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Modulo 01: Mito e Filosofia O MITO É quase um consenso entre os estudiosos de Filosofia que existiu uma forma anterior à das explicações filosóficas, que podemos denominar de explicação mítica. Chamaremos aqui, pois, de mito, toda tentativa de explicação que antecede, em uma sociedade humana, as buscas de compreensão ancoradas mais firmemente na razão (Filosofia) ou mesmo em tentativas de experimentação para as teorias propostas (Ciência). O ser humano, nos primeiros estágios de seu desenvolvimento rumo à racionalidade, tinha extrema dificuldade para explicar os fenômenos que o cercavam. Qual é o motivo para períodos longos de seca, seguidos de outros, abundantes de chuvas? Por que, enquanto chove, os raios e os trovões se fazem presentes? Em função de quê a alternância do dia e da noite? Ou de forma mais existencial: De onde viemos? Para onde vamos? O que estamos exatamente fazendo aqui? Na ausência de respostas racionais ou científicas para questões de tão necessária compreensão, surgem então as explicações míticas. De acordo com Auguste Comte, num primeiro momento, as divindades serão forças da natureza fetichizadas, ou seja, que ganham uma vida diferente daquela que realmente possuem, e o sol se transforma em divindade, e a lua em outra, e a floresta em outra. As divindades africanas, presentes na umbanda ou no candomblé, até hoje são ligadas a forças ou elementos da natureza. Desse modo surgem também as divindades gregas, como Poseidon, o deus das águas, Atena, a deusa da sabedoria, ou Afrodite, a deusa do amor. Vale ressaltar que os deuses gregos são antropomórficos, ou seja, possuem forma humana, e, além disso, sentimentos humanos, como amor, e ódio. Mentem, enganam, o que demonstra claramente sua imperfeição, e não são, como o Deus abraãmico, seres com poder ilimitado. A dificuldade de explicação racional citada acima no texto, assim, não permitia aos gregos conhecer muitas coisas que os cercavam, tais como os fenômenos da natureza, e quando se deparavam com algo que, para eles, era inexplicável (como o trovão e o relâmpago, por exemplo) estes homens se espantavam, isto é, temiam, naturalmente, o desconhecido. Contudo buscavam conhecer o que estava acontecendo ao seu redor, isto é, conhecer a ordem natural do mundo, o que implica, também, compreender as causas e efeitos dos fenômenos naturais. A COSMOGONIA A palavra cosmogonia vem da junção de duas palavras Gregas, quais sejam: Cosmos que significa mundo ordenado e organizado e gonia que significa geração, nascimento. De maneira que cosmogonia pode ser compreendida como uma narrativa sobre o nascimento e a organização do mundo, a partir de forças gerativas. A MITOLOGIA A primeira explicação encontrada por estes indivíduos para os fenômenos se pautou na formação da sua primeira idéia de divindade, ou seja, os deuses criaram os relâmpagos e os trovões no intuito de se comunicar com os homens. Como já foi dito anteriormente, o conhecimento desses primeiros homens era estritamente baseado nos sentidos e, por isso, percebe-se nos relatos mitológicos a menção a deuses, com características humanas (como Zeus que trai sua esposa Era com uma humana e tem um filho semi-Deus, Hércules; alem das constantes lutas entre os deuses), sendo que, de certo modo, existia um Deus para cada necessidade dos homens. Talvez por essa razão, atualmente, tem-se os mitos como fábulas ou contos folclóricos, o que é completamente errado. Os mitos gregos são provenientes de uma tradição oral muito forte, como na maioria dos povos antigos, sociedades ágrafas, transmitida de geração em geração pelos poetas. É necessário distinguir, no entanto, duas classes de poetas, quais sejam: os aedos, aos quais á atribuída a autoria das narrativas, dos quais os principais exemplos são Hesíodo (Teogonia) e Homero (Ilíada e Odisséia); e os rapsodos, responsáveis pela transmissão oral dos poemas. A questão central é que os autores dos poemas não são exatamente os aedos, mas as divindades que falariam por meio deles, como se pode notar pela citação abaixo, que pertence ao início da Ilíada, de Homero. Canta-me a cólera – ó deusa – funesta de Aquiles Pelida, causa que foi de os Aquivos sofrerem trabalhos sem conta e de baixarem para o Hades as almas de heróis numerosos e esclarecidos, ficando eles próprios aos cães atirados e como pasto das aves. (HOMERO. Ilíada. Rio de Janeiro: Ediouro, 1996, p.43) Quem narra é a deusa, a musa, e isso está bem claro na passagem. É isso que faz com que o mito seja tão respeitado, à semelhança da Bíblia, escrita por homens e inspirada por Deus, e é esse o motivo pelo qual somente a confluência de uma série de fatores históricos, no seu conjunto, permitiu que essa forma de explicação de mundo fosse questionada com eficácia no imaginário grego. A guerra de Tróia, por exemplo, ocorre por causa de intrigas entre os deuses e deusas do Olimpo, e seu desfecho, a queda das muralhas, foi decidido pelo príncipe troiano Páris, antes sequer dos conflitos terem início. A idéia de um destino imutável e controlado pelos deuses é uma das estruturas lógicas presentes nas explicações míticas. O processo de ordenamento do mundo também é explicado, lembrando que para o grego não existe criação, pois tudo que existe sempre existiu. O surgimento ou domínio de alguns instrumentos ou técnicas, como o uso do fogo, também estaria explicado nas narrativas míticas. O NASCIMENTO A FILOSOFIA: LOGOS CONDIÇÕES HISTÓRICAS QUE PROPICIARAM O SURGIMENTO DA FILOSOFIA Por um longo período, que vai aproximadamente do século VIII ao V a.C, diversas condições foram amadurecendo e favorecendo o aparecimento e a consolidação de uma forma mais racional de compreensão da realidade e dos próprios seres humanos. É sempre importante lembrar que não há uma ruptura entre o mito e o pensamento filosófico, visto que os mitos continuam presentes na vida de grande parte da população, ao passo que a filosofia, no começo, era prática de poucos, extremamente elitizada que era. Dentre os principais fatores históricos que, na sua confluência, resultaram em um maior espaço para a aparição de explicações racionais, seguem-se os mais relevantes. - AS VIAGENS MARÍTIMAS, que geraram dois efeitos mais diretos: as trocas culturais, que conduziram os gregos a um contato com outros povos que originou a geometria, por exemplo, em função da experiência egípcia, ou a história, derivada das genealogias dos babilônios; e o descrédito com relação à palavra do poeta, pois a desmistificação se deu, nesse momento, com a decadência do mito. Vale ressaltar que quem narrava os eventos passados não era exatamente o poeta, simples transmissor das informações que recebia das musas, que consistiam em divindades gregas. - A INVENÇÃO DO CALENDÁRIO, que demonstra o amadurecimento da capacidade de abstração ao qual havia chegado o povo grego, pois rompe-se com o tempo cíclico, baseado principalmente na natureza, para adotar uma noção linear, baseada sobretudo na observação astronômica, que permite, inclusive, uma maior precisão na datação dos eventos. - A INVENÇÃO DA MOEDA, que permitiu uma forma de troca que não se realizava através das coisas concretas ou dos objetos concretos trocados por semelhantes, mas uma troca abstrata, uma troca feita pelo cálculo do valor semelhante das coisas diferentes, revelando, portanto, uma nova capacidade de abstração e de generalização; - A INVENÇÃO DA ESCRITA ALFABÉTICA, que conduz, com a diminuição considerável do número de símbolos, assim como com a ampliação de seu grau de abstração, uma maior democratização do contato com a escrita. Vale ressaltar que os gregos não inventaram a escrita, mas um alfabeto com um número bastante reduzido de signos. A filosofia, assim como qualquer conhecimento sistematizado, demanda registro, por isso a escrita alfabética é tão relevante. - O SURGIMENTO DA POLIS (Cidade Estado), As póleis eram cidades relativamentepequenas, com autonomia bélica, econômica e política. Em função da geografia do território grego, extremamente acidentado, não foi possível organizar um grande império, o que conduziu à formação das Cidades Estados. Atenas, por exemplo, representa até hoje um modelo de democracia direta, aquela em que todos os cidadãos auxiliam a decidir as questões políticas. Na ágora, espaço circular no centro da cidade, os cidadãos se reuniam para decidir os rumos a serem tomados pela coletividade. Deve-se lembrar, no entanto, que os critérios de cidadania só abrangiam os homens, com maioridade, filhos de mulheres atenienses, que tivessem terras e escravos. Isso correspondia, na prática, a mais ou menos 10% da população total. No entanto, isso é muito diferente de uma época na qual as divindades falavam e os homens simplesmente concordavam em função da autoridade de quem falava. A COSMOLOGIA A palavra cosmologia é derivada de duas palavras Gregas, a saber: Cosmos que significa mundo ordenado e organizado e logos que significa pensamento racional. Dessa forma podemos defini-la como a busca de um conhecimento racional acerca da ordem do mundo, estudo do mundo existente, diferente das cosmogonias míticas, que se pretendiam narrativas de como a realidade havia se originado ou funcionava. A PALAVRA FILOSOFIA – PHILO-SOPHIA É atribuída ao filósofo grego Pitágoras de Samos (aquele do teorema!) a formulação da palavra filosofia. Ele afirmara que pertence aos deuses a sabedoria plena e completa, mas que os homens podem desejá-la ou amá-la, tornando-se filósofos. A palavra filosofia é grega. É composta por duas outras: philo e sophia. Philo deriva-se de philia, que significa amizade, amor fraterno, respeito entre os iguais. Sophia, quer dizer sabedoria e dela vem à palavra sophos, sábio. Filosofia significa, portanto, o amor, no sentido de amizade, pela sabedoria, e a postura do filósofo é justamente a daquele que busca constantemente, ciente que jamais possuirá totalmente o objeto do seu amor. De acordo com o filósofo da ciência do século XX Karl Popper, quanto mais conhecimento, maior é a consciência do indivíduo de sua ignorância. O Pensador Auguste Rodin Desse modo, a prática filosófica dispensa o pedantismo, o exibicionismo intelectual, a arrogância. É em função disso que Sócrates se transforma no filósofo por excelência, com sua conhecida máxima: sei que nada sei. Exercícios propostos: QUESTÃO 01: (Unimontes) O conhecimento científico é uma conquista recente da história da humanidade. Ele tem apenas pouco mais de trezentos anos e surgiu no século XVII com a revolução galileana. Durante vários séculos, as indagações humanas foram respondidas de forma mitológica e com conceitos filosóficos e teológicos. Quando estudamos a questão do conhecimento, temos a percepção de que somente a ciência tem a resposta definitiva para os problemas da vida humana. Das afirmações abaixo que se referem à ciência, marque a CORRETA. A) A ciência não é a única maneira de responder às questões da vida. Podemos também encontrar respostas satisfatórias nos mitos e na religião. B) A ciência é a única forma absoluta de responder às questões do nosso tempo, pois somente ela possui a verdade. C) A ciência é irrefutável e somente ela possui a verdade. D) A ciência é a única via de resposta para a história da humanidade, pois somente ela possui métodos seguros e irrefutáveis. QUESTÃO 02: (UFU) Leia o texto e as assertivas abaixo a respeito das relações entre o nascimento da filosofia e a mitologia. O nascimento da filosofia na Grécia é marcado pela passagem da cosmogonia para a cosmologia. A cosmogonia, típica do pensamento mítico, é descritiva e explica como do caos surge o cosmos, a partir da geração dos deuses, identificados às forças da natureza. Na cosmologia, as explicações rompem com a religiosidade: a arché (princípio) não se encontra mais na ordem do tempo mítico, mas significa princípio teórico, enquanto fundamento de todas as coisas. Daí a diversidade de escolas filosóficas, dando origem a fundamentações conceituais (e portanto abstratas) muito diferentes entre si. ARANHA, M. L. A; MARTINS, M. H. P. Filosofando. São Paulo: Moderna, 1993, p. 93. I - Uma corrente de pensamento afirma que houve ruptura completa entre mito e filosofia, tal corrente é a que defende a tese do milagre grego. II - Outra corrente de pensamento afirma que não houve ruptura completa entre mito e filosofia, mas certa continuidade, é a que defende a tese do mito noético. Assinale a alternativa correta. A) I é falsa e II verdadeira. B) I é verdadeira e II falsa. C) I e II são verdadeiras. D) I e II são falsas. QUESTÃO 03: (UFU) A atividade intelectual que se instalou na Grécia a partir do séc. VI a.C. está substancialmente ancorada num exercício especulativo-racional. De fato, ―[...] não é mais uma atividade mítica (porquanto o mito ainda lhe serve), mas filosófica; e isso quer dizer uma atividade regrada a partir de um comportamento epistêmico de tipo próprio: empírico e racional‖. SPINELLI, Miguel. Filósofos Pré-socráticos. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1998, p. 32. Sobre a passagem da atividade mítica para a filosófica, na Grécia, assinale a alternativa correta. A) A mentalidade pré-filosófica grega é expressão típica de um intelecto primitivo, próprio de sociedades selvagens. B) A filosofia racionalizou o mito, mantendo-o como base da sua especulação teórica e adotando a sua metodologia. C) A narrativa mítico-religiosa representa um meio importante de difusão e manutenção de um saber prático fundamental para a vida cotidiana. D) A Ilíada e a Odisseia de Homero são expressões culturais típicas de uma mentalidade filosófica elaborada, crítica e radical, baseada no logos. Questões Enem: QUESTÃO 01: “Entre os ‘físicos’ da Jônia, o caráter positivo invadiu de chofre a totalidade do ser. Nada existe que não seja natureza, physis. Os homens, a divindade, o mundo formam um universo unificado, homogêneo, todo ele no mesmo plano: são as partes ou os aspectos de uma só e mesma physis que põem em jogo, por toda parte, as mesmas forças, manifestam a mesma potência de vida. As vias pelas quais essa physis nasceu, diversificou-se e organizou-se são perfeitamente acessíveis à inteligência humana: a natureza não operou ‘no começo’ de maneira diferente de como o faz ainda, cada dia, quando o fogo seca uma vestimenta molhada ou quando, num crivo agitado pela mão, as partes mais grossas se isolam e se reúnem.” VERNANT, Jean-Pierre. As origens do pensamento grego. Trad. de Ísis Borges B. da Fonseca. 12.ed. Rio de Janeiro: Difel, 2002. p.110. O fragmento trará do contexto de surgimento da filosofia. Sobre tal temática, a partir do fragmento, é possível inferir que A) para explicar o que acontece no presente é preciso compreender como a natureza agia “no começo”, ou seja, no momento original. B) a explicação para os fenômenos naturais pressupõe a aceitação de elementos sobrenaturais. C) o nascimento, a diversidade e a organização dos seres naturais têm uma explicação natural e esta pode ser compreendida racionalmente. D) a razão é capaz de compreender parte dos fenômenos naturais, mas a explicação da totalidade dos mesmos está além da capacidade humana. E) a diversidade de fenômenos naturais pressupõe uma multiplicidade de explicações e nem todas estas explicações podem ser racionalmente compreendidas. QUESTÃO 02: “Há, porém, algo de fundamentalmente novo na maneira como os Gregos puseram a serviço do seu problema último – da origem e essência das coisas – as observações empíricas que receberam do Oriente e enriqueceram com as suas próprias, bem como no modo de submeter ao pensamento teórico e causal o reino dos mitos, fundado na observação das realidades aparentes do mundo sensível: os mitos sobre o nascimento do mundo.” Fonte: JAEGER. W. Paidéia. Tradução de Artur M. Parreira. 3.ed.São Paulo: Martins Fontes, 1995, p. 197. Com base no texto e nos conhecimentos sobre a relação entre mito e filosofia na Grécia, é possível inferir que a filosofia A) em que pese ser considerada como criação dos gregos, se origina no Oriente sob o influxo da religião e apenas posteriormente chega à Grécia. B) apresenta uma ruptura radical em relação aos mitos, representando uma nova forma de pensamento plenamente racional desde as suas origens. C) apesar de ser pensamento racional, se desvincula dos mitos de forma gradual, sem rupturas. D) e mito sempre mantiveram uma relação de interdependência, uma vez que o pensamento filosófico necessita do mito para se expressar. E) já estava no mito, uma vez que este buscava respostas para problemas que até hoje são objeto da pesquisa filosófica. Exercícios de fixação: 1- Leia atentamente os textos abaixo, respectivamente, de Platão e de Aristóteles: [...] a admiração é a verdadeira característica do filósofo. Não tem outra origem a filosofia. (PLATÃO, Teeteto. Tradução de Carlos Alberto Nunes. Belém: Universidade Federal do Pará, 1973. p. 37.) Com efeito, foi pela admiração que os homens começaram a filosofar tanto no princípio como agora; perplexos, de início, ante as dificuldades mais óbvias, avançaram pouco a pouco e enunciaram problemas a respeito das maiores, como os fenômenos da Lua, do Sol e das estrelas, assim como a gênese do universo. E o homem que é tomado de perplexidade e admiração julga-se ignorante (por isso o amigo dos mitos é, em certo sentido, um filósofo, pois também o mito é tecido de maravilhas); portanto, como filosofavam para fugir à ignorância, é evidente que buscavam a ciência a fim de saber, e não com uma finalidade utilitária. (ARISTÓTELES. Metafísica. Livro I. Tradução Leonel Vallandro. Porto Alegre: Globo, 1969. p. 40.) Com base nos textos acima e nos conhecimentos sobre a origem da filosofia, é correto afirmar: A) A filosofia surgiu, como a mitologia, da capacidade humana de admirar-se com o extraordinário e foi pela utilidade do conhecimento que os homens fugiram da ignorância. B) A admiração é a característica primordial do filósofo porque ele se espanta diante do mundo das ideias e percebe que o conhecimento sobre este pode ser vantajoso para a aquisição de novas técnicas. C) Ao se espantarem com o mundo, os homens perceberam os erros inerentes ao mito, além de terem reconhecido a impossibilidade de o conhecimento ser adquirido pela razão. D) Ao se reconhecerem ignorantes e, ao mesmo tempo, se surpreenderem diante do anseio de conhecer o mundo e as coisas nele contidas, os homens foram tomados de espanto, o que deu início à filosofia. E) A admiração e a perplexidade diante da realidade fizeram com que a reflexão racional se restringisse às explicações fornecidas pelos mitos, sendo a filosofia uma forma de pensar intrínseca às elaborações mitológicas. QUESTÃO 02: (UEM) “Ao criticar o mito e exaltar a ciência, contraditoriamente o positivismo fez nascer o mito do cientificismo, ou seja, a crença cega na ciência como única forma de saber possível. Desse modo, o positivismo mostra-se reducionista, já que, bem sabemos, a ciência não é a única interpretação válida do real. De fato, existem outros modos de compreensão, como o senso comum, a filosofia, a arte, a religião, e nenhuma delas exclui o fato de o mito estar na raiz da inteligibilidade. A função fabuladora persiste não só nos contos populares, no folclore, mas também na vida diária, quando proferimos certas palavras ricas de ressonâncias míticas – casa, lar, amor, pai, mãe, paz, liberdade, morte – cuja definição objetiva não esgota os significados que ultrapassam os limites da própria subjetividade.” (ARANHA, M. L.; MARTINS, M. H. P. Filosofando: introdução à filosofia. 4ª. ed. rev. São Paulo: Moderna, 2009, p. 32) A partir do trecho citado, assinale o que for correto. 01) Ao contrário da ciência, o senso comum, a religião e a filosofia refletem uma imagem incompleta e precária do real. 02) O mito do cientificismo é a aplicação do rigor formal do método científico à dança, à música e a diversas outras formas de expressão popular. 04) O positivismo utiliza o inconsciente e o mito como forma de expressão do mundo. 08) Explicações de caráter mítico, apesar de pertencerem ao período antigo, sobrevivem na modernidade. 16) A função fabuladora recupera aspectos do mito que se distinguem da razão e do método científico. QUESTÃO 03: (UEM) “Mais que um saber, a filosofia é uma atitude diante da vida, tanto no dia a dia como nas situações-limite, que exigem decisões cruciais. Por isso, no seu encontro com a tradição filosófica, é preferível não recebê-la passivamente como um produto, como algo acabado, mas compreendê-la como processo, reflexão crítica e autônoma a respeito da realidade.” (ARANHA, M. L. A.; MARTINS, M. H. P. Filosofando: introdução à filosofia. 4ª. ed. São Paulo: Moderna, 2009, p.20) Com base no excerto citado, assinale o que for correto. 01) A filosofia é uma forma de conhecimento que questiona a realidade. 02) A filosofia é um saber teórico, não pragmático, que desconsidera a aplicação prática. 04) A filosofia é uma experiência de vida que responde às questões fundamentais da existência. 08) A filosofia não pode ser reaberta ou discutida, pois os filósofos já morreram. 16) A filosofia é uma ideologia, pois não se ocupa com o debate político. QUESTÃO 04: (UEM) O mito é um modo de consciência que predomina nas sociedades tribais e que, nas civilizações da antiguidade, também exerceu significativa influência. Ao contrário, porém, do que muitos supõem, o mito não desapareceu com o tempo. Sobre os significados do mito, assinale o que for correto. 01) O mito, como as lendas, é pura fantasia, pois não possui nenhuma coerência lógica e, por ser dissociado da realidade, não expressa nenhuma forma de verdade. 02) O mistério é um dos componentes do mito: apresenta um enigma a ser decifrado e expressa o espanto do homem diante do mundo. 04) Uma das funções do mito é fixar os modelos exemplares de todos os ritos e de todas as atividades humanas significativas. Portanto, o mito é um meio de orientação das sociedades humanas. 08) O mito é uma intuição compreensiva da realidade, cujas raízes se fundam na emoção e na afetividade. O mito expressa o que desejamos ou tememos, como somos atraídos pelas coisas ou como delas nos afastamos. 16) O mito é uma forma predominante de narrativa nas culturas que não conhecem a escrita. Um de seus objetivos é contar a origem de um grupo humano. QUESTÃO 05: (UEM) “A filosofia surgiu quando alguns gregos, admirados e espantados com a realidade, insatisfeitos com as explicações que a tradição lhes dera, começaram a fazer perguntas e buscar respostas para elas, demonstrando que o mundo e os seres humanos, os acontecimentos materiais e as ações dos seres humanos podem ser conhecidos pela razão humana” (CHAUI, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo: Editora Ática, 2011. p.32). Considerando o exposto, assinale o que for correto. 01) A filosofia surgiu na Grécia durante o séc. VI a.C.. Apesar de seu nascimento ser considerado o “milagre grego”, é conhecida a frequentação de Atenas por outros sábios que viveram no século VI a.C., como Confúcio e Lao Tse (provenientes da China), Buda (proveniente da Índia) e Zaratustra (proveniente da Pérsia), fazendo da filosofia grega uma espécie de comunhão dos saberes da antiguidade. 02) O surgimento da filosofia é coetâneo ao advento da pólis (cidade). Novas estruturas sociais e políticas permitiram o desenvolvimento de formas de racionalidade, modificadoras da prática do mito. 04) Por serem os únicos filósofos a praticar a retórica, os sofistas representam, indiscutivelmente, o ponto mais alto da filosofia clássica grega (séculos V e IV a.C.), ultrapassando Sócrates, Platão e Aristóteles. 08) Filósofo é aquele que busca certezas sem garantias de possuí-lasefetivamente. Por essa razão, o filósofo deseja o conhecimento do mundo e das práticas humanas por meio de critérios aproximativos e compartilhados (de aceitação comum), através do debate. 16) A atividade filosófica pode ser definida, entre outras habilidades, pela capacidade de generalização e produção de conceitos, encontrando, sob a multiplicidade de objetos do mundo, relações de semelhança e de identidade. QUESTÃO 06: (UEM) “O que é um filósofo? É alguém que pratica a filosofia, em outras palavras, que se serve da razão para tentar pensar o mundo e sua própria vida, a fim de se aproximar da sabedoria ou da felicidade. E isso se aprende na escola? Tem de ser apreendido, já que ninguém nasce filósofo e já que filosofia é, antes de mais nada, um trabalho. Tanto melhor, se ele começar na escola. O importante é começar, e não parar mais. Nunca é cedo demais nem tarde demais para filosofar, dizia Epicuro [...]. Digamos que só é tarde demais quando já não é possível pensar de modo algum. Pode acontecer. Mais um motivo para filosofar sem mais tardar” (COMPTESPONVILLE, André. Dicionário Filosófico. Apud ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: introdução à filosofia. 4ª. ed. revista. São Paulo: Ed. Moderna, 2009. p.15). A partir dessas considerações, assinale o que for correto. 01) A filosofia é uma atividade que segue a via pedagógica de uma prática escolar, já que não pode ser apreendida fora da escola. 02) O enunciado relaciona a filosofia com o ato de pensar. 04) O enunciado contradiz a motivação filosófica contida na seguinte afirmativa de Aristóteles: “Todos os homens têm, por natureza, desejo de conhecer”. 08) Para André Compte-Sponville, quanto antes e com mais intensidade nos dedicarmos à filosofia, mais cedo estaremos livres dela, pois todo assunto se esgota. 16) A citação do texto afirma que sempre é tarde para começar a filosofar, razão pela qual a filosofia é uma prática da maturidade científica e o coroamento das ciências. QUESTÃO 07: “Mais que saber identificar a natureza das contribuições substantivas dos primeiros filósofos é fundamental perceber a guinada de atitude que representam. A proliferação de óticas que deixam de ser endossadas acriticamente, por força da tradição ou da ‘imposição religiosa’, é o que mais merece ser destacado entre as propriedades que definem a filosoficidade.” OLIVA, Alberto; GUERREIRO, Mario. Pré-socráticos: a invenção da filosofia. Campinas: Papirus, 2000. p. 24. O texto trata de uma “guinada de atitude” presente no início da filosofia, que podemos sintetizar como sendo A) a aceitação acrítica das explicações tradicionais relativas aos acontecimentos naturais. B) a discussão crítica das idéias e posições, que podem ser modificadas ou reformuladas. C) a busca por uma verdade única e inquestionável, que pudesse substituir a verdade imposta pela religião. D) a confiança na tradição e na “imposição religiosa” como fundamentos para o conhecimento. E) a desconfiança na capacidade da razão em virtude da “proliferação de óticas” conflitantes entre si. QUESTÃO 08: “Há, porém, algo de fundamentalmente novo na maneira como os Gregos puseram a serviço do seu problema último – da origem e essência das coisas – as observações empíricas que receberam do Oriente e enriqueceram com as suas próprias, bem como no modo de submeter ao pensamento teórico e causal o reino dos mitos, fundado na observação das realidades aparentes do mundo sensível: os mitos sobre o nascimento do mundo.” Fonte: JAEGER. W. Paidéia. Tradução de Artur M. Parreira. 3.ed. São Paulo: Martins Fontes, 1995, p. 197. Com base no texto e nos conhecimentos sobre a relação entre mito e filosofia, estabeleça a relação existente entre a filosofia e as viagens empreendidas pelos gregos, sobretudo em função do comércio e expansão territorial. QUESTÃO 09: Leia atentamente o texto e assinale (V) para cada afirmação verdadeira e (F) para cada afirmação falsa. “De fato, é no plano político que a Razão, na Grécia, primeiramente se exprimiu, constituiu-se e formou-se. A experiência social pôde tornar-se entre os gregos o objeto de reflexão positiva, na cidade, a um debate público de argumentos. O declínio do mito data do dia em que os primeiros Sábios puseram em discussão a ordem humana, procurando defini-la em si mesma, traduzi-la em fórmulas acessíveis à sua inteligência, aplicar-lhe a norma do número e da medida. Assim se destacou e se definiu um pensamento propriamente político, exterior à religião, com seu vocabulário, seus conceitos, seus princípios, suas vistas teóricas. Este pensamento marcou profundamente a mentalidade do homem antigo; caracteriza uma civilização que não deixou, enquanto permaneceu viva, de considerar a vida pública como o coroamento da atividade humana. Para o grego, o homem não se separa do cidadão; a phrónesis, a reflexão, é o privilégio dos homens livres que exercem correlatamente sua razão e seus direitos cívicos. Assim, ao fornecer aos cidadãos o quadro no qual concebiam suas relações recíprocas, o pensamento político orientou e estabeleceu simultaneamente os processos de seu espírito nos outros domínios.” VERNANT, J.-P. As Origens do Pensamento Grego. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1994, p.94-95. A partir da leitura do fragmento acima, esclareça a relação existente entre a atividade política que amadureceu na Grécia do período arcaico para o clássico e o surgimento do pensamento filosófico. QUESTÃO 10: “Há, porém, algo de fundamentalmente novo na maneira como os Gregos puseram a serviço do seu problema último – da origem e essência das coisas – as observações empíricas que receberam do Oriente e enriqueceram com as suas próprias, bem como no modo de submeter ao pensamento teórico e causal o reino dos mitos, fundado na observação das realidades aparentes do mundo sensível: os mitos sobre o nascimento do mundo.” Fonte: JAEGER. W. Paidéia. Tradução de Artur M. Parreira. 3.ed. São Paulo: Martins Fontes, 1995, p. 197. Com base no texto e nos conhecimentos sobre a relação entre mito e filosofia, o que podemos afirmar que há de novidade na filosofia, quando comparada com as explicações míticas? Modulo 2: Pré-socráticos PERÍODO COSMOLÓGICO Pré-socráticos é o termo utilizado para designar os primeiros filósofos, os quais deram início ao período cosmológico, isto é, foram os primeiros a questionar as explicações sobrenaturais presentes nos mitos e procurar uma compreensão racional do cosmos. Estes pensadores também são denominados filósofos da natureza, e buscavam conhecer as causas dos fenômenos naturais, ou seja, tinham o intuito de determinar o princípio constitutivo ou causa primordial – arché – da natureza – physis –, baseando-se na observação e no raciocínio. Sobre a definição de arché, temos nas palavras de Giovanni Reale e Dario Antiseri: “Princípio” (arché) não é um termo de Tales (talvez tenha sido introduzido por seu discípulo Anaximandro, mas alguns pensam numa origem mais tardia), mas é certamente o termo que indica melhor do que qualquer outro o conceito daquele quid do qual derivam todas as coisas. Como nota Aristóteles em sua exposição sobre o pensamento de Tales e dos primeiros físicos, o “princípio” é “aquele do qual derivam originalmente e no qual se ultimam todos os seres”, é “uma realidade que permanece idêntica no transmutar-se de suas alterações, ou seja, uma realidade “que continua a existir imutada, mesmo através do processo gerador de todas as coisas”. [...] Em suma, o “princípio” pode ser definido como aquilo do qual provêm, aquilo no qual se concluem e aquilo pelo qual existem e subsistem todas as coisas. (REALE, G.; ANTISERI, D. 1990, p. 29-30). PRINCIPAIS FILÓSOFOS PRÉ-SOCRÁTICOS - Filósofos da Escola Jônica: - Tales de Mileto: “Tudo é água”. - Anaxímenes de Mileto: “E assim como nossa alma, que é ar, nos mantém unidos, da mesma maneira o ventoenvolve todo o mundo.” - Anaximandro de Mileto: “Nem água nem algum dos elementos, mas alguma substância diferente, ilimitada, e dela nascem os céus e os mundos neles contidos.” - Heráclito de Éfeso: “Tudo flui, nada persiste, nem permanece o mesmo.” - Filósofos da Escola Itálica: - Pitágoras de Samos: “Todas as coisas são números” - Filósofos da Escola Eleata: - Parmênides de Eléia: “O ser é e o não ser não é” - Zenão de Eléia: “O que se move sempre está no mesmo agora” - Filósofos da Escola da Pluralidade: - Empédocles de Agrigento: “Pois destes (os elementos) todos se constituíram harmonizados, e por estes é que pensam, sentem prazer e dor” - Demócrito de Abdera: “O homem, um microcosmo.” HERÁCLITO DE ÉFESO (545 – 480 a.C.) “O ser não é mais do que o vir a ser” Heráclito nasceu em Éfeso por volta de 545 a.C., cidade da Jônia, filho de uma família que ainda conservava prerrogativas reais. De temperamento esquivo, nunca quis participar da vida política, e não demonstrava apreço pelos cidadãos de sua cidade. Foi considerado obscuro, e isso por duas razões: tendência ao isolamento e ao silêncio; escrita complexa, composta por aforismos, conjuntos de raciocínios mais curtos, com menor desenvolvimento de explicações do ponto de vista didático, e mesmo com uma ausência de preocupação com a apresentação de exemplos. Sua filosofia teve reconhecimento, mais tardiamente, pela maneira como este filósofo percebeu o cosmos, isto é, sua interpretação do modo como a physis “funcionava”. Como percebemos na passagem abaixo. “Este cosmos (sentenciou Heráclito), igual para todos, nenhum dos deuses e nenhum dos homens o fez; sempre foi, e sempre será...”. Ninguém o fez porque ele é eterno, e, por conseqüência, incriado e imperecível: desprovido de uma vontade criadora anterior (ou externa) à sua destinação de se reproduzir sempre. Por isso, este mundo, é indicado como dado, posto aí, diante dos nossos olhos e dos nossos sentidos, e o que temos a fazer, é buscar compreendê-lo por aquilo que se mostra. [...] O mundo de fenômenos ao mesmo tempo em que se mostra, oculta as suas razões. É de sua índole, tanto o se ocultar como também o se assumir, mediante um aparência ou maquiagem comunicativa, pela qual a Natureza provoca em nós o desejo de a conhecer.[...] Conhecemos a Natureza não tanto por aquilo que se mostra, mas principalmente por aquilo que inferimos sobre ela.. (SPINELLI, M., 1998, p. 193) Miguel Spinelli deixa claro um ponto importante na teoria de Heráclito, o de que o mundo é eterno e, por isso, incriado. Isso demonstra que, diferentemente dos outros filósofos Pré-socráticos, ele não procurava prioritariamente um princípio constitutivo do cosmos, o qual seria um elemento contido na Natureza, mas sim busca compreender a sua ordem, isto é, como o mundo é a partir da sua organização e ordenação. Heráclito não procura a arché somente no sentido de um elemento de que o cosmos é constituído, mas a lei que o rege, partindo, é claro, das observações feitas na própria Natureza. Para o mesmo, a realidade é um constante fluxo, ou seja, é sempre mutável. Os sentidos, porém, para ele, nos mostram certa regularidade, que não condiz com a mudança constante que ocorre realmente. E isso mostra que tanto para Heráclito quanto para Parmênides existe uma cisão entre pensar e sentir. A LUTA DOS CONTRÁRIOS – GUERRA E PAZ “O conflito é o pai e o rei de todas as coisas” ... . “O oposto é conveniente, e das coisas diferentes nasce a mais bela harmonia” ... . Sem nascimento e perecimento, sem geração e destruição, vida e morte, a perpetuidade do mundo seria insustentável, e, por conseqüência, a sua própria existência. Sem oposição ou diferenças, também o viver humano seria insustentável, pois desativaria todo o móvel do seu querer e agir, e, conseqüentemente, o próprio logos1 autentificador do nomos2 da deliberação humana. (SPINELLI, M., 1998, p. 196) Para Heráclito o que comanda a ordem do mundo é a luta, ou melhor, harmonia dos contrários, a perenidade das coisas que fazem parte da Natureza, seja homem, planta, animal, mineral ou qualquer outra coisa. O mundo é eterno, assim como a sua ordem, porém suas partes, aquilo de que ele se constitui está em constante renovo, em um eterno devir. Em outras palavras, se não existir guerra não há paz, se não existir morte não há vida nem nascimento, sem a perenidade das coisas tudo seria eterno e posto, condição que, para Heráclito, é perceptivelmente incoerente com a realidade. A teoria heraclitiana consiste, então, no estabelecimento de uma lei que rege o cosmos, a de que tudo é um eterno devir, um vir a ser constante, pois tudo nasce, cresce e morre. O jovem envelhece, o verde apodrece, tudo está sujeito ao tempo e, assim, a harmonia dos contrários, já que é por existir os contrários que se tem uma perfeita ordenação da existência do mundo. NOTA: Pela maneira como percebia o desenvolvimento natural das coisas, Heráclito foi considerado o pai da dialética, isto é, via a realidade como um eterno embate entre opostos, um momento superando o outro. O LOGOS NA TEORIA HERACLITIANA 1 Logos é logos no alfabeto grego e significa pensamento racional, sendo que na filosofia de Heráclito é o que vai determinar a lei que rege a ordem do mundo. 2 Nomós em grego significa lei, deliberação, governo, princípio regulativo. Mas ela é detentora (e isso é muito importante de salientado na filosofia de Heráclito), de uma ciência específica e própria, ou seja, de um saber que, de certo modo, se esconde por detrás de uma aparência observável, e que cabe ao logos humano desocultá-la, pela via da observação e da inferência. Esse seu saber é a sua lei (nomos), e também o seu logos, aquele que “tudo governa”: o pensamento que governa tudo através de tudo.[...] O logos, em referência ao cosmos,é expressão dessa articulação, pela qual o cosmos ou o ser pode ser entendido como uma unidade de contrapostos. (SPINELLI, M., 1998, p. 193 e 195) Spinelli, na passagem acima, demonstra, novamente que Heráclito busca encontrar o princípio regulativo do cosmos, o logos que governa a ordem do mundo, isto é, assim como os homens o cosmos também tem um logos. A razão conduz as ações dos homens e o logos faz o mesmo com a ordem do mundo, estabelecendo a harmonia entre os contrários, que é o nomos (a lei) que rege os acontecimentos na Natureza. Dessa forma pode-se dizer que o logos (a razão) do cosmos (espaço ordenado) consiste no princípio que regula a ordem do mundo, é a expressão da harmonia entre os contrários. O FOGO COMO PRINCÍPIO DE TODAS AS COISAS Dado que a sua Filosofia da Natureza é uma filosofia das relações, o fogo (coextensivo do logos) nela se apresenta com elemento constituinte do cosmos e também como a metáfora mais significativa do seu filosofar.[...] Mas o que Heráclito observou (talvez diante da lareira), é que o fogo não existe isoladamente na Natureza, a não ser em Relação: se há fogo, há algo que queima. (SPINELLI, M., 1998, p. 199 e 200) Para Heráclito o fogo é algo que, mais que simplesmente constituir, exprime exatamente a “natureza” do cosmos, pois ele vive da constante mudança, da harmonia entre contrário, pois a sua vida consiste em destruir algo – o combustível – que se transforma em fumaça. O fogo retrata bem o que Heráclito quer dizer com guerra e paz, pois a primeira seria o fogo queimando, destruindo o combustível e o transformando; já a segunda seria o fogo se apagando, isto é, deixando de queimar, e por isso deixando de existir. A guerra é a luta entre os contrários que faz com que exista uma ordem no mundo, a qual o mantém existindo, a paz seria o fim, ou a não existência, desta luta, uma perpetuidade que acabaria com a ordem e, conseqüentemente, o mundo. PARMÊNIDES DE ELÉIA (540 – 470 a.C.) “O ente é, pois é ser e nada não é.” A IMUTABILIDADEDO SER Parmênides nasceu em Eléia, hoje Vélia, na Itália por volta de 540 a.C. Foi iniciado na filosofia pelo pitagórico Ananias e tem-se que foi político ativo e formador de boas leis para a cidade. Escreveu um poema intitulado Sobre a Natureza, o qual se divide em três partes: uma primeira que denominaríamos de prólogo, ou seja, uma introdução, a segunda (da qual teve-se acesso à vários fragmentos) que trata dos caminhos da verdade; e a terceira (da qual conservam-se apenas fragmentos) que aborda os caminhos da opinião. Tem-se que a filosofia parmenidiana levanta-se contra o dualismo pitagórico (ser e não-ser, cheio e vazio,...) e, de acordo com alguns intérpretes, contra o mobilismo de Heráclito. Vejamos uma passagem de um poema de Parmênides na qual podemos encontrar os principais elementos de seu pensamento. Só nos resta neste momento, uma única via da qual se possa falar: que é. Sobre ela há um grande número de sinais: que sendo não-gerado é imperecível um todo inteiro inabalável e sem fim. Jamais foi nem será, porque é todo presente, um e contínuo. Que origem poder-se-ia atribuir-lhe? Como e de onde cresceria? Não te permitirei dizer nem pensar que ele possa ter crescido do não-ser; pois não se pode dizer nem pensar o que não é. Se viesse do nada qual a necessidade o teria impelido a nascer mais cedo ou mais tarde? Assim, pois, é necessário que ele seja absolutamente ou não seja. Também a força da convicção jamais concederá que do não-ente possa nascer algo dele. A justiça não permite por um afrouxamento de suas amarras, que nasça ou pereça, mas o mantém. Esta decisão recai sobre a seguinte afirmativa: Ou é ou não é [...]. Como poderia perecer o ente? Como poderia ser gerado? Pois se nasceu, não é, e também não é se um dia devesse ser. [...]. Também não é divisível, pois é completamente idêntico a si mesmo. Nada poderia ser-lhe acrescido o que impediria de conter-se, nem retirado, pois o ente é todo pleno. Por isso é todo contínuo [...] Idêntico a si mesmo, em si mesmo repousa, imóvel em seu lugar; pois a poderosa Necessidade o mantém nos limites de um liame que de todos os lados o encerra, de tal modo que ao ente está estabelecido como norma não ser inacabado. A passagem acima vem confirmar o motivo pelo qual Parmênides desacredita do conhecimento proporcionado pelos sentidos, ou seja, o Ser dos sentidos está em movimento e por isso ele constantemente deixa de ser o que é e se transforma em outro Ser (o não-ser anterior), o que para o autor é inconcebível, pois o não-ser não existe. Em outras palavras, admitir o movimento implica em admitir que uma pessoa deixa de ser jovem e se transforma em velho (que é o mesmo que dizer que se transforma no não-jovem, que não existe). Para Parmênides o Ser, o pensar e o dizer são a mesma coisa, pois não se pode, em hipótese alguma, admitir que o não-ser possa ser pensado ou dito. O Ser uno e eterno do autor só pode ser concebido pela razão, sendo que os sentidos não podem expressá-lo. Tem origem na história da filosofia o princípio de identidade, que a firma que o ser é sempre idêntico a si mesmo. Juntamente com ele, começa a busca da filosofia pela permanência, pela constância, pela regularidade, que encontraremos nas ideias de Platão ou nas essências de Aristóteles. Mesmo as ciências, na sua busca pelas leis, não deixam de ansiar por algo contínuo, permanente, no real. A CRÍTICA AO CONHECIMENTO PELOS SENTIDOS Discordando do pensamento de Heráclito, Parmênides faz uma crítica ao conhecimento das coisas sensíveis, as quais estão em constante mutação, porque não há como formular um conhecimento a respeito de algo que em um dado momento é X e logo depois se torna Y. Para este pensador é impossível conhecer todas as coisas em todos os seus momentos, pois só se poderia realmente ter acesso a um saber concreto sobre algo se fosse possível conhecê-lo nos diversos momentos de sua existência. Para o autor, então, a realidade não é acessível pelos sentidos, mas tão somente pela razão, que jamais poderia conhecer algo que muda constantemente, mas somente estar conhecendo este algo. O conhecimento pronto e acabado só pode existir frente a uma realidade que não mude, e só assim pode-se afirmar que se conhece alguma coisa em sua plenitude. Como para este filósofo, ao contrário de Heráclito, os sentidos nos mostram mudança, Fisionomia Atribuída a Parmênides (segunda metade do séc. VI e primeira metade do séc. V a.C.). estes não são via de acesso confiável à realidade tal qual ela é. Se só o Ser pode ser conhecido, e este é imóvel, imutável, eterno, sempre idêntico a si mesmo, único e uno, o que percebemos na realidade é na verdade aparência, e só pode produzir o que vai ser chamado de doxa, termo grego que, correntemente, é traduzido como opinião, conhecimento transitório. Só a razão pode acessar o que realmente é (existe, pode ser pensado e dito),e para fazê-lo ela deve se afastar dos enganos da mudança e buscar o que permanece. Exercícios propostos: QUESTÃO 01: (Unimontes) O primeiro filósofo de que temos notícias é Tales, da colônia grega de Mileto, na Ásia Menor. Tales foi um homem que viajou muito. Entre outras coisas, dizem que, certa vez, no Egito, ele calculou a altura de uma pirâmide medindo a sombra da mesma no exato momento em que sua própria sombra tinha a mesma medida de sua altura. Dizem ainda que, em 585 a.C., ele previu um eclipse solar. (GAARDER, J. O Mundo de Sofia. São Paulo: Companhia das Letras, 1995). Aos primeiros filósofos que se debruçaram sobre os problemas do cosmo, podemos chamá-los, além de pré- socráticos, de A) naturalistas ou fisicistas. B) existencialistas. C) empiristas. D) espiritualistas. QUESTÃO 02: (UFU) Sobre o pensamento de Heráclito de Éfeso, marque a alternativa INCORRETA. A) Segundo Heráclito, a realidade do Ser é a imobilidade, uma vez que a luta entre os opostos neutraliza qualquer possibilidade de movimento. B) Heráclito concebe o mundo como um eterno devir, isto é, em estado de perene movimento. Nesse sentido, a imobilidade apresenta-se como uma ilusão. C) Para Heráclito, a guerra (pólemos) é o princípio regulador da harmonia do mundo. D) Segundo Heráclito, o um é múltiplo e o múltiplo é um. QUESTÃO 03: (UFU) Leia atentamente o texto abaixo. Na filosofia de Parmênides preludia-se o tema da ontologia. A experiência não lhe apresentava em nenhuma parte um ser tal como ele o pensava, mas, do fato que podia pensá-lo, ele concluía que ele precisava existir: uma conclusão que repousa sobre o pressuposto de que nós temos um órgão de conhecimento que vai à essência das coisas e é independente da experiência. Segundo Parmênides, o elemento de nosso pensamento não está presente na intuição mas é trazido de outra parte, de um mundo extrassensível ao qual nós temos um acesso direto através do pensamento. NIETZSCHE, Friedrich. A filosofia na época trágica dos gregos. Trad. Carlos A. R. de Moura. In Os pré-socráticos. São Paulo: Abril Cultural, 1978. p. 151. Coleção Os Pensadores Marque a alternativa INCORRETA. A) Para Parmênides, o Ser e a Verdade coincidem, porque é impossível a Verdade residir naquilo que Não-é: somente o Ser pode ser pensado e dito. B) Pode-se afirmar com segurança que Parmênides rejeita a experiência como fonte da verdade, pois, para ele, o Ser não pode ser percebido pelos sentidos. C) Parmênides é nitidamente um pensador empirista, pois afirma que a verdade só pode ser acessada por meio dos sentidos. D) O pensamento, para Parmênides, é o meio adequado para se chegar à essência das coisas, ao Ser, porque os dados dos sentidos não são suficientes para apreender a essência. Questões Enem: QUESTÃO 01: “O mesmo é em (nós?) vivo e morto, desperto e dormindo, novo e velho; pois estes, tombados além, são aqueles e aqueles de novo, tombados além, são estes.” Os Pré-Socráticos. Trad. de José Cavalcante de Souza, 1ª ed. São Paulo: AbrilCultural, 1973, p. 93. (Os Pensadores) A partir do fragmento apresentado, do filósofo pré-socrático Heráclito de Éfeso, pode- se perceber que para tal filósofo A) não existe a noção de “oposto”, pois todas as coisas constituem um único processo de mudança que expressa a concórdia e a harmonia do “fluxo” contínuo da natureza. B) a equivalência de estados contrários com “o mesmo” exprime a alternância harmônica de polos opostos, pela qual um estado é transposto no outro, numa sucessão mútua, como o dia e a noite. Todas as coisas são “Um”, toda a multiplicidade dos opostos constitui uma unidade, e todos os seres estão num fluxo eterno de sucessão de opostos em guerra. C) se o morto é vivo, o velho é novo, e o dormente é desperto, então não existe o múltiplo, mas apenas o “Um”, como verdade profunda do mundo. A unidade primordial é a própria realidade da physis e a multiplicidade, apenas aparência. D) a alternância entre polos opostos constitui um fluxo eterno, regido pela “guerra” e pela “discórdia”, que ocorre sem qualquer medida e proporção. A guerra entre contrários evidencia que a physis é caótica e denota o fato de que o pensamento de Heráclito é irracionalista. E) apesar de uma aparência de mudança que se apresenta aos nossos sentidos, o cosmos é essencialmente imutável, imóvel, eterno, uno e único. Não podemos, desse modo, deixar-nos guiar pelos dados sensoriais, mas buscar aquilo que é idêntico a si mesmo, denominado por Heráclito de Ser. QUESTÃO 02: “Só é possível pensar e dizer que o ente é, pois o ser é, mas o nada não é; sobre isso, eu te peço, reflita, pois esta via de inquérito é a primeira de que te afasto; depois afasta-te daquela outra, aquela em que erram os mortais desprovidos de saber e com dupla cabeça, pois, no peito, a hesitação dirige um pensamento errante: eles se deixam levar surdos e cegos, perplexos, multidão inepta, para quem ser e não ser é considerado o mesmo e não o mesmo, para quem todo o caminho volta sobre si mesmo”. Parmênides, Sobre a Natureza, 6, 1-9. O fragmento acima é um trecho do poema “Sobre a Natureza”, do filósofo Parmênides de Eléia, e de sua leitura é possível concluir que A) a identidade é uma característica inerente ao domínio da opinião, uma vez que a pluralidade das opiniões é o que atesta a identidade de cada indivíduo. B) segundo Parmênides, um mesmo homem não pode entrar duas vezes em um mesmo rio, posto que a mutabilidade do mundo impede que o mesmo evento se repita. C) uma das leis lógicas, presente no pensamento de Parmênides, é o princípio de identidade, segundo o qual todas as coisas podem ser e não ser ao mesmo tempo. D) o caminho da verdade é também a via da identidade e da não contradição. Nesse sentido, somente o Ser – por ser imóvel e idêntico – pode ser pensado e dito. E) é possível a coexistência harmoniosa entre o ser e o não ser, visto que a relação entre as duas instâncias gera a Unidade do Cosmos. Exercícios de Fixação: QUESTÃO 01: (UFU) De acordo com o pensamento do filósofo Parmênides de Eléia, marque a alternativa correta. A) A identidade é uma característica inerente ao domínio da opinião, uma vez que a pluralidade das opiniões é o que atesta a identidade de cada indivíduo. B) Segundo Parmênides, um mesmo homem não pode entrar duas vezes em um mesmo rio, posto que a mutabilidade do mundo impede que o mesmo evento se repita. C) Uma das leis lógicas, presente no pensamento de Parmênides, é o princípio de identidade, segundo o qual todas as coisas podem ser e não ser ao mesmo tempo. D) O caminho da verdade é também a via da identidade e da não contradição. Nesse sentido, somente o Ser – por ser imóvel e idêntico – pode ser pensado e dito. QUESTÃO 02: (UFU) De um modo geral, o conceito de physis no mundo pré-socrático expressa um princípio de movimento por meio do qual tudo o que existe é gerado e se corrompe. A doutrina de Parmênides, no entanto, tal como relatada pela tradição, aboliu esse princípio e provocou, consequentemente, um sério conflito no debate filosófico posterior, em relação ao modo como conceber o ser. Para Parmênides e seus discípulos: A) A imobilidade é o princípio do não-ser, na medida em que o movimento está em tudo o que existe. B) O movimento é princípio de mudança e a pressuposição de um não-ser. C) Um Ser que jamais muda não existe e, portanto, é fruto de imaginação especulativa. D) O Ser existe como gerador do mundo físico, por isso a realidade empírica é puro ser, ainda que em movimento. QUESTÃO 03: (UFU) Leia estes dois fragmentos de Heráclito e indique quais proposições são verdadeiras (V) e quais são falsas (F). I - É necessário saber que a guerra é comum e que a justiça é discórdia e que tudo acontece mediante discórdia e necessidade. II – A guerra é o pai de todas as coisas e de todas ela é a soberana, e a uns ela apresenta-os como deuses, a outros, como homens; de uns ela faz escravos, de outros, homens livres. Fragmentos extraídos de Kirk, Raven e Schofield. Os filósofos pré-socráticos. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 1994. 1( ) Quando Heráclito, no primeiro fragmento, afirma que a guerra é comum e que a justiça é discórdia, indica que a manifestação ininterrupta dos contrários é que assegura o fluxo sem termo do devir. 2( ) O segundo fragmento indica que a guerra é soberana e que, portanto, não pode haver vencedor entre os combatentes. 3( ) Guerra e discórdia são metáforas características do pensamento de Heráclito e descrevem a mudança contínua por que passam todas as coisas. 4( ) Os dois fragmentos indicam que a natureza foi criada pela guerra dos contrários e será extinta por este mesmo desequilíbrio. QUESTÃO 04: (UFU) Leia atentamente o texto e assinale (V) para cada afirmação verdadeira e (F) para cada afirmação falsa. Fragmentos 1 “Não podemos entrar duas vezes no mesmo rio porque suas águas não são as mesmas e nós não somos os mesmos.” “O que se opõe a si mesmo está em acordo consigo mesmo; harmonia de tensões contrárias como as do arco e da lira” “Para as almas, morrer é água; para a água, morrer é terra; da terra, porém, forma-se a água e da água, a alma” “O fogo vive a morte da terra e o ar vive a morte do fogo; a água vive a morte do ar e a terra a da água” Fragmentos 2 “é preciso que de tudo te instruas, do âmago inabalável da verdade (aletheia) bem redonda, e das opiniões (dóxa) dos mortais, em que não há fé verdadeira. (...) ...eu te direi, e tu, recebe a palavra que ouviste, os únicos caminhos de inquérito que são a pensar: o primeiro, que é; e, portanto, que não é não ser, de Persuasão é caminho, pois à verdade acompanha. O outro, que não é; e, portanto, que é preciso não ser. Eu te digo que este último é atalho de todo não crível, pois nem conhecerias o que não é, nem o dirias... (...) Pois o mesmo é a pensar e portanto ser. (...) Necessário é o dizer e pensar que o ente é; pois é ser. E nada não é. Isto eu te mando considerar”. CHAUÍ, Marilena. Introdução à história da filosofia: dos pré- socráticos a Aristóteles. São Paulo: Brasiliense, 1994, pp. 66-73. 1( ) Os fragmentos acima exprimem o pensamento de dois dos mais importantes filósofos do chamado período pré-socrático, os primeiros atribuídos a Heráclito de Éfeso, que compreendia a realidade como fluxo ou devir permanente e eterno, e, os segundos, à Parmênides de Eléia, para quem a realidade é aquilo que permanece sempre idêntico a si mesmo e imutável. 2( ) A tese sobre a realidade ou o Ser de Heráclito pode ser expressa, em síntese, da seguinte maneira: “O ser é (existe) e o não-ser não é (não existe)”. Já a tese de Parmênides se resumiria assim: “O não-ser é (existe) e o ser não é (não existe)”. 3( ) Como Heráclito e Parmênides pensavam apenas por metáforas (linguagem figurada), pode-se dizer que estavam muito mais próximos dos poetas, como Homero e Hesíodo, do que dos filósofose da busca da verdade. 4( ) Embora a concepção do Ser ou da realidade seja para Heráclito e Parmênides bastante distinta e até mesmo oposta, é necessário reconhecer que, tanto para um quanto para outro, os sentidos e o senso comum não alcançam o verdadeiro conhecimento, mas engendram apenas a opinião (doxa). Para ambos, apenas o pensamento (logos) pode conhecer a verdade. QUESTÃO 05: (UFU) Leia os seguintes fragmentos, atribuídos, respectivamente, a Heráclito de Éfeso e a Parmênides de Eléia. Não compreendem como o divergente consigo mesmo concorda; harmonia de tensões contrárias, como de arco e lira. Fr. 51, Os Pré-Socráticos. São Paulo: Abril Cultural, 1973, p. 84. (Col. Os Pensadores) Por outro lado, imóvel em limites de grandes liames é sem princípio e sem pausa, pois geração e perecimento bem longe afastaram-se, rechaçou-os fé verdadeira (...) (...) O mesmo é pensar e em vista do que é pensamento. Pois não sem o que é, no qual é revelado em palavra, acharás o pensar (...). Sobre a Natureza, vv. 8, 26-28; 34-36. Os Pré-Socráticos. São Paulo: Abril Cultural, 1973, p. 149. (Col. Os Pensadores) Tomando os fragmentos citados como referência, assinale com (V) as afirmativas verdadeiras e com (F) as afirmativas falsas. 1( ) Para Heráclito, a guerra entre contrários, como as tensões do arco e das cordas de uma lira, geram uma unidade. Tal unidade expressa a harmonia segundo a qual o kosmos é ordenado num equilíbrio dinâmico de sucessão de opostos, movimento contínuo e pluralidade, cujo Logos é Um. 2( ) O ser parmenidiano é ingênito, incorruptível e, por conseguinte, imóvel, imutável e uno. Sempre idêntico a si mesmo, o ser não admite diferenciações. Ser e pensamento coincidem, se há ser, então o não-ser é impossível e impensável, por isso, os opostos não podem coexistir ou alternar-se um ao outro. 3( ) Heráclito, ao contrário de Parmênides, concebe toda a physis como um fluxo incessante e como multiplicidade que exclui a possibilidade de alternância de opostos no kosmos. A afirmação de que ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio indica que o movimento contínuo das coisas sensíveis ocorre num sentido que não admite a contradição. 4( ) Parmênides, ao identificar o ser imutável, incorruptível e imóvel com o pensamento, mostra que o “caminho da verdade” surge a partir do devir e da multiplicidade que caracterizam a physis. O pensamento e o logos formam-se a partir dos sentidos e da percepção do múltiplo, já que o pensamento depende da existência de algo real. QUESTÃO 06: (UFU) A partir do texto abaixo, assinale (V) para as afirmativas verdadeiras e (F) para as falsas. Parmênides de Eléia, filósofo grego, pertenceu a uma escola antiga. Sua filosofia forçou Platão e Aristóteles a buscar soluções para as questões do Ser e da linguagem. Escreveu um poema filosófico em versos: Sobre a Natureza. Lembrando-se ainda do seguinte: Parmênides negava a existência do movimento, pois para ele não existia o espaço vazio, sustentou que tudo o que existe é um que permanece imóvel em si mesmo, sem que encontre algum lugar onde mover-se; estabeleceu também um princípio para o discurso e a ciência da natureza, a partir destes versos: necessário é dizer e pensar que só o ser é; pois o ser é, e o nada ao contrário, nada é: afirmação que bem deves considerar... Fragmentos extraídos de SPINELLI, Miguel. Filósofos pré-socráticos. Porto Alegre: Edipucrs, 1998. 1( ) A escola a que pertenceu Parmênides é conhecida como Escola Eleata. Além dele, encontramos Zenão, seu discípulo; Xenófanes, seu mestre; e Melisso. Eles defendiam que tudo o que existe é um. 2( ) Parmênides, assim como Heráclito, pensa que tudo flui na natureza e que só o não-Ser existe. 3( ) Parmênides, filósofo imobilista, pensava que só o Ser é. Ele negava a existência do movimento. 4( ) Podemos concluir a partir do texto que é impossível conhecer aquilo que existe e, portanto, é necessário determinar que só o Nada é princípio do pensamento e do discurso. QUESTÃO 07: (UFU) Leia os fragmentos atribuídos a Parmênides de Eléia e, a partir deles, marque para as alternativas (V) verdadeira ou (F) falsa. (...) pois o mesmo é a pensar e portanto ser. Necessário é dizer e pensar que (o) entre é; pois é ser, e nada não é; isto eu te mando considerar (...). Sobre a Natureza, vv. 3; 6. In: Os Pré-Socráticos. São Paulo: Abril Cultural, 2000, p. 123. Coleção Os Pensadores 1( ) Parmênides elege o Ser como princípio absoluto de verdade que se identifica com o pensamento e define o que pode ser afirmado. O Ser deve ser afirmado e o não-Ser negado. Afirmar o não-Ser significa contradizer e negar o Ser, o que é uma falsidade. 2( ) Segundo Parmênides, somente o Ser é pensável e exprimível. Todo pensamento implica que o Ser é pensado, pois não se pode pensar o não-Ser. Este é inteiramente indizível, inexprimível e impossível. Ser, pensar e dizer implicam-se mutuamente. 3( ) Parmênides elege a multiplicidade como princípio absoluto da Natureza. Somente o pensamento pode dar conta da multiplicidade e do movimento das coisas. O Ser identifica-se com p pensamento, pois este é um movimento constante. 4( ) Parmênides identifica o Ser e o não-Ser com o pensamento, que pode expressar tanto o que existe como o que não existe e, por isso, nada não é. O pensamento nunca é idêntico a si mesmo e todas as coisas são pensáveis e exprimíveis. QUESTÃO 08: (UFU) O pensamento de Parmênides constituiu uma das mais profundas doutrinas dos filósofos da physis. Seu poema possui uma estrutura bem definida em três partes: prólogo, caminho da verdade e caminho da opinião. Acerca deste poema, responda as seguintes questões: A) O poema de Parmênides pertence a qual período da História da Filosofia? B) Em qual dos temas seguintes o poema de Parmênides melhor se encaixa: política, ética, lógica, metafísica ou estética? Justifique sua resposta. C) A que parte do poema refere-se o fragmento abaixo: prólogo, caminho da verdade ou caminho da opinião? Justifique sua resposta. Fragmento 7: “(...) afasta, portanto, o teu pensamento desta via de investigação, e nem te deixe arrastar a ela pela múltipla experiência do hábito, nem governar pelo olho sem visão, pelo ouvido ensurdecedor ou pela língua; mas com a razão decide da muito controvertida tese, que te revelou minha palavra.” BORNHEIM, G. Os Filósofos Pré-Socráticos. São Paulo: Cultrix, 1993, p. 55. QUESTÃO 09: (UFU) “Vou explicar-me, e não será argumento sem valor, a saber: que nenhuma coisa é una em si mesma e que não há o que possas denominar com acerto ou dizer como é constituída. Se a qualificares como grande, ela parecerá também pequena; se pesada, leve, e assim em tudo o mais, de forma que nada é uno, ou algo determinado ou como quer que seja. Da translação das coisas, do movimento e da mistura de umas com as outras é que se forma tudo o que dizemos existir, sem usarmos a expressão correta, pois em rigor nada é ou existe, tudo devém. Sobre isso, com exceção de Parmênides, todos os sábios (…) estão de acordo: Protágoras, Heráclito e Empédocles (…)”. Platão. Teeteto. Trad. Carlos Alberto Nunes. Belém: EDUFPA, 2001, p. 50. Tendo em vista o trecho de Platão citado acima, explique, a partir da distinção entre o uno de Parmênides e o devir de Heráclito, por que no mobilismo nada é e por que para Parmênides apenas o Ser é. QUESTÃO 10: (UFU) “Ao Logos, razão e palavra do que sempre é, os homens são incapazes de compreendê-lo, tanto antes de ouvi-lo quanto depois de tê-lo ouvido pela primeira vez, porque todas as coisas nascem e morrem segundo este Logos. Os homens são inexperientes, mesmo quando eles experimentam palavras ou atos tais quais eu corretamente os explico segundo a natureza, separando cada coisa e explicando como cada uma se comporta. Enquantoisso os outros homens esquecem tudo o que eles fazem despertos assim como eles esquecem, dormindo, tudo o que eles veem.” Adaptado de HERÁCLITO. Pré-Socráticos. São Paulo: Abril Cultural , 1978. p. 79. Coleção “Os Pensadores” A partir do aforismo de Heráclito, responda às questões propostas: A) Heráclito pode corretamente ser caracterizado como um filósofo empirista, cuja fonte de conhecimento se encontra nas sensações? B) Qual é o fundamento permanente de todo conhecimento e quem, segundo o texto, corretamente o conhece e o enuncia? Modulo 3: Sócrates e o período antropológico SÓCRATES (470 – 399 a.C.) “Tudo que sei é que nada sei” PERÍODO SOCRÁTICO OU ANTROPOLÓGICO Sócrates nasceu em Atenas por volta de 470/469 a.C. e morreu em 399 a.C. devido a uma condenação, a qual se fundamentou nas acusações de ser corruptor da juventude e de não acreditar nos deuses da cidade. Era filho de um escultor e de uma parteira. Nunca escreveu nada, e a maioria do que conhecemos de sua filosofia chegou-nos por intermédio dos diálogos de Platão, o que acabou por gerar uma dúvida sobre se Sócrates realmente havia existido ou se seria simples personagem das obras de Platão. A maioria dos comentadores sérios, no entanto, têm optado pela primeira possibilidade. O que se pode perguntar, no entanto, é o seguinte: o que o tornou tão importante para os estudiosos da filosofia? Por que se tornou um marco, a ponto de classificarmos todos os que vieram antes dele como Pré-socráticos? A resposta não envolve, como deve parecer óbvio, somente elementos cronológicos. O período socrático foi também denominado de antropológico. Analisando a palavra, vemos que esta é formada por dois radicais gregos: antropo, que vem de anthropos, que se refere à idéia de homem, e lógico, que deriva de Logos, que significa estudo, razão. Dessa maneira podemos afirmar que antropologia é o estudo do homem em seus mais variados aspectos, principalmente cultural e social. Essa divisão existe na história da Filosofia porque Sócrates mudou o enfoque da investigação filosófica, não se preocupando em compreender o mundo natural, como os filósofos que o antecederam, mas procurando conhecer o homem e seu aspecto social e político, como percebemos na seguinte citação abaixo: Os naturalistas procuraram responder à seguinte questão: “O que é a natureza ou a realidade última das coisas?” Sócrates, porém, procura responder à questão: “O que é a natureza ou realidade última do homem?”, ou seja, o que é a essência do homem?”. (REALE, G.; ANTISERI, D. 1990, p. 87). Nesse momento de desenvolvimento principalmente cultural do mundo grego, além das questões voltadas à natureza (cosmologia), a filosofia começa a preocupar-se com a sociedade e o indivíduo, principalmente no que diz respeito às questões morais. O cidadão guerreiro belo e bom (Arete – modelo de virtude) já não satisfazia o modelo de cidadão da polis. Era, então, necessário formar um novo cidadão para comandar as cidades. Neste contexto surgem os Sofistas (professores estrangeiros), os quais se diziam capazes de ensinar a arte e a técnica do discurso (oratória e retórica). Saber falar em público era essencial em um sistema democrático, no qual as decisões eram tomadas em praça pública (Ágora), por vontade da maioria dos cidadãos, após ouvirem os discursos prós e contra os temas a serem votados. Os Sofistas ensinavam a jovens aristocratas, e recebiam por isso. Acreditavam que tudo poderia ser ensinado, porque tudo era convenção entre os homens. Por isso acreditavam que a realidade era relativa, sendo os resultados dependentes de acordos entre os homens. O mais importante deles foi Protágoras de Abdera, cuja principal afirmação foi a de que “O homem é a medida de todas as coisas, das que são enquanto são e das que não são enquanto não são.” Górgias de Leontini também foi muito importante, afirmou que podemos pensar o inexistente e comunicar irrealidades através da linguagem. Portanto, não há diferença entre (doxa) opinião e (Alétheia) verdade, assim como pensavam os outros sofistas e os gregos de sua época. Sócrates formulou uma ética racionalista (metódica) onde a virtude (Areté) se identifica com o conhecimento. A verdade só pode ser conhecida, portanto se o indivíduo deixar para trás as ilusões dos sentidos, as palavras e as opiniões. Conhecer para Sócrates consistia em se elevar da aparência para a essência, da opinião individual para o conceito universal dos seres, dos valores, da vida moral e da política. Mencionamos acima a preocupação socrática de compreender qual a essência do homem, a qual parece-nos estar expressa na seguinte passagem: Um dos raciocínios fundamentais feitos por Sócrates para provar essa tese é a seguinte: uma coisa é o “instrumento” que se usa e outra é o “sujeito” que usa o instrumento. Ora, o homem usa seu próprio corpo como instrumento, o que significa que o sujeito, que é o homem, e o instrumento, que é o corpo, são coisas distintas. Assim, à pergunta “o que é o homem”, não se pode responder que é o seu corpo, mas sim que é “aquilo que se serve do corpo”. Mas “o que se serve do corpo é a psyché, a alma (= inteligência) [...] (REALE, G.; ANTISERI, D. 1990, p. 88). Para Sócrates, a educação da alma é importante, pois ela é a essência do homem. Ela determina as ações dos homens ela pode bem conduzir-nos a uma vida virtuosa. Aquele que tem conhecimento não reúne todas as características necessárias à virtude (justiça, fortaleza, temperança, sabedoria...) e o vício nada mais é que a falta, a privação de conhecimento, ou seja, a ignorância. Tomando este preceito como base, podemos também afirmar que tudo o que é exterior à natureza da alma do homem não pode ser considerado virtude. Desse modo, riqueza, poder, fama, beleza e saúde física, dentre outras coisas, não constituem valores éticos, pois “em si mesmos não têm valor”. Este filósofo ficou conhecido também por sua máxima, “tudo que sei é que nada sei”. Com tal afirmação quis dizer que o conhecimento do homem é pequeno, imperfeito, superficial e que o conhecimento pleno e total das coisas naturais só pertence aos deuses. É presunção se considerar conhecedor das coisas criadas por aqueles que nos criaram. Mas se virtude é sinônimo de conhecimento e Sócrates diz não saber nada então não é virtuoso? Claro que o conhecimento que ele está admitindo como igual à virtude não trata de conhecimentos acerca o mundo natural, do qual os deuses são artífices, mas de conhecimentos práticos e de uma tentativa de uma melhor compreensão de nossa alma. O provável, senhores, é que, em verdade, o sábio seja deus e queira dizer, em seu oráculo, que pouco valor ou nenhum tem a sabedoria humana; evidentemente se terá servido deste nome de Sócrates para me dar como exemplo, como se dissesse: “O mais sábio dentre vós, homens, é quem, como Sócrates, compreendeu que sua sabedoria é desprovida verdadeiramente desprovida do mínimo valor”. (PLATÃO, 2004, p. 47). De tal modo que o não-saber socrático já constitui uma sabedoria. Ao reconhecer sua própria ignorância, Sócrates buscou levar aos demais atenienses tal conhecimento; utilizando, para isso, sua dialética, que analisamos agora. O MÉTODO SOCRÁTICO Sócrates afirma, em sua defesa, escrita por Platão, que começou a travar as conversas com seus concidadãos em função de uma experiência mística. Um antigo amigo, que à época de seu julgamento já havia morrido, de nome Querefonte, visitara certa vez o Oráculo de Apolo, na cidade de Delfos, e fez uma pergunta sobre a sabedoria do nosso filósofo. A resposta da sacerdotisa do templo dava a possibilidade de interpretação de que Sócrates fosse mais sábio que os demais. Para afastar tal forma de entender a resposta, ele se pôs a conversar com algumas pessoas, fazendo perguntas que ele próprio não sabia responder, com uma expectativa inicialde receber instrução. Para a sua surpresa, seus interlocutores, que no início assumiam uma postura até mesmo arrogante, ao final mostravam-se tão ignorantes quanto ele sobre o tema da reflexão. Ao cabo de alguns destes diálogos, ele percebeu de que sabedoria o deus falava que ele era detentor enquanto faltava aos demais: o dos seus limites, da própria ignorância, presente na afirmação famosa “sei que nada sei”. A partir de então Sócrates se vê investido pelo deus de uma missão, que consistia em conduzir os seus concidadãos a um melhor conhecimento de si mesmos, a inscrição no portal do templo: “Conhece-te a ti mesmo”. Sócrates, na intenção de realizar sua missão, adotava sempre o diálogo que assumia uma dupla forma, conforme se tratava de um adversário a refutar ou de um “discípulo” a instruir. No primeiro caso, assumia humildemente a atitude de quem aprende e ia multiplicando as perguntas até encontrar o adversário presunçoso em evidente contradição, constrangendo-o à confissão humilhante de sua ignorância. É a ironia socrática. No segundo caso, tratando-se de um “discípulo’, multiplicava ainda mais as perguntas, dirigindo-as agora a fim de obter, por indução dos casos particulares e concretos, um conceito, uma definição geral do objeto em questão. A este processo pedagógico, em memória da profissão materna, denominava-se maiêutica, ou engenhosa obstetrícia do espírito, que facilitava a parturição das idéias. Partindo da consciência da sua própria ignorância (“só sei que nada sei”), utilizava como método não a exposição, mas a dialética (aqui com o sentido de arte do diálogo e da discussão), que passava por três momentos distintos: - IRONIA: em grego significa interrogação. Consistia em uma cadeia de perguntas realizadas por Sócrates que iam, pouco a pouco, conduzindo o interlocutor á consciência da própria ignorância. - APORIA: do grego a = não e poria vem de poros que significa saída. O termo, então, significa sem saída, e relaciona-se ao final de todo o diálogo platônico de primeira fase, também dito diálogo socrático. Acredita-se que em sua primeira fase de escritos Platão tenha tão somente reproduzido a prática de Sócrates nas ruas e praças de Atenas. É assim que podemos diferenciar o que seja socrático do que seja já teoria platônica. Todos os diálogos socráticos são aporéticos, ou seja, não apresentam nenhuma resposta ao seu final, o que não poderia ser diferente, visto que Sócrates só tinha consciência da própria ignorância. - MAIÊUTICA: Traduzido ao pé da letra o termo significa arte de parturejar, ou seja, de trazer à luz novos seres humanos. Essa é a profissão da parteira, ainda muito comum em certas regiões do Brasil. Era esse o ofício desempenhado pela mãe de Sócrates. No diálogo Teeteto nosso filósofo afirma que sua atividade se parece muito com aquela realizada pela sua mãe, visto que nessa nova etapa, posterior à destruição do falso saber do interlocutor, Sócrates buscaria auxiliar aquele com quem dialogava a conceber ideias verdadeiras, seguras, que estariam, evidentemente, dentro do próprio indivíduo que travava diálogo com o filósofo. E é óbvio que só poderia ser assim, visto que o único conhecimento afirmado por ele é o da sua própria ignorância. NOTA: Todos que se dispunham a dialogar com Sócrates o faziam por vontade própria, não havia nenhum tipo de insistência ou coação. Exercícios Propostos: QUESTÃO 01: (UFU) Marque a alternativa que expressa corretamente o pensamento de Sócrates. A) Sócrates estabelece uma ligação muito estreita entre o conhecimento da virtude e a ação humana, a ponto de sustentar que aquele que conhece o que é o correto não pode agir erroneamente, visto que o erro de conduta é fruto da ignorância sobre a verdade. B) O fim último do método dialético socrático era a refutação do seu interlocutor. Assim sendo, é legítimo afirmar que o reconhecimento da própria ignorância equivale à constatação de que a verdade é relativa a cada indivíduo. C) Sócrates é considerado um divisor de águas na Filosofia graças a sua teoria ética sobre a imobilidade do Ser. Por isso, sua missão sempre foi a investigação de um fundamento absoluto da moral. D) Sócrates fazia uso de um método refutativo de investigação, o que significa que seu principal intento era levar o interlocutor à contradição, independentemente se o último estivesse ou não com a razão. QUESTÃO 02: (UFU) Leia o trecho abaixo, que se encontra na Apologia de Sócrates de Platão e traz algumas das concepções filosóficas defendidas pelo seu mestre. Com efeito, senhores, temer a morte é o mesmo que se supor sábio quem não o é, porque é supor que sabe o que não sabe. Ninguém sabe o que é a morte, nem se, porventura, será para o homem o maior dos bens; todos a temem, como se soubessem ser ela o maior dos males. A ignorância mais condenável não é essa de supor saber o que não se sabe? Platão, A Apologia de Sócrates, 29 a-b, In. HADOT, P. O que é a Filosofia Antiga? São Paulo: Ed. Loyola, 1999, p. 61. Com base no trecho acima e na filosofia de Sócrates, assinale a alternativa INCORRETA. A) Sócrates prefere a morte a ter que renunciar a sua missão, qual seja: buscar, por meio da filosofia, a verdade, para além da mera aparência do saber. B) Sócrates leva o seu interlocutor a examinar-se, fazendo-o tomar consciência das contradições que traz consigo. C) Para Sócrates, pior do que a morte é admitir aos outros que nada se sabe. Deve-se evitar a ignorância a todo custo, ainda que defendendo uma opinião não devidamente examinada. D) Para Sócrates, o verdadeiro sábio é aquele que, colocado diante da própria ignorância, admite que nada sabe. Admitir o não-saber, quando não se sabe, define o sábio, segundo a concepção socrática. QUESTÃO 03: (UFU) O diálogo socrático de Platão é obra baseada em um sucesso histórico: no fato de Sócrates ministrar os seus ensinamentos sob a forma de perguntas e respostas. Sócrates considerava o diálogo como a forma por excelência do exercício filosófico e o único caminho para chegarmos a alguma verdade legítima. De acordo com a doutrina socrática, A) a busca pela essência do bem está vinculada a uma visão antropocêntrica da filosofia. B) é a natureza, o cosmos, a base firme da especulação filosófica. C) o exame antropológico deriva da impossibilidade do autoconhecimento e é, portanto, de natureza sofística. D) a impossibilidade de responder (aporia) aos dilemas humanos é sanada pelo homem, medida de todas as coisas. Questões Enem: QUESTÃO 01: Sócrates ocupava-se de questões éticas e não da natureza em sua totalidade, mas buscava o universal no âmbito daquelas questões, tendo sido o primeiro a fixar a atenção nas definições. Aristóteles. Metafísica, A6, 987b 1-3. Tradução de Marcelo Perine. São Paulo: Loyola, 2002. Em um importante trecho da sua obra Metafísica, Aristóteles se refere a Sócrates nos termos acima. Sócrates inaugura um novo período na filosofia grega. Além do objeto diferente, o método deste filósofo também era algo inovador, e consistia A) em um exercício dialético, cujo objetivo era livrar o seu interlocutor do erro e do preconceito − com o prévio reconhecimento da própria ignorância −, e levá-lo a formular conceitos de validade universal (definições). B) na busca pela “Arché”, pelo princípio supremo do Cosmos. Por isso, o método socrático era idêntico aos utilizados pelos filósofos que o antecederam (Pré- socráticos). C) em um procedimento empregado simplesmente para ridicularizar os homens, colocando-os diante da própria ignorância. Para Sócrates, conceitos universais são inatingíveis para o homem; por isso, para ele, as definições são sempre relativas e subjetivas, algo que ele confirmou com a máxima “o Homem é a medida de todas as coisas”. D) em uma forma de exortar os seus concidadãos para a mudança interior e o cuidado com a alma, parte mais importante do homem. Em razão de discursar de forma eloquentediante dos demais cidadãos da polis, terminou por ser considerado, inclusive por seus seguidores mais direto, um mestre da arte sofística. E) em uma forma de melhorar os seus concidadãos por meio da investigação filosófica. Para ele, isso implica não buscar “o que é”, mas aperfeiçoar “o que parece ser”. Por isso, diz o filósofo, o fundamento da vida moral é, em última instância, o egoísmo, ou seja, o que é o bem para o indivíduo num dado momento de sua existência. QUESTÃO 02: “Assim, Cálicles, desmanchas o nosso convênio e te qualificas para investigar comigo a verdade, se extremares algo contra tua maneira de pensar.” PLATÃO. Górgias. Trad. de Carlos Alberto Nunes. Belém: EDUFPA, 2002, p. 198, 495a. A partir do fragmento acima é possível inferir que a base da filosofia socrática é A) a educação mediante os discursos políticos e jurídicos encenados nos tribunais atenienses. Sócrates parte das proposições dos adversários para encontrar um discurso oposto que seja retoricamente persuasivo. B) a procura da verdade acerca do conhecimento da Natureza e da maneira de pensar sobre os princípios racionais que governam o cosmos a partir do conhecimento acumulado pelos filósofos anteriores. C) a refutação, a partir de um convênio em busca da verdade, de todas as proposições de seus interlocutores com o intuito de demonstrar que o conhecimento das questões morais é impossível. D) a procura da perfeição da alma, mediante o exame de si mesmo e dos concidadãos, que é a condição da excelência moral. A refutação socrática é, sobretudo, um modo de testar a verdade da excelência da vida. E) o ensino da melhor forma de argumentação, em um momento no qual as atividades políticas eram tidas em alta conta na sociedade ateniense, e exigiam capacidade argumentativa dos jovens. Exercícios de fixação: QUESTÃO 01: (UFU) Leia atentamente o trecho do diálogo platônico Apologia de Sócrates: Como se dá, caro amigo, ...não te envergonhes de só te preocupares com dinheiro e de como ganhar o mais possível, e quanto à honra e à fama, à prudência e à verdade, e à maneira de aperfeiçoar a alma, disso não cuidas nem cogitas? PLATÃO, Apologia de Sócrates. Trad. de Carlos Alberto Nunes. Belém: EDUFPA, 2001. p. 130, 29d-e. A partir do texto acima, escolha a alternativa que melhor exprime a ética socrática. A) Sócrates define a virtude a partir de um conjunto de ações que são ensinadas aos discípulos por meio de exemplos. Somente a ciência constitui o saber, pois não se pode conhecer a essência da virtude. O aperfeiçoamento da alma só acontece através do saber técnico, que permite ao homem voltar-se para a prática do bem. B) O exame da alma constitui, para Sócrates, simultaneamente uma investigação acerca da verdade e a escolha de um modo de vida virtuoso. Na investigação sobre a essência das virtudes são empregadas a refutação e a ironia, que expurgam as falsas opiniões acerca do bem e conduzem a razão para os verdadeiros valores. C) O objetivo da investigação filosófica é o exame da natureza e da cosmologia, pelo qual são delimitados os critérios racionais que permitem o abandono dos falsos valores e que conduzem ao aperfeiçoamento da alma pela ciência. A investigação socrática não se ocupa das questões éticas e políticas. D) O aperfeiçoamento da alma só ocorre pelo abandono das preocupações éticas e pela investigação racional do discurso lógico. O exame filosófico é propiciado pela refutação e pela ironia, que permitem a defesa de argumentos contrários e configuram as regras do discurso político persuasivo. QUESTÃO 02: (Unimontes) A originalidade da cidade grega é que ela está centrada na ágora (praça pública), espaço onde se debatem os problemas de interesse comum. A polis se faz pela autonomia da palavra, não mais a palavra mágica dos mitos, palavra dada pelos deuses e, portanto, comum a todos, mas a palavra humana do conflito, da discussão, da argumentação. O saber deixa de ser sagrado e passa a ser objeto de discussão. Toma lugar um movimento importante liderado por pensadores que estimulavam e detinham o domínio da palavra. Os pensadores que estimulavam a arte da palavra e da discussão foram alvo de críticas de Sócrates. Assinale a alternativa que indica esses pensadores. A) Os pensadores a que fazemos referência foram os naturalistas que eram hábeis em ensinar e viajavam de cidade em cidade ensinando a arte da argumentação. B) Os pensadores a que fazemos referência foram os enciclopedistas que eram hábeis em ensinar e viajavam de cidade em cidade ensinando a arte da argumentação. C) Os pensadores a que fazemos referência foram os sofistas que eram hábeis em ensinar e viajavam de cidade em cidade ensinando a arte da argumentação. D) Os pensadores a que fazemos referência foram os materialistas que eram hábeis em ensinar e viajavam de cidade em cidade ensinando a arte da argumentação. QUESTÃO 03: (Unimontes) Via de regra, os sofistas eram homens que tinham feito longas viagens e, por isso mesmo, tinham conhecido diferentes sistemas de governo. Usos, costumes e leis das cidades-estados podiam variar enormemente. Sob esse pano de fundo, os sofistas iniciaram em Atenas uma discussão sobre o que seria natural e o que seria criado pela sociedade. (GAARDER, J. O Mundo de Sofia. São Paulo: Companhia das Letras, 1995). Sobre os sofistas, é INCORRETO afirmar que A) eles tiveram papel fundamental nas transformações culturais de Atenas. B) eles se dedicaram à questão do homem e de seu lugar na sociedade. C) eles eram mercenários e só visavam ao lucro na arte de ensinar. D) eles foram os primeiros a compreender que o “homem é medida de todas as coisas”. QUESTÃO 04: (UEM) Protágoras de Abdera (480-410 a.C.) é considerado um dos mais importantes sofistas. Ensinou por muito tempo em Atenas, sendo atribuído à sua autoria a seguinte máxima da filosofia: “O homem é a medida de todas as coisas”. Sobre Protágoras e os sofistas, assinale o que for correto. 01) De forma semelhante a pensadores contemporâneos, os sofistas problematizam a multiplicidade de perspectivas do conhecimento. 02) O relativismo de Protágoras pode ser defendido filosoficamente a partir da percepção do movimento, tese já defendida anteriormente por Heráclito. 04) Platão e Aristóteles contrapuseram-se aos sofistas, ao não defender o homem como medida de todas as coisas. 08) Em razão de seu humanismo, atribui-se a Protágoras a inversão copernicana, isto é, a tese de que não é o sol que gira em torno da Terra, mas a Terra que gira em torno do sol. 16) O saber contido na frase de Protágoras é prático, além de teórico, ou seja, mobiliza o campo da filosofia para a retórica. QUESTÃO 05: (UFU) Assinale (V) ou (F) para as seguintes características gerais do período socrático. 1 ( ) Sócrates e Platão aceitam a validade das opiniões e das percepções sensoriais e trabalham com elas para produzir argumentos de persuasão. 2 ( ) A Filosofia está voltada para a definição das virtudes morais e das virtudes políticas, tendo como objeto central de suas investigações a moral e a política. 3 ( ) As idéias se referem à essência íntima, invisível, verdadeira das coisas e só podem ser alcançadas pelo pensamento puro, que afasta os dados sensoriais, os hábitos recebidos, os preconceitos, as opiniões. 4 ( ) O ponto de partida da Filosofia é a confiança no pensamento ou no homem como um ser racional, capaz de conhecer-se a si mesmo e, portanto, capaz de reflexão. Reflexão é a volta que o pensamento faz sobre si mesmo para conhecer-se; é a consciência conhecendo-se a si mesma como capacidade para conhecer as coisas, alcançando o conceito ou a essência dessas coisas. QUESTÃO 06: (UFU) Leia atentamente o texto e assinale (V) para cada afirmação verdadeira e (F) para cada afirmação falsa. “(...) Porém a grande superioridade de minha arte consiste na faculdade de conhecer de pronto se o que a alma dos jovens está na iminência deconceber é alguma fantasia e falsidade ou fruto legítimo e verdadeiro. Nesta particular sou igualzinho às parteiras: estéril em matéria de sabedoria, tendo grande verdade o que me acusam, de só interrogar os outros, sem nunca apresentar opinião pessoal sobre nenhum assunto, por carecer, justamente, da sabedoria. E a razão é a seguinte: a divindade me incita a partejar os outros, porém me impede de conceber. Por isso mesmo, não sou sábio, não havendo um só pensamento que eu possa apresentar como tendo sido invenção de minha alma e por ela dado à luz. Porém os que tratam comigo, suposto que alguns, no começo, pareçam de todo ignorantes, com a continuação de nossa convivência, quantos a divindade favorece progridem admiravelmente, tanto no seu próprio julgamento como no de estranhos. O que é fora de dúvida é que nunca aprenderam nada comigo; neles mesmos é que descobrem as coisas belas que põem no mundo, servindo, nisso tudo, eu e a divindade como parteira”. Platão, Teeteto, (150b-c) Trad. Carlos Alberto Nunes. Belém: UFPA, 2001, P.47. 1( ) No trecho acima, Sócrates nomeia a arte que pratica como a maiêutica, visto que, por meio dela, ele será capaz de gerar seus próprios pensamentos. 2( ) A exposição de Sócrates permite afirmar a defesa do inatismo, ou seja, que as idéias racionais nascem com os homens, pois a verdade existe na alma e não é adquirida pela experiência. 3( ) Sócrates claramente afirma, no texto, indagar toda pessoa que se disponha a discutir exclusivamente valores morais, pois qualquer um pode conceber pensamentos. 4( ) A atividade socrática afirma, descrita por Platão, exercida por meio de questionamentos. Comparável ao das parteiras, seu trabalho, em relação à alma, nada concebe por si, sendo estéril. Mas, mesmo assim, Sócrates se julga capaz de distinguir o pensamento verdadeiro do falso. QUESTÃO 07: Leia atentamente o trecho abaixo da Apologia de Sócrates. “- Continuo até hoje a andar por toda a parte, obediente à intimação divina, a examinar e questionar o estrangeiro ou concidadão que se me afigura sábio. E quando não me parece que o seja, sempre que ponho em relevo sua ignorância é para bem servir a divindade.” PLATÃO. Apologia de Sócrates, (23b). Belém: EDUFPA, p. 121. Considerando o trecho citado e tendo em vista o procedimento de Sócrates e sua filosofia, marque para as afirmativas abaixo (V) verdadeira ou (F) falsa. 1( ) A investigação socrática é exercida somente no domínio da política. A sua missão divina consiste em mostrar aos homens sua ignorância na matéria política e na constituição das leis. 2( ) Na refutação (élenkhos), por meio de perguntas e respostas breves, Sócrates leva o interlocutor a se comprometer com uma definição P da qual deriva uma crença Q. A crença Q implica, por sua vez, a consequência não-P, ou seja, uma afirmação contraditória. 3( ) O exame socrático consiste em interrogar estrangeiros e concidadãos acerca das questões que dizem respeito somente à imortalidade da alma. Se o interlocutor revela uma falsa piedade, Sócrates usa a refutação para revelar sua ignorância em relação à moral religiosa. 4( ) A intimação divina exige um “exame da alma” que visa despojar os homens da pior ignorância, que é a falsa pretensão de saber. Para Sócrates, não se pode investigar as ações virtuosas sem que, antes, se conheça o que é a virtude “em si”. QUESTÃO 08: (UFU) "Pois eu, Atenienses, devo essa reputação exclusivamente a uma sabedoria. Qual vem a ser esta sabedoria? A que é, talvez, a sabedoria humana. É provável que eu a possua realmente, os mestres mencionados há pouco possuem, talvez uma sobre- humana, ou não sei que diga, porque essa eu não aprendi, e quem disser o contrário me estará caluniando." "Submeti a exame essa pessoa – escusado dizer o seu nome; era um dos políticos. Eis, Atenienses, a impressão que me ficou do exame e da conversa que tive com ele; achei que ele passava por sábio aos olhos de muita gente, principalmente aos seus próprios, mas não o era. Meti-me, então, a explicar-lhe que supunha ser sábio, mas não o era. A consequência foi tornar-me odiado dele e de muitos dos circundantes. (...) ele supõe saber alguma coisa, mas não sabe, enquanto eu, se não sei, tampouco suponho saber." "E se algum de vós redarguir que se importa, não me irei embora deixando-o, mas o hei de interrogar, examinar e confundir e, se me parecer que afirma ter adquirido a virtude e não a adquiriu, hei de repreendê-lo por estimar menos o que vale mais e mais o que vale menos." Platão, Defesa de Sócrates. São Paulo, Abril Cultural, 1973. 