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17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_1/ebook/index.html#section_1 1/36 DIREITO CONSTITUCIONAL CAPÍTULO 1 - POR QUE A SEPARAÇÃO DOS PODERES ESTÁ BASEADA NA TEORIA DOS FREIOS E CONTRAPESOS Rosana Silvério Siqueira/Guilherme Rocha INICIAR 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_1/ebook/index.html#section_1 2/36 Introdução Olá, caro aluno! Seja bem-vindo à disciplina de Direito Constitucional. Você já pensou qual a finalidade da separação dos poderes? Por que a função de elaborar as leis, assim como a de administrar os recursos públicos e a de resolver os conflitos, não é executada por apenas uma pessoa? Por exemplo, o presidente da República não poderia substituir os deputados e senadores, assim como os ministros do Supremo Tribunal Federal, concentrando todas as atribuições a si próprio? Evidente que não. O Estado possui diferentes funções, que precisam ser exercidas por centros de poder distintos, o que evita o autoritarismo. É por isso que se procede a uma separação de poderes, que visa a atribuir funções específicas a cada um, de modo a organizar o Estado, mas também para garantir liberdades. Quando cada centro de poder cuida de determinada atribuição, dificulta-se o abuso e viabiliza-se que um possa controlar o outro, como você estudará neste capítulo. 1.1 Separação dos poderes A separação dos poderes vem diferenciar as funções (legislação, administração e jurisdição) de cada um dos órgãos dos poderes estatais, os quais desempenharão suas atividades com autonomia. A organização dos poderes que conhecemos atualmente não partiu de uma invenção genial de um homem inspirado, mas sim do resultado empírico da evolução constitucional inglesa, a qual consagrou o Bill of Rights de 1689 (FERREIRA FILHO, 2015, p. 163). Ferreira Filho explica de maneira objetiva a influência da revolução na separação dos poderes: Pôs no mesmo pé a autoridade real e a autoridade do parlamento, forçando um compromisso que foi a divisão do poder, reservando-se ao monarca certas funções, ao parlamento outras e reconhecendo-se a independência dos juízes. (2015, p. 165) Ainda que não tenha sido resultado da obra de uma pessoa, a separação dos poderes teve como maior expositor o francês Charles Louis de Secondat, mais conhecido pelo nome da comuna francesa que ele administrada – Montesquieu 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_1/ebook/index.html#section_1 3/36 (MONTESQUIEU, 2010, p. 02). A obra "O Espírito das leis" influenciou fortemente a teoria da separação dos poderes, o que justifica a indicação de Montesquieu como um dos seus principais expositores. É importante salientar que "O Espírito das leis" foi publicado em 1748. A partir daí a teoria da separação dos poderes sofreu diferentes influências, a depender dos interesses de cada Estado. Ainda assim, é a teoria utilizada há mais tempo na área do Direito sem que se cogite, efetivamente, da sua modificação. Contudo, existem algumas vozes que propõem mudanças nesse sistema, como Bruce Ackerman (2014). “Adeus, Montesquieu” é um artigo do professor da Universidade de Yale, Bruce Ackerman, publicado na Revista de Direito Administrativo. Rio de Janeiro, n. 265, p. 13-23, jan./abr. 2014. No texto, ele critica a organização das funções do Estado em apenas três poderes. Agora que você compreendeu a separação dos poderes e sua importância na organização do Estado, vamos fazer um passeio pela história da teoria de freios e contrapesos! 1.1.1 Origem e evolução da teoria: ideia de freios e contrapesos A origem da teoria é apresentada pela primeira vez em um momento histórico, em que o poder era exercido pela figura de uma única pessoa, ou seja, em período absolutista. As três funções estatais eram exercidas pelo soberano, ou seja, era ele quem editava as normas gerais a serem observadas pelos cidadãos e, ao mesmo tempo, realizava a aplicação dessas normas ao caso concreto (administrando). Por fim, na função de juiz, resolvia os conflitos provenientes do cumprimento das normas gerais nos acontecimentos reais. (TAVARES, 2016) A prática inglesa que viabilizou a separação dos poderes também iniciou, ainda que em grau embrionário, a teoria dos freios e contrapesos, cada poder exercia uma função típica, inerente à sua natureza, atuando independente e VOCÊ QUER LER? 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_1/ebook/index.html#section_1 4/36 autonomamente, não mais sendo permitido a um único órgão legislar, aplicar a lei e julgar, de modo unilateral. (TAVARES, 2016) Com Montesquieu, no entanto, também evoluiu a necessidade de controle de um poder sobre o outro, sem prejuízo da autonomia de cada um. Essa teoria se contrapõe ao absolutismo, servindo como base estrutural de várias agitações políticas, como as revoluções americana e francesa. (TAVARES, 2016) O célebre Charles-Louis de Secondat, Barão de La Bréde e de Montesquieu, é responsável pela teoria mais sólida do meio jurídico. Diferente das demais, que são objetos de constantes questionamentos e modificações, a teoria da separação das funções ganhou grande estabilidade na maioria dos Estados e sequer cogita-se sua modificação. A estruturação de poderes, em Executivo, Legislativo e Judiciário, parece atender adequadamente aos anseios de organização social, o que motiva até mesmo a ausência, com raras exceções, de teorias que proponham a alteração desse sistema. Dessas revoluções consagra-se uma das declarações de maior importância aos direitos do homem: a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão – 1789 (ONU). No bojo de seu artigo 16, estabelece que: “A sociedade em que não esteja assegurada a garantia dos direitos nem estabelecida a separação dos poderes não tem Constituição”. (Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão). Com efeito, a contar dessa teoria, cada poder passa a exercer uma função típica correspondente às atribuições de suas atividades, de forma independente e autônoma. Extirpando a concentração de poderes nas mãos do soberano, surgindo assim o que designou teoria dos freios e contrapesos. O sistema de freios e contrapesos visa a manter o equilíbrio entre os três poderes no exercício das suas respectivas funções. Por meio desse sistema, são dadas atribuições para que um poder limite a atuação do outro, o que evita arbitrariedades. Por exemplo, após votar pela aprovação de um projeto de lei, o poder Legislativo o envia ao Executivo, que pode sancioná-lo (caso concorde com VOCÊ O CONHECE? 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_1/ebook/index.html#section_1 5/36 o seu conteúdo) ou vetá-lo (caso identifique que o seu conteúdo viola a Constituição ou é contrário ao interesse público). Note que o veto nada mais é do que um mecanismo de controle que o poder Executivo exerce sobre o Legislativo, de modo a evitar abusos. A teoria dos freios e contrapesos aponta, ainda, a função atípica de cada um dos órgãos, ou seja, o Legislativo exerce, por exemplo, uma função atípica do Executivo e outra atípica do jurisdicional. No tópico que segue será abordada a distribuição das funções típicas e atípicas de cada um dos órgãos: Legislativo, Executivo e Judiciário. 1.1.2 Funções do Estado distribuídas pelos poderes As funções estatais são distribuídas entre os poderes Legislativo, Executivo e Judiciário, tendo em vista a coadunação existente entre eles, em razão dos fundamentos da República Federativa do Brasil, descrito no art. 2º, da Constituição Federal: “São Poderes da União, independentes e harmônicos entresi [...]”. 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_1/ebook/index.html#section_1 6/36 A evolução histórica da separação dos poderes sofreu diferentes influências em cada Estado, a depender dos governos de cada localidade. No Brasil, o modo de desenvolvimento da teoria da separação dos poderes sofreu forte influência do modelo estadunidense. Especificamente, sofreu forte influência da teoria de John Jay, Alexander Hamilton e James Madison, conhecidos como federalistas. Esses três autores publicaram 85 artigos, que foram reunidos na obra The federalist papers, em 1788. Os artigos federalistas influenciaram a transformação da sistemática de Montesquieu nos Estados Unidos e foram importados pela doutrina nacional. Dentre outros objetivos, abordava-se a necessidade de evitar o protagonismo do Quadro 1 - Distribuição das funções dos poderes. Fonte: LENZA, 2017, p. 535. Deslize sobre a imagem para Zoom 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_1/ebook/index.html#section_1 7/36 poder Legislativo, que era visto como um vórtice impetuoso de poder (MADISON, 1788). Para isso, transferiu-se parte das funções inerentes ao Legislativo ao Executivo (como a iniciativa para a apresentação de projetos de leis), além de um fortalecimento do poder Judiciário, que passou a ser considerado um corpo intermediário entre o povo e o legislativo, de modo a evitar que os representantes do povo substituam a vontade dos constituintes, noções que ficaram evidentes no caso Marbury vs. Madison, da Suprema Corte dos Estados Unidos. (ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA, 1803) A evolução da teoria da separação dos poderes culminou no aprimoramento dos mecanismos de freios e contrapesos, haja vista a necessidade de controle recíproco dos limites da atuação de cada um, sem que qualquer deles possa assumir a função de controle dos demais e, em consequência, do próprio Estado. Nesse contexto, você consegue imaginar algum exemplo de um instrumento de controle de um poder sobre o outro? Veja, se o poder Legislativo aprovar emenda à Constituição para retirar funções do Executivo e transferi-las a si próprio, o Judiciário poderá excluir essa emenda do ordenamento jurídico brasileiro (mediante julgamento de uma ação direta de inconstitucionalidade). O que se tem, nesse exemplo hipotético, é o controle de um poder (Judiciário) sobre outro (ou seja, sobre o Legislativo). (TAVARES, 2016) Note, contudo, que embora existam recursos para impedir que um poder assuma o controle dos demais e do próprio Estado, de modo contrário ao regime constitucional, é inequívoca a busca de preponderância dos poderes no exercício das suas atribuições. A busca pelo poder é fruto de constante conflito entre instituições públicas, o que sabidamente não é exclusividade da realidade brasileira e o que ressalta a importância dos instrumentos de freios e contrapesos (TAVARES, 2016). 1.2 Organização do poder Legislativo Pensando na organização do poder Legislativo, qual a sua estrutura? Ele é composto pelas duas Casas do Congresso Nacional: a Câmara dos Deputados e o Senado Federal. 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_1/ebook/index.html#section_1 8/36 Você já se perguntou qual o sistema aplicado pelo poder Legislativo e o seu objetivo? No âmbito federal, o Brasil adota o sistema bicameral, com o objetivo de manter o equilíbrio federativo entre os representantes da população, Câmara dos Deputados, e os representantes dos Estados-membros, Senado Federal. (TAVARES, 2016) Tendo o Brasil adotado o sistema bicameral em âmbito federal, qual o sistema adotado na esfera estadual e municipal? O sistema adotado por ambas as esferas é unicameral, sendo a Assembleia Legislativa formada somente por deputados estaduais e Câmara Municipal apenas por vereadores. Você sabe o que vem a ser uma Comissão Parlamentar? Elas integram as Casas Legislativas brasileiras e são fundamentais ao exercício das funções legislativas, conforme você estudará nos tópicos seguintes, oportunidade em que também serão abordadas as Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs), que possuem poderes de investigação próprios da atividade de fiscalização. 1.2.1 Estrutura e Composição do Congresso Nacional e das Casas locais O Congresso Nacional encontra-se entre os órgãos do poder Legislativo, como órgão legislativo federal, com atribuições típicas do poder legislativo como atividade legiferante, bem como as atípicas, na administração de seus serviços, ainda a jurisdicional, quando do julgamento de outras autoridades do Estado nos crimes de responsabilidade. Possui competência para dispor sobre assuntos de alçada da União, no que tange a temas designados à Lei, por fim, representa a pretensão e proteção dos interesses dos cidadãos utilizando da elaboração de leis e da fiscalização dos demais poderes do Estado. (TAVARES, 2016) Moraes (2017, p. 316) dispõe que: O Poder Legislativo Federal é bicameral e exercido pelo Congresso Nacional, que se compõe da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, diferentemente dos estaduais, distritais e municipais, onde é consagrado unicameralismo. O bicameralismo do Legislativo Federal está intimamente ligado à escolha pelo legislador constituinte da forma federativa de Estado, pois no Senado Federal encontram-se, de forma partidária, representantes de todos os Estados-membros e do Distrito Federal, consagrando o equilíbrio entre as partes contratantes da Federação. 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_1/ebook/index.html#section_1 9/36 Na estrutura interna do Congresso Nacional, encontra-se a Câmara dos Deputados e o Senado Federal. Este é composto por três representantes de cada Estado e do Distrito Federal, eleitos pelo sistema majoritário, com mandato de oito anos e eleições a cada quatro anos. Dessa forma, a cada eleição, a casa renova alternadamente um terço e dois terços de suas 81 cadeiras. Em outras palavras, os senadores da República são eleitos para duas legislaturas. Lembre-se, nesse contexto, que uma legislatura equivale a um período de quatro anos, computado a partir da posse dos eleitos, em 1° de janeiro do ano subsequente ao da respectiva eleição (TAVARES, 2016). Já os Deputados são eleitos a cada quatro anos pelo sistema proporcional em cada Estado e no Distrito Federal. (MENDES, 2016) O número total de Deputados Federais, bem como a representação por Estado e pelo Distrito federal, é proporcional à população. Nos dias atuais, cada unidade da Federação pode eleger entre oito (mínimo) e 70 (máximo) deputados, dentro do limite estabelecido pelo art. 45, da CF/88 e da Lei Complementar 78/93. Diferente dos senadores da República (eleitos para duas legislaturas, como você aprendeu), os deputados federais são eleitos para uma legislatura, ou seja, para um mandato de quatro anos. A sessão Legislativa pode ser ordinária ou extraordinária. A ordinária corresponde ao ano legislativo, ou seja, ao período de atividade normal do Congresso Nacional (de 2 de fevereiro a 17 de julho e de 1º de agosto a 22 de dezembro). A extraordinária é a que pode acontecer no decorrer do recesso parlamentar, período de suspensão dos trabalhos legislativos (23 de dezembro a 1º de fevereiro e de 18 a 31 de julho). Ela pode ser convocada pelo presidente do Senado (§ 6º, I, art. 57 da CF/88), nos seguintes casos: decretação de estado de defesa ou de intervenção federal; pedido de autorização para a decretação de estado de sítio; para a prestação de compromisso e posse do presidente e do vice-presidente da República. Além desses casos, também podem convocar sessões extraordinárias o presidente da República,os presidentes da Câmara dos Deputados ou do Senado Federal, ou a maioria dos membros de ambas as Casas do Congresso Nacional, em caso de urgência ou de interesse público relevante (§ 6º, II, art. 57 da CF/88). Nomenclatura das sessões legislativas: 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_1/ebook/index.html#section_1 10/36 Temos ainda, as sessões preparatórias que antecedem a inauguração dos trabalhos do Congresso Nacional, na primeira e terceira sessões legislativas de cada legislatura, e são designadas para a “posse dos membros das casas legislativas, bem como às eleições das respectivas mesas”. (CUNHA; NOVELININO, 2016, p. 479) A sessão conjunta do Congresso Nacional acontece com a Câmara dos Deputados e o Senado Federal no mesmo recinto e pode ser convocada para inaugurar a sessão legislativa, dar posse ao presidente e ao vice-presidente da República eleitos (art. 57, §3º, CF). Para o exercício da função de fiscalizar, o Congresso Nacional conta com o auxílio do Tribunal de Contas da União - TCU, que analisa a arrecadação das receitas e aplicação das despesas públicas em todos os setores e, ao final do processo de Figura 1 - Sessão ordinária e sessão extraordinária. Fonte: CUNHA; NOVELINO, 2016, p. 478-479. Deslize sobre a imagem para Zoom 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_1/ebook/index.html#section_1 11/36 análise, emite parecer (recomendando a aprovação ou rejeição das contas do presidente da República) e o remete ao Congresso, que delibera definitivamente sobre a questão, acatando ou discordando do parecer do TCU. (TAVARES, 2016) Além da estrutura legislativa federal, há a distrital e a municipal, esses são os assuntos a serem abordados a seguir. 1.2.2 Estrutura Legislativa Estadual A estrutura legislativa estadual é unicameral, tendo em vista sua composição: Assembleia Legislativa. Ela é composta pelos deputados estaduais, que atuam como representantes do povo. O art. 27, da CF/88, dispõe que: O número de Deputados da Assembleia Legislativa corresponderá ao triplo da representação do estado na Câmara dos Deputados e, atingindo o número de trinta e seis, será acrescido de tantos quantos forem os Deputados Federais acima de doze. § 1º Será de quatro anos o mandato dos Deputados Estaduais, aplicando-lhes as regras desta Constituição sobre o sistema eleitoral, inviolabilidade, imunidades, remuneração, perda de mandato, licença, impedimentos e incorporação às forças Armadas. § 2º O subsídio dos Deputados Estaduais será fixado por lei de iniciativa da Assembleia Legislativa, na razão de, no máximo, setenta e cinco por cento daquele estabelecido, em espécie, para os Deputados Federais, observado o que dispõem os arts. 39, § 4º, 57, § 7º, 150, II, 153, III e 153, § 2º, I. § 3º Compete às Assembleias Legislativas dispor sobre seu regimento interno, polícia e serviços administrativos de sua secretaria, e prover os respectivos cargos. § 4º A lei disporá sobre a iniciativa popular no processo legislativo estadual. O professor Pedro Lenza (2017, p. 542) nos ensina de forma didática como fica a estrutura legislativa do Estado: Portanto, até o número de 12 Deputados Federais, o número de Deputados Estaduais será obtido pela multiplicação por 3 (o triplo). Acima de 12, segue a seguinte fórmula: y = (x – 12) + 36, em que y corresponde ao número de Deputados Estaduais e x, ao número de Deputados Federais. A fórmula, para facilitar, pode ser assim resumida: y = x + 24, em que y corresponde ao número de Deputados Estaduais e x, ao número de Deputados Federais (quando forem acima de 12). 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_1/ebook/index.html#section_1 12/36 O mandato será de quatro anos, sendo o regime estabelecido aos deputados estaduais o mesmo aplicado aos parlamentares federais. (TAVARES, 2016) Para o exercício da função de fiscalizar, os Estados contam com o auxílio do Tribunal de Contas, que analisa a arrecadação das receitas e aplicação das despesas públicas em todos os setores e, ao final do processo de análise, emite parecer (recomendando a aprovação ou rejeição das contas do Governador) e o remete à Assembleia Legislativa, que delibera definitivamente sobre a questão, acatando ou discordando do parecer do Tribunal de Contas. (TAVARES, 2016) Agora que você já conheceu a estrutura e composição do Congresso Nacional e a estrutura legislativa dos Estados, vamos compreender a composição do legislativo municipal. 1.2.3 Estrutura Legislativa do Município Quadro 2 - Fórmula da estrutura Legislativa Estadual. Fonte: LENZA, 2017, p. 542. Deslize sobre a imagem para Zoom 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_1/ebook/index.html#section_1 13/36 A estrutura Municipal é unicameral, uma vez que é composta por uma casa apenas, a Câmara Municipal, onde se encontram os representantes dos interesses do povo no Município. Os vereadores são eleitos para mandato de quatro anos, em quantidades variáveis, observados os limites quantitativos previstos no artigo 29, IV da Constituição Federal. O número máximo de vereadores, portanto é proporcional ao número de habitantes de cada Município. A quantidade de vereadores nas Câmaras Municipais pode variar entre nove (para Municípios com até 15.000 habitantes) e 55 (para Municípios com mais de 8 milhões de habitantes). Note, porém, que esses são os limites máximos, mas nada impede, por exemplo, que um Município com 15.000 habitantes tenha sete vereadores. Para o exercício da função de fiscalizar, a Câmara Municipal conta com o apoio do Tribunal de Contas. Importante ressaltar, porém, que a Corte de Contas que auxilia a Câmara Municipal é o Tribunal de Contas do Estado, pois a Constituição proibiu a criação de Tribunais ou Conselhos de Contas Municipais (art. 31, § 4°). Note, porém, que a Constituição impede que os Municípios criem Tribunais ou Conselhos de Contas, mas não proíbe que os Estados criem órgãos destinados, especificamente, ao auxílio das Câmaras Municipais – Tribunais de Contas para os Municípios. Nesse sentido, veja o julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade n.° 687, do Supremo Tribunal Federal: A CR impede que os Municípios criem os seus próprios Tribunais, Conselhos ou órgãos de contas municipais (CF, art. 31, § 4º), mas permite que os Estados- membros, mediante autônoma deliberação, instituam órgão estadual denominado Conselho ou Tribunal de Contas dos Municípios (RTJ 135/457, rel. min. Octavio Gallotti – ADI 445/DF, rel. min. Néri da Silveira), incumbido de auxiliar as Câmaras Municipais no exercício de seu poder de controle externo (CF, art. 31, § 1º). Esses Conselhos ou Tribunais de Contas dos Municípios – embora qualificados como órgãos estaduais (CF, art. 31, § 1º) – atuam, onde tenham sido instituídos, como órgãos auxiliares e de cooperação técnica das Câmaras de Vereadores. A prestação de contas desses Tribunais de Contas dos Municípios, que são órgãos estaduais (CF, art. 31, § 1º), há de se fazer, por isso mesmo, perante o Tribunal de Contas do próprio Estado, e não perante a Assembleia Legislativa do Estado-membro. Prevalência, na espécie, da competência genérica do Tribunal de Contas do Estado (CF, art. 71, II, c/c o art. 75). [ADI 687, rel. min. Celso de Mello, j. 2-2-1995, P, DJ de 10-2-2006.] 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_1/ebook/index.html#section_1 14/36 VOCÊ SABIA? Que embora a Constituição tenha proibido a criação de Tribunais ou Conselhos de Contas Municipais, assegurou a continuidade dos quejá existiam, como é o caso do Tribunal de Contas do Município de São Paulo e do Município do Rio de Janeiro. Agora desenvolveremos o conhecimento das comissões parlamentares. 1.2.3 Comissões parlamentares Para compreender as comissões, vamos recorrer ao que dispõe o art. 58, caput, da CF/88: as comissões do Congresso Nacional e suas Casas são organizadas em permanentes e temporárias, observadas as diretrizes estabelecidas nas normas ou no ato decorrente de sua origem. As comissões parlamentares são órgãos que fazem parte do poder Legislativo com competência para analisar e emitir pareceres sobre as propostas legislativas em andamento no parlamento ou monitorar e investigar fatos. Dentre as competências atribuídas às comissões, podemos mencionar a discussão e votação de projetos de lei que dispensem apreciação pelo plenário, nos termos do regimento, a convocação de ministros do Estado para prestar informações sobre assuntos inerentes às atribuições legais, dentre outras. (TAVARES, 2016) Figura 2 - Comissões Parlamentares: permanentes e temporárias. Fonte: CUNHA; NOVELINO, 2016, p. 481-482. Deslize sobre a imagem para Zoom 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_1/ebook/index.html#section_1 15/36 Dentre as comissões temporárias, está a Comissão Parlamentar de Inquérito, instituída por meio da solicitação de um terço dos membros das respectivas casas, para a investigação de fato determinado, com prazo certo para encerrar e com poderes de investigação próprios de autoridades judiciais. (TAVARES, 2016) Isso posto, passaremos a análise da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), que existe para viabilizar a função de fiscalizar que o poder Legislativo possui. Para executar essa função adequadamente, a Constituição conferiu à CPI poderes de investigação próprios de autoridades judiciais. (TAVARES, 2016) Mas quem pode criar uma CPI? Apenas parlamentares. Em âmbito federal, a CPI pode ser criada separadamente por cada Casa Legislativa (Câmara dos Deputados e Senado Federal), ou em conjunto. Lembre-se, nesse contexto, que também é possível instituir Comissões de Inquérito em âmbito estadual, distrital e municipal. E como se cria uma CPI? Os requisitos de criação estão previstos no § 3° do art. 58 da CF/88, que exige requerimento de um terço dos membros da Casa Legislativa. Além disso, deve-se determinar qual fato será apurado e por quanto tempo a investigação será realizada. Ao final das atividades da CPI, suas conclusões podem ser encaminhadas ao Ministério Público, para que promova as ações judiciais cabíveis, tanto na esfera cível (como uma ação de ressarcimento em razão de prejuízo causado ao erário, por exemplo) como criminal. (TAVARES, 2016) As CPIs se submetem à fiscalização jurisprudencial, ato esse que não se opõe a separação dos poderes, pois trata tão somente de um exame destinado a impedir atos abusivos que as comissões possam vir a cometer no decorrer de suas atividades. Desta feita, tanto as limitações quanto os poderes outorgados às CPIs são formas de prevenir a ingerência de um poder sobre o outro e, ainda resguardar e efetivar os direitos e garantias fundamentais. (TAVARES, 2016) Com a alteração dada pela Lei n. 13.367/2016, as Comissões Parlamentares de Inquérito tiveram seus poderes de investigação adequados às previsões constitucionais. Recorde-se que os poderes das CPIs são próprios das autoridades judiciais, além de outros que estão previstos nos regimentos do Congresso Nacional. Poderes próprios de autoridades judiciais incluem a possibilidade de tomar depoimento de autoridades, de ouvir testemunhas sob compromisso, de requisitar informações e documentos. 