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Maestria e Fighting Games: 
Por Vegasz 
 
Me sinto preso, sem poder avançar, não sei o que há de errado com o meu jogo e 
continuo perdendo. Às vezes sinto que melhoro um pouco, mas logo em seguida, caio 
de novo e repito erros antigos. O que posso fazer? 
 
Recentemente, no Discord, tenho conversado cada vez mais com pessoas que se 
defrontam com o problema acima. O que é necessário fazer para ​evitar estagnações em nosso 
progresso? 
A resposta é bem simples e direta: 
NADA​. 
 
Em se tratando não só da minha experiência como jogador competitivo em videogames, 
mas também na minha limitada experiência como estudante de Relações Internacionais, 
estudante de Economia, estudante de idiomas estrangeiros diversos, pesquisador e professor 
acadêmico, praticante de Aikido, nadador… Em todas as atividades que pratiquei e busquei 
aprender na vida, houve momentos em que senti que o progresso não passava de um 
determinado ponto. Não importa o quão obcecado eu ficasse com a melhora, às vezes os 
esforços simplesmente não eram o bastante para melhorar o meu nível. 
Uma leitura que fiz durante a época em que pratiquei Aikido teve uma importância em 
especial para que eu mudasse a maneira que eu via o processo de aprendizagem. O nome do 
livro é “Mastery” (ou “Maestria” em português), escrito pelo George Leonard. Nele, o autor 
discute o processo de aprendizado para qualquer habilidade que você desenvolva na vida. 
Professor experiente de pilotagem pela força aérea Americana, mestre de Aikido, professor de 
inglês e matemática, o autor comenta que, em geral, observou que a curva de aprendizado das 
pessoas tem o seguinte formato: 
 
 
Conforme o tempo passa, encontramos: 
1º) um surto de crescimento 
2º) uma leve fase de declínio 
3º) uma longa fase de estagnação, na qual praticaremos nossa atividade até encontrar 
um novo surto de crescimento 
 
A ideia do autor é fácil de compreender. Não importa o quanto tentemos, não há forma 
de evitarmos estagnações durante o aprendizado. Ganharemos novas habilidades e técnicas 
por bastante tempo, mas eventualmente chegaremos a um ponto em que nos depararemos 
com aquela problematização da pergunta inicial 
O aspirante à maestria (“ser um mestre” em uma atividade) é a pessoa que não 
desiste ao se deparar com uma estagnação. É a pessoa que mantém a prática apesar das 
dificuldades, a pessoa que encara as derrotas como uma forma de aprendizado. É a pessoa 
que se despe do próprio orgulho e vai perguntar ao oponente “por que perdi?”. É a pessoa que 
não tem vergonha de fazer perguntas bobas, de buscar a ajuda dos outros. A pessoa que tem 
fome de conhecimento e que tem prazer no processo de aprendizagem e não cai nas 
armadilhas do “crescimento fácil”. É a pessoa que ama o jogo em si, e não as recompensas 
quaisquer que ele possa lhe trazer. 
Será que você já se vê como a pessoa descrita acima? Não? Então lhe convido a ver se 
uma das três a seguir talvez lhe possa servir de espelho: 
 
O diletante, o obsessivo e o picareta (extraído do blog ​o espaço​) : 
 
O Diletante: 
 
O diletante é aquele que sempre se entusiasma com a novidade. Ele se interessa por 
cada esporte, atividade, carreira, oportunidade ou relacionamento com brilho nos olhos. Ama 
os rituais de início, comprar os equipamentos novos, ler coisas a respeito… Rapidamente se 
sente parte daquilo. Tira uma foto pro Instagram, outra pro Snap. Traça planos para o futuro, 
desenha na sua cabeça o enorme sucesso que vai alcançar com aquela atividade e começa 
cheio de gás. 
Ao alcançar o primeiro pico da curva, ele se sente alegríssimo. Conta para a família, 
pros amigos e pras pessoas que vê na rua. Mal conseguindo pensar em outra coisa, o diletante 
fica ansioso para estar em contato com sua atividade. 
Mas em seguida, vem a primeira queda pós pico e a estagnação. E com elas, o nosso 
amigo vai se murchando. Desanimado, o diletante vai perdendo o encanto e buscando 
justificativas que desqualificam aquele objetivo. Essas justificativas são racionalizações, 
desculpas lógicas que dão ao diletante a chance de abandonar aquela atividade de consciência 
limpa. 
Logo ele inicia outra, com idêntica empolgação e tudo se repete. 
Ser um diletante é como querer iluminar a vida com uma caixinha de fósforos. Você 
acende um palito, ele brilha intensamente e em alguns segundos se vai. Você acende outro. E 
mais um. Em todos eles, você pensa que está acendendo uma boa vela. Mas não está. Então 
você culpa o palito, abre a caixinha e pega o próximo: 
 
http://www.oespaco.net/2016/07/o-diletante-o-obsessivo-e-o-picareta.html
 
 
O obsessivo: 
 
