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1 OS DEUSES DE ITAPIRA Um estudo sobre a religião popular Carlos Rodrigues Brandão Campinas 1979 2 Tese de doutoramento em Ciências Sociais, apresentada à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo 1 s pessoas grandes tinham de repente ódio umas das outras. Era preciso rezar o tempo todo para que nada não sucedesse. João Guimarães Rosa Buriti Noites do Sertão Este trabalho é para Duglas Teixeira Monteiro 1 Esta é uma versão integral de minha tese de doutorado orientada por Duglas Teixeira Monteiro e por José de Souza Martins e defendida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Em uma versão incompleta ela foi editada com o nome de Os deuses do povo, pela Editora Brasiliense, de São Paulo em meados dos anos 80. Bem mais recentemente, em sua versão completa ela foi republicada em uma bela edição pela Editora da Universidade de Uberlândia - EDUFU. Em ambas as edições como livro há um prefácio de José de Souza Martins. Ele foi acrescentado a esta edição da tese. 3 ÍNDICE PREFÁCIO – José de Souza Martins INTRODUÇÃO Primeira Parte: O CAMPO RELIGIOSO 1. UMA HISTÓRIA DE SERTÃO Os moradores caipiras Os donos do café As invasões da cana As gentes do lugar 1º depoimento: A morte de Joaquim Firmino 2. MEMÓRIA DO SAGRADO A religião dos camponeses A igreja dos fazendeiros Camponeses e colonos, escravos e operários Heresia popular e cisma burguês Pastores e médiuns em Itapira Os tempos do secular 2º depoimento: o cisma católico de Amorim Correia 3. AS MUITAS MORADAS As novas igrejas As seitas “de baixo” Curandeiros, benzedores, pais-de-santo Variações católicas 3º depoimento: A cruzada “A Volta de Cristo” e a Seita do “povo Nhambiquará” 4. PADRES, PASTORES, MÃES-DE-SANTO, REZADORES Lugares de Fé Os profissionais do sagrado “Ninguém é profeta em sua terra” A iniciação do agente religioso Sacerdotes, profetas, feiticeiros 4º depoimento: O crente de pequena seita faz e refaz a sua igreja 5. O CENSO DOS SALVOS Leigos, clientes e fiéis Os números da fé As classes dos crentes 5º depoimento: Tornar-se fiel 4 6. OS DEZ MANDAMENTOS As condições sociais da produção do sagrado A ordem política do religioso As lutas do padre Aliados de caneta, linguagem de enxada A mesa-branca versus o terreiro Pastores de igreja versus presbíteros de seita Os dez mandamentos 6º depoimento: O padre ensina as regras da nova igreja 7. POVO POBRE, DEUSES RICOS Religião de mediação e religião popular Os usos da fé Diferenças de usos da fé: o exemplo do milagre O mundo e a ordem da religião popular O “povo fiel” O domínio popular do campo religioso 7º depoimento: os modos da benção 8. SACERDOTES DE VIOLA O saber popular: a formação do agente A guarda da memória 8º depoimento: uma função de São Gonçalo em Bom Jesus dos Perdões 9. A LÓGICA DO REZADOR Honra e solidariedade: a ética religiosa do camponês A lógica da ética A ordem social do sagrado O lugar social do morto A lógica da comunidade na religião 9º depoimento: A Aurora do fim 10. DO CRISTO AO BOM JESUS: DA IDEOLOGIA RELIGIOSA DO IMAGINÁRIO MÍTICO A ideologia católica da docência da Igreja A reinvenção do sagrado popular O “Senhor Bom Jesus” contra o “Cristo Cósmico” Crenças novas entre os “nova crença” 10º depoimento: Os mitos dos outros 5 11. OS ESTATUTOS DA FÉ O mapa da religião e o estatuto do sagrado O mundo que o crente vê Os crentes, pobres e, os outros, ricos “Ficai em Jerusalém” 11º depoimento: O fiel da Igreja Apostólica 12. O POVO CRENTE Pastores contra presbíteros O crente chamou o curandeiro 12º depoimento: O pastor pentecostal erudito CONCLUSÃO BIBLIOGRAFIA 6 Prefácio “Um dia fiz o que devia.” Carlos Rodrigues Brandão, Deus te Salve, Casa Santa!, Funarte, Rio de Janeiro, 1979, p.9. Carlos Rodrigues Brandão é um caipira legítimo nascido em Copacabana. Psicólogo por fora e missionário por dentro, largou-se um dia pelas veredas do mundo, para ver de perto o fantástico da vida do povo sertanejo, que lhe chegava às mãos descrito nos relatórios do Movimento de Educação de Base, onde trabalhava. Encostou nos ranchos e palhoças, indagando, olhando, querendo saber das coisas, fazendo espontaneamente o bacharelado de sua vocação, em Antropologia, com alguns dos melhores mestres do país, os camponeses analfabetos das roças e povoados. Sacramentou o aprendizado fazendo um mestrado em Brasília com pesquisadores da melhor competência. Mas, não largou nunca a estrada, sempre aqui e acolá, de que resultou uma boa meia dúzia de livros, alguns inéditos, outros mal divulgados, que são também alguns dos estudos mais bem feitos sobre hábitos alimentares, educação popular, festas do povo. Veio, finalmente, parar em São Paulo, onde encontrou outro caipira legítimo, Duglas Teixeira Monteiro, ambos muito parecidos em muita coisa, especialmente no modo de ver e de pensar a realidade do oprimido do campo e da cidade. Ao contrário de muitos cientistas sociais profissionais em nosso país, Carlos Rodrigues Brandão não sente nenhuma vergonha pelo fato de estar profundamente comprometido com os oprimidos desta terra (há, porém, os que não sentem nenhuma vergonha pelo fato de não estarem comprometidos). Esse compromisso intenso não lhe causa o menor embaraço nem a menor insegurança porque, sendo capaz, como é, a objetividade da pesquisa e da apresentação de seus resultados não sofre o menor arranhão na sua produção intelectual. Aliás, o seu compromisso intenso é a condição da objetividade e da profundidade da sua investigação, tal como acontecia com um cientista social da envergadura de Marx. Exatamente por isso eu não tenho dúvida alguma em dizer que os seus trabalho vão marcar fundo as ciências sociais entre nós. Daqui para frente será muito difícil dizer alguma coisa séria sobre a sociedade brasileira sem recorrer à sua obra. Nela se juntam e frutificam de um modo novo algumas das melhores contribuições teóricas e metodológicas que se firmaram nas ciências sociais no Brasil, como as de Antônio Cândido, Gioconda Mussolini, Florestan Fernandes, Roberto Cardoso de Oliveira, Duglas Teixeira Monteiro. Desses autores ele recolheu ainda uma característica hoje escassa entre nós: o devotamento incansável à boa e demorada pesquisa de campo. Nos seus trabalhos, ressalta de imediato a premissa de que teoria e pesquisa andam sempre juntas, no campo e no gabinete. Freqüentemente, a boa teoria nasce e cresce no campo, lá pode ser verificada, alterada, desprezada. Vale a pena mencionar que há preciosas descobertas teóricas num relato de campo como é Tristes Trópicos, de Claude Lévi-Strauss. Os Deuses do Povo é um livro que foi tese de doutorado na Universidade de São Paulo, aprovada com distinção e que, além disso, recebeu voto de louvor da banca examinadora. Nem por isso é um trabalho só para iniciados. Muitíssimo ao contrário. Também, não é apenas um 7 trabalho sobre religiãopopular, mas um trabalho de grande profundidade que abre perspectivas teóricas fundamentais sobre a lógica do popular, da religião popular, da educação popular, da cultura popular, como lógica do oprimido, como lógica de confronto e luta. Pela primeira vez, a vaga noção de “popular”, tão presente em tantos estudos sobre as classes populares, torna-se substantiva porque se explicita como ingrediente político do processo histórico. Este trabalho mostra com absoluta clareza toda a complexa capacidade dos trabalhadores oprimidos perceberem os conflitos reais que os envolvem, que os antagonizam com os seus opressores mesmo através da religião, que os levam a elaborarem, nas dimensões mais inesperadas da vida social, a sua resistência e a sua contentação. Neste estudo não se joga com o mal disfarçado weberianismo da polarização “falsa” e “verdadeira” consciência, as concepções de Lukáes com que se trabalha tão mal em nosso país. E que serve, no fim das contas, para justificar a alegada e não provada incapacidade dos trabalhadores para se darem conta da opressão que sofrem. O povo é que sabe do povo. Temem isso aqueles que fazem das ciências sociais um empreendimento capitalista, mediado por gordos financiamentos, baseado na reprodução e reafirmação, na próprias prática científica, das brutalidades essenciais desta sociedade que se materializam nas figuras do opressor e do oprimido, do explorador e do explorado. São aqueles pesquisadores que estão sempre dispostos a prestarem um serviço aos opressores do povo, tornando-se eles próprios instrumentos da opressão. São os que tem sempre elaboradas justificativas para recusar o comprometimento com as lutas populares, mas que não precisam da menor justificativa para se colocarem a serviço dos que oprimem. Só é possível entender o saber do povo através do compromisso com a sua causa, com a sua luta, com a sua vida, com a sua esperança. Só há objetividade quando há esse envolvimento profundo e intenso, quando há um destino comum. O resto é ilusão, ainda que bem elaborada pelo nosso treino profissional para nos enganarmos, fazendo-os objeto de nosso profissionalismo. Desinibição a gente precisa é para produzir juízos de suposta realidade, que se baseiam em mal explicitados cânones científicos, que falseiam e violentam a realidade social excluindo a nós pesquisadores dessa mesma realidade, produzindo a nossa esterilização ética, para criar em nós e nas nossas vítimas a ilusão de que não somos deste mundo e que por isso o que dizemos é verdadeiro. No sertão, Carlos Rodrigues Brandão não é um turista, como esses pesquisadores pasteurizados que tem colete e gravata no cérebro; não é um pesquisador formal mais interessado em salvar a aparência de seriedade das ciências sociais, pois as ciências sociais somente são sérias quando comprometidas com o destino dos seus personagens. Muito ao contrário. Está sempre produzindo alguma coisa junto com as pessoas com quem convive. Foi nessa circunstância, e por isso, que nos encontramos; um encontro bom, desses que se dão na estrada, no meio do pó e do sol, em que o suor e o cansaço já não justificam que se esconda alguma coisa, que se cultive aparências. Nossos encontros têm sido assim, ele saindo, eu chegando; às vezes, a gente anda um bom trecho juntos, proseando, dando as recomendações dos de lá e dos de cá. Carlos é um companheiro da estrada, um irmão na obstinada esperança no tempo novo que virá, que a gente encontra com alegria e abraça arrochado. 8 Um traço de sua obra que me chama muito a atenção é que, falando das coisas, expondo suas observações, desenvolvendo suas análises, de repente fala dele mesmo, coloca- se na posição de objeto, se vê junto com as outras pessoas, não abre o abismo inteiramente falso, ideológico, entre o “eu” e o “outro”, pois a sua categoria de trabalho é a categoria do “nós”. Quando avançamos na leitura dos seus textos, temos a impressão de que percorremos um espaço bem definido, como o espaço de uma casa de pau-a-pique na roça – o fogão de taipa num canto, lenha acesa, o feijão com toucinho fervendo, e num canto, meio rindo, meio sério, “Nhô” Carlos Rodrigues Brandão picando fumo. Deixe, por isso, eu chegar pr‟uma banda, pra que vosmecê se encoste, puxe a tripeça pra perto do fogo, para entrar na prosa, que na escuridão desta noite longa é prosa boa e necessária. José de Souza Martins 9 INTRODUÇÃO Darwin interessou-nos na história da tecnologia natural, na formação dos órgãos das plantas e dos animais como instrumentos de produção necessários à vida das plantas e dos animais. Não merece igual atenção a história da formação dos órgãos produtivos do homem social, que constituem a base material de toda a organização social? E não seria mais fácil reconstituí-la, uma vez que, como diz Vico, a história humana se distingue da história natural, por termos feito uma e não termos feito a outra? A tecnologia revela o modo de proceder do homem para com a natureza, o processo imediato de produção de sua vida e assim elucida as condições de sua vida social e as concepções mentais que delas decorrem. Mesmo uma história da religião que ponha de lado essa base material, não é uma história crítica. Em realidade, é muito mais fácil descobrir o cerne terreno das nebulosas representações religiosas, analisando-as, do que, seguindo o caminho oposto, descobrir, partindo das relações da vida real, as formas celestiais correspondentes a essas relações. Karl Marx O Capital Livro Primeiro, Volume 1º. 1968 – p. 425 (nota de rodapé nº 89) Talvez a melhor maneira de se compreender a cultura popular seja estudar a religião. Ali ela aparece viva e multiforme e, mais do que em outros setores de produção de modos sociais da vida e dos seus símbolos, ela existe em franco estado de luta acesa, ora por sobrevivência, ora por autonomia, em meio a enfrentamentos profanos e sagrados entre o domínio erudito dos dominantes e o domínio popular dos subalternos. Talvez a melhor maneira de se estudar a religião seja não descrever nenhuma delas, ou descrevê-las todas ao mesmo tempo, o que é mais ou menos a mesma coisa. Afinal, depois de tantos estudos sobre o assunto é lícito desconfiar que a menor unidade social do sagrado pode não se uma igreja ou uma confissão, mas antes o campo definido pelas trocas políticas entre religiões e unidades religiosas. Levo a sério as duas suposições enunciadas acima, neste estudo a respeito do campo religioso e da religião popular de um município paulista, e discuto aqui alguma coisa pelo menos da fração mais política do trabalho de seus sacerdotes, profetas e feiticeiros que, em nome de seus leigos, fiéis e clientes, mutuamente abençoam-se e enfrentam-se em todas as direções. Faço perguntas sobre como opera a prática política de reprodução de trocas e símbolos de poder no interior do mundo da religião e sobre outros mundos sociais, através dele. Faço perguntas a respeito de como aos subalternos sobram condições de fazer, de algum modo, os seus sistemas religiosos, a partir do que foi inculcado sobre eles pelos emissários do sagrado, representantes da ordem e dos interesses da dominância. 10 De que maneira se constitui e como se articula um campo social de propósitos, de atos e de instituições religiosas? Repetindo, segundo os seus próprios termos, o que acontece em outros setores, de que formas o religioso sobrepõe a um desdobramento confessional entre unidades católicas, evangélicas e mediúnicas, uma oposição entre domínios de classe na religião? No espaço restrito do setor religioso,de que maneira os subalternos reconquistam e criam sistemas próprios de crença e de prática do sagrado, assim como os estatutos ideológicos de sua legitimidade? Este não é um estudo de Sociologia da Religião no seu sentido mais imediato. Desvio aqui da tradição produtiva e consagrada de isolar um tipo teórico ou institucional de religião para recontar a sua história, descrever a sua estrutura formal, seu sistema de cultos e o seu repertório de crenças, relacionando-os às condições sociais diretas de sua produção. Como o que importa é a discussão de formas subalternas da vida de camponeses e operários paulistas, e a invenção de tipos de cultura popular que operam em um dos setores sociais dessas vidas, misturando as palavras sagradas da ciência com as da religião, o que procuro fazer aqui é um exercício de pensar a sociedade; um exercício que usa a religião como roteiro e pensa a partir do que vê no setor religioso. Assim, pretendo que as trocas sociais efetuadas entre agentes religiosos expliquem a prática política dos sujeitos subalternos e, que os atos, os gestos e as estruturas próprias às modalidades dos sistemas de crenças e cultos daí derivados, expliquem situações da vida e da cultura dos camponeses e operários de quem falo. A religião dá nomes a todas as coisas e torna até mesmo o incrível, possível e legítimo. Para os efeitos da vida, ela pretende sempre envolver o repertório mais abrangente das questões e fazer as respostas mais essenciais, de acordo com os interesses políticos, mas também de acordo com os medos e as esperanças das mais diversas categorias de pessoas. No caso dos sujeitos de quem falo aqui com mais empenho, a religião é o explicador mais usual e, muitas vezes, o mais acreditado. Qualquer pesquisador das formas populares de cultura e dos modos subalternos de vida, sabe que ali quase não há esferas de uma e de outra que não estejam envolvidas e significadas pelos valores do sagrado. Por outro lado, mais visível do que na face profana do domínio popular, é na religião que os proletários e, sobretudo, os camponeses criam as suas crenças mais duradouras, derivando- as da docência erudita das igrejas, ou recriando-as segundo as suas próprias experiências em todos os setores de trocas sociais. Não é estranho que depois de uma vigorosa concentração de estudos sobre os aspectos mais profanos da cultura popular, haja hoje em dia uma multiplicação tão acentuada de pesquisas a respeito das religiões dos subalternos: o catolicismo popular, o pentecostalismo, os cultos de possessão da umbanda para a esquerda. Não é também estranho que, de alguns anos para cá, estes estudos percam aos poucos um claro empenho etnográfico e passem a fazer perguntas de teor político sobre as relações efetivas entre a formação social, suas classes e as suas religiões. Em uma direção descobre-se que os mistérios cósmicos do sagrado decifram-se melhor quando tratados de acordo com o convite de Marx escrito no início desta introdução. Em outra direção, descobre-se que, ao se explicar a ordem social do sagrado, desvenda-se o lugar onde o político é mais prodigioso. E o que o faz ser assim, ali, é justamente o poder de a religião ocultar, sob os seus símbolos de última instância, os interesses terrenos dos seus produtores sociais a 11 quem ela às vezes serve, através inclusive de ocultar, ou pelos menos revestir de canto e fórmulas de maravilha, o jogo político da dominância (cf. Balandier, 1969: cap. V). O foco deste estudo recai sobre a religião popular e o sujeito substantivo deste foco é o agente popular de religião: o rezador, o capelão, o chefe de grupo ritual de camponeses ou de negros, o pai-de-santo, o feiticeiro de esquina, o presbítero de pequena seita, o curador e a benzedeira. Não pretendo chegar a estes sujeitos subalternos, especialistas do sagrado, como as ciências sociais têm chegado com mais freqüência, para olhar tudo o que acontece, do ponto de vista da lógica e do poder do dominante religioso ou secular, e como mero efeito religioso da ordem da dominância profana. Na verdade, o propósito do estudo é explorar todos os termos em que os subalternos não só apropriam-se ativamente de modos eruditos e impostos de crença e de práticas religiosas, como também criam, por sua conta e risco, os seus próprios modos sociais de produção do sagrado: as suas variações confessionais, as suas agências de serviços e os seus agentes especialistas de classe. Dividi o estudo em duas partes com seis capítulos em cada uma e um depoimento de cada capítulo. Com mais intensidade dos que os outros nove, os três capítulos iniciais contam histórias. O primeiro narra a formação profana do município de Itapira, para explicar de passagem que tipos de relações de trabalho constituíram as categorias de sujeitos sociais de quem falo a seguir, como agentes e praticantes da religião. Nos dois capítulos seguintes narro a trajetória de formação do campo religioso de Itapira, desde os atos de fé dos primeiros rezadores e devotos caipiras do antigo Bairro dos Macucos, até os serviços de missão dos crentes de pequena seita pentecostal dos bairros “de baixo”, na periferia proletária da cidade. Nos capítulos 4 e 5 procuro colocar alguma ordem no mundo religioso atual de Itapira. Primeiro falo sobre os tipos de agentes do sagrado: quem eles são, para cada área confessional e em cada um dos domínios sociais do campo religioso – o erudito e o popular; de onde vieram e através de que estratégias de acesso ao saber religioso foram constituídos como um tipo de agente legítimo de serviços de salvação. Falo depois sobre as categorias de seguidores da religião e, após classificá-los de acordo com critérios a que retorno a todo o momento ao longo do estudo, procuro distribui-los, segundo as suas proporções, pelas áreas confessionais e domínios de classe do campo religioso. O último capítulo da primeira parte realiza a síntese teórica dos dados antecedentes e pode ser considerado como uma primeira e mais longa conclusão. Desenvolvo ali algumas idéias a respeito das condições políticas da estrutura de trocas do campo religioso. Toda Segunda parte é dedicada ao estudo da religião popular, tomada de preferência sobre dois de seus tipos: o catolicismo camponês e o pentecostalismo de periferia. Alguns dos problemas discutidos na primeira parte, envolvendo trocas políticas entre religiões eruditas, populares e de mediação, são reexaminados agora sob a ótica exclusiva da religião popular. Nos capítulos iniciais retomo a questão da gênese das relações de troca entre categorias de agentes subalternos, e discuto especialmente as condições e os modos de produção do seu saber religioso. O problema do acesso a formas populares de conhecimento religioso é o ponto de partida para o exame da própria lógica da religião popular, coisa que faço infelizmente aos pedaços, a partir do capítulo 9. Nele e no seguinte tomo o exemplo do catolicismo popular e examino os quadros de referência da ordem de seus símbolos, para depois discutir de que 12 modos os agentes subalternos recriam um sistema camponês de crença e culto, sobre a docência da Igreja Católica. Nos dois capítulos finais retorno ao dirigente pentecostal de pequena seita e procuro explicar como a sua fala de um emissário do sagrado tem a ver com a produção simbólica da legitimidade do seu trabalho religioso. Este é o momento em que a ideologia política da religião popular fala mais sem reservas, em todo o estudo. Os doze depoimentos que seguem cada um dos capítulos ajudam a tornar o texto mais longo do que ele devia ser. Mas é ali que eu documento fatos, casos, biografias, gestos rituais e falas de homens e santos. Nos depoimentoso leitor encontra a poesia do dado puro, livre da maldição da análise. Se não os ler ganha tempo e não perde nada do que precisa saber para acompanhar o que pretendo dizer. Nada, a não ser a face mais viva de tudo o que discuto aqui, porque é neles que todos os sujeitos de quem falo agem por si próprios, às vezes milagrosamente quase livre de mim. A idéia de fazer a pesquisa deste estudo não foi minha. Foi do professor Duglas Teixeira Monteiro. Quando começamos juntos o trabalho de pensá-la, ele sugeriu que eu deixasse para um outro tempo a pesquisa sobre o catolicismo popular com que me apresentei como seu orientando, e propôs trabalharmos no terreno das trocas políticas de um campo de práticas onde as do catolicismo eram apenas um dos integrantes. Devo a ele, portanto, mais do que o acompanhamento de um bom orientador. Poucos dias antes de iniciar a viagem de que não voltou, ele me devolveu os rascunhos dos cinco primeiros capítulos que, alguns meses antes, havíamos discutido como pesquisar e redigir. De suas correções e conselhos aprendi a gravar um dos primeiro. Que o rigor da análise nunca roube do texto a própria vida das pessoas e dos fatos. Este modo de ver o mundo através do que é vivo e pessoal ele continuou me ensinando ao longo dos quatro anos em que nos conhecemos e trabalhamos juntos. E foi a sua melhor orientação. A partir de 1978 o professor José de Souza Martins tornou-se o orientador do trabalho. Poucos dias depois descobri que a profunda amizade entre um orientador e o outro decorria, em parte, de uma sólida identidade de maneiras pessoais de pensar e agir. Não é preciso dizer que, na teoria e na prática, eu fui um dos primeiros beneficiados disto. Esta foi também a razão pela qual, depois de poucos meses de inércia decorrentes do peso da morte do professor Duglas, fui capaz de retomar os estudos e concluir o texto. Devo especialmente a dois companheiros do Conjunto de Antropologia da UNICAMP momentos de incentivo e lucidez, quando isso foi necessário. Falo dos professores Verena Stolke Geissler de Martinez e Peter Fry. Durante seminários de religião feitos na USP e, especialmente na UNICAMP, pedaços da pesquisa foram discutidos com colegas de curso e de trabalho. Entre eles é preciso ressaltar a presença e as idéias de Rubem de Azevedo Alves e Rubem César Fernandes. Dois amigos, Hugo da Silveira Herédia e outro de Goiânia, de onde eu vim, Joel Pimentel de Ulhoa, acompanharam com palavras de ânimo e de uma profunda amizade todo o tempo dos trabalhos. Arnaldo Lemos também faz uma pesquisa em Itapira e durante mais de dois anos os nossos diálogos tem sido de grande proveito para mim. Devo agradecer a alguns alunos da UNICAMP e gostaria de fazê-lo em nome de Geraldo Matheus Rogatto, que acompanhou de 13 perto a pesquisa durante quase dois anos e, em alguns momentos, trouxe de Itapira dados que eu mesmo não havia sabido encontrar. Cândida Maria Teixeira tomou o trabalho de datilografar páginas escritas, mas isto é o que menos devo agradecer a ela. Desde quando cheguei a Campinas ela tem sido uma das amigas mais presentes. Maria de Lourdes Serra Fernandes participou da parte final da datilografia. Maria Alice criou em casa todas as condições para que, desde o primeiro dia dos quase 18 meses com idas e vindas “ao campo”, até os dias da redação final, eu tenha podido pensar, pesquisar e escrever. Ela foi também responsável por revisões que tornaram um pouco mais legível um texto longo. As pessoas de Itapira receberam-me de muitos modos: para conhecer, para conversar, para converter. Todos foram solidários, mais do que apenas tolerantes para com um “professor” curiosos de Campinas, que alguns imaginavam um padre e, outros, um homem “sem fé” em busca de Deus. Estive em suas casas, nos seus muitos lugares de culto, entre momentos de dança, de cantos e de oração. Viajei com alguns deles e estive nos sítios de outros. Às vezes exigia que me respondessem perguntas em longas entrevistas, mas quantas vezes isso aconteceu depois de obedecê-los, ouvindo as suas pregações, orando com eles? Feitas as contas, tenho muitas dívidas e não quero esquecê-las. Para este estudo contei com um auxílio de pesquisa da FAPESP (76/958) obtido em nome da Dra. Verena e de uma bolsa de pesquisador do CNPq (III.2380/76). Ambos os recursos foram indispensáveis para os trabalhos da pesquisa. 14 Primeira Parte O CAMPO RELIGIOSO Lá em baixo está cheio de deuses. Do alto da barroca do Parque Juca Mulato um homem apontava com o dedo os bairros “de baixo” e dizia. Capítulo 1 UMA HISTÓRIA DO SERTÃO Tal como no poema de João Cabral de Melo Neto, são vários os planos de ver, para quem olha o mundo do alto do Parque Juca Mulato em Itapira2. Azuladas pela distância e bem à frente do olhar do viajante, há montanhas de Minas Gerais. Quando perguntado sobre o que se esconde atrás delas, o morador da cidade dirá: “ali é Minas”, com gesto familiar que denuncia, para com o vizinho, uma intimidade que ele mesmo acredita nem sempre repartir com uma grande porção do seu próprio estado, além da Mogiana e de Campinas. Em direção à direita as mesmas montanhas mineiras entram por São Paulo adentro, e se recobrem então de estranhas fontes minerais que formam o “circuito das águas” paulistas mais próximo à capital: Serra Negra, Lindóia, Amparo e Socorro. No interior de um plano mais imediato, entre as montanhas e a cidade, o viajante avista morros de pasto e plantações; o que sobra da invasão dos tapetes verdes e ondulados dos canaviais, cujas queimas de setembro desenham quadros de fogo e fumaça num horizonte tão perto, que a cor dos novelos escuros de fumo quase chega junto com o cheiro forte do queimado e os estalidos das folhas de cana quando queimam. Mais para a esquerda da cidade e em direção ao Sul, a mesma cana de Itapira estende-se quase livre de obstáculos, até fazer a fronteira com os tabuleiros de Mogi Mirim e de Mogi Guaçu. Em alguns lugares de mais perto ela encosta na periferia urbana e ameaça invadir até mesmo as ruas de moradia3. Em outros ela 2 João Cabral de Melo Neto, “De um Avião” (1963). Mas o escritor da cidade é outro, Menochi Del Pichia. Ele viveu, trabalhou e escreveu em Itapira durante vários anos. O Parque Juca Mulato é a lembrança da lenda de que ali, nas tardes e ao pôr do sol ele escreveu o seu poema mais conhecido. Para os efeitos deste estudo é melhor ler, no entanto, “A Longa Viagem” (1972) e “O Dente de Ouro” (1923). De acordo com alguns leitores do lugar, o poeta fez neste último romance a crítica de Itapira, no seu tempo. 3 A tal ponto a cana encosta na cidade, que ao longo do tempo da estiagem e da safra uma fuligem negra cobre as ruas, os telhados e mesmo o interior das casas mal fechadas. Durante alguns meses do ano de 1977 o problema, tornado ponto de atrito entre a Prefeitura, a Câmara Municipal e a Usina, andou entre as manchetes dos dois jornais da cidade em pelo menos três domingos (“Queima dos Canaviais – Comissão de Justiça da Câmara Julga Inconstitucional o Projeto do Prefeito, CI, 31.07.1977, nº 4052; “Prefeito Afirma: Projeto sobre a Queima da Cana é Constitucional”, CI, 7.08.1977, nº4053; “Projeto da Queima da 15 toca, como um inimigo, as roças dos sítios, inúmeros e pequenos e que cada vez com menos armas resistem ainda ao seu avanço. Resistem com mais empenho a Leste, por onde o município acolhe, concentrados no pouco espaço disponível, os últimos bairros rurais. A meio caminho entre os sítios e a Usina Nossa Senhora da Aparecida,fora os quadrados de cana, tudo o que existe para se ver são alguns bosques de eucaliptos, restos de capões de mata, pastos cercados, porções pequenas de lavouras de milho e café, de algum algodão, laranjais e as coisas de horta. O Parque Juca Mulato é o limite da parte alta dos espaços urbanos de Itapira. Baixando a cabeça o viajante descobre bem à sua frente os bairros “de baixo”, separados dos “de cima” pelo Ribeirão da Penha e pelo morro, a “barroca”, o “barrocão”, a mesma antiga “penha” que ajudou os moradores caipiras a inventarem os primeiros nomes do lugar: Penha de Mogy Mirim e Penha do Rio do Peixe. É preciso descrever com um pouco mais de cuidado este pequeno mundo. Quase tudo o que falo nos outros capítulo aconteceu nele, ou contra ele. Abaixo da “barroca” do Parque, entre um dos extremos urbanos da cidade e o lugar rural dos sítios, o viajante avista no meio das chaminés das olarias e da pequena torre da capela de Nossa Senhora de Aparecida, o bairro dos Prados (ou, “Bairro dos Prado”, segundo outros). Ele já foi “roça” e foi onde moravam os sitiantes que um dia descobriram as suas poucas terras envolvidas de casas, ruas e uma avenida de saída da cidade. Hoje os sitiantes dividem o bairro com operários, donos de bar e “venda” e os primeiros bóias-frias, os que invadem o lugar pelos fundos. Mais à esquerda fica o Cubatão, o maior dos bairros “de baixo” e o das ruas onde a cidade nasceu, entre casas de fazendeiros, sitiantes e outras gentes de poucas posses e ambições, até quando os primeiros donos do café subiram o Morro da Penha para construírem, “em cima”, uma igreja, uma cadeia e as primeiras casas de Itapira. Entre a avenida Conselheiro Laurindo e a Comendador Vergolino de Oliveira a cidade esparrama, em aparente desordem, inúmeras casas – do alto do Parque, coloridas, de perto, pobres e apertadas – das famílias dos trabalhadores volantes da cana, do café e do algodão; uma gente nascida em Itapira ou migrante dos muitos cantos de São Paulo e de Minas Gerais. Eles são “a gente da lavoura” e repartem com operários da Usina e das fábricas da Mogiana: a Vila Ilse, a Vila Isaura, o Paranazinho e outros lugares de moradia proletária, desdobrados das duas “vilas” e que, frente ao crescimento acelerado de casas e pessoas, não encontram outro remédio senão o de subirem os morros do Norte, empurrando cada vez mais os espaços da Cana Rejeitado por 8 a 4”, CI, 14.08.1977, nº 4054). O Prefeito encaminhou projeto à Câmara tornando proibida a queima da cana dentro de um perímetro de até 7 kms. da cidade. Depois de muita discussão nas ruas e no plenário, o projeto foi rejeitado. A polêmica sobre o assunto durou algumas semanas ainda. Alguns porta-vozes da elite agrária acusam o prefeito de ser “inimigo da Usina” e de prejudicar, com isso, o progresso de Itapira. O presidente da Câmara de Vereadores é parente da atual proprietária da Usina, a viúva do Comendador Vergolino de Oliveira. Perdida a causa da Prefeitura em nome dos defensores da livre-queima, algumas pessoas deixaram em frente ao local da decisão municipal um protesto simbólico. “Após a sessão da Câmara, quando os vereadores e o público retiravam-se do recinto, foi constatado um fato deplorável e de muito mal gosto, constituindo-se mesmo uma autêntica molecagem, ou seja, foi colocado defronte do prédio do Legislativo itapirense um monte de cana, em sinal de protesto, jogado no meio da rua, um protesto que não se justifica naquela ocasião, pois a vontade soberana do povo foi manifestada pelos seus lídimos representantes na Câmara Municipal de Itapira – pelo voto democrático” (CI, 14.08.1977, nº 4054, pg. 1). 16 cidade em direção a Minas. Ao contrário daquele que termina no “Juca Mulato”, este “em cima”, do outro lado do Ribeirão da Penha, foi invadido pelas pequenas favelas de Itapira4. Por entre a palha dos canaviais o viajante reconhecerá as chaminés altas e sempre enfumaçadas da “Usina”, orgulho agrário da região e o lugar de trabalho de muita gente dos bairros de baixo. Menos e mais rica, ali existe uma quase outra cidade. Em direção oposta, será preciso esticar os olhos e imaginar, para os lados de Mogi Mirim, o Morro do Gravi, onde os moradores de Itapira colocaram um monumento em memória dos seus mortos que na “Revolução de 32” travaram, dentro do município, alguns dos combates mais ferozes contra as forças federais e invasoras. Se ele perguntar pelo nome do que avista, ficará sabendo que algumas das coisas maiores e mais importantes usam palavras do sagrado. A usina é Nossa Senhora da Aparecida e a fábrica de papel, de Nossa Senhora da Penha. “Senhora da Aparecida”, “Comendador Vergolino de Oliveira”, “Vila Ilse”, “Vila Isaura”. Os donos colocam em suas posses os nomes dos seus santos; os pobres moram e transitam pelos nomes dos seus donos5. Por esses bairros, roças, campos e lavouras de café ou de cana, viveram e trocaram serviços e símbolos: os camponeses caipiras – pioneiros sitiantes ou posseiros das primeiras terras do sertão do lugar; os senhores e os seus escravos; os coronéis e os seus colonos; os fazendeiros e seus agregados e camaradas; os usineiros, os fornecedores, os turmeiros e seus volantes bóias-frias. Este primeiro capítulo, sem reconstruir uma história, procura pelo menos descrever como surgiram, trabalharam e se dividiram socialmente no lugar os tipos de sujeitos de quem o conhecimento da prática econômica e da posição na sociedade é importante aqui, na medida em que ajuda a explicar as suas crenças, os seus interesses e suas pequenas lutas de religião. 1. Os moradores caipiras Em direção ao Sul de Minas, Itapira é um dos limites da economia do café do primeiro oeste paulista6. Já um pouco onduladas, as terras do atual município podiam ser ainda aproveitadas para o café, o algodão e a cana. Elas ficavam quase além da margem direita do “roteiro do Anhanguera”, ao longo de onde houve sesmarias e povoados desde os primeiros anos do século XVII7. Ficavam também do lado oposto de um território paulista de vertiginoso 4 O viajante que descer aos bairros de baixo aprenderá depressa, em qualquer bar da esquina, que deve falar “Vila Ilse” ao invés de “Risca Faca” (nome no entanto ainda mais usado), e “Gente da Lavoura”, em lugar de “Bóia-fria” (que ninguém usa). O principal produtor direto da riqueza agrária do lugar precisa reclamar com freqüência contra os nomes com que os outros tratam a sua ocupação e o seu local de moradia. 5 A longa avenida que sai da cidade passa por uma das fábricas de papel e papelão e vai ao portão da U.N.S.A., chama-se Comendador Vergolino de Oliveira, o fazendeiro criador da grande usina. As duas vilas de residência da maior parte da “gente da lavoura” chama-se Ilse e Isaura, nomes de duas filhas do comendador. 6 Sobre os dois oestes paulistas da expansão do café, consultar Octávio Ianni (1976). O primeiro deles, do qual a região de Itapira pode ser considerada como um dos extremos em direção a Minas Gerais, teve a sua sede em Campinas. O segundo em Ribeirão Preto. 7 “É, portanto, a derrota seguida pelo Anhanguera em 1722 e de novo, agora, em 1726 que passa a atrair as atenções, tanto das autoridades quanto de particulares. E será esse caminho usado daí por diante, com a conseqüência – para a ocupação do solo hoje paulista – de se estabelecerem aí vários centros de irradiação ou frentes de povoamento no setor por ele percorrido: Mogi Guaçu e Mirim, Casa Branca, Batatais, Franca” (Mario Neme, 1974: 23).17 desenvolvimento agrário, após a incorporação do café à economia de mercado dos produtos da agricultura. Esta região vai de Mogi Mirim a Rio Claro, em direção aos campos de Araraquara e de Ribeirão Preto. As relações sociais de produção praticadas nas terras do atual município constituíram, primeiro, a relativa autonomia agrícola da pequena policultura caipira dos posseiros e proprietários que chegaram à região. Responderam, depois, pelo domínio de fazendeiros- coronéis sobre três tipos de produtores que os serviram sucessivamente: o escravo, o lavrador (inclusive o colono) e o proletário rural8. Os antigos e os atuais cronistas de Itapira costumam falar com mais detalhes sobre a cidade, depois da chegada dos primeiros senhores do café. No entanto, as notícias das primeiras doações de terras a leste de Mogi Mirim lembram que viveram ali, pelos bairros rurais, sítios e fazendas, “moradores” caipiras, camponeses posseiros de terras então doadas ou simplesmente ocupadas por produtores diretos de pequenas lavouras de subsistência ou de venda em mercados regionais9. A cidade originou-se possivelmente de um dos bairros rurais, o “dos Macucos”, cujos moradores teriam introduzido a cana, junto com as lavouras do sertão: milho, feijão, mandioca, fumo, mamona, algodão e arroz, sem nunca terem conseguido produzir, no entanto, uma economia efetiva para o grande mercado. As dimensões da economia e dos serviços políticos desta população primitiva de moradores camponeses não podem ser compreendidas com um exame restrito ao âmbito das trocas processadas dentro dos limites das próprias comunidades locais. Para todo o espaço pioneiro dos dois “oestes paulistas”, vale a lembrança de que as franjas camponesas de conquista de moradores caipiras, estabeleciam os limites entre as grande propriedades agrárias de produção mercantil e o sertão ainda inexplorado e que, a bem da verdade, foi conquistado mais pelo trabalho deste pioneiros de pé-no-chão, do que pelo dos audazes bandeirantes. Até os momentos de chegada dos senhores de escravos, a franja rústica de moradores e posseiros ocupava efetivamente porções de território da região e respondia à distância por dois desempenhos a serviço dos interesses da expansão do capitalismo agrário. Ela desenhava e mantinha, com os seus próprios recursos, um espaço de defesa entre a grande propriedade e o sertão, assumindo a tarefa de aniquilar os índios ou empurrá-los para mais adiante. Ela criava por antecipação, com o trabalho de derrubada de matas, queima de florestas e o preparo do solo, o espaço de produção das futuras lavouras do café, do algodão e da cana. 8 Entre os primeiros povoadores da região, haviam posseiros de sítios e de fazendas. Todos produziam, no entanto, como camponeses, ou seja, através do trabalho direto da família do proprietário, ou através de modalidades de trabalho voluntário e coletivo. Só depois da capitalização do setor agrário é que chegam a Itapira os primeiros fazendeiros-coronéis, formadores da elite agrária. São estes grandes proprietários de terras, senhores de grandes lavouras para mercado e apropriadores de força de trabalho, que se titulavam, tradicionalmente, como “coronéis” ou como “comendadores”. 9 Há notícias de doações de terras no atual município de Mogi Mirim desde pelo menos o ano de 1668. Há referências mais precisas a partir do ano de 1707. Assim, antes mesmo do estabelecimento do roteiro do Anhanguera em direção às minas de ouro de Goiás, houve sesmarias e moradores esparramados por toda a região da atual Mogiana (Mario Neme, 1974: 7). O primeiro documento de doação de terras na região 18 2. Os donos do café Foi sistematicamente dentro dos territórios antes trabalhados com as práticas militares, tecnológicas e econômicas das franjas camponesas, que as grandes fazendas foram sendo estabelecidas: a) sobre terras de sesmarias, quando o ingresso do capital na agricultura paulista tornou realizável a sua ocupação; b) através das compras de partes de sesmarias primitivas, quase nunca efetivamente ocupadas pelos seus posseiros anteriores, feitas pelos grandes fazendeiros; c) pela compra e/ou usurpação de pequenas propriedades contíguas, cujos donos ou posseiros não raro transformavam-se em trabalhadores agregados da nova fazenda, quando não migravam, para produzirem em outro sertão os mesmos serviços de pioneiros provisórios. Ao fazer o exame das relações de produção das antigas fazendas de café e de cana do município de Rio Claro, Warren Dean (1977:77) reúne uma série de observações que podem ser aplicadas também à Mogiana. No processo original de ocupação do território, os donatários das maiores sesmarias conservaram as melhores terras e empurraram os lavradores caipiras sertão adentro. Dado que as grandes lavouras de mercado eram muito predatórias, os grandes fazendeiros deslocavam continuamente as suas posses e os seus trabalhadores em direção aos espaços ocupados pela fronteira camponesa, formando-se então uma espécie de frente móvel de dupla ocupação. Ora, como estes sertões mais próximo ao avanço do café e da cana estavam sempre ocupados por posseiros caipiras, a “conquista” das fazendas era, de um modo ou de outro, um ato de expropriação. São também explicações conjunturais como estas, as que fornecem as razões para o predomínio da violência nas relações sociais como as que Maria Sylvia de Carvalho Franco encontrou e descreveu, no Vale do Paraíba (1969) e Duglas Teixeira Monteiro, na região do Contestado (1974)10. De forma diferente do que aconteceu em Campinas e em outras áreas do roteiro do Anhanguera, a antiga Penha do Rio do Peixe não formou de início lavouras de cana, produtoras de açúcar e aguardente em dimensão de grande mercado. No entanto, mesmo para as primeiras regiões de cana em São Paulo, é preciso não esquecer que o segundo surto açucareiro no país é dado a partir de 1880 e decorre da política oficial de incentivo aos engenhos centrais (Gnacarini, 1972: 122). A economia local passou da produção de policultura em escala de subsistência e mercado restrito, para o sistema característico das sociedades escravocratas do café. Foi de fato muito marcante o contraste entre a condição da sociedade camponesa anterior e a que em pouco tempo se instalou com a chegada do primeiro coronel e dono de escravos11. de Itapira data de 1716. Foram terras de sesmaria dadas a Manoel Pereira, o velho (Museu Histórico e Pedagógico Comendador Virgolino de Oliveira, doc. Datilografado, p.1). 10 O próprio Dean apresenta números que confirmam a tese do predomínio da violência na passagem das frentes pioneiras e, sobretudo, durante o período de fixação das grandes fazendas. No ano de 1835, a taxa de crimes para o estado de São Paulo foi de 32 em 1000. No mesmo período, em Rio Claro, ela atingiu 176 em 1000 (1977:36). 11 Um documento datado de 1864 e escrito por iniciativa do próprio primeiro fazendeiro-coronel dá a medida de como a elite agrária define as comunidades camponesas e defende os seus direitos. “A Camara Municipal da Villa da ... em Sessão de hoje resolvêo que se attestasse o/ o Suplicante João Baptistas de Araujo Cintra / seguinte – que em mil oitocentos e quarenta mudou-se para o Destricto désta Villa / que en/tão hera Curato tendo meia dúzia de casas insig/nificantes, e construidas de madeiras e, sem alinhamento, tendo elle já fortuna começou a influir/ o povo que applicava-se na criação de porcos, assim como para edificarem casas napovoa/ção, dando elle exemplo em construir casas de tai/pas, e de bom gosto de modo que o augmento da/ povoação foi rápido e por isso foi logo elevada / a Freguesia e mais depois em mil oito centos e cin/coenta e oito à 19 O ingresso do café representou também o estabelecimento local do trabalho servil, como produtor direto das riquezas da economia capitalista agrária. Tal como em outras regiões de São Paulo, o homem livre não foi inicialmente ocupado nas grandes lavouras de café. Mas a concorrência do escravo não eliminou da região o pequeno produtor camponês. Ele continuou trabalhando em suas terras, ou passou a ser um agregado meeiro de fazendas de café. De qualquer forma, o destino dos moradores caipiras foi redefinido. Parte da produção dos pequenos sítios e fazendas começou a ser dirigida à subsistência de moradores de uma cidade que cresceu depressa depois de 1842. Alguns dos seus proprietários arriscaram plantar também para o grande mercado e alguns poucos conheceram uma relativa prosperidade. Muito embora o interesse do capital determinasse a concentração da propriedade fundiária – a exemplo do que fez de saída o primeiro coronel do café – inúmeros sítios foram mantidos em toda a região, sobretudo onde o relevo do terreno tornava menos rentáveis as grandes lavouras12. Outros camponeses foram forçados ou preferiram vender as suas terras, quando não as tiveram usurpadas por grandes fazendeiros que, não raro, chegavam à região com títulos de proprietários nas mãos. Foram eles os que se incorporaram às grandes fazendas do café, como moradores, trabalhadores ou parceiros a quem ainda não se permitiu, durante algum tempo, a posse provisória de porções de terra para o plantio de lavouras de subsistência. Quando se afirma hoje em dia que as grandes fazendas paulistas do passado foram unidades quase autônomas de produção dos seus próprios recursos de alimentação, vestimenta e moradia, em boa medida é sobre o trabalho desses camponeses expropriados que se está falando13. Quando os escravos saíram em massa das fazendas, depois de 1888, os moradores caipiras trabalharam ao lado dos colonos que já haviam chegado a Itapira mesmo antes da Abolição. Depois de 1880, quando o valor do café e, logo depois, o da cana, tornou-se vantajoso o uso exclusivo de quase todas as terras para lavouras de mercado, esses camponeses começaram a ser expulsos das fazendas para a cidade. Voltariam a elas depois da quebra do café, primeiro como camaradas e, mais tarde, como trabalhadores volantes. Finalmente, alguns camponeses expropriados saíram da região, somando-se às levas de migrantes vindos de Minas Gerais, do Vale do Paraíba e de outras áreas anteriores do plantio do café. Desde anos posteriores a 1840, eles formaram parte Villa”. (Doc. Do Paço da Câmara Municipal da Villa da Penha, sessão de 6.11.1864, Museu Histórico e Pedagógico Comendador Virgolino de Oliveira). O Comendador chegou a Itapira para “abrir fazendas de café”. Por ocasião do documento transcrito acima, ele possuía na região: “trez fazendas com cultivo de café, com mais de cem escravos, várias casas de muito bom gosto nésta villa”. (Doc. 6.11.1864). 