Prévia do material em texto
1
Nome do Professor
2
3
SUMÁRIO
1. O QUE É MOVIMENTO SOCIAL E PORQUE SEU ESTUDO É IMPORTANTE? .........4
2. O QUE CARACTERIZA UM MOVIMENTO SOCIAL? ...................................................6
3. MOVIMENTOS SOCIAIS NO BRASIL ..........................................................................7
3.1. DEFININDO OS TERMOS CLASSES SOCIAIS E MOVIMENTOS SOCIAIS .............7
3.2. CLASSES SOCIAIS: CONCEPÇÕES CONTEMPORÂNEAS. ...................................9
3.3. MOVIMENTOS SOCIAIS: O CONCEITO. ................................................................ 11
3.4. MOVIMENTO-CLASSE: UMA VISÃO INTEGRADA. ............................................... 15
4. ANTECEDENTES: A ERA MOVIMENTISTA (1970-1980). ......................................... 20
5. CENÁRIO DOS MOVIMENTOS SOCIAIS NA ATUALIDADE NO BRASIL................. 28
6. A RELAÇÃO DO SERVIÇO SOCIAL COM OS MOVIMENTOS SOCIAIS NA
CONTEMPORANEIDADE. .............................................................................................. 33
QUESTÕES DE PROVAS ............................................................................................... 44
GABARITO ..................................................................................................................... 53
BIBLIOGRAFIA ............................................................................................................... 54
4
1. O QUE É MOVIMENTO SOCIAL E POR QUE
SEU ESTUDO É IMPORTANTE?
Desde logo é preciso demarcar nosso entendimento sobre o que são
movimentos sociais. Nós os encaramos como ações sociais coletivas de caráter
sociopolítico e cultural que viabilizam formas distintas de a população se organizar e
expressar suas demandas (cf. Gohn, 2008).
Na ação concreta, essas formas adotam diferentes estratégias que variam da
simples denúncia, passando pela pressão direta (mobilizações, marchas,
concentrações, passeatas, distúrbios à ordem constituída, atos de desobediência
civil, negociações etc.) até as pressões indiretas.
Na atualidade, os principais movimentos sociais atuam por meio de redes sociais,
locais, regionais, nacionais e internacionais ou transnacionais, e utilizam-se muito dos
novos meios de comunicação e informação, como a internet. Por isso, exercitam o que
Habermas denominou de o agir comunicativo. A criação e o desenvolvimento de novos
saberes, na atualidade, são também produtos dessa comunicabilidade.
Na realidade histórica, os movimentos sempre existiram, e cremos que sempre
existirão. Isso porque representam forças sociais organizadas, aglutinam as pessoas
não como força-tarefa de ordem numérica, mas como campo de atividades e
experimentação social, e essas atividades são fontes geradoras de criatividade e
inovações socioculturais. A experiência da qual são portadores não advém de forças
congeladas do passado - embora este tenha importância crucial ao criar uma memória que,
quando resgatada, dá sentido às lutas do presente. A experiência recria-se cotidianamente,
na adversidade das situações que enfrentam.
Concordamos com antigas análises de Touraine, em que afirmava que os
movimentos são o coração, o pulsar da sociedade. Eles expressam energias de
resistência ao velho que oprime ou de construção do novo que liberte. Energias sociais
antes dispersas são canalizadas e potencializadas por meio de suas práticas em "fazeres
propositivos".
Os movimentos realizam diagnósticos sobre a realidade social, constroem
propostas. Atuando em redes, constroem ações coletivas que agem como resistência à
exclusão e lutam pela inclusão social. Constituem e desenvolvem o
chamado empowerment de atores da sociedade civil organizada à medida que criam
sujeitos sociais para essa atuação em rede.
5
Tanto os movimentos sociais dos anos 1980 como os atuais têm construído
representações simbólicas afirmativas por meio de discursos e práticas. Criam
identidades para grupos antes dispersos e desorganizados, como bem acentuou Melucci
(1996). Ao realizar essas ações, projetam em seus participantes sentimentos de
pertencimento social. Aqueles que eram excluídos passam a se sentir incluídos em algum
tipo de ação de um grupo ativo.
2012/FCC/TRF - 2ªR. O potencial de formação de redes de movimentos sociais pode
ser expresso a partir:
a- do universalismo abstrato, sem referência concreta e substantiva ao cotidiano dos
sujeitos submetidos à exclusão ou à discriminação.
b- do sentido individual atribuído à carência vivenciada no dia a dia do sujeito e a
possibilidade de sua identificação objetiva em torno dela.
c- da capacidade de atuar isoladamente com as várias dimensões, entendidas como as
condições materiais de existência, condições simbólicas de sua reprodução e políticas
decorrentes.
d- da busca dos nexos que os atores políticos organizados constroem entre as demandas
materiais e o sentido subjetivo das privações, criando identidades coletivas.
e- da possibilidade de se ater nas demandas restritas às condições materiais individuais
que dizem respeito a um conjunto de exclusões sociais alusivo a determinado segmento
populacional
Resposta Correta:
Letra d- da busca dos nexos que os atores políticos organizados constroem entre as
demandas materiais e o sentido subjetivo das privações, criando identidades coletivas.
6
2. O QUE CARACTERIZA UM MOVIMENTO SOCIAL?
Definições já clássicas sobre os movimentos sociais citam como suas
características básicas o seguinte:
* Possuem identidade, tem opositor e articulam ou fundamentam-se em um projeto de
vida e de sociedade;
* Historicamente, observa-se que têm contribuído para organizar e conscientizar a
sociedade;
* Apresentam conjuntos de demandas via práticas de pressão/mobilização;
* Têm certa continuidade e permanência;
* Não são só reativos, movidos apenas pelas necessidades (fome ou qualquer forma de
opressão);
* Podem surgir e desenvolver-se também a partir de uma reflexão sobre sua própria
experiência.
* Na atualidade, apresentam um ideário civilizatório que coloca como horizonte a
construção de uma sociedade democrática;
* Hoje em dia, suas ações são pela sustentabilidade, e não apenas
autodesenvolvimento;
* Lutam contra a exclusão, por novas culturas políticas de inclusão;
* Lutam pelo reconhecimento da diversidade cultural;
* Questões como a diferença e a multiculturalidade têm sido incorporadas para a
construção da própria identidade dos movimentos;
* Há neles uma ressignificação dos ideais clássicos de igualdade, fraternidade e
liberdade.
* A igualdade é ressignificada com a tematização da justiça social;
* A fraternidade se retraduz em solidariedade;
* A liberdade associa-se ao princípio da autonomia - da constituição do sujeito, não
individual, mas autonomia de inserção na sociedade, de inclusão social, de
autodeterminação com soberania;
Finalmente, os movimentos sociais tematizam e redefinem a esfera pública,
realizam parcerias com outras entidades da sociedade civil e política, tem grande
poder de controle social e constroem modelos de inovações sociais.
7
3. MOVIMENTOS SOCIAIS NO BRASIL
Introdução
Classes sociais e movimentos sociais são dois conceitos fundamentais nas
Ciências Sociais. Eles têm interpretações e significados distintos segundo os diferentes
paradigmas teórico-explicativos de análise da realidade social. Algumas teorias atribuem
conteúdo, mais econômico às classes e mais políticos aos movimentos. Outrasestabelecem relações entre os dois conceitos; outros ainda postulam hierarquias de
importância ou de determinação entre classes e movimentos. Dada a importância que
estes conceitos têm na compreensão da realidade social será feito um resumo de suas
principais definições.
O objetivo do texto é fornecer ao leitor um instrumental interpretativo para suas
leituras e estudos. A partir das definições serão explicitados os movimentos sociais e sua
relação com as classes sociais.
3.1. Definindo os termos classes sociais e movimentos sociais
O conceito de classe social é o mais polêmico. Alguns autores o tratam no
campo predominantemente econômico, com implicações sobre todo sistema de poder na
sociedade e no Estado. Outros o estudam no campo da estratificação social, e outros ainda
no universo do modo e estilo de vida das pessoas. Nas teorias clássicas de análise sobre
o social, do final do século passado e primeira metade do século XX, encontra-se
quatro grandes blocos explicativos, a saber:
a) Teoria Marxista clássica: Foi com a teoria marxista que ele se tornou um conceito
central de análise do social, do econômico e do político. Marx trata as classes como
uma estrutura objetiva de posições sociais. A classe designa e explica todas as
formas de hierarquia e dominação social. Só podemos entender as classes no universo
de suas relações com outras classes e não é possível entender as classes sem tratar
de luta de classes, pois a lógica que rege suas relações é de conflito, dominação e
exploração. As classes se constituem segundo a posição que os indivíduos as ocupam
no processo de produção. O modo de produção capitalista repousa sobre a exploração
de uma classe por outra, dos que detêm o capital sobre os que detêm apenas a força
de trabalho, da burguesia sobre o proletariado. Entre essas duas classes, Marx (1818
-1883) identificou uma classe intermediária, a pequena burguesia, que tenderia a
8
desaparecer e ser absorvida pelo proletariado. Distingue ainda a classe em si- que
resulta da organização objetiva da produção, os indivíduos agrupados segundo a sua
posição no trabalho, não conscientes; e a classe social – que supõe a tomada de
consciência coletiva dos interesses de classe, ou seja – a classe já organizada, plena
de conhecimento sobre seus interesses e as tarefas históricas que deve realizar.
b) Teoria da Ação social de Max Weber (1864-1920): A análise de classe de Weber é
construída na forma de uma teoria da ação social. Ele elaborou uma abordagem
multidimensional baseada em três elementos básicos: poder, riqueza e prestígio.
Classe social é uma das estruturas da sociedade – a estrutura econômica, aos lados
dos grupos de status da ordem social; e dos partidos – a estrutura da ordem política, o
poder. Interesses econômicos no mercado levam à criação da classe. Segundo Weber,
uma classe se define notadamente pela posse de meios para edificar uma fortuna ou
para constituir um capital, conferindo-lhe privilégios. Portanto, as classes são posições
comuns dentro do mercado.
Para Weber, uma ação de classe resulta de um sentimento comunitário de
interesses e é ordenada em defesa de seus interesses, embora as classes não sejam uma
comunidade. Elas se utilizam de ações comuns e organizam ações comuns.
Weber identificou quatro classes essenciais: a classe trabalhadora, a pequena
burguesia, os intelectuais e profissionais liberais (sem propriedade), e a classe privilegiada
e educada que controla a propriedade. Ele também concebe grupos de status no interior
das classes econômicas, estratificadas e hierarquicamente enfileirados de acordo com as
demandas do mercado e refletindo uma diversidade de interesses e preferências (Chilcote,
1995:86).
c) Teorias funcionalistas norte-americanas: As classes sociais são vistas como o estilo
de vida que os indivíduos têm na sociedade. Elas são uma categoria que classifica os
indivíduos na sociedade de consumo. Nos estudos da sociologia norte americana dos
anos 40 e 50, deste século, o interesse e o desenvolvimento de pesquisas de mercado
e ao comportamento dos indivíduos no consumo dos bens materiais e simbólicos.
Como decorrência, eles procuraram explicar também o comportamento político das
classes sociais, principalmente em termos de previsão de seu comportamento eleitoral.
Os principais indicadores para classificar os indivíduos eram: renda, educação e
ocupação.
9
d) Classe social como campo de força: Esta interpretação foi elaborada inicialmente
por Maurice Halbwachs (1877-1945) e estabelece uma articulação entre a teoria
marxista e a teoria norte americana. Ela formula uma explicação centrada nas forças
sociais de integração e deixa num segundo plano o processo de produção. A sociedade
estaria organizada em círculos concêntricos e cada círculo corresponde a uma classe
social. As que estão no centro do círculo são as mais instruídas, as mais ricas e
as mais integradas. A classe operária encontra-se na periferia.
3.2. Classes Sociais: Concepções Contemporâneas
Nas teorias contemporâneas o conceito de classe social foi bastante
reformulado incorporando aspectos subjetivos, mesmo nas abordagens
neomarxistas. Podemos identificar três blocos principais:
a) Teorias marxistas contemporâneas: classe social continua sendo categoria
econômica fundamental que aglutina grupos, indivíduos e movimentos na
sociedade civil e política. Entretanto, a abordagem não tem uma tônica
exclusivamente econômica e as classes não são dadas a priori, mas se constituem
na história segundo suas lutas e ações coletivas. A experiência adquirida e as
tradições culturais herdadas são importantes para a constituição da classe. À medida
que se desenvolvem uma práxis, as classes criam uma identidade. Assim, as classes
se formam por meio das relações que os indivíduos e grupos estabelecem, e isso
ocorre segundo um processo. Neste bloco, temos os estudos de Poulantzas, de
historiadores Ingleses como E. Hobsbawm e E. P. Thompson, e outros. No Brasil
podemos citar como representante dessa abordagem, entre outros, Francisco de
Oliveira.
