 
isolou-se o vírus B e posteriormen-
te o grupo C, em humanos. Desde 
1975 as influenzas suína e eqüina 
são consideradas zoonoses já con-
firmadas e a aviar como possível; na 
verdade, em 1967 já se levantava a 
suspeita, mas, reconhecia-se a falta 
de estudos a respeito.
Embora capaz de grande variação 
genética (responsável por epidemias 
como as de: 1933, 1946, 1947, 1948, 
1956, 1957, 1967, 1968(H3N2), 
1972 e 1973, sem falar da Gripe 
Espanhola, de 1918, com milhares 
de mortes), o vírus é reconhecido 
como agentede quadro respiratório 
benigno, de curso rápido, caráter en-
dêmico e restrito (cada tipo coloniza 
uma espécie, em regra, apenas ela). 
O que está acontecendo? O que há 
de novo?
Em dezembro de 1997 foi re-
gistrada, em Hong Kong, a morte 
de quatro pessoas por gripe devida 
ao vírus H5 N1 (aviar). Na ocasião 
foram sacrificadas 1,2 milhões de 
aves. Desde então, a doença, em 
aves e humanos, expandiu-se ve-
lozmente; entre 1997 e dezembro 
de 2005 apresentou-se em 50 países, 
com destaque para China, Vietnã, 
Tailândia, Indonésia, Cambodja, 
Grécia, Romênia, Turquia, Croácia, 
Canadá, Rússia e Reino Unido. 
Ao final do mês de maio de 2006 
a OMS confirmava a ocorrência 
em 10 países de 132 casos fatais 
em humanos, 72 apenas na Ásia e 
mais de 200 milhões de aves foram 
sacrificadas. (Relatório da OMS, de 
22/05/2006). 
O vírus da influenza aviar foi des-
crito por Beach, em 1926, e isolado, 
em ave, em 1934, por Burnet. Apre-
senta alta transmissibilidade, poden-
do a ave infectada morrer em torno 
de quatro dias. Mas a maior parte 
pode permanecer como portadora 
sã. Uma vacina eficaz foi obtida pela 
primeira vez em 1933, por Beaudette 
e Hudson. Modernas formulações, 
em estudo, apresentam vírus vivo 
atenuado e antígenos para detecção 
de reagentes sorológicos já estão 
disponíveis. Alguns países adotam 
vacinas inativadas oleosas, em cria-
ções de perus, mas estas podem não 
proteger contra variantes emergen-
tes; de modo geral, os organismos 
internacionais não recomendam a 
vacinação.
 Não parece, assim , que se trate 
de algo tão novo. No caso humano, 
surtos pelo tipo A são esperados a 
cada três a quatro anos, pelo tipo B 
a cada vinte anos e pelo tipo C não 
tem relevância epidemiológica; os 
surtos ocorrem principalmente no 
inverno, em crianças e têm gravida-
de apenas em idosos, para os quais 
existe uma vacina altamente eficaz, 
gratuita durante as campanhas nas 
unidades públicas de saúde.
Voltemos a 2002. Em novembro 
daquele ano, em Quang-Dong na 
China, algumas pessoas apresen-
taram um estranho quadro respi-
ratório severo, altamente letal. Em 
15/03/2003, a OMS já informava 
a eclosão da SARS (Síndrome da 
Angústia Respiratória Severa), 
popularmente, pneumonia asiática. 
Em questão de dias a doença já era 
notificada em mais de 30 países, em 
especial, China, Hong Kong, Vietnã, 
Taiwan e Canadá. Em 05/07/2003 
data do último registro, tinham 
adoecido 8445 pessoas (5328 só 
XXXXXXXXXXXXXINFLuENzA AVIáRIA
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
ALEXANDER, D.J.; BROWN IH Recent zoonoses 
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BRASIL Ministério da Saúde. Influenza-Vigilância 
Epidemiológica no Brasil- Situação Epidemiológica. 
(Disponível em: http://portal.saúde.gov.br/svs/
visualizar_texto.cfm?idtxt=21728
BRASIL Ministério da Saúde. Influenza-Vigilância 
Epidemiológica no Brasil- Situação Epidemiológica. 
Disponível em: http://portal.saúde.gov.br/svs/
visualizar_texto.cfm?idtxt=21728
Canadian Pandemic influenza Plan. Planning 
recommendations for the use of antivirals (anti-
influenza drugs) in Canada during a pandemic. 
Disponível em http://www.phac-aspc.gc.ca/cpip-
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http://www.oie.int
http://www.fao.org
http://www.cdc.gov/flu/avian/outbreaks/asia.htm
http://www.saude.gov.br/svs
http://www.anvisa.gov.br
na China), com 916 mortes (347 na 
China). O país perdeu por redução 
no turismo mais de 1 milhão de pos-
tos de trabalho (suspensão de vôos 
para o país), 8,8 bilhões de dólares 
com turismo externo e 24,5 bilhões 
com o interno.
O volume de informações a 
respeito do tema, em um mundo 
informatizado, é imenso e atualiza-
se a cada dia. O episódio SARS 
serviu de alerta: intenso trânsito 
internacional de pessoas e produtos, 
especialmente alimentícios, de 
origem animal (turismo, negócios) 
acaba por favorecer a expansão 
em alta velocidade de doenças até 
então incomuns e mesmo raras ou 
extre-mamente localizadas. Em tal 
situação qual é o papel do médico 
veterinário? Ora, a influenza aviar 
é nossa velha conhecida (pelo 
menos há 80 anos), e que tinha tudo 
para chegar ao homem, sempre se 
soube. 
E então? Pense o médico veteri-
nário brasileiro nos milhões de vidas 
humanas sob risco iminente; pense 
ainda no desmonte de uma avicultura 
das mais avançadas do mundo (em 
quantidade e qualidade), nos prejuí-
zos incalculáveis aos produtores, aos 
consumidores e ao estado brasileiro. 
O que pode ser realizado, então? 
Nos estados vêm sendo implantados 
Comitês de Controle de Provável 
Epidemia de Influenza, com toda 
uma logística necessária prevista 
sendo instalada.
 O que podemos propor? Que o 
Ministério da Agricultura em con-
vênios com as Secretárias Estaduais 
de Saúde e Agricultura, Federações 
de Agricultura, Universidades, 
Cooperativas e Meios de Comuni-
cação, agilize o fornecimento de 
materiais e meios para a vigilância 
epidemiológica, principalmente de 
aves migratórias que migrem para 
o território nacional (testes soroló-
gicos), trânsito interno e externo 
de aves e subprodutos, orientação 
INFLuENzA AVIáRIA
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
Errata
A tabela 1 na página 11 do artigo 
Biossegurança e Experimentação 
Animal da edição referencial 36 se-
tembro/outubro/novembro/dezem-
bro de 2005 apresenta os seguintes 
erros:
 
Na coluna NBA 3 em Práticas/
Procedimentos, onde se lia:
 Pedilúvios que geram aerossóis 
infecciosos como inoculações, ne-
cropsias e extração de fluidos.
 Deve ser corrigido para:
 Pedilúvio.
Na coluna NBA 4 em Agentes, 
onde se lia:
Agentes exóticos/perigosos que 
produzem alto risco de vida 
Risco: transmissão
 Deve ser corrigido para:
 Agentes exóticos/perigosos que 
produzem alto risco de vida
Risco: transmissão por aerossóis 
ou ainda desconhecido.
 
Tabela 1 - Resumo dos níveis de biossegurança recomendados para atividades com 
animais vertebrados naturalmente ou experimentalmente infectados 
o Ministério da Agricultura, pecuária e Abastecimento (MApA), órgão responsável pelo controle 
de entrada de aves e seus materiais genéticos no país, proíbe a emigração de produtos oriundos 
de países onde ocorreram a Influenza Aviária. O Ministério é também responsável pela vigilância 
desta doença em aves migratórias.
Para esclarecer sobre a Gripe Aviária, o MAPA elaborou a cartilha “Influenza Aviária - Informe-se” 
onde são respondidas as perguntas mais freqüentes sobre o assunto, desde a caracterização da 
doença, a vigilância no Brasil e no mundo, a contribuição das aves migratórias, além das medidas 
globais que devem ser adotadas.
Para adquirir o mencionado informativo, o interessado deve dirigir-se ao:
Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) Esplanada dos Ministérios, Bloco D, 
Anexo B Térreo Binagri.
Brasília - Distrito Federal – CEP 70043-900. Central de Relacionamento
Fone 0800 61 1995.
E-mail: binagri@agricultura.gov.br 
Cartilha sobre gripe Aviária
Fonte: CDC (1999)
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abrilde 2006
Revista CFMV - Brasília/DF
Ano XII - N° 37
Janeiro a Abril de 2006
CONSELHO FEDERAL DE 
MEDICINA VETERINÁRIA
SIA - Trecho 6 Lote 130 e 140
Brasília-DF – Cep: 71205-060
Fone: (61) 2106-0400
Fax: (61) 2106-0444
www.cfmv.org.br
cfmv@cfmv.org.br
DIRETORIA EXECuTIVA
Benedito Fortes de Arruda
CRMV-GO 0272
Eliel Judson D. de Pinheiro
CRMV-BA 0140
Eduardo Luiz Silva Costa
CRMV-SE 0037
Enio Gomes da Silva
CRMV-DF 0400
EDITOR
Rômulo José Vieira
CRMV-PI nº 0080
COMITÊ CIENTÍFICO
Elisabeth Gonzáles
CRMV-SP nº 1427
Presidente
Aurino Alves Simplício 
CRMV-RN nº 0463
Maria Madalena Pessoa Guerra
CRMV-PE nº 1152
Mônica Maria O. Pinho Cerqueira
CRMV-MG nº 3051
José Luiz Laus
CRMV-SP nº 3375
Ângela Maria Vieira Batista
CRMV-PE nº 0035/Z
21
38
49
30
Diagnóstico das fases do ciclo estral através de citologia vaginal 
em cadelas apreendidas pelo Centro de Vigilância Ambiental da 
Cidade do Recife-PE
Acrobustite bovina: Revisão de Literatura 
Ceratite ulcerativa por Pseudomonas Aeruginosa no cavalo 
– revisão
As múltiplas faces e desafios de uma profissão chamada 
Medicina Veterinária 
Fabiana Calixto Bezerra 
Viviane Maria Ribeiro Pina 
 
Rogério Elias Rabelo 
Luís Antônio Franco da Silva
Marco Antônio de Oliveira Viu 
Alana Flávia Romani 
Cláudia Bueno Alves
Juliano José de Resende Fernandes
Cláudia Franciane Pereira Castro
Graziela Müller 
Antônio Felipe P. de Figueiredo Wouk 
Maria da Graça Becker Dutra 
57Dirofilariose Canina: Situação atual no Brasil
Cláudia Leite Barbosa
Leucio Câmara Alves 
Suplemento
TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
LISta DE CONSULtOrES “aD HOC”
Antônio Duarte de Lima Júnior
Antônio Felipe Paulino Figueiredo Wouk
Arlete Dell’ Porto
Benedito Dias de Oliveira Filho
Benito Soto Blanco
Carlos Alberto Hussni
Carlos Eduardo Larsson
Celso Bittencout dos Anjos
Eduardo Alberto Tudury
Ekaterina Akimovna Botovchenco Rivera
Ernane Fagundes do Nascimento
José Renato Junqueira Borges
Enrico Lippi Ortolani
Fernando Leandro dos Santos
Geraldo Eleno Silveira Alves
Glênio Cavalcanti de Barros
Helenice de Souza Spinosa
Hélio Langoni
Helton Mattana Saturnino
Hunaldo Oliveira Silva
Irvênia Luiza de Santis Prada
Janis Regina Messias González
João Palermo Neto
Humberto Pereira Oliveira
João Telhado Pereira
José Augusto Bastos Afonso da Silva
José Wanderley Cattelan
Lêucio Câmara Alves
Marcelo Weinstein Teixeira
Maria Aparecida da Glória Faustino
Marileda Bonafim Carvalho
Nelson Nogueira Barros
Rafael Resende Faleiros
Renato César Sacchetto Tôrres
Renato de Lima Santos
Ricardo Toniolli
Rinaldo Aparecido Mota
Rita Leal Paixão
Roberto Maurício Carvalho Guedes
Rômulo Cerqueira Leite
Maria Helena Matiko Akao Larsson
Manoel Adrião Gomes Filho
Raimundo Nonato Braga Lobo
Rudi Weiblen
Maria José de Sena
José Joaquim Titton Ranzani
Paulo Sérgio de Almeida Pinto
Maria Denise Lopes
Sérgio Carmona de São Clemente
Tomoe Noda Saukas
Suplemento
TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
Diagnóstico das fases do ciclo estral através de citologia 
 vaginal em cadelas apreendidas pelo Centro de Vigilância Am-
biental da Cidade do Recife-PE
Fabiana Calixto Bezerra 
Médica Veterinária Autônoma, 
CRMV-PE no 3232 
Endereço: Rua Ouro Branco 150, Apto 
57 – Jardim Paulista 
São Paulo – SP – CEP: 01425-080
E-mail: alvirrubra@yahoo.com.br
Viviane Maria Ribeiro Pina 
Médica Veterinária, CRMV-PE nº 
2959, Mestranda do Departamento de 
 Medicina Veterinária da UFRPE
E-mail: vivimrpina@hotmail.com 
 INtrODUçãO
A B S T R A C T
R E S U M O
o presente estudo foi desenvolvido no período compreendido entre os 
meses de abril e julho de 2004. As atividades foram realizadas no Centro 
de Vigilância Ambiental da cidade do Recife semanalmente, com práticas 
de citologia vaginal realizadas em 37 cadelas, sem raça definida (SRD), de 
conformação corporal de porte médio, estado nutricional de regular a bom 
e com idade de 2 a 5 anos. Que propiciou determinar através de esfregaços 
do epitélio vaginal, a predominância do tipo celular e caracterizar as fases 
do ciclo estral respectivas.
unitermos: fases do ciclo estral, citologia vaginal, cadelas.
Diagnosis of destrous cycle phases through vaginal citology in bitches 
captured by the environmental vigilance center of the Recife Center
The present study was developed in the understood period between the months 
of april and july of 2004. The activities had been carried out in the environmental 
vigilance center in the city of Recife, weekly with practices of vaginal citology 
carried out on 37 bitches, without a definite breed (SRD), of bodily average con-
formation, nutritional state from regular to good with ages from 2 to 5 years old. 
It allowed the determination through a spread thinly of the vaginal epithelium, 
the predominance of the cellular type and the caracterization of the respective 
phases of oestrous cycle.
Nos carnívoros, o aparelho genital 
feminino apresenta, durante todo o 
 período de atividade sexual, modifi-
cações estruturais que se produzem 
seguindo sempre a mesma ordem e 
repetindo-se em intervalos periódicos 
(Derivaux,1980).
Estas modificações, conhecidas 
pelo nome de ciclo estral, são iniciadas 
a partir da puberdade, sucedem-se ao 
longo de toda a vida reprodutiva e so-
mente são interrompidas pela gestação 
(Derivaux,1980).
Segundo Derivaux (1980), o ciclo 
estral da cadela é o mais longo de todas 
as espécies domésticas, com duração de 
quatro a dez meses, e caracteriza-se por 
apresentar as fases de proestro, estro, 
metaestro / diestro e anestro. 
Para determinarmos com precisão 
a fase do ciclo estral na qual a cadela 
se encontra podemos realizar o exame 
de citologia vaginal, que é uma técnica 
diagnóstica simples e rápida, realizada 
com material colhido da vagina por 
Suplemento
TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
meio de “swab”. Sendo, portanto, 
utilizada na prática de reprodução de 
cadelas (Barnabé et al.,1986). Ela avalia 
qualitativamente, alterações infecciosas 
e endócrinas (Mello, 2001). 
E está sendo usada no monitoramento 
do ciclo estral de cadelas, sugerindo 
períodos ideais para a cobertura ou inse-
minação artificial (Tostes, 2001).
2. CrItÉrIOS DE 
 aVaLIaçãO CItOLÓGICa
Tostes (2001) explica que alguns 
cuidados básicos devem ser tomados 
para a obtenção de esfregaços de boa 
qualidade, como evitar a presença de 
sangue em excesso e verificar se a 
quantidade de material não tornou o 
esfregaço espesso demais.
Há uma grande variação de crité-
rios para avaliação citológica, mas 
de forma genérica podemos definir 
um bom esfregaço como aquele que 
possui espessura delgada, arquitetura 
celular a mais preservada possível, 
penetração do corante e distribuição 
uniforme do material na lâmina (Tos-
tes, 2001).
O mesmo autor relata que a seqü-
ência de exame da lâmina principia 
pelo menor aumento onde devem ser 
observadas:
1. a celularidade, ou seja, o aspecto 
quantitativo;
2. a composição celular, ou seja, o 
aspecto qualitativo.
Nos aumentos maiores devem ser 
observados:
1. a morfologia individual das célu-
las;
2. o arranjo das células;
3. a composição de fundo (back-
ground) esfregaço.
2.1 INDICaçÕES
A colpocitologia permite determinar, 
de forma indireta, a função folicular 
ovariana e a presença de cistos folicu-
lares, tumores ovarianos e outros distúr-
bios hormonais, através do predomínio 
de células superficiais queratinizadas 
(Vannucchi et al., 1997), fornecendo, 
desse modo, uma idéia do nível estrogê-
nico e a confirmação do período fértil 
(Concannon e Digregorio, 1986). Como 
também diagnóstico das infecções do 
aparelho gênito-urinário tais como 
vaginites, cervicites, endometrites, 
complexo hiperplasia cística endome-
trial-piometrites e mesmo cistites e 
urolitíases. 
Além da avaliação do tratamento 
nas infecções, onde cirurgias pararetirada dos ovários e útero (pan-
histerectomias), têm sido evitadas 
com citologias vaginais realizadas no 
momento adequado, permitindo uma 
terapia medicamentosa eficaz antes 
da irreversibilidade dos sintomas. Em 
outros casos, a descoberta de infeções 
uterinas através da citologia vaginal, 
em animais com sintomas pouco 
esclarecedores (muitas vêzes, a fêmea 
apresenta somente falta de apetite, 
tristeza, pouca atividade física, sem 
corrimentos ou febre que facilitem o 
diagnóstico clínico), determinou a ne-
cessidade de cirurgia, salvando muitas 
vidas. Avaliação da eficácia dos trata-
mentos tanto com antibióticos quanto 
com hormônios (Mello, 2000).
2.1.1 rELaçãO CUStO-BE-
NEFÍCIO Da 
CItOLOGIa VaGINaL
Talvez a maior expressão do uso da 
citologia seja a eficiência dos resulta-
dos comparada com o seu baixo custo 
(Tostes, 2001). 
Tostes (2001) enfatiza que a citolo-
gia, em determinados casos, dispensa o 
ingresso do paciente no hospital, evita 
biópsias preliminares e poupa tempo e 
despesas com o processamento histoló-
gico; o mesmo raciocínio se aplica aos 
hospitais veterinários. 
2.2 COLOraçÕES 
 NOrMaLMENtE 
UtILIZaDaS
As técnicas de coloração modificadas 
são até hoje complementares, algumas 
até específicas para determinados tipos 
de citologia, contudo, a coloração de-
senvolvida por Papanicolaou (1942), 
é sem dúvida uma das principais, sendo 
utilizada atualmente em citologia gine-
cológica (Neto, 2000).
O corante nuclear é a hematoxilina 
que por oxidação pelo óxido de mer-
cúrio, se transforma em hemateína. A 
hematoxilina cora o núcleo em azul, 
após mordantar pelo alumem de potás-
sio (Neto, 2000).
Segundo Neto (2000), são corantes 
acidífilos o orange G, a eosina, o verde 
luz e o marrom Bismark, portanto, irão 
corar os citoplasmas (Figura 1). Papa-
nicolaou propôs diversas variantes 
de corantes citoplasmáticos; os mais 
empregados são EA 36 e EA 50, em 
combinação com o OG 6.
O corante de Shorr fornece con-
trastes mais marcantes de tonalidades 
citoplasmáticas das células malpi-
ghianas. Por isso foi preconizado para 
a avaliação hormonal. Todavia, nós 
o preterimos em favor do Papanico-
laou, já que a maioria dos tratados e 
dos artigos consagrados à citologia 
descrevem imagens coradas pelo Papa-
nicolaou (Neto, 2000).
2.3 LIMItaçÕES Da CItO-
LOGIa
Neto (2000) ressaltou que só 
10% ou 20% das células colhidas são 
colocadas na lâmina e a lâmina deve 
ser apropriadamente fixada em 15 à 30 
segundos.
Resultados positivos não são obtidos 
com esfregaços irregulares (extensão e 
distribuição do material), esfregaços 
espessos, purulentos, intensa citólise, 
dessecamento da amostra, esfregaços 
hemorrágicos, lâminas fragmentadas, 
explica Neto (2000).
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TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
A citologia vaginal em cadelas não 
é um exame exato para determinar gra-
videz, sendo inclusive contra-indicada 
(Mello, 2000).
2.4 CICLO EStraL
 EM CaDELaS
O ciclo estral do cão doméstico 
(Canis familiaris) possui características 
distintas das de outras espécies. A ca-
dela é monocíclica, não sazonal, ovula 
espontaneamente uma a duas vezes 
anualmente e possui a fase luteínica 
semelhante entre indivíduos gestante e 
não-gestante (Concannon et al., 1989). 
A gestação dura em média de 56 a 72 
dias e a lactação em torno de 6 semanas 
(Concannon, 1986).
Os estágios e suas fases funcionais 
correspondentes são proestro que 
corresponde à fase folicular, estro e 
metaestro/diestro que representam a 
fase luteínica e o anestro que é descrito 
como uma fase de quiescência (Shille, 
1992).
Normalmente as cadelas exibem seu 
primeiro estro alguns meses depois de 
terem atingido altura e peso adulto. Re-
comenda-se que o primeiro cruzamento 
seja realizado durante o segundo ou ter-
ceiro estro (Musolino et al., 2000).
De acordo com Musolino et al. 
(2000), a maioria das cadelas inicia um 
novo proestro a cada 7 meses, mas 
como ocorre alta variação entre raças 
e provável influências sociais e am-
bientais, são considerados intervalos 
normais àqueles que duram de 5 a 10 
meses .O ciclo estral é regulado pelo 
eixo hipotalâmico-hipofisário-gona-
dal, o qual, por sua vez, é modulado por 
estímulos externos e neuroendócrinos. 
No ciclo estral da cadela são evidencia-
das a fase folicular ou estrogênica que 
persiste durante três semanas e a fase 
luteal ou progesterônica que tem duração 
de 2 a 3 meses (Silva et al., 2002).
De acordo com Mialot (1988), os 
folículos secretam estrógenos que es-
timulam o hipotálamo liberar GnRH, 
o qual por sua vez estimula a hipófise 
liberar o FSH e o LH para promoverem 
o crescimento folicular e a ovulação. 
Com a formação do corpo lúteo au-
menta a secreção de progesterona (que 
inicialmente é produzida nas células 
da granulosa dos folículos ovarianos 
maduros), a qual, por sua vez, inibirá 
a liberação do GnRH, assim como do 
LH e do FSH. Somente após a luteólise 
é que a inibição do sistema nervoso 
central será desfeita para que ocorra 
um novo ciclo.
2.5 FaSES DO CICLO ES-
Material utilizado para coloração do esfregaço vaginal (álcool a 96° GL, eosina-hematoxilina de 
Harris, Lâminas, pegador de madeira e “swab” de algodão estéril). Foto de propriedade de Fabiana 
Calixto Bezerra. 
Figura 1 traL
2.5.1 PrOEStrO
O proestro tem início com o apa-
recimento de sangramento vaginal, ou 
ainda outros sinais como mudança de 
comportamento da fêmea, atração de 
machos e intumescimento vulvar, e 
termina quando a cadela aceita a có-
pula. A média de duração é de 9 dias, 
podendo ocorrer variações normais de 
1-2 até 25 dias. A fêmea desencoraja 
qualquer tentativa de monta do macho, 
rosnando, fugindo, mostrando os dentes 
ou até mesmo mordendo. Observa-se 
também que a cadela costuma manter 
a cauda fortemente pressionada con-
tra o períneo. Tipicamente o proestro 
está associado com descarga vaginal 
sanguinolenta, mas nem sempre esta 
ocorre. Esse sangramento é resultante 
da diapedese de hemácias e ruptura de 
capilares subepiteliais, devido às rápi-
das mudanças que ocorrem no endomé-
trio em resposta à secreção folicular de 
estrógeno. A facilidade em se detectar 
esse corrimento depende do compor-
tamento de limpeza de cada animal e 
mesmo da raça, sendo percebido mais 
facilmente naquelas que apresentem 
pêlos e caudas longas. A vulva aumen-
ta de tamanho com o decorrer do pro-
estro, com edema dos lábios vulvares 
(Musolino et al., 2000).
A cadela em proestro está sob 
 influência do estrógeno sintetizado e 
secretado pelos folículos ovarianos em 
desenvolvimento. Responsável pelas 
 alterações de comportamento na fêmea, 
descargas vaginais, atração de machos, 
preparação uterina para a prenhez, 
além de outros eventos proestrais. A 
concentração de estrógeno, que estava 
em níveis de 8 a 15 pg/ml no anestro, 
se eleva para 25 pg/ml no início do 
período chegando a picos de 60-70 
pg/ml no final. O pico da concentração 
plasmática de estrógeno ocorre 24- 48 
horas precedendo o estro.Os níveis de pro-
gesterona durante o proestro, exceto nas 
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últimas 12- 48 horas, são basais (<0.5ng/
ml). O fim do proestro é caracterizado por 
elevação dos níveis de progesterona, en-
quanto que os níveis de estrógeno decaem 
(Musolino et al., 2000).
Este mesmo autor ressalta que a 
concentração das gonadotrofinas au-
menta no início do proestro, depois 
os níveis basais são mantidos até que 
ocorra o próximo pico, associado com 
o começo do estro. O aumento dos 
níveis de estrógeno, causa uma rápida 
multiplicação do número de camadas 
de células do epitélio vaginal, que se 
observada à vaginoscopia apresenta-se 
mais espessa e pregueada. A amplia-
ção do número de camadas celulares 
acaba afastando as células luminais 
cada vez mais do suprimento san-
güíneo, resultando na morte dessas 
células. Essa nova conformação 
torna o tecido muito menos sensível 
e menosfrágil, não só pelo aumento 
das camadas, mas, também, através do 
desenvolvimento de precursores de que-
ratina nessas células, prevenindo, assim, 
traumatismos durante a cópula.
Musolino et al. (2000) explica que 
o esfregaço vaginal de uma cadela em 
início de proestro apresenta-se com 
variável número de hemácias, numero-
sas células parabasais e intermediárias. 
Neutrófilos são comumente encon-
trados, mas não abundantemente, e 
 bactérias podem ser visualizadas em 
 pequenas ou grandes quantidades. O 
fundo do esfregaço é aparentemente 
sujo devido à presença de secreções 
cervicais e vaginais viscosas que se 
coram facilmente.
No proestro médio, a primeira 
evidência do efeito da ação contínua 
do estrógeno na citologia vaginal é o 
desaparecimento dos neutrófilos, já 
que estes agora não mais conseguem 
atravessar a espessa parede de células. 
As células parabasais e intermediárias 
pequenas vão sendo substituídas por 
células intermediárias grandes e por 
superficiais- intermediárias. Eritróci-
tos podem ou não estar presentes, e o 
fundo da lâmina pode continuar sujo ou 
apresentar-se claro segundo Musolino 
et al.(2000).
No final do proestro, o esfregaço 
já não contém mais neutrófilos, a pre-
sença de células sangüíneas é variável, 
e o fundo é claro. Mais de 80% das 
células são superficiais com núcleos 
picnóticos ou anucleadas (Musolino 
et al., 2000).
2.5.2 EStrO
Musolino et al. (2000) ressalta que, 
a fase estral inclui o tempo durante o 
qual a cadela permite que o macho a 
monte e fecunde.
