Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

0 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
NARCISISMO 
 
 
 
 
 
 
Fernanda Menegon Cavallin 
Ivy Lopes da Silva 
Luciana Stangherlin 
Luiza Thaís Crippa 
Priscila Peyrot Bassani 
Rute C. R. Santin 
Tiago de Conto 
 
 
 
 
 
 
Caxias do Sul, 2018 
 
 
 
1 
 
 
UNIVERSIDADE DE CAXIAS DO SUL 
ÁREA DO CONHECIMENTO DE HUMANIDADES 
CURSO DE GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA 
 
 
 
 
 
 
 
NARCISISMO 
 
 
 
 
 Trabalho apresentado como requisito 
parcial para a disciplina de Intervenção 
Clínica na Vida Adulta, em Psicologia 
sob orientação da Prof. Dra. Tânia 
Maria Cemin. 
 
 
Fernanda Menegon Cavallin 
Ivy Lopes da Silva 
Luciana Stangherlin 
Luiza Thaís Crippa 
Priscila Peyrot Bassani 
Rute C. R. Santin 
Tiago de Conto 
 
 
 
 
 
Caxias do Sul, 2018. 
 
 
 
2 
 
 
SUMÁRIO 
1. INTRODUÇÃO ................................................................................................................. 3 
2. CARACTERIZAÇÕES A RESPEITO DO NARCISISMO .......................................... 4 
2.1 Modelo Psiquiátrico ......................................................................................................... 4 
2.2 Teoria Cognitivo-Comportamental .................................................................................. 6 
2.3 Teoria Psicanalítica .......................................................................................................... 8 
2.4 Teoria Humanista ........................................................................................................... 10 
3. POSSÍVEIS INTERVENÇÕES ................................................................................... 12 
3.1 Teoria Cognitivo Comportamental ................................................................................ 12 
3.2 Teoria Psicanalítica ........................................................................................................ 14 
3.3 Teoria Humanista ........................................................................................................... 16 
REFERÊNCIAS ................................................................................................................... 18 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
3 
 
 
1. INTRODUÇÃO 
O termo “narcisismo” advém da mitologia grega, oriunda do mito de Narciso, mas 
que tem como principal objetivo falar sobre a auto adoração e o culto à sua própria 
imagem. Como este mito possui inúmeras versões, citaremos a versão encontrada em 
Dugnani & Cruz, (2007). 
 Narciso era filho de um deus (Cefiso) e de uma ninfa (Liriope) e também era 
dotado de uma beleza radiante. Em determinado momento, a ninfa Eco apaixona-se 
perdidamente por ele e ele a rejeita. Eco, em sua tristeza e desespero, definhou até seu 
corpo perecer e sobrar apenas sua voz, que continuaria a se repetir para todo o sempre. 
Vendo o ocorrido com Eco, às outras ninfas juntamente com Nêmesis (deusa da 
vingança), amaldiçoam narciso e o fazem se apaixonar por sua própria imagem, refletida 
nas águas de um lago. Narciso então não resiste a paixão e adoração por si mesmo e, um 
dia olhando seu reflexo, atira-se no lago e morre afogado. Em homenagem ao jovem, nasce 
em seu local de morte uma flor, denominada Narciso. 
Dada esta introdução, neste trabalho pretendemos analisar como três teorias 
distintas (Teoria Cognitivo-Comportamental, Psicanálise e Humanista) vêem o Transtorno 
da Personalidade Narcisista, assim também como suas potencialidades patológicas. O 
objetivo deste trabalho é também promover uma reflexão acerca das práticas em 
psicologia, de forma a incentivar o debate sobre as técnicas mais adequadas e ampliar as 
possibilidades dentro da clínica psicológica. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
4 
 
 
2. CARACTERIZAÇÕES A RESPEITO DO NARCISISMO 
2.1 Modelo Psiquiátrico 
O conceito de narcisismo origina-se da tradição médico-psiquiátrica no final século 
XIX. Definido originalmente como uma forma de fetiche e após este período, apropriado 
pela psicanálise, o ponto de vista patológico a respeito desta condição a acompanha desde 
os primeiros estudos. (Padovan, 2017) 
Seguindo os pressupostos do modelo psiquiátrico, a condição de patologia dentro 
da Personalidade Narcísica é apresentada no DSM-V (APA, 2014) como: 
“A Pessoa com personalidade narcisista apresenta um padrão difuso de 
grandiosidade (em fantasia ou comportamento), necessidade de admiração e falta de 
empatia que surge no início da vida adulta e está presente em vários contextos, conforme 
indicado por cinco (ou mais) dos seguintes: 
1. Tem uma sensação grandiosa da própria importância (p. ex., exagera conquistas e 
talentos, espera ser reconhecido como superior sem que tenha as conquistas 
correspondentes). 
2. É preocupado com fantasias de sucesso ilimitado, poder, brilho, beleza ou amor ideal. 
 3. Acredita ser “especial” e único e que pode ser somente compreendido por, ou associado 
a outras pessoas (ou instituições) especiais ou com condição elevada. 
4. Demanda admiração excessiva. 
5. Apresenta um sentimento de possuir direitos (i.e., expectativas irracionais de tratamento 
especialmente favorável ou que estejam automaticamente de acordo com as próprias 
expectativas). 
6. É explorador em relações interpessoais (i.e., tira vantagem de outros para atingir os 
próprios fins). 
7. Carece de empatia: reluta em reconhecer ou identificar-se com os sentimentos e as 
necessidades dos outros. 
8. É frequentemente invejoso em relação aos outros ou acredita que os outros o invejam. 
9. Demonstra comportamentos ou atitudes arrogantes e insolentes. 
Características Diagnósticas 
 A característica essencial do transtorno da personalidade narcisista é um padrão 
difuso de grandiosidade, necessidade de admiração e falta de empatia que surge no início 
da vida adulta e está presente em vários contextos. Indivíduos com o transtorno têm um 
sentimento grandioso da própria importância (Critério 1). Superestimam de forma rotineira 
suas capacidades e exageram suas conquistas, com frequência parecendo pretensiosos e 
 
