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ISSN 1517-6959
Ano 12
Nº 37
Janeiro/Fevereiro
Março/Abril
2006
R$ 5,00
Influenza Aviária:
Novo desafio para a Medicina Veterinária
Questões éticas relacionadas com
a publicação científica pág. 71
A Revista CFMV é editada quadrimestralmente pelo
Conselho Federal de Medicina Veterinária
e destina-se à divulgação de trabalhos técnico-científicos
(revisões, artigos de educação continuada, artigos originais)
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Revista CFMV. – v. 1, n.1 (1995) –
Brasília: Conselho Federal de Medicina Veterinária,
1995 –
Quadrimestral
ISSN 1517 – 6959
1. Medicina Veterinária – Brasil – Periódicos.
I. Conselho Federal de Medicina Veterinária.
AGRIS L70
CDU 619(81)(05)
ENTREVISTA 3
10
12
19
66
72
BEM-ESTAR ANIMAL
puBLIcAçõES 76
AgENdA 78
opINIão 80
Professora Maria das Dores Correia Palha
I Congresso Nacional de Saúde Pública Veterinária
Diagnóstico das fases do Ciclo estral através da citologia vaginal em cadelas
apreendidas pelo Centro de Vigilância Ambiental da Cidade do Recife-PE
Acrobustite bovina: Revisão de literatura
Ceratite ulcerativa por Pseudomonas Aeruginosa no cavalo - revisão
As múltiplas faces e desafios de uma profissão chamada Medicina Veterinária
Dirofilariose canina: Situação atual no Brasil
A crueldade com animais: como identificar seus sinais?
O Médico Veterinário e a prevenção da violência doméstica
Questões éticas relacionadas com a publicação científica
Tratamento da Dor para o Clínico de Pequenos Animais
Orientações da OMS/FAO/OIE para a Vigilância, Prevenção e Controle da Tenía-
se/Cisticercose
Doenças de Ruminantes e Eqüinos - Volumes 1 e 2
Atlas de Anatomia Aplicada dos Animais Domésticos
Prêmio Paulo Dacorso Filho
SupLEMENTo TécNIco
pREMIAção
ENSINo MédIco-VETERINá-
14
XV Seminário Nacional de Ensino da Medicina Veterinária
SAúdE púBLIcA VETERINá-
Influenza Aviária: E agora?
15INfLuENzA AVIáRIA
Aves migratórias e a Influenza Aviária no Brasil
éTIcA NA puBLIcAção cIENTífIcA
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
EDITORIAL
Ano XII – N° 37
Janeiro a Abril de 2006
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VETERINÁRIA
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Nos últimos anos, a Revista CFMV tem contemplado uma política editorial
voltada para a discussão de temas de grande relevância para o aperfeiçoa-
mento técnico-profissional da Medicina Veterinária e da Zootecnia.
Nesta nova fase da publicação, busca-se ampliar as reflexões profissio-
nais relacionadas com as diferentes problemáticas no âmbito da Medicina
Veterinária e da Zootecnia. São temas relacionados à pecuária nacional
e à sociedade em geral, a exemplo das questões sanitárias dos rebanhos, do
bem-estar animal e da biodiversidade, além da sustentabilidade dos diferentes
ecossistemas brasileiros.
Sintonizado com os anseios dos múltiplos atores sociais, o CFMV vem priorizando
o debate acerca da humanização da ciência. Esse estímulo é proporcionado por
meio da sensibilização de professores, pesquisadores, estudantes e de outros
profissionais e instituições públicas, para a questão crucial da ética. Essa diretriz
primordial deve ser analisada e discutida tanto na docência, pesquisa, saúde
pública e produção animal, quanto em relação aos animais de companhia, na
luta em defesa da implementação de normativas específicas no âmbito gover-
namental e das entidades de especialistas.
Ocupam destaque nesta edição, matérias de grande interesse nacional, como
o Projeto Biofauna e a Influenza Aviária, dentre outras, que possibilitam uma
melhor compreensão e maior participação no debate em prol dos interesses
nacionais.
Sob esta ótica, os novos gestores do CFMV e desta publicação conti-nuam
convocando os colegas a contribuírem com artigos, sugestões e críticas cons-
trutivas, no sentido de consolidar ainda mais o edificante e meritório trabalho
dos médicos veterinários e zootecnistas brasileiros.
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
ENTREVISTA
Tida como um santuário
ecológico da humanidade,
a Amazônia abriga em seu
notável ecossistema uma
diversidade fabulosa de
espécimes animais e vege-
tais, muitos dos quais amea-
çados de extinção pela
ação predatória de des-
bravadores inescrupulosos
ou do rentável negócio da
biopirataria internacional.
Neste cenário ameaçador
para as futuras gerações
dos povos amazônicos,
surge a figura singular da
médica veterinária Maria
das Dores Correia Palha,
uma dedicada e competen-
te professora da Universi-
dade Federal Rural da Amazônia (UFRA), em Belém,
no Pará, cujo trabalho a frente da equipe do Projeto
Biofauna tem chamado a atenção de autoridades, pes-
quisadores, ambientalistas e estudantes, bem como de
organismos nacionais e estrangeiros cuja preocupação
está voltada para a preservação da fauna, da flora e
do meio ambiente.
A nossa entrevistada possui uma formação sólida e ec-
lética no campo da ciência veterinária, visto que após
sua diplomação em Medicina Veterinária pela UFRPE
(1982), no Recife, mudou-se para a capital alagoana,
onde atuou junto a Secretaria de Agricultura e a Empresa
de Pesquisa Agropecuária de Alagoas (EPEAL). (1982-
1989) e posteriormente, ingressou como Professora
Assistente na Universidade Federal de Alagoas (UFAL),
onde permaneceu até 1993, sempre trabalhando na área
de Reprodução Animal. A partir de 1994, possivelmente
movida pelo desafio de pesquisar a rica fauna da Região
Amazônica, transferiu-se para Belém-PA, ingressando
na Faculdade de Ciências Agrárias do Pará (FCAP),
depois transformada em Universidade Federal Rural
Professora Maria das Dores Correia Palha
da Amazônia (UFRA), onde
permanece até o presente
momento. Para galgar uma
merecida posição de desta-
que na vida acadêmica, con-
cluiu o mestrado em Medi-
cina Veterinária na UFRPE
(1992) e o doutorado em Ci-
ências Biológicas na UFPE
(1999), este último voltado
para uma espécie silvestre,
visto que a sua tese versou
sobre “Jacaretinga (Caiman
crocodilus crocodilus), em
cativeiro – aspectos biológi-
cos e reprodutivos”. Como
uma pesquisadora diligente
nesta nova especialidade, em
2001 participou do I Curso
Internacional em Medicina
da Conservação, promovido pelo Instituto de Projetos e
PesquisasEcológicas (IPE) o que tem servido de escopo
para estabelecer as linhas de pesquisa “Conservação
de animais silvestres, produção de animais silvestres e
recursos faunísticos”.
Para coroar a sua intensa atividade de pesquisa, a Profa.
Maria das Dores vem participando desde 1994, junto
com uma eficiente equipe de pesquisadores e estudantes,
do Projeto Biofauna – Biologia geral e reprodutiva na
conservação e produção de animais silvestres da Ama-
zônia, o qual tem possibilitado uma melhor compreensão
do delicado ecossistema da Região, o treinamento de
profissionais e estudantes universitários, particular-
mente de Medicina Veterinária, e a produção de uma
vasta e atualizada literatura científica. Em conexão com
isto, a nossa entrevistada foi co-autora do livro “Biblio-
grafia sobre animais silvestres da Amazônia” e autora
principal de capítulo de livro intitulado “Levantamento
da fauna silvestre em duas comunidades de várzea da
Amazônia Oriental”. Mas o grande destaque de seu
incansável trabalho acadêmico está concentrado na
Avanços Científicos em Defesa
da Fauna Amazônica
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
ENTREVISTA
formação de jovens pesquisadores, através do Pro-
grama de Iniciação Científica da UFRA/CNPq, onde
já orientou 26 projetos de pesquisa de estudantes de
graduação e 17 estágios supervisionados obrigatórios
e outras orientações de formandos e profissionais.
Comprometida com a carreira universitária e com a
profissão, a Profa. Maria das Dores tem participado
de inúmeras bancas de pós-graduação, em nível de
mestrado, exame de qualificação e doutorado e atuado
como consultora (ad hoc), na análise de vários projetos
de pesquisa. Coordenou, também, o curso de especiali-
zação em “Manejo para a conservação e produção de
animais silvestres”. Expressiva tem sido ainda a sua
participação em congressos brasileiros de Medicina
Veterinária, de Ecologia, de Iniciação Científica e da
Sociedade de Zoológicos do Brasil e internacionais, com
destaque para o IV e V Congresso Internacional sobre
Manejo da Fauna en Amazonia e Latinoamerica, em
Assunção – Paraguai (1999) e Cartagena – Colômbia
(2001), respectivamente.
Dessa forma, tendo como respaldo os indicadores de pro-
dução científica e a visão holística da Profa. Maria das
Dores acerca da problemática que envolve o ecossistema
amazônico, estamos confiantes de que o seu edificante
trabalho profissional, pautado em princípios éticos e hu-
manísticos, em muito contribuirá para o desenvolvimento
sustentável da Amazônia.
Inicialmente, gostaríamos de
saber como surgiu o Projeto Bio-
Fauna e quais os seus principais
objetivos no contexto da Região
Amazônica?
Profª. Maria das Dores Correia
- O Projeto Bio-Fauna surgiu em
1994, após rodada de reuniões
com pesquisadores e profissionais
atuantes na área animal, sobre as
possibilidades de desenvolvermos
um projeto integrado de pesquisa.
Recém-chegada à região, após ex-
periências profissionais no Nordeste
e Sul do Brasil, com ênfase em re-
produção biotecnológica, optamos
pelo tema dos animais silvestres por
entender que havia uma lacuna na
Universidade Federal Rural da Ama-
zônia, então Faculdade de Ciências
Agrárias do Pará (FCAP). Aliás, é
bom frisar que adotamos comumente
o termo animais “silvestres”, ao
invés de “selvagens”, tecnicamente
mais apropriado, em função de ser
utilizado na legislação ambiental
brasileira e mais aceito por parte
dos interlocutores leigos. Não havia
uma rotina de trabalho e as expe-
riências prévias, além de escassas,
tinham caráter pontual. Em nossa
avaliação, atuar nesta temática seria
imprescindível, por ser a UFRA uma
instituição comprometida com a di-
mensão ecológica e socioeconômica
da região. Além disso, constatamos
que Belém apresentava condições
bastante favoráveis em seu cenário
institucional em C&T, para apoio
ao trabalho com animais silvestres,
propícias a um projeto integrado.
Em relação aos objetivos, aconte-
ceu um fato interessante. Inicial-
mente, sob influência da formação
biotecnológica, nossa idéia era de
um projeto do tipo “Arca de Noé”,
aonde pudéssemos colocar a fauna
amazônica (células somáticas, ga-
metas e embriões), em um botijão de
nitrogênio líquido. Nossas primei-
ras incursões foram neste sentido,
incluindo primatas não-humanos.
Posteriormente, fizemos uma ava-
liação e verificamos que havia tantas
lacunas em termos de pessoal, infra-
estrutura, integração institucional
e de conhecimentos básicos sobre
as espécies, que dificultavam um
trabalho dinâmico e de cunho mais
aplicado. Para se ter uma idéia, na-
quela época, apenas engatinhávamos
nas colheitas de sêmen em primatas,
enquanto diversos laboratórios em
países desenvolvidos já dominavam
há anos (e continuam dominando) o
conhecimento sobre aspectos avan-
çados da reprodução biotecnológica
de nossas espécies, especialmente
aquelas de interesse biomédico.
Refletimos sobre a validade de fazer
pesquisas extremamente básicas
naquelas condições e resolvemos rea-
dequar o projeto atuando em áreas
mais aplicadas nos âmbitos bioló-
gico e socioeconômico, de maior
adequação à realidade local. Me
pergunto se essa correção de rumos
é um exercício crítico comum aos
nossos grupos de pesquisa.
Quais as principais linhas temáti-
cas desenvolvidas pelo Bio-Fauna?
Que tipo de cooperação técnica o
Projeto mantêm na atualidade?
Profª. Maria das Dores Correia
- Atuamos em três grandes áreas de
pesquisa relacionadas aos recursos
faunísticos: os estudos básicos (ge-
rais e reprodutivos), a conservação
e o aproveitamento em bases susten-
táveis. Atualmente desenvolvemos
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
ENTREVISTA
projetos envolvendo educação (am-
biental e científica, com enfoque em
recursos faunísticos) e aspectos bio-
lógicos e econômicos de quelônios
em cativeiro (muçuãs – Kinosternon
scorpioides e tartaruga-da-Amazô-
nia – Podocnemis expansa), com
interface com a vida livre, além de
abrigarmos um estudo sobre doenças
infecciosas em carnívoros. Afora a
pesquisa, prestamos serviços insti-
tucionais diversos (com ênfase na
qualificação de pessoal externo) e
atuamos no ensino formal de gradu-
ação e pós-graduação. Temos vários
parceiros, formais e informais, em
especial com atuação acadêmica-
científica, e em instâncias variadas,
visando a conservação ambiental, o
combate ao tráfico, a proteção e o
bem-estar da fauna silvestre. Dentre
alguns parceiros governamentais
destacamos as Secretarias Estadual
e Municipal de Meio Ambiente; a
Secretaria Estadual de Transpor-
tes; as Polícias Ambiental, Civil
e Militar; o Corpo de Bombeiros;
o Exército brasileiro; o Banco da
Amazônia (BASA); a Embrapa e
o Museu Paraense Emílio Goeldi,
além de diversas Universidades e
do Ibama. Na esfera privada, temos
experimentado parcerias com em-
presas (Celpa, Supermercados Líder,
Eletronorte, Fazenda Inhamuns, etc.)
e ONGs, entre as quais Instituto So-
cioambiental do Amapá (IESA-AP),
Novos Curupiras, Rede Nacional
de Combate ao Tráfico de Animais
Silvestres (RENCTAS-DF), Instituto
Milton Thiago de Mello (IMTM-
DF), Humane Society International
(HSI-USA), entre outras.
Considerando sua posição de co-
ordenadora do Bio-Fauna, bem
como sua formação profissional,
como tem sido a atuação de sua
equipe na Medicina da Conser-
vação?
Profª. Maria das Dores Correia
- Desde o início de 2001, temos
participado de eventos e fóruns de
debates sobre a temática. Fizemos
diversos esforços no sentido de
viabilizar projetos de capacitação e
de pesquisa, tendo parcerias como a
Universidade de Illinois, USA, mas
esbarramos na dificuldade de capta-
ção de recursos e em outros entraves.
Na prática, além da oferta de cursos
de extensão e da inclusão do tema
nas disciplinas sob nossa responsabi-
lidade, abrigamos uma pesquisa em
andamento sobre doenças em carní-
voros silvestres e sua relaçãocom os
demais animais (domésticos ou não)
e o homem. Vale enfatizar ainda que
o nosso serviço de reabilitação clíni-
ca, o SOS Fauna, foi concebido para
ser uma ferramenta importante para
estudos das doenças dos animais
silvestres e suas interfaces com os
demais grupos animais e o homem.
No entanto, somos poucos e neces-
sitamos ampliar a infra-estrutura
material e humana, especialmente no
tocante ao apoio diagnóstico. Faz-
se necessária uma ampla discussão
interinstitucional para que se reúnam
as competências locais à serviço de
trabalhos voltados à saúde na Ama-
zônia, considerando os amplos con-
textos de saúde: humana, animal e
ambiental. Também temos realizado
estudos sobre indicadores de susten-
tabilidade para comunidades ribeiri-
nhas da Amazônia, em parceria com
o Projeto Várzea – ISARH/UFRA,
que abrangem aspectos de saúde
e qualidade de vida, relevantes ao
tema da Medicina da Conservação.
Recentemente, mediante parceria
UFRA-UFF-FIOCRUZ, reforça-
mos nosso quadro de pessoal e de
possibilidades nesta área. Estamos
discutindo a integração dos esfor-
ços de pesquisas que realizamos
na UFRA, sobre indicadores de
sustentabilidade global no contexto
amazônico, aos trabalhos da Fiocruz
sobre vulnerabilidade aos riscos
ambientais. As iniciativas mencio-
nadas são ainda bastante tímidas,
mas há que se admitir que o estudo
efetivo das interações complexas de
distintos componentes dos sistemas
ecológicos, requer o estabelecimento
de parcerias interinstitucionais, com
o aproveitamento da excelência em
termos da infra-estrutura material e
pessoal. Nesta questão, a formação
de equipes multidisciplinares de alto
nível, integradas para o exercício
transdisciplinar, conforme os desa-
fios da Medicina da Conservação,
demanda tempo e investimento
financeiro para sua constituição e
consolidação. Uma das primeiras
ações, fruto deste convênio, deverá
ser um seminário sobre transdisci-
plinaridade na UFRA, considerando
que entre nós os departamentos aca-
dêmicos desapareceram dando lugar
aos institutos temáticos.
Sendo o Bio-Fauna um projeto
estratégico da uFRA, como a Sra.
avalia o impacto deste na formação
multidisciplinar de estudantes de
graduação e de pós-graduação?
Profª. Maria das Dores Correia
- Temos a satisfação de observar
que os estudantes e profissionais que
transitam em nosso projeto adquirem
um treinamento diferenciado em sua
capacidade de leitura do ambiente
(em seus distintos contextos) e na
resolução de problemas. Prezamos
pela excelência das especialidades
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ENTREVISTA
técnicas abraçadas por cada um,
mas nossa rotina faz com que,
adicionalmente, tenham contato
com uma variedade de desafios e
experiências que os enriquecem
dia-a-dia, contribuindo para uma
visão mais sistêmica. É comum ver
os Médicos Veterinários apoiando
trabalhos de levantamentos florís-
ticos e os Engenheiros Florestais
auxiliando os estudos da fauna. E
ambos participando da capacitação
de professores de ensino médio e
profissionalizante, por exemplo. Um
dos principais pontos que valoriza
a formação de nosso pessoal é que
somos desafiados rotineiramente à
resolução de problemas e tal reso-
lução, não demanda meramente um
exercício pessoal e solitário. Ao
contrário, nos motiva a comparti-
lhar curiosidades e conhecimentos,
procurando identificar parceiros
que nos apóiem, embora ainda seja-
mos poucos. Para muitos alunos, eu
diria até que para muitos de nossos
colegas professores, ainda é difícil
entender seus papéis como poten-
ciais transformadores da realidade
local. A UFRA forma profissionais
para os mais diversos rincões da
Amazônia, é pois, fundamental que
os professores, em suas disciplinas
e projetos, conheçam e reconheçam
essa dimensão e a missão institu-
cional. A extensa rotina do projeto,
com interlocutores diversos e em
situações variadas, sejam reuniões,
debates, viagens, trabalhos práticos,
entre outros, se torna um exercício
de relações interpessoais e inte-
rinstitucionais que contribui para
a formação dos que transitam no
Bio-Fauna. Temos tido oportunida-
des de testemunhar manifestações
idealistas e éticas, ao ponto de que
recém-graduados que transitaram no
Projeto, chegaram a recusar propos-
tas de trabalho por não concordarem
com o estilo de gestão ou a filosofia
do empregador. Isso aponta para um
idealismo incomum em nosso país,
nos dias atuais.
Como tem sido a integração da
equipe do Bio-Fauna junto às
comunidades da região amazô-
nica? Qual a contribuição do
Projeto para o desenvolvimento
sustentável da Região?
Profª. Maria das Dores Correia
- Essa vivência tem permitido con-
tato com comunidades rurais, espe-
cialmente extrativistas ribeirinhos,
em ações integradas com o Projeto
Várzea, da UFRA. Finalizamos
alguns anos atrás, estudos na área
do estuário amazônico, trabalhando
com comunidades representativas
do ecossistema de várzeas flúvio-
marinhas, ou seja, que têm influência
direta das marés. Além disso, temos
feito diversas viagens para cursos de
capacitação e realização de estudos
de campo. Com isto, favorecemos
aos nossos estudantes possibilidades
de imersão na realidade amazôni-
ca. Recentemente, concluímos um
estudo pioneiro na região sobre o
impacto na fauna e na flora de uma
estrada que cortou uma extensa área
florestal de relevância ecológica es-
tratégica. Lideramos os estudos que
contou com profissionais de diversas
áreas (Engenheiros Agrônomos,
Engenheiros Florestais, Médicos
Veterinários, Biólogos etc.). Por
quase um ano, realizamos estudos
in-situ que implicaram também em
uma abordagem comunitária, para
avaliar os reflexos dos impactos
da estrada sobre as comunidades.
Agora, por exemplo, uma de nossas
bolsistas, concluinte do curso de
Medicina Veterinária, encontra-se
ministrando um treinamento sobre
prevenção de acidentes ofídicos
destinado a mulheres extrativistas,
que foi requisitado por uma As-
sociação Comunitária do Marajó,
por intermédio da ONG Novos
Curupiras. Todas estas experiências
nos permitem conhecer melhor as
relações homem-fauna-ecossistema
e entender o uso da fauna e suas im-
plicações ecológicas-econômicas e
socio-culturais. Também nos ajudam
a perceber e valorizar a sabedoria
popular, coisa bastante alijada da
realidade acadêmica, pela postura
extremamente meritocrática e orto-
doxa das Universidades brasileiras.
Do ponto de vista das comunidades
urbanas, temos vivenciado contatos
diversos. No ano passado, iniciamos
um projeto em parceria com a Escola
de Ensino Fundamental e Médio Vir-
gílio Libonati, da Secretaria Estadual
de Educação, localizada no campus-
sede da UFRA, e cujos alunos são
extremamente carentes. Um de nos-
sos primeiros trabalhos foi o levanta-
mento socioeconômico das famílias
dos alunos. As atividades práticas,
incluindo o processamento de dados,
Todas estas experiências
nos permitem conhe-
cer melhor as relações
homem-fauna-ecossiste-
ma e entender o uso da
fauna e suas implicações
ecológicas-econômicas e
socio-culturais.
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foram realizadas por estudantes do
Curso de Medicina Veterinária, que
se inteiraram da realidade e ficaram
mais motivados pelo trabalho. Fica
difícil entender como uma escola
localizada dentro do Campus, que
inclusive é rota de passagem de
todos, professores, pessoal técnico-
administrativo e estudantes, esteja
fora da rotina da Universidade. O
projeto que desenvolvemos de edu-
cação ambiental e cidadã é uma das
poucas iniciativas de aproximação
da UFRA com a referida escola. Por
outro lado, o serviço de reabilitação
clínica de animais silvestres, o SOS
Fauna, inaugurado em 2002, implica
em contatos eventuais com pessoas
da comunidade. É comum animais
mutilados serem alvo da sensibili-
dade das pessoas que os apanham
e os encaminham ao nosso serviço.
Treinamosnosso pessoal não so-
mente a dar atenção aos animais em
sofrimento, mas para conversar com
as pessoas buscando conscientizá-
las para a causa ambiental. Explica-
mos detalhadamente o porquê dos
animais ficarem vulneráveis, numa
cidade onde as áreas verdes estão
desaparecendo e os impactos nega-
tivos sobre a fauna silvestre se mul-
tiplicam. Explicamos, por exemplo,
como o impacto dos fogos de artifí-
cio, comuns durante jogos de fute-
bol, festas religiosas, comícios etc.,
desnorteia os animais, especialmente
as aves, tornando-as alvos fáceis de
pedradas, tiros e outras agressões. É
gratificante ouvir de muitos deles:
“Eu nunca havia pensado nisso!”.
Nesta hora a gente sabe que ganhou
um parceiro. No caso de pessoas que
praticam a manutenção domiciliar
ilegal, ainda muito comum em nossa
região, temos que explicar que, após
a reabilitação, o animal será enca-
minhado para destinação mediante
intervenção de um órgão ambiental.
Nossa interação com as comunida-
des, seja nos trabalhos de campo ou
na prestação de serviços ao público,
ajuda na compreensão da realidade
local e ressalta o papel institucional
e de cada um de nós, pesquisadores
e técnicos, em contribuir para me-
lhorar nossa realidade.
Como o Bio-Fauna tem contri-
buído no combate ao tráfico de
animais silvestres e na defesa da
biodiversidade? Neste contexto,
comente a importância do SOS
Fauna.
Profª. Maria das Dores Correia
- De várias maneiras. Temos diver-
sos parceiros e atuamos em coope-
ração. Participamos de campanhas
de conscientização, programas de
educação ambiental, redes de discus-
são, capacitação de pessoal, além de
realizarmos e apoiarmos pesquisas
nesse tema. Vale destacar o apoio ao
trabalho desenvolvido pela RENC-
TAS, em nível nacional e interna-
cional, e por outras ONGs, além
das iniciativas de nossos parceiros
governamentais. Por exemplo, as
Polícias civil e militar e o Corpo de
Bombeiros demandam nosso apoio
para suas campanhas educativas e
para o treinamento de seus efetivos.
É gratificante acompanhar nossos
estudantes engajados nestes traba-
lhos, sejam em praças, aeroportos,
escolas etc. Outra iniciativa de
destaque é o Fórum Fauna – Fórum
Permanente de Discussão sobre
Fauna Selvagem no Pará, criado em
2002, que congrega mais de uma
centena de voluntários atuantes na
proteção e conservação da fauna.
Três grandes problemas prioritários
foram estabelecidos pelo Fórum: a
viabilização do CETAS-Belém e de
um Serviço Integrado de Documen-
tação e Informação e a capacitação
de pessoal. Várias ações foram
realizadas em caráter voluntário.
Consideramos, por exemplo, que o
nosso serviço de reabilitação clínica
(SOS Fauna) deva ser ampliado em
suas potencialidades e integrado a
uma estrutura maior, que envolva a
reabilitação ecológica, possibilitan-
do condições de sobrevivência do
animal em vida livre, a depender da
situação. Para isso, temos que viabi-
lizar o CETAS-Belém, há muito uma
bandeira defendida pelo Bio-Fauna.
No entanto, esta é uma questão deli-
cada, pois embora no discurso todos
queiram o CETAS, na prática quem
quer arcar com a responsabilidade
técnica e, especialmente, financeira?
Este esforço, se tem pouco mérito
ecológico direto, tem uma capaci-
dade impressionante de sensibilizar
as pessoas, tanto que a reabilitação
clínica é a ação do Bio-Fauna que
mais tem tido divulgação na mídia
e repercussão na comunidade leiga.
Este efeito deve ser usado em prol
da conscientização sobre a conserva-
ção dos recursos faunísticos, sendo
imprescindível que o SOS Fauna ou
serviços semelhantes sejam mobili-
ENTREVISTA
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
zados na educação ambiental. Outro
aspecto de muita importância é a
contribuição do SOS Fauna na capa-
citação de pessoal. Nossos relatórios
demonstram a grande mobilização
de interessados das mais diversas
áreas, especialmente de Medicina
Veterinária, Biologia e Direito Am-
biental. Talvez o Bio-Fauna seja
o único projeto da área animal
da UFRA a receber estudantes de
fora do estado, inclusive de outros
países. Desde sua inauguração, em
2002, tivemos 38 orientações de es-
tagiários locais e sete de estagiários
procedentes de outros Estados ou do
exterior; 9 orientações de TCC/ECC
(locais, outros Estados e exterior); 9
orientações de bolsistas Pibic/CNPq;
3 orientações de estudantes de pós-
graduação; 4 contratações de pesqui-
sadores (bolsistas do projeto); além
de 77 visitas recebidas (individuais
ou delegações). Estes números são
bastante expressivos para nossas
condições e mostram o esforço e a
repercussão do trabalho. No entanto,
nem tudo são flores, temos uma série
de problemas a tratar, desde a grande
burocracia legal às vaidades pesso-
ais e institucionais, passando pelas
fragilidades inerentes ao nosso meio,
por exemplo, a carência de profissio-
nais especializados para suporte às
diversas demandas técnicas e tecno-
lógicas deste trabalho. Hoje, grande
parte de nosso tempo tem sido gasto
nestes entraves, o que efetivamente
compromete nosso rendimento.
Praticamente não temos conseguido
acesso a mecanismos para fixar e
apoiar a qualificação do pessoal que
nós treinamos e que tem perfil para
continuar no projeto. Há necessida-
de urgente de maior investimento
nos programas locais de pesquisa
e pós-graduação específicos para a
temática da conservação ambiental
e dos recursos faunísticos.
Partindo da premissa que o Bio-
Fauna é uma experiência bem
sucedida de conservação da na-
tureza, seria possível implantar
projetos similares para outros
ecossistemas brasileiros, a exem-
plo da caatinga e do cerrado?
Profª. Maria das Dores Correia
- Claro que sim, com profissio-
nalismo, idealismo, criatividade,
compromisso e o engajamento de
pessoas competentes e convergentes.
Infelizmente, na maioria das vezes
quem tem o recurso financeiro não
tem as qualidades mencionadas e
vice-versa. Em algumas situações há
excelente infra-estrutura física e de
equipamentos, sem que haja a mes-
ma excelência em termos de pessoal
qualificado. Este é o nosso problema
principal, seja em termos quantita-
tivos ou qualitativos, há carência de
pessoal dedicado à temática. Penso
que nesta seara não há uma receita.
Quem transita em meio ambiente e
em recursos faunísticos, mais espe-
cificamente, aprende que tudo está
em construção. O importante é ser
sempre ascendente. Sempre digo
aos que buscam ajuda para projetos
envolvendo a fauna silvestre que
tenham cuidado com os “vendedores
de ilusões”. Muitas vezes os elabo-
radores de projetos visam somente
o lucro, atuando fora de padrões
éticos. É comum que se verifiquem
projetos estapafúrdios, de execução
difícil ou tecnicamente inviável, e
isto é especialmente grave quando
os consultores não se envolvem
na implementação dos mesmos,
pois não há co-responsabilidade.
É importantíssimo que os projetos
sejam crivados por profissionais de
alto nível técnico e ético. Também é
difícil que bons projetos neste âmbi-
to sejam executados por uma única
instituição. Pela natureza de seus
desafios, é fundamental a multidis-
ciplinaridade e o caráter interinstitu-
cional. No entanto, alcançar isso não
é um exercício simples, mais pela
vaidade e pouco profissionalismo
do que pelos eventuais entraves
burocráticos.
Tendo em vista a ampla degra-
dação ambiental em nosso país,
gostaríamos que a Sra. fizesse
uma reflexão sobre a importância
das nossas universidades forma-
rem profissionais comprometidos
com a preservação das espécies e
sustentabilidade dos ecossistemas
ameaçados.
Profª. Maria das Dores Correia - A
Universidade tem que estar compro-
metida com a sua realidade e a sua
comunidade. Somos parte de uma
Universidade pública e é preciso
resgatar o valor que isso represen-
ta. Independente de nossas áreas
de trabalho, temos o privilégio e a
responsabilidade de influenciar não
somente a formação, mas a consci-
ENTREVISTA
RevistacfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
ência e o caráter de nossos estudan-
tes. Eles refletirão os exemplos que
receberam. Existe privilégio maior
que ser liberado do trabalho e ficar
seis, sete anos em média, recebendo
salário e bolsa de estudos para se
pós-graduar naquilo que você esco-
lheu? Nestas condições privilegia-
das, nossa qualificação é fruto de um
investimento do povo (em grande
parte assalariado e analfabeto) e isto
implica num grande compromisso,
embora poucos tenham essa consci-
ência. É incrível ver colegas que se
fecham em estudos focais, pouco
inseridos no contexto regional, e
conduzindo atividades pouco inte-
gradas. Temos visto que há maior
preocupação com a quantidade de
trabalhos gerados do que com a
qualidade ou a pertinência insti-
ENTREVISTA
tucional e social dos mesmos. A
alta competitividade imposta pelos
indicadores de qualidade científica,
atualmente em voga, está contri-
buindo para alguns equívocos. Por
exemplo, tenho ouvido críticas de
parte de alguns pesquisadores por-
que trabalhamos a campo. Muitos
estão deixando de realizar pesquisas
aplicadas, preferindo estudos em
laboratório, mais rápidos e com-
petitivos. Estes cientistas findam
obtendo mais acesso a recursos, e
formando geração de científicos com
este viés. Imagine se em regiões de
fronteira como a Amazônia, formos
levados por este pensamento? Os
efeitos seriam desastrosos. Uma
Universidade como a UFRA, por
exemplo, deveria ter um tratamento
especial por parte de órgãos federais
das áreas de Educação e de C&T. Ela
forma profissionais na Amazônia e
para a Amazônia, e durante décadas
foi a única escola especializada em
ciências agrárias da região. Seus
ex-alunos estão espalhados por
toda a Amazônia atuando como
prestadores de serviços autônomos,
extensionistas, agentes financeiros,
gestores públicos, líderes políticos,
empresários, líderes espirituais,
entre outros. Qualquer estímulo re-
cebido durante a fase de formação
universitária é essencial ao seu de-
sempenho. Pode-se imaginar o que
isso representa para a Amazônia?
Lembro que duas décadas atrás,
praticamente não se falava de con-
servação ambiental e muito menos
de fauna nas escolas de Medicina
Veterinária. Durante a graduação,
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
PREMIAçãO
No dia 09 de maio de 2006, no
Palácio das Convenções de Cuia-
bá (MT), foi entregue ao Prof. Dr.
Rômulo Cerqueira Leite, o Prê-
mio Paulo Dacorso Filho – Versão
2005. A premiação ocorreu durante
a abertura do XXXIII Congresso
Brasileiro de Medicina Veterinária
(Conbravet), que reuniu autoridades
e representantes de Sociedades e
Conselhos de Medicina Veterinária
do Brasil.
