Prévia do material em texto
1 2 3 O AUTOR Olá, estudantes. Sou o professor Regys Rodrigues da Mota. Sou bacharel (2007) e licenciado (2008) em Ciências Sociais e mestre em Sociologia (2011) pela Universidade Federal de Goiás. Durante os próximos meses, estaremos juntos realizando uma série de atividades acadêmicas para que possamos aprofundar o conhecimento sobre alguns dos temas abordados pela disciplina de Antropologia e Cultura, oferecida pela Faculdade Araguaia. Vamos iniciar a disciplina de Sociologia da Educação. Acompanhe cada unidade e leia com atenção todos os materiais. A interação e a troca de experiências são muito importantes para a consolidação do conhecimento, sendo assim, participe de forma intensiva dos fóruns propostos. É muito importante que você se dedique à leitura, às atividades e se comprometa em realizar os exercícios propostos. Lembre-se de trocar informações com o tutor (a) e com os colegas do curso. Tenho certeza de que juntos vamos alcançar o sucesso! Bons estudos! Professor Mestre Regys Rodrigues da Mota Dados Internacionais de Catalogação na Publicação - CIP M917s Mota, Regys Rodrigues da Sociologia / Regys Rodrigues da Mota – Goiânia: NUTEC, 2017. 84 p. : il. - (Educação a distância Araguaia). Possui bibliografia. 1. Sociologia educacional. 2. Educação à distância – Sociologia educacional. 3. Educação superior. I. Faculdade Araguaia. II. Título. ISBN: 978-85-98300-46-7 CDU: 37.015.4(07) Ficha catalográfica elaborada pela Bibliotecária Marta Claudino de Moraes CRB-1928 4 FACULDADE ARAGUAIA - FARA 1º Edição - 2017 É proibida a reprodução total ou parcial desta obra, por qualquer meio e para qualquer fim. Obra protegida pela Lei de Direitos Autorais DIRETORIA GERAL: Professor Mestre Arnaldo Cardoso Freire DIRETORIA FINANCEIRA: Professora Adriana Cardoso Freire DIRETORIA ACADÊMICA Professora Ana Angélica Cardoso Freire DIRETORIA ADMINISTRATIVA Professor Hernalde Menezes DIRETORIA PEDAGÓGICA: Professora Mestra Rita de Cássia Rodrigues Del Bianco VICE-DIRETORIA PEDAGÓGICA Professor Mestre Hamilcar Pereira e Costa COORDENAÇÃO GERAL DO NÚCLEO DE TECNOLOGIA EM EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Professor Mestre Leandro Vasconcelos Baptista COORDENAÇÃO GERAL DOS CURSOS TÉCNICOS Professor Doutor Ronaldo Rosa Júnior REVISÃO DE LÍNGUA PORTUGUESA Professor Rafael Souza Simões COORDENAÇÃO E REVISÃO TÉCNICA DE PRODUÇÃO DE CONTEÚDO EM VÍDEO E WEB Professora Doutora Tatiana Carilly Oliveira Andrade DESIGN GRÁFICO E EDITORIAL Bruno Adan Vieira Haringl FACULDADE ARAGUAIA Unidade Centro – Polo de Apoio Presencial Endereço: Rua 18 nº 81 - Centro - Goiânia-GO, CEP: 74.030-040 Fone: (62) 3224-8829 Unidade Bueno Endereço: Av. T-10 nº 1.047, Setor Bueno - Goiânia-GO, CEP: 74.223-060 Fone: (62) 3274-3161 Site Institucional www.faculdadearaguaia.edu.br NÚCLEO DE TECNOLOGIA EM EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Polo Goiânia: Unidade Centro Correio eletrônico: nutec@faculdadearaguaia.edu.br mailto:nutec@faculdadearaguaia.edu.br 5 SUMÁRIO Apresentação ............................................................................................................. 7 UNIDADE 1: A SOCIOLOGIA E A EDUCAÇÃO ........................................................ 9 1.1 A sociologia e a definição de educação .............................................................. 11 1.2 Sociedade, educação e escola na perspectiva de Émile Durkheim .................... 18 Síntese da unidade1 ................................................................................................. 21 ATIVIDADES ............................................................................................................. 22 BIBLIOGRAFIA BÁSICA .......................................................................................... 24 BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR ......................................................................... 24 UNIDADE 2: A EDUCAÇÃO COMO PROCESSO DE TRANSFORMAÇÃO SOCIAL.25 2.1 A educação, o capitalismo e as desigualdades sociais e econômicas: Karl Marx...25 2.2 A educação, o capitalismo e as desigualdades sociais e econômicas: Antonio Gramsci ..................................................................................................................... 32 2.3 A pedagogia do oprimido e a educação libertadora: Paulo Freire ...................... 37 Síntese da Unidade 2 ................................................................................................ 38 ATIVIDADES ............................................................................................................ 40 BIBLIOGRAFIA BÁSICA .......................................................................................... 42 BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR ......................................................................... 42 UNIDADE III: A EDUCAÇÃO COMO PROCESSO DE ASSIMILACÃO, ACOMODAÇÃO E CONSTRUÇÃO DE SIGNIFICADOS ......................................... 43 3.1 Construindo categorias e nomeando a realidade a partir do poder simbólico: Pierre Bourdieu ......................................................................................................... 43 3.2 A adaptação e a socialização na aprendizagem: Jean Piaget ........................... 48 Síntese da Unidade 3 ................................................................................................ 53 ATIVIDADES ............................................................................................................ 54 BIBLIOGRAFIA BÁSICA .......................................................................................... 57 BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR ......................................................................... 57 6 UNIDADE 4: A SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA, O DESENVOLVIMENTO DA EDUCAÇÃO E OS DIREITOS HUMANOS .............................................................. 58 4.1 A sociedade atual: a educação e as novas demandas da sociedade neoliberal e globalizada ................................................................................................................ 58 4.2 Direitos Humanos ............................................................................................... 59 4.3 O respeito aos direitos de cada um e a educação como fonte de cidadania: John Locke ......................................................................................................................... 65 4.4- O combate às diferentes formas desigualdades por meio da educação: Jean- Jacques Rousseau .................................................................................................... 70 4.5 Temas relevantes em Sociologia da Educação ................................................... 80 Síntese da Unidade 4 ................................................................................................ 82 ATIVIDADES ............................................................................................................ 84 BIBLIOGRAFIA BÁSICA .......................................................................................... 85 BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR ......................................................................... 85 7 Apresentação O objetivo desta disciplina, ministrada pela Faculdade Araguaia no Ensino a Distância, é capacitar os(as) acadêmicos(as) com conhecimentos fundamentais da Sociologia da Educação, buscando a interdisciplinaridade ao tratar de assuntos relacionados ao mundo do trabalho, à educação, ao Estado, política, relações étnicos-raciais, ética,diversidade, acessibilidade e aos Direitos Humanos, fomentando a construção de opiniões e da cidadania. Pensar em um ensino desvinculado da realidade social, econômica, cultural e política é pensar em um ensino descontextualizado e meramente reprodutivo da sociedade. Segundo Paulo Freire (2014), a educação deve não somente refletir como também deve modificar o meio social, gerando novas formas de ordenação das experiências humanas com reflexos positivos na cognição dos estudantes. Freire afirma que se deve buscar transformar a realidade, contribuindo com a justiça e a participação, gerando pessoas que são sujeitas da sua própria formação. A Sociologia é, por excelência, uma área da ciência que busca tratar das relações humanas inseridas na sociedade, possuindo, dessa forma, relevância revolucionária para a formação do cidadão atuante no meio em que está inserido. Dessa forma, a intenção é trabalhar no decorrer das aulas diferentes perspectivas sobre temas que ainda hoje suscitam diversas discussões. Na primeira unidade, a proposta é definir o que é educação a partir do viés sociológico, apresentando a concepção de Durkheim, que considera o ato de educar como um processo de interiorização das regras sociais. Na segunda unidade, o objetivo específico é compreender outra maneira de encarar a educação. Autores como Karl Marx, Antonio Gramsci e Paulo Freire consideram que a educação sem reflexão é um mero instrumento para reproduzir uma série de desigualdades sociais criadas pelas disputas econômicas presentes no capitalismo. Em contrapartida, a vigência de práticas que levam a um aprendizado reflexivo, contestador e revolucionário, gera uma pedagogia crítica que possibilita a transformação da sociedade. A proposta da terceira unidade é abordar a educação como um processo de construção de significados. Pierre Bourdieu considera que a educação deve levar em consideração a origem social de cada ator social, gerando um ensino que quebre 8 com a violência simbólica exercida por determinados setores sociais que controlam diferentes tipos de capitais e determinam as formas como representamos e significamos o mundo a nossa volta. Jean Piaget, por sua vez, está interessado na forma como o indivíduo é construído a partir da infância, considerando que a ação de pensar parte de pilares condicionados pela genética, mas tal ação se constrói através de estímulos socioculturais (estímulos do ambiente externo ao indivíduo). Na quarta unidade, o objetivo consiste em analisar a educação a partir das novas demandas impostas por uma sociedade neoliberal e globalizada, demandas estas que nem sempre estão de acordo com os Direitos Humanos. Dentro desta unidade, são apresentadas as propostas de Jonh Locke e Jean-Jacques Rousseau, que consideram ser a educação o caminho para a cidadania e o combate as diferentes formas de desigualdades. Por fim, são apresentados alguns temas de interesse a Sociologia da Educação que são abordados em ações desenvolvidas pelo Estado brasileiro. 9 UNIDADE 1: A SOCIOLOGIA E A EDUCAÇÃO O que é a Sociologia A Sociologia é a disciplina que se ocupa de estudar o ser humano vivendo em sociedade. É o campo do conhecimento que investiga as relações sociais entre diferentes grupos humanos, seus conflitos e conexões, na tentativa de compreender o funcionamento do comportamento coletivo. Dentro dessa perspectiva, comportamentos e instituições são encarados como fenômenos dotados de influências históricas e socioculturais. Consequentemente, experiências percebidas pelo senso comum como individuais são encaradas pelo pensamento sociológico como influenciadas pelo meio social, cultural, econômico e político. Esse processo, que leva a deixar de lado as aparências imediatas das coisas para compreender o contexto amplo em que estão inseridas, é chamado de imaginação sociológica. Essa capacidade de abstração presente na Sociologia confere a ela uma variada gama de temas/áreas de pesquisa como a política, o trabalho, a economia, a religião, a educação, as raças e etnias, a pobreza, as classes sociais, a ecologia, a comunicação e a mídia, os crimes e o sistema punitivo, o convívio entre diferentes gerações, o gênero e a sexualidade, os movimentos sociais e muitos outros. Pensar sociologicamente: a imaginação sociológica Como ressaltado anteriormente, o termo “imaginação sociológica” é da autoria do sociólogo americano Charles Wright Mills (1916 a 1962 d.C.) e significa o exercício de olhar para as coisas de uma maneira diferente daquela a que se está habituado contextualizando o cotidiano de acordo com quadro histórico e a realidade sociocultural em que ele está inserido. Consiste em perceber que uma ação meramente individual e que aparenta ser corriqueira é produzida a partir do contexto a sua volta e pode apresentar uma gama de significados políticos, econômicos, sociais e culturais (ARON, 2002). Mills estabelece o termo para descrever a conexão entre a experiência individual da pessoa com as instituições socioculturais em que convive. Assim 10 sendo, o termo refere-se à habilidade que os sociológos desenvolvem para perceber e analisar as conexões entre indivíduo, sociedade e cultura (ARON, 2002). Giddens (nascido em 1938) procura exemplificar essa habilidade ao analisar o ato aparentemente efêmero de tomar uma xícara de café, identificando vários ângulos em que essa análise poderia ser feita. Esse ato corriqueiro do cotidiano poder ser investigado, por exemplo, a partir do ritual social que ele representa (a socialização presente no ritual de se reunir para beber café) (ARON, 2002). Um segundo caminho de investigação tem por base o fato de que a cafeína ser uma substância aceita no ocidente, ao passo que é proíbida em outras culturas por ser considerada viciante. Uma terceira abordagem consiste na discussão a respeito das relações de produção implicadas no cultivo e comércio do café, sendo um produto cultivado, em sua grande maioria, em países pobres e distribuído, em sua melhor qualidade, aos países desenvolvidos. Existem várias outras possibilidades de se tratar tal assunto na tentativa de compreender que escolhas aparentemente individuais refletem questões amplas. Faz parte ainda desse exercício a mente aberta para mudanças, ou seja, a capacidade de mudarmos a nossa perspectiva diante de novos fatos/argumentos, na tentativa de conseguir uma visão total da sociedade e de todos os elementos que dela fazem parte. Para executar essas ações, o indivíduo deve abster-se de todas as noções que ele adquiriu ao longo da vida com relação a uma determinada coisa e passar a vê-la como algo desconhecido. Isso se assemelha com a forma como Durkheim acredita que deva ser a postura de um pesquisador social. Para ele, o pesquisador deve tratar o seu objeto de estudo como “coisa”, ou seja, deve deixar de lado sua subjetividade e manter a imparcialidade/distanciamento do objeto a ser estudado. Assim, um problema que parece ser apenas particular pode ser relacionado com os aspectos mais gerais da sociedade, aplicando a 11 imaginação sociológica na tentativa de abandonar o senso comum em face de poder olhar para “além das fachadas”. 1.1 A sociologia e a definição de educação Diante desse exercício de poder olhar além das fachadas, surgem várias possibilidades de interpretar sociologicamente a educação. Por ser um fato social, a maneira como o ser humano interpreta a educação varia de acordo com a própria maneira como o ser humano se vê diante do mundo e essa visão sobre si mesmo varia de tempo em tempo, de lugar para lugar. Nesta apostila, tomando a sociologia como base, iremos adotar duas maneiras diferentes de encarar/interpretar a educação. Nesta primeira unidade, vamos abordar a definiçãode educação a partir das proposições desenvolvidas por Durkheim, que encara o processo de ensino e de aprendizagem como um processo de interiorização das regras estabelecidas pela sociedade. Dessa forma, educar é interiorizar no ser humano as normas necessárias para se manter o equilíbrio social. Da segunda unidade em diante, vamos analisar a educação como um processo de transformação social. Marx, Gramsci e Pierre Bourdieu partem do mesmo princípio de que a escola acaba por contribuir para que ocorra a interiorização no indivíduo o social, mas encaram que essa função acaba por reproduzir também uma série de problemas e desigualdades que permeiam a vida em coletividade. Dessa forma, autores como Gramsci e Paulo Freire defendem a necessidade de que o professor deve revolucionar, levando a criação de alunos críticos que também transformam a sociedade. A interiorização das regras sociais: Émile Durkheim Émile Durkheim (1858 a 1917 d.C.) é um importante sociólogo que trata a respeito da educação a partir da relação dos indivíduos com a sociedade. Sua análise social parte do princípio que nossa liberdade vai até onde a sociedade permite que ela vá. O ser humano acredita ser completamente livre, mas só age até onde a sociedade permite. Aquilo que foge desse limite 12 é punido de tal forma que se adequa novamente ao padrão considerado normal. Se não se adequar, o sujeito é eliminado do convívio com os demais. Durkheim é apontado como um dos primeiros grandes sociólogos. Sua preocupação era emancipar a Sociologia das demais teorias sobre a sociedade, constituindo-a como disciplina rigorosamente científica, disciplina esta composta de objeto (fato social) e métodos de estudo bem definidos. Para compreender em que consiste o fato social, é necessário compreender primeiro a forma como as sociedades são definidas como simples ou complexas. Sociedades mais simples ou mesmo entendidas nessa perspectiva como primitivas e arcaicas, são organizadas em torno de uma espécie de solidariedade mecânica, onde a integração é decorrente de se compartilhar as mesmas noções e valores sociais. Nelas predominam uma baixa individualização e é o compartilhamento das mesmas crenças religiosas, dos mesmos interesses materiais, de tradições e de costumes que se garante a coesão social. Já nas sociedades compreendidas como modernas ou complexas, o que predomina é a solidariedade orgânica. Elas são complexas em razão de existir uma maior divisão social do trabalho, gerando uma maior diferenciação individual. Cada membro se diferencia pelo papel desempenhado (professor, médico, advogado etc.) e não necessariamente compartilham os mesmos valores e crenças. Assim, os interesses