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93 UNIDADE 3 MÉTODOS INTERVENTIVOS DO SERVIÇO SOCIAL OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir desta unidade, você será capaz de: • oferecer elementos teóricos referentes aos métodos interventivos do assis- tente social; • identificar os diversos métodos de intervenção profissional do assistente social, tais como: a perícia e o estudo social; o parecer social e o laudo so- cial; e por fim o estudo socioeconômico; • compreender o significado e a importância da perícia e do estudo social, na atuação profissional do assistente social; • verificar como o parecer social e o laudo social são desenvolvidos na inter- venção profissional dos assistentes sociais; • compreender que o estudo socioeconômico é um instrumento de pesquisa, também utilizado pelo assistente social na sua prática interventiva. A Unidade 3 está dividida em três tópicos. Ao final de cada um deles, você terá a oportunidade de fixar seus conhecimentos realizando as atividades propostas. TÓPICO 1 – A PERÍCIA E O ESTUDO SOCIAL TÓPICO 2 – O PARECER SOCIAL E O LAUDO SOCIAL TÓPICO 3 – ESTUDO SOCIOECONÔMICO 94 95 TÓPICO 1 A PERÍCIA E O ESTUDO SOCIAL UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Neste tópico serão abordados diferentes tipos de instrumentos utilizados pelo assistente social no decorrer de sua prática interventiva, sendo assim, no primeiro momento abordaremos os instrumentos Perícia Social e Estudo Social. Iniciaremos com a perícia social, conceituando-a e abordaremos os seus desdobramentos, quais sejam: estudo, parecer e laudo social, discorrendo sobre cada um para que você, acadêmico(a), possa ter clareza destes conceitos e de sua prática. 2 A PERÍCIA SOCIAL Perícia é uma análise detalhada de um determinado objeto, fato ou realidade. Existem, pois, diversas modalidades ou tipos de perícia. Pode-se, então, falar de perícia contábil (que analisa questões referentes a receitas e despesas de determinadas pessoas físicas ou jurídicas), a perícia médica (que analisa questões relacionadas à saúde física das pessoas), a perícia geológica, mecânica etc. Dentre os vários tipos de perícia, elenca-se também a perícia social. Acerca da perícia, escrevem Karine e Douglas Freitas: A perícia latu sensu é todo procedimento de averiguação de uma dada situação conflituosa, que necessita de um especialista para atuar na solução do problema respectivo de sua área. No sentido estrito, ou seja, a perícia social como ramo da perícia, é aquela responsável para dirimir as situações flagrantes ocorridas no seio familiar, envolvendo crianças e adolescentes. (FREITAS; FREITAS, 2003, p. 56). A etimologia da palavra perícia vem do latim peritia, que significa “conhecimento adquirido pela experiência”. A perícia social constitui-se, como dito antes, de um “processo pelo qual um especialista [...] realiza o exame de situações sociais que envolvam interesses de crianças e adolescentes, com a finalidade de emitir um parecer, buscando solução do caso periciado” (FREITAS; FREITAS, 2003, p. 55). O conceito de perícia social foi usado pelos autores para “crianças e adolescentes”, mas se aplica a todos os outros casos que demandem uma perícia social. Esta conceituação de perícia proposta por Freitas e Freitas apresenta os elementos fundamentais de tal instituto, quais sejam: • uma situação social; • tal situação é caracterizada por uma problemática; • a necessidade de resolver o problema; UNIDADE 3 | MÉTODOS INTERVENTIVOS DO SERVIÇO SOCIAL 96 • a aplicação dos conhecimentos técnicos do Serviço Social para esclarecer e propor a solução à situação. Fica claro que a finalidade da perícia social é conhecer melhor e propor soluções a determinadas situações sociais consideradas problemáticas. A problemática das situações pode ser de várias ordens, como familiar – muito comum – econômica etc. De acordo com Galvão, Costa e Marques (2009, p. 3) “a Perícia Social é entendida como um processo por meio do qual um especialista, no caso, o assistente social, realiza exame de situações sociais com a finalidade de emitir um parecer sobre as mesmas.” Considerando que a perícia social é tão amplamente utilizada nos ambientes judiciais que os especialistas do assunto dizem existir dois tipos de perícia social: a perícia social judicial e a perícia social extrajudicial. A diferença básica existente entre ambas reside na instituição para a qual e pela qual a perícia é realizada. A primeira é sempre feita pelo Poder Judiciário, o qual, em seus quadros de pessoal, geralmente tem a presença de um profissional do Serviço Social, chamado de assistente social forense. É o assistente social forense que realiza as perícias sociais judiciais. Outras instituições, entretanto, também podem ter em seus quadros o profissional do Serviço Social. É o caso, por exemplo, do Ministério Público, que cada vez mais contrata assistentes sociais para auxiliá-lo em seus deveres funcionais. Poderia citar aqui outros exemplos de perícia social extrajudicial, como aquelas realizadas por organizações não governamentais, hospitais etc. Nesta perspectiva, segundo Galvão, Costa e Marques (2009, p. 3): [...] no âmbito do MP [...] a perícia social tem a finalidade de conhecer, analisar e emitir pareceres sobre situações vistas como conflituosas ou problemáticas, visando assessorar os Promotores de Justiça em suas decisões, ou seja, instruir procedimentos em trâmite nas Promotorias de Justiça e nos Centros de Apoio Operacional. Como se depreende do conceito de perícia, esta tem um objetivo. No caso da perícia social o objetivo é esclarecer uma situação social. Evidentemente esta necessidade de esclarecer uma situação social não é à toa, está ligada a um motivo. O motivo pelo qual é necessário esclarecer uma situação social pode ter várias razões e, geralmente, está ligado a um problema judicial, comumente de família ou criminal. IMPORTANT E A PERÍCIA SOCIAL pode ser compreendida como área de trabalho especializada e atuação profissional do assistente social, em aspectos de preservação individual e social, na garantia e conquista dos direitos individuais, políticos e sociais e a busca constante da Justiça. TÓPICO 1 | A PERÍCIA E O ESTUDO SOCIAL 97 O instrumento de ação Perícia Social é especificidade do Serviço Social, sendo que este poderá ser executado em um espaço sócio-ocupacional. No entanto, este instrumento acarretará uma ação ligada à Justiça que fará a intervenção em situações de violação de direitos. Então, se o profissional de Serviço Social atua junto ao setor educacional em uma escola e identifica uma situação de violência de um aluno, por exemplo, utilizará o instrumento Perícia Social para avaliar a situação e realizará o registro através do Estudo Social. Depois encaminha o fato para o Conselho Tutelar ou Promotoria da Infância e Juventude, órgãos que atuam amplamente na proteção da criança e do adolescente, cujos instrumentos contribuirão para a intervenção do poder judiciário nesta situação de violação de direitos. Leia agora um texto bastante informativo sobre o assunto. PERÍCIA SOCIAL: O ELO DE LIGAÇÃO ENTRE O PROFISSIONAL DE SERVIÇO SOCIAL E OS OPERADORES DO DIREITO NO JUIZADO DA INFÂNCIA E JUVENTUDE. SILVA, Dadieza de Jesus da SILVA, Jaqueline Resende da PROSENEWICZ, Ivânia HEINECK, Dulce Teresinha O Poder Judiciário possui papel de destaque na sociedade como objeto mantenedor da harmonia nas relações sociais existentes. O Serviço Social no âmbito do judiciário encontra-se totalmente subordinado ao administrador do fórum na comarca [...]