O Prêmio Paulo Dacorso Filho
– uma das grandes homenagens da
Medicina Veterinária no país – é
concedido pelo Conselho Federal
de Medicina Veterinária, como re-
conhecimento a profissionais que
mais se destacaram na sua área de
Prêmio Paulo Dacorso Filho
Versão 2005
atuação. A premiação foi outorgada
ao Prof. Dr. Rômulo Cerqueira Leite,
durante a 67ª Sessão Plenária Ordi-
nária do CFMV.
A distinção honorífica represen-
ta, segundo o CFMV, “o reconhe-
cimento da classe Médico Veteri-
nária Brasileira a este profissional,
pelos relevantes serviços prestados
à Sociedade Brasileira e a Medi-
cina Veterinária por meio de sua
atuação na docência e na pesquisa
na área de reprodução animal”.
O Prof. Dr. Rômulo Leite é Mé-
dico Veterinário formado pela Uni-
versidade Federal Fluminense (UFF)
e Presidente do Colégio Brasileiro
de Reprodução Animal (CBRA).
É Doutor em Ciências Veterinárias
pela Universidade Federal Rural do
Rio de Janeiro (UFRRJ), Mestre
em Medicina Veterinária, com dois
títulos pela Universidade Federal de
Minas Gerais (UFMG) e professor
adjunto da Escola de Veterinária da
UFMG. O homenageado atua nas
subáreas de Medicina Veterinária
Preventiva (especialidade Saúde
Animal – Programas Sanitários) e
de Reprodução Animal.
O Prêmio Paulo Dacorso Filho
soma-se, na carreira do Prof. Dr. Rô-
mulo Leite, à premiação do Mérito
Acadêmico Científico, concedido
pela UFRRJ e ao Prêmio Moacyr
Gomes de Freitas, pelo Colégio
Brasileiro de Parasitologia Veteri-
nária.
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
PREMIAçãO
Seu currículo apresenta números
expressivos. Sua trajetória inclui a
participação em doze projetos de
pesquisa, a publicação de 131 arti-
gos completos e de seis resumos em
periódicos. Em eventos, apresentou
21 trabalhos completos, 197 resu-
mos e 27 resumos expandidos. Sua
produção inclui ainda seis produtos
tecnológicos, um processo e quatro
trabalhos técnicos. Como professor
universitário orientou 25 trabalhos
de mestrado e dez de doutorado,
além de cinco iniciações científicas
e três trabalhos diferenciados. In-
tegrou 80 bancas examinadoras de
dissertações e 13 de teses de douto-
rado e seis de outros tipos. Participou
de 34 eventos, 13 qualificações de
doutorado e seis de outros tipos. Fez
parte de duas bancas de comissões
julgadoras de avaliação de cursos,
além de cinco outras participações.
Ao longo de sua trajetória já regis-
trou 25 participações em eventos.
Atualmente o Professor Rômulo Lei-
te orienta um trabalho de mestrado e
sete de doutorado.
A brilhante trajetória acadêmica
do nosso homenageado serviu de
referencial para o CFMV distingui-
lo com esta importante insigne da
Medicina Veterinária Brasileira - o
Prêmio Prof. Paulo Dacorso Filho.
Parabéns, mestre Rômulo Cerquei-
ra Leite por este belo exemplo de
vida às novas gerações de médicos
veterinários.
Quem foi Paulo Dacorso Fi-
lho – O Prof. Paulo Dacorso Filho
nasceu em 14 de abril de 1914 em
Tupanciretan (RS) e faleceu no dia
4 de julho de 1975 no Rio de Janeiro
(RJ). Formou-se na Escola Nacio-
nal de Veterinária da Universidade
Rural do Brasil em 1934. Obteve o
título de Mestre (Master of Science)
em Patologia pela Universidade
Wisconsin (EUA), em 1947. Em
1952 formou-se também em Me-
dicina, pela Escola de Medicina
e Cirurgia do Rio de Janeiro. Foi
chefe do Laboratório de Anatomia
Patológica do Hospital-Escola São
Francisco de Assis de 1952 a 1974.
Na Universidade Rural do Brasil foi
eleito Reitor, cargo que ocupou entre
1965 e 1968.
Como professor, lecionou em
instituições do Rio de Janeiro, Bahia
e Rio Grande do Sul. Contribuiu para
o desenvolvimento de muitos acadê-
micos. Por seus méritos pedagógi-
cos, foi eleito dez vezes paraninfo e
homenageado por várias turmas de
formandos. Da sua produção acadê-
mica consta a publicação de cerca de
70 artigos científicos.
Como dirigente, ocupou diversos
cargos em respeitadas instituições.
No Conselho Nacional de Desen-
volvimento Científico e Tecnoló-
gico (CNPq) foi Diretor do Setor
de Veterinária entre 1966 e 1974
e conselheiro entre 1960 e 1965.
Fez parte de várias associações e
sociedades e também foi membro
do Conselho Federal de Medicina
Veterinária (CFMV).
No decorrer de sua trajetória, o
Prof. Paulo Dacorso teve sua impor-
tância reconhecida por meio de di-
versos títulos e premiações que rece-
beu. Os mais representativos foram
o Prêmio Niesseiken, do Instituto
de Biologia do Japão, a medalha de
ouro da Embaixada da Venezuela e o
título de Professor “Honoris Causa”
concedido pela Universidade Fede-
ral de Santa Maria (UFSM). Após a
sua morte, aos 64 anos, seguiram-se
outras homenagens significativas. O
CFMV instituiu o Prêmio Paulo Da-
corso Filho e a Academia Brasileira
de Medicina Veterinária o elegeu
patrono da cadeira número 20. O
Centro de Controle de Zoonoses do
Rio de Janeiro e um prédio no cam-
pus da Universidade Federal Rural
do Rio de Janeiro (UFRRJ) foram
batizados com o seu nome.
O Professor Hugo Edison Bar-
boza de Rezende, distinguido com
o Prêmio Paulo Dacorso Filho, em
2000, exalta o caráter e o conhe-
cimento do patrono da premiação.
“Impressionou-medesde a primeira
aula como homem de caráter forte,
franco, enérgico e disciplinado.
Culto. Era fácil notar o domínio que
possuía do conhecimento na área
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
ENSINO MéDICO-VETERINáRIO
XV Seminário Nacional de
Ensino da Medicina Veterinária
O XV Seminário Nacional de
Ensino de Medicina Veterinária foi
realizado no período de 26 a 28 de
abril deste ano, em João Pessoa (PB).
Promovido pelo Conselho Federal
de Medicina Veterinária (CFMV), o
evento debateu temas relevantes em
relação ao ensino brasileiro na área,
dentro da atual conjuntura político-
econômica e social.
Com a finalidade de comunicar
a classe docente da Medicina Ve-
terinária sobre os rumos do Ensino
Superior no mundo, foi dedicado
espaço ao tema dentro dos seminá-
rios de ensino que privilegiaram a
discussão da formação profissional.
Assim, o Professor Doutor Célio
Cunha, Professor Adjunto da Facul-
dade de Educação da Universidade
de Brasília (UnB), coordenador,
editor e assessor especial da Orga-
nização das Nações Unidas para a
Educação, Ciência e Cultura (Unes-
co) discorreu sobre as linhas gerais
dessa perspectiva mundial. Sua apre-
sentação intitulada “Tendências da
Educação Superior no Século XXI:
Por uma visão renovada” propor-
cionou uma visão global dos rumos
da educação superior no mundo. O
especialista mostrou ser evidente a
escassez de investimentos públicos
no atendimento das necessidades da
formação escolar dos brasileiros.
O enfoque no ensino da Medicina
Veterinária foi debatido em dife-
rentes aspectos, o que evidenciou a
importância da gestão administrativa
para a manutenção adequada de um
Hospital-Escola. A apresentação do
Dr. Lázaro Manoel Camargo, da
Universidade de Cuiabá (UNIC),
mostrou ser possível manter um esta-
belecimento desse tipo, que concilie
a utilização acadêmica e pedagógica
com a viabilidade econômica.
Foi demostrado durante a expo-
sição do Professor Felipe Wouk,
membro da Comissão Nacional de
Residência Médico-Veterinária, que
os Nosocômios Veterinários não
vêm sendo utilizados em seu poten-
cial pleno pois, na prática, não se
constituem verdadeiros laboratórios
de ensino prático da profissão.
A formação acadêmica, também
discutida durante as palestras proferi-
das por diversos professores, revelou
preocupação, que, no decorrer dos de-
bates ficou mais evidente e justificada.
Na visão daqueles docentes os custos
relativos ao atendimento dos animais
nos hospitais-escola não são eleva-
dos, o que permite a absorção dentro
do próprio “sistema”, considerando
que o objetivo da instituição é a
formação profissional e não apenas
a existência do Hospital Veterinário
Universitário. A perspectiva de que
o lucro não é o objetivo esteve pre-
sente durante os debates.
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
Um dos eixos do Seminário foi
o Exame Nacional de Certificação
Profissional (ENCP), resultado de
discussões de toda a comunidade
de médicos veterinários e de pro-
fessores da área. A preocupação
com os atuais índices de reprovação
mostrou-se bastante fundamentada,
pois o percentual de alunos consi-
derados inaptos tem-se mantido alto
nos últimos exames, observando-se
que o perfil das provas não tem se
alterado. A visão de que a prova
é, de fato, muito extensa, também
foi considerada no decorrer das
discussões.
Seguindo as Diretrizes Curricu-
lares Nacionais da Medicina Veteri-
nária e privilegiando uma formação
humanística e baseada em compe-
tências e habilidades específicas, foi
sugerido um novo modelo de prova,
que poderá ser aplicado nos próxi-
mos exames. Assim deverão ser ava-
liados também o desenvolvimento
da capacidade de expressão, tomada
de decisões, ação crítica e reflexiva
dos estudantes adquiridos durante o
transcurso da graduação.
A proposta aprovada no Seminá-
rio, a ser encaminhada ao CFMV, foi
a de que o novo exame tenha duração
de cinco horas, com 100 questões
objetivas, cujo valor corresponde
a 80% da nota final. O número de
questões provenientes de casos clí-
nicos e situações práticas aumentou
e ficará entre 45 e 60. Já o número
de questões por caso clínico e situa-
ção prática diminuiu para três. Fará
parte da prova a produção de um
texto baseado na interpretação de
um assunto relacionado à profissão.
A sugestão é que essa parte da prova
represente 20% da pontuação total.
Nela o candidato não poderá zerar,
ou será desclassificado.
“INEP - Avaliação de cursos.
Instrumentos e Legislação”, foi
tema da palestra da Professora Iara
de Moraes Xavier, Coordenadora-
Geral de Avaliação Institucional e
das Condições de Oferta dos Cursos
de Graduação do Instituto Nacional
de Pesquisas Educacionais Anísio
Teixeira do Ministério da Educação
(INEP/MEC) e da Professora Lena
Cavalcante Falcão, Coordenadora das
Condições de Ensino dos Cursos de
Graduação, também do INEP/MEC.
Na palestra, o Sistema Nacional de
Avaliação da Educação Superior
(SINAES) foi objeto de discussões.
Entrou em pauta o debate sobre um
novo instrumento para avaliação
institucional e de curso.
Fechando o tema Ensino, o Pro-
fessor Marcos Tarciso Maseto, da
Pontifícia Universidade Católica
de São Paulo (PUC-SP) mostrou
com clareza a necessidade de se
proporcionar um ambiente adequado
para a aplicação de aulas interdisci-
plinares. O docente mostrou como,
às vezes, a interdisciplinaridade é
confundida com multidisciplinari-
dade e como discernir uma da outra
na instrumentalização pedagógica. A
palestra causou ótima receptividade
junto à platéia.
O consenso de que o Médico
Veterinário deve assumir o seu
papel junto ao Sistema Único de
Saúde (SUS) ficou nítido durante
a exposição do Médico Veterinário
Mauro Maciel de Arruda. Chamando
a atenção para a necessária conscien-
tização da comunidade acadêmica
quanto as reais atribuições do pro-
fissional, o expositor lembrou ainda
que o conhecimento dos veterinários
em epidemiologia e no controle das
zoonoses e animais sinantrópicos,
por exemplo, é muitas vezes igno-
ENSINO MéDICO-VETERINáRIO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
I Congresso Nacional de Saúde Pública Veterinária
Aconteceu, no período de 27 a
30 de novembro de 2005, no SESC
de Guarapari (ES), o I Congresso
Nacional de Saúde Pública Veteri-
nária, que teve como tema central
“A Medicina Veterinária na Cons-
trução da Saúde Pública”. O evento
foi o único do setor a contemplar os
mais diversos campos de atuação
da Medicina Veterinária na busca
de um novo paradigma referente à
integralidade da atenção à saúde das
populações, a partir das formações
específicas da área veterinária.
Certamente um dos principais
êxitos do Congresso diz respeito a
ratificação, por parte dos presen-
tes, do necessário fortalecimento
da Associação Brasileira de Saúde
Pública Veterinária (ABSPV) como
parte da identidade dos colegas que
atuam no campo da saúde pública
veterinária.
O evento estimulou a reflexão
ampla e aprofundada sobre os deter-
minantes do processo saúde-doença
e as possibilidades de intervenção
dos profissionais da área no sentido
de melhorar a qualidade de vida da
população.
O objetivo de promover a inte-
gração de Médicos Veterinários da
Saúde Pública Veterinária do país foi
amplamente alcançado. O indicador
de tal êxito foi materializado nas ma-
nifestações de avaliação do Congres-
so por parte de seus participantes.
Vários congressistas manifestaram
a necessidade da criação de núcle-
os regionais da ABSPV no país,
como maneira de dar continuidade
e aprofundamento a integração já
referida anteriormente. Ficou claro
que a integralidade da atenção em
saúde no SUS e sua consolidação,
necessariamente passam também
pelo Médico Veterinário.
Ganhou expressão entre os pre-
sentes a imperiosa e urgente necessi-
dade de investimentos no redesenho
dos currículos dos cursos de Medi-cina Veterinária, no tocante à saúde
pública, assim como a adoção da
prática de desenvolvimento nos esta-
dos do país de programas de Educa-
ção Continuada nos diversos campos
da saúde pública veterinária.
Enfaticamente foi defendida pe-
los congressistas a importância da
divulgação das diferentes atribui-
ções do Médico Veterinário em seu
exercício profissional e, entre elas,
sua importância na promoção da
saúde humana e prevenção de doen-
ças e agravos causados por animais
ao homem. O público presente en-
tendeu a necessidade da sociedade,
em geral, vir a conhecer melhor o
abrangente espectro de intervenções
da Medicina Veterinária, incluindo,
por conseguinte, a saúde pública
veterinária.
O número de congressistas, con-
ferencistas e convidados que parti-
ciparam do Evento traduzem seus
resultados. Cerca de 1.500 pessoas
participaram do evento. A programa-
ção técnico-científica, condensada
em quatro dias, contemplou 90 te-
mas de Saúde Pública Veterinária
(zoonoses, raiva, inspeção de produ-
tos de origem animal, hantaviroses,
entre outros) que contaram com a
participação de 125 palestrantes do
Brasil e do exterior. Foram realiza-
dos sete minicursos pré-congresso,
em assuntos da maior relevância
para a saúde pública veterinária
(como, por exemplo: animais peço-
nhentos, investigação de surtos de
origem alimentar e direito sanitário).
Foram apresentados 390 trabalhos
e premiadas três experiências bem-
sucedidas: O controle de roedores
como auxiliar na diminuição de
casos de leptospirose no município
de Guarulhos/SP, 2001 a 2005, Dra.
Cristina Magnabosco e Dra. Ively
Maria Bastos; Atividades desenvol-
vidas no controle da dengue pela
Equipe de Vigilância de Lauro de
Freitas/BA de 1997 a 2003, Dra. Ma-
ria Tereza Vargas Leal Mascarenhas
e Dr. José Alexandre Menezes Silva;
e Controle populacional de cães e
gatos no município de São Carlos/
SP, Dra. Renata G. D’ Agostino e
Dr. Renato Bortoloti.
SAúDE PúBLICA VETERINáRIA
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
Em 17/05/06, quarta-feira, a Or-
ganização Mundial da Saúde anun-
ciou a morte, numa mesma família,
na Indonésia, de cinco pessoas, por
Influenza Aviária e levantou, pela
primeira vez, a possibilidade de infec-
ção intra-humana, isto é, uma pessoa
infectada terá transmitido o vírus para
as demais, temor já manifestado pela
OMS desde 2003. Primeiro, o vírus,
comum em aves silvestres, que se
dissemina via migração, às vezes
transoceânica, especialmente as
aquáticas (Anseriformes,etc.), teria
chegado às aves domésticas e dessas,
por um salto em que se rompeu a
barreira de classes (de aves para ma-
míferos), chegou ao homem e, era o
que se temia, evoluiria a seguir para
o novo tipo de adaptação (homem-
homem). Caso se confirme, o vírus
finalmente tê-lo-ia conseguido
A influenza é reconhecida clas-
sicamente como doença infecto-
contagiosa endêmica devida a um
grupo de vírus (influenza vírus), dos
grupos A, B e C, diversos subtipos
nomeados por HxNx, em que H=
hemaglutinina e N= neuraminidase.
São reconhecidos atualmente quinze
antígenos H e nove antígenos N.
Mutações e rearranjos genéticos são
responsáveis pela eclosão de novas
estirpes dentro de um subtipo, de
patogenicidade variável. A identi-
Influenza Aviária: E agora?
Nicodemos Alves de Macedo
Médico Veterinário, CRMV-PI nº 0152
Departamento de Clínica e Cirurgia
Veterinária, Centro de Ciências Agrárias
Universidade Federal do Piauí
CEP 64049-550, Teresina-PI
E-mail: namthepi@yahoo.com.br
ficação é dada por letras e números
como segue: H0N1, (GRUPO A0, tipo
humano). São tipos humanos ainda o
H1N1 (A1), H2N1, H2N2, H3N1, H3N2;
em animais temos: HswN1(suíno),
HeqN2 (eqüino) H av N de 1 a 8 (aviar),
entre outros. O equi é hoje chama-
do H7 N7. O H1 N1 é encontrado em
suínos.
A transmissão se dá pela via oro-
fecal e multiplicação viral na mucosa
intestinal. A infecção humana se dá
em contato íntimo com aves, em
criatórios do tipo não industrial, com
condições higiênicas precárias. A in-
gestão de carnes e ovos devidamente
cozidos não parece oferecer risco
para humanos.
A doença é classificada na lista
A da O.I.E, isto é, de notificação
compulsória.
Os anserifomes (patos, gansos,
marrecos) raramente adoecem mas
podem albergar e liberar o vírus para
o meio; as demais aves domésticas,
principalmente os pintos, podem
apresentar quadro subclínico ou
clínico agudo benigno com cura
aparente, permanecendo portadores;
Quadro 1 - Subtipos antigênicos do vírus da Influenza A
nesse caso, o transporte e comercia-
lização em aglomerados (mercados
públicos, p.ex.) pode favorecer a
contaminação ambiental e dissemi-
nação da doença; a movimentação de
equipamentos e pessoas de um criató-
rio a outro também pode contribuir na
ocorrência de surtos.
Surtos com alta mortalidade em
criações domésticas não são comuns
e sugerem a emergência de algum
subtipo altamente virulento. O mé-
dico veterinário deve ficar alerta
diante de quadro respiratório grave e
repentino, acompanhado de diarréia,
edema da cabeça, cianose, sinusite e
lacrimejamento, especialmente em
aves jovens e, em poedeiras, acom-
panhado de diminuição na postura.
A forma grave, especialmente o
edema e cianose, exige diagnóstico
diferencial com doença de Newcas-
tle ou, no caso de diarréia, cólera
aviária. Devem ser encaminhados ao
laboratório swab traqueal e intestinal
para isolamento em ovo embrionado.
Testes sorológicos (IDGA, ELISA
ou Hi) permitem a tipagem da amos-
tra (laboratórios de referência).
INFLuENzA AVIáRIA
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
O controle da doença é reali-
zado pelo monitoramento de aves
migratórias que adentram o território
nacional (captura, colheita de soro
sangüíneo, anilhagem e soltura,
após resultado negativo), por amos-
tragem, segundo os pontos e épocas
da respectiva rota, dados que podem
ser obtidos junto ao IBAMA. Aves
importadas devem, na medida do
possível, ser acompanhadas de ates-
tados negativos e permanecer em
quarentena, no ponto de desembar-
que, retestadas após esse prazo e, se
negativas, enviadas ao destino.
O controle inclui ainda notificação
rápida de toda suspeita de caso hu-
mano e animal, desinfeção rigorosa
das instalações e, caso confirmado,
abate e destruição de todo o lote (va-
zio sanitário). Os trabalhadores que
lidam com aves devem ser mantidos
sob observação e enviados ao servi-
ço médico assim que apresentarem
qualquer quadro gripal, por brando
que seja.
Entendidas as zoonoses como
enfermidades transmissíveis que
circulam naturalmente entre hu-
manos e animais e, dentre elas, as
emergentes como as de registro
recente, a humanidade encontra-se
frente a uma ameaça real e assus-
tadora.
A intima relação influenza hu-
mana-influenza animal é sugerida
desde 1918 (em suínos, Koen, 1918
e Shope, 1931, vírus extremamente
próximo do tipo A2 humano); em
eqüinos, a influenza é conhecida
desde o século XII e Kasel, (1965),
nos Estados Unidos, reproduziu a
doença em voluntários humanos e
identificou o vírus como do grupo
A, chamado Equi A.equi(HeqN2).
Amostras muito próximas do tipo
A humano foram encontradas em
patos, na Europa, desde 1956. Da
galinha doméstica se isolou, na
Dinamarca em 1949, vírus próximo
do tipo A humano, chamado, então,
vírus N, e em aves migratórias, em
1962 chamado vírus Tern. Em 1940
isolou-se o vírus B e posteriormen-
te o grupo C, em humanos. Desde
1975 as influenzas suína e eqüina
são consideradas zoonoses já con-
firmadas e a aviar como possível; na
verdade, em 1967 já se levantava a
suspeita, mas, reconhecia-se a falta
de estudos a respeito.
Embora capaz de grande variação
genética (responsável por epidemias
como as de: 1933, 1946, 1947, 1948,
1956, 1957, 1967, 1968(H3N2),
1972 e 1973, sem falar da Gripe
Espanhola, de 1918, com milhares
de mortes), o vírus é reconhecido
como agentede quadro respiratório
benigno, de curso rápido, caráter en-
dêmico e restrito (cada tipo coloniza
uma espécie, em regra, apenas ela).
O que está acontecendo? O que há
de novo?
Em dezembro de 1997 foi re-
gistrada, em Hong Kong, a morte
de quatro pessoas por gripe devida
ao vírus H5 N1 (aviar). Na ocasião
foram sacrificadas 1,2 milhões de
aves. Desde então, a doença, em
aves e humanos, expandiu-se ve-
lozmente; entre 1997 e dezembro
de 2005 apresentou-se em 50 países,
com destaque para China, Vietnã,
Tailândia, Indonésia, Cambodja,
Grécia, Romênia, Turquia, Croácia,
Canadá, Rússia e Reino Unido.
Ao final do mês de maio de 2006
a OMS confirmava a ocorrência
em 10 países de 132 casos fatais
em humanos, 72 apenas na Ásia e
mais de 200 milhões de aves foram
sacrificadas. (Relatório da OMS, de
22/05/2006).
O vírus da influenza aviar foi des-
crito por Beach, em 1926, e isolado,
em ave, em 1934, por Burnet. Apre-
senta alta transmissibilidade, poden-
do a ave infectada morrer em torno
de quatro dias. Mas a maior parte
pode permanecer como portadora
sã. Uma vacina eficaz foi obtida pela
primeira vez em 1933, por Beaudette
e Hudson. Modernas formulações,
em estudo, apresentam vírus vivo
atenuado e antígenos para detecção
de reagentes sorológicos já estão
disponíveis. Alguns países adotam
vacinas inativadas oleosas, em cria-
ções de perus, mas estas podem não
proteger contra variantes emergen-
tes; de modo geral, os organismos
internacionais não recomendam a
vacinação.
Não parece, assim , que se trate
de algo tão novo. No caso humano,
surtos pelo tipo A são esperados a
cada três a quatro anos, pelo tipo B
a cada vinte anos e pelo tipo C não
tem relevância epidemiológica; os
surtos ocorrem principalmente no
inverno, em crianças e têm gravida-
de apenas em idosos, para os quais
existe uma vacina altamente eficaz,
gratuita durante as campanhas nas
unidades públicas de saúde.
Voltemos a 2002. Em novembro
daquele ano, em Quang-Dong na
China, algumas pessoas apresen-
taram um estranho quadro respi-
ratório severo, altamente letal. Em
15/03/2003, a OMS já informava
a eclosão da SARS (Síndrome da
Angústia Respiratória Severa),
popularmente, pneumonia asiática.
Em questão de dias a doença já era
notificada em mais de 30 países, em
especial, China, Hong Kong, Vietnã,
Taiwan e Canadá. Em 05/07/2003
data do último registro, tinham
adoecido 8445 pessoas (5328 só
XXXXXXXXXXXXXINFLuENzA AVIáRIA
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
ALEXANDER, D.J.; BROWN IH Recent zoonoses
caused by influenza A viruses. Scientific and
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BRASIL MAPA. Nota Técnica – PNSA nº 01/2004.
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agricultura.gov.br/
BRASIL Ministério da Saúde. Influenza-Vigilância
Epidemiológica no Brasil- Situação Epidemiológica.
(Disponível em: http://portal.saúde.gov.br/svs/
visualizar_texto.cfm?idtxt=21728
BRASIL Ministério da Saúde. Influenza-Vigilância
Epidemiológica no Brasil- Situação Epidemiológica.
Disponível em: http://portal.saúde.gov.br/svs/
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Canadian Pandemic influenza Plan. Planning
recommendations for the use of antivirals (anti-
influenza drugs) in Canada during a pandemic.
Disponível em http://www.phac-aspc.gc.ca/cpip-
pcicpi/
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_GIP_ 2005_5/ em/index.html
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http://www.who.int/influenza
http://www.oie.int
http://www.fao.org
http://www.cdc.gov/flu/avian/outbreaks/asia.htm
http://www.saude.gov.br/svs
http://www.anvisa.gov.br
na China), com 916 mortes (347 na
China). O país perdeu por redução
no turismo mais de 1 milhão de pos-
tos de trabalho (suspensão de vôos
para o país), 8,8 bilhões de dólares
com turismo externo e 24,5 bilhões
com o interno.
O volume de informações a
respeito do tema, em um mundo
informatizado, é imenso e atualiza-
se a cada dia. O episódio SARS
serviu de alerta: intenso trânsito
internacional de pessoas e produtos,
especialmente alimentícios, de
origem animal (turismo, negócios)
acaba por favorecer a expansão
em alta velocidade de doenças até
então incomuns e mesmo raras ou
extre-mamente localizadas. Em tal
situação qual é o papel do médico
veterinário? Ora, a influenza aviar
é nossa velha conhecida (pelo
menos há 80 anos), e que tinha tudo
para chegar ao homem, sempre se
soube.
E então? Pense o médico veteri-
nário brasileiro nos milhões de vidas
humanas sob risco iminente; pense
ainda no desmonte de uma avicultura
das mais avançadas do mundo (em
quantidade e qualidade), nos prejuí-
zos incalculáveis aos produtores, aos
consumidores e ao estado brasileiro.
O que pode ser realizado, então?
Nos estados vêm sendo implantados
Comitês de Controle de Provável
Epidemia de Influenza, com toda
uma logística necessária prevista
sendo instalada.
O que podemos propor? Que o
Ministério da Agricultura em con-
vênios com as Secretárias Estaduais
de Saúde e Agricultura, Federações
de Agricultura, Universidades,
Cooperativas e Meios de Comuni-
cação, agilize o fornecimento de
materiais e meios para a vigilância
epidemiológica, principalmente de
aves migratórias que migrem para
o território nacional (testes soroló-
gicos), trânsito interno e externo
de aves e subprodutos, orientação
INFLuENzA AVIáRIA
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
Errata
A tabela 1 na página 11 do artigo
Biossegurança e Experimentação
Animal da edição referencial 36 se-
tembro/outubro/novembro/dezem-
bro de 2005 apresenta os seguintes
erros:
Na coluna NBA 3 em Práticas/
Procedimentos, onde se lia:
Pedilúvios que geram aerossóis
infecciosos como inoculações, ne-
cropsias e extração de fluidos.
Deve ser corrigido para:
Pedilúvio.
Na coluna NBA 4 em Agentes,
onde se lia:
Agentes exóticos/perigosos que
produzem alto risco de vida
Risco: transmissão
Deve ser corrigido para:
Agentes exóticos/perigosos que
produzem alto risco de vida
Risco: transmissão por aerossóis
ou ainda desconhecido.
Tabela 1 - Resumo dos níveis de biossegurança recomendados para atividades com
animais vertebrados naturalmente ou experimentalmente infectados
o Ministério da Agricultura, pecuária e Abastecimento (MApA), órgão responsável pelo controle
de entrada de aves e seus materiais genéticos no país, proíbe a emigração de produtos oriundos
de países onde ocorreram a Influenza Aviária. O Ministério é também responsável pela vigilância
desta doença em aves migratórias.
Para esclarecer sobre a Gripe Aviária, o MAPA elaborou a cartilha “Influenza Aviária - Informe-se”
onde são respondidas as perguntas mais freqüentes sobre o assunto, desde a caracterização da
doença, a vigilância no Brasil e no mundo, a contribuição das aves migratórias, além das medidas
globais que devem ser adotadas.
Para adquirir o mencionado informativo, o interessado deve dirigir-se ao:
Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) Esplanada dos Ministérios, Bloco D,
Anexo B Térreo Binagri.
Brasília - Distrito Federal – CEP 70043-900. Central de Relacionamento
Fone 0800 61 1995.
E-mail: binagri@agricultura.gov.br
Cartilha sobre gripe Aviária
Fonte: CDC (1999)
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abrilde 2006
Revista CFMV - Brasília/DF
Ano XII - N° 37
Janeiro a Abril de 2006
CONSELHO FEDERAL DE
MEDICINA VETERINÁRIA
SIA - Trecho 6 Lote 130 e 140
Brasília-DF – Cep: 71205-060
Fone: (61) 2106-0400
Fax: (61) 2106-0444
www.cfmv.org.br
cfmv@cfmv.org.br
DIRETORIA EXECuTIVA
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CRMV-GO 0272
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CRMV-BA 0140
Eduardo Luiz Silva Costa
CRMV-SE 0037
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CRMV-DF 0400
EDITOR
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COMITÊ CIENTÍFICO
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CRMV-SP nº 1427
Presidente
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CRMV-RN nº 0463
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CRMV-PE nº 1152
Mônica Maria O. Pinho Cerqueira
CRMV-MG nº 3051
José Luiz Laus
CRMV-SP nº 3375
Ângela Maria Vieira Batista
CRMV-PE nº 0035/Z
21
38
49
30
Diagnóstico das fases do ciclo estral através de citologia vaginal
em cadelas apreendidas pelo Centro de Vigilância Ambiental da
Cidade do Recife-PE
Acrobustite bovina: Revisão de Literatura
Ceratite ulcerativa por Pseudomonas Aeruginosa no cavalo
– revisão
As múltiplas faces e desafios de uma profissão chamada
Medicina Veterinária
Fabiana Calixto Bezerra
Viviane Maria Ribeiro Pina
Rogério Elias Rabelo
Luís Antônio Franco da Silva
Marco Antônio de Oliveira Viu
Alana Flávia Romani
Cláudia Bueno Alves
Juliano José de Resende Fernandes
Cláudia Franciane Pereira Castro
Graziela Müller
Antônio Felipe P. de Figueiredo Wouk
Maria da Graça Becker Dutra
57Dirofilariose Canina: Situação atual no Brasil
Cláudia Leite Barbosa
Leucio Câmara Alves
Suplemento
TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
LISta DE CONSULtOrES “aD HOC”
Antônio Duarte de Lima Júnior
Antônio Felipe Paulino Figueiredo Wouk
Arlete Dell’ Porto
Benedito Dias de Oliveira Filho
Benito Soto Blanco
Carlos Alberto Hussni
Carlos Eduardo Larsson
Celso Bittencout dos Anjos
Eduardo Alberto Tudury
Ekaterina Akimovna Botovchenco Rivera
Ernane Fagundes do Nascimento
José Renato Junqueira Borges
Enrico Lippi Ortolani
Fernando Leandro dos Santos
Geraldo Eleno Silveira Alves
Glênio Cavalcanti de Barros
Helenice de Souza Spinosa
Hélio Langoni
Helton Mattana Saturnino
Hunaldo Oliveira Silva
Irvênia Luiza de Santis Prada
Janis Regina Messias González
João Palermo Neto
Humberto Pereira Oliveira
João Telhado Pereira
José Augusto Bastos Afonso da Silva
José Wanderley Cattelan
Lêucio Câmara Alves
Marcelo Weinstein Teixeira
Maria Aparecida da Glória Faustino
Marileda Bonafim Carvalho
Nelson Nogueira Barros
Rafael Resende Faleiros
Renato César Sacchetto Tôrres
Renato de Lima Santos
Ricardo Toniolli
Rinaldo Aparecido Mota
Rita Leal Paixão
Roberto Maurício Carvalho Guedes
Rômulo Cerqueira Leite
Maria Helena Matiko Akao Larsson
Manoel Adrião Gomes Filho
Raimundo Nonato Braga Lobo
Rudi Weiblen
Maria José de Sena
José Joaquim Titton Ranzani
Paulo Sérgio de Almeida Pinto
Maria Denise Lopes
Sérgio Carmona de São Clemente
Tomoe Noda Saukas
Suplemento
TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
Diagnóstico das fases do ciclo estral através de citologia
vaginal em cadelas apreendidas pelo Centro de Vigilância Am-
biental da Cidade do Recife-PE
Fabiana Calixto Bezerra
Médica Veterinária Autônoma,
CRMV-PE no 3232
Endereço: Rua Ouro Branco 150, Apto
57 – Jardim Paulista
São Paulo – SP – CEP: 01425-080
E-mail: alvirrubra@yahoo.com.br
Viviane Maria Ribeiro Pina
Médica Veterinária, CRMV-PE nº
2959, Mestranda do Departamento de
Medicina Veterinária da UFRPE
E-mail: vivimrpina@hotmail.com
INtrODUçãO
A B S T R A C T
R E S U M O
o presente estudo foi desenvolvido no período compreendido entre os
meses de abril e julho de 2004. As atividades foram realizadas no Centro
de Vigilância Ambiental da cidade do Recife semanalmente, com práticas
de citologia vaginal realizadas em 37 cadelas, sem raça definida (SRD), de
conformação corporal de porte médio, estado nutricional de regular a bom
e com idade de 2 a 5 anos. Que propiciou determinar através de esfregaços
do epitélio vaginal, a predominância do tipo celular e caracterizar as fases
do ciclo estral respectivas.
unitermos: fases do ciclo estral, citologia vaginal, cadelas.