5 
 
 
arrogantes. Podem tranquilamente partir do pressuposto de que os outros atribuem o 
mesmo valor aos seus esforços e podem surpreender-se quando o elogio que esperam e o 
sentimento que sentem merecer não ocorrem. Comumente implícita nos juízos inflados das 
próprias conquistas está uma subestimação (desvalorização) das contribuições dos outros. 
Indivíduos com transtorno da personalidade narcisista estão frequentemente preocupados 
com fantasias de sucesso ilimitado, poder, brilho, beleza ou amor ideal (Critério 2). Podem 
ruminar acerca de admiração e privilégios “há muito devidos” e comparar-se 
favoravelmente a pessoas famosas ou privilegiadas. As pessoas com esse transtorno creem 
ser superiores, especiais ou únicas e esperam que os outros as reconheçam como tal 
(Critério 3). Podem sentir que são somente compreendidas por outras pessoas especiais ou 
de condição elevada, e apenas com elas devem se associar, podendo atribuir qualidades 
como “únicas”, “perfeitas” e “dotadas” àquelas com quem se associam. Indivíduos com 
esse transtorno acreditam que suas necessidades são especiais e estão além do 
conhecimento das pessoas comuns. Sua própria autoestima é realçada (i.e., “espelhada”) 
pelo valor idealizado que conferem àqueles com quem se associam. Tendem a insistir em 
ser atendidos apenas por pessoas “top” (médico,advogado, cabeleireiro, instrutor) ou em 
ser afiliados às “melhores” instituições, embora possam desvalorizar as credenciais 
daqueles que os desapontam. Indivíduos com esse transtorno geralmente exigem 
admiração excessiva (Critério 4). Sua autoestima é quase invariavelmente muito frágil. 
Podem estar preocupados com o quão bem estão se saindo e o quão favoravelmente os 
outros os consideram. Isso costuma assumir a forma de uma necessidade constante de 
atenção e admiração. Podem esperar que sua chegada seja saudada com grandes 
comemorações e ficam atônitos quando os outros não cobiçam seus pertences. Podem 
constantemente buscar elogios, em geral com muita sedução. Fica evidente nesses 
indivíduos uma sensação de possuir direitos por meio das expectativas irracionais de 
tratamento especialmente favorável que apresentam (Critério 5). Esperam ser servidos e 
ficam atônitos ou furiosos quando isso não acontece. Por exemplo, podem supor que não 
precisam aguardar em filas e que suas prioridades são tão importantes que os outros farão 
uma deferência a eles, irritando-se depois quando estes não os auxiliam “em seu trabalho 
tão importante”. Essa sensação de possuir direitos, combinada com falta de sensibilidade 
aos desejos e necessidades dos outros, pode resultar na exploração consciente ou 
involuntária de outras pessoas (Critério 6). Esperam receber qualquer coisa que desejarem 
ou sintam necessitar, independentemente do que isso possa significar para os outros. Por 
exemplo, esses indivíduos podem esperar uma grande dedicação dos outros e podem 
explorá-los abusivamente sem dar importância ao impacto que esse fato pode ter em suas 
 
6 
 
 
vidas. Tendem a formar relações de amizade ou romance somente se a outra pessoa parece 
possibilitar o avanço de seus propósitos ou, então, incrementar sua autoestima. Costumam 
usurpar privilégios especiais e recursos extraordinários que creem merecer por serem tão 
especiais. Indivíduos com o transtorno geralmente apresentam falta de empatia e 
dificuldade de reconhecer os desejos, as experiências subjetivas e os sentimentos das 
outras pessoas (Critério 7). 
Podem pressupor que os outros estão totalmente preocupados com seu bem-estar. 
Tendem a discutir suas próprias preocupações de forma detalhada e prolongada, ao mesmo 
tempo que falham em reconhecer que os demais também têm sentimentos e necessidades. 
Com frequência são desdenhosos e impacientes com outros que falam sobre seus próprios 
problemas e preocupações. Podem não enxergar o quanto ferem os demais com seus 
comentários (p. ex., dizer exageradamente a um ex-companheiro “Agora estou em um 
relacionamento para toda a vida! ”; alardear a saúde diante de alguém doente). Quando 
reconhecidos, as necessidades, os desejos ou os sentimentos das outras pessoas são 
provavelmente encarados de forma depreciativa como sinais de fraqueza ou 
vulnerabilidade. Aqueles que se relacionam com indivíduos com transtorno da 
personalidade narcisista costumam encontrar frieza emocional e falta de interesse 
recíproco. 
Esses indivíduos tendem a invejar os outros ou a acreditar que estes os invejam 
(Critério 8). Podem ver com má vontade o sucesso ou os pertences das outras pessoas, 
sentindo que eles é que são os reais merecedores de tais conquistas, admiração ou 
privilégios. Podem desvalorizar grosseiramente as contribuições dos outros, sobretudo 
quando essas pessoas receberam reconhecimento ou elogio pelo que realizaram. 
Comportamentos arrogantes e insolentes caracterizam esses indivíduos; com frequência 
exibem esnobismo, desdém ou atitudes condescendentes (Critério 9). Por exemplo, um 
indivíduo com esse transtorno pode se queixar da “grosseria” ou “estupidez” de um 
garçom desajeitado ou concluir uma avaliação médica com uma apreciação 
condescendente do médico” (p. 669-671) 
2.2 Teoria Cognitivo-Comportamental 
Os indivíduos que possuem esse transtorno supõem que são especiais, superiores e 
únicos além disso, acreditam que devem ser tratados dessa maneira. Estes sujeitos não 
aceitam críticas, necessitam de admiração e precisam se sentirem aceitos na maioria do 
tempo. Há evidências que esses pacientes apresentam prejuízos na área do trabalho, nas 
 
