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UNIVERSIDADE FEDERAL DO AMAZONAS CURSO DE PSICOLOGIA MARIA LUIZA DOS SANTOS FONTENELES WISC-IV E A AVALIAÇÃO DA APRENDIZAGEM E INTELIGÊNCIA: UMA REVISÃO DE ESCOPO MANAUS - AMAZONAS 2024 MARIA LUIZA DOS SANTOS FONTENELES WISC-IV E A AVALIAÇÃO DA APRENDIZAGEM E INTELIGÊNCIA: UMA REVISÃO DE ESCOPO Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Psicologia da Universidade Federal do Amazonas, como requisito à obtenção de título de Bacharel em Psicologia. Orientadora: Profª Dra. Gisele Cristina Resende. MANAUS - AMAZONAS 2024 Ficha Catalográfica F683w WISC-IV e a avaliação da aprendizagem e inteligência: uma revisão de escopo / Maria Luiza dos Santos Fonteneles . 2024 62 f.: il. color; 31 cm. Orientador: Gisele Cristina Resende TCC de Graduação (Psicologia - CH Formação do Psicólogo) - Universidade Federal do Amazonas. 1. Wisc-iv. 2. Inteligência . 3. Aprendizagem . 4. Avaliação psicológica . 5. Neuropsicologia. I. Resende, Gisele Cristina. II. Universidade Federal do Amazonas III. Título Ficha catalográfica elaborada automaticamente de acordo com os dados fornecidos pelo(a) autor(a). Fonteneles , Maria Luiza dos Santos AGRADECIMENTO Agradeço acima de tudo meus pais, por me proporcionarem todas as oportunidades que estavam ao alcance, e principalmente por todo o apoio, incentivo e por todo encorajamento que sempre nutriram em mim. Agradeço a minha orientadora, a Dra. Gisele Cristina Resende por me apoiar na construção desse trabalho. Aos meus professores e mestres que contribuíram na minha formação prática, principalmente nos estágios, de onde surgiu a ideia deste trabalho. Agradeço aos melhores amigos que fiz durante esses anos de curso, e principalmente a Maya, Luana e Eliza, por todas as formas de incentivo quando nem eu mesma me via nesse caminho. E por fim, agradeço a todos que de alguma forma contribuíram para que eu nunca desistisse desse sonho. RESUMO A avaliação da inteligência é primordial em crianças que apresentam dificuldades de aprendizagem e para essa avaliação a Escala WISC de Inteligência tem sido o instrumento mais adequado. Neste trabalho objetivou-se mapear o perfil de pesquisas empíricas dos últimos 5 anos acerca da aprendizagem/inteligência que utilizam o WISC-IV em crianças. Para a metodologia foi adotado o modelo de revisão de escopo de acordo o protocolo de revisões estruturado pelas diretrizes do Instituto Joanna Briggs (JBI). Foram utilizadas três bases de dados, com termos indexados nos descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e no Thesaurus da base ERIC, com vistas a responder a pergunta de pesquisa: “Como o teste WISC-IV é utilizado em pesquisas na avaliação de inteligência/aprendizagem de crianças?”. Foram incluídos artigos em português, inglês e espanhol, de diferentes abordagens metodológicas no período de 2019 a 2022. Com base nos resultados das buscas, foram selecionados dez artigos científicos para compor a amostra analisada. Essas análises revelaram que o teste WISC é o instrumento mais utilizado em investigações científicas. Além disso, demonstram que nos últimos anos têm havido pesquisas para analisar sua aplicabilidade em diferentes contextos. Estes estudos foram publicados em periódicos científicos de alta qualidade. Entretanto, durante a análise, foi observada uma necessidade de estudos com enfoque na avaliação da inteligência e de aspectos da aprendizagem. Isso se deve ao fato de que o teste proporciona uma avaliação completa dos aspectos cognitivos, o que é crucial para compreender as habilidades de um indivíduo. Mais importante ainda, essa compreensão pode favorecer a elaboração de estratégias terapêuticas para reabilitação e intervenção educacional. Portanto, os resultados sugerem que embora o teste WISC seja amplamente utilizado e estudado, há uma lacuna a ser preenchida em relação à compreensão abrangente da inteligência e sua relação com a aprendizagem. Essa lacuna representa uma área de pesquisa promissora que pode contribuir significativamente para a prática clínica e educacional. Palavras-Chave: WISC-IV. Inteligência. Aprendizagem. Avaliação Psicológica. Neuropsicologia. ABSTRACT The assessment of intelligence is essential in children who have learning difficulties and for this assessment the WISC Intelligence Scale has been the most appropriate instrument. The objective of this study was to map the profile of empirical research in the last 5 years on learning/intelligence using WISC-IV in children. For the methodology, the scoping review model was adopted according to the review protocol structured by the guidelines of the Joanna Briggs Institute (JBI). Three databases were used, with terms indexed in the descriptors in Health Sciences (DeCS) and in the Thesaurus of the ERIC database, in order to answer the research question: "How is the WISC-IV test used in research in the assessment of intelligence/learning of children?". Articles in Portuguese, English and Spanish, of different methodological approaches were included in the period from 2019 to 2022. Based on the results of the searches, ten scientific articles were selected to compose the analyzed sample. These analyses revealed that the WISC test is the most widely used instrument in scientific investigations. In addition, they demonstrate that in recent years there have been studies to analyze its applicability in different contexts. These studies have been published in high-quality scientific journals. However, during the analysis, there was a need for studies focused on the assessment of intelligence and aspects of learning. This is due to the fact that the test provides a thorough assessment of cognitive aspects, which is crucial for understanding an individual's abilities. More importantly, this understanding can favor the development of therapeutic strategies for rehabilitation and educational intervention. Therefore, the results suggest that although the WISC test is widely used and studied, there is a gap to be filled regarding the comprehensive understanding of intelligence and its relationship to learning. This gap represents a promising area of research that can contribute significantly to clinical and educational practice. Keywords: WISC-IV. Intelligence. Learning. Psychological Assessment. Neuropsychology. LISTA DE GRÁFICOS Gráfico 1 - Ano de publicação e idiomas dos artigos. .............................................. 48 LISTA DE QUADROS Quadro 1 - Estratégia PPC. ..................................................................................... 41 Quadro 2 - Sistematização de dados dos artigos selecionados .............................. 45 LISTA DE FIGURAS Figura 1 -Fluxograma de inclusão e exclusão de artigos nas bases de dados. ........ 43 LISTA DE SIGLAS AH/SD Altas Habilidades/Superdotação AP Avaliação Psicológica CF Completar Figuras CFP Conselho Federal de Psicologia CID Código Internacional de Doenças CV Compreensão Verbal CV Conceitos Visuais DeCS Descritores em Ciências da Saúde DSM-IV Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais ICV Índice de Compreensão Verbal IMO Índice de Memória Operacional IVP Índice de Velocidade de Processamento MO Memória Operacional MT Memória de Trabalho OP Organização Perceptual PCC População, conceito, contexto QI Quociente de inteligência QIE Quociente de inteligência de Execução QIV Quociente de inteligência Verbal RP Raciocínio com palavras RP Raciocínio Perceptual SATEPSI Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos SFL Sequenciação de Figuras e Letrasampla das habilidades cognitivas do examinado, possibilitando uma avaliação minuciosa de seu funcionamento intelectual em diversas áreas. Ao examinar esses índices, os profissionais podem detectar padrões de pontos fortes e fracos cognitivos, fornecendo perspectivas valiosas para o planejamento de intervenções educacionais e terapêuticas apropriadas. 2.3.1 Compreensão Verbal O subteste de Informação visa avaliar o conhecimento adquirido por meio da escolaridade e da experiência cultural do avaliado, pois através de uma série de perguntas que abrangem uma vasta gama de assuntos, este subteste busca mensurar 36 a habilidade do indivíduo em lembrar e compreender informações de diversas áreas do conhecimento. Ao analisar as respostas fornecidas pelo avaliado, os profissionais podem obter perspectivas sobre seu nível educacional, interesse em diferentes temas e familiaridade com conceitos culturais (Cantú, 2019). O subteste de Semelhanças é desenvolvido para avaliar a aptidão do indivíduo em reconhecer e identificar relações conceituais entre objetos ou ideias. Durante o teste, são apresentados pares de palavras ou conceitos, e o avaliado é solicitado a encontrar semelhanças entre eles, explicando as relações ou características compartilhadas. Essa competência cognitiva reflete a habilidade de compreender conceitos abstratos, estabelecer conexões e raciocinar de maneira analógica. O desempenho no subteste de Semelhanças fornece informações sobre o pensamento lógico e a habilidade de generalização do avaliado, sendo essencial na avaliação da inteligência geral e da capacidade de abstração (Lima; Laros, 2017). O subteste de Vocabulário (VC) é uma avaliação que mede a capacidade do indivíduo em compreender e usar palavras. Durante o teste, o avaliado é solicitado a definir ou explicar o significado de palavras apresentadas pelo examinador. Este subteste foi desenvolvido para avaliar não apenas o conhecimento passivo do vocabulário, mas também a habilidade de expressão verbal e compreensão conceitual. O desempenho neste subteste proporciona informações sobre a extensão e profundidade do vocabulário do avaliado, bem como sua capacidade de comunicar ideias de maneira clara e precisa, e como parte essencial do teste de inteligência, o subteste de Vocabulário atua na avaliação da habilidade verbal e do nível de instrução (Hashimoto; Lúcio, 2018). O subteste de Compreensão visa avaliar a habilidade do indivíduo em compreender e interpretar informações verbais fornecidas pelo examinador. Durante o teste, são feitas perguntas sobre situações cotidianas, ética, normas sociais e práticas comuns. O avaliado deve responder às perguntas de maneira a evidenciar sua compreensão do significado subjacente às situações apresentadas. Este subteste não apenas avalia a capacidade de compreensão verbal, mas também a capacidade de aplicar esse entendimento em contextos do mundo real. O desempenho satisfatório neste subteste indica não apenas competência em entender o significado das palavras, mas também a habilidade de interpretar e aplicar conceitos em diversas situações (Meyer; Figueiredo, 2017) O teste Raciocínio com Palavras (RC) é um subteste projetado para avaliar 37 várias facetas da capacidade cognitiva de uma criança. Uma das habilidades avaliadas é a compreensão de conceitos verbais, onde a criança deve ser capaz de entender o significado de palavras e frases apresentadas. Além disso, o teste avalia a capacidade de aplicar esse conhecimento, utilizando-o para responder perguntas e resolver problemas apresentados (Harrison et al., 2024). Também busca avaliar a capacidade da criança de pensar abstratamente, indo além do concreto e raciocinando sobre conceitos e ideias. Outro aspecto avaliado é a capacidade de formular relações entre diferentes conceitos e ideias, identificando conexões e padrões. Por fim, o teste busca avaliar a habilidade da criança de pensar logicamente, organizando seus pensamentos de maneira lógica e coerente para chegar a soluções adequadas (Graves; Smith; Nichols, 2021). 2.3.2 Organização Perceptual O subteste Completar Figuras (CF) tem como objetivo avaliar a capacidade do examinado em integrar partes de um todo e sua percepção visuoespacial. Durante o teste, são apresentadas figuras incompletas, e o avaliado deve identificar e preencher as partes ausentes para formar o desenho completo. O teste requer não apenas compreensão das formas e proporções, mas também habilidade de visualizar mentalmente como as partes faltantes se encaixam no conjunto. Um bom desempenho neste subteste indica habilidades sólidas em percepção visual, organização espacial e capacidade de raciocínio lógico-visual. Este teste é essencial para avaliar aspectos específicos da habilidade cognitiva relacionada à percepção e manipulação de estímulos visuais (Macedo et al., 2017). O subteste Cubos tem como propósito avaliar a habilidade do examinado em visualizar e manipular objetos mentalmente. Durante o teste, são exibidas imagens tridimensionais de cubos montados em diversas configurações. O avaliado precisa determinar como os cubos se pareceriam se fossem girados ou desmontados mentalmente. Isso requer uma sólida capacidade de visualização espacial e manipulação mental dos objetos. Um bom desempenho neste subteste indica habilidades avançadas de raciocínio visuoespacial e uma capacidade de manipular objetos complexos mentalmente. Este teste é relevante para avaliar a capacidade do examinado em lidar com informações visuais e espaciais de forma abstrata e lógica (Erden et al., 2022). 