Diagnosis of destrous cycle phases through vaginal citology in bitches
captured by the environmental vigilance center of the Recife Center
The present study was developed in the understood period between the months
of april and july of 2004. The activities had been carried out in the environmental
vigilance center in the city of Recife, weekly with practices of vaginal citology
carried out on 37 bitches, without a definite breed (SRD), of bodily average con-
formation, nutritional state from regular to good with ages from 2 to 5 years old.
It allowed the determination through a spread thinly of the vaginal epithelium,
the predominance of the cellular type and the caracterization of the respective
phases of oestrous cycle.
Nos carnívoros, o aparelho genital
feminino apresenta, durante todo o
período de atividade sexual, modifi-
cações estruturais que se produzem
seguindo sempre a mesma ordem e
repetindo-se em intervalos periódicos
(Derivaux,1980).
Estas modificações, conhecidas
pelo nome de ciclo estral, são iniciadas
a partir da puberdade, sucedem-se ao
longo de toda a vida reprodutiva e so-
mente são interrompidas pela gestação
(Derivaux,1980).
Segundo Derivaux (1980), o ciclo
estral da cadela é o mais longo de todas
as espécies domésticas, com duração de
quatro a dez meses, e caracteriza-se por
apresentar as fases de proestro, estro,
metaestro / diestro e anestro.
Para determinarmos com precisão
a fase do ciclo estral na qual a cadela
se encontra podemos realizar o exame
de citologia vaginal, que é uma técnica
diagnóstica simples e rápida, realizada
com material colhido da vagina por
Suplemento
TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
meio de “swab”. Sendo, portanto,
utilizada na prática de reprodução de
cadelas (Barnabé et al.,1986). Ela avalia
qualitativamente, alterações infecciosas
e endócrinas (Mello, 2001).
E está sendo usada no monitoramento
do ciclo estral de cadelas, sugerindo
períodos ideais para a cobertura ou inse-
minação artificial (Tostes, 2001).
2. CrItÉrIOS DE
aVaLIaçãO CItOLÓGICa
Tostes (2001) explica que alguns
cuidados básicos devem ser tomados
para a obtenção de esfregaços de boa
qualidade, como evitar a presença de
sangue em excesso e verificar se a
quantidade de material não tornou o
esfregaço espesso demais.
Há uma grande variação de crité-
rios para avaliação citológica, mas
de forma genérica podemos definir
um bom esfregaço como aquele que
possui espessura delgada, arquitetura
celular a mais preservada possível,
penetração do corante e distribuição
uniforme do material na lâmina (Tos-
tes, 2001).
O mesmo autor relata que a seqü-
ência de exame da lâmina principia
pelo menor aumento onde devem ser
observadas:
1. a celularidade, ou seja, o aspecto
quantitativo;
2. a composição celular, ou seja, o
aspecto qualitativo.
Nos aumentos maiores devem ser
observados:
1. a morfologia individual das célu-
las;
2. o arranjo das células;
3. a composição de fundo (back-
ground) esfregaço.
2.1 INDICaçÕES
A colpocitologia permite determinar,
de forma indireta, a função folicular
ovariana e a presença de cistos folicu-
lares, tumores ovarianos e outros distúr-
bios hormonais, através do predomínio
de células superficiais queratinizadas
(Vannucchi et al., 1997), fornecendo,
desse modo, uma idéia do nível estrogê-
nico e a confirmação do período fértil
(Concannon e Digregorio, 1986). Como
também diagnóstico das infecções do
aparelho gênito-urinário tais como
vaginites, cervicites, endometrites,
complexo hiperplasia cística endome-
trial-piometrites e mesmo cistites e
urolitíases.
Além da avaliação do tratamento
nas infecções, onde cirurgias pararetirada dos ovários e útero (pan-
histerectomias), têm sido evitadas
com citologias vaginais realizadas no
momento adequado, permitindo uma
terapia medicamentosa eficaz antes
da irreversibilidade dos sintomas. Em
outros casos, a descoberta de infeções
uterinas através da citologia vaginal,
em animais com sintomas pouco
esclarecedores (muitas vêzes, a fêmea
apresenta somente falta de apetite,
tristeza, pouca atividade física, sem
corrimentos ou febre que facilitem o
diagnóstico clínico), determinou a ne-
cessidade de cirurgia, salvando muitas
vidas. Avaliação da eficácia dos trata-
mentos tanto com antibióticos quanto
com hormônios (Mello, 2000).
2.1.1 rELaçãO CUStO-BE-
NEFÍCIO Da
CItOLOGIa VaGINaL
Talvez a maior expressão do uso da
citologia seja a eficiência dos resulta-
dos comparada com o seu baixo custo
(Tostes, 2001).
Tostes (2001) enfatiza que a citolo-
gia, em determinados casos, dispensa o
ingresso do paciente no hospital, evita
biópsias preliminares e poupa tempo e
despesas com o processamento histoló-
gico; o mesmo raciocínio se aplica aos
hospitais veterinários.
2.2 COLOraçÕES
NOrMaLMENtE
UtILIZaDaS
As técnicas de coloração modificadas
são até hoje complementares, algumas
até específicas para determinados tipos
de citologia, contudo, a coloração de-
senvolvida por Papanicolaou (1942),
é sem dúvida uma das principais, sendo
utilizada atualmente em citologia gine-
cológica (Neto, 2000).
O corante nuclear é a hematoxilina
que por oxidação pelo óxido de mer-
cúrio, se transforma em hemateína. A
hematoxilina cora o núcleo em azul,
após mordantar pelo alumem de potás-
sio (Neto, 2000).
Segundo Neto (2000), são corantes
acidífilos o orange G, a eosina, o verde
luz e o marrom Bismark, portanto, irão
corar os citoplasmas (Figura 1). Papa-
nicolaou propôs diversas variantes
de corantes citoplasmáticos; os mais
empregados são EA 36 e EA 50, em
combinação com o OG 6.
O corante de Shorr fornece con-
trastes mais marcantes de tonalidades
citoplasmáticas das células malpi-
ghianas. Por isso foi preconizado para
a avaliação hormonal. Todavia, nós
o preterimos em favor do Papanico-
laou, já que a maioria dos tratados e
dos artigos consagrados à citologia
descrevem imagens coradas pelo Papa-
nicolaou (Neto, 2000).
2.3 LIMItaçÕES Da CItO-
LOGIa
Neto (2000) ressaltou que só
10% ou 20% das células colhidas são
colocadas na lâmina e a lâmina deve
ser apropriadamente fixada em 15 à 30
segundos.
Resultados positivos não são obtidos
com esfregaços irregulares (extensão e
distribuição do material), esfregaços
espessos, purulentos, intensa citólise,
dessecamento da amostra, esfregaços
hemorrágicos, lâminas fragmentadas,
explica Neto (2000).
Suplemento
TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
A citologia vaginal em cadelas não
é um exame exato para determinar gra-
videz, sendo inclusive contra-indicada
(Mello, 2000).
2.4 CICLO EStraL
EM CaDELaS
O ciclo estral do cão doméstico
(Canis familiaris) possui características
distintas das de outras espécies. A ca-
dela é monocíclica, não sazonal, ovula
espontaneamente uma a duas vezes
anualmente e possui a fase luteínica
semelhante entre indivíduos gestante e
não-gestante (Concannon et al., 1989).
A gestação dura em média de 56 a 72
dias e a lactação em torno de 6 semanas
(Concannon, 1986).
Os estágios e suas fases funcionais
correspondentes são proestro que
corresponde à fase folicular, estro e
metaestro/diestro que representam a
fase luteínica e o anestro que é descrito
como uma fase de quiescência (Shille,
1992).
Normalmente as cadelas exibem seu
primeiro estro alguns meses depois de
terem atingido altura e peso adulto. Re-
comenda-se que o primeiro cruzamento
seja realizado durante o segundo ou ter-
ceiro estro (Musolino et al., 2000).
De acordo com Musolino et al.
(2000), a maioria das cadelas inicia um
novo proestro a cada 7 meses, mas
como ocorre alta variação entre raças
e provável influências sociais e am-
bientais, são considerados intervalos
normais àqueles que duram de 5 a 10
meses .O ciclo estral é regulado pelo
eixo hipotalâmico-hipofisário-gona-
dal, o qual, por sua vez, é modulado por
estímulos externos e neuroendócrinos.
No ciclo estral da cadela são evidencia-
das a fase folicular ou estrogênica que
persiste durante três semanas e a fase
luteal ou progesterônica que tem duração
de 2 a 3 meses (Silva et al., 2002).
De acordo com Mialot (1988), os
folículos secretam estrógenos que es-
timulam o hipotálamo liberar GnRH,
o qual por sua vez estimula a hipófise
liberar o FSH e o LH para promoverem
o crescimento folicular e a ovulação.
Com a formação do corpo lúteo au-
menta a secreção de progesterona (que
inicialmente é produzida nas células
da granulosa dos folículos ovarianos
maduros), a qual, por sua vez, inibirá
a liberação do GnRH, assim como do
LH e do FSH. Somente após a luteólise
é que a inibição do sistema nervoso
central será desfeita para que ocorra
um novo ciclo.
2.5 FaSES DO CICLO ES-
Material utilizado para coloração do esfregaço vaginal (álcool a 96° GL, eosina-hematoxilina de
Harris, Lâminas, pegador de madeira e “swab” de algodão estéril). Foto de propriedade de Fabiana
Calixto Bezerra.
Figura 1 traL
2.5.1 PrOEStrO
O proestro tem início com o apa-
recimento de sangramento vaginal, ou
ainda outros sinais como mudança de
comportamento da fêmea, atração de
machos e intumescimento vulvar, e
termina quando a cadela aceita a có-
pula. A média de duração é de 9 dias,
podendo ocorrer variações normais de
1-2 até 25 dias. A fêmea desencoraja
qualquer tentativa de monta do macho,
rosnando, fugindo, mostrando os dentes
ou até mesmo mordendo. Observa-se
também que a cadela costuma manter
a cauda fortemente pressionada con-
tra o períneo. Tipicamente o proestro
está associado com descarga vaginal
sanguinolenta, mas nem sempre esta
ocorre. Esse sangramento é resultante
da diapedese de hemácias e ruptura de
capilares subepiteliais, devido às rápi-
das mudanças que ocorrem no endomé-
trio em resposta à secreção folicular de
estrógeno. A facilidade em se detectar
esse corrimento depende do compor-
tamento de limpeza de cada animal e
mesmo da raça, sendo percebido mais
facilmente naquelas que apresentem
pêlos e caudas longas. A vulva aumen-
ta de tamanho com o decorrer do pro-
estro, com edema dos lábios vulvares
(Musolino et al., 2000).
A cadela em proestro está sob
influência do estrógeno sintetizado e
secretado pelos folículos ovarianos em
desenvolvimento. Responsável pelas
alterações de comportamento na fêmea,
descargas vaginais, atração de machos,
preparação uterina para a prenhez,
além de outros eventos proestrais. A
concentração de estrógeno, que estava
em níveis de 8 a 15 pg/ml no anestro,
se eleva para 25 pg/ml no início do
período chegando a picos de 60-70
pg/ml no final. O pico da concentração
plasmática de estrógeno ocorre 24- 48
horas precedendo o estro.Os níveis de pro-
gesterona durante o proestro, exceto nas
Suplemento
TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
últimas 12- 48 horas, são basais (<0.5ng/
ml). O fim do proestro é caracterizado por
elevação dos níveis de progesterona, en-
quanto que os níveis de estrógeno decaem
(Musolino et al., 2000).
Este mesmo autor ressalta que a
concentração das gonadotrofinas au-
menta no início do proestro, depois
os níveis basais são mantidos até que
ocorra o próximo pico, associado com
o começo do estro. O aumento dos
níveis de estrógeno, causa uma rápida
multiplicação do número de camadas
de células do epitélio vaginal, que se
observada à vaginoscopia apresenta-se
mais espessa e pregueada. A amplia-
ção do número de camadas celulares
acaba afastando as células luminais
cada vez mais do suprimento san-
güíneo, resultando na morte dessas
células. Essa nova conformação
torna o tecido muito menos sensível
e menosfrágil, não só pelo aumento
das camadas, mas, também, através do
desenvolvimento de precursores de que-
ratina nessas células, prevenindo, assim,
traumatismos durante a cópula.
Musolino et al. (2000) explica que
o esfregaço vaginal de uma cadela em
início de proestro apresenta-se com
variável número de hemácias, numero-
sas células parabasais e intermediárias.
Neutrófilos são comumente encon-
trados, mas não abundantemente, e
bactérias podem ser visualizadas em
pequenas ou grandes quantidades. O
fundo do esfregaço é aparentemente
sujo devido à presença de secreções
cervicais e vaginais viscosas que se
coram facilmente.
No proestro médio, a primeira
evidência do efeito da ação contínua
do estrógeno na citologia vaginal é o
desaparecimento dos neutrófilos, já
que estes agora não mais conseguem
atravessar a espessa parede de células.
As células parabasais e intermediárias
pequenas vão sendo substituídas por
células intermediárias grandes e por
superficiais- intermediárias. Eritróci-
tos podem ou não estar presentes, e o
fundo da lâmina pode continuar sujo ou
apresentar-se claro segundo Musolino
et al.(2000).
No final do proestro, o esfregaço
já não contém mais neutrófilos, a pre-
sença de células sangüíneas é variável,
e o fundo é claro. Mais de 80% das
células são superficiais com núcleos
picnóticos ou anucleadas (Musolino
et al., 2000).
2.5.2 EStrO
Musolino et al. (2000) ressalta que,
a fase estral inclui o tempo durante o
qual a cadela permite que o macho a
monte e fecunde.
Assim, a concentração de estrógeno
alcança um pico 1 ou 2 dias antes do
começo do estro. Então a cadela come-
çará a exibir sinais de cio, mas somente
quando a concentração de estrógeno
circulante (uma vez elevada) está de-
clinando. O declínio da concentração
de estrógeno é um reflexo do final do
processo de maturação do folículo, dias
antes da ovulação. Simultaneamente
com a queda dos níveis de estrógeno, as
células do folículo ovariano começam
a luteinizar-se e secretar progesterona.
A combinação do aumento da concen-
tração plasmática de progesterona e do
declínio da concentração de estrógeno
estimula a mudança do comportamento
da cadela, que deixa de ser contrária
à cobertura. As células luteinizadas
capazes de sintetizar e secretar pro-
gesterona, são funcionantes antes do
desenvolvimento do corpo lúteo. Estas
células causam o início da elevação da
concentração de progesterona, asso-
ciada ao começo dos sinais de cio. Um
efeito deste aumento de progesterona é
a intensidade e a duração do comporta-
mento estral.
Segundo Rodrigues & Rodrigues
(2002), a onda de LH inicia a ovulação
dentro de 40 a 50 horas, e depois desta,
há a formação do corpo lúteo. Os níveis
de progesterona continuam aumentando
na circulação durante estes dias; e com
o desenvolvimento do corpo lúteo fun-
cional, a concentração de progesterona
aumenta ainda mais, por um período de
1 a 3 semanas.
A duração dos sinais de cio é de 5
a 9 dias, normalmente. Semelhante ao
proestro, a extensão desta fase pode va-
riar drasticamente entre cadelas normais
(Musolino et al., 2000).
A cadela exibe interesse no macho
e tenta atraí-lo, até mesmo a uma longa
distância, através dos potentes feromô-
nios (Christiansen, 1988).
Qualquer pressão realizada sobre
ou próximo à parte inferior das costas
causará o desvio da cauda para um lado
e uma tensão dos membros traseiros
para suportar o peso do macho durante
a monta. A vulva progride completa-
mente da fase túrgida e torna-se macia
e flácida. A secreção vaginal é muitas
vezes cor-de-palha ou rósea; e menos
freqüente, pode continuar evidente-
mente hemorrágica. Ocasionalmente
a secreção vaginal pode conter glicose
suficiente para um teste de urina dar
positivo. Isto pode ser causado pelo au-
mento da concentração de progesterona,
a qual resulta na intolerância a carboi-
dratos, devido a progesterona estimular
o hormônio estimulante do crescimento.
O antagonismo da insulina causa o
aumento da concentração sangüínea de
glicose e uma elevação dos níveis de
glicose extracelular. A secreção vaginal
do estro é formada a partir do fluido
extracelular dentro da parede uterina;
então o uso do teste de glicose pode ter
algum valor. A cadela pode ser passiva
e aceitar o macho, ou pode aproximar-se
do macho ativamente para despertar seu
interesse. Geralmente, a cadela só cruza
com machos dominantes e repugna os
submissos. Por isso, recomenda-se que
leve a fêmea para o território do macho,
onde este estará mais à vontade e será
dominante; e ao mesmo tempo, a fêmea
estará submissa e receptiva (Musolino
et al., 2000).
Este mesmo autor explica que, a
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TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
citologia vaginal mantém-se relati-
vamente constante, não há mudanças
que sugiram o dia do pico de LH, ou
da ovulação ou do momento da ferti-
lização. Aonde as células superficiais
totalmente queratinizadas representam
mais do que 80% do total das células
vaginais, freqüentemente alcançando
100%. Não há neutrófilos. O fundo do
esfregaço está sem material granular,
freqüentemente visto no proestro. Du-
rante todos os dias do final do proestro e
todo o período do estro, a porcentagem
de células superficiais nunca cai abaixo
de 60%, mantendo-se geralmente, entre
80 e 100%. A presença ou ausência de
núcleo picnótico dentro destas células
superficiais não tem relação coerente com
alterações de concentrações plasmáticas
de hormônios, ou com a presença de folí-
culos ou corpo lúteo dentro do ovário.
2.5.3 MEtaEStrO
A fase luteal, fase de atividade do
corpo lúteo, é conhecido indistintamen-
te sob o nome de metaestro ou diestro
nos países anglo-saxônicos (Arthur et
al., 1989), enquanto que em países como
a França e a Bélgica consideram que
esses dois termos representem períodos
bem definidos do ciclo estral da cadela
(Silva, 1995).
Na espécie canina, o corpo lúteo
começa a se constituir desde 48 horas
antecedendo a ovulação, ou seja, du-
rante o estro, e apresenta o seu desen-
volvimento máximo durante o diestro
(Concannon et al., 1977). Portanto, o
metaestro não pode ser definido como
sendo a fase de instalação do corpo
lúteo, ele corresponde à fase do ciclo
seguinte ao estro, iniciando-se com a
descamação maciça do epitélio vaginal
(Concannon & Digregorio, 1986). A de-
finição dessa fase e seu reconhecimento
parece importante, pois ela permite
facilmente determinar-se o fim do estro
citológico.
O reconhecimento do metaestro
citológico na cadela faz-se através da
observação de um esfregaço vaginal,
contendo todos os tipos celulares, ou
seja, desde células superficiais anuclea-
das e nucleadas, passando pelas células
intermediárias até as células parabasais,
além de uma grande quantidade de po-
limorfonucleares revestindo o fundo da
lâmina, imagem denominada de “tapete”
de polimorfonucleares.
A imagem citológica do metaestro
corresponde à descamação maciça do
epitélio vaginal em decorrência da
redução dos níveis de estrógeno circu-
lante no sangue. Essa descamação dura
em torno de 2 a 3 dias e o primeiro
dia, que é o mais característico, é de-
nominado de rush do metaestro. (Silva
et al., 2002).
2.5.4 DIEStrO
Segundo Musolino et al.(2000), o
diestro é definido como o período com-
preendido entre a parada do estro até o
tempo durante o qual a progesterona é
secretada pelo corpo lúteo.
Nas mudanças hormonais desta
fase, a concentração de progesterona no
plasma eleva-se acima da concentração
basal (>0,5ng/ml) 72 a 96 horas antes
da ovulação. Depois da ovulação, o de-
senvolvimento do corpo lúteo ocorre na
cavidade folicular, formando uma fonte
contínua para manter a concentração
plasmática de progesterona elevada. O
pico da concentração de progesterona
é originado desse corpo lúteo e é ge-
ralmente atingido 20 a 30 dias após a
ovulação. Esta secreção máxima ocorre
aproximadamente 2 a 3 semanas depois
doinício do diestro. Um platô da con-
centração de progesterona persiste por
1 a 2 semanas. A concentração de pro-
gesterona nesse momento é muito maior
que a concentração basal, normalmente
chegando de 15 a 60 ng/ml. Uma vez
que o período de platô da concentração
plasmática de progesterona do diestro
tenha passado, segue-se um declínio
prolongado na função luteal. A fase
luteal termina abruptamente na cadela
prenhe como parte do início do parto.
Contudo a fase luteal declina lentamente
na cadela não prenhe, geralmente du-
rando 10 a 20 dias. As prostaglandinas
podem ser o fator luteolítico nas cadelas
prenhes e não prenhes, mas até o mo-
mento isso é especulativo.A concentração
de estrógeno no princípio do diestro está
normalmente em níveis basais. Tem sido
mostrado que durante a última semana ou
duas últimas de gestação a concentração
de estrógeno apresenta um crescimento
súbito. Talvez esse discreto acréscimo
na síntese e secreção de estrógeno ocorra
de acordo com a queda na concentração
de progesterona, como uma necessidade
endócrina em estimular o relaxamento
cervical e outros fatores do parto. Porém
essa pequena concentração de estróge-
no não causa atração aos machos nem
outras alterações evidentes associadas
com proestro. A secreção de FSH e LH
da pituitária durante o diestro ocorre em
episódios não contínuos (Musolino et
al., 2000).
Este mesmo autor ressalta que, o
diestro é a fase de elevada concentração
de progesterona circulante. A duração é
em média de 56 a 58 dias nas cadelas
prenhes e 60 a 80 dias nas não prenhes.
A função do corpo lúteo cessa antes na
prenhez do que na não prenhez.
Os sinais clínicos começa quando
uma cadela previamente receptiva
abruptamente recusa a aceitar a monta
de um macho. Ela pode também não
ser mais atrativa para os machos. A
vulva retorna ao normal ou ao tamanho
anéstrico e não é mais flácida (Musolino
et al., 2000).
Em um período de 24 a 48 horas
do final do estro, a porcentagem de
células superficiais decresce aproxi-
madamente 20%, sendo o restante das
células normalmente intermediárias.
Isso representa uma mudança abrupta
na citologia vaginal. Ocasionalmente,
pode ser visto um grande número de cé-
lulas, precedendo o diestro. Neutrófilos
podem aparecer e o fundo pode conter
debris. Contudo a mudança drástica
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Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
na aparência microscópica das células
epiteliais vaginais é a primeira indica-
ção de que o diestro tenha começado.
Podem ser observadas células meta-
éstricas específicas associadas com o
diestro. Essas células têm sido usadas
como um auxílio para distinguir o início
do proestro do começo do diestro. As cé-
lulas metaéstricas e as células espumosas
são supostamente observadas apenas no
diestro. As células metaéstricas são cé-
lulas epiteliais vaginais que contêm 1 a
2 neutrófilos em seu citoplasma. Células
espumosas são células epiteliais vaginais
com citoplasma bolhoso. Quando houver
dúvida, uma série de esfregaços obtidos
a cada 2 a 3 dias deve ajudar a identificar
o estágio correto do ciclo. Seguindo os
poucos dias iniciais do diestro, o esfre-
gaço vaginal dessa fase parece com o do
anestro. Glóbulos brancos podem estar
presentes em pequeno número, glóbulos
vermelhos estão ausentes ou em pequeno
número, e as células epiteliais tipica-
mente consistem em pequenas células
intermediárias mais células parabasais.
Em estudos de pacientes inférteis, e na
tentativa de identificar o dia do parto,
reconhecer o primeiro dia do diestro
é muito importante (Musolino et al.,
2000).
2.5.5 aNEStrO
É o período que compreende o final
da fase luteal e o início da fase folicular.
Esse tem sido tradicionalmente descrito
como um período de quiescência do
eixo ovário-hipofisário. Clinicamente,
é um período de inatividade reprodu-
tiva, porém, endocrinologicamente, a
atividade hormonal é flutuante. Durante
esta fase, o útero atinge sua involução
completa, havendo um completo repa-
ro endometrial. (Feldman & Nelson,
1996).
Segundo Musolino et al., (2000),
como as outras fases do ciclo o anestro
varia em duração. Essa variação depende
da raça, da saúde, da idade, do período
do ano, do ambiente e outros múltiplos
fatores. Em uma cadela que inicia o
proestro a cada 7 meses, proestro dura 9
dias, estro 7 a 9 dias, diestro 58 dias, e
anestro 4,5 meses. Contudo, isso pode ser
variável, porque é difícil saber quando o
diestro acaba e o anestro começa em uma
cadela não prenhe. E não há nenhuma
diferença clínica evidente quando se
compara a cadela anéstrica com a cadela
castrada.
Musolino et al. (2000) ressalta que,
esporádicas elevações na secreção de
LH ocorrem durante o anestro nas
cadelas. Estes transitórios aumentos
de LH no plasma parecem resultar em
dois breves, mas potentes episódios
secretórios. Um pico de LH precede
imediatamente o início do proestro, e
um precede ou coincide com o início
do estro e subseqüente ovulação. Os
baixos pulsos repetitivos que ocorrem
durante o anestro podem preparar um
significativo número de folículos para
o desenvolvimento e iniciar o processo
de maturação assim como a ovulação.
O FSH não tem essa flutuação notada
na concentração periférica do LH.
Esse hormônio parece ter variações
moderadas na concentração durante
o anestro antes do declínio com o
início do proestro e crescendo com
o pico de LH na onda pré-ovulatória.
A concentração de estrógeno flutua
significativamente durante o anestro.
Precedendo o começo do proestro há
um declínio da concentração de estró-
geno. Ao contrário, a progesterona
se mantém em extremamente baixa
concentração durante o anestro. O de-
senvolvimento das ondas foliculares
menores é provavelmente estimulado
por pequenas elevações do FSH pi-
tuitário. Esses folículos sintetizam e
secretam estrógeno, causando acrés-
cimos mínimos na concentração de
estrógeno circulante. Devido a esses
folículos nunca ficarem totalmente
maduros, eles regridem, depois de um
curto período funcionante.
Os níveis de progesterona encon-
tram-se menores que 1.0 ng/ml. (Wri-
ght, PJ, 1990).
Não é conhecido o que causa o
início do proestro e o começo do novo
ciclo. Isso provavelmente é resultado de
interações complexas entre ambiente,
saúde geral, estado ovariano e uterino,
idade e outros fatores não identificados
que ditam o papel para o FSH e LH
(Musolino et al., 2000).
Este é um período durante o qual
apenas poucas células parabasais e peque-
nas células intermediárias e uns leucócitos
estão presentes (Christiansen, 1988).
3. CLaSSIFICaçãO DaS CÉ-
LULaS VaGINaIS
As células parabasais, são as
menores dentre as células vaginais,
redondas ou ligeiramente ovais, com
15 a 25 µm, apresentam um núcleo
central vesicular e relativamente pou-
ca quantidade de citoplasma (Chris-
tiansen, 1988).
As células intermediárias, variam
em tamanho podendo ser classificadas
em células intermediárias pequenas e
grandes. Apresentam bordos irregula-
res e núcleos geralmente menores que
aqueles das parabasais (Musolino et
al., 2000).
Células superficiais parcialmente
queratinizadas, são as células maio-
res encontradas na citologia vaginal,
achatadas e com as bordas anguladas,
se coram pobremente. Os núcleos são
picnóticos (Musolino et al., 2000).
Células superficiais queratinizadas
(superficiais totalmente queratinizadas),
são células grandes, mortas e irregulares
que representam o fim do processo que
inicia-se com as células parabasais.
Morreram devido ao espessamento da
parede que afastou-as do suprimento
sangüíneo. São grandes com bordas
anguladas e achatadas, também já foram
chamadas de células queratinizadas ou
cornificadas (Musolino et al., 2000).
Células espumosas, são células
Suplemento
TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
parabasais ou intermediárias que con-
têm vacúolos citoplasmáticos visíveis(Musolino et al., 2000).
Células metaéstricas, são células pa-
rabasais com infiltração de um número
variável de leucócitos. Esse tipo celular
pode estar presente em outros períodos
que não o metaestro, em esfregaços
de fêmeas com vaginite (Christiansen,
1988).
Em outras espécies, como em cabras
e em ovelhas não é possível caracterizar
a predominância de um determinado
tipo celular que assegure a emissão
de um diagnóstico eficiente (Spencer
et al. 1996; Souza et al., 1999; Vojtic,
1997).
4. MatErIaL E MÉtODOS
O experimento foi realizado no
laboratório de Biotecnologia da Área
de Reprodução do Departamento de
Medicina Veterinária da UFRPE. Foram
utilizadas 37 cadelas sem raça defini-
da (SRD), pertencentes ao Centro de
Vigilância Ambiental (CVA), em idades
reprodutivas.
O diagnóstico do ciclo estral de cada
cadela foi realizado através de um esfre-
gaço vaginal. Para se obter o esfregaço,
os lábios da vulva foram gentilmente
separados para a introdução de um
“swab” de algodão estéril, o qual era
passado através da comissura dorsal da
vulva, evitando-se o contato com a fossa
clitoriana, seguindo na direção cranio-
dorsal, no sentido da coluna vertebral,
até ultrapassar o arco isquiático (figura
2). O “swab” era inserido até a distância
necessária para atingir o canal vaginal
pélvico. Nesse momento, deve-se rota-
cionar o “swab” em todas as direções.
Todo esse procedimento dura alguns
segundos e é indolor, porém a cadela
pode sentir desconforto, principalmente
se não houver descarga vaginal. Nesse
caso, umedeciamos o “swab” com so-
lução fisiológica. Em seguida, o “swab”
era rotacionado gentilmente sobre uma
lâmina fazendo-se em geral, três im-
pressões lineares (figura 3). A lâmina
era fixada com álcool a 96° GL por um
minuto, e posteriormente coradas com
eosina-hematoxilina de Harris (Feld-
man & Nelson, 1996).
Segundo Allen (1995), tal método
não é considerado ideal porque o ro-
lamento de swab sobre a lâmina causa
ruptura das células, além dos elementos
do swab serem incorporados no esfrega-
ço. Este autor descreve mais dois mé-
todos, o com espátula de metal e o por
aspiração com cateter ou pipeta, sendo
este último que produz um esfregaço de
melhor qualidade e sem distorção.
No caso da eosina, a lâmina con-
tendo o esfregaço deve permanecer
submersa neste corante durante 20 se-
gundos, posteriormente lavada em água
corrente. Realizado este procedimento,
a lâmina era novamente submersa em
outro recipiente contendo hematoxilina
por, mais 20 segundos, e mais uma vez
era lavada e submetida à secagem, em
seguida era realizada a avaliação dos
esfregaços em microscópio ótico com
aumento de 400X.
5. rESULtaDOS E
DISCUSSãO
A citologia vaginal mostrou-se
uma técnica realmente eficiente para
determinar as fases do ciclo estral das 37
cadelas SRD, apreendidas no Centro de
Figura 2
Colheita do material. Foto: Fabiana Calixto Bezerra
Figura 3
Método utilizado para obter um esfregaço
para citologia vaginal. Foto: Fabiana Calixto
Bezerra
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TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
Resultados obtidos do diagnóstico das fases do ciclo estral através da citologia vaginal em cadelas SRD
no Centro de Vigilância Ambiental.
Gráfico 1
Vigilância Ambiental durante os meses
de abril a julho de 2004, corroborando
com os resultados de Concannon
(1986), ver Gráfico 1.
Em nosso estudo 5,4% das cadelas
estavam no proestro, apresentaram na
colpocitologia neutrófilos, hemácias,
células parabasais, intermediárias e
superficiais, de acordo com o resultado
de Santos (2002).
Nas cadelas em estro, 13,5% apre-
sentaram 80% a 100% de células su-
perficiais, valores semelhantes aos de
Silva et al (2002).
O diestro corresponde a fase de
atividade dos corpos lúteos segundo
Concannon (1980). Em nossa pes-
quisa 59,45% das cadelas estavam no
diestro, e na citologia vaginal havia
predominância de células parabasais
e intermediárias, corroborando com
os estudos de Christiansen (1988) e
Vannuchi (1997).
De acordo com Santos (2002),
o período no qual o ovário está em
quiescência, ou seja, não há pro-
dução hormonal, é denominado de
anestro, esta fase pode durar entre
2 a 10 meses, tenho em média 4. Em
nosso trabalho 21,62% das cadelas
estavam neste momento, e apresen-
taram no esfregaço vaginal células
parabasais e intermediárias.