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_1/ebook/index.html#section_1 16/36 Com o decorrer da história, maneiras diferentes de interpretar o que são “poderes próprios das autoridades judiciais” provocam a análise de novos aspectos. Em uma dessas situações se decidiu que as CPIs podem determinar medidas de busca e apreensão, desde que providência seja devidamente fundamentada e que não seja efetivada em local inviolável, como o domicílio. Do contrário, a medida será completamente nula (BRASIL, 2015). Em relação à quebra do sigilo das informações bancárias, fiscais e telefônicas, também se exige fundamentação adequada, não se admitindo a medida com base em alegações genéricas, conforme já decidiu o Supremo Tribunal Federal (BRASIL, 2006). Especificamente em relação às informações telefônicas, note que o poder atribuído à CPI alcança apenas o acesso aos dados telefônicos e não à interceptação telefônica (BRASIL, 2010). Em outras palavras, é possível obter registros documentais das ligações feitas e recebidas, mas não é possível “grampear” os telefones dos investigados. A interceptação telefônica somente pode ser realizada pela autoridade judicial. Sobre as Comissões Parlamentares de Inquérito, Mendes (2016, p. 918) traça que: O quadro de atribuições das CPIs quer no direito brasileiro, quer no estrangeiro, não costumam ser preciso; vai – se delineando a partir dos problemas que surgem e à medida que são resolvidos pelo Judiciário. Fixar em concreto a extensão dos poderes das Comissões Parlamentares de Inquérito depende, portanto, da sensibilidade político – constitucional das Supremas Cortes, incumbidas de aparar os atritos entre a vontade de agir do Legislativo e outros valores. Para compreender as CPIs, no nosso direito, é imprescindível o conhecimento da visão jurisprudencial desse importante mecanismo de atuação do Legislativo. Chegamos ao final de mais um tópico de nossos estudos, onde foi demonstrado parte da estrutura da organização do poder Legislativo, envolvendo a composição do Congresso Nacional e das Casas locais e as comissões parlamentares, como são instituídas, competências por fim apresentamos a Comissão Parlamentar de Inquérito. 1.3 Estatuto dos parlamentares 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_1/ebook/index.html#section_1 17/36 Iniciaremos a terceira parada de nossa viagem na exploração da disciplina Direito Constitucional. Preparado? Nessa parada, será apresentado a você os direitos e deveres dos parlamentares, de um lado a Constituição institui direitos para que haja equilíbrio entre os três poderes, por outro lado, os parlamentares terão alguns deveres ou proibições a serem observadas na constância de seu mandato. O regime jurídico específico dos parlamentares visa a independência do Legislativo em face dos demais poderes, coibindo abusos e pressões, sendo instrumento de proteção aos parlamentares no exercício de sua função. 1.3.1 Direitos e deveres dos membros do poder Legislativo A Constituição Federal estabelece expressamente em seu texto regras instituidoras de imunidades e proibições parlamentares, para garantir ampla liberdade de atuação ao parlamentar no exercício do mandato outorgando-lhes algumas prerrogativas. As imunidades ou prerrogativas estão relacionadas à independência do poder Legislativo, ou seja, às prerrogativas concedidas pela Lei Maior, visa a assegurar a liberdade do parlamentar no exercício de suas funções e se faz necessárias para o bom funcionamento do Estado de Direito. Trata-se de exceções ao regime comum e deriva de interesse público, em observação a prestação de um bom mandato, que não venha a ser abdicado por aqueles que são por elas protegidos. As prerrogativas estão estabelecidas pelo art. 53, caput, da Constituição Federal, e podem ser divididas em material ou substantiva (inviolabilidade) e processual ou formal. A imunidade material é regulamentada pelo art. 53, caput, da CF/88, enquanto a processual é instituída pelo mesmo dispositivo,§§ 2º à 5º. Veja como ficam as prerrogativas parlamentares no quadro que segue. 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_1/ebook/index.html#section_1 18/36 Para a compreensão de cada uma das prerrogativas ou imunidades dispostas no quadro, serão apresentadas as diferenças de aplicabilidade das prerrogativas matéria e processual. A prerrogativa material implica na exclusão da prática de crime e na inviolabilidade civil pelas palavras, opiniões e votos dos parlamentares, desde que proferidos no exercício de sua função, conforme prevê o artigo 53 da Constituição Federal. Mas o que se considera como exercício da função, para fins da imunidade mencionada? Apenas o discurso proferido durante uma sessão plenária está livre de reprimendas, ou também aquele proferido em outros momentos? Somente palavras proferidas na sede do poder Legislativo ou também manifestadas em outros lugares estão abrangidas pela proteção constitucional? Essas situações já foram enfrentadas pelo Supremo Tribunal Federal. Quadro 3 - Imunidades parlamentares. Fonte: MORAES, 2014, p. 449. Deslize sobre a imagem para Zoom 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_1/ebook/index.html#section_1 19/36 As palavras e opiniões dos parlamentares são imunes de reprimenda civil ou penal sempre que proferidas com relação ao exercício da sua atividade de legislar ou fiscalizar, independente do local ou meio de comunicação. Não há diferença, portanto, entre uma palavra proferida durante um discurso em sessão plenária ou fora da sede do poder Legislativo, desde que entre ela e o mandato parlamentar exista uma relação clara, ou seja, um nexo de causalidade. Isso abrange, também, palavras e opiniões proferidas em redes sociais ou quaisquer outros meios de comunicação (BRASIL, 2016). Não se pode confundir as prerrogativas funcionais ou profissionais com os privilégios pessoais. Diferente destes, as prerrogativas funcionais são conferidas em relação à atividade ou função exercida, independente de quem a exerce. Um exemplo atual que pode ilustrar casos de prerrogativas são os benefícios (como o foro especial, previsto no § 1º do art. 53 da CF/88) de alguns parlamentares investigados no bojo da Lava Jato. CASO Como exemplo prático, segue a indicação de um caso de imunidade aplicada - Petição 5.875 Distrito Federal, que relata uma decisão do STF a respeito da imunidade parlamentar material (art. 53, caput, da CF/88), manifestação de parlamentar veiculada em meio de comunicação social (Twitter). Considerando que os deputados e senadores são invioláveis pelas opiniões, palavras e votos que proferirem desde que o façam no exercício de suas atividades (TAVARES, 2017), vamos analisar a situação. Por exemplo, em uma das reuniões incidida no Congresso Nacional ocorre uma desavença entre dois parlamentares. Depois de um tempo, um dos parlamentares envolvido na desavença está almoçando em um restaurante com seus amigos, quando adentra o mesmo seu desafeto que, após se acomodar em sua mesa e fazer seu pedido, começa a emitir opiniões desagradáveis. Consequentemente, o outro revida as provocações proferindo palavras de baixo calão, relacionados ao seu comportamento profissional. Não incidirá crime contra a honra um do outro? Não, pois pode estender o privilégio da inviolabilidade ainda que as opiniões, palavras e votos sejam expressos fora das atividades relacionadas às obrigações dos parlamentares, tendo em vista que tais 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_1/ebook/index.html#section_1 20/36 provocações advieram de uma diferença acontecida no exercício de suas funções. Nas palavras de Moraes (2014, p. 458), a imunidade material apresenta certos pressupostos, para que afaste a incidência de ilícito à conduta do parlamentar, isentando-o de responsabilidade penal e civil. Precisamente, exige-se a demonstração do nexo de causalidade entre o que foi dito e o exercício da atividade parlamentar, bem como que o discurso tenha sido proferido no período em que o agente era titular de mandato eletivo. Sobre esses requisitos, Alexandre de Moraes escreve: Refere-se somente aos atos funcionais, ou seja, atos praticados por parlamentares, por meio de opiniões, palavras ou votos, no exercício de suas funções sobre matéria parlamentar. Além disso, a imunidade material possui eficácia temporal permanente ou absoluta, de caráter perpétuo, pois, pressupondo a inexistência da infração penal ou ilícito civil, mesmo após o fim da sua legislatura, o parlamentar não poderá ser investigado, incriminado ou responsabilizado. (2014, p. 458) No que tange à imunidade processual ou formal do parlamentar, ao contrário da material, não há a possibilidade da exclusão da ilicitude praticada pelo parlamentar. Segundo Tavares (2016, p. 1003), essa “imunidade [...] se refere à regulamentação da prisão, e do processo em curso contra o congressista”. No que tange à prisão em flagrante delito de parlamentar, ocorre apenas em caso de crime inafiançável. Trata-se de uma garantia que beneficia o parlamentar desde a sua diplomação. Em casos como esse, os autos são enviados no prazo de 24 horas à respectiva Casa parlamentar, para que esta decida, por maioria de seus membros, sobre a manutenção da prisão. (TAVARES, 2016) Mas não é apenas em decorrência do flagrante delito (no caso de crime inafiançável) que o parlamentar pode ter uma ordem de prisão decretada contra si. Medidas cautelares (previstas no artigo 319 do Código de Processo Penal, como recolhimento domiciliar noturno, proibição de ausentar-se da Comarca etc.) também podem ser determinadas pelo poder Judiciário em face de parlamentares, mas como proceder nesse caso? 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_1/ebook/index.html#section_1 21/36 O Supremo Tribunal Federal decidiu (na ADI 5526) que a decisão judicial que aplica uma medida cautelar a qualquer parlamentar deve ser submetida, em 24 horas, à respectiva Casa Legislativa, para que seja deliberada pelos seus membros. Contudo, o STF decidiu que apenas medidas cautelares que impeçam ou embaracem o exercício do mandato é que devem ser submetidas ao Legislativo para apreciação. O fundamento utilizado pelo STF foi o § 2º do artigo 53, que trata do dever de comunicar o poder Legislativo, no mesmo prazo, no caso da prisão em flagrante. Outra situação é a determinação de prisão em decorrência de uma sentença condenatória transitada em julgado. Nesse caso, como você estudará no tópico a seguir, cabe à respectiva Casa Legislativa instaurar processo que determinará, ou não, a perda do mandato do parlamentar condenado. Sem a perda do mandato, o parlamentar não poderá ser impedido de exercer suas atribuições, ou seja, não poderá ser preso. Em caso oposto, ou seja, se tiver a perda do mandato decidida pela respectiva Casa Legislativa, poderá ser imediatamente recolhido à prisão. Esse entendimento, manifestado pelo Ministro Ricardo Lewandowski, contudo, não é pacífico (BRASIL, 2013). Sobre a imunidade parlamentar, faça a leitura do texto que "Imunidade parlamentar à luz da Constituição Federal de 1988", disponibilizado pela Biblioteca Digital da Câmara dos Deputados, de autoria de Divani Alves dos Santos, 2009. O trabalho aborda o histórico constitucional das imunidades até a atualidade. Acesse: < http://bd.camara.gov.br/bd/bitstream/handle/bdcamara/3604/imunidade_parlamentar_divani.pdf? sequence=4 (http://bd.camara.gov.br/bd/bitstream/handle/bdcamara/3604/imunidade_parlamentar_divani.pdf? sequence=4)>. Os parlamentares gozam ainda da prerrogativa de foro em razão da função conhecido como foro privilegiado,que implica no deslocamento ou no início do processo perante o STF, desde a expedição do diploma até o término do mandato VOCÊ QUER LER? 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_1/ebook/index.html#section_1 22/36 parlamentar. A prerrogativa de foro significa que os deputados e senadores somente serão submetidos a julgamento penal perante o Supremo Tribunal Federal (art. 53, § 1º). Ou seja, eles não são submetidos aos tribunais ou juízes comuns, como ocorre com os demais cidadãos. Ainda constitui prerrogativa parlamentar a limitação quanto ao dever de testemunhar, “os parlamentares jamais poderão ser obrigados a conduzir-se para prestar seu testemunho em juízo. São, em realidade, apenas convidados a prestar depoimento". (TAVARES, 2016, p. 1.006). Porém, a limitação apresentada refere-se tão somente ao testemunho relativo às informações recebidas em razão do exercício do mandato. No § 7º, encontra-se a isenção do serviço militar, a incorporação a qualquer dos órgãos militares, dependerá de prévia licença da Casa respectiva. Os deveres ou proibições aos parlamentares dividem-se em impedimentos e incompatibilidade, “esta visa a impedir que o parlamentar se coloque em situação de conflito de interesses, assim sendo, é vedado ao parlamentar o ingresso em mais de um cargo mandato político, enquanto o primeiro proíbe o gozo de regalias indevidas por seus parlamentares, o rol de impedimentos é estabelecido pelo art. 54, da Constituição Federal”. (FERREIRA, 2015, p. 208). Com a finalidade de uniformizar o tratamento dado aos deputados estaduais, a Constituição de 1988 inovou entendendo que cabe aos parlamentares da esfera estadual o mesmo estatuto dos congressistas, ou seja, a inviolabilidade, a imunidade, a remuneração, a perda do mandato, a licença, os impedimentos e incorporação às forças armadas, estabelecido no art. 27, § 1º, CF/88. O art. 29, VIII, da CF/88 dispõe sobre a inviolabilidade dos vereadores por suas opiniões, palavras e votos no exercício do mandato e na circunscrição do Município, não importando se a manifestação se deu dentro ou fora do recinto da Câmara do Município, pois a questão versa sobre o nexo funcional, ou seja, se no momento de sua manifestação estava em defesa dos interesses públicos municipais. 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_1/ebook/index.html#section_1 23/36 Achou esse assunto interessante? Assista ao advogado Luís Henrique Machado falar sobre A imunidade parlamentar e a prisão preventiva, no qual, é convidado do programa Cidadania, apresentado por Glauciane Lara. A indicação do vídeo busca trazer para você mais conhecimento sobre esse tema. Acesse: <https://www.youtube.com/watch?v=AVWpDiHQv74&t=44s (https://www.youtube.com/watch? v=AVWpDiHQv74&t=44s)>. Não há, contudo, imunidade parlamentar formal para os vereadores, que podem ser processados e presos, se for o caso. Eles também não possuem foro privilegiado, o que significa que eventuais processos nos quais sejam réus tramitarão perante a primeira instância do poder Judiciário (Estadual ou Federal, a depender do crime objeto de denúncia) (TAVARES, 2016). Isto posto, passaremos ao estudo da perda do mandato envolvendo a análise de normas que a regem. 1.3.2 Perda do mandato parlamentar Pelas palavras de André Ramos Tavares (2016, p. 1006), “a Constituição não previu apenas privilégios a serem exercidos pelos ocupantes do posto parlamentar. Também contempla uma série de exigências que devem ser preenchidas devidamente pelos Senadores e Deputados”. As hipóteses de perda do mandato parlamentar estão taxativamente previstas pela Constituição Federal. A primeira delas ocorre quando o deputado ou senador viola as proibições previstas no artigo 54 da Constituição, que impedem atos específicos a partir da expedição do diploma e a partir da posse. Por exemplo, após a expedição do diploma de eleito, o parlamentar não pode, em regra, firmar ou manter contrato com a administração pública. Já depois da posse não pode ser titular de mais de um cargo ou mandato público eletivo. Nesses casos, a violação da proibição pode gerar a perda do cargo, mediante decisão da respectiva Casa Legislativa, por decisão da maioria absoluta dos seus membros. VOCÊ QUER VER? 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_1/ebook/index.html#section_1 24/36 A segunda hipótese de perda do mandato decorre da quebra do decoro parlamentar. A Câmara dos Deputados e o Senado Federal possuem regramentos específicos sobre a ética dos deputados e senadores. A violação dessas regras pode gerar a perda do mandato, o que também deve ser decidido pela maioria absoluta dos membros da respectiva Casa. Por exemplo, o deputado que assedia sexualmente uma assessora viola as regras éticas fixadas para o desempenho da sua atividade (TAVARES, 2016). A terceira situação de perda do mandato é a ausência, em cada sessão legislativa, à terça parte das sessões ordinárias da respectiva Casa, exceto quando licenciado ou em missão autorizada. Nesse caso, porém, a perda do mandato é decidida diretamente pela mesa diretora da respectiva Casa, não havendo o processo de votação mencionado nas hipóteses anteriores (TAVARES, 2016). A quarta hipótese de perda do mandato parlamentar é a perda ou a suspensão dos direitos políticos, que ocorre, por exemplo, quando há uma condenação transitada em julgado por improbidade administrativa. Nesse caso, também compete à mesa diretora proceder ao ato de perda do mandato (TAVARES, 2016). A quinta situação de perda do mandato ocorre quando a própria Justiça Eleitoral o determina, hipótese em que a mesa diretora procederá ao ato de formalização, sem submissão da matéria para que seja votada pelos parlamentares (TAVARES, 2016). A sexta hipótese de perda do mandato parlamentar prevista pelo art. 55 da Constituição decorre da condenação criminal com sentença transitada em julgado. Após ser comunicada, a respectiva Casa Legislativa votará pela perda ou manutenção do mandato, por maioria absoluta (TAVARES, 2016). Em qualquer caso, um processo administrativo, no âmbito da respectiva Casa Legislativa, precede a perda do mandato. Nesse processo, assegura-se ao parlamentar o exercício ao contraditório e à ampla defesa, sob pena de nulidade. Nesses casos, o que ocorre se o parlamentar renunciar ao mandato durante o trâmite de um processo dessa natureza? O ato da renúncia ficará suspenso até o desfecho do processo, ou seja, não serve para evitar a aplicação da sanção de perda do mandato. Lembre-se, então, que a Constituição define, no artigo 55, que cabe à Casa Legislativa as formas por meio das quais se processa a perda do mandato do parlamentar. 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_1/ebook/index.html#section_1 25/36 Nesse contexto chegamos ao final de mais uma parte do nosso conteúdo de estudo, da disciplina de Direito Constitucional, onde tivemos a oportunidade de estudar os direitos e deveres dos parlamentares. 1.4 Processo legislativo (parte I) No Brasil, o Processo Legislativo é regulamentado a partir do art. 59 da Constituição Federal. O processo legislativo garante que todos os atos, bem como a construção de acordos políticos serão públicos e de conhecimento de todos. Aliás, as regras atinentes ao processo legislativo previstas na Constituição Federal são aplicáveis aos Estados e Municípios, com base no princípio da simetria, que impõe a reprodução dessas normas nas Constituições dos Estados e nas Leis Orgânicas dos Municípios. Nesse sentido, o Ministro Sepúlveda Pertence se posicionou na ADIMC 872/RS: Consolidação da jurisprudênciado STF no sentido de que – não obstante a ausência de regra explicita na Constituição de 1988 – impõe aos Estados-membros a observância das linhas básicas do correspondente modelo federal, particularmente as de reserva de iniciativa, na medida em que as configuram prima relevante do perfil do regime positivo de separação e independência dos poderes, que é princípio fundamental ao qual se vinculam compulsoriamente os ordenamentos das unidades federadas. Mas você sabe como se desenvolve o processo legislativo? Quais as consequências caso ocorra a não observância aos requisitos necessários para a elaboração da lei? Leis ordinárias e complementares possuem hierarquias diferentes? A elaboração da lei ordinária e da complementar deve observância aos mesmos procedimentos, você sabe relatar quais são as exceções existentes para a produção da lei complementar? Essas são algumas das indagações que instigam o desenvolvimento deste tópico e que você aprenderá a responder na sequência. 1.4.1 Lei ordinária e lei complementar Antes de analisarmos como se dá a elaboração de uma lei ordinária e de uma lei complementar, faremos uma breve analise do processo legislativo. 