individuais são bastante distintos e a consciência de cada um é mais acentuada (DURKHEIM, 1960 apud ARON, 2002). A divisão econômica do trabalho social é mais desenvolvida e complexa e se expressa nas diferentes profissões e variedade das atividades industriais. No entanto, as pessoas não mais produzem tudo que precisam para sobreviverem e, por essa razão, umas necessitam das outras já que o trabalho encontra-se dividido. Enquanto um grupo de pessoas é responsável pela produção de alimentos, outro lida com a produção de vestimentas, outro pelos serviços de saúde e assim por diante. Isso acaba por gerar uma interdependência e, consequentemente, a solidariedade orgânica. O referido autor considera que as sociedades complexas são grandes organismos vivos, compostos por órgãos diferentes entre si, mas 13 dependentes uns dos outros para o bom funcionamento de tais organismos. Assim sendo, a crescente divisão social do trabalho faz aumentar o grau de interdependência entre os indivíduos. A coesão social não está assentada, portanto, em crenças e valores ou nos costumes compartilhados, mas na interdependência humana, resultando em códigos e regras de conduta que estabelecem direitos e deveres e se expressam em normas jurídicas, ou seja, no Direito. Estabelecido esse cenário de diferenciação entre sociedades mais simples e mais complexas baseado no grau de divisão do trabalho social e na consequente forma de solidariedade resultante, é preciso compreender o que constitui o chamado consciente coletivo. Embora cada um possua sua “consciência individual”, seu modo próprio de se comportar e interpretar a vida, pode-se notar, no interior de qualquer grupo ou sociedade, formas padronizadas de conduta e pensamento. O conjunto de crenças e sentimentos comuns à média dos membros de uma mesma sociedade forma um sistema determinado com vida própria, ou seja, a sociedade possui uma consciência própria. Essa consciência não se baseia nas consciências dos indivíduos ou mesmo de grupos específicos, e sim, o inverso. Acredita-se que exista liberdade total de escolha, mas só é possível escolher entre aquilo que a sociedade permite que escolhamos. Ao nascer, o ser humano encontra-se 14 inserido em um ambiente cujas regras já estão estabelecidas e, por meio das instituições sociais, como a escola, a família e as religiões, o indivíduo interioriza essas regras e as segue pelo resto da vida, achando que tem uma liberdade total de escolha (DURKHEIM, 1960 apud ARON, 2002). As maneiras de se vestir, de se comportar, de falar variam entre o que é socialmente permitido. O estilo de vida, as religiões que se seguem, rituais como o casamento são socialmente e culturalmente preestabelecidas. Isso pode ser observado quando se adota um idioma. Ninguém nasce sabendo uma língua ou como se comportar diante de uma situação X ou situação Y. Quando uma pessoa nasce, as regras, a moral e a ética já estão colocadas. O agir humano só ocorre entre aquilo que a sociedade permite, mas ilusoriamente se acredita que a ação ocorre de forma racional tendo sempre infinitas possibilidades de escolhas. Dentre as principais obras de Durkheim, estão “ A Divisão do Trabalho Social”, “As Regras do Método Sociológico”, “O Suicídio”, “A Educação Moral”, “As Formas Elementares da Vida Religiosa” e “Lições de Sociologia”. O patológico e o normal Segundo Durkheim (1960 apud ARON, 2002), a sociedade se apresenta como todo organismo vivo estados normais e patológicos, isto é, saudáveis e doentios. Aquilo que foge do consciente coletivo, do que é moralmente estabelecido como o correto, é tomado como um erro, uma doença que afeta a saúde do ser vivo chamado sociedade. E o que afeta o consenso social é tido como patológico. Quando um organismo vivo está doente, liberam-se anticorpos para restituir a condição de saudável. Para Durkheim, em relação à sociedade, o processo de restituição à condição de saudável ocorre por meio de sansões legais, espontâneas e por outras formas de mecanismos de controle social. As sanções legais são aquelas prescritas em forma de leis, nas quais se estabelece a infração e a penalidade subsequente. Espontâneas são aquelas que afloram como decorrência de uma conduta não adaptada à estrutura do grupo ou da sociedade à qual o indivíduo pertence. Para 15 exemplificar essa segunda forma de sanção, Durkheim estabelece como exemplo um industrial que opta por trabalhar utilizando processos e técnicas do século passado. Nada o proíbe de assim proceder, mas, ao agir dessa maneira, irá encontrar como resultado inevitável a ruina já que terá um gasto maior para produzir, perderá muito tempo no ato da produção, não produzirá peças suficientes para atender a demanda de mercado e para competir com a concorrência, dentre outras formas de prejuízo (DURKHEIM, 1960 apud ARON, 2002). Os mecanismos de controle social agem, por sua vez, confrontando o comportamento tomado como estranho. Uma pessoa que se veste de uma forma que confronte o que está moralmente estabelecido, que confronte o consenso social presenteno consciente coletivo, por exemplo, estará sujeita a ser ridicularizada ou mesmo excluída enquanto assim permanecer. O ato de ridicularizar, de diminuir alguém perante outros, de excluir e de delegar ao ostracismo são formas que o consciente coletivo encontra de fazer com que as pessoas se adequem ao que é consenso social (DURKHEIM, 1973 apud LAKATOS e MARCONI, 1999). É claro que a sociedade também abarca mudanças. Se uma determinada forma de comportamento que foge do “normal” perdura pelo tempo, pode acontecer de o consciente coletivo incorporar tal prática ao consenso geral. A partir desse momento, essa prática entra naquele limite do socialmente permitido e as gerações seguintes a recebem como algo natural. Fato Social Na perspectiva estabelecida por Durkheim, o fato social é, por excelência, o objeto de estudo do pesquisador que propõe a estudar a sociedade. Refere-se a tudo aquilo que diz respeito ao consciente coletivo. A primeira característica desse objeto de estudo é a coerção social, ou seja, ele exerce sobre o indivíduo uma força que o leva a seguir as regras da sociedade em que ele vive, independente da sua vontade e escolha. Como ressaltado anteriormente, as maneiras de se vestir e de agir variam entre o limite que a sociedade permite (COSTA, 2002). 16 A segunda característica do fato social é que ele é exterior ao indivíduo, ou seja, ele existe e atua sobre o indivíduo independentemente de sua vontade ou de sua adesão consciente. Como ressaltado anteriormente, as regras sociais, os costumes e as leis já existem antes do nascimento das pessoas e são a elas impostas por mecanismos de coesão social, como a própria educação. A educação, por exemplo, desempenha uma importante tarefa nessa conformação dos indivíduos à sociedade em que vivem, a ponto de, após algum tempo, as regras estarem internalizadas e transformadas em hábitos. A terceira característica é a generalidade. É social todo fato que é geral, que se repete em todos os indivíduos ou, pelo menos, na maioria deles, apresentam uma natureza coletiva ou um estado comum ao grupo, como os padrões de habitação, comunicação, os sentimentos e a moral (DURKHEIM, 1973 apud LAKATOS e MARCONI, 1999). Tudo que é geral, exterior e coercitivo é objeto de estudo do pesquisador social. A partir da caracterização do objeto de estudo do pesquisador social, é necessário estabelecer um método de investigação específico, bem como a postura daqueles que estudam a sociedade. Método de estudo científico Uma vez identificados e caracterizados os fatos sociais, Durkheim procurou definir o método de estudo que o pesquisador deve adotar para identificar e interpretar o que é relevante para se compreender a lógica e o funcionamento da sociedade. Para ele, a explicação científica exige que o 17 pesquisador mantenha certa distância e neutralidade em relação aos fatos, resguardando a objetividade de sua análise. Além disso, é preciso que o pesquisador deixe de lado suas prénoções, isto é, seus valores e sentimentos pessoais em relação ao acontecimento a ser estudado, pois nada tem de cientifico e podem distorcer a realidade dos fatos. Essa postura exige o não-envolvimento afetivo ou de qualquer outra espécie entre o cientista e seu objeto. A neutralidade exige também a não-interferência do cientista na fato observado. Deve-se eliminar qualquer traço de subjetividade, além de manter certa distância. Procurando garantir um método tão eficiente quanto o desenvolvido pelas ciências naturais, Durkheim aconselhava o pesquisador a encarar os fatos sociais como coisas, isto é, objetos que deveriam ser medidos, observados e comparados independentemente do que os indivíduos envolvidos pensam ou declaram a seu respeito. O que o pesquisador deve procurar observar é o fato social em si, e não dar ouvidos ao que os atores sociais envolvidos têm a dizer sobre o fato. As pessoas envolvidas em um casamento irão defini-lo a partir da subjetividade de cada uma, dos sonhos que nutrem desde criança, do imaginário que construíram a respeito desse ritual cultural. Para Durkheim, essa subjetividade não é o interesse da Sociologia e da Antropologia porque não correspondem à verdade, não explicam o significado real do casamento. Para compreender o ritual do casamento, o pesquisador deve procurar características exteriores aos indivíduos que se repetem e, a partir daí, identificar o significado. O pesquisador deve sempre estar atento a acontecimentos gerais e repetitivos, mesmo porque é isso que define o que é fato social. São fenômenos gerais (que afetam a todos ou pelo menos a grande maioria), são exteriores (não dependem da vontade dos atores sociais envolvidos) e coercitivos (as pessoas interiorizam tais fenômenos de forma inconsciente) (DURKHEIM, 1966 apud LAKATOS e MARCONI, 1999). O casamento é uma prática social difundida pela sociedade. Ninguém nasce querendo casar, mas grande parte das pessoas “adquire” tal sonho com o decorrer da vida a partir de uma força exterior e coercitiva proveniente 18 do consciente coletivo reproduzido em filmes, na escola, na concepção de monogamia e a partir da imagem de sagrado que é associada à constituição de uma família. O pesquisador deve, portanto, estar atento a esses fenômenos gerais, exteriores e coercitivos, pois são eles que indicam a presença do consciente coletivo e fornecem pistas do tipo psíquico social. Assim como a sociedade apresenta uma consciência própria, ela apresenta também uma forma psíquica, uma identidade que pode ser observada, caracterizada e, consequentemente, classificada em mais ou menos complexas. 1.2 Sociedade, educação e escola na perspectiva de Émile Durkheim Em cada aluno, há dois seres inseparáveis, porém distintos. Um deles seria o que Durkheim chamou de individual. Tal porção do sujeito (o jovem bruto) é formada pelos estados mentais de cada pessoa. A caracterização do segundo ser é algo formado por um sistema de ideias que exprimem, dentro das pessoas, a sociedade de que fazem parte. Dessa forma, Durkheim acreditava que a sociedade seria mais beneficiada pelo processo educativo, pois a educação é uma socialização da jovem geração pela geração adulta e quanto mais eficiente for o processo, melhor será o desenvolvimento da comunidade em que a escola esteja inserida (RODRIGUES, 2000). Nessa concepção, as consciências individuais são formadas pela sociedade. A construção do ser social, feita em boa parte, pela educação, é a assimilação pelo indivíduo de uma série de normas e princípios que direcionam a conduta dentro do grupo. O ser humano, mais do que formador da sociedade, é um produto dela. Assim sendo, além de contribuir para o desenvolvimento individual do aluno, o papel da ação educativa é formar um cidadão que tome parte do espaço público. A educação tem o objetivo de suscitar e desenvolver, na criança, estados físicos e morais requisitados pela sociedade. Tais exigências estão relacionadas à religião, às normas e sanções, à ação política, ao grau de desenvolvimento das ciências, ao estado de progresso industrial local e ao grau de divisão do trabalho social. De acordo com o Durkheim, se a educação 19 for desligada das causas históricas e características socioculturais do local em que está inserida, ela perde totalmente o sentido (MEKSENAS, 2003). Como ressaltado anteriormente, a sociedade apresenta um consciente coletivo que estabelece a existência de um código a ser seguido. O comportamento humano, que foge completamente do que o consciente coletivo considera como normal, passa a ser classificado como patológico. A sociedade, diante do patológico, usa de mecanismos para adequar o comportamento humano, reestabelecendo o equilíbrio social. O código estabelecido pelo consciente coletivorefere-se às regras sociais, passadas de gerações a gerações. Quando o indivíduo nasce, as regras já estão colocadas. A educação fornecida por instituições sociais como a família, a religião e a própria escola funcionam como instrumentos para que se possam interiorizar tais regras. Por meio da escola, grande parte dos seres humanos interioriza as percepções do que é certo e errado e dos costumes culturais, por exemplo. Uma vez interiorizadas as regras, o indivíduo as toma como a priori, ou seja, considera que partiram de sua consciência individual, tornando ainda mais fácil a perpetuação das diretrizes coletivas para a geração seguinte (RODRIGUES, 2000). Dessa forma, chega-se a conclusão de que não existe um padrão universal de educação que deve ser adotado por todas as sociedades/culturas, e sim que cada sociedade/cultural possui seu próprio padrão de educar. No entanto, dentro de um mesmo contexto sociocultural regido por um padrão, existem sistemas educacionais especiais. Essa diversidade pedagógica decorre do grau de especialização existente. Cada profissão constitui um meio que reclama aptidões particulares e conhecimentos especiais, meio que é regido por certas ideias, certos usos, certas maneiras de ver as coisas. Consequentemente, a criança deve ser preparada em vista de certa função, a que será chamada a preencher e por isso a educação não pode ser a mesma, desde certa idade, para todo e qualquer indivíduo (MEKSENAS, 2003). O que ocorre é que toda essa diversidade pedagógica segue um eixo central estabelecido pelo consciente coletivo, ou seja, todas as práticas de ensino e aprendizagem produzidas em uma sociedade são marcadas por um 20 número de ideias, sentimentos e práticas que a educação deve inculcar a todas as crianças, indistintamente, seja qual for a categoria social a que pertençam. Em outras palavras, cada sociedade constrói, para seu uso, certo ideal de indivíduo, tanto do ponto de vista intelectual, quanto o físico e moral. Esse ideal é que constitui o eixo educativo. De forma resumida, não existe um padrão universal de educar, e sim, existe um padrão educacional específico para cada sociedade/cultura. Dentro de uma mesma sociedade/cultura, existem sistemas educacionais que assumem determinadas especificidades em razão das diferentes funções que os indivíduos exercem, mas todos os sistemas são regidos por uma lógica/moral/eixo interna criada pelo consciente coletivo daquela sociedade. As ideias de Durkheim ajudaram a compreender o significado social do trabalho do professor, tirando a educação escolar da perspectiva individualista, pois o papel da ação educativa é formar um cidadão que tomará parte do espaço público e não somente o desenvolvimento individual do aluno (RODRIGUES, 2000). Assim sendo, Durkheim defendia a vigência da educação pública monopolizada pelo Estado e laica. Pode-se associar a elaboração, a adoção e a socialização dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) no Brasil da atualidade com as proposições de Durkheim, já que esses parâmetros são resultados de em uma padronização na indicação dos conteúdos curriculares em uma clara demonstração do que o governo espera dos jovens que deixarão os bancos escolares nos próximos anos. Já o professor, na perspectiva de Durkheim, dever ser a autoridade em sala de aula que conduz os alunos na busca pela interiorização da sociedade. A ação educativa deve funcionar de forma normativa. A criança está pronta para assimilar conhecimentos, devendo exercitar-se a reconhecer a autoridade na palavra do educador e a submeter-se a tal autoridade para que assim, consiga, na vida adulta, se encontrar com a sociedade na sua consciência e se conformar a ela. Como parte responsável pelo desenvolvimento de cada ser humano, os professores têm um papel determinante e delicado, à medida que devem transmitir os conhecimentos 21 adquiridos com autoridade, mas com cuidado para não tirar a autonomia e pensamentos dos jovens, mesmo que essa autonomia vá somente até onde o consciente coletivo permite. SÍNTESE DA UNIDADE 1 O sociólogo Durkheim procurou analisar os efeitos da divisão do trabalho social. Sociedade com baixa divisão do trabalho é classificada por ele como sendo simples e marcada pela solidariedade mecânica proveniente do compartilhamento de costumes e objetivos entre as pessoas. A alta divisão configura um contexto social marcado pela solidariedade orgânica, proveniente da interdependência entre as pessoas que precisam umas das outras para sobreviverem. Em ambos os casos, há o desenvolvimento de um consciente coletivo. Durkheim comparava a sociedade com um organismo vivo, com consciência própria que independe das vontades individuais. O ser humano acredita ter liberdade de escolhas, mas tais escolhas só vão até onde o consciente coletivo permite. Caso o indivíduo se comporte fora daquilo que a sociedade estabelece como normal, mecanismos de controle social (sanções legais, sanções espontâneas e outras formas de controle) entram em ação para adequar os comportamentos ao padrão aceito. Se o comportamento desviante permanece, o indivíduo acaba por ser excluído, preservando o equilíbrio social. A educação proveniente da religião, da família, da escola, dos amigos, dos filmes e das atividades exercidas, dentre outros setores, funciona