Conforme os tipos celulares obser-
vados em cada fase do ciclo estral das
cadelas estudadas foi possível fazer a
seguinte classificação com forme se
verifica na Tabela 1.
6. CONCLUSãO
O uso da citologia vaginal é recurso
diagnóstico simples, rápido, seguro,
eficaz, e de baixo custo. Aonde detecta
o ciclo estral das cadelas e todas as
suas fases.
Através deste estudo é possível
ainda, mensurar a contagem de bac-
térias e eritrócitos de origem uterina.
Desta forma, os distúrbios ligados à
esfera reprodutiva também podem ser
diagnosticados, precocemente, utilizan-
do-se esse método.
Tabela 1 - Tipos celulares predominantes e suas respectivas fases do ciclo estral
+++ : EM GRANDE QUANTIDADE ++ : QUANTIDADE RAZOÁVEL
+ : POUCAS CÉLULAS - : AUSÊNCIA
Suplemento
TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
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Suplemento
TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
A B S T R A C T
R E S U M O
A acrobustite é uma enfermidade de destaque dentre aquelas que afetam
o sistema genital do macho bovino. As particularidades morfológicas e
anatômicas (bainha prepucial pendulosa, prepúcio longo, abertura do óstio
prepucial, músculo retrator caudal do prepúcio e traumas) podem predispor
à enfermidade. As principais alterações incluem: dificuldade na realização da
cópula, edema, necrose da mucosa prolapsada, miíase, hemorragia, absces-
so, hipertermia local, retenção de urina e dor à palpação. o tratamento clínico
e ou cirúrgico é conduzido mediante a avaliação dos custos, manutenção do
touro durante a convalescência, possível diminuição do desempenho sexual
após intervenção cirúrgica e complicações pós-operatórias. o tratamento
medicamentoso nem sempre é efetivo e a afecção pode recrudescer com o
reinicio das atividades reprodutivas. Várias técnicas cirúrgicas de circuncisão
e postectomia foram descritas, com resultados variáveis. No período pós-
operatório, a antibioticoterapia sistêmica associada à proteção da ferida e
o repouso sexual são importantes para evitar complicações, a exemplo de
fimose, deiscência da ferida e infecção.
Palavras chave: Acrobustite, bovinos, zebu.
Acrobustite bovina: Revisão de Literatura
Rogério Elias Rabelo
Médico Veterinário, CRMV-GO no. 2650,
Professor do Curso de Medicina Veteriná-
ria da UFG – Campus Avançado de Jataí
Endereço: Rodovia Br 364 Km 192 – Zona
Rural, Jataí – GO – CEP: 75.800-000
E-mail: rabelovet@bol.com.br
Luís Antônio Franco da Silva
Médico Veterinário, CRMV-GO nº 0780.
Professor da Clínica Cirúrgica Animal da
Escola de Veterinária da UFG
Goiânia –GO
E-mail: lafranco@vet.ufg.br
Marco Antônio de Oliveira Viu
Médico Veterinário,CRMV-SP nº 6438
E-mail cjatai@jatai.ufg.br
Alana Flávia Romani
Médica Veterinária, CRMV-GO nº 2650
E-mail: alanafr@hotmail.com
Cláudia Bueno Alves
Médica Veterinária, CRMV-GO nº 2457
Juliano José de Resende Fernandes
Médico Veterinário, CRMV-GO nº 2962
E-mail: juliano@vet.ufg.br
Cláudia Franciane Pereira Castro
Acadêmica de Medicina Veterinária da
Escola de Veterinária da UFG
Acrobystitis is an important illness among those ones which affect the genital
system of male bovine. The anatomic and morphological particularities such
as pendulous preputial sheath, long prepuce, enlargement of preputial ostium,
incipient or absent prepuce tailed retractor muscle and damages that can
predispose the animal to this illness. The main disturbs are: impaired mating,
edema, necrosis of the prolapsed mucous membrane, worming, hemorrhage,
abscess, local hyperthermia, urine retention and increased sensitivity. Even the
clinical and surgical treatment may be conduced after the cost evaluation, the
bull maintenance on convalescent period, possible reduced bull sexual perfor-
mance and the post operatory complications. The drug treatment may not be
successful, and the affection recrudesces with the restart in of the reproductive
activities. Several surgical techniques of circumcision and postectomia have
been described, with different outcomes. In the post-operatory period the syste-
mic antibiotic-therapy associated with wound protection and sexual restrain are
fundamental to avoid post-operatory complications, such as phimosis, wound
dehiscence and infections.
Bovine posthitis: a literature Review
INtrODUçãO
O touro tem um grande efeito na
eficiência reprodutiva dos rebanhos
de corte, indiferente se usado na
monta natural ou por meio de in-
seminação artificial. Os prejuízos
na capacidade de fertilização do
touro resultam em grandes perdas
econômicas, principalmente quando
acontece em sistemas extensivos de
produção (Chacón et al., 1999).
A impotência coeundi é uma das
formas de infertilidade que se carac-
Suplemento
TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
teriza pela diminuição ou perda da
libido ou da habilidade de realizar
a cópula (Hafez, 2004). Nos bovi-
nos, dentre as causas da impotência
coeundi, se destacam as afecções
do prepúcio (Roberts, 1971; Basile,
1985).
Basile (1985) descreveu que dentre
as enfermidades que afetam o seg-
mento genital do macho, destacam-
se o prolapso prepucial, a fimose, as
balanites, os abcessos prepuciais e a
acrobustite. Oehme (1988) classificou
as lesões do prepúcio, segundo a
ocorrência, em lacerações ou con-
tusões, associadas ou não à fimose,
prolapso, parafimose, abscedação,
fibrose e avulsão prepucial. Segundo
Viu (1999), o tamanho do prepúcio
é uma característica morfológica de
importante relevância econômica
nos bovinos de corte, considerando-
se o alto valor monetário dos touros
no processo de produção.
A acrobustite, postite, acropis-
tite ou acropostite é um processo
inflamatório da extremidade do
prepúcio, geralmente associado às
feridas, úlceras, edema, necrose,
fibrose e às vezes, estreitamento do
óstio prepucial (Lazzeri, 1994). Para
Desrochers et al. (1995), Jean (1995)
e Viu et al. (2002) habitualmente as
lesões ocorrem durante a exposição
peniana, acometendo a bainha pre-
pucial interna, porém existem lesões
secundárias a um prolapso crônico.
As lesões de caráter crônico podem
culminar na total oclusão do orifício
prepucial, devido aos detritos necró-
ticos e ao fibrosamento, causando
severa estenose, capaz de produzir
formações fistulosas até na região
do períneo.
2. aSPECtOS
ECONôMICOS
Venter e Maree (1978) afirmaram
que o prolapso do prepúcio ocorre
com maior freqüência em algumas
raças com predisposição, e que 30%
dos touros da raça Santa Gertrudes
de até quatro anos de idade são eli-
minados devido a esta afecção, com
conseqüente fimose e parafimose.
O tratamento das injúrias prepu-
ciais normalmente é dispendioso ao
proprietário e, geralmente, interven-
ções cirúrgicas são necessárias. A
porcentagem de touros que não re-
tornam ao serviço é grande, e quando
retornam, estes touros podem estar
aumentando a freqüência gênica do
problema no rebanho (Viu, 1999).
Vários fatores de ordem econô-
mica devem ser avaliados antes de
se proceder o tratamento clínico e
ou cirúrgico de um touro portador
de uma patologia prepucial. Dentre
estes fatores destacam-se o custo
esperado quando se opta pelo trata-
mento, o custo da manutenção deste
touro durante o período de conva-
lescência, a possível diminuição do
desempenho sexual do reprodutor
após a intervenção cirúrgica, o risco
do insucesso, as complicações pós-
cirúrgicas que por ventura ocorram
e que, conseqüentemente, alterem
os custos esperados e, por fim, a
avaliação econômica comparativa
entre a realização do tratamento e a
substituição do touro doente (Kasari
et al.,1997).
3. FatOrES PrEDISPO-
NENtES
A síndrome do prolapso prepu-
cial é comum em touros de corte e
relaciona-se com a hereditariedade,
ambiente e fatores infecciosos, sendo
estes últimos, condições auto-agra-
vantes.Os fatores hereditários predis-
ponentes incluem o tamanho e a
pendulosidade do prepúcio, além de
um grande orifício prepucial e a au-
sência dos músculos retratores. Estas
características herdáveis tornam o
prepúcio susceptível à exposições
ao ambiente e conseqüentes lesões
e traumas (Viu, 1999).
A acrobustite está sempre asso-
ciada à balanite. A balanopostite
é causada por infecções primárias
bacterianas, com desvitalização da
bainha prepucial e, também, pela
exposição dos touros a capins lenho-
sos, pela seca ou pelo frio. Fatores
secundários devido a fratura do pênis
e conseqüente acúmulo de urina, se-
guido de abcesso prepucial e ruptura,
também podem estar associados
(Nazário et al., 1975 e Siqueira et
al., 2000).
Estas afecções prepuciais são
comuns em touros e ocorrem com
maior freqüência na estação de mon-
ta (Siqueira et al. 2000).
Para Silva et al. (1994) e Silva
et al. (1996) os touros das raças
zebuínas tais como Nelore, Gir,
Indubrasil e Guzerá e de bovinos de
raças européias, como o Santa Ger-
trudes e o Marchigiana, têm maior
predisposição a apresentar este tipo
de enfermidade. Silva et al. (1993)
descreveram que o comprimento
médio do prepúcio de reprodutores
da raça Nelore acima de 36 meses de
idade foi de 18 cm e que alguns ani-
mais tinham até 40 cm. Estes touros,
na medida do possível, devem ser
descartados, pois tal característica
favorece o desencadeamento das
lesões prepuciais.
Desrochers et al. (1995), Jean
Suplemento
TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
(1995) e Viu (1999) citaram que
os Bos taurus também podem ser
acometidos de enfermidades na
extremidade prepucial, com desta-
que para o Angus, o Beefmaster e
o Brangus. Copland et al. (1989)
trabalhando com 52 bovinos aco-
metidos por lesões no pênis e no
prepúcio, relataram que 75% destes
animais eram Bos taurus e 25% Bos
indicus/Bos taurus.
Marques et al. (1988) descreve-
ram que dentre os fatores agravantes
da enfermidade, pode-se citar o
manejo inadequado, tais como, as
pastagens sujas e a ausência de cui-
dados higiênicos. Silva et al. (1998)
relataram que além dos fatores aci-
ma mencionados, merecem atenção
especial os traumatismos provoca-
dos por cercas de arame farpado,
pisoteamento de outros animais,
lacerações e larvas de Dermatobia
hominis.
Siqueira et al. (2000) descreve-
ram que os animais acometidos pela
acrobustite podem depauperar-se
em curto espaço de tempo, devido
ao desconforto da própria enfermi-
dade, bem como das complicações
causadas pela estrangúria e disúria,
próprias da obstrução mecânica
oriunda do estreitamento do óstio
prepucial.
4. DIaGNÓStICO
Jean (1995) citou como sintoma-
tologia da acrobustite, as alterações
clínicas e de comportamento, tais
como, dificuldade ou não na rea-
lização da cópula, graus variados
de edema, necrose da mucosa pro-
lapsada, presença de miíase, hemor-
ragia, abcesso e hipertermia local,
podendo haver retenção de urina e
dor à palpação local. Para Siqueira
(2000), a bainha prepucial apresen-
ta-se quente, sensível e aumentada
de volume. O pênis não pode ser
expulso da cavidade prepucial, o ani-
mal apresenta sinais de estrangúria
e disúria, urinando em gotas ou em
jatos finos. Em função da estenose
do óstio prepucial e do desvio no
sentido caudal da extremidade do
prepúcio, a urina localizada na cavi-
dade interna da bainha desencadeia
intensa reação inflamatória local,
caracterizada por celulite, podendo
levar a danos da mucosa, tornando
o touro inviável para a reprodução
(Figura 1).
A contenção do bovino em troncos
ou bretes apropriados é importante
para a realização do diagnóstico, por
permitir segurança ao profissional,
além de possibilitar a realização
dos exames necessários para fins de
diagnóstico.
Pela palpação, pode-se verificar
na abertura do orifício prepucial, a
mucosa livre ou constatar a presen-
ça de aderências, fibroses, feridas,
inflamações e úlceras que podem
dificultar ou impedir a saída do pênis
e dar origem a fimose (Silva et al.,
1993).
Figura 1
Acrobustite em touro zebu (Bos taurus indicus), evidenciando desvio do prepúcio no sentido caudal,
edema e estenose do óstio prepucial.
Suplemento
TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
5. trataMENtOS
CLÍNICO E CIrúrGICO
De modo geral, o tratamento
medicamentoso tem por base a
administração de antibióticos, anti-
inflamatórios sistêmicos e medicação
tópica, além de higiene do prepúcio e
uso de duchas frias. A colocação de
bandagens, ataduras e fitas adesivas
em torno da extremidade prepucial,
bem como a introdução de um tubo
de polivinil no lúmen prepucial para
facilitar a passagem da urina e evitar
a estenose, auxilia no tratamento do
edema. Recomenda-se o repouso
sexual, para amenizar o processo
e impedir a disseminação de infec-
ções (Memon et al., 1988; Oheme,
1988; Baxter et al., 1989; Copland
et al.,1989; Sarma et al., 1993; Jean.,
1995). A utilização de bandagens,
ataduras gessadas ou fitas plásticas
adesivas podem comprometer a
circulação sangüínea do prepúcio e
agravar a lesão (Silva et al., 1998).
5.1. PrÉ- OPEratÓrIO
A utilização de ducha fria na re-
gião do prepúcio por até 20 minutos,
higienização da mucosa prolapsada
com água e sabão neutro, secagem
e aplicação de pomada de ação anti-
inflamatória e epitelizante durante
de três dias são importantes para o
sucesso do tratamento da acrobustite
(Marques et al., 1988).
Silva et al. (1998) preconizaram
medidas pré-operatórias de até cinco
dias, dependendo da gravidade da
lesão, utilizando por via parenteral
antibioticoterapia e antiinflamatórios
não esteróides e uso de pomadas
após a assepsia do prepúcio. Tais
fatores contribuíram para melhora
clínica, reduziu o processo inflama-
tório e favoreceu a condução do ato
cirúrgico.
5.2. MEDICaçãO
PrÉ-aNEStÉSICa
O jejum hídrico e alimentar
por 24h e a tranqüilização do bo-
vino com cloridrato de xilazina
a 2% por via intramuscular, na
dose de 0,1 a 0,2 mg/kg de peso
corporal foram empregados por
Silva et al. (1998) como medidas
e medicações pré-anestésicas
eficientes para a realização do
procedimento cirúrgico. O je-
jum preveniu a ocorrência de
timpanismo e de pneumonia por
aspiração durante o trans-ope-
ratório.
5.3. CONtENçãO E
aNEStESIa
A contenção do bovino em de-
cúbito lateral direito com a devida
proteção dos membros pélvicos e
torácicos, da cabeça e região es-
capular, seguida da anestesia local
com cloridrato de lidocaína a 2%,
circundando todo o prepúcio, apro-
ximadamente cinco centímetros
acima do óstio prepucial, são de
fundamental importância no período
pré-operatório (Marques et al. 1988;
Silva et al.1998).
5.4. tÉCNICaS
CIrúrGICaS
Basicamente utiliza-se a circun-
cisão como tratamento cirúrgico por
apresentar melhores resultados. Esta
técnica consiste na tração do prepú-
cio, seguido de uma incisão circuns-
crita distal (caudal a lesão) e uma
proximal (cranial a lesão). A porção
delimitada pelas duas incisões re-
presenta o tecido a ser removido (
Marques et al., 1988; Memon et al.,
1988; Copland et al., 1989; Sarma et
al., 1993, Lazzeri, 1994, Jean, 1995
e Silva et al., 1998).
Turner e Mclwraith (1985) cita-
ram a prática da circuncisão profilá-
tica em bovinos de algumas regiões.
Ressaltaram que a perda da membra-
na prepucial após a cirurgia poderá
impedir uma exposição adequada do
pênis para a realização da cópula,
principalmente em raças européias.
Walker (1980), Memon et al. (1988)
e Jean (1995) alertaram que quando
se retira grandes extensões da mu-
cosa prepucial, poderá prejudicar a
exposição do pênis e conseqüente
cópula .
Walker (1980) e Turner e
Mclwraith (1985) relataram um
método de circuncisão, no qual se
utiliza um anel plástico rígido com
várias perfurações em uma das ex-
tremidades. O anel é introduzido
na cavidade prepucial e no local
previstopara a circuncisão são feitas
suturas passadas pelas perfurações,
obtendo-se um efeito tipo torniquete.
Aproximadamente 10 dias após a
intervenção o anel é tracionado, e
junto com este é exposta a parte a
ser removida.
Lazzeri (1969) preconizou uma
técnica cirúrgica para correção
da acrobustite, que consiste em
circuncisão, descolamento da mu-
cosa interna, retirada total da parte
externa lesada, do tecido fibroso,
dos eventuais abcessos inclusos e
de todo o tecido hiperplásico que
envolve a mucosa. Em seguida,
efetua-se quatro incisões longitu-
Suplemento
TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
dinais na mucosa, para eliminar a
diferença de diâmetro entre o óstio
da mucosa e pele e posterior sutura
com aplicação de quatro pontos de
Wolff, empregando-se fios de algodão
00. O autor comentou que a sutura
efetuada somente com quatro pontos,
mantinha a região praticamente sem
edema, já que as áreas livres com-
preendidas entre os pontos de sutura
permitiram uma drenagem efetiva e
total ausência de fundo de saco. Tal
técnica mostrou-se satisfatória para
correção desta enfermidade.
Para correção da acrobustite em
touros, Eurides et al. (1981), descre-
veram uma circuncisão seguida da
ressecção de um fragmento de pele
em forma de “V” no óstio prepucial,
reduzindo seu diâmetro e facilitando
a junção do óstio da mucosa e o da
pele. Marques et al. (1988) também
realizaram a circuncisão para a corre-
ção deste defeito, porém realizaram
a incisão em forma de “V” na região
caudal da mucosa prepucial e não
da pele conforme recomendado por
Eurides et al. (1981), sendo que em
cada vértice foi feito um ponto sim-
ples separado com categute cromado
n° 2, unindo-a à pele prepucial.
Silva et al. (1998) descreveram a
técnica cirúrgica de Lazzeri (1969)
com pequenas modificações. Consta
da demarcação cirúrgica da região a
ser circundada para delimitar a área
lesionada da parte íntegra. Para fa-
cilitar a circuncisão são colocados,
primeiramente, no ponto de união
com a pele, quatro pinças de Kocher
eqüidistantes sendo uma anterior,
duas laterais e uma posterior, sendo
esta fixada aproximadamente dois
centímetros acima das demais (Fi-
gura 2). Posteriormente, o folheto
prepucial interno é seccionado
de pinça a pinça. Para facilitar o
descolamento da mucosa interna
e ressecção da fibrose, realiza-se
uma incisão longitudinal na porção
exposta. A remoção da região lesa-
da e/ou fibrosada é feita num ponto
o mais próximo possível da lesão,
para aproveitar o máximo de folheto
prepucial interno.
Figura 2
Posicionamento eqüidistante das pinças de
Kocher, delimitando a área da circuncisão.
Figura 3
Aplicação eqüidistante das pinças de Allis, no folheto prepucial interno. Notar a diferença do diâmetro do
óstio prepucial em relação ao óstio do folheto prepucial.
Figura 4
Aspecto da incisão no ponto médio entre cada pinça, para a justaposição das bordas do folheto prepucial
à pele do novo óstio prepucial
Suplemento
TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
A hemostasia é efetuada com
ligadura dos vasos, utilizando-se
categute simples 2.0. O folheto
prepucial interno é posicionado
anatomicamente e fixado com qua-
tro pinças de Allis, eqüidistantes
aos pontos correspondentes às de
Kocher. Tal procedimento permite
visualizar a desproporção entre o
óstio do folheto prepucial interno e o
óstio prepucial (Figura 3). No ponto
médio entre cada pinça aplicada na
mucosa, faz-se uma incisão de apro-
ximadamente dois centímetros para
facilitar a justaposição das bordas do
folheto à pele do novo óstio prepu-
cial (Figura 4).
A coaptação é realizada no pon-
to de correspondência das pinças,
por meio de sutura tipo Donatti,
Figura 5
Coaptação no ponto de correspondência das pinças por meio de sutura tipo Donatti, entre a pele e a
mucosa.
atingindo pele e mucosa, utilizan-
do-se fios de algodão 000 (Figura
5). O fechamento completo da ferida
é realizado com categute cromado n°
1 em suturas simples interrompida,
unindo a mucosa ao tecido subcutâ-
neo, deixando as pontas dos fios lon-
gas, para prevenir possível irritação
da mucosa prepucial (Figura 6).
Para o autor a aplicação dos
quatro pontos de Donatti para fixar
a mucosa prepucial à pele tem a
finalidade de diminuir o compro-
metimento circulatório local. Este
procedimento diferiu dos quatro
pontos do tipo Wolff recomendado
por Lazzeri (1969), o que em tese
poderia dificultar o aporte sangüíneo
e resultar em deiscência de ferida
dentre outras complicações.
5.5. PÓS-OPEratÓrIO
Lazzeri (1969) preconizou a
antibioticoterapia parenteral à base
de penicilina benzatina na dose de
30.000 UI/kg de peso corporal, re-
pouso sexual por no mínimo 60 dias,
além de duchas frias na ferida cirúr-
gica, com o intuito de se eliminar
coágulos e sujidades. Paralelamente,
adotou aplicação diária de pomadas
para auxiliar na cicatrização.
Marques et al. (1988) e Silva et
al. (1998) além das recomendações
acima salientadas, utilizaram por
via endovenosa a escina sódica, na
dose de 0,5 mg/70 kg a cada 24 horas,
durante três dias consecutivos, com
o intuito de controlar o processo
inflamatório.
Matera et al. (1967) utilizaram
cintas de suspensão para o prepú-
cio, com o objetivo de controlar o
edema e impedir traumas na região
prepucial. Para Lazzeri (1969) tal
Figura 6
Fechamento adicional da ferida cirúrgica, com pontos simples interrompidos com categute
cromado nº 1.
Suplemento
TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
REFERêNCIAS BIBLIOgRáFICAS
medida se fazia desnecessária uma
vez que a cinta ou avental embebida
de urina, provocava irritações. Sil-
va et al. (1998) utilizaram o avental
de tecido de algodão, sendo este
permeável a urina, até completa
cicatrização da ferida, no tamanho
suficiente para cobrir toda a extremi-
dade prepucial, protegendo a região
injuriada de eventuais traumatismos
e contaminação ambiental.
6. COMPLICaçÕES
PÓS-OPEratÓrIaS
Os maiores empecilhos para o
sucesso destas intervenções cirúr-
gicas, são as complicações no pós-
operatório, tais como o aparecimento
de fimose, a deiscência das ferida, a
presença de miíase e abcessos (La-
zzeri, 1969). Copland et al. (1989)
citaram ainda a infiltração de urina
na linha de sutura e a presença de
infecções.
Silva et al. (1996), utilizando a
técnica de circuncisão de Lazzeri
(1969), porém modificada, ressal-
taram que as complicações como
edema, hemorragia, formação de
abcessos, deiscência de ferida, pre-
sença de miíases e fimose contribu-
íram para os insucessos.
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Suplemento
TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
Ceratite ulcerativa por Pseudomonas Aeruginosa
no cavalo – revisão
A B S T R A C T
R E S U M O
Esta revisão trata da ceratite ulcerativa bacteriana por Pseudomonas aeruginosa
em cavalos. São discutidos os dados atualizados sobre a patogênese desta
afecção ocular, os sinais clínicos, o diagnóstico e os tratamentos médico e cirúr-
gico disponíveis. Estes últimos não evitam algumas vezes complicações como
cicatrizes, que comprometem o eixo visual, e, em decorrência disso, muitos
estudos experimentais, raramente na espécie eqüina, vem sendo desenvolvidos.
portanto, alguns elementos para o perfeito entendimento da ceratite ulcerativa
eqüina por Pseudomonas aeruginosa permanecem sem explicação.
unitermos: córnea, úlcera colagenolítica, patofisiologia, eqüino.
Equine Pseudomonas aeruginosa corneal ulceration – review
Graziela Müller
Médica Veterinária Autônoma, CRMV-PR
nº 4596, Mestre em Patologia Animal pela
Universidade Federal do Paraná
Endereço para correspondência: Travessa
Graciosa, 45/ apto 61, Cabral, Curitiba
– PR - CEP: 80035-200
E-mail: grazimuller@hotmail.com
Antonio Felipe P. de Figueiredo Wouk
Médico Veterinário, CRMV-PR nº 0850,
Professor Titular Doutor de Clínica
Cirúrgica Veterinária, Departamento de
Medicina Veterinária da Universidade
Federal do Paraná
E-mail: fwouk@ufpr.br
This review, discusses the current information about equine Pseudomonas aeru-
ginosa corneal ulceration, considering pathogenesis, clinical findings, diagnosis
and medical/surgical treatments. The suitable therapy, the discoveries took
place in experimental models other than equine, do not avoid complications as
corneal scars that compromise the visual axis. Therefore, some pivotal clinical
facts about this equine corneal infection remain unknown.
Key words: cornea, colagenolitic ulcers, pathophisiology, equine.
INtrODUçãO
A ceratite ulcerativa bacteriana
é comum nos cavalos (Sauer et
al., 2003) e é considerada uma das
afecções oculares mais graves, tanto
na oftalmologia veterinária como na
humana, requerendo terapia médica
efetiva rápida, devido à potencial
ameaça à visão (Wyman et al., 1983;
Matsumoto, 2000; Evans et al.,
2002; Fleiszig e Evans, 2002). As
bactérias mais comumente isoladas
dos animais diferem daquelas da
flora conjuntival normal, sendo que
os microrganismos mais freqüen-
temente encontrados são bactérias
gram-negativas, principalmente da
família das Enterobacteriaciae (En-
terobacter spp., Escherichia coli,
Klebsiella spp.), Pseudomonas aeru-
ginosa e Proteus spp. (Moore, 1983;
Davidson, 1991; Nasisse e Nelms,
1992; Barnett et al., 1995; Sauer
Suplemento
TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
et al., 2003). Entretanto, bactérias
gram-positivas como Streptococcus
spp e Staphylococcus spp também
já foram isoladas (McLaughlin et
al., 1983; Moore et al., 1983; Moo-
re et al., 1988; Moore et al., 1995;
Sauer et al., 2003). Dentre as três
mais freqüentemente isoladas destas
afecções, está a Pseudomonas aeru-
ginosa, uma bactéria gram-negativa,
amplamente distribuída no ambiente
e encontrada na água, no solo, nas
plantas, nas membranas mucosas e
na pele (Sabath apud Gyles, 1993;
Todar, 2001) e, também, nas fezes de
animais sadios (Carter e Chengappa,
1991; Quinn et al., 1994; Gilligan,
1995; Hirsh, 1999). É encontrada,
ainda, em uma variedade de soluções
aquosas, como os colírios ou solu-
ções para uso oftálmico e cosmético
(Gilligan, 1995; Lima e Belfort Jr.,
1996).
A ampla distribuição da P. aeru-
ginosa no meio ambiente em que
vivem os cavalos e nas soluções
aquosas de uso oftálmico facilita
a sua contaminação no tecido cor-
neano previamente traumatizado
(Sabath apud Gyles, 1993; Todar,
2001; Gilligan, 1995; Lima e Belfort
Jr., 1996).
O objetivo desta revisão é o de
discutir, com um foco especial na
espécie eqüina, a ceratite ulcera-
tiva bacteriana contaminada por
P. aeruginosa, considerando-se a
patogênese da afecção ocular, os
sinais clínicos, o diagnóstico e os
tratamentos médico e cirúrgico atu-
alizados.
PatOGÊNESE
Como um patógeno oportunista,
a P. aeruginosa tipicamente requer
uma porta de entrada, ou por uma le-
são prévia ou por uma “quebra” nos
mecanismos normais de defesa,para
que a subseqüente invasão corneana
possa ocorrer (Todar, 2001). Um
leito epitelial intacto, firmemente
aderido à sua lâmina basal subja-
cente, cria uma barreira essencial
para a manutenção da homeostasia
corneana. Esta barreira epitelial,
juntamente com elementos advindos
do filme lacrimal, apresenta grande
importância na prevenção da adesão,
colonização e infectividade bacteria-
na na superfície da córnea e na dis-
persão da bactéria no estroma (Todar,
2001; Esco et al., 2002). Para que a
infecção ocular se instale, é neces-
sário que haja aderência, penetração,
invasão, persistência e replicação do
microrganismo, independente-men-
te dos mecanismos locais de defesa
(Uesugui et al., 2002). Portanto, o
rompimento desta barreira epitelial,
freqüentemente causado por trauma,
permite a entrada da P. aeruginosa
e de outras bactérias, comensais ou
patogênicas, e sua multiplicação no
estroma (Moore, 1987; Davidson,
1991; Sweeney e Irby, 1996; Hamor
e Whelan, 1999; Hao et al., 1999b;
Kanski, 2000), resultando em uma
ceratite ulcerativa como conseqüên-
cia da evolução do processo bacte-
riano na córnea (Hao et al., 1999b).
Em modelos experimentais de cera-
tite bacteriana por P. aeruginosa em
coelhos, a inoculação intraestromal
permite abortar as três etapas ini-
ciais do processo de instalação da
bactéria, uma vez que a mesma é
introduzida diretamente no estroma,
facilitando a infecção (O’Callaghan
et al., 1996), entretanto, observam-
se variações na freqüência e seve-
ridade da infecção produzida com
relação à ceratopatogenicidade da
cepa utilizada (Hyndiuk et al., 1983;
Aristoteli e Willcox, 2001). Esses
modelos experimentais diferem das
condições em que a infecção natural
ocorre (Primbs et al., 1961; Fleiszig
e Evans, 2002), pois é realizada atra-
vés da injeção intraestromal. No en-
tanto, os mesmos são extremamente
válidos para seu estudo.
A habilidade da P. aeruginosa
em se aderir às células dos mamífe-
ros, aos tecidos e aos biomateriais,
como as lentes de contato, parece
ser modulada por várias moléculas
próprias, incluindo pili, flagelo,
proteínas externas da membrana e
lipopolissacarídeo (LPS) (Fletcher
apud Fleiszig e Evans, 2002), o
que também influencia na adesão
bacteriana às células epiteliais
(Fletcher apud Evans et al., 2002).
Acredita-se que a bactéria seja ca-
paz de modular sua própria adesão,
por meio de adesinas de superfície,
as quais interagem com receptores
na superfície das células epiteliais
do hospedeiro (Gupta et al., 1996).
Segundo Todar (2001), no trato
respiratório, as fímbrias da P. aeru-
ginosa aderem às células epiteliais
por meio de adesinas, que parecem
ligar-se a receptores específicos para
o ácido siálico. Além disso, a colo-
nização do trato respiratório requer
aderência das fímbrias, a qual pode
ser auxiliada pela produção de pro-
teases que degradam a fibronectina,
expondo, desta forma, os receptores
subjacentes das fímbrias nas células
epiteliais. Segundo estudo realizado
por Aristoteli e Willcox (2001),
diferentes cepas de P. aeruginosa
são capazes de aderirem-se à mu-
cina em um modelo experimental
com mucina gástrica de suíno. Foi
Suplemento
TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
sugerido que a mucina ocular pode
funcionar como uma barreira de
proteção do epitélio subjacente da
córnea contra a colonização pela
bactéria e, por isso, o uso de agentes
mucolíticos, como N-acetilcisteína,
para a remoção da mucina ocular
pode aumentar a aderência da P.
aeruginosa. Entretanto, a mesma
já foi sugerida como um receptor
específico para este microrganismo
nas superfícies epiteliais (Gyles,
1993). Para Esco et al. (2002), um
outro fator que pode contribuir para
a ligação da P. aeruginosa às células
epiteliais é a composição da matriz
extracelular, de forma que, em con-
dições de hipoxia, menos laminina
é incorporada à matriz, resultando
em aumento da ligação da bactéria.
Além disso, a P. aeruginosa pode
aderir-se prontamente aos compo-
nentes da lâmina basal, incluindo
laminina, fibronectina e colágeno
tipo IV (Plotkowski et al., 1996).
Essa adesão às células do hospedeiro
pode ser facilitada por dois dos seus
exoprodutos, a protease alcalina e a
elastase (Gupta et al., 1996).
A capacidade da P. aeruginosa
invadir os tecidos está diretamente
relacionada à sua resistência à fago-
citose e às defesas imunológicas do
hospedeiro e, também, à produção
dos seus fatores de virulência, que
contribuem para invasão e persis-
tência nos tecidos (Todar, 2001;
Fleiszig e Evans, 2002). Sua cápsula
bacteriana e seu biofilme (alginate
viscoso) protegem-na efetivamente
da opsonização pelos anticorpos, da
deposição de complemento e da fa-
gocitose (Todar, 2001). O LPS, con-
siderado um dos fatores de virulên-
cia essenciais no desenvolvimento
da afecção corneana, contribui para
a ocultação da bactéria das defesas
do hospedeiro, como atividade do
complemento, anticorpos e fagoci-
tose (Gyles, 1993; Todar, 2001) e,
ainda, contra medicações antimicro-
bianas como os aminoglicosídeos e
os beta-lactâmicos. Além disso, atua
influenciando a aderência, invasão
e sobrevivência da P. aeruginosa
nas células epiteliais (Evans et al.,
2002). As células corneanas perma-
necem como as únicas células nas
quais a invasão pela P. aeruginosa
foi demonstrada in vivo (Fleiszig et
al., 1994). Duas proteases extrace-
lulares têm sido associadas com a
capacidade de virulência, exercida
no estágio de invasão bacteriana,
a elastase e a protease alcalina
(Todar, 2001). Em estudo in vitro,
sobre a invasão e multiplicação da
P. aeruginosa nas células epiteliais
da córnea, verificaram-se influências
do tempo de interação da bactéria
com estas células, da presença de
lesão e da temperatura de incubação.