38 O subteste Conceitos Figurativos tem como objetivo avaliar a capacidade do examinado em classificar objetos por categorias e desenvolver conceitos visuais. Durante o teste, uma série de cartas com diferentes figuras ou objetos é apresentada, e o examinado precisa agrupá-los de acordo com semelhanças ou diferenças. Isso requer habilidades de abstração, raciocínio lógico e compreensão de relações conceituais. Um bom desempenho neste subteste indica uma capacidade sólida de organização mental e formação de conceitos visuais, essenciais para resolver problemas e compreender o mundo ao redor. Este teste é valioso para avaliar a habilidade do examinado em pensar de forma conceitual e categorizar informações de maneira eficiente (Wanderer et al., 2021). O teste Raciocínio Matricial (RM) é um subteste que visa avaliar várias facetas da capacidade cognitiva de uma criança. Uma das habilidades avaliadas é a capacidade de perceber relações visuais, onde a criança deve ser capaz de identificar padrões e relações entre formas e figuras apresentadas. Além disso, o teste avalia a habilidade de pensar abstratamente, permitindo que a criança raciocine sobre conceitos visuais e identifique a lógica por trás de um conjunto de figuras (Banhato; Nascimento, 2007). Outro aspecto avaliado é a capacidade de analisar e sintetizar informações visuais, descompondo um problema em suas partes componentes e reintegrando-as para encontrar a solução. Por fim, o teste busca avaliar a capacidade da criança de resolver problemas, aplicando o conhecimento e as habilidades visuais para solucionar problemas de forma lógica e eficiente (Banhato; Nascimento, 2007). 2.3.3 Velocidade de Processamento O subteste Procurar Símbolos têm como propósito avaliar a habilidade do avaliado em identificar e associar rapidamente estímulos distintos ao mesmo tempo. Durante o teste, são apresentados ao avaliado duas colunas com símbolos, a coluna esquerda com dois símbolos, e a coluna direita uma série de símbolos em sequência, sendo sua função achar a marcar os símbolos com sim ou não, ao lado da coluna correspondente o mais rápido possível. Esse processo demanda habilidades de processamento visual e cognitivo, além de raciocínio rápido e precisão. Um desempenhosatisfatório neste subteste indica uma sólida capacidade de processamento, uma boa memória visual de curto prazo, coordenação visual e 39 motora, flexibilidade cognitiva, discriminação visual e concentração, que são essenciais para atividades que requerem velocidade e precisão na identificação e associação de estímulos visuais. O teste é útil para avaliar compreensão oral, organização e habilidade de planejar e aprender. (Dinçer et al., 2022). O subteste Códigos foi elaborado para avaliar a habilidade do avaliado em reproduzir rapidamente símbolos de acordo com um modelo fornecido. Durante o teste, o avaliado recebe uma série de símbolos que correspondem a números e deve copiá-los o mais rápido e precisamente possível. O processo requer habilidades de coordenação motora fina, percepção visual e atenção aos detalhes. Um desempenho satisfatório neste subteste indica uma habilidade sólida em reproduzir símbolos de maneira rápida e precisa, competências essenciais para atividades que demandam agilidade e precisão na manipulação de informações visuais (Dinçer et al., 2022). O subteste Cancelamento avalia a habilidade do avaliado em identificar e eliminar rapidamente estímulos específicos em uma grade apresentada. Durante o teste, o avaliado é instruído a identificar e marcar o mais rapidamente possível os alvos específicos em meio a uma variedade de estímulos na grade. Isso requer habilidades de foco seletivo, discernimento visual e velocidade de processamento. Um desempenho eficaz neste subteste indica uma habilidade sólida em concentrar a atenção em estímulos relevantes, enquanto ignora distratores, e em realizar a tarefa com rapidez e precisão (Pezutti et al., 2019). 2.3.4 Memória Operacional O subteste Dígitos avalia a habilidade do avaliado em armazenar e repetir sequências de números tanto na ordem direta quanto na inversa. Durante o teste, o avaliado é exposto a uma série de números e é instruído a repeti-los na mesma ordem em que foram apresentados (ordem direta) ou na ordem oposta (ordem inversa). Isso requer habilidades como memória de curto prazo, atenção e processamento auditivo. Assim, o desempenho eficaz neste subteste indica uma habilidade consistente em reter temporariamente informações auditivas e manipular mentalmente sequências numéricas (Harrison et al., 2024). O subteste Aritmética avalia a habilidade do avaliado em realizar cálculos mentais simples sem o uso de materiais auxiliares, como papel e lápis. Durante o teste, o avaliado é apresentado a uma série de problemas aritméticos de dificuldade 40 progressiva e é instruído a fornecer as respostas verbalmente. Isso requer habilidades como raciocínio, memória de trabalho e concentração. Uma atuação eficaz neste subteste indica uma habilidade consistente em manipular números mentalmente e resolver problemas matemáticos de forma ágil e precisa (Marinopoulou et al., 2023). O subteste Sequenciação de Figuras e Letras (SFL) tem como objetivo avaliar a habilidade do avaliado em ordenar figuras e letras de acordo com determinadas regras. Durante o teste, são apresentadas séries de figuras e letras seguindo uma ordem específica, e o avaliado deve identificar a sequência correta aplicando padrões lógicos ou regras estabelecidas. O subteste analisa habilidades cognitivas como organização, planejamento, atenção e raciocínio sequencial (Harrison et al., 2024). Em resumo, o WISC-IV, com seus subtestes oferece uma avaliação abrangente das habilidades cognitivas de crianças e adolescentes. Essa estrutura permite uma análise detalhada do funcionamento intelectual em diferentes domínios, fornecendo informações relevantes para a identificação de pontos fortes e áreas de necessidade. Com essa avaliação abrangente, os profissionais podem desenvolver intervenções educacionais e terapêuticas personalizadas, visando promover o desenvolvimento e o bem-estar dos indivíduos avaliados. 41 3 METODOLOGIA O presente trabalho consiste em uma revisão de escopo que, conforme Moraes (2022), trata-se de uma modalidade de revisão com vistas a analisar as evidências científicas em áreas em crescimento ou com produção limitada. Ao examinar tais campos é possível identificar lacunas no conhecimento e direcionar futuras pesquisas para contribuir com o avanço do conhecimento científico. A fim de elaborar a pergunta principal para a revisão e guiar a escolha dos descritores, foram adotadas o procedimento delineado por Arksey e O’Malley (2005), organizado em etapas com vistas a direcionar de forma eficiente o desenvolvimento da revisão. Mediante essa abordagem estruturada é possível estabelecer uma pergunta-chave e identificar os descritores adequados para conduzir uma busca abrangente e sistemática na literatura. Assim os autores sistematizam as etapas na seguinte ordem: 1) identificação da questão de pesquisa; 2) detecção de estudos relevantes; 3) selecão os estudos componentes da amosta analisada; 4) coleta de dados; e 5) sintetização e relato dos resultados. Para criar uma questão de revisão concisa e significativa em relação à evidência quantitativa sobre a eficácia das intervenções, o acrônimo PCC (população, conceito, contexto) foi adotado. Em seguida, foi definida a estratégia de busca composta pelos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e Operadores Booleanos (1). Estabeleceu-se a seguinte pergunta norteadora: Como a avaliação da aprendizagem e da inteligência em crianças é abordada pelo WISC-IV? Quadro 1 - Estratégia PPC. P População Crianças C Conceito Aprendizagem, Avaliação da Inteligência – WISC-IV C Contexto Estudos empíricos nacionais e internacionais publicados nos últimos 5 anos. Fonte: autora, 2024. Para a busca abrangente e eficiente, utilizamos a combinação de palavras- chave e descritores indexadores em português e inglês, com operadores booleanos "AND" e "OR". Os termos controlados, extraídos do DeCs, foram "inteligência/aprendizagem" AND "WISC-IV", "crianças" AND "WISC-IV", "intelligence/learning" AND "WISC-IV" OR "children". Essa abordagem permitiu uma ampla cobertura na pesquisa de estudos relevantes sobre a relação entre inteligência, aprendizagem e o teste WISC-IV em crianças 42 As buscas aconteceram entre janeiro a março de 2024 nas seguintes bases de dados: Scientific Electronic Library Online (Scielo); Portal de Periódicos da CAPES; Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MEDLINE), American Psychological Association (Psyc Net) e Education Resources Information Center (ERIC). As plataformas de busca foram escolhidas com base em sua acessibilidade, alcance nacional e internacional, e pela presença de publicações em periódicos de destaque na área da Psicologia e disciplinas correlatas. A busca foi conduzida abrangendo todos os campos dos artigos correspondentes. O processo de pesquisa foi orientado pela abrangência da literatura na área, garantindo uma busca ampla e representativa de estudos relevantes. Foram selecionadas as revistas que possuíam Qualis no extrato A e B considerando a classificação de periódicos no quadriênio 2017 e 2020. Como critérios de inclusão, foram adicionadas a revisão de escopo estudos empíricos, revisados por pares, que abordem sobre a na avaliação de inteligência/aprendizagem de crianças pelo teste WISC-IV, a partir do ano de 2019, nos idiomas português, inglês e espanhol. Quanto ao tipo de estudo, foram selecionadas fontes primárias, quantitativas e qualitativas de qualquer desenho ou metodologia. Foram excluídas cartas ao editor, resumos em anais de eventos, artigos incompletos, estudos em fase de projeto ou sem resultados, e estudos que não abordem a temática. A Figura 1 apresenta o fluxograma da seleção dos materiais. 43 Figura 1 -Fluxograma de inclusão e exclusão de artigos nas bases de dados. Fonte:autora, 2024. Na primeira etapa da seleção dos materiais, foram analisados artigos duplicados e incompletos. Em seguida, procedeu-se à leitura dos resumos para compor a amostra mencionada anteriormente. Durante esse processo, foram excluídos artigos que, após uma leitura integral, não corresponderam à pergunta do estudo, garantindo assim a relevância e a consistência da amostra selecionada. Após esta etapa foi realizada a leitura na íntegra dos dez artigos encontrados com vistas a destacar os aspectos discutidos adiante. Os dados foram sumarizados a partir das seguintes categorias: 1) ano de publicação 2) autoria, 3) objetivo; 4) método, 5) principais resultados. Os resultados encontrados foram analisados por meio da Análise Temática (Braun; Clarke, 2023). Dessa forma, foi criado um banco de dados para compilar os resultados das buscas de forma a garantir que todas as informações pertinentes fossem extraídas, diminuindo a possibilidade de erros, monitorando a qualidade das informações e servindo como registro para coleta de dados que continham as variáveis sugeridas. A base de dados possibilitou reunir informações sobre a identificação dos autores, fontes do artigo, objetivos e localização do estudo. No tocante às características metodológicas dos artigos, foram analisados de 44 acordo com o delineamento, desenho, método aplicado, características da amostra, bem como questões éticas. Posteriormente, as produções receberam um código identificador único e as informações foram inseridas no banco de dados. 45 4 RESULTADO E DISCUSSÃO A pesquisa teve como objetivo identificar, selecionar, avaliar e resumir as evidências científicas pertinentes sobre a avaliação de inteligência e aprendizagem em crianças por meio da aplicação do teste WISC-IV nos últimos cinco anos. Os materiais encontrados foram organizados, e as fontes de publicação dos artigos foram identificadas. Ademais, foram destacadas eventuais dificuldades e lacunas na avaliação, além de explorar pesquisas relacionadas ao tema em questão. Dessa forma, os dados bibliométricos dos artigos selecionados para compor a presente revisão foram organizados a partir das seguintes categorias: autoria, ano, objetivo, Revista publicada, Origem do artigo, Qualis e os principais resultados obtidos, no Quadro 2. Quadro 2 - Sistematização de dados dos artigos selecionados Ano Autor Objetivo Revista Orige m Qualis Principais resultados 201 9 Buttow e Figueire do Analisar a sensibilidade do Índice de Memória Operacional do WISC-IV na identificação de dificuldades em crianças e adolescentes com o diagnóstico de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Psico- USF Brasil A2 Uma pesquisa com 50 crianças de 6 a 16 anos descobriu que 57% delas têm TDAH. Os resultados demonstram que a capacidade de memória operacional (QI IMO) variou de 62 a 106, com uma média de 83,63 (com uma diferença padrão de ± 11,34). A moda foi 88, o que é considerado abaixo da média em comparação com a pontuação esperada para a população geral (QI médio = 100). Isso sugere que muitas dessas crianças podem ter dificuldades de memória e atenção. 201 9 Nunes et al. Abordar os efeitos potenciais do idioma e da cultura na validade da estrutura fatorial espanhola do WISC-IV Arquivo s de Neurop sicologi a Clínica Inglês A1 Uma pesquisa com 148 crianças que têm TDAH descobriu que um modelo com 4 fatores (compreensão verbal, raciocínio perceptivo, memória de trabalho e velocidade de processamento) se ajustou melhor aos dados. Isso significa que as pontuações obtidas nos testes podem ser interpretadas usando esses 4 fatores, o que facilita a comparação com outras amostras normativas em espanhol e inglês. Esses resultados podem ajudar os profissionais a entender melhor as habilidades cognitivas das crianças com TDAH. 201 9 Aquino e Borges- Paraná Avaliar a memória operacional de escolares e correlacionar os resultados com o desempenho acadêmico. Revista Psicope dagogia Brasil A3 Um estudo com 30 alunos do Ensino Fundamental e Médio, com idade média de 10,4 anos, revelou que metade eram meninas e a maioria frequentava escolas particulares. Eles foram avaliados com testes como o WISC-IV e Cubos de Corsi, levando cerca de 1 hora. Os resultados indicaram que a memória operacional está diretamente ligada ao desempenho escolar, enfatizando a importância de identificar problemas nessa área cedo para prevenir dificuldades de aprendizagem no futuro. 