como instrumento para a internalização das regras. Quando o indivíduo nasce, as normas já estão colocadas e são interiorizadas ao ponto de se acreditar que tais normas estão naturalmente presentes na natureza humana. Dessa forma, permanece a ilusão de plena liberdade. Identidades são formadas a partir dos papéis desempenhados. Continua sendo possível afirmar que existe espaço para mudanças sociais. No entanto, as mudanças são poucas, só ocorrem de forma gradativa e só acontecem quando o consciente coletivo incorpora no seu equilíbrio 22 determinado fenômeno recorrente. Não é porque as pessoas querem que algo seja visto como natural que isso realmente irá acontecer. Apenas a consciência da coletividade determina que algo é certo ou errado, normal ou patológico. Diante desse cenário, o pesquisador que se propõe a analisar a vida humana tem como objeto de estudo o fato social, ou seja, tudo aquilo que é geral (atinge a todos), exterior (não depende das vontades individuais) e coercitivo (coage a todos). Tal pesquisador deve tratar tais fatos como coisas, mantendo o distanciamento, não se envolvendo e deixando de lado sua subjetividade. Sua tarefa é relatar os acontecimentos e as características do fenômeno investigado. Tratando especificamente da questão da educação, Durkheim defendia a vigência da educação normativa pública monopolizada pelo Estado e laica, enquanto que o professor deve ser a autoridade em sala de aula que conduz os alunos na busca pela interiorização da sociedade, tomando cuidado para não tirar a autonomia e pensamentos dos jovens, mesmo que essa autonomia vá somente até onde o consciente coletivo permite. Atividade 1 da Unidade 1: Fórum de discussão Durkheim é considerado como um dos primeiros teóricos da Sociologia da Educação. Dentre os seus estudos, destaca-se a relação que ele procurou analisar entre consciente coletivo e consciente individual. Tendo a perspectiva de Durkheim como base, procure discorrer como a educação no Brasil atua no sentido de interiorizar nos estudantes as regras sociais e os mecanismos de controle social utilizados frequentemente nas escolas e universidades como instrumentos de adequação do individual ao coletivo. (Máximo de 20 linhas). Atividade 2 da Unidade 1: Marque o que se pede no enunciado da questão 23 Questão 1- Ao analisar a relação entre o consciente coletivo e as consciências individuais, Durkheim considera que as diferentesformas de educação (escolar, familiar, religiosa etc.) assumem um determinado papel na construcão das identidades sociais. Assinale a opção que descreve de maneira correta a relação entre educação e formação de identidades sociais: A) Apesar de a educação proveniente de diferentes instituições sociais internalizar no indivíduo as regras sociais, o ser humano tem consciência de que essas regras não fazem parte da natureza humana. B) A educação proveniente de diferentes instituições sociais permite a propagação das regras sociais, mantendo a sociedade em equilíbrio. Dessa forma, não existe espaço para mudanças, nem nas consciências individuais e nem no consciente coletivo. C) O ser humano é um produto social formado a partir dos papéis criados pela educação proveniente das diferentes instituições sociais. No entanto, aquilo que foge dos papéis desempenhados é considerado uma variação comportamental normal. D) A partir do trabalho desempenhado, da educação proveniente das instituições e dos valores vigentes na sociedade, são criados papéis e estes papéis influenciam na formação de identidades sociais. E) A educação proveniente das diferentes formas de instituições sociais é reflexo das consciências individuais. 24 BIBLIOGRAFIA BÁSICA COSTA, Cristina. Sociologia: Introdução à ciência da sociedade. São Paulo: Editora Moderna, 2002. LAKATOS, Eva Maria; MARCONI, Marina de Andrade. Sociologia Geral. São Paulo: Editora Atlas, 1999. MEKSENAS, Paulo. Sociologia da Educação: Introdução ao estudo da escola no processo de transformação social. São Paulo: Ed. Loyola, 2003. RODRIGUES, Alberto T. Sociologia da Educação. Rio de Janeiro: Ed. DP & A, 2000. BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR ARON, Raymond. As etapas do pensamento sociológico. São Paulo: Editora Fontes, 2002. FORRACCHI, Marialice M. Sociologia da Educação. Rio de Janeiro: Ed. LTC, 1999. MANNHEIM, Karl. Uma introdução a Sociologia da Educação. São Paulo: Ed. Cultrix LTDA, 1980. TOMAZI, Nelson Dacio. Sociologia da Educação. São Paulo: Ed. Atual, 2000. 25 UNIDADE 2: A EDUCAÇÃO COMO PROCESSO DE TRANSFORMAÇÃO SOCIAL Enquanto Durkheim considera como positivo o fato da educação contribuir para a interiorização das regras sociais, autores como Marx, Gramsci e Paulo Freire enxergam nessa característica a reprodução de uma série de problemas sociais, pois dessa forma as desigualdades sociais e econômicas também são interiorizadas e o equilíbrio social é mantido às custas da ausência de contestação, da falta de reflexão e da propagação da visão de normalidade frente a uma sociedade dividida assimetricamente em classes sociais, entre opressores e oprimidos. 2.1 A educação, o capitalismo e as desigualdades sociais e econômicas: Karl Marx Marx (1818 a 1883 d.C.) adota uma perspectiva semelhante a Durkheim ao concordar que há a reprodução de valores sociais, mas não enxerga isso com bons olhos, pois considera que toda a superestrutura da sociedade contribui para perpetuar as relações econômicas de exploração. O Materialismo histórico Segundo Marx, a história humana pode ser compreendida entendendo- se o funcionamento da vida material, ou seja, das relações econômicas. Seja no feudalismo, no capitalismo ou em qualquer outro modo de produção, as relações sociais estabelecidas são predominantemente antagônicas entre uma classe social composta por poucas pessoas que detêm os meios de produção e outras classes compostas por aqueles que não detêm os meios de produção. A partir do momento que se criou a concepção de propriedade privada, colocaram-se pessoas e classes sociais em conflito pela posse das coisas. Essas relações conflituosas influenciam toda a estrutura da sociedade. A estrutura social é composta por duas dimensões. A primeira delas é a infraestrutura e refere-se ao modo de produção econômico. A segunda delas é a superestrutura e refere-se ao restante da vida em sociedade como o 26 Estado, a política, as leis, instituições, ideologia, filosofia etc. A forma como a infraestrutura está organizada influencia a forma como se apresenta a superestrutura. Com isso, Marx quer dizer que o sistema religioso, educacional, político, cultural, social, artístico, filosófico, dentre outros, reproduzem as relações antagônicas entre proprietários dos meios de produção e não proprietários. Tudo aquilo que procura explicar o mundo por outras relações que não as econômicas, é considerado por Marx como fonte de alienação. Explicar o mundo pela religião, pelo acaso, por sorte ou por qualquer outro aspecto não condiz com a realidade das coisas, pois a realidade é determinada pela economia (COSTA, 2002) Capitalismo O capitalismo, como qualquer outro sistema econômico, é marcado pela existência da propriedade privada. Nele, poucos detêm os meios de produção e exploram a maioria que não possui nenhum outro meio a não ser a sua própria força de trabalho. Essa segunda classe social configura a parcela denominada de operariado ou de proletariado. Por possuir somente a própria forca de trabalho, o operariado se vê obrigado a vender a sua única propriedade, se tornando dessa forma uma mercadoria. Como muitos estão nessa condição, cria-se um exército industrial de reserva, exército esse composto por um grande número de desempregados (ARON, 2002). 27 Os proprietários são beneficiados por essa situação, pois possibilita que paguem baixos salários. Pela lei da oferta e procura, se há a venda de um grande número de mercadoria para um público que não tem interesse em adquiri-la, o que ocorre é uma queda no preço como forma de motivar a comprem a mercadoria em questão. O mesmo ocorre com o proletariado no mercado de trabalho. Se um empregado não está satisfeito com a remuneração que recebe, existem outros milhares querendo ocupar o lugar dele, muitas das vezes até para receber um salário ainda menor. Perde-se o poder de barganha e a classe trabalhadora continua desunida, apenas esperando que novas vagas de emprego surjam. Existe ainda o conceito de mais-valia que explica outra forma de exploração praticada. Para montar uma empresa, uma indústria ou qualquer outra atividade que exija a contratação de empregados, o patrão precisa lucrar sobre o que é produzido. Dessa forma, não é lógico de se imaginar que aquele que contrata pagará ao contratado exatamente o que ele deve receber pelo que produz. O patrão busca na realidade ganhar sobre o serviço dos seus empregados, seja vendendo a mercadoria por um preço maior do que ela vale, utilizando de máquinas para diminuir os custos da produção ou pagando aos operários salários que são inferiores ao que eles realmente produzem. Acontece até mesmo de se manter a remuneração do empregado tendo em contrapartida um aumento das horas de trabalho, mantendo o lucro do proprietário (LAKATOS e MARCONI, 1999). A ideologia predominante e as desigualdades sociais. No tópico anterior, foi abordada a forma como o capitalismo alimenta um cenário onde poucos exploram os serviços de muitos. Isso se perpetua, pois o proletariado não possui consciência de classe, ou seja, os trabalhadores não se enxergam enquanto uma classe social explorada por uma minoria que se mantem no poder. Dessa forma, o operariado permanece alienado diante das condições de exploração no mundo. A grande arma do capitalismo é perpetuar entre as pessoas o ideal de que com trabalho duro, todos podem mudar de vida. Assim sendo, as pessoas 28 passam a vida trabalhando, sendo exploradas por uma minoria, mas não percebem que assim o são. Mesmo quando percebem, não chegam a se revoltarem, pois consideram ser esse o único sistema possível. Acreditam queesse sistema pelo menos possibilita que alguns poucos mudem de vida por meio do esforço particular (RODRIGUES, 2000). O que não percebem é que as pessoas não possuem as mesmas condições de vida, não possuem o mesmo nível de estudo, a mesma estrutura social, o mesmo gênero, a mesma cor e, consequentemente, não possuem as mesmas oportunidades. Além das possíveis “limitações naturais” que cada um carrega em si, a vida em sociedade no sistema capitalista coloca uma série de limitações não naturais que privilegiam a poucos e excluem muitos. Em uma sociedade predominantemente machista, homem e mulher não possuem as mesmas condições e oportunidades de ingresso no mercado de trabalho. Algumas profissões são fechadas a entrada de mulheres. Quando não são totalmente fechadas, oferecem uma série de obstáculos a serem superados para o ingresso do gênero. Quando esses obstáculos não são institucionalizados, estão permeados na teia social em forma de preconceito, descrédito, humilhação e até de assedio sexual. Em uma sociedade em que até hoje se divide a humanidade pela raça, o branco e o negro não possuem as mesmas condições de acesso nem mesmo a serviços básicos, como saúde e educação. Isso reflete no desenvolvimento de formas diferentes de ver a vida, de acesso a determinados lugares e oportunidades. Em uma sociedade com fortes desigualdades econômicas, as pessoas que compõem as classes com mais baixo poder aquisitivo não conseguem competir em diferentes áreas da vida com aquelas que estão nas classes mais altas. Uma pessoa com remuneração baixa que passa em um curso de medicina em uma universidade, por exemplo, pode se deparar com altas taxas de mensalidade e com a necessidade de adquirir livros caríssimos. O baixo salário, no entanto, pode comprometer a continuidade dessa pessoa no ensino superior. 29 Além das diferenças de condições não naturais que são impostas pela sociedade orientada pelo sistema capitalista, há ainda a própria escassez de oportunidades. Não há emprego com alto salário para todos, não há saúde pública de qualidade a todos, não há vagas suficientes no ensino superior para todos, sendo necessário, nesse último caso, implantar um sistema de vestibular para afunilar o número de ingressos nas Universidades. A força do capitalismo é tão intensa que as pessoas não percebem que não almejam as mesmas coisas e que é isso que sustenta o sistema como está. Se todos quisessem ganhar altos salários de fato e não aceitassem menos que isso, o sistema quebraria por não conseguir suportar essa nova condição. As pessoas não percebem ainda que o estilo de vida que possuem resiste, pois há sempre uma classe sendo explorada na base. Dessa forma, permanecem alienadas, achando não ter nada a ver com a desigualdade e pobreza que se perpetua pela vida. O ingresso no ensino superior público só é possível, por exemplo, porque muitas pessoas ficam de fora, porque outros lutam apenas para completar o ensino médio, outros param no ensino fundamental e porque, para muitos outros, é relegada a chance de alfabetização. O mesmo acontece com a rede pública de saúde. Dia após dia, o noticiário relata casos de precariedade no sistema de saúde pública brasileiro, e a situação não muda, pois se luta apenas para se conseguir mudanças pontuais, enquanto que na perspectiva de Marx, a luta deveria ser por mudar a estrutura de organização do sistema de produção predominante, o capitalismo. 30 A superação dos antagonismos Segundo Marx, enquanto existir propriedade privada, existirá o conflito entre proprietários e não proprietários, ou seja, entre classes sociais antagônicas. Ao se abolir a propriedade, abole-se a sociedade organizada em torno de uma classe social especifica no poder. Considera-se que no capitalismo, as relações de produção se tornarão tão exploratórias, tão antagônicas, os problemas econômicos e sociais aumentarão de tal forma que chegará ao ponto que os operários sairão da condição de alienação, irão adquirir a consciência de que pertencem à mesma classe social, se unirão e derrubarão o sistema capitalista, instalando outro modo de produção mais justo e livre dos problemas oriundos da existência da propriedade privada (ARON, 2002). A educação no capitalismo Como abordado anteriormente, a vida social, politica, artística, cultural, jurídica, legislativa é determinada pela vida material, ou seja, pela vida econômica. As relações antagônicas entre proprietários e não proprietários são reproduzidas por toda a estrutura social. Dessa forma, religião, profissões, leis, etc. são configuradas de maneira a perpetuar aqueles que já estão no poder econômico (consequentemente no poder politico e social). A educação, como ela se apresenta, não foge dessa regra, reproduzindo a ideologia capitalista. A prática do ensino mediante a cobrança de taxas revela a influência do econômico na organização social. Mas a educação também tem uma força de transformação quando busca trabalhar em conjunto o intelecto, o físico e o aspecto técnico, desvinculando-se do ideal de reprodução de ideologias. O ensino pode combater a alienação e a desumanização. O que acontece no capitalismo é uma separação entre o trabalho intelectual (a concepção) e o trabalho manual (a realização). Muitas vezes, se concebe a atividade, mas não a realiza, enquanto que, em outras vezes, busca-se realizar as atividades pensadas por outras pessoas. Esse último 31 caso é um incentivo a perpetuação da alienação na medida em que o operário apenas reproduz o que o sistema lhe manda fazer. O trabalho torna-se dignificante quando a concepção e a realização caminham juntas. Com a educação acontece um processo semelhante. O ensino ministrado deve contemplar diferentes aspectos do humano. Não pode ser um mero aprendizado profissionalizante, pois, como ressaltado anteriormente, seria ensinar o estudante a apenas reproduzir o que o modo de produção econômico lhe ordena. Tampouco pode ser um trabalho meramente intelectual, que não se encontra vinculado com a vivência do dia a dia. O sistema de ensino deve unir instrução intelectual, exercício físico e treino politécnico, levando a união entre reflexão e realização. Trabalho e estudo devem levar à reflexão do que está sendo realizado, afastando o operariado da alienação presente na mera reprodução de atividades que o sistema capitalista ordena. Dentre as principais obras de Marx estão “Manuscritos Econômico-Filosóficos”, “Crítica da Filosofia Do Direito de Hegel”, “Contribuição para a Crítica da Economia Política”, “A Ideologia Alemã”, Manifesto do Partido Comunista”, “Trabalho assalariado e Capital”, “O 18 de Brumário de Luís Bonaparte” e o Capital”. Transformação e educação no marxismo Marx acredita que a educação em todos os sentidos é parte da superestrutura e é usada pelas classes dominantes. Por isso, ao aceitar as ideias passadas pela escola à classe proletária, cria-se uma falsa consciência, que a impede de perceber os interesses de sua própria classe. Por considerar que a educação é um objeto de pesquisa inserido em uma sociedade com luta de classes, o referido autor encara como errado o entendimento de que o ser humano é produto das circunstâncias e, por isso, deve-se transformar primeiro as circunstâncias para só depois transformar os indivíduos. Para Marx, na realidade, são os indivíduos que criam e transformam as circunstâncias e, por isso, é necessário primeiro mudar o ser humano e sua consciência para só depois mudar as circunstâncias (RODRIGUES, 2000). 