Além disso, neste mesmo, ficou
demonstrado com uso de testes de
sobrevivência à gentamicina, que a
P. aeruginosa pode invadir e sobre-
viver dentro dessas células em vários
modelos in vitro em ratos, coelhos e
camundongos, após lesão da córnea
(Fleiszig et al., 1995). Uma impor-
tante descoberta feita por Ni et al.
(2004), em recente pesquisa, foi a
detecção de uma proteína-D surfac-
tante no fluído lacrimal de humanos
e de ratos. Verificou-se que esta pro-
teína é capaz de proteger as células
epiteliais corneanas da invasão pela
P. aeruginosa, entretanto, não se
detectou atividade bacteriostática.
Segundo estudo in vitro, utilizan-
do-se células epiteliais corneanas de
coelho, a P. aeruginosa foi capaz de
multiplicar-se dentro dessas células,
sendo que a taxa de replicação em
quatro horas foi de 10 campos e,
em 24 horas, o número de bactérias
foi reduzido aos níveis iniciais,
provavelmente devido à fração de
células epiteliais mortas contendo
bactéria (Fleiszig et al., 1995). A P.
aeruginosa produz e libera vários
fatores de virulência, capazes de
danificar direta e indiretamente os
tecidos corneanos, por meio de en-
zimas proteolíticas próprias ou por
degradação do colágeno mediada
pelos ceratócitos (Hao et al., 1999b;
Miyajima et al., 2001; Nagano et
al., 2001). Algumas das suas prote-
ases são capazes de degradar vários
componentes da matriz extracelular,
incluindo proteoglicanos, colágeno
tipo III e IV, e laminina. Destas, con-
forme afirmou Matsumoto (2000),
a elastase e a protease alcalina são
responsáveis pela necrose estromal
liquefativa na córnea de coelhos.
À elastase também foi atribuída
a capacidade de ativação de meta-
loproteases (MMP) (Hao et al.,
1999a), como MMP-1, MMP-3 (Na-
gano et al., 2001), MMP-2 e MMP-9
(Miyajima et al., 2001) e degradação
de colágeno, fibronectina, IgA, IgG
e complemento (Todar, 2001). A
exotoxina A tem sido associada à
virulência ocular, conforme Pillar
e Hobden (2002) mostraram em
estudo, no qual verificou-se que a
ausência de exotoxina A nas cepas
mutantes de P. aeruginosa afetou
sua capacidade de persistir e causar
doença emmodelos de ceratite bac-
teriana em ratos. A protease IV, uma
exoproteína, também demonstrou
atividade na virulência corneana
em modelos experimentais de in-
fecção com escarificação da córnea
Suplemento
TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
de camundongos, entretanto, não
foram percebidas diferenças entre os
escores em modelos de inoculação
intraestromal em coelhos com cepas
mutantes, deficientes em protease IV
e não mutantes (O’Callaghan et al.,
1996). Em outro estudo, esta mesma
exoproteína degradou fibrinogênio,
fibrina, plasminogênio e C3 e de-
gradou, parcialmente, plasmina e
IgG, mas permanece desconhecida
sua habilidade de degradar prote-
ínas estruturais e ativar proteases
corneanas do hospedeiro (Engel et
al., 1998). Tanto a protease alcalina
como a elastase e o lipopolissaca-
rídeo, conforme demonstrado em
pesquisa in vitro, foram capazes de
aumentar a liberação de MMP-2
e promover síntese e liberação de
MMP-9 (Miyajima et al., 2001). A P.
aeruginosa é um patógeno único por
seus fatores de virulência e, além dos
citados acima, outros são produzidos
pela bactéria. Entretanto, o conheci-
mento acerca do envolvimento dos
demais na patogênese da ceratite
bacteriana ainda permanece limitado
(Todar, 2001).
Antigos e recentes relatos indi-
cam que a combinação dos fatores
patogênicos derivados dos tecidos
do hospedeiro com os fatores da
virulência da P. aeruginosa são res-
ponsáveis pela destruição corneana,
durante a infecção (Van Horn et al.,
1981; Dong et al., 2000; Miyajima et
al., 2001; Vygantas e Whitley, 2003;
Hazlett, 2004). Acredita-se que as
proteases que contribuem para a ul-
ceração da córnea no estágio inicial
da infecção sejam provenientes da
própria bactéria. Entretanto, num es-
tágio mais avançado (24 a 48 h após
a infecção), as proteases que predo-
minam como fatores patogênicos da
destruição tecidual são oriundas dos
polimorfonucleares leucócitos, que
afluem ao tecido do hospedeiro e
substituem as proteases bacterianas
(Wilcock, 1993; Matsumoto, 2000;
Steuhl apud Miyajima et al., 2001).
Como prova disso, verificou-se uma
clara associação entre infiltração
prolongada de polimorfonucleares
na córnea e a destruição da córnea
(Fleiszig e Evans, 2002). Estas cé-
lulas, que se infiltram no estroma,
podem contribuir para a ulceração,
por meio da secreção de elastases,
colagenases, gelatinases (Wilcock,
1993; Matsumoto, 2000; Tersariol
et al., 2002) e citocinas, as quais,
por sua vez, estimulam a produção
de metaloproteases pelos cerató-
citos (Hao et al., 1999a), que num
primeiro momento são importantes
na limpeza do tecido afetado. Os
ceratócitos produzem metaloprotea-
se-1 (MMP-1, colagenase), MMP-2
(gelatinase A), MMP-3 (estrome-
lisina 1) e MMP-9 (gelatinase B)
(Fini e Girard, 1990). A MMP-1
degrada colágeno intersticial tipo
I, II e III, e as formas ativadas de
MMP-2 e MMP-9 podem degradar
colágeno tipo IV, V e VII, laminina
e fibronectina, assim como colágeno
desnaturado; e sua liberação aumen-
tada pode contribuir para a destrui-
ção da membrana basal e ulceração
corneana (Miyajima et al., 2001).
Em recente estudo, verificou-se a
indução de altos níveis da expres-
são do RNAm de metaloprotease
de membrana tipo-1 nas córneas de
ratos infectadas com P. aeruginosa,
os quais permaneceram altos do
segundo ao 11º dia. Isto pode sig-
nificar que estas metaloproteases,
também sejam responsáveis pelo
dano à córnea devido à sua dupla
função no remodelamento da matriz
extracelular, por meio da ativação de
pró-MMP-2 e degradação direta de
suas proteínas (Dong et al., 2000).
As metaloproteases são liberadas
como zimogênios inativos e ati-
vadas extracelularmente por uma
serinoprotease, a plasmina, a qual é
capaz de desencadear uma cascata
proteolítica por meio da degradação
de proteínas da matriz extracelular
e pela ativação de outras metalo-
proteases (Berman et al., 1983;
Richiert e Ireland, 1999), levando
à destruição estromal (Berman et
al., 1983). O fator responsável pela
ativação da plasmina, o ativador de
plasminogênio, é liberado por poli-
morfonucleares leucócitos (Berman
et al., 1980) e macrófagos, principais
células a infiltrar a córnea infecta-
da. Em estudo realizado por Berk
et al. (2001), verificou-se um forte
aumento na expressão do ativador
do plasminogênio em ratos com
ceratite ulcerativa por P. aerugino-
sa, o qual assim permaneceu até o
11º dia pós-infecção. Além disso,
ocorreu também liberação de fator
ativador de plaquetas, citocinas e
metabólitos do ácido aracdônico
(Kernaki e Berk, 1994). O fator de
crescimento de hepatócito (HGF)
aumentou a susceptibilidade de cé-
lulas epiteliais à aderência, invasão
e citotoxicidade pela P. aeruginosa
(Fleiszig et al., 1998). Sabe-se que
a interleucina-6 (IL-6) atua como
um importante fator de proteção da
córnea durante a infecção por esta
bactéria gram-negativa (Willcox
et al., 1998) e, segundo Cole et
al. (2001), a administração tópica
de IL-6 na córnea infectada por P.
aeruginosa de dois tipos de ratos
resultou em efetivo recrutamento de
Suplemento
TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
neutrófilos polimorfonucleares para
a córnea, verificando-se, ainda, um
aumento precoce dos níveis de IL-6
que podem ser protetores na infecção
corneana. A interleucina-12 (IL-12),
produzida pelos macrófagos, induz
a secreção de IL-2 e de interferon-g
(INF-g) e potencializa a prolifera-
ção e citotoxicidade das células T
(Tizard, 1998). Hazlett et al. (2002)
detectaram, mediante reação em ca-
deia da polimerase, IL-12 na córnea
infectada por P. aeruginosa de ratos
susceptíveis, desde 12 horas após
a infecção até o sétimo dia. Neste
mesmo estudo, níveis de produção
de RNAm do INF-g foram maiores
em ratos susceptíveis. A partir disso,
foi sugerido que um desequilíbrio na
regulação positiva do INF pela IL-
12 leva a uma excessiva produção
da citocina e toxicidade. Mesmo
com o importante papel da IL-12 na
indução de IFN-g, segundo pes-
quisa realizada por Lighvani et al.
(2004), a maior fonte desta última
citocina são as células natural
killer (NK), as quais são necessárias
durante a infecção experimental
por P. aeruginosa para regularem
efetivamente a morte bacteriana e
o número de polimorfonucleares na
córnea de ratos susceptíveis. Além
disso, Kernaki e Berk (1994) obser-
varam, em homogeneizados ocula-
res, a indução do fator de necrose
tumoral (TNF-a) acima dos níveis
basais entre um e três dias pós-
infecção com P. aeruginosa. Seu
papel na infecção corneana ain-
da não está definido, entretanto,
sabe-se que o TNF-a é liberado em
resposta à endotoxina bacteriana
no choque séptico (Tizard, 1998)
e, deste modo, pode apresentar
importante papel nesta infecção
corneana.
O resultado, em cavalos, da as-
sociação dos fatores patogênicos da
P. aeruginosa com os do hospedeiro
no tecido corneano, é uma típica
ceratite bacteriana, caracteriza-
da por uma opacidade gelatinosa
acinzentada adjacente à úlcera
chamada “melting” (Sauer et al.,
2003) e caracterizada por necrose
estromal liquefativa (Barnett et al.,
1995), ambas decorrentes da rápida
liquefação dos proteoglicanos da
substância fundamental da córnea
(Sweeney e Irby, 1996). Nas lesões
experimentais de infecção corneana
por P. aeruginosa, após 24 horas da
inoculação, observa-se infiltração
maciça de polimorfonucleares, dis-
postos ao redor da lesão da córnea
(Miyajima et al., 2001).
SINaIS CLÍNICOS
Em cavalos, os sinais clínicos da
infecção bacteriana da córnea incluem
dor ocular pronunciada, secreção ocu-
lar mucopurulenta, opacidade cornea-
na extensa, ceratite intersticial com in-
fluxo de células inflamatórias para o
tecido, neovascularização extensa,
perda estromal progressiva, necrose do
estroma e liquefação (Davidson, 1991)
(Figuras 1 e 2). Blefarospasmo, fotofo-
bia, hiperemia conjuntivalmarcada e
quemose também são observadas
(Barnett et al., 1995). Uveíte ante-
rior freqüentemente acompanha a
ceratite ulcerativa e é mediada por
caminhos reflexos, originados nos
nervos sensoriais da córnea.
O estímulo reflexo axonal resulta
em vasodilatação dos capilares da
íris, alteração da permeabilidade e
quimiotaxia por leucócitos polimor-
fonucleares (Nasisse e Nelms, 1992;
Hamor e Whelan, 1999; Slatter,
2001). A descemetocele é uma com-
plicação decorrente da progressão
da úlcera corneana, pois uma vez
atingida a membrana de Descemet,
Figura 1
Imagem de úlcera colagenolítica resultante da infecção corneana por Pseudomonas aeruginosa no olho
esquerdo de cavalo. Observar opacidade e “melting” corneano, neovascularização perilimbal profunda
e hiperemia conjuntival.
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poderá ocorrer sua protrusão, devido
à influência da pressão intra-ocular
(Wilcock, 1993; Barnett et al., 1995;
Slatter, 2001). No estudo realizado
por Sweeney e Irby (1996), as desce-
metoceles foram observadas em oito
olhos dos 70 animais observados.
Conforme ocorre a progressão
da destruição da córnea e das ter-
minações nervosas subepiteliais, há
redução da dor ocular e, em num
período de 12-18 horas, pode ser
evidenciada uma borda perilimbal de
neovascularização profunda (Barnett
et al., 1995).
DIaGNÓStICO
A ceratite ulcerativa bacteriana,
na grande maioria dos casos, pode
ser diagnosticada com exames clí-
nicos, incluindo iluminação difusa,
oftalmoscopias direta e indireta,
biomicroscopia e teste de retenção
de fluoresceína (Nasisse e Nelms,
1992; Barnett et al., 1995; Hamor
e Whelan, 1999), o qual também é
útil na diferenciação entre abscesso
estromal e úlcera de córnea (Hamor
e Whelan, 1999). Córneas extrema-
mente edemaciadas podem resultar
em testes falso-negativos, uma vez
que o estroma torna-se incapaz de
maior absorção de fluído (Nasisse e
Nelms, 1992). Para um diagnóstico
mais preciso pode-se realizar exame
citológico com coloração de Gram
e Giemsa e, testes de cultura e anti-
biograma de amostras de origem
corneana (Moore, 1987; Barnett et
al., 1995; Hamor e Whelan, 1999;
Whitley, 2000; Sauer et al., 2003).
trataMENtOS
MÉDICO
A terapia inicial requer antibio-
ticoterapia agressiva nas concen-
trações normais ou com soluções
fortificadas, sendo a eleição do
antibiótico conforme os resultados
da cultura e do antibiograma (Bar-
nett et al., 1995; Hamor e Whelan,
1999; Slatter, 2001). Em geral, as
cepas de Pseudomonas aeruginosa
apresentam sensibilidade aos ami-
noglicosídeos, como tobramicina,
gentamicina ou amicacina (Moore,
1987; Nasisse e Nelms, 1992; Gy-
les, 1993; Barnett et al., 1995); no
entanto, eles devem ser utilizados
com cautela devido a sua ação
tóxica sobre o epitélio corneano
(Lima e Belfort Jr., 1996; Kanski,
2000). Segundo estudo realizado
por Sweeney e Irby (1996), os testes
de sensibilidade para P. aeruginosa
isolada de úlceras corneanas em
cavalos, revelaram maior sensibili-
dade à amicacina (93%) comparada
à tobramicina (87%) e, em contraste,
uma resistência bacteriana a estes
antibióticos já foi verificada em
estudo retrospectivo (Sauer et al.,
2003).
Na presença concomitante de
miose e espasmo ciliar, a atropina
tópica é indicada para alívio do
desconforto ocular, estabilização
da barreira hematouveal e preven-
ção de sinéquias (Nasisse e Nelms,
1992; Vygantas e Whitley, 2003).
Em alguns casos, pode ser utilizada
juntamente com fenilefrina tópica
(Barnett et al., 1995).
Os agentes anticolagenolíticos
também são indicados em todos os
casos de necrose estromal liquefati-
va e, especialmente, na infecção da
córnea por P. aeruginosa. Diversos
autores recomendam o uso de inú-
meros agentes: acetilcisteína, EDTA,
plasma, solução de heparina, toxóide
tetânico (Moore, 1983; Barnett et al.,
1995; Sweeney e Irby, 1996; Hamor
e Whelan, 1999; Slatter, 2001).
Conforme mencionado, a acetilcis-
teína pode facilitar a adesão da P.
aeruginosa por afetar a integridade
do filme lacrimal (Hamor e Whelan,
1999; Aristoteli e Willcox, 2001).
Atividade anticolagenolítica foi
Figura 2
Imagem de úlcera colagenolítica resultante de infecção corneana experimental por Pseudomonas aeruginosa
no olho direito de coelho. Observar opacidade e “melting” corneano, neovascularização perilimbal
profunda, hiperemia conjuntival, quemose, edema palpebral e secreção ocular mucopurulenta.
Suplemento
TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
verificada em estudos in vitro para o
soro, acetilcisteína, toxóide tetânico
(Haffner et al., 2003), ao contrário
do que foi observado para a hepari-
na (Salonen et al., 1987). A eficácia
destes agentes é controvertida (Laus
e Andrade, 1998) e, em geral, eles
falham durante o tratamento clínico
(Hao et al., 1999a). A apronitina não
inibiu a degradação de colágeno in
vitro (Hao et al., 1999b) nem quan-
do utilizada na terapia da ceratite
experimental por P. aeruginosa em
coelhos (Stuart et al., 1991), dife-
rentemente do obtido por Salonen et
al. (1987) no tratamento de afecções
corneanas em seres humanos. Além
desta, verificou-se que a galardina é
capaz de diminuir, de modo signifi-
cativo, a ação direta e indireta da P.
aeruginosa sobre a degradação de
colágeno em cultura celular (Hao
et al., 1999b). Em outro estudo,
a inibição da elastase, oriunda de
leucócitos humanos, foi alcançada
com o uso de glicosaminoglicano
polissulfatado, cuja máxima capa-
cidade foi cerca de 60-70% (Baici
et al., 1980).
Antiinflamatórios não esteroidais
também têm sido indicados no tra-
tamento destas ceratites bacterianas
para alívio da dor ocular, estabili-
zação da barreira hemato-aquosa
(Barnett et al., 1995) e inibição dos
metabólitos do ácido aracdônico, de
forma a reduzir a reação inflamatória
e minimizar os danos provenientes
de uma resposta exacerbada. Entre-
tanto, estes agentes podem retardar
o processo de cicatrização (Lima et
al., 1995), assim como os analgésicos
opióides (Zieske, 2001).
CIrúrGICO
O tratamento cirúrgico das úlce-
ras bacterianas por P. aeruginosa
é indicado para a redução da área
necrótica ou na reparação de lesões
profundas. Várias técnicas estão
disponíveis, entretanto, no cavalo,
normalmente utilizam-se transposi-
ção lamelar córneo-escleral, flaps de
membrana nictitante, ceratoplastia
conjuntival livre ou pediculada,
ceratoplastia lamelar (Hacker et
al., 1990; Hamor e Whelan, 1999)
ou tarsorrafia temporária (Barnett
et al., 1995). Ótimos resultados
foram obtidos com transplante de
membrana amniótica no tratamento
cirúrgico, nas úlceras infectadas por
P. aeruginosa em coelhos e foram
indicadas especialmente naqueles
casos de liquefação estromal e perda
estromal extensa, sendo necessá-
rio, nesse caso, controle prévio da
infecção (Chen et al., 2002). Estes
efeitos benéficos têm sido atribuídos
à presença de fatores de crescimento,
presentes em amostras de membra-
nas amnióticas frescas e congeladas
(Charters, 2001).
COMPLICaçÕES
E SEQÜELaS
A despeito da terapia antimi-
crobiana apropriada, a ceratite
infecciosa persiste como resultado
das proteases já liberadas, da ativa-
ção de pró-MMPs e da degradação
da matriz extracelular (Nasisse e
Nelms, 1992; Engel et al., 1998;
Nagano et al., 2001). Esta ceratite é
freqüentemente difícil de ser trata-
da, podendo progredir rapidamente
para perfuração ou resultar em ci-
catrização exuberante, com danos à
acuidade visual (Barnett et al., 1995;
Laibson apud Gupta et al., 1996;
Sauer et al., 2003). A phthisis bulbi
pode seguir-se à ulceração da córnea,
especialmente quando esta leva à
perfuração com aumento da reação
inflamatória, produzindo oftalmite
(Carlton e Render, 1990). Em estudo
retrospectivo realizado por Sweeney
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Maria da Graça Becker Dutra
Médica Veterinária, CRMV-RS no. 2258
Especialista, Professora Adjunta do
Curso de Medicina Veterinária da Uni-
versidade Luterana do Brasil (ULBRA)
Funcionária Pública da Secretaria de
Agricultura - RS.
Endereço para correspondência:
Rua Fernando Machado 386/302 Centro
Porto Alegre – RS - CEP: 90010-320
E-mail: mgdutra@uol.com.br
A B S T R A C T
R E S U M O
A evolução e as profundas alterações de comportamento e de tecnologia que
ocorreram no mundo modificaram, incessantemente, a vida das pessoas
e, por conseguinte, as distintas sociedades dos mais diferentes povos. A
Medicina Veterinária, que tinha como principal missão preservar a saúde dos
animais e, em conseqüência, a da humanidade, modificou o seu perfil. As
novas tecnologias, que em muito contribuíram para aumentar os índices de
produção e produtividade, ocasionaram mudanças na cadeia produtiva e na
qualidade de vida dos animais. o aumento na densidade animal, encontrado
em muitas explorações, é um dos fatores que favorece a transmissão de
agentes patogênicos, e além disso os dejetos dessas explorações intensivas
poluem o meio ambiente e contribuem para a contaminação dos alimentos
ao longo da cadeia produtiva. No entanto, o mercado consumidor exige um
produto inócuo e de qualidade. o médico veterinário deve estar consciente
da sua responsabilidade profissional junto à sociedade e dos desafios que
deverá enfrentar. o trabalho inicia no campo junto ao produtor, desenvol-
vendo atividades que melhorem a qualidade sanitária dos rebanhos, com
respeito aos limites de exploração de cada espécie produtora e através de
sistemas produtivos adequados; na elaboração e oferta de alimentos com
garantia de inocuidade e em quantidades ideais para suprir as necessidades
das populações atuais e futuras e na proteção do meio ambiente.
unitermos: médico veterinário, meio ambiente, alimentos, saúde pública.
The multiple faces and challenges of a profession called
veterinary medicine
As múltiplas faces e desafios de uma profissão
chamada Medicina Veterinária 1
The evolution and deep alterations in the behavior and technology occurred in
the world changed the society’s reality. The veterinary medicine, that had as its
main mission to preserve animal’s health and consequently humanity’s health,
changes its profile. The new technologies that contribute so much to improve the
production rates and productivity, occasioned changes in the productive chain.
The raise of animal density found in many explorations is one of the factors that
favor the transmission of pathogenic agents and besides that, the dejection of
this intensive exploration pollute the environment and adding to this, the facility of
contamination of consuming market demands an innocuous and qualified product.
The veterinarian must be awareof his professional responsibility in the society
and the challenges he will face. The work starts in the country with the productor
developing activities that improve the sanitary quality of the herds, considering
the limits of exploration of each producing specie and through suitable productive
systems; in the elaboration and food supply with garantee of innocuousness in
ideal quantities to supply the needs of present and future populations and in the
environment protection.
INtrODUçãO
Em 23 de outubro de 1968, através
da Lei nº 5.517, a Medicina Veterinária
foi regulamentada no Brasil e aos Mé-
dicos Veterinários coube o estabeleci-
mento de diversas atividades inerentes
à profissão. Entretanto, a história da
Medicina Veterinária remonta aos
mais remotos tempos da humanidade,
na Era Mesolítica - quando o homem
domesticou o primeiro animal, o olhar
veterinário, ainda que embrionário, se
fazia presente nesse novo desenho da
relação homem/animal. Essa relação
paulatinamente foi sendo ampliada e o
homem passou a usufruir do convívio
de várias espécies. Dessas relações de
intimidade entre o universo humano e
o animal ficava mais fácil a obtenção
do alimento. Não mais era necessá-
rio caçar como dantes. O couro e a
lã permitiram às civilizações mais
primitivas melhorias habitacionais
e a proteção contra o frio. Por outro
lado, havia a necessidade de manter a
saúde dos rebanhos nascentes e, ainda
que não houvesse, por assim dizer, um
médico veterinário tal e qual é com-
preendido esse profissional em nossos
dias, os animais – que aos poucos se
¹Trabalho apresentado ao CFMV- Conselho Federal de Medicina Veterinária, como exigência para participar da premiação na área: A Medicina
Veterinária do campo à mesa ocorrido durante o I Congresso Nacional de Saúde Pública Veterinária
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tornavam domésticos – passaram a
merecer a atenção sanitário-curativa,
que até então era privilégio humano.
Igualmente, cabe salientar, que os
animais não só trouxeram benefícios
ao homem... Convívios estreitos entre
uns e outros abriram caminhos para
doenças e agravos antes não conhe-
cidos. O homem precisava aprender
a cuidar-se para além do que sabia
identificar enquanto risco à sua saú-
de. Por muitos caminhos haveria de
andar a humanidade até adquirir um
domínio mínimo que lhe asseguras-
se e salvo conduto nessa trajetória.
Especulações a parte, as doenças
certamente grassavam e muitos dos
animais que se deixavam capturar
facilmente poderiam estar enfermos e,
por conseguinte, esses se constituíam
em ameaça a saúde daqueles que os
aprisionavam.
Algumas referências sobre a me-
dicina animal datam do século XVIII
a.C., entretanto, a Medicina Veterinária
moderna teve sua origem em 1.762,
quando Claude Bourgelat criou, na
França, a primeira Escola de Veteri-
nária, mais precisamente na cidade de
Lyon. Ainda que originalmente ligada
à medicina do cavalo, o nascimento da
primeira Escola de Medicina Veteriná-
ria inaugurou o caminho que fez com
que a Veterinária pudesse beneficiar-se
da descoberta da origem microbiana
das doenças feita por Louis Pasteur,
igualmente na França, na segunda
metade do século XVIII. Algumas das
descobertas daquele tempo histórico
eram zoonoses. Crescia a Medicina
Veterinária e, juntamente, crescia a
qualidade de vida das pessoas.
O aumento populacional, a evolução
dos saberes, a tecnologia e as profundas
alterações de comportamento que ocor-
reram no mundo modificaram o perfil
de exigência da sociedade, não somente
em termos de aumento de quantidade e
disponibilidade de produtos alimentares
mas, e sobretudo, um aumento no grau
de qualidade e inocuidade dos alimen-
tos. Como conseqüência de tal evolução
houve uma alteração na realidade de
mercado nas áreas que envolveram a
criação de animais de produção e a qua-
lidade de seus produtos e subprodutos.
Ao médico veterinário coube a missão
de preservar a saúde dos animais e, em
conseqüência, a das pessoas. A Medici-
na Veterinária contemporânea modifi-
cou o perfil original da profissão: não
mais tão envolvida com a medicina do
cavalo, o médico veterinário de nossos
tempos passou a se ocupar da promo-
ção da saúde humana e engrossou as
fileiras da saúde pública. Modificou-se
o seu perfil profissional.
Nestes tempos, o veterinário ao
exercer sua profissão, contribui para
o aumento da produção de alimentos,
através do melhoramento genético dos
rebanhos, das biotécnicas aplicadas à
reprodução e da manutenção de eleva-
dos padrões de sanidade animal. Sua
participação se dá nas ações de saúde
pública, integrando equipes multi-
disciplinares nas áreas da inspeção
de produtos e subprodutos de origem
animal, tecnologia de alimentos, ar-
mazenagem e transporte de alimentos,
vigilância sanitária no que concerne à
indústria e comercialização de alimen-
tos, vigilância epidemiológica e vigi-
lância ambiental mormente no campo
da erradicação e controle de zoonoses.
Cada vez mais o profissional de saúde
pública veterinária se destaca no cam-
po do planejamento, administração e
estruturação de campanhas sanitárias;
na produção de imunobiológicos;
na prevenção dos ecossistemas e na
preservação da biodiversidade; no
agronegócio; na administração de agro-
indústrias; na pesquisa científica e nos
estudos de anatomia comparada, tão
útil ao desenvolvimento da Medicina
humana.
O médico veterinário deste milênio
deve estar consciente da sua responsa-
bilidade profissional junto à sociedade
e dos desafios que deverá enfrentar.
Seu trabalho inicia no campo, junto
ao produtor. O médico veterinário
empresta seu saber ao produtor ru-
ral que, antes de mais nada, deverá
garantir que a terra e os animais que
nela habitam, possam lhe dar as con-
dições de manter a sua família bem
alimentada e em condições de saltar da
condição de representantes do modelo
de economia de subsistência para o
patamar dos mercados. O acesso aos
mercados competitivos traz no seu bojo
a exigência de padrões de qualidade e o
veterinário contribui para que tais metas
sejam alcançadas, sempre resguardando
o bem-estar animal e a manutenção
e salubridade ambiental. A Medicina
Veterinária é uma profissão que prioriza
a vida, e daí decorre que não haverá
evolução da sociedade se não forem
respeitadas as condições mínimas que
apontam sua conservação do plane-
ta. O desenvolvimento do alimento
saudável deve estar ligado, concreta-
mente, a paradigmas que resguardem
a bioética e à preservação do meio
ambiente. Afinal, o médico veteriná-
rio é um profissional da terra, ou por
boa parte daqueles seres que sobre
ela vivem.
2 - a MEDICINa
VEtErINÁrIa COMO
SUPOrtE À PrODU-
çãO DE aLIMENtO E À
PrESErVaçãO DO MEIO
aMBIENtE
A necessidade de produzir alimento
em qualidade e quantidade adequada
para a população constitui numa com-
plexa missão do médico veterinário,
da sociedade em geral, dos gestores
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das políticas públicas setoriais (sani-
dade animal, vigilância sanitária, meio
ambiente..), de donos de empresas
e, mais particularmente, dos produ-
tores rurais dos distintos países do
mundo. Assim, muitos componentes
desta cadeia estão fortemente corre-
lacionados, por necessidade inques-
tionável. Afinal, todas as tecnologias
empregada nos últimos anos do século
passado não foram suficientes para
debelar ou pelo menos minimizar o
grande flagelo da era contemporânea:
a fome. Passamos, sim, pelo desenvol-
vimento de tecnologia, pela prevenção
e controle de enfermidades, incluindo
as zoonoses, e pelo enfrentamento
de safras deficientes. Entretanto,
enfrentamos pontos críticos na área
social, cujas mazelas são praticamente
permanentes, quais sejam: a pobreza,
a desigualdade cultural e consequen-
temente o deficiente desenvolvimen-
to de recursoshumanos, a falta de
eqüidade na distribuição de renda e as
deficientes políticas para a conservação
e proteção do ambiente que garanta a
produção de alimentos de forma saudá-
vel e sustentável (ONU, 2001).
Do ponto de vista político, o de-
senvolvimento sustentável objetiva
ser um processo de saída para a
crise ambiental global e dos lugares,
ocasionada pela herança histórica,
sistema econômico-social dominan-
te, tecnologias, formas de consumo,
cultura, percepções, valores e ética,
responsáveis pela crise social - o que
torna imperativo o encontro de uma
solução integrada das duas.
Neste contexto a Medicina Veteri-
nária tem um papel fundamental: de
um lado a pressão para o aumento da
produtividade dos rebanhos disponi-
bilizando o aumento de proteína ani-
mal e, de outro, o cuidado para que
esse aumento não afete o ambiente.
No entanto, esses processos, entre si,
têm se revelado adversos, na maioria
das vezes. Achar o equilíbrio entre
produção e riscos de degradação do
meio é, atualmente, a grande provação
para essa profissão e seus profissio-
nais. Além disso, a evolução do nível
tecnológico empregado no manejo dos
rebanhos, principalmente em criações
intensivas como as de suínos, não é
compatível com o modelo de gestão
dos dejetos resultantes destas criações
e pouco tem contribuído para atender
à legislação ambiental vigente e a
sustentabilidade ambiental (Oliveira,
2000).
Os processos produtivos desses
animais geram grandes quantidades
de gases, vapores, poeiras e dejetos
que podem causar problemas de maus
odores, comprometer a saúde dos
trabalhadores e dos animais além de
serem altamente poluidores, afetando
a qualidade das águas, do ar, do solo
e proporcionando a degradação am-
biental das regiões produtoras. Além
disso, proporciona um ambiente ideal
à proliferação de moscas e simulídeos
(borrachudos) nessas regiões, como
conseqüência da disposição desse
material no meio ambiente. O armaze-
namento dos dejetos dos suínos e sua
utilização como biofertilizantes não
têm sido eficiente para atender às ne-
cessidades dos produtores nem aos pa-
drões exigidos para o licenciamento,
pois a diluição excessiva dos dejetos,
pelo manejo inadequado da água, tem
inviabilizado economicamente o seu
transporte e utilização como adubo
(Perdomo et al., 2003).
Segundo Zanella (2003), a migra-
ção de sistemas intensivos de produção
animal para o Brasil, principalmente de
origem européia ou norte-americana,
em grande parte das vezes, podem ser
danosos ao meio-ambiente, compro-
metem o bem-estar animal e a saúde
das pessoas. O autor narra ainda a
análise feita pela unidade produtora de
suínos da Michigan State University,
sobre as mudanças na indústria suiní-
cola mundial: “o maior incentivo para
a mudança das unidades de produção
Norte-Americanas para o Brasil é a
falta de legislação de proteção am-
biental em alguns estados brasileiros,
seguida da mão-de-obra barata e o
fato de que os dejetos das unidades
podem ser despejados sem nenhum
cuidado especial. Além disso, estabe-
lecer unidades de produção no Brasil
é como ganhar cerca de 20 anos de
moratória, nos quais não precisamos
efetivar mudanças nos sistemas de
produção”. Nesse sentido, são bem
vindas as recomendações internacio-
nais, provenientes da série de normas
ISO 14.000, que impõem regras im-
portantes aos setores produtivos que
atuam na exportação de seus produtos,
condicionando a liberação de barrei-
ras ao fornecimento com qualidade
ambiental para os consumidores (Oli-
veira, 2000).