Alguns autores denominados como pós-marxistas, também retomaram a discussão
sobre as classes na modernidade. Eles enfatizam a autonomia da política e da ideologia
em relação à economia. Laclau e Mouffe, por exemplo, esboçam um projeto de
democracia radical onde o modelo de luta das classes na sociedade não se reduz ás
contradições entre a burguesia e o proletariado; eles incorporam naquele projeto uma
multiplicidade de autores sociais. Eles veem a classe trabalhadora como um dos muitos
agentes possíveis envolvidos com a transformação social. Argumentam que a sociedade é
capaz de se organizar de infinitas maneiras. Política e ideologia são separadas de qualquer
base social e, em seu lugar, o discurso determina toda ação (vide Chicote, 1995:96).
10
Ainda no espectro da herança do marxismo, temos outras contribuições ao
debate sobre as classes na era atual. Alguns autores moldaram suas teorias segundo
um contexto estrutural, concebendo as classes como estruturas de poder. Nicos
Poulantzas (1975), por exemplo, desenvolveu a tese de que as estruturas da
sociedade, mais do que as pessoas influentes, determinam acontecimentos
políticos. Ele dividiu as classes em dominantes versus classes populares. Outros
autores ainda, na busca de um substituto para o papel revolucionário do proletariado,
criaram teorias específicas sobre as classes sociais, como Herbert Marcuse, Louis
Althusser, André Gorz, Ralph Miliband etc.
Mas a ênfase na luta de classes não foi abandonada entre vários marxistas
contemporâneos.Harry Braverman e Esping-Andersen, por exemplo, “tratam os
conflitos e a luta de classes associadas às categorias estruturais de análise no nível
do Estado e da produção. As estruturas do estado seriam moldadas pela luta de
classe e não por simples mecanismos que servem ao processo de reprodução
capitalista e repressão da classe trabalhadora. ” (Chilcote, 1995; 94).
Nos debates contemporâneos sobre a situação das classes sociais no mundo
do trabalho registra-se a tese da exclusão social, atualmente, quase hegemônica entre
os analistas que têm abordagens críticas aos efeitos perversos da globalização na
sociedade, como Robert Castel (1998), P. Rosavallon (1995) etc. Vários autores pós-
marxistas têm se insurgido contra ela, como S. Paugam (1996), Pedro Demo (1998), R.
Kurtz 91997) etc. Demo afirma:
Evita-se a terminologia das classes sociais, traduzindo um possível esgotamento
de certa maneira tradicional de explicar a questão social com base principalmente no
confronto das desigualdades sociais. [...] Num primeiro momento, confundindo-se classes
sócias com desigualdade, imagina-se que, não se apresentando a teoria das classes
sociais como capaz de dar conta, sozinha, da complexidade do capitalismo atual, ipso facto
não teria também a questão da desigualdade qualquer potencial explicativo [...] quem não
consegue entender que a exclusão é a forma de inclusão, ou seja, uma maneira de exercer
uma função dialética no sistema, não percebeu ainda o que significa dialética na história
(1998; 18 e 105).
b) Teoria de Pierre Bourdieu: O modelo teórico de Bourdieu baseia-se numa análise
interna do comportamento dos indivíduos num contexto dado. Ele não se preocupa com
os condicionamentos estruturais externos, para explicar a ação dos indivíduos na
História. Dois conceitos são centrais em sua obra: campo e habitus. A classe
11
social é vista numa sociedade constituída por um conjunto de campos sociais.
Para Bourdieu, os indivíduos adquirirem durante o processo de socialização habitus de
classe e a partir deles estruturam seus comportamentos e produzem sentimentos de
pertencimento de classe. Mas os indivíduos não agem apenas segundo as posições
adquiridas ou herdadas, eles também reelaboram estratégias de reprodução e com isso
montam o acervo de recursos e capitais que utilizam em dados campos sociais,
travando lutas simbólicas entre dominantes e dominados. Cada classe social é definida
por um modo de vida (bens de consumo, práticas culturais etc.) e por um acervo
específico de recursos em termos de capital econômico e cultural. Bourdieu agrupa
as classes em: dominante, pequena burguesia e classe popular.
c) Teorias norte americanas contemporâneas: O conceito de classe nunca teve grande
relevância nas abordagens norte americanas. Mas podemos identificar duas correntes
básicas: Primeira, as classes sociais são definidas não apenas pela quantidade
de dinheiro ou bens que possuam, mas também pelos: sistema de
comportamento (atitudes), conjunto de valores e modo de vida. Segunda,
baseada numa visão pluralista de diversos grupos de interesse e de pressão na
sociedade, a classe é analisada num sistema político de democracia
representativa. Robert Dahl e Ralf Dahrendorf são exemplos dessa abordagem.
Dahrendorf construiu “tipos ideais de classe numa sociedade pós-capitalista na qual a
autoridade não depende necessariamente da riqueza e prestígio, o conflito entre as
classes e grupos é mínimo, e o pluralismo de instituições e interesses permite uma
ampla participação nas decisões” (Chilcote, 1995:89).
3.3. Movimentos Sociais: O Conceito
A crise contemporânea do mundo globalizado tem gerado alterações nas teorias
sobre sociedade. Muitas delas passaram a enfatizar as ações coletivas organizadas em
torno de questões de identidade – sexo, raça, nacionalidade, etnia etc. destacando os
novos movimentos sociais. Os atores desses movimentos ganharam centralidade nos
estudos, enquanto novos sujeitos sociais, em detrimento da ênfase que era dada
anteriormente às classes sociais, em especial ao proletariado, enquanto agentes
fundamentais na explicação da realidade social (vide OFF, 1989).
12
Em consequência ao novo cenário, vários autores têm destacado que o
conflito social mudou no mundo moderno, da esfera da produção para a esfera dos
problemas da cultura e, nesta, os problemas de identidade cultural seriam os mais
importantes gerando movimentos em torno de questões de raça, gênero,
nacionalidade, etc. Outros, como o ex-líder estudantil francês e parlamentar do Partido
Verde, Daniel Conh-Bendit, reconhecem a importância dos conflitos culturais, mas atribui
uma determinação econômica àqueles conflitos.
Resulta que se têm dois modelos de análise:
✓ Um culturalista (enfatizado os movimentos sociais);
✓ Outro classista (enfatizando mais as estruturas econômicas, as classes sociais, as
contradições sociais e os conflitos de classes).
Abaixo se defende uma terceira posição, que destaca a importância da cultura na
construção da identidade de um movimento social, mas concebem os movimentos segundo
um cenário pontuado por lutas, conflitos e contradições, cuja origem está nos problemas
da sociedade dividida em classes, com interesses, visões, valores, ideologias e projetos
de vida diferenciados.
Apesar do número razoável de estudos específicos sobre a problemática dos
movimentos sociais, não podemos afirmar que existam teorias bastante elaboradas a seu
respeito. Parte dessa lacuna é dada pela multiplicidade de interpretações e enfoques sobre
o que são movimentos sociais. Um conjunto díspar de fenômenos sociais tem sido
denominado como movimentos sociais. Na tentativa de clarificar a questão criaram-se
novas taxionomias ou tipologias empíricas sem fundamentação teórica.
2009/CESPE/FUB. O universo referencial dos movimentos sociais pode estar
vinculado a uma classe social, uma etnia, uma religião, um partido político ou a
outras categorias sociais.
Certo / Errado
Comentário:
Certo. O universo básico referencial dos Movimentos Sociais pode estar representado por
uma classe social, uma etnia, uma região, uma religião, um partido político, ou por inúmeras
outras categorias. No que tange à classe social, como acertadamente advertiu Gohn (1985
e 1988), tanto a classe dominante como a dominada, com suas respectivas frações, podem
13
constituir-se em sujeitos sociais dos movimentos, insatisfeitas com as relações sociais
vigentes ou propostas.
Expressões da questão social se manifestam em todos os espaços e tempos sociais e
institucionais, conformando uma humanidade de privações e sem direitos – à vida, teto,
terra, emprego estável protegido, escolarização, proteção social, alma, identidade –
deixando visível e em situação desconfortável os sujeitos estratégicos para o enfrentamento
dessas questões – o Estado, o mercado e a sociedade civil organizada.
No cenário internacional, dentre os autores que têm dado as maiores
contribuições para o estudo dos movimentos sociais destacamos Alberto Melucci,
Alain Touraine, Manuel Castells, Sidney Tarrow e Charles Tilly.
Melucci destaca a questão da identidade coletiva como categoria central em sua
abordagem.
Ele afirma que a análise dos movimentos sociais oferece uma chave teórica e
metodológica que pode ser aplicada para além do campo do empírico das ações coletivas.
Em 1996 ele acrescentou:
“movimentos são um sinal; eles não são meramente o resultado de uma crise. Eles assinalam uma
profunda transformação na lógica e no processo que guiam as sociedades complexas. Como osprofetas, eles falam antes: eles anunciam o que está tomando forma mesmo antes de sua direção
e conteúdo tornarem-se claros. Os movimentos contemporâneos são os profetas do presente
(Melucci, 1996:01).
Touraine, em 1998, definiu os movimentos sociais como ações coletivas que
combinam “a defesa de interesses com a designação de um opositor. Luta-se contra um
adversário social em nome de valores culturais” (1998:4). Segundo ele, há três formas de
conflitos envolvidos nos movimentos sociais, um localizado na esfera da organização
social, outro na esfera da mudança social e o terceiro na esfera cultural.
Manoel Castells, espanhol radicado nos Estados Unidos, foi a principal influência
teórica nos estudos produzidos sobre os movimentos sociais no Brasil, nos anos 70 e 80.
14
Em 1996, ele os definiu como “ações coletivas propositivas as quais resultam, na
vitória ou no fracasso, em transformações nos valores e instituições da sociedade.
” (1997:3).
Sidney Tarrow (1994) considera os movimentos com forma de opinião de massa.
Segundo uma conceituação clássica feita por Tilly (1978), um movimento social
é fenômeno de opinião de massa lesada, mobilizada em contato com as autoridades. Para
Tilly, os movimentos seriam a contraparte não institucionalizada dos partidos políticos, dos
sindicatos, associações etc., tendo surgido no século XIX como uma ampliação do próprio
campo da política. Eles também lutam pelo poder e pela institucionalização de seus
interesses, mas de uma forma desordenada, utilizando-se de procedimentos não
convencionais como passeatas, protestos, atos de violência etc.
2012/FCC/TJ-PE. Na abordagem clássica, a ideia é a de que os movimentos sociais
existem quando há:
I. Um princípio de identidade construído coletivamente ou de identificação em torno de
interesses e valores comuns no campo da cidadania.
II. Definição coletiva de um campo de conflitos e dos adversários centrais nesse campo.
III. A construção de projeto de transformação ou de utopias de mudança social nos campos
societário, cultural ou sistêmico.
Está correto o que se afirma em:
a- I, apenas.
b- II, apenas.
c- III, apenas.
d- I e II, apenas.
e- I, II e III.
Resposta Correta:
Letra e- I, II e III.
Comentário:
Usando como referências os apontamentos de Melucci, Touraine e Castells, Scherer
15
Warren afirma ainda que “um movimento social existe quando há: (1) um princípio de
identidade construído coletivamente ou de identificação em torno de interesses e valores
comuns no campo da cidadania; (2) a definição coletiva de um campo de conflitos e dos
adversários centrais nesse campo; (3) a construção de projeto de transformação ou de
utopias comuns de mudança social nos campos societário, cultural ou sistêmico.”
3.4. Movimento-classe: Uma visão integrada.
Para definir movimento social devem-se estabelecer algumas diferenças:
* Uma, primeira, é entre o movimento e grupo de interesses. Na grande imprensa
cotidiana observa-se o uso da expressão movimento para designar a ação de
grupos em função de seus interesses. Assim lê-se, “iniciou-se na Câmara um
movimento para aprovar...” Este uso do termo é irregular, pois na realidade deveria
ser “ iniciou-se um lobbie”, que é um grupo de interesse e não um movimento social.
Interesses comuns de um grupo são um componente de um movimento, mas não
suficiente para caracterizá-lo como tal. Primeiro, porque a ação de um grupo de
pessoas tem de ser qualificada por uma série de parâmetros para ser um
movimento social. Este grupo tem que formar um coletivo social e, para tal,
necessita ter uma identidade em comum. Ser negro, mulher, defender as baleias,
ou não ter teto para morar, são adjetivos que qualificam um grupo dando-lhe
objetivos comuns para a ação. Mas eles têm uma realidade anterior à aglutinação
de seus interesses. Eles têm uma história de experiências culturais. As inovações
culturais, econômicas ou outro tipo de ação que vierem a gerar, partem do substrato
em comum das carências ou demandas que reivindicam, articuladas pelos legados
da herança cultural que possuem. A partir dessa base, eles criam e renovam seus
repertórios das ações, ideias, valores, etc.