7 
 
 
relações interpessoais, e também apresentam elevado risco de suicídio. (Marissen, Deen & 
Franken, 2011). 
Alguns dos outros comportamentos típicos de uma pessoa narcisista também 
incluem impaciência, arrogância, tendência a dominar as conversas e indiferença frente aos 
direitos dos outros indivíduos. Pessoas com este tipo de personalidade também apresentam 
comportamento sociais inicialmente cativante. (Beck, Freeman, & Davis, 2017) 
 Alguns dos aspectos fundamentais pertinentes à pessoa com personalidade 
narcisista remetem a sua infância. Nesta fase, Beck, Freeman & Davis (2017) citam que 
frequentemente a criança é tratada como se fosse especial, geralmente sendo mimado e 
idealizado pelos pais. Com esta idealização, a criança aprende que precisa atender as 
expectativas dos pais para receber atenção e até mesmo amor. Apesar da valorização da 
família, a relação com os pares (colegas de escola) é geralmente prejudicada, pois este não 
se sente mais o centro das atenções dos demais. 
 Para que possamos entender mais a respeito do funcionamento da pessoa com 
Personalidade Narcisista, nos utilizaremos da Terapia dos Esquemas, proposta por Jeffrey 
Young e diretamente relacionada ao entendimento das personalidades e seus possíveis 
transtornos. 
Young (2003), propõe a terapia dos esquemas, na qual engloba elementos da 
abordagem da terapia cognitiva-comportamental clássica, aliado a outras escolas como: a 
gestalt, relações objetais, construtivismo e escolas psicanalíticas, para tratar pacientes com 
Transtorno de Personalidade Narcisista. 
Esse modelo elaborado por Young destaca a confrontação, e a discussão de 
experiências de vida dos momentos iniciais do sujeito, caracteriza também por ser um 
tratamento mais longo que a terapia cognitiva-comportamental clássica, em que se dedica 
mais em superar a evitação cognitiva, comportamental e cognitiva. (Callegaro, 2005). 
Dentro da abordagem cognitiva focada em esquemas foi possível apontar dezoito 
esquemas iniciais desadaptativos, organizados em cinco domínios: (a) desconexão e 
rejeição; (b) autonomia e desempenho prejudicados; (c) limites prejudicados; (d) 
orientação para o outro e (e) supervigilância e inibição (Young, 2003). 
O autor ainda destaca que esses cinco domínios se referem às necessidades 
desenvolvimentais da criança que podem não ter sido supridos nessa idade. Estas 
necessidades são: competência e sentido de identidade; liberdade de expressão; autonomia 
e emoções; espontaneidade; lazer; validação das necessidades; limites realistas e 
autocontrole. 
Os 18 EIDs ( Esquemas Iniciais Desadaptativos), agrupados nos cinco domínios já 
 
8 
 
 
descritos e caracterizados por déficits de necessidades básicas, estão listados a seguir 
(Young et al. 2008): 
Desconexão e Rejeição (Domínio 1): desconfiança/abuso, abandono/instabilidade, 
defectividade/vergonha, isolamento social/alienação, privação emocional; 
Autonomia e Desempenho Prejudicados (Domínio 2): dependência/incompetência, 
vulnerabilidade ao dano ou à doença, emaranhamento/self subdesenvolvido, fracasso; 
Limites Prejudicados (Domínio 3): arrogo/grandiosidade, autocontrole/autodisciplina 
insuficientes; 
Direcionamento para o Outro (Domínio 4): autossacrifício, subjugação, busca de 
aprovação/busca de reconhecimento; 
Supervigilância e Inibição (Domínio 5): inibição emocional, negativismo/pessimismo, 
postura punitiva, padrões inflexíveis/postura crítica exagerada. (Young et al. 2008) 
 A autora Behary(2011), aborda que no tratamento de sujeitos com Transtorno de 
Personalidade Narcisista deve-se prestar atenção em dois cenários. O primeiro se refere aos 
esquemas ativados pelos narcisistas, principalmente para os indivíduos que mantém um 
relacionamento próximo com um Narcisista que são: Auto sacrifício, Subjugação, 
Abandono/instabilidade, Defectividade/vergonha, inibição emocional/ Privação emocional, 
Desconfiança/abuso e Padrões rígidos. A segunda situação a se trata dos Esquemas 
presentes no sujeito Narcisista que são: Privação emocional, Desconfiança/abuso, 
Defectividade/vergonha, Subjugação, Padrões rígidos, Merecimento/grandiosidade, 
Autocontrole insuficiente e Busca por aprovação. 
Segundo Cazassa e Oliveira, (2008), sujeitos com essa condição tem mais 
dificuldade de responder a alguns pressupostos fundamentais da TCC clássica. A principais 
limitações estariam associadas a: acesso a sentimentos, pensamentos e imagens a partir de 
breve treinamento; motivação no aprendizado de tarefas e estratégias de autocontrole e 
engajar-se em um relacionamento colaborativo com o terapeuta entre outros. 
2.3 Teoria Psicanalítica 
Freud (1914-1916), pontua que o termo narcisismo advém da descrição clínica, 
denotando alguém que contempla o próprio corpo, afagando e acariciando-o até obter 
satisfação completa por essas atividades. “Passa a significar uma perversão que absorveu a 
totalidade da vida sexual do indivíduo. ” 
Na clínica psicanalítica, Lazzarini e Viana (2010), pontuam que: “as configurações 
subjetivas contemporâneas tendem a apresentar um sujeito que traz um sofrimento 
psíquico que parece estar menos relacionado a conflitos neuróticos clássicos, regulados 
 