32 Dessa forma, Marx critica a filosofia, a sociologia e a educação contemplativas, pois é necessário que intervenham na realidade por meio da prática revolucionária, da luta e da revolução. Deve existir uma prática educacionaltransformadora, que desmascare todas as relações sociais de dominação e exploração, tornando cada indivíduo consciente da realidade social na qual ele está inserido e que milite pela abolição das desigualdades sociais, caso contrário as coisas continuarão do jeito que estão. Marx não vê com bons olhos uma educação oferecida pelo Estado- Nação, pois o Estado acaba sendo manipulado pela classe que detém os meios de produção. Defende assim, uma educação técnica e industrial, mas não sem a ausência de reflexão, como geralmente se associa ao ensino técnico. Marx defende uma educação socializada e igualitária a todos, que qualifica o trabalhador, ao mesmo tempo em que transforma o social, pois as coisas no mundo onde não são fixas, existindo espaço para mudança. No entanto, todo e qualquer processo relacionado com a educação é lento, o que induz a persistência e luta dos ideais, pois somente então poderá haver a concretização do saber teórico com a prática. 2.2 A educação, o capitalismo e as desigualdades sociais e econômicas: Antonio Gramsci Antonio Gramsci Fonte: domínio público 33 Seguindo a linha marxista de leitura da vida em sociedade, Gramsci (1891 a 1937 d.C.) estabeleceu parte de suas teorizações na tentativa de encontrar a explicação do porquê o proletariado não se revolta com as elites que só permanecem como elites justamente por explorar o trabalho desse proletariado. Se Marx estava certo e chegaria o momento em que o capitalismo iria implodir por conta própria ao explorar o proletariado de tal forma que os trabalhadores sairiam da condição de exploração, iriam adquirir consciência de classe, perceberiam que são a maioria e que juntos revolucionariam a realidade, por que isso até agora não aconteceu? Para Gramsci, não existe um único tipo de proletariado, existindo distinção entre os trabalhadores do meio rural, do meio urbano e a pequena burguesia. No entanto, todos estes tipos de trabalhadores se encontram em situação de serem explorados por uma elite que controla os meios de produção e o aparelho do Estado e, por isso, podem ser enquadrados em um mesmo tipo de classe social, as classes subalternas (RODRIGUES, 2000). Apesar das classes subalternas (a maioria da sociedade) serem constantemente exploradas pela minoria, que permanece controlando o poder econômico e político, não ocorre revolta generalizada, em parte, pois não existe união. Como ressaltado anteriormente por Marx, existe uma espécie de alienação que não permite que as pessoas se vejam como iguais na condição de serem todas exploradas por uma minoria que se perpetua no poder econômico e político. Indo além, as pessoas acreditam na ideologia de que esse é o sistema mais justo, que permite que, se esforçando, todos podem mudar de vida, sendo que na prática não existe tal possibilidade. Casos em que alguns conseguiram tal mudança são usados como exemplo para que todos continuem correndo atrás desse sonho, sonho este que infelizmente chegará para poucos. As exceções que confirmam a regra são tomadas como regras e, com isso, a ideologia de justiça continua não permitindo a união entre as classes e movimentando um sistema de “cada um por si”. A essa situação, Gramsci dá o nome de hegemonia cultural. A elite não inibe a revolta das classes subalternas simplesmente por controlar o Estado, a economia e o aparelho de repreensão. Essa inibição ocorre na 34 realidade em razão do fato de que aqueles que detêm os meios de produção criam, ao mesmo tempo em que vendem um estilo de vida e os membros das classes subalternas compram esse estilo de vida como sendo o certo (RODRIGUES, 2000). Dessa forma, o proletariado não quer a melhora dos seus iguais, pois, para esse proletariado, não existem iguais. O que o trabalhador quer é chegar à condição de elite e, para isso, vende o estilo de vida de quem está no poder, acreditando ser capaz de, por conta própria, também chegar ao poder. Dessa forma, o que o proletariado está fazendo é defender os interesses da própria elite. Se amanhã chegar um governo prometendo acabar com a propriedade privada para criar uma sociedade mais igualitária, o trabalhador que possui apenas como posse a sua própria força de trabalho vai ser o primeiro a defender o direito de ter propriedade privada. Assim sendo, ele está justamente defendendo os interesses das elites que possuem muito mais posses, que mantêm essas posses a partir do trabalho de outros, que pagam muito menos impostos proporcionalmente falando, concentra muito mais renda, estão sujeito a uma forma de justiça diferenciada e têm acesso a muito mais oportunidades na vida. O Brasil foi considerado, em 2014, como um dos países em que as fortunas dos mais ricos sofrem menos taxações no mundo. Em contrapartida, é um dos países onde os mais pobres sofrem maiores cargas tributárias e, dessa forma, são os que mais contribuem para custear os serviços públicos.1 Aquele trabalhador que possui alguma posse pode acreditar que está defendendo seu próprio interesse ao defender o direito de ter propriedade privada, mas na verdade também está defendo o interesse dos poucos que possuem muito, pois esse trabalhador, para manter os seus bens, tem que se submeter a um nível de esforço muito maior. 1 SCHREIBER, Mariana. Rico é menos taxado no Brasil do que na maioria do G20. 2014. Disponível em: <http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/03/140313_impostos_ricos_ms.shtml> Acessado em 10/09/2017. 35 Pela baixa taxação das grandes fortunas existente no Brasil, há uma alta concentração de renda nas mãos de poucas pessoas, enquanto que grande parte da população não ganha o suficiente para manter uma vida minimamente digno. Segundo estimativas fornecidas pelo Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos socioeconômicos (DIEESE), o salário mínimo deveria ser de R$ 3744,83 no mês de agosto de 2017.2 Se fosse possível realmente que todas as pessoas mudassem suas condições de vida a partir do esforço individual, como explicar a grande quantidade de pessoas no mundo em condições de pobreza, de precariedade de trabalho, de sucateamento de ensino, expostas a violência e outras mazelas sociais? Como explicar que poucos controlam mais de metade da riqueza mundial? Segundo estudos da organização não-governamental britânica Oxfam, divulgados em 2016, a riqueza acumulada pelo 1% mais abastado da população mundial equivale à riqueza das 99% restantes.3 Tais situações levantadas por esses questionamentos indicam a difícil realidade marcada pela pouca possibilidade de mobilidade social. No entanto, se a realidade é tão dura dessa forma, de que maneira a hegemonia de uma classe continua a se perpetuar na sociedade? Em parte, a explicação para essa pergunta é proveniente da educação e da participação dos intelectuais (orgânicos e tradicionais). Para Gramsci, todo ser humano é um ser intelectual no sentido de ter capacidades facultativas intelectuais e racionais. No entanto, nem todo ser humano tem a função social de intelectual. Em outras palavras, todos nós 2 DEPARTAMENTO INTERSINDICAL DE ESTATÍSTICA E ESTUDOS SOCIOECONÔMICOS (DIEESE). Pesquisa Nacional de Cesta Básica de Alimentos: salário mínimo nominal e necessário. 2017. Disponível em: <https://www.dieese.org.br/analisecestabasica/salarioMinimo.html> Acessado em 10/09/2017. 3 REUBEN, Anthony. 1% da população global detém mesma riqueza dos 99% restantes, diz estudo. 2016. Disponível em: <http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/01/160118_riqueza_estudo_oxfam_fn> Acessado em 10/09/2017. 36 possuímos capacidade de raciocinar, mas nem todos possuem voz ativa na vida em sociedade.Frente a essa situação, entre aqueles que possuem a função social de intelectual, existem dois tipos: o tradicional e o orgânico. O tradicional é aquele que apenas reproduz as coisas como elas estão. São produtos do meio em que estão inseridos e apenas reproduzem as ideias correntes. Já os orgânicos são aqueles produzidos pelo meio, ao mesmo tempo em que são produtores do meio. Cada classe social produz organicamente seu grupo de intelectuais e esse grupo cria ideologias e vendem o estilo de vida da sua classe social de origem. No entanto, se cada classe produz o seu grupo de intelectuais orgânicos, as classes subalternas também produzem o seu próprio grupo? A resposta para esse questionamento é sim, o que leva a outro questionamento. Se as classes subalternas produzem seus próprios intelectuais orgânicos, como explicar que a elite exerce uma hegemonia cultural? Isso ocorre porque a educação vigente estimula que os intelectuais orgânicos dos diferentes tipos de proletariados não se identifiquem com sua própria classe de origem e passem a defender e propagar as ideologias dos dominantes. Com isso, a própria educação vai se tornando espaço para a vigência das ideologias dominantes. Professores que encaram o ato de “dar aula” apenas como uma profissão e exercem essa atividade sem propor para os alunos a reflexão a respeito da realidade, estão agindo para a manutenção da hegemonia cultural de quem está no poder (econômico, político, social e cultural) e contribuindo para a alienação daqueles que poderiam ser intelectuais orgânicos das classes subalternas. Nesse sentido, Gramsci defende a necessidade de se criar um tipo de educação que permita o desenvolvimento de intelectuais que partilhem das paixões das massas, criando assim uma cultura própria dos trabalhadores. Torna-se necessário, portanto, criar uma pedagogia crítica. Essa pedagogia crítica deve criticar a estética vigente em busca de uma nova cultura, questionar os costumes, os sentimentos e as ideologias expressas até então. Dessa forma, os professores, encarados como 37 intelectuais orgânicos, podem ser mediadores do consenso dos diferentes grupos subalternos em torno de uma mesma cultura. 2.3 A pedagogia do oprimido e a educação libertadora: Paulo Freire As ideias de Marx também influenciaram a construção da Teoria Crítica da Escola de Frankfurt. Iniciada na Alemanha, no início do século XX, consistiu em uma escola teórica neomarxista que tinha por finalidade fazer uma investigação social sobre a industrialização moderna, englobando também novos elementos apresentados por outros pensadores como Weber e Freud (LAKATOS e MARCONI, 1999) Theodor Adorno (1903 a 1969) foi um importante representante da teoria critica. Acreditava existir uma verdadeira indústria cultural criada a partir da intensificação da produção e do consumo. Frente a essa perspectiva, em razão do capitalismo privilegiar apenas a aquisição do lucro, toda forma de arte está perdendo a sua autenticidade na tentativa de agradar o maior número de pessoas visando atingir diferentes setores sociais para aumentar o potencial de consumo. Assim sendo, ao invés de uma música possuir uma identidade, expressar algo novo e de transmitir uma mensagem, opta-se por repetir fórmulas de sucesso criando algo vazio voltado apenas para os interesses mercadológicos (LAKATOS e MARCONI, 1999). No Brasil, Paulo Freire (1921 a 1997) procurou analisar, dentre diversas áreas, a educação construída em torno do conflito de classes. Para ele, educar não consiste em um ato neutro e sim em um ato político. Dessa forma, deve-se colocar em prática uma pedagogia libertadora que conscientize e modifique positivamente a sociedade. A aplicação de um ensino meramente técnico apenas reproduz a sociedade como ela já está colocada e, consequentemente, os problemas permanecem os mesmos. Ensinar um conteúdo apenas para se conseguir nota ou um diploma não leva à reflexão. O professor, dessa forma, deve ser revolucionário e tratar de diversos assuntos sempre relacionando tais assuntos com a prática social. Isso é importante, pois os estudantes não são uma massa uniforme, e sim, 38 diferentes atores sociais, com diferentes origens, demandas e dificuldades. Para tanto, é necessário aproximar e exemplificar o que é passado em sala de aula com histórias concretas do dia a dia. Somente com o desenvolvimento de uma dialética que aproxime a teoria da prática, é possível modificar algo a nossa volta. Ao se tornar capaz de associar a teoria com a sua vivência do dia a dia, o estudante se torna capaz de criar e seguir seu próprio caminho de aprendizado (FREIRE, 2014). Faz parte também da atitude revolucionária do professor se posicionar dentro de sala de aula (politicamente, religiosamente etc.). Isso não se caracteriza como um processo de doutrinação, pois o posicionamento é justamente para que exista espaço para a crítica e contestação. O espaço para debate na educação é justamente para que os alunos possam concordar com o professor com argumentações ou possam discordar do professor, também com argumentações (FREIRE, 2014). Dessa forma, o aluno desenvolve a consciência de si mesmo em relação à sociedade em que está inserido e se torna o agente da sua própria educação, entendendo ser capaz de refletir e modificar a realidade a sua volta (FREIRE, 2014). SÍNTESE DA UNIDADE 2 Marx considerava ser possível compreender como as relações humanas estão organizadas ao perceber quem detém os meios de produção e quem não detém os meios de produção. Trata-se da concepção do materialismo histórico que considera ser possível analisar a história humana a partir da vida material e da organização econômica. Toda sociedade estruturada em torno da ideia de propriedade privada sempre está sujeita a conflitos de classes, onde uma minoria toma para si os meios de produção explorando a maioria. No capitalismo, essa situação de antagonismo é exacerbada e o trabalhador, por possuir apenas a sua própria força de trabalho, é transformado em mercadoria à medida que se vê obrigado a vender a sua única posse para sobreviver. 39 A existência de um exército industrial de reserva (grande número de pessoas desempregas) piora ainda mais a situação, pois o proletariado se torna refém dos interesses dos proprietários. Caso o trabalhador reclame dos baixos salários ou das condições do emprego, ele pode simplesmente ser mandado embora e ser substituído por outra pessoa que aceita trabalhar recebendo muito menos ou até mesmo em piores condições. Apesar de todo esse contexto de exploração, não se vê uma revolta generalizada. Isso ocorre porque a grande arma do capitalismo é a ideologia difundida na sociedade de que, ao se esforçar de verdade, qualquer um pode vencer na vida. Dessa forma, a maioria permanece alienada sem perceber que uma minoria continua no poder explorando todo o restante da sociedade. No entanto, para Marx, as condições de exploração se tornarão tão intensas e os salários tão baixos, que o operariado irá sair da condição de alienação, irá desenvolver uma consciência de classe, perceberá que a grande maioria pertence a uma única classe (os que não detêm os meios de produção) e irá perceber que a minoria só permanece no poder explorando os serviços e a passividade dos trabalhadores. Como consequência, o modo de produção capitalista dará lugar a um modo de produção que, se por acaso não chegar a abolir a existência da propriedade privada dos meios de produção, pelo menos poderá proporcionar uma sociedade mais justa já que a maioria terá saído da condição de exploração. As ideias de Marx influenciaram muitos pensadores, dentre eles Antonio Gramsci. Gramsci procurou analisar a influência do conflito entre os detentores dos meios de produção e os não detentores noâmbito da educação. Para ele, a elite permanece no poder por exercer uma hegemonia cultural sobre as demais classes. Trata-se da maior eficiência da dominação ideológica frente à dominação imposta pela força. A educação organizada dentro do sistema capitalista acaba por reproduzir a ideologia da classe dominante dentro da camada dos trabalhadores. Dessa forma, as classes subalternas (os diferentes tipos de proletariado e até mesmo o pequeno burguês) permanecem alienados, não desenvolvendo a consciência de classe. A mudança só irá ocorrer com o desenvolvimento de uma pedagogia 40 crítica, aumentando o número de intelectuais preocupados em organizar a massa de trabalhadores e perpetuar uma nova ideologia/cultura. Freire também propôs a necessidade de se adotar uma pedagogia libertadora visando à formação do cidadão crítico responsável pela sua própria educação ao compreender seu lugar na sociedade e sua capacidade de refletir e modificar a realidade a sua volta. Para isso, o professor deve ter uma atitude revolucionária, incentivando o debate e sendo capaz de aproximar a teoria do dia a dia dos estudantes. Atividade 3 da Unidade 2: Fórum de discussão Tanto Durkheim quanto Marx, Gramsci e Paulo Freire partem do pressuposto de que a educação interioriza no indivíduo o social. No entanto, enquanto Durkheim considera isso como positivo ao manter o equilíbrio social, os outros três pensadores consideram negativo à medida que reproduz as desigualdades provenientes das disputas econômicas presentes no capitalismo. De que forma a educação brasileira se posiciona frente a essas duas perspectivas? A educação brasileira, de um modo geral, está voltada para a manutenção do equilíbrio social, se baseando apenas no processo de interiorização das regras sociais ou está buscando ser mais revolucionária, criando cidadão críticos que buscam refletir sobre a sociedade e mudar a realidade a sua volta? (Máximo de 20 linhas). Atividade 4 da Unidade 2: Marque o que se pede no enunciado da questão Questão 1- Marx estabelece como método de compreensão do social, a abordagem do materialismo histórico. Assinale a alternativa que não está relacionada com a abordagem do materialismo histórico: A) É possível se compreender a história humana ao se compreender a forma como está organizada a vida material, ou seja, a forma como se 41 encontram distribuídas as relações econômicas entre proprietários e não proprietários dos meios de produção. B) A infraestrutura refere-se ao aspecto econômico da sociedade, aspecto este que condiciona toda a estruturação social restante. C) A cultura e a politica são elementos constitutivos da superestrutura, elementos influenciados pela forma como estão distribuídas as forças produtivas. D) Ao se compreender quem detêm a propriedade privada dos meios de produção, compreende-se a classe social que detém para si o poder econômico e, consequentemente, o poder politico e social. E) O econômico tem um forte predomínio sobre a configuração social. No entanto, muitos aspectos sociais podem ser compreendidos a partir da ótica religiosa, revelando dimensões que não estão pautadas exclusivamente na vida material humana. 