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COMA Maria Sheila Guimarães Rocha Ana Cláudia Ferraz Almeida 1. INTRODUÇÃO Neste capítulo, a definição e a fisiopatologia do coma são discutidos. As principais condições clínicas que causam o coma são revistas a partir da forma como produzem o estado de coma. Questões práticas para o diagnóstico inicial e o manejo multidisciplinar do estado de coma são abordados. O diagnóstico diferencial preciso é essencial para o manejo clínico dos pacientes em coma. A precisão diagnóstica direciona o tratamento, e esta está fortemente associada com o desfecho funcional do paciente (Giacino & Kalmar, 1997). Neste sentido, o exame clínico e neurológico são fundamentais para identificar pontos chaves do diagnóstico e para a definição do prognóstico das intervenções terapêuticas a serem adotadas. 2. CONCEITOS 2.1 COMA - Estado caracterizado pela ausência de despertar, no qual o paciente permanece de olhos fechados, inconsciente, não podendo ser despertado por nenhum estímulo e não tendo percepção de si mesmo nem do meio ambiente (Posner & Plum, 2007). Este estado é provocado por falha do sistema reticular ativador ascendente (SRAA), sistema controlador do ciclo sono-vigília e responsável pela manutenção da consciência. O comprometimento do SRAA resulta de lesões cerebrais agudas, graves, bilaterais ou difusas, corticais ou subcorticais, talâmicas ou do tegmento paramediano. Por questões práticas, o estado de coma se caracteriza clinicamente por falha na abertura ocular quando estimulado, resposta motora que se restringe a movimentos de retirada e resposta verbal ausente ou resumida a sons não verbais. 2.2 CONSCIÊNCIA - Consciência significa capacidade de percepção do próprio indivíduo e dos estímulos provenientes do meio ambiente, sendo uma experiência de grande magnitude e complexidade (Williams, 1894). A consciência possui dois componentes fundamentais: o despertar e o conteúdo. Ambos são necessários para a manutenção da consciência. O despertar, ou vigília, depende da integridade do sistema reticular ativador ascendente formado por grupos neuronais do tegmento do tronco encefálico que se projetam diretamente para núcleos intralaminares talâmicos e daí para neurônios corticais bilateralmente (SRAA). O conteúdo da consciência consiste na capacidade cognitiva individual (funcionamento específico relacionado à atenção, memória, intenção, humor, emoção e processamento executivo) e depende da integridade funcional do córtex cerebral e suas conexões subcorticais. Portanto, alterações do tronco encefálico ou de ambos hemisféricos cerebrais podem causar alteração no nível de consciência e no seu conteúdo (Posner & Plum, 2007). 3. DEFINIÇÕES CLÍNICAS O paciente com distúrbio da consciência apresenta, em geral, mudanças dinâmicas no seu estado mental, tanto no sentido da piora progressiva até o pior desfecho esperado, como no sentido da melhora clínica, observada a medida que medidas terapêuticas adequadas surtem efeito. É fundamental o exame clínico do estado mental de forma seriada, de forma que regularmente seja analisado o nível de consciência do paciente, permitindo que novas estratégias sejam traçadas a partir daquele novo estado. Na mesma medida que é crucial reconhecer o agravamento do distúrbio da consciência, é fundamental reconhecer a mudança de estado para um nível de melhora. Assim, os recursos de suporte a vida podem ser apropriadamente direcionados, garantindo um desfecho clínico de melhor prognóstico em cada paciente. Na direção oposta, o diagnóstico de um estado vegetativo permanente ou de morte encefálica pede a reflexão sobre a continuidade dos suportes avançados e a definição do suporte paliativo. A acurácia no diagnóstico é crítica para o estabelecimento de um plano terapêutico, para a definição prognóstica e para o provimento de informações apropriadas para os familiares. O erro diagnóstico é frequente nas situações de diagnóstico diferencial entre o estado vegetativo (EV) e o estado minimamente consciente, por exemplo. Estudos demonstram, de forma consistente, que aproximadamente 30-40% dos pacientes considerados em EV, na realidade, apresentam conteúdo de consciência mínimo (Schnakers et al., 2009). A falta de avaliação clínica correta pode contribuir para a retirada prematura do suporte de vida e levar a condutas terapêuticas inadequadas, como não prover tratamento para a dor, por exemplo. A falha em detectar sinais clínicos de consciência mínima pode limitar o acesso a programas de reabilitação neurológica, retardando o início da reabilitação e consequentemente, a melhora clínica do paciente (Giacino et al., 2014). 3.1 NÍVEIS DE CONSCIÊNCIA Segundo classificação clínica de Plum e Posner (2007). • SONOLÊNCIA - Caracteriza-se por uma condição em que o paciente permanece adormecido, mas desperta e responde adequadamente aos estímulos externos sonoros. Volta a adormecer tão logo os estímulos cessam. • OBNUBILAÇÃO - Estado confusional em que os estímulos externos são mal interpretados resultando em desorientação e dificuldade para atender adequadamente aos comandos, além de dificuldade de reconhecer pessoas ou ambientes. Pode se alternar com períodos de sonolência ou torpor. • DELÍRIO - Estado de desorientação, irritabilidade, percepção prejudicada do ambiente e dos estímulos externos. Podem ocorrer alucinações visuais e auditivas. Frequentemente associado a distúrbios metabólicos, intoxicação exógena, abstinência ao álcool e drogas e quadros infecciosos do sistema nervoso central. • TORPOR - Nível de consciência que antecede o coma. Difere deste pela obtenção do despertar através de estímulos dolorosos, vigorosos e repetidos. A vigília dura muito pouco tempo e o paciente logo retorna à sua condição prévia. Não há resposta verbal adequada. • COMA - Condição em que o despertar é impossível de se obter, mesmo através de estímulos físicos externos vigorosos ou fisiológicos internos. Há perda da percepção do meio e de si mesmo. Não há evidência de ciclo sono-vigília no eletroencefalograma. 3.2 ESTADO MINIMAMENTE CONSCIENTE Estado que caracteriza os pacientes que não se encontrarem em estado vegetativo, mas apresentam sério comprometimento da consciência, estão incapacitados para se comunicar de forma consistente, mas demonstram evidência mínima comportamental de consciência de si mesmo e do meio ambiente (Giacino et al., 2002). O estado minimamente consciente (EMC) é transicional e reflete uma melhora do nível de consciência a partir de um estado de coma ou vegetativo persistente. Assim, para estar minimamente consciente o paciente deve demonstrar, mesmo que de forma limitada, clara evidência de consciência de si mesmo e do meio ambiente, de maneira reprodutível e sustentada. O paciente deve apresentar pelo menos um dos seguintes comportamentos: seguir comandos simples, resposta gestual ou verbal do tipo sim/não, fala inteligível e comportamento motor ou afetivo (choro ou riso) em resposta a um estímulo emocional ou do meio ambiente. Caracteristicamente, estas respostas são inconsistentes, variando de um exame clínico para outro. O exame clínico neurológico seriado é essencial para a determinação deste estado. O EMC está tipicamente relacionado com lesão axonal difusa (grau II ou III) ou com lesões corticais multifocais, às vezes acompanhadas pelo envolvimento do tálamo. O comprometimento talâmico é menos prevalente do que o observado no estado vegetativo. A relativa preservação de conexões de longo alcance corticotalâmicas podem explicar a preservação parcial da atividade cognitiva nestes pacientes (Jennett et al., 2001). A possibilidade de evolução favorável é maior do que no estado vegetativo. 3.3 ESTADO CONFUSIONAL AGUDOEstado caracterizado pela ressurgimento da comunicação funcional do paciente, a partir do estado minimamente consciente. Nesta situação, ocorre a restauração da capacidade de usar objetos de forma funcional e há recuperação da comunicação verbal. O paciente apresenta-se confuso e desorientado, e está propenso a episódios de agitação psicomotora. A performance cognitiva encontra-se prejudicada devido a ocorrência de desorientação espacial e temporal, amnesia anterógrada, distúrbios da percepção e do julgamento, labilidade emocional, desatenção e inquietude motora (Sherer et al., 2005). O quadro confusional pode ser agravado pela presença de outros déficits neurológicos (surdez, redução de acuidade visual, apraxia, agnosias e afasia) decorrentes do processo etiológico do coma. 3.4 MUTISMO ACINÉTICO O mutismo acinético é considerado como um subtipo de EMC, situação onde o paciente apresenta incapacidade de seguir os comandos verbais, de falar e de se envolver em algum comportamento dirigido a uma meta. Este comprometimento não está associado a uma alteração direta do sistema de despertar, mas ocorre devido ao grave comprometimento da condução nervosa dos estímulos até o sistema neural responsável pela mediação destes comportamentos (Nagaratnam et al., 2004). No estado de mutismo acinético, a fala, o movimento, o pensamento e a expressão emocional estão uniformemente reduzidas, mas, essas respostas podem ser facilitadas através da exposição a estímulos de alta intensidade sensorial ou emocional, ao contrário do que se observa no estado minimamente consciente. 3.5 SÍNDROME DO CATIVEIRO (“LOCKED-IN”) O termo foi introduzido por Plum e Posner (1983) para descrever o quadro de quadriplegia e anartria resultante da lesão grave das vias dos tratos corticoespinhal e corticobulbar. A lesão, apesar de provocar o dano motor, não compromete as vias do SRAA, mantendo o ciclo sono-vigília e as funções cognitivas do paciente. O paciente em Locked-In se apresenta afônico, quadriplégico ou quadriparético e de olhos abertos. Os movimentos oculares verticais e de piscamento podem estar preservados, tornando-se o principal meio de comunicação do paciente. O ciclo sono-vigília é normal e o paciente tem plena consciência do meio ambiente (Posner & Plum, 2007). Frequentemente, a incapacidade motora e de comunicação leva ao diagnóstico de distúrbio da consciência. Situação que pode ser agravada quando o quadro é precedido, na fase aguda, por estado minimamente consciente ou vegetativo (Laureys et al., 2005). 3.6 ESTADO VEGETATIVO O paciente em estado vegetativo (EV) está desperto, apresenta ciclo sono-vigília intacto, mas está inconsciente de si mesmo e do meio ambiente. Nesta situação, os pacientes são desprovidos de vida intelectual e atividade social. O diagnóstico de EV é feito quando a abertura ocular espontânea ressurge (sinalização de recuperação da atividade do SRAA) apesar da ausência de qualquer evidência discernível de compreensão da linguagem, verbal ou gestual, ou de comportamento proposital responsivo aos estímulos visuais, auditivos, táteis ou nocivos (The Multi-Society Task Force on PVS., 1994). • Estado vegetativo persistente – se refere aos pacientes em estado vegetativo há mais de 30 dias após lesão cerebral aguda traumática ou não traumática, e não significa irreversibilidade. • Estado vegetativo permanente – deve ser considerado como irreversível e se refere àqueles pacientes em estado vegetativo há mais de três meses após lesão cerebral aguda não traumática ou após 12 meses de lesão encefálica traumática (Giacino et al., 2005). 3.7 MORTE ENCEFÁLICA O conceito de morte encefálica como morte do indivíduo é amplamente aceita. A maioria dos países publicou recomendações para o diagnóstico de morte encefálica e os critérios diferem de país para país (Wijdicks et al, 2002). Alguns a definem como a morte do tronco encefálico enquanto outros consideram como a morte de todo o encéfalo, incluindo o tronco encefálico. No entanto, os parâmetros clínicos que definem a morte encefálica são os mesmos e requerem a perda de todos os reflexos do tronco encefálico e a demonstração de apneia contínua em paciente persistentemente comatoso (Wijdicks, et al., 2006). Assim, os elementos clínicos essenciais são: 1. Causa identificada sabidamente capaz de provocar morte neuronal; 2. O paciente está comprovadamente em coma e em ventilação mecânica; 3. Os reflexos de tronco encefálico (pupilar, córneo- palpebral, vestíbulo-ocular e faringolaringeal) estão abolidos; 4. Não há movimentação espontânea oriunda da atividade cerebral e nenhuma resposta à estimulação externa; 5. O paciente está em apneia (D.O.U. 1991 – 1997). TABELA 1 – Características clinicas dos distúrbios da consciência. DISTÚRBIO DA CONSCIÊNCIA DESPERTAR LINGUAGEM RECEPTIVA LINGUAGEM EXPRESSIVA PERCEPÇÃO VISUAL ATIVIDADE COGNITIVA EXAME MOTOR COMA Ausência de ciclo sono-vigília Nenhuma reação Nenhuma reação Nenhuma reação Ausente Reflexos primitivos ESTADO VEGETATIVO Períodos inconsistentes de vigília Nenhuma reação Nenhuma reação Inconsistente Ausente Movimentos involuntários apenas ESTADO MINIMAMENTE CONSCIENTE Períodos inconsistentes de vigília Inconsistente Pode haver resposta a comandos simples Limitada a palavras isoladas ou frases curtas Rastreio visual. Pode reconhecer objetos Inconsistente, mas há sinais claros de percepção de si e do meio ambiente Localiza estímulos dolorosos; manipula objetos ESTADO CONFUSIONAL AGUDO Períodos mais prolongados de vigília Resposta consistente a comandos simples Discurso com frases, mas confuso e desorientado. Respostas confiáveis Reconhece objetos Confuso e desorientado; agitação psicomotora; desatento. Uso funcional de objetos simples e comuns. MUTISMO ACINÉTICO Ciclo sono-vigília recuperado Resposta inconsistente, pode ocorrer com estímulos vigorosos Resposta imprevisível, pode ocorrer respostas incoerentes a estímulos básicos Inconsistente Inconsistente, predominantemente ausente. Movimentos voluntários ausentes, mas pode reagir a estímulos externos Figura 1 – Evolução clínica do estado de coma. LE SÃ O C ER EB RA L AG U DA COMA ESTADO MINIMAMENTE CONSCIENTE ESTADO CONFUSIONAL AGUDO MELHORA CLÍNICA PROGRESSIVA MUTISMO ACINÉTICO AUMENTO PROGRESSIVO DA INDEPENDÊNCIA LOCKED-‐IN ESTADO VEGETATIVO (EV) EV PERSISTENTE EV PERMANENTE MORTE MORTE CEREBRAL 4. FISIOPATOLOGIA 4.1 NEUROBIOLOGIA DA CONSCIÊNCIA Muitas pesquisas atuais se debruçam sobre os mecanismos neurobiológicos cerebrais envolvidos na manutenção da vigília e no despertar nos diversos níveis de consciência. A maioria dos autores concordam que o estado de consciência alerta é essencialmente produzido por uma atividade intensa, de alto gasto energético, que envolve os circuitos do sistema corticotalâmico (Tononi, 2012). A alta demanda de energia deriva principalmente do padrão de disparo neuronal de alta frequência associado com a despolarização de membrana neuronal no córtex, tálamos e gânglios da base (Llinas & Steriade, 2006). Redução no nível de excitação neste sistema, em indivíduos normais, envolve a hiperpolarização desses neurônios através da retirada da ação neuromoduladora excitatória de neurônios orexinérgicos,colinérgicos, noradrenérgicos do tronco cerebral e do hipotálamo (Parvizi & Damasio, 2001). A hiperpolarização de neurônios corticais e do tálamo é observada nos estágios mais profundos do sono ou sob efeito inibitório de anestésicos gerais. Nestas situações, ocorre uma mudança no padrão de disparo dessas populações neuronais, provocando alteração da dinâmica habitualmente diferenciada no tempo e espaço do sistema corticotalâmico durante a vigília, para uma atividade neuronal sincrônica e estereotipada própria da sonolência (Brown, Lydic & Schiff, 2010). 