9 
 
 
pela lógica da castração e do desejo. “ (p.2), mas sim, que tende a aparecer algo da ordem 
do desamparo primordial, que já foi ressaltado por Freud. 
Lazzarini e Viana (2010), que usaram como base os escritos de Freud mencionam 
que esse sujeito, demonstra algo regressivo, narcisístico direcionado a si próprio, seu 
próprio eu é que ganha lugar de investimento caracterizando uma idealização de si mesmo, 
assim encontrando uma forma de se sentir pleno. 
Para Green (2001) citado por Lazzarini e Viana faz descrição dos pacientes 
narcísicos “pessoas cuja capacidade de fantasiar é muito mais utilizada como forma de 
preenchimento do vazio; são pessoas que possuem um retardo afetivo acentuado, isto é, 
têm horror aos apetites sexuais e orais. ” (2010, p.4) 
Lazzarini e Viana (2010), acreditam que trata-se de pacientes com experiências 
ruins de individuação e separação: 
Certas características de funcionamento psíquico decorrem daí: são pessoas que 
não se sentem seguras; que vivem no aqui e agora; cujo modo de comunicação 
específico é a narração, contam o fato e não a emoção que sentiram; que 
tendem a não aprender pela experiência vivida pessoal; com dificuldade de se 
desprender intelectualmente de seu vivido; que na vida social permanecem 
grudadas (no sentido de fusão) aos outros ou, excessivamente afastadas e que 
temem a penetração seja ela do olhar ou sexual. (p.4) 
Para Recktenvald (2010), que procura descrever em seus estudos as relações 
iniciais que o indivíduo estabelece com o ambiente que o cerca, algumas características são 
descritas tradicionalmente como pertencentes a pessoas com personalidades narcísicas, 
como a necessidade de ser admirado e amado, vida emocional superficial, dificuldade de 
empatia, tendência a explorar os outros nos relacionamentos, grandiosidade e adaptação 
social superficialmente adequada. Também, segundo a autora, o diagnóstico nosológico 
descrito no DSM-IV acaba apontando característica semelhantes às descritas pelos 
psicanalistas. 
Para a abordagem psicanalítica, segundo Rossi e Mello (2015), no processo de 
narcisização, o narcisismo integra uma imagem corporal e possibilita o surgimento do Eu, 
ou seja, possibilita o surgimento de uma identidade para o sujeito, ocorrendo a partir do 
encontro do sujeito com o Outro. Reportando-se à fase pré-edípica, caracteriza-se pelo 
amor, olhar e investimento libidinal materno. Nos casos em que a mãe não dispõe destas 
condições, é fundamental que outra pessoa desempenhe esse papel de maternagem, sendo 
uma tia, avó, pai, etc. Assim, para Rossi e Mello (2015) 
 
10 
 
 
Na relação primordial com os pais está a origem da saúde 
mental ou de futuros dissabores. O olhar da mãe é estruturante 
para a criança. A mãe serve de espelho para ela. O tom de sua 
voz também é de extrema importância, posto que esse foi o 
vínculo mantido desde as suas primeiras horas de vida 
intrauterina. A palavra da mãe é acolhedora, aconchegante, 
promove segurança. Quando não tem a palavra instituída corre-
se o risco de surgir várias patologias. (p. 1214) 
A criança que recebe um bom investimento libidinal e grande riqueza afetiva, 
conforme Rossi e Mello (2015), seguramente levará para a vida uma bagagem inestimável, 
sob a forma de autoestima, confiança e segurança. 
Para Dalgalarrondo em Rossi e Mello (2015), “Todo indivíduo necessita investir 
amorosamente no seu próprio Eu para sobreviver, para cuidar de si mesmo e também, para 
poder amar outras pessoas”, ou seja, o indivíduo precisa de amor para constituir-se e 
desenvolver-se. O importante, segundo os autores, é a intensidade de amor que é investida 
no Eu. 
2.4 Teoria Humanista 
 Com base em pesquisas sobre diversas abordagens humanistas, para o 
entendimento do paciente narcisista, a Gestalt-terapia foi escolhida por conter mais 
publicações sobre o tema, e ainda assim, um número escasso. A Gestalt é entendida como 
uma abordagem que se concentra no potencial da pessoa, substituindo a visão de patologia 
pela visão de indivíduo, portador de seus próprios recursos e capacidade de autorregulação. 
Ela se concentra mais no processo do que no conteúdo, e por isso, ao invés de buscar 
entender as causas do comportamento, busca entender o processo (Mesquita, 2011). 
 Esta abordagem considera mais preciso falar sobre “orientação narcísica”, ao invés 
de transtorno, pois esta é uma condição clínica em que ocorre a experiência do self. Na 
verdade, o narcisismo em si é entendido como uma modalidade precisa de interrupção do 
ciclo de contato que causa a auto reflexão. Entende-se que este ser é alguém incapaz de 
manter um relacionamento íntimo, e que se encontra em um estado de ansiedade de 
simbiose. (http://institutoananda.es/psicopatologia-narcisismo-y-gestalt/) 
 Vieira, Oliveira e Ferreira, (2013), citam a dificuldade do paciente para a 
compreensão da ideia de “nós”, sendo que para este existe o “eu” e o “você”. Isso dificulta 
suas interações sociais, além de causar o sentimento de solidão e insatisfação com seu 
ponto de vista sexual, posto que o paciente busca alguém que valide sua existência, mas 
 
