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See discussions, stats, and author profiles for this publication at: https://www.researchgate.net/publication/216808626 Neurociência cognitiva e educação matemática Conference Paper · January 2009 CITATIONS 2 READS 4,407 2 authors: Some of the authors of this publication are also working on these related projects: Reading anxiety and academic performance View project Endofenótipos das dificuldades de aprendizagem View project Vitor Geraldi Haase Federal University of Minas Gerais 197 PUBLICATIONS 992 CITATIONS SEE PROFILE F. O. Ferreira Federal University of Juiz de Fora 36 PUBLICATIONS 253 CITATIONS SEE PROFILE All content following this page was uploaded by Vitor Geraldi Haase on 28 May 2014. 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A interlocução entre neurocientistas e educadores pode contribuir para um diagnóstico mais abrangente e confiável do perfil de habilidades e dificuldades dos educandos, contribuindo também para o desenvolvimento de intervenções educacionais empiricamente fundamentadas. O diálogo com a educação pode ser uma oportunidade para os neurocientistas fazerem um balanço, avaliando suas pressuposições, métodos e validade dos resultados empíricos em função de uma perspectiva contrastiva oportunizada pelas contribuições e necessidades teóricas e práticas dos educadores, bem como do desafio de eventualmente poder contribuir modesta porém positivamente para as avaliações e métodos de ensino. À medida que a Sociedade Brasileira se aproxima de atingir a meta da universalização do ensino fundamental e médio coloca-se a questão da sua qualidade, a qual tem repercussões econômicas, sob a forma de capital humano e social (Barber, 2002, Fukuyama, 1996, 1999), e psicossociais, sob a forma de qualidade de vida (Felder-Puig, Baumgartner, Topf, Gadner& Formann, 2008). Uma conversa pode se iniciar pela explicitação dos discursos, dos pressupostos teóricos e metodológicos que orientam cada um dos interlocutores. Neste artigo procuraremos formular uma perspectiva a partir da neuropsicologia e neurociência cognitiva, tomando Vitor Haase Sticky Note HAASE, V. ; FERREIRA, F. O. . Neurociência cognitiva e educação matemática. In: IV Encontro de Educação Matemática de Ouro Preto, 2009, Ouro Preto. IV Encontro de Educação Matemática de Ouro Preto. Ouro Preto : Editora UFOP, 2009. 2 as potenciais contribuições das neurociências para o ensino da aritmética como caso- exemplo. Inicialmente precisamos esclarecer que as neurociências constituem um campo heterogêneo e que estaremos falando, basicamente, a partir de uma perspectiva particular, a da neuropsicologia cognitiva (Temple, 1997). A segunda parte do artigo discutirá as contribuições potenciais para o ensino da aritmética básica. Algumas questões epistemológicas e conceituais Duas grandes orientações teórico-metodológicas podem ser distinguidas de modo simplificado nas neurociências, o neuroconstrutivismo e o modularismo-evolucionismo. A perspectiva neuroconstrutivista procura desenvolver nas neurociências posições teóricas, derivadas do construtivismo piagetiano e do contextualismo vygotskyano. Os proponentes do neuroconstrutivismo baseiam sua teorização em resultados experimentais e neuropsicológicos que enfatizam a complexidade e natureza dinâmica do cérebro, a qual se traduz em plasticidade durante o desenvolvimento e permeabilidade às influências ambientais (Karmiloff-Smith, 2002). Mas o principal sustentáculo para a teorização neuroconstrutivista são as simulações de sistemas dinâmicos através de modelos computacionais de redes neurais (Thomas & Karmiloff- Smith, 2002). Os modelos de redes neurais demonstram a plausibilidade de implementar o desenvolvimento de sistemas cognitivos complexos a partir de uma arquitetura neural exígua. A complexidade do sistema se estrutura a partir da informação que o mesmo captura do meio ambiente bem como de sua dinâmica auto-organizatória. Na vertente oposta situa-se a corrente que enfatiza a natureza modular e evoluída dos sistemas cognitivos (Geary, 2007). A neuropsicologiacognitiva não nega a natureza complexa e integrativa do cérebro-mente, mas postula que a análise das dissociações de desempenho em indivíduos com lesões ou disfunções cerebrais pode ser uma estratégia para identificar os componentes parcialmente autônomos a partir dos quais o sistema é construído (Shallice, 1988, Temple, 1997). As evidências clinicas mostram que o cérebro-mente pode ser caracterizado por uma estrutura modular. Ou seja, o sistema é composto por um conjunto de dispositivos integrados porém parcialmente autônomos e funcionalmente segregáveis. Os diversos sistemas modulares podem ser comprometidos 3 por processos patológicos de forma mais global, como na deficiência mental, ou de forma isolada, como nos transtornos específicos de aprendizagem (Anderson, 2001). A neuropsicologia cognitiva analisa os diferentes padrões de processos psicológicos comprometidos e preservados em decorrência de formas distintas de lesões ou disfunções cerebrais com o intuito de identificar duplas-dissociações (Shallice, 1988, Temple, 1997). Por exemplo, alguns indivíduos com inteligência normal são caracterizados como disléxicos porque apresentam um comprometimento seletivo dos processos de recodificação fonológica subjacentes à aprendizagem da