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Profª. Gabriela Dalcin Durante Fisiopatologia e Dietoterapia ii GLOMERULOPATIAS GLOMERULOPATIAS Também chamadas síndromes glomerulares ou “glomerulonefrites” São doenças que acometem os glomérulos, portanto, a ultrafiltração do plasma São doenças muito variadas, algumas de natureza aguda, outras de curso crônico; umas de caráter eminentemente inflamatório, outras não; algumas sabidamente tratáveis, outras não. Classificação Primária: doenças originárias do rim (causa genética e/ou imunológica, tais como a Glomerulonefrite membranosa, glomeruloesclerose segmentar e focal, etc.) Secundária: decorrente de doenças sistêmicas como nefrite lúpica (LES), nefroesclerose diabética (diabetes), infecções, hepatites, etc. Glomerulopatias Independentemente do mecanismo da lesão envolvido, a lesão glomerular é acompanhada por alterações na função, estrutura e permeabilidade do glomérulo, levando à: Passagem anormal de proteínas e de outros elementos Redução variável na função de filtração glomerular Distúrbios na excreção de sódio e água Consequências da agressão glomerular proteinúria: decorrente do aumento de permeabilidade glomerular; hematúria: decorrente da inflamação da parede capilar; elevação de ureia e creatinina: decorrente da queda no ritmo de filtração glomerular; oligúria ou anúria: a depender da intensidade da inflamação glomerular e queda do ritmo de filtração glomerular; hipertensão: decorrente, habitualmente, da retenção de fluido (sal e água) pelo rim. Apresentações clínicas Dependendo da intensidade e do tipo de agressão, pode haver predomínio de um sinal sobre o outro, originando diferentes apresentações clínicas: Síndrome nefrítica Síndrome nefrótica SÍNDROME NEFRÍTICA Caracteriza-se por início súbito (agudo), com os seguintes sinais clínicos: Não é essencial que todas essas alterações ocorram simultaneamente, mas está sempre presente a hematúria, associada a pelo menos uma das outras anormalidades. hematúria, edema e hipertensão arterial (tríade) proteinúria pouco intensa (< 3 g/dia) oligúria déficit de função renal em graus variáveis Síndrome nefrítica A síndrome nefrítica é a forma de exteriorização de doenças que produzem inflamação glomerular aguda. As principais causas são: nefrite lúpica, nefropatia por IgA, glomerulonefrite difusa aguda pós-estreptocócica (GNDA). glomerulonefrite difusa aguda pós-estreptocócica (GNDA) A apresentação clássica da síndrome nefrítica é vista na glomerulonefrite difusa aguda pós-estreptocócica (GNDA) em crianças. A GNPE caracteriza-se, fundamentalmente, por processo inflamatório que acomete todos os glomérulos de ambos os rins. É considerada sequela tardia de infecções por Streptococcus beta-hemolíticos do grupo A cepa nefritogênica Faringite e impetigo (Incidência: 5% a 10% dos infectados) Comum em escolares (6 a 8 anos) e raro antes de 2 anos. Acomete mais meninos. GNDA Pós-estreptocócica Sinais: hematúria, oligúria, ganho de peso e edema generalizado de apresentação aguda (poucos dias). Manifestam-se 10 a 20 dias (no máximo 6 semanas) após a infecção estreptocócica. Queixas (sintomas): Na maior parte dos casos, o estado geral da criança está pouco comprometido e as queixas são vagas como: indisposição, inapetência, cefaleia, edema periorbital. A intensidade do edema é variável, em geral leve. TRATAMENTO da síndrome nefrítica Repouso: recomendado enquanto persistirem edema e hipertensão ou na vigência de complicações. Tratamento medicamentoso: antibióticos (a depender da causa), diuréticos, anti-hipertensivos, entre outros (de acordo com a sintomatologia) TRATAMENTO da síndrome nefrítica Medidas dietéticas (dependendo da sintomatologia: Restrição hídrica: é importante na fase de hipervolemia e oligúria. Recomenda-se administrar o volume correspondente às necessidades mínimas basais (em geral 20ml – 30 ml/Kg) ou 400ml/m2 da superfície corpórea (SC), acrescidos de volume igual ao da diurese Cálculo da superfície corporal http://arquivos.sbn.org.br/equacoes/eq6.htm TRATAMENTO da síndrome nefrítica Restrição de sódio: limitada à fase de oligúria, edema e hipertensão. Em geral, na ultrapassar 2.000 mg/dia (5g de NaCl sal) Restrição de potássio: está indicada apenas nos casos de oligúria importante (diurese < 240ml/m2 superfície corporal/dia) Restrição proteica: somente nos casos em que há intensa redução