46 202 0 Diniz, Correa e Mousinh o Traçar o perfil cognitivo de crianças com dislexia e de crianças com Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), com idades entre 6 a 8 anos Psicope dagogia Brasil A3 Um estudo analisou os registros de 24 alunos, sendo 16 com Dislexia e 8 com TDAH, da rede pública de ensino do Rio de Janeiro, com idades entre 6 e 8 anos. Descobriu-se que, em termos de inteligência geral, ambos os grupos tiveram desempenho médio na WISC-IV, com uma média de QI de 96 para o grupo com Dislexia e 103 para o grupo com TDAH. Surpreendentemente, não houve diferença significativa entre os coeficientes de inteligência dos dois grupos. Os resultados sugerem que, embora enfrentem desafios diferentes, tanto as crianças com Dislexia quanto as com TDAH têm habilidades cognitivas semelhantes que precisam ser consideradas ao desenvolver estratégias de ensino e apoio. 202 0 Kim et al. Este estudo teve como objetivo comparar o perfil da Wechsler Intelligence Scale for Children, Fourth Edition (WISC-IV) de crianças com transtorno de déficit de atenção/hiperatividad e (TDAH) e crianças com desenvolvimento típico (CT) na Coreia Investig ação Psiquiát rica Inglês A4 Um estudo comparou o perfil cognitivo de crianças com TDAH e crianças com desenvolvimento típico na Coreia. Eles testaram 377 crianças, 224 com TDAH e 153 com desenvolvimento típico. Descobriram que as crianças com TDAH tiveram pontuações mais baixas no quociente de inteligência total e no índice de memória de trabalho (WMI) do WISC- IV. Os resultados evidenciam que as crianças com TDAH podem ter dificuldades específicas de memória de trabalho. Além disso, descobriram que essas dificuldades estão relacionadas aos erros de Comissão em uma tarefa auditiva. Assim, o WMI pode ser um indicador útil para identificar déficits de atenção em crianças com TDAH. 202 1 Cozzer e Garghett i Analisar o perfil de desempenho motor e cognitivo de crianças com indicadores de AH/SD Conheci mento em Foco Brasil B2 Uma pesquisa realizada no Serviço de Atendimento Psicológico da Universidade do Oeste de Santa Catarina, Campus Chapecó, envolvendo três crianças do sexo masculino, com idades entre 5 e 11 anos, revelou que, ao serem submetidas ao teste de inteligência (WISC-IV), todas elas apresentaram resultados acima da média esperada para sua faixa etária. Isso sugere que essas crianças possuem habilidades cognitivas mais desenvolvidas do que a maioria de seus colegas da mesma idade. Esses resultados podem ser encorajadores para as crianças e suas famílias, indicando um potencial promissor em termos de aprendizado e desenvolvimento intelectual. 202 1 Sahin et al. Avaliar o desempenho cognitivo e as características clínicas de crianças e adolescentes com Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) atendidos em um centro terciário Diário da Criança Inglês A1 Uma pesquisa retrospectiva analisou 56 crianças e adolescentes com TDAH, com idades entre 7 e 16 anos, atendidos no ambulatório de Psiquiatria da Criança e do Adolescente entre junho de 2020 e março de 2021. A maioria tinha 13 anos e 71,4% eram do sexo masculino. Os resultados mostraram que os escores mais baixos foram em memória de trabalho e no QI em escala completa (FSIQ). No entanto, não houvediferenças significativas nos fatores de raciocínio entre os grupos. A pesquisa demonstra que a escala WISC-IV pode ser útil para avaliar o desempenho cognitivo em crianças com TDAH, independentemente da gravidade dos sintomas. Esses resultados podem ajudar os profissionais a entender melhor as necessidades dessas crianças e a adaptar estratégias de intervenção adequadas. 47 202 2 Pantoja et al. Investigar a relação entre o perfil cognitivo e a percepção de competência de crianças com e sem TDAH. Psico- USF Brasil A4 A pesquisa ocorreu no Centro de Atenção à Saúde da Mulher e da Criança (CASMUC) da Universidade Federal do Pará (UFPA), com a participação de 60 crianças, entre 8 e 12 anos, de ambos os sexos. Os resultados revelaram que tanto para as crianças com TDAH quanto para as sem o transtorno, um bom desempenho nos testes do WISC-IV estava relacionado a uma percepção elevada de suas habilidades. Por outro lado, pontuações baixas estavam associadas a uma percepção mais baixa de competências. Surpreendentemente, para as crianças com TDAH, a competência comportamental estava mais intimamente ligada ao seu perfil cognitivo do que para aquelas sem o transtorno. Assim, destaca-se a importância de considerar tanto o desempenho cognitivo quanto o comportamental ao avaliar e apoiar crianças com TDAH. 202 2 Erden et al. Investigar a utilidade da versão turca da Wechsler Intelligence Scale for Children- Fourth Edition (WISC-IV) para distinguir crianças superdotadas de não superdotadas. Revista De Psicolo gia Geral Inglês A1 Foram incluídas no estudo 201 crianças superdotadas e 201 crianças não superdotadas. Para determinar o poder preditivo dos escores do índice e subteste WISC-IV, análises de regressão logística foram realizadas. Os resultados indicaram que os escores do Índice de Raciocínio Perceptual, do Índice de Memória de Trabalho e do Índice de Velocidade de Processamento (exceto o escore do Índice de Compreensão Verbal) e todos os escores do subteste predisseram significativamente a superdotação. Além disso, as taxas de classificação correta entre as crianças superdotadas foram de 93% para os escores dos índices e 97% para os escores dos subtestes. Os achados deste estudo sugerem que os escores de inteligência obtidos no WISC-IV têm utilidade diagnóstica e fornecem resultados válidos e confiáveis na identificação de crianças superdotadas. 202 2 Aminlou et al. Examinar a validade diagnóstica da Wechsler Intelligence Scale for Children- Fifth Edition (WISC- V) em relação às características neuropsicológicas de crianças com dificuldade específica de aprendizagem na cidade de Teerã, Irã Revista de Psicolo gia Escolar Positiva Inglês A1 Um estudo realizado em Teerã, Irã, explorou como o teste WISC-V pode ajudar a diagnosticar crianças com dificuldades de aprendizagem. Descobriu-se que vários subtestes do WISC-V foram eficazes na identificação dessas dificuldades, embora alguns fossem mais preditivos do que outros. Apesar dos resultados promissores, o estudo ressaltou a importância de considerar diferenças culturais e sociais ao usar o WISC-V para avaliação. Recomenda-se mais pesquisa, especialmente em amostras clínicas nacionais, para examinar a validade diagnóstica do WISC-V em contextos culturais e linguísticos específicos. Isso ajudaria a garantir uma avaliação precisa e eficaz das dificuldades de aprendizagem em crianças. Fonte: autora, 2024. Observou-se que na primeira categoria do ano de publicação, houve uma maior concentração no ano de 2019 e 2023 com 3 artigos, e apresentando maior publicação na língua portuguesa. A Gráfico 1, apresenta os dados. 48 Gráfico 1 - Ano de publicação e idiomas dos artigos. Após uma análise abrangente dos materiais, foi notada uma escassez inicial de estudos sobre a avaliação da inteligência e aprendizagem de crianças utilizando o teste WISC-IV. No entanto, entre os anos de 2019 e 2024, ocorreu um aumento significativo no número de publicações nessa área, destacando-se o ano de 2022 (n=3), seguido por 2020 (n=3) e 2019 (n=3). Essa tendência ascendente indica um crescente interesse e reconhecimento da relevância do WISC-IV na compreensão do desenvolvimento cognitivo infantil. Assim, mais pesquisas estão sendo conduzidas para explorar seu potencial e aplicabilidade, o que pode beneficiar tanto a prática clínica quanto a educacional. No que concerne ao idioma dos artigos analisados, foi possível observar a frequência de apenas dois idiomas: língua portuguesa (n=5) e inglês (n=5). A presença de artigos em ambos os idiomas sugere uma contribuição global para o conhecimento nessa área, facilitando o acesso e a disseminação das descobertas para uma variedade de públicos. Em relação ao delineamento metodológico, observou-se a predominância de pesquisas descritivas e transversais (n=8), enquanto uma parcela menor concentra- se em estudos quantitativos e descritivos (n=1) e pesquisa de campo (n=1). Assim, demonstra a predominância de abordagens que visam descrever e entender os fenômenos relacionados ao tema abordado. A diversidade de modalidades de 49 pesquisa permite uma visão mais abrangente e aprofundada da temática, contribuindo para o avanço do conhecimento nessa área. Ao analisar a procedência dos autores dos estudos, foi notado que os artigos são vinculados a uma diversidade de instituições, abrangendo Arquivos de Neuropsicologia Clínica (n=1), Conhecimento em Foco (n=1), Diário da Criança (n=1), Investigação Psiquiátrica (n=1), Psico-USF (n=2), Revista de Psicologia Escolar Positiva (n=1), Revista De Psicologia Geral (n=1) e Revista Psicopedagogia (n=2). Isso reflete uma distribuição geográfica e institucional ampla dos pesquisadores envolvidos no estudo da avaliação da inteligência e aprendizagem de crianças por meio do teste WISC-IV. Essa diversidade pode enriquecer as perspectivas e abordagens empregadas na pesquisa, contribuindo para uma compreensão mais abrangente e robusta do tema. Dos artigos analisados, a maioria está classificada na categoria de Qualis A1 (n=4), seguida pelos classificados como A4 (n=2). Além disso, foram identificados artigos menos frequentes categorizados como B2 (n=1) e A2 (n=1). O Qualis é uma classificação utilizada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) para avaliar a qualidade de periódicos científicos, levando em consideração critérios como periodicidade de publicação, presença de ISSN e diversidade temática. Essa classificação apresenta graduações que variam de A1 a A4 (o mais alto estrato), B1 a B4 (estrato intermediário) e C (estrato inferior). Os resultados da revisão indicam que a maioria dos estudos sobre a temática recebeu reconhecimento por sua alta qualidade e relevância acadêmica. No entanto, é válido ressaltar a diversidade de níveis de qualidade presentes, evidenciando a variedade de abordagens e perspectivas dentro deste campo de estudo. Na pesquisa de Büttow e Figueiredo (2019), o objetivo do estudo foi analisar como o Índice de Memória Operacional (IMO) do WISC-IV pode detectar dificuldades em crianças e adolescentes com Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Os resultados mostraram que o IMO do WISC-IV é um instrumento sensível para identificar dificuldades de memória operacional em crianças e adolescentes com TDAH. A pesquisa aponta que o teste pode ser útil para profissionais que desejam avaliar e entender melhor as necessidades desses jovens. Portanto, considerar o IMO pode ser fundamental para desenvolver estratégias de intervenção eficazes para ajudar essas crianças a superar seus desafios. No estudo realizado por Diniz, Correa e Mousinho (2020), que teve como 50 objetivo comparar o perfil cognitivo de crianças com dislexia e crianças com TDAH, utilizando o WISC-IV, a BateriaTOWRE (Test of Word Reading Efficiency) e a Escala Conners, os resultados indicaram que o grupo com dislexia apresentou um desempenho significativamente inferior no Índice de Memória Operacional (IMO) em comparação aos grupos TDAH e Controle. Por outro lado, o grupo com TDAH demonstrou um desempenho significativamente inferior no Índice de Velocidade de Processamento (IVP) em comparação aos grupos Dislexia e Controle. Ambos os grupos apresentaram um desempenho significativamente inferior no Índice de Compreensão Verbal (ICV) em comparação ao grupo controle. Além disso, o grupo com dislexia apresentou um melhor desempenho nos subtestes de Organização Perceptual (OP) e Dígitos do IMO em comparação ao grupo TDAH. Já o grupo com TDAH obteve um melhor desempenho nos subtestes de Conceitos e Informação do ICV em comparação ao grupo dislexia. Já nos estudos aplicados de Pantoja et al. (2022), com intuito de comparar o desempenho de crianças com dislexia e TDAH em diferentes áreas da inteligência, utilizando a WISC-IV. Assim foi demonstrado que as crianças com dislexia têm dificuldade em Memória Operacional (lembrar instruções, organizar informações) e desempenho melhor em Percepção Visual (reconhecer objetos, completar figuras). As crianças com TDAH, evidenciaram Dificuldade em Velocidade de Processamento (realizar tarefas rapidamente) Desempenho melhor em Compreensão Verbal (entender o que é lido ou dito). E em ambos a dificuldade em Compreensão Verbal em comparação ao grupo controle. Em suma, as crianças com dislexia e TDAH apresentam diferentes pontos fortes e fracos em suas habilidades cognitivas e a avaliação individualizada é importante para identificar as necessidades específicas de cada criança e direcionar o tratamento. De acordo com pesquisa de Cozzer e Garghetti (2021), buscou-se investigar o perfil de desempenho motor e cognitivo de crianças com indicadores de Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD) em diferentes áreas, comparando-as com um grupo de controle. E com aplicação de Teste de Habilidades Motoras (TEHAFI) e WISC-IV, evidenciou que crianças com AH/SD apresentam habilidades cognitivas acima da média, especialmente em áreas como linguagem, memória e raciocínio. Conforme Erden et al. (2022), o estudo investiga a utilidade da versão turca do WISC-IV para distinguir crianças superdotadas de não superdotadas. Os resultados sugerem que os escores do teste, especialmente os relacionados ao Índice de 51 Raciocínio Perceptual, Memória de Trabalho e Velocidade de Processamento, têm forte poder