4.2 MECANISMOS FISIOPATOLÓGICOS DOS DISTÚRBIOS DA CONSCIÊNCIA Todas as lesões cerebrais graves podem produzir desaferentação generalizada para os neurônios em todo o sistema corticotalâmico, reduzindo a atividade neuronal intensa, básica, e habitual do estado de alerta. No extremo, se toda a atividade de entrada for removida, apenas uma baixa atividade elétrica cerebral, de baixa frequência e pouco consumo de energia, será recrutada no córtex cerebral (Timofeev, 2000). Os neurônios corticais, talâmicos e dos gânglios da base são muito sensíveis à quantidade de atividade sináptica basal que eles recebem. Os padrões de disparo neuronal habitual se alteram em resposta a pequenas mudanças no potencial de ação da membrana (Llinas & Steriade, 2006). Esta mudança na dinâmica neuronal habitualmente despolarizada, fundamental para a atividade cerebral normal e consistente com a percepção consciente, está na base fisiopatológica do rebaixamento do nível de consciência nas diversas situações patológicas encefálicas agudas causadoras de coma. Os mecanismos que produzem distúrbios da consciência, e finalmente o estado de coma, podem ser considerados em duas grandes categorias: de origem estrutural e metabólica (Tabela 2). Estes dois tipos de processos patológicos podem interromper o funcionamento adequado do sistema reticular ativador ascendente (SRAA), tanto na sua projeção da ponte para o tálamo, como deste para os hemisférios cerebrais, como em ambos os sistemas. O sistema de excitação (SRAA) é anatomicamente representado por um número de estruturas no tegmento do tronco cerebral rostral, o diencéfalo e projeções para o córtex cerebral. Os principais neurônios envolvidos são: os produtores de acetilcolina no núcleo peribraquial, constituídos dos núcleos pedunculopontinos, tegmental e núcleos laterais do tegumento dorsal. Estes núcleos se projetam rostralmente em duas vias principais: (1) um feixe de fibras com projeção dorsal e sinapse com neurônios de núcleos talâmicos, que em seguida enviam projeções glutamatérgica para áreas do córtex cerebral e (2) uma via ventral a partir do tegmento do tronco cerebral rostral que se dirige especialmente para o hipotálamo posterior, onde terminais realizam sinapse com neurônios que sintetizam histamina e outros que sintetizam hipocretina ou orexina (Vincent, 2000). Esta via também contribui para a excitação cortical. Assim, o SRAA é um sistema neuronal complexo que está envolvido na despolarização do sistema corticotalâmico, e portanto na estimulação cortical e na manutenção da vigília. Tabela 2 – Principais patologias envolvidas no estado de coma. PROCESSOS PATOLÓGICOS ESTRUTURAIS PROCESSOS SISTÊMICOS METABÓLICOS OU TÓXICOS LESÃO SUPRATENTORIAL LESÃO INFRATENTORIAL LESÃO CORTICAL DIFUSA Neoplasia Primárias ou metastática do SNC Trauma Lesão axonal difusa Vasoespasmo cerebral Hematomas intracranianos - Hematoma sudural agudo - Hematoma sudural crônico - Hematoma intracerebral e contusão - Hemorragia subaracnóidea traumática Vascular Hemorragia intracerebral Hemorragia subaracnoidea Isquemia cerebral extensa Isquemia talâmica bilateral Trombose de seio cerebral Infecção Encefalite viral Meningoencefalite tuberculosa Meningite Empiema Abscesso cerebral Neurocisticercose SIDA - Toxoplasmose cerebral - Leucoencefalopatia multifocal progressiva - Infecções fúngicas Autoimune Encefalomielite disseminada aguda Esclerose múltipla forma tumefativa Encefalite autoimune Outros Leucoencefalopatia posterior reversível Hidrocefalia aguda Tumores primários e metastáticos do SNC Infarto do tronco encefálico Hemorragia do tronco cerebral e cerebelo Isquemia cerebelar Encefalite de tronco cerebral autoimune Encefalite de tronco cerebral infecciosa Encefalopatia anóxica ou isquêmica Encefalopatia hipertensiva Leucoencefalopatia posterior reversível Coagulação intravascular disseminada Embolia gordurosa Púrpura trombocitopênica trombótica Encefalopatia séptica Vasculites do sistema nervoso central Intoxicação exógena Coma mixedematoso Encefalopatia urêmica Encefalopatia hepática Insuficiência adrenal Hipoglicemia Coma hiperosmolar hiperglicêmico Hipotermia Hipertermia maligna Síndrome serotoninérgica Os processos estruturais provocam coma quando comprimem o tronco encefálico, enquanto que os processos metabólicos agem comprometendo o metabolismo cerebral difusamente. Em média, o metabolismo da substância cinzenta está 70% abaixo do valor normal nos pacientes comatosos por lesão traumática ou anóxica. Em coma secundário à lesão traumática podem ser observados tanto a hiperglicólise como depressão do metabolismo. Nos processos metabólicos a fisiopatologia do coma está diretamente relacionada à causa básica (McClenathan et al., 2013). 4.2.1 COMA POR LESÃO SUPRATENTORIAL Estado de coma relacionado a processos patológicos sediados acima da tenda do cerebelo. O estado de coma pode ser produzido por lesão extensa do córtex cerebral, lesão destrutiva subcortical bilateral ou por lesão unilateral levando à formação de hérnias transtentoriais (uncus – central) e compressão das estruturas relacionadas ao sistema reticular ativador ascendente (mesencéfalo e diencéfalo respectivamente) (Posner & Plum, 2007). A hérnia é uma protrusão ou ruptura. No que diz respeito ao tecido cerebral, o termo é utilizado para descrever um deslocamento de uma parte do cérebro de um compartimento para outro. O conceito-chave é a compressão e deslocamento de estruturas cerebrais a partir da sua localização anatômica normal (Young, 2011). Para comprometer a consciência, o deslocamento tem de comprimir estruturas que contém os componentes essenciais do SRAA. Lesões encefálicas expansivas unilaterais supratentoriais podem provocar coma pelo deslocamento para baixo, levando à compressão do tronco cerebral, do diencéfalo ou das estruturas do lobo temporal mesial, que por sua vez comprimem o mesencéfalo através da abertura tentorial: são as hérnias tentoriais central e uncal, respectivamente. A herniação transtentorial é um evento relativamente tardio, muitas vezes terminal, associada a lesão do tronco cerebral. A perda de reatividade pupilar e a paralisia do oculomotor do lado oposto à lesão, geralmente ocorrem devido a danos intrínsecos à compressão do tronco cerebral (Young, 2011). → Herniação uncal - Consiste na insinuação do uncus do hipocampo através da tenda do cerebelo comprimindo o mesencéfalo. Ocorre nas lesões unilaterais de efeito progressivamente expansivo levando ao deslocamento do uncus. Tipicamente ocorre hemiplegia contralateral e midríase ipslateral. A anisocoria com dilatação pupilar ipsilateral deve-se à compressão do nervo oculomotor pela hérnia uncal. A estimulação álgica pode desencadear postura de descerebração. À medida que a herniação progride, o trato corticoespinhal no pendúculo cerebral contralateral pode ser comprimido contra a borda do tentório provocando uma hemiplegia ipsilateral - fenômeno de Kernohan (Imagem 1) (Young, 2011). → Herniação central - Este tipo de hérnia ocorre quando o edemacerebral ou uma lesão localizada centralmente provoca a distensão caudal do diencéfalo sobre o tentório. A disfunção da substância reticular e a hipoperfusão causada pelo aumento da pressão intracraniana são os principais responsáveis pela alteração da consciência nestes pacientes. A disfunção diencefálica produz inicialmente pupilas pequenas e pouco reativas devido à interrupção da via simpática a partir do hipotálamo. Neste estágio, a postura de decorticação pode ser observada espontaneamente ou após estímulo álgico. À medida que aumenta o sofrimento mesencefálico, as pupilas se dilatam até a posição mediana, ocorre postura de descerebração, a movimentação ocular torna-se anormal e o padrão respiratório torna-se irregular (Posner & Plum, 2007) (Imagem 2). → Herniação subfalcina - Consiste na herniação das estruturas mediais do lobo frontal (giro do cíngulo) por baixo da foice do cérebro. Comumente observada em pacientes com lesões expansivas frontais ou em casos de edema cerebral difuso. A sintomatologia está associada à lesão em si e ao aumento da pressão intracraniana. A compressão das artérias pericalosa e calosomarginal contra a foice pode levar ao infarto da superfície medial dos lobos frontais (giro do cíngulo), da parte medial do giro frontal superior, e do precuneus. O edema e infarto que se seguem podem levar a um maior efeito compressivo e agravamento da hérnia e do coma (Ropper, 1986) (Imagem 3). Imagem 1 – Tomografia de crânio: hérnia uncal por lesão grave de lobos temporal por traumatismo cranioencefálico em paciente de 18 anos com quadro de coma profundo. Imagem 2 – Tomografia de crânio: Hérnia cerebral do tipo central secundária a acidente vascular cerebral isquêmico extenso. Imagem 3 – Tomografia de crânio: Hérnia subfalcina por lesão tumoral primária do SNC à direta, em paciente de 68 anos em coma após crise convulsiva. A redução inicial do nível de consciência pode estar mais relacionada com a herniação subfalcina do que com a presença das hérnias uncais e centrais. Este conceito foi inicialmente proposto por Hasenjäger e Spatz em 1937, e revisto por Miller Fisher em 1984. Recentemente, estudos com neuroimagem e achados post-mortem apresentaram provas convincentes do papel da hérnia cerebral subfalcina nos estado de coma por lesão supratentorial. Existe uma correlação direta do desvio das estruturas da linha média supratentorial (septo pelúcido ou glândula pineal) em milímetros (mm) e a profundidade do estado de coma. A maioria dos casos de coma mostram um desvio lateral ≥ 9 mm – Tabela 3 (Ropper, 1986). O desvio da linha média medido ao nível do septo pelúcido pode acrescentar medida de valor preditivo quanto ao desfecho clínico. Estudo com pacientes com acidente vascular cerebral hemorrágico mostrou que, em pacientes com desvio da linha média ≥ a 6 mm e escala de coma de Glasgow ≤ 12, o valor preditivo de morte ou estado vegetativo foi de 100% - Imagem 4 (Flemming et al., 2001). Tabela 3 – Deslocamento horizontal da pineal e o nível de consciência. Nível de consciência Deslocamento (mm) da Pineal da linha média Acordado e alerta 0 – 3 Sonolência 3 – 6 Torpor 6 – 9 Coma > 9 Imagem 4 – Paciente de 45 anos com sangramento intracraniano. Tomografia 1: AVCH com volume de 54 mm3 no primeiro dia de evolução (ECG = 14). Tomografia 2: AVCH com 254 mm3 de volume após expansão do hematoma em < de 24h, em morte cerebral. 4.2.2 COMA POR LESÃO INFRATENTORIAL As lesões infratentoriais podem levar ao estado de coma por afetarem diretamente a formação reticular no tronco cerebral ou indiretamente através da compressão sobre esta. Assim, situam-se entre as primeiras, as lesões desmielinizantes extensas do tronco, tumores, abscessos, encefalites de tronco (Imagem 5) e as lesões vasculares, isquêmicas ou hemorrágicas, tanto do tronco encefálico, como do cerebelo (Imagem 6). As compressões podem provocar lesão do tegmento da ponte e do mesencéfalo ou provocar hérnias cerebelares (tonsilar). Vale ainda ressaltar as lesões que obstruem o fluxo liquórico no aqueduto cerebral e quarto ventrículo, produzindo hidrocefalia obstrutiva. Em nosso meio, a neurocisticercose é causa frequente desta última condição (Imagem 7). Hérnia cerebelar tonsilar - Á medida que o processo compressivo aumenta a pressão sobre o forame magno, as tonsilas cerebelares podem ser empurradas através do mesmo. Nesta situação pode ocorrer compressão sobre o bulbo levando a apneia por disfunção dos centros respiratórios. A herniação das tonsilas cerebelares através do forame magno, em casos de tumores ou edema cerebelar, provêm de um gradiente de pressão entre a fossa posterior e o canal superior da medula do canal. Acontecendo de forma aguda, há compressão da medula caudal, resultando em parada respiratória. A obstrução ao fluxo de saída do quarto ventrículo provoca um aumento abrupto na pressão intracraniana, com altíssima probabilidade de êxito letal (Young, 2011). Imagem 5 – Tomografia de crânio: múltiplas lesões nodulares com realce após contraste em tronco, tálamo bilateral e subcorticais. Toxoplasmose cerebral em paciente de 35 anos com SIDA, cujo diagnóstico foi realizado por ocasião do quadro de coma que persistiu por 10 com melhora progressiva após tratamento específico. Imagem 6 – Tomografia de crânio: hipodensidade em toda região cerebelar, tronco encefálico, tálamos e região occipital bilateral. Morte encefálica em paciente de 52 anos com quadro de trombose da artéria basilar e subsequente isquemia do tronco encefálico, cerebelo e lobo occipital bilateral. Imagem 7 – Tomografia de crânio: múltiplas calcificações e cistos viáveis e dilatação ventricular. Neurocisticercose e hidrocefalia. Figura 2 – Causas axiais e extra-axiais de herniação cerebral. Herniação cerebral LESÕES EXTRA-‐AXIAIS Hematoma subdural Hematoma epidural Trombose de seio cerebral Pneumoencéfalo LESÕES AXIAIS FOCAIS • Tumores cerebrais • Acidente vascular cerebral isquêmico • Hemorragia intracerebral • Abscesso cerebral • Hidrocefalia LESÕES AXIAIS DIFUSAS • Hemorragia subaracnoidea • Menigites • Encefalites • Distúrbios neuroinflamatórios • EncefalopaZas metabólicas • EncefalopaZa tóxica 4.2.3 COMA SECUNDÁRIO A PROCESSOS SISTÊMICOS, METABÓLICOS OU TÓXICOS Inúmeras situações de falência de órgãos provocam encefalopatias agudas (renal, hepática, pulmonar, cardiovascular e adrenal) e subsequentemente, coma. Distúrbios hidroeletrolíticos relacionados ao metabolismo do sódio, potássio, cálcio, magnésio e fósforo, bem como do metabolismo da glicose, da tireoide e erros inatos do metabolismo são causa frequente de distúrbio da consciência e coma. A maioria destas alterações, a depender da sua gravidade, causam coma reversível por disfunção temporária do SRAA, comprometendo a sua função polissináptica de ativar o sistema corticotalâmico (Posner & Plum, 2007). → Falência do metabolismo energético cerebral O suprimento energético do cérebro deriva do metabolismo oxidativo da glicose. O cérebro consome 60 mg de glicose e 45 ml de O2 por minuto, o que representa uma taxa de 25% e 20% da utilização global destes substratos. A falência pode ocorrer por redução do fluxo sanguíneo cerebral e consequente redução de O2 (hipóxia) e por hipoglicemia (Auer, 2004). → Hipoglicemia A hipoglicemia é uma causa grave e frequente de coma metabólico. A principal situação relacionada é o uso excessivo, ouirregular, de insulina e hipoglicemiantes orais para o tratamento do diabetes mellitus (Posner & Plum, 2007). Durante muito tempo acreditou-se que a hipoglicemia levava a morte neuronal por privação de energia. Agora sabemos que a hipoglicemia provoca lesão neuronal de forma mais ativa. A morte neuronal inicia-se quando os níveis glicêmicos atingem 18 mg/dl por algum período. Neste momento, a falha abrupta do suprimento energético desencadeia a liberação maciça de aspartato no espaço extracelular e fluxo intenso de aminoácidos excitatórios sobre os receptores dos dendritos neuronais (Auer, 2004). Em decorrência disso, ocorre influxo de cálcio na célula e lise celular, levando à necrose neuronal rapidamente. Outras alterações neuroquímicas incluem a depleção de energia para um nível de 25% do normal, alcalose tecidual e tendência de inversão dos sistemas redox celulares em direção à oxidação. A hipoglicemia difere da hipóxia na sua distribuição neuropatológica, na qual a necrose do giro denteado do hipocampo ocorre precocemente e há necrose especialmente nas camadas superficiais do córtex. Na hipoglicemia, o tronco encefálico e o