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1 Rui Trindade Ariana Cosme Educar e aprender na Escola: Questões, desafios e respostas pedagógicas Outubro 2009 2 ÍNDICE Introdução A escola como espaço de formação: Que implicações educativas? Educar e aprender: Perspectivas em debate e implicações educativas O paradigma pedagógico da instrução: Educar é ensinar? O paradigma pedagógico da aprendizagem: A auto-suficiência educativa em debate O paradigma pedagógico da comunicação: Educar é interpelar e ser interpelado no seio de uma comunidade de aprendizagem O professor como interlocutor: Contributo para uma acção educativa qualificada Apoio ao trabalho e às actividades de aprendizagem dos alunos o Aulas expositivas o Apoio tutorial o Apoio à realização de actividades relacionadas com o estudo o Animação e gestão dos trabalhos de grupo o Discussões em pequenos grupos o Animação de Oficinas o Dramatização (Role-Play) o Apoio a actividades de pesquisa Estudos de caso Visitas de estudo A aprendizagem através da utilização de genealogias Entrevistas Actividades de observação o Apoio a actividades de resolução de problemas o Apoio ao desenvolvimento de projectos A metodologia de projecto Projectos de intercâmbio escolar 3 As situações-problema o Actividades de publicitação e partilha dos trabalhos realizados A organização de painéis de debates A produção de álbuns A elaboração de relatórios Organização social do trabalho de aprendizagem Promoção de situações de reflexão por parte dos alunos o A explicitação e a construção de critérios de avaliação o O portefólio Conclusão Referências bibliográficas 4 ÍNDICE DE FIGURAS Figuras Tema Páginas Fig. 1 Quadro global de acções de intervenção educativa Fig.2 Roteiro de uma aula expositiva Fig.3 Procedimentos a seguir no âmbito da realização de uma aula expositiva Fig.4 Actividades de apoio tutorial Fig.5 Roteiro de apoio à leitura global de um texto Fig.6 Roteiro de apoio à leitura compreensiva de um texto Fig.7 Mapa de ideias Fig.8 Esquema: Relações de causa-efeito Fig.9 Esquema: Texto que estabelece categorias Fig.10 Roteiro de apoio à produção de resumos de textos Fig.11 Roteiro de apoio à elaboração de um trabalho de grupo (Fase da planificação) Fig.12 Roteiro de apoio à elaboração de um trabalho de grupo (Fase do desenvolvimento) Fig.13 Roteiro relativo à gestão das discussões em pequenos grupos Fig.14 Roteiro de animação de Oficinas Fig.15 Guião de apoio ao desenvolvimento de um «role-play» Fig.16 Roteiro relativo ao desenvolvimento dos estudos de caso Fig.17 Roteiro relativo ao desenvolvimento de visitas de estudo Fig.18 Roteiro relativo à utilização do projecto das genealogias Fig.19 Guião de apoio ao desenvolvimento do questionário no âmbito do projecto das genealogias Fig.20 Retrográfico Fig.21 Roteiro de análise das fotografias Fig.22 Roteiro relativo à organização e concretização de entrevistas Fig.23 Guião de apoio a actividades de observação sem roteiro Fig.24 Guião de apoio a actividades de observação com roteiros Fig.25 Exemplo de um roteiro Fig.26 Exemplo de um roteiro Fig.27 Exemplo de um roteiro Fig.28 Roteiro de apoio à resolução de problemas (Fase da Planificação) Fig.29 Roteiro de apoio à resolução de problemas (Fase da Execução) Fig.30 Guião de apoio à utilização dos problemas do quotidiano como dispositivos pedagógicos Fig.31 Quadro relativo aos dispositivos pedagógicos subordinados a uma racionalidade de projecto Fig.32 Guião de apoio ao desenvolvimento da Metodologia de Projecto 5 Figuras Tema Páginas Fig.33 Roteiro de avaliação intermédia Fig.34 Roteiro da avaliação final Fig.35 Quadro de identificação dos projectos de intercâmbio escolar Fig.36 Roteiro relativo aos projectos de intercâmbio subordinados à troca de experiências Fig.37 Roteiro relativo aos projectos de intercâmbio subordinados à concretização de um projecto Fig.38 Situação-problema: Que finalidades? Fig.39 Situação-problema: Operacionalização Fig.40 Roteiro referente à operacionalização de uma situação-problema Fig.41 Exemplo de uma situação-problema Fig.42 Quadro de actividades relacionadas com a publicitação e a partilha dos trabalhos realizados Fig.43 Quadro referente aos tipos de painéis de debates Fig.44 Roteiro relativo à produção de um álbum Fig.45 Roteiro relativo à estrutura genérica de um relatório Fig.46 Roteiro referente ao corpo do relatório de uma investigação laboratorial Fig.47 Roteiro referente ao corpo do relatório de uma visita de estudo Fig.48 Roteiro referente ao corpo do relatório de uma actividade oficinal Fig.49 Esquema da organização geral do Modelo Pedagógico do Movimento da Escola Moderna Portuguesa Fig.50 Caracterização do Conselho de Cooperação Educativa Fig.51 Caracterização do Tempo de Estudo Autónomo Fig.52 Caracterização das sessões colectivas Fig.53 Caracterização do Tempo de Trabalho em Projectos Fig.54 Exemplo de uma parte de um Projecto Curricular de Turma Fig.55 Exemplo de uma agenda da semana Fig.56 Diário de Turma Fig.57 Exemplo de um Plano Individual de Trabalho Fig.58 Ficha de registo de projectos Fig.59 Ficha de registo das tarefas que cada aluno deverá assumir na sala de aula Fig.60 Ficha de registo relacionada com a correspondência inter-escolar Fig.61 Fichas de registo de leituras e de textos Fig.62 A centralidade da organização social do trabalho de aprendizagem: Sintaxe do modelo Fig.63 Exemplo de critérios de avaliação dos projectos Fig.64 Roteiro relacionado com a construção de um portefólio 6 Introdução A reflexão em torno da Escola e dos projectos de educação escolar não é, hoje, uma tarefa fácil de empreender, dada a centralidade da instituição escolar em sociedades que se caracterizam como sociedades do conhecimento. É face a tal centralidade que, por um lado, é difícil estabelecer consensos em torno das finalidades políticas, sociais e educativas das escolas, o que se explica quer por via do tipo de confrontos ideológicos que se têm vindo a travar em torno das dinâmicas democratizadoras das sociedades em que vivemos, quer por via do conjunto de expectativas, nalguns casos excessivas, relativamente ao impacto da acção da Escola nas vidas de todos nós. É tendo em conta este cenário que importa contribuir para aquela reflexão de forma sustentada e estrategicamente pertinente, já que nos defrontamos, igualmente, com um desafio marcado por tensões, equívocos e lugares comuns que importa problematizar e discutir. Neste livro são algumas dessas tensões, dessas contradições, desses equívocos e desses lugares comuns, relacionados especificamente com o processo de aprendizagem dos alunos e a intervenção educativa dos professores, que justificam a sua publicação. Um espaço onde se reconhece a existência de um património de reflexões vasto, diverso e consolidado, sem que isso signifique que estamos perante um património indiscutível. As opiniões que a imprensa divulga, os pareceres que os especialistas elaboram, os estudos que se apresentam ou os discursos e as acções que os professores protagonizam aí estão para demonstrar como a temática da educação e da aprendizagem nos coloca perante problemas não só no domínio das práticas, mas também, e ainda, no domínio das reflexões teóricas e da construção das abordagens de natureza conceptual que se relacionam com essa temática. É, aliás, a partir deste mesmo pressuposto que se justifica a obra queagora se apresenta. É também em função de um tal pressuposto que a mesma se organiza em três capítulos que visam, assim e acima de tudo, promover a reflexão sobre a relação entre o acto de ensinar e o acto de aprender no seio da Escola. Um propósito que legitima o facto de, no primeiro capítulo, se evidenciar a necessidade de se reflectir sobre a Escola como uma variável estruturante que determina a ocorrência e o sentido daquela relação, a qual se configura, de acordo com esta perspectiva, como uma relação local e singular. É essa singularidade que, na nossa perspectiva, importa valorizar como um facto maior, de forma a compreender-se que aquela relação terá que ser entendida, acima de tudo, 7 como uma relação que se constrói e justifica em função de um conjunto de acontecimentos culturais que se estimula e se deseja em nome de um projecto que, acabando por ser um projecto pessoal, não deixa de ser, do ponto de vista dos interesses que o animam e das suas finalidades, um projecto que transcende todos aqueles que são os seus principais protagonistas. Será no segundo capítulo deste livro, na sequência da afirmação que a relação entre o acto de educar e o acto de aprender nas escolas é um acto sujeito a constrangimentos culturais diversos que não se podem iludir ou ignorar, que empreendemos a caracterização de três paradigmas pedagógicos, o da instrução, o da aprendizagem e o da comunicação, em função dos quais tentamos delimitar as fronteiras do debate sobre aquela relação, de forma a demonstrarmos, posteriormente, que a alternativa ao paradigma da instrução é o paradigma da comunicação e não o paradigma da aprendizagem. Como se constata, não pretendemos produzir uma reflexão neutral, já que o nosso propósito será o de tentar responder a uma questão nuclear: «Como é que o que o contacto e a apropriação de uma fatia decisiva do património cultural que temos ao nosso dispor, aquele que se encontra politicamente legitimado e socialmente validado, pode contribuir para que cada se possa afirmar como pessoa no seio da comunidade em que habita?» Uma questão que, por um lado, só é possível reconhecendo que é a Escola que privilegiamos como o espaço que elegemos para reflectir sobre a relação entre educação e aprendizagem e, por outro, que nos obriga a inventariar todas as respostas possíveis e pertinentes que possam existir para enfrentar aquela mesma pergunta. Será, assim, em função desse inventário, e do confronto posterior que se estabelece entre as respostas a que o mesmo confere visibilidade, que se procura mostrar, por fim, como o já referido paradigma da comunicação é aquele que propõe as propostas mais capazes de enfrentar o desafio educativo que, em si, a questão atrás referida encerra. O terceiro capítulo, finalmente, é o espaço que dedicamos a abordar o impacto e as implicações, em termos de práticas pedagógicas, da opção pelo paradigma pedagógico da comunicação como paradigma de referência no âmbito da construção de um projecto de educação escolar congruente com os princípios e os valores próprios de uma sociedade democrática. Um projecto que, por isso e na nossa perspectiva, obriga a conceber o papel dos alunos e dos professores em função de parâmetros distintos daqueles que configuram quer as abordagens pedagógicas mais conservadoras, quer as abordagens pedagógicas que se foram construindo sob a égide do que poderemos 8 designar por pedagogias da aprendizagem. Foi, pois, neste capítulo que nos propusemos definir a actividade dos professores como interlocutores qualificados, o que nos conduziu a explicitar, num primeiro momento, as dimensões estruturantes que possibilitam caracterizar tal actividade e, no âmbito de cada uma dessas dimensões, a identificar, a discutir e a problematizar, em segundo lugar, as actividades e os dispositivos pedagógicos em função dos quais aquela actividade se constrói e se configura. Foi, finalmente, na conclusão do livro que abordamos e evocamos, de forma retrospectiva, as principais ideias que permitem afirmar a necessidade de concebermos a relação entre o acto de educar e o acto de aprender como um acto de comunicação. Acto este que obriga a repensar os termos em que se define o protagonismo dos alunos, bem como os termos em que se define o processo de influência educativa que os professores animam no seio das escolas, de forma a que estes não alimentem, por um lado, ilusões sobre as suas possibilidades de determinarem o que os seus alunos possam ser e aprender, nem caiam na tentação de renunciar, por outro lado, à sua condição de educadores e aos compromissos a que tal condição os obriga. 9 A escola como espaço de formação: Que implicações educativas? Não é possível abordar-se o acto de educar ou o acto de aprender no âmbito das escolas como actos dissociados dos compromissos políticos, culturais e formativos que justificam a sua existência como um espaço singular de socialização que se foi afirmando progressivamente, a partir sobretudo do séc. XVIII, como um contexto educativo tão incontornável quanto inevitável no mundo e nas sociedades em que vivemos. Por isso, só é possível compreender aqueles actos, compreendendo que a Escola não é nem uma organização dissociada de um tempo e de um espaço histórico específicos, nem constitui, tão pouco, uma organização que possa ser abordada em função de uma abordagem ingénua acerca da sua natureza educativa e das finalidades políticas, sociais, culturais e educativas que persegue. Importa reconhecer, por isso, que o processo de escolarização das sociedades ocidentais não aconteceu nem por acaso, nem ao acaso. Segundo Barroso (1995), a emergência da Escola ocorreu devido a um conjunto diverso e específico de razões que, sem serem mutuamente exclusivas, poderão ser enquadradas em diferentes categorias, a saber: (i) razões de natureza militar, como, por exemplo, no caso dos sistemas educativos francês e prussiano, onde assumiram uma importância decisiva para explicar a emergência e afirmação da Escola; (ii) razões relacionadas com a construção e solidificação da unidade nacional, como o caso dos Estados Unidos da América constitui um dos melhores exemplos de que podemos dispor; (iii) razões de carácter religioso, nos países que aderiram à Reforma; (iv) razões que as necessidade e as exigências inerentes às revoluções industriais, ocorridas no Norte e no Centro da Europa, também explicam; (v) razões relacionadas com as transformações profundas, de natureza cultural, das quais a universalização da linguagem escrita constitui uma das suas expressões mais poderosas, pelo facto das práticas de escrita serem constitutivas “de novas formas de relações sociais e, por consequência, de novos tipos de relacionamento com o mundo e com os outros” (Lahire, 1993, p.15)1 e (vi) razões vinculadas à existência prévia de condições político- 1 Importa reconhecer, neste ponto, que a escrita não poderá ser abordada, apenas, como um mero exercício de reprodução ou de transcrição dos enunciados orais (Rey, 2000). Veja-se, por exemplo, como o poder dos Estados modernos utilizaram a escrita como um instrumento de afirmação desse poder, enquanto condição do exercício de uma actividade política que se afirma como uma prática social profundamente dependente das regras escritas, objectivadas, impessoais e aplicadas de forma universal para resolver os casos particulares no âmbito de um determinado território. O caso francês é, sob este 10 adminsitrativas favoráreis em países que, como Portugal sob a tutela do Marquês de Pombal, construíram os seus sistemas educativos a partir e em função desse facto. Como se pode verificar a afirmação política e social da Escola não admite leituras casuísticas ou descontextualizadas da realidade, atéporque, para além das razões enunciadas, há que valorizar dois tipos de factores invariantes que, pese a singularidade das situações e das conjunturas históricas em presença, contribuem para que possamos compreender melhor a Escola como uma organização educativa que não poderá deixar de ser abordada como uma organização subordinada a compromissos de natureza política e cultural que, de algum modo, a transcendem e que, por isso, não poderão ser ignorados ou iludidos quando a abordamos como instituição educativa. Quer o papel do Estado na construção de sistemas educativos e na adopção de medidas políticas tendentes a valorizar o papel da Escola como contexto de formação imprescindível, quer a dimensão transnacional do movimento que sustenta e confirma tais decisões (Barroso, 1995; Nóvoa & Schriewer, 2000) são os factores invariantes que confirmam o facto da Escola da emergência da escola não poder ser entendido como um acontecimento aleatório ou despido de intenções políticas, sociais e culturais. Tomás Tadeu da Silva considera-a como a instituição que melhor corporiza o projecto da Modernidade (Silva, 1997) porque, para além de ser modelada pelos desígnios e os valores que inspiraram tal projecto, competiu-lhe, igualmente, difundi-lo e, deste modo, contribuir para a aceitação e a naturalização social de tais desígnios e de tais valores. Veja-se, por exemplo, como a ideologia do progresso, garantida pela crença nas possibilidades da Razão e da Ciência, é, em larga medida, credora do papel que a aspecto, um caso exemplar quando se constata que o Código Civil, o Código de Procedimento Civil, o Código Penal e o Código de Instrução Criminal são redigidos entre os anos de 1804 e 1811 (Lahire, 1993). Trata-se de um investimento na codificação de saberes que ocorre entre os séculos XVII e XIX que constituem a expressão de um tempo em transformação acelerada, relacionada com as transformações de natureza diversa que tiveram lugar no Ocidente no decurso desse período que corresponde ao desenvolvimento de “sociedades mais sofisticadas, competitivas e conflituais, progressivamente assentes no tecido urbano, que necessitam de formas de controlo e de gestão mais complexas” (Candeias, 2001, p.28). É neste sentido que a universalização e a importância da escrita pode ser entendida como um instrumento de racionalização, organização e controlo social necessário às exigências globais das sociedades emergentes no século XVI. Conclui-se, então, que também a universalização e a importância da escrita pode ser entendida como uma manifestação da Modernidade, ou pelo menos pode ser considerada como um instrumento que a Modernidade incentivou de forma explícita, se bem que, também, de modo assimétrico e selectivo, no âmbito de uma trama onde se entrelaçam a Filosofia das Luzes, a afirmação dos Estados-Nação e as transformações decorrentes do processo de industrialização. A articulação entre a universalização da escrita e a universalização da Escola pode começar por ser abordada, então, a partir deste vínculo de pertença à Modernidade. Um vínculo que é simultaneamente causa e efeito do facto das práticas sociais se organizarem progressivamente em função de práticas de escrita. 11 instituição escolar assumiu na sua divulgação. Do mesmo modo que a crença na possibilidade da afirmação de um sujeito mais autónomo, livre e racional, capaz de consubstanciar, em si, a nova ordem política subsequente à extinção dos privilégios hereditários do Antigo Regime, é outro dos contributos que tendem a legitimar a Escola, agora, como um instrumento de mobilidade social. Um contributo que, neste contexto, se afirma pelo modo como se acredita que as escolas poderão participar na “reforma da humanidade” (Matos, 1999, p.80), a qual ocorrerá, de acordo com essa crença através da “iluminação do espírito, pela instrução” (Matos, 1999, p.80). Ou seja, o acesso ao conhecimento seria, assim, um dos factores mais decisivos da reforma que o Projecto da Modernidade anunciava, quer no momento em que poderia assegurar a possibilidade de se transitar do regime da servidão feudal para o regime de liberdade que a burguesia reinante anunciava e prometia, quer, igualmente, quando conferia centralidade ao papel que a razão humana poderia assumir no âmbito desse processo de transição. É perante um cenário desta natureza que teremos que abordar e interpelar a natureza e os sentidos do modelo de educação para o qual contribuíram, de algum modo, as crenças, os pressupostos e os compromissos que sustentaram a afirmação da Escola como uma instituição educativa que deixou de ser progressivamente uma opção para passar a ser, como refere Nóvoa (1995), um investimento social inevitável. Tendo em conta tais crenças, tais pressupostos e tais compromissos importa, agora, compreender como é que aquele modelo educativo participou na concretização do projecto de educação específico que a Escola inaugurou. Um projecto que, recorde-se, visava garantir a homogeneização cultural e política de uma comunidade, em função da qual se tornasse possível, num primeiro momento, construir a ideia de Nação, colectivo de indivíduos que tendem a partilhar uma identidade e um território comuns, assegurando, assim e por esta via, quer a aceitação e a apropriação das novas modalidades de controlo social e político, conformes à matriz civilizacional do projecto da Modernidade, quer, de forma articulada com tal propósito, assegurando, também, a subordinação dos indivíduos ao primado da Razão, o que permitiria aceitar a crença de que é possível tanto aceder ao saber verdadeiro, como aceitar, sem se interpelar, a existência «apriori» desse tipo de saber. Deste modo, legitimar-se-ia o direito, e o dever, de dizer aos outros, privados desse saber, aquilo que deveriam fazer, como comportar- se, que fins deveriam perseguir e que meios poderiam utilizar para cumprir tal objectivo (Magalhães, 1998). 12 Em suma, o modelo de educação que se inaugura através da emergência da Escola nas sociedades ocidentais, no século XVIII, inaugura, também, uma ruptura com os modelos de socialização vigentes ao definir que a socialização das gerações mais jovens passa a ser partilhada, pela primeira vez na história da humanidade, com uma instituição que legitima a sua existência pela assunção de uma tarefa educativa dessa grandeza. Uma tarefa que terá que ser compreendida em função dos desafios e das exigências que se colocam a sociedades envolvidas em processos de transformação inédita e profunda que conduzem, sob a inspiração do signo das Luzes, a atribuir à Escola um papel decisivo na construção da nova ordem civilizacional emergente com o Projecto da Modernidade. Quando Coménio, ainda no séc. XVII, invoca, no capítulo VIII da «Didáctica Magna», justamente intitulado “É necessário ao mesmo tempo, formar a juventude e abrir escolas” (Coménio, 1985, p.135), as seis razões que justificam a necessidade das novas gerações passarem a ser educadas em contextos educativos tão especializados como as escolas deverão ser, não faz mais do que afirmar a necessidade destas escolas serem um dos instrumentos fundamentais ao serviço da construção de um projecto mais amplo, através do qual se visa promover, afinal, a redenção da humanidade. Um projecto que, dadas as suas ambições, não poderá continuar a ser assegurado, apenas, pelas famílias e pelas comunidades. Estas são entendidas como incapazes de dar conta da obra educativa que os novos tempos exigem, pois, segundo Coménio, “raramente os pais estão preparados para educar bem os filhos, ou raramente dispõem de tempo para isso” (obra citada, p.136), daí a necessidade de “haver pessoas que façam apenas isso como profissão e desse modo sirvam a todaa comunidade” (idem). É, assim, em coerência com o projecto sumariamente descrito que se afirma o que Vincent, Lahire e Thin (1994) designam por «forma escolar», o modelo educativo através do qual se pretende caracterizar o modo de socialização dominante que as escolas pretendem promover. Um modelo que os autores em causa definem em função: (i) da valorização e universalização de um espaço educativo específico e fechado, que, por isso, tende a manter uma relação insular face aos restantes espaços sociais em função dos quais nos construímos e afirmamos como pessoas; (ii) da valorização de uma concepção de aprendizagem que entende o ver-fazer e o ouvir como condições suficientes para se concretizar o acto de aprender, dissociando-se, assim, o momento em que se aprende do momento em que se faz, porque, mais do que aprender uma prática, se aprende, sobretudo, um conjunto de informações sobre essa prática (Rey, 2000); (iii) 13 da organização criteriosa do espaço e da racionalização minuciosa do tempo de trabalho escolar e (iv) da importância atribuída ao método e às regras no âmbito do processo de transmissão do saber, os quais visam não só assegurar as aprendizagens dos alunos, como promover, igualmente e por esta via, a conformidade social através da organização deliberada de uma relação de subordinação, quer dos alunos, quer dos professores, a normas de carácter impessoal. Eis-nos, deste modo, perante um modelo educativo que inaugura um outro modo de conceber as acções de natureza educativa e formativa que, devido aos pressupostos que o sustentam, se afirma em função da desvalorização da experiência dos aprendentes, não se reconhecendo, assim, a importância formativa dos seus adquiridos experienciais (Canário, 1999). Uma propriedade que, segundo Canário (1999), se explica pelo facto daquelas acções, sob a égide desse modelo, não terem em conta as condições concretas em que ocorrem e se desenvolvem; pelo facto de se acreditar que um acto educativo se afirma, sobretudo, pela sua vertente técnica, na medida em que, de acordo com tal perspectiva, é esta vertente que permite salvaguardar esses actos das situações de imprevisibilidade quanto aos resultados a obter; pelo facto, também, daqueles que aprendem serem entendidos em função de uma lógica deficitária que competirá à educação escolar ajudar a resolver; pelo facto, ainda, de “a prática manter em relação à teoria uma mera relação de aplicação” (Canário, 1998, p.3); pelo facto, finalmente, de se valorizar, também, ao nível da produção de conhecimentos, de “um processo de cumulatividade, em que a lógica do armazenar e repetir informações se sobrepõe à lógica de produção de saber” (idem). Uma situação que conduz a que as escolas se afirmem como contextos onde de forma constante e sistemática se colocam perguntas, com a particularidade das respostas já serem previamente conhecidas. Por outro lado, e ao contrário do que acontece em situações originadas por uma curiosidade legítima, quem coloca as perguntas são (regra geral) aqueles (os professores) que já sabem as respostas. Estas pré- -existem às questões e correspondem a um conhecimento produzido e importado do exterior da instituição escolar. Por outro lado ainda, aqueles que antes de entrar na escola (as crianças) eram peritos em questionar os alunos (frequentemente de forma embaraçante) passam a ser desencorajados de o fazer e convidados a aprender «boas» 14 respostas, para questões que, também com frequência, não lhes interessam. (Canário, 1999: 103). Ainda que pensemos que a «forma escolar», tal como Vincent, Lahire e Thin (1994) ou Canário (1998; 1999) a propõem, exprima, na nossa opinião, uma abordagem demasiado circunscrita do modelo de educação escolar, através da qual se subordina este modelo ao que pode ser considerado como paradigma pedagógico da instrução, cremos que é necessário, mesmo assim, reconhecer que existe um modelo de educação que permite caracterizar a Escola como um espaço de formação específico. Um modelo que tenha em conta os compromissos que justificam a sua existência como instituição vocacionada para assumir um determinado conjunto de responsabilidades educativas que, em larga medida, poderão ser definidas em torno da necessidade das escolas contribuírem para que os seus alunos possam contactar e apropriar-se de uma parte significativa do património cultural que é entendido como necessário para se afirmarem como pessoas no mundo e nas sociedades contemporâneas. Património este que poderá ser configurado como um conjunto de informações, instrumentos, procedimentos, atitudes e valores, o qual é não só objecto de consensualização política, como, igualmente, de um processo de validação cultural suficientemente exigente e capaz. Será esse património que estará na origem da construção dos curricula escolares, os quais podendo ser objecto de interpelação não podem ser recusados como um dos pólos educativos incontornáveis no âmbito dos projectos de educação que se promovem no seio das escolas. Neste sentido, conclui-se que há um modelo de educação escolar porque a Escola, ainda que possa interpretar as finalidades que a justificam a partir de perspectivas diferentes e até antagónicas, não pode ignorar, contudo, a importância de tais finalidades e as implicações das mesmas em termos dos compromissos educativos a que essas finalidades obrigam. Neste sentido, o modelo de educação escolar, como modelo educacional singular e específico, pode começar por ser identificado em função da necessidade de se reconhecer a existência de intenções educativas prévias, através das quais se define o que se espera que os alunos aprendam. Um propósito que nos conduz a compreender, também, que as estratégias que sustentam os processos de mediação a partir das quais se pretende concretizar os objectivos previamente definidos, seja qual for o formato que essas estratégias e estes processos assumam, são o segundo factor que permite identificar a existência do modelo de educação escolar. Finalmente, 15 importa reconhecer a existência de um terceiro factor capaz de contribuir para a configuração da identidade de um tal modelo, o qual tem a ver com a necessidade de se promover a avaliação dos resultados obtidos que, podendo assumir diferentes modalidades e funções e ser objecto de abordagens distintas, não deixa de ser uma operação que nenhuma escola ou professor pode ignorar ou recusar. O quarto e último factor, em função do qual se pode identificar a existência de um modelo de educação que permite considerar as escolas como contextos educacionais específicos, decorre do reconhecimento dos factores que foram referidos até aqui e tem a ver com o facto das intervenções educativas sujeitas a um tal grau de exigência profissional implicarem que tais intervenções devem ser da responsabilidade de agentes sociais, os professores, que não só se encontram mandatado para o efeito, como, ainda, são sujeitos a um processo de formação inequivocamente especializado que possa responder aos desafios de um exercício profissional tão exigente. Para se compreender melhor o que está em jogo, propomo-nos realizar um exercício através do qual possamos distinguir os espaços educativos formais, que as escolas são, dos espaços educativos não-formais, como os centros de animação de tempos livres, as ludotecas, os campos de férias ou, entre outros, os centros desportivos. Sendo ambos os tipos de espaços, espaços educativos, não são, por isso e contudo, espaços equivalentes quer do ponto de vista das finalidades que os justificam, quer do ponto de vista dos processos e das estratégias de influência educativa que aí têm lugar, quer, finalmente, do ponto de vista das relações que aí se desenvolvem. São as finalidades educativas que deveriam orientar as intervenções nos espaços em análise que, num primeiro momento,contribuem para os diferenciar entre si. É que no caso dos contextos educativos formais são as aprendizagens relacionadas com a função da Escola, enquanto espaço educacional vocacionado para promover a apropriação de um dado património cultural, circunscrito a um conjunto de opções curriculares prévias, que constitui a sua principal finalidade. No caso do que temos vindo a designar por contextos educativos não-formais são as experiências pessoais e sociais, bem como as vivências significativas e mobilizadoras que justificam a sua existência e importância no âmbito das sociedades contemporâneas. Isto não significa que estejamos a considerar que os primeiros se desinteressam pela criação de experiências e vivências pertinentes ou que os segundos não pretendem, de forma alguma, que as crianças realizem aprendizagens. O que pretendemos afirmar é que a função de uns e de outros é distinta. As escolas necessitam, para que os seus alunos 16 aprendam, de proporcionar ambientes e experiências que potenciem vivências em função das quais as aprendizagens sejam possíveis e os contextos educativos não- -formais proporcionam, certamente, situações de aprendizagem que resultam das experiências vividas por todos aqueles que percorrem tais contextos. As aprendizagens não são, contudo, a finalidade primeira dos contextos educativos não-formais, embora estas possam acontecer como um fenómeno decorrente do envolvimento dos sujeitos naquelas experiências. Em suma, importa compreender que as experiências e as vivências se subordinam, no caso das escolas, às aprendizagens e que estas, no caso dos contextos educativos não-formais, não constituem uma prioridade intencionalmente assumida. Quer num quer no outro caso, a participação e o envolvimento dos sujeitos na construção de produtos culturais que se partilham pode constituir uma invariante a valorizar, desde que se reconheça que esse processo, no caso dos contextos educativos não-formais, é mais contingente porque, também, é mais dependente da vontade dos actores e das vicissitudes dos projectos e das relações que se estabelecem a propósito e em função dos mesmos. Nas escolas, a vontade dos actores deverá ser, igualmente, considerada, ainda que, mais do que essa vontade, seja a articulação entre esta e os desafios curriculares aí propostos que terá que ser valorizada. As contingências e os imprevistos, a existirem, terão que ser geridos tendo em conta as finalidades que justificam a existência da Escola, como contexto de educação incontornável nas sociedades em que vivemos. É a partir destes pressupostos acerca das finalidades das escolas que se pode debater o modo como a problemática da influência educativa poderá ser abordada nos dois tipos de contextos que temos vindo a analisar. Assim, e tentando analisar estes contextos, apenas, do ponto de vista das suas intenções educativas, pode afirmar-se que enquanto tais intenções, nas escolas, dependem, de forma imediata, dos programas de estudos que se relacionam com os diferentes ciclos de aprendizagem ou de uma determinada organização e gestão do trabalho escolar ou da filosofia e dos dispositivos de avaliação que se perfilham, no caso dos contextos educativos não-formais, as intenções educativas dependem das propostas que se desenvolvem no âmbito dos espaços mais ou menos especializados em que esses contextos se encontram estruturados ou dos projectos pontuais que aí se promovem. Dito isto, pode afirmar- -se, então, que as intenções educativas, no primeiro caso, não dependem, apenas, das decisões dos actores locais, já que estas não poderão ser dissociadas das políticas 17 educativas emanadas do centro do sistema, enquanto, por sua vez e no segundo caso, tais intenções são, sobretudo, um produto de decisões dos actores directamente implicados nas acções e nos projectos que aí se desenvolvem. Assim, o processo de influência educativa quando é concebido a partir do espaço escolar não poderá deixar de ser abordado em função dos constrangimentos que a gestão dos programas de estudo, do tempo, dos espaços e do trabalho escolar constituem, ao contrário dos espaços educativos não-formais, onde a margem de manobra dos educadores é superior à dos professores, já que aqueles, mais do que estes, podem permitir que as vicissitudes e a imponderabilidade dos acontecimentos assuma uma maior importância no desenrolar das actividades educativas. Neste caso, qualquer tipo de intencionalidade metodológica prévia, a existir, define-se de forma mais aberta e minimalista, em comparação com a relação que, no seio das escolas e do ponto de vista metodológico, se estabelece entre as particularidades dos alunos e as particularidades epistemológicas dos diversos campos de saber e da informação que, a partir destes, se divulga como objecto de interpelação e instrumento de formação pessoal e social. Em suma, pode constatar-se que as relações educativas no seio das escolas não poderão ser dissociadas nem das finalidades educativas que as legitimam como contextos de educação primordiais, nem dos condicionalismos de tipo organizacional, curricular e pedagógico que modelam as intervenções educativas que aí ocorrem. Do mesmo modo, pode afirmar-se que, ao contrário, nos contextos educativos não-formais, as relações que se estabelecem entre os actores em presença são mais contingentes com as situações e os acontecimentos do quotidiano, o que resulta, de algum modo, do facto de nos encontrarmos perante organizações que, em comparação com a instituição escolar, são mais abertas tanto do ponto de vista da gestão das actividades, como, igualmente, do ponto de vista da gestão do espaço e do tempo educativos. Conclui-se, assim, face ao exercício acabado de realizar que há, de facto, um modelo de educação escolar que podendo assumir diferentes formatos, correlacionados com o tipo de paradigma pedagógico em que se inscrevem, não deixa de assentar num conjunto de factores invariantes que importa valorizar para se compreender que os projectos de intervenção educativa, no caso dos contextos de educação escolar, assumem particularidades que teremos que ter em conta quando reflectimos sobre os actos de educar e de aprender. Deste ponto de vista, tais actos configuram-se como actos distintos conforme ocorram nas escolas, em casa, numa associação desportiva ou num espaço de recreio e de lazer. 18 Será nos próximos capítulos deste livro que este pressuposto adquirirá a importância que, na nossa opinião, terá que adquirir, valorizando-se as particularidades educativas das escolas como variáveis decisivas para se compreender e interpelar, neste âmbito, os actos de educar e de aprender. Se esta é uma decisão estratégica que se tentou justificar através dos argumentos que são aduzidos ao longo da escrita deste capítulo, teremos que enfatizar, agora, uma outra: aquela que diz respeito à necessidade de compreendermos que os actos de educar e de aprender são actos sujeitos a interpretações diversas que, por sua vez, expressam leituras distintas acerca dos mesmos, sustentadas em pressupostos epistemológicos e conceptuais que teremos que explicitar, enquanto operação necessária ao processo de reflexão a desenvolver. 19 Educar e aprender: Perspectivas em debate e implicações educativas É o reconhecimento de que a reflexão em torno do acto de educar e do acto de aprender nas escolas não poderá ser dissociada das particularidades que permitem configurar estes contextos educativos como contextos incontornáveis na sociedade em que vivemos que constitui o pressuposto nuclear que anima, neste capítulo, essa reflexão. É, pois, este facto que nos conduz a ter que abordar aqueles actos em torno da principal finalidade da Escola, a qual poderá ser definida em função do seu contributo para a apropriação,por parte dos alunos, de uma fatia decisiva do património cultural disponível, enquanto condição do processo de afirmação e desenvolvimento pessoal e social das crianças e dos jovens no seio da sociedade em que vivemos. É, assim, em nome da apropriação desse património, entendido como um conjunto de informações, instrumentos, procedimentos, atitudes e valores a partilhar, que se legitima o papel da Escola e, por consequência, se justifica que os actos de educar e de aprender sejam abordados em função das exigências e dos desafios subjacentes à assunção de um tal compromisso. Um compromisso que, por supor interpretações distintas e até contraditórias acerca do modo de o concretizar, nos conduz a defrontar concepções diferentes e diversas quer acerca do que se entende por educar, quer acerca do que se entende por aprender. J. Houssaye (1996; 1996ª; 1996b) é, a par de outros autores de referência (Chateau, 19562; Palacios, 1987; Not, 1991; Bertrand & Valois, 1994; Altet, 1999), um dos investigadores que se debruça sobre esta problemática e que contribui para a elucidar a partir da valorização de um modelo de análise sobre a acção educativa nas escolas que se constrói em torno do que, por si, é designado por triângulo pedagógico (Houssaye, 1996). É em função deste triângulo, e dos diferentes tipos de articulações que se estabelecem entre os vértices que o constituem, que Houssaye configura um espaço de debate através do qual se evidenciam distintas vias de abordar o acto de educar e de propor distintas interpretações quer acerca do seu contributo para promover o acto de aprender, quer acerca do estatuto que, neste âmbito, se atribui aos professores, aos alunos e ao saber, os três vértices desse triângulo pedagógico proposto pelo pedagogo francês. 2 A versão da obra de Chateau a que nos referimos é aquela que foi da responsabilidade da Editora «Livros do Brasil» cuja data de publicação é desconhecida. Sabe-se, apenas, que o ano de 1956 é o ano referente à sua 1ª edição, a qual esteve a cargo da Presses Universitaires de France (PUF). 20 É assim, tendo como referência o referido triângulo, que se podem identificar, de forma esquemática3, três paradigmas pedagógicos, o da instrução, o da aprendizagem e o da comunicação, em função dos quais se pode reflectir sobre o acto de educar e o acto de aprender que nesta obra, relembre-se, são abordados numa das suas versões possíveis, a de actos nucleares em função dos quais os projectos de educação específicos que têm lugar nas escolas adquirem forma e existência. O paradigma pedagógico da instrução: Educar é ensinar? O primeiro desses paradigmas será identificado por paradigma da instrução e corresponde à emergência do modelo de educação escolar que, tal como se defendeu no capítulo anterior, visava responder às necessidades e exigências de um tempo onde se anunciava uma nova era, fundada, agora, no primado da Razão, do Indivíduo e do Estado (Magalhães, 1998). Uma era para a qual a Escola deveria contribuir, enquanto contexto decisivo quer na afirmação de uma ordem política e social distinta da ordem que o poder feudal instituiu, quer, concomitantemente, na afirmação de sistemas de conhecimento que pressupunham uma outra ordem epistemológica em função da qual a autoridade passa a ser, também, “reivindicada e atribuída àqueles que manipulam os meios de demonstram da verdade e cada vez menos àqueles que falam em nome dela” (Matos, 1999, p.78). É que, tal como Foucault o defende de forma inequívoca e explícita, não se pode dissociar o exercício do poder da constituição de um determinado campo de saber, já que “não há relações de poder sem a constituição correlativa de um campo de saber, nem saber algum que não pressuponha, nem constitua simultaneamente relações de poder” (Foucault, 1977, p.73). Daí a importância do paradigma do instruir como modo de formação que contribui para a afirmação do que Foucault designa por poder disciplinar (Foucault, 1977). Esse poder que se exprime de forma diversa do poder medieval, cuja visibilidade violenta e exibicionismo excessivo não partilha, assume-se, então, como um poder modesto, desconfiado, subtil e calculista que se caracteriza pela sua invisibilidade insidiosa e subentendida, da qual depende, em larga medida, a sua eficácia (idem). Um poder que, assim, justifica a existência da Escola 3 Embora a esquematicidade dos modelos de análise em educação seja um problema que não pode ser iludido face à complexidade dos problemas com que nos deparamos neste campo, importa afirmar que, apesar de ser necessário reconhecer as suas limitações, é possível utilizar tais modelos como plataforma inicial para um diálogo sustentado e organizado sobre esses problemas, de forma a poder enquadrá-los conceptualmente e a apoiar a configuração de uma abordagem que permita compreendê-los para além das suas evidências. 21 como um espaço onde a instrução corresponde a um modo de formação através do qual se valoriza a ”instância do «dar lições» (de ciência, de conhecimento); a instância do «informar» (passar conteúdos sob a forma de regras, factos ou acontecimentos) e a instância do «advertir» (que recobre o duplo sentido de prevenir e o de fazer sentir a sua posição)” (Matos, 1999, p.82). Partindo-se do modelo de análise da relação pedagógica que o triângulo proposto por Houssaye (1996) consubstancia, confrontamo-nos com um paradigma onde a relação entre os professores e o saber ocupa um lugar privilegiado, restando aos alunos ocupar o lugar do morto (Houssaye, 1996). O acto de educar, neste âmbito, identifica-se com o acto de ensinar porque se circunscreve as interacções que os alunos estabelecem com o saber à “apropriação de um saber-objecto”4 (Charlot, 2000: 65), instituindo-se, neste âmbito e também, uma relação de tipo normativo que decorre do facto de se conceber esse saber como uma entidade dissociada da actividade cognitiva dos alunos e do património cultural de que são portadores e, por outro, da necessidade de assegurar, através desta via, a conformidade cultural dos sujeitos, condição necessária à promoção de um projecto mais amplo de conformidade política. De acordo com o paradigma da instrução, cabe, assim, aos professores redimir os alunos da sua ignorância e incompetência, fornecendo-lhes, igualmente, “os instrumentos necessários que possibilitem aos indivíduos integrar-se num ambiente social determinado, ocupando aí um lugar, o seu lugar” (Meirieu, 1993, p.37). Em suma, estamos perante uma concepção de educação que, ao assumir uma dimensão eminentemente prescritiva do acto educativo, tende a valorizar, sobretudo, a difusão da informação e a aquisição de aptidões específicas por parte dos alunos, através da utilização de metodologias que se caracterizam pela sua sistematicidade estandartizada e se polarizam, sobretudo, nos conteúdos a apreender. Gera-se, assim, um ambiente educativo que se desenvolve “em função: (i) de um clima de relacionamento pedagógico subordinado à afirmação do magistrocentrismo como modalidade reguladora do processo de reprodução do saber; (ii) de processos comunicativos através dos quais se configura um espaço estratégico fundamental (...), no seio do qual a difusão da informação adquire maior importância que a comunicação entre os diversos actores em presença; (iii) da adopção de mecanismos de regulação da aprendizagem e dos 4 A noção de «saber-objecto» é uma noção que, de algum modo, é equivalente à noção de informação, entendida, neste caso, como um conjunto de dados exteriores ao sujeito que tanto pode ser armazenado, como pode ser objecto de circulação (Monteil, 1985). 22 comportamentos individuais e de grupo que patrocinam a interiorização subtilde representações, normas e valores sociais que traduzem, em última análise, a aprendizagem subliminar da aceitação de um poder autocrático do espaço e do tempo pedagógicos; da gestão socialmente selectiva dos currículos formais; dos instrumentos e dos mecanismos de avaliação normativa que se adoptam ou do tipo de relação que se mantém com a comunidade envolvente” (Trindade, 1998, p.24–25). Ou seja, a evidente desvalorização da possibilidade dos alunos se afirmarem como construtores de saberes, a desvalorização do seu potencial autoconstrutor (Coimbra, 1991) e da capacitação para a análise e acção nas situações concretas de vida (Campos, 1991) expressa inequivocamente como, através da instrumentalidade que anima os projectos educativos tradicionais, se visa promover, de forma tanto explícita como implícita, os efeitos do exercício de um poder que, por se aceitar que nos transcende, aprendemos a reverenciar ou, pelo menos, a não questionar. Quer se defenda que as aprendizagens dos alunos ocorrem por modelagem, quer se defenda que as aprendizagens ocorrem “a partir de uma exposição didáctica” (Bruner, 2000, p.83), importa reconhecer, apenas, que a influência educativa dos professores, de acordo com o paradigma da instrução, se circunscreve, em larga medida, ao acto de ensinar e este, tal como Bruner (2000) o defende tenda a ser mais um ditado do que um diálogo. Para aprender, os alunos deverão ser confrontados com factos, princípios e regras de acção que são para recordar e aplicar. Daí que os professores exponham as teorias na sua versão final5, as ilustrem com alguns exemplos que julguem ser esclarecedores e, por fim, proponham exercícios através dos quais os alunos possam ter oportunidade de aplicar a informação adquirida. Daí, também, a utilização quase que exclusiva dos manuais escolares onde esta informação se encontra organizada, de forma a ser objecto do tipo de utilização pedagógica que acabamos de descrever. Afirma-se, assim, o que Fabre (1999) identifica como o que pode ser designado por proposicionalismo escolar, o qual se caracteriza pelo facto se valorizarem mais as respostas dos alunos que as questões que estes possam colocar, já que, na escola, aquilo que é verdadeiramente importante é que aqueles acedam às respostas verdadeiras. Uma perspectiva em função do qual se exprime uma concepção coisificada do saber, a partir da qual se defende que este saber permite desvendar a realidade tal-qual-ela-é, na 5 O facto de se reconhecer que os professores apresentam as teorias na sua versão final não significa, por vezes, que essas teorias não passem de caricaturas das teorias originais. 