preditivo na identificação de crianças superdotadas. No entanto, é importante considerar algumas limitações, como a exclusão de crianças superdotadas da amostra e a falta de controle de variáveis como o ambiente socioeconômico. Além disso, a taxa de classificação correta, embora alta, não aborda falsos positivos ou negativos. Apesar dessas ressalvas, os resultados destacam a relevância do WISC- IV na avaliação de crianças superdotadas. De acordo com Sahin et al. (2021), o estudo retrospectivo analisou o desempenho cognitivo e características clínicas de crianças e adolescentes com TDAH, revelando escores mais baixos em memória de trabalho e QI em escala completa. Embora tenha destacado a utilidade da Escala WISC-IV na avaliação do desempenho cognitivo desses pacientes, é importante considerar algumas limitações, como a falta de um grupo controle para comparação e a análise restrita a um único centro terciário, o que pode limitar a generalização dos resultados. Além disso, a falta de diferenças significativas nos fatores de raciocínio do CGIS sugere a necessidade de explorar outras medidas para compreender melhor o perfil cognitivo dessas crianças com TDAH. Para Nunes et al. (2019), o estudo investigou os efeitos do idioma e da cultura na validade da estrutura fatorial na versão espanhola do WISC-IV, revelando que um modelo de 4 fatores (compreensão verbal, raciocínio perceptivo, memória de trabalho e velocidade de processamento) teve o melhor ajuste para os dados, alinhando-se com amostras normativas de língua espanhola e inglesa. No entanto, é importante considerar algumas limitações, como a exclusão de outras línguas e culturas na análise. Além disso, o estudo não abordou possíveis diferenças nas interpretações dos itens do teste entre os grupos culturais, o que poderia afetar a validade dos resultados. Apesar disso, os achados fornecem concepções elementares sobre a adaptação do WISC-IV em diferentes contextos linguísticos e culturais, destacando a necessidade de considerar esses fatores ao interpretar os resultados do teste. Segundo Aminlou et al. (2022), o estudo examinou a validade diagnóstica do WISC-V em crianças com dificuldades de aprendizagem em Teerã, Irã, destacando a validade de vários subtestes na identificação dessas dificuldades. Embora os resultados sejam promissores, é importante considerar algumas limitações, como a falta de exploração detalhada das diferenças culturais e sociais que podem influenciar a avaliação do teste. Além disso, a recomendação de examinar a validade diagnóstica 52 do WISC-V em amostras clínicas nacionais e contextos culturais específicos destaca a necessidade de mais pesquisas para garantir a adequação e precisão do teste em diferentes populações. De acordo com Zanon e Hauck Filho (2015) a precisão de um instrumento de avaliação psicológica favorece a mensuração adequada do construto avaliado. Na pesquisa de Aquino e Borges-Paraná (2019), com objetivo de avaliar a memória operacional de escolares e verificar sua relação com o desempenho acadêmico, revelou uma correlação positiva entre esses dois fatores. Nesse prisma, indica que alunos com uma memória operacional mais eficaz tendem a ter um melhor desempenho na escola. A memória operacional emerge como um aspecto fundamental para o sucesso acadêmico, destacando a importância da detecção precoce de possíveis déficits nessa área para evitar dificuldades de aprendizagem futuras. Implementar estratégias de intervenção direcionadas pode ser benéfico para alunos que enfrentam desafios relacionados à memória operacional, oferecendo apoio necessário para maximizar seu potencial acadêmico. Kim et al. (2020), o estudo comparou o perfil cognitivo de crianças com TDAH e crianças com desenvolvimento típico na Coreia, utilizando o WISC-IV. Os resultados revelaram que as crianças com TDAH apresentaram escores de quociente de inteligência mais baixos em comparação com o grupo controle. Além disso, o índice de memória de trabalho e o subteste Digit Span do WISC-IV foram significativamente menores no grupo TDAH. A correlação negativa entre o índice de memória de trabalho e os erros de Comissão no teste auditivo sugere uma associação entre déficit de atenção e memória de trabalho. No entanto, é importante considerar que o estudo se concentrou apenas em crianças na Coreia, limitando sua generalização para outras populações. Apesar disso, os resultados contribuem para a compreensão dos aspectos cognitivos associados ao TDAH e destacam a importância de avaliações abrangentes para melhor apoiar essas crianças. Após as análises concluiu-se que os estudos que pesquisam o teste WISC-IV para avaliação de aspectos cognitivos e de aprendizagem precisam ser ampliados, pois na revisão encontrou-se poucos estudos que focalizaram os aspectos cognitivos e da aprendizagem. Avaliar aspectos cognitivos é de suma importância para intervenções no campo da educação e da reabilitação, pois o WISC-IV trata-se de um instrumento que possibilita a compreensão do funcionamento cognitivo na avaliação psicológica e neuropsicológica, podendo colaborar para a elaboração de diagnóstico 53 diferencial e de estratégias terapêuticas mais adequadas. De acordo com a Resolução nº31/2022 na realização da avaliação psicológica o profissional deve basearsua decisão em instrumentos psicológicos com reconhecimento científico e aprovados para uso pelo SATEPSI, como o WISC-IV (CFP, 2022). 54 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS O estudo oferece um panorama abrangente das pesquisas sobre a avaliação de inteligência e aprendizagem em crianças através do teste WISC-IV nos últimos cinco anos. A predominância da metodologia de pesquisa descritiva e transversal, juntamente com a concentração de artigos de alta qualidade (Qualis A1) e publicações em revistas científicas renomadas, como Psico-USF e Revista Psicopedagogia, refletem a relevância e o interesse nessa área. No entanto, é importante notar que a distribuição de artigos ao longo dos anos não é uniforme, com picos em 2019, 2021 e 2022, sugerindo variações temporais no interesse ou na produção científica. Além disso, a distribuição equilibrada de artigos em língua portuguesa e inglesa demonstra uma abordagem inclusiva, facilitando o acesso e a disseminação do conhecimento em diferentes comunidades acadêmicas. A utilização do WISC-IV por um psicólogo oferece uma avaliação abrangente e personalizada da inteligência e aprendizado da criança. O conhecimento e habilidades do profissional são fundamentais para interpretar os resultados de forma precisa, levando em conta o contexto individual e necessidades específicas da criança. O psicólogo colabora com outros especialistas, como pedagogos, neuropsicólogos e psiquiatras, para garantir uma avaliação completa. Essa colaboração é essencial para desenvolver um plano de intervenção individualizado que aborde as demandas particulares de cada criança. Durante a elaboração do artigo, foi observada a escassez de materiais dedicados à avaliação de inteligência e aprendizagem de crianças por meio do teste WISC-IV, pois os achados foram limitados. Essa lacuna pode dificultar o acesso à avaliação adequada da população infantil, assim como a orientação para o desenvolvimento de seu potencial. A limitada amostra coletada por meio de plataformas virtuais sugere a necessidade de incentivo a pesquisas científicas e práticas voltadas para o estudo e avaliação de inteligência e aprendizagem de crianças utilizando o WISC-IV no Brasil. Essa observação ressalta a importância de preencher essa lacuna para melhor entender e apoiar o desenvolvimento cognitivo das crianças brasileiras. Para trabalhos futuros sugere-se revisões sistemáticas que poderão indicar as melhores evidências científicas dos estudos, estimulando novas pesquisas a partir de uma análise mais aprofundada dos estudos. 55 REFERÊNCIAS ALVES, Letícia Eleutério; MONTEIRO, Bruno Massayuki Makimoto; SOUZA, José Carlos. Comparação da classificação dos transtornos do desenvolvimento infantil por meio do DSM-5, CID-10 e CID-11. 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Indicador não definido. 2.3.6 Raciocínio Matricial .........................................Erro! Indicador não definido. 3 METODOLOGIA .................................................................................................. 41 4 RESULTADO E DISCUSSÃO ............................................................................. 45 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................. 54 REFERÊNCIAS ....................................................................................................... 55 11 1 INTRODUÇÃO O cérebro e sua interação com o comportamento têm sido amplamente estudados pela neurociência, contribuindo para a compreensão de várias questões que o influenciam, embora ainda haja um longo caminho a percorrer nesse sentido. (Relvas, 2023). Os estudos neurocientíficos têm ocupando-se em compreender e explicar que não há atividade mental independente da atividade neural. Este achado figura como uma das principais implicações dessas descobertas para os profissionais da psicologia, em especial psicólogos clínicos. Visto que toda prática psicológica é, de fato, uma prática de alteração da função da atividade neural (Landeira–Fernandez; Cruz, 2003). Dessa forma, a neuropsicologia é uma especialização dentro do campo mais amplo da psicologia. É o estudo da relação entre o cérebro e o comportamento dedicada aos estudos relacionados às alterações cognitivas e comportamentais em condições normais e patológicas. Tais estudos buscam obter uma compreensão detalhada sobre o funcionamento dos principais domínios cognitivos como: atenção, percepção, memória, linguagem, função executiva, habilidades numéricas, entre outros. Observando e medindo o comportamento humano usando métodos clínicos e experimentais (Reppold et al., 2015). O campo da neuropsicologia pode ser compreendido a partir de três perspectivas complementares: a neuropsicologia é considerada uma disciplina clínica que visa determinar o perfil de déficits cognitivos apresentados por pacientes com lesão cerebral. A disciplina de neurociência que envolve o estabelecimento de correlações anátomo-clínicas para melhor compreender as operações fundamentais, a dinâmica e a plasticidade das funções cognitivas (Ferreira; Corrêa; Oliveira, 2022). Finalmente, tem sido descrita como uma disciplina cognitiva porque considera o desempenho de indivíduos com lesão cerebral em testes e tarefas, formulando testes de hipóteses com base em teorias cognitivas articuladas por estudos realizados em indivíduos saudáveise e auxilia na compreensão da cognição humana (Van Der Linden, 2018). As intervenções neuropsicológicas consideram dois processos inter- relacionados: a avaliação da função cognitiva e a reabilitação. As intervenções avaliativas incluem a investigação do perfil cognitivo do indivíduo, considerando déficits e funções preservadas. Geralmente avalia a função receptiva relacionadas às 12 habilidades para selecionar, adquirir, processar e integrar informações por meio da visão, audição e sentido; memória e aprendizado; organização mental e reorganização da informação; e função expressiva (meios de transmitir informações ou colocá-las em ação (Haase et al., 2012). Nessas perspectivas, introduz-se a avaliação é uma das primeiras etapas realizadas no processo clínico neuropsicológico. No início do desenvolvimento da neuropsicologia, a avaliação servia para identificar e localizar lesões cerebrais. Além da localização, também estuda funções corticais avançadas como atenção e memória, bem como inclui a análise de funções retidas e funções danificadas (Ramos; Hamdan, 2016). Frente à relevância exercida pelos instrumentos de avaliação na prática profissional do psicólogo, o Conselho Federal de Psicologia (CFP) publicou a Resolução nº 31/2022 a qual estabelece diretrizes para a realização de Avaliação Psicológica (AP) no âmbito do fazer da Psicologia, bem como regulamentou o Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos (SATEPSI). A referida resolução revoga a Resolução CFP nº 09/2018 e consolida as normas e práticas da AP no Brasil (Conselho Federal de Psicologia, 2022). Nesse prisma de avaliação, pode-se elencar o testes psicológicos existentes evidencia-se o teste Wechsler Intelligence Scale for Children (WISC), na sua tradução o teste de Escala Wechsler de Inteligência para Crianças que conforme apontado por Figueiredo e Pinheiro (1998), o reconhecimento nacional e internacional do WISC tem sido evidente ao longo dos anos. Isso pode ser visto a partir dos resultados da pesquisa realizada. O estudo apontou o crescimento do número de publicações científicas nos últimos anos e constatou que os estudos sobre crianças e adolescentes representaram 42,8% do total de estudos analisados, sendo o WISC o segundo teste psicológico mais utilizado por pesquisadores. Suehiro, Benfica e Cardim (2015) apresentam dados semelhantes ao analisar resultados científicos brasileiros relacionados à avaliação cognitiva de crianças. O instrumento avalia diferentes aspectos da inteligência e pode ser usado em diferentes contextos tais como: avaliação psicoeducacional; avaliação clínica e neuropsicológica; diagnóstico de transtornos do neurodesenvolvimento; e transtornos psiquiátricos. Além disso, pode ser utilizado como ferramenta no desenvolvimento de intervenções psicoeducativas individuais ao identificar quais habilidades cognitivas estão bem desenvolvidas e quais necessitam de intervenção (Cruz, 2005). 