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Marcos Santos Tatiana Strava Corrêa Luiza Dib Batista Bugiato Faria Gabriela Silva Moreira de Siqueira Paula Elaine Diniz dos Reis Anna Karolina de Carvalho Abreu Barro, em um texto de 1978 (mas que se mantém muito atual), diz que o primeiro inimigo a ser identificado na lógica da mudança na direção da consolidação da saúde como direito é a “ideologia da quantidade”. O novo, segundo o autor, deve diferenciar-se do velho rechaçando qualquer presunção de que a sociedade deva responder aos problemas da saúde com mais consultas médi- cas, mais análises laboratoriais, mais exames diagnósticos, mais procedimentos, mais tratamentos ou mais medicamentos. A massificação, com subsequente mercantilização da medicina, converteu o enfermo em um consumidor como outro qualquer. A antiga utopia do século XX, que motivou a Organização Mundial da Saúde (OMS), em 1948, a definir “saúde” como completo bem-estar físico, mental e social, e não somente a ausência de enfermi- dade, que levou atores do movimento da reforma sanitária brasileira a afirmarem que “é preciso que se tenha como meta a utopia” e que “se não for possível alcançá-la, pelo menos, em algum sonho, pedaço de terra, assoalho de terra, tocaremos”, que os levou a lutarem para que constasse na Constituição nacional que “Saúde é direito de todos e dever do Estado” começa, no século XXI, a ser contraproducente e geradora de inequidade. Qual saúde é direito de todos? Associada a uma importante mudança no perfil epidemiológico das doenças mais prevalentes, a dificuldade de acesso ao tratamento que julgamos, sob óticas variadas, ser fundamental leva à judicialização, que acaba por favorecer aqueles que têm meios e recursos para recorrer à justiça. Ao alocar-se aqui, retira-se dali. O “direito-total”, utópico, acaba sendo o direito de quem chega primeiro, uma vez que os recursos, obviamente, são finitos. Portanto, sem desvalorizar aqueles que nos precederam, e que alcançaram feitos memoráveis, é fundamental reconhecer: precisamos de uma nova utopia, esta agora planejada para a realidade do século XXI, firmemente calçada na conjuntura que se apresenta diante de nós. O projeto “Diretrizes Oncológicas” pretende enriquecer essa discussão e contribuir, nesse cenário, para uma saúde mais justa, responsável e efetiva, na subárea que nos toca – a Cancerologia –, respeitando ao máximo a sua multi, inter e transdisciplinaridade, absolutamente fundamental nesse ramo do conhecimento médico. Apoio: Marcos Santos Tatiana Strava Corrêa Luiza Dib Batista Bugiato Faria Gabriela Silva Moreira de Siqueira Paula Elaine Diniz dos Reis Anna Karolina de Carvalho Abreu Diretor: Claudio Della Nina Gerentes Comerciais: Ana Paula Vicente e Fabíola Roio Coordenadora de Operações e Conteúdo: Luana Ludwig Coordenadora Editorial: Roberta M. Soares Capa: Modo Comunicação e Eventos Yuri Paranhos Material de distribuição exclusiva à classe médica. Esta publicação foi distribuída com o apoio da AstraZeneca do Brasil Ltda., Bayer S.A., Elekta Medical Systems Comércio e Serviços para Radioterapia Ltda., Genzyme do Brasil Ltda., Merck S.A. e Produtos Roche Químicos e Farmacêuticos S.A. Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei n. 9.610 de 19/02/98. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, sem autorização prévia, por escrito, da Elsevier Editora Ltda., sejam quais forem os meios empregados, eletrônicos, mecânicos, fotográficos, gravação ou quaisquer outros. A Elsevier não assume nenhuma responsabilidade por qualquer injúria e/ou danos a pessoas ou bens como questões de responsabilidade civil do fabricante do produto, de negligência ou de outros motivos, ou por qualquer uso ou exploração de métodos, produtos, instruções ou ideias contidas no material incluso. Devido ao rápido avanço no campo das ciências médicas, em especial, uma verificação independente dos diagnósticos e dosagens de drogas deve ser realizada. Embora todo o material de publicidade deva estar em conformidade com os padrões éticos (médicos), a inclusão nesta publicação não constitui uma garantia ou endosso da qualidade ou valor de tal produto ou das alegações feitas pelo seu fabricante. O conteúdo desta publicação reflete exclusivamente a opinião dos autores e não necessariamente a opinião da Elsevier Editora Ltda. ou da AstraZeneca do Brasil Ltda., Bayer S.A., Elekta Medical Systems Comércio e Serviços para Radioterapia Ltda., Genzyme do Brasil Ltda., Merck S.A. e Produtos Roche Químicos e Farmacêuticos S.A. PHAxxxxxx CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ D635 Diretrizes oncológicas / Marcos Santos ... [et al.]. - 1. ed. - Rio de Janeiro : Elsevier, 2017. 628 p. : il. ; 23 cm. Inclui bibliografia e índice ISBN 978-85-352-9091-2 1. Oncologia. 2. Oncologia - Manuais, guias, etc. I. Santos, Marcos. 17-44996 CDD: 616.994 CDU: 616-006 © 2017 Elsevier Editora Ltda. RJ • Tel. 21 3970-9300 SP • Tel. 11 5105-8555 Website: www.elsevier.com.br Revisão: Glair Picolo Coimbra Diagramação: Glair Glair CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO Coordenadores Coordenador Geral – Farmacoeconomia Marcos Santos Médico rádio-oncologista, chefe do Serviço de Oncologia/Radioterapia do Hospital Universitário de Brasília (HUB) MBA em Farmacoeconomia – Universidade Paris VII, Paris/França Doutor em Bioética pela Cátedra Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) de Bioética – Universidade de Brasília (UnB) Rádio-oncologista do Grupo CONFIAR Coordenadoras – Oncologia Tatiana Strava Corrêa Oncologista clínica do Hospital Sírio-Libanês – Unidade Brasília/DF Oncologista clínica do Hospital Universitário de Brasília (HUB) Luiza Dib Batista Bugiato Faria Oncologista clínica do Hospital Sírio-Libanês – Unidade Brasília/DF Coordenadora da Pesquisa Clínica do Hospital Sírio-Libanês – Unidade Brasília/DF Coordenadora – Radioterapia Gabriela Silva Moreira de Siqueira Médica rádio-oncologista do Hospital Sírio-Libanês – Unidade Brasília/DF Médica rádio-oncologista do Hospital Universitário de Brasília (HUB) Coordenadoras Multidisciplinares Paula Elaine Diniz dos Reis Enfermeira oncologista pelo Instituto Nacional de Câncer José de Alencar (Inca) Doutora em Enfermagem pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (EERP-USP) Pós-Doutorado pela School of Medicine – University of Washington (UW), Seattle/WA Professora adjunta da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade de Brasília (UnB) Coordenadora da Liga de Combate ao Câncer da Universidade de Brasília (UnB) Anna Karolina de Carvalho Abreu Enfermeira do Serviço de Radioterapia da Unidade de Assistência de Alta Complexidade/Hospital Universitário de Brasília (Unacon/HUB) Mestre em Enfermagem pela Universidade de Brasília (UnB) Coordenador Cirurgia (sessão futura) Rodrigo Nascimento Pinheiro Cirurgião oncológico formado pelo Instituto Nacional de Câncer José de Alencar (Inca) Titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) e da Sociedade Brasileira de Cancerologia (SBC) Membro e cofundador da Unidade de Cirurgia Oncológica do Hospital de Base do Distrito Federal Capítulo • 5 Adriana Castelo Caracas de Moura Oncologista clínica do Hospital Universitário de Brasília (HUB) Oncologista clínica do Hospital Santa Lúcia, Brasília/DF Preceptora da Residência de Oncologia do Hospital Universitário de Brasília (HUB) Alexandre da Fonseca Colão Residência Médica em Rádio-Oncologia pelo Instituto Nacional de Câncer José de Alencar (Inca) Aline Lauda Freitas Chaves Médica oncologista clínica da DOM Oncologia, Divinópolis/MG Mestre em Ciências da Saúde com Ênfase em Câncer de Cabeça e Pescoço Chair do Grupo de Cabeça e Pescoço do LACOG (Latin American Cooperative Oncology Group) Ana MariaGuimarães Mendes de Castro Andrade Oncologista clínica na Oncocamp, Campinas/SP Professora da disciplina de Oncologia da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas) Preceptora da Residência de Oncologia da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas) André Afonso Machado Coelho Mestrado em Ciências da Saúde da Universidade de Brasília (UnB) Médico infectologista do Hospital Universitário de Brasília (HUB) André Ferreira Leite Professor doutor do Departamento de Odontologia da Universidade de Brasília (UnB) Doutor em Odontologia pelo Programa de Ciências da Saúde da Universidade de Brasília (UnB) Ben Jan Slotman Professor e chefe do Departamento de Radioterapia da VU University Medical Center, Amsterdam/Holanda Bruna Mesquita Silva Terapeuta ocupacional pela Universidade de Brasília (UnB) Residente em Atenção Oncológica pelo Hospital Universitário de Brasília (HUB/UnB) Colaboradores Bruno Wance Oncologista clínico do Centro de Câncer de Brasília (Cettro) Carla Ruffeil Moreira Mesquita Doutorado em Estomatologia pela Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo (USP) Especialista em Radiologia odontológica pela Associação Paulista de Cirurgiões-Dentistas (APCD), Bauru/SP Professor adjunto de Odontologia na Universidade de Brasília (UnB) Carlos Eduardo Vita Abreu Médico rádio-oncologista do Hospital Sírio-Libanês, São Paulo/SP Carlos Henrique dos Anjos Oncologista clínico do Hospital Sírio-Libanês – Unidade Brasília/DF Carlos Manoel Mendonça de Araújo Médico rádio-oncologista Doutor em Medicina Chefe do Serviço de Radioterapia do Instituto Nacional de Câncer José de Alencar (Inca) Carolina de Souza Custódio Enfermeira oncológica do Serviço de Quimioterapia da Unidade de Assistência de Alta Complexidade/Hospital Universitário de Brasília (Unacon/HUB) Mestre em Enfermagem pela Universidade de Brasília (UnB) Clarissa Hoffman Irala Nutricionista da Unidade de Assistência de Alta Complexidade/Hospital Universitário de Brasília (Unacon/HUB) Especialista em Nutrição Oncológica e Gestão Universitária Coordenadora da Residência em Nutrição Oncológica do Hospital Universitário de Brasília (HUB) Claudio Henrique Lima Rocha Médico oncologista clínico no Hospital Universitário da Universidade Federal do Piauí (UFPI) Médico oncologista clínico da Oncoclínica e Oncomédica, Teresina/Piauí Christiane Inocêncio Vasques Enfermeira oncologista pelo Instituto Nacional de Câncer José de Alencar (Inca) Doutora em Ciências pela Universidade de São Paulo (USP) Professora adjunta da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade de Brasília (UnB) Cristina Lemos Barbosa Furia Fonoaudióloga Professora adjunta da Graduação em Fonoaudiologia da Universidade de Brasília (UnB) Coordenadora de Extensão, Ensino e Pesquisa em Fonoaudiologia da Unidade de Assistência de Alta Complexidade/Hospital Universitário de Brasília (Unacon/HUB) Doutora em Oncologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) Dalton Alexandre dos Anjos Doutor em Medicina pela Universidade de Brasília (UnB) Médico nuclear da Alta Excelência Diagnóstica, São Paulo/SP Coordenador de Medicina Nuclear do Grupo DASA, São Paulo/SP Daniel da Motta Girardi Oncologista clínico do Hospital Sírio-Libanês – Unidade Brasília/DF Daniel Fernandes Marques Oncologista clínico do Hospital Sírio-Libanês – Unidade Brasília/DF Daniel Meirelles Barbalho Mastologista do Hospital Sírio-Libanês – Unidade Brasília/DF Fellow em Oncoplastia e Reconstrução Mamária pelo Instituto Europeu de Oncologia, Milão/Itália Daniele Xavier Assad Oncologista clínica do Hospital Sírio-Libanês - Unidade Brasília/DF Mestre pela Universidade de Brasília (UnB) Doutoranda pela Universidade de Brasília (UnB) Danilo da Fonseca Reis Silva Médico do Hospital Universitário da Universidade Federal do Piauí (UFPI) Oncologista clínico da Oncoclínica e Oncomédica, Teresina/Piauí Dante Escórcio Tavares Silva Médico graduado pela Universidade Católica de Brasília (UCB) Pós-graduado em Medicina de Família e Comunidade pela Universidade Federal do Mato Grosso Sul (UFMS)/Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Residente em Clínica Médica pelo Hospital Universitário de Brasília (HUB) Denise Lica Yoshimura Mikami Fonoaudióloga Professora de Graduação em Fonoaudiologia do Centro Universitário do Distrito Federal Professora voluntária da Graduação em Fonoaudiologia da Universidade de Brasília (UnB) e Unidade de Assistência de Alta Complexidade/Hospital Universitário de Brasília (Unacon/HUB) Mestre em Ciências e Tecnologia em Saúde pela Universidade de Brasília (UnB) Diego Alves Cruz Residência Médica em Rádio-oncologia pelo Instituto Nacional de Câncer José de Alencar (Inca) Eduardo de Figueiredo Vissotto Oncologista clínico do Centro de Oncologia do Hospital Santa Lúcia, Brasília/DF Oncologista clínico do Hospital de Base do Distrito Federal, Brasília/DF Elaine Barros Ferreira Enfermeira Doutora em Enfermagem pela Universidade de Brasília (UnB) Elean Lamar Raimundo Giusti Médica oncologista do Departamento de Oncologia do Hospital Universitário de Brasília (HUB) e do Centro Clínico Oncovida, Brasília/DF Eliete Neves da Silva Guerra Professora da Universidade de Brasília (UnB) Orientadora de Mestrado e Doutorado do Programa de Pós-graduação em Ciências da Saúde Doutora em Patologia Bucal pela Universidade de São Paulo (USP) Pós-Doutorado no King’s College, Londres/Inglaterra Elisa Cançado Porto Mascarenhas Oncologista clínica da Clínica Centro de Câncer de Brasília (Cettro) Mestranda em Ciências da Saúde pela Universidade de Brasília (UnB) Elton Trigo Teixeira Leite Rádio-oncologista do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo/Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (Icesp/FMUSP) Rádio-oncologista do Centro de Oncologia do Hospital Sírio-Libanês, São Paulo/SP Fabiana Accioli Miranda Médica rádio-oncologista, preceptora dos residentes da Radioterapia do Hospital Sírio-Libanês, São Paulo/SP Felipe Amstalden Trevisan Médico rádio-oncologista na Oncocare de Presidente Prudente/SP, Hospital do Câncer de Presidente Prudente/SP e Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto/SP Fernando da Silva Leal Médico rádio-oncologista do Centro de Radioterapia do Hospital Universitário de Brasília (HUB), Brasília/DF Rádio-oncologista do Grupo CONFIAR Fernando Sergio Blumm Ferreira Hematologista do Centro de Oncologia – Unidade Brasília/DF Professor de Hematologia da Universidade de Brasília (UnB) Fernando Vidigal de Pádua Oncologista clínico formado pelo A.C. Camargo Cancer Center Oncologista clínico do Centro de Câncer de Brasília (Cettro) Flávia Dias Xavier Professora adjunta de Hematologia da Universidade de Brasília (UnB) Chefe do Serviço de Hematologia e Hemoterapia do Hospital Universitário de Brasília (HUB) Médica hematologista do Centro de Oncologia do Hospital Sírio-Libanês – Unidade Brasília/DF Residência Médica em Hematologia e doutorado pela Universidade de São Paulo (USP) Gabriel Madeira Werberich da Silva Oncologista clínico na Medclínica, Teresópolis/RJ Oncologista clínico do Centro de Oncologia de Rio Bonito/RJ Preceptor da Residência de Clínica Médica do Hospital das Clínicas de Teresópolis/RJ Gabriela Resende Vieira de Sousa Endocrinologista pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia Doutora em Ciências pela disciplina de Endocrinologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) Endocrinologista da Clínica Cronos, Brasília/DF Gustavo dos Santos Fernandes Oncologista clínico do Hospital Sírio-Libanês – Unidade Brasília/DF Diretor Técnico do Centro de Oncologia Hospital Sírio-Libanês – Unidade Brasília/DF Presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) Heloisa de Andrade Carvalho Médica rádio-oncologista Professora livre-docente pela Faculdade de Medicina da Universidadede São Paulo (USP) Coordenadora do Serviço de Radioterapia do Instituto de Radiologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (InRad/HCFMUSP) Médica do Centro de Oncologia do Hospital Sírio-Libanês, São Paulo/SP Igor Alexandre Protzner Morbeck Oncologista clínico do Hospital Sírio-Libanês – Unidade Brasília/DF Professor de Medicina da Universidade Católica de Brasília (UCB) Mestre em Ciências pela Fundação Antônio Prudente – Hospital A.C. Camargo, São Paulo/SP Título de especialista em Cancerologia pela Associação Médica Brasileira (AMB) Isabela Porto de Toledo Fonoaudióloga voluntária da Unidade de Assistência de Alta Complexidade/Hospital Universitário de Brasília (Unacon/HUB) Mestranda em Fisiopatologia em Ciências da Saúde da Universidade de Brasília (UnB) Janice Rodrigues Farias Médica oncologista do Centro de Câncer de Brasília (Cettro), Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SESDF) e Hospital Militar da Área de Brasília/DF João Luis Fernandes da Silva Médico rádio-oncologista Diretor do Serviço de Radioterapia do Hospital Sírio-Libanês, São Paulo/SP João Nunes de Matos Neto Oncologista do Centro de Câncer de Brasília (Cettro) Mastologista Doutor em Biologia Molecular Professor adjunto de Cancerologia da Universidade de Brasília (UnB) Juciléia Rezende de Souza Presidente da Sociedade Brasileira de Psico-Oncologia (SBPO) Especialista em Psicologia Oncológica pelo Instituto Nacional de Câncer José de Alencar (Inca) Mestre e doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia do Desenvolvimento e da Saúde da Universidade de Brasília (UnB) Juliana Franca da Mata Especialista em Oncologia e Hematologia Pediátrica pela Sociedade Brasileira de Oncologia Pediátrica (Sobope) Mestre e doutora em Oncologia Pediátrica pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP) Professor adjunto da Área de Medicina da Criança e do Adolescente da Faculdade de Medicina da Universidade de Brasília (UnB) Coordenadora da Unidade de Pós-Graduação – Hospital Universitário de Brasília (HUB) Juliano de Pádua Nakashima Médico rádio-oncologista do Hospital Universitário de Brasília (HUB) Chefe do Serviço de Radioterapia do Hospital Santa Lúcia, Brasília/DF Leonardo Bicudo dos Santos Físico do Departamento de Radioterapia do Hospital Universitário de Brasília (HUB) e do Hospital Santa Lúcia, Brasília/DF Supervisor de Radioproteção do Departamento de Radioterapia do Hospital Universitário de Brasília (HUB) Leticia Meda Vendrusculo-Fangel Terapeuta ocupacional Docente do curso de Terapia Ocupacional da Universidade de Brasília (UnB) Doutoranda pela Universidade de Brasília (UnB) Especialista em Terapia Ocupacional em Contextos Hospitalares e Cuidados Paliativos Liana Barbaresco Gomide Matheus Docente do curso de Graduação em Fisioterapia e dos Programas de Residência Multiprofissional e Pós-graduação Stricto Sensu da Universidade de Brasília (UnB) Responsável pelo Setor de Apoio Terapêutico do Hospital Universitário de Brasília (HUB) Lorena Arias Bonifácio Médica assistente da Radioterapia do Hospital Sírio-Libanês – São Paulo/SP Médica da Radioterapia do Instituto de Câncer do Estado de São Paulo (Icesp) Luciana Lima dos Santos da Silva Fisioterapeuta especializada em Dermatofuncional pela Universidade Gama Filho (UGF) Preceptora do curso de Fisioterapia da Universidade de Brasília (UnB) Tutora da Residência de Fisioterapia em Oncologia do Hospital Universitário de Brasília (HUB) Luis Felipe Oliveira e Silva Físico do Departamento de Radioterapia do Hospital Universitário de Brasília (HUB) Mestre em Engenharia Biomédica com ênfase em Física Médica pela Universidade de Brasília (UnB) Físico médico do Grupo CONFIAR Luisa Costa Figueiredo Fisioterapeuta especializada em Oncologia pelo A.C. Camargo Cancer Center e em Geriatria pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) Preceptora do curso de Fisioterapia da Universidade de Brasília (UnB) e da Residência de Fisioterapia em Oncologia do Hospital Universitário de Brasília (HUB) Marcela Crosara Alves Teixeira Oncologista clínica do Hospital Sírio-Libanês – Unidade Brasília/DF Maria Luísa Ferreira Andrade Terapeuta ocupacional pela Universidade de Brasília (UnB) Especializada em Atenção Oncológica pelo Hospital Universitário de Brasília (HUB) Mariana Fialho Severino Terapeuta ocupacional pela Universidade de Brasília (UnB) Residente em Atenção Oncológica pelo Hospital Universitário de Brasília (HUB) Marina Tamm Lannes Vieira Médica do Serviço de Radioterapia do Hospital Central do Exército/RJ Matheus dos Santos Ferla Coordenador do Núcleo de Tratamento da Dor e Cuidados Integrais do Hospital de Câncer Mãe de Deus Mauricio Collares Araujo Médico oncologista Diretor médico da Unidade de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia (Unacon), Bagé/RS Murilo Buso Oncologista clínico Superintendente do Centro de Câncer de Brasília (Cettro) Naiara Costa Balderramas Médica-residente em Oncologia Clínica no Hospital Universitário de Brasília (HUB) Nayara Narley Pires Vieira Enfermeira especialista em Atenção Oncológica pelo Programa de Residência Multiprofissional do Hospital Universitário de Brasília (HUB) da Universidade de Brasília (UnB) Mestre em Enfermagem pela Universidade de Brasília (UnB) Nilce Santos de Melo Professora doutora do Departamento de Odontologia da Universidade de Brasília (UnB) Doutora em Patologia Bucal pela Universidade de São Paulo (USP) Nilson de Castro Correia Médico oncologista do Departamento de Oncologia do Hospital Universitário de Brasília (HUB) Médico oncologista do Centro Clínico Oncovida Mestre em Oncologia Clínica pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), Botucatu/SP Paulo Tadeu de Souza Figueiredo Professor doutor do Departamento de Odontologia da Universidade de Brasília (UnB) Doutor em Odontologia pelo Programa de Ciências da Saúde da Universidade de Brasília (UnB) Patricia Feitosa Espiño Médica-residente em Oncologia Clínica no Hospital Universitário de Brasília (HUB) Patricia Izetti Doutora em Genética e Biologia Molecular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Rádio-oncologista no Grupo Oncoclínicas, Rio de Janeiro/RJ Priscila de Souza Maggi Bontempo Mestre em Enfermagem pela Universidade de Brasília (UnB) Enfermeira do Serviço de Radioterapia da Unidade de Assistência de Alta Complexidade/Hospital Universitário de Brasília (Unacon/HUB) Rafaela Paes Marques Assistente social formada pelo Instituto Nacional de Câncer José de Alencar (Inca) Especialista em Serviço Social em Atenção Oncológica pelo Instituto Nacional de Câncer José de Alencar (Inca) e em Gestão Hospitalar pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Mestranda em Ciências da Saúde pela Escola Superior em Ciências da Saúde (ESCS), Brasília/DF Assistente social da Unidade de Alta Complexidade em Oncologia (Unacon), Brasília/DF Rafael Gadia Médico rádio-oncologista no Hospital Sírio-Libanês, Unidade Brasília/DF Ricardo de Alencar Vilela Mestre em Ciências da Saúde pela Universidade de Brasília (UnB) Rádio-oncologista no Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva e Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Rádio-oncologista do Grupo CONFIAR Rodrigo Bovolin de Medeiros Oncologista clínica do Hospital Sírio-Libanês – Unidade Brasília/DF Coordenador da Unidade Lago Sul do Hospital Sírio-Libanês Rodrigo Ramella Munhoz Residência Médica em Oncologia Clínica do Hospital Sírio-Libanês Médico oncologista do Centro de Oncologia do Hospital Sírio-Libanês e Instituto do Câncer do Estado de São Paulo/SP Samir Abdallah Hanna Rádio-oncologista titular do Hospital Sírio-Libanês – São Paulo/SP Doutor em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) Sérgio Bruzadelli Macedo Professor doutor do Departamento de Odontologia da Universidade deBrasília (UnB) Doutor em Odontologia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp) Stephen Doral Stefani Médico oncologista do Hospital do Câncer Mãe de Deus, Porto Alegre/RS Professor da Fundação Universidade Unimed Editor do Jornal Brasileiro de Economia da Saúde Membro do Conselho da International Society of Pharmacoeconomics and Outcomes Research (ISPOR) Suelen Medeiros e Silva Médica graduada pela Universidade de Brasília (UnB) Residência Médica em Medicina Paliativa pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP) Presidente da Regional do Centro-Oeste da Academia Nacional de Cuidados Paliativos (biênio 2017-2018) Coordenadora da Equipe de Suporte e Cuidados Paliativos do Hospital Sírio-Libanês – Unidade Brasília/DF Tatianny Paula Araujo Oncologista clínica do Hospital Sírio-Libanês – Unidade Brasília/DF Thais Muniz Montalvão Sousa Nutricionista especialista em Nutrição Oncológica Especialização em Nutrição Oncológica do Instituto Nacional de Câncer José de Alencar (Inca) Mestre em Ciências Médicas pela Universidade de Brasília (UnB) Thales Padua Xavier Médico-residente em Oncologia Clínica no Hospital Universitário de Brasília (HUB) Vinícius de Carvalho Gico Médico-residente do Serviço de Radioterapia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP) Vinicius Lorandi Formado em Medicina pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Especialista em Medicina Interna pelo Hospital São Lucas da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) Residente da Oncologia Clínica do Hospital de Câncer Mãe de Deus Yara Helena de Carvalho Paiva Ribeiro Terapeuta ocupacional da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares/Hospital Universitário de Brasília (EBSERH/HUB) Mestre em Psicologia pela Universidade de Brasília (UnB) Preƒácio O convite para escrever um prefácio para um livro científico é uma das maiores honras e responsabilidades delegada a um médico. Felizmente, tive o prazer de escrever muitos prefácios, mas este livro realmente me tocou de modo especial. Quando tive a honra de frequentar as salas da nossa Universidade de Brasília (UnB), pouco tempo de nossa formação era dedicado à oncologia. Até aí nenhuma surpresa, já que a especialidade era muito recente e não tinha tradição em escola alguma do Brasil. Estudávamos o câncer como algo terrível, misterioso, pouco compreendido. Não podía mos sonhar com a revolução de conhecimento que explodiria nas décadas seguintes, muito menos com a ideia de que Brasília pudesse tornarse um dia uma referência no tratamento dessa terrível doença. O tempo passou, e tudo mudou. E para melhor! Os segredos das neoplasias são re velados quase diariamente, e melhoras em seu tratamento são constantes. Nossa querida Brasília cresceu e amadureceu. Sem dúvida, é hoje um centro de referência em oncologia clínica, respeitado pela excelência de seus quadros médicos. Fico particularmente feliz em ver tantos exresidentes e colegas participando ativamente da oncologia brasiliense. Como se confirmasse essa realidade, eis que um grupo de colegas edita este livro. Tratase de um volume de leitura agradável, bem preparado e conciso em suas recomen dações e ensinamentos. Traz informações atualizadas sem sobrecarregar o leitor. Uma excelente adição à biblioteca de profissionais da saúde interessados no tratamento dessa doença tão traiçoeira. Já se tornou praxe dizer que livros estão ultrapassados e que a internet nos provê tudo o que necessitamos em relação à informação. Não creio que seja verdade. Ainda há espaço para bons trabalhos que nos sirvam de referência. E, cá entre nós, existe um enorme prazer em folhearmos um livro bem escrito. Aproveitem! Professor Dr. Paulo M. Hoff Capítulo • 17 Sumário 1. DIRETRIZES: ASPECTOS ÉTICOS ...................................................................... 23 Marcos Santos 2. GLIOMAS DE ALTO GRAU ...................................................................................... 33 Daniel Fernandes Marques Dante Escórcio Tavares Silva Marcos Santos 3. GLIOMAS DE BAIXO GRAU ................................................................................... 43 Marcos Santos 4. CÂNCER DE CABEÇA E PESCOÇO ........................................................................51 Aline Lauda Freitas Chaves Marcos Santos 5. CARCINOMAS DIFERENCIADOS DE TIREOIDE.............................................. 65 Gabriela Resende Vieira de Sousa Tatiana Strava Corrêa 6. CÂNCER DE MAMA – ADJUVÂNCIA E NEOADJUVÂNCIA ........................77 Tatiana Strava Corrêa Daniele Xavier Assad Daniel Meirelles Barbalho João Nunes de Matos Neto 7. CÂNCER DE MAMA METASTÁTICO ...................................................................99 Ana Maria Guimarães Mendes de Castro Andrade Claudio Henrique Lima Rocha Danilo da Fonseca Reis Silva Elisa Cançado Porto Mascarenhas 8. RADIOTERAPIA NO CÂNCER DE MAMA ......................................................... 115 Gabriela Silva Moreira de Siqueira 9. CÂNCER DE PULMÃO DE PEQUENAS CÉLULAS ........................................ 123 Janice Rodrigues Farias Murilo Buso Ben Jan Slotman 10. CÂNCER DE PULMÃO DE NÃO PEQUENAS CÉLULAS ..............................129 Janice Rodrigues Farias Murilo Buso Ben Jan Slotman 11. CÂNCER DE ESÔFAGO ........................................................................................... 151 Luiza Dib Batista Bugiato Faria Fernando da Silva Leal Marcos Santos 12. CÂNCER DE ESTÔMAGO ....................................................................................... 161 Marcela Crosara Alves Teixeira Tatianny Paula Araujo Marcos Santos 13. TUMORES ESTROMAIS GASTROINTESTINAIS (GIST) ............................. 173 Marcos Santos Luiza Dib Batista Bugiato Faria 14. CÂNCER DE FÍGADO ............................................................................................... 181 Daniel da Motta Girardi 15. CÂNCER DE PÂNCREAS ......................................................................................189 Daniel da Motta Girardi Gustavo dos Santos Fernandes Patricia Izetti Ricardo de Alencar Vilela 16. CÂNCER DE CÓLON ................................................................................................199 Marcela Crosara Alves Teixeira Tatianny Paula Araujo 17. CÂNCER DE RETO .................................................................................................... 211 Luiza Dib Batista Bugiato Faria Nilson de Castro Correia Juliano de Pádua Nakashima 18. CÂNCER DE CANAL ANAL ....................................................................................219 Eduardo de Figueiredo Vissotto Gabriela Silva Moreira de Siqueira 19. CÂNCER DO COLO UTERINO ..............................................................................227 Adriana Castelo Caracas de Moura Heloisa de Andrade Carvalho Vinícius de Carvalho Gico 20. CÂNCER DE ENDOMÉTRIO .................................................................................. 241 Daniele Xavier Assad Samir Abdallah Hanna Fabiana Accioli Miranda Marina Tamm Lannes Vieira 21. CÂNCER DE OVÁRIO .............................................................................................257 Adriana Castelo Caracas de Moura 22. CÂNCER DE RIM ..................................................................................................... 269 Fernando Vidigal de Pádua Bruno Wance 23. CÂNCER DE BEXIGA ..............................................................................................283 Mauricio Collares Araujo Rodrigo Bovolin de Medeiros Ricardo de Alencar Vilela Diego Alves Cruz 24. CÂNCER DE PRÓSTATA .......................................................................................293Igor Alexandre Protzner Morbeck Rafael Gadia 25. LINFOMA ......................................................................................................................311 Flávia Dias Xavier Fernando Sergio Blumm Ferreira Carlos Eduardo Vita Abreu Lorena Arias Bonifácio 26. MIELOMA .....................................................................................................................381 Flávia Dias Xavier Fernando Sergio Blumm Ferreira 27. SARCOMAS DE PARTES MOLES ......................................................................423 Gabriel Madeira Werberich da Silva Elton Trigo Teixeira Leite João Luis Fernandes da Silva 28. MELANOMA ..............................................................................................................433 Carlos Henrique dos Anjos Rodrigo Ramella Munhoz 29. TUMORES PEDIÁTRICOS ....................................................................................445 Juliana Franca da Mata 30. CUIDADOS PALIATIVOS .......................................................................................457 Suelen Medeiros e Silva Marcos Santos 30.1. MANEJO DA DOR NO PACIENTE ONCOLÓGICO ................................459 Suelen Medeiros e Silva 30.2. RADIOTERAPIA NO TRATAMENTO DA DOR ONCOLÓGICA: METÁSTASES ÓSSEAS ........................................................................................ 469 Marcos Santos 31. RADIOTERAPIA PALIATIVA ANTI-HEMORRÁGICA .................................. 475 Alexandre da Fonseca Colão Ricardo de Alencar Vilela 32. NÁUSEAS E VÔMITOS INDUZIDOS POR TERAPIAS ONCOLÓGICAS ........................................................................................................ 477 Stephen Doral Stefani Vinicius Lorandi Matheus dos Santos Ferla 33. URGÊNCIAS ONCOLÓGICAS: OBSTRUÇÃO INTESTINAL MALIGNA ...485 Elean Lamar Raimundo Giusti Tatianny Paula Araújo 34. URGÊNCIAS ONCOLÓGICAS: NEUTROPENIA FEBRIL ..............................489 Thales Padua Xavier André Afonso Machado Coelho Tatiana Strava Corrêa 35. URGÊNCIAS ONCOLÓGICAS: HIPERCALCEMIA ......................................... 499 Naiara Costa Balderramas Patrícia Feitosa Espiño Tatianny Paula Araujo 36. PET/CT EM ONCOLOGIA .................................................................................... 503 Dalton Alexandre dos Anjos 37. RADIOCIRURGIA ......................................................................................................519 Felipe Amstalden Trevisan Carlos Manoel Mendonça de Araújo 38. FÍSICA MÉDICA APLICADA À RADIOTERAPIA ...........................................525 Luis Felipe Oliveira e Silva Leonardo Bicudo dos Santos 39. GRUPO DE ACOLHIMENTO MULTIDISCIPLINAR EM ONCOLOGIA: PROMOVENDO ASSISTÊNCIA INTEGRAL E HUMANIZADA ................... 541 Juciléia Rezende de Souza Paula Elaine Diniz dos Reis Liana Barbaresco Gomide Matheus Clarissa Hoffman Irala Cristina Lemos Barbosa Furia Paulo Tadeu de Souza Figueiredo Nilce Santos de Melo Rafaela Paes Marques 40. ACESSOS VASCULARES ......................................................................................549 Christiane Inocêncio Vasques Carolina de Souza Custódio 41. ENFERMAGEM: AVALIAÇÃO E MANEJO DE FERIDAS TUMORAIS .....557 Nayara Narley Pires Vieira Anna Karolina de Carvalho Abreu 42. ENFERMAGEM NA PREVENÇÃO E TRATAMENTO DA RADIODERMATITE .................................................................................................567 Paula Elaine Diniz dos Reis Elaine Barros Ferreira Priscila de Souza Maggi Bontempo 43. FISIOTERAPIA EM ONCOLOGIA ........................................................................575 Liana Barbaresco Gomide Matheus Luciana Lima dos Santos da Silva Luisa Costa Figueiredo 44. FONOAUDIOLOGIA EM ONCOLOGIA ...............................................................585 Cristina Lemos Barbosa Furia Denise Lica Yoshimura Mikami Isabela Porto de Toledo 45. NUTRIÇÃO EM ONCOLOGIA ...............................................................................597 Clarissa Hoffman Irala Thais Muniz Montalvão Sousa 46. ODONTOLOGIA EM ONCOLOGIA ...................................................................... 