cerebelo são habitualmente poupados. Do ponto de vista clinico, o quadro de encefalopatia metabólica aguda causado por hipoglicemia geralmente se apresenta numa das quatro formas: (1) quadro de delírio manifestado principalmente por alterações mentais e sonolência ou quadro de agitação psicomotora mais grave; (2) coma acompanhado por sinais de disfunção multifocais do tronco cerebral, incluindo hiperventilação neurogênica e descerebração. Nesta situação, as pupilas, respostas oculocefálicas e oculovestibulares estão geralmente preservadas, o que pode sugerir que a causa subjacente seja um distúrbio metabólico. Pode ocorre atividade muscular intensa, com espasmos e tremores, e hipotermia (33 a 35oC); (3) como um quadro de acidente vascular cerebral (stroke mimics), com apresentação de sinais neurológicos focais, com ou sem acompanhamento do estado de coma (Posner & Plum, 2007). → Hiperglicemia e distúrbios da osmolaridade A encefalopatia diabética pode ser causada, em parte, por efeitos tóxicos da hiperglicemia no cérebro que incluem o aumento do nível sérico de poliois, acúmulo de sorbitol, mioinositol, aumento do estresse oxidativo e alteração da homeostase do cálcio. A hiperglicemia também tem efeitos agudos sobre o cérebro, como no estado hiperosmolar hiperglicêmico não-cetótico. Esta é uma causa relativamente comum de estupor e coma, especialmente em idosos diabéticos não dependentes de insulina. A condição ocorre principalmente em doentes com insuficiência renal leve. A apresentação clínica consiste de sinais de desidratação acompanhada por quadro de confusão letárgica, progredindo para torpor profundo ou coma. Crises convulsivas generalizadas, focais, ou parcial contínua ocorrem em cerca de 20% dos casos. Déficit motor pode ocorrer em 25% dos pacientes. Os exames laboratoriais revelam hiperglicemia grave combinada com leve a moderada acidose lática, bem como alteração da função renal (Posner & Plum, 2007). A osmolaridade sérica oscila entre 280 e 290mOsm/Kg. A disfunção cerebral ocorre habitualmente em situações de desvios súbitos da osmolaridade, quando abaixo de 260 mOsm (hiposmolaridade) ou acima de 325 mOsm (hiperosmolaridade). Diversas situações clínicas evoluem com distúrbio da osmolaridade, resultando em edema celular e cerebral. O edema cerebral é citotóxico nesta situação e afeta tanto a substância branca como a cinzenta. O sódio é o cátion mais abundante no soro, e, para efeitos práticos, a hiposmolaridade sistêmica ocorre apenas em estados hiponatrêmicos. Assim, a queda da osmolaridade ocorre na secreção inapropriada de hormônio antidiurético e na reposição volêmica inadequada. O aumento da osmolaridade ocorre na desidratação, uremia, hiperglicemia, cetoacidose diabética, abuso de álcool e na síndrome de desequilíbrio pós-diálise (Posner & Plum, 2007). → Distúrbio hidroeletrolítico Os distúrbios dos eletrólitos são causa frequente de encefalopatia que pode culminar com o estado de coma. A rigor, a alteração de qualquer eletrólito pode ocasionar uma síndrome neurológica, que pode ir do quadro confusional ao estado de coma, associado a distúrbios do movimento, crises convulsivas e até mesmo déficits localizados. A hiponatremia, por exemplo, é distúrbio frequente nos pacientes críticos e o seu prognóstico depende: da velocidade da sua instalação, da magnitude da queda do nível sérico e da sua causa. A patogênese dos sintomas causados pela hiponatremia é provavelmente multifactorial. A entrada de água, tanto nos neurônios como nas células gliais, provoca edema cerebral e, assim, aumento da pressão intracraniana. Herniação do cérebro é provavelmente o evento que provoca a morte. As células do sistema nervoso compensam a hiponatremia crônica através da secreção de sais para evitar a retenção de água. Se sobre este substrato, o sódio sérico sobe rapidamente, as células cerebrais edemaciam e pode ocorrer desmielinização osmótica, ou mielinólise pontina central – Imagem 8 (Young, 2009). Imagem 8 - RNM de crânio: área de hipersinal em T2 e hipossinal em T1 em toda extensão da ponte. Mielinólise pontina central em paciente de 45 anos, etilista crônico, após correção de hiponatremia. → Hipóxia – Isquemia É importante reconhecer que hipóxia e isquemia são, clinica e patologicamente falando, padrões distintos de lesão cerebral, embora eles geralmente coexistam. A hipóxia refere-se a uma redução da oferta ou da utilização de oxigênio, que se desenvolve como consequência direta do suprimento reduzido de oxigênio, redução oxigênio ambiental, baixo nível de hemoglobina ou a da utilização nos tecidos, prejudicada após o envenenamento e disfunção da enzima citocromo mitocondrial. A isquemia descreve uma redução no fornecimento de sangue levando à diminuição da oferta de oxigênio. Há pouca ou nenhuma remoção de metabólitos celulares nocivos que se acumulam (por exemplo, lactato, hidrogênio e glutamato), provocando lesão cerebral grave. A extensão do dano cerebral é fortemente dependente da duração da interrupção do fluxo cerebral. Neurônios são vulneráveis à lesão isquêmica, e danos permanentes acontecem depois de apenas 2 minutos de prejuízo na perfusão cerebral. Certas estruturas cerebrais são mais suscetíveis à isquemia, incluindo as regiões CA1 e CA4 do hipocampo; as células piramidais das camadas 3, 5 e 6 do neocórtex; a amígdala; o vermis cerebelar; porções do núcleo caudado; e alguns núcleos do tronco cerebral. Os núcleos reticular, ventroposterior, geniculado medial e intralaminares do tálamo são particularmente sensíveis a ischemia.137,138 Portanto, vários estruturas importantes do SRAA são muito suscetíveis à isquemia (McClenathan et al., 2013). Assim considerando, é extremamente importante a minimização do tempo de parada cardíaca (ausência de fluxo) e do tempo de ressuscitação cardiorrespiratória (baixo fluxo). Com a retomada da circulação, ocorre um período transitório de hiperemia seguido de vasoespasmo e hipoperfusão global. A reserva de oxigênio e a consciência desaparecem após 20 segundos de parada enquanto que as reservas de glicose e adenosina-trifosfato duram cerca de 5 minutos. A seguir, uma complexa cascata química é desencadeada em resposta a ausência de oxigênio em quantidade suficiente para o metabolismo cerebral, o que leva à morte neuronal e ao estado de coma (Posner & Plum, 2007). Fatores vasculares e neuronais desempenham papeis distintos nas lesões cerebrais provocadas pela isquemia global em circunstâncias clínicas. Alterações do endotélio vascular durante o curso de isquemia, bem como alterações nas célulasgliais podem levar à má perfusão cerebral, uma vez a função cardíaca tenha sido restaurada. A chance deste fenômeno acontecer aumenta com a duração da isquemia. A perda da auto regulação vasomotora cerebral pode agravar o edema cerebral, provocar micro hemorragias e causar danos neuronais adicionais, como a necrose neuronal. Embora os mecanismos exatos não sejam conhecidos, é provável que, durante a isquemia, a perda de fosfatos de alta capacidade energética desencadeie a despolarização celular, o que induz a liberação de glutamato, que por sua vez provoca a entrada de substâncias, em níveis tóxicos (cálcio), nos neurônios, com ação nitidamente citotóxica. O influxo de cálcio do espaço extracelular e a liberação de lojas de cálcio intracelular resulta na elevação da concentração intracelular de cálcio, comprometendo a função mitocondrial. A partir deste ponto, os radicais livres de oxigênio e de óxido nítrico são produzidos, e vias enzimáticas intracelulares são ativadas, incluindo as proteinoquinases B e C e as fosfolipases A, A2 e C. O glutamato em excesso bloqueia a ativação de processos neuroprotetores seguindo a isquemia, incluindo o bloqueio da sinalização de fatores de crescimento neuronal (McClenathan et al., 2013). A parada cardíaca pode causar a morte neuronal em áreas vulneráveis, particularmente aquelas com maior número de astrócitos e micróglia ativados pela isquemia, ou provocar micro infartos por necrose associada com a espongiose celular no tecido perivascular (Liu & Mcclough, 2013). As lesões aparecem com uma distribuição laminar e são mais profundas em zonas entre os principais territórios de suprimento arterial (boderzone – território de fronteira). Ambos os tipos de lesões são mais intensas e heterogêneas depois de um período de prolongada do coma. Áreas particularmente vulneráveis incluem o córtex occipital córtex, o córtex frontoparietal, o hipocampo, os gânglios basais, o tálamo, e as células de Purkinje do cerebelo. A necrose laminar cortical envolve geralmente as camadas III e V, que contêm os maiores números de células piramidais grandes (Plum & Posner, 2007). → Sepse A sepse e a disfunção de múltiplos órgãos são causas frequentes de admissão numa unidade de terapia intensiva, sendo líderes entre as causas de morte. Durante a sepse, o SNC é um dos primeiros órgãos a ser afetado, constituindo-se clinicamente como encefalopatia associada a sepse. A encefalopatia associada ao quadro séptico é uma situação clínica ainda pouco compreendida, ocorre nos casos graves e tem influência negativa na sobrevida dos pacientes. Presente em 8-70% dos pacientes sépticos, é a principal causa de encefalopatia metabólica em doentes críticos. A grande margem de diferença nas frequências relatadas tem a ver com os critérios clínicos diagnósticos utilizados (Vincent et al., 2013). Embora a infecção bacteriana seja uma das causas mais frequentes de sepse, a grande maioria dos estudos não encontrou bactérias presentes no sistema nervoso, o que indica que a causa da encefalopatia não resulta da infecção direta do cérebro por microrganismos, devendo possuir base fisiopatológica diferente. Disfunção dos aminoácidos, interrupção da barreira hematencefálica, hipotensão persistente, alteração de neurotransmissores, efeitos dos mediadores da inflamação e distúrbios da microcirculação cerebral estão entre as possíveis causas da encefalopatia séptica. Assim, o processo inflamatório altera a estrutura e a função da barreira hematencefálica, aumenta a permeabilidade microvascular, prejudica o fluxo sanguíneo capilar, e produz inflamação no cérebro. Além disso, durante a sepse, as alterações no sistema de coagulação, associadas com a ativação endoltelial, resultam em prejuízo da microcirculação, com formação de microtrombos e microinfartos sistêmicos e cerebrais (Ziaja, 2013). Citocinas produzidas durante o quadro de sepse ativam sinais aferentes para o cérebro. Acredita-se que as citocinas pró-inflamatórias, em particular as interleucinas-1β e 6, e o fator de necrose tumoral alfa (TNF-α), gerados na periferia, atravessam a barreira hematencefálica e iniciam a síntese de citocinas localmente. A medida que a reação inflamatória generalizada progride, o óxido nítrico, citocinas e prostaglandinas modulam a neurotransmissão cerebral nos seguintes sistemas: β-adrenérgico, γ-aminobutirico (GABA), colinérgico muscarínico central, monoaminérgico e glutamatérgico. Além de regular a liberação de corticotropina, a síntese de vasopressina e de fatores neurotróficos (Ziaja, 2013). Existe ainda possível associação entre a produção de ácido quinolínico (metabolismo do triptofano) nos macrófagos ativados e o desencadeamento da encefalopatia. O ácido quinolínico pode agir como neurotransmissor excitatório (falso neurotransmissor) no receptor N-metil- aspartato (NMDA). A ativação destes receptores está envolvida na liberação de neurotransmissores excitatórios (glutamato), na liberação de cálcio e na ativação da cadeia da sintetase do óxido nítrico, todos envolvidos no processo de morte neuronal por apoptose (Basle et al., 2002). As alterações no comportamento: anorexia, letargia, depressão, estupor e coma estão associadas com a resposta destes sistemas neuronais à presença das citocinas no SNC (Reinchberg et al., 2001 – Dal-Pizzol et al., 2014). As principais características clínicas da encefalopatia séptica são: distúrbio da consciência (da sonolência ao estado de coma), função cognitiva prejudicada, alterações de personalidade, falta de concentração, e os sintomas depressivos. O agravamento do quadro pode levar ao estupor e coma. Os primeiros sintomas geralmente aparecem na fase inicial da sepse, muitas vezes antes de outros distúrbios de órgãos sejam diagnosticados. Às vezes, mioclonias ou asterixis podem ser observados, bem como convulsões focais ou generalizadas, embora com menor frequência do que em outras encefalopatias (Weathers & Lewis, 2009). O estupor e coma estão associados a vários resultados adversos, incluindo o aumento da morbidade, da mortalidade, e com a hospitalização prolongada. Quanto mais tempo durar a encefalopatia séptica, maior será a probabilidade de distúrbios comportamentais persistentes (Ziaja, 2013). → Intoxicação exógena O estado de coma provocado por drogas pode ocorrer no nível da recreação, de forma acidental, intencional ou nas abordagens terapêuticas. O nível de absorção das drogas se correlaciona melhor com o nível de consciência do que com o nível sérico. Diversas drogas estão associadas com a produção de coma, sendo as mais frequentes: o álcool, as drogas narcóticas, hipnóticas e sedativas, os antidepressivos, o lítio, etc. A história clínica exaustivamente voltada para o uso ou abuso de drogas, lícitas ou ilícitas, é de fundamental importância no diagnóstico diferencial das causas de coma não esclarecidas. Baseado na história clínica, nos antecedentes pessoais e no contexto no qual se instalou o quadro de coma, e tendo em mente achados de exame clínico característicos de síndromes tóxicas mais frequentes, é possível antecipar o diagnóstico e buscar comprovação no suporte laboratorial (toxicológico). A tabela 4 ilustra as principais síndromes tóxicas associadas com as drogas mais frequentemente utilizadas e substâncias tóxicas de acesso mais fácil. O conhecimento destes achados clínicos podem ser de ajuda considerável na suspeita diagnóstica e na busca por confirmação diagnóstica, além de permitir acelerar implementação de estratégia terapêutica (Young, 2009). Tabela 4 – Síndromes clínicas associadas com uso ou abuso de drogas e substâncias tóxicas. Adaptado de Young, GB. Coma. Ann N Y Acad Sci 2009. SÍNDROME CLINICA DROGAS RELACIONADAS SINAIS E SINTOMAS FREQUENTES SIMPATICOMIMÉTICACocaína Anfetamina Ácido lisérgico Efedrina e pseudoefedrina Taquicardia - Hipertensão arterial Pupilas dilatadas e foto-reagentes Sudorese Agitação psicomotora - Alucinações Convulsões SIMPATICOLÍTICA Opióides Agonistas alfa2-adrenérgicos Sedativos Etanol Bradicardia - Hipotensão arterial Depressão respiratória Pupilas pequenas e reativas Hipotermia COLINÉRGICA Organofosforados Inseticidas carbamatos Pupilas pequenas Sudorese Salivação - Diarreia Convulsões Depressão respiratória ANTICOLINÉRGICA Anti-histamínicos de primeira geração Antidepressivos tricíclicos Benzatropina Pupilas dilatas sem reação à luz Taquicardia Retenção urinária Febre → Hipertermia e hipotermia A hipotermia é definida quando a temperatura corporal se encontra abaixo de 35o Celsius, mas como causa de coma, considera-se a hipotermia como a temperatura corporal abaixo de 28oC. O estado de coma é precedido por delírio e estupor de forma dependente da temperatura corporal. Com a temperatura corporal abaixo de 28oC, as pupilas se tornam mióticas e sem reação à luz e há risco elevado de fibrilação ventricular e parada cardíaca (Young, 2009). A hipotermia pode ser acidental, primária (distúrbio hipotalâmico) ou secundária a perda de função autonômica, como nas lesões medulares cervicais, no hipotireoidismo, na insuficiência adrenal, na encefalopatia de Wernicke, na sepse avançada e na intoxicação por drogas sedativas. Nestas últimas condições clinicas, a causa do coma também está relacionada ao quadro primário. O mecanismo do coma em situações de hipotermia extrema está possivelmente associada à falência na transmissão sináptica cerebral e às alterações de fluxo cerebral. Estudos neurofisiológicos (eletroencefalografia) evidenciam alentecimento da atividade elétrica cerebral a partir de 30o C corporal, padrão surto-supressão quando a temperatura se aproxima dos 22o C e ausência de atividade (isoelétrico) elétrica cerebral a 20o C. O fluxo sanguíneo cerebral cai progressivamente com a temperatura (6% para cada queda de 1o C na temperatura corporal) e o cérebro perde a autoregulação vascular quando a temperatura está abaixo de 25o C (Al Thenayan et al., 2007). A hipertermia é definida quando a temperatura corporal está acima de 38,5oC. Temperaturas acima de 42 graus produz quadro de encefalopatia caraterizado por agitação psicomotora, delírio, convulsões, estupor e coma. A fisiopatologia da encefalopatia provocada pela hipertermia inclui o aumento do glutamato extracelular e comprometimento da função da bomba de sódio e potássio na membrana neuronal e nas células da glia. A hipertermia decorre devido disfunção na geração de calor, como resultado da reduzida dissipação do calor corporal ou nos distúrbios hipotalâmicos. Entre as causas de maior produção de calor, encontramos: hipertermia maligna, tireotoxicose, síndrome neuroléptica maligna, abuso de cocaína e anfetamina, intoxicação por salicilatos e estado de mal convulsivo (Status epilepticus). O comprometimento da dissipação do calor corporal pode ser provocado por insolação, disfunção autonômica, uso e abuso de drogas anticolinérgicas e meio ambiente quente. A falta de regulação térmica de origem central (hipotalâmica) pode ocorrer nos casos de acidente vascular (principalmente os hemorrágicos), trauma cranioencefálico grave e nas encefalites (Young, 2009. 