42 BIBLIOGRAFIA BÁSICA COSTA, Cristina. Sociologia: Introdução à ciência da sociedade. São Paulo: Editora Moderna, 2002. LAKATOS, Eva Maria; MARCONI, Marina de Andrade. Sociologia Geral. São Paulo: Editora Atlas, 1999. FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2014. RODRIGUES, Alberto T. Sociologia da Educação. Rio de Janeiro: Ed. DP & A, 2000. BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR ARON, Raymond. As etapas do pensamento sociológico. São Paulo: Editora Fontes, 2002. CANDAU, Vera Maria F. Direitos à Educação, Diversidade e Educação em Direitos Humanos. Campinas: Ed. Educ. Soc., v.33,nº 120, p.715-726, 2012. FORRACCHI, Marialice M. Sociologia da Educação. Rio de Janeiro: Ed. LTC, 1999. MANNHEIM, Karl. Uma introdução a Sociologia da Educação. São Paulo: Ed. Cultrix LTDA, 1980. TOMAZI, Nelson Dacio. Sociologia da Educação. São Paulo: Ed. Atual, 2000. 43 UNIDADE 3: A EDUCAÇÃO COMO PROCESSO DE ASSIMILAÇÃO, ACOMODAÇÃO E CONSTRUÇÃO DE SIGNIFICADOS 3.1 Construindo categorias e nomeando a realidade a partir do poder simbólico: Pierre Bourdieu A partir dos anos 1960, Pierre Bourdieu (1930 - 2002) produziu um conjunto de análises no âmbito da sociologia da educação e da cultura que influenciou gerações de intelectuais. Conceitos e categorias analíticas por ele construídos fazem parte da pesquisa educacional, impregnando boa parte das análises brasileiras sobre as condições de produção e de distribuição dos bens culturais e simbólicos, entre os quais se incluem os produtos escolares. Pierre Bourdieu Fonte: domínio público Como visto anteriormente, tanto Durkheim quanto alguns marxistas partem do pressuposto de que a educação consiste em um meio para a interiorização da sociedade nos indivíduos. No entanto, ao passo que Durkheim considera que isso é bom para a manutenção do equilíbrio do consciente coletivo, Marx, Grmasci e Paulo Freire acreditam que as desigualdades provenientes de uma sociedade dividida em classes sociais também são reproduzidas. 44 Bourdieu procurou aprofundar mais nessa segunda vertente de análise, mas ampliando-a no sentido de compreender a forma como nomeamos a atribuímos significados ao mundo à nossa volta. Para Bourdieu, pequenos grupos de indivíduos conseguem se apoderar dos meios de dominação, permitindo nomear e representar a realidade, construindo categorias, classificações e visões de mundo às quais todos os outros são obrigados a se referir (RODRIGUES, 2000). A cultura aparece como um sistema de significações hierarquizadas, resultado das lutas entre grupos sociais cuja finalidade é a de manter distanciamentos distintivos entre classes sociais. A dominação cultural se expressa na fórmula segundo a qual a cada posição na hierarquia social corresponde uma cultura específica: 1- A elite: que se caracteriza pela distinção às demais classes; 2- A classe média; que se caracteriza pela pretensão de se tornar elite; 3- E pela massa: que se caracteriza por uma vida de privações. O que acontece é a imposição de uma cultura com a roupagem de ser “a cultura”, fazendo com que as classes dominadas atribuam sua situação subalterna à sua suposta deficiência cultural, e não à imposição pura e simples. O Campo, o habitus, a violência simbólica e o poder simbólico Para Bourdieu, não existe uma única forma de elite. No senso comum, o ser humano associa como elite aquela parcela minoritária da sociedade que retêm para si grande parcela de capital econômico. No entanto, para Bourdieu existe uma grande variedade de capitais (financeiro, cultural, tecnológico, jurídico, organizacional, comercial, simbólico, intelectual etc.) e, consequentemente, uma grande variedade de elites criadas de acordo com a posse de um desses tipos de capitais. (elite financeira, elite cultural elite intelectual etc.) (RODRIGUES, 2000). Um agente que detém para si dois capitais ou mais faz parte de mais de uma forma de elite e, de acordo com sua posição na sociedade, é 45 determinado o que ele pode fazer, o grau de acesso que terá às coisas e a quantidade de oportunidades que terá na vida. A distribuição de tais capitais determina a estrutura do campo. Dessa forma, campo constitui um espaço social estruturado de acordo com as posições de agentes que estão em concorrência pelos seus troféus específicos (capitais) seguindo regras também específicas. Em outraspalavras, o campo seria uma rede de relações estabelecidas entre as posições ocupadas pelos agentes que estão disputando a propriedade de tipos de capitais. Essas relações não são harmoniosas, mas são estáveis. As posições entre os agentes não são equivalentes, assim como não se equivalem às oportunidades e às armas utilizadas para a posse de capitais. Gera-se então o habitus, que consiste em uma espécie de sentido do jogo, ou seja, “a partir do campo, a partir da maneira como os capitais estão organizados, a partir do meu posicionamento no jogo, sei a maneira como me comportar e o que buscar”. No entanto, o habitus não é objetivamente/racionalmente estabelecido como aparenta ser no exemplo deste parágrafo. Ele ocorre de maneira subjetiva, conduzido de acordo com a 46 lógica dos interesses finais de cada agente distribuídos no campo e lutando pela posse de diferentes tipos de capitais. Assim sendo, não é possível estabelecer objetivamente como determinada pessoa vai se comportar, mas é possível esperar determinados tipos de comportamentos de acordo com o habitus presente a partir do campo. É impossível ter uma total previsibilidade da ação humana, mas é possível ver os limites dentro dos quais os indivíduos expressam-se a si mesmos. A lógica estabelecida dentro campo é conduzida por uma verdadeira violência simbólica. Essa violência nada mais é que a fabricação contínua de crenças que induzem o indivíduo a se posicionar no espaço social seguindo critérios e padrões do discurso dominante, critérios e padrões que não são de fácil acesso a todos, novamente pela inexistência de oportunidades iguais para todos. Essa violência é gerada pelo exercício do poder simbólico proveniente daqueles que detêm alguma forma de capital, ou seja, a parcela da sociedade que domina por controlar determinadas formas de capitais exerce o poder de coagir os demais a seguirem/comprarem/propagarem seu estilo de vida, suas ideias, suas crenças, seus discursos, sua cultura. A educação e o mito da meritocracia Diferentemente da concepção comum, de que a meritocracia remete a um ideal de justiça em que dentro de uma organização social se promove indivíduos de diferentes corpos sociais em função do mérito de cada um, Bourdieu acredita que a crença na meritocracia consiste em um instrumento ideológico que permite legitimar a desigualdade dentro de um sistema social cultural e político (RODRIGUES, 2000). Essa linha de interpretação parte do pressuposto de que o mérito de cada um só seria realmente levado em consideração se existissem igualdades de oportunidades, coisa que na realidade não existe. Assim sendo, a crença no mérito é controversa. Quando alguém acredita que “basta se esforçar que consegue” fecha os olhos para a existência de diferenças raciais, sociais, de gênero/sexo, econômicas, de 47 consumo, etc. Ao pegar um caso em que “alguém pobre se esforçou e mudou de vida” como exemplo para justificar que basta “correr atrás”, está na realidade atribuindo a uma exceção o valor de regra, jogando para o plano do individual os obstáculos que, na verdade, são construídos historicamente, socialmente, economicamente e culturalmente. Nessa perspectiva, a verdadeira meritocracia jamais existiu, pois faltam medidas para superar, por exemplo, as desvantagens que indivíduos socialmente e economicamente desfavorecidos encontram pelo caminho. Para Bourdieu, é uma ilusão acreditar que o sistema escolar permite a mobilidade social, pois o ambiente escolar apenas coopera para a conservação social, legitimando as desigualdades criadas artificialmente pela vida em sociedade e a crença em uma falsa meritocracia (RODRIGUES, 2000). A concepção vigente é a de que se a escola tratar todos de modo igual (todos assistiram às mesmas aulas, serem submetidos às mesmas formas de avaliação, obedecerem às mesmas regras), todos supostamente teriam as mesmas chances. No entanto, ao tratar todos como iguais está, na verdade, contribuindo para o aumento das desigualdades. Quem é diferente, deve ser tratado de forma diferente para poder existir real igualdade. Historicamente, socialmente, economicamente e culturalmente, homens são diferentes das mulheres, brancos são diferentes de negros, ricos são diferentes de pobres. Por serem diferentes, esses grupos não possuem as mesmas oportunidades e têm acessos assimétricos aos diferentes tipos de capital (intelectual, social, cultural, econômico, tecnológico, jurídico, organizacional, comercial, etc.). Assim, se o sistema social busca tratar a todos da mesma forma, o que vai acontecer é a permanência das assimetrias e as minorias elitistas (aquelas que detêm alguma forma de capital) permanecerão tendo mais oportunidades. Para Bourdieu, de todos os fatores de diferenciação, a origem social é aquela que mais fortemente se faz sentir sobre os estudantes e o acesso ao ensino superior é o resultado final de uma seleção escolar que acontece exatamente de acordo com a origem social dos alunos (RODRIGUES, 2000). 48 O fato da sociedade, de um modo geral, não questionar esse processo de seleção, remete novamente ao conceito de hegemonia cultural de Gramsci, pois permite que as coisas continuem como estão, com as próprias pessoas de origem social “menos favorecida”, defendendo a permanência desse tipo de sistema, considerando-o como o mais justo. Dessa forma, as desigualdades sociais são reproduzidas em forma de desigualdades escolares em que os estudantes mais favorecidos (ou a escola com o perfil de ser frequentada pelos estudantes mais favorecidos) possuem os hábitos, as atitudes, os saberes e os gostos encarados pelos demais como “certos” e que devem consequentemente ser copiados/obtidos. Para Bourdieu, toda prática humana encontra-se imersa em uma ordem social, sobretudo essa categoria específica de práticas inerentes ao mundo educacional/acadêmico. A escola que não busca quebrar os padrões existentes aparece, assim, como um campo de manifestação do poder simbólico vigente, reproduzindo a mesma violência simbólica que permeia outros campos da vida em sociedade (RODRIGUES, 2000). 3.2 A adaptação e a socialização na aprendizagem: Jean Piaget Jean Piaget (1896 a 1980 d.C.) foi um biólogo e psicólogo suíço que desenvolveu uma abordagem interdisciplinar a respeito do pensamento humano. Jean Piaget Fonte: domínio público 49 Enquanto Bourdieu analisou a forma como nomeamos e atribuímos significados ao mundo por meio do poder simbólico exercido por diferentes tipos de elites que controlam diferentes tipos de capitais, Piaget (1996) procurou analisar um momento anterior de construção do indivíduo: a infância. Parte dos seus estudos está relacionada à aprendizagem cognitiva infantil, fazendo com que tais estudos tenham grande influência na pedagogia moderna. A teorização pedagógica de Piaget se baseou na abordagem psicológica, lógica e biológica, ou seja, a ação de pensar parte de pilares condicionados pela genética, mas tal ação se constrói através de estímulos socioculturais (estímulos do ambiente externo ao indivíduo). Os princípios da lógica que regem a vida humana em sociedade começam a se instalar antes mesmo da aquisição da linguagem, sendo gerado através da atividade sensorial e motora em interação com o meio, especialmente com o meio sociocultural (PIAGET, 1996). A criança como ser sensorial O desenvolvimento psíquico que se inicia com o nascimento e termina na idade adulta é comparável ao crescimento de um organismo vivo, ou seja, da mesma forma que o corpo humano evolui até um nível relativamente estável, caracterizado pelo final do crescimento e pela maturidade dos órgãos, a atividade mental também evolui até um equilíbrio final (vida adulta). 50 A aprendizagemse realiza por meio do desenvolvimento sensorial e mental, da linguagem, das brincadeiras e da compreensão. Para isso, a primeira tarefa do educador é entender e atuar com o aluno. A ideia principal de Piaget é de que é necessário compreender a formação dos mecanismos mentais da criança para, consequentemente, compreender a natureza e o funcionamento dos mecanismos mentais também no adulto. A adaptação como parte da aprendizagem Piaget não parte da mesma prerrogativa de Durkheim de que a educação é um processo voltado, antes de tudo, para a assimilação e reprodução do social. Segundo a Teoria da Aprendizagem de Piaget (1996), a aprendizagem é um processo que ocorre diante de situações de mudanças (internas e externas ao indivíduo). Assim sendo, aprender é, em parte, se adaptar a novidades por meio dos processos de assimilação e acomodação para posteriormente criticar, verificar, questionar e reorganizar a forma como se vê o meio externo. A assimilação se refere ao modo como um organismo enfrenta um estímulo do entorno, mantendo a sua organização atual (mental/interna), enquanto a acomodação implica em uma modificação da organização atual (mental/interna) em resposta às demandas do meio. A acomodação (também denominada de ajuste) é o processo por meio do qual o indivíduo modifica sua própria estrutura cognitiva para incorporar novos objetos a esta estrutura (PIAGET, 1996). Por meio da assimilação e da acomodação vamos reestruturando cognitivamente nossa aprendizagem ao longo do desenvolvimento (reestruturação cognitiva). Para Piaget, assimilação e acomodação interagem mutuamente em um processo de equilíbrio e essa reestruturação não implica em simplesmente internalizar a realidade do meio. Em busca de uma pretensa segurança, o ser humano desenvolve a falsa percepção de que tudo é estático e nada muda, mas na realidade, tudo está em constante mudança, incluindo nós mesmos, mas não somos conscientes disso. 51 A linguagem como processo de socialização Como ressaltado anteriormente, o ser humano em seus primeiros anos de vida é, antes de tudo, um ser sensorial. Passados os primeiros anos da infância, ocorre uma transformação da inteligência influenciada pela socialização e pela linguagem (em processos de assimilação e de acomodação), ocasionando internamente no indivíduo uma reorganização da forma como entende o mundo a sua volta (PIAGET, 1996). O desenvolvimento da linguagem permite que o sujeito consiga explicar suas ações, facilitando a reconstrução do passado, permitindo também antecipar as ações futuras ainda não executadas. A linguagem une conceitos e noções que pertencem a todos e reforça o pensamento individual por meio de um amplo sistema de referência, construído a partir do pensamento coletivo. O indivíduo começa assimilando e acomodando ao seu eu e às suas atividades os dados a sua volta e depois vai se adaptando/socializando às novas realidades que vai descobrindo à sua volta ao mesmo tempo em que também constrói novas realidades. O ambiente familiar e o ambiente escolar Assim sendo, o que ocorre nos primeiros anos de educação da criança (a primeira aprendizagem) é o desenvolvimento cognitivo. Nesse período, é necessário que a família estimule a criança, permitindo a aprendizagem de algumas regras e normas que serão melhor assimiladas e trabalhadas no entorno escolar. No ambiente escolar em si, passar teoricamente um tema em sala de aula não é o suficiente para que o indivíduo assimile e compreenda tal temática, sendo importante utilizar outros métodos pedagógicos que levem diretamente o sujeito a experimentar o que está sendo trabalhado em sala de aula. Na primeira infância, isso parte pelo estímulo aos sentidos da criança e na vida adulta passa por relacionar o conteúdo com a vivência prática. 52 Diferentemente de Durkheim, que encarava a educação como um processo voltado antes de tudo para a propagação do equilíbrio social por meio da interiorização das regras estabelecidas pelo consciente coletivo, Piaget (1996) acreditava que a meta principal da educação é criar pessoas criativas, inventivas e descobridoras, formando mentes também críticas, que verificam e que não aceitam de antemão tudo como válido ou verdadeiro. O conhecimento não é uma cópia da realidade, e sim o produto de uma interrelação da pessoa com seu entorno. 