605 Paulo Tadeu de Souza Figueiredo Sérgio Bruzadelli Macedo Eliete Neves da Silva Guerra Carla Ruffeil Moreira Mesquita André Ferreira Leite Nilce Santos de Melo 47. PROTOCOLO ASSISTENCIAL EM PSICO-ONCOLOGIA .............................613 Juciléia Rezende de Souza 48. TERAPIA OCUPACIONAL EM ONCOLOGIA ....................................................621 Leticia Meda Vendrusculo-Fangel Yara Helena de Carvalho Paiva Ribeiro Bruna Mesquita Silva Maria Luísa Ferreira Andrade Mariana Fialho Severino 23 Capítulo 1 DIRETRIZES: ASPECTOS ÉTICOS Marcos Santos Capítulo Diretrizes terapêuticas, ou protocolos de conduta, têm sido cada vez mais emprega das por agências governamentais, indústria farmacêutica ou sociedades de especialistas, com o objetivo de normatizar procedimentos relacionados a situações clínicas específicas, objetivando, idealmente, a um melhor resultado para o paciente,1 potencializando os benefícios e minimizando os riscos do ato médico. Uma diretriz é um documento que visa determinar um curso de ação e agilizar os processos particulares de acordo com uma rotina determinada, e deve ter sólido respaldo na literatura científica vigente.2 A necessidade da produção de diretrizes terapêuticas que resumissem o estado da arte para o tratamento de determinada patologia apareceu quando estudos começaram a constatar que a adequação da indicação de procedimentos médicos era incerta, dada a elevada variabilidade de condutas adotadas pelos profissionais de saúde. Por isso, uma parcela significativa dos pacientes estaria, em teoria, sujeita a ser submetida a procedimentos que não representavam o melhor nível de evidência disponível naquele momento.3 Provavel mente, portanto, não experimentariam o melhor resultado possível esperado para sua condição clínica. O conhecimento médico necessário para um desempenho ótimo é extenso e muito detalhado, além de ser dinâmico. Assim sendo, é muito difícil que o profissional se man tenha consistentemente atualizado, mais do que sobre a indicação de determinado trata mento, sobre a dose adequada de cada medicação específica e sobre o período durante o qual ela deve ser utilizada.4 As diretrizes terapêuticas têm o objetivo, então, de regular e definir qual é a atitude correta em uma determinada circunstância, diminuindo a inci dência do erro humano e aumentando a adesão ao que é considerado práticapadrão; e isso é feito reduzindose a necessidade de cálculo ou ponderações imediatas, de improviso, protegendo o profissional de eventuais esquecimentos. Elas apresentam uma deliberação pronta, previamente pensada, que fica à espera da ocasião adequada para ser implemen tada. Estão na intersecção da educação médica, investigação científica e prática clínica. Construídas a partir de informação de pesquisa, têm, finalmente, uma função didática.5 DIRETRIZES ONCOLÓGICAS24 A ORIGEM DA DIRETRIZ TERAPÊUTICA Historicamente, dados de estudos patrocinados são sempre sujeitos a interpretações mais rigorosas, dada a necessidade de promoção do produto.6,7 Tal fato já é relativamente bem conhecido e bem discutido na comunidade acadêmica, e visto como inevitável e potencialmente positivo, se bem aproveitado e mantida a précondição fundamental da clareza e transparência.8,9 Por outro lado, qualquer posicionamento coercitivo por parte de entidades governamentais na definição de políticas públicas, ou por grupos de paga dores, no caso da medicina privada, quando da produção de diretrizes terapêuticas, traz consigo o peso de erros históricos, debitados, na melhor das hipóteses, na pouca prudên cia assumidadiante da análise da evidência disponível, pelos responsáveis, no momento da composição do documento. E esse tipo de atitude expõe o artigo a questionamentos outros, como a influência perniciosa de eventuais conflitos de interesse, perigosamente deslegitimando o processo de redação como um todo. No início dos anos 1990, o Instituto Nacional de Saúde (NIH) norteamericano divulgou um documento, para todos os centros de tratamento de emergências daquele país, indicando que doses elevadas de corticosteroides deveriam ser utilizadas imediata mente após traumatismos medulares agudos, embora essa conduta fosse objeto de ques tionamentos de muitos neurocirurgiões respeitados naquele momento (dado o risco de infecções ou sangramento gastrointestinal), e apesar de os dados do estudo pivotal, fonte alimentadora desse documento, ainda não terem sido publicados na íntegra. Os profis sionais se sentiram coagidos a tomar essa atitude potencialmente danosa, uma vez que se viam, inesperadamente, sob o risco de processos por má prática profissional, dada a clara orientação governamental expressa na diretriz.10 Posteriormente, observouse que as con clusões do estudo citado versavam somente sobre um subgrupo específico de pacientes11 e que tal conduta era, finalmente, deletéria se tomada como regra. Os guidelines atuais, como evidência do erro, apontam em direção inversa.12,13 Verificouse posteriormente, também, que o autor principal do estudo, que foi (insuspeitavelmente) patrocinado por uma enti dade governamental, recebia remuneração de uma empresa farmacêutica, importante produtora de um dos corticosteroides mais prevalentes no mercado de então.14 Tinha, portanto, interesses outros na publicação e divulgação desse estudo. Deveria a própria agência que, inicialmente, orientou uma determinada tomada de decisão voltar atrás publicamente e esclarecer que os médicos que não seguiram suas orientações não estavam, finalmente, errados? E que os que seguiram, por consequência, estavam? Ou ainda: deve o paciente ser necessariamente informado pelo médico de que a sua conduta, eventualmente, contraria diretrizes terapêuticas governamentais publicadas, como medida de proteção contra possíveis processos futuros? E este, uma vez informado, deve, idealmente, assinar um termo de consentimento aceitando (ou não) a conduta do médico nessas circunstâncias? Pode o paciente, conhecedor de seu estado de saúde, cobrar que um procedimento, por parte do seu médico, esteja de acordo com os guidelines gover namentais? São questionamentos éticos inevitáveis, e de difícil resposta, decorrentes desse tipo de postura proativa por parte das entidades regulatórias. Sociedades de especialistas, por sua vez, normalmente se desagradam quando um guideline não recomenda um procedimento que praticam e pelo qual são remunerados.15 E não são, tampouco, fontes absolutamente confiáveis de documentos indicadores de con dutas médicas ou paramédicas.16 Vejamos, por exemplo, o caso das orientações a respeito Capítulo 1 • DIRETRIZES: ASPECTOS ÉTICOS 25 do rastreamento de pacientes assintomáticos na busca de tumores de próstata, por meio do toque retal e do exame de PSA (antígeno prostático específico): enquanto entidades go vernamentais, como o NIH norteamericano,17 a “US Preventive Services Task Force”, também norteamericana,18 ou o Instituto Nacional de Câncer (Inca) brasileiro19 foram taxativos ao relatar a ausência de qualquer benefício demonstrado na literatura, concluindo que a prática deveria ser desencorajada, a Sociedade Americana de Urologia encontrou evidên cias para dizer que, entre 55 e 69 anos, a decisão de efetuar ou não o rastreamento deve ser “compartilhada” entre o médico urologista e o paciente,20 decisão que foi, então, refe rendada pela Sociedade Brasileira de Urologia.21 Não se está afirmando aqui que os uro logistas agem unicamente por interesse em um aumento do número de pacientes em seus consultórios, com consequente aumento do número de procedimentos, gerando maior remuneração. Citamos a colocação do Conselho Americano de Ciência e Saúde: “não descartando completamente o ponto de vista do médico, seria negligente não observar que, para um martelo, tudo parece um prego”. Em outras palavras, muitos urologistas “se apaixonaram” pelo teste do PSA, não apenas por causa do enorme aumento de biópsias de próstata e procedimentos relacionados, mas porque muitos deles sentiram que, ao extirpar cada pequeno câncer de próstata que poderiam diagnosticar, estavam fazendo um grande serviço ao público em geral.22 Eles acreditam, real e honestamente, no procedimento. Nem sempre os eventuais erros (ou discordâncias em relação a outros profissionais) são intencionais. Frequentemente, um complexo mecanismo psicológico entra em fun cionamento, comprometendo a análise final dos resultados. Pesquisadores descreveram, por exemplo, que a confiança exagerada no próprio trabalho, também conhecida como “efeito Pigmalião”, leva à crença sincera de que os resultados são realmente bons, ape sar de evidências contrárias, que são simplesmente ignoradas. Pigmalião, personagem da mitologia grega, foi um escultor que se apaixonou pela própria escultura e foi premiado pela deusa Vênus, que deu vida a ela.23 Da mesma maneira, o pesquisador se enamora dos seus resultados (e também de sua capacidade de análise), chegando a um resultado final obviamente enviesado. No entanto, não necessariamente de maneira intencional. Outra falha comum no processo de definição de um tratamentopadrão é uma ten dência a ignorar dados contraditórios que, eventualmente, venham a colocar em xeque a conclusão dos investigadores. Tal procedimento, como se observou na prática, contribui para comprometer a “sobrevivência” de revisões sistemáticas, dado o aparecimento de estudos semelhantes, sobre o mesmo tema, com conclusões diversas, por maior acúmulo de informações, muitas vezes já disponíveis no momento da primeira avaliação.24 Pes quisadores também estão expostos ao que se conhece como “ilusão de foco”. Quando se admite, erroneamente, que uma alteração em uma única variável teria importância sobre valorizada no resultado final de um problema. No campo da psicologia, por exemplo, é senso comum de que pessoas que passam a ganhar mais dinheiro tornamse mais felizes, o que raramente é verdadeiro; na melhor das hipóteses, é passageiro.25 Na clínica, o grande exemplo recente foi a crença disseminada de que a reposição hormonal com estrógeno isoladamente restauraria a juventude e preveniria doenças cardiovasculares, demência, ou outras complicações advindas do avançar da idade. O que se viu ser, posteriormente, seriamente enviesado.26 Segundo os autores Thaler e Sustein, o processo de escolha dos indivíduos frequen temente trilha caminhos incoerentes, contrariando seus próprios interesses. E a inércia acaba sendo um poderoso elemento a ser considerado em qualquer procedimento de DIRETRIZES ONCOLÓGICAS26 tomada de decisão. Muitas pessoas acabam por escolher (e, no caso dos médicos, prescre ver) o tratamento indicado simplesmente porque buscar alguma via alternativa implicaria risco e necessidade de algum esforço. Tal tendência é ainda mais pujante se a alternativa escolhida for frequente e popular entre os pares27. Aqui, explicase a dificuldade do “não tratar”, tão importante e custoefetiva em algumas situações da oncologia, principalmente quando se discutem cuidados paliativos.28,29 Há evidências de que, mesmo que o médico creia que seguir a diretriz terapêutica possa ser danoso para o paciente, e que o documen to possa ser o resultado de análises enviesadas, um número considerável de profissionais tende, finalmente, a seguila.14 Daí a ideia defendida pelos autores de que entidades regu latórias deveriam assumir um “paternalismo libertário” que, ciente das limitações acima, induz as decisõescorretas (que seriam tomadas se as limitações de raciocínio não existis sem) sem, no entanto, limitar as opções de escolha do indivíduo. Os autores são muito claros, no entanto, ao explicar que essas “induções” devem sempre respeitar, em última análise, a liberdade de escolha do indivíduo e que devem ser mais sutis do que mudanças grosseiras no incentivo econômico, por exemplo, no pagamento por um ato médico, que não deve ser menor se puder ser justificado, pelo prescritor, como razoável, ainda que di vergente de alguma diretriz terapêutica governamental.27 Há que se respeitar o princípio de que seguir uma orientação nunca é obrigatório. Orientações não são vinculativas e não são mandatórias.2 COMO MEDIR A CONFIABILIDADE DE UM GUIDELINE Segundo Thompson, conflito de interesse está caracterizado quando o julgamento de um profissional (ou de uma entidade produtora de uma diretriz terapêutica) a respeito de um interesse primário (supostamente o melhor resultado possível para o paciente) é influenciado indevidamente por um interesse secundário, não abertamente declarado.9 O interesse primário de um profissional é sempre determinado pelo seu dever no exercício da profissão. O interesse secundário nem sempre é ilegítimo, é preciso esclarecer, mas pas sa a ser problemático quando adquire papel preponderante em relação ao primeiro. Isso evidencia a importância da clareza e transparência da declaração de conflitos de interesse quando da produção de uma diretriz terapêutica. Os mesmos problemas, ainda que avaliados por entidades distintas, devem, ideal mente, chegar a conclusões semelhantes, se partes têm interesses semelhantes (o benefício do paciente) e analisam a mesma literatura. Se, por um lado, guidelines preparados pela in dústria podem ser resultado da análise seletiva dos dados mais favoráveis a respeito de um determinado medicamento, e se guidelines aprovados por sociedades de especialistas po dem carregar o viés da recomendação de uma conduta potencialmente mais lucrativa,30 diretrizes governamentais trazem consigo o peso da responsabilidade de ser o governo o financiador da política pública de saúde, principalmente em um país com um sistema de atenção à saúde equânime, universal e integral, como o Brasil.31 São esses últimos aqueles que gozam de menor confiança e influência entre os praticantes da medicina, provavel mente por estarem sujeitos ao risco de utilização política das orientações clínicas presentes no documento e ao histórico de utilização política pregressa dos mesmos documentos, justificando a preocupação anterior.32 Um bom guideline é, independentemente da fonte, obviamente aquele que, se obede cido, resultará no melhor desfecho possível para o tratamento de um paciente. Deve ser Capítulo 1 • DIRETRIZES: ASPECTOS ÉTICOS 27 construído de maneira transparente e ser cientificamente viável, útil e confiável.1 Tam bém deve ser ágil na renovação, sempre que uma nova descoberta científica se mostrar de grande valia para o grupo de pacientes a que se refere o documento. Com o grande aumento do número de guidelines disponíveis na literatura, cresceu também a necessida de de definição de critérios universais para a medição da qualidade desses documentos, uma vez que evidências mostravam que o processo de produção é vulnerável a interesses diversos,33 resultando, em última análise, em risco para o paciente ou para o sistema de saúde. Alguns instrumentos foram validados na literatura internacional, por exemplo, o AGREE (AGREE collaboration group),1 o IOM Standards for Trustworthiness (padrões de confia bilidade do Instituto de Medicina)34 e o Manual do Instituto Nacional Britânico de Saúde e Excelência Clínica (NICE), publicado no ano de 2012.35 Em todos os casos, citase um processo transparente de construção e financiamento do documento como algo absoluta mente fundamental, além da discriminação dos conflitos de interesse, padrões elevados de revisão sistemática da literatura, revisões externas e atualização permanente, e indepen dência editorial. Infelizmente, em análises posteriores, observase que uma mínima fração dos documentos atende a esses critérios mínimos de razoabilidade.36 RESPONSABILIDADE SOCIAL Segundo o artigo 14 da Declaração Universal de Bioética e Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), a promoção da saúde e do desenvolvimento social para a sua população é objetivo central dos governos, partilhada por todos os setores da sociedade. Considerando que usufruir o mais alto padrão de saúde atingível é um dos direitos fundamentais de todo ser huma no, o progresso da ciência deve ampliar o acesso a cuidados de saúde de qualidade e a medicamentos essenciais, incluindo especialmente aqueles para a saúde de mulheres e de crianças, uma vez que a saúde é essencial à vida em si e deve ser considerada como um bem social e humano.37 A justificativa para o direito dos cidadãos aos cuidados de saúde basearseia, inicialmente, em duas premissas: a necessidade de proteção social e a necessidade da busca pela equidade de oportunidades. Em primeiro lugar, o Estado, tradicionalmente, sempre proveu proteção contra, por exemplo, crimes e incêndios. A necessidade de atenção à saúde também pode, então, por similaridade, ser entendida como um dever do Estado. Ações coletivas de proteção à saúde (que podem incluir proteção ambiental) existem em, virtualmente, todas as sociedades modernas.38 Em se gundo lugar, além da questão da proteção social, entendese que a sociedade, como um todo, investiu na formação dos profissionais de saúde e na pesquisa biomédica; se não na forma de universidades públicas, o fez por meio das inúmeras estratégias de renúncia fiscal das entidades privadas. Os benefícios daí advindos devem, portanto, ser compar tilhados. E, pela regra da “oportunidade justa”, formulada por John Rawls, a sociedade tem o dever moral de contrabalancear a falta de oportunidades originada por infortú nios em relação aos quais as pessoas não têm, em absoluto, nenhum controle e que são, sob a ótica moral, produto da aleatoriedade.39 A saúde cumpre mais do que um papel distributivo: tratase de um bem fundamental para garantir a igualdade entre as pessoas e a plena realização da liberdade, porque sua ausência ataca diretamente a possibilidade de realização das expectativas de cada um de nós, ao longo de nossas vidas, complemen ta Normal Daniels.40 DIRETRIZES ONCOLÓGICAS28 Equidade em saúde implica, então, o ideal de que cada pessoa tenha a mesma opor tunidade de obter seu máximo potencial e, mais pragmaticamente, que ninguém esteja em desvantagem no alcance desse potencial, se isso for viável. A expressão ativa da equidade em saúde é promover a diminuição das brechas nos indicadores de saúde que diferenciam grupos sociais por meio da ação de determinantes sociais, econômicos, tecnológicos e culturais, que afetam preferencialmente os grupos mais desfavorecidos.41 Universalidade, na mesma direção, significa que todas as pessoas devem ter acesso aos cuidados médicos, independentemente de suas condições financeiras. Para tanto, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o sistema de saúde deve: ser eficiente para atingir as priori dades definidas; informar e encorajar as pessoas a manteremse, na medida do possível, saudáveis; ser capacitado para o diagnóstico precoce, para tratamentos complexos e para a ajuda a pacientes em sua reabilitação; ser economicamente viável; ser composto por equipe de profissionais bem treinada e motivada, para que os serviços oferecidos atinjam a necessidade da população atendida.42 A integralidade, por fim, é concebida como um conjunto articulado de ações e serviços de saúde, preventivos e curativos, individuais ou coletivos, em cada caso, nos níveis de complexidade do sistema, e deve considerar a pessoacomo um todo, atendendo a todas as suas necessidades. A integralidade é um atributo do sistema de atenção. Um modelo integral é aquele que dispõe de estabelecimentos, uni dades de prestação de serviços, pessoal capacitado e recursos necessários à produção de ações de saúde, que vão desde ações inespecíficas em grupos populacionais definidos, até ações específicas de vigilância ambiental, sanitária e epidemiológica, dirigidas ao controle de riscos e danos, além de ações de assistência e recuperação de indivíduos enfermos. Para tanto, é de fundamental importância a integração entre as ações de promoção à saúde, prevenção de doenças, tratamento e reabilitação.43 Ninguém vive em estado de plena saúde. E a vida, o viver simplesmente, é enfermi dade. É um estado de contínuo envelhecimento, de adaptação ao mundo exterior, que levará, cedo ou tarde, ao desfecho letal. Enfermo, do latim “infirmus”, significa “não fir me”, uma constante na vida do homem como espécie. Saúde é, enfim, segundo Orgaz, um estado de perfeita harmonia, que não se realiza.44 Todo indivíduo necessitaria, então, de cuidados perenes do sistema de saúde, buscando a ilusão da saúde perfeita? A resposta óbvia é “não”, porque o “sim” figura no terreno da utopia. Algum grau de enfermidade faz parte da vida.45 O problema é definir, na prática, qual é o limite a partir do qual a intervenção (com seu respectivo custo para a sociedade) estaria justificada. Emanuel & Fuchs enumeram fatores que, em conjunto, têm contribuído, além dos já anteriormente mencionados, para um perigoso aumento dos custos em saúde, que poderia levar à sua inviabilização, principalmente no contexto de saúde pública. São eles: altos custos admi nistrativos, altos salários dos profissionais (médicos) associados à sua relativa (e comum) raridade no mercado e, principalmente, a superutilização de recursos, frequentemente para além daquilo que, comprovadamente, necessita o paciente. Tal superutilização é estimulada, comumente, por um sistema que remunera o médico pela quantidade de pro cedimentos efetuados, e não pelo resultado alcançado pelo seu procedimento. O fato de o paciente não ser o responsável direto pelo pagamento do tratamento também é, reconhe cidamente, um fator estimulante, por ser gerador ativo de demanda.30 Barro, em um texto de 1978 (mas que se mantém muito atual), diz que o primeiro inimigo a ser identificado na lógica da mudança na direção da consolidação da saúde como direito é a “ideologia da quantidade”. O novo, segundo o autor, e ainda novo nos dias de hoje, deve diferenciarse Capítulo 1 • DIRETRIZES: ASPECTOS ÉTICOS 29 do velho, rechaçando qualquer presunção de que a sociedade deva responder aos proble mas da saúde com mais consultas médicas, mais análises laboratoriais, mais exames diag nósticos, mais procedimentos, mais tratamentos ou mais medicamentos.46 A massificação, com subsequente mercantilização da medicina, converteu o enfermo em um consumidor como outro qualquer, cujo direito de requerer segundo seu próprio desejo (e de escolher diante de possibilidades que ele mesmo julga disponíveis) deve, obviamente, ser limitado (e pactuado democraticamente), ainda que qualquer política que trabalhe nessa direção se converta, instantaneamente, em bastante antipática.47 Qual deve ser, então, a atuação do profissional de saúde, compatível com a garantia de um direito universal à saúde e com o cuidado ético necessário em sua profissão? Quais são os limites desse direito? Em outras palavras, e como bem pontua Daniels, pessoas razoáveis podem discordar em quanto peso se deve dar a diferentes estratégias de tra tamento, em um cenário de recursos escassos. Teria o cidadão, por exemplo, direito ao acesso a refinadas técnicas de fertilização in vitro, em um contexto de insuficiente distri buição de medicamentos básicos, de uso contínuo, para doenças crônicas? Ou a cirurgias exclusivamente estéticas, mas para condições limitantes da qualidade de vida da pessoa, como cirurgias de redução (ou aumento) do volume das mamas, quando faltam salas ou cirurgiões para procedimentos curativos de patologias letais? Ou, então, a terapêuticas experimentais que visem, por exemplo, retardar o envelhecimento? Deve o governo optar por um remédio mais caro, numa situação de restrição de recursos, com a justificativa de transferência de tecnologia, quando há outras tecnologias mais acessíveis e com perfil de segurança e efetividade mais claramente demonstrados? O que dizer, então, de uma gama enorme de medicações com alto apelo e popularidade, mas sem nenhum efeito prático comprovado?47 São exemplos inúmeros suplementos vitamínicos e infindáveis xaropes para tosse, que receitamos para crianças com viroses, mas sem absolutamente nenhuma eficácia comprovada.48,49 No ano de 2000, por exemplo, na Inglaterra, havia mais médicos praticantes de medicina alternativa registrados, com consultas pagas pelo sistema público de saúde local, do que, por exemplo, clínicos gerais.47 Manter a saúde cessível e sustentável exige um processo contínuo de racionalização que não pode satisfazer a todos. O mais alto padrão de saúde atingível pode não incluir os exemplos citados acima e há, ainda, uma infinidade de outros.40 Em um cenário no qual os recursos disponíveis para financia mento são, como vimos, escassos, e os custos, crescentes, regras para priorizações devem ser urgentemente definidas. Necessitamos de princípios gerais que possam resolver essa disputa. Portanto, são necessários limites (justos) para tornar o sistema financiável, para que as escolhas sejam feitas de maneira consciente, seja no âmbito público ou privado. CONSIDERAÇÕES FINAIS Segundo o eminente sanitarista italiano Giovanni Berlinguer, falecido no início do ano de 2015, historicamente, a mesma sociedade que cria as doenças as distribui desigual mente entre os homens e permite que eles as tratem na proporção direta de suas riquezas materiais, mas na medida inversa às suas próprias necessidades de saúde.31 A antiga uto pia do século XX que motivou a OMS, em 1948, a definir saúde como completo bem estar físico, mental e social, e não somente como a ausência de enfermidade,50 que levou atores do movimento da reforma sanitária brasileira a afirmarem que “é preciso que se tenha como meta a utopia” e que, “se não for possível alcançála, pelo menos, em algum DIRETRIZES ONCOLÓGICAS30 sonho, pedaço de terra, assoalho de terra, tocaremos”,51 que os levou a lutar para que constasse, na Constituição nacional, que “saúde é direito de todos e dever do Estado”52 começa, no século XXI, a ser contraproducente.53 Qual saúde é (ou deve ser) direito de todos? Associada a uma importante mudança no perfil epidemiológico das doenças mais prevalentes, a dificuldade de acesso ao tratamento que julgamos, sob óticas variadas, ser fundamental leva à judicialização, que acaba por favorecer aqueles que têm meios e re cursos para recorrer à justiça.54 Ao alocarse aqui, retirase dali. O “direito total”, utópico, acaba sendo o direito de quem chega primeiro, uma vez que os recursos, obviamente, são finitos. Toda escolha de alocação que elege um vencedor também faz, nesse mesmo mo mento, a escolha de um perdedor. Portanto, sem desvalorizar aqueles que nos precederam e que alcançaram feitos memoráveis, é fundamental reconhecer: precisamos de uma nova utopia, planejada para a realidade do século XXI, firmemente calçada na conjuntura que se apresenta diante de nós. O Projeto “Diretrizes Oncológicas” pretende enriquecer essa discussão e contribuir, nesse cenário, para uma saúde mais justa, responsável e efetiva, na subárea que nos toca – a Cancerologia –, respeitando ao máximo a sua multi, inter e transdisciplinaridade, absolutamente fundamental nesse ramo do conhecimento médico. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. AGREE Collaboration. Development and validation ofan international appraisal instrument for assessing the quality of clinical practice guidelines: the AGREE project. Qual Saf Health Care. 2003;12(1):18-23. 2. US Department of Veterans Health Affairs. Glossary. 2015. Disponível em: <http://www.va.gov/ trm/TRMGlossaryPage.asp>. Acesso em: 16 set. 2017. 3. Chassin MR, Kosecoff J, Park RE, Winslow CM, Kahn KL, Merrick NJ, et al. Does inappropriate use explain geographic variations in the use of health care services? A study of three procedures. JAMA. 1987;258(18):2533-7. 4. 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Acreditase que o úl timo dado mantenha relação com melhor acesso a tecnologias diagnósticas e assistência médica nessas localidades. Para o ano de 2016, no Brasil, havia expectativa de 5.440 casos novos de câncer do SNC em homens e de 4.830 em mulheres.3 CLASSIFICAÇÃO PATOLÓGICA (OMS, 2016) E ESTADIAMENTO Não existe classificação TNM para tumores do SNC. A classificação mais importan te dos tumores do SNC é a da Organização Mundial da Saúde (OMS), que foi revista em 2016.3 Na revisão, incluiuse pela primeira vez o uso de fatores moleculares para classi ficação, de forma complementar à graduação histológica e à característica morfológica. Houve a incorporação de marcadores como as mutações do IDH1 e IDH2 e deleção 1p19q (Tabela 2.1).4 DIRETRIZES ONCOLÓGICAS34 Tabela 2.1. Classificação da Organização Mundial da Saúde para os gliomas de alto grau Glioma de alto grau Grau Astrocitoma anaplásico, IDH-mutante, não mutante ou NOS III Glioblastoma, IDH-não mutante IV Glioblastoma, IDH-mutante IV Glioma difuso de linha média, H3 k27m-mutante IV Oligodendroglioma anaplásico, IDH-mutante e com codeleção 1p19q ou NOS III Xantoastrocitoma pleomórfico anaplásico III Oligoastrocitoma anaplásico, NOS III Ganglioglioma anaplásico III (NOS: sem especificidades) ABORDAGEM INICIAL PARA TODOS OS GLIOMAS DE ALTO GRAU A ressonância magnética do encéfalo com contraste é o exame de escolha para a avalição inicial e a discussão sobre tratamento oncológico inicial. A depender da locali zação do tumor, dos sintomas neurológicos, da idade e do performance status do paciente, a abordagem neurocirúrgica deverá contemplar ressecção tumoral máxima e segura (com o objetivo do menor prejuízo neurológico) ou apenas biópsia (quando o tumor acomete áreas eloquentes).2 De acordo com a Academia Americana de Neurologia, os anticonvulsivantes profilá ticos devem ser usados em pacientes que apresentam crise convulsiva em algum momen to. Em pacientes recémdiagnosticados e que não apresentam convulsão antes da cirurgia, sugerese a retirada do anticonvulsivante após uma semana da cirurgia. Nenhum anticon vulsivante mostrou efeito antitumoral, assim a escolha da medicação deve ser baseada na sua eficácia e tolerabilidade.5 O uso de corticosteroides é frequente em paciente portadores de glioma de alto grau e serve para o controle dos sintomas e déficits neurológicos associados ao edema peri tumoral. Devese manter a menor dose possível e por período curto, devido aos efeitos colaterais do uso prolongado. TRATAMENTO COMPLEMENTAR APÓS CIRURGIA A maioria dos gliomas de alto grau é melhor tratada com terapia combinada basea da em radioterapia (RT) e quimioterapia (QT).6 O tratamento complementar pósressecção completa ou biópsia dever ser iniciado em até seis semanas do procedimento cirúrgico. O atraso no tratamento oncológico pode impactar na sobrevida global (SG).7 GLIOMA GRAU IV, GLIOBLASTOMA Pacientes com menos de 70 anos, Karnofsky Performance Score (KPS) ≥ 60 O tratamento póscirúrgico é baseado em RT conformada, na dose de 60 Gy em 30 frações, concomitante à temozolamida (TMZ) via oral, na dose 75 mg/m2 por dia, Capítulo 2 • GLIOMAS DE ALTO GRAU 35 durante toda a RT, seguida de TMZ 150 a 200 mg/m2 por cinco dias, a cada 28 dias, por seis meses.7 O esquema supracitado foi baseado no estudo de fase III multicêntrico que rando mizou 573 pacientes com GBM recémdiagnosticado para receber RT isolada ou conco mitantemente à temozolomida seguido por até seis ciclos de TMZ. Os resultados foram positivos para SG, favorecendo o braço com quimiorradioterapia (SGm 14,6 x 12,1m, p < 0,001).7 A metilação do MGMT foi fator prognóstico positivo em ambos os grupos. Na atualização do estudo em 2009, a sobrevida em pacientes que receberam temozolomida foi de 10% em cinco anos contra 2% do grupo que fez apenas RT.8 Em relação à toxicidade ao tratamento, a trombocitopenia foi o efeito adverso he matológico mais relatado, atingindo até 20% dos pacientes. Linfopenia e neutropenia de moderadas a severas acometeram ao menos 15% dos pacientes.7,8 Profilaxia para pneumonia por Pneumocystis jirovecii deve ser rotineiramente prescrita no esquema com Bactrim, um comprimido três vexes por semana até o final da RT.7 Pacientes com mais de 70 anos Ao diagnóstico, aproximadamente metade dos pacientes apresenta idade maior que 65 anos. A idade avançada e o baixo performance status são associados a pior prognóstico e existe pouca evidência científica para melhor manejo dessa população. A modalidade de escolha para idosos com bom KPS é o tratamento com quimiorra dioterapia seguido de TMZ por 12 ciclos, conforme o estudo de fase III canadense9 que mostrou ganho de SG em pacientes submetidos ao esquema com RT 40 Gy em 15 frações associado a TMZ 75 mg/m2 por dia, seguido de TMZ por 12 ciclos, quando comparado apenas com RT isolada (9,3 x 7,6 meses, HR 0,67, p < 0,0001). A avaliação da toxicidade foi tolerável, sem piora da qualidade de vida. A análise de subgrupo dos pacientes por tadores de MGMT metilado mostrou uma sobrevida mediana de 13,5 vs. 7,7 meses, HR 0,53, p 0,0001, e também houve acréscimo no subgrupo não metilado.9 Uma alternativa ao tratamento combinado com quimiorradioterapia é o tratamento isolado com TMZ, principalmente nos pacientes portadores de metilação do MGMT. O es tudo NOA08, de fase III de não inferioridade, comparou TMZ isolada versus RT. A compa ração mostrou a não inferioridade de TMZ 100 mg/m2 nos D1 a D7 com uma semana off em relação à RT isolada na dose 60 Gy em 30 fracções (SGm 8,6 vs. 9,6m, HR 1,09, p 0,03). Houve maior benefício com o uso de TMZ nos pacientes com metilação do MGMT.10 Outro estudo de fase III avaliou três grupos de tratamento: TMZ isolado, RT con vencional (60 Gy em seis semanas) ou RT hipofracionada (34 Gy em 10 frações, em duas semanas). A SG foi de 8,3 meses vs. 6,0 meses em favor de TMZ comparada com RT convencional.10 No subgrupo de pacientes com idade maior ou igual a 70 anos, a supe rioridade do TMZ à RT foi maior. O benefício ao TMZ isolada foi maior nos pacientes portadores da metilação no gene MGMT.11 A RT isolada pode ser um tratamento alternativo aos pacientes não candidatos a quimiorradioterapia. Um estudo francês, de fase III, incluindo 85 pacientes acima de 70 anos, com KPS maior ou igual a 70, mostrou aumento de SG para o grupo submetido à RT isolada na dose 50 Gy em 28 frações, quando comparado ao melhorsuporte clínico (29,1 semanas vs. 16,9 semanas, p = 0,002).12 DIRETRIZES ONCOLÓGICAS36 GLIOMA GRAU III ANAPLÁSICO (OMS, 2016) A decisão da QT adjuvante nos gliomas anaplásicos deve ser individualizada, já que a evidência atual é baseada em estudos clínicos complexos com populações que se diferem sob o ponto de vista histológico e molecular. Em sua grande maioria, o tratamento combinado com RT e QT é a escolha. OLIGODENDROGLIOMA ANAPLÁSICO E OLIGOASTROCITOMA ANAPLÁSICO Os tumores oligodendrogliais contemplam aproximadamente 15% a 20% dos tumo res gliais. Apresentam evolução favorável e de longa data quando comparados aos astro citomas, principalmente na presença da mutação do IDH e na presença da codeleção do braço curto do cromossomo 1 (1p) e do braço longo do cromossomo 19 (19q).13,14 Há dois grandes estudos que avaliam o tratamento complementar baseado em RT adjuvante e QT no esquema PCV (procarbazina, lomustina e vincristina): o estudo de fase III European Organisation for Research and Treatment of Cancer (EORTC) 26951, que com parou seis ciclos de PCV após RT (60 Gy) vs. RT