5. EXAME NEUROLÓGICO DO PACIENTE EM COMA O exame neurológico do paciente em coma deve ser realizado tão logo o médico se certifique de que os sinais vitais e a bioquímica sanguínea são adequados para garantir a função cerebral. É essencial garantir que a pressão sanguínea, respiração e saturação de oxigênio estejam sob controle, assim como detectar possível hipoglicemia e deficiência de tiamina, antes de proceder o exame neurológico. O exame neurológico no paciente em estado de coma é de fundamental importância para a determinação da investigação diagnóstica a ser iniciada e não deve ser limitado a mera utilização da Escala de Coma de Glasgow (ECG). Apesar de útil para detectar mudanças no exame neurológico na evolução ao longo do tempo de pacientes com distúrbio da consciência de origem traumática, a ESC é de valor limitado em pacientes com alteração neurológica focal e na avaliação do tronco encefálico. Para resolver as deficiências da ECG, foi desenvolvido um escore de coma (FOUR – Full Outline of Unresponsiveness score). Este escore de coma inclui a pontuação em quatro componentes do exame neurológico: motricidade ocular, exame motor, sinais de tronco encefálico e função respiratória. Cada item é graduado numa escala de 0 a 4, com pontuação total máxima combinada de 16 (Marion & Carlier, 1994 – Wijdicks et al., 2005) – Tabela 15. O escore apresenta confiabilidade entre examinadores igual ou maior do que a ECG e tem validação em múltiplas populações de pacientes. A pontuação FOUR provou ser um importante ferramenta na avaliação do paciente comatoso. Devido à sua maior ênfase nos reflexos do tronco cerebral e padrões respiratórios, o escore FOUR demonstrou ter maior valor preditivo em termos de eventual progressão em direção ao agravamento do coma, especialmente em pacientes com baixa pontuação na ECG (Wijdicks et al., 2011). Recentemente foi realizada revisão baseada em evidências sobre escalas apropriadas para detectar sutis, mas fundamentais, sinais de consciência. A revisão da força tarefa (American Congress of Rehabilitation Medicine) identificou seis escalas com sensibilidade para detectar mudanças no nível de consciência dos pacientes (Seel et al., 2010). Das escalas avaliadas, a escala The Coma Recovery Scale – revised (CRS-R) recebeu a recomendação mais forte, baseado nas suas qualidades psicométricas, apesar de ainda não ter seu valor prognóstico validado (Giacino et al., 2004). A seguir, descreveremos exame neurológico, básico e adequado à situação do paciente em coma, com o objetivo de facilitar o diagnóstico inicial do coma e auxiliar no diagnóstico etiológico, precedendo a realização dos exames laboratoriais. 5. 1 ESTADO MENTAL Antes de proceder qualquer estímulo doloroso, recomenda-se a observação passiva do paciente e a utilização inicial de estímulos sonoros para detectar o grau de vigília do paciente. → Quando necessário utilizar estímulo doloroso, este deve ser o mínimo necessário para obtenção de resposta. → A avaliação do conteúdo de consciência envolve a observação das respostas obtidas a vários estímulos externos e internos. → O paciente que parece estar acordado, mas que falha em atender a estes estímulos revela ausência de conteúdo de consciência. DESPERTAR - Reatividade a estímulos sonoros: observar reação de orientação e de alerta, e dolorosos: observar mímica, reação de alerta, reatividade motora e vegetativa (ritmo cardíaco, vasomotricidade e pupilas). CONTEÚDO DA CONSCIÊNCIA - Reatividade verbal receptiva e expressiva aos estímulos externos e internos. 5.2 RESPIRAÇÃO Diversos padrões de respiração têm valor na localização de lesão neurológica nos pacientes com alteração do nível de consciência. Estes padrões podem ser facilmente observados a beira do leito, mas devem ser interpretados à luz dos resultados da gasometria arterial do paciente. → A hiperventilação deve ser interpretada diferentemente em pacientes sob hipóxia ou não. O tronco cerebral está primariamente envolvido na manutenção do pH e da PaO2, e não da PaCO2. Assim, a tentativa de compensação de uma acidose metabólica produz um padrão respiratório de hiperventilação central, mas a gasometria evidencia um pH abaixo de 7.35, indicativo de distúrbio metabólico. → É fundamental considerar que nenhum padrão anormal respiratório, observado noestado de coma, garante ventilação pulmonar adequada. As características dos padrões respiratórios passíveis de serem observados no estado de coma e as correlações anatômicas estão resumidas na tabela 5. Tabela 5 – Padrão respiratório observado em situação de estado de coma. PADRÃO RESPIRATÓRIO DESCRIÇÃO LOCALIZAÇÃO COMENTÁRIOS Apneia após hiperventilação Apneia por mais de 10 segundos após 5 respirações profundas Disfunção hemisférica bilateral Outra respiração ocorrerá após 10 segundos independentemente da PaCO2 Respiração de Cheyne-Stokes Períodos regulares de hiperventilação e apneia. A hiperventilação tem ritmo crescente até um ponto máximo, a partir do qual torna-se decrescente até atingir a apneia. Disfunção hemisférica bilateral Lesão bilateral dos gânglios da base A fase de hiperventilação é de maior duração Pode ocorrer em vigência de Insuficiência cardíaca congestiva e distúrbios metabólicos Hiperpnéia central reflexa (HCR) Ritmo respiratório rápido, contínuo, regular e profundo. Requer PaO2 > 70-80 mmHg nas últimas 24 horas. Disfunção hemisférica bilateral Porção inferior do mesencéfalo 1/3 médio da ponte A HCR pura é rara. Em coma por hemorragia subaracnóidea, ou lesão de tronco encefálico, está associada à hipóxia por edema agudo pulmonar neurogênico. No estado de coma, considerada como fator de mau prognóstico. Respiração apnêustica Fase inspiratória prolongada e seguida de apneia. Ponte Respiração em Salvas - Cluster Um grupo de inspiração e expiração seguido por apneia Porção inferior da Ponte Atáxica Ritmo respiratório irregular com alternância da respiração profunda e da superficial, entremeadas por apneia. Ponte inferior Bulbo Respiração agônica, precede a parada respiratória. Apneia Ausência de respiração Bulbo Medula cervical até C4 Obrigatória para definição de morte encefálica 5.3 PUPILAS O exame das pupilas é passo imprescindível no exame neurológico do paciente em coma e tem especial importância na localização da disfunção neurológica. → Deve-se verificar o tamanho, a reatividade à luz e sua simetria. → A reação pupilar à luz depende da interação entre o arco reflexo parassimpático, que se inicia na retina e nervo óptico, e a via simpática. A interação ocorre nos núcleos pretectais de Edinger- Westphal no mesencéfalo. Estes núcleos são parassimpáticos e quando estimulados provocam miose (constrição) pupilar. → A via simpática se inicia no hipotálamo, descende através do tronco encefálico e medula até o primeiro nível torácico e então deixa o sistema nervoso central para atingir a face e a pupila, onde tem efeito dilatador. O equilíbrio entre os dois sistemas permite que a pupila tenha diâmetro normal. As alterações pupilares observadas no estado de coma e suas correlações anatômicas estão resumidas na tabela 5. • Reflexo fotomotor direto: obtido através do estímulo com feixe de luz em cada olho separadamente. A resposta normal esperada é a contração da pupila (miose), sendo anormal a ausência de reação pupilar. Se o reflexo consensual for normal trata-se de lesão do nervo oculomotor. Se a pupila contralateral não reagir é provável a lesão do nervo óptico. • Reflexo fotomotor consensual: durante a realização do reflexo fotomotor observa-se a reação pupilar contralateral, a resposta esperada é a miose. 5.4 MOTRICIDADE OCULAR Em vigência de coma, o exame da motricidade ocular é fundamental e se inicia com a observação passiva de padrões anormais da movimentação ocular, tais como: desvio do olhar conjugado, estrabismo, movimentação errática, nistagmo e Bobbing ocular. OBS - As manobras para avaliação dos reflexos oculocefálicos não devem ser realizadas na suspeita de instabilidade da coluna cervical. Exame da motricidade ocular – Observação passiva A. Desvio conjugado do olhar – Horizontal → Lesão destrutiva no lobo frontal (área 8 de Brodmann): provoca desvio do olhar conjugado para o lado da lesão, ou contralateral ao hemicorpo afetado. → Lesão irritativa ou epiléptica do lobo frontal: desvio do olhar conjugado para o lado oposto da lesão. → Lesão do tronco encefálico: desvio do olhar conjugado ipsilateral ao hemicorpo afetado. B. Desvio conjugado do olhar – Vertical → Desvio olhar conjugado para cima: lesão na junção mesencéfalo-diencefálica → Desvio olhar conjugado para baixo do plano horizontal: lesão do tronco cerebral → Desvio oblíquo do olhar (um dos olhos se desvia para cima e o outro para baixo): lesão do fascículo longitudinal medial do lado do olho que se eleva C. Bobbing ocular → Refere-se ao movimento dos olhos rápido, intermitente, bilateral, frequentemente conjugado e para baixo, com retorno lento para a posição mediana. As provas calóricas podem acentuar o fenômeno. Está associado às lesões pontinas (hemorragias, infartos ou mielinólise pontina), e às lesões da fossa posterior com compressão do tronco. Também pode se apresentar nas encefalopatias metabólicas. D. Movimento conjugado alternante (olhar em Ping-Pong) → Consiste na movimentação dos olhos de um extremo horizontal para o outro e de volta ao início, cada ciclo durando de 2 a 5 segundos. Usualmente associado a lesões bilaterais corticais com tronco encefálico íntegro. Exame da motricidade ocular – Manobras A. Reflexo córneo-palpebral → Testa-se tocando levemente a córnea com gaze estéril e observa-se o piscamento dos olhos. O teste avalia a integridade da via aferente (nervo trigêmeo) e a via eferente (nervo facial). B. Oculocefálico → Consiste na lateralização da cabeça no plano horizontal, da direita para a esquerda, observando-se o movimento conjugado dos olhos. Em situação de normalidade, a movimentação dos olhos é contrária à da cabeça. Com a extensão e flexão da cabeça o movimento conjugado normal esperado é também contrário ao movimento da cabeça. C. Teste óculo-vestibular – Provas calóricas → Testa-se a resposta ocular à estimulação labiríntica através da irrigação de água fria sobre a membrana timpânica. É mandatória a exclusão de lesão da membrana timpânica e a remoção do cerume local. – Com cabeça a 30º., suspendem-se as pálpebras e procede-se a irrigação de 50 ml de água fria no ouvido. Esperar 5 minutos entre as provas. → Resposta normal: Desvio tônico do olhar (fase lenta) na direção do ouvido estimulado e logo após aparece o nistagmo (fase rápida) contralateral. A fase lenta é mediada pela via vestibular que se origina nos núcleos vestibulares do bulbo até os núcleos oculomotores no mesencéfalo. A fase rápida é produzida pelo lobo frontal contralateral. → Resposta anormal: Ausência da fase lenta (unilateral ou bilateral): lesão parcial ou bilateral do tronco encefálico. Ausência da fase rápida com fase lenta presente: lesão frontal bilateral Observação: Atentar para as condições clínicas e medicamentos que podem potencialmente bloquear as respostas oculovestibulares (tabela 6). Tabela 6 – Medicamentos e condições clínicas que podem bloquear as respostas nos testes oculovestibular. CLASSE DE MEDICAMENTO DROGA Ototóxicas Antibióticos Ação supressora sobre sistema vestibular Barbitúricos Fenitoína Antidepressivos tricíclicos Bloqueadores neuromusculares Succinilcolina CONDIÇÃO CLÍNICA Doença vestibular preexistente 5.4 EXAME MOTOR O exame motor do paciente em coma é realizado inicialmente com a observação de posturas anormais espontâneas como a descerebração, decorticação, opistótono e da presença de movimentos involuntários como mioclonias espontâneas ou reflexas. A seguir procede-se estimulação nociceptiva comobjetivo de determinar o padrão de resposta motora, caso esta não seja espontaneamente observada. O padrão de resposta motora tem poder de localização neurológica, mas não implica que os centros de controle centrais tenham sido destruídos, outrossim, que não estão funcionando adequadamente. A tabela 7 resume as principais localizações de lesões associado com o estado de coma e as alterações neurológicas que podem ser observadas ao exame neurológico cuidadoso. → Rigidez de descerebração: Extensão, abdução e rotação interna dos braços e extensão das pernas. Ocorre por lesão do tronco encefálico entre núcleo rubro e núcleos vestibulares. → Rigidez de decorticação: Flexão e abdução dos braços e extensão das pernas. Ocorre por lesão acima do mesencéfalo, em regiões subcorticais profundas. 