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TEXTOS DISCUTÍVEIS – 8 - Avaliação - Pedro Demo (2010) Eis um dos temas mais controversos em educação. Muitos professores já não avaliam os alunos, praticando a progressão automática tranquilamente, em nome de “não reprovar” (Paro, 2001. Luckesi, 1996). Não se entendeu que, para não reprovar, avaliar bem é condição fundamental, desde que se pratique um estilo de avaliação comprometido com a aprendizagem do aluno (Fernandes, 2009. Sanmartí & Lima, 2009). É crucial que o aluno não seja reprovado – é direito dele avançar série a série, completando a todas – mas isto precisa ocorrer em nome do direito de aprender bem (Demo, 2008). O questionamento da avaliação é sempre necessário, não só porque avaliação serve a todos os desmandos possíveis e imagináveis, mas principalmente porque avaliar é proposta sempre ambígua, incompleta, discutível (Hoffmann, 2001; 2005; 2008). Qualquer avaliação, por maior que seja sua boa intenção, também faz alguma injustiça, poderia ser feita de outro modo, não contempla a complexidade inteira das “vítimas”, instila superioridade do avaliador, etc. Defender e questionar a avaliação é o que me proponho neste texto. I. AVALIAR É NECESSÁRIO E NORMAL Antes, gostaria de propor que avaliar, em sociedade, é procedimento normal, ainda que, muitas vezes, odioso. Em termos lógicos e linguísticos, a “distinção” dá o passo inicial: sem distinguir, classificar, definir, identificar não temos como lidar com a realidade. Por isso damos um nome a cada pessoa, para que se distinga (Poerksen, 2004). No axioma de Maturana: o que se diz é dito por um observador que só pode observar a partir de distinções (Poerksen, 2004). Este processo de observação é natural, próprio da lógica e da linguística. Distinguir pode também ser, no entanto, estigmatizar. Em sociedade, avaliar, classificar, distinguir pode sempre deter postulações de poder: homem e mulher são, em parte, diferentes, distintos; que diferenças se tornem desigualdade é, para além dos aspectos formais, uma questão social. Neste sentido, avaliar em sociedade admite gama infinita de posicionamentos, desde os mais simples e despreocupados, até os mais complexos e agressivos, expressando duramente o jogo de poder. Avaliar é ato de poder, pois implica o poder de distinguir, julgar, preferir, classificar, decidir. Quando atravessamos a rua, avaliamos o momento mais adequado – este tipo de avaliação não coloca necessariamente a questão social, assim como na alimentação avaliamos o que nos caberia melhor, em especial se estamos acima do peso. Mas, decidir se o aluno progride na escola implica, inevitavelmente, relação explícita de poder: o professor pode reprovar. Esta avaliação permeada da dinâmica do poder também é “normal”, porque é normal em sociedade avaliar e ser avaliado. Não quer dizer que seja algo bem-vindo. Mas é procedimento comum, que biólogos constatam também em sociedades animais (Dugatkin, 1999). A vida em sociedade implica “scorekeeping” (manutenção de classificações hierárquicas), algo que a estatística hoje também reconhece com a “power law”: redes sociais não se organizam através da distribuição normal (curva Bell), mas em torno de nódulos concentrados (Shirky, 2003). Em sociologia diríamos que a relação social é dialética, polarizada, nunca apenas justaposta, ou seja, unidade de contrários (Demo, 2002). Por isso mesmo, em sociologia não se aceita facilmente a proposta de Habermas da comunicação não estratégica (1989), porque toda comunicação é processo polarizado: nele não apenas se fala, conversa; também se influencia. Hoje em dia, esta unidade de contrários tornou-se um pouco mais visível no reconhecimento de igualdades e diferenças: as pessoas não querem ser apenas iguais; querem ser também diferentes, em nome de sua identidade. Por exemplo, culturas seriam apenas diferentes, em nome da identidade de cada qual. Quando