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_1/ebook/index.html#section_1 26/36 Para que o processo legislativo possa cumprir o seu fim mister a realização de determinados atos, quer pelo legislativo (deliberação legislativa) quer pelo executivo (deliberação executiva). Esses atos são geralmente conhecidos como atos do processo legislativo. Assim, o processo legislativo compõe-se dos seguintes atos: iniciativa legislativa, emendas parlamentares, votação, sanção e veto, promulgação e publicação. (CUNHA; NOVELINO, 2016, p. 490) O procedimento legislativo do processo legislativo divide-se em: Figura 3 - Fases do processo legislativo. Fonte: CUNHA; NOVELINO, 2016, p. 490. Deslize sobre a imagem para Zoom 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_1/ebook/index.html#section_1 27/36 Da iniciativa da lei ordinária O procedimento legislativo ordinário destina-se à preparação da lei ordinária, que difere do procedimento especial, em face da espécie legislativa em produção. O início do processo legislativo pode ocorrer mediante iniciativa (TAVARES, 2016): comum ou concorrente: quando o projeto de lei pode ser apresentado, indistintamente, por mais de um legitimado. Essa é a regra do processo legislativo brasileiro, mediante a qual admite-se, em relação às leis ordinárias e complementares, que qualquer membro ou Comissão da Câmara dos Deputados, do Senado Federal ou do Congresso Nacional, ao presidente da República e aos cidadãos; exclusiva ou reservada: quando o projeto de lei pode ser apresentado somente pelo legitimado constitucional, que está expressamente indicado no texto da Constituição Federal. É o caso das matérias previstas no §1º do Quadro 4 - Procedimentos das propostas legislativas. Fonte: CUNHA; NOVELINO, 2016, p. 461. Deslize sobre a imagem para Zoom 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_1/ebook/index.html#section_1 28/36 art. 61, que são de iniciativa privativa do presidente de República. São as leis que: fixem ou modifiquem os efetivos das Forças Armadas; disponham sobre: criação de cargos, funções ou empregos públicos na administração direta e autárquica ou aumento de sua remuneração; organização administrativa e judiciária, matéria tributária e orçamentária, serviços públicos e pessoal da administração dos Territórios; servidores públicos da União e Territórios, seu regime jurídico, provimento de cargos, estabilidade e aposentadoria; organização do Ministério Público e da Defensoria Pública da União, bem como normas gerais para a organização do Ministério Público e da Defensoria Pública dos Estados, do Distrito Federal e dos Territórios; criação e extinção de Ministérios e órgãos da administração pública, observado o disposto no art. 84, VIf) militares das Forças Armadas, seu regime jurídico, provimento de cargos, promoções, estabilidade, remuneração, reforma e transferência para a reserva (art. 61, § 1º). Especificamente em relação à possibilidade dada pela Constituição para que os cidadãos apresentem projetos de lei, é importante ressaltar que essa faculdade deve preencher determinados requisitos. Ela deve ser exercida mediante a apresentação de projeto de lei à Câmara dos Deputados, que deve estar subscrito por, no mínimo, um por cento do eleitorado nacional, distribuído pelo menos por cinco Estados, com não menos de três décimos por cento dos eleitores de cada um deles. (art. 61, § 2º) Por derradeiro, ressalte-se que em alguns casos o processo legislativo pode ser iniciado por pessoas ou órgãos diversos do poder Legislativo ou Executivo, como é o caso do Judiciário (art. 96, II, c/c o art. 48, XV, CF).Trata-se de mera hipótese de iniciativa reservada, já que a Constituição atribui com exclusividade a determinados órgãos (como é o caso do Supremo Tribunal Federal em relação ao Estatuto da Magistratura, nos termos do art. 93) a possibilidade de apresentar projetos de lei sobre assuntos específicos. Não obstante, é importante que você saiba que alguns autores chamam essas hipóteses de competência extraparlamentar. (BULOS, 2011). Da deliberação 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_1/ebook/index.html#section_1 29/36 É por meio da deliberação que o Legislativo institui novos preceitos jurídicos. A deliberação exige a aprovação, por maioria simples, de cada uma das Casas do Congresso Nacional. Vale lembrar que a deliberação pode ser delegada pela respectiva Casa a uma Comissão, fundamentado em seu regimento interno (art. 58, § 2º, I, CF). Após o exame de sua constitucionalidade no âmbito material e formal realizado pela Comissão de Constituição e Justiça, o projeto será remetido ao plenário para votação. (OLIVEIRA, 2016) VOCÊ SABIA? Qualquer parlamentar pode alterar o projeto de lei em trâmite. Isso pode ser feito mediante a apresentação de emendas, que após tramitarem pelas Comissões, são discutidas e votadas conjuntamente com o projeto. Após a aprovação do projeto pela Casa iniciadora, este será enviado à Casa revisora. Onde será revisado pelas comissões e o plenário, em que ocorrerá três situações: a rejeição, a sanção e o veto. No caso de rejeição, sua reapresentação somente poderá ser feita perante a mesma sessão legislativa por manifestação da maioria absoluta dos membros de qualquer uma das Casas do Congresso Nacional (art. 67, da CF). Quando de sua aprovação pelas duas Casas, será enviado para a elaboração do autógrafo, instrumento formal de aprovação no Congresso Nacional, por fim, será remetido ao presidente da República para sanção ou veto. A sanção decorre da concordância do poder Executivo ao projeto de lei aprovado pelo Legislativo. A aceitação poderá ser expressa ou tácita. É expressa a sanção quando o presidente da República declara a concordância e a formaliza. É tácita a sanção quando o presidente deixa transcorrer o prazo para se manifestar, sem nenhuma ação. Mas qual é o prazo para manifestação acerca da concordância ou discordância de um projeto? O prazo é de 15 dias úteis (art. 66, § 1º da CF/88). Por fim, temos o veto que é a não concordância (total ou parcial) do poder Executivo em relação ao projeto de lei aprovado pelo Legislativo, por entendê-lo inconstitucional ou contrário ao interesse público. Lembre-se que, após receber o 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_1/ebook/index.html#section_1 30/36projeto aprovado pelo poder Legislativo, o presidente tem o prazo de 15 dias úteis para se manifestar. Se quiser vetá-lo, o ele deve apresentar sua discordância por escrito, pois, se silenciar no prazo, o projeto estará (tacitamente) sancionado. Assim que o presidente da República veta um Projeto, ele deve devolvê-lo ao Congresso Nacional em 48 horas. Recebido o projeto com o respectivo veto, o Congresso Nacional tem 30 dias para apreciá-lo, o que deve fazer em sessão conjunta (art. 57, § 3º, IV c.c. art. 66, § 4º, ambos da CF/88). Após a análise dos motivos que geraram o veto, o Congresso Nacional pode concordar ou discordar das razões do presidente da República. Se concordar, o veto será mantido e o projeto arquivado, caso o veto tenha sido total. Se discordar, poderá derrubar o veto mediante obtenção do voto da maioria absoluta dos deputados e senadores (metade, mais um, do total de congressistas – 513 deputados e 81 senadores), ou seja, mediante 298 votos. Derrubado o veto, o Congresso devolve o projeto ao presidente da República, para que este proceda à promulgação e publicação na imprensa oficial (art. 66, § 5º da CF/88). Por fim, a publicação da lei, que trata de ato em que se faz conhecer a existência da lei por todos. Após o ato de publicação, a lei poderá ter sua aplicabilidade imediata ou após o período de vacância, sendo assim, ninguém poderá deixar de cumprir a lei alegando desconhecimento. Lei complementar A lei complementar segue o mesmo procedimento da ordinária, com exceção do quórum, que deve ser de maioria absoluta e, na hipótese de incidência, deverá versar sobrematéria definida na Constituição. Do procedimento sumário Diferentemente dos procedimentos de lei ordinária e lei complementar, o procedimento sumário será cabível quando do requerimento de urgência do presidente da República. 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_1/ebook/index.html#section_1 31/36 O procedimento sumário parte da iniciativa do presidente da República, e é cabível quando tratar de solicitação de urgência na tramitação da propositura. Sua tramitação deve ocorrer no período de 45 (quarenta e cinco dias) em cada uma das Casas. Em caso de emenda proferida pelo Senado, a apreciação pela Câmara dos Deputados será de dez dias. Não sendo votada dentro do prazo, será colocada na pauta do dia. Hierarquia entre as leis ordinária e as leis complementares Há uma grande divergência entre os doutrinadores no que tange o tema hierarquia entre as leis ordinárias e as leis complementares, para uma parte da doutrina é possível à existência de hierarquia, para outra não há a possibilidade de hierarquia entre as duas normas (TAVARES, 2016). Apesar das divergências, encontramos duas posições doutrinárias a respeito da hierarquia entre as leis ordinárias e as complementares, de um lado André Ramos Tavares (2016, p. 982) defende que não há hierarquia entre lei complementar e lei ordinária. Por outro lado, Manoel Gonçalves Ferreira Filho (2015, p. 241) considera a lei complementar hierarquicamente superior à lei ordinária. Para o Supremo Tribunal Federal, no entanto, a questão é pacífica no sentido de que não há hierarquia entre leis complementares e leis ordinárias, haja vista a “distribuição material entre as espécies legais” (BRASIL, 2008), ou seja, ao analisar a Constituição é possível identificar quais assuntos devem ser regulados por meio de lei complementar e quais podem ser disciplinados por lei ordinária. Síntese Concluímos o primeiro capítulo da disciplina Direito Constitucional. Você estudou a separação dos poderes e iniciou os estudos sobre o poder Legislativo. Neste capítulo, você teve a oportunidade de: identificar as diferentes funções exercidas pelo Estado, que são organizadas por meio da estrutura dos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário; compreender que a teoria da separação dos poderes decorre de uma evolução, que também viabilizou a implantação de instrumentos de freios e 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_1/ebook/index.html#section_1 32/36 contrapesos que permitem a um poder controlar o outro; conhecer a função típica e as atípicas de cada um dos poderes do Estado; entender que o poder Legislativo, em âmbito federal, é exercido por duas Casas Legislativas: a Câmara dos Deputados e o Senado Federal; estudar a composição das Casas Legislativas e as características de cada uma; identificar que o poder Legislativo, em âmbito estadual, é exercido pelas Assembleias Legislativas; aprender que o poder Legislativo, em âmbito municipal, é exercido pelas Câmaras Municipais; estudar as comissões parlamentares, que podem ser permanentes ou temporárias, como é o caso da Comissão Parlamentar de Inquérito; aprender sobre o Estatuto dos Parlamentares, oportunidade em que estudou os direitos e deveres dos membros do poder Legislativo; conhecer as regras do processo legislativo, utilizando o trâmite das leis ordinárias e complementares como parâmetro. Referências bibliográficas ACKERMAN, B. Adeus, Montesquieu. Revista de Direito Administrativo. Rio de Janeiro, n. 265, p. 13-23, jan./abr. 2014. BEÇAK, R. A Separação dos Poderes, o Tribunal Constitucional e a Judicialização da Política. Revista da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. v. 103. p. 325 - 336. jan./dez. 2008. Disponível em: < (http://www.journals.usp.br/rfdusp/article/view/67808/70416)http://www.journal s.usp.br/rfdusp/article/view/67808/70416 (http://www.journals.usp.br/rfdusp/article/view/67808/70416)>. Acesso em: 06/02/2018. BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Ação direta de inconstitucionalidade 5.526. Relator: Min. Edson Fachin. Pesquisa de jurisprudência, Acórdãos, 18 outubro 2017. 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Você sabe para que serve e quando pode ser utilizada uma medida provisória? Sabe qual a distinção entre essa espécie legislativa e a lei delegada? Elas estão diretamente relacionadas, mas as características de uma geraram o desuso da outra, conforme conteúdo a ser estudado no primeiro tópico deste capítulo, oportunidade em que você também estudará as resoluções e os decretos legislativos. No segundo tópico, você estudará o poder Executivo começando pela estrutura dos ministérios. Você sabe para que serve um ministério? Sabe quantos o Brasil possui atualmente? Essas indagações instigarão o desenvolvimento dessa etapa da disciplina. O estudo do Executivo impõe ampla análise sobre as previsões constitucionais para o presidente da República, no entanto, você estudará especificamente a forma de eleição, os poderes, a vacância do cargo e a responsabilidade do chefe do poder Executivo. Nos tópicos finais deste capítulo, você estudará o poder Judiciário. Iniciará conhecendo as garantias institucionais e funcionais que viabilizam o desempenho imparcial das suas funções. É nesse contexto que se insere o Conselho Nacional de Justiça, criado pela emenda constitucional n. 45/2004. Você sabe para quem reclamar caso sofra algum prejuízo gerado por um juiz? Ao finalizar os estudos deste capítulo, terá identificado o órgão com competência para apurar desvios funcionais dos membros do poder Judiciário, pois terá, inclusive, conhecido toda a estrutura desse poder do Estado. 2.1 Processo legislativo (Parte II) Neste tópico você estudará quatro espécies legislativas, subdivididas em dois grupos. No primeiro, conhecerá as medidas provisórias e as leis delegadas e, no segundo, os decretos legislativos e as resoluções. 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_2/ebook/index.html#section_1 3/31 Você provavelmente já ouviu falar em medida provisória por meio de diferentes veículos de comunicação. Talvez, porém, nunca tenha ouvido falar em leis delegadas. Há uma razão clara para isso, como você aprenderá. A medida provisória dá mais autonomia ao presidente da República, diferente da lei delegada, que o torna dependente do poder Legislativo. Você sabe quem decide sobre um tratado ou convenção internacional no Brasil? Se nosso país for recepcionar algum acordo internacional, o documento que manifesta a recepção do texto é um decreto legislativo, cujas característicasvocê estudará na última parte deste tópico, oportunidade na qual também analisará as nuances da resolução. 2.1.1 Medida provisória e lei delegada O processo legislativo compreende as etapas de produção das espécies legislativas previstas no artigo 59 da Constituição Federal, dentre as quais se incluem as leis delegadas e as medidas provisórias, as quais estão diretamente relacionadas. O desuso da lei delegada na realidade legislativa brasileira se deve, precisamente, à medida provisória, instituída na Constituição em substituição ao antigo Decreto- Lei e aprimorada pelo Constituinte Derivado em 2001, por meio de emenda constitucional (n. 32). As leis delegadas, segundo previsão constitucional, são elaboradas pelo presidente da República após autorização do Congresso Nacional. Após enviar o pedido de elaboração de determinada lei ao Congresso, este se reúne para analisá-lo, podendo autorizá-lo ou negá-lo. O instrumento de autorização é a Resolução, espécie legislativa que você estudará no tópico a seguir. Você sabe quantas leis delegadas foram elaboradas pelo presidente da República após receber autorização do Congresso Nacional, desde a promulgação da Constituição Federal de 1988? Somente duas, ambas em 1992. Para que você tenha um parâmetro de comparação, você sabe quantas leis ordinárias foram publicadas depois da promulgação da Constituição? Foram 5.956 leis. A mera confrontação dos dados já permite concluir que a lei delegada é um instrumento em completo desuso. A espécie legislativa que justifica, do ponto de vista prático, a não utilização das leis delegadas é a medida provisória. Mais de 800 medidas provisórias já foram criadas desde a promulgação da Constituição Federal de 1988, o que também 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_2/ebook/index.html#section_1 4/31 evidencia a sua preferência pelos presidentes da República em detrimento das leis delegadas. A Constituição prevê que, em caso de relevância e urgência, o presidente pode editar medida provisória, com força de lei. Note que a medida provisória não é lei, embora tenha a mesma imperatividade durante o período da sua vigência, que é temporário. Mas o que pode ser considerado urgente e relevante? É o presidente da República quem possui competência para avaliar qual assunto possui essas características. Em regra, aliás, o poder Judiciário não pode rever a questão para analisar se a matéria é realmente urgente e relevante, conforme jurisprudência pacífica do Supremo Tribunal Federal: Conforme entendimento consolidado da Corte, os requisitos constitucionais legitimadores da edição de medidas provisórias, vertidos nos conceitos jurídicos indeterminados de "relevância" e "urgência" (art. 62 da CF), apenas em caráter excepcional se submetem ao crivo do Poder Judiciário, por força da regra da separação de poderes (art. 2º da CF). (STF, Ação declaratória de constitucionalidade 11 MC, Rel. Min. Cezar Peluso, DJ 29-6-2007) Não se admite, porém, a edição de medidas provisórias sobre algumas matérias, como nacionalidade, cidadania, direito penal, direito eleitoral etc. Mas por que a medida provisória não pode disciplinar esses assuntos? Primeiro, porque os assuntos mencionados no § 1º do art. 62 devem ser apreciados minuciosamente pelo Congresso Nacional, sendo incompatíveis com o rito célere da medida provisória. Segundo, porque a provisoriedade dessa espécie legislativa é incompatível com os assuntos ali mencionados. Editada a medida provisória, ela deve ser imediatamente submetida ao Congresso Nacional. A partir da publicação, o Congresso possui 60 dias para apreciá-la. Esse prazo é prorrogável por igual período. Porém, após o seu término, a medida provisória perde eficácia se não tiver sido convertida em lei. Se a medida provisória não for apreciada em até 45 dias após a sua publicação, entra automaticamente em regime de urgência nas casas do Congresso Nacional e gera o sobrestamento das demais matérias até que ela seja definitivamente 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_2/ebook/index.html#section_1 5/31 apreciada. Note que a Constituição força o trâmite acelerado da medida provisória e impõe a sua apreciação. Isso ocorre porque a medida provisória não convertida em lei pode gerar problemas para a sociedade. CASO Imagine que, por medida provisória (MP), o presidente da República reduza o número de parcelas do seguro-desemprego e que essa medida valha por 120 dias (prazo máximo admitido pela Constituição para vigência da MP). Imagine, agora, que o Congresso não a converta em lei, rejeitando, portanto, o seu conteúdo. Nesse caso, o que acontece com os trabalhadores que foram demitidos no período da vigência da medida provisória? Receberão quantidade menor de parcelas, ou agora têm o direito ao regime anterior (previsto na lei vigente antes da edição da medida provisória), haja vista a rejeição da MP? A Constituição Federal não fornece resposta objetiva para essas questões, que deverão ser definidas pelo Congresso logo após a rejeição da medida provisória. A decisão sobre os trabalhadores que receberão quantidade menor de prestações do seguro-desemprego durante a vigência da MP caberá, portanto, ao Congresso Nacional, que também tem 60 dias para fazê-lo, mediante decreto legislativo. Se isso não ocorrer, a medida provisória rejeitada continuará regendo as relações travadas durante sua vigência. No caso, se o Congresso não cumprisse o prazo, os trabalhadores acabariam recebendo quantidade menor de parcelas. Note, no entanto, a dificuldade e a instabilidade criadas. Se a medida provisória for aprovada pelo Congresso e o seu texto for convertido em lei, o texto publicado pelo presidente será mantido em vigência até que seja sancionado ou vetado (também pelo presidente) o respectivo projeto de lei de conversão. VOCÊ QUER LER? 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_2/ebook/index.html#section_1 6/31 A análise dos requisitos de urgência e relevância desperta muitas discussões sobre os limites da discricionariedade do presidente da República. Nesse contexto, o artigo “Medida provisória: o controle dos requisitos constitucionais de relevância e urgência pelo Congresso Nacional e pelo STF”, publicado na Revista Brasileira de Direito Constitucional, fornece importante complemento de estudo. Acesse: <http://www.esdc.com.br/RBDC/RBDC-14/RBDC-14-025- Artigo_Felipe_Penteado_Balera_(Medida_Provisoria).pdf (http://www.esdc.com.br/RBDC/RBDC- 14/RBDC-14-025-Artigo_Felipe_Penteado_Balera_(Medida_Provisoria).pdf)>. Agora que você já identificou as características das leis delegadas e das medidas provisórias, espécies legislativas diretamente relacionadas ao poder Executivo, passaremos ao estudo da Resolução e do Decreto Legislativo, que são espécies exclusivas do poder Legislativo. 2.1.2 Decreto legislativo e resolução O Decreto Legislativo e a Resolução são espécies legislativas que servem para disciplinar assuntos de competência das Casas Legislativas do Congresso Nacional. Em nenhuma delas há participação do poder Executivo, ou seja, o presidente da República não pode apresentar nenhum projeto de Decreto Legislativo ou de Resolução, assim como não sanciona nem veta nenhum deles. O processo legislativo dessas espécies legislativas se inicia e termina, portanto, no âmbito do próprio poder Legislativo (FERREIRA FILHO, 2015, p. 216-217). Não há consenso na doutrina sobre uma definição precisa de cada espécie legislativa, embora tenha se difundido, na prática legislativa brasileira, a distinção a seguir. Decretos Legislativos servem para disciplinar assuntos privativos das Casas Legislativas, no entanto com repercussão externa, demodo, inclusive, a gerar direitos ou obrigações a terceiros, como no caso de concessão de honrarias. Resoluções também servem para disciplinar assuntos privativos das Casas Legislativas, mas sem repercussão externa, ou seja, assunto internos, como organização administrativa, regras funcionais, entre outros. A Constituição Federal prevê o uso do Decreto Legislativo para assuntos de competência exclusiva do Congresso Nacional, como a recepção de tratados, ou convenções internacionais. 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_2/ebook/index.html#section_1 7/31 Já a Resolução, em âmbito federal, é utilizada à disciplina das competências privativas da Câmara dos Deputados, prevista no artigo 51, e do Senado Federal, prevista no artigo 52, ambos da Constituição Federal. Dentre elas destaca-se a competência para elaborar Regimentos Internos e dispor sobre a própria organização. Figura 1 - O Decreto Legislativo é utilizado para assuntos de competência exclusiva do Congresso Nacional. Fonte: Gary yim, Shutterstock, 2018. Deslize sobre a imagem para Zoom 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_2/ebook/index.html#section_1 8/31 Especificamente sobre a recepção de tratados e convenções internacionais, que é feita pelo Congresso Nacional por meio de Decreto Legislativo, é importante ressaltar a possibilidade de atribuir status de norma constitucional a um documento internacional que verse sobre direitos humanos. Isso é possível desde que, no momento da votação do Decreto Legislativo, o Congresso o submeta a dois turnos de votação e que se alcance, em cada um deles, quórum de três quintos dos parlamentares. Apenas uma Convenção sobre direitos humanos foi aprovada com status de norma constitucional no Brasil. Trata-se da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e de seu Protocolo Facultativo. Você pode ser o teor completo da Convenção, que foi recepcionada pelo Decreto Legislativo n.º 186/2008, disponível no link: <https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/quadro_DEC.htm (https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/quadro_DEC.htm)>. Agora que você concluiu os estudos sobre o poder Legislativo, passaremos ao estudo da estrutura e das características do poder Executivo. Após compreender o processo de produção das normas você estudará as características do poder incumbido de aplicá-las no exercício da atividade de administração. VOCÊ QUER LER? 2.2 Poder Executivo Ao estudar o poder Executivo, você primeiro irá conhecer a razão de ser e, depois, identificar quantos e quais são os Ministérios brasileiros. Você crê ser possível administrar o Estado de maneira isolada? É possível concentrar na figura do presidente da República decisões que vão desde assuntos previdenciários e bancários até a aquisição de medicamentos? É nesse contexto que os Ministérios assumem papel fundamental na organização do Estado. 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_2/ebook/index.html#section_1 9/31 Você também estudará as características que circundam o presidente da República. Primeiro, analisará o sistema eleitoral que é adotado pela Constituição para a eleição do chefe do poder Executivo. Nesse contexto, aprenderá a responder boatos que circulam há muito tempo, como é possível invalidar uma eleição se mais da metade dos eleitores votarem em branco ou se anularem o voto? As atribuições do presidente da República serão objeto de estudo, assim como a responsabilidade deste. Você sabe o que acontece se o presidente cometer um crime comum? E se cometer um crime de responsabilidade? Você sabe qual a diferença entre eles? Essas indagações instigam o desenvolvimento deste tópico, que também abordará o processo de impeachment. 2.2.1 Estrutura básica: ministérios O exercício do poder Executivo é feito pelo presidente da República, em âmbito federal, pelo governador, em âmbito estadual e distrital, e pelo prefeito, em âmbito municipal. Nenhum deles, no entanto, exerce as atividades de administração isoladamente, o que é humanamente impossível, por isso a Constituição prevê que o exercício do poder Executivo é feito mediante o auxílio dos ministros de Estado, o que viabiliza a desconcentração das decisões. 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_2/ebook/index.html#section_1 10/31 O presidente da República não possui condições para, sozinho, tomar todas as decisões relacionadas aos inúmeros assuntos de interesse nacional. Em razão disso, nomeia pessoas da sua confiança pessoal para que elas, em seu nome, decidam sobre assuntos de alta relevância, ou seja, os ministros de Estado. (TAVARES, 2017, p. 1321) Raciocínio idêntico se aplica em relação aos governadores e prefeitos, que, ao invés de nomearem ministros, nomeiam secretários Estaduais e secretários Municipais, respectivamente. A Constituição não estipula quantidade mínima, nem máxima de Ministérios, deixando a criação e a extinção para a lei. Um exemplo seria a Lei nº 13.502/17, que prevê diversos Ministérios, dentre os quais estão o da Cultura, da Educação, da Saúde etc. Além deles, a lei prevê órgãos com status de Ministério, como a Casa Civil, o Banco Central do Brasil etc. Mas quem pode ser ministro de Estado? Somente brasileiros maiores de 21 anos de idade que estejam no exercício dos direitos políticos. No caso do Ministério da Defesa, o cargo também deve ser ocupado por brasileiro nato. Independente da Figura 2 - Os ministros tomam decisões em nome do presidente. Fonte: Minerva Studio, Shutterstock, 2018. Deslize sobre a imagem para Zoom 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_2/ebook/index.html#section_1 11/31 pasta ocupada, o ministro tem o dever de orientar, coordenar e supervisionar os órgãos e entidades da Administração Federal na sua respectiva área de competência, bem como de referendar atos decretos que o presidente da República tenha assinado. 