Assim, a concentração de estrógeno 
alcança um pico 1 ou 2 dias antes do 
começo do estro. Então a cadela come-
çará a exibir sinais de cio, mas somente 
quando a concentração de estrógeno 
circulante (uma vez elevada) está de-
clinando. O declínio da concentração 
de estrógeno é um reflexo do final do 
processo de maturação do folículo, dias 
antes da ovulação. Simultaneamente 
com a queda dos níveis de estrógeno, as 
células do folículo ovariano começam 
a luteinizar-se e secretar progesterona. 
A combinação do aumento da concen-
tração plasmática de progesterona e do 
declínio da concentração de estrógeno 
estimula a mudança do comportamento 
da cadela, que deixa de ser contrária 
à cobertura. As células luteinizadas 
capazes de sintetizar e secretar pro-
gesterona, são funcionantes antes do 
desenvolvimento do corpo lúteo. Estas 
células causam o início da elevação da 
concentração de progesterona, asso-
ciada ao começo dos sinais de cio. Um 
efeito deste aumento de progesterona é 
a intensidade e a duração do comporta-
mento estral.
Segundo Rodrigues & Rodrigues 
(2002), a onda de LH inicia a ovulação 
dentro de 40 a 50 horas, e depois desta, 
há a formação do corpo lúteo. Os níveis 
de progesterona continuam aumentando 
na circulação durante estes dias; e com 
o desenvolvimento do corpo lúteo fun-
cional, a concentração de progesterona 
aumenta ainda mais, por um período de 
1 a 3 semanas.
A duração dos sinais de cio é de 5 
a 9 dias, normalmente. Semelhante ao 
proestro, a extensão desta fase pode va-
riar drasticamente entre cadelas normais 
(Musolino et al., 2000).
A cadela exibe interesse no macho 
e tenta atraí-lo, até mesmo a uma longa 
distância, através dos potentes feromô-
nios (Christiansen, 1988).
 Qualquer pressão realizada sobre 
ou próximo à parte inferior das costas 
causará o desvio da cauda para um lado 
e uma tensão dos membros traseiros 
para suportar o peso do macho durante 
a monta. A vulva progride completa-
mente da fase túrgida e torna-se macia 
e flácida. A secreção vaginal é muitas 
vezes cor-de-palha ou rósea; e menos 
freqüente, pode continuar evidente-
mente hemorrágica. Ocasionalmente 
a secreção vaginal pode conter glicose 
suficiente para um teste de urina dar 
positivo. Isto pode ser causado pelo au-
mento da concentração de progesterona, 
a qual resulta na intolerância a carboi-
dratos, devido a progesterona estimular 
o hormônio estimulante do crescimento. 
O antagonismo da insulina causa o 
aumento da concentração sangüínea de 
glicose e uma elevação dos níveis de 
glicose extracelular. A secreção vaginal 
do estro é formada a partir do fluido 
extracelular dentro da parede uterina; 
então o uso do teste de glicose pode ter 
algum valor. A cadela pode ser passiva 
e aceitar o macho, ou pode aproximar-se 
do macho ativamente para despertar seu 
interesse. Geralmente, a cadela só cruza 
com machos dominantes e repugna os 
submissos. Por isso, recomenda-se que 
leve a fêmea para o território do macho, 
onde este estará mais à vontade e será 
dominante; e ao mesmo tempo, a fêmea 
estará submissa e receptiva (Musolino 
et al., 2000).
Este mesmo autor explica que, a 
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citologia vaginal mantém-se relati-
vamente constante, não há mudanças 
que sugiram o dia do pico de LH, ou 
da ovulação ou do momento da ferti-
lização. Aonde as células superficiais 
totalmente queratinizadas representam 
mais do que 80% do total das células 
vaginais, freqüentemente alcançando 
100%. Não há neutrófilos. O fundo do 
esfregaço está sem material granular, 
freqüentemente visto no proestro. Du-
rante todos os dias do final do proestro e 
todo o período do estro, a porcentagem 
de células superficiais nunca cai abaixo 
de 60%, mantendo-se geralmente, entre 
80 e 100%. A presença ou ausência de 
núcleo picnótico dentro destas células 
superficiais não tem relação coerente com 
alterações de concentrações plasmáticas 
de hormônios, ou com a presença de folí-
culos ou corpo lúteo dentro do ovário.
2.5.3 MEtaEStrO
A fase luteal, fase de atividade do 
corpo lúteo, é conhecido indistintamen-
te sob o nome de metaestro ou diestro 
nos países anglo-saxônicos (Arthur et 
al., 1989), enquanto que em países como 
a França e a Bélgica consideram que 
esses dois termos representem períodos 
bem definidos do ciclo estral da cadela 
(Silva, 1995).
Na espécie canina, o corpo lúteo 
começa a se constituir desde 48 horas 
antecedendo a ovulação, ou seja, du-
rante o estro, e apresenta o seu desen-
volvimento máximo durante o diestro 
(Concannon et al., 1977). Portanto, o 
metaestro não pode ser definido como 
sendo a fase de instalação do corpo 
lúteo, ele corresponde à fase do ciclo 
seguinte ao estro, iniciando-se com a 
descamação maciça do epitélio vaginal 
(Concannon & Digregorio, 1986). A de-
finição dessa fase e seu reconhecimento 
parece importante, pois ela permite 
facilmente determinar-se o fim do estro 
citológico.
O reconhecimento do metaestro 
citológico na cadela faz-se através da 
observação de um esfregaço vaginal, 
contendo todos os tipos celulares, ou 
seja, desde células superficiais anuclea-
das e nucleadas, passando pelas células 
intermediárias até as células parabasais, 
além de uma grande quantidade de po-
limorfonucleares revestindo o fundo da 
lâmina, imagem denominada de “tapete” 
de polimorfonucleares.
A imagem citológica do metaestro 
corresponde à descamação maciça do 
epitélio vaginal em decorrência da 
redução dos níveis de estrógeno circu-
lante no sangue. Essa descamação dura 
em torno de 2 a 3 dias e o primeiro 
dia, que é o mais característico, é de-
nominado de rush do metaestro. (Silva 
et al., 2002).
2.5.4 DIEStrO
Segundo Musolino et al.(2000), o 
diestro é definido como o período com-
preendido entre a parada do estro até o 
tempo durante o qual a progesterona é 
secretada pelo corpo lúteo. 
Nas mudanças hormonais desta 
fase, a concentração de progesterona no 
plasma eleva-se acima da concentração 
basal (>0,5ng/ml) 72 a 96 horas antes 
da ovulação. Depois da ovulação, o de-
senvolvimento do corpo lúteo ocorre na 
cavidade folicular, formando uma fonte 
contínua para manter a concentração 
plasmática de progesterona elevada. O 
pico da concentração de progesterona 
é originado desse corpo lúteo e é ge-
ralmente atingido 20 a 30 dias após a 
ovulação. Esta secreção máxima ocorre 
aproximadamente 2 a 3 semanas depois 
doinício do diestro. Um platô da con-
centração de progesterona persiste por 
1 a 2 semanas. A concentração de pro-
gesterona nesse momento é muito maior 
que a concentração basal, normalmente 
chegando de 15 a 60 ng/ml. Uma vez 
que o período de platô da concentração 
plasmática de progesterona do diestro 
tenha passado, segue-se um declínio 
prolongado na função luteal. A fase 
luteal termina abruptamente na cadela 
prenhe como parte do início do parto. 
Contudo a fase luteal declina lentamente 
na cadela não prenhe, geralmente du-
rando 10 a 20 dias. As prostaglandinas 
podem ser o fator luteolítico nas cadelas 
prenhes e não prenhes, mas até o mo-
mento isso é especulativo.A concentração 
de estrógeno no princípio do diestro está 
normalmente em níveis basais. Tem sido 
mostrado que durante a última semana ou 
duas últimas de gestação a concentração 
de estrógeno apresenta um crescimento 
súbito. Talvez esse discreto acréscimo 
na síntese e secreção de estrógeno ocorra 
de acordo com a queda na concentração 
de progesterona, como uma necessidade 
endócrina em estimular o relaxamento 
cervical e outros fatores do parto. Porém 
essa pequena concentração de estróge-
no não causa atração aos machos nem 
outras alterações evidentes associadas 
com proestro. A secreção de FSH e LH 
da pituitária durante o diestro ocorre em 
episódios não contínuos (Musolino et 
al., 2000).
Este mesmo autor ressalta que, o 
diestro é a fase de elevada concentração 
de progesterona circulante. A duração é 
em média de 56 a 58 dias nas cadelas 
prenhes e 60 a 80 dias nas não prenhes. 
A função do corpo lúteo cessa antes na 
prenhez do que na não prenhez.
Os sinais clínicos começa quando 
uma cadela previamente receptiva 
abruptamente recusa a aceitar a monta 
de um macho. Ela pode também não 
ser mais atrativa para os machos. A 
vulva retorna ao normal ou ao tamanho 
anéstrico e não é mais flácida (Musolino 
et al., 2000).
Em um período de 24 a 48 horas 
do final do estro, a porcentagem de 
células superficiais decresce aproxi-
madamente 20%, sendo o restante das 
células normalmente intermediárias. 
Isso representa uma mudança abrupta 
na citologia vaginal. Ocasionalmente, 
pode ser visto um grande número de cé-
lulas, precedendo o diestro. Neutrófilos 
podem aparecer e o fundo pode conter 
debris. Contudo a mudança drástica 
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na aparência microscópica das células 
epiteliais vaginais é a primeira indica-
ção de que o diestro tenha começado.
Podem ser observadas células meta-
éstricas específicas associadas com o 
diestro. Essas células têm sido usadas 
como um auxílio para distinguir o início 
do proestro do começo do diestro. As cé-
lulas metaéstricas e as células espumosas 
são supostamente observadas apenas no 
diestro. As células metaéstricas são cé-
lulas epiteliais vaginais que contêm 1 a 
2 neutrófilos em seu citoplasma. Células 
espumosas são células epiteliais vaginais 
com citoplasma bolhoso. Quando houver 
dúvida, uma série de esfregaços obtidos 
a cada 2 a 3 dias deve ajudar a identificar 
o estágio correto do ciclo. Seguindo os 
poucos dias iniciais do diestro, o esfre-
gaço vaginal dessa fase parece com o do 
anestro. Glóbulos brancos podem estar 
presentes em pequeno número, glóbulos 
vermelhos estão ausentes ou em pequeno 
número, e as células epiteliais tipica-
mente consistem em pequenas células 
intermediárias mais células parabasais. 
Em estudos de pacientes inférteis, e na 
tentativa de identificar o dia do parto, 
reconhecer o primeiro dia do diestro 
é muito importante (Musolino et al., 
2000).
2.5.5 aNEStrO
É o período que compreende o final 
da fase luteal e o início da fase folicular. 
Esse tem sido tradicionalmente descrito 
como um período de quiescência do 
eixo ovário-hipofisário. Clinicamente, 
é um período de inatividade reprodu-
tiva, porém, endocrinologicamente, a 
atividade hormonal é flutuante. Durante 
esta fase, o útero atinge sua involução 
completa, havendo um completo repa-
ro endometrial. (Feldman & Nelson, 
1996). 
Segundo Musolino et al., (2000), 
como as outras fases do ciclo o anestro 
varia em duração. Essa variação depende 
da raça, da saúde, da idade, do período 
do ano, do ambiente e outros múltiplos 
fatores. Em uma cadela que inicia o 
proestro a cada 7 meses, proestro dura 9 
dias, estro 7 a 9 dias, diestro 58 dias, e 
anestro 4,5 meses. Contudo, isso pode ser 
variável, porque é difícil saber quando o 
diestro acaba e o anestro começa em uma 
cadela não prenhe. E não há nenhuma 
diferença clínica evidente quando se 
compara a cadela anéstrica com a cadela 
castrada.
Musolino et al. (2000) ressalta que, 
esporádicas elevações na secreção de 
LH ocorrem durante o anestro nas 
cadelas. Estes transitórios aumentos 
de LH no plasma parecem resultar em 
dois breves, mas potentes episódios 
secretórios. Um pico de LH precede 
imediatamente o início do proestro, e 
um precede ou coincide com o início 
do estro e subseqüente ovulação. Os 
baixos pulsos repetitivos que ocorrem 
durante o anestro podem preparar um 
significativo número de folículos para 
o desenvolvimento e iniciar o processo 
de maturação assim como a ovulação. 
O FSH não tem essa flutuação notada 
na concentração periférica do LH. 
Esse hormônio parece ter variações 
moderadas na concentração durante 
o anestro antes do declínio com o 
início do proestro e crescendo com 
o pico de LH na onda pré-ovulatória. 
A concentração de estrógeno flutua 
significativamente durante o anestro. 
Precedendo o começo do proestro há 
um declínio da concentração de estró-
geno. Ao contrário, a progesterona 
se mantém em extremamente baixa 
concentração durante o anestro. O de-
senvolvimento das ondas foliculares 
menores é provavelmente estimulado 
por pequenas elevações do FSH pi-
tuitário. Esses folículos sintetizam e 
secretam estrógeno, causando acrés-
cimos mínimos na concentração de 
estrógeno circulante. Devido a esses 
folículos nunca ficarem totalmente 
maduros, eles regridem, depois de um 
curto período funcionante.
Os níveis de progesterona encon-
tram-se menores que 1.0 ng/ml. (Wri-
ght, PJ, 1990).
Não é conhecido o que causa o 
 início do proestro e o começo do novo 
ciclo. Isso provavelmente é resultado de 
interações complexas entre ambiente, 
saúde geral, estado ovariano e uterino, 
idade e outros fatores não identificados 
que ditam o papel para o FSH e LH 
(Musolino et al., 2000).
Este é um período durante o qual 
 apenas poucas células parabasais e peque-
nas células intermediárias e uns leucócitos 
estão presentes (Christiansen, 1988).
3. CLaSSIFICaçãO DaS CÉ-
LULaS VaGINaIS
As células parabasais, são as 
menores dentre as células vaginais, 
redondas ou ligeiramente ovais, com 
15 a 25 µm, apresentam um núcleo 
central vesicular e relativamente pou-
ca quantidade de citoplasma (Chris-
tiansen, 1988).
As células intermediárias, variam 
em tamanho podendo ser classificadas 
em células intermediárias pequenas e 
grandes. Apresentam bordos irregula-
res e núcleos geralmente menores que 
aqueles das parabasais (Musolino et 
al., 2000).
Células superficiais parcialmente 
queratinizadas, são as células maio-
res encontradas na citologia vaginal, 
achatadas e com as bordas anguladas, 
se coram pobremente. Os núcleos são 
picnóticos (Musolino et al., 2000).
Células superficiais queratinizadas 
(superficiais totalmente queratinizadas), 
são células grandes, mortas e irregulares 
que representam o fim do processo que 
inicia-se com as células parabasais. 
Morreram devido ao espessamento da 
parede que afastou-as do suprimento 
sangüíneo. São grandes com bordas 
anguladas e achatadas, também já foram 
chamadas de células queratinizadas ou 
cornificadas (Musolino et al., 2000).
Células espumosas, são células 
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parabasais ou intermediárias que con-
têm vacúolos citoplasmáticos visíveis(Musolino et al., 2000).
Células metaéstricas, são células pa-
rabasais com infiltração de um número 
variável de leucócitos. Esse tipo celular 
pode estar presente em outros períodos 
que não o metaestro, em esfregaços 
de fêmeas com vaginite (Christiansen, 
1988).
Em outras espécies, como em cabras 
e em ovelhas não é possível caracterizar 
a predominância de um determinado 
tipo celular que assegure a emissão 
de um diagnóstico eficiente (Spencer 
et al. 1996; Souza et al., 1999; Vojtic, 
1997).
4. MatErIaL E MÉtODOS
O experimento foi realizado no 
 laboratório de Biotecnologia da Área 
de Reprodução do Departamento de 
 Medicina Veterinária da UFRPE. Foram 
utilizadas 37 cadelas sem raça defini-
da (SRD), pertencentes ao Centro de 
 Vigilância Ambiental (CVA), em idades 
reprodutivas.
O diagnóstico do ciclo estral de cada 
cadela foi realizado através de um esfre-
gaço vaginal. Para se obter o esfregaço, 
os lábios da vulva foram gentilmente 
separados para a introdução de um 
“swab” de algodão estéril, o qual era 
passado através da comissura dorsal da 
vulva, evitando-se o contato com a fossa 
clitoriana, seguindo na direção cranio-
dorsal, no sentido da coluna vertebral, 
até ultrapassar o arco isquiático (figura 
2). O “swab” era inserido até a distância 
necessária para atingir o canal vaginal 
pélvico. Nesse momento, deve-se rota-
cionar o “swab” em todas as direções. 
Todo esse procedimento dura alguns 
segundos e é indolor, porém a cadela 
pode sentir desconforto, principalmente 
se não houver descarga vaginal. Nesse 
caso, umedeciamos o “swab” com so-
lução fisiológica. Em seguida, o “swab” 
era rotacionado gentilmente sobre uma 
lâmina fazendo-se em geral, três im-
pressões lineares (figura 3). A lâmina 
era fixada com álcool a 96° GL por um 
minuto, e posteriormente coradas com 
eosina-hematoxilina de Harris (Feld-
man & Nelson, 1996). 
Segundo Allen (1995), tal método 
não é considerado ideal porque o ro-
lamento de swab sobre a lâmina causa 
ruptura das células, além dos elementos 
do swab serem incorporados no esfrega-
ço. Este autor descreve mais dois mé-
todos, o com espátula de metal e o por 
aspiração com cateter ou pipeta, sendo 
este último que produz um esfregaço de 
melhor qualidade e sem distorção. 
No caso da eosina, a lâmina con-
tendo o esfregaço deve permanecer 
submersa neste corante durante 20 se-
gundos, posteriormente lavada em água 
corrente. Realizado este procedimento, 
a lâmina era novamente submersa em 
outro recipiente contendo hematoxilina 
por, mais 20 segundos, e mais uma vez 
era lavada e submetida à secagem, em 
seguida era realizada a avaliação dos 
esfregaços em microscópio ótico com 
aumento de 400X.
5. rESULtaDOS E 
 DISCUSSãO
A citologia vaginal mostrou-se 
uma técnica realmente eficiente para 
determinar as fases do ciclo estral das 37 
cadelas SRD, apreendidas no Centro de 
Figura 2
Colheita do material. Foto: Fabiana Calixto Bezerra
Figura 3
Método utilizado para obter um esfregaço 
para citologia vaginal. Foto: Fabiana Calixto 
Bezerra 
Suplemento
TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
Resultados obtidos do diagnóstico das fases do ciclo estral através da citologia vaginal em cadelas SRD 
no Centro de Vigilância Ambiental.
Gráfico 1
Vigilância Ambiental durante os meses 
de abril a julho de 2004, corroborando 
com os resultados de Concannon 
(1986), ver Gráfico 1.
Em nosso estudo 5,4% das cadelas 
estavam no proestro, apresentaram na 
colpocitologia neutrófilos, hemácias, 
células parabasais, intermediárias e 
superficiais, de acordo com o resultado 
de Santos (2002).
Nas cadelas em estro, 13,5% apre-
sentaram 80% a 100% de células su-
perficiais, valores semelhantes aos de 
Silva et al (2002).
O diestro corresponde a fase de 
atividade dos corpos lúteos segundo 
Concannon (1980). Em nossa pes-
quisa 59,45% das cadelas estavam no 
diestro, e na citologia vaginal havia 
predominância de células parabasais 
e intermediárias, corroborando com 
os estudos de Christiansen (1988) e 
Vannuchi (1997).
De acordo com Santos (2002), 
o período no qual o ovário está em 
quiescência, ou seja, não há pro-
dução hormonal, é denominado de 
anestro, esta fase pode durar entre 
2 a 10 meses, tenho em média 4. Em 
nosso trabalho 21,62% das cadelas 
estavam neste momento, e apresen-
taram no esfregaço vaginal células 
parabasais e intermediárias.
Conforme os tipos celulares obser-
vados em cada fase do ciclo estral das 
cadelas estudadas foi possível fazer a 
seguinte classificação com forme se 
verifica na Tabela 1.
6. CONCLUSãO
O uso da citologia vaginal é recurso 
diagnóstico simples, rápido, seguro, 
eficaz, e de baixo custo. Aonde detecta 
o ciclo estral das cadelas e todas as 
suas fases.
Através deste estudo é possível 
ainda, mensurar a contagem de bac-
térias e eritrócitos de origem uterina. 
Desta forma, os distúrbios ligados à 
esfera reprodutiva também podem ser 
diagnosticados, precocemente, utilizan-
do-se esse método.
Tabela 1 - Tipos celulares predominantes e suas respectivas fases do ciclo estral
+++ : EM GRANDE QUANTIDADE ++ : QUANTIDADE RAZOÁVEL 
+ : POUCAS CÉLULAS - : AUSÊNCIA
Suplemento
TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
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REFERêNCIAS BIBLIOgRáFICAS
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Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
A B S T R A C T
R E S U M O
A acrobustite é uma enfermidade de destaque dentre aquelas que afetam 
o sistema genital do macho bovino. As particularidades morfológicas e 
anatômicas (bainha prepucial pendulosa, prepúcio longo, abertura do óstio 
prepucial, músculo retrator caudal do prepúcio e traumas) podem predispor 
à enfermidade. As principais alterações incluem: dificuldade na realização da 
cópula, edema, necrose da mucosa prolapsada, miíase, hemorragia, absces-
so, hipertermia local, retenção de urina e dor à palpação. o tratamento clínico 
e ou cirúrgico é conduzido mediante a avaliação dos custos, manutenção do 
touro durante a convalescência, possível diminuição do desempenho sexual 
após intervenção cirúrgica e complicações pós-operatórias. o tratamento 
medicamentoso nem sempre é efetivo e a afecção pode recrudescer com o 
reinicio das atividades reprodutivas. Várias técnicas cirúrgicas de circuncisão 
e postectomia foram descritas, com resultados variáveis. No período pós-
operatório, a antibioticoterapia sistêmica associada à proteção da ferida e 
o repouso sexual são importantes para evitar complicações, a exemplo de 
fimose, deiscência da ferida e infecção. 
Palavras chave: Acrobustite, bovinos, zebu.
Acrobustite bovina: Revisão de Literatura
Rogério Elias Rabelo 
Médico Veterinário, CRMV-GO no. 2650, 
Professor do Curso de Medicina Veteriná-
ria da UFG – Campus Avançado de Jataí
Endereço: Rodovia Br 364 Km 192 – Zona 
Rural, Jataí – GO – CEP: 75.800-000
E-mail: rabelovet@bol.com.br 
Luís Antônio Franco da Silva
Médico Veterinário, CRMV-GO nº 0780. 
Professor da Clínica Cirúrgica Animal da 
Escola de Veterinária da UFG 
Goiânia –GO
E-mail: lafranco@vet.ufg.br 
Marco Antônio de Oliveira Viu 
Médico Veterinário,CRMV-SP nº 6438
E-mail cjatai@jatai.ufg.br 
Alana Flávia Romani 
Médica Veterinária, CRMV-GO nº 2650
E-mail: alanafr@hotmail.com 
Cláudia Bueno Alves
Médica Veterinária, CRMV-GO nº 2457
Juliano José de Resende Fernandes
Médico Veterinário, CRMV-GO nº 2962
E-mail: juliano@vet.ufg.br 
Cláudia Franciane Pereira Castro
Acadêmica de Medicina Veterinária da 
Escola de Veterinária da UFG
Acrobystitis is an important illness among those ones which affect the genital 
system of male bovine. The anatomic and morphological particularities such 
as pendulous preputial sheath, long prepuce, enlargement of preputial ostium, 
incipient or absent prepuce tailed retractor muscle and damages that can 
predispose the animal to this illness. The main disturbs are: impaired mating, 
edema, necrosis of the prolapsed mucous membrane, worming, hemorrhage, 
abscess, local hyperthermia, urine retention and increased sensitivity. Even the 
clinical and surgical treatment may be conduced after the cost evaluation, the 
bull maintenance on convalescent period, possible reduced bull sexual perfor-
mance and the post operatory complications. The drug treatment may not be 
successful, and the affection recrudesces with the restart in of the reproductive 
activities. Several surgical techniques of circumcision and postectomia have 
been described, with different outcomes. In the post-operatory period the syste-
mic antibiotic-therapy associated with wound protection and sexual restrain are 
fundamental to avoid post-operatory complications, such as phimosis, wound 
dehiscence and infections.
Bovine posthitis: a literature Review
 INtrODUçãO
O touro tem um grande efeito na 
eficiência reprodutiva dos rebanhos 
de corte, indiferente se usado na 
monta natural ou por meio de in-
seminação artificial. Os prejuízos 
na capacidade de fertilização do 
touro resultam em grandes perdas 
econômicas, principalmente quando 
acontece em sistemas extensivos de 
produção (Chacón et al., 1999).
A impotência coeundi é uma das 
formas de infertilidade que se carac-
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Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
teriza pela diminuição ou perda da 
 libido ou da habilidade de realizar 
a cópula (Hafez, 2004). Nos bovi-
nos, dentre as causas da impotência 
coeundi, se destacam as afecções 
do prepúcio (Roberts, 1971; Basile, 
1985). 
Basile (1985) descreveu que dentre 
as enfermidades que afetam o seg-
mento genital do macho, destacam-
se o prolapso prepucial, a fimose, as 
balanites, os abcessos prepuciais e a 
acrobustite. Oehme (1988) classificou 
as lesões do prepúcio, segundo a 
ocorrência, em lacerações ou con-
tusões, associadas ou não à fimose, 
prolapso, parafimose, abscedação, 
fibrose e avulsão prepucial. Segundo 
Viu (1999), o tamanho do prepúcio 
é uma característica morfológica de 
importante relevância econômica 
nos bovinos de corte, considerando-
se o alto valor monetário dos touros 
no processo de produção. 
A acrobustite, postite, acropis-
tite ou acropostite é um processo 
inflamatório da extremidade do 
prepúcio, geralmente associado às 
feridas, úlceras, edema, necrose, 
fibrose e às vezes, estreitamento do 
óstio prepucial (Lazzeri, 1994). Para 
Desrochers et al. (1995), Jean (1995) 
e Viu et al. (2002) habitualmente as 
lesões ocorrem durante a exposição 
peniana, acometendo a bainha pre-
pucial interna, porém existem lesões 
secundárias a um prolapso crônico. 
As lesões de caráter crônico podem 
culminar na total oclusão do orifício 
prepucial, devido aos detritos necró-
ticos e ao fibrosamento, causando 
severa estenose, capaz de produzir 
formações fistulosas até na região 
do períneo.
2. aSPECtOS 
ECONôMICOS
Venter e Maree (1978) afirmaram 
que o prolapso do prepúcio ocorre 
com maior freqüência em algumas 
raças com predisposição, e que 30% 
dos touros da raça Santa Gertrudes 
de até quatro anos de idade são eli-
minados devido a esta afecção, com 
conseqüente fimose e parafimose. 
O tratamento das injúrias prepu-
ciais normalmente é dispendioso ao 
proprietário e, geralmente, interven-
ções cirúrgicas são necessárias. A 
porcentagem de touros que não re-
tornam ao serviço é grande, e quando 
retornam, estes touros podem estar 
aumentando a freqüência gênica do 
problema no rebanho (Viu, 1999).
Vários fatores de ordem econô-
mica devem ser avaliados antes de 
se proceder o tratamento clínico e 
ou cirúrgico de um touro portador 
de uma patologia prepucial. Dentre 
estes fatores destacam-se o custo 
esperado quando se opta pelo trata-
mento, o custo da manutenção deste 
touro durante o período de conva-
lescência, a possível diminuição do 
desempenho sexual do reprodutor 
após a intervenção cirúrgica, o risco 
do insucesso, as complicações pós-
cirúrgicas que por ventura ocorram 
e que, conseqüentemente, alterem 
os custos esperados e, por fim, a 
avaliação econômica comparativa 
entre a realização do tratamento e a 
substituição do touro doente (Kasari 
et al.,1997). 
3. FatOrES PrEDISPO-
NENtES
A síndrome do prolapso prepu-
cial é comum em touros de corte e 
relaciona-se com a hereditariedade, 
ambiente e fatores infecciosos, sendo 
estes últimos, condições auto-agra-
vantes.Os fatores hereditários predis-
ponentes incluem o tamanho e a 
pendulosidade do prepúcio, além de 
um grande orifício prepucial e a au-
sência dos músculos retratores. Estas 
características herdáveis tornam o 
prepúcio susceptível à exposições 
ao ambiente e conseqüentes lesões 
e traumas (Viu, 1999).