se defrontam, constroem linhas de força, fazendo das diferenças também desigualdades, à medida que algumas culturas se querem/fazem superiores. O feminismo também chegou a esta conclusão: antes, pretendia-se igualdade a qualquer preço, por conta do passado patriarcal violento e excludente; agora, ao lado da igualdade, pleiteia-se, não menos, o respeito às diferenças. Deixando de lado essas “filosofadas”, o que importa é averiguar que o processo avaliativo é normal em sociedade, por mais que possa sempre ser odioso. Os alunos classificam seus professores naturalmente, declaram suas preferências e repulsas, veem uns como importantes e outros como peso morto, assim como, entre si, também constroem trama classificatória, por vezes, dura. Disto gostaria de concluir que, sendo avaliar procedimento normal, é melhor discutir modos mais aceitáveis de avaliação, do que simplesmente pretender extirpar. Note-se que a atitude de extirpação da avaliação resulta da avaliação: avalia-se que certa maneira de avaliar não cabe... Não se trata, pois, de acabar com classificações – faz parte do próprio pensamento humano – mas de discutir que classificações caberiam, poderiam ser menos deletérias, ou poderiam ser fomentadas. Em botânica, classificar plantas é essencial, porque é a maneira de poder lidar com elas com algum conhecimento de causa. Na sala de aula, há que classificar alunos com necessidades especiais, bem como aqueles que se apresentam como candidatos à reprovação, não necessariamente para humilhar, excluir, mas ao contrário: para garantir seu direito de aprender. Toda mãe classifica seus filhos, um é mais independente, outro é mais sensível, ainda outro é “casca grossa”, reconhecendo que, de fato, mesmo sendo iguais por provirem da mesma mãe, são no fundo incrivelmente diferentes. Para lidar bem com eles, esta classificação é decisiva. Não faltam, porém, classificações odiosas, em especial na escola. Primeiro, aparece a classificação feita para orientar a reprovação, implicando que este processo de avaliação é marcado pela exclusão. O avaliador não tem em mente garantir o direito do aluno de aprender bem, mas de calçar sua autoridade de reprovação. Segundo, usa-se avaliação para confrontar os alunos com o professor e entre si, exacerbando a competitividade. Este efeito aparece também nas avaliações oficiais (do MEC, por exemplo), porque, classificando escolas, estados, municípios impõem-se comparações. Terceiro, comparece a nota como arma docente. Mesmo assim, dar nota, classificar, comparar podem ser procedimentos satisfatórios, dependendo de sua intenção e prática concreta. Pode-se dar nota, não porque nota seja coisa sagrada – muito ao contrário – mas porque poderia ser vista como iniciativa mais clara em qualquer escala de aproveitamento escolar: números são claros, conceitos são difusos. Ao atribuir nota dois a um aluno, posso fazer para visualizar tanto mais claramente a situação dele, ou seja, que não está aprendendo minimamente, resultando apenas o compromisso de intervir em favor do aluno. Concretamente, o aluno precisa sair de dois, subir até chegar a dez. Permite monitorar melhor o processo. Preferir classificações numéricas pode significar apenas melhor condição de manuseio, como é o caso dos exames de laboratório (medicina): não vêm em conceitos, vêm em números. Dizer que o colesterol não está bom, é muito vago; dizer que está em 300 (100 acima do normal), as coisas ficam terrivelmente mais claras! Só isso, em princípio. De certa forma, muitas vezes reconhecemos que nota é “menos pior”. Avaliar é desafio complicado e complexo, razão pela qual só pode ser enfrentado por expertos devidamente qualificados. Diagnóstico médico é condição sine qua non de qualquer intervenção, como é na escola também: o professor que assume o compromisso de garantir a aprendizagem do aluno, necessita avaliar todo dia, monitorar o processo passo a passo, ter