* Uma segunda diferença deve ser feita quanto ao uso ampliado da expressão
ao se designar a ação histórica dos grupos sociais, tais como: o movimento
da classe trabalhadora. Aqui se trata de uma categoria da dialética, a de movimento,
em oposição à estática. É a ação da classe em movimento e não um movimento
específico da classe. Esta diferença possibilita demarcar dois sentidos para o termo
movimento: um ampliado e geral, e outro restrito e específico.
* Uma terceira diferença deve ser feita entre modos de ação coletiva e
movimento social propriamente. Um protesto (pacífico ou não), uma rebelião,
uma invasão, uma luta armada, são modos de estruturação de ações coletivas;
16
poderão ser estratégias de ação de um movimento social, mas, sozinhos, não são
movimentos sociais.
* Finalmente uma quarta diferenças refere-se à esfera onde ocorre a ação
coletiva. Trata-se de um espaço não institucionalizado, nem na esfera pública
estatal e nem na esfera privada. Mas devemos tomar cuidado com as
generalizações empíricas, denominado de movimento tudo que estiver na esfera
não institucional. Os espaços coletivos não institucionalizados situam-se na esfera
pública não governamental, ou não estatal, possibilitando aos movimentos dar
visibilidade às suas ações.
Podemos tirar uma primeira dedução, a saber:
Movimento Social refere-se à ação dos homens na história. Esta ação envolve um
fazer – por meio de um conjunto de práticas sociais – e um pensar – por meio de um
conjunto de ideias que motiva ou dá fundamento à ação. Trata-se de uma práxis,
portanto.
As lutas sociais conferem aos movimentos um caráter cíclico. Eles são como as
ondas e as marés, vão e voltam segundo a dinâmica do conflito social, da luta social, da
busca do novo ou reposição/conservação do velho. Estes fatores conferem às ações dos
movimentos caráter reativo, ativo ou passivo. Não bastam as carências para haver um
movimento. Elas têm de se traduzir em demandas, que por sua vez poderão se
transformar em reivindicações, através de uma ação coletiva. O conjunto deste
processo é parte constitutiva da formação de um movimento social. Os fatores: carências,
legitimidade da demanda, poder político das bases, cenário conjuntural do país darão a
força de um movimento, gerando o campo de forças do movimento social e uma dada
cultura política.
Deve-se lembrar também que muitos dos chamados novos movimentos sociais,
abrangem dimensões subjetivas da ação social, relativas ao sistema de valores dos grupos
sociais, não compreensíveis para análise à luz apenas das explicações macro objetivas,
como usualmente é tratada a questão das carências econômicas. Trata-se de carências
de outra ordem, situadas no plano de valores, da moral.
17
A partir das considerações acima se formulou uma definição ampla para o conceito
de movimento social, a saber:
Movimentos sociais são ações coletivas de caráter sociopolítico, construídas
por atores sociais pertencentes a diferentes classes e camadas
sociais. Eles politizam suas demandas e criam um campo político de força social
na sociedade civil. Suas ações estruturam-se a partir de repertórios criados sobre
temas e problemas em situações de: conflitos, litígios e disputas. As ações
desenvolvem um processo social e político-cultural que cria uma identidade coletiva
ao movimento, a partir de interesses emcomum. Esta identidade decorre da força
do princípio da solidariedade e é considerada a partir da base referencial de valores
culturais e políticos compartilhados pelo grupo (Gohn, 1997b).
Os movimentos geram uma série de inovações nas esferas públicas e privadas,
participando direta ou indiretamente da luta política de um país e contribuindo para o
desenvolvimento e transformação da sociedade civil e política.
Os movimentos aglutinam bases demandantes, assessores e lideranças, e tem
estreitas relações com uma série de outras entidades sociopolíticas como partidos e
facções políticas legais ou clandestinas – igrejas, sindicatos, ONGS – nacionais e
internacionais – setores da mídia e atores sociais formadores de opinião pública,
universidades, parlamentares municipais, estaduais e federais; e até mesmo pequenos e
médios empresários, etc., articulados em redes sociais com interesses em comuns.
É necessário destacar que a simples existência de relações não implica que
os movimentos sejam internamente harmoniosos ou homogêneos. Ao contrário, o
usual é a existência de conflitos e tendências internas. Mas, as formas como eles se
apresentam no espaço público, o discurso que elaboram, as práticas que articulam nos
eventos externos, criam um imaginário social de unidade, uma visão de totalidade.
A solidariedade é o princípio que costura as diferenças internas fazendo com que
a representação simbólica construída e projetada para o outro – não movimento – seja
coerente e articulada em propostas que encubram essas diferenças, apresentando-se,
usualmente, de forma clara e objetiva. Para tal é preciso que se observem os códigos
político-culturais expressos nas reivindicações dos movimentos (apresentados nas
18
linguagens de seus discursos e falas e nos documentos que constroem). São estes códigos
que sistematizam as demandas e criam representações sobre as mesmas. A forma como
as demandas são codificadas varia segundo a cultura política local, ou seja, segundo o
repertório das tradições culturais e as forças sociopolíticas de uma dada conjuntura
histórica onde o movimento está ocorrendo.
Em relação aos tipos, pode ter movimentos de diferentes classes e camadas
sociais. O tipo de ação social envolvido é que será o indicador do caráter do movimento.
Pode se ter movimentos transformadores, reformistas, redentores e alternativos.
Giddens (1993) aglutina os movimentos entre as ações que são geradas por
tensões estruturais (movimentos dos negros), crenças generalizadas (movimentos dos
direitos civis), distúrbios e violências (movimentos de rua, quebra-quebra etc.) e
movimentos que são deflagrados por situações de controle social (movimento contra as
reformas da Constituição brasileira, por exemplo). Os movimentos são vistos por Giddens
como respostas e estímulos externos.
Touraine (1989), sem se preocupar com a criação de uma tipologia, apresenta um
leque de registros históricos de movimentos sociais, subdividindo-os em messiânicos,
camponeses, de defesa comunitária, de defesa da identidade, lutas urbanas, novos
movimentos sociais, movimentos históricos, movimentos políticos e lutas culturais.
2012/FCC/MPE-AP. Maria da Glória Gohn (1997) ao estudar a teoria dos movimentos
sociais conclui que:
I. eles são fluídos, fragmentados e perpassados por outros processos sociais, como uma
teia de aranha eles tecem redes que se quebram facilmente, dada a sua fragilidade.
II. eles são como as ondas do mar que vão e voltam, constroem ciclos na história, ora
delineando fenômenos bem configurados, ora saindo nas sombras e penumbras, como
névoa esvoaçante.
III. os movimentos progressistas contribuem para a redefinição das utopias, para restaurar
a esperança e a crença de que vale a pena lutar por uma sociedade mais justa e igualitária.
Está correto o que se afirma em:
a- I, apenas.
b- II, apenas.
c- III, apenas.
d- I e II, apenas.
e- I, II e III.
19
Resposta Correta:
Letra e- I, II e III.
Comentário:
Os movimentos sociais são fluidos, fragmentados, constroem ciclos na história, em
movimentos de claro e escuro e contribuem para a redefinição de utopias.
2013/FCC/TRT - 15ª R. Gohn (2010) afirma que há atores sociais que são sujeitos
sócio políticos, cujas ações coletivas estão voltadas para os problemas sociais,
econômicos, culturais e ambientais públicos em direção à superação das
desigualdades sociais. Para a autora, são esses sujeitos:
I. Movimentos Sociais propriamente ditos.
II. Redes de mobilização compostas por associações de várias naturezas, incluindo as
Organizações Não Governamentais - ONGs, fóruns, plenárias e articulações nacionais e
transnacionais.
III. Conselhos institucionalizados que atuam na esfera pública estatal.
Está correto o que se afirma em:
a- I, apenas.
b- I e II, apenas.
c- II e III, apenas.
d- I e III, apenas.
e- I, II e III.
Resposta Correta:
Letra e- I, II, III.
I. Movimentos Sociais propriamente ditos. II. Redes de mobilização compostas por
associações de várias naturezas, incluindo as Organizações Não Governamentais -
ONGs, fóruns, plenárias e articulações nacionais e transnacionais. III. Conselhos
institucionalizados que atuam na esfera pública estatal.
20
4. ANTECEDENTES: A ERA MOVIMENTISTA (1970-1980)
Década de 1970 e parte dos anos 1980
No Brasil e em vários outros países da América Latina, no fim da década de 1970
e parte dos anos 1980, ficaram famosos os movimentos sociais populares articulados por
grupos de oposição aos regimes militares, especialmente pelos movimentos de base
cristãos, sob a inspiração da teologia da libertação. No fim dos anos 1980 e ao longo dos
anos 1990, o cenário sociopolítico transformou-se de maneira radical. Inicialmente, houve
declínio das manifestações de rua, que conferiam visibilidade aos movimentos populares
nas cidades. Alguns analistas diagnosticaram que eles estavam em crise, porque haviam
perdido seu alvo e inimigo principal: os regimes militares. Em realidade, as causas da
desmobilização são várias. O fato inegável é que os movimentos sociais dos anos
1970/1980, no Brasil, contribuíram decisivamente, via demandas e pressões organizadas,
para a conquista de vários direitos sociais, que foram inscritos em leis na nova
Constituição Federal de 1988.
2012/FCC/ TRF-2ª R. No final dos anos de 1970, a nova cidadania, ou cidadania
ampliada, que começou a ser formulada pelos movimentos sociais, pode ser
compreendida como:
a- uma concepção que se limita à provisão de direitos legais e ao acesso a direitos
definidos previamente.
b- vinculada a uma estratégia das classes dominantes e do Estado de incorporação política
gradual dos setores excluídos.
c- constituição de sujeitos sociais ativos - agentes políticos -, definindo o que consideram
ser seus direitos e lutando para seu reconhecimento.
21
d- uma ideia baseada e fixada em uma referência central e no significado do conceito
liberal.
e- aquela que está mais confinada dentro dos limites das relações com o Estado, ou entre
Estado e indivíduos.
Resposta Correta:
Letra c- constituição de sujeitos sociais ativos - agentes políticos -, definindo o que
consideram ser seus direitos e lutando para seu reconhecimento.
2012/FCC/MPE-PE. Para Carvalho (1998), o processo constituinte, o amplo
movimento de “Participação Popular na Constituinte”, marca uma nova fase dos
movimentos sociais porque se caracteriza como:
a- momento em que as experiências da fase anterior são sistematizadase traduzidas em
propostas políticas mais elaboradas e levadas aos canais institucionais conquistados.
b- predominantemente reivindicativa, de ação direta ou “de rua”, com a manutenção de
relações de subordinação e de tutela por parte do Estado e dos partidos.
c reivindicação de participar, apenas para obter ou garantir direitos já conquistados ao
longo do processo histórico de participação popular.
d- atrelamento às proposições populistas, corrente de pensamento político que se colocava
a serviço do interesse público e coletivo para o fortalecimento dos espaços públicos.
e- estabelecimento de relações de tutela pelo “centralismo democrático” do partido
comunista, que focava sua luta pela manutenção da ordem geral da sociedade e,
consequentemente, pela superação das condições de vulnerabilidade social.
Resposta Correta:
Letra a - momento em que as experiências da fase anterior são sistematizadas e traduzidas
em propostas políticas mais elaboradas e levadas aos canais institucionais conquistados.
Comentário:
22
Década de 80 Entidades representativas se organizam na articulação em federações
municipais, estaduais e nacionais CUT (Central Única dos Trabalhadores) e do Partido dos
Trabalhadores, Processo constituinte, o amplo movimento de “Participação Popular na
Constituinte”, que elaborou emendas populares e coletou subscrições em todo o país.
Momento em que as experiências da “fase” anterior, predominantemente reivindicativa, de
ação direta ou “de rua”, são sistematizadas e traduzidas em propostas políticas mais
elaboradas e levadas aos canais institucionais conquistados, como a própria iniciativa
popular de lei que permitiu as emendas constituintes.
Década de 1990
A partir de 1990, ocorreu o surgimento de outras formas de organização
popular, mais institucionalizadas - como os Fóruns Nacionais de Luta pela Moradia,
pela Reforma Urbana, o Fórum Nacional de Participação Popular etc. Os fóruns
estabeleceram a prática de encontros nacionais em larga escala, gerando grandes
diagnósticos dos problemas sociais, assim como definindo metas e objetivos estratégicos
para solucioná-los. Emergiram várias iniciativas de parceria entre a sociedade civil
organizada e o poder público, impulsionadas por políticas estatais, tais como a experiência
do Orçamento Participativo, a política de Renda Mínima, Bolsa Escola etc. Todos atuam
em questões que dizem respeito à participação dos cidadãos na gestão dos negócios
públicos. A criação de uma Central dos Movimentos Populares foi outro fato marcante nos
anos 1990, no plano organizativo; estruturou vários movimentos populares em nível
nacional, tal como a luta pela moradia, assim como buscou uma articulação e criou
colaborações entre diferentes tipos de movimentos sociais, populares e não populares.
