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Livro 1
1. Refletindo inúmeras vezes e rememorando os tempos antigos, Quinto, meu irmão, costumam
parecer-me extremamente ditosos aqueles homens que, no apogeu da República , ao se distinguirem 1
tanto pelas honrarias como pela glória de seus feitos , conseguiram manter o curso de suas vidas de 2
modo a permanecerem ativos sem perigo ou inativos com dignidade . E houve uma época em que 3
acreditava que também eu teria o direito — e que quase todos concordariam — de passar a ter
descanso e a voltar novamente minha atenção para aqueles nossos ilustres estudos , uma vez 4
cessados o infinito trabalho nas atividades do fórum e a ocupação com as candidaturas, com o 5
encerramento da carreira pública e o declinar da idade . 2. Tal esperança, nutrida em minhas 6 7
reflexões e em meus planos, foi frustrada não apenas pelas graves desventuras das circunstâncias
gerais, mas também pelas diversas outras que se abateram sobre mim. De fato, no exato momento
que seria, a julgar pelas aparências, o mais pleno de repouso e tranquilidade, sobrevieram os mais
pesados fardos de inquietação e as mais turbulentas tempestades; nem me foi concedido, embora
fosse meu desejo e aspiração, desfrutar do ócio para praticar e cultivar novamente, junto contigo,
aquelas artes a que eu e tu nos dedicamos desde meninos. 3. Efetivamente, quando jovem, deparei-
me com a perturbação da antiga ordem , e, em meu consulado, cheguei ao centro da dissensão e da 8
Merklin 2006: 599, n. 1 aponta o período de tal apogeu como o intervalo entre o início da República, em 510, e as 1
reformas dos irmãos Tibério e Gaio Graco, de 133 a 121. Cf. Ac. 2. 15 e a fala de Cévola, em de Orat. 1. 38: "Quanto a
mim, se quisesse me servir de exemplos de nossa cidade ou das demais, poderia mencionar mais prejuízos do que
vantagens causados à situação política pelos oradores mais eloquentes. Porém, […] os mais eloquentes que tive
oportunidade de ouvir foram Tibério e Gaio Semprônio, cujo pai, homem prudente e austero, nem um pouco eloquente,
salvou a República em diversas ocasiões, e sobretudo quando censor. Ora, não foi pela riqueza elaborada do discurso
que ele transferiu os libertos para as tribos urbanas, mas por um gesto e uma palavra. Se não o tivesse feito, a
República, que hoje em dia mal conseguimos manter, há muito não estaria em nossas mãos. Por outro lado, quando seus
filhos, homens expressivos e preparados para discursar por todos os recursos concedidos pela natureza ou pela formação
teórica, receberam em mãos a cidade em seu apogeu (fosse pela prudência do pai, fosse pelas armas dos ancestrais),
arruinaram a República com sua eloquência […]” (itálico nosso).
Honoribus (“honrarias”, mas também “cargos públicos”) diz respeito à carreira política, rerum gestarum (“feitos”), à 2
carreira militar. Embora se tivesse destacado na primeira, Cícero, à época da escrita do De oratore, carecia da segunda
(alguns anos depois, quando procônsul da Cilícia, em 51-50, o Arpinate teria sua primeira e única experiência como dux
à frente de um exército). Para suprir tal necessidade, tentara construir a persona do dux togatus, “comandante de toga”,
para se referir a sua participação no combate à Conjuração de Catilina. Análise e referências em May 1988: 56-58.
In otio cum dignitate (“inativos com dignidade”) é combinação que aparece mais de uma vez na obra de Cícero, com 3
sentidos diversos em função da polissemia dos dois termos. Wirszubski 1968 sistematiza de maneira convincente as
ocorrências e seus diferentes matizes. No contexto desta passagem, otium refere-se à retirada não forçada da vida
pública, e dignitas à posição e ao prestígio do estadista decorrentes de sua carreira.
Referência aos estudos de retórica e filosofia, realizados, na juventude dos irmãos Quinto e Marco, em Roma, Atenas, 4
Rodes e na Ásia Menor. Cf. Brut. 306-316.
Forensium rerum labor (“trabalho nas atividades do fórum" ou “públicas”) remete à atividade oratória de Cícero, 5
particularmente como defensor.
Em 63, 8 anos antes da escrita do De oratore, Cícero já atingira o ápice do cursus honorum, com o consulado. Por 6
iniciativa de Hortênsio, seria cooptado, em 53, para o Colégio dos Áugures. Em 51-50, como apontado acima,
governaria a Cilícia como procônsul.
Contando 51 anos à época da escrita do De oratore, Cícero já se encaminhava para a velhice, pelos padrões da 7
Antiguidade. Meros 11 anos depois ele retrata a si mesmo, bem como a Ático, como próximos da velhice em Sen. 2.
Com a Guerra Social (91—89) e a Guerra Civil (88-82), que cobrem um período que vai dos 15 aos 24 anos do 8
Arpinate.
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crise reinantes em toda a conjuntura ; e, durante todo esse tempo após o consulado, lancei-me 9
contra os vagalhões que, desviados por mim do que seria a ruína geral, recaíram sobre mim
mesmo . No entanto, seja em meio a tais adversidades da situação, seja em meio a tal falta de 10
tempo, ocupar-me-ei de nossos estudos, e o quanto a perfídia dos inimigos, a causa dos amigos ou a
República concederem-me de ócio, eu o dedicarei sobretudo a escrever . 11
4. Quanto a ti, meu irmão, não deixarei de atender a tuas exortações e pedidos, pois nem pela
autoridade pode alguém ter mais influência sobre mim, nem pela vontade . E devo reavivar uma 12
antiga lembrança, não muito nítida, é certo , mas adequada, segundo penso, àquilo que me solicitas 13
— saber o que os mais eloquentes e ilustres de todos os homens pensavam acerca da doutrina
oratória como um todo. 5. Ora, como me disseste várias vezes, pretendes, pelo fato de os escritos
que escaparam incompletos e grosseiros de meus apontamentos , quando era menino ou, antes, 14
adolescente, mal serem dignos desta minha idade e desta experiência, granjeada em tantas e tão
importantes causas defendidas, que publique algo mais refinado e acabado acerca do mesmo tema . 15
E costumas por vezes discordar de mim sobre o assunto em nossas discussões, porque eu afirmo
que a eloquência depende dos conhecimentos teóricos dos homens mais instruídos, ao passo que tu
julgas que ela deva ser apartada do refinamento da cultura e confiada a determinado tipo de talento
e prática . 16
6. Quanto a mim, atentando inúmeras vezes aos homens eminentes e dotados de eminente
talento, pareceu-me apropriado perguntar o motivo de terem existido mais pessoas dignas de
admiração em todas as outras artes do que na oratória. De fato, para onde quer que voltes a atenção
e o pensamento, verás inúmeros homens excelentes em cada uma das espécies de disciplinas — e
não as de pouca monta, mas as que são, de certa maneira, as mais importantes. 7. Realmente, quem
não há de preferir o general ao orador, caso queira medir o conhecimento dos homens ilustres pela
utilidade ou grandeza de seus feitos? E quem há de pôr em dúvida que, desta única cidade, podemos
Alusão à chamada Conjuração de Catilina.9
Durante os dezoito meses de exílio, de março de 58 a setembro de 57. A communi peste (“do que seria a ruína geral”), 10
é um breve aceno a um tópico frequente nos chamados discursos post reditum de Cícero: a ideia de que Cícero não
fugira de Roma para o exílio sem mesmo ter aguardo um julgamento, mas deixara deliberadamente a Urbe a fim de
evitar o banho de sangue que adviria do enfrentamento de Clódio e seus correligionários.
Cícero faz aqui uso, pela primeira vez, daquele que se tornará um lugar-comum dos prefácios de suas obras retóricas 11
e filósoficas: a ideia de que a dedicação à escrita só pode ter lugar quando os deveres de homem público o permitem.
Esse ideal também será projetado sobre as personagens do De oratore (cf. 1. 24: ludorum Romanorum diebus, ”nos dias
dos jogos romanos") e as circunstâncias e personagens de seus futuros diálogos (cf., por exemplo, Rep. 1. 14 (feriis
Latinis, “nos festivais latinos"), de 54, e N. D. 1.15: feriis Latinis; 2.3 (otiosi sumus: “estamos livres”), de 45-44).
Referências e sistematização em Levine 1958: 147.
Também este se tornará um lugar-comum dos prefácios ciceronianos:o atendimento ao pedido do destinatário. Cf., 12
por exemplo, Orat. 1 e, em variação engenhosa inserida já no diálogo (em lugar de o autor fazer menção aos pedidos do
destinatário, como é mais usual, o personagem Ático faz o pedido diretamente ao personagem Cícero, já no diálogo),
Brut. 19-20.
Com non sane satis explicata [“não muito nítida, é certo”], Cícero faz um aceno lúdico ao caráter fictício do diálogo. 13
Trata-se do De inventione, manual de retórica em dois livros deixado incompleto pelo autor, de datação incerta. 14
Achard 2002: 7, o editor mais recente da obra, estima que a data provável encontre-se no biênio 84-83, quando Cícero
contava entre 18 e 19 anos.
Em 55, Cícero, em mais de 25 anos de atuação como orador, já havia defendido causas e proferido discursos 15
importantes e de grande repercussão, como a Defesa de Sexto Róscio de Améria, em 80, as Verrinas, em 70, e as
Catilinárias, em 63. Este é o primeiro dos vários espelhamentos que se observarão ao longo da obra, uma vez que a
experiência e a consagração com orador são traços que o Arpinate divide com os protagonistas do diálogo, Crasso e
Antônio.
A discordância de posições entre Marco Cícero, mais idealista, e Quinto Cícero, mais pragmático, será de certa forma 16
espelhada ao longo do diálogo, sobretudo no livro 1, respectivamente na postura de Crasso e Antônio.
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citar um quase sem-número de comandantes de guerra extremamente distintos, mas quase ninguém
excelente na oratória? 8. Ademais, houve, em nossa época, muitos homens capazes de governar e
conduzir o leme da República com discernimento e sabedoria, muitos mais na de nossos pais e mais
ainda na de nossos antepassados, enquanto não se encontrou, durante muito tempo, um único orador
bom, e quase nenhum tolerável a cada geração . No entanto, se acaso alguém considerar mais 17
cabível comparar a doutrina oratória a outros estudos, relativos a artes mais abstrusas e a certa
multiplicidade de leituras, do que ao mérito de um comandante ou à prudência de um senador
honesto, que volte sua atenção precisamente para tais tipos de atividades e repare que homens, e
quantos, nela floresceram. Dessa forma, poderá julgar com extrema facilidade quão grande é e
sempre foi a escassez de oradores.
9. Não ignoras, com efeito, que os mais doutos consideram aquela que os gregos denominam
philosophía a procriadora, por assim dizer, e como que a mãe de todas as artes dignas de louvor. Em
seu âmbito, é difícil enumerar quantos homens houve de tamanho saber e tamanha variedade e
riqueza em seus estudos, que não trabalharam isoladamente sobre um único tema, mas abarcaram
todos, quaisquer que fossem, pela investigação científica ou pela dialética. 10. Quem desconhece
como são obscuros os temas, como é abstrusa, vasta e precisa a arte a que se dedicam os chamados
matemáticos? No entanto, houve tantos homens consumados nesse grupo, que se tem a impressão
de que ninguém se dedicou com muito afinco a essa ciência sem conseguir aquilo que pretendia.
Quem se dedicou a fundo à música ou a este estudo das letras atualmente em voga, de que os
chamados professores de letras fazem profissão, sem abarcar em sua totalidade, por conhecimento 18
e reflexão, a gama quase infinita de matérias de tais artes? 11. Parece-me que estarei correto em
dizer que, de todos aqueles que se ocupam dos tão nobres estudos e doutrinas dessas artes, houve
um número ínfimo de grandes poetas. Porém, considerando esse número mesmo, em que muito raro
surge alguém excelente, ainda que queiramos tomar a grande quantidade de romanos e de gregos
para uma comparação cuidadosa, encontraremos muito menos bons oradores do que poetas. 12. Isso
deve parecer ainda mais extraordinário pelo fato de os estudos das demais artes beberem de fontes
quase sempre recônditas e ocultas, enquanto toda a doutrina oratória, ao alcance de todos, diz
respeito a uma prática bastante geral, bem como aos costumes e à linguagem comum dos homens,
de modo que, nas demais artes, sobressai-se particularmente aquele que se encontra mais distante do
entendimento e da percepção dos leigos, ao passo que, na oratória, o maior dos defeitos é apartar-se
da maneira usual de falar e da praxe do senso comum . 13. E nem mesmo é possível encontrar 19
justificativa para afirmar que mais pessoas consagram-se às demais artes, ou que são movidas a
dominá-las por um prazer maior, ou por mais ricas esperanças, ou por recompensas mais
magníficas. De fato, deixando de lado a Grécia, que sempre pretendeu ser a primeira em eloquência,
bem como a ilustre inventora de todas as doutrinas, Atenas, onde o mais elevado poder oratório foi
não apenas inventado, como também consumado, é evidente que aqui, nesta cidade mesmo, nenhum
estudo jamais floresceu com tamanha força como a eloquência. 14. Depois que se estabeleceu o
Como o objetivo do raciocínio desta parte do prefácio é exaltar a grandeza da oratória e a dificuldade de os oradores 17
tornarem-se eloquentes, Cícero adota uma posição mais idealista em relação às exigências para se chegar a tal patamar.
No Brutus, em contrapartida, obra mais próxima do gênero histórico, Cícero adotará a posição inversa, valorizando os
muitos oradores que aborda de maneira mais relativa e admitindo padrões e exigências diversos para épocas diversas.
Assim traduzimos o grammatici do original. O grammaticus não era um gramático como entendemos modernamente, 18
ou seja, um professor especializado em gramática, mas, a um só tempo, um professor de língua, letras e interpretação de
textos. Como bem observam Leeman e Pinkster 1981: 47 ad locum, studium litterarum (“estudo das letras”) é a
tradução em latim de grammatiké.
Em virtude da adequação do orador a seu público e às expectativas deste não apenas em relação ao que diz, mas 19
também ao como diz.
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domínio sobre todos os povos e o longo período sem guerras consolidou a paz , quase nenhum 20
jovem desejoso de glória deixou de considerar que devesse dedicar-se à oratória com todo o
empenho. Num primeiro momento, desconhecedores de qualquer tipo de teoria, aqueles que
pensavam não haver qualquer método de exercícios ou qualquer preceito de arte chegavam aonde
podiam pelo talento e pela reflexão. Depois, quando ouviram os oradores gregos, conheceram os
seus escritos e empregaram os seus mestres, nossos conterrâneos inflamaram-se de um desejo
absolutamente incrível de aprender. 15. Incitava-os a magnitude, bem como a variedade e o grande
número de causas de toda espécie, de modo que, à teoria alcançada pelo estudo de cada um,
somava-se a prática frequente, que superava os preceitos de todos os mestres . Para tal estudo eram 21
oferecidas, como hoje em dia, as maiores recompensas concernentes à influência, às riquezas ou ao
prestígio . Quanto ao talento, segundo podemos julgar por muitos indícios, o de nossos 22
conterrâneos superava em muito o dos demais representantes de todos os povos. 16. Isso posto,
quem não se há de admirar, e com razão, pelo fato de encontrar-se, em todo o registro de gerações,
épocas e cidades, tão exíguo número de oradores?
Ora, não há dúvida de que essa é uma atividade mais grandiosa do que as pessoas creem, e
composta de várias artes e ramos de estudo . Quem, considerando o número enorme de aprendizes, 23
a extraordinária abundância de mestres, os eminentíssimos talentos dos homens, a infinita variedade
das causas, as magníficas recompensas oferecidas à eloquência, há de julgar haver outra causa,
senão a incrível magnitude e dificuldade dessa arte? 17. Realmente, é preciso adquirir o
conhecimento de inúmeros assuntos, sem o qual o fluxo de palavras é vazio e risível , e o próprio 24
discurso deve ser moldado não apenas pela escolha, como também pelo arranjo das palavras, e
todas as emoções que a natureza atribuiu ao gênero humano devem ser minuciosamente conhecidas,
porque todo o poder e todo o propósito da oratória devem ser manifestados acalmando-se ou
incitando-se as mentes dos ouvintes. É necessárioque se somem a isso certo encanto, alguns
gracejos e uma cultura digna de um homem livre, bem como rapidez e concisão tanto ao retrucar
como ao atacar, acrescida de refinada graça e urbanidade. 18. Ademais, é preciso ter o domínio de
toda a história antiga e de um bom número de precedentes, e não se deve negligenciar o
conhecimento das leis e do direito civil. Ora, para que me alongar sobre a própria atuação, que deve
ser regulada pelo movimento corporal, pela gesticulação, pela expressão facial, pela inflexão e
variação da voz? A importância que ela tem sozinha, por si mesma, é indicada pela insignificante
arte dos atores e pelo palco, onde, apesar de todos esforçarem-se por controlar a fisionomia, a voz,
os movimentos, quem ignora quão poucos há e houve a que suportemos assistir? O que dizer do
repositório de todas as coisas, a memória? Cremos que, a não ser que ela seja usada como guardiã
dos temas e palavras descobertos e pensados, todos os demais elementos, ainda que absolutamente
esplêndidos num orador, acabarão por se arruinar. 19. Por essa razão, deixemos de nos perguntar
com espanto o motivo da escassez de oradores eloquentes, uma vez que a eloquência é constituída
O “longo período sem guerras” começou em 146, com o fim da Terceira Guerra Púnica.20
Movimento que se observará encenado no diálogo, em que Crasso e Antônio demonstrarão ter assimilado a teoria de 21
origem grega e tê-la superado pela prática e pela reflexão sobre a prática. Isso fica particularmente evidente no resumo e
na resenha que Crasso (1. 137-145) e Antônio (2. 77-83) fazem, respectivamente, dos manuais de retórica.
O próprio Cícero é o exemplo por excelência de ascensão social, política e, indiretamente, econômica (já que não era 22
permitido pagar um patrono pelos serviços prestados) decorrente de sua prática oratória.
Em sua versão mais completa, as exigências de Cícero (e, espelhadas no diálogo, as de Crasso) para a oratória 23
contemplam o conhecimento de história, direito e filosofia, além, é claro, dos muitos aspectos da doutrina retórica,
alguns deles pouco desenvolvidos na tradição, como o estudo das emoções do público e o funcionamento do humor.
Introdução do tema fundamental exposto por Crasso no livro 3: a inseparabilidade entre res e verba. Cf. 1. 20, abaixo, 24
e 3. 19.
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de todos aqueles elementos em que já é bastante notável aperfeiçoar-se isoladamente, e exortemos
antes nossos filhos e os demais cuja glória e prestígio nos são caros a tomarem consciência da 25
grandeza da eloquência, e a não confiarem na possibilidade de atingir o que esperam por meio dos
preceitos, mestres ou exercícios de que todos se servem, mas por meio de outros recursos . 20. E, 26
pelo menos na minha opinião, nenhum orador poderá ser coberto de toda a glória se não alcançar o
conhecimento de todos os grandes temas e artes. Efetivamente, é preciso que o discurso floresça e
se torne exuberante pelo conhecimento dos temas. A não ser que, sob a superfície, estejam o
entendimento e o conhecimento do tema por parte do orador, ele terá uma elocução vazia e quase
pueril.
21. Mas não imporei aos oradores nossos conterrâneos, imersos em tamanha ocupação com a
vida na Cidade, o fardo imenso de considerar que não lhes é permitido desconhecer nada, embora o
conceito de orador e o próprio fato de que alega discursar bem pareçam uma admissão e uma
promessa de que ele é capaz de discursar de maneira ornada e copiosa acerca de todo e qualquer
tema proposto. 22. Porém, por não duvidar que à maioria isso possa parecer uma tarefa gigantesca e
infinita, e percebendo que os gregos, ricos não apenas em talento e saber, mas também em ócio e
estudo, já realizaram uma partição das artes e não se dedicaram individualmente a todos os gêneros,
mas separaram das demais formas de discurso aquela parte da oratória que diz respeito aos debates
públicos dos julgamentos ou das deliberações , deixando ao orador apenas aquele domínio, nestes 27
livros, dado que o tema é objeto de estudo e muita discussão, não irei além do que foi atribuído a tal
domínio praticamente pelo consenso dos mais eminentes homens; 23. e retomarei, não determinada
ordem de preceitos tomada aos rudimentos de nossa antiga doutrina de meninos , mas aquilo que, 28
como fiquei sabendo certa vez, foi examinado numa discussão de nossos conterrâneos mais
eloquentes e proeminentes em todo tipo de distinção. Não é que eu despreze o que os mestres e
professores de oratória gregos nos legaram, mas, como tais escritos são acessíveis e estão ao
alcance de todos, não podendo, por meio de minha tradução, ser explicados com maior ornato ou
expressos com maior clareza, acredito que me concederás a licença, meu irmão, de colocar acima
dos gregos a autoridade daqueles a quem nossos conterrâneos concederam a suprema excelência na
oratória . 29
24. Então, na época em que o cônsul Felipe atacava com bastante violência a causa dos nobres,
e o tribunado de Druso, assumido em defesa da autoridade do Senado, já dava mostras de
Em famosa carta a Lêntulo Espínter (Fam. 1. 9. 23), de 54, Cícero comenta a recente “publicação" do De oratore, 25
acrescentando que a obra não deixará de ter utilidade ao filho daquele: “ […] escrevi, então, à maneira aristotélica […],
três livros Do orador em forma de discussão dialógica. Creio que eles não serão inúteis a seu [filho] Lêntulo, pois
afastam-se dos preceitos comuns e contemplam toda a doutrina oratória dos antigos, tanto a de Aristóteles como a de
Isócrates.”
Tais “outros recursos” (aliis quibusdam), como, por exemplo, a discussão sobre o conhecimento de direito (1. 26
166-203), o uso do caráter (2. 182-184), das emoções (2. 185-211; o caráter e as emoções são tratados conjuntamente
em 2. 211-216) e do riso (2. 216-290) configuram, em boa parte, o objeto de discussão do De oratore.
Os gêneros de causa em questão são o judicial e o deliberativo. 27
Como acontecera no caso do De inventione. 28
A autoridade das personagens não advém apenas de seu passado glorioso e de sua reputação como grandes oradores 29
do passado, mas dos muitos exemplos de observações técnicas feitas pelas personagens sobre a atuação dos
protagonistas em suas causas. Cf., por exemplo, 1.180 (atuação de Crasso na defesa de Mânio Cúrio) e 2.197-203
(atuação de Antônio na célebre defesa de Norbano).
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instabilidade e enfraquecimento , lembro-me de me relatarem que, nos dias dos jogos romanos , 30 31
Lúcio Crasso, como que para se recobrar, retirou-se para sua vila em Túsculo . Dizia-se que 32
também haviam comparecido Quinto Múcio, que fora seu sogro , e Marco Antônio, aliado de 33
Crasso em seus objetivos políticos e a ele ligado por laços de profunda amizade. 25. Haviam
deixado Roma junto com Crasso dois jovens bastante íntimos de Druso e nos quais os mais velhos
depositavam grandes esperanças em relação à preservação de seu prestígio: Gaio Cota, então
candidato ao tribunado da plebe , e Públio Sulpício, que seria, logo em seguida, candidato a essa 34
magistratura, segundo se pensava . 26. No primeiro dia, eles conversaram durante muito tempo, até 35
anoitecer, acerca da crise e da situação política em geral, motivo de haverem ido para lá . Cota 36
relatava as diversas queixas e evocações daqueles três consulares durante tal conversa, tão
divinamente inspiradas que mal algum poderia sobrevir à cidade que já não tivessem há muito 37
tempo percebido pairar sobre ela. 27. Relatava também que, ao fim de toda aquela conversa,
tamanha era a gentileza de Crasso que, depois de se banharem e se reclinarem para o jantar, toda a 38
melancolia daquela primeira conversa se dissipara, e tal era a amabilidade daquele homem, e
tamanha a sua graça ao falar, que o dia em meio a eles parecia digno do Senado, o banquete, da vila
de Túsculo . 28. Contava ainda que, no dia seguinte, depois que os mais velhos, tendo já 39
descansado o suficiente, chegaram para o passeio, Cévola, após duas ou três voltas , disse: 40
— Por que não imitamos,Crasso, o Sócrates do Fedro de Platão ? É que este seu plátano me 41
traz sua lembrança, espalhado que está por vastos ramos para dar sombra a este lugar, tanto quanto
aquele cuja sombra Sócrates procurava — a meu ver, ele cresceu não tanto pelo regato
O consulado de Lúcio Márcio Felipe estabelece a data dramática do diálogo como 91, ano em que Felipe exerceu o 30
cargo juntamente com Sexto Júlio César.
Os ludi Romani realizavam-se no mês de setembro, em honra a Júpiter. 31
A villa é o lugar por excelência dos diálogos ciceronianos. Leeman & Pinkster 1981: 97 ad locum elencam a vila que 32
Cícero possuía em Túsculo como cenário de Discussões Tusculanas, Da adivinhação e Dos fins 3; a vila de Cumas para
Dos fins 1 e a de Putéolos para Do destino, apenas o Bruto ambientando-se na casa de Cícero em Roma. Fantham 2004:
72 bem observa o contraste com o modus scribendi de Platão, cujos diálogos ocorrem, à exceção do Fedro, em espaços
públicos ou privados de Atenas, e a possível motivação de Cícero em evitar a ambientação urbana: os deveres políticos
e as multidões de clientes e dependentes. Podemos acrescentar que o Bruto seria exceção, neste caso, em virtude da
Guerra Civil e do ostracismo político de Cícero na ocasião.
Cévola já não era mais sogro de Crasso, depreende-se, em virtude da morte da esposa deste, embora não se saiba 33
exatamente a data de seu falecimento.
Cota perderia esta eleição.34
Sulpício seria tribuno da plebe em 89-88.35
Cícero confere especial cuidado ao decoro do diálogo: as personagens não se reuniram na vila de Crasso 36
primordialmente para descansar, como acabarão por fazer, mas para discutir política.
Para uma interpretação do léxico do divino no De oratore e sua aplicação às personagens, leia-se o excelente artigo 37
de Stull 2011.
A conduta de Crasso em particular, como anfitrião, mas também a das demais personagens, ao longo do diálogo, é 38
caracterizada como urbana, refinada, afável e graciosa, como se verifica no uso de vocábulos como urbanitas, comitas,
humanitas e cognatos. Cf. 1.35; 1. 106; 2. 227; 2. 362; 3. 1; 3. 29. Leia-se, em particular, Hall 1996.
Ainda no que concerne ao esmero de Cícero na construção do decoro do diálogo, é de reparar como as personagens 39
permanecem ativas mesmo no otium.
Eco verbal de Platão, Phdr. 229c: duobus spatiis tribusve [“duas ou três voltas”] retoma δύ᾽ ἢ τρία στἀδια [“dois ou 40
três estádios”]. Para uma sistematização do pano de fundo platônico no De oratore, leia-se Görler 1988 (com
bibliografia, n. 2).
Imitamur [“imitamos”] é metalinguístico: na ficção do diálogo, refere-se à atitude de Sócrates; fora dela, estabelece o 41
Fedro como obra imitada fundamental do diálogo.
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propriamente dito que ali se descreve, como pelo discurso de Platão . Ora, com certeza é mais do 42
que justo conceder a meus pés o que ele fez com os seus, tão calejados — jogar-se na grama e falar
aquilo que, segundo afirmam os filósofos, foi dito com inspiração divina. 29. Dizia que Crasso,
então, respondera:
— E com mais conforto ainda! — Diziam ainda que pedira almofadas e que todos se haviam
acomodado nos assentos que estavam sob o plátano . Cota costumava contar que naquele 43
momento, para que as mentes de todos pudessem relaxar da conversa precedente, Crasso iniciara
uma conversa acerca do estudo da oratória . 44
30. Depois de começar observando que não lhe parecia necessário encorajar Sulpício e Cota,
mas, antes, cobrir os dois de elogios por já terem atingido tamanha habilidade, conseguindo não
apenas estar à frente dos jovens de sua idade, mas ser mesmo comparados aos mais velhos , ele 45
disse:
— Na verdade, nada me parece mais notável do que ser capaz, por meio da oratória, de dominar
as multidões de homens, conquistar suas mentes, impelir para onde se queira suas vontades, desviá-
las igualmente de onde se deseje. Foi sobretudo esta atividade em particular que sempre floresceu e
sempre reinou em meio a qualquer povo livre, e sobretudo nas cidades que gozam de paz e
tranquilidade . 31. Pois o que é tão admirável quanto, de uma multidão infinita de homens, 46
apresentar-se um único capaz de exercer, sozinho ou com muito poucos, o dom que a natureza
concedeu a todos; ou o que é tão prazeroso de conhecer ou ouvir quanto um discurso ornado e
limado com pensamentos sábios e palavras solenes; ou o que é tão poderoso e tão magnífico quanto
transformarem-se as agitações do povo, os escrúpulos dos jurados, a austeridade do Senado por
meio do discurso de um único homem? 32. Além disso, o que é tão digno de um rei, tão nobre, 47
tão generoso quanto prestar auxílio aos suplicantes, animar os aflitos, assegurar sua salvação, livrá-
los dos perigos, salvar os cidadãos do exílio? E o que é tão necessário quanto ter sempre em mãos 48
as armas com que se possa, em segurança, desafiar os desonestos ou vingar-se quando provocado? 49
E mais, para não nos atermos sempre ao fórum, às bancadas, à tribunal rostral e à cúria, o que pode
ser mais prazeroso, no ócio, ou mais próprio da natureza humana do que uma conversa elegante e
Platão, Phdr. 229b.42
Pode-se ler essa diferença na ambientação do Fedro e do De oratore como uma afirmação do maior refinamento dos 43
latinos em relação aos gregos, algumas vezes tratados, em tom de desprezo, como Graeculi ao longo do diálogo. De
maneira implausível, Görler 1988: 217 vê na observação de Crasso um reconhecimento de Cícero da menor
originalidade e frescor do diálogo em comparação com Sócrates e Platão. Para uma análise aprofundada do significado
da mudança de ambientação no De oratore por contraposição ao Fedro, leia-se Zetzel 2003.
O diálogo começa e termina com a ideia de relaxamento proposta por Crasso. A ironia reside no fato de que, aqui, o 44
relaxamento consistirá em deixar de lado os assuntos políticos e conversar sobre oratória; em 3. 230, último parágrafo
da obra, o relaxamento consistirá em deixar de lado… a conversa sobre oratória!
O diálogo também começa e termina com observações complementares de Crasso sobre as personagens mais jovens. 45
Aqui, nota que não é necessário encorajá-los, por estarem à frente dos coevos e quase chegar ao patamar dos mais
velhos; em 3. 229-230, no entanto, o orador exorta Cota e Sulpício a esforçarem-se para superar Hortênsio, que pertence
a uma nova geração e já dá mostras de excelência oratória no que diz respeito à natureza e aos estudos.
Cícero faz observações análogas no prólogo do diálogo, em 1. 14. Dez anos depois do De oratore, Cícero proclamará 46
a morte da eloquência, decorrente da perda da liberdade ocasionada pela Guerra Civil e pela subsequente ditadura de
César. Cf. Brut. 22: eloquentia obmutuit [“a eloquência emudeceu”].
Crasso alude aqui aos três mais importantes contextos oratórios romanos: a assembleia popular, os tribunais e os 47
debates senatoriais, respectivamente.
Objetivos das defesas empreendidas pelos patronos, em tribunal.48
Complementarmente, a alusão agora é à função de acusador, que, mal vista como era entre os romanos, deveria ser 49
assumida apenas em poucas situações, decorosamente, como aqui.
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nada grosseira? Distinguimo-nos sobremaneira dos animais particularmente por conversarmos uns 50
com os outros e sermos capazes de expressar nossos pensamentos por meio da palavra. 33. Sendo
assim, quem não terá motivo para admirá-la, considerando que é preciso dedicar-se ao máximo a
superar os homens no único aspecto em que estes se distinguem dos animais? Mas, passando já ao 51
que é mais importante, que outro poder foi capaz de reunir num único lugar os homens até então
dispersos, ou conduzi-los de sua vida selvagem e bruta para nosso atual tipo de vida, humano e
social, ou, ainda, depois de já constituídas as sociedades, estabelecer leis, tribunais, direitos? 34. 52
Mas, para não entrar em minúcias, que são praticamente inumeráveis, encerrarei de modo breve:
afirmo que não apenas a dignidade do orador perfeito, mas também a segurança da maior partedos
cidadãos privados e a de toda a República residem sobretudo em sua liderança e sabedoria. Sendo
assim, continuem como estão fazendo, meus jovens, aplicando-se ao estudo a que se dedicam, para
que possam proporcionar honra para si mesmos, utilidade para os amigos, proveito para a
República.