. Há mais de 16 anos que o Serviço Social atua no judiciário. Já no âmbito da Justiça da Infânciao Serviço Social encontra-se desde 1940. Um dos principais instrumentos de trabalho utilizados pelos profissionais de Serviço Social é a perícia, atividade esta concernente a exame realizado por profissional especialista, legalmente habilitado, destinada a verificar ou esclarecer determinado fato. Sendo assim objetivou-se pesquisar os limites e De acordo com Galvão, Costa e Marques (2009, p. 4): Por meio do exercício da mediação, a Perícia em Serviço Social do MP/GO busca, a partir das demandas oriundas dos Centros de Apoio Operacionais, analisar os fatos sociais, caracterizados pela sua singularidade, relacionando-os com as leis tendenciais universais, que permitem compreendê-los, controlá-los e extrapolá-los para visões mais amplas e complexas do real. E é nessa relação entre o singular e o universal que se encontra a particularidade, que é, justamente, o campo das mediações da intervenção profissional.(PONTES, 2000). Assim, fecha-se a tríade singularidade/universalidade/particularidade, que vai orientar a intervenção profissional, possibilitando que a mediação perpasse os eixos da perícia social e da articulação política aqui mencionados. (grifo no original). UNIDADE 3 | MÉTODOS INTERVENTIVOS DO SERVIÇO SOCIAL 98 possibilidades do profissional do Serviço Social na condição de Perito da Vara de Infância e Juventude no âmbito do Poder Judiciário. Optou-se pelo estudo de caso como método de procedimento e a coleta de dados pela fonte documental e bibliográfica; utilizou-se também a técnica da entrevista e observação, como método de análise, a dialética, que nos permite uma interpretação dinâmica e totalizante da realidade. Cresce cada dia mais o número de crianças e adolescentes autores de atos infracionários, representantes do lar sem autonomia para com seus filhos, passam assim a existir crianças e adolescentes cada vez mais indisciplinados, irresponsáveis, delinquentes. A falta de pulso firme por parte dos pais não pode ser caracterizada como o fator principal que leva esses adolescentes a realizar atos ilegais. Estes cometem atos infracionais como uma forma de reagir contra os maus tratos familiares, miséria, pobreza, ausência dos genitores, condições de higiene e sobrevivência subumanas. A insignificância com que o Estado trata famílias carentes e a desorganização social também são fatores contribuintes para a crescente criminalidade infantojuvenil. Estes fatores fazem com que as famílias ou as autoridades tenham que tomar precauções ou decisões quanto à vida de adolescentes autores de atos infracionais, automaticamente elevando a demanda dos profissionais da área jurídica, especificamente os assistentes sociais. A perícia social remete ao profissional de Serviço Social o direito de analisar alguma situação em questão com base nos seus conhecimentos teóricos, éticos, técnicos, através da mesma podem emitir um laudo ou parecer social. A partir desse estudo percebe-se que a instituição pode vir a trabalhar de outra maneira, ou seja, que tudo o que lhes [sic] rodeia merece uma investigação profunda, ter visão do todo e fazer mediação entre a teoria e a realidade vivida por eles e se chegue a soluções adequadas dos problemas. FONTE: SILVA, Dadieza de Jesus da et al. Perícia social: o elo de ligação entre o profissional de serviço social e os operadores do direito no juizado da infância e juventude. Disponível em: <www.revista.ulbrajp.edu.br/seer/inicia/ojs/.../getdoc.php?id.>. Acesso em: 15 out. 2009. 1 Quais os requisitos básicos que deve conter uma perícia social? 2 Dirija-se até uma instituição que é servida por profissional do serviço social e peça para fazer a leitura de, pelo menos, duas perícias sociais, relatando brevemente os aspectos destacados. AUTOATIVIDADE TÓPICO 1 | A PERÍCIA E O ESTUDO SOCIAL 99 3 O ESTUDO SOCIAL O instrumento estudo social é um procedimento metodológico de atribuição do profissional de Serviço Social que busca conhecer detalhadamente, e de forma crítica, demandas específicas ou expressões da questão social, levando em consideração na análise aspectos culturais, econômicos e sociais. Este instrumento refere-se ao estudo in loco que consiste em coletar dados, de acordo com cada situação, onde o profissional deverá elaborar um instrumental modelo específico. O estudo social é o momento em que o profissional do Serviço Social se coloca a pesquisar o problema a ser enfrentado. Esta pesquisa – estudo – pode ser feita de várias formas, dependendo, é claro, do tipo de problema. Comumente o estudo social é feito através de visitas domiciliares (forma mais comum), entrevistas, reuniões etc. É no estudo social que o profissional vai buscar compreender a situação social que deve ser analisada. Para a aplicação do instrumento estudo social, busca-se identificar, analisar e compreender as particularidades deste instrumental, pois este é competência e atribuição do assistente social, estabelecido na Lei de Regulamentação da Profissão e do Código de Ética Profissional. É de suma importância a avaliação dos procedimentos metodológicos utilizados pelo assistente social periodicamente, pois a elaboração deste instrumento pode influenciar a decisão final de um processo judicial, determinado pelo juiz ou pelo promotor. Este instrumento na sua aplicação passa por algumas etapas, conforme veremos a seguir: • elaboração de instrumental específico para a coleta dos dados, realizado pela assistente social; • análise dos dados e fundamentação teórica, que dará subsídios para as informações coletadas; • elaborar relatório ou opinião profissional sobre a situação trabalhada no momento. Nesta perspectiva, o assistente social busca atingir alguns objetivos como: • identificar as condições de vulnerabilidade social e econômica do indivíduo, conhecendo sua realidade e sua história de vida, apontando onde deve haver intervenção do poder judiciário; • conhecer e ressaltar se existe alguma situação de risco; UNIDADE 3 | MÉTODOS INTERVENTIVOS DO SERVIÇO SOCIAL 100 • aprofundar de forma crítica e fundamentada teoricamente e metodologicamente, uma determinada situação, fazendo com que a realidade investigada seja melhor analisada. Para o profissional de Serviço Social, que pode ou não estar inserido no campo de atuação do judiciário, tem que haver precisão nas suas informações e ações, pois os indivíduos estão sujeitos aos protagonismos da sociedade. Ressaltamos ainda que o instrumento estudo social teve mais legitimidade a partir da aprovação do Estatuto da Criança e do Adolescente, com a destituição do Código de Menores, permitindo que este instrumento fosse suporte para a aplicação de medidas judiciais e facilitador na análise dos processos. ANÁLISE/DESCRIÇÃO DA ELABORAÇÃO DO ESTUDO SOCIAL Elisabeth Francisca da Costa e outros O estudo social refere-se ao estudo in loco que consiste em coletar dados, a partir de um instrumental específico e definido pelo assistente social, para cada caso particular, e interpretar estes dados a partir de um referencial teórico, elaborando assim um posicionamento profissional sobre a situação. Dentro de uma visão de globalidade, visto ser a interpretação da situação, ele é construído através da realização de estudo dos documentos contidos nos autos do processo, entrevistas, visita domiciliar e, quando necessário, coleta de informes na comunidade na qual reside a parte autora ou réu. Segundo Regina Célia Tamaso Miotto: “O estudo social é o instrumento utilizado para conhecer e analisar a situação, vivida por determinados sujeitos ou grupo de sujeitossociais, sobre a qual fomos chamados a opinar”. (MIOTO, 2001). A visita domiciliar, como instrumental de busca de materialidade das relações sociais, assim como a coleta de informes na comunidade consiste na coleta de dados observados no próprio local de vida da família e propicia uma observação dinâmica do indivíduo na relação com seu meio social: padrões culturais (usos e costumes) e atendimento da necessidade básica de abrigo e segurança. Deverá seguir procedimentos científicos próprios, para facilitar a sua confecção e, após, a emissão de um parecer justo e centrado. Não existe “receita” ou “modelo” metodológico sobre o estudo social, nem precisa apontar quais são todos os dados que esse estudo precisa revelar sobre as pessoas envolvidas