Ética na Política
Ética na Política, um movimento do início dos anos 1990, teve grande importância
histórica, porque contribuiu decisivamente para a deposição - via processo democrático -
de um presidente da República por atos de corrupção, fato até então inédito no país. Na
época, contribuiu também para o ressurgimento do movimento dos estudantes com novo
perfil de atuação, os "caras-pintadas".
2012/VUNES/TJ-SP. Os movimentos sociais latino-americanos ocuparam o centro do
cenário político na década de 1990 a partir de resistências contra as privatizações e
os programas de ajuste estrutural. É nesse contexto que ocorre o incremento da
resistência e da luta popular na América Latina, que abarca as mais diversas formas
23
de protesto social. No Brasil, ainda nos anos 90, surgem também mobilizações
coletivas centradas mais em questões________________ com mobilizações que
partem de um chamamento à consciência individual das pessoas, apresentando-se
mais como___________ do que como movimentos sociais.
Assinale a alternativa que completa, correta e respectivamente, as lacunas do texto.
a- éticas e morais … campanhas
b- jurídicas e operacionais … paralisações
c- políticas e culturais … agitações
d- econômicas e estruturais … piquetes
e- legais e pessoais … manifestações
Resposta Correta:
Letra a - éticas e morais … campanhas.
Comentário:
Segundo Gonh (2004), nos anos 90, ocorreu o Movimento pela Ética na Política, na fase
do impeachment de Collor. Nesse momento, se redefiniu novamente o cenário das lutas
sociais. Destaca-se ainda que as mobilizações coletivas na década de 1990 partem para
o chamamento a consciência individual das pessoas e elas, usualmente, tem se
apresentado mais como “Campanhas” do que como movimentos sociais.
2009/CESPE/FUB. A institucionalização da participação popular em conselhos e
conferências de políticas e de direitos, nos anos 90 do século passado, contribuiu
para o fortalecimento dos movimentos sociais no Brasil.
Certo / Errado
Resposta Correta:
Errado
Comentário:
Na década de 80 os movimentos sociais estavam articulados e fortalecidos pelo desejo de
redemocratização do país. Em 1988, com a CF, os conselhos se institucionalizaram e em
90 as contrarreformas neoliberais acarretaram o inverso do que a questão propõem, não
houve fortalecimento dos movimentos sociais e sim a desmobilização destes.
24
2010/CESPE/TRE-BA. Recorrer ao indicador participação e controle social
democrático implica discutir o papel e as atribuições dos movimentos sociais e dos
conselhos de gestão, instituídos após a publicação da Constituição Federal de 1988.
Certo/ Errado
Resposta Correta:
Certo
Comentário:
Indicador 3 – Participação e controle social democrático: busca analisar os mecanismos de
controle que a sociedade dispõe para acompanhar e fazer valer o exercício da cidadania;
esse indicador implica discutir o papel e as atribuições dos movimentos sociais e dos
Conselhos de gestão, instituídos após a Constituição de 1988. Um dado importante é o
grau de mobilização e participação social em torno de determinada política e/ou programa
social, o que pode ser percebido na identificação de existência de Fóruns específicos, na
realização e participação da população em conferências e conselhos, na existência de
ações sistemáticas e planejadas para socialização de informações e mobilização. Outro
dado importante é compreender a criação, estrutura e funcionamento dos Conselhos, com
observação dos seguintes elementos: estrutura física e equipe técnica do Conselho,
existência e garantia de recursos para financiamento dos Conselhos, processo de escolha
e nomeação dos conselheiros, composição do colegiado para verificar se existe paridade
entre Estado e sociedade civil, caráter e periodicidade das reuniões do Conselho, formas
de encaminhamento e acompanhamento das decisões (deliberações) do Conselho. Outro
dado que pode ser analisado se refere à atuação e autonomia do Conselho, a fim de
verificar como estes realizam o acompanhamento e fiscalização das ações
governamentais, se participam no processo de planejamento da política correspondente,
se analisam os relatórios anuais referentes ao órgão gestor; se discutem politicamente o
conteúdo, abrangência, alcance e funções da política social; se possuem autonomia na
tomada de decisões sobre as políticas sociais, frente ao poder executivo; se suas decisões
(deliberações) são cumpridas pelo poder executivo.
25
2015/CETRO/MDS. Sobre a relação entre o Estado e a chamada Sociedade Civil na
Constituição da Política Social Brasileira nas últimas décadas, assinale a alternativa
correta.
a- Os chamados movimentos sociais da década de 1980 caracterizam-se pelo seu caráter
meramente sugestivo, semintenção de efetiva reivindicação.
b- Somente na década de 1990 que os chamados movimentos sociais passam a deter
caráter reivindicatório, podendo-se destacar o movimento de impeachment do então
Presidente da República.
c- Na década de 1990, a ideia de participação social passa a ser vista como sendo
“solidária” por meio de trabalho de voluntariado e concepção de responsabilidade social de
indivíduos e empresas.
d- Com a politização da participação da sociedade civil na década de 1990, focada em
valores morais e conectada com o coletivo, constatam-se um desenvolvimento e
amadurecimento na ocupação de espaços públicos participativos.
e- Na década de 1980, por opressão do regime da época, há uma clara despolitização do
significado de participação social, havendo uma ênfase à participação individualista, ligada
a valores morais por meio de ações de responsabilidade social de indivíduos, empresas e
movimentos ligados a instituições religiosas.
Resposta Correta:
Letra c - Na década de 1990, a ideia de participação social passa a ser vista como sendo
“solidária” por meio de trabalho de voluntariado e concepção de responsabilidade social de
indivíduos e empresas.
Comentário:
Empresa-cidadã: uma estratégia de hegemonia. A RSE, para a autora, resulta de um
momento de maior organização do empresariado, que busca intervir na sociedade. Indaga-
se se está em curso no país, desde os anos 1990, uma nova “cultura empresarial”, pautada
na concepção de cidadania: Parece haver, princípio, uma “concordância geral”, no meio
empresarial, de que o exercício da cidadania alavanca um processo histórico de mudanças
rumo a uma sociedade com igualdade e justiça social, pois cada cidadão indiferenciado
abandona a postura passiva de “ficar esperando por uma ação do Estado” e toma para si,
por meio da solidariedade e da ajuda mútua, a responsabilidade de zelar pelo bem comum,
semeando um futuro melhor para a coletividade, num presente sem conflitos e lutas de
classe (César, 2005, p. 217-18).
À medida que as políticas neoliberais avançaram, outros movimentos sociais
foram surgindo:
* Contra as reformas estatais;
* A Ação da Cidadania contra a Fome;
26
* Movimentos de desempregados;
* Ações de aposentados ou pensionistas do sistema previdenciário.
As lutas de algumas categorias profissionais emergiram no contexto de
crescimento da economia informal, no setor de transportes urbanos, por exemplo:
* Apareceram os transportes alternativos ("perueiros");
* No sistema de transportes de cargas pesadas nas estradas, os "caminhoneiros".
Algumas dessas ações coletivas surgiram como respostas à crise
socioeconômica, atuando mais como grupos de pressão do que como movimentos
sociais estruturados. Os atos e manifestações pela paz, contra a violência urbana, também
são exemplos dessa categoria. Se antes a paz era um contraponto à guerra, hoje ela é
almejada como necessidade ao cidadão/cidadã comum, em seu cotidiano, principalmente
nas ruas, onde motoristas são vítimas de assaltos relâmpagos, sequestros e assassinatos.
* Grupos de mulheres foram organizados nos anos 1990 em função de sua atuação na
política, criando redes de conscientização de seus direitos e frentes de lutas contra as
discriminações.
* O movimento dos homossexuais também ganhou impulso e as ruas, organizando
passeatas, atos de protestos e grandes marchas anuais. Numa sociedade marcada
pelo machismo, isso também é uma novidade histórica.
* O mesmo ocorreu com o movimento negro ou afrodescendente, que deixou de ser
predominantemente movimento de manifestações culturais para ser, sobretudo,
movimento de construção de identidade e luta contra a discriminação racial.
* Os jovens também criaram inúmeros movimentos culturais, especialmente na área da
música, enfocando temas de protesto, pelo rap, hip hop etc.
Devem-se destacar ainda três outros importantes movimentos sociais no Brasil, nos
anos 1990:
✓ Indígenas;
✓ Funcionários públicos - especialmente das áreas da educação e da saúde;
✓ Ecologistas.
Os Indígenas cresceram em número e em organização nessa década,
passando a lutar pela demarcação de suas terras e pela venda de seus produtos a
preços justos e em mercados competitivos.
27
Os Funcionários públicos organizaram-se em associações e sindicatos contra
as reformas governamentais que progressivamente retiram direitos sociais,
reestruturam as
profissões e arrocharam os salários em nome da necessidade dos ajustes fiscais.
Os ecologistas proliferaram após a conferência Eco-92, dando origem a
diversas organizações não governamentais.
ONGS
As ONGs passaram a ter muito mais importância nos anos 1990 do que os próprios
movimentos sociais. Trata-se de ONGs diferentes das que atuavam nos anos 1980 junto a
movimentos populares. Agora são inscritas no universo do terceiro setor, voltadas para a
execução de políticas de parceria entre o poder público e a sociedade, atuando em
áreas onde a prestação de serviços sociais é carente ou até mesmo ausente, como
na educação e saúde, para clientelas como meninos e meninas que vivem nas ruas,
mulheres com baixa renda, escolas de ensino fundamental etc.
2011/CESGRANRIO/ FINEP. Do ponto de vista conceitual, é correto afirmar que
movimento social e organização não governamental (ONG) são organizações de:
a- mesma natureza e que se sucedem no tempo.
b- mesma natureza e uma pode ser ferramenta da outra.
c- mesma natureza e pressupõem a mobilização social
d- natureza diversa, porque o movimento social constitui uma atividade que se esgota em
si mesma quando concluída.
e- natureza diversa, porque o movimento social é conformado por sujeitos que se
mobilizam em prol de interesses próprios.
Resposta Correta:
Letra e - natureza diversa, porque o movimento social é conformado por sujeitos que se
mobilizam em prol de interesses próprios.
28
5. CENÁRIO DOS MOVIMENTOS SOCIAIS NA
ATUALIDADE NO BRASIL
Para compreender os movimentos sociais é preciso delinear um quadro referencial
mais amplo, relativo à conjuntura que constitui o campo sociopolítico e econômico no qual
ocorrem os movimentos.
Algumas características básicas dessa conjuntura na atualidade, no campo
do associativismo, são:
1 | Há um novo cenário neste milênio: novos tipos movimentos, novas demandas,
novas identidades, novos repertórios. Proliferam movimentos multi e pluriclassistas.
Surgiram movimentos que ultrapassam fronteiras da nação, são transnacionais, como
o já citado movimento alter ou antiglobalização. Mas também emergiram com força
movimentos com demandas seculares como a terra, para produzir (MST) ou para
viver seu modo de vida (indígenas). Movimentos identitários, reivindicatórios de
direitos culturais que lutam pelas diferenças: étnicas, culturais, religiosas, de
nacionalidades etc. Movimentos comunitários de base, amalgamados por ideias e
ideologias, foram enfraquecidos pelas novas formas de se fazer política,
especialmente pelas novas estratégias dos governos, em todos os níveis da
administração. Novos movimentos comunitaristas surgiram - alguns recriando formas
tradicionais de relações de autoajuda; outros organizados de cima para baixo, em
função de programas e projetos sociais estimulados por políticas sociais.
2 | Criaram-se várias novidades no campo da organização popular, tais como a
atuação em redes e maior consciência da questão ambiental ao demandar projetos
que possam vir a ter viabilidade econômica sem destruir o meio ambiente.29
3 | A nova conjuntura econômica e política tem papel social fundamental para
explicar o cenário associativista atual. As políticas neoliberais desorganizaram os
antigos movimentos e propiciaram arranjos para o surgimento de novos atores,
organizados em ONGs, associações e organizações do terceiro setor.
4 | As reformas neoliberais deslocaram as tensões para o plano cotidiano, gerando
violência, diminuição de oportunidades no mundo do trabalho formal, formas precárias
de emprego, constrangimento dos direitos dos indivíduos, cobrança sobre seus
deveres em nome de um ativismo formal etc.