A acrobustite está sempre asso-
ciada à balanite. A balanopostite 
é causada por infecções primárias 
bacterianas, com desvitalização da 
bainha prepucial e, também, pela 
exposição dos touros a capins lenho-
sos, pela seca ou pelo frio. Fatores 
secundários devido a fratura do pênis 
e conseqüente acúmulo de urina, se-
guido de abcesso prepucial e ruptura, 
também podem estar associados 
(Nazário et al., 1975 e Siqueira et 
al., 2000).
Estas afecções prepuciais são 
comuns em touros e ocorrem com 
maior freqüência na estação de mon-
ta (Siqueira et al. 2000).
Para Silva et al. (1994) e Silva 
et al. (1996) os touros das raças 
zebuínas tais como Nelore, Gir, 
Indubrasil e Guzerá e de bovinos de 
raças européias, como o Santa Ger-
trudes e o Marchigiana, têm maior 
predisposição a apresentar este tipo 
de enfermidade. Silva et al. (1993) 
descreveram que o comprimento 
médio do prepúcio de reprodutores 
da raça Nelore acima de 36 meses de 
idade foi de 18 cm e que alguns ani-
mais tinham até 40 cm. Estes touros, 
na medida do possível, devem ser 
descartados, pois tal característica 
favorece o desencadeamento das 
lesões prepuciais.
Desrochers et al. (1995), Jean 
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(1995) e Viu (1999) citaram que 
os Bos taurus também podem ser 
acometidos de enfermidades na 
extremidade prepucial, com desta-
que para o Angus, o Beefmaster e 
o Brangus. Copland et al. (1989) 
trabalhando com 52 bovinos aco-
metidos por lesões no pênis e no 
prepúcio, relataram que 75% destes 
animais eram Bos taurus e 25% Bos 
indicus/Bos taurus.
Marques et al. (1988) descreve-
ram que dentre os fatores agravantes 
da enfermidade, pode-se citar o 
manejo inadequado, tais como, as 
pastagens sujas e a ausência de cui-
dados higiênicos. Silva et al. (1998) 
relataram que além dos fatores aci-
ma mencionados, merecem atenção 
especial os traumatismos provoca-
dos por cercas de arame farpado, 
pisoteamento de outros animais, 
lacerações e larvas de Dermatobia 
hominis. 
Siqueira et al. (2000) descreve-
ram que os animais acometidos pela 
acrobustite podem depauperar-se 
em curto espaço de tempo, devido 
ao desconforto da própria enfermi-
dade, bem como das complicações 
causadas pela estrangúria e disúria, 
próprias da obstrução mecânica 
oriunda do estreitamento do óstio 
prepucial.
4. DIaGNÓStICO
Jean (1995) citou como sintoma-
tologia da acrobustite, as alterações 
clínicas e de comportamento, tais 
como, dificuldade ou não na rea-
lização da cópula, graus variados 
de edema, necrose da mucosa pro-
lapsada, presença de miíase, hemor-
ragia, abcesso e hipertermia local, 
podendo haver retenção de urina e 
dor à palpação local. Para Siqueira 
(2000), a bainha prepucial apresen-
ta-se quente, sensível e aumentada 
de volume. O pênis não pode ser 
expulso da cavidade prepucial, o ani-
mal apresenta sinais de estrangúria 
e disúria, urinando em gotas ou em 
jatos finos. Em função da estenose 
do óstio prepucial e do desvio no 
sentido caudal da extremidade do 
prepúcio, a urina localizada na cavi-
dade interna da bainha desencadeia 
intensa reação inflamatória local, 
caracterizada por celulite, podendo 
levar a danos da mucosa, tornando 
o touro inviável para a reprodução 
(Figura 1). 
A contenção do bovino em troncos 
ou bretes apropriados é importante 
para a realização do diagnóstico, por 
permitir segurança ao profissional, 
além de possibilitar a realização 
dos exames necessários para fins de 
diagnóstico. 
Pela palpação, pode-se verificar 
na abertura do orifício prepucial, a 
mucosa livre ou constatar a presen-
ça de aderências, fibroses, feridas, 
inflamações e úlceras que podem 
dificultar ou impedir a saída do pênis 
e dar origem a fimose (Silva et al., 
1993).
Figura 1
Acrobustite em touro zebu (Bos taurus indicus), evidenciando desvio do prepúcio no sentido caudal, 
edema e estenose do óstio prepucial.
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5. trataMENtOS 
 CLÍNICO E CIrúrGICO
 
De modo geral, o tratamento 
medicamentoso tem por base a 
administração de antibióticos, anti-
inflamatórios sistêmicos e medicação 
tópica, além de higiene do prepúcio e 
uso de duchas frias. A colocação de 
bandagens, ataduras e fitas adesivas 
em torno da extremidade prepucial, 
bem como a introdução de um tubo 
de polivinil no lúmen prepucial para 
facilitar a passagem da urina e evitar 
a estenose, auxilia no tratamento do 
edema. Recomenda-se o repouso 
sexual, para amenizar o processo 
e impedir a disseminação de infec-
ções (Memon et al., 1988; Oheme, 
1988; Baxter et al., 1989; Copland 
et al.,1989; Sarma et al., 1993; Jean., 
1995). A utilização de bandagens, 
ataduras gessadas ou fitas plásticas 
adesivas podem comprometer a 
circulação sangüínea do prepúcio e 
agravar a lesão (Silva et al., 1998).
5.1. PrÉ- OPEratÓrIO
A utilização de ducha fria na re-
gião do prepúcio por até 20 minutos, 
higienização da mucosa prolapsada 
com água e sabão neutro, secagem 
e aplicação de pomada de ação anti-
inflamatória e epitelizante durante 
de três dias são importantes para o 
sucesso do tratamento da acrobustite 
(Marques et al., 1988).
Silva et al. (1998) preconizaram 
medidas pré-operatórias de até cinco 
dias, dependendo da gravidade da 
lesão, utilizando por via parenteral 
antibioticoterapia e antiinflamatórios 
não esteróides e uso de pomadas 
após a assepsia do prepúcio. Tais 
fatores contribuíram para melhora 
clínica, reduziu o processo inflama-
tório e favoreceu a condução do ato 
cirúrgico.
5.2. MEDICaçãO 
PrÉ-aNEStÉSICa
O jejum hídrico e alimentar 
por 24h e a tranqüilização do bo-
vino com cloridrato de xilazina 
a 2% por via intramuscular, na 
dose de 0,1 a 0,2 mg/kg de peso 
corporal foram empregados por 
Silva et al. (1998) como medidas 
e medicações pré-anestésicas 
eficientes para a realização do 
procedimento cirúrgico. O je-
jum preveniu a ocorrência de 
timpanismo e de pneumonia por 
aspiração durante o trans-ope-
ratório.
5.3. CONtENçãO E 
aNEStESIa
A contenção do bovino em de-
cúbito lateral direito com a devida 
proteção dos membros pélvicos e 
torácicos, da cabeça e região es-
capular, seguida da anestesia local 
com cloridrato de lidocaína a 2%, 
circundando todo o prepúcio, apro-
ximadamente cinco centímetros 
acima do óstio prepucial, são de 
fundamental importância no período 
pré-operatório (Marques et al. 1988; 
Silva et al.1998).
5.4. tÉCNICaS 
 CIrúrGICaS 
Basicamente utiliza-se a circun-
cisão como tratamento cirúrgico por 
apresentar melhores resultados. Esta 
técnica consiste na tração do prepú-
cio, seguido de uma incisão circuns-
crita distal (caudal a lesão) e uma 
proximal (cranial a lesão). A porção 
delimitada pelas duas incisões re-
presenta o tecido a ser removido ( 
Marques et al., 1988; Memon et al., 
1988; Copland et al., 1989; Sarma et 
al., 1993, Lazzeri, 1994, Jean, 1995 
e Silva et al., 1998).
Turner e Mclwraith (1985) cita-
ram a prática da circuncisão profilá-
tica em bovinos de algumas regiões. 
Ressaltaram que a perda da membra-
na prepucial após a cirurgia poderá 
impedir uma exposição adequada do 
pênis para a realização da cópula, 
principalmente em raças européias. 
Walker (1980), Memon et al. (1988) 
e Jean (1995) alertaram que quando 
se retira grandes extensões da mu-
cosa prepucial, poderá prejudicar a 
exposição do pênis e conseqüente 
cópula .
Walker (1980) e Turner e 
 Mclwraith (1985) relataram um 
método de circuncisão, no qual se 
utiliza um anel plástico rígido com 
várias perfurações em uma das ex-
tremidades. O anel é introduzido 
na cavidade prepucial e no local 
previstopara a circuncisão são feitas 
suturas passadas pelas perfurações, 
obtendo-se um efeito tipo torniquete. 
Aproximadamente 10 dias após a 
intervenção o anel é tracionado, e 
junto com este é exposta a parte a 
ser removida. 
Lazzeri (1969) preconizou uma 
técnica cirúrgica para correção 
da acrobustite, que consiste em 
circuncisão, descolamento da mu-
cosa interna, retirada total da parte 
externa lesada, do tecido fibroso, 
dos eventuais abcessos inclusos e 
de todo o tecido hiperplásico que 
envolve a mucosa. Em seguida, 
efetua-se quatro incisões longitu-
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dinais na mucosa, para eliminar a 
diferença de diâmetro entre o óstio 
da mucosa e pele e posterior sutura 
com aplicação de quatro pontos de 
Wolff, empregando-se fios de algodão 
00. O autor comentou que a sutura 
efetuada somente com quatro pontos, 
mantinha a região praticamente sem 
edema, já que as áreas livres com-
preendidas entre os pontos de sutura 
permitiram uma drenagem efetiva e 
total ausência de fundo de saco. Tal 
técnica mostrou-se satisfatória para 
correção desta enfermidade.
Para correção da acrobustite em 
touros, Eurides et al. (1981), descre-
veram uma circuncisão seguida da 
ressecção de um fragmento de pele 
em forma de “V” no óstio prepucial, 
reduzindo seu diâmetro e facilitando 
a junção do óstio da mucosa e o da 
pele. Marques et al. (1988) também 
realizaram a circuncisão para a corre-
ção deste defeito, porém realizaram 
a incisão em forma de “V” na região 
caudal da mucosa prepucial e não 
da pele conforme recomendado por 
Eurides et al. (1981), sendo que em 
cada vértice foi feito um ponto sim-
ples separado com categute cromado 
n° 2, unindo-a à pele prepucial. 
Silva et al. (1998) descreveram a 
técnica cirúrgica de Lazzeri (1969) 
com pequenas modificações. Consta 
da demarcação cirúrgica da região a 
ser circundada para delimitar a área 
lesionada da parte íntegra. Para fa-
cilitar a circuncisão são colocados, 
primeiramente, no ponto de união 
com a pele, quatro pinças de Kocher 
eqüidistantes sendo uma anterior, 
duas laterais e uma posterior, sendo 
esta fixada aproximadamente dois 
centímetros acima das demais (Fi-
gura 2). Posteriormente, o folheto 
prepucial interno é seccionado 
de pinça a pinça. Para facilitar o 
descolamento da mucosa interna 
e ressecção da fibrose, realiza-se 
uma incisão longitudinal na porção 
exposta. A remoção da região lesa-
da e/ou fibrosada é feita num ponto 
o mais próximo possível da lesão, 
para aproveitar o máximo de folheto 
prepucial interno. 
Figura 2
Posicionamento eqüidistante das pinças de 
Kocher, delimitando a área da circuncisão.
Figura 3
Aplicação eqüidistante das pinças de Allis, no folheto prepucial interno. Notar a diferença do diâmetro do 
óstio prepucial em relação ao óstio do folheto prepucial.
Figura 4
Aspecto da incisão no ponto médio entre cada pinça, para a justaposição das bordas do folheto prepucial 
à pele do novo óstio prepucial
Suplemento
TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
A hemostasia é efetuada com 
ligadura dos vasos, utilizando-se 
categute simples 2.0. O folheto 
prepucial interno é posicionado 
anatomicamente e fixado com qua-
tro pinças de Allis, eqüidistantes 
aos pontos correspondentes às de 
Kocher. Tal procedimento permite 
visualizar a desproporção entre o 
óstio do folheto prepucial interno e o 
óstio prepucial (Figura 3). No ponto 
médio entre cada pinça aplicada na 
mucosa, faz-se uma incisão de apro-
ximadamente dois centímetros para 
facilitar a justaposição das bordas do 
folheto à pele do novo óstio prepu-
cial (Figura 4). 
A coaptação é realizada no pon-
to de correspondência das pinças, 
por meio de sutura tipo Donatti, 
Figura 5
Coaptação no ponto de correspondência das pinças por meio de sutura tipo Donatti, entre a pele e a 
mucosa.
atingindo pele e mucosa, utilizan-
do-se fios de algodão 000 (Figura 
5). O fechamento completo da ferida 
é realizado com categute cromado n° 
1 em suturas simples interrompida, 
unindo a mucosa ao tecido subcutâ-
neo, deixando as pontas dos fios lon-
gas, para prevenir possível irritação 
da mucosa prepucial (Figura 6).
Para o autor a aplicação dos 
quatro pontos de Donatti para fixar 
a mucosa prepucial à pele tem a 
finalidade de diminuir o compro-
metimento circulatório local. Este 
procedimento diferiu dos quatro 
pontos do tipo Wolff recomendado 
por Lazzeri (1969), o que em tese 
poderia dificultar o aporte sangüíneo 
e resultar em deiscência de ferida 
dentre outras complicações.
5.5. PÓS-OPEratÓrIO
Lazzeri (1969) preconizou a 
antibioticoterapia parenteral à base 
de penicilina benzatina na dose de 
30.000 UI/kg de peso corporal, re-
pouso sexual por no mínimo 60 dias, 
além de duchas frias na ferida cirúr-
gica, com o intuito de se eliminar 
coágulos e sujidades. Paralelamente, 
adotou aplicação diária de pomadas 
para auxiliar na cicatrização. 
Marques et al. (1988) e Silva et 
al. (1998) além das recomendações 
acima salientadas, utilizaram por 
via endovenosa a escina sódica, na 
dose de 0,5 mg/70 kg a cada 24 horas, 
durante três dias consecutivos, com 
o intuito de controlar o processo 
inflamatório. 
Matera et al. (1967) utilizaram 
cintas de suspensão para o prepú-
cio, com o objetivo de controlar o 
edema e impedir traumas na região 
prepucial. Para Lazzeri (1969) tal 
Figura 6
Fechamento adicional da ferida cirúrgica, com pontos simples interrompidos com categute 
cromado nº 1.
Suplemento
TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
REFERêNCIAS BIBLIOgRáFICAS
medida se fazia desnecessária uma 
vez que a cinta ou avental embebida 
de urina, provocava irritações. Sil-
va et al. (1998) utilizaram o avental 
de tecido de algodão, sendo este 
permeável a urina, até completa 
cicatrização da ferida, no tamanho 
suficiente para cobrir toda a extremi-
dade prepucial, protegendo a região 
injuriada de eventuais traumatismos 
e contaminação ambiental. 
6. COMPLICaçÕES 
PÓS-OPEratÓrIaS
Os maiores empecilhos para o 
sucesso destas intervenções cirúr-
gicas, são as complicações no pós-
operatório, tais como o aparecimento 
de fimose, a deiscência das ferida, a 
presença de miíase e abcessos (La-
zzeri, 1969). Copland et al. (1989) 
citaram ainda a infiltração de urina 
na linha de sutura e a presença de 
infecções. 
Silva et al. (1996), utilizando a 
técnica de circuncisão de Lazzeri 
(1969), porém modificada, ressal-
taram que as complicações como 
edema, hemorragia, formação de 
abcessos, deiscência de ferida, pre-
sença de miíases e fimose contribu-
íram para os insucessos.
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Suplemento
TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
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Suplemento
TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
Ceratite ulcerativa por Pseudomonas Aeruginosa 
no cavalo – revisão
A B S T R A C T
R E S U M O
Esta revisão trata da ceratite ulcerativa bacteriana por Pseudomonas aeruginosa 
em cavalos. São discutidos os dados atualizados sobre a patogênese desta 
afecção ocular, os sinais clínicos, o diagnóstico e os tratamentos médico e cirúr-
gico disponíveis. Estes últimos não evitam algumas vezes complicações como 
cicatrizes, que comprometem o eixo visual, e, em decorrência disso, muitos 
estudos experimentais, raramente na espécie eqüina, vem sendo desenvolvidos. 
portanto, alguns elementos para o perfeito entendimento da ceratite ulcerativa 
eqüina por Pseudomonas aeruginosa permanecem sem explicação. 
unitermos: córnea, úlcera colagenolítica, patofisiologia, eqüino.
Equine Pseudomonas aeruginosa corneal ulceration – review
Graziela Müller 
Médica Veterinária Autônoma, CRMV-PR 
nº 4596, Mestre em Patologia Animal pela 
Universidade Federal do Paraná
Endereço para correspondência: Travessa 
Graciosa, 45/ apto 61, Cabral, Curitiba 
– PR - CEP: 80035-200
E-mail: grazimuller@hotmail.com 
Antonio Felipe P. de Figueiredo Wouk 
Médico Veterinário, CRMV-PR nº 0850, 
Professor Titular Doutor de Clínica 
 Cirúrgica Veterinária, Departamento de 
Medicina Veterinária da Universidade 
 Federal do Paraná
E-mail: fwouk@ufpr.br 
This review, discusses the current information about equine Pseudomonas aeru-
ginosa corneal ulceration, considering pathogenesis, clinical findings, diagnosis 
and medical/surgical treatments. The suitable therapy, the discoveries took 
place in experimental models other than equine, do not avoid complications as 
corneal scars that compromise the visual axis. Therefore, some pivotal clinical 
facts about this equine corneal infection remain unknown.
Key words: cornea, colagenolitic ulcers, pathophisiology, equine.
 INtrODUçãO
A ceratite ulcerativa bacteriana 
é comum nos cavalos (Sauer et 
al., 2003) e é considerada uma das 
afecções oculares mais graves, tanto 
na oftalmologia veterinária como na 
humana, requerendo terapia médica 
efetiva rápida, devido à potencial 
ameaça à visão (Wyman et al., 1983; 
Matsumoto, 2000; Evans et al., 
2002; Fleiszig e Evans, 2002). As 
bactérias mais comumente isoladas 
dos animais diferem daquelas da 
flora conjuntival normal, sendo que 
os microrganismos mais freqüen-
temente encontrados são bactérias 
gram-negativas, principalmente da 
família das Enterobacteriaciae (En-
terobacter spp., Escherichia coli, 
Klebsiella spp.), Pseudomonas aeru-
ginosa e Proteus spp. (Moore, 1983; 
Davidson, 1991; Nasisse e Nelms, 
1992; Barnett et al., 1995; Sauer 
Suplemento
TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
et al., 2003). Entretanto, bactérias 
gram-positivas como Streptococcus 
spp e Staphylococcus spp também 
já foram isoladas (McLaughlin et 
al., 1983; Moore et al., 1983; Moo-
re et al., 1988; Moore et al., 1995; 
Sauer et al., 2003). Dentre as três 
mais freqüentemente isoladas destas 
afecções, está a Pseudomonas aeru-
ginosa, uma bactéria gram-negativa, 
amplamente distribuída no ambiente 
e encontrada na água, no solo, nas 
plantas, nas membranas mucosas e 
na pele (Sabath apud Gyles, 1993; 
Todar, 2001) e, também, nas fezes de 
animais sadios (Carter e Chengappa, 
1991; Quinn et al., 1994; Gilligan, 
1995; Hirsh, 1999). É encontrada, 
ainda, em uma variedade de soluções 
aquosas, como os colírios ou solu-
ções para uso oftálmico e cosmético 
(Gilligan, 1995; Lima e Belfort Jr., 
1996). 
A ampla distribuição da P. aeru-
ginosa no meio ambiente em que 
vivem os cavalos e nas soluções 
aquosas de uso oftálmico facilita 
a sua contaminação no tecido cor-
neano previamente traumatizado 
(Sabath apud Gyles, 1993; Todar, 
2001; Gilligan, 1995; Lima e Belfort 
Jr., 1996). 
O objetivo desta revisão é o de 
discutir, com um foco especial na 
espécie eqüina, a ceratite ulcera-
tiva bacteriana contaminada por 
P. aeruginosa, considerando-se a 
patogênese da afecção ocular, os 
sinais clínicos, o diagnóstico e os 
tratamentos médico e cirúrgico atu-
alizados.
PatOGÊNESE
Como um patógeno oportunista, 
a P. aeruginosa tipicamente requer 
uma porta de entrada, ou por uma le-
são prévia ou por uma “quebra” nos 
mecanismos normais de defesa,para 
que a subseqüente invasão corneana 
possa ocorrer (Todar, 2001). Um 
leito epitelial intacto, firmemente 
aderido à sua lâmina basal subja-
cente, cria uma barreira essencial 
para a manutenção da homeostasia 
corneana. Esta barreira epitelial, 
juntamente com elementos advindos 
do filme lacrimal, apresenta grande 
importância na prevenção da adesão, 
colonização e infectividade bacteria-
na na superfície da córnea e na dis-
persão da bactéria no estroma (Todar, 
2001; Esco et al., 2002). Para que a 
infecção ocular se instale, é neces-
sário que haja aderência, penetração, 
invasão, persistência e replicação do 
microrganismo, independente-men-
te dos mecanismos locais de defesa 
(Uesugui et al., 2002). Portanto, o 
rompimento desta barreira epitelial, 
freqüentemente causado por trauma, 
permite a entrada da P. aeruginosa 
e de outras bactérias, comensais ou 
patogênicas, e sua multiplicação no 
estroma (Moore, 1987; Davidson, 
1991; Sweeney e Irby, 1996; Hamor 
e Whelan, 1999; Hao et al., 1999b; 
Kanski, 2000), resultando em uma 
ceratite ulcerativa como conseqüên-
cia da evolução do processo bacte-
riano na córnea (Hao et al., 1999b). 
Em modelos experimentais de cera-
tite bacteriana por P. aeruginosa em 
coelhos, a inoculação intraestromal 
permite abortar as três etapas ini-
ciais do processo de instalação da 
bactéria, uma vez que a mesma é 
introduzida diretamente no estroma, 
facilitando a infecção (O’Callaghan 
et al., 1996), entretanto, observam-
se variações na freqüência e seve-
ridade da infecção produzida com 
relação à ceratopatogenicidade da 
cepa utilizada (Hyndiuk et al., 1983; 
Aristoteli e Willcox, 2001). Esses 
modelos experimentais diferem das 
condições em que a infecção natural 
ocorre (Primbs et al., 1961; Fleiszig 
e Evans, 2002), pois é realizada atra-
vés da injeção intraestromal. No en-
tanto, os mesmos são extremamente 
válidos para seu estudo. 
A habilidade da P. aeruginosa 
em se aderir às células dos mamífe-
ros, aos tecidos e aos biomateriais, 
como as lentes de contato, parece 
ser modulada por várias moléculas 
próprias, incluindo pili, flagelo, 
proteínas externas da membrana e 
lipopolissacarídeo (LPS) (Fletcher 
apud Fleiszig e Evans, 2002), o 
que também influencia na adesão 
bacteriana às células epiteliais 
(Fletcher apud Evans et al., 2002). 
Acredita-se que a bactéria seja ca-
paz de modular sua própria adesão, 
por meio de adesinas de superfície, 
as quais interagem com receptores 
na superfície das células epiteliais 
do hospedeiro (Gupta et al., 1996). 
Segundo Todar (2001), no trato 
respiratório, as fímbrias da P. aeru-
ginosa aderem às células epiteliais 
por meio de adesinas, que parecem 
ligar-se a receptores específicos para 
o ácido siálico. Além disso, a colo-
nização do trato respiratório requer 
aderência das fímbrias, a qual pode 
ser auxiliada pela produção de pro-
teases que degradam a fibronectina, 
expondo, desta forma, os receptores 
subjacentes das fímbrias nas células 
epiteliais. Segundo estudo realizado 
por Aristoteli e Willcox (2001), 
diferentes cepas de P. aeruginosa 
são capazes de aderirem-se à mu-
cina em um modelo experimental 
com mucina gástrica de suíno. Foi 
Suplemento
TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
sugerido que a mucina ocular pode 
funcionar como uma barreira de 
proteção do epitélio subjacente da 
córnea contra a colonização pela 
bactéria e, por isso, o uso de agentes 
mucolíticos, como N-acetilcisteína, 
para a remoção da mucina ocular 
pode aumentar a aderência da P. 
aeruginosa. Entretanto, a mesma 
já foi sugerida como um receptor 
específico para este microrganismo 
nas superfícies epiteliais (Gyles, 
1993). Para Esco et al. (2002), um 
outro fator que pode contribuir para 
a ligação da P. aeruginosa às células 
epiteliais é a composição da matriz 
extracelular, de forma que, em con-
dições de hipoxia, menos laminina 
é incorporada à matriz, resultando 
em aumento da ligação da bactéria. 
Além disso, a P. aeruginosa pode 
aderir-se prontamente aos compo-
nentes da lâmina basal, incluindo 
laminina, fibronectina e colágeno 
tipo IV (Plotkowski et al., 1996). 
Essa adesão às células do hospedeiro 
pode ser facilitada por dois dos seus 
exoprodutos, a protease alcalina e a 
elastase (Gupta et al., 1996). 
A capacidade da P. aeruginosa 
invadir os tecidos está diretamente 
relacionada à sua resistência à fago-
citose e às defesas imunológicas do 
hospedeiro e, também, à produção 
dos seus fatores de virulência, que 
contribuem para invasão e persis-
tência nos tecidos (Todar, 2001; 
Fleiszig e Evans, 2002). Sua cápsula 
bacteriana e seu biofilme (alginate 
viscoso) protegem-na efetivamente 
da opsonização pelos anticorpos, da 
deposição de complemento e da fa-
gocitose (Todar, 2001). O LPS, con-
siderado um dos fatores de virulên-
cia essenciais no desenvolvimento 
da afecção corneana, contribui para 
a ocultação da bactéria das defesas 
do hospedeiro, como atividade do 
complemento, anticorpos e fagoci-
tose (Gyles, 1993; Todar, 2001) e, 
ainda, contra medicações antimicro-
bianas como os aminoglicosídeos e 
os beta-lactâmicos. Além disso, atua 
influenciando a aderência, invasão 
e sobrevivência da P. aeruginosa 
nas células epiteliais (Evans et al., 
2002). As células corneanas perma-
necem como as únicas células nas 
quais a invasão pela P. aeruginosa 
foi demonstrada in vivo (Fleiszig et 
al., 1994). Duas proteases extrace-
lulares têm sido associadas com a 
capacidade de virulência, exercida 
no estágio de invasão bacteriana, 
a elastase e a protease alcalina 
(Todar, 2001). Em estudo in vitro, 
sobre a invasão e multiplicação da 
P. aeruginosa nas células epiteliais 
da córnea, verificaram-se influências 
do tempo de interação da bactéria 
com estas células, da presença de 
lesão e da temperatura de incubação. 
Além disso, neste mesmo, ficou 
demonstrado com uso de testes de 
sobrevivência à gentamicina, que a 
P. aeruginosa pode invadir e sobre-
viver dentro dessas células em vários 
modelos in vitro em ratos, coelhos e 
camundongos, após lesão da córnea 
(Fleiszig et al., 1995). Uma impor-
tante descoberta feita por Ni et al. 
(2004), em recente pesquisa, foi a 
detecção de uma proteína-D surfac-
tante no fluído lacrimal de humanos 
e de ratos. Verificou-se que esta pro-
teína é capaz de proteger as células 
epiteliais corneanas da invasão pela 
P. aeruginosa, entretanto, não se 
detectou atividade bacteriostática.
