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JEREMIAS
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 Introdução 
 Plano do livro 
 Capítulo 1 Capítulo 14 Capítulo 27 Capítulo 40 
 Capítulo 2 Capítulo 15 Capítulo 28 Capítulo 41 
 Capítulo 3 Capítulo 16 Capítulo 29 Capítulo 42 
 Capítulo 4 Capítulo 17 Capítulo 30 Capítulo 43 
 Capítulo 5 Capítulo 18 Capítulo 31 Capítulo 44 
 Capítulo 6 Capítulo 19 Capítulo 32 Capítulo 45 
 Capítulo 7 Capítulo 20 Capítulo 33 Capítulo 46 
 Capítulo 8 Capítulo 21 Capítulo 34 Capítulo 47 
 Capítulo 9 Capítulo 22 Capítulo 35 Capítulo 48 
 Capítulo 10 Capítulo 23 Capítulo 36 Capítulo 49 
 Capítulo 11 Capítulo 24 Capítulo 37 Capítulo 50 
 Capítulo 12 Capítulo 25 Capítulo 38 Capítulo 51 
 Capítulo 13 Capítulo 26 Capítulo 39 Capítulo 52 
 
INTRODUÇÃO 
 
I. AMBIENTE HISTÓRICO 
 Quando Deus chamou Jeremias ao ministério profético em 626 
A.C., a Assíria, senhora do mundo, sujeitara Judá ao seu domínio, 
cobrando-lhe tributo. Todavia, a própria Assíria gradualmente 
enfraqueceu, após a morte de Assurbanipal em 633 A. C. Certas 
províncias do império perderam-se em 614 A. C., e outras no cerco final 
de dois anos. Assurubalut foi o último monarca reinante, conservando-se 
em Harran durante, pelo menos, dois anos após a destruição de Nínive 
em 612 A. C. 
 Potencialmente, o trono da Assíria estava aberto a qualquer cabo 
de guerra do tempo. Neco, do Egito, conduziu as suas forças até ao norte 
da Palestina, defrontando e matando Josias, rei de Judá, em Megido em 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 2 
609 A. C., subjugando a Síria e pondo-se novamente em marcha até ao 
Eufrates. Foi, porém, enfrentado por Nabucodonosor da Babilônia, que 
desbaratou os seus exércitos na histórica batalha de Carquemis e o 
obrigou a recuar para as suas próprias fronteiras, pondo, assim, termo 
temporário à ambição egípcia de dominar o Oriente. Foi deste modo que 
Judá, até ali sujeito à Assíria, passou automaticamente para o controle da 
Babilônia. 
 Depois da morte trágica de Josias, o seu povo ungiu Jeoacaz, seu 
filho, rei em seu lugar. Neco, porém, depô-lo a favor de Jeoaquim, seu 
irmão, pensando que ele serviria melhor os interesses egípcios. Que esta 
convicção tinha bons fundamentos prova-o claramente o tratamento a 
que Jeoaquim sujeitou o profeta Jeremias. Depois de Carquemis, 
Nabucodonosor interessou-se menos por Judá, possivelmente por o 
descontentamento em Babilônia exigir o seu regresso imediato após ter 
sido desferido um golpe decisivo contra o Egito. Entretanto, Jeoaquim, 
confiante nas promessas egípcias de auxílio maciço, fez uma tentativa de 
sacudir o jugo de Babilônia. Em resultado disso, em 596 A. C., 
Nabucodonosor, consolidado o seu poder na pátria, atacou Jerusalém, 
prendeu Jeoaquim, filho do rebelde e agora seu sucessor, e levou-o com 
algum do seu povo para o cativeiro. Ao mesmo tempo, pôs Zedequias no 
trono. 
 O Egito não ousava arriscar uma guerra com Babilônia; em vez 
disso, procurava enfraquecer pela intriga os laços impostos por 
Nabucodonosor à Síria e Palestina. A Neco sucedeu no trono egípcio 
Psamético II, e presumivelmente foi ele quem procurou persuadir estes 
países a tomarem parte numa aliança com o Egito contra Babilônia. 
Zedequias foi um dos monarcas abordados, e parece haver fortes indícios 
de ter existido um partido pró-egito na corte. Ananias, o profeta, 
salientava-se bastante nesta conjuntura, mas Jeremias opôs-se 
firmemente à proposta. Ver, por exemplo, o capítulo 28, com o seu 
oráculo do jugo de ferro. 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 3 
 Jeremias opunha-se vigorosamente a estes funcionários da corte. 
Como porta-voz de Jeová, denunciava-os como falsos profetas, 
afirmando que as suas atividades pró-Egito eram contrárias à Sua 
vontade e teriam um resultado trágico. Sem dúvida se consideravam 
verdadeiros patriotas, e é evidente que o seu ódio feroz a Jeremias se 
fundamentava no fato de, na opinião deles, o profeta ser um traidor 
confesso. Chamando-lhes falsos profetas, Jeremias não implica 
necessariamente que fossem homens cruéis, mas antes que a sua intuição 
ou critério não eram inspirados por Iavé. A sua acusação contra os seus 
adversários é que não fora Iavé quem os mandara, mas que eles se 
destacam por iniciativa própria, pelo que as suas predições não se 
realizarão. Era, pois, aí que residia a falsidade. Falavam em nome de 
Iavé quando, afinal, Ele não lhes tinha ordenado que o fizessem. De tudo 
isto se depreende que a sinceridade não basta; só a inspiração divina é 
que faz de alguém um profeta. 
 É impossível dizer se Nabucodonosor tinha recebido um aviso 
direto do descontentamento que grassava, ou apenas boatos, mas o certo 
é que Zedequias foi intimado a avistar-se com ele e a descrever as 
condições na sua pátria. O seu regresso implica que deu garantias de 
fidelidade. É pena que, ao que parece, ele não tivesse a coragem e a força 
moral para resistir à influência de conspiradores pró-egipcistas como 
Ananias e os seus confederados. Jeremias instava constantemente com o 
rei para que permanecesse fiel ao seu compromisso, mas quando Hofra 
se tornou faraó em 589 A C., sucedendo a Psamético II, a influência 
egípcia na corte acentuou-se ainda mais e, em resultado de tramas 
urdidas em segredo, Zedequias foi finalmente induzido a faltar à sua 
palavra para com Nabucodonosor. O Egito foi lento no seu socorro, e o 
monarca babilônio tornou a pôr cerco a Jerusalém em 587 A. C. Por fim, 
apareceu o exército egípcio e os babilônios levantaram o cerco 
temporariamente. Foi nessa altura que Jeremias foi preso como desertor 
que procurava fugir para os caldeus (ver 37.11-15). 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 4 
 A repetição do assédio parece ter provocado uma crise. Jeremias 
tinha a certeza de que a sua intuição provinha de Deus, de que Ele lhe 
revelara os Seus propósitos de transformar Babilônia no instrumento da 
Sua vontade. A confiança no Egito, portanto, só poderia abrir caminho à 
tragédia e ao exílio. Além disso, os inimigos do profeta serviam-se do 
nome de Iavé para apoiar a sua política pró-egipcista. Por conseguinte, 
afirmavam que a atitude e as palavras de Jeremias enfraqueciam a 
vontade nacional de combater. 
 Esta luta revela-se de forma crucial na pessoa de Zedequias, que se 
erguia entre as duas facções, sendo atraído ora para um dos partidos, ora 
para o outro. Costuma-se dizer que Zedequias era um fraco, incapaz de 
tomar uma decisão e enfrentar as conseqüências. Percebe-se que 
Jeremias não o conseguiu influenciar de forma a fazê-lo manter-se firme 
no seu juramento de fidelidade para com Nabucodonosor. A batalha foi 
ganha pelos falsos profetas e Zedequias arriscou a sua sorte, mas pagou 
amargamente a sua decisão e delongas. O Egito revelou-se uma cana 
quebrada; o segundo cerco foi coroado de êxito, os babilônios 
comportavam-se de forma desapiedada e, com grande desgosto seu, 
Jeremias assistiu à amarga realização da sua profecia. 
 Este livro dá-nos pormenores referentes à vida de Jeremias até à 
sua partida forçada para o Egito. Depois, abatem-se as trevas sobre o 
profeta, atenuadas, se porventura o são, apenas por vagas tradições. Nada 
há que permita chegar a conclusões definitivas quanto à sua sorte. 
Segundo uma tradição cristã, alguns cinco anos depois da queda de 
Jerusalém, foi lapidado em Tahpanhes pelos judeus, que, mesmo então, 
se recusavam a comungar na sua visão e na sua fé. 
 
II. A MENSAGEM E ENSINO DE JEREMIAS 
 Politicamente, como vimos, o profeta perdeu, mas espiritualmente 
obteve retumbante vitória. Com Amós e Oséias, confiava em como, 
apesar de a idolatria e a infidelidade a Iavé acarretaram necessariamenteo castigo, Israel e Judá não seriam destituídos definitivamente da graça 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 5 
de Deus. Com esses profetas, comungava também na fé que o exílio 
como disciplina seria, não totalmente trágico, mas uma experiência 
corretiva. O estado como estado estava condenado, mas a fé em Iavé e a 
fé de Iavé no Seu povo escolhido permaneceriam e sobreviveriam àquele 
choque crucial. 
 Viu também que o antigo concerto centralizado no templo e no seu 
cerimonial era ineficaz. Assim, acabou por descortinar que Iavé 
escreveria um novo concerto no coração do "remanescente", através do 
qual a religião vital se manteria dinâmica e seria um veículo de bênção 
para além das fronteiras da nação. 
 Quando o livro da Lei encontrado por Hilquias nas ruínas do 
templo provocou a reforma do reinado de Josias em 621 A. C., parece 
evidente que, de princípio, Jeremias vibrou no mesmo entusiasmo que o 
monarca, emprestando a este a sua influência e auxílio. Parece 
igualmente evidente, porém, que, mais tarde, a sua confiança nesse 
avivamento começou a enfraquecer, considerando-o o profeta demasiado 
fácil e superficial para satisfazer os requisitos de Iavé. A grande 
necessidade era de uma mudança de coração, só possível num povo que 
depositasse a sua fé tão-somente em Iavé. Ora, a geração de Jeremias 
recusava-se a conceder essa centralidade de fé. 
 Muitos comentadores têm afirmado que Jeremias, com outros 
profetas, se opunha ao ritual de sacrifícios, considerando-o algo que não 
fora ordenado por Iavé e que Lhe repugnava. Todavia, a atitude de 
Jeremias será melhor interpretada se nós descortinarmos a lição de que, 
sempre que um sacrifício não constitui um verdadeiro índice da adoração 
e arrependimento do indivíduo, então esse sacrifício não terá valor, 
sendo, portanto, contrário ao desejo e vontade de Iavé. Quando muito, 
um sacrifício só poderia ser um meio para atingir o fim espiritual de um 
regresso contrito ao Senhor, jamais podendo constituir um fim suficiente 
em si. 
 
 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 6 
III. AUTORIA 
 Trata-se de um problema muito complexo que não pode ser 
eficazmente abordado numa breve introdução como esta. Em 
Introduction to the Old Testament, de E. J. Young, encontrar-se-á 
formulada a posição conservadora acompanhada de um sumário das 
várias correntes críticas. O próprio livro diz que Baruque, o escriba, 
escreveu as profecias que Jeremias pronunciou (ver especialmente 
36.32), e declara que "ainda se acrescentaram a elas muitas palavras 
semelhantes". Duma maneira geral, Baruque parece ter sido fiel 
amanuense de Jeremias e, note-se, acompanhou-o até ao Egito (Jr 43.6). 
 As próprias profecias não vêm em ordem cronológica, o que pode 
causar confusão numa mentalidade ocidental, habituada a encarar tais 
problemas de uma maneira lógica. Em The New Bible Handbook, de G. 
T. Manley, o leitor encontrará um esquema das datas prováveis 
correspondentes aos vários capítulos. O problema resulta ainda mais 
complicado por haver grandes diferenças entre o texto hebraico e o dos 
Setenta deste livro, fenômeno que se verifica mais nele do que em 
qualquer outro. Estas diferenças não dizem respeito apenas às palavras 
mas afetam a ordem de apresentação do conteúdo. Para uma breve 
análise das discrepâncias e uma hipótese de explicação, ver 
Introduction to the Old Testament, de E. J. Young, obra a que já se fez 
referência. No corpo do comentário, apontam-se sempre os passos em 
que a versão dos Setenta parece derramar luz sobre o texto hebraico. 
 
IV. O CARÁTER DO PROFETA 
 Jeremias era, de fato, um homem de Deus, sensível a toda a 
influência espiritual, suscetível de profunda emoção, dotado de visão 
clara e critério cristalino. Não podia ser comprado nem cavilosamente 
convencido. Seguia o caminho traçado pelo seu espírito, este sempre 
apoiado no sentimento de adoração que vivia dentro dele. Foi um 
homem de Deus do princípio ao fim e, portanto, um patriota fiel até à 
tragédia. Não era cego para o pecado e loucura do seu povo. Descortinou 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 7 
com profunda amargura o nexo férreo entre o pecado e o castigo, e 
previu o exílio como uma punição inevitável e irrevogável, a não ser que 
se verificasse uma conversão. Foi para a provocar que despendeu sem 
reservas todo o seu esforço. Essencialmente, foi um mediador impelido 
pelo patriotismo e pela fé em Deus. 
 Daí a veemência das suas emoções e mensagens, ora contra o seu 
povo, ora intercedendo junto do Senhor. Daí também o seu isolamento, a 
sua agonia de espírito, os seus cruciais conflitos íntimos. A sua paixão 
iluminava-lhe os passos, o que facilitou a sua tarefa, embora tornando-a 
desagradável. Viu a condenação, mas não a tragédia final. Tanto Israel 
como Judá tinham um futuro em Deus, o Qual seria a sua justiça. 
Haveria um novo concerto. Em Deus leu promessas, não futilidade, pelo 
que "ficou firme como vendo o invisível". Neste vulto descarnado, 
clamante, vemos o que Deus ousa pedir ao homem, e o que um homem 
assim pode dar. A descoberta do Jeremias autêntico pode bem constituir 
o renascimento de quem o descobre. 
 
PLANO DO LIVRO 
 
 Este livro extenso não se presta facilmente a qualquer divisão 
satisfatória, pelo que analisá-lo não passa, duma maneira geral, de formular 
uma opinião subjetiva. Seria talvez razoável dividir "Jeremias" em dois livros, 
terminando o primeiro no capítulo 25 e abrangendo o segundo do capítulo 26 
até ao fim. A razão desta divisão é que, duma maneira geral, os oráculos 
proféticos dominam na primeira metade, e a narrativa na segunda. 
 
MENSAGENS REFERENTES AO POVO ESCOLHIDO DE 
DEUS - 1.1-25.38 
 
I. A CHAMADA DO PROFETA - 1.1-19 
 
II. A INTIMAÇÃO DA NAÇÃO - 2.1-6.30 
 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 8 
III. AS ILUSÕES ACERCA DA SEGURANÇA DO TEMPLO 
 - 7.1-10.25 
 
IV. JEREMIAS E O CONCERTO - 11.1-12.17 
 
V. AS CINCO ADVERTÊNCIAS - 13.1-27 
 
VI. SOMBRAS DE TRAGÉDIA - 14.1-21.14 
 
VII. REIS E PROFETAS DE JUDA: A VISÃO DO FIM - 22.1-25.38 
 
NARRATIVAS HISTÓRICAS - 26.1-52.34 
 
VIII. PROFECIAS E ACONTECIMENTOS DURANTE 
 O REINADO DE JEOAQUIM - 26.1-24 
 
IX. A SENSATEZ DO PROFETA - 27.1-29.32 
 
X. UM FUTURO E UMA ESPERANÇA - 30.1-34.22 
 
XI. PROFECIAS E ACONTECIMENTOS DURANTE 
 O REINADO DE JEOAQUIM - 35.1-36.32 
 
XII. PROFECIAS E ACONTECIMENTOS DURANTE 
 O REINADO DE ZEDEQUIAS - 37.1-39.18 
 
XIII. PROFECIAS E ACONTECIMENTOS EM JUDÁ - 40.1-42.22 
 
XIV. PROFECIAS E ACONTECIMENTOS NO EGITO - 43.1-44.30 
 
XV. A MENSAGEM DE JEREMIAS A BARUQUE - 45.1-5 
 
XVI. PROFECIAS CONTRA NAÇÕES ESTRANGEIRAS 
 - 46.1-51.64 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 9 
XVII. RETROSPECTO - 52.1-34 
 
COMENTÁRIO 
 
MENSAGENS REFERENTES AO POVO ESCOLHIDO DE 
DEUS - 1.1-25.38 
 
I. A CHAMADA DO PROFETA - 1.1-19 
 
Jeremias 1 
a) Elementos acerca do profeta (1.1-3) 
 
 A chamada de Jeremias baseou-se num profundo sentido da 
iniciativa de Deus, como se ele tivesse sido predestinado para o cargo de 
profeta desde que nasceu, antes, até, de concebido - um caso de 
determinismo espiritual. Os vv. 1 e 2 dão-nos pormenores referentes à 
descendência de Jeremias e data em que foi chamado. 
 Anatote (1), a moderna Anata, alguns quatro quilômetros e meio 
para nordeste de Jerusalém. 
 No décimo terceiro ano do seu reinado (2), isto é, 626 A. C. 
 Até que Jerusalém foi levada em cativeiro (3), ou seja, no ano 
586 A. C., quando Nabucodonosor destruiu a cidade. O ministério de 
Jeremias prolongou-se para além desta data e durou uns cinqüenta anos 
ao todo. 
 
b) A consagração do profeta (1.4-10) 
 
 Assim veio a mim a palavra do Senhor (4). Os vv. 3 e 4 sugerem 
que ela veio, não de uma forma súbita, mas sim de uma forma persistente 
(em hebraico way'hi, "continuou a vir"). 
 Te santifiquei (5), ou separei. Não do ponto de vista ético, embora 
isso se seguisse naturalmente. 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 10 
 As ordens que recebeu (6-7) eram igualmenteclaras. Existe nestes 
dois versículos um contraste entre o recuo ante uma tarefa difícil e o 
insuflamento de inspiração para que ela fosse realizada. Jeremias é o 
mais psicológico de todos os profetas. 
 Protesta: Sou uma criança (6; Septuaginta, "demasiado novo"), 
dando a entender que a sua falta de capacidade era devida à sua 
juventude. Todavia, esta objeção é arredada no próprio momento em que 
é feita, e o futuro profeta sujeita-se com pleno consentimento da sua 
personalidade - atitude típica de Jeremias, para quem a vontade de Deus 
deve vir em primeiro lugar, logo que for conhecida. 
 Deus. . . tocou (9) nos lábios de Jeremias, tornando-o Seu 
mensageiro, com poder para destruir ou recriar. É esta a incumbência 
dupla que explica o que tão freqüentemente intrigou os comentadores de 
épocas transactas, a saber, o pessimismo e, paradoxalmente, a esperança 
de Jeremias. O seu pessimismo não brota de um sentimento de 
fatalidade, mas sim da catástrofe inevitável que se produzirá se houver 
um afastamento das veredas da fé e da fidelidade. No entanto, mesmo 
que aconteça o pior, Jeremias sabe que o castigo de Deus não passa do 
prelúdio de um dia melhor. Como noutros profetas, a profecia era 
condicional; o castigo seria abolido se a nação se arrependesse da sua 
maldade. 
 
c) A declaração feita ao profeta (1.11-16) 
 
 A chamada de Jeremias está imediatamente associada com duas 
visões que lhe podem ter sido concedidas para comprovar a sua vocação 
e dar-lhe coragem. A revelação autêntica a missão que lhe é confiada. 
Através destas visões, Deus faz determinada declaração ao profeta e, 
através dele, ao povo. 
 A visão da amendoeira (11) revela ao leitor como Jeremias amava 
e compreendia a natureza sob o seu aspecto de agente revelador de Deus. 
Há aqui um trocadilho que gira em torno de duas palavras hebraicas: 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 11 
amendoeira (shaked) e "desperto" (shoked). A amendoeira é a primeira 
árvore a despertar na primavera; assim também Iavé desperta e Se ergue 
em castigo. 
 Uma panela a ferver (13); literalmente, uma panela sobre a qual 
alguém sopra - aliás, segundo outra tradução, um caldeirão, ou seja, uma 
vasilha utilizada para vários fins, como culinária, lavagens, etc. Aponta-
se para a banda do norte, dando a entender que é daí que se deve esperar 
castigo. O texto é difícil, mas o sentido é bem claro. 
 Se descobrirá (14); seguindo a versão da Septuaginta, "se 
soprará", dando a entender que Iavé transformará um povo setentrional 
em agente do Seu castigo. O motivo deste é a idolatria (16), que equivale 
a infidelidade e implica tensão entre dois amos, Baal contra Iavé. 
 
d) A exortação ao profeta (1.17) 
 
 O desânimo de Jeremias (17) ao compenetrar-se do conteúdo 
daquela profecia é combatido pela ordem que recebe de não se 
atemorizar. 
 
e) Consolação para o profeta (1.18-19) 
 
 Essa consolação é que Iavé estará com ele, tornando-o invencível 
(19). 
 
II. A INTIMAÇÃO DA NAÇÃO - 2.1-6.30 
 
 Depois da chamada de Jeremias e das visões que lhe são 
concedidas para o fortalecer em espírito, registra ele que recebeu a 
palavra do Senhor (1). Todas as suas mensagens são inspiradas por Deus. 
Esta seção contém duas delas (2.1-3.5 e 3.6-6.30). 
 
 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 12 
a) A primeira mensagem de Jeremias (2.1-3.5) 
 
Jeremias 2 
 1. A DECLARAÇÃO A ISRAEL (2.1-3). Israel foi outrora a 
noiva de Iavé (2), tão bela quão pura, santidade para o Senhor (3; ver 
Os 2.2-20). 
 
 2. A CONTENDA COM ISRAEL (2.4-13). Iavé aviva a memória de 
Israel lembrando-lhe toda a Sua misericórdia para com esse povo (6-7) e 
provando-lhe que não fora Ele quem faltara ao prometido. Israel é que 
havia contaminado a terra (7); os seus profetas tinham profetizado por 
Baal (8), principal deus dos fenícios, cujo culto havia sido introduzido 
em Israel depois de Salomão se haver aliado com essa nação. 
 Chittim (10), o povo de Kition, uma cidade em Chipre. Alguns 
eruditos identificam Chittim com os hititas. Quedar (10), representa o 
oriente, assim como Chittim representa o ocidente. Os vv. 11 e 12 
resumem o horror do profeta ao compenetrar-se da apostasia do seu 
povo. Ao contrário das nações pagãs, que permaneciam fiéis às suas 
divindades, Israel preferia deuses que não lhe davam lucro a Iavé, o seu 
próprio Deus. Até os céus pasmavam de tal sacrilégio. 
 A imagem cisternas rotas (13) sugere água estagnada que se 
escapa facilmente pelas fendas, contrastando com a água pura de uma 
fonte perene (literalmente viva). 
 
 3. A HUMILHAÇÃO DE ISRAEL (2.14-19). Neste parágrafo, 
vemos como o pecado assoberba uma nação. Israel, nascido livre, vai-se 
transformar num escravo. 
 Escravo nascido em casa (14); havia duas espécies de escravos: 
os adquiridos por compra e os nascidos em casa do amo, que eram sua 
propriedade permanente. A infidelidade a Deus não é apenas uma coisa 
má; acarreta também prejuízos bem tristes (15). Conduz ainda à 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 13 
dependência de alianças estrangeiras, com a conseqüente corrupção 
espiritual e moral. 
 Nofe Tachphanes (16); cidades egípcias. O primeiro era o nome 
que os hebreus davam a Mênfis, capital do Baixo Egito, não longe do 
Cairo moderno. O seu ensinador trágico seria a catástrofe com toda a 
amargura que acarreta, visto não teres o Meu temor contigo (19). 
 Sihor (18) significa "rio lamacento" e parece referir-se ao Nilo. 
 
 4. A DEGENERAÇÃO DE ISRAEL (2.20-28). 
 Te andas encurvando e corrompendo (20). Ver verso 2. Os 
profetas comparavam freqüentemente a idolatria à infidelidade conjugal. 
 Vide excelente (21); ver. Is 5.1-7, onde temos um emprego 
paralelo desta metáfora. Os versículos 22-25 descrevem o caráter 
arraigado da sua iniqüidade e da sua espantosa teimosia em continuar no 
seu pecado. Jeremias compara o seu povo a uma fera do deserto no cio, 
possuída de tão forte desejo sexual que qualquer macho que a pretenda a 
poderá encontrar sem fadiga, como se fosse a fêmea a perseguir o 
macho. 
 Amo os estranhos e após eles andarei (25). Os estranhos são 
outros deuses. O anseio dos israelitas de participar nas práticas idólatras 
das nações pagãs era tão grande que estavam resolvidos a não permitir 
que qualquer coisa os impedisse de o fazer. 
 No tempo da tua tribulação (28). A hora de provação que se 
aproximava obrigá-los-ia a reconhecer com vergonha quão inúteis eram 
aqueles objetos de pau e de pedra. Como um ladrão, seriam apanhados 
em flagrante (26-27; ver também o verso 36). O seu apelo de auxílio (27) 
seria inevitavelmente rejeitado devido à falsidade dos seus protestos de 
inocência (ver vv. 23 e 35). 
 
 5. A EXPLICAÇÃO A ISRAEL (2.29-37). Deus explica as razões 
dos infortúnios que se abatem sobre Israel. 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 14 
 Desligamo-nos de Ti (31). Apesar da bondade do Senhor para 
com os israelitas (ver vv. 6-7), eles haviam afirmado a sua completa 
independência, não demonstrando sequer o menor vestígio de comezinha 
gratidão humana (32). 
 
Jeremias 3 
 6. AS EXORTAÇÕES A ISRAEL (3.1-5). Insta-se com Israel 
para que se volte para Iavé. A idolatria é uma vez mais comparada com a 
prostituição. No caso de infidelidade conjugal, reconhecem que não há 
arrependimento fácil. A sua infidelidade para com Deus foi grosseira em 
extremo e descarada; no entanto, parecem pensar que basta mostrar 
indícios de desejar reconciliação para que o Senhor os receba de novo de 
braços abertos (5). É isto o que dizem, mas, ao mesmo tempo, 
prosseguem nas práticas condenáveis que o seu Senhor detesta. 
 Árabe (2), isto é, nômade. 
 Chuva tardia (3); a chuva temporã vem no outono, e a tardia na 
primavera. É muito necessária para que o trigo cresça e se desenvolva. 
 Desde agora (4); provavelmente, desde a reforma de Josias. 
 
b) A segunda mensagem de Jeremias (3.6-6.30) 
 
 Embora o tema geral das duas mensagens seja o mesmo, a saber, a 
apostasia e idolatria de Israel, existe, no entanto,uma diferença 
acentuada. Na primeira mensagem não se descortina o menor vislumbre 
de perdão; aqui, na segunda, oferece-se distintamente uma garantia de 
perdão desde que o arrependimento seja genuíno e sincero. 
 