11 
 
 
que também sirva de espelho. Esta dependência do outro torna-o escravo de sua própria 
autoestima. 
 O mundo pós-moderno valoriza ideais narcísicos, como imagem, beleza e 
juventude. Pela ênfase desta valorização girar em torno da imagem, a capacidade de cada 
um em pensar, refletir e discriminar o que é positivo ou não para si, fica comprometida. 
Introjetos inteiros são absorvidos, sem serem compreendidos para eliminar o que seria 
dispensável ou tóxico para o indivíduo (http://institutoananda.es/psicopatologia-
narcisismo-y-gestalt/) 
 Esta abordagem acredita que com contextos sociais que buscassem estimular mais a 
autorregulação e confiassem mais na sabedoria do organismo, os seres humanos seriam 
mais confiantes e seguros. Pensa-se que a falta de confiança em si, possa alimentar 
posturas narcisísticas de grandiosidade, comprometendo as relações. A identificaçãocom 
essa imagem de grandiosidade permite ao narcisista ignorar a dor da realidade interna 
(Yontef, 1998). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
12 
 
 
3. POSSÍVEIS INTERVENÇÕES 
3.1 Teoria Cognitivo Comportamental 
Em pacientes com Transtorno de Personalidade Narcisista, além do lado adulto que 
o terapeuta busca fortalecer é possível observar três modos básicos que prevalecem nesses 
indivíduos: 
1. Criança solitária 
2. Auto-engrandecedor 
3. Auto confortador desligado (Young, 2003) 
O principal objetivo da terapia focada em esquemas é fortalecer o lado adulto 
saudável do sujeito, para que assim a criança solitária se sinta amparada e compreendida 
desenvolvendo também o lado para cuidar e ser empático com as pessoas. O terapeuta 
também confronta o lado auto-engrandecedor do paciente para que ele se dê conta que não 
há necessidade de aprovação excessiva e trate os outros com mais reciprocidade. E também 
o terapeuta ajuda a minimizar o lado auto confrontador com os comportamentos aditivos e 
evitativos, substituindo por relacionamentos autênticos e duradouros, inicialmente com o 
próprio terapeuta e depois com as pessoas mais próximas do sujeito. 
(Young, 2003) 
A medida que a criança solitária recebe amor e empatia, o paciente já não 
precisa substituir o amor por aplauso ou indiferença nem agir com outros de 
maneira depreciativa ou autocentrada. Os modos auto-engrandecedor e 
autoconfortador desligado se enfraquecem e desaparecem aos poucos. O foco 
principal do tratamento, portanto, está nos relacionamentos íntimos, tanto a 
relação terapêutica quanto os outros relacionamentos importantes do paciente. 
(Young, 2003, p. 335) 
O primeiro passo para a modificação dos esquemas é realizar uma cuidadosa 
avaliação e conceituação do caso e em segundo a mudança do esquema. Basicamente 
a primeira fase requer oito passos: 1) identificar os problemas e sintomas 
apresentados pelo sujeito nas sessões iniciais para obter uma breve história do 
sujeito. 2) aplicar o Multimodal Life History Inventory (A. Lazarus e C. Lazarus, 
1991) e o Questionário de Esquemas de Young (Forma longa, Segunda Edição) 3) 
após a realização do questionário, discutir com o paciente os esquemas apresentados. 
4) ativar os esquemas do paciente por meio de imagens, trazendo à tona alguns 
acontecimentos traumáticos do passado e do presente, recomendando filmes, livros 
para a discussão e propondo tarefas de casa. 5) se achar necessário, confrontar a 
 
13 
 
 
evitação do esquema do paciente. 6) Identificação dos comportamentos 
desencadeados pelos esquemas, ou seja, sua manutenção, evitação e compensação. 
Se necessário aplicar o Young-Rygh Avoidance Inventory (YCI; Young, 1995). 7) 
reunir as informações coletadas em uma conceituação coerente do paciente. 
Administrando o Young Parenting Inventory (YPI; Young, 1994). Diante disso, ligar 
os problemas e as experiências da infância e os padrões comportamentais -
adolescentes e adultos-, as emoções e o relacionamento terapêutico com os EIDs e 
obter feedback do paciente sobre a conceituação do caso. 8) E por fim, diferenciar o 
que é esquema primários, secundários e vinculados. Escolher junto um ou dois 
esquemas nucleares para a mudança. 
O segundo passo é a mudança em si. Existem quatro tipos de 
estratégias/intervenção que são: cognitiva, experiencial, interpessoal e 
comportamental. 
 As técnicas cognitivas são ensinadas aos pacientes para que eles consigam 
lutar contra os esquemas sempre que surgir quando eles não estiverem na sessão, 
combatendo as crenças com pensamentos racionais, e entendendo que os esquemas 
distorcem as informações. Uma técnica que pode ser utilizada é pedir que o paciente 
represente o papel de “Advogado do Diabo”. O paciente deve defender para o 
terapeuta o esquema, dando vários exemplos que comprovem que aquele esquema é 
aceitável, concomitantemente o terapeuta vai mostrando-lhe que não é verdade. 
As técnicas experimentais são realizadas normalmente após as técnicas 
cognitivas com o objetivo de flexibilizar os esquemas para a mudança. Uma técnica 
que pode ser trabalhada é a “Catarse Emocional” que tem o objetivo de trabalhar 
questões emocionais que não foram trabalhadas. O terapeuta traz através de imagens, 
dramatização de papéis estimulando o paciente a vivenciar essas experiências, 
sentimentos associados aos esquemas. 
As técnicas interpessoais são vivenciadas em todo tratamento, pacientes 
apresentam seus esquemas nesse relacionamento de troca com o terapeuta 
(“transferência”). Uma técnica válida nesse contexto é proporcionar um 
relacionamento terapêutico que se contraponha aos Esquemas Iniciais 
Desadaptativos. Tendo postura contrária dos relacionamentos que o paciente teve na 
infância que fortaleceram os esquemas desadaptativos. 
Técnicas comportamentais se define por uma etapa final do tratamento são 
técnicas que visam a mudança de comportamento que acabou sendo reforçando os 
esquemas ao longo do tempo. Uma técnica pertinente que é usada nesse caso 
 