2.2.2 Presidência da República: eleições, poderes, vacância e responsabilidade O presidente da República é o chefe do poder Executivo da República Federativa do Brasil. Ele é eleito conjuntamente com o vice-presidente da República em eleição realizada pelo sistema majoritário, para um mandato de quatro anos. Para a eleição do presidente da República, o sistema majoritário impõe a obtenção da maioria absoluta dos votos válidos como condição de eleição. Em outras palavras, o candidato que obtiver mais da metade dos votos válidos estará eleito. Mas e se nenhum dos candidatos obtiver essa quantidade de votos? Nesse caso, será realizado um segundo turno entre os dois candidatos mais votados, oportunidade na qual será considerado eleito aquele que obtiver a maioria dos votos válidos. Por expressa determinação constitucional, o primeiro turno das eleições para presidente da República (e, na verdade, para os demais cargos eletivos) ocorre no primeiro domingo de outubro do ano anterior ao do término do mandato presidencial em vigência. E, se houver necessidade de um segundo turno, este deve ser realizado, necessariamente, no último domingo de outubro do mesmo ano. Importante ressaltar que os votos nulos e os brancos não são computados como votos válidos (conforme previsão constitucional expressa – art. 77, § 2º). Estes, portanto, são apenas os votos efetivamente atribuídos a um candidato regularmente registrado. Nesse contexto, você já deve ter ouvido ou lido boatos sobre a invalidação das eleições caso a maioria dos eleitores anule o voto. Você acredita que isso é realmente possível? Esteja certoque não. Antes de abordamos especificamente essa questão, precisamos esclarecer as definições de votos nulos e de votos brancos. Voto nulo é aquele incorretamente atribuído, o que ocorre quando o eleitor digita o número errado de um candidato e confirma a operação na urna eletrônica. Por exemplo: o eleitor gostaria de votar no candidato registrado com o número 01, mas digita o número 02 (que não é de nenhum candidato) e confirma. O voto nulo 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_2/ebook/index.html#section_1 12/31 também pode ser, evidentemente, proposital, quando o eleitor intencionalmente digita número inexistente e confirma a opção. Saiba, porém, que o voto nulo serve apenas para as estatísticas do pleito eleitoral e não influencia no resultado. Voto branco é aquele que demonstra a intenção do eleitor em não votar nos candidatos regularmente registrados perante a Justiça Eleitoral. Ele é manifestado mediante o uso de uma tecla específica da urna eletrônica. Assim como o voto nulo, ele não é computado como voto válido, servindo apenas para as estatísticas eleitorais. Talvez você já tenha ouvido que o voto em branco ajuda o candidato com maior quantidade de votos. Mas essa informação procede? Esteja certo de que não procede. Esse boato se difundiu quando as eleições eram realizadas por meio de cédulas de papel, haja vista que as cédulas deixadas em branco poderiam ser (ilicitamente) preenchidas no momento da apuração. Com a implantação do sistema eletrônico, por meio de urnas, essa possibilidade desapareceu. A Constituição Federal brasileira, classificada quanto à extensão, é analítica. Em outras palavras, significa que há grande quantidade de dispositivos constitucionais, diferente de outras, como a dos Estados Unidos, que é sintética. Dentre outras situações que demonstram essa característica está a previsão, em Figura 3 - O voto em branco era feito por uma cédula sem marcação. Fonte: vepar5, Shutterstock, 2018. Deslize sobre a imagem para Zoom 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_2/ebook/index.html#section_1 13/31 relação à eleição presidencial, de que se houver empate entre dois ou mais candidatos em segundo lugar, para fins de realização de segundo turno, deve-se qualificar o mais idoso. Após a eleição, o presidente e o vice-presidente da República tomam posse em 1º de janeiro do ano subsequente ao da realização do pleito eleitoral. A posse ocorre em sessão perante o Congresso Nacional, na qual ambos prestam compromisso “de manter, defender e cumprir a Constituição, observar as leis, promover o bem geral do povo brasileiro, sustentar a união, a integridade e a independência do Brasil” (art. 78 da CF/88). O cargo de vice-presidente serve, em primeiro lugar, para a segurança do Estado, caso algum fator impossibilite o presidente de prosseguir no exercício das suas funções. Por isso a Constituição prevê que compete ao vice-presidente auxiliar o presidente quando convocado para missões especiais (art. 79). Situação que demanda maior atenção atine ao impedimento do presidente e do vice-presidente da República. No caso de ausência de ambos, quem ocupa o cargo e como se faz o processo de sucessão? Se a vacância for meramente temporária, assumem o posto, sucessivamente: o presidente da Câmara dos Deputados; o presidente do Senado Federal; o presidente do Supremo Tribunal Federal. Se a vacância for definitiva, duas situações precisam ser distinguidas. A vaga nos dois primeiros anos do mandato gera a necessidade de realização de nova eleição geral, que deve ser realizada em 90 dias depois da vacância do último cargo. Eleição geral é aquela na qual a sociedade vai às urnas eleger o seu representante. Mas se a vaga ocorrer nos dois últimos anos do mandato não se admite a realização de nova eleição geral. Nesse caso, a eleição do presidente e do vice- presidente da República será indireta, feita pelo Congresso Nacional. Note que não é a sociedade que elege, nessa hipótese, mas apenas os deputados Federais e senadores da República. Tanto na vacância ocorrida no primeiro, como no segundo biênio, os novos eleitos somente completarão o período de mandato dos antecessores. Por exemplo: Bartolomeu e Fernanda foram eleitos presidente e vice-presidente da República em 2018, mas ambos foram afastados definitivamente dos cargos em 2020 por 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_2/ebook/index.html#section_1 14/31 processos de impeachment. Após novas eleições, Juliana e Júlio foram eleitos, mas apenas para completar o mandato original (que se iniciou em 1º de janeiro de 2019), que se encerra em 2022. Agora precisamos analisar as atribuições do presidente da República. Enquanto Chefe do Poder Executivo, ele exerce a função típica de administrar, de gerir o erário e tomar as decisões fundamentais do Estado, mediante a aplicação das leis discutidas e aprovadas pelo poder Legislativo e o respeito às decisões judiciais proferidas pelo Judiciário. Há alta quantidade e complexidade das tarefas que o presidente da República deve executar no exercício do mandato. O artigo 84 da Constituição Federal prevê 27 atribuições, algumas suscetíveis de delegação a ministros de Estado e outras autoridades. Compete ao presidente da República nomear e exonerar os ministros de Estado. Estes, aliás, o auxiliam na atividade de administração do Estado. Ao presidente da República compete, também, iniciar o processo legislativo nos casos previstos pela Constituição. Algumas leis são de iniciativa geral e outras de iniciativa privativa do presidente. Por exemplo, o presidente pode enviar ao Congresso Nacional um projeto de lei que altera o Código de Defesa do Consumidor, porque essa é uma matéria legislativa geral. Porém, somente ele pode enviar ao Congresso um Projeto que modifique o efetivo das Forças Armadas. Mas como saber quem pode legislar sobre o quê? O § 1º do artigo 61 da Constituição prevê os assuntos que são de iniciativa privativa do presidente da República. Os demais são de iniciativa geral. Em relação ao processo legislativo, também compete ao presidente a sanção ou veto dos projetos aprovados pelo Congresso Nacional (art. 84, IV e V da CF/88), assim como a promulgação e a publicação das leis. Após a publicação de uma lei, pode haver necessidade de regulamentá-la. Nesse caso, a competência regulamentar é do presidente da República. Saiba, porém, que não se admite nenhuma inovação por ocasião do ato de regulamentar, que serve apenas para atribuir efeitos práticos às previsões gerais de uma lei. A regulamentação é feita por meio de decretos. A nomeação de várias autoridades públicas também é atribuição do presidente da República. Ele nomeia ministros do Supremo Tribunal Federal e de Tribunais Superiores, o procurador-geral da República, o presidente e os diretores do Banco 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_2/ebook/index.html#section_1 15/31 Central do Brasil (art. 84, XIV), ministros do Tribunal de Contas da União (art. 84, XV), o advogado geral da União (art. 84, XVI), membros do Conselho da República (art. 84, XVIII), entre outros. O exercício inadequado das atribuições pode gerar ao Presidente consequências graves, ao ponto, inclusive, de gerar-lhe a perda do mandato. Ele tem o dever de obedecer as leis, assim como os demais cidadãos. Se no passado os governantes não possuíam responsabilidade na gestão, agora toda a atividade de administração que é realizada está sujeita à fiscalização e, caso haja violação da lei, o presidente será responsabilizado. O presidente da República pode cometer crimescomuns e crimes de responsabilidade. Você sabe qual a diferença? Crime comum é a infração que pode ser cometida por qualquer pessoa, como furtos, homicídios, falsificação de documentos, entre outros. Há crimes de ação penal pública, os quais são processados a partir de denúncia feita pelo Ministério Público. Mas também há crimes de ação penal privada, que se iniciam a partir de uma queixa-crime, que é elaborada pela parte prejudicada. Por exemplo, se o presidente da República furtar um objeto, será denunciado pelo Ministério Público; se caluniar alguém, a vítima pode apresentar uma queixa-crime em face dele. Crime de responsabilidade é o ato do presidente que atenta contra a Constituição Federal e sobre: a existência da União; o livre exercício do poder Legislativo, do poder Judiciário, do Ministério Público e dos poderes constitucionais das unidades da Federação; o exercício dos direitos políticos, individuais e sociais; a segurança interna do País; a probidade na administração; a lei orçamentária; o cumprimento das leis e das decisões judiciais. 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_2/ebook/index.html#section_1 16/31 Apresentada a acusação em face do presidente da República, a Câmara dos Deputados deve se reunir para decidir se a aceita, ou não. Só se considera aceita a acusação se ao menos dois terços dos Deputados Federais votarem pelo seu recebimento. Nesse caso, o presidente será julgado: pelo STF, no caso das infrações penais comuns; pelo Senado Federal, nos crimes de responsabilidade. Se o STF receber a denúncia ou queixa-crime em face do presidente, no caso das infrações penais comuns, ou se o Senado instaurar processo, no caso dos crimes de responsabilidade, ele ficará suspenso das suas funções. Essa suspensão poderá durar até 180 (cento dias). Se esse prazo for ultrapassado sem que o julgamento tenha sido concluído, ele retomará o cargo enquanto o processo continua a tramitar. No caso do crime de responsabilidade, é o processo de impeachment que pode resultar na perda do cargo de presidente da República, o que já ocorreu duas vezes após a Constituição Federal de 1988. Na primeira, Fernando Collor perdeu o cargo e, na segunda, Dilma Rousseff. Figura 4 - Crime de responsabilidade é processado perante o poder Legislativo. Fonte: corgarashu, Shutterstock, 2018. Deslize sobre a imagem para Zoom 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_2/ebook/index.html#section_1 17/31 Fernando Affonso Collor de Mello foi presidente da República Federativa do Brasil de 1990 até 1992, quando perdeu o cargo em virtude de processo de impeachment. Após 8 (oito) anos de inabilitação para funções públicas, voltou à atividade política, inclusive ocupando o cargo de senador da República, pelo estado de Alagoas. Como consequência pela condenação no processo de impeachment, a Constituição prevê: Art. 52. [...] Parágrafo único. Nos casos previstos nos incisos I e II, funcionará como Presidente o do Supremo Tribunal Federal, limitando-se a condenação, que somente será proferida por dois terços dos votos do Senado Federal, à perda do cargo, com inabilitação, por oito anos, para o exercício de função pública, sem prejuízo das demais sanções judiciais cabíveis. No caso de Fernando Collor, a interpretação do dispositivo que você acabou de ler foi aplicada integralmente. No caso de Dilma Rousseff, no entanto, houve votação em destaque para a inabilitação por oito anos, que foi rejeitada pelo Senado Federal. Em outras palavras, a consequência do impeachment para a ex-presidente se limitou à perda do cargo. VOCÊ SABIA? Destaque é um instrumento legislativo que separa parte do texto de um dispositivo, que posteriormente é votado isoladamente. Destacar, no contexto do processo legislativo em geral, é sinônimo de separar. VOCÊ O CONHECE? 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_2/ebook/index.html#section_1 18/31 Enquanto estiver no exercício do cargo, o presidente da República não pode ser responsabilizado por atos que sejam estranhos ao exercício das suas funções, conforme prevê o § 4º do art. 86 da Constituição. Essa é uma garantia de independência de autonomia do chefe do poder Executivo, que evita eventuais perseguições que possam atrapalhar a estabilidade da gestão e, em consequência, do Estado brasileiro. O documentário O processo, de Maria Augusta Ramos, retrata os bastidores do processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Indicado ao prêmio do Festival de Berlim, ele retrata os bastidores do processo e da crise política que o País enfrentou por ocasião do julgamento. Você concluiu os estudos sobre o presidente da República: eleições, poderes, atribuições e responsabilidade e, em consequência, sobre o poder Executivo. Agora iniciaremos a abordagem do poder Judiciário, que, como mencionado, serve à resolução de conflitos da sociedade. VOCÊ QUER VER? 2.3 Organização do Poder Judiciário (Parte I) Neste tópico, você iniciará os estudos sobre a organização do poder Judiciário. A Constituição Federal de 1988 prevê várias garantias à instituição em si, e também aos juízes que atuam resolvendo os conflitos de interesses da sociedade. Como você pode imaginar, os juízes precisam de algumas barreiras para que possam exercer suas atividades de maneira imparcial. É possível reduzir o salário de um juiz? E transferi-lo após uma decisão judicial que desagradou determinadas pessoas? Você encontrará as respostas a essas indagações neste tópico, assim como aprenderá sobre proibições endereçadas aos 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_2/ebook/index.html#section_1 19/31 juízes, que são fundamentais para manter a regularidade da atividade jurisdicional. Você também estudará a composição e as funções do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), criado em 2004, por meio da Reforma do Poder Judiciário. O CNJ serve para controlar o próprio poder Judiciário, evitando a ocorrência de abusos, como você compreenderá quando estudar as suas atribuições, que são expressamente fixadas pela Constituição Federal. 2.3.1 Garantias institucionais e funcionais A atividade judiciária demanda atenção do Estado no momento da sua estruturação, o que exige a concessão de garantias que impeçam que os juízes sofram pressões externas ou internas, ou retaliações em virtude de decisões que precisem tomar. Como você deve imaginar, julgar uma pessoa ou uma empresa não é tarefa simples, por várias razões. Uma das razões que pode atrapalhar o julgamento imparcial é o poder econômico, que pode agir direta ou indiretamente para persuadir o profissional da magistratura a proferir decisão diferente da sua convicção. Para evitar essas situações a Constituição assegurou aos juízes as seguintes garantias (art. 95): vitaliciedade; inamovibilidade; irredutibilidade de subsídio. Vitaliciedade é a garantia de que o juiz não perderá o cargo até sua aposentadoria voluntária ou compulsória. E quando se adquire a vitaliciedade? Na jurisdição de 1º (primeiro) grau, depois de 2 (dois) anos do exercício da magistratura. Nesse período, o juiz pode perder o cargo mediante deliberação do tribunal a que estiver vinculado. Fora dessa situação, a perda do cargo de um juiz somente pode ocorrer mediante sentença judicial transitada em julgado. A inamovibilidade é a garantia de que o juiz não será transferido do seu posto de trabalho, salvo por interesse público, mediante deliberação da maioria absoluta do tribunal respectivo ou do Conselho Nacional de Justiça. Como você deve imaginar, a transferência poderia ser utilizada como método de punição do juizcaso não fosse impedida pela Constituição. A irredutibilidade de subsídio impõe a manutenção dos vencimentos dos juízes, para que não sofram pressão decorrente da redução dos valores por eles recebidos. Nesse contexto, você já parou para pensar por que o salário de juízes 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_2/ebook/index.html#section_1 20/31 tem valor elevado, especialmente quando comparado ao valor do salário mínimo? Uma das razões é para torná-los menos suscetíveis à corrupção, que embora sejam cometidos por desvios éticos, são influenciados por outros fatores. Mas o exercício da magistratura, em contrapartida às garantias asseguradas pela Constituição Federal, também possui algumas proibições, todas voltadas à manutenção da imparcialidade do juiz. Nesse sentido, prevê o parágrafo único do Figura 5 - O Estado deve proteger o juiz para que as decisões sejam imparciais. Fonte: Shutterstock, 2018. Deslize sobre a imagem para Zoom 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_2/ebook/index.html#section_1 21/31 artigo 95 da Constituição, que é vedado aos juízes: exercer, ainda que em disponibilidade, outro cargo ou função, salvo uma de magistério; dedicar-se à atividade político-partidária, entre outras. No entanto, não são apenas os juízes que possuem garantias e proibições. Toda a estrutura do poder Judiciário foi cercada de elementos que lhe assegurem o exercício independente das suas funções (típica e atípicas). Por isso a Constituição assegura autonomia administrativa e financeira ao poder Judiciário. VOCÊ SABIA? Juízes não podem ser candidatos nem se filiar a partidos políticos. No entanto, a União Nacional dos Juízes Federais (UNAJUF) pleiteou, em 2017, o direito de filiação e, em consequência, o de se candidatar a cargos eletivos. O fundamento utilizado pela UNAJUF estava contido no Pacto de São José da Costa Rica, que assegura a todos, sem distinção, o direito ao sufrágio, mas o Supremo Tribunal Federal julgou o pedido improcedente (BRASIL, 2017). A proposta orçamentária de manutenção do poder Judiciário é elaborada por ele próprio, em compatibilidade com a lei de diretrizes orçamentárias. Mas o que acontece se o Judiciário não encaminhar a proposta orçamentária anual? Nesse caso, o Executivo deve considerar os valores aprovados no último orçamento. Em qualquer caso e como titular dos Projetos de leis orçamentárias, o Executivo pode alterar elementos da proposta do Judiciário sempre que esta for enviada em desacordo com a lei de diretrizes orçamentárias. Trata-se, aqui, de um mecanismo de freios e contrapesos, pois embora tenha sido dada autonomia ao poder Judiciário, também se viabiliza que o Executivo tolha eventuais abusos. (SARLET, 2017) 2.3.2 Conselho Nacional de Justiça: composição e funções Em 2004, o Judiciário brasileiro sofreu uma reforma por meio da Emenda Constitucional n.º 45. Dentre as principais mudanças destaca-se a criação do Conselho Nacional de Justiça – CNJ. Trata-se de órgão com atribuição para controlar a atuação administrativa e financeira do poder Judiciário e do cumprimento dos deveres funcionais dos juízes. 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_2/ebook/index.html#section_1 22/31 A Constituição estipulou expressamente que cabe ao CNJ, além de outras atribuições que lhe podem ser designadas pelo Estatuto da Magistratura, zelar pela autonomia do poder Judiciário e pelo cumprimento do Estatuto da Magistratura, podendo expedir atos regulamentares, no âmbito de sua competência, ou recomendar providências (art. 103-B, § 1°, I da CF/88). O CNJ é composto por 15 membros, os quais exercem mandato de dois anos, permitida uma recondução. A presidência fica a cargo do presidente do Supremo Tribunal Federal. Na ausência deste, assume o cargo o vice-presidente do STF. A nomeação dos membros do CNJ é feita pelo presidente da República, após aprovação da escolha por maioria absoluta do Senado Federal. Mas e se as indicações não forem feitas no momento adequado? Nesse caso, a incumbência passa ao Supremo Tribunal Federal, pois não se admite a ausência de atuação por essa razão. O ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) possui uma função específica no CNJ, a de ministro-corregedor, por isso ele fica excluído da distribuição de processos no tribunal. Em contrapartida, tem como atribuição, por exemplo, receber as reclamações e denúncias, de qualquer interessado, relativas aos magistrados e aos serviços judiciários (art. 103-B, § 5°, I, CF/88). É importante que você saiba que qualquer interessado pode apresentar reclamações ou denúncias contra qualquer membro ou órgão do poder Judiciário, ou contra seus serviços auxiliares, perante o CNJ, que é o órgão incumbido de apreciá-las e de punir, quando for o caso, os responsáveis por eventuais ilegalidades. O CNJ não possui, no entanto, função jurisdicional, o que significa que ele não pode rever decisões judiciais. A esfera de atuação desse órgão é administrativa, ou seja, ele pode aplicar sanções por uma decisão inadequadamente proferida, mas não pode emitir uma decisão que a substitua (MENDES, 2017). O foco de atuação do CNJ é o poder Judiciário e não o atendimento direto do cidadão, portanto. VOCÊ QUER LER? 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_2/ebook/index.html#section_1 23/31 O Conselho Nacional de Justiça publica, anualmente, vários relatórios sobre as suas atividades. Um deles é o Justiça em Números, que divulga dados sobre a realidade dos Tribunais brasileiros, inclusive sobre a quantidade de processos e os principais assuntos que geram conflitos perante o Judiciário. Os relatórios estão disponíveis em: <http://cnj.jus.br/publicacoes/relatorios-publicacoes (http://cnj.jus.br/publicacoes/relatorios-publicacoes)>. Agora que você estudou as garantias institucionais e funcionais previstas pela Constituição em relação ao poder Judiciário, bem como a composição e as funções do Conselho Nacional de Justiça, prosseguiremos no estudo da organização do Judiciário para identificar a divisão da Justiça Comum e da Justiça Especializada e as funções dos tribunais brasileiros. 2.4 Organização do Poder Judiciário (Parte II) Agora que já conhece as garantias institucionais e funcionais dessa esfera de poder do Estado, passará a estudar a sua divisão organizacional. Você sabe qual é a diferença entre Justiça Especial e Justiça Comum? A Justiça do Trabalho, por exemplo, se insere em qual grupo? E a Justiça Federal? Você aprenderá a responder essas indagações com os conhecimentos que adquirirá neste tópico. Você também aprenderá a composição e as funções do poder Judiciário e de cada uma das suas esferas. Estudará os tribunais, oportunidade em que constatará a forma de composição e a sede de cada um deles. Embora complexa, você verá que a estrutura judiciária brasileira viabiliza ampla proteção de direitos, à medida que conta com várias instâncias, o que permite que o mesmo processo seja analisado por diferentes juízes. Especificamente sobre a Justiça do Trabalho, você identificará o rol de competências que a Constituição lhe outorgou, assim como em relação à Justiça Federal. 2.4.1 Justiça especial e comum; justiça federal e estadual O poder Judiciário organiza-se mediante duas esferas: da Justiça Especial e da Justiça Comum. A Constituição Federal, ao estruturá-lo, conferiu competências que permitem clara distinção entre as diferentes esferas de atuação de cada uma. 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_2/ebook/index.html#section_124/31 A Justiça Especial é integrada pela: Justiça do Trabalho; Justiça Eleitoral; Justiça Militar. Tudo o que não for de competência de uma das esferas especializadas do poder Judiciário é de competência da Justiça Comum, que se subdivide em: Justiça Federal; Justiça Estadual. A Justiça Federal possui competências previstas explicitamente pela Constituição Federal, as demais, ou seja, tudo que não estiver reservado a nenhuma esfera da Justiça Especializada nem à Justiça Comum Federal é de competência da Justiça Estadual de cada Estado. (MORAES, 2017) A Justiça Especial possui Tribunais Superiores próprios, como é o caso do Tribunal Superior do Trabalho, do Tribunal Superior Eleitoral e do Superior Tribunal Militar. No entanto, no caso da Justiça Comum, seja ela federal ou estadual, qual é o Tribunal Superior com competência para analisar recursos interpostos das decisões do Tribunal Regional Federal e do Tribunal de Justiça, respectivamente? É o Superior Tribunal de Justiça. Na cúpula do Poder Judiciário brasileiro está o Supremo Tribunal Federal, cujas características você estudará no tópico a seguir. 2.4.2 Composição e funções O poder Judiciário é composto pelos órgãos descritos no artigo 92 da Constituição Federal, a saber: o Supremo Tribunal Federal; o Conselho Nacional de Justiça; o Superior Tribunal de Justiça; o Tribunal Superior do Trabalho; os Tribunais Regionais Federais e Juízes Federais; os Tribunais e Juízes do Trabalho; os Tribunais e Juízes Eleitorais; os Tribunais e Juízes Militares; os Tribunais e Juízes dos Estados e do Distrito Federal e Territórios. 