13 O WISC foi desenvolvido pelo psicólogo americano David Wechsler para avaliar a inteligência de crianças e adolescentes, onde Wechsler (1944) define inteligência como a capacidade coletiva ou coletivade uma pessoa de agir intencionalmente, pensar racionalmente e responder de forma eficaz ao seu ambiente. Os pesquisadores consideram a inteligência um conceito global porque descreve o comportamento de um sujeito de forma integral e multifacetada, consistindo em várias habilidades qualitativamente distinguíveis, manifestadas em diferentes condições e situações. Dessa forma, é possível observar a relevância do WISC na prática profissional, bem como sua importância no processo de avaliação cognitiva em crianças. Nesta seara, o presente estudo buscou mapear as principais características das pesquisas empíricas acerca da avaliação de inteligência/aprendizagem em crianças através do teste WISC-IV nos últimos 5 anos. 14 2 REFERENCIAL TEÓRICO 2.1 Neuropsicologia 2.1.1 Conceito Faz-se necessário compreender a neuropsicologia como área do conhecimento interessada pelo estudo da relação entre o funcionamento do cérebro e o comportamento humano. Seus fundamentos então pautados em conhecimentos da neurociência e da psicologia com vistas a contribuir para o tratamento de alterações cognitivas e comportamentais. A avaliação neuropsicológica trata-se de um procedimento investigativo detalhado projetado para avaliar as funções cognitivas de um indivíduo tais como: atenção; memória; linguagem; entre outros. Além disso, o processo de avaliação abrange aspectos sociais, emocionais e funcionais da pessoa (Santos et al., 2015). Para Hazin et al. (2018), a neuropsicologia é um campo de interface entre a psicologia e a neurologia, pois une o estudo detalhado do sistema nervoso e a análise do comportamento humano e seus processos mentais. Assim, a neuropsicologia procura entender como a função cerebral afeta várias funções cognitivas como: humor, atenção, memória, raciocínio, entre outros construtos. Nesse sentido, a avaliação neuropsicológica é uma técnica utilizada por profissionais qualificados para determinar o desempenho das funções cognitivas. Através do processo de avaliação, a condição cognitiva do paciente pode ser diagnosticada com precisão e o plano de tratamento mais adequado e eficaz pode ser proposto. Dentro desta ótica, as avaliações neuropsicológicas são projetadas para avaliar processos cognitivos em humanos e podem ser usadas para diferentes propósitos, tanto para identificar um problema específico quanto para avaliar condições neuropsicológica gerais. Ao incorporar o processo de coleta de dados juntamente com a compreensão teórica e o conhecimento técnico dos profissionais, fornece informações valiosas sobre a condição do paciente. Por meio de entrevistas, testes, avaliações e observações clínicas com pacientes e seus familiares, forma-se um relatório sobre o perfil neuropsicológico do paciente. Com base nos resultados da avaliação, um médico ou outro profissional de saúde irá recomendar o tratamento adequado, seja ele medicamentoso, terapêutico, voltado à reabilitação ou outras vias de acompanhamento (Santos et al., 2015; Biajoni; Uehara, 2021). 15 De acordo com Fontoura et al. (2020), quando um diagnóstico clínico mais extenso é necessário, uma avaliação neuropsicológica é necessária. Nestes casos, pode ser solicitada a avaliação de um psiquiatra ou neurologista para auxiliar a determinar a causa dos problemas que o paciente enfrenta em seu cotidiano. Um aspecto importante da avaliação neuropsicológica diz respeito à aplicação de testes e questionários neuropsicológicos. Além disso, dois outros procedimentos são imprescindíveis: a observação e as entrevistas clínicas com diferentes informantes. O número de sessões dependerá de cada indivíduo e do conteúdo da avaliação. Assim ao final do processo, o neuropsicólogo emite o laudo neuropsicológico que contém os resultados do processo avaliativo. Este documento apresenta o resumo dos resultados, bem como recomendações relacionadas ao caso, destinadas a facilitar o desenvolvimento dos pacientes com vistas a melhoraria de sua qualidade de vida (Fontoura et al., 2020). Para Husser, Fourdain e Gallagher (2020) as perspectivas atuais no campo da neuropsicologia indicam o desenvolvimento de sua ampliação com o objetivo de não apenas medir o desempenho cognitivo em pacientes com lesões cerebrais, como também assumir responsabilidade máxima pela recuperação de cada pessoa. Além disso, mostra-se útil para compreender o impacto dos transtornos mentais no funcionamento psicossocial. Dessa forma, busca facilitar sua recuperação através do desenvolvimento de um programa de reabilitação para o bem-estar físico, psicológico e social. De igual modo, busca alcançar uma postura mais sofisticada voltada para o atendimento efetivo das necessidades da sociedade contemporânea e sua avaliação de competências e habilidades intelectuais. Os neuropsicólogos podem trabalhar em ambiente clínico, hospitalar ou de pesquisa e se qualificar como neuropsicólogo clínico adulto ou neuropsicólogo clínico infantil. Em suma, o objetivo da avaliação neuropsicológica consiste em verificar mudanças no padrão de desempenho do sujeito em termos de função cognitiva e comportamental para caracterizar mais completamente o estado cognitivo e emocional do paciente. Assim como, busca correlacionar a função preservada e prejudicada na tentativa de entender como a lesão cerebral afeta o desempenho nas atividades da vida diária tais como: desempenho escolar, profissional e social. 16 2.1.2 A Neuropsicologia breve histórico Historicamente, a neuropsicologia não foi tradicionalmente associada à psicologia. Os antigos egípcios, por meio de rituais de mumificação, já possuíam conhecimento da neuroanatomia e evidências preliminares da conexão entre o cérebro e o comportamento. Registros especulativos sobre essa relação também foram encontrados em períodos clássicos. O filósofo naturalista médico grego Alemão de Crotona (500 a.C.) foi um dos primeiros a identificar o cérebro como o centro dos sentidos, sendo considerado pelos historiadores como o pioneiro da psicologia fisiológica (Roselli; Ardila, 2016). No século XIX, Wundt (1832-1920) resgatou essa visão em seu livro Principles of Physiological Psychology (1874), referindo-se às pesquisas realizadas em laboratórios na tentativa de elevar a psicologia ao nível de ciência. Porém, com o advento da Teoria da Evolução de Darwin1, originalmente publicada em 1859, a psicologia mudou sua agenda de interesses e passou a privilegiar a posição funcionalista, em detrimento da relação entre mente e cérebro (Ramos; Hamdam, 2016). É fascinante perceber até onde as pesquisas neuropsicológicas podem ter avançado. Um antigo papiro egípcio datado de cerca de 2500 a.C. menciona alguns casos de lesões cerebrais traumáticas, embora a interpretação do conteúdo seja incerta. Diversas sociedades, desde as mais primitivas até algumas mais avançadas, praticaram a trepanação craniana desde tempos remotos, embora as evidências geralmente sejam encontradas na forma de artefatos e restos humanos. Durante a trepanação, uma abertura é feita no crânio, podendo ser fechada posteriormente ou não. O propósito por trás desses procedimentos, que podem ter motivações mágicas, médicas, religiosas ou punitivas, muitas vezes permanece obscuro. No entanto, a prática foi documentada em várias regiões do mundo ao longo dos séculos (Kolb; Whishaw, 2006). Na Grécia clássica, houve um grande interesse pelo cérebro e suas funções, e o papel do cérebro no funcionamento mental foi claramente reconhecido pelos escritores, incluindo Hipócrates, através de um estudo meticuloso de seus pacientes. No entanto, enquanto essas ideias se difundiram pelo mundo árabe e sobreviveram 1 As espécies se modificam e se diversificam ao longo do tempo, através de um processo gradual e contínuo (Silva, 2023). 17 até a Renascença, as com cepções gregas sobre o cérebro não tiveramdestaque no pensamento medieval ocidental. Galeno, no século II d.C., também fez avanços notáveis em suas observações da anatomia cerebral, mas suas teorias sobre o funcionamento do cérebro e as ideias derivadas de seu trabalho não são a base da compreensão científica contemporânea (Benton, 2000). Com o Renascimento e o avanço da anatomia humana prática, por meio da dissecação de cadáveres humanos em vez de animais, as descrições da anatomia cerebral se tornaram mais detalhadas e precisas. Por volta do século XIX, vários fatores contribuíram para a formação da base do aprendizado da neuropsicologia moderna. Estes incluem a identificação do córtex cerebral como a origem do comportamento inteligente, uma compreensão precisa da neuroanatomia das vias sensoriais e motoras, a concepção de que os processos mentais podem ser analisados e agrupados em conjuntos relacionados de "habilidades" e a observação de áreas específicas do cérebro cuja lesão resulta na perda de habilidades linguísticas (Benton, 2000). No início do século XIX, Franz Joseph Gall e Johann Spurzheim introduziram a frenologia, uma ciência que postulava que o desenvolvimento de diferentes faculdades mentais estava relacionado ao desenvolvimento de áreas específicas do cérebro, refletindo-se na superfície craniana por meio de saliências e depressões. O professor Joseph Millott Severn apresentava "perfis" de pessoas ou fotografias no Instituto de Frenologia de Brighton antes da Primeira Guerra Mundial. Embora as teorias sobre o desenvolvimento do cérebro e sua relação com a topografia craniana tenham sido descartadas, a frenologia pelo menos sugeriu que os traços psicológicos podem ser divididos em componentes diferentes, cada um associado a regiões específicas do cérebro (Barr; Bielauskas, 2016). Em 1861, Paul Broca comprovou que lesões em áreas específicas afetam a produção da fala, enquanto Karl Wernicke demonstrou o mesmo em relação à compreensão da fala. A partir da década de 1860, as lesões corticais em pacientes com deficiência mental foram amplamente investigadas na tentativa de mapear a relação entre o comportamento e o cérebro. Esta abordagem, conhecida como teoria da localização, atribui funções específicas a partes ou localizações precisas do cérebro e obteve certo êxito (Raymer; Rothi, 2018). No entanto, a teoria da equipotencialidade foi apoiada desde o início, 18 argumentando que o mapeamento preciso da função é impossível porque danos a diferentes locais no cérebro podem resultar no mesmo déficit específico. A teoria da equipotencialidade afirma que, embora a entrada sensorial possa ser localizada, a percepção envolve todo o cérebro e que os efeitos de uma lesão cerebral não dependem de sua localização, mas de seu grau (Kolb; Whishaw, 2006). O que realmente importa não é quais células cerebrais estão lesionadas, mas sim a quantidade delas. Essa teoria foi defendida por diversos estudiosos proeminentes no século 20, como Kurt Goldstein, Henry Hyde e Karl Lashley. No entanto, enquanto é possível estabelecer uma relação entre certas áreas do córtex cerebral e algumas funções específicas, não se pode determinar um padrão consistente de lesão cerebral com base na localização cortical. Nesse sentido, a teoria da equipotencialidade revelou-se bastante insatisfatória (Kolb; Whishaw, 2006). Embora a história da neuropsicologia, ou pelo menos as práticas e ideias que deram origem à neuropsicologia contemporânea, possa ser rastreada há séculos ou mesmo milênios, um período mais específico será delineado aqui, a partir do início do século XIX. Durante esse período, a neuropsicologia avançou significativamente por meio de estudos de casos que relacionavam lesões neurológicas específicas a alterações comportamentais anteriormente observadas apenas em autópsias (Seabra; Dias; Macedo, 2012). Durante a maior parte do século XIX, houve um debate acalorado entre duas perspectivas divergentes sobre o papel do cérebro nas funções mentais: o embate entre localizacionistas e holistas. Os localizacionistas se dedicavam a identificar áreas específicas do cérebro responsáveis por funções mentais particulares. Entre os principais proponentes dessa visão estava o médico Franz Gall, que propunha que diferentes habilidades e traços de personalidade estavam associados a distintas estruturas cerebrais e que o desenvolvimento dessas estruturas podia ser observado por meio de protuberâncias no crânio (Hamdan et al., 2011). Portanto, identificar essas saliências no crânio irá correlacionar e permitir a identificação de, por exemplo, indivíduos com maiores tendências criminosas e agressividade. Sua pseudo ciência chama-se frenologia – citada anteriormente – e é o melhor exemplo do conceito de posicionacionismo na neuropsicologia (Kristensen; Almeida; Gomes, 2001). As objeções a esse modo de pensar vêm dos chamados holistas. Para os defensores desse modelo, entre eles o médico Jean-Pierre Florence, a função mental não depende de partes específicas do cérebro, mas envolve o desempenho geral do 19 órgão. Nessa perspectiva, considera-se o princípio da equipotencialidade que postula que cada região do cérebro tem o mesmo potencial elétrico; e o efeito de massa. Portanto, significa que a localização da lesão no cérebro não importa, mas a extensão da área ressecada (Sánchez, 2021). Parte significativa do século XIX foi marcada por discussões entre modos de pensamento localizados e holísticos. De um lado, os povos originários defendem a existência de centros regionais ou funcionais; de outro, os holistas defendem a falta de especificidade funcional. A história acaba reforçando ainda mais a concepção localizacionista. Um exemplo ainda do século XIX é o paciente "Tan" avaliado pelo neurologista Paul Broca que a partir deste caso relacionou a ocorrência de lesões específicas no hemisfério esquerdo com a capacidade de fala, criando o método de pensamento anatômico-clínico em neuropsicologia, ou seja, a relação estrutura- função (Carvalho et al., 2020). A partir desses estudos iniciais nas áreas da neurologia e da linguística, a neuropsicologia começou a se firmar como uma ciência. Desta forma, adquiri o status de disciplina científica a partir do momento em que começa a desenvolver e utilizar uma metodologia própria, bem como fazer uso da tecnologia para quantificar as medidas comportamentais em vez de apenas observar mudanças de comportamento. Assim, entre meados do século XIX e parte do século XX, a neuropsicologia tornou- se uma ciência concentrada na posição neurológica da função (Carvalho et al., 2020). O século XX foi marcado por importantes avanços em duas áreas específicas da neuropsicologia: avaliação e reabilitação. Contudo, esses avanços advêm de um momento aterrador para a humanidade: a guerra. Especificamente as duas grandes guerras mundiais. A primeira fotografia conhecida de um centro de reabilitação de lesões cerebrais data de 1917, quando estava sob a jurisdição dos militares dos EUA durante a Primeira Guerra Mundial. Após a Primeira Guerra, surgiram os primeiros centros de estudo de lesões cerebrais devido ao elevado número de soldados feridos em combate. Dessa forma, a expansão das clínicas e pesquisas neuropsicológicas nesse período foi alavancada pelas consequências dos destes conflitos armados (Carvalho et al., 2020). Na época, cientistas investigavam como diferentes lesões afetavam o comportamento humano. Com mudanças culturais e avanços tecnológicos, casos de lesões cerebrais aumentaram devido a acidentes. O envelhecimento populacional também contribui para a necessidade de estudar essas condições. Assim, a pesquisa 20 neuropsicológica se torna crucial para a sociedade (Carvalho et al., 2020). 