nas ações, mas, sim, pensar que é necessária uma atitude profissional que implique a busca de se conhecer de forma mais ampla e ter maior interação com o real que se apresenta no cotidiano da prática. Esse movimento poderá dar indicações sobre a forma e o conteúdo dos estudos e de seu registro. LEITURA COMPLEMENTAR TÓPICO 1 | A PERÍCIA E O ESTUDO SOCIAL 101 Contemporaneamente, o estudo social apresenta-se como suporte fundamental para a aplicação do Estatuto da Criança e do Adolescente. Não deve ser elaborado com base em questões preestabelecidas, por exemplo, em roteiro ou formulário, mas, sim, em diretrizes que permitam levar em conta as semelhanças e diferenças de cada situação. É composto por um conjunto de informações sobre os sujeitos e os acontecimentos nos quais estão envolvidos, acontecimentos que culminam na situação pesquisada, com ações que se processam no âmbito da Justiça. O assistente social, nessa área de intervenção, trabalha com técnicas de história de vida. Uma história que contemple a origem dos sujeitos, sua trajetória e suas condições no presente, destacando-se seu processo de socialização, o âmbito de suas relações familiares (vínculos com o núcleo original ou a família extensa, existência de laços a serem resgatados, relacionamento com a criança/ adolescente envolvida na ação), relações de vizinhança, inserção em grupos sociais, formação educacional e profissional, inserção nas relações de trabalho (formal e informal), nível de renda, meio ambiente, situação de moradia, situação de saúde, vínculo com seguridade social, dependência e inserção (ou não) na rede de atendimento social, o que desencadeou a situação vivida (objeto da ação judicial), como vê ou qual o significado que atribui a esta questão, como a vivência, suas pretensões, interesses e condições para lidar com ela, quais seus sonhos, desejos, ou projetos de vida. Enfim, uma história que explore a complexidade da vida dos sujeitos, tendo claro que muitas vezes é com base nessas informações que a decisão judicial é tomada. Pizzol (2003) ressalta que “o estudo social é totalmente adequado para demonstrar toda situação que demande acompanhamento e cujas informações sejam importantes em qualquer tipo de processo”. Também se considera que: “Este tipo de trabalho, realizado em processos judiciais, funciona como documento a ser apreciado pelas partes, pelo promotor de justiça e, principalmente, pela autoridade judiciária”. (PIZZOL, 2003). É importante lembrar que o estudo/intervenção profissional do assistente social não se apresenta como suficiente para o conhecimento global dos sujeitos. É preciso não ignorar a ausência do Estado na proposta e na implementação de políticas e programas sociais o que, geralmente, dificulta, sobrecarrega e limita o cotidiano de trabalho nessas áreas. FONTE: COSTA, Elisabeth Francisca da et al. Análise/descrição da elaboração do estudo social. Disponível em: <http://www.tjpe.gov.br/SERVSOCJEC/TEXTOS/ARQUIVOS/AN% C1LISE- DESCRI%C7%C3O%20ESTUDO%20SOCIAL-%20MONO%20ELIZABETH.DOC>. Acesso em: 16 out. 2009. UNIDADE 3 | MÉTODOS INTERVENTIVOS DO SERVIÇO SOCIAL 102 DICAS O aperfeiçoamento do Estudo Social que fundamenta Perícias, Pareceres e Laudos Técnicos tem sido preocupação frequente dos(as) assistentes sociais que trabalham no Poder Judiciário, na Previdência Social e no Sistema Penitenciário. Sensível a essa demanda, o CFESS, em parceria com a Cortez Editora, traz ao público a contribuição de experientes profissionais dessas áreas de atuação. 103 Neste tópico, você estudou que: • Perícia social, segundo Freitas, é “[...] processo pelo qual um especialista realiza o exame de situações sociais que envolvam interesses de crianças e adolescentes, com a finalidade de emitir um parecer, buscando solução do caso periciado”. (FREITAS, 2003, p. 47). • A perícia social está dividida em três partes: estudo social, parecer social e laudo social (este será visto a seguir, no tópico 2). • O instrumento perícia social e estudo social é especificidade do Serviço Social, que pode ser utilizado não somente na área jurídica. • O estudo social busca conhecer detalhadamente e de forma crítica demandas específicas ou expressões da questão social, levando em consideração na análise aspectos culturais, econômicos e sociais. • O estudo social teve ampliação com a aprovação do Estatuto da Criança e do Adolescente. RESUMO DO TÓPICO 1 104 AUTOATIVIDADE 1 Escreva um texto sobre os instrumentos perícia social e estudo social, estudados neste tópico, fazendo uma comparação entre os dois e apontando suas diferenças. 105 TÓPICO 2 O PARECER SOCIAL E O LAUDO SOCIAL UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO 2 PARECER SOCIAL A prática do assistente social precisa ser constantemente repensada, exigindo uma postura crítica do profissional e argumentações frente aos desafios e limites da profissão. Para isso, temos que ter clareza dos instrumentos da ação profissional. Neste tópico pretendemos pontuar os instrumentos Parecer Social e Laudo Social, conceituando-os e apontando a importância no fazer cotidiano do profissional. O parecer social é uma segunda etapa na qual o assistente social propõe a solução do problema enfrentado. Observe que o parecer social, nesse sentido, é comprometido com um resultado, qual seja, resolver um problema. É por isso que no parecer social deve o profissional demonstrar, de acordo com o caso concreto e fundado em base teórica, qual a melhor solução possível do caso. O parecer social é um instrumento que possibilita ao assistente social organizar as informações como um relatório. Porém é uma avaliação teórica e técnica realizada pelo profissional, em que este também emite opinião e sugere encaminhamentos sobre as informações existentes. O parecer social diferencia-se do relatório por apresentar profunda análise dos fatos, não somente a sua descrição. Então, este instrumento é a conclusão de uma determinada ação realizada pelo profissional. Com este instrumental, o assistente social terá condições de apontar percepções sobre possíveis causas ou consequências da situação. Também constam, no parecer social, sugestões de ampliação ou melhoria das ações a serem desenvolvidas junto à situação. Estas ações poderão ser desenvolvidas pelo profissional de Serviço Social ou por outros profissionais técnicos ou membros de equipes multiprofissionais. De acordo com o MPAS (1995, p. 17), o parecer social é entendido como a “[...] opinião profissional do assistente social, com base na observação e estudo de uma dada situação, fornecendo elementos para a concessão de um benefício, 106 UNIDADE 3 | MÉTODOS INTERVENTIVOS DO SERVIÇO SOCIAL recurso material e decisão médico-pericial”. Ou seja, o assistente social possui por competência realizar e conceder um parecersocial. Depois de escolhido um instrumento, observada e estudada uma determinada situação, elaborará um diagnóstico, ou um parecer social sobre aquela determinada realidade. Para tanto, segundo o MPAS (1995, p. 18) o parecer social: [...] poderá valer-se de entrevistas e/ou visitas domiciliares. A visita domiciliar deve ser utilizada para o aprofundamento ou complementação de dados, com vistas à instrumentalização do parecer social, não podendo se constituir num instrumento de comprovação de informações prestadas pelo usuário. Ainda segundo o MPAS (1995, p. 18), os elementos básicos constitutivos do Parecer Social são: [...] a) dependência econômica - entendida pela existência de um vínculo parcial/ total com outrem se revela numa relação de dependência, geralmente pelo baixo padrão salarial da população brasileira, obrigando as famílias ou agrupamento de pessoas a proverem suas necessidades mínimas básicas de forma coletiva; b) satisfação das necessidades básicas X pobreza - as necessidades básicas são aquelas indispensáveis à manutenção digna de vida, ou seja, materiais, psicológicas e culturais, determinadas historicamente em cada sociedade, de acordo com o grau