isolada; e o RTOG 9402, que comparou PCV por até quatro ciclos administrados antes da RT vs. RT.13,14 Na última atualização, os resultados mostraram aumento da SG nos pacientes submetidos a QT com PVC, sobre tudo nos pacientes que apresentavam a codeleção 1p19q.13,14 Em relação ao status do IDH, no EORTC 26951, a presença da mutação foi associa da a aumento da sobrevida (IDHm 8,4a vs. 1,4a IDH não mutado). No RTOG 9402, a análise post hoc sugere o benefício da QT com PCV nesses tumores IDH mutados mesmo na ausência da codeleção 1p19q. Pacientes com IDH não mutado não se beneficiaram da adição de PCV.15 Outra possibilidade é uso de TMZ adjuvante após RT em pacientes portadores de glioma anaplásico IDH mutado sem codeleção 1p19q. O estudo CATNON, apresentado na Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO) em 2016, avaliou o uso de TMZ pós RT em pacientes portadores de glioma anaplásico operados e que não apresentam codeleção 1p19q. O estudo mostrou aumento de sobrevida com uso de TMZ após RT.16 ASTROCITOMA ANAPLÁSICO O astrocitoma anaplásico IDH mutado apresenta um prognóstico favorável quando comparado ao astrocitoma IDH não mutado. Para os astrocitomas anaplásicos não mu tados, que se comportam similarmente ao GBM, a recomendação é o tratamento combi nado de quimiorradioterapia com TMZ seguido de TMZ.7 Os astrocitomas anaplásicos com mutação do IDH podem ser submetidos à RT com plementar seguida de TMZ, conforme o estudo CATNON, ou QT adjuvante com PCV.16 Outra opção seria o tratamento isolado com QT ou RT isolada. Essa recomendação seria apenas caso o tratamento combinado não fosse possível. A avaliação do tratamento isolado com RT ou apenas QT foi baseada no estudo de fase III NOA04, que randomi zou pacientes entre QT e RT. No braço QT, os pacientes eram novamente randomizados entre PCV e TMZ. Após a primeira progressão, os pacientes recebiam o tratamento cruzado. O estudo mostrou que RT ou QT up-front produzem resultados comparáveis.17 Capítulo 2 • GLIOMAS DE ALTO GRAU 37 MANEJO DO GLIOMA DE ALTO GRAU RECORRENTE Infelizmente, a grande maioria dos pacientes recidiva após o tratamento comple mentar pósoperatório. A avaliação de um novo tratamento deve ser balanceada entre o benefício clínico da intervenção e o impacto na qualidade de vida (toxicidades e déficits neurológicos), discutindose, sempre que possível, em reunião multidisciplinar. O arsenal terapêutico para a doença recorrente inclui tratamento cirúrgico, trata mento oncológico sistêmico e reirradiação. Cabe ressaltar a necessidade de distinção entre progressão precoce e pseudoprogres são. Nos primeiros três meses após o término da RT, características imageológicas à res sonância nuclear magnética de pacientes recémtratados podem mimetizar a progressão de doença. Esse quadro é conhecido como pseudoprogressão. O diagnóstico definitivo costuma ocorrer de modo retrospectivo, até seis meses após o fim da RT. Embora tal mé todo não seja de todo confiável, a presença de sintomas pode indicar maior probabilidade de progressão real de doença. A diferenciação entre progressão e pseudoprogressão fazse necessária para evitar a descontinuidade precoce do tratamento com TMZ.18 A reabordagem cirúrgica pode ser indicada na doença recorrente, e sua decisão tem de ocorrer de maneira individualizada, com base na localização e no performance status. Pacientes com bom performance status e tumores em áreas não eloquentes, com possibili dade de ressecção segura e volumosa, e que apresentaram tempo longo para recorrência podem se beneficiar da cirurgia. A reirradiação é um tratamento possível, mas existe pouca evidência prospectiva, de vendo sua indicação ser feita de forma bastante individualizada. Algumas séries mostram que a RT estereotáxica fracionada ou hipofracionada na doença recorrente é possível, com toxicidade aceitável e mediana de SG de 8 a 10 meses a partir do retratamento.19 TRATAMENTO SISTÊMICO PARA DOENÇA RECORRENTE Pacientes portadores de GBM que recorrem após seis ciclos de TMZ ou com tempo livre do fármaco podem ser submetidos à reexposição com TMZ no esquema convencio nal de Stupp et al.7 ou em esquema de dose densa (diário). O estudo de fase II RESCUE avaliou o uso de TMZ dose densa 50 mg/m2 por dia nesse cenário. O benefício desse esquema foi evidenciado no grupo de pacientes que terminou o tratamento inicial de seis meses e descontinuou o fármaco e também no grupo que descontinuou a TMZ precoce mente (pseudoprogressão não avaliada).20 Pacientes com doença recorrente e que foram submetidos a tratamento adjuvante apenas com RT ou tratamento combinado com QT sem TMZ podem ser submetidos à TMZ. Em estudo de fase III comparando TMZ com o esquema PCV, pacientes com gliomas recidivados tratados previamente com RT e não expostos previamente à TMZ foram randomizados para PCV ou TMZ; o grupo da TMZ foi submetido a uma segunda randomização para dois regimes de TMZ diferen tes (convencional e “dose densa”). O grupo TMZ não foi superior ao PCV. Quando analisados separadamente, o esquema TMZ “dose densa” foi inferior ao esquema conven cional.21 Em um cenário com GBM recorrente em vigência de TMZ ou resistente, o tratamen to recomendado é baseado em QT (irinotecano ou lomustina) associada a bevacizumabe DIRETRIZES ONCOLÓGICAS38 10 mg/kg a cada duas semanas. Um estudo de fase II mostrou taxa de resposta de aproxi madamente 57%, sobrevida livre de progressão em seis meses de 46% e taxa mediana de SG em seis meses de 77% nos pacientes submetidos a bevacizumabe associado a irinoteca no.22 Outro estudo, de fase III, parte do EORTC 26101, comparou em GBM recorrente a combinação de bevacizumabe e lomustina versus lomustina isolada. A sobrevida livre de progressão foi maior no grupo da combinação, de 4,2 meses vs. 1,5 mês (HR 0,49; p < 0,001), porém não houve diferença em SG, de 9,1 meses vs. 8,6 meses (HR 0,95; p = 0,65).23 Para os gliomas anaplásicos recorrentes e que foram previamente expostos a nitrosu reias ou apenas a RT, a TMZ isolada pode ser uma opção de tratamento.24,25 A combinação de bevacizumabe e irinotecano pode ser recomendada aos pacientes portadores de gliomas anaplásicos recorrentes e que progrediram a TMZ. Em estudo de fase II, 36 pacientes portadores de gliomas anaplásicos recorrentes foram tratados com a combinação de bevacizumabe e irinotecano. A sobrevida livre progressão e a SG media nas em seis meses foram de 55% e 79%, respectivamente.26 Técnica de radioterapia para tratamento do glioblastoma multiforme A dosepadrão para o tratamento dos GBMs multiformes é, conforme descrito aci ma, para pacientes com bom KPS e idade inferior a 70 anos, segundo o protocolo pros pectivo de Stupp et al.,de 60 Gy em 30 frações.7 O volumealvo deve ser coberto com o número necessário de campos e vai depender do volume tumoral préoperatório e de sua localização. O volume tumoral grosseiro (GTV) é definido como aquele realçado pelo contraste, observado na ressonância nuclear magnética, em T1.27 A definição do volumealvo clínico (CTV) é mais complicada e depende da zona de edema ao redor do tumor e do risco de extensão a distância, pelas fibras associativas. A presença de barreiras anatômicas como osso e meninges pode ajudar na definição desse limite. Normalmente, o CTV é definido como o GTV mais margem de 2 a 3 cm.28 Já o volume tumoral planejado (PTV) depende da precisão geométrica do aparato de contenção, que varia de 5 mm para as máscaras termoplásticas29 até 3 mm, se uma verificação de imagem (radioterapia guia da por imagem – IGRT) é utilizada quotidianamente.27 Não é mandatória a redução do PTV após determinada dose, a não ser que esse replanejamento seja fundamental, dada a quantidade de radiação depositada em alguma estrutura de risco ao redor do tumor (OAR). Recomendase energia superior a 4 MeV e portais semanais para checagem do posicionamento do isocentro.30 Sabese que a doença multicêntrica ou metastática é infrequente31 e que aproxima damente 90% das recidivas ocorrem em até 2 cm dos limites de onde se encontrava o tumor primário.32 Entretanto, apesar de esforços com escalonamento de dose (para além de 60 Gy) visando à melhora do controle local, por meio de fracionamentos alterados,33 radiocirurgia,34 RT estereotáxica fracionada,35 braquiterapia36 ou RT intraoperatória,37 os resultados ainda permanecem insatisfatórios, comparáveis aos atingidos com a dosepa drão (de 60 Gy em 30 frações). Radioterapia de intensidade modulada A RT de intensidade modulada permite melhor cobertura do volume, com aumento da homogeneidade da dose de radiação aplicada ao alvo, principalmente em lesões de Capítulo 2 • GLIOMAS DE ALTO GRAU 39 formato irregular. Ela permite, também, melhor gradiente de dose, diminuindo a quan tidade de radiação depositada nos tecidos sadios. Assim sendo, os benefícios da radio terapia de intensidade modulada (IMRT) ficam mais evidentes em situações em que o volumealvo está localizado em regiões anatômicas de difícil abordagem, como na proxi midade do tronco cerebral ou das órbitas, quando é praticamente infactível a aplicação da dose considerada terapêutica respeitando o limite de dose dessas estruturas.38 Na ausência de estudos prospectivos comparativos, protocolos retrospectivos, no en tanto, têm demonstrado que a magnitude do benefício é, provavelmente, muito pequena, ou mesmo inexistente, se considerados todos os pacientes. Provavelmente não há, advindo do seu uso rotineiro, ganho de controle local ou de SG, se comparada à técnica conside rada padrão, a RT conformacional (3D). Assim sendo, dados os custos mais elevados con sequentes à utilização da RT de intensidade modulada, ela deve, dado o conhecimento atual, ficar restrita àquelas situações nas quais é imprescindível, como nas situações acima descritas. Nos casos nos quais a RT conformacional é factível, essa deve ser a técnica de tratamento utilizada.39 A terapia de arco modulado, por sua vez, é uma técnica de RT inovadora, na qual a taxa de dose, a velocidade do gantry e o formato do campo de irradiação mudam, dinami camente, enquanto o tratamento é aplicado. Assim sendo, ela anula um potencial ponto negativo da IMRT, que é o tempo de duração da fração, reduzindoo consideravelmente, enquanto mantém o benefício dosimétrico. Tem sido cada vez mais usada no tratamento do GBM multiforme. Há, no entanto, evidência limitada de sua eficácia, embora não haja motivos para acreditar que sua efetividade seja diferente daquela alcançada com a IMRT tradicional.40 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. 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Este capítulo tratará dos tipos mais frequentes: astrocitoma difuso e oligoden droglioma (grau II).2 EPIDEMIOLOGIA Estimavase, para o ano de 2012, ao redor do mundo, 257 mil casos novos de neo plasias malignas do SNC, sendo 140 mil casos em homens e 117 mil casos em mulheres, com óbitos esperados de 106 mil e 83 mil, respectivamente (1,8% dos casos novos; 2,3% dos óbitos totais). A maior incidência ocorre em regiões desenvolvidas do globo, como Austrália/Nova Zelândia, Europa e América do Norte.3 No Brasil, segundo o Instituto Nacional de Câncer, esperavamse, para o ano de 2016, 5.440 casos em homens e 4.830 em mulheres. Na região CentroOeste, é o 10º tumor mais frequente (320 casos em ho mens e 380 casos em mulheres previstos para 2016). 4 Segundo o CBTRUS (Central Brain Tumor Registry of the United States), gliomas malignos (aqui incluídos, para fins de comparação, também os tumores grau I) representam 80% dos tumores malignos do SNC. Gliomas de baixo grau representariam, então, 16% do total (20% dos gliomas).5 Assim sendo, para o Distrito Federal, esperavamse, para 2016, 51 casos em homens e 61 casos em mulheres da neoplasia discutida neste capítulo. DIRETRIZES ONCOLÓGICAS44 TRATAMENTO A abordagem inicial de um paciente com uma suspeita clínicoradiológica de um tumor de baixo grau inclui três opções: observação, biópsia ou ressecção cirúrgica. Não há registro na literatura de comparação prospectiva direta entre as três estratégias descritas.6 Dados de séries não randomizadas indicam, no entanto, que a abordagem cirúrgica inicial pode ter impacto positivo na sobrevida global (SG) dos pacientes.7 (Evidência nível 3i A) RADIOTERAPIA A cirurgia, isoladamente, pode não ser curativa em pacientes com diagnóstico de glio ma de baixo grau. Normalmente, a complementação do tratamento com radioterapia (RT) ou quimioterapia (QT) fazse necessária. O momento da aplicação do tratamento adjuvan te, se indicado, deve ser individualizado, podendo ser aplicado no pósoperatório imediato ou, no caso de o paciente ser mantido em seguimento, no momento da possível recaída. Dose de radioterapia Estudos retrospectivos indicavam uma possível existência de benefício advindo do escalonamento de dose de radiação,8,9posteriormente não confirmada em estudos pros pectivos e randomizados. O estudo European Organisation for Research and Treatment of Cancer (EORTC) 22844 randomizou 379 pacientes, de 27 diferentes instituições, espalhadas por 10 países, para receberem 45 Gy em 25 frações ou 59,4 Gy em 33 frações. Com um segui mento médio superior a seis anos, não foi observada qualquer diferença no tocante à SG ou à sobrevida livre de doença (SLD).10 Posteriormente, foi reportado o resultado do es tudo norteamericano Intergroup 203, em que se comparava 50,4 Gy em 28 frações com 64,8 Gy em 36 frações. Um total de 211 pacientes foi incluído. Mais uma vez, nenhum benefício secundário ao aumento da dose de radiação foi observado. Apesar de não ter atingido significância estatística, o braço de alta dose apresentou menor SG em cinco anos (64% x 72%, p = 0,48). Em análise multivariada, observouse que os fatores prognósticos mais importantes para a SG foram: subtipo histológico (oligodendrogliomas ou histologia oligodominante), idade inferior a 40 anos e diâmetro do tumor menor que 5 cm.11 Aceita se, hoje, portanto, que o tratamento standard de radiação deve incluir uma dose que varie de 45 a 50,4 Gy. A dose de 54 Gy em 30 frações, utilizada no protocolo EORTC 22845, discutido a seguir, também é uma estratégia aceitável.12 (Evidência nível 1ii A) Timing da radioterapia O estudo EORTC 22845 comparou a aplicação imediata da RT com a estratégia de adiamento do tratamento até sinal de progressão. A RT era aplicada na dose de 54 Gy [45 Gy em 25 frações, com margens de 2 cm para o volumealvo clínico (CTV), com posterior reforço até 54 Gy, com margens de 1 cm para o CTV]. O seguimento incluía tomografia computadorizada a cada quatro meses, durante os dois primeiros anos e, posteriormente, anualmente, até a progressão tumoral. Foram incluídos 311 pacientes, de 24 instituições europeias. Após um seguimento médio de 7,8 anos, não se observou qualquer diferença de SG entre os grupos estudados. Observouse, no entanto, melhor SLD em cinco anos no grupo de pacientes irradiados imediatamente (55% vs. 35%, p < 0,0001). Infelizmen Capítulo 3 • GLIOMAS DE BAIXO GRAU 45 te, nenhum estudo comparativo de qualidade de vida ou neurocognição foi efetuado. A maioria das recorrências, no grupo irradiado, ocorreu em área coberta pelos campos de tratamento. A especulação antiga, de que a RT precoce poderia induzir uma transforma ção maligna dos gliomas de baixo grau, não foi confirmada neste estudo. Em torno de 70% das recorrências se deram com tumores de alto grau, em ambos os braços do estudo. Por outro lado, em torno de 35% dos pacientes do grupo não tratado não haviam, em ne nhum momento, precisado de RT, após seguimento de quase oito anos,12 o que aumenta a probabilidade de nunca virem a precisar desse tipo de tratamento. Fatores prognósticos A partir dos dados do estudo EORTC 22844, definiramse quais seriam os principais fatores prognósticos desfavoráveis para a SG dos pacientes com gliomas de baixo grau. São eles: idade maior ou igual a 40 anos, histologia de astrocitoma, maior diâmetro do tu mor superior ou igual a 6 cm, tumor que cruza a linha média e presença de déficits neuro lógicos antes da cirurgia. Tais fatores prognósticos foram estudados posteriormente, com os dados do estudo EORTC 22845 validandoos. Definese como de baixo risco quando da presença de até dois dos fatores supracitados, com SG média de 7,8 anos. Pacientes de alto risco (mais de dois fatores) apresentam SG média de 3,7 anos.13 Técnica de radioterapia A técnica validada, em estudo prospectivo anterior, para a irradiação de pacientes com tumores de baixo grau, é a RT conformacional ou 3D.12 Não há estudos comparati vos entre essa e técnicas mais antigas, como a RT convencional, mas a RT 3D foi adotada como padrão, com resultados comparáveis aos apresentados anteriormente (evidência nível 4). A radioterapia de intensidade modulada (IMRT), a RT em arco e a protonterapia demonstraram, em estudos dosimétricos, potencial benefício de diminuição da dose de ra diação em tecidos sãos, embora tenha sido fartamente demonstrado que o escalonamento de dose, normalmente dependente de tecnologias avançadas, não aporta benefício no contexto do tratamento dos gliomas de baixo grau (evidência nível 5). Estimase que haja uma potencial diminuição da toxicidade advinda do tratamento, que aguarda demons tração em ensaios clínicos. É possível, também, que altas tecnologias, que propiciam a aplicação de maiores doses em regiões determinadas por meio de imagenologia funcional, técnica conhecida como dose-painting, revertamse em ganho prognóstico. Braquiterapia, radiocirurgia ou RT estereotáxica fracionada têm sido utilizadas em tumores recorren tes, fundamentandose na eficácia reportada em estudos retrospectivos uniinstitucionais14 (evidência nível 4). QUIMIOTERAPIA PCV O estudo RTOG 9802 randomizou 211 pacientes classificados como de alto risco (idade inferior a 40 anos com ressecção subtotal do tumor ou idade superior a 40 anos com qualquer grau de ressecção) para receberem RT na dose de 54 Gy ou o mesmo esquema de RT acrescido de seis ciclos de QT com PCV [procarbazina 60 mg/m2 por DIRETRIZES ONCOLÓGICAS46 dia via oral (VO) nos D8 a D21, lomustina 110 mg/m2 VO no D1 e vincristina 1,4 mg/m2 endovenosa nos D8 e D29]. Esse esquema já havia demonstrado níveis estimulantes de respostas em estudos menores anteriores. Com um seguimento médio de 5,9 anos, não se observou diferença de SG entre os grupos estudados, mas aquele que recebeu QT apresentou melhor SLD em cinco anos (63% vs. 46%, p = 0,005). Voltando à análise da SG, observouse que as curvas se separavam após dois anos de seguimento. Então, se excluídos aqueles indivíduos que progrediram para óbito nesse período (34 pacientes) ou que haviam sido censurados (seis pacientes), chegouse a uma diferença estatisticamente significativa de SG entre os grupos, com benefício para aqueles que receberam QT (SG em cinco anos de 74% vs. 59%, p = 0,02), o que pode sugerir que o ganho advindo da QT demore a aparecer, ou que os resultados foram publicados antes de estarem comple tamente amadurecidos. A toxicidade hematológica graus III e IV também foi maior nos pacientes que receberam PCV (66% vs. 11%, p < 0,001)15 (evidência 1ii B). No ano de 2014, foram apresentados, no Congresso NorteAmericano de Oncologia, os resultados do mesmo protocolo, agora com seguimento de 11,9 anos. Nessa ocasião, foi demonstra do ganho de SG mediana para os pacientes que receberam QT (13,3 vs. 7,8 anos, p = 0,03 – evidência 1ii A). Análises considerando informações moleculares como a deleção 1p/19q ou mutação do IDH ainda não foram reportadas.16 É importante observar que no protocolo RTOG 9402, em que se estudava a aplicação do mesmo esquema de QT, com desenho semelhante, mas incluindo pacientes com oligodendrogliomas ou oligoastroci tomas anaplásicos, o benefício de SG ficou restrito aos pacientes com deleção 1p/19q, embora essa análise não tenha sido planejada por ocasião do desenho do estudo.17 Temozolamida O estudo europeu EORTC 22033 avaliou a possibilidade da utilização de QT iso lada, dada a toxicidade tardia ligada ao tratamento com radiação. O agente escolhido, baseandose em estudos anteriores mostrando atividade contra gliomas de alto grau, foi a temozolamida. Randomizaramse, então, 477 pacientes de alto risco para 12 ciclos do agente supracitado versus radioterapia, na dose de 50,4 Gy em 28 frações. A classificação de alto risco diferia da definida pelo estudo RTOG 9802 (idade maior ou igual a 40 anos, progressão radiológica do tumor, convulsões epilépticas de difícil controle, sintomatologia neurológica progressiva).18 Foram apresentados, no Congresso NorteAmericano de On cologia de 2013, os resultados após seguimento de 45,5meses. Não se observou diferença de SLD mediana (40 vs. 47 meses, p = 0,23). Quando se considerou a codeleção 1p/19q, não havia diferença de SLD em pacientes em que ela estava presente, enquanto naqueles sem a mutação houve tendência a melhor SLD nos pacientes irradiados (SLD mediana: 30 vs. 41 meses, p = 0,06).19 Não há comparação direta entre PCV e temozolamida em pa cientes com tumores de baixo grau. Os resultados apresentados pelos pacientes incluídos no protocolo EORTC 22033 são inferiores, se comparados aos do RTOG 9802. Entretan to, é preciso observar que os critérios de classificação de risco diferem entre os estudos, im possibilitando qualquer conclusão consistente advinda da comparação desses resultados. RTOG 0424 O protocolo RTOG 0424 foi um estudo de fase II, braço único, em que pacientes com diagnóstico de gliomas de baixo grau classificados como de alto risco (três ou mais Capítulo 3 • GLIOMAS DE BAIXO GRAU 47 fatores de mau prognóstico, considerados aqueles definidos pelo estudo EORTC 22844)13 recebiam QT com temozolamida concomitante e adjuvante (75 mg/m2 por dia durante a RT e 150 a 200 mg/m2 por dia nos D1 a D5, repetidos a cada 28 dias) à RT, aplicada na dose de 54 Gy em 30 frações (RT conformacional). Sabese que o esquema com PCV apresenta grandes índices de toxicidade hematológica. O objetivo dos estudos era a com paração com dados históricos (submetidos à RT isolada). Foram incluídos e avaliados 129 pacientes. A SG em três anos foi de 73,1%, que é superior a dados registrados anterior mente. A temozolamida, embora financeiramente mais cara do que o PCV, tem padrão de toxicidade mais favorável e é de manejo clínico menos complicado20 (evidência 3i A). É importante ressaltar que nenhuma comparação foi feita com séries históricas de pacientes recebendo PCV + RT. Em vista das diferenças de classificação de risco, os dados deste estudo também não são comparáveis com os apresentados pelo protocolo RTOG 9802. Não há estudos comparando diretamente PCV versus temozolamida em pacientes com gliomas de baixo grau classificados como de alto risco. PERFIL MOLECULAR Leu et al. relatam a pesquisa de mutação de IDH 1 e 2, metilação da enzima MGMT, perda de heterozigozidade 1p/19q e imunopositividade para TP53 em 210 pacientes com diagnóstico de gliomas de baixo grau. Observouse que os marcadores moleculares eram melhores preditores prognósticos do que as características histológicas dos tumores. A combinação da mutação da IDH com a metilação da MGMT ou a presença de ambas as alterações, associadas à perda de heterozigozidade 1p/19q, estavam associadas a melhor SG (p < 0,001). Por outro lado, a combinação de mutação do IDH, metilação da MGMT e imunopositividade para TP53 estava associada a maior índice de transformação malig na dos tumores.21 RESUMO ESQUEMÁTICO Glioma de baixo grau Observação (pacientes selecionados) Ressecção máxima possível Ressecção máxima não possível Ressecção subtotal ou biópsia Alto risco RT 3D (54-Gy) + PCV Temozolamida isolada ou concomitante em estudo Avaliar perfil molecular e considerar indicação de QT É possível que o benefício esteja restrito a pacientes com determinado perfil molecular Baixo risco Observação RT se progressão RT 3D (45-54 Gy) Progressão DIRETRIZES ONCOLÓGICAS48 ESTUDOS EM ANDAMENTO Ressaltamos, entre os estudos em andamento, o protocolo registrado no clinical trials sob o número NCT 00978458, fase III, em que se compara a adição de temozolamida à RT com a RT isolada em pacientes com gliomas de baixo grau que apresentam pelo menos duas das seguintes características: idade maior ou igual a 40 anos, sintomatologia não controlada ou progressão de doença observada em MRIs seriadas. Os pacientes estão sendo estratificados de acordo com a idade, status 1p/19q, maior diâmetro do tumor no préoperatório e Karnofsky Performance Score (KPS). Destacase, também, o estudo Intergroup, organizado pelo NCI (National Cancer Ins- titute) dos Estados Unidos, em associação ao EORTC, também de fase III, em que os pacientes com gliomas de baixo grau de alto risco (também são admitidos pacientes com gliomas anaplásicos) com 1p/19q codeletado estão sendo randomizados para receberem RT com PCV adjuvante, RT com temozolamida concomitante e adjuvante, ou temozola mida isoladamente. Esse estudo está registrado sob o número NCT 0887146.22 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. Sanai N, Alvarez-Buylla A, Berger MS. Neural stem cells and the origin of gliomas. N Engl J Med. 2005;353(8):811-22. 2. Louis DN, Schiff D, Batchelor T. Classification and pathologic diagnosis of gliomas. 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Phase III study of radiation therapy (RT) with or without procarbazine, CCNU, and vincristine (PCV) in low-grade glioma: RTOG 9802 with Alliance, ECOG, and SWOG. J Clin Oncol. 2014:2000. 17. Cairncross G, Wang M, Shaw E, Jenkins R, Brachman D, Buckner J, et al. Phase III trial of chemoradiotherapy for anaplastic oligodendroglioma: long-term results of RTOG 9402. J Clin Oncol. 2013;31(3):337-43. 18. Fairchild A, Weber DC, Bar-Deroma R, Gulyban A, Fenton PA, Stupp R, et al. Quality assurance in the EORTC 22033-26033/CE5 phase III randomized trial for low grade glioma: the digital individual case review. Radiother Oncol. 2012;103(3):287-92. 19. Baumert B, Mason W, Ryan G, Bromberg J, van den Bent M, Hoang-Xuan K, et al. Temozolomide chemotherapy versus radiotherapy in molecularly characterized (1p loss) low-grade glioma: A randomized phase III intergroup study by the EORTC/NCIC-CTG/TROG/MRC-CTU (EORTC 22033-26033). J Clin Oncol. 2013. 20. Fisher BJ, Hu C, Macdonald DR, Lesser GJ, Coons SW, Brachman DG, et al. Phase 2 study of temozolomide-based chemoradiation therapy for high-risk low-grade gliomas: preliminary results of Radiation Therapy Oncology Group 0424. Int J Radiat Oncol Biol Phys. 2015;91(3):497- 504. 21. Leu S, von Felten S, Frank S, Vassella E, Vajtai I, Taylor E, et al. IDH/MGMT-driven molecular classification of low-grade glioma is a strong predictor for long-term survival. Neuro Oncol. 2013;15(4):469-79. 22. ClinicalTrials.gov. NIH: National Institute for Health. 2015. Disponível em: <https://clinicaltrials. gov/>. Acesso em: 17 set. 2017. 51 Capítulo 4 CÂNCER DE CABEÇA E PESCOÇO Aline Lauda Freitas Chaves Marcos Santos I. INTRODUÇÃO O termo “câncer de cabeça e pescoço” se refere às neoplasias malignas do trato aerodigestivo superior. Neste capítulo serão abordados os carcinomas escamosos da boca, orofaringe, hipofaringe, laringe e nasofaringe, mas não serão mencionados os tumores de tireoide, lábios, pele, glândulas salivares e seios da face. Na abordagem do paciente com carcinoma escamoso de cabeça e pescoço, é funda mental levar em consideração: Fatores relacionados ao paciente; Fatores relacionados ao tumor; Fatores relacionados à instituição. Fatores do paciente Fatores tumorais Fatores institucionais Performance status Idade Comorbidades Status nutricional Desejos/expectativas Sítio primário Histologia Infecção pelo HPV Estadiamento Equipe multiprofissional Fonte pagadora Tecnologias disponíveis Pacientes frágeis, com performance status limitado (Eastern Cooperative Oncology Group – ECOG ≥ 2) e pacientes idosos (com 71 anos ou mais) apresentam baixo benefício da adição do tratamento sistêmico na condução do seu caso, independentemente do estadia mento tumoral.1 Pacientes com comorbidades, principalmente aquelas com impacto na função renal e cardíaca, e pacientes desnutridos devem ser monitorados, e o tratamento deve ser adequado de acordo com sua função orgânica.2 Em todas as situações citadas neste parágrafo, é fundamental individualizar o tratamento, direcionandoo para possibi litar maior sobrevida e preservar o paciente. DIRETRIZES ONCOLÓGICAS52 Além de individualizar o tratamento segundo as características do paciente, é fun damental levar em consideração o sítio primário do tumor. Apesar de muitas vezes ser tratado como entidade única, cada subsítio tem suas particularidades, tanto moleculares como anatômicas e funcionais. A mudança do perfil epidemiológico, com o HPV (papilo mavírus humano) sendo um dos principais causadores do carcinoma de orofaringe, par ticularmente na base da língua e nas amígdalas, é uma realidade em muitos países, mas no Brasil apresenta baixa incidência até o presente momento. Apesar disso, atualmente é indicada a avaliação da positividade pelo HPV nos tumores de base de língua e amíg dalas, por meio da avaliação da proteína p16 por imunoistoquímica, com cut-off de 70% de positividade, difusa, tanto nuclear quanto citoplasmática.3 Com os dados publicados até o momento na literatura não podemos mudar a conduta dos casos dos tumores de orofaringe HPV positivo. Não há indicação de avaliação de HPV para os demais subsítios (laringe, boca, hipofaringe e nasofaringe). Outro aspecto de extrema relevância na condução do paciente com câncer de cabe ça e pescoço é a atuação conjunta e integrada da equipe multidisciplinar. O ideal é que a porta de entrada do paciente seja o cirurgião de cabeça e pescoço, que avaliará e estadiará o paciente, levando seu caso para discussão em reunião multidisciplinar para definição de conduta. A atuação conjunta do cirurgião, rádiooncologista, oncologista e membros da equipe de suporte (enfermeiro, assistente social, dentista, fonoaudiólogo, psicólogo e fisioterapeuta) tem impacto não apenas na qualidade de vida do paciente, como também na sua sobrevida.4 II. EPIDEMIOLOGIA O Brasil é um dos países com maior incidência de carcinoma escamoso de cabeça e pescoço. Dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca) demonstram incidência nos ho mens de 11.140 novos casos de câncer de boca e 6.360 novos casos de câncer de laringe anualmente.5 É uma doença com predominância no sexo masculino. Os principais fatores de risco para o carcinoma escamoso de cabeça e pescoço são o tabagismo e o etilismo. Além de identificar tais fatores, é fundamental na abordagem pela equipe multidisciplinar a orientação para cessar o vício. Isso é importante, pois há menor resposta à radioterapia (RT) nos pacientes tabagistas, e o estímulo permanente do cigarro no epitélio já comprometido (a chamada cancerização de campo) aumenta significativa mente a chance de segunda neoplasia.6 O HPV é um importante fator de risco nos casos de tumores de base de língua e amígdalas. Sua infecção se dá principalmente por meio do sexo oral. Estudos recentes demonstram que a vacinação contra o HPV (em meninas e meninos) diminui significativamente o risco de infecção e provavelmente diminuirá a incidência desses tumores a longo prazo.7 III. ESTADIAMENTO O estadiamento clínico é feito pelo American Joint Committee on Cancer (AJCC), 7ª edição (2010). O estadiamento T varia de acordo com o sítio primário da doença. O estadiamento linfonodal (N) é o mesmo para os tumores da cavidade oral, laringe, hipofa ringe e orofaringe, assim como o estádio agrupado. Capítulo 4 • CÂNCER DE CABEÇA E PESCOÇO 53 III.1. Estadiamento T Tumores de laringe Supraglote – T1: tumor limitado a um subsítio da supraglote com mobilidade de corda vocal normal; T2: tumor invade a mucosa de mais de um subsítio da supraglote ou glote ou alguma região fora da supraglote (mucosa da base da língua, valécula, pare de medial do seio piriforme) sem fixação da laringe; T3: tumor limitado à laringe com fixação da corda vocal e/ou invasão de uma das seguintes estruturas: área póscricoide, espaço préepiglótico, espaço paraglótico e/ou córtex interna da cartilagem tireoidiana; T4a: tumor invade a cartilagem tireoide e/ou estruturas além da laringe, como traqueia, partes moles do pescoço, incluindo musculatura extrínseca profunda da base da língua, alça muscular, tireoide ou esôfago; T4b: tumor invade espaço prévertebral, engloba a artéria carótida ou estruturas mediastinais. Glote – T1: Tumor limitado à corda vocal, com mobilidade normal dela (pode en volver comissura anterior ou posterior); T1a: tumor limitado a umacorda vocal; T1b: tumor envolve ambas as cordas vocais; T2: tumor invade a supraglote e/ou subglote e/ou com mobilidade diminuída da corda vocal; T3: tumor limitado à laringe com fixação da corda vocal e/ou invasão do espaço paraglótico e/ou invasão da córtex interna da cartila gem tireoidiana; T4a: tumor invade além da córtex interna da cartilagem tireóidea e/ou estruturas além da laringe, como traqueia, partes moles do pescoço incluindo musculatu ra extrínseca profunda da base da língua, alça muscular, tireoide ou esôfago; T4b: tumor invade espaço prévertebral, englobando a artéria carótida ou estruturas mediastinais. Subglote – T1: tumor limitado à subglote; T2: tumor se estende à corda vocal, com mobilidade normal ou diminuída; T3: tumor limitado à laringe, com fixação da corda vocal; T4a: tumor invade a cartilagem tireoide ou cricoide e/ou invade tecidos além da laringe (traqueia, partes moles do pescoço, incluindo musculatura extrínseca profunda da base da língua, alça muscular, tireoide ou esôfago); T4b: tumor invade espaço préverte bral, englobando a artéria carótida ou estruturas mediastinais. Tumores de hipofaringe T1: tumor limitado a um subsítio da hipofaringe e/ou menor que 2 cm em sua maior dimensão; T2: tumor invade mais de um subsítio ou sítios adjacentes ou mede entre 2 e 4 cm, sem fixação da hemilaringe; T3: tumor com mais de 4 cm na sua maior dimensão ou com fixação da hemilaringe ou extensão para o esôfago; T4a: tumor invade cartilagem tireoide ou cricoide, osso hióideo, glândula tireoide ou tecidos de partes moles do compar timento central; T4b: tumor invade espaço prévertebral, englobando a artéria carótida ou estruturas mediastinais. Tumores de orofaringe Tx: tumor primário, não pode ser avaliado; T0: sem evidências do tumor primário; Tis: carcinoma in situ; T1: tumor com 2 cm ou menos nas maiores dimensões; T2: tumor com mais de 2 cm e com 4 cm ou menos nas maiores dimensões; T3: tumor com mais de 4 cm nas maiores dimensões; T4a: tumor invade a laringe, musculatura extrínseca da língua, pterigoide medial, palato duro ou mandíbula (extensão mucosa para a superfície DIRETRIZES ONCOLÓGICAS54 lingual da epiglote a partir do tumor primário da base da língua e valécula não constitui invasão de laringe); T4b: tumor invade a musculatura pterigoide lateral, placas pterigoi deas, nasofaringe lateral ou base de crânio, ou encarcera a artéria carótida. Tumores de cavidade oral Tx: tumor primário não pode ser avaliado; T0: Sem evidências do tumor primário; Tis: carcinoma in situ; T1: tumor de 2 cm ou menos