Segundo estudo in vitro, utilizan-
do-se células epiteliais corneanas de 
coelho, a P. aeruginosa foi capaz de 
multiplicar-se dentro dessas células, 
sendo que a taxa de replicação em 
quatro horas foi de 10 campos e, 
em 24 horas, o número de bactérias 
foi reduzido aos níveis iniciais, 
provavelmente devido à fração de 
células epiteliais mortas contendo 
bactéria (Fleiszig et al., 1995). A P. 
aeruginosa produz e libera vários 
fatores de virulência, capazes de 
danificar direta e indiretamente os 
tecidos corneanos, por meio de en-
zimas proteolíticas próprias ou por 
degradação do colágeno mediada 
pelos ceratócitos (Hao et al., 1999b; 
Miyajima et al., 2001; Nagano et 
al., 2001). Algumas das suas prote-
ases são capazes de degradar vários 
componentes da matriz extracelular, 
incluindo proteoglicanos, colágeno 
tipo III e IV, e laminina. Destas, con-
forme afirmou Matsumoto (2000), 
a elastase e a protease alcalina são 
responsáveis pela necrose estromal 
liquefativa na córnea de coelhos. 
À elastase também foi atribuída 
a capacidade de ativação de meta-
loproteases (MMP) (Hao et al., 
1999a), como MMP-1, MMP-3 (Na-
gano et al., 2001), MMP-2 e MMP-9 
(Miyajima et al., 2001) e degradação 
de colágeno, fibronectina, IgA, IgG 
e complemento (Todar, 2001). A 
exotoxina A tem sido associada à 
virulência ocular, conforme Pillar 
e Hobden (2002) mostraram em 
estudo, no qual verificou-se que a 
ausência de exotoxina A nas cepas 
mutantes de P. aeruginosa afetou 
sua capacidade de persistir e causar 
doença emmodelos de ceratite bac-
teriana em ratos. A protease IV, uma 
exoproteína, também demonstrou 
atividade na virulência corneana 
em modelos experimentais de in-
fecção com escarificação da córnea 
Suplemento
TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
de camundongos, entretanto, não 
foram percebidas diferenças entre os 
escores em modelos de inoculação 
intraestromal em coelhos com cepas 
mutantes, deficientes em protease IV 
e não mutantes (O’Callaghan et al., 
1996). Em outro estudo, esta mesma 
exoproteína degradou fibrinogênio, 
fibrina, plasminogênio e C3 e de-
gradou, parcialmente, plasmina e 
IgG, mas permanece desconhecida 
sua habilidade de degradar prote-
ínas estruturais e ativar proteases 
corneanas do hospedeiro (Engel et 
al., 1998). Tanto a protease alcalina 
como a elastase e o lipopolissaca-
rídeo, conforme demonstrado em 
pesquisa in vitro, foram capazes de 
aumentar a liberação de MMP-2 
e promover síntese e liberação de 
MMP-9 (Miyajima et al., 2001). A P. 
aeruginosa é um patógeno único por 
seus fatores de virulência e, além dos 
citados acima, outros são produzidos 
pela bactéria. Entretanto, o conheci-
mento acerca do envolvimento dos 
demais na patogênese da ceratite 
bacteriana ainda permanece limitado 
(Todar, 2001).
Antigos e recentes relatos indi-
cam que a combinação dos fatores 
patogênicos derivados dos tecidos 
do hospedeiro com os fatores da 
virulência da P. aeruginosa são res-
ponsáveis pela destruição corneana, 
durante a infecção (Van Horn et al., 
1981; Dong et al., 2000; Miyajima et 
al., 2001; Vygantas e Whitley, 2003; 
Hazlett, 2004). Acredita-se que as 
proteases que contribuem para a ul-
ceração da córnea no estágio inicial 
da infecção sejam provenientes da 
própria bactéria. Entretanto, num es-
tágio mais avançado (24 a 48 h após 
a infecção), as proteases que predo-
minam como fatores patogênicos da 
destruição tecidual são oriundas dos 
polimorfonucleares leucócitos, que 
afluem ao tecido do hospedeiro e 
substituem as proteases bacterianas 
(Wilcock, 1993; Matsumoto, 2000; 
Steuhl apud Miyajima et al., 2001). 
Como prova disso, verificou-se uma 
clara associação entre infiltração 
prolongada de polimorfonucleares 
na córnea e a destruição da córnea 
(Fleiszig e Evans, 2002). Estas cé-
lulas, que se infiltram no estroma, 
podem contribuir para a ulceração, 
por meio da secreção de elastases, 
colagenases, gelatinases (Wilcock, 
1993; Matsumoto, 2000; Tersariol 
et al., 2002) e citocinas, as quais, 
por sua vez, estimulam a produção 
de metaloproteases pelos cerató-
citos (Hao et al., 1999a), que num 
primeiro momento são importantes 
na limpeza do tecido afetado. Os 
ceratócitos produzem metaloprotea-
se-1 (MMP-1, colagenase), MMP-2 
(gelatinase A), MMP-3 (estrome-
lisina 1) e MMP-9 (gelatinase B) 
(Fini e Girard, 1990). A MMP-1 
degrada colágeno intersticial tipo 
I, II e III, e as formas ativadas de 
MMP-2 e MMP-9 podem degradar 
colágeno tipo IV, V e VII, laminina 
e fibronectina, assim como colágeno 
desnaturado; e sua liberação aumen-
tada pode contribuir para a destrui-
ção da membrana basal e ulceração 
corneana (Miyajima et al., 2001). 
Em recente estudo, verificou-se a 
indução de altos níveis da expres-
são do RNAm de metaloprotease 
de membrana tipo-1 nas córneas de 
ratos infectadas com P. aeruginosa, 
os quais permaneceram altos do 
segundo ao 11º dia. Isto pode sig-
nificar que estas metaloproteases, 
também sejam responsáveis pelo 
dano à córnea devido à sua dupla 
função no remodelamento da matriz 
extracelular, por meio da ativação de 
pró-MMP-2 e degradação direta de 
suas proteínas (Dong et al., 2000). 
As metaloproteases são liberadas 
como zimogênios inativos e ati-
vadas extracelularmente por uma 
serinoprotease, a plasmina, a qual é 
capaz de desencadear uma cascata 
proteolítica por meio da degradação 
de proteínas da matriz extracelular 
e pela ativação de outras metalo-
proteases (Berman et al., 1983; 
Richiert e Ireland, 1999), levando 
à destruição estromal (Berman et 
al., 1983). O fator responsável pela 
ativação da plasmina, o ativador de 
plasminogênio, é liberado por poli-
morfonucleares leucócitos (Berman 
et al., 1980) e macrófagos, principais 
células a infiltrar a córnea infecta-
da. Em estudo realizado por Berk 
et al. (2001), verificou-se um forte 
aumento na expressão do ativador 
do plasminogênio em ratos com 
ceratite ulcerativa por P. aerugino-
sa, o qual assim permaneceu até o 
11º dia pós-infecção. Além disso, 
ocorreu também liberação de fator 
ativador de plaquetas, citocinas e 
metabólitos do ácido aracdônico 
(Kernaki e Berk, 1994). O fator de 
crescimento de hepatócito (HGF) 
aumentou a susceptibilidade de cé-
lulas epiteliais à aderência, invasão 
e citotoxicidade pela P. aeruginosa 
(Fleiszig et al., 1998). Sabe-se que 
a interleucina-6 (IL-6) atua como 
um importante fator de proteção da 
córnea durante a infecção por esta 
bactéria gram-negativa (Willcox 
et al., 1998) e, segundo Cole et 
al. (2001), a administração tópica 
de IL-6 na córnea infectada por P. 
aeruginosa de dois tipos de ratos 
resultou em efetivo recrutamento de 
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TÉCNICO
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neutrófilos polimorfonucleares para 
a córnea, verificando-se, ainda, um 
aumento precoce dos níveis de IL-6 
que podem ser protetores na infecção 
corneana. A interleucina-12 (IL-12), 
produzida pelos macrófagos, induz 
a secreção de IL-2 e de interferon-g 
(INF-g) e potencializa a prolifera-
ção e citotoxicidade das células T 
(Tizard, 1998). Hazlett et al. (2002) 
detectaram, mediante reação em ca-
deia da polimerase, IL-12 na córnea 
infectada por P. aeruginosa de ratos 
susceptíveis, desde 12 horas após 
a infecção até o sétimo dia. Neste 
mesmo estudo, níveis de produção 
de RNAm do INF-g foram maiores 
em ratos susceptíveis. A partir disso, 
foi sugerido que um desequilíbrio na 
regulação positiva do INF pela IL-
12 leva a uma excessiva produção 
da citocina e toxicidade. Mesmo 
com o importante papel da IL-12 na 
indução de IFN-g, segundo pes-
quisa realizada por Lighvani et al. 
(2004), a maior fonte desta última 
citocina são as células natural 
killer (NK), as quais são necessárias 
durante a infecção experimental 
por P. aeruginosa para regularem 
efetivamente a morte bacteriana e 
o número de polimorfonucleares na 
córnea de ratos susceptíveis. Além 
disso, Kernaki e Berk (1994) obser-
varam, em homogeneizados ocula-
res, a indução do fator de necrose 
tumoral (TNF-a) acima dos níveis 
basais entre um e três dias pós-
infecção com P. aeruginosa. Seu 
papel na infecção corneana ain-
da não está definido, entretanto, 
sabe-se que o TNF-a é liberado em 
resposta à endotoxina bacteriana 
no choque séptico (Tizard, 1998) 
e, deste modo, pode apresentar 
importante papel nesta infecção 
corneana. 
O resultado, em cavalos, da as-
sociação dos fatores patogênicos da 
P. aeruginosa com os do hospedeiro 
no tecido corneano, é uma típica 
ceratite bacteriana, caracteriza-
da por uma opacidade gelatinosa 
acinzentada adjacente à úlcera 
chamada “melting” (Sauer et al., 
2003) e caracterizada por necrose 
estromal liquefativa (Barnett et al., 
1995), ambas decorrentes da rápida 
liquefação dos proteoglicanos da 
substância fundamental da córnea 
(Sweeney e Irby, 1996). Nas lesões 
experimentais de infecção corneana 
por P. aeruginosa, após 24 horas da 
inoculação, observa-se infiltração 
maciça de polimorfonucleares, dis-
postos ao redor da lesão da córnea 
(Miyajima et al., 2001).
SINaIS CLÍNICOS
Em cavalos, os sinais clínicos da 
infecção bacteriana da córnea incluem 
dor ocular pronunciada, secreção ocu-
lar mucopurulenta, opacidade cornea-
na extensa, ceratite intersticial com in-
fluxo de células inflamatórias para o 
tecido, neovascularização extensa, 
perda estromal progressiva, necrose do 
estroma e liquefação (Davidson, 1991) 
(Figuras 1 e 2). Blefarospasmo, fotofo-
bia, hiperemia conjuntivalmarcada e 
quemose também são observadas 
(Barnett et al., 1995). Uveíte ante-
rior freqüentemente acompanha a 
ceratite ulcerativa e é mediada por 
caminhos reflexos, originados nos 
nervos sensoriais da córnea.
 O estímulo reflexo axonal resulta 
em vasodilatação dos capilares da 
íris, alteração da permeabilidade e 
quimiotaxia por leucócitos polimor-
fonucleares (Nasisse e Nelms, 1992; 
Hamor e Whelan, 1999; Slatter, 
2001). A descemetocele é uma com-
plicação decorrente da progressão 
da úlcera corneana, pois uma vez 
atingida a membrana de Descemet, 
Figura 1
Imagem de úlcera colagenolítica resultante da infecção corneana por Pseudomonas aeruginosa no olho 
esquerdo de cavalo. Observar opacidade e “melting” corneano, neovascularização perilimbal profunda 
e hiperemia conjuntival.
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poderá ocorrer sua protrusão, devido 
à influência da pressão intra-ocular 
(Wilcock, 1993; Barnett et al., 1995; 
Slatter, 2001). No estudo realizado 
por Sweeney e Irby (1996), as desce-
metoceles foram observadas em oito 
olhos dos 70 animais observados. 
Conforme ocorre a progressão 
da destruição da córnea e das ter-
minações nervosas subepiteliais, há 
redução da dor ocular e, em num 
período de 12-18 horas, pode ser 
evidenciada uma borda perilimbal de 
neovascularização profunda (Barnett 
et al., 1995). 
DIaGNÓStICO
A ceratite ulcerativa bacteriana, 
na grande maioria dos casos, pode 
ser diagnosticada com exames clí-
nicos, incluindo iluminação difusa, 
oftalmoscopias direta e indireta, 
biomicroscopia e teste de retenção 
de fluoresceína (Nasisse e Nelms, 
1992; Barnett et al., 1995; Hamor 
e Whelan, 1999), o qual também é 
útil na diferenciação entre abscesso 
estromal e úlcera de córnea (Hamor 
e Whelan, 1999). Córneas extrema-
mente edemaciadas podem resultar 
em testes falso-negativos, uma vez 
que o estroma torna-se incapaz de 
maior absorção de fluído (Nasisse e 
Nelms, 1992). Para um diagnóstico 
mais preciso pode-se realizar exame 
citológico com coloração de Gram 
e Giemsa e, testes de cultura e anti-
biograma de amostras de origem 
corneana (Moore, 1987; Barnett et 
al., 1995; Hamor e Whelan, 1999; 
Whitley, 2000; Sauer et al., 2003).
trataMENtOS
MÉDICO
A terapia inicial requer antibio-
ticoterapia agressiva nas concen-
trações normais ou com soluções 
fortificadas, sendo a eleição do 
antibiótico conforme os resultados 
da cultura e do antibiograma (Bar-
nett et al., 1995; Hamor e Whelan, 
1999; Slatter, 2001). Em geral, as 
cepas de Pseudomonas aeruginosa 
apresentam sensibilidade aos ami-
noglicosídeos, como tobramicina, 
gentamicina ou amicacina (Moore, 
1987; Nasisse e Nelms, 1992; Gy-
les, 1993; Barnett et al., 1995); no 
entanto, eles devem ser utilizados 
com cautela devido a sua ação 
tóxica sobre o epitélio corneano 
(Lima e Belfort Jr., 1996; Kanski, 
2000). Segundo estudo realizado 
por Sweeney e Irby (1996), os testes 
de sensibilidade para P. aeruginosa 
isolada de úlceras corneanas em 
cavalos, revelaram maior sensibili-
dade à amicacina (93%) comparada 
à tobramicina (87%) e, em contraste, 
uma resistência bacteriana a estes 
antibióticos já foi verificada em 
estudo retrospectivo (Sauer et al., 
2003). 
Na presença concomitante de 
miose e espasmo ciliar, a atropina 
tópica é indicada para alívio do 
desconforto ocular, estabilização 
da barreira hematouveal e preven-
ção de sinéquias (Nasisse e Nelms, 
1992; Vygantas e Whitley, 2003). 
Em alguns casos, pode ser utilizada 
juntamente com fenilefrina tópica 
(Barnett et al., 1995). 
Os agentes anticolagenolíticos 
também são indicados em todos os 
casos de necrose estromal liquefati-
va e, especialmente, na infecção da 
córnea por P. aeruginosa. Diversos 
autores recomendam o uso de inú-
meros agentes: acetilcisteína, EDTA, 
plasma, solução de heparina, toxóide 
tetânico (Moore, 1983; Barnett et al., 
1995; Sweeney e Irby, 1996; Hamor 
e Whelan, 1999; Slatter, 2001). 
Conforme mencionado, a acetilcis-
teína pode facilitar a adesão da P. 
aeruginosa por afetar a integridade 
do filme lacrimal (Hamor e Whelan, 
1999; Aristoteli e Willcox, 2001). 
Atividade anticolagenolítica foi 
Figura 2
Imagem de úlcera colagenolítica resultante de infecção corneana experimental por Pseudomonas aeruginosa 
no olho direito de coelho. Observar opacidade e “melting” corneano, neovascularização perilimbal 
profunda, hiperemia conjuntival, quemose, edema palpebral e secreção ocular mucopurulenta.
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verificada em estudos in vitro para o 
soro, acetilcisteína, toxóide tetânico 
(Haffner et al., 2003), ao contrário 
do que foi observado para a hepari-
na (Salonen et al., 1987). A eficácia 
destes agentes é controvertida (Laus 
e Andrade, 1998) e, em geral, eles 
falham durante o tratamento clínico 
(Hao et al., 1999a). A apronitina não 
inibiu a degradação de colágeno in 
vitro (Hao et al., 1999b) nem quan-
do utilizada na terapia da ceratite 
experimental por P. aeruginosa em 
coelhos (Stuart et al., 1991), dife-
rentemente do obtido por Salonen et 
al. (1987) no tratamento de afecções 
corneanas em seres humanos. Além 
desta, verificou-se que a galardina é 
capaz de diminuir, de modo signifi-
cativo, a ação direta e indireta da P. 
aeruginosa sobre a degradação de 
colágeno em cultura celular (Hao 
et al., 1999b). Em outro estudo, 
a inibição da elastase, oriunda de 
leucócitos humanos, foi alcançada 
com o uso de glicosaminoglicano 
polissulfatado, cuja máxima capa-
cidade foi cerca de 60-70% (Baici 
et al., 1980).
Antiinflamatórios não esteroidais 
também têm sido indicados no tra-
tamento destas ceratites bacterianas 
para alívio da dor ocular, estabili-
zação da barreira hemato-aquosa 
(Barnett et al., 1995) e inibição dos 
metabólitos do ácido aracdônico, de 
forma a reduzir a reação inflamatória 
e minimizar os danos provenientes 
de uma resposta exacerbada. Entre-
tanto, estes agentes podem retardar 
o processo de cicatrização (Lima et 
al., 1995), assim como os analgésicos 
opióides (Zieske, 2001).
CIrúrGICO
O tratamento cirúrgico das úlce-
ras bacterianas por P. aeruginosa 
é indicado para a redução da área 
necrótica ou na reparação de lesões 
profundas. Várias técnicas estão 
disponíveis, entretanto, no cavalo, 
normalmente utilizam-se transposi-
ção lamelar córneo-escleral, flaps de 
membrana nictitante, ceratoplastia 
conjuntival livre ou pediculada, 
ceratoplastia lamelar (Hacker et 
al., 1990; Hamor e Whelan, 1999) 
ou tarsorrafia temporária (Barnett 
et al., 1995). Ótimos resultados 
foram obtidos com transplante de 
membrana amniótica no tratamento 
cirúrgico, nas úlceras infectadas por 
P. aeruginosa em coelhos e foram 
indicadas especialmente naqueles 
casos de liquefação estromal e perda 
estromal extensa, sendo necessá-
rio, nesse caso, controle prévio da 
infecção (Chen et al., 2002). Estes 
efeitos benéficos têm sido atribuídos 
à presença de fatores de crescimento, 
presentes em amostras de membra-
nas amnióticas frescas e congeladas 
(Charters, 2001). 
COMPLICaçÕES 
E SEQÜELaS
A despeito da terapia antimi-
crobiana apropriada, a ceratite 
infecciosa persiste como resultado 
das proteases já liberadas, da ativa-
ção de pró-MMPs e da degradação 
da matriz extracelular (Nasisse e 
Nelms, 1992; Engel et al., 1998; 
Nagano et al., 2001). Esta ceratite é 
freqüentemente difícil de ser trata-
da, podendo progredir rapidamente 
para perfuração ou resultar em ci-
catrização exuberante, com danos à 
acuidade visual (Barnett et al., 1995; 
Laibson apud Gupta et al., 1996; 
Sauer et al., 2003). A phthisis bulbi 
pode seguir-se à ulceração da córnea, 
especialmente quando esta leva à 
perfuração com aumento da reação 
inflamatória, produzindo oftalmite 
(Carlton e Render, 1990). Em estudo 
retrospectivo realizado por Sweeney 
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Suplemento
TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
Maria da Graça Becker Dutra 
Médica Veterinária, CRMV-RS no. 2258 
Especialista, Professora Adjunta do 
Curso de Medicina Veterinária da Uni-
versidade Luterana do Brasil (ULBRA) 
Funcionária Pública da Secretaria de 
Agricultura - RS.
Endereço para correspondência: 
Rua Fernando Machado 386/302 Centro 
Porto Alegre – RS - CEP: 90010-320
E-mail: mgdutra@uol.com.br 
A B S T R A C T
R E S U M O
A evolução e as profundas alterações de comportamento e de tecnologia que 
ocorreram no mundo modificaram, incessantemente, a vida das pessoas 
e, por conseguinte, as distintas sociedades dos mais diferentes povos. A 
Medicina Veterinária, que tinha como principal missão preservar a saúde dos 
animais e, em conseqüência, a da humanidade, modificou o seu perfil. As 
novas tecnologias, que em muito contribuíram para aumentar os índices de 
produção e produtividade, ocasionaram mudanças na cadeia produtiva e na 
qualidade de vida dos animais. o aumento na densidade animal, encontrado 
em muitas explorações, é um dos fatores que favorece a transmissão de 
agentes patogênicos, e além disso os dejetos dessas explorações intensivas 
poluem o meio ambiente e contribuem para a contaminação dos alimentos 
ao longo da cadeia produtiva. No entanto, o mercado consumidor exige um 
produto inócuo e de qualidade. o médico veterinário deve estar consciente 
da sua responsabilidade profissional junto à sociedade e dos desafios que 
deverá enfrentar. o trabalho inicia no campo junto ao produtor, desenvol-
vendo atividades que melhorem a qualidade sanitária dos rebanhos, com 
respeito aos limites de exploração de cada espécie produtora e através de 
sistemas produtivos adequados; na elaboração e oferta de alimentos com 
garantia de inocuidade e em quantidades ideais para suprir as necessidades 
das populações atuais e futuras e na proteção do meio ambiente.
unitermos: médico veterinário, meio ambiente, alimentos, saúde pública. 
The multiple faces and challenges of a profession called 
veterinary medicine
As múltiplas faces e desafios de uma profissão 
chamada Medicina Veterinária 1
The evolution and deep alterations in the behavior and technology occurred in 
the world changed the society’s reality. The veterinary medicine, that had as its 
main mission to preserve animal’s health and consequently humanity’s health, 
changes its profile. The new technologies that contribute so much to improve the 
production rates and productivity, occasioned changes in the productive chain. 
The raise of animal density found in many explorations is one of the factors that 
favor the transmission of pathogenic agents and besides that, the dejection of 
this intensive exploration pollute the environment and adding to this, the facility of 
contamination of consuming market demands an innocuous and qualified product. 
The veterinarian must be awareof his professional responsibility in the society 
and the challenges he will face. The work starts in the country with the productor 
developing activities that improve the sanitary quality of the herds, considering 
the limits of exploration of each producing specie and through suitable productive 
systems; in the elaboration and food supply with garantee of innocuousness in 
ideal quantities to supply the needs of present and future populations and in the 
environment protection.
 INtrODUçãO
Em 23 de outubro de 1968, através 
da Lei nº 5.517, a Medicina Veterinária 
foi regulamentada no Brasil e aos Mé-
dicos Veterinários coube o estabeleci-
mento de diversas atividades inerentes 
à profissão. Entretanto, a história da 
Medicina Veterinária remonta aos 
mais remotos tempos da humanidade, 
na Era Mesolítica - quando o homem 
domesticou o primeiro animal, o olhar 
veterinário, ainda que embrionário, se 
fazia presente nesse novo desenho da 
relação homem/animal. Essa relação 
paulatinamente foi sendo ampliada e o 
homem passou a usufruir do convívio 
de várias espécies. Dessas relações de 
intimidade entre o universo humano e 
o animal ficava mais fácil a obtenção 
do alimento. Não mais era necessá-
rio caçar como dantes. O couro e a 
lã permitiram às civilizações mais 
primitivas melhorias habitacionais 
e a proteção contra o frio. Por outro 
lado, havia a necessidade de manter a 
saúde dos rebanhos nascentes e, ainda 
que não houvesse, por assim dizer, um 
médico veterinário tal e qual é com-
preendido esse profissional em nossos 
dias, os animais – que aos poucos se 
¹Trabalho apresentado ao CFMV- Conselho Federal de Medicina Veterinária, como exigência para participar da premiação na área: A Medicina 
Veterinária do campo à mesa ocorrido durante o I Congresso Nacional de Saúde Pública Veterinária
Suplemento
TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
tornavam domésticos – passaram a 
merecer a atenção sanitário-curativa, 
que até então era privilégio humano. 
Igualmente, cabe salientar, que os 
animais não só trouxeram benefícios 
ao homem... Convívios estreitos entre 
uns e outros abriram caminhos para 
doenças e agravos antes não conhe-
cidos. O homem precisava aprender 
a cuidar-se para além do que sabia 
identificar enquanto risco à sua saú-
de. Por muitos caminhos haveria de 
andar a humanidade até adquirir um 
domínio mínimo que lhe asseguras-
se e salvo conduto nessa trajetória. 
Especulações a parte, as doenças 
certamente grassavam e muitos dos 
animais que se deixavam capturar 
facilmente poderiam estar enfermos e, 
por conseguinte, esses se constituíam 
em ameaça a saúde daqueles que os 
aprisionavam. 
Algumas referências sobre a me-
dicina animal datam do século XVIII 
a.C., entretanto, a Medicina Veterinária 
moderna teve sua origem em 1.762, 
quando Claude Bourgelat criou, na 
França, a primeira Escola de Veteri-
nária, mais precisamente na cidade de 
Lyon. Ainda que originalmente ligada 
à medicina do cavalo, o nascimento da 
primeira Escola de Medicina Veteriná-
ria inaugurou o caminho que fez com 
que a Veterinária pudesse beneficiar-se 
da descoberta da origem microbiana 
das doenças feita por Louis Pasteur, 
igualmente na França, na segunda 
metade do século XVIII. Algumas das 
descobertas daquele tempo histórico 
eram zoonoses. Crescia a Medicina 
Veterinária e, juntamente, crescia a 
qualidade de vida das pessoas.
O aumento populacional, a evolução 
dos saberes, a tecnologia e as profundas 
alterações de comportamento que ocor-
reram no mundo modificaram o perfil 
de exigência da sociedade, não somente 
em termos de aumento de quantidade e 
disponibilidade de produtos alimentares 
mas, e sobretudo, um aumento no grau 
de qualidade e inocuidade dos alimen-
tos. Como conseqüência de tal evolução 
houve uma alteração na realidade de 
mercado nas áreas que envolveram a 
criação de animais de produção e a qua-
lidade de seus produtos e subprodutos. 
Ao médico veterinário coube a missão 
de preservar a saúde dos animais e, em 
conseqüência, a das pessoas. A Medici-
na Veterinária contemporânea modifi-
cou o perfil original da profissão: não 
mais tão envolvida com a medicina do 
cavalo, o médico veterinário de nossos 
tempos passou a se ocupar da promo-
ção da saúde humana e engrossou as 
fileiras da saúde pública. Modificou-se 
o seu perfil profissional. 
Nestes tempos, o veterinário ao 
exercer sua profissão, contribui para 
o aumento da produção de alimentos, 
através do melhoramento genético dos 
rebanhos, das biotécnicas aplicadas à 
reprodução e da manutenção de eleva-
dos padrões de sanidade animal. Sua 
participação se dá nas ações de saúde 
pública, integrando equipes multi-
disciplinares nas áreas da inspeção 
de produtos e subprodutos de origem 
animal, tecnologia de alimentos, ar-
mazenagem e transporte de alimentos, 
vigilância sanitária no que concerne à 
indústria e comercialização de alimen-
tos, vigilância epidemiológica e vigi-
lância ambiental mormente no campo 
da erradicação e controle de zoonoses. 
Cada vez mais o profissional de saúde 
pública veterinária se destaca no cam-
po do planejamento, administração e 
estruturação de campanhas sanitárias; 
na produção de imunobiológicos; 
na prevenção dos ecossistemas e na 
preservação da biodiversidade; no 
agronegócio; na administração de agro-
indústrias; na pesquisa científica e nos 
estudos de anatomia comparada, tão 
útil ao desenvolvimento da Medicina 
humana. 
O médico veterinário deste milênio 
deve estar consciente da sua responsa-
bilidade profissional junto à sociedade 
e dos desafios que deverá enfrentar. 