35. Cévola então disse cordialmente, como de costume:
— Concordo no mais com Crasso, não diminuindo a arte ou a glória de Gaio Lélio, meu sogro,
ou de meu genro aqui presente . Porém, Crasso, receio não poder lhe conceder estes dois pontos : 53 54
em primeiro lugar, ter afirmado não apenas que as cidades foram inicialmente estabelecidas pelos
oradores, mas também, muitas vezes, preservadas por eles; em segundo lugar, ter concluído que, à
parte o fórum, a assembleia popular, os tribunais, o Senado, o orador é completo em todo tipo de
discurso e cultura. 36. Pois quem poderia conceder a você que o gênero humano, de início
espalhado por montes e florestas, encerrou-se em cidadelas e muralhas não impelido pelos
conselhos dos sábios, mas antes seduzido pelo discurso dos homens expressivos? Ou, ainda, que as
demais vantagens de estabelecer ou preservar as cidades foram definidas, não por homens sábios e
corajosos, mas por homens expressivos e de fala ornada? 37. Acaso lhe parece que o famoso 55
Rômulo reuniu os pastores e refugiados, estabeleceu o direito de matrimônio com os sabinos, ou
mesmo conteve o poderio dos povos vizinhos pela eloquência, não pela prudência e sabedoria
Sermo facetus ac nulla in re rudis [“conversa elegante e nada grosseira”] é metalinguístico, explicitando as 50
características primordiais do gênero dialógico para Cícero. Se, dentro da ficção do diálogo, o comentário refere-se às
conversas em geral, fora dela podemos entender a caracterização como um ideal do gênero em Cícero. Cf. 1. 27 e nota
ad locum.
Cícero já explorara este tópos, de origem isocrática (3. 5-6), no prefácio do primeiro livro do De inventione (1. 5). 51
Referências em Leeman & Pinkster 1981: 111 ad locum.
Também este tópos isocrático (3. 7; 4. 48) da função civilizatória da eloquência fora desenvolvido mais amplamente 52
no prefácio do primeiro livro do De inventione. Cf. particularmente Inv. 1. 2-3. Referências em Leeman & Pinkster
1981: 110 ad locum.
O próprio Crasso.53
Com a réplica de Cévola, começa a primeira disputatio in utramque partem do livro 1. 54
É de notar que, com esta observação, Cévola desconsidera o fato de Crasso ter dito há pouco, em 1. 34, que a 55
liderança e a sabedoria do orador perfeito eram fundamentais para a segurança da comunidade como um todo. Se a
questão da relação entre eloquência e sabedoria, fundamental no De oratore, terá uma primeira resposta na tréplica de
Crasso, a partir de 1. 45, ganhará um tratamento mais detido e aprofundado apenas no livro 3 (3. 56-73; 3. 126-143) —
quando Cévola já terá deixado a discussão, por sinal.
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singulares? Ora, e o que dizer de Numa Pompílio? E de Sérvio Túlio? E dos demais reis, que 56
tiveram grande papel na constituição da República? Acaso aparece neles algum vestígio de
eloquência? Ora, depois da expulsão dos reis, não obstante percebermos que a própria expulsão foi
realizada pela inteligência, não pela língua de Lúcio Bruto , acaso não notamos que, a partir de 57
então, havia por toda parte abundância de ideias, vazio de palavras? 38. Quanto a mim, se quisesse
me servir de exemplos de nossa cidade ou das demais, poderia mencionar mais prejuízos do que
vantagens causados à situação política pelos oradores mais eloquentes. Porém, deixando de lado os
demais exemplos, creio que, à exceção de vocês dois, Crasso, os mais eloquentes que tive
oportunidade de ouvir foram Tibério e Gaio Semprônio, cujo pai, homem prudente e austero, nem
um pouco eloquente, salvou a República em diversas ocasiões, e sobretudo quando censor. Ora, não
foi pela riqueza elaborada do discurso que ele transferiu os libertos para as tribos urbanas, mas por
um gesto e uma palavra. Se não o tivesse feito, a República, que hoje em dia mal conseguimos
manter, há muito não estaria em nossas mãos. Por outro lado, quando seus filhos, homens
expressivos e preparados para discursar por todos os recursos concedidos pela natureza ou pela
formação teórica, receberam em mãos a cidade em seu apogeu (fosse pela prudência do pai, fosse 58
pelas armas dos ancestrais), arruinaram a República com sua eloquência, essa magnífica
governadora das cidades, para usar sua expressão . 39. Ora, o que dizer das antigas leis e da 59
tradição ancestral? E dos auspícios, que nós dois, Crasso, presidimos para grande segurança da
República? E dos ritos e cerimônias? E deste direito civil, que já há muito tem abrigo em nossa 60
família sem que tenhamos qualquer mérito na eloquência: acaso foram inventados, conhecidos, ou
sequer tratados pelo grupo dos oradores? 40. De minha parte, guardo na memória a pessoa de
Sérvio Galba, homem divino na oratória, bem como a de Marco Emílio Porcina e a do próprio Gaio
Carbão, que você derrotou quando era ainda bastante jovem: desconhecedores das leis, pouco
seguros sobre as instituições dos antepassados, ignorantes em direito civil. E excetuando você,
Crasso, que aprendeu conosco o direito civil mais por seu zelo do que por alguma obrigação da
parte dos expressivos, esta sua geração desconhece a tal ponto o direito que chega a ser por vezes
constrangedor. 41. Quanto a você ter concluído, ao fim de sua fala, como se tivesse o direito, que o
orador é capaz de participar de discussões sobre qualquer tópico com extrema eloquência, não fosse
o fato de estarmos em seu domínio eu não o toleraria, e ditaria as fórmulas a muita gente, fosse para
litigarem com você o edito do pretor ou para o convocarem a uma contestação em tribunal, por ter
invadido de maneira tão temerária as propriedades alheias . 42. Tomariam medidas legais contra 61
você, em primeiro lugar, os pitagóricos todos, e os discípulos de Demócrito reivindicariam em
Dois dos monarcas do período real, segundo a tradição. Cévola menciona-os porque ambos são considerados 56
fundamentais no desenvolvimento da Urbe. Numa Pompílio, de origem sabina, teria sido o segundo rei de Roma,
sucedendo Rômulo. Dele, Cícero faz o personagem Cota observar, em N.D. 3. 5: mihique ita persuasi, Romulum
auspiciis, Numa sacris constitutis fundamenta iecisse nostrae civitatis [“e estou convencido de que Rômulo e Numa
lançaram as fundações de nossa cidade, o primeiro estabelecendo os auspícios, o segundo, os sacrifícios"]; Sérvio Túlio,
de origem latina, teria sido o sexto rei de Roma, sendo também considerado o segundo fundador da Urbe em virtude de
suas reformas. Referência em Leeman & Pinkster 1981: 118 ad locum.
Lúcio Júnio Bruto teria dado início, segundo a tradição, à era republicana em Roma em 510, com a expulsão de 57
Tarquínio Soberbo.
A ideia de “apogeu” (civitatem […] florentissimam) espelha o que Cícero afirmara em própria pessoa no prólogo do 58
diálogo, em 1. 1 (in optima re publica, “no apogeu da República”).
Crasso não usara tal expressão para referir-se à eloquência…59
Na qualidade de áugures. Cévola entrara para o Colégio dos Áugures em 129, Crasso, em data incerta.60
Cícero, jocosamente, empresta a Cévola o jargão legal, próprio de sua especialidade. 61
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tribunal o que lhes era de direito juntamente com os demais filósofos da natureza , homens de 62
oratória ornada e grave, com os quais não lhe seria permitido disputar o depósito legal. Além disso,
viriam em seu encalço as seitas de filósofos já desde sua ilustre fonte e nascente, Sócrates, provando
que você não aprendeu nada, não investigou absolutamente nada, não sabe nada sobre o bem na
vida, nada sobre o mal, nada sobre as paixões, nada sobre o caráter dos homens, nada sobre as
normas de conduta . E, quando todos eles tivessem feito sua investida contra você, cada escola lhe 63
intentaria um processo. 43. Viria persegui-lo a Academia, obrigando-o a negar o que quer que
tivesseafirmado . Os nossos estoicos, por sua vez, o manteriam enredado nas tramas de suas 64
discussões e argumentações . Já os peripatéticos provariam que é preciso buscar junto a eles aquilo 65
mesmo que você julga serem os recursos e ornamentos do discurso próprios dos oradores, e
mostrariam que Aristóteles e Teofrasto escreveram não apenas melhor, mas muito mais sobre tais
temas do que todos os mestres de oratória . 44. Deixo de lado os matemáticos, os gramáticos, os 66
músicos, com cujas artes essa sua faculdade oratória não se liga sequer pela mais tênue relação. É
por isso, Crasso, que não considero que ela tenha tanto valor e traga tantos benefícios. Já é bastante
grandioso você poder afiançar que, nos julgamentos, a causa que defende, qualquer que seja, pareça
melhor e mais plausível; que o seu discurso tenha grande poder de persuasão nas assembleias
populares e nos pareceres do Senado; enfim, que aos sábios pareça discursar expressivamente, aos
tolos, também com propriedade. Se você puder mais do que isso, considerarei que não é um orador
quem o pode, mas Crasso, com a capacidade que lhe é própria, não com a que é comum aos
oradores.
45. Disse então Crasso, em resposta:
— Não ignoro, Cévola, que é costume entre os gregos falar e debater acerca de tais questões. De
fato, tive a oportunidade de ouvir homens importantes ao ir, quando questor , da Macedônia para 67
Atenas no auge da Academia, segundo se dizia na época, quando esta era dirigida por Cármadas,
Clitômaco e Ésquines . Havia ainda Metrodoro, que, juntamente com eles, fora zeloso discípulo do 68
ilustre Carnéades, o mais arguto e fértil de todos os homens, segundo se dizia, na oratória, e eram
influentes Mnesarco, discípulo de seu caro Panécio, e Diodoro, discípulo do peripatético Critolau . 69
46. Havia, além disso, muitos outros filósofos ilustres e famosos, e eu via todos eles, quase a uma
só voz, afastarem o orador do leme das cidades, excluí-lo de qualquer espécie de doutrina e
conhecimento dos temas mais elevados, relegá-lo e confiná-lo apenas aos tribunais e às assembléias
Referência à física ou filosofia da natureza, um dos três ramos da filosofia antiga.62
Referência ao ramo ético, ou moral, da filosofia antiga. 63
Referência ao ceticismo da Nova Academia, que advogava a impossibilidade de se alcançar a verdade e a adoção do 64
verossímil em cada situação como o mais próximo desta.
Referência ao ramo lógico da filosofia antiga: Cévola alude à dialética estoica. 65
Cévola alude às obras retóricas de Aristóteles e Teofrasto. Aristóteles, além de sua célebre Retórica, também 66
escrevera um diálogo de juventude sobre o tema, o Grylo, e a Coletânea das artes, compilação dos manuais de retórica
até sua época. Teofrasto desenvolvera aspectos pontuais da doutrina, como a atuação e a doutrina das virtudes do
discurso.
A data da questura de Crasso é incerta, variando os prosopógrafos entre 111-110 (Sumner 1973: 97) e 109 (Broughton 67
1951: 546). Embora Crasso refira-se aqui à Macedônia, em outras passagens fala-se da Ásia como a província em que
Crasso fora questor (2. 360; 2. 365; 3. 75). Referências em Leeman & Pinkster 1981: 137 ad locum.
Cármadas (c. 165-91), Clitômaco (187/6-110/109), Ésquines (d. i.), Metrodoro (c. 170-?), filósofos acadêmicos 68
discípulos de Carnéades (214/3-129/8).
Mnesarco (d. i.) e Panécio (c. 185-109), filósofos estoicos; Diodoro (d. i.) e Critolau (d. i.), peripatéticos. 69
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populares de pouca monta, tal como se faz com os escravos nos moinhos . 47. Mas eu mesmo não 70
concordava com eles nem com o inventor e originador de tais discussões, de longe o mais solene e
eloquente de todos na oratória, Platão, cujo Górgias li então muito atentamente com Cármadas, em
Atenas. Nesse livro, admirava Platão sobretudo pelo fato de, ao zombar dos oradores, parecer ele
próprio um exímio orador. De fato, já há muito a controvérsia em torno de uma palavra atormenta
esses greguinhos, mais ávidos de disputa do que da verdade . 48. Ora, ainda que alguém tenha 71
estabelecido que orador é aquele que é capaz de falar copiosamente apenas perante o pretor ou nos 72
tribunais, ou ainda perante o povo ou no Senado, é preciso que atribua e conceda muitos
conhecimentos ao orador assim definido: é que sem o estudo aprofundado de todos os assuntos
públicos, ou sem o conhecimento das leis, da tradição, do direito, e sem conhecer a natureza e o
caráter dos homens, não é possível que fale desses próprios temas com habilidade e perícia . Já 73
quanto àquele que tomou conhecimento de tais coisas, sem as quais ninguém é capaz de defender
apropriadamente sequer as questões mais elementares, que conhecimento das mais importantes
poderá lhe faltar? Mas, se você pretende que não cabe ao orador senão falar de maneira ordenada,
ornada, copiosa, eu me pergunto: como pode ele conseguir precisamente isso sem o conhecimento
que vocês não lhe concedem? Pois não pode haver mérito no discurso a não ser que aquele que virá
a falar tenha apreendido também o assunto de que falará. 49. Sendo assim, se, tal como se diz e me
parece correto, o ilustre filósofo da natureza, Demócrito, falava ornadamente, a matéria de que
tratava deve ser considerada própria do filósofo da natureza, mas o ornato das palavras
propriamente dito, do orador. E se Platão falava de modo divino acerca de temas bastante distantes
das controvérsias civis, como concedo, e se, do mesmo modo, Aristóteles, Teofrasto, Carnéades
eram eloquentes nos temas que discutiam, bem como agradáveis e ornados em sua fala, mesmo que
os temas que discutem residam em outras disciplinas, o discurso em si é próprio apenas desta
doutrina acerca da qual falamos e investigamos . 50. Efetivamente, observamos que alguns 74
filósofos discutiram os mesmos temas de modo árido e seco, tal como fez aquele que afirmam ser
agudíssimo, Crisipo, que não deixou de fazer jus à filosofia por não apresentar essa capacidade
oratória provinda de uma arte alheia. Logo, que diferença há, ou como se discernirão a riqueza e a
abundância oratórias daqueles que citei, da aridez daqueles que não se servem dessa variedade e
refinamento oratórios? Haverá claramente um elemento que aqueles que discursam bem devem
apresentar como característico: um discurso ordenado, ornado e distinto por algum artifício e
embelezamento. Quanto a esse discurso, se não há em sua base um tema apreendido e conhecido
pelo orador, é forçoso que não seja coisa alguma ou que seja ridicularizado pelo escárnio geral. 51.
De fato, o que há de tão insano quanto o som vazio das palavras, mesmo as melhores e mais
A ideia de restringir o campo do orador é jocosamente comparada por Crasso aos moinhos, que eram empurrados em 70
movimento circular e repetitivo por escravos ou mulas.
A desqualificação de Platão, neste contexto, em nítido contraste com a admiração e a solenidade com que Cévola o 71
mencionara em 1. 29, parece relacionada à obra aludida em cada passo — aqui, o Górgias, lá, o Fedro — e a maneira
como a retórica é apresentada em cada uma.
Referência ao procedimento preliminar dos processos, no qual o caso era submetido à aprovação do pretor segundo a 72
lei concernente à acusação.
Mesmo que se adote a posição mais circunscrita do papel do orador, como aqui, o princípio de que falar bem 73
demanda o entendimento do assunto faz Crasso insistir na necessidade de experiência política e de conhecimentos
variados de sua parte.
Crasso estabelece a oratio [“discurso”, mas também “maneira de falar”] como o domínio do orador, ficando os 74
conhecimentos específicos como território das demais artes. A base para se atingir o correto modo de falar, porém, são
justamente os conhecimentos específicos, segundo Crasso (1. 50, abaixo). O raciocínio de Crasso responde não apenas
às objeções de Cévola, mas também, e talvez principalmente, à tradição antirretórica platônica iniciada com o Górgias,
há pouco mencionado pelo personagem, segundo a qual a retórica seria uma arte sem objeto. Repare-seno plural
utilizado por Crasso em 1. 48 e 1. 59, “conceditis”.
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distintas, sem um pensamento ou conhecimento subjacente? Portanto, do que quer que se trate,
qualquer que seja a arte de que provenha, qualquer que seja a situação, se o orador instruir-se tal
como na causa de um cliente, discursará melhor e com mais distinção do que o próprio inventor e
especialista no assunto. 52. Se houver alguém que afirme que há certos pareceres e causas próprios
dos oradores, bem como um conhecimento de determinadas questões circunscrito aos limites do
fórum, eu admitirei, de minha parte, que nosso discurso versa com maior frequência sobre elas. No
entanto, dentre essas próprias questões, há inúmeras que esses mestres a que chamam rétores não
ensinam nem dominam . 53. Pois quem desconhece que o poder do orador manifesta-se sobretudo 75
quando incita as mentes dos homens à ira, ao ódio ou à indignação, ou quando as reconduz dessas
mesmas paixões à brandura e à misericórdia? Por isso, a não ser que tenha um conhecimento
aprofundado dos temperamentos dos homens, bem como de toda a natureza humana e das causas
pelas quais se incitam ou apaziguam as mentes, o orador não será capaz de realizar o que deseja
pelo discurso . 54. Ora, todo este terreno é considerado domínio dos filósofos, e jamais consentirei 76
que um orador se oponha a isso. Porém, mesmo que lhes conceda o conhecimento dos temas, uma
vez que pretendem dedicar-se exclusivamente a ele, o orador tomará para si o tratamento do
discurso, que, sem aquele conhecimento, é inexistente. É que é próprio do orador, como já disse
muitas vezes, um discurso grave, ornado e adequado às concepções e às mentes dos homens. 55.
Admito que Aristóteles e Teofrasto escreveram sobre tais temas. Mas repare, Cévola, se isso não
está inteiramente a meu favor, pois não lhes tomo emprestado os elementos que têm em comum
com o orador: eles concedem que os temas que discutem são domínio dos oradores. Dessa forma,
intitulam e designam seus outros livros de acordo com o nome de sua arte, a estes denominam
“retóricos”. 56. Efetivamente, quando aparecerem no discurso aqueles lugares-comuns — porque
inúmeras vezes temos de falar dos deuses imortais, da devoção, da concórdia, da amizade, do
direito comum dos cidadãos, do direito dos homens e do direito dos povos, da equidade, da
temperança, da magnanimidade, de todo tipo de virtude —, clamarão, creio eu, todos os ginásios e
todas as escolas dos filósofos que todos esses temas lhes são próprios, de seu domínio, de forma
alguma concernentes ao orador. 57. Embora lhes conceda que discutam sobre tais temas no
recôndito das salas de aula para passar o tempo livre, atribuirei e confiarei ao orador a tarefa de
desenvolver com todo o encanto e gravidade os mesmos temas sobre os quais eles debatem numa
linguagem simples e sem vigor. Eu discutia pessoalmente tais temas com os filósofos em Atenas,
naquela ocasião. De fato, obrigava-me a tal o nosso caro Marco Marcelo, que agora é edil curul e
com certeza participaria desta nossa conversa, caso não estivesse promovendo os jogos; e já naquela
época, ainda muito jovem, era admiravelmente dedicado a tais estudos.
58. Já quanto ao estabelecimento das leis, da guerra, da paz, dos aliados, dos tributos, do direito
dos cidadãos dividido por categorias, de acordo com a ordem e a idade, que os gregos afirmem, se
quiserem, que Licurgo e Sólon — apesar de pensarmos que devem ser enumerados entre os
eloquentes — tinham, a respeito, melhor conhecimento do que Hipérides ou Demóstenes, homens já
completos e refinados na oratória, ou que nossos conterrâneos prefiram, neste ramo, os decênviros
que escreveram as doze tábuas, que eram forçosamente sábios, a Sérvio Galba e seu sogro Gaio
Lélio, homens de reconhecida distinção pelo renome na oratória. 59. Jamais negarei a existência de
determinadas artes próprias daqueles que depositaram todo o seu empenho no aprendizado e
tratamento de tais temas, mas direi que o orador completo e perfeito é aquele capaz de falar sobre
todos os assuntos de maneira abundante e variada. Efetivamente, não raro surge, naquelas causas
que todos reconhecem como próprias dos oradores, algum elemento que é preciso tomar, não à
Tendo se afastado dos filósofos, Crasso toma agora distância dos rétores, na disputa entre os dois campos.75
Em resposta a Cévola (1. 42) e espelhando uma observação do próprio Cícero, no prólogo (1. 17), Crasso aponta a 76
necessidade do conhecimento e uso das emoções por parte do orador para que atinja seus objetivos. Crasso insiste nesse
ponto em 1. 60.
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prática pública, única que vocês concedem ao orador, mas a alguma ciência mais obscura. 60.
Realmente, eu me pergunto se é possível discursar contra ou a favor de um comandante sem que se
tenha experiência militar ou, muitas vezes até, o conhecimento das regiões terrestres e marítimas ; 77
se é possível discursar perante o povo acerca da aprovação ou do veto das leis, ou, no Senado,
acerca de qualquer aspecto da política, sem um enorme conhecimento e discernimento das questões
civis; se é possível empregar o discurso para inflamar ou mesmo apaziguar os sentimentos e
emoções, por excelência o fator de maior importância num orador, sem uma investigação
extremamente cuidadosa e completa de todas as doutrinas desenvolvidas pelos filósofos acerca da
natureza e do caráter do gênero humano. 61. Talvez eu não seja muito convincente para vocês, mas,
de minha parte, não hesitarei em dizer o que penso: a própria filosofia da natureza e o que você
considerou há pouco como próprio da matemática e das demais artes, fazem parte da ciência dos
que delas fazem profissão. Porém, se alguém quiser que essas mesmas artes ganhem lustro pelo
discurso, terá de recorrer à faculdade do orador. 62. E se é sabido que Fílon, o célebre arquiteto que
construiu o arsenal para os atenienses, prestou contas de sua obra ao povo de maneira extremamente
expressiva, nem por isso se deve considerar que sua expressividade era devida antes à arte do
arquiteto que à do orador. E se coubesse a este Marco Antônio, aqui presente, discursar em favor de
Hermódoro acerca da construção dos estaleiros, depois de estudar a causa com ele, discursaria
ornada e ricamente acerca de uma arte alheia. Já Asclepíades, aquele de quem nos valíamos como
médico e amigo, quando superava os demais médicos pela eloquência, não usava a faculdade da
medicina ao empregar a fala ornada em si, mas a da eloquência. 63. Mais plausível, embora não seja
verdade, é o que Sócrates costumava dizer: todos são eloquentes o bastante naquilo que conhecem.
Mais verdadeiro, porém, é que ninguém pode ser expressivo naquilo que desconhece, e ninguém é
capaz de falar com expressividade sobre aquilo que conhece, se, tendo um grande conhecimento,
ignorar como se compõe e lima um discurso. 64. Por isso, se quisermos definir e delimitar a
essência completa e própria do orador, será, na minha opinião, um orador digno de tão importante
nome aquele que, qualquer tema que surja passível de desenvolvimento pela palavra, discursar com
discernimento, ordem, elegância, boa memória, bem como, ainda, com certa imponência em sua
atuação. 65. Mas, se alguém considerar a expressão proposta, “qualquer que seja o assunto”,
irrestrita demais, cada um tem o direito de suprimir e cortar o quanto lhe parecer bem. No entanto,
continuarei sustentando que, ainda que o orador ignore o que se encontra nas demais artes e ramos
de estudo e domine apenas o que pertence às discussões e à prática públicas, se lhe couber discursar
acerca daqueles temas, aprenderá o que concerne a cada tema com aqueles que o dominam, e
discursará melhor, enquanto orador, do que aqueles a quem tais artes dizem propriamente respeito.
66. Assim, se Sulpício, aqui presente, tiver de discursar sobre um tema militar, interrogará Gaio
Mário, meu parente por afinidade, e, depois de se instruir, fará uma exposição tal, que até ao próprio
Mário quase parecerá entendermais do tema do que ele mesmo. Mas, se tiver de discursar sobre o
direito civil, entrará em contato com você e, pela arte oratória, irá superá-lo, embora você seja bem
mais sábio e experiente, exatamente naquilo que aprender com você. 67. Mas, se deparar com um
caso em que se veja obrigado a discursar acerca da natureza, dos vícios dos homens, dos desejos, da
justa medida, da moderação, da dor, da morte, entrará talvez em contato, se lhe parecer bem —
embora o orador deva conhecer mesmo tais temas —, com Sexto Pompeu, homem de instrução
filosófica. Isso sem dúvida fará que discurse acerca de qualquer tema que tenha aprendido com cada
um com mais elegância do que aquele mesmo com quem aprendeu. 68. Ora, se ele me der ouvidos,
uma vez que a filosofia se divide em três partes, os segredos da natureza, a sutileza da dialética, a
vida e os costumes, deixemos de lado as duas primeiras, relegando-as a nossa indolência. Quanto à
Como notam os comentadores, este fora exatamente o caso do De lege Manilia, discurso que Cícero pronunciara 11 77
anos antes da escrita do De oratore, em 66, defendendo a transferência do comando da guerra contra o rei Mitridates do
Ponto de Luculo para Pompeu.
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terceira, que sempre foi própria do orador, se não a dominarmos, não lhe deixaremos nada em que
possa ser grandioso. 69. É por isso que todo esse tópico da vida e dos costumes deve ser estudado a
fundo pelo orador. Ainda que não estude os demais, poderá, caso necessário, orná-los pelo discurso,
contanto que lhe sejam dados a conhecer e transmitidos. E, realmente, se é sabido entre os doutos
que um desconhecedor da astronomia, Arato, falou do céu e dos astros em versos elegantíssimos e
excelentes; que um homem totalmente alheio ao campo, Nicandro de Colofon, escreveu de maneira
primorosa sobre agricultura devido a uma capacidade poética, não de agricultor; por que motivo o
orador não poderá discursar com extrema eloquência acerca dos temas de que se inteirou para
determinada causa e circunstância? 70. De fato, o poeta está muito próximo do orador, sendo um
pouco mais limitado pelo metro, mais livre, porém, pela licença no uso das palavras, colega e quase
igual em muitos tipos de ornamento. Certamente são quase idênticos num ponto: não circunscrever
ou restringir o seu direito por qualquer limite que os impeça de vagar por onde quiserem com a
mesma capacidade e riqueza. 71. E na verdade, quanto ao que você afirmou que não toleraria caso
não estivesse em meu domínio — eu ter falado que todo orador deve ser perfeito em toda espécie de
discurso, em todos os aspectos da cultura —, eu seguramente nunca o diria se julgasse ser eu
mesmo o orador que concebo. 72. Ora, concordo com o que Gaio Lucílio, um homem um tanto
agastado contra você — e, por isso mesmo, menos próximo de mim do que desejava —, porém
culto e extremamente refinado, costumava repetir: ninguém que não seja cultivado em todas as artes
dignas de um homem livre deve ser contado entre os oradores. Ainda que não as usemos ao
discursar, torna-se claro e manifesto se as conhecemos ou não. 73. É como os que jogam a pela: não
empregam, durante o jogo em si, a técnica própria da palestra, mas o próprio movimento indica se
têm ou não conhecimento desta; e como os que fazem uma escultura: ainda que não se sirvam de
uma pintura, não é difícil perceber se sabem ou não pintar. Desse modo, nesses mesmos discursos
dos tribunais, das assembleias populares, do Senado, ainda que não se empreguem propriamente as
demais artes, logo fica claro se aquele que discursa esteve apenas a se debater nesta atividade
declamatória ou se passou a discursar instruído em todas as artes liberais.
74. Disse então Cévola, sorrindo:
— Não lutarei mais com você, Crasso, pois aquilo que falou contra mim, você o fez com uma
habilidade tal, que concordou comigo em relação ao que não era, a meu ver, domínio do orador,
para, em seguida, não sei como, o distorcer e atribuir ao orador como próprio . 75. Quando me 78
dirigi a Rodes, como pretor , e conversei com o excelente mestre dessa sua disciplina, Apolônio, 79
sobre o que eu aprendera com Panécio, ele zombou da filosofia, como de costume, e a condenou,
fazendo diversas observações mais jocosas do que sérias. O seu discurso, por outro lado, foi de tal
natureza, que você não desprezou qualquer arte ou doutrina, mas afirmou que todas elas são
companheiras e servidoras do orador . 76. Se alguém tiver, sozinho, o domínio de todas elas, e se 80
essa mesma pessoa acrescentar-lhes essa faculdade do discurso minuciosamente ornado, não posso
negar que será absolutamente ilustre e admirável. Mas tal pessoa, se existisse, ou ainda se tivesse
alguma vez existido, ou mesmo se pudesse existir, com certeza seria apenas você, que não somente
em minha opinião, mas na de todos, quase não deixou motivo de louvor para os demais oradores —
sem ofensa para os presentes. 77. Porém, se a você mesmo nada falta saber que diga respeito às
Efetivamente, Crasso, num primeiro movimento, restringe o domínio do orador ao discurso, deixando aos 78
representantes das demais artes o domínio de seus conhecimentos específicos. Num segundo movimento, porém, ao
afirmar que o discurso só é possível quando subjaz o conhecimento do assunto tratado pelo orador, o personagem dá a
entender, embora isso não seja explicitado, que os conhecimentos específicos fazem, de uma forma ou de outra, parte do
domínio do orador.
Em 98 (?).79
Cévola chama a atenção para a posição intermediária entre filósofos e rétores adotada por Crasso. Cf. 1. 52 e nota ad 80
locum.
!14
questões públicas e civis, e se tem o domínio daquele conhecimento que acrescenta ao orador,
cuidemos para não atribuir a ele mais do que os fatos e a própria realidade o permitem.
78. Nesse momento Crasso observou :
— Lembre-se que não estava me referindo à minha capacidade, mas à do orador. Ora, o que 81
aprendemos ou pudemos conhecer, nós, que passamos a atuar antes de estudar? Nós, a quem no
fórum, na carreira, na política, na defesa dos interesses dos amigos, a própria prática preparou antes
mesmo que pudéssemos suspeitar de questões tão importantes? 79. Porque, se você considera que
há tamanho valor em nós, a quem, mesmo que não tenha de todo faltado o engenho, como você
pensa, sem dúvida faltaram a formação teórica, o tempo livre e, é certo, mesmo aquele desejo tão
ardente de aprender: de que natureza e magnitude pensa você que seria o orador, se a um engenho
maior se somassem aqueles elementos a que não tive acesso ? 82
80. Disse então Antônio:
— Você é convincente naquilo que diz, Crasso, e não duvido que alguém venha a ser muito mais
opulento ao discursar se compreender o princípio e a natureza de todas as coisas e artes. 81. Mas,
em primeiro lugar, isso é difícil de conseguir, sobretudo considerando esta vida que levamos e
nossas ocupações. Além disso, é de recear que nos afastemos desta nossa prática oratória popular e
pública . É que me parece ser completamente diferente o modo de discursar dos homens que 83
mencionou há pouco , ainda que falem de maneira ornada e grave acerca da natureza ou das 84
questões humanas. Trata-se de um tipo de palavras extremamente brilhante, florido e mais
apropriado ao ginásio e ao óleo dos atletas que a esta massa de cidadãos do fórum. 82. De fato,
mesmo eu, que tive contato com as letras gregas apenas tardia e superficialmente, quando parti para
a Cilícia como procônsul e estive em Atenas , demorei-me vários dias por lá devido às dificuldades 85
de navegação. Ora, como tinha diariamente em minha companhia homens eruditíssimos —
praticamente os mesmos que acaba de mencionar — e, não sei por que razão, difundira-se entre 86
eles que, tal como você, eu costumava me ocupar das causas mais importantes, cada um deles
discorria, na medida de suas possibilidades, acerca do ofício e da natureza do orador. 83. Alguns
Crasso responde à observação feita por Cévola em 1. 77: “Porém, se a você mesmo nada faltasaber que diga respeito 81
às questões públicas e civis, e se tem o domínio daquele conhecimento que acrescenta ao orador, cuidemos para não
atribuir a ele mais do que os fatos e a própria realidade permitem.”
Antônio retomará esta observação adiante, em 1. 95. Em ambos os casos, temos a prefiguração da figura de Cícero, a 82
que o leitor contemporâneo, é de supor, associaria as observações. Para a importância que o próprio Arpinate conferia a
sua formação teórica, cf. Brut. 305-316.
