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(Resumo para estudo, sem fins lucrativos ou de publicação científica). Contato: nataliatrevizam@gmail.com/ @nataliatrevizam_ortodontia MORDIDA ABERTA ANTERIOR Definição A mordida aberta anterior é definida como a ausência de contato entre as bordas incisais dos dentes superiores e inferiores, consistindo em uma discrepância vertical. De modo geral, pode ser classificada em dentoalveolar ou esquelética, conforme as estruturas envolvidas na má oclusão. Etiologia A mordida aberta anterior se desenvolve a partir de diversos fatores etiológicos, como: respiração bucal (a obstrução nasal pode obrigar a língua a se manter numa posição projetada para permitir a respiração pelo espaço orofaríngeo ao invés de nasofaríngeo), hábitos bucais deletérios (sucção de polegar ou chupeta), anquilose dentária e anormalidades no processo de irrupção. Amígdalas hipertróficas também podem ser consideradas como um fator etiológico da mordida aberta anterior. Com o posicionamento mais anterior da língua, a mandíbula sofre uma rotação no sentido horário e isso faz com que os dentes posteriores irrompam mais no sentido vertical, o que agrava a mordida aberta. A interposição lingual, ou pressionamento lingual atípico, encontra-se presente em 100% dos casos com mordida aberta anterior. Essa interposição pode ser classificada como primária, quando consiste na causa principal do desenvolvimento da má oclusão, ou secundária, quando a língua apenas adapta-se a uma alteração morfológica já existente, causada pela sucção de dedos ou de chupeta. A interposição da língua durante a deglutição produz uma inclinação para vestibular dos incisivos superiores e inferiores, aumentando o comprimento do arco dentário, com conseqüentes espaçamentos entre os incisivos. A mordida aberta causada por estas condições caracteriza-se por um formato mais retangular ou difuso, incluindo não só os incisivos, como também os caninos. Portanto, para que o tratamento ortodôntico tenha um resultado satisfatório e estável, uma abordagem multidisciplinar é necessária, pois não basta apenas a correção do problema morfológico. Dentre os possíveis tratamentos auxiliares pode-se citar a Psicologia, a Otorrinolaringologia e a Fonoaudiologia. Importante lembrar que o padrão de crescimento facial do indivíduo e a influência causada por hábitos deletérios podem ter papel relevante em relação à etiologia dessa má oclusão. Classificação De modo geral, a mordida aberta anterior pode ser classificada, quanto a sua etiologia, em dentária ou esquelética (figura 1). Quanto ao grau de severidade, pode ser classificada em suave (quando há uma distância de até 2mm da borda incisal), moderada (entre 2 e 4mm) e severa (maior que 4mm). 1) Mordida aberta anterior dentária Envolve dentes e processos alveolares, sem um comprometimento esquelético. Está relacionada aos hábitos; os pacientes costumam apresentar um bom padrão de crecimento facial. 2) Mordida aberta anterior esquelética A morfologia da mordida aberta esquelética não se restringe somente à região anterior. O trespasse vertical negativo se estende desde os dentes anteriores até pré-molares e molares. Pode ser caracterizada cefalometricamente por um grande ângulo do plano mandibular, trespasse vertical anterior negativo, angulação mesial dos dentes posteriores, divergência dos planos oclusais, arco superior atrésico, ramo mandibular curto, aumento da AFAI, rotação do plano palatino no sentido anti-horário, rotação da mandíbula no sentido horário e maior altura alveolar na região posterior da maxila. Diagnóstico/Planejamento Para o planejamento da mecanoterapia a ser instituída durante o tratamento: • Determinar os fatores etiológicos atuantes; • Definir o grau de envolvimento dos componentes dentários e esqueléticos; • Avaliar a quantidade da discrepância anteroposterior; • Avaliar a quantidade de apinhamento, a vestibularização dos incisivos e a convexidade do perfil do paciente; • Analisar o possível grau de colaboração do paciente e entender o contexo familiar em que ele está inserido, especialmente crianças: fator psicológico diretamente relacionado a hábitos deletérios; • Prever se os resultados que poderão ser alcançados com a terapêutica não cirúrgica conseguirão suprir a expectativa do paciente em relação ao tratamento. Tratamento Primeiramente, deve-se fazer um exame detalhado do paciente para elucidar as possíveis