5 | O Estado promoveu reformas e descentralizou operações de atendimento na
área social; foram criados canais de mediações e inúmeros novos programas sociais;
institucionalizaram-se formas de atendimento às demandas. De um lado, observa-se
que esse fato foi uma vitória, porque demandas anteriores foram reconhecidas como
direito, inscrevendo-as em práticas da gestão pública. De outro, a forma como têm
sido implementadas as novas políticas, ancoradas no pragmatismo tecnocrático, tem
resultado na maioria dos projetos sociais implementados passando a ter caráter
fiscalizatório, ou sendo partícipes de redes clientelistas, e não de controle social de
fato
Um panorama dos movimentos sociais neste novo milênio pode ser descrito
em torno de 13 eixos temáticos, que envolvem as seguintes lutas e demandas (Gohn,
2010):
1. Movimentos sociais em torno da questão urbana, pela inclusão social e por condições de
habitabilidade na cidade. Exemplos:
a. Movimentos pela moradia, expresso em duas frentes de luta: articulação de redes sociopolíticas
compostas por intelectuais de centro-esquerda e movimentos populares que militam ao redor do
tema urbano (o hábitat, a cidade propriamente dita). Eles participaram do processo de construção e
obtenção do Estatuto da Cidade; redes de movimentos sociais populares dos Sem-Teto (moradores
de ruas e participantes de ocupações de prédios abandonados), apoiados por pastorais da Igreja
Católica e outras;
b. Movimentos e ações de grupos de camadas médias contra a violência urbana e demandas
pela paz (no trânsito, nas ruas, escolas, ações contra as pessoas e seu patrimônio etc.);
c. Mobilizações e movimentos de recuperação de estruturas ambientais, físico-espaciais
(como praças, parques), assim como de equipamentos e serviços coletivos (área da saúde,
educação, lazer, esportes e outros serviços públicos degradados nos últimos anos pelas políticas
30
neoliberais); ou ainda mobilizações de segmentos atingidos pelos projetos de modernização ou
expansão de serviços.
2. Mobilização e organização popular em torno de estruturas institucionais de participação
na gestão política-administrativa da cidade:
a. Orçamento Participativo e Conselhos Gestores (saúde, educação, assistência social, criança e
adolescente, idoso);
b. Conselhos da Condição Feminina, Populações Afrodescendentes etc.
3. Movimentos em torno da questão da saúde, como:
a. Sistema Único de Saúde (SUS);
b. Conferências nacionais, estaduais e municipais da saúde;
c. Agentes comunitários de saúde;
d. Portadores de necessidades especiais;
e. Portadores de doenças específicas: insuficiência renal, lúpus, Parkinson, mal de Alzheimer,
câncer, doenças do coração etc.
4. Movimentos de demandas na área do direito:
a. Humanos: situação nos presídios, presos políticos, situações de guerra etc.;
b. Culturais: preservação e defesa das culturas locais, patrimônio e cultura das etnias dos povos.
5. Mobilizações e movimentos sindicais contra o desemprego.
6. Movimentos decorrentes de questões religiosas de diferentes crenças, seitas e tradições
religiosas.
7. Mobilizações e movimentos dos sem-terra, na área rural e suas redes de articulação com
as cidades por meio da participação de desempregados e moradores de ruas, nos
31
acampamentos do MST, movimentos dos pequenos produtores agrários, Quebradeiras de
Coco do Nordeste etc.
8. Movimentos contra as políticas neoliberais:
a. Mobilizações contra as reformas estatais que retiram direitos dos trabalhadores do setor privado
e público;
b. Atos contrarreformas das políticas sociais;
c. Denúncias sobre as reformas que privatizam órgãos e aparelhos estatais.
9. Grandes fóruns de mobilização da sociedade civil organizada: contra a globalização
econômica ou alternativa à globalização neoliberal (contra ALCA, por exemplo); o Fórum
Social Mundial (FSM), iniciativa brasileira, com dez edições ocorridas no Brasil e no exterior;
o Fórum Social Brasileiro, inúmeros fóruns sociais regionais e locais; fóruns da educação
(Mundial, de São Paulo); fóruns culturais (jovens, artesões, artistas populares etc.).
10. Movimento das cooperativas populares: material reciclável, produção doméstica
alternativa de alimentos, produção de bens e objetos de consumo, produtos agropecuários
etc. Trata-se de uma grande diversidade de empreendimentos, heterogêneos, unidos ao redor
de estratégias de sobrevivência (trabalho e geração de renda), articulados por ONGs que têm
propostas fundadas na economia solidária, popular e organizados em redes solidárias,
autogestionárias. Muitas dessas ONGs têm matrizes humanistas, propõem a construção de
mudanças socioculturais de ordem ética, a partir de uma economia alternativa que se
contrapõe à economia de mercado capitalista.
11. Mobilizações do Movimento Nacional de Atingidos pelas Barragens, hidrelétricas,
implantação de áreas de fronteiras de exploração mineral ou vegetal etc.
12. Movimentos sociais no setor das comunicações, a exemplo do Fórum Nacional pela
Democratização da Comunicação (FNDC).
32
2011/COPEVE-UFAL/UFAL. No contexto da crise contemporânea do capital, os
movimentos sociais em escala planetária:
a- têm avançado nas suas lutas e ampliado os direitos sociais.
b- têm sofrido um refluxo nas suas lutas, em função das grandes conquistas no campo dos
direitos trabalhistas em expansão.
c- têm-se articulado mundialmente para novas conquistas, frente aos avanços alcançados
no campo dos direitos sociais.
d- estão em refluxo e, na maioria, com lutas pontuais sem terem no seu horizonte a
construção de um novo projeto societário.
e- têm tido uma influência do pensamento pós-moderno no sentido de articular as lutas
localizadas numa dimensão anticapitalista e revolucionária.
Resposta Correta:
Letra d - estão em refluxo e, na maioria, com lutas pontuais sem terem no seu horizonte
a construção de um novo projeto societário.
33
6. A RELAÇÃO DO SERVIÇO SOCIAL COM OS MOVIMENTOS
SOCIAIS NA CONTEMPORANEIDADE
O item trata da incorporação da temática movimentos sociais pelo Serviço
Social, destacando o Movimento de Reconceituação latino-americano e a aproximação
limitada aos sujeitos coletivos organizados e às tendências teórico-críticas.
A incorporação do debate dos movimentos sociais no Serviço Social
A aproximação política com os interesses dos setores populares se deu de forma
tardia na profissão, dado o surgimento do Serviço Social brasileiro atrelado a Doutrina
Social da Igreja Católica e ao viés reformista de tendência empiricista e pragmatista no
continente, alçado nos marcos do pensamento conservador das Ciências Sociais até o final
da década de 1950. Assimilando esses princípios teóricos e políticos, a profissão tem sua
emersão configurada junto a organizações e grupos da classe dominante. Os primeiros
movimentos aos quais o ServiçoSocial se vincula no país são de base militante
tradicional católica – o Apostolado Leigo, a Ação Social e a Ação Católica.
O esforço político e teórico de superação do tradicional surge apenas nos marcos
da década de 1960, expressa no denominado Movimento de Reconceituação latino-
americano, que tem seus mais profícuos rebatimentos no Brasil na segunda metade dos
anos 1970. As alterações e diferenciações no interior da mesma profissão e a luta por
hegemonia entre distintas perspectivas críticas ao Serviço Social tradicional – de
modernização e de ruptura – são expressão da complexa relação entre os determinantes
das transformações societárias e o que é constitutivo da própria profissão. O Serviço Social
sofre a influência macros societária do período, de profundas mudanças econômicas,
34
sociais, políticas e ideoculturais, oriundas do exaurimento do padrão rígido de acumulação
capitalista e das consequentes respostas que lhe são dadas pelo movimento das classes
sociais em confronto.
Netto (1981, p.60) compreende por Serviço Social tradicional a prática profissional
empirista, reiterativa, paliativa e burocratizada. Esse se fundamenta em uma ética liberal
burguesa e sua teleologia consiste na correção funcionalista de resultantes psicossociais
considerados negativos ou indesejáveis, sempre pressupostos a ordenação capitalista da
vida como um dado factual ineliminável.
O movimento de contestação aos fundamentos tradicionais do Serviço Social
circunscreve-se na conjuntura continental de neocolonização, típica do capitalismo
monopolista. Apesar das particularidades que envolviam a formação histórica das nações
latino-americanas, elas configuravam-se como os últimos espaços disponíveis para a
expansão do capital. Em um contexto de Guerra Fria pós-1945, o tensionamento das
estruturas sociais do mundo capitalista refletiam duas opções: a incorporação subordinada
e dependente ao império econômico das grandes corporações através do reformismo-
desenvolvimentista, ou a perspectiva revolucionária socialista de rompimento das amarras
imperialistas, como vista no advento das democracias populares e na revolução cubana.
O caráter político da transferência desse padrão de acumulação previa, como
condicionante econômico, a estabilidade na relação entre as classes. Para tanto,
estabilidade se convertia no lema autocrático estadunidense “[...] desenvolvimento com
segurança [...]”, pela elevada centralização do poder das burguesias e dos governos pró-
capitalistas das nações periféricas (FERNANDES, 1976, p.251-255).
Conforme Iamamoto (2002), os rebatimentos desse contexto incidiram fortemente
sobre a profissão, tanto no que diz respeito aos novos projetos, recursos materiais e
humanos exigidos, como pela repercussão no que lhe é constitutivo: a matéria sobre a qual
opera e suas respectivas áreas de atuação e unidade profissional.
O Método BH, proposto pela Escola de Serviço Social da Universidade Católica de Minas
Gerais formulou um novo projeto profissional, alicerçado na ruptura com o tradicionalismo.
A unidade profissional constituía-se na crítica ao caráter asséptico e transclassista
tradicional; o objeto de atuação seria a “[...] ação social da classe oprimida [...]”; e os
objetivos profissionais constariam em dois âmbitos: o objetivo-meta – “[...] a transformação
da sociedade e do homem [...]” e os objetivos-meios – “[...] a conscientização, a
capacitação e a organização [...]” (NETTO, 2007, p.279).
35
O reconhecimento do Serviço Social como profissão, dada sua laicização e
afirmação enquanto categoria profissional assalariada esteve diretamente vinculada às
bases econômicas, sociais e políticas da organização monopólica. Na medida em que se
acentuavam as disparidades, outros projetos de sociedade ganharam espaço no interior
da profissão, ultrapassando os limites do “[...] compósito referencial ideal incorporado pelo
projeto sócio-político conservador próprio à burguesia monopolista” (NETTO, 2007, p.128).
A contradição entre a mobilização popular e o projeto reformista autocrático-
burguês, presente nas relações periféricas de dependência, imprimiu ao Serviço Social no
seu complexo teórico, prático e político um repensar de autocrítica e contestação,
constituindo as bases necessárias para a negação do tônus humanista-cristão e da prática
assistencialista que incorporou em sua gênese histórica e trajetória profissional. O repensar
de abrangência continental assume acentuada radicalidade na tendência político-
ideológica de ruptura com o tradicionalismo, enquanto projeto vivo de mudanças
profissionais, inscrito na “[...] dinâmica de rompimento das amarras imperialistas, de luta
pela libertação nacional e de transformações da estrutura capitalista excludente,
concentradora e exploradora” (FALEIROS, 1986, p.51). Esta tendência profissional
apenas foi possível através da construção de uma relação orgânica com os
movimentos sociais, viabilizada por dois condicionantes conjunturais e acadêmicos:
a emersão das organizações de classe dos trabalhadores e a interlocução com a
tradição marxista.
O primeiro condicionante, a organização da classe trabalhadora, se configurou
na conjuntura internacional da década de 1960 (delimitada pela crise de legitimidade da
ordem burguesa, pelo questionamento às instituições, órgãos estatais e ao
acirramento das desigualdades) por uma ação de cariz revolucionário, como o “[...]
principal elemento de transbordamento, ruptura e confrontação” (ANTUNES, 2006,
p.41). À ebulição das ações dos trabalhadores questionando os pilares fundantes da
sociabilidade do capital somava-se a emersão de novos atores sociais: os denominados
movimentos contra culturais e novos movimentos sociais (movimentos étnicos, ecológicos,
urbanos, antinucleares, feministas, etc.). A presença desses novos sujeitos políticos
36
organizados, comprometidos com projetos nacional-populares e democráticos, somados à
ação político-partidária e sindical, desencadeou um processo intenso de lutas, com
fecundos rebatimentos nos países de capitalismo dependente.
Na América Latina, onde se desenvolvia um forte sentimento de libertação nacional
e social, gestaram-se as condições políticas propícias à organização e mobilização de
diversificados sujeitos coletivos, dos quais se destacam especialmente dois: os
diretamente vinculados à Igreja Católica através da Teologia da Libertação: as
Comunidades Eclesiais de Base (CEB´s), a Ação Popular (AP), a Juventude Universitária
Católica (JUC) e a Juventude Operária Católica (JOC), e os envolvidos com a Educação
Popular, de influência de Paulo Freire: o Movimento de Educação de Base (MEB). Críticos
às ditaduras de esquerda e ao socialismo real de totalitarismo stalinista, tais organizações
eram imbuídas de uma leitura marxista “[...] humanista e militante [...]”, a qual valorizava
como protagonista histórico o povo e o popular (FALEIROS, 1986, p.59). Esses
movimentos propunham como norte um “[...] socialismo humanista [...]”, a ser alcançado
através da estratégia revolucionária, que, além do trabalho de conscientização,
pressupunha ação insurrecional.