12 De um total de 646 proprietários cadastrados em 1970, 479 têm menos de 50 ha. e 343 têm menos de 20 ha. Por outro lado, 112 têm mais de 100 ha. e 19 são fazendas de mais de 500 ha. No ponto extremo da concentração fundiária, duas grandes propriedades totalizam 5.917 ha. (IBGE, Censo Agropecuário, São Paulo, vol. III, Tomo XVIII, 1ª parte). Grande parte das fazendas foram desmembradas e vendidas até mesmo aos colonos. Em 1937, era a seguinte a relação entre origem do produtor e número de propriedades: 605 fazendeiros e sitiantes nacionais concentravam 16.805 alqueires; 204 proprietários europeus – italianos em maioria, e mais alguns portugueses, sírios, alemães, austríacos – concentravam 3.106 alqueires. Cerca de 40% dos proprietários rurais de então haviam sido colonos. 13 Muito mais do que a cana, o café se associa ao cultivo das culturas tradicionais de subsistência: primeiro porque era plantado em grandes propriedade cujas florestas podiam ser derrubadas e usadas inicialmente para o plantio do milho, feijão, arroz, fumo e mandioca; segundo, porque entre as suas “ruas” o café pode ser consorciado com outras lavouras, prática, aliás, muito comum em toda a região no passado. Em 1910, houve notícias de uma primeira revolta de colonos contra um fazendeiro em Itapira, porque, ao contrário do que havia sido contratado, ele resolvera proibir a plantação consorciada de milho e feijão para o sustento das famílias dos colonos. (CI, 25.09.1910, nº 327, p. 2). 20 da franja de lavradores e de camponeses que antecederam a “marcha do café”, nos limites entre Araraquara e Ribeirão Preto. A partir de 1850, Itapira é um povoado próspero14. Quando ela já tinha constituído um perfil de vida urbana, antigos moradores dos sítios rurais mudaram-se para a periferia da cidade e, em muitos casos, também para o trabalho operário, formando, ao lado de antigos escravos e de colonos, sobretudo depois de 1890, um primeiro contingente de trabalhadores de fábricas, usinas e lavoura. O número deles aumentou depois do acesso da cana à posição de lavoura dominante e após modesto surto de transferência de capital agrário para a pequena indústria da região. As transformações econômicas e políticas durante o domínio do café e na passagem dele para o da cana, fizeram a história da diferenciação das relações de produção e das categorias de produtores, através de sucessivas desarticulações de sistemas do trabalho, da circulação e do consumo de bens e de serviços: da comunidade camponesa para a sociedade escravocrata do café; desta sociedade para a do trabalho livre sob o regime do colonato – coexistindo as duas em Itapira, por alguns anos; desta terceira para a do trabalho assalariado dos produtores volantes da cana de açúcar. 3. As invasões da cana Os colonos europeus chegaram a Itapira antes da entrada da cana e antes da saída dos escravos. Eles existiram nas fazendas de café e, sobretudo os italianos, chegaram a ser muito numerosos. Depois de 1888, as previsões de catástrofe econômica dos fazendeiros mais reacionários não foram confirmadas. A substituição do escravo pelo colono modificou em muito pouco a escala de ganhos das grandes fazendas. Foi exatamente o período de pós-abolição o que levou, pelo menos até cerca de 1925, a economia de Itapira aos seus melhores momentos. Neste sentido, a Mogiana acompanha a trajetória da economia paulista, cuja efetiva monetarização é posterior a 1880 e decorre do café (Gnacarini, 1972: 124). Passado este tempo de grande prosperidade, houve uma tríplice tendência na reaplicação do capital obtido com a comercialização do café: 1º) em uma diversificação de produtos agrícolas substitutivos, o algodão, a policultura de subsistência e, finalmente, a cana15; 2º) ainda no café, em novas lavouras dentro e em lavouras fora do município, em direção a Araraquara; 3º) na indústria local. 14 Em 1858 a Penha do Rio do Peixe foi desmembrada do Município de Mogi Mirim e em 1881, foi elevada a Cidade. Este foi o começo de um período de notável desenvolvimento. Em 1882 foi concluído o ramal ferroviário entre as duas cidades. Um dos acompanhantes da visita pastoral do Conde D. Nery, em 1910, escreveu depois em um dos jornais de Campinas palavras de raro entusiasmo sobre a riqueza e o crescimento da cidade. “Que Itapira é a primeiracidade de São Paulo sob muitos aspectos, é uma afirmação de grande verdade. E não é só para os que vem de Minas como acrescentam os espirituosos daquela terra. Para comprovar a importância desse centro de atividade, basta-nos a permanência de dois ou três dias ali, mercê de observações feitas a vol d‟ oiseau... O viajor que a contempla, avistando esse pinturesco agrupamento de casas, em forma de amphiteatro, admira-o desde logo e desde logo se lhe grava na retina a imagem admirável do burgo florescente” (O Mensageiro, 19.02.1911, nº 90, p. 2). 15 Até hoje a agricultura mercantil está concentrada sobre o café e a cana. Das lavouras de mercado apenas o algodão perdeu em muito a sua posição. De uma produção cujo valor total foi de Cr$ 154.811.601,00 em 1976, para o setor agrário, o café e a cana responderam juntos por Cr$ 129.338.401,00, sem contar com os rendimentos totais da agroindústria da Usina Nossa Senhora da Aparecida. Depois das duas lavouras dominantes, os produtos de maior rendimento são, pela ordem: laranja, milho, algodão, arroz, feijão. (UNICAMP, Centro de Computação). 21 Sempre houve plantações de cana no município. Por toda a parte ela era usada para a fabricação local de açúcar e de aguardente. Mas como um produto para o grande mercado, a cana invadiu Itapira a partir de 1920 e as modificações dos números a seu favor são apenas relativos. Não fosse a grande Usina Nossa Senhora da Aparecida e ela não seria até hoje senão o segundo produto da economia agrária, depois do café16. De qualquer modo a lavoura canavieira e a presença de agroindústrias no município e em toda a Mogiana redefiniram categorias de produtores e de relações entre eles. Poucos foram os que conseguiram fazer de suas fazendas e engenhos as grandes usinas de hoje, como o Comendador Virgolino de Oliveira, que os itapirenses mais velhos viram vendendo laranjas nas estradas de Itapira e, depois, “tocando engenho” por sua própria conta. Grande parte dos fazendeiros tornam-se fornecedores de cana para as usinas, sem abandonarem de todo, quando podiam, o plantio do café e do algodão. José César Gnacarini aponta efeitos da política protecionista do governo em favor das usinas, na exploração destas sobre os camponeses e fazendeiros, pequenos fornecedores de toda a região de Mogi Mirim (1972: 163). O café congregava no trabalho de uma mesma fazenda, ainda que produzindo serviços diferentes: o fazendeiro, o escravo, o colono, o morador parceiro e o camarada. Entre a Abolição e o tempo da cana, ele começou a expulsar os agregados e a incorporar maciçamente colonos no lugar dos escravos. No período da quebra empobreceu fazendeiros, dividiu as fazendas – inclusive entre colonos, transformados agora em sitiantes – e abriu novos lugares para o trabalho associado de camaradas, muitos deles já residentes na periferia da cidade. Nos posteriores a 1935 começam a aparecer, com freqüência, anúncios de fazendeiros oferecendo terras para o plantio do arroz em parceria, ou conclamando camaradas “a dois cruzeiros por dia”. Foram estes moradores da cidade e, também ainda trabalhadores da lavoura pagos ao dia, os que alguns anos mais tarde começaram a ser reconvocados “em turmas” para os trabalhos dos canaviais (plantio e corte), do café (colheita) e do algodão (plantio e “panha”). Depois do vertiginoso aumento dos tabuleiros de cana, de 1960 em diante, registraram-se três alterações nos números do destino dos trabalhadores diretos do setor agrário. Houve um discreto aumento na quantidade de sítios e de pequenas fazendas de até 50 ha. Eram 428 em 1950, e vinte anos depois, 534. No mesmo período, o número de produtores camponeses (“responsável” e “família”, segundo o IBGE) cresceu também muito pouco: de 1472 para 1865. Houve uma redução muito acentuada no número de “empregados permanentes”, muitos deles também antigos produtores parceiros das fazendas. Eles passaram de 5763 em 1950 para 2007 em 1970. Não tendo dados oficiais sobre eles a partir de 1970, mas a opinião de todas as pessoas com quem conversei é a de que, justamente depois deste ano, o número de trabalhadores mensalistas, sobretudo quando residentes nas fazendas, decresceu de modo mais vertical. Os mesmos informantes acreditam que alguns antigos camponeses proprietários de sítios, inúmeros lavradores-moradores nas fazendas do município e em fazendas de outras áreas de São Paulo e de Minas Gerais, transformaram-se nos lavradores-volantes de hoje em dia. A formação de um contingente grande e geometricamente crescente de bóias-frias é a 16 Para o ano de 1976, o valor de produção do café foi de Cr$ 74.100.001,00 e o da cana de Cr$ 55.238.400,00 (UNICAMP, Centro de Computação). Mas a variação de quantidade de um e outro produtos é muito significativa. Em 1950, o município produziu 4.619 ton. de café; em 1970, 3.967 ton. e em 1976, 49.400 sacas. Por outro lado, a produção de cana foi de 37.146 ton. em 1950; 246.146 ton. em 1970 e de 480.000 ton. em 1976 (Dados do IBGE para 1950 e 1970; dados da UNICAMP para 1976). 22 terceira variação ocorrida, depois da cana, na constituição de categorias de produtores do trabalho agrário. No entanto, nem todos os volantes trabalham hoje em dia em fazendas de Itapira. Sob o comando de “turmeiros”, são diariamente enviados a lavouras de outros municípios da Mogiana e mesmo de mais longe, como Campinas. Nos bairros de Vila Ilse e Vila Isaura, a cidade concentra hoje em dia um dos maiores reservatórios regionais de mão-de-obra para a lavoura17. 4. As gentes do lugar Para constituir diferenças entre sujeitos e mundos de Itapira, úteis aos capítulos seguintes, nada melhor do que opor a visão de um velho morador de fazenda, benzedor conhecido e cantador de danças de São Gonçalo, à petição feita um dia à Câmara Municipal, em nome dos interesses do Comendador João Baptista de Araújo Cintra. O velho Luís Laia até hoje se esconde na fazenda. Veio pouco “no comércio”, viu e ouviu coisas tenebrosas. “No Risca-Faca é só facada”, coisa que a gente de lá nega: “teve muita sim, mas é coisa do passado”. Talvez elas não tenham sido mesmo tantas quantas as que deveriam ter trocado entre si os caipiras de muitos anos atrás – coisa que os mais velhos também negam, contra pelo menos o testemunho de Saint-Hilaire (1954) e o de alguns autos judiciários em Mogi Mirim. O fato é que tendo nascido e trabalhado muitos anos depois da chegada dos fazendeiros do café, o velho guarda a memória “daqueles tempos” com imagens de camponês: as relações entre iguais à margem dos grandes; as trocas solidárias e um mundo em “boa ordem”. No mais “muita fartura, mantimento para todos, terra farta, sem precisão de adubo nenhum, muito respeito e a boa vontade de Deus por cima de tudo”. Este modo de representar o passado precisará ser retomado aqui, quando for feito o estudo da ideologia do catolicismo popular. Mas o exemplo de um velho lavrador que nunca foi sequer um pequeno sitiante, serve para a lembrança de que entre os moradores da cidade e os camponeses ainda ativos, todos os que viveram dentro dos espaços protegidos das comunidades caipiras guardam do seu tempo a idéia de uma sociedade definida como, ao mesmo tempo, perdida e desejada. Elas eram as que existiam, únicas no lugar, quando o Comendador Cintra chegou, vindo de Atibaia. Ele pretendeu tirar os camponeses caipiras “dos seus porcos”; procurou ensinar-lhes a plantar café na região, não sem antes formar três fazendas para o trabalho dos seus escravos; deu-lhes depois uma cadeia, uma igreja matriz e a primeira casa de taipas no lugar. Mais tarde,17 Em um estudo sobre o fluxo de mão-de-obra volante na região da Mogiana, o sociólogo Norberto F. Marques oferece dados reveladores sobre a situação de Itapira. Enquanto enviava, em 1976, uma média de 22 caminhões “de turma” para fora do município, recebia apenas uma média de 3, vindo s de outros. Dos municípios estudados, 4 enviam mais “turmas” do que recebem: Limeira, Pinhal, Mogi Guaçu e Itapira. Com uma diferença negativa média de 19 “turmas”, Itapira é, sem concorrente próximo, o município de toda a região que mais envia grupos diários de volantes. “Turmas” de Itapira são regularmente enviadas, segundo o mesmo estudo, para Mogi Mirim, Mogi Guaçu, Pinhal, Araras e Piracicaba. Com informações de bóias-frias e turmeiros da Vila Ilse, posso acrescentar os municípios de Campinas, Jaguariuna, Aguaí, Guaxupé, São João da Boa Vista e Santo Antônio da Posse. Em direção oposta, 8 municípios pesquisados recebem mais turmas do que enviam: Mogi Mirim, Santo Antônio da Posse, Águas de Lindóia, Paulínia, Jaguariuna, Campinas, Piracicaba e São João da Boa Vista (Norberto F. Marques, 1977:79 a 85). 23 exigiu da Câmara o atestado de tudo isso. Sem meias medidas separa um mundo camponês do seu. Encontrou, quando chegou, “meia dúzia de casas insignificantes, e construídas de madeiras, e sem alinhamento”. “Tendo elle já fortuna começou a influir o povo que applicava-se na criação de porcos, para a cultura do café”. De um só vez trouxe o capital, o café e os escravos, além das idéias de uma sociedade onde essas coisas se misturavam para produzir novos donos e uma nova ordem que servia para incorporar as comunidades camponesas ao mundo dos coronéis. A declaração do seus atos era a de quem tomou conta do lugar e lutou para transformar, segundo o seu modelo, os seus moradores. Estes serviços e esforços do Supplicante em promover a prosperidade pública são geralmente conhecidos, bem como o seu gênio creador, e bem fazejo, gozando por conseguinte de estima geral não só nesta Villa como por onde é conhecido: possue trez fazendas com cultura de café, com mais de cem escravos, várias casas de muito bom gosto nesta Villa. Seu comportamento civil e moral é digno de ser imitado. (Paço da Câmara Municipal, ata da sessão extraordinária de 6.11.1864)18. A consulta deste e de outros documentos, assim como a fala dos fazendeiros que reproduzem, com as palavras de hoje, a mesma ideologia dos grandes senhores regionais do passado, não escondem: a) o reconhecimento do atraso e da marginalidade do trabalho e da cultura dos camponeses caipiras; b) o reconhecimento das expropriações exercidas sobre ambos, como sinais dos direitos e do poder do capital e dos seus detentores. Ao falar do trabalho e das relações entre tipos locais de produtores agrários, procurei compreender a sociedade camponesa como uma fração primitiva e uma frente pioneira de penetração da economia capitalista na região. Ela não foi, portanto, em momento algum, uma porção escondida entre morros, de terras e de gente à margem da agricultura mercantil. Nunca foi também uma espécie de sociedade residual, como a de uma gente pobre que permanece e obtém, sobre a decadência de momentos da economia capitalista agrária, retornos ao rústico e à subsistência. É preciso insistir que, em toda a região da Mogiana, pequenos proprietários e posseiros viveram e trabalharam durante 120 anos pelo menos, até quando todo o seu território de trocas foi invadido pela grande fazenda. Ali, eles constituíram, sob o domínio à distância dos poderosos da Colônia e do Império, uma ordem social relativamente autônoma, com sistemas próprios de ideologia e de religião. Sobre este mundo caipira anterior, a presença de grandes fazendeiros migrantes atualizou relações de domínio, a começar pelo fato de que ela redefiniu posses e usos da terra e de outros meios de produção. As dimensões do mundo de trabalho do fazendeiro do café são as do mercado externo. Por isso, desde os primeiros, todos estarão 18 Quem redigiu a petição foi um parente do “Suplicante”, o então secretário da Câmara Municipal José Augusto de Araújo Cintra. Hoje em dia a memória burguesa da cidade separa, a seu modo, a iniciativa e a genialidade capitalista dos coronéis do passado, da “basbaquice” dos caipiras primitivos. No artigo em que reproduziu a petição de Araújo Cintra à Câmara, o colunista diz o seguinte, após lembrar nomes ilustres citados todos os anos na comemoração “da data errada da fundação de Itapira”: “São citados em seguida três nomes: João Gonçalves de Moraes, Manoel Pereira da Silva e João Baptista de Araújo Cintra, o primeiro figurando como homem rico, proprietário de vasta área de terras, mas pessoa simples, de „poucas luzes‟, quer dizer, sem instrução; o segundo, este bem mais esperto, atilado, atuando como intermediário do primeiro na doação para a igreja; e o terceiro aparecendo mais tarde da tímida história caipira, mostrando aos basbaques penheses como é que se plantava café, como é que se criava porcos, como é que se construía casas de taipa, como é que se enriqueci” (CI, 15.05.1977, p. 3). 24 unidos no esforço de trazer à Penha do Rio do Peixe um ramal da Estrada de Ferro. As dimensões do seu poder político são as do município e da região. Por isso a cidade subiu o morro e foi construída em pouco tempo, para logo depois estabelecer várias formas de rivalidade de elite com as outras, a começar por Mogi Mirim. Este poder foi disputado entre os grandes fazendeiros e envolvi sempre alianças forçadas com os camponeses. A verdade é que até hoje os pequenos centros de concentração camponesa – os bairros rurais, os distritos de Itapira – e de outros homens livres não-dominantes, são espaços de resistência à cidade e à ordem dos grandes proprietários. Os estudos de comunidade costumam deixar de lado o exame desta qualidade essencial, a de uma resistência política restrita, mas relativamente eficaz, ao domínio completo de uma classe sobre a outra. O aparente isolamento das sociedades camponesas, em áreas de refúgio e sob códigos de trocas originais, foi sempre uma estratégia de reconstrução e garantia de um mundo subjugado, mas parcialmente vivido e representado como próprio e autônomo. Quase todos os estudos sobre os sujeitos da agricultura no Brasil reafirma a existência de um respeito mútuo, do qual a própria violência seria um agente regulador, nos relacionamentos entre vizinhos, fazendeiros e sitiantes. Como se costuma dizer, o filho do fazendeiro não faria jamais com a filha do camponês, às vezes compadre de seu pai, o que ele fazia com as filhas dos escravos. Mas entre sujeitos que pareciam falar as mesmas regras de desempenho social e se respeitavam como pessoas, os grandes fazendeiros buscavam e detinham um domínio político sobre os sitiantes. De acordo com as leis da primeira república, eram eleitores somente os proprietários e, portanto, os camponeses sitiantes devem ter sido a maioria dos sujeitos rurais que elegiam a elite agrária. Eram de um outro tipo de relações de trabalho e de deferência entre os homens livres não-proprietários e dependentes da fazenda e os grandes fazendeiros. O empregado, o camarada, o agregado eram os produtores subalternos de serviços agrários especializados nas grandes lavouras, ou eram os pequenos agricultores das roças caipiras de produtos de subsistência. O fazendeiro vizinho de um sitiante cujas terras não conseguia comprar, era o mesmo que concedia ao lavrador, viver e plantar em uma porção das suas. Assim, o mundo deste homem livre não-proprietário foi o de uma, ou de várias fazendas de que era parte. De maneira nunca tão filial como às vezes se proclama,o morador da fazenda era um servidor político fiel ao fazendeiro, senhor das terras onde estava. Nos tempos de paz foi um produtor de alimentos, segundo os interesses de consumo ou de venda local, sob o controle do “dono”. Em tempos de guerra deveria ser um aliado militar de linha de frente ou de retaguarda. Como no restante do país, os grandes fazendeiros tinham interesses políticos sempre em jogo e, para pequenas vitórias, contavam com os serviços subalternos dos habitantes da fazenda19. Por outro lado, quando o delegado Joaquim Firmino foi assassinado em sua casa de Itapira, os 19 Muitos anos mais tarde, nas últimas eleições, um outro fato ilustra vestígios modernizados das relações coronelistas. O MDB conseguiu no município uma vitória esmagadora e elegeu pela primeira vez o prefeito (ARENA 3106 votos para o Senado, MDB, 9147; ARENA 3413 votos para deputado estadual, MDB, 6564). Para a Câmara local a ARENA fez oito vereadores e o MDB cinco. Um dos vitoriosos da ARENA é um dos “donos” da Usina Nossa Senhora da Aparecida. Ele obteve, sozinho, 4335 votos, cerca do dobro dos que conseguiram todos os candidatos do MDB juntos (2848) (UNICAMP, Centro de Documentação). 25 fazendeiros mandantes faziam-se acompanhar de seus empregados, moradores e alguns capangas. Os colonos chegaram às fazendas antes e depois da Abolição. Entre eles e os outros moradores delas houve sempre notáveis diferenças de ideologia e desempenho político. O trabalhador agregado, empregado direto ou indireto e morador “por favor”, compreendia o mundo desde a ótica da ordem da fazenda. Não encontrei sinais em Itapira de que no passado ele tenha, em algum momento, aparecido como uma classe organizada. Não encontrei também entre aqueles com quem conversei, uma fala sobre o seu mundo que não passasse pela do “patrão”. Os colonos aparecem como grupos étnicos – nunca deixarão de ser alemães, italianos ou espanhóis – e como uma classe: a dos colonos. Pouco tempo depois de chegados, fundaram associações e promoveram lutas políticas contra a prepotência dos fazendeiros. Depois de esgotadas as alternativas econômicas do colonato, raros foram os europeus que permaneceram nas fazendas, em situação semelhante à dos moradores agregados que, anos mais tarde, começaram a ser expulsos delas. Os colonos reaparecem no trabalho agrário como pequenos proprietários, os novos camponeses-sitiantes do lugar. Quando não conseguem comprar parte das terras de fazendas decadentes, ou não são chamados, como aconteceu algumas vezes, para o cargo de administradores de uma delas, migram para a cidade e para o trabalho urbano, na maioria dos casos, para as pequenas indústrias do lugar. Pouco tempo depois dessas transferências, surgiram em Itapira os movimentos de classe que, durante vários anos, conduziram as pequenas lutas locais dos operários. Os europeus não foram os seus principais condutores, mas também não ficaram ausentes delas20. Durante todo o período do café, o camarada antecedeu o trabalhador-volante da agricultura. Em conjunturas diferentes, os dois estiveram mergulhados em condições semelhantes de apropriação: estavam plenamente separados dos meios de produção, a não ser quando os primeiros puderam se manter, por algum tempo ainda, como lavradores meeiros das fazendas; foram cada vez mais migrantes rurais do trabalho agrário, saindo das fazendas e indo morar com as famílias na periferia da cidade. Juntamente com os operários das fábricas dos bairros “de baixo”, os camaradas começaram a povoar os espaços que viriam a ser depois invadidos pelos trabalhadores volantes. Entre esses dois tipos de produtores da lavoura houve diferenças importantes. Tanto os trabalhadores parceiros quanto os assalariados do passado tratavam os seus negócios diretamente com os fazendeiros; estabeleciam contratos pessoais de trocas de serviços com eles e, não raro, produziam para um deles, com garantias de uma relativa estabilidade. Por sua vez, o bóia-fria é uma fração da força de trabalho da “turma” de que ele faz parte. Está subordinado ao turmeiro e, com muita freqüência, não sabe sequer o nome do fazendeiro onde trabalhou durante algumas semanas. Um trabalhador-volante mantém, às vezes, uma relação de fidelidade para com o seu agenciador de serviços. Há uma consciência de “minha turma” que, 20 Notícias de jornal: “Os Comunistas de Itapira Pixaram a Cidade – quem julga que em Itapira não há comunistas está muito enganado. Há meia dúzia que seguem as ordens de Moscou. Como se sabe, não obstante o elevado número de proletários, o comunismo com ele não vinga...” (CI, 6.03.1949, p. 2). O operariado de Itapira, aliado a alguns representantes liberais e socialistas que surgiram na região depois de 1910, organizou-se em associações e sindicatos e participou das intensas lutas do período. No entanto, sempre a imprensa de elite procurou, como de costume, negar os interesses da classe e afirmar que todo o trabalho político e ideológico devia ser atribuído “a uma meia dúzia de desordeiros”. 26 nos casos das mais estáveis, chega a ser parte importante da vida de cada um. Há a consciência de uma classe que aos poucos se configura, livre de qualquer tipo de fidelidade política ou simbólica para com os grandes fazendeiros e aparentemente indiferente aos destinos das outras categorias de produtores agrários. Mas os bóias-frias não são ciganos das lavouras e das cidades, como pareceram a alguns dos seus observadores. Em Itapira, muitos deles moram em suas casas há mais de 15 anos e, em conjunto, eles souberam produzir nos seus bairros um mundo também próprio, sem quase qualquer vestígio dos símbolos camponeses. Na cidade, eles estão – durante os períodos em que não são “da turma” – entre os operários da usina e os das pequenas fábricas locais e de outras maiores, na região. Há um crescente trânsito entre estes operários agrários e os das indústrias. Muitas vezes um volante é, durante curtos períodos em um ano: um operário da construção civil, da prefeitura, de uma fábrica ou um sub-empregado. Afastados dos outros sujeitos sociais do trabalho agrário, os bóias-frias parecem querer constituir com os operários das fábricas, um mesmo mundo e os mesmos símbolos21. Nos capítulos seguintes vamos reencontrar os mesmos personagens – dos primeiros caipiras primitivos aos volantes – em “roupa de domingo”, ou seja, como participantes subalternos, dos sistemas religiosos populares ou eruditos que produziram e reproduzem um campo religioso, onde símbolos e lutas seculares recobrem-se dos nomes do sagrado. 21 Em 1970, de um total de 29399 pessoas ocupadas, 6712 trabalhavam na agricultura, com uma proporção aproximada de 5 homens para cada mulher; 3137 trabalhavam na indústria, com uma proporção de 9 homens para cada mulher, sendo que inúmeros homens e raríssimas mulheres eram operários de fábricas em outros municípios, sobretudo em Mogi Guaçu; 946 pessoas trabalhavam no comércio; 1533 em serviços urbanos, onde a proporção se inverte, com 2 mulheres para cada homem; 516 em transportes e comunicações; 802 em atividades sociais, 352 na administração pública e, finalmente, 549 em outras atividades. (IBGE, 1972, São Paulo). 27 1º Depoimento A MORTE DE JOAQUIM FIRMINO Afinal os moradores da cidade começaram a expressar abertamente as suas simpatias. A 23 de janeiro, uma multidão de mais de mil pessoas, acompanhadas de uma banda marcharam desde o Jardim Botânico até a casa do recém-nomeado delegado de polícia, Cláudioda Silva Braga, a fim de congratular-se com o mesmo por sua recusa em capturar fugitivos. Braga era também fazendeiro. No dia seguinte, apareceu na cidade um escravo trazendo grilhões, que foram arrebentados por um ferreiro. Em 1º de fevereiro, uma turba furiosa de cidadãos obrigou um fazendeiro a soltar um fugitivo que ele apanhara. (Warren Dean, 1977: 144). Menos de um mês depois das pressões do povo de Rio Claro e das homenagens dos abolicionistas ao seu delegado, uma multidão menor e menos festiva de gente da Penha do Rio do Peixe invadiu a casa do delegado e o assassinou. Joaquim Firmino de Araújo Cunha nasceu em Mogi Mirim em agosto de 1855. Estava em seu cargo na “Penha” há pouco tempo. Desde alguns anos antes de 1888 eram tensas as relações entre as duas cidades, por causa de uma intensa e crescente atividade abolicionista em Mogi. Antes mesmo de haver sido nomeado para Penha do Rio do Peixe, o delegado Firmino comprometeu-se com a causa da Abolição, da qual foi apenas um simpatizante, até presenciar um ato público em Amparo, que o teria entusiasmado a ponto de passar da simpatia à ação. Antes de vir para a cidade ele seria já um dos membros do Clube Abolicionista, cujos sócios faziam pregações públicas e proclamavam a necessidade de libertação dos escravos pelas páginas da Gazeta de Mogy Mirim. Não encontrei nos documentos do município registros de qualquer movimento abolicionista local. Diferentes informantes, entre eles dois cronistas da cidade, atribuem isso ao fato de que a elite agrária sempre foi ali muito mais reacionária e mais repressora do que a de qualquer outra cidade da região. Na verdade, chama a atenção a unanimidade de opinião dos moradores de Itapira a respeito do domínio opressor e do estreito reacionarismo dos donos do poder local. As pessoas que várias vezes me falaram sobre isso não eram os velhos colonos ou os bóias-frias dos bairros “de baixo”. Eram a “gente de cima”, os homens e as mulheres letrados da pequena burguesia. Por outro lado, em cidades da vizinhança, não encontrei, com a mesma regularidade, julgamentos semelhantes a respeito dos seus fazendeiros-coronéis. Teria o caso do delegado Firmino contribuído para testemunhos atuais tão ambivalentes sobre os grandes fazendeiros do passado, vistos como benfeitores quando construíam igrejas e como opressores sangüinários quando cuidavam de repor, com os seus próprios atos, a ordem de seu mundo? Desde 1887 Joaquim Firmino começou a ser acusado de não perseguir os escravos fugitivos. Pior, ele foi acusado de prestar auxílio ostensivo à fuga de negros, ocultando-os nos porões de sua casa até poder encaminhá-los com segurança a Mogi Mirim ou a São Paulo, onde Antônio Bento de Sousa Castelo os remetia ao Quilombo do Cubatão (Alto da Serra) (Raimundo de Moraes, apud Jácomo Mandato, 1959: 48/49). A própria indicação de um mogiano abolicionista já havia irritado profundamente a elite agrária, não acostumada até então a ter opositores dos seus interesses em postos de poder intermediário. 28 Em fevereiro de 1888 um grupo de grandes fazendeiros, donos de escravos, promoveu uma reunião secreta onde eles resolveram exercer uma punição exemplar sobre o delegado, de tal sorte que tanto ele quanto outro qualquer abolicionista moderasse os seus atos e perdesse a coragem de prestar ajuda a negros fugidos. A idéia original teria sido a de “dar um susto” no delegado, com um espancamento furioso, festivo e controlado. No dia 11 de fevereiro, por volta de 4 horas da madrugada, uma turba entre 40 e 300 pessoas – o número é discutido até hoje – armados de facões de mato, pistolas e espingardas, reuniu fazendeiros, agregados, administradores de fazenda e alguns capangas em uma das praças da cidade. Dali a pequena multidão marchou em silêncio até a casa do delegado, em uma das ruas mais centrais da Penha. Chegando lá, um dos comparsas bateu à porta e respondeu à esposa de Joaquim Firmino que era gente “de paz” e que precisa falar com o delegado, com urgência. Quando o dono abriu a porta da casa foi empurrado a socos e pontapés. Em um dos depoimentos do processo movido contra os assassinos, foi dito que o delegado se recolocou de pé e gritou: “vocês o que querem é matar-me? Pois matem-me, aqui estou!” Ele procurou ainda proteger a família e, depois, tentou fugir para o quintal, após haver gritado para a mulher e a filha que fugissem. A mulher caiu de joelhos diante dos invasores e suplicou por misericórdia para o marido. Foi chutada para o lado e, na queda, quebrou um braço e algumas costelas. Mais tarde, nos seus depoimentos em juízo, não soube reconhecer os assassinos diretos do marido, mas dentro do grupo identificou um seu sobrinho e um primo irmão22. Também a filha de Joaquim Firmino pediu clemência para o pai e foi agredida. Tudo teria sido feito com a casa às escuras23. O delegado correu para os fundos e saltou uma janela em direção ao quintal. Feriu-se na queda. Teve ainda tempo de se esconder dentro de um grande forno caipira. Foi descoberto e arrancada de lá à força. Foi então atirado e espancado até a morte. Depois de morto, o Dr. James Ox Warne atacou o corpo a esporadas, colocou-o sobre uma cadeira, assentado, quebrou-lhe o pescoço, voltou-lhe a cabeça para as costas e perguntou aos comparsas: “vocês já viram um homem nessa posição?” (O processo da Penha, apud Mandato, 1959:50). A casa foi depois inteiramente depedrada e os objetos de maior valor, roubados. A relação deles, constante dos autos do processo, dá conta de um homem de poucas posses. 22 O Processo da Penha, artigos do Dr. Brasílio Machado, advogado de defesa dos acusados do 11 de fevereiro. Depoimento de Valeriana de Albuquerque Cunha, esposa do delegado Firmino. Apud Mandato, 1959: 49). 23 Um articulista da Revista Ilustrada descreveu da seguinte maneira o assassinato: “Uma turba de sicários em número de 300 invadio no dia 11 às 4 horas da madrugada, a casa do Delegado Joaquim Firmino de Araújo Cunha, assassinando-o covardemente. A esposa do infeliz ajoelhando-se para implorar misericórdia, foi muito maltratada, ficando com um braço e as costelas partidas. Uma filhinha da victima, que se ajoelhara aos pés dos sicários suplicando a vida do pae, foi repelida com um pontapé! Brada aos céus tanta ferocidade!” (Revista Ilustrada, 18.02.1888, nº 485). 29 Na manhã do mesmo dia a notícia chegou a Mogi Mirim, onde houve espanto e revolta. Deixo que a crônica do tempo narre os fatos. Filho desta cidade, não consentiu o povo mogyano que o seu corpo fosse dado à sepultura no mesmo theatro em que se deu a scena infamante e covarde. Uma subscrição popular, aberta pelo patriótico cidadão italiano, Sr. Alexandre Scuvero, coadjuvado por outras pessoas, com o fim de transportar o cadáver da victima em trem especial para esta cidade, encontrou no povo franco e sincero apoio. Dentro de poucas horas 371$000 foram angariados para esse fim” (Gazeta de Mogy Mirim, 20.02.1888, p. 2)24. 24 A notícia prossegue: “Pelo trem das 6 e 5 da tarde seguiram diversos amigos do morto para a Penha do Rio do Peixe, afim de, às 8 da noite, regressarem com o cadáver. A chegada do trem àquella cidade achava-se a estação completamente cheia de povo, estando os ânimos n‟uma exaltação indiscptível. Os nomes dos indigitados assassinos eram pronunciados pelo povo em altas vozes, sem subterfúgios nem meios termos! Da estação seguiram todos em grande massa para a residência do infeliz moço. Na rua do Comércio chamaram-me a attenção para as muitas balas que achavam-se cravadas nas portas, janellas e paredesdos diversos edifícios!... À porta da câmara mortuária uma massa enorme de povo aguardava a sahida do féretro. A demora foi pequena, de minutos apenas. Partiu o préstito para a estação. Ahí chegados, encheram-se os vagons de famílias e amigos do morto que vinham acompanhá-lo até esta cidade. Às 8 ½ da noite aqui chegou o especial que era esperado por cerca de mil pessoas! Por entre duas alas imensas, illuminado pelo pálido clarão dos archotes, seguido de uma banda de música que executava uma marcha fúnebre, e precedido de uma compacta massa de povo, seguiu o corpo até a igreja do Carmo, onde ficou depositado para descer à sepultura no dia seguinte. Domingo, às 9 horas da manhã, foi o corpo de Joaquim Firmino transportado d‟aquella igreja para a do Rozário em cujo cemitério dorme elle o somno eterno” (Gazeta de Mogy Mirim, 20.02.1888, p. 3). 30 Poucos dias após a morte do delegado, um outro membro do Clube Abolicionista foi assassinado por um fazendeiro de Posse da Ressaca (distrito de Santo Antônio da Posse). A reação de Mogi Mirim foi então mais imediata e menos pacífica. A fazenda foi invadida e o seu proprietário foi justiçado. A morte violenta de Joaquim Firmino repercutiu em toda a Província e alguns abolicionistas da época manifestaram-se sobre o caso: Joaquim Nabuco, Bernardino de Campos, Rangel Pestana e José do Patrocínio. Algumas pessoas de Itapira dizem, hoje em dia, que “o sacrifício do delegado apressou a Abolição”. Na Assembléia Municipal de São Paulo foram nominalmente acusados pelo menos os seguintes mandantes do crime: Manoel Vicente de Araújo Cintra, José Avelino Gomes da Cunha, Manoel Bento Pereira da Silva e o Dr. James Ox Warne. Há também indicações de que o vigário da Penha entre 1886 e 1891, o padre Agostinho Gomes, estaria envolvido na trama (CI, 24.11.1974, p.2)25. Os nomes mencionados foram apenas estes, mas acredita-se que pelo menos 14 grandes fazendeiros da Penha do Rio do Peixe estiveram no comando do massacre. Rodrigues Alves, presidente da Província, mandou que uma força policial enviada de São Paulo desse voz de prisão aos acusados. Os “homens do 11 de fevereiro! Contrataram os serviços do Dr. Brasílio Machado, um abolicionista conhecido que resolveu mudar provisioriamente de bandeira sob promessas de um pagamento de “100 contos de réis” em caso de absolvição. Depois de um prolongado processo, todos os acusados foram absolvidos por falta de provas condenatórias. Sete dias depois do crime a Câmara Municipal da Penha do Rio do Peixe provocou uma sessão para tratar do assunto. O vereador Monteiro propôs o seguinte registro em ata: Proponho que esta Câmara mande lançar no livro de actas um voto de profundo pesar pelo acto de vandalismo praticado pelos assassinos e cúmplices de assassinato do invicto delegado Joaquim Firmino de Araújo Cunha na madrugada de 11 de fevereiro de 1888. Mas os registro aprovados em ata protegem a memória da sociedade, anotando a proposição vitoriosa do vereador Carneiro Gonçalves; Que a Câmara insira em Acta um voto de pesar pela morte violenta do delegado Joaquim Firmino e pelas desordens que se deram naquella ocasião (Livro de Actas da Câmara Municipal de Penha do Rio do Peixe, sessão de 18.02.1888). Os homens às vezes acreditam que, mudando os nomes, apagam os fatos. O intendente da Penha do Rio do Peixe insistiu junto ao presidente da Província para que fosse trocado o nome da cidade. No dia 1º de abril de 1894, foi oficialmente decretada a mudança do nome da cidade, de Penha do Rio do Peixe, para Itapira26. 25 As notícias sobre a morte de Joaquim Firmino deram muito trabalho aos itapirenses e não foram poucas as brigas, quando, muitos anos depois, rapazes da cidade eram chamados em outras de “11 de fevereiro”. Lembrando os 90 anos da Abolição e do assassinato, saiu uma reportagem de página inteira no Folha de Itapira. Ali era nomeados vários autores do crime (FI, 12.02.1978, p.3). No número seguinte do Cidade de Itapira sai uma considerações em torno de nota publicada sobre o „11 de fevereiro‟ em Itapira”, contestando a participação de alguns dos nomeados no crime. (Cidade de Itapira, 19.02.1978, p.2). 26 É o seguinte o texto do intendente: “Cidadão, tenho sido resolvido por acto vosso de 25 do corrente mez, que esta intendência justifique a conveniência da mudança do nome desta Cidade para o de Itapira, conforme anteriormente voz havia proposto, vem a mesma intendência declarar que julga conveniente 31 Capítulo 2 MEMÓRIA DO SAGRADO No ano de 1820, os moradores do Bairro dos Macucos deliberaram construir uma capela no morro ao lado e acima do Ribeirão da Penha, e transferir uma imagem de Nossa Senhora da casa de um deles para lá. A pequena santa era venerada desde algum tempo pela gente do lugar e, não raro, recebia, além de rezas, esmolas. Alguns anos antes, vários homens do bairro fizeram um adjutório e auxiliaram João Gonçalves de Moraes a construir a sua casa. Alguns anos depois, em nome da comunidade, Manoel Pereira da Silva convenceu o dono a doar a imagem e uma porção de terras no morro onde ficariam a capela e o seu patrimônio. Damos de esmola a dita Imagem de Nossa Senhora da Penha, e desde já desistimos e ao bem de nós toda a posse, jus e domínio que tínhamos nas ditas terras na pessoa de Manoel Pereira da Silva Protetor e procurador da dita imagem... fazemos não só por devoçam a dita imagem, como em remuneraçam de várias esmolas dos fiéis a dita Imagem e o adjutório que essa mudança, já por que assim substitue-se uma denominação longa, composta de diversas palavras, por um nome breve e euphonico, já por ser tristemente verdade que, em tempos ainda próximos, se deram nesta localidade lamentáveis acontecimentos, que echoando em todo o país e fora delle, provocarão a indignação geral, tornando execrado o nome de Penha do Rio do Peixe, que ainda hoje evoca esses acontecimentos. Por isso agora que esta localidade deseja esquecer esse triste passado e procura, sob o novo regimem político entrar em nova phase de prosperidade, julga esta intendência que interpreta ageral aspiração deste Município, propondo-vos a substituição do nome de Penha do Rio do Peixe pelo de Itapira com o que não visa outro bem senão o bem do Município...” (CI, 12.02.1978, p.2). 32 fizeram no levantamento de nossa casa de morada em atençam a mesma Senhora... e por não sabermos escrever (...) rogamos ao nosso Reverendo Capellam Antônio de Araújo Ferraz, que este por nós fizesse e eu somente me assino de cruz signal de que uso. (Cartório do 1º ofício, Mogi Mirim, Livro de Notas, nº 16, fls. 58 e 59) Todo o trabalho de construção do pequeno oratório foi feito pelos homens do bairro e, mesmo rústica, a capela demorou algum tempo para ficar pronta, entre o começo da derrubada do mato no local da obra e a procissão que conduziu a imagem de madeira da casa de João Gonçalves ao seu novo lugar de culto comunitário1. Tudo combinado a derrubada do matto teve início, de mão comum, na madrugada de 24 de outubro de 1820, continuando aos poucos, embora vagarosamente, porquanto era impossível àquella gente, quase toda pobre, dedicar todo o tempo ao piedoso afan, abandonando por completo as suas lavouras. (Caldeira, 1935: 52) 1. A religião dos camponeses Esse tipo de acordo entre homens e santos, onde comparecem donos de imagens, moradores caipiras de um bairro rural, um padre-capelãoe um bispo diocesano, marca a etapa final de uma trajetória corriqueira de concorrências entre santos de devoção, ao longo da qual um deles passa, aos poucos, de protetor de uma família a padroeiro preferencial da comunidade camponesa. Quando em 1952 o vigário da “Igreja da Penha” fez a contagem das capelas da paróquia, encontrou nada menos do que 46 delas, fora os pequenos oratórios votivos “de beira de estrada”. Entre os inúmeros locais caipiras de devoção católica – casas, grutas, cruzeiros, capelas, curvas de estrada – um deles tendia a ser o mais procurado, a exigir a festa anual mais concorrida, sob patrocínio dos moradores de mais posses e a se tornar, com o passar dos anos, o núcleo primitivo do lugar urbano da sociedade de fazendeiros capitalistas, assim como o espaço principal do culto católico, o da igreja matriz2. Os termos do documento de doação são o primeiro testemunho de um controle eclesiástico que determina a legitimidade católica de um lugar de culto camponês e prescreve, 1 Há dúvidas sobre as datas. No Álbum de Itapira (Caldeira, 1935: 52) a derrubada do mato teria começado a 24 de outubro de 1820 e a primeira missa inaugurou a capela em 19 de março de 1821. Escrevendo sob o pseudônimo de Eusébius Ignotus, o atual vigário de Nossa Senhora da Penha atrasa a conclusão da capela para 17 de março de 1824 (C.I., 06.10.1946, pg. 4). Depois de sua visita pastoral a Itapira, o bispo D. Nery fez as seguintes anotações: Em 1823, João Gonçalves de Morais, morador num bairro que pertencia ao território de Mogi-Mirim, nas divisas de Minas Gerais, era possuidor de uma imagem de Nossa Senhora da Penha, muito venerada pelos habitantes dos lugares vizinhos. Nesse anno, pois com o auxílio dos fiéis, resolveu elle erigir um oratório para aquella imagem, tendo obtido assentimento do bispo de S. P. D. Matheus de Abreu Pereira, em provisão de 23.09.1823. Em 1º de outubro desse anno, sob a direção de Manoel Pereira da Silva, começou-se a derrubada da mata que havia no lugar escolhido. ... Com o nome de Oratório de N. S. da Penha da Boa Vista, a pequena igreja ficou concluída: a 17 de março de 1824. A 19 deu-se a trasladação da imagem para ella no meio de grandes festas, celebrando a primeira missa o Pe. A. de Araújo Ferraz (Nery, 1911). 2 Dentre as capelas enumeradas pelo vigário: 9 era dedicadas a Santo Antônio, 6 a Nossa Senhora da Aparecida, 5 a São Sebastião, 4 a São José, 3 a São Roque, duas ao Divino Espírito Santo, à Santa Cruz, a São Joaquim, ao Bom Jesus da Cana Verde; uma , a vários outros santos, inclusive São Benedito, desde muitos anos o padroeiro de mais importante festa popular da Mogiana. 15 capelas ficavam em bairros rurais, 27 em fazendas e 4 em morros, retiros ou distritos. 33 na concessão de terras à santa através de seu procurador, as primeiras posses obtidas da comunidade para a Igreja3. O padre Araújo Ferraz foi indicado como “cura daquellas almas”. O bispo diocesano de São Paulo acolheu a petição dos moradores do Bairro dos Macucos e concedeu as licenças de funcionamento da capela em setembro de 1823, “exigindo, porém, que ao novo templo fosse doado o competente patrimônio” (Caldeira, 1935: 52). De acordo com o testemunho de Caldeira, o padre Ferraz era “Missionário de passagem por Mogy Myrim” (1935: 52). As crônicas da história católica de Itapira escrevem poucas referências sobre a religião dos sitiantes caipiras do passado. Elas costumam saltar da construção da capela de Nossa Senhora da Penha ao levantamento da nova igreja para a mesma santa, com o trabalho de escravos e de empregados do primeiro coronel do café em Itapira. No entanto, durante pouco mais de 120 anos, uma forma popular e relativamente autônoma de crença e de prática do religioso católico foi o sistema quase único de tocas entre a sociedade e o sagrado. Antes de haver a cidade e o coronel não havia também, na antiga Penha da Boa Vista, um catolicismo urbano, erudito e controlado de perto pelos agentes da Igreja oficial. Das agências católicas de centros regionais maiores eram enviados a Itapira dois tipos de emissários: o padre capelão, responsável à distância pelas “almas dos moradores”; o padre missionário, em passagens esporádicas para os fervorosos trabalhos das “santas missões”4. Além destas duas situações tradicionais de encontro, através das quais a Igreja vinha a Itapira, havia uma terceira, pela qual os moradores dos bairros e dos sítios de Itapira iam à Igreja: as romarias. Elas foram freqüentes desde meados do século XIX e algumas das pessoas a quem entrevistei orgulham-se de haverem ido entre vinte e trinta vezes a um dos três centros regionais de peregrinação mais procurados: o Santuário de Nossa Senhora da Aparecida e, como menor importância, os de Pirapora do Bom Jesus e de Bom Jesus dos Perdões. As visitas em desobrigação do capelão, as passagens rápidas e espaçadas dos padres missionários e as visitas de romaria fechavam todo o ciclo de momentos em que os camponeses escutavam da Igreja a sua doutrina e recebiam dela alguns dos seus sacramentos. 