Prévia do material em texto
análise literária de Graciliano Ramos vidas secas Essa análise foi desenvolvida pela professora, Vanessa Biondini, para o curso Pontuar, localizado na cidade de Belo Horizonte. A diagramação e disponibilização do material é feita pelo O Salto, plataforma de ensino on-line. As ilustrações, por sua vez, são de Karyne Elise “Kuy” em parceria com o estúdio de handmade design Igniscode. A ilustradora buscou inspiração nas xilogravuras de literatura de cordel nordestinas, a fim de expressar a nordestinidade do autor, Graciliano Ramos, e da história de Vidas Secas. Sobre essa análise: Graciliano Ramos (1892-1953) nasceu na cidade de Quebrângulo, Alagoas, no dia 27 de outubro de 1892. Era o primogênito de quinze filhos, de uma família de classe média do Sertão nordestino. Fez seus estudos secundários em Maceió. Não cursou nenhuma faculdade. Em 1914 foi para o Rio de Janeiro trabalhar como revisor dos jornais Correio da Manhã e A Tarde. Voltou para a cidade de Palmeira dos Índios, e em 1927 foi eleito prefeito da cidade. Mudou-se para Maceió, em 1930, onde assumiu a direção da Imprensa Oficial e da Instrução Pública do Estado. Graciliano Ramos estreou na literatura em 1933 com o romance "Caetés". Em 1934 publicou o romance "São Bernardo" e em 1936 publicou "Angústia". Nesse mesmo ano, foi preso sob acusação de participar do movimento de esquerda. Após sofrer humilhações e percorrer vários presídios, foi libertado em janeiro de 1937. Essas ex- periências pessoais e dolorosas de sua vida, foram retratadas no livro "Memórias do Cárcere", publicado após sua morte. O romance "Vidas secas", escrito em 1938 é a sua obra mais importante. Graciliano Ramos seguiu para o Rio de Janeiro, onde fixou residência e foi trabalhar como Inspetor Federal de Ensino. Em 1945 ingressou no Partido Comunista brasileiro. Em 1951 foi eleito presidente da As- sociação Brasileira de Escritores. Em 1952 viajou para os países so- cialistas do Leste Europeu, experiência descrita na obra "Viagem", publicada em 1954, após sua morte. Graciliano Ramos faleceu no Rio de Janeiro, no dia 20 de março de 1953. Quem é Graciliano Ramos? Graciliano Ramos marcou a literatura brasileira com obras que retra- tam a vida do homem nordestino no sertão. O escritor fez parte da 2ª fase do modernismo, que teve o regionalismo como principal carac- terística. O autor nordestino faz parte da geração de 30 ou modernismo da segunda fase, período no qual os temas nacionalistas e regionalistas se fortalecem. Na época, 1930 a 1945, os escritores nordestinos, em especial, retratam a realidade do sertão e a exploração do homem. Alguns autores da fase regionalista são: Raquel de Queiroz, José Lins do Rego, Jorge Amado e Érico Veríssimo. O estilo de escrita é claro e conciso. Em certos trechos, lembra o modo de fala mais rude do interior que Ramos retrata. O escritor busca contar como o povo nordestino vive e as dificuldades no sertão. É possível identificar nas obras o pessimismo e a crítica social. Segunda Geração Modernista Em 1937 escrevi algumas linhas sobre a morte duma cachorra, um bicho que saiu inteligente demais, creio eu, e por isso um pouco diferente dos meus bípedes. Dediquei em seguida várias páginas aos donos do animal. Essas coisas foram vendidas, em retalho, a jornais e revistas. E como José Olímpio me pedisse um livro para o começo do ano passado, arranjei outras narrações, que tanto podem ser contos como capítulos de romance. Assim nasceram Fabiano, a mulher, os dois filhos e a cachorra Baleia, as últimas cria- turas que pus em circulação. (Linhas tortas. Graciliano Ramos) Vidas secas é um compilado de treze contos que formam uma novela (ou romance, como preferia o autor), todos ligados entre si, sendo o primeiro capítulo da