O segundo condicionante, os condutos teóricos da tradição marxista, eram, em
grande parte, responsáveis pela forma como o Serviço Social realizou sua aproximação a
temática dos movimentos sociais, no bojo das contradições do Movimento de
Reconceituação. A interlocução entre os setores progressistas da profissão e o amplo e
heterogêneo universo marxista foi perpassada por avanços e limites. Possibilitou tanto a
polarização entre discussões e propostas, a contestação pública ao pensamento
conservador,a ruptura com a imagem de uma profissão homogênea presente nos marcos
do tradicionalismo, como foi acompanhada por “[...] inúmeros equívocos e impasses
teóricos, políticos e profissionais” (IAMAMOTO, 2001, p.210). Tendo por influência as
correntes críticas das Ciências Sociais e da Pedagogia, a vertente de ruptura do Serviço
Social promove uma diluição do pensamento marxiano, substituindo-o por uma
documentação primária de terceiros (SILVA e SILVA, 2002, p.79).
A plural organização política latino-americana, possuidora de um rol eclético de
influências, das encíclicas de João XXIII a Paulo Freire, perpassando clássicos da
militância marxista (Lênin, Trotsky, Mao e Guevara), foi a principal referência pela qual se
deu a aproximação profissional com o universo marxista. O traço mais evidente desse
diálogo é a ausência da teoria de Marx, tendo por condutos teóricos manuais de divulgação
37
do “[...] marxismo oficial [...]”, de influência neopositivistas, “[...] cujas produções foram
seletivamente apropriadas, numa ótica utilitária, em função de exigências prático-
imediatas, prescindindo-se de qualquer avaliação crítica” (IAMAMOTO, 2001, p.211).
Segundo Netto (2007, p.149) o ecletismo das elaborações reconceptualizadas
envolveu principalmente três circunstâncias: a recusa à importação de teorias, por meio
da crítica à produção estadunidense e a valorização autóctone, vista como “[...] necessária
ao fortalecimento das ideologias na América Latina [...]”; o confucionismo ideológico, que
buscou sintetizar sobre um mesmo dogmatismo as inquietudes da esquerda cristã às
gerações não ortodoxas e não tradicionais; e, por fim, o reducionismo próprio ao ativismo
político, ao qual são precursores Manoel Zabala, Herman Zabala e Juan Mojica, que
propunham “[...] a abolição de toda metodologia”, numa clara defesa da transformação do
profissional em militante e de negação da esfera estatal (FALEIROS, 1986, p.61). Nesta
inicial interlocução do Serviço Social com os movimentos sociais, Iamamoto (2004, p.156)
identifica a construção de um imaginário imaturo e ingênuo das possibilidades
revolucionárias da prática profissional, a partir de uma “[...] superestimação do potencial
político do papel profissional, aproximando-se de uma visão messiânica e heroica [...]”.
Apesar das múltiplas dimensões que a aliança entre o Serviço Social e os sujeitos
coletivos abrangeu – conduto teórico, espaço político-profissional organizativo e área de
intervenção profissional – o curto lapso temporal do Movimento de Reconceituação
não permitiu um aprofundamento desta relação, de forma a superar suas
contradições e impasses teóricos. O exaurimento dos espaços políticos democráticos
pela hegemonia da perspectiva burguesa de modernização por vias ditatoriais abortou o
amadurecimento e avanço dos principais polos renovadores, sobretudo em países como
Chile, Argentina e Uruguai. O discurso não ultrapassou os limites da “[...] fé no povo e na
ação dos agentes, chamando de revolução as mudanças dos sujeitos no sentido da
participação, mas adotando as mesmas mediações práticas do processo tecnocrático”
(FALEIROS, 1986, p.60).
É no Brasil, em um desenvolvimento ainda que tardio do processo reconceituador – ao
fim do processo autocrático burguês – que a relação entre o Serviço Social e os
movimentos sociais ganhou novos contornos, em uma conjuntura histórica propícia a
mudanças e transformações.
38
O segundo item trata especificamente do Brasil, do processo de renovação
profissional tardia, viabilizada pela redemocratização vivenciada nos anos 80 e sua
incidência no Serviço Social, em um contexto de ascensão do movimento operário e das
lutas sociais. Ressalta-se, que este momento conduz a uma diferenciada interlocução
com os trabalhadores e seus instrumentos de classe, edificando as bases políticas
necessárias para a construção de um projeto profissional contra hegemônico,
fundamentado na perspectiva marxista.
A reorganização política da classe trabalhadora brasileira e o Serviço Social
Nos marcos da insurgência do processo reconceituador na América Latina, o
Brasil vivia um período de profundas transformações político-econômicas. O sistema
democrático fortalecido nos anos 1960, diante da proposta populista de maior radicalização
apresentada pelo governo de João Goulart, proporcionou as condições necessárias para
o surgimento e legalidade de organizações político-partidárias de inspiração socialista
revolucionária, a ampliação das lutas por direitos sociais básicos até o momento negados
e a emersão de diversificados protagonistas no quadro da esquerda marxista. Dentre as
organizações da esquerda marxista no período pré-golpe destacam-se em 1961 a
organização revolucionária Política Operária (POLOP), simpatizante de Rosa Luxemburg
e Trotsky e a criação em 1962 do Partido Comunista do Brasil (PC do B), fruto de uma
cisão de segmentos do PCB.
Mediante a agitação política que conquista força no Brasil e na América
Latina, se esboçam na profissão algumas tentativas de vinculação da ação
profissional aos processos e lutas por mudanças (SILVA e SILVA, 2002). A conjuntura
inédita de formação de uma consciência nacional-popular, com a participação de
significativos setores sociais na luta por reformas estruturais e de base, aliada a construção
de uma política pública abrangente, produz consideráveis rebatimentos nos quadros mais
jovens de assistentes sociais. No espírito da época – de aprofundamento do processo
democrático na sociedade e no Estado – confluem distintas expectativas, ganhando
espaço, ainda que incipiente e sobre um segmento limitado, uma dinâmica de erosão das
expressões consagradas do Serviço Social.
Netto (2007) reconhece, neste primeiro momento de renovação do Serviço
Social, quatro condutos de mediação com os detonadores externos de seu viés
tradicional:
39
O primeiro remete ao próprio amadurecimento de setores da categoria profissional, na sua
relação com outros protagonistas (profissionais nas equipes multiprofissionais; sociais e
grupos da população politicamente organizados) e outras instâncias (núcleos
administrativos e políticos do Estado).
O segundo refere-se [...] a emersão de católicos progressistas e mesmo de uma esquerda
católica com ativa militância cívica e política que afeta sensivelmente a categoria
profissional. O terceiro é o espraiar do movimento estudantil, que faz seu ingresso nas
escolas de Serviço Social. O quarto é o referencial próprio de parte significativa das
ciências sociais do período, imanta por dimensões críticas e nacional-populares (NETTO,
2007, p.140-141).
É a partir de tais vetores, condicionados por uma conjuntura nacional e internacional
desenvolvimentista que supunha novas exigências e atribuições que não mais o
caso/grupo, que se gestam através de novos referenciais teórico-metodológicos as
possibilidades de uma inicial relação profissional com os movimentos sociais. O
Desenvolvimento de Comunidade no Brasil, aliado a uma política governamental de
bases
populista e reformista, cria os determinantes para proposições que ultrapassem a
esfera modernizadora e acrítica. A aproximação com novos sujeitos coletivos,
sobretudo, o Movimento de Educação de Base (MEB), consolida uma vertente
diferenciada deste método, a qual se aproxima do método materialista-histórico e
assim, da luta pela hegemonia das classes subordinadas (AMMANN, 2009, p.98-99).
Segundo Ammann (2009) o MEB caracterizou-se como um programa de
Desenvolvimento de Comunidade, realizando uma ação abrangente nas áreas de
educação, trabalho, culturapopular, sindicalismo rural, etc.
2009/CESPE/FUB. O movimento social, no âmbito das relações sociais, pode ser
entendido como uma ação coletiva de caráter contestador, objetivando apenas a
transformação da ordem estabelecida na sociedade.
40
Certo / Errado
Resposta Correta: Errado.
Comentário:
Observa-se que relações de classe e movimentos sociais são indissociáveis, e, como
movimento de classe, o movimento social é composto pela combinação de elementos
inseparáveis: princípio de identidade, de oposição e princípio de totalidade, que se
inscrevem no coração das relações sociais. Safira Ammann toma como premissa analítica
que o elemento constitutivo do movimento social é a contestação e todo movimento carrega
o germe da insatisfação no seio das relações sociais, que redundam em situações
indesejáveis para um grupo ou para a sociedade, sejam elas, presentes ou futuras.
Portanto, movimento social é uma ação coletiva de caráter contestador, no âmbito das
relações sociais, objetivando a transformação ou a preservação da ordem estabelecida na
sociedade (1991). (O erro da questão se encontra na palavra apenas).
O primário diálogo do Serviço Social com os movimentos sociais críticos é
temporariamente abortado. O golpe militar de 1964 interrompe o cenário de mobilização
popular e “[...] neutraliza os protagonistas sociopolíticos comprometidos com a
democratização da sociedade e do Estado, cortando os efetivos suportes que poderiam
dar um encaminhamento crítico e progressista ao Serviço Social” (NETTO, 2007, p. 141).
Contudo, é a autocracia burguesa que possibilita à profissão um amplo
processo de renovação. O aprofundamento da expansão monopolista, que alterou o
processo de produção e reorganizou o aparelho do Estado, criou as condições históricas
para a gestação dos pilares de um novo perfil da categoria profissional (IAMAMOTO, 2001).
Consolida-se, nesse período, um mercado profissional macroscópico, laicizado e
centralizado e um novo padrão acadêmico em nível de graduação e pós-graduação.
Essa maturação acadêmica e profissional, gestada em pleno período da ditadura
militar, vai permitir que o Serviço Social se posicione de forma diferente, afinado ao
alvorecer do processo de redemocratização da sociedade e do Estado, em conjunto com
os sujeitos coletivos que se manifestam no cenário social brasileiro.
Segundo Souza (1985), a descoberta do assistente social enquanto parte da classe
trabalhadora o leva a alternativas políticas e profissionais junto aos movimentos sociais,
intensificando as aspirações democráticas e populares, ampliando os espaços de
participação, poder e pressão desta categoria profissional.
41
A primeira manifestação desse envolvimento político se deu através da
articulação político-organizativa da profissão via entidades da categoria que demarcam a
inserção de um segmento de profissionais nas lutas sociais em curso na sociedade. A
expressão mais forte desse processo organizativo da categoria foi a criação da
Associação Nacional dos Assistentes Sociais (ANAS), fundada em 1983. Coube a
essa entidade fortalecer os vínculos da profissão com as lutas gerais da classe
trabalhadora, além de garantir o encaminhamento das demandas específicas da categoria,
tais como o plano de cargos e carreiras dos servidores públicos federais (PCC) e as
condições de trabalho, salário e carga horária dos assistentes sociais.
Segundo Abramides e Cabral (2009), entre as bandeiras a que se vincula essa
entidade sindical destacam-se: a luta pela Reforma Sanitária e implantação do Sistema
Único de Saúde, o SUS; a luta pela Reforma Urbana, por políticas habitacionais e
ambientais, pela posse da terra nas favelas, pelo direito à moradia, cidade e justiça; a luta
pelo transporte de qualidade; a luta pelas creches como direito da infância, das mulheres
e homens trabalhadores; o combate à discriminação e opressão de classe, gênero, raça,
etnia e orientação sexual; e, especialmente, a defesa de políticas sociais específicas para
mulheres, crianças e adolescentes, população em situação de rua, negros, indígenas,
idosos e livre orientação sexual.
Segundo as autoras, o vínculo dessa entidade com as lutas mais gerais, na sua
relação com os espaços sócios ocupacionais dos assistentes sociais, potencializa “[...] a
inter-relação do exercício profissional com os movimentos sociais de luta por direitos, que
ganha estatura no âmbito da luta institucional, a partir da promulgação da Constituição em
1988” (ABRAMIDES; CABRAL, 2009, p.97).
É a partir desta organização dos assistentes sociais, como trabalhadores e
com os trabalhadores, que se pode pensar no estabelecimento de um vínculo
orgânico do Serviço Social com os movimentos sociais. Contudo, se a dimensão
político-organizativa e a inserção profissional nas instâncias de luta dos trabalhadores
foram as bases de rearticulação do Serviço Social com os movimentos sociais, o seu
aprofundamento só se dará na medida em que a profissão ganha maioridade teórica e
intelectual.