 1. O CONTRASTE DESFAVORÁVEL ENTRE JUDÁ E 
ISRAEL (3.6-10). 
 O profeta vê que o rebelde Israel (6; literalmente, "Israel 
apóstata", duas palavras que definem Israel como uma encarnação da 
apostasia) fora enviado para o exílio como castigo pelo seu adultério; no 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 15 
entanto, Judá não descortina ali qualquer advertência; pelo contrário, 
finge-se fiel mas continuam ausentes todas e quaisquer provas de 
autêntica conversão (6-10). 
 Falsamente (10); a reforma no reinado de Josias não fora muito 
profunda; Judá converteu-se fingidamente, isto é, à superfície. 
 
 2. A CHAMADA URGENTE A ISRAEL (3.11-18). Israel, 
quebrantado e exilado, é convidado a arrepender-se. 
 Aleivosa Judá (11); apesar de maiores privilégios, tal como a 
sucessão de reis da mesma família, o templo, os levitas, e o exemplo e 
aviso de Israel, Judá revela-se infiel. 
 Convertei-vos, Ó filhos rebeldes (14). Este apelo divino baseia-
se na relação misericordiosa que Deus mantém com o Seu próprio povo. 
 Eu vos desposarei (14; traduzindo à letra, "sou marido"; ver 
31.32). Usam-se duas metáforas: filhos e marido. Os israelitas são filhos 
que deixaram a casa de seu Pai e uma mulher que se divorciou. 
Juntamente com Isaías e Miquéias, Jeremias sabe que Deus Se deleita na 
misericórdia. Se se arrependerem penitentemente, Ele fará com que 
regressem para adorar em Sião, seu lar. 
 Naquele tempo (17); quando Israel se voltar para o Senhor e 
regressar do exílio, a glória de Jeová no meio do povo eclipsará a glória 
e manifestação da presença associada com a arca do concerto (16). O 
profeta contempla já em espírito o tempo em que Jerusalém será 
purificada de toda a idolatria. Jeremias parece ter perdido a fé em Judá, 
mas, no entanto, oculta o seu pessimismo, na esperança de que, depois 
do exílio, Judá e Israel correspondam ao que Deus deles pretende e 
tornem a entrar no gozo da sua herança (18). 
 
 3. O REGRESSO INCONDICIONAL DO POVO A IAVÉ (3.19-
4.4). Prevalece também a esperança otimista de que o exílio de Judá 
garantirá a salvação de Israel. Todavia, Jeremias não pode deixar de ver 
a perversão infiel, com todas as suas terríveis conseqüências - o castigo 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 16 
da apostasia. Contudo, ouve uma espécie de antífona de choro no norte, 
filhos penitentes e o Deus perdoador e salvador que ora admoesta, ora 
afaga (21-22). Tanto Israel como Judá estão aqui em foco, ou talvez Judá 
seja aqui sinônimo de Israel. 
 Nos lugares altos (21), lugar onde vulgarmente se pranteava. Foi 
nos lugares altos que Israel cometeu o seu pecado, e é ali que se ouve a 
voz da penitência. 
 A confusão devorou (24), ou, melhor, "a vergonha", isto é, a 
adoração de Baal. Os profetas chamavam freqüentemente a Baal "boset", 
isto é, "vergonha", pois o culto de Baal era uma vergonha para Israel. À 
triste confissão do v. 25 responde Iavé em termos que revelam a natureza 
consistentemente condicional da salvação. 
 Jazemos (25), ou, segundo outra tradução, "vamos jazer". 
 
Jeremias 4 
Se voltares ... para Mim voltarás (4.1). 
Abominações (1); palavra que ocorre primeiramente em Os 9.10, 
sendo aplicada em Jeremias e Ezequiel aos falsos deuses e a tudo quanto 
diz respeito à sua adoração. Não basta a reforma moral; tem que haver 
uma íntima circuncisão de coração, uma purificação da vida na presença, 
não do "eu" ou da sociedade, mas de Deus. Assim, se tirares... não 
andarás (condição da libertação); não andarás longe da presença de 
Deus; a gravidade de rejeitar esta oferta vem sublinhada no verso 4. A 
nação pecaminosa preferiu rebelar-se, e a história ensina-nos como 
foram amargos os frutos que ela colheu - a fúria de Jeová que saiu como 
fogo (4). 
 
 4. A INAUDITA CALAMIDADE QUE ASSOLARÁ O PAÍS 
(4.5-31). A invasão futura (5-18). Jeremias implorava um 
arrependimento profundo, mas a sua esperança foi desiludida. Não se 
verificou qualquer sinal externo de um regresso íntimo a Deus, e o 
profeta não teve outro remédio senão pronunciar a sentença. O flagelo 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 17 
designado proveniente do norte (6) espera já no limiar da porta. As 
profecias relacionadas com estes agentes da vingança de Jeová 
prolongam-se até ao final do capítulo 6. 
 Tocai a trombeta (5), em hebraico shophar. O toque de trombeta 
era sinal de perigo grave. O leão sai do seu covil (7), feroz destruidor de 
nações e cidades. Provavelmente uma referência a Nabucodonosor. 
 Tereis paz (10). Este verso tem causado perplexidade e 
dificuldades. Jeremias nunca profetizou que Jerusalém teria paz. A 
Septuaginta diz: "E eles dirão", isto é, os falsos profetas do verso 9, que 
afirmavam ao povo que esperasse a paz. 
 Um vento (12), outra metáfora de destruição, o siroco do deserto, 
um vento quente, escaldante, ciclônico, desapiedado. Assim seria 
também a ação de Iavé exercida sobre o país culpado. O mesmo grave 
castigo transparece em várias metáforas: nuvens, tormenta, carros, 
cavalos, águias (grifos ou milhafres) (13). A sentença de desolação é 
anunciada de Dã, o limite setentrional do país; e de Efraim, apenas a 15 
quilômetros de Jerusalém (15), soa a voz de aviso. 
 Vigias (16), isto é, sitiadores que diariamente vigiarão a cidade e 
os seus habitantes. 
 Nos vv. 19-22 o profeta tem uma visão extraordinária de castigo 
inevitável que excede os seus limites de resistência. Nota-se a dor da sua 
alma (19-20), a pergunta que ecoa no seu espírito (21) e a resposta do 
seu Deus (22). As suas palavras estorcem-se na agonia que o tortura. 
 Ah, entranhas minhas, entranhas minhas! Estou ferido no meu 
coração (19). O coração é a sede da inteligência, enquanto que as 
entranhas, segundo a psicologia hebraica, são a sede das emoções. Mas 
Jeremias não tem quaisquer ilusões; o castigo é justo, a marca negra do 
pecado sobre um povo abandonado. 
 Nesta passagem (23-26), o simbolismo é tão forte que sentimos 
vibrar nela um frêmito de horror. A descrição do profeta constitui um 
dos trechos mais vívidos e comoventes na literatura sacra. O cosmos 
tomba no caos; as montanhas vacilam, o homem desaparece, as aves 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 18 
abandonam os céus, e a terra fértil transforma-se num deserto - é o sopro 
de Deus, a bomba super-atômica divina. Voltamos ao primeiro capítulo 
do Gênesis, quando tudo eram trevas e confusão. "Falei, diz Iavé, e não 
Me arrependi" (versão da Septuaginta); "assim o propus e não Me 
desviarei disso" (28), tão terrível é o pecado que envolve todo o mundo. 
Jeremias nada via senão sofrimento irremediável, sem esperança. Todas 
estas tristes predições se cumpriram no derrubamento final de Jerusalém 
em 586 A. C. 
 Algumas autoridades consideram que esta segunda mensagem de 
Jeremias, começada em 3.6, é constituída por vários oráculos, alguns 
escritos, até, em Anatote e outros em Jerusalém. Seja como for, há em 
toda a mensagem uma unidade bem definida que justifica que a tratemos 
como um todo. Descortinamos nela a mesma ênfase sobre o pecado 
inveterado de uma nação caduca e a condenação inevitável por um Deus 
santo que, mesmo assim, está disposto a mostrar-Se bondoso se o povo 
se arrepender. 
 
Jeremias 5 
 5. A CORRUPÇÃO DE JERUSALÉM (5.1-9). Em 5.1-31, a 
cidade é sujeita a um escrutínio moral inexorável. Se este capítulo vem 
no devido lugar, o profeta procura vindicar a severidade de Deus, isto é, 
através duma teodicéia válida. Como Diógenes da Grécia, sente que, se 
se procurasse em toda Jerusalém, não se encontraria um homem honesto 
cuja presença evitasse a catástrofe - pobres ou ricos (4-5), todos são 
ímpios na sua vida e nas suas ações. 
 Dai voltas às ruas de Jerusalém (1). A busca é baldada, motivo 
esse que explica porque a nação está indefesacomo um homem 
habituado a viver na cidade e que, de súbito, se encontra abandonado 
numa floresta onde as feras pululam (6). De fato, os habitantes de 
Jerusalém tinham descido ao nível de animais. Quando Deus os 
alimentara (7), haviam prostituído a Sua generosidade, comportando-se 
como cavalos bem fartos e eivados de sensualidade (8). 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 19 
 6. A CHAMADA AO DESTRUIDOR (5.10-19). O otimismo dos 
negligentes vem pintado nos vv. 10-18. Os agentes de Deus irão dar 
início à tarefa de purificação (10-11), mas os condenados (12-17) 
acalentam a esperança infundada e louca de que Iavé nada fará. 
 Subi (10), uma chamada ao inimigo para que encete o seu 
trabalho. 
 Negam ao Senhor e dizem: "Não é Ele" (12), ou seja, Ele nada 
fará do que Jeremias profetizou. O texto aqui é difícil, mas deve ser 
possível aplicar a razão anteriormente dada, a saber, que os seus profetas 
são falsos e fúteis, pois não compreendem nem procuram salientar que, 
para haver salvação, o arrependimento tem de seguir ao pecado. 
 Uma nação cuja língua ignorarás (15); no mundo antigo, uma 
língua diferente era sempre causa de receio e preocupação, pois os povos 
que se serviam de outros idiomas não entenderiam quaisquer apelos de 
misericórdia. 
 A sua aljava (16), uma comparação digna de nota. Como a 
sepultura, as suas armas nunca se saciam. 
 
 7. A TEIMOSIA E LOUCURA DO POVO (5.20-31). Nesta 
passagem vemos, dum lado, Deus como governador moral e, do outro, o 
Seu povo rebelde. O mundo que Deus criou não se consegue libertar da 
Sua inexorável vontade soberana (22); só o Seu povo tem essa liberdade 
(23-24); esta única diferença sempre caracterizou o homem. 
 Ao mar (22); o profeta cita o mar para ilustrar o poder e majestade 
de Deus. Poder-se-á porventura brincar com um Deus assim? Se o mar é 
temível - e quem não o receia? - não o será Ele também? 
 Coração rebelde e pertinaz (23); não só é um povo que recai no 
pecado como também se mostra abertamente hostil. 
 Nos vv. 26-31 o profeta tem em mente três classes de indivíduos: 
os ricos que oprimem os pobres, os falsos profetas enganadores, e os 
sacerdotes que dominam através deles. A nação pouco se preocupa com 
a vontade divina, o que acarreta como péssima conseqüência nem se 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 20 
fazer justiça nem haver da parte dos profetas e sacerdotes o desejo de 
serem algo de diferentes do que são - mentirosos e guias falsos. 
 O Meu povo assim o deseja (31). O mal, contanto que seja 
praticado durante um período suficientemente longo, é aceito como 
inevitável pela arraia miúda. 
 
Jeremias 6 
 8. O ASSALTO A JERUSALÉM (6.1-5). A conclusão da segunda 
mensagem de Jeremias sublinha a catástrofe inevitável que ameaça tão 
de perto uma nação impenitente e incorrigível. O agente destruidor 
designado por Deus vai atacar Jerusalém, e soa novamente a nota de 
alarme. O mal espreita do norte - a ruína em toda a sua tragédia. O 
profeta personifica aqui a destruição que paira sobre a cidade. O toque de 
trombeta de aviso soará de Tecoa e também de Bete-Haquerém (1). 
 Filhos de Benjamim (1); pode tratar-se de uma chamada aos 
membros da sua própria tribo, dos quais deviam haver muitos na capital, 
ou talvez o profeta se dirigisse a toda a cidade de Jerusalém. Tecoa (1), 
local situado a uns dezoito quilômetros ao sul de Jerusalém. Parece haver 
aqui um trocadilho com as palavras "bater" e "tocar", que têm as mesmas 
letras que a palavra "Tecoa". O facho (1), literalmente, uma chama, isto 
é, um sinal que assumia talvez a forma de uma espécie de farol. Bete-
Haquerém (1), localidade mencionada apenas aqui e em Ne 3.14. O 
nome significa, traduzindo à letra, "casa da vinha"; agora geralmente 
identificado com um local chamado "montanha franca", que oferece uma 
iminência conspícua muito apropriada para se erguer ali um facho de 
sinalização. À medida que o inimigo se aproxima do norte, estas 
localidades ao sul do Jerusalém deverão preparar-se para orientar os 
fugitivos na sua fuga da capital. 
 Pastores (3); o inimigo do norte é comparado a pastores com os 
seus rebanhos, comendo a erva por todos os lados; tudo será devorado e 
nada restará. 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 21 
 Preparai a guerra (4), ou, literalmente, "santificai a guerra", isto 
é, oferecei sacrifícios para assegurar a vitória. A exortação visa ao 
começo das hostilidades, e é o inimigo fora das muralhas da cidade que 
assim se anima à refrega. A sua persistência é tal que, se se malograr o 
ataque durante o dia, a noite dar-lhe-á a vitória (4-5). O profeta prediz 
em nome do Senhor que a vitória será absoluta e definitiva. 
 
 9. A RUÍNA FUTURA (6.6-15). 
 Cortai árvores (6); cortavam-se árvores para construir 
edificações de assédio, mas este verso aponta também para a devastação 
causada pelo inimigo. Utilizando uma vinha como metáfora, Jeremias 
diz-nos que os vindimadores andarão de lado para lado, colhendo até ao 
último bago de uva e deixando a vinha desolada (9). De Israel nada 
restará, e Judá enfrentará extinção e exílio semelhantes. Mas a tragédia 
daquela época é tal que, nas nuvens sombrias que se acumulam, persiste 
o otimismo dos dirigentes religiosos. 
 Torna a tua mão (9), palavras dirigidas a Nabucodonosor ou ao 
comandante em chefe do exército sitiante. 
 Casas... herdades... mulheres (12), males futuros semelhantes 
aos já mencionados em Dt 28.30. 
 Curam a ferida (14), ou, traduzindo à letra, "a ruptura". O 
rompimento entre o Deus santo e a nação pecaminosa é tratado leviana e 
superficialmente, mas aproxima-se o dia da tribulação. 
 
 10. O APELO DE JEOVÁ E A DESOBEDIÊNCIA DE JUDÁ 
(6.16-21). O Senhor apela uma vez mais para o povo através do profeta 
para que procure "as veredas antigas" (16). Com a promessa contida 
neste verso, compare-se Mt 11.29. Jeremias baseava todos os seus apelos 
na experiência colhida no passado, mas o povo recusava-os. Portanto, o 
céu e a terra opõem-se-lhes como testemunhas. 
 Sabá (20) fica no sudoeste da Arábia, país famoso pela boa 
qualidade do seu incenso; ver 7.21. 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 22 
 Armarei tropeços (21); para Jeremias, como para os seus 
antecessores, causas intermediárias eram coisa que não existia; tudo se 
atribuía a Deus. 
 
 11. A CRUELDADE DO INIMIGO E A INCORRIGIBILIDADE 
DO POVO (6.22-30). Uma vez mais, e para arrancar a nação à sua fatal 
apatia otimista, o inimigo é vivamente pintado em cores aterrorizadoras. 
 Espanto há em redor (25); ver 20.10; 46.5; 49.29; Jó 18.11; Sl 
31.13; por isso os fugitivos são aconselhados a não andarem pelo 
caminho (25), isto é, pela estrada aberta. 
 Cinge-te de saco (26), ou seja, chora por ti própria. Nos vv. 27-30 
temos patenteada a sombria intuição do profeta, que verifica uma vez 
mais que a sua função se assemelha à de uma torre de atalaia e à de uma 
fortaleza (27). As metáforas aqui são difíceis. Jeremias sentia que a sua 
tarefa seria semelhante à do um refinador de prata, mas agora constata 
que o seu fogo não conseguira separar a prata da escória, isto é, por 
contraste com o que se passa na refinação dos minerais, a vontade 
humana pode-se recusar a aceitar o fogo refinador. Em tais casos, Deus 
entrega a alma nessas condições ao destino que ela escolheu. Também o 
apóstolo Paulo pinta esta teimosia da parte das nações gentias em Rm 
1.18-32. 
 Já o fole se queimou (29); segundo outra versão, "os foles sopram 
com força"; ver 9.7. 
 Prata rejeitada (30). Com esta sombra tão escura termina a 
segunda mensagem de Jeremias e a primeira parte das suas profecias. 
 
III. AS ILUSÕES ACERCA DA SEGURANÇA DO TEMPLO 
 - 7.1-10.25 
 
 Para Judá, o templo era sacrossanto e, portanto, impregnável a 
todos os ataques. Se acontecesse o pior, Iavé sem dúvida interviria para 
salvar a cidade onde colocara o Seu nome. Ora, Jeremias afirma aqui 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 23 
justamente o oposto. Também Silo era considerada inviolável,mas foi 
derrubada. O "sermão no templo" aqui reproduzido não menciona o 
alarme e a fúria que provocou. Todavia, no capítulo 26 essa informação 
é-nos dada entre os sumários históricos da segunda parte do livro, 
indicando-nos também o perigo a que o profeta se expôs no seu arrojado 
testemunho. Se, de fato, o capítulo 26 pertence à mesma época que estes 
"sermões no templo", então o ano seria 608 A. C., ou seja, o começo do 
reinado de Jeoaquim. Esta seção constitui a terceira mensagem de 
Jeremias e divide-se em duas partes. 
 
a) O Sermão no Templo (7.1-8.3) 
 
Jeremias 7 
 A chamada do profeta ao povo para que se reúna às portas do 
templo é mais breve na Septuaginta do que no texto massorético: "Ouvi a 
palavra do Senhor, todos de Judá". 
 
 1. UM AVISO (7.3-20). A mensagem começa com uma 
advertência. Que a nação ponha os olhos no destino de Silo. 
 Põe-te à porta (2). O profeta deverá proclamar a sua mensagem 
numa das portas do templo, ficando o povo no átrio exterior separado do 
interior pelas respectivas portas. Talvez esta mensagem fosse transmitida 
durante qualquer dos grandes festivais, quando haveria normalmente 
grande ajuntamento de povo às portas do templo. 
 Os vossos caminhos e as vossas obras (3); "caminhos", hábitos 
profundamente arraigados; "obras", os atos, individualmente 
considerados que acabam por constituir tais hábitos. 
 Templo do Senhor (4); a tríplice repetição destina-se a dar mais 
ênfase. Compare-se com a frase de Cristo: "Na verdade, na verdade, vos 
digo". O templo é a casa de Deus e Sua propriedade peculiar (10). 
Portanto, o próprio templo constituiria um apelo ao povo para que este 
fosse santo, como sugeria o seu simbolismo, isto é, um povo separado. 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 24 
Se assim não sucedesse, então Iavé abandonaria o templo e, portanto a 
nação (realidade esta salientada também por Ezequiel nas suas 
profecias), sendo o resultado o derrubamento e o exílio. Se, porém, se 
arrependerem, Deus será com eles. As palavras vos farei habitar neste 
lugar (3) podem ser traduzidas: "Então habitarei convosco", isto é, no 
templo. O problema moral é evidente: o templo como covil de ladrões 
não é digno da Sua presença; como Silo, fica deserto; a arca em si é 
impotente para salvar Israel. 
 Furtareis vós e matareis (9); no hebraico, estes verbos 
encontram-se no infinito, um modo utilizado quando se deseja sublinhar 
fortemente a ação. 
 Somos livres (10). O povo imaginava, como se depreende, que, 
observando os ritos religiosos, seria liberto da abominação a que o 
profeta tão freqüentemente aludia. 
 Caverna de salteadores (11), isto é, um local de abrigo nos 
intervalos entre atos criminosos e de violência. Ver Mt 11.17; Lc 19.46. 
 Silo (12); uma localidade na estrada principal de Jerusalém para 
Siquém. A arca foi ali colocada nos dias de Josué, e a destruição desta 
localidade em parte alguma vem mencionada no Velho Testamento. O Sl 
78.60 diz-nos que Deus a abandonou. Os vv. 16-20 parecem constituir 
uma interrupção na mensagem pronunciada no templo, a não ser que 
representem um interlúdio simbolizando o fim calamitoso dos rebeldes 
impenitentes e profanos. 
 Rainha dos céus (18), a Istar dos babilônios, ao que parece 
principalmente adorada pelo elemento feminino. As palavras "bolos" e 
"rainha" têm um ar estranho em hebraico, destinando-se talvez a indicar 
a origem estrangeira desse culto. 
 
 2. OBEDIÊNCIA, NÃO SACRIFÍCIO (7.21-28). Jeremias 
proclama o princípio mais seguro da obediência. A oferta queimada, 
segundo a lei levítica, era inteiramente consumida, mas, quando se 
tratava de outros sacrifícios, os sacerdotes e adoradores comiam tais 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 25 
ofertas. Se, porém, se tratava de uma mera cerimônia, então a oferta 
queimada seria "comum", não "espiritual", visto não indicar um coração 
arrependido; por isso, podia ser comida por haver perdido a sua validade 
espiritual. 
 O verso 22 é clássico. Segundo os críticos na sua generalidade, 
aquilo que Jeremias proclama é que Deus nunca instituíra todo aquele 
sistema ritual de sacrifícios, supondo-se existir um conflito entre profeta 
e sacerdotes. Todavia, a corrente está tomando lentamente outra direção, 
opondo-se a essa posição extrema. O que Jeremias denuncia em termos 
categóricos nesta passagem é o sacrifício que não corresponde a um 
coração arrependido e que não conduz a um comportamento reto. Se não 
houver obediência ética, nenhum sacrifício poderá ser eficaz. Toda a 
corrente profética condena o ritualismo oco. O concerto entre Iavé e 
Israel baseava-se no Decálogo, e tinha a honra de ocupar o lugar mais 
sagrado no santuário. 
 Dai ouvidos à Minha voz (23); a citação não é exata; a que mais 
se aproxima é Êx 19.5. A obediência à lei moral vinha sempre em 
primeiro lugar. 
 Mas não ouviram (24); é difícil reconciliar esta passagem com 
2.2, a não ser que se interprete 2.2 como uma referência ao período que 
se seguiu imediatamente ao Êxodo, e 7.24 a um período, digamos, perto 
do final das peregrinações pelo deserto. 
 No propósito do seu coração malvado (24); literalmente, na 
teimosia; ver 3.17. A forma mais abreviada, nos Setenta, dos versículos 
27 e 28 talvez seja preferível: "Dir-lhes-ás esta palavra". 
 
 3. LUTO NACIONAL (7.29-8.3). O apelo ao povo para que 
pranteie baseia-se no fato de Jeová ter rejeitado aquela geração. No vers. 
29 não vem ninguém mencionado, mas o verbo em hebraico é feminino, 
o que aponta para Jerusalém ou para a nação personificada. Cortar o 
cabelo era sinal de luto profundo (traduzindo à letra, "corta a coroa"); ver 
Jó 1.20; Mq 1.16. Alguns comentadores descortinam aqui uma referência 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 26 
ao voto do nazireado (Nm 6.7). Jerusalém quebrara os seus votos, e 
assim, como o nazireu infiel, mais lhe valia cortar o cabelo, símbolo e 
sinal desse estado. 
 Puseram as suas abominações (30); 2Rs 21.5 conta-nos que 
Manassés profanou assim o templo. 
 Tofete (31) (a Septuaginta: "lugar alto") significa provavelmente 
"lareira" (tefath); ver Is 30.33. Para denotar o sentimento de horror 
despertado pelo costume pagão de sacrificar crianças, as vogais da 
palavra original, tefath, foram transformadas de forma que ela fosse lida 
e pronunciada tofet. Foi por este processo paralelo que o termo melec se 
transformou em Molec, uma divindade pagã, isto é, utilizando as vogais 
de boseth (vergonha). Esta última palavra é também freqüentemente 
empregada por Baal (senhor), isto é, Is-boseth por Is-baal. Ofereciam-se 
sacrifícios de crianças ao ídolo Molec, e, para os adoradores de Jeová, o 
termo "molec", que significava "vergonha", exprimia adequadamente o 
seu horror. O vale de Ben-Hinom ficava do lado oposto do vale de 
Quedrom. Era aqui que se realizavam esses sacrifícios abomináveis, pelo 
que o vale de Ben-Hinom passou a ter um apelativo vergonhoso. A visão 
que torturava Jeremias era a desse lugar imundo atulhado de cadáveres. 
Esse culto abominável estava assim relacionado com a morte. O seu 
santuário tornar-se-ia no seu cemitério. Muito a propósito, portanto, no 
verso 31 Jeremias diz que a sua origem nunca foi o coração de Deus. 
Geena (ge, vale), sinônimo de inferno, deriva deste toponímico. 
Ninguém os espantará (33), ou, melhor, ninguém os assustará e porá 
em fuga. 
 