3 A licença diocesana foi concedida em setembro de 1823, “exigindo (o bispo) porém que ao novo templo fosse doado o competente patrimônio” (Caldeira, 1935:52). A doação de terras para ordens religiosas, santos padroeiros ou agentes eclesiásticos era prevista e, às vezes, dificultada, desde os documentos mais antigos de posse na região: ... E possua como coisa própria tanto elle como todos os seus herdeiros descendentes e ascendentes sem pensão nem tributo algum mais que o dízimo a Deus Nosso Senhor dos fructos que della tiver... e passando as ditas terras a pessoas eclesiásticas pagarão delas dízimos e todos os mais encargos que o dito senhor lhe quiser impor; e outrossim não poderão nellas suceder religiões por nenhum tributo e acontecendo possui-las pagarão dízimos como se fossem possuídas por pessoas seculares... (Concessão de Sesmaria ao Sargento-mor Manoel Gonçalves de Aguiar, dada na Praça de Santos em 1728 – Registro de Sesmarias – Repartição do Archivo e Estatística do Estado de São Paulo, apud Caldeira, 1935: 49). 4 As passagens de missionários e as vibrantes pregações das “santas missões” são anunciadas e comentadas pelos jornais até pelos menos o ano de 1958. No entanto, o trabalho missionário dos padres redentoristas é praticado até hoje no interior de São Paulo. Os missionários eram sacerdotes do clero regular e associavam, a uma intensa atualização da comunidade aos sacramentos da Igreja, uma fervorosa pregação ético-religiosa. Às vezes, alguns deles tendiam a serem vistos pelo povo como verdadeiros “homens santos”. Até hoje, quando o camponês recorda uma Igreja quente, no passado, sacudida da rotina e de um morno ritualismo latino, ele faz memória das passagens de missionários pelos bairros, ou dos que encontrou nas viagens de devoção que fez aos locais de grandes romarias. Por sua vez, desde o primeiro, os padres capelães eram funcionários visitadores, de presença esporádica e prática ritualista entre os seus “fregueses”. 34 Praticamente isolada em uma fronteira de trabalho e de cultura de camponeses, a religião dos caipiras que encontramos plantando milho e mandioca no primeiro capítulo, reunia todos os atributos de um sistema religioso católico que, nos estudos atuais sobre o assunto, aparece adjetivado como: popular, rural, tradicional, rústico, privatizado ou “de folk”5. Logo de saída, é preciso que duas idéias nem sempre aceitas a respeito dessa religião de camponeses de uma sociedade agrária anterior à capitalização do campo em São Paulo, sejam propostasaqui. Em primeiro lugar, ela não era um aglomerado pitoresco de crendices e de práticas mágico-religiosas, mas, ao contrário, constituía um sistema coerente e complexo – possivelmente mais do que o do próprio catolicismo erudito – de crenças e práticas do sagrado, combinadas com agentes e trocas de serviços. Em segundo lugar, ela não foi uma criação religiosa exclusiva e isolada dentro de uma cultura camponesa, mas, ao contrário, retraduziu para a sociedade caipira dependente, segundo os seus termos, o conhecimento e a prática erudita da religião dominante. Para produzir tipos de serviços de valor simbólico muito variados, o catolicismo popular da região articulava-se através de trocas entre categorias de leigos e categorias de especialistas religiosos, cujas funções, domínio e conhecimento do sagrado estavam codificados, eram socialmente definidos com precisão e marcavam as diferenças entre tipos de práticas devocionais e propiciatórias e tipos de agentes produtores. Boa parte das relações entre o fiel e o sujeito sagrado – divindade, santo padroeiro, santos específicos, almas de mortos, objetos de devoção – eram conduzidas por meio de trocas simples entre a pessoa e o santo. Rezas pessoais, fórmulas de pedido ou de evitação, obrigações cerimoniais, promessas, reconhecimento de resposta simbólica eficaz, são alguns exemplos. A possibilidade do exercício de inúmeras práticas religiosas feitas pelo leigo, sem o concurso de um especialista popular, correspondia ao fato de que parte da teoria e das regras do saber religioso eram do conhecimento de toda a comunidade camponesa. Práticas rituais coletivizadas exigiam a presença de um sujeito semi-especializado no âmbito familiar, por exemplo, como uma velha avó rezadeira de terço; ou exigiam o desempenho de um verdadeiro especialista. Ele poderia ser, então, um profissional popular da religião, remunerado pela comunidade por seus serviços. Seria também, com maior freqüência, um camponês que dividia o seu trabalho entre a produção terrena de bens de subsistência e a produção de serviços simbólicos. No primeiro caso estavam os curandeiros e benzedores, em geral profissionais de fronteira entre a medicina e a religião. No segundo, estavam todos os tipos de sacerdotes populares: os capelães (os primitivos responsáveis pela guarda e pelas cerimônias das capelas rústicas); os rezadores de terços, de ladainhas ou de outras sortes de rezas; os mestres-dirigentes de grupos rituais camponeses, como os das folias de Santos Reis ou das funções de São Gonçalo. Não raro, um especialista de renome ocupava várias funções, como por exemplo a de benzedor, de capelão-zelador e a de mestre de Folia. Ao lado destes produtores de serviços religiosos coletivos, o sistema incluía tipos de promotores populares das suas condições estabilizadas ou esporádicas de atualização, como os 5 Rústico, por exemplo, em Maria Isaura Pereira de Queiroz (1973: 72) e em Duglas Teixeira Monteiro (1974: 86); Tradicional – rural em Candido Procópio Ferreira de Camargo (1973: 78); Popular em Waldo Cezar, Riolando Azzi, Eduardo Hoornaert, Edênio Valle e outros (1976); Privatizado em Pedro de Assis Ribeiro de Oliveira (1978: 28); De folk em Ralph Della Cava (1977: 42 e 43). 35 donos de imagens de santos – algumas vezes responsáveis pela sua festa anual – os festeiros e os promesseiros obrigados a realizarem algum ritual coletivo como resposta a um “voto valido”6. Não foram comuns em toda a região os eremitas e os santos beatos. Mas um deles podia aparecer de tempos em tempos e, por um período sempre não muito longo, convertia-se em um dos agentes populares, carismáticos e milagreiros, mas nunca contestadores ou milenaristas. Fora os contatos impostos ou procurados com os emissários da Igreja Católica, o catolicismo caipira da região emergia do seu ritualismo cotidiano procurando ou produzindo espaços ou sujeitos sagrados de credibilidade ou de culto especiais: o lugar santo – o morro, a gruta, o local de pequena e breve moradia, onde são acreditados acontecimentos religiosos extraordinários; ou o santo do lugar – o beato, a “santinha”, o pequeno milagreiro carismático de roça. Ao longo do ciclo camponês de trabalho e de devoção, o catolicismo popular funcionava mais ou menos à margem de um controle da Igreja repressor e, até a chegada do primeiro vigário, esporádico. No seu todo, ele era socialmente acreditado como eficaz e podia dispensar o desempenho do padre, a não ser para o caso dos sacramentos que por significarem, na ideologia sócio-religiosa do caipira, alterações relevantes na posição social, eram aceitos sem restrições e até mesmo requisitados com insistência: o batismo (ritual do ingresso na sociedade dos vivos), o casamento (ritual de mudança pessoal na sociedade), a encomenda de defuntos (ritual de ingresso na sociedade dos mortos)7. No entanto, todo o trabalho religioso do padre na sociedade camponesa fazia as vezes de cerimônias e ensino de valor complementar, sobrepostos a um sistema de saber e de prática populares quase autônomo, uma vez constituído. Por outro lado, como forma de conhecimento religioso, o catolicismo dos camponeses primitivos de Itapira não era uma invenção isolada e original, criada sobre valores exclusivos de uma imaginável cultura caipira. Ele combinava componentes do sistema simbólico camponês – visão do mundo, ideologia religiosa, códigos de trocas familiares e sociais – com elementos mais ou menos fragmentados da História Sagrada, da doutrina e das regras de prática devocional da Igreja Católica. Reforço aqui esta idéia, à qual voltarei em outros capítulos, porque normalmente estudos sobre a religião popular enfatizam as suas oposições diante da religião erudita, a ponto 6 É preciso insistir em que, dentro do sistema muito rico e muito diferenciado do catolicismo popular, às vezes um mesmo agente religioso ocupava simultaneamente diversas posições. Um “dono de imagem” podia ser um festeiro anual de seu padroeiro, um rezador de terço, um capelão do santo e até mesmo um mestre-dirigente de um grupo ritual. Um tipo assim de polivalência religiosa estava muitas vezes ligado a um compromisso de vida, através de um contrato pessoal de trocas recíprocas de obrigações e favores. 7 Estas observações conferem com as de Laís Mourão Sá (1974: 126) que, entretanto, parece não registrar para o casamento religioso entre os camponeses do Maranhão a mesma importância que encontrei para os da Mogiana. Dentre os outros sacramentos, a confissão e a comunhão eram usados por mulheres e evitados pelos homens, sobretudo depois de adultos e casados. A crisma era praticamente desconhecida e, até hoje, o homem do povo não sabe para o que ela serve. Por outro lado, as observações concordam também com o que Duglas Teixeira descreve para o passado da região do Contestado (Monteiro, 1974: 86). De modo geral, o camponês reservava muito pouca importância à “religião do padre” e, fora alguma missa que servia para legitimar e solenizar festas de bairros, e os sacramentos de valor social, ele dispensaria de bom grado o desempenho do sacerdote oficial. Em algumas áreas paulistas de menor desintegração da cultura caipira, existem até hoje, vivas, formas eminentemente populares de batizado e de encomenda de almas aos mortos. 36 de fazerem do catolicismo rústico um sistema autônomo, ou um sistema desvirtuado frente à religião da Igreja, tomada como modelo de referência. A autonomia relativa da religião dos camponeses pressupunha a sua relativa dependência diante do controle da Igreja oficial. O padre missionárioe o padre capelão eram reconhecidos pelos moradores dos sítios e bairros como emissários de uma agência dominadora e, sob certos aspectos, hostil. No entanto, mesmo quando eles eram desacreditados como pessoas, nunca deixavam de ser considerados como os produtores mais legítimos dos serviços do sagrado, enquanto agentes religiosos da Igreja. De outra parte, o saber religioso do especialista popular era, sob muitos aspectos, uma retradução, ao alcance da cultura camponesa, do monopólio de saber do sacerdote erudito. Ouvindo e aprendendo com padre e com missionários, no seu bairro ou nas cidades de romaria, o capelão, o rezador e outros agentes locais acumulavam um saber doutrinário e um repertório de práticas rituais que traziam o catolicismo romano para dentro da fazenda, do sítio ou da comunidade. Até mesmo nas cerimônias coletivas mais aparentemente folclorizadas – e das quais uma vocação equivocada de pesquisa acostumou-se a perceber apenas o “folclórico” – os momentos mais essenciais e mais religiosamente motivados são, até hoje, as rezas de terços, as formas de bênçãos, as orações e as ladainhas onde, nos exemplos melhor conservados, não falta sequer o latim que a própria Igreja oficial abandonou. Tudo isso foi aprendido um dia por especialistas caipiras e, depois, passado de uns aos outros. Algumas vezes um capelão ou rezador migrado da cidade para o bairro rural fora antes um auxiliar leigo do sacerdote: um coroinha, quando menino, ou um sacristão, quando adulto. Em casos ainda mais raros, um rezador popular semi-letrado aprendeu parte de sua doutrina em colégios católicos, ou mesmo em um seminário menor8. Neste capítulo ainda e em outros mais à frente, veremos como o que conduzia a identidade da religião rústica dos moradores caipiras dos sítios e bairros, era a formação e a reprodução de uma ordem religiosa derivada, mas ativamente tornada própria e comunitária, através da garantia de uma autonomia relativa frente ao exercício crescente do controle religioso da Igreja Católica. Esta é também a história da expropriação e da resistência de uma religião de camponeses, sob o domínio daquela que os fazendeiros-coronéis importaram para a região, juntamente com os seus escravos, dinheiro, interesses e padres. 2. A Igreja dos Fazendeiros A edificação de uma capela de povoado fez intensificarem-se os intercâmbios entre a sociedade camponesa e a Igreja. Vimos que os moradores do lugar pediram ao bispo diocesano de São Paulo as devidas licenças eclesiásticas para os usos legais da capela de Nossa Senhora da Penha. O bispo atendeu ao pedido, exigiu a doação do patrimônio e nomeou um primeiro 8 Laís Mourão Sá enfatiza a diferença de aprendizagem e de docência entre o rezador e o padre (Sá, 1974: 126). Creio que uma ênfase em dois tipos opostos de aquisição do saber do sagrado, respondendo em boa medida pelas diferenças entre o catolicismo popular e o erudito, faz parte das observações da maioria dos seus estudiosos sobre o assunto. No entanto, pelo menos para o caso específico de São Paulo, contatos de docência entre agentes da Igreja e agentes populares sempre existiram e foram crescentes, a partir de meados do século XIX. 37 padre capelão9. Estes atos de reconhecimento e de conquista ocorrem entre 1820 e 1824 e marcam uma nova etapa de domínio eclesiástico sobre a religião popular. Quando os moradores dos Macucos conseguiram uma primeira capela reconhecida e receberam um capelão da Igreja, trouxeram para dentro dos seus limites comunitários a ordem interna da agência religiosa ideológica e institucionalmente associada aos fazendeiros. Antes mesmo da chegada do primeiro grande fazendeiro capitalista, o pequeno oratório dos Macucos foi elevado à capela curada, no ano de 183510. Agora, com maior regularidade, o capelão emissário vinha ao bairro, oficiava missas e distribuía os sacramentos. Com maior regularidade também, parte do sustento do capelão curado era assumido pelos moradores, com os excedentes reservados pela comunidade caipira para os serviços religiosos da alçada do sacerdote erudito. Daí para a frente, para o controle dos destinos dos pagamentos pelos serviços prestados por agentes populares, ou pelo capelão curado, a comunidade camponesa e a Igreja Católica irão ampliar relações de conflito. Também aos olhos das autoridades seculares a serviço do estado, a religião e os lugares de culto caipiras eram considerados espaços de práticas ilegítimas, quando não moralmente condenáveis11. Sob os mais importantes aspectos, foi somente com a chegada de um padre residente, com a criação de uma paróquia da Igreja e com a aliança firmada entre fazendeiros e sacerdotes oficiais, que as autoridades seculares começaram a considerar a religião local como uma prática social respeitável. Pouco tempo depois de haver chegado a Itapira, o fazendeiro-comendador João Baptista de Araújo Cintra resolveu construir uma nova igreja para os cultos à imagem de Nossa Senhora da Penha. A nova igreja era agora “de taipa” e construída com o trabalho dos seus escravos e empregados, além de um notável investimento pessoal de “doze contos” (Caldeira, 1935: 53). Depois que a igreja, grande e digna de coronéis e comendadores, ficou pronta em 1857, foi transladada para lá a “gloriosa imagem da Virgem padroeira” (Caldeira, 1935: 54) e a pequena capela caipira foi demolida12. A partir de então, passou a existir a Paróquia de Nossa Senhora da 9 Entre este primeiro capelão curado de 1824 e o primeiro vigário de Nossa Senhora da Penha, houve cinco padres capelães não-residentes no Bairro dos Macucos, ou em Itapira. Eram padres que vinham algumas vezes por ano de Mogi-Mirim. 10 (A Capela de Nossa Senhora da Penha)... sendo Oratório, foi proclamada capela curada em junho p.p. deste ano, e por ser nova, não tem receita e despesa a ser suprida pelos fiéis até o presente. (Mapa de receita e despesa da fábrica da Igreja Matriz e mais freguesias e capelas do município de Mogi-Mirim, dados aos 23 de novembro de 1835 – Inventário dos Bens Religiosos e Confrarias 1833-1936, Depto. Do Arquivo do Estado de São Paulo). 11 ...Que mais ou menos existe em seu sítio distante desta villa (de Mogi Mirim) duas légoas e meia, no Bairro da Penha onde os Povos tem um Oratório, ou Capella de Senhora da Penha e sempre alli há concurso de moradores” ... “e porque existe um sargento sufficiente e morador, estabelecido no ditto Oratório, e este se tem encarregado o comando da ditta terceira Companhia, a qual participa-me em sua parte que remeto a V.Excia. a inobservância daquelle capitan para com as instroçoens, hé constante que o mesmo hé protetor dos barulhos naquele Oratório e sem se distinguir da plebe... (Carta de João Gonçalves Teixeira, capitão comandante interino ao Presidente da Província – 1 de maio de 1827, Depto. do Arquivo do Estado, maço referente a Mogi-Mirim). 12 A pequena história de trocas de amor e de abandono entre os trabalhadores rurais de Itapira e Nossa Senhora da Penha, é um precioso exemplo de expropriação devocional. Vimos que ela passou de imagem familiar venerada por vizinhos e moradores, a padroeira preferencial do Bairro dos Macucos. Assim, a ela o povo do lugar se dirigia como à “santa” de todos e em seu louvor eram feitas as festas centrais do calendário caipira. Sem a participação decisória dos moradores do bairro, um coronel-fazendeiro transferiu a imagem da capela caipira para a igreja matriz. Aos poucos os camponeses se afastaram de um símbolo religioso que, de 1857 em diante, passou a ser propriedade cada vez mais exclusiva dos cultos urbanosda elite agrária. Hoje em dia não há mais camponeses e são muito raros os moradores dos atuais 38 Penha, com um padre vigário residente. Foi tal o fervor religioso da elite agrária que, em dezembro de 1860, o bispo diocesano de São Paulo criou a Irmandade do Santíssimo Sacramento. Em maio de 1881, a edilidade local solicitou a elevação da vila à cidade, “sendo de justiça este seu desideratum pois possui ela uma boa matriz, uma excelente cadêa e casa de Câmara e uma população de mais de 7.000 almas” (Caldeira, 1935: 59). O padre vigário era o aliado religioso do coronel-fazendeiro. Chegou a Itapira com ele e o ajudou a construir o mundo do seu domínio. A serviço de senhores rurais e com a participação subalterna de funcionários burgueses, de comerciantes, de profissionais autônomos, de pequenos fazendeiros e de trabalhadores agrários e urbanos ligados à paróquia, o padre constituiu uma igreja local, romanizada e dominante – o outro lado, agora próximo, do catolicismo da época13. O discurso confessional desta Igreja, falado do púlpito ou escrito em documentos eclesiásticos, em anúncios de festas católicas ou em crônicas e notícias de jornais, proclamava o teor sacrossanto das relações de produção agrária introduzidas pelos fazendeiros do café, assim como o valor da reprodução de uma nova ordem social, finalmente estabelecida. Ao qualificar a sua própria condição atual, poucas instituições civis daqueles tempos atestavam com tanta veemência a grandeza e os direitos de uma pequena elite agrária enriquecida às pressas, como a Igreja Católica entre os anos de 1880 e 192014. As trocas mútuas de serviços preferenciais entre o padre e o grande fazendeiro eram públicas e diretas. O sacerdote que oferecia serviços religiosos às classes subalternas, estava politicamente a serviço da dominante. Nas sucessivas campanhas de construção ou de reforma da igreja matriz, esperava-se que os “cathólicos de bom coração” contribuíssem de alguma maneira. Ma dos coronéis-fazendeiros esperavam-se doações em dinheiro, material ou trabalho de escravos e empregados, dignas de notícias com destaque no jornal da semana, de placas de bronze e, às vezes, de alguma comenda. De sua parte, a elite agrária esperava que o padre vigário fosse o agente sempre ordeiro de uma Igreja em festa, capaz de criar, com inesquecíveis bairros de baixo na festa de Nossa Senhora da Penha, sem dúvida alguma, a mais desanimada no calendário de devoções anuais. A “Senhora da Penha” virou uma santa de almanaque; São Benedito, protetor de todos em Itapira, mas especialmente dos negros, é muito mais ruidosa e coletivamente festejado em sua capela construída sobre um terreno doado por um italiano. De sua parte, os camponeses retornaram aos seus santos, mais rurais e menos cobiçados pela “gente de cima”: São Gonçalo, Santo Antônio, São Sebastião, Nossa Senhora da Aparecida. 13 É importante lembrar que o clero secular da colônia era totalmente subordinado à Coroa, segundo os termos do Padroado Real, entre Roma e Lisboa. Os padres eram funcionários do rei a quem cabia decisões de escolha e destino, até mesmo de bispos. Com algumas variações esta prática continuou durante o Império e acabou por provocar conflitos institucionais entre a Igreja e o Estado. Na prática, em cidades como Itapira e durante muitos anos após a República, o clero secular dependia: a) de salários pagos pelas irmandades religiosas; b) de pagamento pela distribuição de bens de salvação; c) de esmola oferecidas pelos fiéis; d) de parte da renda obtida com as festas de santo; e) de grandes e esporádicas doações testamentárias (estas, mais comuns para as ordens religiosas) (ver Azzi, 1977: 284 e 285). 14 Alguns exemplo do modo como, em incontáveis ocasiões, a paróquia de Nossa Senhora da Penha, seus agentes e padres visitantes eram comentados por seu desempenho nos jornais: Na missa solene da festa fará o panegyrico do glorioso santo o illustradíssimo e considerado orador sacro... (C.I., 06.10.1910, nº 253, pg. 2); Estiveram verdadeiramente imponentes as solenidades com que o povo cathólico de Itapira honrou o glorioso martyr... (C.I., 27.01.1910, nº 259, pg.2); ... não terminaremos essas ligeiras notícias sem nos congratularmos com o nosso vigário padre Amorim Correia, pelo brilho e imponência de que se revestiram todas as solenidades, pela ordem e correção que se observaram em todas as procissões. (C.I., 31.03.1910, nº 276, pg.2). 39 rituais religiosos de rua (procissões, cortejos) ou de igreja (missas, novenas, Te Deuns), momentos solenes e solenizadores da nova ordem. Vimos no 1º depoimento que um padre estaria comprometido com a morte do delegado Joaquim Firmino. Desde todo este tempo e até a década de 70, em todas as questões trabalhistas que envolveram escravos, agregados, colonos, volantes e os fazendeiros, a Igreja regularmente não se manifestou em favor dos trabalhadores. Mudanças na qualidade de suas alianças de classe, são ainda o resultado do desempenho pessoal de dois vigários atuais e de raros leigos. A Igreja oficial, implantada como um dos setores de articulação da sociedade capitalista do café, alterou apenas externamente a ordem da religião camponesa. Ela atualizou em Itapira a presença da hierarquia católica a partir da fixação da residência de um padre vigário, o representante local do bispo. Ela deslocou relações de domínio e prestações esporádicas de serviços religiosos aos camponeses, para relações de aliança e ofertas rotineiras de serviços solenizados à sociedade dos fazendeiros. Ela apressou a transferência dos principais cultos públicos católicos, dos bairros caipiras e das capelas rústicas, para a cidade e a igreja matriz. Finalmente, ela multiplicou na cidade as associações laicas que, primeiro se somaram e, depois, substituíram as antigas irmandades religiosas15. A concorrência entre o padre e os agentes populares acentuou-se com a fixação de uma paróquia na cidade. A Igreja local em parte aceitava e reconhecia o sistema religioso popular, e procurava classificar os seus tipos de especialistas e de fiéis. Os sucessivos vigários não descuidavam em demarcar os limites entre o religioso necessário e respeitável, praticado no interior da ordem paroquial; e um religioso ilegítimo, ora próximo da magia profanadora, ora da pequena profecia subversiva, sob o domínio de leigos não totalmente submetidos. Ao atacar publicamente a religião popular, algumas vezes através dos jornais da cidade, o padre agia por sua própria conta, ou repetia ao alcance da paróquia de Nossa Senhora da Penha as regras de controle proclamadas pelo bispo diocesano, primeiro o de São Paulo, depois o de Campinas16. 15 Foi programa dos bispos renovadores retirar da Igreja Católica, ao mesmo tempo: a) elementos de sua estrutura medieval e ibérica; b) a dependência política para com o estado, em favor de uma dependência para com Roma; c) a direção local dos leigos, através do seu controle costumeiro sobre as irmandades religiosas e sobre inúmeras capelas. Para tanto, diversos bispos brasileiros aceleram a “romanização” do catolicismo nacional desde décadas finais do século XIX: a) provocando uma deliberada aproximação com o Vaticano e reclamando do Estado, ao mesmo tempo, uma maior autonomia e a manutenção de uma posição privilegiada; b) importando um clero secular e regular modernizado, proveniente da Europa não- ibérica; c) retirando aos poucos (e às vezes com grandes conflitos) a importância religiosas e a autoridadepolítica das irmandades (onde o padre é um funcionário assalariado) em favor da transferência, para o Brasil, de associações pias (onde o padre é um dirigente efetivo). No ano de 1935, o vigário da Penha obteve os seguintes números em sua paróquia: Irmandade do Santíssimo Sacramento – 23 membros; Apostolado Masculino – 17 membros; Congregação Mariana de Moços – 19 membros; Irmandade de São Benedito – 167 irmãos; Apostolado Feminino – 41 zeladoras; Archiconfraria do Puríssimo Coração de Maria – 38 chefes; Confraria do Rosário Perpétuo – 42 chefes; Pia União das Filhas de Maria – 27 membros; Liga do Menino Jesus – 250 membros; Congregação da Doutrina Cristã – 874 membros; Liga de São José – 41 zeladoras e 800 membros; Damas da Caridade – 13 associadas (Caldeira, 1935: 88). 16 Em mais de dois anos de visita, observamos a imoralidade que resulta do que se chama Folia, ou do como se servem os foliões da bandeira do Divino Espírito Santo para especular seus interesses; é um verdadeiro modo de vida e mesmo um furto. O festeiro, vulgarmente – Imperador – justa um dos tais cantadores, fazendo-se a despesa à custa das esmolas e o restante se parte ao meio, vindo muitas vezes o Imperador, depois de seis meses e um ano, receber vinte a trinta mil réis... Se vinte foliões chegam à casa de cada um e levam sua esmola, todas estas juntas com a bandeira da Paróquia dá para a festa da 40 As acusações da Igreja eram dirigidas com maior freqüência aos capelães populares, rezadores e mestres-rituais. O padre redobrava publicamente os seus ataques frente a duas situações: primeiro, quando o exercício religioso popular assumia formas mais independentes do saber católico erudito, das regras da paróquia e da presença do vigário, o que atestava para a comunidade de fiéis camponeses que os modos coletivos e tradicionais do culto popular foram e continuavam sendo eficazes; segundo, quando as festas de santo ou outros rituais mais costumeiros produziam alguma concentração de bens (gado, leitoas, frangos, pratos rústicos, objetos de artesanato) ou de dinheiro. O trabalho religioso dos inúmeros rezadores de terço, ou dos mestres-violeiros das danças de São Gonçalo, não costumavam ser controvertidos quando restritos ao âmbito familiar ou a pequenos grupos rurais de parentes ou de vizinhos. Mas eles eram publicamente condenados pela paróquia quando, mesmo dentro das fronteiras das comunidades camponesas, chegavam perto de um domínio social ampliado, que a Igreja reconhecia como exclusivamente seu, no campo das relações religiosas. Duas notícias de jornais do começo do século podem ser úteis aqui. Festas nos sítios – há nesta parochia alguns sítios e algumas fazendas, onde se costumam realizar festas todos os annos com novenas, ora em louvor da Santa Cruz, ora em louvor de Santo Antônio, ora em louvor de São Sebastião, etc. Essas festas são feitas geralmente sob a direção de um paisano qualquer que se arvora de capelão da noite para o dia e que afinal de contas não passa de um charlatão de coisas sagradas que não poucas vezes explora escandalosamente a boa fé e a piedade do povo christão. Estas festas do modo por que costumam ser feitas são prohibidas. Os srs. fazendeiros ou os srs. administradores das fazendas prestarão um grande serviço a causa da religião prohibindo que taes festas se realizem sem a assistência de um sacerdote que é o ministro legítimo de Deus e aquele que recebeu o poder de prezidir a reunião dos fiéis. Além disso cooperarão para que não sejam desacatadas as determinações da autoridade nesse sentido. Por sua vez os catholicos não devem concorrer com donativos de qualquer natureza que seja para taes festas sem que ellas sejam autorizadas pelo respectivo vigário da parochia. Do mesmo modo devem negar todo o seu concurso a certos exploradores que costumam percorrer as parochias com mesma Paróquia e evitam-se os males apontados; não querendo falar de outras prevaricações cometidas pela mesma comitiva de bandeira. E quando a freguesia fosse tão pobre que sem este meio não pudesse fazer sua festa é bem melhor não fazer. O Reverendo Pároco que nesse dia instrua seus fregueses: que todos unidos façam suas orações e devoções sem pompa. Assim dar-se-á ao Divino Espírito Santo verdadeira glória e o culto de agradável cheiro. Mesmo havendo culto pomposo devem-se evitar essas comezainas e outros divertimentos que sempre andam de parceria nas festas do Divino. Portanto, mandamos por Santa obediência, aos Reverendos Párocos, que não dêem atestado para os foliões saírem fora da Paróquia, como Prelado também mandamos aos Senhores Delegados e Juizes de Paz, não prestem auxílio algum para ditas esmolas fora da Paróquia. (Carta Pastoral a D. Antônio Joaquim de Melo, bispo diocesano de São Paulo a partir de 1852, apud Boanerges Ribeiro, 1973: 135/6). O mesmo bispo proibia o levantamento de oratórios e capelas sem a autorização da Igreja. Proibiu também outros rituais populares, como as Funções de São Gonçalo, e tinha idéias discriminatórias sobre as Irmandades: Seu principal defeito é admitir para Irmãos toda a classe de pessoas, sem alguma distinção mais que os bons costumes. (Ribeiro, 1973: 135). 41 emblemas religiosos pedindo esmolas, ora para o Divino, ora para ... Senhora Aparecida, ora para qualquer outro santo. Esses indivíduos são verdadeiros ladrões disfarçados em devotos. A autoridade policial deve toma-los à sua conta e os fiéis devem repeli-los como seres inimigos do trabalho e exploradores de sua boa fé. Itapira, 21 de maio de 1910, Padre Amorim Correia, Vigário da Parochia. (C.I., 22.05.1910, nº 291, pg. 2). Festa de Santo Antônio – A festa de Santo Antônio só pode ser feita na Egreja Matriz e não nos sítios ou nas fazendas, segundo o que determinaram os Exmos. e Revmos. Srs. Bispos que regem e governam a nossa Província Eclesiástica. (C.I., 21.05.1910, nº 291, pg. 2). Assim como estas duas, outras proclamações dos sucessivos vigários de Itapira: primeiro, constituíram oficialmente a oposição arbitrária entre o religioso legítimo do padre e o religioso ilegítimo do agente popular; segundo, demarcaram o lugar eclesiástico do culto autorizado e o lugar comunitário do culto proibido; terceiro, redefiniram especialistas e promotores de rituais católicos, tradicionalmente reconhecidos como respeitáveis e necessários, com uma identidade social e religiosa depreciada (“paisano qualquer”, “charlatão”, “exploradores”, “ladrões”); quarto, prescreveram regras de evitação para os fiéis da religião popular; quinto, sugeriram a repressão do braço secular contra os especialistas religiosos, considerados agora como contraventores. No entanto, como os sitiantes caipiras não sabiam ler jornais e como os próprios fazendeiros ainda não urbanizados dificilmente abdicariam de costumes religiosos consagrados, os agentes populares sobrevivem e as festas em louvor a santos padroeiros são ainda hoje comuns nos bairros, nos sítios e nas fazendas. Para os agentes populares sobravam duas alternativas. Primeira, submeterem-se ao controle do vigário e à religião da Igreja, passando, por exemplo, de capelães populares e relativamente autônomos (submetidos à ordem da comunidade camponesa), a capelães leigos autorizados (submetidos à ordem da paróquia). Segunda, defenderem setores de autonomia religiosa, seja desafiando abertamente as ordens em contrário emanadas do padre, seja recuando o exercício de sua prática para os espaços camponeses de culto, onde dificilmente os vigários e missionários chegavam pessoalmente e onde as comunidades permaneciam aindalivres de compromissos rigorosamente subalternos para com a paróquia. Desde o estabelecimento local da Igreja Católica até os dias de hoje, os “moradores” e os especialistas populares aprenderam a freqüentar a “igreja do padre” sem abandonarem o seu sistema religioso; e a manipularem estratégias de conformidade e de oposição à ordem da paróquia, negando-se sempre como arremedos ou substitutos do padre e conservando a identidade e o domínio de um trabalho aceito como legítimo na sociedade camponesa e consagrado por ela, antes da chegada dos vigários. O rezador, o capelão e o mestre-dirigente de grupos rituais foram os concorrentes mais próximos ao trabalho religioso do padre. Qualquer um deles podia ser pronunciado como ladrão, mistificador ou charlatão, mas, afinal, como o vigário, todos eles procuravam falar em nome das mesmas divindades e traduzir, de modo muito semelhante ao da Igreja, as suas cerimônias e as suas orações. Benzedeiras e curandeiros eram concorrentes de outro tipo. Situados no limiar entre o trabalho do padre e o do médico, a sua prática foi sempre considerada por essas 42 autoridades e mais, pelas da delegacia, como uma profanação da religião e da medicina legítimas; uma forma popular de magia e uma “exploração dos incautos”. A despeito de alguns pedidos públicos de vigários de Itapira, não há registros históricos de repressão policial contra festeiros e rezadores, a não ser quando eles se convertem em pequenos agentes de milagre ou de profecias, como veremos um pouco mais adiante. Por outro lado, pelos menos desde as três últimas décadas do século XIX, os diversos tipos populares de especialistas da saúde costumavam ser publicamente considerados pela Igreja, pela medicina erudita e pela lei, como profissionais cujo trabalho deveria ser regularmente punido. Temos aqui mesmo na cidade, intra-muros, uma boa porção de feiticeiros, exploradores e curandeiros. Alguns abrem a tenda e deitam ciência engarofando os pobres crentes que, muitas vezes são bem sucedidos, não pela eficácia das artimanhas dos feiticeiros, mas pelos reconhecidos prodígios da autossugestão. (C.I., 11.02.1909, nº 160, pg. 1). Seguindo sua rota S.S. o Delegado de Polícia iniciou a batida aos curandeiros, feiticeiros e demais mandingueiros que por aí pululam, com resultado surpreendente. (C.I., 18.04.1926, nº 1417, pg. 3). A nota prossegue com a relação nominal dos “feiticeiros” presos e de uma mulher de 80 anos, “apenas multada17. Se a Igreja e a Lei sabiam estabelecer formas relativas de controle de rezadores e de curandeiros – aos seus olhos o sacerdote ilegítimo e o feiticeiro profanador da religião e da medicina – era no entanto contra os pequenos “santos do lugar” – promotores rápidos de surtos milagreiros – que a repressão costumava ser mais direta e imediata. Notícias de jornal a respeito de Antônio Conselheiro e outros “profetas” populares do Nordeste apareciam em Itapira de tempos em tempos, e ajudavam a lembrar que, se o capelão popular ou o rezador podiam ameaçar a ordem da Igreja, o pequeno santo de prodígios autônomos poderia vir a ameaçar a da própria sociedade. Volta e meia surgiam, ao longo da região, entre a cidade de São Paulo e o Sul de Minas, pequenas figuras de santos ao redor dos quais em pouco tempo organizavam-se um lugar e um surto de milagre e romaria. Os pequenos milagreiros nunca se apresentavam, à maneira do Nordeste, como profetas de um novo credo e de influência regional. Não faziam pregações de tipo messiânico e não ousavam propor outra religião além do catolicismo. Eram apenas um momento de encarnação do poder divino sobre uma pessoa, em geral pouco consciente de sua própria nova posição e sempre guiada por agentes populares que proclamavam o seu culto e organizavam as suas práticas devocionais, sempre entendidas como católicas18. 17 Muitos anos antes da chegada dos primeiros pentecostais, já os curandeiros eram vulgarmente considerados como gente que tinha artes ou pactos com o demônio. O curandeiro é, entre nós, como um parente próximo do „santo‟, ou melhor, um „santo às avessas‟. Ao invés das graças do céu, ele tem as dos demônios. Aqui mesmo em nossa terra não poucos Franciscos de Assis existem, na cidade e nos bairros rurais, segundo informações fidedignas que nos vieram às mãos. A princípio na circunvizinhança apenas e, depois, a fama tanto se estende que alguns tem já nome feito em todo o município e fora dele. (C.I., 25.05.1941, pg. 2). 18 Em São Paulo, ao contrário do que parece ocorrer em outros lugares do país, não era costume ser o próprio rezador ou o capelão aquele que se transformava, por vezes, em um pequeno milagreiro. Os especialista religiosos eram sacerdotes populares desprovidos do costume de pretenderem ser pequenos milagreiros ou profetas de âmbito regional. Os santos do lugar eram mais as mulheres, em geral meninas ou moças, mas sempre dirigidas, depois de tornadas populares, por um rezador local. Confrontar com 43 No ano de 1918, apareceu uma “santa” no distrito de Barão de Ataliba Nogueira, entre Itapira e Minas Gerais: “cabocla, ainda nova, de pés descalços e vestidos rotos” (C.I., 01.02.1918, nº 995, pg.3). Sob a ameaça de perderem seguidores de sua retaguarda rural, a Igreja e a elite letrada de Itapira formularam denúncias. O povinho miúdo, a caipirada ignorante, a caboclada boçal daqui, dos arredores do Barão, de Minas e do Pinhal, começaram a fazer romarias à casa da santa, um pouco adeante da estação onde houve uma fábrica de cerveja... Os fanáticos, que formam em torno à tal mulher, cotizaram-se e mandaram vir uma imagem que, hontem, devia ser levada processionalmente à sua casa. Esse caso foi sujeito à apreciação do dr. Thyrso Martins, Delegado Geral, pelo telephone, tendo S.S. determinado que a polícia local interviesse energicamente para pôr cobro a esse embuste. (C.I., 01.02.1918, nº 999, pg.3)19. Não chegou a haver a procissão com a imagem à casa da “santa”. O delegado de Itapira chamou a moça e seu tio à sua presença e ordenou que terminassem “com o embuste”. Não se considerando atendido, mandou uma força policial ocupar o Distrito, invadir a “casa dos milagres”, apreender a imagem, acabar com a festa e abrir inquérito. A “santa” e seu tio – formalmente acusado de haver sido o promotor do surto milagreiro – foram levados à delegacia, e os autos do processo, acompanhados da imagem, foram enviados para São Paulo. (C.I., 01.02.1918, nº 995, pg.3). Contra santos de aparecimento súbito e influência religiosa acelerada, a Igreja e a Lei não costumavam ser tolerantes. Os fiéis de momento, possíveis seguidores de um culto marginal e organizado, não eram apenas, como os das festas nos sítios ou os das clientelas de curandeiros, uma pequena multidão de moradores ingênuos e enganados. Aos olhos das autoridades religiosas e seculares, eram infiéis e poderiam ser perigosos para com a religião oficial e para com a sociedade constituída: “o povinho miúdo, a caipirada ignorante, a caboclada boçal”, potencialmente ameaçadores porque não eram uma “gente ordeira” em festa, mas fanáticos. Desde muito anos no passado, a Igreja, a elite agrária e a delegacia aprenderam a temer e a reprimir o poder dos fracos. No entanto, quando o milagre aparecia em jurisdição de outra paróquia e de outro município, a ação repressora procurava apenas tornar publicamente desacreditados os fiéis locais que o buscavam e viajavam para o lugar de onde vinham as notícias de um surto dele.Duglas Teixeira Monteiro (1974: 89): O capelão leigo, mal comparando, era como o valentão situado nas fímbrias do sistema secular de poder: havia sempre a possibilidade de transformar-se no líder de uma comunidade que, superando os limites admissíveis, acabava contestando o próprio sistema. 19 Mas quando os atos coletivos de piedade popular, muito semelhantes a esses, eram praticados sob as bênçãos da Igreja, a “caipirada ignorante” e fanatizada, depressa se transformava nos “pobres campônios” do padre. A Santa Cruz, ermidinha humilde... é pequena. As paredes caiadas, mordidas de humildade, tem grandes nódoas negras. O altar tosco de madeira está apodentrado. A imagem da Virgem, sem tinta, causa dó ... mas é ella quem faz milagres! Todos ouvem o Santo Sacrifício da missa com devoção e fervor; o celebrante, um piedoso frade capuchinho, diz ao Evangelho o que este significa... Depois da missa, em roda da ermida, devotos de rosto bronzeado, lavado pelo sofrimento, cumprem promessas por milagres que a Senhora fizéra: - nove voltas de joelhos, em redor, rezando o terço...; Aquela imagem desgeitosa, „nenhuma como ela faz milagres‟. Fo ... ella que nos abençoou na infância crystalina de pobres campônios. (C.I., 10.03.1918, nº 999, pg.1). 44 Finalmente, quando a mesma notícia de poderes miraculosos denunciava o carisma e o trabalho religioso de algum funcionário legítimo – um padre ou um leigo autorizado – ela passava a ser a prova da evidência da presença divina na condução da Igreja. O agente, ao mesmo tempo eclesiástico, erudito e milagreiro, tornava-se objeto de romaria e de veneração, de tal sorte que, muitos anos depois, o que era embuste em Barão de Ataliba Nogueira, virava milagre em Tambaú, ou Poá. O Padre Eustáquio esteve em São Paulo em 1941, localizando-se em Poá, que então se transformou num ponto de afluência de doentes e aleijados que, procedentes de todas as regiões do país ali iam ter, por serem atribuídos ao sacerdote numerosos milagres. (C.I., 05.09.1943, nº 2315, pg.2). Romaria a Tambaú – Mais uma Romaria a Tambaú para ver e reverenciar o milagroso Padre Donizette. (C.I., 20.03.1955, nº 2915, pg.3). Proponho encerrarmos aqui esta primeira descrição a respeito de como a igreja Católica de Itapira patrulhou os seus direitos de representante local da religião dominante; determinou os limites da legitimidade religiosa e controlou, sozinha ou associada ao poder secular, os três tipos de agentes religiosos populares transferidos da sociedade camponesa primitiva para a dos fazendeiros do café: o sacerdote ilegítimo, o feiticeiro profanador e o pequeno santo milagreiro. 3. Camponeses e colonos, escravos e operários A religião primitiva do caipira dos Macucos reagiu à sociedade e à Igreja dominantes em dois sentidos pelo menos. Primeiro: ela passou aos poucos de religião de uma sociedade camponesa onde o padre era um emissário transitório e quase à margem do sistema devocional, para uma posição de religião dominada, com a chegada do padre vigário e o estabelecimento de uma ordem católica paroquial. A paróquia de Nossa Senhora da Penha garantiu um espaço religioso central, ainda que demograficamente minoritário, na sociedade capitalista do café. Como parte de um sistema religioso, as crenças e práticas populares penetraram apenas clandestinamente na cidade, muito embora tenham conservado nela, até hoje, uma presença ativa sob os cuidados de sitiantes, agregados e antigos escravos, migrados dos sítios e das fazendas para Itapira. Nas suas formas mais organizadas o sistema religioso camponês foi sendo empurrado para áreas de refúgio nas fazendas, nos sítios e nos bairros. Este progressivo deslocamento geográfico e social do centro de uma sociedade para a periferia de uma outra, acompanha o processo de uma inevitável destituição de legitimidade e de expropriação do capital religioso-católico popular. Não é difícil avaliar a dimensão de perda de autonomia e de significado que o agente caipira sofre, na passagem de uma posição de representante local e legítimo da religião da sua sociedade, para a de um especialista canonicamente declarado como ilegítimo e expropriado de sua liberdade primitiva de docência e de prática religiosa, na mesma medida em que os camponeses caipiras eram despojados de sua autonomia e de suas regras de reciprocidade locais, sob o avanço das relações capitalistas de produção de bens, de trocas sociais e de representação simbólica. 