23 medida em que esta tende a ser concebida como uma entidade pré-existente às leituras que produzimos sobre a mesma. Daí que não seja por acaso que, neste âmbito, os saberes declarativos tendam a ser entendidos como saberes hegemónicos e a instrução seja assumida, por isso, como modalidade exclusiva de acção pedagógica. Eis-nos, deste modo, perante uma modalidade de intervenção educativa que tanto permite sustentar a crença de que basta ensinar bem para que alguém possa aprender, como permite, igualmente, que aqueles que ensinam possam sentir-se seguros sobre a tarefa que têm que concretizar, visto que se especifica de forma aparentemente clara e inequívoca aquilo que se pretende que os alunos aprendam. É a crença nesta possibilidade da omnipotência dos professores como agentes educativos que caracteriza não só o paradigma pedagógico da instrução, como, no âmbito deste paradigma, caracteriza, igualmente, os projectos de intervenção educativa que a abordagem comportamentalista tem vindo a inspirar. Uma abordagem que se desenvolveu no campo da Psicologia, mas cuja influência, hoje, se faz sentir, entre outras áreas possíveis, na área da educação escolar. Distanciando-se de algum modo das perspectivas pedagógicas ditas tradicionais, a abordagem comportamentalista partilha, mesmo assim, um conjunto de crenças e pressupostos com estas perspectivas, justificando-se, por isso, o seu enquadramento no campo que o paradigma pedagógico da instrução delimitou. Pode considerar-se que tal abordagem visa modernizar, em termos tecnológicos, este campo, ainda que estejamos perante uma proposta pedagógica que não poderá ser captada unicamente por via dos olhares que se focalizam, exclusivamente, no espaço específico da gestão e organização do trabalho pedagógico que tem lugar nas salas de aula. Pretendendo afirmar-se através de uma abordagem tecnocrática desse trabalho pedagógico, não pode deixar de ser interpelada em função dos fundamentos que a sustentam. É que, ao contrário, das já referidas perspectivas pedagógicas tradicionais, a abordagem comportamentalista corresponde a um movimento, no seio do paradigma da instrução, que entende a exclusão escolar explícita dos alunos como um problema e não como uma solução. Sustentada numa abordagem do ser humano que o circunscreve, como objecto de estudo, às suas manifestações comportamentais explícitas e entendendo que esse estudo pode ser produzido à luz dos pressupostos epistemológicos que o positivismo consagrou, aquela abordagem defende, de um modo geral, que o comportamento humano é determinado pelas contingências da interacção entre o sujeito e o meio envolvente, podendo, tais contingências, ser objecto 24 privilegiado de gestão educativa. Seria esta que garantiria a possibilidade da ocorrência de aprendizagens, desde que essa gestão fosse entendida como um conjunto de intervenções conducente à produção de um processo de condicionamento. Um processo que, para ser bem sucedido, necessitaria de respeitar, finalmente, o conjunto das leis da aprendizagem que o comportamentalismo nos propõe (Gonçalves, 1990). Ou seja, o comportamentalismo afirma a omnipotência daquele que educa, desde que este respeite o quadro de prescrições que Watson, Thorndike e Skinner foram formulando para dirigir, mais do que para orientar, a actividades pedagógica dos educadores. É que o projecto epistemológico em função do qual se justifica a elaboração daquelas leis obedece a uma racionalidade de carácter nomotético que visava garantir, afinal, a possibilidade de concretizar, por uma via diferente, o projecto que Coménio proclamou como seu, quando ousou prometer “uma Didáctica Magna, isto é um método universal de ensinar tudo a todos. E de ensinar com tal certeza, que seja impossível não conseguir bons resultados” (Coménio, 1985, p.45). É tendo por base as crenças e os pressupostos acabados de enunciar que a abordagem comportamentalista em educação inspirou quer o desenvolvimento do programa de acção educativa que ficou conhecido por Ensino para a Mestria (Schmidt, 1979; Marques, 1998), quer a própria configuração de um outro programa de gestão curricular que ficou conhecido por «Pedagogia por Objectivos» (Landsheere & Landsheere, 1981; Mager, 1975), os quais constituem, entre outros, a expressão da valorização do primado da eficiência técnica no campo da educação. Acredita-se, no caso do Ensino para a Mestria, que todos os alunos podem aprender, se os seus professores souberem: a) realizar correctamente um diagnóstico adequado do seu nível de desempenho escolar, determinando o que eles são capazes de realizar e não necessariamente aquilo que são incapazes de fazer; b) identificar quer as tarefas a propor aos alunos, de acordo com o diagnóstico realizado, quer as unidades didácticas sequencializadas em que essas tarefas são subdivididas, de forma a definir-se com exactidão os objectivos a atingir em termos de sequências de comportamentos observáveis que os alunos deverão assumir, garantindo-se assim, ou julgando garantir-se, o controlo da intervenção docente e dos seus resultados; 25 c) promover um programa de intervenção, no âmbito doqual monitorizem a transição dos alunos das tarefas menos complexas para as tarefas mais complexas, detectando, neste âmbito, as eventuais dificuldades de aprendizagem destes últimos e propondo, se for caso disso, ou outras estratégias de ensino ou outras actividades para serem realizadas ou, ainda e até, actividades de remediação pedagógica mais criteriosas; d) realizar avaliações de tipo sumativo, através das quais seja possível compreender até que ponto é que o programa de trabalho foi cumprido e como é que foi cumprido. No caso da «Pedagogia por Objectivos» acredita-se, por sua vez, que através da definição de taxonomias educacionais, as quais permitem classificar aqueles comportamentos dos alunos que expressam os resultados pedagógicos desejáveis a alcançar, se pode determinar de um modo objectivo e infalível o desempenho esperado, pelos professores, que um aluno deverá ser capaz de manifestar. Afirma-se, por esta via, uma concepção tecnicista de currículo (Pacheco, 1996), através da qual se visa condicionar, de forma deliberada e intencional, a actividade dos professores no domínio da gestão curricular, não os entendendo tanto como executores de programas, mas mais como agentes que promovem uma adaptação circunscrita do mesmo aos contextos escolares onde se situam. A sedução da mensagem que quer o Ensino para a Mestria, quer a «Pedagogia por Objectivos» suscita, permite alimentar a crença que a omnipotência pedagógica é possível, desde que, em primeiro lugar, os professores saibam como conceber um plano de acção, respeitando uma matriz que, por ser construída por especialistas, é entendida e anunciada como inquestionável e, em segundo lugar, se mostrem capazes de identificar as possibilidades dos alunos serem capazes de realizar os percursos educativos que esses planos prevêem. O que se pretende, afinal, é ampliar as possibilidades de intervenção pedagógica dos professores, ainda que se tenda a desvalorizar o protagonismo pedagógico dos alunos e a ignorar o significado que estes possam atribuir à informação e às tarefas em que se envolvem. Por isso, é que se pode afirmar que, apesar de tudo o que distingue as abordagens pedagógicas mais tradicionais da abordagem comportamentalista, esta não deixa de perfilhar da crença em função da qual se acredita que mediante a utilização de procedimentos adequados e eficientes se pode determinar 26 do exterior as aprendizagens dos alunos, na medida em que se continua a entender que o acto de educar como um acto de formatação. Seja como for, a abordagem comportamentalista introduz no campo da pedagogia da instrução um conjunto de preocupações que, até esse momento, lhe era estranho. É que a diferenciação pedagógica e a avaliação formativa passam a ocupar um espaço estratégico decisivo ao nível dos dispositivos de operacionalização daquela abordagem, o que constitui, numa primeira leitura, uma situação, no mínimo, paradoxal. Uma situação que nos obriga a abordar, de forma mais ampla, o próprio acto de instruir, entendendo-o como um acto que se caracteriza mais pela sua dimensão prescritiva, do que pela sua dimensão normativa. Estas não sendo de modo algum dimensões incompatíveis, são, contudo, dimensões estruturalmente distintas. É que enquanto através da primeira dimensão enunciada, a da prescrição, um sujeito A pode determinar o que um sujeito B deve fazer, porque se parte do princípio que o sujeito A também pode e deve determinar quais são as especificidades e as necessidades do sujeito B, na segunda das dimensões atrás referidas, a normativa, o sujeito A deseja, apenas, que o sujeito B, e todos os outros sujeitos, funcionem à sua imagem e semelhança, porque se constitui como referência de todos eles e das actividades que estes poderão protagonizar. Partindo deste quadro gnoseológico pode afirmar-se que a pedagogia dita tradicional se apreende por via da dimensão normativa, em função da qual, subsequentemente, a dimensão prescritiva se afirma como condição instrumental para assegurar tal normatividade, enquanto a pedagogia que se inspira na abordagem comportamentalista se define, sobretudo, em torno da dimensão prescritiva, sendo, neste caso, a dimensão normativa uma dimensão algo circunscrita. É que a abordagem comportamentalista, no domínio da educação, admite a possibilidade dos alunos poderem aceder aos objectivos pedagógicos preconizados através de percursos distintos, ainda que sejam os professores a determinar tais percursos. Isto é, o reconhecimento das singularidades dos alunos para promover, de forma mais eficaz, o conjunto de prescrições educativas que os professores determinaram, como sendo as prescrições necessárias à construção dos seus percursos educativos, constitui a principal razão que conduz aquela abordagem a valorizar a diferenciação pedagógica, e subsequentemente, a avaliação formativa, como eixos estratégicos nucleares que sustentam os projectos de intervenção educativa que se propõem sob a influência da abordagem comportamentalista. Trata-se, se quisermos, de uma concepção de diferenciação 27 pedagógica através da qual se reconhece os alunos como seres diferentes, apenas para determinar as singularidades do processo de prescrição que os professores deverão gerir, como condição do sucesso do mesmo. Identificam-se, então, as singularidades pessoais e sociais dos alunos para se configurarem os seus percursos escolares diferenciados, mas isso não significa que se aceite que estes possam encontrar os seus próprios caminhos ou as estratégias mais adequadas para enfrentarem os desafios que lhes são propostos. A prescritividade pedagógica constitui, assim, uma manifestação de desconfiança face às competências de auto-organização dos alunos no âmbito do relacionamento que estes possam mater com uma determinada tarefa ou actividade escolar. É que os professores, de acordo com a racionalidade pedagógica sobre a qual temos vindo a reflectir, não se limitam a orientar os seus estudantes ou a apoiar os seus percursos académicos. A sua função passa, mais do que apoiar ou orientar estudantes, por definir previamente aqueles percursos, monitorizar se essa foi uma decisão adequada e, caso não o seja, passa por reorientar a mesma, partindo das informações que os próprios professores vão recolhendo e processando da forma o mais auto- -suficiente possível. Estamos longe daquelas perspectivas que entendem o acto de diferenciação pedagógica como um acto que pode envolver os alunos na tomada de decisões que lhes dizem respeito, em função das quais a avaliação formativa é assumida como uma avaliação formadora (Nunziatti, 1990). Estamos longe, igualmente, das abordagens que não se circunscrevem, apenas, a reorganizar os percursos escolares dos alunos, mantendo incólumes de qualquer tipo de interpelação quer as temáticas dos planos de estudos que suportam esses planos ou a sequência das mesmas, quer os próprios fundamentos das perspectivas pedagógicas que justificam tais opções. Para a abordagem comportamentalista, constata-se que é a questão do «Como Ensinar?» que a mobiliza, mesmo que se contribua para iludir, por esta via, o debate e a reflexão acerca das finalidades educativas da Escola, dos valores que sustentam as intervenções neste âmbito e dos pressupostos que orientam as opções didácticas que se assumem. Significa isto que aquela abordagem tende a enfatizar o eixo da operacionalização tecnológica em detrimento do eixo da intencionalidade educativa6, como se este se definisse através daquele e, por isso, não merecesse ser objecto de explicitação. Dito de outro modo, a 6 Ambos os eixos citados são evocados por Fernandes (2003) para dar conta do facto de, através do eixo da intencionalidade educativa, se explicitarem os “princípios e as finalidades do projecto de intervenção a desenvolver” (Fernandes,2003, p.24), enquanto através do eixo da operacionalização tecnológica se visa definir a natureza e os tipos de procedimentos pedagógicos a utilizar, “a gestão dos mesmos e o grau de protagonismo aceitável dos alunos neste âmbito” (idem). 28 abordagem comportamentalista busca a legitimidade na putativa eficácia das acções que afirma gerar, ignorando que essa eficácia pressupõe sempre, mesmo que o oculte, intenções educativas prévias. Pode afirmar-se, então, que a abordagem comportamentalista visa conferir maior eficácia às acções educativas que se desenvolvem sob a égide do paradigma pedagógico da instrução, sem pôr em causa os fundamentos que o suportam. Cremos até que essa abordagem permite que compreendamos que, hoje, é por via da prescritividade, e não tanto da normatividade, que esse paradigma pode ser identificado. De algum modo, a abordagem comportamentalista expressa a ruptura, no âmbito do paradigma da instrução, entre os projectos pedagógicos tradicionais e os projectos pedagógicos de natureza meritocrática. É que enquanto os primeiros visavam promover a exclusão escolar como instrumento de gestão política de sociedades cuja estratificação passava, em larga medida e também, pelo nível de escolaridade a que os indivíduos acediam (Bourdieu & Passeron, s.d.; Baudelot & Establet, 1975; Bowles & Gintis, 1976), os segundos relacionam-se com um mundo onde, por razões diversas, o alargamento da escolaridade se tornou numa meta política desejada, sendo a estratificação social assegurada, no que à instituição escolar diz respeito, por via da diferenciação de percursos académicos que conduzem à obtenção de diplomas que, quer do ponto de vista simbólico, quer do ponto de vista do seu valor face ao mercado de trabalho, acabam por naturalizar, em nome do reconhecimento das diferenças, as desigualdades sociais, através de uma gestão socialmente selectiva das oportunidades de formação que se oferecem aos alunos. Tal como defende Ariana Cosme (2006), a racionalidade pedagógica tradicional era uma racionalidade congruente com a existência de uma Escola que deveria contribuir para estabelecer um processo explícito de selecção académica em função do qual se visava legitimar a estratificação social necessária ao funcionamento do sistema político, económico e cultural que justificava a emergência e a afirmação da Escola como instituição educativa incontornável nas sociedades modernas. A racionalidade pedagógica meritocrática, ainda segundo A. Cosme (2006), porque corresponde a um tempo político, social, económico e cultural distinto, é a racionalidade que melhor se adequa ao processo de consolidação e alargamento da escolaridade obrigatória. Um processo que se relaciona com a afirmação das políticas sociais que os denominados Estados-Providência assumiram no período do pós-guerra, em função das quais se 29 atribuiu à Escola uma importância política sem precedentes, nomeadamente como um contexto sobre o qual recaem expectativas, porventura excessivas, em termos do seu contributo para o amortecimento de um largo conjunto de tensões sociais e culturais que atravessam, hoje, as sociedades em que vivemos. Um processo que não poderá ser dissociado, também, do processo em curso de terciarização das economias e de transição de um regime de acumulação fordista para o regime pós-fordista. Daí que a racionalidade pedagógica meritocrática corresponda às necessidades de legitimação mais adequadas a um tempo histórico que, no ocidente, se confronta com a dissonância existente entre um discurso através do qual se afirma a superioridade dos princípios democráticos como eixos da organização da vida em comum e uma organização escolar que continua a funcionar de forma socialmente selectiva. É que, enquanto para as pedagogias ditas tradicionais, a Escola funciona se for capaz de contribuir para a selecção das elites, fabricando, por isso, o insucesso escolar (Perrenoud, 1999; 2001), para a racionalidade meritocrática, lembra-nos A. Cosme, é, pelo contrário, “a retórica da igualdade de oportunidades que se define como a sua referência matricial” (Cosme, 2006: 150). Neste sentido, para a racionalidade pedagógica tradicional, defende, ainda, A. Cosme o insucesso ou o abandono escolar dos alunos não são entendidos como um resultado obrigatoriamente indesejado, mas como uma consequência de um processo de selecção legítimo (…), enquanto que, para os projectos de intervenção educativa de carácter meritocrático, o mesmo tipo de insucesso é, apenas, o resultado de um diagnóstico mal formulado ou da assunção de um conjunto de decisões inadequadas. Neste caso, recusa-se fabricar o insucesso escolar para antes se produzirem sucessos escolares distintos e diferenciados quanto ao seu valor social e educativo. Trata-se de uma solução que, ao contrário da racionalidade tradicional, pretende evitar a mortalidade escolar sem no entanto se recusar a selecção académica. Esta realiza-se no seio da própria instituição escolar e em função dos mais diversos tipos de vias que se constroem no seio das escolas, vias essa com um valor simbólico distinto e passíveis de ser hierarquizadas 30 quer quanto a este mesmo valor, quer quanto à proveniência social daqueles que as ocupam. (Cosme, 2006: 150 – 151) Em conclusão, seja qual for o formato que o paradigma pedagógico da instrução assuma, o que importa é reflectirmos se as suas propostas educacionais se adequam ao mundo em que vivemos. Isto é, o que importa é sabermos se se adequam a um mundo em que somos obrigados a lidar com o imprevisto, entendido agora como uma experiência quotidiana relativamente comum, a agir na urgência e a decidir na incerteza (Perrenoud, 2001), a cooperar com os outros ou a assumir comportamentos éticos congruentes com os princípios da vida numa sociedade democrática. Pergunta-se, então, se é possível continuar a investir em projectos de intervenção educativa que, por entenderem os alunos como seres menores neste âmbito, impedem, de algum modo, que o conjunto de competências necessárias à assunção dos comportamentos atrás referidos possam ser desenvolvidas como finalidades educativas tão nucleares quanto prioritárias? Eis-nos perante uma questão que justifica quer a valorização de outros tipos de abordagens pedagógicas, as quais, no entanto, deverão ser objecto de análise e de interpelação, tendo em conta o que nos propõem e o sentido político e cultural das mesmas, bem como a natureza pedagógica dessas propostas. É tendo em conta um tal objectivo que continuaremos a propor uma reflexão sobre os restantes paradigmas pedagógicos em função dos quais pretendemos continuar a discutir os actos de educar e aprender no âmbito dos projectos de educação escolar. O paradigma pedagógico da aprendizagem: A auto-suficiência educativa em debate O segundo dos paradigmas a partir do qual decidimos reflectir sobre o acto de educar e o acto de aprender é aquele que, inspirados em M. Altet, podemos designar como o paradigma que permite configurar o campo das pedagogias da aprendizagem (Altet, 1999). Um campo que começa por se definir por oposição ao paradigma da instrução, denunciando e recusando (Fernandes, 2003): a) o estatuto de menorização a que a Escola sujeita os seus alunos; 31 b) a normatividade e a unicidade metodológica em vigor nesse campo; c) os programas de estudos estandartizados e geridos de forma burocrática; d) as limitações da instrução como modo de formação. É a partir deste conjunto de recusas que se explica, posteriormente, a afirmação de um paradigma cujos eixos invariantes poderão ser identificados do seguinte modo: a) os alunos, no seio deste paradigma, são considerados como o centro de gravidade dos projectos de educação escolar; b) os interesses e as necessidades destes alunos, de acordo com o pressuposto enunciado anteriormente,são entendidos como os vectores fundamentais da construção e gestão dos programas escolares; c) os dispositivos de mediação pedagógica a valorizar são aqueles que permitem potenciar as aprendizagens dos alunos, de forma a recusar-se liminarmente as intenções e as acções instrutivas dos professores. Recorrendo ao triângulo pedagógico de Houssaye, constata-se que a articulação entre os três vértices se configura de forma distinta daquela que caracteriza o paradigma da instrução. À relação privilegiada que, neste último, se estabelece entre o professor e o saber, opõe-se, agora, uma relação em que se privilegia, pelo contrário, a interacção entre o saber e os alunos, tendendo, neste caso, o professor a ocupar o «lugar do morto» (Houssaye, 1996), já que é o acto de aprender que se assume ser o acto nuclear que as escolas deverão promover. Em termos concretos, pode considerar-se que esta modalidade através da qual se exprime uma perspectiva específica em função da qual se concebe a relação pedagógica foi adquirindo corporeidade quer através da reflexão e da acção dos pedagogos do «Movimento da Educação Nova»7, quer através da influência que a corrente cognitivista, na área da Psicologia, foi exercendo no desenvolvimento de projectos de investigação e de intervenção relacionados com o domínio da educação escolar. Ainda que estejamos perante contributos distintos que se fizeram sentir em momentos diferentes na reflexão pedagógica, há alguns vínculos a estabelecer entre ambos, fruto do papel que, no âmbito do paradigma da aprendizagem, se tem vindo a atribuir à 7 «Movimento da Educação Nova» será a designação, em língua portuguesa, que neste artigo se utilizará para me referir à «Ligue Internationale pour l’ Éducation Nouvelle» e aos pedagogos que se relacionam ou são relacionados com o movimento pedagógico que esta constituiu. 32 Psicologia na sua relação com a Educação. Foram os pedagogos do «Movimento da Educação Nova» que mais contribuíram para afirmar uma crença nuclear em função da qual se justifica a possibilidade de a Psicologia poder conferir um rumo à Educação, libertando-a da incerteza da acção educativa e da autoridade arbitrária e contraditória protagonizada pelos seres humanos, para afirmar a necessidade dessa acção e dessa autoridade passar a depender de uma ciência cuja aparente impessoalidade seria garantia da sua eficácia instrumental (Charbonnel, 1988). Uma crença que adquire a sua expressão mais pungente e afirmativa no modo como os arautos e os pedagogos do «Movimento da Educação Nova» (MEN) utilizam a Psicologia como o instrumento de legitimação desse “primeiro momento forte da construção da cientificidade em educação” (Correia, 1998, p.53) que esse mesmo movimento promoveu, de forma a afirmar a centralidade das crianças no seio dos projectos de educação que lhes dizem respeito e a contestar, por esta via, a ordem escolar que o paradigma da instrução configurou. Não é por acaso que A. Ferrière, um dos principais ideólogos do MEN, sem deixar de reconhecer os méritos de, entre outros, Rousseau, Pestalozzi e Fröebel, como precursores daquele movimento, acaba a defender a tese de que a intuição pedagógica que estes revelaram era, afinal, a sua maior vulnerabilidade, no momento em que lhes permitia adivinhar a infância sem que a pudessem, de facto, conhecer (Ferrière, 1934), já que não tinham ao seu dispor o conjunto de instrumentos conceptuais que só a Psicologia, como ciência do comportamento humano, poderia disponibilizar. É que, segundo Ferrière, “antes das conclusões a que chegou a psicologia experimental, apenas se podia pressentir a infância; hoje conhece-se; amanhã conhecer-se-á melhor” (Ferrière, 1934, p.5), à medida que, justamente, evoluir a investigação nessa área do saber. Trata-se de uma posição que se vê confirmada, posteriormente, por Roger Cousinet quando este afirma que “a psicologia preenche com os seus saberes e prepara a pedagogia, indica ao educador o caminho a seguir e os métodos a utilizar” (Cousinet, 1945, p.31). A Pedagogia, neste sentido, passa a depender da Psicologia para poder inspirar acções educativas que, por um lado, sejam capazes de respeitar a singularidade dos alunos como condição de um projecto educacional que valoriza as suas aprendizagens e o seu desenvolvimento cognitivo, interpessoal e social como a sua principal finalidade e, por outro, que garanta a possibilidade dos professores serem bem sucedidos nesse projecto. Eis-nos perante um tipo de dependência que segundo Charbonnel assenta em três crenças matriciais: (i) a crença na existência de uma Natureza Humana; (ii) a crença na possibilidade de se estudar a Natureza Humana como 33 se estuda, em geral, a Natureza; (iii) a crença na possibilidade da Psicologia permitir tal estudo, o que implica que haja uma Ciência da Educação que se exprime como uma Ciência Aplicada da Psicologia, a exemplo do facto da Medicina poder ser entendida como uma Ciência Aplicada da Fisiologia. É a partir deste quadro gnoseológico que se constrói o empreendimento intelectual que pretende assinalar a recusa do “obscurantismo da empiria” (Charbonnel, 1988, p.38) como condição necessária à gestação das Ciências da Educação e do projecto educacional que uma tal gestação sugere, onde, afinal, estão presentes tanto as promessas como os desvarios que a Modernidade patrocinou. Um projecto onde a Psicologia ocupa um lugar de destaque que, de algum modo, se vê reforçado pelo trabalho realizado, no seio desta área do saber, no campo que o cognitivismo balizou. Mais do que investir numa discussão epistemológica sobre o estatuto da Psicologia, importa, no entanto e neste caso, compreender como é que a Psicologia contribuiu para configurar, no espaço conceptual e praxeológico que a Pedagogia nos oferece, o que tem vindo a ser designado neste trabalho por paradigma da aprendizagem e, sobretudo, o que se entende por educar e aprender no âmbito deste paradigma. Ao contrário do paradigma da instrução que entende ser possível confirmar a existência de aprendizagens sempre que um aluno é capaz de reproduzir informação, exercícios e gestos, no paradigma da aprendizagem entende-se, pelo contrário, que o acto de aprender se encontra mais relacionado com o desenvolvimento de competências cognitivas e relacionais do que com a apropriação de conteúdos construídos por outros. Deste modo, aprende-se quando somos estimulados a pensar e a aprender a aprender, porque, nesta abordagem, é o desenvolvimento cognitivo dos sujeitos e das dinâmicas endógenas que lhe estão subjacentes que poderão garantir a ocorrência de aprendizagens. Se no âmbito do «Movimento da Educação Nova» é a formulação quer da centralidade dos alunos como seres inteligentes e portadores de vontades e de saberes, quer, consequentemente, do acto de aprender que adquirem visibilidade, há que reconhecer que o paradigma da aprendizagem se consolida, posteriormente, com o contributo decisivo das obras de reflexão teórica e de investigações que se foram desenvolvendo sob a égide da corrente cognitivista no campo da Psicologia. Tal como já o havíamos afirmado, antes, a relação entre aquele paradigma e esta área do saber é uma relação bastante estreita. O «Movimento da Educação Nova» encontrou na Psicologia o seu fio de Ariana, em função do qual se acreditava ser possível definir, ou mesmo prescrever, o rumo pedagógico adequado da actividade educativa que tem lugar 34 nas escolas contemporâneas, na medida em que tal actividade passaria a respeitar a singularidade psicológica das crianças que à Psicologia competiria revelar. Será, posteriormente, a partir de meados da década de 50 que, sob o impulso do que Gardner (2002) designa por revolução cognitiva8, se torna possível, contudo, solidificar tal propósito. É que será estemovimento que, elegendo o estudo da mente como o objecto teórico da Psicologia9, permitirá configurar um campo conceptual que, sob a inspiração da “metáfora do computador” (Sierra & Carretero, 1992, p.123), conferirá uma visibilidade inédita às dinâmicas e aos processos internos de mediação cognitiva como factores determinantes da actividade humana. Uma opção que acabaria por influenciar inevitavelmente a reflexão no domínio da educação escolar, contribuindo para cimentar algumas das crenças e dos pressupostos básicos do paradigma pedagógico da aprendizagem, nomeadamente, a necessidade de se valorizar os sujeitos que aprendem como processadores de informação e não, apenas, como receptores da informação que outros construíram ou de entender o organismo humano como um sistema cognitivo cujo desenvolvimento importa promover como condição fundamental que qualquer projecto educacional deverá respeitar. Aprender, nesta perspectiva, adquire uma importância decisiva e o desafio que se coloca às escolas consiste, em larga medida, em constituir-se como um espaço capaz de promover e suscitar aprendizagens, o que obriga a que, nestes contextos, se deva reconhecer os alunos, nas suas singularidades psicológicas, e as suas actividades como os factores pedagógicos nucleares a ter em conta no âmbito das acções de carácter educativo que têm lugar nas escolas. É na obra de Piaget que se encontra uma das referências primordiais desta perspectiva pedagógica, quer por via da reflexão epistemológica por si produzida, quer por via do seu contributo para elucidar os processos funcionais que sustentam o processo de desenvolvimento cognitivo dos indivíduos. Trata-se de uma abordagem 8 Embora Howard Gardner (2002) eleja o Simpósio de Hixon, no Instituto de Tecnologia da Califórnia, em 1948, como o momento seminal da afirmação do movimento cognitivista, pelo desafio a que sujeitou os pressupostos que sustentam o comportamentalismo, é em 1956 que, baseando-se no testemunho de Miller, identifica a data de nascimento do que ele próprio designa por “ciência cognitiva” (Gardner, 2002: 53), a qual corresponde à organização do Simpósio sobre Teoria da Informação no Instituto de Tecnologia de Massachusetts que teve lugar entre 10 e 12 de Setembro de 1956. 9 O estudo da mente como objecto principal do programa de reflexão e de investigação da Psicologia é a resposta que os cognitivistas encontraram para recusarem o programa da abordagem comportamentalista que entendia o comportamento humano observável como o único objecto de estudo possível para a Psicologia, caso esta aspirasse obter o estatuto de ciência. Pode considerar-se, na esteira de O. Gonçalves (1993), que a abordagem cognitivista se caracteriza, em oposição à abordagem comportamentalista, por: (i) recusar entender o ser humano como um receptor passivo dos estímulos provenientes do meio; (ii) afirmar que não é a informação proveniente do meio que determina directamente o comportamento humano, mas o modo como os indivíduos processam a informação e (iii) considerar o organismo humano como um sistema cognitivo capaz de codificar, armazenar e recuperar informação. 35 que, deste modo, permite sustentar o campo pedagógico delimitado pelo paradigma da aprendizagem quando afirma, na já referida reflexão epistemológica, que é a natureza das interacções entre os sujeitos e os objectos que constitui o factor propulsor do processo de construção de conhecimento. É que os objectos, na perspectiva piagetiana, não existem de forma dissociada do modo como os sujeitos se apropriam dos mesmos ao atribuir-lhes um significado. Do mesmo modo que não é o contacto com esses objectos que garante, só por si, uma tal apropriação, na medida em que esta depende do potencial heurístico das condutas e dos esquemas cognitivos que os sujeitos são capazes de activar. Tal como defendem Coll e Martí, a “objectividade não é, pois, para Piaget, um dado imediato, exige um trabalho de elaboração por parte do sujeito” (Coll & Martí, 1992, p.107), pressuposto este que, a ser aceite, obriga a que se reconheça que não são nem a experiência, como pretendem os empiristas, nem a maturação, como pretendem os inatistas, que permitem explicar, só por si, o processo de construção do conhecimento. Este resulta, segundo Piaget, da qualidade das interacções que se estabelecem entre os sujeitos, enquadrados num dado estádio de desenvolvimento cognitivo, com um objecto cujas propriedades particulares poderão ser apreendidas, ou não, por esses sujeitos, de acordo com as potencialidades cognitivas desse estádio de desenvolvimento em que se encontram. Ou seja, na abordagem piagetiana a leitura construtivista do processo de construção do conhecimento, conduz-nos a compreender que este é um processo que se encontra vinculado ao percurso de desenvolvimento cognitivo dos sujeitos, o qual é visto, naquela abordagem, em função de uma sequência hierarquizada, invariante e universal de estádios que, pelo facto de condicionar a sua relação com a realidade envolvente, condiciona o processo de construção do conhecimento em que esses sujeitos se envolvem. Isto é, o modo como os sujeitos atribuem um significado e um sentido às suas experiências pessoais, de forma a reconhecê-las como tal, depende, então, do seu estádio de desenvolvimento cognitivo. Pode considerar-se, assim, que estamos perante um processo que não obedece necessariamente a um plano preestabelecido, tal como Piaget e Inhelder o reconhecem quando afirmam: Dado o papel do indivíduo e das coordenações gerais da acção nessa evolução, poder-se-ia então pensar num plano preestabelecido de modo apriorístico ou segundo uma finalidade interna. Mas um plano apriori só poderia realizar-se biologicamente pelos mecanismos do 36 inatismo e do amadurecimento: ora, já lhes conhecemos a insuficiência para explicar todos os factos. (…) No caso do desenvolvimento da criança, não há plano preestabelecido, mas sim uma construção progressiva tal que cada inovação só se torna possível em função da precedente. Poder-se-ia dizer que o plano preestabelecido é fornecido pelo modelo do pensamento adulto, mas a criança não o compreende antes de o ter reconstruído, e ele próprio é a resultante de uma construção não interrompida, devida a uma sucessão de gerações, cada uma das quais passou pela infância: a explicação do desenvolvimento deve, portanto, tomar em consideração essas duas dimensões, uma ontogenética e outra social. (Piaget & Inhelder, 1993:138-139). Deve então concluir-se que o conhecimento não parte do sujeito nem do objecto, mas da interacção indissociável que se estabelece entre ambos, o que permite afirmar, então, que o conhecimento resulta de um processo que se expressa simultaneamente através “de uma exteriorização objectivante e de uma interiorização reflexiva” (Piaget, 1977, p.12), o qual é configurado “pelas formas de organização da actividade mental” (Thong, 1981, p.20) que caracterizam cada estádio de desenvolvimento cognitivo10. A concepção construtivista do conhecimento que Piaget propõe, caracteriza-se então, segundo Granell e Salvador (1994) por valorizar quer o protagonismo do sujeito no confronto que este estabelece com a realidade, em função da forma como interpreta a informação proveniente do meio circundante, quer, por consequência, a actividade cognitiva que aquele desenvolve no âmbito desse confronto e do processo de construção do conhecimento que se encontra vinculado ao mesmo. Sem se considerar esta actividade própria e singular, sujeita a necessidades internas, condicionada pelas estruturas mentais do protagonista e vinculada ao seu processo de desenvolvimento, não é possível compreender o processo de produção do conhecimento, tal como Piaget o definiu. 10 A noçãode estádio de desenvolvimento ocupa um lugar central na abordagem piagetiana, relacionando- -se com uma concepção de desenvolvimento em que este é entendido como a transformação progressiva do sujeito através de mudanças estruturais e qualitativas. O estádio, para Piaget, é assim uma estrutura de conjunto em função da qual é possível explicar as principais condutas do sujeito (Piaget & Inhelder, 1993). 37 Aceitando-se que o conhecimento resulta de um processo de construção em que cada indivíduo é o protagonista principal, fica definida a concepção epistemológica, o construtivismo, que sustenta a abordagem piagetiana. Contudo, fica por esclarecer ainda como é que esse protagonismo se dinamiza, o que nos remete, então, para uma outra vertente da reflexão de Piaget, em função da qual se caracteriza o desenvolvimento cognitivo como um processo cuja dinâmica depende da emergência de conflitos e perturbações epistémicas (Lourenço, 1994) que, ao desencadear um jogo contínuo e dialéctico entre dois mecanismos indissociáveis, o da assimilação e o da acomodação, acaba por provocar a emergência de equilibrações majorantes (Piaget, 1976), as quais deverão ser entendidas não como uma marcha para um equilíbrio estável, mas como uma “estruturação orientada para um melhor equilíbrio” (Piaget, 1976: 35). Estamos, deste modo, perante uma concepção de equilibração que se define como um processo de auto-regulação, um processo sequencial “de compensações activas do indivíduo em resposta às perturbações exteriores e de regulação ao mesmo tempo retroactiva e antecipadora” (Piaget & Inhelder, 1993, p.139). Deste ponto de vista, o protagonismo dos sujeitos, no âmbito do seu processo de desenvolvimento, explica-se em função de intercâmbios adaptativos entre o sujeito e os objectos do conhecimento que se definem de acordo com uma dinâmica onde a articulação dialéctica entre os processos funcionais de acomodação e assimilação desempenha um papel decisivo como componente do processo de desenvolvimento cognitivo dos sujeitos e, subsequentemente, do projecto educacional onde estes se encontram envolvidos. Assim, se através da assimilação ocorre “a incorporação de um elemento exterior (objecto, acontecimento, etc.) num esquema sensório-motor ou conceptual do sujeito” (Piaget, 1976, p.13), isto é, se se «assimila» o mundo exterior de acordo com as estruturas cognitivas que os indivíduos já construíram, pela acomodação reajustam-se estas estruturas em função da necessidade de se “levar em conta as particularidades próprias dos elementos a assimilar” (obra citada, p.14). É, assim, a partir desta dinâmica de carácter endógeno que se torna possível compreender, por um lado, o que significa afirmar-se que um sujeito é um protagonista activo do processo de desenvolvimento que lhe diz respeito e, subsequentemente, um produtor de conhecimento e, por outro, como se configura, em termos matriciais, esse processo de desenvolvimento. Um desafio teórico que pode ser captado através do excerto, da autoria de Piaget, que se passa a transcrever: 38 Sob este ponto de vista, toda a vida mental, como de resto toda a vida orgânica, tende a assimilar progressivamente todo o meio ambiente, e realiza esta incorporação graças a estruturas, ou órgãos psíquicos, cujo raio de acção é cada vez mais extenso: a percepção e os movimentos elementares (preensão, etc.) facultam, primeiro, a posse dos objectos próprios e no seu estado momentâneo, depois a memória e a inteligência práticas permitem ao mesmo tempo reconstruir o seu estado imediatamente anterior e antecipar as suas transformações futuras. O pensamento intuitivo reforça seguidamente estes dois poderes. A inteligência lógica, sob a sua forma de operações concretas, e, finalmente, de dedução abstracta, termina esta evolução, tornando o sujeito senhor dos mais longínquos acontecimentos, no espaço e no tempo. Em cada um destes níveis, o espírito tem assim a mesma função, que é a de incorporar em si o universo, mas a estrutura da assimilação varia, isto é, variam as formas de incorporação sucessivas, desde a percepção e o movimento até às operações superiores.” (Piaget, 1978, p.17-18) Em suma, e de um modo geral, pode afirmar-se que o contributo de Piaget se caracteriza por enfatizar, sobretudo, as dinâmicas e os mecanismos endógenos do processo de aprendizagem, na sequência do investimento que tipifica a abordagem que o cognitivismo, no âmbito da Psicologia, promove. Um investimento que contribui para conferir uma outra e nova credibilidade ao campo das pedagogias da aprendizagem quando confirma que a organização e gestão do trabalho pedagógico numa sala de aula se deve caracterizar, basicamente, por valorizar quer a actividade auto-estruturante dos alunos, quer a gestão de acontecimentos educativos que possam originar as situações de “desequilíbrio óptimo” (Coll & Martí, 1992, p.137), entendidas, no seu todo, como condições do desenvolvimento e da educação dos alunos. Pode afirmar-se, face ao que temos vindo a defender, que a abordagem piagetiana, para além de constituir uma abordagem marcante no âmbito da perspectiva cognitivista, na área da Psicologia, contribui para configurar esta perspectiva e alguns dos seus pressupostos nucleares, nomeadamente aqueles que influenciam o modo como, hoje, o paradigma pedagógico da aprendizagem se estrutura e afirma. Um paradigma que, fiel ao propósito de exaltar a centralidade dos alunos, bem como as suas 39 potencialidades, necessidades e interesses singulares, se afirma em torno de duas preocupações principais: (i) uma através da qual se investe na definição dos eixos conceptuais invariantes que suportam a concepção de aprendizagem própria da abordagem cognitivista e (ii) outra através da qual se caracterizam os diferentes tipos de dinâmicas em função dos quais aquela concepção adquire corpo e forma. Tendo em conta a contingência e a especificidade das situações pessoais que são valorizadas como propriedades incontornáveis de intervenções educativas sujeitas àqueles pressupostos, o que se pretende, e o que se pode pretender, é que se compreendam as dinâmicas tendentes a promover os processos de aprendizagem que, nesta perspectiva, são uma consequência do desenvolvimento de competências cognitivas, relacionais e sociais dos alunos. Daí a importância da reflexão de Piaget, onde os conceitos de conflito e de descentração cognitiva11 adquirem um papel incontornável como mecanismos potenciadores de tais competências. Ainda que não se possa afirmar que a abordagem cognitivista desvaloriza, como factores de desenvolvimento a considerar, o património de informações, procedimentos e instrumentos que nos foram culturalmente legados, o que é certo é que não os invoca de forma explícita como factores cuja interferência terá de ser tida em conta como factores que influenciam o curso do desenvolvimento daquelas competências. Eis-nos, assim, perante um problema decisivo que nos é colocado pelo paradigma pedagógico da aprendizagem, quando este não só importa, para o campo da educação, uma reflexão que se produz num campo que, apesar de tudo, lhe é exterior, como, sobretudo, não interpela tal reflexão, elegendo-a, pelo contrário, como um elemento matricial do projecto educacional que propõe. Ainda que nos pareça suficientemente decisivo o contributo do construtivismo piagetiano para a reflexão epistemológica sobre o que se entende por conhecer e como é que se constrói o conhecimento, enquanto reflexão influente no domínio da educação escolar, parece-nos que há um conjunto de questões que não podemos ignorar e que terão de ser tidas em conta, tanto no campo da Psicologia, como, sobretudo, no campo da Educação Formal. 11 A importância destes dois conceitos, que adquirem um peso teórico inegável nas obras finaisde Piaget, relaciona-se com o impacto desenvolvimental que se atribui ao processo de equilibração, enquanto processo através do qual se valoriza as possibilidades dos sujeitos produzirem respostas mais complexas e capazes, após um período de procura gerado por situações, em termos cognitivos, conflituais que, num primeiro momento, conduzem a uma situação perturbadora e, num segundo momento, estão na origem de uma espécie de reavaliação dos desafios e de uma outra possibilidades de compreensão desses desafios e das possibilidades de lhes responder. 