Jeremias 8 
 Tirarão (8.1). Para explicar esta barbaridade, sugeriram-se muitas 
hipóteses: 1. tratar-se-ia de um ato propositado, meditado, para insultar 
os vencidos, que se demonstraria serem assim incapazes de defender 
sequer as cinzas de seus pais ou o templo do seu Deus; 2. essa medida 
seria motivada pelo desejo de encontrar despojos, pois freqüentemente 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 27 
enterravam-se com os mortos grandes tesouros; 3. acontecimento fortuito 
ao escavar-se uma cova para acender uma fogueira; ou 4, ao proceder-se 
a terraplanagens para o assédio. A primeira hipótese é a mais provável. 
Todos tinham pecado e todos seriampunidos, incluindo os mortos. A 
doutrina do castigo futuro não foi plenamente desenvolvida; daí, o 
castigo dos mortos sob a forma indicada nesta passagem. 
 Expô-los-ão (2); os corpos celestes que haviam adorado serão 
impotentes no dia do castigo. 
 
b) A desobediência e idolatria do povo (8.4-10.25) 
 
 Algumas autoridades pensam que esta seção é a contrapartida 
métrica do sermão do templo, com que Jeremias começa a sua terceira 
mensagem. 
 1. MÚSICA FÚNEBRE (8.4-17). São feridas três notas, como que 
numa harpa de condenação. Nos vv. 4-7 tange-se a nota de um espírito 
cheio de maldade, renitentemente oposto ao arrependimento. As aves 
obedecem às leis desconhecidas e instintivas da migração, mas o povo de 
Iavé recusa-se a obedecer ao instinto mais profundo do coração de 
procurar o lar eterno. 
 Os vv. 8 e 9 dizem-nos que os escribas e os sábios apontam ao 
povo o caminho errado. A lei torah ou melhor, direção, apontaria o 
caminho certo e conduziria a Deus; mas eles, com as suas falsas 
instruções, desviam o povo para longe do Senhor. O falso ensino poderia 
consistir em afirmar que os sacrifícios em si, independentemente da 
obediência ética, seriam o suficiente. Por outro lado, segundo algumas 
autoridades, poderíamos ver aqui a discordância de Jeremias da 
centralização de sacrifícios ordenada por Josias na reforma sacerdotal, de 
acordo com Dt 12.1-7. Na ausência de dados concretos, esta passagem 
permanece ambígua. 
 Escribas (8); é esta a primeira referência aos escribas como uma 
profissão, no Velho Testamento. É evidente que, como classe, eram 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 28 
muito ativos no tempo de Josias (2Cr 34.13), e podem ter tido a sus 
origem no reinado de Ezequias (ver Pv 25.1). 
 Os vv. 10-12 não ocorrem na Septuaginta, sendo quase idênticos a 
6.12-15. 
 Nos vv. 13-17 escutamos as notas sombrias da condenação; já não 
há uvas na vide nem figos na figueira, e a folha caiu (13); nem 
tampouco restará um remanescente para manter viva a fé. Será esse o 
resultado da presença do inimigo que virá do norte - isto, é claro, se não 
houver um regresso a Iavé. Os castigos ameaçados, por mais severos que 
sejam, são sempre condicionais. 
 O Senhor nosso Deus nos fez calar (14); traduzindo à letra, 
"decretou a nossa ruína". Nos deu a beber água de fel (14), ou, segundo 
outras versões, veneno, o que, é claro, constitui uma metáfora. A vida é 
amarga. Dã (16) ficava tudo ao norte, e já fora alcançada pelo inimigo, 
que não se deixa apaziguar nem encantar (17), como se costuma fazer 
com as serpentes. 
 
 2. O CORAÇÃO DOENTE (8.18-9.26). Trata-se de uma 
passagem profundamente comovente que exprime o desgosto do profeta 
ao contemplar a catástrofe inevitável que em breve se abaterá sobre o seu 
povo. O verso 18 é difícil. A tradução literal é a seguinte: "Ó minha 
alegria na dor, o meu coração está doente", mas o significado é claro - 
"incurável é o meu desgosto" segundo a Septuaginta sugere. Oh, se eu 
pudesse consolar-me na minha tristeza! O meu coração desfalece em 
mim". O hebraico significa: "o meu coração está gravemente ou 
repugnantemente doente". 
 Passou a sega, findou o verão (20). A sega e o verão são estações 
distintas. A sega nos campos durava de abril a junho, vindo mais tarde a 
colheita dos frutos estivais. Jeremias diz ao povo o que acontecerá 
quando passarem as estações. A Presença já não se encontra em Sião; 
não há colheita para enfrentar a fome que se aproxima, nem médico para 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 29 
cuidar dos doentes. O profeta choraria com a perenidade com que uma 
fonte corre. 
 Gileade (22) era uma região montanhosa além-Jordão, tendo sido 
o primeiro território israelita a cair nas mãos do inimigo. Ungüento (22); 
não se sabe ao certo qual o produto a que o original se refere. Todavia, 
vem já mencionado em Gn 37.25. 
 
Jeremias 9 
 O sentimento (9.2-8) muda agora de piedade avassaladora para 
uma amargura compreensível. O povo é uma raça de traidores e, se a sua 
fidelidade lho consentisse, Jeremias abandoná-lo-ia por completo. Além 
disso, toda aquela corrupção acarretaria como santa reação o castigo de 
Deus. Volta a ouvir-se o cântico de lamento do seu coração (9-11). Os 
vv. 12-15 ensinam-nos novamente qual é a colheita resultante da 
infidelidade e da falta de adoração. 
 Nem andaram nela (13); isto refere-se, não à voz de Deus, mas à 
Sua Lei, ambas mencionadas neste verso. 
 Alosna... água de fel (15), duas coisas que aparecem sempre 
juntas e que, como metáforas, representam qualquer experiência 
desagradável. O povo será sujeito ao sofrimento mais amargo. 
 Provavelmente os vv. 16-21 revelam outro elemento na tristeza do 
profeta - um laivo de ironia no tocante às carpideiras profissionais. De 
que valem essas mulheres (compare-se com 2Cr 35.25; Mt 9.23) quando 
a morte (personificada) entra pela janela? O único descanso que o 
coração de Jeremias pode conhecer baseia-se no fato de, para além da 
sabedoria ou da força, se encontrarem a misericórdia, justiça e retidão de 
Deus (23-24), coisas estas que são o Seu deleite. 
 Eles transtornaram as nossas moradas (19); compare-se com 
2Rs 25.9. 
 Este oráculo (25-26) parece isolado onde se encontra, mas revela o 
caráter incisivo da mensagem moral de Jeremias. Embora circunciso, 
Judá é deficiente em dedicação íntima, pelo que se encontra sujeito ao 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 30 
castigo de ser tão pagão e tão exposto à punição como as nações que o 
cercam. O ritual pode ser perfeito e, no entanto, não evitar a condenação 
ética. Esta passagem antecipa o ensino de Paulo sobre a distinção entre a 
circuncisão da carne e a do coração. 
 Todos os que cortam os cantos do seu cabelo (26). O texto 
parece referir-se ao costume de certas tribos árabes, que cortavam o 
cabelo em forma circular, em honra de Baco (Heródoto 3.18), hábito este 
proibido em Lv 19.27. 
 
Jeremias 10 
 3. A IMPOTÊNCIA DOS ÍDOLOS (10.1-16). Esta passagem 
encerra uma polêmica devastadora contra o conceito central da idolatria 
por alguém que a conhecera em primeira mão e que fora respeitado 
apenas pela fé monoteísta acalentada pelos melhores elementos do seu 
povo. Algumas autoridades interrogam-se se esta passagem, que sugere 
um ambiente diferente, provém ou não do punho de Jeremias. Ou teria 
sido escrita por Isaías? O estilo é semelhante ao deste profeta, que 
estabelecia forte contraste entre Iavé, criador de todos, e os deuses 
impotentes de Babilônia. O problema continua em aberto. 
 Sinais dos céus (2), isto é, portentos celestes, como cometas, 
meteoros, etc., fenômenos a que os povos pagãos davam grande 
importância. 
 Os vv. 6 e 7 vêm omitidos na Septuaginta. 
 Ensino de vaidade é o madeiro (8) ou, traduzindo à letra, "a 
instrução dos ídolos é como um madeiro". Significa isto que a instrução 
dos ídolos não é melhor do que os próprios ídolos. A idolatria não possui 
valor moral nem espiritual. 
 Társis (9) era o limite do mundo antigo. A Septuaginta diz 
"Cartago"; muitos identificam Társis com Tartessus, na Espanha. Ufaz 
só se encontra mencionada aqui e em Dn 10.5, sendo freqüentemente 
identificada com Ofir, terra proverbial pelo seu ouro. 
 A Septuaginta omite o verso 10. 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 31 
 No verso 16 lemos que Israel "é a vara da sua herança", mas seria 
melhor traduzir, como noutra versão, "a tribo da sua herança". A 
polêmica em si é impressionante. O profeta encarava os deuses como 
blocos inertes e mudos de madeira, zombando deles e chamando-lhes 
espantalhos de jardim que só servem para trabalho tão vil, e não um 
poder sagrado para disciplinar o rebelde coração humano. Por toda a 
parte, a idolatria expõe-se à mesma ironia mordaz. 
 É interessante notar que o verso 11, isolado, vem escrito, não em 
hebraico, mas em aramaico, o que leva os peritos a pensarem que se trata 
duma nota marginal interpolada no texto para sugerir aos judeus uma 
resposta àqueles que os desejassem desencaminharpara a idolatria. Os 
vv. 12 a 16 vêm repetidos em 51.15-19. 
 
 4. O EXÍLIO É IMINENTE (10.17-25). A nota de condenação que 
aqui escutamos junta-se à de 9.22. A comunidade como personalidade 
coletiva é exortada a fazer as malas e preparar-se para a marcha 
desolada, caminho do exílio. 
 Ajunta da terra a tua mercadoria (17), isto é, prepara-te para a 
fuga. A palavra hebraica para "mercadoria" só ocorre aqui. 
 Ó habitadora da fortaleza (17); há uma tradução mais fiel: "tu 
que habitas no assédio". 
 Arrojarei (18), metáfora muito forte: o único ponto em que este 
verbo é sinônimo de enviar todo um povo para o exílio. A desolação do 
coração do povo vem expressa nos vers. 19 e 20; tudo isto é o triste 
resultado da má orientação dos dirigentes (literalmente pastores) que, 
tendo perdido contato com Iavé, estavam impossibilitados de conduzir o 
povo à segurança. O lar ancestral transformar-se-ia num covil de chacais 
(22). No vers. 23 o profeta confessa as suas limitações, no verso 24 faz a 
sua suplica, e no vers. 25 implora vindicação. Como Moisés no passado, 
Jeremias intercede pelo seu povo (23-24). 
 Castiga-me, ó Senhor, mas com medida (24). Aquele "me" não 
se refere ao profeta mas à nação, cujo triste destino o enche de desgosto. 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 32 
 O verso 25 vem repetido no Sl 79.6-7. O profeta parece voltar-se 
encolerizado contra uma nação que Deus encarregara de executar os 
Seus propósitos retributivos sobre Judá (25). Paradoxalmente, esta ira é 
viável e justa. 
 
IV. JEREMIAS E O CONCERTO - 11.1-12.17 
 
 Esta seção contém a quarta mensagem de Jeremias, dotada de um 
apêndice (12.7-17). O concerto a que aqui se alude infere provavelmente 
a descoberta do livro da Lei (2Rs 22.8), que se supõe geralmente ser o 
livro do Deuteronômio sob a influência do qual Josias, em 621 A. C., 
promoveu a rededicação da nação, sendo o culto centralizado em 
Jerusalém. Isto significava a cessação e abolição de atos de culto nos 
santuários locais espalhados pelo país. O seu sentimento de que aquilo 
fora ordem de Deus com uma maldição para todos quantos não se 
sujeitassem a ela marca presumivelmente a idéia de Jeremias de que a 
reforma de Josias provinha de Jeová e poderia, portanto, ser eficaz. É 
impossível determinar a data em que este trecho se enquadra. Todavia, 
parece que Jeremias não tinha ainda saído da sua Anatote natal, pois 
descobre uma conspiração contra ele (11.18-21), o que o pode ter levado 
a abandonar aquele local. 
 
a) O tema da quarta mensagem de Jeremias (11.1-12.5) 
 
Jeremias 11 
 1. O CONCERTO (11.1-5). Ouvi as palavras deste concerto 
(2), que Jeová fizera com o Seu povo em Horebe tendo ele prometido 
obediência. Marcou ele o seu livramento da fornalha de ferro (4), em 
hebraico kur, um forno de fundição que simboliza grande sofrimento; 
compare-se com Dt 4.20; 1Rs 8.51; Is 48.10. Jeová ordenou assim ao 
profeta que advogasse a causa do concerto, e ele responde, tanto a essa 
ordem como aos termos do concerto: 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 33 
 Amém, ó Senhor (5). Uma terra que manasse leite e mel (5). 
Fora do Pentateuco, esta expressão só ocorre em Jeremias (que a usa 
duas vezes, aqui e em 32.22) e em Ez 20.6,15. 
 
 2. INCOMPATIBILIDADE ENTRE A RELIGIÃO E A FORÇA 
(1.6-8). 
 A versão dos Setenta não inclui os vv. 7 e 8 mantendo apenas a 
frase mas não cumpriram (8). 
 Trouxe (8); sentimos que Jeremias afirmava a visão e desejo do 
rei, mas é duvidoso se concordou com o vigor com que Josias a 
concretizou. Jeremias, idealista, era também realista. Via que um 
concerto externo é absolutamente destituído de valor, a não ser que tenha 
sido intimamente consentido. Só a conversão sincera o poderia realizar, 
mas neste caso era isso justamente o que faltava, e daí o sentimento de 
Jeremias de que se perdera a bênção. 
 
 3. REGRESSO DO ANTIGO PECADO (11.9-17). Este trecho 
registra a atração exercida pelo pecado ancestral e o seu castigo 
inevitável. Quando o vigor está ausente, a reforma superficial sacode de 
si a sua camuflagem ética e regressa rapidamente aos velhos ídolos e à 
antiga iniqüidade. 
 Uma conjuração (9), não necessariamente uma conjuração 
formal; tudo o que isto significa é que, apesar do que acontecera, o povo 
estava decidido a prosseguir na sua idolatria. 
 O verso 10 prova que a reforma de Josias deixara já de ser eficaz, 
mesmo externamente. No reinado de Jeoaquim, o povo, juntamente com 
o seu rei, regressou à idolatria, como o porco para a lama. Jeremias vê 
assim que uma religião sem vigor não exerce qualquer influência 
redentora pelo que o castigo estava mais próximo do que nunca (11-12). 
Iavé traz o castigo sobre os falsos deuses que eles adoram, e tanto deuses 
como povo são impotentes para o evitar. 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 34 
 Tu, pois, não ores por este povo (14), solene proibição ao profeta 
contra qualquer intercessão a favor daquela nação idólatra que adorava 
vergonhosamente Baal. A maior parte deste verso encontra-se também 
em 7.16. A corrupção fora longe demais, e só o castigo poderia purificar 
a nação. 
 O Meu amado (15), isto é, Judá. O vv. 16 só pode ser 
compreendido com o auxílio da versão dos Setenta, sendo o seu sentido 
geral que o ritual desprovido de realidade é anátema à vista do Deus 
santo de Israel. 
 Oliveira (16), árvore muito comum na Palestina. Oséias (14.6) 
utiliza uma metáfora semelhante para se referir a Judá. Esta oliveira é 
estéril, e por isso é consignada às chamas, isto é, ao castigo. 
 
 4. A IRA DE ANATOTE (11.18-23). Esta descrição das conjuras 
urdidas contra Jeremias pelos habitantes da sua terra natal é introduzida 
abruptamente. Neste breve parágrafo temos três cenas: na primeira é o 
povo que fala (19); na segunda fala o profeta (20); e na terceira ouvimos 
a voz de Deus (21-23). Anatote era o local onde se fixara a casa 
sacerdotal de Abiatar, íntimo amigo de Davi, deposto por Salomão a 
favor da casa rival mais recente de Zadoque, que a partir de então 
exerceu a primazia sacerdotal em Jerusalém, atingindo, assim, uma 
posição de grande poder, fortuna e influência. Tínhamos aqui, pois, 
todos os elementos essenciais que contribuem para o aparecimento da 
amargura. A cólera surge facilmente numa terra como Anatote sempre 
que um filho ou um parente não comunga no sentimento local, 
especialmente quando favorece, ou parece favorecer, a facção oposta. 
Numa hora assim, a religião sob o seu pior aspecto engendra uma ira 
desapiedada. 
Portanto, quando Jeremias, criado entre os sacerdotes de Anatote, 
apoiou como profeta a destruição de todos os santuários provincianos 
(como é quase certo que fez durante algum tempo), por inferência 
desejava que fosse suprimido o santuário existente em Anatote, o que 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 35 
constituía uma ofensa mortal. Abiatar fora sacerdote e usufruíra dos 
privilégios respectivos antes do nascimento de Zadoque! O amor pode 
transformar-se em aversão desde que haja provocação suficiente. A vaga 
de azedume e ódio que se ergueu contra Jeremias pode ser avaliada pela 
maneira como ele apelou para o tribunal de Iavé, desejando que os 
desejos e intenções dos seus conterrâneos fossem repudiados com 
desprezo e castigados por esse mesmo tribunal. A inocência do profeta 
(19) era a de um cordeiro desconhecedor do perigo. 
 Fruto (19), palavra que talvez devesse ser alterada para "seiva" 
(em hebraico leah em vez de lechem). 
 Rins (20), sinônimo de emoção. Coração (20), sede da 
inteligência ou da razão. 
 
 
Jeremias 12 
 5. O PROBLEMA DA PROSPERIDADE DOS ÍMPIOS (12.1-5). 
Jeremias conclui a sua quarta mensagem com uma referência ao secular 
problema do êxito dos ímpios. O profeta encontra-se entre os mais 
ousados de todas as gerações que se ergueram no seu sofrimento e 
interpelaram a soberania divina sobre o problema da prosperidade que 
parece acompanhar as ações dos ímpios e ateus. A cólera (3-4) arde 
dentro dele contra as intençõeshomicidas dos seus antagonistas em 
Anatote, gente má mas próspera! Todavia, Deus não está à mercê das 
perguntas do homem, sejam quais forem as anomalias da vida humana. 
Jeremias não recebe qualquer solução direta para o seu problema, sendo-
lhe, em vez disso, ordenado que se prepare para uma prova ainda mais 
dura a que a sua fé e coragem vão ser sujeitas. O primeiro sofrimento, 
que é comparado a uma corrida contra atletas rivais, constitui apenas 
disciplina preliminar para uma luta muito mais afincada. Se essa luta era 
demasiado para ele, como se comportaria o profeta ao ter de defrontar 
cavalos de corrida (5)? E se, quando a terra estava em paz, se sentia tão 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 36 
preocupado, qual seria a sua reação nos tempos difíceis que o futuro 
reservava (simbolizados pela "enchente do Jordão")? 
 Plantaste-os (2). Em 2Sm 7.10, aplica-se a toda a nação a 
metáfora de uma árvore. Aqui, essa mesma metáfora é aplicada aos 
ímpios. 
 A enchente do Jordão (5; em hebraico ga'on, inchaço, orgulho, 
majestade), indicando a vegetação selvática, frondosa e infestada de 
animais da região quente e pantanosa das margens do rio Jordão 
(compare-se com 49.19; 50.44; Zc 11.3). 
 
b) O lamento de Iavé (12.6-17) 
 
 Nos vv. 6-11 Deus fala a Jeremias; nos vv. 12-17, Deus fala 
através de Jeremias. Esta seção constitui um apêndice à quarta 
mensagem de Jeremias, que acaba de chegar ao seu termo. A dor do 
profeta, como a de Oséias, com quem tem bastantes características em 
comum, levava-o a sentir que ela tinha a sua contrapartida em Deus. Este 
lamento divino, no seu enquadramento histórico, vem registrado em 2Rs 
24.1-2, onde encontramos pormenores e datas (598 A. C.). 
 A minha casa (7); expressão provavelmente utilizada aqui no 
sentido mais amplo de "o meu país" em vez de em referência ao templo. 
 Como leão (8); Judá rugiu contra o Senhor como um leão, 
assumindo uma atitude hostil. 
 Ave de várias cores (9); assim como as aves atacam outras de 
plumagem com a qual não estão familiarizadas, assim também Israel, 
diferente das outras nações, foi atacado por elas. 
 A minha vinha (10); a nação é mencionada por meio de várias 
metáforas - casa, herança amada da minha alma, vinha. Os pastores, isto 
é, os dirigentes, começaram a destruir a vinha, e o inimigo externo 
concluiu essa tarefa. 
 Os meus maus vizinhos (14) sofrerão, conforme se prediz (14-
17), o mesmo destino que Judá, ou seja, o exílio; esses agressores sírios, 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 37 
moabitas e amonitas serão semelhantemente punidos pela ação do 
inimigo comum, Babilônia, a não ser que passem a adorar o Deus vivo e 
aprendam a jurar pelo Seu nome (16). Note-se uma vez mais o caráter 
condicional da profecia. 
 
Jeremias 13 
V. AS CINCO ADVERTÊNCIAS - 13.1-27 
 
 Desconhece-se a data exata destas advertências. Os vv. 18 e 19 
referem-se provavelmente a Jeoaquim e a sua mãe, a rainha Neusta (597 
A. C.). A primeira parte, prenhe de catástrofes, poderia abranger o 
reinado de seu pai, Jeoaquim, portanto 608-597 A. C. 
 
a) A primeira advertência (13.1-11) 
 
 É esta transmitida por meio do símbolo do cinto de linho. Trata-se 
de uma parábola traduzida em atos e que ensina que a adoração dos 
ídolos constitui a ruína absoluta da verdadeira adoração em corrupção de 
alma. Por outro lado, o culto de Iavé era louvor, glória, criação íntima. 
Com respeito a este aviso parabólico, há quatro "andamentos": primeiro, 
é ordenado ao profeta que obtenha um cinto (vv. 1 e 2); segundo, que o 
leve ao Eufrates (vv. 3-5); depois, que o vá buscar ao Eufrates (vv. 6 e 
7); e, finalmente, vem a explicação da parábola (vers. 8-11). Os 
primeiros três passos eram preparatórios e o quarto explicativo. O 
destino apontado a Jeremias é ambíguo. O Eufrates da passagem não 
devia ser o grande rio desse nome, a uns 380 quilômetros de Jerusalém. 
Provavelmente, a vila mencionada era Pará, cerca de quatro quilômetros 
e meio da terra natal de Jeremias, Anatote. (A palavra hebraica Perath é 
o nome que designa o Eufrates). É claro que, se se tratava de uma visão e 
não de uma viagem verdadeira, a distância deixaria de ser tomada em 
conta. 
 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 38 
b) A segunda advertência (13.12-14) 
 
 O verso 12 contém a parábola de aviso; no verso 13 vem ela 
explicada. O simbolismo do odre de vinho exprime a advertência que, 
assim como a bebida forte perturba a marcha do pensamento do homem, 
assim também será o julgamento enviado por Iavé, que embriagará os 
homens de Judá, os quais se chocarão uns com os outros, sendo 
destruídos. A embriaguez é a abdicação da clareza de espírito tão 
essencial para tomar decisões em horas de crise. Os habitantes de 
Jerusalém não terão cabeça nem forças para se defenderem ou para 
distinguirem entre amigos e inimigos (ver também 25.15-28; Ez 23.31-
34; Is 51.17; Sl 60.3). 
 
c) A terceira advertência (13.15-17) 
 
 Nesta passagem, Jeremias previne o seu povo contra a arrogância 
para com Iavé. 
 Não vos ensoberbeçais (15). Criam os gregos que o orgulho 
(hybris) atraía os golpes dos deuses. 
 Nos montes tenebrosos (16); traduzindo à letra, "os montes 
crepusculares". Refere-se esta expressão à situação difícil dos viajantes 
surpreendidos pela noite antes de chegarem a uma estalagem acolhedora. 
Dai glória (16); frase idiomática hebraica equivalente a "confessai os 
vossos pecados" (ver Js 7.19). 
 
d) A quarta advertência (13.18-19) 
 
 O acolhimento desdenhoso dispensado às mensagens de Jeremias 
foi a causa da queda daquele povo orgulhoso. Daí a ordem dada ao 
profeta de se dirigir pessoal e diretamente à casa real. 
 Humilhai-vos e assentai-vos (18). O rei e rainha mencionados são 
provavelmente Jeoaquim e Neusta, sua mãe (cerca de 597 A. C.). 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 39 
 As cidades do sul (19), isto é, Neguebe, nome dado à região 
estéril no sul de Judá. As cidades deste território deserto são notadas por 
serem as que se encontram mais protegidas das invasões, o que acentua o 
caráter drástico do cativeiro de Judá, todo o Judá... sim, inteiramente 
(19). 
 
e) A quinta advertência (13.20-27) 
 
 A última advertência de castigo revela mais claramente do que 
nunca que ele é devido à pertinácia no pecado. As palavras finais estão 
repassadas de energia. O verso 21 é obscuro. Driver traduz: "Que dirás tu 
quando ele puser sobre ti como cabeça aqueles a quem tu próprio 
ensinaste a serem teus amigos?" Épocas houve em que os babilônios 
tinham sido amigos e aliados de Judá. Assim, por exemplo, Ezequias 
cultivara a amizade de Merodaque-Baladã, fato este a que o nosso verso 
talvez se refira. 
 Ai de ti, Jerusalém! Não te purificarás? Até quando ainda? 
(27). O provérbio do verso 23 é bem conhecido e axiomático. O pecado 
pode-se tornar tão habitual que determina o destino de cada um; o nexo 
de pecado e castigo é imutável e indestrutível. Tal castigo é ainda mais 
apropriado por ser infligido por aqueles em cujo ânimo Jerusalém se 
procurara insinuar. 
 
VI. SOMBRAS DE TRAGÉDIA 14.1-21.14 
 
 Esta seção contém a quinta, sexta e sétima mensagem de Jeremias 
com os respectivos apêndices, e intercalados também vários 
acontecimentos na vida do profeta. 
 
a) A quinta mensagem de Jeremias (14.1-15.9) 
 Esta mensagem diz respeito à seca e à intercessão do profeta. 
 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 40 
Jeremias 14 
 1. A DESOLAÇÃO DA TERRA (14.1-6). A desolação do país era 
completa, abrangendo-o na sua inteireza (2), bem como aos nobres (3), 
ao solo (4), e aos muitos animais (5-6). O Senhor dirigiu a Sua palavra a 
Jeremias acerca desta seca e todas as suas conseqüências devastadoras, 
desgraça que inspirou as orações do profeta. No oriente, as secas 
constituem um acontecimento que inspira terror. O problema 
fundamental, "porquanto não há erva" (5-6) vem expresso duas vezes. 
 
 2. A SÚPLICA DO PROFETA (14.7-9). A descrição é poética, 
aproveitando o profeta o acontecimento como símboloapropriado da 
seca espiritual. O Deus vivo abandona o povo ao seu pecado; Ele não 
permanece mais do que uma noite, como um viandante (8). 
 Não nos desampares (9), o ponto culminante da intercessão. 
 