do ritmo de filtração glomerular. Manter uma dieta normoproteica (0,8 a 1,0 g/kg/dia para adultos e 1,0 a 2,0 g/kg/dia para crianças) Prognóstico da síndrome nefrítica Excelente após fase aguda 95% recuperação glomerular total Adultos com pior prognóstico outros fatores associados Acompanhamento ambulatorial longo prazo PA, Função Renal, Proteinúria, Hematúria. SÍNDROME NEFRÓTICA Conjunto de sinais e sintomas decorrentes do aumento da permeabilidade renal à filtração de proteínas Etiologia (95% dos casos) Primária alterações mínimas, nefropatia membranosa, glomeruloesclerose segmentar e focal e glomerulonefrite membranoproliferativa Secundária diabetes, lúpus eritematoso sistêmico e amiloidose Amiloidose é o acúmulo proteico anormal em diversos órgãos e tecidos celulares. Pode ser de origem genética (primária) ou consequência de doenças inflamatórias (secundária). Frequentemente afeta o coração, rins, fígado, baço, sistema nervoso e do trato gastrointestinal prejudicando sua função. 15 Síndrome nefrótica Prevalência 16 casos/100.000 crianças Faixa etária 60% 2-6 anos Sexo meninos 3:2 Sinais clássicos da S. Nefrótica A alteração na permeabilidade da membrana glomerular leva a: proteinúria maciça (> 3,5 g/dia) especialmente albumina hipoalbuminemia (albumina < 3 g/dL) edema periférico hiperlipidemia (70 a 100% dos casos) lipidúria. Fisiopatologia da sn Hipótese clássica ou underfill de formação do edema na síndrome nefrótica. FISIOPATOLOGIA DO EDEMA Albuminúria Hipoalbuminemia Redução da pressão oncótica do plasma Translocação do líquido do espaço intravascular para o espaço intersticial Diminuição do volume sanguíneo arterial efetivo Ativação do SRAA e do SN Simpático Retenção (reabsorção) de água e sódio pelo rim EDEMA Edema de membros inferiores Edema periorbital/facial Alterações no metabolismo dos lipídios Ainda muito controverso, mas acredita-se que basicamente dois mecanismos contribuem para a dislipidemia na SN: Produção hepática elevada de lipoproteínas; Redução da retirada de triglicerídeos e colesterol, especialmente VLDL (lipoproteína de muito baixa densidade) e LDL-colesterol (proteína de baixa densidade) dos vasos periféricos. Alterações no metabolismo dos lipídios Essa redução do clearance decorre de: Diminuição da atividade da lipase lipoproteica no endotélio dos vasos devido à hipoalbuminemia; Alterações na estrutura das lipoproteínas devido à proteinúria (acredita-se que são perdidas apoproteínas importantes desse transporte) Elevação da concentração sanguínea de LDL-colesterol, VLDL e triglicerídeos. HDL-colesterol = níveis normais ou levemente reduzidos QUADRO CLÍNICO Sinais: Edema matinal palpebral, edema MMII, ascite, derrame pleural, urina com espuma (perda de proteínas) Exames laboratoriais: Sangue: Hipoalbuminemia: < 2,5g/dl Hiperlipidemia (Elevação isolada do CT ou CT + TG, com HDL-c geralmente normal) Ureia e creatinina normais Urina: Proteinúria maciça (> 3,5g/dia) e lipidúria SÍNDROME NEFRÓTICA X NEFRíTICA Parâmetro Síndrome nefrótica Síndrome Nefrítica Tríade de sintomas Edema Hipoalbuminemia Proteinúria Edema Hipertensão Hematúria Antecedente estreptocócico Não Sim Edema ++++ ++ Pressão Arterial Normal Alta Proteinúria ++++ + ou ++ Hematúria - ou + +++ Albumina sérica Baixa Normal Recidivas (em geral) Sim Não TRATAMENTO da síndrome nefrótica Medidas gerais: Evitar repouso no leito Dietoterapia Medicamentoso: Antibiótico profilático se ascite Diuréticos: edema importante hemodinamicamente estáveis albumina > 1,8g/dl furosemida ou espironolactona TRATAMENTO da síndrome nefróticaMedicamentoso específico: Prednisona por 6 semanas + 4 semanas (medicamento em dias alternados) e com reduções graduais de 15/15 dias Sem resposta em 4 semanas pulsoterapia : metilprednisolona 6 pulsos (mínimo 3 e máximo 8) Sem resposta córticorresistente Resposta terapêutica Classificação Critério Remissão Ausência de proteinúria por 3 dias Recidiva Retorno da proteinúria após 1 semana Corticossensibilidade Resposta à prednisona em até 8 semanas Recidiva frequente 2 recidivas em 6 meses ou 5 em 18 meses Corticodependência Duas recidivas durante a retirada do corticoide ou duas semanas após a retirada Corticoresistência Ausência de remissão após período com dose apropriada PROGNÓSTICO Maioria corticossensível 1/3 episódio único 1/3 recorrências ocasionais 1/3 córticodependente Atividade tende a