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BEM-ESTAR O debate acerca do bem-estar tem levado pesquisadores a divergirem quanto as perspectivas em que se organizam os estudos sobre o tema dentro dos domínios da Psicologia. A proposta apresentada por Waterman (1993) de distinguir a concepção hedônica da eudamônica de felicidade trouxe novos horizontes para futuros pesquisadores vislumbrarem alternativas de sistematização do conhecimento na área. Mais tarde, Kahneman (1999) defendeu a ideia de ser a Psicologia Hedônica um novo campo, definido como estudos sobre o que torna a vida feliz ou infeliz. Ryan e Deci (2001) propuseram uma organização para o campo de estudos psicológicos sobre bem-estar, apontando duas perspectivas sob as quais, tradicionalmente, o tema tem sido estudado: uma abordagem foi denominada hedônica, pois focaliza a felicidade e define bem-estar como busca do prazer e afastamento do sofrimento, e outra nomeada pelos dois autores eudamônica, a qual ressalta o potencial humano e concebe bem-estar como a extensão em que uma pessoa consegue funcionar de forma completa. Na visão desses autores, a perspectiva hedônica de felicidade aproxima-se do modelo teórico de bem-estar subjetivo (BES), proposto por Diener (1984), enquanto a perspectiva eudamônica reflete o modelo teórico de bem-estar psicológico (BEP), elaborado por Ryff (1989), e, posteriormente, revisado por Ryff e Keyes (1995). Em 2000, Keyes, Hyson e Lupo divulgaram a noção de bem-estar social (BESo) e, em 2008, Siqueira e Padovam revelaram sua concepção de um modelo teórico para bem-estar no trabalho (BET), configurando-se no total quatro concepções teóricas sobre o tema bem-estar. Os quatro modelos elencados podem ser úteis em programas organizacionais que tem como meta a promoção de saúde positiva de trabalhadores tanto no contexto organizacional quanto na vida pessoal. Os três primeiros tratam de modalidades de bem-estar fora do ambiente organizacional, condizente com a vida pessoal do trabalhador. O quarto ou último modelo permite compreender e avaliar o nível de bem-estar do trabalhador no contexto de trabalho em organizações. Bem-estar subjetivo Os julgamentos acerca de eventos ocorridos na vida pessoal – reconhecidos por pesquisadores como “satisfação geral com a vida” – constituem o componente cognitivo que, ao lado da indicação de experiências positivas e negativas – expressados como afetos positivos e negativos vivenciados no passado – integram o modelo de três dimensões de BES proposto por Diener em 1984 (Fig. 21.10). Para além desses três componentes integrantes do modelo de BES na Figura 21.10, existe o conceito de balanço emocional originalmente sugerido por Brad- burn (1968) como a diferença entre afetos positivos e negativos. Segundo esse autor, pode-se calcular se um indivíduo possui saúde psíquica quando ele mesmo relata ter vivenciado mais afetos positivos do que negativos. Daí, podemos apreender que, por um lado, o balanço emocional positivo representa uma vida em que ocorreram mais experiências emocionais positivas do que negativas; por outro, um balanço emocional negativo revela uma vida permeada por mais experiências negativas do que positivas. Análises do BES são importantes, pois estudos com trabalhadores brasileiros tem revelado que o componente emocional de BES (afetos positivo, afetos negativos e balanço emocional) apresenta correlações significativas de maior valor com vínculos afetivos com o trabalho e com a organização do que o componente cognitivo do conceito denominado satisfação geral com a vida (Chiuzi, 2006; Freitas; Siqueira, 2010). Portanto, há indícios de que o bem-estar no âmbito da vida pessoal guarda relações estreitas com o bem-estar vivenciado no ambiente de trabalho. Assim sendo, a investigação e o diagnóstico de BES parece uma perspectiva importante na prática psicológica dentro de organizações, posto que os afetos presentes na vida pessoal associam-se aos vínculos com o trabalho e à