40 É verdade que a recusa de entender a produção do conhecimento como o resultado de uma mera cópia da realidade, concebida como uma entidade preexistente, constitui um contributo epistemológico decisivo para se compreender as limitações, nomeadamente, das pedagogias da instrução. É verdade, também, que mostrar como o conhecimento resulta de um processo dinâmico e interactivo através do qual a informação externa é interpretada e reinterpretada, pelos sujeitos, em função da construção de modelos explicativos que se vão tornando cada vez mais complexos e abrangentes (Granell & Salvador, 1994) constitui uma proposta capaz de sustentar um outro tipo de intervenções educativas sujeitas a uma racionalidade onde os alunos não são obliterados como actores fundamentais no âmbito do processo educacional que lhes diz respeito. O que importa discutir não é, no entanto e apenas, o papel dos sujeitos, mas a natureza da relação entre estes e o saber tido por conhecido. Não está em causa, então, recusar a aprendizagem como um objecto incontornável em qualquer processo educativo, o que importa discutir é se essa aprendizagem pode acontecer como uma operação culturalmente auto-suficiente. O contributo da abordagem cognitivista, no campo da Psicologia, é certamente um contributo precioso no sentido de resgatar a aprendizagem de ser entendida como uma operação subordinada à operação de ensinar. Confrontando tal contributo com o legado que o comportamentalismo nos deixou, importa reconhecer as propostas teóricas que, a partir dessa abordagem, nos permitiram compreender que não há aprendizagem, mas aprendizagens, actos distintos, nem sempre mutuamente exclusivos, que nos colocam perante desafios e exigências intelectuais diferentes. Será na obra de D. Ausubel que se poderá encontrar um dos melhores exemplos deste tipo de investimento teórico. Ausubel interessa-se, acima de tudo, por tentar caracterizar as dinâmicas em função das quais se torna possível estimular a ocorrência de aprendizagens, considerando que se pode aprender quer em função de modalidades de aprendizagem distintas quer, igualmente, em função dos diferentes tipos de articulação que se podem estabelecer entre essas modalidades. Ausubel aborda, então, a dinamização das aprendizagens a partir do confronto que estabelece tanto entre aprendizagens por recepção e aprendizagens pela descoberta, como entre aprendizagens por memorização e aprendizagens significativas (Ausubel, 2003), admitindo, até, que todas as modalidades enunciadas podem ser entendidas como adequadas, no âmbito de uma perspectiva em que se entende que uma intervenção educativa deve obedecer à finalidade de influenciar, de forma deliberada, a estrutura cognitiva dos sujeitos, através 41 da maximização das aprendizagens de tipo significativo (idem). Partindo do princípio que, para que essa influência ocorra, se deve aferir da disponibilidade das representações ancoradas na estrutura cognitiva dos sujeitos, bem como das suas competências de inclusão, generalização e inclusão, e se deve, também, estabelecer pontos de contacto e de diferenciação entre essas variáveis cognitivas e os conteúdos da informação que se divulga, Ausubel defende que a possibilidade de alguém aprender depende, em larga medida, da qualidade da informação que se divulga (idem). Daí que, sobretudo, invista, do ponto de vista da reflexão que protagoniza, no desenvolvimento das aprendizagens por recepção significativa (idem), o que, neste caso, não implica que se desvalorize as aprendizagens pela descoberta ou mesmo as aprendizagens por memorização, mas tão somente que se considere que as primeiras correspondem a um estádio diferente de desenvolvimento do processo de aprendizagem e que as segundas, em determinadas circunstâncias, possam ser entendidas como aprendizagens complementares das aprendizagens por recepção significativa. Estas acontecem sempre que os conteúdos da informação que se divulga se relacionam de forma plausível e não aleatória com os conhecimentos prévios e as estruturas cognitivas dos aprendentes, o que pode constituir uma interacção promissora se essa informação encontrar pontos de ancoragem nas estruturas cognitivas dos sujeitos. É, aliás, a partir desta tese que Ausubel propõe a noção de organizador avançado, um mecanismo pedagógico através do qual se visa estabelecer uma “ligação entre aquilo que o aprendiz já sabe e aquilo que precisa de saber” (Ausubel, 2003, p.11). Trata-se de uma opção que deriva, em primeiro lugar, da importância que Ausubel (2003) atribui às “ideias relevantes, ou apropriadas, estabelecidas, já disponíveis na estrutura cognitiva, para fazer com que as novas ideias logicamente significativas se tornem potencialmente significativas e as novas ideias potencialmente significativas se tornem realmente significativas” (p.12), fornecendo- -lhes também “uma ancoragem estável” (idem). Uma opção que, em segundo lugar, Ausubel valoriza pelo facto de “os próprios organizadores tentarem identificar um conteúdo relevante já existente na estrutura cognitiva (…) e indicar, de modo explícito, a relevância quer do conteúdo existente, quer deles próprios para o novo material da aprendizagem” (idem). Como se constata, na perspectiva de Ausubel é em torno do modo como a educação interfere na estrutura cognitiva dos sujeitos que se justifica a importância que este atribui à aprendizagem dos alunos como a questão que qualquer projecto de intervenção educativa deverá enfrentar. Uma questão que, do ponto de vista da 42 perspectiva focada, nem sequer ilude o papel dos professores como agentes capazes de participar num tal projecto, ainda que seja necessário perguntar se o papel de organizadores de desafios de aprendizagem que se lhes possa atribuir é suficiente tanto para promover o desenvolvimento de competências cognitivas e outras, por parte dos alunos, como para os apetrechar culturalmente no mundo e nas sociedades em que vivemos. Se a acção docente, no caso do paradigma da instrução, ocorre, como já foi recordado neste trabalho, quer através de acções de modelagem, quer através do que Bruner (2000) designa por exposições didácticas, para aqueles que se encontram vinculados ao paradigma da aprendizagem, a acção dos professores deverá concretizar- se através de duas actividades nucleares: (i) uma que consiste em criar as condições para que os alunos procurem as soluções para os problemas que terão que enfrentar ou que se possam envolver na construção de teorias que lhes permitam abordar a realidade que os cerca de forma mais sustentada e complexa; (ii) outra que consiste, por sua vez, em disponibilizar os recursos que os alunos deverão utilizar da forma mais autónoma possível para realizar aquelas actividades. Ao contrário do paradigma do instruir, em que a mente do aluno tende a ser vista como uma tábua rasa e o saber é entendido como um produto que se adquire, para o paradigma da aprendizagem, podemos afirmar inspirados na abordagem que Bruner propõe, a propósito da articulação que estabelece entre as concepções sobre a mente humana e as modalidades de intervenção pedagógica dominantes, que os alunos são percepcionados como detentores de teorias mais ou menos coerentes acerca do mundo, as quais poderão ir adquirindo mais coerência e pertinência heurísticaà medida em que os alunos forem encorajados a partilhá-las e a discuti-las uns com os outros (idem). Neste sentido, os professores terão que preocupar- se em promover o “desenvolvimento de intercâmbios subjectivos” (obra citada, p. 85), o que configura a opção por um modelo pedagógico mutualista, mais preocupado com a interpretação e a compreensão da realidade do que em aceder à perfeição do conhecimento factual (Bruner, 2000). É tendo em conta quer a crença de que caberia à Psicologia apontar os rumos que a Pedagogia deveria seguir, no sentido de possibilitar o reconhecimento dos alunos e das suas aprendizagens como o centro de gravidade da actividade educativa nas escolas, quer o pressuposto que sustenta a abordagem cognitivista de que a promoção de tais aprendizagens depende do grau de conformidade dessa actividade educativa às dinâmicas intrapsíquicas que a potenciam, que se compreende que o paradigma da 43 aprendizagem entenda o desenvolvimento cognitivo dos alunos como um dos principais compromissos que as escolas terão que respeitar. Trata-se de uma opção, pois é de uma opção que se trata, cuja principal vulnerabilidade tem a ver com o facto do estatuto pedagógico do património cultural, que constitui um dos principais factores de legitimação da existência da Escola, não ser objecto de valorização e de interpelação explícita, ainda que seja referido como uma variável a ter em conta, mesmo que de forma abstracta e indiferenciada. A relação com este património é uma relação que, deste modo, é abordada em função, sobretudo, dos mecanismos de natureza psicológica que o sujeito é capaz de activar. Tem-se em conta, assim, as particularidades dos aprendentes, mas não se valoriza, de forma explícita e como uma questão crucial, as particularidades epistemológicas e conceptuais da informação e dos objectos de estudo, o que constitui a referência do trabalho de aprendizagem dos alunos. Mais do que a informação, enfatiza-se a necessidade dos sujeitos desenvolverem competências que lhes permitam processá-la, através do desenvolvimento e da utilização de estratégias universais de abordagem, organização, avaliação e utilização dessa informação. Neste sentido, pode afirmar-se que se estabelece uma relação de equivalência entre as actividades de processamento da informação e as aprendizagens escolares propriamente ditas. É, assim, perante este quadro conceptual, que se pode afirmar, ao contrário do que defende o paradigma da instrução, que a divulgação da informação deixa de ser entendida como a principal tarefa dos professores. A informação passa a ser utilizada como um factor pedagógico que se instrumentaliza no sentido de contribuir para o desenvolvimento das competências cognitivas e metacognitivas dos alunos, cabendo aos professores propor instâncias de mediação, entre esses alunos e a informação a divulgar, que possam constituir-se como dispositivos de suporte a esse processo de desenvolvimento que, neste caso, se confunde com um processo de aprendizagem. Dito isto, chegou o momento de perguntar se, tal como defende o paradigma da instrução, o professor pode ser um instrutor, ou se, conforme propõe o paradigma da aprendizagem, os professores deverão ser, sobretudo, animadores de grupos cuja função principal consistiria em criar as condições para o desenvolvimento de projectos que se caracterizam pela afirmação da sua vertente auto-educativa? Independentemente da perspectiva que possamos ter sobre esta matéria, há que reconhecer que as narrativas pedagógicas daqueles que se situam no âmbito do paradigma da instrução tendem a menorizar os alunos como produtores de significados, 44 para afirmar, antes, a problemática do acesso ao património cultural, que foi sendo construído no seio das diversas áreas científicas e disciplinares, como a questão nuclear que os mobiliza. A perspectiva daqueles que se situam no campo das pedagogias da aprendizagem organiza-se em função de outros tipos de pressupostos, já que os alunos, agora, são vistos como seres portadores de saberes, bem como de experiências de vida que, no seu conjunto, deverão ser tidos em conta no âmbito dos projectos de aprendizagem que lhes dizem respeito. É face a estes saberes e experiências que o património cultural tende a não ser suficientemente valorizado como factor capaz de provocar e interpelar tais saberes e experiências ou, até, a ser visto como um obstáculo à afirmação e desenvolvimento de tais saberes e experiências no momento em que introduz elementos dissonantes face a uns e a outras. Enquanto no caso da pedagogia da instrução há que reconhecer a insensatez de uma perspectiva que tende a valorizar a auto-suficiência da informação como uma crença que importa problematizar, no caso da pedagogia da aprendizagem a insensatez tem mais a ver com uma crença de sentido diferente, aquela através da qual se acredita que é possível não só estimular aprendizagens a partir, sobretudo, dos saberes dos alunos, como se estes fossem, simultaneamente, uma condição, mais do que necessária, suficiente, para que tais aprendizagens pudessem ocorrer. No primeiro caso atribui-se, então, primazia pedagógica à informação a divulgar, enquanto o factor que se valoriza, no segundo caso, é o aluno e as suas competências de processamento informativo. Tal como aqueles que se situam no espaço balizado pelas pedagogias da aprendizagem o demonstraram, a informação não é captada e abordada da mesma maneira por todos aqueles que contactam com ela. Neste espaço, coube ao cognitivismo evidenciar que é o modo como os indivíduos processam a informação, mais do que a informação em si, que lhes permite compreendê-la e atribuir-lhe um sentido face aos significados que conseguem construir acerca da mesma. Logo, não é possível que a informação, como objecto de aprendizagem, possa ser dissociada da actividade cognitiva do sujeito que contacta com ela. Se este é um dos equívocos maiores do paradigma da instrução, importa conferir visibilidade a um equívoco simétrico que se manifesta a partir do paradigma da aprendizagem. Neste, o equívoco é diferente, diz respeito ao facto do objecto de valorização ser o sujeito que aprende, como se este, só por si, possuísse os recursos culturais necessários para aprender sozinho ou, pelo menos, com um grau de autonomia apreciável face à informação existentes, aos procedimentos metodológicos vigentes ou aos instrumentos que nos permitem conceber e apropriarmo- 45 -nos da realidade e dos factos que a constituem. As aprendizagens dos alunos terão que ser compreendidas à luz das actividades de carácter cognitivo que estes dinamizam e das potencialidades que manifestem, neste âmbito, para o fazer, ainda que estas não sejam suficientes para explicar a ocorrência dessas aprendizagens, já que se torna necessário reconhecer, também, que tal actividade só poderá acontecer através da utilização de um dado conjunto de instrumentos culturais aos quais se acede em função da apropriação de um património que está longe de poder ser considerada uma tarefa simples e linear. O paradigma pedagógico da comunicação: Educar é interpelar e ser interpelado no seio de uma comunidade de aprendizagem Só convocando a possibilidade de estabelecer um terceiro paradigma que nos permita reflectir sobre o acto de educar e o acto de aprender a partir de pressupostos distintos daqueles que temos vindo a invocar é que se pode ultrapassar o impasse e superar os bloqueios que nos conduziram às visões algo dicotomizadas que temos vindo a revelar sobre aqueles dois actos Neste terceiro paradigma nem os professores, nem os alunos, nem o saber podem ser remetidos para o lugar do morto, o que significa que mais do que uma relação privilegiada a identificar entre dois pólos, se identificam, agora, relações de natureza mais plural, contingente e aleatória, entre essestrês vértices do triângulo proposto por Houssaye. Relações estas que permitem evidenciar a comunicação, e não a aprendizagem, como a operação alternativa ao acto de instruir, na medida em que o acto educativo, abordado a partir de tal perspectiva, tende a ser visto como um acto que, para se realizar, depende da qualidade e da pertinência das interacções que se estabelecem entre os professores e os alunos ou os alunos e os professores entre si, a propósito das relações estrategicamente distintas que ambos estabelecem com o saber. Saber este que tanto pode conduzir a ampliar e a complexificar o olhar que os sujeitos produzem acerca do mundo, como acaba por ser afectado pela actividade cultural que os sujeitos dinamizam a partir desse mesmo saber. É que, como afirma Meirieu, os alunos no âmbito do processo de apropriação dos objectos de saber não se limitam a apoderar-se, apenas, desses objectos, já que tal apropriação os conduz inevitavelmente a “examiná-lo, para pegá-lo nas mãos, para manipulá-lo, para apropriar-se dele ou desvirtuá-lo, enfim, para pôr «algo de si nele»” (Meirieu, 2002, p.80). 46 Chamaremos paradigma da comunicação a este paradigma pedagógico que se caracteriza por valorizar a qualidade dos mais variados tipos de interacções que acontecem numa sala de aula como factor potenciador das aprendizagens dos alunos que, neste caso, são entendidas em função do processo de apropriação, por parte destes, de uma fatia decisiva do património cultural disponível, enquanto condição do processo de afirmação e desenvolvimento pessoal e social das crianças e dos jovens no seio da sociedade em que vivemos. Trata-se de uma perspectiva que terá que ser entendida à luz de um conjunto de variados contributos, dos quais se destacam. (i) no campo da Pedagogia, as reflexões propostas, entre outros, por F. Oury e A. Vasquez (1977; 1977ª; 1977b; 1977c; 1978), Paulo Freire (1974; 1975; 1983; 1996) e P. Meirieu (1993; 1996; 2002; 2005)12; (ii) as abordagens de pendor culturalista e sócio-construtivista, relacionadas com a área da Psicologia, como aquelas que Vygotsky (1977; 1978; 1987; 1998), J. Bruner (1999; 2000; 2002; 2002a), B. Rogoff (2005), J. Wertsch (1985; 1988;1993), J. Wertsch, P. Del Río & A. Álvarez (1998), J. Valsiner, (1989; 2001), C. Pontecorvo (2003; 2005) ou, ainda, L. B. Resnick, R. Säljö, C. Pontecorvo e B. Burge (1997) foram produzindo13; (iii) as leituras que, no campo da Sociologia, se relacionam com a problemática da educação e da aprendizagem, das quais destacaríamos os trabalhos sobre diferenciação pedagógica e desenvolvimento de competências de P. Perrenoud (1999; 2000; 2001; 2001a; 2004), a reflexão de B. Bernstein (1997; 1998) em torno do conceito de dispositivo pedagógico e a proposta que B. Charlot produz acerca 12 No campo da Pedagogia não se pode deixar de referir, enquanto contributos matriciais para a construção do paradigma pedagógico da comunicação, nem a reflexão proposta por J. Dewey (1996; 2002), nem a reflexão proposta por C. Freinet (1973; 1974; 1976; 1977; 1977a; 1977b) que podem ser consideradas como reflexões precursoras do paradigma pedagógico da comunicação. O primeiro assume, apesar dos vínculos que o relacionam com o paradigma da aprendizagem, expressa uma consciência explícita acerca do papel do património cultural como factor decisivo de qualquer processo educativo, nomeadamente quando afirma que “[é] ela [a criança] e não o assunto-matéria quem determina quer a qualidade, quer a quantidade da aprendizagem” (Dewey, 2002, p.161), ainda que se considere ser esse «assunto-matéria» que constitui “o alimento para o espírito, o material potencialmente nutritivo” (idem). O segundo, C. Freinet, apesar de se manter, de certo modo, refém da perspectiva pedocêntrica, é inequivocamente um pedagogo cuja obra anuncia a transição entre o paradigma pedagógico da aprendizagem e o paradigma pedagógico da comunicação, sobretudo quando propõe uma organização do espaço, do tempo e das actividades na sala de aula que favorecem quer a partilha com os outros, quer a participação dos alunos em processos de cooperação e de interlocução como acontecimentos decisivos no âmbito do processo educativo de que os alunos são os sujeitos-alvo, sem os quais não há, de facto, na perspectiva de Freinet, construção do conhecimento. 13 Na área da Psicologia existe um património de reflexões vastíssimo que tem a ver com as abordagens de pendor culturalista e sócio-construtivista. Para além da existência de outros autores que não figuram na lista atrás citada, e estamos a pensar, por exemplo, naqueles que se debruçam e reflectem sobre a obra de Vygostsky e sobre as suas implicações educativas, há que referir também todos os contributos que surgem em revistas científicas, nomeadamente aquelas cuja perspectiva editorial as situa no campo das abordagens atrás referidas. Neste âmbito, atrevemo-nos a referir a revista Human Development e a revista Culture & Psychology, da qual Jaan Valsiner é o editor, como revistas que poderão ser enquadradas no âmbito das abordagens atrás referidas. 47 da articulação entre aprendizagens e modalidades de relação com o saber (Charlot, 2000; 2001) ou, finalmente, (iv) os contributos de autores que, hoje, na área da Didáctica tendem a incorporar explicitamente as reflexões da área da Epistemologia, a partir das mais diversas área do saber como, entre tantos outros, A. Giordan e G. de Vecchi (1990), G. de Vecchi e A. Giordan (s.d.), G. Charpak (1996; 1998), G. Glaeser (1999), G. Vergnaud (2000), J. Brun (2000; 2000ª), J. Brousseau (2000), J. I. Pozo (2004), J. Praia (1999), J. Praia & A. Cachapuz, (1998), M. J. Rodrigo & J. Arnay (1998) e Y. Chevallard (1991)14. Em suma, o paradigma da comunicação pode ser caracterizado como o produto resultante da emergência de uma outra concepção acerca do que se entende por ser e tornar-se pessoa. Pontecorvo (2003), inspirada em Baktin, afirma que os significados que atribuímos às coisas, aos factos e aos acontecimentos não se geram a partir do interior da mente de quem quer que seja, mas do diálogo que alguém tem oportunidade de estabelecer com outros seres humanos, em função do qual um indivíduo se envolve num processo de compreensão activa da perspectiva dos outros e da procura de respostas que são, afinal, o efeito das interacções entre quem fala e quem ouve, como se estivéssemos perante uma faísca eléctrica que nos ilumina quando se põem em contacto os dois terminais de uma bateria. Neste sentido, o saber que vamos construindo terá que ser abordado como o resultado de um processo de comunicação, conduzindo-nos, assim, a concluir que é o modo como as interacções pedagógicas contribuem para que os alunos possam beneficiar do contacto ou mesmo do confronto com os professores, com os saberes já estabelecidos e com os seus pares que importa discutir. É que se o saber não pode ser imposto, também não é produto de um processo que se possa desenvolver dissociado do património cultural que lhe confere um sentido e lhe fornece os meios e as referências matriciais em função das quais esse mesmo saber é construído. 14 A lista de autores acabada de elencar está longe de ser uma lista completa e acabada. Nela referem-se, apenas, os nomes daqueles que, indubitavelmente, contribuíram para configurar o que temos vindo a designar por paradigma pedagógico da comunicação. O facto de não haver referências a autores da área da Organização e da Gestão Curricular deve-se a uma opção que tem a ver, sobretudo, com a configuração do espaço teórico onde situamos os três paradigmas que têm servido de suporte à reflexão que promovemos. Estes paradigmas, tal como nós os concebemos, debruçam-se sobre o domínio da operacionalização do trabalho na sala de aula e as dinâmicas denatureza pessoal, social e cultural que aí têm lugar. Ainda que um tal trabalho e tais dinâmicas não possam ser abordados como realidades circunscritas, ainda que tenham que ser compreendidas à luz da vertente curricular que as afecta, importa compreender que, neste caso, a reflexão sobre esta vertente não é decisiva para o trabalho de elucidação teórica que pretendemos promover. 48 Tendo por referência esta concepção, o que se constata é que é o paradigma pedagógico da comunicação, e não o paradigma da aprendizagem, que se afirma como o paradigma alternativo ao paradigma da instrução. Uma opção que, num primeiro momento, deriva do reconhecimento da clivagem existente entre este último paradigma e os restantes paradigmas pedagógicos que foram sendo mencionados. Uma clivagem que tem a ver com o estatuto que se atribui aos alunos como actores educativos, verificando-se que, no paradigma da instrução, estes são vistos como alguém que assume um papel de subalternidade pedagógica e epistemológica, enquanto os paradigmas da aprendizagem e da comunicação, ainda que de forma distinta, os entendam como protagonistas nucleares dos processos educativos em que são envolvidos. Uma opção que, num segundo momento, obriga a afirmar que não é a importância que se confere à aprendizagem como operação que legitima a acção educativa que permite distinguir estes dois últimos paradigmas. A aprendizagem é considerada uma finalidade educativa desejada por ambos, daí que aquilo que contribui para o seu distanciamento conceptual e praxeológico tenha a ver, sobretudo, com a configuração do conceito de aprendizagem e o estatuto que se atribui, neste âmbito, quer aos professores, quer ao que temos vindo a designar por património cultural. Tendo em conta o enquadramento conceptual que sustenta cada um dos paradigmas verifica-se que as situações que contribuem para aprofundar aquele distanciamento derivam do facto do paradigma da aprendizagem fazer depender as aprendizagens do processo de desenvolvimento cognitivo que as potencia, enquanto o paradigma da comunicação entende que o acto de aprender pode acontecer quando os alunos se envolvem na construção de saberes15. É Bruner, através da análise retrospectiva, breve e circunscrita que produziu sobre a obra e a investigação pioneiras que ele próprio protagonizou no seio da corrente cognitivista, na década de 60 do século passado, que nos mostra como, para esta corrente na área da Psicologia, são os processos intrapsíquicos que constituem 15 Neste âmbito coube a Monteil (1985) distinguir informação, conhecimento e saber, de forma a clarificar conceitos decisivos no âmbito do seu processo de reflexão sobre o impacto da formação. Nesta perspectiva, a informação é entendida como uma entidade exterior ao sujeito e que pode circular entre os indivíduos, sendo passível de ser objecto de um processo de transmissão. O conhecimento, por sua vez, diz respeito às idiossincrasias pessoais e ao domínio do que sabemos de forma implícita sobre o mundo que nos rodeia. O saber, finalmente, emerge como a consequência de um processo que resulta do confronto entre a informação disponível acerca da realidade, o conhecimento pessoal que condiciona as nossas possibilidades de abordar essa realidade e de utilizar a informação sobre a mesma, bem como o investimento que produzimos no sentido de atribuir os significados que nos permitam a sua apropriação. O saber, neste sentido, não só se constrói, como se constrói a partir da informação e do conhecimento de que cada um de nós pode dispor. 49 o núcleo das suas preocupações pedagógicas. Uma afirmação que se vê corroborada, posteriormente, por uma outra afirmação através da qual o psicólogo americano considera, de forma explícita, que lhe parecia “agora, em retrospectiva, algumas décadas depois, que me preocupava então demasiado com processos isolados e intrapsíquicos de conhecimento e com o modo como estes podiam ser auxiliados por pedagogias adequadas” (Bruner, 2000, p.11). Ou seja, como se pode constatar, é no seio do próprio campo que o cognitivismo balizou, que se começaram a interpelar alguns dos pressupostos essenciais em função dos quais se foi construindo esta abordagem, gerando-se um processo de distanciamento conceptual e epistemológico que esteve na origem da emergência de um campo que, apesar da partilhar algumas das orientações teóricas nucleares do cognitivismo, não deixa de propor um quadro teórico distinto cujas implicações se fazem sentir em diferentes espaços, nomeadamente ao nível da reflexão sobre os actos de educar e de aprender. É em torno da valorização da cultura como factor que afecta de forma decisiva quer as aprendizagens dos alunos, quer, sobretudo, o seu desenvolvimento cognitivo e, em geral, o seu desenvolvimento pessoal e social que se afirma o movimento teórico que Bruner designa por Psicologia Cultural (Bruner, 2000; 2002a). Um movimento através do qual o psicólogo americano recusa a abordagem computacionalista da mente humana (Bruner, 2000), enquanto abordagem que contribuiu para formatar, na área da Psicologia, o paradigma cognitivista clássico, de forma a afirmar, em alternativa, o que ele designa por perspectiva culturalista (idem). Uma perspectiva que se constrói em torno de uma concepção nuclear, a de que a mente humana se constitui à medida que se utiliza e se usufrui da cultura humana, em função da qual a mente deixa de ser concebida como um dispositivo informático e a actividade cognitiva deixa de ser entendida em função, somente, dos mecanismos psicológicos que se activam para que os sujeitos se possam assumir como processadores de informação. Trata-se de um posicionamento teórico que, de algum modo, expressa a influência de Vygotsky nesta fase da reflexão produzida por Bruner, nomeadamente quando, para além da importância decisiva que atribui aos processos de interacção entre os sujeitos como variável psicológica incontornável (Vygotsky, 1987, 1978; 1987; 1998), propõe uma concepção de desenvolvimento cognitivo, a que Bruner (2000, 2002a) atribui uma centralidade inequívoca, que rompe com a representação de que estamos perante um processo eminentemente intrapsíquico, afirmando, antes, o desenvolvimento como um processo de natureza cultural que se constrói a partir das trocas, da partilha e da 50 cooperação que as interacções entre os sujeitos e, igualmente, entre estes e os instrumentos de mediação instrumental potenciam. É, pois, a partir da valorização da perspectiva culturalista que Bruner resgata a cultura do seu papel de variável dependente do desenvolvimento psicológico dos indivíduos, para lhe outorgar, pelo contrário, um papel nuclear quando defende que os significados que atribuímos às coisas, conferindo-lhes existência, é construído no interior da mente, mas têm origem e adquirem sentido no seio da cultura que os gerou (Bruner, 2000). A actividade cognitiva, neste caso, não poderá dissociar-se do modo como os seres humanos, dentro das respectivas comunidades culturais criam, recriam e transformam os significados (idem). Em suma, a realidade externa existe, mas só pode ser conhecida pelas propriedades da mente e pelos sistemas simbólicos que se activam para captar essa realidade e, de algum modo, para a construir. Trata-se de uma perspectiva que se vê reforçada pela reflexão de B. Rogoff, quando esta afirma que concebe o desenvolvimento pessoal de um sujeito como algo que ocorre em consonância com a sua participação “em actividades socioculturais contínuas, as quais se modificam, elas próprias, com o envolvimento de indivíduos em sucessivas gerações” (Rogoff, 2005, p.44), recusando, assim, que os processos tendentes a promover o desenvolvimento pessoal e o desenvolvimento social sejam entendidos “«como se» existissem independentemente uns dos outros” (obracitada, p.46). Isto é, segundo Rogoff, na “perspectiva sociocultural emergente, a cultura não é uma entidade que influencia os indivíduos. Em lugar disso, as pessoas contribuem para a criação de pessoas. Dessa forma, os processos individuais e culturais são mutuamente constitutivos, e não definidos separadamente” (obra citada, p.51). Do ponto de vista das suas implicações educativas, é o próprio Bruner que contribui para clarificar tais implicações quando considera que as generalizações decorrentes quer da aprendizagem dos ratos em labirintos, quer da “aprendizagem de sílabas sem sentido de segundanistas encarcerados num cubículo de laboratório” (Bruner, 2000, p.71) possam constituir fundamento para se pensar e reflectir sobre os actos educativos. É a partir deste pressuposto que, no âmbito da perspectiva culturalista, adquire peso teórico e importância o património de saberes acumulado e construído pela humanidade ao longo da História, entendido, agora, como um factor potenciador, entre outros, do desenvolvimento cognitivo dos sujeitos. Neste sentido, as aprendizagens deixam de ser identificadas com o “desenvolvimento de intercâmbios subjectivos” (obra citada, p.85) para serem percepcionadas como expressão da “gestão do conhecimento 51 «objectivo»” (obra citada, p.90), em função da qual se defende que as intervenções educativas no seio das escolas devem ajudar os alunos quer a captar a distinção entre o conhecimento pessoal e aquilo que é tido por conhecido pela cultura, quer a apropriar-se do modo como este tipo de conhecimento foi sendo construído (Bruner, 2000). Eis-nos perante uma reflexão que adquire maior amplitude através do contributo de B. Charlot, quando este, no momento em que constata que cada pessoa é “um sujeito confrontado com a necessidade de aprender e com a presença, no seu mundo de conhecimentos de diversos tipos” (Charlot, 2000, p.33), nos obriga a confrontarmo-nos com uma ideia nuclear do quadro teórico que nos propõe, o de que “não se pode ter acesso a um saber ou, mais genericamente a um aprender, se, ao mesmo tempo, não se tiver em conta as relações que supõem (e desenvolvem) este saber e este aprender” (Charlot, 2001, p.17). Para Charlot (2001), a aprendizagem resulta, então, de um processo que pressupõe o estabelecimento de relacionamentos de tipo diverso quer entre os indivíduos e os objectos de saber, quer entre os indivíduos e outros indivíduos, seja no âmbito das interacções já referidas que se estabelecem com aqueles objectos, seja no âmbito da vida que se partilha no seio da comunidade. É a partir destes pressupostos que, para Charlot, não se pode falar de aprendizagem, mas de aprendizagens. Para B. Charlot “aprender matemática e aprender a consertar uma moto (…), mas também aprender tudo o que é preciso aprender para sobreviver nas camadas populares (…), não é aprender a mesma coisa, como também não é aprender da mesma maneira” (Charlot, obra citada, p.17). Daí que Charlot proponha, a partir de três tipos de relações prototípicas com o saber, um quadro teórico que visa dar conta da pluralidade de situações de aprendizagem que podemos viver. São três as relações que Charlot identifica: (i) a relação de “objectivação-denominação” (Charlot, 2000, p.68); (ii) a relação de “imbricação do Eu na situação” (obra citada, p.69) e (iii) a relação de “distanciação-regulação” (obra citada, p.70). Trata-se de uma perspectiva que, ao contrário, por exemplo, da abordagem de Ausubel, não visa elucidar as dinâmicas intrapsicológicas do processo de aprendizagem. O que Charlot pretende é conferir visibilidade, por um lado, quer à dimensão epistemológica dos processos de aprendizagem, quer à dimensão intercultural dos mesmos, interpretando-as como dimensões cuja cumplicidade contribui para as co-definir como dimensões estruturantes dos actos de aprendizagem. Podemos dizer que enquanto Ausubel se interessa pelos processos, Charlot investe na reflexão sobre as situações. É que se através do primeiro tipo de relação enunciada se chama a atenção, no âmbito das situações de 52 aprendizagem, para a relação entre os indivíduos e a informação disponível no mundo em que habitamos, no segundo tipo de relação atrás enunciado, Charlot refere-se, sobretudo, às aprendizagens que permitem capacitar os sujeitos para utilizar um objecto ou um instrumento de forma pertinente. Trata-se de aprendizagens que tanto podem ter a ver com o desenvolvimento de competências de escrita, como com a execução de tarefas num laboratório ou numa oficina, utilizando instrumentos para as realizar. O terceiro tipo de relação diz respeito, sobretudo, às aprendizagens que permitem a cada indivíduo, em situação, tornar-se capaz de regular a relação e encontrar a distância conveniente tanto entre si e os outros, como entre si e si mesmo. Como se constata, não estamos perante tipos de aprendizagem mutuamente exclusivas, bem pelo contrário, já que a dimensão interpessoal do acto de aprender não acontece de forma dissociada do contacto e da utilização dos mais diversos instrumentos ou dos mais diversos saber- -objecto, sendo condicionada por estes, mas também não os deixando de os condicionar. No caso da educação escolar este é, como temos vindo a defender, um problema a valorizar, já que não é possível ignorar, em qualquer situação de aprendizagem, qualquer um dos tipos de relações atrás enunciados, mesmo que se possa alimentar a ilusão de o poder fazer. Trata-se de algo a ter em conta, na medida em que nos conduz para a discussão e a reflexão sobre a qualidade das interacções de natureza epistemológica e relacional, no âmbito das salas de aula, como um factor a gerir. Um factor em função do qual se evidencia a necessidade de compreender que, nas escolas, é por via da qualidade da comunicação entre os actores em presença, e subsequentemente entre estes e o património cultural, que se pode garantir a possibilidade da ocorrência dos mais diversos tipos de aprendizagens. Um desafio maior que se nos coloca nesse âmbito e que Bernstein contribui para resolver através da sua reflexão sobre a noção de “dispositivos pedagógico” (Bernstein, 1997, p.85). Segundo Bernstein (1997), o dispositivo pedagógico é um dispositivo regulador do processo de comunicação que visa tornar possível a apropriação e a atribuição de significados, por parte daqueles que aprendem, aos saberes, aos instrumentos, aos procedimentos e às relações que se estabelecem no âmbito de qualquer situação educativa. Distingue-se, assim, dos procedimentos didácticos tradicionais porque recusa a arrogância epistemológica e pedagógica que sustenta a crença que justifica estes procedimentos. Uma crença onde se parte do princípio que é possível definir, de forma prévia e descontextualizada, as sequências da aprendizagem que os alunos deverão percorrer, os quais, por isso, tendem a ser ignorados como seres singulares, intérpretes do mundo e portadores de 53 experiências e saberes vários. Ao contrário, os dispositivos pedagógicos propõe que os alunos possam beneficiar do contacto com situações e instrumentos que podem constituir oportunidades de aprendizagem, na medida em que potenciam o diálogo, o confronto ou a interlocução entre os aprendentes, tal como eles são e não como se desejaria que eles fossem. Sendo o produto de um desejo de comunicação que se pretende estabelecer a partir de uma relação entre indivíduos e, concomitantemente, entre estes e os objectos de aprendizagem, o dispositivo pedagógico é, por isso mesmo e também, um produtor do processo de comunicação que aquele desejo estimula. Neste sentido, afirma-se através da construção de dispositivos pedagógicos não só a inventividade didáctica dos professores, como a intencionalidade pedagógica que confere um rumo e um sentido a tal inventividade. É que o facto das aprendizagens se afirmarem através de uma relaçãode interlocução assimétrica, não significa, nem pode significar, que a comunicação, enquanto condição indispensável à construção dessas aprendizagens, não seja possível. Na verdade, não são as assimetrias entre os interlocutores que impedem a comunicação, mas o facto daqueles que, nesse âmbito, se assumem como os mais qualificados, os professores, pretenderem manter essas assimetrias, tanto por via da já referida arrogância pedagógica e didáctica, como por via da sua demissão como educadores. Se, como já o defendemos aqui, os dispositivos pedagógicos, tal como Bernstein os propõe, contribuem para recusar a possibilidade de estabelecer relações pedagógicas arrogantes, importa reconhecer, agora, que também contribuem para não serem coniventes com qualquer tipo de atitude que conduza à sua demissão como educadores, na medida em que o facto de reconhecerem os aprendentes na sua singularidade não significa que tenham de ficar reféns da mesma. É a partir deste ponto da reflexão que importa reconhecer que a valorização da importância dos dispositivos pedagógicos como instrumentos potenciadores da comunicação no espaço das salas de aula nos conduz a enfrentar alguns dos problemas que Perrenoud (2000; 2001) nos levanta quando aborda a problemática da diferenciação pedagógica. Tendo em conta o quadro teórico que Perrenoud nos propõe para abordar esta problemática, a partir da noção de regulação antecipatória, regulação, regulação retroactiva e regulação interactiva (Perrenoud, 2000), pode concluir-se que a cada um daqueles três modos de regulação pedagógica corresponde, respectivamente, quer uma concepção de diferenciação assistencialista, quer uma concepção de diferenciação compensatória, quer, finalmente, uma concepção de diferenciação inclusiva. Concepções estas que se distinguem entre si pelo modo como a terceira concepção 54 enunciada, ao contrário das outras duas, problematiza tanto as finalidades políticas, sociais e culturais da Escola, como os modos e as estratégias que esta instituição acciona para concretizar essas mesmas finalidades. Para aqueles que entendem a diferenciação pedagógica numa perspectiva inclusiva é incompatível com a perspectiva por eles defendida que as escolas continuem a funcionar segundo um modelo epistemológico que dissocia os sujeitos do processo de produção do saber, recusando- -se, assim, o que expressa, afinal, a recusa em aceitar que os alunos sejam reduzidos a meros receptores de informação. Neste sentido, a diferenciação pedagógica, entendida como eixo estruturante de uma escola inclusiva, conduz-nos obrigatoriamente à interpelação do próprio modelo de educação escolar, bem como dos programas ou das estratégias de mediação e de avaliação pedagógicas que se animam e utilizam. Diferenciar, neste caso, não pode ser sinónimo de segregar, em nome da não- -penalização da diferença, o que significa que as intervenções pedagógicas de natureza inclusiva não visam propor, apenas e somente, medidas educativas que acabem por preservar de qualquer tipo de interpelação as condições de funcionamento das escolas, em função das quais se justifica, da parte destas, a adopção, posteriormente, de tais medidas que permitam, em tese, tentar solucionar os problemas que estas, afinal, haviam criado. Diferenciar, deste ponto de vista, não passa, então, por dotar os indivíduos de instrumentos e saberes que permitam promover a sua adaptação ao universo escolar, sem se discutir e interrogar até que ponto as propriedades deste universo e as dinâmicas educativas que aí ocorrem constituem uma das fontes do problema com que esses indivíduos se confrontam. A diferenciação pedagógica, neste sentido, terá de resultar de uma actividade pedagógica que se define como um processo de comunicação, no âmbito do qual os professores assumem, como o já defendemos anteriormente, o papel de interlocutores qualificados. Um papel que os obriga a realizar um trabalho de recriação didáctica, em função do qual possam identificar os eventuais obstáculos que os alunos poderão enfrentar, os quais servirão de referência ao diálogo a estabelecer com estes alunos, bem como a explorar outros caminhos ou a formular novos instrumentos e situações de apoio. É no âmbito deste compromisso que se pode compreender melhor como as regulações de carácter interactivo (Perrenoud, 2000) são uma inevitabilidade pedagógica no seio de projectos de intervenção educativa que funcionem em torno dos pressupostos que sustentam o paradigma pedagógico da comunicação. Pode mesmo considerar-se que através da valorização desse tipo de regulações pedagógicas se afirma 55 a necessidade das escolas, em vez de acrescentarem novas oportunidades educativas àquelas de que já dispõem, terem que aprender a gerir de outro modo tais oportunidades, de forma a que estas se transformem, de facto, em oportunidades educativas consequentes, do ponto de vista da formação pessoal e social dos seus alunos. Em suma, é por via da valorização da apropriação de uma fatia decisiva do património cultural como uma finalidade primeira das escolas que o paradigma pedagógico da comunicação se distingue do paradigma da aprendizagem. Ainda que ambos acreditem que qualquer projecto de educação deve ter em conta os alunos, nas suas singularidades várias, há que referir que no paradigma da comunicação, ao contrário do paradigma da aprendizagem, se defende, de forma explícita, que esta é uma condição necessária, mas não é uma condição suficiente para que os alunos possam beneficiar do contacto com o património de instrumentos, procedimentos, informações e atitudes que temos ao nosso dispor e que podem, devem, constituir um factor promotor do desenvolvimento pessoal, social e cultural de todos os que frequentam as escolas. É que, tal como afirma Meirieu, defender que “os alunos poderiam decidir por si mesmos o que devem aprender provém da mesma ilusão do barão de Munchhausen, que achava que podia salvar-se do afogamento puxando-se a si mesmo pelos cabelos para fora da água” (Meirieu, 2005, p.80). Daí a importância da reflexão de B. Charlot, quando este nos chama a atenção para a pluralidade das formas e das modalidades de aprendizagem, da reflexão de Bernstein e Perrenoud que nos ajudam a compreender melhor o papel dos professores como actores cuja importância educativa depende do modo como estabelecem, através dos dispositivos pedagógicos que vão criando, recriando e animando, processos de regulação que, ao potenciarem as interacções entre pessoas e entre pessoas e objectos de aprendizagem, criam as condições para que estas não só se apropriem de tais objectos, conferindo-lhe um sentido, como, concomitantemente, se afirmem e se construam como seres humanos que necessitam de aprender a partilhar com outros seres humanos, partilhando, projectos de vida em comum. Será, assim, a partir deste conjunto de pressupostos que se funda o paradigma pedagógico da comunicação, o qual vem propor uma reconfiguração quer do estatuto dos alunos e dos professores, quer dos actos de educar e de aprender. Uma reconfiguração que permite compreender que o centro da actividade educativa não são os alunos mas as interacções que estes estabelecem com o património cultural que os planos de estudos consagram e, em função deste, uns com os outros e com o meio 56 físico, social e cultural envolvente. É em função da qualidade e do sentido de tais interacções que se explica, compreende e ocorre o processo de desenvolvimento de competências cognitivas, interpessoais, estratégicas e expressivas desses alunos. Não há, deste modo, qualquer tipo de incompatibilidade entre a apropriação do património cultural que na Escola se entende como decisivo para estimular o processo de socialização dos alunos e o processo de desenvolvimento pessoal e social que lhes diz respeito. Pode até considerar-se que a apropriação doprimeiro é condição de ocorrência do segundo. Daí que não se desvalorize a importância do contacto que os alunos possam estabelecer com a informação produzida por outros, mesmo que não se faça depender as suas aprendizagens, apenas e exclusivamente, do contacto com essa informação. A importância da informação decorre, então, do facto de se entender que é a sua procura, bem como a discussão, a interpelação e a reflexão a que a sujeitamos, em interacção com distintos interlocutores, que constitui uma das condições mais decisivas do processo de construção do saber e, neste sentido, da apropriação do património atrás referida, bem como, e concomitantemente, do processo de desenvolvimento que essa apropriação propicia e que, de algum modo, a estimula. De acordo com esta perspectiva, importa compreender, então, que os interesses e as necessidades dos alunos passam a ser entendidos como uma condição necessária, mas não como uma razão suficiente, para explicar as suas aprendizagens, ainda que tais interesses e necessidades não deixem de ser abordados como factores que permitem regular e conferir singularidade ao contacto entre os alunos e o património cultural. É que, e tendo por referência a abordagem psicocultural da educação que Bruner propõe, importa compreender que à educação compete impelir o ser humano a ir além das suas «predisposições naturais», facultando- lhe, para isso, o estojo de ferramentas culturais de que a humanidade dispõe (Bruner, 2000). Como já o defendemos, isto não significa que esta preocupação com a apropriação de uma dada fatia do património cultural corresponda a um desinvestimento na problemática do desenvolvimento, quer porque a educação tem sempre consequências na vida dos indivíduos, já que afecta a sua capacidade de pensar, relacionar-se, sentir, falar e agir (idem), quer porque contribui para a construção da identidade psicossocial e da auto-estima dos indivíduos, no momento em que, em primeiro lugar, os estimula a interagir uns com os outros, a partir da qual se torna possível reconhecer quem são, como se percepcionam e como se sentem e, em segundo lugar, os estimula, também, a interagir com os instrumentos culturais que afectam o modo como produzem significados e atribuem um sentido ao mundo que nos rodeia, o 57 que lhes permite desenvolver outro tipo de concepções acerca dos seus poderes e do seu raio de acção no confronto que estabelecem com os desafios que lhes são propostos. Por outro lado, para Bruner (2000), o desenvolvimento terá que ser compreendido em função quer dos constrangimentos intrínsecos, resultantes da nossa evolução como espécie, quer dos constrangimentos impostos pelos sistemas simbólicos que permitem potenciar a capacidade humana de interpretar significados e de construir realidades. Se se confirma, por esta via, que a perspectiva culturalista se enquadra no campo de abordagem do mundo que o construtivismo balizou, importa, acima de tudo, compreender que são as implicações educativas desta opção que importa valorizar. É que se a “«realidade» que imputamos aos «mundos» que habitamos é construída” (Bruner, 2000, p.40), a educação deve contribuir, por isso, para que se aprenda a utilizar os instrumentos de produção de significados e de construção da realidade. Um propósito que conduz a reconhecer, por um lado, que o significado que se atribui a qualquer facto, proposição ou interacção se constrói em função de um determinado quadro de referências, a partir do qual esse significado é definido e, por outro, que esse não é um processo que se constrói arbitrariamente ou de forma linear e homogénea, já que é marcado tanto pelas experiências pessoais dos sujeitos como pelos padrões culturais que influenciaram essas experiências e as interpretações que estes produzem face às mesmas. Se este é um dos contributos originais da reflexão de Bruner, a partir do qual este enfatiza a importância do património cultural como factor potenciador do desenvolvimento dos sujeitos, o outro tem a ver com o reconhecimento de que um tal desenvolvimento ocorre num quadro de interacções que o balizam e que, de algum modo, o determinam. Neste sentido, a multiplicidade de interacções em que cada um de nós se envolve não poderá ser circunscrita e abordada, apenas, em função das dinâmicas intrapsíquicas que permite suscitar. É que é através das interacções que