nas maiores dimensões; T2: tumor com mais de 2 cm e com 4 cm ou menos nas maiores dimensões; T3: tumor com mais de 4 cm nas maiores dimensões; T4a: tumor invade somente as estruturas adjacentes (por exemplo, através do osso cortical da mandíbula ou da maxila até A musculatura profunda extrínseca da língua, como músculos genioglosso, hioglosso, palatoglosso e estiloglosso, ou seios maxilares, ou pele da face); T4b: tumor invade o espaço mastigatório, placas pteri goideas ou base do crânio, ou circunferencialmente a artéria carótida interna. III.2. Estadiamento linfonodal (N) Nx: linfonodos regionais não podem ser avaliados N0: sem metástases em linfonodos regionais N1: linfonodo regional único, ipsilateral ao tumor e com 3 cm ou menos nas maiores dimensões N2a: linfonodo regional único, ipsilateral ao tumor, com tamanho entre 3 e 6 cm N2b: múltiplos linfonodos regionais comprometidos, ipsilaterais ao tumor, ne nhum com mais de 6 cm nas suas maiores dimensões N2c: linfonodos regionais bilaterais ou contralaterais comprometidos, nenhum maior que 6 cm em sua maior dimensão N3: linfonodo regional comprometido com mais de 6 cm em sua maior dimen são M0: ausência de metástases a distância M1: presença de metástases a distância III.3. Estadiamento agrupado Estádio clínico TNM 0 Tis N0 M0 I T1 N0 M0 II T2 N0 M0 III T3 N0 M0, T1-3 N1 M0 IVA T4a N0-2 M0, T1-3 N2 M0 IVB Qualquer T N3 M0, T4b qualquer N M0 IVC Qualquer T qualquer N M1 Capítulo 4 • CÂNCER DE CABEÇA E PESCOÇO 55 IV. TRATAMENTO DA DOENÇA INICIAL (ESTÁDIO I E II) a. Câncer de cavidade oral: Para os tumores T1 e T2, recomendase cirur gia. Esvaziamento cervical está recomendado para comprometimento linfono dal (N1 a N3) ou, então, para pacientes N0, porém com critérios de alto risco (tumores do andar inferior da boca medindo mais de 2 cm de extensão ou 4 mm de espessura). A RT fica reservada para aquelas situações em que haja po tencial perda funcional com a cirurgia (alguns tumores do trígono retromolar, por exemplo).8 A irradiação pode ser feita tanto com RT externa quanto com braquiterapia, com a observação de que essa última não engloba, como volume de tratamento, as cadeias de drenagem. A irradiação cervical deve, então, ser completada, com RT externa, quando indicada (tumores de lábio maiores que 5 cm,9 outros tumores com profundidade maior que 3 mm). A braquiterapia apresenta potencial benefício dosimétrico devido à alta capacidade de confor mação da dose, com menor aplicação de radiação nos tecidos sadios ao redor do tumor, resultando em menos efeitos colaterais em curto e longo prazo.10 Em tumores pequenos (T1 ou T2 lateralizados da amígdala, N0, com mínima ex tensão para o palato mole ou base da língua), a irradiação cervical pode ser exclusivamente ipsilateral.11 Tratamento adjuvante – vide subitem IV.e. b. Câncer de orofaringe: Tanto a cirurgia quanto a RT oferecem condições semelhantes para o controle regional de tumores T12. Devese levar em con sideração a morbidade associada aos tratamentos (principalmente estética e funcional) e as tecnologias disponíveis que poderão diminuir consideravelmente tais morbidades (como robótica ou radioterapia com intensidade modulada – IMRT). Tratamento adjuvante – vide subitem IV.e. c. Câncer de laringe: Cirurgia conservadora ou RT. Tratamento do pescoço: não indicada dissecção linfonodal nem RT cervical nos casos de tumores gló ticos iniciais. No caso dos tumores supraglóticos, se for realizado tratamento cirúrgico, incluir esvaziamento cervical dos níveis II e III ou II, III e IV. Trata mento adjuvante – vide subitem IV.e. i. Radioterapia: Estudos retrospectivos mostram controle local variando de 81% a 95% em tumores T1 e de 70% a 80% em tumores T2 de larin ge, valores esses que, apesar do caráter retrospectivo da análise, parecem ser semelhantes aos conseguidos com cirurgia.12,13 Há apenas um estudo prospectivo e randomizado, publicado em russo, comparando diretamente a cirurgia à RT, com vantagem de SLD para os pacientes operados (T1: 71,1% vs. 100%; T2: 60,1% vs. 78,7%; p = 0,036),14 mas sérias dúvidas metodológicas e RT subótima indicam que esses dados devem ser interpre tados com cuidado na definição do tratamento desses pacientes.15 Não há comparações diretas entre cirurgia e RT em pacientes com tumores iniciais da hipofaringe.16 Os campos pequenos normalmente usados nesses plane jamentos permitem que doses maiores de radiação sejam aplicadas diaria mente, diminuindo o tempo total de tratamento. Em estudo japonês que comparou, prospectivamente, a dose de 2 Gy por dia vs. 2,25 Gy por dia (encurtando o tempo total em 1,5 semana), observouse melhor controle local com essa última estratégia.17 A técnicapadrão é RT conformacional DIRETRIZES ONCOLÓGICAS56 ou 3D. Embora a IMRT, em estudos dosimétricos, potencialmente diminua a dose aplicada nas carótidas,18 há indícios de que essa técnica, devido à su birradiação do tecidoalvo, possa estar associada à diminuição da sobrevida global (SG). Ela deve ser desencorajada, portanto, até que estudos prospec tivos demonstrem claramente a segurança e a eficácia do procedimento.19 d. Câncer de hipofaringe: Cirurgia conservadora ou RT. Tratamentodo pes coço: se for realizado tratamento cirúrgico, incluir esvaziamento cervical dos níveis II e III ou II, III e IV; se for realizada RT, o campo de radiação deverá incluir os linfonodos dos níveis citados anteriormente. Tratamento adjuvante – vide subitem IV.e. e. Critérios para indicar radioterapia e ou quimioterapia adjuvante à cirurgia: Associase RT adjuvante nos casos com infiltração perineural, embo lização vascular ou metástases cervicais sem comprometimento extracapsular, ou quimiorradioterapia adjuvante nos casos em que haja margens positivas ou extravasamento extracapsular da doença nodal.20,21 i. Dose de RT adjuvante isolada: 66 Gy em 33 frações. ii. Quimioterapia adjuvante concomitante a RT: cisplatina 100 mg/m2 nos D1, D22 e D43 e RT na dose, também, de 66 Gy em 33 frações. f. Complicações da radioterapia no tratamento das lesões iniciais: É possível observar inflamação da pele (dermatite), rouquidão, odinofagia e/ou disfagia, que frequentemente se apresentam em graus 1 ou 2 e são autolimi tadas. Cronicamente, observamse hipotireoidismos em aproximadamente 1/5 dos pacientes, com baixos índices de relatos de xerostomia e disfagia em longo prazo. Pior qualidade de vida é observada nos pacientes que continuam a fumar e naqueles cujos tumores, inicialmente, apresentavam maior tamanho (T2b).22 V. TRATAMENTO DA DOENÇA LOCALMENTE AVANÇADA RESSECÁVEL (T3 OU T4A) a. Câncer de cavidade oral: Cirurgia radical com esvaziamento cervical uni ou bilateral seguida de RT ou quimiorradioterapia adjuvante (vide subitem V.e). b. Câncer de orofaringe: Cirurgia ou quimiorradioterapia concomitante. Duas questões importantes a considerar na escolha do tratamento: 1. Se for indicada cirurgia, com quais sequelas anatômicas e funcionais o paciente ficará. 2. É pos sível preservar o órgão com quimio e radioterapia. i. Se a opção terapêutica para o caso for a cirurgia radical, é indicado o trata mento adjuvante (vide subitem V.e). ii. Se a opção for preservação de órgão, são indicadas cisplatina (100 mg/m2) no D1, D22 e D43, e RT externa na dose de 70 Gy (2 Gy por fração).1 O uso de quimioterapia neoadjuvante, prévia ao tratamento definitivo com RT, associada ou não à quimioterapia concomitante, não demonstrou benefício quando comparado com a quimiorradioterapia concomitante.23 Por isso, é considerado investigacional. Se for indicado, deve ser feito apenas para pa cientes com bom performance status e jovens. O protocolopadrão é: docetaxel 75 mg/m2 endovenoso (EV) no D1, cisplatina 75 mg/m2 EV no D1 e fluo rouracil 750 mg/m2 EV nos D1 a D5, infusão contínua, a cada três semanas Capítulo 4 • CÂNCER DE CABEÇA E PESCOÇO 57 por três ciclos. Para pacientes com contraindicação ao uso da cisplatina, pode ser indicado o uso de RT associada a cetuximabe, conforme estudo de Bonner et al., nas doses de cetuximabe 400 mg/m2 EV uma semana antes do início da RT, seguido por cetuximabe 250 mg/m2 EV semanal, por sete semanas durante a RT.24 c. Câncer de laringe: i. Tumores T3: Importante avaliar a possibilidade de preservação de órgão funcionante – nos casos de tumores T3. Ou seja: em paciente com laringe funcionante no qual a cirurgia indicada é a laringectomia total, é indicada: RT (70 Gy em 35 frações) associada à quimioterapia (cisplatina 100 mg/m2 nos D1, D22 e D43).25 Na atualização recente do estudo RTOG 9111, foi confirmado melhor controle local e maior taxa de preservação de laringe no grupo de pacientes submetidos à quimioterapia concomitante à RT, quando comparado com o grupo que realizou quimioterapia de indução (PF) segui da de RT e também quando comparado àquele com RT isolada. Porém, chama a atenção nesse seguimento a longo prazo (10 anos) uma maior mor talidade não relacionada ao câncer no grupo de pacientes submetidos ao tratamento concomitante. Há tendência a melhor SG no grupo submetido à quimioterapia de indução seguida de RT. Associando esse dado aos dados da análise dos tumores de laringe no estudo TAX 324, que demonstrou su perioridade da quimioterapia neoadjuvante com TPF quando comparado com PF, concluise que a quimioterapia de indução seguida de quimiorra dioterapia pode ser uma opção na condução com tumores avançados de laringe candidatos à preservação de órgão.26 ii. Tumores T4: Laringectomia total seguida de RT ou radioquimioterapia adjuvante (vide subitem V). d. Câncer de hipofaringe: i. Tumores T3: Assim como nos tumores da laringe, se factível a preservação de órgão funcionante, é indicada quimioterapia com cisplatina 100 mg/m2 concomitante a RT. Caso não factível a preservação de órgão funcionante, indicase cirurgia (vide tumores T4). ii. Tumores T4: Faringolaringectomia com esvaziamento cervical seguida de RT ou radioquimioterapia adjuvante (vide subitem V.e). e. Critérios para indicar radioterapia e ou quimioterapia adjuvante à cirurgia: Associase RT adjuvante nos casos com infiltração perineural, embo lização vascular ou metástases cervicais sem comprometimento extracapsular, ou quimiorradioterapia adjuvante nos casos em que haja margens positivas ou extravasamento extracapsular da doença nodal.20,21 i. Radioterapia adjuvante isolada na dose de 66 Gy em 33 frações. ii. Quimioterapia adjuvante concomitante à RT: cisplatina 100 mg/m2 nos D1, D22 e D43 e RT na dose, também, de 66 Gy em 33 frações. f. Abordagem do pescoço em pacientes que se apresentam com doença cervical que foram submetidos a tratamento não cirúrgico: O trata mentopadrão seria o esvaziamento cervical programado, porém estudos atuais DIRETRIZES ONCOLÓGICAS58 demonstram que pacientes não precisam ser submetidos a esvaziamento cervi cal programado após quimio e radioterapia se o exame de tomografia por emis são de pósitrons/tomografia computadorizada (PET/CT) for negativo (exame realizado na semana 12 após término da RT).27 VI. TRATAMENTO DA DOENÇA LOCALMENTE AVANÇADA IRRESSECÁVEL Os estudos atuais abordam a doença irressecável de forma única. Ou seja, o trata mento é uniforme independentemente do subsítio na doença irressecável. Considerase tumor irressecável quando há envolvimento circular da carótida interna, invasão da fáscia prévertebral e/ou invasão maciça da base de crânio. Sendo assim os tumores irressecá veis de laringe, cavidade oral, hipofaringe e orofaringe podem ser abordados por: a. Quimioterapia concomitante à RT: cisplatina 100 mg/m2 nos D1, D22 e D43, associada à RT na dose de 70 Gy em 35 frações. Esse é o tratamentopadrão nesses casos.1 b. Quimioterapia prévia à RT (associada ou não à quimioterapia): vários estudos já demonstraram não haver benefício da quimioterapia prévia quando compara da à quimioterapia concomitante à RT, sendo essa modalidade considerada in vestigacional.10 Em casos selecionados, pode ser indicada, principalmente para pacientes jovens e com bom performance status. O protocolo indicado deve incluir pelo menos uma platina e um taxano, sendo o mais usado: docetaxel 75 mg/m2 EV no D1, cisplatina 75 mg/m2 EV no D1 e fluorouracil 750 mg/m2 EV nos D1 a D5, infusão contínua, a cada três semanas. c. Para pacientes com contraindicação ao uso da cisplatina: pode ser indicado o uso de RT associada à cetuximabe, conforme estudo de Bonner et al., nas doses de cetuximabe 400 mg/m2 EV uma semana antes do início da RT, seguido por cetuximabe 250 mg/m2 EV semanal, por sete semanas durante a RT.24 VIII. TRATAMENTO DA DOENÇA RECIDIVADA E/OU METASTÁTICA a. Recidiva local ou regional: O tratamento de escolha, se factível, é a cirurgia de resgate, sendo as taxas de controle diretamente dependentes do sítio primário da doença. Se irressecável, a opção terapêutica deve ser personalizada, sendo possível: reirradiação para casos selecionados, quimioterapia paliativa ou cuida dos paliativos. Reirradiação é um procedimento de exceção devidoà toxicidade associada a ele. Os principais critérios para reirradiar são: tumor de pequeno volume, recidiva isolada em região cervical, longo intervalo entre o primeiro tratamento e a recidiva (idealmente superior a um ano), disponibilidade de uso de novas tecnologias e de doses mais altas de RT. Reirradiação pode ser usada adjuvante à cirurgia de resgate para pacientes com critérios de alto risco de re cidiva como margens positivas, invasão perineural e/ou linfovascular e extensão extranodal. b. Tratamento sistêmico: OS principais objetivos do tratamento nessa circuns tância são controlar os sintomas, melhorar a qualidade de vida e aumentar a SG e a sobrevida livre de doença (SLD). A escolha do melhor tratamento para o paciente deve ser baseada no seu performance status, idade, comorbidades, tra Capítulo 4 • CÂNCER DE CABEÇA E PESCOÇO 59 tamentos anteriores e preferência do paciente. Para pacientes sensíveis à cis platina, o tratamentopadrão é platina associada a fluorouracil e cetuximabe, que demonstrou ganho de SG e maior taxa de resposta quando comparado ao esquema sem cetuximabe. Protocolopadrão: cisplatina 100 mg/m2 EV no D1 (ou carboplatina AUC 5 EV no D1), fluorouracil 1.000 mg/m2 EV nos D1 a D5 por infusão contínua (a cada três semanas) e cetuximabe 400 mg/m2 EV na semana 1, seguido por 250 mg/m2 EV sema nalmente.28 Um protocolo de tratamento que apresentou resultados promissores em estudo de fase II (estudo de fase III em andamento) é o protocolo do GORTEC – docetaxel 75 mg/m2 EV no D1, cisplatina 75 mg/m2 EV no D1 e cetuximabe 400 mg/m2 EV na semana 1, seguido por 250 mg/m2 EV semanalmente.29 Para pacientes com performance status 2, sugerimos quimioterapia com droga única. Paclitaxel 80 mg/m2 EV por semana ou metotrexato 40 mg/m2 IM por semana. Para pacientes com performance status > 2, sugerimos cuidados paliativos exclusivos. VII. CÂNCER DE NASOFARINGE O câncer de nasofaringe, também chamada de rinofaringe, difere dos demais car cinomas escamosos de cabeça e pescoço devido a sua distribuição geográfica, associação com vírus EpsteinBarr (EBV), história natural e radiossensibilidade. É considerada uma neoplasia rara em todo o mundo, com exceção da China, sudeste asiático e norte da África. Sua distribuição geográfica está relacionada à interação de fatores etiológicos ge néticos, ambientais, dietéticos e virais (EBV). Cerca de 80% dos pacientes têm linfonodos comprometidos ao diagnóstico devido à rica rede linfática na submucosa da nasofaringe, e aproximadamente 10% têm metástases viscerais, sendo mais frequentes as metástases ósseas, seguidas de metástases pulmonares e hepáticas.30 a. Estadiamento Tx: tumor primário não pode ser avaliado; T0: sem evidências do tumor primário; Tis: carcinoma in situ; T1: tumor confinado à nasofaringe com ou sem extensão para oro faringe, fossa nasal, mas sem extensão parafaríngea*; T2: tumor com extensão parafarín gea*; T3: tumor que invade estruturas ósseas do crânio e/ou seios paranasais; T4: tumor com extensão intracraniana e/ou envolvimento de nervos cranianos, fossa infratemporal, hipofaringe, órbita ou espaço mastigador. Nota: * A extensão parafaríngea indica infiltração posterolateral do tumor além da fáscia faringobasilar. NX: os linfonodos regionais não podem ser avaliados; N0: ausência de metástases em linfonodos regionais; N1: metástase cervical unilateral, com 6 cm ou menos em sua maior dimensão, acima da fossa supraclavicular ou linfonodo(s) retrofaríngeo(s), unilateral ou bilateral, com menos de 6 cm em sua maior dimensão; N2: metástases em linfonodos cervicais bilaterais, com 6 cm ou menos em sua maior dimensão, acima da fossa supracla vicular; N3: metástase em linfonodo(s) com mais de 6 cm em sua maior dimensão ou em fossa supraclavicular; N3a: linfonodo(s) com mais de 6 cm em sua maior dimensão; N3b: linfonodo(s) na fossa supraclavicular Nota: Os linfonodos de linha média são considerados linfonodos homolaterais. DIRETRIZES ONCOLÓGICAS60 MX: a presença de metástase a distância não pode ser avaliada; M0: ausência de metástase a distância; M1: metástase a distância. Estádio clínico TNM Estádio 0 Tis N0 M0 Estádio I T1 N0 M0 Estádio II T1 N1 M0, T2 N0-1 M0 Estádio III T1-2 N2 M0, T3 N0-2 M0 Estádio IVA T4 N0-2 M0 Estádio IVB Qualquer T N3 M0 Estádio IVC Qualquer T qualquer N M1 b. Tratamento da doença localizada Estádio I: RT exclusiva. Estádio II: RT exclusiva ou com quimioterapia concomitante para tumores T2N1. A RT é o principal pilar de sustentação do tratamento dos tumores de nasofaringe, considerando a conhecida sensibilidade ao tratamento com radiação frequentemente ob servada nessa patologia e, também, o difícil acesso anatômico para a abordagem cirúrgi ca. Em tumores iniciais (estádio I), observamse taxas de SG ao redor de 90% em cinco anos com RT isolada.31 A irradiação deve dirigirse ao tumor primário e, mesmo nos tumores iniciais N0, também às cadeias de drenagem, níveis II, III e Va. Níveis IV e Vb podem ser poupados, na ausência de gânglios comprometidos.32 c. Tratamento da doença avançada São opções:33 1. Quimiorradioterapia concomitante: Está bem estabelecido que o maior benefí cio da quimioterapia é obtido com a associação de quimioterapia concomitante à RT. O protocolo indicado é cisplatina na dose de 100 mg/m2 a cada três se manas durante a RT, por três ciclos; 2. Quimiorradioterapia concomitante seguida de quimioterapia adjuvante: Ra dioterapia concomitante à quimioterapia com cisplatina 100 mg/m2 nos D1, D22 e D43 seguida por quimioterapia adjuvante com três ciclos adjuvantes de cisplatina (80 mg/m2 no D1) associada a fluorouracil em infusão contínua (1.000 mg/m2 EV nos D1 a D4), a cada quatro semanas; 3. Quimioterapia prévia à quimiorradioterapia concomitante: Quimioterapia neoadjuvante com docetaxel 60 mg/m2 no D1, cisplatina 60 mg/m2 no D1 e 5fluorouracil 600 mg/m2 nos D1 a D5, seguida de RT concomitante à cisplati na 100 mg/m2 nos D1, D22 e D43.34 A técnica de RT indicada, tendo em vista a potencial diminuição de xerostomia a médio prazo, é a IMRT, apesar do aumento da fadiga observado nesses pacientes, possi velmente associado à maior dose total absorvida pelo paciente, quando comparada à RT conformacional.35 A dose de RT deve ser de pelo menos 70 Gy no tumor macroscópico e de 50 a 60 Gy em áreas de alto risco de acometimento subclínico.36 Capítulo 4 • CÂNCER DE CABEÇA E PESCOÇO 61 d. Tratamento da doença recidivada ou metastática Se houver recidiva local ou regional ressecável, realizar cirurgia. Se houver recidiva local de pequeno volume, considerar braquiterapia. Reirra diação pode ser considerada em casos selecionados Se a doença for irressecável ou considerar metástase a distância, realizar qui mioterapia: • Gencitabina 1.000 mg/m2 nos D1 e D8 e cisplatina 80 mg/m2 EV no D1 a cada 21 dias;37 • Para os pacientes que já receberam quimioterapia com cisplatina, podem ser usados docetaxel, paclitaxel, gencitabina, vinorelbina, ifosfamida, do xorrubicina, irinotecano ou oxaliplatina, em monoterapia ou combinação; • Não há indicações de terapiaalvo fora de estudos clínicos; • Suporte clínico é uma opção para pacientes com baixo performance status. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. Pignon JP, le Maître A, Maillard E, Bourhis J; MACH-NC Collaborative Group. Meta-analysis of chemotherapy in head and neck cancer (MACH-NC): an update on 93 randomised trials and 17,346 patients. Radiother Oncol. 2009;92(1):4-14. 2. Paleri V, Wight RG, Silver CE, Haigentz M Jr, Takes RP, Bradley PJ, et al. 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Long-term results of RTOG 91-11: a comparison of three nonsurgical treatment strategies to preserve the larynx in patients with locally advanced larynx cancer. J Clin Oncol. 2013;31(7):845-52. Capítulo 4 • CÂNCER DE CABEÇA E PESCOÇO 63 27. Mehanna H, Wong W, McConkey C, Rahman J, Robinson M, Hartley A, et al. PET-CT surveillance versus neck dissection in advanced head and neck cancer. N Engl J Med. 2016;374:1444-54. 28. Vermorken JB, Mesia R, Rivera F, Remenar E, Kawecki A, Rottey S, et al. Platinum-based chemotherapy plus cetuximab in head and neck cancer. N Engl J Med. 2008;359(11):1116-27. 29. Guigay J, Fayette J, Dillies AF, Sire C, Kerger JN, Tennevet I, et al. Cetuximab, docetaxel, and cisplatin as first-line treatment in patients with recurrent or metastatic head and neck squamous cell carcinoma: a multicenter, phase II GORTEC study. Ann Oncol. 2015;26(9):1941-7. 30. Sze H, Blanchard P, Ng WT, Pignon JP, Lee AW. 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Lancet. 2016;388(10054):1883-92. 65 Capítulo 5 CARCINOMAS DIFERENCIADOS DE TIREOIDE Gabriela Resende Vieira de Sousa Tatiana Strava Corrêa INTRODUÇÃO Os carcinomas diferenciados de tireoide (CDTs) são tumores raros derivados de célu las foliculares da tireoide. Correspondem a 90% das neoplasias malignas tireoidianas. Nas últimas décadas, houve aumento importante de sua incidência com o uso disseminado de exames diagnósticos e detecção mais frequente de tumores pequenos e assintomáticos.1 O prognóstico é excelente na grande maioria dessas lesões diagnosticadas incidentalmente, com manutenção da taxa de mortalidade, apesar do número crescente de casos novos.2 Os CDTs podem ser do tipo papilífero (85%), folicular (10%) ou oncocítico (5%). O carcinoma papilífero de tireoide (CPT) possui mais de 10 variantes histológicas; as de melhor prognóstico são a clássica e a folicular; e as mais agressivas são a colunar, de células altas, esclerosante difusa, sólida, insular e trabecular. O microcarcinoma papilífero corresponde ao CPT com tamanho inferior a 1 cm. O carcinoma folicular da tireoide (CFT) se caracteriza por sinais de invasão capsular e/ou vascular e ausência de sinais nucleares típicos do CPT, sendo classificado em minimamente ou amplamente invasivos. O carcinoma folicular oncocítico é formado por grandes células (de Hurthle) com o acú mulo de mitocôndrias e apresenta maior taxa de metástases, recorrência e mortalidade relacionada ao tumor.3,4 EPIDEMIOLOGIA NO BRASIL O CDT pode ser considerado o mais comum da região da cabeça e pescoço. No Brasil, dos mais de 500.000 mil casos novos de câncer estimados pelo Instituto Nacional do Câncer (Inca) para 2016, 6.960 seriam de tireoide. É importante ressaltar que as mu lheres são as mais afetadas, com incidência cinco vezes maior. A doença é o oitavo tipo mais frequente nas mulheres brasileiras e representa 3% de todos os casos de câncer nesse grupo. A região com maior incidência é o Sudeste.5,6 DIRETRIZES ONCOLÓGICAS66 ESTADIAMENTO O estadiamento da American Joint Committee on Cancer (AJCC) é recomendado para todos os casos de CDT devido à sua utilidade em predizer o risco de mortalidade.7 Ba seiase na idade ao diagnóstico (mais que 55 anos como fator de risco) em conjunto com a classificação TNM (T: tamanho do tumor primário, N: número e localização de linfo nodos metastáticos e M: metástases a distância). O T pode ser avaliado por exame anato mopatológico, exames préoperatórios como ultrassonografia (USG) cervical, tomografia computadorizada (TC), ressonância magnética (RM) e laringoscopia, em alguns casos. A avaliação do N é realizada com USG préoperatória ou punção biópsia aspirativa com agulha fina (PBAAF) guiada por USG (caso haja dúvida), em todos os pacientes que serão submetidos à tireoidectomia com suspeita de malignidade.9,10 O risco de mortalidade é de 1,7%, 15,2%, 30% e 60,9% em 10 anos, nos estádios I, II, III e IV, respectivamente. A American Thyroid Association (ATA) define em seus guidelines uma estratificação de risco póstireoidectomia que prevê o risco de recorrência da doença. Essa estratificação classifica os paceintes em baixo, intermediário ou alto risco.11,12 Risco baixo: CDT sem invasão extratireoidiana, com menos de seis linfonodos acometidos com micrometástases (< 2 cm); risco intermediário: subtipo histológico desfavorável, invasão extratireoidiana mínima, invasão vascular ou mais de cinco linfonodos acometidos (0,2 a 3 cm); risco alto: invasão extratireoidiana evidente, ressecção incompleta do tumor, metástases a distância ou linfonodos maiores que 3 cm. Tabela 5.1. Classificação TNM para CDT (oitava edição) TX: tumor primário não pode ser avaliado T0: sem evidência de lesão primária T1a: tumor menor que 1 cm, sem invasão extratireoidiana T1b: tumor entre 1 e 2 cm, sem invasão extratireoidiana T2: tumor entre 2 e 4 cm, sem invasão extratireoidiana T3a: tumor maior que 4 cm limitado à tireoide T4b: invasão de músculos adjacentes T4a: tumor invade estruturas adjacentes, como tecido subcutâneo, traqueia, laringe, esôfago, nervo laríngeo recorrente T4b: tumor invade outras estruturas adjacentes, como fáscia pré-vertebral, artérias carotídeas, vasos mediastinais NX: metástases regionais não podem ser avaliadas N0: sem metástases em linfonodos regionais N0a: uma ou mais histologia confirmando linfonodo benigno N0b: sem evidência radiológica de acometimento linfonodal N1a: metástases em linfonodos do nível VI ou VII (linfonodos do grupo pré-traqueal, paratraqueal, pré-laringeal e mediastino superior) N1b: metástases unilaterais, bilaterais ou contralaterais (linfonodos do nível I, II, III, IV ou V), retrofaringianos M0: sem metástase a distância. M1: com metástase a distância. Capítulo 5 • CARCINOMAS DIFERENCIADOS DE TIREOIDE 67 Tabela 5.2. Estadiamento do CDT Idade ao diagnóstico T N M Estádio Menor de 55 anos Qualquer Qualquer MO I Qualquer Qualquer M1 II Maior de 55 anos T1 NO/NX M0 I T1 N1 M0 II T2 N0/NX M0 I T2 N1 M0 II T3a/T3b Qualquer M0 II T4a Qualquer M0 III T4b Qualquer M0 IVa Qualquer Qualquer M1 IVb TRATAMENTO Tireoidectomia total (TT) A TT é importante elemento tanto na terapêutica quanto no seguimento do CDT. Depois de confirmado o diagnóstico por material proveniente de PBAAF de nódulo ti reoidiano ou por exame anatomopatológico de cirurgia de nódulo suspeito, a TT é o tratamento inicial para quase todos os tumores. A TT deve ser realizada em CFTs amplamente invasivos. Nos casos minimamen te invasivos, sem invasão vascular, não há necessidade de TT caso o tumor tenha sido completamente ressecado no procedimento inicial. A TT será necessária apenas para variantes desfavoráveis. A TT é indicada em todos CPTs maiores que 1 cm e/ou os CPTs de qualquer ta manho invasivos ou metastáticos (recomendação 3iiA). Nos microcarcinomas papilíferos variante clássica, unifocal, sem comprometimento ganglionar e sem invasão extratireoi diana em pacientes sem história de irradiação cervical e história familiar de câncer de tireoide, a lobectomia é suficiente, pois a extensão da cirurgia nesses casos não afeta a recorrência ou a sobrevida (recomendação 3iiA).1214 Linfadenectomia A USG préoperatória costuma detectar comprometimento linfonodal em 30% dos CPTs. A metástase ganglionar é o principal local de metástase no CPT. O esvaziamento linfonodal cervical do compartimento central deve ser realizado juntamente com a TT caso haja suspeita ou detecção de metástases linfonodais pela USG ou durante intraope ratório. A ressecção terapêutica de linfonodos acometidos diminui o risco de recorrência local, que se associa a maior morbidade por intervenções cirúrgicas. A ressecção profilá tica de linfonodos centrais clinicamente não envolvidos (cN0) pode ser considerada em pacientes com tumores T3 ou T4, ou linfonodos do compartimento lateral clinicamente acometidos, porém seu benefício não é determinado. O esvaziamento não é indicado para tumores pequenos, não invasivos, sem acometimento clínico linfonodal.1214 DIRETRIZES ONCOLÓGICAS68 Radioiodoterapia (RIT) A RIT consiste na administração sistêmica de I131 (iodo radioativo) para ablação de remanescentes da tireoide, bem como de tumor irressecável ou com ressecção incom pleta. A RIT ablativa adjuvante de remanescentes da tireoide ou tecido tumoral é con dição ideal para o seguimento com dosagem de tiroglobulina (Tg) sérica, proteína sérica específica das células tireoidinas usadacomo marcador de doença no seguimento. A RIT tem benefício estabelecido em pacientes com CDT com alto risco de recor rência (recomendação 2A) e pode ser considerada em pacientes com CDT de risco in termediário (recomendação 3A). A RIT não é indicada rotineiramente para os pacientes com CDT com baixo risco de recorrência e para pacientes com microcarcinoma papilífe ro unifocal após lobectomia ou TT, a menos que haja outros eventos adversos.1517 A RIT também é utilizada para o tratamento de restos tumorais captantes de iodo, linfonodos acometidos e metástases a distância, com objetivo curativo ou paliativo. No caso da atividade tumoral mostrada por aumento do nível sérico de Tg sem presença de tumor detectável usando imagens morfológicas e funcionais, a RIT empírica pode ser considerada, após se pesarem os riscos e os benefícios.15 Para assegurar uma elevada absorção de I131 em tecido remanescente, tumor (sus peito) ou metástases, é necessário um nível elevado de hormônio tireoestimulante (TSH) no soro (> 30 mUI/L). Esse nível de TSH pode ser alcançado esperando ao menos de três semanas após a TT ou quatro a cinco semanas sem o uso de levotiroxina (LT4) ou com a administração de TSH recombinante (recomendação 3iA).12 Supressão com levotiroxina Após a TT, tornase necessária terapia de reposição do hormônio tireoidiano com le votiroxina (LT4) ao longo da vida. O TSH é capaz de promover o crescimento de células neoplásicas remanescentes, portanto a dosagem de LT4 deve ser ajustada para conseguir sua supressão. A função tireoidiana deve ser verificada após seis a oito semanas. O nível de TSH deve ser mantido segundo as recomendações a seguir de acordo com o risco. Para os CDT de alto risco, devese manter TSH inferior a 0,1 mUI/mL. Para casos de risco intermediário, o TSH deve ficar entre 0,1 e 0,5 mUI/mL. Já os casos de baixo risco, que foram submetidos à TT e à RIT, com níveis indetectáveis de Tg, o TSH deve ficar no limite inferior da referência (0,5 a 2,0 um/mL), assim como para aqueles que fizeram apenas TT e possuem níveis de Tg indetectáveis. Para os CDTs de baixo risco, que foram submetidos à TT à RIT e que possuem níveis de Tg baixos, o TSH deve ficar entre 0,1 e 0,5 mUI/mL. Para os que foram sub metidos à lobectomia, o TSH pode ficar no intervalo normal do valor de referência, entre 0,5 e 2 mUI/mL.12 SEGUIMENTO O seguimento inicial deve ser a cada seis meses durante os primeiros cinco anos após o diagnóstico. Se não houver alterações nesse período, os exames passam a ser anuais. O acompanhamento é baseado em entrevista médica, exame clínico, USG cervical, dosa gem de TSH, Tg e anticorpos antiTg. É mandatória a realização de pesquisa de corpo Capítulo 5 • CARCINOMAS DIFERENCIADOS DE TIREOIDE 69 inteiro (PCI) 6 a 12 meses após a RIT inicial 10,62. Os critérios para um estágio livre de doença, 6 a 12 meses após a terapia primária com TT e RIT, são: ausência de sinais clíni cos e de captação patológica na PCI, Tg indetectável (com supressão e após estimulação com TSH) e anticorpos antiTg negativos. Nessas condições, os pacientes têm uma pro babilidade muito baixa de recorrência.17 Caso apresente níveis séricos aumentdos de Tg e nenhum tecido tumoral captante com iodo radioativo, devese incluir a busca por tecido não captante de iodo usando tomografia de emissão de pósitrons de F18fluorodeoxigli cose (FDGPET) combinada com TC, sob a estimulação de TSH.12 TUMORES METASTÁTICOS As metástases podem ser descobertas no momento inicial da doença ou identificadas durante o seguimento. A hierarquia preferida de tratamento para doença metastática é a seguinte: 1) excisão cirúrgica das lesões locorregionais, 2) RIT com I131 para doença responsiva ao iodo, 3) radioterapia externa ou outras modalidades de tratamento direcio nado, como ablação térmica, 4) terapia supressiva com LT4 para doença sistêmica assin tomática estável ou lentamente progressiva e 5) terapia com inibidores de tirosina quinase (ITKs) para doença macroscópica refratária significativamente progressiva. A terapia cirúrgica em pacientes incuráveis selecionados é importante para prevenir complicações em áreas específicas, como sistema nervoso central e compartimento cervi cal central. Por outro lado, o tratamento conservador com supressão do TSH é útil para pacientes com doença metastática estável e assintomática. No caso de metástases micronodulares do pulmão, a RIT é realizada como trata mento com intenção curativa. As metástases pulmonares macronodulares também devem ser tratadas com I131, mas a remissão completa é improvável. Alternativamente (ou em combinação), a resecabilidade pode ser avaliada. No caso de lesão óssea isolada, a ressec ção cirúrgica completa leva a um melhor resultado. A terapia intervencionista pode ser útil se as metástases sintomáticas do osso não puderem ser ressecadas. A mesma estratégia é aplicada nas metástases cerebrais.18,19 NOVAS PERSPECTIVAS Para o CDT com baixa captação de iodo, a RIT deixa de ser uma opção terapêu tica. A resistência à RIT é definida como a presença de lesões sem absorção de iodo sob estímulo de TSH, ou progressão de tamanho no ano após RIT ou metástases persistentes após uma dose cumulativa de 22 GBq (600 mCi) de iodo radioativo. Nesses casos, o diag nóstico complementar com tomografia por emissão de pósitrons/tomografia computado rizada (PET/TC) com fluorodesoxiglicose (FDG) é essencial. Os ITKs, como vandetanibe, sorafenibe e lenvatinibe, representam uma terapia re lativamente nova para o tratamento sistêmico dos CDTs. Os receptores de tirosina qui nase, estruturaalvo dos ITKs, são proteínas transmembrana que permitem sobrevida e proliferação celular. Se mutados, podem causar proliferação celular descontrolada, des diferenciação e redução de apoptose. Os ITKs também bloqueiam receptores dos fatores de crescimento do endotélio vascular (VEGFR), receptores de fatores de crescimento de fibroblastos e fatores de crescimento derivado de plaquetas e, assim, inibem a angiogênese tumoral e a linfangiogênese, causando hipóxia no tecido maligno. Estudos recentes sobre DIRETRIZES ONCOLÓGICAS70 o uso de sorafenibe, sunitinibe e lenvatinibe mostram benefício de sobrevida livre da do ença de até cinco meses, no entanto sem redução de sobrevida