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_2/ebook/index.html#section_1 25/31 O Supremo Tribunal Federal ocupa o ápice da estrutura do poder Judiciário brasileiro. Ele é o órgão incumbido da guarda da Constituição Federal e a última instância da justiça nacional. A composição do Supremo Tribunal Federal é feita por 11 ministros, nomeados pelo presidente da República. A sede do tribunal fica em Brasília, na praça dos Três Poderes. O Conselho Nacional de Justiça é o órgão de controle da atuação administrativa e financeira do poder Judiciário, bem como do cumprimento dos deveres funcionais dos juízes. Ele é composto por 15 membros, conforme determinação constitucional, e possui sede em Brasília. A Constituição Federal prevê que o Superior Tribunal de Justiça seja composto por, no mínimo, 33 ministros, nomeados pelo presidente da República dentre brasileiros com mais de 35 e menos de 65 anos, com notável saber jurídico e reputação ilibada, após escolha feita pela maioria absoluta do Senado Federal. Nessa composição, parte dos membros é escolhida a partir dos quadros dos Figura 6 - O Supremo Tribunal Federal representa a cúpula do poder Judiciário brasileiro. Fonte: Gustavo Toledo, Shutterstock, 2018. Deslize sobre a imagem para Zoom 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_2/ebook/index.html#section_1 26/31 Tribunais Regionais Federais e dos Tribunais de Justiça, e outra parte entre advogados e membros do Ministério Público. A sede do Superior Tribunal de Justiça também fica em Brasília. O Tribunal Superior do Trabalho (TST) é o órgão de cúpula da Justiça do Trabalho, esfera especializada do poder Judiciário. Ele é composto por 27 ministros, nomeados pelo presidente da República após aprovação pela maioria absoluta do Senado Federal. Todos devem possuir reputação ilibada, notável saber jurídico e ter mais de 35 e menos de 65 anos de idade. A sede do TST também fica em Brasília. Os Tribunais Regionais Federais e os Juízes Federais atuam perante a esfera de jurisdição federal, que, ao lado da jurisdição estadual, formam a Justiça Comum. A Justiça Federal possui competência para julgar as causas em que a União, entidade autárquica ou empresa pública federal, forem interessadas na condição de autoras, rés, assistentes ou oponentes, exceto as de falência, as de acidentes de trabalho e as sujeitas à Justiça Eleitoral e à Justiça do Trabalho (art. 109, I da CF/88), além de outras previstas no artigo 109 da Constituição Federal. Por exemplo, se a sua aposentadoria não for concedida administrativamente pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e você precisar ingressar com uma ação para obtê-la, o processo tramitará perante a Justiça Federal, haja vista que o INSS é uma autarquia federal. Também deve ser ajuizada perante a Justiça Federal, por exemplo, ações em face da Caixa Econômica Federal, que é uma empresa pública federal. Ainda em relação à Justiça Federal, é importante salientar que, atualmente, a estrutura do poder Judiciário brasileiro conta com cinco Tribunais Regionais Federais, que abrangem os seguintes Estados: Tribunal Regional Federal da 1ª Região: possui sede em Brasília e atende a demandas dos Estados do Acre, Amapá, Amazonas, Bahia, Distrito Federal, Goiás, Maranhão, Minas Gerais, Mato Grosso, Pará, Piauí, Rondônia, Roraima e Tocantins; Tribunal Regional Federal da 2ª Região: possui sede no Rio de Janeiro e atende a demandas dos Estados do Rio de Janeiro e do Espírito Santo; Tribunal Regional Federal da 3ª Região: possui sede em São Paulo e atende a demandas dos Estados de São Paulo e do Mato Grosso do Sul; Tribunal Regional Federal da 4ª Região: possui sede em Porto Alegre e atende a demandas dos Estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_2/ebook/index.html#section_1 27/31 Sul; Tribunal Regional Federal da 5ª Região: possui sede em Recife e atende a demandas dos Estados de Alagoas, Ceará, Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Sergipe. Os Tribunais Regionais do Trabalho e os Juízes do Trabalho, assim como o TST, exercem a jurisdição trabalhista. As competências da Justiça do Trabalho estão previstas no artigo 114 da Constituição, como as ações oriundas das relações de trabalho e as que envolvam o direito de greve (art. 114, I e II da CF/88). Figura 7 - Os Tribunais Regionais Federais integram a estrutura da Justiça Federal brasileira. Fonte: Elaborado pelo autor, 2018. Deslize sobre a imagem para Zoom 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_2/ebook/index.html#section_1 28/31 Os Tribunais Regionais do Trabalho (TRT) seguem o modelo dos Tribunais Regionais Federais quanto à distribuição pelo território nacional. Em outras palavras, significa que não há, necessariamente, um TRT por Estado. Os Tribunais da Justiça Trabalhista são criados à medida da necessidade, que se calcula com base na quantidade de processos. Atualmente, existem 24 Tribunais Regionais do Trabalho. Alguns abrangem mais de um Estado (como é o caso do TRT da 14ª Região, que abrange os Estados do Acre e de Rondônia). Por outro lado, no Estado de São Paulo, há 2 Tribunais Regionais Federais (o da 2ª Região, com sede em São Paulo, e o da 15ª Região, com sede em Campinas), em razão da grande quantidade de processos. A estrutura da Justiça Eleitoral é formada pelo Tribunal Superior Eleitoral, pelos Tribunais Regionais Eleitorais, pelos Juízes Eleitorais e pelas Juntas Eleitorais (art. 118 da CF/88). O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) é composto por ao menos sete membros, com sede em Brasília. A Justiça Eleitoral é responsável pela organização do sistema eleitoral brasileiro, assim como pela resolução dos conflitos relacionados às normas eleitorais. A Justiça Militar se organiza por meio do Superior Tribunal Militar (STM) e os Tribunais e Juízes Militares. O STM é composto por 15 ministros vitalícios, nomeados pelo presidente da República, depois da aprovação dos nomes peloSenado Federal. Os Tribunais de Justiça e Juízes dos Estados integram, ao lado dos Tribunais Regionais Federais e dos Juízes Federais, a estrutura da Justiça Comum. A competência da Justiça Estadual é residual, ou seja, cabe a eles a resolução de todos os conflitos de interesses que não sejam de competência da Justiça Especializada nem da Justiça Federal. Cada Estado possui competência para organizar sua esfera de jurisdição, o que se faz a partir da Constituição Estadual, respeitados os limites da Constituição Federal. Também é possível que os Estados instituam, na estrutura dos respectivos Judiciários, a Justiça Militar, que, nesse caso, terá competência para processar e julgar os militares estaduais. É o que ocorre, por exemplo, no Estado de São Paulo, que conta com uma estrutura própria, encabeçada pelo Tribunal de Justiça Militar. 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_2/ebook/index.html#section_1 29/31 Síntese Concluímos o segundo Capítulo da disciplina Direito Constitucional. Agora, você concluiu os estudos sobre o poder Legislativo, o Executivo e o Judiciário. Neste capítulo, você teve a oportunidade de: identificar como as medidas provisórias contribuem para a não utilização das leis delegadas; aprender que os decretos legislativos e as resoluções são espécies legislativas de utilização privativa das Casas Legislativas; conhecer a razão de ser e identificar quais são os Ministérios brasileiros; identificar as atribuições do presidente da República, sua forma de eleição e casos de responsabilidade; compreender que o presidente da República pode praticar crimes comuns ou de responsabilidade e que, no último caso, pode sofrer um processo de impechment; conhecer garantias institucionais e funcionais do poder Judiciário, assim como proibições endereçadas aos juízes; identificar a composição e as funções do Conselho Nacional de Justiça, criado pela emenda constitucional n.º 45/2004; compreender que o poder Judiciário se organiza em duas esferas: a da Justiça Especial, que compreende a Justiça do Trabalho, a Eleitoral e a Militar, e a da Justiça Comum, que compreende a Justiça Federal e a Estadual; identificar quais são os Tribunais e conhecer as características das esferas do poder Judiciário brasileiro. Referências bibliográficas BALERA, F. P. Medida provisória: o controle dos requisitos constitucionais de relevância e urgência pelo Congresso Nacional e pelo STF. Revista Brasileira de Direito Constitucional. N. 14, jul./dez. 2009, São Paulo, pp. 25-52. Disponível em: <http://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/quaestioiuris/article/view/21252>. Acesso em: 31/01/2018. 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_2/ebook/index.html#section_1 30/31 BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em: <https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm>. Acesso em: 01/02/2018. ______. Lei n.º 13.341, de 29 de setembro de 2016. Altera as Leis nos 10.683, de 28 de maio de 2003, que dispõe sobre a organização da Presidência da República e dos Ministérios, e 11.890, de 24 de dezembro de 2008, e revoga a Medida Provisória no 717, de 16 de março de 2016. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2016/lei/L13341.htm>. Acesso em: 02/02/2018. ______. Supremo Tribunal Federal. Ação declaratória de constitucionalidade 11 MC. Relator: Min. Cezar Peluso. Pesquisa de jurisprudência, Acórdãos, 29 junho 2007. Disponível em: <http://www.stf.jus.br/portal/jurisprudencia/pesquisarJurisprudencia.asp (http://www.stf.jus.br/portal/jurisprudencia/pesquisarJurisprudencia.asp)>. Acesso em: 02/02/2018. ______.Supremo Tribunal Federal. Ação originária 2.236 Goiás MC. Relator: Min. Gilmar Mendes. Pesquisa de jurisprudência, Acórdãos, 22 setembro 2017. Disponível em: <http://www.stf.jus.br/portal/jurisprudencia/pesquisarJurisprudencia.asp (http://www.stf.jus.br/portal/jurisprudencia/pesquisarJurisprudencia.asp)>. Acesso em: 06/02/2018. CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA. Justiça em números: 2016. Disponível em: <http://cnj.jus.br/publicacoes/relatorios-publicacoes>. Acesso em: 14/02//2018. FERREIRA FILHO, M. G. Curso de direito constitucional. 40. ed. São Paulo: Saraiva, 2015. MENDES, G. F.; BRANCO, P. G. G. Curso de direito constitucional. 12. ed. São Paulo: Saraiva, 2017. MORAES, A. de. Direito constitucional. 33. ed. São Paulo: Atlas, 2017. SARLET, I. W.; MARINONI, L. G.; MITIDIERO, D. Curso de direito constitucional. 6. ed. São Paulo: Saraiva, 2017. TAVARES, A. R. Curso de direito constitucional. 15. ed. São Paulo: Saraiva, 2017. 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_2/ebook/index.html#section_1 31/31 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_3/ebook/index.html#section_1 1/29 DIREITO CONSTITUCIONAL CAPÍTULO 3 - COMO SE DÁ O CONTROLE DE CONSTITUCIONALIDADE? Guilherme Aparecido da Rocha INICIAR 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_3/ebook/index.html#section_1 2/29 Introdução Você sabe quais são os Tribunais Superiores do Brasil? Sabe qual é a diferença entre o Supremo Tribunal Federal e o Superior Tribunal de Justiça? Neste capítulo, você estudará esses dois Tribunais, identificando a estrutura e as competências, bem como o âmbito de cabimento do recurso especial e do recurso extraordinário. Na sequência, você estudará as funções essenciais à justiça. Você considera que o Ministério Público faz parte de qual dos poderes da República? Você sabe identificar a diferença entre Ministério Público dos Estados e Ministério Público Federal? Após concluir os estudos relativos à organização do poder Judiciário, estudará sobre o controle de constitucionalidade. O Brasil sofreu influências de diferentes modelos e as incorporou na Constituição Federal de 1988. Você sabe quais foram os sistemas que influenciaram a criação do nosso? Em relação ao controle concentrado de constitucionalidade, você iniciará os estudos dos instrumentos disponíveis para eliminar do ordenamento nacional leis ou atos normativos que violem a Constituição Federal, começando pela ação direta de inconstitucionalidade, que só pode ser ajuizada pelos órgãos ou autoridades expressamente autorizadas no texto constitucional. 3.1 Organização do Poder Judiciário (Parte III) Ao dar continuidade aos estudos sobre a organização do poder Judiciário, você estudará a composição e as principais competências do Superior Tribunal de Justiça e do Supremo Tribunal Federal. Você sabe qual é a diferença do Conselho Nacional de Justiça e do Conselho da Justiça Federal? Nesse tópico, você identificará as características do último e aprenderá a diferenciá-lo do primeiro. Quanto ao Ministério Público, ele integra a estrutura do poder Legislativo, do Executivo ou do Judiciário? Aqui você aprenderá como ele se situa na estrutura organizacional brasileira e identificará que ele não integra nenhum dos poderes da República. 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_3/ebook/index.html#section_1 3/29 Você também estudará a advocacia, considerada pela Constituição Federal, assim como o Ministério Público, função essencial à justiça. Ambos exercem atividades fundamentais ao Estado e à estabilidade do texto constitucional, como você passará a identificar. 3.1.1 Superior Tribunal de Justiça e Supremo Tribunal Federal O Superior Tribunal de Justiça (STJ) tem sede em Brasília e é integrado por, no mínimo, 33ministros, os quais são escolhidos dentre brasileiros de notável saber jurídico e reputação ilibada e precisam ter idade superior a 35 e inferior a 65 anos de idade. Dos 33 ministros do STJ, um terço é originário dos Tribunais Regionais Federais (TRFs). Lembre-se, que atualmente existem cinco TRFs. Outro terço é originário dos Tribunais de Justiça, que estão presentes em todos os Estados brasileiros. Por fim, um terço dos ministros é escolhido entre advogados e membros do Ministério Público. (FERREIRA FILHO, 2015) As competências do STJ estão previstas no artigo 105 da Constituição Federal. Dentre elas, destaca-se a competência para processar e julgar originariamente algumas autoridades, o que ocorre em virtude do foro privilegiado. Note, portanto, que não é apenas o Supremo Tribunal Federal que possui essa função. Se o presidente da República, um deputado federal ou um senador, por exemplo, cometer um crime comum, será processado perante o STF. Mas, então, quais autoridade são processadas perante o STJ? São as seguintes: governadores dos Estados e do Distrito Federal (nos crimes comuns); desembargadores dos Tribunais de Justiça dos Estados e do Distrito Federal (nos crimes comuns e também nos de responsabilidade); membros dos Tribunais de Contas dos Estados e do Distrito Federal (nos crimes comuns e também nos de responsabilidade); membros dos Tribunais Regionais Federais (nos crimes comuns e também nos de responsabilidade); membros dos Tribunais Regionais do Trabalho (nos crimes comuns e também nos de responsabilidade); membros dos Tribunais Regionais Eleitorais (nos crimes comuns e também nos de responsabilidade); membros dos Conselhos ou Tribunais de Contas dos Municípios (nos crimes comuns e também nos de responsabilidade); 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_3/ebook/index.html#section_1 4/29 membros do Ministério Público que oficiem perante tribunais (nos crimes comuns e também nos de responsabilidade). Outra competência do STJ que merece destaque é a que lhe atribui o julgamento, em recurso especial, nas causas decididas, em única ou última instância, pelos Tribunais Regionais Federais ou pelos Tribunais de Justiça. Esse recurso é cabível quando uma decisão (art. 105, III da CF/88): contrariar tratado ou lei federal, ou negar-lhes vigência; julgar válido ato de governo local contestado em face de lei federal; der a lei federal interpretação divergente da que lhe haja atribuído outro tribunal. 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_3/ebook/index.html#section_1 5/29 Assim como o STF é o guardião da Constituição Federal, o STJ é o guardião da legislação federal brasileira. Figura 1 - A legislação brasileira é protegida pelo poder Judiciário. Fonte: Andrey Burmakin, Shutterstock, 2018. Deslize sobre a imagem para Zoom 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_3/ebook/index.html#section_1 6/29 CASO João adquiriu uma televisão pela internet para utilizar em sua residência. Ao receber o produto, constatou que era muito diferente do anúncio e decidiu exercer seu direito de arrependimento, que está previsto no artigo 49 do Código de Defesa do Consumidor. Esse artigo prevê que o “consumidor pode desistir do contrato, no prazo de 7 dias a contar de sua assinatura ou do ato de recebimento do produto ou serviço, sempre que a contratação de fornecimento de produtos e serviços ocorrer fora do estabelecimento comercial, especialmente por telefone ou a domicílio”. Ocorre que a empresa vendedora recusou o pedido de João, tendo-lhe informado que esse artigo não era observado por questões de política empresarial interna. João ingressou com ação judicial para obrigar a empresa a aceitar a devolução do produto e a devolver-lhe o dinheiro. Venceu em primeira instância, mas perdeu perante o Tribunal de Justiça. A decisão do Tribunal entendeu, incorretamente, pela não aplicação do direito ao arrependimento para compras pela internet. Ao recorrer ao Superior Tribunal de Justiça, que é o guardião da legislação federal brasileira, houve reforma do julgamento e determinação para que a empresa obedecesse à previsão do artigo 49 do CDC, que vale para todas as compras realizadas fora do estabelecimento comercial, inclusive pela internet. O Supremo Tribunal Federal é o órgão de cúpula do poder Judiciário brasileiro. Ele é integrado por 11 ministros, escolhidos, assim como os ministros do STJ, dentre brasileiros de notável saber jurídico e reputação ilibada. Para ser ministro do STF, o profissional também precisa ter mais de 35 e menos de 65 anos de idade. As competências do STF estão previstas no artigo 102 da Constituição Federal. Dentre elas, destaca-se o processamento e o julgamento das ações destinadas ao controle de constitucionalidade. Essas competências é que permitem atribuir ao STF o rótulo de guardião da Constituição. O STF também é a instância competente para julgar determinadas autoridades, em virtude do foro privilegiado que elas adquirem ao serem eleitas. Trata-se, nas infrações penais comuns, do presidente e do vice-presidente da República, dos deputados federais e senadores, dos ministros e do procurador-geral da República 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_3/ebook/index.html#section_1 7/29 (art. 102, I, “b” da CF/88). Mas ainda há outras autoridades que possuem foro privilegiado, conforme você pode constatar analisando o artigo 102, I da Constituição Federal. Outra competência do STF é julgar o recurso extraordinário, que pode ser interposto em face de decisão de única ou última instância, quando ela (art. 102, III, da CF/88): contrariar dispositivo da Constituição; declarar a inconstitucionalidade de tratado ou lei federal; julgar válida lei ou ato de governo local contestado em face da Constituição; julgar válida lei local contestada em face de lei federal. O STF é, portanto, a última instância do poder Judiciário brasileiro, não havendo autoridade com competência para rever suas decisões. 3.1.2 Funções essenciais à justiça: Ministério Público e Advocacia O Ministério Público integra a estrutura de qual poder do Estado? Talvez você esteja inclinado a indicar o poder Judiciário como resposta. Saiba, no entanto, que o Ministério Público é um órgão autônomo, ou seja, não compõe a estrutura de nenhum poder. Ele é considerado uma função essencial à justiça, assim como a advocacia. O Ministério Público se subdivide em: Ministério Público da União; Ministério Público dos Estados (TAVAREZ, 2017). O Ministério Público da União se subdivide em: Ministério Público Federal; Ministério Público do Trabalho; Ministério Público Militar; Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (TAVAREZ, 2017). Já o Ministério dos Estados é instituído por cada Estado brasileiro. No âmbito deste, atuam os Promotores de Justiça, enquanto que no âmbito do Ministério Público Federal atuam os Procuradores da República. Note que estes são meros rótulos atribuídos pela legislação aos membros do Ministério Público, que exercem várias atribuições, com destaque para as ações penais públicas. 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_3/ebook/index.html#section_1 8/29 O Ministério Público, tanto federal como estadual, atua em diversas áreas. O estadual zela pelo patrimônio público dos Estados e dos Municípios, enquanto o federal desempenha idêntica atribuição em relação ao patrimônio público federal. Os crimes também são objeto de denúncia por parte do Ministério Público: alguns são de alçada federal eoutros estadual. Por exemplo: furtos e roubos, em regra, são de competência estadual, assim como eventual crime de sonegação de tributos municipais e estaduais; já o crime de moeda falsa ou a sonegação de tributos federais é de competência do Ministério Público Federal (TAVAREZ, 2017). A advocacia, assim como o Ministério Público, também foi considerada pela Constituição como uma função essencial à justiça. Ela se subdivide em pública e privada. A advocacia pública é exercida perante órgãos públicos, como as Procuradorias dos Municípios (tanto do poder Executivo como do Legislativo) ou a Advocacia-Geral da União. Já a advocacia privada é a que se exerce por meio de advogados que atuam isoladamente ou organizados em sociedades (TAVAREZ, 2017). Figura 2 - Os processos criminais são acompanhados pelo Ministério Público como regra. Fonte: Photographee.eu, Shutterstock, 2018. Deslize sobre a imagem para Zoom 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_3/ebook/index.html#section_1 9/29 A advocacia é fundamental à defesa das instituições e da ordem jurídica. Por isso a Constituição Federal de 1988 atribuiu legitimidade à Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), para que ingresse com ações do sistema concentrado de controle de constitucionalidade, a exemplo da ação direta de inconstitucionalidade (TAVAREZ, 2017). 3.2 Função do poder Judiciário: controle de constitucionalidade Ao prosseguir os estudos sobre o poder Judiciário, você iniciará com a função de julgar, especificamente, sobre o processamento e julgamento das ações voltadas ao controle de constitucionalidade. Você sabe qual é a finalidade desse controle? Neste tópico, você compreenderá o que é e quais as razões do controle de constitucionalidade. O sistema normativo brasileiro foi construído a partir da influência de outros países, especialmente dos Estados Unidos. Lá o sistema de controle de constitucionalidade utilizado é diferente do sistema europeu e se processa em relação a casos concretos, o que foi incorporado pela Constituição Federal de 1988, embora não de maneira isolada, como você estudará. Você, enquanto cidadão, se for prejudicado por alguma lei ou ato normativo inconstitucional, pode pleitear que o poder Judiciário a declare inconstitucional? Essa resposta você terá no curso deste tópico. 3.2.1 Conceito e razões do controle Controle de constitucionalidade é o conjunto de instrumentos que o Estado possui para controlar a qualidade das leis – durante o seu processo de produção e após a sua publicação – em relação à Constituição Federal de 1988. Trata-se de uma forma política ou jurídica de evitar ou de corrigir a violação do texto constitucional (TAVARES, 2017). No primeiro caso, o controle é feito pelos poderes Legislativo e Executivo, e no segundo, pelo Judiciário. A Constituição Federal ocupa o ápice do ordenamento jurídico brasileiro. Por isso, todas as leis e demais atos normativos elaborados devem obedecê-la fielmente. Sem isso, haverá gradual perda da estabilidade jurídica do Estado, o que 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_3/ebook/index.html#section_1 10/29 culminará em trágico desfecho. Qual a garantia de celebrar um negócio ou investir dinheiro em um país que não possui uma legislação estável? Figura 3 - A Constituição Federal é a principal fonte normativa do Brasil. Fonte: Alexander Mak, Shutterstock, 2018. Deslize sobre a imagem para Zoom 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_3/ebook/index.html#section_1 11/29 A supremacia da Constituição precisa ser mantida. Do contrário, haverá instabilidade política e econômica, o que gera as crises que impedem o desenvolvimento do Estado e o gozo de direitos pela sociedade. Para manter a força do texto constitucional, existem os instrumentos de controle de constitucionalidade, previstos na própria Constituição. 