As palavras de Antônio espelham as de Cícero no prólogo, em 1. 12, passagem na qual o Arpinate apontara o 83
afastamento da linguagem comum como o maior defeito de um orador (“[…] nas demais artes, sobressai-se
particularmente aquele que se encontra mais distante do entendimento e da percepção dos leigos, ao passo que, na
oratória, o maior dos defeitos é apartar-se da maneira usual de falar e da praxe do senso comum"). No presente caso, tal
afastamento se daria pela elevação da maneira de falar dos filósofos, inadequada à massa do fórum, segundo o
personagem.
Em 1. 49, Crasso mencionara a elocução ornada dos filósofos Demócrito, Platão, Aristóteles, Teofrasto e Carnéades.84
Antônio fora procônsul no biênio 101-100.85
Em 1. 45, Crasso, em situação análoga à de Antônio (o personagem dirigia-se então da Macedônia, onde fora questor, 86
para Atenas), menciona as discussões filosóficas a que assistira, citando os nomes de Cármadas, Clitômaco, Ésquines e
Metrodoro (acadêmicos), Mnesarco (estoico) e Diodoro (peripatético).
!15
deles, tal como o mencionado Mnesarco , afirmavam que aqueles a quem denominamos oradores 87
não passavam de operários de língua ágil e treinada; que ninguém seria um orador sem ser sábio;
que a própria eloquência, que consistiria na ciência do dizer bem, seria uma virtude; que aquele que
tivesse uma única virtude teria todas; e que elas seriam iguais e equivalentes entre si. Desse modo,
aquele que fosse eloquente teria todas as virtudes e seria um sábio. Mas essa era uma maneira de
falar bem espinhosa e seca, e bastante afastada de nossas concepções . 84. Cármadas , por sua 88 89
vez, falava com muito mais riqueza acerca dos mesmos assuntos, embora não para revelar o que
pensava, pois era um costume tradicional da Academia opor-se sempre a todos nas discussões.
Contudo, naquele momento em particular, dava a entender que aqueles que são denominados rétores
e que ensinam os preceitos da oratória não têm perfeito domínio de nada, nem podem alcançar
habilidade oratória alguma se não estudarem as descobertas dos filósofos. 85. Adotavam a posição
contrária atenienses expressivos e versados em política e em causas, entre os quais estava aquele
que há pouco tempo esteve em Roma como meu hóspede, Menedemo . Como este afirmava haver 90
uma ciência que consiste na investigação dos princípios do estabelecimento e do governo das
repúblicas, inflamava-se Cármadas, homem resoluto e provido de todo tipo de formação teórica e de
uma incrível variedade e abundância de conhecimentos. De fato, ele mostrava que era preciso
buscar todos os elementos daquela ciência na filosofia, e que não se encontra em parte alguma dos
manuais dos rétores aquilo que se determina, numa república, acerca dos deuses imortais, da
formação da juventude, da justiça, da firmeza, da temperança, da medida em todas as coisas , e 91
tudo o mais sem o que as cidades não podem existir ou ter uma tradição moral consolidada. 86. É
que, perguntava ele, se aqueles mestres de retórica englobavam em sua arte tamanha quantidade de
temas de suma importância, por que motivo seus livros estavam repletos de proêmios, epílogos e
bobagens desse tipo — pois tal era a palavra que usava —, enquanto neles não se encontrava uma 92
letra sequer acerca da organização das cidades, da escrita das leis, da equidade, da justiça, da boa-fé,
do domínio dos desejos, da formação do caráter dos homens? 87. Costumava zombar dos próprios
preceitos , mostrando, assim, que tais mestres não apenas eram desprovidos daquela ciência que 93
reclamavam para si, mas sequer conheciam esta doutrina e método oratórios: julgava que o
Mnesarco, filósofo estoico de época helenística. Não se sabem as datas exatas de sua vida. 87
Ao longo do diálogo, a maneira de falar dos estoicos é apresentada como inadequada ao orador em virtude de sua 88
aridez. Cf. 2. 159 (fala de Antônio): “Nesse aspecto, portanto, esse estoico não nos ajuda em nada, uma vez que não nos
ensina como descobrir o que falar. Além disso, ele chega mesmo a nos atrapalhar, porque encontra muitos raciocínios
que afirma serem impossíveis de desenredar e utiliza, não um tipo de linguagem límpido, solto e fluente, mas seco,
árido, fragmentado e entrecortado. Se alguém aprovar essa maneira de discursar, aprovará admitindo, porém, que ela
não é adequada ao orador.”; 3. 66 (fala de Crasso): "Soma-se a isso o fato de [sc. os estoicos] apresentarem uma
maneira de discursar que é acurada, talvez, e certamente profunda, mas que, para um orador, é árida, desusada,
desagradável aos ouvidos do público, obscura, ineficaz, seca e de uma natureza tal, que é simplesmente impossível
empregá-la perante o público”.
Cármadas (c. 165-91), filósofo acadêmico, discípulo de Carnéades. 89
Menedemo (datação incerta), orador ateniense. 90
Tópicos tradicionais da filosofia moral antiga.91
As observações de Cármadas inserem-se numa longa tradição de críticas aos escritores dos manuais de retórica e a 92
sua apresentação da doutrina das partes do discurso. Observamos tal crítica, de início, no Fedro de Platão; sendo
retomada em seguida por Aristóteles, em sua Retórica, e pelos filósofos helenísticos, como se depreende deste passo do
De oratore. Também Crasso e, com mais contundência, Antônio, retomarão esta crítica. Para referências e uma análise
da postura crítica dos manuais apresentada no De oratore, cf. Scatolin 2009.
Como também farão Crasso e, com mais veemência, Antônio, ao longo do diálogo, contrapondo-se, assim, à posição 93
mais diplomática de Cícero, no prólogo do livro 1. Cf. Scatolin 2009.
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principal, num orador, era parecer, àqueles perante os quais atuava, tal como desejasse, e que isso se
dava por meio de sua reputação, acerca da qual esses mestres de retórica nada haviam transmitido
em seus preceitos, e influenciar os ânimos dos ouvintes segundo sua vontade — o que, do mesmo
modo, de forma alguma poderia acontecer, se o orador não soubesse por quantos e quais modos,
bem como com que gênero de discurso, se movem as mentes dos homens em todas as direções . 94
Tais conhecimentos estariam totalmente encobertos e ocultos no cerne da filosofia, sem que os
rétores tivessem tomado contato com eles mesmo superficialmente. 88. Menedemo procurava
refutar tais ideias antes com exemplos que com argumentos . De fato, recitando de memória 95
diversas passagens admiráveis dos discursos de Demóstenes, mostrava que este não ignorava os
meios de influenciar os ânimos dos juízes ou do povo em todas as direções por meio do discurso, o
que Cármadas afirmava não ser possível alguém saber sem a filosofia. 89. Este lhe respondia não
negar que Demóstenes tivesse grande competência e grande capacidade oratória, mas, quer tal
capacidade se devesse a seu talento, quer, como era sabido, ao fato de ter sido zeloso discípulo de
Platão, não cabia discutir as capacidades de Demóstenes, mas o que ensinavam os rétores . 90. 96
Muitas vezes, chegava a ser levado pelo discurso a argumentar que simplesmente não existe uma
arte oratória , o que mostrara não apenas com argumentos — por nascermos capazes de lisonjear 97
humildemente aqueles a quem é preciso fazer algum pedido, atemorizar em tom de ameaça nossos
adversários, narrar um acontecimento, provar o que sustentamos, refutar o que se diz contra nós,
enfim, implorar por algo ou deplorá-lo, elementos de que se ocupa toda a faculdade dos oradores ; 98
e pelo fato de o costume e a prática aguçarem a habilidade de raciocínio e estimularem a facilidadede expressão —, mas sustentava ainda com um grande número de exemplos. 91. De fato, afirmava,
em primeiro lugar, remontando a uns tais de Córax e Tísias, que eram sabidamente, dizia, os
inventores e originadores de tal arte , que nenhum autor de manuais, como se o fizesse de 99
propósito, era sequer medianamente expressivo, enquanto mencionava inúmeros homens
extremamente eloquentes que não apenas desconheciam tais questões, mas sequer haviam tido a
preocupação de tomar conhecimento delas. Entre eles ainda, quer o fizesse por zombaria, quer
assim pensasse, ou antes por ter ouvido falar, citava a mim, que, segundo ele próprio afirmava, não
Trata-se dos elemento tradicionalmente denominados “ético" e “patético” na tradição retórica, embora tal 94
terminologia, técnica e, ademais, grega, seja evitada no diálogo.
É revelador o fato de Menedemo, o único orador da discussão, fazer uso apenas de exemplos, não de argumentos, em 95
sua exposição: este seria um irônico exemplo da falta de formação teórica do orador. É de reparar, ainda, que Cármadas,
em seguida (1. 90), replicará com exemplos e argumentos.
Este argumento de Cármadas espelha, mutatis mutandis, a observação de Cévola de que é preciso atentar antes à 96
realidade dos oradores do que à capacidade de Crasso, em 1. 76-77: "Se alguém tiver, sozinho, o domínio de todas elas
[sc. artes], e se essa mesma pessoa acrescentar-lhes essa faculdade do discurso minuciosamente ornado, não posso negar
que será absolutamente ilustre e admirável. Mas tal pessoa, se existisse, ou ainda se tivesse alguma vez existido, ou
mesmo se pudesse existir, com certeza seria apenas você [sc. Crasso], que não somente em minha opinião, mas na de
todos, quase não deixou motivo de louvor para os demais oradores — sem ofensa para os presentes. Porém, se a você
mesmo nada falta saber que diga respeito às questões públicas e civis, e se tem o domínio daquele conhecimento que
acrescenta ao orador, cuidemos para não atribuir a ele mais do que os fatos e a própria realidade permitem."
Desde o Górgias platônico, esta observação é um dos pilares da crítica dos filósofos contra os rétores. Nem Cícero, 97
no prólogo, porém, nem as personagem, ao longo do diálogo, parecem considerar a questão muito relevante. Cf. May &
Wisse 2001: 20-26.
Alusão às partes do discurso, por meio de suas funções. Assim, temos, respectivamente, o exórdio (para as duas 98
primeiras, do ponto de vista, respectivamente, do defensor e do acusador), a a narração, a confirmação, a refutação e a
peroração.
A tradição antiga considerava Córax e Tísias como os inventores da arte oratória, na Sicília do século V. Cole 1991 99
argumenta que se trataria, historicamente, de uma única pessoa, Tísias, apodado de “corvo" (córax em grego).
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as estudara e, ainda assim, tinha alguma habilidade ao discursar . Num dos pontos eu concordava 100
prontamente com ele: o fato de não ter estudado . Quanto ao outro, julgava que estava zombando 101
de mim, ou então que se enganava. 92. Negava ainda a existência de qualquer arte que não fosse
constituída de elementos conhecidos, totalmente compreendidos, voltados a um único fim e nunca
enganosos, ao passo que todos os temas tratados pelos oradores seriam duvidosos e incertos, uma
vez que são expostos por aqueles que não os dominam totalmente, e são ouvidos por aqueles a
quem se deve transmitir, não um conhecimento exato, mas uma opinião de momento, falsa ou, ao
menos, obscura. 93. Por que me alongar? Dessa maneira, ele parecia me convencer, naquele
momento, de que não existe uma arte do discurso e que, sem o conhecimento do que dizem os
filósofos mais eruditos, ninguém é capaz de discursar de modo hábil e copioso. A isso Cármadas
costumava acrescentar, expressando uma enorme admiração por seu talento, Crasso, que eu lhe
parecia um ouvinte dócil, você, um debatedor obstinado. 94. Foi assim que eu, num livrinho que,
sem saber ou consentir, escapou-me das mãos, chegando ao alcance do público , escrevi, 102
influenciado por tal opinião, ter conhecido algumas pessoas expressivas, mas ainda nenhuma
eloquente , pois estabelecia que expressivo é aquele que é capaz de discursar com argúcia e 103
clareza diante de um público mediano, em conformidade com a opinião comum das pessoas, ao
passo que eloquente é aquele capaz de ampliar e ornar de modo absolutamente admirável e
grandioso o que deseja, e que retém na mente e na memória todas as fontes de todos os
conhecimentos que se relacionam ao discurso. Ainda que tal coisa seja difícil para nós, que, antes de
começar a estudar, ficamos sobrecarregados pelas disputas eleitorais e pelo fórum , consideremos 104
que ela reside na realidade e na natureza. 95. De fato, pelo que posso conjeturar, e pelo talento que
observo em nossos conterrâneos, não deixo de ter esperanças de que um dia surja alguém que, com
um estudo mais profundo do que temos ou tivemos, com tempo livre, com uma capacidade de
aprendizado maior e mais madura, com esforço e aplicação superiores, depois de se dedicar a ouvir
seus mestres, a ler e a escrever, venha a se tornar um orador tal qual procuramos, que possa com
justiça ser denominado não apenas expressivo, mas também eloquente. No entanto, na minha
opinião, ou nosso Crasso aqui já é tal orador, ou, se houver alguém de igual talento, porém com
mais estudo, leituras e escritos, pouco terá a lhe acrescentar . 105
Para a questão do conhecimento teórico e de sua dissimulação por parte dos protagonistas do De oratore, leia-se o 100
prólogo do livro 2, particularmente a síntese feita por Cícero em 2. 4: "Ora, as coisas se passavam para os dois da
seguinte forma: Crasso desejava não tanto que julgassem que não estudara, quanto que desprezava tais estudos,
colocando acima dos gregos a prudência de nossos conterrâneos em todo tipo de assunto; Antônio, por outro lado,
considerava que seu discurso resultaria mais aceitável a este nosso povo se pensassem que não tinha absolutamente
nenhuma instrução. Assim, ambos aparentariam maior seriedade se um parecesse desprezar, o outro, sequer conhecer os
gregos.”
A dissimulatio scientiae é característica que Crasso e Antônio compartilham com Sócrates. Cf. Zoll 1962: 114 ss; 101
Leeman & Pinkster 1981: 80-84; Hall 1994: 214.
Tal como o De inventione, no caso de Cícero, também o libellus de Antônio teria escapado das mãos de seu autor 102
contra a sua vontade. Cf. 1. 5 (Cícero escreve a seu irmão Quinto): “Ora, como me disseste várias vezes, pretendes, pelo
fato de os escritos que escaparam incompletos e grosseiros de meus apontamentos, quando era menino ou, antes,
adolescente, mal serem dignos desta minha idade e desta experiência, granjeada em tantas e tão importantes causas
defendidas, que publique algo mais refinado e acabado acerca do mesmo tema.”
Tal como fará na sequência, em 1. 95, também em 3. 189, depois da longa exposição de Crasso, Antônio observa, 103
em tom gracioso e urbano, que encontrou nele o orador eloquente que procurava: “Quanto a mim […], já encontrei o
eloquente que, naquele pequeno livro que escrevi, afirmara não ter encontrado”.
Antônio retoma o argumento apresentado por Crasso em 1. 78.104
Cf. 1. 81, acima, e nota ad locum.105
!18
96. Nesse momento, Sulpício interveio:
— Sem que Cota e eu esperássemos, embora o desejássemos muito, Crasso, você acabou
enveredando por essa conversa. Ora, quando vínhamos para cá, pensávamos que já seria bastante
prazeroso se, ainda que você falasse de outros assuntos, pudéssemos obter de sua conversa algo
digno de memória. Porém, que vocês penetrassem quase no âmago da discussão sobre esta
atividade, arte ou faculdade , parecia-nos quase inimaginável. 97. Na verdade, mesmo eu, que me 106
inflamara de apreço por vocês dois desde bem jovem — e por Crasso, mesmo de devoção, uma vez
que não me afastava dele em ocasião alguma — jamais consegui arrancar dele uma única palavra 107
acerca da natureza e dos princípios da oratória, embora eu mesmo o tivesse instigadoe não raro
tivesse tentado que Druso o conseguisse. Nesse sentido, você, Antônio — direi a verdade —, 108
nunca deixou de me ajudar quando o interrogava ou questionava, e inúmeras vezes me ensinou os
princípios a que costumava se ater ao discursar. 98. Agora, uma vez que vocês dois abriram o
caminho para os conhecimentos que buscamos, e que foi Crasso quem iniciou tal conversa , 109
concedam-nos a gentileza de expor minuciosamente o que pensam acerca de todos os aspectos do
discurso. Se obtiver tal favor de vocês, terei esta palestra e sua vila em grande estima, e considerarei
este seu ginásio nas proximidades de Roma muito superior à famosa Academia e ao Liceu . 99. 110
Respondeu-lhe então Crasso:
— Na verdade, Sulpício, peçamos tal coisa a Antônio, que não apenas é capaz de fazer o que
solicita, mas já está acostumado a isso, pelo que ouço você dizer. De fato, reconheço que sempre me
afastei de qualquer conversa desse tipo e que muitas vezes não assentia a seus desejos e constantes
solicitações, como você mesmo disse há pouco. Não o fazia por arrogância ou falta de cortesia, nem
por não querer satisfazer a seu desejo tão apropriado e nobre — sobretudo reconhecendo em você,
mais que em qualquer outro, uma natureza e uma aptidão para discursar —, mas decididamente por
falta de familiaridade com esse tipo de discussão e desconhecimento dos temas que são 111
transmitidos como que numa arte, digamos assim . 112
100. Disse Cota, por sua vez :
Tal como farão os protagonistas, também Sulpício não se posiciona sobre o estatuto da retórica. Sua primeira 106
pergunta a Crasso, por sinal, em 1. 102, é exatamente sobre essa questão.
Cf. Brut. 203: Crassum hic [sc. Sulpicius] volebat imitari; Cotta malebat Antonium; sed ab hoc vis aberat Antoni, 107
Crassi ab illo lepos [“Sulpício desejava imitar Crasso, Cota preferia Antônio. Mas ao primeiro faltava a força de
Antônio, ao segundo, o encanto de Crasso”].
Tribuno da plebe em 91, data fictícia do diálogo.108
Cf. 1. 29: "Cota costumava contar que naquele momento, para que as mentes de todos pudessem relaxar da conversa 109
precedente, Crasso iniciara uma conversa acerca do estudo da oratória."
Esta observação de Sulpício complementa o que Cícero afirmara no prólogo, em 1. 23 (“retomarei, não determinada 110
ordem de preceitos tomada aos rudimentos de nossa antiga doutrina de meninos, mas aquilo que, como fiquei sabendo
certa vez, foi examinado numa discussão de nossos conterrâneos mais eloquentes e proeminentes em todo tipo de
distinção. Não é que eu despreze o que os mestres e professores de oratória gregos nos legaram, mas, como tais escritos
são acessíveis e estão ao alcance de todos, não podendo, por meio de minha tradução, ser explicados com maior ornato
ou expressos com maior clareza, acredito que me concederás a licença, meu irmão, de colocar acima dos gregos a
autoridade daqueles a quem nossos conterrâneos concederam a suprema excelência na oratória”). De fato, se ali o
Arpinate considerara a autoridade dos protagonistas do diálogo superior à dos rétores, aqui Sulpício a considera superior
à dos filósofos.
Essa é a primeira das muitas tentativas de Crasso, ao longo do diálogo, de se esquivar da discussão técnica sob a 111
alegação de pouco ou parco conhecimento. Cf. Hall 1996 para um tratamento aprofundado da questão.
O “como que numa arte” serve como uma espécie de deixa para a pergunta inicial de Sulpício, em 1. 102, sobre o 112
estatuto da retórica como arte.
!19
— Se conseguimos o que nos parecia mais difícil, Crasso — que você chegasse mesmo a
mencionar tais coisas —, agora será nossa culpa, se o liberarmos antes de nos explicar tudo o que
lhe perguntarmos acerca do restante.
101. — Acerca daquilo, suponho, “que souber e puder” — observou Crasso —, como se
costuma escrever nas declarações de aceitação de herança.
Disse Cota então:
— Ora, aquilo que você não puder ou souber, quem de nós é tão impudente a ponto de pretender
que sabe ou pode?
— Com a condição, ademais — continuou Crasso —, de que me seja permitido dizer que não
posso quando não puder e reconhecer que não sei quando não souber, podem perguntar à vontade.
102. — Sendo assim — disse Sulpício —, queremos saber de você, em primeiro lugar, o que
pensa do que Antônio acaba de expor: considera que existe uma arte oratória?
— O quê? Vocês me vêm agora propor, como a um greguinho desocupado e falastrão (ainda
que, talvez, douto e erudito), uma questiúncula dessas, para eu falar dela a meu bel-prazer? Ora, 113
em que momento creem vocês que me detive ou refleti sobre tais coisas, em vez de sempre zombar
da impudência daqueles homens que, mal tomaram assento no auditório, mandam perguntar à
grande multidão se tem alguma pergunta a fazer? 103. Dizem que o primeiro a fazer tal coisa foi
Górgias de Leontinos, que parecia assumir e professar algo absolutamente grandioso ao se declarar
preparado para falar de todos os temas sobre os quais qualquer pessoa quisesse ouvir . Depois, 114
porém, começaram a fazer isso por toda parte e ainda o fazem, não havendo nenhum tema tão
grandioso, tão imprevisto ou tão desconhecido sobre o qual não prometam dizer tudo o que pode ser
dito. 104. Se eu imaginasse que você, Cota, ou você, Sulpício, desejava ouvir a respeito de tais
questões, teria trazido algum grego até aqui, para que nos deleitasse com discussões desse tipo.
Mesmo hoje em dia não é difícil conseguir isso: na casa de Marco Pisão , jovem que já se dedica a 115
esse estudo, está hospedado um homem de extrema inteligência e grande amigo nosso, o
peripatético Estáseas , com quem tenho grande intimidade e é, segundo observo entre os 116
entendidos, o mais proeminente em seu meio.
105. Observou então Múcio:
— De que Estáseas, de que peripatético está falando? Você deve obedecer à vontade destes
jovens, Crasso, que não estão atrás da usual e inútil verborragia de algum grego ou da ladainha das
escolas, mas querem saber o que pensa o homem mais sábio e eloquente de todos, que se destaca
por sua prudência e seu uso da palavra não em manuais, mas nas causas mais importantes e nesta
sede do poder e da glória, aquele cujos passos desejam seguir . 106. Quanto a mim, não apenas 117
Cf. 1. 47 (fala também de Crasso): "Mas eu mesmo não concordava com eles [sc. com os filósofos que acaba de 113
mencionar] nem com o inventor e originador de tais discussões, de longe o mais solene e eloquente de todos na oratória,
Platão, cujo Górgias li então muito atentamente com Cármadas, em Atenas. Nesse livro, admirava Platão sobretudo pelo
fato de, ao zombar dos oradores, parecer ele próprio um exímio orador. De fato, já há muito a controvérsia em torno de
uma palavra atormenta esses greguinhos, mais ávidos de disputa do que da verdade”
Tal é o ponto de partida do Górgias platônico. Cf. o diálogo entre Querefonte e Górgias, em 447d-448a: “QUE: 114
Entendo. Vou interrogá-lo: Górgias, dize-me se é verdade o que nos conta Cálicles, que prometes responder a qualquer
pergunta que alguém te enderece! GOR: É verdade, Querefonte. Aliás, era precisamente isso o que há pouco prometia, e
digo: há muitos anos ninguém ainda me propôs uma pergunta nova”. Tradução de Lopes 2011.
O cônsul de 61, meros seis anos antes da escrita e publicação do De oratore. 115
Filósofo napolitano.116
Cf. 1. 23 (citado na nota 31, acima) e 1. 98. 117
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sempre o considerei um deus ao discursar , como também nunca o elogiei mais pela eloquência do 118
que pela cortesia. Agora é mais do que decoroso que você faça uso dela e não fuja à discussão que
estes dois jovens de enorme talento desejam que comece.
107. — É claro que desejo fazer a vontade deles — respondeu Crasso —, e não me recusarei a
dizer sucintamente, como é meu costume, o que penso acerca de cada questão. E, em primeiro
lugar, já que, de minha parte, não considero justo negligenciar a sua autoridade, Cévola, respondo
que não creio que exista uma arte oratória, ou, se existe, que ela é debem pouca importância, mas
creio que toda a disputa entre os eruditos reside na controvérsia acerca de uma palavra . 108. 119
Efetivamente, se uma arte, tal como Antônio expôs há pouco, se define por temas totalmente
compreendidos, perfeitamente entendidos, afastados do arbítrio da opinião e abrangidos por uma
ciência, não creio que haja uma arte do orador. É que todos os tipos deste discurso que praticamos
no fórum são variáveis e adequados ao senso comum e popular . 109. Ora, se as características 120
observadas na prática e no uso da oratória foram percebidas e registradas por homens hábeis e
experientes, definidas em termos, elucidadas em gêneros, divididas em espécies — como percebo
que pode ter acontecido —, não vejo por que, se não naquela definição precisa, ao menos de acordo
com esta opinião comum, não possa parecer uma arte. Mas, quer se trate de uma arte, quer de uma
aparência de arte, ela com certeza não é de se desprezar. É preciso que se entenda, porém, que há
elementos mais importantes para se atingir a eloquência.
110. Antônio, então, afirmou estar plenamente de acordo com Crasso, porque, daquela maneira,
nem favorecia a arte, tal como era costume daqueles que depositam nela todo o poder da oratória,
nem, inversamente, a repudiava por completo, tal como a maior parte dos filósofos . Disse ele: 121
— Mas penso, Crasso, que você lhes fará um grande favor se explicar o que considera poder ser
mais proveitoso à oratória do que a própria arte.
111. — Eu direi, sim — respondeu Crasso —, pois já comecei a fazê-lo. Apenas pedirei a vocês
que não divulguem estas minhas inépcias. Porém, vou me controlar para não parecer, como um
mestre ou profissional, que estou fazendo alguma promessa por iniciativa própria, mas, como se
fosse um homem comum e não de todo ignorante em meio à multidão de romanos e à prática no
fórum, que acabei me deparando casualmente com a conversa de vocês. 112. De minha parte,
quando disputava alguma magistratura, costumava, durante a campanha, pedir que Cévola se
mantivesse distante de mim, dizendo-lhe que pretendia passar por inepto (ou seja, pedir votos com
bajulações, o que não pode ser feito corretamente se não se passar por inepto) e que, de todos os
homens, ele era o único em cuja presença eu definitivamente não pretendia passar por inepto. E
Para uma interpretação do léxico do divino no De oratore e sua aplicação às personagens, leia-se o excelente artigo 118
de Stull 2011.
Ou seja, a discussão reside simplesmente no conceito de arte que se tem em mente ao se perguntar se a retórica é 119
uma arte ou não. Crasso responderá com uma disputatio in utramque partem em miniatura, sem tomar posição ao final
dela: arte ou não, a retórica tem sua importância, mas não basta para se atingir a eloquência. Trata-se de uma retomada
das observações feitas por Cícero em 1. 19: “Por essa razão, deixemos de nos perguntar com espanto o motivo da
escassez de oradores eloquentes, uma vez que a eloquência é constituída de todos aqueles elementos em que já é
bastante notável aperfeiçoar-se isoladamente, e exortemos antes nossos filhos e os demais cuja glória e prestígio nos são
caros a tomarem consciência da grandeza da eloquência, e a não confiarem na possibilidade de atingir o que esperam
por meio dos preceitos, mestres ou exercícios de que todos se servem, mas por meio de outros recursos.”
Tal como a maneira de falar do orador deve ser adequada ao cidadão comum, como Cícero observara em 1. 12 120
(citado na nota 4, acima), o mesmo deve acontecer no que concerne aos temas de que trata.
O acordo entre Antônio e Crasso a respeito do estatuto da arte faz desta observação do narrador um comentário à 121
própria posição da obra como um todo. A concordância entre os dois é mais importante ainda por se encontrar no livro
1, em que Crasso e Antônio assumem posições antagônicas sobre quais devem ser os requisitos de um orador. Nos
livros 2 e 3, em contrapartida, denominada τεχνολογία [“tratamento sistemático”] pelo próprio Cícero (cf. Cic. Att. 4.
16. 3), não haverá mais disputationes in utramque partem ou antagonismos conceituais entre os dois protagonistas.
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agora foi justamente ele que o acaso colocou como testemunha e espectador de minhas inépcias.
Ora, o que há de mais inepto do que discursar sobre os discursos, quando o próprio discursar é
sempre inepto se desnecessário?
113. — Vá em frente, Crasso — disse Cévola —, pois assumirei a responsabilidade que você
teme.
— Penso, então — continuou Crasso —, que, em primeiro lugar, a natureza e o engenho
conferem o maior poder à oratória e que, na verdade, não faltou, a esses escritores de manuais
mencionados há pouco por Antônio, doutrina ou método oratórios, mas talento. De fato, é preciso
que algumas operações da mente e da inteligência sejam rápidas, para que sejam perspicazes na
reflexão e no desenvolvimento, férteis no ornato, estáveis e duradouras na memória . 114. E, se 122
houver alguém que considere que tais coisas podem ser adquiridas pela arte (o que não é verdade,
pois já será algo admirável se tais coisas puderem ser estimuladas e impulsionadas pela arte; elas
não podem, porém, ser implantadas ou concedidas pela arte, pois são, todas elas, dádivas da
natureza), o que dizer daquelas que sem dúvida nascem com o próprio homem: a desenvoltura da
fala, o timbre da voz, o fôlego, o vigor, certa conformação e aspecto da fisionomia em geral e do
corpo? 115. E não afirmo que a arte não possa aperfeiçoar a alguns, pois não ignoro que o que é 123
bom pode se tornar melhor pela teoria, e que o que não é excelente pode ser aguçado e corrigido.
Há, porém, alguns homens de fala tão hesitante, ou de voz tão desarmoniosa, ou de expressão e
movimentos corporais tão excessivos e grosseiros, que, ainda que lhes valha a inteligência e a arte,
não podem entrar para o número dos oradores. Em contrapartida, há outros de tal forma hábeis
nesses mesmos aspectos, de tal forma adornados com os dons da natureza, que não parecem ter
nascido, mas ter sido moldados por alguma divindade. 116. É um fardo e um ofício absolutamente
grandioso o orador assumir e professar ser o único, em meio ao silêncio geral, a ser ouvido acerca
dos assuntos mais importantes numa grande reunião de pessoas. É que não há praticamente
ninguém presente que não veja com mais clareza e distinção, naquele que discursa, os erros do que
os acertos. Assim, o menor deslize põe por terra mesmo o que é digno de louvor. 117. E não faço
tais afirmações com a intenção de afastar completamente do estudo da oratória os jovens que acaso
careçam de algum dom natural . Pois quem não vê que mesmo a oratória limitada que Gaio 124
Célio , meu contemporâneo, alcançara, fosse ela qual fosse, conferiu enorme respeito a ele, 125
mesmo sendo um homem novo? Quem não percebe que o contemporâneo de vocês, Quinto 126
Vário , homem grosseiro e repulsivo, obteve grande influência na cidade devido àquela mesma 127
“Reflexão” concerne à inventio, “desenvolvimento” à dispositio, “ornato” à elocutio e “memória” à homônima parte 122
da retórica.
Aspectos da actio, a quinta parte da retórica. 123
Mesma atitude adotada por Cícero no prefácio, em 1. 21 ("Mas não imporei aos oradores nossos conterrâneos, 124
imersos em tamanha ocupação com a vida na Cidade, o fardo imenso de considerar que não lhes é permitido
desconhecer nada, embora o conceito de orador e o próprio fato de que alega discursar bem pareçam uma admissão e
uma promessa de que ele é capaz de discursar de maneira ornada e copiosa acerca de todo e qualquer tema proposto”):
não desencorajar os mais jovens com exigências muito grandes, apesar de apresentá-las (aqui, exigências mais gerais;
no prefácio, demandas concernentes aos conhecimentos do orador).
Um dos cônsules de 94. 125
Homo novus (“homem novo”) designa o senador que não tem antecedentes senatoriais em sua família, tal como o 126
próprio Cícero.