global em pacientes com doença resistente ao iodo ou recorrente (recomendação 1iDiii).2023 CARCINOMA MEDULAR DE TIREOIDE Introdução O carcinoma medular de tireoide (CMT) é uma neoplasia neuroendócrina das cé lulas C tireoidianas, que representam 1% do total de células da tireoide. Corresponde a 5% do total de tumores da tireoide e habitualmente tem evolução indolente, embora seu curso clínico seja heterogêneo. Apesar de 70% dos casos ocorrerem de forma esporádica, em torno de 25% dos CMTs são hereditários, associados à neoplasia endócrina múltipla (MEN) do tipo 2A e 2B.24 Mutações germinativas do gene RET estão presentes em mais de 95% dos pacientes com MEN2A e MEN2B. São identificadas em 6% a 10% dos do entes com CMT esporádico. O RET é um protooncogene localizado no cromossomo 10q11.2, que codifica uma proteína transmembrana da família das tirosina quinases. Os tumores esporádicos ocorrem entre a quarta e a sexta década de vida, enquanto os tumo res relacionados à MEN2 ocorrem em idades mais precoces (terceira década de vida).25 A estimativa americana é de 0,11 caso/100.000 habitantes. No Brasil, estimamse 430 casos novos por ano.26 Estadiamento e investigação: Exame físico; Biópsia com comprovação histológica ou citológica de CMT; Pesquisa de marcadores tumorais (calcitonina e antígeno carcinoembrionário – CEA); Exclusão de condições associadas a MEN2 – hiperparatireoidismo primário e feocromocitoma; Imagens (TCs/USG/RM) da cervical; Tomografias de tórax e abdome e cintilografiaóssea (ou ressonância axial) se a calcitonina for superior a 500 pg/mL ou houver suspeita de disseminação a distância; Pesquisa de mutação do gene RET como parte da abordagem inicial de pacien tes com CMT4; A classificação de estadiamento TNM segue como exposto para carcinoma bem diferenciado de tireoide. A PET/CT (FDGPET/CT ou FDOPAPET/CT) é pouco sensível para a detecção de metástases, não sendo recomendado.27 Doença inicial O tratamento cirúrgico é o principal tratamento na doença localizada. Recomen dase a tireoidectomia total com esvaziamento cervical central bilateral (nível VI) em pacientes sem evidência de metástases cervicais linfonodais. Em caso de nível alto de calcitonina inicial, poderá ser considerada a dissecção de níveis II a V, mesmo sem evi Capítulo 5 • CARCINOMAS DIFERENCIADOS DE TIREOIDE 71 dência radiológica de metástases (NE I). No caso de metástases linfonodais cervicais em nível II a V ou doença volumosa em nível VI, recomendase ainda esvaziamento cervical ipsilateral ou bilateral total. A radioterapia adjuvante está indicada para a doença T4 ou com margens positivas.25,27 Infelizmente, quando o paciente já apresenta metástases linfo nodais locorregionais, na maioria das vezes não é curado com a cirurgia, pois já apresenta doença sistêmica. Mesmo assim, a ressecção é recomendada, tendo em vista o controle de sintomas da doença cervical e a redução do risco de recorrência local.25 Para o seguimento desses pacientes, devem ser coletados calcitonina e CEA dois a três meses após a cirurgia, depois semestralmente, por dois anos, e a partir de então anu almente. Considerar USG cervical em cada visita. Avaliar reabordagem do pescoço se a primeira intervenção tiver sido incompleta ou se houver detecção de recidiva local resse cável. Realizar rastreamento anual de feocromocitoma e hiperparatireoidismo se houver evidência de MEN2.27 Doença localmente avançada irressecável ou metastática Um período de seguimento clínico exclusivo é recomendado inicialmente em boa par te dos pacientes, tendo em vista que o CMT é indolente. Quando forem detectados pro gressão clinicamente significativa da doença (maior que 20% ao ano), sintomas clínicos atri buídos às metástases ou grande volume tumoral, a terapia sistêmica será considerada.25,27 Em pacientes com grande volume de doença local irressecável, pode ser conside rada a radioterapia estereotáxica para o controle local. Recidivas locais ou a distância de pequeno volume podem ser avaliadas em reunião de discussão multidisciplinar para metastasectomia ou terapias ablativas.25 Para doença metastática sistêmica, indicase, quando disponível no serviço, a tera piaalvo. Na indisponibilidade de terapias alvo, podese lançar mão do tratamento sistê mico com quimioterapia. Terapia-alvo Medicação Dose Estudo Referência Vandetanibe 300 mg/dia Fase III placebo-controlado Wells et al.28 Cabozantinibe 140 mg/dia Fase III placebo-controlado Elisei et al.29 Sorafenibe 400 mg 2 vezes ao dia Fase II Lam et al.31 O vandetanibe (inibidor de RET, VEGFR e EGFR) foi avaliado em estudo de fase III, com 331 pacientes, em comparação com placebo. Mostrou aumento significativo da sobrevida livre de progressão – SLP [mediana de 19,3 meses vs. não atingida; hazard ratio (HR) 0,46, intervalo de confiança (IC) 95% 0,310,69, p < 0,001], da taxa de resposta (13% vs. 45%, p < 0,001) e da resposta bioquímica (3% vs. 69%, p < 0,001). A sobrevida global ainda apresenta dados imaturos. Como efeitos colaterais mais frequentes, estão a diarreia, hipertensão, astenia e prolongamento QT. (NE IA)28 Outra terapiaalvo já avaliada em estudo de fase III, placebocontrolado, é com o cabozantinibe, um inibidor oral de MET, VEGFR2 e RET. Tal medicação ainda não é aprovada no Brasil. No estudo, com 230 pacientes, verificouse aumento da SLP (mediana DIRETRIZES ONCOLÓGICAS72 de 4,0 meses vs. 11,2 meses; HR 0,28, IC 95% 0,190,40, p < 0,0001) e da taxa de resposta (0% vs. 28%, p < 0,0001). Os efeitos colaterais mais frequentes foram: diarreia, disestesia palmoplantar, fadiga e hipertensão. (NE IA)29 Outros ITKs, como sunitinibe, sorafenibe, pazopanibe e lenvatinibe, estão associados a taxa de resposta de até 36% e benefício clínico em até 90% dos pacientes em pequenos estudos de fase II, e podem ser considerados após falha a vandetanibe ou cabozantinibe, ou ainda na indisponibilidade de tais agentes. (NE VC)30,31 Quimioterapia citotóxica Medicação Dose Estudo Referência Dacarbazina 1.000 mg/m2 D1 A cada 28 dias Kessinger et al.32 DTIC 5FU 250 mg/m2 D1-D5 450 mg/m2 D1-D5 A cada 28 dias Orlandi et al.33 Doxorrubicina 60 mg/m2 A cada 21 dias Matuszczyk et al.34 Os estudos sobre quimioterapia em CMT são pequenos, com taxas de resposta em torno de 15%.3234 A maioria dos estudos avaliou esquemas com dacarbazina. Devido à to xicidade e à ausência de impacto documentado em estudo randomizado, seu uso tem sido restrito em pacientes com doença em progressão rápida, naqueles previamente expostos a um ITK ou naqueles para os quais a terapiaalvo está indisponível. (NE VC) Terapia com radioisótopos Ainda é controverso o papel da terapia com radionuclídeos no tratamento de CMT metastático. O 131IMIBG promove resposta em até 35% dos pacientes e alívio dos sinto mas em até 60% dos casos.35 (NE VC). O lutécio e o ítrio radioativo também mostram ati vidade em pequenos estudos. A Associação Americana de Tireoide sugere que o emprego de radionuclídeos deve ser limitado ao cenário de estudos clínicos.25 CARCINOMA ANAPLÁSICO DE TIREOIDE O carcinoma anaplásico de tireoide, ou carcinoma indiferenciado de tireoide (CIT), corresponde à forma mais agressiva das neoplasias tireoidianas. É muito raro e deriva do epitélio folicular tireoidiano, assim como os tumores bem diferenciados. Associase a mutações do gene p53. O CIT tem prevalência um pouco maior em pacientes do sexo feminino e geralmente incide numa faixa etária mais avançada, com um pico na sexta e na sétima década de vida. O quadro clínico de CIT apresenta crescimento rápido de uma massa cervical, rouquidão e dor cervical. Cursa com alto índice de mortalidade e sobrevi da mediana de seis meses após o diagnóstico. Geralmente apresenta crescimento tumoral rápido. No estadiamento, todos os cânceres de tireoide anaplásicos são considerados T4 no momento do diagnóstico. T4a – O tumor ainda se encontra dentro da tireoide. T4b – O tumor cresceu fora da tireoide. Os sítios de metástase a distância mais comuns são os pulmões e a pleura.36 Capítulo 5 • CARCINOMAS DIFERENCIADOS DE TIREOIDE 73 Não dispomos ainda de um tratamento que leva à cura definitiva para a maioria dos pacientes. A melhor conduta se constitui de um tratamento cirúrgico agressivo associado com a combinação de agentes quimioterápicos e radioterapia externa. Em um protocolo, foi administrada doxorrubicina (60 mg/m2) associada à cisplatina (90 mg/m2) a cada quatro semanas, em combinação com a radioterapia em pacientes com menos de 65 anos. Toxicidades maiores de grau 3 foram reportadas em mais de 50% dos pacientes. Foi obtido controle da doença em 10 pacientes que também haviam sido sub metidos à cirurgia, e cinco deles tiveram sobrevida de mais de 20 meses.37 Outra série de pacientes realizou protocolo de combinação de radioterapia hiperfracionada, doxorrubi cina 20 mg por semana, seguidas de cirurgia, se factível. Apesar de tóxico, os pacientes do estudo completaram o protocolo. Dezesseis pacientes (48%) estavam sem evidência de re corrência no follow-up, mostrando a importância do tratamento combinado para o CIT.38 O paclitaxel também é uma droga eficiente no controle tumoral, com taxa de res posta de 53%.39 Terapiasalvo moleculares,40 assim como terapias gênicas,4 ainda estão em fase deestudo para o tratamento do carcinoma anaplásico. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. Leenhardt L, Bernier MO, Boin-Pineau MH, Conte Devolx B, Maréchaud R, Niccoli-Sire P, et al. Advances in diagnostic practices affect thyroid cancer incidence in France. Eur J Endocrinol. 2004;150(2):133-9. 2. 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PLoS One. 2017;12(7):e0181318. 77 Capítulo 6 CÂNCER DE MAMA – ADJUVÂNCIA E NEOADJUVÂNCIA Tatiana Strava Corrêa Daniele Xavier Assad Daniel Meirelles Barbalho João Nunes de Matos Neto INTRODUÇÃO E EPIDEMIOLOGIA O câncer de mama é a neoplasia mais comum entre as mulheres no mundo e no Brasil, depois do de pele não melanoma. O número de casos novos esperado para o Brasil em 2016 é de 57.960.1 Estatísticas indicam aumento da sua incidência tanto nos países desenvolvidos quanto nos em desenvolvimento. Acreditase que o aumento da incidência em parte se deve à introdução do rastreamento por mamografia e ao envelhecimento da população. É também a causa de morte por câncer mais comum entre as mulheres, correspondendo a 14% das mortes, mas a mortalidade anual por câncer de mama está em queda desde 1998.2 A queda da mortalidade nos últimos anos se deve possivelmen te ao diagnóstico precoce por rastreamento e à associação de tratamentos adjuvantes (hormonioterapia, quimioterapia, radioterapia) ao tratamento cirúrgico clássico.3 É uma neoplasia rara nos homens. Os fatores de risco mais importantes são: predisposição genética, exposição a estró genos, radiação ionizante, baixa paridade e história de hiperplasia mamária atípica. O consumo de álcool e a obesidade também contribuem para o aumento da incidência.4 Menos de 10% dos casos de câncer de mama têm relação com síndromes genéticas, e 3% a 4% dos casos se associam à mutação dos genes BRCA1 e BRCA2. A mutação nesses genes aumenta de 60% a 85% o risco de apresentar câncer de mama ao longo da vida. Outras síndromes hereditárias estão, com menor frequência, associadas ao câncer de mama, como a síndrome de LiFraumeni (mutação no gene TP53) e a síndrome de Cowden (mutação no gene PTEN).5 O Ministério da Saúde recomenda realização anual de mamografia em mulheres entre 50 e 70 anos de idade para rastreamento precoce do câncer de mama.6 DIRETRIZES ONCOLÓGICAS78 ESTADIAMENTO DO CÂNCER DE MAMA Tabela 6.1 TNM, 7ª edição, do American Joint Committee on Cancer (AJCC)7 TNM câncer de mama AJCC 7th Edition Tx O tumor principal não pode ser avaliado TO Nenhum sinal de tumor foi detectado Tis Carcinoma in situ T1 O tumor tem até 20 mm de diâmetro T1mi O tumor tem menos de 1 mm T1a Tumor entre 1 e 5 mm T1b Tumor entre 5 e 10 mm T1c Tumor entre 10 e 20 mm T2 Tumor entre 20 e 50 mm T3 Tumor maior que 50 mm T4 Tumor de qualquer tamanho que invade parede torácica e/ou pele (ulceração ou nódulo cutâneo) T4d Carcinoma inflamatório Linfonodos Nx Linfonodos regionais não podem ser avaliados N0 Nenhum sinal de mestástase linfonodal foi detectado N1 Metástase em linfonodos axilares móveis ipsilaterais (nível I e II) N2 Metástase em linfonodos ipsilaterais nível I ou II, clinicamente fixos. Ou metástase isolada em linfonodos de cadeia mamária interna ipsilateral N2a Metástase em linfonodos ipsilaterais nível I ou II, clinicamente fixos N2b Metástase isolada em linfonodos de cadeia mamária interna ipsilateral, na ausência de metástase axilar N3 N3a Metástase em linfonodos ipsilaterais infraclaviculares (nível III axilar) N3b Metástase em linfonodos de cadeia mamária interna ipsilateral, com evidência de metástase axilar nível I e II N3c Metástase para linfonodo supraclavicular ipsilateral Metástases MO Nenhum sinal de metástase clinicamente detectável M1 Metástases a distância clinicamente detectadas ou histologicamente demonstradas se maiores que 0,2 mm TNM câncer de mama Grupos prognósticos de estágios Estágio 0 Tis, N0, M0 Estágio IA T1, N0, M0 Estágio IB T0 ou T1, N1mi, M0 Estágio IIA T0 ou T1, N1 (mas, não N1M1), M0; T2, N0, M0 Estágio IIB T2, N1, M0; T3, N0 ou N0, M0 Estágio IIIA T0 a T2, N2, M0; T3, N1 ou N2, M0 Estágio IIIB T4, N0 a N2, M0 Estágio IIIC Qualquer T, N3, M0 Estágio IV Qualquer T, qualquer N, M1 Capítulo 6 • CÂNCER DE MAMA – ADJUVÂNCIA E NEOADJUVÂNCIA 79 EXAMES DE ESTADIAMENTO Todas as pacientes devem ter:8 História e exame físico; Mamografia e ultrassonografia (US) de mamas; Biópsia com imunoistoquímica; Aconselhamento genético para tumores hereditários; Avaliação da psicologia; Discussão sobre fertilidade em pacientes prémenopausa: • Estádio I: exames de estadiamento não se fazem necessários. Exames suge ridos: radiografia de tórax, hemograma, creatinina, transaminases e bilir rubina sérica. Ecocardiograma para planejamento da quimioterapia. – Considerar exames adicionais se houver sinais ou sintomas de suspeição. • Estádio IIA: cintilografia óssea, radiografia de tórax e US de abdome e pelve, hemograma, creatinina, transaminases e bilirrubina sérica. Ecocar diograma para planejamento da quimioterapia. – Considerar exames adicionais se houver sinais ou sintomas de suspeição. • Estádio ≥ IIB: recomendamos, além dos exames laboratoriais (hemograma, creatinina, transaminases e bilirrubina sérica), a realização de exames de imagem, tendo em vista que tais pacientes têm maior risco de doença me tastática assintomática. Exames sugeridos: tomografia computadorizada de tórax, abdome e pelve e cintilografia óssea. Caso disponível no serviço, a tomografia por emissão de pósitrons/tomografia computadorizada (PET/ CT) substitui os exames tomográficos e cintilografia. Ecocardiograma para planejamento da quimioterapia. TRATAMENTO CIRÚRGICO DO CÂNCER DE MAMA Cirurgia da mama O objetivo da cirurgia mamária é a retirada de todo o tumor com margens livres. Após a retirada do tumor, quando o tecido remanescente mamário é suficiente para atingir bom resultado estético, optase por uma cirurgia conservadora da mama. Exceção feita às pacientes com chance aumentada de um segundo tumor mamário, como aquelas com mutação germinativa de BRCA1 e 2, entre outras, em que a discussão de uma mas tectomia bilateral pode ser aventada se o estadiamento do tumor índice for inicial. Se, após a retirada do tumor, o tecido remanescente mamário é insuficiente para se atingir bom resultado estético, optase por uma mastectomia, sendo possível uma estraté gia de reconstrução da mama. A cirurgia conservadora da mama provou ser oncologicamente equivalente à mas tectomia, desde que se associe a radioterapia ao tecido mamário remanescente.9,10 Nos casos de mastectomia, a preservação da pele e do complexo areolopapilar nunca foi testada em trabalhos randomizados, mas tem se mostrado com taxas de recidiva local semelhantes à mastectomia clássica, desde que as margens estejam livres. A adição de ra DIRETRIZES ONCOLÓGICAS80 dioterapia à mastectomia preservadora do complexo areolopapilar sem outras indicações clássicas de radioterapia pósmastectomia não está indicada.11Após terapia sistêmica neoadjuvante, não é necessária a retirada de toda a área tu moral prévia, podendose proceder à exérese somente da carga tumoral remanescente seguindo os mesmos critérios acima. O uso da radioterapia nesses casos é guiado pelo tipo de cirurgia realizada e pelo estadiamento antes do início da terapia sistêmica. Ressaltase a importância da ressonância magnética nesse cenário para verificar se a redução tumoral foi concêntrica ou dispersa pela área tumoral prévia.12 Cirurgia da axila O tratamento da axila clinicamente comprometida, seja por cirurgia ou radiotera pia, melhora o controle local da doença. O tratamento da axila clinicamente não compro metida não provou ter impacto na sobrevida, mas tem grande implicação prognóstica e, por enquanto, ainda serve como guia para a decisão terapêutica adjuvante.10 Consideremos primeiramente pacientes não submetidas à terapia sistêmica neoad juvante. Pacientes com axila clinicamente comprometida devem ser submetidas à dissecção axilar. Em pacientes não submetidas à terapia sistêmica neoadjuvante e axila clinicamente negativa, a biópsia do linfonodo sentinela pode evitar a dissecção axilar se o linfonodo estiver negativo. A recorrência axilar nesses casos é em torno de 1%, apesar de uma taxa de falsonegativo de até 9%.13,14 Em pacientes não submetidas à terapia sistêmica neoadjuvante e axila clinicamente negativa, em que a biópsia do linfonodo sentinela revelou até dois linfonodos compro metidos e sem invasão extracapsular, a dissecção axilar pode ser omitida desde, que a paciente receba radioterapia e terapia sistêmica adequada. A recorrência axilar nesses ca sos é em torno de 1%, apesar dos braços dissecados terem apresentado outros linfonodos comprometidos em 27% a 33% dos casos. A presença de micrometástase no linfonodo sentinela não requer dissecção axilar, nem radioterapia obrigatória na ausência de outras indicações clássicas de radioterapia. Ressaltase que a técnica do linfonodo sentinela in clui a exploração digital da axila no intraoperatório e de que todo linfonodo considerado suspeito deve ser retirado.1517 Passemos às pacientes submetidas à terapia sistêmica neoadjuvante. Pacientes com axila clinicamente comprometida após terapia sistêmica neoadjuvante devem ser subme tidas à dissecção axilar. Em pacientes submetidas à terapia sistêmica neoadjuvante, axila clinicamente ne gativa antes do início da terapia neoadjuvante e que mantiveram a negatividade da axila após a neoadjuvância, a performance do linfonodo sentinela nesses casos é igual ao cenário sem neoadjuvância.18 Em pacientes submetidas à terapia sistêmica neoadjuvante, axila clinicamente com prometida antes do início da terapia neoadjuvante e que negativaram a axila após a neo adjuvância, a biópsia do linfonodo sentinela pode evitar a dissecção axilar se o linfonodo estiver negativo, desde que a paciente receba radioterapia e terapia sistêmica adequada. Capítulo 6 • CÂNCER DE MAMA – ADJUVÂNCIA E NEOADJUVÂNCIA 81 A taxa de falsonegativo nesses casos é em torno de 12%, podendo baixar até 8% se três linfonodos forem examinados. Essa taxa de falsonegativo é similar ao sentinela sem tera pia neoadjuvante. Em relação à taxa de recorrência axilar, que é o que realmente impor ta, faltam trabalhos prospectivos que avaliem esse cenário sem dissecção axilar. Em um trabalho retrospectivo, consecutivo, de 70 pacientes e seguimento médio de cinco anos, a taxa de recorrência axilar continua em torno de 1%.1922 Ressaltase que qualquer acometimento linfonodal após neoadjuvância, inclusive micrometástase, implica dissecção axilar no momento. Os dados de preservação da axila com sentinelas comprometidos não podem ser extrapolados para o cenário após neoadju vância. Esse cenário está sendo avaliado por trabalho randomizado de fase III e aguarda se o resultado (Alliance A011202). QUIMIOTERAPIA SISTÊMICA ADJUVANTE Indicação Pacientes com carcinoma invasor de mama operados, sem doença metastática a distância, com tumor maior que 1 cm (grau histológico 2 ou 3) ou linfonodo positivo [IA];23 Considerar para aquelas pacientes jovens (menos de 40 anos) com tumores grau histológico III ou HER2 positivo, com invasão angiolinfática e perineural pre sentes, mesmo para tumores de 0,6 a 1 cm [IIA].23 O uso de ferramentas genômicas ajuda na decisão sobre a realização ou não de terapia adjuvante de pacientes com tumores com receptores hormonais positivos, HER2 negativo, tendo em vista que as avaliações de risco como idade, status nodal, grau histo lógico e expressão de estrógeno são subjetivas. As assinaturas genômicas mais utilizadas são Oncotype DX (21 genes), MammaPrint (70 genes) e PAM50/Prosigna (50 genes). São indicadas para pacientes tratadas cirurgicamente de câncer de mama com receptores hormonais positivos, HER2 negativo, para avaliação prognóstica de risco de recorrência, permitindo a estratificação do risco em alto, moderado ou baixo.24 Até o presente mo mento, não existem publicações prospectivas que validem o uso dessas ferramentas para pacientes com linfonodos acometidos, mas estudos estão em andamento para avaliar o seu uso nessas situações. O Oncotype DX e o Prosigna têm, ainda, valor preditivo para decisão sobre a necessidade de quimioterapia adjuvante. O teste Oncotype DX resulta em um escore de recorrência entre 0 e 100. O resul tado abaixo de 18 é considerado de baixo risco de recorrência, não sendo indicado trata mento quimioterápico adjuvante. O escore entre 18 e 30 demonstra risco intermediário, portanto ainda não é claro se há benefícios com a quimioterapia adjuvante nesse grupo de pacientes. Escore de recorrência maior ou igual a 31 demonstra alto risco, nesse grupo, e os benefícios da quimioterapia superam os efeitos colaterais. O estudo TAILORx validou o uso do Oncotype DX para a decisão de não indicar quimioterapia naquelas mulheres com câncer de mama com status hormonal positivo, HER2 negativo e linfonodo negativo que apresentavam risco baixo. O risco foi estratificado de maneira mais conservadora no estudo, sendo considerados de baixo risco aqueles tumores com escore 0 a 10.25 O uso do PAM50 em participantes do estudo ABCSG8 submetidas exclusivamente a hormonioterapia adjuvante mostrou que a ferramenta (Prosigna) foi capaz de prever, DIRETRIZES ONCOLÓGICAS82 no grupo de baixo risco, um risco menor que 3,5% de metástases após 10 anos de se guimento. Concluiuse que nesse grupo de pacientes pósmenopausadas, com receptores hormonais positivos com resultado de baixo risco no PAM50, é improvável que a quimio terapia adjuvante melhoraria esse resultado, portanto esse grupo poderá ser poupado de tal tratamento.26 Entretanto, sabemos que tais ferramentas não estão disponíveis na maioria dos ser viços brasileiros, portanto continuamos seguindo algumas variáveis de risco patológicas e de características epidemiológicas para guiar nossa terapêutica adjuvante (Tabela 6.2). Tabela 6.2 Carcinoma de Mama Alto Risco Baixo Risco Mulheres jovens (< 40 anos) Pós-menopausa Grau histológico III Grau histológico I HER2 positivo ou triplo-negativo Receptor hormonal positivo Linfonodo positivo Linfonodo negativo Invasão angiolinfática ou perineural presente Ausência de invasão angiolinfática ou perineural Protocolos Tumores com HER2 negativo A metanálise do EBCTCG,27 publicada em 2011, analisou estudos com pacientes com câncer de mama inicial com indicação para tratamento com quimioterapia adju vante, comparando diferentes esquemas de tratamento. Foi demonstrada uma redução no risco de mortalidade por câncer de mama em 10 anos com esquemas que associavam antraciclina comparados ao esquema CMF (RR 0,88). Além disso, a mortalidade por câncer de mama em oito anos diminuiu com esquemas que associam taxanos (RR 0,86). Globalmente,esquemas que englobam antraciclinas e taxanos reduzem em um terço a mortalidade por câncer de mama quando comparados com pacientes não submetidas a nenhuma quimioterapia (I A). A melhor maneira de se administrar o taxano ficou definida no estudo de Sparano et al.,28 que demonstrou ganho em sobrevida livre de progressão e global para o paclitaxel administrado semanalmente, quando comparado com a cada três semanas [1 A]. Terapia baseada em antracíclico e taxano de seis meses de duração:27,28 AC por quatro ciclos seguido de paclitaxel por 12 semanas; ou AC por quatro ciclos seguido de docetaxel por quatro ciclos. Uma opção de antraciclinas, além da doxorrubicina, é a epirrubicina. Esquema: AC neo/adjuvante Dose Intervalo Doxorrubicina 60 mg/m2 EV A cada 21 dias Ciclofosfamida 600 mg/m2 Pelo total de 4 ciclos Capítulo 6 • CÂNCER DE MAMA – ADJUVÂNCIA E NEOADJUVÂNCIA 83 Esquema: paclitaxel semanal neo/adjuvante Dose Intervalo Paclitaxel 80 mg/m2 EV Semanal Pelo total de 12 semanas Esquema: docetaxel/adjuvante Dose Intervalo Docetaxel 100 mg/m2 EV A cada 21 dias Pelo total de 4 ciclos O esquema “TAC”, que inclui docetaxel, doxorrubicina e ciclofosfamida conco mitantes no D1, a cada 21 dias, não é recomendado pelos autores deste livro, ten do em vista as altas taxas de mielotoxicidade (32% de neutropenia febril) [1, E].29 Terapias sem antraciclinas Apesar do benefício das antraciclinas, sabese que elas aumentam a mortalidade por causas cardiovasculares. Diversos estudos testaram esquemas de quimioterapia sem antraciclina com o intuito de poupar as pacientes dessas toxicidades cardíacas. O estudo USOR 973530 demonstrou ganho em sobrevida livre de recorrência e sobrevida global (SG) para mulheres com câncer de mama inicial tratadas com esquema “TC” por quatro ciclos versus esquema “AC” por quatro ciclos. Além disso, TC se mostra mais custoefetivo que AC nas análises de custo efetividade.31 Com a intenção de definir a não inferioridade do esquema TC por seis ciclos em comparação com o esquema AC seguido de taxano (TaxAC), foi feita uma cooperação entre o grupo USOR e o grupo NSABP, chamado ABC trials, com um total de 4.156 pacientes randomizadas.32 O objetivo foi comparar conjuntamente os dados de pacientes com câncer de mama inicial, que foram randomizadas entre TC x 6 ciclos ou TaxAC. Esses estudos incluíram apenas pacientes com tumor de mama com linfonodo negativo de alto risco, ou com linfonodo positivo. O objetivo primário era a sobrevida livre de doença (SLD) invasiva. Globalmente o estudo foi negativo, ou seja, não é não inferior esquema adjuvante TC sem antraciclina [hazard ratio (HR) 1,2]. Quando analisamos os subgrupos (análise exploratória), percebeuse que houve grande benefício da antraciclina para os grupos com receptores hormonais negativos e/ou com quatro ou mais linfonodos com prometidos. Um pequeno benefício de antraciclina foi observado no grupo com receptor hormonal positivo com um a três linfonodos comprometidos. O grupo de baixo risco (linfonodo negativo e receptor hormonal positivo) foi não inferior utilizar esquema TC [HR 0,69, intervalo de confiança (IC) 95% 0,321,19] [1, A]. Recentemente, em apresentação oral na Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO), o grupo alemão WSG apresentou os resultados do estudo PLANB, que nova mente avaliou a necessidade de antraciclina na adjuvância. Foi um trial de não inferiorida de randomizado com 3.198 pacientes, em que se avaliou papel do Oncotype DX para de terminar o tipo de quimioterapia conforme o risco genômico. Pacientes com neoplasia de mama localizado, HER2 negativo e receptor hormonal positivo, podendo ter linfonodo acometido ou sem linfonodo acometido com fatores de risco, realizaram Oncotype DX. DIRETRIZES ONCOLÓGICAS84 Em caso de escore de recorrência menor que 11, realizouse apenas hormonioterapia, enquanto em casos de escore de recorrência maior que 11 ou acometimento de mais de quatro linfonodos, as pacientes foram randomizadas para realizar quimioterapia sem uso de antraciclina (seis ciclos de TC) ou com uso de antracíclicos (quatro ciclos de epirrubi cina e ciclofosfamida seguidos de quatro ciclos de docetaxel ECT). Pacientes com tumor triplonegativo foram randomizadas para receber ambos os esquemas de quimioterapia. Sobrevida livre de doença em cinco anos foi igual (braço TC 90% vs. ECT 90%) e se melhante (braço TC 95% vs. ECT 95%). Não houve diferença em SLD entre os braços de quimioterapia tanto na população com risco genômico intermediário (escore de recor rência menor 25) quanto no risco alto (escore de recorrência maior que 25). Dessa forma, apesar de o escore de recorrência ser um fator prognóstico, não foi um fator preditivo de resposta a antracíclico. Houve mais efeitos adversos graus 3 e 4 no braço ECT (57,5% vs. 50,8%, p < 0,001), principalmente a custa de neutropenia, vômitos e neuropatia.33 Esquema: TC adjuvante Dose Intervalo Docetaxel 75 mg/m2 EV A cada 21 dias Ciclofosfamida 600 mg/m2 EV Pelo total de 6 ciclos CMF (ciclofosfamida, metotrexato e 5fluorouracil): foi o primeiro esquema de terapia adjuvante para câncer de mama. Estabeleceuse a importância de trata mento quimioterápico adjuvante após a publicação em 1976 de Bonadonna et al.34 O CMF foi comparado com observação em pacientes operadas de câncer de mama. Observouse redução da taxa de recorrência de 24% para o grupo sem tratamento versus 5,3% para o grupo que fez quimioterapia. Após o surgi mento das antraciclinas, demonstrouse que o tratamento com quatro ciclos de doxorrubicina e ciclofosfamida (AC) é equivalente ao CMF por seis ciclos, com melhor perfil de tolerância e menor duração.35 Portanto, geralmente, não indi camos esse esquema de tratamento. Esquema: CMF original Dose Intervalo Ciclofosfamida oral 100 mg/m2 VO D1-D14 Metotrexato 40 mg/m2 EV D1 e D8 5-fluorouracil 600 mg/m2 EV D1 e D8 A cada 28 dias por 6 ciclos Terapias sem taxanos Os esquemas CMF, AC, FAC ou FEC são opções no tratamento adjuvante. Tais esque mas podem ser indicados em pacientes com baixo risco (linfonodos negativos, tumores meno res que T2) nos quais alguma toxicidade pelo taxano (por exemplo, neuropatia) seja limitante.27 Esquema: FAC adjuvante Dose Intervalo Doxorrubicina 50 mg/m2 EV A cada 21 dias Ciclofosfamida 500 mg/m2 EV Pelo total de 6 ciclos 5-fluorouracil 500 mg/m2 EV Capítulo 6 • CÂNCER DE MAMA – ADJUVÂNCIA E NEOADJUVÂNCIA 85 Esquema: FEC adjuvante Dose Intervalo Epirrubicina 50, 90 ou 100 mg/m2 EV A cada 21 dias Ciclofosfamida 500 mg/m2 EV Pelo total de 6 ciclos 5-fluorouracil 500 mg/m2 EV Terapia de manutenção Para pacientes com tumor triplonegativo, é discutível a realização de adjuvância com capecitabina por seis meses (se disponível no serviço) para pacientes que realizaram neoadjuvância e não atingiram resposta completa, aos moldes do estudo de fase III CRE ATEX. Tal estudo analisou mulheres com tumores luminais e triplonegativos que não atingiram resposta completa após quimioterapia neoadjuvante baseada em antraciclina e taxano. Para as pacientes incluídas no grupo de tratamento adjuvante, houve um ganho de SLD em 32% (87,3% vs. 80,5%, p = 0,001) e de SG (96,2% vs. 93,9%, p = 0,086) em 35% na comparação com o grupo padrão de seguimento.36 Observase um ganho maior para as pacientes com tumores triplonegativos – ganho de 42% em sobrevida livre de recorrência [1, A]. O estudo do IBCSGT 220037 randomizou pacientes com câncer de mama inicial, com HER2 negativo, para receberem ciclofosfamida e metotrexate em baixas doses via oral, pelo período de um ano, ou observação, após a quimioterapia adjuvante. O estudo foi negativo, mas novamente pacientes com perfil triplonegativo ou linfonodos positivos apresentaram tendência de benefício em sobrevida livre de recorrênciaquando tratadas com manutenção. Tumores com HER2 hiperexpresso Os tumores com HER2 hiperexpresso são em torno de 20% a 25% das neoplasias de mama. Apresentam comportamento biológico mais agressivo. Na última década, desde o surgimento do trastuzumabe, um anticorpo monoclonal humanizado, a sobrevida dos pacientes portadores desses tumores aumentou significativamente [I, A]. Tumores maiores que 3 cm e/ou linfonodos comprometidos A análise combinada dos estudos NSABP31 e NCCTG 9831 de quimioterapia com ACT, com ou sem associação de trastuzumabe, analisou um total de 3.351 pacientes. Demonstrou redução no risco de recorrência em 52% (HR 0,48) e de risco de morte em 35% (HR 0,65), a favor dos braços com trastuzumabe.38 O estudo HERA (2) demonstrou que a adição de trastuzumabe por um ou dois anos proporciona redução de risco de recorrência em 46% e de morte em 24% quando comparado com o grupo que realizou apenas quimioterapia adjuvante. – ACTH: esquema “AC” ou “EC” por quatro ciclos, como já apresentado, seguidos de quatro ciclos de docetaxel, a cada 21 dias, ou paclitaxel semanal × 12 semanas, asso ciado a trastuzumabe, 6 mg/kg endovenoso no D1, seguido de trastuzumabe a cada 21 dias para completar um ano de tratamento. DIRETRIZES ONCOLÓGICAS86 Esquema: trastuzumabe adjuvante Dose Intervalo Trastuzumabe 6 mg/kg EV (dose ataque de 8 mg/kg) A cada 21 dias por 1 ano Tendo em vista que a cardiotoxicidade é uma preocupação com o uso de antracicli nas e trastuzumabe, o estudo BCIRG006 demonstrou eficácia comparável do esquema “TCH” e do esquema “ACTH”, sendo uma opção de tratamento adjuvante para pacien tes com câncer de mama inicial com HER2 hiperexpresso.39 – TCH: docetaxel, carboplatina, e trastuzumabe, por seis ciclos. Considerar suporte com filgrastim a partir do D2, por três dias, seguido de trastuzumabe a cada 21 dias para completar um ano de tratamento. Esquema: TCH adjuvante Dose Intervalo Docetaxel 75 mg/m2 EV A cada 21 dias Carboplatina AUC 6 Pelo total de 6 ciclos Trastuzumabe 6 mg/kg EV (dose ataque de 8 mg/kg) Tumores de até 3 cm com linfonodo negativo Mulheres com câncer de mama HER2 positivo estágio patológico “I”, tratadas com esquema adjuvante contendo paclitaxel e trastuzumabe apenas, tiveram risco de recor rência de 2% no estudo de braço único de Tolaney et al. Nesse grupo de pacientes, é o padrão de tratamento atualmente [2, A].40 # TH: paclitaxel semanal, por 12 semanas, associado a trastuzumabe a cada 21 dias, por um ano. Esquema: TH adjuvante Dose Intervalo Paclitaxel 80 mg/m2 EV Semanal por 12 semanas Trastuzumabe 6 mg/kg EV (dose ataque de 8 mg/kg) A cada 21 dias por 1 ano Adição de pertuzumabe na adjuvância Sabese que o pertuzumabe associado ao trastuzumabe aumenta a taxa de resposta patológica completa no contexto neoadjuvante, assim como aumenta a SG de pacientes portadoras de carcinoma HER2 positivo, estágio IV. Com o objetivo de avaliar o papel da adição de pertuzumabe na adjuvância com quimioterapia e trastuzumabe por um ano, foi feito um estudo de fase III, em que foram incluídas 4.805 pacientes com neoplasia de mama HER2 positivo com linfonodo positivo ou em caso de linfonodo negativo com tumor maior que 1 cm ou pTib com fator de risco.41 Foram randomizadas a receber quimioterapia (podendo não incluir antracíclico) e trastuzumabe e placebo por um ano ou quimioterapia, trastuzumabe e pertuzumabe por um ano. A sobrevida livre de doença invasiva (SLDi) em três anos foi de 94,1% no braço pertuzumabe e de 