obra uma “apresentação” das persona- gens, e os demais capítulos escritos para narrar, especialmente, cada componente da família. Mudança O primeiro capítulo narra parte da trajetó- ria de Fabiano, Sinhá Vitória e dos filhos – mais novo e mais velho-, que acompa- nhados pela cachorra Baleia andam pela caatinga até chegar a uma fazenda aban- donada, onde se instalam. Com fome, a família já havia comido o papagaio de estimação e se alimenta de preás que a cachorra consegue caçar (e esta fica apenas com os ossos e os couros das caças). Fabiano prevê a chegada da chuva e crê em prosperidade. Enredo Fabiano Chove no sertão e o dono da fazenda aban- donada regressa. Fabiano é contratado como vaqueiro e se questiona se é homem ou bicho; ele se incomoda com perguntas dos filhos, com quem pouco conversava. Ao pensar na seca, Fabiano se lembra de Seu Tomás da Bolandeira, um homem culto, que falava difícil, mas que não resistiu à seca. Fabiano sabe que é preciso ser forte para sobreviver e espera que os filhos aprendam isso. Cadeia Fabiano vai para a cidade comprar manti- mentos, mas, chamado pelo Soldado Ama- relo, não sabe dizer negar o pedido e se envolve em um jogo de cartas, perdendo todo o dinheiro das compras. Fabiano se desentende com o soldado e vai preso por não saber falar direito - a falta de comuni- cação o coloca na prisão injustamente. Na cadeia, ele pensa na família. Sinha Vutória Sinhá Vitória trabalha, enquanto o marido dorme na rede. Ela pensa que seu sonho é ter uma cama de armação de couro, igual à de Seu Tomás da Bo- landeira. Mulher e marido se desenten- dem sobre as despesas da família, e Fabiano diz que ela gasta dinheiro com sapatos que a fazem andar como um papagaio, comparação que a ofende. O menino mais novo O menino mais novo tenta montar uma cabra assim como o pai monta as éguas, mas ele cai. Um dia cresceria e seria como Fabiano. O menino mais velho O filho mais velho pergunta à mãe o que é inferno, uma palavra bonita que ele ouve, mas que não sabe o que sig- nifica. A resposta da sua mãe – “um lugar ruim demais” - não o satisfaz. Ele reflete sobre lugares ruins e se lembra da mãe carregando um balaio debaixo de um forte sol e conclui que isto deve ser “inferno”. Inverno As chuvas alagam o sertão e a família tem medo. Enquanto chove, todos ficam dentro de casa ouvindo as histórias de Fabiano, que ao tentar provar a veracida- de do que narra entrega a falta de verossi- milhança e deixa desinteressantes os casos. Festa Toda a família se arruma e caminha para a cidade a fim de festejar o Natal. Ao chegarem, se deparam com muitas pes- soas e Fabiano se sente incomodado por não conseguir ficar perto dos filhos e da mulher. Nas barracas da igreja, Fabiano bebe muita cachaça, tenta arrumar briga e depois dorme no chão usando as roupas como apoio. Sinhá Vitória admira a beleza das coisas e conclui que a vida não é má, falta apenas uma cama de verdade. Baleia Fabiano decide sacrificar com um tiro a cachorra, que está doente, mas erra a precisão e ela consegue escapar até o lamaçal. Á beira da morte, Baleia pensa nas suas obrigações, nas crianças e na sua casa. Ela morre sonhando com o paraíso: um mundo cheio de preás. Contas Fabiano reconhece que seu patrão lhe paga de forma injusta, esboça uma revolta, mas aceita as contas do patrão por medo de ser demitido – “quem é do chão não se trepa”. Fabiano se lembra do fiscal do governo que queria lhe cobrar impostos abusivos para vender produtos na cidade e desiste das vendas. Ele seria sempre pobre. Fabiano lembra da Baleia e sente que matou alguém da família. O soldado amarelo Fabiano sai em busca de uma égua e encontra o Soldado Amarelo perdido nas veredas. Ele recorda toda a humilha- ção que passara na cadeia e pensa em se vingar do soldado, mas