leitura, enquanto as habilidades visoespaciais, aritméticas e inferenciais sócio-cognitivas são preservadas (Galaburda, LoTurco, Ramus, Fitch & Rosen, 2006). Outro grupo de indivíduos preserva as habilidades de recodificação fonológica que possibilitam a alfabetização, mas experimenta dificuldades importantes no que se refere às habilidades visoespaciais, aritméticas e sócio-cognitivas, constituindo o chamado transtorno não-verbal de aprendizagem (TNVA. Volden, 2004). O perfil complementar de processos comprometidos e preservados observado na dislexia e no TNVA constitui uma dupla-dissociação, sendo interpretado como evidência para uma organização modular do cérebro-mente. Obviamente, a organização modular do cérebro-mente, tal como observada no adulto, é o resultado de um longo processo epigenético no qual a plasticidade sináptica, a estrutura do ambiente e a dinâmica do sistema constituem influências poderosas. Mas a dupla-dissociação entre perfis distintos de dificuldades “verbais” e “não-verbais” de aprendizagem (Rourke, 1989) indica que o estado inicial do sistema não pode ser caracterizado como desprovido de estrutura, havendo disposições iniciais diferenciais quanto à capacidade de adquirir determinadas habilidades. A natureza genética das dificuldades de aprendizagem (Galaburda et al., 2006, Shalev, Manor, Kerem, Ayali, Badichi, Friedlander & Gross-Tsur, 2001) é condizente com a hipótese de que diferenças mínimas nas condições iniciais em um sistema complexo e dinâmico podem conduzir a diferenças importantes nos desfechos futuros. Por outro lado, o caráter persistente dos transtornos de desenvolvimento e das dificuldades de aprendizagem demonstra os limites dos processos de neuroplasticidade 4 (Anderson, Catroppa, Morse, Haritou& Rosenfeld, 2005, Johnston, 2003). Finalmente, a partir da natureza específica das dificuldades é possível supor que alguns indivíduos se caracterizam por estilos ou estratégias singulares de aprendizagem, as quais precisam ser esclarecidas e consideradas no processo educativo (Chinn & Ashcroft, 2007). A psicologia evolucionista contribuiu com um argumento teórico importante para a modularidade mental. Se for o resultado de um longo processo de evolução por seleção natural e sexual e cérebro-mente deve ser caracterizado por uma estrutura modular (Tooby & Cosmides, 1995). Simplesmente porque não haveria como os processos evolutivos selecionarem um mecanismo resolvedor geral de problemas. Na perspectiva modularista-evolucionista cada processo cognitivo representa uma adaptação específica a algum problema recorrente enfrentado pelos nossos ancestrais no ambiente em que a espécie evoluiu, Segundo esta perspectiva a inteligência geral evoluiu por um processo de exaptação, ou seja, de pegar carona a partir de mecanismos cerebrais que possibilitavam a reprodução e a cognição social (Miller, 2000, Mithen, 1998). Como nem todos as espécies aprendem com igual facilidades quaisquer comportamentos (Garcia, Kimeldorf & Koelling, 1955), então o estado inicial do sistema deve ser caracterizado por um conjunto de disposições de aprender, as quais vão se diferenciando no processo de desenvolvimento ontognético. As disposições iniciais podem ser caracterizadas como um conjunto de intuições, que permitem a adaptação do indivíduo aos diferentes ambientes culturais humanos (Geary, 2007). O elenco de intuições primitivas varia, mas as diferentes formulações giram em torno de um conjunto de habilidades relacionadas ao conhecimento psicossocial, de si próprio e dos outros, ao conhecimento da natureza viva, bem como ao conhecimento dos fenômenos físicos e uma representação primitiva de quantidades. A Figura 1 ilustra a concepção modular do cérebro-mente, representando alguns dos processos psicológicos que constituem pré-requisitos para a aprendizagem da aritmética. INSERIR FIGURA 1 AQUI No domínio da aritmética foi proposta uma distinção entre habilidades primárias e secundárias (Geary, 2007). As habilidades primárias correspondem às intuições primitivas de número e dos princípios aritméticos, as quais são adquiridas de forma 5 espontânea pelas crianças na interação com o mundo físico e social. As habilidades secundárias são ilustradas, por outro lado, por invenções culturais tais como as tabuadas de multiplicação, a notação arábica e os algoritmos de cálculo por elas possibilitados. As ferramentas culturais exigem uma pedagogia explícita, treino e esforço deliberado para sua aquisição, não sendo aprendidas espontânea ou “naturalmente” através da mera interação social. A postulação de habilidades secundárias representa um reconhecimento da importância do papel desempenhado pelo contexto no desenvolvimento do indivíduo e na aprendizagem (vide Figura 2). Contextos socioculturais caracterizados por altos níveis de capital humano e social, bem como contextos familiares que adotam uma estratégia reprodutiva qualitativa, priorizando o investimento parental em uma prole pequena, se associam com melhores resultados quanto aos desfechos psicossociais e cognitivos (Barber, 2002, 2005, Ellis, 2004, Fukuyama, 1996, 1999). INSERIR FIGURA 2 AQUI O conhecimento das bases neurais do comportamento se enriqueceu nas últimas décadas pela introdução dos métodos não invasivos de neuroimagem funcional. Métodos como a ressonância nuclear magnética funcional (fMRI) permitem