53 SÍNTESE DA UNIDADE 3 Para Bourdieu, não existe uma única forma de elite, pois existem diferentes tipos de capitais. Dependendo da posse de determinado tipo de capital, tem-se a configuração de um determinado tipo de elite. Assim sendo, na sociedade existem vários campos entendidos como espaços sociais estruturados de acordo com as posições de agentes que estão em concorrência pelos seus troféus específicos (capitais) seguindo regras também específicas. Essas relações não são harmoniosas, mas são estáveis. As posições entre os agentes não são equivalentes, assim como não se equivalem as oportunidades e as armas utilizadas para a posse de capitais. Gera-se então o habitus, que consiste em uma espécie de sentido do jogo, ou seja, “a partir do campo e a partir do meu posicionamento no jogo, sei a maneira como me comportar e o que buscar”. Aquelas elites que controlam diferentes tipos de capitais possuem o poder simbólico e exercem uma violência simbólica, pois conseguem se apoderar dos meios de dominação, permitindo nomear e representar a 54 realidade, construindo categorias, classificações e visões de mundo às quais todos os outros são obrigados a se referir. A crença na meritocracia aparece como uma ilusão resultante do exercício desse poder e dessa violência simbólica, pois não existe real igualdade de disputa entre os agentes sociais. A educação meramente reprodutora das coisas como estão, sem reflexão, se caracteriza como um campo que apenas perpetua o poder e a violência simbólicos vigentes em outros campos da sociedade. Piaget, por sua vez, procurou analisar uma construção do indivíduo a partir da infância, considerando que a ação de pensar parte de pilares condicionados pela genética, mas tal ação se constrói através de estímulos socioculturais (estímulos do ambiente externo ao indivíduo). Assim sendo, aprender é, em parte, se adaptar a novidades por meio dos processos de assimilação (o modo como um organismo enfrenta um estímulo do entorno mantendo sua organização interna) e acomodação (ajustar sua organização interna incorporando novos objetos a ela) para posteriormente criticar, verificar, questionar e reorganizar a forma como se vê o meio externo. A linguagem aparece como um meio de socialização à medida que permite que o sujeito consiga explicar suas ações, facilitando a reconstrução do passado, permitindo também antecipar as ações futuras ainda não executadas. Para Piaget, a meta principal da educação é criar pessoas criativas, inventivas e descobridoras, formando mentes também críticas, que verificam e que não aceitam de antemão tudo como válido ou verdadeiro. O conhecimento não é uma cópia da realidade, e sim o produto de uma interrelação da pessoa com seu entorno. Atividade 5 da Unidade 3: marque o que se pede nos enunciados das questões Questão 1- Após definir que a sociedade é marcada por campos em que diferentes agentes sociais lutam de maneira assimétrica pela posse de 55 diferentes capitais, seguindo um habitus conduzido por um poder e violência simbólicos emanados por elites que controlam diferentes tipos de capitais, Bourdieu trata do papel do campo da Educação nesse contexto. Assinale a alternativa correta a respeito do que é o educar na perspectiva de Bourdieu: A) Educar uma criança não precisa necessariamente levar em consideração a origem social da mesma,pois tal origem não influencia na maneira como ocorre o processo de aprendizagem. B) Ao se propor educar a todos da mesma forma, cria-se o caminho mais adequado para superar a influência da origem social no processo de aprendizado. C) Educar sem levar em consideração a origem social de cada um é, antes de tudo, um meio de perpetuar, no campo educacional, o poder e a violência simbólicos presentes em outros campos da sociedade. D) Educar sem levar em consideração a origem social de cada um é, antes de tudo, um meio para oferecer as mesmas oportunidades a todos e, assim, valorizar o mérito e o esforço de cada um. E) Educar é, antes de tudo, um campo que deve ser voltado para interiorizar nos indivíduos as regras que irão contribuir com o equilíbrio social, como propôs Durkheim. Questão 2- Piaget procurou compreender a formação dos mecanismos mentais da criança para consequentemente compreender a natureza e o funcionamento dos mecanismos mentais também no adulto. Assinale a alternativa correta a respeito dos fatores que fazem parte do processo de formação mental da criança: A) Aprender passa por se adaptar a novidades por meio dos processos de assimilação e acomodação para, posteriormente, a criança reorganizar a forma como vê o meio externo. B) A educação é um processo voltado exclusivamente para a assimilação e reprodução do social na criança como propunha Durkheim. 56 C) A criança, nos seus primeiros anos de vida, é um ser consciente e reflexivo. D) A genética em nada influencia no processo de aprendizagem. E) Os estímulos socioculturais (exteriores ao indivíduo) em nada influenciam os primeiros anos de vida da criança, pois nesse período a genética é o fator mais influente. 57 BIBLIOGRAFIA BÁSICA MEKSENAS, Paulo. Sociologia da Educação: Introdução ao estudo da escola no processo de transformação social. São Paulo: Ed. Loyola, 2003. PIAGET, Jean. A construção do real na criança. 3ª Edição. São Paulo: Editora Ática, 1996. RODRIGUES, Alberto T. Sociologia da Educação. Rio de Janeiro: Ed. DP & A, 2000. BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR ARON, Raymond. As etapas do pensamento sociológico. São Paulo: Editora Fontes, 2002. CANDAU, Vera Maria F. Direitos à Educação, Diversidade e Educação em Direitos Humanos. Campinas: Ed. Educ. Soc., v.33,nº 120, p.715-726, 2012. FORRACCHI, Marialice M. Sociologia da Educação. Rio de Janeiro: Ed. LTC, 1999. MANNHEIM, Karl. Uma introdução a Sociologia da Educação. São Paulo: Ed. Cultrix LTDA, 1980. TOMAZI, Nelson Dacio. Sociologia da Educação. São Paulo: Ed. Atual, 2000. 58 UNIDADE 4: A SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA, O DESENVOLVIMENTO DA EDUCAÇÃO E OS DIREITOS HUMANOS 4.1 A sociedade atual: a educação e as novas demandas da sociedade neoliberal e globalizada A sociedade contemporânea se encontra marcada por demandas proveninentes da defesa dos Direitos Humanos, da globalização e do neoliberalismo. No entanto, tais demandas muitas das vezes são antagônicas entre si. A globalização encarada teoricamente como movimento que derruba fronteiras, ao aproximar os continentes por meio do livre comércio, do livre trânsito entre as pessoas e pela democratização das informações, mostra ser, na prática, o oposto de tudo isso. O comércio não é tão livre assim, com países adotando práticas econômicas protecionistas, o trânsito de pessoas entre as nações esbarra em políticas que restrigem a migracão e as informacões são divulgadas de tal forma que não se sabe o que é verdade e mentira (DEMO, 2004). O neoliberalismo, que consiste na concepção de que o mercado e a economia devem ser autoregulatórios, prega a vigência de um Estado mínimo que busque apenas regulamentar e fiscalizar as relações econômicas e comerciais, além de autogerir. Nessa perspectiva, áreas como a saúde, o combate à violência e a própria educação são encaradas como áreas que representam gastos para o Estado e, por isso, devem ser conduzidas pela iniciativa privada. Assim sendo, o social dá lugar para o lucro, o público é constantemente sucateado e, com isso, cria-se a imagem de que tudo que é privado é melhor (DEMO, 2004). Enquanto isso, a agenda voltada para os Direitos Humanos pode ser cada vez mais deixada em segundo plano, em prol do neoliberalismo e dos efeitos da globalização. Atualmente, muito se discute como conciliar tantas demandas. Como buscar o crescimento econômico em um cenário globalizado orientado pela perspectiva neoliberalista sem esquecer os problemas de ordem social? O Brasil se encontra frente a este dilema. 59 Durante as décadas de 2000 e 2010, houve um maior investimento na área da educação e nas políticas públicas, visando a promoção dos direitos humanos. No entanto, nos anos de 2016 e 2017 já foram registrados cortes nos orçamentos nas áreas sociais feitos pelo governo.4 4.2 Direitos Humanos Ao se falar em pluralidade, é necessário falar tambám da construção dos Direitos Humanos, bem como sua ação nas sociedades democráticas com leis e culturas próprias. A construção desses direitos remete a séculos da história humana. Cronologicamente, podem ser citadas como as primeiras leis que acabaram influenciando a formação histórica dos Direitos Humanos: Código de Hamurabi (1694 a. C.) Lei Mosáica (1300 a 450 a.C.) Código de Manu (1300 a 800 a.C.) Leis Zoroastrianas (1000 a. C.) Legislações Budistas e Confuciana (Séculos XV a XIV a. C.) Lei das XII Tábuas (450 a.c.) Legislação Cristã (Séculos I a XV) Legislação Islâmica (Século VII) 4 FOLHA DE SÃO PAULO. Cortes no orçamento atingem áreas sociais do governo. 2017. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/paywall/login.shtml?http://www1.folha.uol.com.br/mercado/201 7/07/1899491-cortes-no-orcamento-atingem-areas-sociais-do-governo.shtml> Acessado em 11/09/2017. 60 No entanto, as declarações produzidas a partir do movimento de Independência dos Estados Unidos da América e do movimento da Revolução Francesa foram a base para a constituição do que hoje conhecemos por Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) (LEITE, 2014). A Seção I da Declaração do Bom Povo de Virgínia, de 16 de junho de 1776, no território que veio a dar origem aos Estados Unidos da América, já proclamava o direito à vida, à liberdade e à propriedade. No entanto, foi a Declaração de Independência dos Estados Unidos da América, de 4 de julho de 1776, que consolidou a tônica preponderante da limitação do poder estatal e da democracia moderna. Seu primeiro artigo proclamava que “todos os homens foram criados iguais, foram dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes estão a vida, a liberdade e a busca de felicidade”. As declarações estadunidenses se dedicaram basicamente ao reconhecimento e proteção das liberdades de opinião e de religião, bem como os direitos de propriedade e de igualdade perante a lei apenas entre os homens livres. Vale dizer que tinham conteúdo extremamente individualista e patrimonialista, já que seus destinatários finais foram apenas os homens brancos e ricos. É importante ressaltar, por exemplo, que nas colônias do Sul introduzia-se, nesse mesmo período, a escravidão negra (LEITE, 2014). Diversamente das declarações estadunidenses, que demonstraram a preocupação dos americanos com a sua própria independência e com o seu próprio regime político, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, proclamada pela Assembleia Nacional de 26 de agosto de 1789, fruto da Revolução Francesa, teve a pretensão de universalizar os princípios da liberdade, da igualdade e da fraternidade. Apesar de propor essa universalização, na prática, essa declaração consistiuem um documento que retirou alguns privilégios da nobreza e beneficiou um grupo social (burguesia) que começava a exigir direitos civis e políticos, não existindo, de fato, a implementação da igualdade material, nem da fraternidade. Apenas cidadãos franceses do sexo masculino, brancos e proprietários passaram a ser os cidadãos ativos que desfrutaram do novo regime. As 61 mulheres, os negros, os operários e os grupos sociais vulneráveis foram excluídos da declaração francesa (LEITE, 2014). O liberalismo absoluto proveninente da Revolução Francesa implicou na criação de um Estado abstencionista e, com isso, o lema de igualdade perante a lei acabou gerando, na realidade, crescentes desigualdades econômicas e sociais entre as pessoas. Depois da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidação, vários Estados passaram a editar constituições contendo direitos civis ou individuais. Contudo, foi no final do século XIX e início do século XX que os Estados começaram a se preocupar com a constitucionalização dos direitos sociais. Entre 1914 e 1918, em decorrência da Primeira Guerra Mundial, surgiram as principais constituições de feições sociais e socialistas. Na década de 1930, na Europa, surgiram governos totalitários com fortes objetivos militaristas e expansionistas. Esses objetivos levaram à Segunda Guerra Mundial, que só veio a terminar no ano de 1945. Com o final do conflito, foi criado neste ano a Organização das Nações Unidas (ONU), cujo objetivo principal era a manutenção da paz entre as nações. No ano de 1948, na Terceira Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, foi promulgada por meio da resolução número 217, a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH). Desde o estabelecimento das Nacões Unidas, em 1945, um de seus objetivos fundamentais tem sido promover e encorajar o respeito aos Direitos Humanos para todos. A DUDH é o domumento mais importante sobre Direitos Humanos, enaltecendo que todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e em direitos, porque são dotadas de razão e consciência e, em função de tais postulados, devem agir umas para com as outras com espírito de fraternidade (LEITE, 2014). Essa Declaração utiliza o termo “pessoa humana” no lugar de “homem”, deixando claro que tanto os homens quanto as mulheres, independetemente da origem, raça, cor, estado civil, condição social, idade ou qualquer outra forma de discriminação, são igualmente titulares dos Direitos Humanos. 62 Para que os Direitos Humanos não fossem apenas recomendações, e sim, tivessem força jurídica, tornou-se necessária a adoção de pactos internacionais, compostos por normas com força vinculante, após a ratificação dos Estados- membros da ONU. Um desses pactos consistiu no Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos (PIDCP). Os principais direitos e liberdades consagrados pelo PIDCP podem ser sintetizados como o direito: À vida; De não ser torturado; De não ser escravizado nem submetido à servidão; À liberdade e à segurança pessoal; De não ser preso arbitrarialmente; A um julgamento justo; À igualdade perante a lei; À proteção da vida privada contra atos arbitrários e ilegais; À liberdade de locomoção; À nacionalidade; De casar e de formar família; À liberdade de pensamento; Consciência e religião; À liberdade de expressão de de opinião; À reunião para fins pacíficos; À liberdade de associação, incluindo a liberdade sindical; De votar e tomar parte do governo. Outro modelo consistiu no Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (PIDESC). O PIDESC contém cinco partes: A primeira delas concerne à autodeterminação dos povos e à livre disposição de seus recursos naturais e riquezas, que corresponde à sua soberania em relação às demais nações. A segunda parte diz respeito ao compromisso dos Estados de efetivarem os direitos previstos no Pacto. Assumem verdadeira 63 obrigação jurídica de promoverem políticas públicas voltadas para a concretização progressiva dos direitos econômicos, sociais e culturais com a máxima disponibilidade possível de recursos existentes. A terceira parte trata dos direitos sociais, econômicos e culturais em espécie, destacando-se os direitos ao trabalho, à liberdade sindical, à segurança social, à proteção e assistência ao adolescente e à criança, do indivíduo ter um nível de vida suficiente para si e para sua família, das pessoas gozarem do melhor estado de saúde física e mental possível, à educação, dentre outros. A quarta parte cuida do mecanismo de supervisão por meio da apresentação de relatórios ao Conselho Econômico e Social das Nações Unidas (ECOSOC). A quinta e última parte dispõe sobre normas referentes à ratificação e vigência do Pacto. Assim sendo, de uma maneira geral, os Direitos Humanos são direitos inerentes a todos os seres humanos, independentemente de raça, sexo, nacionalidade, etnia, idioma, religião ou qualquer outra condição. Os Direitos Humanos incluem o direito à vida e à liberdade, à liberdade de opinião e de expressão, o direito ao trabalho e à educação, entre muitos outros (LEITE, 2014). Algumas das características mais importantes dos Direitos Humanos ressaltam que: São fundados sobre o respeito pela dignidade e o valor de cada pessoa; São universais, o que quer dizer que são aplicados de forma igual e sem discriminação a todas as pessoas; Devem, portanto, ser vistos como de igual importância, sendo igualmente essencial respeitar a dignidade e o valor de cada pessoa. São inalienáveis, e ninguém pode ser privado de seus direitos humanos; eles podem ser apenas limitados em situações específicas. Por exemplo, o direito à liberdade pode ser restringido se uma pessoa é considerada culpada de um crime diante de um tribunal e com o devido processo legal; 64 São indivisíveis, inter-relacionados e interdependentes, já que é insuficiente respeitar alguns direitos humanos e outros não. Na prática, a violação de um direito vai afetar o respeito por muitos outros; O Brasil somente ratificou os dois Pactos bem depois de suas vigências no plano internacional, demonstrando o défict brasileiro em relação ao conhecimento e à concretização dos Direitos Humanos. Pode-se dizer que temos, no Brasil, elevada deficiência teórica e prática na promoção de tais direitos. A ratificação no território brasileiro ocorreu somente em 1991, por meio do Drecreto Legislativo número 226, de 12 de dezembro (LEITE, 2014). Outros importantes tratados de Direitos Humanos são: A Convenção sobre Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher; A Convenção sobre os Direitos da Criança; A Convenção Americana sobre Direitos Humanos; A Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência; A Convenção da Organização Internacional do Trabalho. Atualmente, espera-se que exista uma relação incondicional entre Democracia, desenvolvimento integral e Direitos Humanos. É imprescindível promover os direitos econômicos, sociais, culturais e ambientais dos diferentes povos, assim como dar atenção prioritária às necessidades básicas dos grupos sociais discriminados, como indígenas, as mulheres, as crianças, 65 os negros e os pobres. Trata-se de favorecer processos de desenvolvimento capazes de colaborar para a construção de sociedades sustentáveis. A Democracia, o desenvolvimento e o respeito aos Direitos Humanos e das liberdades fundamentais são conceitos interdependentes que se reforçam mutuamente. A Democracia baseia-se na vontade do povo, expressa livremente, de escolher seu próprio regime político, econômico, social, cultural e na sua participação plena em todos os aspectos da vida. Assim sendo, paraque os Direitos Humanos encontrem espaço para serem promovidos é necessário que o povo possa se manifestar por meio da Democracia (LEITE, 2014). Como ressaltado anteriormente, o direito aparece como um mediador entre interesses políticos, econômicos, sociais e culturais, mantendo a interdependência entre essas partes e gerando, consequentemente, as fontes de controle, consenso e coerção social. No Brasil, devido à tardia adesão à DUDH (bem como em razão da cultura da população, das práticas de corrupção, etc), encontramos uma série de dificuldades para promover elementos como igualdade e liberdade para diferentes setores sociais, alimentando, dentre várias outras coisas, a existência de um forte pluralismo jurídico. Nos dois tópicos a seguir, serão apresentadas duas perspectivas que encaram a educação como fonte de transformação do mundo na tentativa de criar uma realidade social que privilegia a cidadania e o combate às diferentes formas de desigualdades. 