organização para configurar um estado psicológico amplo de saúde positiva do trabalhador. Já́ é possível realizar a avaliação de BES de trabalhadores no Brasil por meio de instrumentos válidos e precisos, elaborados por pesquisadores brasileiros, como a Escala de Afetos Positivos e Negativos (EAPN) (Siqueira; Martins; Moura, 1999) e a Escala de Bem-estar Subjetivo (EBES) (Albuquerque; Tróccoli, 2004). Bem-estar social Segundo Keyes, Hysom e Lupo (2000), o bem-estar psicológico consiste em cinco dimensões que, juntas, indicam o grau de bom funcionamento da vida social do indivíduo com seu círculo de vizinhos, família, colegas de trabalho e outros cidadãos. Esses autores entendem que os indivíduos socialmente saudáveis concebem o mundo em torno deles como previsível e significativo, com potencial a ser desenvolvido. Eles acreditam que pertencem a um grupo maior do qual deriva o conforto, aceitam os outros e sentem que suas contribuições ao grupo são valorizadas. As cinco dimensões são definidas pelos autores conforme apresentado na Figura 21.12. Seis dimensões do modelo de BEP segundo concepção de Ryff (1989) Cinco dimensões integrantes do modelo de bem-estar social (BESo) segundo Keyes, Hysom e Lupo, 2000. Integração social: Consiste na avaliação que uma pessoa faz da qualidade de seus relacionamentos com a sociedade e com a comunidade; integração é a extensão em que as pessoas sentem que elas têm alguma coisa em comum, de forma coerente, consistente e conectada a outras que constituem sua realidade social. Contribuição social: É a avaliação do próprio valor social. Inclui crenças de que é um membro vital para a sociedade, com algo de valor para oferecer ao mundo. Representa os conceitos de autoeficácia, responsabilidade e de responsabilidade social. Reflete se, e em que medida, as pessoas sentem que alguma coisa que fazem no mundo é valorizada pela sociedade e contribuem para o bem comum. Aceitação social: Equivale à concepção da sociedade como uma categoria generalizada, a qual resulta da análise de caráter e qualidades de outras pessoas. Indivíduos que detêm aceitação social reconhecem a confiança e a bondade como características das outras pessoas; têm visões favoráveis da natureza humana e sentem-se confortáveis com ela; sentem-se bem sobre sua própria personalidade e aceitam tanto os aspectos bons quanto os ruins de sua vida. Atualização social: É a avaliação do potencial e da trajetória da sociedade. É a crença na evolução da sociedade e o senso de que a sociedade tem potencialidades que estão sendo realizadas por meio de instituições e cidadãos. Pessoas socialmente saudáveis são esperançosas sobre as condições e o futuro da sociedade, e reconhecem os potenciais desta. Acreditam também que elas e pessoas como elas são potencialmente promotoras de crescimento social. Um estudo que realizamos (Siqueira; Martins, 2011) permitiu a construção e validação do Inventario de Bem-estar Social (IBES) para o contexto brasileiro consoante o modelo de Keyes, Hysom e Lupo (2000) expresso na Figura 21.12. A versão final do IBES, resultante desse estudo, contém 28 itens com precisão de 0,87 distribuída em quatro fatores concisos e exatos que permitem avaliar a importância que a pessoa atribui a si mesma na sociedade (contribuição social, oito itens de 0,83); a sua concepção acerca das pessoas (aceitação social, sete itens, de 0,87); a manutenção de crenças positivas acerca da trajetória da sociedade rumo ao futuro (atualização social, seis itens, de 0,76) e a avaliação positiva de suas relações com as pessoas na sociedade (integração social, sete itens, de 0,78). Uma versão reduzida com 12 itens do IBES e de 0,74 mantém correlação significativa de 0,95 com a versão completa de 28 itens. Um indivíduo trabalhador, ao responder ao IBES, pode revelar seu bem-estar social e permitir ao psicólogo avaliar se ele apresenta um nível ótimo desse indicador de saúde positiva cultivado em seu ambiente social fora da organização (Fig. 21.13).