 3. A CONFIDÊNCIA DO SENHOR (14.10-12). Ordem 
inexorável, esta do verso 11, de o profeta não orar pelo seu povo. 
 Pela espada e pela fome e pela peste (12), combinação esta que 
ocorre sete vezes em Jeremias. 
 
 4. A DECLARAÇÃO RESPEITANTE AOS FALSOS PROFETAS 
(14.13-16). Jeremias pode apenas alegar (13) que os profetas tinham 
mentido ao povo, predizendo uma falsa paz. Mentirosos assim não 
podiam ser Seus embaixadores; profetizavam baseados apenas na sua 
autoridade ímpia. No entanto - e aqui é que reside a tragédia - o povo 
desejava ser iludido pelo que o castigo cairia tanto sobre os ludibriadores 
como sobre os ludibriados. 
 
 5. A LAMENTAÇÃO DO VERDADEIRO PROFETA (14.17-22). 
Como Abraão fizera outrora por Sodoma, assim também Jeremias ousa 
agora continuar a interceder, invocando fortes argumentos. 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 41 
 Não anules o Teu concerto conosco (21), implora ele. Mais 
ainda, Jeremias apóia-se no nome e caráter divino na relação existente 
entre Jeová e o Seu povo. 
 Não és Tu, somente, ó Senhor, nosso Deus? Portanto, em Ti 
esperaremos (22). Israel violara o concerto, mas o Deus de Israel jamais 
o faria! 
 
Jeremias 15 
 6. A DECLARAÇÃO DO SENHOR (15.1-9). Todavia, o Senhor 
mostra-Se inabalável. Responde à oração do profeta; Moisés e Samuel 
haviam intercedido na antiguidade; não seria a Minha alma com este 
povo (1); compare-se com Êx 32.11-14,30-32; Nm 14.13-24; Dt 9.18-
20,25-29; 1Sm 7.8-9; 12.19-25; Sl 49.6-8. O castigo está já destinado 
para Judá - a espada, cães, aves de rapina e os animais da terra (3). 
 Padejá-los-eis (7), ou, segundo outra tradução, "padejei-os". 
 A que dava à luz sete (9). Jerusalém, tão prolífica e próspera, 
ficará sem filhos (7). 
 
b) Apêndice dialogado (15.10-21) 
 
 Jeremias torna-se introspectivo. Sente-se invadido pela angústia de 
se ter transformado numa maldição para o seu povo, mas Iavé fortalece o 
seu espírito e ainda o justificará. O verso 11 é difícil. Os vv. 12-14 
referem-se ao exílio. A absoluta solidão do homem de Deus vem 
expressa nos vv. 15-18. Tem de se pôr ao lado do Senhor contra os seus 
próprios conterrâneos, embora contra a sua inclinação e vontade. 
 Me encheste de indignação (17). O seu brado é de desespero; 
chegou ao extremo. 
 Por que dura a minha dor continuamente? (18). Deverá Iavé 
ser para mim como uma fonte que se evapora em tempo de estiagem? O 
Senhor responde. No final deste diálogo, vem o penhor do livramento se 
a obediência for ininterrupta: 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 42 
 Se apartares o precioso do vil (19), isto é, se esclareceres a 
diferença eterna entre o bem e o mal, "serás como a Minha boca" e 
continuarás a ser o Meu profeta. 
 Os vv. 20-21 constituem uma repetição substancial de 1.18-19. 
 
c) A sexta mensagem de Jeremias (16.1-17.18) 
 
Jeremias 16 
 O tema desta mensagem é acentuado pela ordem divina dada ao 
profeta de não se casar. O país será ensombrado pela tragédia, pois o 
pecado irá recolher a sua seara de castigo inevitável. 
 Não tomarás para ti mulher (16.2), pois as crianças nascidas em 
Judá morrerão sem haver quem as sepulte. 
 Morrerão de enfermidades dolorosas (4); à letra, "mortes de 
doença", isto é, mortes provocadas por doenças debilitantes ou fome. 
Todos serão devorados pelas aves e pelos animais ferozes. O profeta não 
se deverá juntar aos pranteadores (5) - literalmente, ao pranto estridente 
produzido pela dor - aos que se entregam a festejos (8) e à vida 
doméstica (9). A causa é a idolatria, e o castigo é inevitável, a saber, o 
exílio (13). 
 Não usarei de misericórdia convosco (13), o que é o cúmulo, 
sem dúvida, da severidade. 
 Nem lhes darão a beber do copo de consolação (7) 
possivelmente uma alusão aos banquetes fúnebres que, na sua origem, 
talvez representassem uma forma de comunhão com os mortos. Do copo 
de consolação (7), servido nos funerais. 
 Uma terra (13); no hebraico, encontramos o artigo definido, "a 
terra". O povo não ignorava a terra para onde seria levado. 
 Os vv. 14 e 15 parecem deslocados - talvez interpolação de um 
escriba exprimindo alegria depois do exílio. Por outro lado, podem 
constituir um desabafo que alivia a pressão mortal sobre o coração do 
profeta. Estes vv. repetem-se em 23.7 e seguintes. 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 43 
Prosseguem agora as ameaças dos vv. 9-18 depois da interrupção 
causada pelos dois vv. 14 e 15. As sombras adensam-se. Como para os 
peixes e animais, só o cativeiro e a morte aguardam os cidadãos 
condenados de Jerusalém. Mais tarde, até os pagãos participarão no 
refúgio em Iavé facultado pela cidade. E esta a fiel expectativa de 
Jeremias para quando o castigo tiver passado, talvez um paralelo do 
otimismo compensador dos vv. 14 e 15. 
 Saberão que o Meu nome é o Senhor (21), isto é, Jeová. 
 Pescadores (16); Amós serve-se de uma metáfora semelhante 
(Am 4.2); o mesmo fazem Habacuque (1.15) e Ezequiel (12.13). 
 Em dobro (18); compare-se com Is 40.2; o significado é 
"amplamente". Profanaram a minha... herança (18); ao fim e ao cabo, 
os ídolos eram coisas mortas e, portanto manchavam a terra, herança de 
Deus. 
 
Jeremias 17 
O pecado de Judá é como a escrita indelével de um estilete de ferro 
ou de uma ponta de diamante (17.1). Utilizavam-se estiletes de ferro para 
gravar inscrições em superfícies duras, como rochedos ou pedras (ver Jó 
19.24). As pontas de diamante eram empregadas para cortar outros 
diamantes não menos duros. A verdade é que a nação se classifica na 
mesma categoria de dureza, pois o pecado está permanentemente 
gravado no seu coração. O fogo do castigo de Jeová será tão perdurável 
como esse pecado (4). 
 Dos seus bosques (2); isto é, os "aserim". Ver a nota respeitante a 
1Rs 14.23. 
 Ó minha montanha (3), expressão que se supõe geralmente 
referir-se a Jerusalém. 
 Por causa do pecado (3). A seguir à descrição do pecado (1-2) e 
do castigo de Judá (3-4) vem o contraste entre o homem que confia no 
homem (5-6) e aquele que confia em Deus (7-8). A condição 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 44 
desesperada do coração humano sem diagnóstico e cura espiritual vem 
descrita nos vv. 9 e 10. 
 Enganoso é o coração... e perverso (9); ou, segundo outra 
tradução, "desesperadamente doente". Em 15.18 e 30.12 a mesma 
palavra vem traduzida por "incurável". 
O rico néscio vem fotografado no verso 11. 
 As deixará (11), isto é, a fortuna deixará e abandonará o rico. 
Através das Escrituras, o termo "louco ou sinônimos refere-se à 
insensatez moral e não à intelectual. A sensibilidade de Jeremias vem 
revelada nas palavras finais, que constituem um brado de vindicação. 
 Escritos sobre a terra (13), uma metáfora que exprime o que não 
tem duração: "desaparecerão como palavras escritas na areia. 
 Pastor (16); a mesma palavra é alhures empregada para designar 
reis ou dirigentes; aqui aplica-se ao próprio profeta. 
 
d) Apêndice referente ao Sábado (17.19-27) 
 
 Como o trecho precedente, também este tem um apêndice. Diz ele 
respeito ao sábado e assinala a transição da poesia para a prosa 
suscitando igualmente um problema de ordem cronológica. Para o 
profeta, que, necessariamente, amava o sábado, a sua profanação deve 
ter sugerido o desagrado divino. 
 À porta dos filhos do povo (19), a porta junto à qual Jeremias 
recebe ordens para se colocar e instruir todos os carregadores que ali 
entravam no dia de descanso; não se logrou identificar entre as várias 
portas da cidade, palácio ou templo. 
 A proibição do verso 27 sugere uma das portas da cidade. 
 Quanto às palavras finais, ver 21.14; 49.27; 50.32; Am 1.3-2.5. 
 
Jeremias 18 
e) A sétima mensagem de Jeremias (18.1-17) 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 45 
 1. UMA ILUSTRAÇÃO (18.1-10). Este discursovem associado 
com a visita ordenada ao profeta, à casa do oleiro, onde compreendeu o 
pensamento de Deus. As operações realizadas por aquele homem 
permitiram-lhe penetrar no Espírito do divino oleiro atarefado com o Seu 
barro humano. Temos aqui uma parábola sobre esse artífice oriental tão 
familiar. A compreensão inspirada e intuitiva de Jeremias da obra 
criadora de Iavé exercida sobre o Seu material humano constitui a 
mensagem. O expectador assistiu com mais atenção do que nunca ao 
trabalho do oleiro nas rodas (3), ou, traduzindo à letra, as duas pedras, 
superior e inferior. Notou ele especialmente que o oleiro não conseguiu 
logo fazer uma peça de cerâmica, fracasso que pode ter ocorrido mais de 
uma vez. Este malogro poderia ser atribuído à falta de cuidado ou de 
jeito do oleiro, ao caráter tosco do maquinismo empregado, ou a 
qualquer defeito no próprio barro. Fosse qual fosse a deficiência, o oleiro 
perseverou, transformando o barro recalcitrante noutra vasilha. 
Semelhantemente, também o Senhor, que não tem que enfrentar qualquer 
obstáculo que não seja o barro humano, domina o material, 
aperfeiçoando-o ao propósito presente no Seu Espírito, quer o resultado 
seja um vaso humilde ou grandioso. Se o material não reage com 
precisão à pressão que o forma, torna a ser moldado. Esta parábola 
constitui um quadro vívido da soberania divina. Aqui não se concebe 
nem se nega a liberdade humana conforme filosoficamente raciocinada. 
Deus volta! Jeremias discerne a inferência ética e espiritual (5-10). 
 Não poderei Eu fazer de vós como fez este oleiro? (6). O profeta 
elabora o conteúdo da sua intuição, pois ouve a voz de Deus. Se uma 
nação procede mal, é inevitável que Jeová Se arrependa do bem que lhe 
prometeu em seu benefício. 
 
 2. A DECLARAÇÃO (18.11). A mensagem é clara. O exílio, eis o 
novo molde em que a nação teria de ser reformada. Não é menos claro o 
estado daquele povo. 
 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 46 
 3. A EXORTAÇÃO (18.11-12). 
 Convertei-vos... melhorai. O primeiro termo desta passagem 
chama a atenção para o processo inicial, e o outro para o processo mais 
contínuo. A moldagem imposta pela vontade do Senhor é impregnada de 
graça desde que o espírito nacional deixe de ser rebelde e corresponda e 
obedeça ao que Deus dele pretende. 
 4. A ADMOESTAÇÃO (18.13-17). Instruído pelo Senhor, 
Jeremias avisa os homens de Judá e os habitantes de Jerusalém contra a 
maldade que representa um espírito teimoso. O pecado do povo é tão 
irracional como trágico. Até elementos familiares da natureza podem ser 
citados como seus juízes: 
 A neve do Líbano (14) e as correntes (14), coisas firmes que 
contrastam com o povo de Iavé, que se esquece dEle e que adora deuses 
que, na realidade, não existem. 
 Vaidade (15), símbolo do nada. Quando a catástrofe sobrevém, 
portanto, o rosto de Iavé desvia-se deles (ver 2.27). 
 
f) Reações (18.18-23) 
 
 Na conclusão da sétima mensagem de Jeremias, registramos duas 
reações, primeiro do público e segundo do orador. 
 
 1. OS OUVINTES HOSTIS CONSPIRAM CONTRA A VIDA 
DO PROFETA (18.18). Ver 11.18-23; 12.1-6; 15.10-11,15-21. Trata-se 
da segunda conjura contra Jeremias, tendo a primeira sido feita pelo 
povo de Anatote (11.19 e seguintes). Os inimigos de Jeremias esperavam 
confiantemente que as suas tremendas profecias se não cumprissem e 
que fosse possível assegurar a sua queda mediante os esforços 
conjugados de sacerdotes, homens sábios e profetas de outros cultos. 
 Não escutemos nenhuma das suas palavras (18). Isto implica 
que os conspiradores e homicidas tencionam votar ao desprezo as 
predições e exortações de Jeremias. A versão dos Setenta, porém, omite 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 47 
a negativa, dando um sentido melhor, a saber, a conveniência de prestar 
toda a atenção às mensagens do profeta e colher nas próprias palavras 
pronunciadas pela sua boca provas de traição contra ele. 
 
 2. O PROFETA, SENSÍVEL, IMPLORA DESAGRAVO (18.19-23). 
A fúria retributiva desta passagem é tão veemente que muitos 
comentadores pensam que ela nem parece de Jeremias. Todavia, a 
exceção pode provar a regra. O profeta é transparente. Põe a nu a sua 
própria alma, e nada oculta. A provocação é mais do que ele pode 
suportar. Pode-se arredar a interpretação superficial de que temos aqui 
uma imprecação puramente egoísta. Não; o que aqui temos é um brado 
de que a causa divina, tão desapiedadamente metida a ridículo pelos 
inimigos, pode ser vindicada pelo derrubamento da sua suposta 
segurança e poder. Na primeira parte da oração, a ênfase recai sobre o 
profeta, e na segunda metade sobre os seus inimigos. 
 
Jeremias 19 
g) A oitava mensagem de Jeremias (19.1-15) 
 
 1. O MÉTODO UTILIZADO (19.1-2). Como o antecedente, este 
oráculo assume a forma de uma parábola. O profeta deverá exprimir a 
sua mensagem por atos em dois locais: no vale de Ben-Hinom e no átrio 
do templo. É ordenado a Jeremias que se dirija ao vale do filho de 
Hinom, passando pela Porta dos Cacos (Harsith) (2), acompanhado 
pelos anciãos dos sacerdotes e do povo, e levando consigo uma botija de 
barro (1). Neste passo existem dificuldades textuais, mas o sentido é 
claro. 
 
 2. A MENSAGEM TRANSMITIDA (19.3-15). Jeremias deveria 
despejar o conteúdo de uma botija, partindo esta seguidamente, para 
frisar mediante este ato simbólico que, do mesmo modo, Iavé castigaria a 
idolatria e mas ações daquele povo. 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 48 
 Os vv. 4 e 5 já ocorreram em substância em 7.31-32. A 
Septuaginta não contém a frase em holocaustos a Baal (5). Dissiparei 
(7); traduzindo à letra "esvaziarei", trocadilho em torno da expressão 
botija de oleiro (1). As palavras hebraicas são cognatas. 
 Os enterrarão em Tofete (11), parte esta do verso omitida na 
Septuaginta. A mesma ação simbólica de quebrar a botija vazia deverá 
ser repetida no átrio da casa do Senhor (14), seguindo-se um aviso ao 
povo e uma sentença de condenação. 
 
Jeremias 20 
h) Jeremias no cepo (20.1-6) 
 
 Pasur... o sacerdote... presidente (em hebraico "dirigente" ou 
"alto funcionário") na casa do Senhor (1), agrediu Jeremias, numa 
reação brutal, e prendeu-o no cepo. Naquele círculo sacerdotal, o profeta 
era uma ameaça viva contra a sua idéia repetidamente expressa de que, 
se Babilônia atacasse Jerusalém, o Egito a obrigaria a levantar o cerco. 
De noite, Pasur refletiu, acabando por libertar Jeremias. 
 Se este procedimento foi ditado pelo desejo de alterar ou abrandar 
a mensagem do profeta, em breve Pasur se desiludiu. Homens como 
Jeremias não modificam as suas mensagens ao sabor das circunstâncias. 
Através de toda a história, os oportunistas no poder têm-se chocado 
violentamente contra a qualidade granítica dos porta-vozes de Deus. 
 Tragicamente, portanto, Jeremias deu a Pasur o nome de 
Magormissabib (3), o que em hebraico quer dizer "terror de todos os 
lados". Significa isto que, quando a vitória dos babilônios provar a 
falsidade da sua expectativa de segurança, Pasur será tido como 
responsável por desastre tão incrível, considerado falso profeta não só 
aos seus próprios olhos como também aos olhos de todos os seus amigos 
(4). 
 
 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 49 
i) A queixa de Jeremias (20.7-18) 
 
 Trata-se de uma passagem de caráter psicológico único na profecia 
canônica, uma passagem palpitante de sentimento, onde se vê uma alma 
posta a nu. Iavé obrigara Jeremias a ser profeta. Se Jeremias não 
transmitisse fielmente a mensagem de condenação, tal negligência seria 
como uma chama consumidora dentro de si, uma tensão insuportável. Os 
seus amigos chamam-lhe terrorista. O seu estímulo perene é que o 
Senhor está com ele como um homem poderoso. No final, os seus 
inimigos perderão a batalha. 
 Todos os que têm paz comigo (10), isto é, conhecidos a quem 
normalmente diria shalom - "paz seja convosco". Os vv. 14-18 revelam 
o ponto onde a resistência se torna impossível. As palavras não parecem 
adaptar-semuito bem neste passo. Sugerem dias ainda mais sombrios - 
palavras trágicas de um coração absolutamente dilacerado que apontam 
para uma época em que Jeremias seria posto ainda mais à margem em 
relação ao seu povo do que nunca, mas ao mesmo tempo obrigado a 
assistir à aproximação da catástrofe. Que confiança não devia Deus ter 
neste homem por Ele escolhido ao obrigar uma alma assim a abrir um 
sulco tão solitário e tão desesperado na Sua lavra! Revela-se aqui a alma 
de um homem de Deus que se queixa do seu destino, mas, ao mesmo 
tempo, uma alma submissa, reverente, obediente e fiel. 
 
Jeremias 21 
j) A nona mensagem de Jeremias (21.1-14) 
 
 Esta mensagem do profeta constitui outro aviso da queda de 
Jerusalém. Em 37.3-10 há um relato semelhante que, aliás, não constitui 
uma passagem gêmea. Fala-se no levantamento temporário do cerco 
pelos egípcios, sendo este continuado mais tarde com maior intensidade 
e o sofrimento resultante. Aqui, porém, vemos o cerco na sua fase 
inicial. 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 50 
 1. A MENSAGEM DE JEREMIAS A ZEDEQUIAS (21.1-7). 
Temos primeiro o apelo de Zedequias (1-2), que envia Pasur (não o 
funcionário do mesmo nome no capítulo 20) a rogar a intercessão de 
Jeremias. O profeta responde a Zedequias de acordo com as instruções 
de Jeová. 
 Com toda a autoridade de alguém que fora divinamente nomeado, 
Jeremias anuncia: Assim diz o Senhor (4). 
 A resposta é que Iavé determinou que os babilônios sejam agentes 
do Seu castigo e que não concedam quartel; feri-los-á ao fio da espada 
(7). O rei, sua corte e povo, todos os que sobreviverem aos horrores do 
cerco, da fome e da pestilência, serão entregues na mão de 
Nabucodonosor. A morte será o destino daqueles que não se renderem, e 
a cidade será pasto das chamas. 
 
 2. MENSAGEM DE JEREMIAS AO POVO DE JERUSALÉM 
(21.8-10). A imagem dos dois caminhos inspira-se em Dt 30.15,19. 
 Por despojo (9), isto é, só salvará a vida. 
 
 3. A MENSAGEM DE JEREMIAS À CASA REAL (21.11-14). 
Consiste ela numa exortação (11-12) e numa declaração (13-14). Os que 
têm autoridade para julgar deverão proceder com justiça para que a ira 
de Jeová não seja um fogo consumidor. 
 Pela manhã (12), os julgamentos tinham geralmente lugar de 
manhã cedo, mas esta frase também poderia significar que o rei se 
deveria preocupar, antes de mais, e exclusivamente, com a justiça. 
 Moradora (13); a palavra hebraica está no feminino e o profeta 
refere-se evidentemente a Jerusalém, embora não se perceba muito bem 
por que razão se aplicaria esse termo à cidade. 
 
VII. REIS E PROFETAS DE JUDÁ: A VISÃO DO FIM 
 - 22.1-25.38 
 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 51 
a) Reis de Judá (22.1-23.8) 
 
 Esta seção contém várias profecias respeitantes aos reis 
contemporâneos de Judá; é impossível sabermos se foram ou não 
proferidas por Jeremias na ordem em que se encontram. 
 
Jeremias 22 
 1. INTRODUÇÃO (22.1-9). Tanto o rei como o povo deverão 
exercer julgamento e misericórdia, especialmente para os mais 
necessitados, de outro modo a casa de Davi será assolada. Iavé 
compromete-Se pelo juramento mais solene a punir a desobediência com 
a desolação: Por Mim mesmo tenho jurado (5); ver o comentário sobre 
esta fórmula em Hb 6.13-18. A casa de Davi, simbolizada pela floresta 
do Líbano, será destruída pelo fogo. Uma vez mais, a causa de 
semelhante catástrofe é a idolatria impenitente. 
 Os teus cedros escolhidos (7); entenda-se; os dirigentes da nação. 
 
 2 SALUM (22.10-12) Josias, cuja morte em Megido (608 A. C.) 
constituiu uma catástrofe para o movimento de reforma, não deverá ser 
chorado. 
 Não choreis o morto (10), mas antes Salum, isto é, Jeoacaz, que 
morreu exilado no Egito depois de haver reinado durante apenas três 
meses (2Rs 23.36-24.7). Foi este o primeiro monarca do reino do sul a 
morrer no exílio. O sentido do verso 10 é que é melhor morrer no campo 
de batalha do que no cativeiro. 
 
 3. JEOAQUIM (22.13-23). O pai deste rei tinha sido um 
reformador mas procedera mal aos olhos de Deus. Josias fora justo, e o 
filho era injusto. Josias fora um pai para o seu povo, mas seu filho 
espezinhou perfidamente os seus direitos básicos; um era um homem 
austero, o outro amante da ostentação; o primeiro morreu como um 
herói, e o segundo foi enterrado como um jumento, sem cerimônias 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 52 
fúnebres (2Rs 24.6). Os vv. 20-23 podem dizer respeito a qualquer rei 
desconhecido. 
 Namorados (20), palavra que significa "aliados". Líbano... 
Basã... Abarim (20) eram montanhas que davam para Israel e Judá, 
começando no norte e estendendo-se pela fronteira de leste. 
 
 4. JEOAQUIM (22.24-30). Nesta profecia acerca de Jeoaquim ou 
Jeconias parecem combinar-se dois oráculos de Jeremias, o primeiro 
(versos 24-27) acerca do cativeiro futuro, e o segundo (vv. 28-30) acerca 
do cativeiro conforme já experimentado. Todo este trecho constitui, 
porém, uma lamentação pelo estado desolado de Jerusalém devido à 
política míope dos seus reis. Jeoaquim e sua mãe são lançados fora para 
morrerem no exílio, profecia esta que se cumpriu conforme descrito em 
2Rs 24.8 e seguintes. Em 597 A. C., Nabucodonosor marchou contra 
Jerusalém, e Jeoaquim, sua mãe e toda a casa real saíram ao seu 
encontro, sendo levados para Babilônia. O ex-rei foi posto em liberdade 
após trinta e sete anos de cativeiro. 
 
Jeremias 23 
 5. PASTORES OU DIRIGENTES (23.1-8). A seguir deveria vir o 
último rei, Zedequias. Alguns comentadores julgam que Jeremias evitou 
citá-lo na sua profecia, mas o oráculo é suficientemente alusivo, mais do 
que a qualquer outro monarca. Temos aqui uma condenação dos falsos 
"pastores" (1) que não se importam com a sua responsabilidade e 
destroem e espalham o seu rebanho, como se se tratasse de ovelhas que 
se transformassem em presas de animais ferozes. 
 As afugentastes (2); os verdadeiros pastores não impelem o 
rebanho à sua frente, antes o conduzem. Iavé juntará o Seu resto (3) e 
suscitará pastores que alimentarão o Seu rebanho, em vez de o destruir. 
A convicção de Jeremias é que Iavé porá no trono um rei davídico cujo 
nome indicará a sua natureza, Iavé Tsidkenu - o Senhor justiça nossa 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 53 
(5-6). Será este rei quem reconduzirá à pátria um novo êxodo em que 
participarão os exilados do reino do norte (7-8). 
 Eis que vêm dias (5), frase esta que ocorre dezesseis vezes em 
Jeremias e cinco vezes apenas noutros livros da Bíblia. Renovo (5), ou 
seja, um rebento. A palavra hebraica tsemach designa os rebentos que, 
por vezes, surgem nas raízes de uma árvore. Temos aqui, pois, a imagem 
de uma árvore que foi abatida mas que revela novo surto de vigor. 
 
b) Profetas de Judá (23.9-40) 
 O parágrafo anterior dizia respeito aos dirigentes do estado; este 
refere-se já aos dirigentes religiosos. 
 
 1. A ANGÚSTIA DE JEREMIAS POR CAUSA DOS FALSOS 
PROFETAS (23.9). Jeremias tem aqui uma visão deprimente, tão 
perturbante como se o seu coração tivesse sido dilacerado ou os seus 
ossos se assemelhassem aos de um homem vencido pela embriaguez. 
 
 2. OS PECADOS DOS FALSOS PROFETAS (23.10-15). 
Comparados com a santidade de Iavé, tanto o profeta como o sacerdote 
estão contaminados (11), pelo que é inevitável o castigo (10-11). Os 
profetas de Jerusalém são piores do que os do norte. 
 Os profetas de Samaria (13) eram idólatras; os profetas de 
Jerusalém eram, além disso, imorais. E, se os primeiros foram 
castigados, como não o serão mais ainda os últimos! A sua 
pecaminosidade é tão grande como a de Sodoma e Gomorra. Homens 
assim facilitam a prática do pecado (13-15). 
 
 3. A CONDENAÇÃO DOS FALSOS PROFETAS (23.16-20). 
Profetizam inspirados pelo seu coração profano, não tendo recebido 
qualquer mensagem de Iavé. Nenhum deles assistira em Seu conselho e 
ouvira o Seu discurso. Vv. 19-20 parecem quebrar a seqüência de 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 54 
pensamento; alguns têm sugerido que são umarepetição no lugar errado 
de 30.23-24. 
 