Seu trabalho inicia no campo, junto 
ao produtor. O médico veterinário 
empresta seu saber ao produtor ru-
ral que, antes de mais nada, deverá 
garantir que a terra e os animais que 
nela habitam, possam lhe dar as con-
dições de manter a sua família bem 
alimentada e em condições de saltar da 
condição de representantes do modelo 
de economia de subsistência para o 
patamar dos mercados. O acesso aos 
mercados competitivos traz no seu bojo 
a exigência de padrões de qualidade e o 
veterinário contribui para que tais metas 
sejam alcançadas, sempre resguardando 
o bem-estar animal e a manutenção 
e salubridade ambiental. A Medicina 
Veterinária é uma profissão que prioriza 
a vida, e daí decorre que não haverá 
evolução da sociedade se não forem 
respeitadas as condições mínimas que 
apontam sua conservação do plane-
ta. O desenvolvimento do alimento 
saudável deve estar ligado, concreta-
mente, a paradigmas que resguardem 
a bioética e à preservação do meio 
ambiente. Afinal, o médico veteriná-
rio é um profissional da terra, ou por 
boa parte daqueles seres que sobre 
ela vivem.
2 - a MEDICINa 
 VEtErINÁrIa COMO 
 SUPOrtE À PrODU-
çãO DE aLIMENtO E À 
 PrESErVaçãO DO MEIO 
 aMBIENtE
A necessidade de produzir alimento 
em qualidade e quantidade adequada 
para a população constitui numa com-
plexa missão do médico veterinário, 
da sociedade em geral, dos gestores 
Suplemento
TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
das políticas públicas setoriais (sani-
dade animal, vigilância sanitária, meio 
ambiente..), de donos de empresas 
e, mais particularmente, dos produ-
tores rurais dos distintos países do 
mundo. Assim, muitos componentes 
desta cadeia estão fortemente corre-
lacionados, por necessidade inques-
tionável. Afinal, todas as tecnologias 
empregada nos últimos anos do século 
passado não foram suficientes para 
debelar ou pelo menos minimizar o 
grande flagelo da era contemporânea: 
a fome. Passamos, sim, pelo desenvol-
vimento de tecnologia, pela prevenção 
e controle de enfermidades, incluindo 
as zoonoses, e pelo enfrentamento 
de safras deficientes. Entretanto, 
enfrentamos pontos críticos na área 
social, cujas mazelas são praticamente 
permanentes, quais sejam: a pobreza, 
a desigualdade cultural e consequen-
temente o deficiente desenvolvimen-
to de recursoshumanos, a falta de 
eqüidade na distribuição de renda e as 
deficientes políticas para a conservação 
e proteção do ambiente que garanta a 
produção de alimentos de forma saudá-
vel e sustentável (ONU, 2001).
Do ponto de vista político, o de-
senvolvimento sustentável objetiva 
ser um processo de saída para a 
crise ambiental global e dos lugares, 
ocasionada pela herança histórica, 
sistema econômico-social dominan-
te, tecnologias, formas de consumo, 
cultura, percepções, valores e ética, 
responsáveis pela crise social - o que 
torna imperativo o encontro de uma 
solução integrada das duas.
Neste contexto a Medicina Veteri-
nária tem um papel fundamental: de 
um lado a pressão para o aumento da 
produtividade dos rebanhos disponi-
bilizando o aumento de proteína ani-
mal e, de outro, o cuidado para que 
esse aumento não afete o ambiente. 
No entanto, esses processos, entre si, 
têm se revelado adversos, na maioria 
das vezes. Achar o equilíbrio entre 
produção e riscos de degradação do 
meio é, atualmente, a grande provação 
para essa profissão e seus profissio-
nais. Além disso, a evolução do nível 
tecnológico empregado no manejo dos 
rebanhos, principalmente em criações 
intensivas como as de suínos, não é 
compatível com o modelo de gestão 
dos dejetos resultantes destas criações 
e pouco tem contribuído para atender 
à legislação ambiental vigente e a 
sustentabilidade ambiental (Oliveira, 
2000).
Os processos produtivos desses 
animais geram grandes quantidades 
de gases, vapores, poeiras e dejetos 
que podem causar problemas de maus 
odores, comprometer a saúde dos 
trabalhadores e dos animais além de 
serem altamente poluidores, afetando 
a qualidade das águas, do ar, do solo 
e proporcionando a degradação am-
biental das regiões produtoras. Além 
disso, proporciona um ambiente ideal 
à proliferação de moscas e simulídeos 
(borrachudos) nessas regiões, como 
conseqüência da disposição desse 
material no meio ambiente. O armaze-
namento dos dejetos dos suínos e sua 
utilização como biofertilizantes não 
têm sido eficiente para atender às ne-
cessidades dos produtores nem aos pa-
drões exigidos para o licenciamento, 
pois a diluição excessiva dos dejetos, 
pelo manejo inadequado da água, tem 
inviabilizado economicamente o seu 
transporte e utilização como adubo 
(Perdomo et al., 2003). 
Segundo Zanella (2003), a migra-
ção de sistemas intensivos de produção 
animal para o Brasil, principalmente de 
origem européia ou norte-americana, 
em grande parte das vezes, podem ser 
danosos ao meio-ambiente, compro-
metem o bem-estar animal e a saúde 
das pessoas. O autor narra ainda a 
análise feita pela unidade produtora de 
suínos da Michigan State University, 
sobre as mudanças na indústria suiní-
cola mundial: “o maior incentivo para 
a mudança das unidades de produção 
Norte-Americanas para o Brasil é a 
falta de legislação de proteção am-
biental em alguns estados brasileiros, 
seguida da mão-de-obra barata e o 
fato de que os dejetos das unidades 
podem ser despejados sem nenhum 
cuidado especial. Além disso, estabe-
lecer unidades de produção no Brasil 
é como ganhar cerca de 20 anos de 
moratória, nos quais não precisamos 
efetivar mudanças nos sistemas de 
produção”. Nesse sentido, são bem 
vindas as recomendações internacio-
nais, provenientes da série de normas 
ISO 14.000, que impõem regras im-
portantes aos setores produtivos que 
atuam na exportação de seus produtos, 
condicionando a liberação de barrei-
ras ao fornecimento com qualidade 
ambiental para os consumidores (Oli-
veira, 2000).
2.1 PrODUçãO DE 
 aLIMENtOS
A humanidade encontra-se em 
um momento de definição histórica. 
De um lado o desenvolvimento em 
ritmo acelerado, buscando satisfazer 
as necessidades e elevar o nível de 
vida dos povos, e, de outro, a luta 
incessante pela preservação do meio 
ambiente. Perseguir o equilíbrio entre 
incremento de produção e ecossis-
temas protegidos são metas a serem 
elaboradas e executadas por todas as 
nações, em uma associação mundial, 
em prol do desenvolvimento susten-
tável (Oliveira, 2000).
Dentro dessa premissa enquadra-se 
o médico veterinário com a responsabi-
lidade de aumentar a produtividade dos 
rebanhos e conseqüentemente a geração 
Suplemento
TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
de alimentos, disponibilizando proteína 
animal em escalas condizentes com a 
necessidade mundial sem, no entanto, 
agredir ou destruir os ecossistemas 
envolvidos nessa produção.
As novas tecnologias científicas 
contribuíram para elevar os índices de 
produção e produtividade relativamen-
te aos animais, nas últimas décadas, 
em todo mundo, principalmente no 
que concerne às explorações avíco-
las e suinícolas, constituindo-se, ao 
lado da bovinocultura, as explorações 
econômicas mais expressivas para a 
produção de alimentos destinados ao 
consumo humano. 
Barbosa (2005) menciona a 
 previsão da FAO, de que até o ano 
de 2015 haverá a necessidade de se 
dobrar a quantidade de carne pro-
duzida (atualmente está na ordem 
de 258 milhões de toneladas) e nos 
países em desenvolvimento, até o ano 
de 2020 acredita-se em incrementos 
anuais na ordem de 1,8 e 3,3% para 
carne e leite, respectivamente. Esse 
crescimento de produção tem o intuito 
de suprir as necessidades da popula-
ção mundial, que está acima de 6,3 
bilhões de pessoas e que continua a 
crescer com taxa superior a 1,5% ao 
ano. No entanto, segundo o autor, para 
que se possa atender efetivamente 
os pressupostos do desenvolvimento 
sustentado, é necessário ter como foco 
os seguintes elementos: a questão da 
gestão ambiental, decorrente da maior 
produtividade e competitividade pe-
cuárias, que podem trazer conseqü-
ências desastrosas ao meio ambiente; 
a segurança alimentar e qualidade do 
produto, como fatores intrínsecos à 
melhor saúde da população e o limite 
biológico dos animais, decorrente da 
evolução nos processos de criação, o 
que pode provocar mudanças drásticas 
na variabilidade genética das popula-
ções e conseqüentemente, no ganho 
genético.
Para Moreira (2005), a seleção 
genética procurando maximizar o 
potencial biológico, incrementando 
os progressos na nutrição, instalações 
e manejo, viabilizou a produção de 
maior quantitativo de animais por 
área, por um lado, mas exigiu maiores 
cuidados especiais com a sanidade, 
por outro lado. A prevenção e erra-
dicação de doenças transmissíveis, o 
controle rigoroso sobre os insumos 
veterinários utilizados na produção 
animal formam um elenco de me-
didas essenciais para garantir níveis 
seguros e competitivos na produção 
de alimentos de origem animal. En-
tretanto, a densidade da população 
animal encontrada em muitas explo-
rações é um mecanismo que favorece 
a transmissão dos clássicos agentes 
infecciosos: vírus, bactérias, fungos, 
espiroquetas, protozoários e helmin-
tos, facilitando o desencadeamento de 
epidemias, além de propiciar as condi-
ções de viabilidade para a manutenção 
desses agentes no ambiente.
Ainda considerando a realidade do 
Brasil no que diz respeito à pobreza 
e ao desemprego, muitos alimentos 
são produzidos sob a qualificação 
de economia familiar. Entretanto, 
distinções terminológicas devem ser 
feitas entre produto de origem desco-
nhecida e produtos obtidos a partir de 
agroindústrias de tipo familiar. Grande 
parte dos domicílios rurais passaram a 
produzir alimentos a partir de conhe-
cimentos tradicionais, nem sempre 
contemplados com o benefício dos 
modernos conhecimentos de higiene 
e boas práticas de fabricação. Para o 
caso dos produtos caseiros, muitos são 
comercializados no território nacional 
sem prévia inspeção, não lhes sendo 
dispensados especiais cuidados tam-
pouco na situação de comercialização. 
Essa situação torna-se mais real diante 
da necessidade de vender excedentes 
dos produtos fabricados para seu con-
sumo e, dessa forma, contribuir para o 
fortalecimento da renda familiar. No 
entanto, muitos agricultores que ven-
dem alimentospor eles fabricados, ig-
noram os riscos eminentes que possam 
representar o consumo de produtos 
fabricados sob tais condições à saúde 
de quem os consome. Portanto, cabe 
frisar, que em nada se está referindo à 
pequena agroindústria de tipo familiar 
que procura adequar-se as exigências 
tecnológicas modernas para a pro-
dução de alimentos saudáveis, que 
passam necessariamente pela implan-
tação das boas práticas de fabricação 
em seus estabelecimentos. Em nada 
se está referindo a comercialização 
de produtos devidamente submetidos 
pelas regulações de vigilância sani-
tária, por exemplo. Finalmente, que 
fique devidamente entendido que é 
impossível imaginar a trajetória para 
obtenção de alimentos saudáveis, em 
processos que compreendem o nascer 
de animais, seus crescimentos, seus 
cuidados, suas transformação em 
alimentos com posterior comerciali-
zação, sem a presença obrigatória do 
médico veterinário.
Além disso, a cada dia o mercado 
de alimentos é inundado mundial-
mente com novos produtos e novas 
formulações e cabe ao médico vete-
rinário propor e exercer o controle 
e a vigilância das boas práticas de 
fabricação dos produtos, buscando 
estabelecimentos irregulares, numa 
verdadeira busca ativa de possíveis 
lugares geradores de problemas de 
saúde pública, com o objetivo de 
prevenir a incidência de agravos. Tal 
abordagem não deve ser entendida 
como estigma da pequena e média 
iniciativa empresarial. Para Dos An-
jos (2005), há igualmente grandes 
empresas na área do comércio de 
Suplemento
TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
alimentos onde, na busca do lucro 
voraz, constata-se práticas de grande 
risco à saúde das populações. 
Como a produção de proteína 
animal de forma sustentável ao am-
biente é tarefa a ser encarada com 
urgência e com igualdade entre os 
povos, o papel do médico veterinário 
no cenário da proteção à saúde pú-
blica está em desenvolver políticas 
sanitárias que garantam a exploração 
pecuária com bem-estar animal, a 
capacidade de vê-la transformada 
em alimentos de qualidade, dentro 
de padrões de salubridade e em 
quantidades suficientes para suprir 
as necessidades da humanidade.
 2.2 CONSErVaçãO DO 
MEIO aMBIENtE 
A explosão demográfica mundial, 
associada às perversões de modelos 
econômicos que incentivam o consu-
mo desmesurado e compulsivo, não 
tem titubeado em degradar o ambiente 
em troca de lucros cada vez maiores. 
Dentro deste contexto destaca-se a 
produção de proteína animal, em esca-
la progressiva, para atender a demanda 
da população mundial que cresce, por 
vezes, a índices alarmantes, em muitos 
lugares do planeta. Essa necessidade, 
associada aos padrões não sustentá-
veis, exerce uma pressão cada vez 
mais intensa sobre as condições que 
têm o planeta de sustentar a vida.
Segundo a ONU (2001), a política 
para o meio ambiente deve visar à 
conservação e proteção dos recursos 
naturais e daqueles que dependem 
dos recursos para sua sobrevivência. 
Qualquer outra política voltada princi-
palmente para a produção de bens que 
não leve em conta a sustentabilidade 
dos recursos sobre os quais se baseia 
a produção levará, mais cedo ou mais 
tarde, a um declínio na produtividade. 
Essa política deve ter uma visão plane-
tária da ação do homem na degradação 
do ambiente. Para isso é fundamental 
o desenvolvimento de uma educação 
ambiental que incorpore as dimensões 
socio-econômicas, política, cultural e 
 histórica, não podendo basear-se em 
pautas rígidas e de aplicação univer-
sal. Devem considerar as condições 
e estágios de cada país, região e 
comunidade sob uma perspectiva 
histórica, permitindo a compreensão 
da natureza com o objetivo de utilizar 
racionalmente os recursos do meio 
na satisfação material e espiritual da 
sociedade no presente e no futuro. O 
desenvolvimento sustentável pressu-
põe que esse crescimento setorial seja 
ecologicamente preservador, social-
mente justo e economicamente efi-
ciente. Significa, em outras palavras 
um indivíduo saudável, formando 
uma sociedade igualmente saudável 
inserido num modelo econômico 
sustentável do ponto de vista da não 
agressão ao planeta. Só assim se poderá 
garantir a curto, médio e longo prazo, 
local e planetariamente, uma qualidade 
ambiental que leve à qualidade de vida. 
Evidentemente o medico veterinário e 
seu universo deve estar perfeitamente 
inserido na busca dessa nova ordem 
planetária.
3 - a MEDICINa 
 VEtErINÁrIa NO 
 CONtrOLE Da SaúDE 
 PúBLICa atraVÉS Da Sa-
NIDaDE DE PrODUtOS DE 
 OrIGEM aNIMaL
As enfermidades gastrointestinais 
veiculadas por água e alimentos ainda 
expressam grande parte da morbi-
mortalidade humana, principalmente 
quando se trata de crianças menores 
de cinco anos de idade, na maioria dos 
países do terceiro mundo. A urbaniza-
ção e a aglomeração humana sempre 
impuseram a necessidade de soluções 
para o tratamento de resíduos fecais, 
coleta do lixo urbano, combate a ve-
tores e roedores, controle da criação 
e abate irregular de animais. Junto a 
isso, o controle da qualidade da água 
e alimentos consumidos pela popu-
lação forma o conjunto de medidas 
que resultam em barreiras sanitárias a 
serem interpostas entre seres humanos 
e microrganismos causadores destas 
doenças (Toledo et al, 2002).
Segundo Miranda (2002), os ali-
mentos podem ser contaminados por 
bactérias patogênicas para o homem, 
como resultado de deficientes con-
dições de higiene durante o seu pro-
cessamento, quer a partir de pessoas ou 
animais doentes, quer a partir de fezes 
provenientes de indivíduos infectados. 
Os alimentos podem, também, cons-
tituir um perigo para a saúde pública, 
devido ao crescimento excessivo de 
populações bacterianas, à superfície 
ou no interior dos mesmos, capazes 
de produzir toxinas que, ao serem in-
geridas com o alimento, podem causar 
graves desequilíbrios à saúde.
Sabe-se que nos últimos 20 anos 
houve significativos progressos no 
controle e erradicação das principais 
doenças dos animais de interesse eco-
nômico e de relevância para a saúde 
pública. Esse fato está vinculado, ba-
sicamente, à situação sócio-econômi-
ca de uma parte da população, que ao 
se tornar mais exigente, favoreceu o 
crescimento da demanda de produtos 
de origem animal isentos de doenças, 
e com alto padrão de qualidade. 
Ao se comparar a situação de saú-
de no mundo, considerando os países 
desenvolvidos e em desenvolvimen-
to, observa-se que as populações com 
menores condições sócio-econômi-
cas continuam a padecer de doenças 
carências, infecciosas e parasitárias 
transmitidas pela contaminação da 
Suplemento
TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
água, do solo, alimentos, insetos e 
vetores. O controle higiênico, sani-
tário e tecnológico, constitui-se em 
fator preponderante para evolução 
técnica e social da indústria alimentar, 
chegando a ser considerado, segundo 
Miranda (2002), como assunto de 
segurança nacional pela significância 
dos alimentos no mundo atual. Mo-
reira (2005), cita que em quase dois 
milhões e meio de bovinos abatidos 
em Minas Gerais e inspecionados pelo 
SIF entre 1993 e 1997, a tuberculose 
é a principal causa de condenação to-
tal de carcaças de bovinos, embora a 
cisticercose tenha a principal causa de 
julgamento e aproveitamento condi-
cional. Essas enfermidades, classifica-
das como zoonoses, desempenham um 
papel importante na área da saúde pú-
blica por comprometer a saúde huma-
na, temporária ou permanentemente, 
através da incapacitação física ou 
mental dos indivíduos em idade pro-
dutiva, exigindo especial atenção e 
custos elevados dos serviços oficiais. 
Na intenção de buscar uma maior 
segurança alimentar para que as pes-
soas tenham acesso a alimentos nutri-
tivos e saudáveis, capazes de assegu-
rar uma vida sadia, digna e ativa, foi 
criado a Comissão Panamericana de 
Inocuidade de Alimentos (COPAIA) 
que estabelece a inocuidade dos ali-
mentos como uma prioridadee adota 
as Normas do Codex Alimentarius¹ 
como a base científico-técnica, para 
garantir que os alimentos consumidos 
pela população tenham condições 
sanitárias apropriadas e facilitem seu 
comércio internacional (Moreira, 
2005).
3.1 COMÉrCIO DE 
 aLIMENtOS DE OrIGEM 
aNIMaL E DErIVaDOS
Com a facilidade do comércio 
existente atualmente e com a deman-
da cada vez maior de alimentos de 
origem animal, torna-se necessário 
que as importações e exportações de 
alimentos obedeçam, rigidamente, 
as normas sobre segurança alimen-
tar estabelecidas pelos organismos 
internacionais, visando à prevenção 
de agravos à saúde e o impedimento 
de possível ingresso de agentes que 
possam servir de fonte de infecção ao 
rebanho local.
Para existir segurança alimentar 
todas as pessoas no mundo devem ter 
acesso físico e econômico a suficien-
tes alimentos inócuos e nutritivos, ca-
pazes de satisfazer suas necessidades 
e suas preferências alimentares. No 
entanto, a qualidade e a inocuidade 
dos alimentos começa no início de 
sua cadeia produtiva, que envolve, 
inclusive, o nascer, o desenvolvimen-
to, a qualidade de vida e o abate dos 
animais, além da elaboração das boas 
práticas que envolvem a transforma-
ção da matéria prima em alimento, seu 
armazenamento, transporte, comércio 
e consumo. 
Segundo Miranda (2000), o Bra-
sil tem uma excelente produção 
de alimentos, tanto em termos de 
quantidade como de qualidade, ca-
paz de colocá-lo entre o ranking dos 
maiores países exportadores, porém, 
alguns entraves prejudicam e limitam 
o comércio adequado de alimentos, 
destacando-se como limites ao bom 
andamento do setor o alto percentual 
de abate clandestino; a falta de ma-
nutenção de plantas frigoríficas ade-
quadas; a endemicidade de algumas 
enfermidades; o transporte e o arma-
zenamento de alimentos de maneira 
insalubre e o comércio ilegal de pro-
dutos. Necessariamente a qualificação 
do país enquanto grande produtor de 
alimentos passará, obrigatoriamente, 
pela definição de políticas públicas 
setoriais que, de forma integrada, 
possam fazer frente ao abigeato, à 
produção clandestina de alimentos, 
à garantia do consumo de alimentos 
inspecionados, e que se observem 
as demais normativas definidas em 
regulações nacionais para o setor, 
entre outras observações possíveis 
de serem feitas. 
3.2 INCIDÊNCIaS 
DE ENFErMIDaDES 
 traNSMItIDaS POr 
 aLIMENtOS E OS CUStOS 
Da atENçãO À SaúDE
A vigilância sanitária constitui 
importante sistema de prevenção e 
controle de enfermidades transmiti-
das por alimentos (ETAs). Dentro de 
suas ações está a fiscalização sobre 
o cumprimento das normas e leis 
para produção, a manipulação e a 
comercialização dos alimentos. Esta 
legislação não só elabora padrões 
higiênico-sanitários como também 
normas para o emprego de aditivos, 
propaganda, rotulagem e apresentação 
dos alimentos. O desrespeito aos pa-
drões higiênico-sanitários pode levar 
à contaminação de qualquer alimento 
por substâncias tóxicas, microrganis-
mos patogênicos e parasitas.
As ETAs têm sido nos últimos 
anos focos de discussões, havendo 
uma preocupação e uma busca em 
todo o mundo por estratégias que per-
mitam o seu controle e, assim, a garan-
tia da colocação de produtos seguros 
no mercado. O aumento exponencial 
de enfermidades, verificado atualmen-
te em muitos países, é influenciado 
¹Codex Alimentarius - fórum internacional de normalização sobre alimentos. 
Suplemento
TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
por vários fatores, o que dificulta o 
controle por parte das autoridades de 
saúde pública. O sistema de criação 
intensivo de animais de produção é 
apontado por Bersot (2004) como um 
dos mais importantes desses fatores.
Segundo Schlundt et al. (2005), as 
enfermidades diarréicas, na maioria 
zoonóticas quase todas provocadas 
por patógenos microbianos e trans-
mitidas por alimentos ou pela água, 
constituem-se em uma das principais 
causas de morbidade e mortalidade 
em países menos desenvolvidos e 
são responsáveis pela morte de 1,9 
milhões de pessoas/ano. Nos países 
desenvolvidos calcula-se que até um 
terço da população se infecta a cada 
ano por enfermidades microbianas 
transmitidas por alimentos. 
De acordo com os estudos da 
Organização Mundial da Saúde so-
bre as doenças de origem alimentar, 
aproximadamente 60% dos casos 
decorrem de técnicas inadequadas de 
processamento e contaminação dos 
alimentos servidos em restaurantes, 
bares e botequins. Além disso, outros 
registros enfatizam que nos países 
em desenvolvimento ocorrem mais 
de um bilhão de casos de diarréia 
aguda em crianças menores de cinco 
anos, das quais 5 milhões chegam ao 
óbito. Estima-se que 100 milhões de 
indivíduos, em todos os países civili-
zados, contraem doenças decorrentes 
de alimentos (Barbosa, 2005).
Segundo Toledo et al. (2002), os 
alimentos de origem animal repre-
sentaram maior risco epidemiológico 
e foram responsáveis por 67,6% dos 
surtos que ocorreram no RJ em 2000. 
Os restaurantes e similares foram os 
locais que corresponderam ao maior 
número de notificações (58,5%), 
mas o maior número de comensais 
acometidos de ETA’s ocorreu em 
estabelecimentos como instituições 
públicas, creches, escolas, hospitais e 
cozinhas industriais, correspondendo 
a 61,6% do total de pessoas. A Vigi-
lância Sanitária rotineira nos estabe-
lecimentos comerciais é importante 
para controlar os fatores de risco, mas 
também se tornam imprescindíveis 
ações intensas nos estabelecimentos 
de maior risco epidemiológico, como 
cozinhas industriais, hospitais, cre-
ches e escolas.
O mesmo autor relata que no Bra-
sil, mais de 550 mil internações em 
hospitais do Sistema Único de Saúde, 
durante 1998 a 2001, ocorreram por 
infecções intestinais como cólera, 
febre tifóide, amebíase, entre outras. 
Este número corresponde a 4,5 a 4,8% 
das internações e teve um custo apro-
ximado de 100 milhões de reais.
Embora só chegue ao conhecimen-
to dos serviços de saúde a existência 
de poucos surtos de ETA, é de se supor 
que a ocorrência seja grande, tendo em 
vista a precariedade de saneamento 
básico em nosso meio, assim como 
falta de noções básicas de higiene 
no ciclo produtivo dos alimentos e a 
deficiência dos sistemas de notificação 
de doenças. Conhecidos ou não, esses 
surtos acarretam em ausência das pesso-
as acometidas ao trabalho, absenteísmo 
escolar e despesas com tratamento, 
gerando problemas econômico-sociais 
e devendo ser bem investigados para 
minimizar os seus efeitos através da 
adoção de medidas adequadas.
Parece oportuno referir que, 
mundialmente, grande parte das 
toxinfecções alimentares ocorrem 
em ambiente intradomiciliar. Tal 
constatação epidemiológica leva a 
pensar que, para além do dever de 
legalmente zelar pela qualidade dos 
alimentos fora dos domicílios, cabe 
aos profissionais de saúde e, entre 
eles o médico veterinário, socializar 
seu conhecimento de modo que estes 
ajudem as populações a resguardar a 
saúde em seus lares. 
4 - a MEDICINa 
 VEtErINÁrIa FrENtE 
aOS NOVOS DESaFIOS 
Sendo a medicina veterinária uma 
profissão de largo espectro de atuação, 
são muitos os desafios que lhe cabe 
enfrentar no seu dia-a-dia e dentre eles, 
o aumento qualificado da produção de 
alimentos é um dos mais nobres. 
Segundo Figueiredo (2002), as 
obrigações com os animais dizem 
respeito a princípios bioéticos, fo-
cados no bem estar da sociedade e 
dos animais. Neste contexto torna-se 
fundamental que a formação do mé-
dico veterinário esteja voltada para 
o bem-estar animal. Embora todas 
as profissões enfrentem obrigações 
morais com seus clientes, com seus 
colegas de profissão e para consigo 
mesmo e sua família, as obrigações 
para com os animais são inerentes 
ao médico veterinário (Molento, 
2003).
No momento em que se exige mais 
produtividade submete-se os animais à 
explorações mais intensivas que, gran-
de parte das vezes, resultam em maus 
tratos direcionados aos animais. Neste 
sentido,um grande questionamento 
se impõem ao médico veterinário no 
sentido de repensar as práticas que têm 
sido impostas aos animais em confina-
mentos promíscuos de pequenas insta-
lações, jaulas, gaiolas ou procedimen-
tos cirúrgicos sem anestesia. Até que 
ponto as gestões das explorações a que 
estão submetidos os animais permitem 
que esses completem seu ciclo de vida 
biológico ou econômico em ambien-
tes salubres, que lhes permita vida 
digna, sem que isso oponha regras 
de bem-estar animal aos interesses 
econômicos dos seus proprietários? 
Suplemento
TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
Até que ponto o bem-estar animal está 
conseguindo definir, suficientemente, 
linhas de pesquisa com sua marca em 
termos de manejo? 
Obviamente que essas questões 
são complexas, exigem respostas 
igualmente complexas, e variam de 
acordo com os valores morais de 
cada sociedade e de cada pessoa. 
Entretanto, cabe ao médico veteri-
nário um entendimento profundo da 
interação homem-animal para que 
possa desenvolver e lutar pela me-
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REFERêNCIAS BIBLIOgRáFICAS
lhoria da condição animal ajustada 
às prioridades da sociedade. 