4.3 O respeito aos direitos de cada um e a educação como fonte de cidadania: John Locke Locke (1632 a 1704 d.C.) foi um importante filósofo inglês que, dentre outras coisas, buscou compilar uma série de preceitos sobre aprendizado e desenvolvimento com base em sua experiência de médico e preceptor, tendo grande repercussão nas classes emergentes de seu tempo. Suas investigações sobre o conhecimento o levaram a conceber um aprendizado coerente com sua mais famosa afirmação; a mente humana é 66 uma tabula rasa. Essa expressão latina é análoga à ideia de uma tela em branco. Essa premissa considera que qualquer coisa pode ser escrita nessa tela e a educação é o instrumento mais adequado para isso (LAKATOS e MARCONI, 1999). Locke partia do pressuposto de que, no estado de natureza, o ser humano é livre para fazer o que quer e o que precisa. A liberdade é um direito natural dado por Deus, bem como a saúde e a propriedade privada. No entanto, existe uma regra denominada de lei da natureza, a lei da razão que ensina que o ser humano é livre para lutar pelos seus direitos, desde que não interfira nos direitos naturais de outros. Ou seja, a liberdade de um vai até onde começa a liberdade do outro, o direito a saúde vai até onde não coloca a saúde do próximo em risco e o direito a posse termina a partir do momento que restringe a propriedade privada de outros (LAKATOS e MARCONI, 1999). Obedecendo a essa lei da natureza, o ser humano poderia viver muito bem sem a necessidade de estabelecer a sociedade e um sistema de leis. No entanto, dois aspectos obrigam a criar a sociedade e o Estado por meio do contrato social. O primeiro aspecto é a existência dos degenerados moralmente. São pessoas que não seguem a lei da natureza e só pensam nelas mesmas. Elas comprometem todo o funcionamento da vida regida pela plena liberdade e coloca os direitos naturais dos demais em risco. É a chamada “maçã podre” que compromete todo o cesto. O segundo motivo é a tendência do ser humano de julgar em causa própria diante de situações conflituosas. Se alguém tem um determinado ponto de vista, esse alguém logicamente vai apresentar e seguir argumentos que estão de acordo com esse ponto de vista. Imaginando uma situação de confronto entre dois indivíduos, é muito provável que cada uma das partes procure defender os próprios interesses. Dessa forma, sem Estado, sem leis e sem um sistema de julgamento e aplicação das leis para mediar as situações colocadas pela vida, é difícil imaginar que se possa chegar a consensos. Sem consenso, os direitos naturais de cada um ficam comprometidos (LAKATOS e MARCONI, 1999). 67 Para proteger os direitos naturais frente às ações benignas dos degenerados moralmente e da tendência de julgamento em causa própria, cada ser humano permite que outros governem. É importante ressaltar que Locke afirma que apenas se permite que outros governem. Não se pode abrir mão da liberdade e nada pode colocá-la em risco. Assim, há apenas a permissão. Para Locke, se o governante começa a comprometer a vida da população, ele pode ser deposto pela população, pois os direitos naturais dados por Deus são invioláveis. A importância da educação na perspectiva de Locke Locke era calvinista, uma religião protestante criada a partir do movimento da Reforma. As religiões protestantes se desenvolveram de um movimento que propunha uma releitura da bíblia e defendiam que por meio do trabalho duro, cada ser humano pode mudar a sua situação de vida. Para Locke, mais importante que o “eu” é o “nós”, pois Deus fez o mundo como sendo um bem coletivo. Locke ia além ao acreditar que apenas com o trabalho de todos seria possível mudar o mundo por meio do aprendizado da lei da natureza. A lei da natureza é uma lei da razão e dessa forma ela deve ser apreendida. Segundo Locke, a mente humana é uma tábula rasa, ou seja, é uma tela em branco onde qualquer coisa pode ser escrita. As pessoas são boas ou más graças à educação que recebem e das experiências vivenciadas. O aprendizado depende primordialmente das informações e vivências as quais a criança é submetida. É, assim, um aprendizado de fora para dentro (MEKSENAS, 2003). Locke não acreditava na existência de ideias inatas, ou seja, os passos humanos não são orientados por um código moral e uma noção de Deus previamente estabelecidos. Na sua perspectiva, apenas por meio da razão se desenvolve a noção de Deus e a base moral necessária para a vida. 68 Acreditava que a criança vem ao mundo sem nenhuma base de conhecimento, carregando consigo apenas inclinações e determinados traços de temperamento, mas que pode ser moldada frente a um determinado sistema de ensino. Se a criança não é educada devidamente, ela se encontra desprovida de matéria prima para o raciocínio, não aprendendo a lei da natureza e, com isso, se tornando degenerada moralmente. O egocentrismo proveniente dessa degeneração compromete a vida harmoniosa entre os seres humanos, colocando em risco os direitos naturais dos demais (LAKATOS e MARCONI, 1999). Graças àqueles que não foram educados de forma correta que não é possível viver de outra forma que não seja em sociedade (e mesmo em sociedade), esses degenerados moralmente podem colocar tudo a perder. No entanto, o ser humano não possui uma predisposição a buscar o conhecimento, não tendo uma motivação natural para o aprendizado. Dessa forma, a educação oferecida a ele deve ser convidativa. É necessário levar a criança a pensar para que ela não se torne dependente apenas dos sentidos. O castigo, como forma de estímulo ao aprendizado, só deve ser um recurso a ser utilizado em última instância para não gerar adultos frágeis e medrosos. Para se estabelecer um processo de aprendizagem atrativo, as figuras centrais são os pais e os educadores, cabendo a eles dar os exemplos de como se pensar e se comportar, treinando as crianças intelectual e moralmente. Esse processo de aprendizado acontece pelo hábito. Locke acreditava em uma educação ministrada em casa por um preceptor que aplicaria atividades que promovessem a repetição, o endurecimento físico, a conduta ética, as boas maneiras, a autodisciplina e o domínio das paixões. A repetição leva ao hábito e, com o passar do tempo, o indivíduo compreende o que está fazendo. Locke acreditava não existir um método geral para o ensino. Como a criança não apresenta previamente nenhum conhecimento, carregando consigo somente inclinações e alguma forma de temperamento, compete ao educador constatar as características emocionais do aluno e desenvolver métodos específicos de ensino. 69 A educação como fonte de transformação e de cidadania Para Locke, o ser humano opta por viver em sociedade e delegar a outros a responsabilidade de governar para proteger ospróprios direitos naturais frente às ações destrutivas das pessoas degeneradas moralmente e da tendência de cada um em julgar as coisas na vida em causa própria. No entanto, a vida em coletividade acaba por corromper os seres humanos, tornando-os egoístas e moralmente ignorantes. Cria-se um paradoxo, pois a sociedade, que é criada para proteger as pessoas, acaba por corrompê-las (LAKATOS e MARCONI, 1999). Isso ocorre não por culpa de Deus, pois Deus quer somente bondade no mundo. Os problemas e mazelas sociais são decorrentes do sistema social criado pelo indivíduo e apenas o individuo pode mudar isso. A mudança necessariamente passa pela educação. É ela que cria empatia entre as pessoas por meio do aprendizado da lei da natureza. Da educação, decorre a propagação da moral vigente e a criança passa a compreender que seus direitos naturais vão até onde começam os direitos naturais dos outros. Do aprendizado de tal lei, decorre a prática da tolerância e o respeito para com o próximo. Locke defendia a prática do ensino dentro de casa, mas de um modo geral, considerava que o sistema educacional deve ser incentivado, pois um ensino de qualidade ruim irá gerar pessoas degeneradas moralmente que só pensarão em sanar seus desejos e interesses próprios. Segundo dados da Organização 70 para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (ODCE)4, o Brasil foi o terceiro país que mais gastou com educação no ano de 2013 entre as 40 nações que disponibilizam esse tipo de dados, aplicando um total de 5,2% do Produto Interno Bruto (PIB). O alto grau de gastos públicos também ocorreu nos anos anteriores. No entanto, foi um dos países com investimentos mais baixos por aluno nos níveis fundamentais e médios. Alguns fatores que podem explicar essa diferença são o tamanho do PIB brasileiro comparado com os PIBs das nações mais ricas e a quantidade elevada de estudantes. O Brasil é imenso, com uma população jovem, que em grande parte está em idade escolar. É possível fazer duas leituras desse cenário. Enquanto que, por um lado, vinha existindo uma preocupação em se investir na educação nos últimos anos; por outro, o caminho ainda é longo e os problemas encontrados nos anos iniciais em que a criança/adolescente está na escola irão se refletir na vida adulta e na sociedade como um todo.5 A fim de aumentar os investimentos na educação básica, criou-se, por meio da emenda Constitucional nº 53/2006 e regulamentada pela Lei nº 11.494/2007, o Fundo de Manutenção da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb) de natureza contábil e de âmbito estadual (um fundo por Estado e Distrito Federal, em um total de 27 fundos) com vigência para o período de 2007 a 2020. O aporte de recursos do governo federal ao Fundeb, de R$2 bilhões em 2007, aumentou para R$3,2 bilhões em 2008, R$5,1 bilhões em 2009 e, a partir de 2010, passou a ser no valor correspondente a 10% da contribuição total dos estados e municípios de todo o país.6 4.4- O combate às diferentes formas desigualdades por meio da educação: Jean-Jacques Rousseau Rousseau (1712 - 1778) foi um importante filósofo, teórico político, escritor e compositor suíço. A perspectiva central nas suas obras é a de que 4 G1. Brasil investe mais em educação, diz OCDE, mas gasto por aluno é baixo. 2015. Disponível em: <http://g1.globo.com/educacao/noticia/2015/11/brasil-investe- mais-emeducacao-diz-ocde-mas-abandono-ainda-e-alto.html> Acessado em 11/09/2017. 5 BRASIL. Ministério da Educação. Entidade Internacional destaca avanços na educação do Brasil. 2017. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/component/tags/tag/35843> Acessado em: 11/09/2017. 6 BRASIL. Ministério da Educação. Fundeb. 2017. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/component/tags/tag/32816> Acessado em: 11/09/2017. 71 sensação e razão caminham lado a lado. Considera que o homem natural é um ser de sensações e sentimentos, desejando somente aquilo que o rodeia e tendo apenas a paixão por si mesmo. Por não pensar e por não possuir capacidade de imaginação, ele só consegue desejar aquilo que os seus sentidos conseguem captar. Dessa forma, os desejos são as suas necessidades físicas, procurando sempre por alimentação, repouso e pelo sexo. O ser humano em seu estado natural não tem ainda a capacidade de pensar sobre o futuro sendo, portanto, imediatista. A intenção é sanar de forma imediata as necessidades corporais sem que ocorra uma reflexão sobre o que é o tempo, sobre o que o passado ensinou ou sobre o que o futuro pode reservar. Rousseau (1892 apud ARON, 2002) considerava ainda que o indivíduo nesse estado primitivo é sequer capaz de reconhecer o seu igual. Não há sentido de humanidade e a falta de capacidade de abstração não permite observar as semelhanças entre as pessoas. Existe apenas a compaixão para com aqueles que compõem o círculo familiar, mas isso não significa que quer o sofrimento daqueles que são de fora desse círculo. Essa natureza primitiva é positiva, pois os desejos/necessidades são simples. Apesar de Rousseau acreditar que o ser humano não está inclinado a se juntar e viver em sociedade, ele partia do princípio de que a humanidade não é totalmente hostil à ideia de sociedade. Existe uma potencialidade de sociabilidade que é despertada em contato com a razão. Segundo Locke, o indivíduo não deve se submeter a nada. Deus conferiu o direito natural à liberdade, assim como à saúde e à posse e, por ser um presente de Deus, a humanidade não tem o direito de abrir mão, podendo- se apenas permitir que algumas pessoas governem para manter a ordem. Rousseau, por sua vez, defendia a perspectiva de que todos devem se submeter à vontade geral (vontades a longo prazo). Ao se obedecer à vontade geral, cria-se uma sociedade com menos desigualdades e as 72 opiniões, os conceitos e as vontades individuais são mais próximas, menos supérfluas e, consequentemente, mais fáceis de serem alcançadas. Se alguém se opor a esse processo, os demais membros da sociedade forçarão a esse alguém que se torne livre e independente, rompendo o vínculo com os demais. Dessa forma, o contrato social tem por fim a vontade popular. No ensaio “Do Contrato Social” Rousseau afirma que “o homem nasce livre e por toda a parte encontra-se a ferros”. O termo “ferros” refere-se aos pecados estabelecidos pela vida em sociedade construída em torno do materialismo, ao mundo das aparências (vaidade), ao orgulho, à corrupção, a busca por reconhecimento e status. Razão a serviço da sensação e sensação a serviço da razão Para Rousseau (1892 apud ARON, 2002), é benéfico o fato de que são poucas as necessidades humanas no estado primitivo e que elas são satisfeitas sem que se estabeleça o conflito direto e constante, sem escravizar, não havendo a necessidade de impor a outros a vontade particular para sobreviver e ser feliz. No entanto, o estabelecimento da propriedade privada compromete a vida humana no estado de natureza. Pela ausência de regras e instituições políticas, começa a guerra de todos contra todos, existindo a exploração entre semelhantes e a desigualdade. Para evitar essa exploração e a desigualdade entre proprietários e não proprietários, firma-se o contrato social. Assinado o contrato social, perde-se a liberdade natural e ganha-se a liberdade civil e o direito à propriedade a partir do cumprimento das leis (LAKATOS e MARCONI, 1999). A vida coletiva potencializa as capacidades intelectuais da população, pois o indivíduo, que até então só tinha consciência e amava a si mesmo, passa a ser obrigado a pensar nas consequências de seus atos e nas necessidades de outras pessoas. Desenvolvem-se, assim, as capacidades cognitivas e para manter a ordem civil,desenvolve-se também a razão e as percepções do que são 73 ações individuais e coletivas. No entanto, algumas coisas precisam ser alteradas para a configuração de uma vida mais justa. De um modo geral, Rousseau acredita que a educação como estava colocada em seu tempo criava indivíduos com desejos supérfluos, que nunca poderiam ser alcançados e levavam a tristeza geral. A crítica feita a sua época pode ser estendida até a atualidade. Ocorre ainda hoje a imposição da vontade de uns sobre os outros. Passa-se a perseguir sonhos que são de outros, criam-se desejos materiais de coisas que outras pessoas pensaram e perseguiram. Passa-se pela vida sempre perseguindo a posse de algo, e a satisfação plena nunca é alcançada. A coletividade não é colocada em primeiro lugar, pois prevalece a satisfação das necessidades individuais e, ainda sim, o indivíduo nunca está feliz por completo, pois há sempre algo a mais para se alcançar. Segundo Rousseau (1892 apud ARON, 2002), infelizmente é impossível se pensar em uma organização social sem que haja a propriedade privada e, por isso, cria-se a sociedade para preservar o direito de cada um de ter bens particulares sem a necessidade de constantes disputas. Porém, garantido o direito, a vida humana continua marcada por disputas e passa a ter como meta apenas a aquisição de coisas irrelevantes e a perseguição a um futuro que nunca chega. Por sermos treinados desde cedo a esquecermos os desejos do corpo, esquecermos que a felicidade reside nas coisas simples, a nos tornarmos adultos fracos, dependentes e materialistas, criamos uma sociedade marcada por desigualdades artificiais que pretensamente justificamos por diferenças naturais. Dessa forma, o fato de homens e mulheres serem socialmente tratados de maneiras diferentes é erroneamente justificado por homens e mulheres serem biologicamente diferentes, exemplificado pela fala do senso comum de que “não podem ser tratados da mesma maneira porque o homem é mais forte do que a mulher”. Além de essa fala ser proveniente do senso comum, o que a questão da força justifica o fato das mulheres não poderem votar até a pouco tempo atrás? O que a questão da força justifica a mulher só ter conseguido o direito de trabalhar fora de casa séculos depois dos homens? 74 Para Rousseau, as diferenças naturais não podem ser usadas como justificativas. Segundo dados fornecidos pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico em 2017, as mulheres de 25 a 64 anos no Brasil recebem, em média, 65% dos rendimentos que os homens recebem - tanto as com nível médio como as com nível superior completo. Entre os países da OCDE, a média é de 74% para nível superior e de 79% para ensino médio.7 Em 2003, quando o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)8 começou a pesquisar a respeito da diferença salarial entre brancos e negros, verificou-se que os negros não ganhavam nem metade dos salários dos brancos (48,4%). Em 2015, registrou-se uma queda nessa diferença, com os trabalhadores negros ganhando, em média 59,2% do rendimento dos brancos. Algumas pessoas justificam tal situação afirmando que isso pode ser decorrente simplesmente porque existe algo inerente aos negros que os condicionam a serem menos capazes. A mesma justificativa “naturalista” foi aplicada para explicar porque muitos negros libertos após a abolição da escravidão no Brasil voltaram para as fazendas onde eram escravos. No entanto, citando novamente Rousseau, as diferenças naturais não podem ser usadas como justificativas para desigualdades criadas socialmente. Parte dos negros voltaram a trabalhar como escravos mesmo após a abolição da escravidão no Brasil, pois não eram contratados pelas pessoas nos centros urbanos e ainda eram vistos como inferiores de um modo geral. Atualmente, negros ganham menos que brancos não porque existe algo inerente a eles que os condicionam a essa situação, e sim porque tal situação foi criada historicamente, economicamente, socialmente e culturalmente. 