 4. A ILEGALIDADE DOS FALSOS PROFETAS (23.21-32). A 
condenação de Jeremias com relação aos profetas continua, sendo 
exposta a sua missão falsa, fútil e ilegal (23-24). "Yahweh" não os 
enviara nem tampouco falara com eles. Pregam acerca de suas próprias 
ilusões. Não deixam de escapar à sua presença. A "mentira na alma" 
(Platão) não pode ser revelação de "Yahweh", ainda que um profeta 
mencione o Seu nome. Um profeta ligado a Baal não pode ser 
relacionado a "Yahweh". Os sonhos dos falsos profetas devem ser 
claramente diferenciados da Palavra de Deus tal como o joio o é do trigo 
(28). O Senhor é contra tudo quanto é falso: por Sua palavra isso será 
destruído. 
 
 5. A DESGRAÇA DOS FALSOS PROFETAS (23.33-40). Segue-
se como que um trocadilho com a palavra peso (33); heb. massa. No 
verdadeiro profeta uma palavra de "Yahweh" é um peso que precisa 
entregar. Para o rebelde tal palavra é algo de pesado e a zombaria é 
substituída pela reverência. Em vista de não haver palavra ou peso de 
"Yahweh" o julgamento é de vergonha perpétua. A emenda Sir. e Vulg. 
(70) para "Levantar-vos-ei" é preferível a Eu me esquecerei totalmente 
de vós (39), tal como está, guardando o significado de "peso". O vers. 37 
é omitido pelos LXX. 
 
Jeremias 24 
c) Dois cestos de figos (24.1-10) 
 
 Notamos aqui a apreensão de Jeremias quanto à visão (1-3) e a 
explicação de "Yahweh" acerca da mesma (4-10). Sob os imaginários 
figos bons e maus, Jeremias contrasta os exílios de 597 A. C. e o povo da 
terra sob Zedequias. 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 55 
 Os bons figos, muito bons (3) dizem respeito aos exílios; os 
maus, muito maus (3) estragados demais para serem comidos, 
simbolizam Jerusalém. Os exilados deverão ser restaurados (4-7); os da 
terra deverão ser destruídos (8-10). Os exilados devem ser inteiramente 
renascidos de coração e se tornarem povo de "Yahweh". 
 Na terra do Egito (8); Neco com toda a probabilidade tomou de 
um certo número de judeus com Jeoacaz para o Egito, ainda que nada 
seja conhecido com respeito a qualquer comunidade judaica nesse lugar 
até tempos mais tarde. 
 
Jeremias 25 
d) Visão do fim (25.1-38) 
 
 Na batalha crucial de Carquemis (605 A. C.), os babilônios 
derrotaram os egípcios e terminaram então com o domínio do Faraó 
Neco sobre a Palestina. Foi uma das batalhas decisivas da história. Nela, 
Jeremias lê claramente a vontade de "Yahweh". Os babilônios eram os 
"inimigos do norte" dirigidos por "Yahweh" a fim de levar a cabo o Seu 
julgamento sobre Judá. 
 
1. UMA CONFIRMAÇÃO (25.1-14). 
 O décimo terceiro ano de Josias (3) foi o ano do chamado de 
Jeremias (626 A. C.; cf. 1.2). Madrugando e falando (3) é uma 
expressão nômade para iniciar cedo, uma viagem. Jeremias viu que o 
povo não havia respondido à iniciativa de "Yahweh", mas que haviam-
nO vexado a ponto deles mesmos ficarem feridos (7). 
 Meu servo (9) não está nos LXX, porém seu significado 
evidentemente é "meu instrumento". O rei babilônio e seus aliados 
deixariam a terra se perder e levariam para o exílio quem quisessem. 
Gerações do norte (9). O Império Babilônico, tal como seu predecessor, 
o Assírio, fora feito de muitas raças, muitas "gerações". 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 56 
 A duração do exílio de setenta anos (11) é um algarismo 
arredondado. A Babilônia é colocada em julgamento (12-14). Não 
somente o julgamento está para sobrevir através da Babilônia, mas o 
julgamento virá também sobre a Babilônia. Esta seção está ausente dos 
LXX. Sua referência apropriada é para com o capítulo 1. 
 
 2. A CONDENAÇÃO (25.15-33). O copo de vinho (15-22) é o 
símbolo da ira inescapável de "Yahweh" sobre Judá e outras nações. A 
Babilônia é Seu agente. 
 Como hoje se vê (18) está faltando nos LXX. 
 Toda a mistura de gente (20) significa as comunidades 
estrangeiras no Egito que haviam se estabelecido lá por razões várias, 
como por exemplo, o comércio. 
 Nos últimos cantos da terra (23); o hebreu diz "cantos aparados" 
ou "tendo os cantos do cabelo cortados" e significa um ritual o aparar o 
cabelo (cf. 9.26; 49.32). Observar que a fúria do Senhor principia com 
Jerusalém e se estende a outras nações, as quais também merecem o 
castigo divino. 
 Sem temor algum Jeremias declara vir o dia de "Yahweh" em que 
chegará o estrondo até à extremidade da terra (31). O Senhor 
entrará em juízo com toda a carne (31), o que significa que Ele a 
levará ante o tribunal da Sua justiça; "entrar em juízo" é uma expressão 
jurídica. A metáfora muda (32) e Iavé, como leão que ruge, simboliza 
alguém que traz a guerra sobre o mundo. Os seus mortos "não serão 
pranteados, nem recolhidos, nem sepultados" (33). 
 
 3. UMA LAMENTAÇÃO (25.34-38). Chegou a meia noite, a hora 
do castigo, e o profeta faz soar uma vez mais a nota triste da lamentação. 
 Já se cumpriram os vossos dias para serdes mortos (34). Logo 
a seguir, a imagem transita de um rebanho pronto para a matança para a 
de um vaso agradável que vai ser feito em pedaços. 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 57 
 Por causa do furor do opressor (38), ou, segundo outra versão, 
"por causa do furor da espada opressora". 
 
NARRATIVAS HISTÓRICAS - 26.1-52.34 
 
Jeremias 26 
VIII. PROFECIAS E ACONTECIMENTOS DURANTE O 
REINADO DE JEOAQUIM - 26.1-24 
 
 Este capítulo contém a história de dois profetas - Jeremias e Urias. 
 
a) O perigo de Jeremias (26.1-19) 
 
 Seis cenas distintas fazem ressaltar o conteúdo deste parágrafo. 
 
 1. DEUS FALA (26.1-3). Deus diz a Jeremias que vá ao átrio do 
templo para declarar ao povo a mensagem de Iavé. 
 
 2. JEREMIAS FALA (26.4-7). Compare-se com 7.1-15. Esta 
passagem atenua a severidade da anterior. 
 
 3. FALAM OS SACERDOTES E OS FALSOS PROFETAS 
(26.8-11). O desastre de Silo, castigo divino sobre a nação, é utilizado 
por Jeremias como símbolo da futura destruição do templo, o que une os 
sacerdotes e os falsos profetas numa conspiração contra ele. A falsidade 
da mensagem desses homens consistia em esta acentuar a imunidade da 
cidade e do templo contra o perigo, apesar da idolatria da época. A 
princípio, o povo foi arrastado pelo entusiasmo e ação dos sacerdotes e 
falsos profetas e voltou-se contra Jeremias (9). Mais tarde, porém, esse 
mesmo povo mudou de opinião e pôs-se ao lado do profeta (16). É fácil 
manipular os sentimentos de uma multidão. 
 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 58 
 4. JEREMIAS FALA AOS PRÍNCIPES E AO POVO (26.12-15). 
A acusação feita a Jeremias na assembléia dos príncipes baseava-se em 
ele negar a imunidade do templo e de Jerusalém. O profeta alegou que 
fora Iavé que o enviara a proclamar que, se não houvesse 
arrependimento geral, o estado corria o maior perigo. A sua evidente 
sinceridade aliada ao destemor causou divisão entre os príncipes e o 
povo, por um lado, e os sacerdotes e os falsos profetas, por outro. 
 
 5. FALAM OS PRÍNCIPES (26.16). O acusado é absolvido, o que 
deve ter sido um choque para os sacerdotes e seus aliados. Até o povo 
comum resolvera mudar de partido. 
 
 6. FALAM OS ANCIÃOS (26.17-19). Os anciãos lembram o 
incidente de Miquéias, no reinado de Ezequias, que pronunciara aviso 
semelhante. Esta referência histórica, indicando uma vez mais o 
condicionalismo da profecia, protegeu Jeremias do perigo imediato. 
 O monte desta casa (18), sinônimo do templo. 
 
b) A morte de Urias (26.20-24) 
 
 Do ponto de vista humano, Jeremias devia o fato de estar vivo à 
intervenção de amigos poderosos e influentes. Urias não teve essa sorte. 
A extradição e assassinato deste homem mostram o perigo iminente de 
morte que Jeremias correu. Existe contraste entre o povo volúvel e a 
fidelidade de um amigo influente (24). Durante vários anos, Jeoaquim 
foi vassalo do Egito, o que explica a facilidade com que o rei... enviou 
uns homens ao Egito (22). Assim, ambos os profetas foram salvos, um 
para servir, o outro de servir. Alguns são deixados, e outros são levados, 
mas sempre comcerto propósito. Urias foi trazido do Egito, e Jeremias 
foi mais tarde levado para o Egito; ambos morreram pela sua fidelidade e 
dedicação ao seu Deus. 
 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 59 
IX. A SENSATEZ DO PROFETA - 27.1-29.32 
 
 Estes três capítulos, que dizem respeito ao reinado de Zedequias, 
podem ter sido originalmente um panfleto posto a circular entre os 
exilados de Babilônia para lhes mostrar que não deviam alimentar 
esperanças de um rápido regresso do exílio. Em parte alguma se 
manifesta em tal medida, e com tanta clareza como aqui, o equilíbrio e 
sensatez de Jeremias. O enquadramento histórico é já familiar. O 
primeiro cativeiro de 597 era um fato consumado; se Zedequias estava 
ainda no trono, era porque Babilônia o tolerava. Mas quer fora quer 
dentro do país havia muitos que conspiravam contra Nabucodonosor. 
Nestes capítulos, Jeremias dispõe-se a denunciar e corrigir a idéia de que 
seria possível derrubar o poder então supremo no mundo oriental. Acerca 
deste assunto, o profeta dirige-se às nações circundantes, ao rei 
Zedequias, aos sacerdotes e profetas, e aos próprios exilados! 
 
Jeremias 27 
a) A mensagem profética (27.1-22) 
 
 1. A MENSAGEM AOS REIS GENTIOS (27.1-11). O 
simbolismo do jugo de Jeremias põe a nu a inutilidade da conjura. 
 Embora leiamos no verso 1 no princípio do reinado de 
Jeoaquim, os vv. 3,12 e 20 tornam bem claro que a referência é a 
Zedequias, não a Jeoaquim; é quase certo tratar-se de um erro de escriba. 
Este verso vem omitido na Septuaginta. Nesta mensagem, o profeta 
refere-se primeiro à soberania de Deus e depois à de Nabucodonosor. O 
verso 7 também não ocorre na Septuaginta. 
 
 2. UMA MENSAGEM PARA ZEDEQUIAS (27.12-15). Consiste 
ela numa exortação a submeterem-se a Nabucodonosor e numa 
declaração respeitante aos falsos profetas. A falsidade destes reside no 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 60 
fato de falarem por sua iniciativa própria, sem qualquer fonte superior de 
inspiração. 
 
 3. UMA MENSAGEM PARA OS SACERDOTES (27.16-22). 
Também esta mensagem consiste numa exortação e numa declaração. O 
texto massorético e a Septuaginta só se harmonizam na profecia que lhes 
é comum, de que os vasos sagrados seriam levados para o cativeiro. O 
texto da Septuaginta é mais incisivo e provavelmente original (compare-
se com 2Rs 24.13). Os vasos sagrados a que se faz referência no vers. 16 
foram os levados com Jeoaquim em 597 A. C. Jeremias opõe ao 
otimismo superficial dos falsos profetas a revelação de que também eles 
experimentarão o cativeiro. 
 
Jeremias 28 
b) Profetas em conflito: Jeremias e Hananias (28.1-17) 
 
 Este capítulo apresenta grande divergência entre o texto 
massorético e a Septuaginta. Geralmente as diferenças são expansões 
desnecessárias no hebraico do vigoroso texto dos Setenta. O capítulo 
contém quatro discursos - dois de Hananias e dois de Jeremias. 
 
 1. A PROCLAMAÇÃO DE HANANIAS (28.1-4). Como aqui 
sucede, é sempre um problema crucial se um profeta é verdadeiro ou 
falso. Hananias ouvira Jeremias proclamar o exílio da nação rebelde; 
numa resposta violenta, afirma que Iavé lhe dissera o contrário, e 
exprime a correção através do símbolo do jugo quebrado (4). 
 
 2. A DECLARAÇÃO DE JEREMIAS (28.5-9). A resposta de 
Jeremias é irônica: "Assim faça o Senhor", dando a entender aos 
ouvintes o seu absoluto repúdio dessa segurança imaginária. Ao 
contrário de Hananias, sabia que só o arrependimento evitaria a 
catástrofe. Em qualquer caso, só a confirmação da profecia de Hananias 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 61 
poderia estabelecer a sua validade. Para Jeremias, o problema era a 
condenação não a paz ou a segurança, pois via que Hananias e os 
profetas paganizados que com ele alinhavam revelavam total ignorância 
das exigências de Iavé. A questão da verdade ou da falsidade não 
dependia só de ser ou não sincero, mas também da compreensão baseada 
na experiência e na obediência. O princípio era tragicamente claro: 
alguém poderia ser absolutamente sincero e, no entanto, estar 
condenado. 
 
 3. A DEMONSTRAÇÃO DE HANANIAS (28.10-11). 
Dramaticamente, Hananias demonstrou o seu ponto de vista, quebrando 
o jugo que tirara a Jeremias; assim seria quebrado dentro de dois anos o 
poder de Nabucodonosor. 
 E Jeremias... se foi seu caminho (11). Por que não respondeu 
imediatamente? Muito se tem escrito acerca desta incógnita. A resposta 
provável é que talvez Jeremias achasse não ser aquele o momento 
próprio. A multidão devia ter ficado fortemente impressionada com a 
sensacional mensagem de Hananias. Além disso, podia haver perigo para 
a vida de Jeremias e, sensatamente, ele retirou-se para permitir que os 
ânimos se acalmassem antes de responder. Talvez precisasse também de 
tempo para meditar na sua resposta. 
 
 4. A DENÚNCIA DE JEREMIAS (28.12-17). Jeremias saiu do 
seu silêncio e meditação com o espírito iluminado sobre o problema; 
Iavé tinha confirmado a sua intuição; portanto, Hananias estava 
enganado e a sua mensagem era falsa. 
 Não te enviou o Senhor (15). Para Jeremias, isto assumia a 
gravidade de uma sentença de morte; era aquela também a fonte da força 
perdurável do profeta, que tinha de caminhar em frente, apesar dos 
maiores perigos, uma vez que tinha sido enviado. "Ficou firme como 
vendo o invisível". 
 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 62 
Jeremias 29 
c) A carta crucial (29.1-32) 
 
 Um contingente relativamente grande de cativos fora levado para 
Babilônia em 597 A. C.; entre eles, encontravam-se o rei Jeoaquim, os 
seus familiares, um grupo de sacerdotes e alguns profetas. Jeremias 
soube que certos falsos profetas entre os exilados anunciavam um rápido 
regresso ao país, e escreveu esta carta para que os exilados não fossem 
arrastados pelo otimismo superficial, irreal, de Hananias e seus amigos. 
O grande fator seria aguardar com paciência a restauração a efetuar por 
Iavé e essa restauração não deveria ser posta em perigo por atos 
precipitados. A fé no futuro que Deus marcou é o grande princípio em 
causa - paciência na expectativa, não a inércia do desespero nem o 
suicídio da loucura. Nesta mensagem, o profeta faz primeiro uma 
exortação e depois uma declaração. Na sua exortação ao povo (4-9), diz-
lhe que prossiga tanto quanto possível nas atividades normais da 
existência. A declaração que se segue (10-32) inclui quatro grupos de 
pessoas: as que já estavam no cativeiro (10-14), as que iriam para lá (15-
19), os falsos profetas em Babilônia, dos quais são nomeados dois - 
Acabe e Zedequias (20-23) - e Semaías (24-32). 
 Não deis ouvidos aos vossos sonhos que sonhais (8). Não se 
deveriam deixar enganar nem pelos profetas iludidos nem por sonhos 
pessoais. Setenta anos, eis o limite do horizonte. Iavé dar-lhes-á um 
futuro e uma esperança. Além disso, Ele está acessível, mesmo em 
Babilônia. É admirável a certeza de Jeremias! Os vv. 14 e 16-20 não 
ocorrem na Septuaginta. Ver 24.1-10, que sugere que esta última parte é 
uma repetição dessa passagem. O verso 15 prende-se com o verso 21. 
 E tomarão deles uma maldição (22); em hebraico qelalah. 
Temos aqui provavelmente um jogo de palavras entre Qolaiah, pai de 
Acabe (21) e qalah, assado (22). O texto dos vv. 24 e 32 é confuso; a 
Septuaginta e a Siríaca também divergem dele. Todavia, o sentido é 
claro. Discute-se porque não foi Jeremias impedido de enviar uma carta 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 63 
tão perturbante. Sofonias leu esta queixa a Jeremias, que imediatamente 
pronunciou sentença sobre o remetente e a sua casa. 
 
X. UM FUTURO E UMA ESPERANÇA - 30.1-34.22 
 
 Os capítulos 30 a 33 constituem uma interrupção na biografia de 
Jeremias por Baruque. 
 O verso 11 do capítulo 29 podia, à guisa de prelúdio, encabeçar 
estas palavras de visão e esperança: Porque eu bem sei os pensamentos 
que penso de vós, diz o Senhor, pensamentos de paz e não de mal, 
para vos dar o fim que esperais (traduzindo à letra, "um fim e uma 
esperança"). Até aqui, o tom dasprofecias de Jeremias tem sido 
extremamente sombrio. É certo que, de tempos a tempos, um raio de luz 
iluminava o caminho escuro do povo de Deus, mas isso era mais a 
exceção do que a regra. Estes capítulos apresentam uma mudança digna 
de nota. Embora escutemos ainda o trovão do julgamento à distância, de 
uma maneira geral o céu está desanuviado e a mensagem é esperançosa; 
isto é surpreendente, pois os capítulos 32 e 33 foram escritos no décimo 
ano de Zedequias, isto é, em vésperas do colapso final. A evidência 
interna leva-nos a pensar que os capítulos 30 e 31 foram também escritos 
por essa altura. 
 Que situação extraordinária! Jeremias está preso, a fome e a peste 
grassam na cidade, o exército de Babilônia assalta a muralha de 
Jerusalém. Era a hora da meia-noite para Judá, e o povo carecia de 
esperança e conforto. Nessa hora sombria, Deus tem uma mensagem 
para o Seu povo, a saber, que a nação não perecerá e, mais ainda, que 
virá o tempo em que até os gentios reconhecerão a verdade de Deus e um 
ramo de justiça brotará da casa de Davi, cujo nome será "o Senhor nossa 
justiça". Tendo conduzido o povo durante tanto tempo através dum 
deserto seco e estéril, o profeta leva-o por fim, embora temporariamente, 
a um pequeno oásis vicejante. 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 64 
 Todo o tema se coaduna com o espírito de Jeremias. Esta seção 
constitui uma coletânea secundária, embora os especialistas divirjam se 
os capítulos tais como se apresentam provêm ou não da pena de 
Jeremias. Contudo, o profeta está aqui bem presente, tanto no espírito 
como na expressão. 
 
Jeremias 30 
a) O livro de consolação (30.1-24) 
 
 l. É ASSEGURADA A RESTAURAÇÃO (30.1-11). O capítulo 
abre com o anúncio da restauração (1-3). Disciplina, sim, mas não uma 
catástrofe definitiva (4-11). O que Hananias procurava simbolicamente 
fazer, mas sem direito ou poder para isso, realizá-lo-ia Iavé na Sua 
grande misericórdia (8). Dai a chamada à audácia da fé, uma vez que, na 
hora do julgamento cósmico, Ele salvaria o Seu povo. 
 Tempo de angústia para Jacó (7), eis uma frase que se poderia 
aplicar à situação imediata, embora tivesse em vista um período muito 
mais extenso - todo o período do cativeiro. A referência a Davi, seu rei 
(9) não significa que Davi, filho de Jessé, fosse ressuscitar dos mortos; 
refere-se, sim, a um rei ideal da casa de Davi. 
 
 2. FERIDAS E CURA (30.12-17). As feridas de Israel foram-lhe 
provocadas por Iavé às mãos de um inimigo desapiedado, sendo fruto da 
iniqüidade (15) e incuráveis, a não se verificar uma intervenção divina 
(12-15). Israel fora abandonado por todos os seus aliados, o que ajuda a 
acentuar a sua posição desesperada. Os vv. 16 e 17, porém, apresentam o 
que quase constitui um paradoxo, como tantas vezes sucede em 
Jeremias. 
 Te restaurarei a saúde (17); aqueles que haviam despojado 
Israel serão eles próprios despojados, e curadas as feridas incuráveis. 
 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 65 
 3. RESTAURAÇÃO (30.18-24). Para além do exílio fica a pátria. 
Há um certo ritmo nesta seção, como se a primavera fosse irromper 
terminados os rigores do inverno. Temos aqui o equivalente de Is 35, 
mas no simbolismo e espírito de Jeremias. Ouvir-se-á o riso das crianças, 
e o governante será um homem da sua própria raça, com acesso 
sacerdotal à Presença; saberão que são povo de Iavé. Assim, o profeta 
tem em vista uma restauração quíntupla - restauração da saúde (17), 
restauração da terra (18), restauração da prosperidade (18-20), 
restauração de um rei ideal (21), e restauração à comunhão de Deus (22). 
A frase de Matthew Arnold "há um poder estranho a nós próprios que 
puxa para a justiça" poderia aplicar-se aos vv. 23 e 24, que se relacionam 
com o princípio da justiça. 
 
Jeremias 31 
b) Restauração e o novo concerto (31.1-40) 
 
 Todo este capítulo se prende com a restauração, prosperidade e 
paz de Israel - ambos os reinos. Não há uma única nuvem negra no 
horizonte; a visão é brilhante e gloriosa. 
 
 1. GRAÇA NA DESOLAÇÃO (31.1-6). O norte de Israel 
(Efraim) será restaurado, reconstruído e recultivado. Muito a propósito 
há um apelo para terminar o cisma entre o norte e o sul na presença de 
Iavé, Deus de toda a nação (6). Os vv. 1-22 dizem principalmente 
respeito ao reino do norte; os vv. 23-26 principalmente ao reino do sul; e 
os vv. 27-40 a ambos os reinos. Foram propostas muitas explicações para 
o verso 2. Todavia, talvez seja melhor aceitá-lo num sentido profético, 
isto é, descreve algo que vai ainda ter lugar como se já houvesse 
sucedido. Deserto significaria o cativeiro. 
 Quando Eu o fizer descansar (2) será provavelmente o mesmo 
que "quando vier o tempo em que Deus atue para lhes dar repouso", isto 
é, paz no seu próprio país. 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 66 
 2. ALEGRIA DEPOIS DO EXÍLIO (31.7-14). Em vez do texto 
massorético salva o Teu povo (7) é preferível a lição da Septuaginta, 
"salvou o Seu povo". Trata-se de uma realização e não de uma prece. Ao 
seu regresso com lágrimas de arrependimento corresponde a salvação (8-
10). Isso, em si, transforma-se numa mensagem para a nação, no brado 
retumbante da alegria de um coração satisfeito ante a fartura do país de 
Iavé. 
 
 3. RAQUEL CONFORTADA (31.15-17). Temos aqui um 
imaginativo quadro profético de Raquel, a amada, na sua sepultura, 
chorando uma vez mais por causa do exílio de seus filhos José e 
Benjamim. Mas Iavé enxuga-lhe as lágrimas, comprometendo-Se à 
restauração. 
 Ramá (15) fica a cerca de 8 quilômetros a norte de Jerusalém. 
 
 4. CONSCIÊNCIA E ORAÇÃO (31.18-22). A mesma intuição 
profética ouve Efraim despertar ante a chamada da consciência, sendo 
Iavé a um tempo mãe e pai, que zela ansiosamente sobre ele. 
 Há algumas dúvidas acerca do texto original, com um sentido 
duplo para a palavra "converti" no verso 19. Vários especialistas 
prefeririam traduzir: "Depois de me ter afastado de Ti, arrependi-me". 
Quando a consciência se faz ouvir, o homem não está longe de Deus. 
 Ergue para ti marcos (21), isto é, postes indicativos para os 
exilados de regresso. 
 Uma mulher cercará um varão (22), talvez originalmente um 
provérbio cujo sentido se perdeu. 
 
 5. JUDÁ, O BENDITO (31.23-26). Quando vierem estes melhores 
dias, Judá, o rebelde, será o bendito de Iavé. O profeta lembra-se de 
como fora suave este sonho para o seu coração (26). 
 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 67 
 6. IAVÉ RECRIADOR (31.27-30). Uma vez terminada a 
disciplina e o seu sofrimento, Iavé estará novamente desejoso de 
reerguer o Seu povo. Só quando inevitável é que Ele é destruidor, pois 
fundamentalmente é criador. Naquele novo dia, a justiça velará para que 
só o pecador rebelde sofra o castigo devido ao seu ato. O verso 29 refere-
se a uma doutrina então muito em destaque e que se baseava na idéia da 
solidariedade da tribo ou nação, doutrina essa conhecida pelo nome de 
"personalidade coletiva". 
 
 7. O NOVO CONCERTO (31.31-34). O profeta fora forçado a ver 
que o concerto mosaico, mesmo sob os seus melhores aspectos, fora 
apenas externo. Na nova era (33), Iavé faria um concerto duradouro, 
escrito no coração e exeqüível de dentro para fora, em vez de ser uma 
imposição de fora para dentro. A experiência pessoal da misericórdia de 
Iavé teria como resultado uma melhor correspondência a essa 
misericórdia, uma lei criada através da comunhão impregnada de 
conhecimento e reverência. O perdão geraria a gratidão, e desta surgiria 
uma melhor obediência que cumpre, não pelo receio do castigo, mas 
impelida pelo amor, um novo concerto numa natureza recriada. Era esta 
a base da visão, e oração, e esperança, de Jeremias. Moisés era o meio de 
um concerto externo; Jeremias o proclamador de um concerto interno; 
Jesus, o Messias, seria o criador do concerto eterno, do qual Jeremias foi 
digno precursor. Aqui se vê, pois, a continuidade da graça soberana de 
Deus transmitindo através do concerto um profundo perdão do pecado, 
uma maisrica experiência do próprio Deus nessa comunhão, conduzindo 
a uma mais nobre fraternidade entre os homens. Uma visão, uma 
esperança, uma dedicação. 
 