93,2% no placebo (HR 0,81; IC 95% 0,661,00; p = 0,045). Percebese, portanto, um aumento muito dis creto da SLDi, um pouco mais pronunciado na população com linfonodo positivo (HR 0,77; IC 95% 0,620,96, p = 0,019). Já na população com linfonodo negativo, não houve Capítulo 6 • CÂNCER DE MAMA – ADJUVÂNCIA E NEOADJUVÂNCIA 87 ganho em sobrevida. Ao adicionar pertuzumabe, houve aumento de diarreia durante a quimioterapia. Salientamos, ainda, que o custo do tratamento é triplicado ao adicionar o pertuzumabe – 50.000 dólares para 150.000 dólares em um ano para cada paciente tratada [1, B]. QUIMIOTERAPIA SISTÊMICA NEOADJUVANTE Indicação42 Tumores inoperáveis T3T4/N23: • Câncer de mama inflamatório; • Tumor inoperável por invasão da pele ou estruturas torácicas (T4a e T4b); • Linfonodos axilares clinicamente coalescidos e/ou fixos (N2); metástases linfonodais além da cadeia axilar (N3). Tumor operável, com necessidade de redução (downstaging) para realizar cirurgia conservadora: • Tumor maior que 5 cm ou entre 2 e 5 cm com relação tumor/mama des favorável para cirurgia conservadora. O benefício da cirurgia conservadora não é apenas estético, pois também reduz complicações pósoperatórias como linfedema, que ocorre em cirurgias mais extensas.43,44 Além dessas indicações clássicas, a terapia neoadjuvante é cada vez mais utilizada, mesmo em tumores ainda iniciais, caso sejam de alto risco (HER2 positivo ou triplonegativos), com a vantagem de avaliar resposta in vivo da terapia. Apresenta ainda a capacidade de, assim como a terapia adjuvante, tratar as micrometástases e reduzir o risco de recorrência. Protocolos • Receptor hormonal positivo, HER2 negativo Quando indicamos tratamento neoadjuvante para tumores luminais (receptores hor monais positivos), sem expressão de HER2, o tratamentopadrão é a terapia baseada em antracíclico e taxano (AC X 4 T X 4). O taxano de escolha pode ser docetaxel ou paclita xel, nas doses conforme os protocolos descritos em “quimioterapia adjuvante”.43 Existe ainda a possibilidade de terapia hormonal com intuito neoadjuvante. Tal tra tamento é indicado para pacientes na pósmenopausa com tumor com imunoistoquímica favorável, ou luminal “A” (receptor de estrógeno e receptor de progesterona fortemente positivos, grau 1 ou 2, Ki67 < 14%). O tratamento hormonal é realizado com o uso de inibidores de aromatase. Existem estudos com o uso de anastrozol, letrozol e exemestano. A duração varia entre os estudos, mas o consenso é a realização de tratamento pelo pe ríodo de quatro a seis meses. Durante o tratamento, a paciente deve passar por consultas regulares para exame físico, com avaliação da lesão mamária e reavaliação com exame de imagem no final do tratamento para o planejamento cirúrgico. O estudo ACOSOG Z103145 demonstrou que o uso de inibidores de aromatase em 377 mulheres na pósme nopausa, com tumores luminal A, estadiamento II ou III, melhorou a taxa de cirurgias conservadoras. Todos os inibidores de aromatase testados (exemestano, anastrozol e le trozol) apresentaram eficácia equivalente. Após esse estudo, foi feito um levantamento retrospectivo nos EUA com base nos dados do National Cancer Data Base,46 que demonstrou DIRETRIZES ONCOLÓGICAS88 que, apesar de sabermos do impacto positivo de downstaging do uso de hormonioterapia neoadjuvante, tal terapia ainda é pouco utilizada. Houve aumento significativo da taxa de cirurgias conservadoras nas pacientes que utilizaram essa estratégia [2, A]. Câncer de mama com HER2 hiperexpresso Como já exposto antes, o bloqueio da via HER2 é essencial para melhor sobrevida das pacientes portadoras de câncer de mama com HER2 hiperexpresso. No contexto neoadjuvante, há ainda o aumento da taxa de resposta patológica completa com o uso de estratégias de bloqueio do HER2, principalmente com a possibilidade atual do duplo bloqueio (trastuzumabe e pertuzumabe). O estudo NOAH randomizou pacientes com tumores localmente avançados HER2 positivo, para realizarem quimioterapia neoadjuvante com ou sem adição de trastuzu mabe, mostrando aumento de pCR (43% versus 22%; p = 0,0007) no grupo do anticorpo. O follow-up de 5,4 anos demonstrou que atingir resposta patológica completa após qui mioterapia neoadjuvante configura maior sobrevida livre de eventos(recaída ou morte).47 O estudo NeoSphere,48 de fase II, randomizou 417 pacientes com tumores de mama HER2 positivo, com quatro braços: docetaxel com trastuzumabe, docetaxel com pertuzu mabe e trastuzumabe, docetaxel com pertuzumabe, pertuzumabe com trastuzumabe. O grupo que atingiu melhor taxa de resposta completa e com toxicidades aceitáveis foi o grupo de quimioterapia associada a duplo bloqueio de HER2. O estudo TRYPHAENA49 incluiu pacientes com tumor de mama de pelo menos 2 cm, HER2 positivo, para randomizar entre FEC x três ciclos seguido de T x três ciclos com duplo bloqueio do HER2 associado por toda neoadjuvância, ou, docetaxel, carbo platina e bloqueio duplo x seis ciclos (TCHP) ou FEC x três ciclos seguido de T x três ciclos com duplo bloqueio. A taxa de pCR foi similar entre os esquemas de quimioterapia, variando de 57% a 66%. O objetivo primário de segurança para toxicidades cardíacas foi atingido, sendo baixa a taxa de disfunção sistólica ventricular em todos os grupos. Portanto, para pacientes com tumores HER2 positivos com indicação de tratamento neoadjuvante, recomendase o esquema de quimioterapia com antraciclina (epirrubici na ou doxorrubicina) associada a ciclofosfamida, seguida de taxano e duplo bloqueio de HER2 concomitantes. As opções de esquemas de tratamento são descritas na tabela a seguir. Até o momento, apesar de o duplo bloqueio HER2 ser tido como padrão na neoadjuvância, ainda não existe aprovação para uso de pertuzumabe no sistema único de saúde, portanto devese seguir o protocolo do serviço com medicações disponíveis sugestão ACTH. Esquema: AC-THP Dose Intervalo Doxorrubicina/ Ciclofosfamida 60 mg/m2 /600 mg/m2 EV A cada 21 dias por 4 ciclos; seguido: Paclitaxel 80 mg/m2 EV Semanal x 12, concomitante a: Pertuzumabe 420 mg EV (840 mg ataque) 21 dias (4 ciclos) Trastuzumabe 6 mg/kg EV (8 mg/kg ataque) 21 dias (até completar 1 ano) Esquema: FEC-THP Dose Intervalo 5-fluorouracil Epirrubicina Ciclofosfamida 500 mg/m2 EV D1 100 mg/m2 EV D1 500 mg/m2 EV D1 A cada 21 dias por 3 ciclos; seguido: Capítulo 6 • CÂNCER DE MAMA – ADJUVÂNCIA E NEOADJUVÂNCIA 89 Paclitaxel ou Docetaxel 80 mg/m2 ou 75 mg/mg2 EV Semanal x 9 ou 21 dias x 3, concomitante a: Pertuzumabe 420 mg EV (840 mg ataque) 21 dias (3 ciclos) Trastuzumabe 6 mg EV (8 mg/kg ataque) 21 dias (até completar 1 ano) Esquema: TCHP Dose Intervalo Docetaxel/Carboplatina 75 mg/m2 /AUC 6 EV A cada 21 dias Pertuzumabe 420 mg EV (840 mg ataque) Pelo total de 6 ciclos Trastuzumabe 6 mg/kg EV (8 mg/kg ataque) 21 dias (até completar 1 ano) Câncer de mama triplonegativo O padrão é realizar terapia baseada em antracíclico (doxorrubicina ou epirrubicina) e taxano (docetaxel ou paclitaxel) [1, B].50 Sabendo que o tumor triplonegativo é aquele com pior prognóstico em comparação com outros subtipos moleculares, alguns estudos foram realizados para acrescentar me dicamentos na terapêutica neoadjuvante, com o intuito de aumentar a taxa de resposta patológica completa (pCR). Interesse especial nas platinas apareceu a partir do dado su gerindo que existe alta frequência de defeitos de reparo de DNA nos tumores triplonega tivos que podem lhes conferir maior taxa de resposta no contexto metastático. Os trials GeparSixto51 e CALGB/Alliance 4060352 avaliaram de forma prospectiva a adição de platina no regime de quimioterapia neoadjuvante de pacientes com tumores de mama triplonegativos. Nos dois estudos houve aumento de pCR com a adição da carboplatina. No GeparSixto, o aumento na pCR foi de 36,9% para 53,2%. Já o estudo CALGB/Alliance mostrou aumento de 41% para 54%. Por outro lado, quanto ao se guimento a longo prazo, tais estudos, apresentados no San Antonio Breast Cancer Symposium de 2016, foram divergentes. A sobrevida livre de recidiva aumentou para o grupo que usou platina no GeparSixto (HR 0,56; IC 95% 0,330,96), com seguimento de 35 meses, enquanto o CALGB/Alliance não demonstrou ganho em sobrevida livre de eventos com a adição de carboplatina (HR 0,84; IC 95% 0,581,22), com seguimento mediano de 39 meses. Destacase que a quimioterapia neoadjuvante foi diferente nos dois estudos; no estudo GeparSixto a quimioterapia era diferente do padrão usual de neoadjuvância (paclitaxel, doxorrubicina lipossomal e bevacizumabe). Portanto, esse benefício observado pode ter sido consequência de um tratamento não adequado do grupo placebo (falta do agente alquilante ciclofosfamida). Além disso, houve aumento de toxicidades graus 3 e 4, principalmente hematológicas, no grupo de tratamento com platina. Até que sejam rea lizados estudos mais robustos que demonstrem ganhos de sobrevida livre de recorrência, não se recomenda o tratamento neoadjuvante com platina. Alguns estudos de fase III ainda não publicados podem acrescentar mais informa ções sobre a dúvida de acrescentarmos a platina no tratamento neoadjuvante (ADAPT, NRG BR003, EA1131). Futuramente teremos também resultado de estudos de tratamen to neoadjuvante com inibidores de poly(ADP-ribose) polymerase-1 (PARP1), no contexto de pacientes com mutação de BRCA1 e 2, com tumores triplonegativos de mama.53 A imunoterapia também tem sido estudada no tratamento neoadjuvante desses tu mores triplonegativos. Na ASCO de 2017, foi apresentado um estudo de fase II multicên trico com randomização adaptativa, ainda não publicado. A análise apresentada foi da adição de pembrolizumabe ao tratamento neoadjuvante padrão de antraciclina e taxano DIRETRIZES ONCOLÓGICAS90 para pacientes de alto risco. Foram incluídos pacientes com neoplasia de mama com tumores maiores ou iguais a 2,5 cm, HER2 negativo, triplonegativos ou com receptor hormonal positivo com MammaPrint alto risco. Randomizouse para quimioterapiapa drão (TAC) e cirurgia (controle) ou braço experimental de adição de pembrolizumabe. Houve aumento de pCR na população geral para o braço pembrolizumabe (46% vs. 16%), principalmente na população com tumor triplonegativo, triplicando a chance de resposta patológica completa (60% vs. 20%). No braço experimental, houve aumento de fadiga e náuseas, além de toxicidade imunorrelacionada (seis pacientes com insuficiência adrenal G3).54 TRATAMENTO HORMONAL ADJUVANTE O status do receptor hormonal deve ser avaliado em todos os carcinomas mamários por meio de exame imunoistoquímico. Tumores que apresentam pelo menos 1% das célu las com marcadores para receptores hormonais devem ser considerados para tratamento com terapia endócrina.5557 Para decisão do tratamento adjuvante endócrino, é necessário precisamos definir o status de menopausa (pré ou pós) da paciente. São consideradas na menopausa as seguin tes pacientes:23 Com idade igual ou superior a 60 anos; Que foram submetidas a ooforectomia bilateral; Amenorreicas por 12 meses na ausência de qualquer medicação que suprima os ciclos menstruais e que tenham níveis de estradiol compatíveis com menopausa; Amenorreica, em uso de tamoxifeno, que tenham níveis de hormônio folículo estimulante (FSH) e estradiol compatíveis com menopausa. Quem deve receber tratamento adjuvante sistêmico com terapia endócrina Todas as pacientes com carcinoma de mama invasivo com receptores hormonais positivos devem receber tratamento adjuvante sistêmico independentemente da idade, estado do linfonodo axilar e indicação de quimioterapia adjuvante. A presença da ampli ficação do HER2 é um marcador de relativa resistência ao tratamento hormonal, mas, mesmo na sua presença, permanece a indicação de tratamento hormonal adjuvante.58,59 Escolha do melhor regime para tratamento com hormonioterapia Paciente na pré-menopausa com alto risco Supressão ovariana associada a inibidor da aromatase Todas as pacientes com receptores hormonais positivos candidatas a quimioterapia são consideradas de alto risco, isto é, com envolvimentode linfonodos, grandes tumores, alto grau, invasão linfovascular, idade menor que 35 anos, estudo genético com classifica ção de alto risco. A melhor estratégia para tratamento adjuvante nesse cenário clínico vem da avalia ção conjunta do estudo SOFT e do estudo TEXT. A análise das 4.600 pacientes tratadas Capítulo 6 • CÂNCER DE MAMA – ADJUVÂNCIA E NEOADJUVÂNCIA 91 com supressão ovariana e exemestano nos dois grupos, em comparação com tamoxifeno isolado, demonstrou aumento do tempo livre de doença em cinco anos de 87% para 91% (HR 0,72, IC 95% 0,600,85), apesar de não demonstrar aumento na SG.60 Paciente na pré-menopausa com baixo risco SERM (modulador seletivo dos receptores de estrógeno): tamoxifeno 20 mg ao dia É a medicação mais estudada e conhecida como tratamento adjuvante sistêmico hormonal. Pode ser utilizado em pacientes tanto na pósmenopausa como na prémeno pausa. Com o seu uso, há queda anual de 39% no risco de recidiva e de 31% no risco de morte relacionada ao câncer de mama, independentemente do uso de outras estratégias de tratamento sistêmico adjuvante como a quimioterapia. Caso haja indicação de qui mioterapia, o tamoxifeno deve ser administrado após o término dela.27 O tempo de uso é de no mínimo cinco anos. O uso além de cinco anos foi avaliado no estudo ATLAS, no qual 12.894 mulheres, após cinco anos de uso, foram randomizadas para suprimirem o uso ou manterem o uso até 10 anos. O estudo, que iniciou sua casuali zação em 1996 com final em 2005 e que teve sua primeira publicação em 2013, demons trou diminuição da recorrência em mama, de 711 para 617 (p = 0,002), da mortalidade relacionada ao câncer de mama, de 397 para 331 (p = 0,01), e da mortalidade global, de 722 para 639 (p = 0,01). Esses efeitos são notados principalmente após o seguimento com 10 anos. No grupo que fez uso por 10 anos, houve aumento da incidência de embolia pulmonar e câncer de endométrio.61 Pacientes com tumores com HER2 positivo e receptores hormonais positivos Para esse grupo específico de pacientes, iniciamos o tratamento hormonal adjuvante após o término da quimioterapia e juntamente com o trastuzumabe adjuvante isolado. Em que pese a ausência de estudos clínicos nesse cenário clínico específico, esse tipo de abordagem nos parece ser a mais racional. Pacientes na pós-menopausa Inibitores da aromatase: letrozol 2,5 mg por dia; anastrozol 1 mg por dia; exemesta no 25 mg por dia. A eficácia dos inibidores da aromatase é comparável. Como classe, os inibidores da aromatase têm mostrado ser mais efetivos que o tamoxifeno. Há diminuição tanto na incidência da recorrência de câncer de mama (RR 0,64, IC 95% 0,520,78) como na mortalidade relacionada ao câncer de mama em 10 anos (RR 0,85, IC 95% 0,750,96).62 O tempo ideal de uso do inibidor da aromatase ainda é um tema controverso. Pa cientes com alto risco de recorrência e ainda com bom perfil de tolerância aos inibidores da aromatase seriam as principais candidatas ao tratamento estendido. Essa estratégia foi avaliada no estudo MA17R, no qual pacientes com qualquer tempo de uso de tamoxifeno e que completaram cinco anos do uso de inibidor da aromatase foram randomizadas para completar mais cinco anos de uso de letrozol ou placebo. Entre as 1.900 pacientes trata das, o uso de inibidor da aromatase por um total de 10 anos proporcionou aumento da SLD, principalmente à custa de redução de tumor primário de mama contralateral, ape DIRETRIZES ONCOLÓGICAS92 sar de não ter havido aumento da SG. Os efeitos colaterais mais proeminentes tiveram re lação com a saúde óssea, porém não houve piora nos questionários de qualidade de vida.63 Terapia sequencial: Tamoxifeno por dois a três anos, seguido por inibidor da aromatase até comple tar cinco anos; Tamoxifeno por dois a três anos, seguido de inibidor da aromatase por mais cinco anos, com um total de oito anos de terapia endócrina; Iniciar com inibidor da aromatase por dois anos, seguido por três anos de ta moxifeno. Essa é uma estratégia bastante interessante para pacientes na perimenopausa. Quan do comparados cinco anos de tamoxifeno com a terapia de mudança, houve redução da incidência de recorrência de câncer de mama nos anos 2 a 4 (RR 0,56, IC 95% 0,46 0,67), assim como diminuição da mortalidade relacionada ao câncer de mama (RR 0,84, IC 95% 0,720,96).62 Por outro lado, caso haja terapia de mudança, independentemente da classe do me dicamento de escolha inicial, os desfechos clínicos são semelhantes, como avaliado no estudo clínico BIG198. Enquanto os resultados do câncer de mama foram melhores para letrozol em comparação com a monoterapia com tamoxifeno, não houve diferença sig nificativa na SLD ou na SG entre as terapias sequenciais e a monoterapia com letrozol.64 USO DE INIBIDORES DE OSTEÓLISE ADJUVANTE Os inibidores da aromatase foram consolidados como uma alternativa preferencial ao tamoxifeno no tratamento hormonal adjuvante de pacientes pósmenopáusicas com câncer de mama. Apesar de os inibidores da aromatase possuírem, em geral, um perfil de efeitos colaterais favorável, existem preocupações sobre seu impacto em longo prazo sobre a massa óssea e o desenvolvimento de osteoporose. Para a prevenção dessa perda de massa óssea, além de prevenção de fraturas por osteoporose, recomendase o uso de bifosfonatos ou denosumabe. Além disso, tanto os bifosfonatos como o denosumabe podem influenciar no processo de metástases. Inibidores de osteólise Classe farmacológica Uso Zometa Bifosfonato 4 mg EV a cada 6 meses Denosumabe Anticorpo monoclonal anti-RANKL 60 mg SC a cada 6 meses A metanálise de estudos randomizados entre bifosfonados e controles no contexto de pacientes com câncer de mama inicial em adjuvância analisou, no total, 18.766 mulheres (com dados individuais). O objetivo primário era recorrência, recorrência a distância e mortalidade por câncer de mama. Concluiuse que o uso de bifosfonatos adjuvantes reduz a taxa de recorrência de câncer de mama nos ossos e melhora a sobrevida no câncer de mama específico; esses benefícios foram vistos em pacientes na pósmenopausa.65 Denosumabe é um anticorpo inibidor do ligante do RANK (RANKL), inibindo o desenvolvimento, a ativação e a sobrevida do osteoclasto. O estudo de fase III ABCSG18 randomizou 3.420 mulheres na pósmenopausa com câncer de mama hormôniopositivo inicial, em uso de adjuvância com inibidor de aromatase, para receberem denosumabe Capítulo 6 • CÂNCER DE MAMA – ADJUVÂNCIA E NEOADJUVÂNCIA 93 60 mg subcutâneo a cada seis meses ou placebo. O anticorpo foi capaz de reduzir o risco de fraturas e não houve aumento de toxicidades.66 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. Brasil. Ministério da Saúde. Estimativa 2016: Incidência de Câncer no Brasil. 2016. Disponível em: <http://www.inca.gov.br/estimativa/2016/estimativa-2016-v11.pdf>. Acesso em: 25 maio 2017. 2. 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Adjuvant denosumab in breast cancer (ABCSG-18): a multicentre, randomised, double-blind, placebo-controlled trial. Lancet. 2015;386(9992):433-43. 99 Capítulo 7 CÂNCER DE MAMA METASTÁTICO Ana Maria Guimarães Mendes de Castro Andrade Claudio Henrique Lima RochaDanilo da Fonseca Reis Silva Elisa Cançado Porto Mascarenhas INTRODUÇÃO A despeito da evolução no rastreio, diagnóstico e tratamento do câncer de mama, 20% a 30% das pacientes recidivam com doença metastática. Os sítios mais comuns de metástases são: ossos, pulmão, fígado e sistema nervoso central.1 Apesar de grandes avanços no tratamento, o câncer de mama metastático persiste como doença incurável na imensa maioria dos casos, com sobrevida global (SG) mediana de dois a três anos e SG em cinco anos de somente 25%.24 Algumas séries mais recentes indicam que houve melhora na SG.5,6 O tratamento objetiva prolongar a sobrevida, o controle dos sintomas e a melhora da qualidade de vida, e deve ser individualizado, baseandose nas características biológicas do tumor, padrão de metástases, comorbidades e performance status. Os subtipos moleculares do câncer de mama na prática clínica podem ser descritos como: Luminal A: tumores hormôniosensíveis, expressam estrógeno e progesterona, apresentam baixa taxa de replicação. Geralmente, são tratados com terapia en dócrina (TE); Luminal B: tumores pouco hormôniosensíveis, expressam estrógeno e proges terona, apresentam alto grau histológico. O tratamento pode ser com quimio terapia (QT) ou terapias endócrinas com estratégias de reversão da resistência hormonal; HER2 hiperexpresso: tumores com HER2 positivo. O tratamento será com te rapia antiHER2 monomedicamento ou em combinação com QT ou TE; Triplonegativos: não expressam estrógeno, progesterona ou HER2. O trata mento geralmente é baseado em QT. Alguns medicamentosalvo também estão em estudo. DIRETRIZES ONCOLÓGICAS100 HORMONIOTERAPIA NO CÂNCER DE MAMA METASTÁTICO Por volta de 75% dos casos de câncer de mama apresentam expressão de receptor hormonal (RH) e são denominados hormônioresponsivos, ou seja, aqueles com expres são de RE e/ou RP pela técnica de imunoistoquímica superior a 1% das células tumorais; quanto maior a expressão, maior a chance de resposta com o tratamento hormonal. A TE reduz a carga tumoral e os sintomas na maioria das vezes, com menos efeitos colate rais e toxicidade, quando comparada à QT citotóxica. Além disso, a TE atual aumentou o tempo até progressão e possivelmente a sobrevida em relação às opções mais antigas. Uma vez que o intuito do tratamento é paliativo, esforços devem ser direcionados para a escolha adequada da terapia que vai estabilizar ou reduzir o volume de doença com efeitos colaterais mínimos, e que seja mantida até que ocorra progressão de doença ou toxicidade inaceitável. Como até 15% das neoplasias metastáticas podem ter a medida de RE discordante do sítio primário na recidiva,7 sugerese nova biópsia para confirmação do status do RE, RP e HER2. Aproximadamente, 20% dos cânceres de mama com RH positivo possuem também HER2 superexpresso, e essas pacientes devem receber terapia direcionada como parte do regime de tratamento. Os consensos de câncer de mama recomendam a TE como tratamento preferencial para o subtipo luminal na maioria dos casos, excluindo aqueles com crise visceral (disfun ção de órgão avaliada por meio de sinais/sintomas, exames laboratoriais e rápida progres são da doença) e/ou suspeita de resistência endócrina. Apesar das fortes evidências a favor da terapia hormonal, muitas pacientes ainda recebem QT citotóxica como tratamento inicial, mesmo com a menor eficácia.8 A sequência ideal de TE e suas combinações com agentesalvo ainda é incerta, por tanto sua pesquisa é fundamental. É crucial coletar dados de pesquisas clínicas além da progressão para melhor entendimento da eficácia de cada classe de agente quando dada uma após a outra (por exemplo, inibidores de quinase dependente de ciclina (CDK) 4 e 6 após inibidores de mTOR e viceeversa). Vale ressaltar que não há benefício clínico após três linhas sequenciais de tratamento hormonal e que sua associação à QT citotóxica não demonstrou benefício em SG, portanto não deve ser realizada. RESISTÊNCIA AO TRATAMENTO Quando pacientes falham ou param de responder a uma determinada linha de TE, é importante determinar se é necessária a mudança para outra TE ou para QT. Nesse con texto, devem ser considerados o nível de RE presente no tecido (2% a 9% versus > 10%), a duração da resposta à TE anterior, a tolerância da paciente à TE e a presença de doença visceral rapidamente progressiva. A resistência endócrina primária é vista em 20% a 25% das pacientes com neoplasias luminais que progridem precoce e rapidamente com a terapia hormonal, e melhores fato res preditivos são necessários para identificar essas pacientes.9 As possíveis razões podem incluir a perda de RE10 e mutações do RE.11 Capítulo 7 • CÂNCER DE MAMA METASTÁTICO 101 TIPOS DE TERAPIA ENDÓCRINA Estratégias para depleção de estrogênio Em mulheres na prémenopausa, os níveis de estrogênio podem ser suprimidos por meio da ooforectomia ou com o uso de agonistas ou antagonistas do hormônio liberador do hormônio luteinizante (LHRH). Mulheres na pósmenopausa continuam a produ zir estrogênio, ainda que em níveis baixos. Esse estrogênio é derivado de precursores da adrenal – a testosterona e a deidroepiandrostenediona (DHEA) –, que são convertidos em estradiol e estrona pela atividade da enzima aromatase nas células periféricas e tumorais. Para a inibição específica da aromatase (IA), estão disponíveis: anastrozol, letrozol (ambos não esteroidais) e exemestano (esteroidal), com atividade clínica, efeitos colaterais e toxicidade semelhantes – baseado em estudos prospectivos e randomizados. Estratégias para atingir diretamente o receptor de estrogênio Existem duas estratégias que interferem na sinalização do RE – o tamoxifeno, um modulador seletivo do receptor de estrogênio (MSRE), e o fulvestranto, um downregulator seletivo do receptor de estrogênio. O fulvestranto é um composto com baixa biodispo nibilidade oral e tempo de meiavida curto se a administração for intravenosa, portanto sua administração deve ser intramuscular. Além disso, é dosedependente, com estudos demonstrando eficácia com 500 mg em vez de 250 mg intramuscular.12 Estratégias para resistência à terapia hormonal A via de sinalização PI3K/AKT/mTOR desempenha um papel crítico na media ção do crescimento celular, sobrevivência e angiogênese, e ativações nessa via são fre quentes no câncer de mama. Estudos mostram que o inibidor de rapamicina (mTOR), everolimo, em combinação com IA ou tamoxifeno, é uma opção para mulheres pósme nopáusicas para o tratamento de câncer de mama com RH positivo metastático e resis tente a IA. O benefício da adição do everolimo ao exemestano foi demonstrado no estudo de fase III, BOLERO2, que randomizou 724 mulheres que haviam progredido com anastrozol. O objetivo primário do estudo foi alcançado [sobrevida livre de progressão (SLP) de sete contra três meses, hazard ratio (HR) para mortalidade 0,45, intervalo de confiança (IC) 95% 0,350,54], favorecendo a combinação em relação ao exemestano sozinho.13 Já a combinação de everolimo com tamoxifeno foi avaliada no estudo de fase II e resultou em uma melhora no tempo de progressão (8,6 versus 4,5 meses) e no risco de morte (HR 0,45, IC 95% 0,240,81).14 Novos agentes A via do CDK 4/6 está hiperativada em diversos cânceres, incluindo o de mama. A inibição dessa via leva à ativação do supressor tumoral Rb, causando a morte celular. Diversos estudos sugerem que a adição desses novos agentes à TE melhora a SLP, com dados de SG ainda imaturos. Esses agentes incluem os inibidores da CDK 4/6: palboci clibe e ribociclibe. A introdução desses inibidores foi indubitavelmente um dos maiores avanços relacionados ao manejo da doença luminal avançada. Esses agentes ainda não DIRETRIZES ONCOLÓGICAS102 são disponíveis no Brasil, mas estão em processo deanálise pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O palbociclibe é um inibidor altamente seletivo de CDK 4/6 administrado via oral que teve sua aprovação nos EUA em 2015. O impacto da combinação com o letrozol em primeira linha foi inicialmente avaliado num estudo de fase II, o PALOMA 1,15 que mostrou um benefício substancial de 10 meses na SLP, com um perfil de toxicidade fa vorável (neutropenia principalmente). Posteriormente, o estudo PALOMA 2, de fase III, confirmou os 10 meses de benefício em SLP.16 Os dados de SG ainda não foram publi cados. Após a progressão com a primeira linha de TE, o estudo PALOMA 3, de fase III, mostrou que a adição de palbociclibe ao fulvestranto resultou em cinco meses de ganho em SLP,17 com melhora na qualidade de vida, além de ter recrutado também mulheres na peri e prémenopausa (associado à supressão da função ovariana), o que permitiu ava liar a eficácia do medicamento numa população habitualmente excluída de estudos com terapia hormonal. O ribociclibe, outro inibidor seletivo de CDK 4/6, também garantiu sua aprovação pelo Food and Drug Administration (FDA), após demonstrar eficácia superior quando em combinação ao letrozol. O estudo de fase III com 668 mulheres na pósmenopausa com câncer de mama recorrente ou metastático com RE positivo e HER2 negativo mostrou que aquelas que receberam ribociclibe em associação com letrozol em primeira linha apresentaram melhora na SLP (não alcançada versus 14,7 meses; HR para progressão ou morte 0,56, IC 95% 0,430,72).18 Com 18 meses, a taxa de SLP foi de 63% para a combinação versus 42% nas que receberam letrozol exclusivamente. A taxa de resposta foi de 41% e 28%, respectivamente. A toxicidade mais frequente foi novamente neutropenia (59% versus 0,9%), porém somente 7,5% das pacientes tiveram o tratamento desconti nuado devido à toxicidade. Assim como para o palbociclibe, os dados de SG ainda são imaturos e necessitam de maior tempo de follow-up. ESCOLHA DA TERAPIA ENDÓCRINA Mulheres na pré-menopausa No caso de ausência de TE prévia nos últimos 12 meses: Supressão ovariana [goserelina 3,6 mg subcutânea (SC) mensal ou 10,8 mg SC trimestral] ou ablação ovariana (ooforectomia) associada a TE como para pa cientes na pósmenopausa;19 [1B] Tamoxifeno 20 mg via oral (VO) por dia. [1B] Na hipótese de TE prévia nos últimos 12 meses com tamoxifeno: Supressão ovariana (goserelina 3,6 mg SC mensal ou 10,8 mg SC, trimestral) ou ablação ovariana (ooforectomia) associada a IA (anastrozol 1 mg VO por dia ou letrozol 2,5 mg VO por dia ou exemestano 25 mg por dia)20,21. [1C] No caso de progressão após ablação/supressão ovariana associada a tamoxifeno e IA: a partir dessas linhas, o tratamento empregado deve seguir em analogia ao da pós menopausa pela falta de estudos clínicos randomizados, sempre em associação com a ablação/supressão ovariana. Capítulo 7 • CÂNCER DE MAMA METASTÁTICO 103 Mulheres na pós-menopausa Se não expostas a hormonioterapia prévia ou tempo maior que 12 meses do término da hormonioterapia adjuvante: IA não esteroidal (anastrozol 1 mg VO por dia ou letrozol 2,5 mg VO por dia ou exemestano 25 mg VO por dia); [1 A]. Tamoxifeno 20 mg VO por dia; [1 A] Inibidor CDK 4/6 (palbociclibe 125 mg VO por dia por três semanas a cada quatro semanas16 ou ribociclibe 600 mg VO por dia por três semanas a cada quatro semanas18) + letrozol 2,5 mg VO por dia. [1 A] Na hipótese de hormonioterapia prévia com tamoxifeno ou menos de 12 meses do término do tamoxifeno adjuvante: Fulvestranto [indução com 500 mg intramuscular (IM) nos D1, D15 e D29 se guido de 500 mg IM a cada 28 dias];12 [1 A] IA não esteroidal (anastrozol 1 mg VO por dia ou letrozol 2,5 mg VO por dia). [1 A] No caso de hormonioterapia prévia com IA não esteroidal ou menos de 12 meses do término do IA não esteroidal adjuvante: Palbociclibe 125 mg VO por dia por três semanas a cada quatro semanas + fulvestranto (indução com 500 mg IM nos D1, D15 e D29 seguido de 500 mg IM a cada 28 dias);17 [1 A] Exemestano 25 mg VO por dia + everolimo 10 mg VO por dia;13 [1 A] Fulvestranto (indução com 500 mg IM nos D1, D15 e D29 seguido de 500 mg IM a cada 28 dias);12 [1 B] Tamoxifeno 20 mg VO por dia; [1 B] Exemestano 25 mg VO por dia; [1 B] Tamoxifeno 20 mg VO por dia + everolimo 10 mg VO por dia.14 [2B] Na hipótese de hormonioterapia prévia com IA (esteroidal e não esteroidal) e tamo xifeno: Fulvestranto (indução com 500 mg IM nos D1, D15 e D29 seguido de 500 mg IM a cada 28 dias);12 [1C] Acetato de megestrol 160 mg VO;22 [1C] Estradiol 2 mg VO três vezes por dia.23 [1C] QUIMIOTERAPIA DO CÂNCER DE MAMA METASTÁTICO O manejo do câncer de mama metastático é complexo e o envolvimento de diversas equipes multidisciplinares (Oncologia, Radioterapia, Radiologia, Patologia, Mastologia, Psicologia, Serviço Social e especialistas em Cuidados Paliativos) é fundamental. Após a confirmação da doença metastática, os objetivos do tratamento devem ser discutidos com o paciente, que deve estar ciente da condição da doença incurável, porém tratável, e de que muitos pacientes podem viver por longos períodos de tempo. DIRETRIZES ONCOLÓGICAS104 Crise visceral é definida pela disfunção do órgão apresentada por meio de sinais e sintomas, exames laboratoriais e rápida progressão de doença, por exemplo, metástases hepáticas extensas ou linfangite carcinomatosa. Não se trata apenas da presença de me tástases viscerais, mas sim de importante comprometimento visceral que leva a indicação clínica de terapia mais rapidamente eficaz.24 Tanto a combinação de medicamentos quanto a monoterapia sequencial são opções razoáveis de tratamento do câncer de mama metastático. Com base nos dados atuais, é preferível o uso de regimes sequenciais de monoterapia, uma vez que a maioria das pa cientes é oligossintomática, devendose levar em conta a toxicidade e a qualidade de vida. A combinação deverá ser reservada a pacientes com rápida progressão clínica, metástases viscerais ameaçadoras à vida ou quando houver necessidade de taxa alta de resposta para paliação rápida e saída da situação crítica.25,26 [Evidência 1B ] A seleção do tratamento a ser empregado depende do tratamento quimioterápico previamente utilizado. Na ausência de contraindicações médicas, regimes baseados em antraciclinas ou taxanos,27 preferencialmente como monoterapia, geralmente são utiliza dos como primeira linha de tratamento para a doença com HER2 negativo nos pacientes que não foram expostos a esses medicamentos na (neo)adjuvância e quando a QT está indicada. Outras opções, entretanto, como capecitabina e vinorelbina estão disponíveis e são eficazes, particularmente se a paciente quiser evitar a alopecia.28 [Evidência 1A ] Nos pacientes virgens de taxanos e contraindicação ao uso de antraciclina, o uso de taxanos, preferencialmente em monoterapia, é considerado o tratamento de escolha quando houver indicação de QT. Mesmo em pacientes tratados com taxanos na adjuvân cia, o tratamento poderá ser reutilizado como primeira linha, particularmente se houver sobrevida livre de doença de pelo menos um ano.29 [Evidência 1A] Nos pacientes já expostos a antraciclina e taxanos, seja no cenário adjuvante e/ou metastático, o tratamentos preferencial é o uso de agentes isolados como capecitabina ou vinorelbina. Escolhas adicionais podem ser feitas com gencitabina, antraciclinas li possomais, eribulina e ixabepilone (indisponível no Brasil). Para aquelas com mutação conhecida do BRCA1/2, sem exposição prévia à platina, recomendase o uso de carbo platina. A decisão deve ser individualizada e levar em consideração os diferentes perfis de toxicidade, tratamentos anteriores, preferências da paciente e disponibilidade do medica mento.3032 [Evidência1B] A duração e a quantidade de regimes de tratamento deve ser individualizada para cada paciente individualmente. Geralmente, cada regime deve ser feito até progressão de doença ou toxicidade limitante.33,34 [Evidência 1B] O uso de bevacizumabe combinado à QT em primeira ou segunda linha promove moderado benefício em SLP, sem benefício de SG. A ausência de fatores preditivos de resposta ao bevacizumabe torna sua recomendação difícil, sendo seu uso recomendado apenas em casos selecionados de primeira ou segunda linha.35,36 [Evidência 1A] Esquemas