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a) Identificação Nome: Luíza Baptista de Souza Idade: 8 anos Solicitante: Sr. Vitor e Sra. Geni (genitores) Finalidade: Apresentar os resultados da avaliação psicológica realizada Autor: Noelle Tavares Ferreira CRP: 00/00000 b) Descrição da demanda; O presente laudo psicológico foi solicitado para Luíza, de 8 anos de idade, devido a preocupações manifestadas pelos genitores. Portanto, a avaliação psicológica foi solicitada com o propósito de investigar a presença de comportamentos opositores e interesses não condizentes com sua faixa etária, conforme relatado pelos solicitantes. Desta forma, o objetivo deste laudo psicológico é fornecer os resultados da avaliação psicológica, bem como recomendações e aconselhamento psicoterapêutico adequado às suas necessidades. c) Procedimento; Foram conduzidas nove sessões com base na perspectiva psicanalítica. A entrevista inicial, foi realizada com os genitores e a criança, e representou a primeira etapa do processo psicodiagnóstico, com o objetivo de obter informações sobre a demanda (Arzeno, 2003). No segundo encontro, foi realizado com Luíza a hora de jogo diagnóstica individual, no qual, foi utilizado como um instrumento para permitir que a criança expressasse suas fantasias inconscientes e transmitisse suas vivências por meio do brincar e da linguagem lúdica, enquanto o psicólogo assumia o papel de observador (Arzeno, 2003). Já a entrevista realizada com os genitores no terceiro encontro, sem a presença da criança, possibilitou a análise da dinâmica familiar a partir da perspectiva do Sr. Vitor e da Sra. Geni, tanto como pais quanto como casal. Nesta etapa, foi possível verificar os comportamentos da criança inseridos no contexto familiar, além de possibilitar retificar hipóteses. Após essa etapa, foram utilizadas técnicas abrangentes de investigação da personalidade conhecidas como Desenhos com Estória (D-E) e Desenhos da Família com Estórias (DF-E). Esses procedimentos visam explorar a dinâmica emocional inconsciente da criança em profundidade. No caso do procedimento Desenhos com Estória (D-E), foram solicitadas cinco produções à criança, cada uma contendo um desenho livre, uma estória e um título, além de haver um inquérito. Já no procedimento Desenhos da Família com Estórias (DF-E), o mesmo formato foi seguido, mas com quatro produções de acordo com instruções específicas: desenhar uma família qualquer, uma família ideal, uma família em que alguém não está bem e desenhar a própria família (Trinca, 2013). Posteriormente, foi utilizado o teste de apercepção temática infantil com animais (CAT-A), trata-se de um teste projetivo temático que consiste em dez pranchas de apercepção temática com figuras de animais antropomorfizados que se relacionam com temas-base da experiência humana. Em cada prancha, solicita-se que seja contada uma estória com o objetivo de investigar a dinâmica e estrutura da personalidade, bem como a natureza dos conflitos, desejos, fantasias, relações com o ambiente e mecanismos de defesa (Villemor-Amaral & Xavier, 2007). Importante ressaltar que a etapa de devolutiva foi conduzida inicialmente com Luíza, seguida pelos genitores e a criança, e por último, apenas com os genitores. A etapa de devolutiva desempenha um papel fundamental na comunicação dos resultados aos interessados, bem como propor encaminhamentos ou outras medidas futuras necessárias (Arzeno, 2003). d) Análise; A partir da queixa inicial pouco definida dos genitores, o sr. Victor e a sra. Geni sobre o comportamento adulto e erotizado da Luíza. Foram realizadas entrevistas e uma bateria de testes, que proporcionaram informações sobre um quadro completo, uma vez que se faz-se necessário extrair os padrões de conduta da criança e de sua família como objeto de análise (Arzeno, 2003). Importante salientar que para Priszkulnik (1995, p. 100) “nos casos em que a mãe ou o pai procuram insistentemente o psicanalista com o pretexto de falar do filho, não devemos esquecer que esta insistência pode ser indício de que existe algum problema pessoal "mascarado" pelas dificuldades da criança”. No caso de Luíza, pode-se observar que, durante as interações com os pais, gradualmente eles começam a compartilhar informações sobre suas próprias vidas. À medida que a avaliação progride, surge uma "outra" dificuldade, que é a dificuldade dos pais em lidar com suas próprias questões pessoais e emocionais. Durante a aplicação dos procedimentos DE, DF-E e do teste CAT-A, Luiza fez menções repetitivas sobre questões relacionadas ao peso, alternando entre a ideia de engordar e emagrecer, bem como associar-se a conceitos de força e fraqueza. Na atividade de "desenhar uma família ideal", ela compartilhou que desejava brincar com sua família, mas percebia uma falta de reciprocidade nesse aspecto, especialmente por parte da mãe e da irmã. Essa informação contradiz