causas relacionadas ao problema, isto é, o que de fato deve ser tratado: um problema emocional, um distúrbio respiratório, uma alteração funcional ou a combinação de todos esses fatores? O tratamento da mordida aberta anterior nas dentaduras decídua e mista se baseia na interrupção dos hábitos deletérios, permitindo o desenvolvimento vertical dos dentes anteriores sem interferências. Quando a mordida aberta está associada ao padrão de crescimento vertical do paciente, o controle da dimensão vertical com aparelhos ortopédicos é recomendado (AEB tração alta, por exemplo). Na dentadura decídua, antes dos cinco anos de idade, utiliza-se apenas a estratégia de compensação, que consiste em trocar o hábito por um brinquedo que a criança deseja. Após os cinco anos, na dentadura decídua e na dentadura mista, utilizam-se a grade palatina ou os esporões linguais. Obs: Antes dos 4 anos de idade, os hábitos de sucção exercem influência emocional na criança e superam os prejuízos funcionais que acarretam. A partir dos 5 anos, se não ocorrer a autocorreção, a má oclusão deve ser interceptada. A) Grades palatinas ou linguais As grades palatinas ou linguais têm o objetivo de corrigir a mordida aberta anterior, impedindo que a língua se posicione entre os dentes. Podem ser fixas ou removíveis, dependendo da colaboração do paciente e, normalmente, utilizadas em dentição decídua/mista. É recomendável que sejam usadas até a obtenção de 2 a 3 mm de trespasse vertical positivo e devem ser longas o suficiente para impedir a interposição lingual (ATENÇÃO: por ser uma estrutura lisa pode permitir que a língua fique apoiada nela, prejudicando o resultado). Na presença de uma arcada superior atrésica, podemos usar a grade bipartida associada a um expansor, fixo ou removível (figura 2). Obs: Ao encaminhar para a Fono, verificar a necessidade de remover a grade para que o profissional possa trabalhar. Figura 2: Haas com grade palatina B) Esporão As pontas ativas ou esporões forçam uma mudança na posição de repouso da língua, permitindo a erupção dos dentes e a correção da mordida aberta anterior. Podem ser usados também no tratamento de sucção digital crônica e em casos cirúrgicos, modificando a postura e função lingual, minimizando as recidivas. Em comparação com a grade palatina, parecem proporcionar maior estabilidade pós tratamento, porque causam uma percepção sensional pelo cérebro, mudando de forma permanente a posição da língua. C) Bite Block Aparelho ortodôntico funcional (figura 3) usado para diminuir a mordida aberta anterior associada à altura ântero-inferior da face excessiva. A correção ocorre pela interrupção da erupção dentária na região posterior e extrusão dos incisivos superiores e inferiores, ocasionando rotação para cima e para frente da mandíbula ou uma direção de crescimento mandibular mais horizontal. Sua espessura geralmente excede o espaço livre de 3 a 4 mm; pode-se associar grade ou molas digitais no aparelho para a correção de hábito de interposição lingual, hábitos de sucção e para o reposicionamento de um ou mais dentes individuais. No caso de ser removível, o paciente deve usar por, pelo menos, 12 horas por dia. Figura 3: Bite BlockD) Posicionamento diferenciado dos acessórios ortodônticos Alguns detalhes no posicionamento dos acessórios nos dentes anteriores podem ajudar na correção da mordida aberta, realizando-se a colagem dos acessórios mais para a cervical nesses dentes. Automaticamente, ao ser iniciada a fase de alinhamento e nivelamento, os dentes anteriores sofrerão maior extrusão que os posteriores, permitindo assim o fechamento mais eficiente do trespasse vertical negativo nessa região. Além disso, o deslocamento do posicionamento dos acessórios mais para a cervical tende a aumentar o torque lingual dos dentes anteriores quando inseridos arcos retangulares. Obs: A inclusão dos segundos molares superiores deve ser cuidadosamente avaliada, pois estes já apresentam irrompimento com angulação distal de coroa e a colagem do acessório nesse dente poderá provocar sua extrusão, gerando um contato prematuro, o que levaria ao aumento da mordida aberta na região anterior. E) Elásticos anteriores É fundamental ressaltar que se a mordida aberta é esquelética, os incisivos já se encontram extruídos devido a uma compensação dentária que ocorre. Dessa forma, na maioria das vezes, os vetores predominantemente verticais gerados por este tipo de elástico