Quinto Vário Híbrida seria tribuno da plebe em 90 e morreriano exílio em 89.127
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capacidade, qualquer que tenha sido? 118. Porém, como estamos investigando o orador em si , 128 129
devemos imaginar, em nosso discurso, um orador isento de qualquer vício e pleno de todo mérito. E
não é pelo fato de o grande número de litígios, a variedade de causas, essa turba rude do fórum
darem espaço mesmo aos oradores mais medíocres que deixaremos de lado o que buscamos. Desse
modo, nas artes em que não se busca uma utilidade indispensável, mas divertimento livre para o
espírito, como somos meticulosos e quase desdenhosos ao julgar! É que não há litígios ou
controvérsias que obriguem os homens a suportar maus atores no teatro, como suportam oradores
ruins no fórum. 119. Portanto, o orador deve cuidar ao máximo não apenas para que satisfaça
àqueles a quem é preciso satisfazer, mas para que pareça admirável àqueles a quem é permitido
julgar livremente . E, se querem saber, declararei abertamente, diante de homens com quem tenho 130
grande intimidade, o que penso, algo que sempre calei e sempre julguei por bem calar: para mim,
mesmo aqueles que discursam melhor e que são capazes de fazê-lo com extrema facilidade e
distinção, se não se põem a discursar de modo receoso e não se perturbam ao começar seu discurso,
parecem quase impudentes . Contudo, é impossível que isso aconteça, 120. pois quanto melhor 131
alguém é capaz de discursar, mais teme a dificuldade da oratória, os diversos resultados de um
discurso e a expectativa das pessoas. Ora, quem não é capaz de realizar ou proferir algo digno do
tema, digno da palavra “orador”, digno dos ouvidos das pessoas, para mim, ainda que se mostre
nervoso ao discursar, parece impudente. De fato, não é sentindo pudor, mas não fazendo o que não
convém, que devemos evitar a reputação de impudência. 121. Já aquele que não tem pudor — e
vejo que isso acontece à maioria — é digno não apenas de censura, mas também de castigo,
segundo penso. De minha parte, costumo não apenas notar em vocês, mas também experimentar eu
mesmo, inúmeras vezes, palidez no começo do discurso e tremor por toda a alma e por todos os
membros. Quando ainda bastante jovem, estava a tal ponto aterrorizado no início de meu discurso
de acusação, que fiquei devendo a Quinto Máximo o enorme favor de suspender a sessão tão logo
me viu enfraquecido e debilitado pelo medo . 132
122. Nesse momento, todos passaram a dar mostras uns aos outros de seu assentimento e a
conversar. É que havia em Crasso um pudor absolutamente admirável, que, contudo, não apenas não
atrapalhava o seu discurso, como ainda lhe era útil pela recomendação que fazia de sua integridade.
Disse então Antônio:
— Muitas vezes notei, Crasso, como observa , que tanto você como os demais grandes 133
oradores (embora, em minha opinião, jamais tenha havido alguém como você), mostravam-se
Em 1. 15 Cícero já elencara como recompensas da oratória a gratia, as opes e a dignitas ("Para tal estudo [sc. da 128
oratória] eram oferecidas, como hoje em dia, as maiores recompensas concernentes à influência, à autoridade ou ao
prestígio"). Aqui, Crasso fala em honos no caso de Gaio Célio, conceito análogo a dignitas, e em gratia no caso de
Quinto Vário.
“O orador em si”, tradução de de oratore: um aceno de Cícero, por meio de Crasso, ao título da obra e, mais 129
importante ainda, a seu enfoque.
Ou seja, o orador deve persuadir os jurados e, ao mesmo tempo, deleitar a corona, ou seja, a multidão de curiosos 130
que podia juntar-se para assistir aos julgamentos.
Talvez o exemplo mais célebre da exploração desse tópos na obra oratória de Cícero seja o exórdio da Defesa de 131
Milão (1-3), em que o Arpinate fala de seu receio de discursar em meio a soldados armados no fórum, situação de
exceção provocada pelos tumultos que se seguiram ao assassinato de Públio Clódio.
Trata-se do processo 30, na lista de Alexander 1990: 16, que elenca todos os passos do De oratore e dos demais 132
textos antigos a ele concernentes. Em 119, o jovem Crasso acusara Gaio Papírio Carbão, possivelmente segundo a lex
Acilia de repetundis [“lei Acília de extorsão”]. Carbão foi condenado e, em consequência, suicidou-se.
Em 1. 121: “De minha parte, costumo não apenas notar em vocês, mas também experimentar eu mesmo, inúmeras 133
vezes, palidez no começo do discurso e tremor por toda a alma e por todos os membros.”
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nervosos no exórdio de seus discursos. 123. Ao me perguntar a razão disso, sobre qual era o motivo
de, quanto mais capaz um orador, maior ser o seu medo, encontrava estas duas causas: a primeira é
que aqueles que aprenderam com a prática e a natureza percebem que, por vezes, mesmo no caso
dos maiores oradores, o resultado do discurso não sai de acordo com o previsto. Desse modo, não
sem motivo, temiam, sempre que discursavam, que acontecesse naquela exata <ocasião> o que
podia acontecer a qualquer momento. 124. A segunda, de que costumo me queixar com frequência,
é que, nas demais artes, os homens considerados e estimados, se alguma vez não fizeram alguma
coisa tão bem quanto de costume, considera-se que não o fizeram porque não queriam ou que,
impedidos por problemas de saúde, não foram capazes de conseguir aquilo que sabem fazer. Dizem
“hoje Róscio não estava com vontade de atuar” ou “estava sofrendo de indigestão”. O erro do 134
orador, quando se nota algum, é visto como um erro causado pela estupidez, 125. e a estupidez não
tem desculpa, porque não há dúvida de que ninguém parece ter sido estúpido por sofrer de
indigestão ou por assim o preferir. Por isso, sofremos um julgamento ainda mais severo ao
discursar, pois, sempre que discursamos, faz-se um julgamento a nosso respeito , e não se julga 135
que o ator que alguma vez cometeu um erro de gesticulação não sabia gesticular, mas o orador cujo
discurso sofreu alguma censura ganha a reputação perene, ou ao menos duradoura, de obtuso. 126.
Quanto à sua observação de que há inúmeras aptidões que, se o orador não apresentar por natureza,
não terá grande ajuda de um professor , concordo plenamente com você e, nesse aspecto, dava 136
minha total aprovação àquele grande mestre, Apolônio de Alabanda , que, embora ensinasse 137
mediante pagamento, não permitia que perdessem tempo em sua escola aqueles que julgasse
incapazes de se tornar oradores, dispensava-os e costumava impelir e exortar cada um deles à arte a
que julgava apto. 127. Na verdade, para a compreensão das demais profissões, basta apenas ser
como uma pessoa normal e poder guardar na mente e confiar à memória o que é ensinado ou
mesmo inculcado, mesmo que se trate de alguém mais obtuso. Não se busca a agilidade da língua,
nem a destreza com as palavras, nem, enfim, aquilo que não podemos moldar para nós mesmos: a
fisionomia, a expressão, a voz . 128. Já no orador, é preciso exigir a agudeza dos dialéticos, os 138
pensamentos dos filósofos, as palavras, praticamente, dos poetas, a memória dos jurisconsultos, a
voz dos atores trágicos, como que os gestos dos grandes atores. Por essa razão, não é possível
encontrar nada mais raro, no gênero humano, do que um orador perfeito . De fato, se os 139
representantes das demais artes alcançaram em alguma medida cada um desses elementos, são
Célebre ator de fins do século II e começo do século I. Num processo de datação incerta (Lintott 2008: 61 estima o 134
ano de 72 como o mais provável, num intervalo possível de 72 a 68) e cujo texto chegou até nós de maneira
fragmentária, a Defesa do ator Quinto Róscio, Cícero defendeu o ator numa causa civil concernente a uma sociedade
concernente aos ganhos financeiros sobre um ator escravo.
Ao contrário do que afirmara Aristóteles, em sua Retórica (1. 3 1358 b 2-6), para quem apenas no gênero epidítico o 135
público faz um julgamento acerca do talento do orador, o Antônio ciceroniano faz a observação sagaz de que,
juntamente com o julgamento do mérito da causa, feito pelos jurados, há também o julgamento das qualidades do
orador, por parte do público.
Em 1. 114:“E, se houver alguém que considere que tais coisas podem ser adquiridas pela arte (o que não é verdade, 136
pois já será algo admirável se tais coisas puderem ser estimuladas e impulsionadas pela arte; elas não podem, porém, ser
implantadas ou concedidas pela arte, pois são, todas elas, dádivas da natureza), o que dizer daquelas que sem dúvida
nascem com o próprio homem: a desenvoltura da fala, o timbre da voz, o fôlego, o vigor, certa conformação e aspecto
da fisionomia em geral e do corpo?”
Rétor do século II (c. 160).137
Eco das palavras de Crasso, em 1. 114 (citado acima, nota ***). Note-se, ali, sobretudo o fim da fala do protagonista: 138
“o que dizer daquelas que sem dúvida nascem com o próprio homem: a desenvoltura da fala, o timbre da voz, o fôlego,
o vigor, certa conformação e aspecto da fisionomia em geral e do corpo?”
Antônio espelha as palavras de Cícero, em 1. 16: “[…] quem não se há de admirar, e com razão, pelo fato de 139
encontrar-se, em todo o registro de gerações, épocas e cidades, tão exíguo número de oradores?”
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aprovados. Porém, a não ser que todos esses elementos estejam presentes no mais alto grau no
orador, os oradores não podem ser aprovados.
129. Disse então Crasso:
— E, no entanto, repare como se toma muito mais cuidado numa atividade tão insignificante e
frívola do que nesta nossa, que é de suma importância, como é sabido. Ora, costumo frequentar 140
as audições de Róscio, e ele diz que ainda não conseguiu encontrar um único discípulo que
realmente aprovasse, não por não haver alguns dignos de aprovação, mas por não ser capaz de
suportar quando há um erro que seja. É que nada é tão visível ou tão firme e duradouro na memória
quanto aquilo que, de algum modo, nos desagrada. 130. Sendo assim, para conformar a excelência
oratória à comparação com esse ator, percebem como o orador nada faz senão com perfeição, nada
senão com extrema beleza, nada senão de modo a ser adequado, comover e deleitar a todos? Assim,
já há muito conseguiu fazer que todo aquele que fosse excelente em determinada profissão fosse
considerado um Róscio em sua categoria. Ao desejar tal acabamento e perfeição no orador, algo de
que eu mesmo estou muito distante, ajo com impudência, pois pretendo que me perdoem, enquanto
eu mesmo não perdoo os outros. Realmente, creio que aquele que não tem capacidade, que comete
erros, que, enfim, não é decoroso, deve, como recomendava Apolônio, ser impelido a fazer aquilo
de que é capaz.
131. — Você está então recomendando, Crasso — perguntou Sulpício —, que eu ou Cota aqui
presente estudemos o direito civil ou a arte militar? Pois quem pode alcançar esse nível de elevação
e perfeição em todos os aspectos?
Respondeu ele, então:
— No que me concerne, foi justamente por perceber que há em vocês uma índole tão brilhante e
notável para discursar que lhes expus todas essas questões , e não foi tanto para dissuadir aqueles 141
que não são capazes que acomodei meu discurso quanto para estimular vocês, que o são. E embora
tenha percebido haver em vocês dois extremo talento e dedicação, aquelas características que
concernem ao aspecto exterior, de que talvez tenha falado mais do que os gregos costumam fazer,
são divinas em você, Sulpício. 132. Quanto a mim, creio nunca ter ouvido alguém mais apto no 142
que diz respeito à gesticulação, à própria postura e à aparência, ou de voz mais sonora e
agradável . Mesmo aqueles a quem tais aptidões foram concedidas em menor proporção pela 143
natureza, podem conseguir fazer uso das que têm de maneira razoável, judiciosa e que não seja
inadequada. Pois é isso que se deve acima de tudo evitar, e oferecer preceitos acerca dessa questão
em particular não é nada fácil para mim, que estou falando de tais questões como um chefe de
família , nem para o próprio Róscio: não raro o ouço dizer que o ponto principal da arte é a 144
O teatro era tradicionalmente visto pela elite romana como uma profissão desprezível do ponto de vista social.140
Cf. 1. 30: “Depois de começar observando que não lhe parecia necessário encorajar Sulpício e Cota, mas, antes, 141
cobrir os dois de elogios por já terem atingido tamanha habilidade, conseguindo não apenas estar à frente dos jovens de
sua idade, mas ser mesmo comparados aos mais velhos, Crasso disse […]”.
Para uma interpretação do léxico do divino no De oratore e sua aplicação às personagens, leia-se o excelente artigo 142
de Stull 2011.
Caracterização próxima da que Cícero oferecerá de Sulpício em Brut. 203: fuit enim Sulpicius omnium vel maxume, 143
quos quidem ego audiverim, grandis et, ut ita dicam, tragicus orator. vox cum magna tum suavis et splendida; gestus et
motus corporis ita venustus, ut tamen ad forum, non ad scaenam institutus videretur; incitata et volubilis nec ea
redundans tamen nec circumfluens oratio [“Sulpício era o orador mais grandioso e, por assim dizer, trágico de todos—
pelo menos dos que eu pude ouvir. Sua voz era forte e, ao mesmo tempo, agradável e límpida; seus gestos e
movimentos corporais eram graciosos, mas apenas a ponto de parecerem empregados no fórum, não no teatro; sua fala
era impetuosa e fluente, embora nem excessiva nem carregada"].
Decorosamente, Crasso procura afastar-se da maneira de falar dos rétores (cf. 1. 133), preferindo identificar-se, 144
antes, com a figura do paterfamilias. O personagem adotará estratégia idêntica em 1. 159.
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adequação, embora esse seja o único ponto que não possa ser ensinado pela arte . 133. Porém, se 145
não se importam, passemos a outro assunto e falemos enfim à nossa maneira, não como os rétores.
— De modo algum — replicou Cota —, pois agora, já que você nos mantém nesta aspiração e
não nos manda a outra atividade, precisamos lhe pedir que nos explique aquilo de que é capaz ao
discursar, seja o que for — nem somos tão ambiciosos: ficamos satisfeitos com essa sua modesta
eloquência —, e perguntamos a você (não vamos nós alcançar mais do que o pouco que você
alcançou ao discursar): uma vez que afirma que não nos falta muito do que se deve buscar na
natureza, o que mais julga você que devemos adquirir?
134. Respondeu então Crasso, sorrindo : 146
— O que pensa que seja, Cota, senão dedicação e uma espécie de paixão amorosa? Sem ela,
tanto na vida como, seguramente, nesse objetivo que você busca, ninguém jamais conseguirá algo
extraordinário. E, na verdade, vejo que não preciso exortá-los a tal, pois percebo que, para chegar
ao ponto de importunar até a mim, vocês ardem de ambição até demais! 135. Mas, com certeza, de
nada servem os esforços para chegar a algum lugar, se você não conhece o que leva e conduz ao
objetivo que almeja. Por isso, já que me atribuem um encargo particularmente leve, e não me
perguntam acerca da arte do orador, mas desta minha capacidade, por menor que seja , exporei a 147
vocês os princípios nada misteriosos, nem muito difíceis, extraordinários ou profundos de minha
prática , de que costumava me servir quando me era permitido, ainda jovem, dedicar-me a essa 148
ocupação.
136. Exultou então Sulpício:
— Que dia tão esperado por nós, Cota! Aquilo que não fui capaz de conseguir com minhas
súplicas, fosse espreitando, fosse espionando — isto é, que me fosse possível, se não observar por
mim mesmo o que Crasso fazia para se preparar ou para discursar, ao menos fazer alguma dedução
baseado em Dífilo, seu secretário e leitor —, espero que tenhamos conseguido, e que venhamos a 149
saber agora por ele mesmo o que durante muito tempo quisemos saber.
137. Respondeu então Crasso:
Em Or. 70, o próprio Cícero observará: ut enim in vita sic in oratione nihil est difficilius quam quid deceat videre 145
[“de fato, tal como na vida, também no discurso não há nada mais difícil de enxergar do que o que convém”].
À brincadeira gentil e elogiosa de Cota, marca de urbanitas e humanitas, Crasso responde com a elegância 146
apropriada de um simples sorriso.
A dissimulatio scientiae é característica que Crasso e Antônio compartilhamcom Sócrates. Cf. Zoll 1962: 114 ss; 147
Leeman & Pinkster 1981: 80-84; Hall 1994: 214, e o prólogo do livro 2, particularmente a síntese da questão feita por
Cícero em 2. 4: "Ora, as coisas se passavam para os dois da seguinte forma: Crasso desejava não tanto que julgassem
que não estudara, quanto que desprezava tais estudos, colocando acima dos gregos a prudência de nossos conterrâneos
em todo tipo de assunto; Antônio, por outro lado, considerava que seu discurso resultaria mais aceitável a este nosso
povo se pensassem que não tinha absolutamente nenhuma instrução. Assim, ambos aparentariam maior seriedade se um
parecesse desprezar, o outro, sequer conhecer os gregos.”
Conforme Cícero observara no prólogo, em 1. 23, a ênfase do diálogo recairia antes sobre a experiência dos 148
protagonistas do que sobre a doutrina dos manuais de retórica: “Não é que eu despreze o que os mestres e professores
de oratória gregos nos legaram, mas, como tais escritos são acessíveis e estão ao alcance de todos, não podendo, por
meio de minha tradução, ser explicados com maior ornato ou expressos com maior clareza, acredito que me concederás
a licença, meu irmão, de colocar acima dos gregos a autoridade daqueles a quem nossos conterrâneos concederam a
suprema excelência na oratória.”
Dífilo, supõe-se, teria sido escravo ou liberto de Crasso. A observação de Sulpício complementa o que o próprio 149
personagem dissera em 1. 97: “Na verdade, mesmo eu, que me inflamara de apreço por vocês dois desde bem jovem —
e por Crasso, mesmo de devoção, uma vez que não me afastava dele em ocasião alguma — jamais consegui arrancar
dele uma única palavra acerca da natureza e dos princípios da oratória, embora eu mesmo o tivesse instigado e não raro
tivesse tentado que Druso o conseguisse. Nesse sentido, você, Antônio — direi a verdade —, nunca deixou de me ajudar
quando o interrogava ou questionava, e inúmeras vezes me ensinou os princípios a que costumava se ater ao discursar.”
Cf. também a fala do mesmo Sulpício em 1. 148 e nota ad locum.
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— E no entanto, Sulpício, creio que, depois de me ouvir, você não admirará tanto o que vou
dizer, quanto considerará que, quando desejava ouvi-lo, não havia motivo para tal. De fato, nada
direi de obscuro, nada digno da expectativa de vocês, nada que não conheçam ou que seja novidade
para alguém. De fato, não negarei que, no princípio, tal como é digno de um homem livre de
nascimento e instruído nas artes liberais, aprendi esses preceitos comuns a todos e banais : 138. o 150
primeiro dever do orador é discursar de maneira adequada a persuadir ; em seguida, todo discurso 151
diz respeito a uma questão de tema indefinido, sem especificação de pessoas ou circunstâncias, ou
de tema restrito a pessoas e circunstâncias determinadas ; 139. em um e outro caso, costuma-se 152
investigar, qualquer que seja o tema que entre em discussão, se o fato aconteceu, ou, caso tenha
acontecido, de que tipo é, ou ainda que denominação recebe, ou, como acrescentam alguns, se
parece ter acontecido de maneira justificada ou não ; 140. há controvérsias baseadas também na 153
interpretação do texto, em que algo foi escrito de modo ambíguo, contraditório ou de tal maneira
que a escrita difere da intenção; há certos argumentos próprios subordinados a cada uma dessas
partes . 141. Ora, quanto às causas que são distintas da questão geral, em parte dizem respeito aos 154
julgamentos, em parte, às deliberações; há ainda um terceiro gênero, que consiste nos louvores ou
nos vitupérios das pessoas ; há certos lugares-comuns que empregamos nos julgamentos, nos 155
quais se busca a equidade; outros, nas deliberações, que são inteiramente voltados ao proveito
daqueles a quem aconselhamos; outros, ainda, nos louvores, em que tudo diz respeito ao prestígio
das pessoas. 142. E uma vez que se dividiu todo o poder e faculdade do orador em cinco partes —
dever, em primeiro lugar, encontrar o que dizer; em seguida, arranjar e dispor o que se encontrou
não apenas segundo uma ordem, mas também com discernimento, segundo sua importância; então,
enfim, vesti-lo e orná-lo com o discurso; depois, guardá-lo na memória; por último, atuar com
dignidade e graça —, 143. ficara sabendo e aprendera também o seguinte: antes de entrarmos no 156
assunto, é preciso, inicialmente, cativar os ânimos dos ouvintes ; em seguida, descrever o caso ; 157 158
Os preceitos dos rétores, de que temos exemplo na Retórica a Herênio e no Da invenção. 150
Cf. Cícero, Inv. 1. 6: officium autem eius facultatis [sc. oratoriae] videtur esse dicere adposite ad persuasionem; finis 151
persuadere dictione [“o ofício dessa faculdade [sc. oratória] parece ser discursar de maneira adequada à persuasão; seu
fim, persuadir pela fala”]; Rhet. Her. 1. 2: oratoris officium est de iis rebus posse dicere, quae res ad usum civilem
moribus ac legibus constitutae sunt, cum assensione auditorum, quoad eius rei fieri poterit [“o ofício do orador é ser
capaz de discursar sobre as questões que foram estabelecidas pela praxe e pelas leis para o uso dos cidadãos, com o
assentimento dos ouvintes, na medida do possível”].
Trata-se da doutrina das théseis e hypothéseis (quaestio e causa na tradução ciceroniana), de provável origem 152
hermagórica.
Referência à doutrina das stáseis, traduzidas em latim primeiramente por constitutiones e, depois, por status 153
quaestionis. Seu primeiro sistematizador também teria sido Hermágoras. Os status em questão aqui são o conjectural
(“se o fato aconteceu”), o qualitativo (“de que tipo é”), o genérico (“que denominação recebe”) e o legal (“se parece ter
acontecido de maneira justificada ou não”).
Trata-se dos loci communes (“lugares-comuns”), no jargão técnico. 154
Crasso evita os termos mais técnicos e abstratos para se referir ao gênero judicial (“julgamentos”), ao deliberativo 155
(“deliberações”) e demonstrativo (“louvores ou vitupérios”), empregando, antes, os termos mais concretos que denotam
as ações envolvidas em cada gênero.
Crasso tem em mente a tradicional divisão das partes da retórica, aqui referidas como partes do “poder e faculdade 156
do orador”: respectivamente, invenção, disposição, elocução, memória e atuação.
Crasso trata agora das partes do discurso, começando pelo exórdio, a que alude por uma de suas funções, conhecida 157
tradicionalmente como captatio benevolentiae [“captação da benevolência”].
Na descriptio (“descrição”) ou propositio (“exposição”).158
!27
depois, estabelecer a controvérsia ; então, provar aquilo que pretendemos ; em seguida, refutar o 159 160
que se afirma em contrário e, no fim do discurso, amplificar e aumentar os elementos a nosso 161
favor e debilitar e enfraquecer os favoráveis ao oponente . 144. Eu ouvira também o que se ensina 162
acerca dos ornamentos do discurso propriamente dito: em primeiro lugar, preceitua-se que, no
discurso, falemos de maneira pura e correta ; em seguida, de modo claro e límpido ; então, 163 164
ornadamente ; depois, de maneira adequada à dignidade dos temas e, por assim dizer, decorosa ; 165 166
e tomara conhecimento dos preceitos de cada um desses tópicos. 145. Além disso, notara que se
emprega a arte mesmo nos aspectos que são mais próprios da natureza. De fato, eu tomara contato
com alguns preceitos acerca da atuação e da memória — breves, mas acompanhados de muita
prática . Toda a doutrina desses mestres ocupa-se quase sempre dessas questões; se disser que ela 167
não ajuda em nada, estarei mentindo . É que apresenta certos elementos que servem, por assim 168
dizer, de lembrete ao orador, para que a ele possa referir cada ponto e, observando-o, não se afaste
do que quer que tenha estabelecido como meta . 146. Porém, creio que há, em todos esses 169
preceitos, o seguinte sentido: não é que, seguindo-os, os oradores tenham alcançado a glória da
eloquência , mas sim que certas pessoas observaram e classificaram o que os homens eloquentes 170
fazem de maneira espontânea. Desse modo, não foi a eloquência quenasceu da teoria, mas a teoria
que nasceu da eloquência. No entanto, como disse anteriormente, não a desprezo , pois, embora 171
não seja tão necessária para se discursar bem, não é indigna de ser conhecida por um homem livre.
147. Há também alguns exercícios que vocês devem praticar — ainda que já há muito tenham
iniciado suas carreiras —, para não falar dos que estão ingressando nesta atividade e que podem,
por meios desses exercícios recreativos , por assim dizer, aprender de antemão e praticar o que 172
devem fazer nessa espécie de campo de batalha do fórum.
Na divisio (“divisão”) ou partitio (“partição”).159
Na confirmatio (“confirmação”) ou probatio (“comprovação”).160
Na refutatio (“refutação”).161
Na peroratio (“peroração”). 162
Crasso passa agora à doutrina das virtudes do discurso. A primeira é chamada de hellenismós (“bom grego”, “grego 163
correto”, “correção gramatical”) na tradição grega e Latinitas (“bom latim”, “latim correto”, “correção gramatical”) na
latina.
Perpicuitas (“clareza”) no jargão técnico. 164
Ornatus (“ornato”) no jargão técnico.165
Aptum (“adequado”) ou decorum (“decoro”) no jargão técnico.166
Um exemplo supérstite do treino da memória encontra-se em Rhet. Her. 3. 28-40.167
Posição semelhante à de Cícero, em 1. 23, citado acima (nota 17). Atente-se, ali, sobretudo à observação “Não é que 168
eu despreze o que os mestres e professores de oratória gregos nos legaram […]”.
Para Crasso, a doutrina retórica deve servir como mera baliza, referência para o orador guiar-se na prática das 169
causas.
Uma vez mais ecoa pensamento semelhante ao de Cícero, em 1. 19: “Por essa razão, deixemos de nos perguntar com 170
espanto o motivo da escassez de oradores eloquentes, uma vez que a eloquência é constituída de todos aqueles
elementos em que já é bastante notável aperfeiçoar-se isoladamente, e exortemos antes nossos filhos e os demais cuja
glória e prestígio nos são caros a tomarem consciência da grandeza da eloquência, e a não confiarem na possibilidade
de atingir o que esperam por meio dos preceitos, mestres ou exercícios de que todos se servem, mas por meio de outros
recursos.”
Cf. 1. 145 e nota ad locum.171
Trata-se da prática posteriormente consagrada, em época imperial, como declamatio (“declamação”).172
!28
148. — É exatamente isso — disse Sulpício — que queremos saber. No entanto, desejamos
ouvir essas questões acerca da arte que você percorreu com brevidade, embora também a nós não
sejam desconhecidas . Mas deixemos isso para depois: agora queremos saber o que pensa acerca 173
dos exercícios em si.
149. — No que me concerne — continuou Crasso —, eu aprovo esse exercício que vocês
costumam fazer: uma vez proposta uma causa semelhante àquelas que são levadas ao fórum,
discursam da maneira mais adequada possível à realidade. A maioria, porém, exercita apenas a voz
nesses exercícios (e isso sem critério) e as próprias forças, estimulando a agilidade da língua e
deleitando-se com a abundância das palavras. O que os faz cair em erro é terem ouvido dizer que,
em geral, é discursando que se apreende a discursar . 150. Na verdade, também se diz que, 174
discursando mal, é muito fácil aprender a discursar mal. Por isso, embora muitas vezes também seja
útil discursar de improviso nesses mesmos exercícios, mais útil ainda é separar algum tempo para
refletir e discursar de maneira mais preparada e precisa . O mais importante é aquilo que, a bem 175
da verdade, menos fazemos, pois exige muito trabalho, o que a maioria de nós evita: escrever o
máximo possível. A escrita é a melhor e mais importante realizadora e mestra do discurso . E não 176
é para menos: se a preparação e a reflexão superam facilmente o discurso improvisado e fortuito, é
evidente que a escrita assídua e cuidadosa será superior a este. 151. Pois todos os lugares-comuns,
provenham eles de uma arte ou de uma espécie de habilidade natural e experiência , desde que 177
inerentes ao assunto sobre o qual escrevemos, revelam-se e ocorrem a nós quando os investigamos e
contemplamos com toda a agudeza de nossa inteligência. É forçoso que todos os pensamentos e
todas as palavras mais adequadas a cada situação, bem como as mais distintas, surjam e sucedam-se
sob a ponta do estilo . Além disso, quando se escreve, a própria disposição e o arranjo das 178
palavras são realizados segundo um ritmo e cadência próprios da oratória, não da poesia . 152. 179
Esses são os elementos que provocam os clamores e a admiração pelos bons oradores, e ninguém os
O comentário de Sulpício ilustra bem a maneira como os personagens mais novos representam o leitor-alvo do De 173
oratore: um público já iniciado na doutrina, conhecedor da teoria retórica básica encontrada nos manuais de retórica.
Como se a mera prática, sem reflexão, bastasse para o aprendizado. 174
De maneira análoga, Antônio, em 2. 99-103, apontará a reflexão cuidadosa sobre os vários aspectos da causa como o 175
seu primeiro passo: “Então, para finalmente introduzir nas causas o orador que estamos formando, e sobretudo naquelas
que demandam um pouco mais de esforço, os julgamentos e processos […], preceituaremos a ele, primeiramente, que
conheça de maneira cuidadosa e aprofundada qualquer causa que venha a tratar. Isso não é ensinado na escola, pois se
confiam causas fáceis aos meninos: ‘uma lei proíbe que um estrangeiro escale a muralha; ele escala, repele os inimigos,
é acusado’. De nada vale conhecer uma causa desse tipo. Portanto, nada ensinam corretamente acerca do aprendizado
de uma causa, [pois essa é quase sempre uma fórmula das causas na escola]. No fórum, porém, é preciso conhecer a
fundo registros, testemunhos, acordos, convenções, estipulações, parentescos por consanguinidade, parentescos por
afinidade, decretos, pareceres de jurisconsultos, a vida, enfim, daqueles que estão envolvidos na causa. […] De minha
parte, costumo esforçar-me para que cada um me informe, ele próprio, a respeito de seu caso, e para que ninguém mais
esteja presente, a fim de que fale mais à vontade; costumo também defender a causa do adversário, de modo que o
acusado defenda a sua e exponha abertamente o que refletiu a respeito de seu caso. Assim, quando ele se vai, assumo
sozinho, com total imparcialidade, três papéis: o meu, o do adversário, o do juiz. Se um aspecto é de tal sorte que traga
mais ajuda do que prejuízo, julgo que devo utilizá-lo em meu discurso; quando me deparo com mais desvantagem do
que vantagem, rejeito-o e abandono-o totalmente. Dessa forma, consigo refletir sobre meu discurso em uma ocasião e
discursar em outra, duas coisas que os de natureza mais apressada fazem ao mesmo tempo. Mas com certeza eles
discursariam ainda melhor, se considerassem que devem eleger um momento para refletir, outro, para discursar.”
A observação de Crasso reflete muito mais a prática de Cícero do que a sua própria, já que Crasso pouco publicara de 176
seus discursos.
Crasso insiste na indiferença do status da retórica como arte ou não. 177
O stilus era uma espécie de estilete usado como instrumento de escrita sobre cera.178
Cerca de dez anos depois da escrita do De oratore, Cícero publicaria o Orator, obra em grande parte dedicada à 179
teoria do ritmo da prosa oratória.
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alcançará se não se dedicar à escrita com assiduidade e durante muito tempo, ainda que se exercite
intensamente nessas falas improvisadas. Além disso, aquele que passa do hábito de escrever à
pratica do discurso traz consigo tal capacidade que, mesmo discursando de improviso, o que fala
parece semelhante ao que escreve. Além disso, se alguma vez, ao discursar, trouxer uma parte
escrita, tão logo acabe de proferi-la, o restante do discurso seguirá de maneira semelhante . 153. 180
Tal como, quando os remadores param de remar numa embarcação em alta velocidade, o próprio
navio retém o movimento e seu curso mesmo depois de cessados o impulso e o movimento dos
remos, também no caso de um discurso contínuo, mesmo quando termina a parteescrita, o restante
do discurso conserva o mesmo rumo em virtude da semelhança com a parte escrita e da energia nela
empregada.
154. No meu caso, quando jovem, costumava, em minhas preparações diárias, propor a mim
mesmo sobretudo aquele exercício que sabia ser costumeiramente utilizado por Gaio Carbão, meu
famoso inimigo : depois de propor-me os versos mais elevados ou a leitura de algum discurso até 181
o limite em que podia abarcá-los em minha memória, pronunciar exatamente o mesmo assunto lido
com as palavras mais diversas possível daquelas que lera. No entanto, percebi, posteriormente, que
havia um problema nesse exercício: as palavras mais apropriadas a cada coisa, assim como as mais
distintas e as melhores, já haviam sido empregadas por Ênio, se me exercitava em seus versos, ou
por Graco, se acaso me tivesse proposto algum discurso seu. Dessa forma, se empregasse as
mesmas palavras, de nada me valeria; se usasse outras, isso seria até prejudicial, já que me
acostumaria a usar as menos apropriadas. 155. Posteriormente, decidi, e foi o que fiz já um pouco
mais velho, parafrasear os discursos gregos dos maiores oradores. Depois de lê-los, conseguia, ao
traduzir em latim o que lera em grego, não apenas empregar as melhores palavras, ainda que de uso
comum, mas também, por imitação, forjar alguns termos novos para nossos conterrâneos, contanto
que apropriados. 156. Já os movimentos e os exercícios de voz, de respiração, do corpo como um
todo e da própria língua não carecem tanto de arte quanto de trabalho. Em tais aspectos, devemos
ter extremo cuidado ao considerar aqueles que imitarmos, a quem desejamos nos assemelhar.