lembra que “governo é governo”, desiste da vingan- ça e o ajuda a achar o seu caminho. O mundo coberto de penas Ao observar as aves levantando vôo para o sul, a família sabe que este é o sinal de que a seca está voltando. Sinhá Vitória se preocupa com o fato de as aves be- berem a água que deve servir ao gado. Fabianovê a situação, fica com raiva e atira nas aves, que servem de alimento para a família. Fuga A seca volta e a fazenda já não oferece mais condições de subsistência. Sinhá Vitória comenta com o marido que sonha com um destino melhor para os filhos e ele compreende. A família, então, parte em direção ao sul em busca de uma cidade grande, pois "O sertão mandaria para a cidade homens fortes, brutos, como Fabiano, Sinhá Vitória e os dois meninos". Deve-se escrever da mesma maneira como as lava- deiras lá de Alagoas. Elas começam com uma primei- ra lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer... (O Estado de S. Paulo, Dimensão de Graciliano, 24/4/05). Linguagem Em Vidas secas é possível perceber um brilhante trabalho de Graciliano Ramos com a escolha da linguagem. Na obra, há clara escassez de recursos - água, comida, dinheiro, conversas – que contrasta com a riqueza das figuras de linguagem que abrilhantam a narrativa: como metáforas, comparações e onomatopéias. São exemplos do uso dessas figuras: “Os calcanhares (de Fabiano), duros como cascos [...]”; “Ele, a mulher e os filhos tinham-se habituado à camarinha escura, pareciam ratos [...]”; “deixava os filhos soltos no barreiro, enlameados como porcos.”; “Pôs-se a berrar, imitando as cabras, chamando o irmão (mais velho) e a cachorra.”. Na obra, é per- ceptível que as personagens são, costumeiramente, comparadas a animais e à vegetação da região - elas balbuciam, grunhem, rugem, e produzem sons onomatopéicos. O autor, nesta obra, também trabalha em um processo de inversão, animalizando as personagens humanas e humanizando a cachorra Baleia: “Olhou com raiva o irmão e a cachorra. Deviam tê-lo prevenido. Não descobriu neles nenhum sinal de solidariedade: o irmão ria como um doido, Baleia, séria, desaprovava tudo aquilo.”. Narrador A obra conta com um narrador em terceira pessoa, onisciente, que sofre com a família. O fato de as personagens, principalmente Fabia- no, não desenrolarem grandes discursos faz com que a figura do nar- rador seja crucial em toda a obra, pois é ele, por meio do discurso indireto livre, que fornece informações necessárias para o entendi- mento do enredo da obra. tempo da narrativa A narrativa da obra acontece entre duas secas. A primeira delas traz a família para a fazenda, e a segunda a leva para o Sul. Apesar da referên- cia cronológica, o predomínio na narrativa é do tempo psicológico e circular. Espaço da narrativa A região geográfica em que as ações se passam é o polígono das secas, no sertão nordestino. Personagens No início da obra, o narrador diz que se tratam de “seis viventes”, ele não diz que eram quatro membros da família mais um papagaio e uma cachor- ra. De certo modo, essa forma de apresentação das personagens eviden- cia a colocação de homens e animais em um mesmo patamar. Em outro momento, a família decide sacrificar o papagaio para se alimen- tar, sob o pretexto de que “nem pra falar” o bicho prestava. Entretanto, Fabiano muito pouco falava, assim como o restante da família, logo, são personagens que representam pessoas que “pouco prestavam”, de baixo valor social. Em contrapartida, a personagem Baleia se destaca pela sua capacidade de pensar e sentir mais humana. Baleia tem sonhos, se comunica com seu corpo de forma mais eficaz que os humanos se comunicam com as pala- vras. Salva a família da fome no começo do livro e o capítulo de sua morte é um dos trechos mais bonitos da prosa