20d/e; 21c; 29e. A partir dos textos citados caracterize a filosofia socrática. QUESTÃO 09: (UFU) Acusações contra Sócrates: Acusações mais antigas: “Sócrates é réu de pesquisar indiscretamente o que há sob a terra e nos céus, de fazer que prevaleça a razão mais fraca e de ensinar aos outros o mesmo comportamento.” Acusações mais recentes (de Meleto): “Sócrates é réu de corromper a mocidade e de não crer nos deuses em que o povo crê e sim em outras divindades novas.” Platão, Defesa de Sócrates. Coleção .Os Pensadores.. São Paulo: Nova Cultural, 1987, pp. 6, 11. As citações acima correspondem respectivamente às acusações mais antigas e mais recentes perpetradas contra Sócrates, levando-o a julgamento. Com base nessas acusações, exponha os principais argumentos do discurso de Sócrates em defesa de si mesmo, destacando justamente o sentido radical e profundo do pensamento socrático. QUESTÃO 10: (UFU) Em diversos diálogos platônicos, a personagem de Sócrates é caracterizada por um procedimento investigativo refutatório que se contrapõe ao gênero de discurso empregado pelos mestres de retórica. Tomando o seguinte extrato do Górgias como ponto de partida, explicite: A) os temas que compõem o campo de investigação da Filosofia socrática; B) o modo como a refutação socrática opera. “– (...) Receio contestar-te para que não penses que falo menos pelo prazer de esclarecer o assunto em discussão do que por motivos pessoais. (..)E em que número me incluo? Entre as pessoas que têm prazer em ser refutadas, no caso de afirmarem alguma inverdade, e prazer também em refutar os outros, se não estiver certo, do mesmo modo, o que disserem, e que tanto se alegram com serem refutadas como em refutarem (...) ”. PLATÃO. Górgias. (457e-458a). Belém: EDUFPA, 2002. p. 142-143. Modulo 4: Platão e a teoria da reminiscência Platão nasceu em Atenas em 427 a.C. Seu verdadeiro nome era Aristócles. Platão era um apelido, derivado, de acordo com alguns, de seu vigor físico; ou como outros atestam, da extensão de sua testa (em grego, platôs significa amplitude, largueza). Platão fazia parte de uma família bastante ligada ao cenário político da Grécia. Sua mãe tinha parentesco com Sólon e seu pai era descendente do rei Codros. Desse modo que desde a juventude Platão já tinha a política como seu ideal. Seu primeiro contato com Sócrates se deu quando estava com aproximadamente vinte anos, sendo que seu objetivo inicial não era fazer da filosofia a finalidade última de sua vida, mas se preparar melhor para a vida política. É fato que os acontecimentos e o convívio com Sócrates o encaminharam em outra direção, e ele dedicou-se, por todo o restante de sua vida, a uma das mais vastas produções filosóficas da história da filosofia. - A atividade literária de Platão abrange mais de cinqüenta anos de sua vida: desde a morte de Sócrates até a sua morte. A parte mais importante da atividade literária de Platão é representada pelos diálogos – em três grupos principais, segundo certa ordem cronológica, lógica e formal. As obras de Platão são geralmente classificadas em diálogos socráticos, de maturidade e de velhice. Os primeiros são diálogos que defendem a memória de Sócrates e o apresentam discutindo, geralmente, temas morais, sem chegar, porém, a conclusões,ou seja, são os diálogos aporéticos – sem saída – de Sócrates, que são combativos e visam acabar com opiniões inconsistentes, levando o conhecimento verdadeiro às pessoas. Nos diálogos de maturidade Platão Recorte da Obra A escola de Atenas (1511-1512) do pintor Renascentista Rafael. vai afirmando, cada vez mais, a independência de seu pensamento em relação ao de Sócrates. Mas são os diálogos de velhice que apresentam a última formulação do pensamento platônico. O MÉTODO PLATÔNICO O diálogo, para Platão, não deve permanecer no nível do confronto de consciências, mas precisa tornar-se o embate entre teses. Deve ser um método que suba progressivamente do plano relativo e instável das opiniões (doxa) até a construção de formas mais seguras do conhecimento (episteme), rumo à conquista da verdade. O método proposto por Platão é, num primeiro momento uma dialética ascendente, que procura explicar a situação atual do universo e dos seres, não por uma situação anterior, mas por meio de causas intemporais, que expliquem sempre porque cada coisa é o que é. Platão, com isso, está adotando um método explicativo típico da matemática, o método dos geômetras, que consiste basicamente no seguinte: diante de um problema, levanta-se uma hipótese para resolvê-lo; sendo satisfatória passa-se então a verificar se ela se sustenta a si mesma, ou se supõe outra hipótese mais geral, e assim por diante. Cria-se então uma cadeia de hipóteses interdependentes, que buscam uma sustentação última – uma não-hipótese – que se baste a si mesma e que sustente todas as demais levantadas anteriormente. Vê-se, então, na matemática, um prenúncio para essa dialética platônica, pois ela dá uma idéia do mundo inteligível, já que a geometria nos leva a conceber seres eternos e imutáveis – linha, reta, círculo, figuras idealmente perfeitas – e toda idéia como veremos na sua teoria das idéias ou formas de Platão, e imutável, perfeita e eterna. CRÍTICA AO CONHECIMENTO SENSÍVEL Segundo Platão, permanecer no nível das sensações impede a construção de um conhecimento seguro e estável. De fato as sensações fornecem apenas evidências momentâneas e individuais, e um conhecimento baseado apenas nelas é um conhecimento somente daquilo que aparece a cada pessoa, no momento em que aparece como tal. O conhecimento sensível está no plano da opinião e é instável e relativo ao momento e à forma como se percebe determinada coisa. Dessa maneira não é possível conhecer nada, pois tudo está constantemente mudando. SOBRE O CONHECIMENTO Como em Sócrates a filosofia de Platão tem um fim prático, moral; é a grande ciência que resolve o problema da vida. Este fim prático realiza-se, no entanto, intelectualmente através da especulação, do conhecimento da ciência. Mas – diversamente de Sócrates que limitava a pesquisa filosófica, conceptual ao campo antropológico e moral – Platão estende tal indagação ao campo metafísico e cosmológico, isto é, a toda realidade. Este caráter íntimo, humano, religioso da filosofia, é tornado especialmente vivo, angustioso pela viva sensibilidade do filósofo em face do universal vir-a-ser, nascer e perecer de todas as coisas, em face do mal, da desordem que se manifesta em especial no homem, onde o corpo é inimigo do espírito, o sentido se opõe ao intelecto, a paixão contrasta com a razão. Assim, Platão o espírito humano peregrino neste mundo e prisioneiro na caverna do corpo. Deve, pois, transpor este mundo e libertar- se do corpo para realizar o seu fim, isto é, chegar à contemplação do inteligível. A diferença essencial entre o conhecimento sensível e o intelectual, universal, está nisto: o conhecimento sensível, embora verdadeiro não sabe que o é, donde pode passar indiferentemente ao conhecimento diverso e cair no erro sem o saber, ao passo que o segundo, além de ser um conhecimento verdadeiro, sabe que o é, não podendo de modo algum ser substituído por um conhecimento diverso errôneo. Poder- se-ia também dizer que o primeiro sabe que as coisas estão assim, sem saber porque o estão, ao passo que o segundo sabe que as coisas devem estar necessariamente assim como estão, precisamente porque é ciência, isto é, conhecimento das coisas pelas causas. A TEORIA DAS IDEIAS Como principal conseqüência da utilização do método dos geômetras, Platão propõe que se afirme hipoteticamente a existência de formas ou essências ou idéias, que seriam modelos eternos das coisas sensíveis. Essas essências seriam incorpóreas e imutáveis, existindo em si mesmas. Embora Platão as chame também de idéias, elas não existem na mente humana, como conceitos ou representações mentais, nem os objetos – de que são modelos –, nem nos sujeitos – que conhecem esses sujeitos. Cada coisa corpórea e mutável seria o que ela é – uma cadeira, por exemplo – porque participa da essência que lhe seve de modelo – a cadeira em si, a essência ou a idéia de cadeira. Uma cadeira que vemos ou tocamos pode ser de metal ou madeira, de várias cores ou modelos; ela muda, envelhece e é destruída com como tempo, mas a essência de cadeira permanece sempre a mesma, fora do tempo e do espaço, é sempre única. Não podemos apreender com os sentido essa essência ou idéia incorpórea e intemporal, pois nossos sentido só captam o material, dotado de alguma concretude, que está situado no espaço e no tempo. Só podemos alcançá-la pelo intelecto. ALMA E REMINISCÊNCIA Como o homem – ser concreto que existe no tempo e no espaço – pode conhecer as essências incorpóreas e intemporais? Essa possibilidade depende de outra hipótese: é preciso supor que ele possua algo incorpóreo e indestrutível, algo de natureza semelhante à das idéias. É necessário supor que ele abriga em seu corpo uma alma, também pura forma imortal. Essa alma já teria contemplado as essências antes de se prender ao corpo ao qual provisoriamente vinculada. Unida ao corpo, alojada a ele como em uma prisão ela esquece daquele conhecimento anterior. Mas os sentidos apreendem objetos que são cópias imperfeitas daquelas essências que a alma contemplara, e isso permite que ela vá lembrando das idéias. Assim, o conhecimento é, na verdade, reconhecimento, reminiscência, retorno. A IDÉIA DE BEM A adoção do método dos geômetras faz da filosofia, inicialmente, um jogo de hipóteses. Se até o final o conhecimento permanecer com esse jogo, ele permanecerá no âmbito do provável, do possível, do hipotético, não chegando à certeza. Desse modo, a escalada do conhecimento resultará na garantia da verdade se, no final, depois de percorrer todas as hipóteses, levar ao absoluto, ao necessário, ao não- hipotético. Platão considera que, usando o conhecimento dialético, o filósofo pode atingir as essências eternas. E, seguindo as articulações que ligam as essências, vai conquistando essências cada vez mais gerais, até que por fim, contempla aquele absoluto, uma superessência. Na República, Platão o denomina de Bem. Ele seria a fonte de toda a luz, fazendo com que os objetos possam ser conhecidos, e que nós possamos conhecê-los. A POLÍTICA: ARISTOCRACIA DE FILÓSOFOS Para Platão o modelo político presente em sua cidade naquele momento não representava as melhores possibilidades para um governo em nome da Justiça e do Bem. É importante, neste momento, que entendamos o que o faz pensar assim. A base para tal crítica nós já construímos: o ser humano é composto de corpo e alma, e esta última, antes de ser aprisionada para a experiência sensível, esteve no plano inteligível, e contemplou diretamente as formas perfeitas. A questão é que as almas tiveram, ao longo das suas existências, experiências muito distintas, o que fez com que escolhessem, para a vida que na qual se encontram, projetos também muito diferentes. Foi isso que fez com que umas optassem por uma vida mergulhada na satisfação pelos bens materiais, enquanto outras escolheram uma existência mais contemplativa, de reflexão, dedicada à filosofia. Emseu famoso dialogo “O Banquete” Platão nos apresenta uma alma que seria dividida em três partes: racional, emocional e apetitiva, sendo que esta última é justamente aquela que mais se compraz com a satisfação das necessidades do corpo. Para ele, uma alma equilibrada possui uma parte racional que reina absoluta sobre as outras duas, controlando-as de perto. A cidade ideal também seria assim. Nela, aqueles que possuem a parte racional da alma mais proeminente (almas de ouro) e que, por isso mesmo, optaram por uma vida menos afeita ao material e mais dedicada à contemplação, deveriam ser os governantes da polis, os filósofos. Representando as emoções, porque lutam por amor à cidade, e porque tem na coragem a característica fundamental, estariam os militares, comandados pela elite de magistrados. No lugar da parte apetitiva, exatamente porque a têm mais acentuada em sua alma, estariam os grupos que se dedicariam a cuidar da manutenção material da cidade, os agricultores, pastores, artesãos, comerciantes. Em tal formação os mais capazes estariam na posição de comando, e ordenariam a cidade sempre na direção do Bem. Em uma democracia, como a que existia, os filósofos, sendo minoria, seriam sempre vencidos nas votações pelos demagogos e pelos insensatos, e as decisões ficariam sempre nas mãos dos menos capacitados, o que representaria prejuízo para o coletivo. A ALEGORIA DA CAVERNA Trata-se de um trecho do Livro VII da República de Platão, as falas na primeira pessoa são de Sócrates, e seus interlocutores, Glauco e Adimanto, são os irmãos mais novos de Platão. - Depois disso, continuei, compara nossa natureza, conforme seja ou não educada, com a seguinte situação: imagina homens de morada subterrânea em forma de caverna, provida de uma única entrada com vista para uma luz em toda sua largura. Encontram-se nesse lugar, desde pequenos, pernas e pescoço amarradas com cadeias, de forma que são forçados a ali permanecer e a olhar apenas para frente, impossibilitados, como se acham, pelas cadeias, de virar a cabeça. A luz de um fogo aceso, a grande distância brilha no alto e por trás deles; entre os prisioneiros e o foco de luz há um caminho que passa por cima, ao longo do qual imagina agora um murozinho, à maneira do tabique que os politiqueiros levantam entre eles e o público e por cima do qual executam suas habilidades. - Figuro tudo isso, respondeu. - Observa, então, ao comprido desse murozinho homens a carregar toda a sorte de utensílios que ultrapassa a altura do muro, e também estátuas e figuras de animais, de pedra ou de madeira, bem como objetos da mais variada espécie. Como é natural, desses carregadores uns conversam e outros se mantêm calados. - Imagens muito estranhas, disse, como também os prisioneiros de que falas. - Parecem-se conosco, respondi. Para começar achas mesmo que em semelhante situação poderiam ver deles próprios e dos vizinhos alguma coisa além da sombra projetada pelo fogo, na parede da caverna que lhes fica em frente? - De que jeito, perguntou, se a vida inteira não conseguem mexer a cabeça? - E com relação aos objetos transportados, não acontecerá a mesma coisa? - Como não? - Logo, se fossem capazes de conversar, não acreditas que pensariam estar designando pelo nome certo tudo o que vêem? - Necessariamente. - E se no fundo da prisão se fizesse ouvir um eco? Sempre que se falasse alguma coisa das estátuas, não achas que eles só poderiam atribuir a voz às sombras em desfile? - Sim, por Zeus! exclamou. - De qualquer forma, continuei, para semelhante gente a verdade consistiria apenas na sombra dos objetos fabricados. - É mais do que certo, respondeu. - Considera agora, lhe disse, quais seriam as conseqüências da libertação desses homens depois de curados de suas cadeias e imaginações, se as coisas se passassem do seguinte modo: vindo a ser um deles libertado e obrigado imediatamente a levantar-se, a virar o pescoço, andar e olhar na direção da luz, não apenas tudo isso lhe causaria dor, como também o deslumbramento o impediria de ver os objetos cujas sombras até então ele enxergava. Como achas que responderia a quem afirmasse que tudo o que ele vira até ali não passava de brinquedo e que somente agora, por estar mais próximo da realidade e ter o rosto voltado para o que é mais real é que ele via com maior exatidão; e também se o interlocutor lhe mostrasse os objetos, à medida que fossem desfilando e o obrigasse, à custa de perguntas a designa-los pelos nomes? Não te parece que ficaria atrapalhado e imaginaria ser mais verdadeiro tudo o que ele vira até então do que como naquele instante lhe mostravam? - Muito mais verdadeiro, respondeu. - E no caso de o forçarem a olhar para a luz, não sentiria dor nos olhos e não correria para junto das coisas que lhe era possível contemplar, certo de serem todas elas mais claras do que as que lhe então apresentavam? - Isso mesmo, disse. - E agora, perguntei; se o arrastassem a força pela rampa rude e empinada e não o largasse enquanto não houvessem alcançado a luz do sol não te parece que sofreria bastante e se revoltaria por ver-se tratado daquele modo? E depois de estar no claro, não ficaria com a vista ofuscada sem enxergar nada do que lhe fosse então indicado como verdadeiro? - De fato, respondeu; pelo menos no começo. - Precisaria, creio, habituar-se para poder contemplar o mundo superior. De início, perceberia mais facilmente as sombras; ao depois as imagens e dos outros objetos refletidos na água; por último os objetos, no rasto deles, o que se encontra no céu e o próprio céu, porém sempre enxergando, com mais facilidade, durante a noite, à luz da lua e das estrelas, do que de dia ao Sol com todo o seu fulgor. - Não há dúvida. - Finalmente, segundo penso, também o Sol, não na água ou sua imagem refletida em qualquer parte, mas no lugar certo, que ele poderia ver e contemplar tal como é mesmo. - Necessariamente, disse. - De raciocínio em raciocínio, chegaria à conclusão de que o Sol é que produz as estações e tudo dirige no espaço visível, e que, de alguma modo, é a causa do que ele e seus companheiros estavam habituados a distinguir. - É evidente, respondeu, que depois de tudo, ele concluiria dessa maneira. - E então? Quando se lembrasse de sua primitiva morada, da sabedoria lá reinante e dos companheiros de prisão: não te parece que se felicitaria pela mudança e lastimaria a sorte deles todos? - Sem dúvida. - E as honrarias e os elogios entre eles mesmos, os prêmios para quem percebesse com mais nitidez as imagens em desfile e se lembrasse com exatidão do que costumava aparecer em primeiro lugar ou por último, ou concomitantemente, e que por isso, ficasse em condições de prever o que iria dar-se: acredita-se que semelhante indivíduo do outro tempo ou invejasse os que entre eles fossem alvo de distinções ou fizessem parte do governo? Ou com ele se passaria aquilo de Homero: Pois preferira viver empregado em trabalhos do campo, sob um senhor sem recursos e vir a sofrer seja o que for a voltar para semelhantes ilusões e viver a antiga vida? - É também o que penso, respondeu; agüentaria tudo para não voltar a viver daquele jeito. - Considera também o seguinte, lhe falei: se esse indivíduo baixasse de novo para ir sentar-se ao seu antigo lugar, não ficaria com os olhos obnubliados pelas trevas por vir da luz do Sol assim tão de repente? - Sem dúvida, respondeu. - E se tivesse de competir outra vez a respeito das sombras com aquele eternos prisioneiros quando ainda se ressentisse da fraqueza da vista, por não se ter habituado com o escuro – o que não exigiria pouco tempo – não se tornaria objeto de galhofa dos outros e não diriam estes que o passeio lá por cima lhe estragara a vista e que não valia a pena sequer tentar aquela subida? E se por ventura ele procurasse liberta-los e conduzi-los para cima, caso fosse possível aos outros fazer uso das mãos e mata-lo, não lhe tiraria a vida? - Com toda certeza,respondeu. - Agora, meu caro Glauco, precisarás essa alegoria a tudo que expusemos antes, para compartilhar, para comparar o mundo percebido pela visão com o domicílio carcerário, e a luz do fogo que nele esplende com a energia do Sol. Quanto à subida para o mundo superior e a contemplação do que lá existe se vires nisto a ascensão da alma para a região inteligível, não te terás desviado das minhas esperanças, já que tanto ambicionas conhecê-las. Só Deus sabe se esta de acordo com a verdade. O que vejo, pelo menos, é o seguinte: no limite extremo da região do cognoscível está a idéia do bem, dificilmente perceptível, mas que, uma vez apreendida, impõe-nos de pronto a conclusão de que é a causa de tudo o que é belo e direito, a geratriz, no mundo visível, da luz e do senhor da luz, como no mundo inteligível é dominadora, fonte imediata da verdade e da inteligência, que precisará ser contemplada por quem quiser agir com sabedoria, tanto na vida pública como na particular. - Concordo com tua maneira de pensar, me disse, até onde consigo acompanhar. (PLATÃO, 1988, p. 281-284) BREVE EXPLICAÇÃO DA ALEGORIA DA CAVERNA O que é a caverna? O mundo em que vivemos. Que são as sombras das estatuetas? As coisas materiais e sensoriais que percebemos. Que é o prisioneiro que se liberta e sai da caverna? O filósofo. O que é a luz exterior do Sol? A luz da verdade. O que é o mundo exterior? O mundo das idéias ou da verdadeira realidade. Qual o instrumento que liberta o filósofo e com o qual ele deseja libertar os outros prisioneiros? A dialética. O que é a visão do mundo real iluminado? A filosofia. Por que os prisioneiros zombam e, se pudessem, matariam o filósofo (aqui Platão se refere a condenação de Sócrates à morte pela assembléia ateniense)? Porque imaginam que o mundo sensível é o mundo real e o único verdadeiro. Após essa breve explanação de alguns pontos referentes a Alegoria da Caverna, passaremos a análise dos seus dois aspectos mais importantes, o epistemológico (referente ao conhecimento) e o político (relativo ao poder). Na dimensão epistemológica, percebe-se a distinção das duas principais formas de conhecimento enunciadas por Platão na sua “Teoria das Idéias”: doxa ou opinião, referente ao mundo sensível, dos fenômenos, e a episteme referente ao mundo inteligível das idéias. O mundo sensível, acessível aos sentidos, é o mundo da multiplicidade, do movimento, e é ilusório, pura sombra do verdadeiro mundo. Assim, mesmo se percebemos inúmeras abelhas dos mais variados tipos, a idéia de abelha deve permanecer imutável, deve ser una, consistindo, assim, na verdadeira realidade. Com isso Platão se aproxima do instrumental teórico de Parmênides. Do seu mestre aproveita a noção de logos, e continuando o processo de compreensão do real, cria a palavra idéia (eidos), para referir-se a intuição intelectual, distinta da intuição sensível. Portanto acima do ilusório mundo sensível, há o mundo das idéias gerais, da essências imutáveis que o homem atinge pela contemplação e pela depuração dos enganos dos sentidos. Sendo as idéias a única verdade, o mundo dos fenômenos só existe na medida em que participa do mundo das idéias do qual é apenas sombra ou cópia. Por exemplo, um cavalo só é um cavalo enquanto participa da idéia de “cavalo em si”. Se lembrarmos do que foi dito, a respeito dos Pré-socráticos, podemos verificar que Platão tenta superar a oposição do pensamento de Heráclito (que afirma a eterna mutabilidade do ser) com a posição de Parmênides (que afirma a imobilidade do ser). Para Platão, a mutabilidade do ser da teoria do primeiro refere-se ao mundo sensível (da doxa), e a imutabilidade do ser da teoria do segundo refere-se ao mundo inteligível, ou mundo das idéias. A questão política, que também pode ser trabalhada na “Alegoria da Caverna”, permite ao aluno pensar sobre o seu mundo através da analogia do homem que sai da caverna, vê o mundo como ele realmente é e retorna para tentar mostrar aos outros o que é a realidade, contudo, se estes pudessem, o matariam. Nesta passagem do VII livro da República, Platão se refere a Sócrates que conheceu a realidade e tentou abrir os olhos dos atenienses. Pergunta-se então: Por que os governantes de Atenas fizeram de tudo para condenar e matar Sócrates, acusando-o de ser o corruptor da mocidade? É simples, porque Sócrates estava fazendo uma revolução, mostrando aos atenienses que aquilo que julgavam conhecer estava errado, sendo que, com isso, ele demonstrou que inclusive o conceito de virtude – que todos julgavam que os governantes possuíam, e por isso tinham direito de comandar a polis – estava errado, então, por que aquele que descobri que não é virtuoso está no poder? Sócrates estava mostrando que todos os conhecimentos e costumes que a sociedade de Atenas tinha – e mantinha os governantes no poder – estavam errados, e isso era prejudicial aos que detinham o poder, por isso era necessário calar Sócrates. Outra analogia possível é a de que Sócrates fosse a “esquerda” e os governantes de Atenas a “direita”, a primeira diz que o governo da “direita” está errado e mostra por que, e por isso são tachados de comunistas, alienados, loucos, anarquistas e muito mais. Estes são conceitos que não haviam na época, mas que representam a situação atualizada do acontecido, daí vê-se o por que do empenho em continuar com os cursos técnicos, e da crítica aos ditos cursos de humanas, os primeiros formam profissionais e os outros intelectuais, sendo estes últimos nada mais do que problemas para o sistema posto pelos governantes. A sociedade deve ser constituída de homens iguais, sendo que através do voto escolhe-se alguns para serem não governantes, mas representantes, ou seja, o povo paga alguém para que tome conta do que é público, dessa forma o “governante” não é nada mais que um empregado do povo, que não está conseguindo cumprir a sua função, pois as sociedades – cidades, Estados, países – estão um caos. E aí proponho a seguinte questão: em uma empresa privada, um empregado descontente com seu salário pode aumentá-lo? A resposta é NÃO. Então por que o empregado do povo pode? Por que se encontra tantas dificuldades para demitir esse empregado quando ele não cumpre seu papel? Por que contratamos alguém para tomar conta de tudo que é público e encontra-se estradas esburacadas, sem sinalização, não há atendimento médico, dentre outras coisas e, mesmo assim, não se consegue demiti-lo? É pelo fato de que a minoria da população não pensa assim, ou não tem consciência desses fatores, imaginam que são governados, e os governantes têm o poder e, por isso, nada se pode fazer. Todas essas reflexões parecem estar distantes do que é exposto por Platão na “Alegoria da Caverna”, mas não está, pois Sócrates morreu para que não abrisse a mente dos atenienses para fatores como esses. Apresento o seguinte exemplo no intuito de esclarecer melhor ainda a relação feita acima: Se, para os atenienses, o que dá direito ao governo é o fato de um homem ser virtuoso e Sócrates mostra que o que eles tinham como virtude está errado, o povo de Atenas poderia se perguntar: Por que ele está no poder? Eu o considerava virtuoso, porém, vi que o que considerava virtude está errado, então ele não é mais virtuoso e por isso deve deixar o poder. É claro que as coisas não aconteciam de forma tão simples, mas o raciocínio é correto e caso viesse a ser colocado poderia acabar com a forma de governo posta no momento. Exercícios propostos: QUESTÃO 01: (UEL) Leia o texto a seguir. Para esclarecer o que seja a imitação, na relação entre poesia e o Ser, no Livro X de A República, Platão parte da hipótese das ideias, as quais designam a unidade na pluralidade, operada pelo pensamento. Ele toma como exemplo o carpinteiro que, por sua arte, cria uma mesa, tendo presente a ideia de mesa, como modelo. Entretanto, o que ele produzé a mesa e não a sua ideia. O poeta pertence à mesma categoria: cria um mundo de mera aparência. Com base no texto e nos conhecimentos sobre a teoria das ideias de Platão, é correto afirmar: A) Deus é o criador último da ideia, e o artífice, enquanto coparticipante da criação divina, alcança a verdadeira causa das coisas a partir do reflexo da ideia ou do simulacro que produz. B) A participação das coisas às ideias permite admitir as realidades sensíveis como as causas verdadeiras acessíveis à razão. C) Os poetas são imitadores de simulacros e por intermédio da imitação não alcançam o conhecimento das ideias como verdadeiras causas de todas as coisas. D) As coisas belas se explicam por seus elementos físicos, como a cor e a figura, e na materialidade deles encontram sua verdade: a beleza em si e por si. E) A alma humana possui a mesma natureza das coisas sensíveis, razão pela qual se torna capaz de conhecê-las como tais na percepção de sua aparência. QUESTÃO 02: (UEL) Leia o texto a seguir e responda à questão. Texto I – Considera pois – continuei – o que aconteceria se eles fossem soltos das cadeias e curados da sua ignorância, a ver se, regressados à sua natureza, as coisas se passavam deste modo. Logo que alguém soltasse um deles, e o forçasse a endireitar-se de repente, a voltar o pescoço, a andar e a olhar para a luz, a fazer tudo isso, sentiria dor, e o deslumbramento impedi-lo-ia de fixar os objetos cujas sombras via outrora. Que julgas tu que ele diria, se alguém lhe afirmasse que até então ele só vira coisas vãs, ao passo que agora estava mais perto da realidade e via de verdade, voltado para objetos mais reais? E se ainda, mostrando-lhe cada um desses objetos que passavam, o forçassem com perguntas a dizer o que era? Não te parece que ele se veria em dificuldade e suporia que os objetos vistos outrora eram mais reais do que os que agora lhe mostravam? (PLATÃO. A República. 7. ed. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 1993. p. 318-319.) O texto é parte do livro VII da República, obra na qual Platão desenvolve o célebre Mito da Caverna. Sobre o Mito da Caverna, é correto afirmar. I. A caverna iluminada pelo Sol, cuja luz se projeta dentro dela, corresponde ao mundo inteligível, o do conhecimento do verdadeiro ser. II. Explicita como Platão concebe e estrutura o conhecimento. III. Manifesta a forma como Platão pensa a política, na medida em que, ao voltar à caverna, aquele que contemplou o bem quer libertar da contemplação das sombras os antigos companheiros. IV. Apresenta uma concepção de conhecimento estruturada unicamente em fatores circunstanciais e relativistas. Assinale a alternativa correta. A) Somente as afirmativas I e IV são corretas. B) Somente as afirmativas II e III são corretas. C) Somente as afirmativas III e IV são corretas. D) Somente as afirmativas I, II e III são corretas. E) Somente as afirmativas I, II e IV são corretas. QUESTÃO 03: (Unimontes) Durante muito tempo, os filósofos ocidentais explicaram o ser humano como composto de duas partes diferentes e separadas: o corpo (material) e a alma (espiritual). Essa tendência recebe o nome de A) dualismo psicofísico. B) psicomaterialismo. C) monofisismo. D) somatismo. Questões Enem: QUESTÃO 01: “Sócrates: Tomemos como princípio que todos os poetas, a começar por Homero, são simples imitadores das aparências da virtude e dos outros assuntos de que tratam, mas que não atingem a verdade. São semelhantes nisso ao pintor de que falávamos há instantes, que desenhará uma aparência de sapateiro, sem nada entender de sapataria, para pessoas que, não percebendo mais do que ele, julgam as coisas segundo a aparência?” Glauco – “Sim”. Fonte: PLATÃO. A República. Tradução de Enrico Corvisieri. São Paulo: Nova Cultural, 1997. p.328. Muito da filosofia de Platão pode ser vinculado ao conceito de mímesis, que significa cópia ou imitação. Sobre este conceito percebe-se que tal filósofo A) critica a pintura e a poesia porque ambas são apenas imitações diretas da realidade. B) entende que os poetas e pintores têm um conhecimento válido dos objetos que representam. C) compreende que tanto os poetas quanto os pintores estão afastados dois graus da verdade. D) critica os poetas e pintores porque estes, à medida que conhecem apenas as aparências, não têm nenhum conhecimento válido do que imitam ou representam. E) defendia que a poesia e a pintura são cópias imperfeitas do mundo das ideias ou inteligível. QUESTÃO 02: “Você está acompanhando, Sofia? E agora vem Platão. Ele se interessava tanto pelo que é eterno e imutável na natureza quanto pelo que é eterno e imutável na moral e na sociedade. Sim... para Platão tratava-se, em ambos os casos, de uma mesma coisa. Ele tentava entender uma ‘realidade’ que fosse eterna e imutável. E, para ser franco, é para isto que os filósofos existem. Eles não estão preocupados em eleger a mulher mais bonita do ano, ou os tomates mais baratos da feira. (E exatamente por isso nem sempre são vistos com bons olhos). Os filósofos não se interessam muito por essas coisas efêmeras e cotidianas. Eles tentam mostrar o que é ‘eternamente verdadeiro’, ‘eternamente belo’ e ’eternamente bom’.” GAARDER, Jostein. O mundo de Sofia. Trad. de João Azenha Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 98. O texto acima faz referência a um dos mais importantes filósofos da antiguidade, Platão, que viveu em Atenas. Para este filósofo A) o mundo das idéias é o mundo do “eternamente verdadeiro”, “eternamente belo” e “eternamente bom” e é distinto do mundo sensível no qual vivemos. B) tudo aquilo que pode ser percebido diretamente pelos sentidos constitui a própria realidade das coisas. C) era impossível que o homem pudesse ter idéias verdadeiras sobre qualquer coisa, seja sobre a natureza, a moral ou a sociedade, porque tudo é sonho e ilusão. D) as idéias sobre a natureza, a moral e a sociedade podem ser explicadas a partir das diferentes opiniões das pessoas. E) o filósofo deve preocupar-se com as coisas efêmeras e cotidianas do mundo, tidas por ele como as mais importantes. Exercícios de Fixação: QUESTÃO 01: (Unimontes) No livro VII de A República, Platão ilustra o seu pensamento com o famoso mito da caverna. A análise do mito pode ser feita sob dois pontos de vista: o epistemológico e o político. Pensando na dimensão política, marque a alternativa INCOMPATÍVEL com o ponto de vista de Platão. A) A família e a propriedade devem ser mantidas, pois representam um bem para o Estado. B) A família e a propriedade devem desaparecer e o Estado deve incumbir-se da educação das crianças. C) O fim da família e da propriedade colocam fim à cobiça e aos interesses decorrentes dos laços familiares. D) As pessoas são diferentes e devem ocupar lugares diferentes na sociedade. QUESTÃO 02: (UFU) Leia o trecho abaixo. E que existe o belo em si, e o bom em si, e, do mesmo modo, relativamente a todas as coisas que então postulamos como múltiplas, e, inversamente, postulamos que a cada uma corresponde uma idéia, que é única, e chamamos-lhe a sua essência (507b-c). PLATÃO. República. Trad. de Maria Helena da Rocha Pereira. 8ª ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. 1996. Marque a alternativa que expressa corretamente o pensamento de Platão. A) Somente por meio dos sentidos, em especial da visão, pode o filósofo obter o conhecimento das idéias. B) No pensamento platônico, o conhecimento das idéias permite ao filósofo discernir a unidade inteligível em face da multiplicidade sensível. C) Para que a alma humana alcance o conhecimento das idéias, ela deve elevar-se às alturas do inteligível, o que somente é possível após a morte ou por meio do contato com os deuses gregos. D) Tanto a dialética quanto a matemática elevam o conhecimento ao inteligível; mas, somente a matemática, por seu caráter abstrato, conduz a alma ao princípio supremo: a idéia de Bem. QUESTÃO 03: (UFU)Leia o seguinte trecho da Alegoria da Caverna. Agora imagine que por esse caminho as pessoas transportam sobre a cabeça objetos de todos os tipos: por exemplo, estatuetas de figuras humanas e de animais. Numa situação como essa, a única coisa que os prisioneiros poderiam ver e conhecer seriam as sombras projetadas na parede a sua frente. CHALITA, G. Vivendo a Filosofia. São Paulo: Ática, 2006, p. 50. Com base na leitura do trecho acima e em seus conhecimentos sobre a obra de Platão (428 a.C. – 348 a.C.), assinale a alternativa INCORRETA. A) Platão distingue o mundo sensível ou das aparências, onde tudo o que se capta por meio dos sentidos pode ser motivo de engano, e o mundo inteligível, onde se encontram as ideias a partir das quais surgem os elementos do mundo sensível. B) Platão tinha como principal objetivo o conhecimento das ideias: realidades existentes por si mesmas, essências a partir das quais podem ser geradas suas cópias imperfeitas. C) O pensamento de Platão deu origem aos fundamentos da ciência moderna graças ao seu método de observação e experimentação para o conhecimento dos fenômenos naturais. D) A obra de Platão está fundamentada em um método de investigação conhecido como dialética cujo objetivo é superar a simples opinião (doxa) e atingir o conhecimento verdadeiro ou ciência (episteme). QUESTÃO 04: (UEM) Para Platão, o mundo sensível, que se percebe pelos sentidos, é o mundo da multiplicidade, do movimento, do ilusório, sombra do verdadeiro mundo, isto é, o mundo inteligível das ideias. Sobre a filosofia de Platão, assinale o que for correto. 01) É com a teoria da reminiscência que Platão explica como é possível ultrapassar o mundo das aparências; essa teoria permite explicar como os sentidos servem apenas para despertar na alma as lembranças adormecidas do mundo das ideias. 02) Para Platão, um homem só é um homem enquanto participa da ideia de homem. 04) A epistemologia e a filosofia política são, para Platão, duas áreas de conhecimento dissociadas, pois a política deve se submeter à realidade dos acontecimentos e não pode ser orientada por um mundo ideal. 08) Platão distingue quatro graus de conhecimentos: crença, opinião, raciocínio e intuição intelectual. O raciocínio, que se realiza de maneira perfeita na matemática, purifica o pensamento das crenças e opiniões e o conduz à intuição intelectual, ao verdadeiro conhecimento, isto é, às essências das coisas – às ideias. 16) A teoria cosmológica do primeiro motor imóvel e a teoria estética da mímesis, de Aristóteles, fundamentam-se na teoria platônica da participação entre o mundo fenomênico e o mundo das ideias. QUESTÃO 05: (UEM) Uma das obras de Platão (428-347 a.C.) mais conhecidas é A República, na qual se encontra o mito da caverna. “Platão imagina uma caverna onde pessoas estão acorrentadas desde a infância, de tal forma que, não podendo ver a entrada dela, apenas enxergam o seu fundo, no qual são projetadas as sombras das coisas que passam às suas costas, onde há uma fogueira. Se um desses indivíduos conseguisse se soltar das correntes para contemplar, à luz do dia, os verdadeiros objetos, ao regressar, relatando o que viu aos seus antigos companheiros, esses o tomariam por louco e não acreditariam em suas palavras.” (ARANHA, M.L.A. e MARTINS, M.H. Filosofando: introdução à filosofia. 3.ª ed. revista. São Paulo: Moderna, 2003, p.121). Sobre a citação acima e o alcance epistemológico do mito da caverna, assinale o que for correto. 01) As imagens produzidas na caverna são sombras que não devem ser confundidas com a realidade. 02) A todo aquele que sai da caverna é vetada a possibilidade de retorno. 04) A imagem da fogueira substitui, fora da caverna, a presença do sol, responsável pela verdadeira luz. 08) Tal qual o mito da Esfinge, decifrado por Odisseu, Platão descreve três estados da humanidade: infância, juventude e maturidade. 16) Tal qual o mundo sensível, ilusório e efêmero, as imagens da caverna possuem um grau ontológico deficitário ou duvidoso. QUESTÃO 06: (UEL) “Quando é, pois, que a alma atinge a verdade? Temos de um lado que, quando ela deseja investigar com a ajuda do corpo qualquer questão que seja, o corpo, é claro, a engana radicalmente. - Dizes uma verdade. - Não é, por conseguinte, no ato de raciocinar, e não de outro modo, que a alma apreende, em parte, a realidade de um ser? - Sim. [...] - E é este então o pensamento que nos guia: durante todo o tempo em que tivermos o corpo, e nossa alma estiver misturada com essa coisa má, jamais possuiremos completamente o objeto de nossos desejos! Ora, esse objeto é, como dizíamos, a verdade.” PLATÃO. Fédon. Trad. Jorge Paleikat e João Cruz Costa. São Paulo: Nova Cultural, 1987. p. 66-67. Com base no texto e nos conhecimentos sobre a concepção de verdade em Platão, é correto afirmar: A) O conhecimento inteligível, compreendido como verdade, está contido nas idéias que a alma possui. B) A verdade reside na contemplação das sombras, refletidas pela luz exterior e projetadas no mundo sensível. C) A verdade consiste na fidelidade, e como Deus é o único verdadeiramente fiel, então a verdade reside em Deus. D) A principal tarefa da filosofia está em aproximar o máximo possível a alma do corpo para, dessa forma, obter a verdade. E) A verdade encontra-se na correspondência entre um enunciado e os fatos que ele aponta no mundo sensível. QUESTÃO 07: (UFU) O parágrafo abaixo, retirado da República de Platão, integra uma célebre imagem que é conhecida na História da Filosofia como “analogia do Sol”. “- Podes, portanto, dizer que é o Sol, que eu considero filho do bem, que o gerou à sua semelhança, o qual bem é, no lugar inteligível, em relação à inteligência e às coisas inteligíveis, o mesmo que o Sol é no lugar visível, com relação à vista e às coisas visíveis.” PLATÃO. República. VI, (508c). Com relação à narrativa que expõe a “analogia do Sol”, marque para as afirmativas abaixo (V) verdadeira ou (F) falsa. 1( ) O Bem representa a Divindade; e o Sol, gerado à sua imagem e semelhança, representa a inteligência humana. A existência dos seres visíveis não depende da presença do Sol. Do mesmo modo, a existência das Formas inteligíveis não depende do Bem. 2( ) A alma é a sede da inteligência, como o olho é o órgão da visão. Além de causar a luz, o Sol é a causa da geração e crescimento do seres visíveis. Analogamente, o Bem é a causa da inteligibilidade das Formas e da existência do Ser de todas as coisas. 3( ) A luz representa para a visão o mesmo que a Verdade e a Justiça representam para a inteligência. Assim como o olho só pode ver algo visível por meio da luz solar, assim também a inteligência só pode apreender a Forma inteligível se for iluminada pelo Bem. 4( ) Para Platão, o mundo inteligível e as Formas, por serem divinos, não têm nenhuma relação com o mundo visível humano. O Sol simboliza a inteligência humana e é apenas uma imagem enfraquecida do Bem, que só pode ser alcançado pela inteligência divina. QUESTÃO 08: (UFU) "Fica sabendo que o que transmite verdade aos objetos que podem ser conhecidos e dá ao sujeito que conhece esse poder, é a idéia do bem. Entende que é ela a causa do saber e da verdade, na medida em que esta é conhecida, mas, sendo ambos assim belos, o saber e a verdade, terás razão em pensar que há algo de mais belo ainda do que eles. E, tal como se pode pensar corretamente que neste mundo a luz e a vista são semelhantes ao sol, mas já não é certa tomá-las como pelo sol, da mesma maneira, no outro, é correto considerar a ciência e a verdade, ambas elas semelhantes ao bem, mas não está certo tomá-las, a uma ou a outra, pelo bem, mas sim formar um conceito mais elevado do que seja o bem." Platão. A República, 5. ed, tradução de Maria Helena da Rocha Pereira. Porto: Fundação Calouste Gulbenkian, 1987. 508e – 509a) A partir da análise do trecho acima pergunta-se:para Platão a verdade do conhecimento necessita ou não de uma norma superior? Justifique a resposta explicando a analogia que Platão estabelece entre o inteligível e o sensível. QUESTÃO 09: (UFU) Leia, abaixo, o trecho de Platão, extraído da Apologia de Sócrates. “(…) descobrem uma multidão de pessoas que supõem saber alguma coisa, mas que na verdade pouco ou nada sabem. (…) e afirmam que existe um tal Sócrates (…) que corrompe a juventude. Quando se lhes pergunta por quais atos ou ensinamentos, não têm o que responder; não sabem, mas para não mostrar seu embaraço apresentam aquelas acusações que repetem contra todos os que filosofam: ‘as coisas do céu e o que há sob a terra; o não crer nos deuses; fazer prevalecer o discurso e a razão mais fraca’. Isso porque não querem dizer a verdade: terem dado prova de que fingem saber, mas nada sabem.” Apol., 23 c-e. A partir do trecho apresentado acima, responda às seguintes questões. A) Para Platão, qual a verdadeira acusação que se faz contra Sócrates? B) Quais elementos característicos da filosofia socrática podem ser extraídos deste trecho? C) Que acusações, tendo em vista as características específicas da filosofia de Sócrates, são apresentadas como não tendo fundamento? QUESTÃO 10: (UFU) Platão é conhecido, na história da Filosofia, como o filósofo que propôs a hipótese da existência de uma ordem de realidade inteligível que é, ao mesmo tempo, distinta dos seres sensíveis e em relação com eles. – “Logo – prosseguiu Sócrates – não compreendo nem posso admitir aquelas outras causas científicas. Se alguém me diz por que razão um objeto é belo, e afirma que é porque tem cor ou forma, ou devido a qualquer coisa desse gênero – afasto-me sem discutir, pois todos esses argumentos me causam unicamente perturbação. Quanto a mim, estou firmemente convencido, de um modo simples e natural, e talvez até ingênuo, que o que faz belo um objeto é a existência daquele belo em si, de qualquer modo que se faça a sua comunicação com este. O modo por que essa participação se efetua, não o examino neste momento; afirmo apenas, que tudo o que é belo é belo em virtude do Belo em si.” PLATÃO, Fédon, 100 c-d. Trad. e notas de Jorge Paleikat e João Cruz Costa. 5ª ed. São Paulo: Nova Cultural, 1991, p. 107. (Os Pensadores) A partir do trecho do Fédon explicite: A) a hipótese proposta por Platão; B) a relação entre essas duas ordens de realidade. Módulo 05: Aristóteles: Metafísica e Lógica. Nascido em Estagira, fronteira com a Macedônia, Aristóteles (384-322 a.C) era filho de um médico, Nicômaco. Aos dezoito anos passa a viver em Atenas, onde se iniciam seus estudos na Academia, escola filosófica fundada por Platão. Permaneceu aí por aproximadamente vinte anos, até a morte de seu mestre. Após isso é convidado por Filipe II, rei da Macedônia, auxiliar na formação do jovem Alexandre, função que ocupa até a coroação do rapaz. Retorna para Atenas e funda o Liceu, local no qual se realizam estudos de filosofia e de alguns ramos da ciência, como física e biologia. Desse autor estudaremos três campos do conhecimento, quais sejam: a metafísica, a lógica e a ética. A METAFÍSICA. O primeiro campo que estudaremos de Aristóteles é a Metafísica, que foi denominada pelo filósofo de filosofia primeira, e consistiria basicamente no estudo do ser e das suas causas. Ao estudar tais temas, no entanto, nosso pensador se afasta do idealismo platônico, adotando uma posição que denominaremos de empirista, ou realista. O realismo aristotélico representa, na Grécia antiga, ao lado das filosofias de Sócrates e Platão, outra tentativa de superação da oposição dos pensamentos de Parmênides e Heráclito. O primeiro negava a realidade do movimento e da mudança, enquanto o segundo via o Ser, sobretudo, como o vir-a-ser, afirmando que toda permanência e estabilidade resultam do equilíbrio entre os pólos opostos. Defendendo a possibilidade de uma ciência sobre o real e concreto, Aristóteles afirma que é possível conhecer o que é o real concreto e mutável por meio de definições e conceitos que permanecem inalterados. Basta que, para isso, seja estabelecido previamente o que importa ser conhecido acerca do Ser, distinguindo-o daquilo que pode ser deixado de lado por ser meramente ocasional, factual ou acidental. Considera o universo como um todo ordenado segundo leis constantes e imutáveis. Essa ordem imutável e eterna rege não só os fenômenos da natureza como também os de ordem política, moral ou estética. Antecedendo, como fundamento, as diversas ciências que se interessam por determinados aspectos do ser, existe uma ciência “primeira”, a Sabedoria (depois designada como Metafísica),que estuda o Ser e procura enunciar essa ordem subjacente que torna inatingíveis todos os fenômenos. Dessa forma a Filosofia de Aristóteles representa um grande esforço para solucionar o problema do Ser e da ciência. Em face disto ele tem que dar a tríplice resposta: a Parmênides, a Heráclito e a Platão. Com relação ao primeiro, Aristóteles rompe a realidade compacta, estática, imóvel e indiferenciada do Ser parmenídeo, mediante as noções de per se e per accidens assim como as de ato e potência. Desse modo, afirmamos todo ser como composto de uma essência, conjunto de atributos imutáveis, que definem o que o ser é, e de acidentes, características mutáveis do ser, sem que essa modificação interfira na essência. Podemos, por exemplo, afirmar que a essência do ser humano é composta de sua mortalidade, de sua animalidade e de sua racionalidade, enquanto o fato de ser mais alto ou mais baixo, mais gordo ou mais magro, ter olhos claros ou escuros, seriam atributos acidentais. Assim sendo, não existe um ser único, mas muitos seres. Cada Ser é uma substância individual concreta que pode ser afetada de muitos modos por múltiplas modificações acidentais. O Ser uno não passa de um conceito abstrato da mente. Ao conceito unívoco de Parmênides opõe o seu conceito analógico: “O ente e o uno dizem-se de muitos modos.” Com a teoria do ato e da potência Aristóteles salva o movimento dos seres. Não é o Ser que se move, mas os seres concretos e particulares. Todos os seres, exceto o Primeiro Motor Imóvel, movem-se. Em resposta a Heráclito nosso autor recorda que os seres particulares movem-se, mas as essências são imóveis e permanecem através de todas as mudanças e mutações. Por fim, em contraposição a Platão, Aristóteles considera que não existem dois mundos ontologicamente distintos, mas sim um só. Os universais (substâncias segundas) não têm realidade ontológica, mas lógica. São conceitos formados pela mente mediante abstração. A verdadeira realidade ontológica é constituída pelas substâncias individuais (substâncias primeiras) em suas três grandes definições: terrestres, celestes e divina. Aristóteles não usa a palavra Metafísica, mas sim Filosofia Primeira. Ele pensa em uma ciência cujo objeto não é nenhuma parte determinada do Ser, como, por exemplo, a medicina ou a matemática, mas o Ser em geral, isto é, o Ser como tal, com o que dele depende: “Há uma ciência que considera o Ser como tal e com tudo o que essencialmente lhe concerne.” A esta ciência, ou seja, a Filosofia Primeira cabe o estudo dos primeiros princípios das primeiras causas de todas as coisas e investiga o “Ser enquanto Ser”. Ao definir a ontologia ou Metafísica como o estudo do “Ser enquanto Ser”, Aristóteles está dizendo que a Filosofia Primeira estuda as essências sem diferenciar essência física, matemática, astronômica, humana, etc., pois cabe às diferentes ciências estudá-las enquanto diferentes entre si. Quanto à Metafísica cabem três estudos: Primeiro Motor Imóvel: a realidade primeira e suprema da qual todo restante procura aproximar-se, imitando a sua perfeição imutável. As coisas se transformam, diz Aristóteles; por que desejam encontrar a sua essência total e perfeita, imitável como a essência divina.Pela mudança incessante que buscam imitar o que não muda nunca. Daí, o Primeiro Motor Imóvel do mundo, ou seja, aquilo que sem agir diretamente sobre as coisas, ficando à distância delas, as atrai, é desejado por elas. Tal desejo as faz mudar para um dia não mais mudar. Esse desejo, segundo Aristóteles, explica porque há o devir e porque este é eterno, pois as coisas naturais nunca poderão alcançar o que desejam, isto é, a perfeição imutável. A mudança ou o devir é a maneira pela qual a Natureza, ao seu modo, se aperfeiçoa e busca imitar a perfeição do imutável divino. O Primeiro Motor Imóvel é o princípio que move toda a realidade, e é denominada dessa maneira porque não se move e não é movido por nenhum outro ente, pois, mover significa mudar, sofrer alterações quantitativas e qualitativas, nascer e perecer, e o Primeiro Motor Imóvel é perfeito, não muda nunca. Primeiros Princípios e Causas Primeiras: de todos os seres ou essências existentes. Propriedades ou atributos Gerais: de todos os seres, sejam eles quais forem, graças aos quais podemos determinar a essência particular de um Ser particular existente. A essência ou ousia é a realidade primeira e última de um Ser, aquilo sem o qual um Ser não poderá existir ou deixará de ser o que é. À essência entendida sob esta perspectiva universal, Aristóteles dá o nome de substância: o substrato ou suporte permanente de qualidade ou atributos necessários de um Ser. A metafísica estuda a substância em geral. A TEORIA DAS QUATRO CAUSAS Aristóteles apresenta a Metafísica, em primeiro lugar, como “busca das causas primeiras”, de forma que devemos identificar quais e quantas são essas “causas”. Ele esclareceu que as causas necessariamente devem ser finitas quanto ao número e estabeleceu que, no que se refere ao mundo do devir, reduzem-se às seguintes quatro causas, em vista das quais pode-se dizer que um Ser é: CAUSA MATERIAL: é aquilo de que uma essência é feita, sua matéria. Ex.: o mármore utilizado na confecção de uma estátua. CAUSA FORMAL: é aquilo que explica a forma que uma essência possui. Ex.: uma estátua de um homem, diferente de uma estátua de um cavalo. CAUSA EFICIENTE OU MOTRIZ: é aquilo que explica como a matéria recebeu uma forma para constituir sua essência, ou seja, refere-se ao agente que produziu diretamente a coisa. Ex.: o escultor que fez a estátua. CAUSA FINAL: é o motivo, a razão ou finalidade para alguma coisa existir e ser tal como ela é. Ex.: o escultor que fez a estátua com a finalidade de exaltar a figura do soldado ateniense. Esta causa é o motivo pelo qual a causa eficiente deu causa formal à causa material. O SER É: MATÉRIA E FORMA Para Aristóteles os entes são compostos de matéria e forma, logo não há matéria sem forma, nem forma sem matéria. MATÉRIA A matéria é o elemento de que as coisas da Natureza (animais, homens, plantas, artefatos, dentre outras coisas) são feitos; sua principal característica é possuir virtualidades ou conter em si mesma a possibilidade de transformação, isto é, mudança. FORMA A forma é o que individualiza e determina uma matéria, fazendo existir as coisas e seres particulares; sua principal característica é ser aquilo que uma essência é num determinado momento, pois a forma é aquilo que atualiza as virtualidades contidas na matéria. ATO E POTÊNCIA A matéria tem potencialidades indeterminadas e a forma lhe dá determinações na constituição de um ente em ato. O ATO O ato é a atualidade de uma matéria, ou seja, sua forma num dado instante no tempo; ato é a forma que atualizou uma potência contida na matéria. Ex.: a árvore é o ato da semente; o adulto é o ato da criança. A POTÊNCIA A potência é o que está contido em uma matéria e pode vir a existir, se for atualizado por alguma causa. Ex.: a criança é um adulto em potência ou em potencial; a semente é a árvore em potência ou em potencial. - OBS.: A Potência e a Matéria são idênticas, assim como a Forma e o Ato. A Matéria ou Potência são uma realidade passiva que precisa do Ato e da Forma, isto é, da atividade que cria os seres indeterminados. ESSÊNCIA E ACIDENTE ESSÊNCIA A essência é a unidade interna e indissolúvel entre uma matéria e a sua forma, unidade que lhe dá um conjunto de propriedade ou atributos que a fazem ser necessariamente aquilo que ela é. Assim, por exemplo, um Ser humano é, por essência ou essencialmente, um animal mortal, racional, dotado de vontade, gerado por outros semelhantes a ele e capaz de gerar outros semelhantes a ele. ACIDENTE O acidente é uma propriedade ou atributo que uma essência pode ter ou deixar de ter sem perder o seu Ser próprio. Por exemplo, um Ser humano é racional e mortal por essência, mas é baixo ou alto, gordo ou magro, negro ou branco, por acidente. A humanidade é a essência (animal, mortal, racional), enquanto o acidente é o que existindo, ou não, nunca afeta o Ser da essência (baixo, alto, gordo, magro, negro, branco). A essência é o universal, e o acidente o particular. O SER COMO SUBSTÂNCIA Por diversas vezes, em sua Metafísica, Aristóteles afirma que o Ser pode ser dito em diferentes sentidos: é, portanto, um conceito analógico. O primeiro desses sentidos, que é o mais fundamental, é o que corresponde mais de perto àquilo que o Ser é em si mesmo, isto é, a substância, ousia. A substância pode, por sua vez, ser simples (Deus) ou composta (os demais seres). A ciência do Ser é, portanto, a ciência do Ser imóvel, substância absolutamente simples (Deus) e, ao mesmo tempo, ciência dos entes compostos, os entes da Natureza, que estão em constante movimento. Enquanto ciência do Ser, a Filosofia é uma ciência da substância. A substância é um indivíduo uno em si mesmo e separado dos demais. A substância significa o que algo é em seu sentido mais completo e forte, ela é a primeira categoria do Ser, o substrato