45 Segundo: a religião popular tornou-se progressivamente diferenciada e enriquecida de novos elementos, com a introdução de outros tipos de sujeitos sociais subalternos, trazidos com os fazendeiros-coronéis. Com eles vieram os negros escravos e, mais tarde, os colonos europeus. A transferência de capital do café, do algodão e da cana para as pequenas indústrias locais e as indústrias médias da região, criou novos tipos de operários. Finalmente, as formas mais atuais de produção nas fazendas expulsou delas o parceiro agregado – social e culturalmente também um tipo de camponês, é bom não esquecer – que veio morar nos bairros de baixo de Itapira e que se metamorfoseou em trabalhador volante. Os negros escravos, mais do que todos os outros tipos de sujeitos trazidos pelos fazendeiros, introduziram em Itapira novos elementos de saber religioso e das práticas devocionais e de medicina, sob princípios católicos ou mediúnicos. Influenciando muito pouco o sistema confessional camponês, o repertório mágico e religioso dos negros marcou, de um modo ou de outro, as formas cultuais populares de periferia urbana de Itapira. Até hoje, alguma coisa na religião e na medicina popular é sempre reconhecida como sendo “coisa dos pretos”, a começar pela grande festa de santo em Itapira, a “Festa do 13”, ou “Festa de São Benedito”20. Primeiro como escravos, depois como trabalhadores braçais “na roça” ou na cidade, os negros foram sempre identificados, pelos habitantes brancos da burguesia ou da elite letrada, como tipos sociais e religiosos que oscilavam entre o socialmente condenável, quando praticantes autônomos de rituais e difusores de crenças tidas como estranhas ou misteriosas (o samba, o saravá, a macumba); e o culturalmente pitoresco, quando reprodutores populares de formas de saber e de trabalho simbólico branco, ou subordinado ao branco21. Os colonos italianos, sobretudo, foram absorvidos com mais facilidade ao controle da paróquia do que os camponeses nativos, mesmo depois que estes vieram em grande número para a cidade. Não obtive documentos e informações suficientes para comprovar uma hipótese em que, entretanto, acredito. Os colonos europeus devem ter colaborado de modo decisivo na romanização do catolicismo oficial em Itapira. Com crenças e formas de cultos semelhantes aos dos camponeses do lugar, porém, “mais puros”, aos olhos do clero, eles trouxeram também novos santos padroeiros, novas formas de devoção dissociadas das tradições ibéricas e colonialistas e, mais do que tudo, uma moderada atitude de equilíbrio entre a autonomia da 20 Em outro capítulo procuro demonstrar como o próprio catolicismo dos camponeses foi sempre um sistema religioso marcado pela solidariedade dos fiéis e pela concorrência entre agentes. A chegada de especialistas negros, trazidos com os fazendeiros, veio a introduzir novos elementos de conflito. É com os escravos que surgem os primeiro “mandingueiros”, “macumbeiros”, “gente do Saravá” (como se fala até hoje pelo Risca Faca e pelo Paranazinho). Eles são considerados como os verdadeiros feiticeiros do lugar, por oposição aos benzedores católicos. Sempre houve acusações de que os negros escravos e osseus descendentes pactuavam com as “forças do mal”, em geral identificadas com as de uso na “macumba”. Até hoje, qualquer pessoa mais velho dos bairros de baixo é capaz de fazer a relação de alguns negros, temíveis feiticeiros. 21 Estas observações locais eram evidentes nas diferenças entre os comentários eruditos sobre o samba e a congada. Os sambas ... sempre fomos de opinião que esses malditos divertimentos deviam ser prohibidos. (C.I. 27.02.1908, nº 61, pg.1). Percorrerá pelas principais ruas desta cidade a corporação de Congado. (C.I., 13.05.1909, nº 185, pg.2). ... O peior foi a participação do pessoal das cozinhas na folia intensa do deboche. O samba espinafrado, alli, frontteiro a capella de São Benedicto, atravessou de ponta a ponta a noite, noite hybernal, noite Siberiana. Conseqüência, no dia seguinte muitas famílias ficaram sem almoço. Valha-me Deus que essa anormalidade só se dê uma vez por anno. (C.I., data ilegível, nº 290, pg.2). 46 prática religiosa e a aceitação das regras de crença e culto da paróquia de Nossa Senhora da Penha22. Entre 1880 e 1900, a Igreja Católica está solidamente implantada em Itapira, sob o comando do bispo diocesano de São Paulo e sob as ordens imediatas do vigário da Penha. Nos bairros urbanos da periferia e nos bairros rurais, sítios e fazendas, a religião popular dos camponeses e as formas de fé equivalentes, dos negros e dos migrantes saídos “da roça”, constituem áreas de oposição e autonomia relativa frente à igreja dominante. Já existia, então, em Itapira, uma Igreja Presbiteriana e, poucos canos mais tarde, seriam fundados centros espíritas. Por outro lado, na seqüência de uma acelerada concentração de operários das fábricas, das usinas e da lavoura, começam a aparecer as condições sociais para o surgimento de religiões e de igrejas populares não-católicas. Antes de chamar à cena novos grupos e novos tipos de agentes e fiéis, descrevo ainda dois momentos de conflito dentro do catolicismo. Não foram fatos episódicos e, de modo exemplar, explicam como ocorriam as dissidências confessionais e como a Igreja conduzia a retomada de controle sobre uma área católica ameaçada por surtos de autonomia religiosa. 4. Heresia popular e cisma burguês Esta é a história da transformação da Capela de Santa Cruz da Mão Aparecida na igreja da paróquia de Santo Antônio, depois de haver sido, por algum tempo, o templo da Igreja Católica Apostólica Brasileira de Itapira. Em um dia do ano de 1906, morreu um leproso chamado Nicolau, em seu rancho de beira de estrada, no começo do caminho entre Itapira e Amparo. Conta-se que, depois de libertado, este antigo escravo viveu das esmolas pedidas aos passantes na porta do rancho de palha. O corpo foi encontrado já em decomposição e o intendente da cidade ordenou que o morto fosse enterrado ali mesmo e que em seguida o casebre fosse incendiado. Uma semana depois do acontecido, caiu sobre a cidade um pesado temporal. Passados mais alguns dias, começou a brotar sobre o local exato da cova de Nicolau um estranho cogumelo com a forma muito parecida a de uma mão encarquilhada e voltada para cima, como no gesto com que o negro pedia as suas esmolas. Depressa, a notícia do achado se espalhou e, mais depressa ainda, a curva da estrada começou a passar da curiosidade ao culto devocional (Mandato, 1959: 71 a 74). Na sessão da Câmara Municipal de 2 de dezembro de 1907 foi incluída uma petição feita por dois moradores da cidade: Cristovam Alves Pinto e Francisco de Paula. Eles requeriam isenção de foro para o terreno do local do rancho onde fariam construir uma pequena capela votiva. De acordo com as explicações dos requerentes, o pedido e a construção eram parte do pagamento de promessa assumida por Cristovam, pela cura de um parente próximo, feita à Santa Mãozinha. O pedido foi deferido e, pouco tempo depois, os dois peticionários fizeram construir, com a ajuda de moradores do lugar, a Capela de Santa Cruz da Mão Aparecida 22 Ainda está para ser feito um estudo sobre o papel dos migrantes europeus não-ibéricos no processo de romanização do catolicismo em São Paulo. Os migrantes trazem novos santos, em boa medida aqueles que os padres aproveitam para novas devoções, mais urbanizadas. Mas ele não deixam de lado a prática das festas tradicionais. Em Itapira é um italiano quem doou, em março de 1897, as terras para a construção da capela de São Benedito. 47 (também: Santa Cruz da Mãozinha ou Igreja do Mãozinha). No interior da capela foi elevado um altar rústico e sobre ele colocaram finalmente a “mãozinha do Nicolau”. Todos os atos de constituição do culto da Mãozinha foram publicados, muito embora feitos à margem das ordens do vigário da Penha. Menos de um ano após a conclusão da capela já se faziam festas coletivas à Santa Mãozinha, envolvendo moradores próximos e fiéis devotos da cidade e do campo, conclamados inclusive por anúncios nos jornais, com fórmulas de convite iguais em tudo aos que a Igreja usava com freqüência para anunciar as suas festas. Os anúncios avisavam sobre festejos “A gloriosa Santa Cruz da Mão Aparecida”, uma “festinha” sem missa e sem padres mas, como tantas outras festas populares, com rezas, fogos e leilões (C.I. 12.04.1908, nº 74, pg.3). Tudo indica que cerca de dois anos depois da morte do negro Nicolau e do aparecimento do estranho cogumelo, já havia não só uma devoção à Santa Mãozinha, como um culto organizado, com lugar de rituais e corporação de agentes responsáveis. Para a autoridade eclesiástica era intolerável o surgimento de um surto votivo a menos de 500 metros da igreja matriz, sob domínio popular e em torno a uma misteriosa entidade devocional não incluída nos registros canônicos oficiais. Os ataques do vigário da Penha foram veementes e públicos, tal como em ocasiões anteriores23. A reação dos promotores do culto popular à Santa Mãozinha foi, entretanto, diferente da dos agentes e fiéis camponeses que, diante das condenações do padre, resistiam por evitação, ocultando mais as suas práticas e procurando exercitá-las nos seus refúgios caipiras ou às escondidas do vigário. Os donos do novo culto eram moradores urbanos, em maioria “a gente do povo”, mas sob o comando de alguns sujeitos letrados e integrantes da pequena burguesia de Itapira24. Eles fizeram a primeira oposição organizada contra a paróquia, usando termos e armas equivalentes. Uma comissão já então constituída em torno à Capela do Mãozinha, saiu aos jornais fazendo a sua defesa, proclamando-se católica e justificando o culto e a festa, com uma linguagem em tudo igual à de grupos de leigos autorizados para as festas de santos nas capelas da paróquia25. Esta comissão dissidente recebeu o apoio de inúmeros moradores da cidade, fiéis devotos da Mãozinha do Nicolau, e o culto urbano não foi extinto em curto prazo, como os outros surtos milagreiros da região. Ao contrário, em três anos ele se impôs sobre inúmeros católicos da cidade e dos bairros, a despeito de uma campanha sistemática da Igreja contra a capela, o culto e os seus organizadores. Em 1910, o padre vigário Amorim Correia – personagem principal de páginas seguintes deste capítulo e do segundo depoimento – procurou radicalizar a oposição da paróquia ao culto 23 Chama-se attenção do público para o atrevimento de meia dúzia de especuladores que vivem illudindo a boa fé de alguns cathólicos, fracos de espírito em matéria de religião. (C.I., 12.07.1908, nº 99, pg.2). 24 Não consegui obter informações sobre a ocupação e a etnia de Cristovam Alves Pinto e de Francisco dePaula. Em 1908, ambos são apresentados como dirigentes da Congada. Pelo que apurei, a este tempo não seriam os capitães ou personagens do próprio ritual, quase sempre negros e moradores nos bairros de baixo. Poderiam ser pessoas “da cidade”, que apoiam e controlam, até certo ponto, o ritual dos negros, tal como acontece até hoje. “...Durante o dia foi a attenção pública sempre entretida com a Congada que neste anno se apresentou com o mesmo brilho dos annos anteriores, sob a direção dos Srs. Christovam Alves Pinto e Francisco de Paula” (C.I., 16.05.1908, nº 186, pg.2). 25 “Ao público e ao Cathólico – A comissão da festa sai a público para fazer sua defesa. Pretende angariar fundos para construir a „Egreja de Sta. Cruz da Mão Aparecida‟. Cinco pessoas da cidade assinam a nota e o „Balancete da Santa Cruz da Mãozinha‟” (C.I., 30.07.1908, nº 104, pg2). 48 ilegítimo. Desde o púlpito da Matriz da Penha, junto a autoridades seculares e pelos jornais da cidade, ele reforçou proibições de rituais coletivos na capela e chegou a propor a edificação de um novo templo sob o controle da paróquia. Vale a pena transcrever a sua proclamação mais extensa. Ela é uma leitura exemplar do modo como a Igreja dominante produzia a identidade das formas populares de crença e de culto religioso. Cruz da Mãozinha – o revmo. sr. vigário resolveu não permitir a realização de rezas de qualquer natureza no barracão de tijolos e coberto de madeira, chamado vulgarmente „Santa Cruz da Mãozinha‟. As pessoas que quiserem rezar terços ou rosários podem rezal-os em suas casas ou então na egreja Matriz, de joelhos ou sentados, mas em vóz baixa. O barracão da „Mãozinha” não tem a bençam da egreja; não há motivo justificável para que certas pessoas queiram a toda força transformal-o em templo cathólico e um centro de pública reunião. Trata-se de se erigir alli uma capella; quando ella estiver pronto, então sim, poderão os fiéis frequental-a e consideral-a como lugar sagrado. É preciso que desapareça de vez a crendice ridícula e supersticiosa, engendrada no cérebro de alguns pretos vadios e de algumas mulheres desocupadas, de que um toco de pau que alli appareceu, semelhante à mão de um morphético que alli morreu tem virtude divina. Tal crendice só pode ter cabimento na mente de quem a divulgou. Se pessoas há verdadeiramente devotas da Santa Cruz, ponham mãos a obra e façam alli a cappela o quanto antes. A obra não é tão difícil. (C.I., 21.05.1910, nº 291, p.2). O padre condenou o culto, os rituais praticados no interior de uma capela ilegítima e os promotores da devoção à Santa Mãozinha. mas ele se aproveitou da sua própria existência para propor formas canônicas: a) uma nova capela, agora “com as bençams da egreja”; b) novos agentes, autorizados pela paróquia; c) uma nova devoção, à Santa Cruz, aceita pela Igreja, e não a Mãozinha, condenada por ela. No fim do ano de 1910, a Igreja anuncia o lançamento da pedra fundamental da capela de Santo Antônio, que seria edificada sob as ordens do padre Amorim Correia e onde seria venerada uma relíquia do santo mandada buscar em Pádua. Mas este não foi o fim do culto popular da Mãozinha. De 1910 em diante, começou a haver uma acentuada secularização em Itapira. Voltaremos ainda a isso. Esse foi também o tempo dos primeiros conflitos coletivos entre colonos e agregados contra os grandes fazendeiros27. Foi também o período do surgimento de novas classes e novas lutas. Movimentos religiosos dissidentes eram apenas amostras especializadas do que acontecia, com mais intensidade e peso político, em outros setores da sociedade civil. No campo religioso, este foi o começo de uma história nova de dissidências e contestações à autoridade da Igreja Católica, transferidas agora dos núcleos rurais para a cidade e dos camponeses para a burguesia. Em janeiro de 1910, circulou por toda a Província Eclesiástica de São Paulo um “mandamento coletivo” contra a Associação de Santo Antônio de Pádua. Os associados foram condenados publicamente, proibidos de se apresentarem em nome da Igreja e ameaçados com 27 Em 1910, foram publicadas as primeira notícias sobre revoltas de colonos na fazenda do Sr. Joaquim M. de Campos Pinto, sufocada com o envio de força policial. Daí para a frente não serão raras as notícias de pequenos conflitos trabalhistas dentro e fora do município. (C.I., 30.07.1908, nº 104, p.2). 49 penas civis e canônicas, a menos que aceitassem submeterem-se ao controle da hierarquia28. Existia uma Associação de Santo Antônio de Pádua em Itapira. Depois de resistir durante alguns meses ao vigário da Penha, finalmente aceitou o controle paroquial e, em 24 de abril de 1910, convocava pelos jornais os católicos da cidade a afiliarem a ela (C.I., 24.04.1910, nº 283, p.4). Em junho, a mesma Associação, agora autorizada, fazia anúncios de sua primeira festa em louvor a Santo Antônio. A assinatura que iniciava a pequena relação de festeiros era a do vigário, padre Amorim Correia. Teria ele aprendido a dissidência com os dissidentes que aprendeu a reprimir em nome da Igreja Católica? Entre 1911 e 1913, ocorreu um conflito, com acusações mútuas entre o vigário de Nossa Senhora da Penha e o bispo diocesano de Campinas (ver 2º depoimento). Durante alguns meses o padre Amorim Correia sustentou uma luta aberta em duas frentes aparentemente impossíveis de serem mantidas, a um só tempo, por uma mesma pessoa. De um lado o padre concorreu a favor da ordem da Igreja contra a religião dos camponeses e, depois, contra a “seita da Mãozinha”. De outro lado, com um moderado apoio popular e com um crescente apoio de uma fração da burguesia mercantil, o padre opôs-se à autoridade do bispo e a desafiou, até ser várias vezes punido e, finalmente, excomungado, depois de haver criado a Igreja Católica Apostólica Brasileira. Tendo começado a sua carreira de vigário em Itapira como um dos mais fervorosos opositores das formas populares de trabalho religioso, o padre Amorim acabou produzindo uma igreja dissidente que, para sobreviver, precisou abrir-se a uma inevitável popularização. Mas as razões do cisma foram políticas, segundo a versão quase unânime de pessoas que entrevistei em Itapira. Apesar do teor costumeiramente autoritário e agressivo dos seus ataques aos agentes populares e, sobretudo, aos da comissão da Igreja do Mãozinha, o cônego Amorim não cumpria, com uma fidelidade irrestrita, a troca de compromissos entre o vigário de Itapira e a elite agrária. Chegando a uma sociedade já relativamente industrializada e que contava então com uma próspera burguesia mercantil, o padre buscou apoio junto aos fiéis urbanos, principalmente os comerciantes, muitos deles portugueses, como ele próprio. A partir de 1912, Amorim Correia declarou-se publicamente em contenda com o seu bispo. Ao longo de uma rápida seqüência de atos diocesanos punitivos: foi removido do comando eclesiástico da paróquia da Penha; foi suspenso de ordens e, consequentemente, proibido de “dizer missa” nas igreja e capelas da região e foi, finalmente, excomungado. As acusações da Diocese ocultaram sempre a face política das razões da dissidência. Tal como a Igreja procedera ao denunciar heresias parciais nas práticas populares, ela reduziu os termos da 28 Associação de Santo Antônio de Pádua: do Mandamento Colectivo do Episcopado da Província eclesiástica de S.Paulo que acaba de ser expedido a todo o clero da mesmo Província, e que temos à vista, extraímos o seguinte: „A vista dos abusos a que tem dado origem a chamada Associação de Santo Antônio de Pádua, illegalmente introduzida na Província, sem sciênciae aprovação nossa, promovendo festas, colectando missas e esmolas, cujo destino se desconhece, provocando freqüentes conflitos com os vigários, a cuja obediência procuram furtar-se os pseudo-zeladores, os srs. bispos declararam que são absolutamente interditas todas as associações desta natureza que actualmente existam ou vierem a fundar-se na Província. Outro sim declaram incompetentes para colher esmolas, colectar missas, angariar associados, promover festas, pedir assignaturas de revistas, distribuir folhetins, etc. os pseudo- zeladores, os quais serão denunciados à polícia civil e punidos até com penas canônicas no caso de desobediência. (C.I., 30.01.1910, nº 260, p.2) 50 disputa a problemas de falta de obediência eclesiástica, quebra de ortodoxia e dúvida sobre a moral pessoal. O padre respondeu às críticas e às sanções defendendo-se publicamente delas e contestando a própria autoridade do bispo. Primeiro ele se recusou a acatar as ordens vindas de Campinas. Depois, tornou conhecido o seu rompimento com a “Igreja Romana”, ao mesmo tempo em que proclamou a fundação em Itapira da “Igreja Brasileira”, da qual se fez fundador e primeiro patriarca. Em um momento anterior de concorrência, a Igreja Católica definiu a ilegitimidade do catolicismo dos camponeses. Poucos anos mais tarde, o vigário da Igreja, tornado um patriarca cismático, recuperou a expressão “Igreja Romana” para proclamar, contra ela, a plena legitimidade de uma “Igreja Brasileira” para o povo brasileiro. A hierarquia oficial não conseguiu afastar de Itapira o “padre cismático”, nem mesmo depois de anulá-lo como autoridade católica da paróquia da Penha. Mas os interesses de alguns grupos sociais do município já se haviam diferenciado o bastante para poderem conservar, dentro de uma mesma cidade, um novo vigário autorizado pela diocese e um padre dissidente retirado do seu controle. O patriarca não recebeu apoio dos fazendeiros-coronéis, depois do “scisma amorinista”. Mas ele conquistou a simpatia de fazendeiros de menor porte econômico e poder político, de colonos italianos e espanhóis, de comerciantes, sobretudo os portugueses da Rua do Amparo, e de burocratas e trabalhadores urbanos. Com estes sujeitos sociais o padre firmou compromissos suficientes para conservá-lo na cidade e para permitir que constituíssem, juntos, um surpreendente espaço de tolerância e atividade religiosa em Itapira29. O padre Amorim viajou algumas vezes a São Paulo e a cidades do interior em busca de outros padres suspensos de ordens, para convidá-los a ingressarem na nova Igreja que ele nunca desejou restrita apenas a Itapira. Depois que foi afastado da paróquia e do acesso à matriz da Penha, o patriarca tomou posse da igreja de Santa Cruz da Mão Aparecida, a mesma que ele começara a remodelar quando vigário de Itapira e que pensara dedicar a Santo Antônio de Pádua. Esta é a razão pela qual os seus inimigos procuraram associar a Igreja Brasileira à seita da Mãozinha, fazendo retornarem ao padre as acusações de prática religiosa profanadora que Amorim Correia usara com veemência contra os fiéis do surto milagreiro. Um fato intrigante pode ser a melhor prova de que o cisma católica de Itapira não foi uma aventura inconseqüente de um padre português, mas uma fração de movimentos mais amplos de dissidências e contestações nos campos político e religioso, muito embora o “scisma amorinista” não tenha conseguido ser, em momento algum, um movimento religioso renovador, capaz de mobilizar em seu favor as classes subalternas, ou de estabelecer alianças de poder 29 Um dos indicadores mais relevantes da vitalidade de uma nova Igreja é o número de sujeitos que aceitam participar dos seus rituais de efetiva iniciação religiosa. Entre 10.02.1913 e 12.08.1913, pouco antes de sua morte, Amorim Correia batizou 82 pessoas. O número caiu bastante logo após a morte do patriarca. Em seis meses do ano de 1914 um sucessor de Amorim Correia batizou 10 pessoas; em pouco mais de um ano um outro batizou 12. Em dois meses do ano de 1915, dois padres batizaram 11 pessoas. Mas os números aumentaram bastante a partir daí. Em pouco menos de dezoito meses, entre 1915 e 1917, houve 204 batizados. Depois de alguns anos sem registros houve 484 batizados, entre janeiro de 1921 e agosto de 1925. Ao longo da crise interna no comando da Igreja Brasileira, o número caiu muito outra vez. Houve 11 batizados entre outubro de 1928 e agosto de 1933. Entre janeiro de 1934 e julho de 1935 51 com alguns dos príncipes alemães da região. Amorim Correia morreu em Itapira sete meses após o cisma. Morreu no momento em que a nova Igreja, recém-fundada, enfrentava etapas de uma intensa luta ideológica e jurídica com a Igreja Católica. Entretanto, mesmo se considerarmos que o substituto “romano” do padre Amorim veio para Itapira com ordens diocesanas expressas de aniquilar a Igreja Brasileira, o fato é que, ao invés de desaparecer de imediato, ela alternou momentos de expansão e de recuo, deixando o mundo religioso de Itapira apenas cerca de vinte anos depois de criada e da morte do padre, sob uma grave e definitiva cisão interna entre duas facções em luta pelo comando patriarcal e, depois de sucessivas perdas jurídicas diante da Igreja Católica e do poder secular, por volta do ano de 1936. A igreja da Mãozinha, a Irmandade de Santo Antônio de Pádua e a Igreja Católica Brasileira fizeram, entre 1906 e 1936, uma seqüência de pequenos movimentos que colocaram, dentro da cidade e ao alcance da iniciativa de mobilização da pequena burguesia de Itapira, novas formas de concorrência religiosa com a Igreja oficial. As “gentes da roça”, camponeses proprietários e agregados, trabalhadores rurais residentes nas fazendas – fora alguns colonos europeus – participaram aí como apenas alguns dos seus sujeitos. Certos informantes a quem entrevistei insistiram em que “muita gente dos sítios não sabia que aquilo do Padre Amorim era uma outra Igreja. Batizavam os filho com ele e iam lá nas missas deles porque gostavam do padre. Pra muitos deles tudo aquilo não passou de uma briga de padres”. Poucos anos antes destes movimentos locais de pequena rebeldia católica, o acelerado enriquecimento da elite agrária e a transferência posterior e não menos rápida de parte do capital das fazendas para a indústria da região, responderam pela ampliação local das classes subalternas, nem sempre submissas politicamente aos fazendeiros-coronéis. A presença de novas classes e a defesa de interesses que opunham o operariado e a nova burguesia “liberal” aos donos do café e do poder, poderia explicar apenas em parte a transferência de formas de concorrência do campo político para o religioso, assim como a abertura de uma sociedade tradicionalmente católica, para um espaço definitivo de conquista de movimentos internos dissidentes e de outras religiões não-católicas. Não deve parecer estranho que, entre os últimos anos do século XIX e os da primeira metade do século XX, dentro mesmo do corpo eclesiástico da Igreja tenham aparecido padres próximos à figura do feiticeiro, como os milagreiros de Poá, Tambaú, Conchal – com herdeiros vivos e atuantes em algumas cidades de São Paulo, até hoje (Brandão, 1978); e padres próximos à figura do profeta, seja por se converterem a uma nova religião de que se faziam pregadores, como José Manoel da Conceição, seja por criarem a sua própria igreja, como Amorim Correia e o bispo de Maura. foram batizados 101 “brasileiros”,o que indica um novo e último aumento percentual. (Livro de Batizados da Igreja Brasileira, Manoel 1º Patriarca, Diocese de Itapira – Estado de São Paulo). 52 5. Pastores e médiuns em Itapira Alguns anos antes dos dias em que o padre Amorim competia com rezadores e capelães rústicos, já havia em Itapira uma Igreja Presbiteriana constituída. Quando ele rompeu com a Igreja Católica já funcionava na cidade um centro espírita e um outro seria instalado menos de um ano após o cisma católico. Desde a segunda metade do século XIX houve incursões de missionários evangélicos dentro de um amplo círculo de território paulista, tendo em Campinas um dos seus núcleos de difusão. Em 1863, o padre José Manuel da Conceição converteu-se ao protestantismo e iniciou fervorosas viagens de pregação pelo interior do estado. Em 1869, chegaram a Campinas os primeiros missionários da Igreja Presbiteriana nos Estados Unidos (Ribeiro, 1973: 19). Entre 1875 e 1876 foi instalada a Igreja Presbiteriana em Itapira. Mas desde antes já havia por lá uma pequena porção de evangélicos, entre fiéis e missionários: um colono suíço chegado à região em 1874, alguns pastores alemães estiveram em Itapira a chamado de uma colônia de seus conterrâneos, depois que D. Pedro II autorizara o casamento religioso de cristãos não-católicos (Caldeira, 1935: 91). Os missionários norte-americanos posteriores conseguiram fazer algumas conversões entre os sitiantes e, sobretudo, junto a segmentos da burguesia nacional. Em 1875, Eduardo Lane deu forma jurídica à pequena congregação evangélica e no ano de 1910 foi construído o templo atual. Em meio a um período de intensa concorrência e conflitos no mundo católico de Itapira, foram de uma relativa paz ecumênica os relacionamentos entre os católicos e os presbiterianos, durante um tempo em que uma trégua religiosa entre os dois lados não era sempre a regra do país. Em todos os documentos que consegui pesquisar não encontrei acusações de parte a parte. Algumas razões podem ser apontadas para explicar este baixo teor de enfrentamento. Uma delas seria a de que a Igreja dominante estava então empenha em subjugar outras áreas populares e burguesas de resistência e dissidência, dentro do próprio espaço católico. A presença dos presbiterianos em Itapira foi inicialmente discreta e auto-limitada. Os missionários começaram atuando junto aos colonos europeus e já evangélicos, que os apresentavam a sitiantes e pequenos fazendeiros. Estes eram sujeitos sociais que, tal como vimos, não estavam cotidianamente associados aos padres. Por outro lado, até a chegada dos pentecostais não houve em Itapira uma atividade conversionista evangélica em larga escala, capaz de ameaçar, demográfica e politicamente, a hegemonia romana, tanto quanto os “brasileiros” e os espíritas, com que nos encontraremos daqui a duas ou três páginas. Embora alguns cronistas dessem conta de um “templo cheio” entre os presbiterianos, é preciso compreender esta quantidade em suas proporções. Trinta e quatro anos após a constituição da Igreja, os presbiterianos do lugar não somavam mais do que uns 50 fiéis professos. Este número é mais ou menos equivalente ao que um pastor pentecostal bem sucedido consegue arregimentar em dois ou três batizados de beira de rio. Justamente num período de consolidação da Igreja e de um desempenho proselitista mais eficaz, durante as primeira décadas do século XX, os presbiterianos estiveram colocados no interior de um espaço político relativamente neutro e cuidadosamente afastado do campo de concorrência em que se enfrentavam os outros grupos (Maciel, 1972: cap.IV). Os ardentes, mas discretos, evangélicos não se envolviam em luta alheia e tiravam proveitos dos seus resultados. 53 Assim, há notícias e depoimentos de entrevistas de que vários “brasileiros” passaram para a Igreja Presbiteriana depois de haverem saída da Católica. Os evangélicos souberam proteger um espaço religioso erudito e legítimo dentro de um mundo religioso conturbado, na medida em que a sua atividade proselitista não continha um discurso confessional profético o bastante para colocar em questão os interesses e a ideologia das elites políticas e religiosas30. Enquanto católicos romanos, “brasileiros” e líderes espíritas trocavam palavras e desempenhos de hostilidade aberta, os protestantes evitavam uma mensagem conversionista hostil, ao mesmo tempo em que se apresentavam com garantias de uma respeitabilidade ético-confessional que aparecia bastante comprometida em outros grupos. Na sociedade capitalista agrária de então, o catolicismo popular era um sistema religioso dominado, recolhido a áreas rurais de refúgio camponês e empobrecido, como sistema, na periferia da cidade. O catolicismo da Igreja Oficial era eticamente corrupto e ritualmente elitizado, dentro de um mundo dominado por uma reduzida elite rural equivalentemente corrupta, opressora e enriquecida às pressas. Em suas duas formas, o catolicismo era, de fato, a religião de toda a sociedade, não só porque abarcava o maior número de fiéis, como também porque era capaz de absorver e justificar, para que tudo ficasse como estava: o lavrador e o coronel, o capataz e o escravo, o político dissoluto e o advogado “da oposição”, a professora respeitável e a prostitua da esquina. Estes dois sistemas católicos de crença e culto não serviam adequadamente à ideologia, à ética e aos interesses de uma burguesia letrada, constituída de frações da classe mercantil, de funcionários e profissionais autônomos. Vimos que foram principalmente os comerciantes da Rua do Amparo os que apoiaram o padre Amorim e se converteram à sua Igreja. Foram também alguns dos “homens bons” da cidade – mas nunca os de sua elite ou mesmo de sua burguesia enriquecida – os que vieram a ocupar o templo evangélico e os dois centros espíritas de Itapira31. Nas suas modalidades pioneiras, o protestantismo presbiteriano produziu, com os símbolos de um cristianismo revisto pela Bíblia, a proposta da construção possível de uma nova ética pessoal, capaz de gerar, por sua vez, uma nova sociedade. Depois de mais de um século 30 Muitos anos depois de haverem chegado a Itapira, já em 1931, os presbiterianos estiveram representados por seu pastor em reuniões oficiais do Comitê Pro Liberdade da Consciência. Mas a presença de protestantes locais no Comitê não deve ser entendida como uma estratégia de formação de frente ampla contra os católicos romanos. A luta ali interessa aos protestantes em pelo menos dois itens essenciais: 1º) a proibição de ensino religioso dominante, obrigatório nas escolas públicas; 2º) o não- restabelecimento de relações preferenciais entre a Igreja Católica e o Estado Brasileiro. Este período (e os anos seguintes) foi o único em que entre católicos e presbiterianos de Itapira houve uma perda de qualidade nas relações e na estratégia de não-agressão. Neste comitê estão representados – os maçons, os protestantes, os livre pensadores, os espíritas e a Igreja Cathólica Brasileira. A Reunião foi muito concorrida. (Parte final da notícia sobre a solenidade de instalação do CPLC em Itapira – O Clarim, 03.05.1931, p.3). 31 Mas o que em Itapira nota de preferência o visitante cathólico, é que seus homens bons, os dignos intellectuais que alli nasceram ou têm residência, sem discrepância, sem respeito humano, sem ambages, confessam coram populo suas crenças crenças religiosas, que são emanadas da Santa Egreja Romana. Advogados distinctos, médico ilustres, isto é, homens que passaram pelas grandes academias, que fizeram estudos superiores francamente se declaram cathólicos e agem como cathólicos em todas asemergências da vida. Todos os cidadãos portadores de diplomas são, naquela cidade, crentes fervorosos, possuidores de uma religião esclarecida que os honra e faz honrar a comunidade cathólica. (O Mensageiro, 19.02.1909, nº 90, p.2). A notícia pode ser correta mas por debaixo destes “homens bons”, outros, mais pobres e menos próximos à elite, eram os que, aos poucos, procuravam os bancos da Igreja Presbiteriana e dos centros espíritas. 54 de pregações evangélicas em Itapira, os presbiterianos não fizeram aliados entre os coronéis- fazendeiros e conseguiram raros convertidos entre fiéis das classes subalternas. Com algumas famílias de sitiantes e burgueses da cidade, os presbiterianos conquistaram um pequeno aumento demográfico que veio a se estabilizar cerca de 40 anos mais tarde, quando o número de fiéis estabeleceu um equilíbrio com o número de bancos do templo. Em 1970, a Igreja Evangélica contava com menos de 300 membros comungantes: a) descendentes dos primeiros colonos não-católicos da região; b) conquistados, em maior número, entre católicos romanos; c) convertido da Igreja Brasileira e sem condições de retorno ao catolicismo oficial. Itapira também não escapou desse mal que vai grassando lá pelos altos da Santa Cruz, onde existe uma casa, na qual de tempos em tempos, se reúnem alguns desocupados em reunião espírita... Depois que essa mania de espiritismo começou a se desenvolver entre os simples de Santa Cruz, os médico começaram a sentir uma diminuição nas suas receitas. (C.I., 26.04.1908, nº 77, p.1). Na linguagem agressiva dos jornais da época, a “mania de espiritismo” esteve inicialmente associada ao trabalho dos curandeiros e dos benzedores. Mesmo cientes de que em Itapira existia, desde fins do século XIX, um pequeno grupo de homens urbanos e letrados com interesses confessados pela doutrina espírita, os primeiros comentários públicos sobre eles preferiam reduzi-los a indivíduos estranhos, portadores de uma espécie de epidemia inconseqüente. Os católicos começaram somente a acreditar na presença de uma outra religião no município, depois que os espíritas fundaram o seu primeiro centro; começaram a promover reuniões públicas de estudo e de doutrinação com a presença de intelectuais de fora da cidade; participaram de atividades políticas relevantes e, finalmente, iniciaram a construção de agências confessionais de serviços médicos e de assistência. Segundo o depoimento do presidente de um dos centro de Itapira, moradores da cidade freqüentavam em São Paulo o Círculo Esotérico do Pensamento desde fins do século XIX. “Gente da Elite de Itapira assistia a sessões em São Paulo, mas em Itapira apresentavam-se como católicos”. Alguns destes estudiosos passaram a se proclamar publicamente como convertidos ao espiritismo e iniciaram, a partir dos primeiros anos do século XX, um trabalho proselitista feito também fora das salas e das sessões. Eles distribuíam pelas casas da cidade o jornal “O Clarim” (órgão espírita publicado em Matão)32; escreviam e publicavam artigos religiosos nos jornais da cidade; promoviam conferências e conseguiram criar, com uma diferença de nove anos, os seus dois centros: o Perdão, Amor e Caridade, em 1905; o Luís Gonzaga, em 191433. 32 Um pedido: Aos distribuidores e propagandistas nesta cidade de „O Clarim”, jornal espírita, recomendo-lhes que meditem nas palavras infra do príncipe dos poetas brasileiros (segue longa citação de Olavo Bilac sobre o espiritismo)... Se assim é, acho que é faltar aos princípios mais elementares da boa educação – para não dizer outra coisa – metterem à meia noute – hora fatídica de assombração – deibaixo da porta de um sacerdote cathólico o referido Campeão d‟Alem Túmulo, a não ser que esses senhores tenham a justificá-los o diagnóstico feito pelas grandes sumidades médicas do Brazil e de todas as nações civilizadas do mundo: - são uns loucos os que praticam o espiritismo. (C.I., 13.01.1916, nº 868, p.1). 33 O Primeiro Centro Espírita de Itapira tem por fim o estudo theórico e experimental do espiritismo e a propaganda illimitada de seus ensinamentos doutrinários por meio da palavra fallada e escripta, assim como a prática da caridade, por todos os meios moraes ou materiais ao alcance do Centro. (Caldeira, 1935: 96). 55 Em 1936, quando os “brasileiros” desapareciam de Itapira, os espíritas tinham dois centros constituídos, tinham feito um asilo e haviam começado a construir um grande hospital psiquiátrico, “orgulho da cidade e de São Paulo”, na opinião dos mais fervorosos. Ao contrário dos presbiterianos que sempre observaram uma cuidadosa distância na polêmica entre “romanos” e “brasileiros”, os espíritas tomaram abertamente a defesa dos “amorinistas”. O mútuo apoio entre estes grupos religiosos, novos e pequenos, chegou ao ponto de os padres acusarem Amorim Correia e os seus seguidores de se confundirem com os espíritas e de estarem dominados por eles. Na verdade, vários espíritas procedem da Igreja Católica romana, seguido de um estágio de fidelidade à Igreja Brasileira. Vimos como os enfrentamentos entre as duas igrejas católicas acabaram deslocadas do campo estritamente religioso para o jurídico, o político e, uma vez ou outra, o policial. Da mesma maneira, quando um agente popular católica era um concorrente ameaçador, a Igreja dominante não deixava de denunciar um perigo também social e de sugerir a participação do delegado na questão. Mas as oposições entre o padre e o médium estiveram sempre restritas a uma luta ideológica revestida de acusações de ilegitimidade religiosa, onde os católicos atacavam com palavras de tradição e de direitos confessionais evangelicamente assegurados, e os espíritas defendiam-se com as da ciência e as de uma leitura revista dos evangelhos. Social e simbolicamente, os espíritas estavam, para os católicos, situados entre a religião popular e a ideologia dos pequenos liberais do lugar. Os agentes da paróquia da Penha não os deixaram ficar por muito tempo em uma tranqüila periferia ecumênica, mas também não encontraram meios para destruí-los, tal como aconteceu com a Igreja Brasileira. Houve diferenças notáveis entre os não-católicos formadores de um espaço religioso alternativo em Itapira. Procuremos recordar alguns dados e acrescentar outros. Os presbiterianos foram inicialmente colonos e estrangeiros. Exerceram um trabalho religioso discreto e dirigido a sujeitos, de uma forma ou de outra, desligados de um controle eclesiástico direto. Finalmente, não participaram da vida partidária local e não se pronunciaram com proclamações político-sociais de contestação, mas sempre ético-religiosas. Eles estiveram envolvidos com grupos extra-eclesiais apenas quando a sua proposta incluía a defesa direta dos seus interesses religiosos, como no caso do Comitê Pró-Liberdade de Consciência. Os espíritas de Itapira foram sempre brasileiros, a “gente do lugar”, em maioria, ou migrantes de perto (outras cidades paulistas ou do sul de Minas). Não foram convertidos através de uma atividade missionária externa e transitória, mas a partir de iniciativas pessoais e da formação de grupo de estudo e práticas primeiro esotéricas e, depois, espíritas. Antes mesmo de sua conversão ao espiritismo, alguns líderes atuais participavam ativamente de trabalho no campo político, afirmando posições liberais e, não raro, em favor do operariado em Itapira. Alguns líderes atuais foram membros de partidos políticos e candidatos a cargos de poder municipal34. 34 Do ponto de vista da doutrina explícita, o espiritismo kardecista é hoje em dia uma religião detendências conservadoras. No entanto, alguma vez será preciso estudar as razões pelas quais vários dos seus primeiros afiliados foram antes militantes políticos dos partidos populistas e de agremiações de classe. Em Itapira, agentes da liderança do espiritismo continuaram, mesmo depois de convertidos, no pleno exercício de atividade sindicais junto aos operários (C.I., 24.01.1937, nº 1970, p.1). Em 1951, ao se apresentar como candidato a vereador, um dos três militantes principais do espiritismo atual da cidade proclamava o seguinte: “Foi em Itapira o pioneiro das reivindicações proletárias, recebendo como recompensa a perseguição, a prisão e a pecha de extremista e revolucionário” (C.I., 09.10.1951, nº 2731, p.3). 56 Em nome do estabelecimento de um espaço religioso não-católico e autônomo, os espíritas provocaram alianças de serviços políticos com os maçons, com os “brasileiros”, com os liberais “livre pensadores” (expressão muito comum na época) e, em muito menor intensidade, com os protestantes. Em todos os momentos de luta entre o clero católico e os líderes espíritas, a iniciativa pública de uma definição de ilegitimidade partiu da paróquia da Penha. Os espíritas foram primeiro definidos como curandeiros profanadores e, depois das evidências de uma presença erudita em seus quadros dirigentes, como falsos profetas, chegados a Itapira para enfraquecer a “verdadeira religião”35. Esta trajetória do feiticeiro ao falso profeta, na interdição católica à outra religião, não foi privilégio do espiritismo. Vimos, páginas atrás, que os ataques aos “brasileiros” oscilaram entre considerá-los como “a seita do Mãozinha” ou tomá-los como uma “igreja” rebelde e rival. Mesmo fora do catolicismo será preciso relacionar ainda, em inúmeras oportunidades, acusações produzidas sobre a mesma composição: ilegítimo por magia profanadora x ilegítimo por profecia dissidente. Entretanto, desde aqui e com os dados apresentados até o momento, é preciso começarmos a compreender que não são só os atributos diretos dos sistemas de crença e de culto, os critérios ideológicos de proclamação da legitimidade religiosa. Eles incluem também a posição da classe do agente confessional e a dos seus seguidores preferenciais. Santos do lugar, benzedores, curandeiros, rezadores caipiras e os primeiros espíritas anônimos, assim como os “fiéis da Mãozinha”, foram acusados de praticarem cultos não-ortodoxos e profanadores da religião. Os afiliados de Amorim Correia e, depois, os espíritas conhecidos e letrados, seguidores de Américo Bairral, foram acusados pelo clero como falsos profetas, pregadores de religiões não-verdadeiras. 6. Os tempos do secular Há menos de 80 anos, a ideologia das classes sociais de Itapira pronunciava-se com as palavras da religião. Por outro lado, à exceção da maçonaria e de algumas associações étnicas ou profissionais, os lugares de afiliação estavam restritos aos grupos corporados do setor religioso: irmandades, associações pias, instituições assistenciais, conjuntos populares de prática ritual (congados, ternos de Reis ou de São Gonçalo)36. Durante as duas primeiras décadas do século XX, a paróquia de Nossa Senhora da Penha oferecia, para sujeitos de todas 35 As mais graves acusações católicas ao espiritismo foram escritas e faladas ao tempo do padre Guerra Leal. Este outro sacerdote português teria sido enviado a Itapira com a missão de acabar com a Igreja Brasileira. Exaltado por uns, o padre foi atacado por outros católicos pela sua maneira pouco hábil de conduzir a Igreja em momentos de conflito religioso. Sr. bispo, depois disto, ainda diz o padre Guerra que está acabada a Igreja Brasileira em Itapira; será possível! Que o diga S. Exc. Sabendo que tenciona transferir elle daqui, não deiva fazer isso, pois elle tem conseguido boas conversões e assim elle já conseguiu organizar nada menos de dois centros espíritas, ambos estão já registrados de accordo com a lei, a Maçonaria está augmentando o seu templo mais do dobro, a Egreja protestante vai augmentar visto que o actual é pequeno para as reuniões, de modo que elle continuando aqui conseguirá converter toda a população para a nossa Santa Madre Igreja, a Igreja Brasileira tinha sumido, no entanto depois da vinda do Guerra para aqui ella ahí está fazendo as suas festas. (C.I., 17.09.1916, nº 921, p.2). 36 Entre o final do século XIX e pelos menos o ano de 1910, eram as seguintes as associações civis em Itapira: Sociedade 13 de Maio Itapirense (dos “homens de cor”), Societá Italiana di Mutuo Soccorso, Sociedade Beneficente Operária de Socorro Mutuos, Sociedade Beneficente do Professorado Público. As agremiações políticas começaram a aparecer alguns anos mais tarde. 