brasileira. Principais personagens da obra Seca – é preciso entender a seca como a grande protagonista (e antago- nista) da obra. É ela quem determina todos os caminhos da narrativa. Fabiano - o pai da família, um homem bruto, que muitas vezes se confun- de com um bicho. Fala pouco e se comunica mais com grunhidos. É um homem bravo, porém respeita as autoridades. Sinhá Vitória- a mãe, também não fala muito, ainda que tenha todas as palavras na ponta da língua. Seu maior desejo é uma cama de armação de couro. Os filhos- o menino mais novo e o menino mais velho. O primeiro tem mais admiração pelo pai e quer ser igual a ele. O segundo gosta mais das palavras, queria que seus pais falassem mais, fica mais perto da mãe, porque ela não é tão bruta. Baleia- a cachorra da família e a personagem que mais se assemelha a um ser humano. É a única personagem do romance que sente angústia e que, mesmo sem falar, sabe se comunicar melhor que os outros membros da família. Outros personagens - o Soldado Amarelo, antagonista na obra, prende Fabiano injustamente; o patrão de Fabiano, dono da fazenda em que a família se instala, cujo comportamento e cobranças são injustos e arbitrá- rios; o Seu Tomás da bolandeira, que só aparece nas lembranças da famí- lia, e era um homem abastado, que lia muito, mas que morre assim que a seca chega; o fiscal da prefeitura, homem intolerante e explorador. Temáticas Miséria (a penúria em que vive a família): Graciliano Ramos representa com primor a miséria do retirante ao retratar os humanos como bichos e os bichos (a Baleia) como humanos. Fabiano se confunde com um animal por ser bruto, se comunicar com grunhidos, e estar à mercê da natureza (da seca e da chuva). Arbitrariedade (o abuso de autoridade na figura do Soldado Amarelo): Fabiano quer se revoltar contra as injustiças que sofre por parte do patrão e do soldado amarelo, porém, como um animal domesticado, aceita os maus-tratos. As crianças seguem pelo mesmo caminho. Sem educação, aprendem com os pais como viver, ouvindo poucas palavras e levando muitos safanões. Exploração no trabalho (a figura do fazendeiro explorador e do empregado explorado). Corrupção governamental (na figura do cobrador de impostos da prefeitura). Falta de perspectiva de vida. “Governo é governo” Em um dos episódios da obra, Fabiano é preso injustamente pelo Soldado Amarelo e acaba sendo destinado à cadeia. Já em um outro episódio, Fabiano está andando pela caatinga, quando vê o Soldado Amarelo perambulando, completamente perdido. Ao ver essa cena, Fabiano pensa uma maneira de se vingar desse soldado e cogita, inclusive, mata-lo, chegando a pensar onde iria esconder o corpo. No entanto, em um momento de recobrimento de consciência, o pai de família chega à conclusão de que “Governo é governo”, e acaba ajudando o soldado a encontrar o caminho de volta para casa. Esses episódios evidenciam que, de certo modo, há em Fabiano uma vontade de se rebelar contra o sistema – o patrão, ou o Soldado Amarelo -, mas ele acaba se resignando e retornando ao seu lugar de inferioridade, pois sabe que o papel que ele ocupa na sociedade é, de fato, inferior ao ocupado pelo governo ou pelas figuras opressoras citadas. A morte da Baleia “Não se lembrava de Fabiano. Tinha havido um desastre, mas Baleia não atri- buía a esse desastre a impotência em que se achava nem percebia que estava livre de responsabilidades. Uma angústia apertou-lhe o pequeno coração. Precisava vigiar as cabras: àquela hora cheiros de suçuarana deviam andar pelas ribanceiras, rondar as moitas afastadas. Felizmente os meninos dor- miam na esteira, por baixo do caritó onde sinhá Vitória guardava o cachimbo. (…) Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lambe- ria as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes.” (Graciliano