de tratamento paliativo para câncer de mama metastático (monoterapia) Quimioterápicos Dose Intervalo Paclitaxel 80 mg/m2 D1, D8, D15 A cada 28 dias 175 mg/m2 D1 A cada 21 dias Doxorrubicina 60 mg/m2 D1 A cada 21 dias Capítulo 7 • CÂNCER DE MAMA METASTÁTICO 105 Quimioterápicos Dose Intervalo Doxorrubicina lipossomal 50 mg/m2 D1 A cada 28 dias Capecitabina 1.000 mg/m², 2 vezes ao dia, D1 a D14 A cada 21 dias Gencitabina 1.000 mg/m2 D1, D8 e D15 A cada 28 dias Vinorelbina 20-25 mg/m2 D1 e D8 A cada 21 dias Ciclofosfamida 50 mg D1 a D21 A cada 28 dias Carboplatina AUC 6 A cada 21 dias Eribulina 1,23 mg/m2 D1 e D8 A cada 21 dias Ixabepilone 40 mg/m2 D1 A cada 21 dias Esquemas de tratamento para câncer de mama metastático (combinação) Quimioterápicos Dose Intervalo Doxorrubicina Ciclofosfamida 60 mg/m2 D1 600 mg/m2 D1 A cada 21 dias (por 6 ciclos) Ciclofosfamida Metotrexato 5-fluorouracil 600 mg/m2 D1 40 mg/m2 D1 600 mg/m2 D1 A cada 21 dias (por 6 ciclos) Docetaxel Capecitabina 75 mg/m2 D1 950 mg/m², 2 vezes ao dia, D1 a D14 A cada 21 dias Paclitaxel Gencitabina 175 mg/m2 D1 1.250 mg/m2 D1 e D8 A cada 21 dias Gencitabina Carboplatina 1.250 mg/m2 D1 e D8 AUC2 D1 e D8 A cada 21 dias TERAPIAS ANTI-HER2 NO CÂNCER DE MAMA METASTÁTICO As terapias antiHER2 tornaramse agentes importantes no tratamento do câncer de mama metastático e alteraram o curso natural da doença. Dessa forma, para pacien tes com câncer de mama metastático com HER2 positivo, o tratamento direcionado ao HER2 deve ser um dos componentes do tratamento desde o início (grau de recomenda ção 1iA). Entre todos os subtipos de câncer de mama metastático, o HER2 positivo teve o maior progresso na última década. A introdução de novas terapias antiHER2, como pertuzumabe e trastuzumabe entansina (TDM1), foi um importante avanço, mas tam bém criou uma série de novas incertezas relacionadas à combinação/sequência ótima entre todos os tratamentos disponíveis. Terapias anti-HER2 no tratamento de câncer de mama HER2-positivo Trastuzumabe Anticorpo monoclonal que se liga ao domínio extracelular de HER2. Aplicação EV ou SC. Pertuzumabe Anticorpo monoclonal humanizado recombinante inibidor da dimerização extracelular do HER2, bloqueando a heterodimerização do HER2 com os outros membros da família HER, incluindo EGFR (receptor do fator de crescimento epitelial), HER3 e HER4. Aplicação EV. Lapatinibe Potente inibidor de tirosina quinase reversível contra EGFR1 e HER2. Medicamento oral. Ado-trastuzumabe entansina (T-DM1) Anticorpo conjugado composto por trastuzumabe e o agente antimicrotúbulo, DM1. Aplicação EV. DIRETRIZES ONCOLÓGICAS106 Tratamento sistêmico de primeira linha Recomendase o duplo bloqueio HER2 – pertuzumabe e trastuzumabe – associado a um taxano como a terapia de escolha inicial do paciente metastático (grau de recomen dação 1iA). O estudo de fase III CLEOPATRA randomizou 808 pacientes para receber terapia de primeira linha com pertuzumabe em combinação com trastuzumabe e doce taxel versus placebo com trastuzumabe e docetaxel.37,38 Após um seguimento mediano de 50 meses, houve um ganho surpreendente de quase 16 meses em SG com a adição de pertuzumabe (mediana de 56,5 versus 40,8 meses; HR 0,68; IC 95% 0,560,84; p 0,0002), o que representa um dos maiores benefícios já vistos em doença metastática. A SLP foi de 18,5 meses para o grupo que recebeu pertuzumabe versus 12,4 meses para o grupo controle (HR 0,62; IC 95% 0,510,75; p < 0,001), além de uma melhor taxa de resposta global (80% versus 69%). Nesse estudo, a inclusão de pacientes com o uso prévio de tras tuzumabe (neo)adjuvante foi permitida, desde que com intervalo livre da utilização maior que 12 meses. Devese ressaltar que a análise exploratória em pacientes previamente tra tadas com trastuzumabe na adjuvância ou neoadjuvância (aproximadamente 10% delas) sugeriu benefício similar nesse subgrupo (HR 0,68). O braço com pertuzumabe foi mais tóxico, o que inclui mais diarreia (67% versus 46%), neutropenia (53% versus 50%), erup ção cutânea (34% versus 24%), mucosite (27% versus 20%) e neutropenia febril (14% versus 8 %). No entanto, não houve aumento na taxa de disfunção ventricular esquerda, que foi muito baixa em ambos os braços (1% versus 2%). De forma a diminuir a toxicidade relacionada ao tratamento com docetaxel, outros taxanos também podem ser associados ao duplo bloqueio, especialmente o paclitaxel es quema semanal, muito utilizado na prática clínica (grau de recomendação 3D). Estudo de fase II com 69 pacientes mostrou atividade antitumoral com paclitaxel semanal em com binação com pertuzumabe e trastuzumabe semelhante aos resultados do estudo CLEO PATRA e toxicidade aceitável, sem neutropenia febril ou insuficiência cardíaca.39 Dados preliminares foram apresentados no Simpósio de Câncer de Mama de San Antonio, em dezembro de 2016, do estudo de fase IIIb de braço único PERUSE, com 1.436 pacien tes.40 Nesse estudo, o duplo bloqueio pertuzumabe/trastuzumabe foi associado com um de três taxanos (docetaxel, paclitaxel e nabpaclitaxel) em primeira linha, à escolha do oncologista, de forma que não houve diferenças em eficácia entre os três braços, porém o docetaxel mostrouse claramente mais tóxico, sobretudo em termos de diarreia, quando comparado com os outros braços. Neuropatia foi mais frequente no braço com paclitaxel. Embora o docetaxel seja uma QT ativa e bem estabelecida, nem sempre é prefe rência dos pacientes ou dos médicos devido ao seu perfil de toxicidade ou ao tratamento prévio com docetaxel/paclitaxel. Para aqueles com contraindicações aos taxanos, a asso ciação do duplo bloqueio com vinorelbina é uma opção razoável (grau de recomendação 3D).41 Além disso, o TDM1 pode ser uma alternativa em primeira linha nos casos de impossibilidade do uso do duplo bloqueio.42,43 O estudo de fase III MARIANNE incluiu mais de 1.000 mulheres para tratamento em primeira linha e randomizou para trastuzu mabe mais um taxano (docetaxel ou paclitaxel, braço 1), TDM1 mais placebo (braço 2) ou TDM1 mais pertuzumabe (braço 3). A SLP mediana para os braços 1, 2 e 3 foi de 13,7, 14,1 e 15,2 meses, respectivamente. Não houve diferença significativa na SLP entre os três braços, e as taxas de respostas objetivas foram de 68%, 60% e 64%, respectivamen te. Algumas toxicidades, incluindo neutropenia, neuropatia e edema periférico, foram menos frequentemente relatadas nos braços sem taxanos. Capítulo 7 • CÂNCER DE MAMA METASTÁTICO 107 Quando o trastuzumabe é usado como único antiHER2, as associações preferen ciais são com vinorelbina ou com um taxano. A associação de vinorelbina com trastuzu mabe mostrou eficácia superior ou igual em comparação com paclitaxel ou docetaxel, nos estudos TRAVIOTA e HERNATA, e tem melhor tolerabilidade.44,45 Para os pacientes com contraindicações à QT citotóxica, a administração do trastuzumabe com agente úni co, apesar de taxas de respostas inferiores, pode ser razoável, em particular, na ausência de doença visceral e para aqueles que podem tolerar alguma progressão da doença inicial (grau de recomendação 3D).46 A duração da terapia antiHER2 no contexto metastático é de importância crucial, tendo em vista os benefícios potenciais, bemcomo os custos substanciais associados a esses agentes. Porém, o tempo de tratamento ideal ainda não está definido. O protoco lo CLEOPATRA recomenda docetaxel por, pelo menos, seis ciclos, o que poderia ser continuado a cargo do médico assistente. O duplo bloqueio é realizado até progressão ou toxicidade inaceitável. Uma situação particularmente importante relacionase com a duração ideal da terapia com trastuzumabe em pacientes com remissão completa a longo prazo, o que costuma ocorrer em 5% a 10% dos casos. A decisão precisa ser indi vidualizada, equilibrando toxicidade, logística e custo, uma vez que não existem dados sólidos de recomendação para esse contexto. Em contrapartida, há dados suficientes para recomendar continuar o trastuzumabe além da progressão, mas a duração ideal desse tratamento e por quantas linhas além da progressão permanece em investigação (grau de recomendação 3D). Não existem dados, por outro lado, que apoiem o uso do bloqueio duplo além da progressão. Tratamentos subsequentes Embora o TDM1 possa ser um tratamento alternativo de primeira linha para pa cientes incapazes de receber o duplo bloqueio com taxano, os dados são consistentes em demonstrar sua eficácia como terapia subsequente. O TDM1, após várias terapias dirigidas a HER2, é efetivo. Para pacientes que progridem após o trastuzumabe inicial e um taxano no contexto metastático, ou após ambos os regimes contendo trastuzumabe e lapatinibe, o TDM1 é um agente ativo e com ganho de SG em relação aos demais, desde que não tenham recebido anteriormente (grau de recomendação 1iA).4750 O estudo EMILIA randomizou 991 mulheres para o braço investigacional TDM1 versus o braço controle com lapatinibe e capecitabina (até então a terapiapadrão), de monstrando aumento significativo na SG (29,9 vs. 25,9 meses; HR 0,75; IC 95% 0,64 0,88; p 0,0003), assim como na taxa de resposta (43,6% versus 30,8%; p < 0,001) e SLP (9,6 versus 6,4 meses; HR 0,65; IC 95% 0,530,77; p < 0,001) em favor do braço que recebeu TDM1.47,48 No estudo TH3RESA, por sua vez, o TDM1 demonstrou benefício em pacientes após exposição prévia a trastuzumabe e/ou lapatinibe. Nesse estudo, 602 pacientes haviam progredido em pelo menos dois regimes dirigidos a HER2 (com pro gressão nos regimes contendo trastuzumabe e/ou lapatinibe) e foram randomizadas em proporção 2:1 ao tratamento com TDM1 ou terapia de escolha do médico assistente. Em comparação com o tratamento de escolha do clínico, as pacientes tratadas com TDM1 tiveram maior SLP (mediana, 6,2 versus 3,3 meses, HR 0,53, IC 95% 0,420,66) e SG (mediana, 22,7 versus 15,8 meses, HR 0,68, IC 95% 0,540,85).49,50 DIRETRIZES ONCOLÓGICAS108 Os desfechos de eficácia do TDM1 dos estudos acima foram reportados em pacien tes sem exposição prévia ao pertuzumabe, de forma que não temos dados consistentes da eficácia do TDM1 após pertuzumabe. Entretanto, dados retrospectivos suportam o uso do TDM1 nesse cenário. Apesar de uma taxa de resposta inferior à reportada nos estudos randomizados, quase um terço dos pacientes fez uso do TDM1 por um período superior a seis meses, o que sugere boa atividade clínica do medicamento após pertuzumabe.51 Outra estratégia avaliada naquelas extensamente prétratadas com esquemas con tendo QT com trastuzumabe é o bloqueio duplo do HER2 com a combinação de lapa tinibe com trastuzumabe, o chamado bloqueio duplo vertical, que confere ganho de SG em relação ao lapatinibe isolado.52,53 Para linhas de terapia posteriores, o trastuzumabe pode ser administrado com quase todos os agentes de QT, incluindo vinorelbina (se não for dada na primeira linha), taxanos, capecitabina, eribulina, antraciclinas lipossomais, platinas, gencitabina ou CM metronômica (ciclofosfamida e metotrexato).54 A escolha deve ser individualizada e levar em consideração diferentes perfis de toxicidade, exposição prévia, preferências do paciente e disponibilidade. As combinações de lapatinibe com QT são mais limitadas devido à toxicidade, exceto pela combinação capecitabina e lapatinibe, esquema que era padrão até a chegada do TDM1 e pode ser utilizado.55 Atualmente, não há dados consistentes para decidir sobre a melhor sequência para cada paciente. HORMONIOTERAPIA ASSOCIADA A TERAPIA ANTI-HER2 A melhor combinação de hormonioterapia com terapia antiHER2 não está defi nida. O padrão de tratamento na população com HER2 positivo se baseia em QT asso ciada a terapia antiHER2. Entretanto, para pacientes assintomáticas, sem envolvimento visceral importante, doença mais indolente, forte expressão dos receptores hormonais e sequencialmente após tratamento com QT, a associação da terapia antiHER2 com hormonioterapia é menos tóxica e uma estratégia válida a ser considerada (grau de re comendação 3D).54,55 Inibidor de aromatase (com supressão ou ablação de ovários para mulheres prémenopáusicas) em associação a trastuzumabe com ou sem pertuzumabe é a estratégia mais aceita.56,57 Na ausência de biomarcadores, essa abordagem deve ser reservada para pacientes altamente selecionados, incluindo aqueles com contraindicações à QT. Os ensaios que comparam diretamente QT versus hormonioterapia mais terapia antiHER2 estão atualmente em curso [Detectar V/CHEVENDO (NCT02344472), SYSUCC002 (NCT01950182) e testes PERNETTA], e seus resultados permitirão me lhores recomendações. A combinação de hormonioterapia mais terapia antiHER2 é particularmente útil como terapia de manutenção após ciclos iniciais de QT e terapia antiHER2. Apesar da ausência de ensaios randomizados, a experiência clínica e a baixa toxicidade (em parti cular, se o trastuzumabe é usado) tornam essa uma opção razoável, provavelmente retar dando a progressão da doença e a consequente necessidade de QT (grau de recomenda ção 3D). O estudo TAnDEM randomizou 207 mulheres na pósmenopausa para receber anastrozol com ou sem trastuzumabe. A adição da terapia antiHER2 resultou em me lhora da SLP (4,8 vs. 2,8 meses, HR 0,63, IC 0,470,83) e uma tendência não significativa de melhora em SG (28,5 vs. 23,9 meses), apesar de 70% das pacientes do grupo anastrozol terem cruzado para trastuzumabe na progressão.56 Capítulo 7 • CÂNCER DE MAMA METASTÁTICO 109 A associação de inibidor de aromatase e lapatinibe é uma alternativa possível e atra tiva, por conta de ambos os medicamentos serem orais. Essa combinação, apesar de acar retar mais eventos de diarreia e rash, resultou em melhora da SLP em relação ao letrozol isolado (8,2 vs. 3,0 meses; HR 0,4, IC 0,20,8) quando utilizada em primeira linha.57 O estudo PERTAIN de fase II investigou se a adição de pertuzumabe ao esquema anastrozol com trastuzumabe em primeira linha aumentaria a SLP. Foram recrutadas 258 mulheres na pósmenopausa com desfecho primário de SLP atingido – 18,9 vs. 15,8 meses (HR 0,65, p 0,007) . Esses dados sugerem um potencial benefício em poupar a paciente de QT inicial nessa população. Entretanto, deve ser considerado que aproximadamente metade das pacientes incluídas no estudo fez uso inicial de taxano por 18 a 24 semanas.58 Esquemas de tratamento paliativo para câncer de mama com HER2 positivo Quimioterápicos Dose Intervalo THP Pertuzumabe Trastuzumabe Docetaxel Dose de ataque: 840 mg, manutenção: 420 mg Dose de ataque: 8 mg/kg, manutenção: 6 mg/kg 75 mg/m2 A cada 21 dias Pertuzumabe Trastuzumabe Paclitaxel Dose de ataque: 840 mg, manutenção: 420 mg Dose de ataque; 8 mg/kg, manutenção: 6 mg/kg 80 mg/m2 D1, D8, D15 A cada 21 dias T-DM1 3,6 mg/kg A cada 21 dias Pertuzumabe Trastuzumabe Vinorelbina Dose de ataque: 840 mg, manutenção: 420 mg Dose de ataque: 8 mg/kg, manutenção: 6 mg/kg Ciclo 1: D2, D9 25 mg/m2 Demais: D1, D8 30-35 mg/m2 A cada 21 dias Lapatinibe Trastuzumabe 1.000 mg/dia em jejum Dose de ataque: 8 mg/kg, manutenção: 6 mg/kg A cada 21 diasLapatinibe Capecitabina 1.250 mg/dia em jejum 2.000 mg/m2 D1 ao D14 A cada 21 dias REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. 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Abstract S3-04. 115 Capítulo 8 RADIOTERAPIA NO CÂNCER DE MAMA Gabriela Silva Moreira de Siqueira Em pacientes com diagnóstico de câncer de mama invasor não metastático, o trata mento comumente envolverá uma ou mais das modalidades: cirurgia, radioterapia (RT), quimioterapia e/ou hormonioterapia. O racional teórico do emprego da RT adjuvante é a erradicação de doença subclínica/micrometástase no ambiente locorregional em pa cientes tratadas com cirurgia com ou sem tratamento sistêmico, diminuindo, assim, o risco de recorrência locorregional e, em alguns cenários, melhorando a sobrevida dessas pacientes.1 RADIOTERAPIA MAMÁRIA PÓS-CIRURGIA CONSERVADORA A análise de dados da metanálise do EBCTCG (Early Breast Cancer Triallists’ Colla- borative Group), com mais de 10 mil pacientes agrupadas em 17 estudos,1 mostrou uma redução relativa de 50% nas taxas de recorrência em 10 anos [19% x 35%, risco relativo (RR) 0,52, intervalo de confiança (IC) 95% 0,480,56] em mulheres que receberam RT póscirurgia conservadora contra aquelas que não receberam RT adjuvante. Além disso, foram evidenciadas menores taxas de morte por câncer de mama em 15 anos no grupo de mulheres irradiadas (21% x 25%, RR 0,82, IC 95% 0,750,90); traduzindo matema ticamente, a cada quatro recidivas evitadas em 10 anos, uma morte por câncer de mama é anulada em 15 anos pela RT adjuvante. Diante disso, toda e qualquer mulher com diagnóstico de carcinoma invasor de mama que for submetida à cirurgia conservadora deve receber RT adjuvante. Alguns estudos mais recentes mostraram pequena diferença absoluta entre taxas de recorrência em mulheres de idade mais avançada com tumores de bom prognóstico,24 constituindo um grupo em que a omissão da RT adjuvante não parece prejudicar a sobrevida dessas pacientes. Uma metanálise de cinco estudos publi cada em 2014 mostrou que, para pacientes com mais de 65 anos, com tumores pequenos, com receptores hormonais (RHs) positivos e sem comprometimento linfonodal, as taxas de recorrência locorregional em cinco anos em pacientes irradiadas versus não irradiadas DIRETRIZES ONCOLÓGICAS116 foi de 2,2% x 6,5%4. Outro estudo de fase III, o Postoperative Radiotherapy In Minimum-Risk Elderly (PRIME II), com população mais bem definida de pacientes com 65 anos ou mais, tumores menores que 3 cm, margens livres, RHs positivos, LN negativos e que fazem uso de hormonioterapia, a diferença de recorrência local em sete anos foi de 1,3% x 4,1%, sem nenhum impacto em sobrevida2. Devese salientar que, em análise de subgrupo desse estudo, pacientes classificadas com receptores fracamente positivos (Allred < 7, 1+ ou < 10%) tiveram taxa de recidiva local de 10%, não sendo, portanto, as melhores candidatas à omissão da RT adjuvante. DOSE, VOLUME E FRACIONAMENTO Tradicionalmente, a RT adjuvante é feita com frações diárias de 1,8 a 2 Gy, num total de 45 a 50,4 Gy. Esquemas mais curtos de tratamento com doses mais altas por dia, de 2,6 a 3,3 Gy por dia (hipofracionamento), vêm sendo comparados ao fracionamento convencional em pacientes submetidas à cirurgia conservadora, com resultados oncoló gicos semelhantes e excelente perfil de toxicidade aguda e tardia.5,6 Isso faz do hipofra cionamento uma opção ao fracionamento convencional, com a grande vantagem de um tratamento mais curto, com potencial benefício em custo e maior adesão, e diminuição de filas de espera de RT. Um estudo de fase III canadense mostrou taxas de sobrevida livre de recorrência equivalentes entre o esquema hipofracionado e o convencional de RT após 20 anos de seguimento em pacientes em estádio inicial (T1/2 N0). Dois estudos britânicos, START A e B, incluíram pacientes N1 com irradiação de drenagens e também demos traram eficácia oncológica comparável ao fracionamento convencional.7 Uma metanálise com mais de 7.000 pacientes não mostrou diferença na “cosmese” da mama e, ainda, demonstrou melhor perfil de radiodermite aguda e tardia com esquemas hipofracionados de RT.6 Algumas situações ainda devem ser encaradas com cautela devido à ausência de evidências científicas ou baixa representatividade nos estudos de hipofracionamento. São elas: pacientes com menos de 50 anos, doenças avançadas T3/4 ou N2/3 e presença prótese mamária. O uso de reforço de dose no leito tumoral após RT de mama total, chamado de boost, diminui ainda mais as taxas de recorrência local e a necessidade de mastectomia de res gate no tratamento conservador.810 Dois principais estudos prospectivos de fase III mos traram os resultados benéficos do emprego do boost em mulheres submetidas à cirurgia conservadora, com diminuição da taxa de recorrência local em 20 anos (9% x 13%) e de mastectomia de resgate (75% x 79%), sem demonstração de benefício em sobrevida glo bal.11,12 O benefício parece se perder em pacientes de maior idade (maior de 60 anos) com bom perfil prognóstico (T1T2, RHs positivos), nas quais o emprego do boost é opcional. Os fracionamentos empregados no reforço variam de 10 a 16 Gy, com 2 a 2,5 Gy por dia; para a delimitação do volume do boost, deve levar em consideração informações prévias à cirurgia (marcação cirúrgica, exames de imagem) e dados póscirúrgicos como cicatriz supratumoral, clipes metálicos colocados no intraoperatório e cavidade do seroma. Uma alternativa à RT de toda a mama são as estratégias de RT parcial da mama que envolvem fracionamento acelerado, a chamada accelerated partial breast irradiation (APBI). Existem diversas modalidades para a execução de APBI (braquiterapia, RT tridimensio nal, RT intraoperatória, RT com modulação da intensidade do feixe) que envolvem um curso mais rápido de RT, com doses maiores por fração e volume reduzido de tratamen Capítulo 8 • RADIOTERAPIA NO CÂNCER DE MAMA 117 to (uma parte da mama). Uma metanálise de três estudos randomizados com mais de 1.000 pacientes, que comparou taxas de recorrência e sobrevida de pacientes submetidas a APBI versus RT de mama inteira em esquema convencional, mostrou equivalentes taxas de sobrevida e progressão metastática entre os grupos, porém com maiores índices de recorrência local e axilar em cinco anos.13 Algumas críticas são feitas a essas conclusões devido à heterogeneidade das características das pacientes nas análises (incluindo pacien tes de alto risco) e das técnicas de APBI empregadas. Um estudo randomizado de fase III encontrou taxas de recorrência local similares entre APBI e RT convencional em cinco anos (1,4% x 0,92%) em pacientes selecionadas (estádios I e II, margens livres, LN negati vo e sem invasão linfovascular).14 Dados mais concordantes são aguardados de um maior estudo de fase III (NSABP B39/RTOG 0431) para empoderamento de APBI como mo dalidade equivalente à RT de toda a mama em pacientes selecionadas. Enquanto isso, a Sociedade Americana de Radiação Oncológica (ASTRO) recomenda o uso dessa estraté gia em pacientes com as seguintes características: idade superior a 45 anos, tumor menor que 3 cm, LN negativo e margens livres. Orienta também que haja cautela no emprego de APBI em casos de: multicentricidade, ILV, CDIS, histologia lobular, RHs negativos, tumores HER2 positivos e pacientes com mutação de BRCA1/2.1518 RADIOTERAPIA DE DRENAGENS PÓS-CIRURGIA CONSERVADORA Apesar de ser consensual a indicação de RT regional em pacientes com quatro ou mais linfonodos comprometidos, também as mulheres submetidas à cirurgia conservado ra que têm qualquer comprometimentolinfonodal macroscópico (macrometástases – > 2 mm) devem ser consideradas para irradiação de região supraclavicular, infraclavicular (axila níveis II e III), axila nível I (caso não tenha sido submetida à dissecção axilar) e cadeia mamária interna (MI), esta última necessitando de individualização de casos, dis cutida posteriormente. A evidência para irradiação eletiva de drenagens póscirurgia con servadora vem dos resultados de dois estudos clínicos randomizados de fase III: o M.A20 e o European Organisation for Research and Treatment of Cancer (EORTC) 22922.19,20 O estudo do National Cancer Institute of Canada Clinical Trial Group (NCICCTG) M.A20 comparou quase 1.800 mulheres submetidas à cirurgia conservadora – 90% com LN positivo e 85% com um a três linfonodos comprometidos e 91% receberam quimio terapia com antraciclina e/ou taxano – entre adicionar RT de drenagens [fossa supracla vicular (FSC), axila, se não dissecada e MI] versus apenas RT mamária. Os achados foram de melhor sobrevida livre de doença em 10 anos (84% x 77%), sem diferença em sobre vida global (82,8% x 81,8%; p 0,38). Porém, quando isoladas as pacientes com receptor de estrógeno negativo, houve ganho em sobrevida em 10 anos para o grupo de irradiação nodal (81,3% x 73,9%; p 0,05).20 Comparação similar foi feita no estudo europeu do EORTC 22922, em que foi com parado adicionar ou não a irradiação de FSC e MI à RT mamária em uma população de mais de 4.000 mulheres, entre as quais aproximadamente 76% tinham sido submetidas à cirurgia conservadora e 43% tinham LN comprometido. Após um seguimento mediano de quase 11 anos, foram vistas melhores taxas de sobrevida livre de progressão (73% x 69%) e menor mortalidade relacionada ao câncer de mama (12,5% x 14,5%; p 0,04). Pacientes clinicamente sem acometimento linfonodal que realizam cirurgia conser vadora e pesquisa de linfonodo sentinela com achado de LN positivo e não recebem esva DIRETRIZES ONCOLÓGICAS118 ziamento axilar podem ser manejadas de diferentes maneiras: desde nenhum tratamento da axila até RT axilar. No estudo do American College of Surgeons Oncology Group (ACOZOG) Z011, 900 pacientes com tumores pequenos (T1T2), axila clinicamente negativa, sub metidas a tratamento conservador, com achado de linfonodo sentinela comprometido, foram randomizadas entre esvaziamento axilar versus nenhum tratamento axilar, com taxas de recorrência axilar em cinco anos muito semelhantes (96% x 97%). Alguns fato res podem ter influenciado na baixa taxa de recorrência do braço de observação, como 44,6% micrometástases no linfonodo sentinela (versus 32% no grupo dissecado), “trata mento” da axila pelos campos tangentes da RT mamária e quase 20% de tratamento in tencional de drenagens, mesmo não programado na randomização do estudo.21,22 Outro estudo que mostra semelhantes e excelentes índices de controle regional na omissão de tratamento axilar, em pacientes com LN sentinela positivo com micrometástases e tumo res de baixo risco, é o International Breast Cancer Study Group (IBCSG) 2301, que evidenciou taxas de recorrência axilar de 2% x 3% em cinco anos.23 Diante disso, parece seguro não realizar nenhum tratamento adicional em axila em pacientes de bom prognósti co (T1T2, RHs positivos) com linfonodo sentinela acometido por micrometástases. O tratamento dirigido axilar com RT parece uma boa opção em pacientes não dissecadas com LN sentinela positivo por macrometástases, segundo resultados do estudo de fase III AMAROS, no qual as taxas de recorrência axilar foram baixíssimas nos grupos de dissecção versus de RT (0,43% x 1,19%), com melhor perfil de toxicidade na forma de linfedema no braço de RT.24 RADIOTERAPIA PÓS-MASTECTOMIA Diversos estudos de fase III demonstram os benefícios do emprego de RT pósmas tectomia em termos de diminuição de recorrência locorregional e sobrevida câncerespe cífica em um determinado grupo de pacientes: T3/T4, N+.2527 Em sua grande maioria, a RT adjuvante significa tratamento do plastrão e regiões de drenagem linfonodal (fossa supra e infraclavicular, mamária interna e axila nível 1, quando esta não foi esvaziada). Uma metanálise com dados individuais de quase 4.000 pacientes alocadas em 14 estudos randomizados, tratadas nas décadas de 1960 a 1980, mostra benefício para a RT pós mastectomia em pacientes com qualquer grau de acometimento linfonodal em termos de recorrência locorregional e sobrevida câncerespecífica em nove anos.28 Quando analisa das apenas pacientes com um a três LNs positivos (cerca de 1.300 mulheres), os desfechos também foram favoráveis ao grupo de RT, tanto em índices de recorrência locorregional (3,8% x 20,3%) como em mortalidade relacionada ao câncer de mama (42,3% x 50,2%). Entretanto, algumas críticas são feitas a esses resultados, pois advêm de pacientes tratadas com quimioterapia não padrão nos dias de hoje (sem antracíclicos, taxanos ou bloqueio específico). O uso de hormonioterapia foi em média de apenas um ano, o que pode ter influenciado nos altos índices de recorrência vistos nos braços sem RT e que são muito superiores aos de séries prospectivas de pacientes com um a três linfonodos positivos trata das numa era mais moderna.29 Portanto, apesar de não haver estudos prospectivos de fase III avaliando o papel da RT após mastectomia especificamente na população de mulheres com tumores T1/2 e N1, muitos guidelines sugerem considerar a RT na presença de outros fatores para maior recorrência locorregional, como: ILV, RHs negativos, HER2 positivo, grau 3, mais de 1 LN comprometido, menos de 45 anos.30 Capítulo 8 • RADIOTERAPIA NO CÂNCER DE MAMA 119 PACIENTES SUBMETIDAS À QUIMIOTERAPIA NEOADJUVANTE Todas as pacientes nesse cenário que são submetidas à cirurgia conservadora de vem receber RT de mama remanescente, independentemente da resposta ao tratamento neoadjuvante. Ainda não existem dados de estudos prospectivos sobre indicação de RT baseada em resposta pósquimioterapia neoadjuvante. Atualmente, não constitui práticapadrão o estabelecimento do status patológico da axila prévio à quimioterapia neoadjuvante, sendo, então, a indicação de RT de drenagens guiada pelo status clínico ao diagnóstico e pela presença de células neoplásicas em axila em material da cirurgia (ausência de resposta ou resposta axilar parcial), sendo esse o grupo de maior risco para recidiva locorregional, segundo dados retrospectivos.31,32 Em mulheres submetidas à mastectomia, a decisão de irradiar o plastrão e cadeias de drenagem também é ditada pelo estadiamento inicial e pela resposta à quimioterapia neoadjuvante. Com base em observação de grupo de pacientes em que foi omitida a RT, os grupos com maior risco de recorrência locorregional são os de pacientes com resposta parcial em axila, mama e tumores grandes (> 5 cm) inicialmente.33 Em pacientes com resposta patológica completa, porém com tumores muito avançados inicialmente (estádio III), a RT demonstrou diminuir as taxas de recorrência locorregional em 10 anos.30,34,35 O desafio se traduz na indicação de RT de drenagens em situação de pacientes com tumor estádio II, com pouca doença linfonodal ao diagnóstico (cN1 – um a tres linfono dos clinicamente palpáveis) e que têm resposta patológica axilar completa. Na ausência de evidência que suporte a omissão de RT nesse cenário, o emprego da RT de drenagens (no caso de cirurgia conservadora) e RT pósmastectomia parece o mais seguro. Dados são aguardados do estudo do NSABP B51/RTOG 1304 para definição do padrão de tratamento de RT adjuvante em pacientes N1 com resposta patológica axilar completa. 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J Clin Oncol. 2002;20(1):17-23. 123 Capítulo 9 CÂNCER DE PULMÃO DE PEQUENAS CÉLULAS Janice Rodrigues Farias Murilo Buso Ben Jan Slotman INTRODUÇÃO O carcinoma de pulmão de pequenas células (CPPC) é uma doença de crescimento rápido, apresentase mais comumente como massa central ou hilar e responde bem à quimioterapia (QT), mas tem prognóstico reservado, com apenas 1% a 2% dos pacientes metastáticos vivos em cinco anos.1,2 EPIDEMIOLOGIA O CPPC representa em torno de 14% de todas as neoplasias de pulmão e está muito associado ao tabagismo, sendo disseminado ao diagnóstico em 70% dos casos.3 ESTADIAMENTO A IALSC (International Association for the Study of Lung Cancer) recomenda que o esta diamento seja feito seguindo a classificação TNM da AJCC (American Joint Committee on Cancer)4 (ver capítulo 25 – Câncer de pulmão de não pequenas células). Por motivos práticos, a classificação do Veteran’s Affairs Lung Cancer Study Group (VALCSG) pode ser usada conforme a Tabela 9.1.5 Tabela 9.1. Classificação do Veteran’s Affairs Lung Cancer Study Group VALCSG TNM Doença limitada Tumor limitado a um hemitórax e linfonodos regionais que podem ser envolvidos em um campo de radioterapia I-III; exceto T3-T4 múltiplos nódulos Doença extensa Tumor se estende além dos limites da doença limitada IV ou T3-T4 múltiplos nódulos extensos ou com volume maior do que o tolerado em um campo de RT DIRETRIZES ONCOLÓGICAS124 Exames complementares: Hemograma e bioquímica, incluindo creatinina, desidrogenase láctica (DHL), sódio, cálcio; Tomografia computadorizada do tórax, abdome e pelve; Ressonância magnética de crânio; Cintilografia óssea; PET/CT (tomografia por emissão de pósitrons/tomografia computadorizada): é 100% sensível e altera a conduta terapêutica em 5% a 20% dos casos. Subs titui as tomografias e a cintilografia óssea para confirmar doença localizada e metástase solitária;6,7 Biópsia de medula óssea (considerar se houver suspeita: DHL aumentado, leu cocitose com desvio à esquerda, pancitopenia). TRATAMENTO A QT deve ser iniciada o mais breve possível, tendo em vista que o tumor apresenta tempo de duplicação rápido e alta fração de crescimento. Todos os pacientes devem ser incentivados a parar de fumar. Doença limitada Cerca de 5% dos casos se apresentam como doença T12N0M0 após o estadiamen to mediastinal invasivo. Nessa situação, devese considerar cirurgia (3iiiA),8 seguida de quatro ciclos de QT adjuvante (1iiA) e, se pN2, adicionar radioterapia (RT) mediastinal adjuvante (3iiiA).911 Nos demais casos (a maioria), devese realizar tratamento concomitante de QT e RT (1iiA). RT de 60 a 70 Gy em seis a sete semanas ou 45 Gy em três semanas BID associada à QT com cisplatina 60 mg/m2 endovenosa (EV) no D1 e etoposídeo 120 mg/m2 EV nos D1 a D3 (ciclos a cada 21 dias, por quatro ciclos).12,13 Preferencialmente, devese iniciar a RT durante o primeiro ou segundo ciclo de QT. Um estudo japonês randomizou 231 pacientes para a realização de quimiorradioterapia sequencial ou concomitante e de monstrou que existe benefício em sobrevida global (SG) para os pacientes que realizaram tratamento concomitante (19,7 versus 27,2 meses).14 Uma metanálise publicada em 1999 demonstrou que pacientes que obtêm resposta parcial ou completa apresentam redução da mortalidade de 5,4% ao realizarem PCI (RT cerebral profilática), com risco relativo de morte de 0,84 (p = 0,01) comparado com o grupo que não realizou o procedimento. A dose usual é de 25 Gy em 10 frações de 2,5 Gy (1iiA).15 Apesar de taxas de respostas de 70% a 90% serem esperadas com o tratamento con comitante, a SG em dois anos é de 40%.16 Doença extensa Nesse grupo de pacientes, taxas de resposta de 60% a 70% são esperadas com a QT sistêmica. A SG mediana é de 9 a 11 meses.16 É importante atentar para a possibilidade Capítulo 9 • CÂNCER DE PULMÃO DE PEQUENAS CÉLULAS 125 de síndrome da lise tumoral em pacientes com doença volumosa (avaliar necessidade de profilaxia). Indicase QT paliativa por quatro a seis ciclos a depender da resposta e da tolerância (1iiA). A comparação de regimes baseados em cisplatina versus carboplatina foi relatada em uma metanálise de dados individuais que incluiu 663 pacientes; 68% tinham doença extensa; não foi observada diferença significativa na SG (9,6 vs. 9,4 meses), na sobrevida livre de progressão (5,5 vs. 5,3 meses) ou na taxa de resposta (67% vs. 66%), sugerindo eficácia equivalente desses regimes.17 Mesmo pacientes com mais de 70 anos com bom performance se beneficiam de esquemas com dupla droga (doublet de platina). Dois estudos fase III com a população ocidental compararam irinotecano/cisplatina com etoposídeo/cisplatina (EP);18,19 não houve diferença significativa na taxa de resposta ou na SG. Um pequeno estudo de fase III japonês descreveu benefício de SG média (12,8 vs. 9,4 meses; p = 0,002) para o grupo irinotecano/cisplatina versus esquema EP.20 Os esquemas de escolha constam da Tabela 9.2. Tabela 9.2. Esquemas de escolha de quimioterapia para tratamento da neoplasia de pulmão de pequenas células Esquemas de quimioterapia Cisplatina Etoposídeo 60 mg/m2 EV D1 120 mg/m2 EV D1-D3 (a cada 21 dias) Carboplatina Etoposídeo AUC5 D1 EV 100 mg/m2 EV D1-D3 (acada 21 dias) Cisplatina Irinotecano 30 mg/m2 EV D1 60 mg/m2 EV D1, D8 e D15 (a cada 28 dias) Carboplatina Paclitaxel AUC6 EV D1 200 mg/m2 D1 EV (a cada 21 dias) Em pacientes que obtêm resposta parcial ou completa, considerar PCI, na dose de 20 Gy em cinco frações ou 25 Gy em 10 frações (1iiDii).21,22 Em pacientes com resposta sistêmica e tumor intratorácico residual (com doença residual mínima ou resposta completa), considerar RT torácica na dose de 30 Gy em 10 frações (1iiA). Um estudo de fase III randomizou pacientes com doença extensa e resposta após quatro a seis ciclos de QT de primeira linha para receberem RT de consolidação para o tórax (30 Gy em 10 frações) versus observação. Houve discreto aumento de sobre vivência global em dois anos no braço de pacientes que receberam RT (13% versus 3%, p = 0,004).23 Regimes de segunda/terceira linha Os regimes de segunda/terceira linha podem ser considerados em pacientes que mantêm boa condição clínica. Principais esquemas: topotecana 2,3 mg/m2 via oral (VO) nos D1 a D5 ou 1,5 mg/m2 EV nos D1 a D5 (a cada três semanas) ou 4 mg/m² EV semanalmente (1iiA);24,25 paclitaxel 80 mg/m2 por semana por seis semanas a cada oito semanas (3iiiDiv);26 gencitabina 1 g/m2 nos D1, D8, D15 a cada 28 dias (3iiiDiv);27 irino tecano (3iiiDiv);28 docetaxel (3iiiDiv); etoposídeo VO, vinorelbina, temozolamida (3iiiDiv). DIRETRIZES ONCOLÓGICAS126 O estudo de fase I/II (CheckMate 032) de nivolumabe isolado ou em associação a ipi limumabe reportou taxa de resposta de 10% no grupo que recebeu nivolumabe 3 mg/kg e de 23% para o braço nivolumabe 1 mg/kg + ipilimumabe 3 mg/kg indução, seguido por manutenção com nivolumabe 3 mg/kg.29 Toxicidades de graus 3 ou 4 foram observadas em quase 40% dos pacientes. O emprego da imunoterapia não deve ser rotineiro no tratamento de resgate, até que estudos mais robustos avaliem desfechos de sobrevivência, resposta e toxicidade. Dois estudos de fase III com maior número de pacientes estão em andamento (o estudo CheckMate 451, que compara imunoterapia com ipilimumabe isolado versus ipilimumabe em combinação com nivolumab versus placebo, e o estudo CheckMate 331, que compara nivolumabe versus QT). REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. Govindan R, Page N, Morgensztern D, Read W, Tierney R, Vlahiotis A, et al. 