 8. PERMANÊNCIA (31.35-37). Temos aqui dois compromissos: 
que Israel subsistirá, fato de que o próprio mundo constitui uma 
ilustração. A perseverança de Israel apóia-se na persistência de Iavé. 
 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 68 
 9. OS CONVERTIDOS POLUÍDOS (31.38-40). Uma profecia a 
cuja realização Neemias iria assistir e na qual participaria, até. Jerusalém 
seria reconstruída, o vale de Hinom, poluído pelo culto de Baal e pelos 
dejetos, seria purificado; e a cidade e os seus arredores seriam tornados 
sagrados para a vida e adoração - numa palavra, Jerusalém seria 
reconstruída (38), ampliada (39), e santificada (40). 
 
Jeremias 32 
c) Um compromisso audacioso para o futuro (32.1-44) 
 
 Os dois capítulos que se seguem estão datados - décimo ano de 
Zedequias, isto é, pouco antes da queda definitiva de Jerusalém. Mas, 
apesar das trevas circundantes, o profeta mantém um otimismo firme, 
impressionante, baseado não na liberdade imediata de Jerusalém mas nos 
propósitos finais de Deus. Cronologicamente, este capítulo deveria vir 
depois dos capítulos 37 e 38. 
 De uma maneira geral, pode ele ser dividido em duas partes. Na 
primeira, é o profeta de Deus que se destaca; na segunda, porém, 
destaca-se o Deus do profeta. 
 
 1. O PROFETA DE DEUS (32.1-25). Acerca dele notamos três 
coisas: a sua prisão, o seu otimismo e a sua súplica. 
 Os vv. 1 a 5 descrevem a prisão do profeta, constituindo este 
parágrafo, na realidade, uma introdução ao que se segue. O inimigo 
cercava a capital, e o profeta era considerado demasiado pró-babilônio 
para andar em liberdade. Nem nas mentes nem nos corações havia lugar 
para a sua visão realista. 
 Até que Eu o visite (5); a visitação poderia constituir quer 
consolo quer castigo. Conforme se verificou, no caso de Zedequias a 
visitação foi de castigo. 
 Os vv. 6-15 falam no otimismo do profeta. Jeremias acentuara que 
não haveria destruição total visto Iavé ter resolvido conservar um 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 69 
remanescente para prosseguir nos Seus propósitos imutáveis. A intuição 
de que seria posto à prova sobre este mesmo ponto de fé veio através da 
oferta do seu primo Hanameel de vender o campo de Anatote, agora na 
posse do inimigo. Sentia que a revelação de que tinha conhecimento 
devia ser também experimentada pelo povo, de onde o cuidado com que 
redigiu e pôs a bom recato os documentos de transferência e compra. Há 
três cenas neste parágrafo. Na primeira, vemos Deus e Jeremias (6-7); na 
segunda, Hanameel e Jeremias (8-10); e na terceira Jeremias e Baruque 
(11-15). 
 Selado, aberto (11) significam provavelmente um duplicado de 
papiro ou numa placa de barro para testemunhar o fato da compra 
mesmo que o outro exemplar externo fosse destruído. Existe um 
acontecimento semelhante na história clássica: quando Aníbal, o 
cartaginês, sitiava Roma, o terreno em que o seu exército acampara foi 
vendido pelo preço mais elevado no foro romano. 
 Os vv. 16-25 contêm a oração do profeta. Na primeira parte da 
oração, refere-se ele ao Deus do povo (17-22), e na segunda parte ao 
povo de Deus (23-25). No coração de Jeremias havia uma ansiedade 
subjacente. 
 
 2. O DEUS DO PROFETA (32.26-44). Deus vê a perplexidade do 
Seu servo e faz uma declaração sobre a sombria sorte imediata de Judá e 
sobre a deslumbrante sorte desse mesmo povo numa data mais distante. 
 A sorte imediata de Judá (26-35) é bem sombria. O mal avançara 
tanto que se impunha uma operação radical. Em todas as gerações se 
exige que os homens de Deus justifiquem os Seus caminhos junto dos 
homens. O equilíbrio de cada geração apóia-se justamente nisso. Assim, 
aqui, Jeremias, falando como se pela voz do próprio Deus, lê a história 
do Seu povo - sempre idólatra, de onde a necessidade imperiosa de o 
disciplinar e de o impelir para a justiça. "O juiz de toda a terra tem de 
proceder com justiça" e os Seus homens têm o encargo de exprimir essa 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 70 
realidade. O dever é categórico, o problema trágico ou redentivo. Mesmo 
agora, a redenção pode ser alcançada através da tragédia. 
 A sorte distante de Judá (36-44) é brilhante e gloriosa. Haverá 
disciplina, mas não catástrofe definitiva. O povo será restaurado à sua 
terra, e esta à prosperidade. Além disso, verificar-se-á uma regeneração 
de coração e alma, e o povo não se afastará do seu Deus. "Deus está na 
sombra, velando sobre os Seus". 
 
Jeremias 33 
d) Repetição da restauração e futura felicidade (33.1-26) 
 
 Este capítulo prossegue com o tema geral da restauração de Israel 
e tudo quanto esta implicará. Os vv. 14-26 não ocorrem na Septuaginta, 
sendo considerados por muitos críticos como mais recentes e não da 
autoria de Jeremias. O tema do capítulo é uma restauração tríplice: 
restauração do povo ao país, restauração deste à prosperidade, e 
restauração do rei davídico. 
 
 1. A RESTAURAÇÃO DO POVO AO PAÍS (33.1-8). O texto 
oferece muitas dificuldades. O Senhor que faz isto (2), não o 
encerramento na prisão, que é o assunto da frase anterior, mas o plano 
que Deus está desdobrando perante os olhos do profeta. A versão da 
Septuaginta para este mesmo verso é a seguinte: "O Senhor que fez a 
terra e a formou para a estabelecer". O verso 3 parece ser um 
acrescentamento. A tradução do verso 5 é incerta. A reconstituição de 
Cornhill deste mesmo verso diz: "As casas derrubadas, contra as quais os 
caldeus vêm com montadas e espadas para combater e enchê-las de 
corpos mortos dos homens..." Quando a ira passar, voltará a paz, e um 
povo purificado e perdoado transformar-se-á numa glória para Deus, 
manifesta aos olhos de todas as nações. 
 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 71 
 2. A RESTAUÇÃO DO PAÍS À PROSPERIDADE (33.9-13). 
Estes versos apresentam notabilíssimo contraste entre o que se vê e o que 
virá, aquilo em que o país se transformou devido ao pecado do homem, e 
aquilo em que se transformará graças e mediante a misericórdia de Deus. 
Em vez da desolação haverá prosperidade; em vez da dor, a alegria. O 
povo voltou ao lar, a prosperidade reina no país, a alegria impera nos 
corações, e o louvor ouve-se no templo. Uma outra coisa é necessária 
para completar este quadro feliz: um rei ideal, e é a esse rei ideal que o 
parágrafo seguinte nos conduz. 
 
 3. A RESTAURAÇÃO DO REI DAVÍDICO (33.14-26). A 
linhagem davídica será restaurada, e o Filho de Davi dominará com 
justiça, tal como outrora, ao ponto de Jerusalém passar a chamar-se O 
Senhor é nossa justiça (16). A ordem sacrificial levítica será restaurada 
ao seu primado. A permanência do reinado davídico e da ordem levítica 
apóia-se na persistência das ordenações cósmicas de Iavé, isto é, na Sua 
palavra e poder. A compaixão de Iavé pelo Seu povo castigado e aflito 
apagará a nódoa da rejeição lançada pelos que o observavam e pelo 
inimigo. Num sentido nacionalista estrito, esta promessa não foi 
cumprida; foi-o, sim, num sentido espiritual e mais amplo. Jesus Cristo é 
"a raiz e a geração de Davi" (Ap 22.16), e só a Ele se pode aplicar o 
título "O Senhor justiça nossa". 
 
Jeremias 34 
e) Mensagem ao rei e ao povo (34.1-22) 
 
 1. UMA MENSAGEM AO REI ZEDEQUIAS (34.1-7). Nesta 
mensagem, o profeta faz primeiro uma declaração segundo a qual tanto a 
capital como o monarca serão entregues nas mãos de Nabucodonosor, rei 
da Babilônia, que entrará em Jerusalém, como vencedor, enquanto 
Zedequias, rei de Judá, entrará em Babilônia como vencido. A esta 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 72 
declaração, porém, o profeta acrescenta uma palavra de consolo (4-5); 
Zedequias não será morto, mas morrerá em paz, isto é, no cativeiro. 
 
 2. MENSAGEM PARA O POVO (34.8-22). Quando o perigo da 
cidade atingir o auge durante o sítio, o rei convenceu o povo, por 
juramento solene, a emancipar os seus escravos hebreus na esperançade 
que tal ato atraísse a bênção de Deus. Quando o cerco foi 
temporariamente levantado pelos aliados egípcios, este juramento solene 
foi violado e os escravos foram reduzidos uma vez mais, e à força, à 
servidão. Tais eram as circunstâncias, tal é o ambiente, o pano de fundo, 
contra o qual esta mensagem profética se reporta. A ação do povo foi 
uma quebra da lei da remissão (Dt 15.12). Foi também uma profanação 
do nome de Deus, visto ter sido em Seu nome que se haviam 
comprometido a libertar os escravos. O povo não só transgredira a lei de 
Deus como violara a sua promessa, acrescentando o perjúrio à traição. 
 Ao fim de sete anos (14); na realidade, ao fim de seis anos, como 
diz a Septuaginta. Em contagens deste gênero, os hebreus incluíam tanto 
o primeiro como o último elemento. O profeta declara que o povo será 
retirado (17-21) e que o inimigo voltará (22). Viu imediatamente que tal 
quebra de fé provocaria uma retribuição por parte de Iavé. Assim como 
haviam cometido perjúrio ao agir daquele modo, e reduzido, uma vez 
mais, os seus irmãos hebreus à servidão, assim também Iavé retiraria 
deles a Sua proteção e eles próprios se tornariam escravos de amos tão 
desapiedados como a espada, a peste e a fome, até que o seu estado 
inspirasse horror a todos os reinos da terra (17). 
 O bezerro que dividiram em duas partes (18); era este o ritual 
de alguns contratos entre os semitas (ver. Gn 15.9-20), constituindo uma 
expressão simbólica, embora muda, de que, se faltassem à sua palavra, 
aceitariam a retribuição. 
 
 
 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 73 
XI. PROFECIAS E ACONTECIMENTOS DURANTE O 
REINADO DE JEOAQUIM - 35.1-36.32 
 
 Nestes dois capítulos regressamos, uma vez mais, ao reinado de 
Jeoaquim. Cronologicamente, seguem-se ao capítulo 26. É impossível 
saber por que motivo estes capítulos foram assim ordenados. 
 
Jeremias 35 
a) A lição dos recabitas (35.1-19) 
 
 1. O PROFETA E OS RECABITAS (35.1-11). Jeremias recebe 
instruções de Deus (1-2) para ir ao acampamento dos recabitas e levá-los 
(ou, provavelmente, representantes seus) a uma das câmaras do templo, 
dando-lhes vinho a beber. O antepassado dos recabitas fora Jonadabe, 
que, para resistir como nômade ao culto de Baal - ligado à vida dos 
agricultores fixados na terra e aos habitantes das cidades - disciplinara o 
seu povo a não cultivar vinhedos nem a construir casas, proibindo-lhes, 
assim, que bebessem vinho. Deveriam manter a austeridade da vida 
nômade. Sendo uma tribo quenita, haviam-se ligado a Israel. A chegada 
dos babilônios empurrara-os para dentro da cidade. 
 Jeremias cumpre a ordem (3-5) e verifica que os recabitas se 
recusam unanimemente a beber vinho (6-11). 
 
 2. O PROFETA E O POVO (35.12-19). O profeta esperava esta 
reação e agora serve-se dela para a contrastar com Judá. Nos vers. 12-15 
temos a ex-postulação do profeta, seguindo-se uma declaração (16-17) 
que, por seu turno, culmina numa bênção sobre a casa de Jonadabe (18-
19). 
 Que vos tenho falado (14) é enfático, estabelecendo forte 
contraste entre o êxito de Jonadabe junto do seu povo e o fracasso de 
Iavé junto do povo judaico. 
 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 74 
Jeremias 36 
b) A escritura do rolo (36.1-32) 
 
 1. A PRIMEIRA ESCRITURA (36.1-26). No quarto ano de 
Jeoaquim (604 A. C.), Deus ordenou ao profeta que fizesse um registro 
mais permanente das suas mensagens públicas a fim de assegurar o 
arrependimento do coração do povo (1-3). Em resposta a esta ordem 
divina, Jeremias obteve os serviços do seu auxiliar Baruque, que 
registrou as palavras ditadas pelo profeta (4-8). Uma vez que Jeremias 
estava impedido de falar em público, ordenou a Baruque que agisse em 
seu lugar. 
 Da minha boca (6) equivale, portanto, a "como minha boca". Em 
tudo isto, pretendia-se que Judá abandonasse os seus maus caminhos 
antes que se abatesse o castigo sobre ele. Note-se uma vez mais a 
natureza condicional da profecia. 
 Em certo dia de festa solene, Baruque leu o rolo ante grande 
ajuntamento de povo, e podemos imaginar a consternação que a 
mensagem causou (9-10). Miquéias, que estava presente e ouviu a leitura 
de Baruque, deu um resumo da natureza ameaçadora da profecia de 
Jeremias para os príncipes de Judá (11-13). Ao ser interrogado, Baruque, 
que fora convocado a comparecer perante os príncipes com o rolo, 
respondeu que escrevera nele o que Jeremias lhe ditara (14-19). O 
assunto é levado ao conhecimento do rei (20-26). Assim, no mesmo dia, 
o rolo parece ter sido lido três vezes - na presença do povo, na presença 
dos príncipes e na presença do rei. É de supor, portanto, que não fosse 
muito extenso. Quando o caso foi relatado ao rei, este deve ter sentido 
que se tratava de um assunto de estado. Lidas algumas colunas, a sua ira 
foi imediata e, agindo contrariamente à intercessão dos príncipes, lançou 
o rolo ao fogo. 
 Em seguida, o rei ordenou que o profeta e o seu escrivão fossem 
detidos, mas em vão o fez, pois o Senhor tinha-os escondido (26). 
Jeremias insistira na subordinação à Babilônia, mas esta rejeição 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 75 
simbólica da parte do rei era prova suficiente de que este tencionava 
seguir a política oposta (ver 2Rs 24). Esta forte reação do rei baniu, ao 
que parece, o receio dos príncipes, excitados como os tinha deixado a 
leitura do rolo em particular. 
 
 2. O ROLO NOVAMENTE ESCRITO (36.27-32). A profecia, a 
não ser que seja falsa, raramente teve alguma coisa a temer ante a 
ameaça dum rei. Vezes sem conta os profetas de Israel tiveram que 
disciplinar o monarca e a corte como parte dos seus deveres e o mesmo 
sucedeu neste caso. Aquele rolo queimado teve como único resultado a 
rápida preparação de segundo rolo, com as adições necessárias, incluindo 
uma indicação do destino que aguardava o rei ímpio. Deus teria a última 
palavra. A realização do verso 30 respeitante ao cadáver, paralelo de 
22.19, não vem mencionada na história. Aliás, como pormenor, é de 
pouco significado. 
 
XII. PROFECIAS E ACONTECIMENTOS DURANTE O 
REINADO DE ZEDEQUIAS - 37.1-39.18 
 
 Nestes três capítulos, a ênfase recai primeiro sobre o profeta e seu 
cativeiro (37-38) e, depois, sobre o rei e seu cativeiro (39). 
 
a) O encarceramento e preservação do profeta (37.1-38.28) 
 
Jeremias 37 
 1. A RESPOSTA DE JEREMIAS AO PEDIDO DE ZEDEQUIAS 
(37.1-10). Zedequias fora nomeado rei por instigação de Babilônia, sem 
dúvida depois de ter prestado compromissos de fidelidade. Em grande 
parte devido à influência egípcia na corte, aliada, ao que parece, à sua 
instabilidade de caráter, Zedequias desobedeceu a Babilônia. 
Religiosamente, diria que era servo de Iavé, mas, como o seu povo, deve 
ter sido também infiel em matéria de fé. Esta instabilidade de fé e caráter 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 76 
conduziam naturalmente a uma política instável do estado, um Rúben 
régio, "inconstante como a água" (ver Gn 49.3-4). O avanço das tropas 
egípcias levantou temporariamente o cerco (5), mas Jeremias insiste em 
proclamar que esse alivio não é decisivo (10). Se os babilônios tivessem 
apenas tropas feridas, mesmo assim venceriam (34.1 e segs.). 
 
 2. A PRISÃO E DETENÇÃO DE JEREMIAS (37.11-21). 
Entretanto, Jeremias tentou sair da cidade presumivelmente para ver a 
propriedade que adquirira a Hanameel. Todavia, foi preso e acusado de 
traidor - uma sentença superficial em vista da sua atitude e mensagem, 
sofrendo, assim, a sua primeira prisão. O calabouço dá a impressão 
desagradável de ser uma cela subterrânea. Convocado pelo rei a uma 
entrevista secreta (17-21), Jeremias permaneceu fiel à sua profecia de 
que o propósito de Iavé era que Babilônia fosse suprema. Sendo assim, 
por que era ele, como Seu servo e porta-voz, tratado como traidor do Seu 
povo? Quem era falso não era ele, mas, sim, os outros profetas, que 
haviam predito a queda de Babilônia. Transferido para o átrio da guarda, 
Jeremias não foi reenviado para o calabouço, e permitiram-lhe que se 
alimentasse.Jeremias 38 
 3. JEREMIAS LANÇADO NO CALABOUÇO (38.1-6). Este 
capítulo é cronologicamente ambíguo. Há quem sugira tratar-se de uma 
versão diferente dos acontecimentos anteriores, mas escrita por outra 
pessoa. Temos aqui os mesmos elementos, as mesmas perguntas e 
respostas, a mesma libertação, e a mesma prisão no átrio da guarda. 
Todavia, as diferenças são relativamente acentuadas: o átrio da guarda 
dar-lhe-ia suficiente liberdade para falar conforme vemos nos vv. 2 e 3. 
Tanto quanto vemos, Zedequias não tinha envergadura para se opor aos 
seus conselheiros; o socorro prestado tem elementos de realismo, 
enquanto que o rei tinha suficiente autoridade para evitar que o profeta 
fosse morto, mesmo que não pudesse pô-lo em liberdade. 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 77 
 Nos vv. 1-3 Jeremias apresenta o problema, em toda a sua 
extensão, ao povo, que, sem dúvida, podia falar com ele na reclusão 
relativa do átrio da guarda. Aos olhos dos príncipes, porém, que tinham a 
responsabilidade do bem-estar da cidade e sua defesa contra os ataques 
que lhe fossem dirigidos, o conselho de Jeremias de se renderem ao 
inimigo equivalia a sabotar a moral e era sinônimo de traição (4). Mesmo 
nos nossos tempos, muitas pessoas têm sido executadas por atitudes e 
manifestações semelhantes. Nunca foi, e provavelmente nunca será, fácil 
estabelecer no domínio político a prioridade da visão e dos princípios 
religiosos sobre a arte de governar. O erro que os príncipes cometeram 
foi perceberem que Jeremias falava com uma autoridade que transcendia 
a da sua pessoa e mente. Apoiado nessa autoridade, ele visava apenas ao 
bem-estar do seu povo, representando a disciplina divina sobre o seu 
pecado e conduzindo-o a uma vida mais fiel e mais elevada. O exílio era 
inevitável e essencial para desenraizar a idolatria do seu espírito e mente. 
Os babilônios eram agentes ou servos inconscientes da vontade de Jeová. 
Como é difícil para homens que nunca participaram em tal visão aceitar 
uma mensagem destas, conforme o comprova abundantemente a história 
da humanidade! Os príncipes, invocando razões de estado, tinham o 
direito de reduzir Jeremias ao silêncio e, até, de o mandar executar. Não 
o mataram, mas exerceram suficiente pressão sobre Zedequias para não 
intervir na prisão de Jeremias numa cisterna tão imunda e tão cheia de 
lodo que o resultado seria morte, a não ser que o socorressem 
rapidamente. Parece ter sido esta a terceira prisão que Jeremias sofreu. 
 
 4. JEREMIAS SALVO POR EBEDE-MELEQUE (38.7-13). 
Ebede-Meleque, eunuco e escravo real etíope, teve a fé e a coragem 
necessárias para interceder junto de Zedequias e pedir ao rei que 
retirassem o profeta da cisterna e o pusessem uma vez mais no átrio da 
guarda - a quarta prisão sofrida, a contar pelas mudanças. Estas 
mudanças em si indicam já nitidamente a ação da providência (cf. 36.26, 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 78 
o Senhor tinha-o escondido). Foi assegurada a segurança de Ebede-
Meleque quando os babilônios tomassem Jerusalém. 
 
 5. JEREMIAS ENTREVISTADO POR ZEDEQUIAS (38.14-26). 
Desesperado, o rei chama uma vez mais o profeta e jura que não será 
morto se for sincero. Jeremias, portanto, coloca perante ele as terríveis 
alternativas: ou sair e render-se aos babilônios, ou sofrer o pior quando a 
cidade for tomada e incendiada. Zedequias exprime o seu receio de ser 
alvo de troça se se render - uma expressão infeliz, própria de um espírito 
fraco e inconstante. Era essa a tragédia íntima de Zedequias: não 
conseguia pôr em prática o que o seu espírito reconhecia como sensato e 
aconselhável. Ao ouvir isto, Jeremias entoa um cântico fúnebre que 
presumivelmente ouvira num devaneio (22). O verso 23 parece constituir 
uma ênfase adicional de Jeremias, pois a última frase é especialmente 
impressionante em hebraico: "Esta cidade ele queimará a fogo". A 
Septuaginta, a Siríaca, a Vulgata e o Targum dão o sentido passivo. 
Embora, sem dúvida, se deva aceitar este relato das várias versões, no 
entanto foram a indecisão de Zedequias e a sua falta de coragem que, na 
realidade, acarretaram resultados tão trágicos. Freqüentemente, não é o 
mal declarado que pior faz, mas a cobardia de um homem 
fundamentalmente bom. Zedequias conquista a nossa simpatia pela 
piedade que nos desperta o massacre da sua família e a sua própria 
cegueira, mas essa simpatia não é acompanhada de respeito. Ninguém se 
põe em sentido ao contemplá-la. 
 
 6. JEREMIAS INTERROGADO PELOS PRÍNCIPES (38.27-28). 
Zedequias ordena a Jeremias que mantenha o sigilo quanto ao tema da 
entrevista, e Jeremias, com uma meia verdade, defende-se das suspeitas 
dos príncipes. E o deixaram, porque não se revelou o negócio (27), o 
que parece indicar que ninguém assistira à entrevista, a não ser os seus 
protagonistas. 
 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 79 
Jeremias 39 
b) A queda de Jerusalém e o cativeiro de Judá (29.1-18) 
 
 1. A QUEDA DA CIDADE (39.1-3). Chegara a última hora. 
Durante cerca de dezoito meses, a cidade resistira às poderosas 
investidas de Babilônia, mas a hora inevitável não podia ser 
indefinidamente adiada. Enfraquecida por um longo e desapiedado 
cerco, e dizimada pela fome, Jerusalém acabou por se render. 
 
 2. A CAPTURA DO REI (39.4-8). Embora tivesse de abandonar a 
cidade, Zedequias ainda não desesperava de salvar a vida. Com os 
poucos defensores que lhe restavam, fugiu e pôs-se a caminho de Jericó. 
No entanto, soara a sua hora de castigo, e a fuga era impossível. 
Apanhado perto de Jericó foi levado para Ribla, à presença de 
Nabucodonosor. Caiu a desgraça sobre ele e a sua família, e o seu 
destino foi bem cruel (6-7). 
 
 3. O CATIVEIRO DO POVO (39.9-10). Foi este o cativeiro 
definitivo de Judá. Em 597 A. C., Jeoaquim e parte de Jerusalém haviam 
sido levados; agora, decorridos onze anos, segue-se o resto da cidade, 
mas não por completo; ficara um pequeno remanescente, os pobres de 
entre o povo (10), para recomeçar do princípio. 
 
 4. A LIBERTAÇÃO DO PROFETA (39.11-14). O castigo abateu-se 
sobre o rei de Judá, o cativeiro sobre o resto de Jerusalém, o país ficou 
entregue aos pobres da terra, e Jeremias, o profeta, foi posto em liberdade. 
Assim procedeu Babilônia para com Judá. Jeremias, agora livre, ficou 
entregue ao cuidado generoso de Gedalias, filho de um amigo. 
 
 5. A MENSAGEM A EBEDE-MELEQUE (39.15-18). Trata-se de 
um apêndice do capítulo 39, aliás um apêndice mal colocado, pois 
deveria seguir-se a 38.7-13, a passagem onde se registra a astúcia e a 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 80 
coragem com que socorreu Jeremias, tirando-o da cisterna de lama em 
que morreria de fome e infetado pela imundície. 
 Na mão dos homens perante cuja face tu temes (17), frase 
ambígua, a não ser que se refira aos príncipes de cujas mãos ele 
arrancara Jeremias. 
 A tua alma terás por despojo (18), expressão idiomática hebraica 
que denota segurança pessoal. Assim como um homem mau acabaria por 
ser vítima da sua maldade, assim também seria salvo pela sua bondade. 
 
XIII. PROFECIAS E ACONTECIMENTOS EM JUDÁ -40.1-42.22 
 
 As profecias dirigidas ao remanescente que os babilônios 
deixaram e os acontecimentos que entre eles se produziram dividem-se 
nitidamente em duas partes: os que têm por cena Judá (capítulos 40--42) 
e os que têm por cena o Egito (capítulos 43--44). 
 