as crianças e os jovens descobrem o que é a cultura e como é que através da sua apropriação se concebem e se produzem os significados que permitem construir o mundo. É, igualmente, através da interacção com os outros, e da partilha das obras que se produzem no contexto de uma sala de aula, que se “salva a actividade cognitiva do implícito, tornando-a mais pública, negociável e «solidária». Ao mesmo tempo torna-a mais acessível à reflexão subsequente e à metacognição” (obra citada, p.46). É, assim, em nome deste conjunto de compromissos educacionais que a proposta de Bruner pode ser considerada como uma abordagem que sustenta o paradigma da comunicação como paradigma pedagógico alternativo ao paradigma da aprendizagem, 58 no momento em que, tal como já o defendemos neste trabalho, não são os alunos, individualmente considerados, que constituem a preocupação pedagógica nuclear de um tal paradigma, mas as comunidades de aprendizagem onde estes alunos participam e aprendem a participar. O que se propõe, então, é uma concepção de educação que recusa entender os professores como seres omniscientes e os alunos como seres que tudo ignoram. Os primeiros, de acordo com esta perspectiva, deixam de ser entendidos como alguém que detém o monopólio do saber, para passarem a assumir o estatuto e o papel de interlocutores qualificados, elementos que contribuem activamente para a construção daquelas comunidades, onde a mutualidade se assume como o princípio fundamental a respeitar, já que é no seio daquelas comunidades que se: modela meios de acção e de conhecimento, fornece a oportunidade de emulação, proporciona o comentário contínuo, providencia apoio aos principiantes e disponibiliza até um bom contexto para um ensino ponderado. Torna mesmo possível a forma de divisão de trabalho referida a tarefas que se encontra em eficientes grupos de trabalho: alguns funcionam, ocasionalmente, como «memórias» para outros, ou como fiéis de registos de «onde vieram as coisas até aqui», como animadores ou admonitores. O importante é que os membros do grupo se ajudem uns aos outros a captar a «configuração do terreno» e a orientação da tarefa.” (Bruner, 2000, p.42). Será assim, e então, a partir deste momento que o papel dos professores necessita de ser repensado como elemento que terá que ocupar um lugar central no âmbito do processo de comunicação que é suscitado pelo contacto entre os alunos e o já referido património cultural. Neste caso, o processo de influência educativa que os professores animam deixa de ficar circunscrito tanto ao acto de ensinar, como ao acto de organizar ambientes, configurando-se, antes, de forma mais complexa, mais ampla, mais diversificada e mais contingente. Condição que os conduz a assumir o já referido papel de interlocutores qualificados, em função do qual se defende que os professores só poderão comprometer-se quer em assegurar um número algo restrito das aprendizagens dos alunos, quer em assegurar a sua participação activa na gestão do processo de comunicação que poderá criar as condições para que, por um lado, essas aprendizagens 59 possam ocorrer e, por outro, para que se possam potenciar os desafios e as experiências de suscitar um processo de formação mais amplo. Eis-nos, deste modo, perante um desafio profissional que faz da qualificação dos professores uma qualificação absolutamente necessária para alguém que tem que se mostrar capaz de activar os processos de comunicação nucleares em função dos quais sesustentam e se explicam os projectos de aprendizagem e de formação dos alunos. Qualificação essa que decorre da necessidade de, em primeiro lugar, se ter que reconhecer os alunos como seres dotados de saberes e de competências diversos que não poderão ser ignorados no curso do desenvolvimento daqueles projectos. Qualificação que se constrói, em segundo lugar, pelo facto desses professores possuírem, por um lado, um conjunto de saberes e competências e, por outro, assumirem uma consciência pedagógica explícita acerca das propriedades epistemológicas desses saberes, o que, no seu conjunto, lhes permitirá animar ou gerir o processo de comunicação entre os seus alunos e esses saberes, de forma produtiva e pedagogicamente consequente. Neste sentido, pode afirmar-se que a profissão docente se concretiza e se afirma, acima de tudo, na sala de aula, a partir dos desafios e das actividades que aí acontecem, ainda que, para que isso ocorra, se torne necessário ter em conta o tipo de relações que os professores estabelecem entre si, o tipo de envolvimento que protagonizam na construção do seu conhecimento profissional ou a necessidade de repensar as suas responsabilidades sociais, a partir de outros valores e de outros parâmetros (Cosme, 2006). Face à exigência dos compromissos profissionais que um professor, entendido como interlocutor qualificado, estabelece, importa reconhecer que os docentes não poderão continuar fechados num individualismo que, por causa desses compromissos, deixou de fazer sentido. É que a interlocução obriga a repensar as actividades que acontecem numa sala de aula e esse é um processo que obriga a partilhar saberes, a reflectir, em conjunto, sobre as experiências educativas por si vividas, a reconstruir, enfim, o conjunto de saberes profissionais que têm ao seu dispor. Trata-se, contudo, de uma abordagem que não poderá ser captada por via exclusiva da sua vertente técnica. O reconhecimento dos outros como interlocutores ou a valorização do processo de comunicação como condição educativa incontornável de um processo através do qual se problematiza o real, e as leituras que se produzem acerca do mesmo, só são viáveis mediante a assunção de um conjunto de pressupostos éticos de inspiração democrática. São estes pressupostos que justificam, então, que as responsabilidades sociais dos professores se afirmem quer pela assunção das suas responsabilidades educativas, quer 60 por uma definição destas responsabilidades que os conduz a repensar as modalidades de gestão curricular que se adoptam, os processos de mediação pedagógica e didáctica que se animam, e os dispositivos que, neste âmbito, se mobilizam, ou a filosofia de avaliação que se perfilha, bem como o grau de congruência entre essa filosofia, os dispositivos de avaliação que se implementam e o impacto dos mesmos na vida escolar dos alunos. Daí que o espaço da sala de aula deva ser repensado como “uma subcomunidade de discentes recíprocos, com o professor a orquestrar os processos” (Bruner, 2000, p.42). Um espaço onde se possa verificar que, contrariamente ao que as objecções mais conservadoras invocam, o papel do professor e a sua autoridade não se vêem reduzidos ou tão pouco postos em causa. “Pelo contrário, - afirma Bruner - o professor recebe a função adicional de encorajar os outros a partilhar essa autoridade” (idem). Uma situação que M. Postic explicita de forma magistral quando esclarece, a propósito da relação entre a formulação dos contratos pedagógicos e o exercício do poder na sala de aula, que “não se trata de distribuir poder, nem de conceder uma parte do poder ao grupo. É uma dialéctica do poder que se deve pôr em prática, porque cada um – o docente, os membros do grupo – deve ter em conta as iniciativas, as responsabilidades que uns e outros exercem e as regras estabelecidas em cooperação” (Postic, 1984, p.182). Neste caso, a “regulação da acção educativa provém do jogo social” (idem). Será a partir, então, deste conjunto de referências que se configura o papel dos professores como interlocutores qualificados, o qual adquire visibilidade pública, em larga medida, a partir dos processos de mediação pedagógica, curricular e didáctica em que os docentes se envolvem. Uma razão mais do que suficiente para se abordar, nos próximos capítulos, as operações que permitem estruturar tal actividade que, assim, serão identificadas como as operações: (i) de apoio directo aos alunos; (ii) de organização e gestão das situações de trabalho autónomo destes alunos e (iii) de criação das condições que se entende serem necessárias para promover a reflexão sobre o trabalho realizado. Será no próximo capítulo dedicado à gestão e organização do trabalho pedagógico na sala de aula que nos debruçaremos sobre aquelas operações, pensando que, através delas, se torna possível propor uma reflexão mais circunstanciada sobre a importância da acção educativa dos professores na promoção das actividades e da aprendizagem dos alunos. 61 O professor como interlocutor: Contributo para uma acção educativa qualificada Num tempo em que a alegada crise da educação expressa, também, a crise dos modos de pensar a educação (Correia, 1998), é de esperar que a reflexão sobre a configuração do estatuto e do papel dos professores não seja uma tarefa isenta de dificuldades. Se para aqueles que perfilham dos pressupostos e das crenças que o paradigma pedagógico da instrução divulgou, esta era uma problemática que não justifica grandes discussões, dado que a centralidade pedagógica do professor no espaço da sala de aula e nas escolas é inquestionável, há que ter em conta a abordagem do paradigma pedagógico da aprendizagem para a qual os professores mais do que agir, terão que, no mínimo, não obstaculizar a aprendizagem dos seus alunos. Trata-se, como se depreende, de duas perspectivas que colocam, só por si, dificuldades acrescidas aos professores. É que enquanto a primeira contribui para alimentar a crença de que os alunos poderão ser ignorados nas suas singularidades pessoais e culturais, a segunda tende a secundarizar ou a ignorar o impacto da acção docente no domínio das aprendizagens e da formação dos alunos, o que sendo possível admitir no plano dos princípios é um problema que não se pode ignorar no plano das acções concretas. É R. Fernandes (2003) que nos relembra que embora tenha competido, em larga medida, ao «Movimento da Educação Nova» divulgar esta última leitura sobre o papel dos professores, devido à racionalidade pedagógica de carácter pedocêntrico que os animava, o que se constata, posteriormente, é que, apesar dessa posição de princípio, há um legado pedagógico e didáctico que esse movimento pedagógico disponibilizou, através do qual se demonstra “como a problemática da influência educativa não é uma problemática completamente alheia ao «Movimento da Educação Nova». O dispositivo dos «Centros de Interesses» que Decroly concebeu, a organização didáctica que Montessori propõe para as suas »Casas dei Bambini», as propostas de Cousinet face ao trabalho de grupo, a forma que a Metodologia de Projecto assume seja na obra de Dewey, seja na de H. Parkhurst, a importância que C. Washburne atribuiu aos ficheiros auto-correctivos ou mesmo a complexidade do dispositivo de escrita que C. Freinet animou” (Fernandes, 2003, p.642) falam por si, já que, no seu conjunto, nos mostram como, para os pedagogos mais emblemáticos daquele movimento, o protótipo de organização de trabalho pedagógico que nos propõem está muito longe de poder 62 configurar manifestações que impliquem a recusa do exercício de qualquer tipo de influência educativa. Em suma, o que se constata é que nem há meio dos professores poderem escapar ao facto de serem fautores de influência educativa, a razão primeira que justifica a existência da profissão, nem a assunção do exercíciodessa influência obriga os professores a terem que desenvolver quer uma acção cultural normativa de difusão de um saber que não admite interpelações, quer uma acção domesticadora em função da qual se asseguraria a receptividade dos alunos no decurso daquela operação. Como sabemos a influência educativa de um professor não tem que se pautar obrigatoriamente por tais padrões que exprimem o vínculo privilegiado que se estabelece entre tal tipo de influência e o paradigma pedagógico da instrução. Há, de facto, outros modos de concretizar esse exercício. Modos estes que o paradigma da aprendizagem tende a não explicitar e que no âmbito do paradigma da comunicação são assumidos como um desafio algo paradoxal que, no entanto, não pode ser recusado. É que, como no-lo recorda Meirieu, um dos problemas educativos incontornáveis que temos que enfrentar é aquele que o autor revela a partir do “mito de Frankenstein” (Meirieu, 1996, p.13), “o qual nos coloca a todos perante o que se pode considerar o «nó górdio» da aventura educativa” (idem). É que “como Frankenstein, o educador (…) pretende dar vida a um ser que se parece suficientemente com ele para que o educador possa ser bem sucedido, ser esse, que em nome dessa semelhança e porque lhe foi dada liberdade, escapa inelutavelmente ao seu «fabricante»? (idem). Neste sentido, importa saber como é que a educação pretende «fazer» uma criança, no sentido de vir a produzir um homem livre, se o «fazer», em si, implica reconhecer a impossibilidade de aceitar a liberdade daquele que se pretende criar? (Meirieu, 1996). Eis-nos, assim, perante um problema que adquire uma projecção iniludível quando Perrenoud através dos onze dilemas que nos propõe, relacionados com o universo da comunicação numa sala de aula entre professores e alunos, nos confronta com o conjunto de tensões decisivas e insolúveis que emerge a partir do facto dos alunos deverem ser estimulados a assumir um maior protagonismo pedagógico e dos professores terem que lidar, de forma consequente, com esse propósito, num contexto marcado quer por compromissos pedagógicos que não se podem ignorar, quer por contingências várias que contribuem para complexificar um tal exercício. Desses onze dilemas escolhemos, apenas, cinco, porque são estes que melhor permitem ilustrar como aquelas tensões são propriedades estruturantes de uma relação pedagógica que se desenvolve sob o signo do paradigma pedagógico da comunicação. 63 “Em torno da tomada da palavra e do silêncio” (Perrenoud, 2001, p.65) é o primeiro desses dilemas. Através dele confronta-se a impossibilidade do professor “ter o privilégio de impor o silêncio e de rompê-lo, de dizer quem deve falar e quem deve calar-se, quando e porquê” (idem) e, simultaneamente, esperar que os alunos participem activamente no quotidiano da sala de aula, opinem, discutam, aprendam a ouvir e não se limitem, apenas, a dar “as respostas apropriadas, àquelas que o professor espera” (idem). A questão que se coloca, neste âmbito, tem a ver como o facto de se saber como é que o professor controla a tomada da palavra, de forma a que existam oportunidades de comunicação e de intercâmbio nas salas de aula, “sem esterilizar as trocas e sem acabar com a espontaneidade e o prazer?” (idem). “Em torno da norma da linguagem” (obra citada, p.66) é o segundo dilema seleccionado, através do qual Perrenoud se questiona quando é que o respeito pela norma pode ter um efeito formativo e quando é que esse respeito pode impedir que os alunos aprendam ou comuniquem. O terceiro dilema escolhido diz respeito à afirmação do poder pedagógico numa sala de aula, obrigando-nos a discutir: Se é possível subverter a dimensão assimétrica do processo de comunicação no seio da sala de aula, onde alunos e professores não possuem estatutos idênticos, para que se possa comunicar, aprender de forma significativa e desenvolver as competências necessárias a um exercício activo e autêntico de cidadania? Como é que uma comunicação de natureza assimétrica não impede a possibilidade de comunicar nem inviabiliza a possibilidade de analisar as situações de comunicação e de utilizar instrumentos de negociação que permitam aos alunos assumir a sua quota-parte de protagonismo em todas as actividades que ocorram numa sala de aula? “Em torno do erro, do rigor e da objectividade” (Perrenoud, 2001, p.71) é a designação que Perrenoud atribui ao quarto dilema por mim seleccionado, a partir do qual o autor pergunta: Como é que os alunos poderão expressar as suas representações, sem que isso legitime e credibilize a emergência de teorias inadequadas? 64 Como permitir que todos possam afirmar o que pensam sem favorecer o relativismo ou patrocinar o obscurantismo? Como trabalhar com o erro sem legitimá-lo? O último dilema que seleccionamos intitula-se “Em torno da eficácia e do tempo didáctico” (obra citada, p.72) e através deste dilema Perrenoud pergunta como é que se pode evitar que as aulas não se desenvolvam em função de um pseudo-diálogo em que as perguntas dos professores contêm, desde logo, as respostas dos alunos, nem que, tão pouco, se desenvolvam ao sabor dos acontecimentos e das vicissitudes das situações em que se salta de diálogo em diálogo, sem aparentemente se aprender alguma coisa com isso. É este conjunto de desafios que o paradigma da instrução e o paradigma da aprendizagem, por razões diferentes, não entendem como tal, o que constitui mais uma razão, a par de todas as razões já atrás aduzidas, que justifica o facto de termos defendido neste trabalho que é o paradigma da comunicação, e não o paradigma da aprendizagem, que constitui, hoje, a alternativa ao paradigma da instrução. Do ponto de vista das implicações desta proposta na formulação do exercício da actividade docente trata-se, como se tem vindo a poder constatar, de um desafio marcado por tensões e paradoxos que não poderão ser vistos, no entanto, como lacunas ou déficites de um processo que se desenvolve de forma inadequada, mas antes como propriedades constitutivas de momentos de comunicação que não acontecem por acaso, nem segundo a vontade estrita daqueles que nele se encontram envolvidos. Uma ilusão que, reconhece-se, a racionalidade pedagógica pedocêntrica acalentou, depois do instruccionismo ter recusado, não a ilusão, mas o próprio acto comunicação como acto pedagógico nuclear. Chegou, pois, o momento de afirmar, como o faz, R. Fernandes (2003) que: a aprendizagem de quem quer que seja é, sobretudo, uma possibilidade que se oferece, mais do que um propósito que se determina. Uma possibilidade que pode ser concretizada em função da oportunidade que o processo de comunicação, organizado tão intencionalmente quanto possível, pode suscitar e animar. Embora se ponha em causa a omnipotência do professor como uma entidade que determina o saber do aluno, não se põe em causa a possibilidade do primeiro se assumir como um personagem importante no âmbito do 65 processo de aprendizagem do segundo, desde que compreenda os limites e até o paradoxo de uma intervenção que obriga o primeiro a fazer algo pelo segundo, sabendo, contudo, que não o pode fazer por ele. Embora se ponha em causa o vitalismo do aluno que o conduziria na descoberta dos meandros do labirinto, através do qual ele poderia aceder aos instrumentos da cultura e ao desenvolvimento de competências que lhe permitirão construir-se e afirmar-se como pessoa, não se põe em causa nem o seu protagonismo nem a necessidade de se ter em conta a singularidade dos percursos a que esse protagonismo o conduz. É urgente, por isso, que se reconheça que é o modo como, no âmbito da educação escolar, o professor investe na construção de um processo de comunicação com os seus alunos que determina a possibilidade destes se apropriarem e usarem os instrumentos culturais queEscola coloca ao seu dispor, processo através do qual estes se podem afirmar como pessoas no âmbito de uma comunidade indispensável para que esse processo aconteça. Constata-se que, de acordo com esta perspectiva, a problemática da influência educativa deixa de ser uma problemática subentendida e restrita, a problemática do protagonismo dos alunos assume a importância que lhe é devida como um co-protagonismo que se desenvolve em função de um património cultural que tanto baliza como potencia esse protagonismo e o espaço do professor deixa de ser visto como o do demiurgo original ou o do parceiro que vai no lugar-do-morto para adquirir, antes, através da perda da sua centralidade pedagógica uma maior importância educativa, decorrente do seu contributo para a promoção activa da comunicação, enquanto condição propiciadora da oportunidade dos alunos realizarem aprendizagens. (Fernandes, 2004: 647 – 648) É partindo desta leitura que se pode aceder a uma outra abordagem do processo de influência educativa protagonizado pelos professores no seio das escolas, uma abordagem que sem recusar o exercício dessa influência, lhe confere um outro sentido, contribuindo para reabilitar o papel sócio-profissional dos docentes sem ser nem à custa 66 do protagonismo dos alunos, nem do património cultural cuja apropriação compete à Escola assegurar, nem, tão pouco, à custa da qualidade do processo de mediação subsequente que aos professores cabe animar. Neste âmbito, educar é permitir que o sujeito se reconheça e afirme como um sujeito no seio da comunidade humana e tendo por referência o património cultural que essa mesma comunidade disponibiliza. É essa comunidade que apoia cada sujeito a apropriar-se desse património e a atribuir-lhe um sentido ou uma utilidade, sendo o património cultural sujeito a um processo de apropriação que ocorre de forma participada e cooperada. Não se desvaloriza a informação, pelo contrário, defende-se é que a procura dessa informação, a discussão, a interpelação e a reflexão, a que a sujeitamos, é que constituem as condições mais decisivas do processo de construção do saber. Deste modo, não há aprendizagem sem estabelecermos comunicação, ainda que essa comunicação deva acontecer, quer em função das singularidades pessoais e culturais dos interlocutores, quer em função das particularidades epistemológicas do tipo de património cultural que, nas escolas, justifica essa comunicação. Em suma, sendo a escola uma instituição que se define como um espaço de influência educativa, sob pena de deixar de existir se recusar tal compromisso e assumindo os professores um papel decisivo no âmbito desse contexto e na implementação e desenvolvimento desse processo de influência, aquilo que importa discutir não é saber se é legítimo, ou não, que essa influência se exerça, mas discutir, em primeiro lugar, os sentidos da mesma e os modos como esta se exerce. É de acordo com este conjunto de pressupostos que se afirma a necessidade dos professores se assumirem como interlocutores qualificados. Uma necessidade que tem a ver, por um lado, com o facto dos professores, caso se assumam como instrutores ou como organizadores e animadores de ambientes de aprendizagem, tenderem a ignorar quer os alunos, quer o património cultural cuja apropriação compete à Escola promover, como vértices decisivos e incontornáveis de um processo de comunicação cuja importância decorre do facto de poder sustentar e potenciar um projecto de educação. Depois do investimento realizado no domínio da reflexão teórica sobre o acto de educar e aprender, depois de esgrimidos os argumentos e esclarecidas as posições de princípio, chegou o momento em que nos iremos debruçar sobre os instrumentos e as estratégias em função dos quais se torne possível compreender como é que os professores se poderão assumir como interlocutores qualificados, de acordo com os pressupostos e as opções que norteiam o paradigma pedagógico da comunicação. Fá-lo- 67 -emos a partir de três tipos de operações que, no seu conjunto, permitem contribuir para a configuração acção docente como uma acção de interlocução qualificada, a qual se concretiza, de forma minimamente concertada, através de: (i) acções de apoio ao trabalho e às actividade de aprendizagem dos alunos; (ii) acções relacionadas com a organização social do trabalho de aprendizagem e (iii) acções relacionadas com a promoção de situações de reflexão por parte dos alunos sobre a vida e as actividades que têm lugar nas salas de aulas. É possível compreender melhor, através do quadro da fig. 1, o plano de trabalho que vamos seguir, de forma a cumprir o propósito que anunciamos, o qual passa por contribuir para a configuração do papel dos professores como interlocutores qualificados, em consonância com o modelo de educação escolar que o paradigma pedagógico da comunicação propõe. CATEGORIAS ACTIVIDADES Apoio ao trabalho e às actividade de aprendizagem dos alunos Aulas expositivas; Apoio tutorial; Apoio ao desenvolvimento de projectos; Actividades de publicitação e partilha dos trabalhos realizados. Organização social do trabalho de aprendizagem Momentos, actividades e instrumentos de regulação do trabalho na sala de aula. Promoção de situações de reflexão por parte dos alunos Momentos, actividades e instrumentos de reflexão e de avaliação. Fig. 1 – Quadro global de acções de intervenção educativa Trata-se de uma proposta que deverá ser entendida como um contributo para uma reflexão sobre esse papel, cujos limites e limitações importa reconhecer, sobretudo se cairmos na tentação de esquecer que a acção docente é, sempre, uma actividade contextualizada que, por isso, obriga à adopção de decisões pedagógicas singulares que tenham em conta quer as finalidades do envolvimento que os actores mantêm entre si, quer as razões e as circunstâncias que permitem definir e concretizar um tal envolvimento. De acordo com esta perspectiva, não é possível prescrever, do exterior dos espaços educativos, os procedimentos e as atitudes que aí se poderão assumir, na medida em que, no âmbito do que temos vindo a designar por paradigma pedagógico da 68 comunicação, o processo de interlocução educativa só é possível se se valorizarem tanto as particularidades pessoais dos sujeitos que partilham uma determinada sala de aula, como, igualmente, as finalidades e os compromissos culturais que justificam a ocorrência de um tal processo. Neste sentido, a relação que se estabelece nos contextos escolares terá que ser entendida como uma relação contingente que obriga à assunção de decisões únicas e particulares. Decisões estas que podendo beneficiar dos saberes que outros foram construindo e propondo não deixam de ser decisões que dependem, em última análise, do livre arbítrio de todos os que se encontram envolvidos num determinado acto educativo. A importância que este livro possa ter advém, assim, quer do modo como contribui para o debate em torno dos actos de educar, formar e aprender, quer, subsequentemente, em função do modo como pode apoiar a tomada de decisões pedagógicas por parte dos professores no âmbito das tarefas que lhes dizem respeito, sem pretender alimentar a ilusão que é possível fazer por estes o que só a estes compete fazer. Se uma tal ilusão não fosse uma ilusão, nenhum docente necessitaria de ser um interlocutor qualificado, bastar-lhe-ia ser um funcionário zeloso e atento que, de forma competente, cumpriria os preceitos que os especialistas ditariam. Se uma tal ilusão não fosse uma ilusão, era de uma pedagogia da ilustração que falaríamos neste livro e não da comunicação como eixo estruturante de um modelo de intervenção pedagógica congruente com os princípios e os valores de escolas que se enquadram no seio de sociedades que se reivindicamcomo democráticas. 69 Apoio ao trabalho e às actividades de aprendizagem dos alunos As actividades relacionadas com o apoio directo ao trabalho dos alunos, entendidas como uma componente decisiva do trabalho dos professores, não podem deixar de ser relacionadas com o paradigma pedagógico que justifica que estes se assumam como interlocutores qualificados. Significa isto que tais actividades, quer do ponto de vista da sua formulação, quer do ponto de vista do processo de gestão e animação que visam operacionalizar as mesmas, terão que ser abordadas em torno desse vínculo matricial e do modo como tal vínculo as condiciona como acções de carácter pedagógico. Neste momento, referir-nos-emos, então, às actividades de apoio directo ao trabalho dos alunos, subdividindo-as em torno de duas categorias maiores: a) as actividades que implicam uma interacção directa entre alunos e professores, onde se enquadram, entre outras, as aulas expositivas ou os debates; b) as actividades que se desenvolvem através de instrumentos de mediação em função dos quais os professores visam estimular o trabalho dos alunos, individualmente ou em grupo, como é o caso, por exemplo, das actividades de investigação ou das actividades de concepção e desenvolvimento de projectos. Abordaremos, então, cada uma das actividades constantes no quadro da fig.1, as quais, num primeiro momento, serão objecto de reflexão prévia quanto às suas eventuais potencialidades e vulnerabilidades pedagógicas, para, num segundo momento, se identificarem os instrumentos e as estratégias que lhes conferem corpo e forma. Aulas expositivas As aulas expositivas são uma actividade pedagógica que se desenvolve através da interacção directa entre professores e alunos, sendo entendidas, também, como a expressão de um tipo de prática pedagógica que melhor se adequa ao paradigma pedagógico da instrução. A sua inclusão no âmbito dos dispositivos de intervenção que os professores, enquanto interlocutores qualificados, podem utilizar explica-se, então, quer pela importância e o estatuto que atribuem às aulas expositivas, quer, por 70 consequência, pelo modo como as utilizam e as enquadram no conjunto das intervenções de natureza pedagógica e didáctica que protagonizam. É que as aulas expositivas constituem, de facto, um instrumento decisivo, quase que exclusivo, das acções docentes de natureza instruccionista porque, mais do que polarizar o discurso na figura do professor, integra-se numa cadeia de procedimentos pedagógicos que lhe confere um papel estrategicamente determinante no domínio das acções de natureza educativa que se desenvolvem sob a égide do paradigma pedagógico da instrução. Neste âmbito, as exposições dos professores são o instrumento didáctico em função do qual se determina a dinâmica pedagógica de acções de intervenção educativa que entendem o acto de educar na Escola em função de um saber que se afirma através de uma sucessão de enunciados, articulados entre si, de uma forma lógica, mas que tendem a não fazer qualquer sentido fora do espaço da sala de aula (Astolfi, 1993; Fabre, 1999). Neste ambiente epistemológico é a aquisição de saberes declarativos, por parte dos alunos, que constitui o objectivo dos professores, desvalorizando-se, assim, quer o modo como tais saberes são adquiridos, quer o modo como são utilizados. Legitima-se, por esta via, a afirmação de um modelo de intervenção educativa nas escolas, construído “em função do esquema lição + aplicação que caracteriza a pedagogia tradicional” (Fabre, 1999, p.77). Tal esquema, que é a face visível de um dispositivo técnico rígido e formalmente organizado, tende a privilegiar o papel dos professores como instrutores que se limitam a aplicar um plano detalhado e sequencialmente organizado que prevê, passo a passo, as actividades que os alunos terão de realizar e os conhecimentos que deverão manifestar em provas de avaliação especialmente organizadas para o efeito. Confrontámo-nos, assim, com uma representação do acto de aprender que identifica a aprendizagem com uma operação de aquisição de conhecimentos ou de competências que outros nos transmitem. Parte-se do princípio, em larga medida implícito, que “os conhecimentos são coisas” (Meirieu, 1993, p.53), afirmação que permite sustentar “a convicção que os saberes representam bens sociais e se traduzem em possessões materiais identificadas” (idem). Entendendo- se o saber escolar como um produto tangível, podem identificar-se as práticas de ensino como práticas de distribuição de informação. Nesta perspectiva, a sala de aula passa a ser concebida como o meio o “meio onde os conhecimentos são dispensados… Basta ouvi-los, revê-los, aplicá-los com atenção, coragem e ardor, incansavelmente, até à sua apropriação” (idem). É, neste sentido, que as aulas expositivas ocupam um lugar estrategicamente decisivo no âmbito das práticas educativas que o paradigma da 71 instrução inspira, já que é através destas aulas que, por termos esquecido o modo como construímos o saber, nos arrogamos o direito de pensar que o podemos transmitir, quase que exclusivamente através de palestras, esse saber. No paradigma da comunicação, as aulas expositivas assumem uma função distinta. Em primeiro lugar deixam de ser a única estratégia que se privilegia para promover o contacto entre os alunos e a informação que se entende ser útil para que estes possam participar no processo de construção do saber que lhes diz respeito. Em segundo lugar, e pelas razões atrás aduzidas, as exposições, como instrumento de acção pedagógica, ficam sujeitas a um tipo de intencionalidade educativa que obriga os professores a um uso mais circunscrito e contextualizado das mesmas. Tal como afirma Ferrière “toda a lição deve ser uma resposta a uma questão que antes de mais deve conduzir uma criança a colocar a si própria um problema” (Hameline, Jornod e Belkaid, 1995, p.53). Uma lição que se promove quando se decide que este poderá ser o meio mais adequado para que os alunos possam contactar com informação tida como útil e necessária às aprendizagens que deverão desenvolver. Neste sentido, as exposições passam a ter um carácter ocasional, ao contrário do paradigma da instrução que lhes atribuía um papel dominante no âmbito de um projecto educacional que é suportado pelo ensino sistemático a cargo dos professores, os quais deverão assegurar, acima de tudo, a receptividade dos seus alunos para o discurso que aqueles lhes oferecem. É Ausubel (2003) um dos autores que melhor contribui para clarificar o papel que as aulas expositivas, circunstancialmente, poderão assumir como instrumento educativo relevante, quando chama a atenção para a possibilidade de tais aulas poderem, em certas circunstâncias, contribuir para se anteciparem ou contornarem as dificuldades de relacionamento entre as representações relevantes já presentes na estrutura cognitiva dos aprendizes e a informação que lhes é exterior, a qual compete aos professores disponibilizar. Ausubel interessa-se, assim, por identificar quer as situações pedagógicas no âmbito das quais o método expositivo pode ser um entendido como um método pertinente, quer, também, algumas das suas utilizações mais inadequadas. Daí que se refira, como exemplo de tais utilizações: (i) à apresentação arbitrária dos factos, não os relacionando entre si nem os articulando, tão pouco, no seio de uma rede conceptual; (ii) à utilização de uma linguagem que impede a compreensão e a comunicação por parte da audiência e (iii) à utilização, posterior, de procedimentos de avaliação que visam reconhecer, apenas, a capacidade de evocar factos discretos ou de 72 reproduzir o mais fielmente possível as informações anteriormente veiculadas (Ausubel, 2003). É a partir deste conjunto de considerações que se podeconsiderar que as aulas expositivas poderão ser consideradas um instrumento que os professores, enquanto interlocutores qualificados, poderão utilizar como dispositivo de mediação pedagógico. De acordo com os argumentos que enunciamos atrás, trata-se de uma opção viável e congruente com o paradigma da comunicação, caso a sua utilização seja expressão de uma intencionalidade pedagógica explícita e intencionalmente assumida, caso seja entendida com uma possibilidade circunscrita que depende do modo como se integra numa cadeia de procedimentos didácticos onde coexiste, de forma congruente, com outros dispositivos pedagógicos igualmente relevantes, caso, finalmente, seja adequadamente utilizada como um dispositivo que tem em conta as singularidades daqueles que compõem o auditório para o qual as exposições se dirigem. Isto é, as aulas expositivas obedecem a um conjunto de procedimentos que visam potenciar as possibilidades de comunicação entre todos os participantes que nelas intervêm, os quais importa respeitar para que se transite do domínio dessas possibilidades para o domínio das realidades. Através do quadro da fig. 2 é possível aceder-se ao protótipo a partir do qual se visa dar conta das etapas nucleares e das actividades que permitem configurar o esquema de exposições que possam constituir-se como um instrumento de comunicação. ETAPAS ACTIVIDADES 1. Definição Dos objectivos Para quem vamos falar? O que pretendemos com a nossa intervenção? O que é que os ouvintes saberão sobre o assunto? 2. Análise do conteúdo da exposição Quais as ideias-chave da exposição a realizar? Qual é a ordem da sua apresentação? Porquê? 3. Realização da exposição Introduzir o tema; Apresentar o plano de trabalho; Desenvolver as ideias-chave da exposição; Trabalhar a conclusão; Estabelecer um tempo de debate ou de realização das tarefas. Fig. 2 – Roteiro de uma aula expositiva A leitura do quadro da fig. 2 permite que se compreenda que as duas primeiras etapas dizem respeito a uma fase que poderíamos designar por momento da 73 planificação, o qual é um momento prévio ao contacto dos professores com os alunos, enquanto a terceira etapa se refere ao momento da exposição propriamente dita, o qual já diz respeito ao contacto entre aqueles actores educativos no espaço da sala de aula. Como se constata o desenvolvimento de uma exposição é uma tarefa que obriga a uma reflexão prévia que deve ter conta quer as particularidades da informação a divulgar, quer as particularidades dos sujeitos-alvo para os quais a exposição se destina. Pode mesmo considerar-se, de acordo com o que acabamos de afirmar, que é a identificação das ideias-chave, e as modalidades de interpelação que os professores utilizam para dialogarem com os seus alunos, que constituem as operações nucleares que deverão merecer uma maior atenção da parte dos docentes. São, afinal, operações que, de algum modo, começam a ser desenvolvidas no momento da planificação, quando se configura o mapa conceptual relativo à temática a expor (Ausubel, 2003; Ontoria, e al., 1994), em função do qual se estrutura a exposição a desenvolver. Será esse mapa que corresponde, de algum modo, ao que Bruner designa por “estrutura óptima” (Bruner, 1999, p.62), um sistema organizado e codificado de informação, no âmbito do qual se articulam os conceitos estruturantes que se relacionam com qualquer um dos temas que se pretenda abordar, o qual permitirá, concomitantemente, que se aceda às ideias-chave que estruturam esses mapas, bem como às articulações que, no seio dos referidos mapas, se estabelecem entre elas. É este exercício que, em segundo lugar, permitirá prever, de algum modo, os eventuais obstáculos à compreensão das mesmas, os equívocos a ter em conta e os mal-entendidos que o discurso dos professores poderá conter. Um exercício que não poderá eximir os docentes de, no decurso da exposição, tentar confirmar até que ponto, e como, é que os seus alunos compreendem a mensagem que lhes é proposta ou se esta lhes suscita os já referidos equívocos e mal-entendidos. Verifica-se, deste modo, que apesar da importância que assumem as etapas da definição de objectivos e da análise do conteúdo da exposição, há que reconhecer que a etapa da realização da exposição é uma etapa que não depende, apenas e exclusivamente, do que acontece nas etapas anteriores. Trata-se de uma etapa que corresponde ao momento em que os professores e os alunos interagem entre si e que, como tal, se encontra sujeita a um conjunto de vicissitudes que, podendo ser objecto de reflexão prévia, não poderá ser previamente determinada pelos docentes. Tendo em conta, no entanto, esse trabalho de reflexão prévia pode-se, pelo menos, assumir um conjunto de procedimentos que se passam a explicitar no quadro da fig. 3. 74 ACTIVIDADES PROCEDIMENTOS Apresentar o plano de trabalho Enunciar os objectivos da exposição; Evitar as divagações e as frases amíguas. Desenvolver as ideias-chave da exposição I – Procedimentos relacionados com a exposição propriamente dita Apresentar a matéria através de ciclos explicativos que correspondam a unidades conceptuais significativas; Dar explicações detalhadas para os pontos mais difíceis; Dar exemplos variados e concretos; Apoiar a exposição através de esquemas ou imagens figurativas; Resumir e reformular a exposição, evidenciando os seus pontos fulcrais, no fim de cada ciclo explicativo; Voltar a expor a matéria sempre que os alunos pareçam confusos ou que mostrem dificuldades face à mensagem exposta: reformulando a mensagem; multiplicando os exemplos; recorrendo a situações familiares aos alunos; utilizando os saberes prévios dos alunos, como pontos de ancoragem da exposição a fazer. II – Procedimentos relacionados com a monitorização da exposição Fazer perguntas para monitorizar a compreensão por parte dos alunos; Verificar se os alunos compreenderam um ponto da matéria antes de passar a outro; Solicitar, em alternativa, que os alunos resumam ou reproduzam, nas suas próprias palavras, os diversos pontos da matéria expostos; Trabalhar a conclusão Evidenciar as ideias ou os resultados mais importantes; Propor algumas questões para o debate ou tarefas a realizar. Tempo de debate ou de realização das tarefas As questões e as tarefas a propor poderão ser de diversos tipos: Questões e tarefas que visam apoiar os alunos a realizar um trabalho pessoal de estudo sobre a matéria em causa; Questões e tarefas que visam estimular os alunos a realizar sínteses sobre a matéria em causa; Questões e tarefas que visam estimular os alunos a realizar um trabalho de exploração sobre as temáticas relacionadas com a matéria em causa; Questões e tarefas que visam estimular os alunos a colocar questões sobre a matéria em causa; Questões e tarefas que visam apoiar os alunos a realizar um trabalho, com algum grau de autonomia, a partir da exposição que lhes foi proposta. Fig. 3 – Procedimentos a seguir no âmbito da realização de uma aula expositiva No âmbito do paradigma da comunicação o que é novo no tipo de relação que se estabelece entre as aulas expositivas e os princípios e pressupostos que enformam este 75 paradigma tem a ver com um facto incontornável, o de que as aulas expositivas são um dispositivo cuja pertinência se afere em função do modo como este se articula com outros dispositivos de mediação pedagógica que, de um modo geral, tendem a estimular o trabalho autónomo, individual ou em grupo, dos alunos. Trata-se de um requisito que tem a ver com uma das propriedades fundamentais daquele paradigma, a partir da qual se defende que não se pode excluir os sujeitos do processo de construção do saber que lhes diz respeito.Neste sentido, as aulas expositivas não poderão contribuir para fazer pelos alunos aquilo que só eles poderão fazer. Isto é, o acto de aprender é um acto que não poderá ignorar os alunos como participantes activos no processo de aprendizagem, o que não significa, como já o defendemos, que seja um acto individual. Para acontecer necessita de ser desenvolvido como um acto de interlocução, no âmbito do qual os professores ocupam um lugar estrategicamente decisivo. Será, pois, a partir deste pressuposto que se justifica quer a valorização das aulas expositivas como dispositivo de mediação no âmbito do paradigma da comunicação, quer o entendimento que faz depender a importância dessas aulas do modo como estas se articulam com outras modalidades de intervenção pedagógica. Apoio tutorial O apoio tutorial ao trabalho dos alunos é uma das modalidades de intervenção educativa que se enquadra no domínio das actividades que se desenvolvem através de instrumentos de mediação em função dos quais os professores visam estimular o trabalho e as aprendizagens dos seus alunos e, simultaneamente, promover a sua autonomia nas tarefas que lhes dizem respeito. É no quadro da fig. 4 que se identificam os mais diversos tipos de acções de carácter docente que se enquadram no âmbito das actividades de apoio tutorial. APOIO TUTORIAL ACTIVIDADES Elaboração de roteiros relacionados com tarefas a realizar Apoio à realização de actividades relacionadas com o estudo; Animação e gestão de trabalhos de grupo; Apoio a actividades de pesquisa; Apoio a actividades de resolução de problemas. Fig. 4 – Actividades de apoio tutorial 76 Sendo actividades diversas quer quanto às suas finalidades, quer quanto aos instrumentos e estratégias que as suportam, são, mesmo assim, actividades que se caracterizam por partilhar os objectivos acima enunciados. Tal como as aulas expositivas, também as actividades de apoio tutorial não são actividades pedagogicamente auto-suficientes, daí que tenham que ser entendidas como peças de percursos pedagógicos e didácticos em função dos quais essas actividades adquirem sentido. Percursos esses que não poderão ser captados de forma prévia quer aos contextos onde acontecem, quer aos actores, professores e alunos, que os justificam e animam. Neste sentido, pode afirmar-se, mais uma vez, que não há percursos, estratégias ou dispositivos de mediação à prova da inteligência e das necessidades de professores e alunos. Apoio à realização de actividades relacionadas com o estudo São inúmeras as actividades que poderão relacionar-se com o estudo dos alunos, sendo de discutir, por isso, como é que estes poderão ser apoiados a concretizar tais actividades. O pressuposto é que através dessas actividades os alunos possam ter uma oportunidade para estudar e aprender e, simultaneamente, possam desenvolver competências de auto-organização e de autonomia que lhes permitam, a pouco e pouco, aprender a aprender. Trata-se de um propósito que, contudo, nem poderá ser dissociado das particularidades epistemológicas das diferentes áreas do saber, nem do papel que os professores poderão assumir como mediadores no decurso de um tal processo. Um processo que, graças à acção estratégica que estes poderão exercer e aos instrumentos que possam disponibilizar, os tornará, deste ponto de vista, dispensáveis, na medida em que, a prazo, é suposto que os alunos se possam apropriar desses procedimentos e dos instrumentos adequando-os aos seus estilos e necessidades. Neste sub-capítulo proporemos alguns exemplos de actividades que visam ilustrar o tipo de apoio a que nos referimos neste âmbito, nomeadamente: (i) o roteiro de apoio à leitura global de um texto; (ii) o roteiro de apoio à leitura compreensiva de um texto; (iii) o roteiro de apoio à produção de esquemas após a leitura de um texto e (iv) o roteiro de apoio à produção de resumo de textos. O que se pretende é ilustrar um conjunto de possibilidades ao nível da acção docente que, mais do que prescrever uma tal acção, visa assumir-se como uma possível referência da mesma e, sobretudo, como uma referência da inventividade dos 77 professores, entendida como uma das garantias primeiras da concretização de intervenções pedagógicas sujeitas ao paradigma da comunicação16 Na fig. 5 apresenta-se, como exemplo de um instrumento de mediação que poderá ser considerado como uma manifestação de apoio tutorial, o roteiro a partir do qual se pretende que os alunos possam realizar autonomamente uma primeira leitura, de carácter global, de um texto que tenham que estudar. QUESTÕES E TAREFAS RESPOSTAS Qual é o título do texto? Quem é o autor do texto? Qual é o assunto do texto? Copia as palavras cujo significado desconheces. Assinala com um ?, nas margens do texto, as palavras ou as frases que não compreenderes. Assinala com um ?, nas margens do texto, as figuras, os esquemas e os gráficos que não compreenderes. Que outras dificuldades é que sentiste perante a leitura do texto? Fig. 5 – Roteiro de apoio à leitura global de um texto Na fig. 6, por sua vez, os alunos são confrontados com um roteiro que visa suscitar uma leitura mais específica de um texto, em função da qual se possa desenvolver uma leitura compreensiva do mesmo. 16 Neste sentido, é previsível que os exemplos de materiais e de dispositivos que propomos neste livro, ao serem objecto de apropriação por parte daqueles que o estudarem ou consultarem, possam ser objecto dos mais variados tipos de modificações, em função quer de outras leituras sobre a utilidade e a pertinência de tais materiais e dispositivos, quer em função da sua utilização em contextos concretos e com públicos que colocam desafios específicos aos docentes. 