2.1.3 Neurociência A neurociência há muito tempo reconhece que não há atividade mental separada da atividade neural. Uma das implicaçõesprimordiais dessas descobertas para os psicólogos em geral, especialmente os psicólogos clínicos, é que praticamente toda intervenção psicológica visa a modificar a função da atividade neural (Landeira-Fernandes; Cruz, 2003). Nesse contexto, a Neurociência figura como campo do conhecimento perpassado pela influência dos avanços das áreas da Neuroanatomia, Neurofisiologia, Linguística, Antropologia, Filosofia, Inteligência Artificial, Psicologia Cognitiva, entre outras correlatas. Pode-se dizer que esses campos estão inter-relacionados, e o progresso em um campo leva ao progresso em outros campos. Foi na convergência dessas ciências que surgiu a neuropsicologia. Na concepção de Lúria (1981) Lefèvre (1989), Fonseca (1995), a neuropsicologia é a ciência que estuda a relação entre o cérebro e o comportamento humano. Enquanto campo de estudo específico, o seu desenvolvimento é relativamente recente, embora, conforme referido anteriormente, sua base científica seja o resultado de décadas de conhecimento e investigação. O foco da neuropsicologia reside na elaboração de uma ciência do comportamento humano com base na função cerebral. Assim, percebe-se que a compreensão das disfunções cognitivas e comportamentais, resultantes de lesões, doenças ou desenvolvimento anormal do cérebro, deriva do conhecimento sobre o desenvolvimento e função normais desse órgão. Esse entendimento é alcançado por meio de uma minuciosa inspeção funcional (Cunha, 2000). Antes de adentrar ao campo da neuropsicologia, é essencial situá-la historicamente, a fim de compreender o progresso atual na compreensão da função cerebral. No século XIX, o caso de Phineas Gage descrito por Henry Bigelow nos Estados Unidos é considerado um caso clássico da neurologia. Ao mesmo tempo, broca, da França, descobriu que a fala está localizada no hemisfério esquerdo, mais especificamente no lobo pré-frontal. Também na mesma época, na Alemanha, Wernicke mostrou que a compreensão da fala estava localizada no giro temporal esquerdo (Marcine; Lucca, 2020). Percebe-se que ao longo da história, as pessoas tentaram localizar as funções 21 mentais em diferentes partes do cérebro, mas foi com Broca que o localizacionismo se tornou um marco. Esta revisão histórica mostra o foco dos estudiosos em encontrar locais específicos para funções mentais superiores, como fala, memória, prática, gnose e assim por diante. Essas tentativas, embora atualmente não aceitas, contribuíram muito para a compreensão do cérebro e sua relação com o comportamento. Na concepção Luria (1981), considerava que os estudiosos eram progressistas em seu tempo, mas enfatizando que essa visão localizacionista tem um foco materialista nos processos mentais. A análise cuidadosa de observações clínicas mostrou que a atribuição direta de processos mentais complexos não pode ser baseada na localização, uma vez que distúrbios nesses processos, como fala, leitura, escrita e cálculo, podem surgir de condições corticais totalmente diferentes em locais diferentes. A influência de uma área limitada do córtex cerebral leva a uma perturbação de todo o processo mental, que à primeira vista parece ser completamente diferente. Essas observações provocaram debates e contestações por parte dos estudiosos, levando a uma revisão das ideias predominantes do nativismo. Isso desencadeou uma nova discussão que exigiu uma reavaliação do conceito de funções psíquicas. De acordo com Luria (1981), a complexidade da atividade humana sugere que a organização cerebral dos processos mentais complexos deve ser entendida com base no nível em que esses processos são formados, e não na localização específica do cérebro. Além disso, Luria (1981) argumenta que o comportamento humano é orientado proativamente, influenciado tanto pela experiência passada quanto pela preparação e planejamento para o futuro. O cérebro humano, resultado da evolução da espécie, é visto como um mecanismo capaz de elaborar modelos do futuro e orientar o comportamento de acordo com esses modelos. Tal como pode-se verificar, o cérebro humano começa a ser entendido de uma forma muito mais complexa. Para melhor compreensão, Luria (1981) explica que o cérebro humano é cada vez mais visto como um sistema funcional altamente complexo e estruturalmente único que funciona de acordo com novos princípios. Compreender esses princípios nunca pode ser representado por análogos mecânicos de instrumentos tão delicados deve levar os pesquisadores a desenvolver novos esquemas matemáticos que realmente reflitam a atividade cerebral. É evidente que, atualmente, há uma compreensão diferente do cérebro, 22 destacando-se a criação de cenários que refletem a atividade cerebral. Nesse contexto, a neuropsicologia desempenha um papel crucial ao investigar e elucidar esses processos. Sua pesquisa busca entender como o cérebro funciona em diversos cenários, contribuindo para avanços significativos no conhecimento sobre o comportamento humano e suas bases neurais. Assim, Luria (1981) argumenta que a funcionalidade superior adquire outro significado, pois é resultado do processo de aprendizado humano. Ele sugere que, ao nascer, os seres humanos possuem funções básicas, e as funções complexas são desenvolvidas por meio da aprendizagem. Portanto, qualquer processo mental, como percepção, memória, habilidades práticas, reconhecimento de objetos, leitura, escrita e cálculo, não pode ser atribuído a uma "capacidade" isolada, mas sim a um sistema funcional complexo que envolve uma rede de células. Assim sendo, se função é compreendida como um sistema complexo de funções, então "localização" deve ser compreendida de maneira similar. A função mental deve ser organizada em um sistema de regiões que colaboram, com cada região desempenhando seu papel em um sistema funcional complexo. Nesse sentido, a dinâmica dos processos mentais superiores no córtex cerebral não é estática ou constante, mas varia durante o desenvolvimento e as fases subsequentes de treinamento. Aqui, podemos observar a relevância da plasticidade neuronal conferida pela interação do sujeito com seu ambiente. Conforme a concepção de Luria (1981), os neuropsicólogos devem realizar uma análise minuciosa dos sintomas, isto é, da perda de função em sua prática. Para isso, é necessário examinar detalhadamente a estrutura dos déficits observados e qualificar os sintomas. Em seguida, é preciso realizar uma análise sindrômica das alterações comportamentais manifestadas em lesões cerebrais focais. Nessa perspectiva, conforme Marcine e Lucca (2020), se estabelece a relação entre a função mental e a função cerebral, argumentando que o cérebro é um sistema inter-relacionado baseado em três unidades funcionais: 1) unidade para regular o tono, a vigília e os estados mentais (área de projeção que abrange a formação reticular), 2) unidade para receber, analisar e armazenar informações (área de projeção que abrange parietal, occipital e temporal primários; área de associação que abrange parietal, occipital e temporal secundários; 3) unidade para programar, regular e verificar a atividade (área de sobreposição que abrange as áreas pré-frontais e frontais) (Marcine; Lucca, 2020, p.56). 23 As áreas projetadas estão associadas à sensibilidade, habilidades motoras, e as áreas associadas e sobrepostas estão associadas a funções mentais complexas: gnose, linguagem, esquemas corporais, memória, emoções, entre outras. Cada unidade deve ser analisada detalhadamente. Dessa forma, a primeira unidade funcional é responsável por manter um nível ótimo de tônus cortical, essencial para os processos mentais organizados. As estruturas cerebrais responsáveis por essa unidade estão localizadas no subcórtex e no tronco encefálico, mas mantêm uma relação dual com o córtex, tanto influenciando seu tônus quanto sujeitando-se à sua modulação. Essarelação é mantida por um feixe de fibras nervosas presentes no tronco encefálico chamado reticular, que pode subir e descer. A formação reticular ascendente consiste em fascículos que correm ao longo da boca e terminam em estruturas neurais superiores, como o tálamo, núcleo caudado, paleocórtex e, finalmente, estruturas no neocórtex. Em vez disso, isto é, a formação reticular descendente começa com o neocórtex, paleocórtex, núcleo caudado e núcleos talâmicos e aponta para as estruturas inferiores do mesencéfalo, hipotálamo e tronco encefálico (Luria, 1981). Segundo Luria (1981), a ativação da primeira unidade vem de três fontes, ou seja, processos metabólicos, estímulos externos e intenções e planos. Os processos metabólicos consistem em processos econômicos dentro do corpo, como digestão, atividade sexual, sede, fome, entre outros. Os estímulos externos incluem informações do ambiente externo que geram reflexos direcionais e lembram os indivíduos de prestar atenção às mudanças no ambiente. Essas premissas apontam, os planos e intenções, que representam projetos que se construíram ao longo da vida, talvez sejam a fonte de ativação mais fascinante. Grande parte da origem da atividade humana decorre da intenção (objetivo) e do planejamento, sendo os motivos sociais e estreitamente ligados à linguagem por meio de projeções e programas desenvolvidos ao longo da vida consciente humana (Luria,1981). Quanto aos distúrbios na primeira unidade, pode-se citar fadiga rápida, diminuição de tensão e atividade, letargia, concentração prejudicada e processos de memória, sem apresentar qualquer tipo de dificuldade gnóstica ou prática. A segunda unidade funcional está localizada na área lateral do neocórtex (parietal-temporal- occipital). Inclui a área occipital responsável pela visão, a área do lobo temporal responsável pelo processamento da audição e a área parietal responsável pela 24 sensibilidade geral. Composta, assim como as demais unidades, por uma estrutura hierarquizada organizada em três zonas corticais sobrepostas, a unidade é constituída pelas áreas primárias, secundárias e terciárias. As áreas primárias desempenham o papel de áreas de projeção, pois recebem ou transmitem impulsos provenientes da periferia. Apresentam máxima especificidade modal, ou seja, são responsáveis por receber informações exclusivamente visuais, auditivas ou sensitivas. Por sua vez, as áreas secundárias atuam como áreas de projeção-associação (Luria,1981). Apresentando uma baixa especificidade modal, as áreas secundárias permitem que neurônios associativos combinem informações, formando padrões funcionais essenciais para desempenhar uma função sintética. Por fim, as áreas terciárias constituem zonas de superposição. Esse sistema, o último a se desenvolver, é responsável, no ser humano, por atividades mentais mais complexas que exigem a participação coordenada de diversas áreas corticais. Compostas por neurônios multimodais, essas áreas desempenham um papel fundamental ao permitir que grupos de analisadores distintos operem em conjunto, facilitando a integração de diferentes processadores de informação (Luria,1981). No estágio inicial da vida, a área terciária encontra-se em desenvolvimento. À medida que as áreas primárias e secundárias são ativadas, a área terciária passa por um processo de mielinização completo, tornando-se dependente dessas áreas e exercendo influência sobre elas. Na infância, a ênfase recai mais sobre a área primária, enquanto, na fase adulta, a área terciária ganha maior importância. Essas três áreas mencionadas são regidas por três leis fundamentais que orientam a estrutura de seu funcionamento (Marcine; Lucca, 2020). A primeira regra estabelece a hierarquia na estrutura das áreas corticais, indicando que a área primária se desenvolve primeiro, seguida pela área secundária e, por último, a área terciária. A segunda norma