identificar as estruturas cerebrais ativadas no processo de aprendizagem de determinadas habilidades cognitivas, inclusive em crianças e adolescentes com desenvolvimento típico (Posner & Rothbart, 2007). Os resultados dos estudos de neuroimagem sugerem, por exemplo, que os diversos processos psicológicos são implementados através de padrões espaço- temporais de atividade neural dispersos por amplas regiões cerebrais. Os padrões associados a diferentes processos cognitivos são distribuídos e parcialmente superponíveis, indicando que não existe uma relação biunívoca entre os níveis mental e cerebral de descrição. As diversas abordagens teórico-metodológicas disponíveis nas neurociências podem ser concebidas como complementares. A psicologia evolucionista enfatiza, por um lado, o caráter evoluído e adaptativo nas funções mentais, enquanto, o neuroconstrutivismo sublinha, por outro, a natureza dinâmica e plástica, bem como a influência do contexto sobre o processo de desenvolvimento. Uma proposta epistemológica é que os métodos 6 de simulação em redes neurais e neuroimagem funcional sejam mais úteis no contexto da descoberta. Ou seja, as redes neurais ea fMRI são úteis como artifícios para formular e explorar hipóteses, bem como para examinar a plausibilidade biológica de modelos teóricos. Os dados clínicos com pacientes, por outro lado, desempenham um papel crucial no contexto da verificação de modelos teóricos (Shallice, 2003). Os estudos de neuroimagem funcional demonstram áreas potencialmente envolvidas com um desempenho funcional (Price, 2000, Price et al., 2003), mas é apenas a análise das conseqüências de lesões cerebrais localizadas que permite identificar as estruturas cerebrais necessárias à implementação de um dado processo (Coltheart, 1999, Price, 2000, Price et al., 2003). Bases neurocognitivas das habilidades relacionadas à aritmética Diversas tradições metodológicas convergiram nas últimas décadas para o desenvolvimento de modelos cognitivo-neurocientíficos das habilidades numéricas e de cálculo aritmético simples (vide, p. ex., os volumes editados por Campbell, 2005 e Noël, 2005). O conhecimento dos modelos cognitivos e dos dados empíricos que os fundamentam é relevante para a identificação das necessidades e planejamento das intervenções educacionais, tanto de alunos típicos quanto com dificuldades. Os modelos iniciais das habilidades numéricas e de cálculo foram formulados a partir de observações em pacientes adultos com lesões cerebrais adquiridas (McCloskey, Caramazza & Basili, 1985). Os dados neuropsicológicos permitiram identificar de forma consistente padrões dissociáveis de desempenho, indicando que as habilidades relacionadas ao conhecimento numérico e aritmético são complexas e decomponíveis em uma série de subdomínios. Um conjunto clinicamente segregável de habilidades é representado pelo chamado processamento numérico, ou seja, a capacidade de reconhecer a grandeza de um conjunto, representá-la nas diferentes notações (verbal oral, escrita e arábica) disponíveis e fazer a transdução entre um sistema notacional e outro. Pacientes foram identificados que apresentavam comprometimentos seletivos de cada uma destas formas de representação ou processo, quer seja no input ou no output (McCloskey et al., 1985, McCloskey & Caramazza, 1987). 7 O outro conjunto de habilidades é representado pelo cálculo aritmético simples. Foram identificados pacientes com déficits seletivos nos fatos aritméticos, nos procedimentos de cálculo elementar e nas estratégias de resolução de problemas (McCloskey & Caramazza, 1987). O modelo cognitivo-neuropsicológico inicial de processamento numérico e cálculo foi caracterizado por uma rota semântica única amodal (McCloskey, Caramazza e Basili, 1985). O modelo pressupunha que todas as operações numéricas e de cálculo se baseavam no acesso a uma representação central e amodal de quantidade, a qual é codificada sob a forma de potências de base 10. Estudos neuropsicológicos ulteriores indicaram, entretanto, a possibilidade de que as operações de processamento numérico e cálculo elementar sejam executadas sem acesso ao sistema semântico, por meio de uma rota assemântica automatizada sob a forma de rotinas verbais (Deloche & Seron, 1987, Deloche & Willmes, 2000). Uma linha de pesquisa experimental reativada a partir dos últimos decênios indicou que além da representação numérica sob a forma exponencial na base 10, o cérebro implementa uma forma analógica, não-simbólica de representação de magnitudes (vide revisões em Dehaene, 1992, 2001). Experimentos consistentes realizados com humanos e animais jovens e adultos mostram que a estimação da magnitude de conjuntos obedece às leis psicofísicas, tais como a lei de Weber. Por exemplo, em estudo realizado por Moyer e Landauer (1967) foi observado que as respostas à comparação das magnitudes de dois números são mais lentas e propensas a erro quando a distância numérica entre os dois números é menor do que quando a distância numérica entre os estímulos é maior (efeito da distância, vide Sekuler & Mierkiewicz, 1977, para a descrição do efeito da distância em crianças). A existência de uma proporcionalidade de diferenças de magnitude numérica entre os estímulos e a facilidade de discriminação corresponde à regularidade psicofísica clássica descoberta por Weber no Século