3.2.2 Origem: modelo norte-americano e aplicação na CF 1988 O Brasil adota, embora não de modo exclusivo, o sistema de controle de constitucionalidade norte-americano. Por meio dele, viabiliza-se a análise de compatibilidade das leis e demais atos normativos em face da Constituição Federal por qualquer instância do poder Judiciário. Nos Estados Unidos, o sistema de controle de constitucionalidade teve início com o julgamento do caso Marbury vs. Madison, no qual a Suprema Corte vislumbrou a necessidade de manifestar a defesa da supremacia da Constituição (TAVARES, 2017). Mas não foi por ocasião de uma decisão judicial que alguns juízes cogitaram, pela primeira vez, sobre essa necessidade. A questão já vinha sendo abordada doutrinariamente nos Estados Unidos, com destaque para os artigos federalistas. Em um deles, de autoria de Alexander Hamilton, abordava-se que os atos contrários à Constituição não poderiam ser considerados válidos, bem como que era dever dos Tribunais figurar entre o povo e a legislatura (HAMILTON, 1788). O artigo “Marbury vs. Madison: uma revisão da decisão chave para o controle jurisdicional de constitucionalidade”, de autoria de Marcus Firmino Santiago, apresenta uma interessante análise sobre o caso que se firmou como um divisor de águas no sistema norte-americano de controle de constitucionalidade, trazendo ao Judiciário elementos que a doutrina daquele país vinha apresentando. O trabalho está disponível em: <http://www.historia.uff.br/revistapassagens/artigos/v7n2a42015.pdf (http://www.historia.uff.br/revistapassagens/artigos/v7n2a42015.pdf)>. VOCÊ QUER LER? 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_3/ebook/index.html#section_1 12/29 Com a propagação desse modelo de controle de constitucionalidade, difundiu-se a possibilidade de qualquer juiz proceder à análise de eventuais inconstitucionalidades, modelo que é seguido pelo Brasil. Então, se você está privado de algum direito ou sofrendo algum prejuízo em virtude de uma lei ou ato normativo inconstitucional, pode ingressar com uma ação para afastar essa situação. Note, porém, que você não discutirá a lei em tese, mas mostrará ao poder Judiciário o direito que lhe está sendo tolhido ou prejuízo que lhe está sendo gerado, sendo a argumentação da inconstitucionalidade apenas o meio, ou seja, o caminho para que você obtenha o direito pretendido ou a cessação ao prejuízo indesejado. Mas, se nos Estados Unidos o controle de constitucionalidade se faz somente pela via incidental, qual é o efeito de uma decisão proferida por um juiz, ao julgar que determinada lei viola a Constituição? O efeito é inter partes, ou seja, entre as partes. No entanto, quando o caso chega à Suprema Corte, a decisão proferida em relação a um caso específico gera um precedente, que precisa ser observado pelas demais instâncias jurisdicionais do país. No Brasil, há instrumentos que permitem a expansão dos efeitos de uma decisão proferida num conflito específico para todo o território nacional. 3.3 Controle jurisdicional incidental de constitucionalidade Neste tópico, você continuará os estudos sobre o controle de constitucionalidade. Quais são os tipos de inconstitucionalidade? Quais são as formas de controlar essa indesejável ocorrência? Nenhuma lei ou ato normativo deve ser produzida em violação às normas contidas na Constituição Federal, mas isso infelizmente ocorre e, nesses casos, existem mecanismos de eliminação do problema. É possível que durante o processo de elaboração de uma lei ou ato normativo alguma formalidade deixe de ser observada? Nesse caso, a norma poderá ser considerada inconstitucional? Além dessa situação, a violação do conteúdo do texto constitucional também pode ensejar alguma inconstitucionalidade?Neste tópico, você enfrentará todas as situações e aprenderá a respondê-las. 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_3/ebook/index.html#section_1 13/29 Julgada inconstitucional determinada lei ou ato normativo no contexto de um processo subjetivo, ou seja, que só envolve as partes ali relacionadas, é possível estender os efeitos dessa declaração de inconstitucionalidade para todos? A Constituição prevê instrumentos que você aprenderá e que podem viabilizar a aplicação dessa medida. 3.3.1 Tipos de inconstitucionalidade e de controle A Constituição Federal prevê como as leis devem ser elaboradas e o conteúdo que podem ou não disciplinar. Violadas essas disposições ocorrerá a inconstitucionalidade, que nada mais é do que a contrariedade de um procedimento ou do conteúdo de uma lei em relação à Constituição. A inconstitucionalidade pode ser de duas naturezas (FERREIRA FILHO, 2015): formal ou material. A inconstitucionalidade formal ocorre quando há violação das regras de processo legislativo. A adoção da espécie legislativa adequada, os quóruns de votação, entre outras exigências procedimentais precisam ser observadas, pois do contrário a lei será considerada inconstitucional (FERREIRA FILHO, 2015). A inconstitucionalidade material resulta de uma incompatibilidade entre o conteúdo da lei (como o direito criado, por exemplo) e alguma norma constitucional. É o que ocorre caso uma lei pretenda eliminar algum direito fundamental, como a liberdade, por exemplo. Há hierarquia entre as normas jurídicas, que devem obedecer as que estão no topo, isto é, na Constituição (FERREIRA FILHO, 2015). Tanto a inconstitucionalidade formal como a material podem ser evitadas ou corrigidas por meio de duas formas de controle (FERREIRA FILHO, 2015): o preventivo e o repressivo. O controle preventivo de constitucionalidade é o que se realiza durante o processo de elaboração das leis. Ele fica a cargo do poder Legislativo e do Executivo. As Comissões das Casas Legislativas possuem atribuições de análise dos projetos que lhes são submetidos, dentre os quais se destaca a análise de compatibilidade entre o projeto e a Constituição Federal. Toda Casa Legislativa possui uma Comissão com essa função específica. O nome dessa comissão pode variar (Comissão de Constituição, Justiça e Redação, Comissão de Constituição e Redação etc.), mas seu objeto é o mesmo (FERREIRA FILHO, 2015). 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_3/ebook/index.html#section_1 14/29 A Comissão de Constituição tem o dever de analisar se o projeto atende às regras do processo legislativo previstas na Constituição, ou seja, se há compatibilidade formal entre eles. Por exemplo: uma lei ordinária que verse sobre matéria reservada à lei complementar é inconstitucional. Tem o dever, também, de analisar se o conteúdo do projeto não viola nenhum dispositivo da Constituição Federal, ou seja, se há compatibilidade material ente eles. Por exemplo: uma lei que elimine um direito fundamental é inconstitucional (FERREIRA FILHO, 2015). Se o projeto ultrapassar a fase do trâmite pelas comissões e chegar ao plenário, será discutido e votado pelos parlamentares. Esse momento também serve ao controle preventivo de constitucionalidade. Qualquer parlamentar que identifique vício do projeto em relação à Constituição tem o dever de levantar a questão para que seja discutida pelos demais e, se estiver convencido da inconstitucionalidade, deve votar contrariamente à aprovação do projeto (FERREIRA FILHO, 2015). Não obstante as fases do processo legislativo e o amplo dever de controle de constitucionalidade, o projeto pode ser aprovado de forma parcial ou totalmente contrária à Constituição. Nesse caso, ainda há algum mecanismo para evitar que a Figura 4 - O processo legislativo se desenvolve no Congresso Nacional. Fonte: gary yim, Shutterstock, 2018. Deslize sobre a imagem para Zoom 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_3/ebook/index.html#section_1 15/29 publicação de uma lei inconstitucional? Sim, mas não mais perante o poder Legislativo (FERREIRA FILHO, 2015). Ao concluir os processos de discussão e votação dos projetos, o poder Legislativo os remete ao chefe do poder Executivo, a quem compete sancioná-los ou vetá-los. O veto pode ser atribuído a um projeto por duas razões, como você aprendeu: contrariedade ao interesse público ou inconstitucionalidade. Note, portanto, que o veto decorrente da inconstitucionalidade faz parte do sistema de controle preventivo de constitucionalidade (FERREIRA FILHO, 2015). Ao vetar o projeto em virtude de alguma violação formal ou material do projeto em relação à Constituição, o chefe do poder Executivo deve manifestar expressamente os pontos da inconstitucionalidade identificada. Após proferido o veto, o projeto é devolvido ao poder Legislativo, que irá apreciá-lo para decidir se o mantém ou se o rejeita. O veto deve ser mantido se o Legislativo reconhecer que há inconstitucionalidade no projeto, mas pode ser rejeitado se houver discordância (FERREIRA FILHO, 2015). Até a sanção ou derrubada do veto, o projeto não ingressou no ordenamento jurídico e o controle é preventivo. O poder Judiciário também pode atuar preventivamente quando houver inconstitucionalidades formais. No caso de inconstitucionalidades materiais, admite-se que o Judiciário controle preventivamente apenas propostas de emenda à Constituição que violem cláusula pétrea. Isso porque o artigo 60, §4°, da Constituição, estabelece que esse tipo de proposta não pode sequer ser objeto de deliberação. O mesmo não se tem admitido em relação a projetos de lei (FERREIRA FILHO, 2015). Publicado o projeto com teor inconstitucional, se encerra a possibilidade de controle preventivo de constitucionalidade. A partir desse momento, só será possível o controle repressivo, que fica a cargo do poder Judiciário. O controle repressivo, de acordo com a Constituição Federal de 1988, pode ser realizado pela via difusa ou concentrada. O primeiro você começou a identificar no tópico anterior e continuará a estudar a partir de agora, e o último será abordado no próximo tópico deste capítulo (FERREIRA FILHO, 2015). O modelo difuso, ou incidental, de controle de constitucionalidade existente na Constituição Federal brasileira sofre influência do modelo norte-americano, como você aprendeu anteriormente. Trata-se do sistema por meio do qual analisa-se a compatibilidade de uma lei em relação à Constituição Federal no contexto de cada caso concreto. Não se trata, portanto, de um controle abstrato, ou seja, não se tem 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_3/ebook/index.html#section_1 16/29 a discussão em tese de uma lei em face à Constituição, mas apenas no contexto de algum conflito real já submetido à análise do poder Judiciário (FERREIRA FILHO, 2015). No entanto, a Constituição Federal de 1988 instituiu instrumentos que permitem que os efeitos de uma decisão proferida em um processo específico, que resolveu um conflito que só interessava às partes nele envolvidas, sejam estendidos a todos. Esse é o assunto do próximo tópico. 3.3.2 Cláusula de reserva de plenário, resolução do Senado e súmula vinculante O controle incidental de constitucionalidade pode ser realizado por qualquer juiz ou Tribunal. Quando algum direito é prejudicado por uma norma inconstitucional, a parte prejudicada pode pleitear desde a primeira instância que o juiz proclame a inconstitucionalidade e afaste a aplicação da norma inconstitucional. No âmbito dos Tribunais, que são órgãos colegiados, questões sobre a inconstitucionalidadede leis ou atos normativos somente podem ser julgadas pelo plenário, isto é, pela reunião dos juízes que nele atuam. Veja o fundamento constiucional da exigência: “Art. 97. Somente pelo voto da maioria absoluta de seus membros ou dos membros do respectivo órgão especial poderão os tribunais declarar a inconstitucionalidade de lei ou ato normativo do Poder Público”. Exige-se, em razão da relevância do assunto, a reserva de plenário. Isso evita que decisões conflitantes sejam proferidas no interior do próprio Tribunal e confere maior segurança ao controle de constitucionalidade. (MORAES, 2017) O controle incidental de constiucionalidade é feito em relação a casos concretos, por isso os efeitos de uma decisão que reconhece a inconstitucionalidade em relação a esses processos se restringe às partes envolvidas. Nesse caso, se diz que a decisão possui efeito inter partes, que significa entre as partes. A Constituição brasileira, contudo, prevê dois instrumentos que viabilizam que os efeitos de uma decisão de inconstitucionalidade proferida pelo Supremo Tribunal Federal em sede de controle incidental de constitucionalidade seja extendida a todos: Resolução do Senado Federal; súmula vinculante do Supremo Tribunal Federal. 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_3/ebook/index.html#section_1 17/29 No primeiro caso, a Constituição atribui ao Senado competência para publicar Resolução que expanda os efeitos (inter partes) de uma decisão proferida pelo Supremo Tribunal Federal em sede de controle incidental de constitucionalidade, conforme previsão do artigo 52, X. O trabalho “O controle de constitucionalidade na Constituição brasileira de 1988: do modelo híbrido à tentativa de alteração para um sistema misto complexo”, de Orione Dantas de Medeiros, aborda a estrutura constitucional brasileira para o controle das inconstitucionalidades, que alberga os sistemas principal e incidental. Acesse: <https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/502943/000991834.pdf?sequence= (https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/502943/000991834.pdf?sequence=)>. Outro instrumento é a súmula com efeitos vinculantes. Diferente de uma súmula comum, que é o resumo da jurisprudência de um Tribunal, a vinculante, que só pode ser expedida pelo Supremo Tribunal Federal, tem efeito obrigatório aos órgãos do poder Judiciário e também à Administração Pública direta e indireta de todas as esferas da federação. Ela possui força semelhante a de uma lei, portanto. VOCÊ QUER LER? 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_3/ebook/index.html#section_1 18/29 A súmula vinculante foi instituída no ordenamento jurídico brasileiro por meio da Emenda Constitucional n.° 45/2004. Veja o seu conteúdo normativo: Art. 103-A. O Supremo Tribunal Federal poderá, de ofício ou por provocação, mediante decisão de dois terços dos seus membros, após reiteradas decisões sobre matéria constitucional, aprovar súmula que, a partir de sua publicação na imprensa oficial, terá efeito vinculante em relação aos demais órgãos do Poder Judiciário e à administração pública direta e indireta, nas esferas federal, estadual e municipal, bem como proceder à sua revisão ou cancelamento, na forma estabelecida em lei. A súmula vinculante pode ser editada apenas pelo STF, o que pode ser feito de ofício ou mediante pedido específico, desde que recaia sobre assunto apreciado por reiteradas decisões em matéria constitucional. A criação da súmula deve ser aprovada pelo plenário do STF, por quórum de dois terços. Aprovada, a súmula tem caráter vinculante, ou seja, obriga todos os demais órgãos do poder Judiciário, assim como a Administração Pública direta e indireta em todas as esferas da federação. Figura 5 - O poder Judiciário pode editar comandos obrigatórios, como leis. Fonte: BrunoWeltmann, Shutterstock, 2018. Deslize sobre a imagem para Zoom 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_3/ebook/index.html#section_1 19/29 VOCÊ SABIA? As súmulas vinculantes editadas pelo Supremo Tribunal Federal versam sobre diferentes assuntos, de tributação a direito penal. Uma delas, a de n.° 56, prevê que na falta de estabelecimento prisional adequado (para o cumprimento de prisão em regime semiaberto, por exemplo), não se autoriza a manutenção do condenado em regime mais grave. Por meio da súmula vinculante, visa-se a eliminar controvérsias judiciais sobre determinados assuntos, como é o caso do nepotismo, que foi objeto da súmula vinculante n.° 13: A nomeação de cônjuge, companheiro ou parente em linha reta, colateral ou por afinidade, até o terceiro grau, inclusive, da autoridade nomeante ou de servidor da mesma pessoa jurídica investido em cargo de direção, chefia ou assessoramento, para o exercício de cargo em comissão ou de confiança ou, ainda, de função gratificada na administração pública direta e indireta em qualquer dos poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, compreendido o ajuste mediante designações recíprocas, viola a Constituição Federal. O nepotismo costumava gerar dúvidas sobre a possibilidade de ser utilizado de maneira direta, ou seja, mediante a nomeação de parente para ocupar cargo comissionado na mesma estrutura em que o agente político atua; bem como de maneira cruzada, mediante a troca de nomeações (por exemplo: o prefeito nomeia o filho do presidente da Câmara para algum cargo de direção na Prefeitura, e este nomeia o filho do prefeito para algum cargo de assessoria na Câmara). Com a súmula, o STF apresenta a interpretação da questão de acordo com a Constituição Federal e condiciona o comportamento da Administração e também do poder Judiciário. 3.4 Controle principal de constitucionalidade (Parte I) 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_3/ebook/index.html#section_1 20/29 Neste tópico, você continuará os estudos sobre o controle de constitucionalidade e iniciará a análise do sistema principal. É possível discutir, em tese, perante o poder Judiciário, se uma lei ou ato normativo viola a Constituição Federal? Além do modelo norte-americano, que influenciou a construção do ordenamento jurídico brasileiro em relação ao controle de constitucionalidade, nosso país também recebeu influência do modelo europeu. Neste, viabiliza-se um sistema principal, que não depende de casos concretos para que se possa discutir a constitucionalidade de qualquer lei ou ato normativo. A ação direta de inconstitucionalidade é o principal instrumento processual que serve à eliminação de uma lei ou normativo incompatível com a Constituição Federal. Você iniciará os estudos acerca dela neste tópico, oportunidade em que identificará, também, quais são os órgãos e autoridades autorizados a ajuizá-la. 3.4.1 Origem: modelo europeu/kelseniano e aplicação na CF 1988 Neste tópico você iniciará os estudos sobre o controle principal, ou concentrado, de constitucionalidade. Por meio dele, ajuíza-se uma ação com uma exclusiva finalidade: declarar determinada lei ou ato normativo compatível ou incompatível com a Constituição Federal de 1988. Trata-se de um processo abstrato, ou seja, de discussões em tese em torno de uma possível violação constitucional. A grande diferença que separa o modelo norte-americano e o europeu, portanto, é o contexto no qual a análise de constitucionalidade é feita. Diferente do primeiro modelo, que exige um conflito específico como base para a discussão sobre algum aspecto de constitucionalidade de determinada lei ou ato normativo, o segundo permite que se faça uma discussão em tese perante o poder Judiciário. (TAVARES, 2017)Essa possibilidade de discutir a compatibilidade, em tese, uma lei ou ato normativo em face da Constituição Federal, segue o modelo europeu, influenciado pela teoria de Hans Kelsen. Por isso esse modelo também é chamado de kelseniano. VOCÊ O CONHECE? 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_3/ebook/index.html#section_1 21/29 Hans Kelsen foi um importante jurista austríaco, que influenciou o direito em vários aspectos, inclusive em relação aos sistemas de controle de constitucionalidade. Defendeu instrumentos de discussão em tese das leis, a cargo de um Tribunal Constitucional, o que se implementou na Constituição da Áustria e depois se expandiu para outros países. Por meio do sistema europeu, não é dado a qualquer juiz ou tribunal proferir julgamentos acerca da constitucionalidade de leis ou atos normativos, mas apenas a um órgão, que é um Tribunal Constitucional (MORAES, 2017). Na origem desse modelo (que ocorre por meio da Constituição da Áustria, em 1920) constata- se a existência de um Tribunal que julgava apenas as ações voltadas ao controle de constitucionalidade. Isso difere, portanto, do Supremo Tribunal Federal, que tem competência para interpretar a Constituição em última instância, bem como apreciar outras demandas – como as de natureza penal de agentes políticos com foro privilegiado, por exemplo. No Brasil, também não há apenas um Tribunal com competência para ações de controle concentrado de constitucionalidade. Na verdade, todos os Tribunais de Justiça podem analisar a compatibilidade de leis ou atos normativos municipais questionados em face das respectivas Constituições Estaduais, o que também é um instrumento da via principal de controle de constitucionalidade. Figura 6 - Os Tribunais podem analisar a constitucionalidade das leis. Fonte: Dreamstime, 2018. Deslize sobre a imagem para Zoom 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_3/ebook/index.html#section_1 22/29 Os efeitos de uma decisão proferida em sede de controle concentrado de constitucionalidade são erga omnes, ou seja, são efeitos gerais, que alcançam a todos. É desnecessário, aqui, utilizar instrumentos como a Resolução do Senado Federal ou a súmula vinculante. A própria decisão já cuida da eliminação da lei ou ato normativo declarado inconstitucional do ordenamento jurídico (MORAES, 2017). No sistema original (austríaco, como mencionado), a eficácia da decisão do Tribunal Constitucional que declarava a inconstitucionalidade de uma lei era ex nunc, ou seja, a partir da declaração. Essa ocorrência se justificava para assegurar a força do legislador, que também deveria ter assegurado o poder de interpretar a Constituição. Em outras palavras, se uma lei nasceu no poder Legislativo é válida e manterá essa condição até que seja declarada inconstitucional (MORAES, 2017). Situação diversa ocorre no sistema brasileiro, que incorporou traços do sistema norte-americano para disciplinar que a decisão de inconstitucionalidade (dada em sede principal) tenha efeitos ex tunc, isto é, retroativos. No sistema adotado pela Constituição brasileira, considera-se que a lei inconstitucional não pode ter nenhum período de validade, haja vista a gravidade da violação (MORAES, 2017). Embora essa seja, realmente, a regra no sistema jurídico brasileiro, admite-se, excepcionalmente, que uma declaração de inconstitucionalidade proferida pelo sistema concentrado tenha efeitos ex nunc ou pro futuro. Nesse caso, porém, exige- se aprovação da hipótese excepcional por quórum de dois terços dos ministros do STF (MORAES, 2017). No sistema brasileiro de controle concentrado de constitucionalidade, permite-se que outras datas sejam fixadas para o início da declaração de inconstitucionalidade, conforme autoriza o artigo 27 da Lei n.° 9.868/99 (essa lei disciplina o processo da ação direta de inconstitucionalidade e da ação declaratória de constitucionalidade perante o STF) (MORAES, 2017). Como se vê, a Constituição brasileira mescla os sistemas norte-americano e europeu de controle de constitucionalidade, mediante a instituição do sistema incidental e principal. A partir de agora você começará a estudar as ações do controle principal, com início pela ação direta de inconstitucionalidade (MORAES, 2017). 3.4.2 Ação direta de inconstitucionalidade 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_3/ebook/index.html#section_1 23/29 A ação direta de inconstitucionalidade é a ação mais utilizada do sistema de controle concentrado de constitucionalidade. Trata-se da ação judicial utilizada, com exclusividade pelos legitimados constitucionais, para obter a declaração do poder Judiciário de que alguma lei ou ato normativo contraria a Constituição Federal, do ponto de vista formal ou material. Mas quem são os legitimados à propositura da ação direta de inconstitucionalidade? São os previstos no artigo 103 da Constituição Federal: Art. 103. Podem propor a ação direta de inconstitucionalidade e a ação declaratória de constitucionalidade: I - o Presidente da República; II - a Mesa do Senado Federal; III - a Mesa da Câmara dos Deputados; IV - a Mesa de Assembléia Legislativa ou da Câmara Legislativa do Distrito Federal; V - o Governador de Estado ou do Distrito Federal; VI - o Procurador-Geral da República; VII - o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil; VIII - partido político com representação no Congresso Nacional; IX - confederação sindical ou entidade de classe de âmbito nacional. A ação direta de inconstitucionalidade pode ser ajuizada em relação a leis ou atos normativos federais ou estaduais que violem a Constituição Federal. Nesse caso, deve ser impetrada perante o Supremo Tribunal Federal. Mas ela também pode ser proposta em âmbito estadual. Quando alguma lei ou ato normativo municipal contrariar a Constituição do respectivo Estado, é possível o ajuizamento de ação direta de inconstitucionalidade, o que deve ser feito perante o Tribunal de Justiça daquela localidade. Note que, nesse caso, o parâmetro de controle é a Constituição Estadual e não a Federal. Nesses casos, é possível que o caso seja levado à analise do Supremo Tribunal Federal, desde que a norma da Constituição Estadual violada seja reprodução de uma norma da Constituição Federal. Do contrário, faltará competência ao STF para proceder ao julgamento do caso. (MENDES, 2017) 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_3/ebook/index.html#section_1 24/29 De acordo com a Constituição, o Distrito Federal não pode ser dividido em Municípios (art. 32). Isso faz com que as competências estaduais e municipais fiquem concentradas na Câmara Legislativa, que edita leis sobre ambas as esferas. Nesse caso, se uma dessas leis contrariar a Constituição Federal, a ação direta de inconstitucionalidade poderá ser ajuizada perante o Supremo Tribunal Federal? Depende. Se o conteúdo da lei versar sobre assunto de natureza estadual, sim. No entanto, se o conteúdo da lei recair sobre assunto de competência dos Municípios, o STF não apreciará a constitucionalidade dessa lei. Isso porque a Constituição não previu competência ao STF para processar e julgar a ação direta de inconstitucionalidade ajuizada em face de leis ou atos normativos municipais. Por isso, no caso da lei distrital feita para disciplinar assuntos municipais, não há possibilidade de controle direto perante o STF. Isso não significa, contudo, que a lei não possa ser questionada perante o poder Judiciário. Inclusive, se ela violar a Lei Orgânica do Distrito Federal, poderá ser objeto de controle de legalidade, que se faz perante a JustiçaDistrital. Esse processo até pode alcançar o STF, mas apenas por meio de recurso extraordinário, caso também haja violação de dispositivo da Constituição Federal. Figura 7 - O poder Judiciário protege a Constituição de violações. Fonte: tlegend, Shutterstock, 2018. Deslize sobre a imagem para Zoom 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_3/ebook/index.html#section_1 25/29 Mas como é o trâmite de uma ação destinada à declaração da inconstitucionalidade de uma lei ou ato normativo? Ela tem início mediante o protocolo do “pedido” perante o STF. Esse pedido é, na verdade, formalizado por meio de uma petição, que deve apresentar claramente: o dispositivo da lei ou ato normativo que está sendo questionado e os fundamentos para o pedido da declaração de inconstitucionalidade. Esse pedido também deve ser claro. Sem esses requisitos, o STF sequer apreciará a pretensão. Se a petição preencher os requisitos mencionados, ela será processada e haverá nomeação de um relator para o caso. O relator é um dos ministros do STF. A primeira atividade do relator é solicitar informações aos órgãos ou autoridades das quais emanou a lei ou ato normativo impugnado. Por exemplo: se o questionamento recai sobre uma lei, as Casas do poder Legislativo (Câmara dos Deputados e Senado Federal) e o poder Executivo precisarão ser ouvidos. O prazo para que esses órgãos prestem informações é de 30 dias. Após o término do prazo das informações, são ouvidos, sucessivamente, o advogado-geral da União e o procurador-geral da República. Cada um tem 15 dias para se manifestar, conforme prevê o artigo 8° da Lei n.