78 QUESTÕES E TAREFAS RESPOSTAS Qual é o título do texto? Qual é o assunto de que trata o texto? Sublinha, a azul, a frase, ou as frases, que exprima as ideias principais do texto. Escreve, por palavras tuas, a ideia ou as ideias principais do texto. Sublinha, a vermelho, as frases que exprimam as ideias secundárias do texto. Escreve, por palavras tuas, as ideias secundárias do texto. Fig. 6 – Roteiro de apoio à leitura compreensiva de um texto Como se verifica, este roteiro necessita, eventualmente, de um trabalho de exploração dos conceitos de ideia principal e de ideia secundária de um texto. Um trabalho que pode ser produzido como uma actividade de descoberta, a partir de exemplos de textos que o professor deverá seleccionar de forma criteriosa, em função dos quais seja possível discutir o que distingue uma ideia principal de uma ideia secundária e, finalmente, de aceder a uma definição consensual sobre tais conceitos. É este exercício que, por um lado, irá permitir que os alunos possam investir na compreensão das mensagens contidas em textos e, por outro, que possam desenvolver as competências necessárias à produção de esquemas a partir desses mesmos textos. Para os construir, os alunos terão que ser capazes de identificar as já referidas ideias principais e secundárias e estabelecer relações entre elas. Para isso, poderão ser estimulados, a partir de esquemas gráficos concretos, a seleccionar os que lhes pareçam ser os mais adequados que, quando quiserem e puderem, poderão, ou não, adaptar e recriar. Mais uma vez, a função do professor consiste não em prescrever soluções, mas em oferecer aos alunos a possibilidade deste poderem optar de forma reflectida e consequente. É neste sentido que, através das figs.7, 8 e 9, se pode compreender melhor algumas das propostas que os professores poderão disponibilizar aos seus alunos. Numa fase inicial, esses esquemas poderão apareceranexados aos textos como exercícios de exploração dos mesmos, para, depois, esses esquemas poderem vir a ser utilizados de forma autónoma, quer a partir de uma possível sugestão dos professores, quer a partir das iniciativas dos alunos. 79 Mapa de ideias Ideia principal Fig. 7 Esquema: Relações de Causa-Efeito Fig. 8 Esquema: Texto que estabelece categorias Fig. 9 A exploração do texto que estimula a sua leitura compreensiva, ainda que possa conduzir ao desenvolvimento de competências relacionadas com a produção de 80 esquemas do texto, é uma tarefa que permite sustentar, igualmente, a possibilidade de aprender a resumir textos. É no quadro da fig. 10 que se propõe mais um roteiro em função do qual se estimula e apoia a produção de resumos de textos. QUESTÕES E TAREFAS RESPOSTAS Realiza a leitura global do texto Sublinha as ideias principais do texto Parafraseia essas frases Reescreve um texto a partir dessas frases, evitando: os pormenores desnecessários; as ideias repetidas. Avalia o teu trabalho, respondendo às seguintes questões: O teu texto contém as ideias principais? Não há pormenores inúteis ou repetições? O texto compreende-se bem? Fig. 10 – Roteiro de apoio à produção de resumos de textos Como se constata, a função dos roteiros e dos esquemas não pode ser justificada por via da apropriação mais eficaz dos procedimentos e das informações que a utilização desses procedimentos permite. Os seus propósitos são de natureza mais ampla e visam ter uma interferência mais decisiva no âmbito do processo de formação pessoal e social dos alunos, entendido como um processo que contribui para a sua autonomia intelectual, sem que isso signifique dissociar tal autonomia do projecto de apropriação de procedimentos e de informações atrás referido. Como se verifica, também, a utilização de roteiros e de esquemas corresponde a um exercício de influência educativa 81 em que se demonstra que o protagonismo dos professores não tem forçosamente de inibir o protagonismo dos alunos, na medida em que esse é um protagonismo comedido, devido à necessidade de potenciar a actividade e a aprendizagem dos segundos. Um protagonismo que se afirma quer por via dos instrumentos de mediação que os roteiros e os esquemas constituem, quer por via do apoio à sua utilização e recriação, quer, finalmente, por via das actividades colaterais a que tal utilização e recriação pode obrigar. Animação e gestão dos trabalhos de grupo Os trabalhos de grupo a serem desenvolvidos pelos alunos podem constituir um momento interessante e pertinente de trabalho, desde que os alunos possam aprender a organizar-se para trabalhar em grupo, a tomar decisões relativas ao desenvolvimento e monitorização do processo ou a avaliar os conteúdos do trabalho que vai sendo produzido. É face a estas exigências que o apoio tutorial que o professor pode prestar constitui uma resposta tão valiosa quanto necessária. Um apoio que podendo ser de natureza contingente, conforme as necessidades que os grupos possam manifestar, é, igualmente, um apoio decisivo, nomeadamente quando estamos perante alunos com pouca ou nenhuma experiência em realizar trabalhos de grupo. Alunos estes que, por isso, obrigam os professores a fornecer-lhes instrumentos de suporte a uma actividade que desconhecem. Uma actividade que, nesta fase inicial, necessita de ser apoiada através da elaboração de roteiros que contribuam para ajudar os alunos a organizar-se, a tomar decisões, a procurar recursos, a produzir trabalhos e a avaliar os produtos realizados. É tendo em conta estes alunos que se apresentam, em seguida e através das figuras 11, 12 e 13, os roteiros de apoio à elaboração de um trabalho a produzir em grupo. 82 FASE I – PLANIFICAÇÃO Questões Respostas Qual a questão ou as questões a que gostariam de responder com o trabalho que pretendem realizar? Que informação é necessária para produzir o trabalho? Onde é possível recolher essa informação? Quem recolhe? Quem faz? Livros escolares Enciclopédias Jornais, revistas, etc. Entrevistas Internet Visitas de estudo Outros meios de recolha da informação: Quando é que se realiza o trabalho? Tarefas Datas Recolha da informação De ___/___ /___ a ___ /___ / ___ Trabalho sobre a informação De ___/___ /___ a ___ /___ / ___ Produção do trabalho De ___/___ /___ a ___ /___ / ___ Apresentação do trabalho De ___/___ /___ a ___ /___ / ___ Fig. 11 - Roteiro de apoio à elaboração de um trabalho de grupo (Fase da planificação) Nesta fase, o roteiro de trabalho, relacionado com a fase da planificação, não pode ser entendido como um instrumento de trabalho que contribui para que os alunos fiquem entregues a si próprio no decurso do trabalho de grupo. O roteiro, deste modo, mais do que promover a auto-suficiência dos alunos, deve constituir um instrumento que potencie quer a comunicação entre estes, quer a comunicação entre estes e os seus professores. É nesta fase, também, que se deve definir como é que o trabalho será objecto de divulgação e de partilha, ainda que se possa admitir que tal decisão possa ocorrer numa fase posterior do desenvolvimento do mesmo17. 17 Será no sub-capítulo referente à publicitação e partilha pública dos trabalhos dos alunos que abordaremos esta dimensão da actividade académica que tem lugar nas salas de aula, as quais, de facto, adquirem grande importância no que à realização e desenvolvimento dos trabalhos em grupo diz respeito. 83 FASE II – DESENVOLVIMENTO Quais os capítulos em que se divide o vosso trabalho? Temas dos capítulos Ideias-chave a desenvolver Quais as tarefas que se relacionam com a produção do trabalho? Tarefas Responsáveis Fig. 12 - Roteiro de apoio à elaboração de um trabalho de grupo (Fase do desenvolvimento) Como se constata, o roteiro da fig. 12 só se preenche ao fim de algum tempo de trabalho conjunto, após um período dedicado ao trabalho sobre a informação que se havia recolhido. Trata-se de um documento que expressa os consensos a que chegaram os membros dos grupos. Neste caso, e tal como já o referimos a propósito de outras situações, os professores podem e devem apoiar os seus alunos a construírem tais consensos, do mesmo modo que devem promover balanços periódicos com estes, a partir dos quais os possam ajudar a reflectir sobre o trabalho realizado, os problemas sentidos e as respostas a encontrar neste âmbito, seja ao nível da reformulação das questões, seja ao nível da procura de informação, seja, ainda, ao nível de apoios específicos que possa ser necessário accionar. Mais uma vez, chama-se a atenção para o facto de não estarmos perante instrumentos pedagogicamente auto-suficientes. No caso dos trabalhos de grupo importa afirmar que estes roteiros se enquadram numa actividade educativa mais ampla cujos contornos convém explicitar. É que não é possível dissociar os trabalhos de grupo nem dos desafios curriculares que justificam a sua elaboração, nem da articulação entre esses trabalhos e os saberes adquiridos pelos alunos através das mais diversas vias. 84 Neste sentido, os trabalhos de grupo deverão ser entendidos como parte integrante de um circuito educativo que admite outras etapas no âmbito do processo de aprendizagem em que os alunos se envolvem, podendo prever-se, neste âmbito, vários tipos de constelações pedagógicas no seio das quais os trabalhos de grupo tanto podem constituir o ponto de partida, como o ponto de chegada daquele circuito ou, ainda, um ponto intermédio do mesmo. Tudo dependedos objectivos que presidem à realização destes trabalhos. Estes tanto podem promover a exploração de temáticas que tenham sido objecto de discussão e de abordagem prévias, como podem constituir-se como um instrumento capaz de promover momentos de comunicação, cuja finalidade consiste em estimular o diálogo sustentado entre os professores e os alunos sobre um dado conjunto de problemáticas. Podem assumir-se também, e em determinadas circunstâncias, como instrumentos de estudo ou até de avaliação sumativa, o que significa que, no seu conjunto, os trabalhos de grupo se poderão articular, do ponto de vista do processo de gestão e de organização do trabalho de aprendizagem, com palestras, debates, sessões de estudo, actividades de pesquisa ou, entre outras acções possíveis, a elaboração de produtos vários em função dos quais esses trabalhos possam ser publicitados e partilhados. Discussões em pequenos grupos Ainda no âmbito das actividades académicas que se realizam em grupo, torna-se possível identificar as situações que envolvem discussões em pequenos grupos, as quais podem propiciar a criação de situações tendentes a facilitar a realização de aprendizagens. As discussões em pequenos grupos pressupõem, do ponto de vista das condições genéricas a respeitar, que: a) previamente, se definam e construam, com os alunos, um conjunto de regras que servirão para avaliar o debate e a participação de todos neste âmbito; b) haja uma temática que corresponda, por um lado, a um desejo e a uma necessidade concretas sentida pelo grupo e, por outro lado, que possa ser amplamente participada pelos seus elementos. O roteiro que se apresenta através da fig. 13 visa dar conta de algumas dinâmicas estruturantes a estabelecer, de forma a promover as discussões entre os 85 alunos, no seio de pequenos grupos, que possam constituir momentos de trabalho capazes de potenciar as suas aprendizagens. Trata-se de uma actividade em função da qual se visam perseguir os seguintes objectivos: Contribuir para aceder a outros tipos de opiniões sobre uma dada temática; Confrontar publicamente as suas opiniões sobre essa temática; Clarificar pontos de vista; Identificar os principais argumentos utilizados e avaliá-los. Etapas Actividades Trabalho em pequenos grupos Dividir a turma em pequenos grupos para discutir a temática, podendo- se propor um roteiro que possa servir de ordem de trabalhos à discussão dos grupos; Este roteiro poderá conter quer a reformulação da temática quer a sua transformação em questões-base, bem como algumas instruções que possam contribuir para organizar a tarefa dos alunos; Cada grupo explicita perante os outros grupos: - as respostas consensuais que o grupo construiu; - as respostas não-consensuais; - as dúvidas a discutir. Trabalho no grupo-turma O professor regista no quadro todas as informações fornecidas pelos porta-vozes dos grupos; Verifica-se, agora, ao nível do grupo-turma quais: - as respostas consensuais; - as respostas não-consensuais; as dúvidas a discutir. Finalização do trabalho Estabelece-se, se necessário um novo plano de debates, o qual poderá ser desenvolvido em função de vários percursos possíveis: - Discutindo-se face à questão inicial quais as respostas não- consensuais ou as dúvidas que valem a pena ser discutidas; - Problematizando-se as respostas consensuais. Decide-se se a discussão se faz com todos os elementos do grupo-turma ou em pequenos grupos e retoma-se, caso se julgue ser necessário, os procedimentos propostos anteriormente; O trabalho termina com a redacção de uma acta onde se enunciam as conclusões ou as decisões tomadas. Fig. 13 - Roteiro relativo à gestão das discussões em pequenos grupos Animação de Oficinas As oficinas constituem uma iniciativa adequada para promover o trabalho de equipa em torno de um problema. O tema escolhido deverá ser o mais concreto possível e a sua abordagem terá de ser intencionalmente planificada e organizada Segundo um conjunto de etapas distintas, mas articuladas entre si, tal como o roteiro patente na fig. 14 permite demonstrar. 86 Etapas Actividades Apresentação do programa de trabalho e do método: - Definição do problema em debate; - Definição das regras a respeitar e das modalidades de organização do debate; - Organização dos grupos de trabalho; - Definição do tempo de debate. Definição e explicitação do problema: - Estabelecer um consenso acerca da definição do problema; - Explicitar como o problema nos afecta; - Registar as principais conclusões a que os grupos chegaram e, posteriormente, as conclusões a que o grande grupo chegou. Definição e explicitação de soluções: - Enumerar opiniões, desejos e sonhos; - Avaliar as opiniões expressas; - Seleccionar aquelas que parecem ser as mais adequadas e exequíveis. - Registar as propostas dos grupos para se passar a discussão no grupo- turma. Fig. 14 - Roteiro de animação de Oficinas Dramatização (Role-Play) A dramatização é entendida, neste âmbito, como um dispositivo capaz de estimular e facilitar o debate entre os alunos, propiciando o ambiente adequado para que estes possam confrontar pontos de vista diferentes, compreender os pontos de vista de terceiros e ampliar o campo das suas próprias perspectivas. Neste sentido, é uma actividade que se enquadra no âmbito do conjunto de propostas que se baseiam na cooperação entre os indivíduos, aqui entendida como condição potenciadora das suas aprendizagens. A dramatização pode ser definida, então, como uma actividade que visa: Contribuir para criar um ambiente propício à expressão e à comunicação entre os elementos de um grupo a propósito de uma dada temática; Constituir um pretexto para se discutir uma experiência ou um problema comum; Facilitar a possibilidade dos elementos do grupo se colocarem numa perspectiva diferente da sua relativamente a uma problemática particular; Explorar sentimentos e ideias relativamente a essa ou a outra problemática. 87 É no guião que se apresenta através da fig. 15 que se configura o processo de animação e gestão pedagógica que permite utilizar a dramatização como um dispositivo pedagógico capaz de potenciar processos de comunicação que possam ser geradores de aprendizagens. Dramatização (Role-play) Gestão e animação desta actividade O professor define os personagens, os seus papéis e escolhe os alunos que os vão representar, dando-lhes as instruções, até por escrito, que julgarem ser necessárias; Os alunos representam os respectivos personagens, num espaço previamente delimitado para o efeito. Os alunos que presenciam a actuação dos colegas poderão ter, caso o professor pense ser necessário, um guião que facilite e focalize a observação; Finda a representação, cada um dos actores pode avaliar o seu desempenho e o seu personagem; Convida-se aqueles que assistiram à representação a dar a sua opinião, não sobre a qualidade do desempenho dos actores, mas sobre a situação que presenciaram; Em certas circunstâncias, como por exemplo no caso de alguém discordar activamente de uma determinada atitude ou postura, pode pedir-se que um dos alunos, o que assumiu a discordância ou o próprio “actor”, encarne esse personagem assumindo a postura pretendida. Antes da sessão terminar deve prever-se um tempo para realizar o balanço da actividade e realizar a síntese da discussão que ocorreu a propósito da dramatização. O professor deve assumir, neste âmbito, um papel decisivo, no sentido em que deve assegurar que o momento de avaliação cumpra as finalidades que o justificam Fig. 15 - Guião de apoio ao desenvolvimento de dramatizações Apoio a actividades de pesquisa As actividades de pesquisa poderão ser de tipos de variados, em áreas diversas e sujeitas, por isso,a finalidades distintas. Sabendo-se que as pesquisas no domínio das ciências exactas ou no domínio das ciências sociais são, em termos metodológicos, de natureza diferente, sabendo-se, também, que são condicionadas pelo objecto sobre o qual se debruçam, seria impossível, por isso, nesta obra abordar de forma exaustiva as actividades de pesquisa na sua diversidade. Daí que, e tendo em conta os objectivos da referida obra, iremos apresentar, apenas, algumas das actividades que se podem desenvolver neste âmbito, de forma a prosseguir a reflexão sobre o papel dos alunos e o papel dos professores no âmbito do paradigma pedagógico da comunicação. É tendo esta finalidade como horizonte que iremos abordar, então, os estudos de caso, as visitas de estudo, as entrevistas, a utilização das genealogias e a observação como exemplos de 88 actividades de pesquisa ou relacionadas com a pesquisa que identificaremos quanto aos objectivos que os norteiam e às dinâmicas que permitem concretizá-los. Estudos de caso Os estudos de caso correspondem a um método de pesquisa que privilegia o estudo de situações singulares como uma estratégia de abordagem e compreensão da realidade. É que, de acordo com os pressupostos desta actividade de pesquisa, tais situações singulares são entendidas não só como situações que, por conterem, em si, as marcas de um tempo e de uma cultura, transcendem os universos particulares onde esses indivíduos se movimentam, como também, por isso mesmo, conferem vida, forma e substância a esse tempo e a essa cultura. Neste sentido, os estudos de caso podem ser utilizados como dispositivos capazes de estimular aprendizagens, permitindo, entre outros objectivos possíveis: a) confrontar os alunos com problemas e situações concretas, a partir das quais possam desenvolver um conjunto diversificado de competências cognitivas e sociais; b) estimular o desenvolvimento de estratégias de abordagem e de reflexão sobre problemas e situações; c) valorizar as iniciativas dos alunos na procura de soluções e de recursos que implicam o desenvolvimento da cooperação e do espírito de iniciativa. De um modo geral, pode considerar-se que a utilização dos estudos de caso como estratégia de aprendizagem se pode desenvolver em função de vários tipos de casos que poderão implicar, por isso mesmo, diversos tipos de abordagens. Apesar disso, é possível definir-se um roteiro (fig. 16) onde se explicite um conjunto de etapas que poderão constituir um instrumento de referência a adaptar, para ser utilizado de forma contextualizada. Como se verá, os professores ocupam um lugar decisivo no processo de animação dos estudos de caso, assumindo, mais uma vez, quer o papel de organizadores, quer o papel de interlocutores, permitindo, no entanto, que os seus alunos possam envolver-se, de forma plena, no conjunto diverso das tarefas de aprendizagem que lhes dizem respeito. 89 Estudos de caso Etapas Actividades Fase da Selecção do caso O professor ou os alunos seleccionam um caso para debater e investigar, o que depende, sobretudo, da importância e pertinência que o caso assuma para o grupo; Explicita-se o conjunto de questões centrais que o caso suscita e às quais o grupo deverá responder; Há que decidir se o estudo de caso pode ser comum a toda a turma ou se diz respeito, neste âmbito, a um ou vários grupos de alunos. Fase da planificação do estudo Discute-se, a partir do conjunto das questões previamente seleccionadas, se existem questões redundantes a abordar. Se existirem, eliminam-se essas questões. Planifica-se a abordagem das questões, através da: o divisão de tarefas e explicitação das responsabilidades e dos alunos neste âmbito (QUEM FAZ?); o definição de um anteprojecto, onde se explicite um conjunto de decisões relativo ao modo de concretizar as respostas às questões colocadas (COMO SE FAZ?); o previsão das condições e dos recursos necessários para realizar o estudo (QUANDO SE FAZ? DE QUE RECURSOS NECESSITAMOS?). Fase de realização do estudo O estudo avança à medida que se colecta, discute e regista a informação obtida. Neste âmbito, o processo de monitorização e de auto-avaliação do trabalho assume uma importância decisiva, na medida em que, de um modo geral, permite: o redefinir, se necessário, as decisões tomadas quer quanto aos recursos, quer quanto à metodologia utilizada, quer, também, quanto às previsões assumidas; o avaliar o desempenho de cada um dos elementos do grupo; o discutir as dificuldades encontradas ou os progressos obtidos. Nesta fase, importa haver momentos previamente definidos de discussão do trabalho com os professores ou com os colegas cuja função será a de fazer o ponto de situação e discutir as respostas encontradas. É crucial confrontar- se os alunos com estas respostas, com a sua congruência, os seus pontos fortes e fracos e até as possibilidades de encontrar respostas alternativas; A função do professor nesta fase, tal como nas outras, é a de monitorizar os grupos de trabalho e apoiá-los, se necessário, quer através de intervenções pontuais, quer através do apoio logístico, quer como interlocutores qualificados, questionando, definindo o campo das possibilidades ou estimulando e ajudando a optar. Fase de apresentação do estudo O estudo de caso pode ser comum a toda a turma ou dizer respeito, apenas, a vários grupos de alunos, o que implica que a sua apresentação esteja dependente deste facto; Se for comum a toda a turma é necessário pensar numa modalidade de apresentação que tanto pode envolver outros actores (pais, outras turmas, comunidade, etc.), como se pode circunscrever à elaboração de produtos finais, como, por exemplo, álbuns, exposições na escola, revistas, panfletos, folhas informativas, etc.; Se o estudo de caso disser respeito aos vários grupos que se constituíram nas turmas, a apresentação poderá ser o pretexto para uma série de debates internos entre os alunos, os quais, contudo, poderão incluir, caso isso se justifique, pessoas estranhas à turma. Fig. 16 - Roteiro relativo ao desenvolvimento dos estudos de caso 90 Visitas de estudo As visitas de estudo constituem um dos meios mais conhecidos que se utilizam para estimular a aprendizagem dos alunos. Urge, contudo, reconhecer que não é o facto de se organizar uma visita de estudo que garante aprendizagens ou até o próprio estímulo para aprender. A importância das visitas de estudo diz respeito quer ao modo como fazem, ou não, sentido para os alunos que as realizam e os professores que as organizam quer ao modo como são preparadas, concretizadas e avaliadas. Permitindo um contacto privilegiado com o meio envolvente e vivências educativas interessantes pelo facto de valorizarem um contacto real e concreto com as coisas, as visitas de estudo abrem possibilidades de intervenção educativa interessantes, desde que se compreenda que as actividades não se esgotam nas visitas propriamente ditas. O roteiro que se apresenta em seguida (fig. 17) visa constituir um documento de referência que permita reflectir sobre a pertinência pedagógica, a organização e a implementação das visitas de estudo como modalidades de intervenção educativa. Visitas de estudo Etapas Actividades Preparação A preparação da Visita de Estudo implica que os professores se questionem: o Quais os objectivos da visita de estudo? o O que é que se espera que os alunos realizem, vivenciem e aprendam? o Como estimular e organizar a participação dos alunos na planificação da visita de estudo? o Que recursos são necessários para organizar a visita? o Que actividades prévias importa realizar? o Que materiais é necessário que se construa para apoiar os alunos durante a visita? Textos informativos? Roteiros de trabalho? Questionários? Realização Os objectivos da visita, o modo como os alunos se encontram organizados, as tarefas que deverão cumprir e tudo o que diz respeito às questões de natureza logística devem ter sido objecto de discussão antes da Visita de Estudo, de forma a garantir que os seus objectivos sejam cumpridos. A realização de qualquer Visita de Estudo depende, e muito, do sentido que os alunos lhe atribuem, da sua participação na organização da mesma e de sua utilidade como actividade necessária à elaboração de trabalhos posteriores. (cont.) 91 Avaliação A Visita de Estudo deve ser obrigatoriamente avaliada no âmbito da turma, podendo ser desenvolvida de um modo mais formal (através, por exemplo, do uso de questionários) ou informal , individualmente ou em grupo, de acordo com os objectivos da visita e dos critérios previamente negociados. Estes tanto podem dizer respeito a questões de carácter comportamental como a questões de natureza cognitiva ou de natureza instrumental. A Visita de Estudo deverá constituir objecto de avaliação por parte dos professores, de forma a decidirem o que poderá ser melhorado, modificado ou mantido em futuras realizações, quer do ponto de vista da planificação da visita quer do ponto de vista da sua realização. Apresentação pública dos trabalhos relacionados com a Visita de Estudo A Visita de Estudo deverá dar origem a um produto que possa ser objecto de reconhecimento quer por parte dos seus autores quer por parte de outros actores relacionados, de forma directa ou indirecta, com a Escola e os alunos. Estes produtos deverão estar previstos, em princípio, antes da realização da visita, embora se possa e deva admitir que após a visita se discutam outras propostas de trabalhos a apresentar. Como exemplos de produtos subsequentes às visitas temos, por exemplo, textos em jornais, exposições em espaços da escola, álbuns temáticos, dramatizações, etc. Fig. 17 - Roteiro relativo ao desenvolvimento de visitas de estudo Como se constata, os professores, para além de assumirem as suas responsabilidade no domínio da organização das visitas de estudo, envolvendo os alunos neste processo, assumem-se, igualmente, como interlocutores das actividades e dos trabalhos que os alunos realizam. É neste sentido que podemos enquadrar a proposta acima realizada no âmbito do paradigma pedagógico da comunicação. A aprendizagem através da utilização de genealogias A utilização de genealogias como dispositivo de mediação pedagógica obedece a um conjunto de pressupostos, dos quais salientaria, pela sua importância pedagógica, a importância central atribuída à história dos alunos, das suas famílias e das comunidades em que estes se inserem como objecto de estudo e de trabalho. Helena C. Araújo e Stephen Stoer que, a partir da utilização de genealogias, desenvolveram um trabalho numa escola inserida num meio semi-rural do Norte de Portugal (Araújo, Stoer et al., 92 1993), são muito claros quando, a propósito do valor educativo das genealogias, afirmam no livro que subscreveram: Cremos que as genealogias e, em particular as histórias que aqui vão ser reveladas, por vezes mais parcelizadas do que constituindo verdadeiras histórias completas da vida de uma família específica, contribuem para perceber que também aqueles espços sociais, e aqueles e aquelas que ali habitaram e habitam, construiram histórias de vida difíceis, de resistências duras, de escolhas inadiáveis e de sofrimento... Mas também construídas através de solidariedades afectivas, de experiências ricas e variadas, de sentidos vivos. Por tudo isto são histórias de vida capazes de nos surpreender” (Araújo, Stoer et al., 1993: 26). Inspirados em projectos de intervenção educativa realizados noutros países, os autores valorizam, entre outros, um trabalho realizado por Steel & Taylor em que estes enfatizam a introdução das histórias das famílias na Escola, já que esta “é a única variedade da história onde a criança não é apenas uma autoridade, mas pode ser a única autoridade, uma ideia que exerce grande atracção sobre as crianças. Elas são encorajadas a recolher informação sobre um passado anterior, não só porque lhes disseram que é “importante”, mas porque é relavante para as suas famílias” (Araújo, Stoer et al., 1993: 18). É em função deste conjunto de pressupostos que se explica a importância atribuída à utilização das genealogias como dispositivo de mediação pedagógica que o roteiro em anexo explicita. Este roteiro, ao contrário dos outros que têm vindo a ser apresentados neste livro, circunscreve-se a descrever uma experiência real, aquela que Helena C. Araújo, Stephen Stoer e alguns professores da Escola de Viatodos protagonizaram. As razões que justificam esta opção prendem-se com a necessidade de abordar as genealogias através de uma experiência concreta que possa inspirar outros projectos de intervenção, já que, neste caso, um roteiro genérico não permitiria, provavelmente, o mesmo grau de clareza que um roteiro específico acaba por possibilitar. 93 Genealogias18 Etapas Actividades Preparação Debates com docentes da escola para esclarecimento e recolha de sugestões a serem aproveitados na construção das genealogias; Elaboração de guiões a serem utilizados pelos alunos nas entrevistas a familiares e pessoas conhecidas; Planear reuniões com os professores envolvidos; Comunicar a iniciativa aos encarregados de educação; Prever a possibilidade de realizar uma exposição no final do ano. 1ª Fase: Quem sou eu ? Nesta fase pretendia-se que os alunos: o se posicionassem face aos elementos que na sua família os antecederam (Ver guião na pág. ____); o relacionassem a sua existência, a dos seus pais e a dos seus avós com acontecimentos importantes que marcaram a vida nacional e mundial, construindo retrográficos com a informação obtida (Ver retrográfico na pág. ____). 2ª Fase: Envolvendo os pais Os alunos utilizaram um inquérito para entrevistar os pais, de forma a tomarem conhecimento acerca do modo como estes se conheceram, quando começaram a trabalhar ou qual a relação entre as suas vidas e acontecimentos políticos e sociais marcantes (Ver inquérito na pág. _____). Por fim, pedia-se que os pais os ajudassem a construir uma árvore genealógica das famílias relativa às gerações dos filhos, à sua própria e à dos avós. 3ª Fase: O historiador a trabalhar Esta fase incluía várias actividades: o a realização de um inquérito sobre a vida dos avós, de outros familiares e dos bisavós que incluía, também, o registo de histórias guardadas na memória das famílias, sobre os seus elementos; o a recolha de objectos, notícias dos jornais e fotografias (Ver roteiro de análise das fotografias utilizado na pág. ____) , a partir dos quais fosse possível reconstruir alguns dos contextos em que ocorreram os factos relatados; o a redacção de um texto sobre “A História da minha Família”, a partir da informação recolhida. Fig. 18 - Roteiro relativo à utilização do projecto das genealogias 18 Projecto adaptado do trabalho exposto em Araújo, H. C.; Stoer, S. R. e al. (1993). Genealogias nas escolas: A capacidade de nos surpreender. Porto: Edições Afrontamento 94 Inquérito Fases Conteúdos Fase I: Quem sou eu? 1. Quando nasci ? 2. Onde nasci ? 3. Quantos irmãos / irmãs tenho ? Quando nasceram ? 4. Que acontecimentos importantes (políticos, sociais) se situam próximo da data do meu nascimento ? 5. Quando nasceu a minha mãe ? E o meu pai ? 6. E os meus avós (maternos e paternos) ? 7. Com que datas históricas posso relacionar o meu nascimento ? 8. No caso de algum dos parentes referidos anteriormente já não viver, indico a data do seu desaparecimento.Fase II: Quem são os meus pais? 1. Onde nasceu o pai? E a mãe ? 2. Viveram sempre na mesma terra? Qual? 3. (Se a resposta anterior for negativa) Em que outras terras ? 4. Frequentaram a escola? Até que classe/ano? Onde? 5. Com que idade começaram a trabalhar? 6. Em que começaram a trabalhar? Onde? Mais tarde tiveram outros empregos? 7. Quando se conheceram? Quando começaram a vida em comum ? 8. Que acontecimentos importantes marcaram a sua vida, tanto a nível pessoal e familiar, como a nível nacional e internacional? Fig. 19 - Guião de apoio ao desenvolvimento do questionário no âmbito do projecto das genealogias 95 Como construir um retrográfico ? Para preencheres o retrográfico, de forma a que possas ter uma noção mais precisa do tempo, do prolongamento e coexistência de várias gerações e da relação entre acontecimentos colectivos de carácter político, social, cultural e económico e os percursos da tua vida e dos teus familiares, propomos-te: (1) Desenha várias colunas horizontais ( que depois deverás colorir), cada uma das quais deverá corresponder ao percurso de vida dos teus familiares. Não te esqueças de representar, também, a coluna da tua própria vida; (2) Cada coluna deverá ter um número que servirá de suporte a uma legenda (3) Num dos cantos da folha cria essa legenda, tal como se demonstra no exemplo: 1 – Avó; 2 – Avô; 3 – Pai; 4 – Mãe, etc. 1890 1895 1900 1905 1910 1915 1920 1925 1930 1935 1940 1945 1950 1955 1960 1965 1970 1975 1980 1985 1990 MONARQUIA REPÚBLICA ESTADO NOVO REGIME DEMOCRÁTICO a. 5 1ª 2ª b 28 25 O G 1 G 1 U U 9 D U 9 D T E 1 E E 3 E U R 4 R 9 B R M R A R A A A B O I R M O M I U U L 1 N 1 1 N 1 9 D 9 9 D 9 1 1 I 1 2 I 4 9 0 A 8 6 A 5 7 L L 4 a – Avó; b – Avô Fig. 20 - Retrográfico 96 Há alguma legenda nas costas da fotografia ? Se a resposta for sim Se a resposta for não Parece-te que a informação da legenda é rigorosa ? Reconheces de quem é a letra ? Pode-se pedir ao seu autor mais informações sobre as pessoas da foto ? A partir da fotografia, tenta reconstituir a história das pessoas representadas. Reconheces as pessoas que estão na fotografia ? Quem são ? O que faziam ? Pede a pessoas da tua família, ou outras, que te contem o que sabes sobre elas. Sabes onde a fotografia foi tirada ? Escreve toda a informação que possuas relacionada com ela. Se não sabes onde ela foi tirada e os teus conhecidos também não, podes tentar saber mais através do fotógrafo que a tirou (muitas vezes vem referido). Sabes a data (aproximada) em que a fotografia foi tirada ? Relaciona-a com a vida das pessoas aí representadas. Se não sabes a data, procura identificar o período, através do vestuário; ou então, através de objectos ou de edifícios que apareçam na foto; ou ainda através de quaisquer outras referências que te pareçam fiáveis Fig. 21 - Roteiro de análise das fotografias 97 Entrevistas As entrevistas podem ser utilizadas de múltiplas maneiras e por actores diversos. Na proposta relativa à utilização das genealogias como dispositivos de aprendizagem, verifica-se, por exemplo, que as entrevistas são realizadas pelos alunos a partir de um guião elaborado pelos professores. Neste caso, a proposta é de natureza diferente, já que, de acordo com a mesma, compete aos alunos, com o apoio dos professores, conceber também os guiões das entrevistas. Não se entenda, contudo, que nos encontramos perante uma proposta mais adequada que a anterior, do ponto de vista dos seus efeitos sobre as aprendizagens dos alunos. Apenas, é possível afirmar-se que nos encontramos perante uma proposta diferente, sujeita a outros objectivos, mas não necessariamente sujeita a outros pressupostos pedagógicos. Através das entrevistas pode-se, então, estimular os alunos a recolher informações de outros actores sociais que lhes poderão ser úteis para desenvolver os projectos que justificam um tal modo de investigação, assumindo o professor, neste caso, um papel onde a sua intervenção se circunscreve a estimular e a interpelar as decisões dos alunos. O que se propõe através da fig. 22 é um roteiro que possa servir de suporte à organização e realização de entrevistas. 98 Entrevistas Etapas Actividades Reflexão prévia Antes da preparação da entrevista importa reflectir se a opção pela mesma já foi discutida e pensada como a melhor solução para se recolher a informação pretendida19 Tal reflexão supõe, em segundo lugar, que se discuta com os alunos: o Que tipo de informação nos interessa recolher ? Porquê ? o O que se pretende fazer com a informação obtida ? Qual é a melhor forma de obter essa informação ? Oralmente ou por escrito ? Com perguntas abertas ou fechadas ? Preparação da entrevista A preparação da entrevista começa com a discussão, envolvendo alunos e professores, à questão: “ Quais as perguntas que nos interessa fazer ? ” Esta discussão realiza-se em torno dessa questão, de acordo com a seguinte metodologia: o Os alunos, em pequenos grupos, enunciam questões que lhes pareçam importantes; o Regista-se, já ao nível da turma, as perguntas que os grupos conceberam; o Verifica-se quais as perguntas que se repetem; o Avalia-se, ao nível dos grupos, se as perguntas são ou não pertinentes, tendo em conta os objectivos que justificam a entrevista; o Discute-se, ao nível da turma, as conclusões a que os grupos chegaram, enunciando-se quais as perguntas mais e menos relevantes e justificando-se as razões que sustentam as diferentes perspectivas. Após a construção do guião, decide-se, então, como é que a entrevista será realizada. Quando? Onde? Quem serão os responsáveis por conduzir a mesma? Avaliação Discute-se a realização da entrevista quanto ao modo como decorreu, quanto à informação obtida, quanto a incidentes que, eventualmente, tenham ocorrido ou, ainda, quanto a medidas a adoptar em entrevistas futuras. Observações Embora seja importante realizar a avaliação enunciada, logo após o fim da entrevista, importa reconhecer que tal avaliação só estará completa quando os alunos tiverem que utilizar e trabalhar a informação obtida. Este é o momento para se discutir, novamente, o que faltou perguntar ou a adopção de outras medidas em futuras entrevistas que se decidam organizar. Fig. 22 - Roteiro relativo à organização e concretização de entrevistas 19 Esta opção, com alunos mais novos ou que nunca tenham utilizado a entrevista como uma forma de recolher informação, pode ser da responsabilidade, apenas, dos professores. Com alunos mais experientes importa avaliar a sua utilidade e exequibilidade. 99 Actividades de observação As actividades de observação deverão ser abordadas como parte integrante de um projecto de intervenção educativa mais amplo. Daí que as propostas de trabalho que aqui se apresentam só façam sentido, enquanto tarefas de investigação, como ponto de partida de actividades que, por isso, não se esgotam neste âmbito. Observa-se com o propósito de recolher os dados a ser usados, posteriormente, em trabalhos a realizar. Logo, qualquer opção relacionada com o acto de observar implica que obrigatoriamente se responda ao seguinte conjunto de questões: O que é que se pretende com a actividade de observação a propor aos alunos? Que resultados se esperam de uma tal actividade? Como é que essa actividade será organizada? É uma proposta adequadacom os propósitos que a justificam, os alunos que a vão assumir? O que fazer com os resultados obtidos no decurso dessa observação? Embora todas as questões digam respeito a todas actividades de observação que os alunos deverão protagonizar, são as respostas às duas primeiras questões que determinam as propostas que apresentamos neste livro. A terceira questão, apesar da importância que assume no domínio da planificação dessas actividades, só poderá ser respondida através da concretização de tarefas que transcendem a realização das actividades de observação. Estas poderão assumir diversos formatos, o que depende tanto dos domínios em que nos situamos, como das finalidades que justificam essas mesmas actividades. São uns e outras que determinam o grau de estruturação da tarefa, em função do qual se propõem os guiões que, em seguida, se apresentam (fig. 23 e fig. 24). Como se tem vindo a afirmar quer um, quer outro visam exprimir, somente, possibilidades de intervenção educativa que pretendem assumir-se como referências da inventividade pedagógica de professores e alunos, no sentido destes poderem envolver-se em processos de comunicação que conduzam a criar situações susceptíveis de provocar aprendizagens. 100 Actividades de observação sem roteiro Os professores propõem que os alunos se organizem em grupos de 3 a 4 elementos para realizarem uma tarefa comum: observar um monumento, um local de interesse, uma obra de arte, um videograma ou um diaporama. A cada grupo de alunos corresponde o cumprimento de uma tarefa: - O grupo 1 coloca questões acerca do que foi observado; - O grupo 2 coloca dúvidas sobre o que foi observado; - O grupo 3 enuncia o que, na opinião dos seus membros, constituem os aspectos mais positivos ou os aspectos mais salientes do que foi observado; - O grupo 4 enuncia, o que, na opinião dos seus membros, constituem os aspectos menos interesantes ou os aspectos mais negativos do que foi observado. Os porta-vozes expõem o produto dos trabalhos realizados pelos grupos. Fig. 23 - Guião de apoio a actividades de observação sem roteiro O guião que, em seguida, se apresenta difere do anterior porque supõe a utilização de roteiros de observação que, de algum modo, condicionam a actividade dos alunos, o que se justifica pelo facto de tal actividade se propor com o objectivo de promover uma recolha de dados que subordina a uma finalidade mais precisa e estruturada. Actividades de observação roteiro Os professores propõem que os alunos se organizem em grupos de 3 a 4 elementos para realizarem uma tarefa: observar um monumento, um local de interesse, uma obra de arte, um objecto, um videograma. A cada grupo de alunos corresponde uma tarefa proposta num roteiro. (Ver os dois exemplos de roteiros em anexo). Os trabalhos dos elementos do grupo são discutidos, avaliados e apresentados à turma. Fig. 24 - Guião de apoio a actividades de observação com roteiros De forma a clarificar a especificidade deste guião, face ao guião anterior, apresentam-se, agora, dois dos roteiros que o suportam, os quais se relacionam com o desenvolvimento de actividades específica com alunos da 4ª série, no âmbito de um projecto onde estes se dedicavam a estudar e a investigar a história da cidade do Porto (Portugal). 101 À DESCOBERTA DO PORTO (1ª Visita) Porque é que o Porto nasceu aqui ? Autor da observação____________________________________________________ Data: ____ /_____ /_____ ACTIVIDADES I -Anota todos os nomes das ruas que percorreres durante a visita Preenche o quadrado à frente de cada linha com um P, se as ruas forem planas, com um S, se as tiveres subido ou com um D, se as tiveres descido. 1. _________________________________________________________________ 2. _________________________________________________________________ 3. _________________________________________________________________ 4. _________________________________________________________________ 5. _________________________________________________________________ 6. _________________________________________________________________ 7. _________________________________________________________________ 8. _________________________________________________________________ 9. _________________________________________________________________ 10. _________________________________________________________________ 102 II - Anota todos os nomes das estátuas, monumentos e igrejas que encontres durante a visita Ponto de observação nº 1: Estação de S. Bento Tarefa: Olha na direcção da Catedral da Sé. Observa o panorama que tens pela frente. Responsáveis: Todos os elementos do grupo 1. Coloca um V, de verdadeiro, e um F, de falso, em cada uma das afirmações. Vejo um terreno plano Vejo um local onde existe muita pedra Vejo uma pequena subida Vejo uma grande subida 2. Que outras coisas mais pudeste observar? Fig. 25 103 À DESCOBERTA DO PORTO20 (2ª Visita) A visita ao largo da Sé Catedral do Porto Autor da observação____________________________________________________ Data: ____ /_____ /_____ ACTIVIDADES DO GRUPO A 1. Observa a estátua que se situa ao lado da Sé Catedral. Qual é o nome do cavaleiro que a estátua representa? ______________________________________________________________________ 2. Desenha a estátua tal qual a vês. Fig. 26 20 Os roteiros referentes à 2ª visita constituem apenas dois exemplos possíveis, entre outros, que permitem ilustrar a situação em questão. 104 À DESCOBERTA DO PORTO (2ª Visita) A visita ao largo da Sé Catedral do Porto Autor da observação____________________________________________________ Data: ____ /_____ /_____ ACTIVIDADES DO GRUPO B 1. Observa a estátua que se situa ao lado da Sé Catedral. Qual é o nome do cavaleiro que a estátua representa? ______________________________________________________________________ 2. Desenha todos os instrumentos que o cavaleiro possui para combater. Fig. 27 105 Apoio a actividades de resolução de problemas As actividades relacionadas com a resolução de problemas são tarefas comuns nas escolas que, dada a sua importância, terão que merecer alguma atenção por parte dos professores, quer quanto ao tipo de problemas a propor, quer quanto aos meios que podem e devem disponibilizar para que os alunos os possam resolver. No caso presente entende-se que um problema se afirma como uma situação que introduz “uma discontinuidade na experiência do sujeito” (Dewey, 1925, citado por Fabre, 1999, p.12). Não é, por isso, um exercício a decifrar através da selecção prévia de uma espécie de grelha criptográfica cuja utilização parece constituir, só por si, o objectivo final de um tal exercício. De acordo com a abordagem proposta, um problema pode ser definido como uma tarefa relativamente complexa cujas soluções não se encontram previamente disponíveis. Uma tarefa que é sustentada por uma dificuldade objectiva, um obstáculo a defrontar que seja significativo para os alunos e, simultaneamente, desafiante e exequível, a qual possa possa mobilizar os saberes, as competências e a iniciativa dos alunos. Podem os professores intervir neste âmbito? Qual a latitude da suaintervenção? Estas são duas questões fundamentais que se nos colocam no domínio em análise, ainda que não suponham a possibilidade de se produzirem respostas prévias e descontextualizadas face às mesmas. O que se pode afirmar é que qualquer resposta a produzir só é possível se se clarificar o que se pretende que os alunos aprendam quando resolvem problemas. Se o propósito que justifica tal tarefa académica for, apenas, o de exercitar a capacidade de evocar os procedimentos que o professor expôs, aquelas questões não fazem sentido, porque, de algum modo, as respostas estão previamente construídas face às mesmas. Os professores intervêm no período referente à modelagem dos alunos, explicitando os procedimentos a seguir, e, posteriormente, limitam-se a verificar se esses procedimentos são, ou não, replicados ou, eventualmente, a accionar medidas compensatórias e remediativas dirigidas para aqueles que possam mostrar dificuldades em reproduzir o que lhes foi ensinado. Deste modo, aquelas questões têm a ver, apenas, com aqueles que pensam que a resolução dos problemas é algo mais do que um momento de adestramento. São questões que, como já o afirmámos, não admitem respostas prévias e monolíticas, na medida em que a intervenção dos professores depende das necessidades educativas dos alunos, as quais são diversas e variadas. Isto é, tanto poderão ter a ver com o domínio de conceitos e de procedimentos matemáticos, 106 como com o domínio da organização de estratégias que os ajudem a definir um percurso, como, ainda, com necessidades que podem ter a ver, simultaneamente, com uma como com outra das problemáticas atrás enunciadas. Seja o que for, o que importa compreender é que o apoio tutorial tanto se pode dirigir numa direcção como na outra, assumindo intensidades e formatos distintos. Os roteiros que se apresentam na fig. 28 têm mais a ver com a segunda das dimensões atrás referidas do que com a primeira, na medida em que, das duas, seria esta a única passível de ser abordada quanto aos seus contornos e especificidades. Trata-se de um exemplo que, como todos os outros exemplos contidos neste livro, pretende ser, somente, uma referência de um trabalho que os docentes poderão desenvolver sem fazerem pelos alunos o que só aos alunos compete fazer, mas não os deixando entregues, também, à sua sorte ou a circunstâncias educativas que nada têm a ver com a sua educação escolar. O segredo, neste caso, passa, então, por apoiar os alunos a estruturar estratégias pessoais que os ajudem a resolver os problemas, sem os limitar à utilização de estratégias previamente definidas cujo sentido e significado tantas vezes lhe escapa. Não sendo, como já o escrevemos, a única possibilidade de intervenção que os professores dispõem para agir, é, apesar disso, uma possibilidade que justifica o apoio tutorial como uma modalidade adequada de promover a mediação pedagógica. Os roteiros que iremos apresentar, importa referir, dizem respeito à actividade de resolução de problemas na área da Matemática e foi inspirado no percurso metodológico que Polya (1978) nos propôs, no sentido de permitir que a Matemática possa ser entendida como uma disciplina que oferece oportunidades aos estudantes de poderem desenvolver, entre outras coisas, não só saberes específicos, mas também atitudes e estratégias que poderemos enquadrar, hoje, no domínio do desenvolvimento das competências metacognitivas. 