Ramos. Vidas Secas) Não há dúvida de que a morte de Baleia se destaca entre os quadros quase autônomos que compõem Vidas secas. O que não é difícil de explicar quando se considera que Graciliano mergulha na psicologia de personagens que a seca e as condições sociais do Nordeste brasileiro situam numa espécie de humanidade rebaixada, faixa entre a condição de bicho e a de gente. A relativa humanização da cachorra tem como contraponto a relativa anima- lização dos personagenshumanos. No capítulo II, feliz por ter conseguido conduzir a família retirante a uma nova fazenda onde os aceitavam, Fabiano diz para si mesmo: “Fabiano, você é um homem”. Mas logo corrige: “Você é um bicho, Fabiano”. Suspeitando que Baleia sofre de hidrofobia, Fabiano decide matá-la. A cama de Em entrevista cedida a respeito da obra Vidas secas, Ricardo Ramos, filho do autor Graciliano Ramos, afirma ter ouvido do pai a afirmação de que Sinhá Vitória já havia se deitado na cama de Seu Tomás da Bolandeira, motivo pelo qual a fez ficar aficionada com o objeto. Para o filho do autor a percepção dessa leitura da mulher de Fabiano é parte da trajetória lite- rária de Graciliano: “Creio que todos nós, perturbados pela literatura, muitas vezes nos inter- rogamos sobre as intenções do autor. Não me refiro às centrais, mais ou menos óbvias, mas às secundárias e, particularmente, àquelas que ficam na sombra e pouco se revelam. Esse lado um tanto obscuro, que na obra de Graciliano é território vasto e a respeito do qual ele falava muito.” Seu tomás de Bolandeira “Outra vez sinha Vitória pôs-se a sonhar com a cama de lastro de couro. Mas o sonho se ligava à recorda- ção do papagaio, e foi-lhe preciso um grande esforço para isolar o objeto do seu desejo.” (Vidas secas) Questoes QUESTÃO 01 Ao se fazer uma análise de Vidas Secas, podemos concluir que: a) O autor faz um uso de um vocabulário rebuscado para retratar a vida da família com maior precisão. b) O livro não apresenta discurso indireto livre, pois a mescla da fala dos personagens com o discurso do narrador confundiria os leitores, deixando o romance difícil de ser compreendido. c) O romance apresenta uma linearidade clara, já que apresenta começo, meio e fim. d) O autor não utiliza muitos adjetivos porque deseja exprimir a aridez do sertão. QUESTÃO 02 (FUVEST) Leia o trecho para responder ao teste. "Fizeram alto. E Fabiano depôs no chão parte da carga, olhou o céu, as mãos em pala na testa. Arrastara-se até ali na incerteza de que aquilo fosse realmente mu- dança. Retardara-se e repreendera os meninos, que se adiantavam, aconselhara-os a poupar forças. A verdade é que não queria afastar-se da fazenda. A viagem pare- cia-lhe sem jeito, nem acreditava nela. Preparara-a lentamente, adiara-a, tornara a prepará-la, e só se resolvera a partir quando estava definitivamente perdido. Podia continuar a viver num cemitério? Nada o prendia àquela terra dura, acharia um lugar menos seco para enterrar-se. Era o que Fabiano dizia, pensando em coisas alheias: o chiqueiro e o curral, que precisavam conserto, o cavalo de fábrica, bom compa- nheiro, a égua alazã, as catingueiras, as panelas de losna, as pedras da cozinha, a cama de varas. E os pés dele esmoreciam, as alpercatas calavam-se na escuridão. Seria necessário largar tudo? As alpercatas chiavam de novo no caminho coberto de seixos." (Vidas secas, Graciliano Ramos) Assinale a alternativa incorreta: a) O trecho pode ser compreendido como suspensão temporária da dinâmica nar- rativa, apresentando uma cena "congelada", que permite focalizar a dimensão psi- cológica da personagem. b) Pertencendo ao último capítulo da obra, o trecho faz referência tanto às con- quistas recentes de Fabiano, quanto à desilusão do personagem ao