a queixa inicial mencionada na primeira entrevista, na qual foi relatado que Luíza não gostava de brincar. Essa informação se contradiz de que a criança se interessa exclusivamente por conteúdos adultos em detrimento do infantil, levantando a hipótese de um conflito entre instâncias intrapsíquicas. Vale ressaltar que o interesse de Luíza pelo brincar já havia sido evidenciado anteriormente, durante as entrevistas de hora de jogo diagnóstico individual e com a família, nas quais a criança demonstrou interesse e entusiasmo ao participar de grande parte das brincadeiras propostas. O brincar e as brincadeiras desempenham um papel fundamental na saúde e no desenvolvimento de todas as crianças, incluindo Luiza. Elas facilitam o crescimento, promovem relacionamentos em grupo, proporcionam uma forma de comunicação na psicoterapia e fortalecem os vínculos interpessoais. Essa importância do brincar é amplamente reconhecida e respaldada pela abordagem psicanalítica, conforme afirmado por Winnicott (1975, p. 80) “o brincar é essencial porque é através dele que se manifesta a criatividade. É um espaço potencial, onde o paciente pode mobilizar todos os recursos disponíveis em sua personalidade”. Durante a aplicação do teste CAT-A, a questão dos ciúmes, que foi uma parte da queixa inicial dos pais, surgiu em uma das narrativas de Luíza. Ela contou uma história sobre três personagens que estavam brincando de cabo de guerra, sendo um deles mais forte e os outros dois mais fracos. Surpreendentemente, os dois personagens mais fracos acabam vencendo o cabo de guerra. Inicialmente, o personagem mais forte não queria ser amigo dos outros dois devido aos sentimentos de ciúmes, mas ao final da história, eles formaram uma amizade e brincaram juntos. A recorrência desse tema não é uma mera coincidência, mas sim uma expressão dos conflitos internos de Luíza e de suas relações com o ambiente, seus desejos e fantasias. Isso sugere a importância de explorar mais profundamente esses aspectos em sua avaliação psicológica, a fim de compreender as dinâmicas emocionais e as necessidades subjacentes relacionadas aos ciúmes. Durante a aplicação do mesmo teste, também é evidenciada a relação de Luíza com a escola e com os adultos que exercem autoridade sobre ela. Em uma das histórias contadas, Luíza descreve um coelho que se prepara calmamente para ir à escola, porém esquece a régua e é punido pela professora por esse descuido. Importante salientar, que de maneira recorrente, Luíza traz à tona a questão das regras na escola que exercem controle sobre as condições em que as crianças podem falar, sendo a professora a figura que impõe e mantém essas normas. É possível observar a constante repressão que a criança enfrenta por parte dos adultos que a cercam, o que suscita reflexões sobre a dinâmica de poder e autoridade presentes em seu ambiente escolar. Esses relatos reforçam a importância de compreender a percepção de Luíza em relação à escola e às figuras de autoridade, bem como investigar as possíveis repercussões emocionais desse contexto em seu desenvolvimento psicológico. Umas das queixas principais, era a adultização excessiva de Luiza e seu interessepor conteúdos adultos/sexuais. Além disso, é preciso compreender que no universo infantil, muitas, ou a maioria das atitudes que envolvem algum tipo de sensualidade, se trata de algo involuntário, uma espécie de reprise de alguma cena em que a criança presenciou, seja na televisão ou não (Nascimento et al, 2012). No caso específico de Luíza, durante a aplicação da bateria de testes, foram observados desenhos e histórias em que ela retrata momentos de diversão, brincadeiras e passeios na companhia dos pais, irmãos e primos. Isso indica que a manifestação de comportamentos que parecem adultos está relacionada às expectativas e mensagens transmitidas pelos pais, por meio de uma linguagem não congruente com a realidade vivenciada por Luíza. Como traz Nascimento et al (2012), a “malícia está nos olhos do adulto, é ele que vê a pornografia, a criança não”(p.09). É importante ressaltar que é responsabilidade dos pais supervisionar e controlar o acesso da criança a conteúdos sexuais, inclusive do ponto de vista legal. Eles devem monitorar e cuidar das ferramentas utilizadas para esse fim, além de tomar medidas para garantir o bem-estar da criança nos ambientes que frequenta e nos serviços que recebe, como no caso da van escolar. A proteção da criança diante de conteúdos inadequados e estabelecimento de ambientes saudáveis são responsabilidades parentais essenciais para promover o desenvolvimento adequado e proteger o bem-estar emocional de Luíza. Durante as entrevistas com os pais, foi possível observar alguns costumes no modo de agir dos adultos. Primeiramente, na entrevista inicial, o sr. Vitor saiu ao meio da sessão, já próxima sessão propôs-se a entrar na sala de atendimento, no qual havia sido