Devemos observar não apenas os oradores, mas também os atores, para não passarmos a ter alguma
deformidade ou defeito em virtude de algum mau hábito. 157. Devemos exercitar também nossa
memória, aprendendo de cor o maior número de escritos possível, tanto os nossos como os dos
outros. E nesse exercício não me desagrada nem um pouco empregar, se temos o costume, também
aquele método dos lugares e das imagens que é ensinado na arte . É preciso, em seguida, transferir 182
esse método oratório de tais exercícios domésticos e recônditos para o meio das fileiras, para a
poeira, para o alarido, para os acampamentos e para o combate do fórum, expor-se à visão de todos,
pôr à prova as forças do engenho e levar aquela preparação privada para a luz da realidade. 158. É
preciso ler também os poetas, conhecer as obras dos historiadores, ler e consultar com assiduidade
os mestres e escritores de todas as artes liberais, bem como citá-los, interpretá-los, corrigi-los,
criticá-los, refutá-los como exercício. Acerca de qualquer tema, é preciso discutir os dois lados da
questão, bem como extrair e mencionar, de cada tema, qualquer elemento que possa parecer
plausível. 159. É preciso aprender a fundo o direito civil, conhecer as leis, estudar toda a história
antiga; conhecer a praxe senatorial, a organização da República, os juramentos dos aliados, os
tratados, os pactos, os interesses do Império. É preciso ainda extrair de todo tipo de urbanidade uma
Esse parece ter sido o costume de Cícero, que, segundo Quintiliano (11. 1. 30), escrevia muitas vezes apenas o 180
prólogo ou parte deste antes de proferir um discurso, ficando a elaboração da versão escrita completa como um estágio
posterior ao seu proferimento.
Em 119, o jovem Crasso acusara Gaio Papírio Carbão, possivelmente segundo a lex Acilia de repetundis [“lei Acília 181
de extorsão”]. Carbão foi condenado e, em consequência, suicidou-se. Trata-se do processo 30, na lista de Alexander
1990: 16, que elenca todos os passos do De oratore e dos demais textos antigos a ele concernentes.
Exercício ensinado em Rhet. Her. 2. 30-39.182
!30
espécie de graça espirituosa, para espalhá-la, como sal, sobre todo o discurso. Revelei-lhes tudo o
que pensava; o mesmo, talvez, que responderia qualquer chefe de família se vocês o questionassem,
depois de retirá-lo de alguma reunião .183
160. Depois que Crasso disse essas palavras, seguiu-se um silêncio. Porém, embora parecesse, aos
presentes, ter falado o bastante para aquilo que se propusera, sentiam que havia terminado muito
mais rapidamente do que desejavam. Disse então Cévola:
— E então, Cota? Por que se calam? Nada mais lhes ocorre para perguntarem a Crasso?
161. Respondeu ele:
— Ora, é exatamente nisso que estou pensando. Tamanho foi o fluxo de suas palavras, e de
tal forma seu discurso voou, que pude notar seu ímpeto e rapidez, mas não acompanhar seus passos
e seu andamento. Tal como se tivesse vindo a uma casa opulenta e repleta, sem que sua tapeçaria
tivesse sido estendida, ou sua prataria exposta, ou seus quadros e estátuas colocados à vista, mas
com todas essas inúmeras e magníficas peças amontoadas e ocultas, assim, há pouco, no discurso de
Crasso, percebi as riquezas e os ornamentos de sua inteligência através de certos invólucros e capas.
Embora desejasse contemplá-los, porém, quase não era possível vê-los. Dessa forma, nem posso
dizer que ignoro de todo suas posses, nem que as conheço totalmente ou que as vi.
162. — Por que então você não faz o mesmo — perguntou Cévola —, que faria caso fosse a
uma casa ou vila repleta de ornamentos? Se estivessem guardados, como afirma, e você tivesse
grande desejo de vê-las, não hesitaria em pedir a seu dono que mandasse colocá-las à mostra,
sobretudo no caso de um amigo íntimo. Do mesmo modo, você vai agora pedir a Crasso que revele,
colocando cada coisa em seu devido lugar, aquela abundância de seus ornamentos, que, amontoada
num único lugar, vimos rapidamente, como que de relance, ao passar por eles.
163. — Eu é que o peço a você — respondeu Cota —, pois o pudor impede a mim e a
Sulpício aqui presente de pedir tais coisas ao mais austero dos homens, que sempre desprezou esse
tipo de discussão, pois talvez lhe pareçam rudimentos de crianças. Ora, conceda-nos, Cévola, esse
favor, e faça que Crasso desenvolva e destrinche para nós esses pontos que, em sua fala, condensou
e acumulou num espaço por demais estreito.
164. — Ora — respondeu Múcio —, de início eu queria fazer isso mais por vocês do que
por mim. E não desejava tanto tal discussão da parte de Crasso quanto me deleito com sua maneira
de falar em suas causas. Agora, porém, Crasso, peço-lhe já também por mim que, por termos tanto
tempo livre como há muito não tínhamos, não se recuse a terminar de construir a obra que já
começou, pois percebo que o projeto da obra é maior e melhor do que o esperado, e tem minha total
aprovação.
165. — Efetivamente — respondeu Crasso —, não me canso de me surpreender pelo fato de
até mesmo você, Cévola, desejar saber algo de que não tenho tanto domínio quanto aqueles que o
ensinam, nem é de tal natureza que, mesmo se o dominasse perfeitamente, seria digno dessa sua
sabedoria e de seus ouvidos.
— É mesmo? — replicou Cévola —. Se você pensa que mal cabe a esta minha idade ouvir
acerca dessas questões comuns e banais, será que também podemos deixar de lado aquelas que,
segundo você disse, o orador deve conhecer: a natureza dos homens, seu caráter, os métodos com
que se incitam e reprimem as mentes dos homens, a história, a antiguidade, a administração do
estado, por fim, o nosso próprio direito civil? Ora, eu sabia que sua prudência apresentava todo esse
conhecimento e riqueza de temas, mas nunca notara tão suntuoso aparato entre os recursos de um
orador.
166. — Você é capaz então — continuou Crasso —, deixando de lado os demais detalhes, que
são inúmeros e intermináveis, e passando propriamente ao seu direito civil, de considerar oradores
Cf. 1. 132 e nota ad locum. 183
!31
aqueles homens que Públio Cévola , apesar de sua pressa para ir ao Campo de Marte , teve de 184 185
aguentar durante várias horas, ao mesmo tempo rindo-se e irritando-se, enquanto Hipseu , aos 186 187
brados, procurava, com total prolixidade, obter do pretor Marco Crasso a permissão paraque seu 188
cliente perdesse a causa, ao passo que Gneu Otávio , um consular, recusava-se, num discurso não 189
menos longo, a deixar seu adversário perder a causa e seu cliente se livrar de um processo de tutela
desonroso, bem como de qualquer aborrecimento, pela estupidez de seu adversário?
167. — Na verdade — respondeu Cévola — (lembro-me de Múcio me falar a respeito), não 190
apenas considerava esses dois indignos do nome de orador, mas até mesmo de pôr os pés no fórum.
— E contudo — continuou Crasso —, não faltavam a tais patronos eloquência, método ou
habilidade em seus discursos, mas conhecimento de direito civil, pois um, apelando à lei, exigia
mais do que permitia a Lei das Doze Tábuas — assim que o obtivesse perderia a causa —, o outro
considerava injusto que se exigisse mais do que constava da fórmula da ação, sem perceber que, em
caso de tal exigência, o adversário perderia o pleito . 168. Ora, há poucos dias, quando assistia, 191
como consultor jurídico, o tribunal do pretor urbano , meu amigo Quinto Pompeu , acreditam 192 193
vocês que um desses homens expressivos exigia que fosse concedida ao credor a antiga e usual
cláusula ‘do montante que já venceu’? É que não compreendera que isso fora estabelecido em prol
do credor, de modo que, se o devedor demonstrasse ao juiz que o dinheiro havia sido exigido antes
Públio Múcio Cévola, o Pontífice, cônsul em 133 com Lúcio Calpúrnio Pisão Frugi, pontífice máximo desde 130. 184
Como vários membros da família (note-se a referência de Crasso, dirigindo-se ao personagem Quinto Múcio Cévola, ao
“seu direito civil”), distinguiu-se por seu conhecimento da lei, tornando públicos os Annales Maximi (cf. 2.52) e
escrevendo 10 libelli de conteúdo legal. Cf. RE s.v. Mucius (17); BNP s. v. Mucius (I.5); MRR 1: 492; 503; Sumner
1973: 62.
Para jogar péla? Cf. 1.217, sobre o mesmo Públio Cévola: “Se os melhores em alguma arte e faculdade, caso 185
também tenham dominado outra arte, conseguirem que o que sabem a mais pareça ser uma parte daquilo em que são
excelentes, será possível, com esse raciocínio, dizer que jogar bem a péla e o jogo das doze linhas é próprio do direito
civil, uma vez que Públio Múcio se saía muito bem em ambos”. Como bem observam LPN 31 ad loc., o jogo de péla é
citado mais de uma vez, no De oratore, como exemplo de ócio. Cf. 1.73; 2.22.
Para este sentido de exspecto, cf. LPN 31 ad loc. Conforme aponta Iso 2002: 150, n. 160, a obrigação de permanecer 186
no tribunal devia-se ao fato de se tratar de uma consultoria prestada pelo jurisconsulto ao pretor, durante a fase de
instrução do processo.
Marco Pláucio Hipseu, cônsul em 125 com Marco Fúlvio Flaco. Cf. RE s.v. Plautius (21); BNP s.v. Plautius (I.7); 187
MRR 1: 510.
Marco Licínio Crasso, cognominado Ageslato (“o que nunca ri”), pretor em 127 ou 126. Cf. RE s.v. Licinius (57); 188
MRR 1: 508.
Gneu Otávio, cônsul em 128 com Tito Ânio Rufo. Cf. RE s.v. Octavius (18); BNP s.v. Octavius (I.5); MRR 1: 506.189
Trata-se do Públio Cévola mencionado em 1.166.190
A Lei das Doze Tábuas (8.20b) estipulava que, em caso de fraude de um tutor em relação aos bens sob tutela, a parte 191
lesada teria direito a demandar exatamente o dobro dos bens em questão. No caso comentado por Crasso, ainda em sua
fase preliminar ou de instrução (in iure), Hipseu, representando a parte lesada, exigia mais que o dobro em sua
demanda, o que invalidaria o processo, ao passo que Gneu Otávio, representando o tutor, em vez de simplesmente
apontar a ilegalidade da demanda e exigir a consequente anulação do processo, insistia em apontar a injustiça da
demanda de Hipseu, provavelmente exigindo sua diminuição e, por extensão, não permitindo que este arruinasse sua
própria causa. Em caso de inadequação da demanda em relação à lei, não se passaria à segunda fase do processo, o
julgamento propriamente dito (apud iudicem), livrando-se o tutor do aborrecimento e da infâmia associados ao
processo. Datação: 127, 126 ou 121. Cf. referências e detalhes em ROL III 488-491; TLRR 12-13, caso 22; Merklin
[1976] 2006: 601-602, ns. 25 e 26; MW 95, n. 121; Iso 2002: 151, n. 165.
Não havia exigência mínima de conhecimento de direito para que o pretor presidisse um tribunal, mas ele podia 192
escolher livremente um conselho que o assistisse juridicamente em tal função. Cf. LPN 37 ad loc..
Quinto Pompeu Rufo, pretor em 91, data dramática do diálogo, e cônsul em 88 com Lúcio Cornélio Sula. Cf. RE s.v. 193
Pompeius (39); BNP s.v. Pompeius (I.6); MRR 2: 20; 39.
!32
do vencimento, quando o credor o peticionasse novamente, não seria impedido pela cláusula
‘porque tal questão fora levada a juízo anteriormente’ . 169. Assim, o que se pode fazer ou 194
mencionar de mais vergonhoso do que alguém que assumiu a função de defender os amigos nos
processos e nas causas, socorrer os que estão em perigo, ajudar os aflitos, animar os abatidos, de tal
forma enganar-se a respeito de questões de menor significado e importância, que a uns pareça digno
de pena, a outros, motivo de chacota? 170. De minha parte, considero que meu parente, o famoso
Públio Crasso, o Rico , era um homem refinado e distinto em muitos outros aspectos, mas 195
sobretudo digno de elogio e louvor pelo fato de que, sendo irmão de Públio Cévola , costumava 196
inúmeras vezes dizer-lhe que este não poderia, no âmbito do direito civil, estar à altura de tal arte
sem antes obter o domínio da oratória — algo que seu filho , que foi meu colega de consulado , 197 198
alcançou —, e que ele mesmo não começara a tratar e defender as causas de seus amigos antes de
aprender o direito civil. 171. E quanto ao famoso Marco Catão? Não tinha ele uma eloquência tão 199
grande quanto aquela época e aquela geração foram capazes de produzir nesta cidade, e não era o
mais versado de todos no direito civil? Já há algum tempo estou um tanto constrangido por falar a
respeito desse assunto, porque está aqui presente um homem de grande oratória, um orador que
admiro particularmente e no mais alto grau. Contudo, ele sempre desprezou o direito civil . 172. 200
Porém, uma vez que vocês quiseram se inteirar de meu pensamento e opinião, nada ocultarei e, na
medida do possível, vou lhes expor o que penso de cada tema.
O poder absolutamente incrível, praticamente único e divino do engenho de Antônio, ainda que
desprovido desse conhecimento do direito, parece ser capaz de proteger e defender a si mesmo com
as demais armas da prudência. Por isso, vamos considerá-lo uma exceção. Já quanto aos demais,
não hesitarei, em meu veredito, em condenar primeiramente sua inércia, depois, também sua
impudência. 173. De fato, correr de um lado para o outro no fórum, passar o tempo no tribunal e nas
tribunas dos pretores, encarregar-se de processos civis de questões importantes, nas quais não raro
se discute, não o fato, mas a equidade e a legalidade, ocupar-se das causas centunvirais , em que 201
Caso o credor demandasse, em tribunal, o pagamento de uma dívida antes de seu vencimento, perderia 194
automaticamente o processo. A cláusula mencionada por Crasso (‘do montante que já venceu’) servia para proteger o
credor: se este a incluísse em sua petição, na fase de instrução do processo, garantia a não anulação do litígio mesmo em
caso de demanda antecipada da soma devida. A incompetência do patrono do devedor reside no fato de insistir na
inserção da cláusula na fórmula — omitida por negligência do devedor, bem entendido —, impedindo, assim, que seu
constituinte vencesse a causa por conta de tal detalhe jurídico.
Públio Licínio Crasso Muciano, o Rico, cônsul em 131 com Lúcio Valério Flaco. Cf. RE s.v. Licinius (72); BNP s.v. 195
Licinius (I.19); MRR 1: 500; Sumner 1973: 52.
Trata-se do cônsul de 133 mencionado em 1.166.196
Quinto Múcio Cévola, o Pontífice, cônsul em 95 com Crasso (cf. RE s.v. Mucius (22); BNP s.v. Mucius (I.9); MRR 197
2: 11; Sumner 1973: 97). Trata-se do filho do Públio Múcio Cévola citado em 1.166, a não se confundir com Quinto
Múcio Cévola,o Áugure, seu tio, personagem do De oratore. LPN 41 apresentam uma tabela genealógica dos Cévolas.
Em 95, 4 anos antes da data dramática do diálogo, portanto.198
Marco Pórcio Catão, o Censor, cônsul em 195 com Lúcio Valério Flaco; censor em 184. Cf. RE s.v. Cato (9); BNP 199
Cato s.v. Cato (1); MRR 1: 339; 374; Sumner 1973: 33.
Crasso refere-se a Antônio. Sobre seu desconhecimento de direito e de várias outros ramos do saber, cf. Brut. 214. A 200
cuidadosa observação de Crasso, essencial para que possa prosseguir em sua crítica e condenação dos oradores
ignorantes em direito sem causar ofensa a seu convidado, é exemplo de sua humanitas, a que tantas vezes acena ao
longo do diálogo. Leia-se, a respeito, Hall 1996 e Fantham 2004: 72-73.
Causas defendidas perante o tribunal dos centúnviros, composto por 3 membros de cada uma das 35 tribos e cuja 201
principal incumbência era julgar disputas de heranças e propriedade.
!33
se debatem os princípios jurídicos de usucapião , tutela , parentesco , agnação , aluvião , 202 203 204 205 206
formação de ilhas , obrigação por dívida , propriedade, meação de paredes , iluminação , 207 208 209 210
estilicídio , anulação ou confirmação de testamentos, dentre inumeráveis outras questões, quando 211
se ignora completamente o que é próprio, o que é alheio, por que motivo, enfim, alguém é cidadão
ou estrangeiro, escravo ou homem livre, é próprio de uma extraordinária impudência. 174. É
realmente uma arrogância risível confessar não ter experiência em embarcações menores mas, ao
mesmo tempo, afirmar ter aprendido a pilotar quinquerremes ou navios ainda maiores. Quando, 212
numa audiência, você se deixa enganar por uma estipulação insignificante do adversário, e quando
chancela documentos de seu cliente em que há um texto capcioso, haverei eu de considerar que lhe
devo confiar uma causa mais importante? Francamente, seria mais fácil quem virou um pequeno
barco de dois remos no porto pilotar a nau dos argonautas no Ponto Euxino! 175. Ora, dado que 213
O usucapião era o direito de posse de um bem pertencente a terceiros por uso continuado, de acordo com um período 202
de tempo estabelecido por lei. Segundo a Lei das Doze Tábuas, tal período de tempo era de dois anos para imóveis
(fundi) e um ano para os demais bens (res). O usucapião pressupunha a boa-fé (bona fides) e a justa causa (iusta causa)
da parte do possessor. Cf. EDRL s.v. usucapio; Mousourakis 2012: 134-137.
A tutela era o direito de proteger uma pessoa de nascimento livre e sui iuris (ou seja, não mais sob o domínio do 203
paterfamilias e, no caso de mulheres, também do marido) e sua propriedade. Havia dois tipos: a tutela dos impúberes
(tutela impuberum), e a tutela das mulheres (tutela mulierum). Cf. EDRL s.v. tutela impuberum; tutela mulierum
Mousorakis 2012: 109-114.
A gentilitas era a relação de parentesco entre membros de uma mesma gens (“linhagem”, “clã”).204
A agnação (agnatio) é a relação entre todas as pessoas que se encontram sob o domínio (potestas) de um mesmo 205
chefe de família (paterfamilias) ou que se encontrariam caso ele estivesse vivo, sendo irrelevante a relação de sangue
entre os agnatos (agnati) para a época em questão. No direito civil, era usada para regulamentar os casos de pessoas
intestadas e de tutoria. Cf. EDRL s.v. agnatio; Mousorakis 2012: 89.
O aluvião (alluuio) é o acréscimo de terra trazida por um rio de uma propriedade ribeirinha a outra, por 206
assoreamento.Quando tal acréscimo era considerado inseparável da propriedade de chegada, o proprietário desta
passava a ter direito à sua posse, ao passo que o proprietário original o perdia. Cf. EDRL s.v. alluuio; Mousorakis 2012:
141.
Segundo MW 97, n. 129, tratar-se-ia aqui ou de formação de ilhas num rio ou no novo curso de um rio, que seriam 207
então divididas entre os donos das propriedades ribeirinhas.
Pelo nexum, de instituição antiquíssima, anterior à Lei das Doze Tábuas, o devedor, em caso de insolvência, 208
submetia-se ao credor como uma espécie de “escravo temporário”, até o quitamento da dívida. Cf. EDRL s.v. nexum.
Trata-se da regulamentação de paredes de edificações diferentes mas de uso comum, que têm sua propriedade 209
compartilhada. Cf. EDRL s.v. paries communis.
Leis concernentes à iluminação (lumina) poderiam ser o direito de desfrutar da iluminação de uma propriedade 210
vizinha, o direito de não ter sua iluminação obstruída por uma construção em propriedade vizinha ou, inversamente, o
direito de poder construir numa propriedade desconsiderando os efeitos sobre a iluminação numa propriedade vizinha.
Cf. EDRL s.v. servitus luminis e servitus ne luminibus officiatur.
Segundo EDRL s.v. seruitus stillicidii, trata-se da regulamentação do uso das águas pluviais em diferentes 211
propriedades, como, por exemplo, o direito de descarregar a água acumulada nas calhas de uma casa na propriedade de
um vizinho, o direito de desviar a água do teto da casa na propriedade de um vizinho para dela desfrutar e o direito de
receber a água da propriedade de um vizinho.
A quinqueremis era um navio de guerra (de porte médio, deduz-se do contexto) com remadores dispostos em grupos 212
de cinco. Para detalhes, cf. OCD, s.v. ships; quinqueremis; para ilustrações de navios, bancos de remadores e remos
entre os antigos, cf. DS, s.v. navis.
Referência ao mito de Jasão e os argonautas. De acordo com a tradição, teriam partido para a Cólquida, no 213
tempestuoso e traiçoeiro Ponto Euxino (ou seja, o Mar Negro), em busca do Velo de Ouro, que Pélias, tio de Jasão e
usurpador do reino de Iolco, exigia para lhe devolver o trono. A ironia da observação de Crasso é dupla: um pequeno
barco de dois remos contraposto à nau Argo, que fora construída com a ajuda de Atena; e a calmaria do porto
contraposta à agitação do Ponto Euxino.
!34
as causas em que se debate o direito civil não são insignificantes, mas muitas vezes de enorme
importância, que descaramento é esse do patrono que ousa abordar tais causas sem qualquer
conhecimento de direito? Que causa poderia ser mais importante, assim, do que a daquele soldado
cuja morte fora anunciada por um falso mensageiro, que viera do exército a sua casa? Seu pai,
acreditando no fato, mudou seu testamento e fez seu herdeiro a quem achou por bem. Depois de sua
morte, o caso foi submetido aos centúnviros, uma vez que o soldado voltou para casa e pleiteou
legalmente a herança paterna como filho privado de herança em testamento. Sem dúvida, naquela
causa, investigava-se o direito civil: poderia ser privado dos bens paternos um filho que o pai não
citara nominalmente como herdeiro nem deserdara em seu testamento? 176. Ora, aquele litígio 214
entre os Marcelos e os Cláudios patrícios , que os centúnviros julgaram, quando os Marcelos 215
afirmavam que a herança do filho de um liberto lhes cabia por descendência, os Cláudios patrícios,
que a herança do mesmo homem lhes cabia por direito gentílico, naquela causa os oradores não
tiveram de tratar do direito de descendência e do gentílico como um todo? 177. E quanto ao caso 216
que, segundo ouvimos dizer, foi igualmente debatido no tribunal dos centúnviros? Um homem veio
a Roma com o direito de se exilar na cidade caso se ligasse a uma espécie de patrono, e morreu sem
deixar testamento. Nessa causa, o direito que regula a relação de clientela, que é bastante obscuro e
desconhecido, não foi esclarecido e explicado pelo patrono, no tribunal? 178. Ora, quando 217
defendi recentemente a causa de Gaio Sérgio Orata contra este nosso Antônio aqui presente, num 218
processo civil, acaso minha defesa inteira não tratou da lei? De fato, uma vez que Marco Mário
Gratidiano vendera uma casa a Orata e não estipulara, no contrato de venda, que uma parte da 219
O problema jurídico, neste exemplo de Crasso, é a obrigação legal que havia, no caso de um filius in potestate (ou 214
seja, um filho juridicamente sob o domínio e a autoridade do paterfamilias), de o pai especificá-lo nominalmente como
herdeiroou, alternativamente, deserdá-lo nominalmente. No caso em questão, por acreditar na falsa notícia da morte do
filho soldado, o pai não mencionara seu nome no testamento. Como o filho ainda estava vivo, porém, e como se podia
alegar a falsa notícia da morte como causa da ausência de seu nome, era possível questionar a validade do testamento, o
que o soldado parece ter feito com sucesso. Valério Máximo, em 7.7.1, refere o caso e a vitória do soldado: “disputou,
perante os centúnviros, os bens paternos com herdeiros extremamente desonestos, e saiu vencedor não apenas perante
todos os júris, como também com todos os votos”. Em 1.245, Antônio oferece estratégias para a defesa dos dois lados
deste caso: “[…] se defendesse o testamento, agiria como se toda a autoridade de todos os testamentos dependesse
daquele processo, ou, se defendesse a causa do soldado, ergueria seu pai do mundo dos mortos com seu discurso, como
é seu costume; você [sc. Crasso] o colocaria diante de nossos olhos; ele abraçaria seu filho e o recomendaria aos
centúnviros em prantos.” Referências e detalhes em LPN 59-61 ad loc.; Nüßlein 2007: 516-517 ad loc. e Causi et al.
2015: 429-430 ad loc.
Entenda-se: entre os Cláudios Marcelos, plebeus, e os Cláudios, patrícios.215
Em caso de morte de um liberto intestado, sua herança cabia ao patrono responsável por sua manumissão. A 216
complicação se dá por se tratar aqui do filho de um liberto, logo, de um cidadão de nascimento livre. Neste caso, previa-
se que, ao morrer intestado, sua herança caberia a seus agnados ou, na inexistência destes, aos membros de sua gens. A
disputa parece ter dito respeito ao sentido de gens na lei, com um lado defendendo que a lei se referia exclusivamente à
gens original, no caso, os Cláudios, e o outro alegando que ela concernia apenas a uma stirps dessa gens, no caso, os
Cláudios Marcelos. Não se sabe o resultado deste litígio. Referências e detalhes em LPN 61-63; MW 98, n. 136; Iso
2002: 156-157, n. 184; Nüßlein 2007: 516 ad loc.; Causi et al. 2015: 430 ad loc.
Segundo o ius applicationis (aqui traduzido por “direito que regula a relação de clientela”), um estrangeiro exilado 217
tinha o direito de viver em Roma caso tivesse a proteção de um cidadão influente, configurando-se uma espécie de
relação de patronato. O mesmo ius applicationis assegurava ao patrono o direito de herdar os bens de seu protegido,
mesmo que este não tivesse deixado um testamento. Referências e detalhes em LPN 63-64 ad loc.; Nüßlein 2007:
517-518 ad loc. e Causi et al. 2015: 430 ad loc.
Cf. RE s.v. Sergius (33); BNP s.v. Sergius (I.8).218
Tribuno da plebe em 87; pretor em 85 e 84 (ou 82). Cf. RE s.v. Marius (42); BNP s.v. Marius (I.7); MRR 2: 52; 57; 219
60; Sumner 1973: 118-119.
!35
casa estava sujeita a uma servidão , sustentávamos que, se o vendedor tivesse conhecimento de 220
qualquer inconveniente na propriedade e não o tivesse declarado, ele deveria ser
responsabilizado . 179. Exatamente na mesma espécie de causa um amigo meu, Marco 221
Buculeio , um homem, em minha opinião, nada estúpido, em sua própria, bastante sábio, e não 222
avesso ao estudo do direito, cometeu recentemente um erro semelhante. Efetivamente, quando
vendeu uma casa a Lúcio Fúfio , este, segundo constava do contrato de venda, recebeu a casa com 223
a iluminação tal como se encontrava. Fúfio, por sua vez, tão logo teve início uma construção numa
região da cidade que mal podia ser avistada daquela casa, imediatamente processou Buculeio,
porque considerava que, por menor que fosse a região do céu que se bloqueasse, por mais distante
que estivesse, havia uma mudança na iluminação . 180. E quanto à célebre causa de Mânio Cúrio 224
e Marco Copônio perante os centúnviros, há pouco tempo, com que afluência de pessoas, com que
expectativa foi defendida! Quinto Cévola , meu coevo e colega, o mais versado na disciplina do 225 226
direito civil, o de inteligência e prudência mais agudas, o de discurso mais sóbrio e preciso de todos
os homens e, tal como costumo dizer, o mais eloquente dos peritos em direito, o mais perito em
EDRL s.v. seruitus explica: “As servitutes eram classificadas entre os iura in re aliena (= direitos sobre a 220
propriedade de outrem), uma vez que sua substância consistia no direito de uma pessoa, diferente do dono, sobretudo o
proprietário de um imóvel vizinho, de fazer determinado uso da terra de outrem. Esse direito era conferido ao
beneficiário não como um direito pessoal, mas como um direito atrelado ao próprio imóvel (terra ou construção),
independente da pessoa que porventura o possuísse”. Cf. também Mousourakis 2012: 164-168.
Uma sutileza da apresentação que Crasso faz desta causa é que o personagem omite o ponto fraco de sua defesa 221
(anos antes, Orata vendera a Gratidiano a mesma casa, mas com a estipulação da servidão), que conhecemos pelo relato
mais completo que Cícero apresenta em Off. 3.67: “Marco Mário Gratidiano, nosso parente, vendera a Gaio Sérgio
Orata a casa que deste comprara alguns anos antes. Ela estava sujeita a servidão, mas Mário não o estipulara no
contrato. O caso foi levado a tribunal: Crasso defendia Orata, Antônio, Gratidiano. Crasso atinha-se à lei: como o
vendedor, sabedor do problema, não o estipulara, deveria ser responsabilizado por isso; Antônio atinha-se à equidade:
como tal problema não era desconhecido por Sérgio, que vendera aquela casa, não havia necessidade de estipulá-lo, e
não havia sido lesado aquele que sabia muito bem sob que lei se encontrava a casa que comprara. Aonde quero chegar?
Quero que você entenda que os espertalhões não agradaram a nossos antepassados”.
De Marco Buculeio, nada se sabe além do que é dito neste passo.222
Tribuno da plebe em 91/90 (?). Cf. RE s.v. Fufius (5); BNP s.v. (I.2); Sumner 1973: 110. O orador é mencionado por 223
Cícero em mais de uma obra ( 2.91; 3.50; Brut. 222; Off. 2.50).
Divergem os comentadores quanto aos detalhes legais desta causa. Para MW 99 n. 140, a estipulação do contrato a 224
respeito da iluminação teria sido inserida por Buculeio, o vendedor, para indicar que ainda havia melhorias por fazer na
casa (logo, depreende-se, Fúfio, o comprador a aceitaria em tais condições). No entanto, Fúfio se teria aproveitado do
caráter vago da formulação do contrato (o erro a que Crasso se refere), para processar Buculeio pela mudança de
iluminação decorrente da nova construção na cidade. Iso 2002: 158-159, n. 192, pensa num duplo sentido do termo
recipere do contrato (o erro de Buculeio, neste caso): em âmbito jurídico, teria o sentido de “reservar-se”, “fazer uma
reserva”, mas comportaria também o sentido de “assumir uma obrigação”, “garantir”. De acordo com esta interpretação,
a tradução da cláusula contratual poderia ser também “garantia a casa com a iluminação tal como se encontrava”.
Trata-se da célebre causa Curiana, ocorrida entre 94 e 91, data dramática do diálogo. Um testador, crendo 225
(erroneamente) que sua mulher estava grávida, deixara sua herança para seu filho ainda por nascer, com a estipulação de
que, se este morresse antes de atingir a maioridade, o herdeiro passaria a ser Mânio Cúrio (que, como Marco Copônio,
conhecemos apenas pelas referências de Cícero). Como o filho não chegara a nascer, porém, Copônio, provavelmente o
parente mais próximo do testador, alegara a nulidade do testamento e reclamara a herança como legalmente sua. A causa
é citada em vários passos do De oratore (1.238; 242-244; 2.24; 140-141; 220-222) e de outras obras de Cícero. Cf.
referências e detalhes em ORF 7.28-32; TLRR 48-49, caso 93; LPN 68-71 ad loc; MW 99, n.141; Iso 2002: 159-160, n.
195; Nüßlein 2007: 518-519 ad loc.; Causi et al. 2015: 430-431 ad loc.