perceber que todo seu esforço fora em vão. c) A resistência de Fabiano em abandonar a fazenda deve-se à sua incapacidade de articular logicamente o pensamento e, portanto, de perceber a gradual mas inevitá- vel chegada da seca. d) A expressão "coisas alheias" reforça a crítica, presente em toda obra, à marginali- zação social por meio da exclusão econômica. e) As referências a "enterro" e "cemitério" radicalizam a caracterização das "vidas secas" do sertão nordestino, uma vez que limitam as perspectivas do sertanejo pobre à luta contra a morte. QUESTÃO 03 (FUVEST) Um escritor classificou Vidas secas como “romance desmontável”, tendo em vista sua composição descontínua, feita de episódios relativamente independen- tes e sequências parcialmente truncadas. Essas características da composição do livro: a) constituem um traço de estilo típico dos romances de Graciliano Ramos e do Re- gionalismo nordestino. b) indicam que ele pertence à fase inicial de Graciliano Ramos, quando este ainda seguia os ditames do primeiro momento do Modernismo. c) diminuem o seu alcance expressivo, na medida em que dificultam uma visão ade- quada da realidade sertaneja. d) revelam, nele, a influência da prosa seca e lacônica de Euclides da Cunha, em Os sertões. e) relacionam-se à visão limitada e fragmentária que as próprias personagens têm do mundo. QUESTÃO 04 (PUC-SP) O mulungu do bebedouro cobria-se de arribações. Mau sinal, provavel- mente o sertão ia pegar fogo. Vinham em bandos, arranchavam-se nas árvores da beira do rio, descansavam, bebiam e, como em redor não havia comida, seguiam viagem para o Sul. O casal agoniado sonhava desgraças. O sol chupava os poços, e aquelas excomungadas levavam o resto da água, queriam matar o gado. (…) Alguns dias antes estava sossegado, preparando látegos, consertando cercas. De repente, um risco no céu, outros riscos, milhares de riscos juntos, nuvens, o medonho rumor de asas a anunciar destruição. Ele já andava meio desconfiado vendo as fontes min- guarem. E olhava com desgosto a brancura das manhãs longas e a vermelhidão sinis- tra das tardes. (…) O trecho acima é de Vidas Secas, obra de Graciliano Ramos. Dele, é incorreto afir- mar-se que: a) prenuncia nova seca e relata a luta incessante que os animais e o homem travam na constante defesa da sobrevivência. b) marca-se por fatalismo exagerado, em expressão como “o sertão ia pegar fogo”, que impede a manifestação poética da linguagem. c) atinge um estado de poesia, ao pintar com imagens visuais, em jogo forte de cores, o quadro da penúria da seca. d) explora a gradação, como recurso estilístico, para anunciar a passagem das aves a caminho do Sul. e) confirma, no deslocamento das aves, a desconfiança iminente da tragédia, indicia- da pela “brancura das manhãs longas e a vermelhidão sinistra das tardes”. QUESTÃO 05 (UFLA) Sobre a obra Vidas Secas, de Graciliano Ramos, todas as alternativas estão corretas, EXCETO: a) O romance focaliza uma família de retirantes, que vive numa espécie de mudez introspectiva, em precárias condições físicas e num degradante estado de condição humana. b) O relato dos fatos e a análise psicológica dos personagens articulam-se com grande coesão ao longo da obra, colocando o narrador como decifrador dos comportamentos animalescos dos personagens. c) O ambiente seco e retorcido da caatinga é como um personagem presente em todos os momentos, agindo de forma contínua sobre os seres vivos. d) A narrativa faz-se em capítulos curtos, quase totalmente independentes e sem ligação cronológica e o narrador é incisivo, direto, coerente com a reali- dade que fixou. e) O narrador preocupa-se exclusivamente com a tragédia natural (a seca) e a descrição do espaço não é minuciosa; pelo contrário, revela o espírito de sín- tese do