avisado de que naquela ocasião o trabalho seria realizado apenas com a criança, e por diversas vezes, o casal Sr. Victor e a sra. Geni remarcaram o encontro ou compareceram atrasados. Essa recorrência demonstra a falta de se implicar por parte dos adultos para o sucesso do tratamento, que demanda de assiduidade. Outro aspecto a ser considerado na análise da dinâmica familiar de Luíza é o fenômeno de espelhamento da criança em relação aos genitores. Seguindo as reflexões de Mannoni (1977, citado por Veludo & Vianna, 2012), os pais estão constantemente presentes no discurso da criança. Esse aspecto está relacionado a uma das queixas iniciais apresentadas pelos pais, que mencionaram o uso excessivo do celular por parte de Luíza. No entanto, durante os atendimentos, foi possível observar o comportamento da mãe, que também utilizava o aparelho em algumas ocasiões. Outra situação que sugere um certo espelhamento da dinâmica familiar, é a fala de Luíza odiar o pai, o que foi investigado em análise que havia falas do mesmo teor durante as brigas do casal. Assim, podemos observar que as queixas dos adultos sobre a criança configuraram-se sobre a repetição de comportamentos que esta enxergava naqueles, uma vez que a criança imita os comportamentos de adultos significantes de seu meio (Veludo & Viana, 2012). Por fim, constatou-se que a criança apresenta uma demanda de cuidado e acolhimento, evidenciando a falta dessas necessidades básicas supridas pelos genitores. Estes enfrentaram dificuldades em aceitar os papéis parentais, optando por uma postura repressora que resulta em sofrimento para Luíza. É essencial que os genitores sejam orientados e fortalecidos para assumirem de forma mais efetiva sua função de adultos, proporcionando um ambiente seguro e afetivo para o desenvolvimento saudável da criança. e) Conclusão; Com base na análise das entrevistas e da bateria de testes realizados, torna-se necessário encaminhar Luíza para a psicoterapia, a fim de promover um desenvolvimento saudável da criança por meio do acolhimento e cuidado de suas necessidades identificadas durante a avaliação psicológica. A psicoterapia oferecerá um espaço seguro e adequado para explorar e abordar as questões emocionais e psicológicas presentes na vida de Luíza. Além disso, é recomendável fornecer orientações aos pais, buscando fortalecê-los em relação ao seu compromisso de assumir a posição de decisão e referência como adultos. A dinâmica familiar de Luíza desempenha um papel significativo em seu psicodiagnóstico, e, portanto, uma mudança nessa dinâmica pode contribuir para o desenvolvimento saudável da criança. Os pais devem ser apoiados e orientados para promover um ambiente familiar mais equilibrado, fornecendo um suporte adequado às necessidades emocionais e psicológicas de Luíza, bem como estabelecer limites claros e consistentes. Com a psicoterapia e o apoio dos pais, espera-se que Luiza tenha a oportunidade de explorar suas dificuldades, fortalecer sua capacidade de lidar com os conflitos emocionais e desenvolver habilidades saudáveis de enfrentamento. O objetivo final é promover o seu bem-estar emocional, favorecer o seu desenvolvimento integral e fornecer-lhe recursos para enfrentar os desafios presentes e futuros de forma saudável e construtiva. É fundamental que a família e a equipe profissional estejam comprometidas em acompanhar e apoiar Luíza ao longo do processo terapêutico, garantindo um ambiente de cuidado, compreensão e afeto, para que ela possa desenvolver todo o seu potencial e construir uma base sólida para um futuro saudável e saudável equilibrado. Uberlândia, 20 de Junho de 2023 Noelle Tavares Ferreira - CRP: 00/00000 f) Referências Arzeno, M. E. G. (2003) Psicodiagnóstico clínico: novas contribuições. Porto Alegre: Artmed. Nascimento et al (2012). Sexualidade infantil: um despertar sem preconceitos através das teorias do desenvolvimento da criança. (Trabalho de Conclusão de Curso da faculdade de Curitiba). Recuperado de http://www.isciweb.com.br/revista/images/sexualidade_infantil.pdf Priszkulnik, L. (1995). A criança e a psicanálise: o "lugar" dos pais no atendimento infantil. Psicologia USP, 6(2), 95-102. Recuperado de http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1678-51771995000200006&lng=pt&tlng=pt. Trinca, W. (2013). Formas compreensivas de investigação psicológica: procedimento de desenhos- estórias e procedimento de desenhos de família com estórias. 1ª. ed. São Paulo: Vetor. Veludo, C. M. B., & Viana, T. de C.. (2012). Parentalidade e o desenvolvimento psíquico na criança. Paidéia (ribeirão Preto), 22(51), 111–118. https://doi.org/10.1590/S0103-863X2012000100013 Villemor-Amaral, A. E. & Xavier, M. F. (2007). Avaliação da relação com a figura materna no CATA. Psic, São Paulo, v. 8, n. 2, p. 195-203. Winnicott, D. W. (1975). O brincar e a realidade. Tradução José Octávio de Aguiar Abreu. Rio de Janeiro