É sobretudo com Iamamoto (1982), que o Serviço Social estabelece a
interlocução com a teoria social de Marx, o que lhe possibilita desvendar o
significado social da profissão. Torna-se hegemônica uma abordagem que compreende
a profissão inserida na dinâmica das relações sociais capitalistas, participando do processo
42
de reprodução dessas relações e de seus interesses contrapostos, respondendo através
de sua intervenção a demandas tanto do capital como do trabalho. A contradição de sua
prática é assim identificada no atendimento “[...] as necessidades de sobrevivência da
classe trabalhadora e da reprodução do antagonismo desses interesses sociais, reforçando
as contradições que constituem o motor básico da história” (IAMAMOTO, 2004, p. 99).
Esse referencial vai sendo incorporado a um segmento considerável da
categoria e ganha novos contornos nos anos posteriores, o que possibilita a
inserção dos profissionais nas lutas dos trabalhadores em outro nível, a partir da
conjuntura de democratização da sociedade e de ascensão das lutas dos
trabalhadores. Ao se reconhecerem como profissionais assalariados, os assistentes
sociais se inserem junto aos movimentos sociais, na maioria das vezes, via instituições
empregadoras ou em instituições de organização autônoma da classe trabalhadora, como
os sindicatos (CARDOSO; LOPES, 2009). Rompem, com isso, com as referências que
orientaram a relação do Serviço Social com as lutas sociais no período do Movimento de
Reconceituação, que ao negar a instância estatal colocava no mesmo patamar a prática
profissional e a prática política.
Na esteira do processo de democratização das instituições, do fortalecimento das
lutas pela democratização e por direitos de cidadania, os assistentes sociais passam a se
inserir junto aos setores organizados da sociedade incentivando os processos
organizativos e apoiando as lutas e reivindicações.
Nessa mesma direção estão as experiências profissionais vinculadas aos setores
organizados nos espaços urbanos das grandes cidades, principalmente as associações de
moradores, os clubes juvenis e demais organizações urbanas. Tais experiências foram
fundamentais para adensar o debate acerca dos movimentos sociais no Serviço Social e
possibilitam uma interlocução mais estreita com as ciências sociais, mais especificamente
com a discussão acerca dos movimentos sociais urbanos.
Muitas reflexões originam-se da forte presença do assistente social nas lutas
e reivindicações dos trabalhadores pela consolidação e ampliação dos direitos de
cidadania que antecedem a formulação da Constituiçãode 88, principalmente a partir
de meados da década de 80. Ganha status o debate acerca das políticas sociais, que se
colocam como um espaço em disputa. Afigurando-se, portando, em objeto de reivindicação
de segmentos organizados da sociedade.
Alguns profissionais se inserem nos espaços de luta dos trabalhadores e, para isso
se utilizam de diversas propostas metodológicas. Segundo Silva (2005), esses
43
profissionais estão orientados por um compromisso com os setores populares,
considerando como espaços de intervenção profissional “as instituições estatais,
empresas privadas e movimentos sociais” (SILVA, 2002, p.173).
A autora destaca que tal proposta apresenta como estratégias básicas para
viabilizar, operativamente, o novo projeto profissional junto aos setores populares
alguns recursos e instrumentos:
* Formação de alianças, como meio de construção de um poder compartilhado entre
técnicos, profissionais, sindicatos e grupos das classes dominadas, com o objetivo de
alterar a correlação de forças, “[...] tanto no interior das instituições como na sociedade
civil, através do apoio às lutas dos movimentos sociais populares” (SILVA e SILVA,
2002, p. 175);
* Educação Popular, de influência de autores da pedagogia, sobretudo Paulo Freire –
com vistas a constituir uma dimensão educativa libertadora na formação profissional,
possibilitando ao assistente social captar o cotidiano de vida e trabalho dos setores
populares refletindo com os mesmos sobre sua realidade, apoiando suas formas de
organização e reivindicação de direitos, auxiliando-os a sistematizar sua própria prática
de vida e a assumir a direção do processo político;
* Investigação-ação, enquanto procedimento metodológico utilizado no exercício
profissional com os movimentos sociais urbanos, em experiências de campo-piloto de
universidades e instituições públicas, considerada como “[...] o caminho mais correto
para o estabelecimento da unidade dialética teoria-prática, como forma de superar o
teoricismo e o pragmatismo, conferindo uma direção prática ao conhecimento”
(RAICHELIS, 1982, p.76);
* E, por fim, como quarto eixo articulador da proposta de ação profissional, a assessoria
aos movimentos sociais, tendo por objetivo a contribuição efetiva “[...] no processo
de conscientização, mobilização e organização da população explorada, a fim de
capacitá-la para que se converta em agente de seu próprio desenvolvimento e sujeito
da transformação social”.
De acordo com Raichelis (1982), a incorporação desses eixos ampliou as
possibilidades de escolha por uma prática articulada política-ideologicamente ao projeto
societário contra hegemônico da classe trabalhadora e criou as bases para o
estabelecimento de um vínculo orgânico aos interesses populares, no âmbito da formação
profissional, da organização político-sindical da categoria e do trabalho em instituições
públicas e privadas. A colaboração do assistente social aos movimentos sociais é pensada,
44
portanto, “[...] nas ações concretas com o objetivo de, por um lado, instrumentalizar a
população para exigir melhoria na prestação de serviços por parte do Poder Público e, por
outro, conjugar este processo com o fortalecimento dos mecanismos coletivos de
organização popular” (RAICHELIS, 1982, p. 79).
Embora essa discussão acerca dos movimentos sociais e da prática profissional
nesses espaços represente um avanço se comparado com o debate que realizado pelo
Movimento de Reconceituação, algumas simplificações e equívocos ainda permanecem
no decorrer da década de 80.
O debate e a inserção profissional junto aos movimentos sociais não avançam no
mesmo ritmo que outras discussões realizadas pela profissão e essas lacunas reaparecem,
sob novas bases, a partir da década de 90.
2009/CESPE/FUB. O processo de mobilização social desenvolvido pelo assistente
social em uma perspectiva crítica visa à organização das classes subalternas,
gerando e socializando conhecimentos que fortaleçam um projeto emancipatório.
Certo / Errado
Resposta: Certo.
Comentário: A participação popular é, elemento central do processo de politização das
relações sociais e de intervenção crítica e consciente dessas classes no movimento
histórico e do desenvolvimento teórico-político da profissão (ABREU, 2004).
QUESTÕES
1. 2012/FCC/TRF - 2ªR. O potencial de formação de redes de movimentos sociais
pode ser expresso a partir:
45
a- do universalismo abstrato, sem referência concreta e substantiva ao cotidiano dos
sujeitos submetidos à exclusão ou à discriminação.
b- do sentido individual atribuído à carência vivenciada no dia a dia do sujeito e a
possibilidade de sua identificação objetiva em torno dela.
c- da capacidade de atuar isoladamente com as várias dimensões, entendidas como as
condições materiais de existência, condições simbólicas de sua reprodução e políticas
decorrentes.
d- da busca dos nexos que os atores políticos organizados constroem entre as demandas
materiais e o sentido subjetivo das privações, criando identidades coletivas.
e- da possibilidade de se ater nas demandas restritas às condições materiais individuais
que dizem respeito a um conjunto de exclusões sociais alusivo a determinado segmento
populacional
2. 2009/CESPE/FUB. O universo referencial dos movimentos sociais pode estar
vinculado a uma classe social, uma etnia, uma religião, um partido político ou a
outras categorias sociais.
Certo / Errado
3. 2012/FCC/TJ-PE. Na abordagem clássica, a ideia é a de que os movimentos sociais
existem quando há:
I. Um princípio de identidade construído coletivamente ou de identificação em torno de
interesses e valores comuns no campo da cidadania.
II. Definição coletiva de um campo de conflitos e dos adversários centrais nesse campo.
III. A construção de projeto de transformação ou de utopias de mudança social nos campos
societário, cultural ou sistêmico.
Está correto o que se afirma em:
a- I, apenas. d- I e II, apenas.
b- II, apenas. e- I, II e III.
c- III, apenas.
46
4. 2012/FCC/MPE-AP. Maria da Glória Gohn (1997) ao estudar a teoria dos
movimentos sociais conclui que:
I. eles são fluídos, fragmentados e perpassados por outros processos sociais, como uma
teia de aranha eles tecem redes que se quebram facilmente, dada a sua fragilidade.
II. eles são como as ondas do mar que vão e voltam, constroem ciclos na história, ora
delineando fenômenos bem configurados, ora saindo nas sombras e penumbras, como
névoa esvoaçante.
III. os movimentos progressistas contribuem para a redefinição das utopias, para restaurar
a esperança e a crença de que vale a pena lutar por uma sociedade mais justa e igualitária.
Está correto o que se afirma em:
a- I, apenas. d- I e II, apenas.
b- II, apenas. e- I, II e III.
c- III, apenas.
5. 2013/FCC/TRT - 15ª R. Gohn (2010) afirma que há atores sociais que são sujeitos
sócio políticos, cujas ações coletivas estão voltadas para os problemas sociais,
econômicos, culturais e ambientais públicos em direção à superação das
desigualdades sociais. Para a autora, são esses sujeitos:
I. Movimentos Sociais propriamente ditos.
II. Redes de mobilização compostas por associações de várias naturezas, incluindo as
Organizações Não Governamentais - ONGs, fóruns, plenárias e articulações nacionais e
transnacionais.
III. Conselhos institucionalizados que atuam na esfera pública estatal.
Está correto o que se afirma em:
a- I, apenas. d- I e III, apenas.
b- I eII, apenas. e- I, II e III.
c- II e III, apenas.
6. 2012/FCC/ TRF-2ª R. No final dos anos de 1970, a nova cidadania, ou cidadania
ampliada, que começou a ser formulada pelos movimentos sociais, pode ser
compreendida como:
47
a- uma concepção que se limita à provisão de direitos legais e ao acesso a direitos
definidos previamente.
b- vinculada a uma estratégia das classes dominantes e do Estado de incorporação política
gradual dos setores excluídos.
c- constituição de sujeitos sociais ativos - agentes políticos -, definindo o que consideram
ser seus direitos e lutando para seu reconhecimento.
d- uma ideia baseada e fixada em uma referência central e no significado do conceito
liberal.
e- aquela que está mais confinada dentro dos limites das relações com o Estado, ou entre
Estado e indivíduos.
7. 2012/FCC/MPE-PE. Para Carvalho (1998), o processo constituinte, o amplo
movimento de “Participação Popular na Constituinte”, marca uma nova fase dos
movimentos sociais porque se caracteriza como:
a- momento em que as experiências da fase anterior são sistematizadas e traduzidas em
propostas políticas mais elaboradas e levadas aos canais institucionais conquistados.
b- predominantemente reivindicativa, de ação direta ou “de rua”, com a manutenção de
relações de subordinação e de tutela por parte do Estado e dos partidos.
c reivindicação de participar, apenas para obter ou garantir direitos já conquistados ao
longo do processo histórico de participação popular.
d- atrelamento às proposições populistas, corrente de pensamento político que se colocava
a serviço do interesse público e coletivo para o fortalecimento dos espaços públicos.
e- estabelecimento de relações de tutela pelo “centralismo democrático” do partido
comunista, que focava sua luta pela manutenção da ordem geral da sociedade e,
consequentemente, pela superação das condições de vulnerabilidade social.
8. 2012/VUNES/TJ-SP. Os movimentos sociais latino-americanos ocuparam o centro
do cenário político na década de 1990 a partir de resistências contra as privatizações
e os programas de ajuste estrutural. É nesse contexto que ocorre o incremento da
resistência e da luta popular na América Latina, que abarca as mais diversas formas
de protesto social. No Brasil, ainda nos anos 90, surgem também mobilizações
coletivas centradas mais em questões________________ com mobilizações que
partem de um chamamento à consciência individual das pessoas, apresentando-se
mais como___________ do que como movimentos sociais.
Assinale a alternativa que completa, correta e respectivamente, as lacunas do texto.
48
a- éticas e morais … campanhas
b- jurídicas e operacionais … paralisações
c- políticas e culturais … agitações
d- econômicas e estruturais … piquetes
e- legais e pessoais … manifestações
9. 2009/CESPE/FUB. A institucionalização da participação popular em conselhos e
conferências de políticas e de direitos, nos anos 90 do século passado, contribuiu
para o fortalecimento dos movimentos sociais no Brasil.
Certo / Errado
10. 2010/CESPE/RE-BA. Recorrer ao indicador participação e controle social
democrático implica discutir o papel e as atribuições dos movimentos sociais e dos
conselhos de gestão, instituídos após a publicação da Constituição Federal de 1988.