ou o sujeito que permanece através de todas as mutações acidentais, locais, qualitativas e quantitativas. É próprio da substância ser ela mesma o Ser mesmo. Ela é o primeiro tanto na ordem lógica (como conceito) como na ontológica (como coisa). Existem duas classes de substâncias: a) Este homem, esta árvore, esta pedra, são substâncias primeiras. b) O homem, a árvore, a pedra, são substâncias segundas. LÓGICA O termo lógica é a tradução para o português da palavra grega organon, que nada mais significa que instrumento. Desse modo, a lógica, para Aristóteles, não consistiria em um campo de produção de conhecimento, tal como se apresentam a metafísica ou a ética, mas sim um conjunto de procedimentos que devem ser realizados para se utilizar corretamente a capacidade de PLATÃO ARISTÓTELES Mundo das idéias ou formas: lugar onde se encontram as verdadeiras formas, universais, eternas, imóveis, ou seja, onde se tem o conhecimento verdadeiro sobre o ser. Por exemplo: a idéia universal e perfeita de homem, a qual me possibilita identificar todo um grupo de seres, como homens. Essência: é a unidade interna e indissolúvel entre uma matéria e a sua forma, unidade que lhe dá um conjunto de propriedade ou atributos que a fazem ser necessariamente aquilo que ele é. Por exemplo: é o que faz de todos os homens...homens. Mundo sensível: lugar onde se encontram as cópias imperfeitas das formas encontradas no mundo das idéias. É no mundo sensível que encontramos os seres individuais. Por exemplo: são as cópias individuais e imperfeitas das idéias, ou seja, são homens que possuem individualidades, o que impossibilita que estejam na forma ideal. Acidente: é uma propriedade ou atributo que uma essência pode ter ou deixar de ter sem perder o seu Ser próprio. É o que individualiza o ser. Por exemplo: é o que individualiza Sócrates no que concerne ao grupo de seres de que ele faz parte, ou seja,é o que o diferencia dos outros homens. Para Aristóteles Platão dividiu o ser, separando a essência do acidente, de tal forma que ele descaracterizou o ser, pois para o primeiro o ser é um misto de essência e acidente e, quando Platão separa o mundo das ideias do mundo sensível está, na verdade, separando a essência do acidente, e para Aristóteles é impossível que exista um ser que é pura essência (forma) ou mesmo puro acidente (matéria). Pintura intitulada A escola de Atenas do artista renascentista Rafael retratando Platão e Aristóteles: o primeiro apontando para cima (mundo das idéias) e o segundo para baixo (a importância da experiência sensível para formação do conhecimento) raciocinar. Para o autor, assim, o biólogo, o físico, o químico ou o astrônomo, qualquer um deve organizar logicamente seu pensamento, se tem alguma pretensão de chegar a verdade. O TERMO A ideia, conhecida como noção ou conceito, é a simples representação intelectual de um objeto. Não deve ser confundida com a imagem, que é uma representação sensível do objeto. O termo é a expressão verbal da ideia e, do ponto de vista lógico, não pode ser confundido com a palavra. No que diz respeito à ideia podemos fazer algumas considerações sobre dois de seus elementos mais importantes, a saber: a compreensão, que é o seu conteúdo, ou seja, o conjunto de elementos de que uma ideia se compõe; e a extensão que corresponde a um conjunto de sujeitos de que uma ideia convém. Uma proposição é constituída por elementos que são seus termos. Aristóteles define os termos ou categorias como “aquilo que serve para designar uma coisa”. São palavras não combinadas com outras e que aparecem em tudo quanto pensamos e dizemos. Há dez categorias ou termos: I. SUBSTÂNCIA: homem, Sócrates. II. QUANTIDADE: dois metros, um quilo. III. QUALIDADE: branco, grego, agradável. IV. RELAÇÃO: o dobro, a metade. V. LUGAR: em casa, na rua. VI. TEMPO: ontem, amanhã. VII. POSIÇÃO: sentado, deitado. VIII. POSSE: armado, isto é, tendo armas. IX. AÇÃO: corta, fere. X. PAIXÃO/PASSIVIDADE: é cortado, é ferido. As categorias/termos, indicam o que uma coisa é, faz ou como está. São aquilo que nossa percepção e nosso pensamento captam imediatamente e diretamente numa coisa, não precisando de qualquer demonstração, pois nos dão a apreensão direta de uma entidade simples. Possuem duas propriedades lógicas: - EXTENSÃO: é o conjunto de objetos designados por um termo. - COMPREENSÃO: é o conjunto de propriedades que esse mesmo termo designa. POR EXEMPLO: Uso a palavra homem para designar Pedro, Paulo, Sócrates, e uso a palavra metal para designar ouro, ferro, prata. A extensão do termo homem será o conjunto de todos os seres que podem ser designados por ele. Se, porém, tomarmos o termo homem e dissermos que é um animal, vertebrado, mamífero, bípede, mortal e racional, essas qualidades formam sua compreensão. Quanto maior a extensão de um termo menor a sua compreensão. Por exemplo: Sócrates (extensão menor). Sua compreensão, porém, será maior, pois Sócrates possui todas as propriedades do termo homem mais a suas propriedades enquanto pessoa determinada. Essa distinção permite classificar os termos ou categorias em três tipos: GÊNERO: extensão maior, compreensão menor. Ex.: animal. ESPÉCIE: extensão média e compreensão média. Ex.: homem, indivíduo. INDIVÍDUO: extensão menor, compreensão maior. Ex.: Sócrates. Na proposição, as categorias ou termos são predicados atribuídos a um “sujeito”. O sujeito (S) é uma substância; os predicados (P) são as propriedades atribuídas aos “sujeito”; a atribuição ou predicação se faz por meio do verbo de ligação ser. Ex.: João é lindo e modesto. A PROPOSIÇÃO A proposição é um discurso declarativo, que enuncia ou declara verbalmente o que foi pensado e raciocinando pelo juízo. A proposição reúne ou separa verbalmente o que o juízo reuniu ou separou mentalmente. A reunião ou separação dos termos recebe o valor de verdade ou de falsidade quando o que foi reunido ou separado em pensamento e linguagem está reunido/separado na realidade (verdade), ou quando o que foi reunido está separado na realidade (falsidade). A reunião se faz pela afirmação S é P. A separação se faz pela afirmação S não é P. A proposição apresenta o juízo (coloca o pensamento na linguagem) e a realidade (declara o que está unido ou separado na realidade). Do ponto de vista do “sujeito” existem dois tipos de proposições: As proposições se classificam segundo a qualidade, quantidade e a relação. Do ponto de vista da qualidade, as proposições se dividem em: AFIRMATIVAS: as que atribuem alguma coisa a um sujeito: S é P. NEGATIVAS: as que separam o sujeito de alguma coisa: S não é P. Do ponto de vista da quantidade, as proposições se dividem em: UNIVERSAIS: quando o predicado se refere à extensão total do sujeito, afirmativamente (Todos os S são P.) ou negativamente (Nenhum S é P.). PARTICULARES: quando um predicado é atribuído a uma parte da extensão do sujeito, afirmativamente (Alguns S são P.) ou negativamente (Alguns S não são P.). SINGULARES: quando o predicado é atribuído a um único indivíduo, afirmativamente (Este S é P.) ou negativamente (Este S não é P.). OS TRÊS PRINCÍPIOS DA LÓGICA FORMAL Como todo pensamento e todo juízo, a proposição está submetida aos três princípios lógicos e fundamentais, condições de toda verdade, quais sejam: I. PRINCÍPIO DE IDENTIDADE: um Ser é sempre idêntico a si mesmo. A é A. II. PRINCÍPIO DA NÃO-CONTRADIÇÃO: é impossível que um Ser seja e não seja idêntico a si mesmo ao mesmo tempo e na mesma relação. É impossível A é A e não-A ao mesmo tempo. III. PRINCÍPIO DO TERCEIRO EXCLUÍDO: dadas duas proposições com o mesmo sujeito e o mesmo predicado, uma afirmativa e outra negativa, uma delas é necessariamente verdadeira e outra falsa. A é B ou não-B, não havendo terceira possibilidade. Graças a esses princípios obtemos a última maneira pela qual as proposições se distinguem. Trata-se da classificação das proposições segundo a relação: CONTRADITÓRIAS: quando temos o mesmo sujeito e o mesmo predicado, uma das proposições é universal afirmativa (Todos os S são P.) e a outra é particular negativa (Alguns S não são P.); ou quando se tem uma universal negativa (Nenhum S é P.) e uma particular afirmativa (Alguns S são P.). CONTRÁRIAS: quando, no mesmo sujeito e no mesmo predicado, uma das proposições é universal afirmativa (Todos os S são P.) e outra é universal negativa (Nenhum S é P.); ou quando uma das proposições é particular afirmativa (Alguns S são P.) e a outra é particular negativa (Alguns S não são P.). SUBALTERNAS: quando uma universal afirmativa subordina uma particular afirmativa de mesmo sujeito e predicado, ou quando uma universal negativa subordina uma particular negativa também de mesmo sujeito e predicado. O SILOGISMO Aristóteles dizia que a verdade e a falsidade são propriedades das coisas e não do pensamento; que a realidade ou a irrealidade também são propriedades das coisas e não do pensamento, mas que um pensamento verdadeiro deveria exprimir a realidade da coisa pensada, enquanto que um pensamento falso nada poderia exprimir. Ele elaborou uma teoria do raciocínio como inferência. Inferir é tirar um proposição como conclusão de uma outra ou de várias proposições que a antecedem, as quais são a sua explicação ou a sua causa. O raciocínio é uma operação do pensamento realizada por meio de juízos, anunciada linguisticamente e logicamente pelas proposições encadeadas formando, assim, um silogismo. O raciocínio e o silogismo são operações mediatas de conhecimento, pois a inferência significa que só conhecemos alguma coisa (a conclusão) por meio ou mediação de outras coisas. O silogismo possui três características principais, a saber: I. é MEDIATO: exige um percurso de pensamentoe de linguagem para que se possa chegar a uma conclusão, isto é, exige uma mediação para que se possa chegar a uma conclusão. II. é DEDUTIVO: é um movimento de pensamento e de linguagem que partem de certas afirmações verdadeiras para chegar a outras também verdadeiras que dependem necessariamente das primeiras. III. é NECESSÁRIO: porque é dedutivo (as consequências a que se chega na conclusão resultam necessariamente da verdade do ponto de partida). Por isso, Aristóteles considera o silogismo que parte de proposições apodídicas superior ao que parte de proposições hipotéticas ou possíveis, designando-o como nome de ostensivo, pois ostenta ou demonstra claramente a relação necessária e verdadeira entre o ponto de partida e a conclusão. Todos os homens são mortais. Sócrates é homem. Logo Sócrates é mortal. Um silogismo é constituído por três proposições, sendo duas premissas e a última conclusão. As premissas possuem termos chamados extremos e a função do termo médio é ligar os extremos. Esta ligação é a inferência ou dedução e sem ela não há raciocínio nem demonstração. A premissa maior deve conter o termo maior (“mortais”) e o termo médio (“homens”); a premissa menor deve conter o extremo menor (“Sócrates”) e o termo médio (“homens”). A conclusão deve conter o extremo maior e o menor, jamais deve conter o termo médio (no caso, deve conter “mortal” e “Sócrates, e nunca deve conter o termo “homem”). De forma que, a função do termo médio é a de ligar os extremos, ele deve estar nas premissas, mas nunca na conclusão. A inferência silogística deve obedecer a oito regras, sem as quais a dedução não terá validade, não sendo possível dizer se a conclusão é verdadeira ou falsa. São elas: I. Um silogismo deve ter um termo maior, um menor e um médio e somente três termos, nem mais nem menos. II. O termo médio deve aparecer nas duas premissas e jamais aparecer na conclusão; deve ser tomado em toda sua extensão (ou seja, como um universal) pelo menos um vez, pois, do contrário, não se poderá ligar o termo maior ao menor. Por exemplo, se dissermos “Os nordestinos são brasileiros” e “Os mineiros são brasileiros”, não podemos tirar conclusão alguma, pois o termo médio “brasileiros” foi tomado sempre em parte de sua extensão e nenhuma vez no todo de sua extensão. III. Nenhum termo pode ser mais extenso na conclusão que nas premissas, pois, neste caso concluiria-se mais do que se teria permitido. Isso significa que uma das premissas sempre deverá ser universal (afirmativa ou negativa). IV. A conclusão não pode conter o termo médio, já que a função deste se esgota na ligação entre o maior e o menor, ligação que é a conclusão. V. De duas premissas negativas nada pode ser concluído, pois o termo médio não terá ligado os extremos. VI. De duas premissas particulares nada poderá ser concluído, pois o termo médio não terá sido tomado em toda sua extensão pelo menos uma vez e não poderá ligar o maior ao menor. VII. Duas premissas afirmativas devem ter a conclusão afirmativa, o que evidente por si mesmo. VIII. A conclusão sempre acompanha a parte mais fraca, isto é, se houver uma premissa negativa, a conclusão será negativa; se houver uma premissa particular, a conclusão será particular; se houver uma premissa particular negativa, a conclusão será particular negativa. Exercícios propostos: QUESTÃO 01 (UFU) Leia atentamente o texto abaixo. “Logo, o que é primeiramente, isto é, não em sentido determinado, mas sem determinações, deve ser a substância. Ora, em vários sentidos se diz que uma coisa é primeira, e em todos eles o é a substância: na definição, na ordem de conhecimento, no tempo.” ARISTÓTELES. Metafísica. (1028a 30-35). Tradução de Leonel Vallandro. Porto Alegre: Globo, 1969. p.147-148. De acordo com o pensamento de Aristóteles, marque a alternativa INCORRETA. A) Para Aristóteles, o conhecimento somente é possível tendo por objeto as substâncias, pois dos acidentes não é possível se fazer ciência. B) A substância, ao contrário do acidente, é a categoria por meio da qual sabemos o que uma coisa é, pois é a partir da substância que definimos uma coisa. C) Pode-se dizer que, para a metafísica aristotélica, a substância é a característica necessária de uma coisa, uma vez que nos indica em que sentido uma coisa é. D) Segundo a metafísica aristotélica, a definição de cada ser é apreendida pela ordenação e classificação de suas características acidentais. QUESTÃO 02 (UFU) Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C), apesar de ter sido discípulo de Platão, criou sua própria filosofia. Uma das diferenças marcantes entre os dois é a importância dada aos fenômenos naturais do chamado mundo sensível. No mundo sensível, a mudança é constante, característica que Aristóteles procura explicar a partir das concepções de matéria, forma, potência e ato. Com base nos seus conhecimentos e no texto acima, assinale a alternativa que define corretamente a concepção aristotélica de ato e potência. A) A potência e o ato são conceitos que não se referem, de fato, às coisas materiais sujeitas à transformação. B) A potência é o momento presente, atual da matéria; ato é o que ela poderá vir a fazer. C) A potência e o ato não se relacionam com a matéria. D) A potência é o que a matéria virá a ser, seu devir, o princípio do movimento; ato é aquilo que ela é no presente. QUESTÃO 03 (UFU) Analise as seguintes afirmativas a respeito da lógica de Aristóteles. I - A forma mediata do pensamento ou raciocínio é chamada, por Aristóteles, de silogismo. II - Em grego, syllogismós significa raciocinar, vem do verbo syllogizo, que significa reunir, juntar pelo pensamento, conjeturar. III - O silogismo é um raciocínio indutivo. IV - O exemplo clássico de silogismo é aquele que contém duas premissas e uma conclusão. Marque a alternativa correta. A) Apenas as afirmativas I, II e III são verdadeiras. B) Somente a afirmativa III é falsa. C) Todas as afirmativas são falsas. D) Somente as afirmativas II e IV são verdadeiras. Questões Enem: QUESTÃO 01 Leia os textos a seguir. Aristóteles, no Livro IV da Metafísica, defende o sentido epistêmico do princípio de não contradição como o princípio primário, incondicionado e absolutamente verdadeiro da “ciência das causas primeiras”, ou melhor, o princípio que se apresenta como fundamento último (ou primeiro) de justificação para qualquer enunciado declarativo em sua pretensão de verdade. “É impossível que o mesmo atributo pertença e não pertença ao mesmo tempo ao mesmo sujeito, e na mesma relação. [...] Não é possível, com efeito, conceber alguma vez que a mesma coisa seja e não seja, como alguns acreditam que Heráclito disse [...]. É por esta razão que toda demonstração se remete a esse princípio como a uma última verdade, pois ela é, por natureza, um ponto de partida, a mesma para os demais axiomas.” (ARISTÓTELES. Metafísica. Livro IV, 3, 1005b apud FARIA, Maria do Carmo B. de. Aristóteles: a plenitude como horizonte do ser. São Paulo: Moderna, 1994. p. 93.) A partir da leitura dos textos acima é possível concluir que, na filosofia aristotélica, A) aqueles que sustentam, com Heráclito, conceber verdadeiramente que propriedades contrárias podem subsistir e não subsistir no mesmo sujeito opõem-se ao princípio de não contradição. B) pelo princípio de não contradição, sustenta-se a tese heracliteana de que, numa enunciação verdadeira, se possa simultaneamente afirmar e negar um mesmo predicado de um mesmo sujeito, em um mesmo sentido. C) nas demonstrações sobre as realidades suprassensíveis, é possível conceber que propriedades contrárias subsistam simultaneamente no mesmo sujeito, sem que isso incorra em contradição lógica, ontológica e epistêmica. D) para que se possa fundamentar o estatuto axiomático do princípio de não contradição, exige-se que sua evidência, enquanto princípio primário, seja submetida à demonstração. E) como princípio de não contradição, torna-se possível conceber que, se existem duas coisas não idênticas, qualquer predicado que se aplicar a uma delas também poderá ser aplicado necessariamente à outra. QUESTÃO 02 Só julgamos que temos conhecimento de uma coisa quando conhecemos sua causa. E há quatro tipos de causa: a essência, as condições determinantes, a causa eficiente desencadeadora do processo e a causa final. (ARISTÓTELES. Analíticos Posteriores. Livro II. Bauru: Edipro. 2005. p. 327.) O texto acima foi escrito pelo professor de Alexandre Magno, Aristóteles. Discípulo de Platão durante duas décadas, o filósofo terminou por se afastar das tendências filosóficas de seu mestre, entendendo que A) a existência de um plano superior constituído das ideias e atingido apenas pelo intelecto permite a compreensão objetiva dos fenômenos que ocorrem no mundo físico. B) a realidade, sendo constituída por seres singulares, concretos e mutáveis, pode ser conhecida indutivamente pela observação e pela experimentação. C) para a compreensão das transformações e da mutabilidade dos seres, deveria recorrer ao princípio da criação divina. D) na metafísica, a compreensão do devir de todas as coisas está vinculada à determinação da causa material e da causa formal sobre a causa final. E) todas as coisas tendem naturalmente para um fim (telos), sendo esta concepção teleológica da realidade a que explica a natureza de todos os seres. Exercícios de Fixação: QUESTÃO 01 (UFU) Em primeiro lugar, é claro que, com a expressão “ser segundo a potência e o ato”, indicam-se dois modos de ser muito diferentes e, em certo sentido, opostos. Aristóteles, de fato, chama o ser da potência até mesmo de não-ser, no sentido de que, com relação ao ser-em-ato, o ser-em-potência é não-ser-em-ato. REALE, Giovanni. História da Filosofia Antiga. Vol. II. Trad. de Henrique Cláudio de Lima Vaz e Marcelo Perine. São Paulo: Loyola, 1994, p. 349. A partir da leitura do trecho acima e em conformidade com a Teoria do Ato e Potência de Aristóteles, assinale a alternativa correta. A) Para Aristóteles, ser-em-ato é o ser em sua capacidade de se transformar em algo diferente dele mesmo, como, por exemplo, o mármore (ser-em-ato) em relação à estátua (ser-em-potência) B) Segundo Aristóteles, a teoria do ato e potência explica o movimento percebido no mundo sensível. Tudo o que possui matéria possui potencialidade (capacidade de assumir ou receber uma forma diferente de si), que tende a se atualizar (assumindo ou recebendo aquela forma). C) Para Aristóteles, a bem da verdade, existe apenas o ser-em-ato. Isto ocorre porque o movimento verificado no mundo material é apenas ilusório, e o que existe é sempre imutável e imóvel. D) Segundo Aristóteles, o ato é próprio do mundo sensível (das coisas materiais) e a potência se encontra tão somente no mundo inteligível, apreendido apenas com o intelecto. QUESTÃO 02 (UFU) [...] após ter distinguido em quantos sentidos se diz cada um [destes objetos], deve-se mostrar, em relação ao primeiro, como em cada predicação [o objeto] se diz em relação àquele. Aristóteles, Metafísica. Tradução de Marcelo Perine. São Paulo: Edições Loyola, 2002. De acordo com a ontologia aristotélica, A) a metafísica é ―filosofia primeira‖ porque é ciência do particular, do que não é nem princípio, nem causa de nada. B) o primeiro entre os modos de ser, ontologicamente, é o ―por acidente‖, isto é, diz respeito ao que não é essencial. C) a substância é princípio e causa de todas as categorias, ou seja, do ser enquanto ser. D) a substância é princípio metafísico, tal como exposto por Platão em sua doutrina. QUESTÃO 03 Na Metafísica, Aristóteles afirma: “O ser se diz de muitos modos, mas se diz em relação a um termo único e única natureza e não de modo equívoco. [...] uns são ditos ser porque são substâncias, outros porque são afecções de substâncias, outros porque são um caminho para a substância, ou destruições, privações, qualidades, causas produtivas ou geradoras para a substância ou do que é dito relativamente da substância, ou são negações de uma delas ou da substância; por esta razão dizemos inclusive que o não ser é não ser” (ARISTÓTELES, Metafísica,livro IV, cap. 2. In: FIGUEIREDO, V. Filósofos na sala de aula. Volume 3. São Paulo: Berlendis & Vertecchia, 2008, p. 33-34). A partir do trecho citado, assinale a(s) alternativa(s) correta(s). 01) Um ser pode ser a negação de uma substância. 02) Do ser pode-se gerar uma substância, sem que isso que a gerou seja necessariamente uma substância. 04) A substância é anterior e prioritária ao ser. 08) A substância é necessariamente um ser. 16) Uma das exigências da definição de ser é que ela seja unívoca. QUESTÃO 04 (UEM) A lógica é o estudo que visa à formalização de regras com o fim de orientar o bom funcionamento e a validade dos raciocínios e argumentos. Sobre as considerações da lógica na história da Filosofia, assinale o que for correto. 01) O primeiro grande filósofo a sistematizar as regras para o bom funcionamento da proposição e dos juízos foi Erasmo de Roterdam, já que, apesar de tratar do silogismo, Aristóteles não pode ser considerado o fundador da lógica. 02) Pode-se chamar de raciocínio indutivo a passagem do particular ao universal, e de raciocínio dedutivo o movimento contrário, a passagem do universal ao particular. 04) A lógica também pode ser definida como a parte da Filosofia que estuda os conjuntos coerentes de enunciados, a partir do conceito de inferência válida. 08) A pós-modernidade introduz, como método de garantir a verdade científica, os princípios da geometria euclidiana. 16) A alta Idade Média pode ser caracterizada pelo profundo debate em torno do pensamento lógico. Prova disso, é o reconhecimento de uma disciplina autônoma, que incorpora a dialética, compilada em grandes manuais, sob o título de Summae ou Summulae. QUESTÃO 05 (UEM) Segundo a lógica clássica ou aristotélica, temos uma teoria do raciocínio como inferência (do latim inferre,“levar para”). “Inferir é obter uma proposição como conclusão de uma outra ou de várias outras proposições que a antecedem e são sua explicação ou sua causa. O raciocínio realiza inferências. [Ele] é uma operação do pensamento realizada por meio de juízos e enunciada por meio de proposições encadeadas, formando um silogismo. Raciocínio e silogismo são operações mediatas de conhecimento, pois a inferência significa que só conhecemos alguma coisa (a conclusão) por meio de outras coisas.” (CHAUÍ, M. Convite à filosofia. 14.ª ed. São Paulo: Ática, 2011, p. 141). Segundo o fragmento transcrito, é correto afirmar que 01) todo pensamento humano é um raciocínio. 02) o silogismo é resultado de uma inferência sobre proposições. 04) o conhecimento científico é mediado por raciocínios lógicos. 08) a conclusão é a explicação das proposições das quais foi inferida. 16) o raciocínio é o resultado de um silogismo. 06 QUESTÃO 06 (UEM) Considere os silogismos seguintes e depois assinale o que for correto. a) Todo brasileiro é sul-americano. Ora, todo paranaense é brasileiro. Logo, todo paranaense é sul-americano. b) Todos os mamíferos são mortais. Ora, todas as aranhas são mortais. Logo, todas as aranhas são mamíferos. 01) As conclusões são deduções válidas das premissas. 02) O silogismo b é um exemplo de falácia. 04) Paranaenses e aranhas são termos médios. 08) “Todo paranaense é sul-americano” é uma premissa verdadeira. 16) Ambos os silogismos são compostos por proposições categóricas. QUESTÃO 07 (UEM) A lógica formal aristotélica estuda a relação entre as premissas e a conclusão de inferências válidas e inválidas (segundo a forma), a partir de proposições falsas e verdadeiras (segundo o conteúdo). Chamamos de falácias ou sofismas as formas incorretas de inferência. Levando em conta a forma da inferência, assinale o que for correto. 01) A inferência“Fulano será um bom prefeito porque é um bom empresário.” é uma falácia. 02) A inferência “Todos os homens são mortais. Sócrates é homem, logo Sócrates é mortal.” é válida. 04) A inferência “Ou fulano dorme, ou trabalha. Fulano dorme, logo não trabalha.” é uma falácia. 08) A inferência “Nenhum gato é pardo. Algum gato é branco, logo todos os gatos são brancos.” é uma falácia. 16) A inferência “Todos que estudam grego aprendem a língua grega. Estudo grego, logo aprendo a língua grega.” é válida. QUESTÃO 08 (UFU) E na verdade, o que desde os tempos antigos, assim como agora e sempre, constitui o eterno objeto de pesquisa e o eterno problema: “o que é o ser”, equivale a este: “que é a substância”. ARISTÓTELES, Metafísica, VII, 1. Trad. de Marcelo Perine. São Paulo: Loyola, 2002, p. 289. Considerando o assunto abordado no trecho acima, A) explique o conceito de substância. B) cite quatro outras categorias aristotélicas. QUESTÃO 09 (UFU) "E se indagamos quais são os princípios ou elementos das substâncias, relações e quantidades - se são os mesmos ou diferentes - é claro que quando os nomes das causas são usados em vários sentidos as causas de cada um são as mesmas, mas quando distinguimos os sentidos elas são diferentes". (Aristóteles - Metafísica - Editora Globo - Porto Alegre.) O texto de Aristóteles refere-se à distinção das causas em sua teoria da causalidade. Quais são as causas aristotélicas? Descreva a especificidade de cada uma delas. QUESTÃO 10: (UFU) Considere o silogismo a seguir e responda as questões propostas. Todos os animais mamíferos são carnívoros. Ora, todos os gatos são animais mamíferos. Logo, todos os gatos são carnívoros. A) O que é um silogismo? B) Explique por que o silogismo do exemplo é um silogismo válido, mesmo considerando que a premissa maior desse argumento é falsa (o que nos prova a experiência). C) Qual é o termo médio desse silogismo e qual o seu papel no argumento? Módulo 06: A questão da felicidade: ética aristotélica e helenismo. Aristóteles: Ética. Na obra Ética a Nicômaco Aristóteles apresenta o essencial de sua doutrina moral. É interessante perceber como sua obra apresenta uma noção de conjunto: o mesmo autor que inaugurou a noção de causa final, única apresentada de forma inédita por ele, inicia a obra perguntando-se pela finalidade da ação humana. A essa questão nosso autor esboça, de forma sucinta, a seguinte resposta: a finalidade de toda ação humana é a procura pela felicidade. A partir daí o filósofo realiza um inventário de motivações que poderiam conduzir um ser humano á felicidade, e analisa de maneira mais pormenorizada três: as honras, o prazer e a virtude. O primeiro item, de acordo com sua teoria, não deveria ser preferido por alguém que queira realmente atingir a felicidade, e isso porque aquele que dependesse de honrarias para ser feliz estaria sempre na dependência de outros seres humanos, ou seja, de elementos externos a si mesmo, e por isso fora do seu controle. Quanto ao prazer, como veremos um pouco abaixo, seu problema essencial reside no fato de primar pelos excessos, e não pela moderação, o que o autor condena sobremaneira. Também no prazer, grande parte das vezes, o sujeito se encontra na dependência da colaboração de outra pessoa. Desse modo, dos três elementos comentados pelo autor, somente a vida virtuosa consiste em elemento que deve realmente ser considerado na busca pela felicidade, pois que o indivíduo, para obtê-la, só depende de si mesmo; nem reconhecimento alheio, nem prazer excessivo. A partir desse momento torna-se necessário, então, que o autor defina melhor o que se deve entender por virtude, já que realiza a defesa de uma vida virtuosa como única possibilidade de verdadeira felicidade. E ele a define, então, em contraposição ao vício. Desse modo se procede a uma definição que, a partir da citação que segue, podemos atingir: “A virtude é, pois, uma disposição de caráter relacionada com a escolha e consistente numa mediania, isto é, a mediania relativa a nós, a qual é determinada por um princípio racional próprio do homem dotado de sabedoria prática. E é um meio-termo entre dois vícios, um por excesso e outro por falta; pois que, enquanto os vícios ou vão muito longe ou ficam aquém do que é conveniente no tocante às ações e paixões, a virtude encontra e escolhe o meio- termo.“ ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco, II, 6. São Paulo: Nova Cultural, 1987. Col. Os Pensadores, p. 33. Virtude: Ato ou sentimento marcado pela moderação ou pelo equilíbrio, aquilo que Aristóteles denomina de meio termo entre a falta e o excesso. Desse modo, a coragem virtuosa seria o equilíbrio entre a covardia, vício por falta, e a temeridade, vício por excesso. O soldado deve ter coragem suficiente para adentrar no campo de batalha, mas medo bastante para se proteger com eficiência do inimigo, com armadura, escudo e respeito às táticas estabelecidas. Vício: Ato ou sentimento marcado pela falta ou pelo excesso, ou seja, pelo desequilíbrio. É assim que o amor próprio pode ser deturpado pela modéstia, que consiste em sua falta, assim como pela vaidade, que é o seu excesso. Marilena Chauí, em sua obra Filosofia: ensino médio (São Paulo: Ática, 2005, p. 183), apresenta um quadro com as principais virtudes e os principais vícios, baseado na obra aristotélica. A título de exemplo reproduzimos abaixo o quadro, visando a uma melhor compreensão por parte do estudante: Virtudes Vício por Excesso Vício por Deficiência Coragem Temeridade Covardia Temperança Libertinagem Insensibilidade Prodigalidade Esbanjamento Avareza Magnificência Vulgaridade Vileza Respeito Próprio Vaidade Modéstia Prudência Ambição Moleza Gentileza Irascibilidade Indiferença Veracidade Orgulho Descrédito Agudeza de Espírito Zombaria Rusticidade Amizade Condescendência Enfado Justa Indignação Inveja Malevolência Ao analisarmos o quadro das virtudes, é relevante lembrarmos uma diferenciação que o próprio autor faz, entre virtude dianoética e ética. A primeira, também designada como virtude intelectual, é aquela adquirida e desenvolvida por meio da educação formal. A segunda, como o termo ethos mesmo designa em grego, é adquirida e desenvolvida por meio do costume, do hábito, da vivência. Assim, aprende-se a ser equilibrado sendo equilibrado, ou seja, exercitando tal comportamento cotidianamente. Helenismo: Geralmente se divide a antiguidade grega em quatro períodos: homérico, com a incidência das explicações míticas; arcaico, marcado pela presença da filosofia da natureza; clássico, que consiste no auge da democracia ateniense, a guerra do Peloponeso, e a presença de Sócrates, Platão e Aristóteles; e helenístico, que consiste na difusão da cultura helênica ou grega para o oriente, chegando até a Índia, com a campanha do líder macedônio Alexandre Magno. É sobre este último período que trataremos a partir de agora. É importante lembrar, primeiramente, que a cultura grega vai ao oriente, e influencia, sem sombra de dúvida. No entanto, é importante ressaltar também, que o mundo grego sofre influências das culturas orientais. O primeiro aspecto que precisa ficar claro, assim, é o que as filosofias que surgem no período resultam do processo da miscigenação. Outro ponto importante a ser lembrado é o fato de que as póleis gregas, antes se organizando autonomamente como Estados legítimos, passam a partir deste momento a se verem inseridas em um império maior. Atenas, por exemplo, após a Guerra do Peloponeso, sofre com a hegemonia tebana, depois com a macedônia, e após um período turbulento de dissenções políticas, surgirá um outro império, o Romano. Trata-se de um período, portanto, em que o antigo ideal de felicidade necessariamente vinculada à polis entra em colapso, e passa a não fazer mais sentido. Em função disso, as escolas que aparecem no período representam uma buscapela melhor forma de vida com vistas a se atingir a felicidade, em grego, eudaimonia, nesse momento muito vinculada a uma forma de viver mais personalizada. Bom, feita esta pequena contextualização histórica, vamos às correntes: O CINISMO Escola fundada em Atenas no século IV a.C., por um discípulo de Sócrates, de nome Antístenes. A preocupação central da escola já havia sido evidenciada pelo primeiro no seu discurso de defesa: a preocupação do homem ateniense com os bens materiais e as convenções sociais, em detrimento do cuidado com a alma e com a virtude. A questão é que o cinismo leva isso a consequências extremas. O próprio nome da escola vem do radical grego vinculado à palavra cão, o que significa que o filósofo de tal corrente buscaria uma vida parecida com a deste animais quando se encontram sem dono. Mas em que isso implicaria? Bem, um animal assim não possui nenhum apego a bens materiais ou a convenções sociais, e seu abandono, na verdade, o deixa em outra condição: a liberdade. É exatamente esta a relação feita por aquele que segue tal percepção de vida. O desapego à matéria e ao status conduz à liberdade, e esta à tranquilidade da alma, em grego, ataraxia. Esta deveria ser a meta do homem. A tranquilidade da alma ou ausência de perturbação, neste período, é praticamente o sinônimo de felicidade. O cínico mais famoso foi Diógenes de Sínope, figura que viveu na cidade de Atenas e foi contemporânea de Platão e Aristóteles. Dizem que perambulava pelos espaços públicos, sem nenhuma posse, apenas com um barril que lhe cobria as partes íntimas. Seu desapego e seu jeito crítico de ser – por vezes andava pela polis no meio do dia com uma lanterna acesa e, quando perguntado sobre o que procurava, respondia procurar “um homem”, ou seja, humanidade – fizeram com que fosse uma das figuras mais lembradas do período em que viveu. O CETICISMO. Escola fundada por Pirro de Élis, ainda no século IV a.C. Segundo Diógenes Laércio ele teria acompanhado Alexandre na sua campanha até a Índia, e lá haveria deparado com os chamados gimnosofistas (sábios nus), que seriam faquires ou mestres iogues, em uma busca de paz espiritual marcada pelo distanciamento do mundo e sobretudo das sensações. Ao retornar à Grécia inicia a sua caminha pessoal nessa busca e a orientação de discípulos. As escolas helenistas, majoritariamente, nos apresentam uma concepção física, ou seja, nos dizem como as cosias são e, a partir disso, nos orientam sobre como nos comportarmos com relação a elas. O ceticismo funciona basicamente assim. Portanto, Pirro, que não havia deixado nada escrito, teria nos chegado por meio de seus seguidores pensando da seguinte maneira: 1) as coisas seriam, segundo Pirro, indiferentes, instáveis e indecisas. Como elas nos aparecem assim, nossas sensações não nos apresentam algo seguro com relação ao mundo pois, principalmente em razão da instabilidade, o que me parece ser agora, pode parecer não ser no futuro. Isso inviabiliza minhas opiniões, que não merecem confiança, já que se baseiam em algo tão inseguro. 2) em função de tal concepção sobre como as coisas são, só nos resta agir de uma maneira, que consiste na abstenção total de juízos, a aphasia (ausência de discurso) e a apraxia (inação). Com o tempo, e provavelmente não com Pirro, virá o termo époche, que significa suspensão de juízos sobre as coisas. 3) o resultado de tal comportamento diante do mundo, o que não impede o indivíduo de continuar refletindo, em contato com o real – o termo cético vem de uma radical grego que significa busca, meditação, reflexão – é a tranquilidade da alma ou ataraxia, que conduz o indivíduo à felicidade. A história da filosofia demonstra que hipóteses opostas sobre o real por vezes são apresentadas, e o critério de verdade destas se encontram nelas mesmas. Desse modo, na ausência de possibilidade de se decidir por uma ou por outra posição dogmática, o cético, se abstém de emitir um sim ou um não, e isso lhe garante a imperturbabilidade. O grande sistematizador do ceticismo foi Sexto Empírico. O EPICURISMO. Escola fundada em 306 a.C, na cidade de Atenas, em um jardim, por Epicuro. Ele entendia que a filosofia deveria ser um remédio para os grandes males que afligem o ser humano, dentre os quais alguns medos, como o da vida, da morte, do além-túmulo e dos deuses. Assim como o ceticismo, a chave para a ataraxia, entendida aqui como ponto a ser atingido para se chegar à eudaimonia, envolve uma concepção física, ou seja sobre como as coisas funcionam. Tal concepção Epicuro retoma de Demócrito e Leucipo, que eram atomistas. Parte-se, portanto, do pressuposto de que tudo quanto existe resulta da combinação aleatória dos átomos, inclusive nossas almas e o mundo dos deuses, que existe paralelamente ao nosso, sem que eles estabeleçam interação conosco. Os resultados de tal pressuposição são os seguintes: a vida se resume às sensações, que podem ser boas ou ruins; a morte nada mais é do que o fim das sensações, ela não existe enquanto existirmos, e quando ela for, não seremos mais; como nossa alma se desagrega, da mesma forma que nosso corpo, em uma concepção totalmente materialista, não existe absolutamente nada além túmulo, e não devemos nos ocupar disso também; os deuses, apesar de existirem, não interagem conosco, pois vivem em uma condição de felicidade plena, o que exclui qualquer perturbação com o nosso plano. Resta saber, portanto, como devemos lidar com as sensações durante a vida. Para os epicuristas, o prazer (hedoné) em si não é algo ruim, mas é necessária uma inteligência prática (phronesis) para que o indivíduo saiba lidar com ele. Decorre disso uma divisão das sensações boas em três grupos e, a partir disso, a orientação de como nos vincularmos ou não a cada um. Prazeres naturais e necessários: são aqueles vinculados à existência do indivíduo e, portanto, devem ser satisfeitos, como a alimentação, a hidratação, o abrigo, a vestimenta. Prazeres naturais e desnecessários: são aqueles que, apesar de vinculados à existência do sujeito, extrapolam o campo da necessidade, como degustar um prato refinado ou tomar um vinho de determinada safra. O vínculo equivocado com o supérfluo, tornando-o necessário, pode conduzir o indivíduo à perturbação e, consequentemente, à perda da felicidade. Prazeres não naturais e desnecessários: são aqueles que, além de não serem necessários, extrapolam as necessidades naturais, tais como o poder, a honra, o reconhecimento. A dependência do indivíduo com relação a outras pessoas e suas ações, para atingir tais prazeres, potencializa os níveis de perturbação aos quais ele está exposto. Tais prazeres, portanto, não devem ser o foco de busca do homem prudente. Percebe-se, portanto, que o epicurismo vincula a ataraxia ao vínculo aos prazeres corretos. Existem, nesse período, os hedonistas, que realmente defendem o vínculo absoluto com o prazer, e a anulação máxima da dor. Para os epicuristas, devemos nos vincular aos prazeres certos, que podem nos garantir satisfação sem nos trazer perturbações, os naturais e necessários. Os sofrimentos são inevitáveis, mas são passageiros, e sempre suportáveis. Devemos, portanto, evitar a confusão entre epicurismo e hedonismo que, como visto, estão longe de ser a mesma coisa. O ESTOICISMO. Escola fundada em Atenas no ano 300 a.C, por Zenão de Cítio, pensador de origem fenícia. O nome estoicismo deriva do termo grego stoa poikilé, “pórtico pintado”, local onde os seus integrantes se reuniam. O desenvolvimento da doutrina, no entanto, se deveu a discípulos e sucessores, como Cleantes e Crisipo. No seu período latino, encontraremos provavelmente os nomes mais ilustres da escola, como Epicteto, Sêneca e Marco Aurélio, já na era cristã. Nesta escola, novamente, encontraremos uma concepção física, ou seja, sobre como as coisas são, embasando uma lógica, que não comentaremos aqui, e umaética, nosso objeto de estudo. Dessa forma, a conduta humana adequada está intimamente ligada a como o mundo funciona, e talvez nestes filósofos mais do que nas outras escolas. Para os estoicos o cosmos seria o resultado da interação de dois princípios: um passivo, a matéria, e um ativo, o Logos (razão). Tal Logos teria alguma materialidade, sendo entendido por alguns dos membros da escola como o fogo, por outros como o éter. Ele irradia sua força sobre a matéria, formando, como resultado, tudo quanto existe. O homem, como parte integrante do cosmos, tem também uma parte do Logos, a alma, e uma parte de matéria, corpo. Tudo que nos ocorre, portanto, resulta do controle desta razão imanente sobre o real, e é exatamente o que nos deveria acontecer. Alguns estoicos denominam tal ordenamento de Providência. Na filosofia, concepções como esta costumam ser denominadas de pan-logismo, e encontraremos em Spinoza ou em Hegel percepções equivalentes, guardadas as devidas ressalvas. A implicação necessária do que acompanhamos na física do estoicismo só pode nos encaminhar para uma ética: é livre o individuo que conforma as suas ações com os rumos para os quais a Providência o conduz. Mas isso significa que tal escola acredita que existe um destino que deverá se cumprir? Que as coisas deverão acontecer de uma determinada maneira? Majoritariamente sim. Mas isso não retira completamente a minha liberdade? Por incrível que pareça, não. A questão aqui consiste em distinguir, no fluxo das nossas vidas, as coisas que são necessárias daquelas que são livres. São necessários os elementos da nossa vida que não dependem de nós, como diversas condições do nosso próprio corpo e o que nos é externo. São livres, ou seja, dependem de nós, os nossos estados de ânimo. Um grande problema para os indivíduos consiste em acreditar que podem alterar aquilo que não podem, isto é, os eventos que nos são indiferentes. Ao buscarem mudar o necessário, e não conseguirem exatamente por este motivo, evidentemente se perturbam e, como vimos, perturbação é sinônimo de infelicidade. Ao entendermos os eventos como necessários, e nos conformarmos a eles, justamente porque os entendemos assim, lidamos melhor com tudo o que nos ocorre, e optamos bem sobre a única coisa sobre a qual nos compete escolher: os nossos estados de ânimo. A percepção de que as relações são desencadeadas de maneira necessária deve conduzir o homem sábio à indiferença com relação ao que ele não pode controlar, que é a grande maioria dos elementos da sua vida. Tal posição diante das coisas, denominada de apatheia, conduz o ser humano à tranquilidade da alma (ataraxia), e esta à eudaimonia. De tal percepção, presente no estoicismo, surge a expressão amor fati, que significa amor aos fatos, ou amor a tudo que nos ocorre na vida, seja o que consideramos agradável, seja o que achamos ruim. Mesmo porque, o que cada indivíduo é, em qualquer momento de sua vida, é o resultado de todos os eventos que ele já vivenciou e que, portanto, se bons ou ruins, foram necessários para que ele fosse o que é. O homem não deve buscar o poder ou status, mas não deve se furtar a eles se o destino o colocar em algum lugar mais nobre, como ocorreu com Marco Aurélio, pensador importante da escola, que ocupou o maior cargo político de Roma no período: Imperador. Trata-se de uma corrente, como se percebe, que teve bastante longevidade, já que vamos do século III a.C. a, pelo menos, 180 d.C., com Marco Aurélio, sem contar a possível influência que ainda se manteve durante longo período, e sobre o próprio cristianismo nascente, do que nos dão conta alguns historiadores. O tema da felicidade, como foi visto, e de como atingi-la a partir de uma vida adequada, foi amplamente tratado no período, com uma rica produção textual. Grande parte do que foi escrito, no entanto, acabou por se perder ao longo do tempo. As influências sobre nossa cultura e os filósofos posteriores, no entanto, é inegável. Exercícios Propostos: QUESTÃO 01 (UEL) Leia o texto a seguir. A virtude é, pois, uma disposição de caráter relacionada com a escolha e consiste numa mediania, isto é, a mediania relativa a nós, a qual é determinada por um princípio racional próprio do homem dotado de sabedoria prática. (Aristóteles. Ética a Nicômaco. Trad. de Leonel Vallandro e Gerd Bornheim. São Paulo: Abril Cultural, 1973. Livro II, p. 273.) Com base no texto e nos conhecimentos sobre a situada ética em Aristóteles, pode-se dizer que a virtude ética A) reside no meio termo, que consiste numa escolha situada entre o excesso e a falta. B) implica na escolha do que é conveniente no excesso e do que é prazeroso na falta. C) consiste na eleição de um dos extremos como o mais adequado, isto é, ou o excesso ou a falta. D) pauta-se na escolha do que é mais satisfatório em razão de preferências pragmáticas. E) baseia-se no que é mais prazeroso em sintonia com o fato de que a natureza é que nos torna mais perfeitos. QUESTÃO 02 (UEM) Afirma o filósofo Epicuro (séc. III a.C.), conhecido pela defesa de uma filosofia hedonista: “(...) o prazer é o começo e o fim da vida feliz. É ele que reconhecemos como o bem primitivo e natural e é a partir dele que se determinam toda escolha e toda recusa e é a ele que retornamos sempre, medindo todos os bens pelo cânon do sentimento. Exatamente porque o prazer é o bem primitivo e natural, não escolhemos todo e qualquer prazer; podemos mesmo deixar de lado muitos prazeres quando é maior o incômodo que os segue.” (EPICURO, A vida feliz. In: ARANHA, M. L.; MARTINS, M. P. Temas de filosofia. 3.ª ed. rev. São Paulo: Moderna, 2005, p. 228.) Considerando os conceitos de Epicuro, é correto afirmar que 01) estudar todo dia não é bom porque a falta de prazer anula todo conhecimento adquirido. 02) todas as escolhas são prazerosas porque naturalmente os seres humanos rejeitam toda dor. 04) comer uma refeição nutritiva e saborosa em demasia é ruim porque as consequências são danosas ao bem estar do corpo. 08) a beleza corporal é uma finalidade da vida humana porque o prazer de ser admirado é a maior felicidade para o ser humano. 16) o prazer não é necessariamente felicidade porque ele pode gerar o seu contrário, a dor. QUESTÃO 03 (UEM) “Acostuma-te à ideia de que a morte para nós não é nada, visto que todo bem e todo mal residem nas sensações, e a morte é justamente a privação das sensações. A consciência clara de que a morte não significa nada para nós proporciona a fruição da vida efêmera, sem querer acrescentar-lhe tempo infinito e eliminando o desejo de imortalidade. Não existe nada de terrível na vida para quem está perfeitamente convencido de que não há nada de terrível em deixar de viver. É tolo, portanto, quem diz ter medo da morte, não porque a chegada desta lhe trará sofrimento, mas porque o aflige a própria espera.” (Epicuro, Carta sobre a felicidade [a Meneceu]. São Paulo: ed. Unesp, 2002, p. 27. In: COTRIM, G. Fundamentos da Filosofia. SP: Saraiva, 2006, p. 97). A partir do trecho citado, é correto afirmar que 01) a morte, por ser um estado de ausência de sensação, não é nem boa, nem má. 02) a vida deve ser considerada em função da morte certa. 04) o tolo não espera a morte, mas vive apoiado nas suas sensações e nos seus prazeres. 08) a certeza da morte torna a vida terrível. 16) a espera da morte é um sofrimento tolo para aquele que a espera. Questões Enem: QUESTÃO 01 Na Ética a Nicômaco, Aristóteles afirma: “Então, quando a amizade é por prazer ou por interesse mesmo, duas pessoas más podem ser amigas, ou então uma pessoa boa e outra má, ou uma pessoa que não é nem boa nem má pode ser amiga de outra qualquer espécie; mas pelo que são em si mesmas é óbvio que somente pessoas boas podem ser amigas. Na verdade, pessoas más não gostam uma da outra a não ser que obtenham algum proveito recíproco” (ARISTÓTELES, Ética a Nicômaco.In: Filosofia. Vários autores. Curitiba: SEED-PR, 2006, p. 123). A partir da leitura do trecho citado, é possível inferir que para o autor A) a amizade não comporta uma esfera de interesses particulares. B) A amizade, em nenhum caso, é consequência de condicionantes pessoais dos amigos. C) As amizades desinteressadas não existem, visto que alguém sempre tem a ganhar na relação. D) A amizade interessada entre pessoas más também é amizade. E) A amizade é falsa quando não há interesse ou prazer na relação. QUESTÃO 02 Habitua-te a pensar que a morte nada é para nós, visto que todo o mal e todo o bem se encontram na sensibilidade: e a morte é a privação da sensibilidade. (EPICURO. Antologia de textos. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Victor Civita. 1973. p. 22.) Para Epicuro (341 – 270 a.C), a morte nada significa porque ela não existe para os vivos, e os mortos não estão mais aqui para explicá-la. De fato, quando pensamos em nossa própria morte, podemos nos imaginar mortos, mas não sabemos o que é a experiência do morrer. Epicuro lamenta que A) as pessoas encarem a morte com coragem. B) as pessoas amem a morte e a desejem. C) as pessoas aceitem a morte como seu destino final. D) as pessoas não acreditem na imortalidade da alma. E) as pessoas fujam da morte como se fosse o maior dos males. Exercícios de Fixação: QUESTÃO 01 (UFU) Em sua obra Ética a Nicômaco, Aristóteles propôs a ideia de que a virtude é a disposição para buscar o meio termo ou a justa medida entre o excesso e a falta em determinada conduta. Com base nessa afirmação e em seus conhecimentos sobre a obra de Aristóteles, assinale a alternativa correta. A) Coragem é o justo meio entre covardia e temeridade. B) Covardia é o justo meio entre temeridade e coragem. C) Temeridade é o justo meio entre coragem e covardia. D) Coragem, covardia e temeridade não são termos que se relacionam à ética. QUESTÃO 02 (UFPB) O filme Alexandre representou a vida do famoso imperador da Macedônia que constituiu um grande império, incluindo a Grécia, o Egito, a Síria, a Pérsia, indo até as fronteiras com a Índia. Alexandre foi educado pelo filósofo Aristóteles e o seu registro memorável na História deve-se, além de seus feitos militares, à difusão da cultura grega nas regiões do Oriente por ele conquistadas. Esse processo histórico-cultural, conhecido como helenismo, caracterizou-se pelo(a): A) formação de uma nova cultura, sem elementos culturais gregos nem orientais. B) desaparecimento das culturas orientais diante da cultura grega ou helênica. C) conflito cultural irreconciliável entre a cultura grega e as culturas orientais. D) desaparecimento da cultura grega diante das culturas orientais (persa e egípcia). E) constituição de uma cultura diferenciada, com elementos gregos e orientais. QUESTÃO 03 (UENP) Apesar de sua diversidade e suas diferenças teóricas, todas as escolas do helenismo colocam a ética como a parte mais importante da filosofia. Analise as afirmativas sobre as concepções éticas dessas escolas: I. para os epicuristas o prazer é o bem ético, por isso defendiam o hedonismo radical. II. o cético pirrônico deseja chegar a e permanecer na tranquilidade decidindo- se por alguma doutrina específica. III. segundo Epicuro, para alcançar o bem ético o filósofo deve atuar sempre que possível na política. IV. os estóicos preconizavam que a virtude para chegar ao bem ético deveria basear-se nas inclinações e desejos. V. os céticos praticavam a suspensão do juízo (époche) como meio de se chegar à tranquilidade da alma. VI. os cínicos eram críticos dos costumes estabelecidos porque acreditavam que as cidades existentes afastavam os seres humanos da felicidade, que para eles consistia no retorno à natureza. VII. segundo os estóicos, o filósofo só encontrará a felicidade ética se admitir que tudo que ocorre no mundo é justo, porquanto se realiza segundo as leis de uma divindade racional. Assinale a alternativa CORRETA. A) Somente as afirmativas I, II, V e VII são corretas. B) Somente as afirmativas II, III, V e VI são corretas. C) Somente as afirmativas V, VI e VII são corretas. D) Somente as afirmativas II, V, VI e VII são corretas. E) Somente as afirmativas I, VI e VII são corretas. QUESTÃO 04 (UENP- adaptada) Sobre as escolas éticas do período helenístico, da antiguidade clássica da Filosofia Grega, associe os nomes das escolas com as características apresentadas e assinale a alternativa correta. I – epicurismo II – estoicismo III – ceticismo IV – cinismo A - É uma moral vinculada às sensações. O fim supremo da vida é o prazer sensível; mas deve-se vincular somente aos prazeres que não retirem a tranquilidade B – Vincula a felicidade à liberdade, e esta ao desprezo com relação aos bens materiais e às convenções sociais. C - Se nada é verdadeiro, tudo vale igualmente. D - A paixão é sempre substancialmente má, pois é movimento irracional, morbo e vício da alma a) I – A, II – B, III – C, IV – D b) I – A, II – B, III – D, IV – C c) I – A, II – D, III – C, IV – B d) I – A, II – D, III – B, IV – C e) I – D, II – A, III – B, IV – C QUESTÃO 05 (PUC-GO- adaptada) Segundo conta o mito de Pandora, no fundo da caixa aberta por ela, da qual saíram todos os males, estava a esperança. O papel da esperança, aprisionada no fundo da caixa, talvez fosse compensar os males que foram libertados. Afinal, todos querem alcançar a felicidade. Tendo como referência a filosofia helenística, analise os itens que seguem: I - Para os hedonistas, o bem se encontra no prazer. Em sentido bastante genérico, pode-se dizer que a civilização contemporânea é hedonista, por identificar a felicidade com a aquisição de bens de consumo. II - Sêneca, um estoico tardio, é sucinto e objetivo no que tange à esperança. Segundo esse filósofo, a esperança seria o último mal a emergir da funesta caixa. Viver em esperança é decepcionar-se, pois não há como escapar dos infortúnios da vida. Entretanto, se escapar é impossível, é possível uma educação filosófica que nos auxilie a lidar mais tranquilamente com tais revezes. De alguns textos de Sêneca, derivam ditados populares assaz conhecidos, tais como: “O tempo é o remédio para todos os males”; “Quem persevera sempre alcança”. III - Para Epicuro, a felicidade não se orienta pela busca do prazer, mas no exercício constante da virtude. Reconhece que o ser humano é apenas uma parte da natureza e por isso deve aceitar o destino e lutar contra as forças da paixão, causadoras de intranquilidade e dor. Para tanto, deve eliminar as paixões (apatia) e atingir a imperturbabilidade (ataraxia), aceitando com impassibilidade o seu destino. IV - De acordo com o poeta Homero, Pandora abriu a caixa movida por uma incontrolável curiosidade e, ao abri-la, liberou todos os males, desgraças e calamidades que afligem a humanidade. No fundo da caixa, entretanto, restou a esperança. O ceticismo traz uma interpretação que sugere ser a esperança a grande salvadora. Afinal, ela acarreta a possibilidade de assumir opiniões e, ao tomar decisões, vemos a esperança florescer. Após sua análise sobre os itens acima, assinale, abaixo, apenas a afirmativa verdadeira: A) Os itens I e II são verdadeiros. B) Os itens I e III são verdadeiros. C) Os itens II e III são verdadeiros. D) Os itens II e IV são verdadeiros. TEXTO PARA AS QUESTÕES 6 E 7 (UnB) Ora, entre os antigos, normas de vida e exercícios espirituais formavam a essência da “filosofia”, não da religião, e a religião estava mais ou menos separada das ideias sobre a 4 morte e o além. Havia seitas, que eram filosóficas, pois a filosofia era a matéria de seitas que propunham convicções e normas de vida a quem elas pudessem interessar; um individuo 7 se tornava estoico ou epicurista e se conformava mais ou menos a suas convicções. Paul Veyne. O Império Romano In: Philippe Ariès e Georges Duby. História da vida privada: do ImpérioRomano ao ano mil. São Paulo: Companhia das Letras, 2010 p. 201 (com adaptações). Considerando o texto acima, assinale a opção correta nos itens 06 e 07, que são do tipo C. 06- Das informações do texto depreende-se que o saber filosófico A) foi precursor da organização de crenças em religiões. B) era formado, inicialmente, por ideias relacionadas a espiritualidade e a conduta humana. C) resultou, dado seu caráter normativo, no segregacionismo dos povos nos primórdios da humanidade. D) predominava entre os povos antigos, porque contemplava discussões sobre a morte e o mundo não visível, o além. 07- Com relação ao assunto tratado no texto acima, assinale a opção correta. A) O Epicurismo foi uma escola filosófica que se caracterizou pela adoção de uma ética afeita aos prazeres materiais. B) O Estoicismo foi uma escola filosófica que se caracterizou pela adoção de uma ética negadora dos prazeres imateriais. C) A religião, que constitui a verdade, pode ser considerada a continuação da filosofia, que se orienta pela busca da verdade. D) O Epicurismo e o Estoicismo orientavam regras de viver, por isso constituíam seitas filosóficas entre os antigos da civilização helênica. QUESTÃO 08 Em que consiste a époche na concepção filosófica do ceticismo? O que justifica tal postura? QUESTÃO 09 Como a física atomista nos auxilia a nos livrar dos nossos medos de acordo com o epicurismo? QUESTÃO 10 Qual é a liberdade existente para o homem, de acordo com a filosofia estoica? Módulo 07: A patrística: Santo Agostinho. Durante certo tempo, Roma ofereceu resistência ao ensino e propagação da filosofia grega. Isso por acreditar que ela desviava os cristãos da crença nos dogmas, ou fazia nascer heresias, devido a seus instrumentos conceituais para a compreensão de certos aspectos da religião. Porém, com a difusão das obras de Platão e de Aristóteles, não foi mais possível ignorar a herança intelectual grega. A partir da aceitação da cultura pagã, o ensino na idade média passou a contar com temas vinculadores do saber profano à teologia sustentada na autoridade da revelação. Nesse sentido, a filosofia é a demonstração da verdade através de instrumentos que permitam ao filósofo triunfar sobre os detentores da pretensa verdade. A filosofia não é a busca da verdade, pois a verdade já foi trazida pela própria palavra de Deus. As questões de âmbito teológico são mais importantes para o homem, por tratarem de sua salvação. No âmbito filosófico, também não há que se buscar a verdade, visto que ela está posta nas obras de Aristóteles. Há, portanto, duas sínteses: a das verdades profanas, constituída pela doutrina de Aristóteles; e a das verdades cristãs, contidas nas sagradas escrituras e nas interpretações autorizadas dos textos sacros. A filosofia medieval pode ser dividida em quatro grandes momentos: - Padres Apostólicos: os primeiros padres da igreja cristã, como Paulo, que repudiavam a filosofia em favor da fé. - Padres Apologistas: buscavam defender a fé cristã da influência da filosofia. - Patrística: primeiras buscas de conciliação entre fé e razão. Utilização da filosofia platônica. O maior pensador foi Agostinho de Hipona. - Escolástica: movimento das primeiras universidades, vinculadas à igreja. Reaparecimento das obras de Aristóteles. O maior pensador foi Tomás de Aquino. A FILOSOFIA PATRÍSTICA É a filosofia dos padres da igreja católica. Com o objetivo de unir religião e filosofia, os padres introduziram idéias novas para os pagãos, tais como a ideia de criação do mundo, de pecado original, de Deus como trindade una, encarnação e morte de Deus. Santo Agostinho e Boécio introduziram a idéia de “homem interior”, ou seja, de consciência moral ou livre arbítrio, pelo qual o homem se torna responsável pelo mal no mundo. Essa filosofia é uma retomada da filosofia platônica, na qual é valorizado o suprassensível, e a qual remete o homem a um comportamento ético rigoroso, já que o mundo corpóreo ou sensível afasta o homem do supremo bem. Com isso, é indispensável que o homem paute seu comportamento na justa medida, ou seja, mantenha sob controle suas paixões de forma racional. Seu principal representante foi, sem sombra de dúvida, Aurélio Agostinho. Agostinho de Hipona (354-430 d.C), ou Santo Agostinho, como ficou conhecido em função da compreensão da igreja católica, foi o maior expoente da Patrística. Nasceu em Tagaste, na África, em 13 de novembro de 354, filho de um pagão e de uma cristã fervorosa, Mônica, depois canonizada santa pela igreja. Entretanto, ao ir para Cartago, a fim de aperfeiçoar seus estudos, aderindo ao maniqueísmo, seita que atribuía à realidade substancial tanto o bem quanto o mal, buscando encontrar uma explicação para o problema do mal e uma justificação da vida. Até seus trinta e dois anos abandona o maniqueísmo e retoma a filosofia neo-platônica, que lhe ensinou a espiritualidade de Deus e a negatividade do mal, e se converte, finalmente, ao cristianismo. Concebendo uma vida cristã, encontra a possibilidade de por fim a suas angústias, e encontra na filosofia a felicidade, passando a utilizá-la como instrumento em favor da fé, de onde tira a máxima “entender para crer e crer para entender”. A filosofia agostiniana se funda a partir da tríade: fé, esperança e amor, onde o sujeito do conhecimento está pronto para conhecer Deus se for iluminado por Ele, pois como no âmbito da física as coisas devem ser iluminadas pela luz do sol para serem conhecidas, o mesmo ocorre com relação às coisas divinas, pois Deus é o sol que as ilumina. Ocorre, porém, que a opção de utilizar ou não as virtudes supracitadas depende do homem, que possui o livre arbítrio, ou seja, a capacidade de escolher ou não as coisas divinas, que são o Bem. Agostinho toma isso como base para sua filosofia, pois se crê pela vontade, e essa é irracional, visto que não se pode explicar e entender porque se ama, sendo que se ama pela vontade de amar. FÉ E RAZÃO: A BUSCA DA FELICIDADE Para Agostinho, o problema da felicidade constitui a motivação do pensar filosófico. A filosofia é entendida como uma disciplina teórica que coloca problemas à estrutura do mundo físico ou à natureza dos deuses, mas não como um questionamento sobre a condição humana à procura da beatitude. Agostinho se preocupa com o problema das relações entre razão e fé, entre o que se demonstra racionalmente e o que se sabe pela convicção interior, entre a verdade revelada e a verdade lógica, entre a religiosidade cristã e a filosofia pagã. Através da fé nas escrituras busca o entendimento daquilo que elas ensinam, pois, a fé para ele é a via de acesso à verdade eterna. Mas a fé não pode ser demonstrada sem o trabalho da razão, que a precede e é a sua conseqüência, pois é necessário compreender para crer e crer para compreender. A DOUTRINA DA ILUMINAÇÃO DIVINA Percorri o melhor possível, com os sentidos, o mundo exterior. Observei em mim a vida do corpo e os próprios sentidos. Passei depois às profundezas da memória, a essas amplidões sucessivas, admiravelmente repletas de inumeráveis riquezas. Observei-as, estupefato. Mas, sem Vós, nada pude distinguir. Contudo, reconheci que Voes nada disto éreis. Não era eu quem descobria estas maravilhas. É certo que as percorri a todas e tentei distingui-las e avaliá-las no seu justo valor, tomando e interrogando os seres que traziam mensagens aos meus sentidos. [...] Mas não era eu quem fazia tudo isso, nem era a força com que eu agia, a qual não éreis Vós, porque sois luz imutável que eu consultava acerca da existência, da qualidade e do valor em todas as coisas. (AGOSTINHO. 2004, p. 303-304). Agostinho acredita que as verdades contidas nas filosofias pagãs provém da mesma fonte das verdades cristãs. Por isso as verdades dos filósofos pagãos (Platão e Aristóteles) são verdades porque Deus permitiu que esses homens vislumbrassem aSabedoria. Devido à iluminação interior, alguns aspectos das filosofias pagãs permitem a compenetração das verdades absolutas da religião. Através da doutrina da iluminação divina, Agostinho explica como é possível ao homem receber de Deus as verdades eternas, pois todo conhecimento verdadeiro é resultado de uma iluminação divina, que faz com que o homem contemple as ideias, arquétipos eternos de toda a realidade. Não que a luz divina possa ser vista, mas ela serve para iluminar as ideias. Para elaborar sua teoria, o autor busca recursos na alegoria da caverna de Platão, que mostra ser o conhecimento resultado do Bem, considerado como o sol que ilumina o mundo inteligível. Mas Agostinho entende a percepção do inteligível na alma como uma irradiação divina no presente, e não como descoberta de um conteúdo passado. Assim como os objetos exteriores só podem ser vistos quando iluminados pela luz do sol, também as verdades da sabedoria precisariam ser iluminadas pela luz divina para se tornarem inteligíveis. Contudo, o homem possui seu próprio intelecto, sendo que a iluminação permite ao intelecto pensar corretamente por ordem natural, estabelecida por Deus, existente entre as coisas do mundo e as verdades inteligíveis, denominadas pela palavra ideia, forma, espécie, razão ou regra. Por conseguinte, todo conhecimento verdadeiro é o resultado de uma iluminação divina, levando o homem à contemplação das ideias, arquétipos ou modelos eternos de toda a realidade, não podendo porém a luz divina ser vista, só servindo para iluminar. À semelhança de Platão, em Agostinho tudo que existe é cópia de modelos eternos e perfeitos que se encontram em um plano suprassensível, e a verdade não pode ser encontrada no meio externo ao homem, que só é estimulado pelos objetos para buscar as verdades em seu interior. Diferente de Platão, no entanto, Agostinho não admite a existência da metempsicose e, consequentemente, de vidas passadas. Para ele a alma humana é criada juntamente com o corpo, em um único ato de Deus. Ao invés de buscar o conhecimento no passado, a partir da lembrança ou reminiscência, como quer o filósofo grego, o homem, para o bispo de Hipona, busca a Deus no presente, que o ilumina na busca da verdade, também, no presente. Exercícios Propostos: QUESTÃO 01 (UFU) Leia o texto a seguir. “No que diz respeito a todas as coisas que compreendemos, não consultamos a voz de quem fala, a qual soa de fora, mas a verdade que dentro de nós preside à própria mente, incitados talvez pela palavra a consultá-la.” De Magistro, Cap. XI, 38, In Os Pensadores, SANTO AGOSTINHO. São Paulo: Nova Cultural, 1987. p. 319. Marque a afirmativa INCORRETA. A) Segundo Agostinho, a verdade não se descobre pela consulta das palavras que vêm de fora. O processo da descoberta da verdade dá-se através da interioridade. B) Segundo Agostinho, a linguagem humana não tem um poder causal, mas apenas uma função instrumental de utilidade. C) Segundo Agostinho, a linguagem humana é a condição para conhecer a verdade que dentro de nós preside à própria mente. D) Segundo Agostinho, a verdade que dentro de nós preside à própria mente pressupõe a iluminação divina e não o recurso à memória. QUESTÃO 02 (UFU) A filosofia grega se expandiu para além das fronteiras do mundo helênico e influenciou outros povos e culturas. Com o cristianismo não foi diferente e, aos poucos, a filosofia foi absorvida. Conforme Chalita, um dos motivos dessa absorção foi: [...] a necessidade de organizar os ensinamentos cristãos, de reunir os fatos e conceitos do cristianismo sob a forma de uma doutrina e elaborar uma teologia rigorosa. (CHALITA, G. Vivendo a Filosofia. São Paulo: Ática, 2006, p. 94.) Uma das características da patrística é a busca da conciliação entre a fé e a filosofia, e Agostinho de Hipona, ou Santo Agostinho (354 d.C. – 430 d.C.), influenciado pelo neoplatonismo, tornou-se uma referência para a filosofia cristã. Em relação ao desenvolvimento das ciências naturais, porém, o pensamento de Agostinho não deu grande impulso uma vez que sua filosofia – tal como a do mestre Platão – não adotava os fenômenos naturais como objeto de reflexão. Com base nos textos acima e em seus conhecimentos sobre a obra de Agostinho de Hipona, assinale a alternativa INCORRETA. A) Agostinho de Hipona criou a doutrina da iluminação divina baseado na teoria da reminiscência de Platão, conciliando de modo original a fé cristã e o pensamento filosófico. B) A observação, a experimentação e a aplicação dos princípios da geometria sobre os fenômenos naturais foi uma das principais características da filosofia de Santo Agostinho. C) Conforme Agostinho de Hipona, a filosofia grega é um instrumento útil para a fé cristã. D) As verdades eternas e imutáveis, que têm sua sede em Deus, só podem ser alcançadas pela iluminação divina. QUESTÃO 03 (UFU) Leia o trecho extraído da obra Confissões. Quem nos mostrará o Bem? Ouçam a nossa resposta: Está gravada dentro de nós a luz do vosso rosto, Senhor. Nós não somos a luz que ilumina a todo homem, mas somos iluminados por Vós. Para que sejamos luz em Vós os que fomos outrora trevas. SANTO AGOSTINHO. Confissões IX. São Paulo: Nova Cultural,1987. 4, l0. p.154. Coleção Os Pensadores Sobre a doutrina da iluminação de Santo Agostinho, marque a alternativa correta. A) A irradiação da luz divina faz com que conheçamos imediatamente as verdades eternas em Deus. Essas verdades, necessárias e eternas, não estão no interior do homem, porque seu intelecto é contingente e mutável. B) A irradiação da luz divina atua imediatamente sobre o intelecto humano, deixando-o ativo para o conhecimento das verdades eternas. Essas verdades, necessárias e imutáveis, estão no interior do homem. C) A metáfora da luz significa a ação divina que nos faz recordar as verdades eternas que a alma possuía antes de se unir ao corpo. D) A metáfora da luz significa a ação divina que nos faz recordar as verdades eternas que a alma possuía e que nela permanecem mediante os ciclos da reencarnação. Questões Enem QUESTÃO 01 (ENEM 2011) O texto abaixo reproduz parte de um diálogo entre dois personagens de um romance. - Quer dizer que a Idade Média durou dez horas? – Perguntou Sofia. - Se cada hora valer cem anos, então sua conta está certa. Podemos imaginar que Jesus nasceu à meia-noite, que Paulo saiu em peregrinação missionária pouco antes da meia noite e meia e morreu quinze minutos depois, em Roma. Até as três da manhã a fé cristã foi mais ou menos proibida. (...) Até as dez horas as escolas dos mosteiros detiveram o monopólio da educação. Entre dez e onze horas são fundadas as primeiras universidades. Adaptado de GAARDER, Jostein. O Mundo de Sofia, Romance da História da Filosofia. São Paulo: Cia das Letras, 1997. O ano de 476 d.C., época da queda do Império Romano do Ocidente, tem sido usado como marco para o início da Idade Média. De acordo com a escala de tempo apresentada no texto, que considera como ponto de partida o início da Era Cristã, pode-se afirmar que A) as Grandes Navegações tiveram início por volta das quinze horas. B) a Idade Moderna teve início um pouco antes das dez horas. C) o Cristianismo começou a ser propagado na Europa no início da Idade Média. D) as peregrinações do apóstolo Paulo ocorreram após os primeiros 150 anos da Era Cristã. E) os mosteiros perderam o monopólio da educação no final da Idade Média. QUESTÃO 02 Para Agostinho, as Verdades Eternas e imutáveis (que Platão coloca no mundo das Ideias) têm sua sede em Deus, que é a Verdade. Não as conhecemos por meio de uma recordação ou reminiscência de uma existência anterior à atual, como pensava Platão, mas mediante um ato consciente de interiorização, no qual a razão toma consciência da presença de Deus. A presença divina é a Luz que nos faz ver essas Verdades Eternas BOEHNER, P. e GILSON, E. História da Filosofia Cristã. Petrópolis:Vozes, 1988. p. 164. O texto acima refere-se à doutrina da Iluminação Divina, elaborada por Agostinho de Hipona. Em tal doutrina, o filósofo entendia que A) o conhecimento que possuímos nesta vida provém de uma recordação do mundo das Ideias. B) o conhecimento verdadeiro que o homem pode alcançar nesta vida é proveniente das verdades eternas que se encontram na mente de Deus. C) o conhecimento se daria por reminiscência, e esta seria possível em função da metempsicose. D) no processo do conhecimento humano, por causa da Iluminação Divina, a razão é totalmente passiva. E) a única fonte de conhecimento são os dados empíricos, como bem já havia afirmado Aristóteles. Exercícios de Fixação: QUESTÃO 01 A casa de Deus, que cremos ser uma, está, pois, dividida em três: uns oram, outros combatem, e outros, enfim, trabalham. (Bispo Adalberon de Laon, século XI, apud LE GOFF, Jacques. A civilização do ocidente medieval. Lisboa: Editorial Estampa, 1984. P. 45-46) A sociedade do período medievo possuía, como uma de suas características, a estrutura social extremamente rígida e segmentada. A sociedade dos homens era um reflexo da sociedade divina. Essa estrutura é uma herança da filosofia A) patrística, de Santo Agostinho. B) escolástica, de Abelardo. C) racionalista, de Platão. D) dialética, de Hegel. QUESTÃO 02 (Uncisal) Uma das preocupações de certa escola filosófica consistiu em provar que as ideias platônicas ou gêneros e espécies aristotélicos são substâncias reais, criadas pelo intelecto e vontade de Deus, existindo na mente divina. Reflexões dessa natureza foram realizadas, majoritariamente, no período da história da filosofia A) pré-socrática B) antiga C) medieval D)moderna E) contemporânea QUESTÃO 03 (Uncisal) A filosofia de Santo Agostinho é essencialmente uma fusão das concepções cristãs com o pensamento platônico. Subordinando a razão à fé. Agostinho de Hipona afirma existirem verdades superiores e inferiores, sendo as primeiras compreendidas a partir da ação de Deus. Como se chama a teoria agostiniana que afirma ser a a ação de Deus que leva o homem a atingir verdades superiores? A) Teoria da Predestinação B) Teoria da Providência C) Teoria Dualista D) Teoria da Emanação E) Teoria da Iluminação QUESTÃO 04 “Agostinho afirmava que as verdades da fé não são atingíveis pela razão, mas acreditava ser possível demonstrar o acerto de nelas se crer. Fé e razão guardariam, portanto, estreita relação, daí a sua máxima, inspirada num versículo de Isaías: “Compreende para crer, crê para compreender”.” INÁCIO, Inês & LUCA, Tânia R. de. O pensamento medieval. São Paulo: Ática, 1988, p. 25. O texto acima permite que se conclua que A) para compreender os mistérios da fé, a razão não é suficiente, é preciso antes a fé, a crença em tais mistérios para, em seguida, com a ajuda da iluminação divina, podermos entender as verdades de fé. B) Agostinho é o bispo católico que, por ter sido professor de filosofia antes de sua conversão, negou completamente a possibilidade de se conferir às verdades cristãs uma forma racionalmente compreensível. C) segundo Agostinho, nada que nossa razão não seja capaz de compreender deve ser digno de fé, isto é, a razão humana é o critério absoluto que nos leva a crer ou não em Deus. D) Agostinho considera a filosofia inútil porque não nos ajuda a entender nada sobre os mistérios da fé. Em função disso, afirma a necessidade de afastar a religião das ameaças da razão. E) por fazer parte da corrente filosófica denominada apologética, o filósofo recusou veementemente a possibilidade de conciliação entre religião e filosofia, ou seja, entre fé e razão. QUESTÃO 05 (UFU) A filosofia de Agostinho (354 – 430) é estreitamente devedora do platonismo cristão milanês: foi nas traduções de Mário Vitorino que leu os textos de Plotino e de Porfírio, cujo espiritualismo devia aproximá-lo do cristianismo. Ouvindo sermões de Ambrósio, influenciados por Plotino, que Agostinho venceu suas últimas resistências (de tornar-se cristão). PEPIN, Jean. Santo Agostinho e a patrística ocidental. In: CHÂTELET, François (org.) A Filosofia medieval. Rio de Janeiro Zahar Editores: 1983, p. 77. Apesar de ter sido influenciado pela filosofia de Platão, por meio dos escritos de Plotino, o pensamento de Agostinho apresenta muitas diferenças se comparado ao pensamento de Platão. Assinale a alternativa que apresenta, corretamente, uma dessas diferenças. A) Para Agostinho, é possível ao ser humano obter o conhecimento verdadeiro, enquanto, para Platão, a verdade a respeito do mundo é inacessível ao ser humano. B) Para Platão, a verdadeira realidade encontra-se no mundo das Ideias, enquanto para Agostinho não existe nenhuma realidade além do mundo natural em que vivemos. C) Para Agostinho, a alma é imortal, enquanto para Platão a alma não é imortal, já que é apenas a forma do corpo. D) Para Platão, o conhecimento é, na verdade, reminiscência, a alma reconhece as Ideias que ela contemplou antes de nascer; Agostinho diz que o conhecimento é resultado da Iluminação divina, a centelha de Deus que existe em cada um. QUESTÃO 06 (UEM) Um texto de um filósofo anônimo da Idade Média apresenta de modo claro um problema central para a filosofia e a ciência do seu tempo. Ele afirma: “Boécio divide em três as partes da ciência especulativa: natural, matemática e teológica. Da mesma forma, o Filósofo [isto é, Aristóteles] divide-a em natural, matemática e metafísica. Assim, isto que Boécio chama teologia, o Filósofo chama metafísica. Elas são, portanto, idênticas. Mas a metafísica não é acerca de Cristo. Logo, a teologia também não o é” (Quaestio de divina scientia. In: FIGUEIREDO, V. Filósofos na sala de aula. Vol. 3. São Paulo: Berlendis & Vertecchia, 2008, p. 68). A partir do trecho citado, assinale a(s) alternativa(s) correta(s). 01) A teologia apresenta-se na Idade Média como a ciência principal. 02) A teologia é objeto da filosofia de Aristóteles, apesar de ela não ter esse nome para ele. 04) A teologia é uma ciência que não diz respeito à investigação da natureza de Cristo. 08) A teologia é, para esses filósofos, tão científica quanto a matemática. 16) A teologia e a metafísica são conhecimentos adquiridos por meio da ciência especulativa. QUESTÃO 07 Deus cria as coisas a partir de modelos imutáveis e eternos, que são as ideias divinas. Essas ideias ou razões não existem em um mundo à parte, como afirmava Platão, mas na própria mente ou sabedoria divina, conforme o testemunho da Bíblia. “Que a mesma sabedoria divina, por quem foram criadas todas as coisas, conhecia aquelas primeiras, divinas, imutáveis e eternas razões de todas as coisas antes de serem criadas, a Sagrada Escritura dá este testemunho: ‘No princípio era o Verbo e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus. Todas as coisas foram feitas pelo Verbo e sem Ele nada foi feito’. Quem seria tão néscio a ponto de afirmar que Deus criou as coisas sem conhecê-las? E se as conheceu, onde as conheceu senão em si mesmo, junto a quem estava o Verbo pelo qual tudo foi feito?” (Santo Agostinho, Sobre o Gênese, V, 29) COSTA, José Silveira da. A Filosofia Cristã. In: RESENDE, Antônio. Curso de Filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar/SEAF, 1986, p. 78, Capítulo 4. A Patrística, filosofia cristã dos primeiros séculos, poderia ser definida como A) retomada do pensamento de Platão, conforme os modelos teológicos da época, estabelecendo estreita relação entre filosofia e religião. B) configuração de um novo horizonte filosófico, proposto por Santo Agostinho, inspirado em Platão, de modo a resgatar a importância das coisas sensíveis, da materialidade. C) adaptação do pensamento aristotélico, conforme os moldes teológicos da época, a partir das versões em grego e árabe. D) criação de uma escola filosófica, que visava combater os ataques dos pagãos, rompendo com o dualismogrego. E) busca de demonstrar que filosofia e religião deveriam permanecer separadas, em função de sua especificidade. QUESTÃO 08 (UFU) "Creio tudo o que entendo, mas nem tudo que creio também entendo. Tudo o que compreendo conheço, mas nem tudo que creio conheço." Agostinho. De Magistro. São Paulo: Abril Cultural, 1973. p. 319. (Coleção "Os Pensadores"). A citação de Agostinho refere-se à relação entre fé e razão. Explique como este filósofo concebe esta relação. QUESTÃO 09 (UFU) Leia os textos abaixo. “Ultrapassarei a memória, para encontrar-te. Mas onde, ó bondade verdadeira e suavidade segura? Encontrar-te onde? Se te encontro fora da minha memória, é porque me esqueci de ti. E como poderei encontrar-te, se não me lembro de ti?.” “Está gravada dentro de nós a luz da tua face, Senhor. De fato, não somos nós a luz que ilumina todo homem, mas somos iluminados por ti, para que sejamos luz em ti, nós que fomos trevas um dia.” SANTO AGOSTINHO. Confissões. São Paulo: Abril Cultural, 1973. Col. Os Pensadores. Com base nos textos acima, responda: A) por que, segundo Santo Agostinho, a verdade eterna encontra-se dentro e, ao mesmo tempo, fora da memória? B) por que, para Santo Agostinho, a ação divina da iluminação torna-se necessária? QUESTÃO 10 (UFU) Leia com atenção o texto abaixo em que o autor comenta e cita Santo Agostinho, e, em seguida, responda as questões apresentadas. Deus cria as coisas a partir de modelos imutáveis e eternos, que são as ideias divinas. Essas ideias ou razões não existem em um mundo à parte, como afirmava Platão, mas na própria mente ou sabedoria divina, conforme o testemunho da Bíblia. “Que a mesma sabedoria divina, por quem foram criadas todas as coisas, conhecia aquelas primeiras, divinas, imutáveis e eternas razões de todas as coisas antes de serem criadas, a Sagrada Escritura dá este testemunho: ‘No princípio era o Verbo e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus. Todas as coisas foram feitas pelo Verbo e sem Ele nada foi feito’. Quem seria tão néscio a ponto de afirmar que Deus criou as coisas sem conhecê-las? E se as conheceu, onde as conheceu senão em si mesmo, junto a quem estava o Verbo pelo qual tudo foi feito?” (Santo Agostinho, Sobre o Gênese, V, 29) COSTA, José Silveira da. A Filosofia Cristã. In: RESENDE, Antônio. Curso de Filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar/SEAF, 1986, p. 78, Capítulo 4. A) Explique a relação, sugerida neste texto, entre a teoria das Ideias de Platão e o pensamento de Agostinho. B) Explique como Agostinho usa essa teoria para explicar o conhecimento humano, na sua conhecida Doutrina da Iluminação Divina. Módulo 08: Escolástica: Problema dos Universais e Tomás de Aquino. A ESCOLÁSTICA Aproximadamente no século IX da era cristã as instituições estatais começam a se complexificar, exigindo cada vez mais, para a realização das funções nelas exercidas, mão de obra capacitada. O analfabetismo, excetuando-se o clero, assola o território hoje conhecido como Europa. É em função disso que um Imperador analfabeto, chamado Carlos Magno, atenta para a necessidade da formação de uma classe que representará, futuramente, a possibilidade de uma burocracia mais funcional. Ocorre, por esse motivo, a chamada Renascença Carolíngia, que é realizada com o auxílio do pensador Alcuíno de York, com a fundação das escolas. Nelas eram ministradas as sete artes liberais: o Trivium (gramática, retórica e dialética) e o Quadrivim (aritmética, geometria, música e astronomia. Todas elas, no entanto, submissas à teologia, pois essas escolas se encontravam ligadas ou a mosteiros os a catedrais. O PROBLEMA DOS UNIVERSAIS A relação entre voces e res, entre linguagem e realidade, que está no centro dos estudos gramaticais e da dialética, constitui o elemento essencial da questão dos universais, vivamente debatida no século XII por suas implicações lingüísticas, gnosiológicas e teológicas. Com efeito, o problema dos universais diz respeito à determinação do fundamento e do valor dos conceitos e termos universais, como, por exemplo, “animal” e “homem”, aplicáveis a uma multiplicidade de indivíduos. Mas, em geral, trata-se de um problema que diz respeito à determinação da relação entre as ideias ou categorias mentais, expressos em termos linguísticos, e as realidades extra mentais, ou, em última análise, é o problema da voces e a res, entre as palavras e as coisas, entre o pensamento e o Ser. O problema envolve, portanto, o fundamento e a validade do conhecimento e, em geral, do saber humano. A POSIÇÃO NOMINALISTA Doutrina filosófica surgida na Idade Média que consiste em uma tomada de posição frente ao problema dos universais. Na investigação acerca da natureza dos termos genéricos, o nominalismo, tomado em seu sentido amplo, afirma: as espécies e os gêneros, em última instância, os universais, não são realidades. Eles constituem somente nomes, palavras empregadas a fim de agrupar conjuntos de indivíduos. Frente a esta questão, a postura nominalista opõe-se à solução realista, que afirma a realidade dos universais, presentes no intelecto divino anteriormente às coisas. Os realistas representam uma interpretação do platonismo desde a perspectiva da filosofia medieval. Deste modo, os universais possuem a função de modelos ideais, a partir dos quais são criados os entes singulares. O nominalismo surge na Idade Média, ainda que tenha sido prefigurado por várias argumentações de filósofos antigos. Seu florescimento ocorreu em dois períodos distintos: no século XI, com Roscelino de Compiègne, e no século XIV, com Guilherme de Ockham. Do primeiro, conhecemos seu pensamento somente através das refutações de seus contraditores. Segundo estes, Roscelino negaria qualquer realidade aos universais, considerando-os simplesmente como um sopro de voz (em latim, flatus vocis). A postura de Guilherme, por sua vez, confere aos universais a natureza de signos, palavras que permitem ao intelecto humano reunir determinados grupos de entes sob a mesma designação, abstraindo suas diferenças individuais. Em ambos os casos, a concepção nominalista afirma o individual como a única forma verdadeira de existência. Deste modo, os conceitos universais permanecem tão estranhos aos entes como as palavras que empregamos para designá-los. O nominalismo aponta, necessariamente, para uma tendência gnosiológica de tipo empirista, uma vez que se a realidade é unicamente composta de indivíduos, somente a apreensão do particular, isto é, a experiência sensível, nos permite acesso à realidade. A postura nominalista foi criticada de várias formas. Santo Anselmo refuta a posição de Roscelino, valendo-se do seguinte argumento: mesmo que o universal seja apenas um sopro de voz, ele ainda é alguma coisa, provida de realidade. Como tal, seria preciso apreendê-lo, conhecê-lo por meio do intelecto. Contudo, toda apreensão intelectiva somente pode ocorrer por meio dos universais, que, assim, estariam presentes nos sons enquanto estes se configuram “entes naturais”. O nominalismo encontrou vários seguidores diretos, nos séculos XIV e XV, como Pedro de Ailly, João Buridano, Nicolau de Oresme e Alberto de Saxônia. Suas teses foram retomadas e reinterpretadas durante a era moderna por várias vertentes filosóficas. O empirismo inglês, o positivismo clássico e o materialismo de Feuerbach são alguns destes exemplos. Atualmente, o neopositivismo, bem como determinadas vertentes da lógica e da filosofia da linguagem, integram-se a uma postura nominalista, ainda que cada uma destas correntes reveja esta postura a partir de seus próprios paradigmas. A POSIÇÃO REALISTA O realismo consiste no pensamento que compreende essência da realidade como algo material ou empírico, substantivamente determinado. Oposto ao idealismo, que concebe a consciência do sujeito como fundamento de todo real, o realismo afirma que as coisasexistem nelas mesmas, fora e independente da consciência subjetiva do homem. Por querer pensar as coisas "tal como elas mesmas são", o realismo se constitui em um pensamento objetivo que, ao contrário das especulações dialéticas dos idealistas, busca ser sempre positivo e, antes de tudo, pragmático. Tanto o realismo como o idealismo nascem da compreensão dicotômica que pensa o real como um composto de matéria e espírito, corpo e alma; sendo a matéria o elemento sensível e exterior, o mundo, e o espírito, o elemento inteligível e interno, o homem. A partir da separação homem-mundo, a verdade passa a ser concebida como a adequação entre o sujeito e o objeto. Todavia, na medida em que sendo originariamente separados e com essências distintas, como pode haver a síntese entre sujeito e objeto que constitui o conhecimento verdadeiro? Em outras palavras: a ligação, que é o lugar da verdade, se dá no homem, e por isso é subjetiva, ou no mundo, e assim objetiva? Em que instância, no homem ou no mundo, se encontra o "entre" que une sujeito e objeto? Enquanto o idealismo afirma que o fundamento desta relação é o homem, pois só conhecemos o que o pensamento coloca previamente nas coisas, o realismo afirma que o fundamento da relação é o mundo, pois o pensamento apenas representa e, assim expõe, o que as coisas são nelas mesmas. Assim, a partir do pressuposto da separação ontológica de homem e mundo, o realismo se constitui como um pensamento contraposto ao idealismo, por pensar o mundo e não o homem como o fundamento da realidade. Os movimentos filosóficos do realismo mais importantes são o atomismo, os universais, os empiristas e os materialistas. Para o realismo de Guilherme de Champeaux, por vezes denominado ultrarrealismo, os universais existem como entidades reais. Em alguns autores, à moda do platonismo, tais modelos ideais se encontrariam na mente de Deus e, portanto, fora dos seres individuais. O realismo aristotélico trabalha com a existência dos universais nos próprios individuais que, portanto, somente se diferenciariam em função de sua acidentalidade. PEDRO ABELARDO (1079 - 1142) - O REALISMO MODERADO Nasceu em Le Pallet, perto de Nantes (França). Além do papel filosófico importante que desempenhou na discussão acerca dos universais, tornou-se famoso por sua dramática história pessoal. Lecionou filosofia e teologia em Paris, tendo suas aulas reunido um número considerável de alunos. Entre estes se encontrava Heloísa, por quem Abelardo perdidamente se apaixonou. Perseguidos pelo cônego Fulbert, tio da jovem, casaram-se secretamente em Paris. Abelardo, temendo por sua segurança, abrigou-a em uma abadia, onde Heloísa acabou por fazer profissão de fé. Atacado por homens a mando do tio de Heloísa, Abelardo foi mutilado. Entrou para uma abadia, onde se tornou monge, contudo voltando posteriormente a lecionar. A correspondência trocada por Abelardo e Heloísa, quando ambos já se encontravam devotados à vida monástica, figura entre os mais tocantes escritos amorosos da literatura ocidental. No campo filosófico, Abelardo sobressai por suas opiniões polêmicas. Estudou lógica com Roscelino e, posteriormente, com Guilherme de Champeaux. Estes dois filósofos representam duas posições opostas quanto ao problema dos universais e Abelardo termina por refutar a ambas. Roscelino representa uma posição nominalista extremada frente a esta questão, defendendo a tese de que só podemos encontrar na realidade os entes individuais, sendo o universal, desta forma, apenas uma emissão sonora, um mero nome. Guilherme de Champeaux, por sua vez, defende uma postura realista, ao afirmar, seguindo uma interpretação de Platão tornada canônica na Idade Média, a existência real dos universais, ou antes, a existência mais real e autêntica destes frente aos entes particulares. Abelardo refuta o nominalismo de Roscelino, defendendo que os universais apresentam uma realidade mental. E refuta o realismo de Guilherme de Champeaux, afirmando que, se o universal é um atributo, ele não pode ser uma realidade, uma vez que uma realidade não pode ser predicada por outra realidade, pois “nenhuma realidade pode ser dita acerca de muitas coisas, mas somente um nome”. Os debates entre Abelardo e seu mestre realista parecem ter levado este último, por fim, a atenuar sua posição. A tese de Abelardo frente a esta questão pode ser, assim, resumida: o universal é um nome, e um nome é uma voz significativa. Deste modo, a discussão, até o momento predominantemente metafísica, se transfere para o domínio da lógica, cabendo a esta a tarefa de aclarar o sentido da significação, bem como de investigar a relação que esta mantém com o significado. As idéias de Abelardo também causaram polêmica no âmbito das indagações teológicas. Seu pensamento neste campo constitui, igualmente, uma dupla oposição: por um lado, contra aqueles que se negavam a aplicar a dialética, isto é, as forças da razão, à investigação de questões relativas ao divino; por outro, contra os que tratavam a dialética como o único modo seguro de acesso a Deus. Contra uma acusação de ser excessivamente dialético, esquecendo assim a importância da revelação para a teologia, escreve Abelardo: “Não quero ser tão filósofo que resista a Paulo, nem tão aristotélico, para afastar-me de Cristo”. Apesar disso, sua postura lhe valeu censuras, em especial de São Bernardo. Suas opiniões teológicas foram condenadas por dois concílios, sendo consideradas heréticas. Seu primeiro livro, Introdução à Teologia, foi proibido pelo Concílio de Soissons em 1121. Abelardo contribui também para as investigações de ordem ética, trazendo à baila a discussão acerca da importância da intenção no julgamento de um ato moral. O todo de seu pensamento exerceu influência sobre filósofos de seu século, bem como, um século depois, sobre São Tomás de Aquino, um dos maiores expoentes da filosofia na Idade Média. Principais obras de Abelardo: Sobre a Unidade e Trindade Divina, Sim e Não, Teologia Cristã, Lógica para principiantes, História das minhas Calamidades. Faleceu em 21 de abril, em Chalon-sur-Saône, aos sessenta e três anos. TOMÁS DE AQUINO (1225 – 1274) Tomás de Aquino nasceu em 1225 em Roccasseca e lá mesmo morreu em 1274, filho dos condes de Aquino, estudou as artes liberais. Adaptou a filosofia grega de Aristóteles ao pensamento cristão da Escolástica, mas seus pensamentos são de cunho dogmático cristão dos Padres da Igreja e da tradição Medieval anterior. Preocupava-se com a demonstração da existência de Deus e a explicação da essência na medida em que é possível, a interpretação racional dos dogmas. Por um lado a Trindade, a criação do mundo, a Eucaristia e por outro lado a Ética orientada para uma vida sobrenatural; o problema dos universais e muitos outros. Para ele a teologia funda-se na Revelação divina, enquanto a filosofia tem por base o exercício da razão humana. Não é o homem que faz teologia, mas Deus, ao revelar-se, pois Deus é a própria verdade, e o uso correto da razão conduz a verdade. Daí não pode haver conflito entre a filosofia e a teologia porque seria uma discórdia no âmbito da verdade, como podemos perceber em suas palavras. É um fato que esses princípios naturalmente inatos à razão humana são absolutamente verdadeiros; são tão verdadeiras que chega a ser impossível pensar que possam ser falsos. [...] A mesma coisa que o mestre inculca no espírito do seu discípulo, a ciência do mestre a inclui, a menos que este ensinamento do mestre esteja imbuído de hipocrisia, o que não se pode supor em Deus. Ora, o conhecimento dos princípios que nos são conhecidos naturalmente nos é dado por Deus, uma vez que Deus é o autor da nossa natureza. Por conseguinte, tais princípios naturais estão incluídos também na sabedoria divina. Portanto, tudo aquilo que contradiz tais princípios, contradiz a sabedoria divina. Ora, isto não pode acontecer em Deus. Tudo o que a revelaçãodivina nos manda crer, é impossível que contrarie o conhecimento natural. (AQUINO, T. 2004, p. 143-144) Desse modo, podemos sintetizar da seguinte maneira as relações que Aquino estabelece entre razão natural e fé: as duas são formas distintas de se acessar a verdade, sendo que a razão o faz por meio do que o filósofo denomina evidência intrínseca, ou seja, demonstração lógica ou empírica das coisas, e a fé por meio da confiança na autoridade do Deus revelante. Desse modo, dão origem a duas ciências distintas: a filosofia e a teologia. como ambas nos foram infundidas pelo mesmo ser, que é Deus, é incoerente imaginar que Ele nos concederia uma razão que nos levasse a negar as verdades que nos são resultado da Sua revelação. Em função disso, não deve haver conflito entre fé e razão quando consideram o mesmo objeto, e caso tal ocorra, devemos optar pela revelação, visto que a razão pode ser conduzida de maneira equivocada. ainda que a razão possa, sozinha, atingir as verdades referentes ao mundo natural e até a algumas relacionadas a Deus, Aquino acha que nem todos os seres humanos o podem igualmente, e mesmo aqueles que têm essa possibilidade, poderiam errar muito antes de consegui-lo. Em função disso, é interessante que Deus revele as verdades que devemos atingir para, posteriormente, a razão demonstra-las, por meio da concatenação dos raciocínios e da observação das coisas, por meio da evidência intrínseca. A fé, portanto, termina por ser superior à razão. OS PRINCÍPIOS DO CONHECIMENTO Tomás de Aquino concilia as verdades da razão aristotélica e o conteúdo da revelação bíblica e, com isso, prova a existência de Deus. Racionalmente o mundo é concebido como um conjunto de criaturas contingentes, cuja existência é dada por Deus, criadas a partir do nada e escalonadas de acordo com os graus diversos de perfeição e participação na essência e na existência de Deus. No ápice da hierarquia das criaturas encontram-se os anjos, que são criaturas como as demais, embora incorpóreas possuem a mais alta