6. EXAMES COMPLEMENTARES 6.1 EXAMES LABORATORIAIS A avaliação laboratorial desempenha um papel proeminente na avaliação de um paciente com distúrbio da consciência, e frequentemente pode conduzir a um diagnóstico relativamente rápido de qualquer anormalidade metabólica aguda como causa do coma. Como parte da abordagem inicial de qualquer paciente em coma, os seguintes exames laboratoriais são essenciais: hematócrito, hemograma completo com diferencial, contagem de plaquetas e periférica esfregaço de sangue; painel de eletrólitos completo, incluindo cálcio, Tabela 7 – Achados clínicos do exame neurológico nas diversas localizações de lesões no sistema nervoso central. LOCAL DA LESÃO RESPOSTA AO ESTÍMULO NOCICEPTIVO PUPILAS MOVIMENTAÇÃO OCULAR RESPIRAÇÃO CORTICAL BILATERAL Retirada do estímulo Pequenas e reativas Movimento conjugado horizontal alternante (Ping-Pong) Apneia após hiperventilação Respiração de Cheyne-Stokes TÁLAMO Postura de decorticação Pequenas e reativas, exceto se houver lesão do trato óptico Mesmo acima Mesma acima MESENCÉFALO Decorticação ou Descerebração Tamanho médio e sem reação à luz Midríase unilateral em lesões unilateral ou compressão Perda da capacidade de adução dos olhos; os olhos podem se desviar lateralmente devido lesão do III nervo. Apneia após hiperventilação Tendência à hiperpnéia central reflexa PONTE Descerebração Pequenas ou punctiformes bilateralmente por interrupção do sistema simpático descendente. Síndrome de Horner em lesões unilaterais Perda da movimentação ocular conjugada horizontal mantendo a vertical normal Bobbing ocular Hiperpnéia central reflexa Respiração em salvas (cluster) Respiração apnêustica BULBO Flexão de perna ou sem reação Pequenas ou Síndrome de Horner em lesões unilaterais Habitualmente nenhum efeito sobre a movimentação ocular Raramente pode ocorrer nistagmo Atáxica Apneia magnésio e fósforo, para além do convencional sódio e potássio; creatinina e ureia; testes de função hepática, bilirrubinas e amônia; osmolaridade sérica e urinária; gasometria arterial; testes de função da tireoide e urinalise. Mais testes devem ser guiados pela a história clínica, exame físico e de imagem. Por exemplo, dosagens séricas e urinárias de drogas devem ser obtidas se houver suspeita de qualquer toxicidade. No paciente febril ou com contagem de glóbulos brancos elevada, as hemoculturas culturas são uma necessidade. As troponinas devem ser obtidas se existir qualquer suspeita de uma patologia cardíaca aguda. É importante calcular o gradiente iônico (gap iônico = [Na+] - [Cl-] - [HCO3-]) e osmolar (Osmolaridade = 2 X Na+ + [glicose] / 18 + [uréia] /2.8), pois estes podem ajudar no diagnóstico de uma intoxicação aguda. O gap iônico normal é entre 11 e 13 mEq / L e aumenta na presença ânions não mesuráveis, tais como na intoxicação por metanol, etanol, paraldeído e salicilato. A diferença maior do que 10 mosmol/l entre a osmolaridade calculada e osmolaridade medida pode indicar intoxicação com álcoois atípicos como o metanol, o etileno glicol e glicol isopropílico. Embora mais invasivo, uma punção lombar deve ser realizada em todos os pacientes em coma que apresentam sinais ou sintomas de infecção ou irritação meníngea. Ou ainda, quando a varredura com imagem é normal e não existe nenhuma explicação para a diminuição da responsividade do paciente. Os testes que devem ser incluídos na avaliação do líquido cefalorraquidiano (LCR) incluem a pressão de abertura, a descrição visual, teor de proteína e glicose, avaliação da celularidade, incluindo glóbulos brancos e eritrócitos, cultura bacteriana, tinta da China e do antígeno criptocócico, os títulos virais e reações em cadeia de polimerase. Obrigatoriamente deve ser realizado somente após exame de imagem, com o objetivo de afastar causas estruturais que possam promover herniação cerebral por ocasião da coleta do exame. Na suspeita forte de hemorragia subaracnóidea, só deve ser realizado se a tomografia falhar em mostrar sangramento subaracnóideo. 6.1 NEUROIMAGEM Se por um lado, o exame neurológico permanece como o padrão-ouro para o diagnóstico do paciente em coma, por outro lado, o estudo laboratorial com neuroimagem permite a documentação objetiva do dano cerebral ocorrido, causador do coma. Do ponto de vista clínico, os exames de imagem trazem informações adicionais sobre a etiologia, o prognóstico e guiam as decisões terapêuticas. Os estudos de neuroimagem devem ser selecionados com base na história clínica e exame neurológico inicial do paciente. Se há suspeita de lesão estrutural, a tomografia de crânio (TC) na urgência deve ser obtida para guiar o tratamento. No caso de lesões difusas, especialmente no coma seguindo-se parada cardíaca ou respiratória, o exame de imagem na urgência não beneficiará o paciente. A ressonância nuclear magnética (RNM), apesar de ser método de escolha para visualizar causa e extensão do dano cerebral, deve ser utilizada após estabilização clínica do paciente, ou mais precocemente, se não esclarecidas as causas através da tomografia de crânio. 6.1.1 Neuroimagem estrutural – a RNM na sequências habituais (T1 – T2 – FLAIR – Difusão – T2*) é método de escolha para definição do diagnóstico e da extensão da lesão causadora do coma (Di Perri et al., 2014). A Tomografia ganha como primeiro método, no entanto, por ser um exame de maior disponibilidade nos centros de emergência médica, pela maior rapidez na execução do exame e devido sua maior sensibilidade para os casos de sangramento do SNC (Giacino et al, 2014). A RNM permite, além da maior acurácia no diagnóstico etiológico do coma, predizer a evolução dos distúrbios da consciência. Estudos mais antigos evidenciaram, por exemplo, que lesões do corpo caloso e do tronco encefálico dorsolateral estavam associadas com pior recuperação da consciência ou mesmo ausência de recuperação, após o coma (Kampfl et al., 1998). Outros estudos observaram correlação inversa entre número de lesões nas sequências FLAIR e T2* e a escala de coma de Glasgow, nos casos de coma após trauma (Kampfl et al., 1998). Estudos mais recentes, com técnicas de DTI (difusion tension imaging) que permitem visualizar lesões estruturais em tecidos com aparência normal nas demais sequências, ressaltam a importante correlação entre a presença de lesões de substancia branca visualizadas na DTI e o prognóstico funcional dos paciente após um ano do quadro de coma de origem traumática ou anóxica, sendo relevante marcador biológico para o prognóstico do coma (Galanaud et al., 2012 – Luyt et al., 2012). A DTI é uma técnica emergente, sensível ao movimento da água microscópica tridimensional dentro do tecido, que complementa a RNM tradicional e pode ser capaz de fornecer informação importante sobre os substratospatológicos dos distúrbios da consciência. No liquido cerebrospinal, o movimento da água é isotrópico, ou seja, mais ou menos equivalente em todas as direções. Na substância branca, no entanto, a água difunde-se de forma altamente direcional ou anisotrópica. Devido à estrutura característica e ao isolamento das fibras mielinizadas, a difusão da água nas fibras está restrita a difusão ao longo do eixo das fibras. Assim, a técnica DTI pode ser utilizada para calcular duas propriedades básicas: a quantidade total de difusão e a anisotropia na substância branca cerebral (Douaud et al, 2007). Em estudo recente, Fernandez-Espejo et al. (2010) demonstrou a alta acurácia (95%) deste método na diferenciação entre estado vegetativo e estado minimamente consciente. A análise dos valores de difusibilidade média, dentro de duas regiões de interesse (substância branca subcortical e tálamo), revelou diferenças significativas entre os pacientes que preenchem os critérios clínicos (comportamentais) definindo estado vegetativo e aqueles que preencheram os critérios que definem o estado minimamente consciente (EMC). Os resultados de difusão mostraram ainda forte correlação com os escores na escala de coma de Glasgow. Especificamente, o grupo de pacientes em EV exibiu uma diminuição na altura do pico dos histogramas derivados da matéria branca subcortical e do tálamo e um aumento na largura do pico do histograma do tálamo. A altura do pico do histograma fornece um índice do restante tecido saudável (isto é, a proporção de voxels com valores baixos de difusibilidade). Valores mais elevados de difusibilidade média estão associados com o aumento do deslocamento de água, presumivelmente relacionado com a ampliação do espaço extracelular causada por desmielinização e lesão axonal. O histograma talâmico mostrou difusibilidade foi mais simétrica no grupo EV (em comparação com EMC), possivelmente indicando uma maior perda de neurônios saudáveis relacionados com a necrose isquêmica ou degeneração neuronal. Os autores propõem o uso deste método na prática clínica associado a outros biomarcadores (eletroencefalograma, potencial evocado, escalas comportamentais) com o objetivo de melhorar a acurácia do diagnóstico de EV e EMC, permitindo uma tomada de decisão terapêutica mais adequada. 6.1.2 Neuroimagem funcional - Os estudos com RNM funcional tem ganhado espaço no território do diagnóstico diferencial entre EV e EMC nos últimos anos. A técnica evolve a utilização de ativação cerebral através de estímulo visual, auditivo e somatossensorial. Os achados revelam alto nível de ativação cortical englobando o córtex associativo em pacientes com EMC, semelhante aos controles saudáveis. O contrário foi observado nos pacientes com EV. Nesta situação, observou-se baixo nível de ativação cortical, limitada às zonas sensoriais primárias. A minoria dos pacientes em estado vegetativo com nível mais elevado de ativação cortical mostrou sinais de recuperação no seguimento a longo prazo (Di et al., 2008). Apesar do seu potencial valor prognóstico, a utilização da RNM funcional com o objetivo de detecção de consciência permanece controversa, considerando que a ausência de ativação cortical a estímulos externos não representa necessariamente ausência de consciência. A RNM funcional de repouso (resting-state) é uma técnica não invasiva utilizada para investigar a coerência temporal espontânea com as flutuações do sinal BOLD (blood oxigen level dependent) relacionadas com a quantidade de atividade neural sincronizada (ou seja, a conectividade funcional) entre localizações distintas do cérebro, na ausência de tarefas específicas (Vanhaudenhuyse et al., 2010). Esta técnica tem sido cada vez mais utilizada na avaliação laboratorial dos pacientes com distúrbios da consciência, principalmente por não ser exame invasivo e não exigir atividade motora ou compreensão da linguagem. Entre as várias redes neuronais funcionais detectados até agora, a rede intrínseca padrão (default mode network) foi a primeira a chamar a atenção científica. Esta rede de atividade neuronal está associada com a consciência mais intrínseca (consciência interna ou processos auto-relacionados, tais como divagação mental e pensamento autobiográfico) e engloba a atividade do córtex pré-frontal medial, do precuneus e do corte parietal posterior bilateral (Demertzi et al., 2013). A conectividade desta rede se correlaciona com o nível de consciência, variando nos pacientes em EV (baixas conectividade) para pacientes em EMC e controles saudáveis (maior conectividade), assim como a ausência de conectividade na morte cerebral (Vanhaudenhuyse et al., 2010). Estudos com FDG-PET (fluorodeoglicose – pósitron emission tomography) em repouso demonstram reduções maciças no metabolismo cerebral em casos de distúrbios da consciência. No EV, os estudos com PET mostram redução do metabolismo cerebral em torno de 40-50% do normal e indicam que o córtex associativo frontoparietal lateral e medial são as áreas com hipometabolismo mais acentuado (Laureys et al., 1999). Inversamente, a recuperação da consciência parece ser caracterizada pela recuperação da atividade metabólica na região frontoparietal. No nível individual, o FDG-PET não consegue separar o EV do EMC, mas estudos de grupos têm demonstrado que os escores totais da escala CRS-R se correlacionam com a atividade metabólica nas estruturas da linha média frontoparietal (consciência interna 'self'), e com a do córtex frontoparietal lateral, crítica para a consciência externa ou sensorial (Vanhaudenhuyse et al., 2011). Esta última região mostra-se relativamente preservada nos casos de EMC (em comparação com o EV), possivelmente refletindo a recuperação da interação voluntária dos pacientes com o meio externo. Estudos com H2O-PET sugerem que o EV representa uma síndrome de desconexão global, em que as redes neuronais de sensibilização estão funcionalmente desligadas das áreas corticais primárias (Bruno et al., 2011). Por outro lado, os padrões de ativação observados em pacientes em EMC indicam preservação de redes corticais de grande escala associadas com córtex auditivo e de processamento de dor (Boly et al., 2008). 6.2 ESTUDO NEUROFISIOLÓGICO A avaliação clínica do paciente em coma se restringe a avaliação da viabilidade do tronco encefálico e às respostas motoras, tornando difícil uma avaliação prognóstica acurada da atividade cerebral nestes pacientes, especialmente naqueles com integridade do tronco encefálico. A investigação neurofisiológica consiste de métodos seguros, de fácil execução a beira do leito e de grande utilidade clínica, provendo informações úteis sobre a função cerebral. Na última década, melhorias significativas foram feitas na compreensão do coma e distúrbios de consciência, e embora as técnicas de imagem sejam determinantes no diagnóstico dos distúrbios de consciência, as técnicas eletrofisiológicas são fundamentais para o estudo da função cerebral em pacientes sem resposta comportamental. No coma agudo, o eletroencefalograma e os potenciais evocados têm importante função na determinação do prognóstico e no monitoramento de sinais de melhora ou piora. A ausência do potenciais evocados somato-sensitivos corticais é o marcador mais específico de prognóstico ruim após a parada cardíaca, por exemplo. Nos distúrbios crônicos de consciência, técnicas de potenciais relacionados a eventos cognitivos e de longa latência demonstraram um papel mais amplo na determinação do prognóstico e dos indicadores de consciência. Como a ressonância magnética funcional, estas técnicas especializadas demonstraram sinais de cognição preservados em pacientes que parecem inconscientes (Koeing & Kaplan, 2013). 