Prévia do material em texto
TEORIA E PRÁTICA EM GEOGRAFIA: A NECESSIDADE DE PENSAR/EXERCITAR A TRANSPOSIÇÃO DIDÁTICA DE CONTEÚDOS EM GEOGRAFIA Glaucio José Marfon Através do parecer CNE/CP 28/2001 ficou estabelecido que a prática como componente curricular fosse parte integrante dos cursos de formações de professores no Brasil, assim para o CNE a prática como componente curricular “é, pois, uma prática que produz algo no âmbito do ensino. Sendo a prática um trabalho consciente cujas diretrizes se nutrem do Parecer 9/2001 ela terá que ser uma atividade tão flexível quantos outros pontos de apoio do processo formativo, a fim de dar conta dos múltiplos modos de ser da atividade acadêmica científica. Assim, ela deve ser planejada quando da elaboração do projeto pedagógico e seu acontecer deve se dar desde o início da duração do processo formativo e se estender ao longo de todo o seu processo. Em articulação intrínseca com o estágio supervisionado e com as atividades de trabalho acadêmico, ela concorre conjuntamente para a formação da identidade do professor como educador. Esta correlação teoria e prática é um movimento contínuo entre saber e fazer na busca de significados na gestão, administração e resolução de situações próprias do ambiente da educação escolar. A prática, como componente curricular, que terá necessariamente a marca dos projetos pedagógicos das instituições formadoras, ao transcender a sala de aula para o conjunto do ambiente escolar e da própria educação escolar, pode envolver uma articulação com os órgãos normativos e com os órgãos executivos dos sistemas. É fundamental que haja tempo e espaço para a prática, como componente curricular, desde o início do curso e que haja uma supervisão da instituição formadora como forma de apoio até mesmo à vista de uma avaliação de qualidade.” (CNE, 2001). Destarte, essa prática como componente curricular pode ser entendida como uma etapa da formação dos futuros profissionais, no nosso caso, de Geografia, em que está se contemplando na sua formação, a transformação do conhecimento científico em conhecimento escolar. É fundamental que o futuro professor tenha consciência e capacidade de saber ensinar, mas também de saber fazer, no caso saiba efetuar pesquisa em Geografia, mas saiba também transformar esse conhecimento em conteúdo para seus alunos do ensino básico, desempenhando assim aquilo que CALLAI (2003) nos alerta “a sua função técnica e a função social do seu trabalho conseguindo dar conta de ser um cidadão que exerça de fato a sua cidadania, que realize a sua dimensão de intelectual orgânico (...). A relação entre a teoria e a prática, entre a produção do conhecimento e a sua colocação a serviço da população, seja através do ensino ou de tarefas profissionais”. Cabe assim ao profissional de Geografia, vinculado ao ensino, a tarefa de ensinar ao aluno a apreender e que o mesmo entenda o papel que poderá desempenhar na sociedade. Da mesma forma, a autora ainda ressalva o entendimento da geografia científica e a geografia ensinada, que deve está ligada a compreensão da denominada educação geográfica. Assim o sujeito pode analisar a dinâmica que envolve o mundo a partir de sua realidade, bem como entender o que se passa ao seu redor de forma mais natural, o que vai muito além da formas rígidas de ensinar e aprender geografia. Assim, Callai (2011) esclarece: Educação geográfica significa, então, transpor a linha de simplesmente obter informações para realização de aprendizagens significativas envolvendo/utilizando os instrumentos para fazer a análise geográfica. Considera-se, portanto que entender a sociedade a partir da espacialização dos seus fenômenos pode ser uma contribuição para a construção da cidadania. (CALLAI, 2011, p. 2). Para Boligian e Almeida (2003) baseados em Chevallard (1991), é fundamental que na transposição didática sejam levados em consideração os seguintes saberes: “1) O saber sábio: conjunto de conhecimentos elaborados e aperfeiçoados na esfera da comunidade acadêmica ou científica, por meio de pesquisas e/ ou reflexões teóricas. São aqueles conhecimentos aferidos e comprovados como lógicos e verdadeiros por meio de métodos de investigação científicos e, por isso, considerados como conhecimentos válidos e legítimos pela sociedade, de maneira geral. 2) O saber a ensinar: conjunto de conhecimentos produzidos pelas pessoas que pensam a respeito do sistema de ensino e que, de certa forma, decidem “o que” e “como” estes devem ser adaptados no sentido de tornarem-se hábeis para que sejam transpostos para a sala de aula. 3) O saber ensinado ou saber escolar: conhecimento que professor e alunos constroem em sala de aula, isto é, no ambiente escolar. É nesse ambiente que se dá o contrato didático, a relação ternária (saber – professor – aluno), como a inserção do saber a ensinar trazido pelos currículos e pelos livros didáticos, e do saber cotidiano, aquele introduzido pelos próprios professores e estudantes, assim como pelos funcionários da escola, pelos pais de alunos, etc.” O esquema elaborado por Levon Boligian (2003) retrata esse processo em que o saber acadêmico se transforma em saber escolar, pois conforme nos alerta CALLAI (2003) a dimensão pedagógica remete ao “sentido do apreender e do ensinar, à medida que o conteúdo não fica restrito à simples transmissão de informações e assimilação de habilidades e conhecimentos, mas que leva a uma elaboração própria, capaz de referenciar a atuação profissional, independentemente das demandas, tornando o sujeito capaz de encará-las com criatividade” Essa dimensão pedagógica “não deve prescindir de valores éticos e morais, os quais juntamente com a competência técnica vão dar aos vários sujeitos a sua diferenciação no acesso ao mercado de trabalho e na sua permanência”. É importante refletir sobre as demandas presentes na sociedade e em como ensinar e aprender. Assim, vamos propor uma série de atividades (duas por disciplina) para que você possa ir exercitando essa mediação teoria x prática – saber acadêmico x saber escolar, e ir se habituando a transformar o saber acadêmico (adquirido nas disciplinas) em um saber escolar para ter condições de elaborar os conhecimentos a serem transmitidos aos alunos na sua atuação profissional. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BOLIGIAN, Levon; ALMEIDA, Rosângela Doin de. A transposição didática do conceito de território no ensino de Geografia. In: GERARDI, Lucia Helena de Oliveira. (org.). Ambientes: estudos de geografia. Rio Claro: Programa de Pós- graduação em Geografia - UNESP. Associação de Geografia Teorética – AGETEO, 2003. 252p. CALLAI, Helena Copetti. O conhecimento geográfico e a formação do professor de geografia. Revista Geográfica de América Central. Número especial – EGAL. Costa Rica, 2011, pp. 1-20. CNE. Conselho Nacional de Educação. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/cne/arquivos/pdf/028.pdf. Acessado em: 19/08/2013. http://portal.mec.gov.br/cne/arquivos/pdf/028.pdf