XIX, segundo a qual a discriminabilidade entre estímulo é função de uma constante. O processamento numérico em animais e humanos também obedece a uma outra regularidade psicofísica, a lei de Fechner (Dehaene, 2003). O processamento numérico torna-se progressivamente mais lento e propenso a erro à medida que aumenta a magnitude dos estímulos e a função que descreve os resultados é de natureza logarítmica (efeito da magnitude) A confirmação de que as representações de magnitude em animais e bebês obedecem às regularidades psicofísicas indica que as mesmas 8 devem ser de natureza representacional perceptual, não-simbólica (Brannon & Roitman, 2003). O caráter não-simbólico, analógico das representações de magnitude ficou evidente em uma série de estudos experimentais demonstrando a natureza espacialmente orientada das representações de magnitude. Em uma tarefa não-quantitativa de julgamento da paridade de números de 1 a 9, Dehaene , Bossini & Giraux (1993) observaram uma interação nos tempos de resposta entre a magnitude dos estímulos e a mão utilizada para responder. Para os números inferiores a 5 as respostas eram mais rápidas com a mão esquerdo, enquanto para os números maiores do que 5 as respostas com a mão direita ocorriam de forma mais rápida. O resultado foi denominado de efeito SNARC (spatial numerical association of response codes). Indivíduos alfabetizados em árabe apresentam um efeito SNARC invertido (Dehaene et al., 1993, Zebian, 2005). A partir do efeito SNARC é possível inferir que mesmo tarefas não quantitativas como a determinação da paridade de estímulos numéricos ativam automaticamente representações de magnitude. Os resultados demonstram também que as representações ativadas de magnitude são de natureza espacial, analógica, orientando-se da direita para a esquerda no Ocidente. Galton (1881) já havia sugerido que as magnitudes numéricas poderiam ser representadas na imaginação visoespacial sob a forma de uma linha mental numérica espacialmente orientada. A compressão logarítmica da linha mental numérica explica a dificuldade de manipular números progressivamente menores em função da menor discriminabilidade dos mesmos na representação mental. As evidências experimentais quanto à natureza analógica, espacializada da representação de magnitudes permitiram a Dehaene formular em 1992 o modelo de triplo código, segundo o qual o processamento numérico e as operações aritméticas podem ser realizadas com base em três sistemas de representações mentais: uma representação analógica, espacialmente orientada e logaritmicamente comprimida e duas formas de representação simbólicas. As representações simbólicas de magnitude consistem dos numerais verbais (orais e escritos) e dos numerais arábicos (visuais). O modelo de código triplo postula que as representações semânticas fundamentais de magnitude são de natureza não-simbólica, correspondendo a uma representação 9 analógica, espacialmente orientada e logaritmicamente comprimida, a qual se desenvolve muito cedo na filogenia e na ontogenia, sendo também automaticamente ativada sempre que os dois outros códigos são utilizados (Dehaene, 1992). Uma série de estudos de neuroimagem funcional permitiu identificar as bases neurofuncionais de cada umas das representações de magnitude postuladas pelo modelo de código triplo (Dehaene & Cohen, 1995, Dehaene, Piazza, Pinel & Cohen, 2003). O processamento de numerais verbais é implementado a partir das áreas perisilvianas da linguagem no hemisfério esquerdo, principalmente do giro angular. O processamento dos numerais arábicos depende de áreas têmporo-parieto-occipitaisbilateralmente, tendo seu epicentro no giro fusiforme. Redes neuronais situadas nas porções horizontais do sulco intraparietal bilateralmente constituem o substrato comum às representações de magnitude numérica, espacial e temporal (Walsh, 2003). Os aspectos estratégicos do processamento numérico e cálculo dependem das regiões médio-dorsais e dorsolaterais do córtex prefrontal. A procedimentalização dos fatos aritméticos ocorre via circuitos envolvendo os gânglios da base e resulta na criação de um domínio específico da memória semântica representado de forma distribuída em amplas regiões do córtex cerebral. As correlações estrutura-função propostas pelo modelo de código triplo têm sido, até o momento confirmadas por diversos estudos de duplas-dissociações em casos clínicos (Dehaene & Cohen, 1997, Delazer & Benke, 1997, Delazer, Karner, Zamarian, Donnemiller & Benke, 2006, Lerner, Dehaene, Spelke & Cohen, 2003, Varley, Klessinger, Romanowski, & Siegal, 2005). Diversos pacientes apresentaram comprometimentos seletivos do processamento de numerais verbais enquanto as representações não-simbólicas de magnitude estavam preservadas. E vice-versa, outros pacientes apresentaram preservação de conhecimentos verbalmente mediados, tais como os fatos aritméticos, na presença de comprometimentos da capacidade de representar a cardinalidade dos conjuntos. De um modo geral, o comprometimento verbal prejudica desproporcionalmente as operações de adição e multiplicação e de cálculo exato, enquanto o comprometimento da representação analógica de magnitude repercute mais sobre as operações de subtração e cálculo aproximativo. O Quadro 1 resume as bases neurofuncionais das habilidades cognitivas matemáticas e seu desenvolvimento (vide revisão atualizada das bases clinicas e neurofuncionais em Willmes, 2008). 