5 - CONCLUSãO
O espectro das atribuições profissio-
nais do Médico Veterinário é muito 
amplo. O Médico Veterinário é uma 
das maiores expressões da múltipla 
atuação profissional em três mun-
dos, a saber: o vegetal, o animal e 
o humano. É da diversidade de seu 
campo de trabalho que se origina sua 
riqueza e sua inegável contribuição ao 
desenvolvimento dos povos, incluindo 
obviamente tudo o que se refere à 
saúde pública.
A contínua evolução do conhe-
cimento humano, principalmente na 
área da biologia e das tecnologias, 
tem permitido o desenvolvimento 
de ações envolvendo a criação e a 
produção de animais com o objetivo 
de buscar a quantidade e qualidade de 
proteína animal suficiente para satis-
Suplemento
TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
A B S T R A C T
R E S U M O
 INtrODUçãO
Dirofilariose Canina: Situação atual no Brasil
Canine Dirofilariasis: current situation in Brazil.
Cláudia Leite Barbosa
Médica Veterinária, CRMV-SE nº 0164 
- Ministério da Agricultura do Estado de 
Sergipe – Serviço de Inspeção de Produtos 
Agropecuários – SIPAG
E-mail: claudialeite@agricultura.gov.br 
Leucio Câmara Alves, 
Médico Veterinário, CRMV-PE nº 1290 
– Prof. Adjunto da Universidade Federal 
Rural de Pernambuco- UFRPE
Endereço para correspondência: De-
partamento de Medicina Veterinária da 
UFRPE - Rua Dom Manuel de Medeiros, 
s/n – Dois Irmãos – Recife/PE.
A dirofilariose canina atualmente apresenta-se como uma importante causa de 
cardiopatia adquirida na clínica veterinária, embora sua repercussão clínica nem sempre 
seja visível. A importância desta parasitose reside não apenas nos danos que causa 
aos animais infectados, mas também por ser reconhecida como zoonose desde 1979 
pela Organização Mundial de Saúde. Objetivando conhecer a distribuição da filariose 
canina, foi realizado um trabalho de revisão desde o seu primeiro relato até os dias 
atuais com base nas prevalências obtidas através de levantamentos parasitológicos 
e sorológicos. Os dados revelaram uma média de 10,17% dos animais examinados 
positivos ao exame parasitológico, enquanto que 9,07% da população canina estudada 
mostraram a presença de antígenos circulantes. Quando se avaliaram as prevalências 
separadamente por região, observou-se que na região Norte apenas existem dados 
baseados na pesquisa de microfilárias, observando uma média de infecção de 5,24%. 
Nas regiões Nordeste, Sudeste, centro-oeste e Sul, além dos inquéritos parasitológicos, 
foram realizados levantamentos sorológicos, nos quais foram constatadas prevalências 
médias de 10,64%, 17,20%, 5,80% e 12,0%, respectivamente, para pesquisa de 
microfilárias circulantes e 13,89%, 13,46%, 6,90% e 2,04% para pesquisa de antígenos 
circulantes, respectivamente.
PALAVRAS-CHAVE: Dirofilariose, cães, Brasil.
canine Heartworm disease is presented as an important cause of acquired cardiopathy 
in the small animal medicine. However, clinical presentation sometimes it’s being occult. 
The importance of this disease is not only because the damages in the heart and 
pulmonary arteries on infected animals, but also for being recognized as zoonoses since 
1979 for the World Organization of Health. The goal of this research was to know the 
occurrence of canine heartworm, from the first report until the current days. The study 
was carried through the prevalence related by parasitological and serological surveys. 
The results showed an average of 10.17% of the positive animals at the parasitological 
examination, while 9.07% of the same canine population displayed circulating antigen. 
When the prevalence was evaluated by region, the results found in the North region 
were given only by Knott method, with an average of 5.24% infected animals. In the 
other regions, as Northeast, Southeastern, center-west and South, parasitological and 
serological surveys had been carried through, with the prevalence of 10.64%, 17.20%, 
5.80% and 12.0% respectively, for research of circulating microfiariae and 13.89%, 
13.46%, 6.90% and 2.04% for circulating antigen respectively.
KEY-WORDS: Heartworm, dogs, Brazil.
Há pelo menos nove espécies de fila-
rídeos que afetam cães em todo mundo, 
entretanto, no Brasil, apenas duas são 
relatadas com maior freqüência: Dirofila-
ria immitis e Dipetalonema reconditum. 
A primeira é apontada como uma das 
principais causas de cardiopatia adquirida 
e a segunda tem se mostrado apatogênica 
(RONCALLI, 1998).
A dirofilariose destaca-se também 
por acometer uma grande variedade de 
mamíferos, inclusive o homem, sendo 
considerada como zoonose (OMS, 1979) 
emergente (SCHLOTTHAUER et al., 
1969), e vários relatos vêm sendo descri-
tos na população humana brasileira, prin-
cipalmente na Região Sudeste (CAMPOS 
et al., 1997).
Dentre as técnicas de diagnóstico 
parasitológico, destacam-se aquelas de 
concentração, notadamente o Método 
Modificado de Knott (NEWTON & 
WRIGHT, 1956), que permite, através de 
observação microscópica, a visualização 
das microfilárias circulantes. A inconve-
niência desta técnica estána dificuldade 
de se identificar a espécie de filarídeo 
envolvida na infecção. Sendo assim, os 
testes sorológicos surgiram como uma 
alternativa viável para auxiliar a iden-
tificação de animais infectados com D. 
immitis, além de diagnosticar as infecções 
ocultas que são aquelas onde o animal 
Suplemento
TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
alberga o nematóide adulto no coração, 
apesar de não apresentar microfilaremia 
circulante.
Vários fatores influenciam na freqü-
ência da infecção na população canina, 
já que o desenvolvimento do vetor e do 
parasito recebem influência do ambiente. 
Dentre esses, destacam-se, além do clima 
e vegetação locais, abundância dos vetores 
susceptíveis, presença de cães microfilarê-
micos e alta densidade da população canina 
(Grieve et al., 1983; Knight, 1987).
A infecção por Dirofilaria é dissemi-
nada por muitas espécies de mosquitos da 
família Culicidae (Parker, 1993), que in-
cluem os gêneros Culex, Anopheles, Aedes 
e Mansonia (Bengis, 1975). É uma doença 
de evolução crônica em canídeos, cuja 
gravidade depende de vários fatores como 
a carga parasitária, tempo de infecção e/ou 
resposta do hospedeiro. O nematóide adul-
to aloja-se principalmente no ventrículo 
direito e artérias pulmonares produzindo 
lesões cardiovasculares, pulmonares, he-
páticas e renais, podendo inclusive causar 
a morte (Calvert e Rawlings, 1992).
Este trabalho tem como objetivo uma 
revisão histórica da dirofilariose canina no 
Brasil e conseqüentemente o conhecimen-
to das áreas onde as populações canina e 
humana encontram-se mais expostas ao 
risco de infecção.
DIStrIBUIçãO Da 
 DOENça NO PaÍS
rEGIãO NOrDEStE
A dirofilariose canina já foi diagnos-
ticada em quase todos os Estados do 
Nordeste do Brasil e, além dos estudos de 
prevalência, o vetor da infecção também 
vem sendo pesquisado.
O primeiro relato da dirofilariose no 
Brasil foi em 1878 por Silva-Araújo, 
no Estado da Bahia. Na cidade de Sal-
vador, Paraguassú e Fielder em 1977 
realizaram um relato de ocorrência em 
dois cães parasitados e desde então 
atenção especial vem sendo dada a esta 
parasitose. Atualmente, a freqüência de 
animais sorologicamente positivos na 
mesma cidade foi de 7,41% (Barbosa 
et al., 1999b).
Na Ilha de São Luís, Estado do Mara-
nhão, Ahid e Almeida (1981) registraram 
uma prevalência da infecção de 24,40%. 
Chaves e Ordofiez (1997) diagnosticaram 
34,90% de positividade em cães domici-
liados e Ahid et al. (1999) demonstraram 
a prevalência variando de 40,80% para 
cães domiciliados e 12,20% para aqueles 
errantes. Ainda na mesma cidade, Ahid e 
Lourenço-de-Oliveira (1999) estudaram 
os possíveis transmissores da infecção 
e consideraram Aedes taeniorhynchus 
e Culex quinquefasciatus como vetores 
potenciais da dirofilariose na região.
No Estado de Pernambuco, a infecção 
vem sendo pesquisada em diversas locali-
dades. As primeiras tentativas de mapear a 
dirofilariose canina neste Estado foram fei-
tas por Pimentel e Alves (1987) que encon-
traram 28,70% de cães microfilarêmicos 
na Ilha de Itamaracá; Alves et al. (1988) 
relataram 2,0% de cães positivos em 
Caruaru e Alves et al. (1993) encontra-
ram 11,60% de cães microfilarêmicos no 
Bairro de Dois Irmãos, Recife. Em todos 
esses estudos foi realizada a pesquisa de 
microfilárias sem, no entanto, identificar 
as espécies envolvidas.
A identificação das espécies de filarí-
deos envolvidas a infecção foi feita por 
Alves et al. (1999) em inquérito realizado 
na cidade do Recife, observando que 1,0% 
de animais examinados apresentava-se 
com microfilárias de D. immitis e 1,30% 
dos animais mostrava-se sorologicamente 
positivo. Nesse mesmo ano, Silva et al. 
(1999) realizaram um inquérito sorológico 
e parasitológico nos litorais Norte e Sul 
do Estado. Os estudos foram conduzidos 
nos Municípios de Tamandaré, Porto de 
Galinhas, Itamaracá, Igarassu e Olinda, 
revelando 17,89%, 6,0%, 43,0%, 25,33% 
e 33,33% de cães com antígenos circu-
lantes e 3,21%, 5,33%, 15,0%, 21,33% 
e 4,55% de animais microfilarêmicos, 
respectivamente.
No Estado de Alagoas os estudos são 
bastante recentes. Brito et al. (1999a) em 
levantamento parasitológico, na cidade 
de Maceió, observaram prevalência de 
0,70% de animais microfilarêmicos. 
Quando estudaram o distrito de Riacho 
Doce, Brito et al. (1999b) diagnosticaram 
3,21% de cães sorologicamente positivos e 
1,60% de cães microfilarêmicos. Apesar de 
não identificar os mosquitos envolvidos na 
dinâmica de transmissão em Alagoas, Brito 
et al. (1999c) demonstraram a capacida-
de vetorial do Aedes aegypti e do Culex 
quinquefasciatus.
Em Sergipe, estudo realizado por 
Porto et al. (1999) na cidade de Aracaju, 
demonstrou que 2,09% dos cães apre-
sentavam-se sorologicamente positivos e 
0,68% microfilarêmicos.
No Rio Grande do Norte, em levanta-
mento sorológico no município de Mosso-
ró, Suassuna et al. (1999) diagnosticaram 
8,66% de positividade.
No Sertão do Estado da Paraíba, um 
estudo foi realizado em cães domiciliados 
do município de Patos, revelando freqüên-
cia de 4,61% de animais sororreagentes, 
demonstrando a presença da infecção em 
localidades distantes de regiões costeiras 
(BARBOSA et al., 1999a).
Os resultados das prevalências de cães 
microfilarêmicos e cães sorologicamente 
positivos estão dispostos nos quadros 1 e 
2, respectivamente.
rEGIãO SUDEStE
Esta é a região onde se concentra o 
maior número de estudos, sendo os relatos 
de ocorrência freqüentes, inclusive em 
outras espécies de mamíferos como jagua-
tirica (Felis pardalis) e foca (Zalephus 
Quadro 1 - prevalências de cães com 
microfilárias circulantes de D. immitis na 
região Nordeste de acordo com a cidade/
estado e o ano
Suplemento
TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
Quadro 2 - prevalências de cães com 
antígenos circulantes de D. immitis na região 
Nordeste de acordo com a cidade/estado 
e o ano
californianus) (Ogassawara et al., 1988) 
e localizações atópicas em cão (Pereira et 
al.,1982), descritas no Estado de São Pau-
lo, assim como a freqüência da infecção 
do gato doméstico no Estado do Rio de 
Janeiro (Labarthe et al., 1997).
Neste último Estado, os estudos na po-
pulação canina estão compreendidos entre 
a distribuição da doença, clínica, tratamen-
to e vetores. Vários levantamentos têm 
sido realizados em cães mostrando a pre-
sença de microfilárias em 4,90% (Dacorso 
Filho et al., 1953); 34,08% (Hatschbach 
et al., 1976); 27,80% (Almeida, 1981), e 
7,80% dos animais examinados (Labarthe 
et al., 1988). Souza et al. (1992), estudan-
do cidades distintas do Estado do Rio de 
Janeiro, compreendendo Itaguaí, Man-
garatiba, Rio de Janeiro e Nova Iguaçu, 
verificaram que 12,29%, 12,73%, 19,05% 
e 7,69%, respectivamente, dos animais 
apresentaram-se microfilarêmicos. No 
mesmo ano, Guerrero et al. diagnosti-
caram 21,30% de cães microfilarêmicos 
na cidade do Rio de Janeiro. Na cidade 
de Niterói, a prevalência em apenas um 
distrito foi de 27,80% (Nascimento e 
Wermelinger, 1971). Contudo, quando 
toda a cidade foi analisada, Labarthe et 
al. (1997) demonstraram uma prevalência 
de 14,11% das formas microfilarêmicas e 
7,23% de infecção oculta. Labarthe et al. 
(1990) também examinaram cães da Re-
gião Serrana do mesmo Estado, Petrópolis 
e Teresópolis, e encontraram uma freqü-
ência de 25,6% de animais portadores de 
infecção.
No último inquérito realizado nas 
cidades do Rio de Janeiro e Niterói e 
seus arredores, Labarthe et al. (1997) 
observaram 13,68% de cães infectados na 
cidade do Rio de Janeiro, sendo 8,61% mi-
crofilarêmicos e 5,65% sorologicamente 
positivos. Na cidade de Niterói, os índices 
de infecção foram de 24,86% de cães 
positivos, sendo 17,3% microfilarêmicos 
e 9,15% sorologicamente positivos. Na 
Região dos Lagos, as prevalências obtidas 
foram 31,15% de cães microfilarêmicos e 
30,95% de animais sorologicamente po-
sitivos, enquanto que, nos municípiosde 
Petrópolis e Teresópolis, as prevalências 
foram 20,0% de cães com microfilárias 
circulantes e nenhum animal sorolo-
gicamente positivo.
No Estado de São Paulo, Hagiwara et 
al. (1984) realizaram um levantamento 
parasitológico em cães provenientes dos 
municípios de São Paulo e São Bernardo 
do Campo, revelando 0,24% de animais 
com microfilárias de D. immitis. Larsson 
et al. (1992) encontraram, na cidade de 
São Paulo, prevalência de 14,34% (cães 
sorologicamente positivos).
No município de Ubatuba-SP, um es-
tudo realizado revelou 8,80% de animais 
portadores de microfilárias de D. immitis 
(Larsson, 1990). Yada et al. (1994) regis-
traram 0,9% de cães infectados na cidade 
de Botucatu. Em 1995, Duque-Araújo 
et al. diagnosticaram a infecção em di-
versas regiões do Estado de São Paulo, 
observando que 45,0% dos animais estu-
dados foram portadores de microfilárias 
em Bertioga, 18,0% em Riviera de São 
Lourenço, 17,0% em Mairiporã e 14,20% 
em Guarujá.
Infecções ocultas também foram obser-
vadas ao longo dos estudos realizados na 
cidade de São Paulo envolvendo 45,40% de 
cães, segundo Larsson et al. (1987).
Na cidade de Vitória, ES, o filarídeo foi 
diagnosticado pela primeira vez por Kasai 
(1979). Em seguida, outros estudos foram 
realizados por Costa et al. (1980) e Kasai 
et al. (1981), evidenciando a presença da 
dirofilariose canina na cidade. Em 1990, 
Costa et al. encontraram uma freqüência 
de 16,3% de cães infectados, quando 
realizaram um levantamento de endo e 
ectoparasitos de cães capturados nas ruas. 
Outros estudos foram realizados neste 
Estado, diagnosticando cães infectados, 
sem no entanto calcular a prevalência da 
parasitose.
Os resultados das prevalências de cães 
microfilarêmicos e cães sorologicamente 
positivos estão dispostos nos quadros 3 e 
4, respectivamente.
rEGIãO NOrtE
Na região Norte do Brasil, as pesqui-
Quadro 3 - prevalências de cães com 
microfilárias circulantes de D. immitis na 
região Sudeste de acordo com a cidade/
estado e o ano.
Suplemento
TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
Quadro 4 - prevalências de cães com 
antígenos circulantes de D. immitis na 
região Sudeste de acordo com a cidade/
estado e o ano
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sas relacionadas ao assunto são escassas, 
sendo poucos os trabalhos referentes 
à infecção por D. immitis de um modo 
geral. Na cidade de Belém, Estado do 
Pará, em estudo preliminar, Souza et al. 
(1995) diagnosticaram 5,04% de cães 
microfilarêmicos, segundo a técnica mo-
dificada de Knott. Posteriormente, Souza 
et al. (1997) encontraram 10,70% de cães 
com microfilárias circulantes. Lima et al. 
(1997) não encontraram cães com infecção 
na cidade de Porto Velho.
rEGIãO SUL
Em estudos realizados nesta região, 
o índice de infecção diagnosticado foi 
1,10% no Rio Grande do Sul, segundo 
testes sorológicos e 12,0% em Santa Ca-
tarina, na pesquisa de microfilárias circu-
filárias circulantes, onde se obteve uma 
média de infecção de 5,24%. Nas demais 
regiões, além dos inquéritos parasitoló-
gicos, foram realizados levantamentos 
sorológicos, observando-se prevalência 
média de 10,64% no Nordeste, 17,20% no 
Sudeste, 5,80% no Centro-oeste e 12,0% 
no Sul para pesquisa de microfilárias cir-
culantes e 13,89%, 13,46%, 6,90% e 2,04% 
para pesquisa de antígenos circulantes, 
 respectivamente.
As regiões Nordeste e Sudeste apre-
sentam uma prevalência mais alta quan-
do analisados os resultados dos exames 
parasitológicos, podendo ser resultante 
de baixa parasitemia, o que não permite 
a detecção de seus antígenos circulantes 
através dos testes sorológicos realizados.
Estas mesmas regiões apresentam 
uma maior quantidade de informações 
a respeito da parasitose, o que favorece 
a implantação de medidas profiláticas 
adequadas e de controle.
CONCLUSãO
O Brasil encontra-se endêmico para di-
rofilariose canina, notadamente na região 
Sudeste, que apresenta maior prevalência 
de cães microfilarêmicos, e torna as po-
pulações canina e humana mais expostas 
à infecção.
lantes (Labarthe et al., 1992). Reifur et al. 
(1999) encontraram uma prevalência de 
2,98% de animais soropositivos em Pontal 
do Paraná, região litorânea do Estado.
rEGIãO CENtrO-OEStE
Bordim et al. (1989) registraram 2,0% 
de animais sororreagentes no Estado do 
Mato Grosso. Fernandes et al. (1999) 
realizaram estudos em Cuiabá, onde 
encontraram 5,80% de cães com micro-
filárias de D. immitis e 11,81% sorologi-
camente positivos segundo a técnica de 
Immunoblot.
Outros estudos sugerem a presença da 
infecção em outros estados.
rESULtaDOS E DISCUSSãO
Considerando separadamente os 
percentuais médios de cães micro-
filarêmicos e sorologicamente po-
sitivos, os resultados revelaram um 
percentual nacional médio de 10,17% 
de animais microfilarêmicos e 9,07% de 
cães apresentando antígenos circulan-
tes, indicando que houve um aumento 
da prevalência desta parasitose com re-
lação ao estudo realizado por Guerrero 
et al. (1989), que diagnosticaram 7,9% de 
cães com dirofilariose em diversos Estados 
do país. Quando se avaliaram as regiões 
separadamente, as prevalências mostra-
ram-se bastante variadas. Observou-se 
que na região Norte foram realizados 
estudos baseados na pesquisa de micro-
Suplemento
TÉCNICO
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Rio de Janeiro, 1992, 87p. MSc thesis, -Universidade Federal Rural 
do Rio de Janeiro.
SUASSUNA, A.C.D.; DE PAULA, V.V.; FEIJÓ, F.M.C. Ocorrência 
de cães parasitados com Dirofilaria immitis adulta pelo método 
Suplemento
TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
Artigos Científicos
Os artigos científicos deverão conter dados con-
clusivos de uma pesquisa e conter Resumo, Abstract, 
Unitermos, Key Words, Introdução, Material e Méto-
dos, Resultados, Discussão, Conclusão(ões), Referên-
cias Bibliográficas e quando houver, Agradecimentos, 
Tabela(s) e Figura(s). A critérios do(s) autores e/ou do 
Conselho Editorial, os itens Resultados e Discussão po-
derão ser apresentados como uma única seção. Quando 
a pesquisa envolver a utilização de animais, os prin-
cípios éticos de experimentação animal preconizados 
pelo Conselho Brasileiro de Experimentação Animal 
(COBEA) e aqueles contidos no Decreto nº 24.645 de 
10 de julho de 1934 e na Lei nº 6.638 de 8 de maio de 1979 
devem ser observados.
Apresentação 
Os manuscritos deverão ser encaminhados na primeira 
submissão em três vias (uma original e duas cópias). A 
primeira página da via original conterá o título do traba-
lho, o nome completo do(s) autor(es), suas respectivas 
afiliação(ões) e o nome, endereço, telefone, fax e endereço 
eletrônico do autor para correspondência. As diferentes ins-
tituições serão indicadas por número sobrescrito. Nas duas 
cópias, a página de rosto deve omitir o(s) nome(s) do(s) 
autor(es). Uma vez aceita a publicação, além de uma cópia 
impressa, deve ser enviada uma gravação do artigo em mídia 
magnética (disquete 3,5” ou CD) de alta densidade, identifi-
cado com o título do trabalho e nome(s) do(s) autor(es).
Digitação 
O texto será digitado com o uso do editor de textos Mi-
crosoft Word for Windows, versão 6.0 ou superior, formato 
A4 (21,0 x 29,7 cm), com espaço simples em uma só face do 
papel, com margens laterais de 3,0 cm e margens superior e 
inferior de 2,5 cm, fonte Times New Roman de 16 cpi para 
o título, 12 cpi pra o texto e 9 cpi para rodapé e informações 
de tabelas e figuras. As páginas e as linhas de cada página 
devem ser numeradas.
Título
O título do artigo, com 25 palavras no máximo, deverá 
ser escrito em negrito e centralizado na página. Não utilizar 
abreviaturas.
Resumo e Abstract
INFORMAÇÕES GERAIS
 A Revista do Conselho Federal de Medicina Veteri-
nária tem como objetivo principal a publicação de artigos de 
revisão e de educação continuada, básica, geral ou profissio-
nalizante, que contribuam para o desenvolvimento da ciência 
nas áreas de Medicina Veterinária e Zootecnia, podendo ser 
apresentados também manuscritos de investigação científica. 
Os artigos, cujos conteúdos serão de inteira responsabilidade 
dos autores, devem ser originais e previamente submetidos à 
apreciação do Conselho Editorial do CFMV, bem como, de 
assessores ad hoc de reconhecido saber na especialidade. A 
publicação do artigo dependerá da sua apresentação dentro 
das Normas Editoriais e de pareceres favoráveis do Comitê 
Científico da Revista. Os pareceres terão caráter sigiloso e 
imparcial. A periodicidade da publicação será quadrimes-
tral.
 Os artigos e toda a correspondência pertinente deve-
rão ser encaminhados para:
REVISTA CFMV
Conselho Editorial
SIA - Trecho 6 - Lote 130 e 140
Brasília-DF – Cep: 71205-060
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NORMAS EDITORIAS
 Os textos de revisão e de educação continuada e cien-
tíficos devem ser inéditos, de primeira submissão, escritos 
segundo as normas ortográficas oficiais da língua portuguesa 
e com abreviaturas consagradas, exceto o Abstract e Key 
Words que serão apresentados em inglês.
Artigos de Revisão e de Educação Continuada
Os artigos de revisão e de educação continuada serão 
publicados por especialistas, nacionais ou internacionais, 
a convite do Comitê Editorial, atendendo à solicitação dos 
profissionais Médicos Veterinários e Zootecnistas. Devem 
ser estruturados para conter Resumo, Abstract, Unitermos, 
Key Words, Referências Bibliográficas e Agradecimentos 
(quando houver). A divisão e subtítulos do texto principal 
ficarão a cargo do(s) autor(es).
NORMAS PARA APRESENTAÇÃO DE ARTIGOS
Suplemento
TÉCNICO
Suplemento
TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
O Resumo e sua tradução para o inglês, o Abstract, não 
podem ultrapassar 250 palavras, com informações que per-
mitam uma adequada caracterização do artigo como um todo. 
No caso de artigos científicos, o Resumo deve informar o 
objetivo, a metodologia aplicada, os resultados principais e 
conclusões. 
unitermos e Keywordds
No máximo 5 palavras serão representadas em seguida ao 
Resumo e Abstract. As palavras serão escolhidas do texto e 
não necessariamente do título.
Texto Principal
Não há número limite de páginas para a apresentação do 
artigo. No entanto, recomenda-se que sejam concisos. Poderão 
ser utilizadas abreviaturas consagradas pelo Sistema Métrico 
Internacional; exemplo Kg, g, cm, ml, EM etc. Quando for o 
caso, abreviaturas não usuais serão apresentados no rodapé 
da primeira página do trabalho. Exemplo GH=hormônio do 
crescimento etc. As citações bibliográficas do texto devem 
ser pelo sobrenome do(s) autor(es) seguido do ano. Quando 
houver dois autores, somente o sobrenome do primeiro será 
citado, seguido da expressão et al. Rodrigues (1999), (Rodri-
gues, 1999), Silva e Santos (2000), (Silva e Santos, 2000), 
Gonçalves et al. (1998), (Gonçalves et al., 1998).
Referências Bibliográficas
A lista de referências bibliográficas será apresentada em 
ordem alfabética por sobrenome de autores, de acordo com a 
Norma ABNT/NBR-6023 da Associação Brasileira de Nor-
mas Técnicas. Inicia-se a referência com último sobrenome 
do(s) autor(s) seguido do(s) prenome(s), exceto aqueles de 
origem espanhola ou de dupla entrada, registrando-se os dois 
últimos sobrenomes. Todos os autores devem ser citados.
Obras anônimas têm sua entrada pelo título do artigo ou 
pela entidade responsável por sua publicação. A referência 
deve ser alinhada pela esquerda e a segunda linha iniciada 
abaixo do primeiro caractere da primeira linha. Os títulos de 
periódicos da referência podem ser abreviados, segundo a 
notação do BIOSES *BIOSIS. Serial sources for the BIOSIS 
previews database. Philadelphia, 1996, 486p) . Abaixo são 
apresentados alguns exemplos de Referências Bibliográfi-
cas.
1. Artigo de periódico
EUCLIDES FILHO, K., EUCLIDES, V.P.B., 
FIGUEIREDO, GR., M.P Avaliação de animais 
nelore e seus mestiços com charolês, fleckvieh e 
chianina, em três dietas 1. Ganho de peso e conversão 
alimentar. Revista Brasileira de Zootecnia, v 26, n. 1, 
p.66-72,1997.
2. Livros
MACARI, M., FURLAN, R.L., GONZALES, E. 
Fisiologia aviária aplicada a frangos de corte. 
Jaboticabal: FUNEP, 1994. 296p.
3. Capítulos livro
WEEKES, T.E.C. Insulin and growyh. In: Buttery, 
P.J., LINDSAY, D.B., HAYNES, N.B. (ed). Control 
and manipulation of animal growth. Londres: 
Butterworths, 1986. p.187-206.
4. Teses (doutorado) ou dissertações (mestrado)
MARTINEZ, F. Ação de desinfetantes sobre 
Salmonella na presença de matéria orgânica. 
Jaboticabal, 1998. 53p. Dissertação (mestrado) 
– Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias. 
Universidade Estadual Paulista.
5. Artigos apresentados em congressos, reuniões e 
seminários, etc.