107 Questões e tarefas Respostas Lê o problema do princípio ao fim Sublinha, a azul, as palavras ou frases que desconheças Define qual é o objectivo ou a resposta pretendida Sublinha, a vermelho, os dados que te podem ajudar a resolver o problema Compara o problema com problemas semelhantes que já resolveste e tenta recordar-te dos procedimentos que seguiste Define as etapas do plano de acção 1ª … 2ª … 3ª … Fig. 28 - Roteiro de apoio à resolução de problemas (Fase da Planificação) Se o roteiro que a figura 28 retrata diz respeito ao momento da planificação propriamente dita, importa reconhecer que o referido roteiro só faz sentido se o relacionarmos com o roteiro seguinte, o da figura 29, através do qual se definem algumas tarefas relacionadas com o momento da resposta ao problema e, igualmente, com a reflexão sobre essa mesma resposta e os procedimentos que a geraram. Questões e tarefas Respostas Elabora uma resposta, após teres realizado as operações necessárias Parece-te um resultado possível? Porquê? Se o resultado não te parecer adequado verifica: se o teu plano de acção não precisa de ser revisto; se as operações que realizaste não necessitam de ser corrigidas Fig. 29 - Roteiro de apoio à resolução de problemas (Fase da Execução) 108 Como se pode constatar, o grau de autonomia que cada aluno poderá assumir na utilização dos roteiros é algo que terá que se ser aferido em contexto. A importância dos roteiros diz respeito ao facto destes tanto poderem servir para que os alunos possam definir estratégias que lhes permitam agir de forma organizada face à tarefa em causa, como de poderem ser entendidos como instrumentos de comunicação entre os professores e os alunos ou os alunos entre si. Em conclusão, o que se verifica com o conjunto de propostas que visam contribuir para se operacionalizar as situações de apoio tutorial, é que estas não se justificam nem como um contributo para o adestramento cultural e cognitivo dos alunos, nem como instrumentos que se utilizam para eclipsar os professores e promover a sua demissão educativa. A sua função não se define, por isso, como uma função prescritiva, mas como uma função reguladora, do mesmo modo que não traduzem nenhum tipo de ilusão acerca dos alunos poderem ser identificados como seres auto-suficientes, em termos das aprendizagens que realizam. Espera-se que estes tenham oportunidade de viver processos de formação significativos, descobrindo outras possibilidades de pensar e de agir através do contacto consequente que estabelecem com os outros e, concomitantemente, com o património de informações, de instrumentos, de procedimentos e de atitudes cuja apropriação, sendo um dos objectivos da Escola, só o é se essa apropriação não se afirmar como um fim em si, mas como um meio que poderá contribuir para que os alunos possam desenvolver um olhar e uma acção mais esclarecidos sobre o mundo e no mundo onde habitam. Ainda que o roteiro apresentado diga respeito à resolução de problemas em Matemática, importa afirmar que esta tarefa não poderá ser circunscrita, apenas, a este domínio específico. O roteiro que, em seguida, se apresenta (fig. 30) supõe que os alunos se confrontem com problemas que se relacionem com a sua vida quotidiana, de forma a desenvolver um conjunto de competências que lhes permitam o exercício do pensamento crítico, do diálogo e do estabelecimento de consensos em situações de conflito. Para que tais finalidades se concretizem, importa, então, que o problema se afirme pela sua abertura, a qual possa permitir a possibilidade de utilizar diversos tipos de abordagens, não admita, apenas, uma solução prévia e mais ou menos prescrita e constitua um desafio que os alunos possam enfrentar com sucesso. É a partir deste conjunto de condições que a aprendizagem através da resolução de problemas se pode vir a concretizar, permitindo que os alunos aprender a desenvolver 109 estratégias, a trabalhar em conjunto, a monitorizar o que realizam e a autonomizar-se progressivamente no âmbito das tarefas de aprendizagem. ETAPAS ACTIVIDADES Situação prévia à definição dos problemas Apresenta-se aos alunos um problema, através de um texto, de uma gravação em vídeo ou de uma fotografia; Discute-se o caso apresentado. Esclarecem-se dúvidas.Explicitam-se algumas questões que acabarão por constituir os problemas a tratar ou, pelo menos, o ponto de partida para definir esses problemas. Identificar o problema Os alunos deverão aprender a confrontar-se com o problema, a partir das seguintes questões: - Qual é, de facto, o problema com que nos confrontamos? - O que é que cada um de nós sabe sobre este assunto? - O que é que teríamos de saber para responder à questão que nos é colocada? - A quem podemos recorrer para nos ajudar a resolver este problema? Há livros e materiais que possamos utilizar para responder a este problema? Utilizar e avaliar a informação recolhida Os alunos deverão aprender a confrontar-se com a informação que foram recolhendo, levantando, entre outras, as seguintes questões que são, apenas, questões possíveis: - Parece-nos que a informação é verdadeira? - Qual o motivo das nossas dúvidas? - Possuímos toda a informação que necessitamos para ajudar a responder ao problema? - O que nos falta saber? Apresentação da solução encontrada Os alunos definem como é que vão apresentar a solução do problema (texto, exposição oral, exposição de trabalhos, etc.), esclarecendo: - Qual o problema que tiveram que resolver; - As dúvidas que tiveram, aquelas que forma recusadas e aquelas que foram resolvidas; - 0Os recursos que utilizaram; - As respostas que encontraram e aquelas que lhes pareceram ser as mais plausíveis. Fig. 30 - Guião de apoio à utilização dos problemas do quotidiano como dispositivos pedagógicos 110 Apoio ao desenvolvimento de projectos O trabalho de mediação que os professores poderão desenvolver de forma a apoiar o desenvolvimento dos projectos em que os seus alunos se envolvem constitui uma das actividades mais decisivas no âmbito de intervenções vinculadas ao paradigma da comunicação e à assunção do papel dos professores como interlocutores qualificados. Importa, no entanto, reconhecer que um tal trabalho não se circunscreve, apenas, à denominada metodologia de projecto21, como se esta, só por si, pudesse constituir a expressão dos pressupostos educativos nucleares subjacentes, igualmente, a outros dispositivos pedagógicos que partilham com essa metodologia a racionalidade educativa que as inspira, a qual, à falta de outra designação mais adequada, designaremos por racionalidade de projecto. É o reconhecimento da pluralidade do campo que se configura em torno de tal racionalidade que importa reconhecer e identificar, na medida em que isso implica que tenhamos de compreender que os professores deverão assumir papéis distintos como mediadores e interlocutores no seio do mesmo, os quais supõem diferentes tipos de exigências e procedimentos pedagógicos. Apoio ao desenvolvimento De projectos A metodologia de projecto; Os projectos de intercâmbio escolar As situações-problema; Fig. 31 - Quadro relativo aos dispositivos pedagógicos subordinados a uma racionalidade de projecto No quadro da fig. 31 é essa pluralidade que, em parte, se tenta revelar, de forma a, posteriormente, se poder aprofundar as particularidades dos dispositivos aí referidos, do ponto de vista dos procedimentos e das razões que os definem e os justificam. 21 Esta designação deverá ser entendida como uma designação equivalente àquelas que, por exemplo, Bordallo e Ginestet (1993), Barbier (1993) ou Cortesão, Leite e Pacheco (2002) identificam por Pedagogia do Projecto e Leite, Malpique e Ribeiro dos Santos (1989, 1990) ou Castro e Ricardo (1993) identificam por Trabalho de Projecto e, finalmente, Meirieu (1993) identifica por pedagogias do problema, as quais, no seu conjunto, se referem à primazia que estes autores atribuem à articulação entre problemas e projectos como dimensões nucleares de um determinado tipo de actividades que os alunos protagonizam no decurso do processo educativo em que se envolvem e são envolvidos. 111 A metodologia de projecto Entende-se por Metodologia de Projecto um método de trabalho que se define e configura em função do papel nuclear atribuído, em primeiro lugar, aos problemas, entendidos como instâncias propulsionadoras de aprendizagens e, em segundo lugar, ao seu processo de transformação em projectos. Neste sentido, há duas operações fundamentais a abordar no âmbito da discussão relativa à utilização de projectos como dispositivos de mediação pedagógica. Através da primeira operação trata-se de esclarecer o que é que se entende por problema. Através da segunda operação visa-se colocar e discutir algumas das questões transversais inerentes à transformação dos problemas em projectos. Um problema, na perspectiva proposta por M. Fabre (1999), implica o reconhecimento de três dimensões estruturantes: a da interposição ou do obstáculo, a da pregnância ou do significado e a da iniciativa ou do projecto. Sendo estas propriedades da concepção de problema que justifica tal metodologia, importa compreender, assim, que os problemas são o factor nuclear da Metodologia de Projecto se contribuírem para “a participação de cada membro de um grupo numa acção decidida, planificada e organizada em conjunto” (Cosme & Trindade, 2001, p.31), num processo que obriga a responder ao seguinte conjunto de questões (Cosme & Trindade, 2001): Como é que se constrói e formula um problema que seja significativo para os diferentes elementos que constituem o grupo de trabalho? Como é que se promove a participação desses elementos quer na definição e formulação dos problemas quer, posteriormente na sua transformação em projectos? Como é que a actividade dos alunos se alimenta e se constrói? Como é que se instituem os mecanismos de regulação e auto-regulação que possam contribuir para que tal actividade ocorra e, simultaneamente, para que os alunos se autonomizem neste âmbito? Não havendo respostas prévias a estas questões, na medida em que a sua formulação é absolutamente dependente da relação com um contexto, com situações e com as pessoas envolvidas, pode, todavia, identificar-se um conjunto de etapas metodológicas e instrumentos de trabalho que animados de forma a valorizar quer as experiências e os saberes prévios dos alunos quer o sentido funcional das actividades 112 que estes protagonizam quer, finalmente, os saberes processuais face aos saberes declarativos, permitem assumir a Metodologia de Projecto como um instrumento propiciador de aprendizagens. Pode afirmar-se que esta metodologia nos coloca perante um conjunto de desafios pedagógicos, dos quais evidenciaria, pela sua importância e centralidade, a problemática da participação dos alunos na concepção, implementação, desenvolvimento e avaliação dos projectos. É uma questão importante porque, mais do que discutir esta questão do ponto de vista dos alunos, importa discuti-la do ponto de vista: das suas implicações na configuração do papel a atribuir aos professores neste âmbito; da relação entre o desenvolvimento dos projectos e as aprendizagens que os alunos deverão realizar no seio das diferentes áreas disciplinares. É que qualquer projecto surge da necessidade de responder a um desejo, de resolver uma necessidade ou de enfrentar um desafio. Neste sentido, o que importa é garantir que: os alunos, perante situações que possam mobilizar o seu investimento, organizem um plano de acção e o implementem, acreditando-se que, possivelmente, poderão aprender algo no decurso desse processo. Sendo a aprendizagem uma finalidade desejada, não é, todavia, uma finalidade necessariamente esperada e atendida como uma condição a partir da qual se possa aferir o sucesso dos resultados decorrentes da aplicação da metodologia do projecto. Aproximámo-nos, de algum modo, do tipo deexperiências de vida do nosso quotidiano, cujas potencialidades educativas são iniludíveis, mas não constituem, de facto, o seu objectivo prioritário.” (Cosme & Trindade, 2001: 54). Na sequência desta perspectiva, os professores são colocados perante um desafio que, de algum modo, os obriga a pôr em causa ou a viver de forma contraditória o estatuto e o papel que lhe são normalmente atribuídos e que eles próprios se atribuem como profissionais, já que a metodologia de projecto confere aos alunos uma centralidade que, pelo menos no espaço escolar, tende a ser uma centralidade inédita. 113 É uma tal metodologia que se revela, do ponto da identificação dos seus procedimentos estruturantes, através do guião que se apresenta na fig. 32 e dos roteiros que se encontram anexados ao mesmo. Na coluna da esquerda desse guião explicitam- -se as etapas da metodologia de projecto propriamente dita, enquanto que na coluna da direita se revela um guião adoptado no âmbito de um clube escolar, o Clube do Património, que assim ilustra, através de um exemplo concreto, uma situação relacionada com a referida metodologia. 114 Etapas da Metodologia de Projecto Projecto do Clube do Património O QUE É QUE VAMOS FAZER? 1. Selecção / Definição do problema a. Que património histórico, artístico, arquitectónico e cultural existe, na nossa região, para estudar ? 2. Escolha e formulação de problemas parcelares a. É possível estudar todo esse património ? b. Do património existente na nossa região Qual seria aquele que mais nos interessaria estudar ? Porquê ? Que interesse poderia ter esse estudo ? c. Como é que vamos materializar, tornar público, o trabalho que pretendemos realizar? COMO É QUE VAMOS FAZER? 3. Preparação e planeamento do trabalho a. Quem nos pode ajudar ? b. Que recursos dispomos ? c. Com que problemas nos podemos confrontar ? d. Que tarefas Teremos de realizar ? e. De que materiais necessitamos ? Como obtê-los ? Como produzi-los? Quem os produz? f. Como é que nos vamos organizar ? Precisamos de dividir tarefas ? Precisamos de organizar um calendário de actividades ? O QUE É QUE ANDAMOS A FAZER? 4. Avaliação intermédia Nota: Ver fichas de avaliação intermédia (pág. _____) Finalidades da avaliação intermédia: Avaliar o grau de cumprimento das tarefas; Enumerar os obstáculos e os problemas que surgiram; Avaliar o funcionamento do grupo; Discutir as tarefas realizadas e a realizar. 5. Preparação da apresentação pública do trabalho a. Em que dia é que podemos começar a montar a exposição ? b. Quando é que nos encontramos para organizar o plano da exposição ? c. Vamos fazer uma brochura de apoio à exposição ? d. Quem é que vai ficar na mesa no dia da sessão inaugural ? 6. Apresentação pública Exposição pública de fotografias sobre as casas da freguesia, com uma sessão de inauguração O QUE É QUE FIZEMOS ? 7. Avaliação final Nota: Ver roteiro de avaliação final (pág. ____ ). Finalidades da avaliação final: Auto-avaliar o trabalho produzido e o funcionamento do grupo; Avaliar o trabalho dos restantes grupos; Produzir sugestões relativamente a trabalhos futuros. Fig. 32 - Guião de apoio ao desenvolvimento da Metodologia de Projecto 115 116 FICHA INDIVIDUAL DE AVALIAÇÃO INTERMÉDIA DO CLUBE DO PATRIMÓNIO O meu comportamento no grupo Nome: _________________________________________________________ Assinala com um X as opções que melhor correspondam à tua opinião Sempre A maioria das vezes Algumas Vezes Raramente /Nunca Cumpri as tarefas que me estavam destinadas Empenhei-me em realizar, o melhor possível, essas tarefas Fui capaz de escutar as opiniões dos meus colegas Contribuí com as minhas opiniões para a resolução dos problemas Observações: Esta ficha visa estimular, em primeiro lugar, o processo de auto-avaliação dos jovens envolvidos no projecto. Assim, depois de cada um dos alunos se auto-avaliar, deverá partilhar e discutir com os colegas a avaliação que realizou acerca de si próprio. A presença dos professores neste âmbito afigura-se-nos como uma atitude importante, de forma a assumirem o papel de reguladores da discussão no seio dos grupos e estimulando os alunos a confrontarem-se, também, com as avaliações anteriormente produzidas. Nem sempre é necessário utilizar estas fichas para realizar a auto-avaliação do comportamento individual dos alunos. O que importa é proceder a essa avaliação com regularidade e sujeita a critérios claros. Fig. 33 - Roteiro de avaliação intermédia 117 ROTEIRO DA AVALIAÇÃO FINAL DO CLUBE DO PATRIMÓNIO Avaliar o produto final a. Qual a classificação que atribuiriam ao vosso trabalho? b. Valeu a pena terem-se envolvido neste projecto? Porquê? O que é que aprenderam com ele? c. O que é que as pessoas que visitaram a exposição escreveram no livro de honra? d. Se pudessem voltar atrás tinham organizado a exposição da mesma maneira? O que modificariam? Avaliar os métodos e a qualidade dos processos de trabalho a. Quais as razões que podem explicar que o trabalho tenha sido bem sucedido? b. Quais as principais dificuldades sentidas pelo grupo? Foram resolvidas? Como? c. Voltavam a trabalhar em conjunto? Porquê? d. Projectar o futuro a. Depois de terem realizado este projecto que outros projectos gostariam de realizar? Porquê? Observações As questões colocadas dizem respeito, exclusivamente, ao projecto específico que descrevemos e foram abordadas em função do seguinte conjunto de etapas: Os animadores propuseram que os jovens se reunissem por sub-grupos de trabalho (3 ou 4 elementos) e respondessem às perguntas contidas no roteiro; O porta-voz de cada sub-grupo expõe os resultados da reflexão a que os elementos desse sub- -grupo chegaram; Os animadores anotaram os diversos contributos no quadro; A avaliação encerrou-se com a discussão, no seio do grande grupo, dos resultados obtidos. Nota: Quer os animadores quer os jovens tiveram em linha de conta o conjunto de opiniões que foram sendo emitidas em todos os momentos de avaliação que aconteceram ao longo do processo de realização do projecto. Fig. 34 - Roteiro da avaliação final Como se constata, a ruptura que a Metodologia de Projecto propõe e pressupõe é uma ruptura com as situações clássicas do trabalho escolar. Uma questão que, muitas vezes, ou não é encarada de frente ou é abordada de forma algo ambígua. Daí que se 118 compreenda o conjunto de objecções que P. Meirieu levanta relativamente aos projectos, nomeadamente quando estes são entendidos como dispositivos de mediação pedagógica a utilizar no âmbito do processo de animação das aprendizagens em cada uma das diferentes disciplinas que integram os programas escolares. É com cepticismo que Meirieu se refere ao que este autor designa por “pedagogias do problema” (Meirieu, 1993: 171). De acordo com Meirieu: na realização de um projecto, nada garante a progressividade das aprendizagens; nada garante também que a mesma questão não reapareça várias vezes e que não continue a reaparecer inutilmente quando a aprendizagem tenha sido efectuada; nada garante ainda que a questão exacta, por sua vez, venha no momento exacto. Por outro lado, as pedagogias do problema ignoram completamente que a aprendizagem, diante de uma dificuldade, é quase sempre a solução mais onerosa: é muito mais fácil não aprender, recorrer a alguém que resolva o problema por nós, de encontrar uma solução à medida. E cometeremos um erro em criticar tal procedimento que, de certo modo, é o próprio motor dos nossos progressos intelectuais e técnicos. (...) Na medida em que essa renúnciaé a própria condição do exercício da nossa inteligência no domínio que decidimos explorar e no qual decidimos intervir. (...) É por isso que não devemos atribuir à má vontade dos nossos alunos o facto de tentarem executar um projecto sem aprender. Não temos que estranhar o facto de procurarem sistematicamente “a facilidade”, o amigo “que já sabe fazer”, o objecto já “pronto”. Importa é, antes, questionarmo-nos se a estrutura da situação pedagógica é adequada aos objectivos de aprendizagem previstos, ou, por outras palavras, se essa estrutura permite reduzir a aleatoriedade da interacção problema / resposta. (Meirieu, 1993, p.169). Em suma, embora nos pareça que não se deve menosprezar a perspectiva de Meirieu acerca da Metodologia de Projecto, também nos parece que, mais do que as suas limitações pedagógicas, interessa reconhecer, sobretudo, a sua especificidade metodológica. Isto é, a Metodologia de Projecto tem que ser compreendida e utilizada face a um conjunto de actividades particulares que se definem em função de 119 finalidades educativas específicas. Não tem, então, como alguns pretendem, uma utilidade pedagógica universal. Daí a necessidade de compreender, tal como defende Perrenoud, que pretender animar as aprendizagens dos alunos através da Metodologia de Projecto implica que se deva reconhecer que: o projecto é mobilizador para os alunos porque as apostas lhes interessam. Porém, longe de permitirem uma aprendizagem ou compreensão, estes desafios servem, sobretudo, para ter êxito, alcançar um objectivo, receber um feedback positivo de um destinatário ou ter a satisfação do trabalho concluído e do desafio solucionado. (...) Apesar das reticências dos alunos, o projecto só os poderá envolver verdadeiramente se a aprendizagem for considerada um benefício secundário. Caso contrário, os alunos encontram-se numa situação clássica de trabalho escolar e apelam aos habituais mecanismos de defesa. (Perrenoud, 2001: 1). Em suma, é a especificidade da Metodologia do Projecto que, como já o afirmámos anteriormente, importa reconhecer, de forma a compreender-se que o papel dos professores, no domínio do apoio à conceptualização e ao desenvolvimento de projectos, se pode afirmar por múltiplas vias, não ficando confinado, assim, ao universo educativo que aquela metodologia permite configurar. É que, para além da Metodologia de Projecto, há outros dispositivos de acção pedagógica que entendem o projecto como o eixo nuclear das propostas que se promovem sob a sua inspiração. Neste livro referir- -nos-emos quer aos projectos de intercâmbio escolar, quer aos projectos que as situações-problema corporizam. Os primeiros, os projectos de intercâmbio escolar, correspondem a propostas de intervenção educativa específicos, não tanto do ponto de vista da metodologia utilizada, mas em termos das finalidades que perseguem. Enquanto na Metodologia de Projecto a margem de manobra dos actores educativos é, de algum modo, definida por estes, no tipo de projectos que os projectos de intercâmbio consubstanciam essa margem de manobra é bastante mais reduzida, influenciada pelo facto de tais projectos estarem sujeitos a um outro tipo de constrangimentos, quer estes sejam de natureza curricular, quer estes derivem do tipo de consensos a estabelecer com aqueles com os quais se partilham desejos e iniciativas. 120 As situações-problema são, por sua vez, dispositivos em função dos quais se torna possível comprovar que a racionalidade pedagógica que justifica os projectos como instrumentos capazes de suscitar processos de formação e de aprendizagem é uma racionalidade de natureza bastante mais ampla do que aquela que a Metodologia de Projecto permite evidenciar. Projectos de intercâmbio escolar Os projectos de intercâmbio escolar são, hoje, a expressão de uma actividade educativa que constitui uma das imagens de marca do património que nos é legado pelos movimentos de inovação pedagógica. Os projectos de intercâmbio escolar emergiram, então, da necessidade de conferir um sentido palpável e concreto à actividade dos alunos, alargar o campo das oportunidades educativas criadas na escola e permitir que estes possam assumir um maior protagonismo no âmbito do processo de ensino- -aprendizagem. Os projectos de intercâmbio escolar permitem, em suma, que, através da descoberta dos outros, os alunos se possam descobrir a si mesmos, utilizando o conjunto dos instrumentos de mediação cultural que nas escolas se valoriza. Ou seja, de acordo com esta perspectiva, os projectos de intercâmbio escolar não constituem uma actividade exterior ao currículo, permitindo, pelo contrário, atribuir-lhe um outro significado, contribuindo deste modo para transformar as oportunidades educativas que têm lugar nos contextos escolares. Havendo muitas possibilidades de concretizar tais projectos, importa reconhecer que estes tanto podem desenvolver-se segundo a dinâmica e os procedimentos próprios das iniciativas que ocorrem sob inspiração da Metodologia de Projecto (Cf. fig. 32, na pág. 106), como podem ocorrer em função de actividades mais dirigidas, do ponto de vista das finalidades que as justificam (Cf. fig. 30, na pág. 101). Trata-se de projectos que, como qualquer projecto, dependem, para se concretizarem, da participação esclarecida e autêntica dos alunos, ainda que, neste último caso, se possa considerar que tal participação se afirme como uma participação que até certo ponto é guiada. Hoje, e ao contrário do passado, os projectos de intercâmbio escolar podem concretizar-se não só através da correspondência tradicional, de visitas e actividades conjuntas, como também através dos novos meios de comunicação informática. As experiências são inúmeras neste âmbito. Há aquelas turmas que se correspondem com 121 turmas de outras escolas da sua área ou de áreas educativas distantes. Há também as turmas que interagem de forma sistematizada com turmas da mesma escola. Há, finalmente, os projectos de intercâmbio com turmas de escolas sediadas noutros países. O campo de decisões neste âmbito é vasto e plural, tudo dependendo das razões que subjazem ao desenvolvimento de tais projectos. Tal como se verifica através da leitura que o quadro que a fig. 35 apresenta, há projectos que nascem por acaso, há projectos que nascem em função das relações privilegiadas existentes entre os professores das turmas envolvidas, há projectos que visam responder a necessidades, há projectos, finalmente, que são estimulados a partir do exterior da escola. Não importa qual o ponto de partida dos projectos, já que as decisões que os justificam dependem, sobretudo, da autenticidade dos propósitos que as animam, do modo como se estimula os alunos a participar no desenvolvimento desses projectos e dos efeitos educativos que todos lhes possam reconhecer. O roteiro que se apresenta não pode garantir, de facto, nem a autenticidade dos propósitos, nem a participação dos alunos, nem os seus efeitos educativos. Apenas visa apoiar todos os que pretendam promover actividades nas escolas que contribuam para o intercâmbio entre alunos, aqui definidas como experiências de aprendizagem valiosas e decisivas. Tipos de projectos Finalidades dos projectos Projectos de intercâmbio subordinados à troca de experiências Este tipo de projectos tem mais a ver com o desejo de comunicar ou a oportunidade de comunicar, do que propriamente com a existência de situações relativamente bem definidas que estimulem o projecto de intercâmbio. São projectos que se desenvolvem de uma forma aberta sujeitos às contingências e às vicissitudes do processo de comunicação que se vai estabelecendo. Projectos de intercâmbio subordinados à concretização de um projecto Este tipo de projectos partem de uma situação bem definida, desenvolvem-se em função da concretizaçãode uma obra e, por isso, o planeamento do projecto desenvolve-se de forma diferente da situação anterior. Projectos de intercâmbio subordinados a promover o convívio. Este tipo de projectos caracteriza-se pelo facto de, normalmente, coexistir com os projectos referidos anteriormente, embora se possam construir só por si como projectos interessantes e pertinentes. Trata-se de projectos que se destinam a promover o convívio entre alunos, sendo entendidos como uma oportunidade educativa inestimável na medida em que, para além de serem jornadas de descoberta e de pesquisa, afirmam-se, para além disso, pela sua importância social e comunitária. Fig. 35 - Quadro de identificação dos projectos de intercâmbio escolar 122 PROJECTOS SUBORDINADOS À TROCA DE EXPERIÊNCIAS ETAPAS ACTIVIDADES Preparação dos projectos Apresentar e / ou discutir a proposta de intercâmbio, respondendo a algumas das questões: - “O que é que nos propõem que façamos ? Porquê ?” ou “O que é que podemos fazer ? Porquê ?” - “Estamos interessados em fazê-lo ? Porquê ?“ ou “Temos propostas alternativas para fazer ?” - “Através de que meios é que se vai processar o intercâmbio ?” Execução dos projectos Definir um plano de acção - A definição de um plano de acção, neste caso, elabora-se cada vez que a turma recebe a correspondência da turma amiga; - Importa, por isso, planear o primeiro contacto, explicitando-se: . O que vamos fazer ? . Como o vamos fazer ? . Quem faz o quê ? Nota: A troca de experiências pode envolver inúmeras actividades e trocas: cartas, fotografias, desenhos, objectos, problemas, pedidos de apoio para trabalhos, etc. Fig. 36 - Roteiro relativo aos projectos de intercâmbio subordinados à troca de experiências PROJECTOS SUBORDINADOS À CONCRETIZAÇÃO DE UM PROJECTO ETAPAS ACTIVIDADES O que vamos fazer? Definir as finalidades do projecto; Definir as questões que possam mobilizar a acção dos alunos das turmas envolvidas. Como vamos fazer? Planear as actividades: - Definir essas actividades e os produtos esperados; - Estabelecer um cronograma dessas actividades; Partilhar as responsabilidades pelo desenvolvimento do projecto. O que é que andamos a fazer? Definir os momentos e os modos de avaliação. Como vamos tornar público o que fizemos? Esta pergunta deverá ser objecto de discussão logo no início do projecto. Contudo, à medida que o projecto avança esta questão deverá ser retomada. Assim, no princípio, coloca-se o mais vasto conjunto de hipóteses possível. Discute-se a sua pertinência e exequibilidade e realiza-se uma primeira selecção de possibilidades em aberto. Posteriormente, a discussão tem condições para se tornar mais realista, o que permite reavaliar a primeira selecção ou retomar a discussão de forma mais fundamentada O que fizemos? Realizar o balanço do projecto de intercâmbio, de forma a tomar decisões relativamente a futuras colaborações e parcerias. Fig. 37 - Roteiro relativo aos projectos de intercâmbio subordinados à concretização de um projecto 123 As situações-problema A aprendizagem através de situações-problema, tal como P. Meirieu (1993) a defende, deverá ser compreendida em função do confronto entre as representações dos alunos e um conjunto de dispositivos didácticos, o qual implica a reelaboração destas representações, potenciada, neste caso, por um conflito de natureza cognitiva. Partilhando com a Metodologia de Projecto alguns pressupostos pedagógicos comuns, diferencia-se desta quanto às suas finalidades e ao tipo de gestão do processo de ensino- aprendizagem que perfilha. Neste sentido, pode afirmar--se que a aprendizagem através das situações-problema visa provocar de forma deliberada e intencional aprendizagens, as quais, mais do que desejadas, não só se espera que aconteçam como tudo se faz para que aconteçam. É que, como refere Meirieu, dando conta de algum do seu cepticismo face ao impacto educativo das “pedagogias do problema” (Meirieu, 1993, p.171), na realização de um projecto, nada garante a progressividade das aprendizagens; nada garante também que a mesma questão não reapareça mais vezes e que não continue a reaparecer inutilmente quando a aprendizagem tenha sido efectuada; nada garante ainda que que a questão exacta, por sua vez, venha no momento exacto. Por outro lado, as pedagogias do problema ignoram completamente que a aprendizagem, diante de uma dificuldade, é quase sempre a questão mais onerosa: é muito mais fácil não aprender, recorrer a alguém que resolva o problema por nós, de encontrar uma solução à medida. E cometeremos um erro em criticar tal procedimento que, de certo modo, é o próprio motor dos nossos progressos intelectuais e técnicos. (…) Na medida em que essa renúncia é a própria condição do exercício da nossa inteligência no domínio que decidimos explorar e no qual decidimos intervir. (…) É por isso que não devemos atribuir à má vontade dos nossos alunos o facto de tentarem executar um projecto sem aprender. Não temos que estranhar o facto de procurarem sistematicamente a «facilidade», o amigo que «já sabe fazer», o objecto já «pronto». Importa é, antes, questionarmo-nos se a estrutura da situação pedagógica é adequada aos objectivos da 124 aprendizagem previsto, ou, por outras palavras, se essa estrutura permite reduzir a aleatoriedade da interacção problema/resposta (obra citada, p.169). É a partir deste tipo de perspectiva que Meirieu concebe a proposta da «situação-problema» como um dispositivo de aprendizagem alternativo à metodologia de projecto que decorre da necessidade de gerir os problemas em função do seu contributo explícito para a elaboração de respostas capazes de exigir e suscitar aprendizagens. Neste sentido, pretende-se que através da situação-problema se evitem, por um lado, as opções da pedagogia tradicional, mas também, nesse âmbito, alguns dos equívocos daquela metodologia que sendo capaz de assegurar a existência de um problema para ser resolvido nem sempre valoriza, de forma explícita, a necessidade dos alunos realizarem aprendizagens como consequência da resolução de um problema. Ou seja, através das «situação- -problema» Meirieu (1993) pretende que se “tenha a certeza da existência de um problema a ser resolvido e, ao mesmo tempo, da impossibilidade de resolver o problema sem aprender” (p.169), o que se torna possível quando se reconhece que uma «situação-problema» permite que o aluno execute uma tarefa, entendida neste caso como a transposição de um obstáculo seleccionado pelo professor para o efeito, a partir de um objectivo, por si, previamente fixado. Segundo Meirieu, um tal método “só é fecundo se o objectivo-obstáculo tiver sido devidamente escolhido: se os alunos não tiverem meios para transpor o obstáculo (…) ou se o obstáculo já tiver sido transposto, a situação-problema perde todo o interesse” (p.173). O papel do professor constrói-se, então, a partir de um esforço permanente de regulação e de afirmação da sua inventividade pedagógica que lhe permita contribuir para as aprendizagens dos alunos, o que obriga, na opinião de Meirieu (1993) a responder a quatro questões: a) Qual é o meu objectivo? O que é que eu gostaria que o aluno aprendesse que pudesse constituir para ele a transposição de uma etapa no âmbito do seu processo de aprendizagem? b) Face a esse objectivo que tarefa lhe posso propor para que a aprendizagem desejada se realize? 125 c) Que dispositivos posso montar para que os alunos possam enfrentar essa tarefa? Que materiais, documentos e instrumentos devo reunir? Que instruções-alvo devo propor para que os alunos utilizem esses materiais, esses documentos ou esses instrumentos? Que exigências devem ser introduzidas para impedir que os sujeitosevitem a tarefa de aprender? Como é que que se podem diferenciar os instrumentos, os procedimentos e os tipos de orientação dos alunos face às tarefas? Em suma, através da proposta da «situação-problema» Meirieu (1993) propõe, afinal, um dispositivo pedagógico capaz de permitir uma gestão intencional dos projectos de intervenção educativa que terão por obrigação dinamizar. Um dispositivo capaz de cumprir as três funções que configuram o “ofício de ensinar” (p.179): (i) a “função erótica” que o é “pelo facto de tentar suscitar o enigma que gera o desejo de saber” (idem); (ii) a “função didáctica” (idem) que expressa a preocupação do professor em suscitar a aprendizagem dos alunos e (iii) a “função emancipatória que se afirma pelo facto de permitir que cada pessoa elabore progressivamente os procedimentos mais eficazes para resolver os problemas” (idem). 126 A SITUAÇÃO – PROBLEMA: QUE FINALIDADES? Confrontar os alunos com materiais e instruções, através ... Adaptado de Meirieu (1993) Observações: Do ponto de vista da gestão do dispositivo situação-problema, o professor deverá ter dois tipos de preocupações: Identificar aquilo que os alunos sabem, ou não, fazer, de forma a definir os objectivos e, posteriormente, a configurar as tarefas e os obstáculos que os alunos possam realizar e enfrentar; Suspender a explicação e adiar a resposta, de modo a que se estimule a pesquisa e a acção dos alunos. ______________________________________________________________________ Fig. 38 da avaliação intencional do modo como os alunos compreendem as coisas e orientam a sua acção. da gestão adequada desses materiais e dessas instruções, introduzindo graus de complexidade crescente. UMA TAREFA Comunicar Resolver Aplicar Reconstruir Corrigir Fabricar Avaliar (...) UM OBSTÁCULO Organizado em função de propostas diferenciadas quer do ponto de vista dos alunos quer do ponto de vista das tarefas O ALUNO Avaliação diagnóstica das competências anteriores SITUAÇÃO –PROBLEMA DE: Comunicação Resolução Utilização 127 SITUAÇÃO-PROBLEMA: OPERACIONALIZAÇÃO Plano-guia Operacionalização 1. Selecção da noção nuclear a abordar A selecção da noção nuclear faz-se a partir: de uma análise do programa de trabalho e da identificação das noções- chave, os conceitos organizadores que suportam a temática abordada; do tipo de representação que os alunos explicitam acerca dessas noções e dessa temática. 2. Formalização da situação - - problema A formalização da situação – problema implica a: definição do conjunto de instrumentos (textos, guiões, exemplos, etc.) que os alunos deverão utilizar; elaboração de instruções-alvo que deverão orientar as actividades dos alunos e permitir que estes tenham uma orientação precisa das expectativas do professor. 3. Elaboração de um quadro de actividades a r ealizar e de recursos a utilizar Proposta de actividades a serem efectuadas para se conseguir resolver o problema; Proposta de recursos que permitam aos alunos, em função das dificuldades que encontram, realizar actividades específicas capazes de contribuir para a resolução da situação – problema. Adaptado de Meirieu (1993) Fig. 39 Etapas da situação – problema Projecto desenvolvido no âmbito da disciplina de Física (8º ano) 1. Planificação a. O que é que eu gostaria que os alunos aprendessem ? b. Que tarefas poderei propor para que o objectivo desejado se concretize ? - Que materiais, documentos, instrumentos devo mobilizar e propor ? - Que instruções-alvo devo fornecer para que os alunos utilizem os materiais, os documentos e os instrumentos, de forma a concretizar a tarefa ? - Que exigências devem ser introduzidas para impedir que os alunos evitem a aprendizagem ? c. Que actividades podem ser propostas que permitam negociar o tipo de tarefas, os procedimentos, os níveis de orientação ou outro tipo de modificações que se julguem necessárias ? Fase I Análise do programa e avaliação das suas possibilidades educativas do ponto de vista da organização de actividades sedutoras para os alunos. Fase II Para cada tema do programa elaborou- -se um problema que os alunos deveriam resolver, individualmente ou em grupo, mediante o apoio de guiões de trabalho, fichas experimentais, de treino, de leitura e de avaliação que a professora previamente preparou. Fase III Nesta fase, ocorre: A eleição dos responsáveis pelas tarefas; Os critérios e os procedimentos de avaliação relativos ao desempenho dos alunos, a qual se desenvolve tanto em função de apreciações individualizadas como de apreciações globais; A calendarização das actividades é objecto de discussão, uma vez por mês, nas reuniões de balanço e avaliação. 2. Acção Fase IV Realização, com o apoio da professora, das actividades planeadas. Observações: Este projecto foi desenvolvido na Escola Secundária de Ponte de Sôr por Maria Manuela Leonardo, encontrando-se descrito na obra: Abrantes, José Carlos (1994). A outra face da escola. Lisboa: Ministério da Educação. Na página seguinte apresenta-se, a título de exemplo, um dos problemas utilizados no desenvolvimento do projecto. Fig. 40 - Roteiro referente à operacionalização de uma situação-problema 128 “OS NOSSOS PROBLEMAS” PROBLEMA O João pratica jogos de computador sempre que tem um momento disponível. O pai do João, alarmado com as contas da “luz” que tem para pagar, acha que o João é o principal responsável pelos gastos energéticos da sua casa. Como argumentar a favor do João ? PISTAS PARA A RESOLUÇÃO DE PROBLEMAS Verifica as informações que acompanham o computador do João; Descodifica essa informação em termos de consumo energético; Contabiliza o número de horas diárias que, em média, o João gasta a jogar no computador; Calcula a energia eléctrica gasta por mês pelo João; Compara o valor obtido com os valores pagos mensalmente pelo pai do João; Propõe argumentos a favor do João ou, eventualmente, do pai do João. PRODUTOS ESPERADOS Elabora um texto escrito especificando a importância da Física na elaboração dos problemas; Divulga o que aprendeste à turma, através da resolução deste exercício; Escreve um pequeno artigo, para o jornal da escola, apresentando a resolução do problema. OBSERVAÇÕES: Os produtos esperados deverão ser elaborados pelos alunos e sujeitos à discussão com o professor, o qual deverá assumir, neste âmbito, um duplo papel: De apoio à actividade dos alunos, fornecendo-lhes guiões de apoio ou discutindo com eles problemas e dificuldades que eventualmente venham a sentir no decurso da realização das tarefas; De interpelação dos alunos e dos produtos por eles realizados. Nota: As pistas de apoio à resolução de problemas deverão ser geridas em função das necessidades educativas dos alunos. Isto é, se os alunos tiverem necessidade deverão poder usufruir deste apoio, se não for necessário dever-se-á prescindir do mesmo. Fig. 41 - Exemplo de uma situação-problema 129 Em conclusão, o apoio dos professores ao desenvolvimento de projectos é uma das dimensões do seu trabalho que permite que compreendamos de forma mais precisa o que significa definir um docente como interlocutor qualificado. Em qualquer das situações pedagógicas evocadas verifica-se que contactamos com três factores estruturantes e transversais a essas mesmas situações. O primeiro tem a ver com o papel central que se atribui à formulação de problemas como ponto de partida do trabalho pedagógico a desenvolver. O segundo relaciona-secom a valorização da cooperação interpares e o trabalho de equipa como condições a respeitar para que aquele trabalho possa acontecer. O terceiro factor, finalmente, diz respeito à importância do desenvolvimento de acções intencionalmente planificadas e organizadas quer como estratégia que se mobiliza para responder às questões colocadas, quer como oportunidade que suscita o desenvolvimento de competências instrumentais, cognitiva e outras. O que, eventualmente, importa realçar é o facto de serem os alunos os co- -protagonistas do processo de aprendizagem em que se envolvem, propósito este que, por sua vez, conduz os professores a assumirem um papel decisivo na assunção e concretização do mesmo. Se a proposta de dispositivos de organização e o investimento formativo na apropriação dos mesmos, por parte dos alunos, assume um papel decisivo neste âmbito, há que reconhecer que esta é, apenas, uma parte do contributo docente. Como uma leitura rápida pelos roteiros e os guiões apresentados permite verificar há uma outra dimensão do trabalho dos professores que importa realçar: a da sua participação esclarecida no âmbito dos processos de comunicação em que se envolve no seio do grupo-turma, em função dos quais se estimula os alunos a confrontarem-se com outras perspectivas, compreendendo, eventualmente, as potencialidades e as limitações daquelas que perfilham e, subsequentemente, a investirem em projectos de estudo e de trabalho que possam contribuir, simultaneamente, quer para o desenvolvimento de olhares e atitudes mais complexas e sustentadas sobre o mundo que os rodeia, quer para a apropriação das informações, dos instrumentos e dos procedimentos que permitem que aquele desenvolvimento aconteça. Por fim, importa chamar a atenção, também, para o facto do apoio ao desenvolvimento de projectos, por parte dos professores, ser uma tarefa que não poderá ser dissociada das tarefas anteriormente referidas como fazendo parte do património de 130 compromissos profissionais dos professores, nomeadamente quando entendemos estes como interlocutores qualificados. É este património que agora nos propomos com a referência à actividade de publicitação da informação colectada pelos alunos e dos projectos que estes desenvolveram. Não sendo o último capítulo deste livro é, mesmo assim, um contributo interessante, na medida em que no âmbito do paradigma pedagógico da comunicação essa actividade é considerada como uma actividade estrategicamente decisiva no âmbito do processo de formação que as escolas proporcionam a esses alunos. Actividades de publicitação e partilha dos trabalhos realizados Sabemos que não há actividades de intervenção ou de investigação que não envolvam, na sua fase final, a publicitação e partilha de informação relativa aos projectos desenvolvidos nesse âmbito. Apesar disso, há actividades e dispositivos pedagógicos que permitem abordar as operações de publicitação em função da importância que as mesmas deverão assumir no âmbito do processo de aprendizagem dos alunos. É em função dessas operações que os alunos, aliás, organizam, em larga medida, o seu trabalho. São essas operações que permitem confrontá-los, também, com os produtos do seu trabalho. É através dessas operações que eles se podem reconhecer no trabalho realizado e serem objecto, também, de reconhecimento público. Finalmente, são essas operações que possibilitam a auto e a hetero-avaliação dos projectos em que os alunos se envolveram. O quadro da fig. 42 anuncia algumas das actividades e dispositivos que se relacionam com a actividade de publicitar e partilhar informação que os alunos foram construindo no âmbito dos projectos de investigação e de estudo em que se foram envolvendo. Actividades de publicitação e de partilha dos trabalhos realizados A organização de painéis de debates A produção de álbuns; A elaboração de relatórios. Fig. 42 - Quadro de actividades relacionadas com a publicitação e a partilha dos trabalhos realizados 131 Constata-se pela leitura do quadro que o tipo de actividades que aí se referem estão longe de esgotar o conjunto de iniciativas que poderemos accionar para apoiar os alunos a promover a publicitação e a partilha de informação e de trabalhos que tenham realizado. Seria possível referirmo-nos, ainda, à produção de powerpoints, à organização de exposições ou à realização de palestras que se constituem, igualmente, como actividades válidas e pertinentes, tendo em conta a finalidade em causa. Não o faremos, no entanto, tendo em conta que este é um livro de reflexão sobre a acção educativa em contextos formais e o papel dos professores neste âmbito e, igualmente, porque, face a um tal propósito, as actividades que temos vindo a propor visam, sobretudo, ilustrar e apoiar uma tal reflexão. Neste sentido, mais do que ser exaustivo, importa-nos ser criteriosos, encontrando os exemplos que possam mostrar-nos como a acção docente no âmbito do paradigma pedagógico da comunicação é uma acção complexa e marcada por dilemas profissionais que não podendo ser previamente determinados, podem ser enquadrados em função de um conjunto de referências conceptuais e instrumentais que, em última análise, são o objecto de atenção desta obra. A organização de painéis de debates A organização de um painel constitui uma iniciativa adequada para promover a discussão de um tema ou de uma problemática, de forma a poder promover-se a análise dos diversos aspectos desse tema ou dessa problemática. Há vários modos de organizar e animar um painel de debates, tal como se pode constatar pela leitura do quadro da fig. 43 onde se dá conta dos vários tipos de painéis que poderão ser organizados como estratégia de publicitação e de partilha dos trabalhos desenvolvidos pelos alunos. Tipos de painel Caracterização Painel de especialistas O M O O O M – Moderador O – Especialistas A primeira decisão a tomar, antes do início dos debates, é aquela que tem a ver com a definição de quem é o moderador, já que, no caso de qualquer um dos painéis, os especialistas serão os alunos que estudaram e pesquisaram a problemática em discussão; O moderador, em qualquer um dos tipos de painéis que serão referidos, terá que apresentar o tema e os especialistas, velando, igualmente, pelo cumprimento das regras que presidem ao funcionamento do painel. (cont.) 132 Painel de interrogações M O X O X M – Moderador O – Especialistas X – Não – especialistas Neste tipo de painel os especialistas são interrogados por um grupo de não-especialistas, perante uma plateia. A função do moderador é idêntica à do painel anterior. Painel de oposição ou debate M O X O X O – Grupo 1 X –Grupo 2 M - Moderador Dois grupos de especialistas sob a coordenação de um moderador expressam pontos de vista diferentes sobre um mesmo assunto. Sendo a função do moderador idêntica, reconhece-se que a sua intervenção neste âmbito exige uma maior experiência neste género de iniciativas. Fig. 43 - Quadro referente aos tipos de painéis de debates Após a decisão de se optar por um painel para promover o debate, importa decidir, também, qual o tipo de painel que melhor se adequa quer ao tema e à problemática em questão, quer à idade dos alunos, quer, igualmente, à sua experiência em debates. Nalgumas situações poderá ser interessante que se redija uma espécie de acta do debate, a qual será entendida como um documento de trabalho a utilizar posteriormente, quer devido a algumasdas afirmações que aí se possam encontrar e que permitam interpelações pertinentes, quer devido a algumas questões que não tenham sido respondidas, as quais poderão dar origem a novos projectos de trabalho e de estudo. A produção de álbuns Os álbuns constituem instrumentos que visam dar conta da informação recolhida, organizada e trabalhada pelos alunos, caracterizando-se por obedecerem a temáticas específicas, fruto de projectos de investigação ou de intervenção em que os alunos tenham estado envolvidos. Neste sentido, há álbuns relativos a visitas de estudo realizadas, a temáticas investigadas (animais, plantas, monumentos, usos e costumes de um região, escritores, etc.), a textos trabalhados em conjunto pelos alunos da turma ou à exposição de trabalhos relacionados com os intercâmbios com outras escolas. De um modo geral, pode afirmar-se que a função dos álbuns tem a ver com a necessidade de se: a) conferir um sentido concreto ao trabalho a realizar; 133 b) estimular, por esta via, um processo de reflexão organizado e concreto; c) construir algo que implique o reconhecimento pessoal e público do trabalho desenvolvido. Por outro lado, há que reconhecer que os álbuns são obra de um colectivo. Embora possa haver momentos de trabalho individual, organização e a construção do álbum é da responsabilidade da turma ou de grupos de alunos que se organizaram para o efeito. Eis-nos, assim, perante um dispositivo que tem vindo a ser utilizado no trabalho com alunos dos anos de escolaridade iniciais, o qual decorre de opções pedagógicas que atribuem um papel decisivo à actividade e ao protagonismo dos alunos no âmbito das tarefas de aprendizagem que lhes dizem respeito. Como construir um álbum? Fases Conteúdos Preparação do álbum Explicitar e definir os objectivos relacionados com a construção do Álbum: - Porque é que o álbum vai ser organizado ? - Qual é a sua temática ? - Quem é responsável pela sua construção e organização ? - Como é que vai ser organizado ? - Quais os critérios a respeitar para incluir os trabalhos no álbum ? Construção e organização do álbum Fase de planificação dos trabalhos; Fase de produção dos trabalhos; Avaliação dos trabalhos realizados, de forma a decidir: - se vão ser incluídos no álbum? - se vão ser trabalhados pelo grupo de forma a serem incluídos no álbum? - como é que vão ser incluídos no álbum? Fig. 44- Roteiro relativo à produção de um álbum Os álbuns constituem um exemplo, entre outros, de uma estratégia de publicitação o trabalho dos alunos. O modelo de organização subjacente ao seu processo de elaboração poderá ser adoptado, salvaguardando as respectivas especificidades, na organização de revistas temáticas, c-d-roms ou exposições públicas. 