2.1 PrODUçãO DE
aLIMENtOS
A humanidade encontra-se em
um momento de definição histórica.
De um lado o desenvolvimento em
ritmo acelerado, buscando satisfazer
as necessidades e elevar o nível de
vida dos povos, e, de outro, a luta
incessante pela preservação do meio
ambiente. Perseguir o equilíbrio entre
incremento de produção e ecossis-
temas protegidos são metas a serem
elaboradas e executadas por todas as
nações, em uma associação mundial,
em prol do desenvolvimento susten-
tável (Oliveira, 2000).
Dentro dessa premissa enquadra-se
o médico veterinário com a responsabi-
lidade de aumentar a produtividade dos
rebanhos e conseqüentemente a geração
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de alimentos, disponibilizando proteína
animal em escalas condizentes com a
necessidade mundial sem, no entanto,
agredir ou destruir os ecossistemas
envolvidos nessa produção.
As novas tecnologias científicas
contribuíram para elevar os índices de
produção e produtividade relativamen-
te aos animais, nas últimas décadas,
em todo mundo, principalmente no
que concerne às explorações avíco-
las e suinícolas, constituindo-se, ao
lado da bovinocultura, as explorações
econômicas mais expressivas para a
produção de alimentos destinados ao
consumo humano.
Barbosa (2005) menciona a
previsão da FAO, de que até o ano
de 2015 haverá a necessidade de se
dobrar a quantidade de carne pro-
duzida (atualmente está na ordem
de 258 milhões de toneladas) e nos
países em desenvolvimento, até o ano
de 2020 acredita-se em incrementos
anuais na ordem de 1,8 e 3,3% para
carne e leite, respectivamente. Esse
crescimento de produção tem o intuito
de suprir as necessidades da popula-
ção mundial, que está acima de 6,3
bilhões de pessoas e que continua a
crescer com taxa superior a 1,5% ao
ano. No entanto, segundo o autor, para
que se possa atender efetivamente
os pressupostos do desenvolvimento
sustentado, é necessário ter como foco
os seguintes elementos: a questão da
gestão ambiental, decorrente da maior
produtividade e competitividade pe-
cuárias, que podem trazer conseqü-
ências desastrosas ao meio ambiente;
a segurança alimentar e qualidade do
produto, como fatores intrínsecos à
melhor saúde da população e o limite
biológico dos animais, decorrente da
evolução nos processos de criação, o
que pode provocar mudanças drásticas
na variabilidade genética das popula-
ções e conseqüentemente, no ganho
genético.
Para Moreira (2005), a seleção
genética procurando maximizar o
potencial biológico, incrementando
os progressos na nutrição, instalações
e manejo, viabilizou a produção de
maior quantitativo de animais por
área, por um lado, mas exigiu maiores
cuidados especiais com a sanidade,
por outro lado. A prevenção e erra-
dicação de doenças transmissíveis, o
controle rigoroso sobre os insumos
veterinários utilizados na produção
animal formam um elenco de me-
didas essenciais para garantir níveis
seguros e competitivos na produção
de alimentos de origem animal. En-
tretanto, a densidade da população
animal encontrada em muitas explo-
rações é um mecanismo que favorece
a transmissão dos clássicos agentes
infecciosos: vírus, bactérias, fungos,
espiroquetas, protozoários e helmin-
tos, facilitando o desencadeamento de
epidemias, além de propiciar as condi-
ções de viabilidade para a manutenção
desses agentes no ambiente.
Ainda considerando a realidade do
Brasil no que diz respeito à pobreza
e ao desemprego, muitos alimentos
são produzidos sob a qualificação
de economia familiar. Entretanto,
distinções terminológicas devem ser
feitas entre produto de origem desco-
nhecida e produtos obtidos a partir de
agroindústrias de tipo familiar. Grande
parte dos domicílios rurais passaram a
produzir alimentos a partir de conhe-
cimentos tradicionais, nem sempre
contemplados com o benefício dos
modernos conhecimentos de higiene
e boas práticas de fabricação. Para o
caso dos produtos caseiros, muitos são
comercializados no território nacional
sem prévia inspeção, não lhes sendo
dispensados especiais cuidados tam-
pouco na situação de comercialização.
Essa situação torna-se mais real diante
da necessidade de vender excedentes
dos produtos fabricados para seu con-
sumo e, dessa forma, contribuir para o
fortalecimento da renda familiar. No
entanto, muitos agricultores que ven-
dem alimentospor eles fabricados, ig-
noram os riscos eminentes que possam
representar o consumo de produtos
fabricados sob tais condições à saúde
de quem os consome. Portanto, cabe
frisar, que em nada se está referindo à
pequena agroindústria de tipo familiar
que procura adequar-se as exigências
tecnológicas modernas para a pro-
dução de alimentos saudáveis, que
passam necessariamente pela implan-
tação das boas práticas de fabricação
em seus estabelecimentos. Em nada
se está referindo a comercialização
de produtos devidamente submetidos
pelas regulações de vigilância sani-
tária, por exemplo. Finalmente, que
fique devidamente entendido que é
impossível imaginar a trajetória para
obtenção de alimentos saudáveis, em
processos que compreendem o nascer
de animais, seus crescimentos, seus
cuidados, suas transformação em
alimentos com posterior comerciali-
zação, sem a presença obrigatória do
médico veterinário.
Além disso, a cada dia o mercado
de alimentos é inundado mundial-
mente com novos produtos e novas
formulações e cabe ao médico vete-
rinário propor e exercer o controle
e a vigilância das boas práticas de
fabricação dos produtos, buscando
estabelecimentos irregulares, numa
verdadeira busca ativa de possíveis
lugares geradores de problemas de
saúde pública, com o objetivo de
prevenir a incidência de agravos. Tal
abordagem não deve ser entendida
como estigma da pequena e média
iniciativa empresarial. Para Dos An-
jos (2005), há igualmente grandes
empresas na área do comércio de
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alimentos onde, na busca do lucro
voraz, constata-se práticas de grande
risco à saúde das populações.
Como a produção de proteína
animal de forma sustentável ao am-
biente é tarefa a ser encarada com
urgência e com igualdade entre os
povos, o papel do médico veterinário
no cenário da proteção à saúde pú-
blica está em desenvolver políticas
sanitárias que garantam a exploração
pecuária com bem-estar animal, a
capacidade de vê-la transformada
em alimentos de qualidade, dentro
de padrões de salubridade e em
quantidades suficientes para suprir
as necessidades da humanidade.
2.2 CONSErVaçãO DO
MEIO aMBIENtE
A explosão demográfica mundial,
associada às perversões de modelos
econômicos que incentivam o consu-
mo desmesurado e compulsivo, não
tem titubeado em degradar o ambiente
em troca de lucros cada vez maiores.
Dentro deste contexto destaca-se a
produção de proteína animal, em esca-
la progressiva, para atender a demanda
da população mundial que cresce, por
vezes, a índices alarmantes, em muitos
lugares do planeta. Essa necessidade,
associada aos padrões não sustentá-
veis, exerce uma pressão cada vez
mais intensa sobre as condições que
têm o planeta de sustentar a vida.
Segundo a ONU (2001), a política
para o meio ambiente deve visar à
conservação e proteção dos recursos
naturais e daqueles que dependem
dos recursos para sua sobrevivência.
Qualquer outra política voltada princi-
palmente para a produção de bens que
não leve em conta a sustentabilidade
dos recursos sobre os quais se baseia
a produção levará, mais cedo ou mais
tarde, a um declínio na produtividade.
Essa política deve ter uma visão plane-
tária da ação do homem na degradação
do ambiente. Para isso é fundamental
o desenvolvimento de uma educação
ambiental que incorpore as dimensões
socio-econômicas, política, cultural e
histórica, não podendo basear-se em
pautas rígidas e de aplicação univer-
sal. Devem considerar as condições
e estágios de cada país, região e
comunidade sob uma perspectiva
histórica, permitindo a compreensão
da natureza com o objetivo de utilizar
racionalmente os recursos do meio
na satisfação material e espiritual da
sociedade no presente e no futuro. O
desenvolvimento sustentável pressu-
põe que esse crescimento setorial seja
ecologicamente preservador, social-
mente justo e economicamente efi-
ciente. Significa, em outras palavras
um indivíduo saudável, formando
uma sociedade igualmente saudável
inserido num modelo econômico
sustentável do ponto de vista da não
agressão ao planeta. Só assim se poderá
garantir a curto, médio e longo prazo,
local e planetariamente, uma qualidade
ambiental que leve à qualidade de vida.
Evidentemente o medico veterinário e
seu universo deve estar perfeitamente
inserido na busca dessa nova ordem
planetária.
3 - a MEDICINa
VEtErINÁrIa NO
CONtrOLE Da SaúDE
PúBLICa atraVÉS Da Sa-
NIDaDE DE PrODUtOS DE
OrIGEM aNIMaL
As enfermidades gastrointestinais
veiculadas por água e alimentos ainda
expressam grande parte da morbi-
mortalidade humana, principalmente
quando se trata de crianças menores
de cinco anos de idade, na maioria dos
países do terceiro mundo. A urbaniza-
ção e a aglomeração humana sempre
impuseram a necessidade de soluções
para o tratamento de resíduos fecais,
coleta do lixo urbano, combate a ve-
tores e roedores, controle da criação
e abate irregular de animais. Junto a
isso, o controle da qualidade da água
e alimentos consumidos pela popu-
lação forma o conjunto de medidas
que resultam em barreiras sanitárias a
serem interpostas entre seres humanos
e microrganismos causadores destas
doenças (Toledo et al, 2002).
Segundo Miranda (2002), os ali-
mentos podem ser contaminados por
bactérias patogênicas para o homem,
como resultado de deficientes con-
dições de higiene durante o seu pro-
cessamento, quer a partir de pessoas ou
animais doentes, quer a partir de fezes
provenientes de indivíduos infectados.
Os alimentos podem, também, cons-
tituir um perigo para a saúde pública,
devido ao crescimento excessivo de
populações bacterianas, à superfície
ou no interior dos mesmos, capazes
de produzir toxinas que, ao serem in-
geridas com o alimento, podem causar
graves desequilíbrios à saúde.
Sabe-se que nos últimos 20 anos
houve significativos progressos no
controle e erradicação das principais
doenças dos animais de interesse eco-
nômico e de relevância para a saúde
pública. Esse fato está vinculado, ba-
sicamente, à situação sócio-econômi-
ca de uma parte da população, que ao
se tornar mais exigente, favoreceu o
crescimento da demanda de produtos
de origem animal isentos de doenças,
e com alto padrão de qualidade.
Ao se comparar a situação de saú-
de no mundo, considerando os países
desenvolvidos e em desenvolvimen-
to, observa-se que as populações com
menores condições sócio-econômi-
cas continuam a padecer de doenças
carências, infecciosas e parasitárias
transmitidas pela contaminação da
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água, do solo, alimentos, insetos e
vetores. O controle higiênico, sani-
tário e tecnológico, constitui-se em
fator preponderante para evolução
técnica e social da indústria alimentar,
chegando a ser considerado, segundo
Miranda (2002), como assunto de
segurança nacional pela significância
dos alimentos no mundo atual. Mo-
reira (2005), cita que em quase dois
milhões e meio de bovinos abatidos
em Minas Gerais e inspecionados pelo
SIF entre 1993 e 1997, a tuberculose
é a principal causa de condenação to-
tal de carcaças de bovinos, embora a
cisticercose tenha a principal causa de
julgamento e aproveitamento condi-
cional. Essas enfermidades, classifica-
das como zoonoses, desempenham um
papel importante na área da saúde pú-
blica por comprometer a saúde huma-
na, temporária ou permanentemente,
através da incapacitação física ou
mental dos indivíduos em idade pro-
dutiva, exigindo especial atenção e
custos elevados dos serviços oficiais.
Na intenção de buscar uma maior
segurança alimentar para que as pes-
soas tenham acesso a alimentos nutri-
tivos e saudáveis, capazes de assegu-
rar uma vida sadia, digna e ativa, foi
criado a Comissão Panamericana de
Inocuidade de Alimentos (COPAIA)
que estabelece a inocuidade dos ali-
mentos como uma prioridadee adota
as Normas do Codex Alimentarius¹
como a base científico-técnica, para
garantir que os alimentos consumidos
pela população tenham condições
sanitárias apropriadas e facilitem seu
comércio internacional (Moreira,
2005).
3.1 COMÉrCIO DE
aLIMENtOS DE OrIGEM
aNIMaL E DErIVaDOS
Com a facilidade do comércio
existente atualmente e com a deman-
da cada vez maior de alimentos de
origem animal, torna-se necessário
que as importações e exportações de
alimentos obedeçam, rigidamente,
as normas sobre segurança alimen-
tar estabelecidas pelos organismos
internacionais, visando à prevenção
de agravos à saúde e o impedimento
de possível ingresso de agentes que
possam servir de fonte de infecção ao
rebanho local.
Para existir segurança alimentar
todas as pessoas no mundo devem ter
acesso físico e econômico a suficien-
tes alimentos inócuos e nutritivos, ca-
pazes de satisfazer suas necessidades
e suas preferências alimentares. No
entanto, a qualidade e a inocuidade
dos alimentos começa no início de
sua cadeia produtiva, que envolve,
inclusive, o nascer, o desenvolvimen-
to, a qualidade de vida e o abate dos
animais, além da elaboração das boas
práticas que envolvem a transforma-
ção da matéria prima em alimento, seu
armazenamento, transporte, comércio
e consumo.
Segundo Miranda (2000), o Bra-
sil tem uma excelente produção
de alimentos, tanto em termos de
quantidade como de qualidade, ca-
paz de colocá-lo entre o ranking dos
maiores países exportadores, porém,
alguns entraves prejudicam e limitam
o comércio adequado de alimentos,
destacando-se como limites ao bom
andamento do setor o alto percentual
de abate clandestino; a falta de ma-
nutenção de plantas frigoríficas ade-
quadas; a endemicidade de algumas
enfermidades; o transporte e o arma-
zenamento de alimentos de maneira
insalubre e o comércio ilegal de pro-
dutos. Necessariamente a qualificação
do país enquanto grande produtor de
alimentos passará, obrigatoriamente,
pela definição de políticas públicas
setoriais que, de forma integrada,
possam fazer frente ao abigeato, à
produção clandestina de alimentos,
à garantia do consumo de alimentos
inspecionados, e que se observem
as demais normativas definidas em
regulações nacionais para o setor,
entre outras observações possíveis
de serem feitas.
3.2 INCIDÊNCIaS
DE ENFErMIDaDES
traNSMItIDaS POr
aLIMENtOS E OS CUStOS
Da atENçãO À SaúDE
A vigilância sanitária constitui
importante sistema de prevenção e
controle de enfermidades transmiti-
das por alimentos (ETAs). Dentro de
suas ações está a fiscalização sobre
o cumprimento das normas e leis
para produção, a manipulação e a
comercialização dos alimentos. Esta
legislação não só elabora padrões
higiênico-sanitários como também
normas para o emprego de aditivos,
propaganda, rotulagem e apresentação
dos alimentos. O desrespeito aos pa-
drões higiênico-sanitários pode levar
à contaminação de qualquer alimento
por substâncias tóxicas, microrganis-
mos patogênicos e parasitas.
As ETAs têm sido nos últimos
anos focos de discussões, havendo
uma preocupação e uma busca em
todo o mundo por estratégias que per-
mitam o seu controle e, assim, a garan-
tia da colocação de produtos seguros
no mercado. O aumento exponencial
de enfermidades, verificado atualmen-
te em muitos países, é influenciado
¹Codex Alimentarius - fórum internacional de normalização sobre alimentos.
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por vários fatores, o que dificulta o
controle por parte das autoridades de
saúde pública. O sistema de criação
intensivo de animais de produção é
apontado por Bersot (2004) como um
dos mais importantes desses fatores.
Segundo Schlundt et al. (2005), as
enfermidades diarréicas, na maioria
zoonóticas quase todas provocadas
por patógenos microbianos e trans-
mitidas por alimentos ou pela água,
constituem-se em uma das principais
causas de morbidade e mortalidade
em países menos desenvolvidos e
são responsáveis pela morte de 1,9
milhões de pessoas/ano. Nos países
desenvolvidos calcula-se que até um
terço da população se infecta a cada
ano por enfermidades microbianas
transmitidas por alimentos.
De acordo com os estudos da
Organização Mundial da Saúde so-
bre as doenças de origem alimentar,
aproximadamente 60% dos casos
decorrem de técnicas inadequadas de
processamento e contaminação dos
alimentos servidos em restaurantes,
bares e botequins. Além disso, outros
registros enfatizam que nos países
em desenvolvimento ocorrem mais
de um bilhão de casos de diarréia
aguda em crianças menores de cinco
anos, das quais 5 milhões chegam ao
óbito. Estima-se que 100 milhões de
indivíduos, em todos os países civili-
zados, contraem doenças decorrentes
de alimentos (Barbosa, 2005).
Segundo Toledo et al. (2002), os
alimentos de origem animal repre-
sentaram maior risco epidemiológico
e foram responsáveis por 67,6% dos
surtos que ocorreram no RJ em 2000.
Os restaurantes e similares foram os
locais que corresponderam ao maior
número de notificações (58,5%),
mas o maior número de comensais
acometidos de ETA’s ocorreu em
estabelecimentos como instituições
públicas, creches, escolas, hospitais e
cozinhas industriais, correspondendo
a 61,6% do total de pessoas. A Vigi-
lância Sanitária rotineira nos estabe-
lecimentos comerciais é importante
para controlar os fatores de risco, mas
também se tornam imprescindíveis
ações intensas nos estabelecimentos
de maior risco epidemiológico, como
cozinhas industriais, hospitais, cre-
ches e escolas.
O mesmo autor relata que no Bra-
sil, mais de 550 mil internações em
hospitais do Sistema Único de Saúde,
durante 1998 a 2001, ocorreram por
infecções intestinais como cólera,
febre tifóide, amebíase, entre outras.
Este número corresponde a 4,5 a 4,8%
das internações e teve um custo apro-
ximado de 100 milhões de reais.
Embora só chegue ao conhecimen-
to dos serviços de saúde a existência
de poucos surtos de ETA, é de se supor
que a ocorrência seja grande, tendo em
vista a precariedade de saneamento
básico em nosso meio, assim como
falta de noções básicas de higiene
no ciclo produtivo dos alimentos e a
deficiência dos sistemas de notificação
de doenças. Conhecidos ou não, esses
surtos acarretam em ausência das pesso-
as acometidas ao trabalho, absenteísmo
escolar e despesas com tratamento,
gerando problemas econômico-sociais
e devendo ser bem investigados para
minimizar os seus efeitos através da
adoção de medidas adequadas.
Parece oportuno referir que,
mundialmente, grande parte das
toxinfecções alimentares ocorrem
em ambiente intradomiciliar. Tal
constatação epidemiológica leva a
pensar que, para além do dever de
legalmente zelar pela qualidade dos
alimentos fora dos domicílios, cabe
aos profissionais de saúde e, entre
eles o médico veterinário, socializar
seu conhecimento de modo que estes
ajudem as populações a resguardar a
saúde em seus lares.
4 - a MEDICINa
VEtErINÁrIa FrENtE
aOS NOVOS DESaFIOS
Sendo a medicina veterinária uma
profissão de largo espectro de atuação,
são muitos os desafios que lhe cabe
enfrentar no seu dia-a-dia e dentre eles,
o aumento qualificado da produção de
alimentos é um dos mais nobres.
Segundo Figueiredo (2002), as
obrigações com os animais dizem
respeito a princípios bioéticos, fo-
cados no bem estar da sociedade e
dos animais. Neste contexto torna-se
fundamental que a formação do mé-
dico veterinário esteja voltada para
o bem-estar animal. Embora todas
as profissões enfrentem obrigações
morais com seus clientes, com seus
colegas de profissão e para consigo
mesmo e sua família, as obrigações
para com os animais são inerentes
ao médico veterinário (Molento,
2003).
No momento em que se exige mais
produtividade submete-se os animais à
explorações mais intensivas que, gran-
de parte das vezes, resultam em maus
tratos direcionados aos animais. Neste
sentido,um grande questionamento
se impõem ao médico veterinário no
sentido de repensar as práticas que têm
sido impostas aos animais em confina-
mentos promíscuos de pequenas insta-
lações, jaulas, gaiolas ou procedimen-
tos cirúrgicos sem anestesia. Até que
ponto as gestões das explorações a que
estão submetidos os animais permitem
que esses completem seu ciclo de vida
biológico ou econômico em ambien-
tes salubres, que lhes permita vida
digna, sem que isso oponha regras
de bem-estar animal aos interesses
econômicos dos seus proprietários?
Suplemento
TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
Até que ponto o bem-estar animal está
conseguindo definir, suficientemente,
linhas de pesquisa com sua marca em
termos de manejo?
Obviamente que essas questões
são complexas, exigem respostas
igualmente complexas, e variam de
acordo com os valores morais de
cada sociedade e de cada pessoa.
Entretanto, cabe ao médico veteri-
nário um entendimento profundo da
interação homem-animal para que
possa desenvolver e lutar pela me-
BARBOSA, S. B. P. Zootecnia: A Ciência no Novo
Século. Disponível em: <hwww.ufrpe.br/artigos/
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REFERêNCIAS BIBLIOgRáFICAS
lhoria da condição animal ajustada
às prioridades da sociedade.
5 - CONCLUSãO
O espectro das atribuições profissio-
nais do Médico Veterinário é muito
amplo. O Médico Veterinário é uma
das maiores expressões da múltipla
atuação profissional em três mun-
dos, a saber: o vegetal, o animal e
o humano. É da diversidade de seu
campo de trabalho que se origina sua
riqueza e sua inegável contribuição ao
desenvolvimento dos povos, incluindo
obviamente tudo o que se refere à
saúde pública.
A contínua evolução do conhe-
cimento humano, principalmente na
área da biologia e das tecnologias,
tem permitido o desenvolvimento
de ações envolvendo a criação e a
produção de animais com o objetivo
de buscar a quantidade e qualidade de
proteína animal suficiente para satis-
Suplemento
TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
A B S T R A C T
R E S U M O
INtrODUçãO
Dirofilariose Canina: Situação atual no Brasil
Canine Dirofilariasis: current situation in Brazil.
Cláudia Leite Barbosa
Médica Veterinária, CRMV-SE nº 0164
- Ministério da Agricultura do Estado de
Sergipe – Serviço de Inspeção de Produtos
Agropecuários – SIPAG
E-mail: claudialeite@agricultura.gov.br
Leucio Câmara Alves,
Médico Veterinário, CRMV-PE nº 1290
– Prof. Adjunto da Universidade Federal
Rural de Pernambuco- UFRPE
Endereço para correspondência: De-
partamento de Medicina Veterinária da
UFRPE - Rua Dom Manuel de Medeiros,
s/n – Dois Irmãos – Recife/PE.
A dirofilariose canina atualmente apresenta-se como uma importante causa de
cardiopatia adquirida na clínica veterinária, embora sua repercussão clínica nem sempre
seja visível. A importância desta parasitose reside não apenas nos danos que causa
aos animais infectados, mas também por ser reconhecida como zoonose desde 1979
pela Organização Mundial de Saúde. Objetivando conhecer a distribuição da filariose
canina, foi realizado um trabalho de revisão desde o seu primeiro relato até os dias
atuais com base nas prevalências obtidas através de levantamentos parasitológicos
e sorológicos. Os dados revelaram uma média de 10,17% dos animais examinados
positivos ao exame parasitológico, enquanto que 9,07% da população canina estudada
mostraram a presença de antígenos circulantes. Quando se avaliaram as prevalências
separadamente por região, observou-se que na região Norte apenas existem dados
baseados na pesquisa de microfilárias, observando uma média de infecção de 5,24%.
Nas regiões Nordeste, Sudeste, centro-oeste e Sul, além dos inquéritos parasitológicos,
foram realizados levantamentos sorológicos, nos quais foram constatadas prevalências
médias de 10,64%, 17,20%, 5,80% e 12,0%, respectivamente, para pesquisa de
microfilárias circulantes e 13,89%, 13,46%, 6,90% e 2,04% para pesquisa de antígenos
circulantes, respectivamente.
PALAVRAS-CHAVE: Dirofilariose, cães, Brasil.
canine Heartworm disease is presented as an important cause of acquired cardiopathy
in the small animal medicine. However, clinical presentation sometimes it’s being occult.
The importance of this disease is not only because the damages in the heart and
pulmonary arteries on infected animals, but also for being recognized as zoonoses since
1979 for the World Organization of Health. The goal of this research was to know the
occurrence of canine heartworm, from the first report until the current days. The study
was carried through the prevalence related by parasitological and serological surveys.
The results showed an average of 10.17% of the positive animals at the parasitological
examination, while 9.07% of the same canine population displayed circulating antigen.
When the prevalence was evaluated by region, the results found in the North region
were given only by Knott method, with an average of 5.24% infected animals. In the
other regions, as Northeast, Southeastern, center-west and South, parasitological and
serological surveys had been carried through, with the prevalence of 10.64%, 17.20%,
5.80% and 12.0% respectively, for research of circulating microfiariae and 13.89%,
13.46%, 6.90% and 2.04% for circulating antigen respectively.
KEY-WORDS: Heartworm, dogs, Brazil.
Há pelo menos nove espécies de fila-
rídeos que afetam cães em todo mundo,
entretanto, no Brasil, apenas duas são
relatadas com maior freqüência: Dirofila-
ria immitis e Dipetalonema reconditum.
A primeira é apontada como uma das
principais causas de cardiopatia adquirida
e a segunda tem se mostrado apatogênica
(RONCALLI, 1998).
A dirofilariose destaca-se também
por acometer uma grande variedade de
mamíferos, inclusive o homem, sendo
considerada como zoonose (OMS, 1979)
emergente (SCHLOTTHAUER et al.,
1969), e vários relatos vêm sendo descri-
tos na população humana brasileira, prin-
cipalmente na Região Sudeste (CAMPOS
et al., 1997).
Dentre as técnicas de diagnóstico
parasitológico, destacam-se aquelas de
concentração, notadamente o Método
Modificado de Knott (NEWTON &
WRIGHT, 1956), que permite, através de
observação microscópica, a visualização
das microfilárias circulantes. A inconve-
niência desta técnica estána dificuldade
de se identificar a espécie de filarídeo
envolvida na infecção. Sendo assim, os
testes sorológicos surgiram como uma
alternativa viável para auxiliar a iden-
tificação de animais infectados com D.
immitis, além de diagnosticar as infecções
ocultas que são aquelas onde o animal
Suplemento
TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
alberga o nematóide adulto no coração,
apesar de não apresentar microfilaremia
circulante.
Vários fatores influenciam na freqü-
ência da infecção na população canina,
já que o desenvolvimento do vetor e do
parasito recebem influência do ambiente.
Dentre esses, destacam-se, além do clima
e vegetação locais, abundância dos vetores
susceptíveis, presença de cães microfilarê-
micos e alta densidade da população canina
(Grieve et al., 1983; Knight, 1987).
A infecção por Dirofilaria é dissemi-
nada por muitas espécies de mosquitos da
família Culicidae (Parker, 1993), que in-
cluem os gêneros Culex, Anopheles, Aedes
e Mansonia (Bengis, 1975). É uma doença
de evolução crônica em canídeos, cuja
gravidade depende de vários fatores como
a carga parasitária, tempo de infecção e/ou
resposta do hospedeiro. O nematóide adul-
to aloja-se principalmente no ventrículo
direito e artérias pulmonares produzindo
lesões cardiovasculares, pulmonares, he-
páticas e renais, podendo inclusive causar
a morte (Calvert e Rawlings, 1992).
Este trabalho tem como objetivo uma
revisão histórica da dirofilariose canina no
Brasil e conseqüentemente o conhecimen-
to das áreas onde as populações canina e
humana encontram-se mais expostas ao
risco de infecção.
DIStrIBUIçãO Da
DOENça NO PaÍS
rEGIãO NOrDEStE
A dirofilariose canina já foi diagnos-
ticada em quase todos os Estados do
Nordeste do Brasil e, além dos estudos de
prevalência, o vetor da infecção também
vem sendo pesquisado.
O primeiro relato da dirofilariose no
Brasil foi em 1878 por Silva-Araújo,
no Estado da Bahia. Na cidade de Sal-
vador, Paraguassú e Fielder em 1977
realizaram um relato de ocorrência em
dois cães parasitados e desde então
atenção especial vem sendo dada a esta
parasitose. Atualmente, a freqüência de
animais sorologicamente positivos na
mesma cidade foi de 7,41% (Barbosa
et al., 1999b).
Na Ilha de São Luís, Estado do Mara-
nhão, Ahid e Almeida (1981) registraram
uma prevalência da infecção de 24,40%.
Chaves e Ordofiez (1997) diagnosticaram
34,90% de positividade em cães domici-
liados e Ahid et al. (1999) demonstraram
a prevalência variando de 40,80% para
cães domiciliados e 12,20% para aqueles
errantes. Ainda na mesma cidade, Ahid e
Lourenço-de-Oliveira (1999) estudaram
os possíveis transmissores da infecção
e consideraram Aedes taeniorhynchus
e Culex quinquefasciatus como vetores
potenciais da dirofilariose na região.
No Estado de Pernambuco, a infecção
vem sendo pesquisada em diversas locali-
dades. As primeiras tentativas de mapear a
dirofilariose canina neste Estado foram fei-
tas por Pimentel e Alves (1987) que encon-
traram 28,70% de cães microfilarêmicos
na Ilha de Itamaracá; Alves et al. (1988)
relataram 2,0% de cães positivos em
Caruaru e Alves et al. (1993) encontra-
ram 11,60% de cães microfilarêmicos no
Bairro de Dois Irmãos, Recife. Em todos
esses estudos foi realizada a pesquisa de
microfilárias sem, no entanto, identificar
as espécies envolvidas.
A identificação das espécies de filarí-
deos envolvidas a infecção foi feita por
Alves et al. (1999) em inquérito realizado
na cidade do Recife, observando que 1,0%
de animais examinados apresentava-se
com microfilárias de D. immitis e 1,30%
dos animais mostrava-se sorologicamente
positivo. Nesse mesmo ano, Silva et al.
(1999) realizaram um inquérito sorológico
e parasitológico nos litorais Norte e Sul
do Estado. Os estudos foram conduzidos
nos Municípios de Tamandaré, Porto de
Galinhas, Itamaracá, Igarassu e Olinda,
revelando 17,89%, 6,0%, 43,0%, 25,33%
e 33,33% de cães com antígenos circu-
lantes e 3,21%, 5,33%, 15,0%, 21,33%
e 4,55% de animais microfilarêmicos,
respectivamente.
No Estado de Alagoas os estudos são
bastante recentes. Brito et al. (1999a) em
levantamento parasitológico, na cidade
de Maceió, observaram prevalência de
0,70% de animais microfilarêmicos.
Quando estudaram o distrito de Riacho
Doce, Brito et al. (1999b) diagnosticaram
3,21% de cães sorologicamente positivos e
1,60% de cães microfilarêmicos. Apesar de
não identificar os mosquitos envolvidos na
dinâmica de transmissão em Alagoas, Brito
et al. (1999c) demonstraram a capacida-
de vetorial do Aedes aegypti e do Culex
quinquefasciatus.
Em Sergipe, estudo realizado por
Porto et al. (1999) na cidade de Aracaju,
demonstrou que 2,09% dos cães apre-
sentavam-se sorologicamente positivos e
0,68% microfilarêmicos.
No Rio Grande do Norte, em levanta-
mento sorológico no município de Mosso-
ró, Suassuna et al. (1999) diagnosticaram
8,66% de positividade.
No Sertão do Estado da Paraíba, um
estudo foi realizado em cães domiciliados
do município de Patos, revelando freqüên-
cia de 4,61% de animais sororreagentes,
demonstrando a presença da infecção em
localidades distantes de regiões costeiras
(BARBOSA et al., 1999a).
Os resultados das prevalências de cães
microfilarêmicos e cães sorologicamente
positivos estão dispostos nos quadros 1 e
2, respectivamente.
rEGIãO SUDEStE
Esta é a região onde se concentra o
maior número de estudos, sendo os relatos
de ocorrência freqüentes, inclusive em
outras espécies de mamíferos como jagua-
tirica (Felis pardalis) e foca (Zalephus
Quadro 1 - prevalências de cães com
microfilárias circulantes de D. immitis na
região Nordeste de acordo com a cidade/
estado e o ano
Suplemento
TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
Quadro 2 - prevalências de cães com
antígenos circulantes de D. immitis na região
Nordeste de acordo com a cidade/estado
e o ano
californianus) (Ogassawara et al., 1988)
e localizações atópicas em cão (Pereira et
al.,1982), descritas no Estado de São Pau-
lo, assim como a freqüência da infecção
do gato doméstico no Estado do Rio de
Janeiro (Labarthe et al., 1997).
Neste último Estado, os estudos na po-
pulação canina estão compreendidos entre
a distribuição da doença, clínica, tratamen-
to e vetores. Vários levantamentos têm
sido realizados em cães mostrando a pre-
sença de microfilárias em 4,90% (Dacorso
Filho et al., 1953); 34,08% (Hatschbach
et al., 1976); 27,80% (Almeida, 1981), e
7,80% dos animais examinados (Labarthe
et al., 1988). Souza et al. (1992), estudan-
do cidades distintas do Estado do Rio de
Janeiro, compreendendo Itaguaí, Man-
garatiba, Rio de Janeiro e Nova Iguaçu,
verificaram que 12,29%, 12,73%, 19,05%
e 7,69%, respectivamente, dos animais
apresentaram-se microfilarêmicos. No
mesmo ano, Guerrero et al. diagnosti-
caram 21,30% de cães microfilarêmicos
na cidade do Rio de Janeiro. Na cidade
de Niterói, a prevalência em apenas um
distrito foi de 27,80% (Nascimento e
Wermelinger, 1971). Contudo, quando
toda a cidade foi analisada, Labarthe et
al. (1997) demonstraram uma prevalência
de 14,11% das formas microfilarêmicas e
7,23% de infecção oculta. Labarthe et al.