diminuir após adolescência Córticorresistentes pior prognóstico (17%) pode evoluir para insuficiência renal Dietoterapia na síndrome nefrótica Objetivos: Diminuir a proteinúria Retardar a velocidade de progressão da doença renal Auxiliar no controle das dislipidemias Minimizar o edema Repor nutrientes perdidos na urina Evitar a desnutrição Avaliação do estado nutricional Paciente edemaciado: mascaramento do real estado nutricional Utilizar o peso seco estimado (ou “peso livre de edema”) Estimativa de edema em adultos (Materese, 1997) Subtrair do peso atual aferido de adultos Avaliação nutricional História nutricional detalhada Anamnese alimentar antes e após a doença (focando especialmente nas fontes proteicas da alimentação e no consumo de alimentos ultraprocessados); Sintomas gastrointestinais Exame físico: Especialmente em relação ao edema! DIETOTERAPIA ENERGIA: 30 a 35 Kcal/kg/dia para adultos 100 a 150kcal/kg/dia para crianças CARBOIDRATOS: Preferência por CHO complexos (amidos) DIETOTERAPIA IMPORTANTE! A corticoterapia a médio e longo prazos prejudica o crescimento das crianças, mas estimula o apetite (também no adulto), o que pode causar a obesidade e ser necessário o controle da ingestão calórica. Se houver necessidade de perda de peso, esta deve ser lenta e cuidadosa, recomendando-se de 1 a 2 kg por semana. DIETOTERAPIA PROTEÍNAS - SEM CONSENSO! A ingestão elevada de PTN NÃO é recomendada: Não ocorre aumento expressivo dos níveis de albumina Pode aumentar o dano à membrana basal glomerular e a perda de albumina Pode acelerar a progressão da nefropatia A qualidade da proteína parece ser mais importante que a quantidade total, embora o objetivo seja evitar seu excesso. A proteína animal parece exercer efeitos deletérios sobre a função renal Recomenda-se o uso de proteína vegetal DIETOTERAPIA PROTEÍNAS - SEM CONSENSO! A dieta hipoproteica NÃO é recomendada: Perda de massa muscular e desnutrição; Alterações decorrentes da deficiência de proteínas essenciais; Dificuldade de aderência a longo prazo e o custo elevado dos suplementos de aminoácidos essenciais ou cetoácidos. DIETOTERAPIA PROTEÍNAS Dieta normoproteica Adultos: 0,8 a 1,0g ptn/Kg/dia Crianças: 1,0 a 2,0 g ptn/Kg/dia Qualidade: 60 a 70% na forma de proteínas de AVB (carne, ovos e produtos lácteos). Não é recomendada uma dieta vegana! 30 a 40% na forma de proteína vegetal OBS: usar o peso seco para o cálculo dietoterapia LIPÍDIOS Em casos de remissão em curto prazo: Tratamento da hiperlipidemia é objetivo secundário (aconselhamento nutricional) Quando o quadro é crônico: Dieta + Medicamento (estatinas) devido ao risco cardiovascular Dependendo do grau de hiperlipidemia: No máximo 30% do VET Menos de 10% na forma de AG saturados Menos de 200 mg colesterol/dia As medidas não farmacológicas, em geral, não reduzem mais que 25% o LDL-c, apesar de elevarem o HDL-c (como no caso dos exercícios físicos) e de promoverem outros efeitos metabólicos benéficos. Priorizar a redução da proteinúria! DIETOTERAPIA SÓDIO: Ingestão recomendada: cerca de 3g de NaCl (sal)/dia (1200mg Na) Na fase aguda pode ser necessária restrição mais severa (dieta assódica) Se houver controle da proteinúria e redução do edema = NÃO restringir sódio e líquidos POTÁSSIO Pode ocorrer hipo ou hiperpotassemia dependendo do diurético em uso controlar consumo de fontes alimentares DIETOTERAPIA VITAMINA D E CÁLCIO Baixa absorção intestinal de Ca + Corticoterapia = Perda óssea prevenível pela suplementação de Vit. D Crianças = Suplementação de Vitamina D e Cálcio FERRO: deve ser suplementado somente em caso de deficiência DIETOTERAPIA FIBRAS: O consumo adequado de fibras alimentares deve ser incentivado, já́ que foi demonstrado um efeito positivo na excreção intestinal do colesterol e dos ácidos biliares com sua suplementação. *20 a 30 g por dia LÍQUIDOS: Em geral, não há necessidade de restrição, mas isto depende da sintomatologia. Necessidade hídrica (Holliday e Segar, 1957) Crianças: Adultos: 30 a 40 ml/Kg/dia RESUMO Recomendações diárias de nutrientes na síndrome nefrótica. (Riella, 2013) DIETOTERAPIA A anorexia pode ser comum nesses pacientes associada às restrições dietéticas desnutrição! Então: Educação alimentar e nutricional Estímulo/apoio Variedade de alimentos e dos temperos Apresentação atraente Referências Riella e Martins, 2013 Cuppari et al., 2013 Oliveira e Silva, 2018