6.2.1 Eletroencefalograma– EEG – No contexto dos distúrbios da consciência, o EEG pode ser utilizado para detectar a consciência, avaliar a função cognitiva residual e fornecer informação importante sobre o prognóstico dos pacientes nesta situação (especialmente em casos de anoxia). Tem papel crucial na determinação do diagnóstico de morte encefálica (Hirsch, 2004). A análise visual do EEG pode identificar atividade epileptiforme no estado de mal não convulsivo, importante e insuspeito diagnóstico diferencial do estado de coma e orientar o tratamento nesta situação (Bruno et al., 2011). Crises epilépticas não convulsivas são mais comuns do que anteriormente reconhecido e estão associados com pior evolução do estado de coma. A maioria das crises epilépticas nos pacientes críticos são não convulsivas e o diagnóstico não será realizado se não for realizado um EEG prolongado ou seriado. Fatores associados com um risco aumentado para as crises não convulsivas incluem coma, crises epilépticas anteriores, infecção do SNC, tumor cerebral, neurocirurgia recente e descargas epileptiformes periódicas. A maioria destas crises será detectada nas primeiras 24 horas de EEG em pacientes não comatosos, mas os períodos de gravação mais longos podem ser necessários em pacientes comatosos ou naqueles com atividade epileptiforme periódica (Hirsch, 2004). A identificação precoce e o tratamento imediato destas crises é crucial para a definição de estratégias de tratamento, com impacto relevante sobre o prognóstico do coma. Young et al. (1996) verificaram que a duração das crises e tempo de diagnóstico são preditores independentes de desfecho nos pacientes com estado de mal não-convulsivo, embora a etiologia seja o melhor preditor. Segundo o autor, quando o status foi diagnosticado dentro de 30 minutos após o início, a mortalidade foi de 36%, em comparação com 75% quando o diagnóstico foi atrasado por mais de 24 horas. Quando a situação de status durou menos de 10 horas, 60% dos pacientes recebeu alta hospitalar e 10% morreram. Quando o status durou mais de 20 horas, nenhum paciente recebeu alta hospitalar e 85% tiveram êxito fatal. Além do forte impacto sobre o prognóstico dos pacientes, há descrição de casos na literatura de status, sem lesão cerebral aguda prévia, resultando em disfunção neurológica permanente (Krumholz, 1999). Vespa et al. (2003) mostrou que as crises epilépticas convulsivas ou não, após hemorragia intracerebral, estavam associadas com um aumento significativo do efeito de massa observado nas tomografias seriadas, mesmo depois de considerar outros fatores tais como o tamanho da hemorragia. A tendência de pior resultado em pacientes com convulsões encontra suporte laboratorial nos estudos utilizando a enolase específica neuronal (specific neuronal enolase), um marcador de lesão neuronal, que evidenciaram que as crises epilépticas não convulsivas podem causar lesão neuronal. Níveis elevados da enolase neuronal se correlaciona com a morte neuronal na histologia em modelos animais de estado epiléptico (Sankar et al., 1997) e comprovadamente em pacientes com estado de mal epiléptico, tanto convulsivo como não convulsivo, com e sem lesão cerebral aguda. A maior elevação foi observada em pacientes criticamente enfermos com estado de mal não-convulsivo (DeGiorgio et al, 1999). O EEG do paciente em estado de coma mostra classicamente desaceleração global de eletrogênese, mas não consegue diferenciar EV de EMC. O eletroencefalograma (EEG) fornece ao médico uma medida objetiva da disfunção cerebral e complementa os achados de exames de imagem. Alguns padrões eletroencefalográficos podem sugerir causas específicas de encefalopatia e coma. Importante lembrar que as drogas sedativas (midazolam, propofol, etc) e barbitúricos podem suprimir reversivelmente a atividade cerebral. A monitorização eletroencefalográfica ideal para o paciente em coma deve durar pelo menos 6 horas. Na impossibilidade de monitorização contínua, o registro habitual de 30 minutos pode fornecer informações úteis no manejo do paciente. No entanto, um EEG de longa duração (24h) poderá fornecer dados sobre o ciclo sono- vigília nos pacientes em estado de coma. Um declínio homeostático da atividade cerebral através da noite e períodos de sono REM (rapid eyes movement) pode ser visualizado nos pacientes em EMC, mas não naqueles em EV (Schiff & Fins, 2003). Alguns aspectos eletroencefalográficos, quando presentes, sugerem prognóstico evolutivo ruim do paciente em coma: atividade em surto-supressão; depressão difusa do ritmo; descargas epileptiformes contínuas e coma alfa não reativo (ritmo alfa difuso no paciente em coma – mortalidade próxima de 90%). As principais indicações para EEG contínuo no paciente com distúrbio da consciência estão descritos na tabela 8. Tabela 8 – Indicações para monitorização contínua com EEG. 1. Detecção de crises epilépticas subclínicas Flutuação no estado mental Alteração inexplicável do estado mental Lesão cerebral aguda supratentorial com distúrbio da consciência Após estado de mal epiléptico – acompanhamento 2. Caracterização de crises epilépticas Movimentos paroxísticos ou repetitivos tônicos Nistagmo, desvio do olhar, mastigação episódicos Episódios de distúrbios autonômicos (taquicardia) 3. Acompanhar nível de sedação Estado de mal epiléptico em tratamento com benzodiazepínicos 4. Manejo do coma anestésico Acompanhar o tratamento e a presença de surtos-supressão 5. Detecção de isquemia cerebral aguda Após hemorragia subaracnóidea Durante e após procedimentos vasculares cirúrgicos ou neurorradiológico intervencionista Encefalopatia anóxica 6. Coma de origem metabólica Hiperosmolar não cetótico hiperglicêmico Encefalopatia hepática – pós-dialítica – urêmica Encefalopatia séptica Intoxicação exógena Hipoglicemia Hipotermia 7. Prognóstico evolutivo do estado de coma Diagnóstico de morte encefálica O EEG pode evidenciar dois tipos de alteração no estado de coma: → Anormalidades críticas: alteração do tipo irritativa mostrando crises clínicas ou eletrográficas, ou padrões de descargas periódicas (PLEDS - descargas epileptiformes periódicas lateralizadas, FIRDA - Ondas trifásicas ou atividade delta frontal intermitente). → Alterações do ritmo cerebral: são alterações que demonstram anormalidades da atividade cerebral sob a forma de ondas lentas (delta e teta) e também sob a forma de depressão do ritmo da atividade elétrica (supressão). As alterações do ritmo cerebral podem ser correlacionados com os níveis de aprofundamento do coma, em especial os padrões particulares de EEG e da supressão de reatividade eletroencefalográfica. As correlações do padrões de EEG com o prognóstico do coma são mais confiáveis em casos de parada cardiorrespiratória, com sua consequente encefalopatia anóxica. Se a etiologia é conhecida, o EEG pode ser um indicador confiável do prognóstico. O EEG normalmente tem pouca especificidade com relação à etiologia, mas alguns padrões eletroencefalográficos favorecem determinados diagnósticos: por exemplo, ondas trifásicas são frequentemente visualizadas na insuficiência hepática e renal em adultos jovens; padrões de coma com visualização de fusos (spindle coma) indicam disfunção ao nível do tronco cerebral. O EEG é bastante útil na diferenciação orgânica de problemas psiquiátricos, na exclusão de status não-convulsivo, e no fornecimento de prognóstico quanto ao grau de disfunção cortical e subcortical. Os principais achados eletroencefalográficos em diversas etiologias de coma e sua potencial reversibilidade estão descritas na tabela 9 (Kaplan, 2004). Tabela 9 – Achados de EEG nas diversas etiologias de coma. Etiologia Achados Reversibilidade do surto-supressãoou supressão Intoxicação exógena Atividade epileptiforme Mistura de ritmo beta + delta sugere intoxicação por barbitúricos e benzodiazepínicos. Reversível Insuficiência hepática Ondas trifásicas Potencialmente reversível se normalizada a função hepática e o edema cerebral prevenido. Encefalopatia urêmica Ondas trifásicas ou atividade epileptiforme com fotosensibilidade Provavelmente reversível Encefalopatia séptica Ondas trifásicas em alguns Potencialmente reversível se paciente sobrevive à falência múltipla de órgãos Encefalopatia pós- dialítica Atividade epileptiforme caracterizada por complexo ponta- onda generalizada Não reversível em casos de intoxicação por alumínio Hipotiroidismo Baixa amplitude Reversível, exceto no cretinismo Encefalopatia de Hashimoto Baixa amplitude, alentecimento difuso e atividade delta frontal intermitente (FIRDA) Reversível Encefalopatia de Wernicke Complexo de ondas agudas e lentas, períodos de supressão nos casos avançados Potencialmente reversível Encefalopatia anóxica Ondas trifásicas PLEDS Surto-supressão Padrão de ritmo teta misto com ritmo alfa ou delta Coma alfa Potencialmente irreversível Hipercalcemia Ondas trifásicas ou atividade delta frontal intermitente (FIRDA) Reversível Hipoglicemia Pode mostrar atividade epileptiforme e complexos periódicos Parcialmente reversível Hipotermia Dependente da temperatura: alterações com temperaturas < 30º. Surto-supressão com temperatura entre 20 e 22º. Supressão quando a temperatura for < 18º. Reversível Um sistema simples com cinco graduações foi criado por Amodio et al. (1999) com o objetivo de classificar as diversas alterações eletrográficas passíveis de ocorrer na encefalopatia hepática e a gravidade da encefalopatia. A graduação pode ser aplicada às outras encefalopatias de origem metabólica, anóxica, séptica ou tóxica (Tabela 10). Outros sistemas, com maior número de subtipos, foram criados devido ao fato de que 20% dos padrões de EEG não se encaixam neste sistema simplificado, mas do ponto de vista de prática clínica diária, esta graduação é de grande utilidade para o acompanhamento diário do paciente em coma. Tabela 10 – Níveis de gravidade das encefalopatias metabólicas. Escore Definição 0 Normal EEG bem estruturado, com ritmo estável, simétrico, tipo alfa com predomínio em regiões posteriores com frequência > 8 e < 13 Hz e média amplitude. Sem atividade lenta ou irritativa. 1 EEG no limite da normalidade Ritmo alfa instável ou suprimido, substituído por ritmo beta difuso. 2 Encefalopatia leve Ritmo alfa de baixa frequência (8 Hz) entremeado por surtos randômicos de ritmo teta em ambos os hemisférios. 3 Encefalopatia moderada Atividade elétrica cerebral cerebral com predomínio de ritmo teta, difusa em ambos os hemisférios. Podem surgir surtos de ondas delta. 4 Encefalopatia grave Desorganização grave da atividade eletroencefalográfica. Atividade teta e delta assíncrona em ambos os hemisférios, com ou sem ondas trifásicas. Alguns padrões específicos de frequência no EEG podem ser vistos em causas variadas de encefalopatia ou coma. Padrões de frequências particulares como o alfa, theta, delta, ou mesmo beta podem predominar, juntamente com vários tipos de reatividade aos estímulos nocivos externos. Muitos destes padrões carecem de especificidade, embora certas categorias de insulto favorecem determinados padrões: por exemplo, a causa mais comum do padrão alfa no coma é a encefalopatia anóxica, ao passo que, o padrão com fusos do sono é mais frequentemente encontrado com lesões do tronco cerebral ou outro insulto traumático estrutural (Kaplan, 2004). → Coma Beta: predomina o padrão de frequência BETA. Os estados de confusão mental ou coma associados com predominância de atividade beta no EEG são geralmente vistos com excesso ou na retirada de drogas sedativas tóxicas (barbitúricos ou benzodiazepínicos). Estes agentes resultam em maior tensão da atividade EEG beta, mais difusa e, ocasionalmente, com a atividade do fuso do sono entremeada. Este padrão está associado com reversibilidade do coma e tem bom prognóstico, especialmente se houver reatividade a estímulos externos (Figura 3). → Coma Alfa: a atividade de frequência ALFA pode ser vista de forma difusa nos pacientes em estado de coma (Young et al., 1994). Alguns aspectos da distribuição do ritmo alfa no EEG dependem da etiologia do coma. Quando o coma surge a partir de uma lesão do tronco cerebral, a atividade alfa é vista mais posteriormente, e varia muitas vezes com os estímulos dolorosos externos; o prognóstico é pobre. Quando os padrões de ritmo alfa são vistos com anóxia após parada cardiorrespiratória (PCR), o ritmo alfa pode aparecer mais difusamente no EEG e geralmente é menos reativo aos estímulos externos. Esses pacientes também têm um prognóstico pobre, com mortalidade superior a 90% (Young et al., 1994). Em geral, quando o ritmo alfa aparece em coma por overdose de drogas e apresenta reatividade aos estímulos, a recuperação pode ocorrer em até 90% dos pacientes (Figura 4). → Ritmo THETA: no coma, o padrão de frequência theta difuso pode ocorrer isoladamente, ou pode aparecer misturado com outros ritmos, tais como o alfa ou delta. Este misto padrão pode ocorrer após uma PCR, onde a atividade theta (embora difusa) é mais proeminente anteriormente, é normalmente não responsiva a estímulos externos, e geralmente carrega prognóstico reservado, semelhante ao coma alfa (Young et al., 1994). → Ritmo delta: o ritmo delta no coma é geralmente visto nos estados mais avançados da encefalopatia ou coma, predominantemente nas regiões anteriores. Pode apresentar morfologia polimórfica ou mais rítmica, ou ainda um padrão estereotipado entremeado com ondas trifásicas. Com a piora do coma, o ritmo delta aparece de forma mais difusa. Nos estágios iniciais do coma, a atividade delta pode se atenuar com estímulos externos, mas é geralmente não reativo. O polimorfismo do coma delta se deve a anomalias estruturais que envolvam a substância branca subcortical, mas em alguns casos, pode surgir no coma metabólico profundo (Chatrian &Turella, 2003). → Ritmo rápido de baixa voltagem: de baixa voltagem, o ritmo rápido é não reativo e tipicamente visto com lesão cortical grave generalizada após PCR. O prognóstico geralmente é abismal, resultando em morte ou estado vegetativo. → Padrão de coma com fusos: consistem em ritmo com atividade de 11 a 14 Hz atividade predominantemente paroxística, muitas vezes em rajadas, e muitas vezes em sinergismo sobre um fundo delta. Padrões de coma com fusos aparecem nos casos de lesões na junção pontomesencefálica, abaixo do tálamo. Esses padrões podem ocorrer na anóxia cerebral, no trauma encefálico, na hemorragia intracraniana, e em lesões cerebrais difusas. O prognóstico depende geralmente da causa subjacente do coma (Kaplan et al., 2000). No geral, este ritmo de fusos, com reatividade a estímulos externos, sinaliza bom prognóstico quando não há lesão intracraniana significativa. → Ondas trifásicas: Ondas trifásicas consistem em rajadas de moderada a alta de amplitude (100 a 300 V) em forma de onda, geralmente com frequência de 1,5 até 2,5 Hz, ocorrendo em surtos ou mais continuamente. Estas ondas predominam nas regiões cerebrais anteriores, mas podem ser vistas posteriormente ou mais difusamente. O traçado de EEG típico contêm complexos com dois, três, ou quatro fases, geralmente de variável amplitude, predominando em 1,5 a 2,5 Hz. As ondas trifásicas não são específicas da encefalopatia hepática e podem ser detectadas em paciente em coma de diversas etiologias, como no coma após PCR, na uremia, na encefalopatiaséptica e na hiperosmolaridade. As ondas trifásicas não tem valor preditivo no coma (Kaplan, 2004) (Figura 5). Figura 3 – Padrão eletroencefalográfico do Coma Beta. Figura 4 – Padrão eletroencefalográfico do Coma Alfa. Figura 6 – Ondas trifásicas no EEG. 6.2.2 Potencial evocado – PE – A medida dos potenciais evocados (PE) de latência curta é especialmente útil na avaliação de vias sensoriais específicas que atravessam o sistema nervoso central. O PE não sofre influência das intervenções na unidade de terapia intensiva, é relativamente resistente às drogas sedativas, barbitúricos e às alterações que não sejam lesões estruturais. Estas características tornam o PE mais vantajoso com relação à avaliação clínica, e mesmo eletroencefalográfica, no paciente em estado de coma. Os potenciais evocados somatossensitivos (PESS) são semelhantes a um EEG, na medida em que medem a atividade eléctrica do córtex através eletrodos de superfície. Exceto com relação à reatividade, um EEG é uma medida passiva da atividade cerebral, e os PE, inversamente, avaliam a resposta do cérebro a um estímulo sensorial (Koeing & Kaplan, 2013). No PESS em humanos normais, a latência de condução é de 16 ms para o tronco cerebral, 18 ms para o tálamo, e 20 ms para o córtex sensorial primário. Por convenção, o sinal elétrico registrado acima da linha de base é rotulada como uma deflexão negativa (abreviado N) e um sinal abaixo da linha de base é chamado um deflexão positiva (P abreviado). Usando essa convenção de nomenclatura, o sinal cortical sensorial primário é denominado N20, denotando uma deflexão negativa que ocorre 20 ms após estimulação. Em paciente acordado, após a N20, há geralmente um série de desvios negativos e positivos nas latência (P25, N35, N70 e) que refletem o processamento secundário do estímulo intracortical e corticotalamocortical. Assim como nos testes de reatividade do EEG, este processamento de nível "mais elevado", referido como potenciais de média e longa latência, pode ser uma medida indireta da resposta