134 A elaboração de relatórios Os relatórios, seja qual for a razão que os justifica ou o domínio a que se referem, constituem um instrumento de publicitação e de partilha de informação que temos ao nosso dispor. Ainda que, por vezes, os relatórios sejam objecto de uma utilização demasiado circunscrita, como instrumentos de avaliação do desempenho individual dos alunos, há que reconhecer que poderão assumir um papel pedagogicamente mais decisivo como dispositivos através dos quais se dá conta de um trabalho que se realizou. Um trabalho que se partilha e que se interpela, condição para que o mesmo possa adquirir um sentido formativo mais amplo quer para os seus autores, quer para os destinatários do mesmo. Os primeiros divulgam informação que pode ser relevante como factor capaz de potenciar as aprendizagens dos segundos, enquanto estes podem constituir um apoio inestimável quer para que aqueles possam ser mais precisos e rigorosos nas afirmações que produzem, quer para que possam desenvolver novos projectos que correspondam a questões não respondidas ou que tenham sido objecto de respostas equívocas. É nos roteiros que em seguida se apresentam que nos propomos conferir visibilidade a alguns dos percursos que os alunos poderão seguir para aprenderem a elaborar relatórios, o que terá que ser entendido como uma actividade formativa quer quanto ao resultado final a que os alunos acedem, quer quanto ao modo de aceder a esse resultado, quer, finalmente, quanto ao impacto pessoal e cultural de todo esse processo. O objectivo que preside, assim, à apresentação dos referidos roteiros tem a ver, sobretudo, com a necessidade de entender o papel dos professores como interlocutores qualificados e, especificamente, com a necessidade de, neste âmbito, se compreender como é que estes poderão andaimar os percursos dos seus alunos, apoiando-os a realizar uma tarefa e, concomitantemente, a desenvolver estratégias de natureza diversa que contribuam para a sua autonomia intelectual e heurística. A primeira figura desta série (fig. 45) refere-se à estrutura genérica de qualquer relatório, dizendo respeito às dimensões invariantes e convencionais dos relatórios. 135 Componentes Finalidades e funções Capa Identificar a instituição que promoveu a actividade; Identificar os autores do relatório; Identificar o título do relatório; Identificar a data da sua realização. Índice Identificar os capítulos em que o relatório se encontra organizado, bem como o nº das páginas em que esses capítulos se iniciam. Introdução Identificar a actividade a que o relatório se refere; Identificar os objectivos que justificam a realização da actividade; Enunciar de forma sumária o conjunto das estapas / fases em que a actividade se subdividiu; Identificar a estrutura do relatório. Corpo do relatório Consultar roteiros das figs. ___, ___, ___ e ___. Bibliografia Lista de publicações e textos a que se tenha recorrido para realizar a investigação e / ou redigir o relatório. Nota: Será interessante que os professores possam definir as regras a seguir para se redigir a bibliografia. Anexos Documentos (textos, fotografias, planos de trabalho, legislação, protocolos, etc.) a que se tenha recorrido para realizar a actividade e que possam ser úteis para uma melhor compreensão do trabalho. Fig. 45 - Roteiro relativo à estrutura genérica de um relatório Esta proposta de estrutura genérica de um relatório, como pode verificar-se, limita-se a apontar procedimentos que possam conferir existência a actividades concretas, graças ao trabalho dos alunos. É este trabalho que necessita de ser orientado, sem que um tal propósito tenha que conduzir obrigatoriamente à instrumentalização da actividade desses alunos, por via da prescrição do mesmo. O que se pretende é que os alunos saibam o que se espera deles quando lhes propomos a elaboração de um relatório, de forma a que possam conferir visibilidade à actividade que realizaram e de reflectir sobre a mesma, de forma a poderem beneficiar, do ponto de vista da sua formação, da actividade realizada. Os roteiros que se seguem referem-se a actividades diferenciadas que podem ser objecto de relatórios distintos, no que concerne ao corpo específico de informações que divulga. Sendo a estrutura genérica atrás enunciada uma estrutura que pode ser utilizada em qualquer relatório, importa reconhecer que a mesma adquire especificidade quer devido aos conteúdos propriamente ditos dos relatórios, quer devido àquele corpo específico de informações. Será este domínio que se elege, agora, como o objecto dos roteiros que se passam a apresentar. 136 CORPO DO RELATÓRIO REFERENTE A UMA INVESTIGAÇÃO LABORATORIAL Componentes Finalidades e funções Identificação Designação da actividade realizada; Indicação de forma clara e concisa: - Do(s) objectivo(s) do trabalho; - Das principais questões / hipóteses a que se tenta responder / resolver; Enquadramento teórico da pesquisa Explicitação da teoria que justifica a actividadeexperimental, de forma a que se saiba porque é que estamos perante uma actividade interessante e pertinente. Metodologia Explicitação da lista do material utilizado; Descrição dos vários passos da experiência. Apresentação dos resultados Apresentação dos resultados através de um texto ou utilizando gráficos, tabelas, esquemas, figuras, etc. Nota: Não devem ser feitos quaisquer tipos de comentários aos resultados ou interpretações dos mesmos. Discussão dos resultados Analisam-se e interpretam-se os resultados da investigação, em função dos objectivos inicialmente propostos. Conclusões Produz-se uma síntese das conclusões; Avalia-se o trabalho realizado; Definem-se as principais dificuldades encontradas; Explicitam-se, eventualmente, outras dúvidas / problemas que entretanto tenham surgido. Fig. 46 - Roteiro referente ao corpo do relatório de uma investigação laboratorial A redacção de um relatório subsequente a uma actividade de investigação laboratorial é parte integrante dessa mesma actividade, sendo condicionada, por isso, pelo tipo de investigação laboratorial a realizar. Neste sentido, esta proposta deverá ser entendida, apenas, como uma referência das propostas que os professores poderão produzir, de forma contextualizada, com a intenção de orientar os seus alunos quer relativamente quer às finalidades a cumprir com a elaboração do relatório, quer ao modo de o concretizar. Em seguida, iremos apresentar os corpos dos relatórios de actividades relacionadas com visitas de estudo e actividades oficinais, tentando-se mostrar, através dos mesmos, como os relatórios apesar dos aspectos invariantes que os caracterizam não podem ser dissociados, em termos da sua estrutura, das actividades que os justificam. 137 CORPO DO RELATÓRIO REFERENTE A UMA VISITA DE ESTUDO Componentes Caracterização Enquadramento teórico Explicitação das razões de carácter teórico que justificam a realização da visita de estudo: - Porque é que realizamos esta visita de estudo ? O que importa referir acerca do local que visitamos ? Qual a sua importância para o estudo que temos vindo a realizar ? O que confirmamos com esta visita de estudo? Descrição dos aspectos mais significativos da visita de estudo. Esta descrição poderá ser apoiada pela utilização de roteiros de observação ou trabalho fornecidos pelos professores, os quais, a existir, deverão fazer dos anexos do relatório. Caso não existam roteiros de observação ou de trabalho, os aspectos mais significativos da visita de estudo deverão ser definidos em função dos objectivos que justificam a realização da mesma. Apresentação de documentos relativos à observação e ao estudo Estes documentos, fotografias, desenhos, gravuras, etc., poderão ser apresentados à parte ou integrados na descrição dos aspectos mais significativos da visita de estudo. Explicitação das dúvidas e questões que surgiram no decurso da visita de estudo. É a partir destas dúvidas e questões que se poderão estabelecer algumas das actividades, posteriores, de investigação e de estudo. Conclusão Produz-se uma síntese das conclusões; Avalia-se a visita de estudo e o trabalho posteriormente realizado; Fig. 47 - Roteiro referente ao corpo do relatório de uma visita de estudo Esta proposta relativa ao corpo teórico de um relatório relacionado com uma visita de estudo terá de ser confrontada com o tipo de visita de estudo a realizar, os instrumentos de apoio que se fornecem para que tal visita ocorra e as finalidades da mesma. É deste confronto que se deverá definir a estrutura do relatório a redigir. Não é obrigatório que os relatórios respeitem todos os itens citados, nomeadamente, os que dizem respeito quer ao enquadramento teórico, quer à explicitação das dúvidas e questões relacionadas com a actividade em questão. 138 CORPO DO RELATÓRIO REFERENTE A UMA ACTIVIDADE OFICINAL Componentes Caracterização Descrição da tarefa Explicitação da lista do material e dos instrumentos utilizados; Descrição das várias etapas da tarefa; Descrição do produto obtido, das suas funções e características. Avaliação dos resultados Apresentação do produto (fotografias, desenhos, videogramas, etc.) Avaliação do trabalho realizado; Explicitação das principais dificuldades encontradas. Nota: Convém apresentar, em anexo, os planos de trabalho, caso existam, que tenham orientado a actividade. Fig. 48 - Roteiro referente ao corpo do relatório de uma actividade oficinal Como se pode constatar pela leitura dos roteiros, sejam os que se referem à estrutura genérica dos relatórios, sejam os que se referem aos corpos dos relatórios relacionados quer com actividades laboratoriais, quer com visitas de estudo, quer com actividades oficinais, o papel do professor afirma-se como o do proponente de um modelo de escrita que possa suscitar a reflexão daqueles que redigem os relatórios. Sendo esta uma função deveras decisiva no âmbito do processo de formação que esses professores animam, não é, todavia, a única função que estes assumem, a partir do processo de elaboração e de utilização dos relatórios como instrumentos de comunicação. Importa, por isso, que os docentes promovam o desenvolvimento de circuitos de partilha em função dos quais aqueles relatórios possam ser objecto de discussão mais ampla e até, eventualmente, de estudo, por parte dos alunos que não os redigiram. Afirma-se, assim, uma iniciativa pedagógica que encontra na comunicação entre todos os actores educativos em presença o eixo que pode transformar tal iniciativa num acto formativo. Trata-se de um processo de comunicação que nada tem de auto- suficiente, na medida em que terá que ser abordado e compreendido à luz de outros momentos de comunicação e dos saberes que se foram mobilizando e construindo nesse âmbito. Um processo no âmbito do qual a produção de relatórios é, apenas, um dos elos da cadeia, e não necessariamente o primeiro ou o último. É um olhar panorâmico sobre o circuito acabado sumariamente de descrever que nos permite compreender, mais uma vez e por esta via, como a interlocução qualificada que os professores assumem constitui um elemento estrategicamente crucial da intervenção educativa que dinamizam. É esse mesmo olhar que nos permite compreender, também, como essa interlocução se concretiza de uma forma plural, seja através dos diálogos intencionais, 139 seja através de diálogos contingentes, seja através de uma relação face a face, seja através de instrumentos que visam organizar a actividade académica dos alunos e os processos de partilha, sem os quais tal actividade perde impacto e, de algum modo, sentido. Será no próximo capítulo, através do qual nos iremos debruçar sobre a organização social do trabalho de aprendizagem, que esta dimensão do paradigma pedagógico da comunicação adquirirá maior relevância e pertinência conceptual e praxeológica. Uma dimensão que é, provavelmente, um dos propósitos fundamentais da acção profissional dos professores e um dos eixos que condicionam as decisões de carácter pedagógico que estes deverão assumir, de forma a poderem concretizar tal propósito. 140 Organização social do trabalho de aprendizagem O contributo dos professores na configuração de ambientes de aprendizagem que se estruturam em torno da valorização da cooperação entre os alunos como factor capaz de potenciar as condições do projecto de formação que compete às escolas promover é a segunda das operações que permite identificar a acção docente como uma acção de interlocução qualificada. Ainda que o conjunto de iniciativas relativas à função docente, atrás referidas, que se relacionam com o apoio ao trabalho e às actividade de aprendizagem dos alunos evidenciem a importância de um tipo de organizaçãodo espaço, do tempo e das actividades escolares que favoreça a comunicação, a partilha e a cooperação entre os actores educativos em presença numa sala de aula, importa compreender que, dada a importância estratégica da organização social do trabalho de aprendizagem na configuração da acção dos professores como interlocutores qualificados, tal organização merece ser objecto de uma abordagem específica, nomeadamente ao nível dos momentos, das actividades e dos instrumentos de organização e de regulação do trabalho na sala de aula. Trata-se de uma dimensão da actividade dos professores que tem a ver com a organização dos espaços e dos momentos de trabalho ou as modalidades de organização e gestão curricular que aqueles tenham a possibilidade de promover no sentido de criarem as condições para que os alunos se envolvam em projectos de formação, em função dos quais possam concretizar e realizar aprendizagens. Ao contrário do sub- -capítulo anterior onde nos debruçamos sobre as intervenções dos professores no domínio do apoio a actividades que se espera que os alunos realizem no âmbito do projecto de formação que lhes diz respeito, neste capítulo visa-se identificar, caracterizar e comentar iniciativas que são mais abrangentes do que as anteriores, na medida em que dizem respeito à organização mais ampla do ambiente de aprendizagem, em função do qual aquele projecto poderá acontecer. Tendo em conta o que temos vindo a afirmar sobre os fundamentos do paradigma pedagógico da comunicação, nomeadamente o que temos vindo a afirmar sobre a relação entre a emergência deste paradigma e o reconhecimento de que não são os alunos, individualmente considerados, que deverão constituir o eixo pedagógico nuclear dos projectos de formação que têm lugar nas escolas, mas a construção de comunidades de aprendizagem que permitem suportar, justificar e potenciar o processo 141 de formação singular de cada um dos membros dessa comunidade, tendo em conta que esse processo ocorre à medida que cada um desses membros: (i) participa, aprendendo assim a participar, quer na gestão cooperada dos planos, das actividades, do espaço e do tempo de trabalho na sala de aula, quer no processo de hetero e de auto-regulação tanto dos compromissos de carácter académico e comportamental que todos e cada um vão assumindo, como das actividades e dos acontecimentos que acontecem quotidianamente numa sala de aula; (ii) se afirma como um produtor cultural que o aprende a ser, sendo, o que depende tanto da apropriação de um dado conjunto de informações, instrumentos, procedimentos e atitudes, como do papel de apoio e de interlocução que, neste âmbito, os outros possam assumir. É o modelo pedagógico, em função do qual o Movimento da Escola Moderna Portuguesa22 (MEM) hoje se define e se identifica, que pode constituir na actualidade uma das expressões mais conseguidas da centralidade que, no âmbito do paradigma pedagógico da comunicação, se atribui à organização social do trabalho de aprendizagem como factor estruturante de qualquer projecto de educação escolar que seja congruente com os valores que se invocam para legitimar a opção pela democracia como modo de governação política. É num dos textos da autoria de Sérgio Niza23 (1998), justamente intitulado: «A organização social do trabalho de aprendizagem no 1º Ciclo do Ensino Básico», que se pode compreender a importância educativa que, em primeiro lugar, se atribui a esse factor e, em segundo lugar, quais as implicações pedagógicas de uma tal opção. É, então, esse texto, estruturado em torno de seis temáticas principais, a saber: (i) “Construindo a formação democrática” (p.78); (ii) “A organização da sala de aula: o espaço e os materiais educativos” (p.84); (iii) “O desenvolvimento da acção educativa: As actividades semanais” (p.86) (iv) “O sistema de pilotagem do trabalho de cooperação educativa” (p.91); (iv) “O clima social de formação” (p.94) e (v) “Princípios estratégicos da intervenção educativa” (p.95), que permite balizar o universo da reflexão relativo à organização social dos ambientes de aprendizagem no seio do MEM, o qual adquire particular relevância nos quatro 22 O Movimento da Escola Moderna Portuguesa (MEM) define-se como uma “associação de profissionais de educação destinada à autoformação cooperada dos seus membros e ao apoio à formação continuada e animação pedagógica nas várias áreas da educação formal. Assenta no estudo e disseminação de práticas pedagógicas homólogas dos seus métodos de autoformação” (boletim «ESCOLA MODERNA», Vol.I/nº2 (Série 2) de 1988/89). 23 Sérgio Niza é não só um dos fundadores do Movimento da Escola Moderna Portuguesa, como um das figuras de referência deste movimento pedagógico, sendo o responsável, por isso, por alguns dos textos pedagogicamente mais emblemáticos deste movimento, como é o caso do texto que serve de suporte a esta reflexão sobre a organização social do trabalho de aprendizagem. 142 primeiros capítulos do referido texto. Começando pela temática «Construindo a formação» encontram-se, nesse texto, três sub-temas: (a) “Os circuitos de comunicação” (p.78); (b) “As estruturas de cooperação educativa” (p.79); (c) “A participação democrática directa” (p.82). A temática «A organização da sala de aula: O espaço e os materiais educativos»24 desenvolve-se, por seu turno, em torno das “Áreas de apoio geral”25 (p.84) e das “Áreas de apoio específico ao Programa”26(idem), enquanto na temática «O desenvolvimento da acção educativa: As actividades semanais” o autor se dedica, sobretudo, a abordar a distribuição das actividades pela semana e a identificar a “Agenda Semanal de Trabalho” (p.88), bem como as actividades nucleares em função das quais tal distribuição ocorre, nomeadamente, “as reuniões de Conselho de Cooperação da Turma” (idem), “o trabalho em projectos” (p.89), “o tempo das comunicações” (idem) e o “trabalho de estudo autónomo na sala de aula” (p.90). Quanto à temática «O sistema de pilotagem do trabalho de cooperação educativa», S. Niza enuncia algumas das dimensões que caracterizam, sobretudo, a intervenção do professor e os instrumentos que os alunos utilizam neste âmbito, os quais se encontram organizados em função de três categorias nucleares (Niza, 1998): (a) a categoria da Planificação, onde se enquadram o Plano Semanal, o Plano do Dia e outros planos de acções a realizar a curto ou a longo prazo; (b) a categoria da Pilotagem onde se enumeram instrumentos como o Plano Anual, o Mapa de Projectos, os Inventários, a Folha de Presenças, os Mapas de Registo das Actividades, o Mapa das Tarefas, as Regras de Vida e o Diário de Turma; (c) a categoria Avaliação/Regulação que valoriza quer os momentos de auto-avaliação diária quer o balanço semanal do trabalho feito no Conselho de Cooperação da Turma. Destaca-se, ainda, como um instrumento de pilotagem decisivo, o Plano Individual de Trabalho (PIT), “uma espécie de mapa de planeamento das actividades e da verificação do seu cumprimento, onde se torna visível não só o trabalho de estudo e o treino de competências que cada um se propõe realizar, 24 Como será evidente através da continuação da leitura do texto, a organização da sala de aula a que S. Niza se refere é aquela que tem a ver com a das escolas das quatro primeiras séries, tal como o título do texto o sugere, quando se refere explicitamente ao «1º Ciclo do Ensino Básico», a designação, em Portugal, para esse nível de escolaridade. 25 “As áreas de apoio geral à organização do trabalho, correspondem, normalmente, a um armário para materiais colectivos, a uma bancada de ficheiros para trabalho autónomo e a um placard onde se fixam os mapas de registo da evolução do trabalho e o diário de turma” (Niza, 1998, p.84). 26 “As áreas de apoio específicoservem sobretudo de suporte às actividades de desenvolvimento dos domínios disciplinares programados. São elas, o «atelier de expressão plástica» (…), a «oficina de teatro», a «área de apoio à educação musical», um núcleo de documentação e informação», o «laboratório de ciências e matemática» e a «oficina de escrita e de edição», com o expositor de correspondência” (Niza, 1998, p.85). 143 mas também o registo de outros trabalhos e as responsabilidades assumidas pelo aluno como actor, no contexto de actividades de manutenção e organização do trabalho da turma ou da escola” (Niza, 1998, p.93). Tal como refere S. Niza, ainda no domínio do sistema de pilotagem do trabalho que se realiza de forma cooperativa na sala de aula, uma “parte substancial da informação que o plano individual contém, vai sendo transferido para os mapas de registo das produções” (Niza, 1998, p.94), o que torna possível a avaliação formativa, em cooperação, isto é, “uma observação formativa que guia (pilota), controla e regula, com a participação directa dos alunos e do professor, de forma sustentada, o desenvolvimento do trabalho de aprendizagem suscitado pelos programas curriculares, pelos alunos, pelo professor ou por outros colaboradores da turma” (idem). É através do esquema relativo à organização geral do Modelo Pedagógico do MEM (fig.49) que S. Niza, no texto que temos vindo a analisar, não só contribui para explicitar que a organização social do trabalho de aprendizagem é um factor invariante e constitutivo desse modelo, como contribui para explicitar, igualmente, através das dimensões desse modelo e da identificação dos instrumentos, dos espaços e dos momentos de trabalho como esse mesmo modelo se concretiza. Fig. 49 - Esquema da organização geral do Modelo Pedagógico do MEM27 Verifica-se que o modo como o espaço se encontra organizado, onde se delimitam de forma precisa áreas de trabalho específicas, visa, por um lado, regular a 27 Niza (1998). 144 relação dos alunos com o espaço de trabalho que percorrem e utilizam, propondo um modelo de organização alternativo àquele que o modo de “ensino simultâneo” (Barroso, 1995:74) preconiza, de forma a que esses alunos usufruam de condições de trabalho que permitam que, simultaneamente, uns possam trabalhar individualmente, outros possam trabalhar em grupo e, ainda, haja aqueles que possam trabalhar de forma autónoma ou com apoio. Segundo Filomena Serralha o cenário pedagógico, que o esquema atrás referido, retrata “assume uma função primordial na promoção do desenvolvimento pessoal, social e moral dos alunos. As paredes da sala de aula podem, neste sentido, ser promotoras da partilha, da cooperação, da interajuda e da solidariedade, quando através delas se partilham produções (…). Também o arranjo e a manutenção cooperada do espaço e dos materiais podem ser promotores da autonomia, da liberdade e da responsabilidade” (Serralha, 2001, p.50). É ao nível da organização dos tempos de trabalho28 e da gestão e organização das actividades29 que o factor que temos vindo a designar por «organização social do trabalho de aprendizagem» adquire particular visibilidade. No que diz respeito à primeira das dimensões referidas valoriza-se o Conselho de Cooperação Educativa (fig.50), o Tempo de Estudo Autónomo (fig.51), as sessões colectivas (fig.52) e o Tempo de Trabalho em Projectos (fig. 53) cuja caracterização em seguida se apresenta. Conselho de Cooperação Educativa É a primeira e a última actividade da semana; Momento onde, de forma colegial, se tomam as decisões acerca da vida da turma, se aprecia o trabalho realizado e se planificam as actividades; É através das ocorrências registadas no Diário de Turma (fig. 57) e dos compromissos assumidos no Plano Individual de Trabalho (fig.58) que o Conselho de Cooperação Educativa adquire pertinência pedagógica e sentido formativo. Fig. 50 - Caracterização do Conselho de Cooperação Educativa O Tempo de Estudo Autónomo Ocorre diariamente (dura entre 1 h. e 1,30 h.); É o tempo de que os alunos dispõem para realizar actividades, à sua escolha, previstas no seu Plano Individual de Trabalho (fig.58); Actividades: Fichas de trabalho, escrita e revisão de textos, resolução de problemas, trabalho em grupo, projectos, etc. Fig. 51 - Caracterização do Tempo de Estudo Autónomo 28 No esquema da fig. 50 a organização dos tempos de trabalho é identificada por «organização semanal do trabalho», visto que o esquema diz respeito especificamente aos anos de escolaridade correspondentes às quatro séries iniciais, onde a unidade de tempo de referência, no âmbito do modelo pedagógico do MEM, é a semana e não a quinzena ou o mês. 29 No esquema da fig. 50 esta dimensão aparece designada por «gestão e organização da turma». 145 As sessões colectivas Não obedecem a nenhum tipo de cronologia estabelecida; Devem corresponder a necessidades do conjunto da turma; Sessões mais frequentes: - Palestras - Reescrita de textos; - Apresentação de produtos; - Discussão de diferentes tipos de soluções encontradas face a problemas matemáticos Fig. 52 - Caracterização das sessões colectivas O trabalho em projectos Corresponde a um tempo de trabalho que nalgumas turmas é diário e noutras é definido em torno das necessidades dos grupos; É através das Fichas de Registo dos Projectos (fig. ___) que ocorre o processo de regulação do trabalho que ocorre neste momento. O tempo das comunicações Surge na sequência do trabalho em projectos; Corresponde a um tempo em que obrigatoriamente se apresentam os projectos e os seus resultados à turma; É, igualmente, nas Fichas de Registo dos Projectos que se prevê o tempo dedicado à partilha das comunicações. Fig. 53 - Caracterização do Tempo de Trabalho em Projectos A gestão e a organização das actividades que ocorrem nas salas de aula é outra das dimensões através da qual se afirma a centralidade da organização social do trabalho de aprendizagem, no âmbito da proposta pedagógica que o MEM produz. Já nos referimos, na abordagem que produzimos acerca da organização dos tempos e dos momentos de trabalho, a alguns dos instrumentos cuja função reguladora é decisiva quer do ponto de vista da realização do trabalho que os alunos produzem, quer do ponto de vista do projecto de formação em que estes são envolvidos. Este projecto constrói-se, afinal e em larga medida, a partir da apropriação de tais instrumentos por parte dos alunos que os utilizam enquanto co-protagonistas do processo de gestão do quotidiano da sala de aula que lhes diz respeito. Um papel que assumem enquanto membros de um colectivo para cujo desenvolvimento contribuem, como condição do seu próprio processo de desenvolvimento pessoal, social e cultural. Ao nível da gestão e da organização das actividades que ocorrem nas salas de aula iremos referir-nos, agora e então, aos instrumentos de regulação que contribuem para assegurar o funcionamento de tais actividades, como é o caso (i) dos Projectos 146 Curriculares de Turma; (ii) a Agenda da Semana; (iii) o Diário de Turma; (iv) o Plano Individual de Trabalho; (v) as Fichas de Registo de Projectos e (vi) Registos diversos (tarefas dos alunos, de correspondência, das leituras realizadas ou dos escritos). Os Projectos Curriculares de Turma (fig. 54) são documentos através dos quais se enuncia o que se espera que os alunos façam e aprendam. Constroem-se, assim, a partir dos planos de estudos das diversas áreas disciplinares e é através deles que os alunos tanto tendem a estabelecer uma espécie de compromissos com o trabalho e as aprendizagens a realizar, comodescobrem, por vezes, outros interesses que assim são suscitados30. É nestes projectos que, igualmente, se explicitam as finalidades dessas áreas e se divulgam, também, as possibilidades de trabalho dos alunos em função da distribuição dos conteúdos programáticos ao longo de um dado período do tempo. Com os Projectos Curriculares de Turma procura-se, como refere Inácia Santana, “desocultar os citrérios da escola e partilhar com os alunos as competências e os conteúdos das aprendizagens, de forma a envolvê-los no processo desde o primeiro momento. Trata-se, no dizer de Sérgio Niza (1998), de um «contrato educativo», a partir do qual os alunos se mobilizam para as matérias a aprender” (Santana, 1999, p.15). 30 Os Projectos Curriculares de Turma são normalmente objecto de adaptação por parte dos professores, de forma a que os alunos possam compreender, sem dificuldade, o que se espera deles. Correspondem, em larga medida, aos planos de estudos, ainda que os objectivos ou as competências não se encontrem redigidos da mesma maneira. 147 LÍNGUA PORTUGUESA – 3º Ano de escolaridade31 Área: A comunicação escrita João Maria Ana Rita … Ler muito por prazer (histórias, poesias, …) Ler para me informar (jornais, revistas, …) Ler, na versão integral, livros e outros textos Ler para a turma de forma a que me entendam Ler para a turma sem hesitações Ler para a turma de forma expressiva Praticar a leitura dialogada, distinguindo a intervenção dos personagens Dar títulos adequados aos textos Responder correctamente a perguntas sobre os textos Descobrir, num texto, o sentido de palavras desconhecidas Estabelecer as sequências de acontecimentos de um texto Localizar a acção no espaço e no tempo Apreender o sentido de textos onde foram apagadas palavras ou letras Escrever textos livres Escrever diversos tipos de textos (histórias, notícias, cartas, relatórios, etc.) Participar no trabalho de reescrita de textos construídos por outros (com toda a turma, em grupo ou a meias) Participar na comparação do texto original face ao texto reescrito Fig. 54 - Exemplo de uma parte de um Projecto Curricular de Turma A Agenda da Semana, ou o Plano da Semana, é um instrumento de regulação decisivo, em função do qual se definem as tarefas a realizar durante uma semana, o que permite que professores e alunos saibam o que se espera de todos, condição necessária para que se possam realizar, de forma organizada e o mais autónoma possível, as actividades escolares que ficou decidido que deveriam ser realizadas. 31 Este é um exemplo que foi adaptado da obra Grave-Resendes, L; Soares, J. (2002). Diferenciação pedagógica. Lisboa: Universidade Aberta. 148 Fig. 55- Exemplo de uma agenda da semana A Agenda da Semana é definida, como se pode ver no exemplo acima enunciado, na segunda-feira e, em cada semana, é objecto de avaliação na 6ª feira,, quer num caso, quer no outro, no tempo dedicado ao Conselho de Cooperação Educativa que, de facto, ocupa um lugar estratégico nuclear no âmbito do modelo pedagógico do MEM, tal como S. Niza o reconhece quando afirma que o “espaço e o tempo ritual de regulação essencial do sistema ou da organização da Turma, é o Conselho (Concílio). O Conselho abre e encerra os ciclos de trabalho diário, semanal e outros. O Conselho é assim um momento de articulação, reordenação, de coordenação e de instituição por excelência. É o momento de síntese e chave da abóbada da construção educativa de cada um dos sub-grupos sociais (turmas) que constituem a escola” (Niza, 1991, p.28). Mais tarde, num texto distinto, Sérgio Niza (Niza, 1998), apresenta um esquema da autoria de Lígia Penim e colaboradores onde atribui ao «Conselho» a categoria de espaço e tempo de regulação e de organização, definindo-o como o momento: (i) de articulação, reordenação, coordenação; (ii) de síntese; (iii) de regulação do grupo; (iv) de programação e avaliação e (v) de debate crítico de comportamentos sociais. O «Conselho» é assim um espaço que se constrói: (i) a partir das ocorrências significativas verificadas ao longo de uma semana, no caso do 1º CEB, quer estas ocorrências sejam 149 positivas quer sejam negativas; (ii) das realizações que se tenham distinguido e (iii) das sugestões que aqueles que participam no «Conselho» possam querer fazer. Ainda que o Conselho de Cooperação Educativa seja o “centro de tomadas de decisão democraticamente negociadas; o centro do controlo institucional da execução das actividades e dos projectos combinados e da análise sistemática e crítica do seu desenvolvimento; o lugar de construção e do debate crítico das normas de convívio e dos comportamentos sociais do grupo” (idem), importa reconhecer que tal dispositivo só ocupa tal centralidade em função do papel que, entre outros, a Agenda da Semana e os Projectos Curriculares de Turma ocupam na vida das classes, para além de um instrumento nuclear, pela sua importância estratégica para o Conselho de Cooperação Educativa, que é o «Diário de Turma». O Diário de Turma é, no seio do modelo pedagógico do MEM, um instrumento de trabalho que visa promover e instituir um espaço de regulação e auto-regulação da vida das turmas, servindo para que os alunos e os professores possam registar os incidentes quotidianos, emitir opiniões, produzir propostas e sugestões ou avaliar situações. É, pois, um instrumento de partilha que poderá ser construído em papel cenário a afixar na sala de aula, segundo o modelo que se propõe na fig. 56. Diário de Turma nº ____ Semana de ___/___/___ a ____/____/____ Gostamos Não gostamos Fizemos Sugerimos Fig. 56 - Diário de Turma 150 Verifica-se, assim, que é nas três primeiras colunas que se identificam as ocorrências e as produções mais significativas, havendo espaço, ainda, na quarta coluna para se proporem novas actividades, projectos e ideias que resultam da participação proactiva e criativa dos alunos na vida da sua turma, o que constitui um contributo inestimável no âmbito do processo de construção de uma comunidade de aprendizagem. Neste sentido, o Diário de Turma não poderá ser dissociado do Conselho de Cooperação Educativa, na medida em que tanto existe em função deste conselho, como permite, igualmente, que este exista como um espaço credível e socialmente sustentado. Para Sérgio Niza, o Diário de Turma assume-se, num primeiro momento, como o “termómetro moral da turma” (Niza, 1991, p.28), na medida em que “nos permite ler em perfil temporal como se desenrola o clima emocional, de relações e de valores de um grupo” (idem). Num segundo momento, Niza defende que o mesmo Diário de Turma se revela como “um monitor ou um «quadro de pilotagem» da vida afectiva e social da Turma” (idem), já que dispõe “de registos que informam as tomadas de decisão em Conselho e alimenta, pela dinâmica que gera, o processo de mudança ou de humanização que é a educação social” (idem). Finalmente, para Niza o «Diário» é como que um “analisador institucional” (idem), pois permite “desocultar os ditos clandestinos e os incidentes críticos” (idem.), permitindo, igualmente, anular a vigilância externa e contribuir para o desenvolvimento do auto-controlo. É que o Diário de Turma constitui, também, “um elemento mediador da passagem ao acto na resolução de um conflito, contribuindo para a socialização do indivíduo ao ajudá-lo a controlar os seus impulsos” (Niza, Santana, 1996, p.44). É, aliás, esta condição que explica porque é que S. Niza defendeque o debate dos registos do Diário de Turma não deva “produzir sanções para além do exercício crítico e da auto-reflexão” (Niza, 1991, p.28). Se os Projectos Curriculares de Turma e a Agenda da Semana se afirmam como instrumentos que envolvem os alunos na planificação do trabalho da sala de aula e na explicitação das finalidades do mesmo, pode considerar-se que o Diário de Turma, do ponto de vista do seu contributo para a organização social do trabalho de aprendizagem, assume um papel que transcende o seu valor instrumental, para se constituir como a expressão de um projecto de formação de inspiração democrática, onde o papel dos alunos não se circunscreve, apenas, a uma intervenção que visa regular o poder exercido pelo professor, mas, mais do que isso, a uma participação activa e directa, cada vez mais significativa da sua parte, na co-gestão da vida, das relações e das aprendizagens que 151 têm lugar numa sala de aula que o professor estimula de forma pedagogicamente deliberada. O quarto instrumento a que nos referiremos como instrumento relacionado com a gestão e a organização do trabalho na sala de aula é o Plano Individual de Trabalho (PIT) que, no tipo de enquadramento que o modelo pedagógico do MEM lhe proporciona, tanto tem a ver com o domínio da planificação, como com o domínio da participação activa e criativa na vida da turma e na assunção de responsabilidades pessoais e sociais em função dos compromissos que aí se estabelecem. O Plano Individual de Trabalho, numa primeira descrição, é um instrumento que “permite a cada um trabalhar segundo as necessidades que progressivamente vai consciencializando na interacção com os outros, de modo a progredir no currículo” (Santana, 1999, p.20). Trata-se de um documento que se afirma como o “registo do projecto individual de trabalho para a semana (…)” (idem) que se concretiza no Tempo de Estudo Autónomo. Segundo Santana, Rodrigues e Segura (1999), no seio do MEM, tem-se vindo a reforçar: a consciência de que é impossível pensar o Plano Individual à margem de um modelo de organização do trabalho que permita não só uma efectiva substituição da lógica do ensino simultâneo do professor por um trabalho diferenciado de aprendizagem dos alunos, mas também a implicação destes na programação e na avaliação cooperadas de todo o processo de aprendizagem” (p.13). Dito de outro modo, o Plano Individual de Trabalho não poderá ser confundido nem com um plano de recuperação dos alunos face às dificuldades de aprendizagem que estes possam sentir após as lições que os professores ministram, nem como um instrumento de controlo das actividades dos primeiros. A função desse plano é outra: visa assegurar “a pilotagem individual e colectiva de todas as aprendizagens realizadas por cada e por todos os alunos” (idem) que, neste caso, constitui uma condição incontornável para favorecer o trabalho de apropriação e de recriação dos saberes já estabelecidos, no âmbito de uma comunidade que, por favorecer a partilha dos produtos culturais construídos pelos seus membros, potencia aquele trabalho de apropriação e de recriação. 152 PLANO INDIVIDUAL DE TRABALHO Nº ____ Nome: Leonor Semana de: 02 /02/09 a 07/02/09 A minha tarefa na turma: Editora O que vou fazer O que fiz Escrita de textos 1 X 1 Trabalho de texto a meias Fichas de Leitura Fichas de Ortografia 1 X 1 Fichas de Matemática 2 X 1 Fichas de Problemas Leitura 3 X X X 3 Trabalho no computador 1 X 1 Correspondência Projecto: As cegonhas Grupo: Ana, Rui e Tiago O que vou fazer? Fiz? Avaliação Escrever o texto sobre os ninhos e fazer o desenho Sim Comunicação à turma: ________________________________________________________________ Trabalho com a professora: ____________________________________________________________ Apoio a outros colegas: _______________________________________________________________ Outros trabalhos: Corrigir os trabalhos da outra semana. A minha avaliação da semana Orientações e sugestões dos colegas e da professora Trabalhei muito bem. Concordo com a tua avaliação. Faz mais fichas de ortografia. Observações: - O trabalho está pronto ʘ - O trabalho não ficou pronto Fig. 57- Exemplo de um Plano Individual de Trabalho Eis-nos, assim, perante um instrumento onde, na primeira coluna, se explicitam as actividades que os alunos poderão realizar no período designado por «Tempo de Estudo Autónomo». Na segunda coluna, por sua vez, cada aluno marca o número de vezes que pretende realizar uma dada actividade. Será no quadrado seguinte que os alunos registarão as actividades que foram concretizando, anotando no último quadrado o número de actividades que, efectivamente, realizaram. Nos espaços subsequentes, os 153 alunos identificam os projectos em que se encontram envolvidos e as tarefas que terão que realizar neste âmbito, para, posteriormente, registarem se cumpriram, ou não, essa tarefa e, em seguida, se essa tarefa foi realizada com êxito. É noutro espaço que os alunos voltam a registar outros compromissos relacionados com o trabalho no Tempo de Estudo Autónomo, terminando por avaliar o seu desempenho, neste momento de trabalho, num outro quadro distinto. Finalmente, cabe à professora e, eventualmente, aos colegas, produzir uma avaliação sobre o trabalho realizado, o que normalmente acontece no seio do Conselho de Cooperação Educativa, que fica, também, registado no Plano Individual de Trabalho. As Fichas de Registos de Projectos são documentos através das quais se organiza o trabalho dos alunos no tempo lectivo que é dedicado aos projectos. Como se constata pela fig. 58 não é um documento que prescinda da existência de outros instrumentos de regulação em função dos quais se podem estabelecer compromissos mais específicos no âmbito do desenvolvimento dos projectos32. O que queremos saber? Quem quer saber? O que já sabemos? Período de trabalho Data da apresentação O que comem os camaleões? Como é que nasceram as riscas às zebras? Porque é que o mar se chama oceano? Porque é que o mar de manhã está vazio e de tarde está cheio? Fig. 58 - Ficha de registo de projectos Neste caso, importa chamar a atenção, apenas, para a articulação entre este instrumento e os restantes instrumentos que temos vindo a apresentar, na medida em que exprimem a importância que se atribui, em primeiro lugar, à participação dos alunos na gestão e regulação do trabalho na sala de aula e, em segundo lugar, a preocupação com o desenvolvimento da sua autonomia que, para acontecer, necessita da existência 32 Ver a este propósito, nas páginas 106, 108 e 109 deste livro, quer o guião de apoio ao desenvolvimento da Metodologia de Projecto (fig.32), quer o roteiro de avaliação intermédia das actividades relacionadas com os projectos dos alunos (fig.33), quer o roteiro de avaliação final que se pode utilizar para o mesmo fim (fig.34). 