autor. QUESTÃO 06 (UEL) O texto abaixo apresenta uma passagem do romance Vidas secas, de Graciliano Ramos, em que Fabiano é focalizado em um momento de preocu- pação com sua situação econômica. Escrito em 1938, esta obra insere-se num momento em que a literatura brasileira centrava seus temas em questões de natureza social. "Se pudesse economizar durante alguns meses, levantaria a cabeça. Forjara planos. Tolice, quem é do chão não se trepa. Consumidos os legumes, roídas as espigas de milho, recorria à gaveta do amo, cedia por preço baixo o produto das sortes. Resmungava, rezingava, numa aflição, tentando espichar os recur- sos minguados, engasgava-se, engolia em seco." (In: RAMOS, Graciliano. Vidas secas. 55. ed. Rio de Janeiro: Record, 1991.) Sobre este trecho do romance, somente está INCORRETO o que se afirma na alternativa: a) Este trecho resume a situação de permanentepobreza de Fabiano e revela-- se como uma crítica à economia brasileira e às relações de trabalho que vigo- ravam no sertão nordestino no momento em que a obra foi criada. Isso pode ser confirmado pelas orações: "... Consumidos os legumes, roídas as espigas de milho, recorria à gaveta do amo, cedia por preço baixo o produto das sortes...." b) A oração: "Se pudesse economizar durante alguns meses, levantaria a cabeça" tanto pode ser o discurso do narrador que revela o pensamento de Fabiano, quanto pode ser o próprio pensamento dessa personagem. Esse modo de narrar também ocorre com as demais personagens do romance. c) A oração: "... Resmungava, rezingava, numa aflição, tentando espichar os recursos minguados, engasgava-se, engolia em seco" indica a voz do narrador em terceira pessoa, ao mostrar o estado de agonia em que se encontra a per- sonagem. d) A expressão “Forjara planos”, típica da linguagem culta, é seguida no texto por um provérbio popular: “quem é do chão não se trepa”. Essa mudança de registro lingüístico é reveladora do método narrativo de Vidas secas, que su- bordina a voz das classes populares à da elite. e) O texto tem início com a esperança de Fabiano de mudanças em sua situa- ção econômica; a seguir, passa a focalizar a realidade de pobreza em que a personagem se encontra, e finaliza com sua revolta e angústia diante da con- dição de empregado, sempre em dívida com o patrão. QUESTÃO 07 (ACAFE / SC) A vida na fazenda se tornara difícil. Sinha Vitória benzia-se tre- mendo, manejava o rosário, mexia os beiços rezando rezas desesperadas. En- colhido no banco do copiar, Fabiano espiava a catinga amarela, onde as folhas secas se pulverizavam, trituradas pelos redemoinhos, e os garranchos se tor- ciam, negros, torrados. No céu azul, as últimas arribações tinham desapareci- do. Pouco a pouco os bichos se finavam, devorados pelo carrapato. E Fabiano resistia, pedindo a Deus um milagre. De acordo com o fragmento acima, é incorreto o que se afirma em: a) Tanto Sinha Vitória quanto Fabiano tinham fé na providência divina. b) O enfoque é narrativo. c) O que se relata ao longo do parágrafo tem o objetivo de confirmar a afirma- ção da primeira frase. d) Há evidências de que Sinha Vitória e Fabiano estão fragilizados, pois ela "benzia-se tremendo" e ele estava "encolhido na banco do copiar". e) O tema predominante é a indagação metafísica sobre a existência (inexis- tência) de Deus. QUESTÃO 08 (ACAFE / SC) Baleia queria dormir. Acordaria feliz num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes. (Graciliano Ramos) Sobre o texto acima, é correto afirmar que: a) há marcas próprias do chamado discurso direto através do qual são repro- duzidas as falas das personagens. b) o narrador é observador, pois conta a história de fora dela, na terceira pessoa, sem participar das ações, como quem observou objetivamente os acontecimentos. c) quem