(1990) também examinaram cães da Re-
gião Serrana do mesmo Estado, Petrópolis
e Teresópolis, e encontraram uma freqü-
ência de 25,6% de animais portadores de
infecção.
No último inquérito realizado nas
cidades do Rio de Janeiro e Niterói e
seus arredores, Labarthe et al. (1997)
observaram 13,68% de cães infectados na
cidade do Rio de Janeiro, sendo 8,61% mi-
crofilarêmicos e 5,65% sorologicamente
positivos. Na cidade de Niterói, os índices
de infecção foram de 24,86% de cães
positivos, sendo 17,3% microfilarêmicos
e 9,15% sorologicamente positivos. Na
Região dos Lagos, as prevalências obtidas
foram 31,15% de cães microfilarêmicos e
30,95% de animais sorologicamente po-
sitivos, enquanto que, nos municípiosde
Petrópolis e Teresópolis, as prevalências
foram 20,0% de cães com microfilárias
circulantes e nenhum animal sorolo-
gicamente positivo.
No Estado de São Paulo, Hagiwara et
al. (1984) realizaram um levantamento
parasitológico em cães provenientes dos
municípios de São Paulo e São Bernardo
do Campo, revelando 0,24% de animais
com microfilárias de D. immitis. Larsson
et al. (1992) encontraram, na cidade de
São Paulo, prevalência de 14,34% (cães
sorologicamente positivos).
No município de Ubatuba-SP, um es-
tudo realizado revelou 8,80% de animais
portadores de microfilárias de D. immitis
(Larsson, 1990). Yada et al. (1994) regis-
traram 0,9% de cães infectados na cidade
de Botucatu. Em 1995, Duque-Araújo
et al. diagnosticaram a infecção em di-
versas regiões do Estado de São Paulo,
observando que 45,0% dos animais estu-
dados foram portadores de microfilárias
em Bertioga, 18,0% em Riviera de São
Lourenço, 17,0% em Mairiporã e 14,20%
em Guarujá.
Infecções ocultas também foram obser-
vadas ao longo dos estudos realizados na
cidade de São Paulo envolvendo 45,40% de
cães, segundo Larsson et al. (1987).
Na cidade de Vitória, ES, o filarídeo foi
diagnosticado pela primeira vez por Kasai
(1979). Em seguida, outros estudos foram
realizados por Costa et al. (1980) e Kasai
et al. (1981), evidenciando a presença da
dirofilariose canina na cidade. Em 1990,
Costa et al. encontraram uma freqüência
de 16,3% de cães infectados, quando
realizaram um levantamento de endo e
ectoparasitos de cães capturados nas ruas.
Outros estudos foram realizados neste
Estado, diagnosticando cães infectados,
sem no entanto calcular a prevalência da
parasitose.
Os resultados das prevalências de cães
microfilarêmicos e cães sorologicamente
positivos estão dispostos nos quadros 3 e
4, respectivamente.
rEGIãO NOrtE
Na região Norte do Brasil, as pesqui-
Quadro 3 - prevalências de cães com
microfilárias circulantes de D. immitis na
região Sudeste de acordo com a cidade/
estado e o ano.
Suplemento
TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
Quadro 4 - prevalências de cães com
antígenos circulantes de D. immitis na
região Sudeste de acordo com a cidade/
estado e o ano
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sas relacionadas ao assunto são escassas,
sendo poucos os trabalhos referentes
à infecção por D. immitis de um modo
geral. Na cidade de Belém, Estado do
Pará, em estudo preliminar, Souza et al.
(1995) diagnosticaram 5,04% de cães
microfilarêmicos, segundo a técnica mo-
dificada de Knott. Posteriormente, Souza
et al. (1997) encontraram 10,70% de cães
com microfilárias circulantes. Lima et al.
(1997) não encontraram cães com infecção
na cidade de Porto Velho.
rEGIãO SUL
Em estudos realizados nesta região,
o índice de infecção diagnosticado foi
1,10% no Rio Grande do Sul, segundo
testes sorológicos e 12,0% em Santa Ca-
tarina, na pesquisa de microfilárias circu-
filárias circulantes, onde se obteve uma
média de infecção de 5,24%. Nas demais
regiões, além dos inquéritos parasitoló-
gicos, foram realizados levantamentos
sorológicos, observando-se prevalência
média de 10,64% no Nordeste, 17,20% no
Sudeste, 5,80% no Centro-oeste e 12,0%
no Sul para pesquisa de microfilárias cir-
culantes e 13,89%, 13,46%, 6,90% e 2,04%
para pesquisa de antígenos circulantes,
respectivamente.
As regiões Nordeste e Sudeste apre-
sentam uma prevalência mais alta quan-
do analisados os resultados dos exames
parasitológicos, podendo ser resultante
de baixa parasitemia, o que não permite
a detecção de seus antígenos circulantes
através dos testes sorológicos realizados.
Estas mesmas regiões apresentam
uma maior quantidade de informações
a respeito da parasitose, o que favorece
a implantação de medidas profiláticas
adequadas e de controle.
CONCLUSãO
O Brasil encontra-se endêmico para di-
rofilariose canina, notadamente na região
Sudeste, que apresenta maior prevalência
de cães microfilarêmicos, e torna as po-
pulações canina e humana mais expostas
à infecção.
lantes (Labarthe et al., 1992). Reifur et al.
(1999) encontraram uma prevalência de
2,98% de animais soropositivos em Pontal
do Paraná, região litorânea do Estado.
rEGIãO CENtrO-OEStE
Bordim et al. (1989) registraram 2,0%
de animais sororreagentes no Estado do
Mato Grosso. Fernandes et al. (1999)
realizaram estudos em Cuiabá, onde
encontraram 5,80% de cães com micro-
filárias de D. immitis e 11,81% sorologi-
camente positivos segundo a técnica de
Immunoblot.
Outros estudos sugerem a presença da
infecção em outros estados.
rESULtaDOS E DISCUSSãO
Considerando separadamente os
percentuais médios de cães micro-
filarêmicos e sorologicamente po-
sitivos, os resultados revelaram um
percentual nacional médio de 10,17%
de animais microfilarêmicos e 9,07% de
cães apresentando antígenos circulan-
tes, indicando que houve um aumento
da prevalência desta parasitose com re-
lação ao estudo realizado por Guerrero
et al. (1989), que diagnosticaram 7,9% de
cães com dirofilariose em diversos Estados
do país. Quando se avaliaram as regiões
separadamente, as prevalências mostra-
ram-se bastante variadas. Observou-se
que na região Norte foram realizados
estudos baseados na pesquisa de micro-
Suplemento
TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
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Suplemento
TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
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Suplemento
TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
Artigos Científicos
Os artigos científicos deverão conter dados con-
clusivos de uma pesquisa e conter Resumo, Abstract,
Unitermos, Key Words, Introdução, Material e Méto-
dos, Resultados, Discussão, Conclusão(ões), Referên-
cias Bibliográficas e quando houver, Agradecimentos,
Tabela(s) e Figura(s). A critérios do(s) autores e/ou do
Conselho Editorial, os itens Resultados e Discussão po-
derão ser apresentados como uma única seção. Quando
a pesquisa envolver a utilização de animais, os prin-
cípios éticos de experimentação animal preconizados
pelo Conselho Brasileiro de Experimentação Animal
(COBEA) e aqueles contidos no Decreto nº 24.645 de
10 de julho de 1934 e na Lei nº 6.638 de 8 de maio de 1979
devem ser observados.
Apresentação
Os manuscritos deverão ser encaminhados na primeira
submissão em três vias (uma original e duas cópias). A
primeira página da via original conterá o título do traba-
lho, o nome completo do(s) autor(es), suas respectivas
afiliação(ões) e o nome, endereço, telefone, fax e endereço
eletrônico do autor para correspondência. As diferentes ins-
tituições serão indicadas por número sobrescrito. Nas duas
cópias, a página de rosto deve omitir o(s) nome(s) do(s)
autor(es). Uma vez aceita a publicação, além de uma cópia
impressa, deve ser enviada uma gravação do artigo em mídia
magnética (disquete 3,5” ou CD) de alta densidade, identifi-
cado com o título do trabalho e nome(s) do(s) autor(es).
Digitação
O texto será digitado com o uso do editor de textos Mi-
crosoft Word for Windows, versão 6.0 ou superior, formato
A4 (21,0 x 29,7 cm), com espaço simples em uma só face do
papel, com margens laterais de 3,0 cm e margens superior e
inferior de 2,5 cm, fonte Times New Roman de 16 cpi para
o título, 12 cpi pra o texto e 9 cpi para rodapé e informações
de tabelas e figuras. As páginas e as linhas de cada página
devem ser numeradas.
Título
O título do artigo, com 25 palavras no máximo, deverá
ser escrito em negrito e centralizado na página. Não utilizar
abreviaturas.
Resumo e Abstract
INFORMAÇÕES GERAIS
A Revista do Conselho Federal de Medicina Veteri-
nária tem como objetivo principal a publicação de artigos de
revisão e de educação continuada, básica, geral ou profissio-
nalizante, que contribuam para o desenvolvimento da ciência
nas áreas de Medicina Veterinária e Zootecnia, podendo ser
apresentados também manuscritos de investigação científica.
Os artigos, cujos conteúdos serão de inteira responsabilidade
dos autores, devem ser originais e previamente submetidos à
apreciação do Conselho Editorial do CFMV, bem como, de
assessores ad hoc de reconhecido saber na especialidade. A
publicação do artigo dependerá da sua apresentação dentro
das Normas Editoriais e de pareceres favoráveis do Comitê
Científico da Revista. Os pareceres terão caráter sigiloso e
imparcial. A periodicidade da publicação será quadrimes-
tral.
Os artigos e toda a correspondência pertinente deve-
rão ser encaminhados para:
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NORMAS EDITORIAS
Os textos de revisão e de educação continuada e cien-
tíficos devem ser inéditos, de primeira submissão, escritos
segundo as normas ortográficas oficiais da língua portuguesa
e com abreviaturas consagradas, exceto o Abstract e Key
Words que serão apresentados em inglês.
Artigos de Revisão e de Educação Continuada
Os artigos de revisão e de educação continuada serão
publicados por especialistas, nacionais ou internacionais,
a convite do Comitê Editorial, atendendo à solicitação dos
profissionais Médicos Veterinários e Zootecnistas. Devem
ser estruturados para conter Resumo, Abstract, Unitermos,
Key Words, Referências Bibliográficas e Agradecimentos
(quando houver). A divisão e subtítulos do texto principal
ficarão a cargo do(s) autor(es).
NORMAS PARA APRESENTAÇÃO DE ARTIGOS
Suplemento
TÉCNICO
Suplemento
TÉCNICO
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
O Resumo e sua tradução para o inglês, o Abstract, não
podem ultrapassar 250 palavras, com informações que per-
mitam uma adequada caracterização do artigo como um todo.
No caso de artigos científicos, o Resumo deve informar o
objetivo, a metodologia aplicada, os resultados principais e
conclusões.
unitermos e Keywordds
No máximo 5 palavras serão representadas em seguida ao
Resumo e Abstract. As palavras serão escolhidas do texto e
não necessariamente do título.
Texto Principal
Não há número limite de páginas para a apresentação do
artigo. No entanto, recomenda-se que sejam concisos. Poderão
ser utilizadas abreviaturas consagradas pelo Sistema Métrico
Internacional; exemplo Kg, g, cm, ml, EM etc. Quando for o
caso, abreviaturas não usuais serão apresentados no rodapé
da primeira página do trabalho. Exemplo GH=hormônio do
crescimento etc. As citações bibliográficas do texto devem
ser pelo sobrenome do(s) autor(es) seguido do ano. Quando
houver dois autores, somente o sobrenome do primeiro será
citado, seguido da expressão et al. Rodrigues (1999), (Rodri-
gues, 1999), Silva e Santos (2000), (Silva e Santos, 2000),
Gonçalves et al. (1998), (Gonçalves et al., 1998).
Referências Bibliográficas
A lista de referências bibliográficas será apresentada em
ordem alfabética por sobrenome de autores, de acordo com a
Norma ABNT/NBR-6023 da Associação Brasileira de Nor-
mas Técnicas. Inicia-se a referência com último sobrenome
do(s) autor(s) seguido do(s) prenome(s), exceto aqueles de
origem espanhola ou de dupla entrada, registrando-se os dois
últimos sobrenomes. Todos os autores devem ser citados.
Obras anônimas têm sua entrada pelo título do artigo ou
pela entidade responsável por sua publicação. A referência
deve ser alinhada pela esquerda e a segunda linha iniciada
abaixo do primeiro caractere da primeira linha. Os títulos de
periódicos da referência podem ser abreviados, segundo a
notação do BIOSES *BIOSIS. Serial sources for the BIOSIS
previews database. Philadelphia, 1996, 486p) . Abaixo são
apresentados alguns exemplos de Referências Bibliográfi-
cas.
1. Artigo de periódico
EUCLIDES FILHO, K., EUCLIDES, V.P.B.,
FIGUEIREDO, GR., M.P Avaliação de animais
nelore e seus mestiços com charolês, fleckvieh e
chianina, em três dietas 1. Ganho de peso e conversão
alimentar. Revista Brasileira de Zootecnia, v 26, n. 1,
p.66-72,1997.
2. Livros
MACARI, M., FURLAN, R.L., GONZALES, E.
Fisiologia aviária aplicada a frangos de corte.
Jaboticabal: FUNEP, 1994. 296p.
3. Capítulos livro
WEEKES, T.E.C. Insulin and growyh. In: Buttery,
P.J., LINDSAY, D.B., HAYNES, N.B. (ed). Control
and manipulation of animal growth. Londres:
Butterworths, 1986. p.187-206.
4. Teses (doutorado) ou dissertações (mestrado)
MARTINEZ, F. Ação de desinfetantes sobre
Salmonella na presença de matéria orgânica.
Jaboticabal, 1998. 53p. Dissertação (mestrado)
– Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias.
Universidade Estadual Paulista.
5. Artigos apresentados em congressos, reuniões e
seminários, etc.
RAHAL, S.S., SAAD, W.H., TEIXEIRA, E.M.S. Uso de
fluoreseina na identificação dos vasos linfáticos superficiais
das glândulas mamárias em cadelas. In. CONGRESSO BRA-
SILEIRO DE MEDICINA VETERINÁRIA, 23 Recife, 1994.
Anais...Recife; SPEMVE, 1994. p.19.
Tabelas e Ilustrações
As tabelas e ilustrações (gráficos, fotografias, desenhos,
etc,) devem ser apresentados nas últimas páginas do artigo,
uma em cada página. Serão numeradas consecutivamente
com números arábicos. A tabela deve ter sua estrutura
construída segundo as Normas de Apresentação Tabular
do Conselho Nacional de Estatística (Ver. Bras. Est. V. 24,
p.42-60,1963)
Revisões
Os artigos sofrerão as seguintes revisões antes da publi-
cação: 1) Revisão técnica por consultor ad hoc; 2) Revisão
de língua portuguesa e inglesa por revisores profissionais;
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
A crueldade com animais: como
identificar seus sinais?
O Médico Veterinário e a prevenção
da violência doméstica
Ceres Berger Faraco
Médica Veterinária, CRMV-RS nº
1493, e Doutoranda em Psicologia - PU-
CRS, Professora do Curso de Psicologia
da FACCAT.
E-mail: ceresfaraco@terra.com.br
Nedio Seminotti
CRP nº 07/0529, Doutor em Psicologia.
Programa de Pós-Graduação em Psicolo-
gia da PUCRS – Brasil, Coordenador do
Grupo de Pesquisa “Processos e Organi-
zações dos Pequenos Grupos”
Endereço para correspondência: Av. Ipi-
ranga, 6681 Prédio 11, 9° andar, Caixa
Postal 1429, CEP: 90619-900, Porto
Alegre/RS.
E-mail: nedios@pucrs.br;
A crueldade1 com animais pode
estar associada a violência domés-
tica entre membros de uma família.
No entanto, nem sempre as conexões
entre ambas são consideradas pelos
profissionais da Medicina Veteriná-
ria, Saúde Mental e Direito, a quem,
entre outros, cabe a responsabilida-
de na identificação e prevenção da
crueldade contra animais (Arluke,
A.; Lockwood, 1997).
Existe uma conexão entre atos
violentos contra seres humanos e
os atos cruéis contra outros animais
(Ascione, F.R.; Kaufmann, M.E.;
Brooks, M. E., 2000). No entanto,
embora esta conexão venha sendo
desvelada em artigos científicos
internacionais, no Brasil sua abor-
dagem ainda é incipiente.
A dificuldade em abordar a cruel-
dade perpetrada pelos seres humanos
aos animais deve-se a inúmeros
fatores. Entre eles a insuficiência
de recursos técnicos para identificar
situações de crueldade, a limitação
na formação humana do médico ve-
terinário para avaliar o envolvimento
humano como fator determinante
dos quadros clínicos de crueldade, a
inexistência de um sistema público
de investigação e notificação dos
casos, a pressão social na direção
de outros crimes considerados, no
senso comum, de maior relevân-
cia e a resistência em considerar a
crueldade com animais como um
crime violento (Frasch P.D, 2000;
Tannenbaum, 1995).
Julgamos importante destacar
que milhares de Médicos Veteriná-
rios brasileiros, como profissionais
de saúde pública, estão à margem
das iniciativas que visam a prevenir
e combater a violência doméstica
em nosso País. E esta é uma con-
dição paradoxal, já que os Médi-
cos Veterinários em sua prática
ocupam uma posição privilegiada
para reconhecer esses agravos,
particularmente, por terem acesso
ao ambiente familiar.
Nessa linha de pensamento, a
Associação Médico-Veterinária
Norte-Americana - AVMA (Crook,
2000) reconheceu que os Médicos
Veterinários têm oportunidade de
observar comportamentos cruéis
com animais, abuso ou negligência.
E, quando isso ocorre é de respon-
sabilidade do Médico Veterinário
notificar as autoridades competentes.
A AVMA salienta que essa é uma
atitude necessária para a proteção
da saúde dos animais e das pessoas
envolvidas em situações de cruel-
dade.
UMa BrEVE aBOrDaGEM
SOBrE a VIOLÊNCIa
A sociedade contemporânea vem,
desde a modernidade, passando por
um amplo processo de reflexão e
problematização sobre as verdades
construídas socialmente que antes
pareciam naturais e, assim, são
questionados discursos e práticas
baseadas em determinadas concep-
ções da vida (Berger; Luckmann,
1997). Contribui para isso o ad-
vento do pensamento ecológico e
a noção de sustentabilidade2. Esses
questionamentos conduzem a novas
concepções da vida que ajudam a
romper com alguns pactos de invi-
sibilidade e silêncio sobre práticas
sociais. Essas práticas passam a
1 Em sintonia com a literatura internacional emprega-se neste artigo o termo crueldade com animais caracterizando uma conduta intencional e com
deleite do agressor em causar mal ao outro, o que o distingue dos demais atos violentos (Ascione,F., 1997; Lockwood, R.;Ascione, F., 1998)
2 Segundo a visão de Capra, “sustentável” não se refere apenas ao tipo de interação humana com o mundo que preserva ou conserva o meio ambiente
para não comprometer os recursos naturais das gerações futuras, ou que visa unicamente a manutenção prolongada de entes ou processos econômicos,
sociais, culturais, políticos, institucionais ou físico-territoriais, mas é uma função complexa (Capra, 2002, p. 231).
BEM-ESTAR ANIMAL
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
ser contextualizadas e implicadas
com a vida em geral e não apenas
com a do ser humano. Um exemplo
disso é a crueldade contra os animais
cometida pelos seres humanos.
Há, contemporaneamente, uma
preocupação maior com a violência,
em seu sentido amplo, ao mesmo
tempo em que ela adquire outros sig-
nificados. Assim, contesta-se a visão
reducionista e inquestionável da vio-
lência, particularizada e delimitada
à relação entre seres humanos e à
esfera privada, e se amplia a discus-
são para considerar que a violência é
contra a vida e que deve ser tratada
como coisa pública. Desde esses no-
vos paradigmas passa a ser consenso
que todos os participantes do sistema
social estão implicados nele e, por
isso, solidários e responsáveis nos
benefícios e prejuízos que resultam
de seus atos Maturana, 1995, Morin,
2001, Capra, 2002.
Negrão (apud Grossi, 2001) su-
blinha que o véu que protegia o mun-
do privado há muito pouco tempo
começou a ser retirado. No entanto,
mesmo com esse novo entendimento
da relação público-privado, muitos
atos violentos permanecem conve-
nientemente protegidos e ocultados
por todos nós. Acrescente-se a isso
que a violência brota numa situação
complexa e de difícil identificação,
já que intervêm nela vários fatores
nem sempre da mesma natureza e
que nem apresentam a mesma ca-
pacidade de determinação (Saffioti,
2002). No entanto, segundo Adair
(1995) há relações entre comporta-
mentos violentos de natureza apa-
rentemente diversa, e o desafio está
em reconhecer os fatores correlatos
que anunciam esses comportamen-
tos. Justamente esta correlação
poderá indicar condições que pro-
piciam comportamentos violentos e
conduzir a estratégias de intervenção
para prevení-los.
No entendimento de Velho
(1996), o comportamento violento é
constituinte da vida em sociedade, e
contém como dimensão fundamental
a possibilidade ou a ameaça do uso
de força física e, além disso, o cons-
trangimento moral para impor a von-
tade de um sobre o outro. Bourdieu
(1998), ao referir apossibilidade de
violência simbólica, observa que ela
ocorre com cumplicidade entre os
que estão submetidos a ela e os que
a exercem, impondo e reproduzindo
valores. Há uma espécie de “aliança”
entre todos os envolvidos na ação da
violência e na possibilidade de que
ela possa ser deflagrada a qualquer
momento.
As interações sociais, entre huma-
nos, quando ocorrem em sistemas de
reciprocidade expressam harmonia e
relativa estabilidade do social, por ou-
tro lado a ausência dela pode desen-
cadear conflitos. Essa noção nos leva
a pensar que a desigualdade de poder
constitui uma fonte de tensões, já que
a mesma limita as possibilidades de
trocas e negociações (Velho,1996).
Nos processos e organizações dos
sistemas sociais, determinados in-
divíduos assumem eventualmente
um lugar que lhes dá maior poder
de determinação sobre os demais.
Há, como aponta Luhmann (1998),
indivíduos dominantes e dominados,
e estes estão mais expostos à violên-
cia daqueles.
Perrone e Nannini (1997) assinala
que os componentes e organizadores
da violência entre seres humanos
parecem ter caráter repetitivo e
estereotipado. O autor revela que,
em muitos casos, a violência é ri-
tualizada e compreende aspectos
espaciais, temporais e temáticos.
Pontua ainda que há indícios de que
o comportamento violento possa ser
cronologicamente predeterminado.
Nesse sentido, Coetzee (2002) assi-
nala que a abordagem dos atos cruéis
contra os animais é um tema ético
relevante e traz à tona concepções
socioculturais até então não questio-
nadas. Entre essas, a de Santo Tomás
de Aquino sobre as diferenças entre
o homem e os animais, na qual o
homem é percebido como a imagem
de Deus e os animais não e em razão
disso podem ser desconsiderados e
excluídos da esfera moral. No en-
tanto, Coetzee acredita em mudan-
ças nestas concepções e afirma que
o conhecimento da conexão entre a
crueldade com animais e a violência
entre os homens contribuirá para
modificar as fronteiras desenhadas
entre eles e as atitudes socialmente
aceitas para com os animais (Arkow,
1996; Ascione, 1996).
aSPECtOS
rELaCIONaDOS Para
ELUCIDar traUMaS
NãO- aCIDENtaIS
EM aNIMaIS
Além do abordado, devemos
considerar que existem outros as-
pectos envolvidos na elucidação dos
quadros de traumas não-acidentais
que vão além da identificação das
manifestações clínicas e esses criam
dilemas profissionais sobre quais
procedimentos adotar nesses casos.
Dentre esses podemos assinalar: a
abordagem da família envolvida, as
condutas éticas a serem adotadas,
a responsabilidade pelo bem-estar
do animal vitimado e as possíveis
conseqüências –responsabilidade
civil e riscos de toda ordem- para
BEM-ESTAR ANIMAL
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
o profissional a partir das decisões
tomadas. Para superar os proble-
mas apontados seria desejável a
uniformização de procedimentos
e condutas profissionais através
de um protocolo que sistematize a
investigação dos casos suspeitos de
trauma não-acidental.
Neste sentido, Munro (1996)
propõe a aplicação da sistemática
adotada para o diagnóstico da Sín-
drome da Criança Espancada3 como
um referencial norteador. Denomina
o trauma não-acidental em Medicina
Veterinária como Síndrome do ani-
mal espancado4, de forma análoga
ao da criança e o caracteriza como
um dos tipos de violência domésti-
ca. A mesma pesquisadora afirma
que alguns critérios aplicados para
orientar o diagnóstico da Síndrome
da Criança Espancada são úteis nos
casos suspeitos de crueldade em re-
lação aos animais. Cabe destacar que
essa síndrome é um quadro médico
conhecido de abuso com crianças e
o seu diagnóstico tornou-se possível
a partir da sua descrição detalhada e
sistematizada.
Os casos de abusos contra ani-
mais foram estudados por pesquisa-
dores (Munro; Thrusfield, 2001) que
estruturam diretrizes para orientar a
sua anamnese. Este protocolo teve
por objetivo minimizar os efeitos
de percepções na avaliação de
crueldades com animais e nortear
os passos a serem seguidos pelos
Médicos Veterinários. Desta forma,
foram classificados fatores de risco
e indicadores para a avaliação, apre-
sentados no Quadro 1.
3 dAY, V. p. et all . Violência doméstica e suas diferentes manifestações. Revista psiquiatra do Rio grande do Sul. Porto Alegre, vol.25, supl.1, 20
03
4 Sindrome descrita por Helen Munro, patologista veterinária , Reino Unido, 1996.
5 é a produção intencional de traumas nos animais com a finalidade de justificar o atendimento veterinário. Está relacionada à necessidade de atenção
do agressor. (American Psychiatric Association, 1994). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders - 4th ed. (DSM-IV). Washington, DC).
Como se pode observar no qua-
dro acima, são consideradas quatro
categorias de fatores de risco que
intervêm na causalidade de traumas
não-acidentais e que são considera-
dos como necessários ou suficientes
para que os traumas ocorram. O fator
de risco envolvimento familiar pode
variar desde o silêncio até o relato
de histórias discrepantes e vagas.
Outro fator é o aparecimento de de-
terminados sinais no exame clínico,
como lesões com estágios evolutivos
distintos, indicando um paciente com
história de traumas múltiplos.
Outro fator de risco é a raça dos
animais envolvidos; são as raças
consideradas agressoras (Pit Bull
e Rottweiler) e pertencem a faixas
etárias mais vulneráveis (jovens e
idosos) o que limita sua capacidade
de defesa. Chamam a atenção os
fatores que envolvem os agressores
humanos, pois estes são descritos
como indivíduos com psicopato-
logias definidas e/ou condição de
exclusão social.
Refletindo sobre esses dados e
aliando-os com as informações ofe-
recidas nas pesquisas, pode-se con-
siderar este protocolo inicial como
um passo importante para alertar o
BEM-ESTAR ANIMAL
Munro (1996)
Quadro 1 - fatores de risco e indicadores para suspeita de trauma não-acidental em
animais
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
Médico Veterinário sobre a natureza
e o escopo desta síndrome.
a CONEXãO ENtrE OS
DIFErENtES tIPOS
DE VIOLÊNCIa
Em estudos recentes, os autores
citados anteriormente buscaram
esclarecer qual a relação entre os
diferentes tipos de violência. Um
exemplo é o abuso contra animais
perpetrado por crianças, freqüente-
mente, um comportamento imitativo
do que presenciam na sua casa ou
comunidade. Este comportamento
institui-se ao observar familiares
ou vizinhos em atos de abuso com
os animais. Pode originar-se de con-
dições de violência entre casais ou
abuso infantil -sofrido pela própria
criança agressora- e praticado por
seus familiares. Em conseqüência,
a ausência de coerção à violência
infantil contra animais pode pre-
dispor a criança a outros tipos de
comportamentos abusivos durante
sua vida (Petersen, 2001).
Ascione (1996) fez estudos sobre
a natureza relacional da violência
de gênero com a crueldade contra
animais. O primeiro destes, com
um grupo de 38 mulheres alojadas
em abrigos, vítimas de violência por
seus companheiros. Como resultado,
71% das participantes da amostra
relataram a ocorrência de ameaças,
ferimentos ou morte de seus animais.
No segundo, com uma amostra cons-
tituída por 101 mulheres, os resulta-
dos indicaram um índice de 70,3%
de narrativas de agressões contra
animais, referendando os resultados
anteriormente obtidos.
Os dados de pesquisas sobre a
correlação de atos violentos leva-
ram Beck (1981) a concluir que os
maus-tratos contra animais não têm
merecido a atenção necessária como
indicadores do mesmo comporta-
mento com pessoas. Sugere que estes
podem ser precursores de maus-tratos
com seres humanos, incluindo violên-
cia interpessoal, abuso e negligência
na infância, violência entre cônjuges,
estupro e homicídios.
Outros resultados que corre-
lacionam os maus-tratos com ani-
mais e seres humanos foram obtidospor Ascione (1997), em estudo
com grupos de crianças de lares
não violentos e grupos de crianças
pertencentes a lares com história de
violência doméstica. Neste último
grupo foi identificada uma maior
freqüência e severidade de compor-
tamentos violentos contra animais.
Investigando esta associação, De-
Viney (apud Fine, 2000) encontrou
em famílias uma taxa de prevalência
de 60% interligando os dois tipos de
violência.
Na mesma linha de investigação
de Ascione, a Sociedade Humani-
tária dos Estados Unidos, conduziu
um estudo nacional de janeiro a
dezembro de 2000, examinando
situações que envolveram crueldade
com animais. Neste estudo, foram
investigados 1624 casos de violência
contra mulheres quanto à conexão
com outros tipos de violência (Hsus,
2000). Os resultados demonstraram
que um número extremamente alto
de casos de violência intencional
contra animais relatados pelas mu-
lheres foi cometido por jovens de
idade inferior a 18 anos e do sexo
masculino.
Os achados das pesquisas alu-
didas sugerem que, se a violência
permeia a família, ela se manifestará
sobre um de seus membros e, esse
poderá ser um humano ou animal.
E essa é uma dinâmica bem conhe-
cida da psicologia dos grupos. Se
há tensão entre os indivíduos de um
grupo, eles elegem um deles sobre
o qual será descarregada. O eleito
obedece a uma dinâmica para a qual
concorrem variáveis individuais,
do grupo e do contexto do qual faz
parte o grupo (Seminotti; Borges;
Cruz, 2005).
É também do conhecimento desta
psicologia, e de domínio público,
que os que têm mais poder exercem
sua violência contra os que têm
menos. No caso de uma família mul-
tiespécie1, o animal teria poder para
enfrentar seu proprietário? Parece
difícil. Precisamos considerar que é
mais fácil direcionar a agressão ao
animal de estimação do que a um
membro da família.
Há nas últimas décadas um nú-
mero crescente de publicações sobre
o ciclo da violência como um tema
central da investigação científica no
campo da relação humano-animal.
Porém, ainda são poucos os que
associam maus-tratos na infância e a
crueldade com animais.
As linhas de pesquisa desses estu-
dos têm focado dois eixos temáticos:
o primeiro é a associação entre a
crueldade com animais e as outras
expressões da violência familiar;
o segundo é a conexão entre atos
violentos contra animais, perpetra-
dos por crianças e adolescentes e o
BEM-ESTAR ANIMAL
6A expressão grupo multiespécie foi introduzida por Faraco e Seminotti (2004) e intenta significar o grupo constituído por pessoas com animais, no
seu cotidiano. De forma análoga definimos a família multiespécie como o grupo familiar que se reconhece constituído por pessoas e seus animais.
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
BEM-ESTAR ANIMAL
desenvolvimento de comportamen-
tos violentos na fase adulta. Temas
relevantes para subsidiar ações de
intervenção social.
Frente ao exposto, parece evidente
a necessidade de novos instrumentos
e recursos para combater a violência
incluindo a identificação de condições
potencialmente perpetradoras na
infância que visam prevenir futuros
comportamentos violentos (Arluke,
2002).
CONSIDEraçÕES
FINaIS
Ao ressaltar a possibilidade da
contribuição dos Médicos Veteriná-
rios para a prevenção da violência
familiar, salienta-se que a crueldade
com animais é um sinal de alerta e uma
mensagem na identificação de outros
tipos de violência.
Considerando esse pressuposto
pensamos que a inclusão desta
temática na formação acadêmica
do Médico Veterinário seria fun-
damental para possibilitar o diag-
nóstico diferencial desses traumas
e a possibilidade de implementar
políticas públicas de prevenção
deste agravo.
Ao serem oferecidos aqui sub-
sídios para a compreensão dos
aspectos que relacionam o ato
violento contra animais com os
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Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
éTICA NA PuBLICAçãO CIENTíFICA
Questões éticas relacionadas com
a publicação científica
Alberto Neves Costa
Médico Veterinário, CRMV-PE nº 0382,
MSc., Ph.D, Acadêmico Fundador da
Academia Pernambucana de Medicina
Veterinária e Membro da Sociedade
Brasileira de Bioética - Regional Per-
nambuco
Recife-PE.
