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UNIVERSIDADE FEDERAL DE PELOTAS FACULDADE DE EDUCAÇÃO CURSO DE PEDAGOGIA 2016-2 Notas sobre a morfologia e exercícios Dupla articulação da língua: unidades de segunda articulação (fonemas – consoantes e vogais – unidades que não possuem significado) combinam-se para formar unidades de primeira articulação (morfemas, palavras), as quais constituem unidades significativas da língua. De acordo com esta propriedade das línguas naturais, todo enunciado se articula em dois planos: primeira articulação (unidades significativas - morfemas) e segunda articulação (unidades distintivas - fonemas). (cf. Koch – p. 11) Morfologia é o estudo da estrutura interna das palavras e dos princípios que regem a formação de novas palavras. O morfema é a unidade básica da morfologia. Os morfemas são as menores unidades portadoras de sentido e recorrentes na língua. São duas as formas possíveis para se depreender cada um dos morfemas de uma palavra: pela significação ou pela comutação. Quanto ao significado, de modo geral, os morfemas podem ser gramaticais ou lexicais. Os morfemas lexicais são aqueles que têm um sentido dicionarizável, enquanto os gramaticais desempenham função estritamente gramatical. O vocábulo ‘felizmente’, por exemplo, é constituído por dois morfemas – ‘feliz’ e ‘mente’ – o primeiro é lexical, tem significado no léxico, está relacionado às coisas do mundo; e o segundo, desempenha uma função na gramática, qual seja, transforma o substantivo em advérbio. Os morfemas podem ser formas livres ou presas. Livres são aqueles que podem estar sozinhos e correspondem a um vocábulo: ‘feliz’ e ‘lápis’, por exemplo. Presos são os que nunca estão sós, precisam estar ligados a outros morfemas: os prefixos e os sufixos. Exemplo: Em [infeliz] temos morfema lexical [feliz] e o morfema gramatical derivacional [in], responsável por criar uma nova palavra, no caso o antônimo da ideia expressa pelo morfema lexical. Em [felizmente], temos [feliz] e [mente], sendo este responsável por alterar a classe gramatical da palavra feliz, transformando adjetivo em advérbio. Já em [moças], temos [moç], [a], e [s], o primeiro é um morfema lexical , o segundo, um morfema gramatical flexional de gênero e o terceiro, um morfema gramatical flexional de número. Essas duas grandes categorias de morfemas podem ser exploradas a fim de que se compreenda as funções de cada uma dessas unidades. Assim, alguns autores propõem a seguinte classificação para os morfemas: Radical – corresponde ao elemento irredutível e comum às palavras de uma mesma família. Exemplo: ferr na série ferro, ferreiro, ferradura, ferramenta. Afixos – morfemas que se anexam ao radical para mudar-lhe o sentido, acrescentar- lhe uma ideia secundária ou ainda mudar a classe gramatical. Exemplos: fazer/desfazer, livro/livraria, leal/lealdade. Quando colocados antes do radical, são chamados prefixos, quando colocados após o radical, são denominados sufixos. Desinências – servem para indicar as flexões de gênero e número (desinências nominais) e de modo-tempo e número-pessoa (desinências verbais). Exemplos: meninas (a e s são desinências de gênero e número respectivamente); cantavam (va e m são desinências de modo-tempo e número-pessoa, respectivamente). Vogais temáticas – acrescentam-se ao radical para formar uma base, à qual são anexadas as desinências. Vogais e consoantes de ligação – segmentos que ocorrem no interior do vocábulo, normalmente entre o radical e o sufixo, para resolver questões de eufonia. Exemplos: facilidade e cafezal. Marcação de gênero Há diferentes maneiras de marcar o gênero Flexão – garoto/garota Derivação – conde / condessa Heteronímia – bode/cabra Estrutura mórfica do verbo O verbo é uma classe de palavras muito rica em possibilidades flexivas. Ao analisarmos a estrutura do vocábulo verbal em Português, temos: radical (parte invariável que dá a significação lexical do verbo), vogal temática (que indica a conjugação a que o verbo pertence) e sufixos flexionais (que indicam as noções de modo/tempo e número/pessoa). A fórmula RADICAL + VOGAL TEMÁTICA + SF (SMT + SNP) fica evidente no exemplo apresentado: fal + á + sse + mos (onde sse é desinência modo temporal que está presente em todas as pessoas do imperfeito do subjuntivo e mos é desinência número pessoal que está presente nas formas verbais da 1ª pessoa do plural) Diagrama arbóreo que ilustra a estrutura mórfica de uma palavra. Os morfemas podem ser ainda estudados quanto à sua forma de ocorrência. Aditivos – são aqueles que, assim como os afixos e as desinências, se acoplam a um núcleo (mesa/mesas). Subtrativos – ocorrem quando há a eliminação de um fonema do radical a fim de marcar uma diferença de sentido (anão/anã). Alternativos – caracterizam-se pela alternância vocálica de um fonema em uma palavra (olho/olhos). Morfema zero – quando há ausência de uma marca para expressar determinada categoria gramatical. Processos de formação de palavras Por que formar palavras? Para mudar a classe gramatical das palavras. Para obter uma alteração semântica na palavra base. Para tornar o sistema lingüístico eficiente. (homem/mulher – menino/menina) O léxico da língua se desenvolve de forma eficiente pela utilização de elementos já existentes. Os principais processos de formação de palavras são a derivação e a composição. A derivação consiste na formação de palavras por meio de afixos agregados a um morfema lexical. Existem quatro tipos de derivação: a) prefixal – refazer, ilegal, subtenente b) sufixal – saboroso, beleza, casinha c) prefixal e sufixal – deslealdade, infelizmente d) parassintética – entardecer, esfarelar A composição é o processo de formação de palavras que cria novos vocábulos pela combinação de outros já existentes, dando origem a um novo significado. A composição poder ser por justaposição ou aglutinação. a) justaposição – passatempo, girassol, amor-perfeito b) aglutinação – aguardente, pontiagudo EXERCÍCIOS 1. Decomponha as palavras abaixo em morfemas e classifica-os. a) deslealdade b) desrespeitosamente c) insensatez d) garotinhas e) voltaremos 2. Usando prefixos, substitua as expressões destacadas por palavras equivalentes. a) O garoto era quase o último da fila. b) As negociações não eram legais. 3. Usando sufixos, substitua as expressões destacadas por palavras equivalentes. a) Esse material poder ser lavado. b) A madeira parecia ter-se transformado em pedra. 4. Observe os dados da seguinte língua hipotética: ikalveve – casagrande ikalsosol – casa velha ikalcin – casa pequena petatveve – capacho grande petatsosol – capacho velho petatcin – capacho pequeno ikalmeh – casas petatmeh – capachos a) Segmente os vocábulos. b) Quais os elementos que significam “grande”, “velho” e “pequeno”? c) Quais os elementos que significam “casa” e “capacho”? d) Quais os morfemas indicativos do número e do gênero? 5. Diga qual o processo empregado na formação das palavras abaixo: a) desmentir b) esclarecer c) outrora d) lobisomem e) beija-flor f) pernoitar g) livraria h) pé-de-moleque KEHDI, Valter. Morfemas do Português. Dão Paulo: Ártica, 6a edição, 2002. LYONS, John. Linguagem e Linguística. Rio de Janeiro: Zahar, 1981. SILVA M. Cecília e KOCH Ingedore. Linguística aplicada ao português: morfologia. 8a ed. São Paulo: Cortez, 1995.