57 as classes e cores, mais grupos de associação e prática coletiva do que todos os outros setores da sociedade civil reunidos. Itapira começou a secularizar-se e a se tornar secularmente religiosa depois de 1910. Mas esta passagem do predomínio de representações do sagrado para o profano tem percorrido uma estranha trajetória. Primeiro ela foi em uma direção e correspondeu a um duplo processo de secularização e de abertura a formas concretas de participação política: partidária, étnica ou de classes. A partir de 1964, tendeu a seguir outra direção, acentuando o reinício de um retorno ao religioso: a) devido à transferência da linguagem e da prática política da sociedade para o estado; b) devido a um processo de re-popularização do catolicismo pós-conciliar, principalmente depois da criação das outras três paróquias (Santo Antônio, São Benedito e São Judas Tadeu); c) devido ao surgimento de grupos e de igrejas do pentecostalismo tradicional e “de cura divina”, com uma intensa e produtiva atividade conversionista nos bairros de baixo. Ao longo da primeira tendência, ia sendo criados partidos políticos, entidades classistas e grupos de representação de minorias étnicas e nacionais. Elas atualizavam alguns dos já existentes e, para múltiplos efeitos, substituíam velhas e novas instituições católicas “de igreja”. Interesses de classes antes pronunciados, ou simbolicamente ocultados pela religião, formulavam-se agora politicamente pelos partidos ou por entidades civis especializadas. Principalmente a partir da Revolução Constitucionalista, os avisos públicos de reuniões e as propostas de grupos seculares como Partido Social Progressista, Partido Socialista Brasileiro, Frente Negra Brasileira, Associação dos Voluntários, Campanha Anti-Comunista, Associação dos Ex-Combatentes, entre outros, substituíram a monotonia de muitos anos de anúncios quase exclusivos de promoções e de prestações de contas das entidades católicas. A igreja que antes falara sozinha em nome de toda a sociedade, começou a escutar setores secularizados falarem por si próprios e, em alguns casos, iniciarem a crítica profana da religião. Por outro lado, ela própria começou a produzir grupos institucionais católicos de atuação religiosa dirigida ao secular, como a Liga Eleitoral Católica e a Ação Católica. Mas foi justamente durante este período de progressiva secularização, que o setor religioso constituiu-se efetivamente, ao ser pressionado pelos outros a restringir as suas fronteiras de controle social e a redefinir a sua posição em Itapira. Quanto menos as religiões eruditas constituídas diferenciavam serviços não propriamente religiosos, para cobrirem e controlarem praticamente todos os setores de trocas sociais, tanto mais logravam reencontrar um ordem e uma vocação propriamente confessionais e, a partir daí, rescrever as suas regras de reciprocidade com outras áreas de articulação do estado e da sociedadecivil. Depois de segregados e pacificados, os agentes do catolicismo popular; depois de extinta a Igreja Brasileira; depois de aceitas as presenças de presbiterianos e de espíritas, os enfrentamentos do clero católico passam da concorrência com agentes de grupos dissidentes ou de outras religiões, para formas variadas de oposição a instituições e grupos de outros setores da sociedade, em Itapira ou fora dela. Assim, como um simples exemplo, os padres de Nossa Senhora da Penha, não acostumados a denunciar publicamente a Maçonaria, obedeceram a ordens diocesanas para prescrever restrições de participação dos seus fiéis no Lions e no Rotary 58 Clube37. Esta polêmica sobre os direitos de os católicos participarem de associações seculares sem qualquer definição religiosa estendeu-se até o ponto em que, afinal, entre sujeitos sociais equivalentes, foram feitas as pazes de mútua convivência. Por meio delas os católicos podiam ingressar em agremiações seculares que não hostilizassem abertamente o catolicismo. Durante alguns anos, as contestações seguintes do clero local estiveram dirigidas às entidades das classes subalternas e aos partidos populistas, sobre cuja atuação e ideologia a hierarquia católica tinha restrições derivadas dos seus compromissos com as elites dominantes de Itapira, do estado e do país. A partir do Comendador Vergolino de Oliveira, que ainda pagou quase toda a construção da “nova igreja matriz de Nossa Senhora da Penha” – assim como um coronel anterior fizera e um outro reformara a primeira matriz católica da cidade – os grandes fazendeiros de Itapira não construíram mais catedrais38. Segundo o atual vigário da paróquia de Santo Antônio, “Essa igreja, grande como ela é, foi toda feita com o dinheiro da classe média e do povinho”. De sua parte, uma a uma, a Igreja criou novas paróquias até elas serem o número atual de quatro. Chegaram novos padres, alguns já formados dentro do “espírito do Vaticano II”, nem todos dispostos a manterem com uma elite agrária o mesmo código de alianças. O controle religioso da Igreja foi bastante alterado, sem que ela perdesse, como um todo, a sua posição relativamente dominante39. De modo diferente do que costuma acontecer nos setores seculares da sociedade, o religioso sofreu em Itapira uma parada provisória e uma retração, logo depois de iniciado o seu processo de diferenciação intra e inter-eclesial. Entre a década de 1930 e a de 1960, houve alguma estabilidade na composição do campo religioso. Como várias outras cidades paulistas do seu tamanho, Itapira tinha então duas paróquias católicas, inúmeras associações religiosas e um número ainda maior de capelas nos bairros, nos sítios e nas fazendas40. Tinha também uma Igreja Evangélica e dois centros espíritas. Os três segmentos nacionais do mundo religioso erudito estavam devidamente representados: o católico, o protestante e o mediúnico. Havia mais torres de igrejas e havia mais salões de culto. Mas eles eram ainda poucos e, pelos bairros de cima e de baixo, entre sujeitos mais pobres e iletrados, havia muita coisa a retomar. 37 A todos os católicos, em geral, proíbe a Igreja o ingresso em sociedades que fogem à vigilância da legítima autoridade eclesiástica... O nosso episcopado em peso proibiu ao nosso povo católico fazer parte do Rotary, incompatível com o catolicismo. (C.I., 25.07.1965, nº 2815, p.2). Somente em julho de 1965 foi publicada, na “coluna religiosa”, uma notícia de pazes feitas entre a hierarquia católica e o Rotary Clube (C.I., 25.07.1965, nº 3473, p.2). 38 O coronel Cintra fez, como vimos, a Igreja da Penha. O coronel José de Souza Ferraz a reformou. O comendador Vergolino de Oliveira pagou a maior parte da construção da imponente matriz atual. 39 É muito importante a afirmação de que a posição dominante da Igreja Católica é um fato político, mais do que demográfico. Ela é dominante porque representa os interesses da elite no campo religioso e estabelece alianças de trocas preferenciais com ela. Mas em termos de envolvimento popular, muito embora quase toda a gente em Itapira se declare católica, as paróquias contam com um repertório pequeno de fiéis; menor ainda, se forem contados apenas os leigos participantes. De certo modo o catolicismo era uma religião forte de uma igreja fraca. 40 Foi justamente o padre Guerra Leal, um português conservador, quem assumiu com maior empenho a europeização de uma Igreja marcadamente ibérica, até sua chegada. O padre construiu grutas de Lourdes, incentivou associações laicas de origem italiana e francesa e propagou cultos a “nossas senhoras” afrancesadas. No entanto, todo esse movimento de “atualização da vida paroquial” representou, na verdade, uma retomada de controle, de toda a vida e o poder derivados do catolicismo, em mãos do clero. Ver, a respeito, Pedro de Assis Ribeiro de Oliveira, 1976: 171. 59 60 2º Depoimento O CISMA CATÓLICO DE AMORIM CORREIA Aí nisso tem coisas melindrosas, que as pessoas antigas não disseram e que a gente continua não dizendo. Um dos cronistas de Itapira, quando perguntado sobre o Padre Amorim. Retratos de padres eram publicados às vezes nos jornais de Itapira. Quem visse uma das fotos de batina e perfil do cônego Manoel Carlos de Amorim Correia, não apostaria nele como um estranho sacerdotes, capaz de brigar com o seu bispo e protetor e de fazer, sozinho, o primeiro cisma católico no Brasil. Quem ouvisse os seus sermões ou lesse o teor ortodoxo de denúncia nos seus avisos contra a religião dos sitiantes caipiras, imaginaria menos ainda estar diante de um pequeno dissidente religioso, renovador de igrejas. O padre Amorim foi o 18º vigário de Itapira. Era português, chegou menino e fez os seus estudos religiosos no Brasil. Parece que as crônicas da Igreja Católica faziam-lhe restrições desde muito antes da vinda para Itapira. Ele esteve em dois seminários e saiu deles sem se haver ordenado. Mesmo no terceiro, teria sido preciso a proteção do bispo D. Nery para que o padre, preterido de ordens, pudesse ser finalmente ordenado. Antes de chegar para viver e morrer em Itapira, Amorim Correia foi vigário em Araras (Mandatto, 1959:77). Como vigário da paróquia da Penha, a carreira do padre diferiu em muito pouco da dos seus titulares precedentes. Ele chegou à cidade no dia 25 de setembro de 1909. Cinco dias depois foi jantar em casa do coronel Souza Ferreira, presidente do diretório político local, em companhia de quase todos os outros comensais da elite agrária. Uma vez mais se cumpria o costume tantas vezes enunciado pelos jornais. O agente da Igreja oficial recém-chegado era convocado a se fazer conhecer pelos donos das grandes fazendas e da pequena política local (C.I., 26.09.1909, nº 224, p.2; 30.09.1909, nº 225, p.2). Muito cedo as primeiras notícias sobre Amorim Correia dão conta de uma presença eclesiástica, política e festiva, mais eficaz do que a do seu antecessor41. Em pouco tempo o padre conseguiu reorganizar a Irmandade do Santíssimo Sacramento e submeteu a Irmandade de Santo Antônio de Pádua ao comando da Paróquia. Vimos que ele se destacou pelo exercício de uma sistemática denúncia contra as práticas religiosas populares. Do púlpito de Nossa Senhora da Penha, em visitas aos bairros e sítios e através dos jornais, o padre atacou várias vezes os capelães e os rezadores populares. Ele foi o primeiro a desautorizar publicamente os serviços religiosos e as festas da Igreja da Mãozinha. ao longo de toda a história católica de Itapira, a maior parte das proclamações de anátemae proibição à concorrência popular foram de autoria do padre Amorim: contra festas e padroeiros em sítios, bairros e fazendas; contra festejos não autorizados em louvor a Santo Antônio; contra grupos precatórios de esmoladores rurais; contra as festas e as rezas na igreja de Santa Cruz da Mão Aparecida. 41 “Felizmente devido à iniciativa do revmo. Padre Amorim Correia, vigário desta Parochia, vamos ter, depois de tantos anos, as solemnidades da Semana Santa nesta cidade” (C.I., 10.02.1910, nº 263, p.2). 61 Em 1910, o padre contava ainda com apoio do bispo de Campinas, sendo inclusive promovido a cônego honorário da Sé diocesana (C.I., 29.12.1910, nº 354, p.2). A partir desde mesmo ano de promoção e de homenagens, tornou-se pública uma grave enfermidade que levou o padre ao Rio de Janeiro em tratamento de saúde. Quando ele voltou a Itapira, recebeu a visita de patentes da Guarda Nacional e de comendadores. “De diversos pontos do Estado chegam todos os dias telegramas, cartas” (C.I., 11.08.1910, nº 314, p.2). Mas foi também no segundo semestre deste segundo ano de presença na paróquia que o padre começou a ser criticado. Ao contrário do que seria previsível esperar, as observações ao vigário não foram feitas pelos grupos e sujeitos religiosos populares condenados por ele. Elas pareciam vir de porta-vozes urbanos da elite agrária. Em alguns escritos tornados públicos, era evidente a dificuldade com que os opositores do padre procuravam defini-lo: Cacete por demais foi esse sorteio (durante os festejos do Espírito Santo). O vigário desta Paróchia ainda é dos tempos antigos. Não é atoa que o Sartini diz que elle é Sebastianista, não obstante ser um democrata completo (C.I., 15.12.1910, nº 350, p.1). As críticas ao desempenho de um padre, feitas através do jornal mais conservador e tradicionalmente aliado à paróquia, constituíam um fato novo e revelavam o início de desavenças entre ele e os seus aliados agrários. As razões hoje discutidas para a crescente quebra de alianças entre o vigário, o seu bispo e os coronéis do lugar, são de dois tipos opostos: 1º) segundo a versão oficial da Igreja e a opinião dos católicos ortodoxos da cidade, o padre foi punido porque não tinha uma conduta moral adequada e desobedeceu ao bispo, seu protetor; 2º) de acordo com os líderes religiosos não-católicos e de alguns agentes do catolicismo popular, o vigário desagradou “aos poderosos” porque seria “muito chegado à arraia miúda”. Para um dos seus biógrafos locais, Amorim Correia era indiscutivelmente um homem muito popular (Mandatto, 1959: 78). Esta é também a opinião de uma mulher da cidade, seguidora do padre e hoje dedicada a construir em Itapira uma “igreja do Menino Jesus de Praga”. O padre era um amigo do povo, ele chegava a reunir na casa dele os negros do samba, na Festa do 13, quando o delegado proibia a dança na porta da igreja de São Benedito. Desde quando chegou a Itapira ele tornou-se um ídolo. Todo mundo tinha adoração por ele. Era lindo, simpático, democrático. Tinha idéias avançadas para a sua época. Achava natural sair na rua sem batina. Outros informantes acrescentam, aos efeitos de um desempenho pouco ortodoxo na escolha de suas alianças, a convicção de que ele foi punido por D. Nery por motivos políticos. O cônego Amorim criou a Igreja Católica Brasileira por perseguição política. Ele era um sacerdote muito popular. Gostava de gente do povo e gostava de estar entre eles. Ele vivia com a gente humilde e essa coisa aqui não dava certo. Os mandões não gostavam. Ele tinha uma mulher que tomava conta da sua casa, assim como muitos padres antes e depois teriam tido. Por isso os mandões fizeram a caveira dele. E depois, quantos outros não tiveram mulheres em suas casas? Os mandões fizeram tudo para afastar o padre Amorim de Itapira. 62 Há entre os espíritas a certeza de que Amorim Correia esteve ligado a grupos esotéricos em São Paulo e freqüentou, às escondidas, algumas de suas reuniões. O próprio padre Amorim freqüentou reuniões espíritas em São Paulo. Não fora assim e ele não teria doado brochuras das Escrituras Sagradas para o Centro Espírita Luiz Gonzaga. Para explicar detalhes das desavenças crescentes entre o vigário e as autoridades da Igreja e da cidade, alguns informantes relembram velhos casos contados, os primeiros de uma pequena saga milagreira de Amorim Correia. Durante as missas, os rapazes e moças costumavam reunir-se em cantos da igreja matriz ou ficar pelos lugares do coro. Um dia, quando havia a palestra de um orador sacro, alguns jovens falavam alto no coro, atrapalhando. O padre Amorim foi lá e chamou a atenção deles, especialmente de uma mocinha. Ela saiu aos prantos e foi fazer queixa aos pais. Dois irmãos se armaram de um revólver e vieram dispostos a afrontar o padre Amorim. Ele os recebe dizendo que guardem a arma: „quem sabe ela terá uma outra utilidade?‟ Pouco tempo depois a jovem briga com um namorado e se mata com um tiro de revólver na cabeça. Espalha-se a crença de que fora uma praga do padre. Os chefes políticos indispõem-se mais ainda contra ele, de tal modo que a história de D. Cantídia (suposta amante do padre) foi apenas um pretexto. A partir de 1912, a diocese de Campinas não mais conseguia manter dentro dos seus corredores o barulho do conflito entre o bispo e o vigário. D. Nery comunicou em carta que Amorim Correia deixaria de ter jurisdição paroquial em Nossa Senhora da Penha, acusando-o, ao mesmo tempo, de viver em sua chácara “com uma mulher de má reputação”. O vigário não se submeteu às ordens do bispo e preferiu responder publicamente com palavras de guerra: Entrou (o bispo) a nos afrontar com declarações e afirmações de factos, cuja realidade existia em seu cérebro bastante debilitado. Afirmou que vivíamos uma vida escandalosa com uma mulher que nos havia fascinado. Entretanto, o povo de Itapira sabe, perfeitamente, que nós vivíamos sozinhos na casa parochial, sem termos, sequer, um criado que nos tratasse da limpeza interna de nossa residência, e que nos fizesse companhia durante a noite (Mandatto, 1959: 78). Nesta mesma declaração pública e nas seguintes, o vigário fazia acusações morais equivalentes a D. Nery, de tal sorte que as divergências entre o poder religioso da dioceses e o da paróquia dividiram a cidade. Com o apoio de vários paroquianos, Amorim Correia negou-se a acatar as ordens de entrega das chaves da igreja da Penha e do controle eclesiástico da paróquia a um padre delegado, enviado pelo bispo. D. Nery contra-atacou anunciando publicamente que as decisões sobre o destino da Igreja em Itapira eram um direito seu, e remeteu à cidade o padre Oscar Sampaio como encarregado e fabriqueiro da igreja local. Estas decisões do bispo sucederam a sua resolução de fazer de Itapira o local de férias e de “treino prático” para os seminaristas da diocese. O reitor do “seminário de verão”, a ser ainda criado, seria também o vigário da Penha. 63 Para os aliados de Amorim Correia, a atitude punitiva do bispo escondia interesses políticos de afastamento do padre. Mais do que isto, eram um gesto de absoluto desrespeito a uma pretendida autonomia religiosa conquistada pelas gentes do lugar. O Exmo. Sr. Bispo como dissemos, liga importância apenas aos haveres doados por João de Moraes, à Veneranda Imagem de N. S. da Penha, mas não a esta Paróquia que só lhe desperta a atenção pelo que tem e não pelo que merece” (C.I., 22.12.1912, p.12). A partir da destituição do vigário, ele não mais se defendeu sozinho. Paroquianos urbanos e não ligados à elite rural de Itapira passaram a acusar D. Nery de esconder interesses comerciais e políticos nomunicípio, e começaram a promover gestos públicos de adesão à resistência de Amorim Correia. “Ao Povo – Convidam-se as Irmandades religiosas desta Paróchia, e o povo em geral, desta cidade, para hoje às 7 horas da noite, se reunirem em frente ao Theatro Sant‟Anna, afim de encorporados, irem a residência do Exmo. Reverendíssimo Vigário d‟esta Paróchia, sr. Cônego Amorim Correia, protestar contra o acto do Sr. Bispo Diocesano no tocante a encampação d‟esta Paróchia a Diocese de Campinas, e conseqüente retirada do referido vigário, contra as normas da Justiça e do Direito e também contra a vontade da população sensata, criteriosa e independente d‟esta terra” (C.I., 29.12.1912, p.1)42. “Notas e notícias – as Irmandades do Imaculado Coração de Maria, Apostolado do Coração de Jesus e Irmandade Cathequista em representação ao Bispo declararam-se contrárias a anexação da paróquia ao Bispado de Campinas e favoráveis à permanência do Cônego Amorim” (C.I., 29.12.1912, p.2). Nesta primeira etapa de lutas, ainda foram pequenos e médios proprietários rurais os que apoiaram, em maior número, a dissidência do vigário. Entre os assinantes da primeira nota acima havia 5 fazendeiros de médio porte, 1 contador, 1 comerciante e 2 funcionários públicos, entre 17 pessoas. Os coronéis do café desconfiavam do padre e o poder municipal não se manifestava. Apesar dos protestos locais, o padre interventor assumiu o comando da paróquia em nome da diocese. Depois de haver sido contestado pessoalmente por Amorim Correia, D. Nery proibiu-o também de dizer missas na capela de São Benedito43. A punição eclesiástica eqüivalia a uma suspensão de ordens. O padre respondeu ao bispo por telegrama, negando-se a aceitar a 42 Existe um único jornal em Itapira com a coleção dos seus números reunida desde 1908, o Cidade de Itapira. Mas, mesmo dele, desapareceram todos os exemplares entre 1911 e 1915. Algumas pessoas a quem perguntei a respeito são de opinião de que o roubo foi proposital e serviu a dar sumiço nos exemplares referentes ao período de lutas mais intensas do cisma católico. Dentre o período inicial da luta o Cidade de Itapira colocou-se francamente ao lado do bispo, enquanto o Comércio de Itapira, de que participava Menchi del Pichia, colocou-se ao lado do vigário. O O Mensageiro, jornal da diocese de Campinas, publicava, sobretudo depois de 1913, notícias, documentos, cartas e telegramas de apoio ao bispo, enviados de vários cantos do país. 43 Final da carta pastoral de D. Nery: “Havendo na Pastoral Collectiva um dispositivo que proíbe expansões aos eclesiásticos, incidira o revmo. sr. cônego Amorim na „pena de suspensão‟, aí cominada, o que, com grande mágoa para nosso coração de pai, fomos forçados a notificar-lhe por portaria de 29 do mês findo” (C.I., 21.08.1949, nº 2624, p.1 – crônica de Euzébius Ignotus). 64 sua decisão de puni-lo uma vez mais, e até mesmo festejando o acontecido. A partir daí faltava muito pouco para uma efetiva ruptura. No dia 30 de janeiro de 1913, Amorim Correia celebrou missa em sua casa e proclamou a Igreja Católica Apostólica Brasileira, da qual nomeou-se primeiro patriarca44. Menos de um mês depois, foi destituído do Cabido da Catedral de Campinas e, a seguir, canonicamente excomungado por D. Nery. O patriarca escreveu então uma carta pastoral denunciando o bispo, o núncio apostólico e pessoas da elite de Itapira. Na mesma carta, Amorim Correia conclamou uma vez mais o povo a que o seguisse. De imediato a nova Igreja ganhou a adesão de alguns fazendeiros e sitiantes, de comerciantes, inclusive os portugueses da Rua do Amparo, de funcionários públicos e de pequenos profissionais liberais, como o próprio diretor de O Comércio de Itapira que veio a ser mais tarde um bispo da Igreja Brasileira (Mandatto, 1959: 81 e 82). Como patriarca de uma nova igreja, mas ainda católica, Amorim Correia, primeiro, negava o primado do Papa, a hierarquia dos bispos, o celibato sacerdotal, a distinção entre bispos e sacerdotes, a instituição do matrimônio e a comercialização de indulgências; segundo, alterava o ritual católico simplificando cerimônias, abolindo o latim e adotando cores verde- amarelas como símbolos de fé (C.I., 09.10.1949, nº 2631, p.2 – crônica de Euzébius Ignotus). Hoje em dia é freqüente, entre fiéis católicos populares e agentes religiosos não- católicos, a certeza de que depois do cisma “o povo ficou com o padre e a elite com a Igreja Romana”. O povo ia na Igreja Brasileira e a elite na Igreja Romana. Durante muito tempo a gente do povo sequer sabia das dimensões do rompimento entre o padre Amorim e Dom Nery. Na verdade a paróquia de Nossa Senhora da Penha perdeu inúmeros fiéis temporários e alguns definitivos. Mas, durante muito tempo, poucos católicos populares – já afastados das pregações eruditas e dos cultos solenes – distinguiam duas igrejas separadas dentro de uma mesma religião. Consequentemente, muitos não se reconheciam convertidos a uma outra Igreja, ao ficarem “do lado do padre”45. Perdendo um certo número de afiliados e ficando mais desacreditada, depois de esvaziada em sua autonomia, a paróquia da Penha soube conservar as alianças estabelecidas com a elite agrária. Na opinião de alguns informantes, estas alianças na verdade foram reforçadas, uma vez que o afastamento de um “padre popular” teria sido imposto pelos coronéis ao bispo. 44 O atual vigário da Penha narrou os acontecimentos de janeiro/fevereiro de 1913 da seguinte maneira: “Notificado da suspensão em que incorrera, ato contínuo resolveu o Cônego Amorim fundar a „igreja nacional‟ tendo por isso incorrido em excomunhão speciale modo reservada ao Sumo Pontífice. Por portaria de 11.01.1913, foi destituído das honras de cônego da Catedral de Campinas... Aos 30 de janeiro de 1913, em sua residência, havendo celebrado indevidamente o santo sacrifício da missa, fundou a Igreja Católica Apostólica Brasileira e aos 16 de fevereiro publicou o seu Manifesto Pastoral, de ignorância inexplicável em pontos doutrinários” (C.I., 21.08.1949, nº 2724, p.1). 45 De sua parte, alguns fiéis letrados proclamavam pelos jornais a sua passagem de uma igreja para outra. “E assim podemos estar convictos que a Egreja Brasileira triunfará em breve, apezar da enorme e forte campanha que os „chaleiras‟ do Bispo de Campinas estão fazendo contra o seu Patriarcha... Vitória sobre a opressão, sobre a vaidade, sobre a falta de moral, sobre o poder orgulhoso do Papa... a Egreja Brasileira é uma verdade, roam os „chaleiras‟ do Bispo, esta afirmativa é de um ex-catholico Romano... (Comércio de Itapira, 19.04.1913, p.1). 65 “A Igreja Romana esteve sempre ligada à elite. Mas com o advento da Igreja Brasileira e do espiritismo ela perdeu muita gente e a sua primazia absoluta. Mas não perdeu o controle sobre a elite. Itapira sempre teve uma elite reacionária”. Depois de efetivar a dissidência e de haver resolvido permanecer em Itapira, fazendo ali o centro de difusão de sua Igreja, Amorim Correia apropriou-se da pequena capela de Santa Cruz da Mão Aparecida. A seguir, estendeu a Igreja Brasileira até Mogi Mirim, onde um dos primeiros adeptos ofereceu um terreno para a construção da capela de Santa Luzia (Comércio de Itapira, 19.04.1913, p.2). Esteve algumas vezes em São Paulo e, tanto lá quanto no interior do estado, buscou atrair para a Diocese de Itapira outros padres romanos suspensos de ordens. Procurando constituir para a sua Igreja uma ordem institucional e atualizar as condições de sua prática, formou o Conselho Patriarcal da Igreja Brasileira, comprou em São Paulo objetos deculto sacramental e começou a rezar missas para o público. Logo depois do cisma, o padre Amorim começou uma polêmica, pelos jornais de Itapira e de Mogi Mirim, contra um dos padres desta última cidade. As acusações do padre Nova contra o patriarca foram tão graves que ele resolveu processá-lo, nada obtendo da justiça. Por outro lado, foi curto o caminho entre o cisma e a morte. Oito meses após haver criado a Igreja Brasileira, o padre Amorim Correia morreu em Itapira46. Depois da morte, o milagre. O patriarca repetiu, como mito, a trajetória do milagreiro popular que combatera, quando era ainda o vigário da Penha. Durante a missa de 7º dia, oficiada na casa de um dos seus seguidores, houve acontecimentos extraordinários sobre os quais a memória de algumas pessoas faz até hoje narrativas com assombro. No momento da elevação da hóstia, ouviu-se um estranho estrondo que partiu do alto do telhado, uma espécie de trovão ou um rasgar dos véus do templo! Ninguém jamais compreendeu o fenômeno, salvo aqueles que, professando a religião espírita, acreditam num sinal (C.I., 14.07.1974, nº 3895, p.6). Algumas pessoas contam também que, quando foram feitas as obras de renovação do cemitério da cidade, foi preciso remover a frente do túmulo do padre para o alargamento de uma das ruas internas. Ao retirarem a terra do local da cabeça, ela teria aparecido inteira, intacta, “como se ele tivesse acabado de morrer”. Dizem que as autoridades municipais apressaram-se em soterrar depressa o túmulo e a notícia. Até hoje correm versões de vários milagres feitos, em benefício de gente da cidade e de fora, por intermédio do patriarca Amorim. No seu túmulo, entre a cruz e um busto do padre, foi colocada uma placa rústica pintada de tinta sobre a madeira. O concílio da Igreja Apostólica Brasileira elevou à dignidade de Beato, Manuel Carlos de Amorim Correia. Se você alcançar graças invocando São Manuel Carlos de Itapira, comunique-nos. Telefone – 40 21 32. Depois da morte do delegado Joaquim Firmino, a morte sempre mais discutida em Itapira é a de Amorim Correia. Assim como a elite agrária de Itapira assassinou um delegado de 46 Alguns católicos romanos levantam, hoje em dia, a suspeita de que, a seu pedido, o padre Amorim tenha recebido os sacramentos da Igreja oficial na hora da morte (Comércio de Itapira, 04.09.1913, nº 56, p.2). Informantes espíritas com quem conversei negam de modo definitivo qualquer hipótese de retração do padre. De fato, não houve uma declaração formal da Igreja Romana, em um momento em que isto seria do seu interesse. 66 Mogi Mirim, teria um homem vindo de lá assassinado o padre de Itapira? A palavra da Igreja Católica é de que o padre morreu naturalmente, sob uma doença incurável e, se apressou a maneira pela qual se retirou do cenário de lutas religiosas do lugar, é porque comia e bebia além da conta47. Mas a memória popular e a de alguns agentes religiosos não-católicos insistem em um assassinato por envenenamento. Um farmacêutico de Mogi-Mirim que tratava do padre adicionou doses de arsênico aos seus remédios. Há quem repita em Itapira a acusação feita pelo bispo de Maura no seu “Manifesto à Nação”, quando ele recriou, também em São Paulo, a Igreja Católica Apostólica Brasileira. Vitimado por uma gripe, foi envenenado pelo farmacêutico, comprado por dez contos de reis e educação gratuita para duas filhas. Cheio de remorso, à hora da morte fez esta revelação (Mandatto, 1959: 95)48. Depois da morte de Amorim Correia, a Igreja Brasileira sobreviveu em luta até 1936 e, em agonia, até 1948, entre conflitos com a Igreja Católica, pressões do aparato de estado no município e em São Paulo e, finalmente, uma cisão interna de lutas pelo controle patriarcal. Um dos padres atraídos a Itapira pelo primeiro patriarca foi o italiano Francisco Frederico Arditi. Foi ele quem conseguiu concluir o processo de atribuição de personalidade jurídica à Igreja Brasileira, em 192849. Passaram depois por ela padres dissidentes e leigos às pressas convertidos em sacerdotes. Alguns deles ocuparam, sucessivamente, depois de Arditi, o lugar de patriarca. Um dos mais ativos, outro italiano, retornou mais tarde à Igreja Romana, sendo obrigado a uma profissão pública de fé cuja leitura pode ajudar a traduzir o teor das relações de concorrência entre agentes de uma igreja e da outra. Itapira – Conversão do Padre Pellegrino Guarino. Eu, Pe. Pellegrino Guarino, natural do lugar – Centrada, Diocese de Salermo, Itália, com 37 anos de edade, de joelhos deante de vós Revmo. Frei Jacinto Prada, delegado especial, e tocando com a minha mãos os santos Evangelhos, professo aceitar firmemente e crer que ninguém poderá alcançar a salvação eterna sem que com toda a sinceridade creia e aceite tudo o que ensina e crê a Santa Madre Igreja Cathólica Apostólica Romana, contra a qual, Igreja de Jesus Cristo peza-me o íntimo d‟alma haver gravemente errado, porque adheri aos erros da seita: Igreja Cathólica Apostólica Brasileira, e os professei. (C.I., 06.02.1916, nº 875, p.2). A notícia prossegue ainda com uma longa profissão de fé do padre. Desde 1913, os agentes da Igreja Romana proclamavam com insistência: 1º) que o “scisma amorinista” teria sido finalmente o produto de um gesto aventureiro de um padre rebelde e ambicioso; 2º) que a Igreja Brasileira foi uma espécie de continuação da “Seita da Mãozinha”, 47 “Por ser o fundador, chamou a si os direitos de Patriarca. Não fosse pelos seus desregramentos libatórios, teria vivido, certamente, mais tempo, além dos oito meses posteriores à data da fundação... Após sua morte, a decadência da egreja, tantos foram os falsos padres que desejavam tomar a direção da nova egreja” (Folha de Itapira, 03.02.1963, p.2). 48 Histórias mais estranhas ainda correm pelas ruas dos bairros de baixo. Elas ignoram a gravidade da doença do padre e contam que foi envenenado com uma fruta – uma laranja ou uma maçã – que alguém lhe dera de propósito. 49 Tal como no caso de Amorim Correia, memória erudita da Igreja Romana afirma que Frederico Arditi morreu arrependido, reconvertendo-se à Igreja Católica e recebendo os seus sacramentos. 67 de tal sorte que os seus adeptos vieram de um surto milagreiro de baixo nível; 3º) que a “seita” derivada do cisma católico, esteve sempre em agonia e acabou destruindo-se a si própria, por não incluir nenhum dos sinais da presença da divindade. Ainda está muito fresca na memória de todos, a história da fundação dessa coisa que se teima em chamar egreja brasileira. Foi um gesto infeliz de rebelião do padre Amorim Correia que, cego de vaidade, pretendeu conquistar o renome e a fama que celebrizam os fundadores de scismas e credos religiosos... A sede era um rancho rústico e em ruínas, que a ignorância de uns pretos da rua do Amparo houvera erigido em capella para a adoração de uma orelha de pau com forma de mão de gente. Chama-se por isso maõzinha o logar em que se realizam as práticas do scisma amorinista (C.I., 06.02.1916, nº 875, p.2) A notícia acima prossegue afirmando que tudo o que Amorim Correia pretendeu foi conturbar a ordem da Igreja Católica, visando prejudicar as autoridade religiosas que o puniram com justiça. Por outro lado, como o vigário era “maneiroso”, conseguira arregimentar vários seguidores iludidos. Finalmente, morto o padre rebelde, a sua Igreja decrescia depressa em número de fiéis e em credibilidade. Os “brasileiros” continuaram reunidos na “Igreja da Mãozinha”, mas não emfunção do seu culto exclusivo. De sua sede eles organizaram festas e procissões, reservando anualmente a mais importante para São Sebastião. Ora, como os romanos desde anos atrás festejavam o mesmo santo no mesmo dia, pelas ruas da cidade, começou a haver nos janeiros de Itapira a ameaça de que fiéis em festa passassem do ritual ao conflito aberto. Entre 1914 e, pelos menos, 1935, foi sobretudo por ocasião dos festejos de São Sebastião que se concentraram as disputas entre as duas Igrejas, em pouco tempo levadas das acusações de ilegalidade religiosa para uma batalha judicial que, nos anos mais quentes, acabou trazendo de São Paulo para Itapira uma pequena força policial com até 30 homens, sob ordens de separar, com os poderes da lei, espaços de fé pelas ruas. Todos os anos os “brasileiros” anunciavam os seus festejos a São Sebastião. Todos os anos as autoridades romanas conseguiam, dos seus padres seculares, o embargo relativo das solenidades de rua saídas da “Igreja da Mãozinha”. Os delegados e juizes consultados por ambos os lados respondiam aos pedidos dos “brasileiros”: a) autorizando a saída de sua procissão a São Sebastião, tomando por base os princípios de liberdade religiosa no país; b) limitando o percurso da cerimônia às ruas próximas à igreja do Mãozinha; c) proibindo o uso de vestes e objetos de culto considerados como propriedade exclusiva do repertório de símbolos católicos. (notícia sobre) “O Habeas Corpus da Mãozinha – os poucos que ainda teimam em reanimar a obra que, nascida do cérebro revolto do Pe. Amorim, ha muito se estroce nas vascas de uma agonia lenta mas progressiva, pretendendo realizar uma passeata pelas ruas principais da cidade – passeata a que denominam procissão – com imagens de Santos e outros symbolos privativos da Igreja Cathólica Romana, pediram ao Dr. Delegado de Polícia a respectiva licença”... (O delegado concede a licença, mas limita o percurso) “... Não se conformando com essa solução, o Sr. Ludovino Andrade, que de sachristão de nossa Matriz passou a bispo da religião da Mãozinha, impetrou perante o Tribunal de Justiça 68 de São Paulo, uma ordem de Habeas-Corpus preventiva, afim de poder, sem opposição da polícia local, passear a seu préstito pelas ruas que escolhera na cidade”. (O pedido foi negado e um delegado foi trazido de São Paulo. O delegado...) “... conseguio dominar os ânimos e, para manter a ordem e evitar desagradáveis ocorrências, determinou que, por occasião da procissão dos sequazes da Igreja Brazileira, se observasse um determinado itinerário” (C.I., 04.02.1917, nº 942, p.2). Foi no confronto pelo direito de reclamar espaços e condições de culto religioso iguais aos dos católicos romanos, que os “brasileiros” concentraram a questão confessional durante vários anos. Assim, em nome da Igreja Brasileira, Ludovino de Andrade levou a polêmica sobre os rituais públicos ao Supremo Tribunal Federal. A “Igreja de Itapira” freqüentava então os jornais do estado e do país, mas, uma vez mais, foi derrotada na justiça. O ministro Viveiros de Castro negou o pedido “em nome da ordem pública”, porque entendia que só a Igreja Católica Romana poderia sair às ruas com santos e outros símbolos cerimoniais considerados como de sua propriedade. Alguns jornais da cidade e do estado festejaram a decisão, antevendo, depois dela, o fim do “scisma amorinista”. ... Dest‟arte, é agora lícito suppor que a disparatada creação do fallecido padre Amorim Correia tenha recebido, em sua essência, um verdadeiro golpe de morte (O Diário, Rio Claro, apud, C.I., 17.06.1917, nº 961, p.1). Mas eles não haviam ainda recebido o golpe final. Dezessete anos mais tarde, os “brasileiros” continuavam na ativa, e nas ruas. Já então divididos eles insistiam ainda em fazer outra vez suas procissões a São Sebastião. Secção Livre: Igreja Brasileira – Itapira – dia 4 p.p. deu-se nesta cidade o alarma produzido pelos cathólicos romanos no sentido de impedir a procissão da Igreja Brasileira. E foi assim que, consoante telegrama do Dr. Chefe de Polícia, o Delegado de Polícia dividiu duas escoltas: uma para garantir a Igreja Romana; outra para impedir que sahisse a procissão da Igreja Brasileira. Não censuramos o Dr. Chefe de Polícia em mandar agir por essa forma, porque, a informação que obteve a tal respeito é mentirosa, aliás. Aproveitamos, entretanto, o ensejo para repetir o que disse o Dr. Anthero Estanislau Pessoa de Vasconcellos – esta cidade é apontada como victima de um vulcão latente. É por isso, que apparece, de quando em vez, um desses factos que, por um triz, não obriga a trocar o mármore já salpicado com sua história. Vejam bem, senhores, si não fosse minha calma, o commnadante do destacamento cumpriria ordem conforme recebera. Ao Dr. Delegado Geremias em protesto de agradecimento pela fineza, com a qual nos distinguiu. Pela Igreja Brasileira – Laudelino Pires Monteiro” (C.I., 11.02.1934, nº 1817, p.3)50. 50 Sob o título Ad Perpetuam rei memoriam, sucessores de Amorim Correia escreviam no Livro de Batizados da Diocese de Itapira, denúncias de agressões: “No dia 3 de julho de 1927, fui agredido pelo Pe. Lázaro Sampaio, vigário de Itapira que, unido ao Sr. Quinzote, escrivão de Polícia, e Mauro Cintra, filho de Arthur Cintra, mentiram dizendo que não podia celebrar em Santa Maria por ordem do delegado, bazeando-se sobre um habeas-corpus promovido pelo Sr. Ludovino Andrade em 1916. A missa não foi celebrada por razão...” (ilegível). “Cheguei para esta diocese dia 20 deste ano de 1934 e tendo promovido uma festa de São Sebastião para 4 de fevereiro, tomei todas as providências consagrando as novenas dia 24 do mesmo mez de janeiro mas dado a grande perseguição que moveu contra mim o Sr. Pe. Lázaro Sampaio, então vigário da matriz dos romanos, a procissão não pode sair, tendo vindo para este fim dez praças de polícia afim de não consentir na saída da procissão, e tendo mandado por o púlpito na porta da 69 Negando mais uma vez um pedido de garantia de direitos assinado pelo advogado, o bispo e o presidente da Igreja Brasileira, o juiz de direito da Comarca de Itapira ajudou a Igreja Romana a estabelecer, também juridicamente, a ilegitimidade dos “brasileiros”, ao desconstituir o seu agente religioso do sacerdócio legítimo. Não podereis ainda usar na via ou vias públicas, de vestes sacerdotais, pois assim incorrereis nas sanções do art. 379 da Cons. das Leis Penais uma vez que não sois sacerdote ou padre (C.I., 19.08.1934, nº 1843, p.1). A cisão do cisma começou por volta de 1935. A luta interna pelo poder de controle da Igreja, através do acesso aos postos de patriarca e de membro do Conselho Patriarcal, dividiu os “brasileiros” em dois grupos cada vez mais antagônicos e mais publicamente hostis. Esta crise interna que acabou por destruir a Igreja Brasileira, resultou de início em uma redução dos conflitos com os romanos, com benefícios inegáveis para os paroquianos de Nossa Senhora da Penha. Em um mesmo número dos jornais da cidade foram publicadas declarações semelhantes com assinaturas diferentes. Uma, a de Avelino de Carvalho, que se fez acompanhar de mais 10 afiliados, para decretar que prevalecem, para todos os efeitos, as decisões tomadas pelo Conselho Patriarcal que dirigia. A outra, de José Maria Assumpção, que se apresentou como patriarca legítimo da Igreja, comunicou a constituição de um novo “Conselho” a ser presidido pelo Patriarca “de conformidade com o manifesto do fundador” e que se fez acompanhar de doze “brasileiros” fiéis (C.I., 07.07.1935, nº 1839, p.3). Durante os meses seguintes persistiram entre os dois lados acusações mútuas e protestos de exclusividade de direitos e delegitimidade51. A partir da segunda metade de 1934, os católicos dissidentes estavam divididos o bastante para não poderem mais compartir de um mesmo local de culto religioso. Os líderes de ambos os lados concordaram em fechar as portas da igreja e entregar as chaves ao prefeito até que a questão fosse judicialmente resolvida. Possivelmente conduzindo proposições não declaradas do vigário de Nossa Senhora da Penha, algumas pessoas foram aos jornais com a proposta de se considerar o destina “da Igreja da Mãozinha e da Igreja Brasileira” uma responsabilidade de toda a comunidade. Afinal, se foi o povo de Itapira quem deu as esmolas com que o então vigário romano Amorim Correia construíra uma igreja no local da capela da Santa Cruz da Mão Aparecida; se a Igreja Brasileira que a ocupou, como lugar público de culto religioso, estava dividida e não funcionava mais; se, finalmente, alguns dos que procuravam decidir sobre o seu destino talvez não fossem nem mais católicos, então porque não deixar que um plebiscito dos “homens de bem” resolvesse a questão? igreja para pregar o sermão, fui mesmo assim impedido de falar, mesmo que fosse dentro dos terrenos na igreja... Fui também intimado diversas vezes para tirar a batina tendo alegado elles (isto é, o delegado e o Pe. Lázaro) que só podiam andar de batina os pes. de Roma. Mas como a Igreja Brasileira não é a Igreja Romana, eu não tirei a batina. Qta. 04.02.1934 D. Geraldo Maria de ...” (Livro de Batizados da ICAB, s/pg.). 51 “O Presidente do Conselho Administrativo da Igreja Brasileira nos termos da acta lavrada em 1º deste mês, deliberou cassar todos os direitos e prerrogativas concedidas até então aos Srs. Geraldo Maria de Moraes e José Maria Assumpção. Ficando sem efeito todo e qualquer acto por elles praticados” (C.I., 14.06.1935, nº 1890, p.3). No número seguinte do jornal, D. Arnaldo Cardoso “legítimo sucessor de D. Francisco Frederico Arditi, consagrado por ele bispo da Igreja Católica Brasileira em 1924”, confirmou a consagração de José Maria Assumpção como sacerdote e concedeu licença a Geraldo Maria de Moraes para servir provisoriamente como bispo (C.I., 21.07.1935, nº 1891, p.2). 70 Daí para o fim pouca coisa aconteceu. Mas foram estes os atos de expropriação mais decisivos. Durante o longo tempo em que o templo esteve “fechado”, a “santa mãozinha” desapareceu misteriosamente do seu altar onde o povo, indiferente à luta dos letrados, vinha ainda fazer as suas orações. Desapareceu em 1936 e nunca mais foi encontrada. Acusadores mais exaltados culpam, sem meias palavras, as autoridades romanas pelo roubo e pela suposta destruição da “maõzinha do Nicolau”52. O processo jurídico da questão entre os dois lados em luta foi conduzido de tal maneira que ambos perderam, a prefeitura ganhou e ofereceu o presente à paróquia da Penha. Quando a municipalidade fizera a doação do terreno a Cristovam Alves Pinto e Francisco de Almeida, para o levantamento da capela de Santa Cruz da Mão Aparecida, estipulou uma cláusula mediante a qual haveria perda de direitos nos casos de venda a terceiros ou de doação não- autorizada. Ora, Cristovam e Francisco haviam vendido os direitos sobre o terreno e a igreja construída ao segundo patriarca da Igreja Brasileira, sem consulta prévia. Em março de 1936, o bispo de Campinas, D. Francisco de Campos Barreto, recebeu no seu palácio o prefeito, o vigário e uma pequena comitiva de “homens bons” de Itapira. De comum acordo ele autorizou a Fábrica Paroquial de Itapira a iniciar um processo contra a Igreja Brasileira, em nome da Prefeitura Municipal. O processo foi encaminhado pelo prefeito ao juiz da comarca que, sem muita demora, depois de haver dado ordem de citação e ouvido os dois primitivos posseiros do terreno, deu ganho de causa ao poder municipal. A seguir, o juiz ordenou a retirada de todos os objetos de culto da Igreja Brasileira. Um pouco mais tarde eles foram postos em leilão e, por estranho que possa parecer, não houve quem se apresentasse para arrematá-los. O bispo de Campinas escreveu depressa ao vigário da Penha felicitando-o e concedendo permissão para que fosse rezado ali, diante do Santíssimo colocado sobre o altar onde um dia estivera a “Santa Mãozinha”, um solene Te Deum. Em 1938, o próprio prédio da Igreja Brasileira foi posto a venda em leilão. O coronel Francisco Cintra fez a única oferta e arrematou a igreja. Reformou-a às suas custas para torná-la um lugar católico romano de devoção a Santo Antônio, segundo a vontade testamentária de sua falecida esposa, que fizera ao santo a promessa de construção de uma capela (C.I., 29.07.1951, nº 2725, p.1). Aquela que fora a capela de madeira e palha da devoção à Mãozinha. Uma vez posta em condições de ser aberta ao público, será benzida de acordo com o Ritual Romano tornar-se-á verdadeiro templo católico (C.I., 14.07.1946, nº 2463, p.2). De fato, dez anos depois da tomada romana de posse, a Igreja Católica colocou a imagem de Santo Antônio sobre o altar da igreja reformada. Houve então grandes festas, 52 “Secção Livre – Onde Está a Santa Mãozinha?” – Sem mencionar nomes o colunista denuncia que aqueles que fecharam o templo da ICAB teriam roubado a Santa Mãozinha. reclamava o “caso da Igreja Brasileira” ainda não resolvido e afirmava que o fechamento do templo havia sido uma arbitrariedade (C.I., 31.05.1936, nº 1935, p.3). Quarenta anos mais tarde ainda havia em Itapira quem recordasse a mãozinha do Nicolau e sugerisse honras de altar para ela: “Itapirense, não seria mais lógico que fosse a Mãozinha, a padroeira oficial, aquela Mãozinha que a igreja do cônego Amorim venerou e que deu nome à verdadeiramente primeira igreja da Igreja Católica Apostólica Brasileira?” (C.I., 07.06.1974, nº 3890, p.5). 71 agradecimentos públicos a mais um coronel “defensor da fé”, e falas sobre uma nova paróquia para a cidade. A partir de 1936, a Igreja Brasileira perdeu o seu lugar de culto e inúmeros seguidores. A pequena igreja, de volta ao domínio da paróquia da Penha. Os fiéis, alguns de retorno ao catolicismo popular; uns poucos, arrependidos, de volta à Igreja Católica; outros, uma vez mais convertidos ao espiritismo e, em menor número, à Igreja Presbiteriana. Durante algum tempo, os dirigentes divididos da Igreja Brasileira fizeram ainda avisos em jornais, lembrando ao “povo de Itapira” que a Igreja de Amorim Correia ainda existia e funcionava53. Anos mais tarde, foram feitos ainda esforços para recriar a Igreja Brasileira, agora inclusive com o respaldo do Bispo de Maura, mas através de emissários pouco acreditados em Itapira. Em 1977, o Conselho da Igreja Católica Apostólica Brasileira elevou o padre Manoel Carlos de Amorim Correia “à Glória dos altares”, como beato54. A notícia foi publicada nos jornais da cidade e uma mulher ainda fiel aos projetos do “padre brasileiro” aproveitou a ocasião para anunciar para breve a construção de um novo templo dedicado ao Menino Jesus de Praga. Entre a notícia e as primeiras providências dos quase inexistentes fiéis do cisma, o atual padre vigário da paróquia de Santo Antônio fez inaugurar, na mesma rua onde os “brasileiros” anunciaram o seu tempo, uma capela romana em louvor ao mesmo Menino Jesus de Praga55. Este segundo depoimento é a história da produção de um culto e de um espaço sagrado sobre o túmulo de um negro, ex-escravo e leproso. É também a história da passagem do seu controle, das mãos de sujeitos populares e burgueses católicos, para as deagentes de uma Igreja dissidente. É, finalmente, a narrativa de como a Igreja oficial retoma o templo e redefine o seu culto de acordo com os termos de sua dominação. Hoje em dia existe ali uma grande igreja, a maior e mais moderna da cidade. Quanto à “Santa Mãozinha”, não há notícias de que tenha aparecido algum dia, outra vez, a não ser na memória do povo: os bóia-frias, operários e negros do samba e da congada. Os que ensinam na rua ao visitante curioso: “aquilo ali é a igreja da Mãozinha. agora, tem gente que diz, „de Santo Antônio‟”. 53 Logo depois da perda do templo, Avelino de Oliveira Carvalho e Laudelino Pires Monteiro publicaram nota pelos jornais alertando o “povo de Itapira” para o fato de que a ICAB continuava funcionando regularmente, com os seus rituais sendo praticados na casa de um dos seguidores (C.I., 09.05.1936, nº 1985, p.3). 