10 INSERIR QUADRO 1 AQUI Desenvolvimento das habilidades relacionadas à aritmética O conhecimento sobre as bases neurofuncionais da cognição matemática tem avançado também no que se refere ao desenvolvimento das habilidades relacionadas à aritmética na infância. Como todas as habilidades matemáticas secundárias, tais como a notação arábica, a representação posicional de base 10 e os algoritmos são aquisições culturais, qualquer modelo explicativo da cognição matemática precisa ser epigenético. Ou seja, os modelos devem levar em consideração a interação entre fatores genéticos e experienciais (Dehaene & Cohen, 2007, von Aster & Shalev, 2007). Uma evidência experimental que demonstra a natureza epigenética do desenvolvimento das representações numéricas é ilustrada pelo chamado efeito de decomposição das dezenas (Nuerk, Weger & Willmes, 2001). Os resultados de Nuerk e cols. indicaram que a posição inicial de Dehaene, Dupoux e Mehler (1990) quanto à existência de uma linha mental numérica única e contínua precisava ser revisada. Em um dos estudos que confirmou o efeito da distância et al. (1990) investigaram o desempenho de adultos em uma tarefa de comparação de magnitudes em números de dois algarismos. Os estímulos eram os números de 11 a 99 e o valor de referência era interno, o número 55. Os autores mostraram que, fora da dezena da referência (55) os participantes não utilizaram a estratégia mais econômica, que seria simplesmente comparar o valor das dezenas, ignorando as unidades. P. ex., para o tempo necessário para comparar 41 e 55 era menor do que o necessário para comparar 48 e 55. Adicionalmente, a função que descrevia os resultados era contínua e não descontínua. Se as decisões fossem baseadas na dezena, os TRs deveriam ser os mesmos para todas as unidades em números com aquela dezena. Nuerk, Weger e Willmes (2001) distinguiram a distância das dezenas (1 para o para 53- 69) da distância das unidades (6 para o par 53-59) e introduziram a noção de compatibilidade. Um par de números é dito compatível se a comparação feita com base nas dezenas leva ao mesmo resultado que a comparação feita com base nas unidades (p. ex. 58-42). Um par é dito incompatível se a comparação das dezenas conduzir a uma decisão diferente daquela tomada pela comparação das unidades (p. ex., 52-48). Se a 11 representação fosse puramente analógica a compatibilidade dos números que compõem o par não deveria afetar o tempo de reação em uma tarefa de comparação de magnitude. Nuerk, Weger e Willmes (2001) observaram que os pares compatíveis são processados mais rapidamente que os incompatíveis. Desta forma, a representação dos números com dois algarismos deve ser mista, sendo influenciada pela composicionalidade decimal. Pode, p. ex., haver duas linhas numéricas mentais, uma para as unidades e outra para as dezenas. O efeito de decomposição das dezenas pode ser interpretado como uma ilustração de efeitos interativos entre habilidades numéricas primárias, de natureza intuitiva, e habilidades secundárias, tais como a composicionalidade decimal, que são aquisições culturais relativamente recentes. Alguns autores têm sugerido que as aquisições culturais no domínio da aritmética representam formas de exaptação. Ou seja, estruturas neurais previamente selecionadas na evolução da espécie para implementar domínios cognitivos com forte determinismo genético são recrutadas, provavelmente por semelhança de domínio ou de algoritmos computacionais, para implementar ferramentas culturais que precisam ser adquiridas via aprendizagem (Ansari, 2008, Dehaene & Cohen, 2007, von Aster & Shalev, 2007). As célebres experiências de Piaget nas Décadas de 40 e 50 do Século XX com a conservação de número sugeriam que as crianças somente desenvolveriam uma concepção de número ou cardinalidade a partir dos 7/8 anos de idade (Piaget & Szeminska, 1975). Uma série de trabalhos a partir da Década de 80, usando um paradigma experimental muito engenhoso de habituação-antecipação, sugeriu que bebês já teriam acesso a uma noção rudimentar e não-verbal de numerosidade e capturou novamente a atenção dos psicólogos do desenvolvimento para o tema. mostraram que bebês de algumas semanas a meses conseguem discriminar a cardinalidade de conjuntos pequenos (até 4 elementos, Starkey & Cooper, 1980) bem como realizar operações aritméticas elementares com conjuntos desta ordem de grandeza (Wynn, 1992). Xu e Spelke (2000) demonstraram, posteriormente, que os bebês podiam processar a grandeza de conjuntos maiores desde que as quantidades preservassem uma proporcionalidade capturada pela constante de Weber. A descoberta das habilidades numéricas dos bebês suscitou um vívido debate quanto à natureza das representações envolvidas, se as mesmas são de natureza especificamente 12 numérica ou compartilhadas por outros sistemas de representação de magnitude, tais como as representações espaciais e temporais (vide revisão em Rousselle, 2005). Uma das críticas mais pertinentes diz respeito à falta de controle experimental de diversas dimensões perceptuais possivelmente confundidoras, tais como a superfície, luminosidade ou duração dos estímulos (Mix, Huttenlocher & Levine, 2002). É provável que as representações iniciais de magnitude não seja especificamente