perfeição dentre todas as criaturas. Já o homem é um ser dotado de corpo e alma, mas não possui uma inteligência pura como a dos anjos, por ter sua alma ligada ao corpo e devido a essa dupla natureza o homem pode conhecer o inteligível, mas não pode manter contato direto com ele. Seu conhecimento parte dos sentidos que revelam objetos concretos e singulares, mas através da abstração consegue formular conceitos universais. Tomás de Aquino afirma que o intelecto pode gerar conceitos abstratos e universais porque não se limita a receber e registrar os dados fornecidos pelos sentidos, embora o conhecimento tenha início no plano corpóreo se finaliza no plano espiritual. Retomando as idéias de Aristóteles sobre o Ser e o saber, Tomás de Aquino enfatizou a importância da realidade sensorial. No processo de conhecimento dessa realidade, ressaltou uma série de princípios considerados básicos, dentre os quais se destacam: - Princípio de contradição: o ser é ou não é. Não existe nada que possa ser e não ser ao mesmo tempo e sob o mesmo ponto de vista. - Princípio da substância: na existência dos seres podemos distinguir a substância (a essência, propriamente dita, de uma coisa, sem a qual ela não seria aquilo que é) e o acidente (a qualidade não-essencial, acessória do ser). - Princípio da causa eficiente: todos os seres que captamos pelos sentidos são seres contingentes, isto é, não possuem, em si próprios, a causa eficiente de suas existências. Portanto, para existir, o Ser contingente depende de um outro Ser que representa a sua causa eficiente: este outro Ser é chamado de Ser necessário. - Princípio da finalidade: todo ser contingente existe em função de uma finalidade, de um objetivo, de uma “razão de ser”. Enfim, todo Ser contingente possui uma causa final. - Princípio do ato e da potência: todo Ser contingente possui duas dimensões: o ato e a potência. O ato representa a existência atual do Ser, aquilo que está realizado e determinado. A potência representa a capacidade real do ser, aquilo que não se realizou mas pode realizar-se. É a passagem da potência para o ato que explica toda e qualquer mudança. AS PROVAS DA EXISTÊNCIA DE DEUS O Ser é o conceito mais universal de todos , segundo Tomás de Aquino, que aproveita o ensinamento aristotélico. Mas esta universalidade não é o gênero como demonstrou Aristóteles, contrapondo-se à opinião de Platão. O ente é um transcendental que está presente em todas as coisas sem confundir- se com nenhuma delas. A palavra Ser possui dois sentidos, quais sejam: a essência e a existência. Tomás de Aquino afirma que há distinção entre a essência e a existência das criaturas, que são entes contingentes. Porém, em Deus, não há essa distinção, pois a existência de Deus provém de sua essência. Para Tomás de Aquino há cinco vias, isto é, cinco maneiras de demonstrar a existência de Deus, que são: 1ª) O PRIMEIRO MOTOR: Tudo aquilo que se move é movido por outro Ser. Por sua vez, este outro Ser, para que se mova, necessita também que seja movido por outro Ser. E, assim, sucessivamente. Se não houvesse um primeiro Ser movente, cairíamos num processo indefinido. Logo, conclui Tomás de Aquino, é necessário chegar a um primeiro Ser movente que não seja movido por nenhum outro. Esse ser é Deus. 2ª) A CAUSA EFICIENTE: Todas as coisas existentes no mundo não possuem em si próprias a causa eficiente de suas existências. Devem ser consideradas efeitos de alguma causa. Tomás de Aquino afirma ser impossível remontar indefinidamente à procura das causas eficientes. Logo, é necessário admitir a existência de uma primeira causa eficiente, responsável pela sucessão de efeitos. Essa causa primeira é Deus. 3ª) SER NECESSÁRIO E SER CONTINGENTE: Este argumento é uma variante do segundo. Afirma que todo Ser contingente, do mesmo modo que existe, pode deixar de existir. Ora, se todas as coisas que existem podem deixar de Ser, então, alguma vez, nada existiu. Mas, se assim fosse, também agora nada existiria, pois aquilo que não existe somente começa a existir em função de algo que já existia. É preciso admitir, então, que há um ser que sempre existiu, um ser absolutamente necessário, que não tenha fora de si a causa da sua existência, mas, ao contrário, que seja a causa da necessidade de todos os seres contingentes. Esse ser necessário é Deus. 4ª) OS GRAUS DE PERFEIÇÃO: Em relação à qualidade de todas as coisas existentes, pode-se afirmar a existência de graus diversos de perfeição. Assim, afirmamos que tal coisa é melhor que outra, ou mais bela, ou mais poderosa, ou mais verdadeira etc. Ora, se uma coisa possui “mais” ou “menos” determinada qualidade positiva, isto supõe que deve existir um Ser com o máximo dessa qualidade, ao nível da perfeição. Devemos admitir, então, que existe um Ser com o máximo de bondade, de beleza, de poder, de verdade, sendo, portanto, um Ser máximo e pleno. Esse ser é Deus. 5ª) A FINALIDADE DO SER: Todas as coisas brutas, que não possuem inteligência própria, existem na natureza cumprindo uma função, um objetivo, uma finalidade, semelhante a flecha dirigida pelo arqueiro. Devemos admitir, então, que existe algum Ser inteligente que dirige todas as coisas da natureza para que cumpram seu objetivo. Esse ser é Deus. Assim, Tomás de Aquino reviveu em grande parte o pensamento aristotélico com a finalidade de nele buscar os elementos racionais que explicassem os principais aspectos da fé cristã. Enfim, fez da filosofia de Aristóteles um instrumento a serviço da religião católica, ao mesmo tempo que transformou essa filosofia numa síntese original. Enfim, a idéia principal que anima as cinco vias acima descritas é Deus, invisível e infinito, demonstrável por seus efeitos visíveis e finitos. Visto que sabe-se que Deus é, porém não se sabe o que é. Mas pode saber-se algo a respeito de Deus, através da visão das criaturas, que pode sedar pela via da causalidade, da excelência e da negação. De todos esses modos, há duas possibilidades de ver: uma conforme a simples razão natural, alguns vêem a luz mas não estão na luz; a outra através da revelação que é superior a razão, porque está na luz vista pela razão. Portanto, o mundo é criado por Deus por um ato livre e voluntário, e a criação é a posição do mundo na existência que pela revelação se realiza no tempo, mesmo que não possa ser demonstrado racionalmente. Deus é a causa exemplar e também a causa final, visto que todos os fins se dirigem para ele. Sobre a questão dos Universais, Aquino toma uma posição que poderíamos entender como resultante de seu contato com as três grandes escolas apresentadas anteriormente. O autor termina por assumir um posicionamento realista, entendendo a existência do universal em três instâncias: ante rem, isto é, antes dos seres, na mente de Deus; in re, ou seja, nas coisas, enquanto essências dos próprios seres individuais; e post rem, posterior às coisas, na nossa mente, a partir da sua assimilação por meio da abstração, à moda aristotélica. Exercícios propostos: QUESTÃO 01 (UFU) Com efeito, existem a respeito de Deus verdades que ultrapassam totalmente as capacidades da razão humana. Uma delas é, por exemplo, que Deus é trino e uno. Ao contrário, existem verdades que podem ser atingidas pela razão: por exemplo, que Deus existe, que há um só Deus etc. AQUINO, Tomás de. Súmula contra os Gentios. Capítulo Terceiro: A possibilidade de descobrir a verdade divina. Tradução de Luiz João Baraúna. São Paulo: Abril Cultural, 1979, p. 61. Para São Tomás de Aquino, a existência de Deus se prova A) por meios metafísicos, resultantes de investigação intelectual. B) por meio do movimento que existe no Universo, na medida em que todo movimento deve ter causa exterior ao ser que está em movimento. C) apenas pela fé, a razão é mero instrumento acessório e dispensável. D) apenas como exercício retórico. QUESTÃO 02 (UFU) Leia o texto a seguir sobre o problema dos universais. “Ockham adota o nominalismo, posição inaugurada em uma versão mais radical por Roscelino (séc. XII), [que] afirma serem os universais apenas palavras, flatus vocis, sons emitidos, não havendo nenhuma entidade real correspondentes a eles.” MARCONDES, D. Iniciação à história da filosofia: dos pré-socráticos a Wittgenstein. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2005. p. 132. Marque a alternativa correta. A) Segundo o texto acima, o termo “humanidade”, aplicável a uma multiplicidade de indivíduos, indica um modo de ser das realidades extra mentais. B) Segundo o texto acima, o termo “humanidade”, aplicável a uma multiplicidade de indivíduos, é apenas um conceito pelo qual nos referimos a esse conjunto. C) Segundo o texto acima, o termo “humanidade”, aplicável a uma multiplicidade de indivíduos, determina entidades metafísicas subsistentes. D) Segundo o texto acima, o termo “humanidade”, aplicável a uma multiplicidade de indivíduos, determina formas de substância individual existentes. QUESTÃO 03 (UFU) Santo Tomás de Aquino, nascido em 1224 e falecido em 1274, propôs as cinco vias para o conhecimento de Deus. Estas vias estão fundamentadas nas evidências sensíveis e racionais. A primeira via afirma que os corpos inanimados podem ter movimento por si mesmos. Assim, para que estes corpos tenham movimento é necessário que algo os mova. Esta concepção leva à necessidade de um primeiro motor imóvel, isto é, algo que mesmo não sendo movido por nada pode mover todas as coisas. Sobre a primeira via, que é a do movimento, marque a alternativa correta. A) Para que os objetos tenham movimento é necessário que algo os mova; dessa forma, entende-se que é necessário um primeiro motor. Logo, podemos entender que Deus não é necessário no sistema. B) Para Santo Tomás, os objetos inanimados movem-se por si mesmos e esse fenômeno demonstra a existência de Deus. C) A demonstração do primeiro motor não recorre à sensibilidade, dispensando toda e qualquer observação da natureza, uma vez que sua fundamentação é somente racional. D) Conforme o argumento da primeira via podemos concluir que Deus é o motor imóvel, o qual move todas as coisas, mas não é movido. Questões Enem: QUESTÃO 01 “Tampouco é inevitável que, se afirmarmos que Deus é exclusivamente ser ou existência, caiamos no erro daqueles que disseram que Deus é aquele ser universal, em virtude do qual todas as coisas existem formalmente. Com efeito, este ser que é Deus é de tal condição, que nada se lhe pode adicionar. (...) Por este motivo afirma-se no comentário à nona proposição do livro Sobre as Causas, que a individuação da causa primeira, a qual é puro ser, ocorre por causa da sua bondade. Assim como o ser comum em seu intelecto não inclui nenhuma adição, da mesma forma não inclui no seu intelecto qualquer precisão de adição, pois, se isto acontecesse, nada poderia ser compreendido como ser, se nele algo pudesse ser acrescentado.” AQUINO, Tomás. O ente e a essência. Trad. de Luiz João Baraúna. São Paulo: Nova Cultural, 1988, p. 15. Coleção “Os Pensadores”. Em O ente e a essência, Tomás de Aquino argumenta sobre a existência de Deus, refutando teses de outras doutrinas da filosofia escolástica. O autor está seguro de que nada se pode acrescentar a Deus, porque A) sua essência composta de essência e existência é autossuficiente para gerar indefinidamente matéria e forma, criando todas as coisas. B) sua essência simples é gerada incessantemente, embora não seja composta de matéria e forma, multiplica-se em si mesmo na pluralidade dos seres. C) é essência divina, absolutamente simples e idêntica a si mesma, constituindo-se, necessariamente, uma essência única. D) é ser contingente, no qual essência e existência não dependem do tempo, por isso, gera a si mesmo eternamente, dando existência às criaturas. E) é ser necessário, que depende de outros seres para existir mas que, a partir do momento em que existe, alcança a plenitude. QUESTÃO 02 “Em sua teoria do conhecimento, Tomás de Aquino substitui a doutrina da iluminação divina pela da abstração, de raízes aristotélicas: a única fonte de conhecimento humano seria a realidade sensível, pois os objetos naturais encerrariam uma forma inteligível em potência, que se revela, porém, não aos sentidos que só podem captá-la individualmente - mas ao intelecto.” INÁCIO, Inês C. e LUCA, Tânia Regina de. O pensamento medieval. São Paulo: Ática, 1988, p. 74. Considerando a citação acima, pode-se entender que A) o texto faz referência à influência de Aristóteles no pensamento de Tomás de Aquino, que se opõe, em muitos pontos, à tradição agostiniana, que tinha influência de Platão. B) o texto expõe a doutrina da iluminação, formulada por Tomás de Aquino para explicar a origem de nosso conhecimento. C) para Tomás de Aquino, a realidade sensível é apenas uma cópia enganosa da verdadeira realidade que se encontra na mente divina. D) Tomás de Aquino substitui a doutrina da iluminação pela teoria da abstração aristotélica, a fim de mostrar que a fé em Deus é incompatível com as verdades científicas. E) o texto mostra o desprezo pelo conhecimento da realidade material que marcou o período final da Idade Média. Exercícios de Fixação: QUESTÃO 01 (UFU) A teologia natural, segundo Tomás de Aquino (1225-1274), é uma parte da filosofia, é a parte que ele elaborou mais profundamente em sua obra e na qual ele se manifesta como um gênio verdadeiramente original. Se se trata de física, de fisiologia ou dos meteoros, Tomás é simplesmente aluno de Aristóteles, mas se se trata de Deus, da origem das coisas e de seu retorno ao Criador, Tomás é ele mesmo. Ele sabe, pela fé, para que limite se dirige, contudo, só progride graças aos recursos da razão. GILSON, Etienne. A Filosofia na Idade Média, São Paulo: Martins Fontes, 1995, p. 657. De acordo com o textoacima, é correto afirmar que A) a obra de Tomás de Aquino é uma mera repetição da obra de Aristóteles. B) Tomás parte da revelação divina (Bíblia) para entender a natureza das coisas. C) as verdades reveladas não podem de forma alguma ser compreendidas pela razão humana. D) é necessário procurar a concordância entre razão e fé, apesar da distinção entre ambas. QUESTÃO 02 (UEM) “Os artigos de fé não são princípios de demonstrações nem conclusões, não sendo nem mesmo prováveis, já que parecem falsos para todos, para a maioria ou para os sábios, entendendo por sábios aqueles que se entregam à razão natural, já que só de tal modo se entende o sábio na ciência e na filosofia.” (OCKHAM, G. [1280-1349]. In: COTRIM, G. Fundamentos de Filosofia, São Paulo: Saraiva, 2006, p. 120). A partir do trecho citado, é correto afirmar que 01) os argumentos calcados na fé não podem ser submetidos a demonstrações lógicas. 02) o filósofo apresenta a típica separação entre aquilo que é do domínio da fé e do domínio da razão para o pensamento medieval. 04) os artigos de fé são falsos por natureza, visto que não estão submetidos nem à ciência nem à filosofia. 08) as demonstrações e as conclusões, para os filósofos, não podem ser deduzidas a partir de princípios falsos. 16) a distinção entre a teologia e a ciência ou a filosofia está, entre outras coisas, nos diferentes procedimentos ou nos métodos de comprovação utilizados por elas. QUESTÃO 03 (UFU) Para responder a questão, leia o seguinte texto. O universal é o conceito, a ideia, a essência comum a todas as coisas (por exemplo, o conceito de ser humano). Em outras palavras, pergunta- se se os gêneros e as espécies têm existência separada dos objetos sensíveis: as espécies (por exemplo, o cão) ou os gêneros (por exemplo, o animal) teriam existência real? Ou seriam apenas ideias na mente ou apenas palavras? (ARANHA, M. L. A. & MARTINS, M. H. Filosofando. 3ª edição. São Paulo: Moderna, 2003, p. 126.) A resposta correta à pergunta formulada no texto acima, sobre os universais, é: A) Segundo os nominalistas, as espécies e gêneros universais são meras palavras vazias, flactus vocis, sem existência real. B) Segundo os nominalistas, os universais são conceitos, mas têm fundamento na realidade das coisas. C) Segundo os nominalistas, os universais (gêneros e espécies) são entidades realmente existentes no mundo das Ideias, sendo as coisas deste mundo meras cópias destas Ideias. D) Segundo os nominalistas, os gêneros e as espécies universais existem realmente, mas apenas na mente de Deus. QUESTÃO 04 (UFU) A respeito da questão dos universais na Idade Média, leia o texto abaixo. “ A tendência no século XI era dizer que os universais têm algum tipo de existência na realidade, fora do pensamento humano. Roscelino foi um dos primeiros pensadores medievais a sustentar que os universais são meras palavras. Pedro Abelardo, utilizando-se de novas teorias lógicas e novos instrumentos dialéticos, procurou expor uma solução intermediária, dizendo que os universais não podem ser coisas que existem realmente nem são apenas nomes, mas nomes com um significado, isto é, os universais são conceitos”. Texto adaptado de: NASCIMENTO, Carlos Arthur Ribeiro. O que é filosofia medieval. São Paulo: Brasiliense, 1992. p. 40-42. Marque, para as afirmativas abaixo, (V) Verdadeira, ou (F) Falsa. 1 ( ) A posição de Roscelino ficou conhecida como nominalismo. 2 ( ) A posição mais representativa no século XI ficou conhecida como nominalismo. 3 ( ) Segundo o realismo, os universais têm algum tipo de existência na realidade. 4 ( ) A posição de Pedro Abelardo pode ser considerada rigorosamente como realista. QUESTÃO 05 (UFU) O texto que segue refere-se às vias da prova da existência de Deus. As cinco vias consistem em cinco grandes linhas de argumentação por meio das quais se pode provar a existência de Deus. Sua importância reside sobretudo em que supõe a possibilidade de se chegar no entendimento de Deus, ainda que de forma parcial e indireta, a partir da consideração do mundo natural, do cosmo, entendido como criação divina. MARCONDES, D. Textos básicos de filosofia: dos pré-socráticos a Wittgenstein. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999. p. 67. A partir do texto, marque a alternativa correta. A) As cinco vias são argumentos diretos e evidentes da existência de Deus. B) Tomás de Aquino formula as cinco vias da prova da existência de Deus, utilizando, sistematicamente, as passagens bíblicas para fundamentar seus argumentos. C) As cinco vias partem de afirmações gerais e racionais sobre a existência de Deus, para chegar a conclusões sobre as coisas sensíveis, particulares e verificáveis sobre o mundo natural. D) Tomás de Aquino formula as argumentações que provam a existência de Deus sob a influência do pensamento de Aristóteles, recorrendo não à Bíblia, mas, sobretudo, à Metafísica do filósofo grego. QUESTÃO 06 (UFU) Leia com atenção o texto abaixo: “Nos três primeiros artigos da 2ª questão da Suma de Teologia, Tomás de Aquino discute sobre a existência de Deus. Suas conclusões são: 1) a existência de Deus não é auto evidente, sendo preciso demonstrá-la; 2) a existência de Deus não pode ser demonstrada a partir de sua essência (pois isso ultrapassa a nossa capacidade de conhecimento); 3) a existência de Deus pode ser demonstrada, contudo, a partir de seus efeitos (demonstração quia), isto é, a partir da natureza criada podemos conhecer algo a respeito do seu Criador. A partir disso, ele desenvolve cinco argumentos ou vias segundo as quais se pode mostrar, a partir dos efeitos, que Deus existe.” Adaptado de: MARCONDES, Danilo. Iniciação à história da filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000. p. 126-130. Sobre as cinco vias da prova da existência de Deus, elaboradas por Tomás de Aquino, assinale a alternativa INCORRETA. A) Nos argumentos de Tomás de Aquino sobre a existência de Deus, pode-se perceber a influência dos escritos de Aristóteles em seu pensamento. B) Segundo a prova teleológica, tudo que obedece a uma finalidade pressupõe uma inteligência que o criou com tal finalidade, como o carpinteiro em relação a uma mesa; ora, percebemos a finalidade no Universo (todas as criaturas têm uma finalidade); logo, Deus é o princípio que dá essa finalidade ao Universo. C) Segundo a prova que se baseia no movimento, Deus é considerado o motor imóvel, isto é, como a causa primeira do movimento que percebemos no mundo, e deve ser imóvel para evitar o regresso ao infinito. D) Qualquer pessoa que consiga compreender os argumentos das cinco vias conhecerá, com certeza evidente, a essência de Deus. QUESTÃO 07 “O sistema tomista baseia-se na determinação rigorosa das relações entre a razão e a revelação. Ao homem, cujo fim último é Deus, o qual excede toda a compreensão da razão, não basta a investigação filosófica baseada na razão. Mesmo aquelas verdades que a razão pode alcançar sozinha, não é dado a todos alcançá-las, e não está livre de erros o caminho que a elas conduz. Foi, portanto, necessário que o homem fosse instruído convenientemente e com mais certeza pela revelação divina. Mas a revelação não anula nem torna inútil a razão: ‘a graça não elimina a natureza, antes a aperfeiçoa’. A razão natural subordina-se à fé tal como no campo prático as inclinações naturais se subordinam à caridade.” ABBAGNANO, Nicola. História da Filosofia. Lisboa: Presença, 1978, p. 19-30, Vol. IV. Com base no texto, infere-se que Tomás de Aquino A) rejeitava as verdades da fé cristã que não pudessem ser explicadas plenamente pela razão humana. B) desprezava, por serem inúteis, as tentativas racionais em compreender as verdades da fé cristã. C) buscava conciliar as verdades da fé cristã com as exigências da razão humana ou da filosofia. D) subordinava a fé à razão natural, só sendo digno de crença o que pudesse ser cientificamentecomprovado. E) combatia veementemente a busca, comum no seu tempo, de inserir Aristóteles na teologia cristã. QUESTÃO 08 (UFU) Leia o texto a seguir e responda às questões propostas. Para os filósofos, durante a Idade Média, que faziam da ideia geral uma realidade, a própria espécie constituía necessariamente uma realidade, ao passo que se a ideia geral for apenas um nome, a verdadeira realidade se encontra nos indivíduos que constituem a espécie. Em outras palavras, para um realista, a humanidade é uma realidade, existe realmente como algo separado dos homens singulares; para um nominalista a única coisa real são os indivíduos humanos, “humanidade” não passa de um conceito, ou nome. Roscelino adota abertamente a segunda solução do problema. Para ele, o termo “homem” ou “humanidade” não designa nenhuma realidade que seja, em qualquer grau, a da espécie humana. GILSON, ETIENNE.A filosofia na Idade Média. São Paulo: Martins fontes, 1998, p. 189 A) Segundo o texto acima, nominalistas e realistas interpretam de modo diferente a relação entre as palavras ou ideias e a realidade existente fora de nossa mente. Explique essas duas posições filosóficas (nominalismo e realismo). B) Segundo o texto, Roscelino é nominalista ou realista? Por quê? QUESTÃO 09 (UFU) "A criação das coisas por parte de Deus é a melhor, pois é próprio de quem é o melhor fazer tudo da melhor maneira. Ora, é melhor fazer uma coisa em vista de um fim do que fazê-la sem visar a uma finalidade. Por conseguinte, Deus fez as coisas com vistas a uma meta". Tomás de Aquino - Compêndio de Teologia - Col. Os Pensadores Esse argumento da finalidade das coisas é frequente no pensamento de Tomás de Aquino. Explique como Tomás de Aquino utiliza-o para provar a existência divina. QUESTÃO 10 (UFU) "Para que, pois, a salvação dos homens seja alcançada de maneira mais conveniente e segura foi necessário que fossem instruídos a respeito das coisas divinas, pela divina revelação. Donde a necessidade de uma ciência sagrada, obtida pela revelação, além das disciplinas filosóficas que são investigadas pela razão. Por isso, nada impede que as mesmas coisas de que tratam as disciplinas filosóficas, na medida em que são cognoscíveis pela luz da razão natural, sejam tratadas por outra ciência, na medida em que são conhecidas pela luz da revelação divina". Tomás de Aquino - Suma Teológica, I Q.I, art.1., Porto Alegre, Ed. Sulina O texto acima de Tomás de Aquino refere-se ao problema da relação entre revelação (fé) e Filosofia (razão). Explicite, a partir do texto, qual é a posição de Tomás de Aquino sobre o referido problema. Módulo 09: René Descartes e David Hume: RENÉ DESCARTES (1596-1650) René Descartes nasceu em La Haye, na França, filho de burgueses. Estudou no colégio jesuíta de La Flèche, instituição de bastante renome, o que lhe deu respaldo para sua crítica ao método escolástico. Vejamos de que pressupostos parte o autor para a construção do seu pensamento: Inexiste no mundo coisa mais bem distribuída que o bom senso, visto que cada indivíduo acredita ser tão bem provido dele que mesmo os mais difíceis de satisfazer em qualquer outro aspecto não costumam desejar possuí-lo mais do que já possuem. E é improvável que todos se enganem a esse respeito; mas isso é antes uma prova de que o poder de julgar de forma correta e discernir entre o verdadeiro e o falso, que é justamente o que é denominado bom senso ou razão, é igual em todos os homens; e, assim sendo, de que a diversidade de nossas opiniões não se origina do fato de serem alguns mais racionais que outros, mas apenas de dirigirmos nossos pensamentos por caminhos diferentes e não considerarmos as mesmas coisas. Pois é insuficiente ter o espírito bom, o mais importante é aplica-lo bem. As maiores almas são capazes dos maiores vícios, como também das maiores virtudes, e os que só andam muito devagar podem avançar bem mais, se continuarem sempre pelo caminho reto, do que aqueles que correm e dele se afastam. (DESCARTES, René. Discurso do método. São Paulo: Editora Nova Cultural, 2004, p. 35). Da passagem acima, tiramos algumas ideias importantes: - Razão: sinônimo de bom senso, é o poder de julgar de forma correta e discernir entre o verdadeiro e o falso. - Diversidade de opiniões: deve-se ao fato de tomarmos caminhos (métodos) diferentes, e de não considerarmos as mesmas coisas. - A razão humana é universal. É por causa do pressuposto de que a razão humana é universal que Descartes busca conceber um método (caminho) que permita bem conduzir a mesma, para se chegar a conhecimentos seguros. Seu método é composto de quatro regras somente, as quais ele julga suficientes. O primeiro preceito do seu método “era o de nunca aceitar algo como verdadeiro que não conhecesse claramente como tal”, ou seja, consiste em duvidar de tudo até que algo se mostre claro e evidente à razão, e aqui nota-se os critérios de verdade para Descartes: clareza e evidência. O segundo consistia em “repartir cada uma das dificuldades que [...] analisasse em tantas parcelas quantas fossem possíveis e necessárias a fim de melhor solucioná-las”. A essa segunda etapa se denomina análise, nome que é utilizado na química. O terceiro o “de conduzir por ordem meus pensamentos, iniciando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para elevar-me, pouco a pouco, como galgando degraus, até o conhecimento dos mais compostos [...]”. A esta etapa denomina-se síntese. Por fim, o quarto e último preceito consistia em “efetuar em toda parte relações metódicas e revisões tão gerais nas quais eu tivesse a certeza de nada omitir”. Para o autor, o conhecimento a que se chegasse após seguir devidamente as quatro etapas seria totalmente seguro. Seguindo os preceitos acima o indivíduo conseguiria evitar dois vícios da alma apontados por Descartes como inimigos do conhecimento: a precipitação e a prevenção. Por precipitação compreendemos aqui a postura daquele que salta etapas que podem ser importantes em busca de atingir o conhecimento mais rapidamente, e podemos afirmar que isso é fruto do excesso de confiança. Ao contrário, a prevenção é o vício que conduz aquele que se dedica ao conhecimento a duvidar de sua capacidade de atingi-lo. Todos nós já dissemos ou ouvimos alguém dizer sobre um determinado assunto: “isso não entra na minha cabeça!” Essa é a típica atitude preventiva com relação ao conhecimento. A utilização do método conduz o ser humano a um conhecimento seguro, o que dissipa as possibilidades de prevenção. Ao buscar utilizar seu método, o autor deve necessariamente cumprir a primeira regra. E é assim, colocando em suspenso tudo em que até então acreditava, que Descartes chega à primeira verdade indubitável de sua filosofia, a saber, o cogito ergo sum, que significa penso, logo existo. Isso ele faz em suas Meditações sobre Filosofia Primeira, e podemos acompanhar razoavelmente seu raciocínio. A primeira coisa que é pelo autor colocada em dúvida são os sentidos. “Ora, notei que os sentidos às vezes enganam e é prudente nunca confiar completamente nos que, seja uma vez, nos enganaram”. A essa dúvida, porém, Descartes coloca um limite, afirmando que de algumas coisas que os sentidos nos mostram torna-se difícil duvidar, como, por exemplo, “que agora estou aqui, sentado junto ao fogo, vestindo esta roupa de inverno, tendo este papel às mãos e coisas semelhantes”. Nota-se que se torna difícil duvidar da existência do próprio corpo. Descartes ultrapassa esse limite ao afirmar: “com frequência o sono noturno não me persuadiu dessas coisas usuais, isto é, que estava aqui, vestindo esta roupa, sentado junto ao fogo, quando estava, porém, nu, deitado entre as cobertas”. Assim, colocando o argumento da dificuldade que existe em separar vigília de sonho, ele mostra a possibilidade de duvidar da própria existência corpórea. Porém, novamente o autor impõe um limitepara sua dúvida, quando escreve que “esteja eu acordado ou dormindo, dois e três juntos são cinco e o quadrado não tem mais que quatro lados”. Com isso ele quer dizer que existem certas relações no mundo, que estejamos vigiando ou dormindo, são sempre as mesmas, o que torna difícil delas se poder duvidar. Ele porém ultrapassa esse limite com o seguinte argumento: Suporei, portanto, que não há um Deus ótimo, fonte soberana da verdade, mas algum gênio maligno, e ao mesmo tempo, sumamente poderoso e manhoso, que põe toda a sua indústria em que me engane: pensarei que o céu, o ar, a terra, as cores, as figuras, os sons e todas as coisas externas nada mais são do que ludíbrios dos sonhos, ciladas que ele estende à minha credulidade. (DESCARTES, René. Meditações. São Paulo: Editora Nova Cultural, 1999, p. 255) Ao supor a existência de um tal ente, que podemos comparar à “Matrix” contemporânea, Descartes escapa de qualquer limite para sua dúvida, e é por isso que a mesma é chamada hiperbólica, exagerada. Para garantir a possibilidade de conhecimento verdadeiro, o autor deverá refutar seu argumento mais forte para a dúvida, que é o do gênio maligno, e é isso que ele fará nas demais meditações, provando a existência de um Deus perfeito, que por assim ser, jamais poderia ser enganador. É porém, duvidando radicalmente de tudo que Descartes chega ao cogito, e a afirmação que enuncia essa verdade indubitável é a seguinte: “Não há dúvida, portanto, de que eu, eu sou, também, se me engana: que me engane o quanto possa, nunca poderá fazer, porém, que eu nada seja, enquanto eu pensar que sou algo”. Essa é, então, a primeira verdade a que chega o autor. Por sua descrença nos sentidos, Descartes recebe grosseiramente o rótulo de racionalista, ou seja, daquele que acredita que se conheça verdadeiramente tão somente por meio da razão. Porém ele admite a existência de ideias que nos vêm dos sentidos, às quais denomina adventícias, porém, por nos enganarem algumas vezes, não são dignas de confiança. Existem também as ideias que ele chama de fictícias, que são aquelas formadas por nossa imaginação, utilizando as anteriores. Conhecimento verdadeiro, livre de engano, entretanto, só se tem através das ideias inatas, que ele denomina a marca do Criador na criatura. As ideias de Deus e dos entes matemáticos são desse tipo, e é nas ideias com as quais nascemos que devemos confiar plenamente. Podemos, evidentemente, notar extrema semelhança entre as ideias inatas de Descartes e as ideias imutáveis de Platão, podendo ser colocados ambos grosseiramente sob o rótulo que utilizamos de idealistas, ou seja, daqueles que acreditam no conhecimento através das ideias. Resumindo: aplicação o método Todos os homens são dotados de razão, porém chegam a resultados diferentes, por isso há necessidade de estabelecer um método. Descartes estabelece, então, as 4 regras do método que são: Evidência: algo só deve ser aceito como verdadeiro se se mostrar claro e evidente (indubitável) Análise: dividir as dificuldades em tantas partes quantas forem necessárias para melhor resolvê-las. Síntese: ordenar os pensamentos partindo dos objetos mais simples para os mais complexos. Revisão/ Enumeração: realizar relações tão completas e revisões tão gerais que se tivesse certeza de nada omitir Aplicação do método: 1º Passo: Dúvida metódica para chegar à evidência (1ª regra do método). Para chegar a um princípio indubitável Descartes utiliza a dúvida metódica, sendo que duvida primeiramente dos sentidos (pois eles nos enganam); depois se questiona sobre a vigília (como sei que estou acordado e não dormindo); em seguida duvida da própria natureza corpórea. O filósofo francês começa a duvidar de tudo o que possa gerar o mínimo de questionamento (dúvida hiperbólica – exagerada). Contudo chega um ponto em que não pode duvidar de uma coisa: de que duvida, sendo que esta é um pensamento. Desse modo, formulou-se o primeiro princípio indubitável: Penso, logo existo. Que é a EVIDÊNCIA. 2º Passo: Agora que encontrou um princípio indubitável (Penso, logo existo), deve buscar o conhecimento verdadeiro a partir dele. Dessa forma, Descartes passa a analisar o próprio pensamento (o qual se torna o objeto a ser conhecido). Aplica então a ANÁLISE, dividindo o pensamento em tantas partes quantas forem possíveis, as quais chamou ideias. Observe a seguir as ideias que constituem as partes do pensamento para Descartes: AS IDÉIAS Ideias adventícias: oriundas das percepções sensíveis, por isso são passíveis de dúvida. Ideias fictícias: formadas por nossa imaginação a partir das ideias adventícias. Podemos compará-las a montagens feitas pela imaginação. Ideias inatas: marcas de Deus no homem. Nascemos com elas, por isso são verdadeiras e correspondem ao real. Ex. ideias de Deus, matemáticas. 3º Passo: Agora que dividiu o objeto (pensamento), deve partir do mais simples para o mais complexo (SÍNTESE), isto é, das ideias inatas (puro pensamento, então mais simples), depois as adventícias (são mediatas, pois entre a razão e o objeto da experiência sensível temos os sentidos como mediadores) e, por fim, as fictícias (as quais são mais complexas por serem “montagens feitas a partir das ideias adventícias). 4º Passo: Aplica então a REVISÃO ou ENUMERAÇÃO, na qual vai tomar as ideias inatas (que são verdadeiras e indubitáveis por serem puro pensamento) para avaliar as outras. Percebendo, então, que as adventícias podem ser verdadeiras ou falsas (pois os sentidos podem me enganar) e as fictícias são falsas (são “montagens” feitas a partir das adventícias, e não das inatas) DAVID HUME (1711-1776) Nasceu em Edimburgo, na Escócia, e estudou Filosofia, Direito e Comércio. Realizou várias viagens, nas quais conheceu pensadores como Adam Smith e Jean-Jacques Rousseau. Foi, dentro da história da Filosofia, um dos maiores representantes da corrente chamada empirismo, que vem do termo grego empeiria, que quer dizer experiência. Fez talvez a mais radical crítica à Metafísica Clássica (Parte da Filosofia que estuda o Ser e suas causas, segundo Aristóteles), questionando noções como a de causalidade e substância. Vejamos, através de um trecho do próprio autor, quais são os pressupostos de seu pensamento. “Cada um admitirá prontamente que há uma diferença considerável entre as percepções do espírito, quando uma pessoa sente a dor do calor excessivo ou o prazer do calor moderado, e quando depois recorda em sua memória esta sensação ou a antecipa por meio de sua imaginação.[...] Podemos, por conseguinte, dividir todas as percepções do espírito em duas classes ou espécies, que se distinguem por seus diferentes graus de força e de vivacidade. As menos fortes ou menos vivas são geralmente denominadas pensamentos ou ideias.[...] Pelo termo impressão, entendo, pois, todas as nossas percepções mais vivas, quando ouvimos, vemos, sentimos, amamos, odiamos, desejamos ou queremos.[...] Parece que esta proposição não admitirá muita controvérsia: todas as nossas ideias são cópias das impressões[...]”. (HUME. D. Investigação acerca do entendimento humano. In. HUME. Tradução de Anoar Aiex. São Paulo: Nova Cultural, 2004, p. 35-36) Os trechos acima podem enganar-nos, demonstrando falsa simplicidade. Entretanto, o que é importante que fique bem entendido no raciocínio do autor é o limite que este impõe à nossa possibilidade de conhecer, quando coloca como única porta de entrada para a nossa mente o acesso a ela dado pelos sentidos. Explorando o texto conclui-se que, para Hume, não exista ideia em nossa mente que não tenha entrado pelos sentidos, teoria essa já defendida anteriormente por filósofos como Aristóteles. Nascemos, então, para o autor, como folhas em branco, nas quais, através dos dados sensoriais, vão sendo impressas informações sobre o mundo. Nesse sentido, nota-se enorme diferença entre as teorias de Hume e Descartes, sendo quepara o segundo existem ideias que existem em nossa mente que não adentraram pelos sentidos, que são denominadas inatas, e inclusive só elas são verdadeiramente confiáveis. Para Hume, confiáveis ou não, as ideias fornecidas pelos sentidos são nosso único acesso à realidade e ao conhecimento, que, assim sendo, será bem mais limitado que para Descartes. O gráfico de Hume é simples: dois tipos de percepções, ou seja, de formas de perceber o mundo, diferenciadas simplesmente pelo grau de força e vivacidade com que nos afetam. Às mais fortes, que são provenientes dos sentidos ou dos sentimentos que possuímos, dá-se o nome de impressões. Às mais fracas, cópias das primeiras, chama-se ideias. As segundas agrupam-se em nossa mente em duas faculdades, como também foi afirmado no texto, uma de recordação, denominada memória, outra de antecipação, que recebe o nome de imaginação. O interessante é que o fato de uma ideia estar em uma ou em outra faculdade não é responsabilidade da própria faculdade, mas da forma mesmo de se relacionar das ideias. Assim, se uma ideia ainda está muito forte em minha mente, a ponto de ao buscá-la, outras que se encontram ligadas a ela lhe venham junto, esta encontra-se no campo da memória. Porém, se existe uma ideia em minha mente que já se encontra, de tão fraca, completamente solta que não a ligo mais à impressão que a originou, esta encontra-se no campo da imaginação. É por isso que o autor afirma que: “[...] embora o nosso pensamento pareça possuir esta liberdade ilimitada, verificaremos, através de um exame mais minucioso, que ele está realmente confinado dentro de limites muito reduzidos e que todo poder criador do espírito não ultrapassa a faculdade de combinar, de transpor, aumentar ou de diminuir os materiais que nos foram fornecidos pelos sentidos e pela experiência. Quando pensamos numa montanha de ouro, apenas unimos duas ideias compatíveis, ouro e montanha, que outrora conhecêramos”. (HUME. D. Investigação acerca do entendimento humano. In. HUME. Tradução de Anoar Aiex. São Paulo: Nova Cultural, 2004, p. 36) É pela radicalidade com que Hume defende sua teoria do conhecimento que ele será, naturalmente, levado a criticar algumas noções correntes da Metafísica de sua época. O tipo de conhecimento que é possível segundo os pressupostos do autor é o chamado indutivo, grosso modo, o que parte das experiências particulares para leis gerais. Tal tipo de conhecimento jamais pode levar a conhecimento verdadeiro, mas somente provável. Sendo imposto pelo autor um limite tão grande à nossa capacidade de conhecer, ele é levado, por exemplo, a questionar a noção de causalidade (causa e efeito). Se o que possuímos são experiências particulares e subjetivas (relativas ao sujeito), pode-se e deve-se questionar como se chega à afirmação de que sempre determinada causa leva a determinado efeito. Que o sol tenha nascido até hoje, enquanto vivi, é fato verdadeiro, que nascerá amanhã, porém, é apenas bastante provável, pois bem pode ocorrer, e sabemos disso, que não nasça. Ao se comprar na verduraria uma banana madura, se ela vem a ficar podre, dizemos que “aquela banana apodreceu”. Nada há, aparentemente, que nos permita dizer que uma banana madura é a mesma coisa que uma banana podre, a não ser que recorramos à noção da metafísica aristotélica que chamamos substância, ou seja, que afirmemos que a tal fruta possui uma banalidade que não se modifica. Pelo método de conhecimento proposto por Hume, porém, se as ideias de causalidade e substância, assim como outras da Metafísica, correspondessem a algo existente, deveríamos evidentemente encontrar as impressões que lhes deram origem. Isso porém não ocorre. Refuta-se o autor, como ele mesmo afirma, de maneira muito fácil: basta mostrar uma só ideia que esteja em nossa mente e que não possua sua fonte nos sentidos. Ele próprio analisa a ideia de Deus, e conclui que a mesma é uma ideia complexa, formada por um conjunto de ideias simples, como bondade e sabedoria, cada uma advindo de uma impressão. Assim, as ideias acima citadas, de substância e causalidade também, se não correspondem a impressões reais que lhes deram origem, só podem ser fruto de nossa imaginação. Analisando um trecho em que trata da causalidade, podemos ver como tais noções metafísicas se formam em nossa mente. “[...] como o espírito tem encontrado em numerosos casos que dois gêneros quaisquer de objetos – a chama e o calor, a neve e o frio – sempre têm estado em conjunção, se, de novo, a chama ou a neve se apresentassem aos sentidos, o espírito é levado pelo costume a esperar calor ou frio, e a acreditar que esta qualidade existe realmente e que se manifestaria se estivesse mais próxima de nós”. (HUME. D. Investigação acerca do entendimento humano. In. HUME. Tradução de Anoar Aiex. São Paulo: Nova Cultural, 2004, p. 64) Pela citação podemos entender como, para David Hume, é possível o aparecimento de certas noções metafísicas em nossa mente: estas são geradas pelo costume, que chamamos também de hábito, que criamos ao ver que a certos eventos seguem-se outros, uma espécie de ilusão ou crença, que faz com que acreditemos, por exemplo, que o sol nascerá sempre, pelo simples fato de ter nascido até hoje. Os limites que o autor impõe ao conhecimento retiram qualquer possibilidade de universalidade e de necessidade nas ciências, e vieram a causar o que se chama de A Grande Crise da Metafísica. O mérito de Hume é, porém, o de ter abalado as bases do dogmatismo que imperava até então na filosofia. EXERCÍCIOS PROPOSTOS: QUESTÃO 01: (UFU) Cartesius era o nome latino de Descartes. Daí, denominarem de cartesiano o pensamento do filósofo francês, Descartes. Assinale a alternativa que caracteriza, corretamente, o pensamento cartesiano. A) As ideias inatas são obscuras e falsas, já que o verdadeiro conhecimento "vem de fora". B) As ideias inatas resultam, exclusivamente, da capacidade de pensar do homem, por isso, são verdadeiras, já que não nascem com eles. C) O fundamento do pensamento é a dúvida, já que é puro pensamento. D) Para Descartes, Deus, era um ser perfeito e, nesse sentido, não se pode provar sua existência. QUESTÃO 02 (UFU) Leia o texto e as assertivas abaixo. René Descartes (1596 – 1650) é considerado por muitos “o pai da filosofia moderna”, pois em obras como O discurso sobre o método e Meditações metafísicas colocou em xeque conhecimentos considerados indubitáveis. Em especial, suas reflexões o levam a questionar o valor epistemológico dos conhecimentos do senso comum, dos argumentos de autoridade e do testemunho dos sentidos. I - Descartes foi um dos filósofos da Era Moderna que valorizou o papel do método no avanço do conhecimento. II - Descartes colocou em dúvida o valor das informações que se obtêm por meio da experiência sensível. III - As teorias de Descartes seguiram o modelo aristotélico de investigação dos fenômenos naturais. Assinale a alternativa correta. A) I e III são verdadeiras. B) II e III são verdadeiras. C) I e II são verdadeiras. D) I e III são falsas. QUESTÃO 03 (UFU) David Hume (1711-1776) é um dos representantes do empirismo. Sua teoria sobre as ideias parte do princípio de que não há nada em nossa mente que não tenha passado antes pelos sentidos, portanto, as ideias vão se formando ao longo da vida. Dessa forma, Hume afasta-se do princípio da corrente racionalista ou inatista segundo a qual afirma que há ideias inatas em nossa mente. De acordo com o pensamento de Hume, é correto afirmar que A) as percepções dos sentidos geram impressões e ideias. B) as ideias que podem ser consideradas verdadeiras são as inatas. C) as ideias fictícias são as que têm mais alto grau de ser. D) as percepções dos sentidos nos enganam, por isso as ideias daí decorrentes são falsas. QUESTÕES ENEM QUESTÃO 01 “Mas logo em seguida, adverti que, enquanto eu queria assim pensar que tudo era falso,cumpria necessariamente que eu, que pensava, fosse alguma coisa. E, notando que esta verdade eu penso, logo existo era tão firme e tão certa que todas as mais extravagantes suposições dos céticos não seriam capazes de a abalar, julguei que poderia aceitá-la, sem escrúpulo, como o primeiro princípio da Filosofia que procurava.” DESCARTES, René. Discurso do método. Trad. de J. Guinsburg e Bento Prado Júnior. São Paulo: Nova Cultural, 1996. p. 92. Coleção Os Pensadores. René Descartes é um dos principais filósofos da modernidade. Para este autor, A) não podemos conhecer nada com certeza, pois tudo quanto pensamos está sujeito à falsidade. B) o “eu penso, logo existo” expressa uma verdade instável e incerta, o que fez Descartes ser vencido pelos céticos. C) a expressão “eu penso, logo existo” representa a verdade firme e certa com a qual Descartes fundamenta o conhecimento e a ciência. D) as “extravagantes suposições dos céticos” foram impedimento para encontrar uma verdade que servisse como princípio para a filosofia. E) ao acreditar que tudo era falso, era possível colocar em dúvida sua própria existência. QUESTÃO 02 “Embora nosso pensamento pareça possuir esta liberdade ilimitada, verificaremos, através de um exame mais minucioso, que ele está realmente confinado dentro de limites muito reduzidos e que todo poder criador do espírito não ultrapassa a faculdade de combinar, de transpor, aumentar ou de diminuir os materiais que nos foram fornecidos pelos sentidos e pela experiência.” HUME, David. Investigação acerca do entendimento humano. Trad. de Anoar Aiex. São Paulo: Nova Cultural, 1996. p. 36. Coleção Os Pensadores. O texto nos apresenta o pensamento de um dos mais importantes filósofos da corrente empirista: David Hume. Para este filósofo A) os sentidos e a experiência estão confinados dentro de limites muito reduzidos. B) todo conhecimento depende dos materiais fornecidos pelos sentidos e pela experiência. C) o espírito pode conhecer as coisas sem a colaboração dos sentidos e da experiência. D) a possibilidade de conhecimento é determinada pela liberdade ilimitada do pensamento. E) para formar as ideias, o pensamento descarta os materiais fornecidos pelos sentidos. EXERCÍCIOS DE FIXAÇÃO: QUESTÃO 01 (UFU) No escrito publicado postumamente, Regras para a orientação do espírito, Descartes fez o seguinte comentário: “Mas, toda vez que dois homens formulam sobre a mesma coisa juízos contrários, é certo que um ou outro, pelo menos, esteja enganado. Nenhum dos dois parece mesmo ter ciência, pois, se as razões de um homem fossem certas e evidentes, ele as poderia expor ao outro de maneira que acabasse por lhe convencer o entendimento.” DESCARTES, René. Regras para a orientação do espírito. Trad. de Maria Ermantina Galvão. São Paulo: Martins Fontes, 1999, p. 6-7. Para alcançar a verdade das coisas, isto é, o conhecimento certo e evidente, é necessário um método composto de regras muito simples que evitem os enganos e as opiniões prováveis. Segundo Descartes, somente duas ciências podem auxiliar na fundamentação do método para a investigação da verdade, são elas: A) teologia e filosofia. B) mecânica e física. C) fisiologia e filologia. D) aritmética e geometria. QUESTÃO 02 (UFU) Sobre a filosofia de Descartes, pode-se afirmar, com certeza, que as suas mais importantes consequências foram: I- a afirmação do caráter absoluto e universal da razão que, através de suas próprias forças, pode descobrir todas as verdades possíveis. II- a adoção do Método Matemático, que permite estabelecer cadeias de razões. III- a superação do dualismo psicofísico, isto é, a dicotomia entre corpo e consciência. Assinale a alternativa correta. A) II e III B) III C) I e III D) I e II QUESTÃO 03: (UFU) Descartes (1596-1650) é importante para a Filosofia Moderna porque foi quem superou o ceticismo da filosofia do século XVI. Embora tenha se servido do recurso dos céticos . a dúvida ., Descartes utilizou este recurso para atingir a ideia clara e distinta, algo evidente e, portanto, irrefutável. Com base neste argumento, I- a evidência não diz respeito à clareza e à distinção das coisas; II- a análise é o procedimento que deve ser realizado para dividir as dificuldades até a sua menor parte; III- a enumeração é a primeira regra do método para a investigação da verdade; IV- a síntese proporciona a ordem para os raciocínios, desde o mais simples até o mais complexo. Estão corretas as afirmações: A) I, II e III B) I, III e IV C) II e IV D) II e III QUESTÃO 04: (UFU) Leia com atenção a citação e, em seguida, analise as assertivas. "E, tendo notado que nada há no eu penso, logo existo, que me assegure de que digo a verdade, exceto que vejo muito claramente que, para pensar, é preciso existir, julguei poder tomar por regra geral que as coisas que concebemos mui clara e mui distintamente são todas verdadeiras, havendo apenas alguma dificuldade em notar bem quais são as que concebemos distintamente." DESCARTES, Discurso do Método. São Paulo: Abril Cultural, 1973. p. 55. Coleção "Os Pensadores" I- Este "eu" cartesiano é a alma e, portanto, algo mais difícil de ser conhecido do que o corpo. II- O "eu penso, logo existo" é a certeza que funda o primeiro princípio da Filosofia de Descartes. III- O "eu", tal como está no Discurso do Método, é inteiramente distinto da natureza corporal. IV- Ao concluir com o "logo existo", fica evidente que o "eu penso" depende das coisas materiais. Assinale a alternativa cujas assertivas estejam corretas. A) Apenas II e IV. B) I, II, IV. C) Apenas III e IV. D) Apenas II e III. QUESTÃO 05 (UFU) Segundo David Hume, é correto afirmar que o princípio de causalidade é A) o resultado da nossa forma habitual de perceber os fenômenos, uns em conjunção com os outros. B) o nexo, fixado por Deus na criação, entre os objetos da experiência. C) o conhecimento a priori da natureza e dos seus fenômenos. D) o ato de conectar os objetos da experiência a partir dos valores e interesses utilitários de uma classe social. QUESTÃO 06 (UFU) O texto abaixo comenta a correlação entre ideias e impressões em David Hume. Em contrapartida, vemos que qualquer impressão, da mente ou do corpo, é constantemente seguida por uma ideia que a ela se assemelha, e da qual difere apenas nos graus de força e vividez. A conjunção constante de nossas percepções semelhantes é uma prova convincente de que umas são as causas das outras; [...]