54 Em s973, quando o médium Francisco Cândido Xavier visitou Itapira, recebeu uma mensagem mediúnica de Cornélio Pires. No poema que reproduz enumera vários mortos queridos entre os espíritas: “Alguém nos pede passagem Também veio à nossa festa É o nosso irmão Olegarinho Trazendo bênçãos de amor”. Distinto renovador (C.I., 12.08.1973, nº 3847, p.2) 55 “A Igreja Católica Apostólica Brasileira Beatifica o Cog. Amorim – a notícia nos chega diretamente de Brasília, informando-nos que, pelo Orientador Litúrgico da Igreja Brasileira, a ICAB comemora a Festividade do BEATO Manoel Carlos de Amorim Correia, no dia 7 de julho. A beatificação deu-se em Concílio, quando o Episcopado Nacional da ICAB, considerou-o Pró-Martir da ICAB e o seu promotor, inspirado pelo Espírito Santo. Foi Dom Luis Castilho Mendez, Patriarca e Bispo de Brasília... Os adeptos podem começar publicamente a devoção ao Beato (futuro santo). A imagem de Manoel Carlos deve ser esculpida de batina e colarinho branco, na mão esquerda no peito sustentando a palma do martírio e na mão esquerda, erguida, uma cruz símbolo da evangelização do povo brasileiro, dentro do ideal da Igreja Brasileira. Uma imagem será posta na Matriz do Beato Carlos de Amorim Correia e será edificada na rua 24 de outubro, nesta cidade, e outra imagem será venerada na Catedral de Brasília” (C.I., 31.07.1977, p.2). 72 Capítulo 3 AS MUITAS MORADAS Como Jesus disse na sua santa e bendita palavra, veja: „Na casa de meu Pai tem muitas moradas‟. Aqui também tem muitas igrejas e a gente nem conhece todas. Mas quando Ele voltar é pra levar com ele os eleitos de cada uma delas. Mas quando vai ser, ninguém sabe. Um “crente”, convertido Passar das igrejas “de cima”, em Itapira, para as pequenas seitas pentecostais, os rezadores de terço, os quintais do Saravá ou as casas dos curandeiros, é ir da história à estória. Seis capítulos adiante veremos que é também passar da ideologia religiosa ao mito. A narrativa da formação de igrejas e das relações de aliança e conflito dos católicos – romanos e brasileiros – dos presbiterianos e dos espíritas, pode ser reconstituída sobre velhos papéis escritos, ou sobre o discurso de entrevistas com que sujeitos letrados reconstroem uma história. O vigário da Penha indica um artigo que ele mesmo escreveu para uma revista eclesiástica, sobre o cisma do padre Amorim1. O pastor da Igreja Evangélica mostra livros de ata e empresta ao pesquisador os documentos com que os presbiterianos festejaram a passagem dos cem anos da construção do templo. Os médiuns espíritas citam artigos, registros antigos, o “Jornal de Matão” (O Clarim) e sempre associam as suas pequenas lutas locais aos acontecimentos de conquistas da ciência e do pensamento liberal, no Brasil e no mundo. Até aqui a memória do sagrado pode ser lida sob os depoimentos de nomes, fatos e datas. Não é difícil, portanto, associar instâncias, como por exemplo: a paróquia à diocese, a diocese à Igreja, a Igreja ao Salvador do Mundo. 1 Matos, Henrique de Moraes. A Igreja Brasileira em Itapira, Revista Eclesiástica Brasileira, vol. 3, fasc.3, set. 1953. 73 A Igreja Batista, as Testemunhas de Jeová, os Adventistas do Sétimo Dia, a Assembléia de Deus e a Congregação Cristã do Brasil, chegados anos mais tarde ao mundo religioso de Itapira, ocuparam um meio caminho entre a história e o mito. Todos eles se proclamam menos eruditos do que os grupos confessionais anteriores ou, pelo menos, não tão associados às elites da religião e da sociedade. Ao fazerem a narrativa de suas igrejas, oscilam entre a história mitificada das religiões dominantes e os mitos históricos das religiões populares. Mas entre os pequenos grupos religiosos dos bairros de baixo, há uma perda de memória precisa sobre a própria história da religião específica e do seu aparecimento na cidade. Algumas vezes um presbítero não sabe o nome e, muito menos, a biografia dos seus antecessores. Assim, depois de narrar por duas horas passagens da História Sagrada, não sabe reproduzir a de sua igreja. Da mesma forma, o antigo Rei da Congada e prestigiado organizador de mais de 20 romaria a Aparecida do Norte, depois de contar duas ou três versões da vida e dos milagres de São Benedito, sugere que eu consulte “uma senhora lá de cima” para saber alguma coisa sobre os dois ternos de dançadores de congo da cidade. Os curandeiros e os pais-de-santo são vagamente apontados apenas pelos seus apelidos ou prenomes, isto quando o informante não prefere insistir em que eles simplesmente não existem. Centro de Umbanda, terreiro, essas coisas aqui em Itapira nunca teve não. Agora, lá pros lados do Paranazinho diz que uma gente toca um Saravá nas noites de Sexta-feira. Umbanda aqui eu nunca ouvi falar que existe; agora, essa gente que o senhor tá querendo saber, tem a Dona Leontina, a Cassilda, a Dona Luiza, pai João, a Dita Mamamgaba, o Nerção Garrancho e o Lazão. O Lazão é rezador, agora, parece que ele benze”. Para os rezadores de terço, presbíteros pentecostais ou pais-de-santo, não possuir a memória histórica de sua própria prática significa reconstituí-la como estória e com mitos (casos, acontecimentos de maravilha) ou, então, aprendê-la de novo, com as “pessoas lá de cima”2. 1. As novas igrejas Quando as forças e a ordem do secular pareciam haver chegado de uma vez para substituírem as da religião, houve em Itapira momentos de um pelo menos relativo processo inverso: 1º) uma progressiva retração de agências de representação política, classista ou étnica, acompanhada de uma retração na força ideológica canalizada por elas; 2º) uma progressiva revitalização do setor religioso, acompanhada de uma reconquista parcial do seu poder de incutir 2 Fiz em Goiás algumas pesquisa sobre rituais religiosos do catolicismo popular: cavalhadas, folias de Reis e do Divino, congadas. A mesma diferença entre tipos de narradores de estórias de origens do ritual no Brasil e no lugar, foi sempre encontrada ali. Um especialista popular das Cavalhadas de Cristãos e Mouros na cidade de Pirenópolis; um capitão de Terno de Congos ou de Moçambique em Goiás Velho, Catalão ou Goiânia; um embaixador de Folia de Reis em Mossâmedes, todos são capazes de descrever detalhes sobre o comportamento ritual e sabem narrar vários mitos sobre a vida de São Benedito ou sobre a visita dos Três Reis ao Menino Jesus. Mas sempre que são perguntados a respeito das origens do seu próprio grupo na cidade, ou do seu ritual em Goiás, sugerem nomes de pessoas letradas do lugar, ou algum professor da capital, pessoas queeles próprios reconhecem como os únicos capazes de fornecerem as informações adequadas. Ver Brandão, 1974, 1977 e 1977b. 74 valores sacrais nas ideologias da sociedade3. Como mencionei no final do capítulo anterior, as reconquistas do setor religioso podem ser explicadas – na medida em que o que ocorreu em Itapira acompanhou tendências nacionais – pela retomada de um domínio religioso por agentes e classes populares, fora do catolicismo; e por uma reorganização das trocas entre eclesiásticos e leigos, dentro do catolicismo. Comecemos pelos últimos protestantes, pelas seitas não-alinhadas e pelas igrejas pentecostais. Afinal, é com a chegada deles que uma vez mais alterou-se o equilíbrio do capo religioso em Itapira. Entre 1958 e 1964 foram criadas na cidade agências locais dos três últimos grupos religiosos evangélicos ou bíblicos, não-pentecostais: as Testemunhas de Jeová, a Igreja Batista e os Adventistas do Sétimo Dia. Fora a Igreja Evangélica Cristo Pentecostal no Brasil, com quem nos encontraremos um pouco adiante, elas são as últimas a serem implantadas a partir da iniciativa de agências matrizes situadas fora da sociedade local e através do trabalho religioso de agentes-emissários. Em 1959, um casal de batistas espanhóis veio de São Paulo enviados por uma igreja matriz da qual os dois eram obreiros. Os primeiro fiéis da nova Igreja foram um outro casal de batistas já residentes em Itapira e que assistiam aos cultos da Igreja Presbiteriana. Os seguintes foram presbiterianos que esperavam a chegada de batistas para passarem de uma igreja à outra. Segundo o espanhol fundador, o próprio pastor presbiteriano teria reclamado a instauração da igreja em Itapira, “porque aqui tem um grupo de verdadeiros crentes e eles não querem ficar na Presbiteriana”. Devido a dificuldades de sobrevivência, o casal retornou a São Paulo e a pequena congregação batista perdeu fiéis a ponto de quase desaparecer: alguns, de volta aos presbiterianos, outros, convertidos aos pentecostais de uma das Assembléias de Deus. Com a ajuda da Igreja de São Paulo o casal retornou a Itapira, conseguiu recuperar parte dos fiéis desertores e fazer alguns novos membros para a Igreja. Desta vez permaneceram quatro anos a frente do pequeno grupo e a “obra” cresceu até o seu número máximo de afiliados, cerca de 70, vindos em parte de algumas poucas conversões de não-evangélicos e, em maioria, através de um contínuo trânsito de conversões entre os presbiterianos e os batistas. Chamado para resolver uma dissidência interna na igreja matriz, o casal de obreiros retornou outra vez a São Paulo, deixando a congregação de Itapira aos cuidados de um pastor visitante e pouco experiente. O resultado da troca foi uma divisão interna que forçou a retirada de pouco mais de 60 dos seus então 70 membros. Parcialmente superada a crise em São Paulo, o casal voltou pela última vez para Itapira. O marido conseguiu um emprego estável e noturno no Hospital Psiquiátrico Américo Bairral e reassumiu comando efetivo da Igreja. Alguns fiéis retornaram à pequena congregação, cujo número, no entanto, mesmo somado ao dos filhos e noras que acompanharam o casal, não conseguiu alcançar mais sequer a metade dos seguidores que a Igreja reuniu nos seus melhores tempos4. 3 Há uma progressiva perda essencialmente política, anos depois da Revolução Constitucionalista e, sobretudo, depois de 1964. Mas não há uma perda do controle das agências de oferta de serviços antes cobertos pela Igreja: a educação, a saúde, as associações não-partidárias, embora várias delas passem a ser divididas com setores seculares da sociedade (escolas públicas, etc.). 4 Por sua própria iniciativa, o emissário batista conseguiu da Prefeitura um terreno no Risca Faca e fez construírem lá uma sede do SEPIN (Serviço Evangélico de Proteção à Infância). É um dos únicos casos locais de serviço de tipo assistencial promovido por igrejas evangélicas. 75 Desde 1956 havia convites nos jornais para algumas conferências públicas de um “missionário das Testemunhas de Jeová, sociedade internacional de ministros não sectários”, (C.I., 28.09.1956, nº 2994, p.2), no salão da Sociedade Operária. As conferências eram parte de uma intensa campanha conversionista das testemunhas, deflagrada em toda a região desde a década de 1950, a partir de centros como São Paulo, Campinas e Rio Claro. Em 1960, depois do trabalho de vários emissários a Itapira, constituiu-se um primeiro Salão do Reino sob a direção de agentes locais, próximo ao centro da cidade e a caminho dos bairros de baixo. Foi também como resultado de conferências religiosas e do envio de emissários letrados, que os Adventistas do Sétimo Dia conseguiram os seus primeiros afiliados. Foi mandado de São Paulo um pastor que obteve as primeiras dez conversões e fez os primeiros dez batizados. Alguns fiéis de estreia deixaram a nova religião, mas houve outras conversões entre 1963 e 1964. Por este tempo, chegou um novo emissário para residir na cidade e responder pela direção do pequeno grupo de fiéis. Embora a congregação adventista seja dirigida por um membro escolhido anualmente, este emissário foi o responsável pela constituição e a estabilidade do grupo atual. Ele veio de Minas Gerais com a família e abriu no Risca Faca uma oficina de concertos de rádio e televisão. Havia sido antes um líder sindical operário e, mais tarde, um presbiteriano. O dono de pequena indústria na cidade doou um terreno quase à saída do bairro do Cubatão. Ali a congregação construiu, com o trabalho dos fiéis, seu salão de cultos. Fora os lugares populares de prática do catolicismo, alguns quase ocultos terreiros do Saravá e as casas de benzedores e curandeiros, o salão dos adventistas foi um dos primeiros espaços de trabalho religioso na periferia da cidade. As primeiras igrejas pentecostais foram criadas entre 1960 e 1970. Elas se distribuíram, três pelos bairros de cima e, as outras, pelos de baixo. Algumas ainda chegaram a Itapira como resultado do envio de agentes emissários. Mas esta prática de invasão e conquista religiosa começa a ser, com os pentecostais, a exceção. Foi ainda a tática empregada pela Igreja Evangélica Pentecostal “O Brasil para Cristo”, pela Congregação Cristã no Brasil, por duas das três Assembléias de Deus e, alguns anos mais tarde, pela Igreja Evangélica Cristo Pentecostal do Brasil. As outras, igrejas opostas, de massa ou de pequena seita popular, resultaram dos esforços e da iniciativa de agentes pentecostais autônomos, pelo menos durante algum tempo. Entre todos eles, dois devem ser destacados: o criador da Assembléia de Deus do Ministério de Belém (ou, da Missão) e o fundador de uma seita de cura divina, a Cruzada Evangélica A Volta de Cristo5. Ambos vieram de fora, o primeiro de Jacutinga, no Sul de Minas; o segundo de Aguaí, via Mogi-Mirim, em São Paulo. Ambos foram originalmente católicos e apareceram em Itapira já convertido aos pentecostalismo. Foram também os primeiros não-emissários criadores de igreja. Este fato, aparentemente sem importância, é fundamental, porque revela modos de reconquista da produção confessional autônoma de agentes populares no campo religioso. Enquanto esteve em Minas Gerais, o atual pastor-dirigente da Assembléia de Belém foi católico e chegado ao padre vigário de Jacutinga, onde batizou três dos seus filhos. Depois de 5 Dentro de uma mesma denominação pentecostal: a Assembléia de Deus, existem no Brasil três ramos variantes, dois deles com a sede nacional em São Paulo e, outro, no Rio de Janeiro: Ministério da Missão, dirigidopor Cícero de Souza; Ministério de Ipiranga, dirigido por Alfredo Requidal e Ministério de Madureira, dirigido por Paulo Macalão. Mais adiante veremos como esta divisão, aparentemente apenas nominal, revela uma permanente concorrência dentro do campo pentecostal. 76 trabalhar muitos anos como lavrador e como administrador de fazenda, veio para São Paulo e morou alguns anos em Eleutério. Foi ali que se converteu à Assembléia de Deus e exerceu, como presbítero, a sua primeira função religiosa. Migrando para Itapira, mudou também para o trabalho urbano e foi, durante alguns anos, um funcionário da Prefeitura. Em pouco tempo projetou-se em toda a cidade como um pregador pentecostal e procurou inicialmente criar uma Igreja independente, fato que prefere negar hoje em dia. Na verdade, o que ele fez foi inaugurar uma Assembléia de Deus por sua conta, sem mandato de agências de fora e sem sentir-se obrigado a responder pelos seus atos a emissários de controle enviados pela direção de um ministério nacional. Em 1961, quando a sua Assembléia foi constituída, já havia uma outra agência local “pros lados do Cubatão”, subordinada ao ministério de Madureira. Fundada por um pastor- emissário sem maiores dons conversionistas, a “Assembleinha”, como é conhecida até hoje, nunca conseguiu fazer o mesmo número de seguidores e conquistar alguma liderança entre os pentecostais. À seqüência da narrativa destas duas assembléias torna necessário introduzir aqui os fatos que envolveram a criação, o crescimento e a decadência da Cruzada Evangélica A Volta de Cristo. O seu fundador veio também de fora e também foi da Cruzada Nacional de Evangelização, depois de converter-se do catolicismo. Ele não se apresentou em Itapira como emissário de Igreja alguma, mas “de Jesus Cristo”, em nome de quem produzia milagres de cura divina e proclamava regras de salvação. O missionário abriu no Cubatão a sua “tenda de milagres”. Ao longo de um período curto e promissor de atividade conversionista e milagreira, exercida a partir de 1964, conquistou inúmeros seguidores entre os milhares de fiéis de Itapira e de cidades de Minas e São Paulo que o procuraram. Procurou constituir juridicamente a Cruzada como uma seita pentecostal independente e construiu no Cubatão um grande salão de culto e cura. Em menos de dois anos o missionário conseguiu estender o seu trabalho religioso a outras cidades da Mogiana, a várias cidade de São Paulo e de Minas Gerais, e a algumas do Paraná e do Sul de Mato Grosso. A regra religiosa de que sacerdotes concorrem com outros sacerdotes e perseguem profetas parece haver-se confirmado em Itapira. O “menino dos milagres”, como já era então conhecido, foi o primeiro pregador pentecostal a ser publicamente contestado pela Igreja Católica; combatido por outros agentes pentecostais e perseguido pela polícia. No entanto, toda a pregação de ilegitimidade foi reduzida quando o número dos seus afiliados, a constituição jurídica de sua seita e a construção do seu lugar de culto fizeram sua Cruzada tornar-se cada vez mais semelhante às igrejas dos outros grupos pentecostais. Antes de 1970 o missionário aparecia nos palanques, em dias de festividades cívico-religiosas (Dia da Bíblia), ao lado do prefeito, do promotor, de padres vigários e de pastores. A partir de 1970, depois de casado, o missionário voltou a ser acusado entre os pentecostais, agora por haver “caído da palavra” (perdido o seu poder de pregação e cura e os dons recebidos do Espírito Santo, por haver pecado). De volta de viagens de pregação ele sofreu três acidentes em menos de três anos, dois na estrada e um dentro da cidade. Logo depois abandonou o trabalho de cura divina, afastou-se de sua própria Igreja e não ingressou em nenhuma outra, muito embora considere-se ainda um “crente fiel”. 77 A Cruzada Evangélica A Volta de Cristo não se transformou em uma Igreja pentecostal. Mesmo reunindo à sua volta alguns auxiliares de culto, o missionário nunca constituiu uma pequena burocracia confessional capaz de gerar, após a “queda da palavra”, um ou dois substitutos à altura. Alguns resultados do seu trabalho religioso são proclamados até hoje pelo missionário. Muitos dos seus convertidos são testemunhas de eles são verdadeiros. A Cruzada “sacudiu a religião” em toda a Mogiana e, principalmente, nos bairros de baixo de Itapira. Por outro lado, o missionário “encheu as igrejas de crentes”. O missionário foi quem encheu as igrejas de crentes. Antes dele tinha era um punhadinho aqui, outro ali. Tudo pouca coisa. Foi ele quem levou crente pra todas as igrejas daqui. Na verdade, alguns dos seus convertidos “caíram no mundo” (abandonaram o pentecostalismo), mas um grande número deles passou para as assembléias de Deus ou para alguma das pequenas seitas que conservam princípios de cura divina. Iremos ainda nos encontrar com pequenos criadores de igrejas pentecostais convertidos pelo missionário e saídos da Cruzada. Um dos agentes que mais depressa se beneficiou com a decadência e, depois, com o desaparecimento da A Volta de Cristo, foi o então pastor-dirigente da Assembléia de Belém, justamente o mais interessado, entre todos os que entrevistei, em negar valor ao trabalho religioso do missionário e minimizar o número dos seus convertidos. Sua igreja, já então solidamente constituída e com uma quantidade bastante grande de membros comungantes, foi muito aumentada com os crentes que, após as experiências desastrosas do período final da Cruzada, preferiram procurar uma unidade pentecostal conhecida, ao mesmo tempo, pelo poder de cura do seu pastor e por sua reputação de assembléia religiosa legítima e constituída, mesmo entre os não-pentecostais. Em 1964, o pastor-dirigente, então um presbítero da Assembléia, abandonou o seu trabalho na prefeitura e se consagrou em São Paulo como pastor do Ministério de Belém, dedicando-se, a partir daí, aos serviços da igreja e subordinando-se finalmente à jurisdição nacional de seu ramo da Assembléia de Deus. Tal como o missionário da Cruzada, mas a partir de uma igreja reconhecida, de que se fez também um emissário, o novo pastor estendeu com sucesso o seu desempenho de pregador e produtor de igrejas a outras cidades próximas em São Paulo e em Minas Gerais6. Entre 1962 e 1964, funcionou em Itapira um templo da Igreja Evangélica Pentecostal O Brasil para Cristo. O pastor emissário, enviado pela igreja matriz em São Paulo, trouxe recursos suficientes para construir atrás do cemitério um dos melhores prédios de reunião pentecostal na cidade. Não consegui saber ao certo os motivos pelos quais a igreja teve uma curta existência em Itapira. Segundo algumas pessoas, ela nunca conseguiu fazer um número adequado de convertidos. Segundo outras, pouco tempo depois de fundada houve conflitos entre o dirigente, seus auxiliares e os fiéis, de que resultou uma divisão interna seguida do abandono de todos os 6 Em um comunicado público de 8 de janeiro de 1978, o próprio pastor dirigente da Assembléia de Deus do Ministério de Belém assim se apresenta: “O Sr. O. J. comunica a toda a população Itapirense que vem dirigindo como presbítero da Assembléia de Deus, desde 1955, sendo consagrado como Pastor, em 14 de novembro de 1964, pelo Mosteiro de Belém – São Paulo. Comunica, outrossim, que agora é Pastor responsável em: Itapira, Monte Sião, Águas de Lindóia, Jacutinga, Serra Negra e Itatiba”. 78 poucos convertidos. Um pastor – um agente a respeito de quem ninguém foi capaz de fornecer dados – abandonou a “obra” e não foi substituído. Algum tempo depois, após entendimentos em São Paulo entre a direção da O Brasilpara Cristo e agentes nacionais do Ministério do Ipiranga, o templo foi vendido e se tornou a sede de uma terceira Assembléia de Deus7. Antes do atual foram enviados de São Paulo dois pastores. É também de lá que veio o terceiro, há menos de um ano. A Congregação Cristã no Brasil talvez seja o grupo pentecostal mais antigo em Itapira. Ela teria começado a se formar por volta de 1953, com o trabalho de um cooperador enviado à cidade “por revelação do Espírito Santo” de todos os grupos religiosos, foi o que menos se apresentou publicamente para obter novos adeptos. Foi também a que menos influências sofreu ao longo dos acontecimentos de conquista e decadência que marcaram a chegada das igrejas pentecostais na cidade. Segundo a narrativa do cooperador atual, os seus dirigentes, sempre pessoas do lugar e não-remuneradas por seu trabalho religioso, sucederam-se segundo as regras de substituição da igreja. Hoje em dia ela conta com um pequeno número de fiéis e até agora não conseguiu construir, como as de cidades vizinhas e menores, o seu templo definitivo. Durante a década de 1960, houve em Itapira mais trabalho inovador de conquista religiosa do que durante o meio século anterior, desde quando foi fundado na cidade o segundo Centro Espírita. Em menos de dez anos foram implantados quatro agências locais dentre as que constituem os quatro ramos pentecostais de âmbito nacional: uma Assembléia de Deus de cada ministério e a Congregação Cristã no Brasil. Em menos de dez anos existiram e fracassaram duas experiências religiosas de cura divina trazidas a Itapira por dois tipos opostos de agentes de milagre e conversão: um pequeno profeta autônomo e um sacerdote emissário. Em menos de dez anos foram ocupados os espaços religiosos de tradição evangélica socialmente a meio caminho entre as igrejas clássicas do protestantismo histórico e as do movimento pentecostal: a Igreja Batista, o Salão do Reino das Testemunhas de Jeová e a congregação dos Adventistas do Sétimo Dia. Durante todo este período de reprodução em Itapira de trajetórias não-católicas de conquista eclesiástica, a oposição dos grupos confessionais eruditos e já constituídos repetiu, com pequenas variações, atividades políticas dos momentos anteriores de luta religiosa em Itapira. As igrejas respeitáveis, mesmo quando pentecostais e dirigidas a fiéis das classes subalternas, são ignoradas ou recebidas com pequenos protestos de púlpito e sacristia. Depois da diferenciação política por que a sociedade passou desde o início do século XX, tornaram-se efetivamente impraticáveis as alianças entre a religião dominante e os agentes civis do controle de estado, para o exercício de pressões capazes de expurgarem os grupos concorrentes do campo religioso, por via de ilegitimidade jurídica ou religiosa. Entretanto, até mesmo o braço secular é mobilizado quando, uma vez mais, o grupo confessional aparece sob a forma de um surto milagreiro ou profético, como no caso da Cruzada Evangélica A Volta de Cristo. Contra ela, unem-se de novo parceiros antigos: o vigário e o delegado. Mas o que mais deverá ser discutido nos capítulos seguintes é que, contra o pequeno profeta de sucesso rápido, são agora os 7 Fala o próprio pastor, dirigente atual: “Aqui antes era Brasil para Cristo. Não sei o que houve, mas foi uma decadência lá. Então ofereceram ao pastor Requidal para ele ver se queria fazer uma obra de Assembléia de Deus lá; saldar as dívidas e ficar com a obra. Ele aceitou e hoje temos a obra” . 79 próprios agentes pentecostais os que, dentro dos limites do seu domínio de culto, exercem maiores atividade de concorrência e pressão. Com a chegada de novas confissões e de novas igrejas, o setor religioso diferencia-se de modo a incorporar outros grupos e oferecer outras alternativas de afiliação. Mas a conquista de um espaço confessional não-católico e cada vez mais popular foi completada em duas etapas. Narrei a primeira. 2. As Igrejas de Baixo O período recente de instauração pentecostal ocorre dentro dos últimos cinco anos. Pelos bairros de baixo e com serviços ofertados aos sujeitos das classes subalternas, vão sendo criadas, desaparecem e tornam a aparecer com novos nomes, os pequenos grupos das igrejas menores e efetivamente populares. Ali os fiéis não se reúnem mais em templos com pequenas torres e palavras pintadas na fachada, mas em casas, galpões, garagens e barracos de madeira. Falo agora de criações em processo e é a narrativa de como se criam e reproduzem os pequenos grupos pentecostais de salvação, o que melhor testemunha a extraordinária dinâmica que a religião reconquista quando, de novo, ou pela primeira vez, alguns dos seus espaços são rearticulados por agentes populares. Depois que o missionário da Cruzada abandonou a sua igreja, dois dos seus convertidos e auxiliares criaram a e dirigem até hoje trabalhos pentecostais nos bairros de baixo. O fundador do grupo que pouco mais tarde seria incorporado pela Igreja Pentecostal Boas Novas de Alegria, saiu inicialmente da A Volta de Cristo e ingressou na “Assembleinha”. Ele levou para lá alguns dos seguidores do missionário, mas não permaneceu ali por muito tempo. De uma Assembléia foi para a outra, agora a do Ministério do Ipiranga. Pouco depois concorria com o pastor e, de novo, não demorou muito a sair, acompanhado de alguns dos seus convertidos, permanecendo por alguns meses “sem igreja, mas sem cair da fé”. Antes de haver passado pelas duas assembléias, ele procurou, sem resultados, constituir em sua própria casa um grupo de “bate palmas” (nome popularmente associado às pequenas comunidades de cura divina). Foi então que o outro convertido da Cruzada propôs ao primeiro a abertura de uma “obra nova”, no lugar onde, ao lado da casa, um filho deste guardava o seu caminhão. A idéia foi aceita e os dois juntos começaram a reunir fiéis em uma garagem na rua Ari Barroso. Alguns meses mais tarde, os dois competiam pelo controle da congregação. O dono da garagem ficou sem o agente companheiro, perdeu com ele alguns seguidores, resolveu encerrar o seu trabalho religioso e só o reabriu pela insistência dos crentes que permaneceram ao seu lado. Pouco tempo depois ele aceitou filiar a sua obra à Igreja Evangélica Boas Novas de Alegria, o que explica com muita simplicidade: “eu abri uma obra por minha conta, mas já liguei com a Boas Novas de Alegria”8. 8 Este é um bom exemplo de um grupo pentecostal de cura divina sem atividade conversionista de massa em âmbito regional. Inicialmente a Igreja Boas Novas de Alegria foi uma dissidência paulista da Igreja Batista da Filadélfia. O seu fundador era pastor em Campinas, onde o grupo não se desenvolveu. Pouco depois um outro pastor, o atual dirigente regional, assumiu o controle da igreja. Ele eliminou dela os últimos traços rituais batistas e a levou para São Paulo. Hoje em dia a Boas Novas de Alegria tem 3 80 Dentro de um rancho de madeira e eucatex funcionou nos altos da Rua Ari Barroso, durante algum tempo, uma outra pequena comunidade de “bate palmas”, a Igreja Pentecostal Testemunhas de Jesus. Ela foi estabelecida em Itapira por um pastor de Campinas, fundador e dirigente regional da Igreja. Tal como acontecia com freqüência entre os crentes e os seus líderes, em menos de um ano de vindas periódicas a Itapira, ele entrou em atrito com o pequeno rebanho por questões de doações em dinheiro para o sustento do grupo. Não houve conciliação e o pastor retirou do barraco os bancos e a placa que trouxera de Campinas, deixando um pequeno número de crentes “na fé, mas semigreja”. Antes de a pequena congregação se dispersar “pelo mundo”, ou pelas outras igrejas, o fundador dissidente da comunidade da garagem assumiu a chefia da do barracão. Tal como o seu companheiro de primeira criação, ele não ficou muito tempo no comando de uma igreja autônoma. Foi procurado pelo missionário da Igreja Pentecostal O Som da Palavra e terminou convencido, tanto quanto a sua pequena comunidade, a filiar “a obra” à de Campinas9. Para as duas pequenas igrejas da rua Ari Barroso, a incorporação a grupos pentecostais de âmbito regional significou a conquista de uma respeitabilidade religiosa menos questionável, no interior de um espaço confessional onde é prática comum entre igrejas tradicionais um ataque sistemático às pequenas comunidades de fé, sobretudo quando recentes, autônomas e entregues ao comando exclusivo de um agente local. Em contrapartida, os seus fundadores diretos perderam autonomia religiosa na condução direta do grupo de fiéis e na produção do código da conduta de salvação. As normas de maior relevância passaram a ser traçadas pela agência matriz e regularmente são enviados à filial presbíteros ou pastores que assumem, então, a direção dos cultos e tratam os agentes locais como seus auxiliares. Dois outros grupos pentecostais foram constituídos em Itapira entre fins de 1976 e o ano de 1977. Eles seguiram caminhos diferentes. O primeiro recrutou em pouco tempo um número razoável de seguidores. O segundo continua com os três ou quatro com que começou. Um casal de convertidos da Igreja Cristo Pentecostal no Brasil foi enviado de Mogi Guaçu com a missão de iniciar em Itapira uma “obra da igreja”10. O casal não teve filhos, o marido é funcionário aposentado da FEPASA e dedicou-se integralmente ao trabalho religioso. A mulher trabalha em um bar e é a auxiliar mais direta do marido. Os dois vieram como emissários de uma igreja templos em funcionamento na capital, um em cada Mogi e um último em Itapira. Há uma congregação iniciante na cidade mineira de Jacutinga. 9 A Igreja Pentecostal O Som da Palavra é um outro exemplo de seita de cura divina restrita a uma área regional de São Paulo. O seu fundador e dirigente atual é de Campinas, onde controla um pequeno número de seguidores e anuncia, em envelopes de coleta: “Campanha pro-compra de nossa sede própria nesta cidade”. A Igreja conta com apenas três grupos: um em Campinas, outro em Mogi Mirim e um terceiro em Itapira. A seita que inaugurou o barracão de madeira onde ela hoje funciona, Testemunhas de Jesus, é um terceiro exemplo do mesmo tipo de origem e de trajetória religiosa. 10 A Igreja Cristo Pentecostal do Brasil está a meio caminho entre as igrejas de um pentecostalismo constituído no país, (Assembléia de Deus, Congregação Cristã no Brasil, “O Brasil para Cristo” e “Igreja do Evangelho Quadrangular”) e as pequenas igrejas recentes e regionais. Tal como três dentre as anteriores, foi trazida para o Brasil por emissários estrangeiros, norte-americanos, que implantaram igrejas em Pernambuco, a partir da Serra Talhada. Hoje em dia ela recebe ainda ajuda externa, mas é dirigida por um pastor nordestino e se tem difundido com alguma facilidade. Segundo o Pastor de Monte Sião, ela conta com mais de 100 templos no país, cerca de 13 em São Paulo e inúmeros por cidades do interior. Está dividida em “campos” constituídos por um conjunto de igrejas cujos fiéis justificam, em conjunto, o trabalho de um pastor. 81 recente de âmbito nacional e que, no momento, reproduz-se com relativo sucesso pelo Sul de Minas e por cidades da Mogiana. A sede atual do “campo” da filial de Itapira fica em Monte Sião e é de lá que o pastor vem semanalmente para dirigir alguns dias de culto na igreja da Vila Isaura. Finalmente, “pros lados do Cubatão” foi criada uma pequena Igreja Pentecostal Independente, por agentes vindos de Mogi Mirim. Atualmente, os trabalhos do grupo foram entregues a um convertido, morador do bairro. Mas apesar das vinda regulares dos fundadores, o grupo não conseguiu afiliados e é quase desconhecido, inclusive pela maioria dos pentecostais. Poucas ruas acima da sede escondida da Igreja Pentecostal Independente, uma nova “tenda de milagres” de cura divina tem carregado novas multidões de crentes, clientes e curiosos ladeiras acima, em direção ao Paranazinho, quase em uma das saídas da cidade. Em 1977, o missionário que prega ali três vezes por semana fundou em Mogi-Guaçu a Igreja do Senhor Jesus. Este novo e súbito agente milagreiro de cura divina veio de cidades da Mogiana acima de Itapira. Antes de Mogi-Guaçu ele teria estado também em Aguaí e em São João da Boa Vista. Foi membro da Assembléia de Deus, de onde teria sido eliminado, segundo o testemunho de alguns pastores. Por outro lado, o seu estilo de exercício religioso – a batina com uma grande cruz de metal, as músicas que canta e faz o povo cantar – denunciam um conhecimento da prática católica tradicional, típica de quem foi coroinha ou sacristão de igreja. Depois de haver criado a sua seita de cura divina e de haver construído a igreja-sede em Mogi-Guaçu, inaugurou uma livraria evangélica e produziu um programa radiofônico diário, ambos em Mogi Mirim, onde a seita possui um galpão de culto. A livraria e o programa tem o mesmo nome: “Esplendor da Fé”. A terceira cidade em que instalou um agência religiosa foi justamente Itapira, onde construiu, já em 1978, um grande galpão de bambu e telhas eternit. Não pode haver dúvidas de que o missionário do Senhor Jesus imita traços do estilo do da Volta de Cristo. Segundo este último, ele teria inclusive mandado um dos seus auxiliares em sua procura, para atraí-lo à sua “obra”. No entanto, ele soube desta vez organizar uma pequena burocracia milagreira, segundo o modelo hoje em dia comum nas unidades maiores de cura divina. Trabalha com três pastores auxiliares que se revezam nas idas às cidades onde a Igreja do Senhor Jesus já está implantada e realizam, ali, o mesmo tipo de culto. Trabalha também com uma equipe de mais alguns jovens auxiliares que arrecadam dinheiro, vendem objetos de culto e acolhem os clientes que caem com “ataques” durante as bênçãos noturnas da “fila milagrosa”. Por outro lado, o grupo procura tornar-se depressa uma igreja respeitável. Houve retiro espiritual em Mogi Guaçu durante o Carnaval de 1978. O missionário realiza batizados (o que não era feito na A Volta de Cristo) e inscreve, mediante um pagamento de matrícula, “sócios do programa Esplendor da Fé”. Nos cultos ele se nega como pentecostal e se proclama um “cristão”. Tal como o anterior, ele tem sido também objeto de pressões e mesmo de alguns atos de violência, ocorridos pelo menos em Mogi Mirim, Itapira e Conchal, onde não conseguiu ainda 82 instalar uma tenda, devido à reação violenta de algumas pessoas da cidade que, inclusive, apedrejaram um dos seus pastores e dois auxiliares ao término de uma sessão de culto11. Com menos de 6 meses de trabalho milagreiro em Itapira, a Igreja do Senhor Jesus conseguiu reunir, entre fiéis já inscritos e batizados, clientes semanais e esporádicos, e alguns curiosos, um número de interessados superior ao das outras igrejas pentecostais da cidade. Mas todos os outros pastores e presbíteros, quando acusam o missionário – em entrevistas ou nos seus cultos religiosos – afirmam que ele não conta com mais do que uma muito pequena quantidade de seguidores batizados. Vários crentes com quem conversei profetizam para o segundo, um destino semelhante ao do primeiro. Ele também continuaráfazendo, durante algum tempo, um trabalho milagreiro e de “falsa profecia”, mas “cairá da palavra” e os seus seguidores de novo voltarão a “encher as igrejas”12. 3. Pais-de-Santo, Curandeiros, Benzedores Quando os primeiro capelães-curados e vigários chegaram a Itapira, encontraram pelos bairros, sítios e fazendas, um sistema popular de prática do catolicismo que incluía serviços regulares de benzimento e curandeirismo e incorporava entre os seus agentes – rezadores, benzedeiras, curandeiros – as relações de cooperação e de concorrência que as religiões e igrejas posteriores apenas reproduzem e levam para a cidade. Assim, quando os vigários e pastores desceram as ladeiras dos bairros de baixo, encontraram ali uma população vinda “da roça” de Itapira, de outras áreas de São Paulo ou de Minas Gerais, já acostumada a recorrer aos agentes locais de oração, magia e cura. Estes especialistas, tidos pelos não-pentecostais como ainda hoje indispensáveis, são gente do lugar ou vinda de fora; são também os descendentes dos escravos. Aqui se vai do mito ao mistério. Encontrei com alguma freqüência “despachos” pelas encruzilhadas das ladeiras mais escondidas e nas margens do Ribeirão da Penha. Mas sempre que perguntei pelos terreiros ou centros de Umbanda ou de Candomblé, recebi respostas evasivas. Todos os informantes reconheciam que havia agentes de benzimento e de “coisa feita”, desde D. Leontina, uma muito procurada benzedeira católica, à temível Cassilda, “que mexe com Quimbanda, chama Exu e faz macumba”. Algumas pessoas sabiam indicar vagamente o rumo dos lugares onde há “gente do Saravá”, nome dado com freqüência aos cultos de possessão mais populares. Só mesmo os médiuns iniciados e uma mãe-de-santo foram capazes de indicar o endereço correto de dois centros de umbanda e um de candomblé, todos eles nos bairros de cima. Foram eles também que marcaram as diferenças entre modalidades de culto no campo mediúnico. 11 O missionário da Igreja do Senhor Jesus foi o único dirigente com quem nunca consegui fazer entrevista, além de uma, de emergência, pouco antes do começo de um culto. Marquei duas, mas quando cheguei ao lugar combinado não o encontrei. Conversas com dois dos seus pastores foram plenas e evasivas. 12 Com o novo missionário parece estar ocorrendo o contrário do que ocorreu com o primeiro. Agora é gente de “uma cambada de protestantes ignorantes” os que apedrejam os seus pastores ou os seus galpões de culto. E é ele quem vai à polícia fazer denúncias e reclamar proteção. Foi o que aconteceu muito recentemente em Conchal. 83 Uma coisa é o espiritismo de mesa. Tem dois centros aqui em Itapira. Coisa antiga. Agora, tem dois centros de umbanda aqui perto do centro (da cidade): o de D. Amélia e o do Gustavo. Mas você precisa mesmo é conversar com a Cleonice. Ela é daqui mesmo e tem uma religião muito fina, coisa que não se sabe se é um tipo de umbanda ou de candomblé. Agora, lá pros lados da Vila Boa Esperança tem um terreiro de candomblé mesmo. É da D. Geralda. Já lá pra baixo, o Risca Faca, Cubatão, Paranazinho, lá só tem mesmo é curandeiro, gente de macumba, saravá, feiticeiros até da pior espécie. Na geografia da cidade, também no campo mediúnico as igrejas mais conhecidas e respeitadas ficaram ao redor do centro da cidade, pelos bairros de cima. Entre os de baixo não há propriamente terreiros ou centros, mas os lugares de residência e consulta dos especialistas autônomos dos sortilégios populares de cura. Em 1960, antes do funcionamento regular de qualquer centro de umbanda ou de candomblé, foi instalado um posto de serviços da Legião da Boa Vontade. Ele é dirigido por uma mulher casada, vinda de São Paulo para desenvolver o trabalho religioso e assistencial da LBV. O marido é iniciado na umbanda e durante algum tempo auxiliou o único centro da cidade que, desde cerca de dois anos para cá, mantém atividades regulares. Os dirigentes dos centros de umbanda da cidade nasceram em Itapira, ao contrário da mãe-de-santo do candomblé, que veio de São Paulo. Ambos tiveram uma iniciação religiosa semelhante. Passando por atribulações e problemas de saúde desde a infância, procuraram, em primeiro lugar, tratamento em centros espíritas de mesa branca. Não obtendo ali resultados satisfatórios, foram a centros de umbanda de cidades vizinhas; reconheceram-se curados através do desenvolvimento de mediunidade; fizeram iniciação profissionalizante e, pouco depois, apresentaram-se como especialistas religiosos em Itapira, primeiro realizando tipos de atendimento mediúnico individualizado e, a seguir, abrindo pequenos centros de trabalho público13. Há muito mais procura de serviços religiosos da umbanda e do candomblé, por parte de sujeitos de Itapira, do que a estatística dos freqüentadores dos seus centros poderia indicar. Os próprios dirigentes fazem a queixa de que os clientes, em maiores de classe média “e de alta”, procuram umbandistas de fora, em Jacutinga ou em Mogi Mirim, porque têm vergonha de serem vistos “em terreiro daqui mesmo”14. 13 A implantação de centros de Umbanda implica um jogo de concorrências e evasivas que apenas torna evidente um momento de competição permanente entre dirigentes de centros e terreiros. Faço aqui a reprodução de um depoimento que pode exemplificar bem o que acontecia em Itapira: “Eu queria fazer camarim com a D. Célia (uma mãe-de-santo de candomblé, que andou por Itapira), mas ela pediu 6 mil cruzeiros. Agora o sr. veja, vale mais de 10 mil hoje em dia. Eu sou de umbanda mesmo, não gosto de candomblé. Quando ela nem pensava fazer o centro dela eu avisei que ia fazer o meu. Não disse nada. A Nilce sempre dizia que ia fazer o centro dela, mas sempre foi protelando e nunca assumiu. Daí a minha irmã me deu uns tijolos e eu fiz o meu centrinho, aqui mesmo, atrás de casa. Os vizinhos deram até tiros e jogaram pedras no meu centro. Eu fiquei muito assustada. Fui falar com o prefeito. Ele me mandou pro delegado. O delegado pediu 2 mil cruzeiros para resolver o caso. Eu não quis, mas lá em casa eu falei alto pros vizinhos escutar, e a coisa melhorou”. Para uma descrição sobre conflitos entre terreiros e centros de umbanda em uma outra cidade paulista, consultar Yoshiko Tanabe Mott, Caridade e Demanda, um estudo de acusação e conflito na Umbanda em Marília, Campinas, 76. 14 A clientela e o trabalho religioso da Umbanda, da Quimbanda e dos agentes autônomos de cultos de possessão, devem ser muito maiores do que afirmam os próprios dirigentes dos centros. Antes de 1975, já funcionava em Itapira uma Casa de Umbanda Mãe Jurema. Dois anos depois ela não existia mais e tinha 84 Deixei para o fim desta narrativa de conquistas mediúnicas o seu caso mais estranho. Uma mulher nascida em Itapira criou em São Paulo um centro de culto de uma nova seita. Depois de fazê-lo funcionar na capital por pouco mais de um ano e meio, fechou-o, transferiu as reuniões de fiéis para a sua casa e pretende agora construir um grande centro de culto e de reuniões em uma chácara que ela e o marido – co-dirigente da seita – possuem no bairro dos Prados. Ao contrário de outros agentes mediúnicos, inclusive a maioria dos espíritas, ela recebeu formação escolar até nível universitário e se iniciou no Rio de Janeiro, primeiro na Umbanda e depois no Candomblé. Depois de haver recebido mensagens espirituais de entidades de um candomblé brasileiro, a médium fundou em São Paulo a União Espiritual Nhambiquará de Tupã. Ela e o marido acreditam que esta fato tem uma importância única no mundo religioso brasileiro, porquepela primeira vez se cria aqui uma religião essencialmente nacional, a começar pelo fato de que presta culto a divindades nativas ou, mais do que isto, a um povo sobrenatural de origem Tupi. Somente agora a seita deverá ser constituída em Itapira, de onde os seus dirigentes esperam promover uma controlada difusão para outros lugares. Desde a sua criação em São Paulo, alguns poucos moradores de Itapira converteram-se e se tornaram seguidores do povo Nhambiquará. No entanto, os custos da freqüência aos cultos e os preços das viagens à capital afastaram dela fiéis de menos disponibilidade financeira. Tal como entre católicos e protestantes, os agentes do campo mediúnico produziram em Itapira praticamente todas as modalidades ativas de sua prática religiosa: a) os centros espíritas kardecistas; b) os centros de umbanda e de candomblé; c) o domínio de culto dos especialistas autônomos das formas de curandeirismo ligadas, segundo os seus próprios praticantes, à umbanda, à quimbanda e ao saravá. Entre o extremo erudito – o espiritismo kardecista – e o popular – os curandeiros autônomos – a entrada de centros de umbanda não provoca conflitos amplos dentro do campo mediúnico. Os médiuns espíritas simplesmente ignoram a presença de umbandistas e, dois ou três, chegaram a me pedir informações sobre eles, alegando não terem nenhum conhecimento a respeito das atividades de pais e mães-de-santo em Itapira. Não parece provocar também alterações na práticas dos curandeiros e benzedores autônomos. Os seus conflitos e as suas relações de permanente concorrência já estavam constituídos desde muitos anos. Veremos mais adiante que um certo jogo de acusação e conflito é o que produz a própria dinâmica do espaço religioso mais próximo à magia, nas relações da sociedade com o sagrado. As regras de desempenho de agentes de curandeirismo, umbandista ou não, já estavam praticamente estabelecidas quando da formação dos pequenos centros, e são os seus chefes os que, de um modo ou de outro, submetem-se a elas15. sido substituída pelo Bazar Caboclo Pena Branca. Estive ali várias vezes e fui testemunha de uma clientela quase razoável à procura de produtos de proteção ou de despacho. 15 Teremos a oportunidade de ver como os pentecostais são, hoje em dia, os que mais hostilizam a prática de magia de possessão e os trabalhos dos centros de Umbanda. Algumas partes mais vibrantes das falas de púlpito do missionário do Senhor Jesus são contra os pais-de-santo e macumbeiros, sempre considerados como parceiros do próprio demônio. 