Sabe aquela pessoa que tem o sangue no olho pra conseguir o que deseja? Mas de 
uma maneira violenta mesmo? Aqui vale ressaltar que há diferença sutil entre ambição e 
obsessão. Para o obsessivo, só importam os resultados, custe o que custar. E o mais rápido 
possível, ele tem pressa. Assim como o diletante, ele não consegue apreciar o processo. O 
obsessivo não aceita obstáculos ao crescimento. 
Por mais consciente que você esteja em seu processo, depois de um pico, haverá 
sempre uma queda e uma estagnação eminente. Mas o obsessivo não aceita essas etapas. 
Ele as burla. Trapaceia - muitas vezes contra ele próprio. Usa tudo o que tem disponível ao seu 
redor. Sendo um oportunista nato, ele está sempre a procura de atalhos e muitas vezes 
desconsidera as consequências que esses atalhos podem trazer. 
Ele não respeita o tempo de todas as coisas, os seus limites físicos, as pessoas que o 
cercam e etc. No curto prazo, ele alcança alguns avanços descontrolados e que resultam, 
inevitavelmente, em uma queda brusca lá na frente. Fracasso certo. Na analogia da caixnha de 
fósforos, ele acende o palito, faz qualquer coisa para mantê-lo aceso, até queimar as próprias 
mãos. 
 
O Picareta 
 
Esté é o famoso acomodado. O picareta se contenta com o razoável, com o mais ou 
menos. Querendo evitar a fadiga, ele busca poupar suas energias e se dá por satisfeito ao 
atingir um nível razoável no que se propõe a fazer. 
O que ele não sabe é que quanto mais energia vital ele poupa, mais energia vital ele vai 
sentir necessidade de poupar. Quanto menos se faz, menos se quer fazer. Assim, ao atingir 
alguns pontos de evolução, o picareta entra numa eterna fase de estagnação. 
Ele não considera mais continuar crescendo. Não sabe nem se é possível. Para ele está 
bom. Vai levando. O picareta é mediano. Nota 60. 59,5 para arredondar. Entregue à preguiça, à 
procrastinação e ao comodismo, ele não tem disposição para enfrentar os desafios que a 
jornada da Maestria lhe oferece. 
É aquele violeiro que não estuda a teoria e mal sabe o nome dos acordes (ou quem 
sabe o jogador que ainda tá com preguiça de saber o que é frame data e htiboxes?). Trazendo 
a analogia da caixinha mais uma vez: o picareta acende um fósforo, olha a sua volta, vê a 
estrada iluminada, relaxa e para de caminhar. A chama se apaga e ele nem se dá conta. A vida 
passa e ele nem se dá conta. 
 
 
Tempo e paciência 
O que há de errado em não querer ser um mestre? 
Nada. Não somos obrigados a nos comportarmoscom paciência e com extrema 
dedicação em tudo o que fazemos. Se você adotasse essa postura para absolutamente tudo 
que faz na vida, poderia pensar que faltariam talvez os recursos de tempo e paciência. Ou será 
que não? 
As pessoas confundem a jornada do mestre com a obsessão pelos resultados de curto 
prazo (o resultado de curto prazo é para George Leonard uma das grandes doenças sociais da 
atualidade). Não existe uma definição adequada para o tempo necessário para que uma 
pessoa avance na curva de crescimento e que cubra todas as atividades possíveis de se 
aprender em uma vida. Ainda assim, as pessoas têm visões diferentes do tempo necessário e 
desejado para gastar aprendendo uma atividade. Para algumas, será questão de semanas. 
Para outras, anos. Algumas terão mais paciência e aprenderão Fighting Games em uma 
década. Outros demonstrarão talento e disposição e farão coisas extraordinárias no jogo em 
questão de poucos anos. 
A verdadeira pergunta é: o quão rápido você quer crescer nos Fighting Games? Se 
você quer ser bom no mês que vem, garantidamente terá que treinar muito. E mesmo treinando 
muito, você talvez acabe não chegando no ponto em que desejava. Talvez você se comporte 
como o obsessivo e a jornada seja tão extenuante que você acabará simplesmente largando o 
jogo mês que vem. 
E se eu lhe contasse que você pode ser um mestre esperando ganhar campeonatos no 
ano que vem? E daqui a dois anos? Ou três? Quanto tempo você está disposto a praticar antes 
que os resultados realmente cheguem ao ponto em que você quer que eles cheguem? 
Quanto mais tempo você tiver e mais estiver disposto a praticar a atividade, melhor será 
sua jornada e com mais facilidade encontrará o progresso. Uma pessoa pode ser um mestre 
praticando uma atividade uma ou duas horas por semana. Chegará em patamares altos mais 
devagar, mas com a atitude e mentalidade corretas, sua curva de crescimento terá o mesmo 
formato das pessoas que praticarão a atividade com maior frequência. 
 