° 9.868/99. O relator, sempre que entender que é preciso, pode requisitar informações adicionais, designar perito (ou comissão de peritos) para que emitam parecer sobre o assunto e auxiliem no seu processo de compreensão. Ele pode, também, marcar audiências públicas para ouvir pessoas que possuam experiência e autoridade sobre o assunto para que possa compreender completamente a matéria que foi submetida à análise. Por exemplo: se for aprovada lei que autoriza o aborto em qualquer situação, e, ato contínuo, for ajuizada ação direta de inconstitucionalidade, várias questões precisarão ser analisadas no processo de formação de convencimento dos ministros. Para isso, entidades pró-aborto e contra o aborto precisarão ser ouvidas para que possam apresentar todos os elementos que circundam o assunto. Isso enriquece a discussão e viabiliza que decisões com mais qualidade sejam proferidas. VOCÊ QUER VER? 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_3/ebook/index.html#section_1 26/29 O filme O Desafio da Lei, dirigido por David Anspaugh e produzido por Richard Brams, Jonathan Littman e Chad Oman, retrata a história de uma decisão da Suprema Corte dos Estados unidos, que transfere aos Estados a responsabilidade para legislar sobre o aborto e os desdobramentos do caso, que levam em conta a colisão dos direitos à liberdade e à vida. Na sequência, o ministro relator elaborará o relatório do processo e o distribuirá aos demais. Para o julgamento, é necessária a presença de ao menos oito ministros para que a sessão possa ser iniciada, conforme determina o artigo 22 da Lei n.° 9.868/99. Esse é, portanto, o quórum de instalação da sessão de julgamento de uma ação direta de inconstitucionalidade. Para que uma lei ou ato normativo seja declarado inconstitucional, exige-se o voto da maioria absoluta dos ministros do STF, ou seja, exige-se o voto de ao menos seis ministros. VOCÊ SABIA? Quórum de maioria absoluta corresponde a metade, mais um, do total de cadeiras de um órgão. No caso do Supremo Tribunal Federal, ao dividir o total de cadeiras, que são 11, por 2, você obterá 5,5 como resultado. Some 1 a esse valor (6,5) e arredonde o resultado para baixo (6). Pronto, você obteve o valor correspondente à maioria absoluta. Declarada a inconstitucionalidade de uma lei ou ato normativo, os efeitos da decisão alcançam toda a extensão do território nacional (são erga omnes) e são retroativos (extunc), como regra. Excepcionalmente, como você estudou, é possível que, mediante votação de no mínimo de dois terços dos ministros do STF, os efeitos da decisão incidam a partir da decisão (ex nunc ou pro futuro) ou de uma data específica, a depender das peculiaridades de cada caso. Síntese 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_3/ebook/index.html#section_1 27/29 Concluímos o terceiro capítulo da disciplina Direito Constitucional. Agora, você concluiu os estudos sobre a estrutura organizacional do poder Judiciário e iniciou os estudos sobre o controle de constitucionalidade. Neste capítulo, você teve a oportunidade de: identificar a composição e as principais competências do Superior Tribunal de Justiça e do Supremo Tribunal Federal; aprender que Superior Tribunal de Justiça atua como guardião da legislação federal, enquanto o Supremo Tribunal Federal atua como guardião da Constituição Federal; compreender que o Ministério Público se divide em Ministério Público da União e Ministério Público dos Estados, e que, juntamente com a advocacia, são considerados funções essenciais à justiça; identificar o conceito de controle de constitucionalidade e as razões que motivam a sua execução, com destaque para a guarda da supremacia da Constituição; aprender que o modelo incidental de controle de constitucionalidade adotado no Brasil foi influenciado pelos Estados Unidos; identificar que o controle incidental de constitucionalidade é o que se faz em processos subjetivos, ou seja, nos quais há um conflito concreto e a discussão sobre a inconstitucionalidade é apenas o meio de resolvê-lo; aprender que o modelo principal de controle de constitucionalidade adotado no Brasil foi influenciado pelo sistema europeu; identificar que o controle principal de constitucionalidade é o que se faz em processos objetivos, ou seja, nos quais se discute, em tese, perante o poder Judiciário, se determina lei ou ato normativo é compatível com a Constituição; compreender que a ação direta de inconstitucionalidade é o processo destinado a eliminar do ordenamento jurídico brasileiro as leis ou atos normativos que violem a Constituição. Referências bibliográficas 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_3/ebook/index.html#section_1 28/29 BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em: <https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm (https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm)>. Acesso em: 01/02/2018. DESAFIO da lei, O. Direção: David Anspaugh. Produção: Richard Brams, Jonathan Littman e Chad Oman. Estados Unidos: Columbia. 95 minutos. FERREIRA FILHO, M. G. Curso de direito constitucional. 40. ed. São Paulo: Saraiva, 2015. HAMILTON, A. The federalist papers: n. 84. Yale Law School: Lillian Goldman Law Library, 1788. Disponível em: <http://avalon.law.yale.edu/18th_century/fed84.asp (http://avalon.law.yale.edu/18th_century/fed84.asp)>. Acesso em: 02/02/2018. MEDEIROS, O. D. de. O controle de constitucionalidade na Constituição brasileira de 1988: do modelo híbrido à tentativa de alteração para um sistema misto complexo. Disponível em: <https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/502943/000991834.pdf? sequence= (https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/502943/000991834.pdf? sequence=)>. Acesso em: 06/02/2018. MENDES, G. F.; BRANCO, P. G. G. Curso de direito constitucional. 12. ed. São Paulo, Saraiva, 2017. MORAES, A. de. Direito constitucional. 33. ed. São Paulo: Atlas, 2017. SANTIAGO,M. F. Marbury vs. Madison: uma revisão da decisão chave para o controle jurisdicional de constitucionalidade. Passagens. Revista Internacional de História Política e Cultura Jurídica Rio de Janeiro: vol. 7, no .2, maio-agosto, 2015, p. 277-297. Disponível em: <http://www.historia.uff.br/revistapassagens/artigos/v7n2a42015.pdf (http://www.historia.uff.br/revistapassagens/artigos/v7n2a42015.pdf)>. Acesso em: 06/02/2018. TAVARES, A. R. Curso de direito constitucional. 15. ed. São Paulo: Saraiva, 2017. U.S. SUPREME COURT.. Marbury v. Madison: 5 U.S. 137 (1803). Justia US Supreme Court. Disponível em: <https://supreme.justia.com/cases/federal/us/5/137/case.html (https://supreme.justia.com/cases/federal/us/5/137/case.html)>. Acesso em: 05/02/2018. 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_3/ebook/index.html#section_1 29/29 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_4/ebook/index.html#section_2 1/27 DIREITO CONSTITUCIONAL CAPÍTULO 4 - O QUE SÃO E COMO SE APLICAM OS REMÉDIOS CONSTITUCIONAIS? Guilherme Aparecido da Rocha INICIAR 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_4/ebook/index.html#section_2 2/27 Introdução Neste capítulo, você estudará sobre o controle principal de constitucionalidade, conhecendo a ação declaratória de constitucionalidade, a ação direta de inconstitucionalidade interventiva e a arguição de descumprimento de preceito fundamental. Você aprendeu que, em alguns casos, leis são publicadas em violação formal ou material à Constituição e que, para essas situações, existe a ação direta de inconstitucionalidade. Agora, se a inconstitucionalidade ocorrer em decorrência da ausência de uma lei? Isso é possível? Você também já aprendeu que ação direta de inconstitucionalidade somente pode ser ajuizada pelos legitimados constitucionais. Mas, no caso de uma omissão inconstitucional, há algum instrumento que você, isoladamente, possa utilizar para ser protegido pelo poder Judiciário? Neste capítulo, você encontrará essa resposta, precisamente no segundo tópico de estudo. Nesse contexto, você já ouviu falar em remédios constitucionais? Sabe o que isso significa? O terceiro tópico deste capítulo explora esses instrumentos constitucionais que são imprescindíveis para a proteção dos direitos humanos. A organização da ordem econômica e social também é objeto de estudo neste capítulo. Você já parou para pensar quais são os objetivos da atividade econômica no Brasil? E da ordem social? A Constituição Federal de 1988 prevê esses assuntos de maneira detalhada, conforme você aprenderá no último tópico deste material. 4.1 Controle principal de constitucionalidade (Parte II) Prosseguindo os estudos sobre a organização do poder Judiciário, você estudará outras ações que são utilizadas no controle principal de constitucionalidade, iniciando pela ação declaratória de constitucionalidade. Aliás, se há uma ação direta de inconstitucionalidade, por que a Constituição também previu uma que serve ao objetivo inverso? Você compreenderá a razão dessa ação durante o desenvolvimento deste tópico. 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_4/ebook/index.html#section_2 3/27 Você também estudará a ação direta de inconstitucionalidade interventiva, que não possui um amplo rol de legitimados, como a ação direta de inconstitucionalidade propriamente dita ou como a ação declaratória de constitucionalidade. Conforme você estudará, essa é uma ação para momentos de crise institucional e de rara utilização. Por fim, estudará a arguição de descumprimento de preceito fundamental. Você sabe o que significa preceito fundamental da Constituição? Essa e outras respostas você obterá a seguir. 4.1.1 Ação declaratória de constitucionalidade; ação direta de inconstitucionalidade interventiva; arguição de descumprimento de preceito fundamental Além da ação direta de inconstitucionalidade, a Constituição Federal de 1988 prevê outros mecanismos destinados ao controle de constitucionalidade, como a ação declaratória de constitucionalidade, a ação direta de inconstitucionalidade interventiva e a ação de arguição de descumprimento de preceito fundamental. A ação direta de inconstitucionalidade e a ação declaratória de constitucionalidade são ações de sinais trocados. A primeira serve à eliminação de uma lei ou ato normativo inconstitucional do ordenamento jurídico e a última à declaração de compatibilidade com a Constituição Federal, objetivando eliminar eventuais dúvidas que pairem acerca da sua interpretação em relação ao texto constitucional. Diferente da ação direta de inconstitucionalidade, prevista desde a redação original da Constituição Federal de 1988, a ação declaratória de constitucionalidade foi inserida por meio da Emenda Constitucional n.° 3/1993. Ela visava a suprir uma lacuna específica do ordenamento, que recaía sobre a necessidade de apresentar uma interpretação definitiva sobre a compatibilidade de determinada lei ou ato normativo em face da Constituição. CASO Publicada determinada lei sobre tratamento tributário diferenciado e favorecido para micro e pequenas empresas, surgiu dúvida sobre a constitucionalidade da sua interpretação em relação à preferência para 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_4/ebook/index.html#section_2 4/27 participação dessas empresas em licitações. A dúvida surgiu em virtude da diferenciação em relação às demais empresas, notadamente porque elas foram impedidas de participar de licitações de pequeno valor, reservadas a micro e pequenas empresas. Depois da propositura de algumas ações judiciais em diferentes Estados brasileiros, alguns proferiram decisões pela inconstitucionalidade da lei, e outros decidiram em sentido oposto. Para afastar as dúvidas e a insegurança, o presidente da República propôs ação declaratória de constitucionalidade perante o Supremo Tribunal Federal. A opção por essa ação, ao invés da ação direta de inconstitucionalidade, é clara: objetiva-se manter a lei mediante a declaração da sua constitucionalidade e não o contrário. Com a procedência da ação declaratória de constitucionalidade encerra-se o problema e estabiliza-se a situação diferenciadora, que foi julgada definitivamente pelo órgão de cúpula do poder Judiciário brasileiro. A ação direta de inconstitucionalidade interventiva tem um objetivo específico, que é viabilizar a intervenção federal. Essa medida constitucional extrema tem aplicação nos casos previstos pelo art. 34 da Constituição Federal, como manter a integridade nacional (inciso I), repelir invasão estrangeira ou de um ente federativo em outro (inciso II), encerrar grave comprometimento da ordem pública (inciso III), garantir a liberdade de qualquer dos Poderes da República (inciso IV), reorganizar as finanças de ente federativo nas hipóteses constitucionais (inciso V), prover a execução da lei federal, de ordem ou de decisão judicial (inciso VI) ou para assegurar a obediência aos princípios constitucionais sensíveis (inciso VII). Mas é apenas a violação dos princípios constitucionais sensíveis que interessa à ação direta de inconstitucionalidade interventiva. Veja quais são: Art. 34. A União não intervirá nos Estados nem no Distrito Federal, exceto para: [...] VII - assegurar a observância dos seguintes princípios constitucionais: a) forma republicana, sistema representativo e regime democrático; b) direitos da pessoa humana; c) autonomia municipal; d) prestação de contas da administração pública, direta e indireta. 17/10/2019Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_4/ebook/index.html#section_2 5/27 e) aplicação do mínimo exigido da receita resultante de impostos estaduais, compreendida a proveniente de transferências, na manutenção e desenvolvimento do ensino e nas ações e serviços públicos de saúde. No caso do inciso VII do art. 34, a intervenção deve ser precedida de uma ação direta de inconstitucionalidade interventiva, que somente pode ser ajuizada pelo procurador-geral da República. Note, portanto, que há um legitimado exclusivo para essa ação, diferente da ação direta de inconstitucionalidade geral, que pode ser proposta por qualquer um dos legitimados enumerados no artigo 103 da Constituição. VOCÊ SABIA? A intervenção federal foi utilizada pela primeira vez em 2018, pelo presidente Michel Temer, em relação ao Estado do Rio de Janeiro. A medida foi utilizada para corrigir problemas de segurança pública e, como foi pontual, não afastou o governador de todas as suas atribuições, mas apenas daquelas relacionadas à segurança. Se o Supremo Tribunal Federal julgar procedente a ação direta de inconstitucionalidade interventiva, requisitará ao presidente da República que decrete a intervenção. Recebida a requisição do STF, o presidente emitirá Decreto que suspenderá o ato impugnado, mas, se a medida não for suficiente, aí sim será decretada a intervenção federal com todos os seus efeitos, inclusive com afastamento da autoridade responsável. (LENZA, 2017) A intervenção federal é um mecanismo excepcional que se destina a remediar uma grave crise. O artigo “A intervenção federal no Direito Constitucional brasileiro”, de autoria de Ana Cláudia Silva Scalquette, aborda aspectos importantes desse instrumento que serve à superação das situações de crise. Acesse: VOCÊ QUER LER? 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_4/ebook/index.html#section_2 6/27 <http://editorarevistas.mackenzie.br/index.php/rmd/article/view/7270 (http://editorarevistas.mackenzie.br/index.php/rmd/article/view/7270)>. A arguição de descumprimento de preceito fundamental, assim como a ação direta de inconstitucionalidade, está presente no texto da Constituição Federal de 1988 desde a sua redação original (parágrafo primeiro do artigo 102), além de regulamentada pela Lei n.º 9.882/99, que prevê o seu rito processual. Contudo, nem a Constituição nem a Lei n.º 9.882/99 definiram o que é preceito fundamental. O Supremo Tribunal Federal, por sua vez, também não apresentou uma definição da expressão, transferindo o encargo à doutrina (LENZA, 2017). Para André Ramos Tavares (2017, p. 324), A arguição é ação (podendo assumir a feição de incidente constitucional), de competência originária do Supremo Tribunal Federal, que desencadeia o denominado processo objetivo com eficácia final ampliada em relação aos tradicionais mecanismos de controle abstrato, cujo fundamento é o descumprimento de preceito constitucional consagrador de valores basilares para o Direito pátrio, descumprimento este perpetrado por ato de natureza estatal, quando direta a modalidade, ou por atos normativos, quando se tratar de arguição na modalidade incidental, aplicando-se, por força de lei, o critério da subsidiariedade (sendo referencial, para este, a possibilidade de sanar plenamente a lesão a preceito fundamental). Ao analisar atos normativos proibitivos da importação de pneus usados, por exemplo, o STF considerou atingidos os preceitos fundamentais da saúde e do meio ambiente. Na ocasião, considerou constitucional tais atos proibitivos e admitiu a arguição de descumprimento de preceito fundamental diante da insegurança jurídica que existia no País, em virtude de decisões divergentes proferidas pelos Tribunais e da ausência de outro instrumento processual para solucionar especificamente o problema. VOCÊ SABIA? 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_4/ebook/index.html#section_2 7/27 Em razão do julgamento proferido pelo Supremo Tribunal Federal na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental n.° 54, admitiu-se o aborto de fetos anencefálicos, ou seja, fetos com ausência parcial ou total do cérebro. A ação foi julgada procedente por nove votos a dois e gerou muita discussão entre grupos pró e contra o aborto. Além dos instrumentos estudados, a Constituição também prevê formas de correção de omissões inconstitucionais. Assunto do próximo tópico. 4.2 Controle das omissões inconstitucionais Em relação às omissões inconstitucionais, você já aprendeu que a Constituição pode ser violada por uma lei ou ato normativo, e que essa violação pode ser formal ou material. Mas é possível que a Constituição seja violada pela ausência de uma lei ou de um ato normativo? Por exemplo, se o texto constitucional assegura determinado direito, que depende de uma lei, a omissão do poder Legislativo em produzir essa lei gera uma inconstitucionalidade? A Constituição previu importantes instrumentos às pessoas atingidas por omissões inconstitucionais, que você estudará a partir de agora. 4.2.1 Ação direta de inconstitucionalidade por omissão A lei ou ato normativo pode contrariar formal ou materialmente a Constituição Federal. Nesses casos, você aprendeu quais os instrumentos disponibilizados pela própria Constituição para manutenção da sua supremacia. Agora, você aprenderá que a ausência de algumas normas também pode violar a Constituição e, para esses casos, também existem instrumentos disponíveis. A ação direta de inconstitucionalidade por omissão viabiliza que o poder Judiciário analise a ausência da medida e identifique se ela gera, ou não, alguma inconstitucionalidade. O Supremo Tribunal Federal é o órgão competente para apreciar a omissão inconstitucional de autoridades federais. A omissão que pode gerar a inconstitucionalidade não é apenas de uma lei que deveria ter sido elaborada e não foi. Isso porque o § 2º do artigo 103 da Constituição se refere à “omissão de medida” que impeça a eficiência de norma 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_4/ebook/index.html#section_2 8/27 constitucional, o que pode ser praticado por qualquer poder da República (Legislativo, Executivo e Judiciário), assim como por órgãos administrativos. (LENZA, 2017) Os Tribunais de Justiça são competentes para apreciar omissões inconstitucionais em face das respectivas Constituições Estaduais. Os legitimados à propositura da ação direta de inconstitucionalidade por omissão são os mesmos da ação direta de inconstitucionalidade, previstos no artigo 103 da Constituição Federal. Quando o Supremo Tribunal Federal reconhece que há omissão inconstitucional em sentença proferida na ação direta de inconstitucionalidade, deve adotar, como ato contínuo, diferentes medidas, a depender de quem é o responsável pela omissão. Se for um poder da República, deve apenas cientificá-lo da decisão para que as providências necessárias possam ser adotadas. Nota-se, nesse caso, uma recomendação para que se mantenha a independência e harmonia entre os Figura 1 - A falta de legislação pode violar a Constituição. Fonte: garagestock, Shutterstock, 2018. Deslize sobre a imagem para Zoom 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_4/ebook/index.html#section_2 9/27 poderes. Por outro lado, se o responsável pela omissão for um órgão administrativo, este será cientificado para suprir a omissão em 30 dias, caso em que se constata uma efetiva ordem. 4.2.2 Mandado de injunção Assim como o cidadão não pode ir ao poder Judiciário discutir, em tese, a constitucionalidadede uma lei ou ato normativo no bojo de uma ação direta de inconstitucionalidade, também não pode fazê-lo em relação às omissões inconstitucionais. Para que ela possa receber uma resposta do poder Judiciário, deve demonstrar qual é o prejuízo que está suportando em face da ausência da norma. Para isso, deve utilizar o mandado de injunção. Diferente da ação direta de inconstitucionalidade por omissão, que somente pode ser ajuizada pelos legitimados constitucionais do artigo 103 da Constituição Federal, o mandado de injunção pode ser ajuizado por qualquer pessoa, desde que presentes os requisitos exigidos pelo texto constitucional. O mandado de injunção está previsto no artigo 5°, inciso LXXI da Constituição Federal. Veja: Art. 5°. [...] LXXI - conceder-se-á mandado de injunção sempre que a falta de norma regulamentadora torne inviável o exercício dos direitos e liberdades constitucionais e das prerrogativas inerentes à nacionalidade, à soberania e à cidadania. Se você estiver privado de algum direito porque o legislador ainda não o regulamentou, em descumprimento de mandamento constitucional, pode impetrar mandado de injunção para corrigir o problema. Note, porém, que há uma dupla exigência: você deve estar impedido de exercer algum direito ou liberdade e o legislador deve descumprir o dever de regulamentá-lo, o qual deve estar previsto constitucionalmente. Nesse sentido, veja o entendimento do Supremo Tribunal Federal: O direito à legislação só pode ser invocado pelo interessado, quando também existir – simultaneamente imposta pelo próprio texto constitucional – a previsão do dever estatal de emanar normas legais. Isso significa que o direito individual à atividade legislativa do Estado apenas se evidenciará naquelas estritas hipóteses em que o 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_4/ebook/index.html#section_2 10/27 desempenho da função de legislar refletir, por efeito de exclusiva determinação constitucional, uma obrigação jurídica indeclinável imposta ao poder público. (BRASIL, 2014) Esse é o caso do direito à greve dos servidores públicos, que, diante da ausência de regulamentação, em desrespeito ao que prevê o artigo 37, inciso VII da Constituição, foi levado ao poder Judiciário por meio de mandado de injunção (precisamente, por meio dos mandados de injunção n.