85 4. Variações Católicas O mesmo que foi dito antes para o caso protestante, pode ser repetido aqui para o católico. Houve mais trabalho religioso e mais modificações substantivas entre 1955 e 1978, do que desde quando chegaram a Itapira os primeiros vigários da Penha, até a década de 1950. A partir de 1967, a cidade soma quatro paróquias. Entre 1847 e 1957 houve, durante 110 anos, uma paróquia e um vigário de cada vez. Em 1958 a pequena capela de Santa Cruz da Mão Aparecida, depois de reformada como Capela da Santa Cruz, tornou-se a sede da paróquia de Santo Antônio. Cerca de 10 anos mais tarde foi construída ali a maior dentre as igrejas da cidade. Em 1965, foi construída a paróquia de São Benedito na igreja remodelada da capela onde, todos os anos, repete-se a grande festa anual em louvor ao santo padroeiro. Em 1967, a Igreja desceu oficialmente aos bairros de baixo e instalou no Cubatão a paróquia de São Judas Tadeu16. Mais importante do que o número de paróquias, que apenas demarca a conquista de espaços sob controle dos agentes oficiais, é o destino das pequenas corporações católicas de leigos, por onde passam muitas das trocas de compromissos entre o corpo eclesiástico e o dos fiéis mais ligados à vida da paróquia. Vimos no capítulo anterior que Itapira acompanhou os avanços do movimento de romanização deflagrado por setores da hierarquia católica a partir de fins do século XIX (Ribeiro de Oliveira, 1976). Este processo político de conquista sob os nomes do sagrado, resultou em uma progressiva retomada de poder religioso entre as mãos do clero e em um conseqüente esvaziamento das organizações de leigos, especialmente as irmandades e confrarias. Em Itapira, a Igreja ideologicamente proclamava tempos novos e uma ordem renovada nos serviços entre os leigos, o clero, os santos e a divindade. Politicamente ela 1º) reduzia a importância auxiliar das irmandades católicas deslocando-as, cada vez mais, de posições de co- gestão de setores da paróquia, para as atividades litúrgico-festivas17; 2º) estimulava a criação de associações religiosas de origem francesa e italiana, sob o controle direto do vigário. Ao contrário das irmandades que funcionavam sob a gestão de leigos e com a simples assistência do padre, as associações eram dirigidas por este e constituíam grupos de decisiva colaboração subordinada dos leigos ao poder paroquial. A secularização descrita aqui como um amplo processo de transformações que modificam cada uma das áreas de trocas entre a igreja e a sociedade, deve ser também compreendida como uma resposta posterior da igreja a estas próprias transformações. Dentro do seu âmbito, a Igreja Católica de Itapira aprendeu a incorporar o que não podia impedir18. 16 Em 1967, o município tinha quatro paróquias com suas igrejas-sede e quatorze capelas autorizadas. De lá para cá perdeu algumas capelas rurais e ganhou outras, urbanas, como a Capela da Vila Isaura, a de Bom Jesus da Vila Bazani e a Capela do Menino Jesus de Praga. Tal como aconteceu com as primeiras, as paróquias oficiais reconhecem e ocupam capelas construídas com os recursos e o trabalho de leigos populares. 17 Como é o caso da Irmandade de Santo Antônio e da Irmandade de São Benedito, cada vez mais relegadas a reuniões sem importância e à promoção de festas dos santos padroeiros. 18 Durante o período mais carregado de investidas de renovação da Igreja Católica, há artigos em jornais de tipo triunfalista que, em parte, fazem coro com as proclamações protestantes a respeito da condição do catolicismo no Brasil. Em 1937, um dos primeiros artigos deste tipo é assinado por Mário Pinto Serra. Ele 86 Sobretudo a partir da década de 1920 ela não se refugiou em um estrito repertório de atos religiosos, como uma resposta aos setores articulados da sociedade civil que emergiam como formas competitivas de poder, e que reclamavam a sua autonomia. Através de um discurso religioso, a igreja reproduziu respostas politicamente secularizadas. Por um lado houve uma progressiva modificação no discurso pronunciado pelos agentes locais da Diocese. Os problemas sociais e políticos passaram a fazer parte das proclamações dos padres que se sucediam na direção da paróquia da Penha. Eles acompanhavam, então, uma hierarquia paulista e nacional que começava a renovar regras de conduta social e proclamava diretrizes políticas diretas, principalmente em tempos de eleições. De outro lado, a Igreja uma vez mais atualizou as suas corporações de leigos, de modo a torná-los não mais auxiliares internos de paróquia e sacristia, ou propagandistas religiosos da fé católica, mas os emissários legítimos dos seus interesses políticos. Depois de haver deslocado o trabalho dos leigos ligados à paróquia, das irmandades para as associações pias ou assistenciais, os padres deslocam as associações para setores internos de segundo plano e convocam os leigosativos para o trabalho das agências locais da Ação Católica19. Em 1926 foi criada a Associação Cathólica de Moços, em 1935, a Ação Católica e, em 1938, a Juventude Católica Brasileira e a Juventude Católica Operária Masculina. A partir de 1962, os leigos das duas paróquias então existentes foram divididos oficialmente em dois tipos gerais de instituições: as associações religiosas e a Ação Católica20. Ora, a partir deste período de “igreja pós-conciliar” e depois de criadas as outras duas paróquias da cidade, houve uma última série de re-articulações nas regras de relações entre os fiéis e o clero. O trabalho associado dos leigos com os vigários foi conduzido pelos setores especializados da Ação Católica, dominante a partir de 1940, decadente a partir de 1964. A partir de então foi distribuído entre as associações de tipo pós-conciliar: mobilizadoras de segmentos ativos da burguesia paroquial, com os Cursilhos de Cristandade e os Encontros de Casais com Cristo; ou atualizadoras da própria vida religiosa comunitária, como as equipes pastorais e, mais ainda, as comunidades eclesiais de base. A divisão canônica da igreja local em quatro paróquias criou as bases políticas para o aparecimento de diferentes tendências ideológicas entre os próprios padres, de acordo com as categorias sociais de leigos com quem estabeleceram alianças de trocas preferenciais. Aos poucos a paróquia de Nossa Senhora da Penha perdeu interesses de participação direta, mas nunca o apoio da elite agrária e de frações de classes associadas ao poder dominante. Ela continuou a ser a principal aliada religiosa das vocações mais conservadoras da sociedade local. enaltece o catolicismo norte-americano (então muito pouco conhecido no Brasil) e afirma que o nosso deveria segui-lo. E porque lá ele é tão louvável? Porque os católicos “se fizeram uma força de progresso irresistível. Abandonaram completamente o catholicismo ibérico ou irlandez, deixaram a dialética vã e a escolástica estéril e se transformaram na mais respeitada força de bem estar social” (C.I., 19.12.1937, nº 2017, p.1). 19 Uma parte muito importante das pregações e das proclamações dos padres deste tempo conduz o código do cidadão católico enquanto sujeito político. Sem criar os seus próprios partidos, a Igreja fundou pelo país e fez funcionar, inclusive em Itapira, a Liga Eleitoral Católica, que servia para legislar o exercício do voto através de escolhas e condenações de partidos e de candidatos. 20 Já em 1934, a Igreja Católica constituía em Itapira, repetindo na esfera da paróquia da Penha orientações da hierarquia nacional, os seguintes setores para a atuação da Ação Católica: o religioso, o 87 As paróquias de Santo Antônio e de São Benedito representaram, desde a sua criação, os interesses de grupos de sitiantes e, sobretudo, da burguesia mais erudita e liberal. Com a chegada do novo vigário de Santo Antônio, a Igreja Católica de Itapira conheceu momentos de uma participação de leigos nunca antes vista na cidade. Finalmente, a paróquia de São Judas Tadeu realiza agora uma experiência pioneira de alianças entre um segmento da Igreja e os outros, das classes subalternas. Efeitos diretos da inevitável diferenciação de alianças preferenciais entre tipos de padres e categorias de leigos foram: 1º) alterações substantivas na quantidade e na posição das corporações leigas vinculadas às atividades religiosas e político-promocionais das paróquias; 2º) concorrências entre os próprios vigários, segundo suas diferenças ideológicas e segundo os seus interesses comuns de precedência no estabelecimento local das regras de trocas entre a igreja e a sociedade. A paróquia de Nossa Senhora da Penha perdeu aos poucos, a partir de 1964, cada uma das suas antigas irmandades e associações religiosas. O vigário é hoje o único funcionário e agente dos trabalhos religiosos da igreja matriz e toda a sua prática resume-se na defesa pública de princípios de conservação da ordem tradicional da igreja e da ordem de dominância da sociedade. As paróquias de Santo Antônio e de São Benedito conservam algumas irmandades e associações religiosas em posições quase marginais e dividem o trabalho relevante entre o vigário e as equipes paroquiais, dirigidas por leigos, individualmente, mas, em conjunto, subordinadas ao padre, ainda que as decisões paroquiais sejam sempre tomadas em assembléias gerais. A paróquia de São Judas Tadeu, por razões opostas às da Penha, dissolveu em menos de cinco anos as suas antigas corporações de leigos e concentrou todo o trabalho religioso nas pequenas comunidade de base que o vigário, auxiliado por algumas freiras, procura formar com a participação de operários urbanos e agrários e, nos bairros rurais, de sitiantes21. Depois da criação das três paróquias, a da Penha perdeu depressa o seu poder de mobilização efetiva do laicato católico. Hoje em dia ela não tem qualquer importância como segmento da Igreja pós-conciliar. As três novas paróquias realizaram em Itapira o que a Igreja procurou fazer no país a partir de 1960 e, sobretudo, depois de 1964. Após o controle e a marginalização dos agentes do catolicismo popular dos camponeses caipiras, a igreja experimentou popularizar-se a si própria, de modo a atrair fiéis e transformar agentes religiosos autônomos ou indiferentes em leigos associados. Se durante todo o período de domínio das associações religiosas ela procurou criar em Itapira espaços de inclusão de diferentes categorias de fiéis dentro de sua própria ordem, agora, com as palavras de uma “igreja renovada e familiar e o escolar, o moral, o intelectual, o “de caridade”, o assistencial, o econômico e o político. (C.I., 18.08.1934, nº 1895, p.1) 21 Em 1970, eram ainda listados oficialmente os seguintes grupos organizados de leigos, para as quatro paróquias: Irmandade do Santíssimo Sacramento, Liga do Menino Jesus, Apostolado da Oração, Obra das Vocações, Doutrina Cristã, Juventude Operária (masculina e feminina), Archiconfraria do Imaculado Coração de Maria, Irmandade Nossa Senhora da Penha, Congregação Mariana, Irmandade de São Benedito, Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, Irmandade de São Vicente de Paula, Associação dos Consoladores de Nossa Senhora do Calvário, Encontro para Homens Católicos. Em 1971, a Tradição Família e Propriedade visitou a cidade, sem muito sucesso. Em 1972, o Cursilho de Cristandade estava em franca atividade, mas decaiu bastante logo depois. Várias destas instituições faziam parte da paróquia da Penha. 88 evangélica” ela procura dissolver esta sua própria ordem nas das comunidades locais dos seus leigos. Podemos concluir neste ponto a narrativa da construção de “muitas moradas” no mundo religioso de Itapira. Reuno em um quadro cronológico os acontecimentos descritos até aqui nos dois capítulos da “história sagrada” da região. Período Área Católica Área Evangélica Área Mediúnica Domínio dos sistemas religiosos populares (até 1840) Constituição dos sistemas populares do catolicismo dos camponeses; Incursões de agentes da igreja dominante: capelães e missionários; Formação do trabalho religioso de especialistas autônomos da “magia católica (rezadores e benzedeiras) Conquistas de religiões eruditas e dominantes: (1840 – 1904) Implantação de agências locais da IgrejaCatólica – igreja e paróquia da Penha + formação de uma “religião dos fazendeiros”; X Resistência e refúgio dos agentes do catolicismo popular Exercício laico do protestantismo presbiteriano, por colonos; + estabelecimento e consolidação da Igreja Presbiteriana. Formação do trabalho religioso dos especialistas populares de curandeirismo por possessão; + grupos espíritas kardecistas em formação. Conflitos e dominância oficial católica + consolidação de religiões eruditas não- católicas (1904 – 1950) Intensas relações de concorrência entre agentes católicos oficiais e agentes populares – religião dos camponeses, “seita da Mãozinha”; Conflitos dentro da Igreja Católica – cisma de Manuel Amorim, “Igreja Brasileira”. Período de consolidação e crescimento da Igreja Presbiteriana. Formação do campo mediúnico erudito = fundação dos dois centros espíritas e construção das obras assistenciais. Conquistas populares não- católicas e início da repopularização do catolicismo oficial (1950 – 1968) Constituição das outras paróquias de Itapira e reorganização dos setores de participação dos leigos no trabalho religioso. Retração da Igreja Presbiteriana; Criação da Igreja Batista; Fundação de igrejas “bíblicas”: Testemunhas de Jeová, Adventistas do 7º Dia; Chegada dos Pentecostais – C. Cristã no Brasil e Ass. De Deus; Cruzada A Volta de Cristo. Retração do espiritismo kardecista; Formação da Legião da Boa Vontade. Diferenciação Transferência dos modos de Retração das igrejas Fundação dos centros de 89 religiosa: (1968 – 1978) concorrência católica para dentro da igreja entre vigários e entre grupos de leigos associados; Desaparecimento da Ação Católica e controle laico em agências de tipo pós-conciliar. presbiteriana e batista; Retração das Testemunhas de Jeová e dos Adventistas do 7º Dia; Consolidação das igrejas pentecostais tradicionais; Aparecimento e multiplicação das igrejas de cura divina; Desaparecimento da Cruzada A Volta de Cristo, aparecimento da Igreja de Senhor Jesus22. Umbanda e de Candomblé; Seita do Povo Nhambiquará. 3º Depoimento A CRUZADA VOLTA DE CRISTO E A SEITA DO POVO NHAMBIQUARÁ DE TUPÃ Entre 1913 e 1976, dois agentes migrantes e um outro nascido em Itapira criaram no mundo católico, no evangélico e no mediúnico, uma igreja dissidente, uma cruzada de cura divina e uma seita de candomblé. No segundo depoimento estivemos às voltas com a Igreja Brasileira do Padre Manuel Carlos de Amorim Correia. Neste terceiro depoimento, proponho conhecermos os outros dois pequenos profetas do lugar: Agenor Salviano, criador da Cruzada 22 Francisco Cartaxo Rolim (1976:38) divide a história do pentecostalismo no Brasil, entre as seguintes etapas: 1ª. Fase inicial ou de enraizamento; 2ª. Fase de expansão inicial a partir de 1930; 3ª. Fase de intensificação da expansão “nos anos que seguem a partir de 1950”. É a partir da década de 1950 que o movimento pentecostal invade a Mogiana e chega a Itapira. 90 Evangélica A Volta de Cristo; Cleonice Paiva, que descobriu o povo tupi de um candomblé brasileiro e criou a União Espiritual Nhambiquará de Tupã. Pelo que se conta nas ruas dos bairros de baixo, pouca gente em Itapira foi tão cheia de poder sagrado como o missionário Agenor Salviano. Ele veio de Aguaí para Itapira, mas quase toda a gente – da Vila Izaura dos Prados – acredita que ele nasceu na cidade. Até à geração de seu pai, toda a família era “de gente da roça”. Entre os parentes da mãe havia, por outro lado, vários descendentes criados na cidade, eruditos e, em alguns casos, importantes. Como poucos meninos nascidos em fazenda, Agenor esteve estudando em colégios religiosos até pelo menos o ginásio. Anos mais tarde fez algum estudo de direito em uma das faculdades do interior do estado. Por sua própria conta fez também estudos de teologia. Quando era ainda jovem e antes de se dedicar ao trabalho religioso, viveu a experiência de um pequeno ator de teatro e chegou a viajar por países da América Latina. Teria escrito algumas peças, “tudo sobre religião”. Depois de uma infância e de uma mocidade comuns e católicas, Agenor Salviano resolveu um dia estudar “os fundamentos das igrejas, psicologia, parapsicologia”. O resultado foi que acabou por se aproximar, sempre por pouco tempo, de duas ou três igrejas evangélicas. Finalmente, converteu-se ao pentecostalismo e ingressou na Cruzada Nacional de Evangelização. Não permaneceu por muito tempo na Cruzada. Os motivos da sua saída não foram muito diferentes dos que ouvi entre outros fiéis dissidentes que passaram de leigos de igrejas maiores a dirigentes de outras, menores. Os meus superiores eram ignorantes e invejosos. Eu estudei direito. Estudei sobre o livre-arbítrio no Brasil e aí fiz a constituição de uma igreja minha, onde eu pregava sem ter que prestar contas a ninguém. O governo aprovou a minha igreja para pregar aqui e no exterior. O senhor ser submisso a uma pessoa que é menor que você e além disso ignorante! Então eu larguei. Depois de abandonar a Cruzada, Agenor Salviano ensaiou os primeiros passos de uma carreira de missionário independente iniciada em Itapira. Fez pregações, conseguiu milagres três vezes por semana e conta-se que chegou a falar a multidões de quase 5000 pessoas. A qualidade de uma pregação nunca antes ouvida na região e a quantidade semanal de atos de cura divina atraíram depressa os fiéis com cujos donativos Agenor construiu um grande galpão no lugar onde hoje funciona, sob o mesmo teto, um supermercado no Cubatão. Nos primeiros meses houve pressões da Igreja Católica e repressões da delegacia local. Afinal, pouco mais de 50 anos depois de Amorim Correi, um novo pequeno profeta dissidente rompia com as regras do jogo da concorrência religiosa e ameaçava tornar-se mais influente do que seria recomendável para um agente religioso autônomo, popular e não-católico. “Eu sou um pescador de almas. Pescador de rede, não um criador de aquário. Esse negócio não é comigo não. Dez dias numa cidade e não ficava um em casa. Saía todo mundo (para ouvi-lo pregar)... Depois eu fui afastando. A minha alegria, o meu objetivo é que todo mundo ouça, conforme está escrito na Bíblia. Aquele que ouviu depois não pode dizer que não ouviu a palavra”. Hoje, mesmo consciente de que até em Itapira não conseguiu, como tantos outros, fazer a sua igreja e ter seguidores, Agenor considera-se como o grande missionário de conversões 91 evangélicas em toda a região. Antes de sua chegada havia o pecado, a Igreja Católica e algumas “obras” pentecostais com as salas vazias. Hoje, depois de sua passagem, a profanação diminuiu, o povo foi civilizado e as igrejas dos crentes estão cheias de fiéis. Aqui em Itapira não tem um crente que não tenha sido convertido comigo. Aqui tinha seis quando eu cheguei aqui. Era só a Igreja Católica. Não tinha uma só igreja de crente. Tinha só a Assembléia de Deus, a „assembleinha‟, pequeninha. Tinha uns seis membros fazendo arruaça lá. ...Essas igrejas evangélicas que tem aqui foi tudo eu que enchi. Um pouco de cada uma por aqui. Onze, doze anos atrás não tinha nada. Aqui só dava maconheiro, ladrão, assassino, marginal aí que era até perigoso na rua. O auge do seu desempenho conversionista e milagreiro foi por volta de 1965. Um ano antes eraainda perseguido; poucos anos depois começou a ser abandonado. Mas durante algum tempo enchia o seu salão três vezes por semana e mantinha um programa de rádio diário na cidade: “A hora dos milagres”. Por este tempo, jovem ainda, era de fato conhecido como “o menino dos milagres”23. Na memória dos velhos crentes e de alguns adultos das várias igrejas pentecostais, nunca houve na Mogiana um outro missionário com um tal poder de pregação e de cura divina. Entre os seus convertidos, mesmo os que confirmam que ele “caiu da palavra”, insistem em reconhecer que “quando Deus estava com ele” Agenor Salviano possuía e usava os nove dons do Espírito Santo. Eu olhava nas pessoas, via uma luz na cabeça delas, e via. E sabia tudo sobre ele. Isso tudo chama revelação. Quando eu terminava a bênção, eu sentava sem forças. Agora só existe o reflexo24. O ponto alto de cada dia de pregações era a bênção poderosa, por onde desciam às mãos do missionário os poderes de cura dados por Deus. “Essa era a trinabênção, que era do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. Nos detalhes do traje e do porte, em alguns gestos de desempenho no púlpito e nos efeitos diretos da bênção e da pregação, Agenor procedia segundo o modelo missionário de cura divina. O terno impecável, quase sempre preto, a gravata borboleta ou em estilo texano, a maneira de entrar pelo salão com o paletó às costas, mais ao estilo de Frank Sinatra do que ao de João Batista. Agenor não dispensava quando podia pequenos conjuntos de música jovem treinados para recriar, com sons do profano, músicas do sagrado. Também não fazia economia alguma de gestos e de entonações comuns nos grupos de teatro pelo interior do Brasil. 23 “Quando o jovem missionário Agenor Salviano, apelidado pelo próprio povo „menino dos milagres‟ dava a bênção, centenas de pessoas, no ato solene, testificaram as curas que receberam; grandes milagres e maravilhas eram realizados pelo augusto poder de Deus” (texto de um volante da Cruzada Evangélica A Volta de Cristo). 24 Sobre os poderes, não só de cura, mas de revelação, um dos seus convertidos e auxiliares testemunha o seguinte: “Ele já falava, „ali naquele meio tem uma mãezinha que tem um incômodo. Jesus me revelou a sua enfermidade, irmã. E a sua enfermidade é grave‟. Ele contava até a enfermidade onde tava. Então ele falava: „tem uma coisa que tá te segurando. Você não quer vir? Você vai perder a bênção. Venha que Jesus vai te abençoar, Jesus vai te libertar‟. Isso eu digo como esse sol tá me alumiando, que eu tava assim perto dele. Essa mãe, ele falou assim: „a senhora tá sofrendo, irmã? Jesus vai te colocar um coração novo pra você. Venha aqui que Jesus vai te dar um coração novo pra você!‟ então ela veio. Quando ela chegou perto de mim, eu vi descer um coração do céu que entrou pela cabeça dela. Um coração novinho, perfeito. „A senhora tá curada em nome de Jesus, não tem mais nada‟”. 92 Eu era, vamos dizer, um artista de Deus. Pregação que eu fazia era de chorar o coração mais petrificado. Em alguma coisa o seu modelo de pregação evangélica diferia, entretanto, do estilo costumeiro. Primeiro, o próprio modo de encenar a pregação. Tanto diante do público, quanto pelo rádio, ele não era sempre e só vibrante e sonoro e não tratava Deus e o povo aos berros. Muitas vezes preferia fazer-se intimista, com palavras quase sussurradas e de conteúdo mais romântico do que pastoral. Segundo, o apresentar-se mais como o ator de seu próprio talento do que como um instrumento do poder de Deus. Em quase todos os trechos de programas gravados que Agenor reproduziu para mim no seu gravador, não consegui escutar uma só vez as citações bíblicas – com declaração de capítulo, versículo, autor – tão ao gosto pentecostal. Mesmo sendo acreditado como possuidor de todos os dons do Espírito Santo, nas gravações do passado, assim como nas entrevistas, não ouvi o seu nome mais do que duas ou três vezes. Terceiro, no aproveitamento regular de um catolicismo popularizado (“Louvado seja Deus, para sempre seja Louvado”). Esta terceira diferença é a mais importante. Algumas páginas atrás vimos que o missionário da Igreja do Senhor Jesus usa gestos, palavras e outros símbolos católicos, nega-se como um missionário-milagreiro pentecostal e se afirma como um “cristão”. Hoje em dia, sozinho, doente e a caminho de ser um dia esquecido, Agenor chega a se reconsiderar como um tipo de católico. Eu sou católica mesmo. A minha missão tem caráter universalista. Eu a até nas igrejas católicas para fazer casamentos. Apesar de ser muito criticada eu nunca tive fraqueza para entrar em murmurações. Hoje em dia eu não tenho inveja de ninguém. Eu sou católico mesmo. Eu só não uso o batismo, mas tenho o meu traje. Eu sou católico livre, eu não sou regido pela particularidade romana. Eu tenho as regras porque sei de lá. O resto eu faço. Ao oscilar entre os limites de uma herança católica incorporada a uma práticas pentecostal, o próprio missionário reconhece que recolheu fórmulas de salvação de diferentes grupos religiosos e que se dispunha a pregar as pessoas de todos os credos, ou de nenhum. Eu tenho uma fé diferente. Onde eu falo vai gente de todas as religiões... A Assembléia de Deus é uma Igreja rígida. Ela não admite desde a roupa. A Congregação Cristã no Brasil, para ela nem católico, nem pentecostal e nem protestante. Todos são condenados. Eu não. Eu peguei 30% de uma, 20% de outra e fiz os 10 mandamentos. Não são poucos os seus convertidos, ou os velhos agentes das igrejas menores, que confirmam o fato de que mesmo antes de “cair da palavra” e perder os seus fiéis, Agenor conduziu muitos crentes para as outras igrejas, inclusive aqueles cujos pastores o consideraram sempre como um milagreiro ilegítimo, profanador das regras do pentecostalismo. O missionário foi um concorrente ameaçador, quando em plena atividade, mas como “caiu”, deixou crentes já salvos “do mundo”, que se espalharam pelas outras igrejas. Apesar das acusações oficiais ainda correntes entre os pentecostais, muitos deles testemunham que Agenor nunca foi um milagreiro pentecostal como o do Senhor Jesus é considerado hoje em dia pelos seus inimigos, e nem teve a ambição de levar para a sua os poucos fieis das outras igrejas. Ele convertia na dele e mandava os crentes para outras igrejas. „Irmão, procura uma igreja pentecostal e fica nela. 93 O missionário atribui a sua perda de poder religioso aos efeitos físicos dos três acidentes de automóvel que teve nas estradas e na cidade, em menos de cinco anos. Inúmeras fraturas exigiram operações seguidas que concertaram os seus ossos e comprometeram os rins e o coração. Atualmente Agenor é um homem muito doente e afastado de todo o trabalho de salvação de almas. Eu tive três acidentes de automóvel. Saía fatigado, três conferências, e capotava o carro. ... Neste último eu não posso, eu parei. Muita preocupação, a gente vinha muito carregado de mau espírito, de doença, doença de parte psíquica, de endemoniados. Mas entre os pentecostais dos bairros “de baixo” a crença é a de que, depois de casado, “ele decaiu”, “desencaminhou”, “deu pra beber” e “se perdeu”. Ele tinha o dom da cura e o dom da visão. Ele tinha os nove dons do Espírito Santo e fez muito milagre aqui. Mas daí ele casou e transformou a vida dele ... Daí ele começou a desencaminhar. Um dia ele ia pra Aguaí e de dentro da casa ouvia a buzina do carro dele. Saía para fora e não via nada, via só um vulto preto, assim de pequeno, sentado na buzina. O vulto sumia. Ele entrava para dentro e tome a buzina de novo. Isso aconteceu muitas vezes. Tá bom. Daí ele saiu e teve um acidente. Foi o primeiro. Mas o último acidenteele capotou três ou quatro vezes. Carro dele ficou que nem uma chapa. Ele se quebrou todo e ficou 28 dias no oxigênio. Agora prega pra esses cantos do mundo. (Ele não prega mais em Itapira?) Não, aqui ninguém mais quer saber dele. Ele vendeu o salão que tinha por 20 mil cruzeiros. Ele começou a ficar assim depois que entrou o dinheiro. Como em todas as acusações coletivas, há versões que variam entre atribuir toda a culpa ao comportamento cada vez menos pentecostal do missionário; e distribuí-la entre os outros, por pressões e ataques desonestos e invejosos25. O que não se coloca em questão é que, “quando ele andava reto diante do Senhor”, foi um “homem de Deus” como muito poucos. Mas o código dos pentecostais é mais severo do que os 10 Mandamentos e a passagem da bênção ao esquecimento é muito ligeira. Mesmo entre os que falam dele com menos constrangimento e até com a gratidão do eleito, ninguém sabe falar do seu poder religioso sem ajuntar a lembrança de sua queda. A igreja detrás do cemitério era Brasil pra Cristo. Foi o pastor Salviano quem devia estar mandando nela. O povo pega falar mal dele. Ele prega e não tinha salário e assim mesmo falam dele. Enchiam ele de dinheiro e assim mesmo falam dele. Se ele tivesse firmado aqui a maior obra havia de ser a dele. Eu não sei o que foi que aconteceu que deu uma derrota nele que eu afastei. 25 Exemplo da versão de culpa: “Ele era usado por Deus. Até meu sogro, minha sogra se converteu na tenda dele, na igreja dele... O sr. sabe que o mundo está cheio de pecado. Oferece tudo pra pessoa. E ele fracassou, coitado. Tenho pena dele. Ele teve vários acidentes. Ele era um moço tão bonito de fisionomia, podendo falar, o senhor sentia. Ele era mesmo uma pessoa boa, depois fracassou completo”. Exemplo da versão de defesa: “... Então quando ele saiu com essa turma pra pregar pra fora e começou a vir essas lutas aí, essas tribulação. E quebra carro, fica sem comer uma semana. Tudo isso ele passou. Passou fome, passou horas de sede, mas sempre firme com Jesus. E até hoje. Ele tá caído porque a turma é pau d‟aqui, pau dali, até que derrubaram ele”. 94 Fui convertido com o missionário. Mas o missionário caiu e eu larguei. Tinha um dom maravilhoso, ah! Ele tinha um dom maravilhoso. Ele expulsava os demônios. Como ele não teve outro. Ele caiu da palavra. Aqui o povo mataram ele, mas todas essas igrejas aí foi ele que encheu: a da Assembléia de Deus, a dos presbiterianos, a dos batistas. Ele falava assim: „vocês não confia em mim não. Confia em Deus porque eu sou um homem como vocês‟. Quem ficou só com ele caiu no mundo. Mas ele deixou de pregar, ele abandonou Itapira... Caiu da palavra. Foi uma temporada que ele ficou de arrastro. Foi aí que eu saí da Igreja (dele). Hoje o missionário não faz mais pregação alguma na cidade porque, segundo as suas próprias palavras, “eu tenho medo de dar vexame”. No entanto, no horizonte, sempre prefere acreditar que um dia, recuperado dos desastres, voltará a pregar. Algumas pessoas em Itapira dizem que ele tem ainda “uma obra lá pros lados de Alfenas”, fato que Agenor nega: “eu tenho só o nome agora, eu tenho no Brasil inteirinho”. Às vezes liga o rádio e escuta programas pentecostais. Escuta também a meia hora diária do missionário Do Senhor Jesus e sabe de sua atuação na cidade. Parece ter sido procurado por uma pequena embaixada do novo pregador- milagreiro. Mas Agenor garante que não pode mais fazer, pelo menos por enquanto, o trabalho do missionário. E o de pastor, não interessa. Não. Não sei. Ele disse que vinha conversar comigo. Mas eu não posso mais. Eu não tenho mais. Só quando eu restabelecer mesmo, bem. Pra ser pastor eu não quero. Pra tomar conta de igreja eu não quero. Eu sou missionário diferente. De ir lá, curar, mensagens profundas. Agora, eu voltar prá trás, ficar cuidando de aquário? Com algumas diferenças, Cleonice Paiva completa a trilogia dos pequenos criadores de igrejas em Itapira. Amorim e Salviano vieram de fora e criaram, na cidade, uma igreja católica dissidente e uma cruzada evangélica. Cleonice nasceu em Itapira, mora ainda lá e criou, na capital do estado, uma nova seita de candomblé. Cada um a seu modo, Amorim e Salviano investiram contra os interesses de igrejas dominantes e contra a ordem de um campo religioso aparentemente estável e constituído. Foram perseguidos e a memória sobre ambos até hoje está repartida entre a santidade e o anátema. Cleonice inventou uma pequena seita a respeito da qual mesmo os espíritas e umbandistas de Itapira sabem muito pouco. Também não há notícias de repressões contra ela, em Itapira ou em São Paulo. Na entrada da cidade, entre as ruas novas dos bairro de cima, a sala da casa de Cleonice tem sofás e estantes em um canto e um conjunto de máquinas de costura, figurinos e vestidos no outro. Ela recebe ali os amigos, os clientes do ateliê de costura e os fiéis (“filhos”) do Povo Nhambiquará. Em 1978, ela foi também porta-bandeira da Escola de Samba Nove de Julho e respondeu pelo vestuário de toda a “ala das baianas”. A escola ganhou o 1º lugar, concorrendo com outras duas. Nas quatro ou cinco vezes em que conversamos, Cleonice não separava os assuntos, de tal modo que ficava difícil identificar a costureira de estilo, a foliã de Escola e a mãe Yacitata, criadora e líder de uma seita que promete renovar todo o campo mediúnico brasileiro. Desde pequena foi criada pela avó em Itapira. Aos cinco anos anunciou que iria matar- se caso o pai a deixasse outra vez. O pai viajou e ela fugiu de casa. Foi encontrada algum tempo depois, por parentes assustados, na beira do Ribeirão da Penha. Conversava então com alguém 95 que ninguém via e que anos mais tarde Cleonice apresentou como sendo a Nossa Senhora da Aparecida. Aos quinze anos teve um sonho que ajudou a definir seu destino. Ela morria e recebia uma mensagem para que colocasse, daí para a frente, a sua vida ao serviço dos outros. “Eu queria ser útil à humanidade e não sabia como”. Pouco tempo depois entrou para um convento católico. Descobriu “muita sujeira”, fez denúncias ao bispo e acabou saindo de lá e, um pouco mais tarde, do catolicismo. Terminando o Colegial, fez cursos de Filosofia sem completar os estudos. Entrou para uma faculdade de Direito e de novo interrompeu o curso. Viajou para o Rio de Janeiro “com uma bolsa de estudos”. Voltou a estudar Filosofia e procurava então, na ciência e na religião, respostas para as suas angústias. Entrei nos mórmons, batizei na Congregação Cristã do Brasil. Tudo o que era igreja eu entrava. Tinha visões seguidas. Eu me sentia fisicamente mal e sofria muito. A empregada da república onde morava indicou a ela um terreiro de umbanda no Engenho de Dentro. Ela foi, com algumas colegas. A gente acostumada a freqüentar um certo ambiente. Aí é que eu fui saber que tinha umbanda, quimbanda, candomblé. Os crioulos lá, tudo bebendo e caindo. Eu perguntava: „Meu Deus do Céu, isso aí é que é religião? Isso aí é feitiçaria!‟ ... Na hora em que cantaram para Iemanjá eu não vi nada. Dizem as minhas colegas que eu dancei mais bonito que todas as outras. Caí bolada. A mãe-de-santo disse que eu era filha de Iemanjá. „Mas a sua cabeça não é pra mim não, é pra candomblé, porque na umbanda a gente não faz santo‟. Não que eu não quisesse aceitar por preconceito. Afinal eu estava num terreiro de uma boa camada social. Mas os sofrimentos de Cleonice aumentaram muito a partir daí. Ela resolveu então seguir os conselhos que recebera no terreiro e procurou Joãozinho da Gomeia, “que era no tempo o melhor pai-de-santo”. Ele disse: „filha, ainda vai ter a versão brasileira do candomblé!‟ Mas eu nãoimaginava que a bomba ia estourar na minha mão. Fez o santo com Joãozinho da Gomeia. Mudou-se para Goiás e, por pouco tempo, lecionou em Anápolis. Voltou a São Paulo e aos estudos de Direito, mas os interrompeu de novo para se casar. Durante anos morou em São Paulo e faz pouco tempo que voltou para Itapira. Ela e o marido abriram um Centro de umbanda em São Paulo, hoje reconhecido por ambos como uma espécie de estágio preparatório para que um dia fossem manifestadas as entidades espirituais que revelariam a ela o código de sua nova seita mediúnica. Ao produzir um dia rituais para a busca do nome do santo de seu segundo filho, recebeu a manifestação de uma entidade sobrenatural que nada tinha a ver com os orixás, os preto-velhos, os caboclos da umbanda e do candomblé. Depois das primeiras, manifestaram-se outras entidades que se proclamavam povo de uma nação espiritual de origem tupi, portanto, brasileira. Fui obrigada a bater umbanda até aparecer Nhambiquará, quando procurava o santo de meu filho. Nhambiquará é uma seita que fez um ano em 31 de julho (de 1977). Existia a nação Nhambiquará, agora existe a seita... O Joãozinho da Gomeia estava quase conseguindo criar um candomblé brasileiro. Ele tinha a previsão disso, mas não tinha a consciência de que ia acontecer com Nhambiquará. 96 Assim, por uma procura de santo – prática comum no Candomblé – Cleonice Paiva entrou em contato com uma nação espiritual que a escolheu para revelar a sua existência e o código religioso de uma nova seita, “o verdadeiro candomblé brasileiro” de que ela se considera a fundadora terrena. Depois de codificarem as mensagens recebidas do Povo Nhambiquará, Cleonice e o marido fundaram em São Paulo a União Espiritual Nhambiquará de Tupã – Taba de Kamacuam. Todo o campo das religiões mediúnicas era importado: da França como espiritismo; da África como candomblé e umbanda. O Brasil era, até então, o maior país praticante destas religiões e ainda não soubera fazer a sua. Mas para tanto era preciso um acontecimento sagrado e, portanto, constituinte da legitimidade da nova religião. A “manifestação de Nhambiquará” ao mesmo tempo nacionalizou um espaço sagrado de um povo brasileiro, uma religião mediúnica e a seita de sua prática. Nhambiquará surgiu do candomblé brasileiro. Depois, na guerra dos orixás, mas na guerra deles, lá de cima, nós tiramos a nossa independência. Eu não vou buscar o meu santo lá na África, eu busco aqui no Brasil ... Ele tem um ritual folclórico que não é afro-brasileiro. É bem brasileiro. O afro-brasileiro é aquele que a gente vai buscar o santo lá na África. No nosso o santo é bem brasileiro e a língua é o Tupi. Como Mãe Yacitata, a fundadora volta a Itapira, mas conserva em São Paulo “a casa” da nova religião. Os cultos são então feitos nas noites de sextas-feiras. Ela e o marido se alternam nas idas semanais à capital para a direção dos trabalhos. Mas nos dias festivos do ano vão os dois e levam, junto, alguns poucos seguidores residentes na cidade. Cleonice não foge à regra de condenar as religiões de que foi leiga e agente, e das quais a sua é uma forma dissidente. É pelas qualidades de Nhambiquará que avalia os defeitos da umbanda e do candomblé. É pela atribuição de uma legitimidade de classe à sua seita que ela determina a ilegitimidade das seitas equivalentes e anteriores no campo mediúnico. As religiões “afro-brasileiras” são atrasadas e profanadoras, os seus fiéis não procuram nelas mais do que proveitos materiais e, não raro, o malefício dos outros. Os seus agentes – pais e mães-de-santo – são mistificadores e interesseiros, manipulam práticas religiosas cujo único propósito é o de criarem a dependência de uma clientela vulgar e “pedinte”26. A Umbanda não leva a nada e o Candomblé é um misticismo... Lá em casa (no Centro, em São Paulo) o ritual público é meio macumba, umbanda, porque é o que eles precisam. Mas há o ritual de porta fechada que as pessoas não compreendem. A umbanda é bate-palminha27. Eu não gosto de 26 “Aqui em Itapira já teve candomblé. Dona Geralda fez o santo em São Paulo. Depois ela veio pra Itapira viver de candomblé. Mas o centro dela foi depravado: arrumar mulher pra homem, arrumar homem pra mulher, fazer tudo quanto é negócio. Então o Centro acabou e o pessoal daqui ficou com o pé atrás com umbanda e com candomblé”. 27 “Bate-palmas”, “bate palminha”. Entre os católicos, só mesmo nos rituais mais populares dos cultos camponeses há seqüências de cantoria, dança e palmas. Um exemplo local é o da Dança de São Gonçalo, que os fiéis mais eruditos hostilizam como uma prática inconseqüente. Entre os pentecostais, um dos critérios de diferenciação de tipos de cultos é o uso ou a proibição de “bate-palmas” como acompanhamento nos “corinhos”. Palmas são proibidas nas igrejas tradicionais, sobretudo quando elas possuem e usam orquestras ou bandas. São de uso muito comum nas pequenas igrejas ou nos movimentos de massa de cura divina. “Bate-palmas” é o nome depreciativo com se pronuncia, de modo abrangente, o nome das pequenas igrejas do pentecostalismo recente e popular. Finalmente, Cleonice Paiva inventa o mesmo “bate palminha” para falar do popularesco grosseiro que sempre denuncia na umbanda. 97 palminhas e de pedintes. A umbanda tá assim de pedintes e de ajuda material. O candomblé é materializado. O pai-de-santo quer é dinheiro e faz do filho-de-santo um escravo. Fora diferenças do repertório de entidades sobrenaturais, de linguagem (de um falso nagô para um falso tupi) e de gestos cerimoniais, as regras de trocas entre os crentes e os santos são iguais em Nhambiquará e na umbanda. Tanto é assim que, para o público não- iniciado, as fórmulas de umbanda e do candomblé são usadas na “casa”, e só passam a ser consideradas como profanadoras quando a portas fechadas, com o grupo seleto dos iniciados. A respeitabilidade da seita deriva de que a sacerdotisa de Nhambiquará não precisa dela para viver e, os fiéis, para suplicarem. As afirmações das diferenças entre a seita e as outras são marcadas por oposições entre uma religião desmistificada, inclusive com os recursos da ciência; e as formas de magias mistificadoras, inclusive com os recursos de manipulações que os próprios agentes reconhecem como sortilégios. O povo de Nhambiquará é uma gente nobre e guerreira, de origem indígena – logo, com todas as virtudes da visão romântica do índio brasileiro – e de costumes espirituais altaneiros e absolutamente puros, quando comparados com os orixás do candomblé e as falanges de umbanda. De modo correspondente, os fiéis de Nhambiquará são uma gente do melhor nível, letrados, sábios e predispostos a uma religião que, se de um lado incorpora crendices e cerimônias próximas aos das práticas populares e espúrias da umbanda e do candomblé, de outro lado é capaz de torná-los respeitáveis, ou seja, eruditos e desinteressados. Eu garanto que não vivo de religião e não preciso explorar os outros. Preciso trabalho público, porque senão arrebanho ovelhas para o rebanho? Lá em casa quem for pedir alguma coisa vai ter que participar ... Eu não sou curandeira, não faço milagre e não acredito em milagre. 90% do pessoal da minha casa é de nível universitário. Então é um pessoal que não é fácil de enganar. Lá em casa eu parto mais do psicológico. Parto do psíquico para você se libertar da matéria. Nós cuidamos da vida espiritual nossa. Então eles dizem que a gente faz macumba pra vida diária. Mas o que há de melhor do que estar em paz com Deus e o Diabo? A última entrevista que fiz com Cleonice Paiva foi durante o Carnaval. Respondendo ao mesmo tempo às minhas perguntas e às suas preocupações, MãeYacitata alternava, com pausas de uma vírgula, notícias sobre a “9 de Julho” e a “casa”. A respeito de ambas tinha novidades importantes. Acabara de resolver volta à ativa do Carnaval de Itapira. Havia sido convidada para a diretoria da Escola de Samba e, de agora para a frente, dedicaria parte do seu tempo a fazer com que o Carnaval da cidade voltasse a ser, como no passado, “o melhor de todo o interior de São Paulo”. Havia resolvido “fechar a casa em São Paulo”. Ela e o marido são donos de um terreno de chácara no Bairro dos Prados e ali pretendem fazer um novo Centro do Povo Nhambiquará, ao mesmo tempo a nova “casa da seita” e, quem sabe? O maior centro de reuniões e seminários em Itapira. Ao transferir o local único dos cultos regulares de São Paulo para Itapira, Mãe Yacitata não tem receios sobre os destinos de sua religião. Já há em Itapira um pequeno número de seguidores, e os de São Paulo, aqueles que vale a pena conversar, não deixarão de vir a Itapira. 98 Capítulo 4 PADRES, PASTORES, MÃES-DE-SANTO, REZADORES A narrativa de como se compõe em Itapira um campo de trabalho religioso falou, afinal, de um território socialmente diferenciado, confessionalmente complexo e em pleno processo de formação. Estão presentes ali unidades de crença e culto das três áreas confessionais predominantes no país: a católica, a evangélica e a mediúnica. No interior de cada uma delas há representantes locais de grupos religiosos de âmbito nacional, ao lado dos que mal conseguem congregar três ou quatro equipes de seguidores restritas ao estado de São Paulo ou à Mogiana. Ali estão funcionários e templos de igrejas tradicionais, eruditas e respeitáveis, ao lado de sacerdotes iniciantes e invenções confessionais em teste. A todo momento ocorrem mudanças na composição da ordem religiosa estabelecida. Aliadas pela consciência da necessidade de proteção comum contra as ameaças de autonomia religiosa, de profanação dos símbolos do sagrado legítimo e da perda de poder, as religiões e os seus grupos eruditos exercitam mecanismos de reprodução da dominância e fazem disso a fração mais interessada de sua prática política e docente. Por caminhos diversos, agentes e grupos populares resistem ao poder de controle das agências religiosas dominantes, ou fracionam pontos de apoio da hegemonia delas, recriando adiante núcleos inovadores ou dissidentes. Entre os produtores populares da religião e os fiéis recrutados nas classes subalternas, é notável e parece ser crescente a vocação para a resistência, a capacidade de recuperação de modos de crença e práticas tradicionais, ou a criação de formas religiosas novas. São poucos os outros setores da sociedade civil onde o “poder dos fracos” consegue ser tão consistente e criativo. Antes de reconvocá-los para que vivam aqui as suas rotinas cotidianas e atuais de trabalho, alianças e conflitos, digo neste capítulo e, no seguinte, quem são as agências, os agentes e os seguidores religiosos de Itapira, segundo os seus atributos e suas diferenças 99 seculares e confessionais. Explico também onde estão, na geografia da sociedade e na do seu setor religioso. 1. Lugares de Fé Quem faz a conta dos locais de oração apenas pelo número das torres de igrejas, descobre a sua minoria absoluta. Por todos os cantos da cidade, da periferia antes e depois do Ribeirão da Penha, dos bairros rurais, sítios e estradas, há templo, centros, salões, capelas e sinais de culto dos vários grupos de fé. No mundo da religião, mais do que nos dos negócios seculares, o que se faz com pompa nas grandes igrejas multiplica-se muitas vezes, todos os dias, em muitos lugares e sob inúmeras formas. Ordeno aqui o que vai ser discutido adiante. Localizo em um mesmo quadro as sedes matrizes, as filiais alguns lugares de culto dos grupos religiosos do município. Destaco espaços de domínio de cada religião ou segmento, na cidade, na periferia ou na roça. GRUPO RELIGIOSO CIDADE (centro e bairros de cima) PERIFERIA (bairros de baixo) ROÇA (bairros e sítios) ÁREA CATÓLICA Catolicismo popular Locais esporádicos de cultos esparsos praticados por agentes vindos da periferia ou da roça Residência e local de culto de agentes populares urbanizados: rezadores, benzedeiras e chefes de grupos rituais. Espaço de domínio do catolicismo popular Cultos organizados e exercício regular em capelas, oratórios, casas de promesseiros + locais simbólicos de devoção. 