RAHAL, S.S., SAAD, W.H., TEIXEIRA, E.M.S. Uso de 
fluoreseina na identificação dos vasos linfáticos superficiais 
das glândulas mamárias em cadelas. In. CONGRESSO BRA-
SILEIRO DE MEDICINA VETERINÁRIA, 23 Recife, 1994. 
Anais...Recife; SPEMVE, 1994. p.19.
Tabelas e Ilustrações
As tabelas e ilustrações (gráficos, fotografias, desenhos, 
etc,) devem ser apresentados nas últimas páginas do artigo, 
uma em cada página. Serão numeradas consecutivamente 
com números arábicos. A tabela deve ter sua estrutura 
construída segundo as Normas de Apresentação Tabular 
do Conselho Nacional de Estatística (Ver. Bras. Est. V. 24, 
p.42-60,1963)
Revisões
Os artigos sofrerão as seguintes revisões antes da publi-
cação: 1) Revisão técnica por consultor ad hoc; 2) Revisão 
de língua portuguesa e inglesa por revisores profissionais; 
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
A crueldade com animais: como
 identificar seus sinais?
O Médico Veterinário e a prevenção 
da violência doméstica
Ceres Berger Faraco
Médica Veterinária, CRMV-RS nº 
1493, e Doutoranda em Psicologia - PU-
CRS, Professora do Curso de Psicologia 
da FACCAT. 
E-mail: ceresfaraco@terra.com.br 
Nedio Seminotti
CRP nº 07/0529, Doutor em Psicologia. 
Programa de Pós-Graduação em Psicolo-
gia da PUCRS – Brasil, Coordenador do 
Grupo de Pesquisa “Processos e Organi-
zações dos Pequenos Grupos” 
Endereço para correspondência: Av. Ipi-
ranga, 6681 Prédio 11, 9° andar, Caixa 
Postal 1429, CEP: 90619-900, Porto 
Alegre/RS. 
E-mail: nedios@pucrs.br; 
A crueldade1 com animais pode 
estar associada a violência domés-
tica entre membros de uma família. 
No entanto, nem sempre as conexões 
entre ambas são consideradas pelos 
profissionais da Medicina Veteriná-
ria, Saúde Mental e Direito, a quem, 
entre outros, cabe a responsabilida-
de na identificação e prevenção da 
crueldade contra animais (Arluke, 
A.; Lockwood, 1997). 
Existe uma conexão entre atos 
violentos contra seres humanos e 
os atos cruéis contra outros animais 
(Ascione, F.R.; Kaufmann, M.E.; 
Brooks, M. E., 2000). No entanto, 
embora esta conexão venha sendo 
desvelada em artigos científicos 
internacionais, no Brasil sua abor-
dagem ainda é incipiente.
A dificuldade em abordar a cruel-
dade perpetrada pelos seres humanos 
aos animais deve-se a inúmeros 
fatores. Entre eles a insuficiência 
de recursos técnicos para identificar 
situações de crueldade, a limitação 
na formação humana do médico ve-
terinário para avaliar o envolvimento 
humano como fator determinante 
dos quadros clínicos de crueldade, a 
inexistência de um sistema público 
de investigação e notificação dos 
casos, a pressão social na direção 
de outros crimes considerados, no 
senso comum, de maior relevân-
cia e a resistência em considerar a 
crueldade com animais como um 
crime violento (Frasch P.D, 2000; 
Tannenbaum, 1995).
Julgamos importante destacar 
que milhares de Médicos Veteriná-
rios brasileiros, como profissionais 
de saúde pública, estão à margem 
das iniciativas que visam a prevenir 
e combater a violência doméstica 
em nosso País. E esta é uma con-
dição paradoxal, já que os Médi-
cos Veterinários em sua prática 
ocupam uma posição privilegiada 
para reconhecer esses agravos, 
particularmente, por terem acesso 
ao ambiente familiar. 
Nessa linha de pensamento, a 
Associação Médico-Veterinária 
Norte-Americana - AVMA (Crook, 
2000) reconheceu que os Médicos 
Veterinários têm oportunidade de 
observar comportamentos cruéis 
com animais, abuso ou negligência. 
E, quando isso ocorre é de respon-
sabilidade do Médico Veterinário 
notificar as autoridades competentes. 
A AVMA salienta que essa é uma 
atitude necessária para a proteção 
da saúde dos animais e das pessoas 
envolvidas em situações de cruel-
dade.
UMa BrEVE aBOrDaGEM 
SOBrE a VIOLÊNCIa
A sociedade contemporânea vem, 
desde a modernidade, passando por 
um amplo processo de reflexão e 
problematização sobre as verdades 
construídas socialmente que antes 
pareciam naturais e, assim, são 
questionados discursos e práticas 
baseadas em determinadas concep-
ções da vida (Berger; Luckmann, 
1997). Contribui para isso o ad-
vento do pensamento ecológico e 
a noção de sustentabilidade2. Esses 
questionamentos conduzem a novas 
concepções da vida que ajudam a 
romper com alguns pactos de invi-
sibilidade e silêncio sobre práticas 
sociais. Essas práticas passam a 
1 Em sintonia com a literatura internacional emprega-se neste artigo o termo crueldade com animais caracterizando uma conduta intencional e com 
deleite do agressor em causar mal ao outro, o que o distingue dos demais atos violentos (Ascione,F., 1997; Lockwood, R.;Ascione, F., 1998)
2 Segundo a visão de Capra, “sustentável” não se refere apenas ao tipo de interação humana com o mundo que preserva ou conserva o meio ambiente 
para não comprometer os recursos naturais das gerações futuras, ou que visa unicamente a manutenção prolongada de entes ou processos econômicos, 
sociais, culturais, políticos, institucionais ou físico-territoriais, mas é uma função complexa (Capra, 2002, p. 231).
BEM-ESTAR ANIMAL
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
ser contextualizadas e implicadas 
com a vida em geral e não apenas 
com a do ser humano. Um exemplo 
disso é a crueldade contra os animais 
 cometida pelos seres humanos. 
Há, contemporaneamente, uma 
preocupação maior com a violência, 
em seu sentido amplo, ao mesmo 
tempo em que ela adquire outros sig-
nificados. Assim, contesta-se a visão 
reducionista e inquestionável da vio-
lência, particularizada e delimitada 
à relação entre seres humanos e à 
esfera privada, e se amplia a discus-
são para considerar que a violência é 
contra a vida e que deve ser tratada 
como coisa pública. Desde esses no-
vos paradigmas passa a ser consenso 
que todos os participantes do sistema 
social estão implicados nele e, por 
isso, solidários e responsáveis nos 
benefícios e prejuízos que resultam 
de seus atos Maturana, 1995, Morin, 
2001, Capra, 2002.
Negrão (apud Grossi, 2001) su-
blinha que o véu que protegia o mun-
do privado há muito pouco tempo 
começou a ser retirado. No entanto, 
mesmo com esse novo entendimento 
da relação público-privado, muitos 
atos violentos permanecem conve-
nientemente protegidos e ocultados 
por todos nós. Acrescente-se a isso 
que a violência brota numa situação 
complexa e de difícil identificação, 
já que intervêm nela vários fatores 
nem sempre da mesma natureza e 
que nem apresentam a mesma ca-
pacidade de determinação (Saffioti, 
2002). No entanto, segundo Adair 
(1995) há relações entre comporta-
mentos violentos de natureza apa-
rentemente diversa, e o desafio está 
em reconhecer os fatores correlatos 
que anunciam esses comportamen-
tos. Justamente esta correlação 
poderá indicar condições que pro-
piciam comportamentos violentos e 
conduzir a estratégias de intervenção 
para prevení-los. 
No entendimento de Velho 
(1996), o comportamento violento é 
constituinte da vida em sociedade, e 
contém como dimensão fundamental 
a possibilidade ou a ameaça do uso 
de força física e, além disso, o cons-
trangimento moral para impor a von-
tade de um sobre o outro. Bourdieu 
(1998), ao referir apossibilidade de 
violência simbólica, observa que ela 
ocorre com cumplicidade entre os 
que estão submetidos a ela e os que 
a exercem, impondo e reproduzindo 
valores. Há uma espécie de “aliança” 
entre todos os envolvidos na ação da 
violência e na possibilidade de que 
ela possa ser deflagrada a qualquer 
momento. 
As interações sociais, entre huma-
nos, quando ocorrem em sistemas de 
reciprocidade expressam harmonia e 
relativa estabilidade do social, por ou-
tro lado a ausência dela pode desen-
cadear conflitos. Essa noção nos leva 
a pensar que a desigualdade de poder 
constitui uma fonte de tensões, já que 
a mesma limita as possibilidades de 
trocas e negociações (Velho,1996). 
Nos processos e organizações dos 
sistemas sociais, determinados in-
divíduos assumem eventualmente 
um lugar que lhes dá maior poder 
de determinação sobre os demais. 
Há, como aponta Luhmann (1998), 
indivíduos dominantes e dominados, 
e estes estão mais expostos à violên-
cia daqueles.
Perrone e Nannini (1997) assinala 
que os componentes e organizadores 
da violência entre seres humanos 
parecem ter caráter repetitivo e 
estereotipado. O autor revela que, 
em muitos casos, a violência é ri-
tualizada e compreende aspectos 
espaciais, temporais e temáticos. 
Pontua ainda que há indícios de que 
o comportamento violento possa ser 
cronologicamente predeterminado. 
Nesse sentido, Coetzee (2002) assi-
nala que a abordagem dos atos cruéis 
contra os animais é um tema ético 
relevante e traz à tona concepções 
socioculturais até então não questio-
nadas. Entre essas, a de Santo Tomás 
de Aquino sobre as diferenças entre 
o homem e os animais, na qual o 
homem é percebido como a imagem 
de Deus e os animais não e em razão 
disso podem ser desconsiderados e 
excluídos da esfera moral. No en-
tanto, Coetzee acredita em mudan-
ças nestas concepções e afirma que 
o conhecimento da conexão entre a 
crueldade com animais e a violência 
entre os homens contribuirá para 
modificar as fronteiras desenhadas 
entre eles e as atitudes socialmente 
aceitas para com os animais (Arkow, 
1996; Ascione, 1996). 
aSPECtOS 
 rELaCIONaDOS Para 
ELUCIDar traUMaS 
NãO- aCIDENtaIS 
EM aNIMaIS
Além do abordado, devemos 
considerar que existem outros as-
pectos envolvidos na elucidação dos 
quadros de traumas não-acidentais 
que vão além da identificação das 
manifestações clínicas e esses criam 
dilemas profissionais sobre quais 
procedimentos adotar nesses casos. 
Dentre esses podemos assinalar: a 
abordagem da família envolvida, as 
condutas éticas a serem adotadas, 
a responsabilidade pelo bem-estar 
do animal vitimado e as possíveis 
conseqüências –responsabilidade 
civil e riscos de toda ordem- para 
BEM-ESTAR ANIMAL
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
o profissional a partir das decisões 
tomadas. Para superar os proble-
mas apontados seria desejável a 
uniformização de procedimentos 
e condutas profissionais através 
de um protocolo que sistematize a 
investigação dos casos suspeitos de 
trauma não-acidental. 
Neste sentido, Munro (1996) 
propõe a aplicação da sistemática 
adotada para o diagnóstico da Sín-
drome da Criança Espancada3 como 
um referencial norteador. Denomina 
o trauma não-acidental em Medicina 
Veterinária como Síndrome do ani-
mal espancado4, de forma análoga 
ao da criança e o caracteriza como 
um dos tipos de violência domésti-
ca. A mesma pesquisadora afirma 
que alguns critérios aplicados para 
orientar o diagnóstico da Síndrome 
da Criança Espancada são úteis nos 
casos suspeitos de crueldade em re-
lação aos animais. Cabe destacar que 
essa síndrome é um quadro médico 
conhecido de abuso com crianças e 
o seu diagnóstico tornou-se possível 
a partir da sua descrição detalhada e 
sistematizada. 
Os casos de abusos contra ani-
mais foram estudados por pesquisa-
dores (Munro; Thrusfield, 2001) que 
estruturam diretrizes para orientar a 
sua anamnese. Este protocolo teve 
por objetivo minimizar os efeitos 
de percepções na avaliação de 
crueldades com animais e nortear 
os passos a serem seguidos pelos 
Médicos Veterinários. Desta forma, 
foram classificados fatores de risco 
e indicadores para a avaliação, apre-
sentados no Quadro 1.
3 dAY, V. p. et all . Violência doméstica e suas diferentes manifestações. Revista psiquiatra do Rio grande do Sul. Porto Alegre, vol.25, supl.1, 20
03
4 Sindrome descrita por Helen Munro, patologista veterinária , Reino Unido, 1996. 
5 é a produção intencional de traumas nos animais com a finalidade de justificar o atendimento veterinário. Está relacionada à necessidade de atenção 
do agressor. (American Psychiatric Association, 1994). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders - 4th ed. (DSM-IV). Washington, DC).
Como se pode observar no qua-
dro acima, são consideradas quatro 
categorias de fatores de risco que 
intervêm na causalidade de traumas 
não-acidentais e que são considera-
dos como necessários ou suficientes 
para que os traumas ocorram. O fator 
de risco envolvimento familiar pode 
variar desde o silêncio até o relato 
de histórias discrepantes e vagas. 
Outro fator é o aparecimento de de-
terminados sinais no exame clínico, 
como lesões com estágios evolutivos 
distintos, indicando um paciente com 
história de traumas múltiplos.
Outro fator de risco é a raça dos 
animais envolvidos; são as raças 
consideradas agressoras (Pit Bull 
e Rottweiler) e pertencem a faixas 
etárias mais vulneráveis (jovens e 
idosos) o que limita sua capacidade 
de defesa. Chamam a atenção os 
fatores que envolvem os agressores 
humanos, pois estes são descritos 
como indivíduos com psicopato-
logias definidas e/ou condição de 
exclusão social. 
 Refletindo sobre esses dados e 
aliando-os com as informações ofe-
recidas nas pesquisas, pode-se con-
siderar este protocolo inicial como 
um passo importante para alertar o 
BEM-ESTAR ANIMAL
Munro (1996) 
Quadro 1 - fatores de risco e indicadores para suspeita de trauma não-acidental em 
animais 
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
Médico Veterinário sobre a natureza 
e o escopo desta síndrome. 
a CONEXãO ENtrE OS 
DIFErENtES tIPOS 
DE VIOLÊNCIa
Em estudos recentes, os autores 
citados anteriormente buscaram 
esclarecer qual a relação entre os 
diferentes tipos de violência. Um 
exemplo é o abuso contra animais 
perpetrado por crianças, freqüente-
mente, um comportamento imitativo 
do que presenciam na sua casa ou 
comunidade. Este comportamento 
institui-se ao observar familiares 
ou vizinhos em atos de abuso com 
os animais. Pode originar-se de con-
dições de violência entre casais ou 
abuso infantil -sofrido pela própria 
criança agressora- e praticado por 
seus familiares. Em conseqüência, 
a ausência de coerção à violência 
infantil contra animais pode pre-
dispor a criança a outros tipos de 
comportamentos abusivos durante 
sua vida (Petersen, 2001).
Ascione (1996) fez estudos sobre 
a natureza relacional da violência 
de gênero com a crueldade contra 
animais. O primeiro destes, com 
um grupo de 38 mulheres alojadas 
em abrigos, vítimas de violência por 
seus companheiros. Como resultado, 
71% das participantes da amostra 
relataram a ocorrência de ameaças, 
ferimentos ou morte de seus animais. 
No segundo, com uma amostra cons-
tituída por 101 mulheres, os resulta-
dos indicaram um índice de 70,3% 
de narrativas de agressões contra 
animais, referendando os resultados 
anteriormente obtidos.
Os dados de pesquisas sobre a 
correlação de atos violentos leva-
ram Beck (1981) a concluir que os 
maus-tratos contra animais não têm 
merecido a atenção necessária como 
indicadores do mesmo comporta-
mento com pessoas. Sugere que estes 
podem ser precursores de maus-tratos 
com seres humanos, incluindo violên-
cia interpessoal, abuso e negligência 
na infância, violência entre cônjuges, 
estupro e homicídios. 
Outros resultados que corre-
lacionam os maus-tratos com ani-
mais e seres humanos foram obtidospor Ascione (1997), em estudo 
com grupos de crianças de lares 
não violentos e grupos de crianças 
pertencentes a lares com história de 
violência doméstica. Neste último 
grupo foi identificada uma maior 
freqüência e severidade de compor-
tamentos violentos contra animais. 
Investigando esta associação, De-
Viney (apud Fine, 2000) encontrou 
em famílias uma taxa de prevalência 
de 60% interligando os dois tipos de 
violência.
Na mesma linha de investigação 
de Ascione, a Sociedade Humani-
tária dos Estados Unidos, conduziu 
um estudo nacional de janeiro a 
dezembro de 2000, examinando 
situações que envolveram crueldade 
com animais. Neste estudo, foram 
investigados 1624 casos de violência 
contra mulheres quanto à conexão 
com outros tipos de violência (Hsus, 
2000). Os resultados demonstraram 
que um número extremamente alto 
de casos de violência intencional 
contra animais relatados pelas mu-
lheres foi cometido por jovens de 
idade inferior a 18 anos e do sexo 
masculino.
Os achados das pesquisas alu-
didas sugerem que, se a violência 
permeia a família, ela se manifestará 
sobre um de seus membros e, esse 
poderá ser um humano ou animal. 
E essa é uma dinâmica bem conhe-
cida da psicologia dos grupos. Se 
há tensão entre os indivíduos de um 
grupo, eles elegem um deles sobre 
o qual será descarregada. O eleito 
obedece a uma dinâmica para a qual 
concorrem variáveis individuais, 
do grupo e do contexto do qual faz 
parte o grupo (Seminotti; Borges; 
Cruz, 2005).
É também do conhecimento desta 
psicologia, e de domínio público, 
que os que têm mais poder exercem 
sua violência contra os que têm 
menos. No caso de uma família mul-
tiespécie1, o animal teria poder para 
enfrentar seu proprietário? Parece 
difícil. Precisamos considerar que é 
mais fácil direcionar a agressão ao 
animal de estimação do que a um 
membro da família. 
Há nas últimas décadas um nú-
mero crescente de publicações sobre 
o ciclo da violência como um tema 
central da investigação científica no 
campo da relação humano-animal. 
Porém, ainda são poucos os que 
associam maus-tratos na infância e a 
crueldade com animais.
As linhas de pesquisa desses estu-
dos têm focado dois eixos temáticos: 
o primeiro é a associação entre a 
crueldade com animais e as outras 
expressões da violência familiar; 
o segundo é a conexão entre atos 
violentos contra animais, perpetra-
dos por crianças e adolescentes e o 
BEM-ESTAR ANIMAL
6A expressão grupo multiespécie foi introduzida por Faraco e Seminotti (2004) e intenta significar o grupo constituído por pessoas com animais, no 
seu cotidiano. De forma análoga definimos a família multiespécie como o grupo familiar que se reconhece constituído por pessoas e seus animais.
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
BEM-ESTAR ANIMAL
desenvolvimento de comportamen-
tos violentos na fase adulta. Temas 
relevantes para subsidiar ações de 
intervenção social.
Frente ao exposto, parece evidente 
a necessidade de novos instrumentos 
e recursos para combater a violência 
incluindo a identificação de condições 
potencialmente perpetradoras na 
infância que visam prevenir futuros 
comportamentos violentos (Arluke, 
2002).
CONSIDEraçÕES 
FINaIS
Ao ressaltar a possibilidade da 
contribuição dos Médicos Veteriná-
rios para a prevenção da violência 
familiar, salienta-se que a crueldade 
com animais é um sinal de alerta e uma 
mensagem na identificação de outros 
tipos de violência.
Considerando esse pressuposto 
pensamos que a inclusão desta 
temática na formação acadêmica 
do Médico Veterinário seria fun-
damental para possibilitar o diag-
nóstico diferencial desses traumas 
e a possibilidade de implementar 
políticas públicas de prevenção 
deste agravo.
Ao serem oferecidos aqui sub-
sídios para a compreensão dos 
aspectos que relacionam o ato 
violento contra animais com os 
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Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
éTICA NA PuBLICAçãO CIENTíFICA
Questões éticas relacionadas com 
a publicação científica
Alberto Neves Costa
Médico Veterinário, CRMV-PE nº 0382, 
MSc., Ph.D, Acadêmico Fundador da 
Academia Pernambucana de Medicina 
Veterinária e Membro da Sociedade 
Brasileira de Bioética - Regional Per-
nambuco
Recife-PE. 
Autor para correspondência
e-mail: albertoncosta@uol.com.br 
 
José de Carvalho Reis 
Médico Veterinário, CRMV-PE Nº 0290, 
MSc., Doutor, Acadêmico Fundador da 
Academia Pernambucana de Medicina 
 Veterinária e Editor Associado da Revista 
Ciência Veterinária nos Trópicos
INtrODUçãO
Os avanços registrados na ciência 
aplicada significam grandes conquistas 
para o futuro da humanidade, particu-
larmente no que tange aos campos de 
aplicação da biologia, biomedicina e 
agropecuária. Em razão disto, grupos 
de pesquisadores pertencentes a insti-
tuições acadêmicas e de pesquisa, em 
todo o mundo, disputam a primazia 
de serem distinguidos como pioneiros 
das grandes descobertas científicas e 
tecnológicas.
Neste cenário contemporâneo e 
globalizado, destaca-se o acirramento 
crescente na competição entre pesqui-
sadores que buscam prestígio e poder 
no seio da comunidade científica. 
Esta situação tem desafiado um dos 
preceitos básicos da verdadeira ciên-
cia: o respeito à ética na comunicação 
científica. Mesmo considerando que 
o compromisso ético do verdadeiro 
cientista é com a veracidade e a aplica-
ção racional de novos conhecimentos 
gerados, o cerne do debate científico 
tem sido desvirtuado por uma questão 
delicada e polêmica: a má-conduta 
de inúmeros pesquisadores durante a 
condução da pesquisa e a publicação 
de trabalhos científicos, com um sério 
viés de cunho ético. Neste contexto, 
preocupa-nos uma possível manipula-
ção e/ou contaminação de estudantes 
de pós-graduação por orientadores 
e/ou pesquisadores inescrupulosos e 
oportunistas, que buscam na ciência 
um caminho fácil para atingirem o es-
trelado, porém sem qualquer compro-
misso com a verdade científica. Como 
detentores desta conduta deplorável, 
eles forjam situações e enganam a 
boa-fé de discípulos e leitores. 
Preocupados em minimizar estes 
fatos contundentes, conselhos edito-
rais de um grande número de revistas 
conceituadas tem estabelecido proces-
sos formais e rigorosos de arbitragem 
dos manuscritos submetidos para 
publicação, através da análise de tra-
balhos por pares de consultores (peer 
reviewers) e editores científicos espe-
cializados, com a responsabilidade de 
fazer o crivo dos textos encaminhados. 
Contudo, vários destes especialistas 
também tem sido flagrados em atos 
ilícitos na condução da política edito-
rial desses periódicos, o que dificulta 
ainda mais o combate sistemático 
pelas instâncias competentes as trans-
gressões éticas detectadas no seio da 
comunidade científica. 
Em razão do exposto, o objetivo 
deste trabalho é promover uma re-
flexão crítica acerca deste fenômeno 
multiprofissional e sem fronteiras que 
muitas vezes dissemina o obscurantis-
mo sobre os grandes feitos científicos 
de pesquisadores criativos, produtivos 
e sérios, bem como trazer para o foco 
das discussões a necessidade de se 
recorrer à legislação específica esta-
belecida pelo Conselho Federal de 
Medicina Veterinária, neste caso, no 
que tange a profissão médico-veteriná-
ria, sobre a problemática em questão, 
a qual deve ser encarada como um 
mecanismo eficiente para coibir este 
tipo de conduta científica condenável, 
mediante a aplicação das penalidades 
cabíveis. 
 
COMO PrEVaLECEr OS 
PrINCÍPIOS ÉtICOS Na 
CONDUçãO Da PESQUISa 
CIENtÍFICa?
Primeiramente, é preciso respeitar 
uma das premissas básicas adotadas 
pela comunidade científica mundial, ou 
seja, aceitar postulados que sirvam para 
balizar a maneira como os pesquisado-
res devem atuar e se comunicar entre os 
pares. Consequentemente, isto implica 
em submeter ao crivo do mundo acadê-
mico apenas contribuições que sejam 
verdadeiras e, se possível, originais.
 Para que isto seja atendido, o pes-
quisador deve dispor de bons conhe-
cimentos em metodologia aplicada à 
pesquisa científica. Segundo Volpato 
(2004), a pesquisa científica é uma 
atividade que utiliza metodologia e 
pressupostos científicos, cabendo ao 
autor promover os fundamentos da 
pesquisa, estabelecer os objetivos, 
elaborar o delineamento experimen-
tal, acompanhar ou executar a coleta 
de dados, fazer sua análise, elaborar 
as conclusões e publicar o trabalho. 
Sabe-se que durante a condução da 
pesquisa ocorrem algumas dificulda-
des, principalmente do ponto de vista 
metodológico, uma vez que a obten-
ção de bons resultados depende de um 
corpo de conhecimentos prévios e de 
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
uma boa formulação das hipóteses a 
serem testadas. Assim, todos os es-
forços de compilação, classificação, 
manipulação e interpretação de dados 
devem ser dirigidos para provar a vali-
dez de hipóteses que são, na realidade, 
a chave do procedimento científico. A 
hipótese é uma conexão necessária en-
tre teoria e investigação, que conduz 
à descoberta de novos conhecimentos 
(Reis, 2003). Além disto, é necessá-
rio que haja estímulo para o trabalho, 
pois, caso contrário, é provável que a 
pesquisa seja interrompida antes de 
sua conclusão, com lamentável perda 
de tempo, desperdício de dinheiro e, 
por vezes, um inaceitável sofrimen-
to inútil imposto a seres humanos e 
animais, o que impede que princípios 
éticos consagrados sejam rigorosa-
mente seguidos (Petroianu, 2000a). 
A principal questão ética a ser en-
carada na avaliação da pesquisa com 
animais é assegurar que os resultados 
potenciais de um projeto justifiquem 
seus prováveis efeitos nos animais ex-
perimentais, e garantam seus interes-
ses legítimos quando se decide o que 
fazer com eles (Tannenbaum, 1995). 
Sobre isto, Paixão e Labarthe (2002) 
sugeriram a aplicação do princípio 
dos 3Rs (que em português significa 
substituição, redução e refinamento), 
que preconiza condutas para o pesqui-
sador e serve para nortear o controle 
das pesquisas em animais, acrescen-
tando que este princípio global tem 
servido de escopo para a sanção de 
leis atuais, bem como de diretrizes 
científicas e avaliações conduzidas 
por comissões institucionais de éti-
ca. É recomendável que os órgãos 
ou agências reguladoras estabeleçam 
princípios básicos a serem seguidos 
pela comunidade científica, tais como 
adquirir os animais legalmente, ofere-
cer alimento e abrigo adequados e, sob 
nenhuma circunstância, submete-los à 
dor e/ou desconforto desnecessários 
(Benos et al., 2005). 
Outra questão crucial e preocupan-
te a merecer uma reflexão diz respeito 
à pressão institucional exercida sobre 
os pesquisadores acadêmicos no sen-
tido de que aumentem sua produtivi-
dade científica. Poderia se questionar: 
em que medida um maior número 
de artigos publicados corresponde a 
um padrão de alta qualidade nas pu-
blicações científicas? Para Meadows 
(1999), no que tange à comunicação, 
as duas características mais importan-
tes no pesquisador são a quantidade 
de informações que comunica e a sua 
qualidade. Acrescente-se a isto, o crô-
nico problema relacionado à limitação 
de investimentos oficiais em pesquisa 
(laboratórios, animais experimentais, 
verbas etc.) e que possibilita a abertura 
de um flanco perigoso para aborda-
gens de organizações interessadas em 
obter resultadosde pesquisas favo-
ráveis aos seus produtos comerciais 
(genética, fármacos, insumos etc.), 
situação que pode seduzir inúmeros 
pesquisadores a trilhar a tênue fron-
teira entre manter uma conduta ética 
desejável ou obter recompensa finan-
ceira e promocional na condução da 
pesquisa, representando isto um sério 
conflito de interesses entre as suas 
responsabilidades institucionais e os 
seus interesses privados. 
rESPONSaBILIDaDE 
E CONDUta ÉtICa
 DO aUtOr
Dentre os compromissos éticos do 
autor com o seu trabalho, deve estar 
assegurado o bem-estar e o tratamen-
to humanitário dos seres humanos, 
animais de experimentação e a prote-
ção/segurança dos pesquisadores; por 
outro lado, isto também implica que 
estejam igualmente distribuídas na au-
toria da pesquisa as responsabilidades 
e tarefas com a redação e a editoração 
do manuscrito (Goldenberg, 2000). 