Quinto Múcio Cévola, o Áugure, referido em 1.170.226
!36
direito dos eloquentes , defendia o princípio jurídico dos testamentos com base na literalidade, 227
afirmando que não podia ser herdeiro aquele que fora instituído como herdeiro substituto de um
filho póstumo que tivesse nascidoe morrido, a não ser que esse filho póstumo [do testador] tivesse
nascido e morrido antes de atingir a maioridade, ao passo que eu defendia que ele fizera o
testamento com a intenção de que, caso não houvesse um filho que chegasse à maioridade, Mânio
Cúrio fosse o herdeiro . Acaso algum de nós dois deixou de tratar, naquela causa, das autoridades, 228
dos precedentes, das fórmulas testamentais, ou seja, do cerne do direito civil? 181. Deixo agora de
lado outros exemplos de causas de grande importância, que são inumeráveis. Muitas vezes pode
acontecer que causas concernentes a nossa existência civil baseiem-se no direito. Assim é que, em
virtude da indignação provocada pelo pacto com os numantinos, Gaio Mancino , homem nobre e 229
excelente, além de consular, foi entregue pelo chefe dos feciais aos numantinos, por força de um 230
senátus-consulto. Como eles se recusaram a recebê-lo, retornou posteriormente a Roma e não
hesitou em entrar no Senado. O tribuno da plebe Públio Rutílio, filho de Marco , ordenou que se 231
retirasse, afirmando que ele não era um cidadão romano, uma vez que, segundo a tradição, aquele
que tivesse sido vendido por seu pai ou pelo povo, ou entregue aos inimigos pelo chefe dos feciais,
não tinha o direito de poslimínio . 182. Que causa ou disputa podemos encontrar, dentre todas as 232
questões civis, mais importante do que a que diz respeito ao estrato social, à cidadania, à liberdade,
à existência civil de um consular, sobretudo quando ela se baseia, não numa acusação que ele possa
negar, mas no direito civil? Numa categoria semelhante de causas, mas num estrato social inferior,
se alguém, de um povo aliado, depois de ter sido escravo entre nós e de conseguir sua liberdade,
retornasse posteriormente a seu povo, questionou-se, entre nossos antepassados, se teria sido
reintegrado pelo direito de poslimínio e se teria perdido a cidadania romana. 183. Ora, numa causa
relacionada à liberdade — e não pode haver um julgamento mais sério do que esse —, acaso não é
possível haver uma disputa baseada no direito civil, quando se investiga se aquele que foi
Comentando a mesma causa Curiana em Brut. 145, o personagem Cícero conclui com uma formulação semelhante, 227
dividindo porém o elogio entre Crasso e Cévola: “E de tal forma aquela causa foi então defendida por esses patronos
contemporâneos e já consulares, quando ambos defendiam o direito civil a partir de pontos de vista contrários, que
Crasso foi considerado o mais perito em direito dos eloquentes, Cévola, o mais eloquente dos peritos em direito”.
Tradução de Almeida 2014: 114.
Ainda em Brut. 145, o personagem Cícero apresenta a estratégia de Crasso, decisiva para sua vitória na causa 228
Curiana: “É que [sc. Crasso] discursou tão bem contra a letra da lei em favor do justo e do bom, que esmagou com a
abundância de argumentos e exemplos um homem extremamente perspicaz como Quinto Cévola e extremamente
preparado em matéria de direito, no qual aquela causa consistia”. Tradução de Almeida 2014: 113-114.
Gaio Hostílio Mancino, cônsul em 137 com Marco Emílio Lépido Porcina. Cf. RE s.v. Hostilius (18); BNP s.v. 229
Hostilius (I.8); MRR 1: 484. Referência ao episódio de 137, ano em que o cônsul Mancino, durante a Guerra de
Numância, na Hispânia Citerior, firmou com os numantinos, que haviam capturado seu exército, um tratado de paz
segundo o qual Numância se tornaria independente de Roma. O Senado, considerando o tratado humilhante, não apenas
não o ratificou, como ainda retirou a cidadania de Mancino e, por intermédio do chefe dos feciais, entregou-o aos
numantinos em 136, que não o aceitaram. Ao retornar a Roma, o tribuno da plebe Públio Rutílio vetou seu retorno ao
Senado e o processou, alegando sua perda de direitos civis e políticos. A disputa, vencida por Mancino, que teve sua
cidadania restituída, reside na ambiguidade causada pelo fato de os numantinos não o terem aceito: em Top. 37, Cícero
torna à causa e discute uma potencial linha de defesa: “Nessa linha de argumentação [sc. a alegação do direito de
poslimínio], também é possível defender a causa de Mancino, alegando-se que voltou [a Roma] segundo o direito de
poslimínio e que não fora entregue [aos numantinos], porque não fora aceito. Ora, são inconcebíveis tanto a rendição
como a entrega sem que seja aceito”. Referências e detalhes em Nüßlein 2007: 520-521 e Causi et al.2015: 431.
O colégio dos feciais, em Roma, era uma agremiação de 20 sacerdotes, responsáveis pelas declarações de guerra 230
romanas e pelos tratados com outros povos.
Tribuno da plebe em 136. Cf. RE s.v. Rutilius (9); MRR 1: 487.231
Segundo o direito de poslimínio, um cidadão capturado por um povo inimigo (e tendo tornado-se, em consequência, 232
escravo) tinha o direito, após ser resgatado, de reaver sua antiga condição. Ao mesmo tempo que não fora resgatado,
Mancino também não fora aceito pelos numantinos, ficando numa espécie de “limbo" legal.
!37
recenseado como cidadão por vontade de seu senhor torna-se livre imediatamente ou apenas quando
se realiza o sacrifício expiatório dos censores? E quanto ao que aconteceu na época de nossos 233
ancestrais? Um chefe de família que voltou da Hispânia para Roma, deixando na província sua
esposa grávida, casou-se com uma segunda mulher em Roma sem antes enviar à primeira a
notificação de divórcio. Morreu sem deixar testamento e um filho nasceu de cada uma das esposas.
Terá sido uma questão menor que foi submetida a debate, ao se investigar a respeito dos direitos
civis de dois cidadãos, tanto o do menino que nascera do segundo casamento como o de sua mãe,
que , seria colocada na condição de concubina, caso se julgasse que o divórcio acontece apenas por
meio do proferimento da fórmula determinada, não apenas de um novo casamento? 184. Aquele 234
que desconhece essa e outras leis semelhantes de sua cidade e, altivo e soberbo, olhando para um
lado e para o outro com rosto e expressão radiantes e resolutos, vagueia por todo o fórum com um
grande séquito, apresentando e oferecendo proteção a seus clientes, auxílio a seus amigos e a luz de
sua inteligência e sabedoria a praticamente todos os cidadãos, não devemos considerá-lo antes de
tudo escandaloso?
185. E já que falei da impudência, repreendamos também a indolência e a falta de iniciativa de
tais homens. Realmente, ainda que esse conhecimento do direito fosse algo vasto e difícil, sua
enorme utilidade deveria impelir essas pessoas a empreender tal trabalho. Porém, ó deuses imortais,
não diria tal coisa na presença de Cévola, se ele próprio não tivesse o costume de afirmar que não
lhe parece haver conhecimento de qualquer outra arte mais fácil do que este, 186. ao contrário da
maioria, que pensa diferente por determinadas razões: em primeiro lugar, porque os antigos que
estavam encarregados deste saber , a fim de manter e aumentar sua influência, não quiseram que 235
sua arte se tornasse acessível; em seguida, depois que o direito foi tornado público, com a
exposição, pela primeira vez, das fórmulas legais feita por Gneu Flávio , não houve ninguém que 236
arranjasse aqueles elementos de maneira sistemática, divididos por gênero . De fato, não há nada 237
que possa ser reduzido a uma arte se o especialista na matéria que pretende sistematizar não detiver
o conhecimento necessário para construir uma arte a partir daquela matéria ainda não sistematizada.
187. Percebo que, enquanto queria falar com brevidade, falei de maneira um tanto obscura, mas
tentarei de novo e falarei, se possível, com mais clareza. Quase tudo o que está agora encerrado em
artes esteve, outrora, disperso e dissipado: como, na música, o ritmo, os sons e as cadências; na
geometria, as linhas, as formas, as distâncias, os volumes; na astronomia, a rotação do céu, o
nascimento, o ocaso e o movimento dos astros; na gramática, o estudo assíduo dos poetas, o
O lustrum era o ritual de purificação realizado pelos censores no Campo de Marte a cada cinco anos, quando se 233
completavao recenseamento dos cidadãos e se encerrava sua censura. O que está em jogo aqui é se a manumissão do
escravo passa a valer imediatamente após a manifestação de seu senhor perante o censor, ou se é necessário, além disso,
que se aguarde o fim da censura e do período lustral.
O cerne da questão, como acena Crasso, reside na legitimidade ou não do segundo casamento, ou seja, se este fora 234
realizado após a consumação do divórcio do primeiro casamento — com o pronunciamento da fórmula res tuas tibi
habeto (literalmente, “fica com o teu patrimônio”) — ou não. Caso se considerasse o segundo casamento ilegítimo, a
segunda esposa seria considerada concubina do paterfamilias em questão, e o filho que tivera com este, em
consequência, não teria direito à herança. Referências e detalhes em LPN 78-80 ad loc. e Nüßlein 2007: 524 ad
loc.Causi et al. 2015 ad loc.
Os pontífices.235
Gneu Flávio, secretário de Ápio Cláudio Cego (censor em 312), publicara, por volta de 300, a lista dos fasti (lista dos 236
dois cônsules de cada ano e calendário de atividades forenses) e das legisactiones (“fórmulas processuais”), até então
sob o controle dos pontífices. Não há fragmentos supérstites dessa obra, que ficaria conhecida como ius Flavianum e se
tornaria a base do direito romano. Cf. Cic. Mur. 25; Att. 6.1.8; e Liv. 9.46.1.
Segundo notícia de Aulo Gélio (1.22.7), Cícero chegara a dar início a tal empresa, com a publicação de uma obra 237
intitulada De iure civili in artem redigendo (“A redução do direito civil a uma arte”), mas não teria feito a
sistematização propriamente dita, que ficaria, nos anos seguintes, a cargo de seu contemporâneo Sérvio Sulpício Rufo,
conforme o próprio Arpinate observa em 46, 9 anos depois de publicar o De oratore, em Brut. 152-153.
!38
conhecimento das obras históricas, a interpretação das palavras, a pronúncia de determinados sons;
nesta própria doutrina do discurso, enfim, inventar, ornar, dispor, lembrar, atuar pareciam a todos,
outrora, elementos desconhecidos e bastante difusos. 188. Recorreu-se então a determinada arte
externa, derivada de outro domínio, que os filósofos arrogam inteiramente para si, a fim de unir
uma matéria dispersa e desconexa e condensá-la segundo determinado método . Seja, pois, a 238
finalidade do direito civil a seguinte: a preservação da imparcialidade, conforme as leis e os usos,
nos assuntos e nas causas dos cidadãos. 189. É preciso, então, designar os gêneros e reduzi-los a um
número determinado e pequeno. Gênero é aquilo que abrange duas ou mais espécies semelhantes
entre si por alguma propriedade comum, mas diferentes por alguma particularidade. Já espécies são
aquelas que são subordinadas aos gêneros de que emanam. É preciso expor, por meio de definições,
o sentido que têm todos os nomes, seja dos gêneros, seja das espécies. Definição é uma explicação
breve e resumida daqueles elementos que são próprios do que queremos definir. 190. Eu
acrescentaria exemplos a essas questões, se não percebesse perante quem este discurso está sendo
pronunciado . Agora concluirei com brevidade o que propus. De fato, se me for permitido fazer o 239
que penso já há muito tempo, ou se algum outro , caso eu esteja impedido ou já morto, tomar meu 240
lugar e conseguir, pela primeira vez, ordenar todo o direito civil por gêneros, que são pouquíssimos,
em seguida, distribuir determinados membros, por assim dizer, desses gêneros, então revelar o
sentido próprio de cada um por meio de uma definição, vocês terão uma arte completa do direito
civil, antes grandiosa e fértil que difícil e obscura. 191. Contudo, enquanto se agrupam esses
elementos que estão dispersos, é possível, ainda que desordenadamente, colhendo e reunindo de
todas as partes, prover-se desse conhecimento do direito civil. Não percebem que um cavaleiro
romano, um homem de inteligência mais aguda do que a de qualquer outro, embora nem um pouco
versado nas demais artes, Gaio Aculeão , que é e sempre foi um grande amigo, domina de tal 241
forma o direito civil que, excetuando-se este homem aqui , ninguém, dentre aqueles que são mais 242
versados, fica à sua frente? 192. Ora, tudo isso se encontra diante de nossos olhos, situando-se na
prática cotidiana, nos encontros entre os homens e no fórum, e não está contido em escritos tão
abundantes ou em volumes tão grandes: é que, num primeiro momento, as mesmas questões foram
expostas por diversos autores; em seguida, com a mudança de umas poucas palavras, foram
inúmeras vezes reescritas pelos mesmos escritores. 193. Soma-se a isso, ademais, para que se possa
compreender e conhecer o direito civil com mais facilidade, algo que a maioria simplesmente
desconsidera: um encanto e um deleite absolutamente admiráveis no seu conhecimento. Com efeito,
para quem se deleita com esses estudos elianos , há um retrato completo da Antiguidade em todo 243
o direito civil, nos livros dos pontífices e nas Doze Tábuas, porque se toma conhecimento da grande
antiguidade das palavras e porque determinados tipos de fórmulas legais revelam a tradição e a vida
Crasso refere-se à dialética, que permite categorizar as diferentes artes segundo gêneros e espécies e definir seus 238
diferentes conceitos. Sua aplicação ao direito civil é ilustrada em 1.189 ss.
Aceno ao público-alvo do diálogo: não iniciantes, mas iniciados nas artes em questão. Cf. 1.203, abaixo, e nota ad 239
loc.
Seria este mais um exemplos das “profecias” do De oratore que preconizam o papel de Cícero na oratória romana?240
Gaio Visélio Aculeão, jurista que, segundo o próprio Cícero observa no prólogo do segundo livro (2.2), casara-se 241
com Hélvia, irmã da mãe do Arpinate. Como bem apontam MW 103, n. 58, na data dramática do diálogo o
conhecimento do direito ainda era uma prerrogativa quase exclusiva da classe senatorial, donde a ênfase de Crasso no
status de cavaleiro de Aculeão.
Quinto Múcio Cévola.242
Duas opções são aventadas pelos comentadores acerca da identidade deste Élio: tratar-se-ia 1) de Sexto Élio Peto 243
Cato, cônsul em 198 com Tito Quíntio Flaminino e autor de uma obra em três volumes sobre a Lei das Doze Tábuas (cf.
RE s.v. Aelius (144); BNP s.v. Aelius (I.11); MRR 1: 330); ou 2) do cavaleiro Lúcio Élio Estilão Preconino (c. 154-90),
filólogo, antiquário, gramático e logógrafo, mestre do jovem Cícero e de Varrão (cf. Cic. Brut. 205-207).
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de nossos antepassados. Para quem se compraz no conhecimento de política, que Cévola não
considera ser próprio do orador, mas de uma sabedoria proveniente de outro domínio , perceberá 244
que todo ele está contido nas Doze Tábuas, com a descrição de todos os interesses e funções de uma
cidade. Quem se deleita — falarei de maneira um tanto ousada — com essa filosofia poderosa e
orgulhosa, tem à disposição essas fontes de todas as suas discussões, fontes que estão contidas no
direito civil e nas leis. 194. De fato, eles nos fazem ver que é preciso buscar sobretudo o prestígio,
uma vez que a virtude e o trabalho justo e honesto são condecorados com honrarias, recompensas,
lustre, enquanto os vícios e as fraudes dos homens são punidos com multas, desonras, grilhões,
açoites, exílios, morte. E nos ensinam que não é com discussões intermináveis e repletas de
conflitos, mas com a autoridade e o aceno das leis, que se mantêm domadas as paixões, que se
reprimem todos os desejos, que defendemos o que é nosso, que se afastam as mentes, os olhos, as
mãos do que é dos outros. 195. Ainda que todos protestem, falarei o que penso: definitivamente, o
pequeno livro das Doze Tábuas, se alguém observar as fontes e as origens das leis, parece-me
superar, sozinho, as bibliotecas de todos os filósofos, tanto pelo peso de sua autoridade como pela
riqueza de sua utilidade. 196. E se, como deve mais que tudo acontecer, deleitamo-nos com nossa
pátria, cuja essência e natureza são tão importantes que o sapientíssimo varão preferiu a famosa
Ítaca, presa a pequenos rochedos extremamente escarpados, tal como um ninho, à imortalidade, 245
com que amor devemos nos inflamar por uma pátria como esta, que é, em todo o mundo, a única
morada da virtude, do poder, do prestígio? Devemos, em primeiro lugar, conhecer sua índole, sua
tradição, sua disciplina, seja porque a pátria é mãe de todos nós, seja porque devemos considerar
que houve tão grande sabedoria no estabelecimento da lei quanto na conquista deste vasto poderio
de nosso império. 197. Vocês sentirão também alegria e prazer com o conhecimento do direito,
porque perceberão muito facilmente o quanto nossos antepassados superaram os demais povos em
prudência, se quiserem comparar nossas leis com as de seu Licurgo, Draco e Sólon . Realmente, 246
quando se excetua este nosso, é incrível como são confusos e quase risíveis todos os outros
exemplos de direito civil. Costumo fazer várias observações a esse respeito em minhas conversas
cotidianas, quando coloco a prudência dos nossos conterrâneos acima de todos os outros e,
A argumentação de Cévola, na primeira disputatio in utramque partem do livro 1, encontra-se em 1.35-40. Cf. 244
particularmente 1.35: “Porém, Crasso, receio não poder lhe conceder estes dois pontos : em primeiro lugar, ter afirmado
não apenas que as cidades foram inicialmente estabelecidas pelos oradores, mas também, muitas vezes, preservadas por
eles; em segundo lugar, ter concluído que, à parte o fórum, a assembleia popular, os tribunais, o Senado, o orador é
completo em todo tipo de discurso e cultura”; e 1.39: "Ora, o que dizer das antigas leis e da tradição ancestral? E dos
auspícios, que nós dois, Crasso, presidimos para grande segurança da República? E dos ritos e cerimônias? E deste
direito civil, que já há muito tem abrigo em nossa família sem que tenhamos qualquer mérito na eloquência: acaso
foram inventados, conhecidos, ou sequer tratados pelo grupo dos oradores?”
Alusão ao famoso episódio da Odisseia em que Odisseu afirma preferir voltar para Ítaca, sua terra natal, e sua esposa 245
Penélope, ainda que para isso tenha de continuar a ser um mortal, a permanecer na ilha Ogígia com a ninfa Calipso, que
lhe concederia a imortalidade caso ali ficasse como seu marido. Cf. particularmente a fala de Odisseu em Hom. Od. 5.
215-224: “Deusa sublime, não te encolerizes contra mim. Eu próprio/ sei bem que, comparada contigo, a sensata
Penélope/ é inferior em beleza e estatura quando se olha para ela./ Ela é uma mulher mortal; tu és divina e nunca
envelheces./ Mas mesmo assim quero e desejo todos os dias/ voltar para casa e ver finalmente o dia do meu regresso./ E
se algum deus me ferir no mar cor de vinho, aguentarei:/ pois tenho no peito um coração que aguenta a dor./ Já
anteriormente muito sofri e muito aguentei/ no mar e na guerra: que mais esta dor se junte às outras.” Tradução de
Lourenço 2011.
Três célebres exemplos de legisladores gregos do chamado Período Arcaico. Licurgo, cuja existência histórica é 246
contestada pelos estudiosos modernos, é o lendário fundador da eunomia (“boa ordem”) de Esparta; Draco foi o autor,
no final do século VII (621/620), do primeiro código legal estabelecido por escrito, que se tornaria famoso por sua
severidade; Sólon (c. 640-560), estadista e poeta, responsável por importantes reformas na legislação ateniense no
começo do século VI, após sua eleição para o arcontado (594/593), era enumerado entre os Sete Sábios.
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sobretudo, dos gregos . Foi por essas razões que eu havia dito, Cévola, que aqueles que querem 247
ser oradores perfeitos devem necessariamente ter conhecimento de direito civil.
198. Na verdade, quem ignora quanta honra, influência, prestígio ele traz, por si mesmo, àqueles
que nele são proeminentes? Assim, enquanto, na Grécia, homens insignificantes, atraídos por um
modesto pagamento, apresentam-se aos oradores como auxiliares nos tribunais — aqueles que são
chamados “consultores” entre eles —, em nossa cidade, em contrapartida, são os homens mais
importantes e ilustres que o fazem, como aquele que, devido a esse conhecimento do direito civil,
foi denominado pelo maior dos poetas
Homem de singular prudência, o arguto Élio Sexto . 248
E muitos, além disso, que, granjeando prestígio por ação de seu engenho, conseguiram, na
consulta de assuntos legais, ter ainda mais influência pela autoridade do que pelo próprio engenho.
199. Ademais, que refúgio pode ser mais honroso para celebrar e adornar a velhice do que a
interpretação da lei? De minha parte, já desde a juventude, comecei a adquirir esse apoio, não
apenas para minha prática das causas no fórum, mas também para a glória e ornamento de minha
velhice, a fim de que, quando as forças começassem a me faltar, época que já está quase se
aproximando, protegesse minha casa dessa solidão . Ora, o que há de mais ilustre do que um 249
velho que exerceu os cargos e as funções públicas ter o direito de dizer o mesmo que diz o famoso
Apolo Pítio de Ênio, que ele é aquele “a quem”, se não “povos e reis”, pelo menos todos os seus
concidadãos “pedem conselho”,
Incertos quanto às questões mais importantes, por minha ajuda de incertos os
Torno certos; despeço-os bem providos de prudência,
Para não tratarem questões obscuras sem reflexão . 250
200. Realmente, a casa de um jurisconsulto é, sem dúvida, um oráculo de toda a cidade. São
testemunhas disso a porta e o pátio de entrada da casa deste Quinto Múcio aqui presente, porque,
encontrando-se num estado de saúde bastante frágil e sentindo já os efeitos da idade , é 251
frequentado diariamente por uma enorme afluência de cidadãos e pelo brilho dos homens mais
distintos.
201. Ademais, não é necessário um longo discurso para explicar por que julgo que o orador deve
ter conhecimento também do direito público, que é próprio da cidade e do império, além dos
registros da história e os exemplos da antiguidade. De fato, tal como, nas causas e processos que
envolvem interesses privados, muitas vezes o discurso deve recorrer ao direito civil e por isso,
como disse anteriormente, seu conhecimento é necessário ao orador, da mesma forma, nas causas
Atitude análoga à do próprio Cícero, que, no final do prólogo do primeiro livro, coloca a conversa dos personagens 247
da obra — e, por consequência, sua experiência e visão da retórica e da oratória — acima da tradição retórica grega
(1.23): “Não é que eu despreze o que os mestres e professores de oratória gregos nos legaram, mas, como tais escritos
são acessíveis e estão ao alcance de todos, não podendo, por meio de minha tradução, ser explicados com maior ornato
ou expressos com maior clareza, acredito que me concederás a licença, meu irmão, de colocar acima dos gregos a
autoridade daqueles a quem nossos conterrâneos concederam a suprema excelência na oratória”.
Enn. Ann. 329 Sk.248
A observação de Crasso é ironicamente trágica, já que o orador viria a morrer cerca de dez dias depois da conversa 249
encenada no diálogo. Cf. 3.1.
Enn. scen.141 ss. V. Versos dramáticos enianos de origem incerta; ROL I: 268-271 os atribui a Eumênides (referência 250
em MW 105, n. 168).
Em 91, data dramática do De oratore, Cévola contava 71 anos.251
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públicas dos tribunais, das assembleias populares, do senado, toda essa história da antiguidade, bem
como a autoridade do direito público e o conhecimento teórico de como governar a república, tal
como qualquer outra matéria, devem estar à disposição dos oradores que se ocupam de política.
202. É que, nesta nossa conversa, não estamos procurando um advogado qualquer, nem um
vociferador ou um rábula, mas um homem que, em primeiro lugar, seja um expoente dessa arte em
que, embora a própria natureza lhe conceda uma grande capacidade, considera-se que foi concedida
por um deus, de modo que aquilo mesmo que era próprio do homem pareça ter sido obtido não por
nosso esforço, mas entregue a nós por concessão divina; em seguida, procuramos um homem que
possa, adornado não tanto com o caduceu quanto com o nome de orador , transitar incólume 252 253
mesmo entre os dardos dos inimigos;então, que seja capaz, pelo discurso, de submeter o crime e a
fraude de um criminoso ao ódio dos cidadãos e de reprimi-los pela punição; que seja igualmente
capaz, pela assistência de seu engenho, de livrar a inocência das penalidades dos tribunais; que seja
capaz, do mesmo modo, quando o povo está abatido e vacilante, de incitá-lo à virtude, afastá-lo do
erro, inflamá-lo contra os desonestos ou apaziguá-lo, quando incitado contra os honestos; que seja
capaz, enfim, de provocar ou de abrandar, nos ânimos dos homens, qualquer emoção que a questão
e a causa exijam. 203. Se alguém considera que esse poder foi exposto por aqueles que escreveram
sobre a teoria do discurso, ou que pode ser exposto por mim de maneira tão breve, muito se engana,
não apenas deixando de perceber meu desconhecimento de tais questões , mas também sua 254
magnitude. De minha parte, considerei que, já que vocês o desejavam, devia mostrar as fontes de
onde pudessem beber e os percursos propriamente ditos, não de maneira a que eu fosse o guia, algo
que é interminável e desnecessário, mas de modo a apenas mostrar o caminho e, como é costume,
indicar com o dedo tais fontes . 255
204. — Na verdade — disse Múcio —, parece-me que você mais do que satisfez o desejo desses
jovens, se realmente o desejam . De fato, assim como o famoso Sócrates costumava afirmar que 256
sua obra estaria completa se tivesse conseguido, com sua exortação, incitar alguém ao desejo de
O caduceus ou caduceum, um dos símbolos do deus Mercúrio, era um cetro usado como símbolo de paz de arautos 252
ou embaixadores, que lhes conferia imunidade, tornando-os intocáveis.
Cícero joga aqui com o sentido mais antigo da palavra orator, “embaixador”, e o mais corrente em sua época, 253
“orador”.
Sobre a alegação de falta de conhecimento do assunto, recorrentemente feita por Crasso ao longo do diálogo, e sua 254
consequente tentativa de se esquivar às discussões, leia-se particularmente Hall 1996.
Com esta observação de Crasso, temos, de um lado, novo aceno de Cícero ao público-alvo da obra (leitores já 255
iniciados no assunto, como observado acima, em nota a 1.190), de outro, uma das formulações da chamada função
referencial dos preceitos retóricos no De oratore, conceito assim delineado por Guérin 2010: 124: “En faisant la
synthèse des modifications théoriques que nous avons déjà présentées (marginalisation de l’ars, supériorité de la nature
et de l’expérience sur la théorie, possibilité de parler sans précepte, disparition de l’exigence d’exhaustivité), Crassus
aboutit en effet à refuser toute fonction productrice au précepte pour ne lui reconnaître qu’une fonction de référence
permettant à l’orateur d’évaluer la qualité et la validité de sa production et, ainsi, de guider sa propre pratique” (grifos
nossos). Em 2. 232, passo comentado por Guérin nesta citação, Crasso explicita tal visão dos preceitos retóricos: “Eu,
porém, creio que esses preceitos têm o poder e a utilidade, não de sermos levados pela arte a descobrir o que dizer, mas
de confiarmos na correção do que alcançamos pela natureza, pelo estudo, pela prática, ou percebermos o erro, depois de
aprendermos a que devemos atribuí-lo”.
Como bem apontam LPN: 124 ad locum, Cévola refere-se à condição estipulada por Crasso em 1.134, respondendo 256
ao questionamento de Cota sobre o que mais é necessário ao orador além de engenho: “dedicação e uma espécie de
paixão amorosa [studium et ardorem quendam amoris]”.
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conhecer e compreender a virtude — pois, para aqueles que tivessem sido persuadidos a não 257
querer outra coisa além de ser bons homens, a doutrina restante seria fácil —, assim também
entendo que, se vocês pretendem adentrar esse domínio que Crasso revelou com seu discurso,
conseguirão chegar com extrema facilidade aonde desejam pelo acesso dessa porta aberta.
205. — No que nos diz respeito — observou Sulpício —, essas palavras são extremamente
agradáveis e prazerosas. Mas ainda temos algumas perguntas, e sobretudo a respeito daquelas
observações muito rápidas que você fez, Crasso, acerca da arte propriamente dita , quando 258
reconheceu que não a desprezava e que a havia estudado . Se você tratá-la de maneira um pouco 259
mais detida, satisfará todas as expectativas deste nosso antigo desejo, já que agora sabemos o que é
preciso estudar. Embora isso já seja em si algo grandioso, queremos conhecer o processo e o
método desses estudos.
206. — Já que eu — respondeu Crasso —, para retê-los mais facilmente em minha casa,
obedeci mais à sua vontade do que a meu hábito e natureza, que tal pedirmos a Antônio que nos
explique as ideias que está guardando e ainda não revelou, com base nas quais, como já há muito se
queixa , deixou escapar seu único livrinho , e que enuncie esses mistérios do discurso? 260 261
— Como lhe parecer melhor — respondeu Sulpício —, pois, falando Antônio, perceberemos
também o que você pensa . 262
207. — Peço-lhe então, Antônio — continuou Crasso —, já que o entusiasmo desses jovens
coloca tal fardo sobre nós, homens desta idade, que exponha o que pensa a respeito dessas questões
que, como pode ver, fazem a você.
A observação que Cévola atribui a Sócrates não se encontra em Platão ou Xenofonte, sendo talvez proveniente de 257
algum outro filósofo socrático não supérstite. LPN: 125 ad locum comparam a observação de Cévola a Xen. Mem.
2.6.39: “Porque, Critobulo, se quiseres parecer bom nalguma coisa, o caminho mais curto, mais seguro e mais belo para
o pareceres é seres, efectivamente, bom. Todas aquelas qualidades a que os homens chamam virtudes, se reflectires,
descobrirás que se tornam mais fortes com estudo e dedicação.” Tradução de Pinheiro 2009:152.
Cf. 1.138-145.258
Cf. 1.137: “De fato, não negarei que, no princípio, tal como é digno de um homem livre de nascimento e instruído 259
nas artes liberais, aprendi esses preceitos comuns a todos e banais”; e 1.145: “Toda a doutrina desses mestres ocupa-se
quase sempre dessas questões; se disser que ela não ajuda em nada, estarei mentindo. É que apresenta certos elementos
que servem, por assim dizer, de lembrete ao orador, para que a ele possa referir cada ponto e, observando-o, não se
afaste do que quer que tenha estabelecido como meta.”
Cf. 1.94: “Foi assim que eu, num livrinho que, sem saber ou consentir, escapou-me das mãos, chegando ao alcance 260
do público, escrevi, influenciado por tal opinião, ter conhecido algumas pessoas expressivas, mas ainda nenhuma
eloquente […].”
Trata-se do breve libellus publicado por Antônio sobre a arte oratória. Cf. 1.208, abaixo, em que o personagem 261
comenta o teor da obra. Em 1.5, dirigindo-se a seu irmão Quinto, Cícero usa a mesma imagem do livro escapando
contra a vontade das mãos do autor para referir-se à publicação do juvenil Da invenção: “Ora, como me disseste várias
vezes, pretendes, pelo fato de os escritos que escaparam incompletos e grosseiros de meus apontamentos, quando era
menino ou, antes, adolescente, mal serem dignos desta minha idade e desta experiência, granjeada em tantas e tão
importantes causas defendidas, que publique algo mais refinado e acabado acerca do mesmo tema”. A imagem fora
usada também em 1.94. Cf. ainda Brut. 163, em que o livro de Antônio é caracterizado como sane exilem, (“muito
incompleto” ou “muito árido”); ORF 1: 236-237.
A observação de Sulpício apresenta diversas possibilidades de entendimento: numa leitura mais literal, o personagem 262
refere-se à sintonia entre os dois amigos Crasso e Antônio, já apontada por Cícero antes de dar início ao diálogo (cf.
1.24: “[…] Marco Antônio, aliado de Crasso em seus objetivos políticos e a ele ligado por laços de profunda
amizade.”); mas também é possível entender a observação de Sulpício como um aceno engenhoso de Cícero a seu leitor,
relembrando-lhe que é um o autor por trás dos personagens do diálogo; uma terceira leitura, mais sutil, é, sem que o
leitor possa ainda perceber, irônica, uma vez que Antônio buscará refutar praticamentetodas as afirmações feitas por
Crasso no diálogo do primeiro livro.