100 Catolicismo oficial (agências da Arquidiocese de Campinas em Itapira1 Espaço de domínio do catolicismo oficial Paróquia e Igreja Matriz de Nossa Senhora da Penha Paróquia de Santo Antônio: igreja e capelas2 Paróquia de S. Benedito: Igreja Capelas dos bairros de cima: Bom Jesus, Menino Jesus de Praga Capela de Nossa Senhora da Aparecida Capela de Nossa Senhora das Graças Paróquia de São Judas Tadeu: igreja Capelas rurais sob o controle da paróquia Capelas rurais ÁREA EVANGÉLICA Protestantismo histórico Pentecostalism o tradicional Área de domínio do protestantismo Igreja Evangélica Presbiteriana Igreja Batista Congregação presbiteriana do Cubatão Obra assistencial de proteção à infância Trabalho religioso esporádico em alguns sítios Área de domínio do pentecostalismo tradicional Congregação Cristã no Brasil Assembléia de Deus do Ministério da Missão Assembléia de Deus do Ministério do Ipiranga Congregação da AD na “Vila Olimpia” Assembléia de Deus do Ministério do Madureira Grupos de AD na UNSA no distrito de Eleutério e em bairros rurais Congregação da AD no distrito de Barão de Ataliba Nogueira 1 Não considero importante aqui nomear todas as inúmeras capelas urbanas e rurais, assim como cada uma das associações católicas sob a direção das quatro paróquias do município. Lembro de passagem que a paróquia é uma unidade eclesiástica de organização local e de oferta direta de bens de salvação. A paróquia representa a ordem da Igreja e funciona como uma sua agência local, subordinada a uma diocese ou arquidiocese de tal modo que, para efeitos canônicos e práticos, o padre vigário pode ser considerado como um delegado de seu bispo titular. Por outro lado, a paróquia é uma instância imediata de associação e de controle de sub-agências (capelas) e de grupos de leigos, estes últimos constituídos por iniciativa do vigário ou através do trabalho voluntário de leigos, depois apropriado pela paróquia. 2 A paróquia de Santo Antônio é um bom exemplo de que explico na nota anterior. Ele é canonicamente administrada por um padre vigário nomeado pelo bispo titular da Arquidiocese de Campinas. O vigário dirige os negócios da paróquia; produz diretamente as frações do trabalho religioso considerado como o mais necessário e eficaz; coordena as capelas urbanas de Bom Jesus da Vila Bazani, Menino Jesus de Praga, Nossa Senhora de Aparecida e as várias capelas dos bairros e sítios dentro de sua jurisdição eclesiástica. Ele controla ainda, mesmo agora, sob termos mais democraticamente pós-conciliares, todo o trabalho pastoral e de assistência a cargo de antigas irmandades, de associações intermediárias e das recentesequipes paroquiais. 101 Formas novas de pentecostalism o de cura divina Grupos bíblicos não evangélicos Área de domínio das formas novas de pentecostalismo Igreja Pentecostal Independente Igreja Pentecostal Boas Novas de Alegrias Igreja Pentecostal O Som da Palavra Igreja do Senhor Jesus3 Salão do Reino das Testemunhas de Jeová Igreja dos Adventistas do 7º Dia ÁREA MEDIÚNICA Espiritismo kardecista Umbanda Candomblé Área de domínio do espiritismo kardecista Centro Esp. Perdão, Amor e Caridade Centro Esp. Luiz Gonzaga Agências assistenciais no Cubatão e na Vila Isaura Centro de Umbanda de D. Amélia Centro de Umbanda do Sr. Gustavo Núcleo da Legião da Boa Vontade4 Locais de residência e culto de agentes autônomos de curandeirismo de possessão de “linha umbandista” “casa” da União Espiritual Nhambiquará de Tupã terreiro de candomblé de D. Guida Locais de residência e culto de agentes do saravá e de curandeirismo de possessão associados ao candomblé. 3 De um ponto de vista classificatório, lembro que a Igreja do Senhor Jesus é uma unidade do pentecostalismo de cura divina (Monteiro, 1977). No entanto, o missionário-fundador proclama, durante os cultos e em alguns programas de rádio, que a sua é uma igreja de “cristãos, não de crentes (pentecostais)”. 4 É muito difícil encontrar uma posição classificatória para o pequeno núcleo de Legião da Boa Vontade em Itapira. A partir de propostas iniciais de um amplo ecumenismo cristão, o fundador e líder nacional aproximou-se aos poucos do espiritismo kardecista e mesmo da umbanda. O casal dirigente do núcleo da cidade é publicamente ligado à umbanda, ainda que não a pratique dentro da sede local da LBV. O marido tem inclusive a sua mediunidade desenvolvida e chegou a ajudar regularmente os trabalhos iniciais do “centro de D. Amélia”. 102 Católicos oficias, protestantes e espíritas edificam os templos-matrizes no centro e pelos bairros de cima, espalham sedes filiais nos de baixo e – à exceção dos espíritas e batistas, francamente urbanos – enviam emissários regulares ou esporádicos para serviços na roça. A Assembléia de Deus procede da mesma forma. Tal como a Igreja Batista, a Congregação Cristã no Brasil e a Assembléia de Deus do Ipiranga isolam-se “em cima” e fazem muito pouco trabalho proselitista na roça e “em baixo”. As igrejas pentecostais mais recentes e as seitas novas de cura divina distribuem-se pelos bairros de baixo e praticamente concentram, entre a Av. Comendador Virgolino de Oliveira e a Av. Brasil, toda a sua atividade conversionista e cerimonial5. Os grupos mediúnicos não-kardecistas fazem também uma divisão marcada na geografia do encontro entre a fé e a cidade. Ao lado da “casa” do povo Nhambiquará, ficam nos bairros de cima os centros de pais e mães-de-santo de pequena burguesia e que servem, de preferência, a clientes de sua própria fração de classe. Nos bairros de baixo espalham-se pelas subidas das ruas mais pobres, em direção ao Paranazinho e à saída da cidade, os agentes populares e autônomos “de umbanda, que quimbanda, do candomblé, do saravá e todas essas coisas de feitiçaria”, como enumerava um morador do lugar. O mundo camponês dos bairros e sítios é o lugar do catolicismo popular. Os agentes religiosos dele, hoje moradores nos bairros de baixo, são migrantes rurais, à exceção de alguns negros, raros entre os antigos trabalhadores agrários de sua própria etnia. Os bairros de baixo dão lições de ecumenismo. Dentro de um espaço entre o proletário e o marginalizado, estão as agências coletivas e autônomas de pequenos grupos religiosos do catolicismo, do pentecostalismo e do espiritismo não-kardecista. Ali predominam as pequenas sedes de culto das religiões subalternas, ao lado de casas filiais de alguns dos grupos eruditos das igrejas que, em cada uma das três áreas, consideram-se como suas representantes legítimas. 2. Os Profissionais do Sagrado Os especialistas religiosos de Itapira são apresentados aqui segundo alguns critérios diferenciadores: a) as relações entre a procedência, o lugar da profissionalização específica e o trabalho religioso atual; b) o grau e os atributos da formação secular e da confessional; c) a posição e o grau de autonomia, dentro da agência religiosa local e da unidade confessional abrangente. Procuro simplificar essa reunião de dados de maneira a fazê-los descreverem apenas diferenças e uniformidades que ajudem a explicar, daqui para a frente, os tipos de relações sociais e os mecanismo que conduzem, do secular para o religioso, a ideologia e os interesses de classes e de grupos de que padres, pastores, médiuns e outros agentes fazem-se aliados e representantes. 5 O salão provisório de culto adventista foi construído dentro de um grande terreno no prolongamento da Rua do Cubatão, quase na saída da cidade. Mas esta igreja de pequena burguesia de modo algum se confunde, por repartir um mesmo espaço urbano, com os tipos de agentes, fiéis e clientela dos pequenos grupos pentecostais, da Igreja do Senhor Jesus e, muito menos, com os dos terreiros de Saravá. 103 a) “Ninguém é profeta em sua terra” Donos agrários do poder local exigem do Estado que os políticos do município sejam os seus pioneiros, ou os seus descendentes, enfim, a “boa gente” da elite do lugar. Mas os sacerdotes e os profetas é bom que venham de fora. A regra tem raras exceções entre os funcionários das religiões eruditas e nem sempre se aplica entre os das populares. Os rezadores analfabetos do cotidiano camponês são sujeitos de suas próprias comunidades, nascidos e criados nelas, ou chegados de perto há muito tempo. Os senhores do mistério – curandeiros, mães-de-santo, feiticeiros – mesmo quando naturais do lugar, saíram em geral de lá um dia, aprenderam fora as artes do ofício e retornaram mudados em especialistas a serviço de todos. Os rezadores, dirigentes de grupos rituais católicos e benzedeiras de roça aprenderam os ensinos do catolicismo popular quase sempre no próprio lugar do seu exercício religioso. Quando chegaram de fora, foi de locais vizinhos e reconhecidos como equivalentes – as comunidades agrárias da Mogiana ou do Sul de Minas. Os sacerdotes da religião popular apenas produzem, com maiores efeitos, as palavras e os gestos de um conhecimento religioso difundido na roça e que aos poucos se perde pela periferia da cidade. Eles não dominam um saber estranho, como o do padre, mas apenas sabem, mais e melhor, as rezas que todos os outros adultos aprenderam a responder. Eles nunca devem inventar variações perturbadoras sobre um repertório de rezas, cantos e gestos rituais de que a assistência de fiéis participa de maneira ativa e iniciada. Fora as benzedeiras católicas, todos os outros especialistas populares são a memória mais aguda de um saber religioso complexo, mas não secreto, e aprendido no limite entre o ensino dos padres e o da própria comunidade; feito às claras e, se possível, transmitido por pais ou parentes, velhos conhecidos de todos, guias religiosos definidos sem mistérios, segundo os modos como os códigos locais classificam os seus sujeitos e as suas práticas sociais. Na fronteira entre o sacerdote e o feiticeiro popular, os agentes de cura dos bairros e dos sítiossão homens e, sobretudo, mulheres de Itapira; ou são gente vinda de Minas Gerais. Tanto para os benzedores católicos quanto para os curandeiros e magos de cura por sortilégios de possessão – estes últimos sempre mais raros na roça – prevalece uma destas duas condições: primeira, o agente adulto ou velho (quando negro, se possível filho ou neto de escravos) nascido em Itapira e especializado ali ou , de preferência, fora; segunda, o agente migrante que chega a Itapira já especializado. Entre os agentes católicos dos bairros de baixo, quase todos são migrantes das comunidades e do trabalho agrário. Fora alguns negros, moradores urbanos desde sempre, eles são “a gente da roça” ou “a gente das fazendas”, que traz para a cidade segmentos do sistema religioso camponês, capazes de sobreviverem na cultura urbana e proletarizada, entre operários da lavoura, da usina e das fábricas. Os bairros de baixo concentram quase todos os migrantes mineiros e muitos deles dividem com os paulistas a produção popular dos serviços religiosos católicos6. Entre os especialistas residentes na periferia existe uma notável correspondência 6 Um dos três ternos de congos é composto de mineiros vindos de fazendas do Sul do estado. Entre os dirigentes e dançantes de uma outra congada há também vários mineiros. Em menor número eles se misturam ainda com os dançantes da “congada tradicional”, paulistas em maioria. Mas os rezadores e, principalmente, os “folgazões” das funções de São Gonçalo são gente de Itapira ou de outras cidades paulistas da Mogiana. 104 entre nascer dentro do município, sair dele temporariamente, formar-se como um agente de cura católica ou convertido a uma outra religião e, depois de tudo, retornar a Itapira capacitado e pronto para o exercício autônomo de uma prática especializada. Vejamos alguns exemplos entre os profissionais de cura mais conhecidos no Risca Faca. Quatro benzedores nasceram em Itapira. Os dois homens receberam a sua formação na cidade, de velhos e famosos pretos do lugar. As duas mulheres migraram ainda jovens para Minas Gerais, casaram-se lá e aprenderam o ofício fora, voltando para o município muitos anos mais tarde, onde pouco tempo depois abriram serviços autônomos de benzimento. Dois dirigentes de cultos do Saravá e duas das curandeiras “de macumba” aprenderam fora do município os seus ofícios. Os dois homens e uma das mulheres vieram do Sul de Minas. A que nasceu em Itapira formou-se “no Rio de Janeiro, na umbanda e na quimbanda”. Entre os que moram nos bairros de cima e prestam serviços mediúnicos, vimos que a médium-fundadora do Povo Nhambiquará nasceu na cidade, especializou-se no Rio de Janeiro e fundou a sua seita em São Paulo. A proprietária do Bazar Caboclo Pena Branca também é “de uma família conhecida” em Itapira. Depois de convertida à umbanda, ela se formou em São Paulo e voltou à cidade para abrir a loja e montar banca de serviços autônomos. A mãe-de-santo do terreiro de candomblé veio de São Paulo já iniciada nos segredos da religião. Finalmente, os dois chefes de centros de umbanda nasceram no município e desenvolveram a sua mediunidade em Mogi Mirim. Os fundadores dos três pequenos grupos pentecostais de cura divina são também pessoas do município. Converteram-se na própria cidade, onde receberam a sua formação religiosa, passando por mais de uma igreja pentecostal. No entanto, entre os dirigentes de obras evangélicas populares eles são casos de exceção, porque todos os outros são sujeitos migrantes, convertidos e iniciados fora. Os dirigentes fundadores da Assembléia da Missão, da Cruzada, e do Senhor Jesus apresentaram-se na cidade já convertidos do catolicismo e depois de estágios de leigo em unidades pentecostais de municípios da região. Os dirigentes da Congregação, das duas outras assembléias e da Cristo Pentecostal entraram em Itapira como emissários de matrizes sediadas em suas cidades de origem, ou naquelas onde receberam a nova iniciação religiosa, depois que se converteram do catolicismo. Nestas mesmas igrejas os auxiliares do culto religioso – presbíteros, diáconos, obreiros – são em maioria pessoas do município. A regra de distância entre o lugar de origem/profissionalização religiosa e o do exercício atual envolve também os grupos confessionais intermediários e os eruditos, com a exceção dos espíritas, cujos médiuns dirigentes e participantes mais ativos são nativos ou migrantes de infância, chegados a Itapira antes do momento da conversão. Os adventistas são dirigidos agora por um convertido dos presbiterianos, nascido em Minas e estagiário da igreja em Franca. As Testemunhas de Jeová começaram com os trabalhos proselitistas de missionários eruditos enviados de São Paulo, alguns deles norte-americanos. Só agora são dirigidas por pessoas nascidas e convertidas na cidade. O fundador e dirigente atual da Igreja Batista, convertido na Espanha, foi enviado por uma igreja de São Paulo. O pastor presbiteriano é mineiro e recebeu formação confessional em Campinas. Os quatro vigários católicos observam a regra, e sucedem uma longa lista de emissários migrantes da Igreja. Um 105 deles é norte-americano e os outros três nasceram e se ordenaram em outras cidades de São Paulo8. Reunidos todos os especialistas locais do sagrado, poderíamos convocá-los para um quadro onde eles se distribuiriam ao longo das seguintes três alternativas de relações entre o local da profissionalização e o do exercício religioso atual: 1ª. Origem e profissionalização religiosa no local do exercício atual: - agentes do catolicismo popular, algumas benzedeiras da roça e dos bairros de baixo; - alguns agentes autônomos de cura por possessão; - funcionários subalternos de grupos pentecostais; - médiuns espíritas. 2ª. Profissionalização religiosa fora do local de origem e do exercício atual: - alguns benzedores católicos; - médiuns autônomos e dirigentes de umbanda e candomblé. b) a iniciação do agente religioso São diferentes também os modos como os aparelhos ideológicos da religião reproduzem os quadros de produção de sua ideologia. Entre os inúmeros especialistas autônomos e funcionários de igrejas, apenas cinco – os quatro vigários católicos e o pastor presbiteriano – passaram por um programa regular de formação religiosa equivalente à de um nível superior de estudos seculares. Estes cinco sacerdotes letrados atravessaram uma seqüência de graus hierárquicos e de títulos progressivos, ao longo de uma trajetória que separa o momento da opção pelo exercício religioso especializado, do momento do início de sua prática pública. As igrejas que eles representam manipulam, como crença e como usos de culto, um conhecimento francamente erudito. Entre todos os do campo religioso ele é o mais aproximado, em grau e discurso, ao saber vigente entre intelectuais correspondentes e, tal como eles, associados à ideologia dominante em outros setores do Estado ou da sociedade civil, como os professores, os juristas, os tecnocratas e os produtores eruditos de práticas e sortilégios de cura (médiuns, psicólogos). Em um nível intermediário, os agentes melhor preparados para um exercício religioso letrado são os pastores das assembléias de Deus, os dirigentes dos grupos bíblicos e os médiuns espíritas. Entre todos, somente o pastor da Assembléia do Ipiranga recebeu formação regular em seminário, se bem que em grau inferior ao de sua colega presbiteriano, quanto à duração dos estudos e quanto à sua distância do senso comum. Na Igreja Batista, nas do pentecostalismo tradicional, assim como entre os adventistas, as testemunhas e os espíritas,a lacuna de um estágio prolongado em regime de internato é compensada com a difusão de instrumentos complementares ao aprendizado obtido pelo agente, ao longo de sua própria prática. Todos estes grupos confessionais facultam a pastores e, em menor escala, a presbíteros, diáconos e obreiros, um acesso fácil a estágios curtos em centros de estudos mantidos por agências matrizes; a cursos ligeiros, com programas auxiliares de atualização religiosa; a programas de ensino por correspondência; a uma farta bibliografia de especialização 8 Da relação que consegui obter de todos os vigários de Itapira, o único natural do município renunciou recentemente ao sacerdócio, após haver trabalhado na paróquia de São Judas Tadeu. Foi um dos padres de maior influência sobre o mundo católico atual, nos bairros de baixo. 106 e de apoio; a inúmeras modalidades de material de difusão, por meio de emissoras de rádio, de jornais ou de revistas. Entre os pentecostais, os pastores das assembléias são os que recorrem com mais freqüência a programas de formação e de reciclagem e são os que usam com maior regularidade os recursos didáticos produzidos pelos centros nacionais de difusão e docência do saber e do código do grupo religioso. De todos os membros da Congregação, apenas o cooperador e alguns raros anciãos são anualmente reciclados na grande “igreja-mãe” em São Paulo. Os fiéis aprendem de suas preleções e todos são pouco incentivados à leitura direta até mesmo da bíblia e aos estudos letrados das coisas de Deus. Não há circulação de jornais e revistas e, assim, quase toda a troca do saber religioso decorre durante as sessões de culto e as reuniões de Escola Dominical, de uso comum entre todos os evangélicos (Read, 1965: 134). Os dirigente das testemunhas e dos adventistas não ocupam lugares e postos vitalícios e são escolhidos, como em outros grupos, por meio de eleições entre os fiéis comungantes. É entre eles que o programa de especialização religiosa dos quadros locais de agentes é o mais democratizado. Todos os membros têm, em princípio, as mesmas condições de acesso aos conhecimentos confessionais do grupo. De modo oposto ao que acontece entre os pentecostais – com a exceção relativa da Assembléia do Ipiranga – as reuniões de culto são, na verdade, sessões coletivas de estudo religioso. O dirigente funciona mais como um orientador de debates do que como um mestre de rituais. Tal como os pastores ou presbíteros das duas igrejas do protestantismo histórico, eles se preparam para cada culto como se fosse para uma aula ou uma preleção, onde a lógica da seqüência de argumentos bíblicos deve superar a de qualquer apelo afetivo. A diferença de formas de treinamento dos dirigentes e as situações de docência entre cada um deles e seu grupo de afiliados, está muito mais nos conteúdos do ensino do que no reconhecimento comum de que a virtude do cristão é adquirida através do estudo e da serena aquisição progressiva “das coisas de Deus”. A formação do dirigente das testemunhas de Jeová é obtida exclusivamente com os recursos didáticos e sob conteúdos ideológicos da seita. Eles estão distribuídos em livros e revistas de baixo preço e muito fácil acesso, mesmo para os fiéis e, inclusive, para sujeitos de outra qualquer religião. Este material didático é de origem norte- americana e a própria tradução para o português é feita fora do Brasil. De modo semelhante ao que acontece na Congregação, os limites do conhecimento do dirigente religioso são os da ideologia da religião. De modo oposto, os adventistas do 7º Dia, assim como os espíritas kardecistas, aceitam diferenciar os estudos de formação dos seus dirigentes locais e de corpos de auxiliares. Ambos os grupos buscam a iniciação religiosa em um tipo de programa sistemático de estudos que incluem: a Bíblia, material docente da religião e livros de divulgação científica. Partem de mesmos pressupostos, os da equivalência de verdades entre o saber da ciência e o da religião – que, não só se completam, ao seu ver, como também acabam por ser uma mesma coisa, sob discursos diferentes. Fora dois ou três médicos espíritas do Américo Bairral, não existe qualquer outro dirigente ou auxiliar, espírita ou adventista, com formação escolar superior e especialização religiosa sistemática. No entanto, acima de qualquer outro especialista religioso de Itapira, os médiuns dos dois centros e o dirigente dos adventistas são os que se esforçam mais regularmente par obterem e atualizarem uma formação profana e religiosa autodidata, no sentido clássico da palavra. A fronteira mais visível entre a religião erudita e a popular é a Assembléia de Deus. A fronteira mais evidente entre um religioso popular-letrado e o popular-folclórico são os pequenos 107 grupos pentecostais de cura divina. A meio caminho entre eles e os do pentecostalismo tradicional, o pastor visitante e o obreiro-residente da Cristo Pentecostal no Brasil são ainda relativamente letrados e fazem, por sua própria conta, estudos pessoais com o uso de material de sua Igreja e de outras, pentecostais. Os outros são sujeitos semi-alfabetizados em qualquer estudo civil regular e sem nenhuma formação religiosa sistemática, a não ser a que receberam, como qualquer outro “crente”, na Cruzada e em alguma das assembléias de Deus. Quanto aos seus estudos seculares e religiosos, existe entre estes presbíteros de seitas novas e os pastores das assembléias, a mesma distância que há entre estes últimos e o pastor presbiteriano. No territórios dos evangélicos eles são equivalentes pentecostais das mães-de-santo e dos rezadores populares da umbanda e do catolicismo9. Como os grupos pentecostais de âmbito regional são precários o bastante para conseguirem constituir um centro próprio de produção material de estudo e propaganda, os pequenos presbíteros, assim como o missionário do Senhor Jesus, concordam em uma inesperada prática ecumênica, usando folhetos e revista de outros grupos pentecostais e, em vezes mais raras, das testemunhas de Jeová e até mesmo dos católicos. Quanto mais popular o grupo e os seus agentes religiosos, tanto mais irregular a trajetória de especialização e prática dos dirigentes locais. Os sacerdotes e os fiéis católicos foram socializados na igreja, ou dentro do sistema religioso camponês. Entre os protestantes, os adventistas, os testemunhas e os crentes das igrejas do pentecostalismo tradicional, fora os sujeitos de segunda geração, todos os outros foram católicos e se converteram ainda jovens, quando adultos ou já velhos. O trânsito de uma religião a outra exigiu deles não só uma redefinição rigorosa da identidade confessional, como uma ressocialização atualizadora de novos códigos religiosos de crença, prática ritual e desempenho social (Alves, 1978). Entre os sacerdotes pentecostais da cura divina não são raros os casos de duas e até quatro mudanças de igrejas. Dois dos três agentes subalternos das menores igrejas de Itapira foram, sucessivamente, fiéis católicos mais ligados aos sistemas populares do que à ordem das paróquias, fiéis da Cruzada, crentes de uma das assembléias de Deus e, finalmente, agentes de culto de igrejas pentecostais populares. Assim também, os dois missionários dos movimentos de massa de cura divina – o da Cruzada e o da Igreja do Senhor Jesus – foram católicos durante a infância e a juventude, adquirindo parte do conhecimento missionário diretamente com os padres. Foram crentes de assembléias de Deus e saíram delas para se tornarem dirigentes- fundadores de suas próprias igrejas. Não é estranho que, como vimos, nos cultos extintos da Cruzada e nos cultos atuais do Senhor Jesus,ambos tenham inventado aparatos de vestimenta (batinas, cruzes) e de cerimônias que misturam gestos, palavras, símbolos e hinos do catolicismo, do pentecostalismo tradicional e dos modelos atuais da cura divina. 9 Os presbíteros do Som da Palavra e da Boas Novas aprenderam a ler, em um nível muito precário, depois de já velhos e convertidos. Na prática, eles quase mais decoraram do que leram as passagens da Bíblia citadas durante os cultos. No entanto, tal como os outros pentecostais, eles fazem sem muito custo a divisão entre as coisas da fé e as do mundo. Fiz cerca de 8 longas entrevistas com um deles. Em algumas delas ele colocava em minhas mãos a sua Bíblia semi-desfeita pelo uso. Enunciava com autoridade os números de capítulos e versículos. Aguardava a minha leitura em voz alta e determinava momentos de interrupção. Fazia então longas interpretações do texto, onde a segurança e a autonomia do discurso “iluminado pelo sopro do Espírito” faziam um contraste notável com a dependência e a insegurança do leitor semi-analfabeto. 108 Em Itapira e em pelo menos em três outras cidades de São Paulo, escutei de pastores e presbíteros do protestantismo histórico, as mesmas acusações dirigidas a funcionários equivalentes das igrejas pentecostais. Eles se proclamam a si próprios como pastores ou presbíteros, criam obras por sua conta e risco e dirigem congregações de fiéis sem um mínimo preparo para o exercício. Mesmo quando são constituídos em seus postos por uma agência religiosa sólida, como a Assembléia de Deus, nunca recebem formação secular e, sobretudo eclesiástica suficiente. Invariavelmente os líderes pentecostais de Itapira se defendem: a) reclamando uma equivalência relativa naquilo que é essencial, entre os pastores protestantes e os pentecostais; b) reconhecendo que a formação do pentecostal é menos elaborada, mas denunciando como formas de saber religioso não-necessário “para os serviços do Senhor” o que não há, entre os pentecostais, de erudição de tipo protestante; c) considerando como “lixo e esterco” todo o conhecimento religioso em que o estudo supera os efeitos da inspiração direta do Espírito Santo e todo o conhecimento secular erudito (inúmeras vezes pastores, presbíteros e crentes pentecostais insistiram em demonstrar para mim a inutilidade efetiva do meu conhecimento). Os pastores das assembléias de Deus usam, ao mesmo tempo, as três defesas. Os presbíteros das igrejas recentes e o cooperador da Congregação enfatizam a terceira, quando não a reconhecem como o único ponto de vista verdadeiro sobre o assunto. Dentro das áreas mediúnica e evangélica existe a mesma correspondência entre carreiras regulares e uma seqüência linear, para os agentes eruditos; ao lado de carreiras irregulares e seqüências alternantes de conversões e postos, para os agentes populares. A fundadora do Povo Nhambiquará fez estudos civis até nível superior, embora a especialização religiosa tenha acompanhado os passos de qualquer outro agente de umbanda: o desenvolvimento mediúnico ao lado de algum pai-de-santo, seguido de estudos pessoais irregulares. Hoje em dia, ela combina, sem problemas, os conhecimentos comuns ao candomblé – revestidos de um simbolismo próprio – com os de psicologia e parapsicologia. Embora seja a mais erudita entre todos os agentes mediúnicos, não é, como os kardecistas, uma pessoa preocupada em reciclar o seu saber religioso. Umbandistas hoje em dia produzem e fazem circular, inclusive em bancas de jornaleiros, uma razoável quantidade de material de propaganda e docência: jornais, revistas, discos e uma surpreendente variedade de livros. Mas em Itapira encontrei raríssimos exemplares de livros entre pais e mães-de-santo dos centros de umbanda e de candomblé. Não vi nenhum deles entre os agentes autônomos. Quase todos não tinham sequer conhecimento da circulação de revistas e jornais especializados. Assim como alguns especialistas do catolicismo popular, um ou dois deles tinham entre os seus guardados de fé, guias práticos de orientação ritual. Apenas a dona do Bazar Caboclo Pena Branca possuía e lia com regularidade livros, jornais e revistas, alguns dos quais à venda, mas sem procura, em sua loja. Do ponto de vista do nível erudito e da seqüência de formação religiosa, existe entre os dirigentes de centros dos bairros de cima e os chefes de terreiro de saravá e curandeiros dos de baixo, a mesma distância que separa os presbíteros-dirigentes das pequenas igrejas do Risca Faca, dos pastores das assembléias de Deus e dos gerentes atuais dos grupos bíblicos não-evangélicos. Os agentes mediúnicos de serviços mais populares são analfabetos e todo o seu aprendizado derivou de contatos diretos com outros especialistas, e de sua própria prática. Neste sentido, eles se aproximam também dos agentes mais caipiras do catolicismo popular. As situações se eqüivalem. Médiuns não- 109 kardecistas dos bairros de cima nomeiam não só os lugares onde se iniciaram na umbanda e no candomblé, como também os seus mestres: Joãozinho da Gomeia, Jamil Raschid, algum pai-de- santo conhecido em Mogi Mirim. Entre os curandeiros e mestres do saravá, fora os que lembram algum velho negro do passado, como “o finado Nabor”, todos indicam apenas o lugar onde aprenderam o ofício. Rezadores, capelães, chefes rituais e benzedeiras podem ser também divididos em dois grandes grupos, segundo o modo e o grau de acesso à especialização religiosa. Em menor número, alguns deles estão a meio caminho entre o que aprenderam com os padres ou com os manuais populares da Igreja e o que aprendem em suas próprias comunidades. Poucos foram coroinhas e, em casos mais raros, sacristães, quando jovens ou adultos. Foram pelo menos fiéis de roça ou da cidade, atentos ao ensino e aos gestos dos párocos e, principalmente, aos dos missionários: os que pregavam de tempos em tempos as “santas missões” no município, ou os que dirigem até hoje os centros de romaria do estado. Estes são os rezadores de terço ou de ladainhas chamados para “rezas” do ciclo junino, para as cerimônias iniciais das funções de São Gonçalo, para exercícios religiosos mais cotidianos e para as encomendas de mortos. Sabem reproduzir com alguma fidelidade as “rezas antigas” do catolicismo colonial e, portanto, anterior à romanização. Repetem, como fórmulas truncadas, longas ladainhas em latim e, não raro, lançam mão de manuais de devoção católica10. Estes especialistas combinam, dentro de um mesmo ritual popular, as fórmulas de culto da igreja do passado com as do sistema religioso popular, ele mesmo uma combinatória entre o saber eclesiástico e o camponês. Entre os “moradores” analfabetos e sem experiência de vida e de trabalho religioso fora dos bairros e dos sítios, assim como entre alguns agentes mais rústicos dos bairros de baixo, a profissionalização religiosa é alcançada à margem de aprendizados diretos junto a porta-vozes da Igreja e os seus manuais de devoção. Estes especialistas mais puros do sistema religioso popular aprenderam na comunidade, e reproduzem fórmulas de fé mais remotamente identificadas com as da Igreja. A identidade com os sistemas ideológicos dominantes, o nível de conteúdo, as condições de regularidade e o grau de especialização do aprendizado da formação do agente religioso, dependem de uma série de fatores: 1º) a classe ou a fração de classe com os quais o grupo confessional estabelece alianças preferenciais; 2º) o tipo de serviços relevantes determinados pelo grupo para a prática dos seus docentes; 3º) os usos sociais da produção e da difusão da ideologia do grupo; 4º) os modos como, consequentemente, o grupo faz aescolha e responde pela formação e pela carreira religiosa dos seus agentes. Os três primeiros itens da relação serão discutidos nos capítulos seguintes, e eu prossigo neste apenas com alguns aspectos do último. Padres e pastores são selecionados por um corpo de funcionários que dirige todas as etapas dos seus estudos de formação religiosa e responde pelo controle da carreira eclesiástica. Tanto entre os católicos quanto entre os protestantes, os primeiro passos de opção são uma iniciativa do candidato. Qualquer fiel entre os mais exemplares pode sentir-se chamado ao 10 Um deles reclamava, durante uma função de São Gonçalo, haver esquecido o seu Manual do Devoto, de onde saberia “tirar rezas mais bonitas” para serem gravadas pelo pesquisador. Um outro me fez encomendas de livros antigos, hoje muito raros, e manuais sobre cuja existência tenho algumas dúvidas: Horas Marianas, Livro do Devoto, Livro de Bólgotas. 110 serviço “das coisas de Deus” e se apresentar voluntariamente para o noviciado. O aparelho religioso dispõe de instrumentos destinados a incentivar entre os leigos motivações pessoais para o sacerdócio; a proceder continuamente seleções de candidatos e a promover a formação de novos agentes, no interior de centros especializados de iniciação religiosa progressiva. No caso católico, mais do que no protestante, a comunidade dos fiéis tem muito pouco a ver com qualquer etapa do processo e, muito embora o sacerdote deva ser um agente a serviço da congregação local, a decisão pessoal do ingresso na carreira eclesiástica, a formação do especialista erudito e a designação do agente estão fora do campo de controle da comunidade dos leigos. As igrejas protestantes observam com menor rigor um procedimento semelhante. Há melhores condições de presença comunitária na sugestão de candidatos e, sobretudo, na indicação de pastores para o comando de uma unidade local. Vale para a Igreja Presbiteriana o mesmo que para pelo menos três das quatro paróquias católicas de Itapira. A regra de trocas é a de um compromisso permanente do sacerdote para com o seu corpo de especialistas eclesiásticos, da qual ele é, ao mesmo tempo, um representante e um agente subalterno; ao lado de um compromisso transitório de prestações de serviços para com a comunidade paroquial. Padres e pastores de religiões eruditas, espera-se que sejam estáveis na Igreja e, ao mesmo tempo, emissários sempre em trânsito entre as suas agências locais. Nas igrejas do pentecostalismo, nos centros espíritas e nos grupos bíblicos há estratégias variantes, e as escolhas de sacerdotes e gerentes das congregações de fiéis são quase sempre mais determinadas através de acordos entre a comunidade local e as confrarias de especialistas, também locais em alguns casos, ou representantes do grupo religioso em escala regional ou nacional, em outros. A própria opção pela carreira eclesiástica é menos abandonada à iniciativa pessoa do candidato. Tanto a comunidade quanto os agentes já formados escolhem noviços entre os que se destacam: a) pelo desenvolvimento exemplar de qualidades éticas e religiosas, como o fervor e a santidade; b) pela evidência de atributos de poder do sagrado, como a mediunidade espírita ou o acesso pentecostal a algum dos dons do Espírito Santo; c) pela demonstração de qualificações seculares – explicitamente negadas, implicitamente relevantes – como o grau de escolaridade, a formação autodidata, o bem desempenho de liderança, oratória, manipulação de massas, etc. Em todas as igrejas pentecostais, da Assembléia da Missão à Pentecostal Independente, o serviço eclesiástico é considerado como um compromisso quase sempre definitivo entre o candidato, Deus e a comunidade. Ele se atualiza ao longe de uma carreira de postos: obreiro, diácono, presbítero, pastor, pastor-de-campo. Nos grupos de decisão mais comunitária – a Igreja Batista, os adventistas e, em menor escala, as testemunhas – o controle local do serviço religioso é delegado a médio prazo a pequenas equipes de leigos eleitas e substituídas periodicamente. Na direção do trabalho religioso popular aumentam as iniciativas pessoais de acesso ao sacerdócio, na mesma medida em que a comunidade, muitas vezes sem a interferência de corpos ou confrarias dominantes de agentes regionais, controla e define tanto o alcance quanto a qualidade do exercício dos seus especialistas. Nos sítios e nos bairros de baixo qualquer pessoa adulta, conhecida, ou envolvida de mistério legítimo, pode se apresentar como um rezador, uma benzedeira, um curandeiro, uma mãe-de-santo, um profeta inovador ou um agente pentecostal. Mas a garantia de uma carreira bem sucedida depende do modo como a 111 comunidade dos seus fiéis, o conjunto dos seus clientes, ou os grupos sociais interessados, como um todo, nos seus serviços, constitui, avalia e determina as condições de sua prática religiosa. c) Sacerdotes, Profetas, Feiticeiros São diversos os modos pelos quais os funcionários do religioso separam-se dos homens comuns e, ser justamente um separado para os serviços do mistério ou da divindade, é o primeiro atributo de todos. A religião constitui os homens que a inventam e cada um deles ocupa lugares e reproduz gestos reservados, por credos e igrejas como a deles, para tipos de especialistas como eles, mesmo que alguns se apresentem como profetas ou inovadores e se proclamem: como Amorim Correia, “o fundador de uma religião nova e brasileira”; como a Mãe Yacitata, a emissária da “missão de criar na Terra o candomblé verdadeiramente nacional”; ou como o missionário do Senhor Jesus, “o único homem verdadeiramente enviado por Deus a esta região”. De acordo com a relação entre a prática religiosa e a econômica, os agentes de culto em Itapira podem ser divididos em três categorias: 1ª) a dos que separam um tipo de prática da outra, conservando-se como trabalhadores seculares e não recebendo qualquer tipo de remuneração direta pelo exercício religioso; 2ª) a dos que associam as duas práticas, sendo substancialmente remunerados pelo exercício em uma e, de modo complementar, pelo exercício em outra delas; 3ª) a dos que fazem da prática religiosa, a econômica. Há uma correspondência evidente entre o tipo de formação religiosa, a organização eclesiástica do corpo de agentes e a disponibilidade para o exercício religioso. Os padres católicos e o pastor presbiteriano são os sacerdotes mais exclusivos. Eles não exercem qualquer outra atividade profissional e são sustentados pela congregação dos fiéis, com um padrão de vida equivalente ao de média burguesia. Também os pastores das assembléias de Deus são funcionários religiosos em regime de tempo integral. Mas o que é a regra para católicos e protestantes, deve ser uma conquista para cada um dos pastores pentecostais, porque ele tem que esperar pela soma de um grupo de seguidores suficientemente numeroso para a produção mensal de um salário15. Em suas igrejas apenas o dirigente religioso está de fato incluído na confraria de funcionários eclesiásticos e, assim, trabalha como um especialista exclusivo. Não são remunerados os auxiliares leigos – fora empregados – ou os situados em um campo neutro, a meio caminho entre o laicato e o corpo sacerdotal: dirigentes de associações, chefes de equipes paroquiais ou setoriais (jovens, mulheres, etc.), responsáveis por serviços derivados (obras de assistência ou trabalhos organizados de propaganda confessional), ministros auxiliares, diáconos, presbíteros e outros mais. 15 Há uma grande diferença aqui. O padre é um empresário da paróquiacuja direção assume em nome de um bispo a quem paga tributos regulares. Os pastores são funcionários assalariados da comunidade de fiéis. O padre divide entre os seus usos pessoais, os gastos da paróquia e os tributos da Igreja, o montante obtido pela prestação de serviços sacramentais e através de doações voluntárias de clientes e paroquianos (coleta e dízimo). Os pastores recebem das mãos de leigos da diretoria da igreja uma parte fixa do montante mensal arrecadado: sob a forma de salário, quando é um pastor residente e responsável pela congregação de fiéis; sob a forma de remuneração por serviços, quando é um pastor visitante. Veremos mais adiante que, entre os pentecostais, há sempre mútuas acusações sobre os usos indevidos e o enriquecimento ilícito de pastores e dirigentes regionais. As acusações chegam a um ponto máximo 112 No extremo oposto do pentecostalismo, o missionário da Igreja do Senhor Jesus atua como um empresário religioso de clientela, seguindo o modelo do fundador da Cruzada. Ele se apresenta como criador único de uma nova igreja e, até agora, determina a sua forma, o seu conteúdo de crenças e o código de relações entre o corpo de agentes recém-criado, o conjunto de fiéis e a massa de clientes. Até o momento ele não procedeu como os pastores do pentecostalismo tradicional, constituindo um corpo de dirigentes civis da igreja responsável pela sua forma jurídica de associação da sociedade civil. Por conseqüência, o missionário não é, como os outros, uma espécie de assalariado da congregação a quem presta serviços. Neste sentido, ele se aproxima dos padres vigários que cobram, sob tabelas, pelos próprios serviços oferecidos, como um produtor direto de bens simbólicos remunerados. Este modelo de empresário tradicional de serviços religiosos tende a desaparecer na duas paróquias católicas que se reorganizam segundo padrões pós-conciliares. Ali o vigário aos poucos se aproxima do modelo do pastor protestante. Grupos de leigos dividem a responsabilidade pela prestação de serviços da igreja e o padre passa a receber, como salário, uma fração do montante arrecadado pela comunidade paroquial. Parecendo querer desaparecer do horizonte da igreja onde surgiu, no Brasil, é justamente no pentecostalismo de massa que o agente-empresário reaparece. Os especialistas mediúnicos não-kardecistas e alguns agentes autônomos do catolicismo popular recebem pagamentos, em dinheiro ou em bens, dos clientes a quem oferecem serviços sob a forma de consultas diretas, ou de trabalhos próximos à magia. Alguns deles vivem do trabalho religioso: em nível equivalente ao da pequena burguesia, nos bairros de cima; em nível equivalente aos dos trabalhadores sub-empregados, nos de baixo. Entre estes especialistas de cura popular a remuneração profissional é aceita sem discussão por alguns e é negada por outros, pelo menos em teoria. Os que negam o direito de “o médium receber na caridade” (receber pagamento pelo serviço religioso), acusam os que cobram consultas ou trabalhos e constituem clientelas regulares de pagantes, de “macumbeiros”, “falsos médiuns” ou “gente de esquerda”. É também por aqui que se traça ideologicamente a linha que separa a religião – “a verdadeira umbanda”, “o médium que trabalha na missão” – do que se considera como prática ilegítima da feitiçaria. Por outro lado, entre as benzedeiras católicas há modalidades simbólicas de retribuição pelos serviços, já que o pagamento em dinheiro é quase sempre proscrito e, uma vez mais, associado ao curandeirismo e à feitiçaria. As duas benzedeiras em cuja casa estive algumas vezes, recusam retribuição em dinheiro dos seus inúmeros clientes, mas esperam que “os de recursos” tragam pequenas quantidades de mantimentos de copa e cozinha, como formas de agradecimento pelo bem praticado sem interesse, logo, aceitos sem protestos. Estas mesmas benzedeiras acusam algumas colegas de profissão de cobrarem preços fixos por suas rezas. Tal como acontece entre os mediúnicos, esses católicos são considerados como interesseiros, às vezes desonestos e, quase sempre, agentes entre o santo e a macumba. Porque a regra é que os sacerdotes do catolicismo popular não sejam remunerados pelos seus serviços. Um rezador de terço pode receber uma refeição, ou “algum agrado” de valor simbólico, mas dificilmente cobrará um preço pelas suas rezas de preceito. Assim também, na melhor hipótese, um chefe de terno de congos pode receber verbas da Prefeitura Municipal por quando se referem aos missionários de movimentos de cura divina, regularmente vistos pelos católicos, protestantes e pentecostais não-envolvidos, como mercenários “das coisas de Deus”. 113 ocasião da “Festa do 13”. O dinheiro deve ser então destinado a reequipar o grupo ritual de roupas e instrumentos para os festejos de São Benedito. Desde alguns anos começam a ser mais freqüentes os convites feitos por festeiros de outras cidades para apresentações da Congada Mineira em festas de santo. Os contratos são propostos com base em pagamentos que oscilavam, em 1977/78, entre Cr$ 1.000,00 e Cr$ 2.000,00. De modo algum o dinheiro pode ser retido pelo chefe do grupo. Ele é empregado uma vez mais na melhoria das condições de apresentação do terno, ou é distribuído entre todos os seus componentes16. O obreiro batista e os presbíteros e auxiliares das pequenas igrejas pentecostais são trabalhadores religiosos voluntários. Nos cultos em que são feitas coletas, todo o dinheiro obtido é dividido entre os gastos da congregação local e o envio à sede regional. Em casos mais raros, parte do dinheiro paga a vinda de emissários da igreja-matriz, ou de qualquer outra que envie agentes para serviços religiosos eventuais17. É necessário sublinhar aqui uma diferença importante. As três assembléias e a Congregação possuem em Itapira funcionários titulares: três pastores e um cooperador. Fora a Igreja do Senhor Jesus, todas as outras igrejas do pentecostalismo local são dirigidas por agentes subalternos: três presbíteros e um obreiro. Tal como acontece nas igrejas maiores, mesmo quando fundadores de grupos confessionais na cidade, estes agentes subalternos não estão incluídos de pleno direito no corpo regular dos dirigentes da Igreja. Todo os eu trabalho, inclusive o de direção da comunidade local de fiéis, é considerado como uma meritória prática voluntária. São também voluntários os médiuns espíritas, os dirigentes locais dos adventistas e das testemunhas, e o cooperador da Congregação. Como vimos, os gerentes dos grupos bíblicos são eleitos e renovados periodicamente. Os médiuns podem se revezar entre postos civis de direção do Centro, mas, uma vez incorporados “à mesa”, devem passar a ser agentes religiosos fixos. Entre todos, o cooperador da Congregação Cristã no Brasil é o único agente religioso de carreira, não remunerado. Reunidos os critérios de diferenciação com que trabalhei até este ponto – o tipo de formação religiosa especializante a relação entre a prática religiosa e a econômica – os pequenos profetas, os sacerdotes e os quase-feiticeiros de Itapira poderiam ser distribuídos da seguinte maneira: 16 Sobre a progressiva passagem do grupo ritual católica à condição de empresa de serviços religiosos populares, ver o excelente trabalho de Regina dos Santos Prado, Todo Ano Tem, as festas na estrutura social camponesa, 1977. 17 Em todas as igrejas pentecostais recentes há contribuições dos fiéis, em geral sob a forma de coletas