Jeremias 40 
a) A libertação do profeta (40.1-6) 
 
 Jeremias ficara em Jerusalém e fora apanhado e preso com cadeias 
para ser deportado com outras pessoas para Babilônia. Ao chegar a 
Ramá, foi liberto por ordem do comandante babilônio. É evidente que 
este tinha sido informado da identidade de Jeremias e das disposições do 
rei babilônio a seu respeito. Foi-lhe dado a escolher ir para Babilônia, 
com a promessa do favor especial do rei, ou ir para onde quisesse. O 
verso 5 sugere que essa segunda alternativa seria ficar com Gedalias. A 
primeira frase deste versículo, porém, vem omitida na Septuaginta, não 
sendo possível qualqueremenda nítida do hebraico. Todavia, foi o 
próprio Jeremias quem escolheu, presumivelmente, ou Jerusalém ou 
Mispa com Gedalias. 
 Os vv. 2 e 3, sem dúvida, não seriam pronunciados por um 
babilônio, sendo antes vazados pelo escritor nos moldes da sua própria 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 81 
fé. O contraste é que toda a obra de Jeremias fora realizada em nome de 
Iavé; por outro lado, contribuíra modestamente para o êxito da causa da 
Babilônia, e a libertação foi a sua recompensa. 
 
b) O regresso dos fugitivos (40.7-12) 
 
 Gedalias era agora governador do país, e a sua tarefa, uma vez que 
os principais cidadãos haviam sido levados para o exílio, era assegurar 
que os lavradores e os camponeses se instalassem em paz para tratarem 
da colheita e pagarem o imposto aos seus novos senhores, os babilônios. 
Assim, uma das fases dessa nova tarefa seria chegar a um acordo com as 
"forças em campo", isto é, as guerrilhas, com os seus vários dirigentes. O 
fato de Gedalias ser judeu constituiria um valioso fator para a 
pacificação. As suas palavras iniciais (9-10) eram de molde a 
conquistarem certa confiança e fidelidade. A sua política sã e cordial é 
sublinhada pelo verso 12. 
 
c) Aviso de uma conspiração (40.13-16) 
 
 Gedalias era a honra em pessoa, mas, infelizmente para ele, um 
dos chefes dos guerrilheiros, Ismael, fora subornado pelo rei amonita 
Baalis para sabotar a política de Gedalias e assassiná-lo. Joanã, outro 
chefe de guerrilheiros, teve conhecimento dessa conspiração, mas 
Gedalias achou-a demasiado vil para ser verdade. Ao que parece, 
Gedalias esquecera-se de dois fatores importantes: primeiro, que Ismael 
era da casa real de Davi, e, portanto, de condição superior à sua. 
Qualquer desfeita de que Ismael fosse vítima podia, assim, provocar um 
ciúme de que Baalis tiraria partido. O outro fator foi, talvez, que, aos 
olhos de Ismael, Gedalias era um traidor à causa por aceitar o seu cargo e 
nomeação da mão de Babilônia. Como muitos outros homens de grande 
quilate na história, tanto antes como depois do seu tempo, Gedalias não 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 82 
sabia distinguir entre a traição e a fidelidade, preparando, assim, o golpe 
de assassino. 
 
Jeremias 41 
d) A execução da conjura (41.1-9) 
 
 A natureza mortífera da profissão de fidelidade da parte de Ismael 
manifesta-se no fato de o crime ser praticado na hora normalmente 
sagrada da hospitalidade oriental. 
 As expressões os capitães do rei (1) e homens de guerra (3) não 
ocorrem na Septuaginta, mas se estiverem corretas, tanto os judeus como 
os caldeus que constituíam a guarda pessoal de Gedalias foram 
chacinados pelos homens de Ismael. É pasmosa a falta de inteligência de 
Ismael, visto a morte de Gedalias constituir uma perda gravíssima para o 
povo, mas o ciúme e a suspeita são sentimentos que cegam e brutalizam 
quem os alberga. Geralmente um assassino não tem quaisquer escrúpulos 
no tocante à vida dos outros e nos vv. 4-9 temos um exemplo brutal 
desse fato. Os peregrinos traziam farinha e legumes como oferta ao local 
onde o templo arruinado se erguia em Jerusalém, pois deve ser esse o 
significado de à casa do Senhor (5). A sua barba rapada, trajes rasgados 
e corpos golpeados simbolizavam o seu desgosto ante a profanação e 
destruição da casa de Deus. O espírito homicida é também 
freqüentemente acompanhado de hipocrisia, como se vê no verso 6, onde 
lemos: ia chorando. 
A ganância também assinala um caráter assim. Dez peregrinos 
salvaram-se revelando onde ocultavam preciosos víveres. É notável que 
uma força tão pequena, constituída por onze homens ao todo, 
conseguisse massacrar setenta pessoas em oitenta, o que talvez se 
explique pela surpresa. 
 A frase por causa de Gedalias (9) é inexplicável, mas devemos 
lembrar-nos de que uma tradução mais correta seria "ao lado de 
Gedalias" e que a Septuaginta nos ajuda acrescentando: "ficava uma 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 83 
grande cova", isto é, provavelmente uma cisterna. A referência a Asa 
lembra-nos que este rei construíra a cisterna para abastecer de água a sua 
guarnição em Mispa (ver 1Rs 15.22). 
 
e) O rapto dos sobreviventes (41.10) 
 
 A inutilidade de todos estes assassinatos é demonstrada pelo fato 
de Ismael ter tido de fugir para Amom, levando cativos consigo os 
restantes refugiados em Mispa, confiados à guarda de Gedalias, e no 
número dos quais se contavam Jeremias e Baruque. 
 As filhas do rei (10) refere-se provavelmente a qualquer relação 
direta ou indireta com a casa real. 
 
f) O socorro dos sobreviventes (41.11-18) 
 
 Joanã foi tão pronto na sua perseguição dos criminosos como e 
fora ao avisar Gedalias contra eles. Embora não conseguisse apanhar 
Ismael, obteve a libertação dos seus prisioneiros. 
 Valentes de guerra (16) parece não estar de acordo com e verso 
3, isto é, a sua chacina por Ismael em Mispa. Talvez devêssemos ler 
"homens, e mulheres, e meninos" como em 43.6. O medo faz 
desaparecer o bom senso, sobretudo se, como aqui, se seguir ao 
assassinato de um funcionário tão importante como Gedalias. 
Presumivelmente no caravançarai de Quimã (17) resolveu-se que seria 
mais seguro para eles irem para o Egito do que sujeitarem-se aos 
interrogatórios dos babilônios. 
 
Jeremias 42 
g) Os sobreviventes consultam Jeremias (42.1-6) 
 
 Jeremias deve ter ficado muito preocupado com o pedido que lhe 
foi feito, pois é impressionante a sua frase não vos ocultarei nada (4). À 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 84 
sua hesitação, porém, respondem com a promessa de que se submeteriam 
às ordens de Iavé, pois de tal obediência dependia, segundo sentiam, a 
sua segurança. De fato, segundo o verso 5, incorreriam no castigo de 
Deus se faltassem à palavra dada: Seja o Senhor entre nós testemunha. 
 
h) A mensagem de Jeremias aos sobreviventes (42.7-22) 
 
 Durante dez dias, Jeremias manteve-se silencioso, mas quando, 
finalmente, falou não deixou dúvidas na mente do povo que o tinha 
consultado quanto à mensagem de Deus. Começa com uma exortação e 
promessa. Nada têm a recear dos babilônios, e se permanecerem no país 
Deus os abençoará (7-12). 
 Quanto a voltar (12) do texto massorético, é preferível a emenda 
da Siríaca e da Vulgata, "fará com que vos estabeleçais". Após esta 
exortação a permanecerem no país, vem uma solene palavra de aviso 
(13-18): a recusa em obedecer à direção divina acarreta o desagrado de 
Deus, com todas as suas tremendas conseqüências. Não haverá 
segurança no Egito; neste último país, seriam avassalados por uma 
calamidade semelhante àquela que subvertera a sua própria cidade. Mas 
o profeta sabe intuitivamente o que o povo é, e começa a admoestar os 
homens que lhe tinham pedido que inquirisse de Jeová (19-21). 
 Em vez de enganastes (20), a Septuaginta diz "procedestes mal 
contra". A mensagem do profeta termina com uma solene declaração 
(22). 
 
XIV. PROFECIAS E ACONTECIMENTOS NO EGITO 
 - 43.1-44.30 
 
Jeremias 43 
a) A fuga dos sobreviventes (43.1-7) 
 Os chefes dos sobreviventes presumivelmente escutaram Jeremias 
em silêncio até ele acabar e depois disseram o que pensavam. Se em vez 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 85 
do termo não-idiomático dizendo (2) (em hebraico omerim) aceitarmos 
a opinião de vários especialistas e lermos "desafiando" (hebraico 
hammorim) e, seguindo a Septuaginta, cortarmos soberbos (2), 
obtemos o seguinte texto: "Então falou Azarias... e todos os homens em 
atitudes de desafio", o que provavelmente nos dá um quadro fiel. Ali 
imperou, não tanto o orgulho como o medo ou pavor, cuja expressão 
psicológica, não raro, é o desafio. Os guerrilheiros temem quase sempre 
as autoridades contra as quais lutam teimosamente, e aqui esse medo 
exprime-se na acusação de falsidade contra Jeremias, cuja decisão eles 
haviam antes dito e prometido acatar. 
 A acusação contra Baruque de conspirar para os entregar à morte 
ou ao exílio tem a mesma origem. A Septuaginta explica vigorosamente 
esta frasedifícil: que havia voltado dentre todas as nações para onde 
haviam sido lançados com o fim de peregrinarem na terra de Judá 
(5) preferindo: "que tinham voltado para peregrinar na terra de Judá", 
versão apoiada pelo capítulo 40.11-12. O grupo seguiu a chefia de Joanã 
e não a de Jeremias. Tafnes chama-se agora Dafné ou Defené (ver 2.16), 
uma cidade na fronteira egípcia dentro do delta oriental, na estrada que 
liga a Palestina ao Egito. 
 
b) A mensagem de Jeremias aos sobreviventes (43.8-44.14) 
 
 É esta a primeira mensagem registrada de Jeremias aos 
sobreviventes no Egito. Divide-se em quatro partes: 
 
 1. ANÚNCIOS DO QUE NABUCODONOSOR FARIA NO 
EGITO (43.8-13). A princípio, Jeremias não deu qualquer resposta 
direta. Ele sabia provavelmente que a tal pânico não se poderia dar 
resposta adequada em meras palavras. Obrigaram-no a ir com eles e o 
profeta deve ter pedido orientação durante a jornada. Essa orientação 
recebeu-a em Tafnes. É difícil saber como fez o profeta a ação descrita, 
pois todos os textos - Massorético, Septuaginta, Vulgata, etc. - 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 86 
apresentam certas diferenças. As expressões "pedras grandes e barro" (9) 
são imprecisas. No primeiro caso, há possivelmente uma repetição. Se, 
mediante uma ligeira alteração omitirmos uma consoante, conforme 
sugerido por vários textos (ballat), poderemos traduzir e esconde-as 
secretamente no barro do forno (9). É que Jeremias, sem dúvida, tinha 
de pegar naquelas grandes pedras e preparar o simbolismo na calada da 
noite, tendo como únicas testemunhas os seus compatriotas 
impressionados, que observavam a sua tarefa. Seguidamente, proclamou 
o significado desta. Haviam fugido a Nabucodonosor para procurarem o 
que supunham ser um abrigo seguro no Egito, mas fora tudo em vão, 
pois Nabucodonosor conquistará aquele país e edificará o seu trono 
sobre as pedras assim escondidas. As pedras representavam, pois, 
Babilônia, e o barro o Egito. O Egito parece forte e momentaneamente 
oculta Babilônia aos olhos dos fugitivos, "mas em breve o barro 
desaparecerá e as pedras duras, o império babilônio, erguer-se-ão no 
Egito na presença dos próprios homens que procuravam escapar". Isto 
está de acordo com a Septuaginta e a Siríaca, que também dizem "Ele 
estenderá a sua tenda". 
 Em vez de que escondi (10), a Septuaginta diz "escondestes". Se 
aceitável, esta versão parece indicar que eles se haviam escondido, mas 
em vão. Portanto, a sua fuga ante a vontade de Iavé é inútil, visto Ele ter 
chamado de longe estes agentes inconscientes dos Seus propósitos 
disciplinares. Algum tempo antes, Jeremias mantivera-se silencioso 
enquanto eles falavam, mas agora era o contrário, o silêncio de um novo 
temor ao ouvirem soar esta nota de um destino sombrio. Uma inscrição 
fragmentária confirma que Nabucodonosor invadiu o Egito em 568 antes 
de Cristo, sendo Amasis faraó, e derrubou os seus defensores. Também 
Josefo registra a tradição de que, seguidamente, ele deportou para 
Babilônia os judeus que ali prendeu. Bete-Semes (13) significa o mesmo 
que Heliópolis, ou seja, "casa do sol". 
 
 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 87 
Jeremias 44 
 2. LEMBRA-SE O QUE DEUS FIZERA EM JUDÁ - (44.1-6). 
Neste capítulo, o choque de opiniões é feroz. Jeremias vinca no espírito 
dos judeus que então se encontravam no Egito a verdade de que o castigo 
anda sempre ligado ao pecado. Haviam queimado incenso à "rainha do 
céu" (Astarte, a "Grande Mãe" da antiguidade), pelo que a ira de Jeová 
tombara sobre a terra de Judá. (Alguns papiros do V século dão-nos um 
quadro destas colônias judaicas). 
 Migdol... Tafnes... Nofe (Mênfis...) Patros (1); ao que parece, 
decorrera algum tempo sobre a fuga para o Egito, permitindo aos 
fugitivos fixarem-se em todos estes lugares. 
 
 3. OS SEUS PECADOS SÃO DENUNCIADOS (44.7-10). Apesar 
de todos os castigos de Deus e de tanta advertência no decurso da sua 
história, os sobreviventes continuavam cegamente em frente, fechando 
os ouvidos aos avisos do passado. 
 Mulheres (9) bem traduzido na Septuaginta por "príncipes". 
 
 4. UMA DECLARAÇÃO DE CASTIGO (44.11-14). A mensagem 
que o profeta proclamara durante tantos anos a toda a nação tinha agora 
de anunciar também ao pequeno número de sobreviventes no Egito. 
Seriam castigados tal como Jerusalém, e a isso não havia que fugir. 
 
c) A resposta dos sobreviventes (44.15-19) 
 Post hoc, ergo propter hoc. É evidente aqui o choque de 
opiniões. Recusavam-se a dar ouvidos às palavras de Jeremias, 
atribuindo todos os êxitos à rainha do céu e, ao que parece, relacionando 
todos os seus problemas e infortúnios com a reforma de Josias. 
Encabeçando o verso 19, a Septuaginta e a Siríaca têm também a 
seguinte frase: "E todas as mulheres responderam, dizendo". Algumas 
destas eram acompanhadas pelos maridos, e outras não. 
 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 88 
d) A última mensagem de Jeremias (44.20-30) 
 
 É esta a última mensagem registrada do profeta, uma mensagem 
impregnada de realismo. Em vez de vós e vossas mulheres (25) é 
preferível a versão da Septuaginta: "Vós, mulheres". Assim, dirigindo-se 
a elas, Jeremias reafirma a verdade contrária e vai ao ponto de dizer que 
a resposta de Iavé a esta negação da Sua presença e ação será tão 
tremenda que, devido àquele paganismo, o Seu nome desaparecerá da 
boca de todos os judeus que habitam no Egito (26). A vingança da 
idolatria é que, no final, ficará um resto que verá o que se cumpriu ou 
não - a Sua palavra ou a deles (28). Como sinal, até o Faraó, cuja 
proteção haviam procurado, cairá nas mãos dos seus inimigos. Heródoto 
(II: 161) registra a queda deste monarca ("Apries" para Heródoto, Hofra 
na história). Foi executado em 564, vários anos depois de destronado. 
Amasis era Faraó em 568, quando Nabucodonosor atacou o Egito. 
 Todo este capítulo revela o realismo de Jeremias, baseado na sua 
visão dos fatos, comparado com as opiniões superficiais de dois 
compatriotas seus. Diziam estes que, antes da reforma, quando adoravam 
os ídolos, a fortuna os favorecia; depois dela, a catástrofe abatera-se 
sobre o país. Era a ira da "Grande Mãe"; para Jeremias, o ato 
disciplinador de Deus. Com este capítulo termina também a biografia de 
Jeremias por Baruque. A história não conserva vestígios do que teria 
acontecido ao profeta depois do encontro com os sobreviventes relatado 
nesta cena. 
 
Jeremias 45 
XV. A MENSAGEM DE JEREMIAS A BARUQUE - 45.1-5 
 
 Uma leitura cuidadosa de 36.1-8 mostra que este capítulo deveria 
vir, de preferência, a seguir a essa seção e não aqui, no final da biografia 
de Jeremias. É uma mensagem pungente. Jeremias tem de lembrar a 
Baruque, prostrado pelo desgosto de registrar a ligação entre o pecado e 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 89 
o castigo, que o desgosto de Iavé é muito maior do que o seu e, sendo 
assim, como poderia Baruque procurar o seu próprio bem-estar? Basta 
que, no fim, ele triunfe através do desastre que assoberbou os rebeldes e 
os ímpios. Basta o dom da vida que Deus nos deu. O tu do verso 5 é 
enfático. A Septuaginta omite "e isso em toda esta terra" (4). Muitos 
especialistas preferem outra lição: "Eu castigarei toda esta terra". 
 
XVI. PROFECIAS CONTRA AS NAÇÕES ESTRANGEIRAS 
 - 46.l-51.64 
 
 A Septuaginta inclui estes capítulos no meio do capítulo 25 numa 
posição que se adapta melhor a estes oráculos do que a atual. O fato de 
serem ali inseridos como coleção sugere que, primitivamente, se 
encontravam separados. Vários comentadores tem discutido até que 
ponto existem neles interpolações por outros autores, e o problema 
continua em aberto. Para pormenores, é melhor consultar comentários 
mais vastos. O que se deve manter presente é que o espírito e a mão de 
Jeremias se evidenciam ali. Jeremias não se preocupa só com a sorte do 
seu próprio povo; a sua profecia tem um âmbito mais vasto. 
 
Jeremias 46 
a) Contra o Egito (46.1-28) 
 
 Jeremias começa com o Egito, porque, desde longa data,este povo 
tem sido o opressor e enganador de Israel. 
 
 1. A BATALHA DE CARQUEMIS (46.1-12). As ambições 
egípcias foram detidas e humilhadas na batalha de Carquemis, uma das 
mais decisivas da história em que o sonho do Faraó Neco ruiu por 
completo. Primeiro, os versículos vibram como o espírito de um exército 
exultante que enfrenta o inimigo na véspera da batalha; depois vem o 
pânico de um exército derrotado ao pôr-se em debandada. Mais do que, 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 90 
talvez, em qualquer outro passo, estes versículos revelam a clarividência 
do espírito de Jeremias quanto aos problemas políticos do seu tempo, 
revelando também a clarividência e equilíbrio do seu pensamento em 
geral. Vê pulsar no herdeiro da coroa babilônica, Nabucodonosor, a 
vontade e a força para derrubar os inimigos que cercam Israel, incluindo 
o Egito. Assim, era clara a vontade de Iavé - tinha-se de fazer paz com o 
rei babilônico por ser o novo (embora estranho) flagelo das nações 
enviado por Iavé. Sim, Iavé ia manifestar-Se. O verso 5 é algo invulgar 
no hebraico; a Septuaginta omite vejo e diz: "Por que motivo são eles 
abatidos?", o que torna mais claro o significado. 
 Os lídios (9) eram provavelmente um povo que habitava na 
fronteira do Egito, ou perto dela. As três nações mencionadas neste 
versículo forneciam contingentes ao exército egípcio e eram 
provavelmente aliadas desse país (ver Ez 30.5). 
 
 2. PERDE-SE A MARÉ (46.13-26). Com clarividência 
extraordinária, Jeremias viu que a derrota de Carquemis deixava o Egito 
aberto a invasões ulteriores. Por detrás da queda do Egito, em solo 
estrangeiro e no solo pátrio, Jeremias via a vontade e a mão de Deus. 
 Migdol... Nofe (Mênfis)... Tafnes (14) eram cidades fronteiriças 
do Egito, na direção da Ásia; Nofe (isto é, Mênfis) foi durante algum 
tempo capital do Egito inferior. O verso 15 é mais claro na Septuaginta 
do que no texto massorético: "Por que fugiu Ápis?" (O touro sagrado dos 
egípcios, encarnação de Osíris, deus do Egito). É melhor seguir a 
Septuaginta ou a Vulgata no verso 17 e ler o imperativo em vez do 
perfeito no texto massorético: "Clamai ali". Neste simbolismo, o nome 
de Faraó é comparado a um estrondo, mas este soldado e dirigente 
exultante não compareceu a tempo. Na guerra como na política, "há uma 
maré nos negócios dos homens que, apanhada na enchente, conduz à 
fortuna" (Shakespeare). Na hora da provação, o Faraó foi achado 
deficiente. 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 91 
 Como o Tabor entre os montes (18), isto é, Nabucodonosor 
ergue-se acima de todos os outros reis. O Faraó tinha de ceder perante 
ele, assim como todas as outras montanhas deviam ceder em majestade 
ao Tabor e ao Carmelo. 
 Em vez de destruição (20) é preferível "besouro", que simboliza o 
ataque babilônio, semelhante à investida de um inseto que morde e 
provoca uma fuga descontrolada. Em vez de já vem... vem (20), leia-se 
com a Septuaginta, a Siríaca, etc., "sobre ele". Na hora crucial da 
batalha, os mercenários egípcios não passam de bezerros nas mãos do 
carniceiro. 
 O simbolismo dos vv. 22 e 23 é ambíguo. Se com a Septuaginta, 
lermos "serpente silvante", teremos um contraste eficaz, um som de incrível 
fraqueza quando seria necessário o rugir de um leão, que obriga a serpente 
a rastejar de regresso ao seu buraco. O silvo da inimizade é ineficaz, pois os 
babilônios avançam como um exército de lenhadores que derrubam o Egito 
como se fosse uma floresta. No pensamento egípcio, a serpente simbolizava 
o deus de Tebes, capital do Egito superior. 
 A Septuaginta omite a frase e a Faraó, e ao Egito, e aos seus 
deuses, e aos seus reis (25). A sugestão da restauração do Egito (26) 
implica possivelmente que Iavé só temporariamente é destruidor; quando 
Ele achar conveniente, haverá nova criação. 
 
 3. UMA MENSAGEM DE CONFORTO (46.27-28). Este 
versículos são uma repetição de 30.10-11, um apontamento que se 
coaduna melhor com o pensamento e estilo de Isaías do que de Jeremias. 
Sugeriu-se que em ambos os passos podem constituir uma interpolação. 
O principal argumento contra a sua validade aqui é que partem do 
princípio que o cativeiro já tivera lugar. No entanto, Jeremias costumava 
olhar em frente e encarar o futuro como um fato consumado. Tal era a 
sua certeza da realização que fala nesta como se se houvesse 
concretizado. 
 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 92 
Jeremias 47 
b) Contra os filisteus (47.1-7) 
 
 Os filisteus eram, é claro, inimigos de Israel. O seu poder fora 
consideravelmente enfraquecido nos tempos de Davi, mas parece que 
mantiveram a sua nacionalidade até à chegada dos babilônios. O dia do 
seu colapso constitui, pois, uma fase do dia de Iavé. 
 Caftor (4), isto é, Creta, lar original dos filisteus (ver Am 9.7), 
indica que a catástrofe assolou os filisteus na sua própria pátria. 
 Antes que Faraó ferisse a Gaza (1). Não se sabe quando é que 
Faraó atacou Gaza. Pode ter sido quando ia lutar contra Josias na batalha 
em que este último foi morto, ou então no regresso, ou em qualquer outra 
ocasião. 
 Eis que se levantam as águas, do norte (2). As águas são, por 
vezes, símbolo de calamidade, e por vezes, também, representam 
multidões de pessoas e nações. Aqui, significam ambas as coisas. Os 
babilônios, vindos do norte, serão um dilúvio avassalador, o que 
constituirá uma calamidade para os filisteus. 
 A rapadura (5) sugere um desastre completo ou um sinal de 
profundo luto, como os golpes que se davam na carne. A Septuaginta 
prefere "Anaquim", povo de grande estatura, em vez de seu vale (5), 
como no texto massorético. Os anaquins estavam relacionados com os 
filisteus (ver Js 11.22). Eram uma raça de gigantes e viviam muito perto 
de Hebrom em tempos pré-históricos. Os vv. 6 e 7 constituem uma 
espécie de antífona: uma voz (6) é o grito amargurado dos filisteus sob 
os golpes de Iavé, e a outra (7) é um aviso profético de que eles 
constituem de fato um castigo enviado por Iavé. 
 
Jeremias 48 
c) Contra Moabe (48.1-47) 
 A terra de Moabe era o alto e fértil planalto a leste do Mar Morto. 
Diz o Prof. Driver: "Primitivamente (Nm 21.26) o território moabita 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 93 
prolongava-se para o norte até Hesbom, para nordeste do Mar Morto, 
mas os israelitas, depois de haverem conquistado o país para leste do 
Jordão, consideravam o território a norte do Arnom como pertença de 
Rúben (Js 13.15-21), e o Arnom como a fronteira de Moabe. Mas, afinal, 
Rúben não ficou de posse da região que lhe foi atribuída e, assim, aqui, 
como em Is 15—16, muitas das cidades concedidas em Js 13.15-21 a 
Rúben vêm mencionadas como ocupadas por Moabe". Este poema é 
talvez o mais soberbo de todos os escritos de Jeremias. Se compararmos 
com Is 15 e 16, é impossível não chegarmos à conclusão que muito do 
material foi ali colhido. Ambas as passagens de Isaías deveriam ser 
cuidadosamente estudadas, especialmente Is 16.6 (ver 29). 
 