14 
 
 
Obstáculos comuns ao tratamento do narcisismo 
Pacientes com esse transtorno de personalidade tem grande probabilidade de nos 
primeiros atendimentos não seguir em frente no tratamento. Um dos motivos pode ser pelo 
modo auto-engrandecedor, o paciente não sabe estabelecer e permanecer em um 
relacionamento autênticos e duradouros o que possa ser difícil de entender o objetivo da 
terapia, principalmente se o paciente nunca tenha sido cuidado de verdade. Portanto, eles 
acabam evitando e abandonando a terapia para não entrar em contato com o sofrimento da 
criança solitária. (Young, 2003) 
“O modo auto-engrandecedor pode rejeitar o terapeuta por não o 
considerar “bom o suficiente” em algum aspecto - não é rico, inteligente, 
instruído, bem-sucedido o suficiente, e assim por diante. Isso também pode 
acontecer mais tarde no tratamento. Tendo inicialmente idealizado o terapeuta, 
o paciente o desvaloriza depois”. (Young, 2003, p. 355- 356) 
Para melhor ilustração de como funcionaria a intervenção em Teoria 
Cognitivo-Comportamental, apresentamos a entrevista realizada por Paulo Knapp, 
um dos maiores nomes da Terapia Cognitivo Comportamental no país. Na entrevista, 
Paulo realiza uma encenação de uma sessão com Dorian Gray e mostra como seria o 
entendimento funcional do caso de Dorian, além de como seriam as possíveis 
intervenções em TCC com o paciente. O vídeo completo tem a duração de uma hora 
e encontra-se disponível pelo site Youtube, porém, decidimos por expor apenas um 
trecho do vídeo neste trabalho. O acesso é feito pelo link: 
https://www.youtube.com/watch?v=b9MBAnvkxOw. 
3.2 Teoria Psicanalítica 
 A teoria psicanalítica evoluiu muito ao longo dos anos. Tal evolução possibilitou a 
junção de duas áreas impensáveis na época de Freud, a neurociência e a psicanálise, 
originado assim a neuropsicanálise. Diante disso, pensamos em uma possível intervenção 
com sujeitos narcisistas através desse novo olhar da ciência. 
 A neuropsicanálise possui um entendimento multiprofissional diante de 
perturbações, emoções ou qualquer outro tipo de sentimento ou comportamento que esteja 
relacionado com os sujeitos. A mesma envolve tanto questões biológicas como questões 
psicodinâmicas, possibilitando um espaço de compreensão mais amplo e completo diante 
de certas situações. Neste processo o cérebro vai ser compreendido e suas partes e 
funcionalidade, porém as funções mentais também ocuparão espaço para análise. Por essas 
 
15 
 
 
funções não possuírem espaço físico em nosso corpo ou mente, elas serão compreendidas 
como uma forma de "interaçãofuncional dinâmica" (s/p) (Bocchi & Almeida, 2003). 
 Bocchi e Almeida (2003), relatam que os neuropsicanalistas irão buscar na 
psicanálise o conhecimento teórico, para que assim possam compreender melhor questões 
inconscientes que possam acabar motivando certos comportamentos, que por vezes 
dificultam na compreensão dos mesmos. Com isso, as intervenções nesta área serão 
efetuadas com a junção de exames de imagem e a psicoterapia, por exemplo. 
 No trabalho elaborado por Bocchi e Almeida (2003), é relatado sobre os estudos 
neuropsicanalíticos com relação à Síndrome do Hemisfério Direito. Na presença de lesões 
neste local constatou-se alguns sinais e sintomas como as alterações cognitivas, déficits de 
memória visuo-espacial e déficits emocionais, por exemplo. A intensidade da lesão e o tipo 
de distúrbio foram constatados também como fatores determinantes para estes sintomas. 
 Para a neuropsicanálise, os narcisistas podem ser identificados através desta lesão, 
Bocchi e Almeida (2003) referem-se a isso da seguinte forma: 
[...]lesões no hemisfério direito desestabilizam os mecanismos neuropsíquicos 
envolvidos na representação dos objetos e do eixo espacial como um todo, 
deixando os indivíduos acometidos à mercê de uma concepção espacial e 
objetal menos estruturada. (p.65). 
Assim, juntamente como a visão psicanalítica, pode-se dizer que tais lesões 
estariam provocando nos sujeitos narcísicos uma regressão quanto ao seu 
funcionamento psíquico (Bocchi & Almeida. 2003). 
A junção dessas duas visões é importante para que se possa compreender que 
os sujeitos narcísicos não possuem déficit perceptivo, e sim uma evitação por parte 
dos mesmos em entrar em contato com estas questões por causarem sofrimento. 
Diante disso, pode-se dizer que os processos de intervenção na neuropsicologia 
acontecem de maneira multiprofissional, ao mesmo tempo que teremos o aporte dos 
exames de imagem e as explicações biológicas, a teoria psicanalítica também estará 
em ação (Bocchi & Almeida, 2003). 
No processo de psicoterapia, será importante a identificação das defesas 
utilizadas pelo paciente, bem como o exame mental completo do mesmo. E através 
disso, poder auxiliar o sujeito quanto às percepções e representações não elaboradas 
ao longo da vida, podendo assim evoluir com o processo de regressão psíquica. 
Bocchi e Almeida (2003) ainda escrevem que "As intervenções terapêuticas abrem 
uma perspectiva para que o paciente dissociado reconheça seu estado físico, dando 
vazão a sentimentos suprimidos." (p. 62). 
 