consciente do cérebro aos estímulos. Em pacientes com grau mais profundo de encefalopatia, os potenciais de latência mais longos podem estar prolongados ou ausentes. Em casos de lesão cerebral progressiva, as respostas corticais primárias (N20) também podem estar ausentes, com o sinal interrompido no tálamo, tronco cerebral ou na medula espinal (Cruise et al., 2014). A Academia Americana de Neurologia revisou recentemente a força da evidência de marcadores prognósticos de recuperação do cérebro após uma parada cardíaca. Eles descobriram fortes evidências para a utilização de PESS e evidência mais fraca para o EEG como um marcador específico de desfecho desfavorável (morte ou vegetativo persistente estado), após a reanimação da parada cardíaca. O PESS deve ser realizado 1 a 3 dias depois da ressuscitação cardíaca devido ao fato dos potenciais evocados poder refletir um prognóstico falsamente pessimista, se realizado antes de 24 horas. Após 24 horas, a persistente ausência bilateral dos potenciais corticais N20 por estimulação do nervo mediano tem quase 100% de especificidade para o pior prognóstico em comatosos sobreviventes de parada cardíaca com uma taxa de 0,7% de falso positivos (Wijdicks, 2006). A hipotermia retarda a condução periférica de estímulos elétricos, PESS realizada durante a hipotermia deve ser interpretado com cautela. O potencial evocado sensorial representa uma resposta a uma estimulação elétrica em um nervo periférico sensitivo (nervo mediano ou tibial posterior). → Tipos de PES utilizados no estado de coma • Potencial evocado visual (flash) • Potencial evocado auditivo do tronco cerebral • Potencial somatossensitivo → Utilidade clínica dos PE no estado de coma → Avaliação de vias específicas: lesão de nervo óptico, nervo periférico, plexo ou raiz nervosa → Diagnóstico neurofisiológico: demonstra morte isolada do tronco encefálico através da ausência do potencial evocado de tronco encefálico e do somatossensitivo, com preservação do PEV-flash e do EEG. → Diagnóstico de morte encefálica → Valor prognóstico dos PE: não são bons indicadores de recuperação funcional em longo prazo, mas correlacionam-se com a sobrevida (Tabela 11). Tabela 11 – Valor prognóstico do potencial evocado no coma. PEA-TC Anormal no tronco encefálico Normal Mau prognóstico O prognóstico depende do PESS-MD PESS-MD Respostas tálamo-corticais (N20-P25) ausentes bilateralmente. Forte correlação com prognóstico ruim Em crianças e jovens pode significar evolução para estado vegetativo Presente somente componente periférico (N9), faltando P13 e P14. Provável morte encefálica PEA-TC também ausente Normal bilateralmente Evolução boa Alteração parcial Evolução variável, o prognóstico dependerá de diversos outros fatores. 6.2.3 Estimulação magnética transcraniana (EMT): a EMT do córtex motor, acoplado com a detecção da resposta na eletroneuromiografia (potencial evocado motor) pode ser usada para avaliar a excitabilidade cortical, que se encontra diminuída nos pacientes comatosos e tem correlação com o nível de consciência (Laptiskaya et al., 2013). O método, principalmente quando acoplado ao EEG simultâneo é um método promissor para avaliar a conectividade cerebral e o nível da consciência. Apresenta a vantagem de não exigir a participação ativa do paciente ou compreensão da linguagem. No estado vegetativo, a EMT pode provocar uma resposta eletroencefalográfica simples e localizada, semelhante ao sono profundo ou anestesia. No estado minimamente consciente, a EMT mostra ativações complexas que envolvem áreas corticais distantes, semelhante aos controles. A EMT acoplada ao EEG, quando realizada nos pacientes que recuperam a consciência, revela mudança importante na conectividade e na complexidade observada, que por vezes ocorrem antes da recuperação da comunicação verbal ativa (Boly et al., 2012). 8. ABORDAGEM DO PACIENTE EM COMA A conduta terapêutica a ser adotada no paciente está diretamente relacionada com a causa básica do distúrbio da consciência. Assim, dependemos de maneira especial da história clínica e do exame neurológico do paciente, a partir dos quais serão solicitados exames para a elucidação da causa do coma. Especial atenção deve ser dada para as causas mais insuspeitas, como a trombose de seio cerebral (Imagem 9), o infarto bitalâmico (Imagem 10), a intoxicação exógena, a encefalopatia de Wernicke (Imagem 11) em pacientes não alcoólatras e especialmente o estado de mal não convulsivo. Estas situações tem tratamento específico e prognóstico diferenciado. Imagem 9 – RNM de crânio: Paciente com 40 anos em estado de coma devido lesões difusas corticais e sucorticais secundárias à trombose de seio transverso. Figura 16 - RNM de crânio: lesão de ponte, substância periaquedutal e focos subcorticais em paciente em estado de coma com alteração da motricidade ocular. Encefalopatia de Wernicke. Imagem 10 - RNM de crânio: Isquemia bilateral do tálamo devido trombose de seios sagital superior e transverso após trauma crânio encefálico fechado. O manejo clínico dos pacientes em coma tem dois objetivos principais: restauração das funções cognitivo-comportamentais e prevenção de complicações médicas secundárias. O primeiro objetivo é alcançado através de medidas cirúrgicas, clínicas e farmacológicas adotadas na fase hiperaguda e aguda do coma visando promover a recuperação da consciência, comunicação e competência funcional. Este tratamento compreende três fases distintas: a hiperaguda, a aguda e a crônica. As complicações médicas podemsurgir como um resultado direto da lesão cerebral (secreção inapropriada de hormônio antidiurético – hipertermia – arritmias cardíacas – desenvolvimento de contraturas) ou como uma consequência indireta da lesão (pneumonia por aspiração – úlceras de pressão – tromboembolismo venoso e pulmonar), ou ainda como efeito contralateral do tratamento instituído (efeitos sedativos dos analgésicos). Uma das causas mais frequentes de coma é a herniação cerebral, mecanismo básico associado a todas as causas de coma com lesões expansivas. Trata-se de cenário clínico frequentemente encontrado nas unidades de terapia intensiva e constitui uma emergência na área de cuidados críticos. É a via final comum para vários processos de doenças. Apesar de grandes ensaios clínicos randomizados serem escassos nesta área, algumas opções de tratamento demonstraram algum benefício. As modalidades terapêuticas visam: a redução pressão intracraniana (PIC) global, da pressão local sobre o tecido e da distorção; aumentar a pressão de perfusão cerebral, usando a osmoterapia; reduzir a massa cerebral, drenagem de LCR e do fluxo sanguíneo cerebral através da hiperventilação; estabilização da barreira hematoencefálica com esteroides, redução do metabolismo cerebral por indução de coma farmacológico e finalmente, reduzir a pressão por descompressão cirúrgica, quando indicada. → Fase hiperaguda: o tratamento médico da elevação aguda da PIC visa diminuir o volume de sangue intracraniano, o LCR, ou o tecido cerebral. Reversão de dilatação pupilar e devolução de reatividade luz são indicadores da redução na PIC (Koenig et al., 2008). A estratégia inicial prevê breve avaliação dos sinais vitais para assegurar a permeabilidade das vias aéreas, respiração, ventilação e circulação. O rápido reconhecimento dos sinais neurológicos de hérnia, tais como coma, pupila dilatada fixa e postura extensora, representam grave disfunção mesencefálica. o Terapia osmótica na fase hiperaguda: o uso de solução salina hipertônica e manitol tem emergido como a principal estratégica medicamentosa no manuseio da PIC elevada e hérnia cerebral, independentemente do causa (Koenig et al., 2008 - Qureshi & Suarez 2008). Tanto o manitol como a solução salina hipertônica são eficazes na redução da PIC elevada secundária a edema cerebral e tem um terapêutico risco aceitável (Ziai et al., 2007). Devidos os potentes efeitos diuréticos do manitol e da solução salina hipertônica, recomendamos a utilização de fluidos cristaloides para acompanhar a sua administração com o intuito de evitar a hipovolemia intravascular e hipotensão arterial. § Manitol - 0,5 a 1 g / kg em infusão intravenosa durante 20 minutos. Início da ação em dois minutos, ação potencialmente duradoura de 6 a 8 horas (Ziai et al., 2007). § Solução hipertônica salina a 23,4% - 30 a 60 ml em bolus. Podendo também pode ser infundido em 20 minutos. o Cabeceira elevada: deve permanecer elevada a 30 graus ou mais com o objetivo de facilitar a drenagem venosa cerebral (Ng et al., 2004). o Intubação endotraqueal e hiperventilação: os ajustes do ventilador devem garantir a oxigenação adequada e promover a hiperventilação aguda, que possui potente efeito em reduzir a PIC em curto prazo (Stevens et al., 2012). → Fase aguda: após as medidas da fase aguda, a PIC em nível adequado pode ser conseguida através das seguintes medidas: o Hiperventilação: redução rápida da PIC pode ser conseguido com breve curso (<2 h) de hiperventilação mantendo a PaCO2 entre 30 e 35 mmHg. A hiperventilação é capaz de reduzir a PIC em até 20% quando PaCO2 é reduzida a 30 mmHg. No entanto, sua efeito benéfico não se estende por maior de 6 horas. Esta manobra deve ser acompanhado por monitorização da oxigenação cerebral, na forma de oximetria venosa jugular com o objetivo de minimizar o risco de isquemia cerebral associado com esta estratégia (Coles et al., 2002 – Kalanuria et al., 2013). o Manejo de líquidos: balanço hídrico negativo deve ser evitado na fase aguda. Soluções salinas isotônicas devem ser utilizadas até que dados laboratoriais definam estratégias posteriores. Uma vez que o paciente esteja estabilizado, uma meta de sódio sérico deve ser definida e obtida através da infusão de solução de sódio hipertônico. A dosagem sérica de sódio deve ser verificada a cada 4 ou 6 horas. o Decúbito elevado: a cabeceira deve permanecer elevada a 30o e a cabeça deve ser mantida na posição mediana com o intuito de ajudar a reduzir a PIC através: da melhora da drenagem venosa cerebral e evitando a compressão das veias jugulares internas (Ng et al., 2004). o Terapia osmótica na fase aguda: o objetivo da terapia osmótica na fase aguda é manter o nível da osmolaridade entre 300-320 mOsmo/l, o que corresponde a concentrações de sódio sérico entre 145- 155 mEq/L. Esta meta pode ser alcançada com a utilização de Manitol ou solução salina hipertônica entre 3 a 7,5%. O mecanismo de ação está ligado a criação de um gradiente osmótico através da barreira hematoencefálica: cerca de 80% do teor do tecido cerebral é água, que move-se para a vasculatura devido ao gradiente criado artificialmente. Osmolaridade sérica maior que 320 mOsm/l deve ser utilizada com cautela, e o benefício terapêutico alcançado com níveis séricos de sódio acima de 160 mEq/l é duvidoso (Kalanuria et al., 2013). O uso de solução salina hipertônica é especialmente promissora em pacientes comatosos devido traumatismo cranioencefálico (TCE), tumores cerebrais e no edema cerebral pós-operatório (Ziai et al, 2007). A solução hipertônica pode reduzir o volume de sangue intracraniano, melhorar a absorção do LCR, aumentar o fluxo sanguíneo cerebral, aumentar a pressão de perfusão cerebral, reduzir o processo inflamatório cerebral, restaurar o potencial de repouso da membrana neuronal e produzir efeito diurético a partir da estimulação do peptídeo natriurético atrial (Giorgiadis & Suarez, 2003). O tratamento com solução salina deve ser revisto a intervalos curtos, baseando-se na melhoria do estado mental ou reversão da hérnia ou edema em imagens seriadas. Potenciais complicações do uso de soluções salinas hipertônicas incluem: flebite, hipotensão arterial transiente, mielinólise, hematoma ou coleção subdural, edema pulmonar e insuficiência cardíaca, hipocalemia, hipercloremia, coagulopatia, hemólise intravascular, e rebote do edema cerebral. Apesar do risco terapêutico, a solução salina hipertónica (3 a 7,5%) é mais eficaz do que o manitol para o tratamento da pressão intracraniana elevada (Kamel et al, 2011). A utilização de concentrações superiores a 3% exige a presença de um cateter central. o Estratégia terapêutica medicamentosa: o uso de determinadas drogas na fase aguda do manejo do coma dependerá da sua causa subjacente, assim: § Corticoide: condições clínicas que causam edema vasogênico suficiente para causar herniação cerebral podem se beneficiar do uso de altas doses de corticosteroide (McClelland & Long, 2008). Utilizar dexametasona - 4 mg a cada 4-6 horas por via intravenosa. § Propofol: a infusão de propofol tem a função de induzir redução na PIC através da diminuição da taxa metabólica cerebral (CMRO2) e o fluxo sanguíneo cerebral. Utilizar uma dose inicial em bolus (1-3 mg/kg) seguido por infusão contínua titulada (dose máxima: 200 mcg/kg/min). Deve ser feita monitorização intensa da função renal, transaminases, creatinoquinase, lactato e triglicérides. § Pentobarbital: no caso de falha na terapêutica acima descrita, pode-se lançar mão do uso do pentobarbital. Utilizar dose inicial em bolus (10 a 15 mg/kg – infundida ao longo de 1 a 2 h). Manter infusão seguido por 1 a 3 mg/kg/h durante 24 a 96 horas. O controle terapêutico deve ser feitocom EEG continuo, sendo a meta a surto-supressão da atividade elétrica entre 5 a 20 segundos (Chen et al., 2008). Riscos potenciais do uso do pentobarbital incluem: prejuízo da avaliação neurológica seriada do paciente, instabilidade cardiovascular, depressão respiratória, supressão da resposta imune, íleo paralítico e eliminação prolongada de circulação após a descontinuação da droga. § Hipotermia: a principal razão para o uso da hipotermia está no seu efeito neuroprotector, o que inclui a redução da excitotoxicidade glutamatérgica (reduz o glutamato extracelular), do metabolismo cerebral e da produção de radicais livres. Atribui-se também possível efeito de supressão sustentada da despolarização elétrica cerebral, da atividade pró-inflamatória e das vias apoptóticas. A hipotermia diminui as demandas metabólicas cerebrais de oxigênio e glicose, o que provoca uma diminuição real na utilização de adenosina trifosfato (ATP), além de reduzir a resposta acentuada ao estresse em regiões sensíveis a temperatura, como o tálamo, hipocampo e córtex cerebral. Ao longo dos últimos 10 anos, a hipotermia terapêutica emergiu como o padrão de atendimento do coma após reanimação cardíaca. Uma revisão Cochrane de estudos de terapêutica de alta qualidade constatou que a hipotermia após parada cardíaca melhora o desempenho cerebral de pacientes tratados com hipotermia e estes apresentam maior chance de sobrevivência após a alta hospitalar, quando comparados com os pacientes que receberam o tratamento intensivo padrão (Arrich et al., 2012). Em 2010 a associação americana de cardiologia (American Heart Association) recomendou a hipotermia terapêutica após reversão de fibrilação ventricular e outras arritmias (Field et al., 2010). A adoção da estratégia também está sendo investigada em outros processos de doença, incluindo o TCE e o acidente vascular cerebral (Fox et al., 2010 – Groysman et al., 2011). A hipotermia pode ser induzida através da utilização dispositivos externos de refrigeração ou com a utilização endovenosa de fluidos refrigerados até se atingir a temperatura central entre 32 a 34°C (Choi et al., 2012). Efeitos adversos potenciais desta técnica incluem: arritmias cardíacas, infecções, distúrbios da coagulação, distúrbios eletrolíticos e tremores. o Tratamento