º 670, n.º 708 e n.º 712). Mas o que, exatamente, o poder Judiciário pode fazer quando reconhece que a omissão do poder Legislativo (ou do Executivo, quando for o caso) viola a Constituição Federal? Ele pode criar a lei ou o ato normativo? Evidente que não, pois ao Judiciário não foi concedido o poder de produzir leis, mas ele deverá decidir como viabilizar o direito enquanto a lei não for elaborada. No caso da greve dos servidores públicos, o poder Judiciário decidiu pela aplicação, ao poder Público, da lei que disciplina a greve na iniciativa privada (ou seja, da Lei n.º 7.783/89). Note que o Judiciário não criou regras legais, apenas Figura 2 - A greve é um direito de todos os trabalhadores, conforme prevê a Constituição. Fonte: Sinan Niyazi KUTSAL, Shutterstock, 2018. Deslize sobre a imagem para Zoom 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_4/ebook/index.html#section_2 11/27 utilizou o próprio ordenamento jurídico para estender os efeitos de uma lei, aplicável a determinada categoria, a outra. A solução provisória é razoável e evita a privação de direitos dos servidores públicos. Há divergência, no entanto, sobre os limites de uma decisão do Supremo Tribunal Federal nos casos do mandado de injunção. Até que ponto o poder Judiciário pode autorizar o gozo de um direito sem lei que o tenha regulamentado? Esses questionamentos são polêmicos e continuam em pauta. Para conhecer os diferentes posicionamentos sobre os limites das decisões do poder Judiciário em sede de mandado de injunção, leia o artigo “Decisão e efeitos do mandado de injunção e a posição concretista do Supremo Tribunal Federal”, de Thaís Vandresen e Juliana Pavesi. Acesse: <http://periodicos.unifebe.edu.br/index.php/revistaeletronicadaunifebe/article/view/545 (http://periodicos.unifebe.edu.br/index.php/revistaeletronicadaunifebe/article/view/545)>. O mandado de injunção serve ao controle das omissões inconstitucionais e, ao mesmo tempo, é um remédio constitucional. Mas você sabe o que isso significa? No próximo tópico você compreenderá essa definição. VOCÊ QUER LER? 4.3 Controle de constitucionalidade e remédios constitucionais Neste tópico, você estudará os remédios constitucionais. Você sabe o que isso significa? Esses instrumentos são previstos na Constituição para assegurar a proteção de direitos fundamentais e são determinantes para casos que demandam uma resposta célere do poder Público. Você já ouviu falar em habeas corpus? Qual é a relação desse remédio constitucional com a liberdade? E em habeas data, você já ouviu falar? Esse instrumento também serve para a proteção de um direito constitucional 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_4/ebook/index.html#section_2 12/27 específico. Já o mandado de segurança, remédio constitucional que você provavelmente já ouviu falar e que pode ser impetrado de forma individual ou coletiva, serve para proteger diversos direitos constitucionais. 4.3.1 Habeas corpus, habeas data e mandado de segurança Ao lado dos direitos fundamentais, a Constituição previu alguns instrumentos destinados à garantia desses direitos. São mecanismos processuais que asseguram o gozo dos direitos sempre que eles sofrerem ou estiverem na iminência de sofrer alguma lesão. Nesse contexto, a doutrina distingue entre direitos e garantias nos seguintes termos: Assim, os direitos são bens e vantagens prescritos na norma constitucional, enquanto as garantias são os instrumentos através dos quais se assegura o exercício dos aludidos direitos (preventivamente) ou prontamente os repara, caso violados. Por fim, diferenciar as garantias fundamentais dos remédios constitucionais. Estes últimos são espécie do gênero garantia. Isso porque, uma vez consagrado o direito, a sua garantia nem sempre estará nas regras definidas constitucionalmente como remédios constitucionais (ex.: habeas corpus, habeas data etc.). Em determinadas situações a garantia poderá estar na própria norma que assegura o direito (LENZA, 2017, p. 669). Quando a Constituição prevê a inviolabilidade da liberdade de crença, estipula um direito (art. 5º, VI). Quando garante a proteção aos locais de culto (no mesmo art. 5º, VI), prevê uma garantia para aquele direito. Há casos, no entanto, que o direito não está acompanhado da respectiva garantia, e também há casos de violação completa, ou seja, do direito e da garantia. Para essas situações, existem os remédios constitucionais. São chamados de Remédios porque servem para “curar doenças” geradas pela lesão a direitos fundamentais previstos na Constituição. O habeas corpus, o habeas data e o mandado de segurança são instrumentos processuais ágeis, previstos diretamente na Constituição como uma solução rápida para afastar a lesão ao direito à liberdade (por meio do habeas corpus), ao acesso a informações pessoais (por meio do habeas data) e a outros (combatíveis por meio do mandado de segurança). A previsão do habeas corpus está contida no inciso LXVIII do artigo 5° da Constituição Federal. Veja: 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_4/ebook/index.html#section_2 13/27 Art. 5°. [...] LXVIII - conceder-se-á habeas corpus sempre que alguém sofrer ou se achar ameaçado de sofrer violência ou coação em sua liberdade delocomoção, por ilegalidade ou abuso de poder. O habeas corpus é instrumento para prevenir e também para remediar situação de ameaça ou lesão à liberdade de locomoção. Quando uma pessoa se encontra indevidamente privada da sua liberdade de locomoção pode impetrá-lo. Mas também é possível ajuizá-lo de modo preventivo, para evitar que uma prisão na iminência de ocorrer se consume. Também é possível que o habeas corpus seja impetrado em nome de terceiro, ou seja, você pode ajuizá-lo para salvaguardar o direito a liberdade de outrem. Essa possibilidade existe em razão da grandeza do direito à liberdade, que não pode ser indevidamente tolhido de ninguém. Figura 3 - A privação da liberdade é a mais grave das sanções do Direito Penal brasileiro. Fonte: Mopic, Shutterstock, 2018. Deslize sobre a imagem para Zoom 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_4/ebook/index.html#section_2 14/27 O habeas data está previsto no inciso LXXII do artigo 5° da Constituição Federal, que prevê: Art. 5°. [...] LXXII - conceder-se-á habeas data: a) para assegurar o conhecimento de informações relativas à pessoa do impetrante, constantes de registros ou bancos de dados de entidades governamentais ou de caráter público; b) para a retificação de dados, quando não se prefira fazê-lo por processo sigiloso, judicial ou administrativo; [...] São duas as opções de utilização do habeas data. A primeira serve para assegurar o acesso a informações de caráter pessoal que estejam armazenadas em bancos de dados públicos (como o do Instituto Nacional do Seguro Social – INSS, por exemplo) ou de caráter público (como o de serviços de proteção ao crédito – SPC, por exemplo). A segunda, serve para obrigar a retificação de dados quando há prévia negativa do órgão público ou de caráter público. Figura 4 - A transparência nos bancos de dados públicos é um dever que não pode ser violado. Fonte: Deslize sobre a imagem para Zoom 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_4/ebook/index.html#section_2 15/27 O mandado de segurança é uma figura residual em relação ao habeas corpus e ao habeas data. Ele é utilizável quando essas ações não forem cabíveis, ou seja, se aplica para a proteção de outros direitos. Veja o teor do dispositivo constitucional que o prevê: Art. 5°. [...] LXIX - conceder-se-á mandado de segurança para proteger direito líquido e certo, não amparado por habeas corpus ou habeas data, quando o responsável pela ilegalidade ou abuso de poder for autoridade pública ou agente de pessoa jurídica no exercício de atribuições do Poder Público. O direito violado, para que possa ser protegido pelo mandado de segurança, deve ser líquido e certo. Para Sérgio Ferraz (1993, p. 19), “líquido será o direito que se apresenta com alto grau, em tese, de plausibilidade; e certo, aquele que se oferece configurado preferencialmente de plano, documentalmente sempre, sem recurso a dilações probatórias”. O mandado de segurança pode ser impetrado de forma individual ou coletiva. No último caso, somente pode ser impetrado por partido político que tenha representação no Congresso Nacional (art. 5°, LXX, “a”, da CF/88) ou por organização sindical, entidade de classe ou associação legalmente constituída e em funcionamento há pelo menos um ano, em defesa dos interesses dos seus membros ou associados (art. 5°, LXX, “b”, da CF/88). Não é possível, portanto, que um mero agrupamento de pessoas ajuíze, conjuntamente, um mandado de segurança coletivo. Marta Design, Shutterstock, 2018. 4.4 Ordem econômica e social Você estudará a ordem econômica e a social de acordo com a Constituição Federal de 1988. Você já se questionou sobre quais são os objetivos da atividade econômica brasileira? Sabia que a Constituição estipula esses objetivos e prevê mecanismos para assegurar que eles sejam observados? 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_4/ebook/index.html#section_2 16/27 Os princípios que orientam a ordem econômica são objeto de abordagem neste tópico, assim como outros assuntos relacionados. Embora a livre iniciativa seja a regra da economia brasileira, existem alguns setores monopolizados pela União. Por que isso ocorre? Você também estudará a ordem social, que abrange setores indispensáveis do Estado, como a seguridade social, a educação, a cultura, o desporto, a ciência, tecnologia e inovação, a comunicação social, o meio ambiente, a família, as crianças, os adolescentes, os jovens, os idosos e os índios. 4.4.1 Princípios da intervenção e da regulação do Estado no domínio econômico e social A partir do artigo 170 da Constituição constata-se a disciplina normativa da Ordem Econômica e Social do Estado brasileiro. A ordem econômica é disciplinada, precisamente, do artigo 170 até o artigo 192, enquanto a ordem social é tratada do artigo 193 até o artigo 232 do texto constitucional. Depois, você encontrará apenas as disposições constitucionais gerais e o ato das disposições constitucionais transitórias. A atividade econômica no Brasil se desenvolve a partir dos princípios consignados no artigo 170 da Constituição Federal. Veja: Art. 170. A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios: I - soberania nacional; II - propriedade privada; III - função social da propriedade; IV - livre concorrência; V - defesa do consumidor; VI - defesa do meio ambiente [...]; VII - redução das desigualdades regionais e sociais; VIII - busca do pleno emprego; IX - tratamento favorecido para as empresas de pequeno porte constituídas sob as leis brasileiras e que tenham sua sede e administração no País. O caput do artigo 170 da Constituição estabelece que os fundamentos da ordem econômica são a valorização do trabalho humano e a livre iniciativa. Também é claro ao estipular que a finalidade da ordem econômica é assegurar dignidade (existência digna), conforme as balizas da justiça social e de nove princípios explícitos, apresentados nos incisos que você acabou de identificar. 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_4/ebook/index.html#section_2 17/27 O primeiro princípio que baliza a ordem econômica é a soberania nacional. O Brasil possui a supremacia das decisões que impactam a economia interna do País, não estando sujeito às ordens de nenhum outro Estado. Com a globalização e a evolução dos meios de comunicação, no entanto, é cada vez maior a relativização desse princípio, haja vista a impossibilidade de controlar completamente as relações estabelecidas entre brasileiros e pessoas de outros Estados. Figura 5 - O Brasil é soberano em relação à sua política econômica. Fonte: michal812, Shutterstock, 2018. Deslize sobre a imagem para Zoom 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_4/ebook/index.html#section_2 18/27 Fundamental à iniciativa privada e assegurado no inciso II do artigo 170 da Constituição, a propriedade privada viabiliza que qualquer pessoa obtenha o domínio sobre quantos bens móveis e imóveis quiser, o que também inclui a participação em atividades empresárias. Uma pessoa pode, por exemplo, ser proprietária de 10 (ou mais) diferentes negócios, se quiser. Na sequência da previsão do princípio da propriedade, constata-se o da função social da propriedade. Esse princípio limita aquele, ou seja, impede que a pessoa desfrute do direito à propriedade ao seu modo, independente dos efeitos que o uso possa gerara terceiros. Se outrora a propriedade poderia ser considerada um direito absoluto, isso não se aplica desde o início da vigência da Constituição Federal de 1988. Agora, fica claro no texto constitucional que a propriedade deve ser utilizada de modo a não prejudicar terceiros. Você deve interpretar o uso da propriedade privada, portanto, com as finalidades da ordem econômica previstas no caput do artigo 170 (assegurar existência digna a todos, conforme os ditames da justiça social). A livre concorrência, prevista no inciso IV do artigo 170, é fundamental à ordem econômica que preza pela livre iniciativa. Só há liberdade de empreender quando o Estado assegura a liberdade de concorrência. Do contrário, de que adiantaria assegurar a liberdade de iniciar uma atividade empresarial se o Estado permitisse que as grandes empresas dominassem todos os setores? É por isso que a legislação prevê mecanismos voltados a coibir práticas que visem à dominação dos mercados. O inciso V do artigo 170 prevê a defesa do consumidor como princípio da ordem econômica. Trata-se de relevante dispositivo, que ordena o respeito às regras de proteção do consumidor no contexto das relações empresariais. O consumidor, enquanto parte presumivelmente mais frágil na relação de consumo, tem direitos que devem ser observados pelos empresários, sob pena de sanções de natureza civil e criminal. 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_4/ebook/index.html#section_2 19/27 A defesa do meio ambiente, prevista no inciso VI do artigo 170, garante a conjugação entre desenvolvimento econômico e proteção ambiental, da qual decorre o desenvolvimento sustentável. “Fica certo, dessa forma, que a exploração dos recursos ambientais necessários ao desenvolvimento econômico do país deve ser pautada pelas diretrizes do chamado desenvolvimento sustentável, opondo-se à devastação ambiental inconsequente e desmedida” (TAVARES, 2011, p. 185-186, grifo do autor). O documentário Home – Nosso Planeta, Nossa Casa tem por objetivo conscientizar as pessoas sobre a fragilidade do planeta Terra e sobre os impactos do consumo excessivo. Ele foi filmado de um ponto de vista aéreo, é dirigido por Yann Arthus-Bertrand e está disponível em: Figura 6 - A proteção do consumidor é um dever dos empresários, conforme determina a Constituição. Fonte: Shutterstock, 2018. VOCÊ QUER VER? Deslize sobre a imagem para Zoom 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_4/ebook/index.html#section_2 20/27 <https://www.youtube.com/watch?v=xQBDN3zuw0U (https://www.youtube.com/watch? v=xQBDN3zuw0U)>. Mas a sustentabilidade não decorre apenas do exercício econômico com a preservação do meio ambiente. Ela demanda, também, a proteção social. Por isso entende-se que a sustentabilidade depende, necessariamente, de um tripé que conjuga os setores econômico, ambiental e social. (ELKINGTON, 1999) John Elkington é um sociólogo britânico muito conceituado. É fundador de uma importante empresa de consultoria que desenvolveu importantes noções sobre sustentabilidade e consumo consciente. Publicou vários livros, como o “Guia do Consumidor Verde”, que se tornou best-seller. A atividade econômica também deve ser desenvolvida para que as desigualdades existentes do Estado sejam reduzidas, tanto as sociais, presentes em todo o território nacional, como as regionais, que relacionam as diferenças de desenvolvimento entre determinadas localidades do Brasil. O emprego, fundamental à autonomia da pessoa humana e à busca pelo seu desenvolvimento pessoal e familiar, foi expressamente consignado como princípio da ordem econômica brasileira. Compete ao Estado, bem como às empresas, buscar, com o máximo de esforços, que a maior quantidade possível de pessoas esteja atuando no mercado de trabalho. O tratamento favorecido para as empresas de pequeno porte, previsto no inciso IX do artigo 170, se combina diretamente com a livre concorrência. Como assegurar a existência de pequenas empresas no mercado se as grandes puderem explorar a atividade econômica por qualquer meio? É para viabilizar a concorrência que a Constituição prevê benefícios às micro e pequenas empresas, que constituem VOCÊ O CONHECE? 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_4/ebook/index.html#section_2 21/27 tratamento favorecido em relação às demais. Tais benefícios viabilizam que essas empresas se mantenham no mercado, o que não seria possível se tivessem que arcar com os mesmos custos de grandes empresas. Como regra, o Estado não explora a atividade econômica. Mas a própria Constituição prevê os casos de exceção, quais sejam: quando necessário aos imperativos da segurança nacional; por relevante interesse público. A exploração do domínio econômico, no Brasil, é livre. Isso não significa, no entanto, liberdade plena, ou seja, livre de regulamentação do Estado. O artigo 174 da Constituição, aliás, não deixa margens às dúvidas em relação a isso. Veja: “Art. 174. Como agente normativo e regulador da atividade econômica, o Estado exercerá, na forma da lei, as funções de fiscalização, incentivo e planejamento, sendo este determinante para o setor público e indicativo para o setor privado”. Como exemplo de regulações específicas, veja o setor de saúde, regulado pela Agência Nacional de Saúde (ANS), o setor de telefonia, regulado pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), ou o setor de energia elétrica, regulado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Note, no entanto, que a existência de uma agência reguladora para determinado setor não significa que apenas este sofre a intervenção do Estado. A atividade interventiva do Estado se faz por diversas maneiras, como mediante a utilização da lei para criar tributos ou incentivos fiscais, ou de algumas estruturas públicas, como bancos, para destinação de créditos que fomentem o crescimento de determinadas atividades. Ainda assim, há atividades que são monopolizadas pelo Estado brasileiro, conforme previsão constitucional expressa do artigo 177: Art. 177. Constituem monopólio da União: I - a pesquisa e a lavra das jazidas de petróleo e gás natural e outros hidrocarbonetos fluidos; II - a refinação do petróleo nacional ou estrangeiro; III - a importação e exportação dos produtos e derivados básicos resultantes das atividades previstas nos incisos anteriores; 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_4/ebook/index.html#section_2 22/27 IV - o transporte marítimo do petróleo bruto de origem nacional ou de derivados básicos de petróleo produzidos no País, bem assim o transporte, por meio de conduto, de petróleo bruto, seus derivados e gás natural de qualquer origem; V - a pesquisa, a lavra, o enriquecimento, o reprocessamento, a industrialização e o comércio de minérios e minerais nucleares e seus derivados, com exceção dos radioisótopos cuja produção, comercialização e utilização poderão ser autorizadas sob regime de permissão, conforme as alíneas b e c do inciso XXIII do caput do art. 21 desta Constituição Federal. Há uma ressalva no parágrafo primeiro do mencionado artigo, o qual permite que a União contrate empresas públicas ou privadas para a execução das atividades previstas nos incisos I a IV, de acordo com os limites estabelecidos pela legislação. Isso não altera o fato, no entanto, de que tais atividades somente podem ser executadas mediante o monopólio da União. Em relação à ordem social, a Constituição prevê que ela possui o primado do trabalho como base e o bem-estar e a justiça social como objetivo (art. 193). A ordem social inclui a disciplina dos seguintesassuntos: seguridade social (artigos 194 a 204); educação, cultura e desporto (artigos 205 a 217); ciência, tecnologia e inovação (artigos 218 a 219-B); comunicação social (artigos 220 a 224); meio ambiente (artigo 225); família, criança, adolescente, jovem e idoso (artigos 226 a 230); índios (artigos 231 a 232). A seguridade social abrange três áreas fundamentais do Estado: a saúde; a previdência social; a assistência social. A saúde é prestada a todos, independente de prévia contribuição ou de condição social. Ela é universal. A previdência social é prestada apenas aos que tenham com ela previamente contribuído, ou para os dependentes destes. Já a assistência social é prestada independente de prévia contribuição, mas somente aos mais necessitados, conforme critérios estabelecidos pela legislação. 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_4/ebook/index.html#section_2 23/27 O Brasil é um Estado Social. Isso significa que as prestações fornecidas pelo Estado à sociedade são uma marca característica, diferente de outros Estados, nos quais se constata uma pequena parcela de participação em relação à outorga de prestações, sejam elas de caráter mínimo ou não. Há Estados que são menos prestacionais que o Brasil, ou seja, que não fornecem gratuitamente tantos benefícios, mas isso decorre de diferentes razões e, principalmente da história de cada local. O artigo 6º da Constituição, por exemplo, prevê o rol de direitos sociais assegurados aos brasileiros. Veja: “Art. 6º São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição”. Na redação original da Constituição não constavam os direitos à moradia, à alimentação e ao transporte, os quais foram inseridos por meio das Emendas n.º 26/2000, n.º64/2010 e n.º 90/2015, respectivamente. As três alterações reforçam o caráter prestacional do Estado brasileiro, que age de modo a satisfazer as necessidades dos cidadãos por meio de uma intensa participação do setor público. Figura 7 - A saúde é prestada a todos, independe de qualquer condição. Fonte: chippix, Shutterstock, 2018. Deslize sobre a imagem para Zoom 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_4/ebook/index.html#section_2 24/27 O estudo do Direito Constitucional abrange a disciplina normativa de uma vasta quantidade de assuntos, que vão desde a organização do Estado (mediante a estruturação dos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário) até a previsão de uma extensa lista de direitos. Síntese Concluímos o quarto Capítulo da disciplina Direito Constitucional. Agora, você concluiu os estudos sobre o poder Judiciário. Você conheceu todos os instrumentos do controle de constitucionalidade e também os remédios constitucionais. Além disso, você estudou a ordem econômica e social e identificou a quantidade de setores disciplinados pela Constituição. Neste capítulo, você teve a oportunidade de: identificar que o sistema principal de controle de constitucionalidade também é integrado pela ação declaratória de constitucionalidade, pela ação direta de inconstitucionalidade interventiva, pela ação direta de inconstitucionalidade por omissão e pela arguição de descumprimento de preceito fundamental; aprender que a ação declaratória de constitucionalidade é uma ação de sinal trocado em relação a ação direta de inconstitucionalidade, pois visa ao objetivo oposto; compreender que a ação direta de inconstitucionalidade interventiva possui apenas um legitimado: o procurador-geral da República; aprender que remédios constitucionais são soluções para a violação de direitos previstos pela Constituição, ou seja, servem para “curar” o desrespeito a direitos; identificar que o habeas corpus serve para evitar ou remediar a violação ao direito à liberdade; aprender que o habeas data serve para que o cidadão obtenha acesso ou imponha a retificação de dados pessoais que constem em bancos de dados públicos ou de caráter público; compreender que o mandado de segurança é um remédio constitucional residual, que serve para proteger direitos não abrangidos pelo habeas corpus ou pelo habeas data; 17/10/2019 Direito Constitucional https://fmu.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/NEG_DIRCON_19/unidade_4/ebook/index.html#section_2 25/27 entender que a ordem econômica brasileira está fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, objetivando assegurar a todos uma existência digna, conforme os ditames da justiça social; aprender que a ordem social brasileira abrange uma variedade de assuntos, desde a seguridade social até a proteção dos índios . 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