de satisfação de cada grupo social. A pobreza, então, se define pela ausência ou precariedade no cumprimento dessas necessidades. A aferição destes elementos implica a análise da renda sob múltiplos aspectos: a) regularidade de inserção do indivíduo no mercado de trabalho ou a substituição por um benefício temporário ou permanente; b) posição do indivíduo no grupo familiar, a partir da interdependência do vínculo econômico-social; c) capacidade que possa ter o usuário no suprimento das necessidades básicas de bens e serviços. Isto significa que ela deve se relacionar com as condições e localização de custos de moradia, condições de saúde dos indivíduos, da disponibilidade de certos bens e serviços, alimentação, educação, lazer, transporte e outros. c) implicações sociais da doença - as causas e agravamento de muitos quadros nosológicos guardam estreita relação com as condições de vida e trabalho. A identificação das mesmas pode ser importante para subsidiar a decisão médico-pericial nas seguintes situações: a) usuários portadores de patologia cuja origem e evolução tenham agravantes/determinantes sociais; b) usuários em fase de exames médico-periciais de revisão analítica bem como em outras situações necessárias; c) usuários com intercorrência social significativa identificada pelo assistente social. TÓPICO 2 | O PARECER SOCIAL E O LAUDO SOCIAL 107 E estes elementos básicos do parecer social, por sua vez, demonstram que neste documento deve haver um cuidado especial com a análise do caráter econômico da população envolvida, além de permear as necessidades básicas, a pobreza do público usuário e suas implicações sociais e de saúde. O MPAS (1995, p. 18) expõe ainda que: [...] o parecer social deve ser conclusivo quanto à opinião do profissional sobre a situação analisada: dependência, situação econômico-social e implicação social da doença. A definição da concessão do benefício ou da incapacidade laborativa é de competência exclusiva dos setores responsáveis pelas respectivas linhas. Complementando, o MPAS (1995, p. 18) coloca-nos que “[...] o relato do estudo social deve constar sigilosamente em prontuários do Serviço Social, devendo o parecer social emitido aos setores evidenciar apenas a conclusão, fazendo referência aos elementos analíticos indispensáveis e aos instrumentos utilizados.” DICAS Maiores informações acessem o site da MPAS: <www.mpas.gov.br>. 3 LAUDO SOCIAL O laudo é o documento pelo qual se veicula a perícia social. Na elaboração deste documento o profissional deve ter cuidado de demonstrar alguns elementos fundamentais relativos à situação social objeto da perícia, bem como transcrever no laudo o parecer sobre a situação, ou seja, mencionar a melhor situação possível. Este é o produto final da perícia social. Este faz parte da metodologia de atuação do profissional de Serviço Social. Na sua elaboração deve ser apresentada uma breve contextualização do estudo realizado pelo profissional. Sendo assim, neste instrumento o profissional deve cuidar para preservar o sigilo e a identidade dos sujeitos envolvidos, evitando a vitimização ou a culpabilização da demanda apresentada pelo indivíduo por suas práticas, ações ou situação de vida. O laudo social requer do profissional um conhecimento teórico-prático da realidade social para determinar conflitos sociais vivenciados pelos indivíduos que necessitam da intervenção do assistente social. Na utilização dos instrumentos ligados à pericia social, como é o caso do laudo social, o profissional de Serviço Social tem três principais competências: teórico-metodológica, ético-politica e técnico-operativa. 108 UNIDADE 3 | MÉTODOS INTERVENTIVOS DO SERVIÇO SOCIAL O laudo social possui alguns requisitos básicos que devem ser destacados: • o nome ou cargo da autoridade a que é dirigida; • identificação do procedimento ou processo no qual foi solicitado o parecer; • preliminares; • relatório minucioso da situação social; • questões técnicas; • parecer técnico sobre o caso; • respostas aos quesitos; • conclusões; • formalidades de encerramento. Observe o modelo de laudo: Autoridade a qual é dirigida a perícia social (juízes de direito, membros do ministério público etc.). (deixar 4 linhas em branco) Dados do procedimento ou processo (todos os procedimentos em órgãos públicos ou particulares têm algum tipo de identificação, geralmente dispõem de número e tipo de procedimento). (deixar 4 linhas em branco) Preliminares (pequeno texto introdutório no qual o profissional faz os cumprimentos de costume e demonstra do que se trata o documento). Relatório: (descrição do procedimento utilizado pelo profissional para fazer o estudo social). Parecer: (sugestão do profissional em relação à melhor solução possível ao problema). Resposta aos quesitos (quando existirem quesitos, o profissional deve responder um a um, detalhadamente). QUADRO 2 – MODELO DE LAUDO SOCIAL TÓPICO 2 | O PARECER SOCIAL E O LAUDO SOCIAL 109 Conclusão: (reforça o parecer, formaliza o final do laudo, dizendo que são verdades as afirmações feitas, pede o arbitramento dos honorários, quando for o caso, dizendo também o número de páginas que tem o texto. Cidade e data. Nome do profissional e inscrição no Conselho FONTE: As autoras Então, o instrumento laudo social é um documento resultante do processo de perícia social, sendo que esse só poderá ser elaborado a partir da perícia social. Além disto, registra todos os aspectos e ações de mais relevância do estudo social e do parecer social. Este documento é muito importante para a tomada de decisão do setor judicial, pois é conhecido como um dos elementos de prova pelo meio judiciário. LEITURA COMPLEMENTAR REFLEXÕES SOBRE A ELABORAÇÃO DOS LAUDOS SOCIAIS Selma Marques Magalhães Este texto fundamenta-se em um dos capítulos da dissertação de mestrado “Laudos Sociais na Comunicação Forense: Caminhos e Descaminhos”, apresentada em out/2000, na PUC/SP, sob a orientação da Prof. Dra. Myrian Veras Baptista. Aproveito para agradecer aos assistentes sociais dos fóruns da capital e do interior que colaboraram com a realização da pesquisa. As relações sociais no espaço institucional são, notadamente, reflexo da sociedade - por si só contraditória. Num TJ, essas relações permeiam-se com as contradições das linguagens utilizadas no processo de comunicação forense, onde a escrita assume relevantepapel. No caso do assistente social (AS), esse tipo de comunicação é efetivado sob a forma de laudos, frutos de um estudo social. Tais contradições ganham visibilidade nas interações comunicativas entre técnicos, usuários e profissionais do direito. Nos atendimentos, a interação entre o principal locutor (usuário) e interlocutor (AS) é direta, face a face; a linguagem é oral, coloquial. A participação de ambos é ativa, o que facilita dirimir falhas de comunicação. Contudo, ao interpretar profissionalmente a fala do usuário e escrever sua avaliação nos autos, o técnico passa a ser o principal locutor da mensagem e esta será, literalmente, lida por seus interlocutores (promotores, advogados, juízes etc.). A nova linguagem, indireta e formal, passa a assumir conotação de metalinguagem, interpretada e reinterpretada por diferentes profissionais. 