cirúrgico: pacientes com rápida deterioração neurológica podem se beneficiar da descompressão neurocirúrgica emergencial, sendo razoável pensar em opções cirúrgicas em um estágio inicial de gerenciamento da PIC em situações específicas: pacientes com hemorragias parenquimatosas (supratentorial e cerebelar), hematomas durais e subdurais, isquemia cerebral aguda com edema cerebral (a síndrome da artéria cerebral média maligna ocorre em 10% dos casos e tem mortalidade de 80%). Esta abordagem também deve ser considerada para os pacientes com TCE com evidência de hérnia, embora o resultado a longo prazo permaneça incerto (Eberle et al., 2011). A cirurgia descompressiva precoce (hemicraniectomia) mostrou benefício nos pacientes que sofrem de isquemia aguda que cursam com edema cerebral maciço (Johnson et al., 2011). → Fase subaguda a crônica: nesta fase do tratamento, as estratégias visam acelerar a recuperação da consciência e a autonomia do paciente. Estratégias incluem: reabilitação física rigorosa, intervenção farmacológica e técnicas de estimulação cerebral (Tabela 10). Vasta gama de técnicas de reabilitação física e comportamental e tratamento farmacológico são rotineiramente administradas em pacientes comatosos, mas poucas destas intervenções provaram acelerar ou aumentar a recuperação funcional, em parte devido às dificuldades metodológicas da realização de estudos controlados por placebo neste população de pacientes (Whyte, 2007). o Reabilitação física: os procedimentos de fisioterapia devem ser instituídos precocemente e rotineiramente empregados nos pacientes comatosos. O fortalecimento e condicionamento muscular podem maximizar a recuperação das funções neurológicas preservadas e prevenir as complicações neuromusculares. Esta abordagem baseia-se em técnicas de fisioterapia tradicional e inclui exercícios passivos de amplitude de movimento, alongamento muscular prolongada e protocolos de posicionamento. Um programa agressivo, formal de reabilitação multidisciplinar durante a hospitalização aguda, pode garantir um nível elevado de recuperação funcional cognitiva e motora dos pacientes, quando comparado com programas formais de fisioterapia (Mackay et al., 1992). o Intervenção farmacológica: medicamentos destinados a modular os principais sistemas de neurotransmissores que mediam as funções de excitação, de atenção e de acionamento têm demonstrado eficácia em ensaios clínicos randomizados. § Amantadina: Estudo controlado evidenciou taxa de recuperação mais rápida em pacientes em estado vegetativo e minimamente consciente que fizeram uso de amantadina por 4 semanas, após 4 a 16 semanas após a lesão cerebral. O melhor resultado foi observado independentemente dos pacientes receberem o tratamento precocemente (28-70 dias) ou tardiamente (71-112 dias), ou se estavam em EV ou EMC no início do tratamento (Giacino et al., ). Os participantes receberam 200 a 400 mg do fármaco. Uma maior proporção de pacientes tratados com amantadina recuperou a capacidade de seguir comandos de forma consistente, responder com precisão sim e não a perguntas, usar objetos funcionalmente e falar de forma inteligível. Após 4 semanas de tratamento, 18% do grupo da amantadina permaneceu em EV, em comparação com 31% do grupo de placebo. Estes resultados fornecem um forte indício de que a amantadina é droga eficaz para acelerar o ritmo de recuperação em pacientes comatosos. § Zolpidem: agonista seletivo omega-1 do ácido γ-aminobutírico (GABA), com propriedades soporíferos, paradoxalmente, pode produzir melhora significativa na consistência e na complexidade de respostas comportamentais em alguns pacientes com distúrbios da consciência. Estudo duplo-cego, cruzado e controlado por placebo, utilizou zolpidem em 15 pacientes em EV ou EMC após 30 dias da lesão cerebral traumática ou não traumática. Respostas comportamentais para estímulos padronizados da CRS-R foram registrados a cada hora, durante 5 h após cada dose (10 mg de zolpidem ou placebo). Um paciente apresentou gestos sociais automáticos e de busca visual após receber zolpidem em duas ocasiões distintas, mas não depois de receber placebo. Os restantes 14 pacientes não apresentaram diferenças significativas em resposta ao zolpidem ou placebo (Whyte & Meyers, 2009). § Metilfenidato - esta droga tem ação estimulante noradrenérgica e dopaminérgica no interior do córtex pré-frontal. Estudos do uso do metilfenidato, em pacientes com TCE grave, mostraram associação com diminuição da duração da internação na UTI e no tempo de hospitalização (Martin et al., 2007). Um estudo de imagem do metabolismo da glicose em pacientes comatosos demonstrou elevação na atividade metabólica dentro do precuneus, do giro do cíngulo posterior, córtex parietal inferior, bem como dos lobos frontal, temporal e occipital após a administração de metilfenidato. Esses pacientes também demonstraram melhora nos escores da ECG (Moein et al., 2006). § Baclofeno: é um agonista do GABA utilizado no tratamento da espasticidade em decorrência de lesão do sistema nervoso central. Relatos de casos de melhora no nível de consciência após início do baclofeno intratecal em pacientes em estado vegetativo persistente revelaram uma gama de melhoria nas funções cognitivas e motoras destes pacientes. Teoricamente, o baclofeno intratecal pode melhorar o nível de excitabilidade por um de dois possíveis mecanismos:(1) a ação gabaérgica do baclofeno modula a seleção de sinais a partir da medula espinal para o córtex, o que resulta em aumento da sensibilização cortical a estímulos externos; ou (2) efeitos benéficos sobre a estabilidade e coerência do circuitos talamocorticais, melhorando os ritmos circadianos e a regularidade do ciclo sono- vigília por meio de ação gabaérgica em terminais glutamatérgicos e aumento da vigilância através de ação serotoninérgica (Sarà et al., 2009). Não há estudos randomizados com o uso de baclofeno intratecal em pacientes comatosos. o Intervenção funcional neurocirúrgica: Estimulação cerebral profunda talâmica central - projetada para modular os circuitos neurais que medeiam a excitação e atenção. Um gerador de pulso implantado cirurgicamente oferece um trem de impulsos elétricos para núcleos segmentados dentro do tálamo central que são anatomicamente e fisiologicamente especializados em controlar a excitação, redes de atenção sustentada, memória de trabalho, e a intenção motora, com o objetivo de ativar as redes corticais viáveis que se tornaram ineficientes, como resultado de uma disfunção mesodiencefálica. Estudo prospectivo, duplo-cego, para testar a eficácia desta técnica observou melhora modesta no desempenho comportamental dos pacientes. Ganhos funcionais foram mantidos em fase de acompanhamento de 24 meses. Embora o estudo sugira que a estimulação cerebral profunda pode promover melhora comportamental significativa, preditores de resposta permanecem desconhecidos e exigem um estudo mais aprofundado (Schiff, 2013). o Prevenção e tratamento de complicações: a incidência de complicações médicas em pacientes comatosos durante as primeiras 16 semanas pós-lesão é alta (Whyte et al., 2013). As cinco complicações mais comuns são hipertonia e espasticidade, infecção do trato urinário, agitação psicomotora e agressividade, distúrbios do sono, inquietação e hipercinesia motora. Infecções (pulmonar – uirnária – cateter de derivação ventricular ou de monitor de PIC), disautonomia, disfunção neuromuscular (polineuropatia e miopatia do doente crítico), hidrocefalia, convulsões e outras complicações em pacientes comatosos exigem a detecção precoce e tratamento agressivo com os procedimentos médicos, ortopédicos e de reabilitação. A profilaxia deve ser iniciada para evitar complicações de alto risco como: trombose venosa profunda e tromboembolismo pulmonar. Arritmia cardíaca, hipertensão, hipotensão, SSIADH, hipercolesterolemia, diabetes mellitus e insipidus devem ter a busca diagnóstica de forma proativa, e tratados precocemente (Giacino et al., 2014). O manejo da dor deve ser agressiva e iniciadas assim que detectado o estado minimamente consciente devido a consciência subjetiva da dor está preservada (Schnakers & Zasler, 2007). Bomba intratecal de baclofeno, toxina botulínica, bloqueios nervosos e musculares, uso de antiespasmódicos orais e intervenções físicas frequentes (fisioterapia), incluindo o uso de gelo, calor e vibração são estratégias válidas para o manuseio das complicações neuromusculares (Leong, 2002). Tabela 12 – Opções terapêuticas nos distúrbios da consciência. Adaptado de McClenathan et al., 2013. Modalidade de tratamento Mecanismo de ação Local de ação Regulação da temperatura Hipotermia terapêutica Inibição da cascata inflamatória, redução da demanda metabólica, reversão do dano isquêmico e redução dos radicais livres Global, mas especialmente em áreas sensíveis a temperatura (córtex, tálamo e hipocampo) Medicamentos Amantadina Ação inibitória glutamatérgica e agonista dopaminérgico Vias nigroestriatais, mesolímbicas e frontoestriatais. Metilfenidato Ativação cortical via estimulação noradrenérgica e dopaminérgica. Corte frontal, pré-frontal, posterior do cíngulo, parietal, temporal e occipital. Zolpidem Ação agonista gabaérgico Tecido cerebral lesionado. Baclofeno intratecal Ação agonista gabaérgico Medula espinhal e circuito talamocortical. Estimulação elétrica Estimulação cerebral profunda Aumenta a desincronização cerebral, o fluxo sanguíneo e o metabolismo cerebral. Tálamo ou formação reticular 9. MONITORIZAÇÃO DO TRATAMENTO DO COMA NA FASE AGUDA Após as intervenções para reverter o processo de hérnia terem sido realizados, a monitorização clínica e laboratorial subsequente deverá manter atenção na pressão de perfusão cerebral através da medida periódica da PIC. → Drenos ventriculares externos (DVE): representam o padrão ouro para medição da PIC, embora apresentem um risco aumentado de infecção, formação de hematoma e convulsões. Um cateter ventricular externo tem o benefício adicional de ser capaz de drenar LCR e a drenagem de apenas 3 ml de LCR pode alcançar redução imediata e significativa na PIC (Kerr et al., 2001). → Monitor de PIC: dispositivo disponível de sistema com cateter transdutor, parafuso subaracnóide e monitores epidural permite monitorar a PIC. No entanto, a colocação de um monitor de PIC faz não prevenção de eventos de herniação futuros. → Oximetria jugular venosa, oxigenação do tecido cerebral e cerebral microdiálise: estudos utilizando sensores de oxigênio do tecido cerebral indicam que a hipóxia do parênquima pode ocorrer mesmo quando a PIC, a pressão de perfusão cerebral e pressão arterial média estão dentro da normalidade (Longhi et al., 2007). A microdiálise cerebral fornece dados sobre o lactato, piruvato, glicose e glutamato cerebral. Dados que indicam o estado metabólico do tecido cerebral em sofrimento, e podem estar alterados independentemente da PIC (Chen et al., 2011). → Índice de reatividade da pressão cerebrovascular: índice dinâmico útil que traduz a auto regulação cerebral. Determinado como um coeficiente de correlação entre a pressão intracraniana média e a pressão arterial média (PAM). O índice de pressão maior do que 0,35 foi associada a elevada taxa de mortalidade (> 50%) e este parâmetro pode ser usado como um marcador biológico do sofrimento cerebrovascular (Lang et al., 2002). → Doppler transcraniano: a determinação da velocidade do fluxo sanguíneo da artéria cerebral média (ACM) pode ser utilizada com o intuito de obter uma análise de correlação da pressão de perfusão cerebral e a velocidade do fluxo sanguíneo cerebral. O estado da auto regulação cerebral pode ser medido de forma não invasiva através da correlação entre a PAM e a velocidade do fluxo arterial da ACM. A pressão de perfusão cerebral (PPC = PAM – PIC) obtida através da medida invasiva da PIC tem forte correlação com o índice obtido não invasivamente (Schmidt et al., 2003). → Escalas de avaliação clínica: duas escalas podem ser utilizadas nas avaliações clínicas seriadas dos pacientes, tanto na fase aguda do coma e de tratamento emergencial, como na fase de recuperação do nível de consciência (estado minimamente consciente ou confusional agudo) ou de evolução para o distúrbio crônico da consciência (estado vegetativo). A escala de coma de Glasgow, amplamente conhecida e de fácil execução, não consegue diferenciar o estado vegetativo do minimamente consciente. Nesta situação, a escala de recuperação do coma (CRS-r) apresenta maior poder discriminativo entre estes estados (Tabela 10 e 11). A tabela é exposta aqui a título de conhecimento, mas não possui ainda versão para a língua portuguesa ou validação brasileira. Tabela 13 – Escala de coma de Glasgow (Jones, 1979) ESCALA DE COMA DE GLASGOW Melhor resposta motora Obedece comandos Localiza estímulo doloroso Retira estímulo Decorticação Descerebração Sem resposta 6 5 4 3 2 1 Melhor resposta verbal Discurso espontâneo orientado Desorientado Palavras desconexasSons incompreensíveis Sem resposta Paciente intubado 5 4 3 2 1 1T Abertura ocular Espontânea Ao comando verbal Aos estímulos dolorosos Sem resposta 4 3 2 1 Tabela 14 – Escore de coma FOUR (Full Outline of Unresponsiveness score) – Wijdicks et al., 2005. Tradução livre. Escore de coma - FOUR – (Full Outline of Unresponsiveness score) Resposta ocular 4 = olhos abertos ou se abrem, busca ou pisca ao comando. 3 = olhos abrem, mas não buscam ao comando 2 = olhos fechados, mas abrem ao comando de voz 1 = olhos fechados, abrem ao estímulo doloroso 0 = olhos fechados, mesmo com estímulo doloroso Resposta motora 4 = realiza movimentos apropriados (paz – punho fechado – polegar pra cima) 3 = localiza estimulo doloroso 2 = postura em flexão à dor 1 = postura em extensão à dor 0 = sem resposta a dor ou mioclonias generalizadas Reflexos de tronco encefálico 4 = pupilas normais e reflexo corneano presente 3 = uma pupila grande e fixa 2 = reflexos pupilares ou corneano ausente 1 = reflexos pupilares e corneano ausentes 0 = reflexos pupilares, corneano e de tosse ausentes Respiração 4 = respiração espontânea e regular 3 = sem intubação, mas com padrão respiratório de Cheyne-Stokes 2 = sem intubação, mas respiração irregular 1 = respirações acima da frequência do ventilador 0 = respirações na frequência do ventilador ou apneia Tabela 15 – Escala JFK de recuperação do coma revisada (CRS-R). Tradução livre (Kalmar & Giacino, 2005). FUNÇÃO Atividade Escore AUDITIVA Movimento consistente ao comando* Movimento reproduzido ao comando* Localiza o som Reage ao estimulo sonoro Nenhuma resposta 4 3 2 1 0 VISUAL Reconhece objeto* Localiza e tenta alcançar objeto* Perseguição visual* Olhar fixo* Reage a estímulo visual Nenhuma resposta 5 4 3 2 1 0 MOTORA Utiliza objeto funcionalmentev Resposta motora automática aos objetos* Manipula objetos* Localização de estímulo doloroso* Retirada em flexão do membro Postura anormal (descerebração ou decorticação) Nenhuma resposta – flacidez 6 5 4 3 2 1 0 VERBAL – OROMOTORA Verbalização ininteligível* Vocalização e movimentos orais Movimento reflexivo oral Nenhum movimento ou vocalização 3 2 1 0 COMUNICAÇÃO Orientadov Funcional – acurado aproximadamentev Não funcional – intencional* Nenhuma 3 2 1 0 DESPERTAR Atenção presente* Abre olhos sem estimulação Abre olhos com estimulação Não desperta 3 2 1 0 Observações: * sugere estado minimamente consciente v sugere emergência do estado minimamente consciente REFERÊNCIAS 1. 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