numérica, mas de uma natureza perceptual mais genérica ou amodal, sendo compartilhadas com outros sistemas quantitativos representados no lobo parietal e relacionados à representação do espaço, tempo e magnitude do reforço (Walsh, 2003). Segundo esta perspectiva, o conceito de cardinalidade e as intuições quanto aos princípios subjacentes às operações aritméticas seriam adquiridos de forma epigenética pela criança. A mediação das representações verbais através da contagem desempenha um papel crucial no desenvolvimento da noção simbólica de número a partir de representações mais primitivas não-simbólicas (Lecointre, Lépine & Camos, 2005). O ritmo de evolução do conhecimento sobre as habilidadesnuméricas de bebês pode ser ilustrado por uma série de trabalhos experimentais sobre operações aritméticas simples. Wynn (1992) mostrou como bebês de 5 meses já são capazes de realizar, de forma não- simbólica, operações aritméticas rudimentares de adição e subtração de conjuntos. Os trabalhos mostrando discriminação de numerosidade e, inclusive, antecipação dos resultados de operações aritméticas em bebês, sugeriram que estas habilidades podem ter uma base inata. Os resultados iniciais foram, entretanto, contestados por estudos adicionais mostrando que variáveis perceptuais importantes não haviam sido experimentalmente controlados (Mix et al., 2002). Os pesquisadores poderiam estar atribuindo o comportamento dos bebês a discriminações de numerosidade, quando, na verdade, os participantes estavam prestando atenção em características perceptuais, tais como a superfície total dos estímulos, as quais são correlacionados com a numerosidade. Em um estudo muito elegante, Feigenson, Carey e Spelke (2002) aparentemente abalaram a validade da hipótese da numerosidade não-verbal em bebês ao demonstrarem, experimentalmente, que os bebês discriminavam melhor a superfície dos estímulos do que sua numerosidade. A pesquisa científica se reveste de diversas características, tais como o ceticismo saudável e anti-dogmatismo, o caráter cumulativo e fundamentação nas evidências, bem 13 como seu caráter aproximativo. O estudo conduzido por Wynn, Bloom e Chiang (2002) ilustra todas essas características do método e da evolução do conhecimento científico. Wynn e cols. realizaram um experimento em que as variáveis perceptuais relevantes foram controladas de forma rigorosa e engenhosa, demonstrando assim que os bebês de 5 meses podem discriminar a numerosidade de conjuntos. Os estímulos usados eram conjuntos de pontos em movimento. Na fase de habituação, as crianças visualizavam 2 conjuntos de 3 pontos cada (6 pontos no total). Na fase experimental foram apresentados dois tipos de estímulos, ambos com o mesmo número total de 8 pontos: 2 conjuntos de 4 elementos ou 4 conjuntos de 2 elementos. Os bebês fixaram a mirada por mais tempo na condição com 4 conjuntos, demonstrando que discriminavam a numerosidade dos conjuntos. O debate entre a influência relativa dos fatores genéticos e experienciais sobre o comportamento é a temática central, estabelecida por Galton no final do Século XIX para a psicologia do desenvolvimento. A percepção contemporânea é de ambos tipos de fatores são importantes e interagem na determinação do desenvolvimento. Mas a questão se reveste também de conotações filosóficas e ideológicas e o debate persiste, como ilustrado na série de trabalhos experimentais discutidos. O que importa aqui é captar a dinâmica de como está evoluindo o conhecimento científico na área, seu caráter acumulativo e aproximativo, bem como o compromisso dos pesquisadores em fundamentar os modelos teóricos nos fatos empíricos. Como todos os fatos necessários para emitir um juízo final sobre a questão da natureza das representações de magnitude nos bebês e sua relevância para o processo de desenvolvimento do conceito de número ainda não estão disponíveis, o debate está longe de se encerrar. Ao mesmo tempo, as evidências mencionadas acima sobre interações entre representações simbólicas e não-simbólicas sugerem que a aquisição das habilidades matemáticas seja melhor descrita como um processo interativo, influenciado por fatores genéticos e ambientais. A Figura 3 ilustra a importância de varáveis cerebrais endógenas, da informação disponível no ambiente e da instrução formal para o desenvolvimento numérico. Como mencionado anteriormente, as habilidades primárias são adquiridas espontaneamente pela atividade da criança, enquanto as habilidades secundárias requerem instrução formal. INSERIR FIGURA 3 AQUI 14 Implicações para a educação matemática O modelo descrito na Figura 3 sugere que as habilidades aritméticas primárias (representação analógica de numerosidade, contagem, princípios aritméticos etc.) interagem formal e informalmente com o ambiente para eliciar um processo seqüencial de aquisição de habilidades matemáticas sob a influência da instrução formal, de modo a permitir o desenvolvimento de habilidades secundárias (p. ex., notação arábica, valor posicional de base 10, algoritmos etc.). A partir de sua eliciação pela interação genético-experiencial o processo é deliberadamente caracterizado pelo modelo como linear e seqüencial. A linearidade/seqüencialidade do modelo procurar capturar o fato de que as aquisições aritméticas são cumulativas. Os desenvolvimentos ulteriores em matemática sempre se