110 UNIDADE 3 | MÉTODOS INTERVENTIVOS DO SERVIÇO SOCIAL A partir do momento em que se anexa o laudo ao processo, a comunicação fica distante e torna-se difícil esclarecer dúvidas. Seu texto poderá sofrer diferentes interpretações e, como seus leitores, num TJ, têm objetivos profissionais específicos, o técnico poderá ter seu laudo elogiado, criticado. Poderá, também, surpreender- se, caso seu interlocutor mais imediato - o juiz - não acatar seu parecer. Ao atender, o AS realiza o contato face a face e faz intervenção imediata no caso. E o próprio laudo social, nessa instituição, também é intervenção. Quantas vezes não é ele a única forma de comunicação entre o assistente social e o juiz? Sendo assim, a mensagem emitida nos laudos deve ser clara, precisa, coerente e identificadora da área de competência do serviço social. Pressupõe a não utilização de linguagem coloquial, pois trata-se de texto elaborado por profissional graduado numa área do conhecimento. Seu saber está implicitamente reconhecido, a partir do momento em que consta, nos autos, a determinação de realizar um estudo social. Mesmo que nomes não sejam declinados, está claro que ele deverá ser realizado pelo assistente social - e não por profissionais de outras áreas. O Laudo Social é o texto final de análises e avaliações feitas durante o estudo. Por essa razão, não pode ser um apanhado de informações, ou uma longa história, com detalhes que fogem aos objetivos da avaliação. Como o AS lida com a linguagem manifesta e com histórias de vida, nada mais natural que registrá-las no laudo. Cautela, todavia, para não fazer da descrição pura e simples a essência do trabalho, pois este não deve se ater apenas à coleta de dados, mas à intervenção e à avaliação cuidadosa do caso - comumente problemático. O laudo precisa situar e analisar as relações sociais num determinado contexto sociocultural e econômico, para que as particularidades do segmento de classe envolvido possam ser melhor compreendidas. As relações sociais são, portanto, o ponto inicial para a análise e avaliação social e devem estar explícitas nos autos, para dar visibilidade ao trabalho profissional e fundamentar o parecer. Ao se redigir o texto, os aspectos éticos não podem ser esquecidos. No entanto, dados relevantes da análise, que deem indícios do que seria melhor para a criança ou adolescente podem ser sinalizados, desde que fiquem claros os aspectos técnicos da questão. A leitura do laudo não pode dar margem a interpretações equívocas, no sentido de julgamentos ou preconceitos pessoais. A ação competente do assistente social num fórum cristaliza-se na elaboração dos laudos sociais, através dos quais vai construindo e afirmando sua identidade profissional na instituição. Assim, mesmo que o AS busque o referencial hegemônico da profissão, ou norteie sua atuação em outros paradigmas teórico- metodológicos, é importante o enfoque na especificidade de sua área de formação. Sendo ciência aplicada, o serviço social apropria-se de outras áreas do conhecimento e atua em vários campos de trabalho, o que contribui para a imagem difusa da ação profissional. Sua trajetória, caracterizada pela atuação em situações-limite, pelo trabalho em instituições e pela dicotomia teoria- TÓPICO 2 | O PARECER SOCIAL E O LAUDO SOCIAL 111 prática, configurou, reflexo das próprias contradições da sociedade, uma práxis contraditória - e o AS ganhou uma imagem profissional muito mais relacionada à ação, do que ao saber... No TJ/SP não foi diferente. A urgência típica da instituição, o trabalho solitário, a falta de troca e a especificidade dos problemas levaram o AS a construir um conhecimento do trabalho forense na própria ação - sem divulgá-lo ou sistematizá-lo. Há mais de cinquenta anos no Judiciário paulista, por vezes o AS ainda vê sua imagem confundida com a de “tarefeiro”. A hora, porém é de mudanças: pensar coletivamente, socializar conhecimentos, reunir para discutir casos, estudar. Principalmente, modificar posturas. A profissão do social admite a dinâmica da ação, sim, mas não se resume nisso. O assistente social possui um conhecimento acumulado na própria experiência e, também, nas produções da área do serviço social. Por que, então, deixar que a imagem equivocada se perpetue? Identidades profissionais são construídas e reconstruídas. Num TJ, essa construção passa pelos laudos, os quais, queiramos ou não, também constituem ação. Importantes instrumentos de comunicação no universo forense devem identificar a área de competência do profissional que os elaborou. A partir de minha experiência enquanto psicóloga judiciária em Vara de Infância e Juventude, trabalhando nos casos de adoção internacional, em São Paulo, foi possível observar tratar-se de uma atuação que abrange várias questões, o que provocou em mim o desejo de fazer uma reflexão sobre o tema. Primeiramente, cabe esclarecer que os pretendentes à adoção internacional, antes de vir ao Brasil, passam por uma seleção prévia através dos autos que encaminham à CEJAI - Comissão Estadual Judiciária de Adoção Internacional. Os casais pré-aprovados em seu país de origem para adoção internacional enviam relatórios da avaliação psico-social, que incluem dados sobre a criança pretendida. No Brasil, estes autos passam pela equipe técnica de Vara de Infância, que verifica se os relatórios estão claros e com dados suficientes, se são recentes e, em caso de dúvida, é solicitada complementação de dados. Só após ter havido este processo e ter existido um cruzamento entre o cadastro de crianças disponíveis para adoção e o de pretendentes para adoção, é que o casal estrangeiro é notificado de que poderá vir ao Brasil buscar uma criança, ficando o psicólogo, a partir daí incumbido de fazer a aproximação da criança aos pretendentes, bem como trabalhar a adaptação entre as partes. Só esta tarefa, em si, não é nada fácil. Cabe lembrar que o ECA - Estatuto da Criança e Adolescente, em seu artigo 46, inciso 2 reza que: “Em caso de adoção por estrangeiro residente ou domiciliado fora do país, o estágio de convivência, cumprido no território nacional, será de no mínimo quinze dias para crianças de até dois anos de idade, e de no mínimo 30 dias quando se tratar de adotando acima de dois anos de idade.” Isto nos cria um problema. Há um estágio de convivência muito curto para avaliar uma adaptação, que se malsucedida poderá trazer sequelas graves para aquela adoção. 112 UNIDADE 3 | MÉTODOS INTERVENTIVOS DO SERVIÇO SOCIAL De outra parte, não nos podemos furtar a pensar na dificuldade que representa para um estrangeiro deixar seu país de origem, em geral bastante longínquo do Brasil, para vir adotar aqui. Acaba sendo necessário tirar férias do trabalho para vir em busca do filho adotivo, e, portanto, é quase impossívelpara os requerentes dispor de um período maior de permanência no Brasil. Com frequência o casal acaba de descer no aeroporto cansado do voo e já vai para a Instituição onde se encontra acolhida a criança pretendida, vindo em seguida ao Fórum para dar andamento ao processo. O psicólogo que atende este casal depara-se, sem sombra de dúvida, com um casal esgotado fisicamente, havendo poucas condições para uma boa entrevista. Ademais, há que se levar em conta que os casais sentem-se, ao chegar no Brasil, extremamente sem referências, as quais ficaram, obviamente, em seu país de origem. Em função disto os requerentes que deveriam poder fornecer à criança um asseguramento, sentem-se perdidos, e a criança também perdeu sua referência que era a Instituição. Fica aí marcada a necessidade de uma dupla orientação, feita pelo psicólogo judiciário à criança e à sua nova família. Ressalte- se que a criança está na iminência de perder o seu país, o que certamente é fator gerador de muita ansiedade. Outro aspecto que não pode ser desprezado, é que os pretendentes chegam de seus países com vários sonhos e fantasias com relação à adoção, os quais foram a base de sua reivindicação de adotar. Chegam aqui plenos de idealizações que por vezes escamoteiam temores. Como será a criança? Ela os aceitará? De fato, as primeiras experiências serão marcantes na relação crianças-pretendentes que se inicia. Daí a importância do trabalho do psicólogo judiciário, a quem compete avisar a entidade onde está a criança da chegada da família, preparar a criança para a adoção e acompanhar o estágio de convivência desde o início, como maneira de efetuar a prevenção de problemas futuros. No exíguo período do estágio de convivência, em média de vinte dias, frente à quantidade de questões a tratar com os pretendentes, fica-se sem saber a resposta a muitas perguntas. Há que ressaltar que após a primeira entrevista, costuma-se marcar a segunda para após uma