conta a história é uma das personagens, que tem uma relação íntima com as outras personagens, e, por isso, a maneira de contar é fortemente mar- cada por características subjetivas, emocionais. d) evidencia-se um conflito entre a protagonista Baleia e o antagonista Fabia- no, pois este impede que a cadela possa caçar os preás. e) o narrador é onisciente, isto é, geralmente ele narra a história na terceira pessoa, sabe tudo sobre o enredo e sobre as personagens, inclusive sobre suas emoções, pensamentos mais íntimos, às vezes, até dimensões inconscientes. QUESTÃO 09 (ACAFE / SC) Sobre a obra Vidas secas, é correto afirmar que: a) a preocupação com a fidedignidade histórica e com o tom épico atenua o senti- mento dramático da vida, habitualmente presente nos poemas do autor. b) apresenta temática indianista, a exemplo do que fizera Gonçalves Dias em Os timbiras e Canção do tamoio. c) as personagens humanas, em razão da seca, da fome, da miséria e das injustiças sociais, animalizam-se; em contrapartida, os bichos humanizam-se. d) Chico Bento, antes da seca, não era vagabundo, nem bandido; era um trabalha- dor rural. e) narra a história de um burguês, Paulo Honório, que passara da condição de cai- xeiro-viajante e guia de cego à de rico proprietário de uma fazenda. Para atingir seus objetivos, o protagonista elimina todos os empecilhos que se colocam à sua frente, inclusive pessoas. QUESTÃO 10 (ACAFE / SC) Analise as afirmações abaixo. (I) "Será um romance? É antes uma série de quadros, de gravuras em madeira, talhadas com precisão e firmeza." (II) "Construído como uma longa narrativa oral, o romance tem como persona- gem-narrador Riobaldo, um velho fazendeiro, que já foi homem de letras e de armas e que vive às margens do rio São Francisco." (III) "Com a análise psicológica do universo mental das personagens, que expõe por meio do discurso indireto livre, o narrador nos vai decifrando a sua humanidade embotada, confundida com a paisagem áspera do sertão, neste romance que transcende o regionalismo e seu contexto específico." (IV) "Emprestando dinheiro a juros, negociando de arma engatilhada no sertão, passando fome e sede, [o protagonista] consegue acumular algum capital e com ele volta para a sua terra, no município de Viçosa, Alagoas, onde ficava a proprieda- de." (V) "O tema do poema é o itinerário do retirante nordestino, que parte do sertão paraibano em direção ao litoral, em busca de sobrevivência, devido à seca e às pre- cárias, senão insustentáveis, condições de vida da maioria da população. Todas as afirmações que se referem à obra Vidas Secas, de Graciliano Ramos, estão relacionadas em: a) I - III b) II - IV - V c) III - V d) II - III - IV e) I - II - IV QUESTÃO 11 (UNIARAXÁ) Leia o fragmento abaixo transcrito da obra Vidas Secas e res- ponda a questão a seguir. Vivia longe dos homens, só se dava bem com animais. Os seus pés duros quebravam espinhos e não sentiam a quentura da terra. Montado confun- dia-se com o cavalo, grudava-se a ele. E falava uma linguagem cantada, monossilábica e gutural, que o companheiro entendia. A pé, não se agüen- tava bem. Pendia para um lado, para o outro lado, cambaio, torto e feio. Às vezes, utilizava nas relações com as pessoas a mesma língua com que se dirigia aos brutos – exclamações, onomatopéias. Na verdade falava pouco. Admira as palavras compridas e difíceis da gente da cidade, tentava reprodu- zir algumas em vão, mas sabia que elas eram inúteis e talvez perigosas. (Gra- ciliano Ramos) O texto, no seu conjunto, enfatiza: (A) A pobreza física do personagem. (B) A falta de escolaridade do personagem. (C) A miséria moral do personagem. (D) A identificação do personagem com o mundo animal. (E) N.D.A Gabarito: 1D; 2C; 3E; 4B; 5E; 6D; 7E; 8E; 9C; 10A; 11D.