16 
 
 
3.3 Teoria Humanista 
 Estudos da Gestalt-terapia discutem muito sobre a relação entre o terapeuta e o 
paciente para a realização de um trabalho de sucesso. A criação de um vínculo forte é 
fundamental para que o terapeuta possa trabalhar com as questões do paciente. De acordo 
com Yontef (1998), para criar o vínculo, é fundamental acompanhar, verificar e acreditar 
na experiência do paciente a cada momento. Por vezes, o paciente apresenta dificuldade 
em aceitar do terapeuta algo que ele não sabe sobre si mesmo, podendo interferir na 
relação. 
 Para a construção da relação terapêutica, é importante que o profissional considere 
importante a ideia de que esta relação deve ser livre de intervenções que possam ser 
consideradas intrusas para o paciente, invalidando sua experiência. O cliente narcisista 
precisa sentir-se validado por outro em sua vivência, e isso é vital para o desenvolvimento 
da preocupação por si e pelo outro, além da confiança no contato com as pessoas 
(http://institutoananda.es/psicopatologia-narcisismo-y-gestalt/) 
Muitas intervenções são vistas pelos narcisistas como exigências do terapeuta a 
serem satisfeitas, e não deles mesmos. Por isso, usar o “nós” com frequência no tratamento 
é importante, pois estimula a ansiedade, e, consequentemente, a reflexão do paciente, que 
apresenta dificuldades em aceitar esta ideia (Vieira et al, 2013). 
A Gestalt terapia é de apoio e confrontação, e por isso, diversos momentos 
terapêuticos são de confrontação, que podem ser realizados de maneira mais suave e 
empática considerando a condição do cliente. A atitude do terapeuta deve estar 
fundamentada na base do amor, para que o cliente entenda que o sofrimento causado é para 
o seu bem. É necessário conhecer uma pessoa para saber como atuar sem machucar sua 
ferida (Vieira et al, 2013). 
Quando o cliente se sente vulnerável, o terapeuta não deve defender ou tratar de 
impor sua intervenção, nem se desculpar-se pela mesma ou trocar a experiência, mas sim, 
deve vivê-la com ele. É necessária a atitude de explorar a experiência e reconhecer a sua 
parte na interação, além de afirmar que toda a experiência é válida. Uma troca mais 
profunda requer a expressão dos sentimentos negados, e para fazer isso, é necessário 
liberar as tensões que bloqueiam os sentimentos, e fazer conscientes as memórias 
reprimidas ou negadas pelo narcisista desde a infância. A imagem por si só é uma negação 
dos sentimentos (http://institutoananda.es/psicopatologia-narcisismo-y-gestalt/). 
A Gestalt trabalha com a ideia da existência de um "outro" através de técnicas, 
além da ideia de aqui e agora nas experiências de relação do paciente e treinos de 
relacionamentos de sucesso. Em muitos momentos, técnicas de Psicodrama são trazidas ao 
 
17 
 
 
consultório aliadas à Gestalt. Estas têm muito a contribuir é a construção de projetos 
coletivos e grupais como forma de quebrar o narcisismo preponderante. Considera-se que 
oportunizar que o cliente se coloque no lugar do outro fortalece espaços relacionais, 
resgatando a intersubjetividade, que está comprometida (Naffah-Netto, 1997). 
A espontaneidade é considerada uma meta desejável tanto na Gestalt-terapia como 
no psicodrama (Vieira et al, 2013). Para o psicodrama, espontaneidade é entendida como a 
capacidade de enfrentar novas situações, utilizando criatividade em uma relação 
compromissada com o mundo. Já para Perls, Hefferline e Goodman (1997), da Gestalt-
terapia, a espontaneidade é entendida como o apoderamento e crescimento do cliente com 
aquilo o que é interessante e nutritivo no ambiente. Tanto para a primeira, como para a 
segunda, se faz necessário o cultivo de uma sensação de atuação no meio, possibilitando 
crescer e formular novas respostas dentro dele. 
Estas práticas podem vir a facilitar também a emergência de modos de vida mais 
criativos. Os espaços nelas criados podem favorecer a construção do inusitado e do 
encontro de subjetividades, necessários para a ruptura com posturas narcísicas, e, 
consequentemente, a construção de novas formas de vida social (Vieira et al, 2013). 
Dentre um dos escritos mais citados de Perls em diferentes plataformas de 
comunicação, conhecido como “Oração da Gestalt”, se destaca a frase: “Não vim ao 
mundo para viver de acordo com as suas expectativas, nem você está neste mundo para 
viver de acordo com as minhas”. A gestalt busca mostrar ao paciente que a 
responsabilidade de ser cuidado e amado não é das pessoas que o rodeiam, mas sim de si, e 
que não compreender isso é uma fonte inesgotável de sofrimento, trazendo à tona a 
angústia de ter uma imagem dissociada de quem se é. Para acalmar esta distorção, o 
terapeuta convida o paciente a se escutar e se concentrar no famoso “aqui e agora”. 
Dar ao cliente a oportunidade de poder pensar por si, confiando em sua própria 
experiência e autorregulação organísmica, é uma contribuição importantíssima da gestalt. 
Para que isto se concretize, o papel do terapeuta é auxiliar o cliente a aumentar sua 
capacidade de contato com a própria experiência. Vale lembrar que este é um processo 
desafiador, posto que a sociedade estimula mais a heterorregulaçãodo que a 
autorregulação organísmica, através de estímulos à adoção de ideais narcísicos (Vieira et 
al, 2013). 
 