A autoria deve ser concedida apenas 
àqueles que contribuíram intelec-
tual e cientificamente, de maneira 
expressiva, na execução do trabalho 
(Goldenberg, 2000; Petroianu, 2000b; 
Callaham, 2003).
Infelizmente, esta situação não 
condiz com a realidade e por vezes 
ressalta um sério problema na atual 
conjuntura das publicações científicas 
– o crescente número de autores por 
artigo publicado, numa confusão entre 
a legítima co-autoria e os agradeci-
mentos por uma eventual colaboração. 
O critério mais razoável para se definir 
a autoria científica assume que o autor 
tenha condições de defender publica-
mente o trabalho no meio científico, 
além de ter participado de sua história 
(Volpato, 2004). Autores já sugeriram 
iniciativas conjuntas por parte de uni-
versidades, sociedades profissionais, 
pesquisadores renomados e revistas 
no sentido de promover práticas de 
boa autoria (Rennie, Yank, Emanuel, 
1997). Em países como o Canadá, a 
desonestidade quanto à autoria é con-
denável no mesmo artigo da lei que 
dispõe sobre fraudes, falsificações e 
plágio (Petroianu, 2000b). 
Tal fato vê-se agravado por outras 
condutas morais incompatíveis com 
a prática científica. A fabricação e a 
falsificação de dados representam, 
talvez, os mais óbvios exemplos de 
má-conduta científica. Neste último, 
vê-se o quanto nefasto é o seu impacto 
na ciência. Inicialmente, dilui a inte-
gridade de outras pesquisas, seja para 
o(s) autor(es) seja para pesquisadores 
que atuem na área; depois, a oculta-
ção, implica em dispêndio de tempo 
e energia de outros pesquisadores na 
tentativa de reproduzir ou construir 
com base no trabalho falsificado; e, 
por fim, põe em risco a confiança 
pública no empreendimento científico 
(Benos et al., 2005). Também o plágio 
éTICA NA PuBLICAçãO CIENTíFICA
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
– uso indevido de idéias, textos ou 
outra propriedade intelectual, sem 
autorização e apresentadas como 
sendo novas e originais e não de uma 
outra fonte (Callaham, 2003), atenta 
principalmente contra o leitor, mas, 
 também, contra o verdadeiro autor e 
a comunidade científica. Outros artifí-
cios anti-éticos usados pelo plagiador 
são as publicações redundantes, 
onde são adicionados dados ainda não 
publicados ou novos à publicação já 
existente, violando, dessa forma, os 
direitos autorais de outros autores; 
ou ainda as publicações duplicadas, 
onde se publicam artigos idênticos 
ou substancialmente compilados de 
outros já publicados em algum lugar, 
com ou sem agradecimentos (Benos 
et al., 2005). Por uma questão de 
prudência, entende-se que qualquer 
afirmação feita com alarde e/ou sem 
comprovação científica deve ser vista 
com reserva e forte senso crítico tanto 
pelos avaliadores quanto pela comu-
nidade científica. 
ÉtICa NO PrOCESSO 
DE aVaLIaçãO E 
 PUBLICaçãO DO 
 traBaLHO CIENtÍFICO
A necessidade em se organizar e 
selecionar o material a ser publicado 
fez surgir os principais atores do pro-
cesso de avaliação: o editor científico 
e os avaliadores (Pessanha, 1998). A 
publicação de artigos em periódicos 
envolve primeiramente os assessores e 
editores e, posteriormente, os leitores. 
Os editores, auxiliados por assessores, 
delimitam o que poderá ou não vir a 
ser conhecimento científico, ou seja, 
determinam o que é ou não publicável 
(Volpato, 2004). Contudo, o principal 
ator no processo decisório de publica-
ção é o editor, que deve considerar as 
opiniões, sugestões e comentários de 
cada revisor e combinar a contribui-
ção deles antes de tomar uma decisão 
(Shea e Caelleigh, 2001). 
Segundo Reis (2003), um artigo de 
pesquisa é a primeira publicação de 
resultados em um periódico ou outros 
documentos facilmente acessíveis à 
comunidade científica, constituindo-
se numa unidade de comunicação 
independente que permite a difusão 
dos resultados e seu arquivamento. Por 
esta razão, Volpato (2004) enfatizou 
que a publicação de um trabalho não 
representa a etapa final da atividade 
do pesquisador, mas é antecedente e 
imprescindível ao último estágio: a 
aceitação das conclusões pela comu-
nidade científica; daí a relevância da 
comunicação científica. 
Para que haja uma melhor com-
preensão acerca da imensa responsa-
bilidade que envolve a análise de um 
trabalho científico, deve-se aceitar que 
os principais elementos a serem con-
siderados na revisão são os seguintes: 
1) qualidade científica; 2) clareza e 
lógica na apresentação e 3) validade 
ética do estudo, o que divide esta 
tarefa em duas categorias principais: 
técnica e ética, com vistas a melhorar 
a qualidade do manuscrito e garantir 
que os dados relatados sejam fidedig-
nos (Benos, Kirk, Hall, 2003). 
O processo de avaliação da litera-
tura científica tem considerado, simul-
taneamente, a estrutura e o conteúdo 
do trabalho científico aliado à questão 
ética, como fruto da grande repetição 
de casos de fraude, plágio e outras 
condutas inadequadas na comunidade 
científica (Pessanha, 1998). Com base 
nesta constatação, este autor descre-
veu alguns tipos de conduta antiética 
no processo de produção e comunica-
ção da ciência (Quadro 1). 
Contudo, é preciso prudência e 
isenção na análise de uma situação de 
conflito neste campo, pois existe uma 
grande diferença entre erro e fraude. 
Interpretações inadequadas do traba-
lho realizado, devido ao envolvimento 
emocional, constituem um erro que, 
eventualmente, é passível de repres-
são. Entretanto, falsear resultados 
intencionalmente caracteriza fraude 
científica, o que é imoral e merece 
ser severa e exemplarmente punida 
(Petroianu, 2000a). Portanto, o rigor 
científico exige que se adote uma con-
Fonte: Pessanha (1998)
Quadro 1 - Tipos de conduta antiética e falsificação em publicações em publicações 
 científicas e técnicas
éTICA NA PuBLICAçãO CIENTíFICA
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
duta honesta, objetiva e íntegra como 
virtude essencial na condução, comu-
nicação e avaliação de uma pesquisa 
científica (Benos et al., 2005).
 Assim, como última instância 
para minimizar e/ou solucionar esses 
dilemas éticos, deve-se recorrer à 
adoção de normas jurídicas, éticas e 
merecedoras de amplo consenso, as 
quais representam um notável auxílio 
na prevenção de abusos, exageros, 
omissões e injustiças (Goldenberg, 
2000). Analisando-se a questão sob 
a ótica da Medicina Veterinária, é 
indispensável consagrar os preceitos 
contidos na Resolução CFMV nº 722, 
de 16/08/02 (Código de Ética do 
Médico Veterinário), em especial o 
que reza o artigo 29: “o médico veteri-
nário não pode publicar em seu nome 
trabalho científico do qual não tenha 
participado, e tampouco atribuir a si 
autoria exclusiva de trabalho realizado 
por seus subordinados ou por outros 
profissionais, mesmo quando execu-
tados sob sua orientação”. 
 
CONSIDEraçÕES 
BENOS, J. P.; KIRK, K. L.; HALL, J. E. How to 
review a paper. Advances in Physiology Education, 
v. 27, n. 2, p. 47-52, 2003.
BENOS, D. J.; FABRES, J.; FARMER, J. et al. 
Ethics and scientificpublication. Advances in 
Physiology Education, v. 29, p. 59-74, 2005. 
CALLAHAM, M. L. Journal policy on ethics 
in scientific publication. Annals of Emergency 
Medicine, v. 41, n. 1, p. 82-89, 2003. 
CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA 
VETERINÁRIA. Manual de legislação. Brasília: 
CFMV, 2002. 1v. (folhas soltas).
GOLDENBERG, S. Considerações éticas a respeito 
da publicação do trabalho científico. In: Ética, moral 
e deontologia médicas. Rio de Janeiro: Editora 
Guanabara Koogan, 2000. p. 205-207. 
MEADOWS, A. J. A comunicação científica. 
Brasília: Briquet de Lemos Livros, 1999. 268p.
PAIXÃO, R. L. Reflexões sobre a ética nas 
pesquisas envolvendo o uso de animais em cirurgia 
e anestesiologia veterinárias. Revista Brasileira 
de Ciências Veterinárias, Suplemento, v. 9, n. 1, 
p. 41-47, 2002. 
PESSANHA, C. Critérios editoriais de avaliação 
científica: notas para discussão. Ciência e 
REFERêNCIAS BIBLIOgRáFICAS
Informação, v. 27, n. 2, p. 226-229, 1998. 
PETROIANU, A. Elaboração de um trabalho 
científico. In: Ética, moral e deontologia médicas. 
Rio de Janeiro: Editora Guanabara Koogan, 2000a. 
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Ética, moral e deontologia médicas. Rio de 
Janeiro: Editora Guanabara Koogan, 2000b. p. 
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REIS, J. C. A pesquisa científica em ciência 
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pesquisa em ciência veterinária. Olinda: J.C.R., 
2003. p. 91-118.
RENNIE, D.; YANK, V.; EMANUEL, L. When 
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SHEA, J. A.; CAELLEIGH, A. S. Publication 
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TANNENBAUM, J. The veterinarian and animal 
research. In: Veterinary ethics. Chapter 23. 
Baltimore: Williams & Wilkins, 1995. p.312-341. 
FINaIS
Avaliar a produtividade científica 
de um pesquisador tendo como pa-
râmetro apenas o número de artigos 
publicados contribui para banalizar 
os resultados da pesquisa, além de 
escamotear do processo a indispen-
sável contribuição daqueles estudiosos 
que priorizam a condução de trabalhos 
de alta qualidade, em observância a 
preceitos técnicos e éticos. 
As questões de fraude cientí-
fica discutidas não apontam para 
éTICA NA PuBLICAçãO CIENTíFICA
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
PuBLICAçõES
Orientações da OMS/FAO/OIE para a Vigilância, 
Prevenção e Controle da Teníase / Cisticercose
WHO/FAO/OIE Guidelines for the Surveillance, Prevention and 
Control of Taeniosis/CysticercosisAutores: William J. Tranquilli / Kurt A. Grimm / Leigh A. Lamont
Na última década, o tratamento da dor surgiu como um assunto 
fundamental na Medicina Veterinária. Inserido na crescente im-
portância dada ao tema, o livro orienta o clínico no tratamento 
cotidiano da dor e do desconforto dos pacientes. A obra tem por 
objetivo fornecer ao clínico médico veterinário uma descrição 
das síndromes dolorosas comuns, bem como revisar as drogas e 
as técnicas usadas para tratar a dor e sugerir maneiras para tratar 
a dor decorrente de vários procedimentos cirúrgicos, traumatis-
mos e doenças. Por meio da aplicação dos conceitos e técnicas 
apresentados, os médicos veterinários se tornarão capazes de 
comunicar a importância do reconhecimento e do tratamento 
da dor para o proprietário do animal de estimação, enquanto 
proporcionam melhor terapia analgésica e cuidados compassivos 
a seus pacientes. São ao todo 130 páginas, agrupadas em seis 
seções (Terminologia, Fisiologia, Reconhecimento e Estratégias 
Clínicas para Tratamento da Dor; Drogas Analgésicas; Técnicas 
Analgésicas; Tratamento da Dor em Condições e Procedimentos 
Específicos; Tratamento da Dor Crônica em Cães e Gatos; e 
Implementação de Programa de Tratamento da Dor na Prática 
Clínica). Um apêndice sobre drogas e fontes, leituras recomen-
dadas e um índice remissivo completam a obra.
Tratamento da Dor para o Clínico de Pequenos 
Editora: Roca
Rua Dr. Cesário Mota Jr., 73
CEP: 01221-020 – São Paulo – SP
Tel: (11) 3331-4478 Fax: (11) 3331-8653
Site: www.editoraroca.com.br
E-mail: vendas@editoraroca.com.br
Editor: K. D. Murrell
Como no caso das demais zoonoses, o controle da teníase e da 
cisticercose requer uma intensa colaboração entre a Medicina 
Veterinária e os serviços médicos ligados à saúde pública, em 
nível nacional e internacional. A prioridade atual atribuída a estas 
zoonoses é devida ao seu impacto econômico e social, particular-
mente nos países menos desenvolvidos, ora agravado em algumas 
regiões da África.
O objetivo da publicação é assistir aos atores responsáveis pela pre-
venção e controle da teníase e da cisticercose. Com esta perspectiva, 
estas orientações foram preparadas e cooperativamente publicadas 
pela Organização Mundial de Saúde (OMS), Organização Mundial 
para a Saúde Animal (OIE) e pela Organização para a Alimenta-
ção e Agricultura (FAO). A obra auxilia na instrumentação para 
o planejamento, implementação e padronização das estratégias 
de controle para o enfrentamento das zoonoses. As orientações 
técnicas contidas buscam educar e organizar a vigilância e o 
controle das doenças parasitárias em todo o mundo.
A abordagem da publicação contempla os temas: etiologia; 
teníase em humanos; cisticercose em animais e humanos; bio-
logia e classificação; epidemiologia e distribuição geográfica; 
diagnóstico e tratamento em humanos; detecção em bovinos e 
suínos; e vigilância, prevenção, controle e métodos. O conteúdo 
é apresentado em 139 páginas e seis capítulos e engloba uma 
seção de referências bibliográficas. O livro representa uma 
compilação do conhecimento e da experiência de especialistas 
de reconhecimento internacional.
OIE (World Organization for Animal Health) 12, Rue de 
Prony, 75017 Paris, France
Tel.L 33-(0) 1 44 15 18 88 Fax: 33-(0) 1 42 67 09 87
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
PuBLICAçõES
Autores: Franklin Riet-Correa / Ana Lúcia Schild / Maria Del 
Carmen Méndez / Ricardo A. A. Lemos. 
“Doenças de Ruminantes e Eqüinos – Volumes 1 e 2” é uma 
obra didática destinada aos alunos de Curso de Medicina Ve-
terinária e aos Médicos Veterinários que atuam no campo. O 
livro foi escrito por 50 especialistas das diferentes áreas de 
conhecimento relacionado, vinculados a 19 universidades e 
instituições de pesquisa.
O objetivo da publicação é proporcionar informações objetivas 
e concisas, sem prejuízo do conteúdo, apresentando uma visão 
clara da etiologia, sintomatologia, epidemiologia, patogenia, 
tratamento e profilaxia das mais relevantes enfermidades dos 
herbívoros domésticos.
Ao longo de 999 páginas, a obra descreve os diferentes aspec-
tos das enfermidades infecciosas, parasitárias, metabólicas, 
carenciais e tóxicas, assim como das doenças da reprodução, 
de ruminantes e eqüinos no Brasil. 
Os assuntos foram distribuídos de forma racional na publica-
ção, que conta também com índice remissivo. Ao final de cada 
capítulo, o leitor encontra referências bibliográficas pertinentes 
e atualizadas para a obtenção de informações adicionais. O con-
teúdo é resultado de vários anos de trabalho dos especialistas 
em diagnóstico e investigação das enfermidades dos animais.
Doenças de Ruminantes e Eqüinos – Volumes 1 e 2 
2ª reimpressão
Varela Editora e Livraria LTDA.
Largo do Arouche, 396 – Conj. 45 – São Paulo – SP
CEP: 01219-010
Fone – Fax: (11) 3222-8622
www.varela.com.br
Atlas de Anatomia Aplicada dos Animais Domésticos 
2ª Edição Ampliada
Franz-Viktor Salomon / Hans Geyer (Editores)
O Instituto de Anatomia Veterinária da Universidade de Lípsia 
(Leipzig) possui tradição na utilização e nas atividades de ensino 
relacionadas a grandes animais preparados em pé. As aulas de 
anatomia empregam fotos de regiões dissecadas, nas quais o uso de 
marcações coloridas de estruturas são especialmente importantes.Essa forma de visualização une a realidade e a fidelidade dos 
detalhes da preparação original com as vantagens de desenhos 
complementares coloridos, produzidos à mão. 
O método empregado para a elaboração das imagens presentes no 
livro é o que se encontra descrito acima, o que reforça a exatidão 
das reproduções, complementadas por desenhos feitos à mão. 
A escolha das regiões nas ilustrações reflete especialmente os 
pontos-chave do diagnóstico e da terapia na prática clínica. O 
resultado intensifica o caráter didático da publicação.
Em 254 páginas e 120 ilustrações coloridas, este Atlas possibilita 
conhecimento para o estudo e exercício médico-veterinário.
Esta é a segunda edição da obra, que confere ênfase à anatomia 
dos membros do cão e do cavalo. Também foi incluída a base 
osteológica da ortopedia do cão, além de novas ilustrações que 
transmitem a base anatômica para variados procedimentos diag-
nósticos e terapêuticos. Diversas figuras foram substituídas por 
outras e mais novas e de melhor qualidade. A edição, no formato 
21 cm x 28 cm, conta com capa cartonada.
Editora Guanabara Koogan S.A.
Travessa do ouvidor, 11 – Rio de Janeiro – RJ
CEP: 20040-040
Tel.: (21) 3970-9480 /Fax: (21) 2221-3202
www.editoraguanabara.com.br
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junhojunhojunho
maiomaiomaio
zootec 2006
22 a 26 de Maio de 2006
Centro de Convenções de
Pernambuco – Recife-PE
Informações: (81)3320-6569 - zootec06@ufrpe.br
http://www.abz.org.br/zootec2006/
III coNERA - congresso Norte Nordeste de Reprodução 
Animal
6 a 9 de junho de 2006
Local: Belém - Pará
Informações: 
(91) 3210-5194 
http://www.terceiroconera.com
julhojulhojulho
43ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira de zoo-
tecnia
24 a 27 de julho de 2006
João Pessoal - PB
Informações:
www.sbz.org.br/ReuniaoA-
nual.htm
agostoagostoagosto
11º Congresso Mundial de Saúde Pública
8º Congresso Brasileiro de Saúde Pública
21 a 25 de agosto de 2006
Riocentro, Rua Salvador Allende 6.555 
Barra da Tijuca - Rio de Janeiro - RJ
Informações:
www.saudecoletiva2006.com.br
30th International conference on Animal genetics
20 a 25 de agosto de 2006
Porto Seguro - BA
Informações:
www.cbra.org.br/isag2006
VI conferência Sul-Americana de 
Medicina Veterinária
3 a 6 de Agosto de 2006
Rio de Janeiro – RJ
Informações: 
Tel: 55 (21) 3878-1610
3878-2777
www.abma.com.br
Ninth International Symposium on Equine 
Reproduction
6 a 11 de Agosto de 2006
Rolduc Monastery, Kerkrade – Holanda
Informações: Tel: +44 (0)1638 667600
E-mail:jan.wade@rw-communications.co.uk
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
AgENDA
novembronovembronovembro
14 Simposio Internacional y Congreso 
cojeras en rumiantes
8 a 11 de Novembro de 2006
Colonia do Sacramento – Uruguai
Inscrições : Plaza Independencia 759 
Montevideo - Uruguay
Informações: 00-598-2 9021413 
comercial@exito.com.uy
X congresso e XV Encontro da Associação Brasileira 
de Veterinários de Animais Selvagens
Data: 22 a 25 de novembro de 2006
Cidade de São Pedro / SP 
Hotel Fazenda Fonte Colina Verde 
www.hotelcolinaverde.com.br
Informações: info@abravas.org.br
XX congresso panamericano de ciências 
Veterinarias
13 a 16 de Novembro de 2006
Santiago del Chile
Informações: (56) 2274-2789
e-mail: info@panvet2006.cl
www.panvet2006.cl
XXIV World Buiatrics Congress
15 a 19 de outubro de 2006
Nice - France
Informações:
e-mail: wbc2006@nice-acropolis.com
www.nice-acropolis.com/wbc2006
outubrooutubrooutubro
I congresso Internacional de Bem-Estar Animal 
16 a 18 de outubro de 2006 
 Hotel Glória 
Rio de Janeiro/RJ
Informações: 
congressobea@wspabr.org 
pork Expo 2006 – III congresso Latino-Americano 
de Suinocultura
25 a 27 de outubro de 2006
Centro de Convenções 
Foz do Iguaçu – Paraná
Informações: 
Fone: 55 (19) 3888.2088
E-mail: info@porkexpo.com.br
www.porkexpo.com.br
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
OPINIãO
Aves migratórias realizam movimentos 
sazonais e periódicos associados à reprodução 
e à alimentação. A base genética e a memória, 
associadas à experiência individual são recur-
sos usados pelas aves para longas viagens. 
O sol, as estrelas e o magnetismo servem de 
orientação. Dentre os movimentos sazonais que 
ocorrem no Brasil, destacam-se as migrações 
do inverno do Norte (boreal) e do inverno do 
Sul (austral).
As aves que migram do inverno boreal 
como Calidris pusilla (maçarico) e Charadrius 
semipalmatus (batuíra), dentre outras, chegam 
ao Brasil geralmente em setembro através de 
quatro rotas: Amazônia Ocidental, Amazônia 
Oriental, Brasil Central e costa Atlântica, onde 
permanecem até o mês de abril. Nos meses de 
junho e julho muitas espécies estão em período 
reprodutivo no Ártico e somente indivíduos 
jovens e subadultos ou adultos que não comple-
mentaram o ciclo de mudas de penas, perma-
necem nas áreas de invernada até a próxima 
temporada de migração. Áreas de invernada 
são locais escolhidos pelas aves para pouso, ali-
mentação, mudas e ganho de peso. Os maiores 
bandos contados estão na costa Norte e Sul do 
Brasil, ao contrário da costa Nordeste e Leste. 
As áreas que mais apresentam informações pu-
blicadas são: litoral do Maranhão, Rio Grande 
do Norte, Pernambuco, Bahia e Rio Grande do 
Sul, onde o esforço de monitoramento de aves 
migratórias deve ser concentrado, facilitando, 
assim, a discussão dos dados obtidos.
Nas migrações do inverno austral, várias 
espécies da Argentina, Chile e Uruguai chegam 
ao Sul, Sudeste e em alguns casos ao Centro 
Oeste do Brasil. O marrecão (Netta peposaca) 
é um exemplo de recurso cinegético que chega 
ao Brasil oriundo da Argentina. No Parque 
Nacional da Lagoa do Peixe, no Rio Grande 
do Sul, em março, essas populações entram 
em contato com aquelas oriundas do Inverno 
do Norte, assim, até o mês de abril, as aves 
migratórias do Norte convivem em áreas de 
invernada com espécies do Sul, retornando, em 
seguida, às suas áreas reprodutivas.
Deslocamentos esporádicos e não sazonais 
também ocorrem no Brasil, sobretudo, originá-
rios da África, Espanha Meridional e Europa 
Ocidental, sendo observados em indivíduos 
jovens em processo de aprendizagem de rotas 
migratórias, em espécies marinhas e costeiras 
(Calonectris diomedea) que se reproduzem 
nos arquipélagos da Madeira e de Açores e 
outras espécies colonizadoras, a exemplo da 
garça-vaqueira (Bubulcus íbis).
Constantes reduções de áreas naturais favo-
recem a colonização de ambientes antrópicos, 
onde espécies silvestres interagem com espé-
cies domésticas, e aumentam a possibilidade do 
aparecimento de epidemias de difícil controle 
e geralmente resultantes do desequilíbrio am-
biental. As aves sempre foram reservatórios 
naturais de algumas viroses, porém, novas 
cepas de vírus tem surgido, algumas letais para 
o homem, como no caso da influenza aviária 
(H5 N1).
Inquéritos sorológicos feitos no Rio 
Grande do Norte, Rio Grande do Sul e Bahia 
registraram o vírus da influenza de baixa 
patogenicidade (H2, H3 e H4) e a presença 
do vírus da doença de newcastle, sobretudo 
em aves neárticas. No Rio Grande do Norte, 
uma espécie residente de rolinha (Columbina 
minuta), capturada no mesmo sítio migratório 
das espécies neárticas, apresentou positividade 
para a influenza (H3).
Aves migratórias e residentes infectadas 
com o vírus na mesma localidade indica que 
espécies migratórias infectadas podem transmi-
tir o vírus da influenza para espécies residentes 
e, essas a outras espécies, que chegam aos 
aviários e contaminam a avicultura. 
Informações sobre o vírus H5 N1 demons-
tram que patos, gansos e cisnes são reservatórios 
que vêm contaminando a Ásia, Europa e parte 
da África. É verdadeiro afirmar que não ocorre 
migração direta das áreas infectadas para o Brasil. 
Porém, na costa brasileira há registros de deslo-
camentos esporádicos de aves oriundas da África 
e da Europa Ocidental, devendo merecer atenção 
especialpor parte das autoridades competentes.
Visto que o Brasil possui mais de 1980 
espécies de aves e que o estado da arte da or-
nitologia aplicada, associada à epidemiologia, 
está dando os primeiros passos, sugere-se 
critérios para monitorar aves com potencial 
de transmissão da influenza: 1. espécies de 
patos, gansos e cisnes migratórios (anatídeos), 
citadas como reservatórios naturais do vírus da 
influenza de alta patogenicidade; 2. espécies 
originárias do Hemisfério Norte (maçaricos, 
batuíras e trinta-réis), que migram para o Brasil 
e apresentam várias áreas de pouso, alimenta-
ção, ganho de peso e troca de plumagem, cujos 
resultados laboratoriais foram positivas para 
influenza, independente da patogenicidade; 3. 
espécies migratórias com colônias de repro-
dução no Brasil (trinta-réis) cujos resultados 
foram positivos para influenza, independente 
da patogenicidade; 4. espécies que visitam os 
aviários para alimentação e pouso (pardais e 
outros); 5. espécie colonizadora de reprodução 
colonial (garça-vaqueira), abundante em áreas 
antrópicas que utilizam vegetação do entorno 
de alagados para pernoite e reprodução e 6. 
espécies migratórias potencialmente pragas de 
grãos (milho, sorgo e soja) com ampla distri-
buição no Brasil (avoantes e arribaçã).
Deslocamentos esporádicos da África e 
algumas partes da Europa representam grande 
risco de contaminação, mesmo considerando 
que as espécies registradas até o momento na 
costa brasileira não são aquelas tidas como 
reservatórios naturais do vírus. Considerando 
a hipótese da transmissão em cadeia, as aves 
mortas ao longo da costa brasileira, entre abril/
maio e até julho/agosto, devem ser recolhidas 
pelas autoridades sanitárias para o controle da 
doença, visto que a manipulação desse mate-
rial por pessoas leigas constitui um sério risco 
para a saúde pública. Dessa forma, a influenza 
aviária poderá chegar ao Brasil através da 
contaminação de aves desde a África e Europa 
Ocidental, regiões recentemente contaminadas 
com o vírus H5 N1.
Aves migratórias e a Influenza Aviária no Brasil
Severino Mendes de Azevedo Júnior 
Médico Veterinário, CRMV-PE nº 1348, Dr., 
 Professor Adjunto e Diretor do Departamento de 
Biologia da UFRPE e Professor do Mestrado de 
Biologia Animal da UFPE. 
E-mail: smaj@ufrpe.br 
CFMV
SIA - Trecho 6 - Lote 130 e 140 Brasília-DF – Cep: 71205-060
Fone: (61) 2106-0400 - Fax: (61) 2106-0444 E-mail: cfmv@cfmv.org.br - www.cfmv.org.br 
	01.pdf
	02.pdf
	03.pdf

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