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— De minha parte — respondeu Antônio —, percebo e sinto claramente que fui pego de
surpresa, não só porque me perguntam sobre questões de que não tenho conhecimento ou prática , 263
mas também porque aquilo que costumo evitar a qualquer custo nos processos, Crasso, falar depois
de você , esses jovens não permitem que eu evite agora. 208. Na verdade, entrarei nesse assunto 264
que desejam com bastante audácia, porque temo que me aconteça nesta discussão o mesmo que
costuma acontecer quando discurso: não se espera qualquer ornamento em minha fala . E não vou 265
tratar de uma arte, que nunca estudei, mas de minha prática . As próprias observações que reuni 266
em meus apontamentos são dessa natureza, não me tendo sido ensinadas por alguma teoria, mas
tratadas na prática e nas causas reais. Se vocês, homens eruditíssimos, não as aprovarem, coloquem
a culpa em sua injustiça, por me terem feito perguntas sobre assuntos que desconheço, e elogiem
minha afabilidade quando lhes responder de boa vontade, levado, não por minha iniciativa, mas por
seu desejo.
209. Observou então Crasso:
— Apenas prossiga, Antônio, pois não há risco de você não se expressar com pleno
conhecimento de causa e de nos arrependermos de tê-lo compelido a essa fala.
— Prosseguirei sim — respondeu —, e farei aquilo que considero oportuno ser feito no
princípio de qualquer discussão: explicar de que se trata o tema em debate, a fim de que o discurso
não seja obrigado a divagar e se perder, caso aqueles que discordam uns dos outros não entendam
da mesma forma o tema em questão . 210. De fato, se acaso investigássemos qual é a arte do 267
general, consideraria que é preciso estabelecer, de início, quem é um general. Depois de
estabelecermos que ele é alguém encarregado de conduzir a guerra, acrescentaríamos observações a
respeito do exército, do acampamento, das marchas, dos embates, dos assédios às cidadelas, das
provisões, de como preparar e evitar emboscadas, dos demais elementos que são próprios da
condução de uma guerra. Eu denominaria generais aqueles que possuíssem tais fatores por instinto
e conhecimento, usando os exemplos dos Africanos e dos Máximos e citando Epaminondas,
Cícero comenta a dissimulatio scientiae de Antônio em 2.4: “Antônio […] considerava que seu discurso resultaria 263
mais aceitável a este nosso povo se pensassem que não tinha absolutamente nenhuma instrução.”
Entenda-se: numa equipe de patronos defendendo a mesma causa.264
Cícero comenta a elocução de Antônio em Brut. 140: “É bem verdade que suas palavras em si não apresentavam a 265
linguagem mais refinada, e por isso faltava-lhe o mérito de falar cuidadosamente — ainda que não tenha falado de
modo totalmente grosseiro —, mas faltava- lhe o mérito que é próprio do orador e que reside nas palavras.” Tradução de
Almeida 2014: 111, modificada.
A postura de Antônio reflete a mudança de foco do diálogo, por contraposição aos manuais de retórica, da ars para o 266
artifex, já evidenciada no próprio próprio título da obra. Crasso adotara a mesma postura em 1.135: “Por isso, já que me
atribuem um encargo particularmente leve, e não me perguntam acerca da arte do orador, mas desta minha capacidade,
por menor que seja, exporei a vocês os princípios nada misteriosos, nem muito difíceis, extraordinários ou profundos de
minha prática, de que costumava me servir quando me era permitido, ainda jovem, dedicar-me a essa ocupação.”
Em várias outras obras, dialógicas ou expositivas, retóricas ou filosóficas, Cícero, platonicamente, postula a 267
precedência da definição do tema a ser discutido em relação à discussão. LPN: 132 ad locum citam Rep. 1.38; Orat.
116; Fin. 2.3 (passo em que se menciona expressamente o Fedro platônico para tal metodologia, bem como a sua
aprovação por parte de Epicuro); Off. 1.7. Leia-se também a fala de Sócrates em Plat. Phaedr. 237c: “A respeito de
qualquer assunto, ó jovem, há apenas um ponto de partida para quem intenta bem julgar: precisa de saber em que
consiste o objecto sobre que se delibera, ou então é inevitável que falhará totalmente. Ora a maioria esquece que não
sabe qual é a essência de cada coisa. Assim, como se já o soubessem, não procuram pôr-se de acordo no início do
exame e, ao prosseguir, pagam o justo castigo, já que não encontram acordo consigo mesmos nem com os outros.”
Tradução de Ferreira 2009: 44.
!44
Haníbal e homens dessa estirpe . 211. Se investigássemos, por outro lado, quem é aquele que 268
devotou experiência, conhecimento e dedicação ao governo da República, eu o definiria da seguinte
maneira: deve-se considerar como governante da República e promotor das resoluções públicas
aquele que domina e emprega os meios com que se proveem e incrementam os interesses da
República, e faria menção a Públio Lêntulo, o famoso líder do Senado , a Tibério Graco, o pai , 269 270
a Quinto Metelo , a Públio Africano , a Gaio Lélio e a incontáveis outros, tanto desta nossa 271 272 273
cidade como das demais. 212. Já se investigássemos quem é propriamente denominado
jurisconsulto, eu diria que é aquele que é perito nas leis e nos costumes seguidos pelos cidadãos
privados numa cidade, bem como em responder a consultas, pleitear e acautelar, e mencionaria
Sexto Élio , Mânio Manílio , Públio Múcio como pertencentes a esse grupo. E, passando 274 275 276
agora aos estudos das artes menos importantes, se investigássemos o músico, o gramático, o poeta,
poderia, de maneira semelhante, explicar o que cada um deles professa saber e até que limite se
deve exigir de cada um. Quanto ao filósofo propriamente dito, enfim, embora seja o único a ter uma
pretensão quase universal a respeito de sua capacidade e sabedoria, há uma definição para ele:
emprega-se essa palavra para designar aquele que aspira a conhecer a essência, a natureza e as
causas de tudo o que é divino e humano, bem como dominar e seguir toda a preceituação do viver
bem.
Antônio menciona célebres generais do passado: Públio Cornélio Cipião Africano Maior, vencedor da Segunda 268
Guerra Púnica (218-201); Quinto Fábio Máximo Cunctator, general que triunfou sobre os lígures em 233 e que se
tornou célebre por sua tática de cautela e não enfrentamento contra Haníbal, na Segunda Guerra Púnica; Epaminondas,
general tebano do séc. IV; Haníbal (247/46-183), cartaginês que liderou o exército de Cartago na Segunda Guerra
Púnica.
Públio Cornélio Lêntulo, líder do Senado a partir de 125. Cf. RE s.v. Cornelius (202); Sumner 1973: 60; Brut. 108: 269
“Também se diz que Públio Lêntulo, o famoso líder do Senado, possuía eloquência suficiente — pelo menos para o uso
político”.
Tibério Semprônio Graco (c. 220-150), cônsul em 177 com Gaio Cláudio Pulcro e em 163 com Mânio Juvêncio 270
Talna; censor em 169 com Gaio Cláudio Pulcro. Cf. BNP s.v. Sempronius (I.15); MRR 1: 397; 423; 441; ORF: 98-99;
Sumner 1973: 38-39; Brut. 79: “Na mesma época viveu Tibério Graco, filho de Públio, que foi cônsul duas vezes e
censor, de quem há um discurso em grego proferido perante os rodienses, que foi um cidadão, como se sabe, não apenas
severo mas também eloquente.” Tradução de Almeida 2014: 86, modificada.
Quinto Cecílio Metelo Macedônico, cônsul em 143 com Ápio Cláudio Pulcro; censor em 131 com Quinto Pompeu; 271
áugure de 140 a 115. Cf. BNP s.v. Caecilius (I.27); MRR 1: 471; 500; ORF: 106-108; Sumner 1973: 43; Brut. 81: “[…]
Quinto Metelo — aquele que teve quatro filhos consulares — foi considerado particularmente eloquente, ele que
defendeu Lúcio Cota quando este foi acusado pelo Africano e de quem restam ainda outros discursos, sendo que o
discurso contra Tibério Graco é reproduzido nos Anais de Gaio Fânio.” Tradução de Almeida 2014: 87, modificada.
Públio Cornélio Cipião Africano Emiliano Minor, cônsul em 147 com Gaio Lívio Druso e em 134 com Gaio Fúlvio 272
Flaco; censor em 142 com Lúcio Múmio. Cf. RE s.v. Cornelius (34); BNP s.v. Cornelius (I.70); MRR1: 463; 490; ORF:
122-134; Sumner 1973: 44; Brut. 82-84.
Gaio Lélio, o Sábio, cônsul em 140 com Quinto Servílio Cepião. Cf. RE s.v. Laelius (3); BNP s.v. Laelius (I.2); MRR 273
1: 479; ORF: 115-122; Sumner 1973: 44; Brut. 82-84.
Sexto Élio Peto Cato, cônsul em 198 com Tito Quíntio Flaminino e autor de uma obra em três volumes sobre a Lei 274
das Doze Tábuas. Cf. RE s.v. Aelius (144); BNP s.v. Aelius (I.11); MRR 1: 330; Summer 1973: 37; Brut. 78: “[…] Sexto
Élio, certamente o mais perito de todos no direito civil, mas também preparado para a oratória.” Tradução de Almeida
2014: 85-86, modificada.
Mânio Manílio, pretor em 155 (?), cônsul em 149 com Lúcio Márcio Censorino, autor de várias obras jurídicas. Cf. 275
RE s.v. Manilius (12); BNP s.v. Manilius (I.3); MRR 1: 458.
Públio Múcio Cévola, o Pontífice, cônsul em 133 com Lúcio Calpúrnio Pisão Frugi, pontífice máximo desde 130. 276
Como vários membros da família, distinguiu-se por seu conhecimento da lei, tornando públicos os Annales Maximi (cf.
2.52) e escrevendo 10 libelli de conteúdo legal. Cf. RE s.v. Mucius (17); BNP s. v. Mucius (I.5); MRR 1: 492; 503;
Sumner 1973: 62.
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213. No que diz respeito ao orador, já que é sobre ele que estamos investigando, eu, de
minha parte, não penso como Crasso, que me pareceu encerrar a onisciência de todos os assuntos e
artes unicamente dentro do ofício e da denominação de orador , e considero que orador é aquele 277
que é capaz de empregar palavras agradáveis de se ouvir e ideias adequadas a uma demonstração
nas causas habituais do fórum. É a esse que denomino orador, e desejo, além disso, que ele seja
agraciado com o dom da voz, da atuação e de certo encanto . 214. Na verdade, nosso Crasso, a 278
meu ver, descreveu a faculdade do orador, não dentro dos limites daquela arte, mas das fronteiras
quase ilimitadas de seu engenho . De fato, ao expressar sua opinião, confiou até mesmo o leme do 279
governo das cidades ao orador. A esse respeito, pareceu-me muito estranho, Cévola, que você lhe
fizesse tal concessão, tanto mais que em inúmeras ocasiões o Senado lhe deu seu assentimento
acerca das mais importantes questões, apesar de você discursar de maneira concisa e sem adorno . 280
Se Marco Escauro, homem extremamente experiente no governo da República , que, segundo 281
ouvi dizer, encontra-se em sua casa de campo, não longe daqui, ouvisse que você, Crasso,
reivindica a autoridade de sua influência e sabedoria ao afirmar que ela é própria do orador, creio
que ele viria agora mesmo para cá e aterrorizaria esta nossa loquacidade com a mera expressão de
seu olhar. Embora não seja nada desprezível ao discursar, ele se apoia mais em seu conhecimento de
questões importantes do que na arte do discurso. 215. Caso possuam as duas competências, não será
um deles orador por ser promotor das resoluções públicas e bom Senador, nem o outro, que é
expressivo e eloquente, terá adquirido algum conhecimento em virtude da riqueza de seus discursos,
caso seja igualmente exímio na administração da cidade. Essas faculdades estão muito distantes
umas das outras, são bastante diversas e distintas, e não era com o mesmo método e processo que
Marco Catão , Públio Africano, Quinto Metelo, Gaio Lélio , todos eles eloquentes, adornavam 282 283
seu discurso e a dignidade da República. Nem, com efeito, é proibido, seja pela natureza, seja por
Cf. 1.30-34.277
A definição de orador apresentada por Antônio contempla três das cinco partes tradicionais da retórica: elocução 278
(“palavras agradáveis”), invenção (“ideias adequadas”) e atuação (“dom da voz, da atuação e de certo encanto”).
Antônio retoma o argumento usado por Cévola em 1.44: “Já é bastante grandioso você poder afiançar que, nos 279
julgamentos, a causa que defende, qualquer que seja, pareça melhor e mais plausível; que o seu discurso tenha grande
poder de persuasão nas assembleias populares e nos pareceres do Senado; enfim, que aos sábios pareça discursar
expressivamente, aos tolos, também com propriedade. Se você puder mais do que isso, considerarei que não é um
orador quem o pode, mas Crasso, com a capacidade que lhe é própria, não com a que é comum aos oradores”; e 1.77:
“Porém, se a você mesmo nada falta saber que diga respeito às questões públicas e civis, e se tem o domínio daquele
conhecimento que acrescenta ao orador, cuidemos para não atribuir a ele mais do que os fatos e a própria realidade o
permitem.” Crasso responde à primeira observação de Cévola em 1.71: “E na verdade, quanto ao que você afirmou que
não toleraria caso não estivesse em meu domínio — eu ter falado que todo orador deve ser perfeito em toda espécie de
discurso, em todos os aspectos da cultura —, eu seguramente nunca o diria se julgasse ser eu mesmo o orador que
concebo.”
Em Brut. 115, Cícero descreve como habitual a maneira de discursar que Cévola adotara na causa de Rutílio (cf. 280
1.229-231, abaixo): “e também Quinto Múcio discursou de maneira clara e polida, como de costume, mas de nenhum
modo com o vigor e a copiosidade que esse tipo de processo e a magnitude da causa exigiam.” Cf. também 146: “ele é
para nós, no âmbito da interpretação, da explicação, da discussão, um orador admirável; tal como ele eu nunca vi — na
amplificação, na ornamentação, na refutação, era mais um crítico temível que um admirável orador.” Tradução de
Almeida 2014: 102; 114.
Marco Emílio Escauro (163/2-89/8), cônsul em 115 com Marco Cecílio Metelo; censor em 109 com Marco Lívio 281
Druso; princeps senatus de 114 até sua morte. Cf. BNP s.v. Aemilius (I.37); MRR 1: 531; 545. Sobre sua oratória, cf.
Brut. 110-112.
Marco Pórcio Catão, o Censor, cônsul em 195 com Lúcio Valério Flaco; censor em 184. Cf. RE s.v. Cato (9); BNP 282
Cato s.v. Cato (1); MRR 1: 339; 374; ORF: 12-96; Sumner 1973: 33; Brut. 63-69. Autor da obra história Origens,
mencionada abaixo por Antônio, em 1.227.
Cf. 1.211 e notas ad locum.283
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alguma lei ou tradição, que cada indivíduo possa conhecer mais de uma arte. 216. Por isso, apesar
de Péricles ter sido o mais eloquente em Atenas e, durante vários anos naquela cidade, líder das 284
assembleias públicas, nem por isso se deve julgar que as duas faculdades sejam características do
mesmo indivíduo e da mesma arte, e, embora Públio Crasso fosse eloquente e jurisperito, nem 285
por isso o conhecimento de direito civil está contido na faculdade oratória. 217. Se os melhores em
alguma arte e faculdade, caso também tenham dominado uma segunda arte, conseguirem que o que
sabem a mais pareça ser uma parte daquilo em que são excelentes, será possível, com esse
raciocínio, dizer que jogar bem a péla e o jogo das doze linhas é próprio do direito civil, uma vez
que Públio Múcio se saía muito bem em ambos. Pelo mesmo raciocínio, aqueles que os gregos
denominam filósofos da natureza poderão também ser chamados de poetas, uma vez que
Empédocles, o filósofo da natureza, compôs um excelente poema . Mas nem mesmo os próprios 286
filósofos, que pretendem que tudo seja como que sua propriedade e lhes pertença, ousam dizer que a
geometria e a música são do domínio do filósofo pelo fato de todos admitirem que Platão era
exímio em tais artes. 218. Ainda que pretendamos subordinar todas as artes ao orador, é mais
aceitável falar da seguinte maneira: uma vez que a faculdade do discurso não deve ser árida e sem
adorno, mas distinta e temperada com uma agradável variedade de elementos, seja próprio do bom
orador ter ouvido muito, ter visto muito, ter percorrido muitos temas em sua mente e em seu
pensamento, muitos também em leituras, sem se apoderar de tais elementos como seus, mas
provando-os como alheios. Admito que ele deve ser alguém habilidoso e em nenhum aspecto um
principiante inexperiente ou um estrangeiro novato em suas defesas.
219. Na verdade, não me comovo com essas suas expressões dramáticas, usuais
particularmente entre os filósofos, Crasso. É que você afirmou que ninguém é capaz de inflamar as
mentes dos ouvintes pelo discurso,ou aplacá-las, quando em chamas — uma vez que é sobretudo
nisso que se nota o poder e a grandeza do orador — se não conhecer a fundo a natureza de todas as
coisas, os caracteres e as motivações dos homens, pelo que o orador teria forçosamente de estudar
filosofia . Percebemos que gerações inteiras dos homens mais inteligentes e ociosos foram 287
consumidas nesse estudo. No que me concerne, não apenas não desprezo a riqueza e a grandeza de
conhecimento e arte desses homens, mas também muito as admiro. Para nós, no entanto, que
lidamos com este nosso povo e este nosso fórum, basta saber e dizer, a respeito do caráter dos
homens, o que não está em contradição com tal caráter. 220. Ora, que orador grandioso e sério,
quando pretendia provocar a ira do juiz contra o adversário, alguma vez hesitou por não saber o que
é a cólera, se um fervor da mente ou o desejo de vingar um ressentimento? Quem, quando queria 288
suscitar e estimular as demais emoções nos juízes ou no povo pelo discurso, disse o que os filósofos
costumam dizer? Parte deles não admite de forma alguma quaisquer emoções nos ânimos,
Estadista ateniense do séc. V. Cf. Brut. 28.284
Públio Licínio Crasso Muciano, o Rico, cônsul em 131 com Lúcio Valério Flaco. Cf. RE s.v. Licinius (72); BNP s.v. 285
Licinius (I.19); MRR 1: 500; ORF: 141-142; Sumner 1973: 52; Brut. 98; 127.
Empédocles (c. 483-23), autor do poema Da natureza.286
Cf. 1.53: “Pois quem desconhece que o poder do orador manifesta-se sobretudo quando incita as mentes dos homens 287
à ira, ao ódio ou à indignação, ou quando as reconduz dessas mesmas paixões à brandura e à misericórdia? Por isso, a
não ser que tenha um conhecimento aprofundado dos temperamentos dos homens, bem como de toda a natureza
humana e das causas pelas quais se incitam ou apaziguam as mentes, o orador não será capaz de realizar o que deseja
pelo discurso.”
A definição da paixão é uma das partes obrigatórias no tratamento das paixões da Retórica de Aristóteles. O modus 288
operandi do Estagirita é bem sintetizado por Solmsen 1938: 393: “Seu tratamento de cada uma delas [sc. das paixões]
começa com uma definição. Ele prossegue, então, elaborando as implicações de sua definição e descrevendo as
circunstâncias em que é provável que tais πάθη surjam, bem como os tipos de homens em quem é provável que sejam
provocadas e contra quem podem ser dirigidas.”
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afirmando que quem as incute nas mentes dos juízes comete um crime abominável ; parte, que 289
pretende ser mais tolerante e aproximar-se mais da realidade da vida, afirma que deve haver
emoções muito moderadas e, de preferência, brandas . 221. O orador, porém, torna muito mais 290
grave e sério, com suas palavras, aquilo que, no modo de vida habitual, é considerado mau, nocivo e
a ser evitado. Do mesmo modo, amplifica e orna, pelo discurso, aquilo que o vulgo considera
desejável e apetecível, não querendo parecer tão sábio entre os tolos a ponto de os ouvintes o
julgarem inepto ou um greguinho qualquer, ou de, mesmo aprovando fortemente a inteligência e
admirando a sabedoria do orador, levarem a mal o fato de passarem por tolos. 222. Ora, de tal forma
penetra nos ânimos dos homens, de tal forma sonda os sentimentos e as mentes dos homens, que
não carece das descrições dos filósofos nem indaga, em seu discurso, se o sumo bem reside na alma
ou no corpo, se se define pela virtude ou pelo prazer, ou se estes podem ser unidos e associados um
ao outro; ou ainda, como pretendem alguns, que não é possível saber nada ao certo, nem entender e
compreender claramente qualquer coisa . Reconheço que a disciplina que trata de tais questões é 291
vasta e múltipla, e que suas doutrinas são muitas, ricas e variadas. Mas buscamos algo diferente,
Crasso, bem diferente. 223. O que precisamos é de um homem arguto e habilidoso por natureza e
prática, que investigue de maneira perspicaz o que pensam, sentem, julgam, esperam seus
concidadãos e os homens que quer persuadir de algo pelo discurso. É preciso que tome o pulso a
pessoas de toda estirpe, idade, estrato social e sonde as mentes e os sentimentos daqueles perante
quem defende ou está para defender uma causa. 224. Quanto aos livros dos filósofos, reserve-os
para seus momentos de descanso e ócio como este, nesta vila tusculana, a fim de que, se em algum
momento tiver de falar sobre a justiça e a lealdade, não tenha de tomar emprestado a Platão. Este,
julgando que tais conceitos deviam ser expressos em palavras, forjou em seus livros uma cidade
absolutamente nova, a tal ponto o que julgava necessário dizer sobre a justiça se afastava do hábito
de vida e dos costumes das cidades . 225. É que se isso recebesse aprovação entre os povos e 292
cidades, quem teria concedido a você, Crasso, um homem tão ilustre e distinto, o personagem mais
eminente da cidade, dizer o que disse numa assembleia tão numerosa de seus concidadãos ? 293
“Livrem-nos das misérias, livrem-nos das goelas daqueles cuja crueldade não consegue saciar-se
com nosso sangue! Não permitam que sejamos escravos senão de todos vocês, de quem podemos e
devemos ser!” Deixo de lado as “misérias”, que, segundo dizem, não podem afetar um homem
corajoso . Deixo de lado as “goelas” de que você quer se livrar, para que seu sangue não seja 294
sorvido por um julgamento injusto, o que afirmam ser impossível acontecer a um sábio. Você ousou
dizer “ser escravo” referindo-se não apenas a si mesmo, mas a todo o Senado, cuja causa defendia?
226. Pode a virtude, Crasso, ser escrava, na opinião desses autores cujos preceitos você incluiu na
Os estoicos.289
Os peripatéticos.290
Os acadêmicos céticos.291
Na República. Cf. 1.230, abaixo. Em Att. 2.1.8, carta escrita em 60, Cícero usa a mesma obra de Platão para 292
contrapor a postura idealista de Catão à realidade rasteira da política romana: “A verdade é que você não tem maior
estima por nosso Catão do que eu. No entanto, ele, apesar da melhor das intenções e de sua extrema honradez, prejudica
por vezes a República, pois dá seus pareceres como se estivesse na República de Platão, não nesta espécie de escória de
Rômulo.”
Em 106, quinze anos antes da data dramática do diálogo, portanto, Crasso, então aos 34 anos de idade, discursara, na 293
assembleia popular, a favor da lex Servilia (“lei Servília”), de autoria de Quinto Servílio Cepião, cônsul naquele ano
com Gaio Atílio Serrano, sobre a composição do júri nos tribunais. Os fragmentos desse discurso estão reunidos em
ORF: 243-245. Em Parad. 5.41, tratando desse mesmo discurso, Cícero caracteriza a frase eripite nos ex servitute
(“livrai-nos da escravidão”) como mais copiosa (“eloquente”) do que sapiens (“filosófica”). Referência em LPN: 146
ad locum. Cf. também Marchese 2011: 337.
A referência é à doutrina dos estoicos. 294
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faculdade do orador? Ela é a única que é livre e sempre livre, e que, ainda que os corpos sejam
capturados pelas armas ou acorrentados por grilhões, deve manter sua independência e sua
liberdade sem limites em todas as coisas . Quanto ao que você acrescentou, que o Senado não 295
apenas “pode”, mas “deve” ser escravo, que filósofo tão débil, tão lânguido, tão fraco, de tal forma
relacionando tudo ao prazer e à dor do corpo , poderia aprovar que o Senado fosse escravo do 296
povo, sendo que o próprio povo lhe conferira o poder de moderá-lo e governá-lo, entregando-lhe as
rédeas, por assim dizer? 227. Assim, embora eu julgasse que você discursara divinamente, Públio
Rutílio Rufo , homem douto e dedicado à filosofia , dizia que seu discurso fora não apenas 297 298
“pouco adequado”, mas também “torpe e escandaloso”. Ele também costumava fazer pesadas
críticas a Sérvio Galba — de quem dizia se recordar muito bem —, pelo fato de, quando Lúcio 299
Escribônio intentava uma acusação contra ele , Galba ter provocado a misericórdia do povo 300 301
depois que Marco Catão, seu inimigo severo e ferrenho, falou de maneira dura e enérgica perante o
povo, discurso que ele próprio publicou em suasOrigens . 228. Rutílio criticava Galba, então, 302
pelo fato de este ter praticamente carregado em seus ombros Quinto, filho órfão de seu parente Gaio
Sulpício Galo , a fim de levar o povo às lágrimas pela recordação e memória de um pai tão ilustre, 303
e pelo fato de Galba ter recomendado à tutela do povo seus dois filhos pequenos, fazendo um
testamento sem balança ou documentos, como se estivesse num campo de batalha , afirmando que 304
Alusão à doutrina estoica, segundo a qual apenas o sábio é livre. Cf. Parad. 5 (citado por LPN: 147 ad locum).295
Alusão aos epicuristas.296
Públio Rutílio Rufo, pretor em 118 (?); cônsul em 115 com Gneu Málio Máximo, condenado no tribunal de 297
repetundis em 94 ou 92. Cf. TLRR: 49-50 (caso 94); RE, sv. Rutilius (34); BNP s.v. Rutilius (I.3); MRR 1: 555; ORF:
168-171; Sumner 1970: 70.
Cf. Brut. 114: “Seus discursos são áridos, há muita coisa esplêndida sobre o direito, trata-se de um homem erudito e 298
cultivado nas letras gregas, discípulo de Panécio, quase completo na doutrina dos estoicos.” Tradução de Almeida 2014:
101.
Sérvio Sulpício Galba (c. 192- antes de 129), tribuno militar em 168; pretor na Hispânia Ulterior em 151; cônsul em 299
144 com Lúcio Aurélio Cota; áugure em data incerta. Sua oratio é caracterizada em Brut. 93 como et incitata et gravis
et vehemens (“impetuosa, grave e veemente”). Cf. RE s.v. Sulpicius (58); BNP s.v. Sulpicius (I.10); MRR 1: 455; 470;
ORF: 109-115; Sumner 1973: 44-45.
Lúcio Escribônio Libão, tribuno da plebe em 149. Cf. RE, s.v. Scribonius (18); MRR 1: 459 ORF: 138-139; Sumner 300
1973: 45; Brut. 89-90.
Em 149, o tribuno da plebe Lúcio Escribônio Libão, secundado por Lúcio Cornélio Cetego e Marco Pórcio Catão, 301
propusera, em assembleia popular, a formação de um tribunal extraordinário, a fim de processar Sérvio Sulpício Galba
por improbidade no governo da Hispânia Ulterior: em 150, apesar de ter empenhado sua palavra, dizendo que pouparia
os lusitanos, que então enfrentava, caso se rendessem, Galba assassinara milhares deles depois da rendição, vendendo
os demais como escravos. Libão teria em mente, além da condenação de Galba, a restituição da liberdade a estes
últimos. Cf. TLRR: 4 (caso 1); ORF: 79-80 (Catão); 112-115 (Galba). Cf. também Marchese 2011: 304.
Fragmentos 7.1-4 Chassignet (HRR 106-109). Frontão Epist. 3.21 (fr. 7.2 Ch. = HRR 107) oferece mais detalhes 302
sobre a postura de Catão contra o uso das paixões pelos oradores: “Catão […] desaconselha que se apresentem filhos,
sejam eles próprios ou de outrem, para provocar a misericórdia, bem como esposas, parentes ou mulheres de maneira
geral.”
Gaio Sulpício Galo, pretor em 169; cônsul em 166 com Marco Cláudio Marcelo. Cf. RE s.v. Sulpicius (66); BNP s.v. 303
Sulpicius (I.14); MRR 1: 424; 437; Sumner 1973: 37-38;
Como alternativa ao testamentum per aes et libram (lit. “testamento com o asse e balança”, ou seja, mediante todas 304
as formalidades, com uso do cobre, da balança e de fórmulas solenes, perante cinco cidadãos romanos como
testemunha), havia o testamentum in procinctu (“testamento em iminência de batalha”), que permitia que os soldados,
usando seus colegas de milícia como testemunhas, estabelecessem seu testamento antes de uma batalha ou mesmo
quando se encontravam num acampamento militar permanente. Ambos os procedimentos já haviam caído em desuso
em época tardo-republicana. Cf. EDRL s.v. per aes et libram; testamentum in procintu; Mousorakis 2012: 284-285. A
comparação de Antônio reflete o caráter dramático e patético da atuação de Galba.
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instituía o povo romano como tutor da orfandade deles. Assim, dizia que embora Galba, naquele
momento, estivesse oprimido pela hostilidade e pelo ódio do povo, fora absolvido por causa dessas
cenas patéticas . Percebo que se lê o mesmo em Catão: se não tivesse feito uso dos meninos e das 305
lágrimas, teria sido condenado. Rutílio censurava fortemente essa atitude, afirmando que teria sido
preferível o exílio ou a morte a tal humilhação. 229. Na verdade, não apenas o disse, mas acreditava
nisso e o pôs em prática. De fato, por ser aquele homem um exemplo de honestidade, como sabem,
e por não haver nesta cidade ninguém mais íntegro e virtuoso do que ele, não apenas se recusou a
ser um suplicante perante os juízes, mas também não quis sequer que sua causa fosse defendida de
maneira mais ornada ou livre do que o simples argumento da verdade permitia. Atribuiu uma
pequena parte da causa a este Cota aqui, jovem bastante expressivo, filho de sua irmã. Do mesmo
modo, Quinto Múcio defendeu uma parte daquela causa segundo costumava fazer, sem qualquer
aparato, de maneira simples e clara . 230. Se tivesse feito então aquela defesa, Crasso, você que 306
há pouco afirmava que o orador deve buscar auxílio para sua riqueza oratória naquelas discussões
de que os filósofos fazem uso, e se lhe tivesse sido possível defender Públio Rutílio, não à maneira
dos filósofos, mas à sua, o poder de seu discurso teria arrancado a crueldade do íntimo das mentes
dos jurados, por mais que aqueles cidadãos perniciosos fossem criminosos, como eram, e
merecedores de castigo . Agora perdemos um cidadão de tamanha importância, enquanto sua 307
causa é defendida como se o caso estivesse sendo tratado naquele cidade imaginária de Platão . 308
Ninguém gemeu, nenhum dos patronos clamou, ninguém se lamentou para ninguém, ninguém se
queixou, ninguém apelou para a República, ninguém suplicou. Por que me alongar? Ninguém bateu
com os pés no chão — para não ser denunciado, imagino eu, aos estoicos . 231. Um romano e, o 309
que é mais, consular, imitou o antigo Sócrates, que, por ser o mais sábio de todos e ter vivido de
maneira absolutamente virtuosa, defendeu-se, num julgamento capital, de forma a parecer, não um
suplicante ou um réu, mas o mestre ou senhor dos jurados. Além disso, quando Lísias, orador
extremamente expressivo , levou-lhe um discurso por escrito a fim de que o memorizasse, se 310
assim quisesse, para usá-lo em sua defesa no julgamento, leu-o de bom grado e disse que estava
bem escrito. “Porém, disse ele, se você me tivesse trazido sapatos de Sícion , eu não os usaria, por 311
mais que fossem adequados e convenientes aos pés, por não serem dignos de um homem”. Assim,
aquele discurso lhe parecia expressivo e próprio de um orador, mas não corajoso e digno de um
Em Brut. 90, Cícero volta a descrever a retórica patética de Galba nesta causa: “Na ocasião, então, Galba, sem 305
contestar nada do que lhe fora imputado, implorando a proteção do povo romano, pôs-se a confiar-lhe, aos prantos, a
guarda tanto de seus filhos como do filho de Gaio Galo, e a orfandade e suas lágrimas suscitaram extraordinária
comiseração por causa da lembrança recente de seu ilustríssimo pai. E Galba, nesse dia, se livrou da ruína, por causa da
compaixão suscitada no povo pelas crianças, conforme Catão deixou escrito.” Tradução de Almeida 2014: 91,
modificada.