semana, desde que não se sintam graves dificuldades iniciais, para deixar a família mais à vontade para ir se adaptando, para possibilitar o máximo de espontaneidade no relacionamento. No entanto, é um contrassenso deixar o relacionamento caminhar da forma mais natural, havendo um prazo de tempo curtíssimo para isto. Em geral, durante o estágio de convivência há em média quatro entrevistas, sendo que a primeira e a última dão-se em conjunto com o serviço social. Previamente à primeira entrevista, o que se tem dos pretendentes são apenas os dados constantes nos autos. Obviamente é muito diferente ler sobre alguém, a ter contato com esta mesma pessoa. Destarte a primeira entrevista, é também o primeiro momento de sentir os requerentes, em verdade é aí que se trava um conhecimento, que em termos dos autos já está avançado a ponto de os pretendentes já terem sido aprovados e estarem no Brasil com uma criança. Sem sombra de dúvida este TÓPICO 2 | O PARECER SOCIAL E O LAUDO SOCIAL 113 descompasso é um entrave a mais na ação do psicólogo, que, repito mais uma vez, dispõe de um tempo brevíssimo para trabalhar as mais variadas questões atinentes à adoção. O estágio de convivência é a oportunidade que o psicólogo judiciário tem de fazer o casamento entre a criança e seus pretendentes. Na verdade, há que se fazer uma aproximação e adaptação entre verdadeiros estranhos. Este trabalho pode ser facilitado sobremaneira quando a agência internacional de adoção executa um bom trabalho na preparação dos pretendentes em seu país de origem, e acompanha adequadamente a família no Brasil e os encaminha de pronto às Varas. O psicólogo ao trabalhar a adaptação tem de levar os requerentes a compreender o que era a vida que a criança levava numa Instituição, que em geral a criança desconhecia a vida extramuros, que o infante costuma não possuir a mínima noção do que seja uma família, da diferença que existe entre viver no meio de muitas crianças como ela e num lar. Compete ao psicólogo apontar que haverá primeiramente um período de lua de mel com os requerentes, onde a criança tudo fará para agradar, mas que assim que começar a se sentir um pouco mais segura passará a desafiar as regras, testando os futuros pais adotivos para se certificar de se realmente estes a suportam, se a aceitam, se gostam dela mesmo fazendo coisas erradas. Outro tópico importante é passar para os futuros adotantes todos os dados que constam nos autos sobre o histórico da criança, trabalhando a importância de a criança poder conhecê-los de modo a se apropriar de sua história, sentindo-se mais cidadã de si; além de fornecer elementos para que detectem eventuais comportamentos ou sintomas das crianças. Também se trabalham as questões da motivação, da revelação e da esterilidade, todas de suma relevância e que sempre estarão permeando a relação adotantes-adotado. Um elemento complicador, no entanto, reside no fato de estas problemáticas estarem sendo trabalhadas num momento em que está havendo uma lua de mel adotantes-adotado. Como é sabido, nesse período de um casamento, o que impera é a idealização, sendo difícil haver espaço psíquico para problemáticas que desfazem a tão agradável vivência de um apaixonamento. A impressão que tenho, muitas vezes, é de que o casal escuta as orientações apenas racionalmente, não havendo brecha para emoção, que está dirigida para o pseudo enlace matrimonial. Os casais tendem a ouvir alegremente tudo que lhes é dito, acreditando, naquele momento, serem de fácil resolução os problemas que poderão surgir e duvidando destas possibilidades menos róseas, ocultando uma onipotência própria da posição esquizo-paranoide, quando impera a idealização. Neste sentido o tempo legal, do direito, e o tempo psicológico estão na contramão, um do outro, o que embute uma séria questão quanto à validade do trabalho feito em ambas as áreas. Paralelamente há mais uma interferência, a da língua. Normalmente, os pretendentes estrangeiros não falam português, se fazendo necessária a presença de um tradutor. Isto certamente dificulta o estabelecimento do rapport. O tradutor 114 UNIDADE 3 | MÉTODOS INTERVENTIVOS DO SERVIÇO SOCIAL fica colocado no lugar de um terceiro, entre o psicólogo e os requerentes. Além disto, não existe a figura de um tradutor juramentado, sendo o profissional incumbido da tarefa, com frequência, o representante da agência de adoção encarregada do caso, o que pode colocar em dúvida a neutralidade de seu trabalho. Para piorar, a Psicanálise se baseia na escuta da palavra, que quando traduzida não é mais a mesma, até porque correntemente uma expressão existe numa língua e não em outra e isto interfere na nossa avaliação, criando ruídos de comunicação que podem chegar a invalidar uma leitura do caso. Neste sentido, talvez tenhamos que nos preocupar em criar outros instrumentos de avaliação, mais condizentes com a realidade que se nos apresenta. Como proposta vejo a necessidade de uma maior interação entre as agências internacionais de adoção e o judiciário. É imperioso conhecer como cada agência trabalha, para ter uma noção mais clara do “ponto de cozimento” dos requerentes quando chegam ao Brasil. Isto possibilita ao psicólogo responsável pelo caso uma visão do que realmente necessita ser trabalhado, podendo planejar a sua ação, o que é muito diferente de ter apenas os dados de relatório sobre o casal. Seria necessário gerar um espaço de encontros entre as diversas agências e o Judiciário destinado à troca de experiências, havendo não só um enriquecimento, mas uma padronização da maneira de se trabalhar. Afora isto vejo como necessidade que, após o retorno ao país de origem, haja um acompanhamento periódicopara auxiliar a nova família, no momento em que aflora o tema da adoção em sua dinâmica. Pelo que consta várias agências fazem este tipo de trabalho, porém de forma muito heterogênea e, como não recebemos relatórios sobre este trabalho, ficamos sem saber com que tipo de suporte podemos efetivamente contar. É claro que, para isto acontecer, há que existir uma regulamentação deste processo em lei, ou seja há que se fazer uma sensibilização dos profissionais do Direito para compreender a extensão e a importância disto, buscando uma certa uniformidade de procedimento nos casos. Outra dúvida que existe com relação à preparação de requerentes em seus países de origem é de se as agências internacionais sensibilizam adequadamente seus clientes para a adoção ou se os treinam de modo a responder assertivamente as perguntas feitas pelo psicólogo judiciário. As agências trabalham as angústias dos requerentes, ou apenas maquiam as defesas destes, possibilitando que o cliente se apresente da forma como o profissional de psicologia espera deste. Para responder a estas questões teríamos que dispor de estatística de cada agência para saber a porcentagem de devolução de crianças por agência de adoção, o que certamente seria um bom indicador da eficácia do trabalho executado, estatística esta da qual não dispomos. Voltando ao CEJAI, há também um sério problema quanto à heterogeneidade dos dados constantes nos autos, conforme o país de origem. Mais uma vez seria necessária a interseção Direito-Psicologia, de modo a possibilitar uma maior uniformidade dos autos. TÓPICO 2 | O PARECER SOCIAL E O LAUDO SOCIAL 115 Todos os apontamentos feitos até agora, nesta breve reflexão, corroboram a importância e amplitude da temática da adoção internacional, cujo trabalho ainda apenas engatinha, havendo um longo caminho a percorrer no aprimoramento deste tipo de trabalho, que envolve diferentes tipos de profissionais e de culturas. Referências Bibliográficas: Estatuto da Criança e do Adolescente - Lei nº 8069 de 13/7/90 FONTE: MAGALHÃES, Selma Marques. Reflexões sobre a elaboração dos laudos sociais. 21 maio 2009 . Disponível em: <http://www.aasptjsp.org.br/index.php?option=com_content&view=a rticle&id=839:reflexoes-sobre-a-elaboracao-dos-laudos-sociais&catid=66:artigos&Itemid=1>. Acesso em: 15 out. 2009. 