. HUME, D. Tratado da natureza humana. São Paulo: Editora da Unesp/Imprensa Oficial do Estado, 2001. p. 29. Assinale a alternativa que, de acordo com Hume, indica corretamente o modo como a mente adquire as percepções denominadas ideias. A) Todas as nossas ideias são formas a priori da mente e, mediante essas ideias, organizamos as respectivas impressões na experiência. B) Todas as nossas ideias advêm das nossas experiências e são cópias das nossas impressões, as quais sempre antecedem nossas ideias. C) Todas as nossas ideias são cópias de percepções inteligíveis, que adquirimos através de uma experiência metafísica, que transcende toda a realidade empírica. D) Todas as nossas ideias já existem de forma inata, e são apenas preenchidas pelas impressões, no momento em que temos algum contato com a experiência. QUESTÃO 07: (UFU) David Hume, filósofo do século XVIII, partindo da teoria do conhecimento, sustentava que I- o sujeito do conhecimento opera associando sensações, percepções e impressões recebidas pelos órgãos dos sentidos e retidas na memória. II- as ideias de essência e de causalidade nada mais são do que o resultado de hábitos mentais de associações e impressões semelhantes ou de impressões sucessivas. III- as ideias de essência ou substância nada mais são que um nome geral dado para indicar um conjunto de imagens e de ideias que nossa consciência tem o hábito de associarpor causa das semelhanças entre elas. Assinale A) se I, II e III estiverem corretas. B) se apenas I e II estiverem corretas. C) se apenas II e III estiverem corretas. D) se apenas I e III estiverem corretas. E) se nenhuma estiver correta. QUESTÃO 08: (UFU) Descartes afirmou no Discurso do método que a boa condução da razão na pesquisa da verdade das coisas deve ser feita em poucas regras. Sendo assim, o primeiro dos quatro preceitos básicos do seu método diz o seguinte: jamais acolha alguma coisa como verdadeira que não conheça evidentemente como tal. A aplicação desta primeira regra evita dois graves defeitos. Responda: quais são e como se caracterizam os dois defeitos a que se refere Descartes? QUESTÃO 09: (UFU) “Na filosofia e no pensamento modernos, a dúvida ocupa a mesma posição central que, em todos os séculos anteriores, cabia ao thaumazein (admirar-se) dos gregos, o assombro diante de tudo o que é como é. Descartes foi o primeiro a conceituar esta forma moderna de duvidar, que depois dele passou a ser o motor evidente e inaudível que vem movendo todo pensamento, o eixo invisível em torno do qual o pensamento tem girado.” ARENDT, Hannah. A condição humana. Trad. de Roberto Raposo. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1999, p. 286. Considere o texto acima e A) aponte as características e os momentos da dúvida cartesiana; B) explique como Descartes obteve o primeiro conhecimento certo. QUESTÃO 10: (UFU) "Suponha-se, agora, que esse homem adquiriu mais experiência e viveu no mundo o tempo suficiente para ter observado uma conjunção constante entre objetos ou acontecimentos familiares: qual é o resultado desta experiência? Ele infere imediatamente a existência de um objeto do aparecimento do outro. E, sem embargo, nem toda a sua experiência lhe deu qualquer idéia ou conhecimento do poder secreto pelo qual um objeto produz outro; e tampouco é levado a fazer essa inferência por qualquer processo de raciocínio. No entanto, é levado a fazê-la. (...) Há algum outro princípio que o determina a tirar essa conclusão". HUME, David. Investigação sobre o entendimento humano. Col. Os Pensadores, Abril Cultural, 1978) Qual é o princípio a que Hume se refere acima? De acordo com o texto, aponte a sua relevância para a teoria do conhecimento. Módulo 10: Kant: Teoria do Conhecimento e Ética. Teoria do conhecimento ImmanueI Kant (1724-1804) Nasceu em Konigsberg, na Alemanha. Teve vida longa e tranqüila dedicada ao ensino e à investigação filosófica. Realiza uma brilhante síntese entre as filosofias racionalista e empirista, além de mudar completamente o foco da filosofia até então, a ponto de seu pensamento ser considerado como sendo uma “revolução copernicana na filosofia”. Rejeita tanto o racionalismo quanto o empirismo exagerados, negando tanto as altíssimas possibilidades do primeiro quanto as imensas limitações impostas pelo segundo. Kant, para tal, defende uma tese que podemos encontrar no trecho abaixo. “Que todo o nosso conhecimento começa com a experiência, não há dúvida alguma, pois, do contrário, por meio do que a faculdade de conhecimento deveria ser despertada para o exercício senão através de objetos que tocam nossos sentidos e em parte produzem por si próprios representações, em parte põe em movimento a atividade do nosso entendimento para compará-las, conectá-las ou separá-las e, desse modo, assimilar a matéria bruta das impressões sensíveis a um conhecimento dos objetos que se chama experiência? Segundo o tempo, portanto, nenhum conhecimento em nós precede a experiência, e todo ele começa com ela. [...] Mas embora todo o nosso conhecimento comece com a experiência, nem por isso todo ele se origina justamente da experiência. Pois poderia bem acontecer que mesmo o nosso conhecimento de experiência seja um composto daquilo que recebemos por impressões e daquilo que a nossa própria faculdade de conhecimento (apenas provocada por impressões sensíveis) fornece de si mesma, cujo aditamento não distinguimos daquela matéria-prima antes que um longo exercício nos tenha tornado atento a ele e nos tenha tornado aptos à sua abstração. [...] Portanto, é pelo menos uma questão que requer uma investigação mais pormenorizada e que não pode ser logo despachada devido aos ares que ostenta, a saber se há um tal conhecimento independente da experiência e mesmo de todas as impressões dos sentidos. Tais conhecimentos denominam-se a priori e distinguem-se dos empíricos, que possuem sua fonte a posteriori, ou seja, na experiência”. (KANT, I. Crítica da Razão Pura. In. Kant. Tradução de Valério Rohden e Udo Baldur Moosburger. São Paulo: Nova Cultural, 2005, p. 53) Do texto, algumas das principais ideias podem ser analisadas. I. Experiência: conhecimento dos objetos, que se dá quando nosso entendimento compara, conecta ou separa, e desse modo assimila a matéria bruta das impressões sensíveis. I. Função dos objetos: Produzir representações (e nesse caso, concorda com Hume) Colocar em movimento a atividade do nosso entendimento. III. Tese: O conhecimento de experiência é um composto do que recebemos por impressões (Hume) e daquilo que nossa própria faculdade de conhecimento fornece de si mesma (ultrapassagem da teoria de Hume). A priori: Conhecimento independente desta ou daquela experiência e mesmo de todas as impressões dos sentidos. A posteriori: Conhecimento que possui suas fontes tão somente na experiência. Analisando melhor o trecho e agora relacionando as ideias dele tiradas, vemos que para Kant a experiência sensível não é algo passivo como para Hume, ou seja, não somos simplesmente afetados. O conhecimento é, assim, algo ativo, no qual nossas faculdades de conhecimento, que serão elencadas abaixo, impõe sim algo de seu, e é nesse sentido que a experiência é um composto, e é com essa tese que Kant poderá ultrapassar os limites impostos por David Hume. Um tópico importante no pensamento kantiano é o que é denominado Revolução Copernicana na Filosofia. Nicolau Copérnico realizou, na física, uma mudança radical no foco de análise do universo. A teoria até então defendida era a do geocentrismo, ou seja, a Terra estava no centro e os demais astros giravam em torno da mesma. Este pensador afirma o heliocentrismo, isto é, o Sol está no centro e os demais planetas giram em torno dele. Para Kant, o foco central da filosofia sempre foi voltado para o objeto a ser conhecido. Partia-se então, dogmaticamente, da ideia de que a faculdade de conhecimento possuía a capacidade de produzir informações sobre o que era estudado. A proposta deste filósofo é inovadora porque ele propõe que, antes que partamos ao conhecimento dos objetos, façamos uma análise da própria faculdade de conhecimento e de seus limites e possibilidades. Tal análise foi feita na obra Crítica da Razão Pura, na qual delineia de maneira detalhada como se dá o conhecimento. Esse se dá para o autor da seguinte maneira: como vimos no texto acima o primeiro passo é a sensação. Porém, diferentemente de Hume, o que será lançado na mente não é uma representação de sensação, mas do que Kant chama de intuição, que podemos definir como sendo uma sensação que escolhemos em meio às várias que nos afetam ao mesmo tempo. A intuição é formada na faculdade chamada sensibilidade, que impõe à experiência sensível duas formas puras existentes nela mesma, que são espaço e tempo. A intuição, formada dessa maneira, é lançada no intelecto, que através das dez categorias de predicação, forma o conceito através de um juízo. As categorias citadas são: Substância, quantidade, qualidade, relação, lugar, tempo, posição, posse, ação, paixão. Sobre isso, vejamos uma passagem do próprio autor: “Deve-se distinguir em cada conhecimento matéria, isto é, o objeto, e forma, isto é, a maneira como conhecemos o objeto. Por exemplo: se um silvícola vê de longe uma casa, cujo uso não conhece,tem, no entanto, representado diante de si precisamente o mesmo objeto que o que sabe tratar-se de uma morada edificada para o homem. Mas esse conhecimento de um só e mesmo objeto é, em caso e no outro, diverso pela forma: mera intuição, em um caso, intuição e conceito ao mesmo tempo, no outro”. (KANT, I. Manual dos cursos de lógica geral. Tradução e notas de Fausto Castilho. Uberlândia: EDUFU; Campinas: IFCH-UNICAMP, 1998, p. 47) Todo conceito é emitido em forma de juízo, isto é, como dizia Aristóteles, de uma proposição do tipo S é P. Kant irá diferenciar os tipos de juízos assim como diferencia os tipos de conhecimento. A primeira divisão se dá entre juízos analíticos e juízos sintéticos. Segundo o autor “juízos analíticos (os afirmativos) são, portanto, aqueles em que a conexão do predicado com o sujeito for pensada por identidade; aqueles, porém, em que essa conexão for pensada sem identidade, devem denomina-se juízos sintéticos”. Falando de forma mais simples, um juízo é analítico se o predicado for uma qualidade implicitamente contida no sujeito, como, por exemplo, quando afirmamos que um triângulo é uma figura de três lados. Um juízo é sintético quando a qualidade contida no predicado não faz parte do sujeito, mas lhe é acrescentada, como, por exemplo, quando afirmamos que Sócrates é inteligente, pois poderia muito bem ocorrer que ele não fosse. Os juízos sintéticos são também divididos em dois tipos: a priori e a posteriori. Um juízo é sintético a priori quando seu predicado acrescenta alguma informação ao sujeito, e a afirmação feita pelo mesmo não depende desta ou daquela experiência. Um exemplo deste tipo de juízo é a afirmação de que duas retas paralelas jamais se cruzam no espaço. É sintético porque o conceito de espaço ou de cruzamento não está contido implicitamente no sujeito. É a priori porque a afirmação feita não é procedente para esta ou aquela dupla de retas, mas para qualquer dupla de retas pensada em qualquer tempo. Tal conhecimento, portanto é universal e necessário, diferentemente do que pensava David Hume, e isso porque todos nós possuímos uma sensibilidade dotada de espaço e tempo e um intelecto que contém as dez categorias. Ao conjunto destas faculdades de conhecimento Kant denomina sujeito transcendental, sendo que devemos entender transcendental no autor o que é anterior ou independente da experiência, diferentemente de transcendente, que é aquilo que está além da experiência sensível. Os juízos sintéticos a posteriori são aqueles nos quais o predicado acrescenta algo ao sujeito, porém a afirmação depende da experiência sensível. Apesar de ultrapassar consideravelmente os limites do conhecimento impostos por David Hume, mostrando a possibilidade do conhecimento universal e necessário, Kant mostra, entretanto que nossa experiência possui uma limitação muito grande, qual seja: não é possível, através das faculdades de conhecimento acima citadas, conhecer a coisa em si, ou seja, o objeto como ele é nele mesmo. Isso se dá por causa da principal tese kantiana, a saber, de que a experiência é um composto, e não nos é possível chegar ao conhecimento do objeto em si mesmo, mas só como o mesmo se apresenta para nossas faculdades de conhecimento, e a isso o autor chama fenômeno. ÉTICA Como foi visto acima, a filosofia de Immanuel Kant baseia-se na existência de uma capacidade de conhecimento, que podemos denominar, em seu conjunto, como razão. Sua teoria sobre a moralidade humana seguirá o mesmo princípio, negando os fundamentos e normas morais exteriores ao homem, e admitindo como único princípio regulador da ação humana a própria razão. È ela quem deve indicar os caminhos que devemos seguir para agir com verdadeira retidão. Com isso, Kant quer dizer que, ao agirmos, devemos pensar se aquilo que estamos fazendo poderia ser feito por todas as outras pessoas, sem prejuízo para a humanidade. Ao iniciar a sua Fundamentação à metafísica dos costumes nosso autor afirma que a única coisa que pode ser considerada boa em absoluto no universo é uma boa vontade. Ora, Aristóteles, estudado anteriormente, nos auxilia a compreender essa afirmação. A simples posse de uma qualidade moral não significa por si mesma uma virtude, pois pode-se incorrer, na sua utilização, em excessos. E quem controla o uso de uma qualidade que o indivíduo possui? Sua vontade. A próxima pergunta, dessa forma é muito simples: o que é uma boa vontade? E Kant nos responde: é a vontade de agir por dever. Desse modo é necessário diferenciar, na filosofia kantiana, três tipos de conduta: ação realizada por inclinação; ação realizada conforme o dever e ação realizada por dever. Dessas três somente a última é uma conduta realmente moral, pois a primeira ocorre em nome da satisfação de desejos, deliberadamente em nome de um proveito próprio, ao passo que a segunda, apesar de estar em consonância com o que se considera correto, não é realizada pelo ator por esse motivo. Assim sendo, o que diferencia uma ação por dever daquela conforme o dever é a intenção que o indivíduo possui ao agir, e aí nós nos deparamos com uma questão cabal na teoria ética de Kant: como conhecer a real intenção de um indivíduo quando age? A resposta é: não é possível. Mas então como podemos possuir uma noção de dever em nossa mente se talvez nunca tenhamos presenciado uma conduta realizada exatamente com essa intenção? A resposta é surpreendente: a noção de dever existe em nossa mente independente das impressões dos nossos sentidos. Mas nós sabemos, por meio de nossos estudos prévios em Kant, que algo que existe em nossa mente assim possui uma denominação. Exatamente, o dever é uma noção completamente a priori da nossa razão prática. Se para o autor, o fundamental da avaliação de uma conduta moral é a intenção de quem a praticou, independentemente de quais efeitos tal conduta possa vir a provocar, e a melhor intenção, para ele, é aquela que se volta tão somente para o cumprimento do dever, faz-se necessário um instrumento para que nós saibamos o que está em conformidade com o dever em determinadas circunstâncias concretas de nosso cotidiano. Esse instrumento pode ser considerado o princípio racional da ação. Por isso, o dever é um imperativo categórico, que se exprime na fórmula geral: “Age em conformidade apenas com a máxima que possas querer que se torne uma lei universal”. Dessa fórmula geral, Kant deriva outras três, que seguem abaixo: I. Age como se a máxima de tua ação devesse ser erigida por tua vontade em lei universal da Natureza; II. Age de tal maneira que trates a humanidade, tanto na tua pessoa quanto na de outrem, sempre como um fim e nunca como um meio; III. Age como se a máxima de tua ação devesse servir de lei universal para todos os seres racionais. A primeira máxima afirma a universalidade da conduta ética. A segunda vem lembrar a dignidade da pessoa humana, não devendo esta jamais ser tratada como simples meio para se atingir a um fim. A terceira afirma que a universalidade da conduta ética deve-se à racionalidade dos seres humanos, sendo os princípios éticos da razão plausíveis para qualquer ser racional. É com base também na universalidade da razão que entendemos o que Kant denomina Ilustração ou Esclarecimento. Vejamos sua definição por meio de um trecho do próprio autor: “A ilustração é a libertação do ser humano de sua incapacidade da qual ele próprio é culpado. A incapacidade significa a incapacidade de servir-se de sua inteligência sem a guia de outrem. Esta incapacidade é sua culpa porque sua causa reside, não na falta de inteligência, mas na falta de decisão e coragem para servir-se, por si mesmo, dela sem tutela de outrem. Sapere aude! Tem a coragem de servir-te de tua própria razão: eis o lema da ilustração. [...] A fraqueza e a covardia são as causas de uma grande parte dos seres humanos continuarem, de bom gosto, no seu estado de criança, apesar de que a natureza já os tenhaliberado, há tempos, da tutela alheia; também o são de que se faça tão fácil para outros erigirem-se em tutores”. Esclarecimento então ocorre quando o ser humano, dotado de razão, deixa de lado a preguiça, a fraqueza e a covardia, e utiliza a mesma, se libertando de agir sob os juízos alheios. Para Kant, o sujeito esclarecido possui o dever moral de fazer o que ele chama de uso público da razão, isto é, de nos diferentes lugares em que possa se encontrar, nas diferentes funções que possa estar realizando, tornar públicos os juízos a que sua razão lhe fizer chegar. EXERCÍCIOS PROPOSTOS: QUESTÃO 01 (UFU) Considere as questões que Immanuel Kant lança ao seu leitor nas primeiras páginas da Estética Transcendental. Que são então o espaço e o tempo? São entes reais? Serão apenas determinações ou mesmo relações de coisas, embora relações de espécie tal que não deixariam de subsistir entre as coisas, mesmo que não fossem intuídas? Ou serão unicamente dependentes da forma da intuição e, por conseguinte, da constituição subjetiva do nosso espírito, sem a qual esses predicados não poderiam ser atribuídos a coisa alguma? KANT. Crítica da razão pura. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 1994, p. 64. Sobre as noções kantianas de tempo e espaço é correto afirmar que essas noções são as formas A) da experiência possível, que só podem ser conhecidos a posteriori. B) da razão, resultantes da participação do homem no Ser de Deus. C) a priori da razão, a partir das quais os objetos nos são dados na experiência. D) de conceber a experiência, aprendidas culturalmente desde a infância e ao longo da nossa história. QUESTÃO 02 (UFU) Immanuel Kant (1724 – 1804) reconheceu a importância dos avanços das ciências naturais, em especial da física, que passou de um conhecimento meramente especulativo para se constituir em ciência. A metafísica, por sua vez, não obteve o mesmo sucesso, pois, continuando a ser especulativa, por mais que os sistemas fossem muito bem elaborados, suas verdades não eram indiscutíveis. Assim, Kant procura dar à metafísica a mesma consistência que possuíam outros campos do saber, fundamentados em juízos sintéticos a priori. Com base nas explicações acima e nos seus conhecimentos, assinale a alternativa que define a concepção kantiana de juízo sintético a priori. A) São universais, necessários e ampliam o conhecimento. B) Não são universais e necessários, mas permitem ampliar o conhecimento. C) São universais e necessários, mas não permitem ampliar o conhecimento. D) Não são nem universais e nem necessários, portanto não permitem ampliar o conhecimento. QUESTÃO 03 (UFU) O texto abaixo comenta alguns aspectos da reflexão de Immanuel Kant sobre a ética. E por que realizamos atos contrários ao dever e, portanto, contrários à razão? Kant dirá que é porque nossa vontade é também afetada pelas inclinações, que são os desejos, as paixões, os medos, e não apenas pela razão. Por isso afirma que devemos educar a vontade para alcançar a boa vontade, que seria aquela guiada unicamente pela razão. COTRIM, G.; FERNANDES, M. Fundamentos de Filosofia. São Paulo: Saraiva, 2010. p. 301. Sobre a reflexão ética de Kant, assinale a alternativa INCORRETA. A) A ação por dever é aquela que exclui todas as determinações advindas da sensibilidade, como os desejos, as paixões e os medos. B) A ação por dever está fundada na autonomia, ou seja, na capacidade que todo homem tem de escolher as regras que sua própria razão construiu. C) A ação por dever é uma expressão da boa vontade, na medida em que exige que a mesma regra, escolhida para um certo caso, possa ser utilizada por todos os agentes racionais. D) A ação por dever é aquela que reflete um meio termo ou um equilíbrio entre as determinações das inclinações e as determinações da razão. QUESTÕES ENEM: QUESTÃO 01 “Até agora se supôs que todo nosso conhecimento tinha que se regular pelos objetos; porém, todas as tentativas de mediante conceitos estabelecer algo a priori sobre os mesmos, através do que nosso conhecimento seria ampliado, fracassaram sob esta pressuposição. Por isso, tente-se ver uma vez se não progredimos melhor nas tarefas da Metafísica admitindo que os objetos têm que se regular pelo nosso conhecimento, o que assim já concorda melhor com a requerida possibilidade de um conhecimento a priori dos mesmos que deve estabelecer algo sobre os objetos antes de nos serem dados. O mesmo aconteceu com os pensamentos de Copérnico que, depois das coisas não quererem andar muito bem com a explicação dos movimentos celestes admitindo-se que todo exército de astros girava em torno do espectador, tentou ver se não seria mais bem-sucedido se deixasse o espectador mover-se e, em contrapartida, os astros em repouso.” KANT, I. Crítica da razão pura. Prefácio à segunda edição. Trad. de Valério Rohden e Udo Baldur Moosburger. São Paulo: Nova Cultural, 1987, p. 14. (Os Pensadores) Considerando a leitura do trecho acima, podemos dizer que a revolução copernicana de Kant é A) uma revolução filosófica e científica segundo a qual o espectador não pode permanecer fixo em sua posição, aprendendo apenas os fenômenos, mas deve considerar que ele mesmo encontra-se em movimento para poder perceber as coisas em si mesmas. B) uma revolução astronômica que pretendeu mudar o curso da Filosofia Moderna, propondo uma reavaliação da física newtoniana. C) uma revolução filosófica que estabeleceu que o conhecimento da coisa em si só pode ser atingido caso haja um cuidadoso estudo dos fenômenos. D) uma revolução filosófica que afirmou a distinção entre fenômeno e coisa em si, qualificando esta última como incognoscível. E) uma revolução filosófica que afirmou a necessidade de se colocar no centro dos estudos o objeto de conhecimento. QUESTÃO 02 “Até agora se supôs que todo nosso conhecimento tinha que se regular pelos objetos; porém, todas as tentativas de mediante conceitos estabelecer algo a priori sobre os mesmos, através do que nosso conhecimento seria ampliado, fracassaram sob esta pressuposição. Por isso, tente-se ver uma vez se não progredimos melhor nas tarefas da Metafísica admitindo que os objetos têm que se regular pelo nosso conhecimento, o que assim já concorda melhor com a requerida possibilidade de um conhecimento a priori dos mesmos que deve estabelecer algo sobre os objetos antes de nos serem dados. O mesmo aconteceu com os pensamentos de Copérnico que, depois das coisas não quererem andar muito bem com a explicação dos movimentos celestes admitindo-se que todo exército de astros girava em torno do espectador, tentou ver se não seria mais bem-sucedido se deixasse o espectador mover-se e, em contrapartida, os astros em repouso.” KANT, I. Crítica da razão pura. Prefácio à segunda edição. Trad. de Valério Rohden e Udo Baldur Moosburger. São Paulo: Nova Cultural, 1987, p. 14. (Os Pensadores) Considerando a leitura do trecho acima, podemos dizer que na busca de elaboração de uma teoria explicativa, Kant afirmou a existência do A) conhecimento religioso e do conhecimento ateu. B) conhecimento mítico e do conhecimento cético. C) conhecimento sofístico e do conhecimento ideológico. D) conhecimento empírico e do conhecimento puro. E) conhecimento fanático e do conhecimento tolerante. EXERCÍCIOS DE FIXAÇÃO: QUESTÃO 01 (UFU) Na sua obra "Crítica da Razão Pura", Kant formulou uma síntese entre sujeito e objeto, mostrando que, ao conhecermos a realidade do mundo, participamos da sua construção mental. Segundo Kant, esta valorização do sujeito (possuidor de categorias apriorísticas) no ato de conhecimento, representou, na Filosofia, algo comparável à A) previsão da órbita do Cometa Halley no sistema solar. B) revolução de Copérnico na Física. C) invenção do telescópio por Galileu Galilei. D) Revolução francesa que derrubou o Ancien Régime. E) invenção da máquina a vapor. QUESTÃO 02 (UFU) Na obra Crítica daRazão Pura, Immanuel Kant, examinando o problema do conhecimento humano, distinguiu duas formas básicas do ato de conhecer. Assinale a alternativa CORRETA. A) O conhecimento religioso e o conhecimento ateu. B) O conhecimento mítico e o conhecimento cético. C) O conhecimento sofístico e o conhecimento ideológico. D) O conhecimento empírico e o conhecimento puro. E) O conhecimento fanático e o conhecimento tolerante. QUESTÃO 03 (UFU) Em relação ao conceito de fenômeno, conforme foi apresentado por I. Kant, assinale a alternativa INCORRETA. A) Este conceito refere-se ao que não pode ser dado numa experiência, e, nesse sentido, designa também o que pode ser conhecido como coisa em si. B) Este conceito designa todos os objetos que podem ser intuídos no espaço e no tempo C) Este conceito refere-se a todos os objetos acerca dos quais pode ser produzido conhecimento objetivo e verdadeiro pelas ciências empíricas. D) Este é um conceito fundante da crítica kantiana, pois permite separar os objetos da experiência dos que não podem estar contidos em qualquer experiência possível. QUESTÃO 04 (UEL) “Em todos os juízos em que for pensada a relação de um sujeito com o predicado [...], essa relação é possível de dois modos. Ou o predicado B pertence ao sujeito A como algo contido (ocultamente) nesse conceito A, ou B jaz completamente fora do conceito A, embora esteja em conexão com o mesmo. no primeiro caso, denomino juízo analítico, no outro sintético”. Fonte: KANT, I. Crítica da Razão Pura. Tradução de Valério Rohden e Udo Baldur Moosburguer. São Paulo: Abril Cultural, 1980, p. 27. Com base no texto e nos conhecimentos sobre a distinção entre juízos analíticos e sintéticos, assinale a alternativa que apresenta um juízo sintético a posteriori. A) Todo corpo é extenso. B) Todo corpo é pesado. C) Tudo que acontece tem uma causa. D) 7 + 5 = 12. E) Todo efeito tem uma causa. QUESTÃO 05 (UFU) Autonomia da vontade é aquela sua propriedade graças à qual ela é para si mesma a sua lei (independentemente da natureza dos objetos do querer). O princípio da autonomia é portanto: não escolher senão de modo a que as máximas da escolha estejam incluídas simultaneamente, no querer mesmo, como lei universal. KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos Costumes. Tradução de Paulo Quintela. Lisboa: Edições 70, 1986, p. 85. De acordo com a doutrina ética de Kant: A) O Imperativo Categórico não se relaciona com a matéria da ação e com o que deve resultar dela, mas com a forma e o princípio de que ela mesma deriva. B) O Imperativo Categórico é um cânone que nos leva a agir por inclinação, vale dizer, tendo por objetivo a satisfação de paixões subjetivas. C) Inclinação é a independência da faculdade de apetição das sensações, que representa aspectos objetivos baseados em um julgamento universal. D) A boa vontade deve ser utilizada para satisfazer os desejos pessoais do homem. Trata-se de fundamento determinante do agir, para a satisfação das inclinações. QUESTÃO 06 (UFU) Os princípios práticos se dividem em dois grandes grupos, que Kant chama, respectivamente, de ‘máximas’ e ‘imperativos’. [...] Os imperativos são os princípios práticos objetivos, isto é, válidos para todos. Os imperativos são “mandamentos” ou “deveres”, ou seja, regras que expressam uma necessidade objetiva da ação, o que significa que, “se a razão determinasse completamente a vontade, a ação ocorreria segundo tal regra” ao passo que a intervenção de fatores emocionais e empíricos podem desviar esta vontade. REALE,G., DARIO, A. História da Filosofia, vol. II. São Paulo: Paulus, 1990, p. 903 (adaptado) Para Kant, é correto afirmar que os imperativos A) são subjetivos e, dessa forma, não podem ser princípios universais. B) devem determinar a razão, pois são princípios válidos para todos. C) determinam a vontade, sem que as emoções interfiram. D) sendo “máximas”, não expressam a necessidade objetiva da ação. QUESTÃO 07 (UEL) Na segunda seção da Fundamentação da Metafísica dos Costumes, Kant nos oferece quatro exemplos de deveres. Em relação ao segundo exemplo, que diz respeito à falsa promessa, Kant afirma que uma: “pessoa vê-se forçada pela necessidade a pedir dinheiro emprestado. Sabe muito bem que não poderá pagar, mas vê também que não lhe emprestarão nada se não prometer firmemente pagar em prazo determinado. Sente a tentação de fazer a promessa; mas tem ainda consciência bastante para perguntar a si mesma: Não é proibido e contrário ao dever livrar-se de apuros desta maneira? Admitindo que se decida a fazê-lo, a sua máxima de ação seria: Quando julgo estar em apuros de dinheiro, vou pedi-lo emprestado e prometo pagá-lo, embora saiba que tal nunca sucederá”. Fonte: KANT, I. Fundamentação da Metafísica dos Costumes. Tradução de Paulo Quintela. São Paulo: Abril Cultural, 1980, p. 130. De acordo com o texto e os conhecimentos sobre a moral kantiana, considere as afirmativas a seguir: I- Para Kant, o princípio de ação da falsa promessa não pode valer como lei universal. II- Kant considera a falsa promessa moralmente permissível porque ela será praticada apenas para sair de uma situação momentânea de apuros. III- A falsa promessa é moralmente reprovável porque a universalização de sua máxima torna impossível a própria promessa. IV- A falsa promessa é moralmente reprovável porque vai de encontro às inclinações sociais do ser humano. A alternativa que contém todas as afirmativas corretas é: A) I e II B) I e III C) II e IV D) I, II e III E) I, II e IV QUESTÃO 08 (UFU) "Chamo de transcendental todo conhecimento que trata, não tanto dos objetos como, de modo geral, de nossos conhecimentos a priori dos objetos". Kant - Crítica da Razão Pura - Col. Os Pensadores Explique o significado da expressão conhecimento transcendental, no pensamento de Kant. QUESTÃO 09 (UFU) O comentário abaixo foi feito por Kant (1724-1804) para justificar o início do novo estágio da filosofia moderna, almejado com a sua obra Crítica da Razão Pura. "Até agora se supôs que todo nosso conhecimento tinha que se regular pelos objetos; porém, todas as tentativas de mediante conceitos estabelecer algo a priori sobre os mesmos, através do que o nosso conhecimento seria ampliado, fracassaram sob esta pressuposição." Kant. Crítica da Razão Pura. São Paulo: Nova Cultural, 1987. p.14. (Coleção "Os Pensadores") A partir desta citação, explique em que consiste a Revolução Copernicana realizada por Kant na filosofia. QUESTÃO 10 (UFU) Uma certa mãe, tendo preparado o almoço para seus dois filhos que estavam na escola, deixou duas bombas de chocolate sobre a mesa e partiu para o trabalho. O primeiro filho a chegar almoçou rapidamente, com os olhos presos à sobremesa. Ao terminar, três pensamentos ocuparam, um após o outro, sua reflexão: A) primeiro, pensou em comer os dois doces, simplesmente pela ânsia prazerosa de comê-los; B) depois, sabendo que a mãe desaprovaria este ato, pensou em dizer-lhe que, como ela não havia deixado nenhum bilhete, julgara que os dois doces eram para ele e, por isso, acabou comendo os dois; C) por fim, temendo o irmão, que era mais velho, maior e mais forte, escolheu o doce que lhe pareceu maior e comeu-o. I- A partir do exemplo dado acima, e a partir do conceito kantiano de dever ou de autonomia, explique porque nem o prazer (caso A), nem a mentira (caso B), nem a força física (caso C) podem ser fundamentos da ação moral. II- Em conformidade com o exemplo acima e com o pensamento de Kant, formule uma regra que o primeiro filho a chegar poderia ter empregado para que sua ação pudesse ser considerada moralmente correta. Módulo 11: Nicolau Maquiavel e Thomas Hobbes Maquiavel Nicolau Maquiavel (1469-1527) nasceu na Itália e é considerado o fundador do pensamento político moderno. Foi diplomata e conselheiro dos governantes de Florença,e viu a ascensão da burguesia comercial nas grandes cidades, assim como a fragmentação da Itália. Vendo a vida política assim fragmentar-se, Maquiavel funda um novo tipo de pensamento político, negando o que se havia dito e feito até então. Nesse sentido, nega um fundamento anterior e exterior à política, como a natureza, no caso de Aristóteles, ou alguma influência divina, no caso dos teólogos medievais. O autor não aceita também a ideia de uma boa comunidade política, voltada para o bem comum. Ao contrário, enxerga a sociedade em constante tensão, causada pelos interesses opostos daqueles que oprimem, e assim querem continuar, e os que são oprimidos, e não podem aceitar de bom grado essa condição. A principal finalidade da política seria, assim, a tomada e manutenção do poder, o que só pode ocorrer se o governante consegue dar a essa formação, a princípio sem objetivos comuns, uma identidade. Consequentemente, a verdadeira virtude do príncipe não deve pertencer àquele conjunto ditado pela igreja, mas a virtù principesca deve ser a competência política. É por isso que Maquiavel afirma que: “Assim, deve o príncipe tornar-se temido, de sorte que, se não for amado, ao menos evite o ódio, pois é fácil ser, a um só tempo, temido e não odiado, o que ocorrerá uma vez que se prive da posse dos bens e das mulheres dos cidadãos e dos súditos, e, mesmo quando forçado a derramar o sangue de alguém, poderá fazê-lo apenas se houver justificativa apropriada e causa manifesta”. MAQUIAVEL, N. O Príncipe. In. Maquiavel. Tradução de Olívia Bauduh. São Paulo: Nova Cultural, 2004, p. 106-107) Sendo o governante uma figura competente, ele será capaz de enfrentar todas as situações que a sorte (fortuna) lhe trouxer. Vale ressaltar que a Fortuna, na mitologia grega, é uma deusa, ser feminino, que como tal, deve ser conquistado, pois não se entrega facilmente a alguém. O príncipe deve, assim, ter a capacidade de conquistar momentos promissores para o sucesso de seu governo, além de ter a mestria necessária para ultrapassar aqueles que não se apresentem nessa configuração. Livre dos imperativos das virtudes cristãs, o ideal seria que o governante unisse a força, característica do leão, à astúcia, característica da raposa, ou seja, fazer uso da violência, que é uma prerrogativa de quem governa, com toda inteligência necessária para, como foi dito acima, evitar o ódio dos súditos. Vale ressaltar que virtù e fortuna são as duas condições para o sucesso de um governo. Ao usar como exemplo Moisés, líder hebreu, como figura que possuía valor para estar à frente de uma comunidade política, Maquiavel não deixa de evidenciar que todo esse valor, sem uma ocasião apropriada para ser demonstrado, não conduziria à tomada do poder. Daí a necessidade da simultaneidade entre o valor do líder e uma ocasião apropriada. Maquiavel não defende a Monarquia, ou qualquer outro regime político, mas afirma que qualquer regime é legítimo se garante a liberdade dos súditos. Nesse sentido, afirma que o governante jamais deve se aliar aos poderosos, mas sempre ao povo, pois os poderosos são seus concorrentes. Além disso, denuncia a corrupção política, afirmando que um dos principais fatores que despertam o ódio do povo é a sua espoliação por parte de seus governantes. A grande ruptura realizada pelo autor com relação principalmente ao pensamento antigo é a separação que faz entre ética, compreendida em seu sentido mais genérico, e Política. Não é que não exista uma moralidade na política, mas ela possui sua lógica própria, muitas vezes distinta das demais relações sociais. Para os gregos seria inconcebível um político sem virtudes, enquanto para Maquiavel a única função da política é, como já foi visto, a tomada e a manutenção do poder, o que envolveria a preocupação do governante em conduzir da melhor maneira possível o convívio social, talvez não sendo bom no sentido moral da palavra, mas competente para equilibrar os interesses divergentes presentes no corpo social. HOBBES Thomas Hobbes (1588-1679) nasceu na uma aldeia inglesa chamada Westport. Tendo como pressuposto que “todo ser luta para conservar-se, isto é, evitar a morte”, e discordando de Aristóteles, que afirmava serem os homens sociáveis por natureza, Hobbes, assim como Maquiavel, funda um pensamento político baseado no mundo material. A sociabilidade dada aos homens por Aristóteles custa-lhes a igualdade, ou seja, só é sustentada por serem considerados uns superiores aos outros por natureza. Como para Hobbes todos são iguais por natureza, possuindo todos nessa condição direito apenas à vida e à liberdade, não se contentando nenhum em ser servo do outro, surge um estado de natureza marcado pela guerra de todos contra todos. Daí surge a famosa frase que afirma que “o homem é o lobo do homem”. Vejamos, nas palavras do próprio autor, como ele imaginou o estabelecimento do Contrato Social que deu origem ao Estado (Leviatã - Monstro bíblico). Para ele, a única maneira que os homens tiveram para instituir, entre si, um poder comum era: “[...] conferir toda sua força e poder a um homem, ou a uma assembleia de homens, que possa reduzir suas diversas vontades, por pluralidade de votos, a uma só vontade [...] é como se cada homem dissesse a cada homem [...] transfiro meu direito de governar-me a mim mesmo a este Homem, ou a esta Assembleia de homens, com a condição de transferires a ele teu direito, autorizando de maneira semelhante todas as suas ações. [...] Feito isto, à multidão assim unida numa só pessoa chama-se Estado [...] É esta a geração daquele grande Leviatã [...] ao qual devemos [...] nossa paz e defesa. Pois graças a esta autoridade que lhe é dada por cada indivíduo no Estado, é-lhe conferido o uso de tamanho poder e força que o terror assim inspirado o torna capaz de conformar as vontades de todos eles, no sentido da paz em seu próprio país, e da ajuda mútua contra os inimigos estrangeiros. É nele que consiste a essência do Estado, o qual pode ser assim definido: uma pessoa de cujos atos uma grande multidão, mediante pactos recíprocos uns com os outros, foi instituída por cada um como autora, de modo a ela poder usar a força e os recursos de todos, da maneira que considerar conveniente, para assegurar a paz e a defesa comum. Àquele que é portador dessa pessoa se chama Soberano, e dele se diz que possui poder soberano. Todos os restantes são súditos”. (HOBBES, T. Leviatã ou matéria, forma e poder de um Estado Eclesiástico e Civil. In. Hobbes. Tradução de João Paulo Monteira e Maria Beatriz Nizza da Silva. São Paulo: Nova Cultural, 2005, p. 144) Nota-se, então, pelas palavras do próprio autor que a sociedade civil, na qual viviam os homens de seu tempo, só poderia ter sido gerada através de um pacto entre os homens. O motivo pelo qual os indivíduos buscam o referido acordo também são elencados do texto, quais sejam: a paz e a defesa. Os homens, através da instituição do Estado, abdicam de sua liberdade individual em prol de uma liberdade artificial, para saírem do já citado estado de guerra de todos contra todos, denominado de estado de natureza. Essa criação é humana, e aí o motivo da discordância com Aristóteles. Sendo o Estado uma criação humana, nega-se a naturalidade aristotélica, e atribui-se a ele artificialidade, no que irão concordar os demais contratualistas. Vimos através do texto também, que para Hobbes o soberano é o monarca, isto é, o depositário da confiança do povo, podendo este fazer o que considerar melhor, e inclusive utilizar a força, para manter a paz. Tal poder é incontestável e indivisível, sendo assim, absoluto. Podemos considerar então o autor um defensor do absolutismo. É importante, no entanto, que não se confunda monarquismo com absolutismo. Hobbes não é um defensor do monarquismo, o que se vê claramente na citação abaixo: A única maneira de instituir um poder comum entre os homens, capaz de defendê-los dasinvasões dos estrangeiros e das injúrias uns dos outros (...) é conferir toda sua força ou poder a um homem ou a uma assembleia de homens que possa reduzir suas diversas vontades (...) a uma só vontade. Feito isto, à multidão assim unida numa só pessoa se chama Estado. HOBBES, T. Leviatã. Col. “Os Pensadores”. São Paulo: Abril Cultural, 1970. O Estado pode, assim, ser governado por um só homem ou por um grupo, desde que não exista divisão de poder, como encontramos atualmente na maioria dos países do planeta (executivo, legislativo e judiciário). Apesar de aventar a possibilidade de formas de governo diversas, Hobbes acaba por apresentar a monarquia como a mais adequada, pelo fato de nela confluírem a vontade individual, do Rei, com a vontade pública, dos súditos, de forma mais eficiente. A forma aristocrática, e mesmo a presença de eleições para a escolha de quem governa de forma soberana, não são excluídas pelo autor. Leviatã é um monstro bíblico, e no frontispício da primeira edição da obra ele aparece gigantesco, com o corpo formado por inúmeros corpos humanos, que representam a coletividade, com o cetro em uma mão (poder) e a espada na outra (força). É importante lembrar que quem transferiu tais objetos simbólicos para o Estado, em função do pacto, foram os próprios súditos, o que consiste em outro fundamento, não religioso e nem natural, para o poder político. Assim como em Maquiavel, aqui se encontra uma concepção de Estado ligada intimamente à força física. EXERCÍCIOS PROPOSTOS: QUESTÃO 01 (UFU) Em seus estudos sobre o Estado, Maquiavel busca decifrar o que diz ser uma verità effettuale, a ―verdade efetiva‖ das coisas que permeiam os movimentos da multifacetada história humana/política através dos tempos. Segundo ele, há certos traços humanos comuns e imutáveis no decorrer daquela história. Afirma, por exemplo, que os homens são ―ingratos, volúveis, simuladores, covardes ante os perigos, ávidos de lucro‖. (O Príncipe, cap. XVII) Para Maquiavel: A) A verdade efetiva das coisas encontra-se em plano especulativo e, portanto, no dever-ser. B) Fazer política só é possível por meio de um moralismo piedoso, que redime o homem em âmbito estatal. C) Fortuna é poder cego, inabalável, fechado a qualquer influência, que distribui bens de forma indiscriminada. D) A Virtù possibilita o domínio sobre a Fortuna. Esta é atraída pela coragem do homem que possui Virtù. QUESTÃO 02 (UFU) O desenvolvimento das ciências naturais na era moderna influenciou a corrente filosófica denominada empirismo que tem por característica fundamental a ênfase do papel da experiência sensível no conhecimento. Dentre os representantes do empirismo inglês podemos destacar, entre outros nomes, Thomas Hobbes, John Locke e David Hume. Hobbes, apesar de receber também outras influências filosóficas como o nominalismo, é influenciado pelas ideias empiristas, tanto que a primeira parte de seu livro O Leviatã ou Forma e matéria do Estado é composta por uma teoria do conhecimento baseada nas ideias desta corrente. Um dos resultados desta influência é a concepção de pacto social: para Hobbes, observando o comportamento dos homens podemos conhecer sua natureza, assim, conclui: os pactos sem a espada não passam de palavras. Com base no texto acima e em seus conhecimentos sobre a filosofia hobbesiana, assinale a alternativa que descreve o significado da expressão: os pactos sem a espada não passam de palavras. A) O poder do Estado deriva da natureza humana: uma vez que os homens concordem em obedecer a lei, cumprirão integralmente a palavra dada. B) O poder do Estado se consolida com o uso simbólico da espada no poder legislativo; a expressão palavras representa a lei. C) A única forma de os homens cumprirem suas promessas é pelo medo da punição caso fujam do compromisso de manter a palavra dada. D) A frase de Hobbes aplica-se somente ao estado de natureza, sendo desnecessário o uso da força no estado civil, depois do Estado constituído. QUESTÃO 03 (UFU) [...] a condição dos homens fora da sociedade civil (condição esta que podemos adequadamente chamar de estado de natureza) nada mais é do que uma simples guerra de todos contra todos na qual todos os homens têm igual direito a todas as coisas; [...]