Cf. Brut. 115: “Ele [sc. Rutílio Rufo], malgrado sua plena inocência, havia sido levado a juízo, num julgamento que, 306
como sabemos, abalou profundamente a República, numa época em que os homens mais eloquentes eram os consulares
Lúcio Crasso e Marco Antônio, não quis recorrer a nenhum dos dois. Ele discursou em sua própria defesa e Gaio Cota
falou brevemente, porque era filho de sua irmã — e ele, embora ainda fosse bastante jovem, discursou como um orador
de verdade —, e também Quinto Múcio discursou de maneira clara e polida, como de costume, mas de nenhum modo
com o vigor e a copiosidade que esse tipo de processo e a magnitude da causa exigiam.” Tradução de Almeida 2014:
101-102, modificada.
Segundo LPN 151 ad locum, trata-se de uma referência aos cavaleiros, que compunham então o júri.307
Cf. 1.224, acima, e nota ad locum.308
Cf. 1.220 e nota ad locum.309
Lísias (c. 459/8 ou c. 445-c.380), orador e logógografo ateniense. Cf. Brut. 35.310
Os sapatos de Sícion eram leves, delicados e macios, sendo usados sobretudo pelasmulheres.311
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homem . Logo, também ele foi condenado, e não apenas na primeira votação, em que os jurados 312
decidiam apenas se condenariam ou absolveriam, mas também naquela que deviam, por lei, realizar
uma segunda vez. 232. De fato, em Atenas, quando o réu era condenado, se o crime não fosse
capital, havia como que uma avaliação da pena: de acordo com a lei, quando se passava à votação
dos jurados, perguntava-se ao réu de que espécie de pena ele estimava ser exatamente merecedor.
Quando o perguntaram a Sócrates, ele respondeu que merecia ser condecorado com as mais
esplêndidas honrarias e recompensas e que lhe fosse concedido, às expensas públicas, o sustento
cotidiano no Pritaneu, honraria que é considerada a mais alta entre os gregos . 233. Os juízes se 313
inflamaram de tal forma com sua resposta que condenaram à morte um homem absolutamente
inocente. Se tivesse sido absolvido (algo que seria definitivamente de meu agrado, dada a
magnitude de sua inteligência, embora isso não nos diga respeito), de que maneira conseguiríamos
suportar esses filósofos, que agora, apesar de sua condenação ter acontecido unicamente por
desconhecimento da oratória, afirmam que devemos buscar em suas obras os preceitos do discurso?
Não discuto com eles qual das duas é melhor ou mais verdadeira. Apenas afirmo que aquela é
diferente desta, e que esta pode ser perfeita sem aquela.
234. Quanto ao fato, Crasso, de você ter se interessado com tanta paixão pelo direito civil , 314
percebo o que fez; percebia-o enquanto falava. Em primeiro lugar, você se consagrou a Cévola, a
quem muito merecidamente devemos nossa estima por sua extraordinária amabilidade. Percebendo
que sua arte era pobre, sem ornamento ou elegância, você a enriqueceu e adornou com o dom das
palavras. Em seguida, por ter dedicado mais esforço e trabalho a ela, tendo em casa um incentivador
e mestre desse estudo , você receou que, se não amplificasse essa arte pelo discurso, teria perdido 315
seu tempo. 235. Mas nem com essa arte eu entro em discussão. Admito que ela seja tão importante
quanto você pretende que seja. E ela é mesmo, indiscutivelmente, grandiosa, vasta, do interesse de
muitos, sempre esteve na mais alta estima e ainda hoje os cidadãos mais ilustres ocupam-se de seu
estudo . Mas cuidado, Crasso: na pretensão de ornar o conhecimento do direito civil com um 316
ornato novo e alheio, não vá você espoliá-lo e desnudá-lo de cada um dos elementos que lhe foram
concedidos por tradição. 236. Pois se você afirmasse que aquele que é jurisconsulto é um orador e,
do mesmo modo, que aquele que é orador é também um jurisconsulto, estabeleceria duas artes
ilustres, semelhantes uma à outra e ligadas pelo mesmo prestígio. Agora, porém, você reconhece
que é possível haver um jurisconsulto sem essa eloquência que estamos investigando e que houve
inúmeros, mas afirma que só é possível haver um orador se ele tiver adquirido aquele
conhecimento. Dessa forma, para você, um jurisconsulto propriamente dito, por si mesmo, não
passa de um leguleio precavido e arguto, um pregoeiro das ações, um repetidor de fórmulas, um
caçador de sílabas. Porém, uma vez que com frequência o orador se serve do auxílio do direito em
suas causas, você acrescentou essa competência jurídica à eloquência tal qual uma escrava ou servil
acompanhante.
237. Já quanto a seu espanto com a impudência dos patronos que fazem grandes promessas
apesar de seu parco conhecimento , ou que ousam tratar, em suas causas, das questões mais 317
A anedota, “quase certamente apócrifa” segundo MW 2001: 115, n. 205, é citada em Diog. Laert. 2.40-41 e Stob. 312
7.90. Cf. von Albrecht 2003: 232-238 acerca do uso de Sócrates no De oratore; 234 sobre este passo (referências em
CMFR: 444).
Cf. Plat. Ap. 36d-37a.313
Cf. 1.166-200.314
Cévola, que fora sogro de Crasso (cf. 1.24).315
Os jurisconsultos.316
Cf. 1.172-184. 317
!51
importantes do direito civil, apesar de as desconhecerem e nunca as terem estudado, há uma defesa
fácil e pronta para os dois casos. Com efeito, não deve causar admiração o fato de a mesma pessoa
que desconhece a fórmula para realizar um casamento por coempção ser capaz de defender a 318
causa de uma mulher que se tenha casado dessa maneira, e não é pelo fato de haver o mesmo
conhecimento envolvido na pilotagem de uma embarcação pequena e na de uma grande que 319
quem desconhece a fórmula necessária para a divisão de uma herança não é capaz de defender a
causa da divisão do patrimônio de uma família. 238. Ora, no caso das importantíssimas causas
centunvirais mencionadas por você, centradas na lei, qual delas havia que não poderia ter sido
defendida com absoluta elegância por um homem eloquente, mas sem experiência jurídica? Na
verdade, em todas essas causas, tal como na própria causa de Mânio Cúrio, que você defendeu
recentemente , e como no caso da controvérsia de Gaio Hostílio Mancino e no do menino que 320 321
nascera de uma segunda esposa sem que a primeira tivesse recebido a notificação de divórcio , 322
houve, entre os maiores conhecedores, uma enorme divergência em relação à lei. 239. Pergunto-lhe,
então, de que serviria ao orador o conhecimento do direito nessas causas, uma vez que sairia
vencedor o jurisconsulto que se tivesse apoiado, não em sua arte, mas numa alheia, ou seja, não no
conhecimento do direito, mas na eloquência. De minha parte, muitas vezes ouvi a seguinte história:
quando Públio Crasso era candidato à edilidade, contando com o auxílio de um homem mais velho
e já consular, Sérvio Galba, em sua campanha, porque acertara o casamento de seu filho Gaio com a
filha daquele, um camponês se aproximou de Crasso para fazer uma consulta. Depois que chamou
Crasso à parte, consultou-o e dele obteve uma resposta mais conforme à verdade do que a seu
interesse. Quando Galba notou que o camponês ficara triste, chamou-o pelo nome e perguntou-lhe
sobre que assunto consultara Crasso. Quando o ouviu e notou que o homem estava abalado, disse-
lhe: “Percebo que Crasso estava agitado e distraído enquanto lhe respondia”. 240. Em seguida toma
o próprio Crasso pela mão, dizendo: “O que lhe deu para responder dessa maneira?” Então aquele
grande conhecedor confirmou resolutamente que o caso era tal como respondera, e que não podia
haver dúvida. Galba, por sua vez, gracejando, citou vários casos análogos de maneira diversificada
e rica, fazendo uma grande defesa da equidade contra o direito. Crasso, não podendo se equiparar a
ele na sustentação de uma argumentação — embora figurasse entre os homens expressivos, não
estava de modo algum no mesmo patamar de Galba —, refugiou-se em suas autoridades e apontou
que o que dissera estava escrito nos livros de seu irmão, Públio Múcio , e nos apontamentos de 323
Sexto Élio, embora concedesse a Galba que sua argumentação lhe parecia provável e quase
verdadeira.
241. Contudo, as causas que são de natureza tal que não pode haver dúvida acerca da
respectiva lei, simplesmente não costumam ser levadas ao tribunal. Quem, porventura, reclama uma
herança baseado no testamento que um chefe de família fez antes que seu filho nascesse? Ninguém,
porque é sabido que, com o nascimento de um filho posterior ao testamento, este é anulado. Logo,
No casamento por coempção, o poder (manus) sobre a mulher é transferido do pai para o marido, por meio de uma 318
venda fictícia. Cf. EDRL s.v. coëmptio; Mousourakis 2012: 102.
Antônio refuta a observação sarcástica de Crasso em 1.174: “Quando, numa audiência, você se deixa enganar por 319
uma estipulação insignificante do adversário, e quando chancela documentos de seu cliente em que há um texto
capcioso, haverei eu de considerar que lhe devo confiar uma causa mais importante? Francamente, seria mais fácil
quem virou um pequeno barco de dois remos no porto pilotar a nau dos argonautas no Ponto Euxino!”
Cf. 1.180.320
Gaio Hostílio Mancino, cônsul em 137 com Marco Emílio Lépido Porcina. Cf. RE s.v. Hostilius (18); BNP s.v. 321
Hostilius(I.8); MRR 1: 484. Cf. 1.181 para a controvérsia mencionada por Antônio.
Cf. 1.183.322
Sobre Públio Múcio Cévola, cf. 1.217, acima, e nota ad locum.323
!52
não há processos envolvendo esse tipo de lei. Portanto, é possível que o orador ignore sem prejuízo
toda essa parte do direito em suas controvérsias, parte que, sem dúvida, é de longe a maior. 242. Já
naquela parte que é objeto de disputa entre os maiores conhecedores, não é difícil, para o orador,
encontrar alguma autoridade para apoiar qualquer parte que defenda. Ao receber de tal autoridade as
lanças com correias, ele mesmo as arremessará com os músculos e as forças do orador, a menos que
— vou falar com a gentil permissão deste excelente homem — você tenha defendido a causa de 324
Mânio Cúrio com os opúsculos de Cévola ou com os preceitos de seu sogro, e não tenha assumido o
patronato da equidade e a defesa dos testamentos e da intenção dos mortos. 243. E, na minha
opinião — pois eu era seu ouvinte assíduo e estava presente àquele processo —, você obteve a
imensa maioria dos votos com seu humor, sua graça e suas brincadeiras tão refinadas, ao zombar
daquela precisão excessiva e admirar a inteligência de Cévola, que descobrira que é preciso nascer
antes de morrer; e ao reunir, de maneira não apenas precisa, mas também divertida e graciosa,
vários exemplos tirados das leis, dos senátus-consultos, da vida e da linguagem comum, em que, se
seguíssemos a letra, não o sentido, não se poderia chegar a lugar algum. Dessa forma, aquele
tribunal foi tomado de bom humor e alegria. Não percebo em que lhe foi útil a prática do direito
civil; útil foi o extraordinário poder de seu discurso, aliado a sua espirituosidade e elegância. 244.
No que diz respeito ao próprio Múcio, defensor do direito do pai e como que protetor de seu
patrimônio, o que referiu, naquela causa, ao discursar contra você, que parecesse tirado do direito
civil? Que lei ele leu? O que revelou, ao discursar, que não estivesse bem claro para os leigos? Sem
dúvida todo o discurso dele se ocupou em defender que o escrito deve ter muito mais peso. Mas
todos os meninos praticam esse tipo de exercício diante de seus professores, quando aprendem a
defender, em causas do gênero, ora o escrito, ora a equidade. 245. E naquela causa do soldado, se
você tivesse defendido o herdeiro ou o soldado, imagino que você teria recorrido às fórmulas de
Hostílio , não a sua competência e capacidade oratória! Na verdade, se defendesse o testamento, 325
agiria como se toda a autoridade de todos os testamentos dependesse daquele processo, ou, se
defendesse a causa do soldado, ergueria seu pai do mundo dos mortos com seu discurso, como é seu
costume; você o colocaria diante de nossos olhos; ele abraçaria seu filho e o recomendaria aos
centúnviros em prantos; decididamente, teria obrigado todas as pedras a chorar e lamentar, passando
a impressão de que a cláusula “tal como declarou expressamente” não está escrita nas Doze 326
Tábuas, que você prefere a todas as bibliotecas , mas na fórmula de um professor. 327
246. Ora, quanto à acusação de indolência que você faz aos jovens, por não aprenderem a
fundo essa arte , embora ela seja, em primeiro lugar, facílima, deixo a consideração de o quanto 328
ela é fácil àqueles que andam exultantes pela arrogância conferida por tal arte, como se ela fosse
dificílima. Depois, ficará para você mesmo considerar — você que afirma que ela é uma arte fácil,
concedendo que ela ainda não é de todo uma arte, mas que algum dia, se alguém aprender outra
arte, de maneira que possa torná-la uma arte, ela será uma arte . Em seguida, quanto ao fato de 329
Cévola.324
Nada se sabe das Hostilianae actiones além do que Antônio diz. 325
Lex XII 6.1a (ROL III: 456-457): “[…] tal como declarou expressamente, assim valha a lei”. Referência em MW: 326
119, n. 219.
Cf. 1.195: “Ainda que todos protestem, falarei o que penso: definitivamente, o pequeno livro das Doze Tábuas, se 327
alguém observar as fontes e as origens das leis, parece-me superar, sozinho, as bibliotecas de todos os filósofos, tanto
pelo peso de sua autoridade como pela riqueza de sua utilidade.”
Cf. 1.172; 185.328
Cf. 1.187-190.329
!53
que seria repleta de prazer : nesse aspecto, todos deixam esse prazer para você, aceitando privar-330
se dele. Nem há um único entre eles que, se tivesse de memorizar algum texto agora, não preferiria
memorizar o Teucro de Pacúvio às fórmulas manilianas de contratos de venda. 247. Já quanto 331 332
ao fato de você julgar que, por amor à pátria, devemos conhecer as descobertas de nossos
antepassados , será que você não percebe que as leis antigas desgastaram-se pela própria 333
antiguidade ou foram anuladas por novas leis? Quanto ao fato de você considerar que os homens se
tornam bons devido ao direito civil, porque, de acordo com as leis, haveria recompensas
estabelecidas para as virtudes e castigos para os vícios , eu, de minha parte, considerava que a 334
virtude fosse ensinada aos homens — se é que pode ser ensinada segundo um método — por meio
do ensino e da persuasão, não de ameaças, violência ou medo. De fato, podemos saber, mesmo sem
o conhecimento do direito, exatamente o quanto é belo nos mantermos distante do mal. 248. No que
diz respeito a mim mesmo, o único a quem você concede a capacidade de defender
satisfatoriamente as causas mesmo sem qualquer conhecimento de direito , respondo-lhe o 335
seguinte, Crasso: nunca estudei direito civil nem, todavia, jamais senti falta desse conhecimento nas
causas que tive a oportunidade de defender perante o pretor. É que uma coisa é ser um especialista
de algum ramo ou arte, outra é não ser obtuso e ignorante no que diz respeito à vida de todos e ao
hábito comum dos homens. 249. A quem de nós não é permitido inspecionar nossas propriedades ou
visitar nossas terras cultivadas, seja pela utilidade, seja pelo deleite? No entanto, ninguém vive tão
às cegas, tão estupidamente, que ignore por completo o que concerne à semente e à colheita, o que
é a poda das árvores e das vinhas, em que época do ano ou de que maneira se fazem tais coisas.
Acaso, então, se tivermos de examinar nossa propriedade, ou dar alguma recomendação sobre o
cultivo da terra ao administrador, ou alguma ordem ao caseiro, seremos obrigados a aprender a
fundo os livros de Mago, o cartaginês? Ou podemos nos contentar com o conhecimento geral do 336
assunto? Por que, então, também no que concerne ao direito civil, não podemos — sobretudo
porque nos desgastamos em nossas causas, em nossas atividades e no fórum — instruir-nos apenas
o bastante para não parecermos estrangeiros e forasteiros em nossa própria pátria? 250. E se agora
nos fosse confiada alguma causa mais obscura, seria difícil, imagino, consultar Cévola, aqui
presente! Embora as próprias pessoas a quem os processos concernem confiem-nos todos eles
depois de realizar consultas e pesquisas a seu respeito. Na verdade, se a controvérsia diz respeito ao
próprio fato, ou a fronteiras, quando não vamos em pessoa ao lugar, ou a livros contábeis e seus
registros, forçosamente aprendemos questões complicadas e, não raro, difíceis. Se devemos
Cf. 1.193: “Soma-se a isso, ademais, para que se possa compreender e conhecer o direito civil com mais facilidade, 330
algo que a maioria simplesmente desconsidera: um encanto e um deleite absolutamente admiráveis no seu
conhecimento.”
Pacúvio (220-c. 130), tragediógrafo republicano.331
Cf. 1.212 e nota ad locum.332
Cf. 1.193: “[…] para quem se deleita com esses estudos elianos, há um retrato completo da Antiguidade em todo o 333
direito civil, nos livros dos pontífices e nas Doze Tábuas, porque se toma conhecimento da grande antiguidade das
palavras e porque determinados tipos de fórmulas legais revelam a tradição e a vida de nossos antepassados.”
Cf. 1.194: “De fato, eles [sc. o direito civil e as leis] nos fazem ver que é preciso buscar sobretudo o prestígio, uma 334
vez que a virtude e o trabalho justo ehonesto são condecorados com honrarias, recompensas, lustre, enquanto os vícios
e as fraudes dos homens são punidos com multas, desonras, grilhões, açoites, exílios, morte.”
Cf. 1.172: “O poder absolutamente incrível, praticamente único e divino do engenho de Antônio, ainda que 335
desprovido desse conhecimento do direito, parece ser capaz de proteger e defender a si mesmo com as demais armas da
prudência. Por isso, vamos considerá-lo uma exceção.”
Mago, de datação incerta, é autor de uma obra sobre agricultura em cartaginês, em 28 volumes, traduzida em latim 336
após a queda de Cartago, em 146. Cf. BNP s.v. Mago (12). O sarcasmo da observação de Antônio reside no próprio
volume da obra, por contraposição à insignificância das informações que seriam ali buscadas.
!54
conhecer as leis e as respostas dos peritos, acaso receamos não sermos capazes de compreendê-las,
se não tivermos estudado direito civil desde a juventude?
Então de nada serve, ao orador, o conhecimento do direito civil? Não posso negar que
qualquer conhecimento é útil, sobretudo para aquele cuja eloquência deve ser ornada pela riqueza
dos temas. Mas muitos, grandes e difíceis são os elementos que são necessários ao orador, de modo
que não quero pulverizar seus esforços em vários estudos. 251. Quem poderia negar que, neste
movimento e nesta postura oratórios, o orador precisa da gesticulação e da graça de um Róscio ? 337
No entanto, ninguém convenceria os jovens que estudam oratória a se aplicarem ao aprendizado da
gesticulação à maneira dos atores. O que é tão necessário ao orador quanto a voz? Contudo, não
recomendarei a nenhum estudioso de oratória que cultive a voz à maneira dos gregos e dos atores
trágicos, que não só praticam a declamação sentados por vários anos, como também todo dia, antes
de se apresentarem, deitados, elevam a voz gradualmente e, depois de atuarem, sentados, levam-na
do som mais agudo ao mais grave, recolhendo-a de alguma forma, por assim dizer. Quanto a nós, se
quiséssemos fazer isso, aqueles cujas causas assumimos seriam condenados antes que recitássemos
o Péan ou Nomião quantas vezes fosse prescrito. 252. É que se não temos o direito de nos dedicar 338
à gesticulação, que é muito útil ao orador, e à voz, que confere particularmente valor ou sustento à
eloquência, e só podemos ter êxito nos dois âmbitos na medida em que nos sobra tempo neste
combate que é nosso dever cotidiano, cabe menos ainda chegar ao ponto de estudar a fundo o
direito civil! Ele pode ser estudado de maneira resumida, sem teoria, e apresenta uma diferença em
relação àqueles dois elementos: a voz e o gesto não podem ser obtidos de repente e tomados a
qualquer parte; o que há de juridicamente importante em cada causa pode ser obtido, mesmo em
cima da hora, dos peritos ou dos livros. 253. Assim, aqueles homens extremamente expressivos têm
jurisperitos como auxiliares em suas causas — aqueles que, como você disse anteriormente , são 339
denominados “consultores”—, sendo eles próprios totalmente ignorantes no assunto. Nesse aspecto,
nossos conterrâneos sem dúvida agiram com muito mais acerto, por desejarem que as leis e os
códigos fossem protegidos pela autoridade dos homens mais ilustres . No entanto, se os gregos 340
tivessem considerado necessário que o próprio orador se instruísse em direito civil, não se teriam
dado o trabalho de lhe oferecer um consultor como ajudante. 254. Ora, quanto a você afirmar que o
conhecimento do direito civil livra a velhice da solidão , talvez uma grande quantidade de 341
dinheiro também o faça. Nós, porém, não investigamos o que é útil para nós, mas o que é necessário
para o orador. De resto, já que tomamos a um único artista vários elementos para comparar ao
orador, o mesmo Róscio costuma dizer que, quanto mais avançar em idade, mais cadenciadas
tornará as melodias do flautista e mais baixos os seus cantos. Ora, se ele, apesar de preso por
determinada medida de ritmos e de pés, consegue pensar em algo para o descanso da velhice,
quanto mais facilmente nós podemos, não abrandar nosso ritmo, mas mudá-lo inteiramente? 255. E
não lhe escapa, Crasso, como são numerosas e variadas as modalidades do discurso, algo que você
Róscio Galo, ator cômico de fins do século II e começo do século I. Cf. BNP s.v. Roscius (I.4). Num processo de 337
datação incerta (Lintott 2008: 61 estima o ano de 72 como o mais provável, num intervalo possível de 72 a 68) e cujo
texto chegou até nós de maneira fragmentária, a Defesa do ator Quinto Róscio, Cícero defendeu o ator numa causa civil
a respeito de uma sociedade concernente aos ganhos financeiros sobre um ator escravo.
Adotamos a correção Nomionem, de Talaeus, em lugar do corrompido †munionem† da edição de Kumaniecki.338
Cf. 1.198.339
Referência aos jurisconsultos, pertencentes a determinadas famílias tradicionais (a gens Mucia, por exemplo, de que 340
há farta exemplificação no próprio diálogo).
Cf. 1.199: “De minha parte, já desde a juventude, comecei a adquirir esse apoio, não apenas para minha prática das 341
causas no fórum, mas também para a glória e ornamento de minha velhice, a fim de que, quando as forças começassem
a me faltar, época que já está quase se aproximando, protegesse minha casa dessa solidão.”
!55
talvez tenha sido o primeiro a demonstrar, já que há muito discursa de maneira bem mais calma e
branda do que costumava. Contudo, essa brandura em sua linguagem tão austera não recebe menos
aprovação do que aquela energia e tensão extremas. E houve muitos oradores, como sabemos ter
sido o caso de Cipião e Lélio, que tudo conseguiam com um tom um pouco mais enérgico, nunca
combatendo, como Sérvio Galba, com os pulmões e com gritos. Se já não puder ou não quiser fazer
tal coisa, você receia que a casa de um homem e cidadão tão importante, como é a sua, se não fosse
frequentada por homens envolvidos em litígios, seria abandonada pelos demais? De minha parte,
estou tão distante dessa ideia que não apenas não julgo que se deva considerar a multidão dos que
aparecem para fazer uma consulta como um apoio à velhice, mas também anseio como um porto
seguro essa solidão que você teme. Considero que o mais belo apoio para a velhice é o tempo livre.
256. Os demais elementos, ainda que sejam úteis — refiro-me à história, ao conhecimento
do direito público, ao registro da antiguidade e à riqueza dos precedentes —, se em algum 342
momento houver necessidade, eu os tomarei de empréstimo a meu amigo Congo , homem 343
excelente e profundamente versado em tais questões. E não me oporei ao que você acaba de
aconselhar: tudo ler, tudo ouvir, ocupar-se de todo tipo de estudo honesto e da cultura em geral . 344
Porém, decididamente, não me parece sobrar muito tempo, se quiserem fazer e executar o que foi
preceituado por você, Crasso. Tenho a impressão de que você impõe agora leis talvez duras demais
a essa idade, embora praticamente obrigatórias para obter aquilo que desejam. 257. De fato, os
exercícios improvisados para as causas estabelecidas, bem como as preparações elaboradas e
refletidas e sua célebre prática da escrita, que, como você bem observou, é um aperfeiçoador e
mestre da oratória , demandam muito suor. Tanto aquela comparação de um discurso próprio com 345
os escritos alheios como a discussão improvisada a respeito de um escrito alheio, seja para louvar,
vituperar, comprovar ou refutar, demandam um esforço nada modesto, seja para memorizar, seja
para imitar. 258. Preocupante foi aquele outro ponto, pois receio decididamente que tenha tido
maior poder para desencorajar do que para exortar: você pretende que cada um de nós seja uma
espécie de Róscio em sua categoria, e disse que o que é correto não fica tão gravado na mente
quanto o que é incorreto, em virtude da aversão que causa. Creio que isso não é visto com tanta
aversão entre nós, oradores, quanto o é entre os atores. 259. Assim, percebo que muitas vezes somos
ouvidos com toda a atenção, ainda que estejamos roucos, pois o tema e a causacativam por si
mesmos. Já Esopo , se estiver um pouco rouco, é vaiado. Pois aqueles que não buscam outra coisa 346
senão o prazer dos ouvidos ficam descontentes tão logo esse prazer diminui um pouco. Já na
eloquência, muitos são os fatores que cativam. Ainda que nem todos os fatores sejam perfeitos, mas
grandiosos em sua maioria, é preciso que justamente esses sejam admiráveis.
Adotamos a correção antiquitatis memoriam et, de Koch, em lugar de antiquitatis iter et, da edição de Kumaniecki.342
Possível referência ao antiquário Marco Júnio Congo Gracano (fim do século II—morto c. 54). Cf. RE s.v. Iunius 343
(68); BNP s.v. Iunius (I.20).
Cf. 1.158: “É preciso ler também os poetas, conhecer as obras dos historiadores, ler e consultar com assiduidade os 344
mestres e escritores de todas as artes liberais, bem como citá-los, interpretá-los, corrigi-los, criticá-los, refutá-los como
exercício.”
Cf. 1.150: “O mais importante é aquilo que, a bem da verdade, menos fazemos, pois exige muito trabalho, o que a 345
maioria de nós evita: escrever o máximo possível. A escrita é a melhor e mais importante realizadora e mestra do
discurso. E não é para menos: se a preparação e a reflexão superam facilmente o discurso improvisado e fortuito, é
evidente que a escrita assídua e cuidadosa será superior a este.”
Clódio Esopo, ator trágico contemporâneo de Cícero. Cf. BNP s.v. Aesopus, Clodius. 346
!56
260. Portanto, tornando ao primeiro ponto de nossa discussão, consideremos orador aquele
que, como Crasso descreveu, é capaz de discursar de maneira adequada à persuasão . Que ele se 347
atenha ao que diz respeito à praxe comum e pública das cidades, aparte-se dos demais estudos,
ainda que sejam importantes e ilustres, ocupe-se noite e dia desta única obra, por assim dizer, e
imite aquele a quem sem dúvida se concede a mais alta capacidade oratória, o ateniense
Demóstenes , em quem havia, dizem, tamanha dedicação e tamanho trabalho que superou, em 348
primeiro lugar, os obstáculos da natureza com sua diligência e indústria. Embora fosse tão gago que
não era capaz de pronunciar a primeira letra da própria arte a que se dedicava , aperfeiçoou-se 349
pela prática, a ponto de se julgar que ninguém falava com mais clareza. 261. Em segundo lugar,
como tinha muito pouco fôlego, obteve tamanhos resultados, em seus discursos, prendendo a
respiração, que numa única sucessão ininterrupta de palavras, como mostram os seus escritos,
estavam contidas duas elevações e dois abaixamentos de voz. Ele também, como diz a tradição,
costumava colocar pedras na boca e recitar em voz alta muitos versos num único fôlego, e isso, não
sentado em algum lugar, mas andando e subindo uma ladeira íngreme . 262. Estou totalmente de 350
acordo, Crasso, que os jovens sejam incitados ao estudo e ao trabalho com essas suas exortações.
Quanto aos demais elementos, que você reuniu de vários e diversos estudos e artes, embora você
tenha conseguido dominar todos eles, julgo que devem ser separados do ofício e da função próprios
do orador.
Depois que Antônio disse tais palavras, Sulpício e Cota pareciam ter muitas dúvidas sobre
qual dos dois discursos parecia chegar mais próximo da verdade . 351
263. Observou então Crasso:
— Você nos apresenta o orador como uma espécie de operário, Antônio. Talvez você pense
de forma diferente e esteja fazendo uso daquele seu famoso hábito de refutar, no qual ninguém
jamais o superou . A prática justamente dessa capacidade é própria dos oradores, mas agora ela se 352
encontra entre os hábitos dos filósofos, sobretudo daqueles que costumam falar de maneira
extremamente rica sobre os dois lados de qualquer questão proposta . 264. Porém, eu pensava que, 353
sobretudo na presença de tais ouvintes, cabia-me não apenas dar forma a um orador como poderia
ser aquele que vive nas bancadas dos tribunais e que não apresenta nada além do que as causas
exigem, mas tinha em mente algo maior, ao considerar que cumpria ao orador, sobretudo nesta
nossa República, não ser desprovido de nenhum ornamento. Quanto a você, já que circunscreveu
toda a função do orador a limites bastante exíguos, será capaz de expor para nós com facilidade o
Cf. 1.138: “o primeiro dever do orador é discursar de maneira adequada a persuadir”, definição apresentada por 347
Crasso como procedente dos “preceitos comuns e banais” (1.137) da retórica escolar, não como sua própria.
Demóstenes (384/3-322), orador e político ático, o modelo mais alto e completo de oratória nas obras retóricas de 348
Cícero. Cf. Brut. 35; 141; Orat. 6; 23; 104; Opt. Gen. 13.
Ou seja, não era capaz de pronunciar o ῥ de ῥητορική. Em Div. 2.96, o personagem Cícero cita Demétrio de Faleros 349
como fonte dessa informação: “Demétrio de Faleros escreve que, sendo [sc. Demóstenes] incapaz de pronunciar o r,
teria conseguido pronunciá-lo com absoluta clareza por conta de exercícios”.
Cf. Plut. Dem. 11.1: “Segundo Demétrio de Faleros – que afirma tê-lo ouvido ao próprio já velho – para combater os 350
defeitos físicos Demóstenes usou os seguintes exercícios: libertou-se da falta de clareza e da gaguez, obrigando-se a
falar com pequenas pedras na boca e, assim, passou a articular mais nitidamente; a voz exercitava-a em corrida e a subir
ladeiras, e pronunciava frases ou versos de um só fôlego. Tinha um grande espelho em casa e, à frente dele, praticava a
declamação.” Tradução de Várzeas 2010: 46.
Os personagens secundários, uma vez mais, parecem refletir o efeito desejado sobre o público leitor.351
O próprio Antônio o concederá, no começo da discussão do dia seguinte (2.40): “[…] ontem eu imaginei que, se o 352
refutasse, tomaria de você esses discípulos [sc. Cota e Sulpício]. Porém, agora que Cátulo e César estão nos ouvindo,
creio que não devo tanto lutar com você quanto dizer o que realmente penso.”
Os acadêmicos.353
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que buscava acerca dos ofícios e preceitos do orador. Mas creio que isso ficará para amanhã, pois
hoje já falamos mais do que o suficiente. 265. Agora, já que Cévola decidiu ir à sua vila aqui em
Túsculo, ele vai descansar um pouquinho até que o calor diminua, e nós, uma vez que já é hora,
podemos cuidar de nossa saúde. Todos concordaram com isso.
Disse então Cévola:
— Gostaria de não ter decidido ir hoje a minha vila aqui em Túsculo com Lúcio Élio : 354
teria prazer em ouvir Antônio. E acrescentou, rindo-se enquanto se levantava: — É que ele não me
foi tão desagradável por maltratar nosso direito civil quanto agradável por ter reconhecido que o
desconhece . 355
Possível referência ao cavaleiro Lúcio Élio Estilão Preconino (c. 154-90), filólogo, antiquário, gramático e 354
logógrafo, mestre do jovem Cícero e de Varrão (cf. Cic. Brut. 205-207).
Cf. 1.248.355
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