fundamentam em aquisições prévias. E a natureza das aquisições prévias é bastante peculiar. A matemática é uma disciplina cujo aprendizagem se fundamenta sobre a procedimentalização do conhecimento (Lieberman, 2000). A aquisição de habilidades matemáticas consiste em um árduo processo de automatização dos desenvolvimentos conceituais através de um extenso programa de exercícios. As habilidades matemáticas somente se consolidam quando o indivíduo desenvolve uma intuição para as mesmas, ou seja, quando elas se transformam, pelo exercício continuado em uma espécie de segunda natureza. Assim, a descoberta dos princípios da aritmética se fundamenta na interação entre a contagem e as representações mais primitivas de quantidade (Lecointre, Lépine & Camos, 2005). A notação arábica exige, por sua vez, que a criança domine as habilidades verbais, o princípio da composicionalidade e representações espaciais que lhe permitam compreender o valor posicional decimal (Lochy & Censabella, 2005). As informações que analisamos nos conduzem ao argumento de que a educação matemática pode se beneficiar de considerações neurocognitivas. As pesquisas realizadas em neuropsicologia e neurociência cognitiva do desenvolvimento sugerem que a aquisição das habilidades aritméticas se caracteriza 1) por uma organização modular porém plástica e interativa com o ambiente das representações pertinentes, 2) por um processo complexo de interação entre influências genéticas e ambientais em múltiplas fases do desenvolvimento e comportando diferentes níveis de controle, 3) pela 15 interação entre representações simbólicas automaticamente ativadas e não-simbólicas que exigem processamento deliberado e controlado, 4) pelo caráter progressivamente cumulativo dos desenvolvimentos e, finalmente, 5) pela necessidade de desenvolver uma automatização ou intuição dos princípios subjacentes a um domínio antes de avançar para o próximo. Duas implicações principais se colocam então para a educação matemática caso os resultados da neuropsicologia e neurociência cognitiva forem relevantes. A educação matemática pode se beneficiar de um diagnóstico neuropsicológico da fase de desenvolvimento e do perfil de habilidades, dificuldades e estilo cognitivo do aprendiz. Por outro lado, os mecanismos neurocognitivos implicados sugerem que o ensino deva ser organizado em módulos organizados seqüencialmente, sendo recomendável a transição de fase apenas quando o estudante consolidar sua intuição em um dado domínio. Se as implicações da neurociência parecem importantes para os aprendizes típicos, elas podem ser cruciais para as crianças com dificuldades de aprendizagem de matemática. A discalculia do desenvolvimento, um transtorno de aprendizagem em que o indivíduo apresenta dificuldades persistentes de aprendizagem da matemática não atribuíveis a déficits intelectuais, sensoriais, emocionais, sociais ou pedagógicos está despertando interesse crescente de pesquisa (Ansari, 2008, Dehaene & Cohen, 2007, von Aster & Shalev, 2007). As estimativas quanto à prevalência de discalculia do desenvolvimento variam entre 3,5% e 6,5% na população em idade escolar (Butterworth,2005). O transtorno é de natureza persistente (Shalev, Manor & Gross-Tsur, 2005), tendo potencial para comprometer o funcionamento psicossocial do indivíduo (Auerbach, Gross-Tsur, Manor & Shalev, 2008) e, inclusive, o auto-cuidado de saúde em uma sociedade cognitivamente sofisticada (Estrada, Martin-Hryniewicz, Peek, Collins & Byrd, 2004). A discalculia do desenvolvimento é uma entidade clinica e cognitivamente complexa. Há evidências de que pode ser decorrente e/ou apresentar comorbidades com vários tipos de transtorno (Rubinstein & Henik, 2009). A discalculia pode se dever a déficits de natureza verbal devido à sua associação freqüente com dislexia do desenvolvimento, mas as duas entidades se dissociam clinicamente (Tressoldi, Rosati & Lucangeli, 2007). Um déficit nas funções executivas pode estar implicado na associação entre discalculia 16 e TDAH, mas déficits em representações numéricas não-simbólicas foram descritos em indivíduos apresentando comorbidade com TDAH (Kaufmann & Nuerk, 2008). A discalculia também pode se dever um déficit nas próprias representações espacializadas analógicas de magnitude, tal como observado na síndrome do TNVA (Bachot, Gevers, Fias & Roeyers, 2005). Finalmente, a discalculia pode surgir no contextos de transtornos neurogenéticos tais como as síndromes de Turner (Bruandet, Molko, Cohen & Dehaene, 2004) e velocardiofacial (de Smedt, Swillen, Devriendt, Fryns, Verschaffel & Ghesquière, 2007). A pesquisa sobre as bases neurocognitivas da(s) discalculia(s) do desenvolvimento ainda são incipientes, havendo, inclusive, a carência de desenvolvimentos conceituais que acelerem a pesquisa na área (Rubinstein & Henik, 2009). De qualquer forma, algumas conseqüências são bem claras no que se refere às intervenções educacionais. As evidências são claras quanto à existência de déficits neuropsicológicos mais ou menos específicos, cujos mecanismos cognitivos ainda não estão completamente esclarecidos. As evidências são também consistentes no sentido de apontar a importância de etiologias genéticas. Sendo assim, a ausência de reconhecimento da presença do transtorno de aprendizagem e uma formulação diagnóstica mais explicita da natureza dp mesmo