refere-se à especificidade decrescente das áreas, destacando a máxima especificidade modal na área primária, uma especificidade modal em grau significativamente menor na área secundária e uma natureza multimodal na área terciária. A terceira e última regra diz respeito à lateralização progressiva das funções entre o hemisfério dominante e não-dominante, sendo a lateralização das funções complexas superiores evidenciada no córtex associativo terciário (Marcine; Lucca, 2020). Por último, temos a terceira unidade funcional, localizada nas regiões anteriores 25 dos hemisférios, anteriormente ao giro pré-central. Esta unidade é encarregada da programação, regulação e verificação da atividade que culmina na organização da atividade consciente. O ser humano elabora e planeja com uma intenção clara, uma meta (Marcine; Lucca, 2020). No que diz respeito às áreas primárias, que têm natureza projetiva e compreendem o córtex motor. Já as áreas secundárias preparam os programas motores, enquanto as áreas terciárias atuam de forma decisiva na formação das intenções, especialmente na região pré-frontal, regulando e verificando as formas mais complexas do comportamento humano. É importante destacar que o desenvolvimento da região frontal do córtex ocorre em estágios mais avançados, e Luria sugere que as crianças, entre 4 e 7 anos de idade, estão prontas para agir. Agora, após uma breve exposição dos princípios fundamentais da neuropsicologia, procederemos à análise de suas contribuições para as dificuldades de aprendizagem, uma vez que este é o foco central de nossa pesquisa (Marcine; Lucca, 2020). Conforme exposto, todas as atividades conscientes são processadas no cérebro, embora redundante, é importante salientar que o processo de aprendizagem também se desenrola nesse órgão. Destaca-se a necessidade de compreender como o cérebro funciona diante de situações de aprendizagem e dificuldades nesse processo. De acordo com Cunha (2000), inicialmente a avaliação neuropsicológica visava identificar e localizar lesões cerebrais focais. Atualmente, a abordagem se concentra na localização dinâmica de funções, investigando as funções corticais superiores como: atenção, memória, linguagem, entre outras. 2.1.4 Contribuição da neuropsicologia às dificuldades de aprendizagem Os estudos sobre aprendizagem e seus transtornos tem despertado o interesse de diversos profissionais como psicólogos, educadores, psicopedagogos, médicos, entre outros. De igual forma, têm atraído a atenção das famílias devido ao aumento no número de crianças em idade escolar que enfrentam dificuldades de aprendizagem. O princípio básico dessa preocupação, nacional e internacionalmente, tem sido a de que o sucesso educacional de um indivíduo está diretamente ligado ao seu êxito profissional na sociedade em que vive (Mafra et al., 2020). Nas palavras de Rosa e Furlan (2022), assim como o desenvolvimento, a aprendizagem é uma expressão interna onde ninguém pode aprender em nosso lugar, 26 mas aprende-se por meio de interações sociais com outras pessoas que atuam como facilitadores dos conteúdos culturais presentes no currículo escolar. A sala de aula constitui-se como o espaço onde as dificuldades de aprendizado tornam-se evidentes e serve como campo de investigação e experimentação para avaliar a aprendizagem, bem como porpor intervenções práticas. A avaliação inicial e de referência do professor pode ser útil para a identificação de dificuldades de aprendizagem. Pinheiro et al. (2022) aponta que do ponto de vista neuropsicológico, as dificuldades de aprendizado são analisadas como um quadro de distúrbios sistêmicos e parciais da aprendizagem escolar que surgem devido a uma disfunção de um ou vários sistemas cerebrais. Esses sistemas cerebrais são responsáveis por garantir o desenvolvimento de uma ou várias conexões interligadas dentro da estrutura psicológica no processo de aprendizagem. Se ocorrerem falhas nesse processo,a aprendizagem sofre comprometimento. Tanto para o Código Internacional de Doenças (CID-10) quanto para o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV), o distúrbio de aprendizagem ou transtornos das habilidades acadêmicas é categorizado em três modos exclusivos: transtorno específico de leitura; transtorno específico da escrita; e transtorno específico do cálculo aritmético. Outros termos utilizados para descrever esses quadros de distúrbios de aprendizagem são: dislexia; disgrafia; e discalculia. Conforme o DSM-IV, o distúrbio de aprendizagem é considerado um transtorno específico do desenvolvimento. Os subtipos específicos de transtorno de desenvolvimento incluem transtornos das habilidades acadêmicas, transtorno de linguagem e fala, e transtorno das habilidades motoras (Alves et al., 2020). Dentro desta ótica, de acordo com Olivier (2020), fatores genéticos, alterações graves no Sistema Nervoso Central (SNC), peso reduzido ao nascimento, desnutrição, problemas sensoriais e motores, doenças crônicas, uso de medicamentos, dificuldades familiares, psicossociais, psiquiátricas, pedagógicas, entre outros, são considerados elementos de risco para as dificuldades de aprendizagem Conforme a concepção de Moro e Carlesso (2019), foi estabelecida uma classificação ao discutir os problemas de aprendizagem. O Distúrbio de aprendizagem é definido como uma disfunção do Sistema Nervoso Central, relacionada a uma "falha" no processo de aquisição e processamento da informação, demonstrando, portanto, uma natureza funcional distinta. Por outro lado, a Dificuldade Escolar está principalmente associada a problemas de natureza pedagógica, emocional e/ou sócio- 27 cultural. O comprometimento do sistema nervoso muitas vezes é evidenciado por sinais menores, tais traços neurológicos menores podem ser observados ativos no processo de aprendizagem acadêmica. Dessa maneira, são passíveis de observação sutil e tardia. Portanto, o distúrbio de aprendizagem pode ser compreendido como um indicador de alterações neuro funcionais percebíveis no escolar (Relvas, 2023). De acordo com Rodrigues (2022), transtornos, dificuldades, distúrbios e problemas de aprendizagem são termos frequentemente utilizados para descrever as variações que muitas crianças apresentam na aquisição de conhecimentos, habilidades motoras e psicomotoras, no desenvolvimento afetivo e em outras áreas. No contexto do modelo neuropsicológico das dificuldades de aprendizagem, busca-se compilar uma gama de funções mentais superiores associadas à aprendizagem simbólica, as quais, evidentemente, apresentam correlação com a organização funcional do cérebro. Sem essa condição, a aprendizagem não ocorre de maneira normal. Nesse cenário é possível deparar-se com disfunção ou lesão cerebral. No entendimento de Relvas (2023), a contribuição da avaliação neuropsicológica da criança é ampla no processo de ensino-aprendizagem, pois permite estabelecer conexões entre as funções corticais superiores como linguagem, atenção, memória e aprendizagem simbólica (conceitos, escrita, leitura, etc.). O modelo neuropsicológico das dificuldades da aprendizagem busca integrar um conjunto de funções mentais superiores envolvidas na aprendizagem simbólica, as quais estão correlacionadas a organização funcional do cérebro. Sem essa condição a aprendizagem não ocorre normalmente. As avaliações neuropsicológicas são capazes de descrever as características de indivíduos com transtornos específicos de aprendizagem, pois diferentes condições patológicas podem se manifestar de maneira semelhante e difíceis de distinguir. Portanto, podem passar despercebidas sem uma avaliação detalhada. Assim, a avaliação ajudará no diagnóstico diferencial e no planejamento da intervenção direcionadas para cada paciente. Além disso, Relvas (2023) destaca que no processo de avaliação é crucial considerar as áreas deficitárias e as áreas preservadas que podem ser reabilitadas. Inicialmente, é conduzida uma entrevista preliminar para compreender a história de vida do paciente, suas relações e interações com a família nuclear, escolar e comunidade, bem como seu envolvimento com as atividades acadêmicas. Dessa 28 forma, a importância da avaliação neuropsicológica também reside em subsidiar o cuidado do indivíduo e fornecer informações relevantes sobre suas habilidades e limitações. Além disso, busca enfatizar a importância da adesão ao tratamento. Para Pinheiro (2022), a relevância da abordagem neuropsicológica da aprendizagem reside no reconhecimento dos quadros clínicos caracterizados pelas bases anátomo-funcionais do cérebro, e não na natureza dos testes utilizados. Ao oferecer subsídios para investigar a compreensão do funcionamento intelectual da criança, a neuropsicologia pode capacitar diversos profissionais, como psicólogos e psicopedagogos, facilitando uma intervenção terapêutica mais eficaz. A avaliação neuropsicológica é empregada para identificar deficiências, avaliar sua relevância e alcance, estabelecer conexões entre elas, determinar seu impacto no funcionamento global do indivíduo e relacionar essas deficiências específicas do ponto de vista neuropatológico (Relvas, 2023). Segundo Pinheiro (2022), a avaliação neuropsicológica é recomendada em situações em que há incertezas quanto a dificuldades cognitivas ou comportamentais de origem neurológica. Esse tipo de exame pode auxiliar no diagnóstico e tratamento de diversas condições neurológicas, problemas de desenvolvimento na infância, distúrbios psiquiátricos, alterações de comportamento, entre outros. Os instrumentos utilizados nesse procedimento possibilitam uma avaliação abrangente tanto das habilidades da criança quanto das dificuldades que ela enfrenta em seu cotidiano. O propósito é prevenir que as dificuldades surgidas atrapalhem o desenvolvimento saudável da criança. Conforme mencionado por Relvas (2023), a avaliação neuropsicológica tem sido uma ferramenta crucial para profissionais de diversas áreas, pois oferece aplicações amplas em diferentes contextos. Ao analisar esse cenário, podemos afirmar que a avaliação neuropsicológica se revela como um processo complexo, abrangendo efetivamente a avaliação de todas as funções mentais superiores relevantes para a aprendizagem, incluindo os conteúdos escolares. Apesar de existirem atualmente outras abordagens de avaliação neuropsicológica, optamos por essa em nosso trabalho devido ao seu embasamento em autores considerados fundamentais para a compreensão do desenvolvimento infantil, destacando-se as contribuições de Piaget2. Em síntese, abordar as dificuldades de aprendizagem é uma tarefa 2 Jean Piaget (1896-1980) foi um psicólogo suíço que dedicou sua vida ao estudo do desenvolvimento cognitivo infantil (Parrat-Dayan, 2012). 29 desafiadora, dada a complexidade de fatores envolvidos. No entanto, mostra-se imperativa a busca por métodos de avaliação e intervenção cada vez mais apropriados que permita aos profissionais psicólogos, médicos, fonoaudiólogos e pedagogos verdadeira contribuição de maneira eficaz para o desenvolvimento de crianças, orientando-as em direção a uma vida saudável. Ademais, é relevante não permitir que crianças com dificuldades de aprendizagem fiquem à margem da sociedade, como muitas vezes ocorre em nosso atual sistema educacional, uma vez que isso pode acarretar problemas significativos em sua autoestima e contribuir para a construção inadequada de sua identidade. 2.2 Escala Wechsler de Inteligência A trajetória do WISC teve início na década de trinta quando David Wechsler, desempenhando o papel de psicólogo no Hospital Bellevue em Nova York, identificou a necessidade de um instrumento capaz de avaliar a inteligência de seus clientes adultos. Isso se deu, pois os testes disponíveis na época, como o Stanford-Binet, eram voltados predominantementepara a população infantil (Butcher, 1981; Cronbach, 1996). Após uma extensa análise, que incluiu uma cuidadosa revisão dos testes já padronizados, Wechsler introduziu em 1939 a Escala de Inteligência Wechsler- Bellevue, destinada à avaliação intelectual de adultos (Wechsler, 1944). Durante a Segunda Guerra Mundial, Wechsler desenvolveu a forma II da Escala de Inteligência para Adultos (WAIS), bem como a WISC e a Escala Wechsler de Inteligência para Pré-Escolares (WPPSI). A primeira edição do WISC, lançada em 1949, foi concebida como uma extensão para faixas etárias mais jovens da Wechsler-Bellevue, incorporando os itens mais acessíveis dessa última, especialmente em sua forma II (Wechsler, 1944). Inicialmente, David Wechsler foi influenciado pelo modelo Teórico de Spearman3, no entanto, ao longo do tempo e com base em sua experiência clínica, ele chegou à conclusão de que a inteligência geral não podia ser simplesmente equiparada à habilidade intelectual. Gradualmente, Wechsler passou a considerar a inteligência como uma manifestação da personalidade. Nesse contexto, ele definiu a 3 A teoria de Spearman estimulou o desenvolvimento de diversas pesquisas sobre a inteligência humana, seus componentes e suas relações com outras variáveis (Cook, 2021). 