Autor para correspondência
e-mail: albertoncosta@uol.com.br
José de Carvalho Reis
Médico Veterinário, CRMV-PE Nº 0290,
MSc., Doutor, Acadêmico Fundador da
Academia Pernambucana de Medicina
Veterinária e Editor Associado da Revista
Ciência Veterinária nos Trópicos
INtrODUçãO
Os avanços registrados na ciência
aplicada significam grandes conquistas
para o futuro da humanidade, particu-
larmente no que tange aos campos de
aplicação da biologia, biomedicina e
agropecuária. Em razão disto, grupos
de pesquisadores pertencentes a insti-
tuições acadêmicas e de pesquisa, em
todo o mundo, disputam a primazia
de serem distinguidos como pioneiros
das grandes descobertas científicas e
tecnológicas.
Neste cenário contemporâneo e
globalizado, destaca-se o acirramento
crescente na competição entre pesqui-
sadores que buscam prestígio e poder
no seio da comunidade científica.
Esta situação tem desafiado um dos
preceitos básicos da verdadeira ciên-
cia: o respeito à ética na comunicação
científica. Mesmo considerando que
o compromisso ético do verdadeiro
cientista é com a veracidade e a aplica-
ção racional de novos conhecimentos
gerados, o cerne do debate científico
tem sido desvirtuado por uma questão
delicada e polêmica: a má-conduta
de inúmeros pesquisadores durante a
condução da pesquisa e a publicação
de trabalhos científicos, com um sério
viés de cunho ético. Neste contexto,
preocupa-nos uma possível manipula-
ção e/ou contaminação de estudantes
de pós-graduação por orientadores
e/ou pesquisadores inescrupulosos e
oportunistas, que buscam na ciência
um caminho fácil para atingirem o es-
trelado, porém sem qualquer compro-
misso com a verdade científica. Como
detentores desta conduta deplorável,
eles forjam situações e enganam a
boa-fé de discípulos e leitores.
Preocupados em minimizar estes
fatos contundentes, conselhos edito-
rais de um grande número de revistas
conceituadas tem estabelecido proces-
sos formais e rigorosos de arbitragem
dos manuscritos submetidos para
publicação, através da análise de tra-
balhos por pares de consultores (peer
reviewers) e editores científicos espe-
cializados, com a responsabilidade de
fazer o crivo dos textos encaminhados.
Contudo, vários destes especialistas
também tem sido flagrados em atos
ilícitos na condução da política edito-
rial desses periódicos, o que dificulta
ainda mais o combate sistemático
pelas instâncias competentes as trans-
gressões éticas detectadas no seio da
comunidade científica.
Em razão do exposto, o objetivo
deste trabalho é promover uma re-
flexão crítica acerca deste fenômeno
multiprofissional e sem fronteiras que
muitas vezes dissemina o obscurantis-
mo sobre os grandes feitos científicos
de pesquisadores criativos, produtivos
e sérios, bem como trazer para o foco
das discussões a necessidade de se
recorrer à legislação específica esta-
belecida pelo Conselho Federal de
Medicina Veterinária, neste caso, no
que tange a profissão médico-veteriná-
ria, sobre a problemática em questão,
a qual deve ser encarada como um
mecanismo eficiente para coibir este
tipo de conduta científica condenável,
mediante a aplicação das penalidades
cabíveis.
COMO PrEVaLECEr OS
PrINCÍPIOS ÉtICOS Na
CONDUçãO Da PESQUISa
CIENtÍFICa?
Primeiramente, é preciso respeitar
uma das premissas básicas adotadas
pela comunidade científica mundial, ou
seja, aceitar postulados que sirvam para
balizar a maneira como os pesquisado-
res devem atuar e se comunicar entre os
pares. Consequentemente, isto implica
em submeter ao crivo do mundo acadê-
mico apenas contribuições que sejam
verdadeiras e, se possível, originais.
Para que isto seja atendido, o pes-
quisador deve dispor de bons conhe-
cimentos em metodologia aplicada à
pesquisa científica. Segundo Volpato
(2004), a pesquisa científica é uma
atividade que utiliza metodologia e
pressupostos científicos, cabendo ao
autor promover os fundamentos da
pesquisa, estabelecer os objetivos,
elaborar o delineamento experimen-
tal, acompanhar ou executar a coleta
de dados, fazer sua análise, elaborar
as conclusões e publicar o trabalho.
Sabe-se que durante a condução da
pesquisa ocorrem algumas dificulda-
des, principalmente do ponto de vista
metodológico, uma vez que a obten-
ção de bons resultados depende de um
corpo de conhecimentos prévios e de
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
uma boa formulação das hipóteses a
serem testadas. Assim, todos os es-
forços de compilação, classificação,
manipulação e interpretação de dados
devem ser dirigidos para provar a vali-
dez de hipóteses que são, na realidade,
a chave do procedimento científico. A
hipótese é uma conexão necessária en-
tre teoria e investigação, que conduz
à descoberta de novos conhecimentos
(Reis, 2003). Além disto, é necessá-
rio que haja estímulo para o trabalho,
pois, caso contrário, é provável que a
pesquisa seja interrompida antes de
sua conclusão, com lamentável perda
de tempo, desperdício de dinheiro e,
por vezes, um inaceitável sofrimen-
to inútil imposto a seres humanos e
animais, o que impede que princípios
éticos consagrados sejam rigorosa-
mente seguidos (Petroianu, 2000a).
A principal questão ética a ser en-
carada na avaliação da pesquisa com
animais é assegurar que os resultados
potenciais de um projeto justifiquem
seus prováveis efeitos nos animais ex-
perimentais, e garantam seus interes-
ses legítimos quando se decide o que
fazer com eles (Tannenbaum, 1995).
Sobre isto, Paixão e Labarthe (2002)
sugeriram a aplicação do princípio
dos 3Rs (que em português significa
substituição, redução e refinamento),
que preconiza condutas para o pesqui-
sador e serve para nortear o controle
das pesquisas em animais, acrescen-
tando que este princípio global tem
servido de escopo para a sanção de
leis atuais, bem como de diretrizes
científicas e avaliações conduzidas
por comissões institucionais de éti-
ca. É recomendável que os órgãos
ou agências reguladoras estabeleçam
princípios básicos a serem seguidos
pela comunidade científica, tais como
adquirir os animais legalmente, ofere-
cer alimento e abrigo adequados e, sob
nenhuma circunstância, submete-los à
dor e/ou desconforto desnecessários
(Benos et al., 2005).
Outra questão crucial e preocupan-
te a merecer uma reflexão diz respeito
à pressão institucional exercida sobre
os pesquisadores acadêmicos no sen-
tido de que aumentem sua produtivi-
dade científica. Poderia se questionar:
em que medida um maior número
de artigos publicados corresponde a
um padrão de alta qualidade nas pu-
blicações científicas? Para Meadows
(1999), no que tange à comunicação,
as duas características mais importan-
tes no pesquisador são a quantidade
de informações que comunica e a sua
qualidade. Acrescente-se a isto, o crô-
nico problema relacionado à limitação
de investimentos oficiais em pesquisa
(laboratórios, animais experimentais,
verbas etc.) e que possibilita a abertura
de um flanco perigoso para aborda-
gens de organizações interessadas em
obter resultadosde pesquisas favo-
ráveis aos seus produtos comerciais
(genética, fármacos, insumos etc.),
situação que pode seduzir inúmeros
pesquisadores a trilhar a tênue fron-
teira entre manter uma conduta ética
desejável ou obter recompensa finan-
ceira e promocional na condução da
pesquisa, representando isto um sério
conflito de interesses entre as suas
responsabilidades institucionais e os
seus interesses privados.
rESPONSaBILIDaDE
E CONDUta ÉtICa
DO aUtOr
Dentre os compromissos éticos do
autor com o seu trabalho, deve estar
assegurado o bem-estar e o tratamen-
to humanitário dos seres humanos,
animais de experimentação e a prote-
ção/segurança dos pesquisadores; por
outro lado, isto também implica que
estejam igualmente distribuídas na au-
toria da pesquisa as responsabilidades
e tarefas com a redação e a editoração
do manuscrito (Goldenberg, 2000).
A autoria deve ser concedida apenas
àqueles que contribuíram intelec-
tual e cientificamente, de maneira
expressiva, na execução do trabalho
(Goldenberg, 2000; Petroianu, 2000b;
Callaham, 2003).
Infelizmente, esta situação não
condiz com a realidade e por vezes
ressalta um sério problema na atual
conjuntura das publicações científicas
– o crescente número de autores por
artigo publicado, numa confusão entre
a legítima co-autoria e os agradeci-
mentos por uma eventual colaboração.
O critério mais razoável para se definir
a autoria científica assume que o autor
tenha condições de defender publica-
mente o trabalho no meio científico,
além de ter participado de sua história
(Volpato, 2004). Autores já sugeriram
iniciativas conjuntas por parte de uni-
versidades, sociedades profissionais,
pesquisadores renomados e revistas
no sentido de promover práticas de
boa autoria (Rennie, Yank, Emanuel,
1997). Em países como o Canadá, a
desonestidade quanto à autoria é con-
denável no mesmo artigo da lei que
dispõe sobre fraudes, falsificações e
plágio (Petroianu, 2000b).
Tal fato vê-se agravado por outras
condutas morais incompatíveis com
a prática científica. A fabricação e a
falsificação de dados representam,
talvez, os mais óbvios exemplos de
má-conduta científica. Neste último,
vê-se o quanto nefasto é o seu impacto
na ciência. Inicialmente, dilui a inte-
gridade de outras pesquisas, seja para
o(s) autor(es) seja para pesquisadores
que atuem na área; depois, a oculta-
ção, implica em dispêndio de tempo
e energia de outros pesquisadores na
tentativa de reproduzir ou construir
com base no trabalho falsificado; e,
por fim, põe em risco a confiança
pública no empreendimento científico
(Benos et al., 2005). Também o plágio
éTICA NA PuBLICAçãO CIENTíFICA
Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
– uso indevido de idéias, textos ou
outra propriedade intelectual, sem
autorização e apresentadas como
sendo novas e originais e não de uma
outra fonte (Callaham, 2003), atenta
principalmente contra o leitor, mas,
também, contra o verdadeiro autor e
a comunidade científica. Outros artifí-
cios anti-éticos usados pelo plagiador
são as publicações redundantes,
onde são adicionados dados ainda não
publicados ou novos à publicação já
existente, violando, dessa forma, os
direitos autorais de outros autores;
ou ainda as publicações duplicadas,
onde se publicam artigos idênticos
ou substancialmente compilados de
outros já publicados em algum lugar,
com ou sem agradecimentos (Benos
et al., 2005). Por uma questão de
prudência, entende-se que qualquer
afirmação feita com alarde e/ou sem
comprovação científica deve ser vista
com reserva e forte senso crítico tanto
pelos avaliadores quanto pela comu-
nidade científica.
ÉtICa NO PrOCESSO
DE aVaLIaçãO E
PUBLICaçãO DO
traBaLHO CIENtÍFICO
A necessidade em se organizar e
selecionar o material a ser publicado
fez surgir os principais atores do pro-
cesso de avaliação: o editor científico
e os avaliadores (Pessanha, 1998). A
publicação de artigos em periódicos
envolve primeiramente os assessores e
editores e, posteriormente, os leitores.
Os editores, auxiliados por assessores,
delimitam o que poderá ou não vir a
ser conhecimento científico, ou seja,
determinam o que é ou não publicável
(Volpato, 2004). Contudo, o principal
ator no processo decisório de publica-
ção é o editor, que deve considerar as
opiniões, sugestões e comentários de
cada revisor e combinar a contribui-
ção deles antes de tomar uma decisão
(Shea e Caelleigh, 2001).
Segundo Reis (2003), um artigo de
pesquisa é a primeira publicação de
resultados em um periódico ou outros
documentos facilmente acessíveis à
comunidade científica, constituindo-
se numa unidade de comunicação
independente que permite a difusão
dos resultados e seu arquivamento. Por
esta razão, Volpato (2004) enfatizou
que a publicação de um trabalho não
representa a etapa final da atividade
do pesquisador, mas é antecedente e
imprescindível ao último estágio: a
aceitação das conclusões pela comu-
nidade científica; daí a relevância da
comunicação científica.
Para que haja uma melhor com-
preensão acerca da imensa responsa-
bilidade que envolve a análise de um
trabalho científico, deve-se aceitar que
os principais elementos a serem con-
siderados na revisão são os seguintes:
1) qualidade científica; 2) clareza e
lógica na apresentação e 3) validade
ética do estudo, o que divide esta
tarefa em duas categorias principais:
técnica e ética, com vistas a melhorar
a qualidade do manuscrito e garantir
que os dados relatados sejam fidedig-
nos (Benos, Kirk, Hall, 2003).
O processo de avaliação da litera-
tura científica tem considerado, simul-
taneamente, a estrutura e o conteúdo
do trabalho científico aliado à questão
ética, como fruto da grande repetição
de casos de fraude, plágio e outras
condutas inadequadas na comunidade
científica (Pessanha, 1998). Com base
nesta constatação, este autor descre-
veu alguns tipos de conduta antiética
no processo de produção e comunica-
ção da ciência (Quadro 1).
Contudo, é preciso prudência e
isenção na análise de uma situação de
conflito neste campo, pois existe uma
grande diferença entre erro e fraude.
Interpretações inadequadas do traba-
lho realizado, devido ao envolvimento
emocional, constituem um erro que,
eventualmente, é passível de repres-
são. Entretanto, falsear resultados
intencionalmente caracteriza fraude
científica, o que é imoral e merece
ser severa e exemplarmente punida
(Petroianu, 2000a). Portanto, o rigor
científico exige que se adote uma con-
Fonte: Pessanha (1998)
Quadro 1 - Tipos de conduta antiética e falsificação em publicações em publicações
científicas e técnicas
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Revista cfMV - Brasília/df - Ano XII - Nº 37 Janeiro/fevereiro/Março/Abril de 2006
duta honesta, objetiva e íntegra como
virtude essencial na condução, comu-
nicação e avaliação de uma pesquisa
científica (Benos et al., 2005).
Assim, como última instância
para minimizar e/ou solucionar esses
dilemas éticos, deve-se recorrer à
adoção de normas jurídicas, éticas e
merecedoras de amplo consenso, as
quais representam um notável auxílio
na prevenção de abusos, exageros,
omissões e injustiças (Goldenberg,
2000). Analisando-se a questão sob
a ótica da Medicina Veterinária, é
indispensável consagrar os preceitos
contidos na Resolução CFMV nº 722,
de 16/08/02 (Código de Ética do
Médico Veterinário), em especial o
que reza o artigo 29: “o médico veteri-
nário não pode publicar em seu nome
trabalho científico do qual não tenha
participado, e tampouco atribuir a si
autoria exclusiva de trabalho realizado
por seus subordinados ou por outros
profissionais, mesmo quando execu-
tados sob sua orientação”.
CONSIDEraçÕES
BENOS, J. P.; KIRK, K. L.; HALL, J. E. How to
review a paper. Advances in Physiology Education,
v. 27, n. 2, p. 47-52, 2003.
BENOS, D. J.; FABRES, J.; FARMER, J. et al.
Ethics and scientificpublication. Advances in
Physiology Education, v. 29, p. 59-74, 2005.
CALLAHAM, M. L. Journal policy on ethics
in scientific publication. Annals of Emergency
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CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA
VETERINÁRIA. Manual de legislação. Brasília:
CFMV, 2002. 1v. (folhas soltas).
GOLDENBERG, S. Considerações éticas a respeito
da publicação do trabalho científico. In: Ética, moral
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MEADOWS, A. J. A comunicação científica.
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PAIXÃO, R. L. Reflexões sobre a ética nas
pesquisas envolvendo o uso de animais em cirurgia
e anestesiologia veterinárias. Revista Brasileira
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PESSANHA, C. Critérios editoriais de avaliação
científica: notas para discussão. Ciência e
REFERêNCIAS BIBLIOgRáFICAS
Informação, v. 27, n. 2, p. 226-229, 1998.
PETROIANU, A. Elaboração de um trabalho
científico. In: Ética, moral e deontologia médicas.
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_______. Autoria de um trabalho científico. In:
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Janeiro: Editora Guanabara Koogan, 2000b. p.
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REIS, J. C. A pesquisa científica em ciência
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RENNIE, D.; YANK, V.; EMANUEL, L. When
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SHEA, J. A.; CAELLEIGH, A. S. Publication
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TANNENBAUM, J. The veterinarian and animal
research. In: Veterinary ethics. Chapter 23.
Baltimore: Williams & Wilkins, 1995. p.312-341.
FINaIS
Avaliar a produtividade científica
de um pesquisador tendo como pa-
râmetro apenas o número de artigos
publicados contribui para banalizar
os resultados da pesquisa, além de
escamotear do processo a indispen-
sável contribuição daqueles estudiosos
que priorizam a condução de trabalhos
de alta qualidade, em observância a
preceitos técnicos e éticos.
As questões de fraude cientí-
fica discutidas não apontam para
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PuBLICAçõES
Orientações da OMS/FAO/OIE para a Vigilância,
Prevenção e Controle da Teníase / Cisticercose
WHO/FAO/OIE Guidelines for the Surveillance, Prevention and
Control of Taeniosis/CysticercosisAutores: William J. Tranquilli / Kurt A. Grimm / Leigh A. Lamont
Na última década, o tratamento da dor surgiu como um assunto
fundamental na Medicina Veterinária. Inserido na crescente im-
portância dada ao tema, o livro orienta o clínico no tratamento
cotidiano da dor e do desconforto dos pacientes. A obra tem por
objetivo fornecer ao clínico médico veterinário uma descrição
das síndromes dolorosas comuns, bem como revisar as drogas e
as técnicas usadas para tratar a dor e sugerir maneiras para tratar
a dor decorrente de vários procedimentos cirúrgicos, traumatis-
mos e doenças. Por meio da aplicação dos conceitos e técnicas
apresentados, os médicos veterinários se tornarão capazes de
comunicar a importância do reconhecimento e do tratamento
da dor para o proprietário do animal de estimação, enquanto
proporcionam melhor terapia analgésica e cuidados compassivos
a seus pacientes. São ao todo 130 páginas, agrupadas em seis
seções (Terminologia, Fisiologia, Reconhecimento e Estratégias
Clínicas para Tratamento da Dor; Drogas Analgésicas; Técnicas
Analgésicas; Tratamento da Dor em Condições e Procedimentos
Específicos; Tratamento da Dor Crônica em Cães e Gatos; e
Implementação de Programa de Tratamento da Dor na Prática
Clínica). Um apêndice sobre drogas e fontes, leituras recomen-
dadas e um índice remissivo completam a obra.
Tratamento da Dor para o Clínico de Pequenos
Editora: Roca
Rua Dr. Cesário Mota Jr., 73
CEP: 01221-020 – São Paulo – SP
Tel: (11) 3331-4478 Fax: (11) 3331-8653
Site: www.editoraroca.com.br
E-mail: vendas@editoraroca.com.br
Editor: K. D. Murrell
Como no caso das demais zoonoses, o controle da teníase e da
cisticercose requer uma intensa colaboração entre a Medicina
Veterinária e os serviços médicos ligados à saúde pública, em
nível nacional e internacional. A prioridade atual atribuída a estas
zoonoses é devida ao seu impacto econômico e social, particular-
mente nos países menos desenvolvidos, ora agravado em algumas
regiões da África.
O objetivo da publicação é assistir aos atores responsáveis pela pre-
venção e controle da teníase e da cisticercose. Com esta perspectiva,
estas orientações foram preparadas e cooperativamente publicadas
pela Organização Mundial de Saúde (OMS), Organização Mundial
para a Saúde Animal (OIE) e pela Organização para a Alimenta-
ção e Agricultura (FAO). A obra auxilia na instrumentação para
o planejamento, implementação e padronização das estratégias
de controle para o enfrentamento das zoonoses. As orientações
técnicas contidas buscam educar e organizar a vigilância e o
controle das doenças parasitárias em todo o mundo.
A abordagem da publicação contempla os temas: etiologia;
teníase em humanos; cisticercose em animais e humanos; bio-
logia e classificação; epidemiologia e distribuição geográfica;
diagnóstico e tratamento em humanos; detecção em bovinos e
suínos; e vigilância, prevenção, controle e métodos. O conteúdo
é apresentado em 139 páginas e seis capítulos e engloba uma
seção de referências bibliográficas. O livro representa uma
compilação do conhecimento e da experiência de especialistas
de reconhecimento internacional.
OIE (World Organization for Animal Health) 12, Rue de
Prony, 75017 Paris, France
Tel.L 33-(0) 1 44 15 18 88 Fax: 33-(0) 1 42 67 09 87
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PuBLICAçõES
Autores: Franklin Riet-Correa / Ana Lúcia Schild / Maria Del
Carmen Méndez / Ricardo A. A. Lemos.
“Doenças de Ruminantes e Eqüinos – Volumes 1 e 2” é uma
obra didática destinada aos alunos de Curso de Medicina Ve-
terinária e aos Médicos Veterinários que atuam no campo. O
livro foi escrito por 50 especialistas das diferentes áreas de
conhecimento relacionado, vinculados a 19 universidades e
instituições de pesquisa.
O objetivo da publicação é proporcionar informações objetivas
e concisas, sem prejuízo do conteúdo, apresentando uma visão
clara da etiologia, sintomatologia, epidemiologia, patogenia,
tratamento e profilaxia das mais relevantes enfermidades dos
herbívoros domésticos.
Ao longo de 999 páginas, a obra descreve os diferentes aspec-
tos das enfermidades infecciosas, parasitárias, metabólicas,
carenciais e tóxicas, assim como das doenças da reprodução,
de ruminantes e eqüinos no Brasil.
Os assuntos foram distribuídos de forma racional na publica-
ção, que conta também com índice remissivo. Ao final de cada
capítulo, o leitor encontra referências bibliográficas pertinentes
e atualizadas para a obtenção de informações adicionais. O con-
teúdo é resultado de vários anos de trabalho dos especialistas
em diagnóstico e investigação das enfermidades dos animais.
Doenças de Ruminantes e Eqüinos – Volumes 1 e 2
2ª reimpressão
Varela Editora e Livraria LTDA.
Largo do Arouche, 396 – Conj. 45 – São Paulo – SP
CEP: 01219-010
Fone – Fax: (11) 3222-8622
www.varela.com.br
Atlas de Anatomia Aplicada dos Animais Domésticos
2ª Edição Ampliada
Franz-Viktor Salomon / Hans Geyer (Editores)
O Instituto de Anatomia Veterinária da Universidade de Lípsia
(Leipzig) possui tradição na utilização e nas atividades de ensino
relacionadas a grandes animais preparados em pé. As aulas de
anatomia empregam fotos de regiões dissecadas, nas quais o uso de
marcações coloridas de estruturas são especialmente importantes.Essa forma de visualização une a realidade e a fidelidade dos
detalhes da preparação original com as vantagens de desenhos
complementares coloridos, produzidos à mão.
O método empregado para a elaboração das imagens presentes no
livro é o que se encontra descrito acima, o que reforça a exatidão
das reproduções, complementadas por desenhos feitos à mão.
A escolha das regiões nas ilustrações reflete especialmente os
pontos-chave do diagnóstico e da terapia na prática clínica. O
resultado intensifica o caráter didático da publicação.
Em 254 páginas e 120 ilustrações coloridas, este Atlas possibilita
conhecimento para o estudo e exercício médico-veterinário.
Esta é a segunda edição da obra, que confere ênfase à anatomia
dos membros do cão e do cavalo. Também foi incluída a base
osteológica da ortopedia do cão, além de novas ilustrações que
transmitem a base anatômica para variados procedimentos diag-
nósticos e terapêuticos. Diversas figuras foram substituídas por
outras e mais novas e de melhor qualidade. A edição, no formato
21 cm x 28 cm, conta com capa cartonada.
Editora Guanabara Koogan S.A.
Travessa do ouvidor, 11 – Rio de Janeiro – RJ
CEP: 20040-040
Tel.: (21) 3970-9480 /Fax: (21) 2221-3202
www.editoraguanabara.com.br
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junhojunhojunho
maiomaiomaio
zootec 2006
22 a 26 de Maio de 2006
Centro de Convenções de
Pernambuco – Recife-PE
Informações: (81)3320-6569 - zootec06@ufrpe.br
http://www.abz.org.br/zootec2006/
III coNERA - congresso Norte Nordeste de Reprodução
Animal
6 a 9 de junho de 2006
Local: Belém - Pará
Informações:
(91) 3210-5194
http://www.terceiroconera.com
julhojulhojulho
43ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira de zoo-
tecnia
24 a 27 de julho de 2006
João Pessoal - PB
Informações:
www.sbz.org.br/ReuniaoA-
nual.htm
agostoagostoagosto
11º Congresso Mundial de Saúde Pública
8º Congresso Brasileiro de Saúde Pública
21 a 25 de agosto de 2006
Riocentro, Rua Salvador Allende 6.555
Barra da Tijuca - Rio de Janeiro - RJ
Informações:
www.saudecoletiva2006.com.br
30th International conference on Animal genetics
20 a 25 de agosto de 2006
Porto Seguro - BA
Informações:
www.cbra.org.br/isag2006
VI conferência Sul-Americana de
Medicina Veterinária
3 a 6 de Agosto de 2006
Rio de Janeiro – RJ
Informações:
Tel: 55 (21) 3878-1610
3878-2777
www.abma.com.br
Ninth International Symposium on Equine
Reproduction
6 a 11 de Agosto de 2006
Rolduc Monastery, Kerkrade – Holanda
Informações: Tel: +44 (0)1638 667600
E-mail:jan.wade@rw-communications.co.uk
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AgENDA
novembronovembronovembro
14 Simposio Internacional y Congreso
cojeras en rumiantes
8 a 11 de Novembro de 2006
Colonia do Sacramento – Uruguai
Inscrições : Plaza Independencia 759
Montevideo - Uruguay
Informações: 00-598-2 9021413
comercial@exito.com.uy
X congresso e XV Encontro da Associação Brasileira
de Veterinários de Animais Selvagens
Data: 22 a 25 de novembro de 2006
Cidade de São Pedro / SP
Hotel Fazenda Fonte Colina Verde
www.hotelcolinaverde.com.br
Informações: info@abravas.org.br
XX congresso panamericano de ciências
Veterinarias
13 a 16 de Novembro de 2006
Santiago del Chile
Informações: (56) 2274-2789
e-mail: info@panvet2006.cl
www.panvet2006.cl
XXIV World Buiatrics Congress
15 a 19 de outubro de 2006
Nice - France
Informações:
e-mail: wbc2006@nice-acropolis.com
www.nice-acropolis.com/wbc2006
outubrooutubrooutubro
I congresso Internacional de Bem-Estar Animal
16 a 18 de outubro de 2006
Hotel Glória
Rio de Janeiro/RJ
Informações:
congressobea@wspabr.org
pork Expo 2006 – III congresso Latino-Americano
de Suinocultura
25 a 27 de outubro de 2006
Centro de Convenções
Foz do Iguaçu – Paraná
Informações:
Fone: 55 (19) 3888.2088
E-mail: info@porkexpo.com.br
www.porkexpo.com.br
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OPINIãO
Aves migratórias realizam movimentos
sazonais e periódicos associados à reprodução
e à alimentação. A base genética e a memória,
associadas à experiência individual são recur-
sos usados pelas aves para longas viagens.
O sol, as estrelas e o magnetismo servem de
orientação. Dentre os movimentos sazonais que
ocorrem no Brasil, destacam-se as migrações
do inverno do Norte (boreal) e do inverno do
Sul (austral).
As aves que migram do inverno boreal
como Calidris pusilla (maçarico) e Charadrius
semipalmatus (batuíra), dentre outras, chegam
ao Brasil geralmente em setembro através de
quatro rotas: Amazônia Ocidental, Amazônia
Oriental, Brasil Central e costa Atlântica, onde
permanecem até o mês de abril. Nos meses de
junho e julho muitas espécies estão em período
reprodutivo no Ártico e somente indivíduos
jovens e subadultos ou adultos que não comple-
mentaram o ciclo de mudas de penas, perma-
necem nas áreas de invernada até a próxima
temporada de migração. Áreas de invernada
são locais escolhidos pelas aves para pouso, ali-
mentação, mudas e ganho de peso. Os maiores
bandos contados estão na costa Norte e Sul do
Brasil, ao contrário da costa Nordeste e Leste.
As áreas que mais apresentam informações pu-
blicadas são: litoral do Maranhão, Rio Grande
do Norte, Pernambuco, Bahia e Rio Grande do
Sul, onde o esforço de monitoramento de aves
migratórias deve ser concentrado, facilitando,
assim, a discussão dos dados obtidos.
Nas migrações do inverno austral, várias
espécies da Argentina, Chile e Uruguai chegam
ao Sul, Sudeste e em alguns casos ao Centro
Oeste do Brasil. O marrecão (Netta peposaca)
é um exemplo de recurso cinegético que chega
ao Brasil oriundo da Argentina. No Parque
Nacional da Lagoa do Peixe, no Rio Grande
do Sul, em março, essas populações entram
em contato com aquelas oriundas do Inverno
do Norte, assim, até o mês de abril, as aves
migratórias do Norte convivem em áreas de
invernada com espécies do Sul, retornando, em
seguida, às suas áreas reprodutivas.
Deslocamentos esporádicos e não sazonais
também ocorrem no Brasil, sobretudo, originá-
rios da África, Espanha Meridional e Europa
Ocidental, sendo observados em indivíduos
jovens em processo de aprendizagem de rotas
migratórias, em espécies marinhas e costeiras
(Calonectris diomedea) que se reproduzem
nos arquipélagos da Madeira e de Açores e
outras espécies colonizadoras, a exemplo da
garça-vaqueira (Bubulcus íbis).
Constantes reduções de áreas naturais favo-
recem a colonização de ambientes antrópicos,
onde espécies silvestres interagem com espé-
cies domésticas, e aumentam a possibilidade do
aparecimento de epidemias de difícil controle
e geralmente resultantes do desequilíbrio am-
biental. As aves sempre foram reservatórios
naturais de algumas viroses, porém, novas
cepas de vírus tem surgido, algumas letais para
o homem, como no caso da influenza aviária
(H5 N1).
Inquéritos sorológicos feitos no Rio
Grande do Norte, Rio Grande do Sul e Bahia
registraram o vírus da influenza de baixa
patogenicidade (H2, H3 e H4) e a presença
do vírus da doença de newcastle, sobretudo
em aves neárticas. No Rio Grande do Norte,
uma espécie residente de rolinha (Columbina
minuta), capturada no mesmo sítio migratório
das espécies neárticas, apresentou positividade
para a influenza (H3).
Aves migratórias e residentes infectadas
com o vírus na mesma localidade indica que
espécies migratórias infectadas podem transmi-
tir o vírus da influenza para espécies residentes
e, essas a outras espécies, que chegam aos
aviários e contaminam a avicultura.
Informações sobre o vírus H5 N1 demons-
tram que patos, gansos e cisnes são reservatórios
que vêm contaminando a Ásia, Europa e parte
da África. É verdadeiro afirmar que não ocorre
migração direta das áreas infectadas para o Brasil.
Porém, na costa brasileira há registros de deslo-
camentos esporádicos de aves oriundas da África
e da Europa Ocidental, devendo merecer atenção
especialpor parte das autoridades competentes.
Visto que o Brasil possui mais de 1980
espécies de aves e que o estado da arte da or-
nitologia aplicada, associada à epidemiologia,
está dando os primeiros passos, sugere-se
critérios para monitorar aves com potencial
de transmissão da influenza: 1. espécies de
patos, gansos e cisnes migratórios (anatídeos),
citadas como reservatórios naturais do vírus da
influenza de alta patogenicidade; 2. espécies
originárias do Hemisfério Norte (maçaricos,
batuíras e trinta-réis), que migram para o Brasil
e apresentam várias áreas de pouso, alimenta-
ção, ganho de peso e troca de plumagem, cujos
resultados laboratoriais foram positivas para
influenza, independente da patogenicidade; 3.
espécies migratórias com colônias de repro-
dução no Brasil (trinta-réis) cujos resultados
foram positivos para influenza, independente
da patogenicidade; 4. espécies que visitam os
aviários para alimentação e pouso (pardais e
outros); 5. espécie colonizadora de reprodução
colonial (garça-vaqueira), abundante em áreas
antrópicas que utilizam vegetação do entorno
de alagados para pernoite e reprodução e 6.
espécies migratórias potencialmente pragas de
grãos (milho, sorgo e soja) com ampla distri-
buição no Brasil (avoantes e arribaçã).
Deslocamentos esporádicos da África e
algumas partes da Europa representam grande
risco de contaminação, mesmo considerando
que as espécies registradas até o momento na
costa brasileira não são aquelas tidas como
reservatórios naturais do vírus. Considerando
a hipótese da transmissão em cadeia, as aves
mortas ao longo da costa brasileira, entre abril/
maio e até julho/agosto, devem ser recolhidas
pelas autoridades sanitárias para o controle da
doença, visto que a manipulação desse mate-
rial por pessoas leigas constitui um sério risco
para a saúde pública. Dessa forma, a influenza
aviária poderá chegar ao Brasil através da
contaminação de aves desde a África e Europa
Ocidental, regiões recentemente contaminadas
com o vírus H5 N1.
Aves migratórias e a Influenza Aviária no Brasil
Severino Mendes de Azevedo Júnior
Médico Veterinário, CRMV-PE nº 1348, Dr.,
Professor Adjunto e Diretor do Departamento de
Biologia da UFRPE e Professor do Mestrado de
Biologia Animal da UFPE.
E-mail: smaj@ufrpe.br
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