116 Neste tópico, você estudou que: • O parecer social é comprometido com um resultado da investigação de um determinado problema social. • O parecer social é um instrumento de intervenção profissional, que possibilita ao assistente social organizar as informações como um relatório, só que com maior profundidade de análise. • Constam no parecer social sugestões de ampliação ou melhoria das ações a serem desenvolvidas junto à situação analisada. • O parecer social é entendido como a opinião profissional do assistente social, com base na observação e estudo de uma determinada situação, que fornece elementos para a concessão de um benefício, recurso material e decisão médico- pericial. • O parecer social deve ser conclusivo quanto à opinião do profissional sobre a situação analisada. • Na elaboração de um laudo social, o assistente social deve demonstrar alguns elementos fundamentais relativos à situação social investigada, bem como transcrever no laudo o parecer sobre a situação, ou seja, mencionar a melhor situação possível. • Na elaboração de um laudo social, deve ser apresentada uma breve contextualização do estudo realizado. • O laudo social requer do profissional que o está elaborando um conhecimento teórico-prático da realidade social do indivíduo, exigindo uma análise aprofundada da vida social. • Na utilização dos instrumentos ligados à pericia social, como é o caso do laudo social, o profissional de Serviço Social tem três principais competências: teórico- metodológica, ético--política e técnico-operativa. RESUMO DO TÓPICO 2 117 AUTOATIVIDADE 1 O que você identifica no instrumento laudo social que o diferencia dos demais instrumentos estudados neste Caderno de Estudos, ou seja, parecer social e estudo social? 2 Qual a contribuição do profissional de Serviço Social em seus processos com a utilização do instrumento parecer social? 118 119 TÓPICO 3 ESTUDO SOCIOECONÔMICO UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO 2 UTILIZAÇÃO DO INSTRUMENTO ESTUDO SOCIOECONÔMICO A atuação prática cotidiana do assistente social está constantemente exigindo análises críticas e completas sobre o contexto onde o usuário está inserido. O profissional fica incapacitado de desenvolver alguma ação ou encaminhamento sem ter prévios conhecimentos da história de vida do usuário, como a comunidade onde vive, grupo familiar e acesso às políticas públicas. Então, neste tópico estudaremos o instrumento Estudo Socioeconômico utilizado pelo profissional de Serviço Social. O estudo socioeconômico tem como objetivo apresentar as características sociais e econômicas de uma determinada população que será analisada. Este método de pesquisa é geralmente realizado através de entrevistas estruturadas, onde o formulário aplicado aponta variáveis conjunturais que contribuem para identificação da realidade em estudo. A pesquisa pode ser quantitativa ou qualitativa, sendo, pelo Serviço Social, a qualitativa a mais utilizada. Esta pode ser aplicada com todos os envolvidos, atingindo 100% da amostra, ou realizarmos uma amostragem do número de entrevistados, utilizando o mesmo critério para toda a amostragem. UNI Utilizamos como exemplo as pesquisas socioeconômicas familiares, em que se aplica um questionário para apenas um representante da família, porém, ao coletar os dados e fazer a análise, o perfil de todos os integrantes é considerado. UNIDADE 3 | MÉTODOS INTERVENTIVOS DO SERVIÇO SOCIAL 120 Escolha do público entrevistado Dar-se-á mediante o objetivo do estudo, podendo ser realizado por amostragem. Coleta de dados Deverão ser coletados mediante questionários ou entrevistas aplicadas ao público selecionado. Em pesquisas do Serviço Social, geralmente o profissional vai a campo realizar a coleta dos dados, ou conforme estabelecido no objetivo do estudo. Tabulação dos dados coletados Após a coleta de dados, estes deverão ser tabulados e disponibilizados em um banco de dados que facilitará a visualização e armazenagem das informações. Análise Esta também deverá seguir o estabelecido nos objetivos do estudo, e deverão ser aproveitados todos os dados coletados, após realizar gráficos ou tabelas comparativos de todas as informações coletadas. FONTE: As autoras QUADRO 3 – PASSOS DO ESTUDO SOCIOECONÔMICO Os dados da pesquisa socioeconômica permitem que o profissional, além de conhecer a realidade social e econômica do entrevistado, compreenda as dificuldades e necessidades do indivíduo e sua família, dificuldade de acesso às Políticas Públicas. Na análise pode-se sugerir ampliação ou implementação de novos serviços que contribuirão para o acesso aos direitos dos usuários atendidos pelos profissionais de Serviço Social. Caso forem insuficientes os dados coletados e fornecidos pelo entrevistado, o assistente social pode aplicar outros instrumentos profissionais de sua competência para atingir os objetivos propostos, como visita domiciliar (instrumento que vimos no tópico anterior), com a finalidade de acompanhar a realidade do usuário na entrevista já iniciada. O estudo socioeconômico é um instrumento de pesquisa também utilizado pelo assistente social na sua prática interventiva. Este estudo tem como objetivo conhecer o perfil socioeconômicode famílias e ou indivíduos, facilitando o atendimento realizado pelo profissional, e traçar o perfil de usuários atendidos, podendo ser comparados dados de outras pesquisas realizadas com o mesmo público, com o mesmo foco de análise. Sendo assim, tem por finalidade o conhecimento crítico de uma determinada situação, como, por exemplo, problemas relacionados com habitação e saneamento básico. O estudo socioeconômico segue alguns passos que podem ser comparados com as etapas de alguns tipos de pesquisas, como veremos a seguir: TÓPICO 3 | ESTUDO SOCIOECONÔMICO 121 Nome Idade Parentesco Escolaridade Ocupação Renda mensal 1. Identificação Nome: ___________________________________________________ Data de Nascimento: ___/___/___ Idade: ____ Sexo: Feminino Masculino Naturalidade:_____________________ Profissão: _____________________ Endereço:__________________________________________________________ Bairro:__________________ Cidade: ________________________ Estado: ____ CEP: _____________________ Telefone: ________________ 2. Situação Familiar Quadro de composição familiar incluindo você: Caro(a) acadêmico(a), para melhor compreensão do instrumento estudo socioeconômico, disponibilizamos, a seguir, um modelo de questionário para coleta de dados deste instrumento da ação profissional. UNIDADE 3 | MÉTODOS INTERVENTIVOS DO SERVIÇO SOCIAL 122 FONTE: As autoras QUADRO 4 – MODELO DE QUESTIONÁRIO SOCIOECONÔMICO Situação de moradia: ( ) Própria ( ) Alugada ( ) Cedida ( ) Financiada Se alugada ou financiada qual o valor: R$ ______________ A água de sua residência: ( ) Bica ( ) Poço ( ) Paga mensalmente/Valor: R$____________ Possui energia elétrica: ( ) Não ( ) Sim/Valor pago mensalmente: R$ ____________ A rua em que você mora: ( ) Calçada ( ) Asfaltada ( ) Estrada de barro Recebe algum benefício do Governo Federal: ( ) Não ( ) Sim/Valor: R$ _____________ Tem alguma outra fonte de renda (pensão, aluguéis) ( ) Não ( ) Sim/Valor: R$ ____________ 3. Na sua família tem algum membro que possui algum tipo de deficiência: ( ) Não ( ) Sim/Qual doença: __________________________ Algum integrante familiar faz uso de medicação contínua: ( ) Não ( ) Sim Consegue acessar o SUS – Sistema Único de Saúde: ( ) Não ( ) Sim Qual o valor mensal gasto com medicação na sua residência: R$ _______________ Qual o valor mensal gasto com alimentação: R$ ________________ 4. Use este espaço para alguma observação que julgue necessária: _____________________________________________________________________ _____________________________________________________________________ Declaro serem verdadeiras as informações aqui prestadas. Assinatura do Responsável: ____________________________________ Assinatura do Técnico Responsável: ______________________________ Data _____/_____/________ TÓPICO 3 | ESTUDO SOCIOECONÔMICO 123 LEITURA COMPLEMENTAR ESTUDO SOCIOECONÔMICO SOBRE A IMPLANTAÇÃO DA PARCERIA AGRÍCOLA NA REGIÃO CACAUEIRA Joselito Albano dos Santos Aline Conceição Souza INTRODUÇÃO O objetivo deste estudo é analisar o início do sistema de parceria rural na região cacaueira, enquanto alternativa para a relação entre capital e trabalho. A monocultura do cacau durante décadas foi o principal sustentáculo da economia baiana e caracterizou-se por períodos de apogeu e crises; a mais recente crise começou em meados dos anos 80, resultante da confluência de fatos negativos, como: o aumento da produção dos países concorrentes, queda nas cotações no mercado mundial, clima desfavorável e o grave “aparecimento” da vassoura-de- bruxa no Sul da Bahia. Segundo Couto (2000, p. 39), “Retrai-se o agronegócio em decorrência da queda dos preços pagos ao produtor e da produtividade da lavoura cuja principal repercussão é a diminuição imediata da renda e do emprego na região cacaueira”, resultando na migração, no subemprego, no desemprego e na opção agrícola pela pecuária extensiva com baixos índices de ocupação (CANUTO, 2004). Diante da descapitalização do cacauicultor, do contingente de trabalhadores desempregados e da necessidade de combater a vassoura-de- bruxa, o sistema de parceria expandiu-se como uma alternativa para minimizar os efeitos da crise da lavoura cacaueira. Embora a parceria tenha sido institucionalizada pelo Código Civil de 1916, conforme cita Silva (2004), atualmente, é regido pelo que dispõe o Estatuto da Terra (Lei n. 4.504/64) e regulado pelo Decreto Federal n. 59.566/66, salientando-se também, que o parceiro agrícola é amparado quanto a seus direitos previdenciários baseado no que dispõe as leis n. 8.212/91 e 8.213/91, na categoria de “segurado especial” (BRASIL, 2002, p. 32-80). MATÉRIAS E MÉTODOS Pesquisa realizada através de estudos de caso, seleção não probabilística por tipicidade, está em curso desde 05/04/2006, em propriedades agrícolas localizadas nos municípios de Almadina, Coaraci, Itajuípe, Uruçuca e Ilhéus, que fazem parte da bacia do Rio Almada, na microrregião cacaueira, no sul do estado, uma das mais tradicionais subregiões onde a cultura do cacau foi implantada na Bahia; sendo assim, os dados e informações aqui trabalhados são preliminares. UNIDADE 3 | MÉTODOS INTERVENTIVOS DO SERVIÇO SOCIAL 124 Inicialmente, realizou-se a busca de informações através de pesquisas bibliográficas, para configuração do embasamento teórico e conhecimento das características da parceria agrícola. Posteriormente, buscou-se analisar o contexto das parcerias na região cacaueira, através de dados secundários, observações e informações colhidas em contatos com os sujeitos da pesquisa. RESULTADOS E DISCUSSÃO A parceria agrícola familiar surgiu na região cacaueira, portanto, no vácuo da descapitalização financeira e do desemprego que se abateu sobre a cultura agrícola regional, tornando-se uma alternativa para equacionar as condições sociais adversas. Mesmo ainda pairando a suspeita de que o sistema seria uma forma disfarçada de expropriar direitos dos trabalhadores, prejudicando-os economicamente e favorecendo apenas o outorgante. Cabe ressaltar que o trabalhador, ao tornar-se um participante ativo e corresponsável, através do sistema de parceria familiar, trabalha com mais interesse, objetivando uma parcela cada vez maior do produto, conforme expõe Santos (1997), proporcionando uma maior produtividade da mão de obra e satisfação aos seus integrantes. Sendo assim, o processo de transformação do cenário de crise passa necessariamente pela transformação da mentalidade do cacauicultor, deixando de ser o “Coronel do Cacau” para se transformar no empresário rural na alternativa estrutural da parceria. Cabe ressaltar que o enfrentamento da crise passa pela reestruturação de toda cadeia produtiva do cacau, principalmente no que se refere às inovações tecnológicas apropriadas à realidade local. Neste sentido, a atividade produtiva necessita de empreendedores, de indivíduos aptos e capacitados, que impulsionem o desenvolvimento econômico, principalmente na área rural. As relações de trabalho devem ser repensadas para se adequar às necessidades do sistema produtivo e dos direitos e deveres de seus participantes. Mas, o crescimento econômico e a melhoria da qualidade de vida na região cacaueira, não dependem única e exclusivamente da parceria agrícola, mas de um conjunto de fatores como a renovação genética, o novo manejo agronômico,via sincronização da produção e a diversificação através de SAFs, otimizando a utilização dos recursos naturais e políticas públicas adequadas. TÓPICO 3 | ESTUDO SOCIOECONÔMICO 125 CONCLUSÕES Considera-se ao final que a expansão dos sistemas de parceiras agrícolas aconteceu em função do problema socioeconômico que se agravou com as crises da lavoura cacaueira, pois, com o desemprego de uma grande parcela da população que só sabia “lidar” com a cultura do cacau, esta foi uma forma encontrada por alguns para continuar trabalhando com o que mais sabia. Essa relação de produção entre proprietário e funcionários com base nas parcerias traz uma nova perspectiva, pois se conseguir articular os aspectos dessa nova relação, com a eficiência econômica e preocupações ambientais trará uma nova dinâmica para as demandas sociais existentes. Sendo assim, a eficiência e eficácia do sistema de parcerias condicionam-se a uma mudança de mentalidade do cacauicultor e à presença de um trabalhador participante ativo e corresponsável, objetivando uma parcela cada vez maior do produto, proporcionando uma maior produtividade da mão de obra e satisfação aos seus integrantes. FONTE: SANTOS, Joselito Albano dos; SOUZA, Aline Conceição. Estudo socioeconômico sobre a implantação da parceria agrícola na região cacaueira. Disponível em: <http://www.uesc.br/ seminarioic/sistema/resumos/2007258.pdf>. Acesso em: 20 out. 2009. 126 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você viu que: • O estudo socioeconômico é um instrumento de pesquisa também utilizado pelo assistente social na sua prática interventiva. • O estudo socioeconômico segue alguns passos: escolha do público entrevistado; coleta de dados; tabulação dos dados; análise dos dados. • A pesquisa socioeconômica permite que o profissional, além de conhecer a realidade social e econômica do entrevistado, compreenda as dificuldades e necessidades do indivíduo e sua família. 127 AUTOATIVIDADE 1 Qual a importância que você percebe no instrumento da ação profissional do estudo socioeconômico? E de que forma este instrumento pode contribuir no fazer profissional do assistente social? 2 Você já preencheu um questionário ou entrevista socioeconômica? Relate sua experiência com este instrumento que pode ser utilizado pelo profissional de Serviço Social. 128 129 REFERÊNCIAS ALMEIDA, Ney Luiz Teixeira de. Retomando a temática da “sistematização da prática” em serviço social. Disponível em: <http://www.peepss.org/documentos/ ney_pub2.pdf>. Acesso em: 15 ago. 2009. BRASIL. Lei nº 10.741, de 1º de outubro de 2003. Institui o Estatuto do Idoso e dá outras providências. Disponível em: <www.planalto.gov.br/.../LEIS/2003/ L10.741.htm>. Acesso em: 17 out. 2009. ______. Ministério da Previdência e Assistência Social. Paradigma do serviço social no Instituto Nacional do Seguro Social – INSS. Brasília: Ministério da Previdência Social, 1995. Disponível em: <http://www.cress-sp.org.br/link_site/ matriz_INSS.pdf>. Acesso em: 17 out. 2009. ______. Política sacional de assistência social – PNAS/2004. Brasília: Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, 2005. Disponível em: <www. mds.gov.br/arquivos/pnas_final.pdf>. Acesso em: 18 out. 2009. CARVALHO, Valéria Cabral; GERBER, Luiza Maria Lorenzini. O SUAS – Sistema Único da Assistência Social em perspectiva. 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