a turma na mão, saber indicar quem vai bem e quem vai mal, e assim por diante. Muitas avaliações são mal feitasporque o professor não tem formação adequada, em especial ainda não descobriu que avaliar é função da aprendizagem, não da disciplina e autoridade. Professores bem formados sabem ser flexíveis na avaliação, usando-a não só para classificar, mas igualmente para promover (Hoffmann, 2001), desde que não seja fraudulenta, como é a progressão automática. II. TRANSPARÊNCIA Atrapalha muito a avaliação escolar sua falta de transparência. Muitos alunos mantêm em suas cabeças que se trata de procedimento oculto, fechado a sete chaves, indiscutível. Professor é absoluto, tanto assim que não cabe questionar a nota. Seria fundamental levar em conta que toda avaliação é incompleta, reducionista, estilizada, sem falar que avaliar outras pessoas é sempre risco enorme. Aplicando a nota dois a um aluno, ela é frontalmente reducionista, primeiro, porque aprendizagem não se pesa a quilo, segundo, porque nenhum aluno é um “dois”, e terceiro, porque pode facilmente ter sido mal feita. Neste sentido, é essencial manter processos avaliativos abertos, discutíveis. Avaliar o aluno precisa admitir a tessitura do diálogo franco e não ofensivo, feito para que o professor possa colaborar ainda mais decisivamente com a aprendizagem discente. É importante que o aluno possa arguir a nota, não desabridamente, ou de modo provocativo, mas para poder entender melhor e também poder usar esta avaliação como ocasião para progredir. Muitos professores, porém, não saberiam admitir o questionamento de suas avaliações, porque lhes parece perda irreparável de autoridade. É uma pena, porque esses professores ainda são do tempo do “argumento de autoridade” – o que o professor fala é indiscutível. No tempo da “autoridade do argumento”, vale a qualidade da argumentação, não a posição de autoridade (Demo, 2005). Pode-se, pois, falar de “democracia da avaliação” e que implica, entre outras coisas: a) Avaliar o avaliador – avaliador que não é avaliado tende à prepotência, esquecendo que se tornou avaliador por ter sido (e ser mantido) avaliado; em medicina, tornou-se comum procurar mais que um diagnóstico, em especial em doenças mais graves e complicadas, e isto é fomentado pelos próprios médicos; b) O avaliado precisa poder entender o processo, para não se sentir vítima; precisa, ainda, poder recalcitrar, no sentido de reagir (com bons modos, é claro); por isso, hoje se dá para “entrevistas” um peso bem menor (seleção de candidatos à pós-graduação, por exemplo), por ser muito subjetivas e permitir aos avaliadores manipular mais ou menos à vontade; exige-se que os critérios sejam mais “objetivos”, como seria um projeto elaborado de pesquisa; c) Os critérios carecem ser transparentes, o que poderia evitar discussões sem fim sobre problemas obtusos e inventados, como sobre nota, conceito, relatório, etc.; o mais importante é a transparência, já que podemos imaginar infinitas formas de avaliar, todas com vantagens e desvantagens; não há forma canônica, perfeita – todas são problemáticas, porque é sempre “problemático” avaliar; critérios transparentes não desfazem o problema, mas acalmam os ânimos; d) Na escola toda prova poderia ser refeita, sem incidir em nota intocável; se avaliação só tem sentido para garantir a aprendizagem do aluno, prova mal feita deve poder ser refeita, com o intuito de melhorar; nota “definitiva” é fetiche: assim como foi “inventada” pelo professor, pode também ser “desinventada”; nota não é arma, é apenas critério classificatório subordinado ao compromisso pedagógico; e) Avaliação precisa apresentar-se como procedimento “pedagógico”, ou seja, é modo de formar os alunos, não de os perturbar, humilhar, pressionar; faz parte do pedagogo saber avaliar, usando isso como diagnóstico e base de intervenção, sempre no sentido formativo; f) Toda avaliação é discutível, não