contra-indicariam o seu uso. Na literatura, há recomendação para uso de elástico 3/8M, com 150-200g de força de cada lado (figura 4). Quanto a rebsorção radicular apical externa, o uso de elásticos intermaxilares apresenta resultados controversos. Acredita-se que, se usados por mais de 6 meses, seria um fator de risco para desenvolvimento de reabsorção. Para tanto, uma pausa de 2 a 3 meses durante o tratamento ortodôntico pode favorecer o processo de cicatrização do cemento desses dentes. Obs: Se o paciente apresenta um sorriso gengival, o uso de elásticos anteriores exije atenção redobrada, pois a extrusão dos incisivos pode piorar a estética. Figura 4: Elásticos anteriores (Dra Glice Reis) F) Intrusão de dentes posteriores A literatura apresenta alguns trabalhos nos quais o tratamento da mordida aberta anterior foi realizado por meio da intrusão dos dentes posteriores com miniimplantes (figura 5) e miniplacas. Esse procedimento deve ser indicado por meio da avaliação da exposição dos incisivos superiores no sorriso. Existem grandes vantagens da mecânica de intrusão de dentes posteriores em relação à extrusão dos incisivos, principalmente quando os últimos apresentam raízes curtas ou com reabsorção ou quando a sua extrusão excessiva promoverá estética desfavorável na região anterior. Com a intrusão dos dentes posteriores por meio da ancoragem absoluta há uma tendência de ocorrer a rotação da mandíbula no sentido anti-horário, com redução da altura facial anteroinferior e consequente projeção do mento. Essa intrusão também pode ser feita com o uso de levantes em resina nos primeiros e segundos molares superiores, que funcionarão como bite block (dica do professor Helio Venancio). Figura 5: Intrusão com miniimplantes E) Extrações Algumas características devem ser consideradas para a indicação das extrações dentárias no tratamento da mordida aberta anterior: discrepância no sentido anteroposterior (Classes I, II e III), severidade da discrepância negativa de modelo (apinhamento), quantidade de protrusão dos incisivos e grau de convexidade do perfil do paciente. Deve-se ter cautela no plano de tratamento de pacientes que apresentam pouca quantidade de apinhamento, incisivos verticalizados em relação ao plano oclusal e perfil facial reto. Extrações dentárias nesses pacientes podem causar a retração dos lábios durante a mecânica de fechamento dos espaços das extrações e consequente achatamento do perfil. F) Ortognática Em casos que há maior envolvimento de componentes esqueléticos, somente as compensações dentárias podem ser insuficientes para a correção da mordida aberta. Nestes casos, geralmente é necessário associar a cirurgia ortognática ao tratamento ortodôntico, impactando a maxila e permitindo a rotação mandibular, o que diminui consideravelmente a altura facial anterior. Contenção Alguns exemplos de aparelhos que podem servir de contenções ativas para aumentar a estabilidade dos resultados do tratamento compensatório da mordida aberta anterior no paciente adulto são: placa de Hawley associada ao Bite-Block posterior, placa de Hawley com um furo na altura da papila do forame incisivo (ação recordatória) ou ainda a manutenção dos esporões colados nos incisivos, além da instituição da terapia miofuncional para equilibrar as forças musculares da boca (figura 6). Figura 6: Contenções ativas. Referências: Artigos: R Clin Ortodon Dental Press, Maringá, v. 3, n. 3 - mar/abr. 1998. American Journal of Orthodontics and Dentofacial Orthopedics September 2003. R Clin Ortodon Dental Press, Maringá, v. 5, n. 1 - fev./mar. 2006. Rev. Clín. Ortodon. Dental Press, Maringá, v. 8, n. 3 - jun./jul. 2009. Orthod. Sci. Pract. 2014; 7(27):252-270. Rev. Bras. Odontol., Rio de Janeiro, v. 74, n. 2, p. 138-42, abr./jun. 2017. RFAIPE, v. 7, n. 2, p. 58-65, jul./dez. 2017. Alterações verticais: análise e tratamento: Alexander Macedo apresenta casos e argumentos expostos por Fabrício Valarelli e Guilherme Janson para os tratamentos das alterações verticais, 2018. Acesso: www.ortociencia.com.br/Materia/Index/144107. Livros: Ortodontia preventiva e interceptora: mito ou realidade? (Renato Rodrigues de Almeida). Livro Ortodontia Interceptiva: Protocolo de Tratamento em Duas Fases (Daniela Gamba Garib, Omar Gabriel da Silva Filho e Tulio Silva Lara). Ortodontia Preventiva, diagnóstico e tratamento (Jorge Abrão, Alexandre Moro, Ricardo Fidos Horliana, Roberto Hideo Shimizu).