154 de um conjunto de condições e de instrumentos organizativos que possibilitem concretizar um tal propósito. De algum modo, os dois objectivos acabados de enunciar são os objectivos que sustentam a proposta das fichas de registo dos mais diversos tipos de actividades que os alunos vão realizando na sala de aula, como é o caso da ficha de registo das tarefas que cada deverá assumir na sala de aula (fig.59), da ficha de registo relacionada com a correspondência inter-escolar (fig. 60) ou das fichas de registo das leituras realizadas e dos textos produzidos (fig. 61). Fig. 59 - Ficha de registo das tarefas que cada aluno deverá assumir na sala deaula Fig. 60 - Ficha de registo relacionada com a correspondência inter-escolar 155 Fig. 61 - Fichas de registo de leituras e de textos Ainda que tenhamos vindo a abordar a organização social do trabalho de aprendizagem a partir dos principais instrumentos de gestão e organização das actividades que, no âmbito do MEM, se têm vindo a utilizar, isto não significa que com a identificação, a caracterização e a reflexão sobre tais instrumentos se encerra o debate sobre essa dimensão que constitui, como o temos vindo a defender, uma das dimensões estruturantes do paradigma pedagógico da comunicação e da acção dos professores como interlocutores qualificados. É que a centralidade que se atribui a uma tal dimensão, neste âmbito, só é justificável pelo modo como esta dimensão afecta a reflexão sobre os processos de mediação pedagógica que se desenvolvem em cada uma das áreas curriculares. Uma tese que estando implícita na reflexão que fomos produzindo, merece, no entanto, adquirir uma maior visibilidade, quanto mais não seja porque tal dimensão não é algo que se possa justapor à reflexão que se desenvolve em torno da gestão dos processos de mediação pedagógica e didáctica, sobretudo porque estamos perante uma dimensão que não só determina os fundamentos dos mesmos, como contribui para configurar as soluções encontradas nesse âmbito, possibilitando que tais processos adquiram uma singularidade própria e identidade pedagógica. A discussão que nalgumas publicações do MEM se promovem acerca da utilização dos computadores na sala de aula constituem, neste âmbito, um contributo apreciável para se compreender como a valorização da dimensão da organização social da aprendizagem afecta, e de forma substancial, a reflexão nas áreas curriculares e de 156 outros domínios dos projectos de educação escolar. Sérgio Niza, no boletim «Escola Moderna», nº 1 (3ª Série) de Janeiro/Março de 1991 começa por afirmar a importância do computador na sala de aula pelo facto de permitir “criar circuitos de comunicação intelectual e de informação cultural onde o computador desempenha as funções de utensílio e de motor desse circuito” (Niza, 1991a, p.24). Pascal Paulus e Margarida Faria, no boletim «Escola Moderna, II / 2 / 4 de 1990, consideram que “o computador na sala deverá, portanto, ser visto dentro duma concepção global da estrutura educativa que iremos montar” (Paulus & Faria, 1990, p.3), de tal forma que afirmam não acreditar que o computador possa alguma vez ser agente de mudança num contexto lectivo em que “os alunos obedecem a regras que foram introduzidas por algum processo mágico do qual o professor guarda religiosamente o segredo” (obra citada, p.4) ou mesmo num contexto lectivo onde o professor se limita a autorizar, de acordo com o seu livre arbítrio, a participação dos alunos nalgumas das tarefas da gestão do quotidiano da sala de aula. Em suma, para estes professores, ambos associados do MEM, o computador só pode contribuir para promover mudanças numa sala de aula em contextos onde haja a possibilidade de existir um ambiente que permita uma comunicação autêntica entre os que partilham aquele espaço, onde seja possível cooperar, onde, mais do que permitida, seja estimulada a participação directa, activa e auto-regulada dos alunos na gestão da sala e do trabalho que aí realizam, onde haja a tradição de investigar ou onde seja possível usufruir de tempos de estudo e de trabalho autónomo. Tal como se afirma no editorial do boletim «Escola Moderna», II/3 de 1988/89, a importância pedagógica do computador não pode iludir os processos de renovação autêntica, o que, no caso do computador, pode acontecer se se perder “o sentido social dos instrumentos de trabalho” (Editorial do boletim «Escola Moderna», II/3 de 1988/89) que os leva a definhar “em exercícios mecânicos sem prazer para ninguém e sem esforço que acrescente sentido à cultura pedagógica” (idem). Mas não é só em domínios algo restritos como o da informática que a valorização da organização social do trabalho de aprendizagem se afirma. Todo o imenso conjunto de artigos que se debruçam sobre o texto livre, o trabalho de enriquecimento de texto, o jornal ou a correspondência interescolar justificam e são justificados pela intimidade da articulação entre estes dispositivos de mediação que se afirmam através da utilização da linguagem escrita e a centralidade da dimensão organização social do trabalho de aprendizagem no âmbito do modelo pedagógico do MEM. Ou seja, é possível valorizar-se os circuitos de comunicação em função das 157 trocas sistemáticas de produções que permitem e potenciam a construção de saberes devido ao sentido solidário dessa mesma construção e das competências instrumentais que os expressam (Niza, 1998) porque a experiência adquirida a partir da prática do texto livre, da correspondência interescolar e da produção do jornal, bem como a reflexão subsequente as essas mesmas experiências permitem afirmá-lo. Do mesmo modo que importa reconhecer que esta prática continua a ter a centralidade que tem no âmbito das práticas dos professores relacionados com o MEM porque, hoje, no seio deste movimento já se consegue produzir um texto de reflexão teórica, como aquele que Ivone Niza (2002) subscreve, o qual evidencia como a actividade da escrita deixou de ser entendida, hoje, como “uma actividade silenciosa e solitária, não pressupondo colaboração em grupo” (...) perspectiva retórica que foi, de algum modo, reforçada pela concepção cognitivista que tende a considerar a relação escritor-leitor como uma interacção individual entre o que se escreve e o que se lê: o escritor compõe e o leitor (re)compõem, tentando cada um considerar as expectativas e as intenções do outro” (p.18 – 19). Neste sentido, e em oposição a tal abordagem, opta-se, antes, por aceitar uma perspectiva teoricamente vinculada à abordagem sócio-construtivista, a qual permite revelar como aqueles dispositivos de mediação que se constroem através da escrita adquirem maior visibilidade teórica e impacto pedagógico quando se defende que “a construção do conhecimento é uma actividade humana colectiva. O conhecimento da realidade só é possível como uma função da interacção entre indivíduos, as suas comunidades e os contextos humanos dessas comunidades” (Niza, 2002, p.19). Compreende-se melhor, também, como “a participação democrática directa na organização e gestão do currículo e da escola enquanto formação para a vida democrática” (obra citada, p.82), é, mais do que uma consequência directa de uma dada opção de carácter axiológico do MEM, um facto que afecta as práticas concretas e a reflexão dos professores que se enquadram neste movimento. Deixou de ser possível, de acordo com a reflexão do MEM, entender, por exemplo, a noção de aprendizagem significativa (uma noção central na discussão sobre as finalidades da Escola quantas vezes abordada como uma temática cognitiva restrita) dissociada da discussão acerca das condições que permitem a participação democrática dos alunos na gestão do quotidiano. Neste sentido, quando se afirma que tal participação se define, tal como o faz S. Niza (Niza, 1998, p.83), em função do “governo cooperado das aprendizagens e das relações sociais que as engendram”, da “circulação partilhada da informação e das produções das aprendizagens”, da “livre expressão das mensagens”, do “controlo 158 democrático e directo das decisões e poderes”, do “uso sistemático do debate e da negociação de objectivos e de procedimentos”, do “uso de estruturas de cooperação na apropriação e construção da aprendizagem” ou do “desenvolvimento constante da partilha nas coisas da cultura, como nos afectos”, o que se circunscreve são, afinal, as condições que contribuem para que haja a possibilidade de ocorrerem aprendizagens e actividades significativas que, no seuconjunto, possam contribuir para que as escolas se assumam como espaços com um outro sentido formativo para todos aqueles que a frequentam. Esta indissociabilidade que os textos produzidos sob a égide do MEM evidenciam entre as finalidade de um projecto de educação escolar que se deverá constituir como “iniciação e exercício da intervenção democrática para que a vida social nos convoca” (Niza, 1992, p.7), a construção de ambientes educativos em que a preocupação com a organização social do trabalho de aprendizagem constitui uma dimensão estruturante e as soluções didácticas encontradas, em conluio com aquelas finalidade e dependendo, para se afirmarem, daquele tipo de organização dos ambientes educativos onde acontecem, constitui um dos mais pertinentes e prometedores produtos da reflexão que o MEM tem vindo a desenvolver. Se já me referi a um domínio tão particular como o da Informática ou a uma área tão crucial como a de Língua Materna para justificar esta tese, pode ser interessante compreender como é que intervenções em áreas como a de Matemática ou de Estudo do Meio contribuem, igualmente, para a reforçar. Num dos «Cadernos de Circulação Interna», o caderno nº 5 intitulado: “Aprender pela Investigação”, da autoria de Patrocínia Moedas (s.d.), militante do MEM do Núcleo Regional de Beja, apresenta-se um conjunto de projectos de investigação - «Por que é que o ciclo da água é tão importante?», «Investigação sobre os cactos», «Investigação sobre os vermes», «Por que é que o Alvito se chama Alvito ?», «Como apareceu a Terra» ou, entre outros, «Por que é que as aves põem ovos e os peixes também e os outros animais têm de outra maneira» - a partir dos quais se demonstra como a utilização de instrumentos de pilotagem, através dos quais se planificavam, monitorizavam e avaliavam esses projectos ou a organização do tempo referente à pesquisa e à comunicação não são, apenas, recursos cuja importância se circunscreve, somente, a apoiar o desenvolvimento dos projectos de investigação. Sendo recursos, são, igualmente, parte constitutiva de tais projectos, assumindo-se até como uma das finalidades da execução do mesmo e contribuindo, assim, para o 159 desenvolvimento do que poderá ser designado por literacia científica. A referência ao «Diário de Turma» e ao quadro «Queremos fazer», no domínio do que aí é considerada como a primeira condição da investigação: «A expressão livre individual»; a referência à organização material da sala de aula que permita o trabalho diversificado, os recursos utilizados, como os roteiros de observação, as fichas de trabalho, o quadro de planificação do trabalho de investigação em grupos - onde se regista o que «Queremos saber», «Quem quer saber» e «Quando se trabalha» - o Plano Semanal, os Planos Individuais de Trabalho, os cartazes onde se registaram as conclusões dos projectos através dos quais se compreende a importância da partilha que permite conferir sentido social a tais projectos ou os textos das comunicações que servem para idêntico fim, constituem, assim, um património cuja importância pedagógica lhe advém do facto de contribuir para a formação pessoal e social das crianças através do desenvolvimento de actividades nobres e centrais no quotidiano da sala de aula, contribuindo para se compreender, de forma inequívoca, como o contacto e a recriação do património cultural constituem uma oportunidade única ao serviço do desenvolvimento pessoal e social das crianças, finalidade que passa, iniludivelmente, na perspectiva do MEM, pelo seu desenvolvimento como seres sociais, membros de uma comunidade que partilham, desenvolvem e recriam espaços, bem como recursos físicos e culturais. Na área da Matemática podem encontrar-se, também, nos textos que integram as publicações do MEM, inúmeros exemplos que permitem sustentar a tese de que a articulação entre as finalidades subjacentes ao projecto de formação democrática que o Movimento defende e a valorização da organização social do trabalho afectam de forma substancial e são afectadas quer pelas soluções didácticas utilizadas quer pela própria concepção de aprendizagem e de influência educativa que tais soluções pressupõem. O artigo de Manuela Castro Neves, publicado na revista «Escola Moderna» nº 11 (5ª Série), de 2001 e intitulado: “A multiplicação em debate” (pp. 11 – 18) permite ilustrar, por exemplo, como o «Diário de Turma» se assume como um instrumento regulador das aprendizagens na área de Matemática, em função do qual se exprime um determinado ambiente educativo, o qual é configurado, de algum modo e entre outros, por esse mesmo instrumento. Por outro lado, tal artigo, possibilita também que se pergunte para que serve, afinal, a Matemática e quais as suas potencialidades educativas? Uma questão que obriga a pensar nas finalidades desta área quer a partir do modo como esta é marcada pela valorização da organização social do trabalho de aprendizagem, quer a partir do modo como contribui para que esta se afirme como uma 160 oportunidade formativa nas suas múltiplas dimensões. Por sua vez, um outro artigo da autoria de Pascal Paulus, um membro do MEM que é autor de um conjunto de artigos relacionados precisamente com a área de Matemática, publicado na revista «Escola Moderna» nº 2 (5ª Série), de 1998, valoriza as variáveis espaço de trabalho e gestão do tempo como variáveis fundamentais das actividades e das aprendizagens a realizar em Matemática. Ou seja, evidencia-se, assim, como a organização social de um ambiente de trabalho e o papel do professor neste âmbito são contributos fundamentais a ter em conta nos projectos de intervenção que têm lugar nesta área. É num documento recente que se encontra publicado no sítio do MEM (www.movimentodaescolamoderna.pt) que se assume o que aí se identifica por sintaxe do modelo pedagógico do Movimento da Escola Moderna Portuguesa (fig. 62), onde, como se pode constatar, se atribui uma centralidade inequívoca ao Conselho de Cooperação Educativa como o dispositivo nuclear em função do qual se desenvolve o trabalho na sala de aula, nas suas múltiplas dimensões. A centralidade da organizaA centralidade da organizaçção social do ão social do trabalho de aprendizagem: Sintaxe do modelotrabalho de aprendizagem: Sintaxe do modelo Trabalho através do envolvimento em projectos cooperativos Trabalho colectivo comparticipado pela turma Circuitos de comunicação para difusão dos produtos culturais Trabalho autónomo e acompanhamento individual Organização e gestão cooperada em Conselho de Cooperação Educativa Fig. 62 Trata-se, importa compreender, a expressão de uma opção que terá que ser lida à luz da afirmação de um modelo pedagógico que se desenvolve sob a égide de uma racionalidade educativa que pretende que a Escola se afirme como um espaço de cidadania democrática. É, por isso, que Sérgio Niza, afirma que o “Conselho de http://www.movimentodaescolamoderna.pt/ 161 Cooperação Educativa é uma instância não somente de partilha de poder mas de exercício directo da participação democrática na escola e motor de desenvolvimento moral (para a cooperação através da cooperação) e do desenvolvimento social e cívico (pela promoção do auto-controle e da construção das normas e dos valores democráticos vividos numa instituição educativa auto-regulada por consensos negociados)” (Niza, 1991, p.29-30). É no projecto de investigação que Filomena Serralha (2001a) desenvolveu sobre a construção e a evolução das normas de socialização geradas em Conselho de Cooperação Educativa que se pode compreender quer a centralidade deste Conselho, quer o modo como tal centralidade exprime a valorização da organização social do trabalho de aprendizagem no âmbito do modelo pedagógico do MEM. Através da análise de conteúdo das tomadas de posição dos alunos no «Diário de Turma» foi possível,no âmbito do trabalho de investigação atrás referido, construir quatro conjuntos de categorias que permitem compreender como a instituição «Conselho de Cooperação Educativa» assume um papel estratégico e decisivo em todos os níveis do quotidiano da sala de aula. Neste sentido, evidenciou-se um primeiro conjunto de “Ocorrências de Socialização” que se definem em função das seguintes categorias: “interiorização de regras”, “transgressão de regras sociais”, “relações sócio-afectivas” e “manifestações de gosto pela escola” (Serralha, 2001a, p.36). O segundo conjunto de ocorrências é identificado como “Ocorrências relacionadas como o desenvolvimento de competências metacognitivas” que são definidas em torno de categorias como “tomadas de consciência do percurso feito”, “declaração de intencionalidade relacionadas com a aprendizagem” e “regulação do percurso” (idem). O terceiro conjunto é o das “Ocorrências referentes à organização cooperada” que se identifica através da “corresponsabilização”, “organização/realização de projectos de estudo”, “contributos para a planificação de actividades”, “transgressão de regras instituídas”, “incidentes relacionados com o material da sala” e “desejos de mudança de lugar” (idem), enquanto o último conjunto de ocorrências diz respeito às ocorrências “associadas a vivências pessoais” ou “associadas a vivências em grupo” (idem). A importância atribuída ao «Conselho de Turma» revela, para lá da abordagem estrita que no MEM se desenvolve acerca deste dispositivo de gestão democrática, a preocupação estruturante com a construção de espaços educativos caracterizados como comunidades culturais onde cooperativamente se produzam bens culturais que, em si, constituam oportunidades de aprendizagem e, concomitantemente, de desenvolvimento 162 pessoal e social. Neste sentido, a problemática do «Conselho de Cooperação Educativa» não pode ser abordada de forma dissociada da discussão mais abrangente que no MEM se trava acerca da problemática da organização cooperativa à qual se associam as problemáticas da planificação e da avaliação. Enquanto manifestações desta reflexão mais ampla, creio que a dissertação de mestrado «Práticas de planificação na Escola Moderna Portuguesa», realizada em 1995, por Júlio Pires, o texto de Odete Xarepe publicado no Nº Anual de 1992 do boletim «Escola Moderna», subordinado ao título; «A organização do trabalho escolar», os textos subscritos por Inácia Santana, um, publicado na revista «Escola Moderna» nº 2 de 1998, «A avaliação em cooperação no 1º Ciclo do Ensino Básico», e outro, publicado na revista «Escola Moderna» nº 5 de 1999, «O Plano Individual de Trabalho como instrumento de pilotagem das aprendizagens no 1º CEB», ou, finalmente, o texto escrito em parceria por Ivone Niza e Inácia Santana, «A organização do trabalho em conselho de cooperação educativa», publicado no Nº 1, de 1996, na revista «Escola Moderna, confirmam não só a importância das referidas problemáticas como, igualmente, o grau de maturação que estas atingiram no âmbito das reflexões que se produzem no interior do MEM. Face a estes textos, mas não só, pode afirmar-se que o estatuto e as funções do «Conselho de Cooperação Educativa» se abordam no âmbito das problemáticas da organização, planificação e avaliação e estas, por seu turno, não poderão ser dissociadas, no âmbito do modelo pedagógico que esse movimento valoriza, do modo como neste movimento se define e configura o que Sérgio Niza designa por “clima social de formação” (Niza, 1998, p.94). Escreve S. Niza (1998): No caso do modelo de educação da Escola Moderna Portuguesa a relação dos alunos entre si e com o professor, assenta num contrato democrático de convívio e trabalho, construído através da organização, planeamento e avaliação cooperadas da aprendizagem de um programa cultural oficial, aprendizagem contextualizada nas comunidades e nas escolas, em diálogo vivo com as culturas e os saberes dos alunos (...). Cabe aos alunos, com o professor, a tarefa de reconstruírem essa proposta oficial para a poderem tornar sua e emprestar-lhe um sentido comum, com «mentalidade curricular», isto é, com a descoberta de um fim global e comum que oriente todo o trabalho de aprendizagem e de ensino, ao longo de cada ano escolar” (p.94). 163 Ocupando o «Conselho» uma posição estratégica no conjunto das opções curriculares a realizar, de forma a responder-se às exigências e necessidades de um determinado grupo de trabalho há que reconhecer a articulação que se este estabelece entre este dispositivo de gestão e outros espaços e tempos de planificação e avaliação, bem como a organização material e temporal que suporta o quotidiano de trabalho de uma turma e a gestão participada dessa organização. De facto não é possível dissociar o espaço de intervenção pedagógica que o «Conselho de Cooperação Educativa» constitui dos programas oficiais ou dos planos anuais, semanais e diários, bem como dos planos individuais de trabalho, do mesmo que não é possível dissociá-lo dos instrumentos de avaliação que, até certo ponto, englobam os programas e os planos acabados de referir, se bem que estes possam ser, como o são, objecto de reflexão própria no âmbito do MEM. Uma reflexão que tende a enfatizar a dimensão cooperativa do processo de utilização a que são sujeitos, bem como a sua importância no desenvolvimento de estratégias de diferenciação pedagógica que constituem um dos outros eixos fundamentais de identificação do modelo pedagógico desse movimento. Promoção de situações de reflexão por parte dos alunos A terceira dimensão que permite identificar a acção docente como uma acção de interlocução qualificada é aquela que tem a ver com todas as operações conducentes a promover situações de reflexão por parte dos alunos. Trata-se de uma dimensão que já se pode identificar tanto nas intervenções relacionadas com as dimensões anteriores, como nas actividades que, neste âmbito, se foram propondo. Em última análise é uma dimensão que nos obriga a discutir ao estatuto e ao papel a atribuir à avaliação no âmbito dos projectos de educação escolar. Porque é que é importante avaliar nas nossas escolas? É necessário? É desejável? O que pretendemos com a avaliação? É a partir destas questões cruciais e da reflexão mais ampla que temos vindo a produzir quer sobre o paradigma pedagógico da comunicação, quer sobre a acção dos professores como interlocutores qualificados que se torna possível abordar a problemática do desenvolvimento da reflexão por parte dos alunos como uma finalidade educativa nuclear. Ainda que esta finalidade não se possa esgotar num debate sobre a avaliação, há que reconhecer que a assunção da mesma anuncia, de forma inequívoca, uma opção por um conceito de avaliação que não podemos ignorar. 164 Em última análise, nesta perspectiva, avaliar é criar condições para que os actores educativos possam reflectir sobre o seu desempenho académico e, subsequentemente, sobre os mais diversos tipos de relações que se estabelecem no seio da comunidade de aprendizagem onde se situam. Uma conclusão que se vê reforçada, por exemplo, pela participação no Conselho de Cooperação Educativa ou pela importância que se atribui à utilização do conjunto de instrumentos de gestão e regulação do trabalho na sala de aula que os alunos aprendem a utilizar, como consequência de um projecto de intervenção educativa de inspiração democrática. Constata-se, então, que não é possível dissociar o tipo de apoio que se defendeu os professores poderem prestar aos seus alunos e a importância que se atribui à organização social do trabalho de aprendizagem da valorização, como finalidade educativa explícita, da necessidade de se envolver os alunos em situações de reflexão quer quanto às tarefas que realizam, quer quanto às tarefas que os outros realizam,quer quanto às relações que vão estabelecendo no decurso da vida que experienciam na sala de aula. Tal finalidade sendo o resultado de um conjunto de opções prévias, assume-se, igualmente, como um contributo decisivo para que tais opções se concretizem. Em suma, não se põe em causa que os roteiros relacionados com o desenvolvimento das actividades de aprendizagem na sala de aula, os momentos e os tempos matriciais de trabalho que se propuseram, bem como os instrumentos de regulação da vida na sala de aula, como o «Diário da Turma», o «Plano Individual de Trabalho» e os diversos tipos de fichas de registo adoptadas, contribuem activa e criativamente para estimular as situações de reflexão protagonizadas pelos alunos, ainda que haja que considerar outras situações e instrumentos que contribuem para que tal reflexão possa acontecer. São situações e instrumentos que, a par das restantes situações e dos restantes instrumentos sobre os quais nos temos vindo a debruçar, não poderão ser entendidos nem como factores dissociados de um clima de formação específico, nem de intenções educativas que prescindem dos seus compromissos culturais para afirmar objectivos de natureza desenvolvimental. A reflexão, neste caso, é entendida como condição da formação e da aprendizagem dos alunos e, deste modo, assume-me como uma dimensão transversal de um projecto educacional subordinado ao paradigma pedagógico da comunicação. Não é um fim em si mesma e ainda que possa haver momentos privilegiados de reflexão no espaço da sala de aula, tais momentos só fazem sentido se articulados com tarefas e desafios concretos que, estes sim, constituem a primeira razão que legitima a necessidade de nos envolvermos no desenvolvimento de 165 projectos de educação escolar. Pode considerar-se, então, que a valorização da reflexão como um eixo formativo é algo que tem a ver com a qualidade e a natureza dos projectos que se animam numa sala de aula, o que não significa que não se deva prestar uma atenção particular quer aos instrumentos e aos dispositivos de avaliação que se utilizam, quer à explicitação dos critérios e de indicadores de avaliação congruentes com a cultura formativa que se tem vindo a apregoar, quer ao tipo de gestão e à qualidade da organização dos momentos de reflexão em comum. Trata-se de um conjunto de propósitos que, de algum modo, já foram objecto de abordagem nesta obra, daí que, neste momento, tenhamos decidido debruçar-nos, somente, quer sobre a importância dos critérios de avaliação como instrumentos promotores de reflexão dos alunos, quer sobre o papel e a construção de portefólios como dispositivos potenciadores de reflexão. A explicitação e a construção de critérios de avaliação Os critérios de avaliação e a sua construção constituem uma das operações mais decisivas de iniciativas educativas que se construam sob a égide do paradigma pedagógico da comunicação. É que uma comunicação que aconteça sem eixos que a regulem e critérios que permitam que os interlocutores em presença se entendam é, no mínimo, uma espécie de monólogo colectivo. Tomando como exemplo, os momentos de partilha e de avaliação dos trabalhos que um grupo de alunos ou um aluno produziram, no âmbito de um Conselho de Cooperação Educativa, pode compreender-se melhor a importância e a função dos critérios como factores que permitem criar condições para que aconteçam processos de interpelação e de interlocução que possam potenciar situações de formação e, quem sabe, aprendizagens de natureza diversa. É a consciência desta necessidade que explica, afinal, o quadro que se apresenta na fig. 63. 166 Critérios de avaliação dos projectos Trabalhar bem nos projectos: Escrever acerca do que lemos e aprendemos. Não basta copiar coisas dos livros; Aprender coisas novas para ensinar aos outros; Ilustrar bem o trabalho; Organizar bem as folhas com títulos; Registar de onde retirámos a informação. Apresentar bem um estudo é: Ler bem, mas não só, explicar também; Explicar o que querem dizer as coisas; Saber responder às perguntas dos colegas. Fig. 63 Este conjunto de critérios que foi utilizado, por uma professora e os seus alunos, numa sala de aula para apoiar a auto-avaliação e a hetero-avaliação dos projectos produzidos pelos segundos (Santana, 1999) é a prova da importância dos critérios como instrumentos potenciadores de comunicação no seio de uma comunidade de aprendizagem. Serão eles que limitarão a arbitrariedade no processo de avaliação, por parte dos membros dessa comunidade, quando estes tiverem que emitirem um juízo de valor sobre um trabalho produzido. Serão eles que permitirão definir expectativas acerca do tipo de desempenho que se espera que eles assumam. Serão eles que contribuirão para uma relação mais rigorosa com as tarefas e o trabalho. Serão eles, finalmente, que possibilitarão que o momento da apresentação dos projectos à turma ocorra de forma solidária e cúmplice, o que constitui, só por si, uma oportunidade de desenvolvimento pessoal e social, por parte daqueles que o vivem. Mais do que classificar, verifica-se que os critérios em questão possibilitam uma avaliação que se afirma, sobretudo, como um tempo de reflexão para todos os que, de algum modo, se encontram envolvidos na situação descrita. Uma reflexão que se consolida pela sua funcionalidade e por ocorrer em grupo, mediada por critérios que contribuem para que tal reflexão seja entendida como um momento pertinente de formação. Neste âmbito, o da necessidade de se construírem e explicitarem critérios de avaliação poderíamos, igualmente, evocar a importância da definição e construção das regras a respeitar no decurso do trabalho que acontece numa sala de aula. Tal como no exemplo relativo à avaliação de projectos, também aqui importa reconhecer que essas 167 regras terão que ser exequíveis, responderem a necessidades efectivas decorrentes da vida do grupo, serem objecto de negociação e poderem ser objecto de revisão, caso isso se justifique e seja uma iniciativa que envolva a comunidade. Só um docente que reconheça os seus alunos como cidadãos e reconheça, também, que a sua influência como educador é um processo que se constrói, mais do que um dado adquirido, é que poderá ser capaz de investir num projecto desta natureza, onde terá que assumir um papel estrategicamente decisivo, Um papel de algum modo paradoxal, porque, no futuro, a sua ausência relativa como elemento-chave na regulação do quotidiano das salas de aula, em favor da presença mais ampla e influente dos alunos, neste âmbito, depende do modo como, actualmente, um professor sabe estar presente e sabe fazer valer essa presença. Estaremos perante um processo de empoderamento da comunidade e dos seus membros, e não tanto perante um processo de domesticação, se entendermos que a definição, a construção e a explicitação dos critérios de avaliação e de reflexão constitui uma oportunidade formativa que deverá ser objecto de investimento se os professores entenderem tal operação como o resultado de um processo de comunicação que depende do seu papel como interlocutor qualificado. Isto é, um papel que acontece quando estimula e andaima os seus alunos a envolverem-se em processos de reflexão tão sustentados, quanto consequentes. A exigência da necessidade de se definirem critérios de avaliação é, finalmente, uma exigência que se coloca aos professores e aos alunos aquando das provas de avaliação que se realizam numa turma. Independentemente do facto de tais momentos de avaliação serem de natureza formativa ou sumativa, importa é reconhecer que não existe qualquer tipo de incompatibilidade entre esses tipos de avaliação e a dimensão formadora desse tipo de avaliação. É esta dimensão, tal como Nunziatti (1988) a define, que assegura a necessidadeda avaliação ser entendida como um momento de reflexão protagonizado pelos alunos, o que depende, por um lado, do facto dos critérios de avaliação serem objecto de explicitação prévia e, por outro, destes critérios poderem ser utilizados como instrumentos capazes de potenciar a comunicação no seio da comunidade de aprendizagem onde o acto de avaliar se concretiza como um acto que se desenvolve dialecticamente como um acto de hetero e de auto-avaliação. Se os critérios de avaliação permitem sustentar a reflexão dos alunos sobre o seu desempenho nas tarefas e actividades escolares, importa também reconhecer e compreender que são estes mesmos critérios que permitem que os professores possam, mais do classificar os seus alunos, reflectir, também, sobre as zonas mais promissoras e mais obscuras dos 168 projectos de intervenção educativa que dinamizam. Será essa reflexão que permitirá que os professores possam tomar consciência das dificuldades dos seus alunos, das suas necessidades educativas ou dos percursos pedagógicos a trilhar. Como se constata, a definição de critérios de avaliação não é uma questão periférica no âmbito de uma acção docente que se pretende assumir como uma acção de interlocução qualificada. Tal definição terá que ser compreendida à luz do conjunto de pressupostos, desafios e exigências que temos vindo a caracterizar como contributos para a configuração do paradigma pedagógico da comunicação. O portefólio O portefólio é um instrumento que se constrói, de uma forma planeada e organizada, a partir de uma colecção de trabalhos (textos, fotografias, videogramas, desenhos, recortes, etc.) produzidos pelos alunos durante um determinado período de tempo que possam constituir a expressão de um conjunto de experiências significativas para aquele que as organiza. Neste sentido, o portefólio antes de ser um instrumento de hetero-avaliação, que o é, assume-se, sobretudo, como um instrumento de reflexão pessoal dos sujeitos sobre os seus próprios percursos formativos. Como construir e utilizar um portefólio? Fases Conteúdos Preparação Explicitar e definir os objectivos relacionados com a construção do portefólio: - Qual a utilidade deste portefólio? - Como é que será organizado? Reflexão sobre as experiências Reflectir sobre as experiências de aprendizagem realizadas: - Quais as experiências de trabalho que, para mim, foram mais significativas e gratificantes? Porquê? - Como seleccionar os produtos a incluir no portefólio? Porquê uns e não outros? Avaliação dos alunos Monitorizar a construção do portefólio: - São estes os documentos que me interessa incluir no portefólio? Não há documentos inúteis? Os documentos que incluí dão conta do processo de realização da tarefa? O que aprendi com a realização deste portefólio? O que senti com a realização deste portefólio? Avaliação dos professores O que posso fazer para apoiar a construção do portefólio? Como ajudar, sem ser intrusivo? Os critérios que presidem à elaboração do portefólio são claros? Foram objecto de negociação? Como monitorizar a construção dos portefólios dos meus alunos? Como é que me posso organizar para os apoiar? Que tipo e formato de «feed-back» lhes posso fornecer? Fig. 64 - Roteiro relacionado com a construção de um portefólio 169 A utilização do portefólio como instrumento de reflexão pessoal não poderá ser compreendida, no entanto, sem se abordar a racionalidade educativa que a justifica. Na génese de tal racionalidade é possível encontrarmos quer a influência dos movimentos pedagógicos que enfatizam a centralidade dos alunos como condição das aprendizagens que estes deverão realizar, quer a influência da reflexão que se tem vindo a produzir no domínio da avaliação, particularmente quando tal reflexão nos mostra as possibilidades formadoras da mesma. Por outro lado, importa reconhecer o peso que tem na valorização do portefólio como instrumento de avaliação e reflexão, os estudos que se têm vindo a debruçar sobre a auto-regulação das aprendizagens, nomeadamente sobre a importância formativa dos aprendentes: (i) tomarem consciência das acções que realizam, dos procedimentos que adoptam e dos resultados que têm vindo a obter e (ii) agirem de acordo com esse processo de automonitorização, de forma a, por um lado, implementarem ou corrigirem as estratégias planeadas, para controlar os factores pessoais ou ambientais que afectam o desempenho e, por outro, para poderem detectar as discrepâncias entre o idealizado e o realizado (Simão, 2005). Em síntese, tal como nos revela Idália Sá-Chaves (2005), o portefólio permite contribuir para se afirmar, no âmbito dos projectos de formação, um processo de diálogo sustentado, capaz de respeitar, em primeiro lugar, a pessoalidade do sujeito em formação; em segundo lugar, a tomada de consciência do processo vivido e dos resultados do mesmo que é, em si, uma componente decisiva de um tal processo, e, em terceiro lugar, a solidariedade dos outros que permite que essa pessoalidade e essa tomada de consciência se afirmem, pelo apoio que estes propiciam e pelo grau de interlocução de que são portadores. É partindo destes princípios orientadores que se podem tomar algumas de carácter operacional, sabendo-se, no entanto, que a sua utilização tem que: (i) resultar de uma decisão contextualizada, intencionalmente assumida e estrategicamente pensada; (ii) respeitar as particularidades epistemológicas e culturais, bem como as particularidades heurísticas de cada uma das áreas de saber. Podendo assumir diversos formatos, o portefólio obedece, todavia, a um conjunto de princípios invariantes, a saber: (i) a sua natureza longitudinal e (ii) o carácter colaborativo e dialógico do processo da sua construção (Chaves, 2005). Isto é, se importa decidir se o portefólio é um portefólio de aprendizagem (Nunes & Moreira, 2005) ou um portefólio reflexivo (Chaves, 2005; Nunes & Moreira, 2005), importa compreender, acima de tudo, que um 170 portefólio diz respeito a um conjunto de actividades que mantêm entre si uma relação cronológica, a qual se constrói num período suficientemente alargado de tempo para que essa relação possa ser um factor estruturante do processo de reflexão que justifica a elaboração do portefólio. Pode considerar-se, então, que é essa relação que permite atribuir aos portefólios a importância formativa que estes deverão possuir, já que são as abordagens retrospectivas das produções realizadas, asseguradas pela dimensão longitudinal do portefólio, que irá permitir que os alunos possam compreender um pouco melhor quem são, o que fizeram e o que fazem, o que pretendem, o que desejam ou o que podem fazer. Seja como for, é a finalidade do portefólio que determina o seu formato, já que este pode conter uma diversidade de documentos tão heterogéneos como rascunhos de textos, projectos, fotos ou videogramas, recensões ou fichas de leitura, planos individuais de trabalho, relatórios, reflexões pessoais, recortes de jornais, gráficos, folhas de cálculo, transcrições de mensagens electrónicas, documentos relacionados com a avaliação formal ou, entre outros, «feed-backs» escritos de colegas e professores. Podendo o portefólio ser apresentado numa capa de argolas, em pastas de arquivo, em CD’s ou em documentos online, interessa, antes de se assumir tais decisões, definir qual é a finalidade do portefólio. No caso de se pretender estimular as aprendizagens dos sujeitos relativamente a uma dada problemática ou a uma da área, a opção será pela construção de um portefólio de aprendizagem. É o tipo de portefólio através do qual se evidencia o desenvolvimento do processo de reflexão, a partir da escrita, sobre produtos realizados por outros, de forma a estabelecer-se um processo de interpelação e de interlocução com essesprodutos que é condição necessária às aprendizagens a realizar. No caso de, por sua vez, se pretender estimular processos de reflexão relacionados com um determinado percurso formativo, de forma a possibilitar a apropriação explícita, por parte dos sujeitos desse processo, das vicissitudes e singularidades do mesmo, dos desafios, dos constrangimentos, dos momentos-chave e das dificuldades que se foram vivendo, bem como das respostas que se foram construindo, a opção passa por se construir um portefólio reflexivo. Em conclusão, importa compreender que o portefólio é diferente de um dossiê de uma disciplina ou de uma pasta, onde se anotam os conteúdos das aulas e se arquivam os textos de apoio, porque no portefólio: (i) a organização dos materiais 171 respeita a lógica dos autores do mesmo; (ii) os materiais que aí se encontram não são, apenas, os produtos finais, mas, igualmente, os rascunhos, os esboços e os trabalhos incompletos; (iii) se anotam as opiniões, as impressões e as reflexões dos autores do portefólio sobre os materiais que aí se arquivam. Trata-se, todavia, de um instrumento que não é construído de forma arbitrária, na medida em que é balizado pelas finalidades que o determinam, pelos objectivos e os conteúdos de uma disciplina, bem como pelo processo de negociação que envolve os estudantes e os docentes. É perante esta reflexão que se pode considerar que o portefólio não só constitui um instrumento cuja legitimidade formativa advém do facto de poder ser um dispositivo de mediação pedagógica, como permite que se compreenda que o protagonismo dos alunos na sua construção não é incompatível, antes pelo contrário, com o apoio dos professores, desde que este apoio constitua um momento de interlocução qualificada. Isto é, desde que este apoio seja um apoio contingente, seja estrategicamente pensado e, finalmente, constitua uma oportunidade de potenciar a acção e a reflexão dos alunos, sem fazer por eles o que só a eles compete fazer, não tentando, também, implementar estratégias subtis de domesticação cultural, mas também não os deixando reféns das suas próprias vulnerabilidades e idiossincrasias que, em si, constitui, igualmente, a negação absoluta de qualquer intenção formativa. Conclusão O que se pretendeu com a publicação deste livro tem a ver com a necessidade de contribuir para a reflexão sobre a natureza e os sentidos dos projectos de educação escolar num tempo em que a dificuldade de construirmos consensos, suficientemente sólidos acerca da intervenção educativa dos professores e das suas responsabilidades profissionais, é conivente com o debate que se tem vindo a travar e as dissonâncias que, neste debate, se revelam acerca das finalidades da Escola como instituição educativa. Trata-se de uma reflexão que fomos estabelecendo ao longo desta obra que, julgamos, permite equacional alguns dos eixos em função dos quais se visa propor um projecto que possibilite, por um lado, que as escolas se afirmem como contextos culturalmente significativos, socialmente mais justos e politicamente mais democráticos. Num tempo em que a Escola deixou de ser entendida como um espaço onde todas as promessas pareciam ser possíveis para começar a ser percepcionada como um 172 espaço de incertezas (Canário, 2005), a reflexão em torno do trabalho docente adquire uma importância inquestionável como uma problemática cuja elucidação e interpelação nos conduz a abordar as abordagens de que, hoje, dispomos para se conceber os projectos de acção educativa. Neste livro, onde defendemos que os professores se deverão assumir como interlocutores qualificados, os projectos de acção educativa são entendidos como emanações do paradigma pedagógico da comunicação, o que significa que se valoriza, como o escrevemos, a qualidade dos mais variados tipos de interacções que acontecem numa sala de aula como factor potenciador das aprendizagens dos alunos que, neste caso, são entendidas em função do processo de apropriação, por parte destes, de uma fatia decisiva do património cultural disponível, enquanto condição do processo de afirmação e desenvolvimento pessoal e social das crianças e dos jovens no seio da sociedade em que vivemos. Trata-se de uma opção, porque de uma opção se trata, em que, em primeiro lugar, se recusa o paradigma da instrução enquanto recusa da subordinação do acto de educar ao acto de ensinar, o qual aspira a promover um processo de domesticação pessoal, social, cultural e política que, em larga medida, se constrói em torno quer de um conjunto de rituais, quer, subsequentemente, de algoritmos pedagógicos e didácticos previamente definidos e validados que contribuem para desenvolver um tal propósito. Trata-se de uma opção que, em segundo lugar, recusa que seja o paradigma da aprendizagem o paradigma alternativo àquele paradigma da instrução. Em suma, tudo seria mais fácil se, nas escolas, o papel dos professores pudesse ser circunscrito, apenas, ao de transmissor de informações e ao de avaliador da capacidade de reprodução dos alunos. Seria, igualmente, muito fácil e, sobretudo, mais cómodo que os alunos fossem seres auto-suficientes do ponto de vista das aprendizagens a realizar, limitando-se os professores a propor-lhes tarefas que correspondessem às suas necessidades e aos seus interesses. Quer num caso, quer no outro, estamos perante dois tipos de narrativas insensatas de conceber o trabalho docente. Se, no primeiro caso, a importância dos professores se constrói à custa da menorização dos alunos quer como intérpretes e produtores de significados, quer como seres capazes de desejar e de decidir, no segundo caso, o trabalho dos professores afirma-se, de algum modo, como um trabalho que secundariza o contacto com o património cultural comum para que, deste modo, os alunos se possam revelar. Eis-nos, assim, perante um dos equívocos educativos mais graves das abordagens pedagógicas 173 que enfatizam a auto-educação como finalidade primeira das escolas, o equívoco através do qual se aborda de forma condescendente a apropriação do património cultural como operação que nos oferece a possibilidade de os alunos se afirmarem como seres mais inteligentes e socialmente mais capazes. É face às limitações e aos equívocos destas duas modalidades de configuração do trabalho docente que somos obrigados, então, a pensar esse mesmo trabalho, a partir de outros pressupostos e de outros desafios e exigências profissionais. Neste sentido, a reflexão a produzir sobre os sentidos e a natureza do trabalho dos professores terá que ser desenvolvida em torno do tipo de relações que se estabelecem entre os pólos estruturantes em presença no âmbito de uma acção educativa (professor, aluno e saber) e não em função da tentativa de identificar qual desses pólos estruturantes é o pólo mais decisivo para dinamizar aquela mesma acção. Esta deslocação do domínio dos pólos estruturantes da relação pedagógica para o da valorização da dinâmica e das tensões que permitem que essa relação aconteça, resulta do facto de se reconhecer que os significados que atribuímos às coisas, aos factos e aos acontecimentos não se geram a partir do interior da mente, mas do diálogo que alguém tem oportunidade de estabelecer com o património cultural que, hoje, temos ao nosso dispor e, por via disso também, com outros seres humanos que assumem, assim, um papel decisivo como elementos de regulação, de apoio e de interlocução no âmbito do referido diálogo. É a partir destes pressupostos que o papel dos professores se configura como o de um interlocutor qualificado, isto é como o de alguém que tem condições pessoais e culturais para apoiar de forma activa e intencional o processo de formação pessoal e social dos seus alunos, não fazendo por eles o que só a eles compete fazer, mas não os deixando entregues a si próprios sem rumo e sem apoio.