Aceitando a necessidade de aprender, acima da necessidade de vencer: 
“I like losing” ​- PR_Balrog, 2016 
 
Nos Fighting Games, a frustração por encontrar uma barreira de progresso pode ser 
ainda mais agravada do que exercendo outras atividades de aprendizado. Não percebemos 
isso, mas em nosso cotidiano, ao tentarmos aprender qualquer tipo de habilidade, nossa curva 
de crescimento não é uma reta ascendente e constante. Por que temos paciência em praticar e 
aceitar a estagnação em algumas coisas da vida, e quando estamos jogando não aceitamos 
isso da mesma maneira? 
Há motivos diversos: temos pouco tempo para jogar, talvez. Então o tempo que 
gastamos, deve ser gasto vencendo, e apenas vencendo? Aprender é legal e tal, mas vencer é 
o propósito maior, não é? Subir de Ranking, pegar aqueles LPs, ganhar novas divisões e 
títulos. Gastamos tanto a nossa visão sobre a necessidade de vencer, que acabamos ficando 
com medo de nos aventurar pelo jogo, ficamos com medo de chegar no ponto em que a nossa 
curva de crescimento irá cessar e encontraremos aquela fase de estagnação. 
Posso lhes garantir. Joguei jogos competitivos desde 2008. Minha primeira vitória em 
campeonatos oficiais foi em 2009. Minha segunda em 2011. Minha terceira, em 2014. Minha 
quarta em 2016. Ao longo dos pulos entre diferentes jogos e jogando com adversários de 
diversos níveis, joguei inúmeras competições, mas sempre me senti abaixo do topo. Nunca 
consegui ganhar mais de um torneio no mesmo ano, até que me encontrei com o SFV. Sempre 
havia algo a melhorar, mesmo quando a vitória nos campeonatos se demonstrava convincente 
para muitos. Até hoje não estou satisfeito com meu nível de jogo e não sei se algum dia estarei. 
Mais do que ser o vencedor dos campeonatos, desejo o crescimento, a capacidade de vencer 
oponentes melhores do que eu. 
Não importa quantos e quais torneios a pessoa venceu, invariavelmente, ela irá perder. 
E a cada derrota, dúvidas aparecerão sobre a maneira que ela está jogando. Falhas 
aparecerão. Eis aí a oportunidade que o aspirante a mestre espera: nas derrotas ele encontrará 
novas maneiras de ver o próprio jogo. Ele pensará em coisas para as quais dava pouca 
importância antes. Na dúvida, ele buscará a opinião não só dos amigos, mas dos estranhos 
com quem ele divide o espaço do Discord, com o adversário que ele jogou. E mesmo que o 
adversário diga apenas uma palavra que seja sobre os erros dele ou sobre o que faltou, o 
aspirante a mestre terá uma coisa nova para pensar, um novo aspecto do jogo para melhorar. 
 
Conclusão: 
Pensem no aprendizado de vocês no Street Fighter V como um investimento de tempo 
para testar os ensinamentos do caminho da Maestria. Com o advento da internet, do youtube, 
do Discord, dividir informações nunca foi tão simples. Busquem o conhecimento, perguntem, 
questionem e sobretudo ​não tenham medo de fazer papel de bobo​. Peçam a ajuda dos outros 
para pensar, mas aventurem-se vocês mesmos a mudarem a própria maneira de pensar. 
Escrevam. Antes de jogar, leiam tudo aquilo de importante que escreveram nos dias 
anteriores. Teste aquele combo, aquela tática no neutral. Perca uns pontos na Ranked, ou 
umas FTs com o seu amigo. Depois vá e poste o seu replay no Discord e peça ajuda. 
Não busque apenas as soluções fáceis e imediatas. Aventure-se pelas mais profundas 
e complexas. Mas faça uma coisa de cada vez. Você não precisa ficar bom amanhã. Você tem 
a vida toda para aprender. 
 
Extra: 
Video de Aris (avoidingthepuddle): ​You're never too old to start 
https://www.youtube.com/watch?v=jTsk4A30za4

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