30 inteligência como um agregado ou uma capacidade global do indivíduo para agir intencionalmente, pensar racionalmente e relacionar-se de maneira eficaz com seu ambiente (Wechsler, 1944). O termo "global" foi empregado por Wechsler porque, em sua concepção, a inteligência representaria o comportamento inteligente de maneira abrangente, sendo uma entidade multifacetada composta por diversos e numerosos componentes. Além disso, essa inteligência não estaria restrita a habilidades específicas, abrangendo tanto aspectos cognitivos quanto componentes afetivos e conativos, os chamados aspectos não-intelectivos (Wechsler, 1944; Wechsler, 1975). Os elementos não-cognitivos são considerados traços de personalidade e atitude que exercem influência na manifestação do comportamento inteligente. Aspectos como motivação, dependência e independência, impulsividade, ansiedade e persistência são exemplos desses componentes (Wechsler, 1944; Wechsler, 1950; Wechsler, 1975; Zachary, 1990). Nesse contexto, a inteligência vai além da mera habilidade de aprender, abstrair ou extrair proveito de experiências, sendo também uma capacidade de adaptação e realização. Dessa forma, as habilidades intelectuais por si só podem ser inadequadas para a execução de uma tarefa ou a adaptação ao ambiente (Wechsler, 1950). Segundo Wechsler (1944) a ideia de que o comportamento inteligente vai além da mera capacidade intelectual pode ser respaldada por duas evidências: uma de natureza clínica e outra estatística. No contexto clínico, observava-se que indivíduos com Quociente de inteligência (QI) idêntico apresentavam diferenças significativas em sua habilidade para lidar com o ambiente. A perspectiva estatística evidenciava a impossibilidade de explicar mais do que 50% a 70% da variância correlacional entre os testes, mesmo após conhecer os componentes intelectuais. Assim, os 50% a 30% restantes da variância fatorial só poderiam estar relacionados aos componentes não intelectivos. Quanto aos fatores não-intelectivos, Wechsler (1944) baseou suas concepções em diversos estudos. Um desses estudos, conduzido em 1913 por Webb, utilizou análise fatorial em uma bateria de testes, identificando o fator "w" associado à moral, sendo denominado "escrupulosidade". Posteriormente, Lankes e Wynn Jones, em anos subsequentes, evidenciaram outro fator não-intelectivo conhecido como "p", referente à perseveração, ou seja, a propensão dos sujeitos em resistir a mudanças. Além disso, Cattell, em 1933, demonstrou correlações entre testes de temperamento 31 e níveis de inteligência, corroborando a presença de traços de caráter como fatores em testes de inteligência. Contudo, dentre os vários estudos, Wechsler (1944) ressaltou o trabalho de William Patterson Alexander como o que mais contribuiu para a identificação dos fatores não-intelectivos. Ao analisar a variância intercorrelacional de testes verbais, de performance e de desempenho acadêmico, Alexander observou que, além dos fatores g (geral), v (habilidade verbal) e p (habilidade prática), dois novos fatores, designados como fator x e fator z, contribuíam significativamente para a variância total. Esses fatores adicionais estavam relacionados ao interesse e à persistência do sujeito na realização de tarefas específicas, podendo ser descritos como elementos de personalidade ou temperamento que desempenhavam um papel relevante no desempenho acadêmico. No contexto específico do fator χ, este estaria relacionado ao interesse individual, não se vinculando às habilidades, mas sim ao temperamento. Por sua vez, o fator Z representaria um componente do temperamento associado à realização. Importa destacar que, embora os fatores χ e Z pudessem variar consideravelmente entre diferentes testes, a presença de ambos foi identificada por Alexander na maioria dos instrumentos examinados. A compreensão da inteligência como uma capacidade global demanda a clareza sobre o significado e a importância dos fatores não-intelectivos. Além de ser considerada global, Wechsler a definiu também como um "agregado". Pois, conforme suas concepções, seria composta por diversas habilidades que embora não totalmente independentes, apresentariam diferenças qualitativas. Contudo, é crucial notar que o termo "agregado" não implica na ideia equivocada de que Wechsler via a inteligência como uma simples soma de habilidades. Isso porque o comportamento inteligente não se resume apenas à quantidade ou aos tipos de habilidades, mas também à forma como essas habilidades estão combinadas (Wechsler, 1944). Os princípios estabelecidos por Wechsler levaram-no à convicção de que tarefas padronizadas, como o próprio WISC, não seriam capazes de avaliar de forma abrangente a capacidade intelectual. No entanto, ele acreditava que essas tarefas poderiam mensurar os principais aspectos da inteligência e proporcionar índices confiáveis da capacidade global de cada indivíduo (Wechsler, 1991). Simultaneamente ao reconhecer a impossibilidade de os instrumentos avaliarem a inteligência em sua totalidade, Wechsler (1944) apontou que os testes 32 mensuravam não apenas capacidades de aprendizagem, raciocínio ou mesmo a inteligência geral, mas também outras habilidades que não poderiam ser definidas puramente como cognitivas ou intelectuais: aquelas relacionadas aos fatores não- intelectivos, como o “X” e o "Z", mencionados anteriormente. Nesse contexto, a eficácia na avaliação da inteligência de um teste seria menor quanto mais excluídos fossem os fatores não-intelectivos. Assim, torna-se necessário elaborar instrumentos nos quais tais fatores estejam claramente presentes (Wechsler, 1944; Wechsler, 1949). Importante destacar que Wechsler, ao enfatizar a importância da presença de fatores não-intelectivos nos testes de inteligência, não buscou afirmar que esses instrumentos avaliariam a personalidade, mas sim que continham elementos que eram essencialmente fatores de personalidade. Desse modo, como ilustrado pelo próprio Wechsler (1950), um neurótico poderia apresentar um desempenho inferior à média no subteste Números não devido a uma dificuldade de memorização, mas sim devido à ansiedade mobilizada pelo teste. Isso significa que o desempenho do sujeito seria influenciado pelos fatores não- intelectivos, pois a inteligência estaria contida ou faria parte de uma estrutura maior, a personalidade. Da constatação de que as atividades padronizadas para avaliação da capacidade intelectual não conseguem mensurar integralmente a inteligência, talvez decorram considerações semelhantes às de Matarazzo (1990)e Almeida e Mettrau (1995), as quais apontam que a avaliação da inteligência não deve se limitar aos dados obtidos por meio de testes. Nesse sentido, cabe ao psicólogo levar em conta informações da história de vida do sujeito, como antecedentes sociais e culturais, processo de desenvolvimento, além de considerar suas próprias observações. Abordadas as principais noções de Wechsler sobre a inteligência, é importante esclarecer que sua teoria é considerada uma teoria fatorialista, mesmo que a ênfase não tenha sido na descrição detalhada dos fatores representativos das capacidades intelectuais. Nesse sentido, embora tenha definido a inteligência como um construto unitário e global, o modelo teórico de Wechsler seria, de acordo com Zachary (1990), implicitamente hierárquico e, portanto, fatorial. Mesmo que Wechsler não tenha tido a intenção de formular uma teoria hierárquica e criar um instrumento que avaliasse a inteligência de acordo com tal modelo, várias análises têm confirmado um suporte hierárquico subjacente às suas concepções e, consequentemente, às suas escalas. Uma dessas análises foi conduzida por Kaufman (1975), que, ao examinar os 33 dados de padronização da WISC-R, identificou a presença de três fatores: Compreensão Verbal, Organização Perceptual e Resistência à Distrabilidade. O fator de Compreensão Verbal estaria relacionado a um construto que Wechsler buscava avaliar por meio da Escala Verbal, enquanto o fator de Organização Perceptual estaria associado à Escala de Execução. Por outro lado, o fator de Resistência à Distrabilidade seria considerado um atributo comportamental (Kaufman; Reynolds, 1983), sendo percebido como um fator menos significativo em comparação aos dois anteriores (Kaufman; Harrison; Ittenbach, 1990). Um quarto fator, chamado "Velocidade de Processamento", foi identificado por meio da aplicação do método de análise fatorial nos subtestes do WISC III (Wechsler, 1991). Além destes quatro fatores, estudos relacionados aos subtestes das Escalas Wechsler, como o conduzido por Wallbrown et al. (1974), evidenciaram a presença de um fator global de inteligência. Segundo Zachary (1990), o modelo de Wechsler, implicitamente hierárquico, seria representado pelo fator global no topo e pelos fatores verbal e de performance em um nível secundário. As iniciativas de isolar fatores contribuíram, conforme Cunha (1993), para uma melhor compreensão dos resultados obtidos na aplicação das Escalas criadas por Wechsler. Em última análise, é importante destacar que o propósito fundamental deste estudo foi proporcionar uma compreensão dos aspectos teóricos relacionados à Escala WISC, enfatizando que um instrumento apropriado sempre deve ter sua fundamentação em uma teoria. Em outras palavras, mensurar um constructo de forma adequada só é possível após sua definição e compreensão exaustivas. 2.2.1 WISC-IV Atendendo a essas propostas, as escalas Wechsler de inteligência têm sido sujeitas a revisões periódicas. Em 1939, foi introduzida a primeira Escala Wechsler- Bellevue, que incluía subtestes verbais e de execução para avaliar a inteligência de crianças e adultos. Em 1949, foi desenvolvida uma versão do teste para crianças em idade escolar (WISC), e em 1974 foi publicada uma forma revisada (WISC-R), que atualizou as normas sem modificar a estrutura geral do instrumento (Vidal et al., 2011). O WISC-III foi lançado em 1991 e foi aprimorado com mudanças nos itens, introdução de materiais coloridos, reforço da validade e a adição de um novo subteste, além da atualização das normas. Essas modificações contribuíram para fortalecer a 34 estrutura de quatro fatores na terceira edição do teste (Vidal et al., 2011). Em 2003, no WISC-IV, foram introduzidos dois tipos de ajustes mais relevantes para a teoria: (a) modificação dos rótulos de dois fatores, denotando uma redefinição dos construtos subjacentes: Resistência à Distração recebeu a denominação de Working Memory – introduzida pelo WAIS-III e traduzida como Memória de Trabalho (MT) ou Memória Operacional (MO) na adaptação brasileira, enquanto o fator Organização Perceptual ficou nomeado como Raciocínio Perceptual (RP); (b) simplificação do modelo hierárquico fatorial: foram extintos o QI Verbal (QIV) e o QI de Execução (QIE), com o qual desapareceu a hierarquização que agrupava os quatro fatores em duas grandes áreas. Pelo novo modelo, o QIV ficou assimilado ao índice de Compreensão Verbal (CV) e o QIE equiparou-se ao índice RP. Os fatores CV e Velocidade de Processamento (VP) não foram renomeados (Vidal et al., 2011, p. 205). A organização do instrumento também passou por outras mudanças práticas significativas: três subtestes foram retirados (Arranjo de Figuras, Armar Objetos e Labirintos), enquanto cinco novos foram adicionados (Sequência de Números e Letras, Raciocínio Matricial - ambos adaptados do WAIS-III - e os inéditos Raciocínio com Palavras, Conceitos em Imagens e Cancelamento). No WISC-III, eram realizados dez subtestes, resultando em três QIs, ou doze subtestes, resultando, além dos QIs, em quatro índices fatoriais (Figueiredo, 2001). No modelo da quarta edição, os quatro índices são obtidos por meio dos dez subtestes principais. Assim, dos 15 subtestes totais, cinco são mantidos como suplementares, funcionando como substitutos caso algum não seja aplicável, como em casos de dificuldades sensoriais ou motoras da criança (Kaufman et al., 2006). Além disso, o WISC-IV reduziu o tempo necessário para a aplicação, simplificou a administração dos itens e introduziu os Escores de Processo. Esses escores são novos indicadores que fornecem informações mais detalhadas sobre os processos cognitivos envolvidos na realização das tarefas de alguns subtestes (como Cubos sem bônus de tempo; Dígitos na ordem direta e na ordem inversa; Cancelamento aleatório e estruturado) e são apresentados em uma escala com média de dez e desvio padrão de três. O material também foi atualizado em relação à portabilidade e apresentação visual (Vidal et al., 2011). O lançamento do teste nos EUA também introduziu uma versão em espanhol para crianças que têm esse idioma como língua principal, melhorias nos índices de confiabilidade, estudos de validação em 16 grupos clínicos distintos e correlações com outros testes, como o WIAT (Wechsler Individual Achievement Test), o CMS 35 (Children’s Memory Scale), o GRS (Gifted Rating Scale) e outros. Mais tarde, foi lançado o WISC-IV Integrado, exclusivamente em inglês, destinado a explorar, em crianças com dificuldades específicas, as mesmas habilidades avaliadas pelo WISC- IV (Vidal et al., 2011). A nova edição do teste reflete o interesse e a atenção da editora americana em manter o instrumento atualizado, especialmente do ponto de vista teórico, e o alto nível de suas características psicométricas. No Brasil, são necessários estudos para verificar se os novos subtestes avaliam os mesmos construtos definidos para o contexto norte-americano. O processo de adaptação permitirá que os pesquisadores brasileiros se beneficiem das melhorias feitas no teste. Conclui-se que as modificações implementadas no WISC-IV foram significativas, tanto no que diz respeito à redefinição dos construtos avaliados quanto à estrutura geral do instrumento. Com todas essas alterações, é provável que os psicólogos encontrem resistência inicial ao utilizar o novo teste. Com o intuito de antecipar essas possíveis dificuldades e atualizar os profissionais brasileiros, elaborou-se a presente nota técnica. 2.3 Subtestes principais O WISC-IV, uma das principais ferramentas de avaliação psicológica empregada em crianças e adolescentes, é constituído por 15 subtestes que examinam uma diversidade de habilidades cognitivas. Esses subtestes são organizados em quatro índices principais: CV, OP, MP e VP. Os índices oferecem uma compreensão