 
 
 
18 
 
 
REFERÊNCIAS 
American Psychiatric Association. (2014). DSM-5: Manual diagnóstico e estatístico de 
transtornos mentais. Artmed Editora. 
Beck, A. T., Freeman, A. & Davis, D. D. (2017). Terapia Cognitiva dos Transtornos de 
Personalidade. Porto Alegre: Artmed. 
Behary W.T. (2011). Ele se acha o centro do universo: sobreviva a um narcisista 
despertando nele o interesse por você, sua vida e seus sentimentos. Rio de Janeiro: 
BestSeller. 
Bocchi, J. C. & Almeida, D. M. (2003). Do divã à neuropsicanálise: alguns casos clínicos a 
luz da teoria Freudiana. Ciência & Cognição, 18(01), 57-69. Acesso em 5 de 
Novembro, 2018 de 
http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1806-
58212013000100005 
Callegaro, M. M. (2005). A neurobiologia da terapia do esquema e o processamento 
inconsciente. Revista Brasileira de Terapias Cognitivas, 1(1), 09-20. Acesso em 16 
de novembro de 2018, de 
http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1808-
56872005000100002&lng=pt&tlng=pt. 
Cazassa, M. J. e Oliveira, M. da S. (2008). Terapia focada em esquemas: conceituação e 
pesquisas. Arquivos de Psiquiatria Clínica (São Paulo), 35(5), 187-195. Acesso em 4 
de Novembro, 2018, de https://dx.doi.org/10.1590/S0101-60832008000500003. 
Dugnani, P. & Cruz, L. A. (2007). Mitologia e pós-modernidade: Proteu, Argos e Narciso - 
Os mitos e seus reflexos na sociedade. Repositório Institucional - Banco de 
Produção Acadêmica e Intelectual, 1(1), p. 201-206. Acesso em 10 de Novembro, 
2018 de 
http://repositorio.pgsskroton.com.br/bitstream/123456789/1309/1/Artigo%2028.pdf 
Freud, S. (2016) Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de 
Sigmund Freud Volume XIV - A História do Movimento Psicanalítico, Artigos sobre 
Metapsicologia e outros Trabalhos (1914-1916). Editora Imago. 
Lazzarini, E. R., & Viana, T. C. (2010). Ressonâncias do narcisismo na clínica 
psicanalítica contemporânea. Análise Psicológica, 28(2), 269-280. Recuperado em 
25 de novembro de 2018, de 
 
19 
 
 
http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0870-
82312010000200003&lng=pt&tlng=pt. 
Marissen, MA, Deen, ML, & Franken, IH (2012). Reconhecimento de emoções 
perturbadas em pacientes com transtorno de personalidade narcisista. Psychiatry 
Research , 198 (2), 269-273. 
Mesquita, G. R. (2011). O aqui-e-agora na Gestalt-terapia: um diálogo com a sociologia da 
contemporaneidade. Revista da Abordagem Gestáltica, 17(1), 59-67. Recuperado em 
21 de novembro de 2018, de 
http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809-
68672011000100009&lng=pt&tlng=pt. 
Naffah-Neto, A. (1997). Psicodrama: descolonizando o imaginário. São Paulo: Plexus 
Editora. 
Padovan, C. (2017). As origens médico-psiquiátricas do conceito psicanalítico de 
narcisismo. Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica, 20(3), 622-632. Acesso em 25 
de Novembro, 2018, de 
http://www.redalyc.org/service/redalyc/downloadPdf/3765/376554418004/8. 
Perls, F. S.; Hefferline, R. & Goodman, P. (1997). Gestalt-Terapia. São Paulo: Summus. 
Recktenvald, K. (2010). A fragilidade oculta sob a armadura: a relação entre transtornos 
narcisistas e organizações falso self. Contemporânea - Psicanálise e 
Transdisciplinaridade, Porto Alegre, n.10, Jul/Dez 2010 Acesso em 25 de 
Novembro, 2018, de 
http://www.revistacontemporanea.org.br/revistacontemporaneaanterior/site/wp- 
Rossi, M. D. L. T., & de Mello, M. M. (2015). Reflexões sobre o narcisismo normal e 
patológico. Anais - III Congresso de Pesquisa e Extensão da FSG, 3(3). Acesso em 
23 de Novembro, 2018, de 
http://ojs.fsg.br/index.php/pesquisaextensao/article/view/1680. 
Vieira, É. D., Oliveira, J., & Ferreira, L. G. de Assis. (2013). O conflito indivíduo versus 
sociedade nas perspectivas do psicodrama e da gestalt-terapia. Revista Brasileira de 
Psicodrama, 21(2), 65-78. Acesso em 20 de novembro, 2018, de 
http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010453932013000200
006&lng=pt&tlng=pt. 
 
20 
 
 
Yontef, G. M. (1998). Processo, diálogo e awareness: ensaios em Gestalt-terapia. São 
Paulo: Summus, 
Young, J. E. (2003). Terapia cognitiva para transtornos da personalidade: uma 
abordagem focada em esquemas. Porto Alegre: Artmed. 
Young, J. E., Klosko, J. S., & Weishaar, M. E. (2009). Terapia do esquema: guia de 
técnicas cognitivo-comportamentais inovadoras. Artmed Editora.

Mais conteúdos dessa disciplina