 1. IAVÉ CONTRA O DEUS DE MOABE, CAMOS (48.1-10). A 
arrogância do Moabe radica-se no seu deus, e por isso tanto este como os 
sacerdotes de Moabe deverão ser levados para o exílio (7-8). 
 Ai de Nebo (1), isto é, a cidade desse nome, não a montanha sua 
homônima mais bem conhecida. Misgab (1); este local não vem 
mencionado em qualquer outro ponto. A palavra significa "alto refúgio", 
sendo provavelmente o nome de uma fortaleza. 
 Hesbom (2) era uma antiga e famosa cidade a leste do Jordão; 
Josué concedeu-a a Rúben, mas no tempo de Jeremias estava nas mãos 
de Moabe. Madmém (2) também não vem mencionada em qualquer 
outro ponto. A Septuaginta, a Siríaca e a Vulgata dizem: "Sim, tu (isto é, 
Moabe) serás absolutamente reduzida ao silêncio". Em 4b deveria talvez 
preferir-se a Septuaginta: "o seu brado pode ser ouvido até Zoar", um 
local que ficava na extremidade sudeste do Mar Morto, dando esta 
versão a entender que o brado de Moabe se ouvia de um extremo do país 
ao outro. 
 Porque pela subida de Luíte... (5), oumelhor, "os homens 
escalam a garganta até Luíte, em lágrimas". 
 Vida (6) significa alma viva, pois o vocábulo nefesh é o sopro da 
alma que anima o corpo, não encarnado neste, como no pensamento grego. 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 94 
 Por causa da tua confiança nas tuas obras (7), isto é, nas tuas 
iniciativas, medidas de defesa, etc. A Septuaginta diz: "nas tuas 
fortalezas", o que talvez corresponda ao texto primitivo. 
 Nenhuma escapará (8) refere-se, talvez, em primeiro lugar à 
capital de Moabe. Destruir-se-á a campina (8), isto é, o extenso 
planalto a grande altitude em que ficava a maior parte das cidades 
moabitas. 
 
 2. UM CONTRASTE NO CASTIGO (48.11-15). 
 Israel (13) confiara no santuário de Betel, em que Iavé era 
representado pelo bezerro de ouro, mas em vão. Moabe ficara impune do 
castigo, como o vinho que não é mudado de odre para odre para evitar a 
contaminação pela borra que vai criando; mas agora, no exílio que lhe é 
infligido como castigo, Moabe terá vergonha de Camos (13), um deus 
que, em épocas de perigo, foi impotente contra o poder de Iavé, o Deus 
vivo. O único sentido claro do verso 15 é a espoliação. 
 
 3. A CALAMIDADE DE MOABE (48.16-25). Tão grande é a 
aflição de Moabe que até os seus inimigos a lamentarão. 
 Vara... cajado (17), símbolos de força e autoridade; ambos 
desaparecerão no dia do castigo. 
 Filha (18) simboliza a população. 
 Dibom (18) ficava sobre dois montes (por isso lemos "desce") a 
uns 20 quilômetros a leste do Mar Morto. Foi aí que se encontrou em 
1868 a famosa Pedra Moabita. A perda de segurança e poder vem no verso 
25, braço é um símbolo de poder. 
 
 4. O ANTAGONISTA DE MOABE (48.26-34). Moabe deverá 
embriagar-se, não com o seu famoso vinho, mas com o terror do seu 
antagonista Iavé. A versão do verso 26b na Septuaginta é: "Moabe bateu 
as palmas" (isto é, em zombaria), "mas ela própria será zombada". Os 
seus antigos admoestos contra Israel caíram, afinal, sobre os que se riam 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 95 
do povo eleito. Compare-se o verso 29 com Is 16.6. Compare-se o verso 
30 com Is 15.5; 16.7,11. 
 Em vez de homens (31) leia-se "pasta de passas de uvas", ou seja, 
uvas passadas com farinha consumidas nos festivais religiosos. 
 Comparar também os vv. 32 e 33 com Is 16.9-10. A Septuaginta 
corrige até ao Mar de Jaezer (32) para "até Jaezer", provavelmente uma 
cidade a norte de Hesbom, mas trata-se apenas de uma conjectura (ver Is 
16.8). Em vez de já não pisarão uvas com júbilo (33) ler "o pisador não 
pisará". Compare-se Is 15.4-6 com o verso 34. 
 As águas do Ninrim se tornarão em assolação (34). Ao que 
parece, isto significa que secarão por as suas fontes serem entupidas pelo 
inimigo (ver 2Rs 3.25). 
 
 5. O CHORO DE MOABE (48.35-39). A causa desse choro é 
Deus, que porá fim ao culto moabita (35), provocando, assim, o choro 
desse povo (36-38). Iavé esmagou Moabe como um vaso que já não 
serve (38b), pelo que Moabe se transformou em objeto de vergonha e 
zombaria (39). 
 Quem sacrifique nos altos (35) leia-se com a Septuaginta, 
"aquele que sobe ao lugar alto". No verso 36, a Septuaginta tem "harpa 
de Moabe" em vez de o meu coração, mas o texto massorético está mais 
de acordo com a natureza de Jeremias, que não ficara petrificada pelo 
ódio antes permanecia sensível até ao sofrimento de um inimigo. 
Compare-se Is 15.3 com o verso 38. Leia-se no verso 39 o imperativo 
uivai em vez de "como uivam". 
 
 6. IAVÉ TEM A ÚLTIMA PALAVRA DE CASTIGO (48.40-47). 
A Septuaginta omite no verso 40 as palavras eis que voará como a 
água... Moabe (40); mais propriamente um abutre, aqui símbolo do 
inimigo, Nabucodonosor. Queriote (41) era uma importante cidade de 
Moabe, também mencionada em Am 2.2. Os vv. 45-47 não figuram na 
Septuaginta. Os vv. 45b e 46 baseiam-se, com pequenas variantes, em 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 96 
Nm 21.28 e Nm 24.17: vai-se cumprir o oráculo de Balaão contra 
Moabe. O verso 47 talvez reflita a piedade do coração de Jeremias que, 
por seu turno, reflete a de Iavé. A cólera é sempre "obra estranha de 
Deus", cujo coração se inclina mais para a misericórdia. Moabe será 
colocada sob tremenda disciplina, e não condenada à destruição. 
 
Jeremias 49 
d) Contra Amom (49.1-6) 
 
 Este breve parágrafo contém dois pensamentos distintos: a 
condenação e a restauração de Amom. A condenação de Amom (1 a 5) é 
devida à sua cobiça, pois roubou a Gade algum terreno em época 
indeterminada. O território de Gade ficava a leste do Jordão, e o país dos 
amonitas ficava ainda mais para leste. Milcom era o nome do deus 
nacional dos amonitas (1Rs 11.5,33) mas o hebraico pode significar 
também "rei". Rabá era a sua capital, situada no rio Jaboque. 
 Montão (2) (em hebraico tel) designa o monte constituído pelas 
ruínas de qualquer local antigamente habitado, quer cidade quer aldeia. 
 Os lugares da sua jurisdição serão queimados a fogo (2) pode 
também ser traduzido "as suas filhas serão queimadas a fogo". 
 Hesbom (3) parece deslocada aqui, pois ira conhecida como uma 
cidade dos moabitas; Ai (3) é um local desconhecido. 
 Luxuriantes vales (4) vem omitido na versão Siríaca e parece ser 
um caso de duplicação de idéias. 
 Te glorias nos vales (4) exprime provavelmente o alto apreso à 
sua fertilidade, tornada possível pelas águas do rio Arnom. A profecia 
termina numa promessa de restauração (6). Uma vez mais, o castigo não 
será completo; Iavé fará Amom voltar do cativeiro. 
 
e) Contra Edom (49.7-22) 
 Edom, inimigo tradicional de Israel, ficava a sul de Moabe. Muitas 
das expressões utilizadas na profecia de Jeremias ocorrem também em 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 97 
Obadias. As passagens em comum podem-se basear em qualquer 
profecia mais antiga, que tanto Obadias como Jeremias teriam adaptado 
a sua maneira. Em contraste com a profecia contra Amom, não há para 
Edom qualquer mensagem de esperança e restauração: o castigo será 
definitivo e completo. A Septuaginta omite as interrogações do verso 7, 
o que é preferível. 
 Temã (7) era uma tribo de Edom no norte do país, e aqui 
representa todo o povo. 
 Habitai em profundezas (8), sinônimo de fuga para qualquer 
refúgio impregnável. Esaú (8); representa também Edom (cf. Gn 25.30). 
Dedã (8) era um país vizinho a sudeste (ver Ez 25.13). Só aqueles que 
habitam nas profundezas poderão escapar à catástrofe que se avizinha 
para Edom. 
 Despi a Esaú (10), isto é, todas as fortalezas de Edom ficam nuas, 
não havendo qualquer refúgio; numa palavra, será impossível fugir ao 
castigo. 
 Beber o copo (12), a taça da ira de Iavé. Se Israel tem de beber 
desta taça, Edom, sem dúvida, não poderá esperar evitá-la. 
 Bozra (13), uma cidade ao norte de Edom, cerca de 30 
quilômetros a sudeste do Mar Morto. A topografia física vem referida no 
verso 16. Stanley dá dela uma boa descrição na sua obra Sinai and 
Palestine (pág. 88 e segs.). A figura de Sodoma e Gomorra, que, em 
50.40, é aplicada a Babilônia, vem aqui aplicada também a Edom (18). 
Com o verso 19, comparar também 50.44. Assim como um leão sai da 
espessura da vegetação semi-tropical que orla as margens do Jordão, 
assim também o inimigo descerá célere sobre Edom e suas cidades (19); 
e assim como um leão põe em debandada um rebanho, assim também o 
inimigo dispersará os habitantes de Edom (20). 
 
f) Contra Damasco (49.23-27) 
 A cena do castigo desloca-se agora para o norte, para Damasco, 
antiga capital da Síria. Damasco e as cidades suas dependentes serão 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 98 
invadidas pelo pânico e pela inquietação, e tornar-se-ão como um mar 
turbulento de terror. A sua proverbial fertilidade e beleza serão 
destruídas pelo fogo. 
 Hamate... Arpade (23), duas cidades nomeadas juntamente em Is 
10.9; 36.19 e Is 37.13. Hamate ficava aproximadamente a 150 
quilômetros ao norte de Damasco, e Arpade a uns 130 quilômetros ao 
norte de Hamate. Em vez de angústia (23) leia-se "inquietação"ou 
"cuidado". O vocábulo mar (23) deverá ser entendido simbolicamente, 
visto Damasco ficar longe do mar (ver Is 57.20). 
 O verso 25 é pronunciado por um natural de Damasco. 
 Comparar o verso 27 com Am 1.4. 
 
g) Contra Quedar, ou os árabes (49.28-33) 
 
 Uma ameaça semelhante de condenação, à qual só se poderá 
escapar pela fuga. Quedar era uma tribo nômade ismaelita, rica em 
rebanhos e manadas, com hábeis arqueiros, e que representava 
condignamente as tribos do deserto que Nabucodonosor conquistou. 
Hazor (28) é indicado como local de habitação (33) e pode ter sido uma 
colônia árabe ao sul da Palestina. As suas cortinas (29), isto é, os 
cortinados das suas tendas. Um desígnio contra vós (30); o texto 
hebraico diz eles. Levantai-vos (31) dirige-se aos assaltantes de Hazor. 
 
h) Contra Elã (49.34-39) 
 
 O caráter único desta profecia reside no fato de ser datada do 
reinado de Zedequias, quando tivera lugar a primeira deportação. Elã 
ficava a leste de Babilônia. 
 
i) Contra Babilônia (50.1-51.64) 
 Estes dois capítulos contém uma longa e veemente profecia contra 
Babilônia e que apresenta muitas dificuldades. A opinião dos críticos é 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 99 
que não foi escrita por Jeremias, embora se empreguem muitas das suas 
expressões costumeiras. A argumentação contra a autoria de Jeremias é 
mais ou menos a seguinte. 
 Primeiro, a situação histórica não pode ser a do quarto ano de 
Zedequias, isto é, 593 a.C. (ver 51.59-60). Os judeus estão já no exílio 
(50.4,17; 51.34), o templo sofreu violência (50.28; 51.11), e, além disso, 
o fim de Babilônia está à vista (50.8; 51.6,45). 
 Em segundo lugar, o ponto de vista não é o de Jeremias em 593 
a.C. Os capítulos 27-29 informam-nos de que, mais ou menos naquela 
altura, Jeremias andava em luta com os falsos profetas (que anunciavam 
que o jugo de Nabucodonosor seria quebrado dentro de pouco tempo) e 
exortava os exilados da primeira deportação a fixarem-se para 
considerável estada. Estes capítulos, porém, presumem que a queda de 
Babilônia está próxima. 
 Em terceiro lugar, alega-se que o temperamento aqui revelado não 
é o de Jeremias, que estava convencido de que os babilônios eram os 
agentes de Deus para castigar Judá - ação que não estava ainda concluída 
no quarto ano de Zedequias. Estes capítulos, pelo contrário, revelam um 
espírito anti-babilônio e profunda satisfação ante a perspectiva da 
tragédia que se aproximava para eles. 
 Tem-se sugerido, pois, que esta profecia pode ter sido escrita por 
um profeta desconhecido, familiarizado com os escritos de Jeremias, e 
que se serviu de muitas das suas expressões. A data teria sido em finais 
do império babilônio, digamos 538 a.C. Um editor mais recente do livro 
de Jeremias colocou esta profecia antes de 51.59-64, que era a profecia 
original de Jeremias contra Babilônia, consistindo num prognóstico 
muito geral da queda desse império. Os comentadores que abraçam este 
ponto de vista salientam que na Septuaginta não há epígrafe em 50.1. 
 Young (Introduction to the Old Testament) acha que "não há 
motivos suficientes para negar que Jeremias foi o autor destas profecias". 
Se se aceitar 593 como data destes capítulos, Jeremias "é simplesmente 
colocado no futuro, retratando-nos um templo já destruído". Como 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 100
alternativa, e mais provavelmente, constituem, conforme sugere o Prof. 
Young, uma forma ampliada da sua mensagem original contra Babilônia 
"preparada no Egito sob inspiração divina depois de o santuário de 
Jerusalém te sido realmente destruído", o que explicaria também as 
alusões ao exílio. 
 
Jeremias 50 
 Tomada é Babilônia (50.2) constitui o futuro profético: o profeta 
vê em visão a condenação já consumada. Bel (2) é um dos títulos de 
Merodaque (isto é, Marduque, Deus supremo de Babilônia), que 
significa "senhor". 
 Do norte, (3), frase misteriosa que sugere a qualidade sinistra que 
se oculta no norte, ou que se refere ao conquistador persa, visto a Média 
ficar ao norte de Babilônia. Na confusão ocasionada por aquele desastre, 
Israel, impelido agora à penitência e à fidelidade ao concerto, recebe 
uma oportunidade de escapar (4-8). 
 Culpa nenhuma teremos (7); compare-se com 2.3. A Esperança 
de seus pais (7); é esta a lição da Septuaginta; o texto hebraico 
acrescenta "Iavé". 
 Como os carneiros diante do rebanho (8), isto é, indicando o 
caminho. 
 Iavé chama os destruidores e incita-os contra Babilônia (9-13). 
Estes versículos falam dos destruidores de Babilônia, do pecado de 
Babilônia, e das conseqüências que ele teve para Babilônia. "Os moinhos 
de Deus moem devagar mas moem muito fino". 
 Vossa mãe (12) Babilônia é considerada mãe de cada cidadão (ver 
Os 2.5 onde a mãe é Israel). 
 Não será habitada (13), ou, como diz o hebraico, não se sentará. 
Os atacantes de Babilônia recebem ordem para soltarem o grito de 
batalha ao derrubá-la e torná-la impotente (14-16). 
 Fugirá cada um para a sua terra (16), o que parece ser uma 
referência aos muitos estrangeiros que se haviam fixado em Babilônia. 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 101
Israel e Judá serão restaurados quando Babilônia, como a Assíria 
anteriormente, sofrer o seu castigo (17-20). A restauração inaugurará 
uma nova era, o remanescente será perdoado, e o pecado será esquecido. 
 Visitarei o rei da Babilônia... como visitei o rei da Assíria (18). 
A Babilônia derrubou a Assíria e foi ela própria derrubada pelos medo-
persas. 
 Fartar-se-á a sua alma (19); na psicologia hebraica, a alma era 
considerada a sede ou órgão dos apetites. 
 O inimigo é outra vez convidado a atacar Babilônia (21-27). 
Merataim ("duplamente rebelde", SBB, 21) designa obviamente 
Babilônia. A Babilônia meridional era conhecida pelo nome de "Na-
Marratim" (terra do rio amargo), e é possível que o vocábulo "Marataim" 
derive deste outro. Pecod ("Terra de castigo", SBB, 21), um povo de 
Babilônia fronteiriço ao Elã. Pacad significa em hebraico castigar ou 
visitar, e o profeta pode ter mencionado este lugar por ter em mente o 
castigo. 
 Grande destruição (22), em hebraico, grande quebra. 
 Contra o Senhor te entremeteste (24), à letra, "excitaste-te 
contra o Senhor". 
 Os instrumentos da Sua indignação (25) simboliza as nações 
que inconscientemente realizam a vontade e propósitos de Deus. 
 Abri os seus celeiros (26), isto é, os lugares onde guardavam as 
suas provisões e forragens. 
 Novilhos (27) significa os jovens guerreiros, conduzidos à derrota 
absoluta (ver Is 34.7). A fuga do povo de Iavé (28) implica duas coisas: a 
Sua providência sobre esse povo, o Seu castigo sobre Babilônia por 
haver conspurcado o Seu templo. Os orgulhosos tropeçam e caem sem 
oportunidade de fuga, e as chamas completam o que o arco e a espada 
haviam começado (29-32). 
 Veio o teu dia (31); Israel e Judá podem estar escravizados, mas 
têm um redentor forte. O Senhor dos Exércitos é paz para esse povo, mas 
inquietação para os que o oprimem (33-34). 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 102
 Os vv. 35-40 descrevem a condenação e desolação absoluta de 
Babilônia. Tudo e todos sentirão a amargura da espada do vingador. 
 A espada virá sobre os mentirosos (36), talvez uma alusão aos 
falsos profetas e adivinhos que prometiam segurança a Babilônia. 
 Cairá a seca sobre as suas águas (38), ou, segundo a Septuaginta 
e a Siríaca, uma espada. A palavra hebraica que designa espada é hereb, 
e a que designa seca é horeb. A seca seria uma espada bem aguçada. Os 
vv. 41-43 são uma repetição de 6.22-24, mas o sentido modifica-se. Os 
vv. 44-46 são uma repetição de 49.19 e seguintes, onde se aplicam a 
Edom. Em 49.19, o leão simboliza Nabucodonosor, mas aqui designa 
Ciro. 
 
Jeremias 51 
 O destruidor de Babilônia (51.1-6) assemelha-se a alguém que 
separa a palha do trigo, sinônimo de julgamento do crime da nação 
contra o Santo de Israel. Israel e Judá têm o seu protetor. Que Israel 
escape quando Ele exigir o que é devidopela culpa. 
 Padejadores (2); é esta a lição da Septuaginta, do Targum e da 
Vulgata, mas o texto hebraico diz "estranhos" (zarim em vez de zorim). 
A interpretação do verso 3 é difícil, e obscuro o seu significado 
primitivo. 
 A sua terra (5) refere-se aparentemente, não a Judá, mas à terra 
de Babilônia, embora se aplique a ambos. 
 Os vv. 7 a 10 contêm uma profecia impregnada duma ironia ácida. 
Pode haver bálsamo em Gileade mas não para Babilônia, cujo castigo 
ascende ao tribunal de Iavé. 
 As nações enlouqueceram (7), isto é, ficaram desorientadas e 
impotentes. 
 Caiu... e ficou arruinada (8); quebrou-se como uma taça. 
Porventura sarará (8), palavras irônicas. 
 A obra estranha de Iavé vem descrita nos vv. 11-14. Ele chama 
uma nação que O não conhece para que ponha em prática o Seu desejo 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 103
de ira. Porá ela termo à ordem existente, como se fosse uma encarnação 
do destino. 
 Dos reis da Média (11); foram os medos e os persas que 
destruíram o império de Babilônia. 
 Sentinelas (12), aqui, não significa os que vigiam, mas os que 
guardam e cercam a cidade. 
 Pulgão (14), provavelmente gafanhotos. 
 Os vv. 15-19 são uma intercalação extraída de Jeremias 10.12-16, 
mas acrescentada para mostrar a impotência dos deuses de Babilônia 
para a salvar. 
 Os vv. 20-24 referem-se provavelmente a Ciro como agente 
inconsciente de Iavé na humilhação de Babilônia; mas poderiam também 
aplicar-se à própria Babilônia como instrumento anterior de Iavé para 
exercer castigo sobre Judá. 
 Martelo (20), à letra, "esmagador", algo que reduz outros objetos 
a fragmentos. Compare-se com Na 2.1; Ez 9.2. Os vv. 25 e 26 
constituem uma intercalação que se refere primitivamente a uma tribo 
montanhesa como Edom, ou então são simbolicamente introduzidos para 
designar Babilônia, que se encontrava construída na planície. 
 Um monte de incêndio (25), isto é, estéril e desolado como um 
vulcão extinto. 
 A trombeta de Iavé convoca os Seus agentes para cumprirem a 
Sua ordem de castigo contra Babilônia (27-32). 
 Os correios (31-32) são os portadores das notícias de condenação. 
Ararate (27), Urartu nas inscrições assírias, correspondendo à moderna 
Armênia. Mini (27); Manai nas inscrições assírias; ficava a sudeste do 
Lago Van. Asquenaz (27), um povo que se fixara algures perto dos 
outros dois. 
 Desfaleceu a sua força (30); em hebraico, "secou". 
 Os vaus (32), isto é, os pontos onde se podia atravessar o Eufrates 
a pé. Os canaviais (32) faziam parte das defesas de Babilônia. 
 A colheita inevitável vem declarada no verso 33. 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 104
 O drama do eterno tribunal surge-nos nos vv. 34-37. Sião expõe a 
sua causa contra o seu opressor - espoliação, maus tratos, injustiças, 
exílio, agressão física. Iavé defende Ele próprio a causa de Sião. Em 
resultado, Babilônia, o fabuloso jardim do oriente, transforma-se num 
covil de chacais, numa zombaria e desolação. 
 Secarei o seu mar (36), frase que pode constituir uma referência 
ao grande lago que Nabucodonosor mandou fazer para defesa de 
Babilônia. 
 Os vv. 38-44 descrevem o fim da cidade. 
 Sesac (41) é sinônimo de Babilônia (ver 25.26). No verso 39, a 
lição da Septuaginta "ficarão atônitos" é mais provável do que 
"excitados". 
 Lhes darei a sua bebida (39); a Siríaca diz "envenenará" etc. 
 Os vv. 45-48 parecem fragmentários e duplicativos. A Septuaginta 
omite-os. 
 A tradução da Siríaca do versículo 49, os mortos de Babilônia 
cairão em toda a terra, é preferível a "em Babilônia cairão os 
traspassados de toda a terra". Se, além disso, lermos "Babilônia cairá em 
contrapartida dos mortos de Israel", o sentido tornar-se-á claro. 
Babilônia vai cair por causa dos mortos de Israel, assim como por causa 
de Babilônia tinham caído os mortos de toda a terra. A ordem dada a 
Israel é, portanto, de se lembrar de Iavé e Jerusalém e sua profanação. 
 A profecia dupla de Iavé contra Babilônia e os seus altos edifícios 
encontrarão quem os vença (52-53). O estrondo da condenação (54-57) é 
uma recompensa digna vinda de Iavé, de Quem o destino, afinal, 
depende. Na hora em que Babilônia precisava de que os seus homens se 
encontrassem absolutamente em forma, a ira de Iavé embriaga-os. 
 Subisse aos céus (53), à letra, "cortasse", isto é, se tornasse 
inacessível, É este o sentido usual do vocábulo hebraico traduzido por 
"fortificar". Das cidades muradas ou fortificadas dizia-se que estavam 
"cortadas". 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 105
 Nos vv. 59-64 temos a incumbência dada por Jeremias a Seraías. 
Príncipe pacífico (59); talvez seja preferível traduzir por "oficial 
encarregado do conforto do rei em qualquer local onde ele pernoitasse" 
(traduzindo à letra, "príncipe ou capitão de um lugar de repouso"; ver 
Nm 10.33). Seraías era provavelmente irmão de Baruque, pois era filho 
de Nerias, filho de Maaséias, como em 32.12. 
 Eles se cansarão (64) não figura na Septuaginta, sendo 
provavelmente uma repetição de parte do verso 58. 
 Até aqui as palavras de Jeremias (64b); supõe-se geralmente ser 
uma nota que o compilador acrescentou para separar o texto precedente 
do capítulo 52, que é praticamente idêntico a 2Rs 24.18 e seguintes e 
25.21,27-30. 
 
Jeremias 52 
XVII. RETROSPECTIVA - 52.1-34 
 
 Este capítulo de encerramento diz respeito ao destino do rei 
Zedequias, da cidade de Jerusalém, dos vasos sagrados do templo e do 
rei Joaquim; ver 51.64, nota supra. Presumivelmente foi incluído para 
constituir um remate adequado do livro de Jeremias. A intenção talvez 
fosse demonstrar a validade das profecias, visto terem sido cumpridas, 
ao contrário do que sucede com as profecias dos falsos profetas. 
Todavia, existe um contraste curioso, qual seja o de não se mencionar a 
ordem do rei de Babilônia para proteger Jeremias, como lemos em 
39.11-14, enquanto que nos vv. 17-23 vem um relato pormenorizado dos 
pertences do templo, que não são mencionados no capítulo 39. Omitem-
se também a nomeação de Gedalias e seu assassinato subseqüente. 
 
a) O cativeiro final de Zedequias (52.1-27) 
 
 Zedequias revoltou-se e foi derrubado, e o monarca de Babilônia 
infligiu sobre ele, sua família e seu povo o terror que já antes perseguira 
Jeremias (Novo Comentário da Bíblia) 106
a alma de Jeremias. Os vv. 4-16 foram dados no capítulo 39.1-10, e em 
2Rs 24.18-25.21 vem um paralelo de toda esta seção. 
 Os vv. 31-34 respeitantes à sorte de Joaquim encontram se 
também em 2Rs 25.27-30. A fome do verso 6 vem datada mas não 
dogmaticamente. 
 Os vv. 10b e 11b não se encontram em 2 Reis. Para uma 
comparação dos dois relatos, ver comentários mais amplos. 
 Os mais pobres do povo (15) não ocorre em 2 Reis e pode ser 
eliminado deste texto, visto parecer estar em contradição com o verso 16 
e poder ter sido erroneamente extraído daquele versículo. 
 Era sem peso (20), isto é, não chegou a ser pesado. 
 
b) Conclusão (52.28-34) 
 
 Os vv. 28-30 vêm omitidos na Septuaginta, mas não precisam de 
ser eliminados, especialmente quando se considera a sua reserva 
relativamente aos algarismos. Sobre estas três deportações devem-se 
consultar comentários mais completos, visto haver dificuldades 
inerentes. 
 No ano trigésimo sétimo (31), isto é, 561 a.C. 
 Evil-Merodaque (31) sucedeu a Nabucodonosor e reinou dois 
anos (561-559 a.C.). 
 Na sua presença (33), sinônimo da mesa real. 
 Porção (34), à letra: "questão de um dia no seu dia". 
 
 F. Cawley. 
 
 
 
 
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