pode acarretar conseqüências irreversíveis para os indivíduos afetados. As crianças de baixa renda correm o risco de ser afetadas por uma dupla desvantagem. Se por um lado, já são privadas do acesso a uma série de benefícios e estímulos sociais, por outro, correm o risco de ter a natureza das suas dificuldades subdiagnosticada e seu potencial subestimulado. O interesse por intervenções educacionais neurocognitivamente fundamentadas é grande, mas ainda incipiente (Dowker, 2004). Um dos focos atuais de pesquisa é o diagnóstico precoce das crianças sob risco de apresentar dificuldades de aprendizagem da matemática. Além da baixa renda, os estudos longitudinais disponíveis indicam que as habilidades numéricas primárias avaliadas na pré-escola são preditivas de desenvolvimentos ulteriores na aprendizagem de matemática, permitindo identificar com precisão crianças sob risco (Jordan, Kaplan, Locuniak & Ramineni, 2007). Alguns programas de intervenção educacional para crianças com dificuldades de aprendizagem baseados nos conceitos de senso numérico, modularidade e progressão seqüencial das habilidades foram desenvolvidos e testados (Kaufmann, Handl, Thöny, 2003, Wilson, 17 Revkin, Cohen, Cohen & Dehaene, 2006). Os resultados são preliminares porém encorajadores. As pesquisas sobre as bases neurocognitivas das dificuldades de aprendizagem da matemática estão sendo conduzidas também no Brasil, havendo instrumentos diagnósticos disponíveis bem como dados epidemiológicos iniciais (Bastos, s.d., Bastos, Cordeiro & Tognola, 2006, Deloche, Sousa, Willadino-Braga & Dellatolas, 1999, Dellatolas, von Aster, Willadino-Braga, Meier & Deloche, 2000). 18 Referências Anderson, M. (2001). Conceptions of intelligence. Journal of Child Psychology and Psychiatry, 42, 287-298. Anderson, V., Catroppa, C., Morse, S., Haritou, F. & Rosenfeld, J. (2005). Functional plasticity or vulnerability after early brain lesions? Pediatrics, 116, 1374-1382. Ansari, D. (2008). Effects of development and enculturation on number representation in the brain. Nature Reviews Neuroscience, 9, 278-291. Auerbach, J. G., Gross-Tsur, V., Manor, O. & Shalev, R. S. (2008). 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A ecologia social em que a criança se desenvolve influencia a estratégia reprodutiva adotada pelos pais e a qualidade da parentagem bem como da educação escolar recebidas. 26 Quadro 1 – Sistemas neurocognitivos e aprendizagem de habilidades relacionadas à aritmética # Idade de aquisição Processo Representação de magnitude Sistemas neurocognitivos Primeiras semanas de vida Estimação não-verbal Não-simbólica (analógica) Sulco intraparietal bilateralmente. Primeiros meses de vida Cálculo aproximativo de pequenas quantidades Não-simbólica (analógica) Sulco intraparietal bilateralmente. Córtex prefrontal dorsolateral para atenção, memória de trabalho e estratégia. Entre o terceiro e o quarto anos de vida Contagem Verbal oral Área perisilviana da linguagem no hemisfério esquerdo, principalmente giro angular. Circuito parieto-frontal da motricidade manual e manual para controle visual da contagem. Sulco intraparietal bilateralmente. Córtex prefrontal dorsolateral para atenção, memória de trabalho, inferências e estratégia. Gânglios da base para automatização. Entre o quarto e quinto anos de vida Princípios aritméticos Verbal oral Área perisilviana da linguagem no hemisfério esquerdo, principalmente giro angular. Sulco intraparietal bilateralmente. Córtex prefrontal dorsolateral para inferências. A partir da 2ª. série Fatos artiméticos Verbal oral Área perisilviana da linguagem no hemisfério esquerdo. Gânglios da base para automatização. A partir da 1ª. série Notação arábica Arábica (visual) Áreas occípito-parietais bilateralmente. A partir da 1ª. série Transcodificação Arábica Verbal oral e escrita Áreas occípito-parietais bilateralmente. Área perisilviana da linguagem no hemisfério esquerdo, principalmente giro angular. Sulco intraparietal bilateralmente. A partir da 2ª. série Algoritmos Arábica (visual) Áreas occípito-parietais bilateralmente. Áreas prefrontais ventrolaterais para descrição verbal e seqüenciação do algoritmo Gânglios da base para automatização. A partir da 3ª. série Resolução de problemas verbais Verbal oral ou escrita Área perisilviana da linguagem no hemisfério esquerdo, principalmente giro angular. Córtex prefrontal dorsolateral para atenção, memória de trabalho, inferências, planejamento e estratégia. # Uma descrição geral do processo de desenvolvimento das habilidades relacionadas à aritmética pode ser encontrada em Lecointre, Lépine e Camos (2005). As correlações estrutura-função para a aprendizagem da aritmética são descritas de acordo com a base neurofuncional postulada para o modelo de código triplo (Dehaene, 2001, Dehaene & Cohen, 1995, Dehaene, Piazza, Pinel & Cohen, 2003). 27 Figura 3 – Processo epigenético de aquisição de habilidades relacionadas à aritmética. A interação entre o cérebro-mente da criança e o contexto elicia um processo complexo de desenvolvimento que progride das habilidades aritméticas primárias, adquiridas intutivvamente pela criança na interação com o ambiente físico e social, às habilidades secundárias, as quais exigem a intervenção de uma pedagogia. View publication statsView publication stats https://www.researchgate.net/publication/216808626