. HOBBES, Thomas. Do Cidadão. Campinas: Martins Fontes, 1992. De acordo com o trecho acima e com o pensamento de Hobbes, assinale a alternativa correta: . A) Segundo Hobbes, o estado de natureza se confunde com o estado de guerra, pois ambos são uma condição original da existência humana. B) Para Hobbes, o direito dos homens a todas as coisas está desvinculado da guerra de todos contra todos. C) Segundo Hobbes, é necessário que a condição humana seja analisada sempre como se os homens vivessem em sociedade. D) Segundo Hobbes, não há vínculo entre o estado de natureza e a sociedade civil. QUESTÕES ENEM: QUESTÃO 01: “O maquiavelismo é uma interpretação de O Príncipe de Maquiavel, em particular a interpretação segundo a qual a ação política, ou seja, a ação voltada para a conquista e conservação do Estado, é uma ação que não possui um fim próprio de utilidade e não deve ser julgada por meio de critérios diferentes dos de conveniência e oportunidade.” BOBBIO, Norberto. Direito e Estado no pensamento de Emanuel Kant. Trad. de Alfredo Fait. 3.ed. Brasília: Editora da UNB, 1984. p. 14. Com base no texto e nos conhecimentos sobre o tema, para Maquiavel o poder político é A) independente da moral e da religião, devendo ser conduzido por critérios restritos ao âmbito político. B) independente da conveniência e oportunidade, pois estas dizem respeito à esfera privada da vida em sociedade. C) dependente da religião, devendo ser conduzido por parâmetros ditados pela Igreja. D) dependente da ética, devendo ser orientado por princípios morais válidos universal e necessariamente. E) independente das pretensões dos governantes de realizar os interesses do Estado. QUESTÃO 02: Leia o texto a seguir. “Dado que todo súdito é por instituição autor de todos os atos e decisões do soberano instituído, segue-se que nada do que este faça pode ser considerado injúria para com qualquer de seus súditos, e que nenhum deles pode acusá-lo de injustiça”. Fonte: HOBBES, T. Leviatã, ou, Matéria, forma e poder de um estado eclesiástico e civil. Tradução de João Paulo Monteiro e Maria Beatriz Nizza da Silva. São Paulo: Nova Cultural, 1988, p. 109. Hobbes é um dos principais defensores do absolutismo, centralização total do poder. A partir da leitura do fragmento, infere-se que para este autor A) o soberano não tem deveres contratuais com os seus súditos. B) o poder político tem como objetivo principal garantir a liberdade dos indivíduos. C) antes da instituição do poder soberano, os homens viviam em paz. D) o poder soberano deve obediência às leis da natureza. E) acusar o soberano de injustiça seria como acusar a si mesmo de injustiça. EXERCÍCIOS DE FIXAÇÃO: QUESTÃO 01: (UFU) Muito citado e pouco conhecido, Nicolau Maquiavel é um dos maiores expoentes do Renascimento e sua contribuição determinou novos horizontes para a filosofia política. A respeito do conceito de virtù, analise as assertivas abaixo. I- A virtù é a qualidade dos oportunistas, que agem guiados pelo instinto natural e irracional do egoísmo e almejam, exclusivamente, sua vantagem pessoal. II- O homem de virtù é antes de tudo um sábio, é aquele que conhece as circunstâncias do momento oferecido pela fortuna e age seguro do seu êxito. III- Mais do que todos os homens, o príncipe tem de ser um homem de virtù, capaz de conhecer as circunstâncias e utilizá-las a seu favor. IV- Partidário da teoria do direito divino, Maquiavel vê o príncipe como um predestinado e a virtù como algo que não depende dos fatores históricos. Assinale a ÚNICA alternativa que contém as assertivas verdadeiras. A) I, II, e IIIB) II e III C) II e IV D) II, III e IV QUESTÃO 02 (UFU/PAIES) Antônio Gramsci fez o seguinte comentário ao pensamento de Maquiavel. “O estilo de Maquiavel não é o de um tratadista sistemático como os tinha a Idade Média e o Humanismo, absolutamente; é estilo de homem de ação, de quem quer impulsionar a ação.” GRAMSCI, A. Maquiavel, a política e o Estado moderno. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1984, p. 10. O homem de ação foi para Maquiavel o novo príncipe, o governante do Estado. A esse respeito assinale (V) para as afirmativas verdadeiras e (F) para as falsas. 1( ) O homem de ação é o homem capaz de aproveitar com vigor e astúcia as situações que se lhe apresentam para alcançar o poder sobre os seus súditos. 2( ) O homem de ação, como homem de virtude, é aquele capaz de efetuar mudanças significativas no curso da história com a realização de grandes obras. 3( ) O homem de ação é aquele que observa e executa os anseios do povo em consonância com os valores espirituais e desinteressado dos bens materiais. 4( ) O homem de ação é o príncipe bom e justo, que usa de toda a sua sabedoria para bem interpretar a vontade do povo, mesmo que isso implique na sua perda de poder. QUESTÃO 03 (UFU) Porque as leis de natureza (como a justiça, a equidade, a modéstia, a piedade, ou, em resumo, fazer aos outros o que queremos que nos façam) por si mesmas, na ausência do temor de algum poder capaz de levá-las a ser respeitadas, são contrárias a nossas paixões naturais, as quais nos fazem tender para a parcialidade, o orgulho, a vingança e coisas semelhantes. HOBBES, Thomas. Leviatã. Cap. XVII. Tradução de João Paulo Monteiro e Maria Beatriz Nizza da Silva. São Paulo: Nova Cultural, 1988, p. 103. Em relação ao papel do Estado, Hobbes considera que: A) O seu poder deve ser parcial. O soberano que nasce com o advento do contrato social deve assiná-lo, para submeter-se aos compromissos ali firmados. B) A condição natural do homem é de guerra de todos contra todos. Resolver tal condição é possível apenas com um poder estatal pleno. C) Os homens são, por natureza, desiguais. Por isso, a criação do Estado deve servir como instrumento de realização da isonomia entre tais homens. D) A guerra de todos contra todos surge com o Estado repressor. O homem não deve se submeter de bom grado à violência estatal. QUESTÃO 04 (UFU) Para Hobbes (1588-1679), o homem reconhece a necessidade de renunciar ao seu direito sobre todas as coisas em favor de um "contrato". Isso implica também na abdicação de sua vontade em favor de "um homem ou assembleia de homens, como representantes" da sua pessoa. Assim para Hobbes o contrato social se justifica porque: A) a situação dos homens, entregues a si próprios, é de segurança, de estabilidade e de felicidade, graças a esta organização primitiva, os homens vivem sempre em paz e harmonia. B) as disputas são importantes para o desenvolvimento da indústria, da agricultura, da ciência, da navegação, enfim, é ela a responsável pelas comodidades e por todo o bem-estar dos homens. C) os interesses egoístas predominam entre os homens, a ponto de cada indivíduo representar um perigo eminente aos outros indivíduos, de modo que o homem se torna o lobo do próprio homem. D) o homem é sociável por natureza e, por meio dela, é levado a fundar um estado social pautado pela autoridade política, abdicando dos seus direitos em favor de um corpo político. QUESTÃO 05 (UFU) Leia o enunciado abaixo. Para completá-lo marque a alternativa correta. Segundo Hobbes (séc. XVII), para cessar o estado de vida em que os indivíduos vivem isolados e em luta permanente, onde “homem é o lobo do homem”, A) os homens reafirmam a liberdade natural e a posse natural de bens, riquezas e armas. B) os homens inventaram as armas e cercaram as terras que ocupavam. C) os homens aceitaram que a única lei é a força do mais forte, que conquista e conserva tudo quando usa. D) os homens decidem passar à sociedade civil e ao Estado Civil, criando as leis e o poder político. QUESTÃO 06 (UFU) Segundo Hobbes (1588-1679), podemos definir estado de natureza como sendo o lugar onde A) todos são bons por natureza, mas a vida em sociedade os corrompe. B) os homens são bons, “bons selvagens inocentes”, vivendo em estado de felicidade original. C) todos são proprietários de suas vidas, de seus corpos, de seus trabalhos, portanto, todos são proprietários. D) reina o medo entre os indivíduos, que temem a morte violenta, que vivem isolados e em luta permanente, guerra de todos contra todos. QUESTÃO 07 (UFU) Thomas Hobbes escreveu que: “Uma lei de natureza (lex naturalis) é um preceito ou regra geral, estabelecido pela razão, mediante o qual se proíbe a um homem fazer tudo o que possa destruir sua vida ou privá-lo dos meios necessários para preservá-la, ou omitir aquilo que pense poder contribuir melhor para preservá-la.” HOBBES, Thomas. Leviatã, ou matéria, forma e poder de um Estado Eclesiástico e Civil. São Paulo: Nova Cultural, 1988. Coleção “Os Pensadores”. p.79. Assinale a alternativa correta. A) A condição natural do homem é a perfeita harmonia em relação ao seu semelhante. B) A lei primeira e fundamental da natureza é procurar a paz e segui-la. C) No estado de natureza, os homens são governados pela razão divina. D) No estado de natureza, o homem não tem direito a todas as coisas, por isso, ele tem segurança. QUESTÃO 08 (UFU) Sobre os conceitos de fortuna e virtù na filosofia política de Maquiavel, considere o trecho abaixo. O desejo de conquistar é coisa verdadeiramente natural e ordinária e os homens que podem fazê-lo serão sempre louvados e não censurados. Mas se não podem e querem fazê-lo, de qualquer modo, é que estão em erro, e são merecedores de censura. MAQUIAVEL, N. O príncipe. Trad. de Lívio Teixeira. São Paulo: Nova Cultural, 1987, p. 14 Responda: A) Em que condições a ação bem sucedida de quem quer conquistar não deve ser censurada? B) Em que consiste o erro crucial de quem fracassa na conquista de um Estado? QUESTÃO 09 (UFU) "Entendo por leis civis aquelas que os homens são obrigados a respeitar, não por serem membros deste ou daquele Estado em particular, mas por serem membros de um Estado". Hobbes. Leviatã. Col. Os Pensadores, Abril Cultural, 1978 Segundo Hobbes, a quem pertence a soberania e quais suas atribuições enquanto soberano? QUESTÃO 10 (UFU) Leia o texto abaixo com atenção e responda as questões a seguir. A respeito da origem do Estado, em seu livro Leviatã, Hobbes afirma que um homem abandona o direito a todas as coisas, transferindo este direito para um poder soberano. “O modo pelo qual um homem transfere seu direito é uma declaração ou expressão, mediante um sinal ou sinais voluntários e suficientes (...) que podem ser apenas palavras ou apenas ações ou então tanto palavras como ações.” Esta “(...) transferência mútua de direitos é aquilo que se chama contrato.” Feito este contrato, “(...) à multidão assim unida numa só pessoa se chama Estado (...).” HOBBES. Leviatã. São Paulo: Abril Cultural, 1979, p. 78-79. Col. Os Pensadores. A) Comente pelo menos duas etapas exigidas para que haja a geração do Estado. B) Por que o contrato elimina a condição de guerra de todos contra todos? Módulo 12: John Locke e Jean-Jacques Rousseau. Locke John Locke (1632-1704) nasceu em Wrington, na Inglaterra. Estudou na Universidade de Oxford, onde se formou em Medicina. É considerado um dos pais da teoria chamada Liberalismo, por causa de sua defesa explícita à propriedade privada. Tal defesa é fundamentada com a introdução de um direito do homem no estado de natureza, além dos já citados por Hobbes à vida e à liberdade, quando afirma em sua obra Segundo Tratado sobre o Governo: “consideremos a razão natural, que nos diz terem os homens, uma veznascidos, direito à própria preservação, e, consequentemente, à comida e à bebida e a tudo quanto a natureza lhes fornece para a subsistência [...]”. É óbvio que para assegurar o direito à vida o homem deveria necessariamente se apropriar dos meios necessários para sobreviver, mas ao enfatizar esse fator, Locke introduz a propriedade privada como direito natural, tendo fundamento, como ele mesmo afirma, pelo trabalho realizado pelo homem em busca da sobrevivência, no que afirma que “seja o que for que ele (o homem) retire do estado que a natureza lhe forneceu e no qual o deixou, fica-lhe misturado ao próprio trabalho, juntando-se-lhe algo que lhe pertence, e, por isso mesmo, tornando-o propriedade dele”. Mas apesar de fundamentar a propriedade privada com a noção de trabalho, o autor tem que, através do estudo, ir impondo limites à mesma e transpondo-lhes, para ver até que ponto pode o homem acumular. O primeiro limite imposto é o do desperdício, ou seja, já que tudo foi criado para os homens em comum, não é permitido a nenhum homem acumular bens perecíveis além do que possa consumir, pois que estes podem vir a fazer falta para os outros, caso se percam. Tal limite, da perecividade, é superado com a invenção da moeda, valor de troca que o homem pode acumular sem que se perca. Outro limite para o acúmulo é, evidentemente, relativo às próprias limitações físicas do ser humano, ou seja, alguém só pode acumular o quanto possa colher. Tal limite é transposto com a introdução da noção de trabalho alienado, defendida sob o ponto de vista de que a primeira propriedade a que todos têm acesso é à do próprio corpo, o qual o mesmo possui o direito de alienar a outrem, vendendo assim sua força de trabalho. Ultrapassam-se assim todos os limites para o acúmulo de bens. É importante lembrar que tudo que foi dito acima corresponde ao estado de natureza, no qual, para o autor, os homens vivem em certa harmonia, guiados pela razão. O papel do Contrato Social, para Locke, não possui assim papel tão decisivo quanto na teoria de Hobbes. Nas palavras do primeiro: “Sendo os homens, [...] por natureza, todos livres, iguais e independentes, ninguém pode ser expulso de sua propriedade e submetido ao poder político de outrem sem dar consentimento. A maneira única em virtude da qual uma pessoa qualquer renuncia à liberdade natural e se reveste dos laços da sociedade civil consiste em concordar com outras pessoas em juntar-se e unir-se em comunidade para viverem com segurança, conforto e paz umas com as outras, gozando garantidamente das propriedades que tiverem e desfrutando de maior proteção contra quem quer que não faça parte dela”. LOCKE, J. Segundo Tratado sobre o governo. In: Locke. 3.ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983. Coleção Os Pensadores. O papel do Estado, fundado pelo Contrato firmado entre os homens, assim, é o de legitimar os direitos já existentes no estado de natureza. Nesse sentido, a soberania não se encontra mais nas mãos dos poderosos, que encontram como limite para o exercício do poder a individualidade dos homens, e seu direito de acumular sem a interferência do Estado. Esse possui somente a função de assegurar a qualidade de vida dos membros da sociedade civil, dando-lhes educação, saúde e segurança. Tal modelo de Estado é ainda o que funciona no Brasil, por exemplo, onde os governantes não possuem o direito de se intrometerem na individualidade dos cidadãos, salvo por ordem judicial. Dos três filósofos contratualistas que estamos estudando, somente Locke fala de direito à insurreição, ou seja, à derrubada de algum governante que não esteja agindo segundo o consenso a que chegaram os cidadãos. Rousseau Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) nasceu em Genebra, na Suíça, transferindo-se para a França em 1742, onde escreveu suas grandes obras. Além de escritos de Filosofia, o autor escreveu romances, e mesmo uma obra sobre pedagogia, chamada Emílio. Vejamos, entretanto, o que pensou o autor sobre o surgimento da Sociedade Civil. “O verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primeiro que, tendo cercado um terreno, lembrou-se de dizer isto é meu e encontrou pessoas suficientemente simples para acreditá-lo. Quantos crimes, guerras, assassínios, misérias e horrores não pouparia ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas ou enchendo o fosso, tivesse gritado a seus semelhantes: “Defendei-vos de ouvir esse impostor; estareis perdidos se esquecerdes que os frutos são de todos e que a terra não pertence a ninguém” (ROUSSEAU, J-J. Do contrato Social. In. ROUSSEAU II. Tradução de Lourdes Santos Machado. São Paulo: Nova Cultural, 2005, p. 87) Com base no trecho, podemos tecer as primeiras comparações com relação às teorias dos dois autores anteriores. Contrastando Rousseau com Locke, podemos ver uma diferença significativa, que também o segundo mantém com Hobbes: para Rousseau, assim como para Hobbes, a propriedade privada não é um direito natural. Somente Locke o acrescenta aos direitos de vida e liberdade. A propriedade, porém é elemento importantíssimo para o entendimento do pensamento de Rousseau, pois o mesmo atribui a seu surgimento a responsabilidade pela criação da sociedade civil. É porque passa a existir propriedade que surge a necessidade da criação, por meio de um contrato, de uma sociedade artificial. Para Rousseau, a instituição da propriedade é a causadora, como vimos, das desavenças entre os homens, que não existiam no estado de natureza. É aí que aparecerá um estado parecido com o que Hobbes denomina estado de guerra, assim como a necessidade da passagem para a sociedade civil, por meio do contrato. Para o autor, a teoria hobbesiana está equivocada, pois: “Vivendo em sua primitiva independência, não mantêm entre si uma relação suficientemente constante para constituir quer o estado de paz quer o de guerra, os homens em absoluto não são naturalmente inimigos”. Assim o autor nega ser o homem lobo do próprio homem, e funda o que grosseiramente se denomina a teoria do “Bom Selvagem”, acreditando na existência de um sentimento de compaixão ou piedade no ser humano, que consiste em uma capacidade que os homens possuem de se importar com o que acontece com os demais. Tal sentimento é importante para a defesa do tipo de Estado defendido pelo autor, a democracia, já que tal modelo exige que os indivíduos, ao realizarem escolhas, consigam se colocar no lugar de outros que serão atingidos por elas. Mas como o surgimento da propriedade inicia um novo estado de coisas, forçando a passagem para a sociedade civil, o contrato passa a ser necessário. Sobre o mesmo, o autor afirma: “Encontrar uma forma de associação que defenda e proteja a pessoa e os bens de cada associado com toda a força comum, e pela qual cada um, unindo-se a todos, só obedece, contudo a si mesmo, permanecendo assim tão livre quanto antes. Esse, o problema fundamental cuja solução o contrato social oferece”. (ROUSSEAU, J-J. Do contrato Social. In. ROUSSEAU. Tradução de Lourdes Santos Machado. São Paulo: Nova Cultural, 2005, p. 69) A liberdade na sociedade, porém, não pode mais ser considerada natural, visto que a associação é algo artificial. Trata-se, pois do que se chama liberdade civil, a qual coloca a todos em pé de igualdade. A soberania para o autor, visto que o Estado surge por meio de um consenso entre os homens, encontra-se nas mãos do povo. O Soberano é a vontade geral, que porém não pode ser confundida com a vontade de todos. A vontade geral é fruto de um consenso a que chegam os membros de uma associação, podendo alguns discordar da mesma, estando, porém obrigados a acatá-la, pela própria natureza do acordo. QUADRO COMPARATIVO Thomas Hobbes (1588-1679) John Locke (1632-1704) J-J. Rousseau (1712-1778) Estado Natureza Guerra de todos contra todos Relativa harmonia devido à racionalidade humana. Os homens vivem em harmonia “Bom Selvagem”.Direitos Naturais Vida, Liberdade. Vida, Liberdade, Propriedade. Vida, Liberdade. Motivo do Pacto Busca o fim dos conflitos (segurança) Legitimação do direito à propriedade. Depois da fundação da propriedade, busca da segurança. Modelo do Estado Absolutista Liberal Democrático Soberania Governante Legislativo Povo EXERCÍCIOS PROPOSTOS: QUESTÃO 01 (UFU) Para bem compreender o poder político e derivá-lo de sua origem, devemos considerar em que estado todos os homens se acham naturalmente, sendo este um estado de perfeita liberdade para ordenar-lhes as ações e regular-lhes as posses e as pessoas conforme acharem conveniente, dentro dos limites da lei de natureza, sem pedir permissão ou depender da vontade de qualquer outro homem. LOCKE, John. Segundo Tratado sobre o Governo. São Paulo: Abril Cultural, 1978. A partir da leitura do texto acima e de acordo com o pensamento político do autor, assinale a alternativa correta. A) Segundo Locke, o estado de natureza se confunde com o estado de servidão. B) Para Locke, o direito dos homens a todas as coisas independe da conveniência de cada um. C) Segundo Locke, a origem do poder político depende do estado de natureza. D) Segundo Locke, a existência de permissão para agir é compatível com o estado de natureza. QUESTÃO 02 (UFU) Para Locke, os homens em estado de natureza são, cada um, juiz em causa própria; assim é necessário constituir a sociedade civil mediante contrato social para organizar a vida em sociedade. Isto se daria através do pacto, tornando legítimo o poder do Estado. Para ele, o poder A) encontra-se na soberania do poder executivo. B) é confiado aos governantes e não pode ser contestado em hipótese alguma. C) é confiado aos governantes, podendo haver insurreição, caso eles não visem o bem público. D) é absoluto e não há possibilidade de instituir-se um novo pacto. E) é instituído pela vontade geral. QUESTÃO 03 (UFU) Jean-Jacques Rousseau analisou a concepção de “estado de natureza humana” e chegou a conclusão bem diferente de seus antecessores, conforme se observa no trecho abaixo. Outros poderão, desembaraçadamente, ir mais longe na mesma direção, sem que para ninguém seja fácil chegar ao término, pois não constitui empreendimento trivial separar o que há de original e de artificial na natureza atual do homem, e conhecer com exatidão um estado que não mais existe, que talvez nunca tenha existido, que provavelmente jamais existirá, e sobre o qual se tem, contudo, a necessidade de alcançar noções exatas para bem julgar de nosso estado presente”. ROUSSEAU, J.J. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. Coleção Os Pensadores. Trad. Lourdes Santos Machado. São Paulo: Abril Cultural, 1973, p. 234. Com base no trecho acima e em seus conhecimentos sobre o assunto, é correto afirmar que, para Rousseau, A) a natureza humana é inexistente, tudo o que somos deriva da educação. B) refletir sobre o estado de natureza permite compreender a vida política. C) é impossível distinguir o que há de original e artificial no ser humano. D) raciocinar a respeito do estado de natureza humana é uma tarefa inútil. QUESTÕES ENEM: QUESTÃO 01: “[...] é preciso que examinemos a condição natural dos homens, ou seja, um estado em que eles sejam absolutamente livres para decidir suas ações, dispor de seus bens e de suas pessoas como bem entenderem, dentro dos limites do direito natural, sem pedir autorização de nenhum outro homem nem depender de sua vontade.” LOCKE, John. Segundo Tratado sobre o governo civil. Trad. Magda Lopes e Marisa Lobo da Costa. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1994. p. 83. O filósofo inglês do século XVII, John Locke, foi um dos grandes teóricos do liberalismo, apresentando a propriedade como um direito natural. Partindo do texto, conclui-se que na condição natural, para o autor, A) os homens desconhecem a noção de justiça, pelo fato de inexistir um direito natural que assegure a ideia do “meu” e do “teu”. B) predominam a inimizade, maldade, violência e destruição mútua, características inerentes ao ser humano. C) proliferam os atos de agressão física, o que gera insegurança coletiva na manutenção dos direitos privados. D) existe uma tripartição dos poderes como forma de manter a coesão natural e respeitosa entre as pessoas. E) os homens se relacionam em uma relativa paz, que inclui a boa vontade, a preservação e a assistência mútua. QUESTÃO 04: “Não sendo o Estado ou a Cidade mais que uma pessoa moral, cuja vida consiste na união de seus membros, e se o mais importante de seus cuidados é o de sua própria conservação, torna-se-lhe necessária uma força universal e compulsiva para mover e dispor cada parte da maneira mais conveniente a todos. Assim como a natureza dá a cada homem poder absoluto sobre todos os seus membros, o pacto social dá ao corpo político um poder absoluto sobre todos os seus, e é esse mesmo poder que, dirigido pela vontade geral, ganha, como já disse, o nome de soberania.” ROUSSEAU, Jean-Jacques. Do contrato social. Trad. de Lourdes Santos Machado. 3.ed. São Paulo: Nova Cultural, 1994. p. 48. De acordo com o texto e os conhecimentos sobre os conceitos de Estado e soberania em Rousseau, é possível concluir que A) a soberania surge como resultado da imposição da vontade de alguns grupos sobre outros, visando a conservar o poder do Estado. B) o estabelecimento da soberania está desvinculado do pacto social que funda o Estado. C) o Estado é uma instituição social dependente da vontade impositiva da maioria, o que configura a democracia. D) a conservação do Estado independe de uma força política coletiva que seja capaz de garanti-lo. E) a soberania é estabelecida como poder orientado pela vontade geral e legitimado pelo pacto social para garantir a conservação do Estado. EXERCÍCIOS DE FIXAÇÃO: QUESTÃO 01 (UFU) Para John Locke, filósofo político inglês, os direitos naturais do homem eram A) família, propriedade e religião. B) liberdade, propriedade e servidão. C) propriedade, servidão e família. D) liberdade, igualdade e propriedade. E) família, religião e pátria. QUESTÃO 02 (UFU) John Locke (1632-1704) é considerado, na História da Filosofia, como o fundador do liberalismo político. Segundo este filósofo inglês, o Estado surge através de um contrato entre os indivíduos e deve ter como função básica A) controlar, de forma absoluta, a vida de todos os cidadãos. B) proteger os interesses dos que não possuem, contra os que possuem. C) promover a harmonia entre os grupos rivais, preservando os interesses do bem comum. D) garantir os privilégios da realeza e da Igreja na Inglaterra. QUESTÃO 03: (UFU) John Locke (1632-1704), vigoroso adversário do absolutismo, nos seus escritos políticos partiu da situação de que os homens isolados no estado de natureza buscaram se reunir por intermédio de um contrato social, tendo em vista a edificação da sociedade civil. Esta ação política associativa, quando concretizada, confere soberania ao: A) Poder Legislativo. B) Poder Executivo. C) Poder Federativo. D) Povo. QUESTÃO 04: (UFU) Marque a alternativa correta, considerando aquela que melhor completa o enunciado abaixo. Locke (final do séc. XVII e início do séc. XVIII) legitima a propriedade privada como direito natural, porque A) os homens, por natureza, nascem com o direito de possuir o que já existe e lhe é doado. Esse direito é dado por Deus. B) Deus é o artífice do mundo que, como obra do trabalhador divino, a ele pertence. O mundo é sua propriedade. Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, deu-lhe a possibilidade de, através do trabalho, ter direito à propriedade privada. C) os homens, sendo lobos dos homens, cercam as terras que ocupam e as defendem com armas, porque Deus permite aos homens conquistar e conservar a propriedade pela força do mais forte, a única lei. D) oshomens, em estado de natureza, vivem isolados pelas florestas, sobrevivendo com o que a natureza lhes dá, desconhecendo lutas e comunicando-se pelo gesto, grito e canto. QUESTÃO 05: (UFU) A relação homem-natureza consome a maior parte das obras de Rousseau, que seguiu uma direção peculiar assentada na crítica ao progresso das ciências e das artes. A este respeito, pode-se afirmar que I- prevalece, nos escritos de Rousseau, a moral fundada na liberdade, a primazia do sentimento sobre a razão e, principalmente, a teoria da bondade natural do homem. II- o bom selvagem ou o homem natural é dotado de livre arbítrio e sentido de perfeição, sentimentos esses corrompidos com o surgimento da propriedade privada. III- o bom selvagem, descrito por Rousseau, possui uma sabedoria mais refinada que o conhecimento científico, o que confirma a completa ignorância da cultura letrada. IV- Rousseau não defende o retorno do homem à animalidade, ao contrário, é preciso conservar a pureza da consciência natural, isto é, alcançar a verdadeira liberdade. Assinale a alternativa que apresenta todas as afirmativas corretas. A) I, III e IV B) II, III e IV C) I, II e IV D) I, II e III QUESTÃO 06 (UFU) Para Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), o contrato social que seja verdadeiro e legítimo é aquele que: A) os indivíduos pelo pacto reconhecem, como seus, os atos e decisões de alguém, não podendo, legitimamente, celebrar entre si um novo pacto no sentido de obedecer a outrem, seja no que for, sem sua licença. B) o indivíduo pelo pacto abdica de sua liberdade, mas sendo ele próprio parte integrante e ativa do todo social, ao obedecer à lei, obedece a si mesmo sendo, portanto, livre. C) pelo pacto, todos os homens associados se alienam totalmente, abdicam, sem reserva, de todos os seus direitos em favor da comunidade, mas somente os proprietários nada perdem, porque, somente eles, participam plenamente da sociedade civil. D) pelo pacto, os homens deixam de ser livres, pois o poder soberano deve ser absoluto, ilimitado, sendo que o pouco que seja conservado da liberdade natural do homem, instaura de novo o estado de guerra. QUESTÃO 07 (UFU) As assertivas abaixo referem-se ao pensamento político de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). I- No estado de natureza os indivíduos vivem isolados e vagueando pela imensa selva, sobrevivem com aquilo que a natureza lhes oferece, desconhecem as lutas; este estágio equivale ao estado de felicidade original: o homem é o bom selvagem. II- O que originou o estado de sociedade foi o aparecimento da propriedade privada, isto é, a divisão arbitrária que define o que é meu e o que é teu; tal situação, acarretou o rompimento do estado de felicidade original. III- O governante é o indivíduo que está investido da soberania, é ele que representa a vontade geral; sob esta situação política, o povo transfere de livre e espontânea vontade os seus direitos civis ao governante. Assinale a única alternativa que contém as afirmativas corretas. A) Apenas I e II. B) Apenas I e III. C) Apenas II e III. D) I, II e III. QUESTÃO 08 (UFU) Leia o trecho seguir. “Se o homem no estado de natureza é tão livre, conforme dissemos, se é senhor absoluto da sua própria pessoa e posses, igual ao maior e a ninguém sujeito, por que abrirá ele mão dessa liberdade, por que abandonará o seu império e sujeitar-se-á ao domínio e controle de qualquer outro poder?” LOCKE, John. Segundo Tratado sobre o governo. São Paulo: Nova Cultural, 1991, p. 264. Col. Os Pensadores. Apresente a resposta de John Locke a esta questão, explicitando: A) a razão que faz com que o homem saia do estado de natureza. B) quais direitos são garantidos no estado civil. QUESTÃO 09 (UFU) Interprete o fragmento abaixo. “O princípio da vida política reside na autoridade soberana. O poder legislativo é o coração do Estado, o poder executivo, o cérebro que dá movimento a todas as partes.” ROUSSEAU, Do contrato social. São Paulo: Abril Cultural, 1978. Col. Os Pensadores Defina, segundo Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), o conceito de soberania e, em seguida, explique em que essa concepção se diferencia dos outros contratualistas. QUESTÃO 10 (UFU) Leia o texto abaixo. A ordem social (...) é um direito sagrado que serve de base a todos os outros. Tal direito, no entanto, não se origina da natureza: funda- se, portanto, em convenções. Trata-se, pois, de saber que convenções são essas. ROUSSEAU, J. J. Do Contrato Social. 4ª ed. São Paulo: Nova Cultural, 1987. Responda: A) Porque, para Rousseau, a natureza não ordena a sociedade? B) Porque, para Rousseau, somente a convenção ordena a sociedade? Módulo 13: Dialética de Hegel e Marx GEORG WILLELM FRIEDRICH HEGEL (1770-1831) Tudo que é real é racional, tudo que é racional é real. Para entender a filosofia de Hegel, é conveniente situar alguns pontos básicos a partir dos quais se desenvolve a sua reflexão. O primeiro desses pontos é o entendimento da realidade como ESPÍRITO. Esse conceito desenvolvido a partir da filosofia de Fichte e Schelling, é ampliado ainda mais em Hegel. Entender a realidade como espírito, de acordo com a filosofia de Hegel, é entendê-la não apenas como substância (um enrijecimento do espírito, como pensava Schelling), mas também como sujeito. Isso significa pensar a realidade como processo, como movimento, e não somente como coisa (substância). O segundo ponto básico da filosofia Hegeliana diz respeito justamente a esse movimento da realidade. A realidade, enquanto espírito, possui uma vida própria, um movimento dialético. Por movimento dialético, Hegel quer caracterizar os diversos momentos sucessivos (e contraditórios) pelos quais determinada realidade se apresenta. Em seu texto Fenomenologia do Espírito, Hegel usa o exemplo da planta, desenvolvendo o seguinte raciocínio: “O botão desaparece no florescimento, podendo-se dizer que aquele é rejeitado por este; de modo semelhante, com o aparecimento do fruto a flor é declarada falsa existência da planta, com o fruto entrando no lugar da flor como a sua verdade. Tais formas não somente se distinguem, mas cada uma delas se dispersa também sob o impulso da outra, porque são reciprocamente incompatíveis. Mas, ao mesmo tempo a sua natureza fluida faz delas momentos da unidade orgânica, na qual elas não apenas não se rejeitam, mas, ao contrário, são necessárias uma para a outra, e essa necessidade igual constitui agora a via do inteiro”. Nesse exemplo, Hegel ressalta que a realidade não é estática, mas dinâmica, e em seu movimento apresenta momentos que se contradizem entre si, sem, no entanto, perderem a unidade do processo, que leva a um crescente auto-enriquecimento. Esse desenvolvimento, que se faz através do embate e da superação de contradições, Hegel denominou dialética. Embora esse termo apareça já na antiguidade, com Platão, em Hegel o conceito de dialética se aplica a algo totalmente distinto: não é um método ou uma forma de pensar a realidade, mas sim o movimento concreto da realidade. Por isso, para compreender o real, o pensamento também deve ser dialético. Hegel compreende esse movimento do real, ou do espírito que se realiza, como um movimento que se processa em três momentos: o primeiro, do Ser- em-si, o segundo, do Ser outro ou fora-de-si; e o terceiro que seria o retorno, do Ser para-si. Usando o exemplo da planta, ele distingue estes momentos dizendo: “A semente é em-si a planta, mas ela deve morrer como semente e, portanto, sair fora-de-si, a fim de poder se tornar, desdobrando-se, a planta para-si.” Nesse exemplo compreende-se que a realidade para Hegel é um contínuo devir, no qual um momento prepara o outro, mas, para que esse outro momento aconteça, o anterior tem que ser negado. Esses três momentos são comumente chamados de tese, antítese e síntese. Hegel os concebe como um movimento em espiral, ou seja, ummovimento circular que não se fecha, pois cada momento final, que seria a síntese, se torna a tese de um movimento posterior, de caráter mais avançado. Então: Dialética = Esse desenvolvimento, que se faz através do embate e da superação de contradições. Esses três momentos são comumente chamados de: Tese: a afirmação de algo, Antítese: negação da afirmação, Síntese: negação da negação. Compreender a dialética da realidade, segundo Hegel, exige um trabalho árduo da razão, que se deve afastar do entendimento comum e se colocar do ponto de vista do absoluto. Esse caminho da consciência que se afasta do conhecimento comum e se eleva ao saber absoluto é o objeto da reflexão do autor em sua obra já referida. Nela, Hegel afirma que a consciência que alcança o saber absoluto atinge a Razão, ou seja, supera o entendimento finito e adquire “a certeza de ser de toda a realidade”. Desse modo, a razão alcançaria a consciência da unidade entre ser e pensar, harmonizando a subjetividade e a objetividade. A RELAÇÃO ENTRE FILOSOFIA E HISTÓRIA O pensamento de Hegel se apresenta como um grande sistema, que permite pensar tanto a natureza, a realidade física, quanto o Espírito. O fio condutor dessa reflexão totalizante é a relação entre finito e infinito. Hegel acredita que o trabalho da filosofia é de superação do entendimento finito e limitado das coisas finitas e limitadas para alcançar o saber absoluto, que é o saber da coisa em si. Assim, nesse caminhar da consciência rumo ao saber absoluto, temos a busca da infinitude a partir da consciência finita. Como sistema filosófico, a obra de Hegel procura demonstrar esse caminho de conhecimento finito ao conhecimento absoluto em vários campos do saber, tanto em relação à natureza como ao Espírito. Em relação à natureza, Hegel reconheceu três momentos: O ESPÍRITO SUBJETIVO: que se refere ao indivíduo e à consciência individual. O ESPÍRITO OBJETIVO: que se refere às instituições e costumes historicamente produzidos pelos homens. O ESPÍRITO ABSOLUTO: que se manifesta na arte, na religião e na filosofia, como espírito que compreende a si mesmo. No que se refere à história, Hegel afirma que ela é o desdobramento do Espírito objetivo. O Espírito objetivo é a realização da liberdade na sociedade, e se manifesta no direito, na moralidade e na “eticidade”, englobando a família, a sociedade e o Estado. O Estado político é, na filosofia de Hegel, o momento mais elevado do Espírito objetivo, de forma tal que “o indivíduo só existe como membro do Estado”, conforme Hegel afirma em Princípios da Filosofia do Direito. Hegel diz ainda que “a história é o desdobramento do Espírito no tempo”. A filosofia da história deve captar o movimento histórico não como momentos estagnados, mas no ponto de vista da razão, do absoluto. Desse ponto de vista, a história é, segundo Hegel, uma contínua evolução da ideia de liberdade, que se desenvolve segundo um plano racional. Assim, os conflitos, as guerras, as injustiças, as dominações de um povo sobre outro devem ser compreendidos como contradições, como momentos negativos que funcionam como uma mola dialética que move a história. Usando os termos da dialética Hegeliana, esses momentos seriam a antítese, que contrapõe a tese, fazendo surgir uma etapa superior, que seria a síntese. Hegel sintetiza essa concepção com a frase: “Tudo que é real é racional, tudo que é racional é real”. Isso equivale a dizer que todas as coisas existentes, mesmo as piores fazem parte de um plano racional e que, portanto, têm um sentido dentro do processo histórico. Essa afirmação Hegeliana recebeu inúmeras críticas, já que pode levar a certo conformismo ou a uma passividade diante das injustiças. Nesse sentido pode-se classificar a concepção de História presente na obra de Hegel como teleológica (telos = fim, meta). Dessa forma existiria um objetivo a ser realizado ao longo do processo histórico, e esse seria a libertação do gênero humano. Assim, ao longo desse processo de civilização pelo qual vem passando a humanidade, aos poucos, os homens vão se tornando mais livres. Mas aquele que lê poderia se perguntar: quem concebeu esse objetivo? Ao que nosso autor responderia: a razão, o absoluto, espécie de divindade que permeia e se manifesta em toda a realidade existente. Outro elemento importante a ressaltar é que essa liberdade não é algo imanente à natureza humana e que se consolida facilmente, mas sim uma conquista das lutas humanas que só pode se consolidar no Estado, como objetivação das individualidades, e como limitador das atitudes de alguns em nome dos direitos de todos. Diferentemente, no entanto, dos contratualistas, Hegel não concebe um modelo político que possa ser considerado perfeito. Por isso se pode falar, em sua teoria, no Estado como processo histórico, ou seja, como um conjunto de instituições que, ao longo do tempo, vão se adequando às necessidades da sociedade civil em nome da realização do projeto que o absoluto tem para o gênero humano: sua liberdade. O fato de um indivíduo não saber desse projeto não significa que aquele não participa deste. Cada ser humano tem um papel na realização do projeto da liberdade, e cada momento histórico é importante para que o todo possa ocorrer. Ao fato do absoluto se utilizar da vida dos indivíduos sem que os mesmos saibam do que exatamente estão participando é denominado pelo autor de astúcia da razão. KARL MARX (1818 – 1883) Não é a consciência dos homens que determina o seu ser social, mas, ao contrário, é o seu ser social que determina sua consciência. A crítica ao idealismo Hegeliano. Karl Marx fez uma crítica do idealismo hegeliano na qual afirma que Hegel inverte a r elação entre o que é determinante – a realidade material – e o que é determinado – as representações e conceitos acerca dessa realidade. A filosofia idealista seria, assim, uma grande mistificação que pretende entender o mundo real, concreto, como manifestação de uma Razão absoluta. Contraponto sua filosofia ao idealismo de Hegel Marx afirma: “Os pressupostos com os quais começamos não são arbitrários, nem dogmas, são pressupostos reais dos quais só é possível abstrair na imaginação. Os nossos pressupostos são os indivíduos reais, a sua ação e as suas condições materiais de vida”. Marx procurou, portanto, compreender a história real dos homens em sociedade a partir das condições materiais nas quais eles vivem. Essa visão da história foi chamada posteriormente, por seu companheiro de estudos Friedrich Engels, materialismo-histórico. VISÃO MATERIALISTA DA HISTÓRIA Marx, juntamente com Friedrich Engels, é o pai de uma corrente de pensamento denominada de materialismo histórico dialético. Nela, a apreensão da lógica do processo histórico é essencial para se entender a realidade, premissa presente no idealismo hegeliano. Também nela, o movimento do real é causado pela oposição constante de polos antagônicos, outro pressuposto do hegelianismo. Onde se encontra, então, a diferença entre os dois autores? No fato de que, enquanto a determinação da realidade se dá das ideias humanas para o mundo concreto, na teoria de Hegel, para Marx, as condições materiais são o fator determinante, sendo responsáveis pela posterior modificação das formas de pensar. Acompanhemos uma afirmação do próprio autor nos Manuscritos Econômico Filosóficos: Mas, ao conceber a negação, segundo a relação positiva que lhe é inerente, como o verdadeiro e único positivo, e segundo a relação negativa, que nela reside, como único verdadeiro ato e como o ato autoconfirmativo de todo o ser, Hegel descobriu apenas a expressão abstrata, lógica, especulativa do processo histórico, que não é ainda a história real do homem enquanto sujeito pressuposto, mas só a história do ato da criação da gênese do homem. Consequentemente pode-se compreender os pressupostos metodológicos marxianos da seguintemaneira: as condições materiais de uma sociedade, seu estágio mais ou menos avançado de evolução, determina todas as suas outras possibilidades históricas; a contradição, que é responsável por gerar o movimento da realidade, é também material, e se manifesta, sobretudo, nas classes sociais antagônicas. Não é por acaso que Marx afirma, categoricamente, no Manifesto do Partido Comunista que a história de todas as sociedades que existiram até hoje tem sido a história da luta de classes. Agora sim, compreendida a visão de mundo do autor, conseguimos entender a escolha de seu objeto de pesquisa. Para a doutrina marxiana, assim, aquele que desejar compreender a dinâmica de uma sociedade deverá procurar, primeiramente, dominar intelectualmente a relação entre as classes sociais que, segundo Marx, tende a ser sempre antagônica. Mas o que se deve compreender por classe social? De forma bem simplificada, a mesma consiste em um grupo de indivíduos que possui uma mesma condição ou que realiza uma mesma função – primeiramente econômica, mas decorrendo daí os aspectos políticos, religiosos, morais, artísticos, dentre outros – em um determinado modo de produção. Por modo de produção compreende-se aqui o conjunto formado pelas forças produtivas e das relações sociais de produção de um determinado momento histórico. De acordo com Marx, até o momento em que ele escreve, quatro modos de produção teriam se consolidado historicamente: modo de produção tribal ou asiático, marcado por uma economia de subsistência, com uma divisão simples do trabalho; modo de produção antigo ou greco-romano, definido pelas relações escravistas; modo de produção feudal, caracterizado pela presença da servidão e da vassalagem e modo de produção capitalista, com relações de trabalho livre e assalariado e a consolidação da propriedade privada dos meios de produção. Por relações sociais de produção aqui se designa o conjunto das formas de organização dos homens para produzir e reproduzir a sua existência em determinado momento histórico, sendo as mesmas sempre dependentes do estágio de desenvolvimento das forças produtivas. Por forças produtivas compreendem-se todas as condições materiais para a produção da vida do homem, tais como a matéria-prima, a terra, as sementes, as máquinas, a mão- de-obra. Desse modo, nota-se claramente que o jogo das classes está intimamente ligado com as condições materiais existentes em um período. Esperamos que no prosseguimento dos nossos estudos essa relação seja no seu restante esclarecida. Infra Estrutura e Superestrutura. Para uma melhor compreensão da teoria marxiana, faz-se necessário estudar, mesmo que de forma um pouco superficial, sua filosofia da história, ou seja, seu entendimento sobre como a história funciona. Para tanto, um dos roteiros possíveis é a assimilação das noções de infra e superestrutura, tal como são apresentadas em obras como o Manifesto do Partido Comunista e a Ideologia Alemã. Vale lembrar, antes de tudo, que a separação entre essas duas estruturas é puramente teórica e didática, não ocorrendo da mesma maneira na realidade concreta, na qual as mesmas se confundem. Por infraestrutura compreende-se toda a base material de uma sociedade qualquer, concebida como uma somatória das forças produtivas materiais – ou seja, das condições materiais para a produção e reprodução da vida humana – e das relações sociais de produção – as formas diversas de organização dos homens ao produzir, principalmente no que diz respeito às formas de apropriação das forças produtivas. A superestrutura, ao contrário, corresponde ao imenso campo ideológico presente em toda a sociedade. Na mesma estão presentes, por exemplo, as noções políticas, manifestas principalmente no Estado, as relações espirituais que se apresentam por meio das religiões, a moral, o direito, as várias possibilidades de expressão artística ou estética, a filosofia ou as filosofias e as possibilidades de ciência. Resumida a composição das estruturas, nos é possível comentar um pouco a relação entre as mesmas. De acordo com Marx, existe uma tendência histórica da humanidade ao desenvolvimento de forças produtivas materiais. No entanto, como já foi dito anteriormente, sempre que ocorre uma modificação das forças produtivas, as relações sociais de produção também se alteram, por serem dependentes das primeiras. Essa alteração, em um primeiro momento é tênue, pois as formas de organização e de apropriação dos homens ao produzirem e reproduzirem a sua existência possuem alguma flexibilidade. Em algumas ocasiões na história, porém, a flexibilidade das relações sociais de produção chega ao seu limite, e chega-se a um momento que Marx descreve como uma contradição entre as forças produtivas materiais, que tendem a se desenvolver, e as relações sociais de produção, que não suportam mais o seu desenvolvimento. Esse momento é denominado pela teoria marxiana de revolução. A tendência observada por esses estudos é de que as forças produtivas materiais continuem seu desenvolvimento, destruindo as relações existentes e inaugurando novas formas de organização que permitam a continuidade de seu fluxo evolutivo. Sobre esse tema afirma Marx que nenhum modo de produção desaparece antes que todas as forças produtivas do modo de produção posterior tenham se desenvolvido dentro dele. Nota-se claramente a influência da dialética hegeliana, que afirma que um momento gera em se próprio anterior a sua negação. O resultado imediato de uma revolução é a mudança total da infraestrutura material, inaugurando novas relações sociais de produção, como ocorreu, segundo Marx, na transição do feudalismo para o capitalismo. Analisemos uma citação do Manifesto do Partido Comunista: A antiga organização feudal da indústria, em que esta era circunscrita a corporações fechadas, já não podia satisfazer às necessidades que cresciam com a abertura de novos mercados. A manufatura a substituiu. A pequena burguesia comercial suplantou os mestres das corporações; a divisão do trabalho entre as diferentes corporações desapareceu diante da divisão do trabalho dentro da própria oficina. Mais ou menos rapidamente, de acordo com a concepção marxiana, toda superestrutura existente anteriormente tende também à modificação. Um exemplo talvez torne mais claro esse conjunto de ideias: somente com a existência de uma classe burguesa o liberalismo – concepção política notoriamente reputada à burguesia – poderia ter sido amplamente defendido. De acordo com Marx não é possível o surgimento de um conjunto de ideias sem que se apresentem as condições materiais para a mesma, e isso vale para todas as formas superestruturais. Ao votarem os eleitores acreditam que uma modificação política poderá mudar um determinado contexto econômico. Insatisfeito com uma gestão “x”, um conjunto de membros da sociedade civil votam em sua oposição frontal, mas, para sua surpresa, a gestão da oposição hora eleita não se diferencia muito da anterior (qualquer semelhança é mera coincidência). Marx ficaria decepcionado com o pleito eleitoral? Resposta: não. O motivo para isso é simples: Não falamos de mudanças infraestruturais, mas do sonho de que elas fossem realizadas pelo meio político. Como vimos acima, porém, as mesmas não são possíveis, pois não existe modificação na superestrutura antes de algo ocorrer na infra. Assim sendo, nenhuma transformação de ordem política pode realmente interferir consideravelmente na economia, visto que a infraestrutura condiciona a superestrutura. Vejamos por meio de uma citação do prefácio à Contribuição à crítica da economia política, como o próprio autor nos apresenta isso: Na produção social de sua vida, os homens estabelecem determinadas relações necessárias, independentes da sua vontade, relações de produção que correspondem a uma determinada fase do desenvolvimento das suas forças produtivas materiais. O conjunto dessas relações de produção