só por conta de sua complexidade e risco, mas principalmente porque, sendo construção do professor de teor interpretativo, não tem como pleitear reconhecimento submisso. Poderia auxiliar na transparência de procedimentos, a informatização da avaliação, dando acesso diferenciado aos interessados. Seguindo a proposta do Ideb de cuidar de aluno por aluno, seria viável ter, para cada aluno, um gráfico que se movimenta mês a mês, alimentado por processos avaliativos sistemáticos. Antes, é mister estruturar este procedimento avaliativo, de maneira acurada, estatisticamente adequada, de tal sorte que os dados sejam minimamente aceitáveis. Depois, é preciso um programa de computador que, alimentado mês a mês, gere gráficos de cada aluno. Algumas pessoas poderiam ver o processo inteiro, outras menos, mas isto permitiria que os pais, a sociedade, os políticos poder acompanhar a progressão escolar de maneira informatizada. Este procedimento poderia resultar em benefícios interessantes: tornando-se pública a avaliação, tenderia a aprimorar sua qualidade; professores que não conseguem aprendizagem adequada reiteradamente deveriam tomar alguma providência ou ser alvo de providência; escolas com aprendizagem sempre precária deveriam também ser responsabilizadas. Esta informatização poderia contribuir para o “controle democrático” da escola. Entende-se que escolas e professores sejam contrários, porque inevitavelmente estarão expostos. Este temor não cabe, porque, sendo a escola entidade pública, precisa estar exposta. É direito da sociedade saber o que acontece na escola. Faz parte da cidadania. O problema é que escola e professores não estão habituados a sofrer pressão da sociedade, porque se concebem acima dela. Esta impunidade poderia acabar. Existe, porém, sempre o risco de abuso, pois avaliar abusivamente é o que mais existe em processos avaliativos. Escolas e professores podem sofrer pressões excessivas, bem como ser conduzidas a “aprovar” todo o mundo, para satisfazer à expectativa da sociedade. No entanto, se o processo avaliativo for honesto e tecnicamente qualitativo, isto se torna praticamente inviável. Aluno que aprende mal vai aparecer e, aí, é possível praticar intervenções que garantam seu direito de aprender. PARA CONCLUIR Sobre tema tão complexo e árduo pode-se escrever sem parar. Passou, em parte pelo menos, o tempo em que somente se falava mal da avaliação. Dizia-se que era coisa neoliberal. Agora percebe-se que, mesmo sendo facilmente trambique neoliberal, avaliar é imprescindível para cuidar da aprendizagem dos alunos. Discute-se, então, mais como fazer de maneira adequada, pedagógica, do que como evitar e maldizer. Ao mesmo tempo, o MEC tem produzido sistemas abrangentes e exigentes de avaliação, disseminando a ideia de sua conveniência. Não temos avaliado o avaliador. O MEC avalia a seu modo, usando seu direito constitucional de avaliar, mas dificilmente nos pomos a avaliá-lo, mesmo que nos declaremos instatisfeitos. Poderíamos aprimorar muito os processos avaliativos, se fossem discutidos com transparência. BIBLIOGRAFIA DEMO, P. 2002. Introdução à Sociologia – Complexidade, interdisciplinaridade e desigualdade social. Atlas, São Paulo. DEMO, P. 2005. Argumento de Autoridade X Autoridade do Argumento. Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro. DEMO, P. 2008. Aprender Bem/Mal. Autores Associados, Campinas. DUGATKIN, L. 1999. Cheating Monkeys and Citizen Bees – The nature of cooperation in animals and humans. Harvard University Press, Massachusetts. FERNANDES, D. 2009. Avaliar para Aprender. Unesp, São Paulo. HABERMAS, J. 1989. Consciência Moral e Agir Comunicativo. Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro. HOFFMANN, J. 2001. Avaliar para Promover - As setas do caminho. Editora Mediação, Porto Alegre. HOFFMANN, J. 2005. O Jogo do Contrário em Avaliação. 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