Certo/ Errado
11. 2015/CETRO/MDS. Sobre a relação entre o Estado e a chamada Sociedade Civil
na Constituição da Política Social Brasileira nas últimas décadas, assinale a
alternativa correta.
a- Os chamados movimentos sociais da década de 1980 caracterizam-se pelo seu caráter
meramente sugestivo, sem intenção de efetiva reivindicação.
b- Somente na década de 1990 que os chamados movimentos sociais passam a deter
caráter reivindicatório, podendo-se destacar o movimento de impeachment do então
Presidente da República.
c- Na década de 1990, a ideia de participação social passa a ser vista como sendo
“solidária” por meio de trabalho de voluntariado e concepção de responsabilidade social de
indivíduos e empresas.
d- Com a politização da participação da sociedade civil na década de 1990, focada em
valores morais e conectada com o coletivo, constatam-se um desenvolvimento e
amadurecimento na ocupação de espaços públicos participativos.
e- Na década de 1980, por opressão do regime da época, há uma clara despolitização do
significado de participação social, havendo uma ênfase à participação individualista, ligada
49
a valores morais por meio de ações de responsabilidade social de indivíduos, empresas e
movimentos ligados a instituições religiosas.
12. 2011/CESGRANRIO/ FINEP. Do ponto de vista conceitual, é correto afirmar que
movimento social e organização não governamental (ONG) são organizações de:
a- mesma natureza e que se sucedem no tempo.
b- mesma natureza e uma pode ser ferramenta da outra.
c- mesma natureza e pressupõem a mobilização social
d- natureza diversa, porque o movimento social constitui uma atividade que se esgota em
si mesma quando concluída.
e- natureza diversa, porque o movimento social é conformado por sujeitos que se
mobilizam em prol de interesses próprios.
13. 2011/COPEVE-UFAL/UFAL. No contexto da crise contemporânea do capital, os
movimentos sociais em escala planetária:
a- têm avançado nas suas lutas e ampliado os direitos sociais.
b- têm sofrido um refluxo nas suas lutas, em função das grandes conquistas no campo dos
direitos trabalhistas em expansão.
c- têm-se articulado mundialmente para novas conquistas, frente aos avanços alcançados
no campo dos direitos sociais.
d- estão em refluxo e, na maioria, com lutas pontuais sem terem no seu horizonte a
construção de um novo projeto societário.
e- têm tido uma influência do pensamento pós-moderno no sentido de articular as lutas
localizadas numa dimensão anticapitalista e revolucionária.
14. 2009/CESPE/FUB. O movimento social, no âmbito das relações sociais, pode ser
entendido como uma ação coletiva de caráter contestador, objetivando apenas a
transformação da ordem estabelecida na sociedade.
Certo / Errado
15. 2009/CESPE/FUB. O processo de mobilização social desenvolvido pelo
assistente social em uma perspectiva crítica visa à organização das classes
50
subalternas, gerando e socializando conhecimentos que fortaleçam um projeto
emancipatório.
Certo / Errado
16. 2012/CESPE/MPE-PI. O Estatuto da Igualdade Racial, instituído em 2010,
considera população negra o conjunto de pessoas que se autodeclaram pretas e
pardas, conforme o quesito cor ou raça usado pelo Instituto Brasileiro de Geografia
e Estatística.
Certo / Errado
17. 2011/FESMIP-BA/MPE-BA. O Estatuto da Igualdade Racial, destinado a garantir a
população negra a efetivação da igualdade de oportunidades, a defesa dos direitos
étnicos individuais, coletivos e difusos e o combate à discriminação e as demais
formas de intolerância étnica. Com base nesse importante marco legal, pode-se
afirmar que:
a- discriminação racial ou étnico-racial é toda distinção ou exclusão, restrição ou
preferência baseada apenas na descendência ou origem nacional e que tenha por objeto
anular ou restringir a igualdade de condições.
b- desigualdade racial é toda situação injustificada de diferenciação de acesso e fruição de
bens, serviços e oportunidades, nas esferas pública e privada, em virtude de raça, cor,
descendência ou origem nacional ou étnica.
c- desigualdade de gênero e raça é assimetria existente no âmbito da sociedade civil que
acentua a distância social, colocandoas mulheres brancas em uma condição superior as
mulheres índias e ciganas e os demais segmentos sociais.
d- população negra é o conjunto de pessoas que são declaradas pretas ou pardas por
instituições oficiais, conforme o quesito cor ou raça usado pela Fundação Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística (IBGE).
e- ações afirmativas são os programas e medidas especiais adotados apenas pelas
instituições públicas estatais e organizações não governamentais, para a correção das
desigualdades raciais e para a promoção da igualdade de oportunidades.
18. 2010/CESPE/MS A categoria gênero pode ser compreendida como categoria
relacional que busca explicar a igualdade dos seres humanos, restringindo a
discussão à mulher e ao seu papel na sociedade.
51
Certo Errado
19. 2009/FCC/MPE-SE. A perspectiva do empowerment teve e tem ampla
repercussão na prática profissional, seja no quadro de análise da luta de classes,
seja no enfoque de luta contra a discriminação. Essa perspectiva implica:
a- trabalho de capitalização ou patrimonialização dos sujeitos nas dinâmicas das trajetórias
individual e coletiva em que se encontram fragilizados, oprimidos, em diferentes níveis.
b- aumento do poder abstrato de um sujeito genérico.
c- implementação de habilidades dos usuários para resolver seus problemas,
desconsiderando a conjuntura.
d- regulação dos conflitos que venha a favorecer, consolidar e ampliar vantagens de um
grupo em relação aos outros.
e- tornar, como função e significado, a miséria mais aceitável e menos ameaçadora.
20. 2008/OBJETIVA/Prefeitura de Chapecó – SC. Em relação ao empowerment ou
fortalecimento do sujeito, marcar C para as afirmativas Certas, E para as Erradas e,
após, assinalar a alternativa CORRETA:
( ) Deve ser contextualizado a partir das relações sociais mais gerais e complexas.
( ) Se for unilateral, separado e fragmentado, evita a vitimização dos dominados.
( ) Também pode denominar-se correlação de forças.
a- C - E - E. b- C - C - C. c- E - C - C. d- C - E - C.
MOVIMENTOS SOCIAIS PONTOS COMENTADOS
• Universo básico referencial dos Movimentos Sociais pode estar representado por uma
classe social, uma etnia, uma região, uma religião, um partido político, ou por inúmeras outras
categorias. No que tange à classe social, como acertadamente advertiu Gohn (1985 e 1988), tanto
52
a classe dominante como a dominada, com suas respectivas frações, podem constituir-se em
sujeitos sociais dos movimentos, insatisfeitas com as relações sociais vigentes ou propostas.
• Usando como referências os apontamentos de Melucci, Touraine e Castells, Scherer
Warren afirma ainda que “um movimento social existe quando há: (1) um princípio de identidade
construído coletivamente ou de identificação em torno de interesses e valores comuns no campo da
cidadania; (2) a definição coletiva de um campo de conflitos e dos adversários centrais nesse campo;
(3) a construção de projeto de transformação ou de utopias comuns de mudança social nos campos
societário, cultural ou sistêmico.”
• Os movimentos sociais são fluidos, fragmentados, constroem ciclos na história, em
movimentos de claro e escuro e contribuem para a redefinição de utopias.
• Década de 80 Entidades representativas se organizam na articulação em federações
municipais, estaduais e nacionais CUT (Central Única dos Trabalhadores) e do Partido dos
Trabalhadores, Processo constituinte, o amplo movimento de “Participação Popular na Constituinte”,
que elaborou emendas populares e coletou subscrições em todo o país. Momento em que as
experiências da “fase” anterior, predominantemente reivindicativa, de ação direta ou “de rua”, são
sistematizadas e traduzidas em propostas políticas mais elaboradas e levadas aos canais
institucionais conquistados, como a própria iniciativa popular de lei que permitiu as emendas
constituintes.
• Segundo Gonh (2004), nos anos 90, ocorreu o Movimento pela Ética na Política, na fase do
impeachment de Collor. Nesse momento, se redefiniu novamente o cenário das lutas sociais.
Destaca-se ainda que as mobilizações coletivas na década de 1990 partem para o chamamento a
consciência individual das pessoas e elas, usualmente, tem se apresentado mais como
“Campanhas” do que como movimentos sociais.
• Na década de 80 os movimentos sociais estavam articulados e fortalecidos pelo desejo de
redemocratização do país. Em 1988, com a CF, os conselhos se institucionalizaram e em 90 as
contrarreformas neoliberais acarretaram o inverso do que a questão propõem, não houve
fortalecimento dos movimentos sociais e sim a desmobilização destes.
• Empresa-cidadã: uma estratégia de hegemonia. A RSE, para a autora, resulta de um
momento de maior organização do empresariado, que busca intervir na sociedade. Indaga-se se
está em curso no país, desde os anos 1990, uma nova “cultura empresarial”, pautada na concepção
de cidadania: Parece haver, princípio, uma “concordância geral”, no meio empresarial, de que o
exercício da cidadania alavanca um processo histórico de mudanças rumo a uma sociedade com
igualdade e justiça social, pois cada cidadão indiferenciado abandona a postura passiva de “ficar
esperando por uma ação do Estado” e toma para si, por meio da solidariedade e da ajuda mútua, a
responsabilidade de zelar pelo bem comum, semeando um futuro melhor para a coletividade, num
presente sem conflitos e lutas de classe (César, 2005, p. 217-18).
• Observa-se que relações de classe e movimentos sociais são indissociáveis, e, como
movimento de classe, o movimento social é composto pela combinação de elementos inseparáveis:
princípio de identidade, de oposição e princípio de totalidade, que se inscrevem no coração das
relações sociais. Safira Ammann toma como premissa analítica que o elemento constitutivo do
movimento social é a contestação e todo movimento carrega o germe da insatisfação no seio das
relações sociais, que redundam em situações indesejáveis para um grupo ou para a sociedade,
sejam elas, presentes ou futuras. Portanto, movimento social é uma ação coletiva de caráter
contestador, no âmbito das relações sociais, objetivando a transformação ou a preservação da
ordem estabelecida na sociedade (1991). (O erro da questão se encontra na palavra apenas).
53
• A participação popular é, elemento central do processo de politização das relações sociais
e de intervenção crítica e consciente dessas classes no movimento histórico e do desenvolvimento
teórico-político da profissão (ABREU, 2004).
• Parágrafo único. Para efeito do Estatuto de Igualdade Racial, considera-se:
• I - discriminação racial ou étnico-racial: toda distinção, exclusão, restrição ou preferência
baseada em raça, cor, descendência ou origem nacional ou étnica que tenha por objeto anular ou
restringir o reconhecimento, gozo ou exercício, em igualdade de condições, de direitos humanos e
liberdades fundamentais nos campos político, econômico, social, cultural ou em qualquer outro
campo da vida pública ou privada;
• II - desigualdade racial: toda situação injustificada de diferenciação de acesso e fruição de
bens, serviços e oportunidades, nas esferas pública e privada, em virtude de raça, cor, descendência
ou origem nacional ou étnica;
• III - desigualdade de gênero e raça: assimetria existente no âmbito da sociedade que
acentua a distância social entre mulheres negras e os demais segmentos sociais;
• IV - população negra: o conjunto de pessoas que se autodeclaram pretas e pardas,
conforme o quesito cor ou raça usado pela Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE), ou que adotamauto definição análoga;
• V - políticas públicas: as ações, iniciativas e programas adotados pelo Estado no
cumprimento de suas atribuições institucionais;
• VI - ações afirmativas: os programas e medidas especiais adotados pelo Estado e pela
iniciativa privada para a correção das desigualdades raciais e para a promoção da igualdade de
oportunidades.
A construção dos gêneros se dá através da dinâmica das relações sociais. Os seres humanos só
se constroem como tal em relação com os outros. Saffioti (1992, p. 210) considera que não se trata
de perceber apenas corpos que entram em relação com outro. É a totalidade formada pelo corpo,
pelo intelecto, pela emoção, pelo caráter do EU, que entra em relação com o outro. Cada ser
humano é a história de suas relações sociais, perpassadas por antagonismos e contradições de
gênero, classe, raça/etnia. Logo, a alternativa está errada. Não se restringe a mulher e suas relações
na sociedade. É, para além, a relação entre seres humanos e correspondem a um grau determinado
de desenvolvimento de suas forças produtivos materiais.
GABARITO
54
1 D
2 CERTO
3 E
4 E
5 E
6 C
7 A
8 A
9 ERRADA
10 CERTO
11 C
12 E
13 D
14 ERRADO
15 CERTO
16 CERTO
17 B
18 ERRADO
19 A
20 A
BIBLIOGRAFIA
MORO, Maristela Dal. A RELAÇÃO DO SERVIÇO SOCIAL COM OS MOVIMENTOS
SOCIAIS NA CONTEMPORANEIDADE. Acesse: http://bit.ly/2hecHYM
GOHN, Maria da Glória. Movimentos sociais na contemporaneidade. Acesse:
http://bit.ly/1gBBUXI
BEM, Arim Soares do. A CENTRALIDADE DOS MOVIMENTOS SOCIAIS NA
ARTICULAÇÃO ENTRE O ESTADO E A SOCIEDADE BRASILEIRA NOS SÉCULOS XIX
E XX. Acesse: http://bit.ly/2hfZJaB
55
56
57