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Wong AT, Rineer J, Schwartz D, Schreiber D. Assessing the Impact of Postoperative Radiation Therapy for Completely Resected Limited-Stage Small Cell Lung Cancer Using the National Cancer Database. J Thorac Oncol. 2016;11(2):242-8. 12. Turrisi AT 3rd, Kim K, Blum R, Sause WT, Livingston RB, Komaki R, et al. Twice-daily compared with once-daily thoracic radiotherapy in limited small-cell lung cancer treated concurrently with cisplatin and etoposide. N Engl J Med. 1999;340(4):265-71. 13. Faivre-Finn C, Snee M, Ashcroft L, Appel W, Barlesi F, Bhatnagar A, et al.; CONVERT Study Team. Concurrent once-daily versus twice-daily chemoradiotherapy in patients with limited-stage small-cell lung cancer (CONVERT): an open-label, phase 3, randomised, superiority trial. Lancet Oncol. 2017;18(8):1116-25. 14. Takada M, Fukuoka M, Kawahara M, Sugiura T, Yokoyama A, Yokota S, et al. Phase III study of concurrent versus sequential thoracic radiotherapy in combination with cisplatin and etoposide for limited-stage small-cell lung cancer: results of the Japan Clinical Oncology Group Study 9104. J Clin Oncol. 2002;20(14):3054-60. 15. Aupérin A, Arriagada R, Pignon JP, Le Péchoux C, Gregor A, Stephens RJ, et al. Prophylactic cranial irradiation for patients with small-cell lung cancer in complete remission. Prophylactic Cranial Irradiation Overview Collaborative Group. N Engl J Med. 1999;341(7):476-84. 16. Chute JP, Chen T, Feigal E, Simon R, Johnson BE. Twenty years of phase III trials for patients with extensive-stage small-cell lung cancer: perceptible progress. J Clin Oncol. 1999;17(6):1794-801. 17. Rossi A, Di Maio M, Chiodini P, Rudd RM, Okamoto H, Skarlos DV, et al. Carboplatin- or cisplatin- based chemotherapy in first-line treatment of small-cell lung cancer: the COCIS meta-analysis of individual patient data. J Clin Oncol. 2012;30(14):1692-8. 18. Lara PN Jr, Natale R, Crowley J, Lenz HJ, Redman MW, Carleton JE, et al. Phase III trial of irinotecan/ cisplatin compared with etoposide/cisplatin in extensive-stage small-cell lung cancer: clinical and pharmacogenomic results from SWOG S0124. J Clin Oncol. 2009;27(15):2530-5. 19. Hanna N, Bunn PA Jr, Langer C, Einhorn L, Guthrie T Jr, Beck T, et al. Randomized phase III trial comparing irinotecan/cisplatin with etoposide/cisplatin in patients with previously untreated extensive-stage disease small-cell lung cancer. J Clin Oncol. 2006;24(13):2038-43. 20. Noda K, Nishiwaki Y, Kawahara M, Negoro S, Sugiura T, Yokoyama A, et al.; Japan Clinical Oncology Group. Irinotecan plus cisplatin compared with etoposide plus cisplatin for extensive small-cell lung cancer. N Engl J Med. 2002;346(2):85-91. 21. Slotman B, Faivre-Finn C, Kramer G, RankinE, Snee M, Hatton M, et al.; EORTC Radiation Oncology Group and Lung Cancer Group. Prophylactic cranial irradiation in extensive small- cell lung cancer. N Engl J Med. 2007;357(7):664-72. 22. Takahashi T, Yamanaka T, Seto T, Harada H, Nokihara H, Saka H, et al. Prophylactic cranial irradiation versus observation in patients with extensive-disease small-cell lung cancer: a multicentre, randomised, open-label, phase 3 trial. Lancet Oncol. 2017;18(5):663-71. 23. Slotman BJ, van Tinteren H, Praag JO, Knegjens JL, El Sharouni SY, Hatton M, et al. Use of thoracic radiotherapy for extensive stage small-cell lung cancer: a phase 3 randomised controlled trial. Lancet. 2015;385(9962):36-42. 24. Shipley D, Hainsworth J, Spigel D, Gray J, Barton J, Switzer M, et al. Topotecan: Weekly intravenous (IV) schedule similar to standard 5-day IV schedule as second-line therapy for relapsed small cell lung cancer (SCLC) – A Minnie Pearl Cancer Research Network phase II trial. J Clin Oncol. 2006;abstr 7083. 25. O’Brien ME, Ciuleanu TE, Tsekov H, Shparyk Y, Cuceviá B, Juhasz G, et al. Phase III trial comparing supportive care alone with supportive care with oral topotecan in patients with relapsed small-cell lung cancer. J Clin Oncol. 2006;24(34):5441-7. DIRETRIZES ONCOLÓGICAS128 26. Yamamoto N, Tsurutani J, Yoshimura N, Asai G, Moriyama A, Nakagawa K, et al. Phase II study of weekly paclitaxel for relapsed and refractory small cell lung cancer. Anticancer Res. 2006;26(1B):777-81. 27. Masters GA, Declerck L, Blanke C, Sandler A, DeVore R, Miller K, et al.; Eastern Cooperative Oncology Group. Phase II trial of gemcitabine in refractory or relapsed small-cell lung cancer: Eastern Cooperative Oncology Group Trial 1597. J Clin Oncol. 2003;21(8):1550-5. 28. Masuda N, Fukuoka M, Kusunoki Y, Matsui K, Takifuji N, Kudoh S, et al. CPT-11: a new derivative of camptothecin for the treatment of refractory or relapsed small-cell lung cancer. J Clin Oncol. 1992;10(8):1225-9. 29. Antonia SJ, López-Martin JA, Bendell J, Ott PA, Taylor M, Eder JP, et al. 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EPIDEMIOLOGIA No Brasil, é o segundo tumor mais incidente em homens e o quarto em mulheres (exceto o câncer de pele não melanoma), com risco estimado de 17,49 casos novos a cada 100 mil homens e 10,54 para cada 100 mil mulheres.1 É a principal causa de morte por câncer em homens (14,27%) e a segunda em mulheres (10,54%).1 Estudo epidemiológico envolvendo em torno de 35 mil pacientes, no Brasil, demonstrou aumento da incidência em mulheres, inversão do perfil histológico com atual predomínio de adenocarcinoma e idade mediana de acometimento de 62,9 anos, sendo 54,9% localmente avançado/ metastático ao diagnóstico.2 O tabagismo é o principal fator de risco associado, porém 10% a 15% dos casos ocorrem em não fumantes.3 Nos jovens, predomina histologia de adenocarcinoma, sexo feminino, não fumante e maior probabilidade de doença metastática, apesar de terem melhor prognóstico que o paciente idoso.4 RASTREAMENTO Para quem? – Indivíduos assintomáticos entre 55 e 74 anos, com histórico mínimo de 30 maços por ano de tabagismo e que fumam ou pararam de fumar há menos de 15 anos. DIRETRIZES ONCOLÓGICAS130 Como – Tomografia (TC) tórax de baixa dosagem sem contraste anual. Há incerteza sobre a duração apropriada do rastreio. Recomendamos realizálo até que se completem 15 anos sem fumar.5 O maior estudo já publicado demonstrou redução relativa na mortalidade de 16% [risco relativo (RR) 0,84; intervalo de confiança (IC) 95% 0,750,95] para os pacientes de alto risco que foram submetidos ao programa durante três anos versus radiografia de tórax.6 Resultados satisfatórios são atingidos com uma equipe médica treinada composta de radiologista, pneumologista, cirurgião torácico e oncologista. DIAGNÓSTICO O diagnóstico patológico deve ser feito de acordo com a classificação da Organiza ção Mundial da Saúde (OMS).7 Pequenas amostras diagnósticas, colhidas por broncosco pia ou biópsia transparietal, devem ser avaliadas de forma racional pela patologia, pois há necessidade de preservar material para a imunoistoquímica – IHQ (análise mínima dos marcadores p40 ou p63 para CEC e TTF1 para adenocarcinoma)8 e para os testes mo leculares na doença metastática. Rebiópsia na progressão é recomendada nos subgrupos em que novos testes podem guiar a nova opção terapêutica, como na pesquisa de mutação do T790M.9 ESTADIAMENTO História clínica detalhada incluindo tabagismo, comorbidades, perda ponderal, performance status e exame físico meticuloso. Laboratório: hemograma, função renal e hepática, cálcio iônico, desidrogenase lática (DHL) e fosfatase alcalina. Não há evidência para dosagem de marcadores tumorais (por exemplo: CEA).10 Tomografia (TC) de tórax e abdome total com contraste; se houver metástase visceral múltipla, complementar com cintilografia óssea; se não houver metástase, rea lizar tomografia por emissão de pósitrons/tomografia computadorizada (PET/ CT), que é superior à TC na investigação de metástase a distância e na avalia ção de linfonodos mediastinais, porém devese atentar para a possibilidade de resultado falsopositivo; lesão metastática única (exceto sistema nervoso central – SNC) deve ser confirmada com biópsia sempre que possível.11,12 Ressonância nuclear magnética (RNM) de crânio com contraste. Estadiamento invasivo do mediastino: Se houver linfonodo hilar ou mediastinal positi vo na PET/CT ou maior que 1,0 cm na TC ou tumor central.13 Estadiamento (American Joint Committee on Cancer – AJCC, 8ª edição)14 Tumor primário (T) Tx Tumor primário não pode ser avaliado ou tumor detectado por citologia maligna no escarro ou lavado broncoalveolar, mas não visível por exames de imagem ou broncoscopia T0 Sem evidência de tumor primário Tis Carcinoma in situ Capítulo 10 • CÂNCER DE PULMÃO DE NÃO PEQUENAS CÉLULAS 131 T1 T1a (mi) T1a T1b T1c Tumor ≤ 3 cm no maior diâmetro, circundado por pulmão ou pleura visceral sem invasão proximal além do brônquio lobar Adenocarcinoma minimamente invasivo Tumor ≤ 1 cm de diâmetro Tumor > 1 cm, mas ≤ 2 cm de diâmetro Tumor > 2 cm, mas ≤ 3 cm de diâmetro T2 T2a T2b Tumor > 3 cm, mas ≤ 5 cm de diâmetro ou tumor com qualquer das seguintes características: envolvimento do brônquio principal independentemente da distância da carina, mas sem comprometimento da carina; invasão da pleura visceral; associação com atelectasia ou pneumonite obstrutiva que se estende para a região hilar, envolvendo parcialmente ou todo o pulmão Tumor > 3 cm, mas ≤ 4 cm de diâmetro Tumor > 4 cm, mas ≤ 5 cm de diâmetro T3 Tumor > 5 cm, mas ≤ 7 cm de diâmetro ou nódulos tumorais separados no mesmo lobo ou tumor que invade diretamente qualquer das seguintes estruturas: parede torácica (inclui pleura parietal e tumor do sulco superior), nervo frênico e pericárdio parietal T4 Tumor > 7 cm de diâmetro ou nódulos tumorais separados em lobos diferentes ipsilaterais ou tumor que invade diretamente qualquer das seguintes estruturas: diafragma, mediastino, coração, grandes vasos, traqueia, nervo laríngeo recorrente, esôfago, corpo vertebral e carina Linfonodos regionais (N) Nx Linfonodosregionais não podem ser avaliados N0 Sem linfonodos regionais metastáticos N1 Metástase em linfonodos peribrônquicos e/ou hilares ipsilaterais e linfonodos intrapulmonares, incluindo envolvimento por extensão direta N2 Metástase em linfonodos mediastinais ipsilaterais e/ou subcarinais N3 Metástase em linfonodos contralaterais mediastinais ou hilares, ipsilaterais ou contralaterais escalenos ou linfonodos supraclaviculares Metástases a distância (M) M0 Sem metástases a distância M1 M1a M1b M1c Metástases a distância Nódulos tumorais separados em lobos contralaterais; nódulos pericárdicos ou pleurais; derrame pericárdico ou pleural maligno Metástase extratorácica única Metástase extratorácica múltipla em um ou mais órgãos Agrupamento TNM IA1: T1aN0M0 IA2: T1bN0M0 IA3: T1cN0M0 IB: T2aN0M0 IIA: T2bN0M0 IIB: T3N0M0, T1aN1M0, T1bN1M0, T1cN1M0, T2aN1M0, T2bN1M0, IIIA: T4N0M0, T3N1M0, T4N1M0, T1aN2M0, T1bN2M0, T1cN2M0, T2aN2M0, T2bN2M0 DIRETRIZES ONCOLÓGICAS132 IIIB: T3N2M0, T4N2M0, T1aN3M0, T1bN3M0, T1cN3M0, T2aN3M0, T2bN3M0 IIIC: T3N3M0, T4N3M0 IVA: Qualquer T ou N M1a, Qualquer T ou N M1b IVB: Qualquer T ou N M1c Principais mudanças da 7ª para a 8ª edição da AJCC 7ª edição 8ª edição T1 ≤ 1 cm T1a T1 > 1-2 cm T1b T1 > 2-3 cm T1c T2 > 3-4 cm T2a T2 > 5-7 cm T3 T3 > 7 cm T4 T3 invasão do diafragma T4 M1b lesões múltiplas extratorácicas M1c - IIIC (T3N3M0, T4N3M0) TRATAMENTO Doença inicial (estádios clínicos I e II) Ressecção cirúrgica é o tratamentopadrão para pacientes que apresentem condições clínicas (1iiA);15 Radioterapia estereotáxica ablativa (SABR) é recomendada para os pa cientes inoperáveis ou que recusam cirurgia (1iiA), com taxas de controle do tumor primário e de sobrevida global (SG) comparáveis à da lobectomia;1620 Nota: SABR na dose mínima de 105 Gy BED10 (por exemplo: 3 x 18 Gy; 5 x 11 Gy). Para tumor central ou com diâmetro maior que 5 cm, considerar es quemas mais fracionados (por exemplo: 8 x 7,5 Gy). Atenção se o volume target sobrepuser brônquio, traqueia e/ou esôfago. Atenção em pacientes com doença pulmonar intersticial devido ao alto risco de pneumonite actínica. Adjuvância: quimioterapia (QT) adjuvante nos estádios patológicos II ou III (1iiA); considerar em estádio IB com T maior ou igual a 4 cm (análise de sub grupo). Esquemas: sugerimos quatro ciclos de esquemas de dupla droga baseada em cis platina: pemetrexede 500 mg/m2 endovenoso (EV) no D1 e cisplatina 75 mg/m2 EV no D1, a cada 21 dias [apenas para histologia não escamosa; iniciar uma semana antes da QT: ácido fólico 1 mg por dia via oral (VO) e vitamina B12 1.000 mcg intramuscular (IM) a cada nove semanas];21 vinorelbina 25 mg/m2 por semana e cisplatina 50 mg/m2 nos D1e D8, a cada quatro semanas; genci tabina 1.000 mg/m2 nos D1e D8 e cisplatina 75 mg/m2 no D1, a cada 21 dias. Considerar radioterapia (RT) adjuvante na presença de margem cirúrgica positiva e/ou doença mediastinal residual (3iiiA). Sugerimos tratamento sequencial de QT segui da de RT quando as duas modalidades forem indicadas na adjuvância. Capítulo 10 • CÂNCER DE PULMÃO DE NÃO PEQUENAS CÉLULAS 133 A metanálise LACE combinou pacientes dos cinco maiores estudos e revelou re dução no risco de morte de 5,4% em cinco anos para os pacientes que receberam QT adjuvante comparada com o cenário sem QT (HR 0,89, IC 95% 0,820,96).22 Manter a dose cheia de cisplatina é importante, com tendência a melhores resultados com dose total de cisplatina de no mínimo 300 mg/m2 (p = 0,10 para SG e p = 0,09 para sobrevida livre de doença – SLD).22 Metanálise da Cochrane, com 8.447 pacientes, comprovou benefício de adicionar QT depois da cirurgia, com aumento absoluto de SG de 4% em cinco anos (HR 0,86, IC 95% 0,810,92, p < 0,0001).23 Em pacientes estádio IB, o estudo de fase III JBR.10 encontrou benefício de SG em análise de subgrupo para pacientes com tumor maior ou igual a 4 cm (HR 0,66, IC 95% 0,391,14, p = 0,13).24 O estudo CALGB 9633, que incluiu apenas doença estádio IB, demonstrou van tagem significativa na SG para tumores maiores ou iguais a 7 cm (HR 0,73, IC 90% 0,270,99); aqueles com T maior ou igual a 4 cm obtiveram apenas tendência a melhor sobrevida (HR 0,78, IC 90% 0,571,05).25 Em relação à RT adjuvante, um estudo com 3.395 pacientes que foram submetidos à cirurgia e apresentaram margem positiva revelou maior SG média para o grupo que re cebeu RT pósoperatória (33,5 meses vs. 23,7 sem RT). Na análise multivariada, ajustada para variáveis demográficas e clinicopatológicas, a RT também foi superior e alcançou significância estatística (HR 0,80, IC 95% 0,700,92).26 É controverso o uso da RT adjuvante nos pacientes com dissecção linfonodal positi va. Em metanálise com 2.128 pacientes, houve efeito deletério da RT na SG (HR 1,21, IC 95% 1,081,34), sobretudo nos pacientes com estádio I/II e N0N1; para o estádio III N2, não se obteve clara evidência de prejuízo com a RT adjuvante. Algumas limitações po dem ter interferido nos resultados dessa metanálise como: as técnicas de RT empregadas incluindo máquinas de cobalto e a possível maior toxicidade decorrente de doses totais superiores ao padrão permitidas em um dos estudos da análise.27 Um estudo de fase III, que avaliou QT adjuvante no estádio patológico IBIIIA, encontrou maior SG média para aqueles pacientes N2 que receberam RT pósoperató ria; entre os pacientes com doença N1, a RT obteve efeito negativo naqueles que foram submetidos à QT, mas efeito positivo nos que não receberam QT.28 Doença localmente avançada (estádio clínico III) Envolve um grupo distinto de pacientes para o qual a discussão multidisciplinar29 antes do tratamento é fundamental. IIIC ou IIIBN3 ou N2 cadeia múltipla, sobretudo com linfonodo maior que 3 cm independentemente do T ou T4 invasivo irressecável: radioquimioterapia concomitante à QT30 (1iiA). Radioterapia na dose mínima de 60 Gy em seis semanas associada, preferencialmente, a cisplatina 50 mg/m2 nos D1, D8, D29 e D36 + etoposídeo 50 mg/m2 nos D1 a D5 e D29 a D33;31 outras op ções: carboplatina AUC 2 e paclitaxel 45 a 50 mg/m2 semanal, com dois ciclos adicionais de paclitaxel 200 mg/m2 e carboplatina AUC 6;32 carboplatina AUC 5 no D1 e pemetrexede 500 mg/m2 no D1, a cada 21 dias, por quatro ciclos (não escamoso).33 DIRETRIZES ONCOLÓGICAS134 Se o paciente não tem condições clínicas para terapia combinada, avaliar esque ma sequencial ou RT isolada com 60 Gy em seis semanas, podendo chegar a 66 Gy em 6,6 semanas (3iiiDiv).34,35 T4N01 ressecável – considerar QT neoadjuvante seguida de cirurgia (1iiA)36 ou radioquimioterapia exclusiva.30 T3N1M0 – considerar cirurgia seguida de QT adjuvante (1iiA).22 Tumores no mesmo lobo (T3) e nódulos ipsilaterais em lobos diferentes (T4) com avaliação invasiva de linfonodo mediastinal negativa podem ser considera dos para tratamento cirúrgico (3iiiA);37,38 indicar tratamento adjuvante confor me o estádio patológico. Doença N2 potencialmente ressecável tem como tratamentopadrão RT conco mitante à QT (1iiA).30 Casos selecionados, N2 cadeia única ressecável, podem se beneficiar com o tratamento de indução com QT (com ou sem RT) seguida de cirurgia.3942 os autores preferem neoadjuvância com QT exclusiva.43 Esquemas sugeridos (quatro ciclos): pemetrexede 500 mg/m2 EV no D1 e cis platina 75 mg/m2 EV no D1, a cada 21 dias (apenas para histologia não esca mosa; iniciar uma semana antes da QT: ácido fólico 1 mg por dia VO e vitami na B12 1.000 mcg IM a cada nove semanas); gencitabina 1.000 mg/m2 nos D1 e D8 e cisplatina 75 mg/m2 no D1 a cada 21 dias; docetaxel 75 mg/m2 no D1 e cisplatina 75 mg/m2 EV no D1 a cada três semanas. Tumor de sulco superior – Pancoast: usualmente, apresentamse como lesões T3 ouT4; se N2 negativo, considerar tratamento préoperatório com RT concomi tante à QT. Seguir com ressecção cirúrgica se não houver progressão metastáti ca ou linfonodal N2 ou N3 (1iiB).44,45 Capítulo 10 • CÂNCER DE PULMÃO DE NÃO PEQUENAS CÉLULAS 135 Algoritmo para o tratamento de CPNPC doença inicial e localmente avançada: Avaliação inicial/estadiamento Estádio clínico I/II Cirurgia QT adjuvante Seguimento *Incluem: margem cirúrgica positiva e/ou doença mediastinal residual. Não Sim Tumor ressecável e paciente operável N2 cadeia múltipla irressecável ou N3 RT+QT concomitante N2 cadeia única ressecável Discussão multidisciplinar Radioterapia definitiva ou SABR RT adjuvante Estádio patológico IA Estádio patológico IB 4 cm Estádio patológico II/III Fatores de risco para RT* Sim Não Estádio clínico III Doença metastática (estádio IV) Tratamento deve ser oferecido a todos os pacientes PS02 e discutido em equipe mul tidisciplinar,29 considerando tipo histológico, perfil molecular, expressão PDL1, idade, performance status, comorbidades e preferência do paciente. Investigar perfil molecular [mutação do receptor do fator de crescimento epi telial (EGFR), translocação ALK e ROS1] em todos os casos de histologia não escamosa, independentemente do fenótipo.12,46,47 Considerar também nos casos de CEC em pacientes jovens não fumantes com pequena biópsia.48 Realizar pesquisa de mutação do EGFR nos éxons 18 a 21; se houver limitação de recur sos, fazer mínima análise de deleções no éxon 19 e mutação pontual no éxon 21 (L858R) e éxon 20 (T790M).47 Pesquisa de rearranjos do gene ALK (incidência de 3% a 7%)49 e translocação do gene ROS1 (incidência de 1% a 2%) podem ser realizadas por meio de IHQ de screening; se for negativa ou 0, 1+ ou 2+, pro ceder com hibridização fluorescente in situ (FISH).50,51. Sequenciamento de nova geração (NGS) facilita a pesquisa de múltiplas mutações.52 DIRETRIZES ONCOLÓGICAS136 Mutação do EGFR ocorre em aproximadamente 25% dos casos no Brasil;53 regiões asiáticas têm taxas maiores, que variam de 22% a 62%.54 Para todos os casos, devese solicitar IHQ para antiPDL1 (Dako, clone 22C3).55 O combate ao tabagismo deve sempre ser estimulado. Sugerimos a abordagem dos 5As para a primeira consulta: Ask – pergunte sobre o hábito de fumar; Advice – aconselhe a descontinuação do cigarro; Assess – avalie a disposição do paciente em abandonar o cigarro; Assist – use aconselhamento e farmacoterapia; Arrange – agende a consulta de acompanhamento da terapia antitabaco.56 É importante a integração dos pacientes ao programa interdisciplinar de cuidados paliativos em até oito semanas do diagnóstico. Objetivase: acolher o paciente e o cuida dor; avaliar distress e sintomas associados à qualidade de vida, gerando ações de melhoria; viabilizar demandas geradas pela equipe médica; prover e coordenar a relação com os demais profissionais da equipe; alinhar a compreensão do paciente com os objetivos do tratamento, prognóstico e ações de fim de vida.57 Tratamento de primeira linha Pacientes com alvos acionáveis (EGFR, ALK, ROS1, PDL1): considerar inclusive em pacientes com PS34:58 EGFR mutado: Uso de um dos inibidores de tirosina quinase (TKI) disponíveis (1iiDiii): gefitinibe 250 mg uma vez ao dia VO,59 erlotinibe 150 mg uma vez ao dia VO60 ou afatinibe 40 mg uma vez ao dia VO.61,62 Metanálise que avaliou 13 estudos de fase III comparou TKI com QT baseada em platina. A sobrevida livre de progressão (HR 0,43, IC 95% 0,380,49) foi significativa mente prolongada, mas nenhum efeito na SG foi observado (HR 1,01, IC 95% 0,87 1,18). Provavelmente, o benefício na SG não é evidenciado devido ao crossover permitido e/ou ao uso desses agentes como tratamento de segunda linha após progressão com QT.63 Análise não planejada dos estudos de fase III (LUXLung 3 e LUXLung 6), de monstrou SG significativamente superior para os pacientes com EGFR mutado com dele ção do éxon 19 que receberam afatinibe em vez de QT 27,3 vs. 24,3m (HR 0,54, IC 95% 0,360,79, p = 0,0015; HR 0,64, IC 95% 0,440,94, p = 0,023).64 O estudo ARCHER 1050, de fase III, comparou dacomitinibe (não disponível no Brasil) com gefitinibe em pacientes com mutação EGFR no éxon 19 ou 21 +/ mutação T790M. Houve taxa de resposta semelhante (p = 0,39), mas com significativo aumento na sobrevida livre de progressão (SLP) de 14,7 meses vs. 9,2 meses (HR 0,59, p < 0,0001), favorecendo dacomitinibe.65 A combinação de erlotinibe com bevacizumabe foi avaliada em dois estudos. Na po pulação oriental com EGFR mutado, foi realizado um estudo de fase II comparativo com erlotinibe isolado. A SLP foi superior de forma significativa para o braço da dupla droga (16 vs. 9,7 meses, HR 0,54, IC 95% 0,360,79) à custa de incremento da toxicidade com grau maior ou igual a 3, com 41% de descontinuação do bevacizumabe por toxicidade.66 Na população europeia, o BELIEF trial, de fase II, avaliou SLP em CPNPC não escamo so com ou sem mutação T790M do EGFR e evidenciou resultados semelhantes aos do estudo japonês.67 É uma opção em primeira linha, mas devese considerar que não houve Capítulo 10 • CÂNCER DE PULMÃO DE NÃO PEQUENAS CÉLULAS 137 estudo de fase III, nem dados de SG ou de melhora na qualidade de vida, além da baixa magnitude do benefício clínico.68 A escolha do TKI deve ser realizada a partir da disponibilidade da droga, da expe riência do oncologista e do perfil de toxicidade. São drogas bem toleradas e os eventos adversos mais comuns são rash e diarreia e, menos frequentemente, conjuntivite, estoma tite e paroníquia; doença pulmonar intersticial é um evento raro, mas que pode ser grave. Alguns dados sugerem que o gefitinibe apresenta um pouco mais de elevação de transa minases hepáticas; o erlotinibe pode ter como efeito rash cutâneo69 e o afatinibe, diarreia (a última droga confere maior toxicidade com grau maior ou igual a 3, mas, com redução de dose, apresenta a mesma taxa de descontinuação e mortalidade).70 Meta cerebral sincrônica: iniciar TKI e abordar cérebro assim que possível.71 Sugerese evitar administração de TKI durante a RT.72 Tratamento de segunda/terceira linha Pacientes com progressão lenta e assintomáticos: considerar manter TKI e realizar observação vigilante (3iiiDiii).73 Pacientes com progressão radiológica em sítio único: considerar manter TKI e adi cionar tratamento local com cirurgia ou RT (3iiiDiii).74 Pacientes que apresentam progressão relevante em uso de primeira linha de TKI: considerar biópsia líquida e, se houver presença de mutação T790M, iniciar osimertinibe 80 mg uma vez ao dia VO (1iiDiii).75 Se não se identificar mutação, buscar nova biópsia tecidual caso factível, devido à taxa de falsonegativo na biópsia líquida, em torno de 30%.7678. Evitar associar TKI com QT na progressão (1iiDiii).79 Pacientes sem condição de biópsia ou com mutação T790M não detectada: iniciar QT com dupla de platina semelhante a usada em pacientes que não apresentam alvo acionável. Na progressão, considerar QT monodroga (pemetrexede80 ou docetaxel,81 se não usados) ou imunoterapia: nivolumabe82,83 ou atezolizumabe (indisponível no Brasil)84 ou pembrolizumabe se expressão de PDL1 maior ou igual a 1%.85 Translocação ALK Alectinibe é a droga de escolha na primeira linha (1iiDiii), mas ainda não está dis ponível no Brasil.86 Outras opções são: crizotinibe (1iiDiii)87 ou ceritinibe88 (1iiDiii) (indis ponível no Brasil). Pacientes que progridem em vigência de crizotinibe ou apresentam toxicidade limi tante: considerar ceritinibe (3iiiDiv)89 ou alectinibe (3iiiDiv).90 Na sequência, seguir com QT como se não tivesse alvo acionável. O estudo de fase III ALEX revelou superioridade do alectinibe sobre o crizotinibe em relaçãoà SLP (25,7 vs. 10,4 meses, HR 0,50, p < 0,0001) e progressão no SNC (12% vs. 45%, HR 0,16, p < 0,0001), o que o torna a droga mais atrativa nesse cenário (ALK+ com metástase cerebral).86 A comparação de crizotinibe com QT na primeira linha foi analisada no estudo PROFILE 1014, de fase III, com 347 pacientes com ALK positivo. Crizotinibe foi su perior na SLP (10,9 vs. 7,0 meses, HR 0,45, IC 95% 0,350,60, p < 0,001) e na taxa de DIRETRIZES ONCOLÓGICAS138 resposta objetiva (74% vs. 45%, p < 0,001). Não houve diferença na SG, possivelmente pela existência do crossover.87 Translocação ROS1 Pacientes que apresentam rearranjo no gene ROS1 se beneficiam do uso de crizo tinibe 250 mg duas vezes ao dia VO, alcançando taxas de resposta de cerca de 70%, du ração média de resposta de 17,6 meses e SLP mediana de 19,2 meses (3iiiDiv) (indicação não inclusa na bula brasileira).91 Na progressão, seguir com QT como se não tivesse alvo acionável. Progressão cerebral exclusiva Até três lesões: radiocirurgia e manter TKI; mais que três lesões: RT de crânio total e manter TKI.12 Uma opção é trocar a linha de tratamento de acordo com o alvo (osimer tinibe para EGFR mutado e ceritinibe ou alectinibe para ALK). PD-L1 maior ou igual a 50% e EGFR, ALK e ROS1 negativos ou desconhecidos Oferecer o antiPD1 pembrolizumabe 200 mg EV a cada três semanas na primeira linha (1iiDiii).55 Na progressão, seguir com QT como se não tivesse alvo acionável. O estudo KEYNOTE24, de fase III, evidenciou ganho significativo de SG em favor do pembrolizumabe versus QTplatina. A sobrevida global em seis meses foi de 80,2% vs. 72,4% (HR 0,60, IC 95% 0,410,89). Também foram superiores a SLP mediana (10,3 vs. 6 meses, HR 0,50, IC 95% 0,370,68) e a taxa de resposta global (45% vs. 28%). As taxas de toxicidade grau 3 a 5 foram, respectivamente, de 27% e 53%. A expressão de PDL1 maior ou igual a 50% ocorreu em 30% dos 1.653 pacientes avaliados.55 Pacientes sem alvos acionáveis: quimioterapia baseada em platina por quatro a seis ciclos se houver bom índice de desempenho.92,93 Se a histologia for não escamosa, favorecemos carboplatina e pemetrexede.94 Para pacientes sem hemoptise e com histologia não escamosa, é possível adicionar bevacizu mabe à QT.95,96 Se a histologia for escamosa, sugerimos gencitabina e cisplatina.97 Em pacientes com índice de desempenho ruim (performance status 2), discutir car boplatina e pemetrexede;98 esses pacientes devem ser avaliados clinicamente com mais frequência. Esquemas: pemetrexede 500 mg/m2 EV no D1 + carboplatina, AUC 6 (exclusivo para não escamoso); cisplatina 75 mg/m2 EV no D1 + gencitabina 1.000 mg/m2 EV nos D1 e D8, a cada três semanas; carboplatina, AUC 6 EV no D1 + paclitaxel 200 mg/m2 EV, em 3 horas, no D1, a cada três semanas; carboplatina, AUC 6 EV no D1 + docetaxel 75 mg/m2 EV no D1, a cada três semanas; bevacizumabe (exclusivo para não escamoso) 7,5 mg/kg ou 15 mg/kg EV a cada três semanas associado à QT: carboplatina e peme trexede ou carboplatina e paclitaxel ou cisplatina e gencitabina. Duas metanálises mostraram aumento significativo de taxa de resposta, SLP e SG para a combinação de bevacizumabe e QT baseada em platina.93,94 Um estudo associou Capítulo 10 • CÂNCER DE PULMÃO DE NÃO PEQUENAS CÉLULAS 139 QT gencitabina/cisplatina a bevacizumabe e revelou maior taxa de resposta e modesto ganho de SLP, mas sem benefício de SG.99 Necitumumabe (não aprovado no Brasil), um antiEGFR, associado a gencitabina + cisplatina na primeira linha em CEC com EGFR expresso pela IHQ, produziu ganho na SG quando comparado com QT isolada de 11,7 vs. 10 meses (HR 0,79, p 0,002) e SLP de 5,7 vs. 5,5 meses (HR 0,84, p 0,018) (1iiA).100 Houve baixa magnitude de benefício clínico.12 Geralmente, pacientes frágeis, com situação clínica ruim, devem receber QT com agente isolado ou suporte clínico exclusivo. Um estudo de fase III que avaliou apenas pacientes com performance status 2 demonstrou ganho de SG quando a carboplatina foi acrescentada ao pemetrexede (sobrevida em um ano: 40,1% para dupla droga vs. 21,9% para pemetrexede isolado; p 0,001).98 Tratamento de segunda/terceira linha Imunoterapia se pembrolizumabe não tiver sido usado anteriormente. • Pembrolizumabe: se PDL1 maior ou igual a 1%, dose de 2 mg/kg IV por 30 minutos, de três em três semanas até progressão ou toxicidade limitante (1iiA).85 • Nivolumabe: independentemente da expressão de PDL1 3 mg/kg ou 240 mg EV a cada duas semanas até progressão ou toxicidade limitante (1iiA).82,83 • Atezolizumabe: independentemente da expressão de PDL1; 1.200 mg EV a cada três semanas (indisponível no Brasil); até progressão ou toxicidade limitante (1iiA).84 Quimioterapia: pemetrexede (1iiA),80 docetaxel (1iiA),81 gencitabina (1iiC)101 ou doceta xel + ramucirumabe (adenocarcinoma ou CEC; 1iiA);102 docetaxel e nintedanibe (adeno carcinoma; 1iDiii)103 (ramucirumabe e nintedanibe ainda não têm indicação para câncer de pulmão pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária – Anvisa). Pacientes PS3 ou 4 que progridem em vigência de terceira linha devem adotar cui dados paliativos exclusivos. Os estudos CheckMate 017 (histologia escamosa)82 e 057 (histologia não escamosa)83 levaram à aprovação de nivolumabe (anticorpo monoclonal humano bloqueador do re ceptor de morte programada PD1) como terapia de segunda linha, independentemente da expressão de PDL1. A SG foi prolongada nas duas histologias com o uso de nivolu mabe em detrimento da QT (escamoso: 9,2 vs. 6,0 meses, HR 0,59, IC 95% 0,440,79; não escamoso: 12,2 vs. 9,4 meses, HR 0,72, IC 95% 0,600,88). O estudo KEYNOTE010, de fase III, randomizou 1.034 pacientes com expressão de PDL1 maior que 1% previamente tratados, independentemente da histologia.85 A SG foi superior no braço do pembrolizumabe versus docetaxel (10,4m vs. 8,5m, HR 0,71, p = 0,0008). O ramucirumabe, inibidor de fator de crescimento do endotélio vascular 2 (VEGFR2), associado a docetaxel versus docetaxel + placebo em segunda linha, evidenciou aumento da SG (10,5m vs. 9,1m, HR 0,86, p 0,023) e da SLP (4,5m vs. 3m, p < 0,0001)102. É uma DIRETRIZES ONCOLÓGICAS140 opção na segunda linha, independentemente da histologia, mas com baixa magnitude de benefício clínico12. Tratamento de manutenção Pode ser ofertado aos pacientes que obtiveram resposta à primeira linha de trata mento e bom perfil de toxicidade. As opções incluem: para histologia não escamosa, beva cizumabe (1iiA),104,105 pemetrexede (1iDiii)106 ou pemetrexede e bevacizumabe (se usados na primeira linha; 1iiDiii);104,105 e para histologia não escamosa, gencitabina (1iiDiii)107 ou docetaxel (1iiA).108 Algoritmo para o tratamento de primeira linha de CPNPC Estádio IV, PSO-2 Com alvos acionáveis Sem alvos acionáveis Expressão de PD-L1EGFR mutado: erlotinibe, gefitinibe, afatinibe ALK: crizotinibe, alectinibe, ceritinibe ROS1: crizotinibe Pembrolizumabe QT dupla droga baseada em platina ≥ 50% ≤ 50% Avaliação de resposta: Usar critérios de RECIST v1.1,109 repetir os exames do diag nóstico de seis a nove semanas após o início do tratamento. A PET/CT não deve ser indicada de rotina. Seguimento: Avaliação clínica e radiológica com tomografias a cada 6 a 12 semanas, a depender das opções de retratamento.12 A PET/CT não está indicada no seguimento. Avaliar RNM cerebral de três a seis meses. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. 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