7 ARAGAKI, Bruno. Trabalhador com nível superior ganha 140% a mais, mostra estudo. 2017. Disponível em: <https://educacao.uol.com.br/noticias/2017/09/12/trabalhador-comnivel-superior- ganha-140-a-mais-mostra-estudo.htm> Acessado em 12/09/2017. 8 UOL. Diferença cai em 2015, mas negro ganha cerca de 59% do salário do branco. 2016. Disponível em: <https://economia.uol.com.br/empregos-e- carreiras/noticias/redacao/2016/01/28/diferenca-cai-em-2015-mas-negro-ganha-cerca-de-59do- salario-do-branco.htm > Acessado em 12/09/2017. 75 Brancos e negros não são naturalmente diferentes, e sim são historicamente, economicamente, socialmente e culturalmente condicionados a serem diferentes. Para mudar esse cenário de disputas pelo material e por intensas desigualdades criadas em razão dessas disputas, torna-se necessário, para Rousseau, que cada indivíduo deve doar-se para o bem coletivo, pois assim fazendo, prevalece as necessidades realmente importantes para a manutenção da vida e de uma sociedade onde se pode praticar de fato a liberdade civil e a igualdade. Essa doação só irá ocorrer com a mudança da mentalidade humana e essa mudança de mentalidade só será alcançada ao mudarmos a forma como as crianças são educadas desde cedo. Muitas das discussões propostas por Rousseau influenciaram a elaboração da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Proposta de Rousseau sobre o modelo de educação natural De acordo com Rousseau, a educação de sua época gerava pessoas com desejos supérfluos. Para mudar essa situação, propôs um projeto para a formação de um novo homem e de uma nova sociedade. Considerava que a criança deve ser acompanhada de um preceptor que a auxilie a ter uma educação conforme a natureza, preservando-a da sociedade corruptora. Portanto, deve-se educar de forma livre, afastando o indivíduo do artificialismo das convenções sociais (COSTA, 2002) Dessa forma, apresentou uma proposta que valorizava a liberdade, bem como o desenvolvimento das faculdades da criança. O ser humano deve ser educado para si mesmo. Assim, é necessário repensar a educação, considerando, para tanto, uma nova forma de compreender a infância, a adolescência e a fase adulta. A partir disso, chega-se aos diferentes modos de educar segundo as diferentes etapas de formação humana. A primeira dessas etapas é a infância, que é o período no qual acontece o desenvolvimento físico do ser humano. Assim sendo, é nesse 76 período em que as faculdades naturais do indivíduo se desenvolvem, constituindo-se, pois, a sua primeira formação. A criança precisa de liberdade para viver e aproveitar cada fase da sua vida em seu devido tempo e não ser considerada um adulto em miniatura. A infância é um período muito curto da vida e que não volta mais. Passada essa fase, o indivíduo se depara com muitos problemas e com desejos irrelevantes que apenas trazem tristeza, já que nem todos podem satisfazer todos os desejos particulares. Assim, é indicado que se permita que a criança brinque bastante, goze desse tempo valioso, siga seus instintos e seu mundo sensorial, não devendo se impor a ela as vontades do universo adulto. A educação deve ser natural e não artificial. Não se pode deixar de viver o presente em busca de um futuro incerto, conduzido por desejos supérfluos, necessidades imaginárias que farão o homem infeliz, não mantendo o equilíbrio entre os seus desejos e suas capacidades de realizalos. A felicidade consiste no uso da liberdade e será feliz quanto mais puder fazer o que necessita, não adquirindo excesso de desejos sobre as próprias faculdades. Ou seja, quanto mais o homem permanece perto da sua condição natural, mais se distancia dos desejos supérfluos que os tornaminfeliz, por causar um desequilíbrio entre potência e a vontade. 77 É indispensável, dentro do modelo de educação natural, conversar com a criança ao máximo, evitando os vícios e os erros para que, ao chegar aos 12 anos, o entendimento em relação à razão seja sem preconceitos e sem vícios. Assim, o seu caráter se desenvolve em liberdade, aproveitando cada minuto desse tempo valiosíssimo (LAKATOS e MARCONI, 1999). O homem verdadeiramente livre só quer o que pode e faz o que lhe agrada. Um homem livre é aquele que tem autonomia de suas decisões e não necessita de outras pessoas para fazer as coisas no seu lugar. Assim aprende pelos próprios atos e não porque alguém obriga a fazer. Por isso deve-se tornar a criança mais livre e menos dependente dos adultos. Assim, elas acostumam, desde cedo, a pôr sob a própria dependência seus desejos e suas forças. E para educar, os atos contribuem mais do que as palavras, não sendo recomentado a aplicação de castigos, pois torna o ser humano fraco e medroso. Deve-se fazer com que a criança sinta as consequências naturais da sua má ação, ou seja, a punição deve deixar claro que é uma consequência da má conduta e deve levar à reflexão dos atos (COSTA, 2002). 78 A adolescência e a vida adulta Outro benefício da educação natural na perspectiva de Rousseau é a preservação das inclinações naturais que variam de pessoa para pessoa. Ao se impor uma educação de adulto para as crianças, perdem-se as inclinações naturais, igualando todos a uma mesma condição que não corresponde à realidade das potências individuais. Preservando as inclinações, pavimenta-se o caminho para a adolescência, que consiste em um segundo nascimento, onde se conclui a formação física e moral, passando a adquirir as qualidades que permitem a inserção na sociedade, abrindo espaço para a construção da cidadania. A adolescência é um período de modificações, um novo nascimento que remete o indivíduo a um processo de aprendizagem em direção à autonomia da vida adulta. De um modo geral, caso ocorra na infância a educação natural, as forças (potências) passam a se desenvolverem de forma mais rápida que as necessidades na adolescência. No período que vai dos doze aos treze anos, a criança não tem todas as suas necessidades desenvolvidas, desejando apenas as coisas simples e importantes da vida. Por isso, as suas forças são superiores. Podendo mais do que deseja, o indivíduo será um adulto mais forte. Diminuindo os desejos, tem-se capacidade suficiente para conseguir aquilo que é realmente necessário e, consequentemente, chega-se a 79 felicidade. São as necessidades imaginárias que tornam a todos infelizes e são elas que devem ser abandonadas. A adolescência (dos 15 aos 20 anos) é o período em que se educa o coração para a vida em comum e para as relações sociais. Deve-se fornecer ao individuo os meios para satisfazer as suas necessidades, ou seja, deve-se ensinar o conceito de “utilidade”. O professor deve buscar colocar ao alcance do adolescente os meios úteis para ele atender suas necessidades. Isso contribuirá para que o adolescente venha a se tornar um adulto que não procurará satisfazer outras pessoas, não terá os desejos que outros lhe impõem, buscará apenas o que é realmente importante, terá opinião própria e sempre estará tentando conhecer a ele mesmo. Na fase adulta, se efetiva a educação moral, sendo ela voltada para a formação intelectual, estética e moral. Mas é necessário preservar nela os bons hábitos da infância. Ao se esquecer da infância, acaba-se por esquecer também as coisas que realmente importam na vida (LAKATOS e MARCONI, 1999). No tratado pedagógico “Emílio, ou da Educação”, Rousseau apresenta seu projeto educacional para manter o ser humano bom. Cidadania: Pensar na coletividade é garantir o individual Pode até parecer inicialmente que há uma contradição entre uma educação natural e a proposta de Rousseau de que as pessoas devem se doar para o bem coletivo, mas essa contradição não se faz presente. A educação natural visa criar um adulto mais independente, com opiniões próprias, que não vive desejos ou sonhos de outros, e sim, vive para ele mesmo. Busca-se igualar as expectativas com a capacidade de cada um, pois, ao desejar mais do se pode, gera-se a infelicidade. Para igualar expectativa e capacidade, promove-se um ensino que preserve os desejos provenientes no estado da natureza. O ser humano nasce com apenas uma única paixão, que é a por si mesmo, ou seja, preocupa-se em atender seus desejos simples e particulares. A vida em sociedade potencializa as capacidades naturais, ensinando, por 80 meio da razão, a existência do outro, da coletividade. Se permanecer na coletividade vivendo a paixão por si mesmo, mas inspirado pela razão, vai contribuir para a construção de uma sociedade onde não se fica buscando coisas irrelevantes a todo o momento, perseguindo o futuro que nunca chega, levando tristeza a si mesmo e para os demais. A educação elimina, dessa forma, o supérfluo, a luta constante pelo irrelevante e gera uma coletividade mais homogênea, mais justa e igualitária, onde cada um corre atrás apenas das coisas que realmente acha importante na vida, sem esquecer da existência do outro, ou seja, da humanidade. Combate-se assim as desigualdades artificiais criadas em razão da existência do adulto criado desde cedo para ser fraco, dependente e extremamente materialista. (COSTA, 2002). Ao se doar e lutar pelo bem coletivo, o indivíduo está, na realidade, obedecendo apenas a si mesmo e voltando a ter aquela liberdade plena que ele possuía anteriormente, pois estará valorizando novamente as necessidades realmente importantes para o seu próprio bem, como ele fazia no estado de natureza, mas que foram comprometidas pela existência da concepção de propriedade privada. 4.5 Temas relevantes em Sociologia da Educação Seja considerando a educação como um processo de interiorização das regras sociais ou como um meio/instrumento para transformar a realidade a nossa volta, analisar o campo educacional pelo prisma sociológico e dos Direitos Humanos passa por abordar temas como a violência, a sexualidade, a ética, as relações étnicos-raciais, acessibilidade, trabalho e toda forma de diversidade social. Na Declaração Universal dos Direitos Humanos, está presente que todos são iguais perante a lei e têm seus direito garantidos sem qualquer forma de distinção. No entanto, socialmente falando, um dos princípios que rege a vida na democracia é o da isonomia, ou seja, todos são iguais perante a lei e não deve ser feita nenhuma distinção entre pessoas que se encontram NA MESMA SITUAÇÃO. 81 Assim sendo, ao tratar todos da mesma forma sem levar em consideração a situação de cada um, comete-se uma injustiça, pois nem todos são iguais. Homens e mulheres, heterossexuais e homossexuais, crianças, adolescentes, adultos e idosos, brancos, negros e índios são historicamente, socialmente, economicamente e culturalmente diferentes. Por isso, é importante tratar diferente quem é diferente para poder se ter uma real igualdade. Dessa forma, as políticas públicas são formas de discriminação positiva no sentido de se constatar uma série de desigualdades presentes na vida em sociedade e tentar eliminá-las. Neste sentido, o Estado brasileiro anuncia desenvolver uma série de tentativas de superar problemas que são de interesse da sociologia da Educação. O projeto Escola que Protege9 consiste em uma estratégia de política pública educacional visando proteger as crianças e adolescentes das diversas formas de violência as quais podem ser submetidos, formando profissionais da educação básica e materiais didáticos e paradidáticos voltados à promoção e defesados direitos de crianças e adolescentes. Instrumentos como o Programa Brasil sem Homofobia e o Plano Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (LGBTT)10 visam promover o reconhecimento da diversidade sexual e enfrentar o sexismo e a homofobia. O Ministério da Educação (MEC)11 vem estimulando que Instituições de Educação Superior desenvolvam ações, atividades e estruture materiais educativos sobre educação em Direitos Humanos. 9 BRASIL. Ministério da Educação. Direitos Humanos: Escola que Protege. 2017. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/component/tags/tag/35843> Acessado em: 11/09/2017. 10 BRASIL. Ministério da Educação. Direitos Humanos: Educação em Direitos Humanos. 2017. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/component/tags/tag/35843> Acessado em: 11/09/2017. 11 BRASIL. Ministério da Educação. Direitos Humanos: Escola que Protege. 2017. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/component/tags/tag/35843> Acessado em: 11/09/2017. 82 Outros programas e medidas visam combater uma série de assimetrias vigentes na sociedade brasileira, indicando que ainda tem muito para mudar, pelo menos existe preocupação em propagar uma educação mais humanista. Se tais programas são efetivos ou não, compete a cada cidadão se informar, fiscalizar e debater a respeito. SÍNTESE DA UNIDADE 4 Os Direitos Humanos constituem importante fonte de elaboração dos sistemas jurídicos e educacionais das sociedades ditas democráticas na atualidade. Os elementos presentes na Declaração Universal remetem a séculos de discussões teóricas e leis. No entanto, as declarações produzidas a partir do movimento de Independência dos Estados Unidos da América e da Revolução Francesa foram a base para a constituição do que hoje conhecemos por Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH), por tratarem da necessidade de se proteger a população e limitar o poder do Estado. A DUDH veio propriamente a surgir após a Segunda Guerra Mundial estabelecendo que existem direitos inerentes a todos os seres humanos, independentemente de raça, sexo, nacionalidade, etnia, idioma, religião ou qualquer outra condição. Em comparação com outros países, o Brasil se comprometeu de forma tardia a promover em sua sociedade os elementos presentes na DUDH, o que explica, em parte, uma série de problemas que são enfrentados pela nação. Pensadores como Locke e Rousseau contribuíram para o desenvolvimento das ciências que se propunham estudar a vida em sociedade, para mudanças nos paradigmas da educação e na construção dos direitos humano. Locke defendeu a perspectiva que o ser humano é neutro por natureza e as experiências vivenciadas e a educação recebida determinam se essa natureza se torna boa ou má. Acreditava que o indivíduo somente opta por viver em sociedade como forma de se proteger dos degenerados moralmente que não aprendem a lei da natureza (cada um tem os seus direitos e o direito 83 de um não pode sobrepor ao direito de outro) e da tendência de cada indivíduo julgar em causa própria. Para Locke, a educação é o caminho para mudar o mundo, pois ela é um forte instrumento para ensinar a lei da natureza. A atividade de professor consiste no elemento principal, pois é esse profissional que deve despertar nos outros o interesse pela busca do conhecimento. Também é importante a questão da distribuição da propriedade privada, pois Deus fez o mundo para o coletivo e não somente para o individual. Dessa forma, a vida humana deve ser valorizada. Já Rousseau procurou tratar da necessidade de se combater desigualdades que são criadas socialmente. Na sua perspectiva, o ser humano é bom por natureza, mas frente à criação da propriedade privada, torna-se necessário viver em sociedade para o estabelecimento de leis que garantam as posses individuais. No entanto, vivendo em sociedade, se desperta o que há de pior na humanidade frente a uma educação extremamente materialista que é imposta para as crianças desde cedo. Essa educação materialista contribui para criarmos desigualdades das mais diferentes formas e tentarmos justificá-las de forma errônea pelas diferentes naturais que existem entre as pessoas. Para Rousseau, deve-se educar de forma natural, deixando a criança aproveitar a infância até os 12 anos de idade, para somente depois receber uma educação moral e política. Dessa forma, cria-se um adulto mais independente, menos apegado a desejos materiais, que valoriza as coisas simples da vida e, o mais importante, politizado. Sendo politizado, percebe-se que, ao valorizar a vontade geral valoriza- se as vontades individuais, pois se o coletivo vai bem, o individual também vai. Consequentemente, combate-se as desigualdades e os preconceitos, criando uma sociedade melhor, à medida que aperfeiçoa-se o ser humano. 84 Atividade 6 da Unidade 4: Fórum de Discussão Em comparação com outros países, o Brasil se comprometeu, de forma tardia, a promover em sua sociedade os elementos presentes na DUDH, o que explica em parte uma série de problemas sociais no país. Pensadores como Locke e Rousseau consideram que a educacão é o caminho para superar tais problemas, estimulando a cidadania e combatendo as desigualdades. Você considera que a educação é realmente o caminho? Ao responder esse questionamento, procure analisar se a educação no Brasil (escolar e universitária) vem trabalhando, no dia a dia, questões relacionadas às desigualdades entre homens e mulheres, ao racismo e ao combate constra a homofobia (máximo de 20 linhas). 85 BIBLIOGRAFIA BÁSICA COSTA, Cristina. Sociologia: Introdução à ciência da sociedade. São Paulo: Editora Moderna, 2002. DEMO, Pedro. Sociologia da Educação: sociedade e suas oportunidades. Brasília: Plano Editora, 2004. LAKATOS, Eva Maria; MARCONI, Marina de Andrade. Sociologia Geral. São Paulo: Editora Atlas, 1999. MEKSENAS, Paulo. Sociologia da Educação: Introdução ao estudo da escola no processo de transformação social. São Paulo: Ed. Loyola, 2003. RODRIGUES, Alberto T. Sociologia da Educação. Rio de Janeiro: Ed. DP & A, 2000. BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR ARON, Raymond. As etapas do pensamento sociológico. São Paulo: Editora Fontes, 2002. CANDAU, Vera Maria F. Direitos à Educação, Diversidade e Educação em Direitos Humanos. Campinas: Ed. Educ. Soc., v.33,nº 120, p.715-726, 2012. LEITE, Carlos Henrique Bezerra. Manual dos Direitos Humanos. São Paulo: Editora Atlas, 2014. MANNHEIM, Karl. Uma introdução a Sociologia da Educação. São Paulo: Ed. Cultrix LTDA, 1980. TOMAZI, Nelson Dacio. Sociologia da Educação. São Paulo: Ed. Atual, 2000.